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do
$Pr iÈ iW m
CBO
Rio de Janeiro
2012
juniorevan
Livro
Digital
Todos os direitos reservados. Copyright © 2012 para a língua portuguesa da Casa Publi-
cadora das Assembleias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina.
Preparação dos originais: Verônica Araújo
Capa: Jonas Lemos
Projeto gráfico e Editoração: Elisangela Santos
CDD: 230 - Doutrina (Teologia Cristã)
ISBN: 85-263-0299-x
As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de
1995, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.
Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da
CPAD, visite nosso site: http://www.cpad.com.br.
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Casa Publicadora das Assembleias de Deus
Av. Brasil, 34.401 - Bangu - Rio de Janeiro - RJ
CEP 21.852-002
Ia edição: Setembro/2012
Tiragem: 3.000
http://www.cpad.com.br
P r efá c io
A doutrina do pecado, de autoria do Pastor Severino Pedro da Silva, é
verdadeiramente um tratado de hamartiologia. Nele, o autor mostra
a natureza sombria do pecado, seus efeitos nocivos e seus males que
afetam a humanidade, os seres, e as coisas em cada reino da natureza. A Escritu
ra descreve tanto o pecado como sua natureza, dizendo que, pecado é fracasso,
é erro, é iniqüidade, é transgressão, é falta de lei, é injustiça. Neste livro, são
apresentados todos estes fracassos, e ao mesmo tempo, apresentado o caminho
da solução contra todos eles e outros que não foram mencionados aqui.
S. Tomás de Aquino diz que só através de luta e esforço, poderá o homem
alcançar a perfeição. Ele então aponta a luta pela verdade para suplantar a
ignorância, a luta pelo bom para suplantar a malícia, a luta pelo árduo para
suplantar a fraqueza, a luta pelo uso moderado do deleitável para suplantar a
concupiscência. O pecado deforma a perfeição, mas através de Cristo, o ho
mem será transformado “...de glória em glória na mesma imagem, como pelo
Espírito do Senhor” (2 Co 3.18); onde o pecado fere, Cristo sara; onde ele
destrói, Cristo constrói; quando ele mata, Cristo dá a vida — e vida com abun
dância. Na luta contra o pecado, a pessoa humana somente será vitoriosa “em
Cristo” e “por Cristo”. Sem sua presença e ajuda, tudo é fracasso.
São Paulo, BRASIL, 2010
José Wellington Bezerra da Costa
Presidente da CGADB
S u m á r io
P r e f á c i o .............................................................................................................................3
C a p ít u l o 1 : H a m a r t io l o g ia — D o u t r in a d o P e c a d o ......................... 9
I. O P e c a d o ................................................................................................................. 10
II . D efin a ç ã o d o P e c a d o .....................................................................................12
II I . A O rig e m do P e c a d o .................................................................................... 25
C a p í t u l o 2 : O D ia b o F o i o P r l m e i r o S e r a P e c a r ......................... 35
I. O P r im eiro In d iv íd u o q u e P e c o u .............................................................. 36
II. O P ec a d o T eve u m M en to r In t e l e c t u a l ...........................................4 2
III. O D ia b o T o rn a - s e A s s a s s in o em P o t e n c i a l ......................................43
C a p ít u l o 3 : A M o r a d a d o H o m e m a n tes d e P e c a r ................................. 55
I. A d ã o e E va M oravam n u m J a r d im ........................................................... 56
II. O R io do É d e n ................................................................................................... 59
III . A Á rvore da V ida e a Á rvore da C iên c ia do B em e
d o M a l ......................................................................................................................... 62
C a p ít u l o 4 : A Q u e d a d o H o m e m ..................................................................69
I. O P e c a d o d e A d ã o ............................................................................................70
II . A Q u ed a do H om em M ostra um a E scada
D esc en d en t e ..............................................................................................................75
III. A Q u e d a d o H om em e o C u id a d o d e D e u s .......................................83
C a p ít u l o 5 : O P r o b l e m a d o M a l ................................................................. 97
I. A O rig em do M a l ............................................................................................98
II . D iv id e -se o M a l em T rês C a t e g o r ia s .................................................99
III. A P lu r a l i d a d e n a E x is tê n c ia d o B em e d o M a l ............................. 104
IV. O P roblem a do M al n a H istória das Ideia s................................... 1 0 9
C a p ít u l o 6 : A E x t e n s ã o d o P e c a d o ......................................................... 127
I. A E x t en sã o C r esc en te do P e c a d o ....................................................... 128
II. A E xten sã o V ertical , H orizon tal e M or a l do
P ec a d o ........................................................................................................................ 133
C a p í t u l o 7 : A C l a s s i f ic a ç ã o d o P e c a d o ..............................................143
I. A s T r a n sg r e s sõ e s ......................................................................................144
II. O s T r a n sg r e sso r e s ....................................................................................... 148
III. A C la ssific a ç ã o d a C ulpa ...................................................................... 150
IV . O P ec a d o e seus C o g n a to s .....................................................................152
V. O P ec a d o e seus Va r ia n t e s ......................................................................154
C a p í t u l o 8 : O P e c a d o H e r d a d o e a I m p u t a ç ã o
d a C u l p a ............................................................................................................................159
I. O P e c a d o H e r d a d o ....................................................................................... 160
II . A Im pu ta çã o d a C u l pa ................................................................................163
C a p ít u l o 9 : O P o d e r C o n s e q ü e n t e d o P e c a d o .............................. 171
I. O P o d er O pr esso r do P ec a d o ................................................................. 172
II . O P o d er E scravocrata do P ec a d o ..................................................... 174
III . O P o d er I so láv el do P ec a d o ............................................................... 188
C a p ít u l o 1 0 : M a n if e s t a ç ã o C o n c e n t r á v e l d o
P e c a d o ................................................................................................................................. 199
I. O P e c a d o F o r m a u m a U n id a d e d o M a l ............................................2 0 0
II . O P ec a d o F o rm a u m a U n id a d e c o m F ó r m u la
S e d u t o r a ................................................................................................................. 2 0 7
C a p ít u l o 1 1 : P e c a d o s I m p e r d o á v e i s ...................................................... 2 1 5
I. P eca d o s qu e n ã o M er ec ia m o P e r d ã o ............................................... 2 1 6
II. O P ecado de Acultivavam uma devoção que era excessi
vamente formalista. Ela obedecia, a cada passo, a um conformismo e a
um legalismo letais. No entanto, diz-se que a observância escrupulosa de
todas as minúcias ritualísticas do culto por parte do judeu tradicionalis
ta tinha uma utilidade muito positiva para ele: habituava-o a cumprir, a
superar e a sentir cada um dos preceitos religiosos e éticos que lhe eram
impostos.
3o. Os mestres religiosos do Período Talmúdico. Se diz que estes mestres
eram psicólogos e educadores muito hons. Tinham uma crença inabalável
na força do hábito, a qual condicionaria o indivíduo tanto à pratica do bem
quanto à do mal, dependendo do objetivo a qual ele se dirigisse. Era famoso
no seio do povo judeu o axioma rabínico: Quando um homem faz mais uma
boa ação — Ele se toma virtuoso. Quando um homem faz mais uma má
ação — Ele se toma malvado.
Akiva ben José, o mais destacado tana da Mishnah, observava: “A princí
pio o pecado é tão fino quanto um fio numa teia de aranha, mas ao final ele
fica tão grosso quanto uma corda de carroça”. Também é bastante vigorosa
a extravagante declaração do mestre babilônico Chuna, quanto à natureza
do pecado como formador de hábitos: “Quando um homem cometeu um
pecado uma ou duas vezes, é-lhe permitido fazê-lo”. “Permitido?! Como
pode dizer uma coisa dessas?”, perguntou um colega irritado. “Ah!” , res
pondeu Chuna. “Pelo menos para o próprio pecador, parece-lhe ser permi
tido”. Deve-se acentuar novamente que o que conduz a uma compreensão
mais tolerante em relação ao pecador e provoca a compaixão por sua irres
ponsabilidade é o tradicional desprezo que o judeu vota pela falsa modéstia
— o qual, incidentalmente, Jesus de Nazaré também herdou de sua educa
ção e de seu meio judaicos. Precisamente, porque o pecar é uma atividade
da maior importância para a Humanidade — alguns pecam mais, alguns
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 33
pecam menos — e a inclinação para o mal arma indiscriminadamente as
suas armadilhas, tanto para o santo rabino quanto para o mais empedernido
criminoso, o Rei Sábio foi compelido a observar, com pesar, no Eclesias-
tes: “Não existe um homem justo sobre a terra que não faça o bem e não
peque. A religião judaica, seguindo os ensinamentos dos Profetas, nunca
rejeitou os pecadores. Os Sábios esclarecidos, como seu irmão judeu Jesus,
não deixavam dúvidas a esse respeito nos pronunciamentos registrados no
Talmud. “Que desapareça da terra o pecado, e não os pecadores.” “Um
judeu que peca é, ainda assim, um judeu”. Dizia Rabi Meir: “Independente
do fato de serem virtuosos os pecadores, todos os homens estão incluídos
entre os filhos de Deus. Os homens são mencionados na Torah, por vezes,
como os ‘filhos tolos’, ou os ‘filhos infiéis’, ou os ‘filhos malvados’, mas
são chamados de ‘filhos’, apesar de tudo”.12
7. Pensamento do antigo Egito sobre a origem do pecado. Tre
cho extraído do Livro dos Mortos — Confissão Negativa. I (Papiro Nu), diz:
“Salve, deus grande, Senhor da Verdade e da Justiça, Amo poderoso: eis-me
chegado diante de ti! Deixa-me pois contemplar tua radiante formosura! Co
nheço teu Nome mágico e os das quarenta e duas divindades que te rodeiam
na vasta Sala da Verdade-Justiça, no dia em que se presta conta dos pecados
diante de Osíris: o sangue dos pecadores (sei também) lhes serve de alimen
to. Teu Nome é: “O-Senhor-da-Ordem-do-Universo-cujos-dois-Olhos-são-as-
duas-deusas-irmãs”. Eis que trago em meu Coração a Verdade e a Justiça, pois
que arranquei dele todo o mal. Não causei sofrimento aos homens. Não empre
guei violência com meus parentes. Não substituí a Injustiça pela Justiça. Não
freqüentei os maus. Não cometi crimes. Não trabalhei em meu proveito com
excesso. Não intriguei por ambição. Não maltratei meus servidores. Não blas
femei contra os deuses. Não privei o indigente de sua subsistência. Não cometi
atos execrados pelos deuses. Não permiti que um servidor fosse maltratado
por seu amo. Não fiz ninguém sofrer. Não provoquei o homem. Não fiz chorar
os homens meus semelhantes. Não matei e não mandei matar. Não provoquei
enfermidade entre os homens. Não subtraí oferendas dos templos. Não roubei
pães dos deuses. Não me apoderei das oferendas destinadas aos espíritos san
tificados. Não cometi ações vergonhosas no recinto sacrossanto dos templos!
Não diminuí a porção das oferendas. Não tratei de aumentar meus domínios
empregando meios ilícitos, nem usurpando campos de outros. Não adulterei
os pesos nem o braço da balança. Não tirei leite da boca de uma criança. Não
me apoderei do gado nos prados. Não apanhei a laço as aves destinadas aos
deuses. Não pesquei peixes com peixes mortos. Não obstruí as águas quando
3 4 A D o u t r in a d o P e c a d o
deviam correr. Não desfiz as barragens da passagem das águas correntes. Não
apaguei as chamas de um fogo que devia arder. Não violei as regras das ofe
rendas de carne. Não me apoderei do gado pertencente aos templos dos deuses.
Não impedi um deus de se manifestar. Sou puro! Sou puro! Sou puro! Fui
purificado como foi a grande Fênix de Herakleópolis. Porém eu sou o Senhor
da Respiração que dá vida a todos os Iniciados no dia solene em que o Olho
de Horas, em presença do Senhor divino desta terra, culmina em Heliópolis.
Posto que vi culminar em Heliópolis o Olho de Horas, possa não suceder-me
nenhum mal nesta Região, oh! deuses! nem em vossa Sala da Verdade-Justiça.
Pois eu conheço o Nome desses deuses que contornam”.13
1 BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. J. M. Bentes e W. J. Goldsmith (tradutores). São
Paulo: Imprensa Batista Regular, 2001, p. 219
2 WIKIPÉDIA, enciclopédia livre. Acesso: 18/10/09
3 Id. Acesso: 18/10/09
4 Id. Acesso: 18/10/09
5 Id. Acesso: 18/10/09
6 WIKIPÉDIA, enciclopédia livre. Acesso: 14/11/09
7 CONFISSÕES. C. 5, A origem do mal. Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores
http://www.monergismo.com/. Acesso: 14/03/2008
Shttp://www.vatican.va/hoiy_father/john_paul_ii/speeches/2002/june/documents/hf_jp-ii_
spe_20020622_pont-acad-st-thomas_po.html Acesso: 16/11/2009
9 http://www.pom.org.br/publicacoes/arquivos/03_antropologia_servico_missao.pdf. Acesso:
16/11/2009
10 http://www.scribd.com/doc/6897738/Harold-Kushner-Quando-coisas-ruins-acontecem-as-
pessoas-boas.Acesso: 05/11/2009
11 Enciclopédia Judaica, vol. 9, Editora e Livraria Sêfer Ltda. 1989, pp. 112-113.
12 Enciclopédia Judaica, vol. 6, Editora e Livraria Sêfer Ltda. 1989, pp. 636-637.
13 O Livro dos Mortos do Antigo Egito. Ia Ed. São Paulo: Hemus Editora Limitada, 1982,
pp. 137-138.
http://www.monergismo.com/
http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/speeches/2002/june/documents/hfjp-ii_
http://www.pom.org.br/publicacoes/arquivos/03_antropologia_servico_missao.pdf
http://www.scribd.com/doc/6897738/Harold-Kushner-Quando-coisas-ruins-acontecem-as-
La O D iabo F oi o P rim eiro
S er a P ecar
3 6 A D o u t r in a d o P e ca d o
i . O P r im e ir o I n d iv íd u o q u e P e c o u
1. A queda do Diabo deu origem ao pecado. Somam seis os seres s
racionais envolvidos na história do pecado: o Diabo, os anjos, os demônios —
o homem — a mulher — e os homens. Assim: o Diabo pecou (Ez 28.15-16);
os anjos pecaram (2 Pe 2.4); os demônios como extensão dos anjos, também
pecaram (2 Pe 2.4; Ap 11.18); o homem pecou (Rm 5.16); a mulher pecou (1
Tm 2.14); os homens pecaram — finalmente: todos pecaram (Rm 3.23; 5.12).
Do ponto de vista divino de observação, sobre a origem do pecado, está envol
vido o ensinamento geral teológico da interpretação correta e responsável das
Escrituras. Este ensino diz que, a origem do pecado é marcada por um “até”,
que define o ‘antes’ e o ‘depois’ de sua não existência e de sua existência. No
tocante como se originou o “primeiro pecado” e quais foram os elementos
empregados nessa composição, devemos usar a exegese de dois pontos impor
tantes: UM ATÉ e UM ACHOU.
a) Um até. O primeiro destes dois pontos, é o ATÉ que, marca umalinha
divisória entre o “antes” e o “depois” na vida do primeiro ser que iria pecar:
o Diabo.
b) Um achou. Até que se achou — iniqüidade em ti. A frase descreve o
momento fatal da queda de Satanás quando cometeu o primeiro pecado de sua
vida e da história tanto do mundo espiritual como do mundo material. No pri
meiro caso, antes deste “até” na vida de Satanás, ele era um ser perfeito, como é
descrito nas palavras do próprio Deus. “Perfeito eras nos teus caminhos, desde o
dia em que foste criado, _ ATÉ que se ACHOU iniqüidade em ti" (Ez 28.15).
Aqui, está, portanto, o âmago da questão, da "origem do pecado", quando se ori
ginou e porque e quem o originou. Este âmago, ou parte principal, foi marcado
por uma fração de tempo que marcou o ‘antes’ do pecado, e por um momento,
passou a ser contado como o ‘depois’ na vida desse ser. Entretanto, quando foi
dado a luz ao pecado, este já se manifestava como sendo um "efeito" produzido
por uma "grande causa". Em Ezequiel 28.16, mostra-nos tanto a "causa" como
o "efeito" que produziram o primeiro pecado. Leiamos cuidadosamente, ob
servando a exegese de cada palavra, pois somente assim, teremos uma maior
compreensão do significado do pensamento. Vejamos a passagem bíblica que
fala deste assunto: "Na multiplicação do teu comércio se encheu o teu interior
de violência [a causa], e pecaste [o efeito], A violência sempre nasce dentro de
um coração orgulhoso, que deseja ser, fazer e ter aquilo que não lhe pertence
e este foi, sem dúvida, o ponto marcante na vida daquele querubim ungido,
O D ia b o F oi o P r im e ir o S e r a P e c a r 37
quando pronunciou a seguinte frase: "eu subirei". A presente frase partindo
de um coração já atingido pelo orgulho indicava oposição declarada contra
Deus.
2. O Diabo — foi o primeiro pecador. O orgulho do Diabo foi gerado
por sua “formosura” e então ele achou que deveria ser admirado como Deus que
é extremamente formoso em grau supremo. Quis, portanto, por esta causa ser
“semelhante ao Altíssimo”. Ele mesmo falou isso sem nenhuma reserva, dizen
do: “Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no meio dos mares...”.
Metaforicamente falando, o personagem aqui referido seria o monarca Itobal II,
que era o rei de Tiro quando o profeta Ezequiel fez este vaticínio. Mas a predição
não pode, literalmente, se referir a ele; pois este monarca nunca esteve no “Éden
Jardim de Deus”. Esta passagem, portanto, descreve a queda de um querubim
ungido quando este se encontrava no jardim mineral de Deus.
a) O Diabo era o Querubim Ungido do Éden. Alguns comentaristas opi
nam que o personagem de Ezequiel 28 não é o próprio Satanás, e sim, o rei
de Tiro. Literalmente falando, o monarca Itobal II, ou um outro rei chamado
Malkart. Mas as evidências mostram que não é Itobal II ou Malkart, que aqui
está em foco, e sim, o próprio Satanás. Embasados neste pensamento, alguns
comentaristas apresentam três razões em favor da identificação desse rei como
Satanás.
1°. O Rei de Tiro. É possível que Ezequiel tenha desejado contrastar o prínci
pe de Tiro (28.1-10) com o rei de Tiro (28.11-19). Enquanto o príncipe é um
homem com pretensões de ser Deus e chegar ao céu, o rei é um ser celeste
lançado fora do céu.
2o. O Rei de Tiro — Itobal II ou Malkart. Na época do vaticínio de Eze
quiel, o rei de Tiro era Itobal II ou Malkart, palavra que significa “rei da
cidade”, de modo que seria o rei de Tiro.
3o. O apóstolo Paulo identifica o pecado de Satanás com o orgulho (1 Tm
3.6), o mesmo que ocasionou o pecado desse rei (Ez 28.17). Esta é, pos
sivelmente, a única passagem do Antigo Testamento em que poderia ter
baseado essa ideia.
Literalmente falando, nunca este monarca (Itobal II ou Malkart) de Tiro es
teve no Éden, jardim de Deus. Ele viveu no século VI a.C. e, evidentemente,
não poderia estar no Éden, mais de 3.400 anos atrás. E, além disso, parece que
o “Éden, jardim de Deus”, mencionado em Ezequiel 28.13, era formoso por sua
beleza mineral, ao passo que o de Adão, por sua beleza vegetal (cf. Gn 2.8-12;
38 A D o u t r in a d o P e c a d o
Ez 28.13-16). Outrossim, alguns têm pensado que “o leviatã” (descrito em Jó
41.1), e o “leviatã de muitas cabeças” (SI 74.14) são uma descrição alegórica
de Satanás, representado aqui pelo o ‘Rei de Tiro’. Este monarca toma-se alvo
de dois confrontos com Deus.
(I) Primeiro: Ele (Deus) manda uma mensagem ao governante de Tiro (Ez
28.1-10). No primeiro vaticínio que aqui está em foco, o governante de Tiro,
aparece como ‘um príncipe’ (Ez 28.2), que deseja a qualquer custo se assentar
na cadeira de Deus. Já na lamentação, ele aparece como sendo ‘um rei’ (Ez
28.12). Esse rei é descrito como ‘um quembim ungido’ (Ez 28.14). Não se
trata, portanto, de um rei humano comum; a figura que aqui aparece é o próprio
Satanás. Ele é descrito em seu estado original como modelo de perfeição, cheio
de sabedoria e perfeito em formosura. A frase que coloca este rei no monte de
Deus sugere uma posição muito elevada, pois a palavra ‘monte’ no Antigo Tes
tamento quando tomada em sentido simbólico, representa poder e autoridade
(cf. Is 2.2; Dn 2.35).
(II) Segundo: Ele (Deus) levanta uma lamentação sobre o Rei de Tiro (Ez
28.11-19). Na lamentação dirigida ao Rei de Tiro, são usadas várias expressões
mostrando que tinha sido destituído seu poder e autoridade, como alguém que
tinha sido no passado — mas que não era mais no presente. ‘Era’ - ‘tu eras’
-‘foste’ - ‘fazia’ - ‘assolava’ - ‘deixava’ - ‘punha’ - ‘destruíste’ - ‘mataste’ - ‘es
tavas’ (Is 14.16,17; Ez 28.13-15).
b) Passagens bíblicas que mostram a queda do Diabo. Em Isaías 14.14, 1,
ele faz as mesmas alegações, que fizera aqui em Ezequiel, dizendo: “Subirei
acima das mais altas nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo”. Do ponto de
vista divino de observação, o pecado teve “início” no passado, sendo que, sem
dúvida, seu mentor intelectual foi Satanás. Pelo o que, segundo se diz, o pe
cado teve início no coração de Lúcifer ocasionado pelo orgulho, pois quando
ele disse, em seu coração: “EU SUBIREI”, então o pecado teve início em seu
coração e por extensão no universo. E não só isso, ele com seu coração cheio
de orgulho, pronuncia “cinco eus” contra Deus e contra sua autoridade divina.
O profeta Isaías em 14.13,14, descreve os (“5 eus”) pronunciados pelo príncipe
das trevas em sua exaltação contra Deus: A partir deste momento em que o
orgulho e a vaidade de ser semelhante ao Altíssimo tomam o seu coração, ele
faz cinco declarações oponentes contra a pessoa de Deus.
I o. “...Eu (ele) subirei ao céu” (Is 14.13). Nisso, que é o primeiro aspecto
do pecado de Satanás, ele aparentemente se propunha a fazer sua habitação,
segundo suas palavras “.... acima das estrelas (anjos) de Deus”. Isso visava
não somente oposição a Deus, mas também, por extensão, a seu Filho Jesus
O D i a bo F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 39
que, segundo nos é dito em Efésios 1.20,21, Deus ressuscitou a seu Filho,
“... e pondo-o à sua direita nos céus, acima de todo principado, e poder, e
potestade, e domínio...”.
2o. “...Exaltarei (ele) o meu trono” (Is 14.13). Em Ezequiel 28.2, lemos
que ele queria se “assentar sobre a cadeira de Deus” e depois equiparar seu
coração “... como se fora o coração de Deus” (Ez 28.6b). Era uma aspiração
completamente errada, pois Deus lhe diz: “... tu és homem, e não Deus”
(Ez 28.9). O leitor deve observar cuidadosamente cada detalhe e depois ver
como as escrituras são proféticas e se combinam entre si! Todas as decla
rações e ofensas deste inimigo visavam também a pessoa de nosso Senhor
Jesus Cristo; ele queria por meio da força assentar-se no trono de Deus.
Este lugar foi reservado para seu amado Filho (Ap 3.21; 12.5).
3o. “...No monte da consagração [angelical?] me (ele) assentarei” (Is 14.13).
Os eruditos divergem um pouco no que diz respeito aos dois vocábulos
usados aqui: monte e congregação. Alguns comentaristas acham que “o
monte” é uma frase que, evidentemente,se refere ao lugar do govemo divi
no na terra (Is 2.1-4), e a referência à “congregação” é claramente a Israel.
Para nós esta maneira de interpretação é bastante lógica, mas não se coa
duna com a natureza do pensamento aqui esboçado, visto que na possível
data deste acontecimento, Israel nem sequer existia. A maneira mais lógica
de interpretar o texto deve ser segundo o significado do pensamento; que
o monte refere-se ao alto e sublime lugar da habitação de Deus no terceiro
céu (Ap 21.10) e a congregação, sem dúvida, à assembleia dos seres ange
licais (Ec 3.15; Hb 8.5; 9.23; 12.22,23; Jd v. 6).
4o. “...Subirei (ele) acima das mais altas nuvens” (Is 14.14a). O Dr. F. C.
Jennings acha que o significado desta arrogante declaração provavelmente
se descobrirá no uso da palavra nuvens. Das mais de 150 referências às nu
vens, na Bíblia, 100 se relacionam com a presença e a glória divina. Portan
to, com esta sua arrogância Satanás está procurando assegurar-se de algo
que pertence a Deus somente. A glória de se assentar sobre uma nuvem. O
Pai tem reservado exclusivamente para seu Filho, e não para o tentador (Dn
7.13; Mt 24.30; At 1.9; 1 Ts4.17;Ap 1.7; 14.14).
5o. “...Serei (ele) semelhante ao Altíssimo” (Is 14.14b). Esta foi a quinta e
última declaração arrogante do grande inimigo de Deus. Ela feria também,
como já vimos nas outras declarações, a santidade e a posição elevada do
Filho de Deus, que disse “ser igual ao Pai” (Jo 5.18).1
40 A D o u t r in a d o P e ca d o
3. O orgulho e a violência deram origem ao pecado. Agora, as
razões que apresentamos acima neste argumento, tomam-se “causa” e “efeito”
para que “o primeiro pecado” tivesse origem no coração do anjo rebelde (cf.
Is 14.13; Ez 28.2; 1 Tm 3.6). Sua introdução, no mundo, porém, foi feita por
“um homem” Adão, conforme veremos em outra seção deste livro (Gn 3; Rm
5.12). Embora pelas alegações de proibições do Criador, em Gênesis 2.17,
podemos perceber sem sombra de dúvidas que, mesmo antes de Adão pecar,
o pecado já estava “presente” no universo, pela declaração de Gênesis 2.17,
quando Deus disse: “...da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás;
porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”. Pela “presença” e
pelas alegações do tentador, no jardim do Éden, ele (o pecado) ali já estava. É
certo que o mal estava ali também pela presença da árvore da ciência do bem
e do mal (Gn 2.9). O pecado do Diabo, ocasionado pelo orgulho, assume um
aspecto de perversidade do coração, da mente, da disposição e da vontade. Isso
sucedeu verdadeiramente, conforme já verificamos, no caso do primeiro peca
do, e se aplica igualmente a todos os demais pecados. Na presente era, o Diabo
é o “príncipe das potestades [anjos] do ar” (Ef 2.2); seu trono pode ser armado
tanto na terra (Ap 2.13), como no espaço (Ef 2.2; 6.12; Ap 12.7); ele exerce
suas atividades em três esferas do universo: na terra (Ap 12.12), no espaço
(Ef 2.2; Ap 12.7); e também no mar (Ap 12.12; 13.1). Seus agentes podem ser
tanto humanos (os homens) como espirituais (anjos e demônios) dependendo
do contexto. Ao se tomar o agente do primeiro pecado, o Diabo depois disso
procurou (e procura) a qualquer custo, transmiti-lo para os seres racionais.
a) O pecado é transmitido através do Diabo para os anjos e os demônios.
O pecado destes seres foi, instruídos pelo Diabo, querer usurpar a refulgente
glória do Filho de Deus, quando aderiam ao lado do Diabo, no momento que
este se revoltou contra Deus e suas ordens. Algumas companhias de anjos eram
fiéis, portanto, até que foram enganados por Satanás e sendo frustrados em
seus planos maléficos, alguns desiludidos pelo imenso fracasso a eles imposto,
“...deixaram a sua própria habitação” nos domínios da existência.
b) O pecado é transmitido através da serpente (o Diabo) para o homem
e sua mulher. O fracasso do casal no jardim do Éden, já faz parte do mundo
humano; embora com reflexo de um mundo espiritual. Antes do pecado em
suas vidas, Adão e sua esposa, no jardim do Éden, viviam de forma tranqüila e
sossegada. Mas isso “antes” do pecado. Contudo, houve um momento quan
do foi “aberto os olhos de ambos”, que destruiu esta felicidade; e, agora, um
“depois”, os coloca na trilha do sofrimento, da dor e da incerteza. Todos eles,
sem exceção, queriam ser, ter e fazer aquilo que não era de sua competência,
O D ia b o F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 41
mas somente da competência exclusivamente de Deus e não dos seres criados,
que são limitados tanto no ser como no poder. Um “até” que marca fracasso,
pode estar presente, até mesmo quando alguém não espera. Adão e sua esposa
viviam num estado de pureza e santidade, até que a serpente enganou Eva a
come* ào fcvxto çtoi\Mo que estava no meio do jardim.
c) O pecado é transmitido através de Adão para a humanidade. Paulo es
crevendo aos romanos disse que por causa de Adão, “todos pecaram” (Rm 5.12)
e que não havia privilégio neste assunto. Os gentios, por sua vez, encabeçavam a
lista dos pecadores. Mas tanto “judeus como gregos, todos estão debaixo do pe
cado” (Rm 3.9). Assim o pecado reinou sobre todos, “até” que viesse Cristo. Este
“até” que aqui está em foco, mostra a misericórdia de Deus para com todos que
olham para Cristo. Em sentido contrário, entretanto, uma vez por outra, é sempre
usado um “até” nas Escrituras que marca uma queda de um grande personagem,
que pode ser tanto da esfera terrena como da celestial. Uzias, rei de Judá, reinou
55 anos em Jerusalém. Deus o fez prosperar em todos os atos de sua vida, de
maneira que “...voou a sua fama até muito longe; porque foi maravilhosamente
ajudado, ATE que se tomou grande”. No versículo seguinte que temos nesta se
ção, mostra claramente a fonte de seu fracasso. O orgulho de ser, ter e conseguir
tem ocasionado o fracasso em alguém que era santo e depois caiu. Com respeito
ao rei Uzias, assim descreve o escritor sagrado: “Mas, havendo-se já fortificado,
exaltou-se o seu coração, ATE se corromper...” (2 Cr 26.15,16).
d) Pensamento muçulmano apresenta o orgulho como principal fator so
bre a origem do pecado. De acordo com o Alcorão, o pecado, teve início depois
da criação do homem. Deus ordenou aos anjos (entre eles o Diabo), que pres
tassem homenagem a Adão que acabara de ser criado. Todos eles aceitaram —
exceto um: o Diabo, conforme descreve O Alcorão: (11b. “Allah (Deus) disse:
“Prostemai-vos diante de Adão”. E prostemam-se, exceto Iblis (o Diabo). Ele
não foi dos que se prostemaram”. 12. O que te impediu de te prostemares,
quando to ordenei?”. Satã disse: “Sou melhor que ele. Criaste-me de fogo e
criaste-o de barro”. 13. Allah disse: “Então, desça dele!. E não te é admissível
te mostrares soberbo nele. Sai, pois, por certo, és dos humilhados!”. 14. Satã
disse: “Concede-me dilação, até um dia, em que eles serão ressuscitados”. 15.
Allah disse: “Por certo, és daqueles aos quais será concedida dilação”. 16. Satã
disse: “Então, pelo mal a que me condenaste, ficarei, em verdade, à espreita
deles, em Tua senda reta. 17. “Em seguida, achegar-me-ei a eles, por diante e
por detrás deles, e pela direita deles e pela esquerda deles, e não encontrarás a
maioria deles agradecida”. 18. Allah disse: “Sai dele, como execrado, banido.
4 2 A D o u t r in a do P e c a d o
Dos que, dentre eles, te seguirem, encherei a Geena, de todos vós. Dele: do
Paraíso. Eles: os homens. Dele: do Paraíso. 19. “E, ó Adão! Habita, tu e tua
mulher, o Paraíso; e comei onde ambos quiserdes, e não vos aproximeis des
ta árvore pois, serieis dos injustos”. 20. E Satã sussurrou-lhes perfídias, para
mostrar a ambos o que lhes fora acobertado de suas partes pudendas, e disse:
Vosso Senhor não vos coibiu desta árvore senão para não serdes dois anjos
ou serdes dos eternos”. 21. E jurou-lhes: “Por certo, sou para ambos de vós
um dos conselheiros”. 22. Então, seduziu-os, com falácia. E, quando ambos
experimentaram da árvore, exibiram-se-lhes as partes pudendas, e começarama aglutinar, sobre elas, folhas do Paraíso. E seu Senhor chamou-os: “Não vos
coibi a ambos desta árvore e não vos disse que Satã vos era inimigo declara
do?”. 23. Disseram: “Senhor nosso! Fomos injustos com nós mesmos e, se
não nos perdoares e não tiveres misericórdia de nós, estaremos, em verdade,
dentre os perdedores. Cf. 11 35 n3. 24. Allah disse: “Descei, sendo inimigos
uns dos outros. E tereis, na terra, residência e gozo até certo tempo”. 25. Ele
disse: “Nela vivereis e nela morrereis e dela far-vos-ão sair”. 26. O filhos de
Adão! Com efeito. Criamos, para vós, vestimenta, para acobertar vossas partes
pudendas, e adereços. Mas a vestimenta da piedade, esta é a melhor. Esse é um
dos sinais de Allah, para meditarem. 27. O filhos de Adão! Que Satã não vos
tente, como quando fez sair a vossos pais do Paraíso, enquanto a ambos tirou a
vestimenta, para fazê-los ver suas partes pudendas. Por certo, ele e seus sequa-
zes vos veem de onde vós não os vedes. Por certo, Nós fizemos os demônios
aliados aos que não creem”).2
n . O P e c a d o T e v e u m M e n t o r I n t e l e c t u a l
1. Antes da sua queda o Diabo não era pecador. Partindo do ponto )
zero [“0”] da existência, deduzimos que houve um período de tempo antes da
queda do querubim ungido, em que o pecado não existia. Este período faz par
te dos tempos imemoriáveis quando somente existia o Deus Trino e Uno (Jo
17.5,24). Neste período que faz parte da eternidade passada, aparece o queru
bim ungido — sendo estabelecido por Deus com a missão de proteger — cer
tamente a primitiva criação de Deus. Depois da sua queda, transformou-se
no Diabo. Neste argumento sobre o pecado, podemos observar duas escadas
descendentes em direção ao fracasso. Na primeira, estão envolvidos o Diabo,
os anjos maus e os demônios; na segunda, Adão e sua mulher. Já tivemos a
ocasião de falar neste assunto, em outras notas expositivas, quando falamos
sobre a “origem do pecado” e o “problema do mal”; agora, para que o leitor
tenha uma melhor compreensão do significado do pensamento, passaremos a
O D ia b o F oi o P r im e ir o S e r a P e c a r 43
descrever mais detalhadamente sobre o pecado destes seres tenebrosos acima
mencionados e depois vamos para uma outra escada descendente, que tratará
da queda do homem e de sua mulher.
2. O Diabo tornou-se o acusador principal do universo. Não sa
bemos na esfera espiritual do mundo tenebroso, como os súditos do Diabo
lhe chamam. Mas, nas Escrituras ele é identificado como sendo “Diabo”. O
substantivo grego “diabollos” (formado de dia, “através de”, e ballõs, “jogar”)
significa “jogar por cima ou através de”. O que sugere “dividir”, “semear con
tenda”, “acusar”, “fazer acusação”, “caluniar”, “informar”, “rejeitar”, “descre
ver”. Em Apocalipse ele é chamado de ‘o Acusador’, porque do ponto de vista
divino de observação, é o que ele é. Isso está explícito na declaração divina
que partiu diretamente do céu: “E ouvi uma grande voz no céu, que dizia:
Agora é chegada a salvação, e a força, e o reino do nosso Deus, e o poder do
seu Cristo; porque já o acusador de nossos irmãos é derrubado, o qual diante
do nosso Deus os acusava de dia e de noite” (Ap 12.10). Estes nomes e apelati
vos descrevem toda sua natureza, caráter e personalidade. O pecado, portanto,
trouxe a este, que no passado fora um anjo de luz, todas estas deformações e
muito mais, em sua natureza e caráter. Seu nome aparece com variações em
diversas partes das Escrituras para descrever a sua natureza e seus ardis; cada
nome seu ou apelativo representa uma espécie de maldade por ele executada.
Em linguagem popular — especialmente no Brasil — lhe chamam de ‘capeta’
(traquino).3
i i i . O D ia b o T o r n a - se A s s a s s in o e m P o t e n c ia l
1. Ele tornou-se assassino do universo. Após sua queda, o Diabo só
trabalha contra Deus. Ele é reputado por Jesus como sendo o primeiro homicida
do mundo espiritual e da história humana. Sobre ele assim disse o Senhor: “Vós
tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi
homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade
nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso,
e pai da mentira” (Jo 8.44). E o apóstolo João completa dizendo: “Quem comete
pecado é do diabo; porque o diabo peca desde o princípio...” (1 Jo 3.8a). O
grande assassino do mundo espiritual, o Diabo, após o seu pecado, tornou-se o
primeiro homicida qualificado. Seu ato sombrio de praticar crime contra a vida
foi executado no mundo espiritual. Ele tentou aos anjos — depois os enganou
— levando-os a uma espécie de assassinato coletivo. Usando a sua cauda (seu
baixo caráter), ele seduziu um ‘terço” dos anjos que viviam em paz, na existência
44 A D o u t r in a do P e c a d o
espiritual (Ap 12.3,4). Contudo, ele não se satisfez somente com esta sua negra
ação. E quando presenciou a criação do mundo material e da raça humana, volta
a atacar novamente. O Diabo incentivou os anjos a se rebelarem contra Deus,
com a finalidade de arruinar todo o sistema do universo criado por Ele. E além
disso, conquistou um terço dos anjos e os escravizou à serviço dele em sua
organização tenebrosa.
2. Ele tornou-se assassino da santidade dos anjos. Os anjos caídos
se dividem em dois grupos distintos:
a) O primeiro grupo. Este é composto daqueles que aderiram a Satanás
quando se rebelou contra Deus (Is 14.12; Ez 28.2); esses anjos estão sob a
esfera de seu domínio e consequentemente, não estão aprisionados (Ef 2.2;
6.12; Ap 12.7). Muitos e importantes textos paulinos falam dessas organiza
ções do mundo angelical, usando as palavras: “autoridades”, “potestades”,
“tronos”, “principados” no sentido invisível específico de entes invisíveis. São
tão numerosos que tomam o poder de Satanás muito extenso. Paulo diz em
Colossenses 2.15, que nosso Senhor triunfou sobre estas hostes por meio de
sua morte e ressurreição. E depois acrescenta: “E, despojando os principados e
potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”. Quando se
faz necessário para distinção do significado do pensamento, a Bíblia distingue
os anjos maus dos anjos bons da seguinte forma: “potestades do ar” (anjos
maus) e “potestades nos céus” (anjos bons). Isto é muito importante! — não é?
(Ef 2.2; 3.10). Os tais anjos maus, são agentes maléficos e anjos guerreiros da
ordem dos “principados”.
b) O segundo grupo. Este se prende àqueles anjos mais ferozes. Esses seres
não pecaram por serem induzidos ou tentados, mas voluntariamente. Observe
mos o que as Escrituras dizem sobre isso: “E aos anjos que não guardaram o
seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão,
e em prisões eternas até o juízo daquele grande dia” (Jd v. 6). Os autores sa
grados dizem que algumas ordens angelicais caíram. Eles abandonaram o seu
estado original. O lugar de honra, de bem-estar e do domínio que eles possuíam
nos lugares celestiais, nas esferas espirituais da existência. Mas caíram. Isso
sucedeu propositadamente. Fizeram uma louca escolha e má decisão. A sua má
escolha pode-se ver em inferência nas palavras de Elifaz, o temanita, o ami
go de Jó, “... e nos seus anjos encontra loucura” (Jó 4.18b). Esses não estão,
no momento, a serviço de Satanás, e sim, aprisionados por expressa ordem de
Deus, em cadeias eternas, na escuridão exterior, esperando pelo julgamento do
grande dia.4
O D ia b o F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 45
c) Os anjos. O Diabo usando de seu poder desmoralizante deformou o
caráter — personalidade e aspecto dos seres espirituais. Os anjos, após segui
rem Satanás quando se revoltou contra Deus, os anjos perderam o seu estado
original de configuração, em vários aspectos:
Io. Aspecto moral. Quando estes seres pecaram contra Deus, eles foram re
duzidos moralmente falando ao nada da existência, pois a santidade é como
uma couraça — ao perdê-la, este ou aquele indivíduo,fica sem proteção.
Eles foram impedidos, doravante de ver a face de Deus, o seu Criador (cf.
Hb 12.14).
2°. Aspecto essencial do caráter. O caráter é um termo usado em psico
logia como sinônimo de personalidade e representa o conjunto de traços
psicológicos da individualidade. Em linguagem comum o termo descreve
traços morais da personalidade. Em linguagem teológica, o caráter repre
senta uma linha reta do ser que o carrega. Em sentido espiritual, os anjos
perderam esta linha reta da santidade e se envolveram com o pecado, que
representa tortuosidade em todos os seus movimentos e ações.
3o. Aspecto de configuração. O sentido primário do pecado é tortuosidade
e errar o alvo — quando aplicado no sentido religioso. Ele traz em si o sen
tido de tortuosidade porque ele deforma a tudo e a todos que por ele forem
alcançados. Basta observarmos como o pecado deformou os anjos “... que
não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação”
(Jd v. 6). Eles são vistos com um aspecto terrível e monstruoso durante o
juízo da 5a e 6a trombetas (Ap 9). Estes anjos que se encontram aprisiona
dos “... na escuridão, e em prisões eternas”, serão soltos por cinco meses e
são descritos aqui com uma aparência terrível e tenebrosa.
(I) Descrição geral (vv. 1-6). Eles têm a aparência de gafanhotos mas não
são os pequenos animais, e sim anjos caídos que, por expressa ordem de Deus,
estão aprisionados em escuridão (2 Pe 2.4; Jd v. 6). São seres espirituais do
mundo tenebroso; mas não são demônios (At 23.8), e que, durante este período
de encarceramento, perderam o seu estado de configuração e, são apresenta
dos com um aspecto além da imaginação. Eles possuem ferrões nas caudas,
como se fossem escorpiões. Com os ferrões é que feriam, e não com a boca,
como fazem os gafanhotos naturais; na realidade, foram proibidos de tocar nas
árvores ou em qualquer erva verde. Estes gafanhotos são seres inteligentes,
discernem, pois receberam ordem exclusivamente para não tocar “... à erva da
terra, nem a verdura, alguma, nem a árvore alguma, mas somente aos homens
que não têm nas suas testas o sinal de Deus”. Os gafanhotos literais nascem na
primavera e morrem no fim do verão (de maio a setembro); exatamente cinco
46 A D o u t r in a do P e c a d o
meses. Durante esse tempo, ele se mostra ativo, e qualquer destruição por ele
produzida, tem lugar cinco meses. A praga dos gafanhotos sobrenaturais durará
também “cinco meses”.
(II) Descrição especifica dos gafanhotos infernais (w. 7-10).
(1) Como cavalo aparelhados para a guerra. Sugestivamente, certas lín
guas, levadas pelo aspecto da cabeça do gafanhoto, dão-lhe nome que sugere
o cavalo (Cavalleta = italiano; Heupferd ou cavalo de feno = alemão etc.).
A descrição dos “animais” é horripilante e hedionda; João nada viu na terra
que pudesse realmente identificar-se com essas criaturas vinda do mundo ex
terior. Teve de servir-se dos mais desconexos elementos comparativos para
descrever-lhes a monstruosa aparência. Eles são vistos equipados; isso indica
que eles pertenciam a uma “Ordem de Guerreiros” vindo do “poço do abismo”.
O cavalo é rápido e forte, e produz a morte sem misericórdia (Jó 39.19-25; SI
33.17; 147.10). “Terrível é o fogoso respirar das suas ventas” (Jó 39.20).
(2) Tinham como coroas semelhantes ao ouro. Os gafanhotos descritos por
João, trazem algo parecido “como coroas”, em contraste com expressão em
Apocalipse 4.4; 6.2; 12.1; 14.14. Alguns intérpretes observam que as cabeças
dos animais terminam em forma de “coroa”, como se fossem de ouro. A passa
gem em foco, nos leva a pensar que, os gafanhotos pertenciam a uma “ordem
real” do “poço do abismo”, por cuja razão “tinham sobre si rei”. O rei dos
terrores! (Jó 18.18; Ap 9.11). São seres animalescos de natureza bestial!
(3) Seus rostos eram como rostos de homens. No paralelismo de Joel 2.7, os
temíveis animais, andarão como se fossem homens: “Como valentes correrão,
como homens de guerra subirão os muros; e irá cada um nos seus caminhos e
não se desviarão da sua fileira”. Os rostos semelhantes aos de homens dessas
hostes espirituais, sugerindo inteligência e capacidade humana, dar-lhes-ão
terror adicional. Significa “uma face irada” (Pv 25.23) e dura de ser encarada
como a “pederneira” (Ez 3.9).
(4) Tinham cabelos como de mulheres. Algumas traduções trazem: “ca
belos longos como de uma moça”. Seja como for, neles havia algo feminino.
Eram monstros cabeludos como são descritos por Isaías 13.21: "... e os sátiros
pularão ali”. Isto é, “sã’ir” (Lv 17.7; 2 Cr 11.15). O termo significa “cabeludo”
e aponta para o demônio como sendo um sátiro ou Lilith: demônio feminino
da noite.
(5) Seus dentes eram como de leões. Esta figura é emprestada de Joel 1.6
onde uma nação hostil é comparada à ameaça de uma praga de gafanhotos,
que, destruiria toda verdura do campo: “... os seus dentes são dentes de leão, e
têm queixadas de um leão velho”. Na simbologia profética, isso significa sua
terrível capacidade de destruição, sua voracidade incessante e brutal.
O D ia b o F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 4 7
(6) Tinham couraças como couraças de ferro. Os temíveis animais tinham
por assim dizer, couraças de ferro (v. 9). Esses agentes infernais de torturas são
imunes a qualquer destruição pessoal. No presente versículo, vemos o corpo es
camoso dos gafanhotos comparado a uma couraça. O General filistino, Golias,
trazia também em volta de si uma couraça “escameada” (1 Sm 17.5). Aquele
poderoso gigante era o maior homem do mundo. Ele foi, sem dúvida, um agente
direto de Satanás como também, esses serão, porém, em grau supremo.
(7) As suas asas faziam um ruído insuportável. Observemos aqui a seqüência
do paralelismo tirado de Joel 2.5: “como o estrondo de carros sobre os cumes
dos montes irão eles saltando; como ruído da chama de fogo que consome a
pragana, como um povo poderoso, ordenado para o combate”. O quadro gráfico
do avanço de exames de gafanhotos infernais e a total incapacidade de resistir a
eles, é dado aqui, como o “som de carros”, de muitos cavalos que avançam para
a guerra. O tinido e o clangor das rodas dos carros e o sacolejar dos cavalos, são
aqui personificados (J12.4).
(8) Tinham caudas semelhantes às dos escorpiões. O texto em foco, nos faz
lembrar de uma curiosidade interessante: “... Há uma espécie de gafanhotos,
do nome científico “Acridium Lineola”, comumente vendidos nos mercados
de Bagdá (capital do Iraque), como alimento, que tem ferrões nas caudas”.
Sendo porém que aqueles são ordinários; esses, porém infernais. Os naturalis
tas dizem-nos que o escorpião sacode a cauda constantemente a fim de atacar,
e que o tormento causado por suas picadas é muito severo. Tudo isso, e mais
ainda, será encontrado em grau supremo nos horripilantes animais contempla
dos por João.
(9) Tinham aguilhões em suas caudas. O aguilhão representa uma força
irresistível (At 9.5). A presente expressão proverbial, era também encontrada
em diversos autores de diferentes culturas, sob uma ou outra forma. Tem sido
encontrada nos escritos dos poetas gregos e até helenistas. Ela era tomada no
sentido de representar uma força espiritual, uma força do mal; que só pode ser
resistida por uma força superior — o Espírito de Deus (Lc 10.19). Num côm-
puto geral na apreciação de João sobre esses seres, observemos o que segue:
cs São gafanhotos, mas têm a malícia de escorpiões;
cs Avançam como soldados montados para a batalha;
cg Usam coroas;
cg Têm a semelhança de homens em seu rosto;
cg Há algo de feminino em sua aparência;
cs Em sua voracidade são como leões.
48 A D o u t r in a d o P e c a d o
(III) Descrição do “anjo do abismo (v. 11). Os gafanhotos naturais não têm 1
rei (Pv 30.17), esses porém, têm “sobre si rei, o anjo do abismo” (v. 11). Este
anjo das trevas têm dois nomes: Abadom e Apoliom: em ambas as línguas quer
dizer “destruidor”. Abadom, é um termo hebraico que significa “destruição” ou
“ruína”, conformese vê em Jó 31.12. Algumas vezes é usado como equivalente
da “morte”. A palavra é também usada para o lugar da destruição, sinônimo de
Sheol ou mundo invisível dos mortos em (Jó 26.6; 28.22; Pv 15.11; 27.20), e
é usada para o próprio mundo dos mortos (Jó 31.12; SI 88.11). João traduz a
palavra para o grego não para o termo equivalente, apoleia, “destruição”, mas
por um particípio, apollyin, que significa “o destruidor”. Apoliom, esse termo
grego é cognato do Apollumi, verbo que significa “destruição”, e sua tradução
em português acompanhou o sentido original de “destruição”. Seja como for,
é essa a missão sombria do “anjo do abismo”: “roubar, matar e destruir” . Ele
é chamado de “o destruidor” porque do ponto de vista divino de observação
é o que ele é! (Jo 10.10). Ele é realmente o “Rei dos Terrores” (Jó 18.14). Na
6a trombeta aparece um exército vindo do mundo invisível de 200.000.000 de
cavalos e cavaleiros. O vasto exército referido nesta visão, é imenso! O que
toma impossíveis as interpretações históricas. Nem mesmo o total combinado
de todos os exércitos turcos, através dos séculos, atingiu “duzentos milhões”.
Duzentos milhões de cavaleiros, naqueles dias, ultrapassava qualquer possibili
dade de um exército na terra; foi impossível João contá-los, ele “ouviu o núme
ro deles”. João diz que os cavalos desta visão; e os que sobre eles cavalgavam
tinham couraças de fogo, e de jacinto, e de enxofre; e as cabeças dos cavalos
eram como cabeça de leões; e de suas bocas saía fogo e fumo e enxofre. As
substâncias nocivas aqui mencionadas (quando não controladas) são prejudi
ciais à saúde humana. Esta tríplice representação encontra-se também nas cou
raças dos cavaleiros. Isso exprime toda a incompreensibilidade das forças do
mal: número espantoso (200.000.000), aspecto infernal e inumerável, estranha
interioridade inconcebível, proveniente de suas bocas e letal para um terço da
humanidade. A linguagem usada nos versículos (16 a 18) do presente capítulo,
faz menção de exército da cavalaria (v. 16), de couraça (v. 18), de fogo, fumaça e
enxofre como meios mortíferos. O número dos exércitos da cavalaria é surpre
endente. E de “vinte mil vezes dez milhares”, ou duzentos milhões. O aspecto
dos cavaleiros é aterrador. Atenção, no entanto, não se fixa tanto nos cavaleiros
e, sim, nos cavalos. “Na mente dos judeus os cavalos trazem comumente uma
ideia de terror”. A visão vista por João sobre estes “cavalos” compreende tam
bém os “cavaleiros”. Os cavaleiros parecem ser de pouca monta (importância)
em relação aos cavalos, que causam maior terror; eles apavoram e destroem. A
atribuição de caudas, como de serpentes, àqueles cavalos que sopravam fogo,
O D ia b o F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 49
os toma tremendamente grotescos. Podemos observar que nos versículos an
teriores, “... os cavaleiros têm couraça de vermelho fogoso, azul fumegante e
amarelo sulfiirico...”. São verdadeiras couraças que inspiram “cisma” e “extre
mo terror”. “Os adversários virão velozes como cavaleiros, fortes como leões,
venenosos como as serpentes, a soprarem elementos que cegam e queimam
com poder mortal. Temos aqui, portanto, forças mortais, poderosas, maliciosas
e incansáveis, enviadas contra a humanidade, por causa de seus pecados e de
seu mundanismo”. Estes seres descritos na 5a e na 6a trombetas, são anjos caídos
que se revoltaram contra Deus ao lado de seu rei — o anjo do abismo. E assim,
foram destruídos e deformados!.
d) Os demônios. Os demônios eram anjos e foram rebaixados de categoria.
Estes seres chamados de “demônios”, aderiram à Satanás quando este se rebe
lou contra Deus. Apesar de serem chamados de espíritos, nunca são chamados
de “anjos”, tanto os do bem, como os do mal porque, há uma grande diferença
entre a natureza de um e a natureza do outro, ainda, que ambos procedam de
uma mesma fonte.
Io. Os demônios são “espíritos desincorporados”. Os demônios foram de-
sincorporados e somente podem agir através de um corpo humano, animal,
objetos inanimados, ou através de algumas forças da natureza que podem
ser utilizadas para eles no campo da destruição. Os anjos — tanto os do
bem como os do mal, agem através de seus próprios corpos. Antes de se re
belarem contra Deus, os demônios eram também anjos. Pertenciam a uma
companhia de anjos que viviam nos domínios da existência. Depois de seu
pecado, os demônios tomaram-se agressivos, violentos e perniciosos, a
ponto de quererem destruir toda a criação de Deus, com os poderes que
podiam exercer através de seus próprios corpos. Deus então os puniu com
seu supremo poder pessoal, e os desincorporou, destmindo seus corpos de
forma espiritual, e os lançando para o campo da destruição, para o “vazio
da existência!”.5
2o. Os demônios a mando de Satanás tomam as pessoas possessas — escra
vizando-as da seguinte forma:
(I) Tentação. Na forma de sugestão espiritual. Essa misteriosa influência,
vinda de um mundo invisível, à qual tanto incrédulos como crentes estão
continuamente expostos, é referida muitas vezes na Bíblia, especialmente
no Novo Testamento (Ef 6.11, 12; 1 Jo 4.1).
50 A D o u tr in a d o P e cado
(II) Obsessão. Obsessão que alguns consideram como a primeira fase da
possessão demoníaca. Trata-se de domínio demoníaco que é resultado da
entrega voluntária e habitual à tentação ou às tendências pecaminosas (Ef
4.17-19). Nesse caso, embora os indivíduos já estejam sob um horrendo
domínio demoníaco, contudo são perfeitamente livres, seguem os ditames de
suas próprias vontades, e retêm suas próprias personalidades.
(III) Crise ou transição. A fase caracterizada por uma luta em tomo da pos
se, quando o indivíduo resiste, algumas vezes é bem-sucedido (Mt 15.22
28; Tg 4.7); quando não o faz, toma-se um escravo.
(IV) Possessão. A possessão que com referência à pessoa, pode ser desig
nada como sujeição e subserviência, e, com referência ao demônio, treina
mento e desenvolvimento. Uma das principais características dessa fase é
a adição de uma nova personalidade. Somente às pessoas que chegaram
a essa fase é que se aplica, apropriadamente, o termo “possessão” (Mc
9.17-27).
(V) Capacidade demoníaca. Este estágio se dá quando a pessoa já desen
volveu a capacidade para ser usada, e se dispõe para isso. Já é escravo do
demônio, treinado, acostumado, voluntário — na linguagem moderna, um
“médium desenvolvido”.6
3. Ele tornou-se assassino do mundo humano. Após fazer pecar
Adão e sua esposa no Éden, ele ouviu da parte de Deus a promessa feita à mu
lher que, dela nasceria um que esmagaria a sua cabeça, que ele aumentou sua
ira contra aquela linhagem pela qual viria o descendente da mulher (Cristo).
Ele, então, incentivou Caim a tomar-se o primeiro fratricida do mundo.
a) Caim, o primeiro filho de Adão e Eva, após o episódio que deu início >
a sua ira contra seu irmão, pratica o primeiro crime contra a vida da história
da humanidade. Seu sacrifício não foi aceito, como fora o de Abel. Caim, ao
ser arguido por Deus por causa do assassinato de seu irmão, optou pelo caminho
da revolta. Foi-se embora para uma terra deserta e lá constituiu uma sociedade
ao seu próprio modo. Seus passos nesta trajetória do mal parecem ser estes que
aqui se seguem. Alguns cronológicos e matemáticos opinam que o assassinato
de Abel ocorreu no ano 128 ou 130 da vida de Adão. Ora, nós sabemos que além
de Caim, Abel e Sete, os três primeiros filhos mencionados, Adão e Eva tiveram
“filhos e filhas” (Gn 5.4). Mas admitamos, para sermos bem liberais, que Adão
não tivesse tido outros filhos além de Caim e Abel, quantos poderiam ter sido os
descendentes diretos de ambos até o ano 128, quando ocorreu a morte de Abel?
■ e amos a opinião de Grandes Estudiosos e Autoridades no assunto. Alguns ra-
rrnos independentes são da opinião de que, os descendentes posteriores a Caim
r Abel, tenham sido mulheres. Nesse caso, como não existia a lei e as normas
: ue proibiam o casamento entre parentes de primeirograu, Caim, provavelmente
tomou uma de suas irmãs como sua esposa.
Io. Caim saiu da presença do Senhor. Também a Bíblia não diz que Caim
quando matou Abel, “saiu da presença de Adão” e sim: “da presença do
Senhor”. Sair da presença do Senhor, não significa nenhum deslocamento
geográfico; pois da presença do Senhor, ninguém pode fugir (cf. SI 139.7
12). De igual modo, não é mencionado os anos da vida de Caim: nem antes
— nem durante — e nem depois. Assim, vamos supor que somente aos 19
anos o filho primogênito de Adão, Caim, tenha tido uma irmã em idade de
casar-se. Casando-se aos 19 anos, no ano 128 da criação de Adão, um dos
dois filhos de Adão poderia ter tido 8 filhos, entre homens e mulheres. Mais
ou menos no ano 55, poderiam ter procedido deles cerca de 60 pessoas.
No ano 80, haveria cerca de 520. No ano 100, haveria pelo menos 4.100
pessoas. E no ano 122 esta população estaria elevada a 33.000. Mas nesta
linha de descendência não estamos incluindo os outros filhos de Caim e
Abel, nem os filhos dos filhos destes, mas apenas os 8 que poderiam ter tido
até o ano 128 da criação do mundo. Incluindo os outros filhos de Adão, e
os descendentes destes, a população do mundo não seria inferior a 450.000
pessoas no ano em que morreu Abel. Para lá Caim foi se refugiar como
homicida, levando sua esposa (talvez sua irmã ou sobrinha) e seu filho que
se chamava Enoque.
2o. Caim funda uma sociedade. Após sair da presença do Senhor, Caim foi
para a terra de Node, que ficava da “banda do oriente do Éden” (Node quer
dizer: “degredo”, “exílio”), e ali, deu início a uma espécie de civilização.
Suas principais atividades e culturas daquela terra. Ali, naquela sociedade
nodiana, são mencionadas algumas atividades humanas (algumas boas e ou
tras más), conforme veremos a seguir.
O D ia b o Foi o P r im e i r o S e r a P e c a r 51
03 Edificação de Cidade.
03 A poligamia.
Og Fazer justiça a seus próprios modos e pelas próprias mãos.
03 Fazer tendas.
03 Criar gado.
Ca? Tocar harpa e órgão.
03 Fabricar obra de cobre e de ferro (Gn 4.16-24).
5 2 A D o u t r in a d o P e c a d o
Agora vem a pergunta: porque Caim praticou o primeiro homicídio do mun
do humano e tudo o que fez — fez de maneira errada? A resposta é bem patente:
porque Caim “era do maligno”. Portanto, um grande pecador e as suas obras
eram más (1 Jo 3.12).
b) O Diabo incentivou aos homens que evitassem a posteridade chamada a
de ‘semente da mulher ’.
I o. Incentivou Faraó para que matasse as crianças. Ele, o Diabo, usou Faraó,
monarca egípcio, para matar todas as crianças israelitas do sexo masculino
(Êx 1.15-22; Is 21.1; 51.9; Ez 29.3).
2o. Inspirou a Onã, filho de Judá a não gerar filhos. Seu objetivo era in
terromper assim, a vinda do Messias, esperado por Israel e a humanidade
(Gn 38.8-10).
3o. O Diabo incentivou Herodes à matar as crianças de Belém. Herodes,
anos depois, segue o mal exemplo de Faraó e tentou fazer a mesma coisa
— matando todas as crianças da cidade de Belém de dois anos para baixo
(Mt 2.13-18).
4o. Ele mesmo procurou destruir a Cristo, o Filho varão. Em Apocalipse 12,
aparece um quadro sombrio de nova investida do Diabo. Ele parou diante
da mulher, isto é, se “deteve”, ou “pôs-se de pé”, conforme diz literalmente
o grego. Como as Escrituras são proféticas e se combinam entre si em cada
detalhe, a presente passagem pode ter sua aplicação desde o Éden, até ao
tempo “da plenitude dos tempos” (G1 4.4). Ele, o Diabo, não só queria ma
tar a Cristo (o Filho varão), mas o texto diz claramente: “queria o tragar”.
E assim, aniquilar o plano de Deus, de trazer seu Filho ao mundo como o
Salvador da Humanidade.
4. Ele torna seus adeptos em inimigos de Deus. O grande objetivo >
do grande inimigo de Deus e dos homens, é tomar os homens inimigos da cruz
de Cristo, visto ser esta, o meio que pode matar as inimizadas existentes entre
Deus e os homens (Ef 2.16; Fp 3.18). Constituindo-os inimigos de Deus, os
tomando-os:
a) Filhos da ira. “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos s
desejos da nossa came, fazendo a vontade da came e dos pensamentos; e éra
mos por natureza filhos da ira, como os outros também” (Ef 2.3).
O D ia b o F o i o P r im e ir o S e r a P e c a r 53
b) Filhos da desobediência. “ILm que. wo&ro Vítkço aaàs&Xes 'segcccvào o «aso
deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espirito que agora opera
nos filhos da desobediência” (Ef 2.2).
c) Filhos do mundo. “E louvou aquele senhor o injusto mordomo por haver
procedido prudentemente, porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua
geração do que os filhos da luz” (Lc 16.8).
d) Filhos do inferno. “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que
percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito; e, depois de o terdes feito, o
fazeis filho do inferno duas vezes mais do que vós” (Mt 23.15).
e) Filhos do Diabo. “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os
desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na
verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que
lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira” (Jo 8.44).
1 SILVA, S. P. A Doutrina Bíblica dos Anjos. 12a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, pp. 118-119.
2 O ALCORÃO, para a língua portuguesa. Sura: 7. ‘Al-‘a ’raf. Versículos: 11-27, pp. 237
238.
3 SILVA, S. P. A Doutrina Bíblica dos Anjos. 12a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, pp.
121, 123-124.
4 SILVA, S. P. A Doutrina Bíblica dos Anjos. 12a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p.
135.
5 SILVA, S. P. A Doutrina Bíblica dos Anjos. 12a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p.
154.
6NEVIUS, J. L. Possessão Demoníaca e Temas Conexos (edição do autor), 1893, pp. 37
38.
A M o r a d a d o H o m em
A n t e s de P e c a r
56 A D o u t r in a d o P e c a d o
i . A d ã o e E va m o r a v a m n u m J a r d im
1. O lar primitivo do homem foi um jardim. Nosso objetivo aqui ai
neste capítulo, é mostrar onde estava o homem e o que ele fazia antes de pecar.
Logo após ter criado o homem, Deus ‘plantou’ (preparou) um jardim no Éden
e “...pôs ali o homem que tinha formado... para o lavrar e o guardar” (Gn 2.8,
15b). As interpretações e teorias que nos são oferecidas no tocante a queda do
homem e de sua esposa, também incluem, por extensão a localização do jardim
do Éden. Elas (as interpretações) são oferecidas tanto por teólogos como por
filósofos de todos os tempos.
a) Diversas interpretações sobre o jardim. Santo Agostinho, por exemplo,
e outros estudiosos das Escrituras de seus dias, relatam que já em seus tempos
havia três opiniões diferentes sobre Gênesis 2, no que diz respeito ao Paraíso
que Deus criara para habitação do primeiro casal. Tanto ele, como seus con
temporâneos, opinavam que havia três teorias a este respeito:
I a. Santo Agostinho defendia que o paraíso era literal, conforme é descrito
ali sem nenhuma outra interpretação espiritual ou fantasiosa. E que, seguindo
este raciocínio, devemos procurar sua localização no campo geográfico.
2a. Outros do tempo de Agostinho afirmavam que o paraíso era espiritual,
com aplicação alegórica, para apenas representar um lar feliz com vidas
felizes.
3a. Um terceiro grupo, o concebia em sentido literal, com fatores místicos e
simbólicos. Santo Agostinho, por exemplo, apesar de defender, a princípio
a primeira linha de pensamento, tomou-se, depois, seguidor dessa terceira
opinião.
b) A palavra paraíso. A palavra ‘paraíso’ (GAN ÉDEN), em hebraico sig
nifica “jardim do Éden”, usado como sinônimo do Paraíso. Alguns escritos
em tomo do Talmude, descrevem o GAN ÉDEN, com detalhes que se diria de
testemunhos oculares, como tendo cinco câmaras separadas (embora outros
depoimentos afirmam que eram sete). De acordo com estas testemunhas, estas
câmaras eram reservadas às várias categorias de homens virtuosos. Eles rece
biam suas recompensas celestiais segundo a sua ordem hierárquica de mérito.
De acordo com este conceito, a terceiracâmara do GAN ÉDEN é supostamen
te reservada para os grandes eruditos da Torah, e segundo a tradição, todas as
questões intrincadas da Torah, com as quais eles se sentiram perplexos em seus
estudos no decorrer de suas vidas, serão, finalmente, respondidas, pois que no
A M o r a d a d o H o m e m A n te s de P e c a r 57
Gan Éden, “o Divino” revelará a eles os mistérios da Torah no mundo do Além.
A Quinta câmara é descrita como sendo gloriosamente luminosa, colorida e
ingênua: feita de pedras preciosas, de ouro e prata, e com a fragrância de per
fumes de plantas. Na frente dessa câmara corre o rio Guihon, em cujas margens
crescem arbustos que exalam aromas embriagadores. Na câmara há divãs de
ouro, e de prata com finas cobertas sobre eles para que os virtuosos descansem.
No meio há um baldaquino feito de cedro do Líbano e construído à maneira de
um Tabemáculo, com colunas e ornamentos de prata. A tradição ainda fala que,
quando o homem virtuoso é admitido no Gan Éden, sessenta miríades de anjos,
que fazem a guarda do Paraíso, o despem, primeiramente, de sua tachrichim
(mortalha). Depois vestem-no “com oito mantos feitos das nuvens da glória”, e
colocam uma coroa em sua cabeça como se ele fosse um rei. Uma coroa é feita
de pérolas e a outra de pedras preciosas; outra ainda é de ouro. Em suas mãos
colocam oito ramos de murta e, encaminhando-o suavemente para dentro dos
recintos da Vida Eterna, dizem-lhe: “Vá e coma sua comida com alegria!”.1
2. O local onde fora estabelecido o jardim. Convém notar que, em
algumas das passagens que falam do Paraíso, diz que ele foi ‘plantado (‘no’)
Éden’, indicando que a palavra “Éden” é tomada para indicar o lugar onde fora
estabelecido o Jardim (Gn 2.8,10). Em outras, porém, o Paraíso encontra-se as
sociado diretamente com a palavra “Éden” (Ez 28.13). A planície da Babilônia
chama-se Éden, na antiga língua sumeriana. O Golfo Pérsico foi tido como “Rio
Salgado”, e como nos tempos primitivos da civilização babilônica, o Eufrates, o
Tigre, o Querca e o Carum se desembocavam nele, a maré fazia pensar que a foz
era a fonte respectiva desses rios. O Hidequel é o rio Idicla, nome sumeriano do
Tigre. Frequentemente na escultura assíria, a árvore da vida é representada entre
dois querubins, ora de cabeça de águia, ora de cabeça de homens; ora em pé, ora
ajoelhados. Tais informações e ilustrações têm levado a uma adesão firme de
muitos pensarem que o Paraíso, de fato, tinha sido plantado ali. Algumas passa
gens das Escrituras mostram mais ou menos o tipo de lugar onde se encontrava
plantado o jardim do Éden. Alguns se baseiam nas passagens de Gênesis 2.7,8;
5.1,2, e com base nisso, sugerem que a terra da qual Adão foi feito, era uma terra
vermelha, visto que a palavra “Adão”, em si, traz este sentido. Isso pode ser ver
dade; mas também pode ser apenas especulações. Deus podia e pode ter feito o
homem de qualquer espécie de barro e depois lhe dar a cor que quisesse.
a) Interpretação literal sobre o jardim do Éden. Em Gênesis 2.8-14, fala
do surgimento do jardim do Éden, nos seguintes termos: “E plantou o Senhor
Deus um jardim no Éden, da banda do oriente; e pôs ali o homem que tinha
58 A D o u t r in a d o P ec a d o
formado. E o Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista,
e boa para comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore da ciência
do bem e do mal. E saía um rio do Éden para regar o jardim; e dali se dividia e
se tomava em quatro braços. O nome do primeiro é Pisom: este é o que rodeia
toda a terra de Ávila, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdelio,
e a pedra sardônica. E o nome do segundo rio é Giom: este é o que rodeia a
terra de Cusí. E o nome do terceiro rio é Tigre: este é o que vai para a banda
do oriente da Assíria. E quarto rio é o Eufrates”. Dado a localização geográfica
nos tempos modernos dos rios, cujas nascentes procediam na antiguidade no
jardim do Éden, reforça em muito a interpretação literal com relação ao jardim
que serviu como o primeiro lar de Adão e de sua esposa. Ora, para que o leitor
tenha uma maior compreensão do significado do pensamento, iremos localizar
geograficamente estes rios aqui mencionados e veremos onde, de fato, se lo
calizava o jardim do Éden. O jardim é descrito nas Escrituras como um local
ideal. Os profetas Isaías, Ezequiel e Joel, descrevem que o Éden era um lugar
ideal de temperatura amena e agradável para o homem viver.
I o. O que Isaías diz: “Porque o Senhor consolará a Sião; consolará a todos
os seus lugares assolados, e fará o seu deserto como o Éden, e a sua solidão
como o jardim do Senhor; gozo e alegria se achará nela, ação de graças, e
voz de melodia” (Is 51.3).
2o. O que Ezequiel diz: Ezequiel faz uma descrição contra Faraó, rei do
Egito, usa de um simbolismo entre a pujança do Egito e da Assíria com a
flora do Líbano com as árvores que existiam no Éden, jardim de Deus. Fa
zendo menção do Jardim de Deus, o descreve como um lugar onde existiam
muitas árvores e até nomeia algumas delas, conforme veremos no texto
a seguir: “Assim era ele formoso na sua grandeza, na extensão dos seus
ramos, porque a sua raiz estava junto às águas. Os cedros não o podiam
escurecer no jardim de Deus, as faias não igualavam os seus ramos, e os
castanheiros não eram como os seus renovos; nenhuma árvore no jardim
de Deus se assemelhou a ele na sua formosura. Formoso o fiz com a mul
tidão dos seus ramos; e todas as árvores do Éden, que estavam no jardim
de Deus, tiveram inveja dela” (Ez 31.7-9,18). Uma outra passagem que faz
alusão ao Paraíso, é ainda Ezequiel 36.34,35: “E a terra assolada se lavrará,
em vez de estar assolada aos olhos de todos os que passavam. E dirão: Esta
terra assolada ficou como jardim do Éden; e as cidades solitárias, e assola
das, e destruídas, estão fortalecidas e habitadas”.
3o. O que Joel diz: o profeta Joel faz uma descrição do Éden, como sendo
um lugar de muita felicidade e harmonia, em contraste com um campo fértil
A M o r a d a do H o m e m A n tes de P e c a r 5 9
destruído por um exército de gafanhotos. Então ele diz: “Diante dele (do
exército de gafanhotos) um fogo consome, e atrás dele uma chama abrasa;
a terra diante dele é como o jardim do Éden, mas atrás dele um desolado
deserto...” (J12.3a).
b) O que a tradição judaica fala sobre o paraíso. Os judeus tinham em men
te que o Paraíso terrestre plantado por Deus no Éden, era apenas uma cópia do
Paraíso celestial (cf. Lc 23.43; 2 Co 12.4; Hb 8.5; 9.23; Ap 2.7). Outros opinam
que, com a expulsão do casal do Paraíso, Deus o transferiu para a nova terra, à
celestial. Isto é, para a sua imediata presença. Nas descrições que os profetas fi
zeram do Paraíso, quando compararam a sorte de Jerusalém e a nação do Senhor,
com as felicidades que existiam no Éden, nos leva a crer que ali era, de fato, um
lugar de delícias e de profusas bênçãos de Deus. Bênçãos estas, que serão des
frutadas, e ainda com direito de comerem da árvore da vida no ‘Paraíso de Deus’
por aqueles que permanecerem fiéis a Deus na presente dispensação.
r
ii. O R io d o E d en
1. Um rio perene para regar o jardim. Lendo com cuidado a passa
gem de Gênesis 2.10 que diz: “E saía um (‘rio do Éden’) para regar o jardim; e
dali se tomava em quatro braços”, nos leva a compreender que a terra propria
mente chamada Éden, era formada por um planalto ou por uma montanha, em
cuja superfície tinha uma planície, e nela, Deus plantou o jardim. As nascentes
do rio descrito no texto em foco tinham origens na montanha e logo formava
uma planície, onde nela, se localizava o jardim. O rio foi criado por Deus com
o propósito de ‘regar o jardim’. Então pode nos levar a entender que, com a
remoção do jardim de seu lugar original, Deus também removera o curso do
rio propriamente dito para um outro lugar; deixando ali, somente dois de seus
recipiendários: o Tigre e o Eufrates. Parece que o texto em si, diz que, o canal
principal do rio, atravessavatodo o jardim; “...e dali (diz o texto sagrado) se
dividia e se tomava em quatro braços”. O rio original criado por Deus, não dá o
nome. Seus recipiendários, sim. Eles são descritos assim:
a) Rio Pisom. “O nome do primeiro rio é Pisom: este é o que rodeia toda a
terra de Havilá, onde há ouro. E o ouro dessa terra é bom; ali há o bdelio, e a pe
dra sardônica” (Gn 2.11-12). Rio Pisom — No hebraico písõn: significa “o que
salta?”. Flavio Josefo, historiador judeu que viveu entre 37 e 103 d. C., escreveu
sobres estes rios assim: “O Éden era regado por um grande rio que o rodeava
completamente e que se dividia em quatro outros rios. O primeiro, chamado
6 0 A D o u t r in a d o P e c a d o
Pisom, ou Fison, que significa plenitude e os gregos chamam de Ganges, corre
para a índia e desemboca no mar. O segundo, que se chama Eufrates e Fora, em
nossa língua, significa dispersão ou flor e o terceiro, a que chamam de Tigre ou
Diglath, que significa estreito e rápido, ambos desembocam no mar Vermelho.
O quarto, de nome Giom, significa que vem do Oriente, e os gregos chamam de
Nilo, que atravessa todo o Egito”.2
Outros, além de Josefo, têm procurado identificá-lo como sendo o Indo, rio
que corre dentro do território indiano. O que não concordam os geógrafos mo
dernos, razão porque, o Indo, geograficamente falando, fica completamente em
uma posição oposta àquelas que são mencionadas para os outros rios. O cami
nho mais viável e lógico dentro deste contexto, seria, sem dúvida, procurá-lo
dentro dos limites do Golfo Pérsico, com outro nome e numa localidade perto
dos leitos do Tigre e do Eufrates. Ou ainda, na possibilidade do mesmo ser um
rio tributário do Tigre ou do Eufrates. Contudo, pode existir a possibilidade de
que, o dilúvio tenha modificado o leito e configuração dos rios que aqui estão
sendo descritos. Assim, eles podem ser procurados e não ser encontrados den
tro dos limites aqui mencionados.
b) Rio Giom. “E o nome do segundo rio é Giom: este é o que rodeia toda a
a terra de Cusí” (Gn 2.13). Rio Giom — No hebraico, gihõn, provavelmente
derivado da raiz giah — manar, e o texto sagrado diz que ele “... rodeia a terra
de Cusí”. Se “Cusí” é de fato um nome primitivo da Etiópia, o autor sagrado
deve ter pensado no Nilo (Jr 2.18). Muitos textos antigos e a própria tradição
conservadora confirma essa interpretação. O leitor deve observar que, o texto
em foco não diz que passa pela Etiópia, mas que “rodeia a terra de Cusi”, que se
subentende como sendo um dos nomes primitivos da Etiópia. Nesse caso, o rio
Nilo, que nasce nos grandes lagos africanos e depois formam seu leito na parte
chamado de “Nilo Azul”, que cruza a região norte da Etiópia. Nesse caso, não
é o problema de identificação e, sim, de modificação. Giom seria, então, apenas
um sinônimo do Nilo que, por ocasião do dilúvio, fora modificado considera
velmente a posição geográfica de seu leito primitivo. A explicação mais plausí
vel para o desaparecimento dos rios Pisom e Giom está na teoria do surgimento
de montanhas que acompanhou as comoções continentais (a Arábia origina-
riamente estava ligada a Somália e a Etiópia, nos períodos pré-históricos). A
erupção de elevados teria aterrado os dois rios no período antediluviano. Seria
algo análogo ao surgimento do monte Seir, em Edom, o qual impediu que o rio
Jordão fluísse normalmente até o golfo de Acaba, que teria sido seu antigo leito.
Mas isso é mais uma suposição do que uma afirmação; razão porque, a região
do Golfo Pérsico fica numa posição desfavorável para esta possível possibili-
A M o r a d a d o H o m e m A ntes de P e c a r 61
dade. A possibilidade maior da existência deste rio nos dias atuais é um pouco
remota. E, se ela existe, deve-se procurar o rio mencionado acima, na região do
Golfo Pérsico, chamado por outro nome em uma outra porção menor, tanto em
extensão de sua nascente até a sua foz, como em volume de água. Ou até mes
mo, em última hipótese, como tributário do Tigre ou do Eufrates.
c) Rio Tigre. “E o nome do terceiro rio é Tigre: este é o que vai para a banda
do oriente da Assíria...” (Gn 2.14a). Rio Tigre — Tigris, nome grego (no he
braico “Hiddeqel” e no assírio “idiglat” — hoje “digle”). O rio Tigre é o nome
do rio que nascia no Éden, e hoje é localizado na Ásia Ocidental, formado pela
confluência de dois braços que nascem no planalto da Armênia. Outros afluen
tes, todos do leste são o Zab Maior, o Zab menor, o Diyala e Hoaspes (Kerha).
Nos tempos antigos, o Tigre e o Eufrates desembocavam separadamente no
Golfo Pérsico; hoje, devido ao depósito de lama na foz do Golfo, os dois (o
Eufrates e o Tigre) rios se unem a uns 130 km do Golfo. O curso desse rio
é de aproximadamente 2000 km. Desde os tempos pré-históricos, o homem
foi atraído pelos dois rios Tigre e Eufrates. O rio Tigre ou Idiglat — que em
acádio quer dizer ‘rápido como uma flecha’ — entra fundo na terra, mas é de
navegação difícil e acidentada. O Eufrates, por outro lado, é caudaloso e regu
lar, tomando possível a navegação e a construção de canais para irrigação. As
chuvas nas montanhas ao Norte possibilitam a agricultura, mas o mesmo não
ocorre com as terras baixas da Babilônia, onde a precipitação é baixa e con
centrada nos meses entre dezembro e fevereiro, deixando a terra seca para o
verão, quando ocorrem primaveras quentes. Sem irrigação, a agricultura seria
impossível na região. Mudança no curso dos rios e da costa, nos últimos qui
lômetros ao longo do curso do Eufrates ao Sul, tem sido consideravelmente
acentuada. Atualmente o fluxo cai em cerca de 10 metros. Isto quer dizer que
o curso deste rio tem se alterado de forma significativa ao longo do tempo. As
ruínas de muitas cidades famosas da antiguidade, como Eridu, Ur, Nippur e
Kish, estão agora longe do Eufrates, mas no passado elas estavam situadas às
suas margens. Com o passar do tempo, o delta do rio provavelmente ganhou
território sobre o Golfo Pérsico. Alinha da costa moveu-se para o sul, e lagoas
e estuários do passado transformaram-se em terra em nossos dias. A cidade
de Eridu, lar de Enki (sumério) ou Ea (acádio) — o deus das águas doces,
da sabedoria e da mágica — estava situada junto a uma lagoa perto do mar
e era afamada por seu porto. A mudança no curso dos muitos braços do rio
teve grandes conseqüências no passado. Um problema ao norte das planícies
do sul podia secar muitos braços de rios e incapacitar o sistema de irrigação.
Muitas cidades sumérias guerrearam por este motivo.
6 2 A D o u t r in a d o P e c a d o
d) Rio Eufrates. “E o quarto rio é o Eufrates” (Gn 2.14b). Rio Eufrates
— Do sumério, “burannu” — rio grande e do acádico “purattu”. O Eufrates é
um dos rios mais conhecido da Ásia Ocidental; é formado pela união de dois
braços, perto de melid: o ocidental, hoje chamado Karasu, que nasceu perto de
Erzerum, e o ocidental, vindo de Karana. Nascendo nas montanhas da Armê
nia de onde corre por uma garganta no Taurus e desce pela grande planície da
Mesopotâmia, unindo-se finalmente ao Tigre para desembocar no Golfo Pérsi
co. Uma vez que se pode localizar a posição geográfica de cada rio que, tinha
afluente no jardim do Éden, originaram-se numerosas hipóteses a respeito da
situação geográfica do Paraíso. Pensando em um mundo real, de acordo com
aquilo que está narrado na Bíblia, os estudiosos apontam uma determinada
região geográfica para sua localização, como os montes da Armênia; ou sul de
Babilônia. A palavra “Éden” significa “estepe”, mas evoca a ideia de delícias e,
para alguns eruditos essa ideia se harmonizaria em cada detalhe com a região
mencionada acima. Para esses intérpretes esses quatro rios nasciam de uma
mesma fonte comum, localizada nas montanhas do norte, pois o jardim ficava
localizado no “oriente do Éden” e não no “oriente da terra”, o que pode facili
tar essa interpretação. Pensando em todas estas possibilidades, muitos estudio
sos renomados das Escrituras, passaram a defender uma interpretação literal,tomando todos os elementos da narrativa (a árvore da ciência do bem e do mal,
a proibição de comer daquela árvore, a serpente e sua conversa com Eva, o ato
de comer do fruto) como outras tantas realidades históricas. Tanto a tradição is
raelita, como alguns escritos apócrifos posteriores, traziam informações sobre
o Paraíso e a queda do homem. Segundo a qual seus antepassados outrora ha
viam servido outros deuses (Js 4.2), como os resultados da paleo-antropologia
a respeito da antiguidade do gênero humano tomam inverossímil que uma tra
dição detalhada sobre a queda do primeiro casal humano se houvesse mantido
intacta até ficar guardada por escrito em Gênesis. Outros opinam que Deus, em
uma visão, tivesse revelado ao hagiógrafo os fatos da queda com minuciosos
detalhes, teria, por conseguinte, excluído alguns mitos que foram criados por
causa da presença de diversos temas e concepções que Gênesis 2, que segundo
este conceito, tem em comum com as antigas mitologias orientais.
i i i . A Á r v o r e d a V id a e a Á r v o r e d a C iê n c ia d o
B e m e d o M a l
1. A árvore da vida. Quando Deus criou o homem, de início, não havia
nenhuma proibição no tocante a qualquer espécie de árvore ou fruto que ele
não pudesse comer. Ao criá-lo, disse Deus: “Eis que vos tenho dado toda a erva
A M o r a d a d o H o m e m A n tes de P e c a r 63
que dá semente, que está sobre a face de toda a terra; e toda a árvore, em que
há fruto de árvore que dá semente, ser-vos-á para mantimento... toda a erva
verde será para mantimento. E assim foi” (Gn 1.29-30). Nestas árvores aqui
mencionadas, não existiam nem a árvore da vida e nem a da ciência do bem e
do mal. Contudo, quando Deus plantou o jardim do Éden, apareceram ali, duas
espécies de árvores:
cg as que foram plantadas;
og e as que brotaram.
Entre as que brotaram, encontram-se duas que eram diferentes das demais:
og A primeira, “a árvore da vida no meio do jardim”Gn 2.9a);
og A segunda, “...a árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 2.9b).
a) A árvore da vida. Pelo que se deduz das palavras do Criador, em Gêne
sis 3.22, a árvore da vida tinha em si mesma o poder da imortalidade. Quem
dela comesse, viveria eternamente. O grande erro do homem foi comer o fruto
da árvore errada. A árvore da morte e não a da vida. Agora, Deus o proíbe de
comer da árvore da vida, para que ele e sua prole não vivessem eternamente na
miséria. A providência divina, neste sentido, foi lançar o homem para fora do
jardim do Éden. “E havendo lançado fora o homem, pôs querubins ao oriente
do jardim do Éden, e uma espada inflamada que andava ao redor, para guardar
o caminho da árvore da vida” (Gn 3.24). Se o homem tivesse comido da árvore
da vida antes de pecar; seria capaz de viver eternamente num estado de san
tidade. Pouco se fala da “árvore da vida” nas Escrituras. Ela somente aparece
aqui em Gênesis 2.9; 3.22,24 e Apocalipse 2.7; 22.2,19.
A árvore da vida era uma árvore especial e apresenta três sentidos diferentes
nas passagens onde ela está em foco e traduz três significados importantes:
b) Significa vida sem fim. “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é
como um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, para que não estenda a sua mão,
e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente” (Gn 3.22).
c) Significa alimento. “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às
igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio
do paraíso de Deus” (Ap 2.7; 22.2).
d) Significa herança. “E, se alguém tirar quaisquer palavras do livro desta
profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, e da cidade santa, que es
tão escritas neste livro” (Ap 22.19). Pensando na árvore da vida como fonte
6 4 A D o u t r in a do P e c a d o
de alimentação, para os remidos do Senhor, alguns chegaram a sugerir que o
“maná escondido” seja o fruto da árvore da vida, visto que os dois representam
Cristo, que é o Pão da Vida, e quem dele se alimenta, passa a ter vida, e vida
com abundância. Com efeito, porém, tudo indica que, no simbolismo isso é
possível. Contudo, literalmente falando, parece que um é diferente do outro,
ainda que em Cristo, isso possa coexistir. Ele é o Pão da vida que alimenta o
mundo com a sua palavra e nutre sua Igreja com sua presença. No Paraíso de
Adão — ainda que plantado por Deus — foi vedado ao homem o direito de
comer da árvore da vida. Tal proibição foi ocasionada pelo pecado do homem.
Adão era santo, mas se tomou um pecador. Ele, portanto, não podia comer do
fruto da vida, produzido por aquela árvore. As Escrituras nos levam a entender
que houve uma remoção do Paraíso para a imediata presença de Deus, com ele
também foi conduzida a árvore da vida. No Paraíso terrestre, ela estava plan
tada no ‘meio’ do Paraíso (Gn 2.9). No Paraíso celestial, ela também aparece
no ‘meio’ (Ap 2.7). A diferença agora, é que foi abolida a proibição; e, ali, o
homem, quer dizer, o homem santo, terá o direito de comer da árvore da vida,
tantas vezes quiser.
2. A árvore da ciência do bem e do mal. No tocante a isso, existem
também, por parte dos comentadores, muitas opiniões nos seguintes pontos:
Tratava-se realmente de uma árvore no sentido literal? Ou foi simplesmente
uma figura de retórica que fora usada pelo escritor sagrado, para representar o
mal? Seu fruto foi de fato um fruto literal que Adão e Eva comeram e que depois
de o terem ingerido, seu poder os teria transformado então, de santos em peca
dores? Estas e outras perguntas são feitas e por causa das muitas interpretações
que têm surgido no campo religioso.
a) A árvore era enxertada. Ao ser chamado “do bem” e “do mal”, pode- -
se levar a pensar numa espécie de árvore que fora enxertada, como uma ár
vore má (o pecador) que fora enxertada na boa oliveira (Cristo). Mas isso é
uma alegoria (figura) que não se coaduna com o argumento e a tese principal,
que aqui está em foco. Parece que, o argumento mais lógico com respeito a
esta árvore de natureza dupla, é que ela podia ser até chamada de “árvore
do bem” — para aqueles que nela não tocassem. E, de igual modo, podia ser
chamada de “árvore do mal” — para aqueles que dela comessem como Adão
e sua esposa. Quando lemos a frase “a árvore do ‘bem’ e do ‘mal’, surge uma
pergunta curiosa: “que bem trazia em si aquela árvore?” Uma vez que ela era
um tipo de fruto enxertado, de um lado era constituída pelo ‘bem’; do outro
lado, era constituída pelo ‘mal’. Em algumas traduções, ao invés de se ler: a
A M o r a d a d o H o m e m A n tes de P e c a r 65
árvore da ciência do bem e do mal, lê-se: a árvore do conhecimento do bem
e do mal. Com efeito, porém, pelo que parece e por tudo aquilo que se tomou
conseqüência quando Adão e sua mulher, comeram do fruto daquela árvore, se
apresentou bem algum nem neles, nem na sua prole. Assim como para muitos,
o pecado é a ausência do bem, de igual modo, o bem que aquela árvore trazia
era sua ausência na vida do homem.
b) Pensando em uma árvore misteriosa. Muitos têm pensando que se tra
tava de uma árvore literal, porém com certos aspectos misteriosos e procuram
determinar a sua qualidade. Algumas tradições judaicas estão a favor de uma
espécie de vide, outros de uma oliveira ou de uma espiga, do tamanho de uma
árvore, enquanto que os gregos pensavam numa figueira. E nos autores latinos
encontramos opiniões que fosse uma macieira, provavelmente por causa de
Cantares de Salomão 8.5. Para outros, o jogo de palavras: malum = o mal e ma
las = macieira. Tratando-se de uma evolução semântica de “pomum”, que pri
meiro significa “fruto de árvore” em geral, e no latim posterior a palavra rece
beu o sentido de “maçã”, tratava-se, de fato, de uma macieira, cujo fruto seria
então uma “maçã”. Por causa da semelhança existente entre as palavras latinas
malum (maçã) e malus (mal), a tradição popular, na Idade Média, identificou
essa árvore com a macieira. Na opinião dos intérpretes escolásticos, a Arvore
do bem e do malpo sta sia ............................................................................. 2 1 7
III. O P e c a d o V o l u n t á r i o ............................................................................ 226
IV. O P e c a d o para a M o r t e ..................................................................... 2 3 0
V. O P e c a d o A b o m in á v e l ............................................................................233
C a p ít u l o 1 2 : P e c a d o s P e r d o á v e i s ......................................................... 241
I. P ecado s qu e M er ecem o P e r d à o ....................................................... 2 4 2
II. Q uem P ode M er ec er o P e r d ã o ........................................................ 2 4 5
C a p ít u l o 1 3 : O P e c a d o d e B l a s f ê m ia c o n t r a o
E s p ír it o S a n t o ..........................................................................................................2 49
I. O que S ignifica B lasfemar contra o E spírito Sa n t o .................. 250
II. A B la sfêm ia c o n tr a o E spírito S a n t o .......................................... 253
III . A B la sfêm ia co n tr a E spírito Sa n to n ã o E um A to —
É u m a A t it u d e ...................................................................................................2 5 7
C a p í t u l o 1 4 : O P e c a d o A f e t o u a s F a c u l d a d e s S e n s i t iv a s e
I n s t in t iv a s d o H o m e m .........................................................................................2 6 5
I. O L iv r e -A r b ít r io .........................................................................................2 6 6
II. Os S e n t id o s ..................................................................................................277
II I . O s in s t in t o s ................................................................................................ 281
C a p ít u l o 1 5 : A l t e r a ç ã o n o C o m p o r t a m e n t o .............................. 291
I. A l tera ç ã o M u d á v el n o C o m po r ta m en to ..................................... 2 9 2
II. A ltera ç ã o do P e n s a m e n t o ................................................................. 2 9 7
III . In c lin a ç ã o In flu en c iá v el da M e n t e ...........................................3 0 6
IV. A lteração P ro po sita d a n a s A ç õ e s ...............................................3 1 0
C a p í t u l o 1 6 : P u n i ç ã o e D e s t r u i ç ã o d o P e c a d o ....................... 32 3
I. P u n iç ã o d o s P e c a d o r e s .......................................................................... 3 2 4
II . D estru içã o e A u sên c ia da s C o isa s .................................................3 2 8
III . D estruiçã o dos P e c a d o r e s ............................................................... 3 3 2
IV . D est r u iç ã o F in a l d o P e c a d o .......................................................... 3 3 4
H a m a r t io l o g ia -
D o u t r in a d o P ec a d o
10 A D o u t r in a d o P e c a d o
I . O P e c a d o
1. A existência do pecado. Alguns ignoram a origem e existência do pe
cado. Na opinião destes estudiosos modernos, o pecado não existe, e se existe
(dizem eles) é de origem desconhecida. Assim como existem aqueles que procu
ram negar a existência de Deus, embora sejam reputados como sendo ‘néscios’
(SI 14.1). De igual modo, também, há alguns que, dizendo-se sábios, procuram
negar a existência e origem do pecado. Outros até defendem que o pecado existe.
Contudo, ninguém (dizem eles) será capaz de saber sua origem e seus modos de
manifestação no mundo. Invocam para essa teoria a passagem de Deuteronômio
29.29, que diz: “As coisas encobertas são para o Senhor nosso Deus, porém as
reveladas são para nós e para nossos filhos para sempre, para cumprirmos todas
as palavras desta lei”. Com efeito, porém, é evidente que esta passagem não se
refere à origem do pecado ou do mistério do mal. A Escritura, desde o início até
o final, faz questão de revelar e denunciar o pecado, dizendo de onde ele veio —
mostrando seus efeitos nocivos e sua tirania destruidora afetando o mundo hu
mano e o mundo espiritual. Deus falou na sua Palavra que o pecado existe e que
está presente, podendo (se houver espaço) dominar o homem, que anda alienado
de Deus. Para Caim o Senhor advertiu: “Se bem fizeres, não haverá aceitação
para ti? E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e para ti será o seu desejo, e
sobre ele dominarás” (Gn 4.7). E o escritor aos Hebreus, lembra aos seus leitores
que o pecado não se encontra distante deles e de suas atitudes. Então ele disse:
“Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de
testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia,
e corramos com paciência a carreira que nos está proposta” (Hb 12.1). O falso
ensinamento da “Ciência Cristã” afirma que o pecado é uma negação — que
o mal é a ausência do bem, e que o pecado é a ausência da retidão. Mas não é
verdade, pois existem formas de pecado extremamente malignas e agressivas. A
Palavra de Deus assegura que o pecado e o mal têm existência positiva. E que
são ofensas contra Deus.1
Tanto as Escrituras como o mundo sensível dos seres e das coisas, apre
sentam três provas evidentes da existência do pecado. Estas provas são:
ca Prova metafísica;
03 Prova moral;
eg Prova psicológica.
a) Prova metafísica. Essa prova se apoia na sensibilidade perceptiva de um
mundo diferente daquele em que vivemos e algo que nos rodeia, apresentando
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 11
tanto no texto imediato como na extensão, que um inimigo tirano — chamado
de o pecado — existe. A alma humana foi feita pelo sopro de Deus. Ela foi
feita com a capacidade sensitiva de sentir e aceitar ou rejeitar o pecado. Ela
pode discernir o mal e o bem. Com efeito, porém, se não houvesse o pecado
ou mal espiritual, invisível no mundo das trevas, não seria necessário tal dis
cernimento — pois não haveria necessidade, visto que o mal não existiria (Dt
30.15,19).
b) Prova moral. Essa prova se baseia na imortalidade da alma e é embasada
na justiça de Deus, que exige que a virtude e o vício recebam as sanções que
lhes são devidas: recompensa ou punição. Aqui no mundo, as sanções da virtu
de e do vício são evidentemente insuficientes; muitas vezes é o vício que triun
fa, e a virtude fica humilhada. A justiça quer que cada um seja tratado segundo
suas obras, e isto não pode ser feito a não ser com a imortalidade da alma. Se
o pecado não existisse não era necessário um juízo diferenciador e nem repa-
rador de um bem que teria sido, ao longo da existência, danificado pelo mal.
Contudo, esta prova mostra que existem muitos segredos: tanto do lado do bem
como do lado do mal. E um dia, todos eles, serão julgados por aquele que por
Deus foi constituído juiz — o qual “...trará à luz as coisas ocultas das trevas, e
manifestará os desígnios dos corações” (1 Co 4.5).
c) Prova psicológica. Essa prova se apoia nas tendências essenciais de nos
sas faculdades. E fato que nós aspiramos conhecer a verdade absoluta, possuir
o bem supremo e a felicidade perfeita, ou seja, um estado de vida que só pode
ser encontrado no mundo vindouro. No mundo presente, isso é tão verdadei
ro que jamais nos sentimos saciados de verdade e de felicidade; quanto mais
avançamos no conhecimento da verdade, na prática do bem, mais aumenta
nosso desejo, a ponto de nada parecer poder satisfazer-nos fora da verdade, da
bondade, da beleza perfeita, ou seja, fora de Deus. Todavia, sentimos que mes
mo com este anseio, há uma força estranha que quer nos levar para um outro
lado. Esta força é o pecado. Ele nos rodeia bem de perto, desejando embaraçar
nossos passos e desvirtuar nossas ações para umfoi chamada assim por causa das conseqüências resultadas do
comer seu fruto. A conseqüência deste ato foi a expulsão do Paraíso e a conde
nação a uma vida dura que devia terminar com a morte. Dentro da ortodoxia
católica, pode-se admitir que seja uma simples figura literária para designar
uma realidade, isto é, uma proibição divina para nós ainda desconhecida.
Io. Arvore verde. Quando o povo escolhido de Deus fixou sua morada na
terra de Canaã, começou a se prostituir “debaixo de árvore verde”. Alguns
opinam que se tratava do nobre loureiro, como alguns tradutores o têm
feito. Não se sabe bem o motivo pelo qual o povo escolhia um bosque
cheio de árvores frondosas para oferecerem seus sacrifícios aos seus deu
ses. Além dos profetas de Baal, que eram em número de 450, havia tam
bém 400 que eram chamados de “profetas de Asera” (1 Rs 18.19). Asera
era uma árvore considerada sagrada, que crescia perto do altar, que muitas
vezes era edificado em um bosque, plantado em um lugar alto. Durante seu
governo, para agradar a Jezabel, Acabe plantou um bosque, contrariando,
assim, a vontade do Senhor que proibia tal prática com finalidade idolátrica
(1 Rs 16.33), quando advertiu, dizendo: “Não plantarás nenhum bosque de
árvores junto ao altar do Senhor teu Deus, que fizeres para ti” (Dt 16.21).
Alguns acreditavam que a divindade estivesse presente na Asera, foi aceita
66 A D o u t r in a do P e c a d o
como deusa, e identificou-se com Astarote, deusa fenícia (Ashtart), reconhe
cida tanto como deusa da guerra e destruição como de amor e vida.
2o. Árvore de justiça. Um outro nome que aparece representando árvore
misteriosa é a “árvore de justiça” (Is 61.3), referindo-se aos “tristes de
Sião”, que mediante a operação divina, a tristeza seria substituída pela ale
gria. A árvore de justiça, portanto, nesse caso, representava uma nova vida,
cheia das bênçãos do Senhor. Alguns têm sustentado que no passado havia
árvores com estes nomes. A árvore verde era tomada como símbolo da
fertilidade, em cuja sombra o povo se prostituía, tanto no sentido religio
so como no sentido do adultério (SI 37.35). Com efeito, porém, nenhuma
dessas árvores mencionadas acima faz parte da árvore da vida ou da árvore
do bem e do mal. Aquelas eram, sem dúvida, diferentes das que o povo
venerava no passado e das que conhecemos agora.
c) Uma árvore literal. A Árvore da ciência do bem e do mal deve ser tam- i-
bém concebida como sendo uma árvore literal. Esta árvore aparece em Gênesis
2.8,17; 3.3,5,6,11,12,13, e nunca mais em nenhuma outra parte da Bíblia, onde
se fala da história do pecado, ela aparece. Parece que, depois da promessa divi
na da vinda do Redentor, em Gênesis 3.15, ela se secou, visto que, a partir daí,
somente aparece a “árvore da vida”. De acordo com as provas demonstradas
na criação inteira, que foi literal e não figurativa, essa árvore era também uma
“árvore literal”. Seu fruto era “um fruto literal”. A diferença era que aquela era
uma árvore especial como especial era também a árvore da vida. A narrativa
não se refere, portanto, ao despertar da consciência ou da inteligência através
de um contato sexual de Adão e de sua esposa, como erroneamente tem sido
sugerido por alguns. O homem, mesmo antes de pecar, já tinha consciência
moral das concepções da vida para sua procriação e já as possuía antes do pe
cado. Existem determinadas substâncias nocivas que, se forem ingeridas pelo
homem, produzirá sua morte física instantaneamente. Outras substâncias, tais
como drogas alucinógenas, bebidas alcoólicas e entre outras, trarão para o ser
humano a perda de comunhão com seu Criador, o que significa morte espiritu
al, no sentido religioso. Estas coisas são coisas materiais, quer dizer, literais no
mais rudimentar dos sentidos; entretanto, a experiência tem comprovado que
podem provocar todos esses males mencionados acima e muito mais, na vida
daqueles que transgredirem as proibições de Deus, reveladas na sua Lei e nas
palavras de seu Filho Jesus Cristo.
Na opinião cabalística, é admitido que Eva entendeu que o plano de Deus
era que eles deixassem o Éden e fossem habitar no “mundo inferior”. Mas
este, com efeito, não era o plano de Deus, pois tal pensamento não se coaduna
com pensamento geral das Escrituras e nem com a tese e argumento principal.
Outrossim, não é o mundo que irá criar o “caminho da Redenção”. Este foi
criado por Deus e inaugurado pelo próprio Cristo por meio de sua morte na
cruz (Hb 10.20).
A M o r a d a do H o m e m A n te s de P e c a r 67
' Enciclopédia Judaica, v. 5, Editora e Livraria Sêfer Ltda. 1989. pp. 301-302
: JOSEFO, F. História dos Hebreus: Antiguidades Judaicas, Livro Primeiro, 8a. Ed. Rio de
Janeiro: CPAD, 2004, p. 76
A Q u ed a d o H o m em
70 A D o u t r in a d o P e ca d o
I . O P e c a d o d e A d ã o
1. Interpretação alegórica sobre a queda do homem. A interpretação
puramente alegórica ou simbólica vê na queda a imagem de certas experiên
cias psicológicas ou morais universalmente humanas, não próprias, portanto,
do estado original do homem. É neste sentido que, para muitos, a narrativa da
queda é um mito. Conforme Gunkel, e outros trata-se da passagem do indiví
duo humano do estado de inocência, que caracteriza sua infância inconsciente
e despreocupada, para o estado adulto, caracterizado pelo conhecimento do
sexo e pela consciência da falibilidade humana. Conforme essa explicação, po
rém, não haveria nenhuma queda, mas tratar-se-ia do desenvolvimento normal,
natural e necessário do homem; além disso, Gênesis 2.19,23, mostra-nos que
para o autor o primeiro homem antes da queda, não era, de modo nenhum, uma
criança. Outros colocam o sentido da narrativa da queda, no plano religioso, a
saber, na descoberta do homem de estar separado de Deus pela sua própria e li
vre vontade. Mas a caracterização de Abel, Enoque e Noé como justos, eviden
cia que, segundo o autor, nem todos os homens têm pecado pessoal, o que essa
explicação supõe. Se para o hagiógrafo, Abel e Noé sofreram as conseqüências
da queda (a morte), então isso deve ser porque ele considera a queda como um
fato não puramente individual, mas coletivo, tendo conseqüência também para
quem nela não teve culpa pessoal. Outros ainda veem na queda um fenômeno
social: ao desenvolvimento da cultura material. Mas Gênesis 4.19-22 exclui
que em Gênesis 3 o autor tenha pensado no progresso material do homem.1
2. O pensamento judaico sobre a queda do homem. O pensamento
puramente judaico é que o hagiógrafo considerou a queda como um fato não
apenas psicológico ou moral, mas também histórico, segue claramente do cará
ter etiológico de sua narrativa. Ele pretende dar uma explicação da triste sorte
do homem: da sua luta penosa pela existência, do estado submisso da mulher,
das dores do parto e, afinal, da morte. Como está convencido de que Deus
criou tudo bom (Gn 1.31; 2.1-3), deve ter havido, entre o início tão feliz e a
atualidade tão sombria, uma causa de todo o mal; e, como o mal abrange todos
os homens, é preciso colocar essa causa no princípio da história da humanida
de. Esse raciocínio abstrato, porém, tomou no hagiógrafo uma forma concreta,
em função de sua historiologia genealógica e pela aplicação do princípio da
retribuição coletiva. Todo povo e todo grupo de população era reduzido a um
ancestral, cujo caráter e comportamento determinaram a sorte de seus descen
dentes (cf. Gn 4.14; 9.25; 16.12; 19.37). Assim, toda a humanidade descende
de um só homem primordial, “o homem”, cuja queda foi fatal para toda a sua
A Q u ed a d o H o m e m 71
descendência. Que o hagiógrafo, descrevendo a queda, pensou realmente nesta
descendência, provam-no em Gênesis 3.15,20. Levando ainda em conta o cará
ter, parte polêmico, parte mitológico e folclórico de elementos como:
cg Paraíso;
cj3 a árvore da ciência do bem e do mal;
eg a serpente.
3. A queda do homem não foi uma alegoria — foi uma realidade.
Uma boa parte das pessoas,que têm a imaginação light e folclórica, acham que
a história da queda do homem é simplesmente uma alegoria ou mito. Outros,
seguindo esta linha de pensamento, procuram definir o gênero da narrativa da
queda como um mito histórico, isto é, como uma formulação dramática de um
fato religioso (não apenas de um ponto de doutrina), neste caso, um fato da
história da salvação. Essa dramatização, no estilo daquele tempo, lançou mão
de concepções religiosas e historiográficas existentes. Outros ainda opinam que
a queda do homem faz parte de uma coletânea do gênero literário. Todavia, isso
não é assim. O homem pecou contra Deus. Foi expulso do Jardim. Esta é inter
pretação e ensino do pensamento geral das Escrituras.
4. A provação do homem. Antes de pecar, Adão e sua mulher eram am
parados na dispensação da inocência. Portanto, até então, eles encontravam-se
cobertos por uma espécie de manto da santidade divina. Também devemos ter
em nossas mentes, um outro ponto de vista, no que diz respeito ao período de
inocência, do primitivo casal no jardim do Éden. Adão e sua mulher estavam
amparados pela “dispensação da inocência”. A justiça de Cristo que já fora
morto no eterno querer de Deus desde a fundação do mundo, lhes serviam de
cobertura enquanto os mesmos permanecessem nessa dispensação. A santi
dade do casal conservava-os debaixo dessa proteção divina. A proibição por
parte de Deus servia de demarcação da inocência e santidade de Adão, até a
sua queda. Podemos observar que, vários métodos de sedução foram utilizados
que envolviam a serpente, a mulher e o próprio homem, até a consumação do
pecado propriamente dito.
5. O fracasso do homem. Temos aqui, nesta história sombria da queda
do homem, uma espécie de “escada descendente”, conforme veremos mais
adiante em outras notas expositivas, em que alguém vai descendo de degrau
em degrau até chegar ao seu último degrau, quando usamos a contagem in
vertida, que seria o primeiro para quem “sobe” e o “último” para quem desce.
72 A D o u t r in a d o P e c a d o
Primeiro, houve negligência por parte de Adão em ficar ausente de sua esposa
numa área perigosa. Deus quando formou a mulher, formou-a com o objetivo
desta estar diante dos olhos de seu marido; pelo menos para Adão foi isto im
posto. Deus disse: “...é uma adjutora que estivesse diante (de seus olhos) dele”
(Gn 2.20). Adão não observou este detalhe de Deus e sua mulher não estava
“diante de seus olhos” quando encontrou-se com a serpente. Esta aproveitou-se
da inocência e simplicidade da mulher e lançou-a no campo da dúvida, com a
insinuante pergunta: “E assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do
jardim?” (Gn 3.1b); a mulher então retrucou imediatamente, dizendo: “Do fruto
das árvores do jardim comeremos; mas do fruto da árvore que está no meio do
jardim, disse Deus: Não comereis dele (e acrescenta), nem nele tocareis, para
que não morrais” (Gn 3.2,3). A pergunta da serpente tinha como alvo desviar a
atenção da mulher e por extensão a de Adão, da obediência devida a Deus (Dt
13.6; Ef 5.6). Geralmente o tentador é por demais astuto, e sabe que quando a
criatura é seduzida e cede, pode enganar-se a si mesma (Jr 37.9) e deixou-se
seduzir por seu próprio coração, pelo amor ao dinheiro, a cobiça e o orgulho de
ser, ter e possuir, e o desejo de Adão e de sua mulher, era exatamente estes: ser
como Deus, conhecer como Deus e possuir poder como Deus (Mt 13.22; Hb
3.13; Tg 1.26; 1 Jo 1.8). A sedução da serpente estava relacionada comacobiça
e o resultado foi a queda daqueles que por ela estavam visados. Sempre que o
pecado é consumado, ele se toma um veículo transmissor. Ele toma esse senti
do, o caráter quando assim é traduzido, de “transgressão”. E no caso de Adão e
sua mulher que transgrediram o mandamento de Deus ali no jardim, ele assume
por natureza essa posição. Isso significa que, ele “vai” além do limite — avan
ça! Depois se multiplica, é exatamente o que lemos em Gênesis 6.5, que diz:
“E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicava sobre a terra...”. De
igual modo, ele é retratado nos ensinamentos de Jesus como a iniqüidade que
se multiplica, causando dano ao amor (Mt 24.12). No caso da tentação, ele foi
concebido por condições preliminares como bem podemos observar na situação
da Queda: na proporção que a serpente ia avançando, a mulher ia cedendo um
pouco até ser atingida por seu aguilhão. Analisemos, em detalhes, cada “passo”
dado entre a mulher e a serpente e vice-versa, até alcançar o homem (Adão).
6. O homem cedeu à tentação. A tentação é a primeira arma sombria ia
que Satanás usa no campo da destruição. Seu objetivo principal, ao tentar, é
abrir caminho quando o tentado cede para o fracasso. Em si, a tentação não é
pecado, mas ela pode tomar-se pecado. Jesus foi tentado em tudo como diz o
escritor aos Hebreus: “Porque não temos um sumo sacerdote que não possa
compadecer-se das nossas fraquezas; porém um que, como nós, em tudo foi
A Q u ed a d o H o m e m 73
tentado, mas sem pecado” (4.15). A raiz de quase todo fracasso espiritual é a
desobediência nas pequenas coisas. Embora não pareça significativa no mo
mento, cada desobediência, por menor que seja, é como uma fenda no muro da
alma da pessoa. Através de cada rachadura, o ácido do mal penetra e começa a
corroer os fundamentos de seu caráter espiritual. Ao longo do tempo, sua von
tade espiritual fica comprometida e, quando surge uma tentação, ela simples
mente não tem vontade de resistir. Alguém que cai dificilmente o faz de forma
abrupta. Pode parecer que a pessoa foi derrubada por aquela crise final, mas,
na realidade, foi a raiz seca da desobediência que fez tudo. O grande sucesso
de nosso Senhor Jesus Cristo no campo da tentação, é que Ele foi obediente ao
Pai em tudo; “Sendo obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2.8). Jamais
Ele ficou isento da tentação. Pelo contrário, “em tudo foi tentado, mas sem
pecado”. Tiago diz que a tentação pode gerar o pecado e este, consumado,
gerar a morte. “Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado, porque
Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta. Mas cada um é tentado,
quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência. Depois, havendo
a concupiscência concebido, dá à luz o pecado e o pecado, sendo consumado,
gera a morte” (Tg 1.13,14).
a) A queda inesperada do hometn. A passagem de Gênesis 3.7 descreve
o momento fatal quando o homem e sua mulher tiveram consciência de seu
fracasso. “Então foram abertos os olhos de ambos e conheceram que estavam
nus...”. Aqui, está, portanto, o momento da passagem do estado de inocência
para o estado de consciência. Adão e sua esposa viviam debaixo da dispensa
ção da inocência e, nela, estavam cobertos pela expiação de Cristo. O caminho
da redenção ainda não estava ‘aberto’, porque Cristo ainda não tinha morrido
fisicamente na cruz. Mas o caminho da expiação já se encontrava ‘aberto’ no
eterno querer de Deus. Este é o motivo pelo qual Jesus “foi morto desde a fun
dação do mundo” (Ap 13.8). Esta passagem marca, portanto, a inauguração do
caminho da expiação, quando o Cordeiro de Deus morrer, com a finalidade de
tirar o pecado do mundo. Para os anjos que pecaram, este caminho ainda não
existia, porque, como seres racionais, dotados de elevada capacidade intelec
tual e saber espiritual, eles já viviam numa espécie de estado consciente, com
capacidade para discernir o caminho do bem e do mal; ainda que este último
não existisse de forma patente ou mesmo em seu estado original.
b) Destaque da queda de Adão. As Escrituras dão como maior destaque, a
queda de Adão, embora em algumas passagens específicas, é mencionada por
extensão a queda de Eva. Nesta seção, portanto, estudaremos sobre o fracasso
74 A D o u t r in a d o P e c a d o
do homem e de sua esposa no jardim do Éden. Ali, Eva foi tentada pela serpen
te e Adão foi seduzido por sua esposa para comer do fruto proibido. No caso
de Adão e Eva, suas mentes forampreparadas por Deus para que eles vivessem
na dispensação da inocência, num mundo de santidade. Contudo, eles tinham
um dever a cumprir: não comer da árvore que estava no meio do jardim, pois
esta tinha sido proibida expressamente por Deus antes mesmo da formação da
mulher, quando disse: “De toda a árvore do jardim comerás livremente; mas da
árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que
dela comeres, certamente morrerás” (Gn 2.16,17). Porém, contra a vontade
divina, o casal, lamentavelmente, foi “envolvido” pelo pecado. Os dois pontos
marcantes neste episódio sombrio é quando se diz, que:
Io. “os olhos” de ambos foram abertos (Gn 3.7a). Parece mesmo que os
sentimentos psíquicos de Adão e sua mulher possuíam um halo circundante
de luz, que os livrava da aparência e da consciência de nudez. Tal proteção
aparentemente se perdeu por ocasião de sua desobediência e pecado, cau
sando neles o senso de impropriedade de aparência na presença de Deus e,
talvez, na presença um do outro.2
2o. E semelhantemente, quando se diz que “conheceram” que estavam nus
(Gn 3.7b). Eles conheceram aí, que tinham morrido moralmente e espi
ritualmente naquele instante, e sentiram pela primeira vez a ausência do
Criador em suas vidas. Desde que Deus criou o homem e sua mulher, eles
estavam debaixo da “dispensação da inocência”, como crianças que ainda
não tinham despertado a concepção do “eu”. Esta dispensação é garantida
pela expiação de Cristo, o Cordeiro que foi morto, desde a fundação do
mundo (Ap 13.8), conforme já tivemos a ocasião de mostrar numa outra
seção deste argumento. Adão e sua mulher, antes do episódio sombrio que
mudaria a vida de ambos para sempre, “...estavam nus...e não se envergo
nhavam” (Gn 2.25). Depois do pecado contra Deus, eles, agora, saem dos
auspícios desta dispensação e entram para a dispensação da consciência,
com o poder de saberem o “bem e o mal”.
c) A queda não fo i somente um ‘ato ’ isolado — mas uma ‘atitude ’ de- -
liberada. Quando passamos a analisar mais profundamente cada detalhe até
que ocasionasse a queda do homem, podemos observar que, não se tratou de
um ato apenas, e, sim, de uma atitude de desobediência contra Deus e contra
sua ordem. O primeiro elo nessa sombria história foi sem dúvida a negligência
seguida pela tentação, em forma de sedução. A sedução é sempre querida e
determinada por um inimigo que deseja o mal, e Eva declara ter sido seduzida
pela serpente.
A Q u ed a d o H o m e m 75
I I . A Q u e d a d o H o m e m M o s t r a u m a E s c a d a
D e s c e n d e n t e
1. Os passos sucessivos do estado de santidade ao estado peca
minoso. No argumento seguinte, veremos como o fracasso do homem e sua
mulher foi seguindo um caminho regressivo em relação à santidade e progres
sivo em direção ao erro. Passo a passo, o mal foi se aproximando e encontran
do espaço na mente e imaginação do casal. São emitidas várias opiniões no que
diz respeito à sucessão de erros e de acontecimentos, para que se consolidasse
o fracasso, na vida de Adão e de sua mulher, ali no jardim. Os estudiosos usam
vários degraus nesta escada descendente. Um dos exemplos é o número 7. Eles
afirmam que este número está ligado à perfeição ou à totalidade; então em
sentido inverso, teriam sido 7 sucessivos erros envolvendo Adão, sua esposa e
a serpente ali no jardim do Éden.
a) Os doze degraus do fracasso. Observando cuidadosamente cada aconte
cimento que envolveu Adão, Eva e a serpente, poderemos relacionar um total
de 12 degraus descendentes da tentação, até a consumação do pecado.
I o. O primeiro degrau foi descido por Adão. Ele desceu o degrau da negli
gência física. Seu fracasso nesta senda do mal foi não cumprir fielmente
a ordem que Deus tinha lhe dado quando “o pôs no jardim do Éden para
o lavrar e o guardar” (Gn 2.15). Adão não guardou o jardim. Ele permitiu
que a serpente nele entrasse o que não teria sido permitido, se ele tivesse
ficado vigilante.
2o. O segundo degrau foi descido por Adão. Ele desceu o degrau da ne
gligência moral. Quando Deus criou sua esposa, foi com a finalidade desta
permanecer diante dos olhos de Adão. Mas Adão, contudo, negligenciou e
deixou sua mulher sozinha a mercê da serpente. Agora, ela se encontrava
‘longe’ do marido e ‘perto’ da tentação.
3o. O terceiro degrau foi descido pela mulher. Ela, a exemplo de seu es
poso, também entrou pelo caminho da negligência. As Escrituras são pro
féticas e se combinam entre si em cada detalhe. Elas recomendam que a
“mulher se não aparte do marido” (1 Co 7.10). A expressão em foco traduz
dois sentidos: o primeiro moral, isto é, a mulher quando casa, é com a
finalidade de viver com seu esposo enquanto ele viver; a não ser que no
relacionamento de ambos, apareça um acidente de percurso. Eva, pelo que
parece, não estava atenta as recomendações que acabamos de mencionar.
Ela andava sozinha. Tinha deixado o marido onde? Adão se encontrava
76 A D o u t r in a do P e c a d o
tão distante, que até o próprio Deus, quando o procurou, perguntou: “Onde
estás?” (Gn 3.9).
4o. O quarto degrau foi descido pela serpente. A serpente era “astuta” e per
cebeu a ingenuidade da mulher. Então ela arquitetou em lhe fazer uma per
gunta, e através dessa, lançar a mulher no campo da dúvida. Paulo liga este
acontecimento com a simplicidade da mulher e a “sagacidade” da serpente
(2 Co 11.3). A serpente, aqui em foco, não era um animal qualquer no sen
tido ordinário do termo. Na mitologia grega era conservada uma imagem
desta serpente, chamada de “mãe das trevas”, que era reputada como sendo
um cão de fogo horroroso. A insinuante pergunta da serpente, aparentemen
te inocente, mas que continha uma insinuação de dúvidas acerca da palavra
de Deus: “E assim que Deus disse: não comereis de toda a árvore do Jar
dim?”, lança a mulher no campo da dúvida quanto ao amor de Deus e sua
justiça, ‘ampliando’ a proibição única e ‘reduzindo’ as extensas permissões
(Gn 3.1). As Escrituras usam expressões variadas no tocante a natureza e
qualificação deste terrível ser, acrescentando um apelativo em seu nome.
(I) Simplesmente “A serpente” (2 Co 11.3).
(II) “A serpente astuta” (Gn 3.1).
(III) “A serpente veloz” (Is 27.1a).
(IV) “A serpente tortuosa” (Is 27. lb).
(V) “A Antiga serpente” (Ap 12.9).
Em Jó 26.13, fala-se da “serpente enroscadiça” — mas não podemos afir
mar se esta referência é feita com relação ao Diabo ou a uma serpente
ordinária. — Outrossim, as “serpentes ardentes” citadas em Números 21.6,
tratam-se de serpentes naturais. Em Gênesis 3.1, está registrado que ela “era
astuta=sagaz”. O vocábulo grego aqui usado, “dragão”, que no original é
“draken”, significa “serpente”, “crocodilo” ou “leviatã” (Jó 41.1). Temos
informações de que os antigos cananeus, conforme a descrição existente
nos tabletes de Ras Shamra, tinham uma terrível serpente de sete cabeças.
O leviatâ=serpente veloz (Is 27.1) era considerada uma horrível e “rápida
serpente”.
(1) O “leviatã”. No conceito dos sábios orientais, podia se referir a um
monstro que se representa sob a forma de crocodilo, segundo a mitologia
fenícia, cujo poder era invocado pelos magos. Faraó, rei do Egito, é de
nominado de dragão por Deus que fala: “Eis-me contra ti, ó Faraó, rei do
Egito, grande dragão, que pousas no meio dos teus rios...” (Ez 29.3). O mo
narca Nabucodonosor é também mencionado da mesma forma: “...como
A Q u ed a d o H o m e m 77
dragão me tragou” — quando Israel fala e as demais nações (Jr 51.34).
O significado de tudo isso, era a voracidade e crueldade destes monarcas
que escravizavam e oprimiam a todos que por eles fossem alcançados. No
presente estudo, porém, está em foco “...a antiga serpente, chamada o dia
bo e Satanás, que engana todo o mundo”. Na mitologia grega esta figura
sombria já era bastante conhecida, e em alguns lugares é a conhecida “ser
pente sedutora, mãe das trevas, que é um cão de fogo horroroso”. Foi este
terrível ser que, personificadonuma serpente, enganou a pobre mulher (Gn
3.1; 2 Co 11.3; 1 Tm 2.14; Ap 12.9). Existem muitas discordâncias entre
os comentaristas no que diz respeito à relação existente entre Satanás e a
serpente que tentou o primeiro casal no jardim do Éden. Era aquela serpen
te um animal qualquer? Era uma serpente especial? Ou era aquela serpente
o próprio Satanás? Foi ela apenas um instrumento usado pelo Maligno? É
afirmado por Matthew Pool eminente comentador da antiguidade, que o ar
tigo definido em Gênesis 3.1, é enfático e por isso se refere a uma serpente
especial. E, no hebraico é “hannachash”, isto é, “esta serpente”, ou “essa
serpente”, significando uma personificação do próprio Satanás (Ap 12.9).
Na mitologia grega era conservada uma imagem desta serpente, chamada
“serpente mãe das trevas”. Aquela serpente podia ser um animal ordinário,
mas que naquele episódio fora totalmente possuída por Satanás que falara
‘nela’ e por ‘ela’. Podia ser também um ser especial que era apenas uma
agência na qual Satanás era o agente. Poderia ser também o próprio Inimi
go que se disfarçará em forma de uma serpente, em razão de que a mulher,
talvez, já estivesse bastante familiarizada com este tipo de animal. Seja
como for o sentido correto, Satanás ali estava presente. Em 2 Coríntios
11.1-15, Paulo parece querer ligar aquela serpente como sendo o próprio
Satanás. Enquanto que João em Apocalipse 12.9, segue esta mesma linha
de pensamento do apóstolo. Pelas imposições de Deus à serpente, parece
tratar-se de um animal ordinário que servira apenas como sendo um instru
mento de Satanás. Contudo, quando lemos Gênesis 3.15, parece ser ela o
próprio Satanás.
5o. O quinto degrau foi descido pela mulher. O da concupiscência. Eva
agora, longe do esposo, com a mente desprotegida, toma-se presa fácil
para a serpente, que já se encontrava ao seu redor. Seu primeiro erro foi
aceitar o diálogo com o tentador. Ela não devia ter respondido sua insinu-
ante pergunta, quando esta perguntou-lhe: “É assim que Deus disse: Não
comereis de toda a árvore do jardim?” (v. 1). A mulher, então aceitou o
diálogo e a serpente lhe apontou à árvore desejada, dizendo: “certamente
não morrereis”. A proibição de Deus para com vocês é de competitividade.
78 A D o u t r in a do P e c a d o
A serpente falou. É “Porque Deus sabe (mas não revelou a vocês — disse-
lhe, parafraseando) que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos
olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (v. 5). Costumamos
dizer que o peixe morre pela boca. Mas isso não é correto. O peixe é atraído
pelos olhos. São seus olhos que veem a isca que ao pegá-la, encontra nela
o anzol mortal. Assim, também aconteceu aqui, do ponto de vista divino de
observação. A pergunta do tentador despertou a concupiscência no coração
da mulher. Eva foi conduzida pela cobiça dos olhos (Gn 3.6,7). Ela desviou
seus pensamentos das proibições do Criador e seus olhos, agora sem a prote
ção divina, foram levados para o campo do engano. Toma-se extremamente
perigoso para o cristão, quando seus olhos se transformam em “olhos que
zombam”, o resultado é a morte (Pv 30.17). A combinação dos fatos passou
a ter espaço e a se combinarem entre si em cada detalhe, a saber:
(I) A concupiscência dos olhos. “Vendo a mulher que aquela árvore era boa
para se comer” (Gn 3.6a). Em 1 João 2.16, isso é retratado como a “concu
piscência dos olhos”. Mas até aí, o pecado ainda não tinha sido concebido
e por cuja razão não tinha gerado a morte (Tg 1.14,15).
(II) A concupiscência da came. “Que aquela árvore era boa para se comer”
(Gn 3.6). O leitor deve observar na mesma citação de João 2.16, a segunda
parte da interpretação, quando lemos “a concupiscência da came”.
(III) A soberba da vida. “E árvore desejável para dar entendimento” (Gn
3.6). Aqui, porém, vem a complementação em Tiago 1.15, que diz: “De
pois (foi de fato o que aconteceu), havendo a concupiscência concebido, dá
à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte”. Sendo que em
grau supremo trouxe ao casal “a soberba da vida” (1 Jo 2.16).
6o. O sexto degrau foi descido pela mulher. A mulher replicou e debateu
com o caluniador. Ela demonstrou haver compreendido as palavras de seu
Criador em Gênesis 2.16,17. Contudo, a mulher não fugiu da tentação indo
para onde estava Deus ou até mesmo seu marido. Ela não fez isso. Pelo
contrário, foi cedendo pouco a pouco aos ardis de Satanás, até ficar com
pletamente dominada pelo desejo de fazer aquilo que ele tinha lhe orien
tado. Assim, lamentavelmente, ela foi enganada pela insinuante e sombria
serpente. (Gn 3.13; 1 Tm 2.14). A tentação quando aparece, parece inofen
siva, mas no seu desfecho final seu aspecto é sempre sombrio e tenebroso.
Ela sempre apresenta na sua face encantadora um resultado compensatório,
mas o seu final é amargo. Um de seus aspectos encontra-se descrito em
Provérbios 16.25 que diz: “Há caminho, que parece direito ao homem, mas
o seu fim são os caminhos da morte”.
A Q ueda d o H o m e m 79
7o. O sétimo degrau foi descido pela mulher. Ou por falta de cuidado ou tal
vez muito empolgada de se encontrar conversando com a serpente, pois até
então, além de seu marido e Deus, ela não tinha ainda conversado com ne
nhum outro ser falante, Eva falsificou um pouco a Palavra de Deus, quando
deixou de lado “todas” e “livremente”, substituindo-as com as frases: “nem
nele tocareis”. O assunto em foco deve ser confrontado com aquilo que se
depreende de Gênesis 2.17; 3.2. Neste contexto, segundo se lê, entende-
se claramente que a mulher acrescentou as palavras “nem nele tocareis”.
Aqui, portanto, vemos mais uma vez a comunicação das Escrituras que,
em Apocalipse 22.18,19, tira o direito daquele que acrescentar ou diminuir
as palavras de Deus, dizendo: “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir
as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma
coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro. E, se
alguém tirar quaisquer palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua
parte da árvore da vida, e da cidade santa, que estão escritas neste livro”.
Eva acrescentou em parte as palavras de Deus, quando disse: “dela (da ár
vore) não comerás”. Ela cita a primeira parte, e depois acrescenta dizendo
que Deus tinha falado “nem nele tocareis”. O resultado foi perder o direito
à “Árvore da Vida” e sua permanente presença no paraíso, que era também
como a cidade santa de Deus. A mulher também abrandou as palavras “cer
tamente morrerás”, para “que não morrais”.
8o. O oitavo degrau descido pela serpente. É fascinante observar as es
tratégias do tentador. Primeiramente, isolou Eva de Adão. Tirou do casal
a possibilidade de fortalecimento mútuo para a escolha do bem (cf. Hb
10.24,25). A seguir, lançou dúvidas sobre a motivação de Deus: não teria
Deus uma intenção egoísta naquela restrição (Gn 3.4)? Em seguida, o ten
tador contesta o que Deus dissera. Deus advertira acerca da morte, mas o
tentador declarou o contrário “isso não é verdade!”. Agora duas posições
opostas estavam diante deles, e teriam de fazer a escolha. O tentador tam
bém chamou a atenção de Eva para objetos desejáveis, artifício comum
chamado de ‘ética situacionista’. O tentador também lhe apresentou as van
tagens: “Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos
olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gn 3.5). Em último
lugar, o tentador apelou para os sentidos. O fruto da árvore era agradável
ao paladar. Era agradável aos olhos e desejável para o entendimento (Gn
3.6). Seduzida pelo tentador, Eva tomou sua decisão. Rejeitou confiar em
Deus e em sua sabedoria e, como o tentador lhe propôs, decidiu seguir a
própria vontade e rejeitar a de Deus. Em seguida, ofereceu o fruto a Adão,
que também o comeu. Então ambos pecaram!3
80 A D o u t r in a d o P e c a d o
Vemos, portanto, que a serpente apresenta um quadro diferente daquilo que
Deus é. Deus não pode ser acusadode mentir, porque isso é contra a natu
reza do seu ser. “Deus não pode mentir” (Tt 1.2). Mas a serpente fez uma
aberta negação do castigo devido ao pecado, e formulou uma acusação
contra Deus de haver proferido mentira. Deus tinha dito que “certamente
morrerás”, a serpente disse “certamente não morrereis (Gn 2.17; 3.4); tal
afirmação da serpente continha pura acusação. O caluniador acusou Deus
de egoísmo, inveja e a firme resolução de degradar suas criaturas e dominá-
las, quando usa as expressões: “Porque Deus sabe que no dia em que dele
comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem
e o mal” (cf. Gn 3.5).
9o. O nono degrau foi descido pela mulher. A mulher agora desvia sua aten
ção daquilo que Deus tinha falado, e passa a crer nas palavras do tentador.
Ela ainda não sabia se aquela árvore era boa ou não para se comer. Seu
fruto tanto podia ser doce, saboroso ao paladar, como ser amargo, e sem
sabor para satisfação do gosto humano. Ela viu que a árvore era boa para
se comer, ficou, cremos, entusiasmada. E além do mais, aquela árvore além
de agradável aos olhos, era a “árvore desejável para dar entendimento”, o
que levou-a a ceder (2 Co 11.3; 1 Tm 2.14). Ela bem podia ter resistido à
sombria serpente “firme na fé”, e, sem dúvida alguma, ela tinha fugido para
seu mundo de trevas (Tg 4.7). Mas, isso, ela não fez; então o fracasso foi
inevitável (alterado).4
10°. O décimo degrau foi descido pela mulher. Novamente a mulher conti
nua em ação, nesta trajetória do fracasso. Qualquer ser humano tem por op
ção o direito de dizer: sim ou não. Mas a mulher não relutou pela segunda
opção ao dizer não! Nesse caso, ela teria, com efeito, quebrado a seqüência
da tentação, tomado-se vencedora. Com efeito, porém, obedecendo a voz
do tentador, ela “tomou do seu fruto, e comeu” (Gn 3.6). A mulher cedeu,
sendo enganada, e assim caiu em transgressão (2 Co 11.3; 1 Tm 2.14,15).
11°. O décimo primeiro degrau foi descido pela mulher. A ordem de não
comer do fruto proibido, tinha sido originalmente dado a Adão. Parece que
Eva quando comeu do fruto, não sentiu, aparentemente falando, nenhuma
mudança de caráter e nem no seu ser. Ela, então, assume agora a “posição
de tentadora”. Toma do fruto e diligentemente procura seu marido, o que
devia tê-lo feito antes, até encontrá-lo. Quando o encontrou, parece ter lhe
dito primeiro, isto é, antes de lhe dar o fruto, que ele (o fruto) era, um fruto
da árvore do conhecimento do bem e do mal. Depois “deu também a seu
marido, e ele comeu com ela”. Ao dizer a seu marido que aquele fruto, era
A Q u ed a d o H o m e m 81
de fato o fruto proibido, Adão ficou consciente de que fato o era. Além da
informação dada por sua mulher, ele tinha também conhecimento daquela
árvore e de seu fruto. Ele bem que podia tê-lo recusado e ter procurado aju
da junto a Deus para si e para sua esposa. Isto é, perdão para ela e proteção
para si mesmo. Se ele tivesse seguido nesta direção, teria evitado tamanha
catástrofe sobre ele e a humanidade (Rm 5.12, 16-19). Seu ato de desobe
diência fez tanto o pecado como a morte, se tomarem extensivos a todos
os homens. Paulo diz que pelo pecado veio a morte, e que a morte passou
a todos os homens. Depois declara o apóstolo, que a morte passou a reinar
“sobre aqueles que não pecaram á semelhança da transgressão de Adão, o
qual é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5.14).
12°. O décimo segundo degrau descido por Adão. Ele deu ouvidos à voz de
sua mulher, e comeu da árvore proibida que Deus tinha lhe ordenado para
que não comesse. Paulo diz séculos depois, que esta atitude de Adão foi
puramente consciente e, que apenas sua mulher tinha sido enganada, mas
ele comeu sabendo que aquele fruto era de fato o fruto proibido, que fazia
separação entre a obediência e a desobediência. Então ele escreve: “Porque
primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a
mulher, sendo enganada, caiu em transgressão” (1 Tm 2.13,14).
b) Termina o estado de inocência e começa o estado de consciência. Ve
jamos as duas dispensações sucessivas que marcaram a vida de Adão e de sua
esposa ‘antes’ e ‘depois’ do pecado:
I o. A dispensação da inocência. Esta dispensação teve início na criação —
embora alguns tenham pensado que ela se iniciou quando apenas existia
o Deus Trino e Uno. Ela se estende até a queda de Adão e de sua espo
sa no jardim do Éden. O tempo de sua duração não nos foi revelado. Ela
foi quebrantada em Gênesis 3.7, contudo, seu poder de ação terminou em
Gênesis 3.24, com a expulsão do casal do Éden. As exigências, a serem
cumpridas pelo casal ficam explícitas na aliança edênica que Deus fez com
eles. Tais exigências eram as seguintes: multiplicar-se, frutificar-se, encher
a terra, sujeitá-la e exercer domínio sobre o mundo animal. Acrescentam-
se mais três: duas ligadas ao dever e a outra proibitiva (Gn 1.28; 2.15-17).
Um estudo cuidadoso mostra-nos que, Adão e sua esposa não cumpriram
nenhuma dessas ordens recebidas antes de pecarem. A fase de transição da
dispensação da inocência para a da consciência, deu-se em Gênesis 3.7,
quando se diz que ‘foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que
estavam nus’.
82 A D o u t r in a d o P e c a d o
2o. A dispensação da consciência. Com a queda do homem tem início a
dispensação da Consciência. Esta dispensação durou cerca de 1656 anos:
isto é, de “0” a 1656 a.C. Ela começou com a expulsão do casal ali do Éden
e vai até o Dilúvio. O homem agora estava capacitado para discernir tanto
o bem como o mal. Devia, portanto, mostrar seu amor a Deus, escolhendo
o caminho da obediência e abster-se de todo o mal que lhe cercava. Nela, o
homem devia aproximar-se de Deus por meio de sacrifícios, cujas formas
e significações tinham sido recebidas do próprio Criador. Eles (Adão e sua
mulher) passaram da dispensação da inocência para a dispensação da cons
ciência. Tal procedimento se deu no momento que os olhos de ambos foram
abertos (Gn 3.7). Doravante tanto o homem como sua mulher passaram a
ter conhecimento da linha divisória entre o bem e o mal. O próprio Deus fa
lou para eles e para toda a humanidade, dizendo: “Eis que o homem é como
um de nós, sabendo o bem e o mal; ora, pois, para que não estenda a sua
mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente (na mi
séria)” (Gn 3.22). Esta dispensação termina com o Dilúvio (Gn 6.5,13).
2. O sofrimento do homem — ele contraiu a morte. Além do sofri- -
mento laborioso causado pelo pecado, o homem também contrai para si quatro
gêneros de morte. A morte que aquela árvore trazia em si, não era simplesmen
te a morte física, separando a alma do corpo e vice-versa. Ela trazia um sentido
mais vasto e mais profundo. Deus advertiu, dizendo: “...da árvore da ciência
do bem e do mal, dela não comerão; porque no dia em que dela comeres, cer
tamente morrerão” (Gn 2.17). Lamentavelmente, esse dia chegou. Doravante a
morte começava a reinar em quatro dimensões da existência:
a) A morte moral. Adão e sua esposa esconderam-se da presença da san
tidade divina quando ouviram a voz do Senhor que passeava no jardim pela
viração do dia, porque conheceram que estavam nus. Adão alegou a Deus di
zendo: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e me escon
di” (Gn 3.10). Fisicamente falando, tanto Adão como sua esposa não estavam
mortos. Eles continuavam a viver e somente 930 depois é que Adão veio a
experimentar a morrer. O problema aqui era de ordem moral. O homem agora
encontrava-se morto ao olhos de Deus quando este o inquiriu do ponto de vista
moral (cf. Gn 20.3).
b) A morte física. Com o pecado de Adão no jardim do Éden, a morte por
ele contraída passou a ser uma espécie de veículo transmissor. Partindo de um
só homem (Adão), ela passou a atingir todos os seres humanos. Até mesmo
A Q u e d a d o H om em 83
aqueles que não pecaram à semelhança de Adão. É isso que o apóstolo Paulo,
quando discorria sobre a natureza do pecado,disse: “Pelo que, como por um ho
mem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte
passou a todos os homens, por isso que todos pecaram” (Rm 5.12). Doravante a
sentença de morte passou de Adão aos seus descendentes. Assim “aos homens
está ordenado morrerem uma vez vindo depois disso o juízo” (Hb 9.27b). A
conclusão de tudo isso é o que diz Eclesiastes: “um só pecador destrói muitos
bens” (Ec 9.18b). A vida, portanto, foi um destes bens — lamentavelmente!
c) A morte espiritual. Este gênero de morte mostra o estado do pecador
antes de aceitar Jesus como Salvador. Paulo falou para os crentes de Efeso
que, mesmo eles estando vivos fisicamente falando, encontram-se “mortos em
ofensas e pecados” (Ef 2.1). Este tipo de morte ainda não é a morte eterna que
afasta toda e qualquer possibilidade do homem ser salvo. Ela apresenta um
estado intermediário entre a salvação e a perdição da pessoa humana. Contu
do, se o homem não optar pela salvação em Jesus, enquanto viver, esta morte
espiritual intermediária pode conduzi-lo à segunda morte, que é a morte eterna,
a qual caindo em suas garras, o homem perde toda a possibilidade de ser salvo
ou de alcançar o caminho da redenção.
d) A segunda morte. A segunda morte refere-se à destruição eterna de que
a pessoa sem Deus pode nela cair. Ela aponta para o estado eterno e perma
nente de um lugar onde quem a ele chegar permanecerá numa existência triste
e inativa. Em Apocalipse, encontramos, em vários lugares, referências sobre a
“segunda morte” (Ap 2.11; 20.6,14; 21.8), sendo destinada aos vencidos, mas,
que dano algum causará aos vencedores. Lamentavelmente, aqueles que vive
ram sem Deus e o temor que lhe é devido, somente irão herdar a segunda morte
como recompensa de sua vida dissoluta. Ao contrário daqueles que viveram e
morreram na esperança da redenção de Jesus. Estes herdarão a vida eterna e o
direito de comerem da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus,
plantado na cidade celestial.
I I I . A Q u e d a d o H o m e m e o C u id a d o d e D e u s
1. O cuidado de Deus (do lado humano) pelo casal. Embora criados
em estado de perfeita felicidade e em constante contato com Deus, Adão e sua
mulher transgrediram a única proibição recebida. O primeiro efeito sensível
do pecado foi a revolta das faculdades inferiores que se manifestou pela ver
gonha de sua nudez. Por isso fizeram tangas de folhas de figueira e procuraram
84 A D o u t r in a do P e c a d o
esconder-se da presença de Deus. Flávio Josefo, historiador judeu do século I
d.C., afirma que o fator principal que levou a serpente a tentar o casal, a fim de
destruí-lo, foi a inveja. Assim ele descreve: “A serpente estava muito acostu
mada com Adão e Eva. Como sua malícia a fizesse invejar a felicidade de que
deviam gozar, se observassem a ordem de Deus e julgassem-na, que ao contrá
rio, eles seriam vítimas de todas as desgraças, se desobedecessem, persuadiu a
Eva a comer o fruto proibido. Para melhor induzi-la, disse-lhe que ele continha
virtude secreta que dava o conhecimento do bem e do mal e que se seu marido e
ela comessem dele, seriam tão felizes como Deus. Assim, ela enganou a mulher
e esta desprezou a ordem de Deus, comeu do fruto, alegrou-se por tê-lo feito
e induziu Adão a comê-lo também. Ao, como era verdade que esse fruto dava
grandíssimo discernimento, eles logo perceberam que estavam nus e tiveram
vergonha: tomaram folhas de figueira para se cobrirem e se julgaram mais feli
zes do que antes, porque conheciam o que até então tinham ignorado”.5
a) Deus argui o casal. Ao ser arguido por Deus, Adão alegou como descul- l-
pa o procedimento de Eva que, por sua vez, lançou a responsabilidade sobre
a serpente. Mas em todo esse drama, podemos observar o grande cuidado de
Deus em procurar o homem e sua mulher, mesmo depois do fracasso. Cer
tamente havia no Jardim um lugar de encontro entre Deus e o casal. Agora,
quando pela “viração do dia”, Deus ali chegando não os encontrou como das
outras vezes. Adão confessa que de fato, ouvira a voz do Criador, mas fugiu
com medo por entre as árvores a fim de se esconder (Gn 3.8).
Io. O interesse de Deus em salvar a Adão e sua esposa. Em todo o passo
da narrativa de Gênesis 3, especialmente os w . 7-15, vemos o interesse de
Deus em salvar o homem com sua mulher. Ao castigá-los, manifestou Deus
sua misericórdia com a promessa de um Redentor. Mesmo sabendo que o
homem e sua mulher tinham fracassado, Deus os procura como um pai
compadecido. Primeiro o chamou, dizendo: “Onde estás?” (v. 9). Adão lhe
respondeu que se encontrava distante. Isto é, distante da santidade divina.
Ele, com sua esposa, tinham perdido o elo de comunhão que desfrutavam
ao lado de Deus, especialmente, na “viração do dia” (v. 8). Mas agora o
casal se encontrava do lado oposto e Deus não podia ir para lá. Agora, Deus
põe seu plano em ação. Plano este que já se encontrava preparado “desde a
fundação do mundo”.
2o. A narração de Flávio Josefo sobre o cuidado de Deus com o casal. Josefo
diz que Deus se interessou pelo casal e procurou-o após sua queda. Ele disse:
“Deus entrou no Jardim: Adão, que antes do pecado conversava familiarmen
te com Ele, não ousou se apresentar por causa da falta que tinha cometido.
A Q u ed a d o H o m e m 85
Deus perguntou-lhe porque, em vez de sentir prazer em se aproximar dEle,
ele fugia e se escondia. Como ele não sabia o que responder, porque se sentia
culpado, Deus lhe disse: ‘Eu tinha provido tudo o que poderíeis desejar, para
viver sem penas e com prazer uma vida isenta de todo cuidado e que teria
sido ao mesmo tempo muito longa e muito feliz. Mas vós vos opusestes ao
meu desígnio, desprezastes a minha ordem e não é por respeito que vos ca
lais, mas porque vossa consciência vos acusa’. Adão, então, fez o que podia
para se desculpar, pediu a Deus que lhe perdoasse e lançou sua falta sobre a
mulher, que o havia enganado e que tinha sido a causa de seu pecado. Ela, por
sua vez, disse que fora a serpente que a havia enganado. Por isso Deus, para
castigar Adão por assim se ter deixado vencer, declarou que a terra não pro
duziria mais frutos, a não ser para aqueles que a cultivassem com o suor do
rosto e não daria, mesmo, tudo o que se poderia desejar dela. Castigou tam
bém Eva, ordenando que, por se haver deixado enganar pela serpente, tinha
atraído tantos males sobre seu marido, ela teria filhos com dor e sofrimento.
E, para castigar a serpente pela sua malícia, condenou-a a rastejar pela terra;
declarou que ela seria inimiga do homem. Depois que Deus lhes impôs, a
todos, o devido castigo, expulsou Adão e Eva desse jardim de delícias”.6
b) Deus cria um elo de ligação entre Si e o casal. Deus como Criador,
usando de sua misericórdia, cria um elo de ligação entre Si e o casal, que tinha
sido partido. Entretanto, o plano que Ele tinha preparado, incluía a morte de
seu Filho unigênito, pois somente através dele e por meio dela, seria, então,
restaurado o elo de comunhão entre Deus e o homem. Não havia outro caminho
intermediário para que isso pudesse acontecer; visto que “há um só Deus, e um
só Mediador entre Deus e o homem, Jesus Cristo homem”, quer dizer: humani
zado (1 Tm 2.5). Então surge dos lábios de Deus a promessa do Redentor. Agora
o Senhor disse: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e
a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (v. 15). Esta
promessa divina não só trouxe esperança para o coração de Adão e sua espo
sa, mas por extensão, para toda a humanidade. Pois, evidentemente, “Vindo a
plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob
a lei, para remir os que estavam debaixo da lei...” (G14.4,5). Cristo, tomou-se,
portanto, o meio primordial da salvação da pessoa humana. Ele “foi feito por
Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção”, para remir os que estavam
debaixo da lei divina e da lei do pecado, entre os quais, Adãoera um deles.
c) Deus veste o casal. O primeiro efeito sensível do pecado foi, que, o
casal sentiu a fragilidade de sua nudez. Esta se manifestou pela vergonha que
86 A D o u t r in a d o P e c a d o
a falta das vestes lhe causara. Por isso Adão e sua esposa coseram folhas de
figueira, e fizeram para si aventais. Aqui, está novamente a presença de Deus,
manifestando sua misericórdia em relação ao casal que acabara de perder suas
vestes espirituais, por causa do pecado. Agora, novamente há um ato bondoso
de Deus em cobrir a nudez do casal, conforme está descrito pelo escritor sagra
do: “E fez o Senhor Deus a Adão e a sua mulher túnicas de peles, e os vestiu”
(v. 21). Para que isso acontecesse foi necessário que um cordeiro ou cordeiros
fossem mortos ali; a morte daquele animal inocente, apontava para a morte de
Cristo, 0 Cordeiro de Deus, que por meio de sua expiação cobre toda a nudez
espiritual, e no sentido moral, influi também contra a nudez propositada do ser
humano (Ap 3.17,18).
d) Deus estabelece um novo lar para o casal. Após dar ao homem e sua
mulher várias instruções, Deus agora, permite a eles que morem na terra e con
duzam consigo aquela mesma promessa que receberam antes de pecar, quando
Ele disse: “Frutificai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a...” (Gn 1.28). Embora
tenha os lançado fora do Jardim, Deus ordenou a Adão que ele cuidasse da ter
ra e que dela extraísse o seu sustento para si e para sua prole. Assim diz o texto
divino: “O Senhor Deus, pois, o lançou fora do jardim do Éden, para lavrar
a terra de que fora tomado” (Gn 3.23). Nos versículos 17-19 que temos aqui
nesta seção, Deus impõe à Adão e a sua mulher os castigos de suas culpas.
I o. Para Eva Deus disse: “Multiplicarei grandemente a tua dor. e a tua con
ceição; com dor terás filhos; e o teu desejo será para o teu marido, e ele te
dominará”.
2o. Para Adão Deus disse: “Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e
comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela; maldita
é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.
Espinhos, e cardos também, te produzirá, e comerás a erva do campo. No
suor do teu rosto comerás o teu pão, até que te tomes à terra”.
Nestes trechos que acabamos de ler, vemos o cuidado por parte de Deus, ins
truindo a Adão e sua mulher à procriação e sua sobrevivência. Isso, sem dúvida,
mostra proteção divina para a vida de ambos com promessas para o fúturo.
e) Deus dá semente à Eva. O aguilhão da morte que é o pecado, não teve
poder de destruição sobre a fertilidade de Adão e Eva. Deus quando os criou,
os declarou fecundos (Gn 1.28). Agora, mesmo depois do fracasso de ambos,
Ele cumpre a sua promessa e promete semente a mulher, dizendo: “E porei ini
mizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá
A Q u ed a d o H o m e m 87
a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Todos os estudiosos da Bíblia
sabem que esta promessa de Deus feita à Eva no Jardim, se refere a Cristo.
Ele seria, portanto, a semente da mulher que num futuro distante, no calvário,
esmagaria a cabeça da serpente, que é Satanás.
2. O cuidado de Deus (do lado espiritual) pelo casal. Alguns co
mentaristas sustentam que, com o perdão divino outorgado a Adão e sua es
posa, a imagem de Deus foi sendo recuperada progressivamente no homem.
O processo completo, se dando, portanto, com a vinda de nosso Senhor Jesus,
como sendo o “último Adão”, “o qual é a imagem do Deus invisível, o pri
mogênito de toda a criação” (Cl 1.15). Agora, em Cristo “todos nós, com cara
descoberta, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transforma
dos de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (2
Co 3.17,18). Foi o que Paulo, falou para os coríntios, quando disse: “E, assim
como trouxemos a imagem do terreno (Adão), assim traremos também a ima
gem do celestial — Cristo” (1 Co 15.49). Assim, a imagem de Deus perdida em
Adão, é por conseguinte, restaurada em Cristo e por Cristo, que é a “imagem
de Deus”. Doravante, se “alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas ve
lhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5.17). Contudo, esta restaura
ção e transformação total dum velho homem para um novo homem, é feita pelo
próprio Deus, por meio de Cristo. “Porque os que dantes conheceram também
os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8. 29a).
a) Adão fo i salvo? Sobre este ponto de vista que diz respeito a salvação
de Adão e também a salvação de sua esposa, abordaremos vários pontos, que
nos levarão a uma melhor compreensão do significado do pensamento. Com
a promessa de Deus feita à mulher no Éden, abriu-se o caminho da redenção.
Cristo ainda não tinha morrido, fisicamente falando, no calvário, mas no eterno
querer de Deus, Ele já tinha sido imolado, desde a fundação do mundo. Adão
e sua esposa receberam as instruções de Deus, no tocante a isso, para que
pudessem ensinar a sua prole, ou seja, as gerações futuras. Assim, podemos
deduzir que, no tocante a salvação de Adão depois de seu fracasso, há possibi
lidades que apontam para esta direção. As Escrituras mostram todas as provas
e evidências desse delito; porém, ao mesmo tempo, mostram serem elas fracas
e insuficientes quando comparadas ao supremo sacrifício de Cristo como pro-
piciação dos pecados. Nesse sacrifício, existe por parte de Deus uma oferta,
oferecida a todos; e, a morte de Cristo, desde a fundação do mundo, deve ter
sentido especial. E Deus oferece uma oportunidade para todo aquele que crê no
valor expiatório da morte de Cristo. Se Cristo já tinha morrido no eterno querer
A D o l t r in a do P e c a d o
de Deus, desde a fundação do mundo, que antecede a criação de Adão e de sua
mulher, esta oferta por parte de Deus já se encontrava em evidência quando
o homem pecou. Jesus, durante sua vida terrena, mostrou o grande perigo de
sua rejeição, dizendo: “Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados,
porque, se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados” (Jo 8.24).
Certamente desde os tempos imemoráveis, quando somente existia o Deus Tri-
no e Uno, Cristo já era parte do plano divino na obra da redenção. Em o Novo
Testamento, Jesus retratou a vida humana ideal como a vida de comunhão com
Deus. Jesus localiza a “fonte” do pecado no íntimo dos homens. Dessa maneira
Jesus aprofundou muito o senso da culpa. O padrão elevadíssimo de sua própria
vida tomou-se a medida da obrigação humana, e, ao mesmo tempo, o critério
do julgamento contra o “pecado” nas três divisões maiores da pessoa humana:
espírito, alma e corpo. Mas, mostrou que sua redenção é completa para justificar
o homem no seu todo dando-lhes a promessa da vida presente e da que há de
vir. No caso de Adão e de sua mulher não existe exceção por parte de Deus; e,
existem vários pontos que nos levam a aceitar a redenção de Adão, mesmo que
estes não apresentem maiores esclarecimentos no tocante a isso, mas podem
ser analisados através do método de dedução, quando estes são visualizados no
contexto da misericórdia divina. Analisaremos alguns destes pontos e depois
chegaremos a uma conclusão dentro do nosso próprio raciocínio.
Io. A genealogia de Jesus — ligando-o a Adão. Este argumento aponta para
a genealogia que liga Adão a Cristo. Ela é a genealogia da humanidade que
fora feita por Lucas em seu Evangelho. Diferente da de Mateus 1, que é
puramente judaica — começando por Cristo, passando por Davi e desce até
Abraão. Agora, ligaremos a palavra “filho de...” partindo de Cristo e indo
“até” a Adão — onde se diz que ele é “filho de Deus”. “E o mesmo Jesus co
meçava a ser de quase trinta anos, sendo (como se cuidava) filho de... Adão
e Adão de Deus” (Lc 3.23, 38). O pecado é a falta de comunhão. Adão per
deu esse elo entre si e Deus, quando desobedeceu sua ordem divina; entre
tanto, Deus o procurou para lhe mostrar “o caminho da cruz de Cristo” (Gn
3.15). Cremos que na mente de Adão e desua mulher, soava constantemente
o som das palavras do Criador com respeito a esta promessa, que envolvia
a “semente da mulher” que era Cristo. Então Adão entendeu que, aquela
“semente” era divina; mas que do ponto de vista humano de observação,
ela seria cumprida por intermédio dele e de sua mulher, através da sucessão
das famílias nas gerações que se seguiam, que lhe levou evidentemente, a
procurar orientar seus filhos nos retos caminhos do Senhor (Gn 4.4, 26).
2o. A pureza de Cristo com relação a Adão. Então aqui, agora surge a per
gunta feita e respondida pela própria Bíblia: “Quem do imundo tirará o
A Q u ed a d o H o m e m 89
puro? [é a pergunta]: agora vem a resposta: Ninguém” (Jó 14.4). Cristo
quando se humanizou, ligou sua origem humana a origem da humanidade.
Sua genealogia desce de Maria até Davi; e de Davi até Abraão. Mas não
para aí; ela segue de Abraão até Adão, onde esse se liga diretamente como
“filho de Deus”. Nesse caso, se Adão depois de sua queda, não tivesse
alcançado a redenção divina por parte de Deus — com base já no sacrifício
de Cristo, jamais nosso Senhor viria de tal pessoa, visto que Adão seria
“imundo” e não poderia ligar sua descendência a Cristo que é “puro”.
3o. A confissão de Adão. A Bíblia diz em Provérbios 28.13: “O que encobre
as suas transgressões, nunca prosperará, mas o que confessa e deixa, alcan
çará misericórdia”. Em Jó 31.33, se declara que Adão a princípio “encobriu
suas transgressões, ocultando o seu delito no seu seio” [parafraseado], mas
depois as Escrituras revelam — ali mesmo em Gênesis 3, que quando foi
arguido por Deus, Adão confessou que de fato tinha comido do fruto, indu
zido pela mulher. Nesse sentido ele confessa suas transgressões e as deixa.
Nunca mais ele entraria no Jardim para comer novamente daquele fruto
proibido. Abrindo-se assim o “caminho”, para que o mesmo alcançasse
misericórdia.
4o. Cristo morreu por todos. Jesus Cristo, o Filho eterno de Deus, veio ao
mundo, porque todos pecaram e destituídos ficaram da glória de Deus. As
sim, as Escrituras declaram que “todos pecaram”, isto é, por meio de Adão
todos foram atingidos pelo pecado. Também se adianta que o salário do
pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por meio de
Jesus nosso Senhor (Rm 6.23). Doravante, por meio de Cristo Jesus, eviden
temente, todos podem ser salvos. Cristo quando veio a este mundo, veio por
causa dos homens; e, quando morreu, morreu em favor de todos os homens.
A Bíblia afirma que Ele “morreu por todos, para que os que vivem não
vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2
Co 5.14); doravante, diz Paulo em 1 Coríntios 15.22: “Porque, assim como
todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo”.
A condição imposta por Deus em todo este processo, é somente crê que Je
sus Cristo é seu Filho, e que Ele é “o caminho, e a verdade e a vida”, e que
ninguém poderá entrar no céu, a não ser por meio de Jesus Cristo e de sua
morte na cruz. Fora disso, não existe nem caminho para o céu e nem nome
para redenção, Cristo é o único “mediador” entre Deus e os homens.
5°. A sabedoria de Deus. A sabedoria do Criador exige que Ele não destrua
sua obra; o arquiteto não constrói para demolir; e, o prazer de Deus, de
acordo com sua natureza e seus princípios eternos, era, com efeito, não ver
9 0 A D o u t r in a do P e c a d o
sua obra destruída e sendo lançada para “o nada da existência”. A Bíblia do
começo ao fim, fala do pecado de Adão; mas jamais falou uma vez sequer
em termos reais de sua perdição eterna. Não devemos arranjar uma “salva
ção qualquer” para Adão; mas seu caso é diferente do de Judas Iscariotes,
que era “um filho da perdição”; e, portanto, devemos olhar seu caso por
uma outra ótica embasada na misericórdia daquEle que o criou.
6o. Adão era uma figura de Cristo. Adão era uma figura daquele que ha
via de vir. “No entanto a morte reinou desde Adão até Moisés, até sobre
aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, o qual
é a figura daquele que havia de vir” (Rm 5.14). Em 1 Coríntios 15.45-49,
Paulo faz uma comparação entre Adão e Cristo, dizendo: “Assim está tam
bém escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente: o último
Adão [Cristo] em espírito vivificante. Mas não é o primeiro o espiritual,
senão o animal; depois o espiritual. O primeiro homem, da terra, é terreno;
o segundo homem [Cristo], o Senhor, é do céu. Qual o terreno, tais são
também os terrenos; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim
como trouxemos a imagem do terreno, assim traremos também a imagem
do celestial”. Ora, jamais o Espírito Santo, inspiraria a Paulo para tal ilus
tração entre Cristo e Adão se este tivesse permanecido na perdição eterna,
sem retomo à misericórdia de Deus. Como seria então permitido se dizer:
“Adão... é a figura daquele que havia de vir”, isto é, Cristo.
7o. A glória que se havia de revelar. Na sua Oração Sacerdotal, em João 17,.
Jesus orou em três partes, a saber:
(I) Orou por Si mesmo (w. 1 -8).
(II) Orou pelos seus discípulos (w. 9-19).
(III) Orou por aqueles que viriam a serem salvos, do Pentecostes ao arre-
batamento (v. 20).
Quando Jesus orava ao Pai por Si mesmo, fazia menção da glória divina
com a qual o Pai o glorificou “antes que o mundo existisse” (vv. 5,24).
Esta glória era ligada à redenção e, por extensão, ligada diretamente ao
amor divino, que aqui está em foco. Quando Deus criou o casal, o envol
veu com esta glória; por esta razão “ambos estavam nus, o homem e sua
mulher, e não se envergonhavam” (Gn 2.25). Eles perderam esta glória
que os cobria como um manto de santidade. Contudo, através da semente
da mulher (Cristo), esta glória novamente poderia alcançá-los, e eles pela
fé, puderam vê-la num futuro distante. Ela é a glória que se havia de re
velar (cf. 1 Pe 5.1).
A Q u ed a d o H o m e m 91
8o. Um casamento perfeito. Quando Jesus foi arguido pelos fariseus com
relação ao divórcio, ele toma como exemplo de união perfeita, Adão e sua
mulher, dizendo: “Não tendes lido que aquele que os fez [Adão e Eva] no
princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto deixará o homem pai e
mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só came?” (Mt 19.4,5).
Estas palavras de Jesus nos levam a entender que, no lar de Adão e sua
esposa, mesmo depois da queda de ambos, continuou o temor seguido pela
adoração. Lemos logo a seguir que, Abel era temente a Deus, e que Enos
neto de Adão, começou a “invocar o nome do Senhor” (Gn 4.26). Isso não
podia acontecer por acaso, mas certamente foi por meio da orientação de
Adão e de sua esposa.
9o. Deus restabelece sua imagem e semelhança no homem. Em nosso pre
sente estudo, devemos ter, em nossas mentes, dois pontos fundamentais
que envolvem a “imagem” e a “semelhança” de Deus no homem, pois,
somente assim, haverá uma melhor compreensão do significado do pensa
mento e da tese principal, que aqui está em foco.
(I) A imagem de Deus. “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem,
conforme a nossa semelhança [...] e criou Deus o homem à sua imagem;
à imagem de Deus o criou” (Gn 1.26,27). O Dr. Graham Scroggie obser
va que, originalmente, aparece a “imagem de Deus”. Porquanto, esta é a
“substância espiritual da alma”. Adão fora feito à “imagem de Deus”, que
depois se apresentou como sendo um Deus santo. Portanto, o homem foi
feito à “imagem” de um santo. Mas, no caso de Sete, a ordem é invertida:
quem aparece primeiro é a “semelhança” e não “a imagem” (Gn 5.3), isto é,
Sete não trouxe a imagem do Deus Santo, quer dizer, “do homem celestial”,
mas trouxe a “imagem do terreno”, conforme descreve Paulo por amor de
seu argumento. Então ele diz: “E, assim como trouxemos a imagem do
terreno, assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15.49). Sete
não trazia mais a imagem de Deus, como originalmente trouxera seu pai,
quando Deus o criou. Mas, ao nascer, trouxe, agora, a imagem de seu pai,
quetinha se tomado um pecador. Não encontramos registrado nas Escritu
ras que o anjos, que foram criados por Deus, foram feitos de acordo com
“Sua imagem e semelhança”; embora, se assim foi, não deve existir argu
mento contrário contra esta possibilidade. Contudo, não se diz isso, ainda
que estes seres espirituais gozem de um privilégio de possuir, em si, a natu
reza da imortalidade. De todas as criaturas que Deus criara e fizera, somen
te o homem foi feito “à imagem de Deus”. Esta imagem, de acordo com
Scroggie, “é a substância espiritual da alma” e, neste caso, ela não pode ser
perdida no sentido de aniquilamento. Sua perda, aqui, portanto, é moral e
92 A D o u t r in a d o P e c a d o
não destrutiva. Assim Deus, por meio de Jesus Cristo, pode restaurar, nova
mente, sua imagem no homem, quando ele passa a fazer a sua vontade. Al
guns comentaristas sustentam que, com o perdão divino outorgado a Adão
e sua esposa, a imagem de Deus foi sendo recuperada, progressivamente,
no homem. O processo completo, se dando, portanto, com a vinda de nosso
Senhor Jesus, como sendo o “último Adão”, “o qual é a imagem do Deus in
visível, o primogênito de toda a criação” (Cl 1.15). Agora, em Cristo, “todos
nós, com cara descoberta, refletindo como um espelho a glória do Senhor,
somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo
Espírito do Senhor” (2 Co 3.17,18). Foi isso que Paulo falou para os cristãos
de Corinto, quando disse: “E, assim como trouxemos a imagem do terreno
(Adão), assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15.49). As
sim, a imagem de Deus perdida em Adão é, por conseguinte, restaurada em
Cristo e por Cristo, que é a “imagem de Deus”. Doravante, se “alguém está
em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez
novo” (2 Co 5.17). Contudo, esta restauração e transformação total de um
velho homem para um novo homem, é feita pelo próprio Deus, por meio de
Cristo. “Porque os que dantes conheceu também os predestinou, para serem
conformes à imagem de Seu Filho” (Rm 8. 29a).7
(II) A semelhança de Deus. De acordo com Gênesis 1.26, o homem foi criado
conforme à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26). O homem se asseme
lha a Deus pelo fato de possuir natureza racional e religiosa ao mesmo tempo.
A capacidade do homem a esse respeito é a origem de todo o conhecimento
científico. Ele interpreta a significação da natureza e descobre que ela traz os
sinais da razão. A palavra hebraica para “imagem” (tselem) como o termo
hebraico “semelhança” {de 'mut) se referem a algo similar, mas não idêntico
à coisa que elas representam ou aquilo de que são a “imagem”. Nesse caso, a
semelhança é o caráter moral separável da substância e, por isso, foi perdida
quando o homem pecou. Mas, pelo que parece, tanto a semelhança como a
imagem, foram restauradas por Deus, por meio do processo da santidade. O
homem compreende a Deus por motivos dos sinais de inteligência no mundo
ao redor de cada coisa existente. A razão do homem assim corresponde à
razão de Deus, dentro deste argumento e tese principal.
Aspectos específicos mostram a semelhança do homem com Deus. Sendo
feito conforme a semelhança de Deus, o homem está associado a Ele em
vários de seus aspectos, tais como:
(1) Aspectos morais. Somos criaturas moralmente responsáveis diante de
Deus por nossas ações. No que se refere à responsabilidade, temos o senso
A Q u e d a d o H o m e m 93
interior do que é certo e do que é errado, o que nos diferencia dos animais
(que possuem pouco ou nenhum senso inato de moralidade ou de justiça,
mas simplesmente respondem pelo temor de punição ou pela esperança de
recompensa). Quando agimos de acordo com os padrões morais de Deus,
nossa semelhança a Ele se reflete na conduta santa e justa diante dEle, mas,
ao contrário, nossa semelhança a Deus é refletida quando pecamos.
(2) Aspectos espirituais. Temos não somente corpo físico, mas também
espírito imaterial, e podemos, portanto, agir de maneiras significativas no
reino imaterial e espiritual em que existimos. Isso significa que temos vida
espiritual, que nos capacita a nos relacionarmos com Deus como pessoas
que somos, e também temos imortalidade: nunca cessaremos de existir,
mas viveremos para sempre.
(3) Aspectos mentais. Temos a capacidade de raciocinar, de pensar logica
mente e de aprender, o que nos separa do mundo animal. Os animais, às
vezes, exibem conduta notável em decifrar labirintos ou em resolver proble
mas no mundo físico, mas, certamente, não penetram em raciocínios abs
tratos — não há nada neles semelhante à “história da filosofia canina”, nem
temos, de forma alguma, desde a criação, quaisquer animais desenvolvidos
no entendimento de problemas éticos ou no uso de conceitos filosóficos e
coisas semelhantes. Nenhum grupo de chimpanzés jamais se assentará ao
redor de uma mesa argumentando sobre a doutrina da Trindade ou sobre os
méritos relativos do calvinismo, arminianismo e outros! De fato, mesmo no
desenvolvimento das habilidades físicas e técnicas, somos muito diferentes
dos animais. Os castores ainda constroem as mesmas espécies de diques que
vêm construindo há milhares de gerações, os pássaros ainda constroem as
mesmas espécies de ninhos, e as abelhas ainda constroem as mesmas espé
cies de colmeias. Com efeito, porém, nós, os seres humanos, continuamos
a desenvolver habilidades e complexidade cada vez maiores na tecnologia,
na agricultura, na ciência e praticamente em cada campo de trabalho. Nossa
semelhança a Deus é também ilustrada pelo uso que fazemos de linguagem
abstrata e complexa, nossa consciência do futuro distante e o espectro de
nossa atividade criativa em áreas como arte, música, literatura e ciência.
Tais aspectos da existência humana revelam as formas pelas quais diferimos
completamente dos animais, mas não simplesmente em grau. Além disso,
o grau e a complexidade das emoções humanas indicam exatamente quão
grande é a diferença entre a raça humana e o restante da criação.
(4) Aspectos relacionais. Em adição à capacidade de se relacionar com
Deus (discutida anteriormente), há outros aspectos relacionais em ser feito
9 4 A D o u t r in a do P e c a d o
à imagem de Deus. Embora, indubitavelmente, os animais tenham algum
senso de comunidade uns com os outros, a profundidade de harmonia inter
pessoal experimentada no casamento entre seres humanos, na família hu
mana quando ela funciona de acordo com os princípios de Deus e na igreja
em que uma comunidade de crentes anda em comunhão com o Senhor e
uns com os outros é muito maior que a harmonia interpessoal experimen
tada pelos animais. Especificamente, foi dado ao homem o direito de go
vernar sobre a criação e a autoridade (quando Cristo retomar à terra) para
sentar no tribunal para julgar e em seu trono para governar (Gn 1.26,28; SI
8.6-8; Mt 19.28; ICo 6.3) e alhures.8
(5) Aspectos operacionais. Neste sentido, os homens se assemelham a Deus
em suas funções laborais, sejam elas de ordem material ou espiritual.
C3 Do lado material. A ordem divina para com os homens é esta: “Seis
dias trabalharás, e farás toda a tua obra [...] porque em seis dias fez o Se
nhor os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou”
(Êx 20.9,11). Trabalhando seis dias e descansando no sétimo, Deus orde
nou aos homens que procedessem da mesma maneira. Quando os homens
assim procedem, estão, simplesmente, se assemelhando a Deus, e, cum
prindo deste modo, a solicitação divina que diz: “Sede, pois, imitadores de
Deus, como filhos amados” (Ef 5.1).
cg Do lado espiritual. Quando pensamos em nos assemelharmos a Deus
do lado espiritual, não pensamos no descanso. Neste sentido, não existe tré
gua! Deus não descansou de seus labores e continua trabalhando, conforme
disse nosso Senhor Jesus Cristo, que disse: “Meu Pai trabalha até agora, e
eu trabalho também” (Jo 5.17).
b) Eva fo i salva? Esta é uma outra pergunta que se encontra ligada di- -
retamente aomesmo procedimento de Adão. Em 1 Timóteo 2.13-15, Paulo
liga a palavra “salvação” em relação a Eva, quando diz: “Porque primeiro foi
formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo
enganada, caiu em transgressão.
cg “Salvar-se-á, porém, dando à luz filhos". Quando analisamos o pensa
mento de Paulo aqui num cômputo geral, podemos deduzir que, a salvação
de Eva, dependia de sua posteridade; através da qual viria a "semente"
prometida em Gênesis 3.15, que seria o Cristo, "nascido de mulher, nas
cido sob a lei" (G1 4.4). Quando Caim nasceu, Eva até pensou que fosse
aquela semente que esmagaria a "cabeça da serpente", dizendo: "Alcancei
do Senhor um varão" (Gn 4.1). Mas tal não foi a sua surpresa: Caim não era
A Q ueda d o H o m e m 95
a semente prometida, porque Caim "era do maligno" (1 Jo 3.12) e foi tam
bém esmagado pela serpente. Então Eva, transferiu a sua atenção para seu
segundo filho, Abel. Mas Abel foi morto por seu irmão. E quando nasceu
Sete, que quer dizer "compensação" ou "renovo", que também significa um
dos "nomes de Cristo", Eva bradou dizendo: "Deus me deu outra semente
em lugar de Abel, porquanto Caim o matou" (Gn 4.25). Cremos que Adão
e Eva foram os primeiros a receberem o perdão. As primeiras pessoas a re
ceber o perdão por suas faltas sem dúvida alguma foram eles. Pressupõe-se
em Gênesis 3.9-21 seu arrependimento e perdão; Deus em Cristo perdoou
o casal (cf. Ef 4.32), ainda que isso não esteja explícito. A confissão de am
bos foi um tanto tumultuada; mas isso é evidente diante da angústia mental
que ambos passavam naquele momento. Adão lançou a culpa na esposa,
e esta condenou a serpente. Deus compreendeu tudo isso, e em meio ao
sofrimento do casal, mostrou-lhes sua bondade e amor.
3. O cuidado de Deus (do lado fraterno) pela fam ília. As instru
ções que foram dadas aos seus filhos. Ao fazer a promessa da vinda do Reden
tor, em Gênesis 3.15, conclui-se que, no dia em que Deus vestiu Adão e Eva,
ele também lhes deu instruções a respeito do significado do sangue expiador.
Também, de igual modo, o significado da eficácia da oração a Deus. Depois,
eles passaram a seus filhos o que ambos significavam. Cremos que como Deus
é o mesmo, as instruções que Ele ordenou a Moisés que dissessem aos pais
dos filhos de Israel, que falassem em suas casas aos filhos de sua grandeza e
de sua bondade: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração;
e as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando
pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua
mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de
tua casa, e nas tuas portas” (Dt 6.6-9). Evidentemente, estas instruções foram
dadas por Deus a Adão e sua esposa e eles as passaram para seus filhos. Está
bem claro que Abel, o segundo filho de Adão, era um crente fiel a Deus. Adão
e sua mãe tinham instruído tanto a ele como a seu irmão (Caim), a respeito
do sacrifício substituto do sacrifício vicário do Cordeiro de Deus; o que fica
evidenciado por seu sacrifício, quando ofereceu a Deus um cordeiro inocente
das primícias de seu rebanho (Gn 4.4). Abel foi morto por seu irmão Caim.
Mas o casal deu novamente instruções a Sete e aos outros seus filhos. Dali de
Sete, partiram as famílias adâmicas até Noé, onde essas famílias são destruídas
pelo Dilúvio e através dos três filhos de Noé [Sem, Cão e Jafé], tem-se nova
mente uma expansão das famílias na face de toda a Terra. Depois, Deus elege
a Abraão, descendente de Noé, por meio de Sem, como família escolhida para
9 6 A D o u t r in a d o P e c a d o
sua adoração, e que através da mesma, viesse o Cristo, que seria a “semente
da mulher”. A promessa do nascimento de Cristo envolveria “duas mulheres”,
a primeira seria Eva, como mãe da humanidade; a segunda seria Maria, como
mãe do Salvador da humanidade. Eva, quer dizer a “mãe da vida”; seria a mãe
de Cristo que, é a “vida” por extensão, enquanto que Maria, seria sua mãe bio
lógica no sentido mais literal do termo. Nesse caso, a redenção de Eva seria
assegurada devido a extensão da promessa de Deus em relação a seu Filho (Gn
3.15; Lc 1.28,30,42,48; 1 Tm 2.14,15). Nosso argumento neste capítulo em de
fesa de Adão e de sua esposa, não se prende a isentar a ambos, isto é, Adão e sua
esposa da culpa do pecado. Eles pecaram e foram punidos por Deus. Apenas,
com efeito, queremos mostrar ao leitor que, mesmo com o fracasso do casal,
Deus agiu depois do pecado e queda do homem ali no Jardim. Não pode existir
justificação fora do sacrifício de Cristo, que morreu na cruz com esta finalidade;
com efeito, porém, devemos ter em mente que, Cristo já tinha se oferecido a
Deus como propiciação dos pecados da humanidade; e Deus através de Cristo,
sempre perdoou e oferece o seu perdão a todo aquele que nEle crê (Jo 3.16).
Cristo é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”.
1 WIKIPÉDIA, enciclopédia livre. Acesso: 31/12/2009
2 BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. J. M. Bentes e W. J. Goldsmith (tradutores). São
Paulo: Imprensa Batista Regular, 2001, p. 213.
3 RICHARDS, L. Comentário Bíblico do Professor. Ia Ed. São Paulo: Editora Vida, 2004,
p. 38.
4 BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. J. M. Bentes e W. J. Goldsmith (tradutores). São
Paulo: Imprensa Batista Regular, 2001, pp. 212-213.
5 JOSEFO, F. História dos Hebreus: Antiguidades Judaicas, Livro Primeiro. 8a Ed. Rio de
Janeiro: CPAD, 2004, p. 76.
6 JOSEFO, F. História dos Hebreus: Antiguidades Judaicas, Livro Primeiro. 8a Ed. Rio de
Janeiro: CPAD, 2004, p. 77.
7 McNAIR, S. E. ABíblia Explicada, 17a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 19
8 GRUDEM, W. Teologia Sistemática : uma introdução aos princípios da fé. São Paulo:
Editora Vida, 2001, pp. 206-207.
O P r o b l e m a do M al
98 A D o u t r in a d o P e c a d o
I . A O r ig e m d o M a l
1. As opiniões diversificadas sobre a origem do mal. Já tivemos a
ocasião de falar sobre a origem do mal, em sentido tópico e não analítico, no
capítulo primeiro deste livro. Agora, aqui neste capítulo, falaremos em sentido
mais extenso, ainda que de maneira abreviada, no tocante a origem do mal. Ou-
trossim, abordaremos vários temas e opiniões que estão envolvidos nesta ques
tão. Uma das maiores questões a ser resolvidas para os filósofos e teólogos de to
dos os tempos, é o problema do mal. Necessariamente, são usadas duas palavras
nas Escrituras, em relação ao “mal” com sentidos completamente distintos.
a) O mal no sentido rudimentar. O sentido que se dá ao mal que aqui está
em foco, refere-se ao “mal” no sentido mais rudimentar do termo de origem
completamente maligna.
b) O mal que é criado por Deus. Aqui neste tópico, a palavra ‘mal’, quan
do se diz que “Deus cria o mal”, conforme diz em Isaías 45.7: “Eu formo a
luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas
coisas” . No texto em hebraico, a palavra usada aqui para o “mal” é RA e,
necessariamente não significa pecado, mas quer dizer, “tristeza” ou “aflição”
que pode levar uma pessoa ao arrependimento (2 Co 7.10); também muitas
vezes não se sabe a origem dessa espécie de “mal” (Is 47.11). Se existe um
Deus Todo-Poderoso, Todo-bondoso e Onisciente, por que Ele permitiu que
tanta maldade e tanta agonia existam neste mundo? Perguntam-se todos. Tem
sido apresentado de muitas maneiras, e respondido com as mais diferentes
respostas, o mistério do mal. Para os filósofos existem três tipos de males, o
moral, o físico e o metafísico. O físico sendo apenas uma conseqüência de um
mal maior que seria o metafísico. O mal chamado físico e moral, que domina o
mundo humano, é algo bem patente aos olhos de todos. Basta lembrar o sofri
mento e a morte. Bem como a ignorância e a concupiscência em sua atual
intensidade — cada dia mais afastam as pessoas da razão natural.
2. O conceito do ZERO — E O — NADA na existência do mal.
O número zero representa o nada, ooutro lado — que não é o lado
do bem (Hb 12.1).
2. A realidade do pecado. Negar a existência do pecado é negar por ex
tensão a veracidade da Escritura. Ela, no seu escopo geral, afirma do princípio
ao fim que o pecado existe. O pecado é qualquer transgressão contra a vonta
de revelada de Deus. Para quem tem olhos para ver, o pecado está manifesto
por toda parte. Realmente deve estar com visão enfraquecida quem não vê
1 2 A D o u t r in a d o P e c a d o
as operações arruinantes, maléficas, torcidas, brutais e bestiais do pecado, no
mundo em geral e na vida humana. E além disso, após pecar contra Deus o ho
mem tomou-se sensível ao pecado. Quando o homem peca por qualquer razão
ou motivo, ele sente o remorso da consciência, devido ao mal praticado e, em
alguns casos, sofre as conseqüências da ação praticada contra Deus ou contra
a sociedade. O homem é dotado de uma consciência sensível. O animal não
possui esta consciência com sensibilidade de culpa. O homem quando comete
um crime (peca), sua tendência é fugir do local e ocultar qualquer prova de
seu delito. O animal não. Ele comete um ato errado, mas permanesse no local
como se nada tivesse acontecido (1 Rs 13.24,28). A besta não tem traço algum
de consciência de Deus; não tem, portanto, natureza religiosa. Para ela não há
sensibilidade do pecado nem o peso da consciência. Quando o homem peca,
através de sua consciência, ele sente em sua alma ou em seu sistema psicos-
somático o peso do pecado (Nm 32.23). Se o pecado não fosse uma realidade
jamais isso seria possivel de acontecer. Também presenciamos a realidade de
morte, que entrou no mundo por causa do pecado. “Portanto, como por um
homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a
morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Rm 5.12).
3. O significado do pecado. Há quem afirme que o pecado é algo frag
mentado. Ele acontece acidentalmente. Com efeito, porém, a realidade das Es
crituras aponta outro ensino com respeito ao pecado. Ele surgiu no universo e
depois no mundo humano, através da desobediência. O Diabo não foi enganado
quando cometeu o primeiro pecado. Da mesma forma Adão não foi enganado (1
Tm 2.14). Tanto o Diabo como Adão pecaram de olhos abertos. De igual modo,
o pecado não é apenas um ato de debilidade ou fraqueza, porque ele foi conce
bido por seres fortes e capazes (Ez 28.12-16; 2 Pe 2.4). O pecado em qualquer
sentido— pensado, planejado e praticado — fere a santidade de Deus. O obje
tivo de Deus no Antigo Testamento era conservar para si “...um reino sacerdotal
e o povo santo” (Ex 19.6). No Novo Testamento a vontade santa de Deus é a
mesma. Ele deu Jesus “...para nos remir de toda a iniqüidade, e purificar para si
um povo seu especial, zeloso de boas obras” (Tt 2.14b). Por outro lado, o Diabo
procura incentivar os homens à pecarem contra Deus e contra a sua boa obra,
levando-os assim para as ‘obras infrutuosas das trevas’ (Ef 5.11).
n . D e f in iç ã o d o P e c a d o
1. Definição do term o pecado. A hamartiologia, é uma palavra usada i
no campo teológico para designar “a doutrina do pecado”, incluindo todos os
H a m a r t io l o c ia - D o u t r in a d o P e c a d o 13
seus aspectos sombrios e sua natureza destruidora, tanto aplicada no campo
físico como no campo espiritual, mostrando em cada detalhe suas disposições
hostis contra Deus, às coisas, os seres e qualquer entidade no mundo da exis
tência. Em sentido etimológico — a palavra “pecado” conforme se encontra
em nossas versões, vem da palavra hebraica “hãttã’th”, do qual origina-se da
raiz hebraica “hãtã” traduzido na septuaginta (LXX) da palavra “hãmãrtia”.
Existem algumas palavras que relatam significados semelhantes à palavra he
braica “hãttã’th”, como também para a palavra grega “hamartia”. Estes termos
são aplicados no tempo e no espaço para descrever e dar sentido a tudo aquilo
que o pecado é e suas formas de expressão. Os eruditos teológicos usam várias
palavras deste gênero para descrever a natureza sombria do pecado, mostrando
seus aspectos e suas disposições torcidas, maléficas em sua natureza daninha e
perniciosa.
a) Relacionado com aquilo que se desvia do alvo, falhar — hãtã. Os termos
associados — ‘hãttã’th e hamartia’, e logo após, a classificação das palavras
associadas a hãttã’th e também a hamartia. O primeiro engloba várias outras
palavras. Mas, as mais usadas para descrever a natureza do pecado, são hê’t ou
hãttã’t (hãtã’=falhar, desviar, não acertar seu fim), que apresenta o pecado como
uma falha [às vezes contra os homens, geralmente contra Deus]. O segundo,
quer dizer “tortuosidade no sentido próprio” (conservando assim, a forma ori
ginal da serpente que é torta ou curvada em todos os seus movimentos e ações).
Há também em hebraico o verbo ‘chata’ e o substantivo ‘chãttãth’, — ‘chet’
(Gn 4.7; Ex 9.27; Lv 5.1; Nm 6.11; SI 51.2, 4; Pv 8.36; Is 42.24; Os 4.7). Em
grego, o vocábulo correspondente é hamatteno (verbo) e hamartia (substanti
vo), indicando em sentido primário ‘errar o alvo’ (Lc 11.4; 15.18, 21; Jo 1.29;
8.34; 16.9; Rm 3.23; 5.12; 6.23; 1 Co 15.3; 1 Jo 1.7, 9-10; 3.4; 5.17).
b) Relacionado com aquilo que é torcido — que dobra — 'ãwôn ’. Pala
vra que ocorre cerca de 231 vezes, do qual também, temos os seguintes signi
ficados: Iniqüidade, maldade, erro, pecado, culpa, enfermidade moral etc. Na
verdade, a palavra “ãwôn” origina-se da palavra “ãwâ”, a qual traz o sentido
de “dobrar”, “torcer”. Assim, a iniqüidade é a “inclinação má” dentro do ser
humano, ou a direção “tortuosa”, ou ainda ações “deformadas” dos pecadores.
A missão de João Batista, como precursor de Cristo, era preparar um caminho
plano nos corações, afim de que neles, o arrependimento tivesse lugar. Assim
diz o texto divino: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Se
nhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Todo o vale será exaltado, e todo
o monte e todo o outeiro serão abatidos; e o que está ‘torcido’ se endireitará, e
14 A D o u t r in a d o P e c a d o
o que é áspero se aplanará” (Is 40.3,4). Estes caminhos tortuosos nos corações
foram construídos pelo pecado de Adão e se estendeu a todos os homens.
c) Relacionado com aquilo que tem a natureza de delito — ‘pesha’. Pa
lavra que ocorre cerca de 93 vezes, da qual também, temos os seguintes sig
nificados: delito, crime, culpa, pecado, ofensa, rebeldia, transgressão, etc. Na
verdade a palavra “pesha” origina-se do verbo “pasha”, que traz o sentido de
“rebelar-se”, “sublevar-se”, “violar” etc. Em síntese, uma violação tinha a ver
com uma revolta contra a lei, Deus ou o governo. Neste conceito, a pessoa,
desprovida da graça divina, persiste em seguir e fazer aquilo que é errado.
Isto é um erro que viola este ou aquele direito, o princípio de uma época e de
todas as épocas do ponto de vista divino de observação. Este erro é ampliado
pela transgressão e significa a ação humana de atravessar, exceder, ultrapassar,
noções que pressupõem a existência de uma norma que estabelece e demar
ca limites. Seu significado transitou da esfera geográfica, que fixava o limite
para as águas do mar à concepção ético-filosófica, que abriga desde preceitos
morais e religiosos até as leis do Estado. Daí, as contraposições entre bem e
mal, mandamento e pecado, código e infração. Nas ações criativas humanas,
transgressor e transgredido tendem a confundir-se. Por essa razão, o ato criador
não se processa em série, como numa linha de montagem predeterminada. O
criador/transgressor é o agente solitário que opera a superação de si mesmo na
ruptura com o mundo que o cerca. Cada um, ao buscar, ao inventar, ao tentar
o ainda-não-ousado, o novo, incorre em transgressão, não como subversão da
ordem, mas como implementação, como criação. Ao longo da história foram
muitos a “transgredir” as normas vigentes na sua época.2
d) Relacionado com tudo aquilo que é mal — ‘ra’. Palavra que ocor
re cerca de 663 vezes, da qual também temos os seguintesvazio ou a ausência. Mas o conceito mate
mático de zero e a noção de vazio são coisas distintas. Os primeiros exemplos
do zero são registrados há 5 mil anos. Os sumérios usavam dois pequenos
símbolos cuneiformes para marcar a ausência de um número em determina
do lugar. Da Babilônia, o zero foi transmitido à índia pelos gregos, foram os
mercadores árabes que divulgaram o número no mundo ocidental. A noção do
O P r o b l e m a d o M a l 99
nada faz parte de mitos mais antigos do que o número. Praticamente todos os
mitos explicam que antes da criação havia só o vazio. A teoria do Big Bang,
por exemplo, não descreve o que havia antes da explosão primordial que, do
nada, gerou tudo o que nos cerca (segundo este conceito). No entanto, na física
quântica o vazio é povoado por um mar de partículas virtuais que aparecem e
desaparecem de acordo com o princípio da incerteza de Heisenberg. Esse vazio
quântico produz efeitos que foram observados em laboratório, como o efeito
Casimir.1 Para aqueles que defendem que o mal é apenas a ausência do bem
— opinam: onde existe o bem — o mal seria reduzido a ‘zero a esquerda’, re
duzindo assim seu poder numérico — indo para a categoria de ‘nada’. Mas isso
não é assim. O pecado nasce — cresce — se avoluma até aos céus. E quando lá
chega, Deus o julga de forma versátil e firme. Tiago fala da concepção do pe
cado. Assim ele diz: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela
sua própria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à
luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tg 1.14,15). Isaías
descreve o aumento do pecado, dizendo: “Ai dos filhos rebeldes, diz o Senhor,
que tomam conselho, mas não de mim; e que se cobrem, com uma cobertura,
mas não do meu espírito, para acrescentarem pecado sobre pecado” (Is 30.1)
e no contexto seguinte: Assim aconteceu com a grande babilônia, conforme é
proclamado pelo anjo celestial. “Porque já os seus pecados se acumularam até
ao céu, e Deus se lembrou das iniquidades dela” (Ap 18.5). Várias cidades do
passado foram semelhantemente denunciadas da mesma maneira. Sobre Níni-
ve, Deus disse: “a sua malícia subiu até mim” (Jn 1.2). Sobre Cafamaum, Jesus
disse: “e tu, Cafamaum, que te ergues até aos céus” (Mt 11.23). Nesta seção,
porém, o pecado da grande Babilônia é visto “se acumulando até ao céu”. Isso
significa que o pecado é concebido, nasce, cresce e, estando na sua fase de
amadurecimento, tem tocado nos céus — então vem o julgamento.
I I . Drv id e - s e o M a l em T r ê s C a t e g o r i a s
1. O mal moral. O mal não é uma substância, mas corrupção das substân
cias boas que Deus fez. O mal é como a ferrugem no carro ou a podridão na árvo
re. E a falta de coisas boas, mas não é algo por si só. Nesse sentido, o mal é como
um demônio, que não possui um corpo através do qual possa atuar. Ele não é
como o anjo, que mesmo sendo espírito, possui um corpo de ordem espiritual. O
demônio, não. Ele precisa de um corpo humano ou mesmo animal, ou um outro
instrumento de natureza visível e real; e, através dele, realizar seus maus inten-
tos. Assim, alguns filósofos compararam também o mal. Ele é como uma ferida
no braço ou furos de traça na roupa. Só existe em outra coisa, não sozinho.
100 A D o u t r in a d o P e c a d o
a) O mal: no pensamento da lógica. A lógica começa perguntando: De
onde veio o mal? O Deus absolutamente bom não podia criar o mal. E, apa
rentemente, uma criatura perfeita nem pode dar origem à imperfeição. Então
de onde vem o mal?
O problema pode ser assim resumido:
I o. Deus é absolutamente perfeito.
2o. Deus não pode criar nada imperfeito.
3o. Mas criaturas perfeitas não podem fazer o mal.
4o. Portanto, nem Deus nem suas criaturas perfeitas podem produzir o mal.
b) O mal: no pensamento tomista. Os elementos básicos na resposta a esse
problema são encontrados na seguinte resposta:
Io. Deus é absolutamente perfeito.
2o. Deus criou apenas criaturas perfeitas.
3o. Uma das perfeições que Deus concedeu a algumas dessas criaturas foi
o poder do livre-arbítrio.
4o. Algumas dessas criaturas escolheram livremente fazer o mal.
5o. Portanto, uma criatura perfeita causou o mal.
Chega-se, então, à seguinte conclusão: Deus é bom, e criou criaturas boas
com uma qualidade boa chamada livre-arbítrio. Infelizmente, elas usaram
esse poder bom para trazer o mal ao universo ao se rebelarem contra o Cria
dor. Neste argumento da lógica, sobre a origem do mal, todas as criaturas
criadas por Deus são apresentadas como sendo boas. Então o mal surgiu do
bem, não direta, mas indiretamente, pelo mau uso do poder bom chamado
liberdade. A liberdade em si não é má. É bom ser livre. Mas com a liberdade
vem a possibilidade do mal. Então nesse caso, o bem pode ser responsável
por tomar o mal possível, mas as criaturas livres são responsáveis por torná-
lo real. No argumento exposto acima, o Diabo pode ser incluído entre as
criaturas boas de Deus. Mas isso é mais lógico do que bíblico. Em nenhum
lugar das Escrituras diz que o Diabo é bom ou que tenha praticado uma boa
ação. Fala-se:
cg De sua perfeição (Ez 28.12,15);
cs De sua formosura (Ez 28.12b);
cg De sua sabedoria (Ez 28.3);
cg De sua sagacidade (Gn 3.1);
O P r o b l e m a d o M a l 101
cs Do seu entendimento (Ez 28.4);
cs Do seu resplendor (Ez 28.17);
cs De sua violência (Ez 28.16);
cs Da sua alta periculosidade: como homicida (Jo 8.44);
cs De seus ardis (2 Co 2.11);
cs Da sua crueldade (Jo 10.10);
cs E até de sua morte (Ez 28.1-18).
Com efeito, porém, em parte alguma se fala de sua bondade. É claro, por
tanto, que Deus que é absolutamente bom, seja responsável por alguém que é
absolutamente mau. Não! O mal, em sua origem, desassocia-se de Deus em
qualquer sentido ou direção. A questão se associa a solução do livre-arbítrio
para a origem do mal. O que provocou a escolha do mal pela primeira criatura,
que era (e é) um ser perfeitamente possuidor do livre-arbítrio e portador da
mente inteligente e racional (Ez 28.3,4).
c) O mal: no pensamento cristão. O mal é separado de Deus. Contudo, as
sociado ao campo da lógica, vem a seguinte pergunta: Se o mal é algo separado
de Deus, e não pode proceder do interior de Deus, então o que é? O problema
pode ser resumido desta maneira:
I o. Deus é o Autor de tudo que existe.
2o. O mal é algo que existe.
3o. Portanto, Deus é o Autor do mal?
O conceito lógico responde que o mal não é uma substância. E uma falta ou
privação de algo bom que Deus fez.
d) O mal: no pensamento de alguns. O mal é a privação de algum bem espe
cífico (pensam alguns). A essência dessa posição por ser assim resumida:
I o. Deus criou toda substância.
2o. O mal não é uma substância — mas uma privação em uma substância.
3o. Logo, Deus não criou o mal.
2. O mal físico. O problema do mal físico, chamado também por alguém
de ‘mal natural’ está ligado ao problema dos desastres naturais. Quase que
todas as partes da Terra, são castigadas por alguns fenômenos naturais.
102 A D o u t r in a do P e c a d o
a) O mal além do que se planeja. Em determinadas áreas, por exemplo, ,
são:
03 Terremotos;
es Furacões;
es Inundações;
es Neves (frio);
es Calor insuportável;
es Secas excessivas;
es Maremotos;
es Incêndios;
es Pestes;
cs Mortes etc.
Nesses casos não é o livre-arbítrio das criaturas que causa todas essas cala
midades. Além disso, muitas pessoas inocentes morrem ou ficam doentes por
causa destes males.
b) O mal que poderia ser e não ser. Com efeito, porém, é evidente que _•
alguns males naturais são causados pelo livre-arbítrio, os quais poderiam ser
e não ser.
I o. Alguns sofrimentos são causados diretamente pela livre escolha do ser
humano. Por exemplo, a escolha de abusar do corpo (seu ou meu) pode
causar doença.
2o. Alguns sofrimentos são causados indiretamente pelo livre-arbítrio. A
escolha de ser preguiçoso pode resultar em pobreza.
3o. Alguns males físicos que afligem outros podem resultar do nosso livre-arbítrio, como no caso de maus tratos ao cônjuge ou aos filhos.
4o. Outros sofrem indiretamente por causa do nosso livre-arbítrio. O alcoo
lismo pode levar à pobreza dos filhos do alcoólatra.
5o. Alguns males físicos podem ser o subproduto necessário de um bom
processo. Chuva, ar quente e ar frio são todos necessários para alimentação
e para a vida, mas um subproduto dessas forças é o tomado.
6o. Alguns males físicos podem ser a condição necessária para alcançar
o bem moral maior. Deus usa a dor para chamar nossa atenção. Muitos
chegaram a Deus por meio do sofrimento.
O P r o b l e m a d o M a l 103
T . Alguns sofrimentos físicos podem ser a condição necessária de um bem
moral maior. Assim como diamantes são formados sob pressão, o mesmo
acontece com o caráter.
8o. Alguns males físicos são o acompanhamento necessário do mundo fí
sico moralmente bom. Por exemplo, é bom termos água em abundância,
mas podemos nos afogar nela. E bom ter relações sexuais para procriação e
para o prazer, apesar de isso possibilitar o estupro. E bom ter alimento para
comer, mas isso também possibilita a morte por envenenamento.2
9o. A guerra — forjada apenas para o ataque — sem a necessidade de de
fesa — pode causar a morte — a mutilação: física e psicológica à milhares
de pessoas etc.
3. O mal metafísico. O mal metafísico é percebido e sentido, mas não
é visto. O pecado de Adão foi originado de algo que já existia. A árvore do
“bem” e do “mal” já se encontrava no jardim, antes do fracasso do homem. A
árvore era patente aos seus olhos, mas o mal que nela continha, não. Ele era
o mal metafísico que não podia ser presenciado. Adão e sua esposa, no des
pontar de sua inocência, não tinham experiência no tocante ao pecado e como
lidar com ele. O escritor da epístola aos Hebreus nos adverte que “o pecado
tão de perto nos rodeia” (Hb 12.1). Eles não tinham nenhuma experiência
quanto ao passado, como hoje tem a humanidade, que os advertissem quanto
ao futuro. Tudo que eles sabiam era que aquela árvore continha algo chamado
mal. Mas, este encontrava-se oculto aos seus olhos naturais, por fazer parte
da metafísica. A metafísica, literalmente, quer dizer “além do físico”. E, com
efeito, no caso da origem do mal, ela vai além do pecado de Adão no jardim
do Éden, conforme já tivemos a oportunidade de ver na descrição da árvore
do bem e do mal. Não era simplesmente a desobediência de Adão, que iria
marcar o ponto zero na história do pecado; ele já se encontrava presente no
universo.
a) Dualidade para possibilitar a existência do mal. O pluralismo metafí
sico afirma que a realidade é encontrada na diversidade, e não na unidade. Ele
se opõe ao monismo, que afirma que a realidade é única. O panteísmo é uma
forma de monismo, e o teísmo é uma forma de dualismo. Já para o pluralismo
religioso é a crença de que toda religião é verdadeira. Cada uma proporciona
um encontro genuíno com o Supremo. No conceito popular isso pode ser con
frontado com o ditado que centraliza a Europa no centro da imaginação e diz:
“todo o caminho leva a Roma”.
104 A D o u t r in a d o P e c a d o
I o. O relativismo afirma que não há critérios pelos quais se possa saber qual
religião é verdadeira ou melhor. Não há verdade objetiva na religião, e cada
religião é verdadeira para quem acredita nela.
2o. O inclusivismo afirma que uma religião é explicitamente verdadeira,
enquanto todas as outras são implicitamente verdadeiras.
3o. O exclusivismo é a crença de que apenas uma religião é verdadeira, e as
outras que se opõem a ela são falsas. Neste ponto de vista, o cristianismo é
exclusivista. Ele afirma ser a única religião verdadeira. Mas aceita o plura
lismo com relação ao judaísmo.
b) O cristianismo — o que pensa da existência do mal. Para o verdadeiro >
cristianismo só existe o pluralismo que aponta para duas religiões verdadei
ras: o judaísmo e o cristianismo. O primeiro edificado nos princípios morais
e gerais de Deus, inseridos no Antigo Testamento. A Segunda, edificada sobre
o fundamento “dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal
pedra de esquina” (Ef 2.20). O cristianismo tem como base a pessoa de nosso
Senhor Jesus Cristo; mas por extensão, aceita a autoridade das Escrituras do
Antigo e do Novo Testamento. O Novo Testamento mostra a natureza da ver
dadeira religião como exclusivista. Tiago afirma em sua Epístola: “A religião
pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas
suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo” (Tg 1.27).
I I I . A P l u r a l id a d e n a E x is t ê n c ia d o B e m e d o M a l
1. Pluralidade do lado do bem e do lado mal. Muitos estudiosos sus- -
tentam que o mal existe por causa da necessidade de pluralidade da existência.
Para que o leitor tenha uma maior compreensão do significado do pensamento,
existe uma pluralidade dos seres e das coisas que permeiam todo o universo.
Tal pluralidade marca uma linha divisória entre o físico e o espiritual; entre o
que é permanente e o que é apenas temporário. Embora, em alguns casos, esta
pluralidade de coisas, se encontrem do mesmo lado. Contudo, há uma distin
ção entre o “mais” e o “menos”, o “maior” e o “menor”, o mais “perto” e o
mais “distante” e daí por diante.
O? O céu e a terra;
cs O espiritual e o físico;
o? O divino e o humano;
03 O mar e as fontes das águas;
03 A luz e as trevas;
og O dia e a noite;
03 A manhã e a tarde;
cg O quente e o frio;
03 O forte e o fraco;
03 O feio e o bonito;
cg O gordo e o magro;
cs Deus (do lado do bem) e o Diabo (do lado do mal);
03 Os anjos e os demônios;
03 O justo e o injusto;
03 O trigo e o joio;
03 O bom e o ruim;
03 0 rico e o pobre;
03 O macho e a fêmea;
03 O céu como um lugar bom e o inferno como um lugar mal;
og O verdadeiro e o falso;
og O puro e o impuro;
og O santo e o profano;
og A vida física e a vida espiritual;
og A morte física e a morte espiritual;
03 O riso e o choro;
03 A saúde e a doença;
og O senhor e o servo;
03 O rei e o reino;
og A comida e a bebida;
og O bem e o mal.
2. Pluralidade da necessidade básica. Além da pluralidade nos seres
e nas coisas, há também o paralelismo ligado ao contexto e as necessidades da
vida. 0 corpo humano somente pode desenvolver determinadas funções com o
auxílio de todas “as juntas e ligaduras”, tais como:
03 As duas pernas;
03 Os dois pés;
O P r o b l e m a d o M a l 105
10 6 A D o u t r in a d o P e c a d o
03 Os dois braços;
cs Os dois ouvidos;
cs Os dois olhos;
cs Os dois seios nasais.
Além das funções vitais de certos órgãos internos.
Em 1 Coríntios 12.12-31, Paulo descreve uma parábola sobre a diversidade
de membros que compõem o corpo humano. Depois, ele diz que cada membro,
é uma peça necessária para o desempenho do corpo. Isto é, “os membros do
corpo que parecem ser os mais fracos são necessários. E os que reputamos se
rem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós
são menos decorosos damos muito mais honra”. No que diz respeito ao viver
do ser humano, existe também um sistema de balanceamento para que todo o
propósito se concretize debaixo do céu. Diz-se assim:
cs Há tempo de nascer, e tempo de morrer;
cs Há tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
cs Há tempo de matar, e tempo de curar;
cs Há tempo de derribar e tempo de edificar;
cs Há tempo de chorar, e tempo de rir;
cs Há tempo de prantear, e tempo de saltar;
cg Há tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras;
cs Há tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
cs Há tempo de buscar, e tempo de perder;
cs Há tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
cs Há tempo de rasgar, e tempo de coser;
cs Há tempo de estar calado, e tempo de falar;
cg Há tempo de amar, e tempo de aborrecer;
cs Há tempo de guerra, e tempo de paz (Ec 3.1-8—adaptado).
3. Pluralidade antagônica entre o bem e o mal. Com base neste con- -
ceito de pluralidade,paralelismo e antônimo presentes no universo tanto físico
como espiritual, alguns comentaristas, opinam que assim deve ser também,
com respeito ao mundo do bem e ao mundo do mal. Nestes dois campos, por
assim dizer, existem duas origens: uma do bem e a outra do mal.
Deus criou o bem e com ele todo o sistema de bondade.
O Diabo deu origem ao mal e com ele todo o sistema de maldade.
O P r o b l e m a d o M a l 107
Os pitagóricos defendem o dualismo e classificam dois tipos de prazer:
o primeiro, de lascívia e entregas às satisfações do ventre, como as canções
assassinas das sereias e, o segundo, dos prazeres honestos e justos que não
acarretam arrependimento. O pitagórico Hiérocles diz que duas coisas são ne
cessárias à vida: a ajuda dos parentes e a benevolente simpatia do próximo.
A dualidade nos dá os contrastes do Bem e do Mal, tais como o humano e a
natureza, noite e dia, luz e trevas, conhecimento e ignorância, úmido e seco,
quente e frio, saúde e doença, verdade e mentira, masculino e feminino etc.
Existem duas leis judaicas: a lei escrita de Moisés e a lei oral da cabala. A
juventude é melhor que a velhice apoiada no bordão, significa duas pernas são
melhores que três. O Talmude diz que Adão tinha dois rostos, uns dizem que
um à frente e outro atrás; outros dizem que ele olhava para a direita e outros,
para a esquerda. A Díada prediz uma verdade quando um sonho é repetido [...]
há dois caminhos durante a vida do homem: um que leva ao paraíso e outro
ao inferno.3
4. Pluralidade dos pluralistas e exclusivistas. Quando passamos a
analisar tanto do ponto de vista natural como metafísico, percebemos que am
bos estão envolvidos num sombrio mistério. Assim, a origem do mal, é sempre
um mistério a ser estudado com cautela e extremo cuidado. Com efeito, porém,
quando analisamos os textos e contextos ligados ao assunto e a tese principal,
chegamos a uma conclusão: todas as evidências nos fazem compreender que,
o mal e suas formas de expressão, tiveram origens no grande inimigo de Deus
e dos homens, que é o Diabo (Ez 28.15). A batalha se trava entre os pluralistas e
os exclusivistas. Os pluralistas aceitam as possibilidades de várias fontes, e não
apenas de uma. Mas os exclusivistas são totalitários com relação à verdade. Para
os pluralistas, Deus não aceita o mal; contudo, pode em algum sentido, tolerar
certos erros praticados pela fragilidade de alguém. Os problemas dos pluralistas
é a pressuposição naturalista. Para eles, todos os fenômenos religiosos podem
ser explicados naturalmente. Nenhuma explicação sobrenatural é permitida. Os
exclusivistas são diferentes. Para eles, existem as possibilidades dos milagres.
Para o pensamento exclusivista e cristão, os milagres são possíveis. Em toda a
extensão do Antigo Testamento, encontramos todo o paço pontilhado de mila
gres, que vão desde a concepção da vida, até a ressurreição de mortos. Também
existem vários milagres que foram realizados sobre as forças da natureza e ou
tros que foram operados para atender'às necessidades da vida. Quando chegamos
ao Novo Testamento, em toda a sua extensão, os milagres são proeminentes.
A começar pela concepção virginal de nosso Senhor Jesus Cristo, que foi um
verdadeiro milagre, operado pelo Espírito Santo, mediante a expressa ordem de
108 A D o u tr in a do P e ca d o
Deus. Maria relutou em aceitar como isso poderia ser possível, visto que ela
era uma virgem pura, que até então, não tinha tido nenhum contato íntimo com
um homem. O anjo Gabriel, fala para ela que o nascimento de Jesus seria, de
fato, natural. Contudo, a concepção em seu ventre, dar-se-ia por uma operação
miraculosa do Espírito de Deus. Ao receber a mensagem do anjo, que ela seria
mãe do Messias, o Filho de Deus bendito, Maria, ficou um pouco confusa com
aquelas palavras e perguntou ao ser celestial, dizendo: “Como se fará isto,
visto que não conheço varão? E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre
ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo de cobrirá com a sua sombra; pelo
que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus” (Lc
1.34,35). Apropria ressurreição de Jesus, foi, sem dúvidas, um verdadeiro mi
lagre, operado por Deus, mediante “o Espírito de santificação” (Rm 1.4). Sua
ressurreição, também, tomou-se a garantia da ressurreição de muitos corpos
de santos que dormiam na cidade de Jerusalém. E, evidentemente, Ele, através
de sua ressurreição, tomou-se o Príncipe, o Líder, e a garantia da ressurreição
da imortalidade, para todos os seus santos, por ocasião do arrebatamento e
também para aqueles que hão de morrer na esperança de seu sacrifício, no
futuro. Assim, Cristo, através de sua ressurreição, “foi feito as primícias dos
que dormem” (1 Co 15.20).
5. Pluralidade no sacrifício dos dois bodes emissários. Na concep- >-
ção dos dualistas com respeito ao conceito do mal, os dois bodes emissários
que vêm citados em Levítico 16 representam o caminho do bem e o caminho
do mal: AZAZEL. Muitos eruditos veem neste personagem “Belial” uma re
produção do “azazel” do livro de Levítico 16.5-10, 20-26 etc. Mas parece que
“Azazel” é um outro espírito e não Belial. Vem do termo “ãzãzel” (em nossa
versão corrente, “bode emissário”), vocábulo que ocorre somente duas vezes
na descrição sobre o Dia da Expiação. Dois bodes deveriam ser separados para
esta cerimônia. Um era a oferta pelo pecado (hattãt-h) e o outro, que deveria
ser enviado vivo “ao deserto”. Este se chamava “azã’zel”, palavra que talvez
devesse ser vocalizada como ‘ez ‘ãzeP (“um bode de partida”). O grego aqui
traduz o hebraico para “chimaros apopompaios” (“o cabrito que será mandado
embora”). O Dr. F. W. Grant discute o assunto em seu The Numerical Bible
(Os Números da Bíblia) da seguinte forma: “Para o povo há dois bodes, e aqui
também há diversidade, pois servem a fins distintos. Isto é dado detalhada
mente, e carece de alguma explicação. Lançam-se sortes os dois bodes para
determinar seu destino. Um é ‘para o Senhor’, o outro ‘para bode emissário’.
Neste último a Versão Revisada, põe “para Azazel”, invocando assim sua for
ma hebraica primitiva”.
O P r o b l e m a d o M a l 109
a) A interpretação do Dr. A. Van Selme, Professor de Línguas Semíticas da
Universidade de Pretória, África do Sul, faz quatro interpretações aqui:
I o. A palavra denota o “bode emissário”, e pode ser explicado como o bode
‘ez’ que se vai de ‘azai’. Esta forma, na realidade é mais antiga e a mais
corrente, por ser também adotada pela LXX e pela VG Latina, que supõe o
vocábulo “azazel” derivado da raiz azai, com o sentido de “afastar”.
2°. É usada como infinitivo, “a fim de remover”: o árabe “azala” — remo
ver. Isto, segundo A. Van Selme, trazia a ideia do Salmo 103.12: “Quanto
está longe o oriente do ocidente, assim afasta (remove) de nós as nossas
transgressões”.
3o. A palavra “Azazel” significa então uma região solitária ou como dizem
certas versões, “desolada” (cf. Lv 16.22). “Assim aquele bode levará sobre
si todas as iniquidades deles à terra solitária; e enviará o bode ao deserto”.
4o. É o nome de um demônio solitário que vagava naquela região, derivado
de “ãzaz”, ser forte, e de “el, deus”. No livro apócrifo de Enoque, frequen
temente, Azazel é mencionado como sendo um anjo caído. Mas essa ideia
deve ter sido incorporada nele do próprio livro de Levítico.4
b) A possível interpretação para Azazel. A possível interpretação para Aza
zel do ritual deve ser que o pecado, de maneira simbólica, foi removido do
meio do arraial de Israel e levado para a região da morte (cf. Mq 7.19). Pois é
impossível que um demônio cooperasse na remoção dos pecados de alguém.
Isso contraria todo o argumento e natureza das Escrituras. E ainda mais, para
aqueles que fazem um paralelismo entre Azazel e Belial, fica mais distante tal
pensamento: “que concórdia há entre Cristo e Belial?”. Nenhuma! A possí
vel interpretação natural é que as duas primeiras letras da palavra significam
“bode” (ez),e que é um bode sobre o qual cai a sorte. O restante da palavra
significa “ir embora” ou “partir” (azai), e isso é exatamente o que faz o bode.
Ele realmente traz a ideia em si: “bode emissário” ou “bode que se vai”.5
IV. O P r o b l e m a d o M a l n a H is t ó r ia d a s I d e ia s
1. As correntes de pensamento no tratamento do problema do
mal embasado na filosofia como uma atividade propriamente hu
mana. O homem foi feito por Deus um ser pensante, dotado de entendimento
e de consciência de si e do que está à sua volta. Dizem as Escrituras que, após
ter criado o homem, Deus trouxe à sua presença todos os demais seres criados
110 A D o u t r in a d o P e c a d o
para que o homem os nomeasse (Gn 2.19), tendo o homem não apenas sido
exitoso nesta sua tarefa, como também percebido que estava só, percepção
que fez sem que Deus lhe tivesse falado coisa alguma a respeito, numa clara
demonstração de que o homem tem capacidade para entender as coisas, assim
foi feito pelo seu Criador. Ora, por causa desta capacidade de entendimento, o
homem cedo desenvolveu uma série de reflexões a respeito do mundo, da exis
tência, de Deus, das coisas criadas e tudo o mais que o cerca, reflexões estas,
pensamentos estes que deram origem ao que se denominou, posteriormente,
de “filosofia”, palavra que teria sido criada pelo filósofo grego Pitágoras de
Samos, que viveu por volta do século VI a.C.
A palavra “filosofia” significa “amizade ao saber”, ou seja, a busca do sa
ber. O filósofo é alguém que é amigo do saber, alguém que busca a razão de
ser das coisas, que procura entender os fundamentos, os princípios que estão
por detrás de todo o conhecimento do real e do concreto. Enquanto o cientista
é alguém voltado para explicar o que está à sua volta, como as coisas ocorrem,
porque ocorrem e quando ocorrerão novamente, o filósofo está buscando en
tender como é possível conhecer, o que é o conhecimento e sob que alicerces
ele está fundamentado. Não é de admirar, portanto, que o primeiro filósofo as
sim reconhecido tenha sido o grego Tales de Mileto (640-548 a.C.), exatamen
te porque, ao observar a natureza, que já estudava há algum tempo (Tales foi
um grande matemático, físico e geômetra), voltou-se para esta mesma natureza
tentando descobrir qual era o princípio de todas as coisas, se havia algo que
pudesse dar unidade a tudo que existia, chegando à conclusão de que havia este
princípio e que este princípio seria a água. Foi exatamente por tentar ter uma
visão global, totalizante de toda a existência que Tales foi considerado como
sendo o primeiro filósofo. No entanto, se Tales é considerado o primeiro filóso
fo, não podemos deixar de considerar que a atividade filosófica sempre existiu
na humanidade, pois é fruto da sua capacidade de entendimento, presentes des
de a criação, e que Tales, apenas, a desenvolveu separadamente do pensamento
religioso, usando a razão como único e exclusivo critério de desenvolvimento
dos seus argumentos.
Com efeito, bem antes de Tales, notadamente nas civilizações mais antigas,
que são as orientais, a reflexão em tomo da existência, do mundo e de Deus
era algo que já estava presente, mas, e aí reside a grande diferença entre a fi
losofia ocidental e a oriental até os dias de hoje, nas reflexões e pensamentos
até o surgimento de Tales, não havia a utilização da razão como único critério
de avaliação, mas, bem ao contrário, misturado ao exercício da razão estavam
os mitos e as crenças religiosas dos pensadores, algo que persiste até hoje na
filosofia do Oriente.
O P r o b l e m a do M al 111
Assim, embora a filosofia tenha ganhado, por assim dizer, autonomia e
caminho próprio no Ocidente, a partir de Tales de Mileto, o fato é que já en
contramos uma produção filosófica bem anterior, ainda que misturada com o
pensamento religioso.
Neste pensamento filosófico ainda relacionado e misturado com a religião,
próprio do Oriente até os presentes dias, é natural que as discussões filosóficas
tivessem sempre como foco, como centro de interesse, o problema da divin
dade e do relacionamento entre a divindade e o homem. Atividade das mais
básicas e elementares do ser humano, a ponto de ter sido, inclusive, conside
rada como a própria razão de ser da vida em sociedade, a religião é encontra
da nos mais simples grupos sociais humanos e traz, sempre, uma explicação
totalizante do mundo, algo que é essencial para um ser consciente e que tem
entendimento como é o homem.
Ao trazer uma explicação para o mundo que cerca o homem, a religião, de
forma automática, instiga o homem a refletir sobre o significado da sua exis
tência, sobre a razão de ser do mundo, sobre a sua posição na ordem cósmica,
sobre a existência de Deus e da natureza do relacionamento entre Deus e o
homem, questões que, além de religiosas, são, conforme já vimos, filosóficas.
Deste modo, j á mesmo antes de Tales de Mileto, encontramos reflexões, digres
sões a respeito do papel do homem no universo e do seu relacionamento com a
divindade. Nesta discussão a respeito do homem, de Deus e do relacionamento
entre eles, é que surge, de pronto, uma intrigante questão, que tem atormentado
as mentes humanas ao longo da história, questão esta que por ser um grande
obstáculo ao pensamento, um grande desafio aos pensadores, é considerada
sempre um “problema” (palavra grega que significa “aquilo que está diante
dos olhos”, “aquilo que impede alguém de ver o que está além”), a saber: o
problema do mal. Com efeito, ao raciocinar sobre o homem e a divindade,
bem como sobre o relacionamento entre ambos, encontra o homem a realidade
da presença do mal no mundo. Mesmo nas religiões pagãs, onde, não raro, os
deuses eram projeções dos homens e, portanto, dotados dos mesmos vícios e
paixões que caracterizam os homens, não passou despercebida a ideia de que
a maldade deveria ter uma origem e que deveria ser objeto de explicação, pois
não é algo natural e que deva ser considerado como algo que deva ser aceito
por todos. Como explicar a existência do mal, assim, foi algo que sempre in
trigou o ser humano e que, portanto, sempre esteve na pauta das reflexões e
dos pensamentos dos filósofos através da história. Com o triunfo das religiões
monoteístas, então, a questão aumentou ainda mais de importância e o desafio
se intensificou, pois, no monoteísmo temos um único Deus, que, necessaria
mente, será bom, é imutável e tem um caráter que não pode se alterar. Então,
112 A D o u t r in a d o P ec a d o
como considerar que, diante de um Deus com tais qualidades, haja o mal e seja
ele uma realidade presente e evidente no mundo em que vivemos? A maldade
existe e é maligna. Entretanto, Deus é Todo-Bondoso e Todo-Poderoso. Como
é que podemos reconciliar estes fatos? Este é o problema do mal.
Sem pretendermos ser exaustivos, nem mesmo introdutórios, veremos, ao
longo da história, como tem se enfrentado esta questão, seja nos domínios da
filosofia, seja nos domínios da teologia, entendida esta, aqui, como a reflexão
racional com base em ideias religiosas indiscutidas.
2. As correntes de pensamento no tratamento do problema do
mal: 0 dualismo. Para resolver o problema do mal, ao longo dos séculos, os
pensadores têm adotado algumas linhas de pensamento, que merecem ser aqui
observadas. Em primeiro lugar, há aqueles que discutem a questão do mal a
partir de uma concepção dualista do mundo, ou seja, enxergam que o mundo
tem dois princípios, duas forças de igual magnitude, de igual intensidade, mas
que são contrárias: o bem e o mal. É compreensível este ponto de vista do
pensamento humano. Ao tomar consciência de que, à sua volta existe tanto o
bem quanto o mal, é natural que o homem chegue à conclusão de que o mundo
é o resultado de um embate entre dois princípios contrários, entre duas forças
antagônicas: o bem e o mal.
Assim, pensa o homem, quando analisamos o princípio de todas as coisas,
de toda a ordem universal, vamos encontrar estas duas forças contráriasque
estão à nossa volta, que habitam a nossa realidade, duas forças que, necessaria
mente, são antagônicas e que, portanto, lutam entre si desde o início dos tem
pos e que são as responsáveis pela história universal. Deste modo, o mal seria
algo realmente existente e, mais do que isto, seria uma das forças criadoras do
mundo. Esta visão, este modo de pensar foi denominado “dualismo”, expres
são cuja invenção é atribuída ao historiador Thomas Hyde, quando escreveu
sobre o Império Persa em 1700. A religião dos antigos persas, o zoroastrismo
ou masdeísmo, é um dos exemplos mais claros desta concepção do mal.
Com efeito, esta religião estava baseada na ideia de que existem duas for
ças antagônicas no universo, a saber: o princípio do bem (ou da luz) e o princí
pio do mal (ou das trevas), representados, respectivamente, por Ahura Mazda
ou Ormuzd (o deus do bem) e Ahriman (o deus do mal).
Segundo os zoroastristas, o mundo tinha sido o resultado de um encontro
casual entre estas duas forças e, desde então, elas estariam em constante luta pelo
domínio do universo, em especial do homem, ainda que, no futuro, o bem triun
faria sobre o mal, já que a luz age por livre-arbítrio e com um claro desígnio, en
quanto que o mal, por acaso e em completa ausência de propósito ou finalidade.
O P r o b l e m a do M a l 113
Ao lado dos zoroastristas (que, aliás, exerceram influência sobre o pensa
mento judaico, uma vez que Israel esteve sob domínio persa durante alguns
séculos), também dão explicações dualistas para o problema do mal os taoístas
e os neoconfucionistas, pensadores religiosos oriundos da China. O taoísmo,
religião fundada pelo chinês Lao-Tsé, é uma das chamadas “três religiões” ou
“San Chiao”, um conglomerado de ideias e crenças que é, sem dúvida alguma,
a principal fonte da cultura chinesa e que resistiu, inclusive, à tentativa de
modificação cultural vivida durante o regime comunista de Mao Tsé-Tung. O
taoísmo foi fundado cerca de 500 a.C. e parte da ideia de que o universo é o
resultado do equilíbrio de duas forças, que devem sempre estar em harmonia,
o “yin” e o “yang”, respectivamente o pólo negativo e o pólo positivo da ener
gia vital e espiritual. Bem e mal, portanto, seriam pólos extremos da mesma
energia e não seriam diferentes em essência, devendo ser sempre buscado o
equilíbrio entre eles, pois aí residiria o caminho (em chinês, “tao”) para que se
pudesse alcançar a felicidade. Para os taoístas, o princípio de todas as coisas,
o Ser Absoluto, possui em si mesmo estes dois princípios, de forma que bem e
mal são eternos e devem perdurar, desde que haja o equilíbrio entre eles.
Estas concepções dualistas antigas têm encontrado ressonância nos nossos
dias, em especial dentro dos movimentos que têm sido reunidos sob a gené
rica denominação de “Nova Era”, já que têm em comum a preocupação de
fazer crer que é chegado um novo tempo e que se deve superar o pensamento
judaico-cristão que tem dominado a cultura humana nos últimos dois milênios.
Cada vez mais temos visto livros, filmes e demais produções científicas, literá
rias e artísticas a defender a tese de que bem e mal são forças de igual natureza,
que devem apenas ser harmonizadas e reunidas, sem oposição, para que se
alcance a paz e a felicidade. Expressões corriqueiras como “do bem” e do “do
mal” têm sido utilizadas pelos nossos jovens, adolescentes e até crianças em
todo o mundo, havendo, cada vez mais, uma crença generalizada de que o bem
e o mal são princípios que não se opõem, apenas pontos de vista diferentes de
uma mesma realidade cósmica.
Até mesmo entre os pensadores ligados a filosofias e crenças que repelem o
dualismo, como o próprio cristianismo, estão a surgir, com cada vez maior in
tensidade, doutrinas e conclusões que, ao serem analisadas com profundidade,
acabam levando o seu seguidor a uma concepção dualista do mundo. Assim,
por exemplo, doutrinas como a da chamada batalha espiritual, que tende a
transformar a vida do cristão no resultado de uma luta entre as forças do bem
(os anjos bons) e as forças do mal (os anjos caídos), adequando, assim, o pen
samento dualista a expressões e figuras bíblicas. Entre os hebreus, percebemos
que, até o domínio persa, o dualismo nunca foi um pensamento que tivesse
114 A D o u t r in a d o P e c a d o
guarida. Quando vemos o livro de Jó, por exemplo, livro este que é conside
rado como sendo o mais antigo livro da Bíblia, ali notamos que o mal, perso
nificado na figura de Satanás, não é algo que tenha o mesmo poder ou força
do bem, representado por Deus. Bem ao contrário, Deus é apresentado como
um verdadeiro soberano, que está no controle de toda a situação e que permite
que o Diabo ataque o patriarca Jó e, mesmo assim, dentro de limites explíci
tos, que jamais são ultrapassados. Dentro deste quadro, portanto, na teologia
hebraica, embora o mal exista e não se pretenda negar a sua existência, nunca
ele é apresentado como algo que existisse desde o início do universo e que é
completamente subalterno ao bem, este, sim, eterno e sempre existente.
Verdade é que, após o domínio persa, que se dará, precisamente, no auge do
desenvolvimento do zoroastrismo (Ciro é tido, na história, como um dos gran
des incentivadores desta religião), os mestres religiosos judeus sofrerão uma
inevitável influência do pensamento dualista, o que gerará as concepções rabí-
nicas do “Ietzer-Tov” e “Ietzer-Ha-Ra”, ou seja, respectivamente, “inclinação
para o bem” e “inclinação para o mal”, até hoje presentes na literatura judaica.
Afirma o enciclopedista judeu Nathan Ausubel que, apesar desta nítida in
fluência do zoroastrismo, o judaísmo não se tomou dualista, pois, “ ...havia
uma diferença fundamental entre o dualismo encontrado na religião persa e o
que se desenvolveu posteriormente de maneira independente, entre os judeus.
Na religião de Zoroastro, havia duas deidades, simbólicas do bem e do mal
(...), [mas] os ensinamentos rabínicos dotavam esse conflito de um caráter
naturalístico - de fato, quase psicológico - declarando que o “Bem” e o “Mal”
não eram, ao contrário do que pretendiam os persas, forças sobrenaturais que
operavam fora dos seres humanos, mas inclinações naturais dentro dos seres
humanos, lutando sem cessar pela supremacia da mente e da alma, dentro do
“reino do coração” (...) não eram poderes absolutos e sim condicionais, sujei
tos a controles morais da mente e às decisões da vontade”.6
Vemos, assim, que, mesmo diante da influência do zoroastrismo, os judeus
nunca deram ao mal um “status” de algo que tivesse uma existência indepen
dente ou que fosse um contraponto ao bem, sempre mantendo o pensamento
que se encontra desde o livro de Jó, ou seja, de que o mal existe, mas como
algo subalterno, algo submisso ao bem. Se, entre os judeus, o dualismo não
deixou de pôr as suas marcas, diferente não foi o que se viu entre os cristãos.
Já desde o primeiro século do cristianismo, levantaram-se ensinadores e pen
sadores a defender uma postura dualista no tratamento do problema do mal,
corrente de pensamento, entretanto, que foi vigorosamente combatida pelos
chamados “pais da Igreja”, como são chamadas as lideranças e mestres cris
tãos dos dois primeiros séculos de nossa era e que se seguiram imediatamente
O P r o b l e m a d o M a l 115
depois dos apóstolos. Coube aos gnóstieos a defesa de um pensamento dualista
dentro do cristianismo então nascente. Marcião de Sinope (110-160 d.C) foi
um teólogo cristão de índole gnóstica e fundador do que veio depois a ser cha
mado marcionismo. Foi o autor das “Antíteses”. De acordo com a sua teologia
o Antigo Testamento deveria ser rejeitado e apenas os textos que ele atribuiu a
Paulo deveriam ser tidos como sagrados. E considerado o primeiro crítico bí
blico. Considerava que o Deus vingativo do Antigo Testamento não poderia ser
o mesmo Deus amoroso a que Jesus se referia como Pai, e por isso, achava que
só o Novo Testamento interessaria aos cristãos. Valentino(135-165) e de seu
discípulo Basílides (séc. II) defenderam a tese de que a existência do mal so
mente pode ser explicada pelo fato de que, ao lado do Deus bondoso do Novo
Testamento, haveria um princípio do mal, dotado de justiça que teria sido o
Criador deste mundo, que seria o Deus do Antigo Testamento. Assim, o mal
teria como explicação a existência destes dois deuses, sendo certo que o Deus
do Novo Testamento, que seria, de fato, o verdadeiro Deus, superior ao ou
tro, venceria este deus iracundo e justo. Contra este posicionamento gnóstico,
levantaram-se, como já dissemos, os chamados “pais da Igreja”, que, por causa
disto, não puderam deixar de enfrentar o tormentoso “problema do mal”.
3. As correntes de pensamento no tratamento do problema do
mal: o monismo e as respostas ateístas e similares. O dualismo é a
resposta mais imediata que se pode ter diante do problema do mal. Ao ver que,
no mundo, existem tanto o bem quanto o mal, é até claro entender-se que bem
e mal são forças existentes desde sempre no universo e que deverão assim
existir ou, como defende a maior parte dos dualistas, uma das forças triunfará
no término da história ou acabará havendo uma conciliação entre elas, com
grandes e radicais transformações na ordem do universo.
Entretanto, quando se pensa sob a perspectiva do dualismo, chega-se, tam
bém, a uma inevitável conclusão: Deus, se for considerado como a fonte do
bem, não seria um ser onipotente, muito menos onipresente. Se temos duas
forças contrárias, que se digladiam no universo, elas são da mesma natureza e
grandeza, tanto assim que os zoroastristas, embora defendam a superioridade
de Ahura Mazda em relação a Ahriman, não deixam de reconhecer nestas duas
figuras dois deuses, exatamente porque, ao considerarem que há dois princí
pios, não podem reconhecer que exista um único Deus.
É, precisamente, esta a grande e insuperável dificuldade com que se en
frentarão os pensadores monoteístas ao analisarem o problema do mal, nota-
damente a partir do contato do pensamento religioso judaico seja com o zo
roastrismo, seja com a filosofia grega, a partir do domínio persa e helenístico,
116 A D o u t r in a d o P e c a d o
ou seja, depois do cativeiro babilônico e da própria conclusão da produção das
Escrituras hebraicas.
Se o mal existe, então Deus não seria o Ser perfeito, onipotente, onipre
sente que é revelado nas Escrituras? Como conciliar a existência do mal com
o caráter absoluto da divindade, que é solenemente proclamado na introdução
aos dez mandamentos (Dt 6.4)? Eis a questão que irá incomodar os filósofos
e teólogos a partir do século II a.C. e, num certo sentido, até os dias de hoje.
Não houve quem, precipitadamente, diante deste aparente paradoxo, não tenha
preferido ver aí uma prova da inexistência de Deus. Assim, diante da consta
tação de que o mal existe, preferiram estes pensadores afirmar que, diante da
existência do mal, Deus não existe.
Segundo estes pensadores, pois, não há que se falar em bem ou mal, por
quanto tais conceitos não passariam de invenções mentais, não havendo, as
sim, nem bem, nem mal no universo.
Um dos principais defensores deste pensamento foi o filósofo alemão Frie-
drich Nietzsche (1844-1900), para o qual “bem ou mal, noções imutáveis, não
existem”, já que o mal seria apenas a “afirmação da vida”, que teria sempre
sido negada e sufocada na sociedade humana, mormente pelos valores ado
tados pelo Cristianismo. Para quem, como Nietzsche, “Deus havia morrido”,
nada mais natural que entender que bem ou mal não existiriam e que se deveria
buscar um sistema ético que estivesse “para além do bem e do mal”, como diz
o título de um de seus livros.
Este pensamento (que, aliás, tem sido acolhido e entusiasticamente defen
dido por alguns nos nossos dias) não resolve o problema, mas, antes, represen
ta uma fuga dele, já que, sendo ou não “afirmação da vida”, o fato é que o mal
existe e precisamos dar conta de sua origem.
Alguns outros, embora não tenham chegado à afirmação de que Deus não
existe, assumiram uma posição muito similar, preferindo dizer que o mundo
não é uma ordem, mas fruto do acaso e da probabilidade, de forma que o bem
e o mal são resultados acidentais do anárquico movimento das forças cósmicas.
Um pensamento desta natureza, denominado pelos estudiosos de “tiquismo”
(do grego “tyche”, chance, aposta), não deixa de ser uma variante da corrente de
pensamento ateia, porquanto, ao se negar a existência de uma ordem no mundo,
está-se, em outras palavras, negando-se a existência de Deus, ou, pelo menos,
dizendo-se que Deus não é onipotente, já que não é capaz de estabelecer uma
ordem na criação. Há aqueles, ainda que, embora não questionem a existência
de Deus, entendem ser impossível dizer se Ele é bom ou não.
Indignado e revoltado com o terremoto que destruiu Lisboa em Io de no
vembro de 1775, o filósofo francês Voltaire (1694-1778) preferiu afirmar que
O P r o b l e m a d o M a l 117
Deus era um ser existente, mas, absolutamente indiferente diante de tudo, de
forma que não se poderia afirmar se Deus era bom ou mau, de tal maneira que o
problema do mal deveria ser considerado uma questão insolúvel e que deveria
ser deixada de lado. Tal postura não deixa, também, de ser uma fuga do pro
blema e que, como já dissera Epicuro, não consegue explicar como admitir-se
a existência de um Deus que não seja o Sumo Bem. Do mesmo defeito é a po
sição que foi tomada pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860),
segundo o qual Deus não seria um ser benévolo, de forma que a existência do
mal pode ser resultado até do próprio exercício da vontade divina, uma vez que
Deus não estaria vinculado ao bem. Aqui, também, não explica o filósofo como
pode haver um Deus que não seja bom.
4. As correntes de pensamento no tratamento do problema do mal:
o monismo e as respostas monoteístas. Visto as respostas que foram dadas
pelos pensadores que não se vinculam ao pensamento monoteísta, vejamos
como o problema do mal foi enfrentado por parte dos pensadores que não
negaram sua fé e procuraram, de uma forma racional, superar este intrincado
problema.
O primeiro teólogo cristão que buscou sistematizar a sua produção foi Oríge-
nes de Alexandria (185-255), cujo conhecimento da filosofia grega permitiu-lhe
construir uma obra em que buscava, ao mesmo tempo, explicar as Escrituras e
defender a fé cristã das críticas duras que os filósofos começavam a fazer. Ao
tratar do problema do mal, Orígenes tinha em mente, principalmente, combater
os gnósticos e seu dualismo. Orígenes vê a solução do problema do mal no livre-
arbítrio que Deus concedeu ao homem na criação. Empenha-se, portanto, em
provar que o livre-arbítrio existe e foi criado por Deus, a fim de demonstrar que,
diante da liberdade que foi dada tanto ao homem quanto aos seres angelicais, pu
deram estes seres distanciar-se ou aproximar-se de Deus. O mal, portanto, nada
mais seria do que o abandono ou a perda da bondade: “O mal é a privação ou
ausência da bondade; é um não-ser, e como tal, é o oposto do ser e do bem. Na
proporção em que o homem se aparta do bem, ele perde sua perfeição e cresce
no mal”.7
Considerar o mal como um não-ser, apenas como um distanciamento ope
rado pela vontade entre Deus e os seres criados dotados de livre-arbítrio será
a primeira solução que se dará para o problema do mal, portanto. Esta solução
resolve, a um só tempo, vários aspectos do problema do mal. Senão vejamos.
Quando dizemos que o mal é um não-ser, ou seja, algo que não existe, não
mais precisamos explicar como Deus, que, por definição, é o Criador de to
das as coisas, poderia ter criado, a um só tempo, o mal, pois ele é algo que
118 A D o u t r in a d o P e c a d o
não existe e, portanto, não foi criado. Quando dizemos que o mal é um não-
ser, também não precisamos explicar como Deus, sendo um ser infinitamente
bom, poderia ter criado o mal, o que O tomaria um ser contraditório. Como
o mal não é, ouseja, não existe, não faz parte daquilo que não foi criado. Por
fim, quando dizemos que o mal é um não-ser, é apenas a perda ou abandono da
bondade, conseguimos explicar como ele surgiu, apesar de Deus ser o Sumo
Bem, bem como entendemos porque o bem, apesar da presença do mal, não
deixa de ser soberano.
Daí, ao explicarmos o problema do mal, também acabamos por compre
ender que haverá um tempo em que este distanciamento se desfará, em que
haverá uma restauração universal, “quando Deus for tudo em todas as coisas,
já não haverá lugar para o mal” (apud op.cit., p.74).
Diante de tamanha força, a solução dada por Orígenes influenciará deci
didamente todos os pensadores que se seguirão na filosofia e teologia cristãs,
com algumas nuanças.
Gregório de Nissa (335-394), ao tratar do tema do problema do mal, adota a
postura de Orígenes, considerando o mal como um não-ser. Para este pensador,
o pecado é a inexistência de algo que deveria existir, ou seja, o ser humano,
criatura que é de Deus, deveria, ao receber o livre-arbítrio, decidir-se por obe
decer a Deus, mas não o fez, de modo que o mal surge, exatamente, do fato de
não existir uma decisão por Deus que deveria ter existido. O pecado, assim, diz
Gregório, “não é nada de positivo, nada de criado por Deus, mas, sim, algo de
privativo, uma carência, um verdadeiro nada” (op. cit., p. 102).
Dionísio Pseudo-areopagita (séc. V ou VI) explicita, como ninguém, o pen
samento de Orígenes: “Donde se origina, então o mal, uma vez que é impos
sível negar-se-lhe a existência manifesta?”. O mal, enquanto tal, não tem ser;
tampouco ocupa um lugar nas coisas onde existe. De forma que o mal não se
encontra nem nos anjos, nem nos demônios; não está na alma, nem nos animais,
nem na natureza, nem nos corpos; não se encontra nem mesmo na matéria(...).
Em suma, o mal é uma fraqueza e uma omissão do bem.” (op. cit., p. 119).
Agostinho de Hipona (354-430), o grande sistematizador da filosofia e da
teologia cristã dos três primeiros séculos e cuja influência se faz sentir até o
presente no pensamento da Cristandade, também neste tema teria uma impor
tância fundamental.
Agostinho conta, em seu livro Confissões, onde narra toda a sua trajetória
até sua conversão ao Cristianismo, que teve de enfrentar o problema do mal
quando já estava às portas da conversão. Já tendo sido evangelizado por Am-
brósio, bispo de Milão, Agostinho se debatia com o questionamento a respeito
do mal: “se todas as coisas foram criadas pela bondade divina, que as penetra
O P r o b l e m a do M a l 119
da maneira acima descrita, elas devem ser boas em sua totalidade. E assim pa
rece não haver lugar para o mal. Entretanto, é inegável a existência do mal físi
co e moral; o mal não pode ser um puro nada, visto ser objeto de temor e causa
dos sofrimentos. Por outro lado, ele não pode ter a Deus por autor. Que é, pois,
o mal?” Ele, Agostinho entrou em conflito com Deus muitas vezes, por causa
do problema do mal. “Mas eu, mesmo quando afirmava e cria firmemente que
és incorruptível, inalterável, absolutamente imutável, Senhor meu, Deus ver
dadeiro que não só criaste nossas almas e nossos corpos, e não somente nossas
almas e corpos, mas todas as criaturas e todas as coisas. Todavia, faltava-me
ainda uma explicação, a solução do problema da causa do mal. Qualquer que
ela fosse, estava certo de que deveria buscá-la onde não me visse obrigado, por
sua causa, a julgar mutável a um Deus imutável, porque isso seria transformar-
me no mal que procurava. Por isso, buscava-a com segurança, certo de que era
falsidade o que diziam os maniqueus; deles fugia com toda a alma, porque via
suas indagações sobre a origem do mal cheias de malícia, preferindo crer que
tua substância era passível de sofrer o mal do que a deles ser susceptível de o
cometer. Esforçava-me por compreender a tese que ouvira professar, de que o
livre-arbítrio da vontade é a causa de praticarmos o mal, e de teu reto juízo é
a causa do mal que padecemos. Mas era incapaz de entendê-lo com clareza. E
esforçando-me por afastar desse abismo os olhos do meu espírito, nele me pre
cipitava de novo, e tentando reiteradamente fugir dele, sempre voltava a recair.
O fato de eu ter a consciência de possuir uma vontade, como tinha consciência
de minha vida, era o que me erguia para a tua luz. Assim, quando queria ou não
queria alguma coisa, estava certíssimo de que era eu, e não outro, o que queria
ou não queria, e então me convencia de que ali estava a causa do meu pecado.
Quanto ao que fazia contra a vontade, notava que isso mais era padecer do
mal do que praticá-lo; julgava que isso não era culpa, mas castigo, que me
instava a confessar justamente ferido por ti, considerando tua justiça”. Mas de
novo refletia: “Quem me criou? Não foi o bom Deus, que não só é bom, mas a
própria bondade? De onde, então, me vem essa vontade de querer o mal e de
não querer o bem? Seria talvez para que eu sofra as penas merecidas? Quem
depositou em mim, e semeou minha alma esta semente de amargura, sendo eu
totalmente obra de meu dulcíssimo Deus? Se foi o demônio que me criou, de
onde procede ele? E se este, de anjo bom se fez demônio, por decisão de sua
vontade perversa, de onde lhe veio essa vontade má que o transformou em
Diabo, tendo ele sido criado anjo por um Criador boníssimo?” Tais pensamen
tos de novo me deprimiam e sufocavam, mas não me arrastavam até aquele
abismo de erro, onde ninguém te confessa, e onde se antepõe a tese que tu és
sujeito ao mal a considerar o homem capaz de o cometer.8
120 A D o u t r in a do P e c a d o
Agostinho, porém, ao se debruçar sobre este questionamento, percebe que,
na verdade, a resposta de Orígenes não poderia ser descartada.
Agostinho percebe que o fato de haver sofrimentos e temor no mundo não é
resultado do mal, mas, antes, do fato de que todas as coisas devem sua existên
cia a Deus e que, portanto, o fato de haver imperfeições e de as coisas deixarem
de existir é fruto desta situação, pois somente Deus não tem princípio nem
fim. Agostinho, também, percebeu que todas as coisas que existem são boas,
porque têm sua fonte em Deus e que, portanto, o mal não pode ser senão uma
lacuna, um defeito, uma ausência de algo que deveria estar presente.
Assim, Agostinho acaba por concordar com Orígenes e a enxergar que o
temor e o sofrimento existentes no mundo não decorrem do mal, mas, antes, é
conseqüência da imperfeição das criaturas.
Deste modo, o posicionamento de Orígenes é confirmado pelo grande filó
sofo e teólogo, que, além do mais, lança por terra a objeção de que a solução
seria contrária à evidência dos fatos e à realidade do sofrimento existente no
mundo.
Depois de Agostinho, quem dissertará longamente sobre o tema será Tomás
de Aquino (1225-1274), o grande sistematizador da filosofia cristã na Idade
Média, para quem “a essência do mal consiste na deficiência de um determina
do grau de perfeição e, por conseguinte, na privação de um determinado bem.
De sorte que a mesma existência de seres transitórios implica a existência do
mal.” (apud op. cit., p.466).
Assim, ainda que mantenha o posicionamento cristão já clássico e tradi
cional, de considerar o mal como um não-ser, São Tomás de Aquino vai mais
além, ao afirmar que o mal chega, mesmo, a ser uma necessidade, na medida
em que existem seres imperfeitos. Para o Aquinate, portanto, onde há imperfei
ção, há mal e, por ser o homem um ser imperfeito, a existência do mal é uma
inevitabilidade.
Tal entendimento é decorrência da influência do pensamento do filósofo
e teólogo judeu espanhol Maimônides (1135-1204) sobre a obra de Tomás de
Aquino. Maimônides, em seu livro “Guia dos Perplexos” defendeu a tese de
que o mal pode ser explicado ora pela limitação necessariamente inerente à
criatura, ora pelas desordens provocadas pelas próprias criaturas no exercício
da sua liberdade. Maimônides será o grande filósofo judeu da Idade Média e é
a demonstração de que o problema do mal nãoapenas incomodou os cristãos,
mas todos os monoteístas.
Pensando desta maneira, Tomás de Aquino acaba por nos trazer a noção do
“substrato positivo do mal”. Para o teólogo-filósofo oficial da Igreja Romana,
embora o mal seja um não ser, o fato é que o mal tem um substrato, ou seja,
O P r o b l e m a d o M a l 121
para que possamos dizer o que é o mal, temos de dizer que ele não é uma
substância, que ele não é algo que existe. Ora, se o mal só pode ser definido e
conhecido através do ser, temos que a própria definição do bem exige que nós
saibamos o que é o bem, ou seja, o mal é somente concebível a partir do bem,
daí porque dizermos que o substrato do mal é o bem. Entretanto, diz Tomás de
Aquino, o bem não é a causa do mal, é apenas concebível a partir da noção do
mal, de forma que Deus não é nem pode ser a causa do mal, pois Deus só causa
o ser e tudo o que é, como dizem as Escrituras, é bom (cf. Gn 1.31).
René Descartes (1596-1650), filósofo francês considerado como um dos
iniciadores do racionalismo e um dos principais responsáveis pela superação
da filosofia medieval, também enfrentou o problema do mal em sua obra. Para
Descartes, o problema do mal estaria no fato de que a vontade do homem é li
vre e, como tal, como é da natureza das coisas finitas, como o homem, errarem,
o erro advém naturalmente ao homem, de forma que daí é que surge o mal, que
nada mais é que o erro. O erro, diz Descartes, implica em sofrimento e, por
isso, teríamos a presença do sofrimento apesar de o erro ser, a rigor, um não
ser, vez que não provém de Deus, que é, por definição, perfeito e bom.
Deste modo, mais uma vez, a exemplo do que fizera Agostinho, busca-se
explicar porque, apesar de ser um nada, o mal consegue causar tantos males e
sofrimentos neste mundo em que vivemos. Foi, precisamente, para fugir a esta
crítica que sempre permeou a solução cristã para o problema do mal, qual seja,
a constatação de que, embora seja um não-ser, o mal traz efeitos e conseqüên
cias sentidas por todos os homens, o que não parece apropriado para algo que é
dito não existir, que o filósofo alemão Gottffied Wilhelm Leibniz (1646-1716)
apresentou a sua tese do “melhor de todos os mundos possíveis”.
Para Leibniz, somente Deus é perfeito e, portanto, todos os demais seres
são imperfeitos. Desta imperfeição, surgem as circunstâncias adversas, que
nada mais são que o mal, que é, como já dissera Tomás de Aquino, uma neces
sidade, já que o mal deve ser considerado como uma programação estabelecida
por Deus.
Com efeito, estas imperfeições existem exatamente para que sejam enten
didas em toda a sua excelência as perfeições, ou seja, pelo contraste entre as
adversidades, entre os males e os bens, pela comparação entre a existência e
a falta de existência, é que compreenderemos o que é o bem e como devemos
enaltecê-lo e reconhecer nele a perfeição divina. Por isso, o mal, numa pers
pectiva da própria criação, é um bem, na medida em que, somente através do
mal é que poderemos vislumbrar o bem enquanto tal. Deste modo, o universo
em que vivemos é o melhor de todos os mundos possíveis, uma vez que foi
feito de tal maneira que possamos contemplar a perfeição divina.
122 A D o u t r in a do P e c a d o
Dizer, portanto, que o sofrimento, que os efeitos causados pelo mal no
mundo são uma demonstração de que o mal não é uma ilusão, como diz a solu
ção monoteísta, não parece ser uma correta afirmação, pois são estes sofrimen
tos e conseqüências funestas que nos permitem perceber o que é o bem e, como
tal, tomar consciência de que estamos no melhor dos mundos possíveis.
Para o teólogo norte-americano radicado no Brasil, R. N. Champlin, exa
tamente por não poder enfrentar a contento a objeção de que o mundo está re
pleto de sofrimento e de efeitos causados pelo mal, a solução que aqui estamos
chamando de monoteísta, “não pode explicar muitas de suas formas [do mal]; e
nem as mentes não-filosóficas, ou mesmo filosóficas, se satisfazem inteiramen
te com esta explanação. Após exame, tudo se reduz a um ponto de vista “sim
plório” sobre a existência do mal ( .. .) uma posição criada para aliviar Deus de
haver criado ou de estar permitindo o mal (...). Eliminar a existência do mal
deste mundo, mediante alguma explicação racionalizadora, não dá solução ao
problema, mas tão-somente oculta cruamente o mesmo, não passando tudo de
um truque filosófico”.9
Entretanto, esta crítica parece não levar em conta a postura de Leibiniz e
que, ao nosso ver, parece ter respondido bem a esta objeção. Dizer que o mun
do está repleto de sofrimento e de efeitos causados pelo mal e que, por isso,
não se pode acolher a ideia de que o mal seja uma ilusão, como bem argumen
tou Leibniz, é considerar que possa existir um mundo melhor do que este.
E este, aliás, o argumento apresentado por Jaime Quintas em seu artigo
“O problema do mal”, onde, textualmente, assim afirma o filósofo: “Quando
afirmamos que a quantidade de mal existente no mundo é incompatível com a
existência de Deus estamos a afirmar duas coisas simultaneamente:
a) Há demasiado mal no mundo.
b) É possível a existência de um mundo melhor.
Caso a afirmação 2 seja falsa, Deus, mesmo sendo onipotente, terá criado o
melhor dos mundos, pelo que o argumento do mal perde a sua força”.
Ora, como bem observou o filósofo Quintas, uma coisa é dizermos que en
tendemos, sob o nosso ponto de vista, que o mundo existente possa ser melhor;
outra é a constatação de que sempre acharemos que o mundo onde estamos,
que sempre será imperfeito, pode melhorar. Nas palavras de Quintas: “exis
tência de um mundo considerado bom pelos seus habitantes é logicamente
impossível, pelo que um mundo considerado mau pelos seus habitantes não
se toma incompatível com Deus. O nosso mundo é considerado mau pelos
seus habitantes; mas daí não se segue que é incompatível com Deus”. Vemos,
portanto, que a crítica apresentada à solução monoteísta não se sustenta, uma
O P r o b l e m a d o M a l 123
vez que não é pela simples impressão que se tenha do mundo que poderemos
concluir que o mal seja algo existente e que desafie a própria existência de
Deus tal como a concebe um monoteísta.
Mas não bastasse isso, também não deixamos de ter de considerar que cabe
à filosofia tentar refletir sobre o problema do mal e, à luz da razão, explicá-lo
de forma convincente e lógica e não trazer soluções para que o mal seja elimi
nado do mundo. A solução monoteísta, que tem suas raízes em Orígenes, dá
bem conta das objeções apresentadas por Epicuro e que se apresentavam como
desafiadoras para quem tinha uma fé monoteísta, como os judeus e, posterior
mente, os cristãos e os muçulmanos.
Há evidência de que a explicação fornecida não elimina o mal nem suas
conseqüências, até porque não é tarefa da filosofia esta eliminação. Desta ma
neira, exigir-se do filósofo ou do teólogo que seja dada uma solução a este
problema, em termos concretos, é algo que não nos parece razoável.
Ademais, se fosse perguntar a qualquer destes pensadores qual seria a so
lução para o mal, certamente que apresentariam a sua fé, pois o mal só poderá
ser solucionado, segundo este grupo de pensadores, se a pessoa aceitar, por fé,
a crença que professam.10
5. As correntes de pensam ento no tratamento do problema do
mal perguntando: quando o mal terá fim? Aqui, portanto, chega a vez
de Epicuro, o filósofo grego perguntar: quando o mal terá fim? Quando se
encontrava no Areópago, na colina de Marte, Paulo foi questionado pelos dis
cípulos do filósofo grego Epicuro. Assim diz o texto divino: “E alguns dos
filósofos ‘epicuristas’ e ‘estoicos’ contendiam com ele (Paulo); e uns diziam:
que quer dizer este paroleiro? E outros: parece que é pregador de deuses. Por
que lhes anunciava a Jesus e a ressurreição” (At 17.18). Os epicuristas que
aqui estão em foco, eram discípulos de Epicuro. Filósofo grego que nasceu em
Samos, 341 a.C. e morreu em Atenas, 270 a.C. Ensina em Mitilene, Lâmpsaco
e Atenas, ondeabre, em 306 a.C., uma escola num jardim. Os seus discípulos
consideram-no um personagem divino. Aguardo da sua morte, tanto a sua dou
trina como a sua escola adquirem caráter religioso. Da sua obra conservam-se
apenas três cartas (a Heródoto, a Pítocles e a Meneceu) e uns oitenta aforismos,
descobertos em 1822. A escola filosófica de Epicuro é ao mesmo tempo uma
comunidade de amigos e uma seita. O pensamento Epicúrio, como o estoico,
dirige a atenção para as questões morais. Para Epicuro e a sua escola, a virtude
identifica-se com o saber; por isso, o modelo de virtude é o sábio. O sábio é
feliz, caracteriza-se pelo domínio de si, pela sua constância e pela sua simpli
cidade. Afasta-se da política e, em questões de justiça, é propenso à clemência.
12 4 A D o u t r in a d o P e c a d o
O objetivo fundamental do epicurismo é a moral, isto é, a ordenação da con
duta humana de modo a ser possível alcançar uma vida feliz. Para Epicuro a
felicidade é a obtenção de prazer sabiamente administrado e o afastamento da
dor. Deste modo, os epicuristas dão da natureza humana uma explicação hedo
nista: a lei fundamental da natureza é a procura do prazer. Quanto à descrição
de fenômenos naturais, os epicuristas recuperam o atomismo de Demócrito
com algumas variantes; apenas lhes interessa a natureza na medida em que
pode contribuir para a felicidade do homem libertando-o dos seus temores,
demonstrando ser vão o temor dos deuses, ser vão o temor da morte, estar o
prazer ao alcance de todos e que a dor, sendo breve e transitória, é facilmente
suportável.
a) Epicuro questiona porque Deus não destrói o mal. Filósofo grego, já
citado neste argumento e que é citado por meio de suas ideias em Atos 17.18,
chegou a por em dúvida o poder absoluto de Deus em relação ao mistério do
mal, dizendo: “Ou Deus quer remover a maldade deste mundo, mas não pode;
ou Ele pode mas não quer; ou Ele não pode e nem quer; ou, finalmente, Ele
tanto pode como quer fazê-lo. Se Ele tem a vontade, mas não o poder, isso
mostra fraqueza, o que é contrário à natureza de Deus. Se Ele tem o poder,
mas não a vontade, isso mostra indiferença, e isso também é contrário à sua
natureza. Se Ele não pode e nem quer, então é impotente quanto a sua natureza,
e, consequentemente, não pode ser Deus. E se Ele pode e quer, então de onde
vem o mal, ou por que Ele não o impede?” (alterado).11
Alguns filósofos cristãos também questionam o problema do mal, discutin
do e indagando: porque Deus que é Onisciente permitiu a entrada da serpente
no jardim para tentar o primeiro casal? E semelhantemente, quando será que o
mal terá seu fim? Nós nunca devemos julgar a Deus e sua maneira de proceder
dentro de certos critérios estabelecidos pela própria imaginação humana. Deus
é Todo-Poderoso, como também Todo-Bondoso e Ele pode e quer remover o
mal. E Adão e sua mulher não foram tentados “acima de suas capacidades” (1
Co 10.13).
b) Um dia o mal terá fim. Tanto a filosofia como a teologia têm manifesta
do suas diferentes opiniões concernentes ao problema do mal. Alguns desses
sábios procuram explicar que a maneira mais suave de Deus destruir o peca
do, lançando o mesmo para a existência do nada. Mas isso não será assim.
Também na maioria dessas opiniões, não foi empregado o “fator tempo”. Para
todo e qualquer propósito tem um tempo determinado, e, consequentemente,
existe um tempo para o “extermínio do mal” ou seu aniquilamento total. Um
O P r o b l e m a do M a l 125
dia esse tempo chegará! Por que o mal pertence ao tempo — o bem pertence
à eternidade.
Tanto Epicuro como Kushner, dizendo-se sábios, tomam-se loucos. Eles
sustentam que as mãos de Deus estão atadas pelas leis insensíveis da natureza.
Tais pensadores não foram iluminados pelo Espírito Santo e não receberam
o sopro do Filho de Deus para que pudessem entender as Escrituras. Eles
não foram agraciados como os discípulos, quando estavam reunidos e nosso
Senhor “abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc
24.45). As mentes iluminadas pelo Espírito Santo, entendem claramente que
Deus é Todo-Poderoso e Todo-Bondoso. O problema do mal, aparentemente,
parece ganhar fôlego em algumas batalhas e o bem parece que está sendo ven
cido por suas forças selvagens. Mas no decorrer do tempo, este quadro sempre
sofre uma inversão. E, evidentemente, a História comprova e a experiência
nos mostra que, Deus é quem sempre triunfa. A morte de Jesus parecia, aos
olhos do mundo, um verdadeiro fracasso. Mas a sua ressurreição comprovou
o contrário. Mostrando para o mundo, tanto físico como espiritual, que sua
morte foi um verdadeiro sucesso. Um dia, a morte será aniquilada e terá fim.
“Ora o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte” (1 Co 15.26). Tanto
ela como o inferno, serão lançados no ardente lago de fogo (Ap 20.14), o que
significa destmição total destes poderes e de tudo aquilo que ambos represen
tam. Sem estes inimigos do bem, Deus estabelecerá um mundo melhor, com
posto por “novos céus e na terra, em que habita a justiça”. O triunfo completo
será de Deus: é somente esperar!
Deus, através de Cristo, aniquilará todo e qualquer sistema, esquema ou
influência do mal. O MAL foi surgido por causa do pecado, e haverá um dia, no
estado eterno, quando o pecado não mais existirá e com ele será banido todo o
mal (Jo 1.29; Ap 21.4).
‘ABRIL, A. Editora Abril - SP. 3a Edição, 2008, p. 170.
2 GEISLER, Norman. Enciclopédia de Apologética. São Paulo: Editora Vida, 1999, p. 534
535.
3 MEDRANO, R. Pitágoras e seus Versos Dourados. São Paulo, 1993, pp. 70-71.
4 SELME, Dr. A. Van Selme, D. D., Professor de Línguas Semítieas da Universidade de Pre
tória, África do Sul. S/D
12 6 A D o u t r in a d o P e c a d o
5 McNAIR, S. E. A Bíblia Explicada. 17a Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 313.
6 AUSUBEL, Nathan. Conhecimento Judaico. Trad. de Eva Schechtman Jurkiewicz. In: A.
KOOGAN (ed.). JUDAICA. Rio de Janeiro: Koogan, 1989, Vol 5 e 6, p. 915
7 CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol. 6, São Paulo: Hag-
nos, 2001, p. 33
8 CONFISSÕES. Cap. 3, Deus e o mal. Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores http://
www.monergismo.eom/. Acesso: 14/03/2008
5 QUINTAS, J. O problema do mal. www.critieanarede.com/fil-mal.html. Acesso em
16/10/2003.
10 CARAMURU, A. F. Art. O Problema do Mal na História das Ideias. São Paulo, SP -
18/10/03
11 EPICURO,. Cit. por: CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol.
5, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 407.
http://www.monergismo.com/
http://www.criticanarede.com/fil-mal.html
A E x t e n sã o do P ec a d o
1 28 A D o u t r in a d o P e c a d o
I. A E x t e n s ã o C r e s c e n t e d o P e c a d o
1. A extensão do pecado — do Diabo até os anjos. Desde os tempos
imemoráveis, quando o Diabo pecou até a morte de Cristo na cruz, podemos di
vidir o avanço do pecado em sete períodos sucessivos, até que Cristo quebrasse
a ponta de seu aguilhão, por meio de seu sacrifício no calvário e sua aniquilação
final, no estado eterno, quando o Cordeiro de Deus tirará para sempre o “pe
cado do mundo”. “Ora o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é
a lei” (1 Co 15.56). Cristo aboliu tanto um como o outro: tirando o rigor da lei
através de seu cumprimento e destruindo a força que esta dava ao pecado, pelo
não cumprimento da mesma. Assim, do pecado do Diabo até a sua consumação
e destruição final por uma operação divina, houve uma escala ascendente do
pecado, marcando sete períodos sucessivos na história divina e humana:
o# do pecado do Diabo até os anjos;
cs do pecado dos anjos até Adão;
cs do pecado de Adão até Noé;
cs de Noé até Abraão;
C3 de Abraão até a Lei;
cs da Lei até Cristo;
cs de Cristo até o estado eterno.
Este período não pode ser computado no calendário sucessivo do tempo.
Ele faz parte da eternidade passada quando somente existia o Deus Trino e
Uno e o mundo angelical. Ele tanto pode ter sido brevecomo também pode ter
sido longo. Isso não nos é revelado já que não faz parte da história humana ou
até mesmo sagrada. O fato é que houve um tempo em que o Diabo era perfeito
até que pecou e como conseqüência de seu pecado foi expulso do céu, onde
primitivamente ele habitava. Houve um período em que este anjo de luz ha
bitou no Éden Mineral descrito em Ezequiel 28. Mas, até este período, parece
que ele não tinha se rebelado contra Deus. Contudo a sua queda deu-se ali. O
orgulho motivado por sua formosura e a vaidade de sua sabedoria levaram-no
à condenação.
2. A extensão do pecado — dos anjos até Adão. Após o seu grande
fracasso, o pecado do Diabo não ficou restritamente condicionado somente à
sua pessoa. Ele foi mais além, afetando o mundo angelical. Quando o príncipe
das trevas fomentou a primeira rebelião contra Deus e suas hostes, deu início,
A E x t e n sã o d o P e c a d o 129
portanto, a uma nova forma no mundo tenebroso, que acabara de ser por ele
criado a fim de agregar nele seus sequazes, os quais aderiram às suas ideias
sombrias na revolta contra Deus nas esferas de seu domínio. Não sabemos
quanto tempo tenha se passado, de sua queda até a queda do mundo angelical,
conforme já tivemos a ocasião de expor na seção que precede a esta que aqui
temos em foco. Com efeito, porém, da queda do mundo angelical até a queda
do homem, marca novamente, um novo período, quando nada nos é revelado,
a não ser aquilo que depreendemos dos textos e contextos que falam do fra
casso destas hostes do mal e daquilo que elas são e representam no mundo das
trevas.
3. A extensão do pecado — de Adão até Noé. Com a queda do pri
meiro casal, Adão e sua mulher, tem início a segunda etapa que apresentou
seus aspectos negativos de Adão a Noé, quando através do dilúvio, Deus faz
uma transformação naquele sistema primitivo criado para servir de base para o
primeiro casal e as famílias subsequentes e estabelece uma nova ordem de vida
e adoração para Noé e seus descendentes. As sete leis da proibição eram leis
gerais e naturais, obrigatórias a todos os homens. A princípio, tudo era bom,
como Deus fez. Pela rebeldia do homem, o mal toma forma de destruição, pois
até então, ele encontrava-se incubado (Gn 2.17). Em Gênesis 3.4, temos a “pri
meira mentira”. As palavras da serpente foram ambíguas. Os olhos de Adão e
Eva foram, de fato, abertos e eles conheceram o bem e o mal; mas a experiência
lhes fora, inesperadamente, amarga, eles viram, não visões de glória, como a
serpente lhes tinha prometido (Gn 3.5), mas sua própria nudez e pecaminosi-
dade. Eles, então, contraíram 4 gêneros de morte (duas factuais: espiritual e
moral, e duas futurísticas: física e eterna). Embora cremos que Deus não tenha
permitido a consumação desta última (Gn 3.22-24; Jó 14.4; Pv 28.13; Lc 3.23
38; Rm 5.14). Em Gênesis 3.6, temos o primeiro casal cedendo a “concupis
cência da came”, e, daí a “soberba da vida” (1 Jo 2.16). Cumprindo-se assim
as palavras do salmista, que disse: “um abismo chama outro abismo” (SI 42.7).
A partir de Gênesis 3.9, temos a primeira pergunta de Deus (esta é a segunda
pergunta da Bíblia, porque infelizmente, a primeira foi feita pela serpente (Gn
3.1): “onde estás?”. Esta se refere à responsabilidade humana, “onde estás?”;
escondendo-se de Deus, por quê? Por causa do medo; por quê? Por causa da
santidade divina; por causa da ira de Deus (Gn 3.6; 4.14; Is 6.5; Ap 6.16,17).
Em o Novo Testamento, a primeira pergunta é feita pelos homens acerca de
Deus (Filho): “onde está aquele que é nascido rei dos judeus” (Mt 2.2). Mas
de qualquer modo, as Escrituras são proféticas e se combinam entre si em cada
detalhe. A primeira pergunta religiosa foi feita ao “primeiro homem, Adão”;
130 A D o u t r in a d o P e c a d o
em o Novo Testamento é feita a primeira pergunta religiosa à respeito de Cristo
— “O último Adão” (1 Co 15.45). A segunda pergunta moral de Deus é feita
a Caim: “onde está Abel, teu irmão?”. Em Gênesis 3.14, fala-se da primeira
maldição. A serpente é o único animal de esqueleto ósseo que se rasteja; apesar
de esse ter se adaptado ao seu lugar na natureza como a do leão ou da águia;
contudo, isso lhe foi imposto por causa do pecado, quando Deus pronunciou
a sua sentença, dizendo: “Porquanto fizeste isto, maldita serás mais que toda
a besta, e mais que todos os animais do campo; sobre o teu ventre andarás,
e pó comerás todos os dias da tua vida”. No tocante à sua comida, alguns
estudiosos da Bíblia têm questionado as palavras do Criador, quando disse:
“pó comerás todos os dias da tua vida”, como não tendo se cumprido na vida
desse animal em geral; sua comida consiste de pequenos animais que são suas
presas; contudo, convém notar que, estes pequenos animais foram formados do
pó (Gn 2.7; 3.19), e em pó serão transformados.
a) Sete pragas ocasionadas pelo pecado. Podemos observar em Gênesis 3,
sete pragas ocasionadas pelo pecado, que vieram a cair sobre o homem e que
foram sofridas por Cristo:
NA QUEDA: m ---------------------- ► EM CRISTO:
I o. A Dor (v. 6). “Era desprezado, e o mais indigno entre os homens; ho
mem de ‘dores’, experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os
homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum”
(Is 53.11; Mt 8.17).
2o. A Sujeição (v. 16). “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou
seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Lc 2.51; G14.4).
3o. A Maldição (v. 17). “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se
maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendu
rado no madeiro” (G1 3.13);
4o. A Tristeza (v. 17). “Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza
até à morte” (Mt 26.38);
5o. Os Espinhos (v. 18). “E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha
na cabeça” (Mt 27.29);
6o. Suor (v. 19). “E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor
tomou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão” (Lc 22.44);
7o. A Morte (v. 19). “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo,
sendo obediente até à morte, e morte de cruz” (Fp 2.8).
A E x t e n sã o d o P e c a d o 131
b) As conseqüências trazidas pelo pecado. Com a mudança de comporta
mento alterado por causa do pecado, surgem os ataques desde a discórdia até
o crime contra vida.
I o. Em Gênesis 4.1-7, aparece a discórdia e o duelo;
2o. Em Gênesis 4.8, acontece o primeiro fratricídio do mundo;
3o. Em Gênesis 4.16 e seguintes, o avanço do pecado em todas as direções da
existência, começando com Caim saindo “de diante da face do Senhor”. Caim
foi o primeiro homem que ao ser repreendido por Deus, acrescentou as suas
maldades como o fez Herodes séculos depois (Gn 4.6,7,13; Lc 3.19,20).
4. A extensão do pecado — de Noé até Abraão. Depois do fracasso
do homem, e as conseqüências que acabamos de mencionar acima, o pecado
avança numa escala ascendente. Entre o mal, a morte, a discórdia, o fratricídio,
a vingança desmedida, a depravação que solta o dilúvio. Depois do dilúvio,
Deus começa uma nova ação num ponto da história com Noé. E, sob a ação de
Deus, a história do pecado crescente, faz-se agora salvação ascendente: cresce
e ramifica-se a vida dos patriarcas, evita-se o fratricídio e o homicídio ordiná
rio, recompõe-se a família e se estabelece um método de adoração à Deus por
meio de altares e sacrifícios.
a) As sete leis gerais e naturais de concessão e proibições. Estas leis a
princípio estabelecidas por Deus são agora restabelecidas através de Noé e
seus descendentes. Em Gênesis 9.1 -7, encontram-se o restabelecimento destas
leis impostas por Deus desde o princípio. São elas:
I o. Concessão. “E abençoou Deus a Noé e a seus filhos, e disse-lhes: Fru-
tificai e multiplicai-vos, e enchei a terra. E será o vosso temor e o vosso
pavor sobre todo o animal da terra, e sobre toda a ave dos céus; tudo o que
se move sobre a terra, e todos os peixes do mar na vossa mão são entregues.
Tudo quanto se move, que é vivente, será para vosso mantimento,significados: mal,
maldade, desgraça, calamidade, desventura, aperto, etc. Na verdade, a palavra
“ra” como substantivo nos traz as seguintes conotações: mal, aperto, prejuízo,
calúnia etc, porém como adjetivo temos: mau, perverso, criminoso etc. Este
termo é usado para designar tudo aquilo que não se deseja. Assim a ideia de
mal geralmente se refere a tudo aquilo que não é desejável ou que deve ser
destruído. O mal está no vício, em oposição à virtude. Em muitas culturas, é o
termo usado para descrever atos ou pensamentos que são contrários a alguma
religião em particular, e pode haver a crença de que o mal é uma força ativa e
muitas vezes personificada na figura de uma entidade como o Diabo, Satanás
ou Arimã. Em Plotino, a matéria é identificada com o mal e com a privação de
toda forma de inteligibilidade. Em Kant, o ser humano teria uma propensão
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 15
para o mal, apesar de ter uma disposição original para o bem. Hannah Arendt
retoma a questão do mal radical kantiano, politizando-o. Analisa o mal quando
este atinge grupos sociais ou o próprio Estado. Segundo a autora, o mal não
é uma categoria ontológica, não é natureza, nem metafísica. E político e his
tórico: é produzido por homens e se manifesta apenas onde encontra espaço
institucional para isso — em razão de uma escolha política. A trivialização da
violência corresponde, para Arendt, ao vazio de pensamento, onde a banalida
de do mal se instala.3
e) Relacionado com o pecado e o resultado do pecado — ‘hamartêma
Palavra que traz a conotação de pecado, mas com o sentido de resultado de
pecar (Mc 3.28 e ss). O pecado sempre foi um termo principalmente usado
dentro de um contexto religioso, e hoje descreve qualquer desobediência à
vontade de Deus; em especial, qualquer desconsideração deliberada das Leis
reveladas. No hebraico e no grego comum, as formas verbais (em hb. hhatá;
em gr. hamartáno) significam “errar”, no sentido de errar ou não atingir um
alvo, ideal,ou padrão. Em latim, o termo é vertido por peccátu. O Judaísmo
consictera-á violação de um mandamento divino como um pecado. O judaísmo
ensina que o pecado é um ato e não um estado do ser. A Humanidade encontra-
se num estado de inclinação para fazer o mal (Gn 8.21) e de incapacidade para
escolher o Bem em vez de o Mal (SI 37.27). O Judaísmo usa o termo “pecado”
para incluir violações da Lei Judaica que não são necessariamente uma falta
moral. De acordo com a Enciclopédia Judaica, “O homem é responsável pelo
pecado porque é dotado de uma vontade livre (“behirah”); contudo, ele tem
uma natureza fraca e uma tendência para o Mal: “Porque a imaginação do
coração do homem é má desde a sua meninice...” (Gn 8.21). Por isso, Deus,
na sua misericórdia, permitiu ao homem arrepender-se e ser perdoado. O Ju
daísmo defende que todo o homem nasce sem pecado, pois a culpa de Adão
não recai sobre os outros homens. Pecado designa todas as transgressões de
uma Lei ou de princípios religiosos, éticos ou normas morais. Podem ser em
palavras, ações (por dolo) ou por deixar de fazer o que é certo (por negligência
ou omissão). Ou seja, onde há Lei, se manifesta o pecado. Pode ser tão somente
uma motivação ou atitude errada de uma pessoa, e isso, é chamado de pecado
“no coração”. No íntimo dos humanos, independente da cultura a que pertença,
existe necessidade de estabelecer princípios de ética e normas de moral. Quan
do se viola a consciência moral-pessoal, surge o sentimento de culpa.4
f) Relacionado com a transgressão — ‘parabasis Palavra que traz a cono
tação de transgressão, violação, desobediência, etc. A transgressão propriamente
16 A D o u t r in a d o P e c a d o
dita é um ato de desobediência consciente e deliberada. Paulo descreve isso,
quando se referiu ao pecado de Adão no sentido geral. Então ele diz: “No entan
to a morte reinou desde Adão até Moisés, sobre aqueles que não pecaram à se
melhança da transgressão de Adão...” (Rm 5.14). A palavra “transgressão” vem
de uma raiz grega que é “anomia” e significa “violação da lei”, “desordem”,
“anarquia”, ou ainda “declínio para a margem esquerda ou direita da linha da
santidade”. Literalmente falando, isso quer dizer “ir além do limite traçado” (1
Jo 3.4,8). Em o Novo Testamento, a palavra grega “parabasis”, era usada com
exclusividade para designar o “pecado de Israel”. Esse era um tipo de pecado
especial dos judeus que agravava a culpa deles ante o tribunal de Deus (Js 7.15).
Por isso é que lemos em Romanos 4.15: “... mas onde não há lei, também não
há transgressão”. E por essa razão que o pecado de Adão foi chamado de “trans
gressão, porquanto violou um mandamento que lhe fora dado especialmente”.
Calvino declara, numa tradução livre de Romanos 5.14, “Por igual modo, até
hoje (os judeus) desonram a Cristo, ‘transgredindo’ contra o evangelho...por
isso para eles a morte ainda reina”.
g) Relacionado com a maldade — ‘ponêria Palavra que traz a conotação
de malícia, maldade, iniqüidade, etc. A palavra quando utilizada no plural traz
o sentido de atos maliciosos em alguns textos. Algumas traduções enfocam
a palavra “maldade” no texto de Marcos 7.22, porém o correto seria “atos
maliciosos”. A iniqüidade é um outro pecado descrito na Bíblia, como algo
que fere o sentimento amoroso e a equidade de Deus. “Toda a iniqüidade é
pecado: e há pecado que não é para morte” (1 Jo 5.17). A palavra “iniqüidade”
é tomada como personificação do pecado quando este é praticado no sentido
cruel. No hebraico essa palavra, é “hattã’th” e sua variante “awôn”, que sig
nifica desobediência merecedora, pela culpa, de um grande castigo (Jó 19.29;
Hb 2.2). Nas Escrituras do Antigo Testamento a iniqüidade já era reconhecida
como tendo sentido especial, que designava o pecado em sua forma mais cruel
e brutal. Davi descreve a natureza daqueles que a praticavam dizendo: “Não
terão conhecimento os obreiros da iniqüidade, que comem o meu povo, como
se comessem pão? Eles não invocam ao Senhor” (SI 14.4); enquanto que nosso
Senhor Jesus Cristo, retrata a iniqüidade como aquele elemento mortal que se
para o homem de sua caminhada, quando exclama: “Apartai-vos de mim, vós
que praticais a iniqüidade” (Mt 7.23) e com relação a Deus o profeta Isaías
apresenta o seguinte gráfico: “... as vossas iniqüidade fazem divisão entre vós
e o vosso Deus...” (Is 59.2). Aqui, está, portanto, o verdadeiro sentido da ini
qüidade: “aquilo que separa”, ou de acordo com o conceito rabínico “aquilo
que coloca longe”, isto é, que distancia.
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 17
h) Relacionado com aquilo que é falso — ‘paraptôma’. Palavra que traz
a conotação de passo em falso, transgressão, pecado, etc. Temos um exemplo
de paraptôma em Romanos 11.11 e ss., o qual relata: “Digo, pois: porventura,
tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum! Mas pela sua queda (pas
so em falso), veio a salvação aos gentios...”. Falsidade é a característica do
que não é verdadeiro. De fato, o ser humano muitas vezes se sente, na nossa
sociedade, quase obrigado a ser falso. A mentira, o engodo, o engano, a falsa
aparência, a esnobação e a desfaçatez são gêneros de primeira necessidade
nos relacionamentos entre as pessoas. O orgulho e a busca de reconhecimento
trazem consigo a necessidade quase inadiável de aparentar algo que não se é.
A falsidade em sua concepção traz à pessoa certos proveitos. Omitir sua con
dição, ou se mostrar de maneira diferente para levar vantagens, obter lucros,
ascensão social, desmoralizar outras pessoas entre outros. Essa parece ser a
ética do mundo. Rui Barbosa, o grande jurista brasileiro, afirmou certa vez,
dentre outras coisas, que de tanto ver triunfar a mentira e a falsidade, tinha até
vergonha de ser honesto. É fácil tomar um relato mais interessante acrescen
tando a ele alguns detalhes, como também é fácil fraudar uma história quando
lhe dispensamos uma omissão ou ação. E simples deduzir que não existetudo vos
tenho dado como a erva verde” (Gn 9.1-3). As seis leis que se seguem são
de proibições.
2o. Orientação. “A came, porém, com sua vida, isto é, com seu sangue, não
comereis” (Gn 9.4). A qui se en co n tra a proibição divina no tocante a
sufocação que era algo ilícito aos olhos de Deus (Lv 17.10-16);
3o. Responsabilidade. “E certamente requererei o vosso sangue, o sangue
das vossas vidas; da mão de todo o animal o requererei; como também da
mão do homem [homicida], e da mão do irmão [fratricida] de cada um
132 A D o u t r in a do P e c a d o
requererei. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue
será derramado; porque Deus fez o homem conforme à sua imagem” (w.
5, 6). Aqui se encontra declarada a lei natural da preservação da vida, em
termos genéricos, e também fica terminantemente proibido o fratricídio.
4o. Prosperidade. “Mas vós frutifieai e multiplicai-vos; povoai abundante
mente a terra, e multiplicai-vos nela” (v. 7). As três leis naturais da existên
cia, dada por Deus a Adão e sua mulher são novamente reafirmadas como
promessas de Deus para Noé e seus descendentes. Elas seriam:
5°. Frutificação do gênero humano;
6o. Multiplicação das famílias;
7°. Povoamento da terra.
b) Deus estabelece uma nova Aliança com Noé e sua posteridade. De
acordo com Scofield, as bases da nova aliança são:
I o. Confirmação de que o homem seria relacionado à terra, conforme a
Aliança adâmica (Gn 8.21).
2o. Confirmação da ordem na natureza (Gn 8.22).
3o. Estabelecimento do governo humano (Gn 9.1-6).
4o. Garantia de que a terra não sofreria outro dilúvio (Gn 8.21; 9.11).
5o. Declaração de que procederia de Cão uma posteridade inferior e servil
(Gn 9.24,25).
6o. Declaração profética de que haveria uma relação especial em Deus e
Sem (Gn 9.26,27).
7o. Declaração profética de que de Jafé procederiam as raças ‘dilatadas’
(Gn 9.27).1
5. A extensão do pecado — de Abraão até a Lei. De Abraão até
Moisés, quando a lei foi dada por Deus aos filhos de Israel, Deus estabelece um
novo Pacto com Abraão e seus descendentes — o da circuncisão que, servia
como sinal de Deus em Abraão e seus descendentes, como sinal de separação
dos povos gentílicos e das contaminações de seus pecados. Os rabinos judai
cos em suas tradições orais costumam dizer que os povos que vieram antes
de Abraão não eram judeus. Adão, que desobedeceu a Deus, era uma pessoa
comum no pior dos casos; Noé, honrado em seu tempo, era uma pessoa comum
no melhor dos casos.
A E xt e n sã o d o P e c a d o 133
6. A extensão do pecado — da Lei até Cristo. A Bíblia nos informa
que “a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo”
(Jo 1.17b). Portanto, de Moisés até Jesus, quando perdurou o período da Lei,
esta jamais pode com todas as suas ordenanças e exigências deter o avanço das
forças do pecado. Mesmo havendo determinadas alternativas oferecidas por
parte de Deus, Paulo diz em Romanos 5.14, que “a morte reinou desde Adão
até Moisés, até sobre aqueles que não pecaram à semelhança da transgressão
de Adão”.
Durante este período, o pecado se desenvolveu em forma crescente e as
alternativas que a Lei oferecia em relação ao pecado, para expiação do mes
mo, somente os cobria, isto é, cobria mas não tirava, como no caso de Cristo
que, não cobre — mas tira o pecado (Jo 1.29). Em Romanos 5.12-14,21, Pau
lo fala do avanço do pecado em processo de multiplicação, dizendo: “Pelo
que, como por um homem [Adão] entrou o pecado no mundo, e pelo pecado
a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos
pecaram”.
7. A extensão do pecado — de Cristo até ao estado eterno. “Jesus
Cristo é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente” (Hb 13.8). O propósito de
Deus, na morte de Cristo, era salvar os pecadores. Assim, seu sacrifício aponta
para o passado. Ele foi morto desde a fundação do mundo (Ap 13.8). Seu sa
crifício, portanto, abriu o caminho da expiação, mesmo antes do homem pecar.
Mas Cristo morreu, quando veio a “plenitude dos tempos”. Ele nasceu de uma
virgem; viveu entre os homens e como homem; morreu como o Cordeiro de
Deus. O seu sacrifício foi marcado pelo tempo; contudo, o seu valor marca o
tempo e a eternidade. Ele continua o mesmo quanto ao tempo e a importância.
Aqueles que não recebem a salvação oferecida por Cristo, continuam pecando,
até que seja estabelecido o grande trono branco. Mas o caminho da redenção
inaugurado por Ele na cruz continua aberto, até que o julgamento final seja
realizado. Portanto, o valor de sua morte para tirar o pecado, se estende de
eternidade à eternidade.
II. A E x t e n s ã o V e r t i c a l , H o r i z o n t a l e M o r a l d o
P e c a d o
1. Extensão vertical — o pecado afetou o universo espiritual.
As conseqüências trazidas pelo pecado produziram prejuízos incalculáveis em
todas as dimensões da existência. As grandes catástrofes da queda de Satanás
trouxeram grande ruína ao universo espiritual criado por Deus.
134 A D o u t r in a do P e c a d o
a) Afetou as regiões celestes. “Revesti-vos de toda a armadura de Deus,
para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo. Porque não
temos que lutar contra a came e o sangue, mas, sim, contra os principados,
contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as
hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais” (Ef 6.11,12). As regiões
que aqui estão em foco devem ser entendidas como céu atmosférico e céu
estelar, conforme é deduzido do original. No hebraico a palavra para céus é
(“shamayim”). A terminação “im” indica o plural. Isso pretende mostrar que
há mais do que somente um céu. Na Bíblia distinguem-se pelo menos três
céus; o céu inferior (auronos), o céu intermediário (mesoranios) e o céu supe
rior (eporanios). Uma vez que o “Céu Superior” é eterno, não é, pois sujeito
a nenhuma mudança influenciada pelo poder do pecado. O grande inimigo de
Deus e dos homens abriu uma grande “cisão” na região setentrional [região
norte] do céu, onde existe um “vazio” (Jó 26.7; Is 14.13-15). Convém notar
que no segundo dia da criação, quando Deus criou os ares, Ele não pronunciou
as palavras ‘bom” ou ‘boa’, como o fez nos outros dias (Gn 1.6-8). Esta região
após o pecado e queda de Satanás foi afetada pelas hostes do mal. Eles ali
existem, como inimigos de todo o bem, eles são vistos nestas regiões fazendo
guerra aos santos. Suas disposições hostis, opõem-se a Deus e aos homens
(Ap 12.7).
b) Afetou um terço dos anjos celestiais. Com a queda deste terrível ser, ele
passa a conquistar “um terço” dos anjos de Deus, os quais posteriormente se
dividiram em dois grupos distintos em relação à sua posição e serviço:
I o. O primeiro grupo dos anjos é composto por aqueles que se encontram
sob a esfera do domínio de Satanás e, consequentemente, não se encontram
aprisionados (Ef 2.2; 6.12; Ap 12.7). Em algumas passagens das Escrituras
lemos sobre “principados”, “potestades”, “tronos”, “autoridades”, “domi
nações” no sentido invisível específico de seres caídos. Eles ali são tão
numerosos que tomam o poder de Satanás muito extenso.
2o. O segundo grupo dos anjos é composto de anjos “caídos”, como os an
jos do primeiro grupo; mas estes se encontram na “escuridão, e em prisões
eternas até o juízo daquele grande dia” (Jd v. 6). Estes seres espirituais
também são estruturados, organizados e disciplinados em relação às suas
disposições hostis contra Deus e o seu reino de luz.
2. Extensão h orizon ta l— o pecado afetou o universo físico. Com
a queda de Adão, o pecado afetou a terra — incluindo o reino vegetal.
A E x t e n sã o d o P e c a d o 135
a) O pecado afetou a terra. Aqui Deus pune a terra por causa do pecado
do homem. “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e
comeste da árvore de que te ordenei dizendo: Não comerás dela: maldita é a
terra por causa de ti” (Gn 3.17). No princípio Deus criou tudo muito bom. Mas
após o pecado de Adão, a terra perdeu seu estadooriginal de configuração.
E vem sobre ela a segunda maldição pronunciada por Deus em relação ao
pecado. Trata-se da mudança operada na própria terra. Por outro lado, em cer
tos momentos de ira do Diabo, ele trazia perturbação à terra, punha o mundo
como um deserto e fazia estremecer os reinos, assolando as cidades, conforme
é descrito pelo profeta Isaías: “Os que te virem te contemplarão, considerar-te-
ão, e dirão: E este o homem que fazia estremecer a terra e que fazia tremer os
reinos? Que punha o mundo como o deserto, e assolava as suas cidades? Que
não abria a casa de seus cativos?” (Is 14.16,17). Do ponto de vista divino de
observação, a maldição quando pronunciada por Deus, apresenta três aspectos.
Dentre os quais destacam-se, em primeiro lugar, uma denúncia contra o peca
do (Gn 3.14,17,18; Nm 5.21; Dt 29.19,20). Em segundo lugar, a maldição é o
julgamento de Deus contra o pecado (Nm 5.22,23,27; Is 24.6). E em terceiro
lugar, a pessoa que está sofrendo as conseqüências do pecado, por motivo do
julgamento de Deus, é chamada de maldição (Nm 5.21,27; Jr 29.18). Mas não
envolve o caráter eterno de geração em geração como tem sido ensinado por
alguns grupos religiosos dos últimos dias. Ela é um juízo local, individual e
não coletivo; a não ser que Deus pronuncie esta maldição contra uma nação
(Ml 3.9). Com efeito, porém, quanto à maldição, mesmo pronunciada por parte
de Deus, ela pode ser removida quando esse alguém olha para Cristo e aceita
seu perdão mediante o arrependimento. Em relação à terra, durante a Era Mile
nar, a maldição imposta por Deus como conseqüência do pecado será removida
(Is 55.13). O reino vegetal, que foi amaldiçoado por causa do homem (Gn
3.18), será redimido dessa maldição por ocasião da volta de Cristo com poder
e grande glória para reinar durante mil anos (Ap 20.1-6).
b) O pecado afetou o reino animal. Quando Deus criou os animais, mesmo
aqueles de natureza selvagem, tinham o perfil daqueles que irão existir durante
o milênio, conforme são descritos pelo profeta Isaías: “E morará o lobo com o
cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o
animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa
pastarão juntas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi.
E brincará a criança de peito sobre a toca da áspide, e a desmamada colocará a
sua mão na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu
santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as
águas cobrem o mar” (Is 11.6-9). Contudo, como conseqüência do pecado do
1 3 6 A D o u t r in a d o P e c a d o
homem, o reino animal sofreu alterações nítidas em sua estrutura e comporta
mento. O pecado trouxe sobre eles um sentimento de ferocidade e de destrui
ção. As feras passaram a perseguir os homens e de igual modo, os homens às
feras (Gn 9.1-3; Jz 14.5; 2 Rs 2.24; Ez 14.21). O reino animal sofreu as conse
qüências do pecado do homem; e assim tanto a natureza humana como a dos
animais foi afetada; durante a glória do Milênio a exemplo do reino vegetal, a
ferocidade das feras será também removida (Is 11.6).
3. Extensão moral — o pecado afetou a raça humana. “Pelo que,
por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a mor
te passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Rm 5.12). O pecado
praticado pelo primeiro homem, Adão, furtou da humanidade a verdadeira vida
e liberdade, impondo sobre ele o silêncio da morte, pois por causa de Adão, a
“morte passou a todos os homens”. No contexto geral das Escrituras, por meio
do pecado, o homem se tomou o recipiente de uma natureza depravada; e a ex
pressão inevitável da mesma, é a depravação de caráter e conduta. “Parece que
o pecado permeou todo o universo, incluindo cada reino na criação e afetando
cada raça e espécie entre as criaturas, com resultados funestos”.
a) O pecado afetou a tríplice constituição do homem. “Ora o ‘aguilhão’ da a
morte é o pecado” (1 Co 15. 56a). O pecado como aguilhão da morte pode ser
comparado a um ‘ferrão’ de três lanças pontiagudas: um atinge o espírito; outro
atinge a alma e o terceiro atinge o corpo. Assim, o pecado afetou em cheio a
constituição completa do homem:
cg no espírito;
os na alma;
cg no corpo.
As Escrituras mostram essa tríplice constituição do homem como também,
de igual modo, apresenta a “redenção por parte de Deus”, para cada parte men
cionada. Com efeito, porém, para que haja uma melhor compreensão do sig
nificado do pensamento, focalizaremos agora, o pecado nestas três dimensões
do homem, começando com o “corpo”, passando pela alma e terminando com
o “espírito”.
Veja o quadro da triplicidade do homem na página a seguir:
A E xt e n sã o d o P e c a d o 137
Visáo
Audição
Tato
Paladar
Olfato
Fruto do Espirito
no espirito santificado:
“...caridade,
gozo,
paz,
longarumidade,
bemgnidade,
bondade,
fé,
mansidão,
temperança’'
Gl 5.22
Temperamento:
1 Tm 3.2 e ss.
Nascido de novo, Jo 3.3
Espírito controlado por Cristo
Vontade própria
Espirito de Deus
Espirito santificado
~ yirito do Mundo*
Três tipos de "concupiscéncias"
1f “da came”
2* "dos olhos “
3* “da uida-soberba”.
1 Jo 2.16.
Fatores negativos:
Preocupações, medo, nervosismo,
insanidade, morte.
S l 55.22: solução objetiva.
...maus pensamen
tos, os adultérios, as
prostituições, os ho
micídios, os furtos, a
avareza, as ma Ida
des, o engano, a dis
solução, a inveja, a
blasfêmia, a sober
ba, a loucura", Mc
7.21-22.
Homem interior
Homem emotivo
Homem exterior
Obras da carne:
“...prostituição,
impureza,
lascívia,
idolatria,
feitiçarias,
inimizades,
porfias,
emulações,
iras,
pelejas,
dissensôes,
heresias,
invejas,
homicídios,
bebedices,
glutonarias".
G 15.19-21.
1 38 A D o u t r in a do P e c a d o
1°. O pecado da came. “Porquanto o que era impossível à lei, visto como
estava enferma pela came, Deus, enviando o seu Filho em semelhança da
came do pecado, pelo pecado condenou o pecado na came” (Rm 8.3). O
apóstolo faz neste texto, alusão ao sombrio poder do pecado, dizendo que
chegou ao ponto de enfermar a própria lei; e, não somente isso, mas de en
fermar também o próprio Filho de Deus, Jesus, nosso Senhor (Is 53.10) e por
meio do corpo de Cristo, condenou o pecado na sua própria came — came
de Cristo, pois somente assim, seu aguilhão mortal, que era a própria morte,
seria banido. Cristo, portanto, cmzou a linha da morte e foi atingido por seu
aguilhão — a morte. Pedro diz que Cristo “padeceu uma vez pelos pecados,
o justo pelos injustos, para levar-nos a Deus” (1 Pe 3.18). O pecado tinha
atingido a todas as criaturas. “Porque todos pecaram”, afirma o apóstolo Pau
lo. Isaías 1.6, diz que o pecado afetou o homem “desde a planta do pé até à
cabeça”. Em Romanos 1, o apóstolo Paulo descreve uma lista de pecados
que estão associados as obras da came. Então ele diz: “Estando cheios de
toda a iniqüidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de invejas,
homicídio, contenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores,
aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de
males, desobedientes aos pais e às mães. Néscios, infiéis nos contratos, sem
afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia” (Rm 1.29-31). Em Gála-
tas 5.19-21, Paulo descreve as obras [pecados] da came, em oposição àquelas
qualidades morais que fazem parte do “fruto do Espírito”. Ainda de acordo
com o apóstolo, as obras da came são manifestas, as quais são
CS? Idolatria
03 Feitiçarias
0# Inimizades
03 Porfias
03 Emulações
C S Iras
C S Pelejas
c s Dissensões
0 3 Heresias
C S Invejas
CS Homicídios
c s Bebedices
c s Glutonarias.
A E xt e n sã o do P e c a d o 139
Depois, vem a complementação, quando diz: “e coisas semelhantes a es
tas”. Quando abrimos um dicionário correspondente à língua em que a Bí
blia está escrita, nos assombramos com a significação destas palavras descritas aqui nesta seção; elas são usadas somente no campo da destruição,
seja moral ou espiritual, seus sentidos somente apontam para o mundo mal.
Os pecados alistados em 2 Timóteo 3.2-5 aparecem mais inclinados como
pecados da alma; enquanto que Marcos 7.21-23 descreve pecados que par
tem do ‘interior do coração’, e são indicados como pecados do espírito. Na
lista de Apocalipse 21.8 abrangem toda extensão da pessoa humana, isto
é, corpo, alma e espírito. Todos eles são inversos ao “Fruto do Espírito”
que vem logo a seguir: suas nove qualidades que são estas, apontam para
o mundo do bem. Muitas doenças e moléstias são, de fato, causadas pelo
pecado. Existem outras doenças e males que são provas de Deus e outras
fazem parte do curso natural da vida.
2o. O pecado da alma. “Eis que todas as almas são minhas; como a alma
do pai, também a alma do filho é minha: a que pecar, essa morrerá” (Ez
18.4). De acordo com os ensinamentos de Jesus quando, em relação ao
coração do homem, e, este tomado como sinônimo da alma, se toma ponto
pacífico o que declara o Mestre em Marcos 7.21,22, que diz: “Porque do
interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios,
as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano,
a dissolução, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Todos estes males
procedem de dentro (da alma) e contaminam o homem”.
3o. O pecado do espírito. “Ora, amados, pois que temos tais promessas, pu-
rifiquemo-nos de toda imundícia... do espírito, aperfeiçoando a santificação
no temor de Deus” (2 Co 7.1). Muitos teólogos procuraram separar através
de estudos e interpretações paralelas, o pecado do espírito, afirmando que
o pecado quando praticado, somente atingia o corpo e a alma; mas isso não
coaduna com a tese e argumento principal das Escrituras. Por exemplo, se
o homem permitir que o orgulho o domine, ele tem um:
cs “espírito altivo” (Pv 16.18);
cs “um espírito perverso” (Is 19.14);
CS “um espírito rebelde” (SI 106.33);
CS “um espírito impaciente” (Pv 14.29);
CS “um espírito perturbado” (Gn 41.8);
03 “um espírito faccioso” (Tg 3.16);
05 “um espírito de ciúmes” etc. (Nm 5.14).
140 A D o u t r in a d o P eca d o
b) A razão divina de exigir santificação no homem completo. Há, por- -
tanto, o pecado do corpo, da alma e do espírito, por cuja razão é exigida a
santificação de ambos num contexto geral, quando diz: “todo o vosso espírito,
e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda
de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5.23). O homem também é o templo de
Deus, e da mesma maneira tem três partes (1 Co 3.16; 1 Ts 5.23). Também é
dito que a Palavra de Deus penetra nestas três divisões do homem. “Porque
a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma
de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e
medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb
4.12).
I o. O corpo — Átrio Exterior. O corpo é como o átrio exterior, ocupando
uma posição exterior com sua vida visível a todos. Aqui o homem deve
obedecer a cada mandamento de Deus. Aqui o Filho de Deus serve como
substituto e morre pela humanidade.
2o. A alma — O lugar Santo. Por dentro está a alma do homem, que consti
tui a sua vida interior e inclui sua emoção, vontade e mente. Tal é o Lugar
Santo de uma pessoa regenerada, pois seu amor (fileo), vontade e pensa
mento estão plenamente iluminados para que possa servir a Deus como o
sacerdote do passado fazia.
3o. O espírito — O Santo dos Santos. No mais interior, além do véu, jaz
o Santo dos Santos, no qual nenhuma luz humana jamais entrou e olho
humano algum jamais penetrou. Ele é o “esconderijo do Altíssimo”, a ha
bitação de Deus. O homem não pode ter acesso a ele, a menos que Deus
queira rasgar o véu, como fez por ocasião da morte de Cristo (Mt 27.51).
Ele é o espírito do homem. Este espírito existe além da consciência pró
pria do homem e acima da sua sensibilidade. Aqui o homem une-se a Deus
e tem comunhão com Ele, mas sempre por meio do corpo. Nenhuma luz
é fornecida para o Santo dos Santos porque Deus habita ali. E assim está
dito: “O Senhor disse que habitaria nas trevas” (1 Rs 8.12b). No San
tíssimo Lugar, portanto, era desnecessária a luz porque “Deus é luz” e,
habitando na “luz inacessível”, “cobre-se de luz como uma cortina” (SI
104.2b; 1 Tm 6.16; 1 Jo 1.5). Já no Santo Lugar existia a luz fornecida
pelo candeeiro de sete braços. O átrio exterior fica sob a ampla luz do dia.
Todos estes servem como imagens e sombras para uma pessoa regenerada.
Seu espírito é como o Santo dos Santos habitado por Deus, onde tudo é
realizado pela fé, além da vista, sentido ou entendido pelo cristão. A alma
simbolizava o Lugar Santo, pois ela é amplamente iluminada com muitos
pensamentos e preceitos racionais, muito conhecimento e entendimento
concernente às coisas do mundo idealista e terrenal. O corpo é comparado
ao átrio exterior, claramente visível a todos.
A E x t e n sã o do P e c a d o 141
1 McNAIR, S. E. ABíblia Explicada. 17“ Ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2001, p. 25.
A C l a ssific a ç ã o do
P e c a d o
144 A D o u t r in a do P e c a d o
I. As T r a n s g r e s s õ e s
1. Diversos graus de transgressões. Devemos observar no tocante 3
ao julgamento do pecado, que não existia um só sacrifício e nem um só julga
mento para todos os pecados cometidos. Isso indica, evidentemente, que cada
pecado tinha em si o seu grau de ofensa. Para que haja uma melhor compreen
são do significado do pensamento que aqui está em foco, passaremos a fazer
um paralelismo sobre os diferentes graus de transgressões, penas e castigos
aplicados em alguns países e povos do mundo.
a) Crimes e castigos pelo mundo afora. Por falta de espaço nas cadeias is
ou por uma tradição de liberalismo, vários países, entre eles, o Brasil, adotam
penas alternativas para punir os crimes considerados leves:
03 Prestação de serviços à comunidade.
03 Limitação de fim de semana.
03 Interdição temporária de direitos.
og Indenização para a vítima.
og Multa destinada a instituições públicas ou privadas
de assistência social.
og Reparação do dano causado.
og Prisão de curta duração (um, dois ou três anos).
cg Visitas a hospitais ou casas de caridade.
03 Proibição de freqüentar certos lugares.
03 Frequência a cursos escolares e profissionalizantes,
cg Prisão domiciliar.
og Repreensão pública (na audiência) ou privada,
cs Retratação (pedido de desculpas à vítima).
03 Pagamento de cestas básicas a instituições de caridade
ou à vítima.
05 Perda da licença para conduzir veículo.
oí Tratamento de desintoxicação.
05 Mudança de residência ou de bairro.
03 Multa simples.
A C l a s s if ic a ç ã o d o P e c a d o 145
b) Outros países — principalmente os de religião muçulmana. Em al
guns países de religião muçulmana, são muito mais rigorosos com os crimes
comuns:
cg Afeganistão: amputação das mãos e apedrejamento.
cg Arábia Saudita: chibatadas.
cg Brunei: chicotadas.
cg Cingapura: golpes de vara.
os Emirados Árabes Unidos: chibatadas.
cg Irã: apedrejamento e chibatadas.
cg Malásia: surras de bambu.
os Paquistão: chicotadas.
cg Sudão: chicotadas, mutilações e execuções.1
c) Crimes contra a vida no Brasil O Código Penal Brasileiro define os
crimes contra a vida, da seguinte forma:
I o. Homicídio simples: Art. 121. — § Io. Matar alguém: Pena — reclusão
de 6 a 20 anos;
Caso de diminuição da pena
§ Io. Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social
ou moral, ou sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta
provocação da vítima, o juiz pode reduzir a pena de um sexto a um terço.
2o. Homicídio qualificado: Art. 121. § 2o. Se o homicídio é cometido:
I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe;
II - por motivo futil;
III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro
meio insidioso ou cruel,ou de que possa resultar perigo comum;
IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que
dificulte ou tome impossível a defesa do ofendido;
V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de
outro crime: Pena — reclusão de 12 a 30 anos;
3o. Homicídio culposo: Art. 121. § 3o. Matar a alguém sem a intenção pre
meditada: Pena — reclusão de 1 a 3 anos.
Aumento da pena
14 6 A D o u t r in a do P f x a d o
§ 4o. No homicídio culposo, a pena é aumentada de um terço, se o crime
resulta de inobservância de regra técnica de profissão, arte ou ofício, ou se
o agente deixa de prestar imediato socorro à vítima, não procura diminuir
as conseqüências do seu ato, ou foge para evitar prisão em flagrante. Sendo
doloso o homicídio, a pena é aumentada de um terço, se o crime é praticado
contra pessoa menor de 14 (quatorze) anos.
§ 5o. Na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar de aplicar a
pena, se as conseqüências da infração atingirem o próprio agente de forma
tão grave que a sanção penal se toma desnecessária.2
d) Os teólogos questionam o estado de gradação do pecado. Isto é, que
cada pecado destas pessoas (ou coletividade) acima mencionadas era arguido
de acordo com aquilo que regulamentava a lei divina. Esse pecado sendo ar
guido assim desta forma, indicava, no pensamento de Deus, que cada criatura
deveria receber aquilo que merecia. Mas ninguém ficava sem castigo. Algumas
passagens das Escrituras tomarão este ponto mais claro. Nos elementos doutri
nários do Senhor Jesus, Ele afirmou:
Io. “Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá MENOS RIGOR
para o país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade” (Mt 10.15).
2o. O servo que ignorou a vontade de seu senhor. A passagem de Lucas
12.47,48, fala sobre o servo que não levou em conta a vontade de seu supe
rior. Então ele diz: “E o servo que soube a vontade, do seu Senhor, e não se
aprontou, nem fez conforme a sua vontade, será castigado com muitos açoi
tes. Mas o que a não soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoi
tes será castigado. E, a qualquer que muito for dado, muito se lhe pedirá...”.
3°. O Sinédrio e Pilatos. “Disse-lhe pois Pilatos: Não me falas a mim? Não
sabes que tenho poder para te crucificar e tenho poder para te soltar? Res
pondeu-lhe Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima te não fosse
dado; mas aquele que me entregou a ti ‘maior pecado’ tem” (Jo 19.10,11).
4o. O ladrão da cruz julgando-se a si mesmo e ao outro. “E nós, na ver
dade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam...”
(Lc 23.41). Assim como a recompensa será feita de acordo com as obras
de cada um; também o castigo será executado de acordo com o pecado de
cada (Ez 32).
2. Diversos tipos de pecados. As duas tábuas de pedra que continham
os Dez Mandamentos estavam classificadas assim: uma continha os cinco
A C l a s s if ic a ç ã o d o P e c a d o 147
mandamentos relacionados diretamente com Deus (era a lei divina); a outra
continha os cinco mandamentos relacionados com os homens.
a) Cinco mandamentos: lei divina.
I o. Não terás outros deuses diante de mim.
2o. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que
há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da ter
ra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus,
sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos, até a terceira
e quarta geração daqueles que me odeiam. E faço misericórdia a milhares
dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.
3o. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não
terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.
4°. Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e
farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não
farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo,
nem a ma serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro
das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra, o mar e
tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor
o dia do sábado, e o santificou.
5a. Honra a teu pai e a ma mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra
que o Senhor teu Deus te dá (Ex 20.12).
Estes confrontavam o homem com tudo aquilo que é divino.
b) Cinco mandamentos: lei moral.
6o. Não matarás.
7o. Não adulterarás.
8o. Não furtarás.
9o. Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
10°. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu
próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu ju
mento, nem coisa alguma do teu próximo (Ex 20.13-17).
Estes confrontavam o homem com todo aquilo que é moral.
148 A D o u t r in a d o P e c a d o
II. Os T r a n s g r e s s o r e s
1. Diversos tipos de transgressores. No Antigo Testamento, especial
mente no Livro de Levítico, encontramos vários sacrifícios que eram oferecidos
em favor de diversas classes de pecadores; entretanto, outras transgressões eram
punidas sem misericórdias pela pena de morte. Mas as que restavam sacrifícios
foram descritas no Pentateuco, especialmente no livro de Levítico. São estas:
a) Um sacerdote ungido. “Se o sacerdote ungido pecar para escândalo do
povo, oferecerá pelo seu pecado, que pecou, um novilho sem mancha, ao Se
nhor, por expiação do pecado” (Lv 4.3).
b) A congregação. “Mas, se toda a congregação de Israel errar, e o negócio
for oculto aos olhos da congregação, e se fizerem, contra algum dos manda
mentos do Senhor, aquilo que se não deve fazer, e forem culpados. E o pecado
em que pecaram for notório, então a congregação oferecerá um novilho, por
expiação do pecado, e trará diante da tenda da congregação” (Lv 4.13,14).
c) Um príncipe. “Quando um príncipe pecar, e por erro obrar contra algum
de todos os mandamentos do Senhor seu Deus, naquilo que se não deve fazer,
e assim for culpado. Ou se o seu pecado, no qual pecou, lhe for notificado,
então trará por sua oferta um bode tirado de entre as cabras, macho sem man
cha” (Lv 4.22,23).
d) Qualquer Pessoa. “E se qualquer outra pessoa do povo da terra pecar
por erro, fazendo contra algum dos mandamentos do Senhor, aquilo que se
não deve fazer, e assim for culpada. Ou se o seu pecado, no qual pecou, lhe for
notificado, então trará por sua oferta uma cabra fêmea sem mancha; pelo seu
pecado que pecou” (Lv 4.27,28).
2. Diversos tipos de transgressores por pecados ocultos. São vá
rios atos de transgressão que fazem parte dos pecados ocultos.
a) Omitisse de denunciar a voz de blasfêmia. “E quando alguma pessoa
pecar, ouvindo uma voz de blasfêmia, de que for testemunha, seja porque viu,
ou porque soube, se o não denunciar, então levará a sua iniqüidade” (Lv 5.1).
b) Tocar em uma pessoa ou coisa imunda. “Ou, quando alguma pessoa
tocar em alguma coisa imunda, seja corpo morto de fera imunda, seja corpo
A C l a s s if ic a ç ã o d o P e c a d o 149
morto de animal imundo, seja corpo morto de réptil imundo, ainda que não
soubesse, contudo será ele imundo e culpado” (Lv 5.2).
c) Tocar na imundícia de um homem. “Ou, quando tocar a imundícia de
um homem, seja qualquer que for a sua imundícia, com que se faça imundo, e
lhe for oculto, e o souber depois, será culpado” (Lv 5.3).
d) Jurar falso testemunho contra uma pessoa inocente. “Ou, quando al
guma pessoa jurar, pronunciando temerariamente com os seus lábios, para fa
zer mal, ou para fazer bem, em tudo o que o homem pronuncia temerariamente
com juramento, e lhe for oculto, e o souber depois, culpado será numa destas
coisas” (Lv 5.4).
e) Cometer sacrilégio. “E falou o Senhor a Moisés, dizendo: Quando algu
ma pessoa cometer uma transgressão, e pecar por ignorância nas coisas sagra
das do Senhor, então trará ao Senhor pela expiação, um carneiro sem defeito
do rebanho, conforme à tua estimação em siclos de prata, segundo o siclo do
santuário, para expiação da culpa.Assim restituirá o que pecar nas coisas sa
gradas, e ainda lhe acrescentará a quinta parte, e a dará ao sacerdote; assim o
sacerdote, com o carneiro da expiação, fará expiação por ele, e ser-lhe-á per
doado o pecado” (Lv 5.14-16).
f) Pecar por ignorância. “E, se alguma pessoa pecar, e fizer, contra algum
dos mandamentos do Senhor, aquilo que não se deve fazer, ainda que o não
soubesse, contudo será ela culpada, e levará a sua iniqüidade; e trará ao sa
cerdote um carneiro sem defeito do rebanho, conforme à ma estimação, para
expiação da culpa, e o sacerdote por ela fará expiação do erro que cometeu sem
saber; e ser-lhe-á perdoado. Expiação de culpa é; certamente se fez culpado
diante do Senhor” (Lv 5.17-19).
g) Pecados voluntários por descuidos. “Falou mais o Senhor a Moisés, di
zendo: Quando alguma pessoa pecar, e transgredir contra o Senhor, e negar ao
seu próximo o que lhe deu em guarda, ou o que deixou na sua mão, ou o roubo,
ou o que reteve violentamente ao seu próximo, ou que achou o perdido, e o
negar com falso juramento, ou fizer alguma outra coisa de todas em que o ho
mem costuma pecar; será pois que, como pecou e tomou-se culpado, restituirá
o que roubou, ou o que reteve violentamente, ou o depósito que lhe foi dado em
guarda, ou o perdido que achou, ou tudo aquilo sobre que jurou falsamente; e o
restituirá no seu todo, e ainda sobre isso acrescentará o quinto; àquele de quem
150 A D o u t r in a d o P e c a d o
é o dará no dia de sua expiação. E a sua expiação trará ao Senhor: um carneiro
sem defeito do rebanho, conforme à tua estimação, para expiação da culpa
trará ao sacerdote; e o sacerdote fará expiação por ela diante do Senhor, e será
perdoada de qualquer das coisas que fez, tomando-se culpada” (Lv 6.1-7).
III. A C l a s s i f i c a ç ã o d a C u lp a
1. A culpa legal. Os teólogos da Era Medieval consideravam o pecado
de Adão como sendo o pecado original, talvez baseados na expressão de Pau
lo, quando diz: que “...por um homem (Adão) entrou o pecado no mundo”
(Rm 5.12); entretanto, no conceito dos teólogos protestantes, ao que parece,
está também de acordo com o pensamento geral das Escrituras, o pecado ori
ginal seria o pecado de Lúcifer — o resplandecente. O de Adão seria, então,
“a transgressão”, porque mesmo antes de Adão pecar, o “mal” já existia (Gn
2.17). Depois destes, segundo este conceito, todos os demais são chamados de
pecados atuais. Estes se dividem em mortais e veniais, conforme a gravidade
da transgressão e o grau e voluntariedade e deliberação. Os teólogos medie
vais já citados neste argumento, também os classificavam em formais: toda a
transgressão deliberada; e materiais: transgressão sem consentimento ou sem
conhecimento. Muitas vezes se têm questionado sobre o que se considerava
como “a culpa legal” e “a culpa ilegal”. Evidentemente alguém tem procurado
fazer uma distinção entre uma e outra, como se faz entre o ‘furto’ e o ‘roubo’.
A culpa legal seria, então, imputada por Deus ao seu povo, desde o momento
em que a lei foi promulgada no monte Sinai. A partir daí, qualquer pecado
seria ‘transgressão’ pois era praticado por alguém que tinha o conhecimento
da lei. Assim, a transgressão é praticada por alguém que se encontra ‘debaixo
da lei’. Tiago mostra como isso pode acontecer. Ele diz: “Porque qualquer que
guardar toda a lei, e tropeçar em um só ponto, tomou-se culpado de todos.
Porque aquele que disse: Não cometerás adultério, também disse: Não mata-
rás. Se tu pois não cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor”
(Tg 2.10,11). No caso de Adão e sua esposa, eles, com efeito, estavam debaixo
da legalidade, esboçada na ordem divina, quando disse: “De toda a árvore do
jardim comerás livremente; mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela
não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás” (Gn
2.16.17). Por essa razão, portanto, eram passivos de castigo.
2. A culpa ilegal. Do ponto de vista divino de observação, a culpa ilegal
seria uma transgressão praticada por aqueles que ainda se encontram na ilega
lidade. Quer dizer: sem Cristo. Fora da lei de Deus. Sendo chamados de ‘os
A C l a s s if ic a ç ã o d o P e c a d o 151
que pecam sem lei’. “Porque todos os que sem lei pecaram, sem lei também
perecerão...” (Rm 2.12). Do ponto de vista divino de observação, o conceito
de legalidade e ilegalidade no tocante ao pecado, não existe. “Porque todos
pecaram...”. Assim, “Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para
com todos usar de misericórdia” (Rm 3.23a; 11.32).
a) Não crer em Deus — ateísmo. A doutrina do ateísmo nega a existência
de qualquer divindade e dispensa a ideia de uma justificativa divina para a
vida. Um dos argumentos utilizados pelos ateus para sustentar sua posição é a
suposta incompatibilidade da coexistência de Deus e do sofrimento humano,
assim como a interpretação de que a crença religiosa é uma espécie de fuga da
realidade. Fora do âmbito estritamente religioso, o ateísmo se apresenta como
postura filosófica de largo alcance em vários períodos da história humana. Ne
gar, portanto, a Deus faz o homem pecar porque está negando o bem maior da
existência.
b) Blasfêmia — falar contra Deus. De acordo com Platão, blasfêmia quer
dizer: ‘falar para danificar’. Em outras palavras, objetivo daquele que pro
fere blasfêmia é: odiar, ferir, prejudicar, aniquilar, menosprezar, desdenhar,
detestar, abominar, difamar, caluniar, amaldiçoar, espoliar, arruinar, demolir,
repugnar, ridicularizar, implicar, provocar, caçoar, humilhar, acertar, espicaçar,
envergonhar, criticar, cortar, contrariar, banir, surrar, intimidar, esmagar, im
prensar. Blasfêmia era considerada uma abominação. Nas Escrituras Sagradas,
alguns atos ou palavras abusivas dirigidas contra Deus e contra aquilo que é
sagrado eram considerados como blasfêmias. Por exemplo: um filho de uma
mulher israelita com um egípcio blasfemou o nome do Senhor, e o amaldiçoou
— sua morte foi decretada por Deus sem misericórdia (Lv 24.10,11). Julgar-se
igual a Deus — pelo menos foi por este motivo que os judeus quiseram ape
drejar a Jesus, quando disseram: “Não te apedrejamos por alguma obra boa,
mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo” (Jo
10.33); falar contra o Templo e contra a Lei também era considerado blasfêmia
(At 6.11); falar contra o céu e contra aqueles que nele habitam (Ap 13.6); falar
contra Moisés (At 25.8); falar contra a palavra de Deus (Tt 2.5); contradizer a
verdade divina (At 13.45); proferir mentiras blasfêmias (Ap 2.9). Em Apoca
lipse 13.5,6, diz-se que “foi dada uma boca (ao Anticristo) para proferir gran
des coisas e blasfêmias; e deu-se-lhe poder para continuar por quarenta e dois
meses. E abriu a sua boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do seu
nome, e do seu tabemáculo, e dos que habitam no céu”. Qualquer ato abusivo
à santidade divina que violasse seu santuário e seus mandamentos, era con
siderado blasfêmia e, por extensão, também, como “abominação” aos olhos
1 52 A D o u t r in a d o P e c a d o
de Deus (cf. Dt 23.18; Is 1.13; 66. 3). O Anticristo blasfemará os “poderes do
mundo superior”, ridicularizando sua própria existência. Contudo, seu alvo
maior é blasfemar a pessoa “de Deus, do seu nome, e do seu tabemáculo, e dos
que habitam no céu”. Isto significa que ele blasfemará de Deus, de Jesus, do
Espírito Santo e dos poderes angelicais, enquanto que, aqui na terra, o tabemá
culo de Deus foi também blasfemado — quer dizer — profanado.
c) Tomar o nome de Deus em vão — féfingida. O terceiro mandamento da i
Lei Divina traz uma advertência para aqueles que procuram tomar o nome de
Deus em vão. “Porque (acrescenta o texto divino) o Senhor não terá por ino
cente o que tomar o seu nome em vão” (Ex 20.7b). Essa categoria de pecadores
é composta daqueles que “confessam que conhecem a Deus, mas negam-no
com as obras, sendo abomináveis, e desobedientes, e reprovados para toda a
boa obra” (Tt 1.16).
IV. O P e c a d o e se u s C o g n a t o s
1. O pecado e outros apelativos. Além dos pecados que foram relacio
nados como propícios de sacrifícios, existiam outros que eram praticados por
pessoas de má índole. Alguns deles eram punidos pela morte e outros não. Em
termos genéricos, estes pecados agressivos eram praticados mais por pessoas
que se encontravam revestidas de autoridade, tanto no campo político como no
religioso. O termo “pecado” propriamente dito é encontrado pela primeira vez
nas Escrituras no momento que Deus arguia Caim com respeito ao seu sacri
fício. Disse o Criador a Caim: “E o Senhor disse a Caim: Por que te iraste? E
por que descaiu o teu semblante? Se bem fizeres, não é certo que serás aceito?
E se não fizeres bem, o pecado jaz à porta, e sobre ti será o seu desejo, mas
sobre ele deves dominar” (Gn 4.6,7). A partir desta citação, ele passa a permear
quase que todos os livros da Bíblia. EmApocalipse 18.5, encontramos o último
substantivo do termo pecado, quando se fala da Grande Babilônia: “Porque já
os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou das iniquidades
dela”.
a) No Antigo Testamento —• citações exaustivas. O termo está presente
nos seguintes livros: (Gn 4. 7; 18.20; 20.9; 31.36; 50.17; Êx 10.17; 29.14, 36;
32.21,30,31,32,34; 34.7,9; Lv 4.3, 8,14,20,21,23,24,25,26,28,29,32,33,
34, 35; 5.5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 16; 6.17,25, 26, 30; 7.5, 7, 37;8.2, 14; 9.2,
3, 7, 8, 10, 15, 22; 10.16, 17, 19; 12.6, 8; 14.13, 19, 22, 31; 15.15, 30; 16.3, 5,
6, 9, 11, 15, 16, 25, 27; 30, 34; 19.17, 22; 20.20; 22.9; 23.19; 24.15; 26.18, 21,
A C l a s sif ic a ç ã o d o P e c a d o 153
24, 28; Nm 5.6, 7; 6.11, 14, 16; 7.16, 22, 28, 34,40, 46, 52, 58, 64, 70, 76, 82,
87; 8.8,12,21; 9.13; 12.11; 15.24; 16.26; 18.9,22,32; 19.9,17; 27.3; 28.15,22;
29.5, 11, 16, 19, 22, 25, 28, 31, 38; 32.23; Dt 9.18, 21, 27; 15.9; 19.15; 21.22;
23.21, 22; 24.15, 16; Js 24.19; 1 Sm 2.17; 12.19; 14.38; 15.23, 25; 20.1; 1 Rs
8.34,35,36; 12.30; 13.34; 14.16,22; 15.3,26, 34; 16.2, 13,26,31; 17.18; 2 Rs
3.3; 10.29, 31; 12.16; 13.2, 6; 15.9, 18, 24, 28; 17.21, 22; 21.16, 17; 24.3; 1 Cr
21.8; 2 Cr 6.25, 26, 27; 7.14; 25.4; 28.13; 29.21, 24; 33.19; Ed 6.17; 8.35; Ne
1.6; 4.5; 9.2, 37; 10.33; 13.26; Jó 10.6; 13.23; 14.16; 34.37; SI 19.13; 25.7, 18;
32.1, 5; 38.3, 18; 40.6; 51.2, 3, 5, 9; 59.3, 12; 79.9; 85.2; 90.8; 103.10; 109.7,
14; Pv 5.22; 10.16; 14.34; 20.9; 21.4; 24.9; Is 1.18; 3.9; 5.18; 6.7; 27.9; 30.1;
38.17; 40.2; 43.24,25; 44.22; 53.12; 58.1; 59.2, 12; 64.5; Jr 5.25; 14.10; 15.13;
16.10, 18; 17.1, 3; 18.23; 30.14; 31.34; 36.3; Lm 3.39; 4.6, 13, 22; Ez 3.20;
16.51, 52; 18.14, 21, 24; 23.49; 33.10, 14, 16; 40.39; 42.13; Dn 4.27; 9.16, 20,
24; Os 4.8; 8.13; 9.9; 10.8; 12.8; 13.12; Am 5.12; Mq 1.5,13; 3.8; 6.7,13; 7.19;
Zc 13.1).
b) No Novo Testamento — citações exaustivas. O termo está presente nos
seguintes livros: (Mt 1.21; 3.6; 9.2,6; 12.31; 26.28; Mc 1.4, 5; 2.5, 7,9,10; 3.28,
29; Lc 1.77; 3.3; 5.20, 21,23, 24; 7.47,48,49; 11.24,47; Jo 1.29; 8.7,21,24, 34,
46; 9.41; 15.22, 16.8; 19.11; 20.23; At 2.38; 3.19; 5.31; 7.60; 10.43; 13.38; 22.16;
Rm 3.9, 20; 4.7, 8; 5.12, 13, 20, 21; 6.1, 2, 6, 7, 10, 11, 12, 13, 14, 16, 17, 18, 20,
22, 23; 7.5, 7, 8, 9, 11,13, 14, 17, 20, 23, 25; 8.2, 3, 10; 11.27; 14.23; 1 Co 6.18;
15.3, 17, 56; 2 Co 5.21; 11.7; G1 1.4; 2.17; 3.22; Ef 2.1; Cl 1.14; 1 Ts 2.16; 1 Tm
5.22,24; 2 Tm 3.6; Hb 1.3; 2.17; 3.13; 4.15; 5.1, 3; 7.26,27; 8,12; 9.26,28; 10.2,
3 ,4 ,6 , 8, 11,12, 17,18,26; 11.25; 12.1,4; 13.11; Tg 1.15; 2.9; 4.17; 5.15,16,20;
1 Pe 2.20,22,24; 3.18; 4.1, 8; 2 Pe 1.9; 1 Jo 1.7, 8,9,10; 2.2,12; 3.4,5, 8,9; 4.10;
5.16,17; Ap 1.5; 18.4,5).
2. Onde o termo pecado está ausente. O termo pecado encontra-se
ausente em 12 livros do Antigo Testamento e em 7 livros do Novo. Todavia,
nestes livros, o pecado recebe outros nomes. O termo “pecado” está ausente
nos seguintes livros:
a) Antigo Testamento. O termo está ausente nos seguintes livros: Juizes,
Rute, Eclesiastes, Cantares, Joel, Obadias, Jonas, Naum, Habacuque, Sofonias,
Ageu e Malaquias;
b) Novo Testamento. O termo está ausente nos seguintes livros: Filipen-
ses, 2 Tessalonicenses, Tito, Filemom, 2 e 3 João e Judas. Com efeito, porém,
154 A D o u t r in a do P eca d o
nestes livros citados, ele aparece com outros nomes, sinônimos e apelativos.
No Antigo Testamento, os dois livros que mais falam sobre o “pecado” são
Levítico e Números. No Novo, os dois livros com maior número de citações
sobre o “pecado”, são Romanos e Hebreus.
V . O P e c a d o e s e u s V a r ia n t e s
1. Variantes com sentidos de pecados. Os que aparecem englobando o
toda a nação de Israel e com sentido universal.
a) Só para Israel. São: pecado, transgressão, iniqüidade e impiedade. “Se
tenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade,
para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniqüida
de, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santís
simo” (Dn 9.24). “E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião
virá o Libertador, E desviará de Jacó as impiedades” (Rm 11.26).
b) Israel e o mundo —- com sentido universal. São: pecado, iniqüidade,
maldade, o mal e transgressão. São vários os textos das Escrituras que falam
disso. Contudo, os que mais se aproximam são estes:
I o. O pecado. O termo pecado ocorre no Antigo e Novo Testamento 600
vezes em 545 versículos. Encontra-se no singular com sentido universal:
“No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordei
ro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). “Portanto, como por um
homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também
a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Rm 5.12).
“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos,
mas também pelos de todo o mundo” (1 Jo 2.2).
2o. A iniqüidade. O termo iniqüidade ocorre no Antigo e Novo Testa
mento 278 vezes em 262 Versículos. Encontra-se no singular com sentido
universal: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se
desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de
nós todos” (Is 53.6). A iniqüidade associada com o pecado. “Qualquer que
comete pecado, também comete iniqüidade; porque o pecado é iniqüidade”
(1 Jo 3.4). E no contexto imediato: “Toda a iniqüidade é pecado, e há peca
do que não é para morte” (1 Jo 5.17).
3o. A maldade. O termo maldade ocorre no Antigo e Novo Testamento 123
vezes em 113 versículos. Encontra-se no singular com sentido universal:
A C l a s s if ic a ç ã o do P e c a d o 155
“E viu o Senhor que a maldade do homem se multiplicara sobre a terra e
que toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continu
amente” (Gn 6.5). “Porque não temos que lutar contra a came e o sangue,
mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes
das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos luga
res celestiais” (Ef 6.12). A maldade sempre ataca no sentido geométrico.
Ela é diferente de alguns seguimentos do bem que somente crescem em
progressão aritmética (1,2,3,4,5...), enquanto que a maldade cresce em pro
gressão geométrica (Gn 6.5; Lm 4.6; Os 13.2; Mt 24.12: ela se multiplica:
1,2,4,8,16,32,64...).
4o. O mal. O termo mal ocorre no Antigo e Novo Testamento 1219 vezes
em 1107 versículos. Encontra-se no singular com sentido universal: “E o
Senhor Deus fez brotar da terra toda a árvore agradável à vista, e boa para
comida; e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento
do bem e do mal” (Gn 2.9).
5o. A transgressão. O termo transgressão ocorre no Antigo e Novo Tes
tamento 65 vezes em 63 versículos. Encontra-se no singular com sentido
universal: “Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído
por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre
ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is53.5). “Porque, se a palavra
falada pelos anjos permaneceu firme, e toda a transgressão e desobediência
recebeu ajusta retribuição” (Hb 2.2).
2. Variantes do pecado em contextos bíblicos isolados. Nestes tex
tos o pecado aparece recebendo menção e punição isolada.
0 3 Pecado (Gn 4.7);
0 3 Iniqüidade (Êx 34.7);
0 3 Maldade (Gn 4.13);
O g Injustiça (Gn 15.16);
03 Erro (2 Ts 2.11; 1 Jo 4.6);
C g Orgulho (2 Tm 3.4);
0 3 Violência (Gn 6.11);
0 3 Mal (Gn 2.9);
Og Perversidade (Pv 22.8);
Cg Infiel=infidelidade (2 Co 6.16);
C g Fomicação (1 Co 5.1).
1 56 A D o u t r in a do P e c a d o
cg Corrupção (2Pe2.12);
cg Hipocrisia (Mt 23.13);
cg Apostasia (2 Ts 2.3);
cg Perdição (2 Ts 2.3);
cg Fraude (SI 55.23).
3. Variantes de pecados ligados ao vício. São vários os pecados que 3
a filosofia do dia a dia chama de pecado social e que a sociedade (ou socieda
des) os tolera de maneira graciosa.
a) O pecado da gula. Devemos ter em mente que o primeiro pecado do ho- -
mem, foi ocasionado por causa de comida. Ele e sua esposa comeram do fruto
proibido que se encontrava no jardim, e pecaram. A recomendação divina para
quem comete tal pecado é: “põe uma faca a ma garganta, se és homem glutão”
(Pv 23.2b). Isto significa que, há pessoa que quando come, peca, mas não peca
porque come, o pecado está no fato de comer sem controle ou ética alimen
tar. Como educadores capazes, os antigos rabinos usavam, muitas vezes, os
métodos ilustrativos de ensinar ideias abstratas ou morais ao povo. O Preceito
Áureo era por eles projetado com exemplos simples: “Há três coisas de que um
pouco é bom, mas demais é um mal: o fermento na massa, o sal na came, e a
indecisão no espírito”! Há oito coisas nas quais um pouco é bom, mas demais
é ruim: viagem, casamento, riquezas, vinho, sono, bebidas quentes, remédios
e luz — que demais cega”.3 Muitos problemas de saúde da meia idade e da
velhice, inclusive pressão alta, endurecimento das artérias, doenças do cora
ção, derrame e diabetes, muitas vezes (com exceções) são causados pelo modo
errado que a pessoa viveu, pelo que comeu e bebeu quando era mais jovem. A
possibilidade de viver mais tempo com saúde é maior se você:
cg se alimentar bem;
cg não ingerir bebidas alcoólicas;
cg não fumar;
cg levar uma vida regular — nada de exagero;
cg fazer exercícios ou praticar algum tipo de esporte
— dentro das normas da lei e da ética;
cg procurar a harmonia consigo mesmo e com os outros;
cg desenvolver suas atividades em estilo normal;
A C l a s s i f i c a ç ã o d o P e c a d o 157
cg procurar uma vida simples e de acordo com a natureza. Jesus condenou o
pecado da gula e Paulo associou o mesmo às obras da came (Lc 21.34; G15.21).
b) O pecado da bebedice. Jesus falou contra este pecado (Lc 21.34) e Pau
lo o associa também com as obras da came. Depois acrescenta: “que os que
cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (G1 5.21). Os problemas
com o álcool (incluindo morte por intoxicação, crimes e acidentes) cresceram
consideravelmente na maior parte do mundo nas últimas décadas. O álcool
causa prejuízos em três áreas da vida:
cg no organismo;
cg no bolso;
cg na alma.
Muitas vezes, praticar ou não o vício, faz a diferença. Nos Estados Unidos
da América viviam, séculos atrás, dois homens que se conheciam. Estes dois
homens pertenciam a duas famílias diferentes: uma não bebia e a que era vicia
da na bebida. Um era crente, e o outro não. O crente, Edward Jonathan, quando
ainda jovem, fizera um propósito de que, quando casar-se, entregaria toda a
plenitude de seus bens e de sua família para glória e engrandecimento do reino
de Deus. Casou-se com uma moça crente, e no seu lar predominava a leitura
da Bíblia e a oração. Esta família teve durante 150 anos 729 descendentes dos
quais 300 se tomaram pregadores da Palavra de Deus, 65 professores em esco
las superiores, 13 catedráticos, 3 deputados e um vice-presidente da nação. O
não crente, Max Junkers, casou-se com uma moça ateia e viveram conforme o
seu ideal. Durante 150 anos a família teve 1.026 descendentes, dos quais 300
morreram prematuramente, 100 foram condenados a prisão, 190 eram prosti
tutas, 100 alcoólatras.4
c) O pecado defumar. Apartir do momento em que a fumaça do cigarro toca os
lábios do fumante, começa a agredir por onde passa:
cg boca;
cg garganta;
cg esôfago;
cg estômago;
cg vias respiratórias;
cg pulmões etc.
158 A D o u t r in a d o P e c a d o
Milhões de partículas de fuligem se depositam em todo o trajeto que a
fumaça percorre pelo corpo. O fumante que diz: “Eu não trago” engana-se
totalmente supondo que a fumaça do cigarro só faz mal quando penetra nos
pulmões. A fumaça absorvida pela mucosa da boca passa para o sangue al
cançando pâncreas e rins; vai até a bexiga onde a urina é armazenada. Cada
parte do corpo que entrou em contato com os tóxicos do cigarro pode ficar
com câncer ou uma outra doença grave. Na casa em que há fumantes, as crian
ças frequentemente têm problemas do aparelho respiratório. Mulher de marido
fumante tem duas vezes mais possibilidades de contrair câncer do pulmão,
comparado com mulher de marido que não fuma. Porém, se a própria mulher
também fuma, o risco de contrair essa espécie de câncer aumenta quatro vezes.
E, além disso, observe o que o cigarro disse para o fumante: “Você me acende
hoje — eu te apago amanhã!”5
d) O pecado de jogar. O jogo de azar — usualmente, jogo de azar, jogo de ie
cartas e outras modalidades são chamados assim. Alguns destes jogos são con
siderados como contravenção penal. Do ponto de vista divino de observação,
qualquer jogo de qualquer natureza, pode ser chamado de “jogo de azar”, pois
o jogo tanto para quem joga como para aquele que com ele se envolve, sempre
traz azar e várias desvantagens. A pessoa viciada em jogo escraviza sua mente
e o seu tempo. Por estas e outras razões é bom não jogar. Quem joga além de
se tomar um escravo de tal vício, ainda perde muito tempo e quebrantamentos
de contratos que envolvem horários determinados, trazendo assim prejuízos a
si mesmo — à família e à sociedade a que pertence.
Alguns estudiosos opinam que “as coisas semelhantes a estas”, nada têm a ver
com os vícios que falamos acima. Jó diz que Deus não considera o homem viciado
nisso ou naquilo. Então ele diz: “Porque ele (Deus) conhece os homens vãos, e vê
o ‘vício’; e não o terá em consideração” (Jó 11.11). Com respeito ao profeta Daniel
está escrito: “ele era fiel, e não se achava nele nenhum ‘vício’ nem culpa” (Dn 6.4b).
Se o leitor deste livro tem algum destes vícios, não fique triste, pois Cristo o liberta!
Isso lhe trará saúde para o seu corpo, economia para seu bolso, paz para a sua alma
e satisfação para Deus.
1 ABRIL, A. Editora Abril — SP. 23“ Edição, 1997, p. 54
2 Código Penal Brasileiro. 10a Edição. Editora Saraiva, 2004, pp. 99-100.
3 Enciclopédia Judaica. Vol. 6, Editora e Livraria Sêfer Ltda. 1989, p.680
4 SILVA, S. P. Ética Cristã: Segurança na vida e no lar. São Paulo: Editora Mensagem para
Todos, 2003, p. 132,138.
5 WERNER, D. Onde não há Médico. 21a Ed. São Paulo: PAULUS, p. 53.
O P ec a d o H e r d a d o
e a I m pu ta ç ã o d a C ulpa
160 A D o u t r in a d o P e c a d o
I . O P e c a d o H e r d a d o
1. O pecado herdado. Com a queda do homem, o pecado assumiu uma
espécie de “veículo transmissor”. Há o pecado “congênito”, inato, herdado de
Adão, nosso pai (a exemplo do veneno da serpente que se generaliza no corpo
através da corrente sanguínea), que só termina seu poder de ação, quando a
pessoa humana se toma uma “nova criatura”, por meio de Jesus Cristo (2 Co
5.17). E exatamente o que Paulo declara em Romanos 6.23, “o salário do pe
cado”. Há o pecado praticado, isto é, a “transgressão” (1 Jo 1.9). O primeiro
vem no singular, o segundo no plural. No tocante a sua prática, a primeira é
por comissão (a voluntariedade), conforme se depreende de Tiago 1.14,15,
quando diz: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodadopela sua pró
pria concupiscência. Depois, havendo a concupiscência concebido, dá à luz o
pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte”; a segunda por omissão
(a indisposição). Tiago descreve também esta segunda parte, em 4.17, quando
diz: “Aquele pois que sabe fazer o bem e não faz, comete pecado”. E Paulo
acrescenta: “Pelo que, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo
pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso
que todos pecaram” (Rm 5.12). Neste versículo e naqueles que se seguem, o
apóstolo mostra-nos que a introdução do pecado no mundo deu-se por causa da
desobediência de Adão. De acordo com os ensinamentos de Paulo e de outros
escritores do Novo Testamento, a ‘culpa original’ passou a todos os homens.
Assim; “todos pecaram”. Quando uma criança pode ser capaz (ou incapaz)
de assumir a culpa do pecar. Pensando na “culpa herdada”, alguns estudiosos
têm perguntado: “Quando uma criança pode se tomar um pecador?”, ou ainda
“quando Deus passa a imputar o pecado na vida de uma criança?”. Tanto soció
logos, como psicólogos e teólogos sustentam que há uma espécie de “idade de
responsabilidade” antes da qual as crianças não são consideradas responsáveis
pelo pecado e portanto, não são culpadas perante Deus — ainda que sejam ad
vertidas no campo moral comparativo. Do ponto de vista divino de observação,
depreendido do Antigo Testamento, Deus tomou isento da culpa as pessoas de
“20 anos para baixo” e imputável as de “20 anos para cima”. Assim Ele falou a
Moisés, dizendo: “Neste deserto cairão os vossos cadáveres, como também to
dos os que de vós foram contados segundo a vossa conta, ‘de vinte anos e para
cima’, os que dentre vós contra mim murmurastes” (Nm 14.29). Os rabinos
(depois passou para os Pais da Igreja) admitiam uma espécie de “predestinação
ampla” para todas as crianças. “As crianças (diziam eles) não são responsáveis
pelo “pecado hereditário”, pois há não culpa sem a noção do bem e do mal. So
mente aos 20 anos (segundo este conceito) começa a plena responsabilidade,
O P e c a d o H e r d a d o e a I m p u t a ç ã o d a C ulpa 161
que toma possível o pecado atual”. Este ensinamento foi deduzido de certas
passagens do Antigo Testamento (Êx 30.14; 38.26; Nm 14.29).
2. O pecado herdado no conceito dos Pais da Igreja. Os Pais da
Igreja, entretanto, achavam a faixa de “vinte anos” para concepção do “EU”
bastante longa e passaram a estabelecerem certos números de anos, tais como:
“um ano”, “sete anos”. Um terceiro grupo, opinou para “nove”. Os rabinos ju
daicos passaram para suas tradições doze para a sociedade (Êx 2.10; 1 Sm 1.20
28; 2.1-11; Lc 2.42; 8.42) e para maioridade religiosa treze (Gn 17.25). A Bíblia
não nos informa se esta determinação de Deus fora apenas para aquela geração
ou se ela tomou-se extensiva a todos os jovens israelitas ou não. As Escrituras
silenciam nesta direção, então é melhor não arriscar. Alguns teólogos e psicó
logos vêm esta exigência por parte de Deus, de modo diferente e opinam que,
a idade para a imputação da culpa é de 7 anos, outros, defendem 13 anos; isso
levando em contas a maioridade judaica. Idade esta, que segundo a tradição
judaica o menino é apresentado a congregação e os rabinos o declaram como
membro da fé em Deus e participante do Pacto Abraâmico (Gn 17.25).
3. Como o pelagianismo entendia por pecado herdado. A teoria do
pelagianismo é atribuída a Pelágio (350-425), um monge da Bretanha. Pelágio
foi um professor de índole cristã muito popular em Roma por volta de 383-410
d.C., e mais tarde na Palestina até 424 d. C. Ele ensinava que Deus considera o
homem responsável somente por aquelas coisas que o homem é capaz de fazer.
Como Deus nos adverte a fazer o bem, portanto, devemos ter essa capacidade
de praticar o bem que Deus ordena. A posição pelagiana rejeita a doutrina do
“pecado herdado” ou do “pecado original” e sustenta que o pecado consiste
somente em atos pecaminosos isolados.
a) O pelagianismo é uma teoria teológica cristã. O pelagianismo é uma
teoria teológica cristã atribuída a Pelágio, conforme já ficou demonstrado aci
ma. Essa teoria sustenta basicamente que todo homem é totalmente responsável
pela sua própria salvação e portanto, não necessita da graça divina. Segundo os
pelagianos, todo homem nasce “moralmente neutro”, sendo capaz, por si mes
mo, sem qualquer influência divina, de salvar-se quando assim o desejar. Uma
das grandes disputas durante a Reforma Protestante versou sobre a natureza e
a extensão do pecado original. No início do século V, Pelágio havia debatido
ferozmente com Santo Agostinho sobre este assunto. Agostinho mantinha que
o pecado original de Adão foi herdado por toda a humanidade e que, mesmo
que o homem caído retenha a habilidade para escolher, ele está escravizado ao
162 A D o u t r in a do P e c a d o
pecado e não pode não pecar. Por outro lado, Pelágio insistia que a queda de
Adão afetara apenas a Adão, e que se Deus exige das pessoas que vivam vidas
perfeitas, ele também dá a habilidade moral para que elas possam fazê-lo e
embora considerasse Adão como “um mau exemplo” para a sua descendência,
suas ações não teriam conseqüências para a mesma, sendo o papel de Jesus
definido pelos pelagianos como “um bom exemplo fixo” para o resto da huma
nidade (contrariando assim o mau exemplo de Adão), bem como proporciona
uma expiação pelos seus pecados, tendo a humanidade em suma, total controle
pelas suas ações, posteriormente Pelágio reivindicou que a graça divina era
desnecessária para a salvação, embora facilitasse a obediência.
b) O pensamento pelagiano rejeita o conceito da culpa (pecado) original.
Pelágio rejeitava o conceito bíblico do ‘pecado herdado’ e do ‘pecado origi
nal’. Mas, esta sua concepção de ver o homem como um inocente no tocante
a esse ponto de vista, não encontra apoio nas Escrituras e também não se coa
duna com a tese e argumento principal, do pensamento cristão. Com a queda
do homem, o pecado assumiu uma espécie de “veículo transmissor”. Há o
pecado “congênito”, inato, herdado de Adão, nosso pai (a exemplo do veneno
da serpente que se generaliza no corpo através da corrente sanguínea), que só
termina seu poder de ação, quando o homem se toma uma “nova criatura”.
Deus coloca diante do homem “a vida e o bem, e a morte e o mal”. Depois no
contexto posterior Ele acrescenta: “Os céus e a terra tomo hoje por testemu
nhas contra vós, que te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e a maldição;
escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua semente” (Dt 30.15,19).’
c) O pensamento das Escrituras desaprova o pelagianismo sobre o peca
do herdado. Refutando o conceito pelagiano devemos analisar aqui três pontos
de vista, no tocante ao homem: a sua salvação; a culpa herdada e o pecado
como herança hereditária. A ideia cristã desaprova a doutrina pelagiana, apre
sentando vários aspectos. O pensamento de perdoar o homem sem que ele
tenha consciência daquilo que Deus fez e está fazendo na sua vida, não é a
vontade divina. E, este, com efeito, não era o plano de Deus, pois tal pensa
mento não se coaduna com o pensamento geral das Escrituras e nem com a
tese e argumento principal. Outrossim, não é o mundo que irá criar o “caminho
da Redenção”. Este foi criado por Deus e inaugurado pelo próprio Cristo por
meio de sua morte na cruz (Hb 10.20). A culpa praticada (quer dizer: a culpa
herdada pela transgressão individual e voluntária) é apresentada nas Escrituras
desde o início até o fim. O profeta Ezequiel fala disso por expressa ordem
de Deus, quando diz: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a
O P e c a d o H e r d a d o e a I m p u t a ç ã o d a C u lpa 163
maldade do pai, nem o pai levará a maldade do filho. A justiça do justo ficará
sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” (Ez 18.20). Outras passagens
das Escritoras nos informam que Deus perdoa, mas corrige “a iniqüidade, e a
transgressão, e o pecado; que ao culpado nãotem por inocente. Que visita a
iniqüidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e
quarta geração” (Ex 34.7). Com efeito, porém, mesmo havendo um sentimento
de boa vontade no pensamento pelagiano a este respeito, contudo, a ideia de
que somos somente responsáveis perante Deus por aquilo que somos capazes
de fazer é contrário ao pensamento geral das Escrituras, visto que por si mes
mo, o homem é incapaz de praticar o bem de natureza espiritual, sem que nele
passe a habitar o Espírito Santo de Deus.
I I . A I m p u t a ç ã o d a C u l p a
1. A culpa ocasionada pela ofensa de Adão. A culpa ocasionada atra
vés do pecado de Adão tomou-se uma deformação genética a todos os homens.
Deus alumia a todo o homem que vem ao mundo (Jo 1.9). Também, segundo
um conceito mais radical, exige também santidade de todo o homem que está
no mundo. Então, nesse caso, esse tipo de culpa imputada não é a culpa pra
ticada, mas a culpa herdada. E neste sentido que o Salmista declara em seu
argumento sobre o pecado, dizendo: “Eis que em iniqüidade fui formado, e em
pecado me concebeu minha mãe” (SI 51.5). E ainda acrescenta no salmo 58.3,
quando diz: “Alienam-se os ímpios desde a madre; andam errados desde que
nasceram”. Também no passado, cidades inteiras foram destruídas por expres
sa ordem de Deus. Em algumas delas, a ordem de destruição era total, como
por exemplo:
a) Na destruição de Jericó. “E, tudo quanto na cidade havia, destruíram
totalmente ao fio da espada, desde o homem até à mulher, desde o menino até
ao velho” (Js 6.21).
b) Na destruição dos amalequitas. “Assim diz o Senhor dos exércitos: Eu
me recordarei do que fez Amaleque a Israel, como se lhe opôs no caminho,
quando subia do Egito. Vai, pois, agora e fere a Amaleque, e destrói totalmente
a tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até à mu
lher, desde os meninos até aos de mama” (1 Sm 15.2,3).
c) Na destruição de Jerusalém. “Matai velhos, mancebos, e virgens, e me
ninos, e mulheres, até exterminá-los” (Ez 9.6a).
16 4 A D o u t r in a d o P e c a d o
2. A culpa ocasionada pela ofensa de Adão pode ser anulada. O
homem culpado que olha para Cristo, tem a sua culpa anulada. Este é conceito
geral das Escrituras com respeito ao pecado e a salvação da pessoa humana.
Todo o processo se dá por meio de Jesus Cristo. Ele é o mediador entre Deus e
o homem. “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens,
Jesus Cristo homem” (1 Tm 2.5). O homem não é capaz de salvar a si mesmo,
sem que haja por parte de Deus uma participação neste processo. Paulo disse:
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto (enfatiza o apóstolo) não
vem de vós; é dom de Deus” (Ef 2.8).
Um pouco de silêncio sobre a imputação da culpa. A Bíblia não nos infor
ma se esta determinação de Deus fora aplicada (como uma espécie de dispen
sação) apenas para aquela geração ou se ela tomou-se extensiva a todos os
jovens israelitas ou não. As Escrituras silenciam nesta direção, então é melhor
não arriscar. Com efeito, porém, mesmo havendo um sentimento de boa von
tade no pensamento pelagiano a este respeito, contudo, a ideia de que somos
somente responsáveis perante Deus por aquilo que somos capazes de fazer é
contrário ao pensamento geral das Escrituras, visto que por si mesmo, o ho
mem é incapaz de praticar bem de natureza espiritual, sem que nele passe a
habitar o Espírito Santo de Deus.
3. A culpa hereditária e a culpa praticada. A culpa herdade tomou- -
se uma espécie de conseqüência hereditária. Já a culpa praticada ou contraída,
é factual e pode existir e não existir. Pois nesse caso, ela somente passa a
ser inquirida depois de sua prática. Paulo durante todo o passo do argumen
to em foco, usa a expressão “ofensa” como contraposta ao “dom gratuito”
da parte de Deus e a frase estar presente nos seguintes versículos: 15,16 (3
vezes), 17,18,20. E evidente, portanto, que analisemos dois pontos importantes
nesta argumentação:
a) A culpa herdada no pensamento cristão. A culpa herdada passou a i
estar presente a todos os descendentes de Adão. Atuando com maior agres
sividade de Adão até Moisés: “sobre aqueles que não pecaram à semelhança
de Adão”. A culpa herdada neste caso tomou-se uma espécie de conseqü
ência volubilidade, à semelhança de uma família em que um dos membros
foi envolvido num ato perverso de grande magnitude. Doravante perante as
autoridades e aos olhos da própria sociedade, aquela família, mesmo não ten
do culpa, passa a ser co-participante indiretamente das conseqüências e dis
sabores dos atos e processos até que aquele (ou aquela) membro da família
seja condenado ou absolvido. Sendo que, a conseqüência somente é debelada
O P e c a d o H e r d a d o e a I m p u t a ç ã o d a C ulpa 165
através do processo de absolvição. Fora disso, a culpa involuntária continua.
Deus podia corrigir o pecado até a 4a geração daqueles que lhe aborreciam
(Ex 34.7). Na culpa herdada, os descendentes de Adão não foram envolvidos
nela voluntariamente; e, sim, na extensão da conseqüência não expiada. Com a
presença da Lei, o pecado reviveu; isto é, passou a estar presente — mas como
solução imediata, Deus abriu uma espécie de “caminho da redenção” pelos
sacrifícios estabelecidos pela lei cerimonial. Eles eram sombra do sacrifício
perfeito de Cristo que através do seu próprio sangue inauguraria um sacrifício
maior e mais perfeito.
I o. O que alguns rabinos pensam sobre a origem e a culpa trazida pelo
pecado. No conceito rabínico, a origem do pecado — especialmente sua
introdução no mundo, encontra-se envolvido tanto na história da Bíblia
como na própria tradição. O rabino Manis Friedman declara que na pri
meira sexta-feira, sexto dia da Criação, quando o mundo era inocente e
puro, Adão e Eva estavam vivendo no jardim do Éden, recentemente cria
dos pelas mãos de Deus. Receberam a tarefa de cultivar e proteger o Jar
dim. Deus lhes ordenou: “Não comam da árvore do conhecimento, pois no
dia em que comerem morrerão”. Tiveram uma opção: abster-se de comer o
fruto da árvore e viver para sempre no Jardim; ou comê-lo e serem banidos
para o mundo da mortalidade. Após três horas de sua criação, comeram
da árvore. Deus permitiu que Adão e Eva permanecessem enquanto du
rasse o Shabat, mas quando este terminou, foram expulsos do Éden para
sempre. É uma história intrigante (continua o rabino), e desperta várias
questões. Deus criou dois seres humanos perfeitos, sem nenhuma malícia
ou “bagagem.” Ele, o Todo-Poderoso, ordenou-lhes explicitamente para
não comer do fruto de uma determinada árvore. Mesmo assim, estas duas
almas inocentes, que jamais haviam sido expostas a influências corrup
toras, desobedeceram-no em poucas horas. Houve alguma falha em sua
criação? Ou, inimaginável, havia algo errado com Deus? O diretor de uma
escola cujas instruções seguem ignoradas é um líder ineficiente. Se Deus
falasse a você e dissesse: “Não coma desta árvore,” após algumas horas,
você iria em frente e comeria? Era o plano de Deus que Adão e Eva vives
sem para sempre no Jardim, em um estado divino de pureza, inocência e
imortalidade? Ou, seu plano era criar um mundo no qual existisse o mal
e, ou obedecemos suas leis escrupulosamente e vamos para o céu, ou as
desobedecemos e vamos para o inferno? Nos ensinamentos clássicos, esta
pergunta é feita em tons mais suaves: Por que Deus desejaria instilar em
nós um pedacinho de si mesmo, a alma Divina, e expô-la a um mundo de
feiúra e trevas?
166 A D o u t r in a d o P e c a d o
Mais à frente, em uma outra seção de seu argumento, o rabino invoca para
enfatizar seu ponto de vista no tocante ao pecado e a culpa em cada pessoa,
os ensinamentos cabalísticos. Então ele diz: “Como a Cabala explicará, a
descida proporciona uma subida ainda maior. Deus criou o universo por
um desejo de “uma morada nos mundos inferiores”. Este é o significado
mais profundo de “algo a partir do nada,” como a Torá descrevea criação.
“Nada” significa que nada há sobre um universo físico que justifique sua
própria existência — somente o desejo de Deus de fazer de nosso mundo
um lar, de tomar este mundo de came e pedra hospitaleiro a Ele, onde Ele
possa ser conhecido e adorado. Eva entendeu a necessidade de Deus de que
este mundo inferior, um mundo contaminado pela morte e pelo pecado, fos
se elevado e unido a Ele. Ela entendeu que os seres humanos devem deixar
o Éden e descer ao mundo inferior, e ali criar um lar para Deus. Ela enten
deu que a tarefa de elevar os “seis dias da semana” culminando no Shabat e
os “seis milênios” levando à nossa redenção. E assim ela comeu da árvore,
e convenceu Adão a fazer o mesmo. Quando Deus perguntou a Adão: “Tu
comeste da árvore?” — não foi uma repreensão ou censura. Ele estava
admirando a sabedoria de Adão em ter tomado a decisão correta. Adão, em
sua inocência, admitiu que fora a sabedoria de Eva, não a sua. “Ela deu-me
o fruto da árvore, e eu comi.” Em resposta, Deus disse: “Porque o fizeste,
morrerás; comerás o pão pelo suor de teu rosto, e em dor darás à luz.” Este
não foi um castigo pelo pecado, mas sim uma continuação do plano, com o
qual Adão e Eva tinham voluntariamente se comprometido. O mundo agora
pode tomar-se confortável para Ele, quando as coisas que O definem —
seus mandamentos — são praticados. Assim fazendo, preparamos o mundo
para nossa suprema redenção”.2
2o. O pensamento cabalístico sobre a culpa herdada é contrário a Bíblia. Na
opinião cabalística conforme acabamos de ver, é admitido que Eva enten
deu que o plano de Deus era que eles deixassem o Éden e fossem habitar
no “mundo inferior”. Mas este, com efeito, não era o plano de Deus, pois
tal pensamento não se coaduna com o pensamento geral das Escrituras e
nem com a tese e argumento principal. Outrossim, não é o mundo que irá
criar o “caminho da Redenção”. Este foi criado por Deus e inaugurado pelo
próprio Cristo por meio de sua morte na cruz (Hb 10.20).
b) A culpa praticada. (Quer dizer: a culpa herdada pela transgressão indivi- i-
dual e voluntária). O profeta Ezequiel fala disso por expressa ordem de Deus,
quando diz: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a maldade
do pai, nem o pai levará a maldade do filho. A justiça do justo ficará sobre
O P e c a d o H e r d a d o e a I m p u t a ç ã o d a C ulpa 167
ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele” (Ez 18.20). Outras passagens
das Escrituras nos informam que Deus perdoa, mas corrige “a iniqüidade, e a
transgressão, e o pecado; que ao culpado não tem por inocente. Que visita a
iniqüidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos filhos até à terceira e
quarta geração” (Ex 34.7).
Io. A culpa imputada pelo pecado de omissão. Muitas vezes pecamos
por fazermos, esta é a transgressão; e em outras oportunidades, pecamos
porque não fazemos, esta é a “omissão”. Frost descreve isso da seguinte
maneira: “Aqui passamos do lado negativo para o lado positivo da vida
cristã, ou vice-versa, e aprendemos que deixar por fazer aquilo que sabe
mos omitimo-nos, é pecar conscientemente. Suponhamos que, do presente
momento em diante, nunca mais praticássemos qualquer mal, nem preju
dicássemos de nenhuma forma nosso semelhante, viveríamos sem pecar?
Não, pois nosso pecado apareceria no fato de não fazermos todo o bem que
deveríamos fazer”.3
O Senhor Jesus julgará aqueles que cometerem o pecado de omissão. Então
Ele diz: “Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-
vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus
anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me
destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me
vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe
responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede,
ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então
lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes
pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormen
to eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mt 25.41-46). De igual modo
Tiago fala em seu livro do pecado de omissão quando diz: “Aquele pois
que sabe fazer o bem e o não faz, comete pecado” (Tg 4.17). Por outro
lado, existem também as pessoas que a si mesmas se exercitaram tanto na
prática do pecado, que são por conseguinte, chamados de “os obreiros da
iniqüidade” (SI 53.4).
2o. A culpa imputada pelo pecado de comissão. O pecado de “comissão”, do
ponto de vista teológico, significa aquele pecado que é praticado com satisfa
ção na alma do que tal ato pratica. No pecado de “omissão”, existe uma omis
são por parte do bem, mas não existe uma voluntariedade para que tal coisa
seja assim. No de “comissão”, porém, existe uma vontade de que tal prática
seja realizada para satisfação dos desejos daquele que tal coisa pratica. O pe
cado em seu estágio avançado, toma-se depravação (Ap 22.15). Adepravação
é o inverso do pecado de “omissão”. No primeiro, a pessoa se omite; aqui,
168 A D o u t r in a d o P e c a d o
porém, a pessoa se deprava; quer dizer, sua mente se toma dissoluta e libertina
como o soltar das águas. Nesse sentido, o pecado procede de algo que é mais
profundo do que a própria volição, o que igualmente sucede à volição peca
minosa. Um ato pecaminoso é a expressão de um coração depravado (Pv 4.23;
23.7; Mc 7.20-23). O pecado deve incluir, por conseguinte, a perversidade do
coração (quando é voluntário), e essa consiste e persiste sempre em corações
depravados, que quer dizer “desprovidos da natureza divina”.
(I) A culpa sem controle emocional — mente depravada. Quando a mente
humana fica desprovida do controle divino, ela não somente peca, mas se
exercita na imaginação e criação do erro. Paulo os descreve em Romanos
1.29-31, dizendo: “Estando cheios [os depravados] de toda a iniqüidade,
prostimição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, con
tenda, engano, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedo-
res de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, de
sobedientes aos pais e às mães; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição
natural, irreconciliáveis, sem misericórdia”.
O testemunho das Escritoras Sagradas sobre a universalidade e totalidade
dessa “depravação” é explícita em Gênesis 6.5,8,21: provém de um caso
comprovado.
(1) Há ali a intensidade da depravação: “a maldade do homem se multipli
cava sobre a terra”;
(2) Há ali o seu caráter íntimo: “toda a imaginação dos pensamentos de seu
coração era só má continuamente”. Expressões estas que ultrapassam qual
quer possibilidade de entendimento da pessoa humana. É difícil identificar
que o movimento rudimentar do pensamento era perverso;
(3) Há ali a totalidade de depravação: “Todo designo”, do coração é só mau
continuamente.
(4) Há ali extensão da depravação toda sua consciência: era só má “conti
nuamente”;
(5) Há seu exclusivismo: “continuamente má”;
(6) Há sua manifestação desde o princípio: “desde a meninice”.
(II) As qualificações pecaminosas são ascendentes. As qualificações bíblicas
posteriores sobre nossa condição pecaminosa seguem a mesma direção. Por
isso, em certo sentido, somos “nascidos em pecados” (SI 51.5); e, na con
cepção dos judeus: “nascido todo em pecado” (Jo 9.34); e, se não arrepen
der-se, morrerá no pecado sem misericórdia (Lc 13.5; Jo 8.24).
O P e c a d o H e r d a d o e a I m p ü t a ç ã o d a C ulpa 169
(1) Em relação aos padrões morais estabelecidos por Deus. Há ainda outro
ponto peculiar à moralidade das Escrituras, e que é, ao mesmo tempo, ver
dadeiro em si mesmo e admirável. Em toda a Bíblia se fala do pecado, como
sendo um mal contra Deus, e, de outro lado, em parte alguma é exaltado o
instrumento ou agente humano [pelo menos do ponto de vista divino] por
que pecou. Talvez tomássemos como exceções alguns casos registrados na
Bíblia, tais como,o
que se pode chamar de “falsidade particular”, ou seja, uma informação fora do
verdadeiro não prejudica somente a pessoa que a pratica.5
i) Relacionado com a ilegalidade — ‘anomia’. Palavra que traz a cono
tação de ilegalidade, transgressão, desobediência, etc. A palavra “anomia” é
formada pela partícula negativa “a” (como o “im” do nosso português), e com
o substantivo “nomos” o qual significa lei. Nas Escrituras Sagradas essa pala
vra é encontrada com mais frequência. Esta palavra pode indicar também uma
‘desobediência religiosa’ de certas normas e leis estabelecidas por Deus na sua
palavra. Saul, fez por exemplo, aquilo que não lhe era lícito fazer: oferecer
sacrifício como se ele pertencesse à ordem sacerdotal. Ele mesmo declara que
o que fez — fez errado. “... ainda a face do Senhor não orei. E violentei-me, e
ofereci holocausto” (1 Sm 13.12).
j) Relacionado com a injustiça — ‘adikia’. Palavra que traz a conotação
de injustiça, erro, impiedade, etc. A palavra “adikia” é formada pela partícula
negativa “a”, e com o substantivo “dike” o qual significa direito. Em síntese é o
oposto de veracidade, lealdade e integridade. Em sentido religioso, o significado
do pensamento no tocante ao pecado, quer dizer: “errar o alvo”. Com efeito,
porém, quando se aplica o conceito geral das Escrituras Sagradas, o sentido é
mais vasto e tenebroso, pois o pecado é fracasso, erro, iniqüidade, transgressão,
1 8 A D o u t r in a d o P e c a d o
contravenção, falta de lei, injustiça etc. Em seu sentido lato é sempre citado no
singular, para denotar aquele princípio pecaminoso que produz a morte, tanto
física como espiritual. Assim, o pecado, é então, personificado como sendo “o
grande tirano” que impõe tristeza, desespero e morte, levando a criatura humana
para uma “região tenebrosa”, onde ela permanecerá triste e inativa (Mt 4.16).
Assim sendo, a sua característica primordial, desde o princípio, é depreendido
em Gênesis 3. No pensamento humano e também angelical, o pecado tomou-se a
falta de conformidade com a natureza do supremo Ser, que é Deus. A injustiça é
como a inveja. Ela é uma arma sombria, usada por Satanás no campo da destrui
ção. Por esta razão, Deus que é o Justo Juiz, manifesta sua ira contra tal atitude
por parte dos homens. Paulo descreve também este pecado grosseiro, dizendo:
“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos
homens...” (Rm 1.18a). Em algumas versões atualizadas, na passagem de 1 João
5.17, diz “toda a injustiça é pecado”, ao invés de “toda a iniqüidade é pecado”.
Essa é, talvez, a definição mais comum da injustiça. A lei fixa uma linha divisória
entre o bem e o mal, entre o justo e o injusto, e qualquer passo que a transponha,
é injustiça. A lei de Deus fala de um reino para aqueles que são justos (Mt 13.43),
como também, de igual modo, um castigo eterno para os injustos (Ap 22.11). Os
sábios helenistas que viveram antes de Cristo, usavam a palavra grega “adikia”,
para designar “delito contra Deus; dívida contraída, que não fora perdoada” (cf.
Mt 6.12). A Bíblia reputa os filhos das trevas como sendo “inimigos de toda a
justiça”. Por isso são injustos (At 13.10 etc.). Do ponto de vista escatológico,
Jesus é “O Justo” (Is 53.11), enquanto que o Anticristo será “o iníquo” (2 Ts 2.8).
Paulo afirma que os “injustos” ficarão fora do céu (1 Co 6.9).
2. Definição da natureza do pecado. Por natureza, o pecado, segundo
se diz, se entende como sendo “qualquer falta que fere a santidade de Deus”, quer
em ato, atitude, estado, ou natureza. As Escrituras põem em relevo dois pontos
principais ou qualidades morais: a santidade e seu antagonista, o pecado. Pode-
se dizer que, na esfera moral, o primeiro corresponde ao Bem e o segundo ao
Mal. Todos os demais princípios e qualidades morais podem ser classificados de
maneira a se identificar com um desses dois grupos. E por isso mesmo o pecado,
como sua “antítese”, recebe na Bíblia atenção ampla e adequada. Em seu escopo
geral, sem nenhuma exceção, as Escrituras descrevem o pecado como sendo de
natureza má em todos os seus aspectos, e como algo áspero, mau e nocivo.
a) O pecado opera em todas as esferas da vida e das atividades humanas.
I o. Na esfera moral. Quando Deus criou o homem, criou-o com um senso
de responsabilidade. Jamais Deus iria dizer a um ser irresponsável: “Você
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a do P ecado 19
será como um de nós”, como disse ao homem, dando-lhe instruções para
sua vida e para sua prole. A responsabilidade imposta por Deus no homem
envolve vários aspectos de sua vida e para que ele se conserve puro, é ne
cessário não transgredir. A transgressão pode aparecer, em primeiro lugar,
abrindo caminho nos atos ilícitos — nos crimes e contravenções. Todos
estes atos e coisas semelhantes são condenados, tanto do ponto de vista
religioso, como do social. Crime é a violação de uma norma de conduta
imposta pela lei sob a sanção da pena. O crime pode ser cometido por um
ato ou por omissão e pode ser de dois tipos: doloso — quando se trata de
intenção pré-concebida de causar dano a alguém. Culposo — quando se
trata da violação da lei sem premeditação, mas com imprudência, negligên
cia ou imperícia. Mais ou menos como se fala que a pessoa humana pode
pecar de duas maneiras: por omissão — quando sabe fazer o bem e não o
faz. “Aquele pois que sabe fazer o bem e o não faz, comete pecado” (Tg
4.17), — e por comissão (Lc 3.19,20).
2°. Na esfera da santidade. A santidade é a regra geral de Deus em ambos os
Testamentos. No Antigo, Ele disse: “Fala a toda a congregação dos filhos
de Israel, e dize-lhes: “Santos sereis, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou
santo” (Lv 19.2). Em o Novo, Paulo diz: "... esta é a vontade de Deus, a
vossa santificação” (1 Ts 4.3), e acrescenta: “... o mesmo Deus de paz vos
santifique em tudo” (1 Ts 5.23). Assim, tudo que pertence a Deus, ou com
Ele se relacionar, deve ser santo. Primeiro: a Trindade — Deus (Lv 19.2);
Jesus (Lc 1.35); o Espirito Santo (Rm 1.4). Segundo: as coisas e os seres
— aterra (Êx 3.5); o sábado (Gn 2.3; Êx20.8; 31.14; Ne 13.22); as sobras
dos sacrifícios (Êx 29. 34); o óleo da santa unção (Êx 37.29); as festas (Lv
23.2); o monte do Senhor (SI 15.1); a aliança (Dn 11.30); a comida (1 Tm
4. 3-5); os dízimos (Lv 27.32); a oferta (Mt 23.19); o sangue (Hb 10.29);
os anjos (Mt 25.31); os apóstolos e os profetas (Ap 18.20); os crentes (At
20.32; 26.18); os vasos (2 Tm 2.21); o altar (Êx 40.10); o caminho (Is
35.8); a cidade (Mt 4.5); o jejum (J11.14; 2.15); os sacrifícios (Rm 12.1) os
primogênitos dos filhos de Israel e dos seres (Êx 13.2; Dt 15.19). Este é o
motivo porque o Diabo detesta e não quer santidade — porque do lado de
Deus, tudo é santo e santificado.
3o. Na esfera da verdade. O primeiro pecador foi um mentiroso e introduziu
o pecado na esfera humana, começando com uma mentira (Gn 3.1-5; Jo
8.44). Depois ele incentivou aos homens, fazerem da mentira um lugar de
refugio. No futuro, o Anticristo fará da mentira o refugio de seu governo e a
base de suas palavras. Na presente dispensação o espírito do Anticristo men
te descaradamente, procurando negar a origem de nosso Senhor Jesus e de
2 0 A D o u t r in a d o P e c a d o
sua obra redentora. Também procurará, a todo custo, ocultar a concepção
virginal do Filho de Deus, dizendo que, cientificamente, isso é impossível.
Mas a palavra divina o chama de mentiroso, dizendo: “Quem é o mentiro
so, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? É o anticristo, esse mesmo
que nega o Pai e o Filho” (1 Jo 2.22).
4o. Na esfera da conduta fraternal. O princípio fundamental da fraternida
de é o amor. “E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu
coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primei
ro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu
próximo como a ti mesmo” (Mt 22.37-39). Ajustiça da fraternidade deve
estar inclinada para coma afirmação de Raabe diante de seus patrícios de que os
“espias” já tivessem partido de sua casa — seria então o pecado de mentira
(Js 2.4,5), ou no caso de Sansão, que enquanto escondia seu segredo, con
serva consigo o poder de Deus; quando porém, falou a verdade, este poder
foi retirado de seu coração — porque nesse caso, segundo a visão da lógica,
ele somente conservava este poder enquanto mentia (Jz 16). Contudo, deve
mos ter em mente que, em ambos os casos não houve nenhuma transgressão
diretamente contra Deus; e, sim, atos que foram realizados, ainda que de
forma ilícita aos nossos olhos, em favor do povo de Deus contra agentes
humanos completamente inimigos de Deus e do seu povo — ainda que isso
não foi legal na concepção do direito que não está mesclado com a caridade.
Nas Escritoras, ao contrário da filosofia pagã, o pecado é representado como
coisa amarga e má, porque é desonroso para Deus: Essa ideia aparece distin
tamente no Antigo Testamento, sendo na verdade uma das suas mais notadas
particularidades. Exemplificando, temos o poder de Deus se manifestando
de forma versátil e sendo lançado no campo da destruição física e da repre
ensão moral, em coisas e em indivíduos, como por exemplo:
(2) A destruição de Sodoma e Gomorra juntamente com as cidades da cam
pina (Gn 19).
(3) As dez pragas mortíferas que desabaram sobre o Egito, contra Faraó e
contra seus súditos (Ex 7 — 12).
(4) A destruição dos amalequitas (Ex 17).
(5) O juízo severo contra Coré e o seu grupo, que foram tragados pelo cas
tigo iminente de Deus (Nm 16).
(6) Os castigos de Deus, ainda que mesclados com misericórdia contra Israel
— levando-o para o cativeiro em diversas oportunidades (2 Cr 36; Lc 21).
(7) Contra o monarca Senaqueribe e seu exército invasor
(2 Cr 32).
(8) Contra o rei Belsazar durante sua orgia na corte babilônica (Dn 6).
(9) O abandono do mundo gentílico à depravação (Rm 1).
1 70 A D o u t r in a d o P e c a d o
Outros castigos foram aplicados por Deus contra famílias e indivíduos etc.
Assim sendo, o pecado é reputado como sendo o “grande tirano”, denun
ciado pela justiça divina sem lhe oferecer nenhuma trégua em todos os elemen
tos doutrinários das Escrituras Sagradas.
4. A culpa contraída. Um outro ponto a ser analisado neste argumen- n-
to, é o pecado contraído; isto é, em outras palavras: “o pecado do erro”. Uns
erram movidos pelo engano; outros erram porque gostam de errar e que já
nascem alienados como o erro (SI 58.3). O erro praticado voluntariamente,
trás o sentido mais lato e ordinário da definição do pecado e suas formas de
expressão. Exatamente é o erro, que quer dizer “fraqueza” ou “errar o alvo no
sentido religioso”. Na declaração feita por Deus em Gênesis 8.21, de que não
mais iria amaldiçoar a terra por causa do homem, “porque a imaginação do co
ração do homem é má desde a sua meninice”; significa que o coração humano
é por natureza “inclinado” (pendido) para o mal. Também se fala o mesmo em
relação a Israel. Arão lembrou a Moisés, seu irmão, quando o mesmo lhe fazia
inquirimento no tocante ao pecado do povo, então ele lhe respondeu dizendo:
“Não se acenda a ira do meu Senhor; tu sabes que este povo é inclinado ao
mal” (Êx 32.22b).
1 WIKIPÉDIA, enciclopédia livre. Acesso: 06/11/09
2 FRIEDMAN, M. http://www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/AdaoEva/home.html. Acesso:
18/11/2009
3 BANCROFT, E. H. Teologia Elementar. J. M. Bentes e W. Jf, Goldsmith (tradutores). São
Paulo: Imprensa Batista Regular, 2001, p. 220.
http://www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/AdaoEva/home.html
O P o d e r C o n seq ü e n t e
do P ec a d o
172 A D o u t r in a d o P e c a d o
I . O P o d e r O p r e s so r d o P e c a d o
1. O gemido da terra. Veremos aqui, portanto, “quantos gemidos” fo
ram impostos nas coisas e nos seres por causa do pecado e todas estas enti
dades esperam de Deus, que um dia, o mal termine e venha sobre todos um
estado de retidão, justiça e equidade, coisas estas que somente atuarão em grau
de perfeição suprema, onde existir a completa ausência do pecado. O profeta
Isaías descreve em seu livro os abalos e gemidos da terra por causa do pecado.
Então ele diz: “Os que te virem te contemplarão, considerar-te-ão, e dirão: E
este o homem (o Diabo) que fazia estremecer a terra...” (Is 14.16a). Depois: “A
terra geme e pranteia, o Líbano se envergonha e se murcha; Sarom se tomou
como um deserto; e Basã e Carmelo foram sacudidos” (Is 33.9). Na Bíblia
encontramos o livro de Juizes, começa bem, mas termina sua história com
as tribos de Israel destruindo a si mesmas. Há também um capítulo tristonho,
onde não encontramos nenhuma palavra de otimismo: Salmo 88. E agora aqui,
no presente texto, o versículo mais tristonho da Bíblia. Convém observar que,
não estamos falando aqui partes tristes da Bíblia, porque a Bíblia foi escrita
para debelar toda e qualquer tristeza; embora “a tristeza segundo Deus opera
arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende” (2 Co 7.10);
e, sim, de partes que em si mesmas, descrevem coisas com aspectos tristonhos.
Quando, porém, analisamos os contextos antes e depois de três destas partes
da Bíblia, descobrimos que estes aspectos de tristezas encontrados em ambos,
tem uma só origem: a causa do pecado. Este gemido da terra começou desde
o dia quando ela foi “amaldiçoada” por causa do pecado. Ela então passou a
“gemer e a prantear”.
2. O gemido da criação. “Porque sabemos que toda a criação geme e
está juntamente com dores de parto até agora” (Rm 8.22). O gemido da criação
é um gemido doloroso. Em uma Era futura, que será o Milênio, Deus libertará
sua criação da escravidão que o pecado lhe impõe, conforme é descrito pelo
profeta Isaías em 11.6-9, que diz: “E morará o lobo com o cordeiro, e o leo
pardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado
andarão juntos, e um menino pequeno os guiará. A vaca e a ursa pastarão jun
tas, seus filhos se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. E brincará
a criança de peito sobre a toca da áspide, e a desmamada colocará a sua mão
na cova do basilisco. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo
monte, porque a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas
cobrem o mar”. Outros profetas descreveram também esse tempo quando Deus
removerá a maldição da terra e da criação inteira em termos de grande amor.
O P o d e r C o n seq üen te d o P e c a d o 173
3. O gem ido da Igreja. “E não só ela [a criação], mas nós mesmos,
que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, es
perando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo” (Rm 8.23). “Porque
também nós, os que estamos no tabemáculo, gememos carregados; não por
que queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido
pela vida” (2 Co 5.4). O gemido constante de cada crente, e por extensão de
toda a Igreja, é esperando o momento da “redenção do nosso corpo”, confor
me está declarado por Paulo no texto em foco, que temos aqui nesta seção.
Enquanto estivermos aqui neste mundo, estamos a perigo, porque ainda não
alcançamos a “redenção do nosso corpo”, mas somente a “redenção das nos
sas almas”. Todos nós gememos esperando aquele grande dia, quando ao
lado de Cristo, nas nuvens, cantaremos o hino triunfal, seguido do grande
brado que Paulo apenas escreveu em sua introdução, quando disse: “Porque
convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto
que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se
revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade,
então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória”
(1 Co 15.53,54).
4. O gemido do Espírito Santo. “E da mesma maneira também o
Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de
pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com os gemidos
inexprimíveis” (Rm 8.26). O termo derivao próximo. Esses deveres referem-se à pessoa
física, à pessoa moral, à propriedade e ao trabalho alheio. De acordo com
as regras estabelecidas, os deveres para com a pessoa alheia envolvem os
seguintes requisitos — o respeito que se deve ter pela vida do próximo,
que inclui não praticar:
(J3 O homicídio
08 A violência
C3 A mutilação
es A injúria
cs 0 duelo etc.
Lamentavelmente, o pecado violou e tem violado todos estes princípios funda
mentais para o norteamento da conduta humana.
5o. Na esfera da sabedoria. Por meio da sabedoria, Deus capacitou a mente
humana para entender todos os fatos e circunstâncias, leis e princípios,
tendências, influências e possibilidades. A sabedoria encerra tudo: matéria
primeira (celestial, humana e natural), poder e perícia. O Diabo, porém, por
meio do pecado, procura dominar a esfera mental da sabedoria, e no lugar
da sabedoria que Deus dera ao homem, implantar a sua própria sabedoria.
Mas “essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e dia
bólica” (Tg 3.15).
6o. Na esfera do julgamento. Alguém divide as leis em dois grupos: “leis
da natureza” e “leis da mente”. São termos usados para denotar princípios
lógicos para que aquilatemos e julguermos qualquer coisa.
(I) A Lei Elementar. Esta é a lei entretecida nos elementos, substâncias e
forças das criaturas racionais e irracionais. Por ser entretecida na constitui
ção do universo material, chamamo-la de lei física ou natural. A lei física é
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 21
e não é necessária; alguma outra ordem é concebível. Nem é tampouco um
fim em si própria; existe por causa da ordem moral. Portanto, a ordem física
tem uma substância apenas relativa; às vezes Deus a suplementa através de
um milagre.
(II) A Lei Promulgada. Promulgação Positiva é a expressão da vontade
de Deus em decretos publicados. Estes consistem de seus preceitos defi
nitivamente morais, tais como o Decálogo (Ex 20); o Sermão do Monte
(Mt 5—7). No Novo Testamento, todos os mandamentos são repetidos e
sancionados com exceção do quarto. Consistem também da legislação ce
rimonial. Estes são: as ofertas (Lv 1—7), as leis do sacerdócio (Lv 8— 10),
as leis da pureza (Lv 11— 15). O pecado, com sua condução iníqua ignora
todas as leis e normas estabelecidas por Deus — contudo, elas estão aí para
serem observadas.
T . Na esfera mental. A loucura espiritual é pior do que a loucura psicosso-
mática. A Bíblia diz que “... mesmo os loucos, não errarão” o caminho da
vida (Is 35.8b). Enquanto que aqueles doentes da mente por causa do peca
do, ignoram o caminho da salvação. “Os loucos zombam do pecado...” (Pv
14.9a). O pecado os tomou vítimas do “... deus deste século (o Diabo, que)
cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz
do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus” (2 Co 4.4).
b) O pecado torna o homem impuro perante Deus. Um dos aspectos
sombrios da natureza do pecado é a impureza. Ele toma o homem impuro de
mente e de coração, com a finalidade de afastá-lo de Cristo, que disse: “Bem-
aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus” (Mt 5.8). Paulo
relaciona a impureza com a torpeza (Ef 5.4). Segundo o Dicionário Aurélio,
esta palavra tem os seguintes sentidos: desonesto, impudico, infame, repug
nante, manchado, nojento, obsceno, indecente, vergonhoso, ignóbil, etc. Já o
vocábulo grego “aischrotes”, empregado na citação que está em foco, significa
“feiúra”, “iniqüidade”. O termo envolve toda e qualquer imundície praticada
com extravagância ou tortura, por alguém da mente doentia.
3. O pecado desperta a ira de Deus. Visto ser o pecado de natureza má,
e evidentemente, nociva, este desperta aversão a ira da parte de Deus. Porém, este
estado de ira de Deus contra o pecado é retratado como ferindo somente os ímpios.
Embora Deus ame o pecador, contudo, Ele aborrece o pecado. E por causa deste,
seu estado de ira recai sobre aquele que peca e continua pecando, sem se voltar
para o arrependimento. Nesse caso, a ira divina se manifesta cada dia. O Senhor é
2 2 A D o u t r in a d o P e c a d o
longânimo para ira, isto é, seus passos são lentos quando seguem nessa direção (Nm
14.18; Ne 9.17; SI 103.8; J12.13), mas quando observa coisas que lhe desagrada ou
vê manifestar-se o pecado, sua ira se manifesta (Nm ll.l;R m 1.18;Tg2.13).Enin-
guémpode subsistir a ela (SI 76.7,8; Ap 6.16,17). Quando o pecado fere a santidade
divina, desperta a ira de Deus, que é santa, sem sombra de pecado. Sendo livre, ela
se exerce contra o pecado (cf. Os 11.9). Jesus Cristo, por exemplo, animou-se desta
ira quando olhou os ouvintes de coração endurecido (Mc 3.5), pois a ira divina é
motivada pelo zelo dos seus e pela aversão ao pecado. Ela manifesta-se contra deter
minadas pessoas (2 Cr 25.15), contra Israel quando peca (Ex 22.23), contra um país
e seus habitantes (Dt 29.27). Em sua ira, Deus deu um rei ao seu povo que rejeitou
o seu govemo (Os 13.11). Ele derrama seu furor sobre as nações impenitentes (SI
79.6). Durante o período da Grande Tribulação, isto é, aquele tempo de dores que
virá repentinamente durante a ausência da Igreja ocasionada pelo arrebatamento,
Deus derramará sua ira contra os habitantes da terra. Duas palavras gregas são usa
das para descrever este estado de ira divina contra o pecado e contra os pecadores
durante estes dias sombrios de dores e aflições que envolverá todo o mundo por sete
anos. Os estudiosos usavam dois termos, para com eles descreverem a ira divina,
quando esta passava a manifestar-se sobre seus inimigos: “thymos” e “orgê”.
a) Thymos — o pecado desperta (em Deus) um irrompimento de ira. Esse
termo é empregado 18 vezes no Novo Testamento, para significar “um irrom
pimento de ira”. Emprega-se para a ira de Deus em 9 das 18 vezes em que apa
rece o termo. Todas as 9 vezes estão no livro de Apocalipse, onde a ira divina é
retratada somente ferindo os pecadores. Em 6.12-17, na abertura do sexto selo,
a ira divina aparece atingido os seguintes elementos:
03 Terra
ca Sol
CS Lua
Cg Estrelas
cs Céu
cs Montanhas
cg Ilhas
Estes, por sua vez, ferem “sete categorias de pessoas”:
cs Reis
cs Grandes
cs Ricos
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 23
cg Tribunos
cg Poderosos
cg Servos
cg Livres
Em 14.8, ela vem sobre Babilônia;
Em 14.19, ela vem sobre os exércitos em Armagedom;
Em 15.1,7; 16.1,19, ela recai sobre os habitantes da terra, em sentido geral.
Nos demais lugares em que ela é retratada, são: 14.10, sobre aqueles que
beberam do vinho da prostituição da grande Babilônia. E em 19.15, será mani
festada no grande lagar da cólera de Deus (Ap 14.19).
b) Orgê — o pecado desperta (em Deus) um estado de ira. Ela pode estar
presente em Apocalipse 6.16,17; 11.18. Esse termo significa “um estado de ira”.
É empregado também a respeito da ira de Deus cerca de 27 vezes no Novo
Testamento. Sendo que em alguns dos textos onde ela aparece, refere-se tanto
a ira de Deus como a ira do Cordeiro (Ap 6.16). Porém, em nenhum momento
ela é indicada como um estado de “emoção violenta”, como ordinariamente se
manifesta na pessoa humana; e, sim, uma ação de Deus de forma versátil para
executar “julgamento de forma justa”, corrigindo os atos abusivos implantados
pelo pecado: especialmente contra a impiedade e a injustiça (Rm 1.18).
4. O pecado se opõe a tudo que é puro. A santificação (ou, em sua
forma verbal, santificar) significa literalmente o processo pelo qual se separa
algo ou alguém para um uso ou um propósito religioso, ou seja, tornar sagrado
ou consagrar — faz parte da vontade perfeita de Deus. Porque esta é vontade
de Deus que todos sejam santos (1 Ts 4.3; 5.23). Na teologia cristã, santificação
é o processo de aperfeiçoamento gradual do ser humano em que ele se aproxi
ma do caráter divino e afasta-se do pecado, o qual, em sua forma mais cruel e
imoral, procura minar e depois destruir todo este processo de santificaçãoideal
para a vida humana. O Diabo sabe que Deus exige “... a santificação, sem a
qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). E “... que todo aquele que é nascido
de Deus não peca” (1 Jo 5.18). Por esta e outras razões, ele procura por todos
os meios tomar cada vez mais os homens pecadores.
5. O pecado é tanto um ato como um estado. Como rebelião contra
a lei de Deus — o pecado é um ato da vontade do homem. Como separação
de Deus, vem a ser um estado pecaminoso, que conserva em si mesmo uma
atitude deliberada.
24 A D o u t r in a d o P e c a d o
a) A ideia do hedonismo. A intenção do hedonismo modemo é abrandar o
pecado e desclassificá-lo de agressivo para um estado de brandura inofensiva.
Hedonismo (do grego hadona que significa prazer) é uma teoria ou doutrina
filosófico-moral que afirma ser o prazer o supremo bem da vida humana. Sur
giu na Grécia, na época pós-socrática, e um dos maiores defensores da doutrina
foi Aristipo de Cirene. O hedonismo modemo procura fundamentar-se numa
concepção mais ampla de prazer entendida como felicidade para o maior nú
mero de pessoas. É a tendência moral que defende a maximização do prazer e a
minimização do sofrimento na existência humana. A teoria socrática do bom e
do útil, da pmdência, etc, quando entendida pela índole voluptuosa de Aristipo,
leva ao hedonismo, onde toda a bem-aventurança humana se resolve no prazer.
A ideia básica que está por trás do hedonismo é que todas as ações podem ser
medidas em relação ao prazer e a dor que produzem. Podemos dizer também,
numa linguagem mais simples, que o hedonismo é a arte de ser, não a de ter. A
arte de ser é a sabedoria ascética do despojamento: não se cobrir de honras, de
dinheiro, de riquezas, de poder, de glória e outros falsos valores ou virtudes,
mas preferir a liberdade, a autonomia, a independência. A escultura de si é arte
dessa técnica de constmção do ser como uma singularidade livre. O hedonismo
não é a mesma coisa que o consumismo, é exatamente o oposto. E o antídoto.
O consumismo é o hedonismo liberal e capitalista que afirma ser a felicidade
a posse de bens materiais.
b) O hedonismo de Epicuro. O pensamento epicurista, como o estoico,
dirige a atenção para as questões morais. Para Epicuro e a sua escola, a virtude
identifica-se com o saber; por isso, o modelo de virtude é o sábio. O sábio é
feliz, caracteriza-se pelo domínio de si, pela sua constância e pela sua simplici
dade. Afasta-se da política e, em questões de justiça, é propenso à clemência. O
objetivo fundamental do epicurismo é a moral, isto é, a ordenação da conduta
humana de modo a ser possível alcançar uma vida feliz. Para Epicuro a felici
dade é a obtenção de prazer sabiamente administrado e o afastamento da dor.
Deste modo, os epicuristas dão da natureza humana uma explicação hedonista:
a lei fundamental da natureza é a procura do prazer. Quanto à descrição de
fenômenos naturais, os epicuristas recuperam o atomismo de Demócrito com
algumas variantes; apenas lhes interessa a natureza na medida em que pode
contribuir para a felicidade do homem libertando-o dos seus temores, demons
trando ser vão o temor dos deuses, ser vão o temor da morte, estar o prazer ao
alcance de todos e que a dor, sendo breve e transitória, é facilmente suportável.
Perspectiva antiquíssima a que Epicuro dá nova formulação, quando admite os
prazeres morais e não identifica a felicidade com o prazer imediato. Esta senda
H a m a r t io l o g ia - D o u tr in a d o P e c a d o 25
vai ser retomada pelo utilitarismo de Bentham, para quem há uma graduação
da moral. A tese está intimamente ligada ao contratualismo, à ideia de que
é possível a realização do máximo de utilidade com o mínimo de restrições
pessoais, numa perspectiva que reduz o direito a uma simples moral do útil
coletivo. Libertando-se deste critério quantitativo da aritmética dos prazeres,
Stuart Mill assume o critério da qualidade e formula a lei do interesse pessoal
ou princípio hedonístico: cada indivíduo procura o bem e a riqueza e evita
o mal e a miséria. Desta forma, a moral do interesse individual de Bentham
aproxima-se de uma moral altruísta ou social. É importante notar que o hedo
nismo cirenaico diferencia-se do hedonismo epicurista, sobretudo no que diz
respeito à avaliação moral do prazer. Enquanto a escola cirenaica preceitua que
o prazer é sempre um bem em si e melhor quanto mais tempo durar e quanto
mais intenso for, a filosofia epicurista determina que o prazer, para ser um bem,
precisa de moderação.6
i i i . A O r ig e m d o P e c a d o
1. Pensamento filosófico sobre a origem do pecado. Vários pontos
de vista sobre a origem do pecado foram e são apresentados em várias linhas
de pensamento no decorrer da história. Antes, porém, devemos pensar aqui
neste argumento na linha divisória que marca o ‘antes’ e o ‘depois’ do pecado.
Quando somente existia o Deus-Trino e Uno, não existia o pecado e nenhuma
forma de transgressão que viesse ferir a santidade divina. Contudo, veio o mo
mento no tempo — ou da existência imemoriável — ou no calendário sucessi
vo quando isso aconteceu. Houve o momento do primeiro pecado concebido
pelo primeiro pecador. A grande questão com relação ao pecado não é tanto
quanto a ele, e, sim, quando ele teve origem, como surgiu o primeiro pecado,
e quem foi o primeiro transgressor e por qual via (ou caminho) isso veio a
acontecer. Com efeito, porém, toma-se necessário analisarmos alguns pontos
importantes nesta argumentação. O motivo de analisarmos vários aspectos no
que diz respeito a origem do pecado, é motivado pelas várias opiniões que são
apresentadas a este respeito, que vão desde lenda até a mais acurada investi
gação. Alguns destes pontos defendidos sobre a origem do pecado envolvem
filósofos, pessoas comuns e teólogos de ambas as linhas de pensamento. Para
que tenhamos uma melhor compreensão do significado do argumento, deve
mos analisar estes pontos que acabam os de mencionar ac ima. Também
estudar cuidadosamente alguns pontos de vista que envolvem o “mistério do
mal”. O pensamento filosófico envolve vários pensadores, que vão desde teó
logos, créditos e até ateus. Os estudiosos do problema do mal, o veem em dois
2 6 A D o u t r in a do P e c a d o
aspectos, a saber: um ponto de vista inteiramente filosófico no mais rudimentar
do sentido, que fora empregado nos conceitos dos filósofos não cristãos, e o
outro do ponto de vista religioso que foi usado pelos filósofos cristãos, para
definir o que viria ser ou se transformar naquilo que seria pecado.
a) Santo Agostinho. Definia o pecado como “o que é dito, feito ou desejado
contra a lei eterna”, entendendo por lei eterna a vontade divina, que é dirigida
para a conservação da ordem do mundo e para fazer de forma que o homem
deseje mais o bem maior e menos o bem menor. “Eu buscava a origem do mal,
mas de modo errôneo, e não via o erro que havia em meu modo de buscá-la.
Desfilava diante dos olhos de minha alma toda a criação, tanto o que podemos
ver — como a terra, o mar, o ar, as estrelas, as árvores e os animais — como
o que não podemos ver — como o firmamento, e todos os anjos e seres espiri
tuais. Estes, porém, como se também fossem corpóreos, colocados em minha
imaginação em seus respectivos lugares. Fiz de tua criação uma espécie de
massa imensa, diferenciada em diversos gêneros de corpos; uns, corpos verda
deiros, e espíritos, que eu imaginava como corpos. E eu a imaginava não tão
imensa quanto ela era realmente — o que seria impossível — mas quanto me
agradava, embora limitada por todos os lados. E a ti, Senhor, como a um ser
que a rodeava e penetrava por todas as partes, infinito em todas as direções,
como se fosses um mar incomensurável, que tivesse dentro de si uma esponja
tão grande quanto possível, limitada, e toda embebida, em todas as suas par
tes, desse imenso mar. Assim é que eu concebia a tua criação finita, cheia de
ti, infinito, e dizia: Eis aqui Deus, e eis aqui as coisasque Deus criou; Deus é
bom, imenso e infinitamente mais excelente que suas criaturas; e, como é bom,
fez boas todas as coisas; e vede como as abraça e penetra! Onde está pois o
mal? De onde e por onde conseguiu penetrar no mundo? Qual é a sua raiz e sua
semente? E se tememos em vão, o próprio temor já é certamente um mal que
atormenta e espicaça sem motivo nosso coração; e tanto mais grave quanto é
certo que não há razão para temer. Portanto, ou o mal que tememos existe, ou
o próprio temor é o mal. De onde, pois, procede o mal se Deus, que é bom, fez
boas todas as coisas? Bem superior a todos os bens, o Bem supremo criou, sem
dúvida, bens menores do que ele. De onde pois vem o mal? Acaso a matéria de
que se serviu para a criação era corrompida e, ao dar-lhe forma e organização,
deixou nela algo que não converteu em bem?”7
b) Santo Tomás de Aquino. Santo Tomás de Aquino, o maior filósofo da
Era Medieval, diz em sua Summa Theologiae (Suma Teológica): “Muitos dos
nossos contemporâneos perguntam-se: Se é verdade que Deus existe, como é
H a jia r t io l o g ia - D o u t r in a do P e c a d o 2 7
possível que permita o mal? Então é necessário fazer-lhes compreender que o
mal é privação do bem devido, e o pecado é aversão do homem a Deus, fonte
de qualquer bem. Na compreensão do bem encontra-se também a solução para
o mistério do mal. Tomás dedicou toda a sua obra à reflexão sobre Deus, e é
neste contexto que se desenvolvem as dezesseis perguntas acerca do mal. Ele
conclui que “a transgressão da lei moral vista como mandamento divino”, seria
então dar origem ao pecado (De Maio) ”.8
c) Emanuel Kant. Kant observou que não se deve confundir a questão da
sua origem temporal. O pecado é coisa mais antiga e mais sombria. As ideias
que foram apresentadas nos conceitos de Agostinho e de Aquino, com uma
coisa de origem racional que, seria o problema da origem do pecado, não eram
aceitas restritamente por Kant. Nesse caso, segundo Kant (e a própria Bíblia),
a origem do pecado não foi ou seria um fato ou ato isolado; e, sim, uma ati
tude deliberada, em fazer para ser. Depois Kant chega à seguinte conclusão:
“O pecado original nada mais é que o aspecto negativo da solidariedade dos
homens e mulheres em Deus”.9
d) Harold Kushner. Um rabino nascido nos Estados Unidos, no final do
século 20, é autor do best-seller Quando coisas ruins acontecem às pessoas
boas, desafia o cristianismo em vários pontos, principalmente quando faz um
paralelismo comparativo entre Deus e o mal. Kushner rejeita também os mi
lagres e desenvolve um argumento a favor de um Deus finito. Ele admite que
Deus existe. Contudo, não aceita que Ele seja Todo-Poderoso, mais ou menos o
que pensava Epicuro, filósofo grego que viveu entre 341-270 a.C. A diferença é
que Epicuro tinha dúvida se Deus era ou não Todo-Poderoso. Também tanto ele
como seus seguidores, os epicuristas, viam no prazer, obtido pela prática da vir
tude, o bem. O prazer consiste no não sofrimento do corpo e na não perturbação
da alma. Os estoicos, como Sêneca (4 a.C-65 d.C), e Marcos Aurélio (121-180)
que se opõem ao epicurismo, pregam que o homem deve permanecer indiferente
a circunstâncias exteriores, como dor, prazer e emoções. Procuram submeter sua
conduta à razão, mesmo que isso traga dor e sofrimento, e não prazer. Para Kush
ner, Deus não pode controlar o mundo e os seres humanos, mas ele “é o poder
divino que os incentiva a crescer, avançar e desafiar”. Assim, Deus é um Deus de
amor, não de poder. Ele é mais bondoso que capaz.10
2. Pensamento popular sobre a origem do pecado. Alguns filósofos
e teólogos procuraram dar uma explicação mais simples e popular em relação
ao pecado, que consequentemente trouxe o problema do mal, dizendo que, “o
28 A D o u t r in a do P e c a d o
mal seria a ausência de todo bem”. Isso no fundo negava, por extensão, a exis
tência do mal. O mal, segundo se dizia, é apenas a ausência do bem, tal como
as trevas são a ausência da luz. Agostinho e S. Tomas de Aquino propuseram
esse ponto de vista. Mas isso parece um tanto lógico, para solucionar o proble
ma do mal físico e moral; mas que diríamos com relação ao mal metafísico ou
espiritual? Esse é sem dúvida, um dos grandes problemas para nossa imagina
ção que talvez não possa ser solucionado à luz da lógica; mas, sim, pode ser
compreendido no campo da fé (1 Co 2.10; Fp 3.15).
3. Pensamento lacunoso sobre a origem do pecado. O pensamento
lacunoso (que se omitiu — omitido) defende que o pecado teve início quando
o homem fez mal uso da liberdade. Para alguns estudiosos do problema do
mal, o primeiro pecado aconteceu quando o homem, pela primeira vez fez
mal uso da liberdade. Isto acontece com cada pessoa no mundo. O entendi
mento do pecado original na concepção antiga não pode mais ser aceito hoje
em dia no sentido histórico de um homem e uma mulher que pecaram e os
filhos estão sofrendo as conseqüências. E necessária uma nova compreensão
desta verdade bíblica. É importante, para melhor compreensão desta parte da
Bíblia, considerar Adão não como um só homem singular, mas como repre
sentante de toda a humanidade. O hagiógrafo, ao dizer que “tudo era bom”,
tinha em vista responsabilizar o homem pela entrada do mal no mundo. Nos
primeiros capítulos do Gênesis, apresenta o mundo perfeito. Do terceiro ca
pítulo em diante, faz quase uma oposição do que disse: isso significa que o
homem é inclinado para o mal pela sua própria natureza e nisso está a essên
cia do que se chama “pecado original”. Até pouco tempo, acreditava-se que
o pecado original era uma herança do pecado de um só homem (Adão), o que
sempre repugnou que uma criança inocente já nascesse em pecado. Atual
mente, se crê e se aplica este conceito ao fato de que a pessoa, ao nascer num
mundo onde já há o pecado, embora sem culpa dele, terá esta tendência para
fazer o mal, que pode ser superada com a graça de Deus. Visto que o homem
é um ser imperfeito, ele poderá vacilar e praticar o mal, e assim o ‘pecado’ de
cada indivíduo vai “contribuindo” para a continuação do mal no mundo.
4. Pensamento folclórico sobre a origem do primeiro pecado. O pen
samento folclórico evolve vários mitos sobre a origem do pecado. Um deles é a
história da maçã. Este mito sugere que o pecado se originou quando Eva tomou uma
maçã da árvore proibida e a deu a Adão para que ele comesse. Quando Adão comeu
a maçã, então se originou o primeiro pecado no mundo. Os criadores deste mito
esqueceram-se de que, quando Adão comeu do fruto da árvore proibida, o pecado
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 29
já se encontrava no universo. A proibição divina, advertindo a Adão para que não
comesse do fruto daquela árvore, é posterior à origem do mal. Isso fica explícito na
passagem de Gênesis 2.9, quando se faz referência da “árvore da ciência do bem e
do mal”. Portanto, a origem do mal, deve ser buscada numa outra fonte e não nesta
que temos em foco aqui nesta seção. O mal é mais sério do que tudo aquilo que
entendemos ou pensamos. Sua origem, portanto, se envolve num campo que vai
além da imaginação. Ninguém poderá penetrar nele, quer dizer, neste campo, a não
ser mediante a fé e orientado pelo Espírito de Deus. Somente se poderá descobrir
ou pelo menos ter uma noção clara da origem do mal, se nossas mentes aceitarem
uma adesão firme nas Escrituras, da existência dos agentes do mal, eles, através de
referências diretas ou indiretas, mostram que toda a origem do mal, encontra seu
correspondente no grande inimigo de Deus e dos homens; o Diabo. Ele foi, portan
to, o primeiro a pecar contra Deus e contra suas ordens. E nele e não em outro, que
foi encontrado pela primeira vez a origem do mal (Ez 28.15,16).
5. Pensamento que defende um ato sexual como origem ao pecado.
Este é um outro ponto de vista defendido por alguns a fim de encontrar a ori
gem do mal. Os que defendem este lado da questão, dizem que a linguagem
usada com respeito à queda do homem e suaesposa, é simbólica e não literal.
Nesse caso, sustentam eles, o fruto ali proibido era simplesmente um contato
sexual de Adão com Eva. Para nós, esta opinião não se coaduna com o argu
mento geral das Escrituras e nem com a tese principal. Quando Deus criou
o homem e a mulher, já os criou com esta finalidade. Um contato íntimo do
casal, mesmo em seu estado de inocência ali no jardim, não seria re putado
c o m o pecado aos olhos de Deus. Pois mesmo em seu estado de santidade,
“Deus os abençoou, e Deus lhes disse (aos dois): Frutificai e multiplica-vos, e
enchei a terra, e sujeitai-a...” (Gn 1.28). Quando o casal pecou, Deus renovou
novamente a sua promessa no que diz respeito à procriação. Parece que a mu
lher tinha perdido sua fertilidade, por causa do pecado. Mas o Criador a toma
fértil quando prometeu que ela daria luz a filhos. Adão ao escutar as palavras
de Deus, passa, então a chamar sua esposa de “Eva” que quer dizer: “mãe da
vida” (Gn 3.20). Fica, portanto, evidenciado que a origem do mal, nada tem a
ver com um contato íntimo, cuja finalidade era a procriação e o prazer do casal
ali no jardim do Éden.
6. Pensamento judaico sobre a origem do pecado. O pensamento
judaico fora da Bíblia no tocante a origem do pecado, é mais folclórico do que
teológico. A Enciclopédia Judaica, em vários de seus volumes, mostra alguns
trechos da concepção rabínica sobre a origem do mal.
30 A D o u t r in a d o P e c a d o
a) Concepção rabínica sobre a origem do pecado. “Também no Zohar
— o Zohar (em hebraico rm, “esplendor”) é considerado como um dos livros
(trabalhos) mais importantes da Cabala, no misticismo judaico, é implícito que
o mal no universo se originou de sobras dos mundos que foram destruídos. O
poder do mal é comparado com a casca (klpah) da árvore de emanação, um
símbolo que se originou com Azriel de Gerona e tomou-se bastante comum
a partir do Zohar. Alguns cabalistas chamavam a totalidade da emanação da
esquerda de “a árvore exterior” (ha-ilan ha-chitson). Outra associação, en
contrada nos cabalistas de Gerona, e em seguida a eles também no Zohar, é
com “o mistério da Árvore do Conhecimento”. A árvore da Vida e a Arvore do
Conhecimento eram ligadas em perfeita harmonia até que Adão veio e sepa
rou-as, e deu assim essência ao mal, que estivera mantido dentro da Arvore do
Conhecimento do Bem e do Mal, e foi então materializado no instinto do mal
(ietser ha-ra). Portanto foi Adão quem ativou o potencial do mal oculto dentro
da Árvore do Conhecimento, ao separar as duas árvores e também ao separar
a Árvore do Conhecimento de seu fruto, que ficou então destacado de sua
fonte. Este acontecimento é chamado metaforicamente de “o corte dos brotos”
(kitsuts ha-neti ’ot) e é o arquétipo de todos os grandes pecados mencionados
na Bíblia, cujo denominador comum foi a introdução da divisão na unidade
divina. A essência do pecado de Adão foi que introduziu “a separação acima e
abaixo” naquilo que deveria ser unido, uma separação da qual todo o pecado é
fundamentalmente uma repetição — com exceção dos pecados que envolvem
magia e bmxaria que, de acordo com os cabalistas, juntam aquilo que deveria
permanecer separado. Na realidade, esta visão também tende a acentuar a se
paração do poder de julgamento contido dentro da Arvore do Conhecimento
do poder de benevolência contido dentro da Arvore da Vida. Esta despeja seu
fluxo copiosamente, enquanto que a outra é uma força restritiva com tendência
a se tomar autônoma. Pode fazê-lo como resultado das ações do homem ou de
um processo metafísico nos mundos superiores”.1'
b) O que o judeu tradicional entende por origem do pecado. “O judeu
tradicional, condicionado por fatores éticos, como todos os homens do mesmo
tipo entre outros povos, estava sempre empenhado em explicar sua conduta e
os impulsos de sua consciência. Essa espécie de contabilidade resultava numa
humildade intelectual no que se referia à busca da verdade. Dessa forma, o
judeu devoto tinha em pouca conta a própria virtude; ele não se podia permitir
o luxo da autoexaltação. Pelas mesmas razões, estava inclinado a ser tolerante
com os pecados e os erros dos outros. Os moralistas judeus — especialmente
aqueles que registraram suas dolorosas dúvidas acerca da loucura e do erro
humanos na Idade Média e nos séculos que se seguiram, deploraram o fato de
H a m a r t io l o g ia - D o u t r in a d o P e c a d o 31
que todos os seres humanos fossem feitos no mesmo molde de perversidade
e contradição. O Mal e o Bem, percebiam eles, fluíam da mesma fonte — da
natureza do homem.
I o. Rabi Meir, o Sábio Lamentador do século IV. Diz-se que ele ficou certa
vez desolado ao tentar compreender suas próprias ações. “Pobre de mim
por meu Criador, e pobre de mim por minha própria natureza!”, lamentava-
se ele. Era um reconhecimento — que ele partilhava com outros pensado
res religiosos esclarecidos do Período Talmúdico — de que em sua própria
personalidade humana podiam ser encontradas sementes de imperfeição
moral. Uma reafirmação quanto a essa falha endêmica no caráter do ho
mem foi tentada pelo codificador medieval francês da lei rabínica, Moisés
de Coucy: “E porque o homem é meio-anjo meio-besta, que esse conflito
tem lugar em sua vida interior”. Nem sempre, porém, foi o pecado encara
do pelos judeus como algo totalmente calamitoso. No Período Talmúdico,
era corrente uma encantadora lenda popular segundo a qual nem mesmo o
tzadik (o homem santo de Deus) teria o privilégio de receber recompensa
eterna do Éden, caso o Anjo Anotador, esse infalível contabilista do céu,
chegasse a encontrar em sua conta uma só anotação de que ele havia pe
cado. Mas como seria possível um milagre desses? Os Sábios observaram
com suave ironia: “Ninguém pode ser considerado santo até que a morte
tenha chegado para silenciar a inclinação para o Mal (veja IETZER TOV E
IETZER HA-RA) dentro dele, e ele tenha sido colocado na sepultura com a
coroa da paz em sua cabeça”. Afim de desencorajar a soberba e a hipocrisia
entre os devotos, um moralista rabínico anônimo inventou uma parábola
pungente sobe o tema bíblico do Pecado Original. A posição tradicional
dos judeus era naturalmente a de que a morte sobreveio à terra por causa da
queda de Adão (quando ele e Eva comeram o fruto do conhecimento proi
bido). Aconteceu certa vez (o rabino assim iniciava a sua parábola), que
determinadas pessoas virtuosas de gerações posteriores a Adão, apontaram
dedos acusasadores para ele: “Então és tu, Adão, o culpado pelo fato nós
todos termos que morrer!”, gritavam eles. “Que quereis de mim?”, respon
deu Adão num queixume. “É verdade... eu cometi um pecado! Mas quem,
dentre vós, ó justos, não é culpado de muitos pecados?”
2o. As definições judaicas de “pecado” e “pecador”. A definição judaica
opinam que pecado e pecador abrangiam toda a soturna gama da maldade
e das más ações de que só são capazes os seres humanos. É claro que
nenhum sistema moral é absoluto; cada povo ou religião desenvolve suas
próprias opiniões especiais, suas leis e seus mitos relativos ao bem e ao
mal, ao pecado e ao pecador, à recompensa e ao castigo. E também esses
32 A D o u tr in a do P e c a d o
não permanecem estáticos mas passam por mudanças que se processa
vam com o tempo, com as circunstâncias e as influências externas. O
registro histórico judaico relativo ao pecado começa com os imperiosos
mandamentos “negativos” dos Dez Mandamentos nos albores da religião
judaica. Os profetas e os Sábios Rabínicos os ampliaram e aumentaram-
lhe o escopo, e os codificadores dos ritos e das cerimônias durante a Idade
Média e os períodos subsequentes continuaram, meramente o processo
penoso de os inventariar e classificar, erguendo em tomo de cada uma
das 613 mitzvot (mandamentos das Escrituras) e as paredes protetoras de
uma multiplicidade de regras e regulamentos. Violar mesmo uma delas
que constituía um pecado. Os fiéis pouco imaginativos e voltados para a
literalidade da interpretação