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01- Introdução à Epidemiologia O que é epidemiologia? A epidemiologia é a ciência que estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas, analisando a distribuição e os fatores determinantes das enfermidades, danos à saúde e eventos associados à saúde coletiva. Ela propõe medidas de prevenção, controle e erradicação, além de planejar, administrar e avaliar as ações de saúde. Etimologia: Epi = sobre Demo = população Logos = estudo Em resumo, a epidemiologia estuda o que afeta a população. É uma ciência multidisciplinar que se baseia em três pilares: Ciências Biológicas, Ciências Sociais e Estatística. Distribuição das doenças: As doenças não se distribuem de maneira uniforme na população. História da Epidemiologia: Hipócrates: Considerado o "Pai da Medicina", observou a doença como produto das relações complexas entre o indivíduo e o ambiente. Teoria dos Miasmas: Acreditava-se que a emanação de odores fétidos de matéria orgânica em decomposição causava doenças. John Snow: Conhecido como o "Pai da Epidemiologia", seu trabalho na epidemia de cólera em Londres (1849-1854) demonstrou a importância da análise geográfica e o papel da água contaminada na transmissão da doença. Pandemias: A pandemia de COVID-19 ilustra a importância da epidemiologia na compreensão e controle de surtos de doenças em larga escala. Diagnóstico da situação de saúde: Três etapas críticas no diagnóstico da situação de saúde: planejamento (evitando viés de seleção, amostragem e segmentação), execução (garantindo a coleta completa e apropriada de dados) e análise de dados (evitando erros no cálculo dos indicadores de saúde). Investigação etiológica: O controle de doenças pode ocorrer através de vacinação (ex: poliomielite, varíola, febre tifoide) ou tratamento (ex: tuberculose, hanseníase). Outras aplicações da epidemiologia: Determinação de risco Determinação de prognósticos Verificação do valor de procedimentos diagnósticos Planejamento e organização de serviço Processo saúde-doença: O processo saúde-doença engloba todas as variáveis envolvidas nos estados de saúde e doença de um indivíduo ou população, considerando sua interligação e consequências dos mesmos fatores. História natural da doença: É o conjunto de processos interativos que compreendem as inter-relações do agente etiológico, do suscetível e do meio ambiente, desde as variações ambientais/biológicas até a resposta do susceptível ao agente. Essa resposta pode resultar em doença, invalidez, recuperação ou morte. O modelo apresenta três vertentes: epidemiológica, patológica e desenlace. Fatores envolvidos no processo saúde-doença: Sociais: fatores econômicos, políticos, culturais e psicossociais. Ambientais: vetores, poluentes, estrutura sanitária, ocupação desordenada de ambientes naturais (clima, geografia, hidrografia, desastres naturais, etc.). Próprios do suscetível: biológicos, genéticos e imunológicos. Modelos de atenção à saúde: Impedir o processo de instalação da doença Identificação das necessidades individuais e coletivas Planejamento de ações preventivas Modelos dos aspectos etiológicos: Cadeia de eventos: indivíduo infectado → reservatório → agente → vetor → indivíduo suscetível → doença Modelos ecológicos: Tríade ecológica (hospedeiro, agente, meio ambiente) e Dupla ecológica (considerando o meio físico, biológico, social e cultural, além de serviços de saúde e genética do homem). Rede de causas: ilustra as múltiplas causas que contribuem para o desenvolvimento de uma doença (ex: doença coronariana). Modelos sistêmicos: abordagem holística, considerando a célula, órgão, indivíduo, família e sociedade. Modelo de determinação social: mostra a complexa interação de fatores socioeconômicos, culturais e ambientais que influenciam a saúde-doença. 02-Medindo Saúde & Doença História Natural da Doença Vertente Epidemiológica: Abrange o período pré- patogênese, com a configuração de máximo e mínimo risco e a força do estímulo patológico. A saúde é o ponto de partida. Vertente Patológica: Engloba o período de patogênese, com cronicidade, sinais e sintomas, e o horizonte clínico, além de alterações bioquímicas, fisiológicas e histológicas e a interação estímulo- suscetível. Desenlace: Apresenta os possíveis resultados, como morte, invalidez ou a recuperação através da cura e o retorno à saúde. Modelos para analisar os aspectos etiológicos: Cadeia de eventos: Um modelo linear que mostra a progressão da doença: indivíduo infectado → reservatório → agente → vetor → indivíduo suscetível → doença. Modelos ecológicos: Mostra a interação entre agente, hospedeiro e meio ambiente (tríade ecológica) e um modelo mais complexo, chamado dupla ecológica, que considera vários aspectos relacionados ao meio (físico, biológico, cultural e social), o homem (genética, anatomia, fisiologia) e os serviços de saúde. Modelos sistêmicos: Um modelo de círculos concêntricos, representando níveis de organização: célula, órgão, indivíduo, família e sociedade. Modelo de determinação social: Mostra as condições socioeconômicas, culturais e ambientais que influenciam a saúde-doença, incluindo: educação, ambiente de trabalho, desemprego, redes sociais e comunitárias, estilo de vida, acesso a água e esgoto, produção agrícola de alimentos, idade, sexo, fatores hereditários, serviços sociais de saúde e habitação. Definindo Saúde e Doença: Conceito tradicional: Saúde como o silêncio dos órgãos e a ausência de doenças. Definição da OMS (1948): Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença. Definição mais recente (Porto, 2019): Saúde como o mais completo estado de bem-estar físico, mental e social. Medindo a ocorrência de doença: Importância de diferenciar medidas de ocorrência e risco: Presença vs. Ausência: A doença pode ser avaliada pela sua presença (ocorrência) ou pela probabilidade de sua ocorrência (risco). Medidas de ocorrência: Incidência: Frequência com que surgem novos casos de uma doença num intervalo de tempo. Prevalência: Número de casos existentes de uma doença num determinado momento (casos antigos + casos novos). População em risco: O total de indivíduos expostos e que podem vir a ter a doença (nem sempre é possível determinar com exatidão). Taxa de prevalência: Cálculo utilizando o número de casos existentes dividido pela população em risco, multiplicado por uma potência de 10. O exemplo da taxa de prevalência de cáries numa creche é utilizado para ilustração. Suponha que um grupo de pesquisa vai a uma creche com 200 crianças e que 120 têm lesões de cárie. Qual a taxa de prevalência de cárie na creche? (120/200 x 100 = 60%). 10 n é uma constante que pode ser representada por qualquer número de base 10 (100, 1.000, 10.000, 100.000). Ela representa o cálculo de incidência por um número estabelecido de habitantes, de modo a facilitar a compreensão da informação, visto que gera números inteiros. Taxa de Incidência: Cálculo com o número de casos novos num período específico, dividido pela população em risco neste mesmo período, multiplicado por uma potência de 10. A aula usa o mesmo exemplo da creche com o acréscimo de 7 novos casos de cáries em 6 meses (7/200 x 100 = 3,5%). Mortalidade: Refere-se à quantidade de mortes em uma população específica, independentemente da causa. É calculada dividindo o número de mortes pelo número total de pessoas da população num período de tempo. Exemplo: Em uma cidade com 100.000 habitantes, se 500 pessoas morreram por qualquer causa em um ano, a taxa de mortalidade seria 0,5%. Letalidade: Refere-se à proporção de mortes entre as pessoas que contraíram uma doença. É calculada dividindo o número de mortes pelo númerototal de casos da doença. Exemplo: 10% de letalidade para 100 casos e 10 mortes. Mortalidade Infantil: Taxa calculada dividindo o número de óbitos em menores de 1 ano no período pelo número de nascidos vivos no mesmo período multiplicado por 1000. Um gráfico mostra a taxa de mortalidade infantil no Brasil por regiões de 2000 a 2011. Razão de Mortalidade Materna: Mostra a fórmula para calcular a Razão de Mortalidade Materna (número de óbitos de mulheres por causas ligadas ao parto dividido pelo número de nascidos vivos no período, multiplicado por 100.000). Outros indicadores em saúde: Indicadores nutricionais: utilizados para a avaliação das condições de saúde e nutrição de populações. Proporção de recém-nascidos com baixo peso ao nascer e a proporção de crianças com peso e altura inferiores para o esperado. Indicadores demográficos: utilizados para compreender outros indicadores de saúde. População total, razão de gênero, taxa de crescimento da população, proporção de idosos na população Indicadores socioeconômicos: utilizados para compreender os fatores de risco para determinados agravos. Taxa de analfabetismo, escolaridade da população por faixa etária, produto interno bruto, proporção de pessoas com baixa renda Indicadores de serviços: refletem o que ocorre no âmbito da assistência à saúde. No de médicos/dentistas por 1.000 habitantes, no de leitos hospitalares por 1.000 habitantes, proporção de gestantes que fazem pré-natal, cobertura vacinal Confiabilidade dos Dados: A confiabilidade dos dados utilizados para o cálculo destes indicadores, exemplos: as admissões e altas hospitalares, consultas ambulatoriais e de atenção primária, serviços de especialistas e registros de doenças. "Você pode ter dados sem informação, mas não pode ter informação sem dados" (Daniel Keys Moran) 03-Vigilância Epidemiológica Ciclo contínuo que envolve conhecimento, detecção, prevenção e ações para a saúde individual e coletiva. Seu objetivo principal é recomendar e adotar medidas de prevenção e controle de doenças ou agravos. Bases Legais: leis e portarias que fundamentam a vigilância epidemiológica no Brasil Lei 8.080/90 (SUS): Define a vigilância epidemiológica como um conjunto de ações que proporcionam o conhecimento, a detecção ou prevenção de mudanças em fatores determinantes e condicionantes de saúde, com a finalidade de recomendar e adotar medidas de prevenção e controle de doenças ou agravos. Lei nº 6.259 de 30/10/1975: Dispõe sobre a organização das ações de vigilância epidemiológica, sobre o PNI (Programa Nacional de Imunizações), estabelece normas relativas à notificação compulsória de doenças e dá outras providências. Decreto nº 78.231 de 12/08/1976: Regulamenta a Lei nº 6.259 de 30/10/1975. Constituição Federal: A Constituição Federal também aborda a vigilância epidemiológica. Lei nº 8.080 de 16/09/1990: Contribui para o arcabouço legal da vigilância. Portaria nº 204 de 17/02/2016: Define a relação das Doenças de Notificação Compulsória (DNC) para todo o território nacional. Portaria nº 3.252 de 22/12/2009: Regulamenta aspectos da vigilância. Portaria 420 de 2022: Incluiu a Síndrome Congênita associada à infecção pelo Zika vírus na lista de notificação compulsória. Vigilância Epidemiológica em Zoonoses no Brasil: Evolução da vigilância epidemiológica em zoonoses no Brasil: Anos 1970: Primeiros Centros de Controle de Zoonoses (CCZ) em capitais, focados em captura, vacinação antirrábica e eutanásia de cães, principalmente pela preocupação com a raiva. FUNASA (Fundação Nacional de Saúde): expandiu a vigilância para animais peçonhentos, roedores e vetores. Anos 1990: Unidades de Zoonoses integradas ao SUS (Sistema Único de Saúde). 2014: Portaria do Ministério da Saúde criou normas para atividades de vigilância, prevenção e controle de zoonoses e acidentes por animais peçonhentos e venenosos. Essas atividades são executadas pela vigilância de zoonoses dos municípios, através das Unidades de Vigilância em Zoonoses (UVZ). 2014: Criação das Unidades de Vigilância em Zoonoses (UVZ). Localizadas principalmente em grandes municípios, cidades fronteiriças e sedes regionais de saúde. Principais Zoonoses Acompanhadas: Raiva, leishmaniose, arboviroses, acidentes por animais peçonhentos, leptospirose, hantavirose e doença de Chagas. Objetivos do Sistema de Vigilância Epidemiológica: • Acompanhar o comportamento epidemiológico das doenças sob vigilância. • Detectar surtos e epidemias. • Propiciar a adoção oportuna de medidas de controle. • Aprofundar o conhecimento sobre as doenças. • Avaliar as medidas, programas e intervenções de prevenção, controle e erradicação. Surtos, Epidemias e Pandemias: A apresentação diferencia surtos, epidemias e pandemias: • Surto: Aumento no número de casos de uma doença em uma região específica. • Epidemia: Ocorrência de surtos em várias regiões. • Pandemia: Epidemia que se estende a níveis mundiais (ex: gripe A, AIDS/SIDA, COVID-19). • Endemia: Doença que se manifesta com frequência e somente em determinada região. Propósitos da Vigilância Epidemiológica: • Fornecer orientações técnicas permanentes aos profissionais de saúde. • Constituir um instrumento importante para o planejamento, organização e operacionalização dos sistemas de saúde. Funções da Vigilância Epidemiológica: • Coletar dados. • Processar os dados coletados. • Analisar e interpretar os dados processados. • Recomendar medidas de controle apropriadas. • Promover as ações de controle indicadas. • Avaliar a eficácia e efetividade das medidas adotadas. • Divulgar informações pertinentes. Histórico da Vigilância Epidemiológica: • Século XIV: Quarentena para infectados com a peste. • 1881 (Itália): Notificação compulsória de doenças infecciosas. • 1901 (EUA): Notificação compulsória de varíola, tuberculose e cólera. • Evolução: A vigilância evoluiu de um foco em pessoas para a vigilância de doenças e agravos de população. Notificação Compulsória: A notificação compulsória é a comunicação obrigatória à autoridade de saúde, realizada por médicos, profissionais de saúde ou responsáveis por estabelecimentos de saúde, sobre a ocorrência de suspeita ou confirmação de doença, agravo ou evento de saúde pública. A apresentação inclui a Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública, com a periodicidade de notificação (imediata ou semanal) e as entidades envolvidas (Ministério da Saúde, Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde). A lista inclui diversas doenças, agravos e eventos. Definições: Agravo: Qualquer dano à integridade física ou mental do indivíduo, provocado por circunstâncias nocivas (acidentes, intoxicações, abuso de drogas, violência, lesão autoprovocada). Evento de Saúde Pública: Situação que pode constituir ameaça à saúde pública (surto, epidemia, doença desconhecida, alteração no padrão clínico- epidemiológico, epizootias, desastres, acidentes). Epizootia: Doença ou morte de animal ou grupo de animais que possa apresentar riscos à saúde pública. Doença: Enfermidade ou estado clínico que represente ou possa representar um dano significativo para os seres humanos. Medidas de controle: Lockdown, quarentena, isolamento e distanciamento. Histórico no Brasil (1892-1918): A administração sanitária no Brasil (1892-1918) era pautada pela organização e efetividade, sustentando- se em três pilares: polícia sanitária, campanhas e pesquisa (menciona a Revolta da Vacina). Coleta de Dados: Sistemas de Informação: 1. Notificação Compulsória de Casos: • Forma a base do sistema de vigilância. • Consiste na comunicação oficial das ocorrências às autoridades de saúde. • Gera indicadores do quadro epidemiológico. • Permiteidentificar falhas em medidas de controle prévias. • Serve de base para investigações epidemiológicas. • Se baseia na Lista Nacional de Doenças e Agravos de Notificação (a apresentação mostra exemplos de itens listados na notificação compulsória, com periodicidade de notificação imediata ou semanal, para diferentes doenças e agravos à saúde, incluindo a Portaria 420 de 2022 que incluiu a Síndrome Congênita associada à infecção pelo Zika Vírus. 2. Tipos de Dados: A coleta de dados abrange diversas categorias: • Dados Ambientais, Demográficos e Socioeconômicos: Incluem dados sobre o número de habitantes, nascimentos e óbitos; renda, escolaridade e ocupação; pluviometria, temperatura, umidade e cobertura vegetal. • Dados de Morbidade: Abrangem dados provenientes de sistemas de informação, investigações epidemiológicas e dados laboratoriais. • Dados de Mortalidade: São obtidos através de sistemas de informação específicos (menciona o SIM, sistema de informação de mortalidade, como exemplo). 3. Fontes de Dados: Os dados são coletados de várias fontes: 1. Notificação Compulsória de Casos 2. Prontuários Médicos 3. Atestados de Óbitos e Registro de Anatomia Patológica 4. Resultados Laboratoriais 5. Registros de Bancos de Sangue 6. Investigação de Casos e Epidemias 7. Inquéritos Comunitários 8. Distribuição de Vetores e Reservatórios 9. Uso de Produtos Biológicos 10. Notícias Veiculadas na Imprensa 4. Sistemas de Informação: utilizados no Brasil: Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN): Desenvolvido entre 1990 e 1993, alimentado por notificação e investigação, com autonomia para estados e municípios. Ficha Individual de Notificação (FIN) Preenchida para cada paciente suspeito de doença ou agravo de notificação Compulsória. Notificação negativa: informar que não ocorreu, diferenciando da falta de notificação por desatenção/falha • Notificação de surtos - Casos de agravos inusitados - Casos agregados, ausentes na lista de notificação compulsória Ficha Individual de Investigação (FII) • Para informação mais detalhada • Formulários específicos • Serve para investigar: - Fonte de infecção - Mecanismos de transmissão • Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM): Implantado em 1975, utiliza a Declaração de Óbito (DO) emitida pelo Ministério da Saúde (MS). As causas básicas são codificadas, e os dados são processados pelos municípios. Serve como fonte primária de dados de incidência e diagnóstico, complementando o SINAN. Apresenta exemplos de declarações de óbito. • Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC): Implantado em 1990, coleta dados sobre gravidez, parto e condições de nascidos vivos, através da Declaração de Nascidos Vivos (DN). Mostra um exemplo de formulário. • Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS): Concebido em 1984, contém informações de cerca de 70% das internações no Brasil, fornecendo dados sobre agravos que necessitam de internação, e informações sobre gestão de serviços. Usa AIH (Autorização de Internação Hospitalar). Um exemplo de Laudo para Solicitação de Autorização de Internação Hospitalar é apresentado. • Outros sistemas nacionais: A apresentação menciona o Sistema de Informações Ambulatoriais (SAI/SUS), o Sistema de Informações da Atenção Básica (SIAB), o Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunização (SI-PNI) e o Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para consumo humano (SISAGUA), além de dados do IBGE, IPEA e Ministério do Trabalho. Por que investigar epidemiologicamente um surto? Identificar o agente etiológico • Encontrar a fonte da infecção (paciente, local) e taxa de ataque específica • Recomendações para impedir disseminação da doença Por que e quando investigar 1) Doenças prioritárias - Das doenças notificáveis, algumas representam maior risco - Notificação prioritária: feita mais cedo 2) Número de casos em excesso - Diagrama de controle aponta números muito fora do previsto - Melhor quando se acompanha grupos populacionais específicos, de baixa incidência 3) Fonte comum de infecção - epidemias ligadas a fonte comum de exposição (água, alimento) - rápido crescimento requer medidas corretivas imediatas 4) Quadro clínico grave - aumento de número de casos graves de uma doença - maior letalidade, internações, feita ao trabalho, etc 5) Doenças desconhecida na região - ocorrência de casos raros ou inéditos - às vezes nem há confirmação diagnóstica 04- Indicadores Determinantes e Indicadores de Saúde, os epidemiologistas não se preocupam apenas com a ocorrência de doenças, mas também com suas principais consequências: limitação, incapacidade e deficiência. A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIFIS) da OMS é apresentada como uma ferramenta útil para medir e compreender esses desfechos, tanto em serviços formais de saúde quanto em pesquisas populacionais. Parâmetros-chave da CIFIS: • Limitação: Qualquer perda ou anormalidade de estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica. • Incapacidade: Qualquer restrição ou falta (resultante de uma limitação) de habilidade para realizar uma atividade considerada normal para o ser humano. • Deficiência: Desvantagem resultante de limitação ou incapacidade que impede o indivíduo de desempenhar uma vida normal, considerando idade, sexo e fatores sociais e culturais. Desfechos não fatais em saúde Indicadores de Saúde, as informações epidemiológicas (riscos, fatores de risco, etc) normalmente são apresentadas sob a forma de Indicadores de Saúde. A construção de indicadores é importante para analisar a situação atual de saúde, fazer comparações e avaliar mudanças ao longo do tempo. A apresentação esclarece que indicadores de saúde são expressos em frequência absoluta ou relativa. Números absolutos não são utilizados para avaliar o nível de saúde porque não levam em conta o tamanho da população. Por isso, os indicadores são construídos por meio de razões (frequências relativas), em forma de proporções ou coeficientes. Os indicadores de saúde são construídos a partir de: • Dados relativos a eventos vitais (nascimentos, óbitos, etc.). • Estrutura da população. • Morbidade (doenças). • Serviços e atividades sanitárias. A apresentação categoriza os tipos de indicadores em saúde: 1. Demográficos: Exemplos: população total, razão de sexos, proporção de idosos e grau de urbanização. 2. Socioeconômicos: Exemplos: taxa de analfabetismo, proporção de pobres, níveis de escolaridade, taxa de desemprego e taxa de trabalho infantil. 3. Mortalidade: Exemplos: taxa de mortalidade infantil, taxa de mortalidade por causa específica, taxa de mortalidade por causas externas e taxa de mortalidade por acidentes de trabalho. 4. Morbidade e fatores de risco: Exemplos: incidência de febre amarela, taxa de incidência de doenças relacionadas ao trabalho, prevalência de pacientes em diálise (SUS) e proporção de nascidos vivos por idade materna. 5. Recursos: Exemplos: número de leitos por habitante, gasto médio por atendimento ambulatorial, gasto público com saúde (como proporção do PIB) e gasto federal com saneamento. 6. Cobertura: Exemplos: proporção de partos cesáreos, número de consultas médicas SUS por habitante, cobertura de planos e seguros privados de saúde suplementar e cobertura vacinal no primeiro ano de vida. Os coeficientes mais utilizados na área da saúde baseiam-se em dados sobre doenças (morbidade) e sobre eventos vitais (nascimentos e mortes). Estudos Epidemiológicos Visam descrever e caracterizar o processo saúde- doença. Classificação dos Estudos Epidemiológicos: Os estudos epidemiológicos são classificados de acordo com três critérios:• Unidade: • Individual: Abordagem focada em um único sujeito. • Ecológico: Abordagem populacional, utilizando dados secundários. • Intervenção: • Observacional: Observa-se o fenômeno sem intervenção, por exemplo, analisando fatores de exposição. • Experimental: Há intervenção em um grupo, por exemplo, um grupo recebe um medicamento e outro não. • Propósito Geral: • Descritivo: Tem como objetivo apenas a descrição do fenômeno, por exemplo, a descrição dos primeiros casos de raiva. • Analítico: Visa a comparação entre grupos e cenários, buscando identificar as causas e os efeitos das doenças. Variáveis: São definidas as variáveis envolvidas: • Independente: O fator causal (exemplo: um cientista testando o efeito da luz e da escuridão no comportamento de mariposas). • Dependente: A condição final (exemplo: a reação da mariposa à luz). Fluxograma de Classificação: Um fluxograma ajuda a classificar o tipo de estudo: 1. O investigador interfere no estudo? • Não: Estudo Observacional (com comparação entre grupos de pessoas?) • Não: Estudo Descritivo ou Ecológico • Sim: Estudo de Coorte, Caso-Controle ou Transversal • Sim: Estudo Experimental (com alocação randomizada?) • Não: Ensaio de Comunidade • Sim: Ensaio Clínico; Randomizado Estudo Experimental: Este tipo de estudo envolve a intervenção direta do pesquisador. O diagrama mostra a alocação aleatória dos participantes em grupos: doentes tratados, sadios tratados, doentes controles e sadios controles. As variáveis investigadas podem incluir novas drogas ou tratamentos, novas tecnologias de saúde, novos métodos de prevenção, novos programas de rastreamento, novas formas de organização dos serviços de saúde, e novos programas comunitários de saúde. PRESSUPOSTO ESSENCIAL • Grupos diferem apenas com relação a exposição; • Grupos similares em relação a todos os fatores. A randomização Processo por meio do qual os indivíduos são alocados nos grupos tratamento e controle de forma aleatória. É crucial para garantir que os grupos sejam comparáveis em relação às variáveis observáveis e não observáveis, evitando o efeito placebo. O cegamento (simples, duplo ou triplo) é discutido como uma forma de minimizar o viés e o efeito placebo. Um exemplo de ensaio de comunidades é dado, avaliando a eficácia de um programa alimentar escolar. CEGAMENTO SIMPLES: Participante desconhece o tratamento DUPLO CEGO: Paciente + examinador desconhecem o tratamento TRIPLO CEGO: Paciente + examinador + estaticista desconhecem o tratamento ENSAIOS DE COMUNIDADE EFICÁCIA DE UM PROGRAMA ALIMENTAR ESCOLAR OBJETIVO Avaliar a eficácia de um plano alimentar de dieta saudável em duas escolas. GRUPOS Controle: A escola segue o plano alimentar habitual. Intervenção: A escola segue recebe um plano alimentar especifico para as necessidades nutricionais. AVALIAÇÃO Peso no início e após 6 meses de intervenção. Estudo Observacional Estudo de Coorte: Este estudo acompanha um grupo de pessoas (coorte) ao longo do tempo, para determinar a incidência de desfechos clínicos. Os participantes são selecionados por sua exposição (ou não- exposição) a um fator de interesse. A aula diferencia estudos de coorte prospectivos, retrospectivos e mistos. (doentes/sadios, expostos/não-expostos) são apresentados. VANTAGENS • Observação da sequência temporal de eventos – relações causais; • Investigação de múltiplos desfechos e exposições; • Estocagem de material biológico para análises futuras; • Melhor controle de mudanças de status de exposição e na distribuição de fatores de risco ao longo do tempo. DESVANTAGENS • Pouco adequados para desfechos raros ou com longos períodos de latência e indução; • Muito suscetível a perda de seguimento • Envolve a observação de um grande número de indivíduos durante um período de tempo geralmente prolongado; • Estudos caros e de operacionalização complexa. Estudo Caso-Controle: Neste tipo de estudo, indivíduos com a doença (casos) são comparados com indivíduos sem a doença (controles), analisando retrospectivamente a exposição a fatores de risco. É um estudo observacional útil para identificar fatores associados a doenças raras. • Se inicia com a seleção de pessoas portadoras de uma doença ou condição específica (casos), e um outro grupo de pessoas que não sofrem dessa doença ou condição (controles). • Identificar características (exposições ou fatores de risco) que ocorrem em maior (ou menor) frequência entre casos do que entre controles. • O número de casos e de controles é definido arbitrariamente pelo investigador e não reflete a relação real entre casos e controles no total da população (máximo de 4 controles:1 caso). Estudo de casos e controles • Delineamento observacional em nível individual • Característica principal: os participantes são selecionados com base em terem ou não o desfecho • Ou seja: no momento do recrutamento, são identificados indivíduos com o desfecho (casos) • Como grupo de comparação, são incluídos indivíduos sem o desfecho (controles) • Após o recrutamento, casos e controles são medidos quanto ao histórico de exposição • Útil para identificar fatores associados à ocorrência de doenças raras • A seleção de participantes com base no desfecho garante que a amostra incluirá o número desejado de casos. • Diferente dos estudos transversais e de coorte! - Etapas principais • Recrutamento: seleção dos indivíduos que farão parte da amostra • Definição da população alvo • Seleção de casos: devem ser selecionados de forma a serem representativos do total de doentes na população alvo • Seleção de controles: devem ser selecionados de forma a serem representativos do total de não doentes na população alvo • Mensuração do histórico de exposição • Gerando 4 grupos: casos expostos e não expostos; e controles expostos e não expostos • Idealmente, seria possível assegurar-se que a exposição corresponde apenas ao período anterior ao desfecho VANTAGENS • Em geral, antecede estudos de coorte e experimental nas investigações etiológicas; • Menor custo e mais rápido; • Doença de baixa incidência: maior eficiência do que coorte para identificar os casos; • Menor tamanho de amostra; • Doença que tem período de latência prolongado; • Mais rápido. DESVANTAGEM • Não permitem a estimativa da incidência; • Não são bons para investigar exposições muito raras; • Controles podem não representar indivíduos sob risco de adoecer na população que deu origem aos casos; • Casos podem não ser representativos da população de casos da população de referência; • Taxas de participação e a qualidade dos dados podem diferir entre casos e controles. Estudo Transversal: • Investigações que produzem um “fotografia” da situação atual de saúde de uma população ou comunidade, com base na avaliação individual do estado de saúde de cada um dos participantes do estudo; • Apenas na análise é que se descobrem os expostos ou nãoexpostos, doentes e sadios; • Diagnósticos situacional atual de comunidades; • Descreve a prevalência das variáveis e seus padrões de distribuição; • Caracteriza apenas a associação da doença e a exposição naquele ponto no tempo. VANTAGENS • Estimativa da prevalência; • Logística mais eficiente; • Relativamente rápido. • Grande número de participantes: grandes inquéritos. • Medir várias exposições e várias doenças; • Em geral, permite generalizar resultados. DESVANTAGENS • Necessita de um elevado tamanho amostral quando a doença ou exposição são raros. • Não é adequado para doenças de curta duração; • Não é adequado para situações em que doença/ exposição mudam ao longo do tempo; • Ausência de ordem temporal; • Inclui somente indivíduos vivos no momento do estudo.Estudo Ecológico: A unidade de observação é a área geográfica definida. • Neste estudo não se sabe se um indivíduo em particular da população estudada é doente ou exposto. VANTAGENS • Indicar os riscos a que a população está sujeita; • Acompanhar a disseminação dos agravos à saúde; • Fornecer subsídios para explicações causais; • Definir prioridades de intervenção; • Avaliar o impacto das intervenções; • Refere-se à população como um todo, e não a indivíduos; PORTANTO não é possível ligar fator de risco à ocorrência da doença na mesma pessoa; • Baixo custo e rápida execução → dados disponíveis: SIM, SINAN, IBGE • Estudes de série temporal. DESVANTAGENS • Dados de diferentes fontes – qualidade variável; • Impossível inferir causalidade sobre um fenômeno individual. Aplicações: Gerar hipóteses etiológicas - explicar a ocorrência da doença. Avaliar a efetividade de intervenções na população - testar a aplicação de nosso conhecimento para prevenir doença ou promover saúde. Exemplos Realizou-se um estudo de COORTE PROSPECTIVA, com 87 pacientes sintomáticos ambulatoriais, acompanhados em duas Unidades Básicas de Saúde de referência para atendimento de COVID-19 em Teresina-Piauí, Brasil, no período de novembro a abril de 2021 Trata-se de um estudo estudo TRANSVERSAL realizado com 117 pessoas frequentadores de um parque localizado em Teresina-PI, estipulando os seguintes critérios de inclusão: ter idade igual ou maior a 18 anos; assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e frequentarem as atividades desse espaço recreativo. A coleta de dados deu-se através de questionário com 18 questões objetivas fechadas sobre os fatores de risco predisponentes ao surgimento de AVC incluindo informações sobre o conhecimento desses fatores e ainda, peso, altura, idade, Índice de Massa Corporal (IMC) e Pressão Arterial (PA) dos participantes. A halitose crônica, ou mau hálito persistente, afeta uma grande parte da população e pode ter um impacto negativo significativo na qualidade de vida. Este ENSAIO CLÍNICO RANDOMIZADO avaliou a eficácia de probióticos específicos no tratamento da halitose crônica. Cem pacientes com halitose crônica foram divididos em dois grupos (n=50 por grupo) de maneira aleatória: grupo probiótico (recebeu comprimidos contendo Lactobacillus reuteri) e grupo placebo (recebeu comprimidos inertes de farinha). Os comprimidos foram administrados diariamente durante 4 semanas. A halitose foi medida usando um monitor de sulfeto portátil (Halimeter) e escalas subjetivas de auto-relato no início do estudo, após 2 semanas, e ao final de 4 semanas. Análises estatísticas foram realizadas para comparar as mudanças nos níveis de halitose entre os grupos. Os pacientes no grupo probiótico mostraram uma redução significativa nos níveis de compostos sulfurados voláteis (VSC) medidos após 4 semanas (média redução=30%) em comparação ao grupo placebo (média redução=10%) (p