Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Fontes do direito brasileiro: histórico, 
atualidades e transformações 
 
Sumário: 1. Introdução. 2. Evolução histórica das fontes do direito 
reconhecidas pela doutrina brasileira. 3. Fontes do direito brasileiro 
contemporâneo: conceito na doutrina clássica, atualidades e transformações. 
3.1. Fontes informadoras. 3.1.1. Princípios gerais do direito. 3.1.2. O papel 
da doutrina. 3.1.3. Jurisprudência. 3.1.3.1. Direito Sumular. 3.2. Lei. 3.2.1. 
O papel da analogia. 3.3. Costume. 4. Conclusão. Bibliografia. 
 
 
1. Introdução 
 
 
O propósito deste trabalho é, a partir de uma análise evolutiva do tratamento 
dado pela doutrina às fontes formais do Direito, demonstrar que o Sistema 
Jurídico Brasileiro sofre hoje uma grande transformação no que diz respeito 
às normas jurídicas aplicadas para a resolução de conflitos, em razão, 
sobretudo, de uma inversão do papel desempenhado pela lei e da força, cada 
vez maior, dos princípios gerais do Direito e da jurisprudência. Com isso, 
pretende-se instigar o debate, sobretudo entre os civilistas nacionais. 
 
 
2. Evolução histórica das fontes do direito reconhecidas pela doutrina 
brasileira. 
 
 
Começaremos este estudo traçando a evolução das fontes formais do Direito 
reconhecidas pela doutrina pátria, desde o século XIX até os dias atuais. 
Encontramos entre os primeiros civilistas do Brasil independente o 
Conselheiro Joaquim Ribas, que escreveu sobre o tema das fontes formais 
do Direito fortemente influenciado pela Escola Histórica do Direito de 
Savigny. Veja-se o seguinte excerto: 
 
 
“O direito preexiste ao legislador na consciência nacional, ele não o inventa, 
nem o cria; apenas o formula, e traduz em caracteres sensíveis, esclarece-o 
com as luzes da razão universal, e presta-lhe o apoio da força social.”[1] 
 
Pensando assim, o Conselheiro identificou, como fontes do Direito Civil, 
a legislação nacional, fonte essencial, e o direito 
consuetudinário, popular e científico, bem como a legislação estranha, 
fontes subsidiárias. 
 
Sobre a legislação nacional, explicou: “Tomamos aqui a palavra — 
legislação — no sentido mais amplo, como o complexo dos atos do poder 
político, que contém preceitos obrigatórios, quer expedidos no regime 
anterior, quer no posterior à independência nacional.”[2] Àquela época, 
compreendiam a legislação nacional, quanto à forma, as leis em sentido 
estrito, os decretos, os alvarás, as cartas régias, as resoluções de consulta, as 
provisões, os assentos da Casa da Suplicação, os avisos, as portarias e as 
ordens; quanto à matéria, os regulamentos, os regimentos, os estatutos, as 
instruções, as pragmáticas, os forais, as concordatas e os privilégios. 
 
Contemplando as matérias não tratadas pela legislação, Ribas justificou o 
emprego de fontes subsidiárias: 
 
“Sempre que se apresenta um pleito em juízo, cumpre que o decida o 
magistrado em cuja atribuição cabe; nem se pode recusar a fazê-lo a 
pretexto que a lei é omissa, pois esta recusa importa o delito de denegação 
de justiça. 
 
No atual estado porém da legislação pátria, dificílimo e perigoso seria o 
cumprimento deste dever, se não houvessem outras fontes subsidiárias do 
direito; porquanto, deficiente como é esta legislação, o magistrado teria de 
recorrer frequentes vezes ao direito racional, cuja aplicação às emergências 
da vida prática não poderia deixar de dar lugar a intermináveis 
controvérsias, e ampla facilidade ao império do arbítrio disfarçado”.[3] 
 
Uma curiosidade: o referido delito de denegação de justiça era previsto no 
art. 129, n. 6, e no art. 159, ambos do Código Criminal do Império, de 1830. 
 
 
As fontes subsidiárias, por sua vez, encontrar-se-iam no direito 
consuetudinário, em sua vertente popular e em sua vertente científica, ou na 
legislação estranha. Assim se conceituou o direito consuetudinário popular: 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn1
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn2
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn3
 
 
“Já vimos que primitivamente o direito jaz na consciência nacional até que 
o desenvolvimento social o leva a manifestar-se na legislação e 
jurisprudência. Mas, enquanto ele jaz assim invisível no seio do povo, devem 
existir, e de fato existem, meios pelos quais se reconheçam os preceitos; estes 
meios são os usos e costumes. 
 
Com efeito, a constante repetição de atos uniformes, que constitui os 
costumes, não pode ser atribuída ao mero acaso ou arbítrio, e sim a um 
principio racional, a uma convicção comum do povo. 
 
Mas, se o costume não cria, e sim apenas traduz os princípios fundamentais 
do direito, não sucede o mesmo quanto aos secundários; a respeito destes o 
povo precisa ver a sua repetida aplicação, ou, como dizia Puchta — o 
costume para o povo que o estabelece, é um espelho em que ele se reconhece. 
Mas nem ainda quanto a estes princípios secundários se pode dizer que os 
costumes sejam produzidos pelo acaso ou pelo arbítrio; são sempre filhos 
da reflexão, e dominados por princípios racionais.”[4] 
 
Em relação ao direito consuetudinário científico, o Conselheiro pontuou: 
 
“Desde os mais remotos tempos exerceram os jurisconsultos em Roma larga 
influência, e por suas respostas às consultas dos litigantes, — responsa, bem 
como por seus debates forenses,—disputatio fori, contribuíram para a 
formação do direito. […] 
 
Na fase de elaboração em que se achava, e em que ainda se conserva o 
direito pátrio, não fora possível querer-se, à semelhança do Justiniano, 
impedir-lhe o desenvolvimento, excluindo absolutamente a influência dos 
jurisconsultos; […] 
 
Na ausência de disposição legislativa tem, pois, lugar a opinião comum dos 
jurisconsultos pátrios, como órgãos do direito consuetudinário nacional, e 
a dos jurisconsultos estrangeiros, como órgãos das nações modernas (usus 
hodiernus) relativamente á exequibilidade dos textos do direito romano.”[5] 
 
Por fim, identificou como direito estranho o Direito Romano, o Direito 
Canônico e os Direitos das nações modernas. 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn4
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn5
Posteriormente, em 1908, Clóvis Beviláqua, jurista consagrado por ter sido 
o autor do projeto de Código Civil de 1899 (que futuramente se transformaria 
no Código de 1916), na primeira edição da sua Teoria Geral do Direito Civil, 
voltou ao tema. Também o mestre identificou a lei como principal fonte do 
Direito, que chamou de imediata. Mas, reconhecendo a impossibilidade de a 
lei abarcar todo tipo de matéria, elencou, sob o rótulo de fontes subsidiárias 
— conforme o fizera Ribas —, o costume, o Direito Romano e o Direito das 
nações modernas. 
 
“A fonte imediata do direito é a lei. Esta, porém, por mais que se alarguem 
as suas generalizações, por mais que se espiritualize, jamais poderá 
compreender a infinita variedade dos fenômenos sociais, que emergem da 
elaboração constante da vida e vêm pedir garantias ao direito. Desta 
insuficiência da lei para dar expressão jurídica a todas as necessidades que 
a reclamam, para traduzir o matiz da vida organizada em sociedade, resulta, 
em primeiro lugar, que é forçoso manter, ao seu lado, as fontes subsidiárias 
do direito, que o revelem quando ela for omissa, e, em segundo lugar, que é 
indispensável aplicar à lei os processos lógicos da analogia e da 
interpretação, para que os dispositivos adquiram a necessária extensão e 
flexibilidade. 
 
A Ord. 3, 64, determinava que, na falta de leis regulando a matéria,de acordo com as necessidades da vida 
social.”[73] 
 
Já na segunda metade do século XX, Serpa Lopes, no Curso, comemorou a 
decisão do Supremo Tribunal Federal de criar súmulas, em 13 de dezembro 
de 1963, em vigor a partir de março de 1964. Ademais, o professor destaca 
o art. 63 da Lei 5.010/65, o qual “organizando a Justiça Federal, prescreveu, 
imperativamente, a elaboração das súmulas pelo Supremo Tribunal de 
Recursos”[74]. Mais tarde, o art. 479 de Código de Processo Civil de 1973 
também previu que “o julgamento, tomado pelo voto da maioria absoluta dos 
membros que integram o tribunal, será objeto de súmula e constituirá 
precedente na uniformização da jurisprudência”. Finalmente, a idéia foi 
abraçada pelo próprio Regimento do Supremo Tribunal Federal, em vigor a 
partir de 15 de outubro de 1979. Leia-se Serpa Lopes: 
 
“Houve notável inovação na matéria concernente à uniformização 
jurisprudencial, com a criação da jurisprudência predominante na Suprema 
Corte, pela organização de súmulas. […] Medida reputada da mais altaneira 
significação e importância pela incontrastável necessidade de supervisão 
unificadora através de um colegiado supremo. É nível, único capaz de 
proporcionar ao nosso mundo jurídico um roteiro, uma bússola na 
avassaladora e exaustiva pesquisa jurisprudencial. Este é deveras precioso 
contributo à causa do Direito pátrio, elaborada por uma Comissão de 
Ministros, criado na sessão de 13 de dezembro de 1963. Passou a vigorar a 
partir de março de 1964. Tão decisiva foi a contribuição do Ministro Victor 
Nunes Leal neste sentido, que a sua proposição conseguiu acolhida pelo 
Regimento do Supremo Tribunal Federal, com vigência em 15 de outubro de 
1979.”[75] 
 
Na Universidade de São Paulo, Washington de Barros chegou mesmo a 
incluir a jurisprudência entre as fontes formais do Direito, no que encontrou 
a oposição de seu contemporâneo da Bahia, Orlando Gomes. É de se ver o 
que escreveram. 
 
Após identificar vários exemplos de casos em que enxergou a importância 
da jurisprudência na formação do Direito, concluiu o professor paulista: 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn73
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn74
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn75
 
 
“Impossível, pois, olvidar o papel que à jurisprudência está reservado na 
formação do Direito. Como bem dizia o Supremo Tribunal Federal, a 
invariável sequência dos julgamentos torna-se como o suplemento da própria 
legislação. Praticamente, é o que estaria a suceder, na atualidade, com o 
direito sumular”.[76] 
 
Combatendo a tese, Orlando Gomes concluiu, após reconhecer, conforme 
visto supra, a importância da jurisprudência: “mas, daí a incluir a 
jurisprudência entre as fontes do Direito vai grande distância, porque os 
julgados dos tribunais não são modo de criação de regras jurídicas.”[77] 
 
Pretender-se-á rebater a tese não por razões meramente científicas, mas, 
antes, empíricas. Conforme se irá demonstrar, os julgados dos tribunais 
criam, sim, regras jurídicas. Veja-se a lição do grande processualista 
brasileiro José Frederico Marques: 
 
“Quando o juiz complementa a lei, para cobrir lacunas nesta existentes, 
através da invocação dos princípios gerais de direito, a atividade que exerce 
é de natureza jurisdicional, pois está aplicando o direito objetivo a um caso 
concreto. Por esse motivo, a decisão que proferir não cria regra nova, mas 
apenas revela preceito latente na ordem jurídica em vigor. Não fosse assim, 
inadmissível seria dar efeito ex tunc à norma construída, a qual, portanto, 
se considera como integrante do direito vigente. 
 
No caso, porém, de consolidação da jurisprudência uniforme e 
predominante, através de súmulas, para a formulação de regras gerais 
extraídas de arestos e julgados, os tribunais estão exercendo função 
normativa semelhante à do legislador, visto que não estão aplicando hic et 
nunc o direito objetivo, e sim, promulgando preceitos que neste se 
enquadrarão como normas a vigorar em casos futuros.”[78] 
 
A dificuldade de alguns grandes civilistas em aceitar a jurisprudência entre 
as fontes do Direito parece advir de uma falta de percepção do Direito como 
dois fenômenos distintos: o Direito como Sistema Jurídico e o Direito 
como Ciência. De fato, não é a jurisprudência, ao menos imediatamente, 
fonte da Ciência do Direito, mas o é do Sistema. 
 
As fontes do Sistema Jurídico não se submetem, na doutrina clássica, à 
Ciência do Direito (dura lex sed lex). É a proposta contemporânea, 
justamente, a submissão do direito objetivo ao crivo dos princípios gerais do 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn76
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn77
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn78
Direito. Todavia, como no momento da aplicação serão os tribunais que 
decidirão, por fim, qual é o Direito aplicável ao caso, seria cego negar que, 
independentemente da aprovação científica do assento, será a jurisprudência 
fonte indiscutível do Direito. 
 
“Sem dúvida a doutrina e a jurisprudência podem seguir falsa rota, e ou não 
transpõem o período de flutuação, que é próprio do início de ambas, ou 
conseguem firmar princípios, que mais tarde se reconhecem falsos.”[79] 
 
Apesar de muito do conteúdo do assim chamado Direito Sumular não 
coadunar com ditames da Ciência do Direito, não se lhes pode negar o caráter 
de fonte do Sistema, o que se demonstra pela sua simples aplicação no 
julgamento dos casos concretos. O papel da Ciência, nesses casos, será 
apontar para os tribunais o melhor caminho, que estes, entretanto, poderão 
tomar ou não. 
 
Além disso, parece também muito difícil, para o jurista do Sistema Romano-
Germânico, aceitar que os tribunais criam o Direito, pois tal é a conseqüência 
inevitável da afirmação de que a jurisprudência é fonte do direito objetivo. 
Nesse sentido, o estudo comparativo com a Common Law, especialmente 
com o Sistema Norte-Americano, é de grande valia, pois lá a discussão 
aconteceu há duzentos anos. Naquele sistema, a discussão se encerrou e 
levou ao surgimento de uma nova expressão para designá-lo, que é o já 
mencionado judge-made law, ou Direito criado pelos juízes. 
 
A primeira grande lição que se pode extrair de tal análise é a de que não é 
todo juiz que tem o poder de criar o Direito, mas, na verdade, somente os 
tribunais superiores; a segunda é no sentido de que o judge-made law não 
fere o princípio da harmonia entre os Poderes do Estado; e a terceira é a de 
como se deve cientificamente compreender o fenômeno. 
 
Analise-se, então, cada um desses pontos. 
 
1. O Sistema Jurídico Brasileiro, à semelhança do Norte-Americano, divide 
o Judiciário em nível estadual e federal. Assim, verifica-se a existência, nos 
Estados, de uma corte de primeira instância, ou juiz de primeira instância, e 
uma corte superior, ou Tribunal de Justiça (lá, Supreme Court of the State); 
e em nível federal, juízes federais de primeira instância e Tribunais 
Regionais Federais (Circuit Courts). Acima das cortes superiores estaduais 
e federais, o Superior Tribunal de Justiça (análogo à Court of Appeals) e o 
Supremo Tribunal Federal (Supreme Court). Ora, nem os juízes de primeira 
instância estaduais, nem os federais, têm o poder de vincular nos Estados 
Unidos. Criam Direito, quando o fazem, apenas para o caso; mas tal decisão 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn79não é fonte do Direito. As Supreme Courts of the States estabelecem 
precedentes que se tornam fontes do Direito estadual, e as Circuit 
Courts estabelecem precedentes que somente vinculam os juízes federais. A 
jurisprudência da Court of Appeals e da Supreme Court, por sua vez, 
vinculam todas as cortes inferiores a elas. No Brasil, de modo semelhante, 
só se devem considerar fontes do direito objetivo as decisões das cortes 
superiores: Tribunais de Justiça, nos respectivos Estados; Tribunais 
Regionais Federais, nas respectivas regiões; Superior Tribunal de Justiça e 
Supremo Tribunal Federal, em todas as instâncias inferiores. 
 
O primeiro problema que se apresenta, entretanto, é o fato de que tanto os 
TJs quanto o STJ e o STF têm divisões internas, que muitas vezes têm 
opiniões divergentes. De fato, tal parece obstar à afirmação de que a 
jurisprudência é fonte do Direito Objetivo. A saída, entretanto, está no 
fenômeno da jurisprudência consolidada: só pode ser verdadeira fonte a 
jurisprudência assentada nos plenários dos Tribunais, pois sobre esta os 
Tribunais não têm dúvida, e sempre a aplicarão. No caso específico do STJ 
e do STF, é a jurisprudência contida nas súmulas, as quais formam o Direito 
Sumular. 
 
Leia-se o que já sobre isso ensinara o Conselheiro Ribas: 
 
“Quanto à autoridade moral dos casos julgados pelos tribunais superiores em 
relação aos inferiores, é lógica consequência do sistema de diversidade de 
instâncias. Com efeito, pois que a lei autorizou aqueles tribunais a 
reformarem as decisões destes, e a fazerem que destarte prevaleçam as suas 
opiniões nos casos particulares, quer implicitamente que, em regra, os 
tribunais adotem as opiniões dos seus superiores, evitando assim estéril luta 
em prejuízo das partes; salvo quando poderosas razões gerarem opostas 
convicções.”[80] 
 
E, mais uma vez, José Frederico Marques: 
 
“A jurisprudência, quando uniforme e reiterada, impõe-se como norma 
obrigatória, desde que consubstanciada em “súmula”. Trata-se de prática 
inaugurada pelo Supremo Tribunal Federal[81] e que vem estendendo-se a 
outros tribunais. Estatui o art. 479, parágrafo único, do novo Código de 
Processo Civil, que “os regimentos disporão sobre a publicação no órgão 
oficial das súmulas de jurisprudência dominante”. 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn80
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn81
A “súmula” contém o enunciado de uma regra jurídica, construída com base 
em decisões que se apresentam como “jurisprudência predominante do 
Supremo Tribunal Federal”.[82] 
 
2. Quanto à independência dos Poderes, o art. 2º da Constituição Federal da 
República não estabelece que esta seja absoluta, senão que seja harmônica. 
Dessa forma, o art. 61 prevê leis de iniciativa do Presidente da República e 
o art. 62 prevê a edição, pelo Chefe do Executivo, de medidas provisórias 
em casos de relevância e urgência. Cabe, ainda, ao Presidente da República 
a sanção ou o veto no processo legislativo. Se a independência entre os 
Poderes fosse absoluta, tais artigos, ainda que previstos no texto da 
Constituição, seriam inconstitucionais, por violar o princípio contido no art. 
2º. Contudo, não o são, porque a independência deve ser harmônica. Da 
mesma forma, é o Presidente da República quem escolhe os Ministros dos 
Tribunais Superiores[83], após aprovação do Senado Federal (art. 84, inc. 
XIV da Constituição Federal). Outros tantos exemplos poderiam ser citados 
sobre a harmonia entre os Poderes, provando o caráter não absoluto da 
independência. 
 
Ademais, seria tolo negar que ao aplicar o Direito o Judiciário o interpreta. 
Além disso, como se sabe, a boa interpretação sequer busca o sentido que o 
legislador pretendeu dar ao texto, mas sim o melhor sentido que dele se pode 
extrair. Mais uma vez, se a independência dos Poderes fosse absoluta, tal não 
seria possível. Nesse sentido, a Common Law é muito franca ao conceituar o 
Direito como o Direito aplicado pelas cortes, e o BISHOP HOADLY, desde 
o século XVI já afirmara que quem tem o poder de interpretar o Direito acaba 
sendo, em realidade, e para todos os efeitos, o verdadeiro criador do Direito: 
 
“Não, quem quer que tenha a autoridade absoluta para interpretar qualquer 
lei escrita ou oral, é ele que acaba sendo o verdadeiro criador da Lei para 
todos os efeitos, e não quem a escreveu ou pronunciou anteriormente.”[84] 
 
Em conclusão, se um Tribunal opta por interpretar o Direito de uma 
determinada forma, e tomar em assento tal interpretação, por que negar a tal 
assento o caráter de fonte do Direito? Somente para se fingir que o Judiciário 
não cria o Direito? Parece que afirmar que o papel do Judiciário seja o de 
mero aplicador do Direito criado pelo Legislativo, isso sim seria atentatório 
à própria independência daquele Poder. O Judiciário estaria à mercê do 
Legislativo, conclusão a que, seguramente, não se pode chegar. 
 
Serpa Lopes pontuou: 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn82
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn83
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn84
 
 
“A uniformidade na interpretação de um determinado texto legal deve 
constituir uma das finalidades da jurisprudência. 
 
Tal é um dos objetivos do Recurso Extraordinário, o qual foi incluído na 
competência do Supremo Tribunal Federal […]. 
 
Também à jurisprudência se entregou a competência para a apreciação da 
perfectibilidade da lei, precipuamente do ponto de vista de sua harmonia 
com os preceitos constitucionais.”[85] 
 
Os juristas americanos do final do século XVIII e início do século XIX se 
questionaram longamente sobre o problema, e acabaram por optar por 
reconhecer o Poder criador do Judiciário, o que levaria a um grau científico, 
menos político, do Direito, e, ao mesmo tempo, contribuiria mais 
positivamente para transformações sociais, pois o processo legislativo é 
moroso. Muitas vezes, o Legislativo não é capaz de acompanhar as 
mudanças sociais, cabendo ao Judiciário adaptar o Direito às novas 
realidades. 
 
Eduardo Espínola já desenvolvera este ponto no Sistema, em 1908: 
 
“A jurisprudência, prática e doutrinária, afirma o saudoso jurisconsulto 
[referindo-se a REGELSBERGER], não tem simplesmente por objetivo 
investigar o sentido das regras legais e aplicá-las de acordo com o resultado 
obtido. Ela é também autorizada a estabelecer, por meio dum profundo 
exame, o pensamento jurídico latente nas disposições da lei, como 
corresponda às necessidades da vida prática e, desse modo, a aperfeiçoar 
incessantemente o direito.”[86] 
 
O professor citou, ainda, Beviláqua: “o intérprete, esclarecendo, iluminando, 
alargando o pensamento da lei, torna-se um fator da evolução jurídica.”[87] 
 
Por fim, uma curiosidade: Jean-Étienne-Marie Portalis, autor do famoso 
Código Civil da França de 1804, ou Código Napoleônico, como ficou 
conhecido, “ponderara que o legislador estabelece as máximas gerais do 
direito e que compete aos magistrados, penetrando o espírito geral das leis, 
dirigir-lhes a aplicação”[88]. 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn85
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn86
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn87
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn883. Em relação a como se deve cientificamente compreender o fenômeno. O 
jurista, ao perceber que os Tribunais Superiores criam o direito objetivo 
aplicável em suas respectivas jurisdições, não deve, por isso, deixar de fazer 
uma análise crítica deste Direito. Ora, não há nenhuma diferença com o que 
se passa em relação às leis. O fato de uma lei ser criada pelo Poder 
Legislativo não a faz perfeita, e o jurista deve sempre submetê-la à crítica 
científica. É tal crítica que conduzirá, eventualmente, ao melhoramento da 
lei. O jurista deve, ainda, verificar se a jurisprudência e a lei obedecem aos 
ditames dos princípios gerais do Direito, para recomendar sua aplicação ou 
não. Deve-se ressaltar, aqui, que a aplicação do Direito é atribuição do 
Sistema Jurídico, e não da Ciência, tendo o juiz, portanto, o direito subjetivo 
de seguir ou não as lições da doutrina. Se os juízes sempre aplicassem o 
melhor Direito científico, sequer haveria necessidade de um sistema recursal. 
Não obstante, o melhor juiz é o que também é jurista, e que, ao decidir o caso 
concreto, fará a mesma análise científica que faria o jurista puro. 
 
Veja-se o que anotou, a respeito, Beviláqua: 
 
“Se a decisão do juiz não for acertada, como somente se aplica à espécie 
julgada, será uma tentativa falha de revelação do direito latente; se, porém, 
corresponder às exigências da razão esclarecida e das necessidades sociais, 
atuará sobre a inteligência dos outros julgadores, será repetida, firmará 
jurisprudência, e será ponto de partida para a formação do direito 
consuetudinário.”[89] 
 
Vê-se, portanto, que a discussão não é nova no Direito Pátrio, e que, na 
verdade, a doutrina da virada do século XIX para o século XX forneceu todo 
o substrato para que hoje se chegue às conclusões afirmadas. 
 
 
3.1.3.1. Direito Sumular 
 
Dando um importante passo no processo de transformação das fontes do 
Direito pátrio, a Emenda Constitucional nº 45, de 2004, concedeu ao 
Supremo Tribunal Federal o poder de editar as chamadas súmulas 
vinculantes, as quais, à maneira dos precedentes judiciais da Suprema Corte 
nos Estados Unidos, vinculam todas as instâncias anteriores a ela. Veja-se 
o comando do art. 103-A, acrescido à Constituição pela referida Emenda: 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn89
“Art. 103-A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por 
provocação, mediante decisão de dois terços dos seus membros, após 
reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a 
partir de sua publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em 
relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública 
direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como 
proceder à sua revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei. 
 
§ 1º A súmula terá por objetivo a validade, a interpretação e a eficácia de 
normas determinadas, acerca das quais haja controvérsia atual entre 
órgãos judiciários ou entre esses e a administração pública que acarrete 
grave insegurança jurídica e relevante multiplicação de processos sobre 
questão idêntica. 
 
§ 2º Sem prejuízo do que vier a ser estabelecido em lei, a aprovação, revisão 
ou cancelamento de súmula poderá ser provocada por aqueles que podem 
propor a ação direta de inconstitucionalidade. 
 
§ 3º Do ato administrativo ou decisão judicial que contrariar a súmula 
aplicável ou que indevidamente a aplicar, caberá reclamação ao Supremo 
Tribunal Federal que, julgando-a procedente, anulará o ato administrativo 
ou cassará a decisão judicial reclamada, e determinará que outra seja 
proferida com ou sem a aplicação da súmula, conforme o caso.” 
 
Para demonstrar o papel sem dúvida nenhuma de criação de normas jurídicas 
desempenhado pelas súmulas vinculantes, cite-se a súmula vinculante nº 
25[90], que determina que “é ilícita a prisão civil de depositário infiel, 
qualquer que seja a modalidade do depósito”. Ora, essa súmula do STF é 
tão fonte formal do Direito que ela derroga o art. 652 do Código Civil e o 
próprio inciso LXVII do art. 5º, os quais dispõem, respectivamente, que “seja 
o depósito voluntário ou necessário, o depositário que não o restituir quando 
exigido será compelido a fazê-lo mediante prisão não excedente a um ano, e 
ressarcir os prejuízos” e “não haverá prisão civil por dívida, salvo a do 
responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação 
alimentícia e a do depositário infiel”. Cabe lembrar, que, em tese, 
somente outra lei poderia revogar uma lei (art. 2º da Lei de Introdução), e 
que somente uma emenda constitucional poderia alterar a Constituição. No 
entanto, essas mudanças foram efetuadas por meio de súmula vinculante. E 
ainda quem diga que a jurisprudência não é fonte criadora do Direito! 
 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn90
3.2. Lei 
 
Na definição escolástica clássica, que Santo Tomás de Aquino esculpiu 
na Suma Teológica, a lei é “certa ordenação da razão, em vista do bem 
comum, promulgada por quem tem o cuidado da comunidade”[91]. Daí se 
extraem os elementos tradicionais que caracterizam a lei: ser racional, ou 
seja, obra humana; ter em vista o bem comum; ser promulgada pela 
autoridade competente. 
 
Em sede de doutrina pátria, Beviláqua apresentou, na Teoria, conceito de 
inspiração tomista, – que foi, posteriormente, repetido por Caio Mário – no 
sentido de ser a lei “uma ordem geral (commune praeceptum), emanando de 
autoridade reconhecida, e imposta, coativamente, à obediência de 
todos”[92]. 
 
Limitando-se ao escopo desta pesquisa, cumpre dizer que a lei é, no Sistema 
Jurídico Brasileiro, inegavelmente fonte formal principal do Direito, não 
obstante, como afirmou-se retro, esteja hoje, cada vez mais, à mercê dos 
princípios gerais do Direito e da jurisprudência. 
 
Rapidamente, citar-se-ão os caracteres que Caio Mário identificou no 
conceito de lei: “em primeiro lugar, a lei é uma ordem, um comando, uma 
determinação do legislador aos indivíduos”[93]; “como ordem geral, dirige-
se indistintamente a todos; como comando abstrato, não se pode 
particularizar a uma determinada pessoa”[94]; “ligada à universalidade, 
assinala-se a permanência”[95]; “a lei deve emanar da autoridade 
competente”[96]; “finalmente, a lei é provida de sanção, dotada 
de coercibilidade”[97]. 
 
 
3.2.1. O papel da analogia 
 
É certo que, mesmo ante a grande produção legislativa dos tempos 
modernos, a lei nunca é suficiente para regular todos os fenômenos que 
podem ocorrer na vida em sociedade. E, nem sempre, os princípios gerais de 
Direito e a jurisprudência poderão suprir a omissão legislativa. Aqueles, 
porque, por definição, são gerais, e não cuidam de minúcias, portanto; esta, 
por depender de casos terem sido trazidos a julgamento, em especial nos 
Tribunais Superiores, vez que, conforme se afirmou, somente os julgados 
destes, consubstanciados em súmulas, é que devem ser considerados 
verdadeiras fontes informadoras do Direito. 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn91
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn92
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn93
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn94
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn95
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn96https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn97
 
 
Neste momento, então, revela-se o papel da analogia no sistema jurídico. 
Não o de fonte formal do Direito, mas de método de integração das 
normas no caso concreto. Tal é o entendimento do professor César Fiuza: 
 
“Alguns juristas incluem dentre as fontes do Direito a analogia. Reputo 
equivocada essa opinião. Ora, analogia é método, seja de interpretação, seja 
de integração do Direito. Momentos há em que a lei não regulamenta 
determinado instituto, como é o caso do contrato de fidúcia. Teremos, então, 
lacuna na lei. Como resolver questão envolvendo fidúcia se não há lei 
regulando a matéria? Usa-se processo analógico, aplicando-se normas que, 
por analogia, possam enquadrar-se ao caso. Com base nisso, vários juristas 
dizem ser a analogia fonte de Direito. Na verdade, a fonte, no caso, não foi 
a analogia, mas sim a própria Lei, que se integrou ao fato concreto por 
processo analógico.”[98] 
 
 
3.3. Costume 
 
A última fonte tradicionalmente elencada entre as fontes formais do Direito 
é o costume. Não obstante, à luz do Direito Brasileiro Contemporâneo, é 
necessário verificar se o caráter de fonte do Direito ainda está presente no 
instituto. 
 
A clássica definição de Beviláqua de costume é a seguinte: “costume 
jurídico, ou direito consuetudinário, é a observância constante de uma norma 
jurídica não baseada em lei escrita”[99]. 
 
Caio Mário, em suas lições, pontuou que: 
 
“A invocação do costume às vezes se dá no silêncio da lei, quando se 
encontra um aparente hiato nas suas disposições, preenchido pela 
observância de práticas costumeiras, de que os tribunais se valem para 
completar-lhe o preceito. Outras vezes, quando é a própria lei que ordena a 
adoção dos costumes locais, o juiz deve procurar, na sua função aplicadora 
da norma, casos em que a regra costumeira integra expressamente o direito 
positivo”[100]. 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn98
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn99
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn100
Acreditamos que o costume jurídico ainda é fonte formal do Direito, embora 
exerça essa função, na atualidade, com menos frequência. Um exemplo 
interessante, e bem típico da sociedade brasileira, é o costume jurídico de 
se predatar cheques. Conquanto o cheque seja uma ordem de pagamento à 
vista, tornou-se prática reiterada no comércio brasileiro, e não repudiada pelo 
Direito, a emissão de cheques com data futura, e que somente poderão ser 
descontados naquela data. Baseado justamente nesse costume jurídico, os 
Tribunais reiteradamente condenaram as pessoas que apresentaram o cheque 
para desconto antes da data ao pagamento de indenização por danos morais. 
Esse fato demonstra, claramente, a ação do costume jurídico como fonte do 
Direito. Cabe frisar, ademais, que tão sólida se tornou a prática do cheque 
predatado que, recentemente, o Superior Tribunal de Justiça editou a súmula 
370, de fevereiro de 2009, segundo qual “caracteriza dano moral a 
apresentação antecipada de cheque predatado”. 
 
 
4. Conclusão 
 
Pretendemos ter demonstrado, ao longo desta breve dissertação, a 
importância de o jurista parar para refletir sobre as fontes formais do Direito 
Brasileiro contemporâneo, seja ele advogado, consultor, professor ou 
cientista. A grande mudança que o Direito pátrio está vivendo, em razão da 
transformação das fontes, reflete na resolução dos conflitos das partes, nos 
atos jurídicos em geral praticados no país, no pensamento e na formação 
jurídica dos acadêmicos, bem como na Ciência do Direito. 
 
Nosso objetivo, neste trabalho, foi tão somente o de incentivar o debate, o de 
provocar discussões, de contribuir para a evolução do pensamento e da 
prática jurídica. 
 
Aqui, fizemos apenas constatações, as quais se nos afiguram da maior 
relevância e importância. 
 
Esperamos que, de futuro, os civilistas deixarão de tratar do tema das fontes 
do Direito limitando-se a repetir o rol clássico, ou a se apegar ao art. 4º da 
Lei de Introdução. Contamos com a ajuda dos processualistas, mais atentos 
às inovações incorporadas pelo nosso ordenamento, sobretudo as de 
inspiração anglo-saxônica. 
 
 
E que, desse ambicionado debate, possa o nosso Direito chegar mais próximo 
de ser a tão sonhada ars boni et aequi. 
 
 
 
 
Bibliografia 
 
BARBOSA, Rui. Projeto de Código Civil Brasileiro: Trabalhos da 
Comissão Especial do Senado – Vol. I – Parecer do Senador Rui Barbosa 
sobre a redação do Projeto da Câmara dos Deputados. Rio de Janeiro: 
Imprensa Nacional, 1902. P. 24. 
 
BEVILÁQUA, Clóvis. Código Civil dos Estados Unidos do Brasil. Vol. I. 
11. ed. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1956. 
 
____________. Direito das Coisas. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1941. 
 
____________. Direito das Obrigações. 2. ed. Salvador: Livraria 
Magalhães, 1910. 
 
____________. Teoria Geral do Direito Civil. 2. ed. Rio de Janeiro: Livraria 
Francisco Alves, 1929. 
 
ESPÍNOLA, Eduardo. Sistema do Direito Civil Brasileiro. 2. ed. Rio de 
Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1917. 
 
FARIAS, Cristiano Chaves de et ROSENVALD, Nelson. Direito 
Civil: Teoria Geral. 8. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. 
 
FIUZA, César. Direito Civil: Curso Completo. 8. ed. Belo Horizonte: Del 
Rey, 2004. 
 
FREITAS, Teixeira de. Consolidação das Leis Civis. 3. ed. Rio de Janeiro: 
B. L. Garnier, 1876. 
 
GOMES, Orlando. Contratos. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1977.se 
resolvessem os conflitos jurídicos pelos estilos da Corte ou costumes. Por 
estilos da Corte entendiam-se, especialmente, os da Casa da Suplicação, os 
quais, quando concretizados em assentos, tinham força de lei. Tendo 
desaparecido esta forma de produção jurídica, a primeira fonte subsidiária 
do direito pátrio é o costume. […] 
 
Depois dos costumes, seguia-se, na ordem das fontes subsidiárias do direito 
civil pátrio, o direito canônico. Secularizado, porém, o direito pátrio, em 
todas as suas divisões e nos seus fundamentos, desapareceu essa fonte, 
passando o direito canônico a ter apenas interesse histórico. […] 
 
Outra fonte subsidiária do direito civil pátrio, segundo a Ord. 3, 64, era o 
direito romano, que, para ser aplicável à solução das pendências jurídicas, 
devia mostrar-se conforme á boa razão. […]”[6] 
 
Quanto ao Direito das nações modernas, Beviláqua ressaltou a existência do 
Alvará de 30 de janeiro de 1802, título 1º, §3, que tornava o Direito Alemão 
fonte subsidiária da legislação de minas, e o Decreto n. 848, de 11 de outubro 
de 1890, art. 387, 2ª parte, que determinava que as lacunas do Direito 
Processual da União fossem preenchidas pelos “estatutos dos povos cultos e 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn6
especialmente os que regem as relações jurídicas na República dos Estados 
Unidos da America do Norte, os casos de common law e equity”[7]. 
 
Ainda em 1908, Eduardo Espínola publicou seu Sistema do Direito Civil 
Brasileiro. O jurista ressaltou, no proêmio, que o tema do primeiro volume 
do tratado já fora estudado anteriormente pelo Conselheiro Ribas, cujo livro, 
não obstante seu valor, cuidou mais do elemento histórico do que do 
filosófico e social; e esclareceu que não pôde aproveitar o trabalho de 
Beviláqua, publicado no mesmo ano, pois quando teve a ocasião de ler o 
precioso livro, o Sistema já se achava completamente impresso[8]. 
 
Espínola conceituou as fontes do direito objetivo em nota de rodapé, como 
“as formas que ele [direito objetivo] assume em sua realização”[9], 
advertindo que as fontes do direito subjetivo são “os fatos que produzem as 
relações jurídicas entre as pessoas”[10]. Posteriormente, anotou: 
 
“As fontes do direito civil moderno são, porém, as mesmas em quase todos 
os povos. Os estados constitucionais, estabelecendo o princípio da chamada 
divisão dos poderes, têm atribuído a órgãos especiais a função de elaborar as 
normas de conduta das pessoas que estão em seu território. Assim, em tais 
prescrições encontra o direito objetivo sua fonte direta e imediata. Mas, além 
dessas prescrições, há certas regras, que, embora não elaboradas pelos órgãos 
constitucionais competentes, têm contudo sido aplicadas constantemente e 
às vezes coativamente impostas, tal a convicção popular de sua necessidade 
e o reconhecimento de seu valor jurídico, por parte dos órgãos encarregados 
da aplicação do direito. Ainda mais, há certos princípios constituídos pela 
ciência do direito, regras sintéticas a que chegaram os cultores da 
jurisprudência, depois de um estudo analítico das normas de conduta 
adotadas em todos os tempos, os quais, por sua evidencia, muitas vezes 
deixam de ser expressos na lei (stricto sensu) e outras vezes são observados, 
quando ela é omissa.”[11] 
 
 Elenca, então, quais seriam as espécies de fontes do direito objetivo: fonte 
imediata, a lei — “emanação do poder constitucional competente”[12]; 
fontes mediatas, os costumes — “diretamente derivados da consciência 
popular”[13] — e os princípios gerais do direito — “obra da técnica 
jurídica”[14]. Faz uma ressalva em relação ao Direito Romano e ao Direito 
das nações cultas, que só seriam fontes até 31 de dezembro de 1916 (impende 
destacar que o Código Civil entrou em vigor em 1º de janeiro de 1917). 
 
Em 1928, Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda, publica o livro Fontes e 
Evolução do Direito Civil Brasileiro, em que, não obstante o título, não 
tratou do conceito de fontes do Direito, nem das fontes do Direito Civil 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn7
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn8
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn9
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn10
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn11
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn12
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn13
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn14
contemporâneo. No Capítulo II, Pontes de Miranda cuidou das fontes do 
Direito Civil apenas antes do Código Civil, e ensinou: 
 
“No tumultuário direito civil que regia a vida brasileira antes de 1917, o que 
mais concorreu para a relativa uniformidade foi a doutrina de Pascoal José 
de Mello Freire, Coelho da Rocha, Teixeira de Freitas, Lafaiete Rodrigues 
Pereira e outros. A Consolidação das Leis Civis prestou, neste sentido, 
magníficos serviços.”[15] 
 
No Direito anterior ao Código Civil, eram fontes do Direito: 
 
“I – As leis que compreendiam: a) a legislação peninsular antiga, feita pelo 
próprio rei; as cartas de leis, cartas-patentes, ou, simplesmente, cartas; os 
alvarás (temporários, mas às vezes com a declaração de valerem como leis), 
também chamados provisões reais; e as cartas régias a determinadas 
autoridades; b) a legislação propriamente dita: peninsular, até 1822; 
brasileira, daí em diante. […] 
 
II – O Costume (direito costumeiro). Segundo a ordenação do Livro III, 
Título 64, mencionavam-se, de preferência, os estilos da Corte, 
especialmente os Assentos da Casa da Suplicação (Lei de 18 de agosto de 
1769, §14). 
 
No Império, o Supremo Tribunal Federal tinha autoridade para tomar 
assentos, destinados a firmar a interpretação das leis (Decretos de 23 de 
outubro de 1875 e de 10 de março de 1876). Porém, na República, 
arrebentou-se esse funcionamento autoritário da elaboração de lei, com o 
que, certamente, ganhou a evolução social. O Supremo Tribunal Federal 
não teve o poder da antiga Casa da Suplicação ou do Supremo Tribunal do 
Império.[16] 
 
III – O direito canônico e o romano: a) Até 1889, o direito canônico fora 
importante; mas, com a Constituição de 1891, art. 72, §§ 3º a 6º, 28 e 29, 
desaparecera tal fonte, o que não exclui o valor histórico e documentário, 
para interpretação do direito positivo, no que provém dele.[17] 
 
IV – O direito das nações civilizadas, o uso moderno, a que se referiram os 
Estatutos da Universidade de Coimbra (Lei de 28 de agosto de 1772). Era a 
remissão ao direito estrangeiro.[18] 
 
V – Analogia. Diziam as Ordenações Filipinas, Livro III, Título 69, pr.: 
“porque não podem todos os casos ser declarados em lei, procederão os 
julgadores de semelhante a semelhante”. E no Título 81, §2º, dispôs que o 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn15
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn16
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn17
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn18julgado, o “dito nestes casos aqui especificados haverá lugar em quaisquer 
outros semelhantes em que a razão pareça ser igual”.[19] 
 
 
Conclui, finalmente, da seguinte forma: 
 
“Se miudearmos as fontes de direito, teremos que eram as seguintes: 
Ordenações, direito romano, leis, decretos, alvarás e cartas régias, resoluções 
de consultas, assentos da Casa da Suplicação, avisos, portarias, instruções, 
estilos e praxe, forais, concordatas, tratados, leis de outros povos, 
analogia.”[20] 
 
No seu Curso de Direito Civil de 1953, Miguel Maria de Serpa Lopes, 
civilista fluminense da Faculdade Nacional de Direito, conceituou as fontes 
do Direito como segue: 
 
“Pela expressão — fontes do Direito — podem ser entendidos dois aspectos 
especiais da origem do Direito: ou num sentido real, dogmático, isto é, os 
sistemas de fato que dão ao Direito sua própria razão de ser, ou as próprias 
necessidades individuais ou sociais a que o direito é destinado a satisfazer, 
caso em que as fontes se confundem com o próprio Direito; ou então a 
palavra fontes pode significar, mais exata e especialmente para o jurista, os 
órgãos sociais donde imediatamente deriva o Direito. No primeiro caso, as 
fontes do Direito representam o elemento básico de todos os estudos 
jurídicos, de que foram pioneiros Geny e Lambert; no segundo caso, que é o 
que mais interessa ao jurista, constitui uma categoria formal.”[21] 
 
 
Especificamente sobre as fontes formais do Direito, anotou o professor: 
 
“Indubitavelmente, nas fontes formais do Direito, encontramos uma 
primeira categoria composta de fontes preestabelecidas e portadoras de um 
caráter estático. Mas o movimento das sociedades humanas não se contenta 
com essas bases exclusivamente estáticas e pede e exige outras mais 
compatíveis com a sua dinâmica. Assim, as fontes formais do Direito são 
seguidas de outras, que certos juristas denominam de não formais, sendo 
que alguns ainda criam uma terceira categoria, de modo a surgirem três 
espécies de fontes: 1ª) as imediatas ou formais, que são as leis, no seu 
sentido de regras sociais obrigatórias; 2ª) as mediatas ou geradoras, que 
são o costume, a ciência do Direito e a jurisprudência dos tribunais; 3ª) as 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn19
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn20
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn21
fontes subsidiárias do Direito, isto é, os preceitos aplicáveis aos casos não 
previstos. 
 
Alguns juristas, porém, reduzem a classificação a dois graus: fontes diretas 
ou imediatas e fontes mediatas ou indiretas, consoante sejam ou não 
suficientes a produzir a regra jurídica por sua própria força. E isso na 
verdade é exato. Rigorosamente falando, intuitivo se nos afigura que só 
podem ser chamadas de fontes formais do Direito, em seu sentido rigoroso, 
aquelas efetivamente capazes de produzir de pronto a regra jurídica, e como 
tal só a lei e o costume se revestem desses atributos. As demais, mediatas ou 
indiretas, ainda que colaborem bastante para o nascimento da regra 
jurídica, não passam de um dos seus elementos informadores, sem 
possuírem requisitos suficientes para surgirem como a única força 
geradora. Destinam-se a uma melhor compreensão da regra, porém não lhe 
dão existência, desempenhando mais o papel de fontes do conhecimento do 
Direito do que mesmo fontes do Direito.”[22] 
 
Washington de Barros Monteiro, civilista consagrado por sua objetividade, 
em 1956, no Curso de Direito Civil, conceituou as fontes do Direito como 
“os meios pelos quais se formam ou pelos quais se estabelecem as normas 
jurídicas. São os órgãos sociais de que dimana o direito objetivo.”[23] 
 
Na mesma linha de seus contemporâneos, Washington de Barros salientou 
que a mais importante classificação divide as fontes em diretas ou imediatas 
e indiretas ou mediatas: 
 
“Fontes diretas ou imediatas são aquelas que, por si só, pela sua própria 
força, são suficientes para gerar a regra jurídica. São a lei e o costume. 
 
Fontes indiretas ou mediatas são as que não têm tal virtude, porém 
encaminham os espíritos, mais cedo ou mais tarde, à elaboração da norma. 
São a doutrina e a jurisprudência.”[24] 
 
Em 1957, o baiano Orlando Gomes publica sua Introdução ao Direito Civil. 
Após alertar para a falta de consenso, na doutrina, em relação às fontes 
formais do Direito, as conceitua como “forma de expressão do direito 
positivo”. Posto o conceito, somente seriam fontes formais, 
inequivocamente, a lei e o costume. Mas, sobre a força de uma e de outra, 
alertou: 
 
“A formação consuetudinária do Direito, importante ainda hoje, não permite 
se circunscreva à lei o modo de expressão do Direito. Na ordem jurídica dos 
povos ocidentais, a organização do Estado dá às regras jurídicas, por ele 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn22
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn23
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn24
editadas, uma ascendência que diminui o prestígio do costume como fonte 
do Direito, assinando-lhe papel secundário. Como o Estado dispõe do 
monopólio da força coercitiva, pela qual se impõem, ultima ratio, os 
preceitos jurídicos, a lei é a forma capital de expressão do Direito, valendo 
ainda quando contrarie costume de longa tradição.”[25] 
 
No que toca à jurisprudência e aos princípios gerais do Direito, bem como à 
doutrina e à eqüidade — que, segundo Gomes, “outros, menos precisos”[26], 
incluem no rol das fontes —, afirmou o jurista que nenhum é fonte do 
Direito. 
 
 Em 1961, Caio Mário da Silva Pereira brinda a civilística nacional com a 
sua obra Instituições de Direito Civil, em cujo primeiro volume, 
de Introdução ao Direito Civil e Teoria Geral do Direito Civil, discorreu 
sobre as fontes do Direito. Eis o conceito proposto pelo mestre: 
 
“[…] O meio técnico de realização do direito objetivo é o que se denomina 
fonte de direito. 
 
A palavra fonte tem, entretanto, dois sentidos. Quando se trata de investigar, 
cientificamente, a origem histórica de um instituto jurídico, ou de um 
sistema, dá-se o nome de fonte aos monumentos ou documentos onde o 
pesquisador encontra os elementos de seu estudo, e nesta acepção se 
qualifica de fonte histórica. É com este sentido que nos referimos ao Digesto 
ou às Institutas, como fonte de nosso direito. Quando se tem em vista um 
direito atual, a palavra fonte designa as diferentes maneiras de realização 
do direito objetivo (fonte criadora), através das quais se estabelecem e 
materializam as regras jurídicas, às quais o indivíduo se reporta para 
afirmar o seu direito, ou o juiz alude para fundamentar a decisão do litígio 
suscitado entre as partes, e tem o nome de fonte formal.”[27] 
 
 
Tratando das fontes criadoras, divide-as em principal e acessórias. 
Identifica a lei como única fonte principal, e a analogia, os costumes e os 
princípios gerais do Direito, como quer o art. 4º da Lei de Introdução ao 
Código Civil, como fontes acessórias, de invocação subsidiária. 
 
Sílvio Rodrigues, em 1962, não dedicou um capítulo de sua coleção Direito 
Civil ao estudo das fontes do Direito, mas apenas cuidou das lacunas da lei: 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn25
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn26
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn27“Quando a lei é omissa sobre algum problema, ou sobre a solução de 
alguma relação jurídica, diz-se que há uma lacuna da lei. Esta é inevitável 
em qualquer ordenamento jurídico, porque o legislador, por mais sagaz que 
seja, não pode prever todos os casos capazes de aparecer nas relações entre 
os indivíduos. E, mesmo que antevisse todas as relações jurídicas presentes, 
não teria o dom de prever todos os casos que o progresso trará. […] 
 
Não encontrando na lei solução para o litígio apresentado, nem a 
descobrindo por analogia, deve o juiz recorrer aos costumes.”[28] 
 
Por fim, já no século XXI, Cristiano Chaves de Farias e Nelson Rosenvald, 
não inovam ao asseverar: 
 
“Com efeito, é de se concordar com Caio Mário, tomando por base o art. 4º 
da Lei de Introdução ao Código Civil, compreendendo, então, como fontes 
formais do Direito a lei, a analogia, os costumes e os princípios gerais de 
direito. Ademais, há de se atentar para o fato de que as fontes formais se 
subdividem em principal e acessória. Aquela (fonte formal principal) é a lei, 
enquanto as demais são as fontes formais acessórias, também ditas 
secundárias. 
 
Há, ainda, as fontes não formais do direito, que são a doutrina e a 
jurisprudência. Nesse ponto, sem dúvida, não é possível resumir as fontes 
do Direito às fontes formais (leis, costumes, analogia e princípios gerais de 
direito), esquecendo da jurisprudência e da doutrina. É certa e 
incontroversa a influência da orientação científica emanada dos estudiosos 
da ciência, bem como dos caminhos de compreensão abertos pela reiteração 
de decisões pelos nossos tribunais.”[29] 
 
 
3. Fontes do direito brasileiro contemporâneo: conceito na doutrina 
clássica, atualidades e transformações 
 
 
3.1. Fontes informadoras 
 
Da análise feita no capítulo anterior, concluímos que o Sistema Jurídico 
Brasileiro do século XXI vive uma transformação na aplicação das fontes do 
Direito, que requer uma reorganização da classificação destas. Em processo 
semelhante ao vivido nos Estados Unidos no final do século XVIII e início 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn28
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn29
do XIX, no qual os precedentes ingleses, fonte primária do Direito, deram 
lugar ao chamado judge-made law, ou Direito criado pelos juízes, 
promovendo grande transformação social, o Direito Brasileiro do século 
XXI começa a inverter a ordem de aplicação das fontes, passando os 
princípios gerais do Direito e a jurisprudência a se sobrepor à lei. Os 
princípios gerais do Direito e a jurisprudência se tornaram verdadeiras fontes 
informadoras do Direito Positivo, submetendo as demais fontes ao seu 
crivo. 
 
Na busca pela norma jurídica, a análise empírica do Direito Brasileiro 
contemporâneo leva o pesquisador a crer que tal é o caminho a perquirir: 1. 
Quais são os princípios informadores do ramo do Direito de que se trata, e 
qual é a jurisprudência dos tribunais sobre o assunto? 2. Quais os diplomas 
normativos reguladores da matéria? 3. Os princípios informadores e a 
jurisprudência autorizam a existência da norma positiva, ou determinam o 
seu descarte? 
 
Dessa forma, então, será encontrado o Direito, que será ou 
derivado imediatamente dos princípios e da jurisprudência, quando não 
houver regulação legal, ou quando esta houver de ser afastada, ou será fruto 
da combinação dos princípios e da jurisprudência com a norma positiva. 
Quando não houver princípios informadores ou jurisprudência, mas houver 
lei, esta, exercendo papel de fonte subsidiária, dará o Direito. A afirmação 
deve causar espanto, mas é isso mesmo que se afirma: papel de 
fonte subsidiária, conforme se pretenderá demonstrar. 
 
A prática judiciária revela com clareza que o juiz contemporâneo não julga 
desde logo com a lei, mas antes julga a lei, à luz dos princípios gerais do 
Direito aplicáveis ao caso, e, por vezes, ainda, à luz da jurisprudência, e, 
resultado de tal julgamento, opta por aplicá-la ou afastá-la. 
 
Dir-se-á, portanto, que são duas as fontes informadoras do Direito 
contemporâneo: os princípios gerais do Direito, fonte de natureza científica, 
e a jurisprudência dos tribunais, fonte de natureza pragmática. 
 
Por fonte informadora quer se dizer fonte diretriz; fonte capaz de criar 
imediatamente o Direito ou servir como parâmetro para análise da norma 
positiva. 
 
Pede-se licença para se tomar uma lição de Beviláqua e adaptá-la ao tema 
em exame: 
 
 
“Em qualquer dos casos, porém, a inteligência do jurista procura revelar o 
direito latente, não, esforçando-se por descobrir uma pretendida vontade do 
legislador, mas, como belamente disse Paula Baptista, “na harmonia 
orgânica do direito positivo com o científico”.[30] 
 
Ou seja, na busca pelo Direito, o jurista buscará a harmonia do Direito 
científico – expresso nos princípios e na jurisprudência – com o Direito 
positivo, expresso na lei. 
 
 
 Embora não os tenha listado entre as fontes do Direito Civil, o Conselheiro 
Ribas comentou sobre os princípios do Direito, fazendo referência às 
Ordenações Filipinas, Livro 3, Título 14: 
 
“Previdente, determinou a legislação pátria as fontes a que o jurisconsulto 
deve ir pedir as regras complementares do direito, de sorte que para todas as 
possíveis relações jurídicas haja sempre princípios que as dominem.”[31] 
 
Beviláqua, na Teoria de 1908, iniciou o estudo dos princípios com estas 
palavras: 
 
“Se o processo analógico deixa subsistir as falhas da legislação, se nem a lei 
nem o costume providenciam para a hipótese, que se apresenta ao aplicador 
da lei, cumpre recorrer aos princípios gerais do direito, com os quais o 
jurista penetra em um campo mais dilatado, procura apanhar as correntes 
diretoras do pensamento jurídico e canalizá-las para onde a necessidade 
social mostra a insuficiência do direito positivo. É, então, que o direito 
melhor se lhe deve afigurar como a ars boni et aequi.”[32] 
 
Impressionante a visão do inigualável mestre. Embora estudando os 
princípios como fonte subsidiária do Direito, Beviláqua poeticamente provê 
fundamento para o que o Direito de hoje quer que aconteça: um Direito não 
formalista, em que a elevação dos princípios gerais do Direito ao patamar de 
fonte informadora do ordenamento lhe tornará mais próximo de ser a ars 
boni et aequi! 
 
Prosseguindo, o civilista aponta a presença dos princípios gerais no Projeto 
de Código Civil de Nabuco de Araújo, de 1872, art. 82: “quando uma questão 
não puder ser decidia pela letra, motivos e espírito da lei, ou por disposições 
relativas aos casos análogos, devem os juízes recorrer aos princípios gerais 
do direito, até haver providencia legislativa”[33]; no Projeto de Felício dos 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn30
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn31
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn32
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn33
Santos, de 1881, art. 53: “quando uma questão não puder ser decidida pela 
letra, motivos ou espírito da lei, ou por disposições em vigor no Brasil, que 
regulam casos análogos, deve o juiz recorrer aos princípios gerais do direito 
natural, até haver providência legislativa”[34]; no Projeto de Coelho 
Rodrigues, de 1890, art. 38 da Lei Preliminar: “aos casos omissos aplicam-
se as disposições reguladoras dos casos análogos e, na falta destas, os 
princípios que se deduzem do espírito da lei”[35]. Posteriormente,na 
redação do Projeto Beviláqua, de 1899, revisto, na Câmara, por Lacerda de 
Almeida, manteve-se a redação de Coelho Rodrigues, no art. 7º da Lei 
Preliminar, apenas substituindo a expressão final por princípios gerais de 
direito[36]. 
 
Vale anotar que Rui Barbosa, no seu polêmico Parecer de 1902, 
naturalmente, propôs alteração da redação do dispositivo para “aplicam-se 
nos casos omissos as disposições concernentes aos casos análogos e, não as 
havendo, os princípios gerais de direito”[37]. O texto aprovado em 1916, não 
obstante, incluiu vírgulas no texto, que passou a ser: “aplicam-se, aos casos 
omissos, as disposições concernentes aos casos análogos, e, não as havendo, 
os princípios gerais de direito”[38]. 
 
Na obra Código Civil dos Estados Unidos do Brasil, de 1916, Beviláqua 
aprofundou ainda mais seus comentários sobre os princípios. Veja-se o que 
anotou: 
 
“Não se trata, como pretendem alguns, dos princípios gerais do direito 
nacional, mas, sim, dos elementos fundamentais da cultura jurídica humana 
em nossos dias; das idéias e princípios, sobre os quais assenta a concepção 
jurídica dominante; das induções e generalizações da ciência do direito e 
dos preceitos da técnica. 
 
Esses princípios, objetam, são vagos, indeterminados. Mas não é tanto 
assim. Certamente temos de penetrar fundo na filosofia do direito, na 
história da civilização, e ter o espírito aparelhado por uma educação 
jurídica bem cuidada, para empreendermos a investigação dos princípios 
gerais do direito. Mas esse mesmo preparo mental indica a rota a seguir, e 
habilita o jurista a reconhecer a natureza positiva das coisas, elemento 
objetivo, impreciso, mas fecundo da investigação jurídica […].”[39] 
 
 
No Sistema, Espínola cuidou dos princípios gerais do Direito com primor, 
como segue: 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn34
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn35
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn36
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn37
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn38
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn39
 
 
“Os princípios gerais do direito devem ter eficácia em uma legislação 
sistemática. Constituem a síntese da própria legislação, iluminam seus 
preceitos e assim é necessário que os completem e expliquem. […] Os 
princípios gerais do direito deduzem-se de um lado — das leis e dos 
costumes, do sistema jurídico adotado no direito positivo, mas de outro lado 
dependem das construções teóricas dos sábios e das circunstâncias históricas 
que influíram sobre a legislação. […] Não se deve hesitar na afirmação de 
que em matéria de fonte do direito, tanto a obra científica dos juristas como 
a jurisprudência dos tribunais têm sua maior importância na fixação dos 
princípios gerais do direito: a primeira como o estudo histórico e filosófico 
das instituições sociais e a elaboração sintética das regras teóricas que 
dominam certos e determinados campos jurídicos; a segunda com a análise 
dos textos legislativos e das normas consuetudinárias, para a compreensão 
do sistema jurídico adotado e sua correspondência aos princípios 
científicos.”[40] 
 
 
Em outro trecho, explica que: 
 
“Ainda mais, há certos princípios constituídos pela ciência do direito, regras 
sintéticas a que chegaram os cultores da jurisprudência, depois de um estudo 
analítico das normas de conduta adotada em todos os tempos, os quais, por 
sua evidência, muitas vezes deixam de ser expressos na lei (stricto sensu) e 
outras vezes são observados, quando ela é omissa.”[41] 
 
Em mais um caso de visão de futuro, Espínola comenta a relação entre os 
princípios gerais do Direito, a jurisprudência e o conhecimento científico e 
filosófico do Direito. Mesmo escrevendo em uma época de afirmação da lei 
como fonte primária, o professor identificou o fenômeno, o qual viria, no 
século XXI, a lutar contra o formalismo legalista pela posição de fonte 
formal principal do Direito e instrumento de mudança social e realização de 
ideais de justiça. 
 
Serpa Lopes, atendo-se ao conceito romano de jurisprudência — a ciência e 
a prática do Direito[42] — chama os princípios gerais do Direito 
de jurisprudência em sentido estrito. Sobre o caráter conservador e inovador 
dos princípios, aponta: 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn40
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn41
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn42
“A jurisprudência desenvolve uma dupla função; é conservadora e é 
inovadora. Conservadora quando, ante uma lei nova, mantém tudo quanto do 
passado não pareça em antinomia com o Direito presente; inovadora, quando 
indica os defeitos oriundos do envelhecimento de uma lei, mostrando onde 
se impõe uma reforma.”[43] 
 
Apesar da brilhante passagem, que parece prover fundamentos para que hoje 
se afirme a transformação das fontes e o papel de fonte informadora que têm 
os princípios, o professor conclui pelo caráter indireto dos princípios como 
fonte, e, por não cuidar da disciplina destes separadamente da jurisprudência 
dos tribunais, não fornece mais elementos que se possa a este debate 
acrescer. 
 
O professor Washington de Barros, curiosamente, não considerou que os 
princípios gerais do Direito fossem fontes deste, mas sim elementos de 
integração da norma jurídica. Sempre objetivo, afirmou: “nada existe de mais 
tormentoso para o intérprete que a explicação dos princípios gerais de direito, 
não especificados pelo legislador”[44]. De fato, não os conceituou, senão 
mencionou o conceito que extraiu da lição de Beviláqua no Código: “no 
dizer de Clóvis, eles [os princípios gerais do Direito] são os elementos 
fundamentais da cultura jurídica humana em nossos dias”[45]. 
 
Na mesma linha de Washington de Barros, Orlando Gomes não considera 
que sejam os princípios gerais do Direito verdadeiras fontes deste. 
 
“Além da jurisprudência e da doutrina, vêem alguns nos princípios gerais do 
Direito outra de suas fontes formais. A tese não se compadece, porém, com 
o conceito puro de fonte, mas, como tais princípios concorrem para facilitar 
a interpretação e aplicação das leis, sua definição interessa ao estudo das 
fontes do Direito, tendo-se em vista, sobretudo, que explicam e completam 
muitas regras do direito positivo.”[46] 
 
Não chega a conceituá-los, mas comenta: 
 
“Dos princípios gerais do direito, entendidos como diretrizes ou forças 
propulsoras do desenvolvimento da ordem jurídica, devem distinguir-se os 
que, como esclarece F. FERRARA, são extraídos das disposições 
legislativas concretas, e se ampliam em fórmulas gerais, compreensivas de 
novas aplicações. São estes que servem como fonte subsidiária na aplicação 
da lei, pois traduzem o desenvolvimento, mediante o processo lógico e 
analógico, que o intérprete faz das próprias normas componentes da ordem 
legal. Os outros constituem, na expressão do mesmo F. FERRARA, as forças 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn43
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn44
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn45https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn46
animadoras da vida do Estado, em certo momento histórico, sem que possam 
ser considerados como de direito natural, porquanto têm caráter relativo. 
Introduzidos no sistema legislativo como postulados pragmáticos, sua 
importância se revela sob dois aspectos: a) “como normas propulsoras da 
atividade legislativa e administrativa; b) “como normas inspiradoras da 
aplicação do direito vigente”.”[47] 
 
Com todo o respeito que merece o civilista baiano, são, não obstante suas 
considerações, justamente os princípios gerais como postulados 
pragmáticos, normas inspiradoras, que a análise empírica do Direito Pátrio 
contemporâneo revela como fontes informadoras do Direito. 
 
Caio Mário, nas Instituições, concedeu aos princípios gerais do Direito a 
natureza de fontes, ainda que subsidiárias. Explicou: 
 
“Fonte subsidiária, ainda, quando as outras mais diretas falham, ou se 
mostram insuficientes, é a invocação dos princípios gerais de direito, com a 
qual o aplicador investiga o pensamento mais alto da cultura jurídica, 
juntamente com a fixação da orientação geral do pensamento jurídico, e os 
traz ao caso concreto. Perquire o pensamento filosófico sobranceiro ao 
sistema, ou as idéias estruturais do regime, e impõe a regra em que dada 
espécie se contém implícita no organismo jurídico nacional. […] 
 
A invocação dos princípios gerais de direito faz apelo às inspirações mais 
altas da humanidade civilizada, e joga com aquelas regras incorporadas ao 
patrimônio cultural e jurídico da nação, permitindo ao juiz suprir a 
deficiência legislativa com a adoção de um cânon que o legislador não 
chegou a ditar sob a forma de preceito, mas que se contém imanente no 
espírito do sistema jurídico.”[48] 
 
Sílvio Rodrigues, legalista, afirmou, sobre os princípios gerais do Direito, 
que “a expressão é por demais ampla e muitos entendem que é aos princípios 
de direito natural que o legislador manda recorrer”, em referência à Lei de 
Introdução ao Código Civil. 
 
Incerto quanto ao tema, questiona-se: 
 
“Talvez mais valha atribuir-se à expressão um sentido diferente, pois parece-
me que o legislador quer se referir àquelas normas que o orientam na 
elaboração da sistemática jurídica, ou seja, àqueles princípios que, baseados 
na observação sociológica e tendo por escopo regular os interesses 
conflitantes, se impõem, inexoravelmente, como uma necessidade da vida 
do homem em sociedade.”[49] 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn47
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn48
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn49
 
 
Pois bem. Em que pese a excelente lição de tantos civilistas que 
abrilhantaram a doutrina do Direito Civil neste país, verifica-se, 
hodiernamente, que os princípios gerais do Direito ganharam força de fonte 
suprema do direito objetivo, conforme se explicou retro. 
 
À diferença de outras constituições federais, sobretudo a dos Estados Unidos 
da América, a Constituição Federal de 1988, ao fundar a República 
Federativa do Brasil, optou por construir um novo Estado, com o objetivo 
de garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a 
marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; e promover o 
bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer 
outras formas de discriminação (art. 3º), fundada sobre as bases da soberania, 
da cidadania, da dignidade da pessoa humana, dos valores sociais do trabalho 
e da livre iniciativa e do pluralismo político (art. 1º). Para tanto, desceu a 
minúcias e regulou com detalhe diversas matérias não contempladas por 
outras constituições. Iniciou, destarte, a transformação da ordem jurídica 
pátria, ao introduzir no ordenamento uma série de princípios informadores 
da norma constitucional e que devem orientar a construção e aplicação do 
Direito. 
 
Veja-se a brilhante lição do professor César Fiuza: 
 
“[…] os princípios gerais do Direito também são fonte jurígena. Deles […] 
podem ser extraídos outros princípios e regras. Na atualidade, a 
importância dos princípios aumentou. São várias as razões, entre as quais 
destacamos duas, talvez as mais relevantes. A primeira é o próprio Estado 
Democrático de Direito, sob cuja égide vive o Brasil contemporâneo. 
Segundo o paradigma do Estado Democrático de Direito, todo o 
ordenamento se submete aos valores e princípios constitucionais, mesmo 
que não claramente escritos, expressos, desde que se possa extrair da lógica 
e dos valores do sistema constitucional. Outra razão é a revolução por que 
vem passando a hermenêutica, que destaca cada vez mais o trabalho do 
intérprete, que se deve basear cada vez mais nos princípios, a fim de obter 
a justiça no caso concreto, mesmo porque, havendo contradição entre um 
princípio e uma regra, prevalece aquele.”[50] 
 
Em sede de Direito Civil, observe-se o papel dos princípios como fonte 
informadora. 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn50
O Direito dos Contratos é regulado pelo Código Civil e por uma série de leis 
esparsas, fontes criadoras, ressalvada, ainda, a possibilidade de surgimento 
de novos contratos, não tipificados. De todos os ramos do Direito Civil, é 
possivelmente o Direito dos Contratos o que mais depende dos princípios 
gerais, que são indiscutivelmente sua fonte informadora. Haveria contrato se 
não existisse o princípio da autonomia da vontade? 
 
“O princípio da autonomia da vontade particulariza-se no direito contratual 
na liberdade de contratar, auto-regulando interesses. Significa o poder dos 
indivíduos de suscitar, mediante declaração de vontade, efeitos 
reconhecidos e tutelados pela ordem jurídica. […] 
 
O conceito de liberdade de contratar abrange os poderes de auto-regência 
de interesses, de livre discussão das condições contratuais e, por fim de 
escolha do tipo de contrato conveniente à atuação da vontade.”[51] 
 
O que causa espanto é como Orlando Gomes, que tão precisamente discorreu 
sobre o princípio da autonomia da vontade, pôde, na Introdução, negar o 
caráter de fonte formal aos princípios gerais do Direito! 
 
Em seguida ao princípio da autonomia da vontade, o mais importante 
princípio do Direito dos Contratos é o da função social, que chegou mesmo 
a ser esculpido pelo legislador de 2002 no novo Código Civil, art. 421: “a 
liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social 
do contrato”. Toda e qualquer outra fonte criadora do Direito dos Contratos 
está à mercê de tal princípio; tem este o poder de sustentar uma norma ou 
afastá-la do ordenamento. 
 
Beviláqua, mais uma vez revelando-se à frente de seu tempo, já em 1895, 
quando da primeira edição do seu Direito das Obrigações, antes mesmo de 
ser contratado para elaborar o projeto do Código Civil, iniciou o estudo 
da Teoria dos Contratos com a belíssima introdução sobre a função social 
do contrato. Não tendo nenhum outro jurista escrito com tanta emoção sobre 
o princípio, transcrevam-se as palavras do mestre: 
 
“Os grupos primitivos preferiam tomar aquilo que necessitavam, a obtê-lo 
por troca. […] Mas esse reinado de lutas contínuas não poderia perdurar 
indefinidamente, sem que fosse sacrificada a humanidade. Foi preciso achar 
caminhos, por onde de se pudesse salvar a sociabilidade, condição essencial 
para a vida humana. Quem diz vida humana diz implicitamente coexistência 
social. Entre os diversos fatores, que concorreram para esse resultado, 
ocupa lugar saliente o contrato, ou, si preferirem,o comércio, tomada esta 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn51
palavra em uma acepção mais lata do que a que lhe é comumente assinada 
em direito. 
 
Pode-se, portanto, considerar o contrato como um conciliador dos 
interesses colidentes, como um pacificador dos egoísmos em luta. É 
certamente esta a primeira e mais elevada função social do contrato. […] 
 
Individualizado o contrato, obteve outra significação que se veio colocar ao 
lado da primeira. Passou a ser um dos modos de afirmar a individualidade 
humana. Quanto mais variam os contratos, quanto maior é o número de bens 
sobre que eles versam, tanto mais forte e extensa é a personalidade 
individual, tanto mais vasto é o granel de utilidades que ela tem a seu dispor. 
 
Desprendida a personalidade individual da nebulosa do coletivizo primitivo, 
robustecida, enlarguecida, toma o vôo, como uma prole emplumada que 
abandona as calenturas enervantes do ninho, e começa, por meio dos 
contratos, na faina de aproximar as utilidades criadas ou apreendidas das 
necessidades sentidas. E, para realizar essa empresa, vai, progressivamente, 
estendendo o círculo de sua ação. Hoje um povo, amanhã um grupo de 
nações vizinhas, mais tarde um continente e, finalmente, o globo inteiro 
recebem as malhas vigorosas da rede imensa do comércio [contrato].”[52] 
 
Em julgamento de Recurso Especial no Superior Tribunal de Justiça, o 
Ministro Luiz Fux teve ocasião de se pronunciar acerca do princípio da 
função social do contrato, fonte informadora influente no campo das normas 
de interpretação contratual: 
 
“Deveras, consoante cediço, o princípio pacta sunt servanda, a força 
obrigatória dos contratos, porquanto sustentáculo do postulado da 
segurança jurídica, é princípio mitigado, posto sua aplicação prática estar 
condicionada a outros fatores, como, por v.g., a função social, as regras que 
beneficiam o aderente nos contratos de adesão e a onerosidade excessiva. 
 
[…] Hodiernamente, prevalece na interpretação o elemento objetivo, vale 
dizer, o contrato deve ser interpretado segundo os padrões socialmente 
reconhecíveis para aquela modalidade de negócio.”[53] 
 
Veja-se: o aresto afirma uma norma de interpretação contratual, qual seja, a 
de que “o contrato deve ser interpretado segundo os padrões socialmente 
reconhecíveis” para a modalidade de negócio de que trata. Percebe-se, 
claramente, a ação do princípio da função social do contrato como fonte 
informadora de regra de interpretação. Mas, dir-se-á que o princípio é 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn52
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn53
mero método de interpretação, de preenchimento de lacuna, como querem 
os que negam seu caráter de fonte? Conclui-se, forçosamente, que não. 
 
Outro fundamental princípio do Direito dos Contratos é o princípio da boa-
fé, mais um que o legislador de 2002 positivou, no novo Código Civil, art. 
422: “os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do 
contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.” Erige-
se o princípio da boa-fé na lei, e submete-se a existência de toda e qualquer 
fonte criadora do Direito dos Contratos ao princípio. Entretanto, 
naturalmente, o princípio já existia no ordenamento brasileiro à época da 
vigência do Código de 1916, já sendo, portanto, fonte informadora do 
Direito. O próprio Orlando Gomes dele cuidou em Contratos: 
 
“O princípio da boa fé entende mais com a interpretação do contrato do que 
com a estrutura. Por ele se significa que o literal da linguagem não deve 
prevalecer sobre a intenção manifestada na declaração de vontade, ou dela 
inferível. Ademais, subentendem-se, no conteúdo do contrato, proposições 
que decorrem da natureza das obrigações contraídas, ou se impõem por 
força de uso regular e da própria equidade. Admite-se, enfim, que as partes 
aceitaram essas conseqüências, que realmente rejeitariam se as tivessem 
previsto. No caso, pois, a interpretação não se resume à simples apuração 
da intenção das partes. […] 
 
Ao princípio da boa fé empresta-se ainda outro significado. Para traduzir o 
interesse social de segurança das relações jurídicas diz-se, como está 
expresso no Código Civil alemão, que as partes devem agir com lealdade e 
confiança recíprocas. Numa palavra, devem proceder com boa fé. Indo mais 
adiante, aventa-se a idéia de que entre o credor e o devedor é necessário a 
colaboração, um ajudando o outro na execução do contrato.”[54] 
 
É verdade que o conceito de princípio da boa-fé evoluiu desde os escritos de 
Orlando Gomes, mas o texto cumpre o papel de revelar o caráter de fonte do 
Direito exercido pelo princípio, independentemente de estar positivado. 
 
Em outro julgado, o Ministro Luiz Fux menciona o princípio da boa-fé: 
 
“A abusividade do Código de Defesa do Consumidor pressupõe cobrança 
ilícita, excessiva, que possibilite vantagem desproporcional e incompatível 
com os princípios da boa-fé e da equidade, inocorrentes no caso sub 
judice.”[55] 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn54
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn55
Não se está a afirmar a submissão do instituto previsto no Código de Defesa 
do Consumidor, fonte criadora do Direito, aos ditames do princípio da boa-
fé, como fonte informadora, superior à lei? 
 
Passe-se ao campo do Direito das Coisas. O direito de propriedade está 
formalizado no Direito Brasileiro em duas fontes: na Constituição Federal, 
no caput do art. 5º; e no Código Civil, no art. 1228, o qual lê: “o proprietário 
tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do 
poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha”. Não obstante, o 
inc. XXIII do referido art. 5º da Constituição Federal submete a propriedade 
ao princípio da função social: “a propriedade atenderá a sua função social”, 
o qual é repetido no §1º do mencionado dispositivo do Código Civil: “o 
direito de propriedade deve ser exercido em consonância com as suas 
finalidades econômicas e sociais e de modo que sejam preservados, de 
conformidade com o estabelecido em lei especial, a flora, a fauna, as belezas 
naturais, o equilíbrio ecológico e o patrimônio histórico e artístico, bem 
como evitada a poluição do ar e das águas”. 
 
Antes de aparecer em texto normativo, o princípio já vivia no Direito das 
Coisas, conforme se depreende da seguinte lição de Beviláqua (mais uma 
vez): 
 
“O verdadeiro fundamento da propriedade é o instinto de conservação, que 
leva a criatura humana a se apoderar das coisas, que lhe servem, a princípio, 
para satisfazer a fome, e, depois, as múltiplas necessidades de ordem física 
e moral. […] Com o desenvolvimento da sociedade e sua organização 
jurídica, o respeito à propriedade alheia se afirma; e a propriedade perde o 
caráter egoístico originário. […] O interesse social, quando em conflito com 
o individual, deve prevalecer, porque a sociedade é o meio, em que o homem 
vive; não há homem fora da sociedade. Mas, também, o individuo é elemento 
constitutivo da sociedade; se esta lhe tira o estímulo da atividade, não tendo 
em conta os interesses dele, não poderá ser uma sociedade progressiva, seja 
do ponto de vista econômico, seja, e principalmente, do ponto de vista 
moral.”[56] 
 
Mais adiante: 
 
“Em uma palavra, é necessário continuar a reconhecer a propriedade do 
individuo sobre a terra, com as limitações, que, racional e justamente, exigir 
a convivência humana, contanto que essas restrições não conturbem ou 
anulem oestímulo da atividade individual, que é força indispensável ao bem 
estar e ao progresso da coletividade.”[57] 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn56
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn57
 
 
Orlando Gomes, curiosamente, em Direitos Reais, reconheceu que a fonte 
de certas limitações ao direito de propriedade são certos princípios gerais do 
Direito[58]: 
 
“A aplicação de certos princípios jurídicos de incidência sobre todo o 
território dos direitos subjetivos apresenta-se sob aspectos particularmente 
interessantes quando apanha o direito de propriedade.”[59] 
 
Ora, está ou não o professor a indicar o caráter de fonte formal dos 
princípios? 
 
A respeito da função social da propriedade, veja-se a jurisprudência do 
Supremo Tribunal Federal: 
 
“É inconstitucional a lei municipal que tenha estabelecido, antes da Emenda 
Constitucional 29/2000, alíquotas progressivas para o IPTU, salvo se 
destinada a assegurar o cumprimento da função social da propriedade urbana 
(Súmula 668 do STF).”[60] 
 
Mais uma vez, a pergunta: é o princípio da função social da propriedade mero 
método de interpretação, de preenchimento de lacuna da norma, ou fonte 
informadora do Direito, que condiciona a produção das normas sobre a 
matéria? 
 
Ainda em sede de Direito das Coisas, encontraremos em Teixeira de Freitas, 
na sua Consolidação das Leis Civis, referência a um princípio de caráter 
inegavelmente informador: 
 
“Quando as legislações não proíbem expressamente a criação de outros 
direitos reais, além dos que elas designam, e regulam; a doutrina, e a 
jurisprudência, inclinam-se, por deferência ao principio da liberdade das 
convenções, a admitir combinações de todo gênero, uma vez que nada 
tenham de contrário à ordem publica”.[61] 
 
O texto transcrito, original da primeira edição da obra, que é de 1855, revela 
que Teixeira de Freitas já dava notícia de princípios gerais do Direito criando 
o Direito desde meados do século XIX! Como poderia alguém se aventurar 
a negar o caráter de fonte encontrado na lição do grande ícone do Direito 
Civil Brasileiro? Como se poderia dizer que o referido princípio da liberdade 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn58
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn59
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn60
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn61
das convenções tinha caráter meramente interpretativo, ou de recurso de 
preenchimento de lacuna? Não. A força do princípio, segundo demonstra o 
jurista, era de impedir que se repelissem combinações de qualquer gênero, 
criadoras de novos direitos reais, sob o argumento de não terem sido tratadas 
em lei. E mais: o princípio não se encontrava em qualquer texto normativo; 
nascera de construção científica, filho da doutrina e da jurisprudência. 
 
Para alargar os horizontes, cumpre analisar alguns exemplos de princípios 
em sede de Direito Constitucional. Quem, nos dias atuais, negaria força ao 
princípio da proporcionalidade, ou a princípio da razoabilidade? O Direito 
Constitucional os inclui no rol dos princípios constitucionais, não obstante 
não estarem escritos em lugar algum da Constituição Federal. É que se 
entende que tais princípios decorrem de uma interpretação sistemática do 
ordenamento. 
 
Vejam-se os seguintes julgados do Supremo Tribunal Federal, todos usando 
o princípio da proporcionalidade como fonte formal principal do Direito. Da 
lavra do Ministro Ricardo Lewandoswski: 
 
“Pelo princípio da proporcionalidade, há que ser guardada correlação 
entre o número de cargos efetivos e em comissão, de maneira que exista 
estrutura para atuação do Poder Legislativo local.”[62] 
 
Outro, este do Ministro Joaquim Barbosa: 
 
“A exigência de depósito ou arrolamento prévio de bens e direitos como 
condição de admissibilidade de recurso administrativo constitui obstáculo 
sério (e intransponível, para consideráveis parcelas da população) ao 
exercício do direito de petição (CF, art. 5º, XXXIV), além de caracterizar 
ofensa ao princípio do contraditório (CF, art. 5º, LV). A exigência de 
depósito ou arrolamento prévio de bens e direitos pode converter-se, na 
prática, em determinadas situações, em supressão do direito de recorrer, 
constituindo-se, assim, em nítida violação ao princípio da proporcionalidade. 
Ação direta julgada procedente para declarar a inconstitucionalidade do art. 
32 da MP 1699-41 – posteriormente convertida na lei 10.522/2002 -, que deu 
nova redação ao art. 33, § 2º, do Decreto 70.235/72.”[63] 
 
 Versando o princípio da razoabilidade, o Ministro Eros Grau: 
 
“O sigilo bancário, espécie de direito à privacidade protegido pela 
Constituição de 1988, não é absoluto, pois deve ceder diante dos interesses 
público, social e da Justiça. Assim, deve ceder também na forma e com 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn62
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn63
observância de procedimento legal e com respeito ao princípio da 
razoabilidade.”[64] 
 
Deve-se, por fim, ressaltar que, não obstante se haver percebido o novo papel 
dos princípios gerais do Direito Brasileiro na fase atual de sua evolução, tal 
não é um julgamento de mérito, senão uma constatação. 
 
Inicialmente, parece, é verdade que a elevação dos princípios gerais do 
Direito à categoria de fonte formal principal, informadora do direito objetivo, 
é, realmente, para expandir o raciocínio de Beviláqua, a mais capaz de levar 
o Direito a ser a ars boni et aequi. Não obstante, a matéria é delicada ao 
extremo, e é forçoso que o jurista faça um estudo bastante cuidadoso dos 
princípios gerais do Direito antes de neles buscar o direito objetivo. Em 
primeiro lugar, para que se dê a cada princípio o conteúdo mais adequado, e, 
em segundo lugar, para que se saiba sopesar princípios que pareçam 
conflitantes. 
 
 
3.1.2. O papel da doutrina 
 
 
Neste trabalho, perfilha-se o pensamento daqueles que não vêem 
na doutrina uma fonte formal do Direito. Raciocinando-se tecnicamente, 
parece possível afirmar que a doutrina é fonte inesgotável da Ciência do 
Direito, mas não do direito objetivo. E, por tal razão, por ser o manancial 
científico e filosófico do Direito, desempenha um papel de enorme 
importância ao ditar o conteúdo dos princípios gerais do Direito e sua 
evolução no tempo. 
 
Leia-se Beviláqua, a respeito: 
 
“Entre nós, esta fonte é abundante, porque é, antes, nos compêndios e 
tratados que se procura a regra jurídica, do que nas leis difusas, que se têm 
vindo acumulando, por séculos, em vasta coleção de difícil consulta. O 
escritor apresenta uma interpretação da lei ou uma solução para um caso não 
previsto na lei, e vê o seu pensamento, aceito pelos contemporâneos, fixar-
se na doutrina, que irá inspirar os julgamentos dos tribunais.”[65] 
 
 
3.1.3. Jurisprudência 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn64
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn65
 
 
A jurisprudência, segundo a classificação apresentada neste trabalho, é a 
segunda fonte informadora do direito objetivo. 
 
Orlando Gomes tratou muito bem do conceito de jurisprudência: 
 
“Paratomar partido no debate, é necessário, primeiramente, precisar o 
sentido da palavra jurisprudência. Empregada como sinônimo de Ciência do 
Direito, tem, contudo, na atualidade, significado técnico mais restrito. Por 
jurisprudência entende-se o conjunto de decisões dos tribunais sobre as 
matérias de sua competência ou uma série de julgados similares sobre a 
mesma matéria: rerum perpetuo similiter judicatorum auctoritas. Forma-se 
a jurisprudência mediante o labor interpretativo dos tribunais, no exercício 
de sua função específica. Interpretando e aplicando o direito positivo, é 
irrecusável a importância do papel dos tribunais na formação do Direito, 
sobretudo porque se lhe reconhece, modernamente, o poder de preencher as 
lacunas do ordenamento jurídico no julgamento de casos concretos.”[66] 
 
Lamentavelmente, mesmo após tão brilhante exposição, o mestre baiano 
negou o caráter de fonte do Direito à jurisprudência, como se verá infra. 
 
Curiosamente, o Direito Brasileiro está revivendo um momento passado. É 
que, no Direito anterior à vigência do Código Beviláqua, vigoravam as 
Ordenações Filipinas, cujo Livro 3, Título 64, lia: 
 
“Como se julgarão os casos, que não forem determinados por as 
Ordenações (3). 
 
Quando algum caso for trazido em prática, que seja determinado por 
alguma Lei de nossos Reinos, ou estilo de nossa Corte (4), ou costume em 
os ditos Reinos, ou em cada uma parte deles longamente usado, e tal, que 
por Direito se deva guardar, seja por eles julgado, sem embargo do que as 
Leis Imperiais acerca do dito caso de outra maneira dispõem; porque, onde 
a Lei, estilo, ou costume de nossos Reinos dispõem, cessem todas as outras 
leis, e Direito. 
 
(3) Vide nos aditamentos a este liv. a L. de 13 de Agosto de 1769, 
denominada da boa razão pelos jurisconsultos. 
 
(4) Estilo de nossa Corte, i.e., os da Casa da Suplicação. […] 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn66
 
 
Os estilos da Corte sendo bons e legitimamente estabelecidos constituem lei, 
e se devem observar como tal. 
 
Hoje somente são havidos como tais os que houverem estabelecidos e 
aprovados por assento tomado em Mesa grande, na forma da C. R. de 7 de 
Junho de 1705 § 8 e L. de 18 de Agosto de 1789 § 14.”[67] 
 
Ou seja, no Direito anterior à vigência do Código Civil de 1916, a 
jurisprudência era fonte formal do Direito Pátrio! Interpretando as 
Ordenações, quanto à inexistência de uma Casa da Suplicação no Brasil (esta 
era em Portugal), explicou o Conselheiro Ribas: 
 
“A casa da suplicação não existe entre nós; mas, ao supremo tribunal de 
justiça compete tomar assentos, para a inteligência das leis civis, comerciais 
e criminais, quando na execução delas ocorrerem dúvidas manifestadas por 
julgamentos divergentes havidos no mesmo Tribunal, Relações e Juízos de 
1ª instância nas causas que cabem na sua alçada; e assim mais indicar ao 
governo os pontos sobre que a experiência tiver mostrado vício e 
insuficiência da legislação, e as suas lacunas e incoerências, afim de que ele 
proponha ao corpo legislativo as convenientes reformas.” 
 
Ora, vê-se que, no Brasil independente, função análoga à da Casa da 
Suplicação era a do Supremo Tribunal de Justiça do Império, criado pelo art. 
163 da Constituição Imperial de 1824[68], que tinha igualmente o poder de 
tomar assentos. 
 
“O Supremo Tribunal da organização judiciária monárquica, não existindo 
mais a casa da Suplicação, tinha competência para tomar assentos destinados 
a firmar a inteligência das leis civis, comerciais e criminais, quando 
ocorressem dúvidas na execução delas (decs. de 23 de Out. de 1875 e 10 de 
Março de 1876). O Supremo Tribunal Federal não tem essa atribuição.”[69] 
 
A mesma Constituição Imperial previa, no art. 179, XVIII, que “organizar-
se-á quanto antes um Código Civil, e Criminal, fundado nas solidas bases da 
Justiça, e Equidade”. O Código, como se sabe, só veio a surgir em 1916. Na 
defesa de seu projeto, de 1899, Beviláqua anotou: 
 
“Se há necessidade claramente acusada pela consciência jurídica entre nós, 
é, creio eu, a da codificação das leis civis. Testemunhos irrecusáveis desse 
estado de espírito se nos deparam nos livros de doutrina que assinalam, 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn67
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn68
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn69
deplorando, a dissonância entre o instrumento legislativo de que se servem e 
a expansão científica que os deslumbra; na Jurisprudência que se esforça por 
adaptar vetustos preceitos, criados por uma organização social diferente, a 
novas formas de relações jurídicas; nas insistentes tentativas, por parte dos 
poderes públicos, de compendiar num todo sistemático a legislação civil, tão 
vasta e tão complexa; na aprovação geral com que têm os competentes 
secundado esses esforços, infelizmente até hoje infrutíferos.”[70] 
 
Repare-se bem no que está dito sobre o papel da jurisprudência na passagem 
do mestre. E bem por pensar assim é que, no art. 8º da Lei de Introdução do 
seu Projeto, estabeleceu que “uma lei só pode ser derrogada ou revogada por 
outra, mas a jurisprudência assentada e a praxe forense podem suprir as suas 
lacunas, na conformidade dos arts. 12 e 13”[71]. Lamentável que a brilhante 
disposição tenha sido suprimida do Projeto Revisto encaminhado à Câmara. 
 
Em relação ao Supremo Tribunal Federal, criado pelo art. 55 da Constituição 
Republicana de 1891, como visto retro, na citação de Beviláqua, não lhe foi 
concedida a atribuição de tomar assentos. Não obstante, o §2º do art. 59 
determinava que “nos casos em que houver de aplicar leis dos Estados, a 
Justiça Federal consultará a jurisprudência dos Tribunais locais, e vice-versa, 
as Justiças dos Estados consultarão a jurisprudência dos Tribunais Federais, 
quando houverem de interpretar leis da União.” 
 
Muitos desses preceitos foram inspirados na Common Law. O referido 
dispositivo da Constituição de 1891 parece fruto de um debate realizado, à 
época, nos Estados Unidos, exatamente sobre se deveria a Justiça Federal 
utilizar precedentes das Justiças Estaduais ou não. Verifica-se que, ao final 
do século XIX e início do século XX, também os juristas de Civil 
Law questionavam-se sobre o papel do juiz na aplicação do direito objetivo. 
 
No Sistema, Eduardo Espínola cuidou muito bem da questão: 
 
“a) é lícito ao juiz deixar de aplicar a lei que já não corresponde às 
necessidades sociais e se opõe à instituição e desenvolvimento de relações 
jurídicas vivamente reclamadas pelo comércio social? b) pode o juiz criar a 
norma jurídica para suprir as lacunas insolúveis da lei? […] 
 
A doutrina mais recente, aceita por grande número de civilistas de 
responsabilidade e destinada a romper as resistências de muitos outros, é 
francamente favorável a uma solução afirmativa. Poderia parecer que, para 
adotá-la, fosse mister ultrapassar os limites da interpretação.”[72] 
 
 
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn70
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn71
https://ambitojuridico.com.br/cadernos/direito-civil/fontes-do-direito-brasileiro-historico-atualidades-e-transformacoes/#_ftn72
Mais adiante: 
 
“A moderna escola do “direito livre” vai, nesse ponto, além do razoável. 
Abstraindo, porém, das dissertações puramente teóricas, escritores 
moderados […] não hesitam em reconhecer a utilidade prática de se 
interpretarem as normas jurídicas