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A
do
$Pr iÈ iW m
CBO
Rio de Janeiro 
2012
juniorevan
Livro 
Digital
Todos os direitos reservados. Copyright © 2012 para a língua portuguesa da Casa Publi- 
cadora das Assembleias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina.
Preparação dos originais: Verônica Araújo
Capa: Jonas Lemos
Projeto gráfico e Editoração: Elisangela Santos
CDD: 230 - Doutrina (Teologia Cristã)
ISBN: 85-263-0299-x
As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 
1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.
Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da 
CPAD, visite nosso site: http://www.cpad.com.br.
SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente: 0800-021-7373
Casa Publicadora das Assembleias de Deus
Av. Brasil, 34.401 - Bangu - Rio de Janeiro - RJ 
CEP 21.852-002
Ia edição: Setembro/2012 
Tiragem: 3.000
http://www.cpad.com.br
P r efá c io
A doutrina do pecado, de autoria do Pastor Severino Pedro da Silva, é 
verdadeiramente um tratado de hamartiologia. Nele, o autor mostra 
a natureza sombria do pecado, seus efeitos nocivos e seus males que 
afetam a humanidade, os seres, e as coisas em cada reino da natureza. A Escritu­
ra descreve tanto o pecado como sua natureza, dizendo que, pecado é fracasso, 
é erro, é iniqüidade, é transgressão, é falta de lei, é injustiça. Neste livro, são 
apresentados todos estes fracassos, e ao mesmo tempo, apresentado o caminho 
da solução contra todos eles e outros que não foram mencionados aqui.
S. Tomás de Aquino diz que só através de luta e esforço, poderá o homem 
alcançar a perfeição. Ele então aponta a luta pela verdade para suplantar a 
ignorância, a luta pelo bom para suplantar a malícia, a luta pelo árduo para 
suplantar a fraqueza, a luta pelo uso moderado do deleitável para suplantar a 
concupiscência. O pecado deforma a perfeição, mas através de Cristo, o ho­
mem será transformado “...de glória em glória na mesma imagem, como pelo 
Espírito do Senhor” (2 Co 3.18); onde o pecado fere, Cristo sara; onde ele 
destrói, Cristo constrói; quando ele mata, Cristo dá a vida — e vida com abun­
dância. Na luta contra o pecado, a pessoa humana somente será vitoriosa “em 
Cristo” e “por Cristo”. Sem sua presença e ajuda, tudo é fracasso.
São Paulo, BRASIL, 2010 
José Wellington Bezerra da Costa 
Presidente da CGADB
S u m á r io
P r e f á c i o .............................................................................................................................3
C a p ít u l o 1 : H a m a r t io l o g ia — D o u t r in a d o P e c a d o ......................... 9
I. O P e c a d o ................................................................................................................. 10
II . D efin a ç ã o d o P e c a d o .....................................................................................12
II I . A O rig e m do P e c a d o .................................................................................... 25
C a p í t u l o 2 : O D ia b o F o i o P r l m e i r o S e r a P e c a r ......................... 35
I. O P r im eiro In d iv íd u o q u e P e c o u .............................................................. 36
II. O P ec a d o T eve u m M en to r In t e l e c t u a l ...........................................4 2
III. O D ia b o T o rn a - s e A s s a s s in o em P o t e n c i a l ......................................43
C a p ít u l o 3 : A M o r a d a d o H o m e m a n tes d e P e c a r ................................. 55
I. A d ã o e E va M oravam n u m J a r d im ........................................................... 56
II. O R io do É d e n ................................................................................................... 59
III . A Á rvore da V ida e a Á rvore da C iên c ia do B em e
d o M a l ......................................................................................................................... 62
C a p ít u l o 4 : A Q u e d a d o H o m e m ..................................................................69
I. O P e c a d o d e A d ã o ............................................................................................70
II . A Q u ed a do H om em M ostra um a E scada
D esc en d en t e ..............................................................................................................75
III. A Q u e d a d o H om em e o C u id a d o d e D e u s .......................................83
C a p ít u l o 5 : O P r o b l e m a d o M a l ................................................................. 97
I. A O rig em do M a l ............................................................................................98
II . D iv id e -se o M a l em T rês C a t e g o r ia s .................................................99
III. A P lu r a l i d a d e n a E x is tê n c ia d o B em e d o M a l ............................. 104
IV. O P roblem a do M al n a H istória das Ideia s................................... 1 0 9
C a p ít u l o 6 : A E x t e n s ã o d o P e c a d o ......................................................... 127
I. A E x t en sã o C r esc en te do P e c a d o ....................................................... 128
II. A E xten sã o V ertical , H orizon tal e M or a l do
P ec a d o ........................................................................................................................ 133
C a p í t u l o 7 : A C l a s s i f ic a ç ã o d o P e c a d o ..............................................143
I. A s T r a n sg r e s sõ e s ......................................................................................144
II. O s T r a n sg r e sso r e s ....................................................................................... 148
III. A C la ssific a ç ã o d a C ulpa ...................................................................... 150
IV . O P ec a d o e seus C o g n a to s .....................................................................152
V. O P ec a d o e seus Va r ia n t e s ......................................................................154
C a p í t u l o 8 : O P e c a d o H e r d a d o e a I m p u t a ç ã o
d a C u l p a ............................................................................................................................159
I. O P e c a d o H e r d a d o ....................................................................................... 160
II . A Im pu ta çã o d a C u l pa ................................................................................163
C a p ít u l o 9 : O P o d e r C o n s e q ü e n t e d o P e c a d o .............................. 171
I. O P o d er O pr esso r do P ec a d o ................................................................. 172
II . O P o d er E scravocrata do P ec a d o ..................................................... 174
III . O P o d er I so láv el do P ec a d o ............................................................... 188
C a p ít u l o 1 0 : M a n if e s t a ç ã o C o n c e n t r á v e l d o
P e c a d o ................................................................................................................................. 199
I. O P e c a d o F o r m a u m a U n id a d e d o M a l ............................................2 0 0
II . O P ec a d o F o rm a u m a U n id a d e c o m F ó r m u la
S e d u t o r a ................................................................................................................. 2 0 7
C a p ít u l o 1 1 : P e c a d o s I m p e r d o á v e i s ...................................................... 2 1 5
I. P eca d o s qu e n ã o M er ec ia m o P e r d ã o ............................................... 2 1 6
II. O P ecado de Acultivavam uma devoção que era excessi­
vamente formalista. Ela obedecia, a cada passo, a um conformismo e a 
um legalismo letais. No entanto, diz-se que a observância escrupulosa de 
todas as minúcias ritualísticas do culto por parte do judeu tradicionalis­
ta tinha uma utilidade muito positiva para ele: habituava-o a cumprir, a 
superar e a sentir cada um dos preceitos religiosos e éticos que lhe eram 
impostos.
3o. Os mestres religiosos do Período Talmúdico. Se diz que estes mestres 
eram psicólogos e educadores muito hons. Tinham uma crença inabalável 
na força do hábito, a qual condicionaria o indivíduo tanto à pratica do bem 
quanto à do mal, dependendo do objetivo a qual ele se dirigisse. Era famoso 
no seio do povo judeu o axioma rabínico: Quando um homem faz mais uma 
boa ação — Ele se toma virtuoso. Quando um homem faz mais uma má 
ação — Ele se toma malvado.
Akiva ben José, o mais destacado tana da Mishnah, observava: “A princí­
pio o pecado é tão fino quanto um fio numa teia de aranha, mas ao final ele 
fica tão grosso quanto uma corda de carroça”. Também é bastante vigorosa 
a extravagante declaração do mestre babilônico Chuna, quanto à natureza 
do pecado como formador de hábitos: “Quando um homem cometeu um 
pecado uma ou duas vezes, é-lhe permitido fazê-lo”. “Permitido?! Como 
pode dizer uma coisa dessas?”, perguntou um colega irritado. “Ah!” , res­
pondeu Chuna. “Pelo menos para o próprio pecador, parece-lhe ser permi­
tido”. Deve-se acentuar novamente que o que conduz a uma compreensão 
mais tolerante em relação ao pecador e provoca a compaixão por sua irres­
ponsabilidade é o tradicional desprezo que o judeu vota pela falsa modéstia
— o qual, incidentalmente, Jesus de Nazaré também herdou de sua educa­
ção e de seu meio judaicos. Precisamente, porque o pecar é uma atividade 
da maior importância para a Humanidade — alguns pecam mais, alguns
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 33
pecam menos — e a inclinação para o mal arma indiscriminadamente as 
suas armadilhas, tanto para o santo rabino quanto para o mais empedernido 
criminoso, o Rei Sábio foi compelido a observar, com pesar, no Eclesias- 
tes: “Não existe um homem justo sobre a terra que não faça o bem e não 
peque. A religião judaica, seguindo os ensinamentos dos Profetas, nunca 
rejeitou os pecadores. Os Sábios esclarecidos, como seu irmão judeu Jesus, 
não deixavam dúvidas a esse respeito nos pronunciamentos registrados no 
Talmud. “Que desapareça da terra o pecado, e não os pecadores.” “Um 
judeu que peca é, ainda assim, um judeu”. Dizia Rabi Meir: “Independente 
do fato de serem virtuosos os pecadores, todos os homens estão incluídos 
entre os filhos de Deus. Os homens são mencionados na Torah, por vezes, 
como os ‘filhos tolos’, ou os ‘filhos infiéis’, ou os ‘filhos malvados’, mas 
são chamados de ‘filhos’, apesar de tudo”.12
7. Pensamento do antigo Egito sobre a origem do pecado. Tre­
cho extraído do Livro dos Mortos — Confissão Negativa. I (Papiro Nu), diz: 
“Salve, deus grande, Senhor da Verdade e da Justiça, Amo poderoso: eis-me 
chegado diante de ti! Deixa-me pois contemplar tua radiante formosura! Co­
nheço teu Nome mágico e os das quarenta e duas divindades que te rodeiam 
na vasta Sala da Verdade-Justiça, no dia em que se presta conta dos pecados 
diante de Osíris: o sangue dos pecadores (sei também) lhes serve de alimen­
to. Teu Nome é: “O-Senhor-da-Ordem-do-Universo-cujos-dois-Olhos-são-as- 
duas-deusas-irmãs”. Eis que trago em meu Coração a Verdade e a Justiça, pois 
que arranquei dele todo o mal. Não causei sofrimento aos homens. Não empre­
guei violência com meus parentes. Não substituí a Injustiça pela Justiça. Não 
freqüentei os maus. Não cometi crimes. Não trabalhei em meu proveito com 
excesso. Não intriguei por ambição. Não maltratei meus servidores. Não blas­
femei contra os deuses. Não privei o indigente de sua subsistência. Não cometi 
atos execrados pelos deuses. Não permiti que um servidor fosse maltratado 
por seu amo. Não fiz ninguém sofrer. Não provoquei o homem. Não fiz chorar 
os homens meus semelhantes. Não matei e não mandei matar. Não provoquei 
enfermidade entre os homens. Não subtraí oferendas dos templos. Não roubei 
pães dos deuses. Não me apoderei das oferendas destinadas aos espíritos san­
tificados. Não cometi ações vergonhosas no recinto sacrossanto dos templos! 
Não diminuí a porção das oferendas. Não tratei de aumentar meus domínios 
empregando meios ilícitos, nem usurpando campos de outros. Não adulterei 
os pesos nem o braço da balança. Não tirei leite da boca de uma criança. Não 
me apoderei do gado nos prados. Não apanhei a laço as aves destinadas aos 
deuses. Não pesquei peixes com peixes mortos. Não obstruí as águas quando
3 4 A D o u t r in a d o P e c a d o
deviam correr. Não desfiz as barragens da passagem das águas correntes. Não 
apaguei as chamas de um fogo que devia arder. Não violei as regras das ofe­
rendas de carne. Não me apoderei do gado pertencente aos templos dos deuses. 
Não impedi um deus de se manifestar. Sou puro! Sou puro! Sou puro! Fui 
purificado como foi a grande Fênix de Herakleópolis. Porém eu sou o Senhor 
da Respiração que dá vida a todos os Iniciados no dia solene em que o Olho 
de Horas, em presença do Senhor divino desta terra, culmina em Heliópolis. 
Posto que vi culminar em Heliópolis o Olho de Horas, possa não suceder-me 
nenhum mal nesta Região, oh! deuses! nem em vossa Sala da Verdade-Justiça. 
Pois eu conheço o Nome desses deuses que contornam”.13
1 BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. J. M. Bentes e W. J. Goldsmith (tradutores). São 
Paulo: Imprensa Batista Regular, 2001, p. 219
2 WIKIPÉDIA, enciclopédia livre. Acesso: 18/10/09
3 Id. Acesso: 18/10/09
4 Id. Acesso: 18/10/09
5 Id. Acesso: 18/10/09
6 WIKIPÉDIA, enciclopédia livre. Acesso: 14/11/09
7 CONFISSÕES. C. 5, A origem do mal. Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores 
http://www.monergismo.com/. Acesso: 14/03/2008
Shttp://www.vatican.va/hoiy_father/john_paul_ii/speeches/2002/june/documents/hf_jp-ii_ 
spe_20020622_pont-acad-st-thomas_po.html Acesso: 16/11/2009
9 http://www.pom.org.br/publicacoes/arquivos/03_antropologia_servico_missao.pdf. Acesso: 
16/11/2009
10 http://www.scribd.com/doc/6897738/Harold-Kushner-Quando-coisas-ruins-acontecem-as- 
pessoas-boas.Acesso: 05/11/2009
11 Enciclopédia Judaica, vol. 9, Editora e Livraria Sêfer Ltda. 1989, pp. 112-113.
12 Enciclopédia Judaica, vol. 6, Editora e Livraria Sêfer Ltda. 1989, pp. 636-637.
13 O Livro dos Mortos do Antigo Egito. Ia Ed. São Paulo: Hemus Editora Limitada, 1982, 
pp. 137-138.
http://www.monergismo.com/
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2002/june/documents/hfjp-ii_
http://www.pom.org.br/publicacoes/arquivos/03_antropologia_servico_missao.pdf
http://www.scribd.com/doc/6897738/Harold-Kushner-Quando-coisas-ruins-acontecem-as-
La O D iabo F oi o P rim eiro 
S er a P ecar
3 6 A D o u t r in a d o P e ca d o
i . O P r im e ir o I n d iv íd u o q u e P e c o u
1. A queda do Diabo deu origem ao pecado. Somam seis os seres s 
racionais envolvidos na história do pecado: o Diabo, os anjos, os demônios — 
o homem — a mulher — e os homens. Assim: o Diabo pecou (Ez 28.15-16); 
os anjos pecaram (2 Pe 2.4); os demônios como extensão dos anjos, também 
pecaram (2 Pe 2.4; Ap 11.18); o homem pecou (Rm 5.16); a mulher pecou (1 
Tm 2.14); os homens pecaram — finalmente: todos pecaram (Rm 3.23; 5.12).
Do ponto de vista divino de observação, sobre a origem do pecado, está envol­
vido o ensinamento geral teológico da interpretação correta e responsável das 
Escrituras. Este ensino diz que, a origem do pecado é marcada por um “até”, 
que define o ‘antes’ e o ‘depois’ de sua não existência e de sua existência. No 
tocante como se originou o “primeiro pecado” e quais foram os elementos 
empregados nessa composição, devemos usar a exegese de dois pontos impor­
tantes: UM ATÉ e UM ACHOU.
a) Um até. O primeiro destes dois pontos, é o ATÉ que, marca umalinha 
divisória entre o “antes” e o “depois” na vida do primeiro ser que iria pecar: 
o Diabo.
b) Um achou. Até que se achou — iniqüidade em ti. A frase descreve o 
momento fatal da queda de Satanás quando cometeu o primeiro pecado de sua 
vida e da história tanto do mundo espiritual como do mundo material. No pri­
meiro caso, antes deste “até” na vida de Satanás, ele era um ser perfeito, como é 
descrito nas palavras do próprio Deus. “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o 
dia em que foste criado, _ ATÉ que se ACHOU iniqüidade em ti" (Ez 28.15). 
Aqui, está, portanto, o âmago da questão, da "origem do pecado", quando se ori­
ginou e porque e quem o originou. Este âmago, ou parte principal, foi marcado 
por uma fração de tempo que marcou o ‘antes’ do pecado, e por um momento, 
passou a ser contado como o ‘depois’ na vida desse ser. Entretanto, quando foi 
dado a luz ao pecado, este já se manifestava como sendo um "efeito" produzido 
por uma "grande causa". Em Ezequiel 28.16, mostra-nos tanto a "causa" como 
o "efeito" que produziram o primeiro pecado. Leiamos cuidadosamente, ob­
servando a exegese de cada palavra, pois somente assim, teremos uma maior 
compreensão do significado do pensamento. Vejamos a passagem bíblica que 
fala deste assunto: "Na multiplicação do teu comércio se encheu o teu interior 
de violência [a causa], e pecaste [o efeito], A violência sempre nasce dentro de 
um coração orgulhoso, que deseja ser, fazer e ter aquilo que não lhe pertence 
e este foi, sem dúvida, o ponto marcante na vida daquele querubim ungido,
O D ia b o F oi o P r im e ir o S e r a P e c a r 37
quando pronunciou a seguinte frase: "eu subirei". A presente frase partindo 
de um coração já atingido pelo orgulho indicava oposição declarada contra 
Deus.
2. O Diabo — foi o primeiro pecador. O orgulho do Diabo foi gerado 
por sua “formosura” e então ele achou que deveria ser admirado como Deus que 
é extremamente formoso em grau supremo. Quis, portanto, por esta causa ser 
“semelhante ao Altíssimo”. Ele mesmo falou isso sem nenhuma reserva, dizen­
do: “Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no meio dos mares...”. 
Metaforicamente falando, o personagem aqui referido seria o monarca Itobal II, 
que era o rei de Tiro quando o profeta Ezequiel fez este vaticínio. Mas a predição 
não pode, literalmente, se referir a ele; pois este monarca nunca esteve no “Éden 
Jardim de Deus”. Esta passagem, portanto, descreve a queda de um querubim 
ungido quando este se encontrava no jardim mineral de Deus.
a) O Diabo era o Querubim Ungido do Éden. Alguns comentaristas opi­
nam que o personagem de Ezequiel 28 não é o próprio Satanás, e sim, o rei 
de Tiro. Literalmente falando, o monarca Itobal II, ou um outro rei chamado 
Malkart. Mas as evidências mostram que não é Itobal II ou Malkart, que aqui 
está em foco, e sim, o próprio Satanás. Embasados neste pensamento, alguns 
comentaristas apresentam três razões em favor da identificação desse rei como 
Satanás.
1°. O Rei de Tiro. É possível que Ezequiel tenha desejado contrastar o prínci­
pe de Tiro (28.1-10) com o rei de Tiro (28.11-19). Enquanto o príncipe é um 
homem com pretensões de ser Deus e chegar ao céu, o rei é um ser celeste 
lançado fora do céu.
2o. O Rei de Tiro — Itobal II ou Malkart. Na época do vaticínio de Eze­
quiel, o rei de Tiro era Itobal II ou Malkart, palavra que significa “rei da 
cidade”, de modo que seria o rei de Tiro.
3o. O apóstolo Paulo identifica o pecado de Satanás com o orgulho (1 Tm
3.6), o mesmo que ocasionou o pecado desse rei (Ez 28.17). Esta é, pos­
sivelmente, a única passagem do Antigo Testamento em que poderia ter 
baseado essa ideia.
Literalmente falando, nunca este monarca (Itobal II ou Malkart) de Tiro es­
teve no Éden, jardim de Deus. Ele viveu no século VI a.C. e, evidentemente, 
não poderia estar no Éden, mais de 3.400 anos atrás. E, além disso, parece que 
o “Éden, jardim de Deus”, mencionado em Ezequiel 28.13, era formoso por sua 
beleza mineral, ao passo que o de Adão, por sua beleza vegetal (cf. Gn 2.8-12;
38 A D o u t r in a d o P e c a d o
Ez 28.13-16). Outrossim, alguns têm pensado que “o leviatã” (descrito em Jó 
41.1), e o “leviatã de muitas cabeças” (SI 74.14) são uma descrição alegórica 
de Satanás, representado aqui pelo o ‘Rei de Tiro’. Este monarca toma-se alvo 
de dois confrontos com Deus.
(I) Primeiro: Ele (Deus) manda uma mensagem ao governante de Tiro (Ez 
28.1-10). No primeiro vaticínio que aqui está em foco, o governante de Tiro, 
aparece como ‘um príncipe’ (Ez 28.2), que deseja a qualquer custo se assentar 
na cadeira de Deus. Já na lamentação, ele aparece como sendo ‘um rei’ (Ez
28.12). Esse rei é descrito como ‘um quembim ungido’ (Ez 28.14). Não se 
trata, portanto, de um rei humano comum; a figura que aqui aparece é o próprio 
Satanás. Ele é descrito em seu estado original como modelo de perfeição, cheio 
de sabedoria e perfeito em formosura. A frase que coloca este rei no monte de 
Deus sugere uma posição muito elevada, pois a palavra ‘monte’ no Antigo Tes­
tamento quando tomada em sentido simbólico, representa poder e autoridade 
(cf. Is 2.2; Dn 2.35).
(II) Segundo: Ele (Deus) levanta uma lamentação sobre o Rei de Tiro (Ez 
28.11-19). Na lamentação dirigida ao Rei de Tiro, são usadas várias expressões 
mostrando que tinha sido destituído seu poder e autoridade, como alguém que 
tinha sido no passado — mas que não era mais no presente. ‘Era’ - ‘tu eras’ 
-‘foste’ - ‘fazia’ - ‘assolava’ - ‘deixava’ - ‘punha’ - ‘destruíste’ - ‘mataste’ - ‘es­
tavas’ (Is 14.16,17; Ez 28.13-15).
b) Passagens bíblicas que mostram a queda do Diabo. Em Isaías 14.14, 1,
ele faz as mesmas alegações, que fizera aqui em Ezequiel, dizendo: “Subirei 
acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo”. Do ponto de 
vista divino de observação, o pecado teve “início” no passado, sendo que, sem 
dúvida, seu mentor intelectual foi Satanás. Pelo o que, segundo se diz, o pe­
cado teve início no coração de Lúcifer ocasionado pelo orgulho, pois quando 
ele disse, em seu coração: “EU SUBIREI”, então o pecado teve início em seu 
coração e por extensão no universo. E não só isso, ele com seu coração cheio 
de orgulho, pronuncia “cinco eus” contra Deus e contra sua autoridade divina.
O profeta Isaías em 14.13,14, descreve os (“5 eus”) pronunciados pelo príncipe 
das trevas em sua exaltação contra Deus: A partir deste momento em que o 
orgulho e a vaidade de ser semelhante ao Altíssimo tomam o seu coração, ele 
faz cinco declarações oponentes contra a pessoa de Deus.
I o. “...Eu (ele) subirei ao céu” (Is 14.13). Nisso, que é o primeiro aspecto 
do pecado de Satanás, ele aparentemente se propunha a fazer sua habitação, 
segundo suas palavras “.... acima das estrelas (anjos) de Deus”. Isso visava 
não somente oposição a Deus, mas também, por extensão, a seu Filho Jesus
O D i a bo F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 39
que, segundo nos é dito em Efésios 1.20,21, Deus ressuscitou a seu Filho, 
“... e pondo-o à sua direita nos céus, acima de todo principado, e poder, e 
potestade, e domínio...”.
2o. “...Exaltarei (ele) o meu trono” (Is 14.13). Em Ezequiel 28.2, lemos 
que ele queria se “assentar sobre a cadeira de Deus” e depois equiparar seu 
coração “... como se fora o coração de Deus” (Ez 28.6b). Era uma aspiração 
completamente errada, pois Deus lhe diz: “... tu és homem, e não Deus” 
(Ez 28.9). O leitor deve observar cuidadosamente cada detalhe e depois ver 
como as escrituras são proféticas e se combinam entre si! Todas as decla­
rações e ofensas deste inimigo visavam também a pessoa de nosso Senhor 
Jesus Cristo; ele queria por meio da força assentar-se no trono de Deus. 
Este lugar foi reservado para seu amado Filho (Ap 3.21; 12.5).
3o. “...No monte da consagração [angelical?] me (ele) assentarei” (Is 14.13). 
Os eruditos divergem um pouco no que diz respeito aos dois vocábulos 
usados aqui: monte e congregação. Alguns comentaristas acham que “o 
monte” é uma frase que, evidentemente,se refere ao lugar do govemo divi­
no na terra (Is 2.1-4), e a referência à “congregação” é claramente a Israel. 
Para nós esta maneira de interpretação é bastante lógica, mas não se coa­
duna com a natureza do pensamento aqui esboçado, visto que na possível 
data deste acontecimento, Israel nem sequer existia. A maneira mais lógica 
de interpretar o texto deve ser segundo o significado do pensamento; que 
o monte refere-se ao alto e sublime lugar da habitação de Deus no terceiro 
céu (Ap 21.10) e a congregação, sem dúvida, à assembleia dos seres ange­
licais (Ec 3.15; Hb 8.5; 9.23; 12.22,23; Jd v. 6).
4o. “...Subirei (ele) acima das mais altas nuvens” (Is 14.14a). O Dr. F. C. 
Jennings acha que o significado desta arrogante declaração provavelmente 
se descobrirá no uso da palavra nuvens. Das mais de 150 referências às nu­
vens, na Bíblia, 100 se relacionam com a presença e a glória divina. Portan­
to, com esta sua arrogância Satanás está procurando assegurar-se de algo 
que pertence a Deus somente. A glória de se assentar sobre uma nuvem. O 
Pai tem reservado exclusivamente para seu Filho, e não para o tentador (Dn 
7.13; Mt 24.30; At 1.9; 1 Ts4.17;Ap 1.7; 14.14).
5o. “...Serei (ele) semelhante ao Altíssimo” (Is 14.14b). Esta foi a quinta e 
última declaração arrogante do grande inimigo de Deus. Ela feria também, 
como já vimos nas outras declarações, a santidade e a posição elevada do 
Filho de Deus, que disse “ser igual ao Pai” (Jo 5.18).1
40 A D o u t r in a d o P e ca d o
3. O orgulho e a violência deram origem ao pecado. Agora, as 
razões que apresentamos acima neste argumento, tomam-se “causa” e “efeito” 
para que “o primeiro pecado” tivesse origem no coração do anjo rebelde (cf. 
Is 14.13; Ez 28.2; 1 Tm 3.6). Sua introdução, no mundo, porém, foi feita por 
“um homem” Adão, conforme veremos em outra seção deste livro (Gn 3; Rm
5.12). Embora pelas alegações de proibições do Criador, em Gênesis 2.17, 
podemos perceber sem sombra de dúvidas que, mesmo antes de Adão pecar, 
o pecado já estava “presente” no universo, pela declaração de Gênesis 2.17, 
quando Deus disse: “...da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; 
porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Pela “presença” e 
pelas alegações do tentador, no jardim do Éden, ele (o pecado) ali já estava. É 
certo que o mal estava ali também pela presença da árvore da ciência do bem 
e do mal (Gn 2.9). O pecado do Diabo, ocasionado pelo orgulho, assume um 
aspecto de perversidade do coração, da mente, da disposição e da vontade. Isso 
sucedeu verdadeiramente, conforme já verificamos, no caso do primeiro peca­
do, e se aplica igualmente a todos os demais pecados. Na presente era, o Diabo 
é o “príncipe das potestades [anjos] do ar” (Ef 2.2); seu trono pode ser armado 
tanto na terra (Ap 2.13), como no espaço (Ef 2.2; 6.12; Ap 12.7); ele exerce 
suas atividades em três esferas do universo: na terra (Ap 12.12), no espaço 
(Ef 2.2; Ap 12.7); e também no mar (Ap 12.12; 13.1). Seus agentes podem ser 
tanto humanos (os homens) como espirituais (anjos e demônios) dependendo 
do contexto. Ao se tomar o agente do primeiro pecado, o Diabo depois disso 
procurou (e procura) a qualquer custo, transmiti-lo para os seres racionais.
a) O pecado é transmitido através do Diabo para os anjos e os demônios.
O pecado destes seres foi, instruídos pelo Diabo, querer usurpar a refulgente 
glória do Filho de Deus, quando aderiam ao lado do Diabo, no momento que 
este se revoltou contra Deus e suas ordens. Algumas companhias de anjos eram 
fiéis, portanto, até que foram enganados por Satanás e sendo frustrados em 
seus planos maléficos, alguns desiludidos pelo imenso fracasso a eles imposto, 
“...deixaram a sua própria habitação” nos domínios da existência.
b) O pecado é transmitido através da serpente (o Diabo) para o homem 
e sua mulher. O fracasso do casal no jardim do Éden, já faz parte do mundo 
humano; embora com reflexo de um mundo espiritual. Antes do pecado em 
suas vidas, Adão e sua esposa, no jardim do Éden, viviam de forma tranqüila e 
sossegada. Mas isso “antes” do pecado. Contudo, houve um momento quan­
do foi “aberto os olhos de ambos”, que destruiu esta felicidade; e, agora, um 
“depois”, os coloca na trilha do sofrimento, da dor e da incerteza. Todos eles, 
sem exceção, queriam ser, ter e fazer aquilo que não era de sua competência,
O D ia b o F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 41
mas somente da competência exclusivamente de Deus e não dos seres criados, 
que são limitados tanto no ser como no poder. Um “até” que marca fracasso, 
pode estar presente, até mesmo quando alguém não espera. Adão e sua esposa 
viviam num estado de pureza e santidade, até que a serpente enganou Eva a 
come* ào fcvxto çtoi\Mo que estava no meio do jardim.
c) O pecado é transmitido através de Adão para a humanidade. Paulo es­
crevendo aos romanos disse que por causa de Adão, “todos pecaram” (Rm 5.12) 
e que não havia privilégio neste assunto. Os gentios, por sua vez, encabeçavam a 
lista dos pecadores. Mas tanto “judeus como gregos, todos estão debaixo do pe­
cado” (Rm 3.9). Assim o pecado reinou sobre todos, “até” que viesse Cristo. Este 
“até” que aqui está em foco, mostra a misericórdia de Deus para com todos que 
olham para Cristo. Em sentido contrário, entretanto, uma vez por outra, é sempre 
usado um “até” nas Escrituras que marca uma queda de um grande personagem, 
que pode ser tanto da esfera terrena como da celestial. Uzias, rei de Judá, reinou 
55 anos em Jerusalém. Deus o fez prosperar em todos os atos de sua vida, de 
maneira que “...voou a sua fama até muito longe; porque foi maravilhosamente 
ajudado, ATE que se tomou grande”. No versículo seguinte que temos nesta se­
ção, mostra claramente a fonte de seu fracasso. O orgulho de ser, ter e conseguir 
tem ocasionado o fracasso em alguém que era santo e depois caiu. Com respeito 
ao rei Uzias, assim descreve o escritor sagrado: “Mas, havendo-se já fortificado, 
exaltou-se o seu coração, ATE se corromper...” (2 Cr 26.15,16).
d) Pensamento muçulmano apresenta o orgulho como principal fator so­
bre a origem do pecado. De acordo com o Alcorão, o pecado, teve início depois 
da criação do homem. Deus ordenou aos anjos (entre eles o Diabo), que pres­
tassem homenagem a Adão que acabara de ser criado. Todos eles aceitaram — 
exceto um: o Diabo, conforme descreve O Alcorão: (11b. “Allah (Deus) disse: 
“Prostemai-vos diante de Adão”. E prostemam-se, exceto Iblis (o Diabo). Ele 
não foi dos que se prostemaram”. 12. O que te impediu de te prostemares, 
quando to ordenei?”. Satã disse: “Sou melhor que ele. Criaste-me de fogo e 
criaste-o de barro”. 13. Allah disse: “Então, desça dele!. E não te é admissível 
te mostrares soberbo nele. Sai, pois, por certo, és dos humilhados!”. 14. Satã 
disse: “Concede-me dilação, até um dia, em que eles serão ressuscitados”. 15. 
Allah disse: “Por certo, és daqueles aos quais será concedida dilação”. 16. Satã 
disse: “Então, pelo mal a que me condenaste, ficarei, em verdade, à espreita 
deles, em Tua senda reta. 17. “Em seguida, achegar-me-ei a eles, por diante e 
por detrás deles, e pela direita deles e pela esquerda deles, e não encontrarás a 
maioria deles agradecida”. 18. Allah disse: “Sai dele, como execrado, banido.
4 2 A D o u t r in a do P e c a d o
Dos que, dentre eles, te seguirem, encherei a Geena, de todos vós. Dele: do 
Paraíso. Eles: os homens. Dele: do Paraíso. 19. “E, ó Adão! Habita, tu e tua 
mulher, o Paraíso; e comei onde ambos quiserdes, e não vos aproximeis des­
ta árvore pois, serieis dos injustos”. 20. E Satã sussurrou-lhes perfídias, para 
mostrar a ambos o que lhes fora acobertado de suas partes pudendas, e disse: 
Vosso Senhor não vos coibiu desta árvore senão para não serdes dois anjos 
ou serdes dos eternos”. 21. E jurou-lhes: “Por certo, sou para ambos de vós 
um dos conselheiros”. 22. Então, seduziu-os, com falácia. E, quando ambos 
experimentaram da árvore, exibiram-se-lhes as partes pudendas, e começarama aglutinar, sobre elas, folhas do Paraíso. E seu Senhor chamou-os: “Não vos 
coibi a ambos desta árvore e não vos disse que Satã vos era inimigo declara­
do?”. 23. Disseram: “Senhor nosso! Fomos injustos com nós mesmos e, se 
não nos perdoares e não tiveres misericórdia de nós, estaremos, em verdade, 
dentre os perdedores. Cf. 11 35 n3. 24. Allah disse: “Descei, sendo inimigos 
uns dos outros. E tereis, na terra, residência e gozo até certo tempo”. 25. Ele 
disse: “Nela vivereis e nela morrereis e dela far-vos-ão sair”. 26. O filhos de 
Adão! Com efeito. Criamos, para vós, vestimenta, para acobertar vossas partes 
pudendas, e adereços. Mas a vestimenta da piedade, esta é a melhor. Esse é um 
dos sinais de Allah, para meditarem. 27. O filhos de Adão! Que Satã não vos 
tente, como quando fez sair a vossos pais do Paraíso, enquanto a ambos tirou a 
vestimenta, para fazê-los ver suas partes pudendas. Por certo, ele e seus sequa- 
zes vos veem de onde vós não os vedes. Por certo, Nós fizemos os demônios 
aliados aos que não creem”).2
n . O P e c a d o T e v e u m M e n t o r I n t e l e c t u a l
1. Antes da sua queda o Diabo não era pecador. Partindo do ponto )
zero [“0”] da existência, deduzimos que houve um período de tempo antes da 
queda do querubim ungido, em que o pecado não existia. Este período faz par­
te dos tempos imemoriáveis quando somente existia o Deus Trino e Uno (Jo 
17.5,24). Neste período que faz parte da eternidade passada, aparece o queru­
bim ungido — sendo estabelecido por Deus com a missão de proteger — cer­
tamente a primitiva criação de Deus. Depois da sua queda, transformou-se 
no Diabo. Neste argumento sobre o pecado, podemos observar duas escadas 
descendentes em direção ao fracasso. Na primeira, estão envolvidos o Diabo, 
os anjos maus e os demônios; na segunda, Adão e sua mulher. Já tivemos a 
ocasião de falar neste assunto, em outras notas expositivas, quando falamos 
sobre a “origem do pecado” e o “problema do mal”; agora, para que o leitor 
tenha uma melhor compreensão do significado do pensamento, passaremos a
O D ia b o F oi o P r im e ir o S e r a P e c a r 43
descrever mais detalhadamente sobre o pecado destes seres tenebrosos acima 
mencionados e depois vamos para uma outra escada descendente, que tratará 
da queda do homem e de sua mulher.
2. O Diabo tornou-se o acusador principal do universo. Não sa­
bemos na esfera espiritual do mundo tenebroso, como os súditos do Diabo 
lhe chamam. Mas, nas Escrituras ele é identificado como sendo “Diabo”. O 
substantivo grego “diabollos” (formado de dia, “através de”, e ballõs, “jogar”) 
significa “jogar por cima ou através de”. O que sugere “dividir”, “semear con­
tenda”, “acusar”, “fazer acusação”, “caluniar”, “informar”, “rejeitar”, “descre­
ver”. Em Apocalipse ele é chamado de ‘o Acusador’, porque do ponto de vista 
divino de observação, é o que ele é. Isso está explícito na declaração divina 
que partiu diretamente do céu: “E ouvi uma grande voz no céu, que dizia: 
Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do 
seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante 
do nosso Deus os acusava de dia e de noite” (Ap 12.10). Estes nomes e apelati­
vos descrevem toda sua natureza, caráter e personalidade. O pecado, portanto, 
trouxe a este, que no passado fora um anjo de luz, todas estas deformações e 
muito mais, em sua natureza e caráter. Seu nome aparece com variações em 
diversas partes das Escrituras para descrever a sua natureza e seus ardis; cada 
nome seu ou apelativo representa uma espécie de maldade por ele executada. 
Em linguagem popular — especialmente no Brasil — lhe chamam de ‘capeta’ 
(traquino).3
i i i . O D ia b o T o r n a - se A s s a s s in o e m P o t e n c ia l
1. Ele tornou-se assassino do universo. Após sua queda, o Diabo só 
trabalha contra Deus. Ele é reputado por Jesus como sendo o primeiro homicida 
do mundo espiritual e da história humana. Sobre ele assim disse o Senhor: “Vós 
tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi 
homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade 
nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, 
e pai da mentira” (Jo 8.44). E o apóstolo João completa dizendo: “Quem comete 
pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio...” (1 Jo 3.8a). O 
grande assassino do mundo espiritual, o Diabo, após o seu pecado, tornou-se o 
primeiro homicida qualificado. Seu ato sombrio de praticar crime contra a vida 
foi executado no mundo espiritual. Ele tentou aos anjos — depois os enganou
— levando-os a uma espécie de assassinato coletivo. Usando a sua cauda (seu 
baixo caráter), ele seduziu um ‘terço” dos anjos que viviam em paz, na existência
44 A D o u t r in a do P e c a d o
espiritual (Ap 12.3,4). Contudo, ele não se satisfez somente com esta sua negra 
ação. E quando presenciou a criação do mundo material e da raça humana, volta 
a atacar novamente. O Diabo incentivou os anjos a se rebelarem contra Deus, 
com a finalidade de arruinar todo o sistema do universo criado por Ele. E além 
disso, conquistou um terço dos anjos e os escravizou à serviço dele em sua 
organização tenebrosa.
2. Ele tornou-se assassino da santidade dos anjos. Os anjos caídos 
se dividem em dois grupos distintos:
a) O primeiro grupo. Este é composto daqueles que aderiram a Satanás 
quando se rebelou contra Deus (Is 14.12; Ez 28.2); esses anjos estão sob a 
esfera de seu domínio e consequentemente, não estão aprisionados (Ef 2.2; 
6.12; Ap 12.7). Muitos e importantes textos paulinos falam dessas organiza­
ções do mundo angelical, usando as palavras: “autoridades”, “potestades”, 
“tronos”, “principados” no sentido invisível específico de entes invisíveis. São 
tão numerosos que tomam o poder de Satanás muito extenso. Paulo diz em 
Colossenses 2.15, que nosso Senhor triunfou sobre estas hostes por meio de 
sua morte e ressurreição. E depois acrescenta: “E, despojando os principados e 
potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”. Quando se 
faz necessário para distinção do significado do pensamento, a Bíblia distingue 
os anjos maus dos anjos bons da seguinte forma: “potestades do ar” (anjos 
maus) e “potestades nos céus” (anjos bons). Isto é muito importante! — não é? 
(Ef 2.2; 3.10). Os tais anjos maus, são agentes maléficos e anjos guerreiros da 
ordem dos “principados”.
b) O segundo grupo. Este se prende àqueles anjos mais ferozes. Esses seres 
não pecaram por serem induzidos ou tentados, mas voluntariamente. Observe­
mos o que as Escrituras dizem sobre isso: “E aos anjos que não guardaram o 
seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão, 
e em prisões eternas até o juízo daquele grande dia” (Jd v. 6). Os autores sa­
grados dizem que algumas ordens angelicais caíram. Eles abandonaram o seu 
estado original. O lugar de honra, de bem-estar e do domínio que eles possuíam 
nos lugares celestiais, nas esferas espirituais da existência. Mas caíram. Isso 
sucedeu propositadamente. Fizeram uma louca escolha e má decisão. A sua má 
escolha pode-se ver em inferência nas palavras de Elifaz, o temanita, o ami­
go de Jó, “... e nos seus anjos encontra loucura” (Jó 4.18b). Esses não estão, 
no momento, a serviço de Satanás, e sim, aprisionados por expressa ordem de 
Deus, em cadeias eternas, na escuridão exterior, esperando pelo julgamento do 
grande dia.4
O D ia b o F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 45
c) Os anjos. O Diabo usando de seu poder desmoralizante deformou o 
caráter — personalidade e aspecto dos seres espirituais. Os anjos, após segui­
rem Satanás quando se revoltou contra Deus, os anjos perderam o seu estado 
original de configuração, em vários aspectos:
Io. Aspecto moral. Quando estes seres pecaram contra Deus, eles foram re­
duzidos moralmente falando ao nada da existência, pois a santidade é como 
uma couraça — ao perdê-la, este ou aquele indivíduo,fica sem proteção. 
Eles foram impedidos, doravante de ver a face de Deus, o seu Criador (cf. 
Hb 12.14).
2°. Aspecto essencial do caráter. O caráter é um termo usado em psico­
logia como sinônimo de personalidade e representa o conjunto de traços 
psicológicos da individualidade. Em linguagem comum o termo descreve 
traços morais da personalidade. Em linguagem teológica, o caráter repre­
senta uma linha reta do ser que o carrega. Em sentido espiritual, os anjos 
perderam esta linha reta da santidade e se envolveram com o pecado, que 
representa tortuosidade em todos os seus movimentos e ações.
3o. Aspecto de configuração. O sentido primário do pecado é tortuosidade 
e errar o alvo — quando aplicado no sentido religioso. Ele traz em si o sen­
tido de tortuosidade porque ele deforma a tudo e a todos que por ele forem 
alcançados. Basta observarmos como o pecado deformou os anjos “... que 
não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação” 
(Jd v. 6). Eles são vistos com um aspecto terrível e monstruoso durante o 
juízo da 5a e 6a trombetas (Ap 9). Estes anjos que se encontram aprisiona­
dos “... na escuridão, e em prisões eternas”, serão soltos por cinco meses e 
são descritos aqui com uma aparência terrível e tenebrosa.
(I) Descrição geral (vv. 1-6). Eles têm a aparência de gafanhotos mas não 
são os pequenos animais, e sim anjos caídos que, por expressa ordem de Deus, 
estão aprisionados em escuridão (2 Pe 2.4; Jd v. 6). São seres espirituais do 
mundo tenebroso; mas não são demônios (At 23.8), e que, durante este período 
de encarceramento, perderam o seu estado de configuração e, são apresenta­
dos com um aspecto além da imaginação. Eles possuem ferrões nas caudas, 
como se fossem escorpiões. Com os ferrões é que feriam, e não com a boca, 
como fazem os gafanhotos naturais; na realidade, foram proibidos de tocar nas 
árvores ou em qualquer erva verde. Estes gafanhotos são seres inteligentes, 
discernem, pois receberam ordem exclusivamente para não tocar “... à erva da 
terra, nem a verdura, alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens 
que não têm nas suas testas o sinal de Deus”. Os gafanhotos literais nascem na 
primavera e morrem no fim do verão (de maio a setembro); exatamente cinco
46 A D o u t r in a do P e c a d o
meses. Durante esse tempo, ele se mostra ativo, e qualquer destruição por ele 
produzida, tem lugar cinco meses. A praga dos gafanhotos sobrenaturais durará 
também “cinco meses”.
(II) Descrição especifica dos gafanhotos infernais (w. 7-10).
(1) Como cavalo aparelhados para a guerra. Sugestivamente, certas lín­
guas, levadas pelo aspecto da cabeça do gafanhoto, dão-lhe nome que sugere 
o cavalo (Cavalleta = italiano; Heupferd ou cavalo de feno = alemão etc.). 
A descrição dos “animais” é horripilante e hedionda; João nada viu na terra 
que pudesse realmente identificar-se com essas criaturas vinda do mundo ex­
terior. Teve de servir-se dos mais desconexos elementos comparativos para 
descrever-lhes a monstruosa aparência. Eles são vistos equipados; isso indica 
que eles pertenciam a uma “Ordem de Guerreiros” vindo do “poço do abismo”. 
O cavalo é rápido e forte, e produz a morte sem misericórdia (Jó 39.19-25; SI 
33.17; 147.10). “Terrível é o fogoso respirar das suas ventas” (Jó 39.20).
(2) Tinham como coroas semelhantes ao ouro. Os gafanhotos descritos por 
João, trazem algo parecido “como coroas”, em contraste com expressão em 
Apocalipse 4.4; 6.2; 12.1; 14.14. Alguns intérpretes observam que as cabeças 
dos animais terminam em forma de “coroa”, como se fossem de ouro. A passa­
gem em foco, nos leva a pensar que, os gafanhotos pertenciam a uma “ordem 
real” do “poço do abismo”, por cuja razão “tinham sobre si rei”. O rei dos 
terrores! (Jó 18.18; Ap 9.11). São seres animalescos de natureza bestial!
(3) Seus rostos eram como rostos de homens. No paralelismo de Joel 2.7, os 
temíveis animais, andarão como se fossem homens: “Como valentes correrão, 
como homens de guerra subirão os muros; e irá cada um nos seus caminhos e 
não se desviarão da sua fileira”. Os rostos semelhantes aos de homens dessas 
hostes espirituais, sugerindo inteligência e capacidade humana, dar-lhes-ão 
terror adicional. Significa “uma face irada” (Pv 25.23) e dura de ser encarada 
como a “pederneira” (Ez 3.9).
(4) Tinham cabelos como de mulheres. Algumas traduções trazem: “ca­
belos longos como de uma moça”. Seja como for, neles havia algo feminino. 
Eram monstros cabeludos como são descritos por Isaías 13.21: "... e os sátiros 
pularão ali”. Isto é, “sã’ir” (Lv 17.7; 2 Cr 11.15). O termo significa “cabeludo” 
e aponta para o demônio como sendo um sátiro ou Lilith: demônio feminino 
da noite.
(5) Seus dentes eram como de leões. Esta figura é emprestada de Joel 1.6 
onde uma nação hostil é comparada à ameaça de uma praga de gafanhotos, 
que, destruiria toda verdura do campo: “... os seus dentes são dentes de leão, e 
têm queixadas de um leão velho”. Na simbologia profética, isso significa sua 
terrível capacidade de destruição, sua voracidade incessante e brutal.
O D ia b o F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 4 7
(6) Tinham couraças como couraças de ferro. Os temíveis animais tinham 
por assim dizer, couraças de ferro (v. 9). Esses agentes infernais de torturas são 
imunes a qualquer destruição pessoal. No presente versículo, vemos o corpo es­
camoso dos gafanhotos comparado a uma couraça. O General filistino, Golias, 
trazia também em volta de si uma couraça “escameada” (1 Sm 17.5). Aquele 
poderoso gigante era o maior homem do mundo. Ele foi, sem dúvida, um agente 
direto de Satanás como também, esses serão, porém, em grau supremo.
(7) As suas asas faziam um ruído insuportável. Observemos aqui a seqüência 
do paralelismo tirado de Joel 2.5: “como o estrondo de carros sobre os cumes 
dos montes irão eles saltando; como ruído da chama de fogo que consome a 
pragana, como um povo poderoso, ordenado para o combate”. O quadro gráfico 
do avanço de exames de gafanhotos infernais e a total incapacidade de resistir a 
eles, é dado aqui, como o “som de carros”, de muitos cavalos que avançam para 
a guerra. O tinido e o clangor das rodas dos carros e o sacolejar dos cavalos, são 
aqui personificados (J12.4).
(8) Tinham caudas semelhantes às dos escorpiões. O texto em foco, nos faz 
lembrar de uma curiosidade interessante: “... Há uma espécie de gafanhotos, 
do nome científico “Acridium Lineola”, comumente vendidos nos mercados 
de Bagdá (capital do Iraque), como alimento, que tem ferrões nas caudas”. 
Sendo porém que aqueles são ordinários; esses, porém infernais. Os naturalis­
tas dizem-nos que o escorpião sacode a cauda constantemente a fim de atacar, 
e que o tormento causado por suas picadas é muito severo. Tudo isso, e mais 
ainda, será encontrado em grau supremo nos horripilantes animais contempla­
dos por João.
(9) Tinham aguilhões em suas caudas. O aguilhão representa uma força 
irresistível (At 9.5). A presente expressão proverbial, era também encontrada 
em diversos autores de diferentes culturas, sob uma ou outra forma. Tem sido 
encontrada nos escritos dos poetas gregos e até helenistas. Ela era tomada no 
sentido de representar uma força espiritual, uma força do mal; que só pode ser 
resistida por uma força superior — o Espírito de Deus (Lc 10.19). Num côm- 
puto geral na apreciação de João sobre esses seres, observemos o que segue:
cs São gafanhotos, mas têm a malícia de escorpiões;
cs Avançam como soldados montados para a batalha;
cg Usam coroas;
cg Têm a semelhança de homens em seu rosto;
cg Há algo de feminino em sua aparência;
cs Em sua voracidade são como leões.
48 A D o u t r in a d o P e c a d o
(III) Descrição do “anjo do abismo (v. 11). Os gafanhotos naturais não têm 1 
rei (Pv 30.17), esses porém, têm “sobre si rei, o anjo do abismo” (v. 11). Este 
anjo das trevas têm dois nomes: Abadom e Apoliom: em ambas as línguas quer 
dizer “destruidor”. Abadom, é um termo hebraico que significa “destruição” ou 
“ruína”, conformese vê em Jó 31.12. Algumas vezes é usado como equivalente 
da “morte”. A palavra é também usada para o lugar da destruição, sinônimo de 
Sheol ou mundo invisível dos mortos em (Jó 26.6; 28.22; Pv 15.11; 27.20), e 
é usada para o próprio mundo dos mortos (Jó 31.12; SI 88.11). João traduz a 
palavra para o grego não para o termo equivalente, apoleia, “destruição”, mas 
por um particípio, apollyin, que significa “o destruidor”. Apoliom, esse termo 
grego é cognato do Apollumi, verbo que significa “destruição”, e sua tradução 
em português acompanhou o sentido original de “destruição”. Seja como for, 
é essa a missão sombria do “anjo do abismo”: “roubar, matar e destruir” . Ele 
é chamado de “o destruidor” porque do ponto de vista divino de observação 
é o que ele é! (Jo 10.10). Ele é realmente o “Rei dos Terrores” (Jó 18.14). Na 
6a trombeta aparece um exército vindo do mundo invisível de 200.000.000 de 
cavalos e cavaleiros. O vasto exército referido nesta visão, é imenso! O que 
toma impossíveis as interpretações históricas. Nem mesmo o total combinado 
de todos os exércitos turcos, através dos séculos, atingiu “duzentos milhões”. 
Duzentos milhões de cavaleiros, naqueles dias, ultrapassava qualquer possibili­
dade de um exército na terra; foi impossível João contá-los, ele “ouviu o núme­
ro deles”. João diz que os cavalos desta visão; e os que sobre eles cavalgavam 
tinham couraças de fogo, e de jacinto, e de enxofre; e as cabeças dos cavalos 
eram como cabeça de leões; e de suas bocas saía fogo e fumo e enxofre. As 
substâncias nocivas aqui mencionadas (quando não controladas) são prejudi­
ciais à saúde humana. Esta tríplice representação encontra-se também nas cou­
raças dos cavaleiros. Isso exprime toda a incompreensibilidade das forças do 
mal: número espantoso (200.000.000), aspecto infernal e inumerável, estranha 
interioridade inconcebível, proveniente de suas bocas e letal para um terço da 
humanidade. A linguagem usada nos versículos (16 a 18) do presente capítulo, 
faz menção de exército da cavalaria (v. 16), de couraça (v. 18), de fogo, fumaça e 
enxofre como meios mortíferos. O número dos exércitos da cavalaria é surpre­
endente. E de “vinte mil vezes dez milhares”, ou duzentos milhões. O aspecto 
dos cavaleiros é aterrador. Atenção, no entanto, não se fixa tanto nos cavaleiros 
e, sim, nos cavalos. “Na mente dos judeus os cavalos trazem comumente uma 
ideia de terror”. A visão vista por João sobre estes “cavalos” compreende tam­
bém os “cavaleiros”. Os cavaleiros parecem ser de pouca monta (importância) 
em relação aos cavalos, que causam maior terror; eles apavoram e destroem. A 
atribuição de caudas, como de serpentes, àqueles cavalos que sopravam fogo,
O D ia b o F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 49
os toma tremendamente grotescos. Podemos observar que nos versículos an­
teriores, “... os cavaleiros têm couraça de vermelho fogoso, azul fumegante e 
amarelo sulfiirico...”. São verdadeiras couraças que inspiram “cisma” e “extre­
mo terror”. “Os adversários virão velozes como cavaleiros, fortes como leões, 
venenosos como as serpentes, a soprarem elementos que cegam e queimam 
com poder mortal. Temos aqui, portanto, forças mortais, poderosas, maliciosas 
e incansáveis, enviadas contra a humanidade, por causa de seus pecados e de 
seu mundanismo”. Estes seres descritos na 5a e na 6a trombetas, são anjos caídos 
que se revoltaram contra Deus ao lado de seu rei — o anjo do abismo. E assim, 
foram destruídos e deformados!.
d) Os demônios. Os demônios eram anjos e foram rebaixados de categoria. 
Estes seres chamados de “demônios”, aderiram à Satanás quando este se rebe­
lou contra Deus. Apesar de serem chamados de espíritos, nunca são chamados 
de “anjos”, tanto os do bem, como os do mal porque, há uma grande diferença 
entre a natureza de um e a natureza do outro, ainda, que ambos procedam de 
uma mesma fonte.
Io. Os demônios são “espíritos desincorporados”. Os demônios foram de- 
sincorporados e somente podem agir através de um corpo humano, animal, 
objetos inanimados, ou através de algumas forças da natureza que podem 
ser utilizadas para eles no campo da destruição. Os anjos — tanto os do 
bem como os do mal, agem através de seus próprios corpos. Antes de se re­
belarem contra Deus, os demônios eram também anjos. Pertenciam a uma 
companhia de anjos que viviam nos domínios da existência. Depois de seu 
pecado, os demônios tomaram-se agressivos, violentos e perniciosos, a 
ponto de quererem destruir toda a criação de Deus, com os poderes que 
podiam exercer através de seus próprios corpos. Deus então os puniu com 
seu supremo poder pessoal, e os desincorporou, destmindo seus corpos de 
forma espiritual, e os lançando para o campo da destruição, para o “vazio 
da existência!”.5
2o. Os demônios a mando de Satanás tomam as pessoas possessas — escra­
vizando-as da seguinte forma:
(I) Tentação. Na forma de sugestão espiritual. Essa misteriosa influência, 
vinda de um mundo invisível, à qual tanto incrédulos como crentes estão 
continuamente expostos, é referida muitas vezes na Bíblia, especialmente 
no Novo Testamento (Ef 6.11, 12; 1 Jo 4.1).
50 A D o u tr in a d o P e cado
(II) Obsessão. Obsessão que alguns consideram como a primeira fase da 
possessão demoníaca. Trata-se de domínio demoníaco que é resultado da 
entrega voluntária e habitual à tentação ou às tendências pecaminosas (Ef
4.17-19). Nesse caso, embora os indivíduos já estejam sob um horrendo 
domínio demoníaco, contudo são perfeitamente livres, seguem os ditames de 
suas próprias vontades, e retêm suas próprias personalidades.
(III) Crise ou transição. A fase caracterizada por uma luta em tomo da pos­
se, quando o indivíduo resiste, algumas vezes é bem-sucedido (Mt 15.22­
28; Tg 4.7); quando não o faz, toma-se um escravo.
(IV) Possessão. A possessão que com referência à pessoa, pode ser desig­
nada como sujeição e subserviência, e, com referência ao demônio, treina­
mento e desenvolvimento. Uma das principais características dessa fase é 
a adição de uma nova personalidade. Somente às pessoas que chegaram 
a essa fase é que se aplica, apropriadamente, o termo “possessão” (Mc
9.17-27).
(V) Capacidade demoníaca. Este estágio se dá quando a pessoa já desen­
volveu a capacidade para ser usada, e se dispõe para isso. Já é escravo do 
demônio, treinado, acostumado, voluntário — na linguagem moderna, um 
“médium desenvolvido”.6
3. Ele tornou-se assassino do mundo humano. Após fazer pecar 
Adão e sua esposa no Éden, ele ouviu da parte de Deus a promessa feita à mu­
lher que, dela nasceria um que esmagaria a sua cabeça, que ele aumentou sua 
ira contra aquela linhagem pela qual viria o descendente da mulher (Cristo).
Ele, então, incentivou Caim a tomar-se o primeiro fratricida do mundo.
a) Caim, o primeiro filho de Adão e Eva, após o episódio que deu início > 
a sua ira contra seu irmão, pratica o primeiro crime contra a vida da história 
da humanidade. Seu sacrifício não foi aceito, como fora o de Abel. Caim, ao 
ser arguido por Deus por causa do assassinato de seu irmão, optou pelo caminho 
da revolta. Foi-se embora para uma terra deserta e lá constituiu uma sociedade 
ao seu próprio modo. Seus passos nesta trajetória do mal parecem ser estes que 
aqui se seguem. Alguns cronológicos e matemáticos opinam que o assassinato 
de Abel ocorreu no ano 128 ou 130 da vida de Adão. Ora, nós sabemos que além 
de Caim, Abel e Sete, os três primeiros filhos mencionados, Adão e Eva tiveram 
“filhos e filhas” (Gn 5.4). Mas admitamos, para sermos bem liberais, que Adão 
não tivesse tido outros filhos além de Caim e Abel, quantos poderiam ter sido os 
descendentes diretos de ambos até o ano 128, quando ocorreu a morte de Abel?
■ e amos a opinião de Grandes Estudiosos e Autoridades no assunto. Alguns ra- 
rrnos independentes são da opinião de que, os descendentes posteriores a Caim 
r Abel, tenham sido mulheres. Nesse caso, como não existia a lei e as normas 
: ue proibiam o casamento entre parentes de primeirograu, Caim, provavelmente 
tomou uma de suas irmãs como sua esposa.
Io. Caim saiu da presença do Senhor. Também a Bíblia não diz que Caim 
quando matou Abel, “saiu da presença de Adão” e sim: “da presença do 
Senhor”. Sair da presença do Senhor, não significa nenhum deslocamento 
geográfico; pois da presença do Senhor, ninguém pode fugir (cf. SI 139.7­
12). De igual modo, não é mencionado os anos da vida de Caim: nem antes
— nem durante — e nem depois. Assim, vamos supor que somente aos 19 
anos o filho primogênito de Adão, Caim, tenha tido uma irmã em idade de 
casar-se. Casando-se aos 19 anos, no ano 128 da criação de Adão, um dos 
dois filhos de Adão poderia ter tido 8 filhos, entre homens e mulheres. Mais 
ou menos no ano 55, poderiam ter procedido deles cerca de 60 pessoas.
No ano 80, haveria cerca de 520. No ano 100, haveria pelo menos 4.100 
pessoas. E no ano 122 esta população estaria elevada a 33.000. Mas nesta 
linha de descendência não estamos incluindo os outros filhos de Caim e 
Abel, nem os filhos dos filhos destes, mas apenas os 8 que poderiam ter tido 
até o ano 128 da criação do mundo. Incluindo os outros filhos de Adão, e 
os descendentes destes, a população do mundo não seria inferior a 450.000 
pessoas no ano em que morreu Abel. Para lá Caim foi se refugiar como 
homicida, levando sua esposa (talvez sua irmã ou sobrinha) e seu filho que 
se chamava Enoque.
2o. Caim funda uma sociedade. Após sair da presença do Senhor, Caim foi 
para a terra de Node, que ficava da “banda do oriente do Éden” (Node quer 
dizer: “degredo”, “exílio”), e ali, deu início a uma espécie de civilização.
Suas principais atividades e culturas daquela terra. Ali, naquela sociedade 
nodiana, são mencionadas algumas atividades humanas (algumas boas e ou­
tras más), conforme veremos a seguir.
O D ia b o Foi o P r im e i r o S e r a P e c a r 51
03 Edificação de Cidade.
03 A poligamia.
Og Fazer justiça a seus próprios modos e pelas próprias mãos.
03 Fazer tendas.
03 Criar gado.
Ca? Tocar harpa e órgão.
03 Fabricar obra de cobre e de ferro (Gn 4.16-24).
5 2 A D o u t r in a d o P e c a d o
Agora vem a pergunta: porque Caim praticou o primeiro homicídio do mun­
do humano e tudo o que fez — fez de maneira errada? A resposta é bem patente: 
porque Caim “era do maligno”. Portanto, um grande pecador e as suas obras 
eram más (1 Jo 3.12).
b) O Diabo incentivou aos homens que evitassem a posteridade chamada a 
de ‘semente da mulher ’.
I o. Incentivou Faraó para que matasse as crianças. Ele, o Diabo, usou Faraó, 
monarca egípcio, para matar todas as crianças israelitas do sexo masculino 
(Êx 1.15-22; Is 21.1; 51.9; Ez 29.3).
2o. Inspirou a Onã, filho de Judá a não gerar filhos. Seu objetivo era in­
terromper assim, a vinda do Messias, esperado por Israel e a humanidade 
(Gn 38.8-10).
3o. O Diabo incentivou Herodes à matar as crianças de Belém. Herodes, 
anos depois, segue o mal exemplo de Faraó e tentou fazer a mesma coisa
— matando todas as crianças da cidade de Belém de dois anos para baixo 
(Mt 2.13-18).
4o. Ele mesmo procurou destruir a Cristo, o Filho varão. Em Apocalipse 12, 
aparece um quadro sombrio de nova investida do Diabo. Ele parou diante 
da mulher, isto é, se “deteve”, ou “pôs-se de pé”, conforme diz literalmente 
o grego. Como as Escrituras são proféticas e se combinam entre si em cada 
detalhe, a presente passagem pode ter sua aplicação desde o Éden, até ao 
tempo “da plenitude dos tempos” (G1 4.4). Ele, o Diabo, não só queria ma­
tar a Cristo (o Filho varão), mas o texto diz claramente: “queria o tragar”.
E assim, aniquilar o plano de Deus, de trazer seu Filho ao mundo como o 
Salvador da Humanidade.
4. Ele torna seus adeptos em inimigos de Deus. O grande objetivo > 
do grande inimigo de Deus e dos homens, é tomar os homens inimigos da cruz 
de Cristo, visto ser esta, o meio que pode matar as inimizadas existentes entre 
Deus e os homens (Ef 2.16; Fp 3.18). Constituindo-os inimigos de Deus, os 
tomando-os:
a) Filhos da ira. “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos s 
desejos da nossa came, fazendo a vontade da came e dos pensamentos; e éra­
mos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Ef 2.3).
O D ia b o F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 53
b) Filhos da desobediência. “ILm que. wo&ro Vítkço aaàs&Xes 'segcccvào o «aso 
deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espirito que agora opera 
nos filhos da desobediência” (Ef 2.2).
c) Filhos do mundo. “E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver 
procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua 
geração do que os filhos da luz” (Lc 16.8).
d) Filhos do inferno. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que 
percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o 
fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23.15).
e) Filhos do Diabo. “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os 
desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na 
verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que 
lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” (Jo 8.44).
1 SILVA, S. P. A Doutrina Bíblica dos Anjos. 12a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, pp. 118-119.
2 O ALCORÃO, para a língua portuguesa. Sura: 7. ‘Al-‘a ’raf. Versículos: 11-27, pp. 237­
238.
3 SILVA, S. P. A Doutrina Bíblica dos Anjos. 12a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, pp. 
121, 123-124.
4 SILVA, S. P. A Doutrina Bíblica dos Anjos. 12a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p.
135.
5 SILVA, S. P. A Doutrina Bíblica dos Anjos. 12a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p.
154.
6NEVIUS, J. L. Possessão Demoníaca e Temas Conexos (edição do autor), 1893, pp. 37­
38.
A M o r a d a d o H o m em 
A n t e s de P e c a r
56 A D o u t r in a d o P e c a d o
i . A d ã o e E va m o r a v a m n u m J a r d im
1. O lar primitivo do homem foi um jardim. Nosso objetivo aqui ai 
neste capítulo, é mostrar onde estava o homem e o que ele fazia antes de pecar. 
Logo após ter criado o homem, Deus ‘plantou’ (preparou) um jardim no Éden 
e “...pôs ali o homem que tinha formado... para o lavrar e o guardar” (Gn 2.8,
15b). As interpretações e teorias que nos são oferecidas no tocante a queda do 
homem e de sua esposa, também incluem, por extensão a localização do jardim 
do Éden. Elas (as interpretações) são oferecidas tanto por teólogos como por 
filósofos de todos os tempos.
a) Diversas interpretações sobre o jardim. Santo Agostinho, por exemplo, 
e outros estudiosos das Escrituras de seus dias, relatam que já em seus tempos 
havia três opiniões diferentes sobre Gênesis 2, no que diz respeito ao Paraíso 
que Deus criara para habitação do primeiro casal. Tanto ele, como seus con­
temporâneos, opinavam que havia três teorias a este respeito:
I a. Santo Agostinho defendia que o paraíso era literal, conforme é descrito 
ali sem nenhuma outra interpretação espiritual ou fantasiosa. E que, seguindo 
este raciocínio, devemos procurar sua localização no campo geográfico.
2a. Outros do tempo de Agostinho afirmavam que o paraíso era espiritual, 
com aplicação alegórica, para apenas representar um lar feliz com vidas 
felizes.
3a. Um terceiro grupo, o concebia em sentido literal, com fatores místicos e 
simbólicos. Santo Agostinho, por exemplo, apesar de defender, a princípio 
a primeira linha de pensamento, tomou-se, depois, seguidor dessa terceira 
opinião.
b) A palavra paraíso. A palavra ‘paraíso’ (GAN ÉDEN), em hebraico sig­
nifica “jardim do Éden”, usado como sinônimo do Paraíso. Alguns escritos 
em tomo do Talmude, descrevem o GAN ÉDEN, com detalhes que se diria de 
testemunhos oculares, como tendo cinco câmaras separadas (embora outros 
depoimentos afirmam que eram sete). De acordo com estas testemunhas, estas 
câmaras eram reservadas às várias categorias de homens virtuosos. Eles rece­
biam suas recompensas celestiais segundo a sua ordem hierárquica de mérito.
De acordo com este conceito, a terceiracâmara do GAN ÉDEN é supostamen­
te reservada para os grandes eruditos da Torah, e segundo a tradição, todas as 
questões intrincadas da Torah, com as quais eles se sentiram perplexos em seus 
estudos no decorrer de suas vidas, serão, finalmente, respondidas, pois que no
A M o r a d a d o H o m e m A n te s de P e c a r 57
Gan Éden, “o Divino” revelará a eles os mistérios da Torah no mundo do Além. 
A Quinta câmara é descrita como sendo gloriosamente luminosa, colorida e 
ingênua: feita de pedras preciosas, de ouro e prata, e com a fragrância de per­
fumes de plantas. Na frente dessa câmara corre o rio Guihon, em cujas margens 
crescem arbustos que exalam aromas embriagadores. Na câmara há divãs de 
ouro, e de prata com finas cobertas sobre eles para que os virtuosos descansem. 
No meio há um baldaquino feito de cedro do Líbano e construído à maneira de 
um Tabemáculo, com colunas e ornamentos de prata. A tradição ainda fala que, 
quando o homem virtuoso é admitido no Gan Éden, sessenta miríades de anjos, 
que fazem a guarda do Paraíso, o despem, primeiramente, de sua tachrichim 
(mortalha). Depois vestem-no “com oito mantos feitos das nuvens da glória”, e 
colocam uma coroa em sua cabeça como se ele fosse um rei. Uma coroa é feita 
de pérolas e a outra de pedras preciosas; outra ainda é de ouro. Em suas mãos 
colocam oito ramos de murta e, encaminhando-o suavemente para dentro dos 
recintos da Vida Eterna, dizem-lhe: “Vá e coma sua comida com alegria!”.1
2. O local onde fora estabelecido o jardim. Convém notar que, em 
algumas das passagens que falam do Paraíso, diz que ele foi ‘plantado (‘no’) 
Éden’, indicando que a palavra “Éden” é tomada para indicar o lugar onde fora 
estabelecido o Jardim (Gn 2.8,10). Em outras, porém, o Paraíso encontra-se as­
sociado diretamente com a palavra “Éden” (Ez 28.13). A planície da Babilônia 
chama-se Éden, na antiga língua sumeriana. O Golfo Pérsico foi tido como “Rio 
Salgado”, e como nos tempos primitivos da civilização babilônica, o Eufrates, o 
Tigre, o Querca e o Carum se desembocavam nele, a maré fazia pensar que a foz 
era a fonte respectiva desses rios. O Hidequel é o rio Idicla, nome sumeriano do 
Tigre. Frequentemente na escultura assíria, a árvore da vida é representada entre 
dois querubins, ora de cabeça de águia, ora de cabeça de homens; ora em pé, ora 
ajoelhados. Tais informações e ilustrações têm levado a uma adesão firme de 
muitos pensarem que o Paraíso, de fato, tinha sido plantado ali. Algumas passa­
gens das Escrituras mostram mais ou menos o tipo de lugar onde se encontrava 
plantado o jardim do Éden. Alguns se baseiam nas passagens de Gênesis 2.7,8; 
5.1,2, e com base nisso, sugerem que a terra da qual Adão foi feito, era uma terra 
vermelha, visto que a palavra “Adão”, em si, traz este sentido. Isso pode ser ver­
dade; mas também pode ser apenas especulações. Deus podia e pode ter feito o 
homem de qualquer espécie de barro e depois lhe dar a cor que quisesse.
a) Interpretação literal sobre o jardim do Éden. Em Gênesis 2.8-14, fala 
do surgimento do jardim do Éden, nos seguintes termos: “E plantou o Senhor 
Deus um jardim no Éden, da banda do oriente; e pôs ali o homem que tinha
58 A D o u t r in a d o P ec a d o
formado. E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, 
e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência 
do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e 
se tomava em quatro braços. O nome do primeiro é Pisom: este é o que rodeia 
toda a terra de Ávila, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdelio, 
e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom: este é o que rodeia a 
terra de Cusí. E o nome do terceiro rio é Tigre: este é o que vai para a banda 
do oriente da Assíria. E quarto rio é o Eufrates”. Dado a localização geográfica 
nos tempos modernos dos rios, cujas nascentes procediam na antiguidade no 
jardim do Éden, reforça em muito a interpretação literal com relação ao jardim 
que serviu como o primeiro lar de Adão e de sua esposa. Ora, para que o leitor 
tenha uma maior compreensão do significado do pensamento, iremos localizar 
geograficamente estes rios aqui mencionados e veremos onde, de fato, se lo­
calizava o jardim do Éden. O jardim é descrito nas Escrituras como um local 
ideal. Os profetas Isaías, Ezequiel e Joel, descrevem que o Éden era um lugar 
ideal de temperatura amena e agradável para o homem viver.
I o. O que Isaías diz: “Porque o Senhor consolará a Sião; consolará a todos 
os seus lugares assolados, e fará o seu deserto como o Éden, e a sua solidão 
como o jardim do Senhor; gozo e alegria se achará nela, ação de graças, e 
voz de melodia” (Is 51.3).
2o. O que Ezequiel diz: Ezequiel faz uma descrição contra Faraó, rei do 
Egito, usa de um simbolismo entre a pujança do Egito e da Assíria com a 
flora do Líbano com as árvores que existiam no Éden, jardim de Deus. Fa­
zendo menção do Jardim de Deus, o descreve como um lugar onde existiam 
muitas árvores e até nomeia algumas delas, conforme veremos no texto 
a seguir: “Assim era ele formoso na sua grandeza, na extensão dos seus 
ramos, porque a sua raiz estava junto às águas. Os cedros não o podiam 
escurecer no jardim de Deus, as faias não igualavam os seus ramos, e os 
castanheiros não eram como os seus renovos; nenhuma árvore no jardim 
de Deus se assemelhou a ele na sua formosura. Formoso o fiz com a mul­
tidão dos seus ramos; e todas as árvores do Éden, que estavam no jardim 
de Deus, tiveram inveja dela” (Ez 31.7-9,18). Uma outra passagem que faz 
alusão ao Paraíso, é ainda Ezequiel 36.34,35: “E a terra assolada se lavrará, 
em vez de estar assolada aos olhos de todos os que passavam. E dirão: Esta 
terra assolada ficou como jardim do Éden; e as cidades solitárias, e assola­
das, e destruídas, estão fortalecidas e habitadas”.
3o. O que Joel diz: o profeta Joel faz uma descrição do Éden, como sendo 
um lugar de muita felicidade e harmonia, em contraste com um campo fértil
A M o r a d a do H o m e m A n tes de P e c a r 5 9
destruído por um exército de gafanhotos. Então ele diz: “Diante dele (do 
exército de gafanhotos) um fogo consome, e atrás dele uma chama abrasa; 
a terra diante dele é como o jardim do Éden, mas atrás dele um desolado 
deserto...” (J12.3a).
b) O que a tradição judaica fala sobre o paraíso. Os judeus tinham em men­
te que o Paraíso terrestre plantado por Deus no Éden, era apenas uma cópia do 
Paraíso celestial (cf. Lc 23.43; 2 Co 12.4; Hb 8.5; 9.23; Ap 2.7). Outros opinam 
que, com a expulsão do casal do Paraíso, Deus o transferiu para a nova terra, à 
celestial. Isto é, para a sua imediata presença. Nas descrições que os profetas fi­
zeram do Paraíso, quando compararam a sorte de Jerusalém e a nação do Senhor, 
com as felicidades que existiam no Éden, nos leva a crer que ali era, de fato, um 
lugar de delícias e de profusas bênçãos de Deus. Bênçãos estas, que serão des­
frutadas, e ainda com direito de comerem da árvore da vida no ‘Paraíso de Deus’ 
por aqueles que permanecerem fiéis a Deus na presente dispensação.
r
ii. O R io d o E d en
1. Um rio perene para regar o jardim. Lendo com cuidado a passa­
gem de Gênesis 2.10 que diz: “E saía um (‘rio do Éden’) para regar o jardim; e 
dali se tomava em quatro braços”, nos leva a compreender que a terra propria­
mente chamada Éden, era formada por um planalto ou por uma montanha, em 
cuja superfície tinha uma planície, e nela, Deus plantou o jardim. As nascentes 
do rio descrito no texto em foco tinham origens na montanha e logo formava 
uma planície, onde nela, se localizava o jardim. O rio foi criado por Deus com 
o propósito de ‘regar o jardim’. Então pode nos levar a entender que, com a 
remoção do jardim de seu lugar original, Deus também removera o curso do 
rio propriamente dito para um outro lugar; deixando ali, somente dois de seus 
recipiendários: o Tigre e o Eufrates. Parece que o texto em si, diz que, o canal 
principal do rio, atravessavatodo o jardim; “...e dali (diz o texto sagrado) se 
dividia e se tomava em quatro braços”. O rio original criado por Deus, não dá o 
nome. Seus recipiendários, sim. Eles são descritos assim:
a) Rio Pisom. “O nome do primeiro rio é Pisom: este é o que rodeia toda a 
terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdelio, e a pe­
dra sardônica” (Gn 2.11-12). Rio Pisom — No hebraico písõn: significa “o que 
salta?”. Flavio Josefo, historiador judeu que viveu entre 37 e 103 d. C., escreveu 
sobres estes rios assim: “O Éden era regado por um grande rio que o rodeava 
completamente e que se dividia em quatro outros rios. O primeiro, chamado
6 0 A D o u t r in a d o P e c a d o
Pisom, ou Fison, que significa plenitude e os gregos chamam de Ganges, corre 
para a índia e desemboca no mar. O segundo, que se chama Eufrates e Fora, em 
nossa língua, significa dispersão ou flor e o terceiro, a que chamam de Tigre ou 
Diglath, que significa estreito e rápido, ambos desembocam no mar Vermelho.
O quarto, de nome Giom, significa que vem do Oriente, e os gregos chamam de 
Nilo, que atravessa todo o Egito”.2
Outros, além de Josefo, têm procurado identificá-lo como sendo o Indo, rio 
que corre dentro do território indiano. O que não concordam os geógrafos mo­
dernos, razão porque, o Indo, geograficamente falando, fica completamente em 
uma posição oposta àquelas que são mencionadas para os outros rios. O cami­
nho mais viável e lógico dentro deste contexto, seria, sem dúvida, procurá-lo 
dentro dos limites do Golfo Pérsico, com outro nome e numa localidade perto 
dos leitos do Tigre e do Eufrates. Ou ainda, na possibilidade do mesmo ser um 
rio tributário do Tigre ou do Eufrates. Contudo, pode existir a possibilidade de 
que, o dilúvio tenha modificado o leito e configuração dos rios que aqui estão 
sendo descritos. Assim, eles podem ser procurados e não ser encontrados den­
tro dos limites aqui mencionados.
b) Rio Giom. “E o nome do segundo rio é Giom: este é o que rodeia toda a 
a terra de Cusí” (Gn 2.13). Rio Giom — No hebraico, gihõn, provavelmente 
derivado da raiz giah — manar, e o texto sagrado diz que ele “... rodeia a terra 
de Cusí”. Se “Cusí” é de fato um nome primitivo da Etiópia, o autor sagrado 
deve ter pensado no Nilo (Jr 2.18). Muitos textos antigos e a própria tradição 
conservadora confirma essa interpretação. O leitor deve observar que, o texto 
em foco não diz que passa pela Etiópia, mas que “rodeia a terra de Cusi”, que se 
subentende como sendo um dos nomes primitivos da Etiópia. Nesse caso, o rio 
Nilo, que nasce nos grandes lagos africanos e depois formam seu leito na parte 
chamado de “Nilo Azul”, que cruza a região norte da Etiópia. Nesse caso, não 
é o problema de identificação e, sim, de modificação. Giom seria, então, apenas 
um sinônimo do Nilo que, por ocasião do dilúvio, fora modificado considera­
velmente a posição geográfica de seu leito primitivo. A explicação mais plausí­
vel para o desaparecimento dos rios Pisom e Giom está na teoria do surgimento 
de montanhas que acompanhou as comoções continentais (a Arábia origina- 
riamente estava ligada a Somália e a Etiópia, nos períodos pré-históricos). A 
erupção de elevados teria aterrado os dois rios no período antediluviano. Seria 
algo análogo ao surgimento do monte Seir, em Edom, o qual impediu que o rio 
Jordão fluísse normalmente até o golfo de Acaba, que teria sido seu antigo leito. 
Mas isso é mais uma suposição do que uma afirmação; razão porque, a região 
do Golfo Pérsico fica numa posição desfavorável para esta possível possibili-
A M o r a d a d o H o m e m A ntes de P e c a r 61
dade. A possibilidade maior da existência deste rio nos dias atuais é um pouco 
remota. E, se ela existe, deve-se procurar o rio mencionado acima, na região do 
Golfo Pérsico, chamado por outro nome em uma outra porção menor, tanto em 
extensão de sua nascente até a sua foz, como em volume de água. Ou até mes­
mo, em última hipótese, como tributário do Tigre ou do Eufrates.
c) Rio Tigre. “E o nome do terceiro rio é Tigre: este é o que vai para a banda 
do oriente da Assíria...” (Gn 2.14a). Rio Tigre — Tigris, nome grego (no he­
braico “Hiddeqel” e no assírio “idiglat” — hoje “digle”). O rio Tigre é o nome 
do rio que nascia no Éden, e hoje é localizado na Ásia Ocidental, formado pela 
confluência de dois braços que nascem no planalto da Armênia. Outros afluen­
tes, todos do leste são o Zab Maior, o Zab menor, o Diyala e Hoaspes (Kerha). 
Nos tempos antigos, o Tigre e o Eufrates desembocavam separadamente no 
Golfo Pérsico; hoje, devido ao depósito de lama na foz do Golfo, os dois (o 
Eufrates e o Tigre) rios se unem a uns 130 km do Golfo. O curso desse rio 
é de aproximadamente 2000 km. Desde os tempos pré-históricos, o homem 
foi atraído pelos dois rios Tigre e Eufrates. O rio Tigre ou Idiglat — que em 
acádio quer dizer ‘rápido como uma flecha’ — entra fundo na terra, mas é de 
navegação difícil e acidentada. O Eufrates, por outro lado, é caudaloso e regu­
lar, tomando possível a navegação e a construção de canais para irrigação. As 
chuvas nas montanhas ao Norte possibilitam a agricultura, mas o mesmo não 
ocorre com as terras baixas da Babilônia, onde a precipitação é baixa e con­
centrada nos meses entre dezembro e fevereiro, deixando a terra seca para o 
verão, quando ocorrem primaveras quentes. Sem irrigação, a agricultura seria 
impossível na região. Mudança no curso dos rios e da costa, nos últimos qui­
lômetros ao longo do curso do Eufrates ao Sul, tem sido consideravelmente 
acentuada. Atualmente o fluxo cai em cerca de 10 metros. Isto quer dizer que 
o curso deste rio tem se alterado de forma significativa ao longo do tempo. As 
ruínas de muitas cidades famosas da antiguidade, como Eridu, Ur, Nippur e 
Kish, estão agora longe do Eufrates, mas no passado elas estavam situadas às 
suas margens. Com o passar do tempo, o delta do rio provavelmente ganhou 
território sobre o Golfo Pérsico. Alinha da costa moveu-se para o sul, e lagoas 
e estuários do passado transformaram-se em terra em nossos dias. A cidade 
de Eridu, lar de Enki (sumério) ou Ea (acádio) — o deus das águas doces, 
da sabedoria e da mágica — estava situada junto a uma lagoa perto do mar 
e era afamada por seu porto. A mudança no curso dos muitos braços do rio 
teve grandes conseqüências no passado. Um problema ao norte das planícies 
do sul podia secar muitos braços de rios e incapacitar o sistema de irrigação. 
Muitas cidades sumérias guerrearam por este motivo.
6 2 A D o u t r in a d o P e c a d o
d) Rio Eufrates. “E o quarto rio é o Eufrates” (Gn 2.14b). Rio Eufrates
— Do sumério, “burannu” — rio grande e do acádico “purattu”. O Eufrates é 
um dos rios mais conhecido da Ásia Ocidental; é formado pela união de dois 
braços, perto de melid: o ocidental, hoje chamado Karasu, que nasceu perto de 
Erzerum, e o ocidental, vindo de Karana. Nascendo nas montanhas da Armê­
nia de onde corre por uma garganta no Taurus e desce pela grande planície da 
Mesopotâmia, unindo-se finalmente ao Tigre para desembocar no Golfo Pérsi­
co. Uma vez que se pode localizar a posição geográfica de cada rio que, tinha 
afluente no jardim do Éden, originaram-se numerosas hipóteses a respeito da 
situação geográfica do Paraíso. Pensando em um mundo real, de acordo com 
aquilo que está narrado na Bíblia, os estudiosos apontam uma determinada 
região geográfica para sua localização, como os montes da Armênia; ou sul de 
Babilônia. A palavra “Éden” significa “estepe”, mas evoca a ideia de delícias e, 
para alguns eruditos essa ideia se harmonizaria em cada detalhe com a região 
mencionada acima. Para esses intérpretes esses quatro rios nasciam de uma 
mesma fonte comum, localizada nas montanhas do norte, pois o jardim ficava 
localizado no “oriente do Éden” e não no “oriente da terra”, o que pode facili­
tar essa interpretação. Pensando em todas estas possibilidades, muitos estudio­
sos renomados das Escrituras, passaram a defender uma interpretação literal,tomando todos os elementos da narrativa (a árvore da ciência do bem e do mal, 
a proibição de comer daquela árvore, a serpente e sua conversa com Eva, o ato 
de comer do fruto) como outras tantas realidades históricas. Tanto a tradição is­
raelita, como alguns escritos apócrifos posteriores, traziam informações sobre 
o Paraíso e a queda do homem. Segundo a qual seus antepassados outrora ha­
viam servido outros deuses (Js 4.2), como os resultados da paleo-antropologia 
a respeito da antiguidade do gênero humano tomam inverossímil que uma tra­
dição detalhada sobre a queda do primeiro casal humano se houvesse mantido 
intacta até ficar guardada por escrito em Gênesis. Outros opinam que Deus, em 
uma visão, tivesse revelado ao hagiógrafo os fatos da queda com minuciosos 
detalhes, teria, por conseguinte, excluído alguns mitos que foram criados por 
causa da presença de diversos temas e concepções que Gênesis 2, que segundo 
este conceito, tem em comum com as antigas mitologias orientais.
i i i . A Á r v o r e d a V id a e a Á r v o r e d a C iê n c ia d o 
B e m e d o M a l
1. A árvore da vida. Quando Deus criou o homem, de início, não havia 
nenhuma proibição no tocante a qualquer espécie de árvore ou fruto que ele 
não pudesse comer. Ao criá-lo, disse Deus: “Eis que vos tenho dado toda a erva
A M o r a d a d o H o m e m A n tes de P e c a r 63
que dá semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que 
há fruto de árvore que dá semente, ser-vos-á para mantimento... toda a erva 
verde será para mantimento. E assim foi” (Gn 1.29-30). Nestas árvores aqui 
mencionadas, não existiam nem a árvore da vida e nem a da ciência do bem e 
do mal. Contudo, quando Deus plantou o jardim do Éden, apareceram ali, duas 
espécies de árvores:
cg as que foram plantadas; 
og e as que brotaram.
Entre as que brotaram, encontram-se duas que eram diferentes das demais: 
og A primeira, “a árvore da vida no meio do jardim”Gn 2.9a); 
og A segunda, “...a árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2.9b).
a) A árvore da vida. Pelo que se deduz das palavras do Criador, em Gêne­
sis 3.22, a árvore da vida tinha em si mesma o poder da imortalidade. Quem 
dela comesse, viveria eternamente. O grande erro do homem foi comer o fruto 
da árvore errada. A árvore da morte e não a da vida. Agora, Deus o proíbe de 
comer da árvore da vida, para que ele e sua prole não vivessem eternamente na 
miséria. A providência divina, neste sentido, foi lançar o homem para fora do 
jardim do Éden. “E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente 
do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar 
o caminho da árvore da vida” (Gn 3.24). Se o homem tivesse comido da árvore 
da vida antes de pecar; seria capaz de viver eternamente num estado de san­
tidade. Pouco se fala da “árvore da vida” nas Escrituras. Ela somente aparece 
aqui em Gênesis 2.9; 3.22,24 e Apocalipse 2.7; 22.2,19.
A árvore da vida era uma árvore especial e apresenta três sentidos diferentes 
nas passagens onde ela está em foco e traduz três significados importantes:
b) Significa vida sem fim. “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é 
como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão, 
e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente” (Gn 3.22).
c) Significa alimento. “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às 
igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio 
do paraíso de Deus” (Ap 2.7; 22.2).
d) Significa herança. “E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta 
profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, e da cidade santa, que es­
tão escritas neste livro” (Ap 22.19). Pensando na árvore da vida como fonte
6 4 A D o u t r in a do P e c a d o
de alimentação, para os remidos do Senhor, alguns chegaram a sugerir que o 
“maná escondido” seja o fruto da árvore da vida, visto que os dois representam 
Cristo, que é o Pão da Vida, e quem dele se alimenta, passa a ter vida, e vida 
com abundância. Com efeito, porém, tudo indica que, no simbolismo isso é 
possível. Contudo, literalmente falando, parece que um é diferente do outro, 
ainda que em Cristo, isso possa coexistir. Ele é o Pão da vida que alimenta o 
mundo com a sua palavra e nutre sua Igreja com sua presença. No Paraíso de 
Adão — ainda que plantado por Deus — foi vedado ao homem o direito de 
comer da árvore da vida. Tal proibição foi ocasionada pelo pecado do homem. 
Adão era santo, mas se tomou um pecador. Ele, portanto, não podia comer do 
fruto da vida, produzido por aquela árvore. As Escrituras nos levam a entender 
que houve uma remoção do Paraíso para a imediata presença de Deus, com ele 
também foi conduzida a árvore da vida. No Paraíso terrestre, ela estava plan­
tada no ‘meio’ do Paraíso (Gn 2.9). No Paraíso celestial, ela também aparece 
no ‘meio’ (Ap 2.7). A diferença agora, é que foi abolida a proibição; e, ali, o 
homem, quer dizer, o homem santo, terá o direito de comer da árvore da vida, 
tantas vezes quiser.
2. A árvore da ciência do bem e do mal. No tocante a isso, existem 
também, por parte dos comentadores, muitas opiniões nos seguintes pontos: 
Tratava-se realmente de uma árvore no sentido literal? Ou foi simplesmente 
uma figura de retórica que fora usada pelo escritor sagrado, para representar o 
mal? Seu fruto foi de fato um fruto literal que Adão e Eva comeram e que depois 
de o terem ingerido, seu poder os teria transformado então, de santos em peca­
dores? Estas e outras perguntas são feitas e por causa das muitas interpretações 
que têm surgido no campo religioso.
a) A árvore era enxertada. Ao ser chamado “do bem” e “do mal”, pode- - 
se levar a pensar numa espécie de árvore que fora enxertada, como uma ár­
vore má (o pecador) que fora enxertada na boa oliveira (Cristo). Mas isso é 
uma alegoria (figura) que não se coaduna com o argumento e a tese principal, 
que aqui está em foco. Parece que, o argumento mais lógico com respeito a 
esta árvore de natureza dupla, é que ela podia ser até chamada de “árvore 
do bem” — para aqueles que nela não tocassem. E, de igual modo, podia ser 
chamada de “árvore do mal” — para aqueles que dela comessem como Adão 
e sua esposa. Quando lemos a frase “a árvore do ‘bem’ e do ‘mal’, surge uma 
pergunta curiosa: “que bem trazia em si aquela árvore?” Uma vez que ela era 
um tipo de fruto enxertado, de um lado era constituída pelo ‘bem’; do outro 
lado, era constituída pelo ‘mal’. Em algumas traduções, ao invés de se ler: a
A M o r a d a d o H o m e m A n tes de P e c a r 65
árvore da ciência do bem e do mal, lê-se: a árvore do conhecimento do bem 
e do mal. Com efeito, porém, pelo que parece e por tudo aquilo que se tomou 
conseqüência quando Adão e sua mulher, comeram do fruto daquela árvore, se 
apresentou bem algum nem neles, nem na sua prole. Assim como para muitos, 
o pecado é a ausência do bem, de igual modo, o bem que aquela árvore trazia 
era sua ausência na vida do homem.
b) Pensando em uma árvore misteriosa. Muitos têm pensando que se tra­
tava de uma árvore literal, porém com certos aspectos misteriosos e procuram 
determinar a sua qualidade. Algumas tradições judaicas estão a favor de uma 
espécie de vide, outros de uma oliveira ou de uma espiga, do tamanho de uma 
árvore, enquanto que os gregos pensavam numa figueira. E nos autores latinos 
encontramos opiniões que fosse uma macieira, provavelmente por causa de 
Cantares de Salomão 8.5. Para outros, o jogo de palavras: malum = o mal e ma­
las = macieira. Tratando-se de uma evolução semântica de “pomum”, que pri­
meiro significa “fruto de árvore” em geral, e no latim posterior a palavra rece­
beu o sentido de “maçã”, tratava-se, de fato, de uma macieira, cujo fruto seria 
então uma “maçã”. Por causa da semelhança existente entre as palavras latinas 
malum (maçã) e malus (mal), a tradição popular, na Idade Média, identificou 
essa árvore com a macieira. Na opinião dos intérpretes escolásticos, a Arvore 
do bem e do malpo sta sia ............................................................................. 2 1 7
III. O P e c a d o V o l u n t á r i o ............................................................................ 226
IV. O P e c a d o para a M o r t e ..................................................................... 2 3 0
V. O P e c a d o A b o m in á v e l ............................................................................233
C a p ít u l o 1 2 : P e c a d o s P e r d o á v e i s ......................................................... 241
I. P ecado s qu e M er ecem o P e r d à o ....................................................... 2 4 2
II. Q uem P ode M er ec er o P e r d ã o ........................................................ 2 4 5
C a p ít u l o 1 3 : O P e c a d o d e B l a s f ê m ia c o n t r a o
E s p ír it o S a n t o ..........................................................................................................2 49
I. O que S ignifica B lasfemar contra o E spírito Sa n t o .................. 250
II. A B la sfêm ia c o n tr a o E spírito S a n t o .......................................... 253
III . A B la sfêm ia co n tr a E spírito Sa n to n ã o E um A to —
É u m a A t it u d e ...................................................................................................2 5 7
C a p í t u l o 1 4 : O P e c a d o A f e t o u a s F a c u l d a d e s S e n s i t iv a s e 
I n s t in t iv a s d o H o m e m .........................................................................................2 6 5
I. O L iv r e -A r b ít r io .........................................................................................2 6 6
II. Os S e n t id o s ..................................................................................................277
II I . O s in s t in t o s ................................................................................................ 281
C a p ít u l o 1 5 : A l t e r a ç ã o n o C o m p o r t a m e n t o .............................. 291
I. A l tera ç ã o M u d á v el n o C o m po r ta m en to ..................................... 2 9 2
II. A ltera ç ã o do P e n s a m e n t o ................................................................. 2 9 7
III . In c lin a ç ã o In flu en c iá v el da M e n t e ...........................................3 0 6
IV. A lteração P ro po sita d a n a s A ç õ e s ...............................................3 1 0
C a p í t u l o 1 6 : P u n i ç ã o e D e s t r u i ç ã o d o P e c a d o ....................... 32 3
I. P u n iç ã o d o s P e c a d o r e s .......................................................................... 3 2 4
II . D estru içã o e A u sên c ia da s C o isa s .................................................3 2 8
III . D estruiçã o dos P e c a d o r e s ............................................................... 3 3 2
IV . D est r u iç ã o F in a l d o P e c a d o .......................................................... 3 3 4
H a m a r t io l o g ia - 
D o u t r in a d o P ec a d o
10 A D o u t r in a d o P e c a d o
I . O P e c a d o
1. A existência do pecado. Alguns ignoram a origem e existência do pe­
cado. Na opinião destes estudiosos modernos, o pecado não existe, e se existe 
(dizem eles) é de origem desconhecida. Assim como existem aqueles que procu­
ram negar a existência de Deus, embora sejam reputados como sendo ‘néscios’ 
(SI 14.1). De igual modo, também, há alguns que, dizendo-se sábios, procuram 
negar a existência e origem do pecado. Outros até defendem que o pecado existe. 
Contudo, ninguém (dizem eles) será capaz de saber sua origem e seus modos de 
manifestação no mundo. Invocam para essa teoria a passagem de Deuteronômio 
29.29, que diz: “As coisas encobertas são para o Senhor nosso Deus, porém as 
reveladas são para nós e para nossos filhos para sempre, para cumprirmos todas 
as palavras desta lei”. Com efeito, porém, é evidente que esta passagem não se 
refere à origem do pecado ou do mistério do mal. A Escritura, desde o início até 
o final, faz questão de revelar e denunciar o pecado, dizendo de onde ele veio — 
mostrando seus efeitos nocivos e sua tirania destruidora afetando o mundo hu­
mano e o mundo espiritual. Deus falou na sua Palavra que o pecado existe e que 
está presente, podendo (se houver espaço) dominar o homem, que anda alienado 
de Deus. Para Caim o Senhor advertiu: “Se bem fizeres, não haverá aceitação 
para ti? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e para ti será o seu desejo, e 
sobre ele dominarás” (Gn 4.7). E o escritor aos Hebreus, lembra aos seus leitores 
que o pecado não se encontra distante deles e de suas atitudes. Então ele disse: 
“Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de 
testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, 
e corramos com paciência a carreira que nos está proposta” (Hb 12.1). O falso 
ensinamento da “Ciência Cristã” afirma que o pecado é uma negação — que 
o mal é a ausência do bem, e que o pecado é a ausência da retidão. Mas não é 
verdade, pois existem formas de pecado extremamente malignas e agressivas. A 
Palavra de Deus assegura que o pecado e o mal têm existência positiva. E que 
são ofensas contra Deus.1
Tanto as Escrituras como o mundo sensível dos seres e das coisas, apre­
sentam três provas evidentes da existência do pecado. Estas provas são:
ca Prova metafísica;
03 Prova moral;
eg Prova psicológica.
a) Prova metafísica. Essa prova se apoia na sensibilidade perceptiva de um 
mundo diferente daquele em que vivemos e algo que nos rodeia, apresentando
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 11
tanto no texto imediato como na extensão, que um inimigo tirano — chamado 
de o pecado — existe. A alma humana foi feita pelo sopro de Deus. Ela foi 
feita com a capacidade sensitiva de sentir e aceitar ou rejeitar o pecado. Ela 
pode discernir o mal e o bem. Com efeito, porém, se não houvesse o pecado 
ou mal espiritual, invisível no mundo das trevas, não seria necessário tal dis­
cernimento — pois não haveria necessidade, visto que o mal não existiria (Dt 
30.15,19).
b) Prova moral. Essa prova se baseia na imortalidade da alma e é embasada 
na justiça de Deus, que exige que a virtude e o vício recebam as sanções que 
lhes são devidas: recompensa ou punição. Aqui no mundo, as sanções da virtu­
de e do vício são evidentemente insuficientes; muitas vezes é o vício que triun­
fa, e a virtude fica humilhada. A justiça quer que cada um seja tratado segundo 
suas obras, e isto não pode ser feito a não ser com a imortalidade da alma. Se 
o pecado não existisse não era necessário um juízo diferenciador e nem repa- 
rador de um bem que teria sido, ao longo da existência, danificado pelo mal. 
Contudo, esta prova mostra que existem muitos segredos: tanto do lado do bem 
como do lado do mal. E um dia, todos eles, serão julgados por aquele que por 
Deus foi constituído juiz — o qual “...trará à luz as coisas ocultas das trevas, e 
manifestará os desígnios dos corações” (1 Co 4.5).
c) Prova psicológica. Essa prova se apoia nas tendências essenciais de nos­
sas faculdades. E fato que nós aspiramos conhecer a verdade absoluta, possuir 
o bem supremo e a felicidade perfeita, ou seja, um estado de vida que só pode 
ser encontrado no mundo vindouro. No mundo presente, isso é tão verdadei­
ro que jamais nos sentimos saciados de verdade e de felicidade; quanto mais 
avançamos no conhecimento da verdade, na prática do bem, mais aumenta 
nosso desejo, a ponto de nada parecer poder satisfazer-nos fora da verdade, da 
bondade, da beleza perfeita, ou seja, fora de Deus. Todavia, sentimos que mes­
mo com este anseio, há uma força estranha que quer nos levar para um outro 
lado. Esta força é o pecado. Ele nos rodeia bem de perto, desejando embaraçar 
nossos passos e desvirtuar nossas ações para umfoi chamada assim por causa das conseqüências resultadas do 
comer seu fruto. A conseqüência deste ato foi a expulsão do Paraíso e a conde­
nação a uma vida dura que devia terminar com a morte. Dentro da ortodoxia 
católica, pode-se admitir que seja uma simples figura literária para designar 
uma realidade, isto é, uma proibição divina para nós ainda desconhecida.
Io. Arvore verde. Quando o povo escolhido de Deus fixou sua morada na 
terra de Canaã, começou a se prostituir “debaixo de árvore verde”. Alguns 
opinam que se tratava do nobre loureiro, como alguns tradutores o têm 
feito. Não se sabe bem o motivo pelo qual o povo escolhia um bosque 
cheio de árvores frondosas para oferecerem seus sacrifícios aos seus deu­
ses. Além dos profetas de Baal, que eram em número de 450, havia tam­
bém 400 que eram chamados de “profetas de Asera” (1 Rs 18.19). Asera 
era uma árvore considerada sagrada, que crescia perto do altar, que muitas 
vezes era edificado em um bosque, plantado em um lugar alto. Durante seu 
governo, para agradar a Jezabel, Acabe plantou um bosque, contrariando, 
assim, a vontade do Senhor que proibia tal prática com finalidade idolátrica 
(1 Rs 16.33), quando advertiu, dizendo: “Não plantarás nenhum bosque de 
árvores junto ao altar do Senhor teu Deus, que fizeres para ti” (Dt 16.21). 
Alguns acreditavam que a divindade estivesse presente na Asera, foi aceita
66 A D o u t r in a do P e c a d o
como deusa, e identificou-se com Astarote, deusa fenícia (Ashtart), reconhe­
cida tanto como deusa da guerra e destruição como de amor e vida.
2o. Árvore de justiça. Um outro nome que aparece representando árvore 
misteriosa é a “árvore de justiça” (Is 61.3), referindo-se aos “tristes de 
Sião”, que mediante a operação divina, a tristeza seria substituída pela ale­
gria. A árvore de justiça, portanto, nesse caso, representava uma nova vida, 
cheia das bênçãos do Senhor. Alguns têm sustentado que no passado havia 
árvores com estes nomes. A árvore verde era tomada como símbolo da 
fertilidade, em cuja sombra o povo se prostituía, tanto no sentido religio­
so como no sentido do adultério (SI 37.35). Com efeito, porém, nenhuma 
dessas árvores mencionadas acima faz parte da árvore da vida ou da árvore 
do bem e do mal. Aquelas eram, sem dúvida, diferentes das que o povo 
venerava no passado e das que conhecemos agora.
c) Uma árvore literal. A Árvore da ciência do bem e do mal deve ser tam- i- 
bém concebida como sendo uma árvore literal. Esta árvore aparece em Gênesis 
2.8,17; 3.3,5,6,11,12,13, e nunca mais em nenhuma outra parte da Bíblia, onde 
se fala da história do pecado, ela aparece. Parece que, depois da promessa divi­
na da vinda do Redentor, em Gênesis 3.15, ela se secou, visto que, a partir daí, 
somente aparece a “árvore da vida”. De acordo com as provas demonstradas 
na criação inteira, que foi literal e não figurativa, essa árvore era também uma 
“árvore literal”. Seu fruto era “um fruto literal”. A diferença era que aquela era 
uma árvore especial como especial era também a árvore da vida. A narrativa 
não se refere, portanto, ao despertar da consciência ou da inteligência através 
de um contato sexual de Adão e de sua esposa, como erroneamente tem sido 
sugerido por alguns. O homem, mesmo antes de pecar, já tinha consciência 
moral das concepções da vida para sua procriação e já as possuía antes do pe­
cado. Existem determinadas substâncias nocivas que, se forem ingeridas pelo 
homem, produzirá sua morte física instantaneamente. Outras substâncias, tais 
como drogas alucinógenas, bebidas alcoólicas e entre outras, trarão para o ser 
humano a perda de comunhão com seu Criador, o que significa morte espiritu­
al, no sentido religioso. Estas coisas são coisas materiais, quer dizer, literais no 
mais rudimentar dos sentidos; entretanto, a experiência tem comprovado que 
podem provocar todos esses males mencionados acima e muito mais, na vida 
daqueles que transgredirem as proibições de Deus, reveladas na sua Lei e nas 
palavras de seu Filho Jesus Cristo.
Na opinião cabalística, é admitido que Eva entendeu que o plano de Deus 
era que eles deixassem o Éden e fossem habitar no “mundo inferior”. Mas 
este, com efeito, não era o plano de Deus, pois tal pensamento não se coaduna
com pensamento geral das Escrituras e nem com a tese e argumento principal. 
Outrossim, não é o mundo que irá criar o “caminho da Redenção”. Este foi 
criado por Deus e inaugurado pelo próprio Cristo por meio de sua morte na 
cruz (Hb 10.20).
A M o r a d a do H o m e m A n te s de P e c a r 67
' Enciclopédia Judaica, v. 5, Editora e Livraria Sêfer Ltda. 1989. pp. 301-302 
: JOSEFO, F. História dos Hebreus: Antiguidades Judaicas, Livro Primeiro, 8a. Ed. Rio de 
Janeiro: CPAD, 2004, p. 76
A Q u ed a d o H o m em
70 A D o u t r in a d o P e ca d o
I . O P e c a d o d e A d ã o
1. Interpretação alegórica sobre a queda do homem. A interpretação 
puramente alegórica ou simbólica vê na queda a imagem de certas experiên­
cias psicológicas ou morais universalmente humanas, não próprias, portanto, 
do estado original do homem. É neste sentido que, para muitos, a narrativa da 
queda é um mito. Conforme Gunkel, e outros trata-se da passagem do indiví­
duo humano do estado de inocência, que caracteriza sua infância inconsciente 
e despreocupada, para o estado adulto, caracterizado pelo conhecimento do 
sexo e pela consciência da falibilidade humana. Conforme essa explicação, po­
rém, não haveria nenhuma queda, mas tratar-se-ia do desenvolvimento normal, 
natural e necessário do homem; além disso, Gênesis 2.19,23, mostra-nos que 
para o autor o primeiro homem antes da queda, não era, de modo nenhum, uma 
criança. Outros colocam o sentido da narrativa da queda, no plano religioso, a 
saber, na descoberta do homem de estar separado de Deus pela sua própria e li­
vre vontade. Mas a caracterização de Abel, Enoque e Noé como justos, eviden­
cia que, segundo o autor, nem todos os homens têm pecado pessoal, o que essa 
explicação supõe. Se para o hagiógrafo, Abel e Noé sofreram as conseqüências 
da queda (a morte), então isso deve ser porque ele considera a queda como um 
fato não puramente individual, mas coletivo, tendo conseqüência também para 
quem nela não teve culpa pessoal. Outros ainda veem na queda um fenômeno 
social: ao desenvolvimento da cultura material. Mas Gênesis 4.19-22 exclui 
que em Gênesis 3 o autor tenha pensado no progresso material do homem.1
2. O pensamento judaico sobre a queda do homem. O pensamento 
puramente judaico é que o hagiógrafo considerou a queda como um fato não 
apenas psicológico ou moral, mas também histórico, segue claramente do cará­
ter etiológico de sua narrativa. Ele pretende dar uma explicação da triste sorte 
do homem: da sua luta penosa pela existência, do estado submisso da mulher, 
das dores do parto e, afinal, da morte. Como está convencido de que Deus 
criou tudo bom (Gn 1.31; 2.1-3), deve ter havido, entre o início tão feliz e a 
atualidade tão sombria, uma causa de todo o mal; e, como o mal abrange todos 
os homens, é preciso colocar essa causa no princípio da história da humanida­
de. Esse raciocínio abstrato, porém, tomou no hagiógrafo uma forma concreta, 
em função de sua historiologia genealógica e pela aplicação do princípio da 
retribuição coletiva. Todo povo e todo grupo de população era reduzido a um 
ancestral, cujo caráter e comportamento determinaram a sorte de seus descen­
dentes (cf. Gn 4.14; 9.25; 16.12; 19.37). Assim, toda a humanidade descende 
de um só homem primordial, “o homem”, cuja queda foi fatal para toda a sua
A Q u ed a d o H o m e m 71
descendência. Que o hagiógrafo, descrevendo a queda, pensou realmente nesta 
descendência, provam-no em Gênesis 3.15,20. Levando ainda em conta o cará­
ter, parte polêmico, parte mitológico e folclórico de elementos como:
cg Paraíso;
cj3 a árvore da ciência do bem e do mal;
eg a serpente.
3. A queda do homem não foi uma alegoria — foi uma realidade.
Uma boa parte das pessoas,que têm a imaginação light e folclórica, acham que 
a história da queda do homem é simplesmente uma alegoria ou mito. Outros, 
seguindo esta linha de pensamento, procuram definir o gênero da narrativa da 
queda como um mito histórico, isto é, como uma formulação dramática de um 
fato religioso (não apenas de um ponto de doutrina), neste caso, um fato da 
história da salvação. Essa dramatização, no estilo daquele tempo, lançou mão 
de concepções religiosas e historiográficas existentes. Outros ainda opinam que 
a queda do homem faz parte de uma coletânea do gênero literário. Todavia, isso 
não é assim. O homem pecou contra Deus. Foi expulso do Jardim. Esta é inter­
pretação e ensino do pensamento geral das Escrituras.
4. A provação do homem. Antes de pecar, Adão e sua mulher eram am­
parados na dispensação da inocência. Portanto, até então, eles encontravam-se 
cobertos por uma espécie de manto da santidade divina. Também devemos ter 
em nossas mentes, um outro ponto de vista, no que diz respeito ao período de 
inocência, do primitivo casal no jardim do Éden. Adão e sua mulher estavam 
amparados pela “dispensação da inocência”. A justiça de Cristo que já fora 
morto no eterno querer de Deus desde a fundação do mundo, lhes serviam de 
cobertura enquanto os mesmos permanecessem nessa dispensação. A santi­
dade do casal conservava-os debaixo dessa proteção divina. A proibição por 
parte de Deus servia de demarcação da inocência e santidade de Adão, até a 
sua queda. Podemos observar que, vários métodos de sedução foram utilizados 
que envolviam a serpente, a mulher e o próprio homem, até a consumação do 
pecado propriamente dito.
5. O fracasso do homem. Temos aqui, nesta história sombria da queda 
do homem, uma espécie de “escada descendente”, conforme veremos mais 
adiante em outras notas expositivas, em que alguém vai descendo de degrau 
em degrau até chegar ao seu último degrau, quando usamos a contagem in­
vertida, que seria o primeiro para quem “sobe” e o “último” para quem desce.
72 A D o u t r in a d o P e c a d o
Primeiro, houve negligência por parte de Adão em ficar ausente de sua esposa 
numa área perigosa. Deus quando formou a mulher, formou-a com o objetivo 
desta estar diante dos olhos de seu marido; pelo menos para Adão foi isto im­
posto. Deus disse: “...é uma adjutora que estivesse diante (de seus olhos) dele” 
(Gn 2.20). Adão não observou este detalhe de Deus e sua mulher não estava 
“diante de seus olhos” quando encontrou-se com a serpente. Esta aproveitou-se 
da inocência e simplicidade da mulher e lançou-a no campo da dúvida, com a 
insinuante pergunta: “E assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do 
jardim?” (Gn 3.1b); a mulher então retrucou imediatamente, dizendo: “Do fruto 
das árvores do jardim comeremos; mas do fruto da árvore que está no meio do 
jardim, disse Deus: Não comereis dele (e acrescenta), nem nele tocareis, para 
que não morrais” (Gn 3.2,3). A pergunta da serpente tinha como alvo desviar a 
atenção da mulher e por extensão a de Adão, da obediência devida a Deus (Dt 
13.6; Ef 5.6). Geralmente o tentador é por demais astuto, e sabe que quando a 
criatura é seduzida e cede, pode enganar-se a si mesma (Jr 37.9) e deixou-se 
seduzir por seu próprio coração, pelo amor ao dinheiro, a cobiça e o orgulho de 
ser, ter e possuir, e o desejo de Adão e de sua mulher, era exatamente estes: ser 
como Deus, conhecer como Deus e possuir poder como Deus (Mt 13.22; Hb 
3.13; Tg 1.26; 1 Jo 1.8). A sedução da serpente estava relacionada comacobiça 
e o resultado foi a queda daqueles que por ela estavam visados. Sempre que o 
pecado é consumado, ele se toma um veículo transmissor. Ele toma esse senti­
do, o caráter quando assim é traduzido, de “transgressão”. E no caso de Adão e 
sua mulher que transgrediram o mandamento de Deus ali no jardim, ele assume 
por natureza essa posição. Isso significa que, ele “vai” além do limite — avan­
ça! Depois se multiplica, é exatamente o que lemos em Gênesis 6.5, que diz:
“E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicava sobre a terra...”. De 
igual modo, ele é retratado nos ensinamentos de Jesus como a iniqüidade que 
se multiplica, causando dano ao amor (Mt 24.12). No caso da tentação, ele foi 
concebido por condições preliminares como bem podemos observar na situação 
da Queda: na proporção que a serpente ia avançando, a mulher ia cedendo um 
pouco até ser atingida por seu aguilhão. Analisemos, em detalhes, cada “passo” 
dado entre a mulher e a serpente e vice-versa, até alcançar o homem (Adão).
6. O homem cedeu à tentação. A tentação é a primeira arma sombria ia 
que Satanás usa no campo da destruição. Seu objetivo principal, ao tentar, é 
abrir caminho quando o tentado cede para o fracasso. Em si, a tentação não é 
pecado, mas ela pode tomar-se pecado. Jesus foi tentado em tudo como diz o 
escritor aos Hebreus: “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa 
compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi
A Q u ed a d o H o m e m 73
tentado, mas sem pecado” (4.15). A raiz de quase todo fracasso espiritual é a 
desobediência nas pequenas coisas. Embora não pareça significativa no mo­
mento, cada desobediência, por menor que seja, é como uma fenda no muro da 
alma da pessoa. Através de cada rachadura, o ácido do mal penetra e começa a 
corroer os fundamentos de seu caráter espiritual. Ao longo do tempo, sua von­
tade espiritual fica comprometida e, quando surge uma tentação, ela simples­
mente não tem vontade de resistir. Alguém que cai dificilmente o faz de forma 
abrupta. Pode parecer que a pessoa foi derrubada por aquela crise final, mas, 
na realidade, foi a raiz seca da desobediência que fez tudo. O grande sucesso 
de nosso Senhor Jesus Cristo no campo da tentação, é que Ele foi obediente ao 
Pai em tudo; “Sendo obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2.8). Jamais 
Ele ficou isento da tentação. Pelo contrário, “em tudo foi tentado, mas sem 
pecado”. Tiago diz que a tentação pode gerar o pecado e este, consumado, 
gerar a morte. “Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado, porque 
Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado, 
quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo 
a concupiscência concebido, dá à luz o pecado e o pecado, sendo consumado, 
gera a morte” (Tg 1.13,14).
a) A queda inesperada do hometn. A passagem de Gênesis 3.7 descreve 
o momento fatal quando o homem e sua mulher tiveram consciência de seu 
fracasso. “Então foram abertos os olhos de ambos e conheceram que estavam 
nus...”. Aqui, está, portanto, o momento da passagem do estado de inocência 
para o estado de consciência. Adão e sua esposa viviam debaixo da dispensa­
ção da inocência e, nela, estavam cobertos pela expiação de Cristo. O caminho 
da redenção ainda não estava ‘aberto’, porque Cristo ainda não tinha morrido 
fisicamente na cruz. Mas o caminho da expiação já se encontrava ‘aberto’ no 
eterno querer de Deus. Este é o motivo pelo qual Jesus “foi morto desde a fun­
dação do mundo” (Ap 13.8). Esta passagem marca, portanto, a inauguração do 
caminho da expiação, quando o Cordeiro de Deus morrer, com a finalidade de 
tirar o pecado do mundo. Para os anjos que pecaram, este caminho ainda não 
existia, porque, como seres racionais, dotados de elevada capacidade intelec­
tual e saber espiritual, eles já viviam numa espécie de estado consciente, com 
capacidade para discernir o caminho do bem e do mal; ainda que este último 
não existisse de forma patente ou mesmo em seu estado original.
b) Destaque da queda de Adão. As Escrituras dão como maior destaque, a 
queda de Adão, embora em algumas passagens específicas, é mencionada por 
extensão a queda de Eva. Nesta seção, portanto, estudaremos sobre o fracasso
74 A D o u t r in a d o P e c a d o
do homem e de sua esposa no jardim do Éden. Ali, Eva foi tentada pela serpen­
te e Adão foi seduzido por sua esposa para comer do fruto proibido. No caso 
de Adão e Eva, suas mentes forampreparadas por Deus para que eles vivessem 
na dispensação da inocência, num mundo de santidade. Contudo, eles tinham 
um dever a cumprir: não comer da árvore que estava no meio do jardim, pois 
esta tinha sido proibida expressamente por Deus antes mesmo da formação da 
mulher, quando disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente; mas da 
árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que 
dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). Porém, contra a vontade 
divina, o casal, lamentavelmente, foi “envolvido” pelo pecado. Os dois pontos 
marcantes neste episódio sombrio é quando se diz, que:
Io. “os olhos” de ambos foram abertos (Gn 3.7a). Parece mesmo que os 
sentimentos psíquicos de Adão e sua mulher possuíam um halo circundante 
de luz, que os livrava da aparência e da consciência de nudez. Tal proteção 
aparentemente se perdeu por ocasião de sua desobediência e pecado, cau­
sando neles o senso de impropriedade de aparência na presença de Deus e, 
talvez, na presença um do outro.2
2o. E semelhantemente, quando se diz que “conheceram” que estavam nus 
(Gn 3.7b). Eles conheceram aí, que tinham morrido moralmente e espi­
ritualmente naquele instante, e sentiram pela primeira vez a ausência do 
Criador em suas vidas. Desde que Deus criou o homem e sua mulher, eles 
estavam debaixo da “dispensação da inocência”, como crianças que ainda 
não tinham despertado a concepção do “eu”. Esta dispensação é garantida 
pela expiação de Cristo, o Cordeiro que foi morto, desde a fundação do 
mundo (Ap 13.8), conforme já tivemos a ocasião de mostrar numa outra 
seção deste argumento. Adão e sua mulher, antes do episódio sombrio que 
mudaria a vida de ambos para sempre, “...estavam nus...e não se envergo­
nhavam” (Gn 2.25). Depois do pecado contra Deus, eles, agora, saem dos 
auspícios desta dispensação e entram para a dispensação da consciência, 
com o poder de saberem o “bem e o mal”.
c) A queda não fo i somente um ‘ato ’ isolado — mas uma ‘atitude ’ de- - 
liberada. Quando passamos a analisar mais profundamente cada detalhe até 
que ocasionasse a queda do homem, podemos observar que, não se tratou de 
um ato apenas, e, sim, de uma atitude de desobediência contra Deus e contra 
sua ordem. O primeiro elo nessa sombria história foi sem dúvida a negligência 
seguida pela tentação, em forma de sedução. A sedução é sempre querida e 
determinada por um inimigo que deseja o mal, e Eva declara ter sido seduzida 
pela serpente.
A Q u ed a d o H o m e m 75
I I . A Q u e d a d o H o m e m M o s t r a u m a E s c a d a 
D e s c e n d e n t e
1. Os passos sucessivos do estado de santidade ao estado peca­
minoso. No argumento seguinte, veremos como o fracasso do homem e sua 
mulher foi seguindo um caminho regressivo em relação à santidade e progres­
sivo em direção ao erro. Passo a passo, o mal foi se aproximando e encontran­
do espaço na mente e imaginação do casal. São emitidas várias opiniões no que 
diz respeito à sucessão de erros e de acontecimentos, para que se consolidasse 
o fracasso, na vida de Adão e de sua mulher, ali no jardim. Os estudiosos usam 
vários degraus nesta escada descendente. Um dos exemplos é o número 7. Eles 
afirmam que este número está ligado à perfeição ou à totalidade; então em 
sentido inverso, teriam sido 7 sucessivos erros envolvendo Adão, sua esposa e 
a serpente ali no jardim do Éden.
a) Os doze degraus do fracasso. Observando cuidadosamente cada aconte­
cimento que envolveu Adão, Eva e a serpente, poderemos relacionar um total 
de 12 degraus descendentes da tentação, até a consumação do pecado.
I o. O primeiro degrau foi descido por Adão. Ele desceu o degrau da negli­
gência física. Seu fracasso nesta senda do mal foi não cumprir fielmente 
a ordem que Deus tinha lhe dado quando “o pôs no jardim do Éden para 
o lavrar e o guardar” (Gn 2.15). Adão não guardou o jardim. Ele permitiu 
que a serpente nele entrasse o que não teria sido permitido, se ele tivesse 
ficado vigilante.
2o. O segundo degrau foi descido por Adão. Ele desceu o degrau da ne­
gligência moral. Quando Deus criou sua esposa, foi com a finalidade desta 
permanecer diante dos olhos de Adão. Mas Adão, contudo, negligenciou e 
deixou sua mulher sozinha a mercê da serpente. Agora, ela se encontrava 
‘longe’ do marido e ‘perto’ da tentação.
3o. O terceiro degrau foi descido pela mulher. Ela, a exemplo de seu es­
poso, também entrou pelo caminho da negligência. As Escrituras são pro­
féticas e se combinam entre si em cada detalhe. Elas recomendam que a 
“mulher se não aparte do marido” (1 Co 7.10). A expressão em foco traduz 
dois sentidos: o primeiro moral, isto é, a mulher quando casa, é com a 
finalidade de viver com seu esposo enquanto ele viver; a não ser que no 
relacionamento de ambos, apareça um acidente de percurso. Eva, pelo que 
parece, não estava atenta as recomendações que acabamos de mencionar. 
Ela andava sozinha. Tinha deixado o marido onde? Adão se encontrava
76 A D o u t r in a do P e c a d o
tão distante, que até o próprio Deus, quando o procurou, perguntou: “Onde 
estás?” (Gn 3.9).
4o. O quarto degrau foi descido pela serpente. A serpente era “astuta” e per­
cebeu a ingenuidade da mulher. Então ela arquitetou em lhe fazer uma per­
gunta, e através dessa, lançar a mulher no campo da dúvida. Paulo liga este 
acontecimento com a simplicidade da mulher e a “sagacidade” da serpente 
(2 Co 11.3). A serpente, aqui em foco, não era um animal qualquer no sen­
tido ordinário do termo. Na mitologia grega era conservada uma imagem 
desta serpente, chamada de “mãe das trevas”, que era reputada como sendo 
um cão de fogo horroroso. A insinuante pergunta da serpente, aparentemen­
te inocente, mas que continha uma insinuação de dúvidas acerca da palavra 
de Deus: “E assim que Deus disse: não comereis de toda a árvore do Jar­
dim?”, lança a mulher no campo da dúvida quanto ao amor de Deus e sua 
justiça, ‘ampliando’ a proibição única e ‘reduzindo’ as extensas permissões 
(Gn 3.1). As Escrituras usam expressões variadas no tocante a natureza e 
qualificação deste terrível ser, acrescentando um apelativo em seu nome.
(I) Simplesmente “A serpente” (2 Co 11.3).
(II) “A serpente astuta” (Gn 3.1).
(III) “A serpente veloz” (Is 27.1a).
(IV) “A serpente tortuosa” (Is 27. lb).
(V) “A Antiga serpente” (Ap 12.9).
Em Jó 26.13, fala-se da “serpente enroscadiça” — mas não podemos afir­
mar se esta referência é feita com relação ao Diabo ou a uma serpente 
ordinária. — Outrossim, as “serpentes ardentes” citadas em Números 21.6, 
tratam-se de serpentes naturais. Em Gênesis 3.1, está registrado que ela “era 
astuta=sagaz”. O vocábulo grego aqui usado, “dragão”, que no original é 
“draken”, significa “serpente”, “crocodilo” ou “leviatã” (Jó 41.1). Temos 
informações de que os antigos cananeus, conforme a descrição existente 
nos tabletes de Ras Shamra, tinham uma terrível serpente de sete cabeças. 
O leviatâ=serpente veloz (Is 27.1) era considerada uma horrível e “rápida 
serpente”.
(1) O “leviatã”. No conceito dos sábios orientais, podia se referir a um 
monstro que se representa sob a forma de crocodilo, segundo a mitologia 
fenícia, cujo poder era invocado pelos magos. Faraó, rei do Egito, é de­
nominado de dragão por Deus que fala: “Eis-me contra ti, ó Faraó, rei do 
Egito, grande dragão, que pousas no meio dos teus rios...” (Ez 29.3). O mo­
narca Nabucodonosor é também mencionado da mesma forma: “...como
A Q u ed a d o H o m e m 77
dragão me tragou” — quando Israel fala e as demais nações (Jr 51.34). 
O significado de tudo isso, era a voracidade e crueldade destes monarcas 
que escravizavam e oprimiam a todos que por eles fossem alcançados. No 
presente estudo, porém, está em foco “...a antiga serpente, chamada o dia­
bo e Satanás, que engana todo o mundo”. Na mitologia grega esta figura 
sombria já era bastante conhecida, e em alguns lugares é a conhecida “ser­
pente sedutora, mãe das trevas, que é um cão de fogo horroroso”. Foi este 
terrível ser que, personificadonuma serpente, enganou a pobre mulher (Gn 
3.1; 2 Co 11.3; 1 Tm 2.14; Ap 12.9). Existem muitas discordâncias entre 
os comentaristas no que diz respeito à relação existente entre Satanás e a 
serpente que tentou o primeiro casal no jardim do Éden. Era aquela serpen­
te um animal qualquer? Era uma serpente especial? Ou era aquela serpente 
o próprio Satanás? Foi ela apenas um instrumento usado pelo Maligno? É 
afirmado por Matthew Pool eminente comentador da antiguidade, que o ar­
tigo definido em Gênesis 3.1, é enfático e por isso se refere a uma serpente 
especial. E, no hebraico é “hannachash”, isto é, “esta serpente”, ou “essa 
serpente”, significando uma personificação do próprio Satanás (Ap 12.9). 
Na mitologia grega era conservada uma imagem desta serpente, chamada 
“serpente mãe das trevas”. Aquela serpente podia ser um animal ordinário, 
mas que naquele episódio fora totalmente possuída por Satanás que falara 
‘nela’ e por ‘ela’. Podia ser também um ser especial que era apenas uma 
agência na qual Satanás era o agente. Poderia ser também o próprio Inimi­
go que se disfarçará em forma de uma serpente, em razão de que a mulher, 
talvez, já estivesse bastante familiarizada com este tipo de animal. Seja 
como for o sentido correto, Satanás ali estava presente. Em 2 Coríntios
11.1-15, Paulo parece querer ligar aquela serpente como sendo o próprio 
Satanás. Enquanto que João em Apocalipse 12.9, segue esta mesma linha 
de pensamento do apóstolo. Pelas imposições de Deus à serpente, parece 
tratar-se de um animal ordinário que servira apenas como sendo um instru­
mento de Satanás. Contudo, quando lemos Gênesis 3.15, parece ser ela o 
próprio Satanás.
5o. O quinto degrau foi descido pela mulher. O da concupiscência. Eva 
agora, longe do esposo, com a mente desprotegida, toma-se presa fácil 
para a serpente, que já se encontrava ao seu redor. Seu primeiro erro foi 
aceitar o diálogo com o tentador. Ela não devia ter respondido sua insinu- 
ante pergunta, quando esta perguntou-lhe: “É assim que Deus disse: Não 
comereis de toda a árvore do jardim?” (v. 1). A mulher, então aceitou o 
diálogo e a serpente lhe apontou à árvore desejada, dizendo: “certamente 
não morrereis”. A proibição de Deus para com vocês é de competitividade.
78 A D o u t r in a do P e c a d o
A serpente falou. É “Porque Deus sabe (mas não revelou a vocês — disse- 
lhe, parafraseando) que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos 
olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (v. 5). Costumamos 
dizer que o peixe morre pela boca. Mas isso não é correto. O peixe é atraído 
pelos olhos. São seus olhos que veem a isca que ao pegá-la, encontra nela 
o anzol mortal. Assim, também aconteceu aqui, do ponto de vista divino de 
observação. A pergunta do tentador despertou a concupiscência no coração 
da mulher. Eva foi conduzida pela cobiça dos olhos (Gn 3.6,7). Ela desviou 
seus pensamentos das proibições do Criador e seus olhos, agora sem a prote­
ção divina, foram levados para o campo do engano. Toma-se extremamente 
perigoso para o cristão, quando seus olhos se transformam em “olhos que 
zombam”, o resultado é a morte (Pv 30.17). A combinação dos fatos passou 
a ter espaço e a se combinarem entre si em cada detalhe, a saber:
(I) A concupiscência dos olhos. “Vendo a mulher que aquela árvore era boa 
para se comer” (Gn 3.6a). Em 1 João 2.16, isso é retratado como a “concu­
piscência dos olhos”. Mas até aí, o pecado ainda não tinha sido concebido 
e por cuja razão não tinha gerado a morte (Tg 1.14,15).
(II) A concupiscência da came. “Que aquela árvore era boa para se comer” 
(Gn 3.6). O leitor deve observar na mesma citação de João 2.16, a segunda 
parte da interpretação, quando lemos “a concupiscência da came”.
(III) A soberba da vida. “E árvore desejável para dar entendimento” (Gn
3.6). Aqui, porém, vem a complementação em Tiago 1.15, que diz: “De­
pois (foi de fato o que aconteceu), havendo a concupiscência concebido, dá 
à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte”. Sendo que em 
grau supremo trouxe ao casal “a soberba da vida” (1 Jo 2.16).
6o. O sexto degrau foi descido pela mulher. A mulher replicou e debateu 
com o caluniador. Ela demonstrou haver compreendido as palavras de seu 
Criador em Gênesis 2.16,17. Contudo, a mulher não fugiu da tentação indo 
para onde estava Deus ou até mesmo seu marido. Ela não fez isso. Pelo 
contrário, foi cedendo pouco a pouco aos ardis de Satanás, até ficar com­
pletamente dominada pelo desejo de fazer aquilo que ele tinha lhe orien­
tado. Assim, lamentavelmente, ela foi enganada pela insinuante e sombria 
serpente. (Gn 3.13; 1 Tm 2.14). A tentação quando aparece, parece inofen­
siva, mas no seu desfecho final seu aspecto é sempre sombrio e tenebroso. 
Ela sempre apresenta na sua face encantadora um resultado compensatório, 
mas o seu final é amargo. Um de seus aspectos encontra-se descrito em 
Provérbios 16.25 que diz: “Há caminho, que parece direito ao homem, mas 
o seu fim são os caminhos da morte”.
A Q ueda d o H o m e m 79
7o. O sétimo degrau foi descido pela mulher. Ou por falta de cuidado ou tal­
vez muito empolgada de se encontrar conversando com a serpente, pois até 
então, além de seu marido e Deus, ela não tinha ainda conversado com ne­
nhum outro ser falante, Eva falsificou um pouco a Palavra de Deus, quando 
deixou de lado “todas” e “livremente”, substituindo-as com as frases: “nem 
nele tocareis”. O assunto em foco deve ser confrontado com aquilo que se 
depreende de Gênesis 2.17; 3.2. Neste contexto, segundo se lê, entende- 
se claramente que a mulher acrescentou as palavras “nem nele tocareis”. 
Aqui, portanto, vemos mais uma vez a comunicação das Escrituras que, 
em Apocalipse 22.18,19, tira o direito daquele que acrescentar ou diminuir 
as palavras de Deus, dizendo: “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir 
as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma 
coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro. E, se 
alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua 
parte da árvore da vida, e da cidade santa, que estão escritas neste livro”. 
Eva acrescentou em parte as palavras de Deus, quando disse: “dela (da ár­
vore) não comerás”. Ela cita a primeira parte, e depois acrescenta dizendo 
que Deus tinha falado “nem nele tocareis”. O resultado foi perder o direito 
à “Árvore da Vida” e sua permanente presença no paraíso, que era também 
como a cidade santa de Deus. A mulher também abrandou as palavras “cer­
tamente morrerás”, para “que não morrais”.
8o. O oitavo degrau descido pela serpente. É fascinante observar as es­
tratégias do tentador. Primeiramente, isolou Eva de Adão. Tirou do casal 
a possibilidade de fortalecimento mútuo para a escolha do bem (cf. Hb 
10.24,25). A seguir, lançou dúvidas sobre a motivação de Deus: não teria 
Deus uma intenção egoísta naquela restrição (Gn 3.4)? Em seguida, o ten­
tador contesta o que Deus dissera. Deus advertira acerca da morte, mas o 
tentador declarou o contrário “isso não é verdade!”. Agora duas posições 
opostas estavam diante deles, e teriam de fazer a escolha. O tentador tam­
bém chamou a atenção de Eva para objetos desejáveis, artifício comum 
chamado de ‘ética situacionista’. O tentador também lhe apresentou as van­
tagens: “Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos 
olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gn 3.5). Em último 
lugar, o tentador apelou para os sentidos. O fruto da árvore era agradável 
ao paladar. Era agradável aos olhos e desejável para o entendimento (Gn
3.6). Seduzida pelo tentador, Eva tomou sua decisão. Rejeitou confiar em 
Deus e em sua sabedoria e, como o tentador lhe propôs, decidiu seguir a 
própria vontade e rejeitar a de Deus. Em seguida, ofereceu o fruto a Adão, 
que também o comeu. Então ambos pecaram!3
80 A D o u t r in a d o P e c a d o
Vemos, portanto, que a serpente apresenta um quadro diferente daquilo que 
Deus é. Deus não pode ser acusadode mentir, porque isso é contra a natu­
reza do seu ser. “Deus não pode mentir” (Tt 1.2). Mas a serpente fez uma 
aberta negação do castigo devido ao pecado, e formulou uma acusação 
contra Deus de haver proferido mentira. Deus tinha dito que “certamente 
morrerás”, a serpente disse “certamente não morrereis (Gn 2.17; 3.4); tal 
afirmação da serpente continha pura acusação. O caluniador acusou Deus 
de egoísmo, inveja e a firme resolução de degradar suas criaturas e dominá- 
las, quando usa as expressões: “Porque Deus sabe que no dia em que dele 
comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem 
e o mal” (cf. Gn 3.5).
9o. O nono degrau foi descido pela mulher. A mulher agora desvia sua aten­
ção daquilo que Deus tinha falado, e passa a crer nas palavras do tentador. 
Ela ainda não sabia se aquela árvore era boa ou não para se comer. Seu 
fruto tanto podia ser doce, saboroso ao paladar, como ser amargo, e sem 
sabor para satisfação do gosto humano. Ela viu que a árvore era boa para 
se comer, ficou, cremos, entusiasmada. E além do mais, aquela árvore além 
de agradável aos olhos, era a “árvore desejável para dar entendimento”, o 
que levou-a a ceder (2 Co 11.3; 1 Tm 2.14). Ela bem podia ter resistido à 
sombria serpente “firme na fé”, e, sem dúvida alguma, ela tinha fugido para 
seu mundo de trevas (Tg 4.7). Mas, isso, ela não fez; então o fracasso foi 
inevitável (alterado).4
10°. O décimo degrau foi descido pela mulher. Novamente a mulher conti­
nua em ação, nesta trajetória do fracasso. Qualquer ser humano tem por op­
ção o direito de dizer: sim ou não. Mas a mulher não relutou pela segunda 
opção ao dizer não! Nesse caso, ela teria, com efeito, quebrado a seqüência 
da tentação, tomado-se vencedora. Com efeito, porém, obedecendo a voz 
do tentador, ela “tomou do seu fruto, e comeu” (Gn 3.6). A mulher cedeu, 
sendo enganada, e assim caiu em transgressão (2 Co 11.3; 1 Tm 2.14,15).
11°. O décimo primeiro degrau foi descido pela mulher. A ordem de não 
comer do fruto proibido, tinha sido originalmente dado a Adão. Parece que 
Eva quando comeu do fruto, não sentiu, aparentemente falando, nenhuma 
mudança de caráter e nem no seu ser. Ela, então, assume agora a “posição 
de tentadora”. Toma do fruto e diligentemente procura seu marido, o que 
devia tê-lo feito antes, até encontrá-lo. Quando o encontrou, parece ter lhe 
dito primeiro, isto é, antes de lhe dar o fruto, que ele (o fruto) era, um fruto 
da árvore do conhecimento do bem e do mal. Depois “deu também a seu 
marido, e ele comeu com ela”. Ao dizer a seu marido que aquele fruto, era
A Q u ed a d o H o m e m 81
de fato o fruto proibido, Adão ficou consciente de que fato o era. Além da 
informação dada por sua mulher, ele tinha também conhecimento daquela 
árvore e de seu fruto. Ele bem que podia tê-lo recusado e ter procurado aju­
da junto a Deus para si e para sua esposa. Isto é, perdão para ela e proteção 
para si mesmo. Se ele tivesse seguido nesta direção, teria evitado tamanha 
catástrofe sobre ele e a humanidade (Rm 5.12, 16-19). Seu ato de desobe­
diência fez tanto o pecado como a morte, se tomarem extensivos a todos 
os homens. Paulo diz que pelo pecado veio a morte, e que a morte passou 
a todos os homens. Depois declara o apóstolo, que a morte passou a reinar 
“sobre aqueles que não pecaram á semelhança da transgressão de Adão, o 
qual é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5.14).
12°. O décimo segundo degrau descido por Adão. Ele deu ouvidos à voz de 
sua mulher, e comeu da árvore proibida que Deus tinha lhe ordenado para 
que não comesse. Paulo diz séculos depois, que esta atitude de Adão foi 
puramente consciente e, que apenas sua mulher tinha sido enganada, mas 
ele comeu sabendo que aquele fruto era de fato o fruto proibido, que fazia 
separação entre a obediência e a desobediência. Então ele escreve: “Porque 
primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a 
mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Tm 2.13,14).
b) Termina o estado de inocência e começa o estado de consciência. Ve­
jamos as duas dispensações sucessivas que marcaram a vida de Adão e de sua 
esposa ‘antes’ e ‘depois’ do pecado:
I o. A dispensação da inocência. Esta dispensação teve início na criação — 
embora alguns tenham pensado que ela se iniciou quando apenas existia 
o Deus Trino e Uno. Ela se estende até a queda de Adão e de sua espo­
sa no jardim do Éden. O tempo de sua duração não nos foi revelado. Ela 
foi quebrantada em Gênesis 3.7, contudo, seu poder de ação terminou em 
Gênesis 3.24, com a expulsão do casal do Éden. As exigências, a serem 
cumpridas pelo casal ficam explícitas na aliança edênica que Deus fez com 
eles. Tais exigências eram as seguintes: multiplicar-se, frutificar-se, encher 
a terra, sujeitá-la e exercer domínio sobre o mundo animal. Acrescentam- 
se mais três: duas ligadas ao dever e a outra proibitiva (Gn 1.28; 2.15-17). 
Um estudo cuidadoso mostra-nos que, Adão e sua esposa não cumpriram 
nenhuma dessas ordens recebidas antes de pecarem. A fase de transição da 
dispensação da inocência para a da consciência, deu-se em Gênesis 3.7, 
quando se diz que ‘foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que 
estavam nus’.
82 A D o u t r in a d o P e c a d o
2o. A dispensação da consciência. Com a queda do homem tem início a 
dispensação da Consciência. Esta dispensação durou cerca de 1656 anos: 
isto é, de “0” a 1656 a.C. Ela começou com a expulsão do casal ali do Éden 
e vai até o Dilúvio. O homem agora estava capacitado para discernir tanto 
o bem como o mal. Devia, portanto, mostrar seu amor a Deus, escolhendo 
o caminho da obediência e abster-se de todo o mal que lhe cercava. Nela, o 
homem devia aproximar-se de Deus por meio de sacrifícios, cujas formas 
e significações tinham sido recebidas do próprio Criador. Eles (Adão e sua 
mulher) passaram da dispensação da inocência para a dispensação da cons­
ciência. Tal procedimento se deu no momento que os olhos de ambos foram 
abertos (Gn 3.7). Doravante tanto o homem como sua mulher passaram a 
ter conhecimento da linha divisória entre o bem e o mal. O próprio Deus fa­
lou para eles e para toda a humanidade, dizendo: “Eis que o homem é como 
um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, pois, para que não estenda a sua 
mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente (na mi­
séria)” (Gn 3.22). Esta dispensação termina com o Dilúvio (Gn 6.5,13).
2. O sofrimento do homem — ele contraiu a morte. Além do sofri- - 
mento laborioso causado pelo pecado, o homem também contrai para si quatro 
gêneros de morte. A morte que aquela árvore trazia em si, não era simplesmen­
te a morte física, separando a alma do corpo e vice-versa. Ela trazia um sentido 
mais vasto e mais profundo. Deus advertiu, dizendo: “...da árvore da ciência 
do bem e do mal, dela não comerão; porque no dia em que dela comeres, cer­
tamente morrerão” (Gn 2.17). Lamentavelmente, esse dia chegou. Doravante a 
morte começava a reinar em quatro dimensões da existência:
a) A morte moral. Adão e sua esposa esconderam-se da presença da san­
tidade divina quando ouviram a voz do Senhor que passeava no jardim pela 
viração do dia, porque conheceram que estavam nus. Adão alegou a Deus di­
zendo: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e me escon­
di” (Gn 3.10). Fisicamente falando, tanto Adão como sua esposa não estavam 
mortos. Eles continuavam a viver e somente 930 depois é que Adão veio a 
experimentar a morrer. O problema aqui era de ordem moral. O homem agora 
encontrava-se morto ao olhos de Deus quando este o inquiriu do ponto de vista 
moral (cf. Gn 20.3).
b) A morte física. Com o pecado de Adão no jardim do Éden, a morte por 
ele contraída passou a ser uma espécie de veículo transmissor. Partindo de um 
só homem (Adão), ela passou a atingir todos os seres humanos. Até mesmo
A Q u e d a d o H om em 83
aqueles que não pecaram à semelhança de Adão. É isso que o apóstolo Paulo, 
quando discorria sobre a natureza do pecado,disse: “Pelo que, como por um ho­
mem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte 
passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5.12). Doravante a 
sentença de morte passou de Adão aos seus descendentes. Assim “aos homens 
está ordenado morrerem uma vez vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27b). A 
conclusão de tudo isso é o que diz Eclesiastes: “um só pecador destrói muitos 
bens” (Ec 9.18b). A vida, portanto, foi um destes bens — lamentavelmente!
c) A morte espiritual. Este gênero de morte mostra o estado do pecador 
antes de aceitar Jesus como Salvador. Paulo falou para os crentes de Efeso 
que, mesmo eles estando vivos fisicamente falando, encontram-se “mortos em 
ofensas e pecados” (Ef 2.1). Este tipo de morte ainda não é a morte eterna que 
afasta toda e qualquer possibilidade do homem ser salvo. Ela apresenta um 
estado intermediário entre a salvação e a perdição da pessoa humana. Contu­
do, se o homem não optar pela salvação em Jesus, enquanto viver, esta morte 
espiritual intermediária pode conduzi-lo à segunda morte, que é a morte eterna, 
a qual caindo em suas garras, o homem perde toda a possibilidade de ser salvo 
ou de alcançar o caminho da redenção.
d) A segunda morte. A segunda morte refere-se à destruição eterna de que 
a pessoa sem Deus pode nela cair. Ela aponta para o estado eterno e perma­
nente de um lugar onde quem a ele chegar permanecerá numa existência triste 
e inativa. Em Apocalipse, encontramos, em vários lugares, referências sobre a 
“segunda morte” (Ap 2.11; 20.6,14; 21.8), sendo destinada aos vencidos, mas, 
que dano algum causará aos vencedores. Lamentavelmente, aqueles que vive­
ram sem Deus e o temor que lhe é devido, somente irão herdar a segunda morte 
como recompensa de sua vida dissoluta. Ao contrário daqueles que viveram e 
morreram na esperança da redenção de Jesus. Estes herdarão a vida eterna e o 
direito de comerem da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus, 
plantado na cidade celestial.
I I I . A Q u e d a d o H o m e m e o C u id a d o d e D e u s
1. O cuidado de Deus (do lado humano) pelo casal. Embora criados 
em estado de perfeita felicidade e em constante contato com Deus, Adão e sua 
mulher transgrediram a única proibição recebida. O primeiro efeito sensível 
do pecado foi a revolta das faculdades inferiores que se manifestou pela ver­
gonha de sua nudez. Por isso fizeram tangas de folhas de figueira e procuraram
84 A D o u t r in a do P e c a d o
esconder-se da presença de Deus. Flávio Josefo, historiador judeu do século I 
d.C., afirma que o fator principal que levou a serpente a tentar o casal, a fim de 
destruí-lo, foi a inveja. Assim ele descreve: “A serpente estava muito acostu­
mada com Adão e Eva. Como sua malícia a fizesse invejar a felicidade de que 
deviam gozar, se observassem a ordem de Deus e julgassem-na, que ao contrá­
rio, eles seriam vítimas de todas as desgraças, se desobedecessem, persuadiu a 
Eva a comer o fruto proibido. Para melhor induzi-la, disse-lhe que ele continha 
virtude secreta que dava o conhecimento do bem e do mal e que se seu marido e 
ela comessem dele, seriam tão felizes como Deus. Assim, ela enganou a mulher 
e esta desprezou a ordem de Deus, comeu do fruto, alegrou-se por tê-lo feito 
e induziu Adão a comê-lo também. Ao, como era verdade que esse fruto dava 
grandíssimo discernimento, eles logo perceberam que estavam nus e tiveram 
vergonha: tomaram folhas de figueira para se cobrirem e se julgaram mais feli­
zes do que antes, porque conheciam o que até então tinham ignorado”.5
a) Deus argui o casal. Ao ser arguido por Deus, Adão alegou como descul- l- 
pa o procedimento de Eva que, por sua vez, lançou a responsabilidade sobre 
a serpente. Mas em todo esse drama, podemos observar o grande cuidado de 
Deus em procurar o homem e sua mulher, mesmo depois do fracasso. Cer­
tamente havia no Jardim um lugar de encontro entre Deus e o casal. Agora, 
quando pela “viração do dia”, Deus ali chegando não os encontrou como das 
outras vezes. Adão confessa que de fato, ouvira a voz do Criador, mas fugiu 
com medo por entre as árvores a fim de se esconder (Gn 3.8).
Io. O interesse de Deus em salvar a Adão e sua esposa. Em todo o passo 
da narrativa de Gênesis 3, especialmente os w . 7-15, vemos o interesse de 
Deus em salvar o homem com sua mulher. Ao castigá-los, manifestou Deus 
sua misericórdia com a promessa de um Redentor. Mesmo sabendo que o 
homem e sua mulher tinham fracassado, Deus os procura como um pai 
compadecido. Primeiro o chamou, dizendo: “Onde estás?” (v. 9). Adão lhe 
respondeu que se encontrava distante. Isto é, distante da santidade divina. 
Ele, com sua esposa, tinham perdido o elo de comunhão que desfrutavam 
ao lado de Deus, especialmente, na “viração do dia” (v. 8). Mas agora o 
casal se encontrava do lado oposto e Deus não podia ir para lá. Agora, Deus 
põe seu plano em ação. Plano este que já se encontrava preparado “desde a 
fundação do mundo”.
2o. A narração de Flávio Josefo sobre o cuidado de Deus com o casal. Josefo 
diz que Deus se interessou pelo casal e procurou-o após sua queda. Ele disse: 
“Deus entrou no Jardim: Adão, que antes do pecado conversava familiarmen­
te com Ele, não ousou se apresentar por causa da falta que tinha cometido.
A Q u ed a d o H o m e m 85
Deus perguntou-lhe porque, em vez de sentir prazer em se aproximar dEle, 
ele fugia e se escondia. Como ele não sabia o que responder, porque se sentia 
culpado, Deus lhe disse: ‘Eu tinha provido tudo o que poderíeis desejar, para 
viver sem penas e com prazer uma vida isenta de todo cuidado e que teria 
sido ao mesmo tempo muito longa e muito feliz. Mas vós vos opusestes ao 
meu desígnio, desprezastes a minha ordem e não é por respeito que vos ca­
lais, mas porque vossa consciência vos acusa’. Adão, então, fez o que podia 
para se desculpar, pediu a Deus que lhe perdoasse e lançou sua falta sobre a 
mulher, que o havia enganado e que tinha sido a causa de seu pecado. Ela, por 
sua vez, disse que fora a serpente que a havia enganado. Por isso Deus, para 
castigar Adão por assim se ter deixado vencer, declarou que a terra não pro­
duziria mais frutos, a não ser para aqueles que a cultivassem com o suor do 
rosto e não daria, mesmo, tudo o que se poderia desejar dela. Castigou tam­
bém Eva, ordenando que, por se haver deixado enganar pela serpente, tinha 
atraído tantos males sobre seu marido, ela teria filhos com dor e sofrimento. 
E, para castigar a serpente pela sua malícia, condenou-a a rastejar pela terra; 
declarou que ela seria inimiga do homem. Depois que Deus lhes impôs, a 
todos, o devido castigo, expulsou Adão e Eva desse jardim de delícias”.6
b) Deus cria um elo de ligação entre Si e o casal. Deus como Criador, 
usando de sua misericórdia, cria um elo de ligação entre Si e o casal, que tinha 
sido partido. Entretanto, o plano que Ele tinha preparado, incluía a morte de 
seu Filho unigênito, pois somente através dele e por meio dela, seria, então, 
restaurado o elo de comunhão entre Deus e o homem. Não havia outro caminho 
intermediário para que isso pudesse acontecer; visto que “há um só Deus, e um 
só Mediador entre Deus e o homem, Jesus Cristo homem”, quer dizer: humani­
zado (1 Tm 2.5). Então surge dos lábios de Deus a promessa do Redentor. Agora 
o Senhor disse: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e 
a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (v. 15). Esta 
promessa divina não só trouxe esperança para o coração de Adão e sua espo­
sa, mas por extensão, para toda a humanidade. Pois, evidentemente, “Vindo a 
plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob 
a lei, para remir os que estavam debaixo da lei...” (G14.4,5). Cristo, tomou-se, 
portanto, o meio primordial da salvação da pessoa humana. Ele “foi feito por 
Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”, para remir os que estavam 
debaixo da lei divina e da lei do pecado, entre os quais, Adãoera um deles.
c) Deus veste o casal. O primeiro efeito sensível do pecado foi, que, o 
casal sentiu a fragilidade de sua nudez. Esta se manifestou pela vergonha que
86 A D o u t r in a d o P e c a d o
a falta das vestes lhe causara. Por isso Adão e sua esposa coseram folhas de 
figueira, e fizeram para si aventais. Aqui, está novamente a presença de Deus, 
manifestando sua misericórdia em relação ao casal que acabara de perder suas 
vestes espirituais, por causa do pecado. Agora, novamente há um ato bondoso 
de Deus em cobrir a nudez do casal, conforme está descrito pelo escritor sagra­
do: “E fez o Senhor Deus a Adão e a sua mulher túnicas de peles, e os vestiu” 
(v. 21). Para que isso acontecesse foi necessário que um cordeiro ou cordeiros 
fossem mortos ali; a morte daquele animal inocente, apontava para a morte de 
Cristo, 0 Cordeiro de Deus, que por meio de sua expiação cobre toda a nudez 
espiritual, e no sentido moral, influi também contra a nudez propositada do ser 
humano (Ap 3.17,18).
d) Deus estabelece um novo lar para o casal. Após dar ao homem e sua 
mulher várias instruções, Deus agora, permite a eles que morem na terra e con­
duzam consigo aquela mesma promessa que receberam antes de pecar, quando 
Ele disse: “Frutificai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a...” (Gn 1.28). Embora 
tenha os lançado fora do Jardim, Deus ordenou a Adão que ele cuidasse da ter­
ra e que dela extraísse o seu sustento para si e para sua prole. Assim diz o texto 
divino: “O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar 
a terra de que fora tomado” (Gn 3.23). Nos versículos 17-19 que temos aqui 
nesta seção, Deus impõe à Adão e a sua mulher os castigos de suas culpas.
I o. Para Eva Deus disse: “Multiplicarei grandemente a tua dor. e a tua con­
ceição; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te 
dominará”.
2o. Para Adão Deus disse: “Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e 
comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela; maldita 
é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida. 
Espinhos, e cardos também, te produzirá, e comerás a erva do campo. No 
suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tomes à terra”.
Nestes trechos que acabamos de ler, vemos o cuidado por parte de Deus, ins­
truindo a Adão e sua mulher à procriação e sua sobrevivência. Isso, sem dúvida, 
mostra proteção divina para a vida de ambos com promessas para o fúturo.
e) Deus dá semente à Eva. O aguilhão da morte que é o pecado, não teve 
poder de destruição sobre a fertilidade de Adão e Eva. Deus quando os criou, 
os declarou fecundos (Gn 1.28). Agora, mesmo depois do fracasso de ambos, 
Ele cumpre a sua promessa e promete semente a mulher, dizendo: “E porei ini­
mizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá
A Q u ed a d o H o m e m 87
a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Todos os estudiosos da Bíblia 
sabem que esta promessa de Deus feita à Eva no Jardim, se refere a Cristo. 
Ele seria, portanto, a semente da mulher que num futuro distante, no calvário, 
esmagaria a cabeça da serpente, que é Satanás.
2. O cuidado de Deus (do lado espiritual) pelo casal. Alguns co­
mentaristas sustentam que, com o perdão divino outorgado a Adão e sua es­
posa, a imagem de Deus foi sendo recuperada progressivamente no homem. 
O processo completo, se dando, portanto, com a vinda de nosso Senhor Jesus, 
como sendo o “último Adão”, “o qual é a imagem do Deus invisível, o pri­
mogênito de toda a criação” (Cl 1.15). Agora, em Cristo “todos nós, com cara 
descoberta, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transforma­
dos de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2 
Co 3.17,18). Foi o que Paulo, falou para os coríntios, quando disse: “E, assim 
como trouxemos a imagem do terreno (Adão), assim traremos também a ima­
gem do celestial — Cristo” (1 Co 15.49). Assim, a imagem de Deus perdida em 
Adão, é por conseguinte, restaurada em Cristo e por Cristo, que é a “imagem 
de Deus”. Doravante, se “alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas ve­
lhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5.17). Contudo, esta restaura­
ção e transformação total dum velho homem para um novo homem, é feita pelo 
próprio Deus, por meio de Cristo. “Porque os que dantes conheceram também 
os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8. 29a).
a) Adão fo i salvo? Sobre este ponto de vista que diz respeito a salvação 
de Adão e também a salvação de sua esposa, abordaremos vários pontos, que 
nos levarão a uma melhor compreensão do significado do pensamento. Com 
a promessa de Deus feita à mulher no Éden, abriu-se o caminho da redenção. 
Cristo ainda não tinha morrido, fisicamente falando, no calvário, mas no eterno 
querer de Deus, Ele já tinha sido imolado, desde a fundação do mundo. Adão 
e sua esposa receberam as instruções de Deus, no tocante a isso, para que 
pudessem ensinar a sua prole, ou seja, as gerações futuras. Assim, podemos 
deduzir que, no tocante a salvação de Adão depois de seu fracasso, há possibi­
lidades que apontam para esta direção. As Escrituras mostram todas as provas 
e evidências desse delito; porém, ao mesmo tempo, mostram serem elas fracas 
e insuficientes quando comparadas ao supremo sacrifício de Cristo como pro- 
piciação dos pecados. Nesse sacrifício, existe por parte de Deus uma oferta, 
oferecida a todos; e, a morte de Cristo, desde a fundação do mundo, deve ter 
sentido especial. E Deus oferece uma oportunidade para todo aquele que crê no 
valor expiatório da morte de Cristo. Se Cristo já tinha morrido no eterno querer
A D o l t r in a do P e c a d o
de Deus, desde a fundação do mundo, que antecede a criação de Adão e de sua 
mulher, esta oferta por parte de Deus já se encontrava em evidência quando 
o homem pecou. Jesus, durante sua vida terrena, mostrou o grande perigo de 
sua rejeição, dizendo: “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados, 
porque, se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” (Jo 8.24). 
Certamente desde os tempos imemoráveis, quando somente existia o Deus Tri- 
no e Uno, Cristo já era parte do plano divino na obra da redenção. Em o Novo 
Testamento, Jesus retratou a vida humana ideal como a vida de comunhão com 
Deus. Jesus localiza a “fonte” do pecado no íntimo dos homens. Dessa maneira 
Jesus aprofundou muito o senso da culpa. O padrão elevadíssimo de sua própria 
vida tomou-se a medida da obrigação humana, e, ao mesmo tempo, o critério 
do julgamento contra o “pecado” nas três divisões maiores da pessoa humana: 
espírito, alma e corpo. Mas, mostrou que sua redenção é completa para justificar 
o homem no seu todo dando-lhes a promessa da vida presente e da que há de 
vir. No caso de Adão e de sua mulher não existe exceção por parte de Deus; e, 
existem vários pontos que nos levam a aceitar a redenção de Adão, mesmo que 
estes não apresentem maiores esclarecimentos no tocante a isso, mas podem 
ser analisados através do método de dedução, quando estes são visualizados no 
contexto da misericórdia divina. Analisaremos alguns destes pontos e depois 
chegaremos a uma conclusão dentro do nosso próprio raciocínio.
Io. A genealogia de Jesus — ligando-o a Adão. Este argumento aponta para 
a genealogia que liga Adão a Cristo. Ela é a genealogia da humanidade que 
fora feita por Lucas em seu Evangelho. Diferente da de Mateus 1, que é 
puramente judaica — começando por Cristo, passando por Davi e desce até 
Abraão. Agora, ligaremos a palavra “filho de...” partindo de Cristo e indo 
“até” a Adão — onde se diz que ele é “filho de Deus”. “E o mesmo Jesus co­
meçava a ser de quase trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de... Adão 
e Adão de Deus” (Lc 3.23, 38). O pecado é a falta de comunhão. Adão per­
deu esse elo entre si e Deus, quando desobedeceu sua ordem divina; entre­
tanto, Deus o procurou para lhe mostrar “o caminho da cruz de Cristo” (Gn 
3.15). Cremos que na mente de Adão e desua mulher, soava constantemente 
o som das palavras do Criador com respeito a esta promessa, que envolvia 
a “semente da mulher” que era Cristo. Então Adão entendeu que, aquela 
“semente” era divina; mas que do ponto de vista humano de observação, 
ela seria cumprida por intermédio dele e de sua mulher, através da sucessão 
das famílias nas gerações que se seguiam, que lhe levou evidentemente, a 
procurar orientar seus filhos nos retos caminhos do Senhor (Gn 4.4, 26).
2o. A pureza de Cristo com relação a Adão. Então aqui, agora surge a per­
gunta feita e respondida pela própria Bíblia: “Quem do imundo tirará o
A Q u ed a d o H o m e m 89
puro? [é a pergunta]: agora vem a resposta: Ninguém” (Jó 14.4). Cristo 
quando se humanizou, ligou sua origem humana a origem da humanidade. 
Sua genealogia desce de Maria até Davi; e de Davi até Abraão. Mas não 
para aí; ela segue de Abraão até Adão, onde esse se liga diretamente como 
“filho de Deus”. Nesse caso, se Adão depois de sua queda, não tivesse 
alcançado a redenção divina por parte de Deus — com base já no sacrifício 
de Cristo, jamais nosso Senhor viria de tal pessoa, visto que Adão seria 
“imundo” e não poderia ligar sua descendência a Cristo que é “puro”.
3o. A confissão de Adão. A Bíblia diz em Provérbios 28.13: “O que encobre 
as suas transgressões, nunca prosperará, mas o que confessa e deixa, alcan­
çará misericórdia”. Em Jó 31.33, se declara que Adão a princípio “encobriu 
suas transgressões, ocultando o seu delito no seu seio” [parafraseado], mas 
depois as Escrituras revelam — ali mesmo em Gênesis 3, que quando foi 
arguido por Deus, Adão confessou que de fato tinha comido do fruto, indu­
zido pela mulher. Nesse sentido ele confessa suas transgressões e as deixa. 
Nunca mais ele entraria no Jardim para comer novamente daquele fruto 
proibido. Abrindo-se assim o “caminho”, para que o mesmo alcançasse 
misericórdia.
4o. Cristo morreu por todos. Jesus Cristo, o Filho eterno de Deus, veio ao 
mundo, porque todos pecaram e destituídos ficaram da glória de Deus. As­
sim, as Escrituras declaram que “todos pecaram”, isto é, por meio de Adão 
todos foram atingidos pelo pecado. Também se adianta que o salário do 
pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por meio de 
Jesus nosso Senhor (Rm 6.23). Doravante, por meio de Cristo Jesus, eviden­
temente, todos podem ser salvos. Cristo quando veio a este mundo, veio por 
causa dos homens; e, quando morreu, morreu em favor de todos os homens. 
A Bíblia afirma que Ele “morreu por todos, para que os que vivem não 
vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 
Co 5.14); doravante, diz Paulo em 1 Coríntios 15.22: “Porque, assim como 
todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo”. 
A condição imposta por Deus em todo este processo, é somente crê que Je­
sus Cristo é seu Filho, e que Ele é “o caminho, e a verdade e a vida”, e que 
ninguém poderá entrar no céu, a não ser por meio de Jesus Cristo e de sua 
morte na cruz. Fora disso, não existe nem caminho para o céu e nem nome 
para redenção, Cristo é o único “mediador” entre Deus e os homens.
5°. A sabedoria de Deus. A sabedoria do Criador exige que Ele não destrua 
sua obra; o arquiteto não constrói para demolir; e, o prazer de Deus, de 
acordo com sua natureza e seus princípios eternos, era, com efeito, não ver
9 0 A D o u t r in a do P e c a d o
sua obra destruída e sendo lançada para “o nada da existência”. A Bíblia do 
começo ao fim, fala do pecado de Adão; mas jamais falou uma vez sequer 
em termos reais de sua perdição eterna. Não devemos arranjar uma “salva­
ção qualquer” para Adão; mas seu caso é diferente do de Judas Iscariotes, 
que era “um filho da perdição”; e, portanto, devemos olhar seu caso por 
uma outra ótica embasada na misericórdia daquEle que o criou.
6o. Adão era uma figura de Cristo. Adão era uma figura daquele que ha­
via de vir. “No entanto a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre 
aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual 
é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5.14). Em 1 Coríntios 15.45-49, 
Paulo faz uma comparação entre Adão e Cristo, dizendo: “Assim está tam­
bém escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente: o último 
Adão [Cristo] em espírito vivificante. Mas não é o primeiro o espiritual, 
senão o animal; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno; 
o segundo homem [Cristo], o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são 
também os terrenos; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim 
como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem 
do celestial”. Ora, jamais o Espírito Santo, inspiraria a Paulo para tal ilus­
tração entre Cristo e Adão se este tivesse permanecido na perdição eterna, 
sem retomo à misericórdia de Deus. Como seria então permitido se dizer: 
“Adão... é a figura daquele que havia de vir”, isto é, Cristo.
7o. A glória que se havia de revelar. Na sua Oração Sacerdotal, em João 17,. 
Jesus orou em três partes, a saber:
(I) Orou por Si mesmo (w. 1 -8).
(II) Orou pelos seus discípulos (w. 9-19).
(III) Orou por aqueles que viriam a serem salvos, do Pentecostes ao arre- 
batamento (v. 20).
Quando Jesus orava ao Pai por Si mesmo, fazia menção da glória divina 
com a qual o Pai o glorificou “antes que o mundo existisse” (vv. 5,24). 
Esta glória era ligada à redenção e, por extensão, ligada diretamente ao 
amor divino, que aqui está em foco. Quando Deus criou o casal, o envol­
veu com esta glória; por esta razão “ambos estavam nus, o homem e sua 
mulher, e não se envergonhavam” (Gn 2.25). Eles perderam esta glória 
que os cobria como um manto de santidade. Contudo, através da semente 
da mulher (Cristo), esta glória novamente poderia alcançá-los, e eles pela 
fé, puderam vê-la num futuro distante. Ela é a glória que se havia de re­
velar (cf. 1 Pe 5.1).
A Q u ed a d o H o m e m 91
8o. Um casamento perfeito. Quando Jesus foi arguido pelos fariseus com 
relação ao divórcio, ele toma como exemplo de união perfeita, Adão e sua 
mulher, dizendo: “Não tendes lido que aquele que os fez [Adão e Eva] no 
princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto deixará o homem pai e 
mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só came?” (Mt 19.4,5). 
Estas palavras de Jesus nos levam a entender que, no lar de Adão e sua 
esposa, mesmo depois da queda de ambos, continuou o temor seguido pela 
adoração. Lemos logo a seguir que, Abel era temente a Deus, e que Enos 
neto de Adão, começou a “invocar o nome do Senhor” (Gn 4.26). Isso não 
podia acontecer por acaso, mas certamente foi por meio da orientação de 
Adão e de sua esposa.
9o. Deus restabelece sua imagem e semelhança no homem. Em nosso pre­
sente estudo, devemos ter, em nossas mentes, dois pontos fundamentais 
que envolvem a “imagem” e a “semelhança” de Deus no homem, pois, 
somente assim, haverá uma melhor compreensão do significado do pensa­
mento e da tese principal, que aqui está em foco.
(I) A imagem de Deus. “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, 
conforme a nossa semelhança [...] e criou Deus o homem à sua imagem; 
à imagem de Deus o criou” (Gn 1.26,27). O Dr. Graham Scroggie obser­
va que, originalmente, aparece a “imagem de Deus”. Porquanto, esta é a 
“substância espiritual da alma”. Adão fora feito à “imagem de Deus”, que 
depois se apresentou como sendo um Deus santo. Portanto, o homem foi 
feito à “imagem” de um santo. Mas, no caso de Sete, a ordem é invertida: 
quem aparece primeiro é a “semelhança” e não “a imagem” (Gn 5.3), isto é, 
Sete não trouxe a imagem do Deus Santo, quer dizer, “do homem celestial”, 
mas trouxe a “imagem do terreno”, conforme descreve Paulo por amor de 
seu argumento. Então ele diz: “E, assim como trouxemos a imagem do 
terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15.49). Sete 
não trazia mais a imagem de Deus, como originalmente trouxera seu pai, 
quando Deus o criou. Mas, ao nascer, trouxe, agora, a imagem de seu pai, 
quetinha se tomado um pecador. Não encontramos registrado nas Escritu­
ras que o anjos, que foram criados por Deus, foram feitos de acordo com 
“Sua imagem e semelhança”; embora, se assim foi, não deve existir argu­
mento contrário contra esta possibilidade. Contudo, não se diz isso, ainda 
que estes seres espirituais gozem de um privilégio de possuir, em si, a natu­
reza da imortalidade. De todas as criaturas que Deus criara e fizera, somen­
te o homem foi feito “à imagem de Deus”. Esta imagem, de acordo com 
Scroggie, “é a substância espiritual da alma” e, neste caso, ela não pode ser 
perdida no sentido de aniquilamento. Sua perda, aqui, portanto, é moral e
92 A D o u t r in a d o P e c a d o
não destrutiva. Assim Deus, por meio de Jesus Cristo, pode restaurar, nova­
mente, sua imagem no homem, quando ele passa a fazer a sua vontade. Al­
guns comentaristas sustentam que, com o perdão divino outorgado a Adão 
e sua esposa, a imagem de Deus foi sendo recuperada, progressivamente, 
no homem. O processo completo, se dando, portanto, com a vinda de nosso 
Senhor Jesus, como sendo o “último Adão”, “o qual é a imagem do Deus in­
visível, o primogênito de toda a criação” (Cl 1.15). Agora, em Cristo, “todos 
nós, com cara descoberta, refletindo como um espelho a glória do Senhor, 
somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo 
Espírito do Senhor” (2 Co 3.17,18). Foi isso que Paulo falou para os cristãos 
de Corinto, quando disse: “E, assim como trouxemos a imagem do terreno 
(Adão), assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15.49). As­
sim, a imagem de Deus perdida em Adão é, por conseguinte, restaurada em 
Cristo e por Cristo, que é a “imagem de Deus”. Doravante, se “alguém está 
em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez 
novo” (2 Co 5.17). Contudo, esta restauração e transformação total de um 
velho homem para um novo homem, é feita pelo próprio Deus, por meio de 
Cristo. “Porque os que dantes conheceu também os predestinou, para serem 
conformes à imagem de Seu Filho” (Rm 8. 29a).7
(II) A semelhança de Deus. De acordo com Gênesis 1.26, o homem foi criado 
conforme à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26). O homem se asseme­
lha a Deus pelo fato de possuir natureza racional e religiosa ao mesmo tempo. 
A capacidade do homem a esse respeito é a origem de todo o conhecimento 
científico. Ele interpreta a significação da natureza e descobre que ela traz os 
sinais da razão. A palavra hebraica para “imagem” (tselem) como o termo 
hebraico “semelhança” {de 'mut) se referem a algo similar, mas não idêntico 
à coisa que elas representam ou aquilo de que são a “imagem”. Nesse caso, a 
semelhança é o caráter moral separável da substância e, por isso, foi perdida 
quando o homem pecou. Mas, pelo que parece, tanto a semelhança como a 
imagem, foram restauradas por Deus, por meio do processo da santidade. O 
homem compreende a Deus por motivos dos sinais de inteligência no mundo 
ao redor de cada coisa existente. A razão do homem assim corresponde à 
razão de Deus, dentro deste argumento e tese principal.
Aspectos específicos mostram a semelhança do homem com Deus. Sendo 
feito conforme a semelhança de Deus, o homem está associado a Ele em 
vários de seus aspectos, tais como:
(1) Aspectos morais. Somos criaturas moralmente responsáveis diante de 
Deus por nossas ações. No que se refere à responsabilidade, temos o senso
A Q u e d a d o H o m e m 93
interior do que é certo e do que é errado, o que nos diferencia dos animais 
(que possuem pouco ou nenhum senso inato de moralidade ou de justiça, 
mas simplesmente respondem pelo temor de punição ou pela esperança de 
recompensa). Quando agimos de acordo com os padrões morais de Deus, 
nossa semelhança a Ele se reflete na conduta santa e justa diante dEle, mas, 
ao contrário, nossa semelhança a Deus é refletida quando pecamos.
(2) Aspectos espirituais. Temos não somente corpo físico, mas também 
espírito imaterial, e podemos, portanto, agir de maneiras significativas no 
reino imaterial e espiritual em que existimos. Isso significa que temos vida 
espiritual, que nos capacita a nos relacionarmos com Deus como pessoas 
que somos, e também temos imortalidade: nunca cessaremos de existir, 
mas viveremos para sempre.
(3) Aspectos mentais. Temos a capacidade de raciocinar, de pensar logica­
mente e de aprender, o que nos separa do mundo animal. Os animais, às 
vezes, exibem conduta notável em decifrar labirintos ou em resolver proble­
mas no mundo físico, mas, certamente, não penetram em raciocínios abs­
tratos — não há nada neles semelhante à “história da filosofia canina”, nem 
temos, de forma alguma, desde a criação, quaisquer animais desenvolvidos 
no entendimento de problemas éticos ou no uso de conceitos filosóficos e 
coisas semelhantes. Nenhum grupo de chimpanzés jamais se assentará ao 
redor de uma mesa argumentando sobre a doutrina da Trindade ou sobre os 
méritos relativos do calvinismo, arminianismo e outros! De fato, mesmo no 
desenvolvimento das habilidades físicas e técnicas, somos muito diferentes 
dos animais. Os castores ainda constroem as mesmas espécies de diques que 
vêm construindo há milhares de gerações, os pássaros ainda constroem as 
mesmas espécies de ninhos, e as abelhas ainda constroem as mesmas espé­
cies de colmeias. Com efeito, porém, nós, os seres humanos, continuamos 
a desenvolver habilidades e complexidade cada vez maiores na tecnologia, 
na agricultura, na ciência e praticamente em cada campo de trabalho. Nossa 
semelhança a Deus é também ilustrada pelo uso que fazemos de linguagem 
abstrata e complexa, nossa consciência do futuro distante e o espectro de 
nossa atividade criativa em áreas como arte, música, literatura e ciência. 
Tais aspectos da existência humana revelam as formas pelas quais diferimos 
completamente dos animais, mas não simplesmente em grau. Além disso, 
o grau e a complexidade das emoções humanas indicam exatamente quão 
grande é a diferença entre a raça humana e o restante da criação.
(4) Aspectos relacionais. Em adição à capacidade de se relacionar com 
Deus (discutida anteriormente), há outros aspectos relacionais em ser feito
9 4 A D o u t r in a do P e c a d o
à imagem de Deus. Embora, indubitavelmente, os animais tenham algum 
senso de comunidade uns com os outros, a profundidade de harmonia inter­
pessoal experimentada no casamento entre seres humanos, na família hu­
mana quando ela funciona de acordo com os princípios de Deus e na igreja 
em que uma comunidade de crentes anda em comunhão com o Senhor e 
uns com os outros é muito maior que a harmonia interpessoal experimen­
tada pelos animais. Especificamente, foi dado ao homem o direito de go­
vernar sobre a criação e a autoridade (quando Cristo retomar à terra) para 
sentar no tribunal para julgar e em seu trono para governar (Gn 1.26,28; SI 
8.6-8; Mt 19.28; ICo 6.3) e alhures.8
(5) Aspectos operacionais. Neste sentido, os homens se assemelham a Deus 
em suas funções laborais, sejam elas de ordem material ou espiritual.
C3 Do lado material. A ordem divina para com os homens é esta: “Seis 
dias trabalharás, e farás toda a tua obra [...] porque em seis dias fez o Se­
nhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou”
(Êx 20.9,11). Trabalhando seis dias e descansando no sétimo, Deus orde­
nou aos homens que procedessem da mesma maneira. Quando os homens 
assim procedem, estão, simplesmente, se assemelhando a Deus, e, cum­
prindo deste modo, a solicitação divina que diz: “Sede, pois, imitadores de 
Deus, como filhos amados” (Ef 5.1).
cg Do lado espiritual. Quando pensamos em nos assemelharmos a Deus 
do lado espiritual, não pensamos no descanso. Neste sentido, não existe tré­
gua! Deus não descansou de seus labores e continua trabalhando, conforme 
disse nosso Senhor Jesus Cristo, que disse: “Meu Pai trabalha até agora, e 
eu trabalho também” (Jo 5.17).
b) Eva fo i salva? Esta é uma outra pergunta que se encontra ligada di- - 
retamente aomesmo procedimento de Adão. Em 1 Timóteo 2.13-15, Paulo 
liga a palavra “salvação” em relação a Eva, quando diz: “Porque primeiro foi 
formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo 
enganada, caiu em transgressão.
cg “Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos". Quando analisamos o pensa­
mento de Paulo aqui num cômputo geral, podemos deduzir que, a salvação 
de Eva, dependia de sua posteridade; através da qual viria a "semente" 
prometida em Gênesis 3.15, que seria o Cristo, "nascido de mulher, nas­
cido sob a lei" (G1 4.4). Quando Caim nasceu, Eva até pensou que fosse 
aquela semente que esmagaria a "cabeça da serpente", dizendo: "Alcancei 
do Senhor um varão" (Gn 4.1). Mas tal não foi a sua surpresa: Caim não era
A Q ueda d o H o m e m 95
a semente prometida, porque Caim "era do maligno" (1 Jo 3.12) e foi tam­
bém esmagado pela serpente. Então Eva, transferiu a sua atenção para seu 
segundo filho, Abel. Mas Abel foi morto por seu irmão. E quando nasceu 
Sete, que quer dizer "compensação" ou "renovo", que também significa um 
dos "nomes de Cristo", Eva bradou dizendo: "Deus me deu outra semente 
em lugar de Abel, porquanto Caim o matou" (Gn 4.25). Cremos que Adão 
e Eva foram os primeiros a receberem o perdão. As primeiras pessoas a re­
ceber o perdão por suas faltas sem dúvida alguma foram eles. Pressupõe-se 
em Gênesis 3.9-21 seu arrependimento e perdão; Deus em Cristo perdoou 
o casal (cf. Ef 4.32), ainda que isso não esteja explícito. A confissão de am­
bos foi um tanto tumultuada; mas isso é evidente diante da angústia mental 
que ambos passavam naquele momento. Adão lançou a culpa na esposa, 
e esta condenou a serpente. Deus compreendeu tudo isso, e em meio ao 
sofrimento do casal, mostrou-lhes sua bondade e amor.
3. O cuidado de Deus (do lado fraterno) pela fam ília. As instru­
ções que foram dadas aos seus filhos. Ao fazer a promessa da vinda do Reden­
tor, em Gênesis 3.15, conclui-se que, no dia em que Deus vestiu Adão e Eva, 
ele também lhes deu instruções a respeito do significado do sangue expiador. 
Também, de igual modo, o significado da eficácia da oração a Deus. Depois, 
eles passaram a seus filhos o que ambos significavam. Cremos que como Deus 
é o mesmo, as instruções que Ele ordenou a Moisés que dissessem aos pais 
dos filhos de Israel, que falassem em suas casas aos filhos de sua grandeza e 
de sua bondade: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; 
e as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando 
pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua 
mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de 
tua casa, e nas tuas portas” (Dt 6.6-9). Evidentemente, estas instruções foram 
dadas por Deus a Adão e sua esposa e eles as passaram para seus filhos. Está 
bem claro que Abel, o segundo filho de Adão, era um crente fiel a Deus. Adão 
e sua mãe tinham instruído tanto a ele como a seu irmão (Caim), a respeito 
do sacrifício substituto do sacrifício vicário do Cordeiro de Deus; o que fica 
evidenciado por seu sacrifício, quando ofereceu a Deus um cordeiro inocente 
das primícias de seu rebanho (Gn 4.4). Abel foi morto por seu irmão Caim. 
Mas o casal deu novamente instruções a Sete e aos outros seus filhos. Dali de 
Sete, partiram as famílias adâmicas até Noé, onde essas famílias são destruídas 
pelo Dilúvio e através dos três filhos de Noé [Sem, Cão e Jafé], tem-se nova­
mente uma expansão das famílias na face de toda a Terra. Depois, Deus elege 
a Abraão, descendente de Noé, por meio de Sem, como família escolhida para
9 6 A D o u t r in a d o P e c a d o
sua adoração, e que através da mesma, viesse o Cristo, que seria a “semente 
da mulher”. A promessa do nascimento de Cristo envolveria “duas mulheres”, 
a primeira seria Eva, como mãe da humanidade; a segunda seria Maria, como 
mãe do Salvador da humanidade. Eva, quer dizer a “mãe da vida”; seria a mãe 
de Cristo que, é a “vida” por extensão, enquanto que Maria, seria sua mãe bio­
lógica no sentido mais literal do termo. Nesse caso, a redenção de Eva seria 
assegurada devido a extensão da promessa de Deus em relação a seu Filho (Gn 
3.15; Lc 1.28,30,42,48; 1 Tm 2.14,15). Nosso argumento neste capítulo em de­
fesa de Adão e de sua esposa, não se prende a isentar a ambos, isto é, Adão e sua 
esposa da culpa do pecado. Eles pecaram e foram punidos por Deus. Apenas, 
com efeito, queremos mostrar ao leitor que, mesmo com o fracasso do casal, 
Deus agiu depois do pecado e queda do homem ali no Jardim. Não pode existir 
justificação fora do sacrifício de Cristo, que morreu na cruz com esta finalidade; 
com efeito, porém, devemos ter em mente que, Cristo já tinha se oferecido a 
Deus como propiciação dos pecados da humanidade; e Deus através de Cristo, 
sempre perdoou e oferece o seu perdão a todo aquele que nEle crê (Jo 3.16). 
Cristo é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.
1 WIKIPÉDIA, enciclopédia livre. Acesso: 31/12/2009
2 BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. J. M. Bentes e W. J. Goldsmith (tradutores). São 
Paulo: Imprensa Batista Regular, 2001, p. 213.
3 RICHARDS, L. Comentário Bíblico do Professor. Ia Ed. São Paulo: Editora Vida, 2004, 
p. 38.
4 BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. J. M. Bentes e W. J. Goldsmith (tradutores). São 
Paulo: Imprensa Batista Regular, 2001, pp. 212-213.
5 JOSEFO, F. História dos Hebreus: Antiguidades Judaicas, Livro Primeiro. 8a Ed. Rio de 
Janeiro: CPAD, 2004, p. 76.
6 JOSEFO, F. História dos Hebreus: Antiguidades Judaicas, Livro Primeiro. 8a Ed. Rio de 
Janeiro: CPAD, 2004, p. 77.
7 McNAIR, S. E. ABíblia Explicada, 17a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 19
8 GRUDEM, W. Teologia Sistemática : uma introdução aos princípios da fé. São Paulo: 
Editora Vida, 2001, pp. 206-207.
O P r o b l e m a do M al
98 A D o u t r in a d o P e c a d o
I . A O r ig e m d o M a l
1. As opiniões diversificadas sobre a origem do mal. Já tivemos a 
ocasião de falar sobre a origem do mal, em sentido tópico e não analítico, no 
capítulo primeiro deste livro. Agora, aqui neste capítulo, falaremos em sentido 
mais extenso, ainda que de maneira abreviada, no tocante a origem do mal. Ou- 
trossim, abordaremos vários temas e opiniões que estão envolvidos nesta ques­
tão. Uma das maiores questões a ser resolvidas para os filósofos e teólogos de to­
dos os tempos, é o problema do mal. Necessariamente, são usadas duas palavras 
nas Escrituras, em relação ao “mal” com sentidos completamente distintos.
a) O mal no sentido rudimentar. O sentido que se dá ao mal que aqui está 
em foco, refere-se ao “mal” no sentido mais rudimentar do termo de origem 
completamente maligna.
b) O mal que é criado por Deus. Aqui neste tópico, a palavra ‘mal’, quan­
do se diz que “Deus cria o mal”, conforme diz em Isaías 45.7: “Eu formo a 
luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas 
coisas” . No texto em hebraico, a palavra usada aqui para o “mal” é RA e, 
necessariamente não significa pecado, mas quer dizer, “tristeza” ou “aflição” 
que pode levar uma pessoa ao arrependimento (2 Co 7.10); também muitas 
vezes não se sabe a origem dessa espécie de “mal” (Is 47.11). Se existe um 
Deus Todo-Poderoso, Todo-bondoso e Onisciente, por que Ele permitiu que 
tanta maldade e tanta agonia existam neste mundo? Perguntam-se todos. Tem 
sido apresentado de muitas maneiras, e respondido com as mais diferentes 
respostas, o mistério do mal. Para os filósofos existem três tipos de males, o 
moral, o físico e o metafísico. O físico sendo apenas uma conseqüência de um 
mal maior que seria o metafísico. O mal chamado físico e moral, que domina o 
mundo humano, é algo bem patente aos olhos de todos. Basta lembrar o sofri­
mento e a morte. Bem como a ignorância e a concupiscência em sua atual 
intensidade — cada dia mais afastam as pessoas da razão natural.
2. O conceito do ZERO — E O — NADA na existência do mal.
O número zero representa o nada, ooutro lado — que não é o lado 
do bem (Hb 12.1).
2. A realidade do pecado. Negar a existência do pecado é negar por ex­
tensão a veracidade da Escritura. Ela, no seu escopo geral, afirma do princípio 
ao fim que o pecado existe. O pecado é qualquer transgressão contra a vonta­
de revelada de Deus. Para quem tem olhos para ver, o pecado está manifesto 
por toda parte. Realmente deve estar com visão enfraquecida quem não vê
1 2 A D o u t r in a d o P e c a d o
as operações arruinantes, maléficas, torcidas, brutais e bestiais do pecado, no 
mundo em geral e na vida humana. E além disso, após pecar contra Deus o ho­
mem tomou-se sensível ao pecado. Quando o homem peca por qualquer razão 
ou motivo, ele sente o remorso da consciência, devido ao mal praticado e, em 
alguns casos, sofre as conseqüências da ação praticada contra Deus ou contra 
a sociedade. O homem é dotado de uma consciência sensível. O animal não 
possui esta consciência com sensibilidade de culpa. O homem quando comete 
um crime (peca), sua tendência é fugir do local e ocultar qualquer prova de 
seu delito. O animal não. Ele comete um ato errado, mas permanesse no local 
como se nada tivesse acontecido (1 Rs 13.24,28). A besta não tem traço algum 
de consciência de Deus; não tem, portanto, natureza religiosa. Para ela não há 
sensibilidade do pecado nem o peso da consciência. Quando o homem peca, 
através de sua consciência, ele sente em sua alma ou em seu sistema psicos- 
somático o peso do pecado (Nm 32.23). Se o pecado não fosse uma realidade 
jamais isso seria possivel de acontecer. Também presenciamos a realidade de 
morte, que entrou no mundo por causa do pecado. “Portanto, como por um 
homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a 
morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Rm 5.12).
3. O significado do pecado. Há quem afirme que o pecado é algo frag­
mentado. Ele acontece acidentalmente. Com efeito, porém, a realidade das Es­
crituras aponta outro ensino com respeito ao pecado. Ele surgiu no universo e 
depois no mundo humano, através da desobediência. O Diabo não foi enganado 
quando cometeu o primeiro pecado. Da mesma forma Adão não foi enganado (1 
Tm 2.14). Tanto o Diabo como Adão pecaram de olhos abertos. De igual modo, 
o pecado não é apenas um ato de debilidade ou fraqueza, porque ele foi conce­
bido por seres fortes e capazes (Ez 28.12-16; 2 Pe 2.4). O pecado em qualquer 
sentido— pensado, planejado e praticado — fere a santidade de Deus. O obje­
tivo de Deus no Antigo Testamento era conservar para si “...um reino sacerdotal 
e o povo santo” (Ex 19.6). No Novo Testamento a vontade santa de Deus é a 
mesma. Ele deu Jesus “...para nos remir de toda a iniqüidade, e purificar para si 
um povo seu especial, zeloso de boas obras” (Tt 2.14b). Por outro lado, o Diabo 
procura incentivar os homens à pecarem contra Deus e contra a sua boa obra, 
levando-os assim para as ‘obras infrutuosas das trevas’ (Ef 5.11).
n . D e f in iç ã o d o P e c a d o
1. Definição do term o pecado. A hamartiologia, é uma palavra usada i 
no campo teológico para designar “a doutrina do pecado”, incluindo todos os
H a m a r t io l o c ia - D o u t r in a d o P e c a d o 13
seus aspectos sombrios e sua natureza destruidora, tanto aplicada no campo 
físico como no campo espiritual, mostrando em cada detalhe suas disposições 
hostis contra Deus, às coisas, os seres e qualquer entidade no mundo da exis­
tência. Em sentido etimológico — a palavra “pecado” conforme se encontra 
em nossas versões, vem da palavra hebraica “hãttã’th”, do qual origina-se da 
raiz hebraica “hãtã” traduzido na septuaginta (LXX) da palavra “hãmãrtia”. 
Existem algumas palavras que relatam significados semelhantes à palavra he­
braica “hãttã’th”, como também para a palavra grega “hamartia”. Estes termos 
são aplicados no tempo e no espaço para descrever e dar sentido a tudo aquilo 
que o pecado é e suas formas de expressão. Os eruditos teológicos usam várias 
palavras deste gênero para descrever a natureza sombria do pecado, mostrando 
seus aspectos e suas disposições torcidas, maléficas em sua natureza daninha e 
perniciosa.
a) Relacionado com aquilo que se desvia do alvo, falhar — hãtã. Os termos 
associados — ‘hãttã’th e hamartia’, e logo após, a classificação das palavras 
associadas a hãttã’th e também a hamartia. O primeiro engloba várias outras 
palavras. Mas, as mais usadas para descrever a natureza do pecado, são hê’t ou 
hãttã’t (hãtã’=falhar, desviar, não acertar seu fim), que apresenta o pecado como 
uma falha [às vezes contra os homens, geralmente contra Deus]. O segundo, 
quer dizer “tortuosidade no sentido próprio” (conservando assim, a forma ori­
ginal da serpente que é torta ou curvada em todos os seus movimentos e ações). 
Há também em hebraico o verbo ‘chata’ e o substantivo ‘chãttãth’, — ‘chet’ 
(Gn 4.7; Ex 9.27; Lv 5.1; Nm 6.11; SI 51.2, 4; Pv 8.36; Is 42.24; Os 4.7). Em 
grego, o vocábulo correspondente é hamatteno (verbo) e hamartia (substanti­
vo), indicando em sentido primário ‘errar o alvo’ (Lc 11.4; 15.18, 21; Jo 1.29; 
8.34; 16.9; Rm 3.23; 5.12; 6.23; 1 Co 15.3; 1 Jo 1.7, 9-10; 3.4; 5.17).
b) Relacionado com aquilo que é torcido — que dobra — 'ãwôn ’. Pala­
vra que ocorre cerca de 231 vezes, do qual também, temos os seguintes signi­
ficados: Iniqüidade, maldade, erro, pecado, culpa, enfermidade moral etc. Na 
verdade, a palavra “ãwôn” origina-se da palavra “ãwâ”, a qual traz o sentido 
de “dobrar”, “torcer”. Assim, a iniqüidade é a “inclinação má” dentro do ser 
humano, ou a direção “tortuosa”, ou ainda ações “deformadas” dos pecadores. 
A missão de João Batista, como precursor de Cristo, era preparar um caminho 
plano nos corações, afim de que neles, o arrependimento tivesse lugar. Assim 
diz o texto divino: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Se­
nhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Todo o vale será exaltado, e todo 
o monte e todo o outeiro serão abatidos; e o que está ‘torcido’ se endireitará, e
14 A D o u t r in a d o P e c a d o
o que é áspero se aplanará” (Is 40.3,4). Estes caminhos tortuosos nos corações 
foram construídos pelo pecado de Adão e se estendeu a todos os homens.
c) Relacionado com aquilo que tem a natureza de delito — ‘pesha’. Pa­
lavra que ocorre cerca de 93 vezes, da qual também, temos os seguintes sig­
nificados: delito, crime, culpa, pecado, ofensa, rebeldia, transgressão, etc. Na 
verdade a palavra “pesha” origina-se do verbo “pasha”, que traz o sentido de 
“rebelar-se”, “sublevar-se”, “violar” etc. Em síntese, uma violação tinha a ver 
com uma revolta contra a lei, Deus ou o governo. Neste conceito, a pessoa, 
desprovida da graça divina, persiste em seguir e fazer aquilo que é errado. 
Isto é um erro que viola este ou aquele direito, o princípio de uma época e de 
todas as épocas do ponto de vista divino de observação. Este erro é ampliado 
pela transgressão e significa a ação humana de atravessar, exceder, ultrapassar, 
noções que pressupõem a existência de uma norma que estabelece e demar­
ca limites. Seu significado transitou da esfera geográfica, que fixava o limite 
para as águas do mar à concepção ético-filosófica, que abriga desde preceitos 
morais e religiosos até as leis do Estado. Daí, as contraposições entre bem e 
mal, mandamento e pecado, código e infração. Nas ações criativas humanas, 
transgressor e transgredido tendem a confundir-se. Por essa razão, o ato criador 
não se processa em série, como numa linha de montagem predeterminada. O 
criador/transgressor é o agente solitário que opera a superação de si mesmo na 
ruptura com o mundo que o cerca. Cada um, ao buscar, ao inventar, ao tentar 
o ainda-não-ousado, o novo, incorre em transgressão, não como subversão da 
ordem, mas como implementação, como criação. Ao longo da história foram 
muitos a “transgredir” as normas vigentes na sua época.2
d) Relacionado com tudo aquilo que é mal — ‘ra’. Palavra que ocor­
re cerca de 663 vezes, da qual também temos os seguintesvazio ou a ausência. Mas o conceito mate­
mático de zero e a noção de vazio são coisas distintas. Os primeiros exemplos 
do zero são registrados há 5 mil anos. Os sumérios usavam dois pequenos 
símbolos cuneiformes para marcar a ausência de um número em determina­
do lugar. Da Babilônia, o zero foi transmitido à índia pelos gregos, foram os 
mercadores árabes que divulgaram o número no mundo ocidental. A noção do
O P r o b l e m a d o M a l 99
nada faz parte de mitos mais antigos do que o número. Praticamente todos os 
mitos explicam que antes da criação havia só o vazio. A teoria do Big Bang, 
por exemplo, não descreve o que havia antes da explosão primordial que, do 
nada, gerou tudo o que nos cerca (segundo este conceito). No entanto, na física 
quântica o vazio é povoado por um mar de partículas virtuais que aparecem e 
desaparecem de acordo com o princípio da incerteza de Heisenberg. Esse vazio 
quântico produz efeitos que foram observados em laboratório, como o efeito 
Casimir.1 Para aqueles que defendem que o mal é apenas a ausência do bem
— opinam: onde existe o bem — o mal seria reduzido a ‘zero a esquerda’, re­
duzindo assim seu poder numérico — indo para a categoria de ‘nada’. Mas isso 
não é assim. O pecado nasce — cresce — se avoluma até aos céus. E quando lá 
chega, Deus o julga de forma versátil e firme. Tiago fala da concepção do pe­
cado. Assim ele diz: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela 
sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à 
luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tg 1.14,15). Isaías 
descreve o aumento do pecado, dizendo: “Ai dos filhos rebeldes, diz o Senhor, 
que tomam conselho, mas não de mim; e que se cobrem, com uma cobertura, 
mas não do meu espírito, para acrescentarem pecado sobre pecado” (Is 30.1) 
e no contexto seguinte: Assim aconteceu com a grande babilônia, conforme é 
proclamado pelo anjo celestial. “Porque já os seus pecados se acumularam até 
ao céu, e Deus se lembrou das iniquidades dela” (Ap 18.5). Várias cidades do 
passado foram semelhantemente denunciadas da mesma maneira. Sobre Níni- 
ve, Deus disse: “a sua malícia subiu até mim” (Jn 1.2). Sobre Cafamaum, Jesus 
disse: “e tu, Cafamaum, que te ergues até aos céus” (Mt 11.23). Nesta seção, 
porém, o pecado da grande Babilônia é visto “se acumulando até ao céu”. Isso 
significa que o pecado é concebido, nasce, cresce e, estando na sua fase de 
amadurecimento, tem tocado nos céus — então vem o julgamento.
I I . Drv id e - s e o M a l em T r ê s C a t e g o r i a s
1. O mal moral. O mal não é uma substância, mas corrupção das substân­
cias boas que Deus fez. O mal é como a ferrugem no carro ou a podridão na árvo­
re. E a falta de coisas boas, mas não é algo por si só. Nesse sentido, o mal é como 
um demônio, que não possui um corpo através do qual possa atuar. Ele não é 
como o anjo, que mesmo sendo espírito, possui um corpo de ordem espiritual. O 
demônio, não. Ele precisa de um corpo humano ou mesmo animal, ou um outro 
instrumento de natureza visível e real; e, através dele, realizar seus maus inten- 
tos. Assim, alguns filósofos compararam também o mal. Ele é como uma ferida 
no braço ou furos de traça na roupa. Só existe em outra coisa, não sozinho.
100 A D o u t r in a d o P e c a d o
a) O mal: no pensamento da lógica. A lógica começa perguntando: De 
onde veio o mal? O Deus absolutamente bom não podia criar o mal. E, apa­
rentemente, uma criatura perfeita nem pode dar origem à imperfeição. Então 
de onde vem o mal?
O problema pode ser assim resumido:
I o. Deus é absolutamente perfeito.
2o. Deus não pode criar nada imperfeito.
3o. Mas criaturas perfeitas não podem fazer o mal.
4o. Portanto, nem Deus nem suas criaturas perfeitas podem produzir o mal.
b) O mal: no pensamento tomista. Os elementos básicos na resposta a esse 
problema são encontrados na seguinte resposta:
Io. Deus é absolutamente perfeito.
2o. Deus criou apenas criaturas perfeitas.
3o. Uma das perfeições que Deus concedeu a algumas dessas criaturas foi
o poder do livre-arbítrio.
4o. Algumas dessas criaturas escolheram livremente fazer o mal.
5o. Portanto, uma criatura perfeita causou o mal.
Chega-se, então, à seguinte conclusão: Deus é bom, e criou criaturas boas 
com uma qualidade boa chamada livre-arbítrio. Infelizmente, elas usaram 
esse poder bom para trazer o mal ao universo ao se rebelarem contra o Cria­
dor. Neste argumento da lógica, sobre a origem do mal, todas as criaturas 
criadas por Deus são apresentadas como sendo boas. Então o mal surgiu do 
bem, não direta, mas indiretamente, pelo mau uso do poder bom chamado 
liberdade. A liberdade em si não é má. É bom ser livre. Mas com a liberdade 
vem a possibilidade do mal. Então nesse caso, o bem pode ser responsável 
por tomar o mal possível, mas as criaturas livres são responsáveis por torná-
lo real. No argumento exposto acima, o Diabo pode ser incluído entre as
criaturas boas de Deus. Mas isso é mais lógico do que bíblico. Em nenhum 
lugar das Escrituras diz que o Diabo é bom ou que tenha praticado uma boa 
ação. Fala-se:
cg De sua perfeição (Ez 28.12,15);
cs De sua formosura (Ez 28.12b);
cg De sua sabedoria (Ez 28.3);
cg De sua sagacidade (Gn 3.1);
O P r o b l e m a d o M a l 101
cs Do seu entendimento (Ez 28.4);
cs Do seu resplendor (Ez 28.17);
cs De sua violência (Ez 28.16);
cs Da sua alta periculosidade: como homicida (Jo 8.44);
cs De seus ardis (2 Co 2.11);
cs Da sua crueldade (Jo 10.10);
cs E até de sua morte (Ez 28.1-18).
Com efeito, porém, em parte alguma se fala de sua bondade. É claro, por­
tanto, que Deus que é absolutamente bom, seja responsável por alguém que é 
absolutamente mau. Não! O mal, em sua origem, desassocia-se de Deus em 
qualquer sentido ou direção. A questão se associa a solução do livre-arbítrio 
para a origem do mal. O que provocou a escolha do mal pela primeira criatura, 
que era (e é) um ser perfeitamente possuidor do livre-arbítrio e portador da 
mente inteligente e racional (Ez 28.3,4).
c) O mal: no pensamento cristão. O mal é separado de Deus. Contudo, as­
sociado ao campo da lógica, vem a seguinte pergunta: Se o mal é algo separado 
de Deus, e não pode proceder do interior de Deus, então o que é? O problema 
pode ser resumido desta maneira:
I o. Deus é o Autor de tudo que existe.
2o. O mal é algo que existe.
3o. Portanto, Deus é o Autor do mal?
O conceito lógico responde que o mal não é uma substância. E uma falta ou
privação de algo bom que Deus fez.
d) O mal: no pensamento de alguns. O mal é a privação de algum bem espe­
cífico (pensam alguns). A essência dessa posição por ser assim resumida:
I o. Deus criou toda substância.
2o. O mal não é uma substância — mas uma privação em uma substância.
3o. Logo, Deus não criou o mal.
2. O mal físico. O problema do mal físico, chamado também por alguém 
de ‘mal natural’ está ligado ao problema dos desastres naturais. Quase que 
todas as partes da Terra, são castigadas por alguns fenômenos naturais.
102 A D o u t r in a do P e c a d o
a) O mal além do que se planeja. Em determinadas áreas, por exemplo, , 
são:
03 Terremotos;
es Furacões;
es Inundações;
es Neves (frio);
es Calor insuportável;
es Secas excessivas;
es Maremotos;
es Incêndios;
es Pestes;
cs Mortes etc.
Nesses casos não é o livre-arbítrio das criaturas que causa todas essas cala­
midades. Além disso, muitas pessoas inocentes morrem ou ficam doentes por 
causa destes males.
b) O mal que poderia ser e não ser. Com efeito, porém, é evidente que _• 
alguns males naturais são causados pelo livre-arbítrio, os quais poderiam ser 
e não ser.
I o. Alguns sofrimentos são causados diretamente pela livre escolha do ser 
humano. Por exemplo, a escolha de abusar do corpo (seu ou meu) pode 
causar doença.
2o. Alguns sofrimentos são causados indiretamente pelo livre-arbítrio. A 
escolha de ser preguiçoso pode resultar em pobreza.
3o. Alguns males físicos que afligem outros podem resultar do nosso livre-arbítrio, como no caso de maus tratos ao cônjuge ou aos filhos.
4o. Outros sofrem indiretamente por causa do nosso livre-arbítrio. O alcoo­
lismo pode levar à pobreza dos filhos do alcoólatra.
5o. Alguns males físicos podem ser o subproduto necessário de um bom 
processo. Chuva, ar quente e ar frio são todos necessários para alimentação 
e para a vida, mas um subproduto dessas forças é o tomado.
6o. Alguns males físicos podem ser a condição necessária para alcançar 
o bem moral maior. Deus usa a dor para chamar nossa atenção. Muitos 
chegaram a Deus por meio do sofrimento.
O P r o b l e m a d o M a l 103
T . Alguns sofrimentos físicos podem ser a condição necessária de um bem 
moral maior. Assim como diamantes são formados sob pressão, o mesmo 
acontece com o caráter.
8o. Alguns males físicos são o acompanhamento necessário do mundo fí­
sico moralmente bom. Por exemplo, é bom termos água em abundância, 
mas podemos nos afogar nela. E bom ter relações sexuais para procriação e 
para o prazer, apesar de isso possibilitar o estupro. E bom ter alimento para 
comer, mas isso também possibilita a morte por envenenamento.2
9o. A guerra — forjada apenas para o ataque — sem a necessidade de de­
fesa — pode causar a morte — a mutilação: física e psicológica à milhares 
de pessoas etc.
3. O mal metafísico. O mal metafísico é percebido e sentido, mas não 
é visto. O pecado de Adão foi originado de algo que já existia. A árvore do 
“bem” e do “mal” já se encontrava no jardim, antes do fracasso do homem. A 
árvore era patente aos seus olhos, mas o mal que nela continha, não. Ele era 
o mal metafísico que não podia ser presenciado. Adão e sua esposa, no des­
pontar de sua inocência, não tinham experiência no tocante ao pecado e como 
lidar com ele. O escritor da epístola aos Hebreus nos adverte que “o pecado 
tão de perto nos rodeia” (Hb 12.1). Eles não tinham nenhuma experiência 
quanto ao passado, como hoje tem a humanidade, que os advertissem quanto 
ao futuro. Tudo que eles sabiam era que aquela árvore continha algo chamado 
mal. Mas, este encontrava-se oculto aos seus olhos naturais, por fazer parte 
da metafísica. A metafísica, literalmente, quer dizer “além do físico”. E, com 
efeito, no caso da origem do mal, ela vai além do pecado de Adão no jardim 
do Éden, conforme já tivemos a oportunidade de ver na descrição da árvore 
do bem e do mal. Não era simplesmente a desobediência de Adão, que iria 
marcar o ponto zero na história do pecado; ele já se encontrava presente no 
universo.
a) Dualidade para possibilitar a existência do mal. O pluralismo metafí­
sico afirma que a realidade é encontrada na diversidade, e não na unidade. Ele 
se opõe ao monismo, que afirma que a realidade é única. O panteísmo é uma 
forma de monismo, e o teísmo é uma forma de dualismo. Já para o pluralismo 
religioso é a crença de que toda religião é verdadeira. Cada uma proporciona 
um encontro genuíno com o Supremo. No conceito popular isso pode ser con­
frontado com o ditado que centraliza a Europa no centro da imaginação e diz: 
“todo o caminho leva a Roma”.
104 A D o u t r in a d o P e c a d o
I o. O relativismo afirma que não há critérios pelos quais se possa saber qual 
religião é verdadeira ou melhor. Não há verdade objetiva na religião, e cada 
religião é verdadeira para quem acredita nela.
2o. O inclusivismo afirma que uma religião é explicitamente verdadeira, 
enquanto todas as outras são implicitamente verdadeiras.
3o. O exclusivismo é a crença de que apenas uma religião é verdadeira, e as 
outras que se opõem a ela são falsas. Neste ponto de vista, o cristianismo é 
exclusivista. Ele afirma ser a única religião verdadeira. Mas aceita o plura­
lismo com relação ao judaísmo.
b) O cristianismo — o que pensa da existência do mal. Para o verdadeiro > 
cristianismo só existe o pluralismo que aponta para duas religiões verdadei­
ras: o judaísmo e o cristianismo. O primeiro edificado nos princípios morais 
e gerais de Deus, inseridos no Antigo Testamento. A Segunda, edificada sobre 
o fundamento “dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal 
pedra de esquina” (Ef 2.20). O cristianismo tem como base a pessoa de nosso 
Senhor Jesus Cristo; mas por extensão, aceita a autoridade das Escrituras do 
Antigo e do Novo Testamento. O Novo Testamento mostra a natureza da ver­
dadeira religião como exclusivista. Tiago afirma em sua Epístola: “A religião 
pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas 
suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1.27).
I I I . A P l u r a l id a d e n a E x is t ê n c ia d o B e m e d o M a l
1. Pluralidade do lado do bem e do lado mal. Muitos estudiosos sus- - 
tentam que o mal existe por causa da necessidade de pluralidade da existência. 
Para que o leitor tenha uma maior compreensão do significado do pensamento, 
existe uma pluralidade dos seres e das coisas que permeiam todo o universo.
Tal pluralidade marca uma linha divisória entre o físico e o espiritual; entre o 
que é permanente e o que é apenas temporário. Embora, em alguns casos, esta 
pluralidade de coisas, se encontrem do mesmo lado. Contudo, há uma distin­
ção entre o “mais” e o “menos”, o “maior” e o “menor”, o mais “perto” e o 
mais “distante” e daí por diante.
O? O céu e a terra; 
cs O espiritual e o físico; 
o? O divino e o humano;
03 O mar e as fontes das águas;
03 A luz e as trevas; 
og O dia e a noite;
03 A manhã e a tarde; 
cg O quente e o frio;
03 O forte e o fraco;
03 O feio e o bonito; 
cg O gordo e o magro;
cs Deus (do lado do bem) e o Diabo (do lado do mal);
03 Os anjos e os demônios;
03 O justo e o injusto;
03 O trigo e o joio;
03 O bom e o ruim;
03 0 rico e o pobre;
03 O macho e a fêmea;
03 O céu como um lugar bom e o inferno como um lugar mal;
og O verdadeiro e o falso;
og O puro e o impuro;
og O santo e o profano;
og A vida física e a vida espiritual;
og A morte física e a morte espiritual;
03 O riso e o choro;
03 A saúde e a doença; 
og O senhor e o servo;
03 O rei e o reino; 
og A comida e a bebida; 
og O bem e o mal.
2. Pluralidade da necessidade básica. Além da pluralidade nos seres 
e nas coisas, há também o paralelismo ligado ao contexto e as necessidades da 
vida. 0 corpo humano somente pode desenvolver determinadas funções com o 
auxílio de todas “as juntas e ligaduras”, tais como:
03 As duas pernas;
03 Os dois pés;
O P r o b l e m a d o M a l 105
10 6 A D o u t r in a d o P e c a d o
03 Os dois braços;
cs Os dois ouvidos;
cs Os dois olhos;
cs Os dois seios nasais.
Além das funções vitais de certos órgãos internos.
Em 1 Coríntios 12.12-31, Paulo descreve uma parábola sobre a diversidade 
de membros que compõem o corpo humano. Depois, ele diz que cada membro, 
é uma peça necessária para o desempenho do corpo. Isto é, “os membros do 
corpo que parecem ser os mais fracos são necessários. E os que reputamos se­
rem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós 
são menos decorosos damos muito mais honra”. No que diz respeito ao viver 
do ser humano, existe também um sistema de balanceamento para que todo o 
propósito se concretize debaixo do céu. Diz-se assim:
cs Há tempo de nascer, e tempo de morrer;
cs Há tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
cs Há tempo de matar, e tempo de curar;
cs Há tempo de derribar e tempo de edificar;
cs Há tempo de chorar, e tempo de rir;
cs Há tempo de prantear, e tempo de saltar;
cg Há tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras;
cs Há tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
cs Há tempo de buscar, e tempo de perder;
cs Há tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
cs Há tempo de rasgar, e tempo de coser;
cs Há tempo de estar calado, e tempo de falar;
cg Há tempo de amar, e tempo de aborrecer;
cs Há tempo de guerra, e tempo de paz (Ec 3.1-8—adaptado).
3. Pluralidade antagônica entre o bem e o mal. Com base neste con- - 
ceito de pluralidade,paralelismo e antônimo presentes no universo tanto físico 
como espiritual, alguns comentaristas, opinam que assim deve ser também, 
com respeito ao mundo do bem e ao mundo do mal. Nestes dois campos, por 
assim dizer, existem duas origens: uma do bem e a outra do mal.
Deus criou o bem e com ele todo o sistema de bondade.
O Diabo deu origem ao mal e com ele todo o sistema de maldade.
O P r o b l e m a d o M a l 107
Os pitagóricos defendem o dualismo e classificam dois tipos de prazer: 
o primeiro, de lascívia e entregas às satisfações do ventre, como as canções 
assassinas das sereias e, o segundo, dos prazeres honestos e justos que não 
acarretam arrependimento. O pitagórico Hiérocles diz que duas coisas são ne­
cessárias à vida: a ajuda dos parentes e a benevolente simpatia do próximo. 
A dualidade nos dá os contrastes do Bem e do Mal, tais como o humano e a 
natureza, noite e dia, luz e trevas, conhecimento e ignorância, úmido e seco, 
quente e frio, saúde e doença, verdade e mentira, masculino e feminino etc. 
Existem duas leis judaicas: a lei escrita de Moisés e a lei oral da cabala. A 
juventude é melhor que a velhice apoiada no bordão, significa duas pernas são 
melhores que três. O Talmude diz que Adão tinha dois rostos, uns dizem que 
um à frente e outro atrás; outros dizem que ele olhava para a direita e outros, 
para a esquerda. A Díada prediz uma verdade quando um sonho é repetido [...] 
há dois caminhos durante a vida do homem: um que leva ao paraíso e outro 
ao inferno.3
4. Pluralidade dos pluralistas e exclusivistas. Quando passamos a 
analisar tanto do ponto de vista natural como metafísico, percebemos que am­
bos estão envolvidos num sombrio mistério. Assim, a origem do mal, é sempre 
um mistério a ser estudado com cautela e extremo cuidado. Com efeito, porém, 
quando analisamos os textos e contextos ligados ao assunto e a tese principal, 
chegamos a uma conclusão: todas as evidências nos fazem compreender que, 
o mal e suas formas de expressão, tiveram origens no grande inimigo de Deus 
e dos homens, que é o Diabo (Ez 28.15). A batalha se trava entre os pluralistas e 
os exclusivistas. Os pluralistas aceitam as possibilidades de várias fontes, e não 
apenas de uma. Mas os exclusivistas são totalitários com relação à verdade. Para 
os pluralistas, Deus não aceita o mal; contudo, pode em algum sentido, tolerar 
certos erros praticados pela fragilidade de alguém. Os problemas dos pluralistas 
é a pressuposição naturalista. Para eles, todos os fenômenos religiosos podem 
ser explicados naturalmente. Nenhuma explicação sobrenatural é permitida. Os 
exclusivistas são diferentes. Para eles, existem as possibilidades dos milagres. 
Para o pensamento exclusivista e cristão, os milagres são possíveis. Em toda a 
extensão do Antigo Testamento, encontramos todo o paço pontilhado de mila­
gres, que vão desde a concepção da vida, até a ressurreição de mortos. Também 
existem vários milagres que foram realizados sobre as forças da natureza e ou­
tros que foram operados para atender'às necessidades da vida. Quando chegamos 
ao Novo Testamento, em toda a sua extensão, os milagres são proeminentes. 
A começar pela concepção virginal de nosso Senhor Jesus Cristo, que foi um 
verdadeiro milagre, operado pelo Espírito Santo, mediante a expressa ordem de
108 A D o u tr in a do P e ca d o
Deus. Maria relutou em aceitar como isso poderia ser possível, visto que ela 
era uma virgem pura, que até então, não tinha tido nenhum contato íntimo com 
um homem. O anjo Gabriel, fala para ela que o nascimento de Jesus seria, de 
fato, natural. Contudo, a concepção em seu ventre, dar-se-ia por uma operação 
miraculosa do Espírito de Deus. Ao receber a mensagem do anjo, que ela seria 
mãe do Messias, o Filho de Deus bendito, Maria, ficou um pouco confusa com 
aquelas palavras e perguntou ao ser celestial, dizendo: “Como se fará isto, 
visto que não conheço varão? E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre 
ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo de cobrirá com a sua sombra; pelo 
que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc 
1.34,35). Apropria ressurreição de Jesus, foi, sem dúvidas, um verdadeiro mi­
lagre, operado por Deus, mediante “o Espírito de santificação” (Rm 1.4). Sua 
ressurreição, também, tomou-se a garantia da ressurreição de muitos corpos 
de santos que dormiam na cidade de Jerusalém. E, evidentemente, Ele, através 
de sua ressurreição, tomou-se o Príncipe, o Líder, e a garantia da ressurreição 
da imortalidade, para todos os seus santos, por ocasião do arrebatamento e 
também para aqueles que hão de morrer na esperança de seu sacrifício, no 
futuro. Assim, Cristo, através de sua ressurreição, “foi feito as primícias dos 
que dormem” (1 Co 15.20).
5. Pluralidade no sacrifício dos dois bodes emissários. Na concep- >- 
ção dos dualistas com respeito ao conceito do mal, os dois bodes emissários 
que vêm citados em Levítico 16 representam o caminho do bem e o caminho 
do mal: AZAZEL. Muitos eruditos veem neste personagem “Belial” uma re­
produção do “azazel” do livro de Levítico 16.5-10, 20-26 etc. Mas parece que 
“Azazel” é um outro espírito e não Belial. Vem do termo “ãzãzel” (em nossa 
versão corrente, “bode emissário”), vocábulo que ocorre somente duas vezes 
na descrição sobre o Dia da Expiação. Dois bodes deveriam ser separados para 
esta cerimônia. Um era a oferta pelo pecado (hattãt-h) e o outro, que deveria 
ser enviado vivo “ao deserto”. Este se chamava “azã’zel”, palavra que talvez 
devesse ser vocalizada como ‘ez ‘ãzeP (“um bode de partida”). O grego aqui 
traduz o hebraico para “chimaros apopompaios” (“o cabrito que será mandado 
embora”). O Dr. F. W. Grant discute o assunto em seu The Numerical Bible 
(Os Números da Bíblia) da seguinte forma: “Para o povo há dois bodes, e aqui 
também há diversidade, pois servem a fins distintos. Isto é dado detalhada­
mente, e carece de alguma explicação. Lançam-se sortes os dois bodes para 
determinar seu destino. Um é ‘para o Senhor’, o outro ‘para bode emissário’. 
Neste último a Versão Revisada, põe “para Azazel”, invocando assim sua for­
ma hebraica primitiva”.
O P r o b l e m a d o M a l 109
a) A interpretação do Dr. A. Van Selme, Professor de Línguas Semíticas da 
Universidade de Pretória, África do Sul, faz quatro interpretações aqui:
I o. A palavra denota o “bode emissário”, e pode ser explicado como o bode 
‘ez’ que se vai de ‘azai’. Esta forma, na realidade é mais antiga e a mais 
corrente, por ser também adotada pela LXX e pela VG Latina, que supõe o 
vocábulo “azazel” derivado da raiz azai, com o sentido de “afastar”.
2°. É usada como infinitivo, “a fim de remover”: o árabe “azala” — remo­
ver. Isto, segundo A. Van Selme, trazia a ideia do Salmo 103.12: “Quanto 
está longe o oriente do ocidente, assim afasta (remove) de nós as nossas 
transgressões”.
3o. A palavra “Azazel” significa então uma região solitária ou como dizem 
certas versões, “desolada” (cf. Lv 16.22). “Assim aquele bode levará sobre 
si todas as iniquidades deles à terra solitária; e enviará o bode ao deserto”.
4o. É o nome de um demônio solitário que vagava naquela região, derivado 
de “ãzaz”, ser forte, e de “el, deus”. No livro apócrifo de Enoque, frequen­
temente, Azazel é mencionado como sendo um anjo caído. Mas essa ideia 
deve ter sido incorporada nele do próprio livro de Levítico.4
b) A possível interpretação para Azazel. A possível interpretação para Aza­
zel do ritual deve ser que o pecado, de maneira simbólica, foi removido do 
meio do arraial de Israel e levado para a região da morte (cf. Mq 7.19). Pois é 
impossível que um demônio cooperasse na remoção dos pecados de alguém. 
Isso contraria todo o argumento e natureza das Escrituras. E ainda mais, para 
aqueles que fazem um paralelismo entre Azazel e Belial, fica mais distante tal 
pensamento: “que concórdia há entre Cristo e Belial?”. Nenhuma! A possí­
vel interpretação natural é que as duas primeiras letras da palavra significam 
“bode” (ez),e que é um bode sobre o qual cai a sorte. O restante da palavra 
significa “ir embora” ou “partir” (azai), e isso é exatamente o que faz o bode. 
Ele realmente traz a ideia em si: “bode emissário” ou “bode que se vai”.5
IV. O P r o b l e m a d o M a l n a H is t ó r ia d a s I d e ia s
1. As correntes de pensamento no tratamento do problema do 
mal embasado na filosofia como uma atividade propriamente hu­
mana. O homem foi feito por Deus um ser pensante, dotado de entendimento 
e de consciência de si e do que está à sua volta. Dizem as Escrituras que, após 
ter criado o homem, Deus trouxe à sua presença todos os demais seres criados
110 A D o u t r in a d o P e c a d o
para que o homem os nomeasse (Gn 2.19), tendo o homem não apenas sido 
exitoso nesta sua tarefa, como também percebido que estava só, percepção 
que fez sem que Deus lhe tivesse falado coisa alguma a respeito, numa clara 
demonstração de que o homem tem capacidade para entender as coisas, assim 
foi feito pelo seu Criador. Ora, por causa desta capacidade de entendimento, o 
homem cedo desenvolveu uma série de reflexões a respeito do mundo, da exis­
tência, de Deus, das coisas criadas e tudo o mais que o cerca, reflexões estas, 
pensamentos estes que deram origem ao que se denominou, posteriormente, 
de “filosofia”, palavra que teria sido criada pelo filósofo grego Pitágoras de 
Samos, que viveu por volta do século VI a.C.
A palavra “filosofia” significa “amizade ao saber”, ou seja, a busca do sa­
ber. O filósofo é alguém que é amigo do saber, alguém que busca a razão de 
ser das coisas, que procura entender os fundamentos, os princípios que estão 
por detrás de todo o conhecimento do real e do concreto. Enquanto o cientista 
é alguém voltado para explicar o que está à sua volta, como as coisas ocorrem, 
porque ocorrem e quando ocorrerão novamente, o filósofo está buscando en­
tender como é possível conhecer, o que é o conhecimento e sob que alicerces 
ele está fundamentado. Não é de admirar, portanto, que o primeiro filósofo as­
sim reconhecido tenha sido o grego Tales de Mileto (640-548 a.C.), exatamen­
te porque, ao observar a natureza, que já estudava há algum tempo (Tales foi 
um grande matemático, físico e geômetra), voltou-se para esta mesma natureza 
tentando descobrir qual era o princípio de todas as coisas, se havia algo que 
pudesse dar unidade a tudo que existia, chegando à conclusão de que havia este 
princípio e que este princípio seria a água. Foi exatamente por tentar ter uma 
visão global, totalizante de toda a existência que Tales foi considerado como 
sendo o primeiro filósofo. No entanto, se Tales é considerado o primeiro filóso­
fo, não podemos deixar de considerar que a atividade filosófica sempre existiu 
na humanidade, pois é fruto da sua capacidade de entendimento, presentes des­
de a criação, e que Tales, apenas, a desenvolveu separadamente do pensamento 
religioso, usando a razão como único e exclusivo critério de desenvolvimento 
dos seus argumentos.
Com efeito, bem antes de Tales, notadamente nas civilizações mais antigas, 
que são as orientais, a reflexão em tomo da existência, do mundo e de Deus 
era algo que já estava presente, mas, e aí reside a grande diferença entre a fi­
losofia ocidental e a oriental até os dias de hoje, nas reflexões e pensamentos 
até o surgimento de Tales, não havia a utilização da razão como único critério 
de avaliação, mas, bem ao contrário, misturado ao exercício da razão estavam 
os mitos e as crenças religiosas dos pensadores, algo que persiste até hoje na 
filosofia do Oriente.
O P r o b l e m a do M al 111
Assim, embora a filosofia tenha ganhado, por assim dizer, autonomia e 
caminho próprio no Ocidente, a partir de Tales de Mileto, o fato é que já en­
contramos uma produção filosófica bem anterior, ainda que misturada com o 
pensamento religioso.
Neste pensamento filosófico ainda relacionado e misturado com a religião, 
próprio do Oriente até os presentes dias, é natural que as discussões filosóficas 
tivessem sempre como foco, como centro de interesse, o problema da divin­
dade e do relacionamento entre a divindade e o homem. Atividade das mais 
básicas e elementares do ser humano, a ponto de ter sido, inclusive, conside­
rada como a própria razão de ser da vida em sociedade, a religião é encontra­
da nos mais simples grupos sociais humanos e traz, sempre, uma explicação 
totalizante do mundo, algo que é essencial para um ser consciente e que tem 
entendimento como é o homem.
Ao trazer uma explicação para o mundo que cerca o homem, a religião, de 
forma automática, instiga o homem a refletir sobre o significado da sua exis­
tência, sobre a razão de ser do mundo, sobre a sua posição na ordem cósmica, 
sobre a existência de Deus e da natureza do relacionamento entre Deus e o 
homem, questões que, além de religiosas, são, conforme já vimos, filosóficas. 
Deste modo, j á mesmo antes de Tales de Mileto, encontramos reflexões, digres­
sões a respeito do papel do homem no universo e do seu relacionamento com a 
divindade. Nesta discussão a respeito do homem, de Deus e do relacionamento 
entre eles, é que surge, de pronto, uma intrigante questão, que tem atormentado 
as mentes humanas ao longo da história, questão esta que por ser um grande 
obstáculo ao pensamento, um grande desafio aos pensadores, é considerada 
sempre um “problema” (palavra grega que significa “aquilo que está diante 
dos olhos”, “aquilo que impede alguém de ver o que está além”), a saber: o 
problema do mal. Com efeito, ao raciocinar sobre o homem e a divindade, 
bem como sobre o relacionamento entre ambos, encontra o homem a realidade 
da presença do mal no mundo. Mesmo nas religiões pagãs, onde, não raro, os 
deuses eram projeções dos homens e, portanto, dotados dos mesmos vícios e 
paixões que caracterizam os homens, não passou despercebida a ideia de que 
a maldade deveria ter uma origem e que deveria ser objeto de explicação, pois 
não é algo natural e que deva ser considerado como algo que deva ser aceito 
por todos. Como explicar a existência do mal, assim, foi algo que sempre in­
trigou o ser humano e que, portanto, sempre esteve na pauta das reflexões e 
dos pensamentos dos filósofos através da história. Com o triunfo das religiões 
monoteístas, então, a questão aumentou ainda mais de importância e o desafio 
se intensificou, pois, no monoteísmo temos um único Deus, que, necessaria­
mente, será bom, é imutável e tem um caráter que não pode se alterar. Então,
112 A D o u t r in a d o P ec a d o
como considerar que, diante de um Deus com tais qualidades, haja o mal e seja 
ele uma realidade presente e evidente no mundo em que vivemos? A maldade 
existe e é maligna. Entretanto, Deus é Todo-Bondoso e Todo-Poderoso. Como 
é que podemos reconciliar estes fatos? Este é o problema do mal.
Sem pretendermos ser exaustivos, nem mesmo introdutórios, veremos, ao 
longo da história, como tem se enfrentado esta questão, seja nos domínios da 
filosofia, seja nos domínios da teologia, entendida esta, aqui, como a reflexão 
racional com base em ideias religiosas indiscutidas.
2. As correntes de pensamento no tratamento do problema do 
mal: 0 dualismo. Para resolver o problema do mal, ao longo dos séculos, os 
pensadores têm adotado algumas linhas de pensamento, que merecem ser aqui 
observadas. Em primeiro lugar, há aqueles que discutem a questão do mal a 
partir de uma concepção dualista do mundo, ou seja, enxergam que o mundo 
tem dois princípios, duas forças de igual magnitude, de igual intensidade, mas 
que são contrárias: o bem e o mal. É compreensível este ponto de vista do 
pensamento humano. Ao tomar consciência de que, à sua volta existe tanto o 
bem quanto o mal, é natural que o homem chegue à conclusão de que o mundo 
é o resultado de um embate entre dois princípios contrários, entre duas forças 
antagônicas: o bem e o mal.
Assim, pensa o homem, quando analisamos o princípio de todas as coisas, 
de toda a ordem universal, vamos encontrar estas duas forças contráriasque 
estão à nossa volta, que habitam a nossa realidade, duas forças que, necessaria­
mente, são antagônicas e que, portanto, lutam entre si desde o início dos tem­
pos e que são as responsáveis pela história universal. Deste modo, o mal seria 
algo realmente existente e, mais do que isto, seria uma das forças criadoras do 
mundo. Esta visão, este modo de pensar foi denominado “dualismo”, expres­
são cuja invenção é atribuída ao historiador Thomas Hyde, quando escreveu 
sobre o Império Persa em 1700. A religião dos antigos persas, o zoroastrismo 
ou masdeísmo, é um dos exemplos mais claros desta concepção do mal.
Com efeito, esta religião estava baseada na ideia de que existem duas for­
ças antagônicas no universo, a saber: o princípio do bem (ou da luz) e o princí­
pio do mal (ou das trevas), representados, respectivamente, por Ahura Mazda 
ou Ormuzd (o deus do bem) e Ahriman (o deus do mal).
Segundo os zoroastristas, o mundo tinha sido o resultado de um encontro 
casual entre estas duas forças e, desde então, elas estariam em constante luta pelo 
domínio do universo, em especial do homem, ainda que, no futuro, o bem triun­
faria sobre o mal, já que a luz age por livre-arbítrio e com um claro desígnio, en­
quanto que o mal, por acaso e em completa ausência de propósito ou finalidade.
O P r o b l e m a do M a l 113
Ao lado dos zoroastristas (que, aliás, exerceram influência sobre o pensa­
mento judaico, uma vez que Israel esteve sob domínio persa durante alguns 
séculos), também dão explicações dualistas para o problema do mal os taoístas 
e os neoconfucionistas, pensadores religiosos oriundos da China. O taoísmo, 
religião fundada pelo chinês Lao-Tsé, é uma das chamadas “três religiões” ou 
“San Chiao”, um conglomerado de ideias e crenças que é, sem dúvida alguma, 
a principal fonte da cultura chinesa e que resistiu, inclusive, à tentativa de 
modificação cultural vivida durante o regime comunista de Mao Tsé-Tung. O 
taoísmo foi fundado cerca de 500 a.C. e parte da ideia de que o universo é o 
resultado do equilíbrio de duas forças, que devem sempre estar em harmonia, 
o “yin” e o “yang”, respectivamente o pólo negativo e o pólo positivo da ener­
gia vital e espiritual. Bem e mal, portanto, seriam pólos extremos da mesma 
energia e não seriam diferentes em essência, devendo ser sempre buscado o 
equilíbrio entre eles, pois aí residiria o caminho (em chinês, “tao”) para que se 
pudesse alcançar a felicidade. Para os taoístas, o princípio de todas as coisas, 
o Ser Absoluto, possui em si mesmo estes dois princípios, de forma que bem e 
mal são eternos e devem perdurar, desde que haja o equilíbrio entre eles.
Estas concepções dualistas antigas têm encontrado ressonância nos nossos 
dias, em especial dentro dos movimentos que têm sido reunidos sob a gené­
rica denominação de “Nova Era”, já que têm em comum a preocupação de 
fazer crer que é chegado um novo tempo e que se deve superar o pensamento 
judaico-cristão que tem dominado a cultura humana nos últimos dois milênios. 
Cada vez mais temos visto livros, filmes e demais produções científicas, literá­
rias e artísticas a defender a tese de que bem e mal são forças de igual natureza, 
que devem apenas ser harmonizadas e reunidas, sem oposição, para que se 
alcance a paz e a felicidade. Expressões corriqueiras como “do bem” e do “do 
mal” têm sido utilizadas pelos nossos jovens, adolescentes e até crianças em 
todo o mundo, havendo, cada vez mais, uma crença generalizada de que o bem 
e o mal são princípios que não se opõem, apenas pontos de vista diferentes de 
uma mesma realidade cósmica.
Até mesmo entre os pensadores ligados a filosofias e crenças que repelem o 
dualismo, como o próprio cristianismo, estão a surgir, com cada vez maior in­
tensidade, doutrinas e conclusões que, ao serem analisadas com profundidade, 
acabam levando o seu seguidor a uma concepção dualista do mundo. Assim, 
por exemplo, doutrinas como a da chamada batalha espiritual, que tende a 
transformar a vida do cristão no resultado de uma luta entre as forças do bem 
(os anjos bons) e as forças do mal (os anjos caídos), adequando, assim, o pen­
samento dualista a expressões e figuras bíblicas. Entre os hebreus, percebemos 
que, até o domínio persa, o dualismo nunca foi um pensamento que tivesse
114 A D o u t r in a d o P e c a d o
guarida. Quando vemos o livro de Jó, por exemplo, livro este que é conside­
rado como sendo o mais antigo livro da Bíblia, ali notamos que o mal, perso­
nificado na figura de Satanás, não é algo que tenha o mesmo poder ou força 
do bem, representado por Deus. Bem ao contrário, Deus é apresentado como 
um verdadeiro soberano, que está no controle de toda a situação e que permite 
que o Diabo ataque o patriarca Jó e, mesmo assim, dentro de limites explíci­
tos, que jamais são ultrapassados. Dentro deste quadro, portanto, na teologia 
hebraica, embora o mal exista e não se pretenda negar a sua existência, nunca 
ele é apresentado como algo que existisse desde o início do universo e que é 
completamente subalterno ao bem, este, sim, eterno e sempre existente.
Verdade é que, após o domínio persa, que se dará, precisamente, no auge do 
desenvolvimento do zoroastrismo (Ciro é tido, na história, como um dos gran­
des incentivadores desta religião), os mestres religiosos judeus sofrerão uma 
inevitável influência do pensamento dualista, o que gerará as concepções rabí- 
nicas do “Ietzer-Tov” e “Ietzer-Ha-Ra”, ou seja, respectivamente, “inclinação 
para o bem” e “inclinação para o mal”, até hoje presentes na literatura judaica.
Afirma o enciclopedista judeu Nathan Ausubel que, apesar desta nítida in­
fluência do zoroastrismo, o judaísmo não se tomou dualista, pois, “ ...havia 
uma diferença fundamental entre o dualismo encontrado na religião persa e o 
que se desenvolveu posteriormente de maneira independente, entre os judeus. 
Na religião de Zoroastro, havia duas deidades, simbólicas do bem e do mal 
(...), [mas] os ensinamentos rabínicos dotavam esse conflito de um caráter 
naturalístico - de fato, quase psicológico - declarando que o “Bem” e o “Mal” 
não eram, ao contrário do que pretendiam os persas, forças sobrenaturais que 
operavam fora dos seres humanos, mas inclinações naturais dentro dos seres 
humanos, lutando sem cessar pela supremacia da mente e da alma, dentro do 
“reino do coração” (...) não eram poderes absolutos e sim condicionais, sujei­
tos a controles morais da mente e às decisões da vontade”.6
Vemos, assim, que, mesmo diante da influência do zoroastrismo, os judeus 
nunca deram ao mal um “status” de algo que tivesse uma existência indepen­
dente ou que fosse um contraponto ao bem, sempre mantendo o pensamento 
que se encontra desde o livro de Jó, ou seja, de que o mal existe, mas como 
algo subalterno, algo submisso ao bem. Se, entre os judeus, o dualismo não 
deixou de pôr as suas marcas, diferente não foi o que se viu entre os cristãos. 
Já desde o primeiro século do cristianismo, levantaram-se ensinadores e pen­
sadores a defender uma postura dualista no tratamento do problema do mal, 
corrente de pensamento, entretanto, que foi vigorosamente combatida pelos 
chamados “pais da Igreja”, como são chamadas as lideranças e mestres cris­
tãos dos dois primeiros séculos de nossa era e que se seguiram imediatamente
O P r o b l e m a d o M a l 115
depois dos apóstolos. Coube aos gnóstieos a defesa de um pensamento dualista 
dentro do cristianismo então nascente. Marcião de Sinope (110-160 d.C) foi 
um teólogo cristão de índole gnóstica e fundador do que veio depois a ser cha­
mado marcionismo. Foi o autor das “Antíteses”. De acordo com a sua teologia 
o Antigo Testamento deveria ser rejeitado e apenas os textos que ele atribuiu a 
Paulo deveriam ser tidos como sagrados. E considerado o primeiro crítico bí­
blico. Considerava que o Deus vingativo do Antigo Testamento não poderia ser 
o mesmo Deus amoroso a que Jesus se referia como Pai, e por isso, achava que 
só o Novo Testamento interessaria aos cristãos. Valentino(135-165) e de seu 
discípulo Basílides (séc. II) defenderam a tese de que a existência do mal so­
mente pode ser explicada pelo fato de que, ao lado do Deus bondoso do Novo 
Testamento, haveria um princípio do mal, dotado de justiça que teria sido o 
Criador deste mundo, que seria o Deus do Antigo Testamento. Assim, o mal 
teria como explicação a existência destes dois deuses, sendo certo que o Deus 
do Novo Testamento, que seria, de fato, o verdadeiro Deus, superior ao ou­
tro, venceria este deus iracundo e justo. Contra este posicionamento gnóstico, 
levantaram-se, como já dissemos, os chamados “pais da Igreja”, que, por causa 
disto, não puderam deixar de enfrentar o tormentoso “problema do mal”.
3. As correntes de pensamento no tratamento do problema do 
mal: o monismo e as respostas ateístas e similares. O dualismo é a 
resposta mais imediata que se pode ter diante do problema do mal. Ao ver que, 
no mundo, existem tanto o bem quanto o mal, é até claro entender-se que bem 
e mal são forças existentes desde sempre no universo e que deverão assim 
existir ou, como defende a maior parte dos dualistas, uma das forças triunfará 
no término da história ou acabará havendo uma conciliação entre elas, com 
grandes e radicais transformações na ordem do universo.
Entretanto, quando se pensa sob a perspectiva do dualismo, chega-se, tam­
bém, a uma inevitável conclusão: Deus, se for considerado como a fonte do 
bem, não seria um ser onipotente, muito menos onipresente. Se temos duas 
forças contrárias, que se digladiam no universo, elas são da mesma natureza e 
grandeza, tanto assim que os zoroastristas, embora defendam a superioridade 
de Ahura Mazda em relação a Ahriman, não deixam de reconhecer nestas duas 
figuras dois deuses, exatamente porque, ao considerarem que há dois princí­
pios, não podem reconhecer que exista um único Deus.
É, precisamente, esta a grande e insuperável dificuldade com que se en­
frentarão os pensadores monoteístas ao analisarem o problema do mal, nota- 
damente a partir do contato do pensamento religioso judaico seja com o zo­
roastrismo, seja com a filosofia grega, a partir do domínio persa e helenístico,
116 A D o u t r in a d o P e c a d o
ou seja, depois do cativeiro babilônico e da própria conclusão da produção das 
Escrituras hebraicas.
Se o mal existe, então Deus não seria o Ser perfeito, onipotente, onipre­
sente que é revelado nas Escrituras? Como conciliar a existência do mal com 
o caráter absoluto da divindade, que é solenemente proclamado na introdução 
aos dez mandamentos (Dt 6.4)? Eis a questão que irá incomodar os filósofos 
e teólogos a partir do século II a.C. e, num certo sentido, até os dias de hoje. 
Não houve quem, precipitadamente, diante deste aparente paradoxo, não tenha 
preferido ver aí uma prova da inexistência de Deus. Assim, diante da consta­
tação de que o mal existe, preferiram estes pensadores afirmar que, diante da 
existência do mal, Deus não existe.
Segundo estes pensadores, pois, não há que se falar em bem ou mal, por­
quanto tais conceitos não passariam de invenções mentais, não havendo, as­
sim, nem bem, nem mal no universo.
Um dos principais defensores deste pensamento foi o filósofo alemão Frie- 
drich Nietzsche (1844-1900), para o qual “bem ou mal, noções imutáveis, não 
existem”, já que o mal seria apenas a “afirmação da vida”, que teria sempre 
sido negada e sufocada na sociedade humana, mormente pelos valores ado­
tados pelo Cristianismo. Para quem, como Nietzsche, “Deus havia morrido”, 
nada mais natural que entender que bem ou mal não existiriam e que se deveria 
buscar um sistema ético que estivesse “para além do bem e do mal”, como diz 
o título de um de seus livros.
Este pensamento (que, aliás, tem sido acolhido e entusiasticamente defen­
dido por alguns nos nossos dias) não resolve o problema, mas, antes, represen­
ta uma fuga dele, já que, sendo ou não “afirmação da vida”, o fato é que o mal 
existe e precisamos dar conta de sua origem.
Alguns outros, embora não tenham chegado à afirmação de que Deus não 
existe, assumiram uma posição muito similar, preferindo dizer que o mundo 
não é uma ordem, mas fruto do acaso e da probabilidade, de forma que o bem 
e o mal são resultados acidentais do anárquico movimento das forças cósmicas. 
Um pensamento desta natureza, denominado pelos estudiosos de “tiquismo” 
(do grego “tyche”, chance, aposta), não deixa de ser uma variante da corrente de 
pensamento ateia, porquanto, ao se negar a existência de uma ordem no mundo, 
está-se, em outras palavras, negando-se a existência de Deus, ou, pelo menos, 
dizendo-se que Deus não é onipotente, já que não é capaz de estabelecer uma 
ordem na criação. Há aqueles, ainda que, embora não questionem a existência 
de Deus, entendem ser impossível dizer se Ele é bom ou não.
Indignado e revoltado com o terremoto que destruiu Lisboa em Io de no­
vembro de 1775, o filósofo francês Voltaire (1694-1778) preferiu afirmar que
O P r o b l e m a d o M a l 117
Deus era um ser existente, mas, absolutamente indiferente diante de tudo, de 
forma que não se poderia afirmar se Deus era bom ou mau, de tal maneira que o 
problema do mal deveria ser considerado uma questão insolúvel e que deveria 
ser deixada de lado. Tal postura não deixa, também, de ser uma fuga do pro­
blema e que, como já dissera Epicuro, não consegue explicar como admitir-se 
a existência de um Deus que não seja o Sumo Bem. Do mesmo defeito é a po­
sição que foi tomada pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), 
segundo o qual Deus não seria um ser benévolo, de forma que a existência do 
mal pode ser resultado até do próprio exercício da vontade divina, uma vez que 
Deus não estaria vinculado ao bem. Aqui, também, não explica o filósofo como 
pode haver um Deus que não seja bom.
4. As correntes de pensamento no tratamento do problema do mal: 
o monismo e as respostas monoteístas. Visto as respostas que foram dadas 
pelos pensadores que não se vinculam ao pensamento monoteísta, vejamos 
como o problema do mal foi enfrentado por parte dos pensadores que não 
negaram sua fé e procuraram, de uma forma racional, superar este intrincado 
problema.
O primeiro teólogo cristão que buscou sistematizar a sua produção foi Oríge- 
nes de Alexandria (185-255), cujo conhecimento da filosofia grega permitiu-lhe 
construir uma obra em que buscava, ao mesmo tempo, explicar as Escrituras e 
defender a fé cristã das críticas duras que os filósofos começavam a fazer. Ao 
tratar do problema do mal, Orígenes tinha em mente, principalmente, combater 
os gnósticos e seu dualismo. Orígenes vê a solução do problema do mal no livre- 
arbítrio que Deus concedeu ao homem na criação. Empenha-se, portanto, em 
provar que o livre-arbítrio existe e foi criado por Deus, a fim de demonstrar que, 
diante da liberdade que foi dada tanto ao homem quanto aos seres angelicais, pu­
deram estes seres distanciar-se ou aproximar-se de Deus. O mal, portanto, nada 
mais seria do que o abandono ou a perda da bondade: “O mal é a privação ou 
ausência da bondade; é um não-ser, e como tal, é o oposto do ser e do bem. Na 
proporção em que o homem se aparta do bem, ele perde sua perfeição e cresce 
no mal”.7
Considerar o mal como um não-ser, apenas como um distanciamento ope­
rado pela vontade entre Deus e os seres criados dotados de livre-arbítrio será 
a primeira solução que se dará para o problema do mal, portanto. Esta solução 
resolve, a um só tempo, vários aspectos do problema do mal. Senão vejamos. 
Quando dizemos que o mal é um não-ser, ou seja, algo que não existe, não 
mais precisamos explicar como Deus, que, por definição, é o Criador de to­
das as coisas, poderia ter criado, a um só tempo, o mal, pois ele é algo que
118 A D o u t r in a d o P e c a d o
não existe e, portanto, não foi criado. Quando dizemos que o mal é um não- 
ser, também não precisamos explicar como Deus, sendo um ser infinitamente 
bom, poderia ter criado o mal, o que O tomaria um ser contraditório. Como 
o mal não é, ouseja, não existe, não faz parte daquilo que não foi criado. Por 
fim, quando dizemos que o mal é um não-ser, é apenas a perda ou abandono da 
bondade, conseguimos explicar como ele surgiu, apesar de Deus ser o Sumo 
Bem, bem como entendemos porque o bem, apesar da presença do mal, não 
deixa de ser soberano.
Daí, ao explicarmos o problema do mal, também acabamos por compre­
ender que haverá um tempo em que este distanciamento se desfará, em que 
haverá uma restauração universal, “quando Deus for tudo em todas as coisas, 
já não haverá lugar para o mal” (apud op.cit., p.74).
Diante de tamanha força, a solução dada por Orígenes influenciará deci­
didamente todos os pensadores que se seguirão na filosofia e teologia cristãs, 
com algumas nuanças.
Gregório de Nissa (335-394), ao tratar do tema do problema do mal, adota a 
postura de Orígenes, considerando o mal como um não-ser. Para este pensador, 
o pecado é a inexistência de algo que deveria existir, ou seja, o ser humano, 
criatura que é de Deus, deveria, ao receber o livre-arbítrio, decidir-se por obe­
decer a Deus, mas não o fez, de modo que o mal surge, exatamente, do fato de 
não existir uma decisão por Deus que deveria ter existido. O pecado, assim, diz 
Gregório, “não é nada de positivo, nada de criado por Deus, mas, sim, algo de 
privativo, uma carência, um verdadeiro nada” (op. cit., p. 102).
Dionísio Pseudo-areopagita (séc. V ou VI) explicita, como ninguém, o pen­
samento de Orígenes: “Donde se origina, então o mal, uma vez que é impos­
sível negar-se-lhe a existência manifesta?”. O mal, enquanto tal, não tem ser; 
tampouco ocupa um lugar nas coisas onde existe. De forma que o mal não se 
encontra nem nos anjos, nem nos demônios; não está na alma, nem nos animais, 
nem na natureza, nem nos corpos; não se encontra nem mesmo na matéria(...). 
Em suma, o mal é uma fraqueza e uma omissão do bem.” (op. cit., p. 119).
Agostinho de Hipona (354-430), o grande sistematizador da filosofia e da 
teologia cristã dos três primeiros séculos e cuja influência se faz sentir até o 
presente no pensamento da Cristandade, também neste tema teria uma impor­
tância fundamental.
Agostinho conta, em seu livro Confissões, onde narra toda a sua trajetória 
até sua conversão ao Cristianismo, que teve de enfrentar o problema do mal 
quando já estava às portas da conversão. Já tendo sido evangelizado por Am- 
brósio, bispo de Milão, Agostinho se debatia com o questionamento a respeito 
do mal: “se todas as coisas foram criadas pela bondade divina, que as penetra
O P r o b l e m a do M a l 119
da maneira acima descrita, elas devem ser boas em sua totalidade. E assim pa­
rece não haver lugar para o mal. Entretanto, é inegável a existência do mal físi­
co e moral; o mal não pode ser um puro nada, visto ser objeto de temor e causa 
dos sofrimentos. Por outro lado, ele não pode ter a Deus por autor. Que é, pois, 
o mal?” Ele, Agostinho entrou em conflito com Deus muitas vezes, por causa 
do problema do mal. “Mas eu, mesmo quando afirmava e cria firmemente que 
és incorruptível, inalterável, absolutamente imutável, Senhor meu, Deus ver­
dadeiro que não só criaste nossas almas e nossos corpos, e não somente nossas 
almas e corpos, mas todas as criaturas e todas as coisas. Todavia, faltava-me 
ainda uma explicação, a solução do problema da causa do mal. Qualquer que 
ela fosse, estava certo de que deveria buscá-la onde não me visse obrigado, por 
sua causa, a julgar mutável a um Deus imutável, porque isso seria transformar- 
me no mal que procurava. Por isso, buscava-a com segurança, certo de que era 
falsidade o que diziam os maniqueus; deles fugia com toda a alma, porque via 
suas indagações sobre a origem do mal cheias de malícia, preferindo crer que 
tua substância era passível de sofrer o mal do que a deles ser susceptível de o 
cometer. Esforçava-me por compreender a tese que ouvira professar, de que o 
livre-arbítrio da vontade é a causa de praticarmos o mal, e de teu reto juízo é 
a causa do mal que padecemos. Mas era incapaz de entendê-lo com clareza. E 
esforçando-me por afastar desse abismo os olhos do meu espírito, nele me pre­
cipitava de novo, e tentando reiteradamente fugir dele, sempre voltava a recair. 
O fato de eu ter a consciência de possuir uma vontade, como tinha consciência 
de minha vida, era o que me erguia para a tua luz. Assim, quando queria ou não 
queria alguma coisa, estava certíssimo de que era eu, e não outro, o que queria 
ou não queria, e então me convencia de que ali estava a causa do meu pecado. 
Quanto ao que fazia contra a vontade, notava que isso mais era padecer do 
mal do que praticá-lo; julgava que isso não era culpa, mas castigo, que me 
instava a confessar justamente ferido por ti, considerando tua justiça”. Mas de 
novo refletia: “Quem me criou? Não foi o bom Deus, que não só é bom, mas a 
própria bondade? De onde, então, me vem essa vontade de querer o mal e de 
não querer o bem? Seria talvez para que eu sofra as penas merecidas? Quem 
depositou em mim, e semeou minha alma esta semente de amargura, sendo eu 
totalmente obra de meu dulcíssimo Deus? Se foi o demônio que me criou, de 
onde procede ele? E se este, de anjo bom se fez demônio, por decisão de sua 
vontade perversa, de onde lhe veio essa vontade má que o transformou em 
Diabo, tendo ele sido criado anjo por um Criador boníssimo?” Tais pensamen­
tos de novo me deprimiam e sufocavam, mas não me arrastavam até aquele 
abismo de erro, onde ninguém te confessa, e onde se antepõe a tese que tu és 
sujeito ao mal a considerar o homem capaz de o cometer.8
120 A D o u t r in a do P e c a d o
Agostinho, porém, ao se debruçar sobre este questionamento, percebe que, 
na verdade, a resposta de Orígenes não poderia ser descartada.
Agostinho percebe que o fato de haver sofrimentos e temor no mundo não é 
resultado do mal, mas, antes, do fato de que todas as coisas devem sua existên­
cia a Deus e que, portanto, o fato de haver imperfeições e de as coisas deixarem 
de existir é fruto desta situação, pois somente Deus não tem princípio nem 
fim. Agostinho, também, percebeu que todas as coisas que existem são boas, 
porque têm sua fonte em Deus e que, portanto, o mal não pode ser senão uma 
lacuna, um defeito, uma ausência de algo que deveria estar presente.
Assim, Agostinho acaba por concordar com Orígenes e a enxergar que o 
temor e o sofrimento existentes no mundo não decorrem do mal, mas, antes, é 
conseqüência da imperfeição das criaturas.
Deste modo, o posicionamento de Orígenes é confirmado pelo grande filó­
sofo e teólogo, que, além do mais, lança por terra a objeção de que a solução 
seria contrária à evidência dos fatos e à realidade do sofrimento existente no 
mundo.
Depois de Agostinho, quem dissertará longamente sobre o tema será Tomás 
de Aquino (1225-1274), o grande sistematizador da filosofia cristã na Idade 
Média, para quem “a essência do mal consiste na deficiência de um determina­
do grau de perfeição e, por conseguinte, na privação de um determinado bem. 
De sorte que a mesma existência de seres transitórios implica a existência do 
mal.” (apud op. cit., p.466).
Assim, ainda que mantenha o posicionamento cristão já clássico e tradi­
cional, de considerar o mal como um não-ser, São Tomás de Aquino vai mais 
além, ao afirmar que o mal chega, mesmo, a ser uma necessidade, na medida 
em que existem seres imperfeitos. Para o Aquinate, portanto, onde há imperfei­
ção, há mal e, por ser o homem um ser imperfeito, a existência do mal é uma 
inevitabilidade.
Tal entendimento é decorrência da influência do pensamento do filósofo 
e teólogo judeu espanhol Maimônides (1135-1204) sobre a obra de Tomás de 
Aquino. Maimônides, em seu livro “Guia dos Perplexos” defendeu a tese de 
que o mal pode ser explicado ora pela limitação necessariamente inerente à 
criatura, ora pelas desordens provocadas pelas próprias criaturas no exercício 
da sua liberdade. Maimônides será o grande filósofo judeu da Idade Média e é 
a demonstração de que o problema do mal nãoapenas incomodou os cristãos, 
mas todos os monoteístas.
Pensando desta maneira, Tomás de Aquino acaba por nos trazer a noção do 
“substrato positivo do mal”. Para o teólogo-filósofo oficial da Igreja Romana, 
embora o mal seja um não ser, o fato é que o mal tem um substrato, ou seja,
O P r o b l e m a d o M a l 121
para que possamos dizer o que é o mal, temos de dizer que ele não é uma 
substância, que ele não é algo que existe. Ora, se o mal só pode ser definido e 
conhecido através do ser, temos que a própria definição do bem exige que nós 
saibamos o que é o bem, ou seja, o mal é somente concebível a partir do bem, 
daí porque dizermos que o substrato do mal é o bem. Entretanto, diz Tomás de 
Aquino, o bem não é a causa do mal, é apenas concebível a partir da noção do 
mal, de forma que Deus não é nem pode ser a causa do mal, pois Deus só causa 
o ser e tudo o que é, como dizem as Escrituras, é bom (cf. Gn 1.31).
René Descartes (1596-1650), filósofo francês considerado como um dos 
iniciadores do racionalismo e um dos principais responsáveis pela superação 
da filosofia medieval, também enfrentou o problema do mal em sua obra. Para 
Descartes, o problema do mal estaria no fato de que a vontade do homem é li­
vre e, como tal, como é da natureza das coisas finitas, como o homem, errarem, 
o erro advém naturalmente ao homem, de forma que daí é que surge o mal, que 
nada mais é que o erro. O erro, diz Descartes, implica em sofrimento e, por 
isso, teríamos a presença do sofrimento apesar de o erro ser, a rigor, um não 
ser, vez que não provém de Deus, que é, por definição, perfeito e bom.
Deste modo, mais uma vez, a exemplo do que fizera Agostinho, busca-se 
explicar porque, apesar de ser um nada, o mal consegue causar tantos males e 
sofrimentos neste mundo em que vivemos. Foi, precisamente, para fugir a esta 
crítica que sempre permeou a solução cristã para o problema do mal, qual seja, 
a constatação de que, embora seja um não-ser, o mal traz efeitos e conseqüên­
cias sentidas por todos os homens, o que não parece apropriado para algo que é 
dito não existir, que o filósofo alemão Gottffied Wilhelm Leibniz (1646-1716) 
apresentou a sua tese do “melhor de todos os mundos possíveis”.
Para Leibniz, somente Deus é perfeito e, portanto, todos os demais seres 
são imperfeitos. Desta imperfeição, surgem as circunstâncias adversas, que 
nada mais são que o mal, que é, como já dissera Tomás de Aquino, uma neces­
sidade, já que o mal deve ser considerado como uma programação estabelecida 
por Deus.
Com efeito, estas imperfeições existem exatamente para que sejam enten­
didas em toda a sua excelência as perfeições, ou seja, pelo contraste entre as 
adversidades, entre os males e os bens, pela comparação entre a existência e 
a falta de existência, é que compreenderemos o que é o bem e como devemos 
enaltecê-lo e reconhecer nele a perfeição divina. Por isso, o mal, numa pers­
pectiva da própria criação, é um bem, na medida em que, somente através do 
mal é que poderemos vislumbrar o bem enquanto tal. Deste modo, o universo 
em que vivemos é o melhor de todos os mundos possíveis, uma vez que foi 
feito de tal maneira que possamos contemplar a perfeição divina.
122 A D o u t r in a do P e c a d o
Dizer, portanto, que o sofrimento, que os efeitos causados pelo mal no 
mundo são uma demonstração de que o mal não é uma ilusão, como diz a solu­
ção monoteísta, não parece ser uma correta afirmação, pois são estes sofrimen­
tos e conseqüências funestas que nos permitem perceber o que é o bem e, como 
tal, tomar consciência de que estamos no melhor dos mundos possíveis.
Para o teólogo norte-americano radicado no Brasil, R. N. Champlin, exa­
tamente por não poder enfrentar a contento a objeção de que o mundo está re­
pleto de sofrimento e de efeitos causados pelo mal, a solução que aqui estamos 
chamando de monoteísta, “não pode explicar muitas de suas formas [do mal]; e 
nem as mentes não-filosóficas, ou mesmo filosóficas, se satisfazem inteiramen­
te com esta explanação. Após exame, tudo se reduz a um ponto de vista “sim­
plório” sobre a existência do mal ( .. .) uma posição criada para aliviar Deus de 
haver criado ou de estar permitindo o mal (...). Eliminar a existência do mal 
deste mundo, mediante alguma explicação racionalizadora, não dá solução ao 
problema, mas tão-somente oculta cruamente o mesmo, não passando tudo de 
um truque filosófico”.9
Entretanto, esta crítica parece não levar em conta a postura de Leibiniz e 
que, ao nosso ver, parece ter respondido bem a esta objeção. Dizer que o mun­
do está repleto de sofrimento e de efeitos causados pelo mal e que, por isso, 
não se pode acolher a ideia de que o mal seja uma ilusão, como bem argumen­
tou Leibniz, é considerar que possa existir um mundo melhor do que este.
E este, aliás, o argumento apresentado por Jaime Quintas em seu artigo 
“O problema do mal”, onde, textualmente, assim afirma o filósofo: “Quando 
afirmamos que a quantidade de mal existente no mundo é incompatível com a 
existência de Deus estamos a afirmar duas coisas simultaneamente:
a) Há demasiado mal no mundo.
b) É possível a existência de um mundo melhor.
Caso a afirmação 2 seja falsa, Deus, mesmo sendo onipotente, terá criado o 
melhor dos mundos, pelo que o argumento do mal perde a sua força”.
Ora, como bem observou o filósofo Quintas, uma coisa é dizermos que en­
tendemos, sob o nosso ponto de vista, que o mundo existente possa ser melhor; 
outra é a constatação de que sempre acharemos que o mundo onde estamos, 
que sempre será imperfeito, pode melhorar. Nas palavras de Quintas: “exis­
tência de um mundo considerado bom pelos seus habitantes é logicamente 
impossível, pelo que um mundo considerado mau pelos seus habitantes não 
se toma incompatível com Deus. O nosso mundo é considerado mau pelos 
seus habitantes; mas daí não se segue que é incompatível com Deus”. Vemos, 
portanto, que a crítica apresentada à solução monoteísta não se sustenta, uma
O P r o b l e m a d o M a l 123
vez que não é pela simples impressão que se tenha do mundo que poderemos 
concluir que o mal seja algo existente e que desafie a própria existência de 
Deus tal como a concebe um monoteísta.
Mas não bastasse isso, também não deixamos de ter de considerar que cabe 
à filosofia tentar refletir sobre o problema do mal e, à luz da razão, explicá-lo 
de forma convincente e lógica e não trazer soluções para que o mal seja elimi­
nado do mundo. A solução monoteísta, que tem suas raízes em Orígenes, dá 
bem conta das objeções apresentadas por Epicuro e que se apresentavam como 
desafiadoras para quem tinha uma fé monoteísta, como os judeus e, posterior­
mente, os cristãos e os muçulmanos.
Há evidência de que a explicação fornecida não elimina o mal nem suas 
conseqüências, até porque não é tarefa da filosofia esta eliminação. Desta ma­
neira, exigir-se do filósofo ou do teólogo que seja dada uma solução a este 
problema, em termos concretos, é algo que não nos parece razoável.
Ademais, se fosse perguntar a qualquer destes pensadores qual seria a so­
lução para o mal, certamente que apresentariam a sua fé, pois o mal só poderá 
ser solucionado, segundo este grupo de pensadores, se a pessoa aceitar, por fé, 
a crença que professam.10
5. As correntes de pensam ento no tratamento do problema do 
mal perguntando: quando o mal terá fim? Aqui, portanto, chega a vez 
de Epicuro, o filósofo grego perguntar: quando o mal terá fim? Quando se 
encontrava no Areópago, na colina de Marte, Paulo foi questionado pelos dis­
cípulos do filósofo grego Epicuro. Assim diz o texto divino: “E alguns dos 
filósofos ‘epicuristas’ e ‘estoicos’ contendiam com ele (Paulo); e uns diziam: 
que quer dizer este paroleiro? E outros: parece que é pregador de deuses. Por­
que lhes anunciava a Jesus e a ressurreição” (At 17.18). Os epicuristas que 
aqui estão em foco, eram discípulos de Epicuro. Filósofo grego que nasceu em 
Samos, 341 a.C. e morreu em Atenas, 270 a.C. Ensina em Mitilene, Lâmpsaco 
e Atenas, ondeabre, em 306 a.C., uma escola num jardim. Os seus discípulos 
consideram-no um personagem divino. Aguardo da sua morte, tanto a sua dou­
trina como a sua escola adquirem caráter religioso. Da sua obra conservam-se 
apenas três cartas (a Heródoto, a Pítocles e a Meneceu) e uns oitenta aforismos, 
descobertos em 1822. A escola filosófica de Epicuro é ao mesmo tempo uma 
comunidade de amigos e uma seita. O pensamento Epicúrio, como o estoico, 
dirige a atenção para as questões morais. Para Epicuro e a sua escola, a virtude 
identifica-se com o saber; por isso, o modelo de virtude é o sábio. O sábio é 
feliz, caracteriza-se pelo domínio de si, pela sua constância e pela sua simpli­
cidade. Afasta-se da política e, em questões de justiça, é propenso à clemência.
12 4 A D o u t r in a d o P e c a d o
O objetivo fundamental do epicurismo é a moral, isto é, a ordenação da con­
duta humana de modo a ser possível alcançar uma vida feliz. Para Epicuro a 
felicidade é a obtenção de prazer sabiamente administrado e o afastamento da 
dor. Deste modo, os epicuristas dão da natureza humana uma explicação hedo­
nista: a lei fundamental da natureza é a procura do prazer. Quanto à descrição 
de fenômenos naturais, os epicuristas recuperam o atomismo de Demócrito 
com algumas variantes; apenas lhes interessa a natureza na medida em que 
pode contribuir para a felicidade do homem libertando-o dos seus temores, 
demonstrando ser vão o temor dos deuses, ser vão o temor da morte, estar o 
prazer ao alcance de todos e que a dor, sendo breve e transitória, é facilmente 
suportável.
a) Epicuro questiona porque Deus não destrói o mal. Filósofo grego, já 
citado neste argumento e que é citado por meio de suas ideias em Atos 17.18, 
chegou a por em dúvida o poder absoluto de Deus em relação ao mistério do 
mal, dizendo: “Ou Deus quer remover a maldade deste mundo, mas não pode; 
ou Ele pode mas não quer; ou Ele não pode e nem quer; ou, finalmente, Ele 
tanto pode como quer fazê-lo. Se Ele tem a vontade, mas não o poder, isso 
mostra fraqueza, o que é contrário à natureza de Deus. Se Ele tem o poder, 
mas não a vontade, isso mostra indiferença, e isso também é contrário à sua 
natureza. Se Ele não pode e nem quer, então é impotente quanto a sua natureza, 
e, consequentemente, não pode ser Deus. E se Ele pode e quer, então de onde 
vem o mal, ou por que Ele não o impede?” (alterado).11
Alguns filósofos cristãos também questionam o problema do mal, discutin­
do e indagando: porque Deus que é Onisciente permitiu a entrada da serpente 
no jardim para tentar o primeiro casal? E semelhantemente, quando será que o 
mal terá seu fim? Nós nunca devemos julgar a Deus e sua maneira de proceder 
dentro de certos critérios estabelecidos pela própria imaginação humana. Deus 
é Todo-Poderoso, como também Todo-Bondoso e Ele pode e quer remover o 
mal. E Adão e sua mulher não foram tentados “acima de suas capacidades” (1 
Co 10.13).
b) Um dia o mal terá fim. Tanto a filosofia como a teologia têm manifesta­
do suas diferentes opiniões concernentes ao problema do mal. Alguns desses 
sábios procuram explicar que a maneira mais suave de Deus destruir o peca­
do, lançando o mesmo para a existência do nada. Mas isso não será assim. 
Também na maioria dessas opiniões, não foi empregado o “fator tempo”. Para 
todo e qualquer propósito tem um tempo determinado, e, consequentemente, 
existe um tempo para o “extermínio do mal” ou seu aniquilamento total. Um
O P r o b l e m a do M a l 125
dia esse tempo chegará! Por que o mal pertence ao tempo — o bem pertence 
à eternidade.
Tanto Epicuro como Kushner, dizendo-se sábios, tomam-se loucos. Eles 
sustentam que as mãos de Deus estão atadas pelas leis insensíveis da natureza. 
Tais pensadores não foram iluminados pelo Espírito Santo e não receberam 
o sopro do Filho de Deus para que pudessem entender as Escrituras. Eles 
não foram agraciados como os discípulos, quando estavam reunidos e nosso 
Senhor “abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc 
24.45). As mentes iluminadas pelo Espírito Santo, entendem claramente que 
Deus é Todo-Poderoso e Todo-Bondoso. O problema do mal, aparentemente, 
parece ganhar fôlego em algumas batalhas e o bem parece que está sendo ven­
cido por suas forças selvagens. Mas no decorrer do tempo, este quadro sempre 
sofre uma inversão. E, evidentemente, a História comprova e a experiência 
nos mostra que, Deus é quem sempre triunfa. A morte de Jesus parecia, aos 
olhos do mundo, um verdadeiro fracasso. Mas a sua ressurreição comprovou 
o contrário. Mostrando para o mundo, tanto físico como espiritual, que sua 
morte foi um verdadeiro sucesso. Um dia, a morte será aniquilada e terá fim. 
“Ora o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte” (1 Co 15.26). Tanto 
ela como o inferno, serão lançados no ardente lago de fogo (Ap 20.14), o que 
significa destmição total destes poderes e de tudo aquilo que ambos represen­
tam. Sem estes inimigos do bem, Deus estabelecerá um mundo melhor, com­
posto por “novos céus e na terra, em que habita a justiça”. O triunfo completo 
será de Deus: é somente esperar!
Deus, através de Cristo, aniquilará todo e qualquer sistema, esquema ou 
influência do mal. O MAL foi surgido por causa do pecado, e haverá um dia, no 
estado eterno, quando o pecado não mais existirá e com ele será banido todo o 
mal (Jo 1.29; Ap 21.4).
‘ABRIL, A. Editora Abril - SP. 3a Edição, 2008, p. 170.
2 GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética. São Paulo: Editora Vida, 1999, p. 534­
535.
3 MEDRANO, R. Pitágoras e seus Versos Dourados. São Paulo, 1993, pp. 70-71.
4 SELME, Dr. A. Van Selme, D. D., Professor de Línguas Semítieas da Universidade de Pre­
tória, África do Sul. S/D
12 6 A D o u t r in a d o P e c a d o
5 McNAIR, S. E. A Bíblia Explicada. 17a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 313.
6 AUSUBEL, Nathan. Conhecimento Judaico. Trad. de Eva Schechtman Jurkiewicz. In: A. 
KOOGAN (ed.). JUDAICA. Rio de Janeiro: Koogan, 1989, Vol 5 e 6, p. 915
7 CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 6, São Paulo: Hag- 
nos, 2001, p. 33
8 CONFISSÕES. Cap. 3, Deus e o mal. Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores http:// 
www.monergismo.eom/. Acesso: 14/03/2008
5 QUINTAS, J. O problema do mal. www.critieanarede.com/fil-mal.html. Acesso em 
16/10/2003.
10 CARAMURU, A. F. Art. O Problema do Mal na História das Ideias. São Paulo, SP - 
18/10/03
11 EPICURO,. Cit. por: CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 
5, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 407.
http://www.monergismo.com/
http://www.criticanarede.com/fil-mal.html
A E x t e n sã o do P ec a d o
1 28 A D o u t r in a d o P e c a d o
I. A E x t e n s ã o C r e s c e n t e d o P e c a d o
1. A extensão do pecado — do Diabo até os anjos. Desde os tempos 
imemoráveis, quando o Diabo pecou até a morte de Cristo na cruz, podemos di­
vidir o avanço do pecado em sete períodos sucessivos, até que Cristo quebrasse 
a ponta de seu aguilhão, por meio de seu sacrifício no calvário e sua aniquilação 
final, no estado eterno, quando o Cordeiro de Deus tirará para sempre o “pe­
cado do mundo”. “Ora o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é 
a lei” (1 Co 15.56). Cristo aboliu tanto um como o outro: tirando o rigor da lei 
através de seu cumprimento e destruindo a força que esta dava ao pecado, pelo 
não cumprimento da mesma. Assim, do pecado do Diabo até a sua consumação 
e destruição final por uma operação divina, houve uma escala ascendente do 
pecado, marcando sete períodos sucessivos na história divina e humana:
o# do pecado do Diabo até os anjos; 
cs do pecado dos anjos até Adão; 
cs do pecado de Adão até Noé; 
cs de Noé até Abraão;
C3 de Abraão até a Lei;
cs da Lei até Cristo;
cs de Cristo até o estado eterno.
Este período não pode ser computado no calendário sucessivo do tempo. 
Ele faz parte da eternidade passada quando somente existia o Deus Trino e 
Uno e o mundo angelical. Ele tanto pode ter sido brevecomo também pode ter 
sido longo. Isso não nos é revelado já que não faz parte da história humana ou 
até mesmo sagrada. O fato é que houve um tempo em que o Diabo era perfeito 
até que pecou e como conseqüência de seu pecado foi expulso do céu, onde 
primitivamente ele habitava. Houve um período em que este anjo de luz ha­
bitou no Éden Mineral descrito em Ezequiel 28. Mas, até este período, parece 
que ele não tinha se rebelado contra Deus. Contudo a sua queda deu-se ali. O 
orgulho motivado por sua formosura e a vaidade de sua sabedoria levaram-no 
à condenação.
2. A extensão do pecado — dos anjos até Adão. Após o seu grande 
fracasso, o pecado do Diabo não ficou restritamente condicionado somente à 
sua pessoa. Ele foi mais além, afetando o mundo angelical. Quando o príncipe 
das trevas fomentou a primeira rebelião contra Deus e suas hostes, deu início,
A E x t e n sã o d o P e c a d o 129
portanto, a uma nova forma no mundo tenebroso, que acabara de ser por ele 
criado a fim de agregar nele seus sequazes, os quais aderiram às suas ideias 
sombrias na revolta contra Deus nas esferas de seu domínio. Não sabemos 
quanto tempo tenha se passado, de sua queda até a queda do mundo angelical, 
conforme já tivemos a ocasião de expor na seção que precede a esta que aqui 
temos em foco. Com efeito, porém, da queda do mundo angelical até a queda 
do homem, marca novamente, um novo período, quando nada nos é revelado, 
a não ser aquilo que depreendemos dos textos e contextos que falam do fra­
casso destas hostes do mal e daquilo que elas são e representam no mundo das 
trevas.
3. A extensão do pecado — de Adão até Noé. Com a queda do pri­
meiro casal, Adão e sua mulher, tem início a segunda etapa que apresentou 
seus aspectos negativos de Adão a Noé, quando através do dilúvio, Deus faz 
uma transformação naquele sistema primitivo criado para servir de base para o 
primeiro casal e as famílias subsequentes e estabelece uma nova ordem de vida 
e adoração para Noé e seus descendentes. As sete leis da proibição eram leis 
gerais e naturais, obrigatórias a todos os homens. A princípio, tudo era bom, 
como Deus fez. Pela rebeldia do homem, o mal toma forma de destruição, pois 
até então, ele encontrava-se incubado (Gn 2.17). Em Gênesis 3.4, temos a “pri­
meira mentira”. As palavras da serpente foram ambíguas. Os olhos de Adão e 
Eva foram, de fato, abertos e eles conheceram o bem e o mal; mas a experiência 
lhes fora, inesperadamente, amarga, eles viram, não visões de glória, como a 
serpente lhes tinha prometido (Gn 3.5), mas sua própria nudez e pecaminosi- 
dade. Eles, então, contraíram 4 gêneros de morte (duas factuais: espiritual e 
moral, e duas futurísticas: física e eterna). Embora cremos que Deus não tenha 
permitido a consumação desta última (Gn 3.22-24; Jó 14.4; Pv 28.13; Lc 3.23­
38; Rm 5.14). Em Gênesis 3.6, temos o primeiro casal cedendo a “concupis­
cência da came”, e, daí a “soberba da vida” (1 Jo 2.16). Cumprindo-se assim 
as palavras do salmista, que disse: “um abismo chama outro abismo” (SI 42.7). 
A partir de Gênesis 3.9, temos a primeira pergunta de Deus (esta é a segunda 
pergunta da Bíblia, porque infelizmente, a primeira foi feita pela serpente (Gn 
3.1): “onde estás?”. Esta se refere à responsabilidade humana, “onde estás?”; 
escondendo-se de Deus, por quê? Por causa do medo; por quê? Por causa da 
santidade divina; por causa da ira de Deus (Gn 3.6; 4.14; Is 6.5; Ap 6.16,17). 
Em o Novo Testamento, a primeira pergunta é feita pelos homens acerca de 
Deus (Filho): “onde está aquele que é nascido rei dos judeus” (Mt 2.2). Mas 
de qualquer modo, as Escrituras são proféticas e se combinam entre si em cada 
detalhe. A primeira pergunta religiosa foi feita ao “primeiro homem, Adão”;
130 A D o u t r in a d o P e c a d o
em o Novo Testamento é feita a primeira pergunta religiosa à respeito de Cristo
— “O último Adão” (1 Co 15.45). A segunda pergunta moral de Deus é feita 
a Caim: “onde está Abel, teu irmão?”. Em Gênesis 3.14, fala-se da primeira 
maldição. A serpente é o único animal de esqueleto ósseo que se rasteja; apesar 
de esse ter se adaptado ao seu lugar na natureza como a do leão ou da águia; 
contudo, isso lhe foi imposto por causa do pecado, quando Deus pronunciou 
a sua sentença, dizendo: “Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda 
a besta, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás, 
e pó comerás todos os dias da tua vida”. No tocante à sua comida, alguns 
estudiosos da Bíblia têm questionado as palavras do Criador, quando disse: 
“pó comerás todos os dias da tua vida”, como não tendo se cumprido na vida 
desse animal em geral; sua comida consiste de pequenos animais que são suas 
presas; contudo, convém notar que, estes pequenos animais foram formados do 
pó (Gn 2.7; 3.19), e em pó serão transformados.
a) Sete pragas ocasionadas pelo pecado. Podemos observar em Gênesis 3, 
sete pragas ocasionadas pelo pecado, que vieram a cair sobre o homem e que 
foram sofridas por Cristo:
NA QUEDA: m ---------------------- ► EM CRISTO:
I o. A Dor (v. 6). “Era desprezado, e o mais indigno entre os homens; ho­
mem de ‘dores’, experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os 
homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum” 
(Is 53.11; Mt 8.17).
2o. A Sujeição (v. 16). “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou 
seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Lc 2.51; G14.4).
3o. A Maldição (v. 17). “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se 
maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendu­
rado no madeiro” (G1 3.13);
4o. A Tristeza (v. 17). “Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza 
até à morte” (Mt 26.38);
5o. Os Espinhos (v. 18). “E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha 
na cabeça” (Mt 27.29);
6o. Suor (v. 19). “E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor 
tomou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão” (Lc 22.44);
7o. A Morte (v. 19). “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, 
sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Fp 2.8).
A E x t e n sã o d o P e c a d o 131
b) As conseqüências trazidas pelo pecado. Com a mudança de comporta­
mento alterado por causa do pecado, surgem os ataques desde a discórdia até 
o crime contra vida.
I o. Em Gênesis 4.1-7, aparece a discórdia e o duelo;
2o. Em Gênesis 4.8, acontece o primeiro fratricídio do mundo;
3o. Em Gênesis 4.16 e seguintes, o avanço do pecado em todas as direções da 
existência, começando com Caim saindo “de diante da face do Senhor”. Caim 
foi o primeiro homem que ao ser repreendido por Deus, acrescentou as suas 
maldades como o fez Herodes séculos depois (Gn 4.6,7,13; Lc 3.19,20).
4. A extensão do pecado — de Noé até Abraão. Depois do fracasso 
do homem, e as conseqüências que acabamos de mencionar acima, o pecado 
avança numa escala ascendente. Entre o mal, a morte, a discórdia, o fratricídio, 
a vingança desmedida, a depravação que solta o dilúvio. Depois do dilúvio, 
Deus começa uma nova ação num ponto da história com Noé. E, sob a ação de 
Deus, a história do pecado crescente, faz-se agora salvação ascendente: cresce 
e ramifica-se a vida dos patriarcas, evita-se o fratricídio e o homicídio ordiná­
rio, recompõe-se a família e se estabelece um método de adoração à Deus por 
meio de altares e sacrifícios.
a) As sete leis gerais e naturais de concessão e proibições. Estas leis a 
princípio estabelecidas por Deus são agora restabelecidas através de Noé e 
seus descendentes. Em Gênesis 9.1 -7, encontram-se o restabelecimento destas 
leis impostas por Deus desde o princípio. São elas:
I o. Concessão. “E abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Fru- 
tificai e multiplicai-vos, e enchei a terra. E será o vosso temor e o vosso 
pavor sobre todo o animal da terra, e sobre toda a ave dos céus; tudo o que 
se move sobre a terra, e todos os peixes do mar na vossa mão são entregues. 
Tudo quanto se move, que é vivente, será para vosso mantimento,significados: mal, 
maldade, desgraça, calamidade, desventura, aperto, etc. Na verdade, a palavra 
“ra” como substantivo nos traz as seguintes conotações: mal, aperto, prejuízo, 
calúnia etc, porém como adjetivo temos: mau, perverso, criminoso etc. Este 
termo é usado para designar tudo aquilo que não se deseja. Assim a ideia de 
mal geralmente se refere a tudo aquilo que não é desejável ou que deve ser 
destruído. O mal está no vício, em oposição à virtude. Em muitas culturas, é o 
termo usado para descrever atos ou pensamentos que são contrários a alguma 
religião em particular, e pode haver a crença de que o mal é uma força ativa e 
muitas vezes personificada na figura de uma entidade como o Diabo, Satanás 
ou Arimã. Em Plotino, a matéria é identificada com o mal e com a privação de 
toda forma de inteligibilidade. Em Kant, o ser humano teria uma propensão
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 15
para o mal, apesar de ter uma disposição original para o bem. Hannah Arendt 
retoma a questão do mal radical kantiano, politizando-o. Analisa o mal quando 
este atinge grupos sociais ou o próprio Estado. Segundo a autora, o mal não 
é uma categoria ontológica, não é natureza, nem metafísica. E político e his­
tórico: é produzido por homens e se manifesta apenas onde encontra espaço 
institucional para isso — em razão de uma escolha política. A trivialização da 
violência corresponde, para Arendt, ao vazio de pensamento, onde a banalida­
de do mal se instala.3
e) Relacionado com o pecado e o resultado do pecado — ‘hamartêma
Palavra que traz a conotação de pecado, mas com o sentido de resultado de 
pecar (Mc 3.28 e ss). O pecado sempre foi um termo principalmente usado 
dentro de um contexto religioso, e hoje descreve qualquer desobediência à 
vontade de Deus; em especial, qualquer desconsideração deliberada das Leis 
reveladas. No hebraico e no grego comum, as formas verbais (em hb. hhatá; 
em gr. hamartáno) significam “errar”, no sentido de errar ou não atingir um 
alvo, ideal,ou padrão. Em latim, o termo é vertido por peccátu. O Judaísmo 
consictera-á violação de um mandamento divino como um pecado. O judaísmo 
ensina que o pecado é um ato e não um estado do ser. A Humanidade encontra- 
se num estado de inclinação para fazer o mal (Gn 8.21) e de incapacidade para 
escolher o Bem em vez de o Mal (SI 37.27). O Judaísmo usa o termo “pecado” 
para incluir violações da Lei Judaica que não são necessariamente uma falta 
moral. De acordo com a Enciclopédia Judaica, “O homem é responsável pelo 
pecado porque é dotado de uma vontade livre (“behirah”); contudo, ele tem 
uma natureza fraca e uma tendência para o Mal: “Porque a imaginação do 
coração do homem é má desde a sua meninice...” (Gn 8.21). Por isso, Deus, 
na sua misericórdia, permitiu ao homem arrepender-se e ser perdoado. O Ju­
daísmo defende que todo o homem nasce sem pecado, pois a culpa de Adão 
não recai sobre os outros homens. Pecado designa todas as transgressões de 
uma Lei ou de princípios religiosos, éticos ou normas morais. Podem ser em 
palavras, ações (por dolo) ou por deixar de fazer o que é certo (por negligência 
ou omissão). Ou seja, onde há Lei, se manifesta o pecado. Pode ser tão somente 
uma motivação ou atitude errada de uma pessoa, e isso, é chamado de pecado 
“no coração”. No íntimo dos humanos, independente da cultura a que pertença, 
existe necessidade de estabelecer princípios de ética e normas de moral. Quan­
do se viola a consciência moral-pessoal, surge o sentimento de culpa.4
f) Relacionado com a transgressão — ‘parabasis Palavra que traz a cono­
tação de transgressão, violação, desobediência, etc. A transgressão propriamente
16 A D o u t r in a d o P e c a d o
dita é um ato de desobediência consciente e deliberada. Paulo descreve isso, 
quando se referiu ao pecado de Adão no sentido geral. Então ele diz: “No entan­
to a morte reinou desde Adão até Moisés, sobre aqueles que não pecaram à se­
melhança da transgressão de Adão...” (Rm 5.14). A palavra “transgressão” vem 
de uma raiz grega que é “anomia” e significa “violação da lei”, “desordem”, 
“anarquia”, ou ainda “declínio para a margem esquerda ou direita da linha da 
santidade”. Literalmente falando, isso quer dizer “ir além do limite traçado” (1 
Jo 3.4,8). Em o Novo Testamento, a palavra grega “parabasis”, era usada com 
exclusividade para designar o “pecado de Israel”. Esse era um tipo de pecado 
especial dos judeus que agravava a culpa deles ante o tribunal de Deus (Js 7.15). 
Por isso é que lemos em Romanos 4.15: “... mas onde não há lei, também não 
há transgressão”. E por essa razão que o pecado de Adão foi chamado de “trans­
gressão, porquanto violou um mandamento que lhe fora dado especialmente”. 
Calvino declara, numa tradução livre de Romanos 5.14, “Por igual modo, até 
hoje (os judeus) desonram a Cristo, ‘transgredindo’ contra o evangelho...por 
isso para eles a morte ainda reina”.
g) Relacionado com a maldade — ‘ponêria Palavra que traz a conotação 
de malícia, maldade, iniqüidade, etc. A palavra quando utilizada no plural traz 
o sentido de atos maliciosos em alguns textos. Algumas traduções enfocam 
a palavra “maldade” no texto de Marcos 7.22, porém o correto seria “atos 
maliciosos”. A iniqüidade é um outro pecado descrito na Bíblia, como algo 
que fere o sentimento amoroso e a equidade de Deus. “Toda a iniqüidade é 
pecado: e há pecado que não é para morte” (1 Jo 5.17). A palavra “iniqüidade” 
é tomada como personificação do pecado quando este é praticado no sentido 
cruel. No hebraico essa palavra, é “hattã’th” e sua variante “awôn”, que sig­
nifica desobediência merecedora, pela culpa, de um grande castigo (Jó 19.29; 
Hb 2.2). Nas Escrituras do Antigo Testamento a iniqüidade já era reconhecida 
como tendo sentido especial, que designava o pecado em sua forma mais cruel 
e brutal. Davi descreve a natureza daqueles que a praticavam dizendo: “Não 
terão conhecimento os obreiros da iniqüidade, que comem o meu povo, como 
se comessem pão? Eles não invocam ao Senhor” (SI 14.4); enquanto que nosso 
Senhor Jesus Cristo, retrata a iniqüidade como aquele elemento mortal que se­
para o homem de sua caminhada, quando exclama: “Apartai-vos de mim, vós 
que praticais a iniqüidade” (Mt 7.23) e com relação a Deus o profeta Isaías 
apresenta o seguinte gráfico: “... as vossas iniqüidade fazem divisão entre vós 
e o vosso Deus...” (Is 59.2). Aqui, está, portanto, o verdadeiro sentido da ini­
qüidade: “aquilo que separa”, ou de acordo com o conceito rabínico “aquilo 
que coloca longe”, isto é, que distancia.
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 17
h) Relacionado com aquilo que é falso — ‘paraptôma’. Palavra que traz 
a conotação de passo em falso, transgressão, pecado, etc. Temos um exemplo 
de paraptôma em Romanos 11.11 e ss., o qual relata: “Digo, pois: porventura, 
tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum! Mas pela sua queda (pas­
so em falso), veio a salvação aos gentios...”. Falsidade é a característica do 
que não é verdadeiro. De fato, o ser humano muitas vezes se sente, na nossa 
sociedade, quase obrigado a ser falso. A mentira, o engodo, o engano, a falsa 
aparência, a esnobação e a desfaçatez são gêneros de primeira necessidade 
nos relacionamentos entre as pessoas. O orgulho e a busca de reconhecimento 
trazem consigo a necessidade quase inadiável de aparentar algo que não se é. 
A falsidade em sua concepção traz à pessoa certos proveitos. Omitir sua con­
dição, ou se mostrar de maneira diferente para levar vantagens, obter lucros, 
ascensão social, desmoralizar outras pessoas entre outros. Essa parece ser a 
ética do mundo. Rui Barbosa, o grande jurista brasileiro, afirmou certa vez, 
dentre outras coisas, que de tanto ver triunfar a mentira e a falsidade, tinha até 
vergonha de ser honesto. É fácil tomar um relato mais interessante acrescen­
tando a ele alguns detalhes, como também é fácil fraudar uma história quando 
lhe dispensamos uma omissão ou ação. E simples deduzir que não existetudo vos 
tenho dado como a erva verde” (Gn 9.1-3). As seis leis que se seguem são 
de proibições.
2o. Orientação. “A came, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não 
comereis” (Gn 9.4). A qui se en co n tra a proibição divina no tocante a 
sufocação que era algo ilícito aos olhos de Deus (Lv 17.10-16);
3o. Responsabilidade. “E certamente requererei o vosso sangue, o sangue 
das vossas vidas; da mão de todo o animal o requererei; como também da 
mão do homem [homicida], e da mão do irmão [fratricida] de cada um
132 A D o u t r in a do P e c a d o
requererei. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue 
será derramado; porque Deus fez o homem conforme à sua imagem” (w. 
5, 6). Aqui se encontra declarada a lei natural da preservação da vida, em 
termos genéricos, e também fica terminantemente proibido o fratricídio.
4o. Prosperidade. “Mas vós frutifieai e multiplicai-vos; povoai abundante­
mente a terra, e multiplicai-vos nela” (v. 7). As três leis naturais da existên­
cia, dada por Deus a Adão e sua mulher são novamente reafirmadas como 
promessas de Deus para Noé e seus descendentes. Elas seriam:
5°. Frutificação do gênero humano;
6o. Multiplicação das famílias;
7°. Povoamento da terra.
b) Deus estabelece uma nova Aliança com Noé e sua posteridade. De
acordo com Scofield, as bases da nova aliança são:
I o. Confirmação de que o homem seria relacionado à terra, conforme a 
Aliança adâmica (Gn 8.21).
2o. Confirmação da ordem na natureza (Gn 8.22).
3o. Estabelecimento do governo humano (Gn 9.1-6).
4o. Garantia de que a terra não sofreria outro dilúvio (Gn 8.21; 9.11).
5o. Declaração de que procederia de Cão uma posteridade inferior e servil 
(Gn 9.24,25).
6o. Declaração profética de que haveria uma relação especial em Deus e 
Sem (Gn 9.26,27).
7o. Declaração profética de que de Jafé procederiam as raças ‘dilatadas’ 
(Gn 9.27).1
5. A extensão do pecado — de Abraão até a Lei. De Abraão até 
Moisés, quando a lei foi dada por Deus aos filhos de Israel, Deus estabelece um 
novo Pacto com Abraão e seus descendentes — o da circuncisão que, servia 
como sinal de Deus em Abraão e seus descendentes, como sinal de separação 
dos povos gentílicos e das contaminações de seus pecados. Os rabinos judai­
cos em suas tradições orais costumam dizer que os povos que vieram antes 
de Abraão não eram judeus. Adão, que desobedeceu a Deus, era uma pessoa 
comum no pior dos casos; Noé, honrado em seu tempo, era uma pessoa comum 
no melhor dos casos.
A E xt e n sã o d o P e c a d o 133
6. A extensão do pecado — da Lei até Cristo. A Bíblia nos informa 
que “a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” 
(Jo 1.17b). Portanto, de Moisés até Jesus, quando perdurou o período da Lei, 
esta jamais pode com todas as suas ordenanças e exigências deter o avanço das 
forças do pecado. Mesmo havendo determinadas alternativas oferecidas por 
parte de Deus, Paulo diz em Romanos 5.14, que “a morte reinou desde Adão 
até Moisés, até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão 
de Adão”.
Durante este período, o pecado se desenvolveu em forma crescente e as 
alternativas que a Lei oferecia em relação ao pecado, para expiação do mes­
mo, somente os cobria, isto é, cobria mas não tirava, como no caso de Cristo 
que, não cobre — mas tira o pecado (Jo 1.29). Em Romanos 5.12-14,21, Pau­
lo fala do avanço do pecado em processo de multiplicação, dizendo: “Pelo 
que, como por um homem [Adão] entrou o pecado no mundo, e pelo pecado 
a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos 
pecaram”.
7. A extensão do pecado — de Cristo até ao estado eterno. “Jesus 
Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente” (Hb 13.8). O propósito de 
Deus, na morte de Cristo, era salvar os pecadores. Assim, seu sacrifício aponta 
para o passado. Ele foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). Seu sa­
crifício, portanto, abriu o caminho da expiação, mesmo antes do homem pecar. 
Mas Cristo morreu, quando veio a “plenitude dos tempos”. Ele nasceu de uma 
virgem; viveu entre os homens e como homem; morreu como o Cordeiro de 
Deus. O seu sacrifício foi marcado pelo tempo; contudo, o seu valor marca o 
tempo e a eternidade. Ele continua o mesmo quanto ao tempo e a importância. 
Aqueles que não recebem a salvação oferecida por Cristo, continuam pecando, 
até que seja estabelecido o grande trono branco. Mas o caminho da redenção 
inaugurado por Ele na cruz continua aberto, até que o julgamento final seja 
realizado. Portanto, o valor de sua morte para tirar o pecado, se estende de 
eternidade à eternidade.
II. A E x t e n s ã o V e r t i c a l , H o r i z o n t a l e M o r a l d o 
P e c a d o
1. Extensão vertical — o pecado afetou o universo espiritual.
As conseqüências trazidas pelo pecado produziram prejuízos incalculáveis em 
todas as dimensões da existência. As grandes catástrofes da queda de Satanás 
trouxeram grande ruína ao universo espiritual criado por Deus.
134 A D o u t r in a do P e c a d o
a) Afetou as regiões celestes. “Revesti-vos de toda a armadura de Deus, 
para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não 
temos que lutar contra a came e o sangue, mas, sim, contra os principados, 
contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as 
hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6.11,12). As regiões 
que aqui estão em foco devem ser entendidas como céu atmosférico e céu 
estelar, conforme é deduzido do original. No hebraico a palavra para céus é 
(“shamayim”). A terminação “im” indica o plural. Isso pretende mostrar que 
há mais do que somente um céu. Na Bíblia distinguem-se pelo menos três 
céus; o céu inferior (auronos), o céu intermediário (mesoranios) e o céu supe­
rior (eporanios). Uma vez que o “Céu Superior” é eterno, não é, pois sujeito 
a nenhuma mudança influenciada pelo poder do pecado. O grande inimigo de 
Deus e dos homens abriu uma grande “cisão” na região setentrional [região 
norte] do céu, onde existe um “vazio” (Jó 26.7; Is 14.13-15). Convém notar 
que no segundo dia da criação, quando Deus criou os ares, Ele não pronunciou 
as palavras ‘bom” ou ‘boa’, como o fez nos outros dias (Gn 1.6-8). Esta região 
após o pecado e queda de Satanás foi afetada pelas hostes do mal. Eles ali 
existem, como inimigos de todo o bem, eles são vistos nestas regiões fazendo 
guerra aos santos. Suas disposições hostis, opõem-se a Deus e aos homens 
(Ap 12.7).
b) Afetou um terço dos anjos celestiais. Com a queda deste terrível ser, ele 
passa a conquistar “um terço” dos anjos de Deus, os quais posteriormente se 
dividiram em dois grupos distintos em relação à sua posição e serviço:
I o. O primeiro grupo dos anjos é composto por aqueles que se encontram 
sob a esfera do domínio de Satanás e, consequentemente, não se encontram 
aprisionados (Ef 2.2; 6.12; Ap 12.7). Em algumas passagens das Escrituras 
lemos sobre “principados”, “potestades”, “tronos”, “autoridades”, “domi­
nações” no sentido invisível específico de seres caídos. Eles ali são tão 
numerosos que tomam o poder de Satanás muito extenso.
2o. O segundo grupo dos anjos é composto de anjos “caídos”, como os an­
jos do primeiro grupo; mas estes se encontram na “escuridão, e em prisões 
eternas até o juízo daquele grande dia” (Jd v. 6). Estes seres espirituais 
também são estruturados, organizados e disciplinados em relação às suas 
disposições hostis contra Deus e o seu reino de luz.
2. Extensão h orizon ta l— o pecado afetou o universo físico. Com
a queda de Adão, o pecado afetou a terra — incluindo o reino vegetal.
A E x t e n sã o d o P e c a d o 135
a) O pecado afetou a terra. Aqui Deus pune a terra por causa do pecado 
do homem. “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e 
comeste da árvore de que te ordenei dizendo: Não comerás dela: maldita é a 
terra por causa de ti” (Gn 3.17). No princípio Deus criou tudo muito bom. Mas 
após o pecado de Adão, a terra perdeu seu estadooriginal de configuração. 
E vem sobre ela a segunda maldição pronunciada por Deus em relação ao 
pecado. Trata-se da mudança operada na própria terra. Por outro lado, em cer­
tos momentos de ira do Diabo, ele trazia perturbação à terra, punha o mundo 
como um deserto e fazia estremecer os reinos, assolando as cidades, conforme 
é descrito pelo profeta Isaías: “Os que te virem te contemplarão, considerar-te- 
ão, e dirão: E este o homem que fazia estremecer a terra e que fazia tremer os 
reinos? Que punha o mundo como o deserto, e assolava as suas cidades? Que 
não abria a casa de seus cativos?” (Is 14.16,17). Do ponto de vista divino de 
observação, a maldição quando pronunciada por Deus, apresenta três aspectos. 
Dentre os quais destacam-se, em primeiro lugar, uma denúncia contra o peca­
do (Gn 3.14,17,18; Nm 5.21; Dt 29.19,20). Em segundo lugar, a maldição é o 
julgamento de Deus contra o pecado (Nm 5.22,23,27; Is 24.6). E em terceiro 
lugar, a pessoa que está sofrendo as conseqüências do pecado, por motivo do 
julgamento de Deus, é chamada de maldição (Nm 5.21,27; Jr 29.18). Mas não 
envolve o caráter eterno de geração em geração como tem sido ensinado por 
alguns grupos religiosos dos últimos dias. Ela é um juízo local, individual e 
não coletivo; a não ser que Deus pronuncie esta maldição contra uma nação 
(Ml 3.9). Com efeito, porém, quanto à maldição, mesmo pronunciada por parte 
de Deus, ela pode ser removida quando esse alguém olha para Cristo e aceita 
seu perdão mediante o arrependimento. Em relação à terra, durante a Era Mile­
nar, a maldição imposta por Deus como conseqüência do pecado será removida 
(Is 55.13). O reino vegetal, que foi amaldiçoado por causa do homem (Gn 
3.18), será redimido dessa maldição por ocasião da volta de Cristo com poder 
e grande glória para reinar durante mil anos (Ap 20.1-6).
b) O pecado afetou o reino animal. Quando Deus criou os animais, mesmo 
aqueles de natureza selvagem, tinham o perfil daqueles que irão existir durante 
o milênio, conforme são descritos pelo profeta Isaías: “E morará o lobo com o 
cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o 
animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa 
pastarão juntas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. 
E brincará a criança de peito sobre a toca da áspide, e a desmamada colocará a 
sua mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu 
santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as 
águas cobrem o mar” (Is 11.6-9). Contudo, como conseqüência do pecado do
1 3 6 A D o u t r in a d o P e c a d o
homem, o reino animal sofreu alterações nítidas em sua estrutura e comporta­
mento. O pecado trouxe sobre eles um sentimento de ferocidade e de destrui­
ção. As feras passaram a perseguir os homens e de igual modo, os homens às 
feras (Gn 9.1-3; Jz 14.5; 2 Rs 2.24; Ez 14.21). O reino animal sofreu as conse­
qüências do pecado do homem; e assim tanto a natureza humana como a dos 
animais foi afetada; durante a glória do Milênio a exemplo do reino vegetal, a 
ferocidade das feras será também removida (Is 11.6).
3. Extensão moral — o pecado afetou a raça humana. “Pelo que, 
por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a mor­
te passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Rm 5.12). O pecado 
praticado pelo primeiro homem, Adão, furtou da humanidade a verdadeira vida 
e liberdade, impondo sobre ele o silêncio da morte, pois por causa de Adão, a 
“morte passou a todos os homens”. No contexto geral das Escrituras, por meio 
do pecado, o homem se tomou o recipiente de uma natureza depravada; e a ex­
pressão inevitável da mesma, é a depravação de caráter e conduta. “Parece que 
o pecado permeou todo o universo, incluindo cada reino na criação e afetando 
cada raça e espécie entre as criaturas, com resultados funestos”.
a) O pecado afetou a tríplice constituição do homem. “Ora o ‘aguilhão’ da a 
morte é o pecado” (1 Co 15. 56a). O pecado como aguilhão da morte pode ser 
comparado a um ‘ferrão’ de três lanças pontiagudas: um atinge o espírito; outro 
atinge a alma e o terceiro atinge o corpo. Assim, o pecado afetou em cheio a 
constituição completa do homem:
cg no espírito;
os na alma;
cg no corpo.
As Escrituras mostram essa tríplice constituição do homem como também, 
de igual modo, apresenta a “redenção por parte de Deus”, para cada parte men­
cionada. Com efeito, porém, para que haja uma melhor compreensão do sig­
nificado do pensamento, focalizaremos agora, o pecado nestas três dimensões
do homem, começando com o “corpo”, passando pela alma e terminando com
o “espírito”.
Veja o quadro da triplicidade do homem na página a seguir:
A E xt e n sã o d o P e c a d o 137
Visáo 
Audição 
Tato 
Paladar 
Olfato
Fruto do Espirito 
no espirito santificado: 
“...caridade, 
gozo, 
paz,
longarumidade, 
bemgnidade, 
bondade,
fé,
mansidão, 
temperança’'
Gl 5.22 
Temperamento:
1 Tm 3.2 e ss.
Nascido de novo, Jo 3.3 
Espírito controlado por Cristo
Vontade própria
Espirito de Deus 
Espirito santificado 
~ yirito do Mundo*
Três tipos de "concupiscéncias" 
1f “da came”
2* "dos olhos “
3* “da uida-soberba”.
1 Jo 2.16.
Fatores negativos:
Preocupações, medo, nervosismo, 
insanidade, morte.
S l 55.22: solução objetiva.
...maus pensamen­
tos, os adultérios, as 
prostituições, os ho­
micídios, os furtos, a 
avareza, as ma Ida­
des, o engano, a dis­
solução, a inveja, a 
blasfêmia, a sober­
ba, a loucura", Mc 
7.21-22.
Homem interior 
Homem emotivo 
Homem exterior
Obras da carne: 
“...prostituição, 
impureza, 
lascívia, 
idolatria, 
feitiçarias, 
inimizades, 
porfias, 
emulações, 
iras, 
pelejas, 
dissensôes, 
heresias, 
invejas, 
homicídios, 
bebedices, 
glutonarias". 
G 15.19-21.
1 38 A D o u t r in a do P e c a d o
1°. O pecado da came. “Porquanto o que era impossível à lei, visto como 
estava enferma pela came, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da 
came do pecado, pelo pecado condenou o pecado na came” (Rm 8.3). O 
apóstolo faz neste texto, alusão ao sombrio poder do pecado, dizendo que 
chegou ao ponto de enfermar a própria lei; e, não somente isso, mas de en­
fermar também o próprio Filho de Deus, Jesus, nosso Senhor (Is 53.10) e por 
meio do corpo de Cristo, condenou o pecado na sua própria came — came 
de Cristo, pois somente assim, seu aguilhão mortal, que era a própria morte, 
seria banido. Cristo, portanto, cmzou a linha da morte e foi atingido por seu 
aguilhão — a morte. Pedro diz que Cristo “padeceu uma vez pelos pecados, 
o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus” (1 Pe 3.18). O pecado tinha 
atingido a todas as criaturas. “Porque todos pecaram”, afirma o apóstolo Pau­
lo. Isaías 1.6, diz que o pecado afetou o homem “desde a planta do pé até à 
cabeça”. Em Romanos 1, o apóstolo Paulo descreve uma lista de pecados 
que estão associados as obras da came. Então ele diz: “Estando cheios de 
toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de invejas, 
homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, 
aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de 
males, desobedientes aos pais e às mães. Néscios, infiéis nos contratos, sem 
afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia” (Rm 1.29-31). Em Gála- 
tas 5.19-21, Paulo descreve as obras [pecados] da came, em oposição àquelas 
qualidades morais que fazem parte do “fruto do Espírito”. Ainda de acordo
com o apóstolo, as obras da came são manifestas, as quais são
CS? Idolatria
03 Feitiçarias
0# Inimizades
03 Porfias
03 Emulações
C S Iras
C S Pelejas
c s Dissensões
0 3 Heresias
C S Invejas
CS Homicídios
c s Bebedices
c s Glutonarias.
A E xt e n sã o do P e c a d o 139
Depois, vem a complementação, quando diz: “e coisas semelhantes a es­
tas”. Quando abrimos um dicionário correspondente à língua em que a Bí­
blia está escrita, nos assombramos com a significação destas palavras des­critas aqui nesta seção; elas são usadas somente no campo da destruição, 
seja moral ou espiritual, seus sentidos somente apontam para o mundo mal. 
Os pecados alistados em 2 Timóteo 3.2-5 aparecem mais inclinados como 
pecados da alma; enquanto que Marcos 7.21-23 descreve pecados que par­
tem do ‘interior do coração’, e são indicados como pecados do espírito. Na 
lista de Apocalipse 21.8 abrangem toda extensão da pessoa humana, isto 
é, corpo, alma e espírito. Todos eles são inversos ao “Fruto do Espírito” 
que vem logo a seguir: suas nove qualidades que são estas, apontam para 
o mundo do bem. Muitas doenças e moléstias são, de fato, causadas pelo 
pecado. Existem outras doenças e males que são provas de Deus e outras 
fazem parte do curso natural da vida.
2o. O pecado da alma. “Eis que todas as almas são minhas; como a alma 
do pai, também a alma do filho é minha: a que pecar, essa morrerá” (Ez 
18.4). De acordo com os ensinamentos de Jesus quando, em relação ao 
coração do homem, e, este tomado como sinônimo da alma, se toma ponto 
pacífico o que declara o Mestre em Marcos 7.21,22, que diz: “Porque do 
interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, 
as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, 
a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males 
procedem de dentro (da alma) e contaminam o homem”.
3o. O pecado do espírito. “Ora, amados, pois que temos tais promessas, pu- 
rifiquemo-nos de toda imundícia... do espírito, aperfeiçoando a santificação 
no temor de Deus” (2 Co 7.1). Muitos teólogos procuraram separar através 
de estudos e interpretações paralelas, o pecado do espírito, afirmando que 
o pecado quando praticado, somente atingia o corpo e a alma; mas isso não 
coaduna com a tese e argumento principal das Escrituras. Por exemplo, se 
o homem permitir que o orgulho o domine, ele tem um:
cs “espírito altivo” (Pv 16.18);
cs “um espírito perverso” (Is 19.14);
CS “um espírito rebelde” (SI 106.33);
CS “um espírito impaciente” (Pv 14.29);
CS “um espírito perturbado” (Gn 41.8);
03 “um espírito faccioso” (Tg 3.16);
05 “um espírito de ciúmes” etc. (Nm 5.14).
140 A D o u t r in a d o P eca d o
b) A razão divina de exigir santificação no homem completo. Há, por- - 
tanto, o pecado do corpo, da alma e do espírito, por cuja razão é exigida a 
santificação de ambos num contexto geral, quando diz: “todo o vosso espírito, 
e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda 
de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5.23). O homem também é o templo de 
Deus, e da mesma maneira tem três partes (1 Co 3.16; 1 Ts 5.23). Também é 
dito que a Palavra de Deus penetra nestas três divisões do homem. “Porque 
a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma 
de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e 
medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb 
4.12).
I o. O corpo — Átrio Exterior. O corpo é como o átrio exterior, ocupando 
uma posição exterior com sua vida visível a todos. Aqui o homem deve 
obedecer a cada mandamento de Deus. Aqui o Filho de Deus serve como 
substituto e morre pela humanidade.
2o. A alma — O lugar Santo. Por dentro está a alma do homem, que consti­
tui a sua vida interior e inclui sua emoção, vontade e mente. Tal é o Lugar 
Santo de uma pessoa regenerada, pois seu amor (fileo), vontade e pensa­
mento estão plenamente iluminados para que possa servir a Deus como o 
sacerdote do passado fazia.
3o. O espírito — O Santo dos Santos. No mais interior, além do véu, jaz
o Santo dos Santos, no qual nenhuma luz humana jamais entrou e olho 
humano algum jamais penetrou. Ele é o “esconderijo do Altíssimo”, a ha­
bitação de Deus. O homem não pode ter acesso a ele, a menos que Deus 
queira rasgar o véu, como fez por ocasião da morte de Cristo (Mt 27.51).
Ele é o espírito do homem. Este espírito existe além da consciência pró­
pria do homem e acima da sua sensibilidade. Aqui o homem une-se a Deus 
e tem comunhão com Ele, mas sempre por meio do corpo. Nenhuma luz 
é fornecida para o Santo dos Santos porque Deus habita ali. E assim está 
dito: “O Senhor disse que habitaria nas trevas” (1 Rs 8.12b). No San­
tíssimo Lugar, portanto, era desnecessária a luz porque “Deus é luz” e, 
habitando na “luz inacessível”, “cobre-se de luz como uma cortina” (SI 
104.2b; 1 Tm 6.16; 1 Jo 1.5). Já no Santo Lugar existia a luz fornecida 
pelo candeeiro de sete braços. O átrio exterior fica sob a ampla luz do dia. 
Todos estes servem como imagens e sombras para uma pessoa regenerada.
Seu espírito é como o Santo dos Santos habitado por Deus, onde tudo é 
realizado pela fé, além da vista, sentido ou entendido pelo cristão. A alma 
simbolizava o Lugar Santo, pois ela é amplamente iluminada com muitos
pensamentos e preceitos racionais, muito conhecimento e entendimento 
concernente às coisas do mundo idealista e terrenal. O corpo é comparado 
ao átrio exterior, claramente visível a todos.
A E x t e n sã o do P e c a d o 141
1 McNAIR, S. E. ABíblia Explicada. 17“ Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 25.
A C l a ssific a ç ã o do 
P e c a d o
144 A D o u t r in a do P e c a d o
I. As T r a n s g r e s s õ e s
1. Diversos graus de transgressões. Devemos observar no tocante 3 
ao julgamento do pecado, que não existia um só sacrifício e nem um só julga­
mento para todos os pecados cometidos. Isso indica, evidentemente, que cada 
pecado tinha em si o seu grau de ofensa. Para que haja uma melhor compreen­
são do significado do pensamento que aqui está em foco, passaremos a fazer 
um paralelismo sobre os diferentes graus de transgressões, penas e castigos 
aplicados em alguns países e povos do mundo.
a) Crimes e castigos pelo mundo afora. Por falta de espaço nas cadeias is
ou por uma tradição de liberalismo, vários países, entre eles, o Brasil, adotam 
penas alternativas para punir os crimes considerados leves:
03 Prestação de serviços à comunidade.
03 Limitação de fim de semana.
03 Interdição temporária de direitos.
og Indenização para a vítima.
og Multa destinada a instituições públicas ou privadas
de assistência social.
og Reparação do dano causado.
og Prisão de curta duração (um, dois ou três anos).
cg Visitas a hospitais ou casas de caridade.
03 Proibição de freqüentar certos lugares.
03 Frequência a cursos escolares e profissionalizantes,
cg Prisão domiciliar.
og Repreensão pública (na audiência) ou privada, 
cs Retratação (pedido de desculpas à vítima).
03 Pagamento de cestas básicas a instituições de caridade 
ou à vítima.
05 Perda da licença para conduzir veículo. 
oí Tratamento de desintoxicação.
05 Mudança de residência ou de bairro.
03 Multa simples.
A C l a s s if ic a ç ã o d o P e c a d o 145
b) Outros países — principalmente os de religião muçulmana. Em al­
guns países de religião muçulmana, são muito mais rigorosos com os crimes
comuns:
cg Afeganistão: amputação das mãos e apedrejamento.
cg Arábia Saudita: chibatadas.
cg Brunei: chicotadas.
cg Cingapura: golpes de vara.
os Emirados Árabes Unidos: chibatadas.
cg Irã: apedrejamento e chibatadas.
cg Malásia: surras de bambu.
os Paquistão: chicotadas.
cg Sudão: chicotadas, mutilações e execuções.1
c) Crimes contra a vida no Brasil O Código Penal Brasileiro define os 
crimes contra a vida, da seguinte forma:
I o. Homicídio simples: Art. 121. — § Io. Matar alguém: Pena — reclusão 
de 6 a 20 anos;
Caso de diminuição da pena
§ Io. Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social 
ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta 
provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço.
2o. Homicídio qualificado: Art. 121. § 2o. Se o homicídio é cometido:
I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe;
II - por motivo futil;
III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro 
meio insidioso ou cruel,ou de que possa resultar perigo comum;
IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que 
dificulte ou tome impossível a defesa do ofendido;
V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de
outro crime: Pena — reclusão de 12 a 30 anos;
3o. Homicídio culposo: Art. 121. § 3o. Matar a alguém sem a intenção pre­
meditada: Pena — reclusão de 1 a 3 anos.
Aumento da pena
14 6 A D o u t r in a do P f x a d o
§ 4o. No homicídio culposo, a pena é aumentada de um terço, se o crime 
resulta de inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício, ou se 
o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima, não procura diminuir 
as conseqüências do seu ato, ou foge para evitar prisão em flagrante. Sendo 
doloso o homicídio, a pena é aumentada de um terço, se o crime é praticado 
contra pessoa menor de 14 (quatorze) anos.
§ 5o. Na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar de aplicar a 
pena, se as conseqüências da infração atingirem o próprio agente de forma 
tão grave que a sanção penal se toma desnecessária.2
d) Os teólogos questionam o estado de gradação do pecado. Isto é, que 
cada pecado destas pessoas (ou coletividade) acima mencionadas era arguido 
de acordo com aquilo que regulamentava a lei divina. Esse pecado sendo ar­
guido assim desta forma, indicava, no pensamento de Deus, que cada criatura 
deveria receber aquilo que merecia. Mas ninguém ficava sem castigo. Algumas 
passagens das Escrituras tomarão este ponto mais claro. Nos elementos doutri­
nários do Senhor Jesus, Ele afirmou:
Io. “Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá MENOS RIGOR 
para o país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade” (Mt 10.15).
2o. O servo que ignorou a vontade de seu senhor. A passagem de Lucas 
12.47,48, fala sobre o servo que não levou em conta a vontade de seu supe­
rior. Então ele diz: “E o servo que soube a vontade, do seu Senhor, e não se 
aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoi­
tes. Mas o que a não soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoi­
tes será castigado. E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá...”.
3°. O Sinédrio e Pilatos. “Disse-lhe pois Pilatos: Não me falas a mim? Não 
sabes que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar? Res­
pondeu-lhe Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima te não fosse 
dado; mas aquele que me entregou a ti ‘maior pecado’ tem” (Jo 19.10,11).
4o. O ladrão da cruz julgando-se a si mesmo e ao outro. “E nós, na ver­
dade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam...” 
(Lc 23.41). Assim como a recompensa será feita de acordo com as obras 
de cada um; também o castigo será executado de acordo com o pecado de 
cada (Ez 32).
2. Diversos tipos de pecados. As duas tábuas de pedra que continham 
os Dez Mandamentos estavam classificadas assim: uma continha os cinco
A C l a s s if ic a ç ã o d o P e c a d o 147
mandamentos relacionados diretamente com Deus (era a lei divina); a outra 
continha os cinco mandamentos relacionados com os homens.
a) Cinco mandamentos: lei divina.
I o. Não terás outros deuses diante de mim.
2o. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que 
há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da ter­
ra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, 
sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira 
e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares 
dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.
3o. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não 
terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.
4°. Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e 
farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não 
farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, 
nem a ma serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro 
das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e 
tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor 
o dia do sábado, e o santificou.
5a. Honra a teu pai e a ma mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra 
que o Senhor teu Deus te dá (Ex 20.12).
Estes confrontavam o homem com tudo aquilo que é divino.
b) Cinco mandamentos: lei moral.
6o. Não matarás.
7o. Não adulterarás.
8o. Não furtarás.
9o. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
10°. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu 
próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu ju ­
mento, nem coisa alguma do teu próximo (Ex 20.13-17).
Estes confrontavam o homem com todo aquilo que é moral.
148 A D o u t r in a d o P e c a d o
II. Os T r a n s g r e s s o r e s
1. Diversos tipos de transgressores. No Antigo Testamento, especial­
mente no Livro de Levítico, encontramos vários sacrifícios que eram oferecidos 
em favor de diversas classes de pecadores; entretanto, outras transgressões eram 
punidas sem misericórdias pela pena de morte. Mas as que restavam sacrifícios 
foram descritas no Pentateuco, especialmente no livro de Levítico. São estas:
a) Um sacerdote ungido. “Se o sacerdote ungido pecar para escândalo do 
povo, oferecerá pelo seu pecado, que pecou, um novilho sem mancha, ao Se­
nhor, por expiação do pecado” (Lv 4.3).
b) A congregação. “Mas, se toda a congregação de Israel errar, e o negócio 
for oculto aos olhos da congregação, e se fizerem, contra algum dos manda­
mentos do Senhor, aquilo que se não deve fazer, e forem culpados. E o pecado 
em que pecaram for notório, então a congregação oferecerá um novilho, por 
expiação do pecado, e trará diante da tenda da congregação” (Lv 4.13,14).
c) Um príncipe. “Quando um príncipe pecar, e por erro obrar contra algum 
de todos os mandamentos do Senhor seu Deus, naquilo que se não deve fazer, 
e assim for culpado. Ou se o seu pecado, no qual pecou, lhe for notificado, 
então trará por sua oferta um bode tirado de entre as cabras, macho sem man­
cha” (Lv 4.22,23).
d) Qualquer Pessoa. “E se qualquer outra pessoa do povo da terra pecar 
por erro, fazendo contra algum dos mandamentos do Senhor, aquilo que se 
não deve fazer, e assim for culpada. Ou se o seu pecado, no qual pecou, lhe for 
notificado, então trará por sua oferta uma cabra fêmea sem mancha; pelo seu 
pecado que pecou” (Lv 4.27,28).
2. Diversos tipos de transgressores por pecados ocultos. São vá­
rios atos de transgressão que fazem parte dos pecados ocultos.
a) Omitisse de denunciar a voz de blasfêmia. “E quando alguma pessoa 
pecar, ouvindo uma voz de blasfêmia, de que for testemunha, seja porque viu, 
ou porque soube, se o não denunciar, então levará a sua iniqüidade” (Lv 5.1).
b) Tocar em uma pessoa ou coisa imunda. “Ou, quando alguma pessoa 
tocar em alguma coisa imunda, seja corpo morto de fera imunda, seja corpo
A C l a s s if ic a ç ã o d o P e c a d o 149
morto de animal imundo, seja corpo morto de réptil imundo, ainda que não 
soubesse, contudo será ele imundo e culpado” (Lv 5.2).
c) Tocar na imundícia de um homem. “Ou, quando tocar a imundícia de 
um homem, seja qualquer que for a sua imundícia, com que se faça imundo, e 
lhe for oculto, e o souber depois, será culpado” (Lv 5.3).
d) Jurar falso testemunho contra uma pessoa inocente. “Ou, quando al­
guma pessoa jurar, pronunciando temerariamente com os seus lábios, para fa­
zer mal, ou para fazer bem, em tudo o que o homem pronuncia temerariamente 
com juramento, e lhe for oculto, e o souber depois, culpado será numa destas 
coisas” (Lv 5.4).
e) Cometer sacrilégio. “E falou o Senhor a Moisés, dizendo: Quando algu­
ma pessoa cometer uma transgressão, e pecar por ignorância nas coisas sagra­
das do Senhor, então trará ao Senhor pela expiação, um carneiro sem defeito 
do rebanho, conforme à tua estimação em siclos de prata, segundo o siclo do 
santuário, para expiação da culpa.Assim restituirá o que pecar nas coisas sa­
gradas, e ainda lhe acrescentará a quinta parte, e a dará ao sacerdote; assim o 
sacerdote, com o carneiro da expiação, fará expiação por ele, e ser-lhe-á per­
doado o pecado” (Lv 5.14-16).
f) Pecar por ignorância. “E, se alguma pessoa pecar, e fizer, contra algum 
dos mandamentos do Senhor, aquilo que não se deve fazer, ainda que o não 
soubesse, contudo será ela culpada, e levará a sua iniqüidade; e trará ao sa­
cerdote um carneiro sem defeito do rebanho, conforme à ma estimação, para 
expiação da culpa, e o sacerdote por ela fará expiação do erro que cometeu sem 
saber; e ser-lhe-á perdoado. Expiação de culpa é; certamente se fez culpado 
diante do Senhor” (Lv 5.17-19).
g) Pecados voluntários por descuidos. “Falou mais o Senhor a Moisés, di­
zendo: Quando alguma pessoa pecar, e transgredir contra o Senhor, e negar ao 
seu próximo o que lhe deu em guarda, ou o que deixou na sua mão, ou o roubo, 
ou o que reteve violentamente ao seu próximo, ou que achou o perdido, e o 
negar com falso juramento, ou fizer alguma outra coisa de todas em que o ho­
mem costuma pecar; será pois que, como pecou e tomou-se culpado, restituirá
o que roubou, ou o que reteve violentamente, ou o depósito que lhe foi dado em 
guarda, ou o perdido que achou, ou tudo aquilo sobre que jurou falsamente; e o 
restituirá no seu todo, e ainda sobre isso acrescentará o quinto; àquele de quem
150 A D o u t r in a d o P e c a d o
é o dará no dia de sua expiação. E a sua expiação trará ao Senhor: um carneiro 
sem defeito do rebanho, conforme à tua estimação, para expiação da culpa 
trará ao sacerdote; e o sacerdote fará expiação por ela diante do Senhor, e será 
perdoada de qualquer das coisas que fez, tomando-se culpada” (Lv 6.1-7).
III. A C l a s s i f i c a ç ã o d a C u lp a
1. A culpa legal. Os teólogos da Era Medieval consideravam o pecado 
de Adão como sendo o pecado original, talvez baseados na expressão de Pau­
lo, quando diz: que “...por um homem (Adão) entrou o pecado no mundo” 
(Rm 5.12); entretanto, no conceito dos teólogos protestantes, ao que parece, 
está também de acordo com o pensamento geral das Escrituras, o pecado ori­
ginal seria o pecado de Lúcifer — o resplandecente. O de Adão seria, então, 
“a transgressão”, porque mesmo antes de Adão pecar, o “mal” já existia (Gn
2.17). Depois destes, segundo este conceito, todos os demais são chamados de 
pecados atuais. Estes se dividem em mortais e veniais, conforme a gravidade 
da transgressão e o grau e voluntariedade e deliberação. Os teólogos medie­
vais já citados neste argumento, também os classificavam em formais: toda a 
transgressão deliberada; e materiais: transgressão sem consentimento ou sem 
conhecimento. Muitas vezes se têm questionado sobre o que se considerava 
como “a culpa legal” e “a culpa ilegal”. Evidentemente alguém tem procurado 
fazer uma distinção entre uma e outra, como se faz entre o ‘furto’ e o ‘roubo’. 
A culpa legal seria, então, imputada por Deus ao seu povo, desde o momento 
em que a lei foi promulgada no monte Sinai. A partir daí, qualquer pecado 
seria ‘transgressão’ pois era praticado por alguém que tinha o conhecimento 
da lei. Assim, a transgressão é praticada por alguém que se encontra ‘debaixo 
da lei’. Tiago mostra como isso pode acontecer. Ele diz: “Porque qualquer que 
guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tomou-se culpado de todos. 
Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não mata- 
rás. Se tu pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor” 
(Tg 2.10,11). No caso de Adão e sua esposa, eles, com efeito, estavam debaixo 
da legalidade, esboçada na ordem divina, quando disse: “De toda a árvore do 
jardim comerás livremente; mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela 
não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn
2.16.17). Por essa razão, portanto, eram passivos de castigo.
2. A culpa ilegal. Do ponto de vista divino de observação, a culpa ilegal 
seria uma transgressão praticada por aqueles que ainda se encontram na ilega­
lidade. Quer dizer: sem Cristo. Fora da lei de Deus. Sendo chamados de ‘os
A C l a s s if ic a ç ã o d o P e c a d o 151
que pecam sem lei’. “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também 
perecerão...” (Rm 2.12). Do ponto de vista divino de observação, o conceito 
de legalidade e ilegalidade no tocante ao pecado, não existe. “Porque todos 
pecaram...”. Assim, “Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para 
com todos usar de misericórdia” (Rm 3.23a; 11.32).
a) Não crer em Deus — ateísmo. A doutrina do ateísmo nega a existência 
de qualquer divindade e dispensa a ideia de uma justificativa divina para a 
vida. Um dos argumentos utilizados pelos ateus para sustentar sua posição é a 
suposta incompatibilidade da coexistência de Deus e do sofrimento humano, 
assim como a interpretação de que a crença religiosa é uma espécie de fuga da 
realidade. Fora do âmbito estritamente religioso, o ateísmo se apresenta como 
postura filosófica de largo alcance em vários períodos da história humana. Ne­
gar, portanto, a Deus faz o homem pecar porque está negando o bem maior da 
existência.
b) Blasfêmia — falar contra Deus. De acordo com Platão, blasfêmia quer 
dizer: ‘falar para danificar’. Em outras palavras, objetivo daquele que pro­
fere blasfêmia é: odiar, ferir, prejudicar, aniquilar, menosprezar, desdenhar, 
detestar, abominar, difamar, caluniar, amaldiçoar, espoliar, arruinar, demolir, 
repugnar, ridicularizar, implicar, provocar, caçoar, humilhar, acertar, espicaçar, 
envergonhar, criticar, cortar, contrariar, banir, surrar, intimidar, esmagar, im­
prensar. Blasfêmia era considerada uma abominação. Nas Escrituras Sagradas, 
alguns atos ou palavras abusivas dirigidas contra Deus e contra aquilo que é 
sagrado eram considerados como blasfêmias. Por exemplo: um filho de uma 
mulher israelita com um egípcio blasfemou o nome do Senhor, e o amaldiçoou
— sua morte foi decretada por Deus sem misericórdia (Lv 24.10,11). Julgar-se 
igual a Deus — pelo menos foi por este motivo que os judeus quiseram ape­
drejar a Jesus, quando disseram: “Não te apedrejamos por alguma obra boa, 
mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo” (Jo 
10.33); falar contra o Templo e contra a Lei também era considerado blasfêmia 
(At 6.11); falar contra o céu e contra aqueles que nele habitam (Ap 13.6); falar 
contra Moisés (At 25.8); falar contra a palavra de Deus (Tt 2.5); contradizer a 
verdade divina (At 13.45); proferir mentiras blasfêmias (Ap 2.9). Em Apoca­
lipse 13.5,6, diz-se que “foi dada uma boca (ao Anticristo) para proferir gran­
des coisas e blasfêmias; e deu-se-lhe poder para continuar por quarenta e dois 
meses. E abriu a sua boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do seu 
nome, e do seu tabemáculo, e dos que habitam no céu”. Qualquer ato abusivo 
à santidade divina que violasse seu santuário e seus mandamentos, era con­
siderado blasfêmia e, por extensão, também, como “abominação” aos olhos
1 52 A D o u t r in a d o P e c a d o
de Deus (cf. Dt 23.18; Is 1.13; 66. 3). O Anticristo blasfemará os “poderes do 
mundo superior”, ridicularizando sua própria existência. Contudo, seu alvo 
maior é blasfemar a pessoa “de Deus, do seu nome, e do seu tabemáculo, e dos 
que habitam no céu”. Isto significa que ele blasfemará de Deus, de Jesus, do 
Espírito Santo e dos poderes angelicais, enquanto que, aqui na terra, o tabemá­
culo de Deus foi também blasfemado — quer dizer — profanado.
c) Tomar o nome de Deus em vão — féfingida. O terceiro mandamento da i 
Lei Divina traz uma advertência para aqueles que procuram tomar o nome de 
Deus em vão. “Porque (acrescenta o texto divino) o Senhor não terá por ino­
cente o que tomar o seu nome em vão” (Ex 20.7b). Essa categoria de pecadores 
é composta daqueles que “confessam que conhecem a Deus, mas negam-no 
com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a 
boa obra” (Tt 1.16).
IV. O P e c a d o e se u s C o g n a t o s
1. O pecado e outros apelativos. Além dos pecados que foram relacio­
nados como propícios de sacrifícios, existiam outros que eram praticados por 
pessoas de má índole. Alguns deles eram punidos pela morte e outros não. Em 
termos genéricos, estes pecados agressivos eram praticados mais por pessoas 
que se encontravam revestidas de autoridade, tanto no campo político como no 
religioso. O termo “pecado” propriamente dito é encontrado pela primeira vez 
nas Escrituras no momento que Deus arguia Caim com respeito ao seu sacri­
fício. Disse o Criador a Caim: “E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E 
por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito?
E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas 
sobre ele deves dominar” (Gn 4.6,7). A partir desta citação, ele passa a permear 
quase que todos os livros da Bíblia. EmApocalipse 18.5, encontramos o último 
substantivo do termo pecado, quando se fala da Grande Babilônia: “Porque já 
os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou das iniquidades 
dela”.
a) No Antigo Testamento —• citações exaustivas. O termo está presente 
nos seguintes livros: (Gn 4. 7; 18.20; 20.9; 31.36; 50.17; Êx 10.17; 29.14, 36; 
32.21,30,31,32,34; 34.7,9; Lv 4.3, 8,14,20,21,23,24,25,26,28,29,32,33,
34, 35; 5.5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 16; 6.17,25, 26, 30; 7.5, 7, 37;8.2, 14; 9.2,
3, 7, 8, 10, 15, 22; 10.16, 17, 19; 12.6, 8; 14.13, 19, 22, 31; 15.15, 30; 16.3, 5,
6, 9, 11, 15, 16, 25, 27; 30, 34; 19.17, 22; 20.20; 22.9; 23.19; 24.15; 26.18, 21,
A C l a s sif ic a ç ã o d o P e c a d o 153
24, 28; Nm 5.6, 7; 6.11, 14, 16; 7.16, 22, 28, 34,40, 46, 52, 58, 64, 70, 76, 82, 
87; 8.8,12,21; 9.13; 12.11; 15.24; 16.26; 18.9,22,32; 19.9,17; 27.3; 28.15,22; 
29.5, 11, 16, 19, 22, 25, 28, 31, 38; 32.23; Dt 9.18, 21, 27; 15.9; 19.15; 21.22; 
23.21, 22; 24.15, 16; Js 24.19; 1 Sm 2.17; 12.19; 14.38; 15.23, 25; 20.1; 1 Rs 
8.34,35,36; 12.30; 13.34; 14.16,22; 15.3,26, 34; 16.2, 13,26,31; 17.18; 2 Rs 
3.3; 10.29, 31; 12.16; 13.2, 6; 15.9, 18, 24, 28; 17.21, 22; 21.16, 17; 24.3; 1 Cr 
21.8; 2 Cr 6.25, 26, 27; 7.14; 25.4; 28.13; 29.21, 24; 33.19; Ed 6.17; 8.35; Ne 
1.6; 4.5; 9.2, 37; 10.33; 13.26; Jó 10.6; 13.23; 14.16; 34.37; SI 19.13; 25.7, 18; 
32.1, 5; 38.3, 18; 40.6; 51.2, 3, 5, 9; 59.3, 12; 79.9; 85.2; 90.8; 103.10; 109.7, 
14; Pv 5.22; 10.16; 14.34; 20.9; 21.4; 24.9; Is 1.18; 3.9; 5.18; 6.7; 27.9; 30.1; 
38.17; 40.2; 43.24,25; 44.22; 53.12; 58.1; 59.2, 12; 64.5; Jr 5.25; 14.10; 15.13; 
16.10, 18; 17.1, 3; 18.23; 30.14; 31.34; 36.3; Lm 3.39; 4.6, 13, 22; Ez 3.20; 
16.51, 52; 18.14, 21, 24; 23.49; 33.10, 14, 16; 40.39; 42.13; Dn 4.27; 9.16, 20, 
24; Os 4.8; 8.13; 9.9; 10.8; 12.8; 13.12; Am 5.12; Mq 1.5,13; 3.8; 6.7,13; 7.19; 
Zc 13.1).
b) No Novo Testamento — citações exaustivas. O termo está presente nos 
seguintes livros: (Mt 1.21; 3.6; 9.2,6; 12.31; 26.28; Mc 1.4, 5; 2.5, 7,9,10; 3.28, 
29; Lc 1.77; 3.3; 5.20, 21,23, 24; 7.47,48,49; 11.24,47; Jo 1.29; 8.7,21,24, 34, 
46; 9.41; 15.22, 16.8; 19.11; 20.23; At 2.38; 3.19; 5.31; 7.60; 10.43; 13.38; 22.16; 
Rm 3.9, 20; 4.7, 8; 5.12, 13, 20, 21; 6.1, 2, 6, 7, 10, 11, 12, 13, 14, 16, 17, 18, 20, 
22, 23; 7.5, 7, 8, 9, 11,13, 14, 17, 20, 23, 25; 8.2, 3, 10; 11.27; 14.23; 1 Co 6.18; 
15.3, 17, 56; 2 Co 5.21; 11.7; G1 1.4; 2.17; 3.22; Ef 2.1; Cl 1.14; 1 Ts 2.16; 1 Tm 
5.22,24; 2 Tm 3.6; Hb 1.3; 2.17; 3.13; 4.15; 5.1, 3; 7.26,27; 8,12; 9.26,28; 10.2, 
3 ,4 ,6 , 8, 11,12, 17,18,26; 11.25; 12.1,4; 13.11; Tg 1.15; 2.9; 4.17; 5.15,16,20;
1 Pe 2.20,22,24; 3.18; 4.1, 8; 2 Pe 1.9; 1 Jo 1.7, 8,9,10; 2.2,12; 3.4,5, 8,9; 4.10; 
5.16,17; Ap 1.5; 18.4,5).
2. Onde o termo pecado está ausente. O termo pecado encontra-se 
ausente em 12 livros do Antigo Testamento e em 7 livros do Novo. Todavia, 
nestes livros, o pecado recebe outros nomes. O termo “pecado” está ausente 
nos seguintes livros:
a) Antigo Testamento. O termo está ausente nos seguintes livros: Juizes, 
Rute, Eclesiastes, Cantares, Joel, Obadias, Jonas, Naum, Habacuque, Sofonias, 
Ageu e Malaquias;
b) Novo Testamento. O termo está ausente nos seguintes livros: Filipen- 
ses, 2 Tessalonicenses, Tito, Filemom, 2 e 3 João e Judas. Com efeito, porém,
154 A D o u t r in a do P eca d o
nestes livros citados, ele aparece com outros nomes, sinônimos e apelativos.
No Antigo Testamento, os dois livros que mais falam sobre o “pecado” são 
Levítico e Números. No Novo, os dois livros com maior número de citações 
sobre o “pecado”, são Romanos e Hebreus.
V . O P e c a d o e s e u s V a r ia n t e s
1. Variantes com sentidos de pecados. Os que aparecem englobando o 
toda a nação de Israel e com sentido universal.
a) Só para Israel. São: pecado, transgressão, iniqüidade e impiedade. “Se­
tenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, 
para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniqüida­
de, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santís­
simo” (Dn 9.24). “E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião 
virá o Libertador, E desviará de Jacó as impiedades” (Rm 11.26).
b) Israel e o mundo —- com sentido universal. São: pecado, iniqüidade, 
maldade, o mal e transgressão. São vários os textos das Escrituras que falam 
disso. Contudo, os que mais se aproximam são estes:
I o. O pecado. O termo pecado ocorre no Antigo e Novo Testamento 600 
vezes em 545 versículos. Encontra-se no singular com sentido universal: 
“No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordei­
ro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). “Portanto, como por um 
homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também 
a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Rm 5.12).
“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, 
mas também pelos de todo o mundo” (1 Jo 2.2).
2o. A iniqüidade. O termo iniqüidade ocorre no Antigo e Novo Testa­
mento 278 vezes em 262 Versículos. Encontra-se no singular com sentido 
universal: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se 
desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de 
nós todos” (Is 53.6). A iniqüidade associada com o pecado. “Qualquer que 
comete pecado, também comete iniqüidade; porque o pecado é iniqüidade”
(1 Jo 3.4). E no contexto imediato: “Toda a iniqüidade é pecado, e há peca­
do que não é para morte” (1 Jo 5.17).
3o. A maldade. O termo maldade ocorre no Antigo e Novo Testamento 123 
vezes em 113 versículos. Encontra-se no singular com sentido universal:
A C l a s s if ic a ç ã o do P e c a d o 155
“E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e 
que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continu­
amente” (Gn 6.5). “Porque não temos que lutar contra a came e o sangue, 
mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes 
das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos luga­
res celestiais” (Ef 6.12). A maldade sempre ataca no sentido geométrico. 
Ela é diferente de alguns seguimentos do bem que somente crescem em 
progressão aritmética (1,2,3,4,5...), enquanto que a maldade cresce em pro­
gressão geométrica (Gn 6.5; Lm 4.6; Os 13.2; Mt 24.12: ela se multiplica: 
1,2,4,8,16,32,64...).
4o. O mal. O termo mal ocorre no Antigo e Novo Testamento 1219 vezes 
em 1107 versículos. Encontra-se no singular com sentido universal: “E o 
Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para 
comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento 
do bem e do mal” (Gn 2.9).
5o. A transgressão. O termo transgressão ocorre no Antigo e Novo Tes­
tamento 65 vezes em 63 versículos. Encontra-se no singular com sentido 
universal: “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído 
por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre 
ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is53.5). “Porque, se a palavra 
falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência 
recebeu ajusta retribuição” (Hb 2.2).
2. Variantes do pecado em contextos bíblicos isolados. Nestes tex­
tos o pecado aparece recebendo menção e punição isolada.
0 3 Pecado (Gn 4.7);
0 3 Iniqüidade (Êx 34.7);
0 3 Maldade (Gn 4.13);
O g Injustiça (Gn 15.16);
03 Erro (2 Ts 2.11; 1 Jo 4.6);
C g Orgulho (2 Tm 3.4);
0 3 Violência (Gn 6.11);
0 3 Mal (Gn 2.9);
Og Perversidade (Pv 22.8);
Cg Infiel=infidelidade (2 Co 6.16);
C g Fomicação (1 Co 5.1).
1 56 A D o u t r in a do P e c a d o
cg Corrupção (2Pe2.12); 
cg Hipocrisia (Mt 23.13); 
cg Apostasia (2 Ts 2.3); 
cg Perdição (2 Ts 2.3); 
cg Fraude (SI 55.23).
3. Variantes de pecados ligados ao vício. São vários os pecados que 3
a filosofia do dia a dia chama de pecado social e que a sociedade (ou socieda­
des) os tolera de maneira graciosa.
a) O pecado da gula. Devemos ter em mente que o primeiro pecado do ho- -
mem, foi ocasionado por causa de comida. Ele e sua esposa comeram do fruto 
proibido que se encontrava no jardim, e pecaram. A recomendação divina para 
quem comete tal pecado é: “põe uma faca a ma garganta, se és homem glutão”
(Pv 23.2b). Isto significa que, há pessoa que quando come, peca, mas não peca 
porque come, o pecado está no fato de comer sem controle ou ética alimen­
tar. Como educadores capazes, os antigos rabinos usavam, muitas vezes, os 
métodos ilustrativos de ensinar ideias abstratas ou morais ao povo. O Preceito 
Áureo era por eles projetado com exemplos simples: “Há três coisas de que um 
pouco é bom, mas demais é um mal: o fermento na massa, o sal na came, e a 
indecisão no espírito”! Há oito coisas nas quais um pouco é bom, mas demais 
é ruim: viagem, casamento, riquezas, vinho, sono, bebidas quentes, remédios 
e luz — que demais cega”.3 Muitos problemas de saúde da meia idade e da 
velhice, inclusive pressão alta, endurecimento das artérias, doenças do cora­
ção, derrame e diabetes, muitas vezes (com exceções) são causados pelo modo 
errado que a pessoa viveu, pelo que comeu e bebeu quando era mais jovem. A 
possibilidade de viver mais tempo com saúde é maior se você:
cg se alimentar bem;
cg não ingerir bebidas alcoólicas;
cg não fumar;
cg levar uma vida regular — nada de exagero;
cg fazer exercícios ou praticar algum tipo de esporte
— dentro das normas da lei e da ética;
cg procurar a harmonia consigo mesmo e com os outros; 
cg desenvolver suas atividades em estilo normal;
A C l a s s i f i c a ç ã o d o P e c a d o 157
cg procurar uma vida simples e de acordo com a natureza. Jesus condenou o 
pecado da gula e Paulo associou o mesmo às obras da came (Lc 21.34; G15.21).
b) O pecado da bebedice. Jesus falou contra este pecado (Lc 21.34) e Pau­
lo o associa também com as obras da came. Depois acrescenta: “que os que 
cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (G1 5.21). Os problemas 
com o álcool (incluindo morte por intoxicação, crimes e acidentes) cresceram 
consideravelmente na maior parte do mundo nas últimas décadas. O álcool 
causa prejuízos em três áreas da vida:
cg no organismo;
cg no bolso;
cg na alma.
Muitas vezes, praticar ou não o vício, faz a diferença. Nos Estados Unidos 
da América viviam, séculos atrás, dois homens que se conheciam. Estes dois 
homens pertenciam a duas famílias diferentes: uma não bebia e a que era vicia­
da na bebida. Um era crente, e o outro não. O crente, Edward Jonathan, quando 
ainda jovem, fizera um propósito de que, quando casar-se, entregaria toda a 
plenitude de seus bens e de sua família para glória e engrandecimento do reino 
de Deus. Casou-se com uma moça crente, e no seu lar predominava a leitura 
da Bíblia e a oração. Esta família teve durante 150 anos 729 descendentes dos 
quais 300 se tomaram pregadores da Palavra de Deus, 65 professores em esco­
las superiores, 13 catedráticos, 3 deputados e um vice-presidente da nação. O 
não crente, Max Junkers, casou-se com uma moça ateia e viveram conforme o 
seu ideal. Durante 150 anos a família teve 1.026 descendentes, dos quais 300 
morreram prematuramente, 100 foram condenados a prisão, 190 eram prosti­
tutas, 100 alcoólatras.4
c) O pecado defumar. Apartir do momento em que a fumaça do cigarro toca os 
lábios do fumante, começa a agredir por onde passa:
cg boca;
cg garganta;
cg esôfago;
cg estômago;
cg vias respiratórias;
cg pulmões etc.
158 A D o u t r in a d o P e c a d o
Milhões de partículas de fuligem se depositam em todo o trajeto que a 
fumaça percorre pelo corpo. O fumante que diz: “Eu não trago” engana-se 
totalmente supondo que a fumaça do cigarro só faz mal quando penetra nos 
pulmões. A fumaça absorvida pela mucosa da boca passa para o sangue al­
cançando pâncreas e rins; vai até a bexiga onde a urina é armazenada. Cada 
parte do corpo que entrou em contato com os tóxicos do cigarro pode ficar 
com câncer ou uma outra doença grave. Na casa em que há fumantes, as crian­
ças frequentemente têm problemas do aparelho respiratório. Mulher de marido 
fumante tem duas vezes mais possibilidades de contrair câncer do pulmão, 
comparado com mulher de marido que não fuma. Porém, se a própria mulher 
também fuma, o risco de contrair essa espécie de câncer aumenta quatro vezes.
E, além disso, observe o que o cigarro disse para o fumante: “Você me acende 
hoje — eu te apago amanhã!”5
d) O pecado de jogar. O jogo de azar — usualmente, jogo de azar, jogo de ie 
cartas e outras modalidades são chamados assim. Alguns destes jogos são con­
siderados como contravenção penal. Do ponto de vista divino de observação, 
qualquer jogo de qualquer natureza, pode ser chamado de “jogo de azar”, pois 
o jogo tanto para quem joga como para aquele que com ele se envolve, sempre 
traz azar e várias desvantagens. A pessoa viciada em jogo escraviza sua mente 
e o seu tempo. Por estas e outras razões é bom não jogar. Quem joga além de 
se tomar um escravo de tal vício, ainda perde muito tempo e quebrantamentos 
de contratos que envolvem horários determinados, trazendo assim prejuízos a 
si mesmo — à família e à sociedade a que pertence.
Alguns estudiosos opinam que “as coisas semelhantes a estas”, nada têm a ver 
com os vícios que falamos acima. Jó diz que Deus não considera o homem viciado 
nisso ou naquilo. Então ele diz: “Porque ele (Deus) conhece os homens vãos, e vê 
o ‘vício’; e não o terá em consideração” (Jó 11.11). Com respeito ao profeta Daniel 
está escrito: “ele era fiel, e não se achava nele nenhum ‘vício’ nem culpa” (Dn 6.4b).
Se o leitor deste livro tem algum destes vícios, não fique triste, pois Cristo o liberta!
Isso lhe trará saúde para o seu corpo, economia para seu bolso, paz para a sua alma 
e satisfação para Deus.
1 ABRIL, A. Editora Abril — SP. 23“ Edição, 1997, p. 54
2 Código Penal Brasileiro. 10a Edição. Editora Saraiva, 2004, pp. 99-100.
3 Enciclopédia Judaica. Vol. 6, Editora e Livraria Sêfer Ltda. 1989, p.680
4 SILVA, S. P. Ética Cristã: Segurança na vida e no lar. São Paulo: Editora Mensagem para 
Todos, 2003, p. 132,138.
5 WERNER, D. Onde não há Médico. 21a Ed. São Paulo: PAULUS, p. 53.
O P ec a d o H e r d a d o 
e a I m pu ta ç ã o d a C ulpa
160 A D o u t r in a d o P e c a d o
I . O P e c a d o H e r d a d o
1. O pecado herdado. Com a queda do homem, o pecado assumiu uma 
espécie de “veículo transmissor”. Há o pecado “congênito”, inato, herdado de 
Adão, nosso pai (a exemplo do veneno da serpente que se generaliza no corpo 
através da corrente sanguínea), que só termina seu poder de ação, quando a 
pessoa humana se toma uma “nova criatura”, por meio de Jesus Cristo (2 Co
5.17). E exatamente o que Paulo declara em Romanos 6.23, “o salário do pe­
cado”. Há o pecado praticado, isto é, a “transgressão” (1 Jo 1.9). O primeiro 
vem no singular, o segundo no plural. No tocante a sua prática, a primeira é 
por comissão (a voluntariedade), conforme se depreende de Tiago 1.14,15, 
quando diz: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodadopela sua pró­
pria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o 
pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte”; a segunda por omissão 
(a indisposição). Tiago descreve também esta segunda parte, em 4.17, quando 
diz: “Aquele pois que sabe fazer o bem e não faz, comete pecado”. E Paulo 
acrescenta: “Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo 
pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso 
que todos pecaram” (Rm 5.12). Neste versículo e naqueles que se seguem, o 
apóstolo mostra-nos que a introdução do pecado no mundo deu-se por causa da 
desobediência de Adão. De acordo com os ensinamentos de Paulo e de outros 
escritores do Novo Testamento, a ‘culpa original’ passou a todos os homens. 
Assim; “todos pecaram”. Quando uma criança pode ser capaz (ou incapaz) 
de assumir a culpa do pecar. Pensando na “culpa herdada”, alguns estudiosos 
têm perguntado: “Quando uma criança pode se tomar um pecador?”, ou ainda 
“quando Deus passa a imputar o pecado na vida de uma criança?”. Tanto soció­
logos, como psicólogos e teólogos sustentam que há uma espécie de “idade de 
responsabilidade” antes da qual as crianças não são consideradas responsáveis 
pelo pecado e portanto, não são culpadas perante Deus — ainda que sejam ad­
vertidas no campo moral comparativo. Do ponto de vista divino de observação, 
depreendido do Antigo Testamento, Deus tomou isento da culpa as pessoas de 
“20 anos para baixo” e imputável as de “20 anos para cima”. Assim Ele falou a 
Moisés, dizendo: “Neste deserto cairão os vossos cadáveres, como também to­
dos os que de vós foram contados segundo a vossa conta, ‘de vinte anos e para 
cima’, os que dentre vós contra mim murmurastes” (Nm 14.29). Os rabinos 
(depois passou para os Pais da Igreja) admitiam uma espécie de “predestinação 
ampla” para todas as crianças. “As crianças (diziam eles) não são responsáveis 
pelo “pecado hereditário”, pois há não culpa sem a noção do bem e do mal. So­
mente aos 20 anos (segundo este conceito) começa a plena responsabilidade,
O P e c a d o H e r d a d o e a I m p u t a ç ã o d a C ulpa 161
que toma possível o pecado atual”. Este ensinamento foi deduzido de certas 
passagens do Antigo Testamento (Êx 30.14; 38.26; Nm 14.29).
2. O pecado herdado no conceito dos Pais da Igreja. Os Pais da 
Igreja, entretanto, achavam a faixa de “vinte anos” para concepção do “EU” 
bastante longa e passaram a estabelecerem certos números de anos, tais como: 
“um ano”, “sete anos”. Um terceiro grupo, opinou para “nove”. Os rabinos ju­
daicos passaram para suas tradições doze para a sociedade (Êx 2.10; 1 Sm 1.20­
28; 2.1-11; Lc 2.42; 8.42) e para maioridade religiosa treze (Gn 17.25). A Bíblia 
não nos informa se esta determinação de Deus fora apenas para aquela geração 
ou se ela tomou-se extensiva a todos os jovens israelitas ou não. As Escrituras 
silenciam nesta direção, então é melhor não arriscar. Alguns teólogos e psicó­
logos vêm esta exigência por parte de Deus, de modo diferente e opinam que, 
a idade para a imputação da culpa é de 7 anos, outros, defendem 13 anos; isso 
levando em contas a maioridade judaica. Idade esta, que segundo a tradição 
judaica o menino é apresentado a congregação e os rabinos o declaram como 
membro da fé em Deus e participante do Pacto Abraâmico (Gn 17.25).
3. Como o pelagianismo entendia por pecado herdado. A teoria do 
pelagianismo é atribuída a Pelágio (350-425), um monge da Bretanha. Pelágio 
foi um professor de índole cristã muito popular em Roma por volta de 383-410
d.C., e mais tarde na Palestina até 424 d. C. Ele ensinava que Deus considera o 
homem responsável somente por aquelas coisas que o homem é capaz de fazer. 
Como Deus nos adverte a fazer o bem, portanto, devemos ter essa capacidade 
de praticar o bem que Deus ordena. A posição pelagiana rejeita a doutrina do 
“pecado herdado” ou do “pecado original” e sustenta que o pecado consiste 
somente em atos pecaminosos isolados.
a) O pelagianismo é uma teoria teológica cristã. O pelagianismo é uma 
teoria teológica cristã atribuída a Pelágio, conforme já ficou demonstrado aci­
ma. Essa teoria sustenta basicamente que todo homem é totalmente responsável 
pela sua própria salvação e portanto, não necessita da graça divina. Segundo os 
pelagianos, todo homem nasce “moralmente neutro”, sendo capaz, por si mes­
mo, sem qualquer influência divina, de salvar-se quando assim o desejar. Uma 
das grandes disputas durante a Reforma Protestante versou sobre a natureza e 
a extensão do pecado original. No início do século V, Pelágio havia debatido 
ferozmente com Santo Agostinho sobre este assunto. Agostinho mantinha que 
o pecado original de Adão foi herdado por toda a humanidade e que, mesmo 
que o homem caído retenha a habilidade para escolher, ele está escravizado ao
162 A D o u t r in a do P e c a d o
pecado e não pode não pecar. Por outro lado, Pelágio insistia que a queda de 
Adão afetara apenas a Adão, e que se Deus exige das pessoas que vivam vidas 
perfeitas, ele também dá a habilidade moral para que elas possam fazê-lo e 
embora considerasse Adão como “um mau exemplo” para a sua descendência, 
suas ações não teriam conseqüências para a mesma, sendo o papel de Jesus 
definido pelos pelagianos como “um bom exemplo fixo” para o resto da huma­
nidade (contrariando assim o mau exemplo de Adão), bem como proporciona 
uma expiação pelos seus pecados, tendo a humanidade em suma, total controle 
pelas suas ações, posteriormente Pelágio reivindicou que a graça divina era 
desnecessária para a salvação, embora facilitasse a obediência.
b) O pensamento pelagiano rejeita o conceito da culpa (pecado) original.
Pelágio rejeitava o conceito bíblico do ‘pecado herdado’ e do ‘pecado origi­
nal’. Mas, esta sua concepção de ver o homem como um inocente no tocante 
a esse ponto de vista, não encontra apoio nas Escrituras e também não se coa­
duna com a tese e argumento principal, do pensamento cristão. Com a queda 
do homem, o pecado assumiu uma espécie de “veículo transmissor”. Há o 
pecado “congênito”, inato, herdado de Adão, nosso pai (a exemplo do veneno 
da serpente que se generaliza no corpo através da corrente sanguínea), que só 
termina seu poder de ação, quando o homem se toma uma “nova criatura”. 
Deus coloca diante do homem “a vida e o bem, e a morte e o mal”. Depois no 
contexto posterior Ele acrescenta: “Os céus e a terra tomo hoje por testemu­
nhas contra vós, que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição; 
escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua semente” (Dt 30.15,19).’
c) O pensamento das Escrituras desaprova o pelagianismo sobre o peca­
do herdado. Refutando o conceito pelagiano devemos analisar aqui três pontos 
de vista, no tocante ao homem: a sua salvação; a culpa herdada e o pecado 
como herança hereditária. A ideia cristã desaprova a doutrina pelagiana, apre­
sentando vários aspectos. O pensamento de perdoar o homem sem que ele 
tenha consciência daquilo que Deus fez e está fazendo na sua vida, não é a 
vontade divina. E, este, com efeito, não era o plano de Deus, pois tal pensa­
mento não se coaduna com o pensamento geral das Escrituras e nem com a 
tese e argumento principal. Outrossim, não é o mundo que irá criar o “caminho 
da Redenção”. Este foi criado por Deus e inaugurado pelo próprio Cristo por 
meio de sua morte na cruz (Hb 10.20). A culpa praticada (quer dizer: a culpa 
herdada pela transgressão individual e voluntária) é apresentada nas Escrituras 
desde o início até o fim. O profeta Ezequiel fala disso por expressa ordem 
de Deus, quando diz: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a
O P e c a d o H e r d a d o e a I m p u t a ç ã o d a C u lpa 163
maldade do pai, nem o pai levará a maldade do filho. A justiça do justo ficará 
sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” (Ez 18.20). Outras passagens 
das Escritoras nos informam que Deus perdoa, mas corrige “a iniqüidade, e a 
transgressão, e o pecado; que ao culpado nãotem por inocente. Que visita a 
iniqüidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e 
quarta geração” (Ex 34.7). Com efeito, porém, mesmo havendo um sentimento 
de boa vontade no pensamento pelagiano a este respeito, contudo, a ideia de 
que somos somente responsáveis perante Deus por aquilo que somos capazes 
de fazer é contrário ao pensamento geral das Escrituras, visto que por si mes­
mo, o homem é incapaz de praticar o bem de natureza espiritual, sem que nele 
passe a habitar o Espírito Santo de Deus.
I I . A I m p u t a ç ã o d a C u l p a
1. A culpa ocasionada pela ofensa de Adão. A culpa ocasionada atra­
vés do pecado de Adão tomou-se uma deformação genética a todos os homens. 
Deus alumia a todo o homem que vem ao mundo (Jo 1.9). Também, segundo 
um conceito mais radical, exige também santidade de todo o homem que está 
no mundo. Então, nesse caso, esse tipo de culpa imputada não é a culpa pra­
ticada, mas a culpa herdada. E neste sentido que o Salmista declara em seu 
argumento sobre o pecado, dizendo: “Eis que em iniqüidade fui formado, e em 
pecado me concebeu minha mãe” (SI 51.5). E ainda acrescenta no salmo 58.3, 
quando diz: “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que 
nasceram”. Também no passado, cidades inteiras foram destruídas por expres­
sa ordem de Deus. Em algumas delas, a ordem de destruição era total, como 
por exemplo:
a) Na destruição de Jericó. “E, tudo quanto na cidade havia, destruíram 
totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até 
ao velho” (Js 6.21).
b) Na destruição dos amalequitas. “Assim diz o Senhor dos exércitos: Eu 
me recordarei do que fez Amaleque a Israel, como se lhe opôs no caminho, 
quando subia do Egito. Vai, pois, agora e fere a Amaleque, e destrói totalmente 
a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mu­
lher, desde os meninos até aos de mama” (1 Sm 15.2,3).
c) Na destruição de Jerusalém. “Matai velhos, mancebos, e virgens, e me­
ninos, e mulheres, até exterminá-los” (Ez 9.6a).
16 4 A D o u t r in a d o P e c a d o
2. A culpa ocasionada pela ofensa de Adão pode ser anulada. O
homem culpado que olha para Cristo, tem a sua culpa anulada. Este é conceito 
geral das Escrituras com respeito ao pecado e a salvação da pessoa humana. 
Todo o processo se dá por meio de Jesus Cristo. Ele é o mediador entre Deus e 
o homem. “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, 
Jesus Cristo homem” (1 Tm 2.5). O homem não é capaz de salvar a si mesmo, 
sem que haja por parte de Deus uma participação neste processo. Paulo disse: 
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto (enfatiza o apóstolo) não 
vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8).
Um pouco de silêncio sobre a imputação da culpa. A Bíblia não nos infor­
ma se esta determinação de Deus fora aplicada (como uma espécie de dispen­
sação) apenas para aquela geração ou se ela tomou-se extensiva a todos os 
jovens israelitas ou não. As Escrituras silenciam nesta direção, então é melhor 
não arriscar. Com efeito, porém, mesmo havendo um sentimento de boa von­
tade no pensamento pelagiano a este respeito, contudo, a ideia de que somos 
somente responsáveis perante Deus por aquilo que somos capazes de fazer é 
contrário ao pensamento geral das Escrituras, visto que por si mesmo, o ho­
mem é incapaz de praticar bem de natureza espiritual, sem que nele passe a 
habitar o Espírito Santo de Deus.
3. A culpa hereditária e a culpa praticada. A culpa herdade tomou- - 
se uma espécie de conseqüência hereditária. Já a culpa praticada ou contraída, 
é factual e pode existir e não existir. Pois nesse caso, ela somente passa a 
ser inquirida depois de sua prática. Paulo durante todo o passo do argumen­
to em foco, usa a expressão “ofensa” como contraposta ao “dom gratuito” 
da parte de Deus e a frase estar presente nos seguintes versículos: 15,16 (3 
vezes), 17,18,20. E evidente, portanto, que analisemos dois pontos importantes 
nesta argumentação:
a) A culpa herdada no pensamento cristão. A culpa herdada passou a i 
estar presente a todos os descendentes de Adão. Atuando com maior agres­
sividade de Adão até Moisés: “sobre aqueles que não pecaram à semelhança 
de Adão”. A culpa herdada neste caso tomou-se uma espécie de conseqü­
ência volubilidade, à semelhança de uma família em que um dos membros 
foi envolvido num ato perverso de grande magnitude. Doravante perante as 
autoridades e aos olhos da própria sociedade, aquela família, mesmo não ten­
do culpa, passa a ser co-participante indiretamente das conseqüências e dis­
sabores dos atos e processos até que aquele (ou aquela) membro da família 
seja condenado ou absolvido. Sendo que, a conseqüência somente é debelada
O P e c a d o H e r d a d o e a I m p u t a ç ã o d a C ulpa 165
através do processo de absolvição. Fora disso, a culpa involuntária continua. 
Deus podia corrigir o pecado até a 4a geração daqueles que lhe aborreciam 
(Ex 34.7). Na culpa herdada, os descendentes de Adão não foram envolvidos 
nela voluntariamente; e, sim, na extensão da conseqüência não expiada. Com a 
presença da Lei, o pecado reviveu; isto é, passou a estar presente — mas como 
solução imediata, Deus abriu uma espécie de “caminho da redenção” pelos 
sacrifícios estabelecidos pela lei cerimonial. Eles eram sombra do sacrifício 
perfeito de Cristo que através do seu próprio sangue inauguraria um sacrifício 
maior e mais perfeito.
I o. O que alguns rabinos pensam sobre a origem e a culpa trazida pelo 
pecado. No conceito rabínico, a origem do pecado — especialmente sua 
introdução no mundo, encontra-se envolvido tanto na história da Bíblia 
como na própria tradição. O rabino Manis Friedman declara que na pri­
meira sexta-feira, sexto dia da Criação, quando o mundo era inocente e 
puro, Adão e Eva estavam vivendo no jardim do Éden, recentemente cria­
dos pelas mãos de Deus. Receberam a tarefa de cultivar e proteger o Jar­
dim. Deus lhes ordenou: “Não comam da árvore do conhecimento, pois no 
dia em que comerem morrerão”. Tiveram uma opção: abster-se de comer o 
fruto da árvore e viver para sempre no Jardim; ou comê-lo e serem banidos 
para o mundo da mortalidade. Após três horas de sua criação, comeram 
da árvore. Deus permitiu que Adão e Eva permanecessem enquanto du­
rasse o Shabat, mas quando este terminou, foram expulsos do Éden para 
sempre. É uma história intrigante (continua o rabino), e desperta várias 
questões. Deus criou dois seres humanos perfeitos, sem nenhuma malícia 
ou “bagagem.” Ele, o Todo-Poderoso, ordenou-lhes explicitamente para 
não comer do fruto de uma determinada árvore. Mesmo assim, estas duas 
almas inocentes, que jamais haviam sido expostas a influências corrup­
toras, desobedeceram-no em poucas horas. Houve alguma falha em sua 
criação? Ou, inimaginável, havia algo errado com Deus? O diretor de uma 
escola cujas instruções seguem ignoradas é um líder ineficiente. Se Deus 
falasse a você e dissesse: “Não coma desta árvore,” após algumas horas, 
você iria em frente e comeria? Era o plano de Deus que Adão e Eva vives­
sem para sempre no Jardim, em um estado divino de pureza, inocência e 
imortalidade? Ou, seu plano era criar um mundo no qual existisse o mal
e, ou obedecemos suas leis escrupulosamente e vamos para o céu, ou as 
desobedecemos e vamos para o inferno? Nos ensinamentos clássicos, esta 
pergunta é feita em tons mais suaves: Por que Deus desejaria instilar em 
nós um pedacinho de si mesmo, a alma Divina, e expô-la a um mundo de 
feiúra e trevas?
166 A D o u t r in a d o P e c a d o
Mais à frente, em uma outra seção de seu argumento, o rabino invoca para 
enfatizar seu ponto de vista no tocante ao pecado e a culpa em cada pessoa, 
os ensinamentos cabalísticos. Então ele diz: “Como a Cabala explicará, a 
descida proporciona uma subida ainda maior. Deus criou o universo por 
um desejo de “uma morada nos mundos inferiores”. Este é o significado 
mais profundo de “algo a partir do nada,” como a Torá descrevea criação. 
“Nada” significa que nada há sobre um universo físico que justifique sua 
própria existência — somente o desejo de Deus de fazer de nosso mundo 
um lar, de tomar este mundo de came e pedra hospitaleiro a Ele, onde Ele 
possa ser conhecido e adorado. Eva entendeu a necessidade de Deus de que 
este mundo inferior, um mundo contaminado pela morte e pelo pecado, fos­
se elevado e unido a Ele. Ela entendeu que os seres humanos devem deixar 
o Éden e descer ao mundo inferior, e ali criar um lar para Deus. Ela enten­
deu que a tarefa de elevar os “seis dias da semana” culminando no Shabat e 
os “seis milênios” levando à nossa redenção. E assim ela comeu da árvore, 
e convenceu Adão a fazer o mesmo. Quando Deus perguntou a Adão: “Tu 
comeste da árvore?” — não foi uma repreensão ou censura. Ele estava 
admirando a sabedoria de Adão em ter tomado a decisão correta. Adão, em 
sua inocência, admitiu que fora a sabedoria de Eva, não a sua. “Ela deu-me 
o fruto da árvore, e eu comi.” Em resposta, Deus disse: “Porque o fizeste, 
morrerás; comerás o pão pelo suor de teu rosto, e em dor darás à luz.” Este 
não foi um castigo pelo pecado, mas sim uma continuação do plano, com o 
qual Adão e Eva tinham voluntariamente se comprometido. O mundo agora 
pode tomar-se confortável para Ele, quando as coisas que O definem — 
seus mandamentos — são praticados. Assim fazendo, preparamos o mundo 
para nossa suprema redenção”.2
2o. O pensamento cabalístico sobre a culpa herdada é contrário a Bíblia. Na 
opinião cabalística conforme acabamos de ver, é admitido que Eva enten­
deu que o plano de Deus era que eles deixassem o Éden e fossem habitar 
no “mundo inferior”. Mas este, com efeito, não era o plano de Deus, pois 
tal pensamento não se coaduna com o pensamento geral das Escrituras e 
nem com a tese e argumento principal. Outrossim, não é o mundo que irá 
criar o “caminho da Redenção”. Este foi criado por Deus e inaugurado pelo 
próprio Cristo por meio de sua morte na cruz (Hb 10.20).
b) A culpa praticada. (Quer dizer: a culpa herdada pela transgressão indivi- i- 
dual e voluntária). O profeta Ezequiel fala disso por expressa ordem de Deus, 
quando diz: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a maldade 
do pai, nem o pai levará a maldade do filho. A justiça do justo ficará sobre
O P e c a d o H e r d a d o e a I m p u t a ç ã o d a C ulpa 167
ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” (Ez 18.20). Outras passagens 
das Escrituras nos informam que Deus perdoa, mas corrige “a iniqüidade, e a 
transgressão, e o pecado; que ao culpado não tem por inocente. Que visita a 
iniqüidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e 
quarta geração” (Ex 34.7).
Io. A culpa imputada pelo pecado de omissão. Muitas vezes pecamos 
por fazermos, esta é a transgressão; e em outras oportunidades, pecamos 
porque não fazemos, esta é a “omissão”. Frost descreve isso da seguinte 
maneira: “Aqui passamos do lado negativo para o lado positivo da vida 
cristã, ou vice-versa, e aprendemos que deixar por fazer aquilo que sabe­
mos omitimo-nos, é pecar conscientemente. Suponhamos que, do presente 
momento em diante, nunca mais praticássemos qualquer mal, nem preju­
dicássemos de nenhuma forma nosso semelhante, viveríamos sem pecar? 
Não, pois nosso pecado apareceria no fato de não fazermos todo o bem que 
deveríamos fazer”.3
O Senhor Jesus julgará aqueles que cometerem o pecado de omissão. Então 
Ele diz: “Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai- 
vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus 
anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me 
destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me 
vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe 
responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, 
ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então 
lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes 
pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormen­
to eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mt 25.41-46). De igual modo 
Tiago fala em seu livro do pecado de omissão quando diz: “Aquele pois 
que sabe fazer o bem e o não faz, comete pecado” (Tg 4.17). Por outro 
lado, existem também as pessoas que a si mesmas se exercitaram tanto na 
prática do pecado, que são por conseguinte, chamados de “os obreiros da 
iniqüidade” (SI 53.4).
2o. A culpa imputada pelo pecado de comissão. O pecado de “comissão”, do 
ponto de vista teológico, significa aquele pecado que é praticado com satisfa­
ção na alma do que tal ato pratica. No pecado de “omissão”, existe uma omis­
são por parte do bem, mas não existe uma voluntariedade para que tal coisa 
seja assim. No de “comissão”, porém, existe uma vontade de que tal prática 
seja realizada para satisfação dos desejos daquele que tal coisa pratica. O pe­
cado em seu estágio avançado, toma-se depravação (Ap 22.15). Adepravação 
é o inverso do pecado de “omissão”. No primeiro, a pessoa se omite; aqui,
168 A D o u t r in a d o P e c a d o
porém, a pessoa se deprava; quer dizer, sua mente se toma dissoluta e libertina 
como o soltar das águas. Nesse sentido, o pecado procede de algo que é mais 
profundo do que a própria volição, o que igualmente sucede à volição peca­
minosa. Um ato pecaminoso é a expressão de um coração depravado (Pv 4.23; 
23.7; Mc 7.20-23). O pecado deve incluir, por conseguinte, a perversidade do 
coração (quando é voluntário), e essa consiste e persiste sempre em corações 
depravados, que quer dizer “desprovidos da natureza divina”.
(I) A culpa sem controle emocional — mente depravada. Quando a mente 
humana fica desprovida do controle divino, ela não somente peca, mas se 
exercita na imaginação e criação do erro. Paulo os descreve em Romanos 
1.29-31, dizendo: “Estando cheios [os depravados] de toda a iniqüidade, 
prostimição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, con­
tenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedo- 
res de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, de­
sobedientes aos pais e às mães; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição 
natural, irreconciliáveis, sem misericórdia”.
O testemunho das Escritoras Sagradas sobre a universalidade e totalidade 
dessa “depravação” é explícita em Gênesis 6.5,8,21: provém de um caso 
comprovado.
(1) Há ali a intensidade da depravação: “a maldade do homem se multipli­
cava sobre a terra”;
(2) Há ali o seu caráter íntimo: “toda a imaginação dos pensamentos de seu 
coração era só má continuamente”. Expressões estas que ultrapassam qual­
quer possibilidade de entendimento da pessoa humana. É difícil identificar 
que o movimento rudimentar do pensamento era perverso;
(3) Há ali a totalidade de depravação: “Todo designo”, do coração é só mau 
continuamente.
(4) Há ali extensão da depravação toda sua consciência: era só má “conti­
nuamente”;
(5) Há seu exclusivismo: “continuamente má”;
(6) Há sua manifestação desde o princípio: “desde a meninice”.
(II) As qualificações pecaminosas são ascendentes. As qualificações bíblicas 
posteriores sobre nossa condição pecaminosa seguem a mesma direção. Por 
isso, em certo sentido, somos “nascidos em pecados” (SI 51.5); e, na con­
cepção dos judeus: “nascido todo em pecado” (Jo 9.34); e, se não arrepen­
der-se, morrerá no pecado sem misericórdia (Lc 13.5; Jo 8.24).
O P e c a d o H e r d a d o e a I m p ü t a ç ã o d a C ulpa 169
(1) Em relação aos padrões morais estabelecidos por Deus. Há ainda outro 
ponto peculiar à moralidade das Escrituras, e que é, ao mesmo tempo, ver­
dadeiro em si mesmo e admirável. Em toda a Bíblia se fala do pecado, como 
sendo um mal contra Deus, e, de outro lado, em parte alguma é exaltado o 
instrumento ou agente humano [pelo menos do ponto de vista divino] por­
que pecou. Talvez tomássemos como exceções alguns casos registrados na 
Bíblia, tais como,o 
que se pode chamar de “falsidade particular”, ou seja, uma informação fora do 
verdadeiro não prejudica somente a pessoa que a pratica.5
i) Relacionado com a ilegalidade — ‘anomia’. Palavra que traz a cono­
tação de ilegalidade, transgressão, desobediência, etc. A palavra “anomia” é 
formada pela partícula negativa “a” (como o “im” do nosso português), e com 
o substantivo “nomos” o qual significa lei. Nas Escrituras Sagradas essa pala­
vra é encontrada com mais frequência. Esta palavra pode indicar também uma 
‘desobediência religiosa’ de certas normas e leis estabelecidas por Deus na sua 
palavra. Saul, fez por exemplo, aquilo que não lhe era lícito fazer: oferecer 
sacrifício como se ele pertencesse à ordem sacerdotal. Ele mesmo declara que 
o que fez — fez errado. “... ainda a face do Senhor não orei. E violentei-me, e 
ofereci holocausto” (1 Sm 13.12).
j) Relacionado com a injustiça — ‘adikia’. Palavra que traz a conotação 
de injustiça, erro, impiedade, etc. A palavra “adikia” é formada pela partícula 
negativa “a”, e com o substantivo “dike” o qual significa direito. Em síntese é o 
oposto de veracidade, lealdade e integridade. Em sentido religioso, o significado 
do pensamento no tocante ao pecado, quer dizer: “errar o alvo”. Com efeito, 
porém, quando se aplica o conceito geral das Escrituras Sagradas, o sentido é 
mais vasto e tenebroso, pois o pecado é fracasso, erro, iniqüidade, transgressão,
1 8 A D o u t r in a d o P e c a d o
contravenção, falta de lei, injustiça etc. Em seu sentido lato é sempre citado no 
singular, para denotar aquele princípio pecaminoso que produz a morte, tanto 
física como espiritual. Assim, o pecado, é então, personificado como sendo “o 
grande tirano” que impõe tristeza, desespero e morte, levando a criatura humana 
para uma “região tenebrosa”, onde ela permanecerá triste e inativa (Mt 4.16). 
Assim sendo, a sua característica primordial, desde o princípio, é depreendido 
em Gênesis 3. No pensamento humano e também angelical, o pecado tomou-se a 
falta de conformidade com a natureza do supremo Ser, que é Deus. A injustiça é 
como a inveja. Ela é uma arma sombria, usada por Satanás no campo da destrui­
ção. Por esta razão, Deus que é o Justo Juiz, manifesta sua ira contra tal atitude 
por parte dos homens. Paulo descreve também este pecado grosseiro, dizendo: 
“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos 
homens...” (Rm 1.18a). Em algumas versões atualizadas, na passagem de 1 João 
5.17, diz “toda a injustiça é pecado”, ao invés de “toda a iniqüidade é pecado”. 
Essa é, talvez, a definição mais comum da injustiça. A lei fixa uma linha divisória 
entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto, e qualquer passo que a transponha, 
é injustiça. A lei de Deus fala de um reino para aqueles que são justos (Mt 13.43), 
como também, de igual modo, um castigo eterno para os injustos (Ap 22.11). Os 
sábios helenistas que viveram antes de Cristo, usavam a palavra grega “adikia”, 
para designar “delito contra Deus; dívida contraída, que não fora perdoada” (cf. 
Mt 6.12). A Bíblia reputa os filhos das trevas como sendo “inimigos de toda a 
justiça”. Por isso são injustos (At 13.10 etc.). Do ponto de vista escatológico, 
Jesus é “O Justo” (Is 53.11), enquanto que o Anticristo será “o iníquo” (2 Ts 2.8). 
Paulo afirma que os “injustos” ficarão fora do céu (1 Co 6.9).
2. Definição da natureza do pecado. Por natureza, o pecado, segundo 
se diz, se entende como sendo “qualquer falta que fere a santidade de Deus”, quer 
em ato, atitude, estado, ou natureza. As Escrituras põem em relevo dois pontos 
principais ou qualidades morais: a santidade e seu antagonista, o pecado. Pode- 
se dizer que, na esfera moral, o primeiro corresponde ao Bem e o segundo ao 
Mal. Todos os demais princípios e qualidades morais podem ser classificados de 
maneira a se identificar com um desses dois grupos. E por isso mesmo o pecado, 
como sua “antítese”, recebe na Bíblia atenção ampla e adequada. Em seu escopo 
geral, sem nenhuma exceção, as Escrituras descrevem o pecado como sendo de 
natureza má em todos os seus aspectos, e como algo áspero, mau e nocivo.
a) O pecado opera em todas as esferas da vida e das atividades humanas.
I o. Na esfera moral. Quando Deus criou o homem, criou-o com um senso
de responsabilidade. Jamais Deus iria dizer a um ser irresponsável: “Você
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a do P ecado 19
será como um de nós”, como disse ao homem, dando-lhe instruções para 
sua vida e para sua prole. A responsabilidade imposta por Deus no homem 
envolve vários aspectos de sua vida e para que ele se conserve puro, é ne­
cessário não transgredir. A transgressão pode aparecer, em primeiro lugar, 
abrindo caminho nos atos ilícitos — nos crimes e contravenções. Todos 
estes atos e coisas semelhantes são condenados, tanto do ponto de vista 
religioso, como do social. Crime é a violação de uma norma de conduta 
imposta pela lei sob a sanção da pena. O crime pode ser cometido por um 
ato ou por omissão e pode ser de dois tipos: doloso — quando se trata de 
intenção pré-concebida de causar dano a alguém. Culposo — quando se 
trata da violação da lei sem premeditação, mas com imprudência, negligên­
cia ou imperícia. Mais ou menos como se fala que a pessoa humana pode 
pecar de duas maneiras: por omissão — quando sabe fazer o bem e não o 
faz. “Aquele pois que sabe fazer o bem e o não faz, comete pecado” (Tg 
4.17), — e por comissão (Lc 3.19,20).
2°. Na esfera da santidade. A santidade é a regra geral de Deus em ambos os 
Testamentos. No Antigo, Ele disse: “Fala a toda a congregação dos filhos 
de Israel, e dize-lhes: “Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou 
santo” (Lv 19.2). Em o Novo, Paulo diz: "... esta é a vontade de Deus, a 
vossa santificação” (1 Ts 4.3), e acrescenta: “... o mesmo Deus de paz vos 
santifique em tudo” (1 Ts 5.23). Assim, tudo que pertence a Deus, ou com 
Ele se relacionar, deve ser santo. Primeiro: a Trindade — Deus (Lv 19.2); 
Jesus (Lc 1.35); o Espirito Santo (Rm 1.4). Segundo: as coisas e os seres
— aterra (Êx 3.5); o sábado (Gn 2.3; Êx20.8; 31.14; Ne 13.22); as sobras 
dos sacrifícios (Êx 29. 34); o óleo da santa unção (Êx 37.29); as festas (Lv 
23.2); o monte do Senhor (SI 15.1); a aliança (Dn 11.30); a comida (1 Tm
4. 3-5); os dízimos (Lv 27.32); a oferta (Mt 23.19); o sangue (Hb 10.29); 
os anjos (Mt 25.31); os apóstolos e os profetas (Ap 18.20); os crentes (At 
20.32; 26.18); os vasos (2 Tm 2.21); o altar (Êx 40.10); o caminho (Is 
35.8); a cidade (Mt 4.5); o jejum (J11.14; 2.15); os sacrifícios (Rm 12.1) os 
primogênitos dos filhos de Israel e dos seres (Êx 13.2; Dt 15.19). Este é o 
motivo porque o Diabo detesta e não quer santidade — porque do lado de 
Deus, tudo é santo e santificado.
3o. Na esfera da verdade. O primeiro pecador foi um mentiroso e introduziu 
o pecado na esfera humana, começando com uma mentira (Gn 3.1-5; Jo 
8.44). Depois ele incentivou aos homens, fazerem da mentira um lugar de 
refugio. No futuro, o Anticristo fará da mentira o refugio de seu governo e a 
base de suas palavras. Na presente dispensação o espírito do Anticristo men­
te descaradamente, procurando negar a origem de nosso Senhor Jesus e de
2 0 A D o u t r in a d o P e c a d o
sua obra redentora. Também procurará, a todo custo, ocultar a concepção 
virginal do Filho de Deus, dizendo que, cientificamente, isso é impossível. 
Mas a palavra divina o chama de mentiroso, dizendo: “Quem é o mentiro­
so, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo, esse mesmo 
que nega o Pai e o Filho” (1 Jo 2.22).
4o. Na esfera da conduta fraternal. O princípio fundamental da fraternida­
de é o amor. “E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu 
coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primei­
ro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu 
próximo como a ti mesmo” (Mt 22.37-39). Ajustiça da fraternidade deve 
estar inclinada para coma afirmação de Raabe diante de seus patrícios de que os 
“espias” já tivessem partido de sua casa — seria então o pecado de mentira 
(Js 2.4,5), ou no caso de Sansão, que enquanto escondia seu segredo, con­
serva consigo o poder de Deus; quando porém, falou a verdade, este poder 
foi retirado de seu coração — porque nesse caso, segundo a visão da lógica, 
ele somente conservava este poder enquanto mentia (Jz 16). Contudo, deve­
mos ter em mente que, em ambos os casos não houve nenhuma transgressão 
diretamente contra Deus; e, sim, atos que foram realizados, ainda que de 
forma ilícita aos nossos olhos, em favor do povo de Deus contra agentes 
humanos completamente inimigos de Deus e do seu povo — ainda que isso 
não foi legal na concepção do direito que não está mesclado com a caridade. 
Nas Escritoras, ao contrário da filosofia pagã, o pecado é representado como 
coisa amarga e má, porque é desonroso para Deus: Essa ideia aparece distin­
tamente no Antigo Testamento, sendo na verdade uma das suas mais notadas 
particularidades. Exemplificando, temos o poder de Deus se manifestando 
de forma versátil e sendo lançado no campo da destruição física e da repre­
ensão moral, em coisas e em indivíduos, como por exemplo:
(2) A destruição de Sodoma e Gomorra juntamente com as cidades da cam­
pina (Gn 19).
(3) As dez pragas mortíferas que desabaram sobre o Egito, contra Faraó e 
contra seus súditos (Ex 7 — 12).
(4) A destruição dos amalequitas (Ex 17).
(5) O juízo severo contra Coré e o seu grupo, que foram tragados pelo cas­
tigo iminente de Deus (Nm 16).
(6) Os castigos de Deus, ainda que mesclados com misericórdia contra Israel
— levando-o para o cativeiro em diversas oportunidades (2 Cr 36; Lc 21).
(7) Contra o monarca Senaqueribe e seu exército invasor 
(2 Cr 32).
(8) Contra o rei Belsazar durante sua orgia na corte babilônica (Dn 6).
(9) O abandono do mundo gentílico à depravação (Rm 1).
1 70 A D o u t r in a d o P e c a d o
Outros castigos foram aplicados por Deus contra famílias e indivíduos etc.
Assim sendo, o pecado é reputado como sendo o “grande tirano”, denun­
ciado pela justiça divina sem lhe oferecer nenhuma trégua em todos os elemen­
tos doutrinários das Escrituras Sagradas.
4. A culpa contraída. Um outro ponto a ser analisado neste argumen- n- 
to, é o pecado contraído; isto é, em outras palavras: “o pecado do erro”. Uns 
erram movidos pelo engano; outros erram porque gostam de errar e que já 
nascem alienados como o erro (SI 58.3). O erro praticado voluntariamente, 
trás o sentido mais lato e ordinário da definição do pecado e suas formas de 
expressão. Exatamente é o erro, que quer dizer “fraqueza” ou “errar o alvo no 
sentido religioso”. Na declaração feita por Deus em Gênesis 8.21, de que não 
mais iria amaldiçoar a terra por causa do homem, “porque a imaginação do co­
ração do homem é má desde a sua meninice”; significa que o coração humano 
é por natureza “inclinado” (pendido) para o mal. Também se fala o mesmo em 
relação a Israel. Arão lembrou a Moisés, seu irmão, quando o mesmo lhe fazia 
inquirimento no tocante ao pecado do povo, então ele lhe respondeu dizendo: 
“Não se acenda a ira do meu Senhor; tu sabes que este povo é inclinado ao 
mal” (Êx 32.22b).
1 WIKIPÉDIA, enciclopédia livre. Acesso: 06/11/09
2 FRIEDMAN, M. http://www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/AdaoEva/home.html. Acesso: 
18/11/2009
3 BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. J. M. Bentes e W. Jf, Goldsmith (tradutores). São 
Paulo: Imprensa Batista Regular, 2001, p. 220.
http://www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/AdaoEva/home.html
O P o d e r C o n seq ü e n t e 
do P ec a d o
172 A D o u t r in a d o P e c a d o
I . O P o d e r O p r e s so r d o P e c a d o
1. O gemido da terra. Veremos aqui, portanto, “quantos gemidos” fo­
ram impostos nas coisas e nos seres por causa do pecado e todas estas enti­
dades esperam de Deus, que um dia, o mal termine e venha sobre todos um 
estado de retidão, justiça e equidade, coisas estas que somente atuarão em grau 
de perfeição suprema, onde existir a completa ausência do pecado. O profeta 
Isaías descreve em seu livro os abalos e gemidos da terra por causa do pecado. 
Então ele diz: “Os que te virem te contemplarão, considerar-te-ão, e dirão: E 
este o homem (o Diabo) que fazia estremecer a terra...” (Is 14.16a). Depois: “A 
terra geme e pranteia, o Líbano se envergonha e se murcha; Sarom se tomou 
como um deserto; e Basã e Carmelo foram sacudidos” (Is 33.9). Na Bíblia 
encontramos o livro de Juizes, começa bem, mas termina sua história com 
as tribos de Israel destruindo a si mesmas. Há também um capítulo tristonho, 
onde não encontramos nenhuma palavra de otimismo: Salmo 88. E agora aqui, 
no presente texto, o versículo mais tristonho da Bíblia. Convém observar que, 
não estamos falando aqui partes tristes da Bíblia, porque a Bíblia foi escrita 
para debelar toda e qualquer tristeza; embora “a tristeza segundo Deus opera 
arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende” (2 Co 7.10); 
e, sim, de partes que em si mesmas, descrevem coisas com aspectos tristonhos. 
Quando, porém, analisamos os contextos antes e depois de três destas partes 
da Bíblia, descobrimos que estes aspectos de tristezas encontrados em ambos, 
tem uma só origem: a causa do pecado. Este gemido da terra começou desde 
o dia quando ela foi “amaldiçoada” por causa do pecado. Ela então passou a 
“gemer e a prantear”.
2. O gemido da criação. “Porque sabemos que toda a criação geme e 
está juntamente com dores de parto até agora” (Rm 8.22). O gemido da criação 
é um gemido doloroso. Em uma Era futura, que será o Milênio, Deus libertará 
sua criação da escravidão que o pecado lhe impõe, conforme é descrito pelo 
profeta Isaías em 11.6-9, que diz: “E morará o lobo com o cordeiro, e o leo­
pardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado 
andarão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão jun­
tas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. E brincará 
a criança de peito sobre a toca da áspide, e a desmamada colocará a sua mão 
na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo 
monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas 
cobrem o mar”. Outros profetas descreveram também esse tempo quando Deus 
removerá a maldição da terra e da criação inteira em termos de grande amor.
O P o d e r C o n seq üen te d o P e c a d o 173
3. O gem ido da Igreja. “E não só ela [a criação], mas nós mesmos, 
que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, es­
perando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). “Porque 
também nós, os que estamos no tabemáculo, gememos carregados; não por­
que queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido 
pela vida” (2 Co 5.4). O gemido constante de cada crente, e por extensão de 
toda a Igreja, é esperando o momento da “redenção do nosso corpo”, confor­
me está declarado por Paulo no texto em foco, que temos aqui nesta seção. 
Enquanto estivermos aqui neste mundo, estamos a perigo, porque ainda não 
alcançamos a “redenção do nosso corpo”, mas somente a “redenção das nos­
sas almas”. Todos nós gememos esperando aquele grande dia, quando ao 
lado de Cristo, nas nuvens, cantaremos o hino triunfal, seguido do grande 
brado que Paulo apenas escreveu em sua introdução, quando disse: “Porque 
convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto 
que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se 
revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, 
então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória” 
(1 Co 15.53,54).
4. O gemido do Espírito Santo. “E da mesma maneira também o 
Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de 
pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com os gemidos 
inexprimíveis” (Rm 8.26). O termo derivao próximo. Esses deveres referem-se à pessoa 
física, à pessoa moral, à propriedade e ao trabalho alheio. De acordo com 
as regras estabelecidas, os deveres para com a pessoa alheia envolvem os 
seguintes requisitos — o respeito que se deve ter pela vida do próximo, 
que inclui não praticar:
(J3 O homicídio
08 A violência
C3 A mutilação
es A injúria
cs 0 duelo etc.
Lamentavelmente, o pecado violou e tem violado todos estes princípios funda­
mentais para o norteamento da conduta humana.
5o. Na esfera da sabedoria. Por meio da sabedoria, Deus capacitou a mente 
humana para entender todos os fatos e circunstâncias, leis e princípios, 
tendências, influências e possibilidades. A sabedoria encerra tudo: matéria 
primeira (celestial, humana e natural), poder e perícia. O Diabo, porém, por 
meio do pecado, procura dominar a esfera mental da sabedoria, e no lugar 
da sabedoria que Deus dera ao homem, implantar a sua própria sabedoria. 
Mas “essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e dia­
bólica” (Tg 3.15).
6o. Na esfera do julgamento. Alguém divide as leis em dois grupos: “leis 
da natureza” e “leis da mente”. São termos usados para denotar princípios 
lógicos para que aquilatemos e julguermos qualquer coisa.
(I) A Lei Elementar. Esta é a lei entretecida nos elementos, substâncias e 
forças das criaturas racionais e irracionais. Por ser entretecida na constitui­
ção do universo material, chamamo-la de lei física ou natural. A lei física é
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 21
e não é necessária; alguma outra ordem é concebível. Nem é tampouco um 
fim em si própria; existe por causa da ordem moral. Portanto, a ordem física 
tem uma substância apenas relativa; às vezes Deus a suplementa através de 
um milagre.
(II) A Lei Promulgada. Promulgação Positiva é a expressão da vontade 
de Deus em decretos publicados. Estes consistem de seus preceitos defi­
nitivamente morais, tais como o Decálogo (Ex 20); o Sermão do Monte 
(Mt 5—7). No Novo Testamento, todos os mandamentos são repetidos e 
sancionados com exceção do quarto. Consistem também da legislação ce­
rimonial. Estes são: as ofertas (Lv 1—7), as leis do sacerdócio (Lv 8— 10), 
as leis da pureza (Lv 11— 15). O pecado, com sua condução iníqua ignora 
todas as leis e normas estabelecidas por Deus — contudo, elas estão aí para 
serem observadas.
T . Na esfera mental. A loucura espiritual é pior do que a loucura psicosso- 
mática. A Bíblia diz que “... mesmo os loucos, não errarão” o caminho da 
vida (Is 35.8b). Enquanto que aqueles doentes da mente por causa do peca­
do, ignoram o caminho da salvação. “Os loucos zombam do pecado...” (Pv 
14.9a). O pecado os tomou vítimas do “... deus deste século (o Diabo, que) 
cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz 
do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Co 4.4).
b) O pecado torna o homem impuro perante Deus. Um dos aspectos 
sombrios da natureza do pecado é a impureza. Ele toma o homem impuro de 
mente e de coração, com a finalidade de afastá-lo de Cristo, que disse: “Bem- 
aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5.8). Paulo 
relaciona a impureza com a torpeza (Ef 5.4). Segundo o Dicionário Aurélio, 
esta palavra tem os seguintes sentidos: desonesto, impudico, infame, repug­
nante, manchado, nojento, obsceno, indecente, vergonhoso, ignóbil, etc. Já o 
vocábulo grego “aischrotes”, empregado na citação que está em foco, significa 
“feiúra”, “iniqüidade”. O termo envolve toda e qualquer imundície praticada 
com extravagância ou tortura, por alguém da mente doentia.
3. O pecado desperta a ira de Deus. Visto ser o pecado de natureza má, 
e evidentemente, nociva, este desperta aversão a ira da parte de Deus. Porém, este 
estado de ira de Deus contra o pecado é retratado como ferindo somente os ímpios. 
Embora Deus ame o pecador, contudo, Ele aborrece o pecado. E por causa deste, 
seu estado de ira recai sobre aquele que peca e continua pecando, sem se voltar 
para o arrependimento. Nesse caso, a ira divina se manifesta cada dia. O Senhor é
2 2 A D o u t r in a d o P e c a d o
longânimo para ira, isto é, seus passos são lentos quando seguem nessa direção (Nm 
14.18; Ne 9.17; SI 103.8; J12.13), mas quando observa coisas que lhe desagrada ou 
vê manifestar-se o pecado, sua ira se manifesta (Nm ll.l;R m 1.18;Tg2.13).Enin- 
guémpode subsistir a ela (SI 76.7,8; Ap 6.16,17). Quando o pecado fere a santidade 
divina, desperta a ira de Deus, que é santa, sem sombra de pecado. Sendo livre, ela 
se exerce contra o pecado (cf. Os 11.9). Jesus Cristo, por exemplo, animou-se desta 
ira quando olhou os ouvintes de coração endurecido (Mc 3.5), pois a ira divina é 
motivada pelo zelo dos seus e pela aversão ao pecado. Ela manifesta-se contra deter­
minadas pessoas (2 Cr 25.15), contra Israel quando peca (Ex 22.23), contra um país 
e seus habitantes (Dt 29.27). Em sua ira, Deus deu um rei ao seu povo que rejeitou 
o seu govemo (Os 13.11). Ele derrama seu furor sobre as nações impenitentes (SI
79.6). Durante o período da Grande Tribulação, isto é, aquele tempo de dores que 
virá repentinamente durante a ausência da Igreja ocasionada pelo arrebatamento, 
Deus derramará sua ira contra os habitantes da terra. Duas palavras gregas são usa­
das para descrever este estado de ira divina contra o pecado e contra os pecadores 
durante estes dias sombrios de dores e aflições que envolverá todo o mundo por sete 
anos. Os estudiosos usavam dois termos, para com eles descreverem a ira divina, 
quando esta passava a manifestar-se sobre seus inimigos: “thymos” e “orgê”.
a) Thymos — o pecado desperta (em Deus) um irrompimento de ira. Esse 
termo é empregado 18 vezes no Novo Testamento, para significar “um irrom­
pimento de ira”. Emprega-se para a ira de Deus em 9 das 18 vezes em que apa­
rece o termo. Todas as 9 vezes estão no livro de Apocalipse, onde a ira divina é 
retratada somente ferindo os pecadores. Em 6.12-17, na abertura do sexto selo, 
a ira divina aparece atingido os seguintes elementos:
03 Terra
ca Sol
CS Lua
Cg Estrelas
cs Céu
cs Montanhas
cg Ilhas
Estes, por sua vez, ferem “sete categorias de pessoas”: 
cs Reis 
cs Grandes 
cs Ricos
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 23
cg Tribunos 
cg Poderosos 
cg Servos 
cg Livres
Em 14.8, ela vem sobre Babilônia;
Em 14.19, ela vem sobre os exércitos em Armagedom;
Em 15.1,7; 16.1,19, ela recai sobre os habitantes da terra, em sentido geral. 
Nos demais lugares em que ela é retratada, são: 14.10, sobre aqueles que 
beberam do vinho da prostituição da grande Babilônia. E em 19.15, será mani­
festada no grande lagar da cólera de Deus (Ap 14.19).
b) Orgê — o pecado desperta (em Deus) um estado de ira. Ela pode estar 
presente em Apocalipse 6.16,17; 11.18. Esse termo significa “um estado de ira”. 
É empregado também a respeito da ira de Deus cerca de 27 vezes no Novo 
Testamento. Sendo que em alguns dos textos onde ela aparece, refere-se tanto 
a ira de Deus como a ira do Cordeiro (Ap 6.16). Porém, em nenhum momento 
ela é indicada como um estado de “emoção violenta”, como ordinariamente se 
manifesta na pessoa humana; e, sim, uma ação de Deus de forma versátil para 
executar “julgamento de forma justa”, corrigindo os atos abusivos implantados 
pelo pecado: especialmente contra a impiedade e a injustiça (Rm 1.18).
4. O pecado se opõe a tudo que é puro. A santificação (ou, em sua 
forma verbal, santificar) significa literalmente o processo pelo qual se separa 
algo ou alguém para um uso ou um propósito religioso, ou seja, tornar sagrado 
ou consagrar — faz parte da vontade perfeita de Deus. Porque esta é vontade 
de Deus que todos sejam santos (1 Ts 4.3; 5.23). Na teologia cristã, santificação 
é o processo de aperfeiçoamento gradual do ser humano em que ele se aproxi­
ma do caráter divino e afasta-se do pecado, o qual, em sua forma mais cruel e 
imoral, procura minar e depois destruir todo este processo de santificaçãoideal 
para a vida humana. O Diabo sabe que Deus exige “... a santificação, sem a 
qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). E “... que todo aquele que é nascido 
de Deus não peca” (1 Jo 5.18). Por esta e outras razões, ele procura por todos 
os meios tomar cada vez mais os homens pecadores.
5. O pecado é tanto um ato como um estado. Como rebelião contra 
a lei de Deus — o pecado é um ato da vontade do homem. Como separação 
de Deus, vem a ser um estado pecaminoso, que conserva em si mesmo uma 
atitude deliberada.
24 A D o u t r in a d o P e c a d o
a) A ideia do hedonismo. A intenção do hedonismo modemo é abrandar o 
pecado e desclassificá-lo de agressivo para um estado de brandura inofensiva. 
Hedonismo (do grego hadona que significa prazer) é uma teoria ou doutrina 
filosófico-moral que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana. Sur­
giu na Grécia, na época pós-socrática, e um dos maiores defensores da doutrina 
foi Aristipo de Cirene. O hedonismo modemo procura fundamentar-se numa 
concepção mais ampla de prazer entendida como felicidade para o maior nú­
mero de pessoas. É a tendência moral que defende a maximização do prazer e a 
minimização do sofrimento na existência humana. A teoria socrática do bom e 
do útil, da pmdência, etc, quando entendida pela índole voluptuosa de Aristipo, 
leva ao hedonismo, onde toda a bem-aventurança humana se resolve no prazer. 
A ideia básica que está por trás do hedonismo é que todas as ações podem ser 
medidas em relação ao prazer e a dor que produzem. Podemos dizer também, 
numa linguagem mais simples, que o hedonismo é a arte de ser, não a de ter. A 
arte de ser é a sabedoria ascética do despojamento: não se cobrir de honras, de 
dinheiro, de riquezas, de poder, de glória e outros falsos valores ou virtudes, 
mas preferir a liberdade, a autonomia, a independência. A escultura de si é arte 
dessa técnica de constmção do ser como uma singularidade livre. O hedonismo 
não é a mesma coisa que o consumismo, é exatamente o oposto. E o antídoto. 
O consumismo é o hedonismo liberal e capitalista que afirma ser a felicidade 
a posse de bens materiais.
b) O hedonismo de Epicuro. O pensamento epicurista, como o estoico, 
dirige a atenção para as questões morais. Para Epicuro e a sua escola, a virtude 
identifica-se com o saber; por isso, o modelo de virtude é o sábio. O sábio é 
feliz, caracteriza-se pelo domínio de si, pela sua constância e pela sua simplici­
dade. Afasta-se da política e, em questões de justiça, é propenso à clemência. O 
objetivo fundamental do epicurismo é a moral, isto é, a ordenação da conduta 
humana de modo a ser possível alcançar uma vida feliz. Para Epicuro a felici­
dade é a obtenção de prazer sabiamente administrado e o afastamento da dor. 
Deste modo, os epicuristas dão da natureza humana uma explicação hedonista: 
a lei fundamental da natureza é a procura do prazer. Quanto à descrição de 
fenômenos naturais, os epicuristas recuperam o atomismo de Demócrito com 
algumas variantes; apenas lhes interessa a natureza na medida em que pode 
contribuir para a felicidade do homem libertando-o dos seus temores, demons­
trando ser vão o temor dos deuses, ser vão o temor da morte, estar o prazer ao 
alcance de todos e que a dor, sendo breve e transitória, é facilmente suportável. 
Perspectiva antiquíssima a que Epicuro dá nova formulação, quando admite os 
prazeres morais e não identifica a felicidade com o prazer imediato. Esta senda
H a m a r t io l o g ia - D o u tr in a d o P e c a d o 25
vai ser retomada pelo utilitarismo de Bentham, para quem há uma graduação 
da moral. A tese está intimamente ligada ao contratualismo, à ideia de que 
é possível a realização do máximo de utilidade com o mínimo de restrições 
pessoais, numa perspectiva que reduz o direito a uma simples moral do útil 
coletivo. Libertando-se deste critério quantitativo da aritmética dos prazeres, 
Stuart Mill assume o critério da qualidade e formula a lei do interesse pessoal 
ou princípio hedonístico: cada indivíduo procura o bem e a riqueza e evita 
o mal e a miséria. Desta forma, a moral do interesse individual de Bentham 
aproxima-se de uma moral altruísta ou social. É importante notar que o hedo­
nismo cirenaico diferencia-se do hedonismo epicurista, sobretudo no que diz 
respeito à avaliação moral do prazer. Enquanto a escola cirenaica preceitua que 
o prazer é sempre um bem em si e melhor quanto mais tempo durar e quanto 
mais intenso for, a filosofia epicurista determina que o prazer, para ser um bem, 
precisa de moderação.6
i i i . A O r ig e m d o P e c a d o
1. Pensamento filosófico sobre a origem do pecado. Vários pontos 
de vista sobre a origem do pecado foram e são apresentados em várias linhas 
de pensamento no decorrer da história. Antes, porém, devemos pensar aqui 
neste argumento na linha divisória que marca o ‘antes’ e o ‘depois’ do pecado. 
Quando somente existia o Deus-Trino e Uno, não existia o pecado e nenhuma 
forma de transgressão que viesse ferir a santidade divina. Contudo, veio o mo­
mento no tempo — ou da existência imemoriável — ou no calendário sucessi­
vo quando isso aconteceu. Houve o momento do primeiro pecado concebido 
pelo primeiro pecador. A grande questão com relação ao pecado não é tanto 
quanto a ele, e, sim, quando ele teve origem, como surgiu o primeiro pecado, 
e quem foi o primeiro transgressor e por qual via (ou caminho) isso veio a 
acontecer. Com efeito, porém, toma-se necessário analisarmos alguns pontos 
importantes nesta argumentação. O motivo de analisarmos vários aspectos no 
que diz respeito a origem do pecado, é motivado pelas várias opiniões que são 
apresentadas a este respeito, que vão desde lenda até a mais acurada investi­
gação. Alguns destes pontos defendidos sobre a origem do pecado envolvem 
filósofos, pessoas comuns e teólogos de ambas as linhas de pensamento. Para 
que tenhamos uma melhor compreensão do significado do argumento, deve­
mos analisar estes pontos que acabam os de mencionar ac ima. Também 
estudar cuidadosamente alguns pontos de vista que envolvem o “mistério do 
mal”. O pensamento filosófico envolve vários pensadores, que vão desde teó­
logos, créditos e até ateus. Os estudiosos do problema do mal, o veem em dois
2 6 A D o u t r in a do P e c a d o
aspectos, a saber: um ponto de vista inteiramente filosófico no mais rudimentar 
do sentido, que fora empregado nos conceitos dos filósofos não cristãos, e o 
outro do ponto de vista religioso que foi usado pelos filósofos cristãos, para 
definir o que viria ser ou se transformar naquilo que seria pecado.
a) Santo Agostinho. Definia o pecado como “o que é dito, feito ou desejado 
contra a lei eterna”, entendendo por lei eterna a vontade divina, que é dirigida 
para a conservação da ordem do mundo e para fazer de forma que o homem 
deseje mais o bem maior e menos o bem menor. “Eu buscava a origem do mal, 
mas de modo errôneo, e não via o erro que havia em meu modo de buscá-la. 
Desfilava diante dos olhos de minha alma toda a criação, tanto o que podemos 
ver — como a terra, o mar, o ar, as estrelas, as árvores e os animais — como 
o que não podemos ver — como o firmamento, e todos os anjos e seres espiri­
tuais. Estes, porém, como se também fossem corpóreos, colocados em minha 
imaginação em seus respectivos lugares. Fiz de tua criação uma espécie de 
massa imensa, diferenciada em diversos gêneros de corpos; uns, corpos verda­
deiros, e espíritos, que eu imaginava como corpos. E eu a imaginava não tão 
imensa quanto ela era realmente — o que seria impossível — mas quanto me 
agradava, embora limitada por todos os lados. E a ti, Senhor, como a um ser 
que a rodeava e penetrava por todas as partes, infinito em todas as direções, 
como se fosses um mar incomensurável, que tivesse dentro de si uma esponja 
tão grande quanto possível, limitada, e toda embebida, em todas as suas par­
tes, desse imenso mar. Assim é que eu concebia a tua criação finita, cheia de 
ti, infinito, e dizia: Eis aqui Deus, e eis aqui as coisasque Deus criou; Deus é 
bom, imenso e infinitamente mais excelente que suas criaturas; e, como é bom, 
fez boas todas as coisas; e vede como as abraça e penetra! Onde está pois o 
mal? De onde e por onde conseguiu penetrar no mundo? Qual é a sua raiz e sua 
semente? E se tememos em vão, o próprio temor já é certamente um mal que 
atormenta e espicaça sem motivo nosso coração; e tanto mais grave quanto é 
certo que não há razão para temer. Portanto, ou o mal que tememos existe, ou 
o próprio temor é o mal. De onde, pois, procede o mal se Deus, que é bom, fez 
boas todas as coisas? Bem superior a todos os bens, o Bem supremo criou, sem 
dúvida, bens menores do que ele. De onde pois vem o mal? Acaso a matéria de 
que se serviu para a criação era corrompida e, ao dar-lhe forma e organização, 
deixou nela algo que não converteu em bem?”7
b) Santo Tomás de Aquino. Santo Tomás de Aquino, o maior filósofo da 
Era Medieval, diz em sua Summa Theologiae (Suma Teológica): “Muitos dos 
nossos contemporâneos perguntam-se: Se é verdade que Deus existe, como é
H a jia r t io l o g ia - D o u t r in a do P e c a d o 2 7
possível que permita o mal? Então é necessário fazer-lhes compreender que o 
mal é privação do bem devido, e o pecado é aversão do homem a Deus, fonte 
de qualquer bem. Na compreensão do bem encontra-se também a solução para 
o mistério do mal. Tomás dedicou toda a sua obra à reflexão sobre Deus, e é 
neste contexto que se desenvolvem as dezesseis perguntas acerca do mal. Ele 
conclui que “a transgressão da lei moral vista como mandamento divino”, seria 
então dar origem ao pecado (De Maio) ”.8
c) Emanuel Kant. Kant observou que não se deve confundir a questão da 
sua origem temporal. O pecado é coisa mais antiga e mais sombria. As ideias 
que foram apresentadas nos conceitos de Agostinho e de Aquino, com uma 
coisa de origem racional que, seria o problema da origem do pecado, não eram 
aceitas restritamente por Kant. Nesse caso, segundo Kant (e a própria Bíblia), 
a origem do pecado não foi ou seria um fato ou ato isolado; e, sim, uma ati­
tude deliberada, em fazer para ser. Depois Kant chega à seguinte conclusão: 
“O pecado original nada mais é que o aspecto negativo da solidariedade dos 
homens e mulheres em Deus”.9
d) Harold Kushner. Um rabino nascido nos Estados Unidos, no final do 
século 20, é autor do best-seller Quando coisas ruins acontecem às pessoas 
boas, desafia o cristianismo em vários pontos, principalmente quando faz um 
paralelismo comparativo entre Deus e o mal. Kushner rejeita também os mi­
lagres e desenvolve um argumento a favor de um Deus finito. Ele admite que 
Deus existe. Contudo, não aceita que Ele seja Todo-Poderoso, mais ou menos o 
que pensava Epicuro, filósofo grego que viveu entre 341-270 a.C. A diferença é 
que Epicuro tinha dúvida se Deus era ou não Todo-Poderoso. Também tanto ele 
como seus seguidores, os epicuristas, viam no prazer, obtido pela prática da vir­
tude, o bem. O prazer consiste no não sofrimento do corpo e na não perturbação 
da alma. Os estoicos, como Sêneca (4 a.C-65 d.C), e Marcos Aurélio (121-180) 
que se opõem ao epicurismo, pregam que o homem deve permanecer indiferente 
a circunstâncias exteriores, como dor, prazer e emoções. Procuram submeter sua 
conduta à razão, mesmo que isso traga dor e sofrimento, e não prazer. Para Kush­
ner, Deus não pode controlar o mundo e os seres humanos, mas ele “é o poder 
divino que os incentiva a crescer, avançar e desafiar”. Assim, Deus é um Deus de 
amor, não de poder. Ele é mais bondoso que capaz.10
2. Pensamento popular sobre a origem do pecado. Alguns filósofos 
e teólogos procuraram dar uma explicação mais simples e popular em relação 
ao pecado, que consequentemente trouxe o problema do mal, dizendo que, “o
28 A D o u t r in a do P e c a d o
mal seria a ausência de todo bem”. Isso no fundo negava, por extensão, a exis­
tência do mal. O mal, segundo se dizia, é apenas a ausência do bem, tal como 
as trevas são a ausência da luz. Agostinho e S. Tomas de Aquino propuseram 
esse ponto de vista. Mas isso parece um tanto lógico, para solucionar o proble­
ma do mal físico e moral; mas que diríamos com relação ao mal metafísico ou 
espiritual? Esse é sem dúvida, um dos grandes problemas para nossa imagina­
ção que talvez não possa ser solucionado à luz da lógica; mas, sim, pode ser 
compreendido no campo da fé (1 Co 2.10; Fp 3.15).
3. Pensamento lacunoso sobre a origem do pecado. O pensamento 
lacunoso (que se omitiu — omitido) defende que o pecado teve início quando 
o homem fez mal uso da liberdade. Para alguns estudiosos do problema do 
mal, o primeiro pecado aconteceu quando o homem, pela primeira vez fez 
mal uso da liberdade. Isto acontece com cada pessoa no mundo. O entendi­
mento do pecado original na concepção antiga não pode mais ser aceito hoje 
em dia no sentido histórico de um homem e uma mulher que pecaram e os 
filhos estão sofrendo as conseqüências. E necessária uma nova compreensão 
desta verdade bíblica. É importante, para melhor compreensão desta parte da 
Bíblia, considerar Adão não como um só homem singular, mas como repre­
sentante de toda a humanidade. O hagiógrafo, ao dizer que “tudo era bom”, 
tinha em vista responsabilizar o homem pela entrada do mal no mundo. Nos 
primeiros capítulos do Gênesis, apresenta o mundo perfeito. Do terceiro ca­
pítulo em diante, faz quase uma oposição do que disse: isso significa que o 
homem é inclinado para o mal pela sua própria natureza e nisso está a essên­
cia do que se chama “pecado original”. Até pouco tempo, acreditava-se que 
o pecado original era uma herança do pecado de um só homem (Adão), o que 
sempre repugnou que uma criança inocente já nascesse em pecado. Atual­
mente, se crê e se aplica este conceito ao fato de que a pessoa, ao nascer num 
mundo onde já há o pecado, embora sem culpa dele, terá esta tendência para 
fazer o mal, que pode ser superada com a graça de Deus. Visto que o homem 
é um ser imperfeito, ele poderá vacilar e praticar o mal, e assim o ‘pecado’ de 
cada indivíduo vai “contribuindo” para a continuação do mal no mundo.
4. Pensamento folclórico sobre a origem do primeiro pecado. O pen­
samento folclórico evolve vários mitos sobre a origem do pecado. Um deles é a 
história da maçã. Este mito sugere que o pecado se originou quando Eva tomou uma 
maçã da árvore proibida e a deu a Adão para que ele comesse. Quando Adão comeu 
a maçã, então se originou o primeiro pecado no mundo. Os criadores deste mito 
esqueceram-se de que, quando Adão comeu do fruto da árvore proibida, o pecado
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 29
já se encontrava no universo. A proibição divina, advertindo a Adão para que não 
comesse do fruto daquela árvore, é posterior à origem do mal. Isso fica explícito na 
passagem de Gênesis 2.9, quando se faz referência da “árvore da ciência do bem e 
do mal”. Portanto, a origem do mal, deve ser buscada numa outra fonte e não nesta 
que temos em foco aqui nesta seção. O mal é mais sério do que tudo aquilo que 
entendemos ou pensamos. Sua origem, portanto, se envolve num campo que vai 
além da imaginação. Ninguém poderá penetrar nele, quer dizer, neste campo, a não 
ser mediante a fé e orientado pelo Espírito de Deus. Somente se poderá descobrir 
ou pelo menos ter uma noção clara da origem do mal, se nossas mentes aceitarem 
uma adesão firme nas Escrituras, da existência dos agentes do mal, eles, através de 
referências diretas ou indiretas, mostram que toda a origem do mal, encontra seu 
correspondente no grande inimigo de Deus e dos homens; o Diabo. Ele foi, portan­
to, o primeiro a pecar contra Deus e contra suas ordens. E nele e não em outro, que 
foi encontrado pela primeira vez a origem do mal (Ez 28.15,16).
5. Pensamento que defende um ato sexual como origem ao pecado.
Este é um outro ponto de vista defendido por alguns a fim de encontrar a ori­
gem do mal. Os que defendem este lado da questão, dizem que a linguagem 
usada com respeito à queda do homem e suaesposa, é simbólica e não literal. 
Nesse caso, sustentam eles, o fruto ali proibido era simplesmente um contato 
sexual de Adão com Eva. Para nós, esta opinião não se coaduna com o argu­
mento geral das Escrituras e nem com a tese principal. Quando Deus criou 
o homem e a mulher, já os criou com esta finalidade. Um contato íntimo do 
casal, mesmo em seu estado de inocência ali no jardim, não seria re putado 
c o m o pecado aos olhos de Deus. Pois mesmo em seu estado de santidade, 
“Deus os abençoou, e Deus lhes disse (aos dois): Frutificai e multiplica-vos, e 
enchei a terra, e sujeitai-a...” (Gn 1.28). Quando o casal pecou, Deus renovou 
novamente a sua promessa no que diz respeito à procriação. Parece que a mu­
lher tinha perdido sua fertilidade, por causa do pecado. Mas o Criador a toma 
fértil quando prometeu que ela daria luz a filhos. Adão ao escutar as palavras 
de Deus, passa, então a chamar sua esposa de “Eva” que quer dizer: “mãe da 
vida” (Gn 3.20). Fica, portanto, evidenciado que a origem do mal, nada tem a 
ver com um contato íntimo, cuja finalidade era a procriação e o prazer do casal 
ali no jardim do Éden.
6. Pensamento judaico sobre a origem do pecado. O pensamento 
judaico fora da Bíblia no tocante a origem do pecado, é mais folclórico do que 
teológico. A Enciclopédia Judaica, em vários de seus volumes, mostra alguns 
trechos da concepção rabínica sobre a origem do mal.
30 A D o u t r in a d o P e c a d o
a) Concepção rabínica sobre a origem do pecado. “Também no Zohar
— o Zohar (em hebraico rm, “esplendor”) é considerado como um dos livros 
(trabalhos) mais importantes da Cabala, no misticismo judaico, é implícito que 
o mal no universo se originou de sobras dos mundos que foram destruídos. O 
poder do mal é comparado com a casca (klpah) da árvore de emanação, um 
símbolo que se originou com Azriel de Gerona e tomou-se bastante comum 
a partir do Zohar. Alguns cabalistas chamavam a totalidade da emanação da 
esquerda de “a árvore exterior” (ha-ilan ha-chitson). Outra associação, en­
contrada nos cabalistas de Gerona, e em seguida a eles também no Zohar, é 
com “o mistério da Árvore do Conhecimento”. A árvore da Vida e a Arvore do 
Conhecimento eram ligadas em perfeita harmonia até que Adão veio e sepa­
rou-as, e deu assim essência ao mal, que estivera mantido dentro da Arvore do 
Conhecimento do Bem e do Mal, e foi então materializado no instinto do mal 
(ietser ha-ra). Portanto foi Adão quem ativou o potencial do mal oculto dentro 
da Árvore do Conhecimento, ao separar as duas árvores e também ao separar 
a Árvore do Conhecimento de seu fruto, que ficou então destacado de sua 
fonte. Este acontecimento é chamado metaforicamente de “o corte dos brotos” 
(kitsuts ha-neti ’ot) e é o arquétipo de todos os grandes pecados mencionados 
na Bíblia, cujo denominador comum foi a introdução da divisão na unidade 
divina. A essência do pecado de Adão foi que introduziu “a separação acima e 
abaixo” naquilo que deveria ser unido, uma separação da qual todo o pecado é 
fundamentalmente uma repetição — com exceção dos pecados que envolvem 
magia e bmxaria que, de acordo com os cabalistas, juntam aquilo que deveria 
permanecer separado. Na realidade, esta visão também tende a acentuar a se­
paração do poder de julgamento contido dentro da Arvore do Conhecimento 
do poder de benevolência contido dentro da Arvore da Vida. Esta despeja seu 
fluxo copiosamente, enquanto que a outra é uma força restritiva com tendência 
a se tomar autônoma. Pode fazê-lo como resultado das ações do homem ou de 
um processo metafísico nos mundos superiores”.1'
b) O que o judeu tradicional entende por origem do pecado. “O judeu 
tradicional, condicionado por fatores éticos, como todos os homens do mesmo 
tipo entre outros povos, estava sempre empenhado em explicar sua conduta e 
os impulsos de sua consciência. Essa espécie de contabilidade resultava numa 
humildade intelectual no que se referia à busca da verdade. Dessa forma, o 
judeu devoto tinha em pouca conta a própria virtude; ele não se podia permitir 
o luxo da autoexaltação. Pelas mesmas razões, estava inclinado a ser tolerante 
com os pecados e os erros dos outros. Os moralistas judeus — especialmente 
aqueles que registraram suas dolorosas dúvidas acerca da loucura e do erro 
humanos na Idade Média e nos séculos que se seguiram, deploraram o fato de
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que todos os seres humanos fossem feitos no mesmo molde de perversidade 
e contradição. O Mal e o Bem, percebiam eles, fluíam da mesma fonte — da 
natureza do homem.
I o. Rabi Meir, o Sábio Lamentador do século IV. Diz-se que ele ficou certa 
vez desolado ao tentar compreender suas próprias ações. “Pobre de mim 
por meu Criador, e pobre de mim por minha própria natureza!”, lamentava- 
se ele. Era um reconhecimento — que ele partilhava com outros pensado­
res religiosos esclarecidos do Período Talmúdico — de que em sua própria 
personalidade humana podiam ser encontradas sementes de imperfeição 
moral. Uma reafirmação quanto a essa falha endêmica no caráter do ho­
mem foi tentada pelo codificador medieval francês da lei rabínica, Moisés 
de Coucy: “E porque o homem é meio-anjo meio-besta, que esse conflito 
tem lugar em sua vida interior”. Nem sempre, porém, foi o pecado encara­
do pelos judeus como algo totalmente calamitoso. No Período Talmúdico, 
era corrente uma encantadora lenda popular segundo a qual nem mesmo o 
tzadik (o homem santo de Deus) teria o privilégio de receber recompensa 
eterna do Éden, caso o Anjo Anotador, esse infalível contabilista do céu, 
chegasse a encontrar em sua conta uma só anotação de que ele havia pe­
cado. Mas como seria possível um milagre desses? Os Sábios observaram 
com suave ironia: “Ninguém pode ser considerado santo até que a morte 
tenha chegado para silenciar a inclinação para o Mal (veja IETZER TOV E 
IETZER HA-RA) dentro dele, e ele tenha sido colocado na sepultura com a 
coroa da paz em sua cabeça”. Afim de desencorajar a soberba e a hipocrisia 
entre os devotos, um moralista rabínico anônimo inventou uma parábola 
pungente sobe o tema bíblico do Pecado Original. A posição tradicional 
dos judeus era naturalmente a de que a morte sobreveio à terra por causa da 
queda de Adão (quando ele e Eva comeram o fruto do conhecimento proi­
bido). Aconteceu certa vez (o rabino assim iniciava a sua parábola), que 
determinadas pessoas virtuosas de gerações posteriores a Adão, apontaram 
dedos acusasadores para ele: “Então és tu, Adão, o culpado pelo fato nós 
todos termos que morrer!”, gritavam eles. “Que quereis de mim?”, respon­
deu Adão num queixume. “É verdade... eu cometi um pecado! Mas quem, 
dentre vós, ó justos, não é culpado de muitos pecados?”
2o. As definições judaicas de “pecado” e “pecador”. A definição judaica 
opinam que pecado e pecador abrangiam toda a soturna gama da maldade 
e das más ações de que só são capazes os seres humanos. É claro que 
nenhum sistema moral é absoluto; cada povo ou religião desenvolve suas 
próprias opiniões especiais, suas leis e seus mitos relativos ao bem e ao 
mal, ao pecado e ao pecador, à recompensa e ao castigo. E também esses
32 A D o u tr in a do P e c a d o
não permanecem estáticos mas passam por mudanças que se processa­
vam com o tempo, com as circunstâncias e as influências externas. O 
registro histórico judaico relativo ao pecado começa com os imperiosos 
mandamentos “negativos” dos Dez Mandamentos nos albores da religião 
judaica. Os profetas e os Sábios Rabínicos os ampliaram e aumentaram- 
lhe o escopo, e os codificadores dos ritos e das cerimônias durante a Idade 
Média e os períodos subsequentes continuaram, meramente o processo 
penoso de os inventariar e classificar, erguendo em tomo de cada uma 
das 613 mitzvot (mandamentos das Escrituras) e as paredes protetoras de 
uma multiplicidade de regras e regulamentos. Violar mesmo uma delas 
que constituía um pecado. Os fiéis pouco imaginativos e voltados para a 
literalidade da interpretação

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