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3.1 TDAH EM CRIANÇAS O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma patologia que envolve o desenvolvimento do autocontrole, sendo marcada por déficits referentes aos períodos de atenção, ao manejo dos impulsos e ao nível de atividade (Barkley, 2002). O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) foi reconhecido no século XX como o primeiro distúrbio psiquiátrico a ser identificado e tratado em crianças. Muitos especialistas o consideram como um distúrbio neurocomportamental, que se inicia na infância e afeta cerca de 3% a 6% das crianças em idade escolar. A incidência do TDAH é maior em meninos do que em meninas, pois os sintomas de hiperatividade e impulsividade são mais visíveis no sexo masculino para os pais. Acredita-se que, mundialmente, o transtorno afete aproximadamente de 8% a 12% das crianças. Barkley, 2008; Malloy-Diniz, Alvarenga, Abreu, Fuentes & Leite, 2011). As particularidades das crianças com TDAH são bastante variadas, apesar de algumas semelhanças. Alguns especialistas sugerem a existência de diferentes subtipos da doença, além dos já definidos no DSM-IV (Hallowell & Ratey, 1999), levando em consideração a diversidade de sintomas apresentados, muitas vezes relacionados a outras condições médicas. A presença de outras condições médicas tem um grande impacto no comportamento das crianças com TDAH e representa um desafio na hora de realizar um diagnóstico preciso (Rohde, Miguel Filho, Bentti, Gallois & Kieling, 2004). Atualmente, o diagnóstico é principalmente clínico e não existe ainda testes físicos, psicológicos ou neurológicos que possam confirmar o TDAH em um paciente (Phelan, 2005). No entanto, a utilização de testes neuropsicológicos e escalas pode ser útil durante a avaliação, auxiliando tanto no diagnóstico quanto no planejamento do tratamento adequado. Historicamente, o crescimento no número de casos diagnosticados de qualquer desordem levanta dúvidas sobre se é apenas uma tendência temporária. Contudo, o TDAH é vastamente estudado no meio científico e oficialmente reconhecido pela Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde (CID-10) da Organização Mundial da Saúde (OMS, 1993). Dessa forma, o aumento nos diagnósticos desse distúrbio pode estar mais relacionado à ampla disseminação do conhecimento sobre o assunto do que a uma simples moda passageira. Porem a de se atentar que ainda existe muitos diagnósticos equivocados, principalmente quando a criança passa a ser rotulada na instituição educacional como: "inquieta"; "distraída"; "com problemas de aprendizagem"; "com dificuldades"; "não para quieta"; "distante"; "agressiva" e assim por diante. Dentro dessas dinâmicas, frequentemente embasadas em discursos que desqualificam, os estudantes começam a enfrentar um processo de estigmatização, adotando a posição que lhes é imposta pelo ambiente social. Dessa forma, a criança é encaminhada para instituições de saúde, resultando, muitas vezes, na medicalização (transformação de crianças saudáveis em doentes). Após a confirmação do pré-diagnóstico escolar na clínica, a criança passa a ser rotulada com frases como: “não presta atenção por causa do TDAH”; “perde as coisas por causa do TDAH”; “tem dificuldades de relacionamento devido ao TDAH”; “tem dificuldade de aprendizagem por causa do TDAH”; “não consegue copiar do quadro por causa do TDAH” (SIGNOR, 2013). Ao serem diagnosticadas como doentes, as crianças se tornam pacientes e, consequentemente, utilizadoras de medicamentos (COLLARES, MOYSÉS; RIBEIRO, 2013). Primeiramente, o diagnóstico do TDAH é complexo e envolve a identificação de sintomas persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade. Estes sintomas devem ser mais acentuados do que o normal para a idade da criança e devem estar presentes por pelo menos seis meses, conforme os critérios do DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). A avaliação geralmente inclui entrevistas detalhadas com os pais e professores, além do uso de escalas de avaliação comportamental e, em alguns casos, observações clínicas diretas. Os exames neuropsicológicos, em especial, podem esclarecer detalhes ligados às regiões cerebrais afetadas pela doença, influenciando no comportamento e no desempenho cognitivo da pessoa. A ligação entre as deficiências em determinadas funções executivas e áreas específicas do cérebro pode aumentar a compreensão da doença e do efeito de certos medicamentos psicotrópicos. Embora vários exames neuropsicológicos ainda não tenham sido aprovados pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) para uso clínico, as pesquisas têm apresentado resultados significativos. Dentre os testes recomendados, o destaque vai para o WISC-III, adaptado para a população brasileira por Figueiredo (2001), sendo reconhecido como um dos instrumentos mais úteis para a avaliação do TDAH, fornecendo uma vasta gama de informações (Rohde & Ketzer, 1997). A detecção precoce do TDAH em crianças é de extrema importância por vários motivos, sendo essencial para o crescimento saudável e a felicidade do indivíduo. Reconhecer o distúrbio logo no início possibilita a implementação de medidas apropriadas, evitando a piora dos sintomas e o impacto prejudicial em diferentes aspectos da vida da criança, tais como o rendimento escolar, as interações sociais e o estado emocional. Resumidamente, identificar precocemente o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade em crianças é fundamental para reduzir os efeitos negativos, proporcionar o suporte necessário e promover o crescimento saudável da criança, contribuindo para sua independência e qualidade de vida no futuro.