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Processo Penal II Prof. Me. Gustavo Antonio Nelson Baldan Processo Penal II Competência em Razão da Matéria (natureza da infração ou ratione materiae) – Art. 74, CPP Art. 74. A competência pela natureza da infração será regulada pelas leis de organização judiciária, salvo a competência privativa do Tribunal do Júri. § 1º Compete ao Tribunal do Júri o julgamento dos crimes previstos nos arts. 121, §§ 1º e 2º, 122, parágrafo único, 123, 124, 125, 126 e 127 do Código Penal, consumados ou tentados. § 2º Se, iniciado o processo perante um juiz, houver desclassificação para infração da competência de outro, a este será remetido o processo, salvo se mais graduada for a jurisdição do primeiro, que, em tal caso, terá sua competência prorrogada. § 3º Se o juiz da pronúncia desclassificar a infração para outra atribuída à competência de juiz singular, observar-se-á o disposto no art. 410; mas, se a desclassificação for feita pelo próprio Tribunal do Júri, a seu presidente caberá proferir a sentença (art. 492, § 2o). Processo Penal II Quando a natureza da infração corresponder à competência em razão da matéria, a jurisdição se imporá por critérios constitucionais, como é o caso do Tribunal do Júri, nos crimes dolosos contra a vida, da Justiça Militar para julgar os crimes militares, entre outros De outro lado, a competência por matéria fixada nas leis de organização judiciária constitui critério de competência absoluta. Ex: varas especializadas. No entanto, e como não poderia deixar de ser, no concurso entre a competência especializada das leis de organização judiciária e aquela fixada na Constituição prevalecerá a dessa última. Exemplo: na conexão entre diversas infrações, incluindo crime doloso contra a vida, prevalecerá a competência do Júri. Nesse sentido, a Súmula Vinculante 45: A competência constitucional do Tribunal do Júri prevalece sobre o foro por prerrogativa de função estabelecido exclusivamente pela Constituição Estadual. Processo Penal II Tribunal do Júri – art. 5º inciso XXVIII, CF O Tribunal do Júri possui competência para julgar os crimes dolosos contra a vida, tentados ou consumados; O latrocínio (roubo com resultado morte), por ser crime contra o patrimônio, é da competência do juízo singular (Súmula 603 do STF); O mesmo ocorrendo com o crime de extorsão qualificada pelo resultado morte (STF, RE 97.556); Competem ao Júri Federal, presidido por juiz federal, os crimes de competência da justiça federal e que devam ser julgados pelo tribunal popular, tais como: homicídio praticado a bordo de embarcação privada, de procedência estrangeira, em porto nacional; crime contra a vida de funcionário público federal no exercício da profissão Processo Penal II Desclassificação Juízo Singular: Se, iniciado o processo perante um juiz, houver desclassificação para infração da competência de outro, a este será remetido o processo, salvo se mais graduada for a jurisdição do primeiro, que, em tal caso, terá sua competência prorrogada (inaplicabilidade: por inexistir hierarquia entre juízes; competência ratione materiae é improrrogável). Júri: Se o juiz da pronúncia desclassificar a infração para outra atribuída à competência de juiz singular, observar-se-á o disposto no art. 410 (atual 419: Quando o juiz se convencer, em discordância com a acusação, da existência de crime diverso dos referidos no § 1o do art. 74 deste Código e não for competente para o julgamento, remeterá os autos ao juiz que o seja); mas, se a desclassificação for feita pelo próprio Tribunal do Júri, a seu presidente caberá proferir a sentença (art. 492, § 2o). Processo Penal II Competência criminal da Justiça Federal – art. 109, CF A competência da Justiça Federal é sempre taxativa e expressa, fazendo com que a competência da Justiça Estadual seja residual. Assim, o que não for de competência de nenhuma Justiça Especializada ou da Justiça Federal, será de competência da Justiça Estadual; A competência federal é fixada “a partir da busca de um dimensionamento mais ou menos preciso das questões que poderiam afetar, direta ou indiretamente, os interesses federais ou nacionais” (Pacelli, 2020) Processo Penal II Crimes políticos: estão previstos nos arts. 359-I à 359-T, do Código Penal. Foram lá introduzidos pela Lei nº 14.197/21, que revogou a Lei nº 7.170/83 (Lei Segurança Nacional); ATENÇÃO: o Capítulo III se refere expressamente ao processo eleitoral. Nesse sentido, o crime de interrupção do processo eleitoral (art. 359-N) claramente se encaixa na questão e, portanto, são matéria da Justiça Eleitoral. No caso do crime de violência política (art. 359-P), poder-se-ia cindir a sua competência com relação a quais direitos políticos estão em jogo: quando se tratar de ser votado e votar (em eleições, plebiscitos ou referendos), continua a Justiça Eleitoral a ser competente; nas hipóteses de lei de iniciativa popular e ação popular, parece que o caráter político não eleitoral se sobressai, salvo se for cometido de forma conexa a outro crime eleitoral. Processo Penal II Crimes contra a União (lato sensu): crimes que afetam bens (patrimônio federal), serviços (atividade do ente estatal) ou interesses (interesse federal: estará configurado quando uma norma autorizar a gestão, administração ou fiscalização de uma atividade ou serviço por um órgão da administração federal; interesse nacional: não se relaciona com o interesse da União, mas do próprio Estado brasileiro, tal como previsão em pactos internacionais) da União, suas autarquias e empresas públicas; Não abrange sociedade de economia mista – Súmula 42 STJ (Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar as causas cíveis em que é parte sociedade de economia mista e os crimes praticados em seu detrimento) e 556 STF (É competente a Justiça Comum para julgar as causas em que é parte sociedade de economia mista); Ressalva-se a competência da justiça eleitoral e justiça militar; Processo Penal II Crimes previstos em tratado ou convenção internacional, quando, iniciada a execução no País, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, ou reciprocamente. Crime previsto em documento internacional + internacionalidade Incidente de Deslocamento de Competência (federalização de crimes): as causas relativas a direitos humanos a que se refere o § 5º do art. 109: Art. 109, § 5º, CF: Nas hipóteses de grave violação de direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal Processo Penal II Crimes cometidos a bordo de navios ou aeronaves – Ressalva-se apenas a competência da Justiça Militar; A definição do que seja aeronave está no art. 106 da Lei nº 7.565/86 (Código Brasileiro de Aeronáutica):CArt. 106. Considera-se aeronave todo aparelho manobrável em voo, que possa sustentar-se e circular no espaço aéreo, mediante reações aerodinâmicas, apto a transportar pessoas ou coisas. Aeronave voando ou parada: “A competência será da Justiça Federal mesmo que o crime seja cometido a bordo de uma aeronave pousada. Não é necessário que a aeronave esteja em movimento: É da competência da Justiça Federal processar e julgar delitos cometidos a bordo de aeronaves, nos termos do inciso IX do art. 109 da CF/88, não influenciando, para fins de competência, o fato de a aeronave estar em solo ou sobrevoando. STJ. 3ª Seção. CC 143.343/MS, Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, julgado em 23/11/2016. Processo Penal II Conceito de navio: embarcação de grande porte. “Segundo a jurisprudência, quando o art. 109, IX, da CF/88 fala em “navio”, quer se referir a “embarcações de grande porte”. Assim, se o crime for cometido a bordo de um pequeno barco, lancha, veleiro etc., ainda que em navegação, a competência não será da Justiça Federal: (...) A expressão"a bordo de navio", constante do art. 109, inciso IX, da CF/88, significa interior de embarcação de grande porte. 2. Realizando-se uma interpretação teleológica da locução, tem-se que a norma visa abranger as hipóteses em que tripulantes e passageiros, pelo potencial marítimo do navio, possam ser deslocados para águas territoriais internacionais. (...) STJ. 3ª Seção. CC 43.404/SP, Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, julgado em 14/02/2005. Processo Penal II Navio em situação de deslocamento internacional ou em situação de potencial deslocamento. Para que o crime cometido a bordo de navio seja de competência da Justiça Federal, é necessário que o navio esteja em deslocamento internacional ou em situação de potencial deslocamento. Se o navio estiver atracado e não se encontrar em potencial situação de deslocamento, a competência será da Justiça Estadual. O que é situação de potencial deslocamento? Trata-se de conceito que deverá ser avaliado no caso concreto. Ex1: se o navio (um transatlântico) se encontrava parado no porto para reabastecimento e, após este ser concluído, quando estava preparado para zarpar, ocorreu um delito em seu interior, pode-se entender que ele está em situação de potencial deslocamento internacional, sendo este delito de competência da Justiça Federal. Ex2: se o navio estiver no estaleiro, para conserto, sem previsão de nova viagem, não se pode dizer que está em potencial deslocamento, sendo de competência da Justiça Estadual o julgamento de eventual delito ali cometido. A embarcação deve estar apta, portanto, a realizar viagens internacionais. Processo Penal II (...) 1. A Constituição Federal, em seu art. 109, IX, expressamente aponta a competência da Justiça Federal para processar e julgar "os crimes cometidos a bordo de navios ou aeronaves, ressalvada a competência da Justiça Militar". 2. Em razão da imprecisão do termo "navio" utilizado no referido dispositivo constitucional, a doutrina e a jurisprudência construíram o entendimento de que "navio" seria embarcação de grande porte o que, evidentemente, excluiria a competência para processar e julgar crimes cometidos a bordo de outros tipos de embarcações, isto é, aqueles que não tivessem tamanho e autonomia consideráveis que pudessem ser deslocados para águas internacionais. 3. Restringindo-se ainda mais o alcance do termo "navio", previsto no art. 109, IX, da Constituição, a interpretação que se dá ao referido dispositivo deve agregar outro aspecto, a saber, que ela se encontre em situação de deslocamento internacional ou em situação de potencial deslocamento. 4. Os tripulantes do navio que se beneficiavam da utilização de centrais telefônicas clandestinas, para realizar chamadas internacionais, pertenciam a embarcação que estava em trânsito no Porto de Paranaguá, o que caracteriza, sem dúvida, situação de potencial deslocamento. Assim, a competência, vista sob esse viés, é da Justiça Federal. (...) STJ. 3ª Seção. CC 118.503/PR, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, julgado em 22/04/2015. Processo Penal II Crimes contra a organização do trabalho e, nos casos determinados por lei, contra o sistema financeiro e a ordem econômico-financeira; Crimes relacionados à disputa sobre direitos indígenas; Crimes cometidos a bordo de navios ou aeronaves – Ressalva-se apenas a competência da Justiça Militar; Crimes de ingresso ou permanência irregular de estrangeiro; Tráfico Internacional de Drogas (art. 70, Lei nº 11.343/06). Processo Penal II ATENÇÃO A Justiça Federal não possui competência para julgar contravenções penais (Decreto-lei 3688/41), independentemente de estarem relacionadas com as matérias de sua competência. Processo Penal I ATENÇÃO: tal ponto já foi objeto de bancas de concursos (FUNCAB - 2013 - PC-ES - Delegado de Polícia) Quanto à existência de conexão entre o crime de contrabando e contravenção penal, pode-se afirmar: a) Compete ao Juízo Federal processar e julgar o crime de contrabando e contravenção penal conexa. b) Compete ao Juízo Estadual processar e julgar o crime de contrabando e contravenção penal conexa. c) Compete a Justiça Federal Criminal, na vigência da Constituição de 1988, o processo por contravenção penal, ainda que praticada em detrimento de bens, serviços ou interesse da União ou de suas entidades. d) Não cabe desmembramento, em face da competência constitucional. e) Compete ao Juizado Especial Criminal processar e julgar a conduta relacionada à contravenção, remanescendo a competência do Juízo Federal Criminal para o processo e julgamento do crime de contrabando. Processo Penal II Justiça Eleitoral Como se sabe, a Constituição Federal, ao tratar dos Tribunais e Juízes Eleitorais, não dispôs expressamente acerca da competência da Justiça Eleitoral, delegando-se à lei complementar a sua organização e a sua competência (art. 121: Lei complementar disporá sobre a organização e competência dos tribunais, dos juízes de direito e das juntas eleitorais); Como esta lei complementar nunca foi elaborada, tem-se como recepcionado o Código Eleitoral (Lei 4.737/65) que, no artigo 35, II, estabelece competir aos juízes eleitorais "processar e julgar os crimes eleitorais e os comuns que lhe forem conexos, ressalvada a competência originária do Tribunal Superior e dos Tribunais Regionais". Processo Penal II Justiça Militar – arts. 124 e 125, § 4º, CF Estabelece o art. 124, CF, que à Justiça Militar da União compete processar e julgar os crimes militares definidos em lei; E, o art. 125, § 4º, CF, que compete à Justiça Militar dos Estados processar e julgar os militares dos Estados, nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do júri quando a vítima for civil; A Lei nº 13.491/17, alterou a redação do inciso II, do art. 9º, do COM, ampliando consideravelmente a competência da Justiça Militar; Processo Penal II A redação original do dispositivo, previa que crime militar eram apenas os previstos no Código Penal Militar, embora também o fossem com igual definição na lei penal comum; Assim, por exemplo, o furto é crime militar, com definição expressa no art. 240, CPM (tal como o art. 155, CP). Todavia, o aborto, por exemplo, não era considerado crime militar, pois não havia previsão expressa no CPM, ainda que praticado por militar, contra militar e em um hospital militar; Com o advento da Lei nº 13.491/17, o inciso II, do art. 9º, do CPM, passou a dispor que são considerados crimes militares os crimes previstos no Código Penal Militar e os previstos na legislação penal; Processo Penal II Assim, no exemplo anteriormente citado, relativo ao delito de aborto, ele passou a ser julgado pela Justiça Militar, já que previsto na “legislação penal” (arts. 124 a 128, CP). Bastará, portanto, o preenchimento das condições previstas nas alíneas do inciso II, do art. 9º, CPM, como estar o militar em atividade (alínea a) ou em lugar sujeito à administração militar (alínea b), por exemplo; É importante ressaltar que a Justiça Militar não processará contravenções penais (Decreto-lei 3688/41) praticadas por militares em quaisquer situações, considerando que o art. 9º, do Código Penal Militar fia, claramente, quais são os crimes militares, bem como que a Constituição Federal estabelece que compete à Justiça Militar o processo e julgamento dos crimes militares definidos em lei (art. 124, caput, e § 4º do art. 125); Processo Penal II Justiça Militar e Crimes Dolosos contra a Vida O art. 125, § 4º, CF, que compete à Justiça Militar dos Estados processar e julgar os militares dos Estados, nos crimes militares definidos em lei e as ações judiciais contra atos disciplinares militares, ressalvada a competência do júri quando a vítima for civil; Não há dispositivo semelhante à Justiça Militar da União; Adveio a Lei nº 13.491/17, fixando os §§ 1º e 2º ao art. 9º, do CPM: dispondo que os crimes dolosos contra a vida cometidos por militares contra civis serão de competência do Tribunal do Júri (§ 1º), ao passo queos crimes dolosos contra a vida cometidos por militares das Forças Armadas (Aeronáutica, Exército e Marinha) contra civis serão de competência da Justiça Militar da União, ( ) quando praticados dentro de alguns contextos. A propósito: Processo Penal II § 1º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares contra civil, serão da competência do Tribunal do Júri. § 2º Os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida e cometidos por militares das Forças Armadas contra civil, serão da competência da Justiça Militar da União, se praticados no contexto: I – do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da República ou pelo Ministro de Estado da Defesa; II – de ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não beligerante; ou III – de atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou de atribuição subsidiária, realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da Constituição Federal e na forma dos seguintes diplomas legais: a) Lei no 7.565, de 19 de dezembro de 1986 - Código Brasileiro de Aeronáutica; b) Lei Complementar no 97, de 9 de junho de 1999; c) Decreto-Lei no 1.002, de 21 de outubro de 1969 - Código de Processo Penal Militar; e d) Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965 - Código Eleitoral. Processo Penal II Conclui-se: A regra é que o crime doloso contra a vida de civil praticado por militar (estadual ou forças armadas) é de competência do tribunal do júri estadual ou federal (art. 9º, § 1º, CPM). Ex: policial militar que, dolosamente, mata vítima civil, será julgado pelo tribunal do júri estadual; soldado do Exército que, dolosamente, mata civil, será julgado pelo tribunal do júri federal; A exceção: será da Justiça Militar da União o processo e julgamento de crime doloso contra a vida de civil (1) praticado por militar das Forças Armadas quando (2) cometido dentre as hipóteses legais (incisos I, II e III do § 2º, do art. 9º, CPM): Ex: cabo da Aeronáutica que, dolosamente, matar um civil em operação militar para garantia da lei e da ordem, será julgado pela Justiça Militar. Processo Penal II ATENÇÃO A Justiça do Trabalho não possui competência para julgar infrações penais, conforme se extrai de sua competência constitucional prevista no art. 114 (STF – ADI 3684/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, j. 11.05.2020). image1.png image2.png