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Quilombo dos
Palmares e
Zumbi
Quilombo dos
Palmares01
Índice
Zumbi02
Quilombo dos
Palmares
01
.
O que foi o Quilombo dos Palmares?
O Quilombo dos Palmares foi o maior quilombo existente na América Latina. Construído na era
colonial, no final dos anos 1500 e destruído em 1694, por uma expedição portuguesa, Palmares
se tornou um grande refúgio para os escravos que fugiam dos engenhos nas capitanias da Bahia
e Pernambuco. Ao longo da sua existência, registrou-se mais de 20 mil habitantes quilombolas.
Em função de sua grande importância na resistência dos escravos, o quilombo foi alvo de muitas
expedições e violência no nordeste do país. Isso pode ser observado pela grande movimentação
que o território causou mesmo depois da sua destruição: muitos escravos inspiraram-se na
resistência dos Palmares e iniciaram o movimento negro no Brasil.
Como surgiu?
Não sabemos precisamente quando esse quilombo teria surgido, mas sabemos que se
originou ao final do século XVI, porque a primeira menção realizada sobre Palmares remonta
ao ano de 1597. Os historiadores, no entanto, desconfiam que Palmares já existia antes dessa
data.
Acredita-se que os africanos escravizados que teriam fundado o quilombo escolheram a Serra
da Barriga por conta de seu difícil acesso, por ser uma região serrana e de florestas densas.
Além disso, a Serra da Barriga dava recursos em grande quantidade para garantir a
sobrevivência dos que se estabeleciam ali. Isso atraiu centenas que logo se transformaram em
milhares de africanos escravizados, e dezenas de mocambos começaram a ser criados.
Serra da Barriga, Alagoas
Onde era localizado?
Ele fazia parte do que hoje chamamos de nordeste brasileiro, na Serra da Barriga. Essa região
do estado de Alagoas é muito conhecida por ser coberta de palmeiras, caracterizando o nome
do quilombo.
Nesse sentido, a sobrevivência da população era garantida por meio da agricultura. Com uma
alta produção de mandioca, batata, feijão, milho e melaço, os quilombolas conseguiam
encontrar o equilíbrio entre a coleta e a troca de itens para manutenção da alimentação. Além
disso, sua economia era potencializada por meio da produção artesanal de cestas, cerâmica,
tecido e metalurgia.
No entanto, é importante ter em mente que a economia do quilombo também era pautada por
meio de uma ligação potente entre os quilombolas e os pequenos colombos e aldeias das
regiões próximas dos assentamentos. Essa relação positiva permitiu o desenvolvimento
do escambo e garantiu a sobrevivência econômica dos povos que ali residiam.
Sobreviver em um quilombo durante o período colonial era uma realidade muito difícil, porque os
africanos, indígenas e portugueses livres que viviam no local precisavam estar constantemente em
alerta, já que os portugueses frequentemente enviavam expedições militares que tinham o intuito
de destruir os quilombos e reescravizar os que ali habitavam.
Assim, a segurança era algo muito importante para o quilombo. Além da região que garantia
segurança extra, os palmaristas também tomavam ações para manter a vigilância do território. Os
habitantes construíam cercas para proteger seus mocambos, torres de observação e espalhavam
armadilhas ao redor dos mocambos.
Palmares era a junção de uma série de mocambos, pequenos assentamentos de escravos. Entre
esses mocambos estão Andalaquituche, Subupira, Aqualtune, Osenga, Cucaú, Macaco, entre
outros. O principal mocambo palmarista era o mocambo Macaco, que centralizava a
administração de Palmares e chegou a ter cerca de 6 mil habitantes.
Como era a vida no quilombo?
Os caminhos que levavam os palmaristas aos mocambos que formavam Palmares eram de
conhecimento exclusivo dos quilombolas. Essa era mais uma forma de garantir a segurança dos
palmaristas. No que se refere à administração, podemos dizer que Palmares organizava-se de
maneira autônoma, de forma semelhante à estrutura de reinos existentes na África.
O quilombo era governado por um chefe que cumpria papel de liderança política, militar e
religiosa.
1. Entrada restrita:
A capital do quilombo era circundada por três
cercas de madeira, reforçadas com pedras e
guardadas por sentinelas armados. O acesso era
feito por portões de madeira reforçados. A
segunda cerca ficava a 300 metros de distância
da primeira, e a terceira, a 500 metros da
segunda. As linhas de defesa estendiam-se por
mais de 5 quilômetros, com guaritas a cada 2
metros.
2. Alçapão humano:
Dezenas de buracos de alguns metros de
profundidade e camuflados com folhagens
circundavam a povoação. Para empalar aqueles
que caíam nos fossos ocultos, os fundos das
armadilhas tinham estacas de madeira afiadas e
lanças de ferro com mais de 1 metro. Apenas os
quilombolas conheciam o caminho certo para
entrar na capital de Palmares.
3. Mix religioso:
A religião praticada em Palmares era um
catolicismo misturado com tradições da cultura
banto. Na capela do Cerco Real do Macaco,
foram encontradas imagens de São Brás, do
menino Jesus e de Nossa Senhora da Conceição
dividindo os altares com estátuas de divindades
africanas. Muitos negros haviam se convertido
ao catolicismo ainda antes de serem trazidos ao
Brasil.
4. Dieta reforçada:
Em volta da cidadela ficavam as roças de
alimentos. A lavoura mais importante era o
milho, mas também eram plantados feijão,
banana, batata-doce, mandioca e cana-de-açúcar.
Além desses vegetais, o cardápio era
completado com a coleta de frutos e a caça de
pequenos animais das matas próximas.
5. Casinhas de sapê:
Os moradores viviam em casas de madeira
cobertas de folhas de palmeira, com iluminação
artificial que usava azeite como combustível.
Algumas delas tinham saídas ocultas, que
permitiam escapar para o mato em caso de
perigo. A mobília incluía panelas e utensílios
domésticos feitos por artesãos locais ou
roubados em incursões pelas fazendas vizinhas.
6. Diretas já!
Os membros do conselho que chefiavam o
povoado eram escolhidos em assembleias que
reuniam todos os habitantes na praça central. Lá
ficavam a própria sede do conselho, uma capela,
poços para armazenar água, um galpão sem
paredes que servia como mercado e oficinas de
artesãos entre eles, ferreiros que faziam armas �
e ferramentas agrícolas.
7. Conjunto habitacional:
No interior do forte havia quatro ruas, cada uma
com pouco mais de 2 metros de largura e 1
quilômetro de extensão. Ao longo delas,
alinhavam-se cerca de 2 mil casas, onde viviam
8 mil moradores. Eles falavam português
misturado ao dialeto banto e a palavras
indígenas. Animais domésticos, principalmente
galinhas, eram criados nos quintais das casas ou
soltos pelas ruas.
Ganga Zumba
Ganga Zumba, era um escravo alto e forte que chegou a Palmares por volta de 1630. Era tio de Zumbi e
ficou conhecido por ter assinado um tratado de paz com o governo de Pernambuco e ter liderado a
comunidade Quilombo de Palmares na época.
A população estava dividida até que Ganga percebeu que um povo unido era mais forte. Então ele reuniu
os onze maiores mocambos em uma confederação e foi eleito comandante geral. E assim, iniciou-se o
período mais próspero e feliz da existência de Palmares. Porém, para tentar acabar com as tentativas de
invasão que não cessavam e que obrigavam os habitantes a viverem sempre na expectativa de uma guerra,
Ganga Zumba, em 1678, decidiu negociar uma paz duradoura com os brancos. Mas Zumbi e a maioria do
povo do quilombo não acreditaram neste acordo. Parte dos quilombolas, foram contra o acordo de paz e se
recusaram a deixar Palmares.
Em 1678, acompanhado de 400 homens, Zumba vai a Recifecomunidade muito parecida com a dos
quilombolas do Suriname, cujos descendentes
sobreviveram a nossos dias como um povo
autônomo, com identidade cultural e organi-
zação política próprias (33). Em Palmares
houve ainda, mesmo sob Zumbi, outras tenta-
tivas malogradas de acordo, bem como a idéia
de enviar uma missão religiosa para pacificá-
lo, esta última veementemente desaconselhada
pelo padre Antonio Vieira (34).
Predominou assim a tese, entre senhores
de escravos, governantes e letrados coloniais
do Brasil, de que Palmares não devia dar cer-
to, nenhum quilombo devia. Era um péssimo
exemplo para os escravos assenzalados. Além
disso, e mais importante, temia-se que o
quilombo de hoje se transformasse na revolta
de amanhã. Em Minas Gerais pós-Palmares
essa possibilidade entrou na agenda de vários
governadores da Idade do Ouro, chegando a
beirar a histeria na suposta conspiração es-
crava de 1756, que seria liderada por
quilombolas (35). A integração entre
quilombos e levantes escravos se efetivou em
várias ocasiões durante o ciclo de rebeldia
escrava na Bahia da primeira metade do sécu-
lo XIX. Na revolta de fevereiro de 1814, os
quilombolas desceram o morro para se unir a
escravos pescadores empregados nas arma-
ções pesqueiras vizinhas a Itapoã. Pouco de-
pois, naquele mesmo ano, foi investigada uma
conspiração liderada pelos haussás que en-
volvia uma combinação entre quilombos su-
burbanos e cantos de trabalho de Salvador. A
mais famosa das revoltas iniciada por um
quilombo ocorreu em 1826, de novo nas ime-
diações da capital. O plano previa a concen-
tração de escravos fugidos no quilombo do
Urubu, de onde desceriam para Salvador onde,
reunidos com conspiradores dali, levantari-
am a escravaria urbana por ocasião do Natal
daquele ano. O plano abortou porque um gru-
po de capitães-do-mato deu no quilombo, que
foi obrigado a reagir e, com a chegada de
novas tropas, terminou perdendo a batalha.
No ano seguinte, em São Mateus, na provín-
cia do Espírito Santo, escravos aquilombados
ameaçaram levantar os das fazendas para in-
vadir a vila, mas, como na Bahia, as autorida-
des se anteciparam e sufocaram o movimento
no nascedouro. Já na comarca de Viana, no
Maranhão, mais de duzentos escravos do
quilombo de São Benedito do Céu ocuparam
várias fazendas e sublevaram seus escravos
em 1867 (36).
Esses episódios sugerem que as autoridades
estavam certas quando imaginavam que uma
grande rebelião escrava — ao estilo do Haiti,
que bem conheciam — pudesse ter início num
quilombo. Isto é paradoxal se considerarmos,
como argumentam Donald Ramos e Mary
Karasch, que sob certo ângulo a existência de
quilombos pode ter funcionado como uma vál-
vula de escape para tensões escravistas que de
outra forma explodiriam nas senzalas (37).
II
Se os quilombos representaram uma re-
beldia ambígua, as rebeliões escravas cons-
tituíram a mais direta e inequívoca forma de
resistência coletiva. Quando o escravo cons-
pirava uma revolta, ele raramente contava
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com a possibilidade de acordo. Mas nem toda
revolta visava a destruição do regime
escravocrata, ou mesmo a liberdade dos es-
cravos nela envolvidos. Muitas visavam ape-
nas corrigir excessos de tirania, diminuir até
um limite tolerável a opressão, reivindicando
benefícios específicos — às vezes a recon-
quista de ganhos perdidos — ou punindo fei-
tores particularmente cruéis. Eram levantes
que almejavam reformar a escravidão, não
destruí-la. Nós vamos encontar, ao longo da
discussão que se segue, revolta de todos esses
tipos.
Desde que pisaram neste lado do Atlânti-
co como escravos, os africanos conspiraram
contra os senhores. A primeira grande rebe-
lião escrava no Novo Mundo parece ter sido
feita pelos cativos de Diego Colombo, filho
do “descobridor” Cristóvão, no Natal de 1522.
No Brasil não se tem notícias de rebelião negra
importante durante as primeiras décadas da
civilização do açúcar. Em seu estudo sobre os
engenhos baianos, Stuart Schwartz declara
desconhecer “insurreições escravas organi-
zadas” anteriores ao final do século XVIII,
predominando a resistência individual, as
fugas e a formação de quilombos. As próspe-
ras Minas Gerais, uma região tão florida de
quilombos -- o historiador Carlos Magno
Guimarães contou mais de cem --, conhece-
ram umas poucas conspirações (em 1711,
1719 e 1756), que não chegaram às vias de
fato (38).
As revoltas se tornaram mais freqüentes a
partir do final do século XVIII, favorecidas
pela expansão das áreas dedicadas à agricul-
tura de exportação e a conseqüente intensifi-
cação do tráfico escravo, que fez crescer a
população cativa e em particular o seu con-
tingente africano. Apenas durante os últimos
quarenta anos do tráfico, chegaram ao Brasil
31% dos cerca de quatro milhões de africanos
importados ao longo de três séculos e meio
(39). Acrescente-se que, durante o século XIX,
aconteceram os movimentos pela indepen-
dência e revoltas regionais, se difundiram
ideologias liberais e mais tarde abolicionistas,
processos que criaram um ambiente favorá-
vel à rebeldia escrava, quando não a envolve-
ram diretamente.
Alguns tipos de estrutura demográfica
favoreceram, embora não determinassem, a
rebelião escrava. Um aumento da proporção
de escravos na população, como se deu nesse
período, somado a um maior número de afri-
canos, e mais ainda, de africanos do mesmo
grupo étnico, reforçava a identidade coletiva,
o estranhamento em relação à cultura local e
estimulava a consciência de força diante das
camadas livres (40). Onde os negros consti-
tuíam maioria da população e os africanos
natos a maioria dos escravos, a cultura e ide-
ologia brancas foram incapazes de penetrar
em profundidade a mentalidade escrava. Te-
mos aí uma questão que começa na estrutura
demográfica e vai incidir sobre as estruturas
mentais ou simbólicas. Os escravos não se
submeteram aos valores e maneiras dos se-
nhores, forjando novos comportamentos e
instituições a partir de tradições africanas. Se
a influência da cultura local foi inevitável, a
“crioulização cultural” se deu em grande par-
te através de recriações étnicas e sincretismos
interétnicos no interior da própria comunida-
de africana.
Por outro lado, a alta taxa de masculinida-
de (proporção homem/mulher) inibiu, em-
bora não tivesse impedido totalmente, a for-
mação de famílias escravas e o envolvimento
dos cativos na rede paternalista senhorial,
paternalismo aqui entendido como hegemonia
de classe e não harmonia entre classes (41).
Tivessem paternalismo senhorial e família
escrava estável prevalecido, a solidariedade
étnica e de classe teriam sido provavelmente
mais fracas entre os escravos. Estes pensari-
am duas vezes antes de colocar mulheres e
filhos, e mesmo o senhor e sua família, na
linha de fogo da rebelião. Nos Estados Uni-
dos, durante o século XIX, ao lado de outros
fatores como a existência de uma vigilante
maioria branca, tem-se atribuído o número
reduzido de rebeliões à prevalência da famí-
lia escrava, embora os estudiosos divirjam
sobre se esta floresceu num ambiente
paternalista (42). Já os escravos da Bahia, por
exemplo, foram particularmente irrequietos
durante as três primeiras décadas do século
XIX e tinham o perfil demográfico que aca-
bei de descrever, com as conseqüências cul-
turais apontadas.
Se os escravos nascidos na África pare-
cem ter sido o principal agente impulsor dos
levantes escravos brasileiros, os crioulos não
eram passivos. Além de fugirem e formarem
quilombos, os crioulos (negros nascidos no
Brasil) possivelmente se fizeram mais pre-
sentes do que os africanos em movimentos
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feitos por outros setores sociais, como os
motins anti-lusos na Bahia, em Pernambuco,
Sergipe, Rio de Janeiro, Maranhão, entre 1817
e 1831, na Balaiada, Farrapos, etc., os quais
discutirei adiante. Com o declínio da popula-ção escrava africana depois do fim do tráfico,
em 1850, eles responderam pela formação de
quilombos e promoção de revoltas, especial-
mente nos últimos anos da escravidão. Mas
antes disso há exemplos de levantes de plantéis
predominantemente crioulos.
Em 1789, no engenho Santana de Ilhéus,
Bahia, crioulos pararam o trabalho, mataram
o feitor e se adentraram nas matas com as
ferramentas do engenho, até reaparecerem
com uma proposta de paz em que pediam
melhores condições de trabalho, acesso a roças
de subsistência, facilidades para
comercializarem os excedentes dessas roças,
direito de vetar o nome dos feitores escolhi-
dos, licença para celebrarem livremente suas
festas, entre outras exigências. Fingindo acei-
tar negociar, o senhor prendeu os líderes e
debelou o movimento. Trinta anos depois os
escravos ocuparam o mesmo engenho por três
anos, entre 1821 e 1824. Nesta última data,
parte deles formou um quilombo nas próprias
terras do engenho que só foi dissolvido em
1828. Neste ano, o inventário dos bens do
marquês de Barbacena, então proprietário do
Santana, indicava que dos 222 escravos que
ali viviam apenas um era africano. Além dis-
so o engenho tinha uma demografia equili-
brada, com homens e mulheres em iguais
proporções, provavelmente formando famí-
lias, e a presença de muitas crianças. Quadro
parecido apresentava o engenho Vitória, no
Recôncavo baiano. Em 1827, em pleno ciclo
de revoltas africanas, aconteceu ali uma de
crioulos que resultou na morte do feitor e de
um seu irmão, após o que os escravos
retornaram em paz para as senzalas. Um cen-
so feito dois anos antes revela que neste en-
genho viviam quatro escravos pardos, 133
crioulos, 38 escravas pardas, dez crioulas e
32 africanas. Nenhum homem africano. Os
exemplos dos engenhos Santana e Vitória
sugerem que, quando eram maioria, os criou-
los podiam fazer suas próprias revoltas (43).
Difícil foi, em alguns contextos, a união
entre crioulos e africanos na revolta. Na Bahia
os crioulos foram ameaçados de morte e em
alguns casos mortos durante levantes africa-
nos. É provável que tenham se aliado a se-
nhores contra os levantes sufocados com a
ajuda de escravos leais. No engenho Santana
de Ilhéus, em 1789, os crioulos se rebelaram
mas, no tratado de paz que propuseram, que-
riam privilégios ocupacionais em detrimento
dos africanos.
Fora da Bahia há notícia de que os criou-
los, apesar de minoritários e alijados da lide-
rança, se uniram a africanos na conspiração
de Campinas, em 1832, e na revolta do Pati de
Alferes (ou de Manoel Congo), em Vassou-
ras, 1838. Neste último episódio foram leva-
dos ao banco dos réus 21 escravos, dos cerca
de duzentos de uma fazenda em Pati dos Al-
feres. Após matarem o feitor de uma fazenda
vizinha do mesmo proprietário, eles fugiram
sob a liderança de Manoel Congo para formar
um quilombo. Desses 21, quinze eram africa-
nos e seis crioulos, mas de fato a maioria
mulheres que se defenderam dizendo terem
sido forçadas a participar da fuga em massa.
Em Campinas, 28 escravos foram acusados
de conspirarem em várias fazendas da região
para matar os brancos e obterem a liberdade.
Entre estes escravos, quatro eram definitiva-
mente crioulos, outros três, que não declara-
ram suas origens, podem também ter sido. Os
africanos, como no caso de Pati do Alferes,
pertenciam ao grupo lingüístico banto (44).
Suely Robles Reis de Queiroz criticou-
me acertadamente por eu ter, num trabalho
anterior, exagerado e visto além das frontei-
ras baianas um certo “pacifismo crioulo” e a
ausência de escravos bantos em revoltas. Sua
crítica procede, aqui estou corrigindo meu
exagero, e vem mais correção adiante, mas
continuo achando que alguns grupos étnicos,
devido a experiências históricas específicas
aqui e na África, foram mais propensos à re-
beldia coletiva do que outros. Aquela autora
argumenta que a vida sob a escravidão — ou
seja a experiência de classe — unia todos os
escravos na luta contra ela. Não é tão simples.
Os africanos para aqui trazidos como escra-
vos não eram tábula rasa sobre a qual foi sim-
plesmente inscrita a nova experiência como
escravos. A própria experiência escrava não
foi a mesma em todo lugar e todas as épocas,
apesar de a escravidão estar em todo lugar e
ter durado mais de três séculos. Traduzindo
em linguagem teórica, classe, etnia e outras
identidades se relacionam de maneira com-
plexa (45).
Retomando a história e continuando a
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discussão, a presença de uma massa escrava
africana considerável não era bastante para
provocar levantes. A intensificação do tráfi-
co atlântico ao longo da primeira metade do
século XIX tranformou o campo próspero e
as cidades maiores em pequenas Áfricas. Na
cidade do Rio de Janeiro, por exemplo,
concentrou-se a maior população escrava
urbana do hemisfério ao longo da primeira
metade do século XIX, o que causava temo-
res e às vezes rumores de conspiração, sobre-
tudo depois da revolta de 1835 na Bahia. Os
escravos da Corte não eram passivos, como
mostram os estudos sobre criminalidade es-
crava, fugas, quilombos, a capoeiragem e a
formação de uma cultura afro-carioca pujan-
te, farta em símbolos e rituais étnicos, sobre
o que temos o notável testemunho
iconográfico de artistas como Jean-Baptiste
Debret. Mas só recentemente um historiador
da polícia descobriu uma pequena rebelião,
em 1833, numa oficina, logo sufocada, e vio-
lentamente (46). No mesmo período os escra-
vos baianos faziam tremer Salvador e seus
arredores. O Rio de Janeiro tinha em 1838
cerca de 37 mil escravos, numa população
global de 97 mil habitantes. Em 1849, de
uma população de 206 mil, 79 mil (38%) eram
escravos. Ao mesmo tempo, 75% em média
dos escravos nesse período eram africanos.
Salvador tinha uma população de cerca de
65.500 em 1835, por ocasião do levante dos
malês, da qual cerca de 42% escravos, apenas
4% mais do que o Rio. Os nascidos na África
eram 63%, uma taxa de africanidade 12%
menor do que a do Rio. Segundo Mary
Karasch os africanos na Corte eram muitos,
mas pertenciam a uma grande variedade de
grupos étnicos, muitas vezes rivais entre si.
Ela considera a diversidade étnica dos escra-
vos cariocas uma das “mais importantes ra-
zões para a ausência de revoltas escravas no
Rio” (47). Realmente a mistura de etnias com-
prometia o levante unificado e era um fator
com que senhores e autoridades sempre con-
tavam para evitar o pior. O velho moto “divi-
dir para dominar”. Um governador do Rio,
em 1725, atribuiria à “Torre de Babel” africa-
na a falta de um tal levante, e o conde dos
Arcos fez do incentivo à divisão étnica, na
Bahia que governou entre 1810 e 1818, um
expediente de controle escravo (48).
Uma das formas de fazer com que os afri-
canos não esquecessem suas divisões de ori-
gem era, pensava o conde dos Arcos, permitir
que eles praticassem seus batuques livremen-
te. Nestes, que o inteligente conde percebera
serem rituais étnicos, cada grupo africano
tentava manter sua integridade cultural, difi-
cultando a formação de uma frente pan-afri-
cana contra os brancos. Os senhores não en-
tendiam assim, no que foram apoiados pela
Corte. Em carta para Arcos, o marquês de
Aguiar ordenava a proibição dos batuques
africanos na Bahia, embora os permitisse no
Rio de Janeiro. Mas por que uma política
diferente para a Bahia? O ministro de d. João
explicou: “além de não ter havido [no Rio de
Janeiro] até agora desordens, bem sabe V.
Exa. que há huma grande differença entre os
Negros Angolas e Benguellas nesta Capital,
e os [negros] dessa Cidade, que são muito
mais resolutos, intrepidos e capazes de qual-
quer empreza, particularmente os de Nação
Aussá” (49). Será que esta “grande diferen-
ça”, identificada por homens que viveram a
experiência do governo dos escravos naquele
tempo, pode ser tranqüilamente descartada
pelo historiador de hoje?
Tanto quanto no Rio, em Salvador coe-
xistiam dezenas de “nações” africanas, mas
na verdade em ambas as cidades havia umaconsiderável concentração étnica entre os
africanos, se entendermos etnicidade como
identidade recriada no Brasil, a partir da con-
vergência de grupos vizinhos, geográfica e
lingüisticamente, na África. Entre 1830 e
1850, na cidade do Rio, os vários grupos reu-
nidos sob a denominação de angola chega-
ram a aproximadamente 46% dos africanos e
em outras estimativas variavam entre 36 e
57%. Na Bahia predominavam os escravos
oriundos da região do golfo do Benim, os jejes,
haussás e sobretudo nagôs. Estes últimos
eram, como os angolas, compostos por vários
sub-grupos iorubás. No estudo mais comple-
to sobre o assunto, Maria Inês C. de Oliveira,
utilizando várias séries documentais, contou
56% de nagôs entre 1816 e 1850, proporção
a que só chegaram realmente, e até ultrapas-
saram, durante a última década do tráfico. De
qualquer forma, os angolas no Rio e os nagôs
em Salvador representavam, durante a maior
parte da primeira metade do século XIX, as
grandes maiorias entre as nações africanas
reconstituídas no Brasil. No entanto os nagôs
baianos se levantaram em várias ocasiões e
os angolas cariocas não (50).
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também favorecê-la, como aconteceu na
Bahia. Acrescenta Karasch a facilidade com
que os escravos cariocas formaram quilombos
nos arredores do Rio, no Corcovado, Santa
Tereza, Tijuca, que funcionariam como um
descompressor das tensões da escravidão
urbana. Mas Salvador também conviveu com
esses quilombos suburbanos. Para Algranti,
de qualquer maneira, a cidade seria mais
dispersiva, e atribui ao campo, mais coeso,
maior potencial rebelde. No caso do Rio, dada
a distância geográfica entre campo e cidade,
teria faltado maior integração entre as popu-
lações escravas urbanas e rurais e por conse-
qüência faltado maior animação revolucio-
nária. A explicação não convence porque,
também na zona rural, pelo menos até mea-
dos do século passado, os escravos
fluminenses não foram particularmente levan-
tados, embora fossem dados ao quilombismo.
Enquanto isso, na Bahia os escravos do
Recôncavo dos engenhos se rebelaram inú-
meras vezes, mais vezes certamente do que
os escravos de Salvador e independentemen-
te destes. Como não temos informações mais
Então, uma maioria africana entre os es-
cravos, e além disso a presença de etnias afri-
canas majoritárias, ajudavam mas não eram
fatores suficientes para uma maior
mobilização coletiva. Os historiadores da
escravidão carioca explicam que a capital do
império era mais policiada e militarmente
protegida, o que não teria escapado à percep-
ção dos escravos. Acho uma ótima hipótese.
Para confirmá-la seria interessante um estu-
do sistemático, que comparasse, por exem-
plo, as forças militares disponíveis e a estru-
tura demográfica na Corte com as de outras
cidades escravistas. (Em Recife, por exem-
plo, provavelmente não tão policiada quanto
o Rio, também não aconteceram revoltas.)
Leila Algranti e Mary Karasch atribuem à
própria escravidão urbana — que permitia
maior mobilidade, facilitava a “aculturação”
escrava e mais oportunidade de alforria, pro-
movia a diferenciação ocupacional entre os
escravos, etc. — um fator de inibição à rebel-
dia coletiva, embora ambas reconheçam que
em certos aspectos — como a facilidade de
locomoção e reunião — a cidade pudesse
CASTIGO PÚBLICO
NO RIO DE
JANEIRO, POR
RUGENDAS
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detalhadas sobre estas revoltas, não podemos
afirmar que sua organização fosse menos
sofisticada do que as urbanas e suburbanas. É
certo, no entanto, que os escravos rurais
baianos não viviam isolados, pois andavam
pelas vilas da região, onde freqüentavam
festas e feiras, e circulavam entre um enge-
nho e outro, às vezes do mesmo proprietá-
rio. Por isso as revoltas comumente envol-
viam vários engenhos (51).
Mas se no Rio de Janeiro a concentração
étnica não motivou revoltas, ela também não
explica, isoladamente, a maior militância dos
escravos baianos. No tempo de suas revoltas,
entre 1807 e 1820, os haussás não passavam
de 17% dos africanos em Salvador, embora
representassem o segundo maior grupo afri-
cano (perdiam para o jejes em três pontos
percentuais, jejes que por sinal não se rebela-
ram isoladamente). No tempo das suas revol-
tas, entre 1820 e 1835, os nagôs, apesar de
majoritários, representavam apenas 28,6%
desses escravos, ficando muito distantes das
proporções alcançadas pelos angolanos no
Rio. No entanto, esses 28,6% se traduziram
em 77% entre os réus do levante dos malês
em 1835 (52). Foi uma revolta basicamente
nagô. Mas havia algo além da concentração e
solidariedade étnicas para explicar os levan-
tes haussás e nagôs. Isto é confirmado pelo
fato de que, tendo alcançado maioria absolu-
ta da comunidade africana em meados do
dezenove, os nagôs não provocaram, apesar
de rumores periódicos, nenhum levante de-
pois de 1835. Se considerado estritamente o
fator maioria étnica, as condições para um tal
levante teriam melhorado bastante desde
aquela data. Com efeito, provavelmente o
movimento nagô mais expressivo depois da-
quela revolta aconteceu em 1857, uma greve
pacífica de ganhadores, que durou dez dias,
em protesto contra a postura municipal que
os obrigava a pagarem um pequeno imposto,
registrarem-se na municipalidade e usarem
uma plaqueta de metal com o número deste
registro. Os escravos e libertos, nagôs na sua
maioria, pararam a cidade de Salvador, mas
não deram sequer um tapa em um branco (53).
As dimensões da greve sugerem que a iden-
tidade étnica permanecia importante fator de
organização e mobilização, mas como expli-
car a desistência de movimentos violentos?
Em primeiro lugar, temos de relembrar
porque no período anterior os nagôs, e antes
deles os haussás, se rebelaram com tanta in-
sistência, para depois tentar explicar por que
pararam. Os escravos trazidos para a Bahia
da era das revoltas vieram de uma região da
África conflagrada por lutas políticas e reli-
giosas ligadas à queda do império iorubano
de Oyo e à expansão muçulmana, capitaneada
pelos fulanis, em território haussá e iorubá
(54). Foram esses africanos, geralmente pri-
sioneiros de guerra, guerreiros unidos por
laços étnicos, aos quais em muitos casos se
somava a comunhão no Islã, que aterroriza-
ram a classe senhorial baiana. No ano de 1835,
por exemplo, embora a maioria dos nagôs não
fosse muçulmana, a maioria dos muçulma-
nos era nagô. Mas essa não foi a única fórmu-
la de efervescência escrava. O único movi-
mento comprovadamente nagô-muçulmano
foi o de 1835, outros feitos por nagôs, sobre-
tudo nos engenhos do Recôncavo, não pare-
cem ter recebido a benção de Alá, mas talvez
de Xangô, de Ogum. Por outro lado, como
vimos, 1835 aconteceu num período rico em
conspirações e revoltas dos homens livres,
inclusive várias quarteladas, o que enfraque-
cia militarmente o controle da população es-
crava e fortalecia o moral rebelde. Esta é uma
história conhecida.
A segunda parte da história, a pax baiana
que se seguiu a 1835, é menos conhecida.
Mudaram os escravos ou mudaram seus se-
nhores? Ambos parecem ter mudado. Os se-
nhores, depois de 1835, buscaram meios de
melhor reprimir e controlar os escravos. O
próprio inquérito e o julgamento dos malês
representaram um ritual de força vivamente
acompanhado por baianos e africanos. Além
do espetáculo exemplar do fuzilamento de
quatro rebeldes e do açoitamento de dezenas
de outros, os libertos minimamente suspeitos
foram deportados para a África e muitos es-
cravos vendidos para fora da província. As
organizações (como os cantos de trabalho) e
reuniões africanas passaram a ser cuidadosa-
mente vigiadas e qualquer suspeita de
Islamismo investigada e punida. Mais impor-
tante é que, após a Sabinada em 1837, os
homens livres dissidentes também resolve-
ram parar suas revoltas e logo abraçariam a
calmaria imperial.
Quanto aos escravos, sugiro, por enquan-
to como hipótese, que osdesembarcados na
Bahia entre 1835 e 1850 eram cada vez me-
nos muçulmanos e menos guerreiros, na
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medida em que a guerra em território iorubá/
nagô perdia um centro — o conflito político-
religioso ligado à dissolução de Oyo e à jihad
fulani — para se generalizar, vitimando cada
vez mais populações não organizadas mili-
tarmente. Os muçulmanos que conspiraram
em 1835 e os não-muçulmanos que participa-
ram desta e de revoltas anteriores haviam sido,
eu suspeito, mais estritamente soldados do
que os que lhes seguiram. E eram entre aque-
les que as revoltas foram encontrar a maioria
de seus líderes, agora mortos, presos ou de-
portados.
E quanto ao Rio de Janeiro? Ao contrário
dos jovens e não tão jovens guerreiros nagôs e
haussás importados pela Bahia, os importados
pela Corte eram meninos e meninas de até 14
anos, numa proporção acima de 60% em algu-
mas estimativas. Oriundos de uma região em
que estados militaristas haviam se transforma-
do em regimes mercantis integrados ao siste-
ma atlântico de comércio, a grande maioria
desses cativos era, não prisioneiros de guerra,
mas escravos e dependentes da elite africana
que os usava para o pagamento de débitos
contraídos na aquisição de bens importados. A
este comércio, que escalara durante as primei-
ras décadas do dezenove, Joseph Miller cha-
ma de “liberação de dependentes para a ex-
portação”. Por outro lado, os homens livres
cariocas, ao contrário dos baianos, não agita-
ram as ruas da Corte neste período, pareciam
mais coesos aos olhos dos escravos. Ou tal-
vez pudéssemos dizer que, da mesma forma
que os escravos, estavam mais vigiados por
um centro imperial que conseguia resolver
suas crises dentro do palácio, mesmo que nem
sempre isso fosse possível, como durante os
distúrbios surgidos na conjuntura da abdica-
ção. Senhores mais unidos, escravos africa-
nos menos guerreiros, esta seria, hipotetica-
mente, a fórmula básica da pax carioca, na
qual, naturalmente, podem ter entrado outros
ingredientes mais fracos (55).
III
A estratégia de “dividir-para-dominar”
tem sua contrapartida naquela de “dividir-
para-rebelar”. Já virou um truísmo da socio-
logia política que a rebelião das classes su-
balternas é facilitada quando as classes domi-
nantes estão divididas. É no entanto impor-
tante que se insista que essa regra vale tam-
bém para os escravos, já que muitos estudio-
sos imaginam terem sido eles alheios ao que
se passava em seu redor, sobretudo na arena
política, tão preocupados que estavam em
servir aos senhores como “coisas” que se-
riam (56). A desunião dos homens livres, em
tese, favorecia grandemente a rebelião escra-
va porque revelava aos cativos a debilidade
política dos senhores, afrouxava a vigilância
individual e coletiva, e diminuía a capacida-
de de retaliação militar.
A onda de transformações políticas e
ideológicas, algumas revolucionárias, inici-
ada no final do século XVIII, influenciou
grandemente a rebeldia negra nas Américas,
inclusive no Brasil. Os debates em torno do
direito dos homens e das nações à liberdade,
além de desmascarar a hipocrisia dos bran-
cos, que conciliavam esses princípios com a
escravidão, revelaram aos cativos que aque-
les estavam em crise. A chamada Conspira-
ção dos Alfaiates, em 1798 na Bahia, embora
tendo à frente homens pardos livres e liber-
tos, principalmente artesãos e soldados, con-
tou com a participação de alguns escravos e
incluiu em seu programa, de inspiração
liberal-francesa, o fim da escravidão (57).
A Revolução Francesa também estimu-
lou a rebeldia negra no continente americano
por vias indiretas, através do Haiti. A única
revolução escrava bem-sucedida no Novo
Mundo aconteceu em Saint Domingue, futu-
ro Haiti, no início da década de 1790. Naque-
le momento em que a França se via ela pró-
pria dividida por uma revolução, sua colônia
antilhana se dividia entre senhores mulatos e
brancos que se digladiavam pelo poder. Os
escravos aproveitaram-se da situação e da
retórica revolucionárias do dia para agir. A
revolução haitiana destruiu a mais lucrativa
colônia européia de seu tempo e criou um
Estado negro nas Américas, se transforman-
do num símbolo de resistência escrava em
todo hemisfério, um exemplo de que era
possível vencer os senhores (58).
O haitianismo animou negros e mulatos
nos quatro cantos do continente americano,
inclusive no Brasil. Luiz Mott elencou várias
revoltas escravas e conspirações de negros
livres aqui que se inspiraram no que ocorrera
no Haiti. Em 1805, apenas um ano após a
proclamação da independência haitiana por
Jean-Jacques Dessalines, seu retrato decora-
va medalhões pendurados dos pescoços de
milicianos negros do Rio de Janeiro, episó-
dio que ganha maior significado se lembra-
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mos que Dessalines era também militar, o
general comandante-em-chefe das forças
haitianas que derrotaram os exércitos de
Napoleão enviados para recuperar a ilha e
reintroduzir a escravidão. Em 1814, na Bahia,
os escravos falavam abertamente nas ruas
sobre os sucessos no Caribe. Na conjuntura
revolucionária nordestina de 1824, o Haiti
esteve muito presente. Em Laranjeiras,
Sergipe, num jantar de “mata-caiados” —
como se denominavam movimentos antilusos
— deram-se vivas ao “Rei do Haiti” e a “São
Domingos o Grande São Domingos” (59). No
mesmo ano, durante a chamada Confedera-
ção do Equador, em Pernambuco, o coman-
dante do batalhão de pardos em missão
antilusa teria distribuído pasquins contendo
os versos seguintes:
“Qual eu Imito a Cristovão
Esse Imortal Haitiano
Eia! Imitai ao seu povo
Oh meu povo soberano!” (60).
Ironicamente, quando foi assim saldado
em 1824, Henri-Christophe, o Cristovão do
verso, que em 1811 se proclamara rei Henri I
do Haiti, já havia cometido suicídio, após ser
deposto em 1820 por uma revolta de seu pró-
prio “povo soberano” (61). Mas permanecia
“imortal” para o poeta popular pernambucano.
Mais do que as senzalas, entretanto, o Haiti
penetrou na forma de medo as casas senho-
riais e palácios governamentais. Na
Pernambuco de 1817 os eventos da ilha anti-
lhana são usados como argumento para
desestimular o partido descolonizador. Mais
tarde (c. 1820-21) um espião francês a servi-
ço da coroa portuguesa previu uma reprodu-
ção do fenômeno haitiano caso as divergên-
cias entre portugueses e brasileiros se
aprofundassem. Durante o conflitivo episó-
dio da independência na Bahia, opinião se-
melhante tiveram um cônsul e um almirante
também franceses. E as notícias chegadas a
Portugal de sua irmã em Salvador, fez José
Garcês refletir que “se faltasse a tropa, eram
outros São Domingos”. Bem mais tarde, em
1867, uma autoridade do Maranhão se lem-
brou do Haiti como parte de seu medo de que
os brancos fossem massacrados durante uma
revolta escrava em Viana (62).
Na conjuntura da Independência brasilei-
ra, a própria retórica anticolonial serviu à
rebelião negra. Lembremos que a propagan-
da patriótica insistia na imagem da escravi-
dão para definir os laços que ligavam o Brasil
a Portugal: o Brasil seria “escravo” de Por-
tugal, as cortes portuguesas desejavam “es-
cravizar” os brasileiros. Em 1822, após falar
em quebra de algemas e esmagamento de
grilhões, o ouvidor de Itu, São Paulo, con-
cluía: “Oh! Brasileiros, caros compatriotas!
Nunca mais sereis escravos, nem vis colo-
nos”. Esse tipo de discurso foi comum em
todo Brasil. Os escravos ouviam aquilo sisu-
damente e muitos traduziam o falatório dos
brancos em causa própria, sobretudo os es-
cravos crioulos, negros nascidos no Brasil
que apostaram na possibilidade de se liberta-
rem da escravidão real da mesma forma que
os patriotas diziam querer libertar o país da
metafórica “escravidão” colonial. Em 1821,
de novo em Itu, correu entre os escravos o
boato de que as cortes (ou o rei de Portugal,
havia dúvida) teriam proclamado o fim da
escravidão,mas os senhores e as autoridades
ituanas e vizinhas insistiam em mantê-la. Em
1822 um grupo de escravos crioulos de Ca-
choeira, no Recôncavo baiano, centro da
produção açucareira, peticionou pela liber-
dade aos representantes baianos nas cortes.
Infelizmente não sei como foi recebida esta
petição, mas outros escravos baianos já acha-
vam que haviam conseguido a liberdade das
cortes e do rei. Segundo o comandante mili-
tar de Salvador, o português Ignacio Luis
Madeira de Mello, agitadores andavam “in-
fundindo nos Escravos as idéas mais
Luciferinas para se sublevarem, declarando-
lhes, que se achão libertos não só em virtude
do systema Constitucional, como por Decre-
tos d’El Rei, que seus senhors têm sonegado;
resultando de medida tão malvada [...] acha-
rem-se os Escravos de tal forma seduzidos,
que, despresando a obediencia, inculcão no
seu modo de proceder huma proxima suble-
vação”. E acrescentava que a Bahia estava
próxima de repetir “o horroroso quadro, que
apresenta a Ilha de São Domingos”. No mes-
mo ano aconteceria uma insurreição na vila
da Serra, no Espírito Santo. No mês de maio
um escravo espalhara o aviso de que os es-
cravos de Jacaraipe, Una, Tramerim, Quei-
mado e Pedra da Cruz se reunissem para ou-
vir do vigário a proclamação da liberdade, “e
todos apareceram na ocasião da missa arma-
dos de armas de fogo, paus, etc” (63).
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Em toda parte, os conflitos entre os bran-
cos, como foi o caso da época da Indepen-
dência, favoreceram a rebeldia escrava. Em
Pernambuco, os escravos apresentaram ar-
mas tanto em 1817 como em 1824, dois epi-
sódios fundamentais do processo de
descolonização no Nordeste, bem como em
outras revoltas do período regencial, como a
Cabanada (1832-36). Mas só nesta última
parece ter havido maior espaço para os inte-
resses específicos dos escravos. Na Bahia, a
onda de revoltas escravas, presentes desde o
início do século XIX, recrudeceu após a in-
dependência paralelamente aos motins
antiportugueses, as quarteladas, as rebeliões
federalistas. Duas destas, em 1832 e 1837,
quando já quase vencidas, acenaram timida-
mente para o apoio dos escravos em troca de
liberdade. Em nenhum dos casos os escravos
responderam a esses apelos interesseiros. Já
os farroupilhas do Rio Grande do Sul alista-
ram escravos dos adversários (e os de simpa-
tizantes, depois de devidamente indenizados),
que formaram o batalhão de Lanceiros Ne-
gros, brutalmente massacrados por Luis Alves
de Lima e Silva, futuro duque de Caxias, em
1844, na definitiva batalha de Porongos.
Porém, pelo artigo 7 do Convênio de Ponte
Verde que celebrava a paz, assinado no ano
seguinte entre os rebeldes e Caxias, ficaria
acordado: “está garantida pelo governo im-
perial a liberdade dos escravos que tenham
servido nas fileiras republicanas ou nelas
existião”. Os líderes farroupilhas haviam
exigido assim, não que fossem abolicionistas
— à exceção talvez do mulato José Mariano
de Matos —, mas para recompensar os bons
serviços dos escravos-soldados. Eram os
mesmos termos das cartas de alforria priva-
das, agora tornados políticos porque amplia-
dos para uma coletividade que se desejava
agradar para mantê-la mansa. Desconhece-
se, no entanto, quantos ex-escravos teriam
sido beneficiados — se é que o foram efetiva-
mente — e qual o seu destino (64).
Os escravos do Maranhão participaram
ativamente do movimento da independência,
que lá como na Bahia foi cruento, e dos mo-
vimentos antilusos que se seguiram. Na
Balaiada (1838-41), o movimento dos balaios
(ou liberais bem-te-vis) e o dos escravos,
estes liderados por Cosme Bento das Chagas,
constituíam movimentos diferentes que con-
vergiram apenas na fase final. Como os
farroupilhas, os balaios não tinham um ideário
abolicionista — embora circulasse entre seus
segmentos mais humildes uma certa identi-
dade racial —, mas Chagas, que se intitulava
“tutor e imperador da liberdade”, escreveu
em 1840 que “a República é para não haver
a escravidão”. Esse abolicionismo radical
levou muitos rebeldes bem-te-vis a debanda-
rem para o lado da legalidade, facilitando o
papel repressor do mesmo Caxias que mais
tarde sufocaria os farrapos e seus combaten-
tes escravos (65).
Guerras externas também podiam enfra-
quecer o controle escravo. Os quilombos do
Mato Grosso floresceram à margem da Guer-
ra do Paraguai, engrossando suas fileiras não
apenas com escravos fugidos, mas com
desertores do exército e homens livres pobres
em fuga do recrutamento. Depois da guerra
as autoridades tiveram tempo para finalmen-
te deslanchar a repressão contra os
quilombolas. Num outro extremo do Brasil, o
Maranhão, a guerra também repercutiu, le-
vando desertores a engrossar as fileiras dos
quilombolas, que teriam experimentado “in-
cremento excessivo, não só de escravos, como
de criminosos e desertores”, queixava a câ-
mara de Turiaçu em julho de 1867. Ao mes-
mo tempo, autoridades, comerciantes e la-
vradores da região alegavam que o recruta-
mento de guardas nacionais para o Paraguai
diminuía a capacidade de combate aos
quilombos, além de colocar os senhores à
mercê de seus escravos (66).
A marcha abolicionista, desde as leis que
proibiam o tráfico até as que reformavam a
escravidão e por fim as campanhas das últimas
décadas do regime, também contribuíram para
a agitação escrava. No Espírito Santo a lei de
1831, proibindo o tráfico externo, teria sido
interpretada como emancipadora por escravos
da vila de Itapemirim. A mesma lei também
entrou na complexa malha de motivações dos
conspiradores campinenses, em 1832. Ouçam
o que falou o escravo crioulo Francisco:
“Disse que no domingo, indo de recolhi-
da para o Sítio encontrando-se na sahida
da villa, com Joaquim Ferreiro escravo
do capitam Joaquim Teixeira, entrando
com elle em conversa, elle Reo dicera ‘ora
Tio Joaquim [...] os negros já não vem
para o Brazil, não seria justo que nos des-
sem tão bem a liberdade?’ ao que lhe res-
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pondera o Joaquim, que alguma coisa dis-
so há de acontecer” (67).
Vinte anos depois, de novo no Espírito
Santo, em São Mateus, correu o boato entre os
escravos de que “a novíssima Lei de Repres-
são ao Tráfico os há libertado da escravidão
que eles, supondo lhes ser ocultada pelos se-
nhores, procuram obter por meios violentos e
criminosos”, escreveu o presidente da provín-
cia. Vilma Almada interpretou estes e outros
episódios posteriores, em particular no ano da
lei do Ventre Livre, 1871, como resultado de
uma leitura libertária pelos escravos da retóri-
ca e das notícias abolicionistas. O mesmo acon-
teceria em Campos, Rio de Janeiro: os escra-
vos ficaram inquietos porque interpretaram as
discussões em torno desta lei como a abolição
definitiva da escravidão (68).
Durante a fase final da escravidão aconte-
ceram levantes escravos e a formação de
quilombos em várias partes do país, mas fo-
ram na sua maioria movimentos localizados,
em geral restritos a uma ou duas fazendas e,
nos meses anteriores ao treze de maio, fugas
em massa das fazendas de café, com ou sem
o concurso de agentes abolicionistas. Há no-
tícias de muitas conspirações e revoltas em
São Paulo, algumas bem arquitetadas mas
pouco conhecidas na época porque, segundo
Maria Helena Machado, havia uma espécie
de censura à imprensa com o objetivo de evi-
tar o pânico. Foram comuns os levantes pe-
quenos, envolvendo apenas algumas dezenas
de escravos que assassinavam feitores e se-
nhores particularmente tirânicos e depois se
entregavam pacificamente ao delegado local.
Mas houve também revoltas que, embora logo
sufocadas, tiveram tanto o objetivo de punir
essa gente como reivindicar a liberdade. Em
1882, os escravos da fazenda castelo, em
Campinas, se rebelaram aos gritos de “Mata
branco” e “Viva a liberdade” — e realmente
mataram toda a família de um administrador
da fazenda, inclusive crianças, masnão al-
cançaram a liberdade (69).
É importante enfatizar, no entanto, que o
tema da abolição nas revoltas escravas não
teve de esperar o momento de agitação
abolicionista. Se nessa época nem todo le-
vante visava a liberdade geral e irrestrita, em
épocas anteriores nem todo levante visava
apenas punir feitores, reformar aspectos da
escravidão, libertar somente os poucos escra-
vos nele envolvidos ou fugir para formar
quilombos. Em 1867, durante a revolta de
Viana, Maranhão, os quilombolas do
mocambo de São Benedito retornaram às fa-
zendas da região com um programa
abolicionista. Num dos episódios do levante
eles obrigaram o administrador de uma das
fazendas conflagradas a escrever uma carta
onde declaravam: “nos achamos em campo a
tratar da Liberdade dos Cativos, pois a muito
que esperamos por ella [...]” (70). Antes dis-
so, como vimos, vários movimentos escra-
vos dos anos 20 e 30, no próprio Maranhão e
outras regiões do país, colocaram o mesmo
assunto na ordem do dia. A diferença é que
nos últimos anos da escravidão, a população
livre que anteriormente estava dividida em
torno de outras questões, agora estava dividi-
da na questão específica da escravidão. Com
isso cresceram as alianças entre escravos e
setores livres, inclusive parte da elite branca,
alianças que antes eram ocasionais ou envol-
vendo interesses individuais restritos, como
foi o relacionamento dos quilombolas com
taverneiros, lavradores, etc. Na conjuntura
abolicionista o campo político da atuação
escrava se ampliaria, potencializando o mo-
vimento escravo, emprestando-lhe novos
conteúdos, mas não um sentido especifica-
mente novo. Se o sentido de que falamos é o
da liberdade, ele esteve presente no passado,
tanto no singular, o da alforria geral, como no
plural — o das múltiplas perspectivas de li-
berdade escrava, que objetivavam ampliar o
espaço de manobra dentro da escravidão.
Isto nos leva a uma discussão importante
na historiografia da resistência escrava nas
Américas. Como vimos antes, os rebeldes
escravos freqüentemente se apropriaram da
ideologia liberal e a transformaram em ins-
trumento da liberdade escrava. O historiador
norte-americano Eugene Genovese chega a
afirmar que, na era das revoluções burguesas
e das independências americanas, praticamen-
te desapareceram os africanismos ideológi-
cos que no período anterior, ele acredita, ha-
viam orientado a rebeldia negra, como por
exemplo a formação dos quilombos. Essa tese
já foi refutada dezenas de vezes por historia-
dores de várias regiões e rebeliões nas Amé-
ricas, os quais concluíram que nem os
quilombos foram um retorno a uma África
perdida, nem as ideologias africanas cederi-
am lugar ao novo ideário democrático burgu-
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ês em expansão (71). Se no Brasil este último
despertou os rebeldes de olho e ouvido na
retórica liberal, ou penetrou a senzala na for-
ma indireta e africanizada do “haitianismo”,
o mesmo não se pode dizer da corrente cen-
tral das rebeliões baianas e outros movimen-
tos dirigidos pelos africanos. Na Bahia, os
mestres muçulmanos formaram a liderança
do movimento de 1835 e, durante o levante,
seus seguidores ocuparam as ruas usando
vestimentas muçulmanas e amuletos conten-
do passagens do Alcorão — e não trechos da
Declaração dos Direitos do Homem —, com
os quais acreditavam estar de corpo fechado
contra as balas dos soldados. A própria re-
volta foi marcada para acontecer no final do
mês sagrado do Ramadã daquele ano, a festa
do Lailat al-Qadr, a Noite da Glória, que
coincidia com a popular festa católica de
Nossa Senhora da Guia (72).
Para os escravos rebeldes, a hora de ata-
car nem sempre combinava com o calendá-
rio da grande política ou seu universo
discursivo continha contornos precisos. Com
freqüência a melhor hora de atacar estava
marcada no calendário da pequena política
do cotidiano. De acordo com esta a hora
certa era aquela em que o senhor baixava a
guarda, por exemplo nos períodos de festas,
domingos e dias santos. Um número muito
grande de conspirações e revoltas escravas
ocorreu exatamente nesses períodos, não só
no Brasil, mas mundo afora. O presidente
da Bahia explicou em 1831 que em sua pro-
víncia eram “freqüentes as sublevações de
escravos, os quais principalmente no tempo
do Natal fazem algumas desordens em ra-
zão de estarem mais folgados do serviço
pelos dias santos” (73). Mas o adjetivo fol-
gado, usado pelo presidente, leva ao subs-
tantivo folguedo, usado antigamente para
definir festa. Na festa escrava rolavam lan-
ces culturais bastante distantes de qualquer
ideário “liberal”, por mais amplo, frouxo e
abstrato que se considere o termo. Na festa
identidade e solidariedade coletivas eram
potencializadas através de rituais que afir-
mavam os valores e exorcizavam as dores
do grupo. Ali se instaurava um clima extra-
ordinário de liberdade e de reversão ritual
do mundo que os escravos rebeldes deseja-
ram perpetuar. As revoltas eram planejadas
para os dias festivos, especialmente as noi-
tes festivas, não só porque seus líderes con-
tavam com o relaxamento do controle se-
nhorial, mas porque contavam com a reu-
nião de escravos possuídos por um espírito
de redenção.
Com efeito, oito das 25 revoltas e cons-
pirações baianas do século XIX aconteceram,
ou estavam planejadas para acontecer, no
período do ciclo de festas do verão, entre
dezembro e fevereiro. Outras também ocor-
reriam em dias santos. Eis alguns exemplos
da relação festa/revolta na Bahia e em outras
regiões brasileiras:
- Minas Gerais, 1719: levante de negros
minas e angolas planejado para uma
Quinta-feira Santa, quando os brancos esti-
vessem assistindo à missa;
- Salvador, Bahia, 1807: revolta abortada
planejada para acontecer a 28 de maio, du-
rante as celebrações de corpus christi;
- Itu, Sorocaba, São Carlos (Campinas),
em São Paulo, 1809: escravos rurais fugiram,
se aquilombaram e planejaram levante para o
Natal desse ano, que terminou não aconte-
cendo;
- Santo Amaro e São Francisco do Conde,
Bahia, 1816: uma revolta que durou alguns
dias teve início durante uma festa religiosa
em 12 de fevereiro;
- Rosário do Catete, Sergipe, 1824: liber-
to alferes do batalhão dos henriques conclama
escravos de engenho e pretos forros para le-
vante natalino;
- Cabula, arredores de Salvador, 1826:
revolta do quilombo do Urubu, planejada para
acontecer na véspera de Natal, teve de ser
antecipada porque o quilombo, de onde par-
tiriam escravos fugidos para a capital, foi
atacado;
- Ubatuba, São Paulo, 1831: outra revolta
planejada para explodir no Natal, quando os
escravos atacariam a população livre na igre-
ja durante a missa;
- São Carlos (Campinas), São Paulo, 1832:
denunciada em fevereiro uma conspiração
envolvendo os escravos de vários engenhos,
“cujo levante seria na ocazião de huma festa,
e ajuntamento e brancos”, segundo o depoi-
mento de um escravo preso;
- Salvador, Bahia, 1835: o levante dos
malês aconteceu na noite de 24 para 25 de
janeiro, domingo de festa de Nossa Senhora
da Guia, na igreja do Bonfim;
- Queimado, Espírito Santo, 1849: revol-
ta no dia da festa de São José, quando os es-
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cravos pensavam que seriam alforriados pe-
los senhores;
- Taubaté e Pindamonhangaba, São Pau-
lo, 1853: conspiração planejada para ocorrer
na noite de 16 para 17 de abril, festa de São
Benedito;
- Porto Alegre, 1868: revolta planejada
para acontecer na noite de São João. O plano
original previa a noite do Espírito Santo;
- Bananal, São Paulo, 1881: revolta abran-
gendo várias fazendas planejada para aconte-
cer na noite de São João (74).
Em seu estudo sobre a relação entre re-
volta e festa no Caribe Britânico, Robert Dirks
contou setenta levantes e conspirações entre
1649 e 1833, dos quais quase um terço acon-
teceu ou foi planejado para acontecer durante
as festas de dezembro, o mês daSaturnália
negra. Ele explica no entanto esse padrão de
periodicidade com uma teoria pouco convin-
cente de ritos agônicos. Em resumo, a relação
entre festa e revolta seria dada pelo relaxa-
mento, durante o mês de dezembro, das duras
condições de trabalho e alimentação predo-
minantes ao longo do ano. Ele enfatiza acima
de tudo o fim da fome, atribuindo a revolta a
misteriosos processos fisiológicos que pro-
duzem a agressividade em pessoas que, após
longo período de fome, passam a ter o que
comer. Mesmo admitindo o aspecto político
envolvido no relaxamento do controle escra-
vo, ele o descarta como uma explicação me-
nor para o advento da rebelião e dos ritos de
conflito (ou agônicos), como a Saturnália. Mas
a imbricação entre festa e política, creio eu, é
o aspecto fundamental aqui para entender a
rebeldia escrava e outras. E, acrescente-se,
política e poder como entendiam e pratica-
vam os próprios escravos, como por exemplo
na instituição de suas lideranças (75).
O líder maior de Palmares era chamado
“rei”. Muitos cabeças de levantes intitulavam-
se reis e rainhas, que se faziam aqui, ou que
reconstituíam algum tipo de autoridade que já
exerciam na África. Durante a conspiração de
1719, em Minas Gerais, apareceram dois reis,
um para dirigir os negros minas, outro os de
Angola. A revolta teria abortado por desacor-
do entre os dois grupos, o que confirma a
dificuldade das alianças interétnicas. Exibi-
am ainda título de rei o líder do quilombo do
Urubu de Salvador, que também tinha rainha,
e Manoel Congo, do quilombo de Pati do Al-
feres, que além de rainha tinha “vice-rei”. A
rainha era a escrava crioula Marianna, que teria
resistido com bravura ao assalto da tropa: “não
se entregou senão a cacete e gritava: morrer
sim, entregar não!!!”, escreveu um contempo-
râneo (76). Uma das poucas denúncias de cons-
piração escrava na Bahia pós-35 de que se tem
notícia envolveu um escravo chamado
Bernardo, que se dizia “Príncipe dos Nagôs” e
liderava um suposto movimento contra os
homens brancos de Nazaré, no Recôncavo (77).
“Reis” e “príncipes” africanos pontilham
a história dos escravos trazidos para as Amé-
ricas. No Brasil, Debret descreveu e repre-
sentou imagens do funeral de um desses prín-
cipes africanos no Rio de Janeiro; James
Wetherell, inglês que viveu muitos anos na
Bahia, também comentou o respeito dispen-
sado pelos africanos comuns a esses aristo-
cratas, com direito a beija-mão e outros
salamaleques; há a figura fascinante do Obá
II d’África, negro baiano residente na Corte
que traçava sua genealogia ao Alafinato de
Oyo (78). Além de escravos oriundos da elite
dirigente na África, deve-se pensar nos reis
alegóricos das congadas daqui, que exerciam
um papel de autoridade nas festas étnicas, e
talvez fora delas se, como suspeito, levavam
às vezes seus súditos a fazerem da festa re-
volta. Em 1729, a pedido do governador da
Bahia que denunciava as desordens causadas
pelos “reinados negros”, a coroa os proibiu
(79). Posteriormente voltaria a tolerá-los. De
fato, em 1760, em Santo Amaro, na Bahia,
rei e rainha do Congo participaram das come-
morações oficiais em regozijo pelo casamen-
to do infante d. Pedro de Portugal (80). No
Rio de 1813, a disputa pela coroa dos
cassanges foi parar no palácio de d. João VI,
através de uma petição de uma rainha que
acusava o lado adversário de ter-lhe usurpa-
do o trono (81). Enfim, havia uma mentalida-
de monarquista, por assim dizer, circulando
entre os negros, que parece ter sido recriação
de concepções africanas de liderança, refor-
çadas em uma colônia, e depois um país,
governados por cabeças coroadas. É aliás
conhecida a popularidade de d. Pedro II entre
os negros cariocas, inclusive por sua simpa-
tia pelo abolicionismo. A visão do rei como
fonte de justiça, comum entre a plebe rebelde
na Europa, existia igualmente nas Américas,
inclusive entre os escravos (82). Em 1849 os
rebeldes de Queimado, Espírito Santo, foram
convencidos por seu líder de que haveria in-
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tervenção da “rainha” para obterem suas
alforrias; e em 1832, os conspiradores de
Campinas achavam que o imperador esten-
deria a abolição do tráfico à da escravidão.
Mas em nenhum desses dois movimentos seus
líderes foram chamados de reis.
Muitos dos reis e rainhas africanos po-
dem ter se desdobrado em sacerdotes africa-
nos. O quilombo do Urubu baiano, esmagado
em 1826, tinha um rei e uma rainha — tinha
também um candomblé. Manoel Congo, cha-
mado rei, era também chamado “pai”, talvez
com alguma conotação religiosa. Não se sabe
de rei na conspiração de Campinas, em 1832,
mas é um dos levantes escravos em cuja de-
vassa mais se mencionam feitiços. Pergunta-
do sobre o assunto, o escravo Felizardo disse
que “estas meizinhas era para amansar aos
brancos para as armas dos mesmos não ofen-
derem a elles pretos e se levantarem
afoitamente com os mesmos brancos, mata-
los, e ficarem elles pretos todos forros”. As
“meizinhas” eram raízes em geral feitas e
vendidas pelos escravos congos da região.
Um dos cabeças dessa conspiração, encarre-
gado de distribuir as raízes protetoras, era o
escravo de nação rebolo Diogo, ou “Pai
Diogo”, provavelmente significando, como
no caso de Manoel Congo, o que depois veio
a ser pai-de-santo (83).
Não apenas os homens participaram e
estiveram à frente de revoltas envoltas numa
linguagem religiosa. O poeta Luís Gama es-
creveu que sua mãe, Luiza Mahin, liberta de
nação nagô, teria participado de várias cons-
pirações na Bahia. O poeta teve o cuidado de
destacar que ela era “pagã que sempre recu-
sou o batismo e a doutrina cristã” (84). Tam-
bém de candomblé era a escrava nagô
Zeferina, “rainha” do quilombo do Urubu,
que se levantou em 1826. Durante a luta,
empunhando arco e flecha, ela se destacou
como líder e, segundo uma testemunha, “cus-
tou muito a entregar-se, antes fazia muita
diligência para se reunir os pretos dispersa-
dos” (85). Mulheres participaram pelo menos
da fase conspiratória dos movimentos haussás.
Em 1814 cinco escravas foram acusadas:
Ludovina, Teresa, Felicidade, Germana e Ana.
A liberta Francisca, que percorrera o
Recôncavo com o companheiro Francisco pre-
gando a rebelião, foi condenada ao açoite e
degredo para Angola. Em 1835 nenhuma
mulher foi às ruas lutar, e não há indício de que
alguma tenha participado do seu núcleo diri-
gente na fase conspiratória. Mas muitas eram
muçulmanas, sabiam e apoiavam o levante
de seus homens, 31 das quais foram posterior-
mente investigadas e a maioria punida.
Mas o papel da liderança religiosa na re-
volta escrava não se reduziu apenas a expres-
sões de maior densidade africana. É sabido
que os escravos cristianizados criaram no
Novo Mundo uma forma peculiar de catoli-
cismo crioulo que às vezes inspiraram-nos à
revolta. Em 1836 escravos baianos se junta-
ram à plebe livre católica na destruição de um
cemitério construído para fazer valer a proi-
bição dos enterros nas igrejas. Libertos e
escravos associados a irmandades se integra-
ram a este movimento em defesa da liberdade
de ocuparem sepulturas em espaço sagrado.
Os rebeldes de Queimado foram convenci-
dos por seu líder, o escravo Elisiário, de que
XANGÔ, ORIXÁ DO
MARTELO
BIPARTIDO, DOS
RAIOS, QUE POSSUI
LUGAR DE
DESTAQUE NO
PANTEÃO IORUBÁ
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o missionário capuchinho Gregório de Bene
iria persuadir seus senhores a alforriá-los no
dia de São José. Os escravos vestiram suas
melhores roupas e se dirigiram à igreja para
ouvir a boa nova durante a missa festiva. Era
tudo engano. As circunstâncias não são mui-
to claras, mas sugerem que só escravos cató-
licos e devotos daquele santo, cuja igreja aju-
daram penosamente a construir, poderiam
atribuir tal poder ao padre (86). Em Vassou-
ras, 1847, foram escravos devotos de Santo
Antônio que teriam se envolvido numa cons-
piração com data marcada para o diade um
outro santo, São João. Robert Slenes suspeita
da “cumplicidade” de Santo Antônio em uma
vasta conspiração, no ano seguinte, da qual
participavam escravos identificados com a
“protonação bantu” espalhados por vários
munícipios do vale do Paraíba e sul de Minas
Gerais (87). Esses bantos podem na verdade
ter trazido a devoção antonina da própria
África, se recordarmos que o catolicismo
estava bem assentado na região do Congo-
Angola. Neste sentido o catolicismo pode ter
sido marca de identidade e até de continuida-
de africana no Brasil, como aconteceu em
outras terras (88).
Mas nós não tivemos o nosso Nat Turner,
fiel seguidor da Bíblia, que em 1831, em
Southampton, Estados Unidos, liderou
messianicamente a mais violenta rebelião
escrava naquele país (89). O catolicismo dos
negros brasileiro, uma economia religiosa do
toma-lá-dá-cá entre fiéis e santos, talvez não
servisse para aventuras milenaristas (90). Não
há notícia segura de que irmandades negras
tivessem participado de rebeliões escravas,
exceto na hipótese antes levantada de que
alguns de seus reis teriam sonhado transfor-
mar fantasia em realidade. Há, novamente na
Bahia, a possibilidade de que um dos líderes
do levante de 1814 tivesse algum
envolvimento com irmandades, já que fora
designado “presidente das danças de sua
nação” (91). Mas esta descrição se adapta mais
a um sacerdote de religião africana do que a
um festeiro de irmandade, que seria uma
segunda e secundária hipótese. Acho entre-
tanto improvável que, individualmente, mem-
bros de irmandades negras não tivessem par-
ticipado de alguma das muitas revoltas
baianas e de outras. E se foram à guerra, de-
vem ter pedido licença ao santo de devoção.
Com efeito, Santo Antônio reapareceu em
São Paulo na última década da escravidão,
quando os africanos, bantos e outros já esta-
vam reduzidos a minoria. Ele veio, acompa-
nhado de deuses africanos, para mostrar que
ideologias religiosas, e até messiânicas, po-
diam servir aos objetivos abolicionistas dos
escravos melhor do que ideologias seculares.
Foi o que aconteceu em 1882 na fazenda
Castelo, em Campinas, no episódio há pouco
referido. Sufocada a rebelião descobriu-se,
tal como cinqüenta anos antes na mesma
Campinas, uma complexa teia conspiratória
envolvendo líderes que distribuíam “bebida
preparada com raízes” para fecharem o cor-
po. Os líderes, segundo o depoimento de um
escravo, “entretinhão continuadamente os
escravos da fazenda em sessões de feitiçaria,
nas quais abertamente pregavão a desobedi-
ência aos senhores, o roubo e o assassinato de
feitores e proprietários agrícolas”. A imagem
de Santo Antônio fazia parte dos rituais de
curandeirismo de João Galdino Camargo, não
diretamente vinculado ao movimento de 1882,
mas que era procurado pelos escravos em
busca de proteção mística e saíam soberbos
de sua tenda de milagres. Essas histórias, e
outras mais, foram descobertas nos arquivos
por Maria Helena Machado, que coloca em
novas bases a resistência escrava coletiva nos
anos finais da escravidão. Esses escravos re-
beldes objetivavam a liberdade através de uma
linguagem religiosa sincrética, em avançado
estado de crioulização, que combinava ele-
mentos do registro religioso africano, especi-
almente banto, àqueles do catolicismo popu-
lar e mesmo do espiritismo. Algo muito pró-
ximo do que se entende hoje como a umbanda
paulista. Tínhamos lá uma umbanda
abolicionista (92).
Naturalmente não só o aspecto religioso
entrava na lógica de formação da liderança
política escrava. Os líderes dos movimentos
escravos em geral não eram gente nova na
terra. O africano terminava a travessia do
Atlântico traumatizado, sem energias, não
desembarcava do tumbeiro planejando a pró-
xima revolta. Os líderes rebeldes eram versa-
dos no modo-de-vida dos brancos, negros
ladinos, freqüentemente com alguma profis-
são, experiência urbana e não raro libertos. A
liderança do levante malê de 1835 era forma-
da por escravos e libertos que viviam e traba-
lhavam em Salvador há pelo menos mais de
dois anos. Em Pati do Alferes, 1838, os líde-
35 R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 1 4 - 3 9 , D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6
res eram artesãos (carpinteiros, ferreiros) e
até um escravo feitor. O cabeça, Manoel
Congo, era ferreiro e caldeireiro. Em 1832,
em Campinas, o suposto líder da conspiração
que pretendia dizimar a população branca e
libertar seus escravos era João, um negro forro
barbeiro, que morava em São Paulo. Além de
curandeiro, o líder do levante da fazenda
Castelo em 1882, Felipe Santiago, entre 40 e
50 anos de idade, era crioulo forro natural do
Maranhão, casado, oleiro e dono de um sítio.
Os libertos, que podemos considerar os
elementos mais privilegiados, a elite da co-
munidade africana no tempo da escravidão,
constituíram a liderança de muitas revoltas
escravas. Sem dúvida eles ocupavam posi-
ções estratégicas na estrutura social, a partir
das quais podiam conspirar eficientemente
contra a classe senhorial. Possuíam habilida-
des nas artes e ofícios, como armeiros e ferrei-
ros que podiam fabricar armas; por circularem
entre os livres, tinham acesso a informações
privilegiadas sobre seu governo, estado de
espírito, seus medos e fraquezas; em suas ca-
sas se refugiavam escravos, que faziam reuni-
ões conspiratórias, guardavam dinheiro para
armas e munições, as quais eram ali também
guardadas; os libertos tinham uma mobilidade
geográfica que lhes permitia fazer a ponte entre
escravos rurais e urbanos, e divulgar mais fa-
cilmente as idéias de rebeldia; por fim, a sua
posição privilegiada e independente represen-
tava um modelo da possibilidade de um mun-
do sem o governo dos senhores. As autorida-
des entendiam o perigo representado pelos
forros. Em meados do século XVIII, a câmara
de Mariana, Minas Gerais, pediu ao governo
metropolitano que dificultasse as alforrias e
obrigasse os forros a usarem passes para circu-
lar entre uma e outra freguesia. A metrópole
achou as medidas arbitrárias, mas recomen-
dou que fossem expulsos da região os pretos e
pardos libertos suspeitos de cooperar com
negros fugidos, receptando produtos rouba-
dos por eles, dando-lhes abrigo e fornecendo-
lhes armas e munição (93).
O papel de liderança dos libertos em
muitas rebeliões escravas — caso de Cosme
das Chagas no Maranhão, de alguns dos mes-
tres muçulmanos na Bahia, de João Barbeiro
e Felipe Santiago em Campinas — demons-
tra que os laços de solidariedade e as alianças
extrapolavam os limites da escravidão.
Freqüentemente, a identidade étnica e a reli-
giosa funcionaram como o elo entre esses
grupos diferenciados. Na Bahia, a revolta de
1835 foi produzida principalmente por cen-
tenas de escravos e libertos nagôs e outros
negros islamizados. Nesse caso a religião
amalgamou com solidariedade étnica e ao
mesmo tempo permitiu a aliança interétnica,
principalmente entre nagôs e haussás, escra-
vos e forros. Os forros, é verdade, podiam se
encontrar dos dois lados da peleja. Eram, por
exemplo, bons capitães-do-mato. A denún-
cia da conspiração malê partiu de duas liber-
tas, uma das quais acusara o companheiro
também liberto. Em 1831, numa conspiração
que previa a adesão dos escravos de várias
propriedades em Ipojuca, Pernambuco, os
escravos do engenho Genipapo mataram um
feitor que era forro, mas correu a suspeita de
que teriam se levantado por estímulo de “ne-
gros [libertos] do Recife vendedores de miu-
dezas”, segundo escreveu o senhor daquele
engenho (94). Enfim, o liberto teve um papel
político relevante nos movimentos escravos...
e contra estes.
Os escravos dispunham de poucos recur-
sos políticos, mas não desconheciam os
mecanismos das relações mais amplas de
poder. No Brasil da segunda metade do sécu-
lo XIX eles identificaram rapidamente as
brechas abertas pelo tímido liberalismo vi-
gente e freqüentemente levaram seus senho-
res aos tribunais em defesa de direitos garan-
tidos em lei (95). Mas ao longo da longa his-
tória da escravidão, tiveram pouco ou ne-
nhum acesso às leis do Estado.Entretanto
não se acomodaram. Inventaram estratégias
para negociar no dia-a-dia melhores condi-
ções de vida com os senhores, e quando não
encontraram espaço para a negociação, e
perceberam condições favoráveis, eles se re-
belaram individualmente ou se uniram na
revolta, fazendo política com uma linguagem
própria, ou com a linguagem do branco filtra-
da por seus interesses. Embora fossem derro-
tados na maioria das vezes, os escravos re-
beldes marcariam limites além dos quais seus
opressores não seriam obedecidos. Hoje, eles
inspiram o povo negro do Brasil em suas
lutas pela cidadania plena. Canta Caetano
Veloso:
“E o povo negro percebeu
Que o grande vencedor
Se ergue além da dor”.
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NOTAS
1 Embora existam várias versões de Palmares, quatro livros formam sua bibliografia básica: Ernesto Ennes, As Guerras nos Palmares,
São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1938; Edison Carneiro, O Quilombo dos Palmares, 4a ed., São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1988
(orig. 1946 em espanhol e 1947 em português); Décio Freitas, Palmares, a Guerra dos Escravos, 5a ed., Porto Alegre, 1984 (orig.
1971 em espanhol e 1973 em português); e Ivan Alves Filho, Memorial dos Palmares, Rio de Janeiro, Xenon, 1988. Para um balanço
crítico da historiografia palmarina, ver a “Apresentação” de Waldir Freitas Oliveira ao livro de Carneiro acima.
2 Johan Nieuhoff narrou sua experiência brasileira em: “Voyage and Travels into Brazil, and the Best Parts of the East Indies”,
in Awnsham e John Churchill, A Collection of Voyages and Travels, Londres, H. Lintot & J. Osborn, 1744, vol. II, pp. 1-135.
Ver sobre o cálculo de Pedro de Almeida, entre outros, Freitas, Palmares, p. 108. Já Nina Rodrigues, (Os Africanos no Brasil,
4a ed., São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1976, p. 76) e outros autores antes dele duvidaram dessas estimativas. Stuart B.
Schwartz (Slaves, Peasants, and Rebels, Urbana, U. of Illinois Press, 1992, p.123) contesta a cifra de 20 mil palmarinos, que
se verdadeira equivaleria ao número de escravos nos engenhos pernambucanos de meados do século XVII. Freitas (Palmares,
p.65) duvida de 30 mas admite 20 mil. Alves Filho (Memorial, p.47) cita 30 mil sem reservas.
3 Schwartz, Slaves, Peasants, and Rebels, pp. 125-8, para mais detalhes.
4 Pedro Paulo Funari, “A Arqueologia de Palmares e sua Contribuição para o Conhecimento da História da Cultura Afro-
americana”, in João José Reis e Flavio Gomes (orgs.), História do Quilombo no Brasil, São Paulo, inédito a sair pela editora
Companhia das Letras.
5 Minhas observações sobre poliandria seguem sugestões de Richard Price (“Palmares como Poderia Ter Sido”, in Reis e
Gomes, op. cit.).
6 A historiografia “de esquerda” sobre Palmares inclui, entre outros, Décio Freitas, Ivan Alves Filho e o pioneiro Edison
Carneiro, este último o menos afetado pelo marxismo algo esquemático dos demais, porém dado a excessos culturalistas.
Ver também a interpretação surreal-trotskista de Benjamin Péret: O Quilombo dos Palmares, Lisboa, Fenda, 1988. Eu não
acho que se possa abolir a política da obra historiográfica. Ninguém é santo. Só refuto programar a interpretação da história
apenas para servir ideologias. Discordo deste e outros tipos de servidão.
7 Ver particularmente Alves Filho, Memorial.
8 Carneiro, O Quilombo dos Palmares, pp. 164-5; Ennes, As Guerras nos Palmares, pp. 258-61, documentos 38 e 39.
9 R. K. Kent, “Palmares: An African State in Brazil”, in Journal of African History, 6:2, 1965, pp. 168-9. Como já lembrou Stuart
Schwartz (Slaves, Peasants, p. 134, no 65), Kent demonstra dificuldade em entender o português dos documentos que usa,
distorcendo freqüentemente seu conteúdo, além de fazer considerações etnográficas infundadas.
10 Silvia H. Lara, “Do Singular ao Plural: Palmares, Capitães-do-mato e o Governo dos Escravos”, in Reis e Gomes, op. cit.
11 Arquivo Público da Bahia (APEBa), Ordens Régias, vol. 8, doc. 92-A.
12 Sumário de culpa de João José Ferraz, 1833, Arquivo Municipal de Rio de Contas, doc. não catalogado.
13 APEBa, Ordens Régias, vol. 86, doc. 78A.
14 Luiz Mott, “Santo Antônio, o Divino Capitão-do-mato”, in Reis e Gomes, op. cit.
15 Edison Carneiro, “Singularidades dos Quilombos”, in Carneiro, O Quilombo dos Palmares, pp. 15, 19, 22-3 sobre circu-
lação de quilombolas pela sociedade livre. Um bom artigo que sistematiza a inserção do quilombola na “sociedade livre” é
o de Thomas Flory, “Fugitive Slaves and Free Society: the Case of Brazil”, in The Journal of Negro History, 64: 2, 1979, pp.
116-30. Clóvis Moura (Os Quilombos e a Rebelião Negra, 4a ed., São Paulo, Brasiliense, 1985) adverte para o fato de que
o quilombo “nunca foi [...] uma organização isolada”, mas enfatiza seus contatos solidários com escravos e outros setores
subalternos. (Ver, por exemplo, pp. 18, 22.) Ver também, do mesmo autor: Quilombos: Resistência ao Escravismo, 3a ed.,
São Paulo, Ática, 1993, pp. 24-5. Em seu livro já clássico, Rebeliões da Senzala (4a ed., Porto Alegre, Mercado Aberto, 1988,
cap. 3), Moura amplia mais o quadro de alianças. As muitas contradições das alianças entre quilombolas e outros setores
em Minas Gerais são discutidas por Carlos Magno Guimarães, “Mineração, Quilombos e Palmares”, e Donald Ramos, “O
Quilombo e o Sistema Escravista em Minas Gerais”, in Reis e Gomes, op. cit.
16 Ver os artigos em Reis e Gomes (op. cit.) escritos por Donald Ramos, Eurípedes Funes, Carlos Magno Guimarães, Mary
Karasch, Marcus J. M. de Carvalho, Luiza Volpato, Flavio Gomes, Mário Maestri e João Reis. Mais sobre o campo negro de
Iguaçu e outras áreas do Rio de Janeiro em Flavio Gomes, Histórias de Quilombolas (Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, 1995),
e quilombos em torno da Corte, Mary Karasch, Slave Life in Rio de Janeiro, 1808-1850, (Princeton, Princeton U. Press, 1987,
pp. 311-5); e em Minas Gerais, Carlos Magno Guimarães, A Negação da Ordem Escravista). São Paulo, Ícone, 1988. Ainda
sobre Minas, e enfatizando essa “integração” social dos quilombolas, Kathleen Higgins (“Masters and Slaves in a Mining
Society: a Study of Eighteenth-Century Sabará, Minas Gerais”, in Slavery & Abolition, 11:1, 1990, pp. 65-8). Sobre os
quilombos suburbanos em Salvador, Bahia, João J. Reis Rebelião Escrava no Brasil (São Paulo, Brasiliense, 1986, pp. 65-
7); e em São Paulo, Magda Maria de O. Ricci “‘Nas Fronteiras da Independência’: um Estudo sobre os Significados da
Liberdade na Região de Itu (1799-1822)”, (Dissertação de Mestrado, Unicamp, 1993, pp. 62-3).
17 Conforme sugeriu Stuart B. Schwartz (“The Mocambo: Slave Resistance in Colonial Bahia”, in Richard Price (org.), Maroon
Societies, New York, Anchor Books, 1973, p. 211), posição que no entanto o autor não mais adota, conforme Schwartz,
Slaves, Peasants, and Rebels (p. 109).
18 APEBa, Ordens Régias, vol. 86, doc. 78A.
19 Mary Karasch, “Os Quilombos do Ouro na Capitania de Goiás”, in Reis e Gomes, op. cit.. Ver também Moura, Rebeliões
da Senzala, pp. 108-14, sobre quilombolas mineradores.
20 Anônimo, “Notícia diária e individual das marchas [...] que fez o Senhor Mestre de Campo [...] Inacio Correa Pamplona
[...]”, Anais da Biblioteca Nacional, 108 (1988), pp. 76-7. Discussão detalhada deste documento é feita por Laura de Mello
e Souza, “Violência e Práticas Culturais no Cotidiano de uma Expedição contra Quilombolas” (in Reis e Gomes, op. cit.).
21 Carneiro, “Singularidades dos Quilombos”, p. 25.
37 R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 1 4 - 3 9 , D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6
22 Apud Mundinha Araújo, Insurreição de Escravos em Viana, 1867, São Luiz, Sioge, 1994, p. 42. Os quilombolas do
Maranhão também se dedicavam à prospecção de ouro, à lavoura de mandioca e outros alimentos, e ao fabrico de farinha
(pp. 68, 71, por exemplo).
23 João J. Reis, “Escravos e Coiteiros no Quilombo do Oitizeiro: Bahia, 1806”, in Reis e Gomes, op. cit.
24 Tese de autores como Arthur Ramos, Edison Carneiroe Roger Bastide. Ver balanço das interpretações sobre quilombo
brasileiro em Guimarães (A Negação, pp. 17-24), e sobretudo a “Introdução” de Gomes a seu Histórias de Quilombolas.
25 Apud Assunção, “Quilombos Maranhenses”.
26 Sobre formação da cultura afro-americana no Caribe, com implicações óbvias para o caso brasileiro, ver o já clássico
ensaio de Sidney Mintz e Richard Price, The Birth of Afro-American Culture (Boston, Beacon, 1992, orig. 1976), cujos
autores, no entanto, adotam um modelo de formação rápida de uma cultura afro-americana, modelo que não deve ser
generalizado para todas as situações e regiões. Especificamente sobre quilombos, ver: Richard Price, “Introduction”, in R.
Price (org.), Maroon Societies, pp. 1-30; e Price, “Resistance to Slavery in the Americas: Maroon and their Communities”,
in Indian Historical Review, 15: 1-2, 1988-89, pp. 71-95. São importantes também vários trabalhos de Price sobre os
quilombolas Saramaka do Suriname, entre os quais destacaria o genial First-Time (Baltimore, The Johns Hopkins U. Press,
1983), e sua continuação Alabi’s World (Baltimore, The Johns Hopkins U. Press, 1990), onde pratica o modelo interpretativo
esboçado em 1976 no livro em parceria com Mintz. Price argumenta que a cultura escrava no Suriname demorou mais de
se “crioulizar” ou “afro-americanizar” porque, ao contrário da cultura quilombola mais isolada, naquela a comunicação com
a África se mantinha através dos africanos que eram periodicamente incorporados pelo tráfico aos plantéis nas fazendas,
engenhos e cidades.
27 São todas medidas bem conhecidas da legislação antiquilombo das Minas Gerais, discutidas pelos autores arrolados
ao longo dessas notas que discutem a região. Ver também: Julio Pinto Vallejos, “Slave Control and Slave Resistance in
Colonial Minas Gerais, 1700-1750”, in Journal of Latin American Studies, 17 (1985), pp. 1-34; Schwartz, Slaves, Peasants,
and Rebels, pp. 109-12.
28 APEBa, Ordens Régias, vol. 13, doc. 120A.
29 APEBa, Ordens Régias, doc. 6.
30 Sobre o Buraco do Tatu, Schwartz, “The Mocambo” (pp. 222-3).
31 Ronaldo Marcos dos Santos, Resistência e Superação do Escravismo na Província de São Paulo (1885-1888), São
Paulo, IPE/USP, 1980, pp. 30-4.
32 Tratados de paz foram celebrados pelo poder colonial na Jamaica e Suriname, por exemplo, episódios bastante conhe-
cidos da história quilombola nas Américas. Ver os trabalhos de Price citados na nota 26 sobre o Suriname. Sobre a Jamaica,
ver entre outros: Barbara K. Kopytoff, “Colonial Treaty as Sacred Charter of the Jamaica Maroons”, in Ethnohistory, 26: 1
(1979), pp. 45-64; e Mavis Campbell, The Maroons of Jamaica, 1655-1796, Trenton NJ, Africa World Press, 1990, cap. 5.
Houve também “tratados” entre cimarrones e colonos em Cuba e no México: Patrick J. Carroll, “Mandinga: The Evolution
of a Mexican Runaway Slave Community, 1735-1827”, in Comparative Studies in Society and History, 19: 4, 1977, pp. 492-
3.
33 Price, “Palmares como Poderia Ter Sido”. Na entrevista dada à Folha de S. Paulo referida na nota 6 Décio Freitas chega
a conclusão semelhante. Moura (Rebeliões da Senzala, pp. 216-7) analisa com sobriedade a posição de Ganga Zumba.
34 Ver, por exemplo: Carneiro, O Quilombo dos Palmares, pp. 127-9; e Freitas, Palmares, pp. 123-4. Sobre a missão
religiosa: Ronaldo Vainfas, “Deus contra Palmares: Representações Senhoriais e Idéias Jesuíticas”, in Reis e Gomes, op.
cit. Ver também: Alves Filho, Memorial dos Palmares, pp. 133-5.
35 Moura, Rebeliões da Senzala, pp. 112-3; Pinto Vallejos, “Slave Control and Slave Resistance”, pp. 24-5.
36 Sobre as revoltas baianas: Reis, Rebelião Escrava; e Stuart Schwartz, “Cantos e Quilombos numa Conspiração de
Escravos Haussás na Bahia”, in Reis e Gomes, op. cit.; Vilma P. F. de Almada, Escravismo e Transição: o Espírito Santo
(1850-1888), Rio de Janeiro, Graal, 1984, p. 167. Sobre o Maranhão: Assunção, “Quilombos no Maranhão”; e sobretudo
Araújo, Insurreição de Escravos.
37 Ramos, “O Quilombo e o Sistema Escravista”; e Karasch, Slave Life, pp. 324-5.
38 Leslie B. Rout Jr., The African Experience in Spanish America, Cambridge, Cambridge U. Press, pp. 104-5; Stuart
Schwartz, Sugar Plantations in the Formation of Brazilian Society, Cambridge, Cambridge U. Press, 1985, pp. 469-70;
Guimarães, A Negação da Ordem Escravista, pp. 137-42; Pinto Vallejos, “Slave Control and Slave Resistance”, entre outros.
39 Thomas W. Merrick e Douglas H. Graham, Population and Economic Development in Brazil, Baltimore, The Johns
Hopkins U. Press, 1979, p. 51.
40 Estes são alguns dos fatores listados no artigo clássico do sociólogo jamaicano Orlando Patterson, “Slavery and Slave
Revolts: a Socio-Historical Analysis of the First Maroon War, 1665-1740” (in Price (org.), Maroon Societies, pp. 246-92).
Eugene Genovese (From Rebellion to Revolution, New York, Vintage, 1981, pp. 11-2) acrescenta outras “condições gerais
que favoreceram revoltas massivas e guerras de guerrilha” escravas.
41 Ver Eugene Genovese, Roll Jordan Roll, New York, Pantheon, 1974, passim, esp. pp. 3-7.
42 Ver a interpretação paternalista em: Genovese, Roll Jordan Roll; idem, From Rebellion to Revolution, esp. cap. 1; e a
antipaternalista em Herbert Gutman, The Black Family in Slavery and Freedom, New York, Pantheon, 1974.
43 Reis (“Recôncavo Rebelde”, passim e pp. 113-5), sobre a revolta do Vitória. Sobre as do Santana, Stuart B. Schwartz,
“Resistance and Accommodation in Eighteenth-Century Brazil”, Hispanic American Historical Review, 57, 1977, pp. 69-81;
João J. Reis, “Resistência Escrava em Ilhéus”, Anais do APEBa, 44, 1979, pp. 285-97. O inventário de Barbacena, que só
descobri depois de publicado este último artigo, está no APEBa, Judiciária. Inventários, maço 2738.
44 Queiroz, Escravidão Negra, pp. 207-32. Sobre o quilombo de Manoel Congo ver: João Luiz Pinaud et alii, Insurreição
Negra e Justiça, Rio de Janeiro, Expressão e Cultura/OAB, 1987, onde se encontra transcrita a devassa. O estudo mais
completo sobre o assunto é Gomes, Histórias de Quilombolas, cap. 2.
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45 Suely R. Reis de Queiroz, “Rebeldia Escrava e Historiografia”, in Estudos Econômicos, 17, 1987, pp. 25-7. Neste mesmo
volume de Estudos Econômicos (pp. 131-49) esclareço alguns pontos do que discuto em Rebelião Escrava, objeto dos
comentários de Queiroz.
46 Thomas Holloway, Policing Rio de Janeiro, Stanford, Stanford U. Press, 1993, pp. 112-4. Deste mesmo autor sobre
capoeira, “‘A Healthy Terror’: Police Repression of Capoeira in 19th-Century Rio de Janeiro”, Hispanic American Historical
Review, 69 (1989), pp. 637-76. O trabalho mais rico e criativo sobre capoeira no período é de Carlos Eugênio L. Soares: A
Negregada Instituição, Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, 1994.
47 Karasch, Slave Life, p. 325.
48 A imagem da Torre de Babel é de uma carta do governador Luis Monteiro para o rei, em 5/7/1726, reproduzida na íntegra
por Vallejos (“Slave Control”, p. 33). Sobre a política de controle escravo de Arcos: Reis, Rebelião Escrava, pp. 69-73.
49 Marquês de Aguiar ao Conde dos Arcos, 22/3/1814, APEBa, Ordens Régias, vol. 116, doc. 89.
50 Karasch, Slave Life, cap. I, sobre distribuição étnica dos escravos do Rio. Sobre a Bahia, Inês C. de Oliveira, “Retrouver
Une identité: Jeux Sociaux des Africains de Bahia (vers 1750 - vers 1890)”, Doutorado, U. de Paris IV, 1992, cap. II, esp. p.
104; Reis, Rebelião Escrava, pp. 116, 119, 169 e segs. A direção e o volume do tráfico baiano no período é assunto do clássico
de Pierre Verger, Fluxo e Refluxo (São Paulo, Corrupio, 1988). Robert Slenes (“‘Malungu Ngoma Vem!’: África Encoberta
e Descoberta no Brasil”, in Revista USP, 12, 1991-92, pp. 48-67) trabalha com a noção de uma “protonação bantu”, envol-
vendo angolas e outros grupos bantos, para entender a reinvenção étnica entre os escravos do Sul do Brasil.
51 Leila Algranti, O Feitor Ausente, Petrópolis, Vozes, 1988, pp. 152-3; Karasch,assinar o acordo. Foi cedida a ele e seus
partidários a região de Cucaú, onde viveu sob forte vigilância da autoridade portuguesa e hostilizado pelos
moradores das vilas próximas. Depois de conhecer o local e se instalar, percebeu que caíra numa
armadilha. Ordenou que seus homens voltassem a Palmares e um tempo depois morreu de uma forma
misteriosa.
Ganga Zumba, pintura de Albert
Eckhout
Destruição do quilombo
Palmares resistiu ao assédio colonial por mais de um século e durante esse período teve de lutar
arduamente para manter-se livre. Desde o começo do século XVII, mobilizaram-se as primeiras
expedições para destruir Palmares. Em 1602, por exemplo, foi organizada uma expedição sob a
liderança de Bartolomeu Bezerra, que conseguiu destruir alguns mocambos e recapturar escravos
fugitivos.
Os palmaristas acabaram sendo muito beneficiados com a invasão holandesa no Nordeste, porque
a disputa entre holandeses e portugueses desorganizou a economia açucareira, fez com que muitos
engenhos fossem esvaziados e incentivou escravos a fugirem para o Quilombo dos Palmares.
Todos os problemas relativos à administração de Pernambuco, como as iniciativas para recuperar
a economia local e a guerra, fizeram com que os holandeses só organizassem uma expedição
contra Palmares em 1644, sendo que Pernambuco havia sido invadido pelos holandeses em 1630.
Ainda assim, Palmares resistiu e sobreviveu.
Em 1654, os holandeses foram expulsos do Nordeste, e os portugueses retomaram o controle da
região decididos a colocar fim à existência de Palmares. Inúmeras expedições foram realizadas, e
a resistência palmarista seguiu firme, garantindo a sobrevivência do quilombo. A firme resistência
de Palmares levou os portugueses a realizarem uma negociação para garantir a paz.
O governador de Pernambuco, D. Pedro de Almeida, ofereceu para Ganga Zumba, líder de
Palmares em 1678, um acordo de paz. Os portugueses exigiram que os palmaristas:
Abandonassem as terras em que eles viviam e se instalassem em locais que seriam indicados
pelas autoridades coloniais;
Rejeitassem escravos fugidos;
Reconhecessem a autoridade da Coroa Portuguesa;
Entregassem todos os escravos não nascidos em Palmares para que eles fossem reconduzidos
à escravidão.
Ganga Zumba aceitou a proposta, porque entendia que manter a paz com Portugal seria benéfico
ao quilombo a longo prazo. Entretanto, a proposta dividiu o quilombo, porque forçava que os
palmaristas não nascidos lá retornassem para a escravidão. A liderança de Ganga Zumba ficou
abalada, e ele foi assassinado em condições misteriosas.
O novo líder que assumiu, Zumbi dos Palmares, recusou-se a aceitar o acordo de paz, e a guerra
contra os portugueses foi retomada e se estendeu ainda durante alguns anos. A resistência
palmarista sustentou o quilombo até o ano de 1694. Em 1694, foi destruído pela expedição do
bandeirante Domingos Jorge Velho.
Com a destruição do quilombo, Zumbi fugiu e foi morto pelos portugueses em uma emboscada
realizada em 20 de novembro de 1695. Os portugueses permaneceram na região durante muitas
décadas como forma de impedir a reconstrução do Quilombo dos Palmares. A luta de Palmares fez
desse quilombo um símbolo de resistência dos africanos contra a escravidão no Brasil.
Slave Life, pp. 324-6; Holloway, (Policing
Rio de Janeiro, p. 114) também atribui ausência de insurreição no Rio ao bom policiamento. Sobre revoltas rurais baianas:
Reis, “Recôncavo Rebelde”.
52 Cálculos da demografia africana baseados em: Maria José de S. Andrade, A Mão-de-obra Escrava em Salvador, 1811-
1860, São Paulo, Corrupio, 1988, pp. 189-90.
53 João José Reis, “A Greve Negra de 1857 na Bahia”, in Revista USP, 18, 1993, p. 28. Nesta data os nagôs eram 77% dos
escravos africanos matriculados como negros ao ganho em Salvador.
54 Não quero entrar aqui na discussão sobre se os levantes malês baianos foram jihad. Acho que não, e explico por que em
vários trabalhos, em especial “Um Balanço dos Estudos sobre as Revoltas Escravas Baianas” (in J. J. Reis (org.), Escravidão
e Invenção da Liberdade, São Paulo, Brasiliense, 1988, pp. 87-140) e Reis e P. F. de Moraes Farias, “Islam and Slave
Resistance in Brazil” (in Islam et Societé au Sud du Sahara, 3, 1989, pp. 41-66).
55 Karasch, Slave Life, pp. 31-5; Joseph Miller, Way of Death, Madison, Wisconsin U. Press, 1988, cap. 2 e pp. 388-9. Manolo
Florentino e José Roberto Góes (“Estratégias de Socialização Parental entre os Escravos nos Séculos XVIII e XIX”, texto
inédito, Gráfico 1) encontraram dados discordantes de Karasch: apenas 16% de escravos importados teriam até 14 anos.
A diferença pode ser atribuída a duas razões: 1) os dados de Karasch cobrem 1830-52 (período do tráfico ilegal), os de
Florentino e Góes 1822-33 (tráfico ainda legal até 1831) e podem ter ocorrido mudanças na composição etária; 2) os de
Karasch são de africanos importados, os de Florentino e Góes africanos reexportados para fora da cidade. É possível que
a maioria das crianças ficasse na cidade. (Agradeço a Marcus Joaquim M. de Carvalho que, embora refletindo sobre
Pernambuco, me lembrou a estrutura etária dos escravos bantos vindos para o Brasil e suas implicações para a rebeldia.)
Sobre tensões e distúrbios no Rio: Gladys S. Ribeiro, “‘Pés-de-chumbo’ e ‘Garrafeiros’: Conflitos e Tensões nas Ruas do Rio
de Janeiro no Primeiro Reinado (1822-1831)”, in Revista Brasileira de História, 23-24, 1991-92, pp. 141-65.
56 Para uma crítica contundente dos “reificadores” da gente escrava, ver: Sidney Chalhoub, Visões da Liberdade, São Paulo,
Companhia das Letras, 1990, pp. 37-43. Também importantes são as considerações de Silvia Lara (Campos da Violência,
São Paulo, Paz e Terra, 1988, cap. IV).
57 Katia M. de Queirós Mattoso, A Presença Francesa no Movimento Democrático Baiano de 1798, Salvador, Itapoã, 1969;
Luís Henrique D. Tavares, História da Sedição Intentada na Bahia em 1798, São Paulo, Pioneira, 1975.
58 O estudo clássico sobre esta revolução é: C. L. R. James, The Black Jacobins, 2a ed., New York, Vintage, 1963. Uma
interessante interpretação recente, que enfatiza a tradição quilombista dos cativos haitianos no desenlace do movimento,
diminuindo a importância dos “ideais democrático-burgueses”, é: Carolyn Fick, The Making of Haiti, Knoxville, The U. of
Tennessee Press, 1990.
59 Luiz Mott, Escravidão, Homossexualidade e Demonologia, São Paulo, Ícone, 1988, pp. 11-8.
60 Marcus Joaquim M. de Carvalho, “Hegemony and Rebellion in Pernambuco (Brazil), 1824-1835”, Doutorado, U. of Illinois
Urbana-Champaign, 1989, pp. 66-7 e nota 86; Glacira Lazzari Leite, Pernambuco 1824, Recife, Massangana, 1989, p. 102.
61 Robin Blackburn, The Overthrow of Colonial Slavery, 1776-1848, Londres, Verso, 1988, p. 257.
62 Carlos Guilherme Mota, Nordeste 1817, São Paulo, Perspectiva, 1972, pp. 118-20, por exemplo; João J. Reis, “O Jogo
Duro do Dois de Julho”, in J. Reis e E. Silva, Negociação e Conflito, São Paulo, Companhia das Letras, 1989, pp. 90-1, 94;
Araújo, Insurreição de Escravos, p. 50.
63 Sobre Itu, Ricci, “Nas Fronteiras da Independência”, pp. 222-6, 258; sobre a Bahia, Reis, “O Jogo Duro”, p. 92, e APEBa,
maço 2860 (Proclamação de Madeira de Mello, 29/03/1822); sobre o Espírito Santo, Almada, Escravismo e Transição, p. 166.
64 Um estudo pioneiro sobre a participação escrava nos movimentos do período é: Moura, Rebeliões da Senzala, cap. 2.
Ver também, entre outros: Mota, Nordeste 1817, passim; Dirceu Lindoso, A Utopia Armada, São Paulo, Paz e Terra, 1983;
Carvalho, “Hegemony and Rebellion”; Reis, Rebelião Escrava, cap. 2; Paulo César Souza, A Sabinada, São Paulo, Brasiliense,
1987, cap. 7; Mário Maestri, O Escravo Gaúcho, Porto Alegre, Ed. da Universidade, 1993, pp. 76-82; e Helga I. L. Piccolo,
“A Questão da Escravidão na Revolução Farroupilha”, in Anais da V Reunião da SBPH, São Paulo, 1986, pp. 225-30. Ver
também, sobre a participação negra nos movimentos “brancos”: Lana Lage Lima, Rebeldia e Abolicionismo, Rio de Janeiro,
Achiamé, 1981, pp. 71-5.
65 Maria Januária V. Santos, A Balaiada e a Insurreição de Escravos no Maranhão, São Paulo, Ática, 1983; Assunção,
“Quilombos Maranhenses”.
39 R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 1 4 - 3 9 , D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6
66 Luiza R. C. Volpato, Cativos do Sertão, São Paulo/Cuiabá, Marco Zero/Universidade Federal do Mato Grosso, 1993, pp.
186-97; Araújo, Insurreição de Escravos, pp. 79, 84-5, 135-8, por exemplo.
67 Apud Suely R. Reis de Queiroz, Escravidão Negra em São Paulo, Rio de Janeiro, José Olympio, 1977, p. 220.
68 Almada, Escravismo e Transição, pp. 167-74; Lana Lage da Gama Lima, Rebelião Negra e Abolicionismo, Rio de Janeiro,
Achiamé, 1981, p. 93.
69 Maria Helena Machado, O Plano e o Pânico, Rio de Janeiro/São Paulo, Edufrj/Edusp, pp. 73, 92-4. Sobre resistência
escrava e seu impacto sobre as populações livres, inclusive o movimento abolicionista, ver, além deste livro: Santos,
Resistência e Superação do Escravismo, esp. cap. II, e Célia Maria M. de Azevedo, Onda Negra, Medo Branco, São Paulo,
Paz e Terra, 1987.
70 Apud Araújo, Insurreição de Escravos, pp. 33-4.
71 Genovese, From Rebellion to Revolution. Entre seus muitos críticos: Michael Craton, Testing the Chains, Ithaca, Cornell
U. Press, 1982; e Fick, The Making of Haiti.
72 Reis, Rebelião Escrava, pp. 136-55.
73 APEBa, Correspondência do Presidente, vol. 679, fl. 140.
74 Luiz Mott, Sergipe del Rey, João Pessoa, Fundesc, 1988, pp. 68-9; Reis, Rebelião Escrava; Queiroz, Escravidão Negra,
pp. 164, 166-7, 219; Afonso Cláudio, Insurreição do Queimado, Vitória, Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida,
1979; Santos, Resistência e Superação do Escravismo, pp. 38-9; Maestri, O Escravo Gaúcho, p. 74; Machado, O Plano e
o Pânico, pp. 214-5 (outros exemplos de festa e revolta, pp. 183, 214 e 220).
75 Robert Dirks, The Black Saturnalia, Gainsville, U. of Florida Press, 1987, especialmente cap. 7. O autor baseia suas
conclusões em experiências feitas na década de 1940, em laboratório, com pessoas, nos Estados Unidos. Ver também: João
Reis, “O Levante dos Malês: uma Interpretação Política”, in Reis e Silva, Negociação e Conflito, pp. 120-2, sobre o timing
da revolta escrava. Para uma comparação com o fenômeno na Europa: Ives-Marie Bercé, Fête et révolte, Paris, Hachete,
1976.
76 Sobre a participação das mulheres na revolta de Pati de Alferes, ver: Maria Cândida G. de Souza e Jeannette Q. Garcia,
“A Mulher Escrava e o Processo de Insurreição”, in Pinaud et alii, Insurreição Negra, pp. 115-35, salvo engano o único
trabalho sobre a escrava rebelde no Brasil.
77 Idem, ibidem, pp. 74-6; Vallejos, “Slave Control”, pp. 30-1; Carlos O. de Andrade e Salete Lemos, “Quilombo: Forma de
Resistência”, in Pinaud et alii, Insurreição e Justiça, pp. 29-30; Reis, “Recôncavo Rebelde”, pp. 121-6.
78 Jean-Baptiste Debret, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, São Paulo, Martins, 1940, II, pp. 181-6; James Wetherell,
Brazil, Liverpool, Webb & Hunt, 1860, p. 5; Eduardo Silva, Prince of the People, Londres, Verso, 1994.
79 APEBa, Ordens Régias, vol. 23, doc. 106 e vol. 24, docs, 46 e 46A.
80 Francisco Calmon, Relação das Faustíssimas Festas, Rio de Janeiro, Funarte, 1982 (fac-símile do orig. 1762), pp. 52,
57-8.
81 Ver Algranti, Feitor Ausente, pp.145-47; Leila Algranti, “Costumes Afro-brasileiros na Corte do Rio de Janeiro”, in Boletim
do Centro de Memória da UNICAMP, 1, 1989, pp. 17-21 publica na íntegra e comenta o documento relativo a este notável
episódio.
82 Eric Hobsbawm (Primitive Rebels, New York, Norton, 1959, esp. pp. 119-21) estudou o fenômeno na Europa.
83 Ver Queiroz, Escravidão Negra, pp. 216, 219.
84 Ver Sud Menucci, O Precursor do Abolicionismo (Luís Gamama), São Paulo, Nacional, 1938, p. 20.
85 Testemunho de d. Balthasar da Silveira, APEBa, Revoltas, maço 2845.
86 Cláudio, Insurreição do Queimado, esp. caps. II e III.
87 Slenes, “‘Malungu’”, pp. 64 e segs.
88 Ver John Thornton, “On the Trail of Voodoo”, in The Americas, 54: 3, 1988, pp. 261-78; idem, “African Dimensions of the
Stono Rebellion”, in The American Historical Review, 96:4, 1991, pp. 1101-3.
89 Stephen B. Oates, The Fires of Jubilee, New York, Perennial, 1990.
90 Ver Laura de Mello e Souza (O Diabo e a Terra de Santa Cruz, São Paulo, Companhia das Letras, 1986), sobre
religiosidade popular colonial.
91 Ver João J. Reis, (“Différences et Résistances: les Noirs à Bahia sous l’esclavage”, in Cahiers d’Études Africaines, 125,
1992, pp. 15-34), sobre irmandades e política escrava.
92 Machado, O Plano e o Pânico, cap. 3.
93 APEBa, Ordens Régias, vol. 55, doc. 21A. Ver mais detalhes sobre tentativas de controle dos libertos em Minas em:
Guimarães, “Mineração, Quilombos e Palmares”.
94 Carta de Francisco de Paula Negromonte, 27.11.1831, Biblioteca Nacional, Seção de Manuscritos, II-33, 5, 46. Sobre a
posição ambígua dos libertos, ver também Guimarães, (ibidem).
95 Ver por exemplo: Chalhoub, Visões da Liberdade; Keila Grinberg, Liberata, a Lei da Ambigüidade, Rio de Janeiro, Relume
Dumará, 1994; e Eduardo Spiller Pena, “Liberdades em Arbítrio”, in Padê, 1, 1989, pp. 45-57.
Mocambos, Quilombos e Palmares:
A Resistencia Escrava
no Brasil Colonial
Resumo
Fugas de escravos e mocambos eram uma
constante na histdria da escravidao no Brasil. Muitas
destas comunidades localizavam-se perto de vilas e
fazendas e viviam de assaltos contra as mesmas. Os
mocambos muitas vezes misturaram aspectos cultu-
rais da Africa e da experi§ncia escrava no Brasil. A
palavra "quilombo", urn sindnimo para comunidade
de escravos fugidos, referia-se a uma instituigao an-
golana e era talvez relacionada diretamente com a
histdria de Palmares.
STUART B. SCHWARTZD
Abstract
Slave escapes and fugitive settlements (mocam-
bos) were a constant feature of Brazilian slavery.
Many of these communities were located close to
plantations and towns and lived by raiding them. In
mocambos the culture of Africa and the slave expe-
rience in Brazil were often mixed. The term "quilom-
bo" which became a synonym for these encamp-
ments refered to an Angolan institution and may have
been specifically related to the history of the great
community of Palmares.
O Brasil colonial, baseado como foi no trabalho forgado de mdios e africanos,
viu-se continuamente ameagado por vdirias formas de resistencia a instituigao fun-
damental da escravidaoO). Nas Americas, onde quer que a escravidao fosse uma
instituigao bdsica, o medo de revoltas de escravos e o problerria dos escravos fugi-
dos atormentou colonos e administradores coloniais. Essa resistencia assumiu v^-
O autor pertence ao Departamento de Histdria da Universidade de Minnesota.
Tradugao de Laura Teixeira Motta, do original "Slave Resistance in Colonial Brazil"
(*) Abreviaturas usadas neste artigo: ACB-Atas da Cimara. Documentos Histdricos do Arquivo Municipal.
Salvador, 1944-5?, 6 vols.; ACS - Arquivo da Camara do Salvador: AGS - Arquivo General de Simancas
(Espanha); AHU - Arquivo Histdrico Ultramarino (Lisboa); ANTT - Arquivo Nacional daTorredoTombo
(Lisboa); APB - Arquivo Publico do Estado da Bahia (Salvador); ARSi - Arquivum Romanum Societatis
lesu (Roma); BA - Biblioteca da Ajuda (Lisboa); BGUC - Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra;
Bl - Biblioteca de Itamaraty (Rio de Janeiro); BNRJ - Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro; DH - Do-
cumentos Histdricos. Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro); IHGB - Institute Histdrico e Geogrdfico Brasi-
leiro (Rio de Janeiro).
(1) Este artigo inclui partes de urn trabalho anterior (SCHWARTZ, 1970).
ESTUDOS ECONOMICOS, SAO PAULO, V. 17, N9 ESPECIAL, p.61-88,1987
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MOCAMBOS NO BRASH
has formas e expressou-se de dlversas maneiras. Recalcitrancia no dia-a-dia, dimi-
nuigao do ritmo de trabalho e sabotagem foram provavelmente as formas de resis-
tencia mais comuns, enquanto autodestruigao atrav^s do suicidio, infantiddio ou ten-
tativas manifestas de vinganga foram, em sentido pessoal, as atitudes mais extre-
mas. Os exemplos mais dramaticos de agao coletiva foram uma sdie de revoltas de
escravos ocorridas na Bahia no infcio do s^culo dezenove; entretanto, revoltas como
a dos males, em 1835, foram episodios verdadeiramente extraordin&ios(2). A fuga
foi, de longe, a forma mais comum de resistencia escrava no Brasil colonial e urn
problema caractehstico do regime escravista brasileiro foi a existencia das comuni-
dades de fugitives denominadas diversamente mocambos, ladeiras, magotes ou
quilombos.
Houve urn tempo em que a historiografia brasileira ignorava esse aspect© do
passado do pafs; contudo, trabalhos realizados durante os ultimos cinquenta anos,
especialmente sobre a grande comunidade de fugitives de Palmares, mudaram con-
sideravelmente essa situagao(3). Ainda assim, sob varios aspectos, tem-se encarado
o tdpico fuga e resistencia escrava no Brasil de forma ilusoriamente simples e as
analises tern sido frequentemente baseadas em urn conjunto limitado de questoes
as quais se fornece uma serie de respostas inspiradas pelo bom senso. For que fu-
giam os escravos? Para escapar da escravidao. Onde se localizavam as comunida-
des de fugitives? Longe de possfvel retaliagao dos brancos. Por que os fugitives ata-
cavam a sociedade dos brancos? Para libertar seus companheiros e porque detesta-
vam a escravidao. Havia solidariedade de classe entre os escravos? Naturalmente.
Que tipo de sociedades criavam os fugitives? Mais ou menos igualiterias, baseadas
em tradigoes africanas. Notadamente ausente dos estudos sobre marronage no Bra-
sil tern sido a preocupagao com alguns dos assuntos que tern absorvido estudiosos
desse fenomeno em outras sociedades escravocratas americanas. Distingoes entre
petit marronage de escravos que se ausentavam por curtos pehodos e aqueles que
fugiam para escapar definitivamente da escravidao raramente tern sido feitas no
BrasiK4). As intengoes dos marrons tern sido objeto de muitos estudos na Jamaica e
no Haiti, o que, com excegao do caso de Palmares, nao acontece no Brasil. At6 que
ponto os escravos fugidos organizaram uma resistencia visando conscientemente a
desbaratar ou pelo menos atacar a sociedade escravocrata em lugar de procurer sua
(2) A s^rie de revoltas de escravos na Bahia entre 1807 e 1835 6 estudada em REIS (no prelo). Ver tamb6m
SCHWARTZ (1985, especialmente cap. 17, p. 468-488). Sobre os mal§s, ver REIS (1986).
(3) Para uma visao geral sobre o assunto, ver MOURA (1981 a e 1981 b). Vertambdm GOULART (1972). Tern
havido consider^vel desenvolvimento da historiografia regional dos quilombos. Sobre o Parci, por exem-
plo, ver SALLES (1971); sobre o Rio Grande do Sul, ver MAESTRI FILHO (1979); sobre Minas Gerais,
ALMEIDA BARBOSA (1972); sobre a Bahia, al6m de SCHWARTZ (1970), hci material consider^vel em
PEDREIRA (1973). Muitos outros trabalhos que tratam da escravidao em geral em base local ou regional
contem informagoes sobre os quilombos. Ver, por exemplo, FIGUEIREDO (1977), sobre Sergipe. Os tra-
balhos cldssicos sobre Palmares continuamsendo CARNEIRO (1966) e FREITAS (1954); a estes deve-
se agora acrescentar FREITAS (1973).
(4) Ver a discussao em DEBIEN (1966, p. 3-44), uma parte da qual aparece em PRICE (1973, p. 107-134); e
o cl£ssico relato de DEBBASCH (1961, p. 1-112; 1962, p. 177-192). MULLIN (1972) 6 urn excelente es-
tudo das motivagoes, experi§ncias e agoes dos escravos fugidos.
62 Estudos Economlcos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987
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liberdade pessoal 6 questao que permanece sem resposta no Brasil, muito embora
tal resposta pudesse fornecer uma medida da natureza "revolucion^ria" das comuni-
dades de escravos fugidos(5). Em certo grau tais questoes sao dificeis de responder,
devido a escassez de documentagao apropriada; entretanto, uma leitura minuciosa
de fontes locals e o uso de tecnlcas etno-histdricas podem abrir caminho para res-
postas empiricas a algumas das questoes centrals sobre comunidade de fugitives na
sociedade escravista brasileira.
Este artigo examina aspectos das comunidades de fugitives em tres dreas
principais do Brasil colonial: a zona das grandes plantagoes na Bahia, a regiao mine-
ratdria das Minas Gerais e a inacessivel fronteira das Alagoas, sftio dos Palmares, a
maior das comunidades de fugitives. O objetivo d encontrar padrdes nas origens,
criagao, organizagao interna e destruigao dessas comunidades, com o intuito de
melhor compreender o regime escravista e as formas pelas quais africanos e afro-
brasileiros responderam a ele.
Bahia
Comunidades de fugitives floresceram em quase todas as dreas da capitania da
Bahia, embora em algumas regides o problema fosse incomumente agudo. A geo-
grafia e ecologia de grande parte do literal baiano favoreciarrva fuga e o resultado
foi urn grande numero de fugitives e mocambos. Urn relate feito por urn jesufta de
nome desconhecido, em 1619, delineia o problema e sua percepgao pela sociedade
dos brancos:
"essa gente tem o costume de fugir para a floresta e reunir-se em escon-
derijos onde vivem de ataques aos colonos, roubando gado e arruinando
colheitas e plantagoes de cana, o que resulta em muito dano e muito
prejufzo, maiores que os provenientes do relaxamento do seu trabalho dia-
rio. E muitos desses (fugitivos) vivem por muitos anos na floresta, nunca
retornando e morando nesses mocambos que sao lugares ou povoados
que eles criaram no fundo da mata. E de la eles partem para seus assal-
tos, roubando e furtando e muitas vezes matando a muitos, e nesses
ataques eles procuram levar consigo seus parentes, homens e mulheres,
para com eles viver como barbaros"(6)(*).
A tabela 1, que abrange dois sdculos, ressalta a frequencia da formagao de
mocambos e a extensao de sua localizagao geogrdfica dentro da Capitania, sem
(5) Este 6 um tema fundamental abordado em ampla escala em GENOVESE (1979). Para o Haiti, o tema tor-
nou-se um assunto bcisico, como evidenciado em MANIGAT (1977, p. 420-439).
(6) ARSI, Bras. 8 (StL VFL Rolo 159).
(*) As citagoes foram traduzidas do ingl§s e nao confrontadas com os textos de onde o autor originalmente as
extraiu (N. do T.).
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MOCAMBOS NO BRASIL
TABELA 1
LISTA PARCIAL DOS MOCAMBOS BAIANOS
Data Tipo Nome Local Tamanho/Comentarios
1 1614 sertao
2 1629 Rio Vermelho
3 1632 mocambo
4 1636 Itapicuru 40 +
5 1640 mocambo Rio Real
6 1655 Jeremobao
7 1666 mocambo Irara Inhambuque
8 1666-67 mocambo Torre
9 1667 mocambo Jaguaripe
10. 1681-91 mocambo Acaranquanha Serra de Jacobina 60 +
11. 1687 mocambo Rio Real,Inhambupe
12. 1692 Camamu ifder mulato
13. 1699 mocambo Cairu
14. 1705 Jacuipe
15. 1706 Jaguaripe
16. 1713 mocambo Maragogipe
17. 1714 mocambo "campos de cachoeira"
18. 1722 mocambo Cairu 400
19. 1723 mocambo Quiricos "grande"
20,. 1726 mocambo Camisao "antigo"
21. 1733 mocambo Canavieiras "grande"
22. 1734 mocambo Santo Amaro, Nazare
23. 1735 Jacobina
24 . 1736 mocambo Rio das Contas
25. 1744-64 quilombo Buraco de Tatu Itapua 61 +
26. 1745 Santo Amaro
27. 1789 Santana Ilheus
28. 1791 quilombo Matas do Concavo Jacuipe
29. 1796 quilombo Serra de Orobo
30. 1801 quilombo Jacobina
31. 1807 mocambo,
quilombo "cabula" suburbios "inumeros"
32. 1807 quilombo Rio das Contas Ilheus
33. 1809 quilombo Cachoeira "grande"
34. 1825 mocambo Itaparica muitos
35. 1826 quilombo Uruba suburbios 50 +
Fontes: 1. LEITE (1938-50, vol. 5, p. 265); 2. MOURA {1981a. p. 75); 3. ACS, 1:213; 4. ACS, 1:310-11, 329; 5.
ACS, 1; 6. PEDREIRA(1973, p. 78); 7. Documentos do Arquivo Nacional, 27, 25; 8. DH, 11: 385-86; 9.
DH,Q: 301 02; 10 e 11 ACS, 124-1; 12. CERQUEIRA E SILVA (1925, vol. 2, p. 142); 13. ARB, CdG
150, f. 144v; 14 e 15. PEDREIRA (1973, p. 83-84); 16. PEDREIRA (1973, p. 86-88); 17. PEDREIRA
(1973, p. 91-92); 18. AHU, Bahia, p.a. 27; 19. DH. 45; 20. PEDREIRA (1973, p. 101-102); 21. DH, 75,
106, 133, 138; 22. DH, 75, 298; 76, 20-21; 23. DH. 76, 81; 24. DH, 76, 335; 25. AHU, Bahia. cat 6.
456; 26. BNRJ, II-34, 6, 32; 27. ARB, CaG; 28 e 29. ARB, OR 86, f. 242-45; 30. PEDREIRA (1973, p.
123-124); 31. BNRJ, I, 31, 27, 1: AHU, Bahia. cat 29.815; 32. ARB, Cd Gao SMgd. 177; 33. ARB,
CaG. 218; 34. BNRJ. II-33, 26, 35; 35. PEDREIRA (1973, p. 141-143).
mencionar muitos mocambos de que houve noticia durante as tres primeiras d^ca-
das do s^culo dezenove, penodo de numerosas revoltas de escravos em Salvador e
nas cireas agrfcolas vizinhas.
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Certas caracteKsticas da capitanla da Bahia contribufram para a fuga de escra-
vos e a formagao de comunidades de fugitives. A Bahia foi um terminal principal do
com^rcio atlantico de escravos e uma importante zona de agricultura de exportagao
per toda a sua historia. Possuiu sempre uma grande populagao escrava, a qual, per
volta do fim da era colonial, constituia cerca de um tergo da populagao total; porem,
nas zonas das grandes plantagoes, os escravos frequentemente perfaziam mais de
60% dos habitantes. As condigoes nos engenhos eram fisicamente exaustivas e o
tratamento em termos de alimentagao e habitagao era deficiente. Havia, as vezes,
senhores particularmente crueis ou s^dicos, mas, al6m deles, existia um conceito
geral sobre a administragao de escravos que desconsiderava futures retornos de um
"bom" tratamento e enfatizava a extragao de tanto trabalho quanto possfvel ao me-
nor custo. Os escravos tambem viviam com oportunidades limitadas no que diz res-
peito a familia. Os padroes do com^rcio atlantico de escravos e a preferencia dos
senhores por jovens adultos do sexo masculine resultavam em escassez de mulhe-
res, um desequilfbrio cronico entre os sexos. Isso originavauma populagao que tinha
menos a perder com a fuga ou outras formas de resistencia, pelo menos na opiniao
de observadores no Brasil do s^culo dezenove, os quais preconizavam famflias es-
teveis e equilibrio na proporgao dos sexos entre os escravos como meio de contro-
le(7). Tais id&as "progressistas" nao eram, em geral, partilhadas pelos proprietcirios
de escravos da Bahia colonial. Fugas e mocambos permaneceram uma caractehsti-
ca da escravidao na Bahia por toda a sua histdria.
Embora fossem as paroquias agucareiras do Reconcavo Baiano as que pos-
suissem o maior numero e a porcentagem mais alta de escravos, a regiao da Bahia
que experimentou a maior incidencia de formagao de mocambos foi a dos distritos
sulinos de Cairu, Camamu e Hhdus. A maior parte dessas terras era utilizada para a
produgao da mandioca, o produto aghcola bdsico de subsistencia no Brasil. As exi-
gencias de trabalho eram menores que nas propriedades agucareiras e os escravos
viviam em comunidades menores nessa regiao. Enquanto nao havia predominancia
de escravos na populagao das dreas agucareiras, a proporgao de escravos na popu-
lagao dessa zona sulista ainda perfazia entre 40 e 60%. Em outras situagoes, supos-
se que condigoes relativamente boas e uma larga proporgao de escravos tenham si-
do fatores estimulantes da resistencia escrava(8). Neste caso, contudo, o mais im-
portante fator a contribuir para fugas bem-sucedidas era a natureza fronteiriga da re-
giao e suas condigoes militares inst^veis. Cairu e Camamu sofriam constante
ameaga de ataque dos hostis Indies Aimor^s. Este fato e a distancia de possfvel
ajuda militar vinda de Salvador tornavam diflcil a supressao dos mocambos. Os ata-
ques do "gentio bcirbaro" e as depredagoes dos mocambeiros estavam associados
na mente dos colonos e varias medidas foram tomadas para suprimir ambos. Expe-
digoes para eliminar tais ameagas partiram em 1663,1692,1697 e 1723, mas a fre-
quencia da repetigao indica insucesso. Libertos, Indies "domesticados" e unidades
(7) Ver discussao sobre demografia escrava baiana em SCHWARTZ (1985, p. 338-378).
(8) KILSON (1964, p. 175-187); ver tambem PATTERSON (1967, p. 274-280).
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MOCAMBOS NO BRASIL
militares de negros foram utilizados nessas expedigoes, mas uma inovagao funda-
mental foi o use de guerreiros indigenes e bandeirantes paulistas(9). Essa tcitica, ini-
ciada na d^cada de 1670 pelo governador Afonso Furtado do Castro do rio Mendon-
ga, teve algum sucesso e contingentes paulistas foram subseqiientemente empre-
gados em outras partes do Nordeste em operagoes semelhantes, sendo a mais no-
tcivel a destruigao do grande quilombo dos Palmares, em 1684-85(10).
Embora os mocambos do sul da Bahia nao atinglssem a extensao e a popu-
lagao dos Palmares, a ameaga que representavam nao era menos real. Dm relate de
1723 dci conta de urn mocambo com mais de 400 habitantes, mas o tamanho, isola-
damente, nao era o unico determinante da periculosidade do mocambo nessa re-
giaotn). Em 1692, urn grupo de fugitives liderado por cinco capitaes mulatos passou
a saquear as lavouras proximas a Camamu e ameagou tomar a prdpria cidade. 0
tumulto atingiu nao somente o sul da Bahia mas tamb^m o Reconcavo, onde a de-
sordem imperou quando a notlcia daqueles eventos chegou as senzalas dos enge-
nhos e os senhores comegaram a temer disturbio semelhante. Uma expedigao mili-
tar portuguesa em 1692 finalmente destruiu o mocambo, sitiando o povoado prote-
gido por paligadas. O ultimo grito de guerra dos atacados foi: "Morte aos brancos e
viva a liberdade!"^2).
O receio de que cidades como Cairu e Camamu pudessem realmente ser to-
madas nao era de todo exagerado, especialmente em zonas distantes dos centros
de autoridade gdvernamental. Em 1767. o capitao interino de Sergipe de el-Rei rela-
tou depredagoes contlnuas por bandos armados de fugitives; no tempo de seu pre-
decessor, informou ainda, urn bando armado de escravos foragidos marchara cidade
adentro as nove horas da manha portando bandeiras, tambores e coroas na cabega,
e exigira que o oficial do rei Ihes concedesse cartas de alforria. O oficial deu o alar-
me, mas a ausencia de tropas permitiu aos fugitives escapar ilesosf13).
Tamanha aud^cia ressaltava, inclusive, uma realidade bcisica. A maioria dos
mocambos baianos localizava-se relativamente proxima a centros populacionais ou
engenhos nos arredores destes. Conquanto Palmares florescesse no remote interior
das Alagoas e outras comunidades de fugitives tambem se encontrassem em re-
(9) D. Joao de Lencastre S Camara de Cairii, 10 dez. 1697, ARB, Cartas do governo 150. Em 1667 o gover-
nador Alexandre de Sousa Freire solicitou ao governador de Pernambuco quarenta milicianos negros
para, juntamente com negros e fndios baianos, serem usados na luta contra os quilombos em Cairu e
Camamu. AHU, Bahia pap. avul. caixa 10, 1§ ser. nao catalogado.
(10) Ver a discussao em SCHWARTZ (1979, p. 11-13); ROCHA PITA (1880. p. 192-197).
(11) El-Rei ao Governador Vasco Fernandes C6zar de Meneses, 12 fev. 1723. AHU, Conselho Uttramarino,
cddice 247.
(12) Consulta, Conselho Ultramarino, 9 nov. 1692, DH, 89 (1950), 206. A atividade dos quilombolas em Ca-
mamu na 6poca suscitou o temor de uma revolta generalizada dos escravos. O governador Antonio Luiz
Gongalves CSmara Coutinho escreveu ao Conselho Ultramarino: "... em Camamu se levantarem huns
mulatos e convocarem asi grande quantidade de Negros querendose fazerse senhores daquetla villa".
VerBA, 51-IX-30, Bahia, 23jun. 1692.
(13) Jose Lopes da Cruz, capitao interino de Sergipe ao governador da Bahia, 26 set. 1767, ARB, Cartas ao
governo.
66 Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987
Stuart B. Schwartz
gioes distantes, a grande maioria dos mocambos da Bahia e de outras regioes do
Brasil situava-se prdxima a cidades e plantagoes, embora frequentemente em lugares
inacessfveis. Com efeito, algumas das cidades da atual rede urbana de Salvador
originaram-se de comunidades de fugitives.
Diversas sao as razoes desse padrao de formagao dos povoados de fugitives.
Certamente, a\6 o s6culo dezoito, fndios hostis constitufram uma barreira efetiva pa-
ra a penetragao tanto de negros quanto de brancos em muitas regioes. Mais impor-
tante 6 o fato de que a economia interna dos mocambos tornava a proximidade das
cireas colonizadas urn pr^-requisito para o sucesso. A economia dos mocambos, ao
inv^s de retornar as origens pastoris ou agncolas africanas, era muitas vezes parasi-
teria, baseada em assaltos nas estradas, roubo de gado, incursoes e extorsao. Essas
atividades podiam combinar-se a agricultura, mas raros eram os casos de mocambos
tornarem-se auto-suficientes e completamente isolados da sociedade colonial que
ao mesmo tempo os gerava e os temia. Urn tal modo de vida levava as autoridades
coloniais a considerar os fugitives dos mocambos no mesmo piano dos ladroes de
estrada, ou seja, criminosos comuns sujeitos as penalidades civis ordin^rias. Em urn
sentido bastante real, as depredagoes dos mocambos prefiguraram o banditismo so-
cial ou cangago do Brasil p6s-colonial. O mocambo representava uma expressao de
protesto social numa sociedade escravista.
Medidas Antimocambo
Os colonos e oficiais r^gios desenvolveram uma s6rie de medidas para lidar
com a formagao e atividade dos mocambos. Uma tditica consistia em eliminar a fuga
de escravos e recapturar os fugitives antes que pudessem juntar-se em bandos. Jdi
em 1612 Alexandre de Moura, donatcirio de Pernambuco, solicitava ^ Coroa a no-
meagao de urn capitao-de-campo em cada uma das oito parbquias da capitania, o
qual, auxiliado por vinte fndios, perseguiria e recapturaria escravos fugidosO4). Nao
se sabe ao certo quando tais oficiais foram introduzidos na Bahia, mas por volta de
1625 a camara municipalde Salvador havia estabelecido uma escala de recompen-
ses para esses cagadores de escravos. O capitao-do-campo, ou capitao-do-mato,
como o posto passou a ser chamado, trabalhava sob comissao, recebendo uma re-
compense para cada fugitive capturado. Esse sistema foi formalizado em 1676(15).
(14) Bl, Correspondencia de Alvaro e Gaspar de Souza, 17 ago. 1612, f. 81.
(15) ACB, I, 4. Os termos capitao-do-campo e do-mato eram usados permutavelmente. Por volta do fim do s6-
culo dezessete concediam-se cartas de patente para posigoes como a de capitao-mor das entradas dos
mocambos. Ver, por exemplo, ACS, 124.1 f. 126 (10 nov. 1687) e AHU, Bahia pap. avul. caixa 26, I9 nao
cat., 1 jul. 1718. O governador Fernando Jos6 de Portugal escreveu em 1788 sobre a necessidade dos
capitaes-das-entradas e salientou que o tesouro r^gio nao tinha despesa alguma para mante-los, que
eram os proprietcirios de escravos que pagavam por seus servigos, conforme uma lei de 28 de janeiro de
1676. ("a fazenda real nada dispende com estes postos pois os senhores dos negros que fogem sao os
que satisfazem as diligencias em virtude de hum regimento dado aos capitaes de assaltos em 28 jan.
1676"). Portugal para Martinho de Melo e Castro, 30 abr. 1788 (CASTRO DE ALMEIDA, 1914, vol. Ill,
doc. 12.917).
Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987 67
MOCAMBOS NO BRASIL
A camara de Salvador fixava o prego da recompensa de acordo com a distancia en-
volvida. For volta de 1637 as recompensas foram estendidas a qualquer pessoa que
capturasse um fugitivo, nao mais sendo restritas aos capitaes-do-mato. Como vere-
mos, sistema similar foi adotado em Minas Gerais e outras partes do Brasil. O capi-
tao-do-mato tornou-se um elemento ubfquo do Brasil rural.
A aplicagao do sistema nao era sem dificuldades. Capitaes-do-mato ultrazelo-
sos nem sempre resistiam a tentagao de prender escravos que estavam simples-
mente levando mensagens ou cumprindo ordens, com vistas a reclamar a recom-
pensa determinada. Propriet^rios de escravos ^s vezes demonstravam acentuada
relutancia em pagar pela captura de escravos velhos ou doentes que nao mais Ihes
eram uteis. Em vdrias ocasides o excesso de fugitives idosos nao reclamados de
volta pelos senhores, mantidos na prisao municipal de Salvador, forgou a camara
municipal a colocci-los em leilao para pagar as despesasO6). O posto de capitao-do-
mato frequentemente atrafa indivfduos de certa forma marginals, ex-escravos e mes-
tigos libertos, olhados com desconfianga pelos senhores e odiados pelos escra-
vos(17). Ainda assim, os capitaes-do-mato constituiam-se em meio relativamente
eficiente de recapturar os fugitives individualmente, embora em geral estivesse aldm
de sua capacidade controlar os problemas de revoltas de escravos ou das atividades
dos mocambos jci formados.
Um segundo, e ainda nao estudado, m6todo de controle e captura de escravos
era o uso planejado de indios como cagadores de escravos e como contraposigao a
mocambos e possfveis revoltas dos cativos. Senhores de engenho e donatories ab-
senteistas procuraram, no sOculo dezesseis, trazer indios do interior para servirem
como forga de defesa contra possfveis levantes escravos, bem como para servir de
pOra-choque aos ataques de tribos selvagens do interiorO8). Colonos na Bahia tenta-
ram sem sucesso, no sOculo dezessete, conseguir que povoados indfgenas se ins-
talassem prbximos a suas fazendas. Os jesuftas objetaram, temendo que os colonos
explorassem os fndios como mao-de-obra; entretanto, os religiosos reconheciam que
os aliados fndios eram "as muralhas e os baluartes da colonia". Ja em 1614, fndios da
missao jesufta da aldeia de Sao Joao haviam sido usados para destruir um mocam-
bo. A declaragao provavelmente mais explfcita sobre a utilidade dos aliados fndios
(16) ACB, I, 326, 27 jan. 1637. Hd muitos exemplos de capitaes-do-mato excedendo a seus direitos ou crian-
do problemas. O capitao-mor de Sergipe de El-Rei queixou-se em 1806 de um certo Daniel Dias que
estava tentando comprar um posto de capitao-das-entradas simplesmente para aumentar seu poder e
que o mesmo andava pela capitania bSbado e era, pelos seus hdbitos e atitudes; "indigno do uniforme
que usava". (so para ingrosar mais seos despotismos pois he de numero dos valentes daquele e de cus-
tumes pessimos e continuamente anda inbriegado, e se fas pelo seu procidimentos e costumes indigno da
farda que tras.) Ver ARB, Cartas ao Governo 208, Sergipe, 16 nov. 1806.
(17) BGUC, cod. 706, 7 mar. 1703; cod. 709, 5 mai. 1703, f. 140; cod. 711,5 mar. 1744, f. 123; e ACB, 1,13
fev. 1637: 328-9.
(18) No s^culo dezesseis o Duque de Aveiro e o Conde de Linhares, ambos propriet^rios absentefstas, pro-
curaram trazer fndios para suas propriedades para trabalhar e com propdsitos defensivos. Ver AGS, sec.
prov. 1487, 7 out 1603; ANTT, Cartdrio de Jesuftas, mago 8, doc. 9, 28 ago. 1585; mago 16, provi-
sao, 1586.
68 Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987
Stuart B. Schwartz
contra uma populagao escrava Ind6cil foi feita em 1633 por Duarte Gomes de Sil-
veira, colono na Parafba, o qual escreveu:
"nao resta duvida de que sem Indies no Brasil nao pode haver negros da
Guine ou, melhor dizendo, nao pode haver Brasil, pois sem eles (negros)
nada pode ser feito e eles sao dez vezes mais numerosos que os bran-
cos; e se presentemente e diffcil domina-los com os fndios a quern muito
temem... o que sucederia sem os fndios? Revoltar-se-iam no dia seguinte,
e e urn grande risco resistir a inimigos internes"^).
Soldados fndios irregulares, comandados por oficials Portugueses ou capitaes, foram
frequentemente empregados, e com ^xito, contra mocambos por todo o Brasil na
6poca colonial. A destruigao de virtualmente todos os mocambos, desde Palmares
aos esconderijos infinitamente menores da Bahia, Rio de Janeiro e Goicis, dependeu
em grande medida de tropas e auxiliares fndios.
Paradoxalmente, tamb^m muitas referencias a incorporagao de escravos
africanos e afro-brasileiros a povoados indfgenas e a fndios habitando comunidades
de fugitivos. As autoridades portuguesas temiam a natureza solapadora e poten-
cialmente perigosa de tais contatos. Em 1706, a Coroa ordenou que negros, mesti-
gos e escravos fossem impedidos de penetrar em diregao ao interior, onde poderiam
juntar-se a grupos indfgenas hostis. Apesar dessas medidas, era comum a coopera-
gao entre africanos e fndios contra europeus, quer no Brasil portugues ou holandes.
Na Bahia, urn famoso exemplo 6 dado pela sincr^tica e duradoura religiao messiani-
ca denominada Santidade, a qual floresceu nas cireas ao sul da capitania entre gru-
pos indfgenas no final do s^culo dezesseis. Por volta de 1613, relatava-se que es-
cravos fugidos haviam-se unido ao movimento, participando em suas incursoes e
mesmo roubando escravos de Salvador. Ate 1627, apesar de expedigoes punitivas,
os seguidores da Santidade estavam ainda realizando seus ataques(20).
Isso nos conduz ao ate entao ignorado problema dos contatos e relagoes so-
ciais afro-indfgenas. Apesar das tentativas dos Portugueses no sentido de transformar
os fndios em aliados contra a potencial resistencia escrava, alguns fatores contribuf-
ram para aproximar escravos africanos e fndios. Tanto para os escravos fugidos
quanto para as tribos indfgenas nao-domesticadas havia o objetivo comum da opo-
sigao ao regime escravista impost© pelos europeus. Tamb^m em cativeiro fndios e
africanos viviam frequentemente em contato fntimo e habitual. Os fndios continua-
vam a perfazer uma grande, embora decrescente, porcentagem da forga de trabalho
dos engenhos no perfodo 1580-1650, e nao eram incomuns os casamentos entre
negros e fndios. Alguns observadores, como o padre jesufta Belchior Cordeiro, acha-
vam que os escravos africanos tornavam-se mais trateveis quando postos em conta-
(19) "Informacidn q. hize por mandado de VMg.sobre unos capitulos q. Duarte Gomez de Silveira Vezino de
Parahiba embio a la Mesa de Consciencia", AGS, sec. prov. lib. 1583, fs. 382-389.
(20) Foi discutido o movimento da Santidade em alguns detalhes em meu trabalho de 1985 (p. 47-49).
Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987 69
MOCAMBOS NO BRASIL
to com indios cristaos, mas, fosse qual fosse a polftica, os contatos afro-indfgenas
de fato aconteciam. For todo o penodo colonial os fndios constitulram-se tanto nos
melhores aliados potenciais quanto nos mais eficazes oponentes dos escravos fugi-
dos (LEITE, 1965, p. 175-202).
A principal tcitica empregada contra os mocambos consistia simplesmente em
destruf-los e matar ou reescravizar seus habitantes. A oposigao dos Portugueses po-
de ser facilmente explicada. Os ataques e roubos dos mocambeiros ameagavam ci-
dades, obstrufam a produgao, interrompiam vias de comunicagao e viagens(21).
Ademais, quer atrav^s dos ataques ou da atragao que exerciam, os mocambos ar-
rastavam outros escravos para fora do cativeiro. Muitos observadores perceberam os
efeitos dos mocambos sobre as senzalas e urn relato de 1692 nota que "nenhum
colono tera seguro seus escravos" enquanto perdurarem os mocambos!22). Os mo-
cambos representavam uma ameaga a estrutura economica e social do regime es-
cravista.
Acomodar-se com os mocambos era simplesmente inconcebfvel para a maioria
dos oficiais e habitantes brancos coloniais. Ao contr^irio da Jamaica, onde finalmen-
te se concluiu urn tratado com marrons fugitives, tdticas similares eram asperamente
repelidas quando sugeridas no Brasil. Em 1640 o Vice-Rei Jorge de Mascarenhas,
Marques de Montalvao, sugeriu como medida de tempos de guerra que se enviasse
a urn certo mocambo, em missao de paz, urn jesufta linguista e Henrique dias, Ifder
do regimento negro pr6-portugues. A missao teria o objetivo de oferecer liberdade
aos foragidos desde que eles passassem a servir no regimento negro e concordas-
sem em nao abrigar novos fugitives. Tal sugestao deparou-se com dura replica da
camara de Salvador, dominada por senhores de engenho, a qual declarou:
"Sob nenhuma circunstancia e apropriado procurar reconciliagao com es-
cravos ou ceder para tentar aplaca-los. O certo e extermina-los e subjuga-
los, de modo que os que ainda estao domesticados nao se juntem a eles
e os que ainda estao rebelados nao sejam encorajados a cometer mais |
de/zYos..."!23).
Os mesmos sentimentos eram ecoados na Bahia em 1663 pelo Vice-Rei, Con-
de de Obidos, o qual queria a destruigao do grande reduto de fugitives dos Palma-
(21) Em um ensaio provocatlvo Thomas Flory sugere que urn desejo pelas terras desbravadas e desenvolvi-
das pelos mocambeiros era tamb6m um importante impulsionador dos ataques da sociedade colonial so-
bre os mocambos. Suas evidencias sao extraidas principalmente do caso de Palmares; o fato de que mui-
tos mocambos situavam-se em cireas inacessi'veis e geralmente nao destinadas ^s principais culturas de
exportagao tende a contradizer essa hipbtese, embora um desejo de obter terras com melhorias b certa-
mente plausfvel em alguns casos. Ver FLORY (1979, p. 116-130).
(22) BA, 51 -IX-30 (23 jun. 1692), f. 13v.; MORENO (1949, p. 518-562). A distingao entre resistbneia dos mo-
cambos e petit marronage foi reconhecida no Brasil. Em dezembro de 1698, a Coroa respondeu a uma
petigao da Cbmara de Olinda ordenando que os escravos que fugiam de um engenho para outro nao po-
diam ser aprisionados como os que se juntavam a Palmares ou cometiam crimes. Ver AHU, Conselho Ul-
tramarino cod. 257, fl. 1.25. ACB, I (25 nov. 1640), 477-8.
(23) ACB, I (25 nov. 1640), 477-8.
70 Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987
Stuart B. Schwartz
res, como "punigao e exemplo, para por um fim as esperangas dos outros escravos"
Exigia que nao se demonstrasse clemencia aos que resistissem e que a povoagao
fosse reduzida a cinzas at6 que nada restasse a nao ser "a memoria de sua destrui-
gao, para o definitivo desengano dos escravos" de Pernambuco e da Bahia(24).
Tal extermfnio era geralmente executado por expedigoes militares conduzidas
por particulares com apoio local ou por tropas do governo. Firmavam-se as vezes
contratos privados com bandeirantes, estipulando-se recompensas para cada escra-
vo capturado. Capitaes-do-mato, auxiliares indlgenas e colunas militares patrocina-
das pelo governo eram, todos eles, destinados a afrontar a ameaga que as comuni-
dades de escravos fugidos representavam para o regime escravista.
Etnografia dos Mocambos: O Caso do Buraco de Tatu
Os documentos, variados e bastante dfspares, que mencionam as atividades
dos escravos fugidos do Brasil pouco revelam sobre a organizagao social e polftica
das comunidades de foragidos. Por esse motivo, os documentos concernentes k
destruigao do quilombo conhecido como Buraco de Tatu sao de singular importancia
pois, embora de forma alguma completes, eles permitem vislumbrar o que pode ter
sido a histdria de um tfpico mocambo baiano(25).
Em 1763, uma expedigao militar portuguesa destruiu o Buraco de Tatu, locali-
zado a este-nordeste da cidade de Salvador, prdximo a atual praia de Itapoa. Como
resposta a queixas e incomodado com as atividades dos mocambos, Dom Marcos
de Noronha, Conde de Arcos e Vice-Rei do Brasil, iniciou em 1760 uma campanha
para eliminar comunidades de fugitives. Naquele ano, nomeou Joaquim da Costa
Cardozo capitao-mor da conquista do gentio bdrbaro e, aparentemente, encarregou-o
de preparar uma expedigao punitivai26). Embora a incumbencia de Costa Cardozo
indicasse que seu principal objetivo eram os fndios hostis, havia tamb6m consider^i-
vel interesse em destruir "varios quilombos de negros nas cercanias da cidade"i27).
Nao 6 possfvel determinar o numero e a localizagao desses mocambos, mas, al6m
de Itapoa, eles floresceram tamb^m em Cairu e Ipitanga.
O Buraco de Tatu existia desde 1743. A semelhanga da maior parte dos mo-
cambos baianos, sua economia era essencialmente parasitciria, baseada em furto,
extorsao e assaltos espor^dicos. As principals vftimas, contudo, nao eram os bran-
cos senhores de engenho, mas os negros que "vinham todos os dias a cidade para
(24) Obidos ao gov. Francisco de Brito Freyre (9 set 1663), BNRJ, 8, 1,3, fs. 3v-4.
(25) Parte da descrigao a seguir foi inicialmente publicada por SCHWARTZ (1968, p. 429-438). Essa publica-
gao era aparentemente desconhecida por Coelho, quando publicou O Quilombo Buraco de Tatu. Alguns
detalhes adicionais sao encontrados em PEDREIRA (1979, p. 7-10).
(26) ANTT, Chancelaria D. Jos6 I, livro 70, f. 257v. (11jan. 1762).
(27) AHU, Bahia, pap. avul. n9 6451.
Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987 71
MOCAMBOS NO BRASIL
vender os alimentos que plantam em seus terrenes"^). As mulheres mais atraentes
eram tamb^m levadas para o mocambo. A cronica escassez de mulheres entre os
escravos brasileiros era reproduzida e exacerbada nos mocambos. Os fugitives pre-
feriam levar mulheres negras ou mulatas, e hci algumas referencias ao rapto de mu-
lheres europ&as. Tal acusagao nao foi apresentada contra os habitantes do Buraco
de Tatut29).
Apesar das agoes dos fugitives, havia libertos e escravos que, por necessidade
ou simpatia, cooperavam com o Buraco de Tatu. Joao Baptista, urn mulato agricul-
tor, trabalhava com os fugitives e os supria de lenhaf30). Aparentemente nao era o
unico em tal pr^tica. Negros da cidade de Salvador auxiliavam o quilombo ajudando
os fugitives a entrar na cidade a noite para comprar pblvora e chumbo. Tal contato
era perturbador para os proprietcirios de escravos e oficiais r^gios, os quais temiam o
aumento das fugas ou revolta generalizada. Como em outros exemplos, tamb6m
brancos cooperavam com o quilombo, para evitar danos & vida ou propriedade. Tal
cooperagao, embora forgada, indica que os fugitives do Buraco de Tatunao tencio
navam fazer uma guerra total de libertagao contra os segmentos proprietcirios de es-
cravos da populagao. Na verdade, os quilombos poderiam fornecer pontos de enfo-
que em rebelioes de escravos mais generalizadas, como se deu na Bahia no inicio
do s^culo dezenove; contudo, em geral, os objetivos das comunidades de fugitives
parecem ter sido os mais imediatos e prdticos relatives a sobrevivencia. Ademais,
nao obstante as implicagoes da resistencia dos quilombos para a/'classe" escrava,
senhores de engenho e oficiais coloniais percebiam divisoes entre os escravos o su-
ficiente para arriscarem-se a armar escravos dos engenhos para combater fugitives,
como sugeriu o Conde do Ponte em 1807(31).
O Buraco de Tatu foi destrufdo em 2 de setembro de 1763 e, a partir das des-
crigoes militares da campanha e de uma planta desenhada pelos atacantes para
ilustrar os relatbrios, varias inferencias sobre a vida interna dessa comunidade tor-
nam-se possfveis. O quilombo era urn povoado bem organizado, disposto em urn
piano linear de seis fileiras de casas divididas por uma grande rua central (ver figura
1). Havia trinta e duas unidades residenciais retangulares (B) e, como havia aproxi-
madamente sessenta e cinco adultos no quilombo, podemos supor que essas uni-
(28) Ibid, n9 6449. Uma c6pia do documento encontra-se em IHGB, 1.119 (Correspondencia do govemador
da Bahia 1751-82). Tamb6m est^ impresso em CASTRO DE ALMEIDA (1914, vol. 2 (Bahia 1763-86), p.
44-45).
(29) O resgate de duas mogas paulistas e seu irmao de urn quilombo em Minas Gerais 6 objeto de urn relatdrio
de Minas Gerais em 1737, onde o observador rescreveu: "toy hum lastimozo acto ver as lagrimas e la-
mentagoes com q. (sua mae) as recebeo misturando ao mesmo tempo a alegria :om o pezar". Ver ANTT,
Ms. do Brasil 11, 153-154v. (9 jan. 1737); ms. do Brasil 4, f. 40-41 (8 mar. 1737). O temor aos escravos
quanto ao aspecto sexual parece ter urn papel relativamente pequeno nas campanhas contra os quilom-
bos, embora haja, ^s vezes, vestfgios desse sentimento.
(30) "Certidao da sentenga condemnatoria dos negros do quilombo Buraco de Tatu (12 jan 1764)" AHU, Ba-
hia pap. avul. n9 6456.
(31) Conde do Ponte ao Visconde de Anadia (27 abr. 1807). ARB, Cartas do Governo 177.
72 Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987
Stuart B. Schwartz
FIGURA 1
PLANTA DO BURACO DE TATU, EM 1763
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dades representavam casas e nao cortigos. A estreita correlagao de dois adultos por
casa sugere um padrao de monogamia, mas as evidencias nao sao Claras, j£ que os
documentos nao fazem mengao a criangas. Quando se capturavam criangas nasci-
das em quilombos, elas tornavam-se freqiientemente propriedade dos Ifderes da ex-
pedigao e isso pode explicar sua ausencia dos registros judiciaist32). De forma glo-
bal, o padrao marital monogamico, o formato retangular e as fileiras regulares das
casas sugerem a reprodugao de uma senzala de engenho e nao a copia de algum
modelo africano especffico. Inversamente, a ampla rua central dividindo equanime-
mente as casas retangulares e a existencia do que poderia ter sido uma casa ceri-
monial ou de "conferencias" defronte a uma praga (H) sao elementos encontrados
entre grupos Bantu do noroeste, como os Koko, Teke (Anzico) e Mabea(33). Os do-
cumentos remanescentes, na verdade, fornecem poucas indicagoes acerca da origem
^tnica dos habitantes do Buraco de Tatu. Um deles, pelo menos, era crioulo; outro
(32) ACB, I: 119(24jan. 1629).
(33) Ver MURDOCK (1959, p. 276).
Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987 73
MOCAMBOS NO BRASH
FIGURA2
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era mencionado como mandingueiro, termo que em meados do seculo dezoito signi-
ficava simplesmente feiticeiro, mas que tamb^m poderia sugerir que esse fugitive
fosse origincirio de Mandinga. A suposigao mais razocivel 6 a de que nenhum grupo
africano habitava esse mocambo.
A semelhanga de muitas comunidades de fugitives no Brasil, o Buraco de Tatu
era engenhosamente protegido. A penetragao no mocambo era dificultada por uma
extensa rede defensive. A retaguarda era protegida por urn canal pantanoso da altu-
ra aproximada de urn homem. Os tres lados do povoado eram protegidos por urn la-
birinto de estacas pontiagudas (L) fincadas em nfvel abaixo do chao e cobertas para
impedir sua visao por intrusos. Essa defesa era ampliada por uma s6rie de vinte e
uma covas (D) repletas de espetos afiados e camufladas por arbustos e mato. Havia
uma falsa trilha conducente ao mocambo, especialmente bem protegida por langas
e armadilhas camufladas. Somente quando os vigias (N) colocavam pranchas (C, O,
M) sobre alguns dos obstciculos 6 que se tornava possfvel a entrada ou safda. Os Por-
tugueses notaram a eficcicia desse metodo de defesa e esforgaram-se para apontar os
problemas que ele criava para a Coroa. Era urn tipo de defesa bastante diferente
dos quilombos angolanos cercados por paligadas, descritos pelo padre Antonio Ca-
vazzi em 1680 (figure 2) (CAVAZZI DA MONTECUCCOLO, 1687. p. 205-207). Ainda
assim, armadilhas cobertas e estacas pontiagudas eram usadas para protegao de
povoados na Africa, a partir da Nigeria em diregao sul at6 o antigo reino do Congo, e
foram tamb^m utilizadas em Palmares e por outras comunidades de fugitives (BA-
LANDIER, 1964; VAN WING, 1921, p. 148; KENT, 1965, p. 161-175).
74 Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987
Stuart B. Schwartz
A agricultura nao era uma atividade importante na economia predatoria do Bu-
raco de Tatu. A planta, na verdade, mostra uma treliga de maracuj^ (Q) e algumas
hortas pequenas (F), equivalentes, talvez, a hortas do Congo, mas estas ultimas pa-
recem ter sido dedicadas ao cultivo de ervas, e nao a produtos agncolas basicos. Nao
sao indicadas rogas nas Areas ao redor do mocambo. Os fugitives, provavelmente, ex-
torquiam alimentos de seus vizinhos, a tftulo de tributes, e podem ter suplementado
sua dieta com peixe, \A que o povoado localizava-se prdximo a costaf34). A partir do
relatdrio da destruigao do quilombo podem-se respigar alguns aspectos da sua vida
interna. Politicamente, o Buraco de Tatu possufa dois chefes ou capitaes. Antonio de
Sousa era urn capitao-de-guerra e urn segundo |[der,Theodoro, controlava o quilom-
bo ("five administragao do quilombo"). Cada Ifder possufa uma consorte, a qual
chamavam rainha. Move casas (X) eram separadas da parte principal do povoado; tal
separagao pode indicar slmplesmente rec6m-chegados ou a lideranga polftica dividi-
da. Existem tamb^m as possibilidades de que fossem residencia de uma linhagem in-
capaz de viver no povoado principal ou mesmo de urn grupo etcirio de jovens do se-
xo masculine aos quais se determinava que vivessem separadamente. Contudo, es-
ta ultima possibilidade A duvidosa, uma vez que os Portugueses teriam considerado
tal situagao digna de mengao e os registros nada indicam. A religiao dos habitantes
A desconhecida. Dois indivfduos sao mencionados como feiticeiros, urn deles sendo
uma mulher idosa (R). Mulheres sao tradicionalmente as Ifderes nos cultos ioruba
(candombl^) ainda hoje praticados na Bahia, mas as datas desse mocambo
(1743-63) precedem a importagao em larga escala de escravos ioruba no Brasil.
O Buraco de Tatu foi destrufdo em 2 de setembro de 1763. Sob o comando de
Joaquim da Costa Cardozo, uma forga de duzentos homensque inclufa uma tropa
de granadeiros, mas era composta principalmente de soldados auxiliares fndios e de
fndios de urn povoado em Jaguaripe, empreendeu o ataque. Suas ordens de batalha
eram permanecer em campo aXA que
"o quilombo tenha sido destrufdo, os negros capturados, os que resistirem
mortos, a floresta revistada, as cabanas e as defesas queimadas e as
trincheiras cobertas"^).
Guias fndios foram usados para urn reconhecimento das defesas do quilombo antes
do ataque. Este se deu provavelmente a partir do desprotegido lado costeiro do po-
voado. O fator surpresa foi uma vantagem para os atacantes a\A que uma velha ha-
bitante (T) deu o alarme. Os defensores, alguns armados com arcos (P), foram es-
magados pela superioridade num&ica dos adversaries. Seu heroi foi Jos6 Lopes, o
qual disparou duas vezes contra os atacantes e bradou desafiante que era precise
(34) Sabe-se, com certeza, que alguns mocambos praticavam a agricultura. Isso 4 indicado em v^rios docu-
mentos, tais como os de 1796 reimpressos em PERSON (1967, p. 49), sobre o quilombo de Orobd. Tais
prdticas, entretanto, eram diffceis, a menos que o mocambo fosse isolado e retativamente estdvel Cf.
FLORY (1979).
(35) AHU, Bahia pap. avul. n. 6649.
Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987 75
MOCAMBOS NO BRASIL
mais de duzentos homens para captur^-lo. Estava enganado. Quatro fugitives foram
mortos e sessenta e um feitos prisioneiros. Nao hci registro de baixas entre a tropa
expedicion^ria.
Apos a captura os fugitives foram encarcerados em Salvador. Trinta e um de-
les, cujo unico crime fora escapar da escravidao, foram marcados com a letra F {fu-
gido), segundo uma ordem r^gia de 3 de margo de 1741(36). Os escravos foram re-
conduzidos ao cativeiro mediante pagamento dos senhores ao tesouro real. Alguns
deles, contudo, foram escolhidos para punigao exemplar. Antonio de Sousa, capitao
do quilombo, foi condenado a agoitamento public© e sentenciado perpetuamente as
gal^s. Seu amigo Miguel Cosme, "reputado um grande ladrao", recebeu a sentenga
de agoitamento e seis anos a remar em ga\6. Theodoro e Jos6 Lopes foram publi-
camente agoitados e condenados a dez anos nas gal^s. Jos6 Piahuy, "um grande
sertanista e ladrao", recebeu duzentas chibatadas e quatro anos nas gal^s, enquanto
que o crioulo Leonardo recebeu igual numero de chicotadas. Joao Baptista, o agri-
cultor mulato cumplice dos fugitives, foi condenado a cinco anos de exilio penal e a
uma severa multa(37). As duas rainhas receberam sentengas relativamente brandas.
O Buraco de Tatu fornece um exemplo que permite apreender muitos aspectos
da historia das comunidades de fugitives no Brasil. De tamanho relativamente pe-
queno (menos de 100 habitantes), localizadas nas proximidades de centros popula-
cionais e vivendo a custa de seus vizinhos, essas comunidades desenvolveram tra-
digoes sincr6ticas, fundindo elementos brasileiros e africanos. Tamb^m seus habi-
tantes parecem ter sido de v^rias origens, crioulos e africanos de diversas etnias.
Embora roubassem de escravos e pessoas de cor livres tanto quanto de brancos, ha-
via alguns libertos dispostos a cooperar com os fugitivos. A expedigao militar puniti-
va e o uso de Indios representou a resposta usual dos colonialistas aos mocambos.
Vivendo de astucia e ousadia, os fugitivos do Buraco de Tatu mantiveram sua inde-
pendencia por vinte anos, ate que suas agoes e a ameaga a prdpria existencia das
autoridades coloniais resultaram no extermfnio da comunidade. Sob vcirios aspectos,
a histdria do Buraco de Tatu parece ser um exemplo tfpico da histdria das comuni-
dades de fugitivos do Brasil.
Minas Gerais
Os padroes de formagao dos quilombos e as respostas da sociedade colonial
ate agora examinados para o caso da Bahia foram em grande parte reproduzidos
nas dreas mineratorias do centro-sul do Brasil, embora com certas diferengas, como
se poderia esperar, dada a diferente formagao social e economica da regiao. A des-
coberta de ricas jazidas de ouro na regiao montanhosa que se tornou conhecida co-
mo Minas Gerais e o subsequente desenvolvimento de uma sociedade baseada no
(36) BGUC, cod. 707, Livro de Registro da Relagao.
(37) AHU, Bahia pap. avul. n. 6649.
76 Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987
Stuart B. Schwartz
trabalho escravo criaram condigoes que favoreciam particularmente os escravos fu-
gidos e a formagao de mocambosf38). Os escravos perfizeram entre um tergo e me-
tade da populagao total da capitania durante a maior parte do s6culo dezoito e pes-
soas de cor livres constitinam 40% do total por volta de 1821(39). Portanto, em con-
junto, a populagao afro-brasileira escrava e livre perfazia cerca de tres quartos dos
habitantes. Os escravos executavam virtualmente todas as tarefas, mas princlpal-
mente faziam a maior parte do trabalho de mineragao. Seus pregos eram altos e
eram grandemente valorizados. Contanto que fossem produtivos e entregassem aos
senhores o ouro encontrado, os escravos tinham, com freqiiencia, consider^vel auto-
nomia de movimento na regiao mineratdria. O vasto mar de escravos e pessoas de
cor livres forneciam um ambiente potencialmente simpdtico aos fugitives. A natureza
descontfnua dos povoados e a topografia montanhosa forneciam grandes tratos ina-
cessfveis, prdprios para os esconderijos e, mesmo em muitas concentragoes urba-
nas, a grande populagao de cor livre tornava dificil a descoberta dos fugitives. Ade-
mais, como estes eram freqiientemente capazes de fornecer ouro que haviam rou-
bado ou encontrado, alguns brancos dispunham-se a cooperar com os mocambos ou
proteger foragidos. Finalmente, nas condigoes turbulentas e sem lei da nascente Mi-
nas Gerais, escravos eram armados, com freqiiencia, pelos seus proprietdrios e par-
ticiparam nos vdrios movimentos antigoverno e na Guerra dos Emboabas (VALLE-
JOS, 1985, p. 6-8; RUSSELL-WOOD, 1982, p. 42).
Todas essas condigoes contribufam para uma situagao instdvel quanto ao con-
trole dos escravos e geravam sentimentos de inseguranga e medo entre oficiais rd-
gios, cameras municipais e populagao branca em geral. Circularam rumores de re-
voltas planejadas de escravos em 1719,1725 e 1756, mas o problema principal con-
tinuava a ser os mocambos. Por todo o sdculo dezoito governadores, mineradores,
oficiais rdgios e cameras municipais queixaram-se de roubos, assassinates, raptos e
outros crimes cometidos pelos "calhambolas", os habitantes dos mocambos. A res-
posta em Minas assemelhou-se a das regioes costeiras dos engenhos. Tentativas de
usar fndios livres como cagadores de escravos e a instalagao de povoados indfgenas
e, mais tarde, de tropas rdgias com o mesmo propdsito, tiveram pouco impacto. De
inicio, um problema fundamental dessa drea, a qual experimentou uma breve guerra
civil e algumas rebelioes antigoverno devido a impostos, foi a indocilidade generali-
zada da populagao e a recusa dos mineradores em pagar um imposto para o con-
trole dos fugitivos(40). Somente em 1744 d que os jufzes do rei em Minas Gerais fo-
(38) Existe atualmente significativa llteratura sobre os quilombos em Minas Gerais. AI6m de ALMEIDA BARBO-
SA (1972), ver tambdm RUSSELL-WOOD (1982); VALLEJOS (1985, p. 1-34). Tamb6m importante 6
BOXER (1962).
(39) RUSSELL-WOOD (1974, p. 59-83). A estrutura demogrdfica de Minas Gerais § analisada em uma s6rie
de trabalhos de COSTA (como por exemplo os de 1981 e 1979) e LUNA (1981). Ver tamb6m o trabalho
em conjunto de COSTA & LUNA (1982).
(40) Consulta, Conselho Ultramarino (22 dez. 1718), IHGB, Arq. 1.1.25.
Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987 77
MOCAMBOS NO BRASH
ram autorizados a levantar dinheiro (cerca de 300 oitavas de ouro) para pagar pelas
operagoes antiquilombo(41).
0 ativista e racista Conde de Assumar (1717-21) fez do controle dos mocam-
bos uma preocupagao central de seugoverno. Como seu predecessor, sugeriu armar
fndios e usci-los como cagadores de escravos. Em 1717 propos a nomeagao de capi-
taes-do-mato e por volta de 1722 estes postos haviam sido criados e urn conjunto
de regimentos fora estabelecido, com uma escala mbvel de recompensas pela de-
volugao de escravos fugidos, dependendo da distancia que o capitao tivesse que
percorrert42). A dificuldade de recuperar escravos dos mocambos 6 refletida no fato
de urn fugitivo capturado em urn raio de uma I6gua da residencia do capitao-do-ma-
to valer a recompensa de 4 oitavas de ouro, ao passo que o capturado de urn qui-
lombo (definido como urn acampamento de mais de quatro negros com casas erigj-
das) valla 20 oitavasf43).
Assumar e v^rias camaras municipals em Minas Gerals preocupavam-se tanto
com 0 problema de controle dos escravos e mocambos que estavam dispostos a su-
gerlr ou tentar urn sem-numero de medidas severas e extraordin^rlas, vlsando nao
somente aos fugitives mas tamb^m a populagao de cor llvre. Assumar fol o respon-
Scivel por uma tentativa de llmitar 0 numero de manumlssoes na reglao, com 0 ar-
gumento de que a concessao da llberdade conduzla os escravos ao roubo e prostl-
tuigao. Sugeriu tamb^m que 0 grande numero de pessoas de cor livres que controla-
vam proprledades na reglao ameagava a hierarqula social, e ordenou que os residen-
tes de cor livres fossem proibldos de possulr escravos e que nenhum negro pudesse
ser padrlnho de urn escravo. Tals medidas eram impossfveis de ser postas em exe-
cugao, mas demonstravam o medo de Assumar quanto a uma ordem social onde as
dlvlsoes de raga e classe haviam-se tornado indistintas. Para a ameaga dos mo-
cambos o Conde tinha outros remedies. Ao contr&io da Bahia, onde as operagoes
antiqullombo eram deixadas a cargo dos capltaes-do-mato ou de expedigoes ofi-
cialmente patrocinadas, no governo de Assumar qualquer urn que desejasse atacar
urn quilombo poderia faze-lo, carregando as armas que fossem necesscirlas^44).
Tals medidas indlcam um nfvel de Inseguranga e medo nas zonas mineratorias
que parece exceder ao das regioes dos engenhos. Assumar era talvez um exemplo
extremo de tal preocupagao, mas nao o unlco. Camaras municipals em Minas tam-
b^m procuravam lldar seriamente com as ameagas ^ ordem social atrav^s de v^rias
regulamentagoes vlsando a controlar a populagao de cor llvre e atrav^s de campa-
(41) Provisao (2 dez. 1744), ANRJ, Cod. 542, fs. 24-25.
(42> O coment^rio de Assumar acerca do fracasso dos fndios em impedir a formapao de quilombos no tempo
de seu predecessor encontra-se em AHU, Minas pap. avul. Coroa ao Conde de Assumar (12 Jan. 1719).
Sobre a Campanha de Assumar contra os quilombos, ver LOPES (1952, p. 103-251), o qual reimprime
importantes documentos.
(43) O regimento dos capitaes-do-mato foi publicado em 1715 e republicado em 1722. A versaoque perma-
neceu em vigor foi a de 17 de dezembro de 1724. Ver ANTT, Mss. do Brasil 28, 307-309v.
(44) Ver a documentagao pertinente em LOPES (1952) e tamb^m em RUSSELL-WOOD (1982, p. 42).
78 Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(NS Especial):61-88,1987
Stuart B. Schwartz
nhas contra fugitives. Operagoes antimocambo foram organizadas pelas camaras
municipals. Em 1735 a camara de Vila Rica demandou o decepamento de uma das
maos como punigao para escravos fugitives (RUSSELL-WOOD, 1982, p. 42-43). Tal-
vez a mais infame das agoes foi a bcirbara sugestao da camara de Mariana para que
os fugitives, quando capturados, tivessem o tendao de Aquiles cortado, o que permi-
tiria que fossem claudicando para o trabalho, mas tornaria a fuga quase impossfvel.
Tal sugestao foi rispidamente rejeitada pelo Vice-Rei, o Conde de Arcos, como uma
medida indigna de cristaos mas, obviamente, ele nao vivia em Minas Gerais. Deve-
se notar que essa sugestao da camara de Mariana, frequentemente citada por histo-
riadores, era parte de urn apelo mais geral, cujo argument© era que as pessoas de
cor livres da capitania ajudavam os escravos fugidos em seus crimes e que deviam
ser impostas medidas que limitassem as manumissoes e a movimentagao da po-
pulagao de cor livre e os proibissem de portar ou mesmo de possuir armasf45).
Essas atitudes e temores geravam, ^s vezes, consequencias deplor^veis. Em
1716 urn quilombo com 80 a 100 negros, os quais vinham assaltando as estradas
proximas a Vila Real e Vila Nova da Rainha, foi atacado sem sucesso por uma ex-
pedigao punitiva. Uma segunda forga de 150 homens foi organizada pelas duas ci-
dades, a qual destruiu o quilombo assassinando em furia v^rios defensores apds a
rendigao dos mesmos. O juiz do rei recusou-se a processar os culpados, temendo
que futuramente ningu^m mais aderisse a tais expedigoes^46). O Conselho Ultrama-
rine em Lisboa lamentou esses "excesses" mas apoiou o juiz, embora no regimento
dos capitaes-do-mato se advertisse contra o uso excessive da forgat47). Ademais, na
maioria das vezes os quilombos e escravos fugidos estavam fora do alcance das
normas da sociedade civil e da protegao minima de suas leis. Em 1738, uma petigao
dos residentes de Vila Rica para que nao fossem processados pela morte de ca-
Ihambolas recebeu resposta favor^vel do governador (MELLO E SOUZA, 1982, p.
113).
Todos os m^todos tradicionais de controle de mocambos e fugitives foram ten-
tados em Minas Gerais e, al§m deles, alguns outros extraordin^rios. A grande po-
pulagao de pessoas de cor livres na capitania e os muitos pobres "vadios" consti-
tuiam-se em uma ameaga a ordem social, a qual, contudo, poderia ser eficazmente
mobilizada contra os quilombos. Em v^rias ocasioes houve esforgos para engajd-los
nas atividades antiquilombo, mas tais tentativas pouco contribufram para erradicar o
problema (MELLO E SOUZA, 1982, p. 72-84). Tanto os pobres livres quanto os es-
cravos fugidos eram manifestagoes das condigoes inerentes aquela sociedade.
Os quilombos eram, na 6poca, urn problema endemico em Minas Gerais. Eram
numerosos e as vezes atingiam tamanho consider^vel, embora tamb§m neste caso
seja dificil conhecer muita coisa acerca de sua organizagao interna, uma vez que
(45) ARB, Ordens regias 55, f. 99-99v.
(46) "Ouvidor do Rio das Vethas d^ conta...", IHGB, Arq. 1.1.24.
(47) Regimento dos capitaes-do-mato, ANTT, Mss. do Brasil 28, fs. 307-309v.
Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987 79
MOCAMBOS NO BRASIL
devemos nos basear em descrigoes de destruigoes de quilombos. Por exemplo, um
relatdrio de uma expedigao que resgatou algumas criangas brancas de um quilombo
notou que "um mulato intitulado rei, uma concubina e quatro escravos" permane-
ciam & soltaf48). O govemador Gomes Freire de Andrada descreveu um ataque con-
tra um "pequeno" quilombo de mais de 100 negros em 1746. Observou que foram
necessaries tres ataques para veneer a resistencia e que cerca de vinte foram mor-
tos, mais de setenta capturados, bem como um grande numero de mulheres. Esse
"pequeno" quilombo deve ter abrigado entre cem e duzentas pessoasf49). Os dois
maiores quilombos de Minas Gerais, o de Ambrdsio, destrufdo em 1746, e o Qui-
lombo Grande, atacado e eliminado em 1759, abrigavam grande numero de fugiti-
ves, este ultimo contendo talvez mais de mil habitantes (ALMEIDA BARBOSA,
1972, p. 31-53). Esses quilombos, contudo, eram excepcionalmente grandes.
Minas Gerais, portanto, apesar da diferenga de sua base economica e configu-
ragao social e racial, reproduziu e intensificou muitas das condigoes que conduziram
a formagao de mocambos nas zonas de agriculture de exportagao. As respostas do
govern© colonial ao problema em Minas Gerais e as tdcnicas utilizadas para comba-
te-lo foram tambdm semelhantes. Ao ler-se a documentagao das duas capitanias 6
surpreendente o fato de que o termo quilombo fosse muito mais usado em Minas
que na Bahia, onde se preferia mocambo, embora ambas as designagoes estives-
sem em uso por voltade meados do s^culo dezoito. A palavra quilombo, na verda-
de, passou a significar um acampamento de qualquer grupo de foras-da-lei, tanto
que um oficial em Vila Rica relatou, em 1737, preparatives para destruir "um qui-
lombo de brancos omiziados por crimes atroces''^50). Contudo, o termo foi usado
principalmente para designer comunidades de escravos fugidos, tornando-se um
sfmbolo da resistencia escrava no Brasil e, em ^pocas mais atuais, de um movimen-
to pela igualdade dos negros neste pafs.
A diferenga lingiilstica entre Bahia e Minas Gerais 6 at6 certo ponto cronoldgi-
ca e relaciona-se & historia da grande comunidade de fugitives de Palmares, a qual
resistiu por quase um s^culo a todos os esforgos para destrui-la. Para os administra-
dores r^gios, Palmares tornou-se um slmbolo de como qualquer comunidade de fugi-
tives poderia tornar-se uma ameaga real a sociedade civil em uma sociedade baseada
na escravidao. O Conde de Assumar, ao escrever em 1719 que "os negros (de Mi-
nas) podem ser tentados a repetir as agoes de Palmares em Pernambuco, encoraja-
dos porseu grande numero" estava proclamando um temor verdadeiro(51). Conquan-
to Palmares fosse atfpico em tamanho e duragao, sua histdria nao pode ser separa-
da da de outras comunidades de fugitives, considerando, no mlnimo, sua influencia
sobre a forma pela qual os proprietarios de escravos e oficiais rdgios encaravam o
(48) ANTT, Mss. do Brasil 11, fs. 153-54.
(49) Conselho Ultramarino a Gomes Freire (6 maio 1747), AHU, Rio de Janeiro pap. avul. caixa 22.
(50) Manuel Garcia de Oliveira ^ Coroa (7 fev. 1737), ANTT, Mss. do Brasil 4.
(51) Assumar S Coroa (20 abr. 1719), citado em VALLEJOS (1985, p. 15).
80 Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987
Stuart B. Schwartz
problema. Al&n disso, por sua longevidade e magnitude e o longo contato que a so-
ciedade colonial manteve com ela, Palmares oferece algumas oportunidades para
penetrar a dinamica interna de uma comunidade de fugitives.
Repensando Palmares
Ao tratar da questao das comunidades de fugitives no Brasil 6 necessdrio ter-
se em mente o quilombo dos Palmares. Localizado no interior das Alagoas, Palma-
res foi de longe a mais duradoura e maior das comunidades de fugitives. Persistiu
por quase todo o s^culo dezessete (16057-1694), apesar das tentativas en^rgicas de
eliminci-la feitas pelos governos coloniais holandeses e Portugueses e pelos residen-
tes locais das capitanias vizinhas. Devido a seu suposto tamanho (mais de 20.000
habitantes), longevidade e continue contato com a sociedade colonial, conhece-se
mais sobre sua estrutura interna que sobre a maioria dos mocambos. Ainda assim, a
documentagao sobre Palmares nao e extensa e tende a se concentrar na ultima d6-
cada de sua existencia e na sua destruigao finaK52). Muito permanece desconhecido
sobre Palmares, mas isso nao impede que autores procurem escrever sua histdria
ou romantizci-la como uma "Trdia negra" ou uma-"republica" Mais recentemente,
Palmares assumiu importancia simbdlica para os afro-brasileiros em sua luta por
igualdade racial e social53).
Hd muito se reconhece que Palmares era baseada em algumas formas tradi-
cionais africanas de organizagao polltica e social, embora, como a maioria das co-
munidades de fugitives, combinasse tais formas com aspectos da cultura europdia e
adaptagdes especificamente locaist54). Palmares nao era uma comunidade unica,
mas uma sdrie de mocambos unidos em urn unico reino neo-africano. Relatos de vd-
rias testemunhas oculares revelam muito sobre a organizagao interna de Palmares,
embora devamos reconhecer que esse quilombo teve tambdm uma histdria e que a
organizagao e as instituigdes observadas no final do sdculo dezessete nao eram ne-
cessariamente as mesmas do perlodo inicial. Aldm disso, o tamanho de Palmares
tambdm mudou com o decorrer do tempo. Urn relate de meados do sdculo dezesse-
te descreve Palmares como sendo dividida em dois agrupamentos principais e vd-
rios de tamanho menor, estimando a populagao dos vdrios agrupamentos em
(52) Os cl^ssicos relatos sobre Palmares sao: CARNEIRO (1966) e FREITAS (1973), agora em sua 4- edigao
em 1982. Hdtamb6m o trabalho mais antigo, pordm ainda util, de FREITAS (1954).
(53) Podem-se encontrar indicagoes do significado simbdlico de Palmares em trabalhos como os de MOURA
(1983); NASCIMENTO (1968) e seu trabalho mais recente (1980). Doisfilmes, "GangaZumba" (1963) e
"Quilombo" (1984), ambos dirigidos por Carlos Diegues, abordaram esse tema. Em 1984 realizou-se em
Alagoas uma conferdncia de estudiosos e ativistas para comemorar a histdria e o significado de Palmares.
(54) Os aspectos africanos de Palmares tdm fascinado os estudiosos desde que Nina Rodrigues escreveu em
1906 sua ainda util descrigao daquela comunidade. Ver NINA RODRIGUES (1933). Os esforgos mais
consistentes para identificar os aspectos africanos de Palmares foram feitos por KENT (1965), mas, em-
bora esse autor aborde muitos aspectos, suas tradugoes do portuguds e suas conclusdes etnogrdficas
nem sempre sao confidveis.
Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N5 Especial):61-88,1987 81
MOCAMBOS NO BRASIL
11.000. Estimativa posterior e frequentemente repetida aumentava esse numero pa-
ra 30.000, o qual parece exagerado. Durante a maior parte do s^culo dezessete Per-
nambuco e suas capitanias adjacentes possufam 200 engenhos, com uma m^dia de
100 escravos em cada urn. Em outras palavras, a estimativa de 20 a 30 mil habitan-
tes em Palmares igualaria o numero total de escravos na economia agucareira da
regiao (FREYRE, 1977, p. 280-282), o que parece improv^vel. Nao obstante, Palma-
res foi indubitavelmente a maior comunidade de fugitivos existente no Brasil.
Durante sua longa histdria Palmares esteve constantemente sob ataque. Os
holandeses organizaram tres expedigoes contra o quilombo e apds Portugal recupe-
rar o controle do Nordeste em 1654 a guerra prosseguiu. Entre 1672 e 1680 houve
uma expedigao praticamente a cada ano. Os fugitivos resistiram bravamente, mas a
pressao constante os levou a pedir a paz a urn governador de Pernambuco recdm-
chegado em 1678. O "rei" de Palmares, Ganga Zumba, havia, na verdade, tentado
essa polftica a cada novo governador. A semelhanga dos marrons da Jamaica, havia
prometido lealdade a coroa portuguesa e a devolugao de novos fugitivos em troca
do reconhecimento da liberdade do quilombo. Os Portugueses aceitaram tais condi-
goes mas logo as violaram, e dentro da prbpria Palmares deu-se uma revolta onde
Ganga Zumba, o chefe a favor da acomodagao, foi deposto e morto por seu sobri-
nho ZumbK55). A guerra prosseguiu. Quase todo ano partiram expedigoes contra os
fugitivos na ddcada de 1680, mas com pouco sucesso. Os defensores de Palmares
tornaram-se senhores da arte da guerrilha, peritos no uso da camuflagem e em em-
boscadas. Frustrados, os administradores coloniais Portugueses adotaram nova tciti-
ca. Implacciveis guerreiros fndios e escravos de Sao Paulo, que tinham sido usados
na Bahia para desbravar o sertao, foram contratados para eliminar Palmares. O ata-
que teve infcio em 1692 e por dois anos, com ajuda de tropas locais e dos indispen-
Sciveis aliados fndios, lentamente reduziu-se o perfmetro das defesas do mocambo
principal. A batalha final deu-se em fevereiro de 1694. Duzentos fugitivos foram
mortos, quinhentos capturados e outros duzentos, segundo relates, preferiram come-
ter suiefdio a render-se. Zumbi, fugindo apos ter sido ferido, foi trafdo, capturado e
decapitado. Palmares nao mais existia, mas at^ 1746 escravos ainda fugiam para
o local onde se situara e novamente formavam grupos de fugitivos.
Os observadores europeus nem sempre entenderam o que viram, mas de suas
descrigoes fica claro que Palmares era urn estado organizado sob o controle de um
rei, com chefes subordinados em povoados apartados. Embora existam alguns rela-
tes queem: 06 de Junho de
2023.
• BEZERRA, Juliana. Toda Matéria. Zumbi dos Palmares. Disponível em:
https://www.todamateria.com.br/zumbi-dos-palmares/. Acesso em: 06 de Junho de 2023.
https://blog.stoodi.com.br/blog/historia/quilombo-dos-palmares/
https://www.preparaenem.com/historia-do-brasil/quilombo-dos-palmares.htm
https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-era-a-vida-no-quilombo-dos-palmares
https://www.historiadomundo.com.br/idade-moderna/zumbi-dos-palmares.htm
https://www.todamateria.com.br/zumbi-dos-palmares/
12/06/2020 Palmares: um reino africano no Brasil? | Impressões Rebeldes
https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/?temas=palmares-um-reino-africano-no-brasil 1/4
PALMARES: UM REINO AFRICANO NO BRASIL?
A HISTORIOGRAFIA SOBRE PALMARES É REVISITADA PARA AVALIAR A PRESENÇA DE TRADIÇÕES
AFRICANAS NA ORGANIZAÇÃO POLÍTICA DOS MOCAMBOS QUE SE FORMARAM NAS MATAS DE
PERNAMBUCO.
SILVIA HUNOLD LARA
shlara@unicamp.br
Detalhe da Carta Topográfica (…) de Pernambuco, de José Gonçalves da Fonseca, de 1766 (Gabinete de Estudos
Arqueológicos de Engenharia Militar, 4586-3-38-52 (DSE) CART 247/2003), em que a região dos Palmares aparece
assinalada.
A história das fugas de escravos e dos quilombos no Brasil é geralmente narrada de modo a valorizar a luta pela
liberdade empreendida pelos fugitivos. No caso de Palmares, essa perspectiva nasceu ligada ao movimento abolicionista
e cresceu a partir de meados do século XX, predominando até os dias atuais, com abordagens que salientam as
características heroicas das lideranças palmaristas e servem de inspiração para os que combatem as desigualdades
sociais e o racismo. Há, porém, outra vertente analítica, que valoriza as raízes africanas de Palmares.
O primeiro autor a tratar do tema foi Nina Rodrigues, que considerou ser Palmares “uma criação exclusivamente bantu”.
A tese foi desenvolvida depois por Arthur Ramos, que observou que as tradições africanas haviam se adaptado à
realidade da escravidão no Novo Mundo. Foi, entretanto, a partir da obra de Edison Carneiro, O Quilombo dos Palmares,
publicada em 1946 no México e em 1947 no Brasil, que este ponto de vista ganhou força. Para ele, Palmares era “um
pedaço da África transplantado para o Nordeste do Brasil” – e a cultura africana oferecia aos escravos um repertório para
a resistência, fazendo parte de um processo que ele chamou de “contra-aculturativo”. Assim, a “reafirmação da cultura e
do estilo de vida africanos” nos quilombos constituía a base para a luta “contra os padrões de vida impostos pela
sociedade oficial”.
Apesar de alguns autores, como Mário Martins Filho (em Reino negro de Palmares, de 1954), continuarem a enfatizar as
características africanas de Palmares, a historiografia brasileira abandonou aos poucos essa perspectiva analítica, para
valorizar o “protesto escravo” e a resistência dos cativos diante da escravidão. Os significados políticos da história dos
mocambos tornaram-se cada vez mais importantes e a liderança tenaz de Zumbi no Outeiro do Barriga concentrou essa
12/06/2020 Palmares: um reino africano no Brasil? | Impressões Rebeldes
https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/?temas=palmares-um-reino-africano-no-brasil 2/4
força simbólica. A obra de Décio Freitas consolidou e deu corpo a essa leitura da história de Palmares. Seu
livro, Palmares. A Guerra dos Escravos, publicado em 1971 no Uruguai e em 1973 no Brasil, depois revisto e aumentado
diversas vezes até 1984, se constrói como um esforço para afirmar “o conteúdo político e revolucionário das revoltas
escravas”.
Enquanto isso, a partir dos anos 1960, com o desenvolvimento da historiografia africanista nos Estados Unidos, os
estudos internacionais sobre o negro ganharam novas dimensões, tanto acadêmicas quanto políticas. Palmares
chamava a atenção dos pesquisadores, pois abria possibilidades interessantes para investigar o modo como as culturas
africanas haviam se desenvolvido fora da África. Nas décadas seguintes, autores como Raymond Kent, Stuart B.
Schwartz e Robert Anderson retomaram o debate sobre as origens africanas de Palmares, trazendo contribuições
relevantes tanto para a história dos mocambos e seus habitantes quanto para a discussão mais ampla acerca do
nascimento de uma cultura afro-americana.
O debate girava em torno de dois aspectos básicos. O primeiro dizia respeito à homogeneidade ou heterogeneidade dos
habitantes de Palmares. Escrevendo em 1965, Kent recorreu a análises linguísticas para mostrar que a maioria dos
habitantes dos Palmares era falante do quimbundo e teria vindo “do perímetro Congo-Angola”, embora sem pertencer a
um sub-grupo específico. Anderson e Schwartz insistiram na diversidade cultural dos escravizados e na incorporação de
elementos europeus e locais. O segundo aspecto referia-se à presença e à importância das formas tradicionais africanas
na organização social e política dos Palmares. Kent considerava os quilombos uma “recriação de sociedades africanas
num novo meio”. Palmares teria se inspirado em vários modelos africanos de governo e de vida, construindo um estado
centralizado capaz de governar “não apenas indivíduos de vários grupos étnicos africanos mas também os nascidos no
Brasil”. Schwartz retomou o tema num artigo que foi reescrito várias vezes entre 1970 e 1992. Ele também considerou
que os mocambos ecoavam formas políticas e sociais africanas, mas sugeriu que a inspiração estava
nos kilombo Imbangala – nome dado a sociedades rituais que congregavam guerreiros centro-africanos que haviam
invadido a região de Angola ao longo do século XVII. Com rituais próprios, o kilombo reunia homens que não estavam
integrados por laços de parentesco nem por deuses ancestrais e viviam em acampamentos nômades, voltados para
guerras e conquistas, dando-lhes coesão social, religiosa, política e militar. Adaptando esse modelo ao Novo Mundo,
Palmares formava uma comunidade na qual “escravos de várias origens, africanos e crioulos, uniram-se em sua
oposição comum à escravidão”.
Posição semelhante foi defendida por Robert Anderson que, entretanto, acentuou o caráter fortemente “crioulizado” da
cultura palmarista, considerando difícil que os mocambos pudessem ter constituído um reino centralizado conforme
algum modelo centro-africano. Essa interpretação foi posteriormente reforçada pelos resultados das escavações
arqueológicas realizadas na Serra da Barriga nos anos 1990 que localizaram grande quantidade de artefatos indígenas e
algumas faianças portuguesas e holandesas. Ainda que os arqueólogos tenham interpretações um pouco diferentes
entre si, todos tendem a salientar a interação de elementos indígenas, europeus e africanos na formação dos Palmares,
ressaltando seu caráter “multiétnico”, “pluralista” ou “afro-brasileiro”.
O debate sobre as origens africanas de Palmares foi retomado mais recentemente, com a publicação de artigos de John
Thornton, no final dos anos 2000. Apoiado nas reavaliações acerca das características e do volume do tráfico de
escravos no século XVII e em um estudo minucioso das guerras na região de Angola, este autor observou que a
população escrava em Pernambuco era constituída por mais de 80% de pessoas provenientes da região angolana.
Poucos seriam Imbangala, temidos entre os habitantes da região por seus costumes e, especialmente, pelo papel que ali
desempenhavam na escravização de pessoas. Recusando a tese da inspiração Imbangala, Thornton retomou análise de
Kent e afirmou que Palmares era um estado centralizado, em que o poder estava nas mãos de uma oligarquia capaz de
organizar a população e mobilizá-la para a guerra, presidindo provavelmente uma distribuição desigual do trabalho e da
riqueza. Para ele, a organização política de Palmares teria se inspirado nos exércitos centro-africanos, já que muitos de
seus habitantes deviam ter sido soldados em Angola, em algum momento de suas vidas.
Ainda que Schwartz, Anderson e Thornton considerem ter havido diferentes fases na história de Palmares, a avaliação
que fazem sobre suas característicasmencionam um processo de eleigao, a lideranga de um povoado pela mae
de Ganga Zumba e a sucessao ao trono de Zumbi, o sobrinho daquele, sugerem a
existencia de uma linhagem regiat56). As posturas cerimoniais e demonstragoes de
(55) O trabalho de FREITAS (1973) apresenta uma fascinante biografia de Zumbi, mostrando-o como um ho-
mem extraordindrio, capturado na infancia em um ataque a Palmares e criado e educado em latim e por-
tugues por um padre em Porto Calvo. Em 1670, com quinze anos, o jovem foge de volta para Palmares e
posteriormente torna-se seu li'der. No trabalho de Freitas nao estao claras as fontes precisas para essa
biografia.
(56) Tamb&n existem relates de "eleigoes" em quilombos de Angola. Ver CADORNEGA (1940, vol. II, p.
221).
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Stuart B. Schwartz
obediencia requerldas na presenga do rei indicam formas de monarquia africana. Os
fugitives de Palmares viviam da agricultura, embora, como outros mocambos, tam-
b^m negociassem armas e outros produtos com habitantes brancos das redondezas
e assaltassem ^ procura de mulheres, gado e comida. Como em muitas sociedades
africanas, existia escravidao em Palmares. Os que iam por escolha prbpria eram
considerados livres, mas os capturados nos assaltos eram escravizados. Os povoa-
dos de Palmares eram protegidos por paligadas, amuradas, ou por uma rede de ar-
madilhas ocultas muito semelhantes ^s descritas e mostradas acima na descrigao
do mocambo baiano Buraco de Tatu. A religiao nos acampamentos era uma fusao
de elementos cristaos e africanos, embora tamtam nesse aspecto e possfvel que
tenham existido muito mais caracterlsticas africanas do que perceberam os obser-
vadores.
Sob varies aspectos Palmares parece ter sido uma adaptagao de formas cultu-
rais africanas a situagao do Brasil-colonia, onde escravos de v^rias origens, africa-
nos e crioulos, uniram-se em sua oposigao comum a escravidao. Em Palmares as
pessoas tratavam-se de malungo, ou compadre, urn termo de parentesco adotivo
tamb&n usado entre os escravos que haviam chegado juntos no mesmo navio ne-
greiro. Em Palmares podemos perceber a tentative de formar uma comunidade a
partir de pessoas de origens dfspares. Tal tentativa era necess^ria em todas as co-
munidades de fugitives, mas no caso de Palmares hci algumas caracterlsticas espe-
dficas que ajudam a explicar sua histbria em particular, bem como a da resistencia
escrava como urn todo no Brasil colonial.
Existe, creio, uma histbria mais profunda em Palmares, com significativas im-
plicagoes para a histbria subsequente da resistencia escrava no Brasil. Uma chave
para o problema estb na etimologia da palavra "quilombo" Esse termo passou a
significar no Brasil qualquer comunidade de escravos fugidos e seu significado usual
e origem sao dados pela palavra Mbundu usada para designar acampamento de
guerra. Por volta do sbculo dezoito o termo era de uso geral no Brasil, mas sempre
permaneceu secundbrio ao termo mocambo, mais antigo, ou seja, a palavra Ambun-
du, que significa esconderijo. Na verdade, a palavra quilombo nao apareceu em ne-
nhum documento contemporaneo atb o final do sbculo dezessete, exceto pela utili-
zagao, em meados daquele sbculo, pelo poeta Gregbrio de Mattos, o qual a em-
pregou com o significado de qualquer local onde os negros se congregavam. O pri-
meiro documento por mim visto com o termo quilombo sendo usado para designar
uma comunidade de fugitives b datado de 1691 e trata especificamente de Palma-
res(57). A cronologia e conexao com Palmares nao sao acidentais. No termo quilom-
bo estb codificada uma histbria nao escrita daquela comunidade, a qual, somente
agora, devido a pesquisas recentes sobre a histbria africana, pode ser ao menos
parcialmente compreendida.
Embora Palmares combinasse algumas tradigbes culturais africanas e inclufsse
entre seus habitantes crioulos, mulatos, fndios e mesmo alguns brancos renegades e
(57) A ausdncia da palavra quilombo referindo-se a comunidades de fugitives anteriores 6 observada em
KENT (1965, p. 162-163). Vertamb(§m MAESTRI FILHO(1984I vol. II, n. 2. p. 9-19).
Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987 83
MOCAMBOS NO BRASIL
mestigos alem de africanos, as tradigoes de Angola claramente predomlnaram. Os
residentes referiam-se a Palmares como angola janga (pequena Angola), em reco-
nhecimento a tal fato e, em uma queixa em 1672, a camara de Salvador referiu-se a
"opressao que todos sofremos dos barbaros de Angola que vivem em Palmares"^).
Mas vejamos, no contexto da histdria angolana, qual o significado daquela conexao
para a histdria de Palmares.
O reino de Ndongo, que os Portugueses passaram a chamar de Angola no final '
do seculo dezesseis, era uma terra em turbulencia, invadida pela costa por Portu-
gueses e pelo interior por bandos de guerreiros salteadores da Africa Central'59), A
destruigao do antigo reino do Congo e do estado de Luanda em Kitanga criou um
penodo de luta militar e perturbagoes que destrufram povoados e desenraizaram po-
vos. Poderosos grupos de guerreiros desarraigados que se denominavam Imbangala
ou Yaka e eram chamados de Jaga pelos Portugueses irromperam na atual Angola
destruindo os estados existentes e por fim criando uma s^rie de novas formas politi-
cas'60).
As origens e tradigoes culturais precisas dos imbangalas e mesmo a relagao
entre as designagoes jaga, imbangala e yaka tern sido assunto de debate entre afri-
canistas durante certo tempo, mas alguns aspectos da sociedade imbangala/jaga,
de interesse direto para historiadores da resistencia escrava no Brasil e especial-
mente os interessados em Palmares, foram mencionados por observadores contem-
poraneos'61). Em primeiro lugar, os invasores imbangalas viviam em permanente es-
tado de guerra. Dizia-se que matavam os bebes gerados por suas mulheres mas in-
corporavam criangas adotadas as suas fileiras, de modo que com o passar do tempo
eles se tornaram uma forga composta, com um grande numero de pessoas de vcirias
origens ^tnicas unidas por uma estrutura militar organizada. Essa organizagao e sua
ferocidade militar faziam-nos o flagelo da regiao, altamente eficientes e extrema-
mente temidos. As relagoes entre imbangalas e Portugueses eram alternadamente
hostis e amistosas. Entre 1611 e 1619 senhores imbangalas serviram de mercena-
ries para os governadores Portugueses, fornecendo multidoes de cativos aos trafican-
tes de escravos em Luanda (HEINTZE, 1984). Novos estados eram formados por fu-
sao dos imbangalas com linhagens nativas, a medida que os imbangalas conquista-
vam ou criavam vcirios reinos entre os povos Mbundu da regiao congo-angolana. Dois
desses estados eram o reino de Matamba, governado pela rainha Nzinga, com o
qual os Portugueses lutaram ate meados do seculo dezessete, fazendo entao uma
alianga, e o grande reino de Kasanje. Esses estados lutaram entre si pelo controle
(58) Livro das atas da Camara do Salvador (1669-84), 23, citado em PEDREIRA (1980, vol. XI, n. 3, p.
14-17).
(59) BIRMINGHAM (1966) apresenta uma descrigao detalhada desses eventos, e tambdm uma sfntese em
PAGE & OLIVER (1975-86, vol. IV, p. 325-383). Ver tamtam VANSINA (1968).
(60) MILLER (1976) cont^m uma excelente descrigao dos Imbangalas e suas instituigoes.
(61) Sobre o debate, ver MILLER (1972, vol. 13, n. 4, p. 549-574; 1973, vol. 13, n. 1, p. 121-149); THOR-
TON (1978, vol. 18, p. 223-228).
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da bacia do rio Kwango, o que deu margem a crescente escravizagao na regiao
(GLASGOW, 1982; MILLER. 1979, p. 51-94).
Ao deslocarem-se para o sul em Angola no inicio do s^culo dezessete os im-
bangalas encontraram entre o povo Mbundu uma instituigao que adotaram para seus
propbsitos. Tratava-se do ki-lombo, uma sociedade de iniciagao ou campo de circun-
cisao,onde os jovens do sexo masculino eram preparados para o status de adultos
e guerrelros. Os imbangalas moldaram essa instituigao segundo seus prbprios de-
signios'62). Arrancados das terras e deuses ancestrais, sem compartilhar linhagem
comum, vivendo de conquistas e, segundo observadores europeus, rejeitando a agrl-
cultura, a base tradicional das sociedades da regiao, os imbangalas necessitavam
de uma Instituigao que desse coesao aos elementos btnicos dispares que compu-
nham seus bandos. O ki-lombo, uma sociedade militar a qual qualquer homem podia
pertencer por meio de treinamento e iniciagao, servia aquele propbsito. Encontrara-
se, pois, uma instituigao designada para a guerra, a qual podia incorporar grande
numero de estranhos desprovidos de ancestrais comuns a urn poderoso culto guer-
reiro. O ki-lombo imbangala era distinto devido as suas leis rituais. Descendencia e
parentesco, tao importantes para os outros povos basicamente matrilineares da re-
giao, eram negados nos limites do ki-lombo e, embora observadores europeus men-
cionassem infanticidio, as mulheres, estritamente falando, podiam deixar os limites do
ki-lombo para dar a luz os filhos. O que se proibia era um lago matrilinear legal dentro
do ki-lombo que pudesse desafiar o conceito de uma sociedade estruturada por ini-
ciagao ao invbs de parentesco. O historiador Joseph Miller acredita que a "morte"
dos prbprios filhos pelos imbangalas era uma metafora para a eliminagao cerimonial
dos lagos de parentesco e sua substituigao pelas regras e prescrigbes do ki-lombo.
Entretanto, a criagao de uma organizagao social baseada em associagao criava
riscos. Os habitantes do ki-lombo incorriam em particular perigo espiritual, uma vez
que nao possufam os ancestrais familiares regulares que pudessem interceder por
eles junto aos deuses. Assim, uma figura fundamental no ki-lombo era o nganga a
zumba, um sacerdote cuja responsabilidade era tratar com o espfrito dos mortos. O
Ganga Zumba de Palmares era provavelmente o detentor desse cargo, o qual nao
era de fato um nome prbprio, mas um tftulo. Hb outros ecos das descrigbes de An-
gola que parecem sugestivos. No quilombo imbangala a lideranga dependia de al-
gum tipo de aclamagao ou eleigao popular, exatamente como sugerem alguns dos
relates brasileiros (CADORNEGA, 1940, vol. II, p. 221). E bastante curiosa a obser-
vagao de Andrew Batell, que viveu entre os imbangalas e notou que seu maior luxo
era o vinho de palma e que suas rotas e acampamentos eram influenciados pela
disponibilidade daquelas brvores. Seus comentbrios fazem parecer mais do que
coincidencia a associagao da comunidade marron com uma regiao de Palmares
(RAVENSTEIN, 1901). Havia, entretanto, algumas caractensticas associadas aos
ki-lombos imbangalas que nao tern paralelos no Brasil ou das quais nao restaram
(62) MILLER (1976, p. 151 -175 e p. 224-264) apresenta uma an^lise intensa. As fontes cl^ssicas sobre o Ki-
lombo Jaga sao CADORNEGA e CAVAZZI DA MONTECUCCOLO.
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MOCAMBOS NO BRASIL
evidencias. Em primeiro lugar, os imbangalas eram sempre mencionados como ca-
nibais que praticavam a antropofagia e sacriffcios humanos para aterrorizar os ini- .
migos. Tais praticas eram estritamente controladas, asslm como a preparagao
de magi samba, uma pasta feita de gordura humana e outras substancias que
supostamente tornava invenciveis os guerreiros do ki-lombo. Havia urn estrito
conjunto de leis rituais (kijila) circundando o ki-lombo. As mulheres eram proibidas
de entrar no terreiro interne do ki-lombo e havia prescrigoes rituais rigorosas contra
mulheres menstruadas. For outro lado, algumas descrigoes do ki-lombo imbangala
tern implicagoes curiosas.
O uso do termo "quilombo" com referencia a Palmares nao significa necessa-
riamente que todos os aspectos rituais daquela instituigao, tal como eram praticados
em Angola, estavam presentes no Brasil e que os fundadores e Ifderes subseqiien-
tes de Palmares eram necessariamente imbangalasf63). Muitos aspectos do ki-lom-
bo imbangala podiam ser encontrados em outras instituigoes da Africa central, como
por exemplo os acampamentos de iniciagao secreta kimpasi, do Congo, os quais
tamb^m criavam novos lagos sociais por associagao (THORNTON, 1983, p. 61 e
107). Muito do que era inerente ao ki-lombo teria sido compreendido por urn nao-im-
bangala. Conforme observado, as dinastias e instituigoes imbangalas eram incorpo-
radas em uma s6rie de estados Mbundu e o quilombo passou a simbolizar a sobe-
rania desses estados. Nossa melhor fonte a esse respeito 6 Antonio de Oliveira Ca-
dornega, o principal cronista de Angola no s^culo dezessete. Cadornega usou o ter-
mo quilombo para descrever bandos jagas ("quilombos de jagas", gente e quilom-
bos de jagas"), mas tamb^m como urn termo descritivo para os reinos de Matamba
e Kasanje (CADORNEGA, 1940, vol. I, p. 89; vol. II, p. 222). O emprego da frase
'"reino e quilombo" de Matamba era urn uso descrito geral de quilombo, que se refe-
ria aquelas formas polfticas de influencia imbangala mas nao necessariamente su-
geria a existencia plena da instituigao original nem suas praticas rituai§. "Quilombo"
estava se tornando sinonimo de urn reino de urn tipo particular em Angola.
Dada a escassez de documentagao sobre Palmares, muitas das hipdteses
acima mencionadas sao reconhecidamente fr^geis, mas acredito que haja evidencia
suficiente para sugerir que a introdugao do termo "quilombo" no Brasil no fim do s&
culo dezessete nao foi acidental e representa mais do que urn simples empr^stimo
lingufstico. Sendo isso verdadeiro, devemos entao considerar os aspectos africanos
de Palmares nao como "sobreviventes" desincorporados de seu meio cultural origi-
nal, mas como urn uso muito mais dinamico e talvez intencional de uma instituigao
africana que fora especificamente designada para criar uma comunhao entre povos
de origens dfspares e fornecer uma organizagao militar eficiente. Certamente os es-
cravos fugidos do Brasil adequavam-se a essa descrigao e os ataques que sofriam
(63) As origens Jaga de Palmares t&n absorvido estudiosos por muitos anos. Nina Rodrigues contentou-se
em mostrar a origem Bantu dos tftulos, nomes prdprios e toponfmia de Palmares. M.M. de Freitas deduziu
que os Palmarinos eram guerreiros tao inveterados que devem, portanto, ter sido jagas. Argumenta Frei-
tas: "o primeiro quilombola era da casta sagrada dos jagas e o fundador da dinastia palmarina" (FREI-
TAS, 1954, vol. I, p. 278). Raymond Kent indica o uso do termo "quilombo" a partir somente do final do
s^culo dezessete, mas sustenta que os jagas provavelmente nao foram os criadores de Palmares.
86 Estudos Economicos, Sao Paulo, 17(N9 Especial):61-88,1987
Stuart B. Schwartz
60s governos coloniais tornavam a organizagao militar do quilombo essencial para a
sobrevivencia. O sucesso dos quilombos varlou tanto quanto os proprios diferiram
em tamanho, lideranga, longevidade e organizagao interna. Considerados como um
todo, Palmares e as comunidades de fugitives menores constitufram um contfnuo
comentcirio sobre 0 regime escravista no Brasil.
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ZUMBI DOS PALMARES
NÃO TINHA ESCRAVOS:
O ANACRONISMO
DE NARLOCH
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
1
Zumbi dos Palmares não tinha escravos:
o Anacronismo de Narloch
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
2
Em memória de Zumbi, o líder negro palmarino.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
3
ÍNDICE
Prefácio..............................................................................................4
Introdução..........................................................................................6
Parte I
Quem viveu próximo do poder no século 17 tinha escravos?...........7
Parte II
Zumbi e o espírito humanista europeu............................................11
Parte III
Falando de Zumbi?..........................................................................15
Parte IV
O Anacronismo de Narloch..............................................................17
Parte V
Marxistas criaram a imagem de Zumbi?..........................................21
Parte VI
Objetivo de Leandro Narloch...........................................................28
PARTE VII
Conclusão........................................................................................35
Bibliografia.....................................................................................37
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
4
PREFÁCIO
Poderiam dizer aos queridos leitores que essa obra vem em tempo
tardiotendo em vista o objeto da mesma ser a análise de ideias
contidas no Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, o
qual, por sua vez, já está a um bom tempo no mercado. Todavia,
pensando um momento e examinando o tema do polêmico livro,
acredito não ser tarde e nem inoportuno o exame levando-se em
conta o fato de o mesmo também abordar igualmente questões de
longa data da história do nosso país e isso não foi empecilho algum
para ser publicado e lido. Assim sendo, sinto-me tranquilo em
relação ao tempo nesse aspecto, só lamentando tantas mentes
inteligentes deixarem-se persuadir pelo conteúdo da obra sem ler
praticamente nenhuma outra fonte abarcando o tema,
principalmente fontes antigas de estudiosos africanistas do Brasil e
obras de estrangeiros sobre nosso país da época colonial.
Limitando-se os leitores à busca, no fim do livro de Narloch, de uma
bibliografia para saber quais as fontes sem, contudo, consultá-las
em si mesmas, ler os textos ou examinar atentamente suas
palavras. Esse mal, porém, pode ser remediado para os que
estiverem dispostos. Digo isso porque não são poucos os casos de
indivíduos se revestindo falsamente com interesse na verdade
histórica. Há uma multidão de leitores, e até pesquisadores,
demonstrando falsamente intenção num diálogo das questões sobre
Zumbi, mas bastam poucas palavras para percebermos a real
disposição dos mesmos em apenas repetirem as ideias do livro
daquele autor, sendo eles movidos em grande medida por uma
conveniência própria que os leva a enxergarem e aceitarem de
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
5
braços abertos as inverdades da polêmica obra. Ademais, estes
ávidos leitores de uma obra só, o Guia Politicamente Incorreto,
parecem, por exemplo, acreditar na necessidade do reexame da
história do líder palmarino contida no livro, mas não se
conscientizam da necessidade do exame sobre as próprias ideias
do autor, as quais, como será demonstrado, são passíveis de
questionamentos e revisões. Pensam tais leitores, infelizmente,
como um escultor que, tomando um trabalho de outro e pondo
alguns retoques na obra, acredita ver diante de si a escultura
definitiva, terminada, perfeita e acabada, a qual não há, do ponto de
vista dele, necessidade de um novo retoque. Esse o perfil dos
leitores do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil,
possuindo o livro creem estar de posse do parecer final da questão,
a obra definitiva sobre o tema, a qual, por isso, não necessita,
consonante com sua maneira distorcida de julgarem, um exame e
questionamento sobre sua verdade. A propósito, estou inteiramente
atento sobre o fato deste tratado igualmente ser passível de
análises e questões, mas essa função caberá aos leitores, os quais,
espero, tenham a verdade como norteador a partir de uma
abordagem séria do problema.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
6
INTRODUÇÃO
A história do Brasil, como muitas outras, tem, por vezes, mais de
uma versão. No que diz respeito à escravidão e especificamente a
Zumbi dos Palmares, maior ícone da luta e liberdade do negro em
nosso país, não foi diferente. Basta um pouco de pesquisa para
sabermos, por exemplo, das versões da morte de Zumbi em obras
de escritores antigos especializados no assunto, assim como a
versão da existência de vários Zumbis na época do Quilombo. Uns
falam de uma morte teatral ao se jogar o líder negro do alto de um
penhasco com seu séquito preferindo a morte à escravidão e,
outros, relatando como foi traído e pego num esconderijo, lutando
valentemente até o fim quando os inimigos o encontraram. Em
resumo, desde aquela época a verdade histórica sobre Zumbi era
tarefa difícil, mas, graças a estudiosos sérios, muitas especulações
rodeando o líder palmarino foram gradativamente desfeitas em
benefício da verdade, da própria história do seu povo e do nosso
país. Atualmente, entretanto, temos o Zumbi dos palmares
novamente em foco e a tentativa de acrescentar novas ideias
nitidamente depreciativas à história do mesmo. Então, tal como
antes, faz-se necessário uma análise sobre essas ideias e vícios
que tentam pintar na imagem da grande figura histórica que foi
Zumbi dos Palmares. O exame aqui presente então abordará os
trechos principais do Guia Politicamente Incorreto da História do
Brasil do capítulo Zumbi tinha escravos, ou seja, sobre esse tema
direcionado ao líder palmarino.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
7
Parte I
Quem viveu próximo do poder no século 17 tinha
escravos?
Temos na obra, entre outras coisas, o seguinte inicialmente:
“Essa informação parece ofender algumas pessoas hoje em dia, a
ponto de preferirem omiti-la ou censurá-la, mas na verdade trata-se
de um dado óbvio. É claro que Zumbi tinha escravos. Na sua época,
não havia nada de errado nisso. Sabe-se muito pouco sobre ele-
cogita-se até que o nome mais correto seja Zambi-, mas é certo que
viveu no século 17. E quem viveu próximo do poder no século 17
tinha escravos, sobretudo quem liderava algum povo de influência
africana”. (Leandro Narloch, Guia Politicamente Incorreto da
Historia do Brasil)
Dando início à análise, pouco há de concreto nas palavras de
Narloch. Temos aqui apenas argumentos, uma conjectura, e
nenhum fato histórico ligado especificamente à Zumbi. Assim, como
pode Narloch, sem dados, dizer ser claro que Zumbi tinha
escravos? O autor iguala Zumbi aos senhores de escravos
unicamente porque, naquela época, era tido como normal por
alguns; mas isso, seja dito, era normal somente para a parte da
sociedade sustentada pelo sistema escravista, não para a parcela
dos negros explorados. No mais, como foi dito, notemos no trecho a
ausência de dados históricos corroborando a maneira de pensar do
autor. Falta algo dizendo expressamente e com todas as letras ser
o líder Zumbi mais um senhor de escravos, agindo de modo igual
aos escravocratas que ele próprio combateu. Ou seja, as palavras
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
8
de Narloch são uma conjectura, uma interpretação carente de
sustentação para o que ele tenta afirmar do líder palmarino.
Ligar, no mais, os costumes de uma época ou local à vida de um
homem é uma mera suposição; seria simplesmente afirmar, por
exemplo, que por sabermos ser o futebol um esporte comumente
praticado no Brasil, devêssemos, por isso, afirmar que todo
brasileiro joga futebol. Deveríamos até pensar, com esse tipo de
raciocínio, que Zumbi também jogava futebol se não houvesse a
diferença de tempo em que ele viveu. Todavia, seriamente falando,
sabemos bem que, apesar de haver um costume numa sociedade,
isso não significa serem todos adeptos do mesmo hábito; de modo
que podemos encontrar, no nosso exemplo atual, pessoas que não
jogam futebol, ainda que seja esse esporte uma paixão nacional.
Logo, basear-se num costume local para determinar a vida de uma
pessoa em específico não é um fato, mas, como dito, uma
suposição.
Continuemos analisando pelo campo da lógica a argumentação
para ver o que encontramos. Para prosseguirmos, a situação dos
quilombos e do próprio Zumbi diferiam bastante em comparação à
vida dos senhores de terras e do sistema escravista da época para
Narloch tentar, no livro, igualar todos como escravizadores. Em
verdade estavam eles em lados opostos, de um lado o senhor de
engenho querendo escravizar e doutro lado o negro lutando pela
liberdade.
Ademais, caso Zumbi fosse um escravocrata como os senhores de
engenho, seria mais conveniente tê-lo como aliado, não como
inimigo; no entanto, isso obviamente nunca aconteceu. Para se ter
uma noção lembremos que havia um constante estado de guerra
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
9
entre palmarinose o sistema escravista, uma situação de conflito
pior, segundo os próprios portugueses, que a ameaça feita pelos
holandeses anos antes com as incursões nas costas da Bahia e a
invasão em Pernambuco em 1624 e 1630 respectivamente. Não
sem motivo o escritor Mario Freitas ratifica que, no dizer dos
governadores da capitania pernambucana, a guerra contra
Palmares foi a mais cruenta guerra colonial pernambucana, muito
mais cruenta que a guerra dos holandeses, consequentemente
temos, nesse contexto, lados opostos, não havendo como igualar
Zumbi com escravocratas.
Zumbi, além disso, foi figura singular na história de modo a ser
inadequado pensar ter ele agido tomando por base os vícios e
costumes do sistema que ele combateu. Sistema esse, seja dito, ele
e outros negros do Quilombo dos Palmares estavam também fora
porque, no sistema escravista, os negros do quilombo só tinham
lugar, na realidade, como escravos e eram vistos como tais. Logo,
repito, não há como afirmarmos a figura de Zumbi como um
escravocrata atribuindo ao mesmo o modo de agir dos senhores
que viviam num sistema que ele não apenas estava fora como
também morreu combatendo.
Lembremos, em acréscimo, que, apesar de alguns negros ou
negras terem conseguido ascender socialmente nesse sistema a
ponto de terem escravos, esses mesmos negros não lutaram como
Zumbi contra a escravidão. Por conseguinte, nem a esses pode
alguém forçar uma equiparação com Zumbi alegando, como o autor
do livro deseja, que “quem viveu próximo do poder no século 17
tinha escravos”. Logo é incoerente ou, melhor dizendo, contraditório
ver o líder negro como escravagista.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
10
Por fim, encerrando essa primeira análise, não sem motivos os
negros buscaram liberdade e segurança nas florestas acolhedoras
dos Palmares, tal como diz o autor Edison Carneiro nas primeiras
páginas do seu livro O Quilombo dos Palmares. Se Zumbi e os
demais negros do quilombo fossem adeptos da escravidão, não
iriam para o Quilombo, mas sim ficariam nas fazendas ou cidades
onde era comum o sistema escravista e nem seriam vistos como
inimigos do poder estabelecido na época, mas sim como potenciais
aliados. Por tanto, de tudo dito nesse trecho extraído do livro de
Narloch, apenas uma pequena parte pode ser considerada como
certa quando, se referindo à Zumbi, diz o autor: “mas é certo que
viveu no século 17”. Sendo assim, tanto em relação aos fatos
históricos como no campo da lógica argumentativa, não é possível
considerarmos que Narloch prova ter sido Zumbi um dono de
escravos.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
11
Parte II
Zumbi e o espírito humanista europeu
Prosseguindo com outras informações na obra de Narloch temos:
“É difícil acreditar que no meio das matas de Alagoas, Zumbi tenha
se adiantado ao espírito humanista europeu ou se adiantado aos
ideais de igualdade, liberdade e fraternidade da Revolução
Francesa. É ainda mais difícil quando consultamos os poucos
relatos de testemunhas que conheceram Palmares. Eles indicam o
esperado: o quilombo se parecia com um povoado africano, com
hierarquia rígida entre reis e servos. Os moradores chamavam o
lugar de Ngola Janga, em referência aos reinos que já existiam na
região do congo e de Angola”. (Narloch, Guia Politicamente
Incorreto da Historia do Brasil)
Nessa parte não temos Narloch tentando provar que Zumbi tinha
escravos, mas, ainda assim, tentando, por outra via, depreciar a
imagem do líder negro.
Para começarmos, diferentemente do dito pelo autor, não é difícil
acreditar que Zumbi, naquela época, tenha se adiantado ao espírito
humanista europeu ao pensar em ideais de igualdade, liberdade e
até fraternidade. Recordemos serem os escravos a parcela da
população mais sofrida pela falta de liberdade; os quais eram vistos
como mercadorias ou peças para o trabalho, numa tentativa de tirar
deles o caráter humano, objetivando o lucro por meio do seu serviço
forçado. Consequentemente, diante dessa conjuntura de
exploração, os negros foram os primeiros em meio à sociedade
escravista a clamar e lutar, alguns deles pela liberdade que antes
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
12
tinham quando ainda moravam em suas terras na África e outros
pela liberdade nunca antes conhecida por terem nascidos de
pessoas escravizadas.
Sobre o fato de ter ocorrido no meio das matas de Alagoas o
pensamento de liberdade, seja dito e lembrado que antes mesmo
de ir para as matas, ainda nos navios negreiros quando era
transportado para o Brasil, o negro já lutava contra o cativeiro com
este pensamento de libertação. Isso sem mencionar os conflitos em
terras africanas, ainda entre tribos, quando guerreava contra outros
que tentavam alimentar o comércio de escravos. Portanto antes de
adentrar nas matas brasileiras, na fuga do cativeiro, nos quilombos,
o negro pensou nas mais diversas formas de viver livre e junto com
os seus irmãos de maneira igual; em suma, bem antes das florestas
o negro guerreava encontrando, por fim, no Palmares aquilo que ele
buscava. Além do mais, imaginar negros fugindo e considerar que
estes não pensavam na ideia de liberdade é um raciocínio tanto
quanto incompatível ou até mesmo absurdo, tamanha a
contradição. Isso, no entanto, só revela a intenção de Narloch de
distorcer, por todos os meios possíveis, os fatos. Por isso, seja dito:
ao viver num sistema escravocrata não é de admirar ver o negro se
adiantando em relação ao espírito humanista europeu no que diz
respeito à liberdade, igualdade e fraternidade.
Noutra parte, tentando fortalecer a sua tese anterior, Narloch
informa que o Quilombo parecia com povoado africano com servos
e reis- como se isso fosse motivo para vermos a impossibilidade de
ideais da Revolução Francesa entre homens vivendo naquelas
condições. Narloch parece esquecer, involuntariamente ou
voluntariamente, que, diferente de muitos negros do continente
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
13
africano, diversos negros no Brasil passaram pelos mais variados
castigos, humilhações, injustiças advindas da cobiça do homem
branco adepto da exploração, sendo praticamente impossível para
um individuo aceitar isso contra si mesmo sem pensar nalgum
momento em sua própria liberdade. Sobre isto citemos alguns
exemplos relatados de punições e castigos empregados. Vejamos:
1-Depois de sofrer os horrores das travessias marítimas no bojo dos
navios negreiros e de ser humilhado nos mercados de escravos,
experiências comuns em toda América- estava o negro indefeso
ante todos os castigos engendrados pelo sadismo do senhor;
2-Se desagradava ao senhor era metido no tronco- pescoço, pés e
mãos imobilizados entre dois grandes pedaços de madeira
retangular ou, mais raramente, de ferro, presos a cadeado- ou
supliciado com viramundo, um pequeno instrumento de ferro, que
prendia pés e mãos do escravo, forçando-o a uma posição
incomoda durante vários dias;
3-Se o castigo devia ser mais prolongado, o negro era supliciado
com o cêpo, um longo toro de madeira que devia carregar à cabeça
e que prendia, por uma corrente, ao tornozelo;
4-Se fugia era castigado com libambo- uma argola de ferro que
rodeava o pescoço do negro, com uma haste terminada por um
chocalho- com a gargalheira ou com a golilha, sistemas de
correntes de ferro que impediam os movimentos. Outras vezes os
escravos fugitivos eram contidos por peias ligadas por correntes de
ferro ao tornozelo, cujo peso os impedia de caminhar;
5-Se furtava, prendiam-lhe à cara uma mascará de folha de
Flandres, com pequenos orifícios para a respiração, fechada no
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
14
occipício a cadeado, ou ainda penduravam-lheàs costas, numa
golilha, uma placa de ferro com dizeres aviltantes, como “ladrão” e
“ladrão e fujão”;
6-Se o senhor queria obter uma confissão do negro, comprimia-lhe
os polegares com os anjinhos, dois anéis de ferro que diminuíam à
medida que se torcia um pequeno parafuso, provocando-lhe dores
horríveis;
7-O negro era supliciado publicamente, quando as suas faltas eram
consideradas mais graves, com um chicote especial de couro cru, o
bacalhau, nos pelourinhos existentes nas cidades.
O rigor do cativeiro obviamente não se resumia a esses horrores.
Os negros padeciam inúmeros outros males impostos pelo ódio
desumano dos senhores de terra da época. Logo, diante disso,
percebemos o quão importante para muitos negros era o desejo de
liberdade, um ideal nascido muito antes da Revolução Francesa e
de, por conseguinte, antes do espírito humanista europeu.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
15
Parte III
Falando de Zumbi?
Continuemos e vejamos outras ideias presentes no Guia
Politicamente Incorreto:
“Ganga Zumba, tio de Zumbi e o primeiro líder do maior quilombo
do Brasil, provavelmente descendia de imbangalas,‘os senhores
da guerra’ da África Centro-Ocidental. Os imbangalas viviam de um
modo similar ao dos moradores do Quilombo dos Palmares.
Guerreiros temidos, eles habitavam vilarejos fortificados, de onde
partiam para saques e sequestros dos camponeses de regiões
próximas. Durante o ataque a comunidades vizinhas recrutavam
garotos- que depois transformariam em guerreiros- e adultos para
trocar por ferramentas e armas com os europeus”. (Narloch, Guia
Politicamente Incorreto da Historia do Brasil)
Analisando, com atenção, esse trecho do livro percebemos que o
autor ocupa-se de Ganga Zumba, líder do Quilombo dos Palmares
antes de Zumbi. Todavia lembremos ser o título desse capítulo do
livro o seguinte: “Zumbi tinha escravos”. Ou seja, em lugar de tratar
aqui da vida de Zumbi, o autor trouxe para exame a vida do tio dele,
Ganga Zumba. Como se, com isso, devêssemos atribuir
necessariamente à Zumbi o que foi praticado pelo tio. Pior, o autor
prossegue dizendo ser Ganga Zumba provavelmente um
descendente de imbangalas conforme podemos ver acima. Repito,
o autor fala PROVAVELMENTE e, a partir desse provavelmente,
prossegue nas palavras enumerando características dos
imbangalas como se estivesse, desse modo, saindo do
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
16
PROVAVELMENTE para o CERTAMENTE haja vista a
determinação e o modo enfático das palavras nessa parte da obra.
Em suma, trata-se também de outra conjectura a qual percebemos
Narloch agindo novamente no campo da probabilidade sem
embasamento histórico algum, mas que, no fim, aborda a questão
como se fosse algo certo, mesmo desprovido de certezas e ainda
atribuindo a outra pessoa, a Zumbi, por ter sido esse sobrinho de
Ganga Zumba.
Os laços familiares, ademais, não levam os seus membros a
compartilharem necessariamente as mesmas ideias. Enquanto
Ganga Zumba, por exemplo, tentou um acordo de paz com os
portugueses onde seria concedida a liberdade apenas para os
negros do quilombo, Zumbi, a seu turno, desejou a liberdade de
todos, tanto dos quilombolas como daqueles que ainda estavam
escravizados e fora do quilombo. Em suma, Leandro Narloch fez,
como dizem, uma colcha de retalhos com quaisquer ideias na
tentativa, novamente, de difamar Zumbi, tentando igualar pelo
parentesco quando sabemos que até irmãos gêmeos podem ser
muito diferentes no modo de agir.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
17
Parte IV
O Anacronismo de Narloch
Noutro ponto temos:
“Para obter escravos, os quilombolas faziam pequenos ataques a
povoados próximos.‘Os escravos que, por sua própria indústria e
valor, conseguiam chegar aos Palmares, eram considerados livres,
mas os escravos raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas
continuavam escravos’, afirma Edison Carneiro no livro O Quilombo
dos Palmares, de 1947”. (Narloch, Guia Politicamente Incorreto da
História do Brasil)
Esse é um dos principais pontos do livro tentando defender a ideia
de Zumbi como senhor de escravos. Para começar o exame desse
trecho, onde Narloch se utiliza das palavras de um historiador e
pesquisador da temática africana e escravidão, Edison Carneiro, é
preciso deixar nítido algo simples, mas que passou desapercebido
aos olhos de muitos:
Edison Carneiro não fala de Zumbi, ele se referiu, nesse trecho, ao
Quilombo dos Palmares de uma época anterior ao nascimento de
Zumbi.
Apesar de Zumbi dos Palmares ser abordado na obra de Carneiro,
nessa parte do livro o estudioso das questões africanas no Brasil
não toca no nome de Zumbi. Em verdade seria impossível até para
Carneiro falar do líder negro nesse trecho, pois, como dito, a
informação refere-se a um Palmares anterior à Zumbi. Podemos
comprovar isso na fonte dessa informação de Edison Carneiro, uma
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
18
obra publicada anos antes de Zumbi ter nascido. A obra a qual
estamos nos referindo, contendo a informação, é o livro O Brasil
Holandês, escrito por Gaspar Barléu e publicado em 20 de abril de
1647. Essa é a fonte de Carneiro, a qual o mesmo informa no final
de seu livro como bibliografia útil, mas não mencionada por Narloch
ou, melhor dizendo, nunca sendo citada pelo autor do Guia
Politicamente Incorreto da História do Brasil.
Sobre a obra de Gaspar Barléu, este escreve sobre diversos
aspectos do Brasil em relação à terra, clima, geografia, costumes,
cultura e a constituição do povo da época, entre os quais os negros
e o Quilombo de Palmares. Sendo narrado os feitos do conde
Maurício de Nassau na época dos seus anos de governo no Brasil,
com Gaspar Barléu encarregado de escrever sobre o trabalho o
qual foi publicado, como dito, em 1647.
Ocorre que na data da publicação da obra de Barléu, o líder negro
Zumbi não havia, repito, nem ao menos nascido. Palmares
evidentemente já existia, mas o grande líder negro não. Assim,
além de Edison Carneiro não mencionar no trecho supracitado por
Narloch o nome de Zumbi, o mesmo escritor (Carneiro) se baseou
nas informações de um livro publicado quando Zumbi não existia.
Vejamos as palavras usadas nesse antigo livro- O Brasil Holandês-
ao se referir à Palmares para compararmos com as de Edison
Carneiro. Gaspar Barléu diz:
“Qualquer escravo que leva de outro lugar um negro cativo fica
alforriado; mas consideram-se emancipados todos quantos
espontaneamente querem ser recebidos na sociedade.” (O Brasil
Holandês, Gaspar Barléu)
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
19
Enquanto Edison Carneiro diz as mesmas coisas, mas com outras
palavras:
“Os escravos que, por sua própria indústria e valor, conseguiam
chegar aos Palmares, eram considerados livres, mas os escravos
raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas continuavam
escravos” (O Quilombo dos Palmares, Edison Carneiro)
Ou seja, como já foi dito, a fonte de Edison Carneiro é um livro
escrito em 1647; enquanto o próprio Zumbi, segundo consta, veio a
nascer somente anos depois, entorno de 1655. Havendo, desse
modo, uma diferença de oito anos entre um e outro, cometendo
Leandro Narloch um anacronismo ao tomar como fonte a
informação duma obra que, por sua vez, baseou-se num texto
anterior ao nascimento de Zumbi dos Palmares.
A obra de Gaspar Barléu pode ser consultada aqui nesse link,
encontrando a informação citada na página 334 do documento em
PDF onde fala sobre a Descrição dos Palmares grandes e
pequenos:
https://www.mediafire.com/file/ml17j3in8ni3w3f/O_BRASIL_HOLAND%CAS.pdf
/file
Ou pode ser baixada a obra de Barléu neste outro link da BibliotecaBrasiliana Guita e José Mindlin (BBM), órgão da Pró-Reitoria de
Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo
(USP) com a informação na página 273 do PDF:
https://digital.bbm.usp.br/bitstream/bbm/4496/1/039738_COMPLETO.pdf
Voltando ao exame, como, então, atribuir a Zumbi algo dito por um
livro escrito antes dele nascer, uma obra que se refere apenas aos
https://www.mediafire.com/file/ml17j3in8ni3w3f/O_BRASIL_HOLAND%CAS.pdf/file
https://www.mediafire.com/file/ml17j3in8ni3w3f/O_BRASIL_HOLAND%CAS.pdf/file
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
20
eventos da época de sua publicação? É simplesmente impossível e
ilógico o raciocínio de Narloch, não havendo forma de aceitar, com
base nisso, Zumbi como escravizador. Esse o equívoco do autor, o
Anacronismo de Narloch. Um dos maiores equívocos relacionados
à história do Brasil. O erro de Leandro Narloch está em ter adotado
os estudos mais recentes sobre Zumbi, repetindo e fazendo
conjecturas sem se preocupar em analisar as fontes primárias- ele
próprio afirma esse procedimento como poderemos ver até o final
desse tratado.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
21
Parte V
Marxistas criaram a imagem de Zumbi?
Trazendo à tona agora uma análise sobre a relação dos marxistas e
a história de Zumbi, conforme vemos no livro de Narloch, o autor
diz:
“Apesar disso, Zumbi ganhou um retrato muito diferente de
historiadores marxistas das décadas de 1950 a 1980. Décio
Freitas, Joel Rufino dos Santos e Clóvis Moura fizeram do líder
negro do século 17 um representante comunista que dirigia
uma sociedade igualitária. Para eles, enquanto fora do quilombo
predominava a monocultura de cana-de-açúcar para exportação,
faltava comida e havia classes sociais oprimidas e opressoras (tudo
de ruim), em Palmares não existiam desníveis sociais, plantavam-
se alimentos diversos e por isso havia abundância de comida (tudo
de bom)”. (Narloch, Guia Politicamente Incorreto da Historia do
Brasil)
Falar de Zumbi como uma imagem de escritores marxistas seria
algo realmente a ser pensado, mas isso ocorreria apenas se a
história do líder negro fosse contada somente pelos três escritores
citados. É sabido, no entanto, que outros africanistas,
pesquisadores e estudiosos do assunto falaram não apenas de
Zumbi, mas também de Palmares, como também sobre a história
do Brasil no período da escravidão. Permitindo a cada um de nós
ter ciência dos fatos e relatos, desde a forma como negros foram
trazidos da África para servirem de mão de obra escrava aqui, onde
muitos deles padeceram nas péssimas condições da travessia
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
22
transatlântica, óbitos no trabalho forçado ou pelos castigos sem que
nenhum tipo de justiça olhasse para eles ou a qual pudessem
recorrer sendo, pelo contrário, a escravização do negro considerada
e vista por muitos como justa. Tudo isso aos olhos de vários
estudiosos, não apenas os três citados por Narloch.
Acrescentemos a isso haver também, de certa maneira, uma classe
que era exploradora (escravizadores) e noutra ponta uma classe
explorada (escravizados)- tal fato em nossa história não foi
invenção de marxistas. Surgindo deste modo o Quilombo e a
necessidade de uma ordem nesse último que permitisse o mesmo a
sua existência e preservação. Existindo nele, diferentemente das
palavras escritas por Narloch, uma abundância de recursos para
todos conforme informações de documentos portugueses à época
de 1694.
Num desses documentos é dito sobre o valor das terras de
Palmares:
“[...]as terras que se vão conquistando aos Palmares, e outras
muitas desertas que ficaram livres com sua total destruição, são as
de maior importância e valor que se acham em todas aquelas
capitanias de Pernambuco, não só pelo grande da sua extensão,
mas pelo abundante dos pastos para os gados, utilidades das
madeiras, sítios para engenhos e a capacidade para todos gêneros
de lavouras de mantimentos...” (Documento nº 29 de 25 de
novembro de 1694, As Guerras nos Palmares, Ernesto Ennes)
Isso demonstra o valor da terra e, mais uma vez, a desatenção de
Narloch para com os documentos antigos sobre Palmares e seu
desconhecimento do tema. Devendo, além da terra que tudo
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
23
concedia, ser dito sobre a extensão dos bosques onde viveram os
palmarinos que, no dizer de outro documento da época, fazia maior
circunferência que todo o reino de Portugal. Logo, havia sim
abundância de recursos para todos do quilombo.
Todavia o autor, Leandro Narloch, prossegue, noutro ponto, falando
da possibilidade de invenção do nome Francisco atribuído à Zumbi
pelo jornalista Décio Freitas, dito como marxistas. Dentro daquilo
que explicou Narloch no Guia Politicamente Incorreto, o máximo
que pode ter sido criado por Décio Freitas foi a parte da história
relacionada ao local em que Zumbi cresceu e o nome do líder
negro; pois, conforme pode ser lido, Freitas dizia ter documentos
(cartas) sobre a infância de Zumbi comprovando ter este crescido
num convento em Alagoas e que se chamava Francisco. As cartas,
no entanto, jamais foram mostradas por Freitas. O problema desse
pequeno detalhe é Narloch se apegar ferreamente e expandir, por
assim dizer, a ideia de que tudo mais foi invenção objetivando
assim tirar o crédito de outros fatos relacionados ao líder negro e o
Quilombo dos Palmares. Contudo, isso é apenas mais um
argumento de Narloch. Seria como alguém mostrando uma
pequena alteração, ou erro, encontrado numa página de um livro e,
a partir disso, afirmar estar equivocada toda a obra ou que todo o
restante foi inventado pelos autores. É simplesmente, de uma forma
ilógica, julgar o todo por uma parte.
O jornalista revela-se também bastante tendencioso em mais
trechos do livro, pois critica outros autores devido, segundo vemos,
a linha de pensamento marxista deles. Contudo o mesmo Narloch
parece esquecer ter feito uso das obras desses pesquisadores
considerados marxista para tentar defender seus próprios pontos de
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
24
vista e interpretações. Basta lembrarmos das citações utilizadas
com trechos do livro de Edison Carneiro tentando mostrar ser Zumbi
um senhor de escravos como vimos na Parte IV desse tratado. Uma
leitura atenta no trabalho da historiadora Andressa Merces revela
ser Edison Carneiro um dos precursores do marxismo na
historiografia de Palmares. Vejamos um trecho:
“No início da historiografia marxista estariam seus escritores muito
próximos aos membros dos Institutos Históricos. Como foi o caso
do alagoano Alfredo Brandão, que teria presidido o Instituto de
Alagoas e depois passou a explorar o episódio do Quilombo ao lado
dos autores Arthur Ramos e Edison Carneiro, precursores do
marxismo na historiografia de Palmares.” (Zumbi: Historiografia e
Imagens, Andressa Merces Barbosa dos Reis)
Isso, porém, não foi empecilho para Narloch fazer uso da obra
desse autor. Se a linha de pensamento dos escritores levasse os
mesmos a inventarem uma imagem de Zumbi e Palmares, Narloch
deveria se mostrar pouco inclinado a citar trechos dos livros deles
em sua obra visando defender as suas próprias interpretações.
Como havia dito, daquilo visto no Guia Politicamente Incorreto, a
invenção de alguns autores (especificamente Décio Freitas) deve
ser resumida apenas ao verdadeiro nome de Zumbi bem como o
local onde cresceu o líder negro, isto por falta de provas concretas
apresentadas.
Aproveitando ainda o trabalho da historiadora Andressa Barbosa,
vejamos as palavras da mesma sobre os ditos marxistas e
Palmares. Em sua tese de mestrado ela escreve:
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS:O ANACRONISMO DE NARLOCH
25
“Nessa bibliografia de viés marxista há um esforço em caracterizar
Palmares como a primeira luta de classes na História do Brasil.”
A mesma também fala:
“...os quilombos eram considerados um local privilegiado para
convivência de práticas culturais diferentes, pois, segundo Arthur
Ramos e Edison Carneiro, a população de Palmares seria
caracterizada pela variedade de raças. Contudo, estes estudos
foram prejudicados pelo cenário político de meados do século
XX, como muitos destes pesquisadores eram comunistas
estiveram por muito tempo sob a vigilância do Estado Novo, o
qual proibira a manifestação de ideais marxistas a partir de 1935.”
Notemos que os estudos desses autores foram prejudicados pela
situação política da época, o Estado Novo, isto é, não houve uma
refutação de seus trabalhos pela descoberta de outros documentos
ou novos dados históricos e pesquisas, mas sim uma tentativa de
impedi-los devido a linha de pensamento de seus autores segundo
as considerações do Estado na época. Noutras palavras, não houve
necessariamente a reprovação de suas pesquisas dentro do campo
de estudo, mas unicamente vigilância sobre o trabalho deles por
motivos políticos. Ademais, a mesma autora diz o seguinte sobre
Edison Carneiro:
“Foi através desta obra (O Quilombo dos Palmares) que a imagem
de Zumbi consolidou-se na historiografia. Edison Carneiro canalizou
todas as alterações que vinham ocorrendo desde o início do século
XX, visto que neste primeiro momento ainda era posta em dúvida a
existência de Zumbi. No presente texto, o autor (Edison Carneiro)
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
26
congregou as informações dispersas sobre Zumbi na historiografia
e na cultura popular.”
Ou seja, no final das contas, não houve de Edison Carneiro,
considerado precursor dos marxistas, invenção. Enquanto a
existência de Zumbi ainda era uma dúvida, Edison Carneiro
trabalhou sanando a questão sem se basear em ideias marxistas,
mas sim coligindo dados históricos para encontrar e demonstrar a
verdade. No fim, a própria autora Andressa Barbosa revela dúvida
sobre o fato de a linha marxista ter ou não influenciado a obra de
Edison Carneiro.Temos:
“Contudo, o autor Edison Carneiro apresentou novos valores para
narrar o assassinato de Zumbi. Talvez, por causa de sua filiação
comunista e vivendo durante a ditadura varguista, passou a
destacar o caráter rebelde e guerreiro de Zumbi...”
E essa influência nos estudos sobre Zumbi, caso existisse, visaria
apenas destacar a luta de Zumbi, como diz a autora, não
necessariamente alterar ou inventar. Logo, nas palavras de
Andressa Barbosa, nada indica com exatidão que Edison Carneiro
acrescentou algo à figura de Zumbi. Edison Carneiro, além disso,
demonstra no seu livro as suas fontes de modo que é possível, a
qualquer um, descobrir se o mesmo modificou ou não a forma como
ele descreveu os fatos e Zumbi.
Resumindo, não temos as provas de Décio Freitas em relação ao
nome e local no qual diz que Zumbi cresceu; isso, contudo, em
nada diminui o valor e importância de Zumbi na luta dos negros.
Ademais temos o expoente dos marxistas, Edison Carneiro, não
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
27
inventando imagens de Zumbi, mas sim juntando informações de
vários anos consolidando o personagem histórico do líder de
Palmares.
Na ausência, por conseguinte, das provas de Décio Freitas, deve-se
apenas deixar em aberto a verdade referente a esses dois
pormenores inerentes à história do líder palmarino: ter nascido num
convento em Alagoas e o nome Francisco. Os demais
acontecimentos consequentemente relacionados ao principal negro
dos Palmares e ao próprio Quilombo não perdem em importância e
nem em veracidade. A tentativa de Narloch foi utilizar-se de um
detalhe, a ideia de serem pesquisadores marxistas, para, com isso,
repito, tentar retirar o crédito dos escritores que trataram de Zumbi
e, consequentemente, apagar tudo aquilo atribuído ao chefe de
Palmares por esses estudiosos afirmando ele serem invenções, tal
como o ocorrido com o nome Francisco atribuído à Zumbi, haja
vista nunca terem sido apresentadas as provas por Décio Freitas-
isto, contudo, não inviabiliza as demais informações sobre Zumbi
dos Palmares.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
28
Parte VI
Objetivo de Narloch
Com uma obra tão polêmica surgiu essa pequena questão: qual o
objetivo de Narloch?
Logo no começo do livro temos uma breve resposta. O autor diz:
“Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias, irritantes e
desagradáveis, escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom
número de cidadãos.” (Narloch, Guia Politicamente Incorreto da
História do Brasil)
Tais palavras satisfazem os menos exigentes e agradam à parcela
de leitores simpatizantes do racismo, principalmente àqueles com
parentesco ou uma linhagem ligada a adeptos do sistema
escravista à semelhança dos antigos donos de escravos e senhores
de engenho da época. O livro de Narloch, por conseguinte, é um
prato cheio para os descendentes desse sistema e seus partidários,
bem como para os que são contra a causa dos negros de antes e
de hoje; nada melhor para o racista escondido no íntimo dessas
pessoas do que ter um livro dando voz a toda aversão contida em
seus pensamentos encobertos contra o negro, tentando
desconstruir a imagem do herói de um povo cuja exploração e
violência sofrida encontrava limite, muitas vezes, apenas na morte
do explorado.
Todavia, as palavras de Leandro Narloch na obra não respondem
inteiramente à pergunta, ou seja, qual o objetivo do autor. Mas
Narloch revela, noutros meios, fora da obra, a sua real intenção.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
29
Buscamos então essas outras fontes, as quais surgiram devido a
polêmica criada entorno do tema abordado, o que levou a mesma a
ser lida por muitos e incentivou entrevistas em programas de
televisão, rádios e amigos de profissão do jornalista a darem seu
parecer sobre o assunto. Descobrimos deste modo informações
relevantes, possibilitando compreender melhor o pensamento do
autor do Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. Vejamos
agora as ideias de Leandro Narloch não escritas em seu livro.
1-Qual a intenção de Narloch com o livro?
Segundo o próprio Narloch, a intenção é, basicamente, incomodar.
Como observamos, ele realmente incomodou e enfureceu, tal como
diz na obra; mas em entrevistas o autor revela que a intenção é,
além de incomodar, ganhar dinheiro. Por isso, a obra de Narloch
está longe de ser um trabalho sério e igual ao de pesquisadores e
historiadores buscando e examinando verdades. Temos ciência de
estudiosos analisando fontes documentais, tradições orais, fontes
primárias tudo, em suma, com o intuito de nos aproximar do
passado, daquilo que ocorreu muito antes de nós. Narloch, porém,
é diferente. Em entrevistas revela como intenção não apenas
enfurecer e irritar, mas sim ganhar dinheiro. Tal resposta podemos
ver quando um historiador entrevista Leandro Narloch no programa
Aprovado em Cachoeira na Bahia. Vejamos entre 1:43 até 1:59 do
link https://www.youtube.com/watch?v=5TxQTVZrHuE ou no link
https://www.youtube.com/watch?v=JlzwQkzt-SI&t=114s.
Lá o entrevistador pergunta para Narloch:
-A ideia era incomodar?
https://www.youtube.com/watch?v=5TxQTVZrHuE
https://www.youtube.com/watch?v=JlzwQkzt-SI&t=114s
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
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Narloch responde:
-Uma das ideias era incomodar, a outra era ganhar dinheiro.
Narloch, então, não visa a verdade, os fatos. Por isso estão
enganados os leitores que se apegam fortemente ao livro julgando
encontrar na obra eventos históricos. Leitores estesque
enriqueceram o jornalista na ilusão de terem em mãos verdades
não contadas em escolas e faculdades- mas sim, como
observamos, serem falsas.
2-Quem Narloch quis enfurecer?
Narloch trabalhou para enfurecer e incomodar a esquerda brasileira.
Ele próprio, inicialmente, tenta esconder a definição política que
possui; mas podemos descobrir analisando outras entrevistas.
Numa dessas entrevistas feitas, no programa de televisão Agora é
Tarde, Narloch demonstra sua intenção de não revelar uma
definição política pessoal.
Veja no link https://www.youtube.com/watch?v=0DxbmU1Z4sM ou nesse
https://www.youtube.com/watch?v=KwAGFclgU3g&t=3s em 5:12.
O apresentador pergunta:
-Você tem uma definição política?
Narloch lhe responde:
-Eu sou “palmeirense”.
https://www.youtube.com/watch?v=0DxbmU1Z4sM
https://www.youtube.com/watch?v=KwAGFclgU3g&t=3s
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
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Ou seja, responde de forma irônica, como uma brincadeira, mas
logo depois revela, na mesma entrevista, não ser de esquerda. Veja
nos mesmos links anteriores em 7:45.
Temos o apresentador novamente perguntando no vídeo:
-Você hoje diz que não tem definição ideológica.
Narloch fala:
-Esquerda provavelmente eu não sou né!?!
-Mas você era de esquerda?
-Era, era.
Ou seja, Narloch era de esquerda, agora não é mais. Revelando,
assim, ser de direita- algo ainda mais nítido para quem
acompanhou o debate entre ele e Fernando Morais na 7ª Festa
Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto) em 2011. No
encontro Narloch tenta defender a ideia do capitalismo ser bom
para os pobres, mas Fernando Morais logo menciona a situação
drástica dos mais humildes vivendo próximos à região onde está
acontecendo o evento demonstrando, assim, o quanto Narloch foi
infeliz em suas considerações.
Noutra entrevista, o jornalista Narloch revela, sem rodeios, ser
antimarxista. Tal dito podemos constatar em entrevista feita num
programa da Univesp TV.
Veja em 3:37 do link https://www.youtube.com/watch?v=bNyx5Mwt0BY) ou em
3:24 do link https://www.youtube.com/watch?v=V8a2azsqYjI&t=20s.
Temos o apresentador indagando:
https://www.youtube.com/watch?v=bNyx5Mwt0BY
https://www.youtube.com/watch?v=V8a2azsqYjI&t=20s
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
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-É uma história antimarxista?
E Leandro Narloch respondendo:
-Em verdade antimarxista sou eu.
Isto é, temos a definição ideológica do autor, o qual naturalmente
escreveu não para enfurecer os de direita, mas sim os de esquerda
e marxistas. Não sem motivo temos ele também afirmando ser a
obra não um trabalho imparcial, mas sim parcial e que se deve ter
muito cuidado ao pensarem inserir a mesma nas escolas. Entre
3:47 até 4:10 do link anterior
https://www.youtube.com/watch?v=bNyx5Mwt0BY ou 3:34 até 3:57 do
segundo link https://www.youtube.com/watch?v=V8a2azsqYjI&t=20s , vemos o
seguinte, é dito:
-Você fez a história com seu viés antimarxista.
Narloch responde:
-Deixa eu explicar. Eu fui, nessa nova história do Brasil,
coletando só o que fosse antimarxista. Por isso que falo que o
livro não é imparcial.
E continua Narloch:
“Muita gente me fala: 'pô, você acha que o (seu) livro devia ser
ensinado nas escolas, os alunos deveriam usar?' Eu falei: 'olha,
cuidado porque ele (o livro) é tão parcial quanto o livro que critico'.”
(Narloch)
Sobre essas palavras, acredito que um trabalho cujo objetivo dizem
ser demonstrar verdades, mas que coleta apenas um lado dos
fatos, não pode jamais ser levado em conta. Não há verdades, há
https://www.youtube.com/watch?v=bNyx5Mwt0BY
https://www.youtube.com/watch?v=V8a2azsqYjI&t=20s
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
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somente meias verdades, inverdades, argumentos falaciosos que
enganaram os leitores.
3-Para enfurecer os marxistas e os de esquerda
Narloch inventou alguma coisa?
Dessa coletânea de estudos e citações antimarxistas, Narloch diz
não ter inventado nada na sua obra tal como podemos ver ao ser
ele entrevistado por um jornalista da revista Veja.
Olhemos no link https://www.youtube.com/watch?v=bjB64raROI4 em 1:35 ou
noutro link https://www.youtube.com/watch?v=Ri0_a0djjtE&t=10s também no
mesmo tempo. Vemos o jornalista do programa falando:
-Você capturou verdades, verdades incomodas?
-Claro que sempre com minha óptica, capturei só aquilo que irritava.
Mas fiquei tentado a inventar umas coisas, mas me segurei,
não inventei não.
No entanto, o jornalista Leandro Narloch fala o contrário, em outra
entrevista, agora no programa chamado Programa Namoral.
Vejamos agora em 2:50 do link
https://www.youtube.com/watch?v=zv4WNJT0PCc ou assista em 0:08 do link
https://www.youtube.com/watch?v=iGVYdfQg1wA&feature=youtu.be.
Leandro Narloch fala sobre o livro, no vídeo, o seguinte:
“Posso dizer que uma ou outra coisa eu exagerei, foi eu que
disse.” (Leandro Narloch autor do Guia Politicamente Incorreto do
Brasil)
https://www.youtube.com/watch?v=bjB64raROI4
https://www.youtube.com/watch?v=Ri0_a0djjtE&t=10s
https://www.youtube.com/watch?v=zv4WNJT0PCc
https://www.youtube.com/watch?v=iGVYdfQg1wA&feature=youtu.be
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
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Concluindo, Leandro Narloch, autor do Guia Politicamente Incorreto
do Brasil, escreveu para irritar e enfurecer esquerdistas e marxistas,
objetivando ganhar dinheiro com a venda do livro devido a polêmica
gerada pelas ideias presentes na obra; ideias antimarxistas escritas
com a óptica do autor, exagerando num ponto e noutro do seu texto
objetivando o lucro independente de ir contra a história e os fatos.
Grande prova da sua pouca atenção para com a história é a falta de
análise de documentos bem como, por incrível que pareça, a
ausência de consultas à fontes primárias. Aqui ele diz em 3:20 do
link https://www.youtube.com/watch?v=bNyx5Mwt0BY ou em 3:07 do link
https://www.youtube.com/watch?v=V8a2azsqYjI&t=61s.
“A minha postura foi bem de jornalista, eu não fui em fontes
primárias, não analisei documentos, nada disso. Eu só tentei
trazer para o leitor essa nova história do Brasil.” (Leandro Narloch)
Em resumo, todos as pessoas que leram e propagaram essas
informações como verdades, durantes anos, foram ludibriadas.
Tudo que a maior parte dos leitores fez foi realizar o sonho de
Narloch de torná-lo rico e disseminar, por todos os cantos, uma
mentira a respeito de Zumbi dos Palmares. Essa sendo uma das
maiores ofensas à história de um povo e que certamente, não
sendo divulgada a verdade, aparecerão aqueles que, acreditando
nas palavras de Narloch, desejaram, por ignorância, relegar Zumbi
ao esquecimento.
https://www.youtube.com/watch?v=bNyx5Mwt0BY
https://www.youtube.com/watch?v=V8a2azsqYjI&t=61s
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
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PARTE VII
Conclusão
Em fim, concluímos esse trabalho, mas caso ainda não acredite,
caro leitor, mesmo diante de tantos relatos, indicação de fontes,
informações de outras obras e as palavras do próprio autor fora do
livro, convido-lhe a apresentar os motivos de suas dúvidas; pois,
como dito no começo desse tratado, essa obra também é passível
de questionamento, desde que haja de fato algum. Peço-lhe,
contudo, que não tenha o dinheiro, o preconceito ou o racismo
como norteador, mas sim a verdade como guia.
Fiquemos, por último, com algumas palavras direcionadas ao líder
palmarino. Assim testemunharam os antigos sobre ele dizendo:
“Negro de singular valor, grande ânimo, e constância
rara. Este é o espectador dos mais, porque a sua
indústria, juízo e fortaleza aos nossos serve de
embaraço, aos seus de exemplo…”
(Relação das guerras feitas aos Palmares de Pernambuco no
tempo do Governador Pedro de Almeida de 1675 a 1678)
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS:O ANACRONISMO DE NARLOCH
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ZUMBI DOS PALMARES
Estátua em homenagem ao líder do Quilombo dos
Palmares, localizada na Praça da Sé, Centro Histórico,
Salvador/Bahia.
ZUMBI DOS PALMARES NÃO TINHA ESCRAVOS: O ANACRONISMO DE NARLOCH
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Bibliografia
BARLÉU, Gaspar, O Brasil Holandês sob o Conde João Maurício
de Nassau, Ministério da Educação, 1940.
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Brasileira,1966.
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Palmares de Pernambuco no tempo do governador D. Pedro de
Almeida de 1675 a 1678, Revista do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, 1859.
ENNES, Ernesto, As Guerras nos Palmares, Companhia Editora
Nacional,1938.
FREITAS, Mario Martins de, Reino Negro de Palmares, Biblioteca
do Exército, 1988.
REIS, Andressa Merces Barbosa dos. Zumbi: Historiografia e
imagens. 148 f. Dissertação (Mestrado em História) – Faculdade de
História, Direito e Serviço Social da Universidade Estadual Paulista
- UNESP, São Paulo, 2002
RODRIGUES, Nina, Os Africanos no Brasil, Nacional/Brasiliana 9,
São Paulo, 1932.
SANTOS, Joel Rufino dos. Zumbi. São Paulo: Ed. Moderna, 1985
A. F .M. J
Rota dos Quilombos
O estado do Alagoas é conhecido por suas inúmeras praias e belezas naturais.
Porém, além da natureza exuberante, que já é conhecida, existem também as rotas
culturais em Alagoas. Elas não podem ficar de fora do roteiro.
Vamos conhecer um pouco dos minicípios que fazem parte dessa região turística.
União dos Palmares, São José da Lage, Murici, Cajueiro, Viçosa e Mar Vermelho.
União dos Palmares
Onde está localizada a serra da barriga e o Quilombo dos Palmares.
O Quilombo dos Palmares, localizado a 80 km de Maceió, foi o maior espaço de
resistência de escravos durante mais de um século no período colonial. Recentemente, a
região do Quilombo, a Serra da Barriga, foi reconhecida como Patrimônio Cultural do
Mercosul.
Na localidade, que certamente faz parte das rotas culturais em Alagoas, os visitantes
podem conhecer o Parque Memorial do Quilombo dos Palmares, uma reprodução, em
tamanho real, do ambiente da República dos Palmares. Entre eles estão a Casa da
Farinha, o Terreiro das ervas, a Casa do Campo Santo e o Muxima de Palmares.
Alguns ambientes contam, com áudio, o modo de vida da cultura negra e quilombola.
Além disso, há até mesmo ocas indígenas, pois, muito antes da chegada dos negros,
havia índios vivendo na região.
Conhecida por ser “A Terra da Liberdade”, já que foi nela, onde foi dado o primeiro
grito de liberdade pelo Zumbi dos Palmares. Um dos pontos turísticos da cidade é a
Serra da Barriga, famosa pelo monumento do Quilombo dos Palmares. Este ponto
turístico é declarado Patrimônio Histórico do Brasil. Outro local muito importante da
cidade é a Casa Jorge Lima, dedicada ao príncipe dos poetas alagoanos Jorge de Lima.
Outro museu a ser visitado é a Casa de Maria, instalado na antiga residência da
historiadora Maria de Castro Sarmento, onde é possível encontrar vários e diferentes
objetos que refletem a vida na zona da mata alagoana. Ao visitar a cidade de União dos
Palmares, o turista poderá encontrar uma variedade de artesanato produzido pela
comunidade quilombola que ali reside. História
As primeiras habitações do município de União dos Palmares surgiram no século XVIII,
num povoado chamado 'Macacos', à margem esquerda do rio Mundaú. O português
Domingos de Pino construiu a primeira capela do local dedicada à Santa Madalena. A
povoação passou a ter o nome da padroeira
O crescimento do lugarejo provocou seu desmembramento do município de Atalaia, a
13 de outubro de 1831, através de Decreto Governamental. A denominação 'União'
surgiu através de Decreto e teve origem no fato de a cidade ser o elo entre as estradas de
ferro de Alagoas e Pernambuco. Em 1944, ocorreu a mudança definitiva para 'União dos
Palmares', homenageando o quilombo que permaneceu na região por quase um século
Foi em União dos Palmares, mais precisamente na Serra da Barriga (uma das atrações
turísticas da cidade), que os negros rebelados contra a escravidão construíram a
República Independente do Quilombo dos Palmares, o símbolo do anseio e da
resistência negra pela liberdade, tendo como líder maior o negro Zumbi, imortalizado
numa estátua no alto da serraA Serra da Barriga - Patrimônio Cultural Brasileiro inscrito
no Livro do Tombo Histórico e no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e
Paisagístico, desde 1986 - recebeu o título de Patrimônio Cultural do Mercosul em maio
de 2017. Localizada no município de União dos Palmares, Zona da Mata do Estado de
Alagoas, a Serra abrange uma área de aproximadamente 27,92km².
No século XVIII, estabeleceu-se na Serra da Barriga, no Quilombo dos Macacos, a sede
do Quilombo dos Palmares. Na paisagem natural e edificada, observam-se, ainda,
grande quantidade de palmeiras que, segundo historiadores, deram origem ao nome
Palmares. Entre as características da Serra da Barriga estão as nascentes que alimentam
um açude e uma lagoa. Esta última, denominada Lagoa dos Negros, é um dos lugares
sagrados da Serra, onde os religiosos de matriz africana realizam rituais.
O Quilombo dos Palmares representa um marco na luta dos escravos no Brasil. Tal
processo diz respeito aos ancestrais africanos que se manifestam nas formas imateriais
de suas religiões, seus deuses, mitos, objetos sagrados de cultos, artefatos de uso
cotidiano, alimentos, expressões culturais e alguns espaços geográficos mantidos por
seus descendentes como locais sagrados ou de preservação da história das pessoas
negras trazidas da África.
Hospedagem
1. Quilombo Hotel fazenda, com diárias a partir de $350
2. Pousada Mirante das Àguas, com diárias a partir de $195
3. Recanto Mirante das Águas $95
4. Hotel Santa Maria Madalena $89
5. Pousada dos Palmares $90
Gastronomia
Podemos encontrar uma variedade de tipos deste os mais básicos até com comidas
típicas;
Restaurante a Porteira
Brasileira, Sul-americana
Baóba Raízes e Tradicões
Brasileira, Sul-americana, Africana
Aquarius Restaurante
Frutos do mar
Churrascaria Santa Maria Madalena
Chimbras Pub e Restaurante
Restaurante Casa do Gourmet
Atrativos turísticos
Parque Memorial Quilombo dos Palmares - União dos Palmares
Casa do Poeta Jorge de Lima - União dos Palmares
Casa de Cultura Palmarina - União dos Palmares
Casa museu fazenda Anhumas
Museu Casa Maria Mariá - União dos Palmares]
Ao visitar a cidade de União dos Palmares, o turista poderá encontrar uma variedade de
artesanato produzido pela comunidade quilombola que ali reside.
Parque da Recuperação Vaquejadas e Show
São Jose da Lage
São José da Laje é um município brasileiro localizado no estado de Alagoas.
Pertencente à Região Imediata de União dos Palmares e à Região Intermediária de
Maceió, localiza-se a norte da capital do estado, distante cerca de 98 quilômetros de
Maceió. A cidade foi incluída na rota do turismo religioso do Estado. Histórico
A procedência dos primeiros povoadores teve origem nas expedições comerciais entre
os povoados de Porto Calvo, Porto de Pedras e outros situados no litoral alagoano e os
de Serinhaém, Rio Formoso e Cabo no interior de Pernambuco. Isso, no início do
período colonial e, posteriormente, por ocasião da passagem de tropas que tomaram
parte nas lutas dos quilombos dos Palmares e invasores holandeses.
Em 1876, dado o desenvolvimento do Povoado que, naquela época, era chamado Lage
do Canhoto, foi elevado à categoria de Vila, porém, a lei não foi cumprida.
Turismo: Igreja Matriz de São José (estilo Barroco).
Eventos: Festa do Padroeiro São José (19 de março), carnaval e festejos juninas.
Localização: Situa-se na Microrregião Quilombo dos Palmares, sendo seus limites: Santana do
Mundaú, União dos Palmares, Ibateguara e Canhotinho (PE).
O município tem como indústriaafricanas não leva em conta mudanças ao longo do tempo. Este é, todavia, um
aspecto importante, que merece atenção. As fontes indicam que as autoridades coloniais em Pernambuco não trataram
os habitantes dos mocambos sempre do mesmo modo.
No início dos anos 1660, ao tentar um acordo de paz com os palmaristas, o governador da capitania negociou com um
“principal”, “maior”, “maioral” ou “rei”. No final da década de 1670, o rei dos Palmares não apenas governava os
mocambos, seus “cabos” e habitantes, mas também liderava uma rede de parentes que, por sua vez, ocupavam os
principais postos políticos e militares dos mocambos. Depois do fracasso do acordo de 1678, da morte de Gana Zumba e
da destruição da aldeia de Cucaú, em 1680, esta linhagem deixou de existir. Zumbi, sobrinho de Gana Zumba, havia se
retirado para o “mais oculto destes Palmares”, levando “consigo a melhor gente de guerra”, e resistia às investidas das
tropas enviadas pelo governo de Pernambuco. A correspondência administrativa dos anos 1680 e 1690, embora
mencionando a família do “negro” Zumbi, refere-se a ele como “capitão” e “corsário”, ressaltando mais suas qualidades
militares que políticas. Essa mudança na forma de tratar as lideranças de Palmares acompanha o desaparecimento da
12/06/2020 Palmares: um reino africano no Brasil? | Impressões Rebeldes
https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/?temas=palmares-um-reino-africano-no-brasil 3/4
parentela governante e da rede de mocambos. Nesse período, havia um núcleo fortificado no outeiro do Barriga e alguns
assentamentos menores esparsos – e a documentação registra “correrias” praticadas pelos palmaristas, que se
estendem por largos espaços da capitania.
Assim, até o início da década de 1680, não há indícios documentais que possam aproximar Palmares
dos kilombo Imbangala. Ao contrário. O que as fontes sugerem é que Palmares foi tratado pelas autoridades coloniais
como um estado linhageiro, diante do qual adotaram procedimentos políticos semelhantes aos praticados com os reinos
e sobados centro-africanos. Havia uma estrutura militar em Palmares, mas o governo era exercido pelos membros de
uma linhagem, que foi reconhecida como tal pelo governo de Pernambuco. Quando a linhagem governante dos Palmares
foi destruída, entre 1677 e 1680, as autoridades pernambucanas passaram a perseguir Zumbi e as lideranças
remanescentes de Palmares para impedir a formação de um novo reino – do mesmo modo que fizeram na África Central
com o rei “rebelde” do Ndongo, finalmente derrotado em 1671. Foi neste contexto, em meados dos anos 1680, que a
palavra “quilombo” começou a aparecer na documentação referente a Palmares.
Como bem observou Schwartz, neste termo “está codificada uma história não escrita” que é preciso decifrar. Baseado na
obra de Joseph Miller, Schwartz pensou sobretudo nos kilombo Imbangala, mas não deu muita importância ao fato de
que, ao longo do século XVII¸ houve algumas mudanças importantes na África Central. Alguns grupos Imbangala se
aliaram aos povos Ambundo, adotaram parte de seus costumes e formaram reinos que resistiam ao avanço colonial
português; suas capitais eram chamadas também de “quilombo”. Mais que o acampamento guerreiro dos Imbangala, é
esse significado mais alargado e político do termo “quilombo”, tal como registrado na documentação referente à África
Central da segunda metade do século XVII, que foi empregado para designar as cercas que se formaram nos Palmares
depois da destruição da linhagem palmarista. Ele ajudava a sublinhar a resistência dos assentamentos mais militarizados
que se espalhavam pelas matas de Pernambuco. Depois, com os regimentos dos capitães do mato a partir das primeiras
décadas do século XVIII, o termo foi se tornando mais usual, ganhando definições mais específicas.
Angola e Pernambuco eram mundos conectados em termos econômicos, militares e políticos. Prestar atenção na
circulação de palavras e significados entre as duas margens do Atlântico permite levantar uma nova hipótese para
entender a presença das tradições africanas em Palmares. Como bem afirmaram Kent e Thornton, os habitantes dos
mocambos não eram simplesmente “africanos”, mas centro-africanos; não simplesmente “bantu” mas falantes de
quimbundo e provenientes do entorno de Luanda, provavelmente aprisionados nas muitas guerras que devassavam a
região. Os costumes e a cultura política que trouxeram consigo, ao serem escravizados nos sertões angolanos e
traficados através do Atlântico, inspiraram o modo como organizaram suas vidas na escravidão das fazendas açucareiras
de Pernambuco e nos assentamentos que formaram quando fugiram para os matos. Ao longo do século XVII, essa
maneira de ver o mundo e nele viver serviu de guia para suas ações e reações diante das diferentes conjunturas,
estando na base da formação de um reino linhageiro ou de quilombos mais militarizados. Assim, pode-se concluir que,
de certo modo, Kent, Anderson, Schwartz e Thornton têm todos razão – mas não todo o tempo.
Silvia Hunold Lara é professora colaboradora do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas
(UNICAMP). É autora de Campos da Violência. Escravos e senhores na Capitania do Rio de Janeiro, 1750-1808 (1988) e
Fragmentos setecentistas. Escravidão, cultura e poder na América portuguesa (2007). Juntamente com Joseli M. Nunes
Mendonça, organizou a coletânea Direitos e Justiças no Brasil (2006) e, com Gustavo Pacheco, Memória do Jongo: as
gravações históricas de Stanley J. Stein. Vassouras, 1949 (2007).
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LARA, Silvia. Quem eram os “‘negros do Palmar”? in: RIBEIRO, Gladys Sabina; FREIRE, Jonis; ABREU, Martha
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[1932]. 5ª ed., São Paulo: Cia. Ed. Nacional, 1977, pp. 71-93.
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12/06/2020 Palmares: um reino africano no Brasil? | Impressões Rebeldes
https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/?temas=palmares-um-reino-africano-no-brasil 4/4
(séculos XVI-XIX). Rio de Janeiro: 7 Letras, 2010, pp. 48-60.
1
FORMAÇÃO DE QUILOMBOS
Durante o período colonial, os quilombos eram comunidades formadas por
pessoas fugidas da escravidão, geralmente descendentes de africanos escravizados.
Essas comunidades, conhecidas como quilombos, eram estabelecidas em áreas
remotas e de difícil acesso, onde os membros buscavam autonomia e resistiam à
opressão. O mais famoso quilombo foi o Quilombo dos Palmares, localizado na região
nordeste do Brasil, que resistiu por muitos anos antes de ser destruído pelas forças
coloniais.
Cotidiano e Formas de Resistência escrava em Pernambuco
A escravidão negra, que envolvia o
trabalho forçado de africanos, foi a forma
principal de emprego no Brasil por cerca de
300 anos, durante os períodos colonial e
imperial. Sem dúvida, os africanos eram
amplamente utilizados em várias atividades
econômicas, como plantações de cana-de-açúcar,
cultivo de algodão e tabaco. Existiam diferentes
tipos de escravos.
A escravidão negra no Brasil, ao longo de cerca de 300 anos, foi marcada por
uma diversidade de atividades econômicas em que os africanos eram empregados.
Uma curiosidade adicional é que dentro desse sistema, diferentes tipos de escravos
desempenhavam papéis variados.
Além do trabalho nas plantações de cana-de-açúcar, cultivo de algodão e
tabaco, os escravizados africanos eram empregados em diversas outras áreas, como
mineração, construção, serviços domésticos e comércio.de grande porte a Usina Serra Grande. Economicamente, vem
a cana-de-açúcar, a pecuária e culturas diversificadas em pequeno Porte
Hospedagem
Pousada Gente Nossa, com diárias a parti de $120
Gastronomia
Restaurante Severina
Restaurante Da Irmã Cida
Restaurante E Pizzaria Saborely
Atrativos turísticos
Igreja Matriz de São José da Laje
Museu Coronel Carlos Benigno Pereira de Lyra - São José da Laje
Mirante de São José
Famoso pelo seu carnalaje com o banho de mel (famoso mela mela)
Parque aquático Maria do Carmo (só abre no verão)
Murici
Murici é um município brasileiro do estado de Alagoas.
Está localizado na Zona da Mata Alagoana, com uma população estimada de 28.333
habitantes (IBGE 2020). Está a uma distância de aproximadamente 44 km da capital
Maceió. Histórico
O monge Frei Domingos é considerado o fundador de Murici. Foi ele, que, segundo a
lenda, plantou um 'muricizeiro bravo' por volta de 1810. À sombra da árvore, paravam
os viajantes para descansar e vender produtos. Antes de tornar-se cidade, o povoado de
Murici pertenceu à antiga Vila dos Macacos, Imperatriz, Santa Maria Madalena e União
dos Palmares. Os moradores da antiga Imperatriz eram conhecidos como “Macaquitos
da Imperatriz”. Foram eles que construíram uma capela para Nossa Senhora da
Conceição e casas, chamadas de 'testa de bode' e destinadas à compra de algodão em
rama, uma das primeiras culturas da região.
Em 1829, dois frades, Cassiano e João, reconstruíram a capela de Murici e mudaram a
padroeira para Nossa Senhora das Graças
Hospedagem
Novo Hotel Murici, com diárias a partir de $
Prime Pousada e Conveniência, com diárias a partir de $
Fazenda Boa Sorte com pensão completa com opções de:
Camping: R$ 65.00
Rapel R$ 70,00
Hospedagem R$180,00
Day use R$ 60.00
Gastronomia
Churrascaria e Restaurante Talheres na mesa
Comida Di Buteco
Goiana Bar e Restaurante
Atrativos turísticos
Praça Padre Cicero.
Estação Ecológica de Murici.
Cachoeira da Tiririca.
Estádio José Gomes da Costa.
Alto do Cruzeiro
A Reserva Ecológica Osvaldo Timóteo possui uma área de 22,34 ha. Localizada no
município de São José da Laje, está inserida na APA Estadual de Murici. É de
propriedade de Osvaldo Timóteo da Silva.
Foi criada pela portaria n° 018/2007, com objetivo à preservação integral do meio
natural, sendo vedadas todas as interferências sobre este ecossistema e tem como
principal bioma a Mata Atlântica. A reserva possui belo receptivo e programas de
visitação e atividades em contato com a natureza, proporcionando uma rica experiência
aos visitantes que buscam o Turismo Rural/ Ecológico.
Parque de Vaquejada Recuperação
Cajueiro
Cajueiro é um município brasileiro do estado de Alagoas.
A história do município de Cajueiro teve início quando um povoado começou a se
formar ao redor de um grande cajueiro, no início do século XIX. Situado às margens do
rio Paraíba, era o ponto de repouso das pessoas provenientes do agreste e do sertão. A
localidade está em uma altitude de 102m em relação ao nível do mar, e possui uma
população estimada em 16.613 habitantes. Distante de Maceió 71km.
Histórico
Cajueiro tem sua origem, como povoado, nos meados do século XIX, às margens do
Rio Paraíba, formado pela família Marcelino.
Os migrantes do sertão em demanda a Pilar e a Maceió descansavam seus animais à
sombra de frondoso cajueiro. Aí, a denominação da localidade.
Em 1904, Cajueiro foi elevado à categoria de município, vindo a perder a sua autonomia
em 1912.
No ano de 1958 foi, novamente, elevado à município, com área desmembrada de
Capela.
Gentílico: cajueirense
Hospedagem
Hotel pousada e restaurante padre Cicero.
Gastronomia
Janua Restaurante
Buffet e Restaurante Flavia Duarte
Taticas Bar e Restaurante
Restaurante Padre Cicero
Atrativos turísticos
Essencial em Cajueiro
Palácio Floriano Peixoto. Obras arquitetônicas.
Santuário Ecológico Santa Teresa. Natureza e vida selvagem, Massas de água.
Estádio José Gomes da Costa. Arenas e estádios.
Balneário Águas De São Bento. Clubes com piscina e praia.
Fazenda Anhumas.
Museus especializados.
Fazenda Boi da Macuca. ...
Lago Azul.
Viçosa
Viçosa não é Viçosa por acaso. Um dos berços culturais de Alagoas, a bela Princesa das
Matas, a 86 km de Maceió, no Vale do Paraíba do Meio, é opulenta em todos os
sentidos, assim como exalta a letra do hino escrito por Manoel Brandão Vilela com
melodia do maestro Nuno Pimentel.
Viçosa tem brilho próprio, refletido nas cores do folclore, em manifestações populares
como o Guerreiro, o Pastoril, o Reisado e a Cavalhada. Tem a sonoridade de Mestre Bia
e seus pífanos, tradição que começou lá atrás, ainda com os índios caambembes,
exímios tocadores de flauta. Viçosa tem sabor: vai da culinária popular à gastronomia
mais requintada.
Último refúgio do líder negro Zumbi dos Palmares, abatido pelas tropas de Domingos
Jorge Velho no dia 20 de novembro de 1695, na Serra Dois Irmãos, Viçosa também tem
história. O município possui 187 anos.
A gerente municipal de Turismo, Luciana Sampaio, revela que a criação do Comtur era
a última exigência feita pelo Ministério do Turismo (MTur) que restava para Viçosa
ingressar, de uma vez por todas, no Mapa do Turismo, inserida na Região dos
Quilombos. O Mapa é um instrumento importante para gestão, estruturação e promoção
do destino.
“Estamos resgatando a história da Região dos Quilombos. Levaremos cursos e oficinas
ligados aos remanescentes. Pretendemos, em novembro, fazer um grande evento em
comemoração ao Dia da Consciência Negra. Estamos, ainda, viabilizando a realização
de cursos para formação de guias turísticos para a geração de emprego e renda. Já
iniciamos, inclusive, as tratativas nesse sentido”
Histórico
As Terras que hoje constituem o município de viçosa eram habitadas por índios
Caambembes, Oriundos da tribo Caeté. Eles viviam em luta com os Cariris e outras
tribos tapuias habitantes das caatingas.
Pela sua posição topográfica e excelente condições físicas - riqueza de matas, cursos de
água e terras férteis - o município de Viçosa aparece como um dos pontos do Estado
onde houve mais lutas entre índios.
Foram localizados na região - em povoados como Bananal e sítios adjacentes - muitos
vestígios dos quilombos. Há quem assegure que Zumbi morreu lá e não em União dos
Palmares. Depois dos negros derrotados, o Rei de Portugal dividiu os domínios entre os
vencedores.
Em 1831, por decreto imperial, a povoação com nome de Riacho do Meio foi desligada
de Atalaia e elevada à categoria de Vila. No governo de Gabino Bezouro, em 1892, a
Vila foi elevada à condição de cidade. A vida política de Viçosa teve muitas lutas
partidárias, caracterizando a época de predominância do coronelismo. No aspecto
cultural, porém, Viçosa é berço de destacados escritores e intelectuais de Alagoas, como
Otávio Brandão, além de um importante núcleo de folclore.
Com essa tradição cultural, Viçosa destaca-se, principalmente, por suas festividades:
Carnaval, Festas Juninas, Festa do Padroeiro Senhor do Bom Jesus do Bomfim (entre os
meses de janeiro e fevereiro), Cavalhadas e Vaquejadas. Entre as belezas naturais está a
Serra Dois Irmãos, local onde historiadores supõem que teria vivido Zumbi em seus
últimos anos, até a morte. Viçosa tem ainda atração esporádica (não a dia nem mês
estabelecidos) o trem de Viçosa, onde filhos da terra viajaram juntos até o município e
fazem um grande encontro.
Gentílico: viçosense
Hospedagem
Hotel Fazenda Marambaia
Pousada Shalako e Self-Service
Pousada Fazenda Baixa Funda
Bolleestel Pousada
Pousada vale do Paraíba
Gastronomia
Restaurante Trapiá
Restaurante Caroman
Restaurante Paladar
Shalako Self-Service e Lanchonete
Restaurante vale do Paraíba
Atrativos turísticos
Casario salta aos olhos e encanta visitantes
Cachoeira da Serra Dois Irmãos, último refúgio do líder negro Zumbi dos Palmares.
Cachoeira do povoado Anel
Cavalhada,umas das manifestações folclóricas mantidas em Viçosa
Centro cultural
Museu do Anel,
Parque de Esculturas
Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
Mar vermelho
Mar Vermelho é um município brasileiro do estado de Alagoas. Sua população, de
acordo com estimativas do IBGE, em O município de Mar Vermelho tem sua origem
ligada à história de Coutinho, um viajante que chegou à região por volta de 1800,
construiu uma casa e iniciou a criação de gado e o cultivo da terra. Com a chegada de
outros moradores, novas casas foram surgindo próximas a uma lagoa, que tinha, em
suas margens, muitos pés de gravatás cujas folhas vermelhas caíam e formavam um
grande 'mar vermelho' na lagoa, dando origem ao nome do município.2020 era de 3 674
habitantes. Mar vermelho e o segundo município com menor população de Alagoas.
O município de Mar Vermelho tem sua origem ligada à história de Coutinho, um
viajante que chegou à região por volta de 1800, construiu uma casa e iniciou a criação
de gado e o cultivo da terra. Com a chegada de outros moradores, novas casas foram
surgindo próximas a uma lagoa, que tinha, em suas margens, muitos pés de gravatás
cujas folhas vermelhas caíam e formavam um grande 'mar vermelho' na lagoa, dando
origem ao nome do município.
A principal atração do município é o clima serrano, que lhe rendeu a denominação de
'Suíça Alagoana'. Frio e seco, é aconselhado pelos especialistas como auxiliar no
tratamento das doenças do aparelho respiratório. Destaca-se, também, a Lagoa
Vermelha, abençoada pelo Cristo Redentor no alto da cidade. As festividades também
atraem muitos visitantes, destacando-se: o carnaval, as festas religiosas - incluindo-se a
da padroeira, Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro) - além das festas populares
tradicionais.
Gentílico: mar-vermelhense
O nome Mar Vermelho tem uma história. Há uma lagoa, onde fica hoje a praça
principal, em cujas margens haviam, antigamente, muitos pés de gravatás cujas folhas
caíam e formavam um grande “mar vermelho”, daí surgiu o nome da cidade. Há pouco
mais de 15 anos, Mar Vermelho vivia no ostracismo. Só era conhecida no mapa de
Alagoas. Não havia estrada asfaltada, o que dificultava o acesso à cidade,
principalmente no Inverno. Conta-se que, nessa época, o percurso entre Mar Vermelho e
Viçosa, pela AL-110, de apenas 22 km, levava mais de uma hora e meia, causando
transtorno aos moradores e prejuízos à economia do município.
A Prefeitura de Mar Vermelho, por meio da Secretaria de Turismo, instituiu o evento
“Tardezinha na Suíça”, com a finalidade de recepcionar os visitantes e entreter a
população local com apresentações artísticas, culturais, de lazer e exposição de
artesanato local. O referido evento seria aberto no dia 30 de abril, na Praça Cristo
Redentor, porém foi antecipado para o dia 23, em razão de se encontrar na cidade
turistas de Maceió, integrantes de uma excursão da MBTour. Após assistir a um
belíssimo pôr do sol na Praça Padre Cícero, ao som de Ninja do Sax, oferecimento da
prefeitura, os visitantes se dirigiram à Praça Cristo Redentor, onde também foram
recepcionados com a apresentação de Ninja do Sax, do trio Chamego Bom (forró pé de
serra) e da poetisa local Alessandra Alves. A MBTour, por sua vez, recepcionou o
grupo com degustação de vinhos, tábua de frios, refrigerantes e outros petiscos. O
evento contou com a presença do prefeito André Almeida e do secretário de Turismo,
Josué Marcos.
Hospedagem
Caminho da Serra
Pousada Fazenda Vale Verde
Casa Suíça
Pousada França
Gastronomia
Bar do Fan
Suíça Comedoria
Restaurante Serras Alagoanas
Restaurante da Fazenda
Recanto piscinas
Canto da pizza
Atrativos turísticos
Festival de inverno
Tardezinha na Suíça
Trilhas ecológicas com guias locais
Cachoeira da escadinha
Artesanatos locais.
1. Aqualtune (c.1600-?) - princesa e comandante militar.
Imagem
que personifica Aqualtune
Nascida no Reino do Congo, Aqualtune era uma princesa que ocupou um importante
papel na sua terra natal. Comandou um exército de 10 mil homens contra o Reino de
Portugal defendendo seu território.
Derrotada, foi vendida como escrava e trazida para Alagoas. No engenho onde estava
como escrava ficou sabendo da existência do Quilombo dos Palmares e fugiu para o
local levando consigo vários companheiros.
Ali teria três filhos que se destacariam na luta contra a escravidão: Ganga Zumba e
Gana, líderes no Quilombo dos Palmares; e Sabina, a mãe de Zumbi.
A causa da sua morte é incerta, mas seus feitos ajudaram a consolidar o Quilombo dos
Palmares como refúgio dos escravos na colônia.
https://www.todamateria.com.br/ganga-zumba/
2. Zumbi dos Palmares (1655-1695) - líder do Quilombo dos Palmares
Zumbi dos Palmares foi o símbolo da resistência dos escravos que conseguiam fugir
das fazendas de Alagoas e arredores.
Zumbi já nasceu no Quilombo e, portanto, livre. No entanto, numa das incursões
contra o quilombo foi vendido para um sacerdote e assim, estudou latim e português.
Desta forma, sabia das péssimas condições de vida que estavam submetidos os
africanos que eram trazidos à força para trabalharem nos engenhos nordestinos.
Volta ao Quilombo e quem o liderava era Ganga Zumba. Nessa época, o lugar já tinha
uma população de 30 mil pessoas e representava uma ameaça ao governo português.
Por isso, decidem fazer uma oferta para que se entreguem sem violência.
A proposta é rejeitada por Zumbi que teria armado uma emboscada para Ganga
Zumba ou o envenenado. Começa, assim uma guerra entre os quilombolas, colonos e a
Coroa portuguesa.
Liderando o Quilombo dos Palmares, seu exército foi derrotado, e Zumbi foi capturado
e morto. Sua cabeça foi exposta em praça pública, mas seu exemplo de luta foi
passado de geração em geração. A vida de Zumbi se tornou exemplo para o
movimento negro atual.
3. Dandara (?-1694) - esposa de Zumbi
Dandara
Os dados sobre a vida de Dandara são escassos e não há certeza se ela nasceu no Brasil
ou na África. Sabe-se que ela foi a esposa de Zumbi e com ele teve três filhos.
Além disso, participou da resistência contra o governo português lutando ao lado das
tropas que defendiam o Quilombo dos Palmares. Igualmente, se opôs ao líder Ganga
Zumba quando este quis realizar um pacto com o governo português.
Derrotado o exército do Quilombo dos Palmares, para não ser pega pelos soldados
coloniais, Dandara preferiu suicidar-se, atirando-se num precipício.
4. Aleijadinho (1738(?)-1814) - escultor e arquiteto
Aleijadinho
Filho de um arquiteto português e de sua escrava, Antônio Francisco de Lisboa, o
Aleijadinho, foi alforriado pelo pai. Cresceu num ambiente de arte e pôde receber
educação formal junto aos seus meios-irmãos.
Sendo pardo ou mulato nem sempre recebia o que lhe correspondia por suas obras e
muitas peças não podem ter a autoria confirmada por carecerem de contrato.
Mesmo assim foi encarregado de realizar várias peças importantes para as ordens
religiosas mais ricas da região das Minas Gerais. Suas obras estão em cidades como
Congonhas, Mariana e Sabará e em vários museus brasileiros.
Desenvolveu uma doença degenerativa que o fez perder (ou paralisar) os dedos das
mãos e dos pés. Mesmo gravemente enfermo não parou de trabalhar e imprimiu às
suas criações um estilo inconfundível, sendo reconhecido como grande mestre barroco
do período.
Tereza de Benguela
Foi a rainha do Quilombo de Quariterê, no Mato Grosso. Após a morte do
companheiro, liderou a luta do quilombo contra os soldados portugueses. Sua
grande inovação foi a instituição de um Parlamento no quilombo onde se discutiam
as normas que regulavam o funcionamento do lugar.
Após ter tido seu exército derrotado, Tereza de Benguela foi morta e decapitada com
a cabeça exposta em praça pública. Desta maneira, o governo pretendia o castigo
servisse de exemplo para que ninguém voltasse a desafiá-lo.
Dia 25 de julho, data de sua morte, é celebrado o Dia da Mulher Negra no Brasil.
5. Tereza de Benguela (?-1770) - rainhado Quilombo de Quariterê
6. Mestre Valentim (1745-1813) - paisagista e arquiteto
Mestre
Valentim da Fonseca
Valentim da Fonseca e Silva, mais conhecido como Mestre Valentim, era filho de um
contratador de diamantes e uma negra. Nasceu em Serro, Minas Gerais e, mais tarde,
Valentim foi levado para o pai a Lisboa onde estudou.
No Brasil, estabeleceu-se no Rio de Janeiro, então capital da colônia. Prestou serviço
para as grandes ordens religiosas e realizou trabalhos para o Mosteiro de São Bento,
para Igreja de Santa Cruz dos Militares e a Igreja de São Pedro Clérigos (já demolida).
Chamado de "Aleijadinho carioca" pelo seu talento foi também o autor do traçado
original do Passeio Público e do Chafariz das Marrecas, ambos no Rio de Janeiro.
No entanto, sua obra mais conhecida é chafariz localizado na atual Praça Quinze, onde
centenas de escravos recolhiam água para abastecer as casas.
7. Padre José Maurício (1767-1830) - músico e compositor
Padre José Maurício
Nascido no Rio de Janeiro, de pais libertos, José Maurício Nunes Garcia seguiu a
carreira eclesiástica a fim de ter uma educação formal. Além disso, estudou música,
composição e regência, sendo exímio organista.
Com a vinda da Família Real ao Brasil, em 1808, a vida cultural do Rio de Janeiro sofreu
um incremento considerável.
O príncipe-regente Dom João, grande admirador da música, nomeou-lhe Mestre de
Capela e o fez cavaleiro da Ordem de Cristo, uma das mais tradicionais ordens
portuguesas.
Compôs, sobretudo, música religiosa que refletem exatamente a transição do barroco
para o classicismo pela qual passava a música europeia.
Com as comemorações do bicentenário da Família Real em 2008, a obra de José
Maurício Nunes Garcia foi redescoberta. Assim surgiram várias gravações de
orquestras brasileiras e internacionais que permitiram sua divulgação às novas
gerações.
8. Maria Firmina do Reis (1822-1917) - escritora e professora
Maria
Firmina
Nascida no Maranhão, Maria Firmina dos Reis pode ser considerada uma pioneira em
vários campos.
Foi a primeira mulher a passar para o concurso público como professora, a fundar uma
escola mista e a escrever um romance "Úrsula" . Este livro anteciparia o gênero de
literatura abolicionista que seria moda com "Escrava Isaura", de Bernado Guimarães
(1825-1884).
Publicaria em 1871 um conto com a mesma temática "A Escrava" e reuniria seus
poemas na coletânea "Cantos à beira-mar".
Maria Firmina foi completamente esquecida e silenciada da História do Brasil, mas
pesquisas recentes tem trazido luz sobre sua obra e vida.
Veja também: Abolicionismo
9. Luís Gama (1830-1882) - escritor e ativista político
https://www.todamateria.com.br/abolicionismo/
Luís Gama
Nascido na Bahia de uma liberta e de um português empobrecido, Luís Gama nasceu
livre, mas foi vendido como escravo pelo pai que estava endividado.
Foi para São Paulo aos 10 anos e trabalhou como escravo doméstico. Aprendeu a ler
aos 17 e, nesta época, conseguiu provar junto aos tribunais que era mantido como
escravo injustamente e que, portanto, deveria ser posto em liberdade.
Um vez livre, Gama passou a atuar como rábula, um advogado sem diploma que
pleiteava causas específicas. No seu caso, Luís Gama conseguiu libertar mais de 500
escravos alegando que todo negro chegado ao Brasil após 1831 deveria ser livre, tal
como dizia a Lei Feijó.
Escritor abolicionista, o enterro de Luís Gama foi um verdadeiro acontecimento em
São Paulo acompanhado por 4000 pessoas.
Em 2015, a OAB - Ordem de Advogados do Brasil, lhe concedeu postumamente o título
oficial de advogado.
10. André Rebouças (1838-1898) - engenheiro e ativista político
André Rebouças
Nascido na Bahia, André Rebouças era filho de um conselheiro do Imperador Dom
Pedro I e estudou engenharia no exterior.
Construiu docas nos portos de Salvador, Rio de Janeiro e Recife. Propôs meios para
melhorar o abastecimento de água da capital do Império e planejou linhas ferroviárias
junto com seus irmãos Antônio e José.
Abolicionista, amigo da Família Imperial, foi um dos fundadores da "Sociedade
Brasileira Contra a Escravidão". A princesa Isabel causou escândalo quando dançou
com André Rebouças nos bailes da Corte deixando claro sua posição abolicionista.
Monarquista, acompanhou a família imperial no seu exílio em Lisboa e dali partiu para
Angola.
11. Francisco José do Nascimento (1839-1914) - marinheiro e ativista político
Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar
Natural do Ceará, filho de pescadores, desde cedo aprendeu o ofício do mar e exerceu
de prático-mor. O abolicionismo se espalhava pelo país e no Ceará contou com o apoio
decisivo dos jangadeiros.
Em 1881, os jangadeiros, liderados por Francisco do Nascimento, se recusam a
transportar os escravos para o sul do país. Desta forma, o comércio ficou paralisado.
O ato do jangadeiro correu por todo país e foi saudado pelos abolicionistas como um
gesto heroico. A partir de então, sua alcunha seria "Dragão do Mar" e entraria para
história do estado e do país.
O Ceará foi a primeira província do Brasil a abolir a escravidão em 1884.
12. Machado de Assis (1839-1908) - escritor, jornalista e poeta
Machado de Assis
Nascido no Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu numa família
pobre. Desde pequeno, o menino se interessava pelos livros e aprendeu francês,
idioma com o qual escreveria alguns poemas.
Foi funcionário público em vários ministérios, enquanto desenvolvia sua atividade
literária publicando crônicas e contos nos jornais.
Ainda assim escreveria nove romances fundamentais para a literatura brasileira dentre
os quais se destacam "Dom Casmurro" e "Memórias Póstumas de Brás Cubas".
Além disso, fundou a Academia Brasileira de Letras, e foi seu primeiro presidente. A
instituição ainda cumpre um importante papel na divulgação da língua portuguesa e
tem a sua sede no Rio de Janeiro.
Veja também: Machado de Assis: biografia e obras
https://www.todamateria.com.br/machado-de-assis/
13. Estêvão Silva (1845-1891) - pintor, desenhista e professor
Estêvão
da Silva
Nascido no Rio de Janeiro, Estêvão formou-se como pintor na Academia Imperial de
Belas Artes. A Academia recebia um grande número de negros e filhos de alforriados e
Estêvão Silva é considerado o maior de todos eles.
Especializou-se na pintura de naturezas-mortas, e o crítico Gonzaga Duque observou
que "ninguém era capaz de pintá-las tão bem quanto Estêvão Silva". Igualmente,
retratou paisagens e figuras religiosas.
Apesar de esquecido pela historiografia brasileira, Estêvão Silva participou do Grupo
Grimm, que renovou o paisagismo brasileiro no século XIX.
Na praia da Boa Viagem, em Niterói (RJ), os membros pintavam sob orientação do
alemão Georg Grimm. Faziam parte artistas como Antônio Parreiras e França Júnior,
entre outros.
O Museu Afro Brasil, em São Paulo, realizou uma exposição para resgatar a figura
deste importante personagem.
Veja também: Principais Características da Cultura Afro-Brasileira
14. José do Patrocínio (1853-1905) - farmacêutico e ativista político
José do Patrocínio
Nascido em Campo dos Goytacazes (RJ), José do Patrocínio foi para a capital do
Império para estudar Farmácia enquanto trabalhava na Santa Casa de Misericórdia.
https://www.todamateria.com.br/principais-caracteristicas-da-cultura-afro-brasileira/
No entanto, cedo trocou o laboratório pela redação de jornais onde defendia
ardorosamente o fim da escravidão.
Com Joaquim Nabuco, em 1880, fundou Sociedade Brasileira Contra a Escravidão.
Além de comícios políticos, a organização arrecadava dinheiro para alforrias e facilitava
fugas de escravos. Do mesmo modo, concorreu e ganhou a eleição para vereador do
Rio de Janeiro em 1886.
Assinada a Lei Áurea, em 1888, Patrocínio vai a Paris, de onde volta com o primeiro
automóvel da cidade do Rio de Janeiro. Igualmente, investe suas economias na
fabricação de dirigíveis. Falece de tuberculose aos 51 anos de idade.
15. João da Cruz e Souza (1861-1898)- poeta e escritor
Cruz e Sousa
Nascido em Santa Catarina, partiu para a capital, onde foi arquivista da Estrada de
Ferro Central do Brasil. Colaborava com diversos jornais e estava atento a causa
abolicionista que se desenrolava naquele momento.
Publicou três livros em vida, mas foi sua obra póstuma "Evocações" que lhe garantiu
um lugar entre os grandes escritores brasileiros.
Seus poemas são os primeiros do estilo simbolista no Brasil. Apesar disso, faleceu tal
qual um poeta romântico, pois a tuberculose terminou com sua vida quando tinha
apenas 36 anos.
Veja também: Cruz e Souza
16. Nilo Peçanha (1867- 1924) - presidente da República
Nilo
Peçanha
Nilo Peçanha é considerado o primeiro presidente afro-descendente do Brasil,
assumindo o cargo após a morte de Afonso Pena, em 1909. É importante lembrar que,
naquela época, os vice-presidentes também eram votados pelos eleitores, de forma
independente.
https://www.todamateria.com.br/cruz-e-souza/
Apesar de seu governo ter durado somente um ano, durante seu mandato, Nilo
Peçanha criou o Ministério da Agricultura, Comércio e Indústria, o Serviço de Proteção
aos Índios (SPI, antecessor da Funai), e inaugurou a primeira escola de ensino técnico
no Brasil.
O político ainda foi governador do Rio de Janeiro em duas ocasiões, senador e ministro
das Relações Exteriores.
Veja também: Nilo Peçanha
18. Pixinguinha (1897-1973) - músico, compositor e arranjador
Pixingui
nha
Pixinguinha, apelido de Alfredo da Rocha Vianna Filho, é considerado o maior flautista
brasileiro, e ainda tocava cavaquinho, piano e saxofone. Começou a aprender música
em casa e, aos 14 anos, já se apresentava em casas noturnas.
Na época do cinema mudo, os artistas negros não eram contratados para as
orquestras que acompanhavam o filme, nem tocavam no hall do cinema.
https://www.todamateria.com.br/nilo-pecanha/
No entanto, com a gripe espanhola, Pixinguinha consegue convencer um produtor a
contratar o seu conjunto “Os Oito Batutas” , integrado somente por músicos negros. O
grupo animaria os espectadores antes das projeções dos filmes.
Mais tarde “Os Oito Batutas” excursionam pela Europa por seis meses e voltam
triunfantes.
Pixinguinha vai para o rádio onde escreve arranjos e conhece os grandes cantores da
época, como Orlando Silva, que gravaria “Carinhoso”. Suas canções até hoje estão no
repertório dos grupos de choro, samba e MPB, pois ele é considerado o fundador da
moderna música brasileira.
19. Antonieta de Barros (1901-1952) - professora, jornalista e deputada
Antonie
ta de Barros
Natural de Santa Catarina, Antonieta de Barros foi professora e dedicou toda sua vida
ao ensino.
De igual maneira, fundou jornais onde defendia ideias feministas. Na década de 30,
entrou na política e foi a primeira deputada estadual negra do país e primeira
deputada mulher do estado de Santa Catarina.
Igualmente, foi eleita em 1934, pelo Partido Liberal Catarinense, para a assembleia que
redigiria a nova Constituição. Esteve nas comissões que relatariam os capítulos
Educação e Cultura e Funcionalismo.
Integrou a assembleia legislativa catarinense até 1937, quando teve início a ditadura
do Estado Novo. Posteriormente, voltaria a se dedicar ao magistério ocupando cargos
de direção em diversas escolas.
Em 1947, voltaria a ser deputada estadual no seu estado e seria autora da lei que
transformava o dia 15 de outubro em "Dia dos Professores" em Santa Catarina (Lei nº
145, de 12 de outubro de 1948).
20. Laudelina de Campos Melo (1904-1991) - empregada doméstica e ativista política
Laudeli
na de Campos Melo
Nascida em Poços de Caldas (MG), desde cedo auxiliava sua mãe com trabalhos
domésticos fazendo doces para ajudar o sustento da casa. Mesmo assim, participava
de associações culturais e se filiou ao PCB na década de 30.
Laudelina fundou a primeira Associação de Trabalhadores Domésticos do Brasil,
posteriormente fechada pelo Estado Novo.
Com a volta da democracia, Laudelina continuou a lutar pela valorização da cultura
negra e do trabalho doméstico. Para isso, auxiliava a fundar associações de cunho
político e cultural.
Também organizava manifestações e abaixo-assinados com o propósito de pressionar
os legisladores a promulgarem leis favoráveis ao trabalhador doméstico.
Deixou sua casa em testamento para a Associação que ajudara a criar.
21. Carolina de Jesus (1914-1977) - escritora
Carolin
a de Jesus
Nascida na cidade de Sacramento (MG), Carolina Maria de Jesus frequentou a escola
somente por dois anos.
Em busca de uma vida melhor, foi para São Paulo onde viveu na favela de Canindé e
sustentava os três filhos vendendo papel e ferro.
Na década de 60, a favela seria deslocada por conta da especulação imobiliária e
Carolina narra o cotidiano do lugar num diário. Ali conta as mazelas e a luta pela
sobrevivência numa linguagem crua, mas poética.
O jornalista Audálio Dantas, da Folha da Noite, que cobria a ação do governo, ajuda
Carolina a publicar suas anotações. O livro seria lançado com o título “Quarto de
Despejo”.
A publicação torna-se um sucesso imediato e é traduzida para 29 idiomas. Seguiriam a
continuação, onde ela descreve o lugar da mulher negra dentro da sociedade
brasileira, e “Provérbios”. Sua biografia seria publicada postumamente, em 1986, como
“Diário de Bitita”.
Veja mais sobre Carolina Maria de Jesus.
22. Abdias do Nascimento (1914-2011) - intelectual, ator e político
Abdias do Nascimento
Nascido em Franca (SP), Abdias do Nascimento foi um grande precursor na vida
artística e política do Brasil. Fundador do Teatro Experimental do Negro, em 1944, o
Museu da Arte Negra e do IPEAFRO, nos anos 80, que se dedicou à pesquisa e à
divulgação da história da África. Ainda ajudou a conceber o Memorial Zumbi dos
Palmares, em Alagoas.
https://www.todamateria.com.br/carolina-maria-de-jesus/
Engajado no movimento negro do Brasil colaborou com a Frente Negra Brasileira.
Durante a ditadura militar (1964-1985) foi para os Estados Unidos onde foi professor
universitário. Igualmente, exerceu como deputado e senador.
Abdias do Nascimento lançou várias obras sobre temas relativos a condição do negro
dentre as quais se destaca "O Genocídio do Negro Brasileiro - Processo de um racismo
mascarado", de 1978.
Homem de diversos talentos, Abdias do Nascimento ainda foi artista plástico e fez
várias obras que se inspiravam na arte africana. Igualmente, se vestia com estampas e
peças de vestuários de origem africana.
Também é frequentemente comparado ao pastor americano Martin Luther King pelo
seu compromisso com os direito civis da população afrodescendente.
23. Adhemar Ferreira da Silva (1927-2001) - atleta olímpico
Adhem
ar Ferreira da Silva
Natural de São Paulo, Adhemar foi pioneiro do atletismo brasileiro na categoria de
salto triplo. Defendeu as cores do São Paulo e do Vasco da Gama, no Rio de Janeiro.
Seu primeiro título foi o Troféu Brasil em 1947, e continuaria a brilhar sendo
tricampeão pan-americano, sul-americano e quebrando vários recordes mundiais.
Consagrado nas Olimpíadas de Helsinque (1952) e de Melbourne (1956) foi o primeiro
atleta a ganhar uma medalha de ouro para o Brasil e ser bicampeão olímpico.
Além disso, foi escultor e participou do filme "Orfeu Negro", agraciado com a Palma de
Ouro em Cannes em 1959. Formou-se em Educação Física, Direito e Relações Públicas.
Ainda foi designado adido cultural na Nigéria, onde atuaria de 1964 a 1967.
24. Grande Otelo (1915-1993) - ator e cantor
Grande Otelo
Nascido em Uberlândia (MG), Sebastião Bernardes de Souza Prata seria o primeiro ator
negro brasileiro de projeção nacional e internacional. O apelido veio das aulas de
canto, pois o professor previu que ele cantaria o papel de "Otelo", de Verdi, quando
crescesse.
A carreira artística começou nas ruas da cidade natal, quando o menino cantava e fazia
graça para os transeuntes em busca de um trocado. Quando um circo chegou a cidade,
Grande Otelo se apresentou com eles e seguiu viagempara São Paulo.
Começava assim uma profícua carreira de ator de teatro e de cinema, especialmente
em comédias ao lado de Oscarito.
No entanto, gravou também títulos com diretores do Cinema Novo como "Rio Zona
Norte", de Nelson Pereira dos Santos e "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade.
Foi também o primeiro ator negro a atuar no Cassino da Urca e, mais tarde,
participaria de vários programas de televisão.
A Escola de Samba Estácio de Sá o homenageou em 1986 e a Escola de Samba Santa
Cruz fez o mesmo em 2015. Ambas agremiações são do Rio de Janeiro.
25. Ruth de Souza (1921-2019) - atriz
Ruth de
Souza
Natural do Rio de Janeiro, Ruth perdeu o pai aos nove anos e a mãe trabalhou como
lavadeira para criar os três filhos. Cedo se interessa pelo teatro e ingressa no Teatro
Experimental do Negro, de Abdias de Nascimento. Também gostava muito de ir ao
cinema e escutar ópera junto com sua mãe.
Através do crítico Paschoal Carlos Magno, consegue uma bolsa para estudar atuação
nos Estados Unidos.
Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a atuar no Theatro Municipal do Rio de
Janeiro.
Igualmente, foi a primeira a atriz negra a receber uma indicação de melhor atriz com
seu papel no filme "Sinhá Moça". Isto ocorreu no Festival de Internacional de Veneza,
em 1954.
Por isso, é chamada de primeira-dama negra da dramaturgia brasileira. Construiu uma
exitosa carreira no teatro, cinema e televisão.
Quilombo dos Palmares e Zumbi
Quilombo dos Palmares
Quilombo dos Palmares (2)
O que foi o Quilombo dos Palmares?
Como surgiu?
Serra da Barriga, Alagoas
Onde era localizado?
Como era a vida no quilombo?
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Ganga Zumba
Ganga Zumba, pintura de Albert Eckhout
Destruição do quilombo
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Zumbi dos Palmares
Zumbi dos Palmares (2)
Zumbi dos Palmares (3)
Slide 22
Slide 23
Morte de Zumbi
Homenagem a Zumbi dos Palmares
OBRIGADA!
Referências:
Estudos_econ_v-17_n_especial_1987_0000
Aquarius Restaurante
Frutos do mar
Churrascaria Santa Maria Madalena
Chimbras Pub e Restaurante
Restaurante Casa do GourmetHavia uma divisão de tarefas
que refletia a complexidade e amplitude da economia brasileira na época. A
resistência à escravidão também se manifestava de diferentes formas, desde
pequenos atos cotidianos até rebeliões mais significativas, destacando a diversidade
de experiências dentro da comunidade escravizada. Esses aspectos ressaltam a
complexidade e a extensão do sistema escravista no Brasil.
Os "escravos de eitos" eram aqueles mais
diretamente envolvidos na produção. Eles realizavam
trabalhos mais árduos e vigorosos, principalmente
nas áreas rurais, enfrentando jornadas de trabalho
que podiam chegar a dezoito horas diárias.
Infelizmente, esses escravos tinham uma vida difícil,
com expectativa de serviço variando entre 10 e 15 anos,
muitas vezes sem uma alimentação adequada.
2
Os "escravos de eitos" representavam uma categoria específica dentro da
comunidade escravizada, desempenhando trabalhos mais árduos e vigorosos,
principalmente em áreas rurais. Uma curiosidade adicional é que esses escravizados
enfrentavam jornadas de trabalho exaustivas, que podiam estender-se por até
dezoito horas diárias.
A expectativa de serviço para esses escravos variava entre 10 e 15 anos,
adicionando um aspecto temporal à sua condição difícil. Além disso, a falta de uma
alimentação adequada agravava ainda mais as condições de vida desses indivíduos.
Essa realidade destaca as duras condições enfrentadas pelos "escravos de eitos" e
evidencia a crueldade do sistema escravista, que impunha uma carga pesada de
trabalho e limitava significativamente a qualidade de vida desses indivíduos.
Escravos domésticos desempenhavam diversas
tarefas nas casas de seus senhores, como cozinhar, cuidar
do jardim, amamentar crianças e realizar recados.
Atuando tanto em áreas urbanas quanto rurais, esses
escravos desfrutavam de uma rotina de trabalho diferente,
com uma alimentação mais elaborada. Suas
responsabilidades incluíam a arrumação da casa,
cuidado com as crianças, preparo de refeições e
execução de pequenos serviços designados pelos
senhores.
Os escravos domésticos desempenhavam papéis variados nas casas de seus
senhores, tanto em áreas urbanas quanto rurais. Uma curiosidade adicional é que,
em comparação com outros grupos de escravizados, sua rotina de trabalho muitas
vezes envolvia tarefas diferentes e uma alimentação mais elaborada.
Esses escravos tinham responsabilidades que iam desde a arrumação da casa
até o cuidado com as crianças, preparo de refeições e execução de pequenos serviços
designados pelos senhores. Sua presença era essencial para o funcionamento das
casas e para o conforto de seus senhores. Essa dinâmica destaca a diversidade de
funções dentro do sistema escravista, ressaltando as diferentes experiências e
condições de vida enfrentadas pelos escravizados no Brasil colonial e imperial.
3
Escravos de ganho estavam envolvidos no
comércio de rua e eram alugados por seus
proprietários para realizar diversas funções
(escravos urbanos). Eles ofereciam serviços como
transporte de cargas, barbearia, lavagem de roupas
ou fabricação de remédios.
Os escravos de ganho representavam uma categoria específica de escravizados
urbanos, envolvidos no comércio de rua. Uma curiosidade adicional é que esses
escravizados eram alugados por seus proprietários para desempenhar diversas
funções, contribuindo para a dinâmica econômica das áreas urbanas.
Esses escravos ofereciam uma variedade de serviços, como transporte de
cargas, trabalhos em barbearias, lavagem de roupas e até mesmo a fabricação de
remédios. Essa prática demonstra a adaptabilidade e versatilidade dos escravizados,
que, mesmo em meio a condições adversas, buscavam formas de gerar renda
adicional para seus senhores. A presença dos escravos de ganho nas atividades
comerciais urbanas ilustra a complexidade e diversidade de papéis desempenhados
pelos escravizados nas sociedades coloniais e imperiais.
Formas de Resistências
Durante o período da escravidão, os afrodescendentes no Brasil empregaram
diversas formas de resistência:
• Fugas individuais ou coletivas: Escravizados buscavam a liberdade fugindo,
muitas vezes formando grupos para escapar em conjunto.
• Assassinatos de senhores e feitores: Alguns optavam pela violência, atacando
seus senhores e supervisores em atos de resistência.
• Suicídio, Banzo e Aberto: Algumas formas extremas de protesto incluíam
suicídio, banzo (tristeza profunda) e aberto (manifestação visível de
descontentamento).
• Resistência e negligência no trabalho: Escravizados resistiam ao sistema de
trabalho forçado através de atos de resistência diária e negligência nas tarefas.
• Formação de Quilombos: Comunidades independentes, como os quilombos,
eram estabelecidas como refúgios para fugitivos, preservando a cultura africana.
• Insurreições (Revoltas dos Males): Ocorrências de rebelião e revolta, como a
Revolta dos Malês, expressavam a insatisfação e a busca pela liberdade.
• Alianças indígenas e mestiços: Afrodescendentes buscavam apoio formando
alianças com indígenas e mestiços para fortalecer suas posições.
4
Preservar a identidade cultural os quilombos eram locais onde a identidade
cultural africana era preservada, representando modos de vida semelhantes aos da
África.
Fugas
As fugas eram uma estratégia crucial
utilizada pelos escravizados, podendo ser
tanto individuais quanto coletivas. As fugas
individuais eram desafiadoras, já que o sucesso
dependia de sobreviver no mato.
Muitos buscavam alcançar grandes
quilombos já estabelecidos. No século XIX, as
fugas individuais tornaram-se mais comuns,
com escravizados se instalando em grandes
cidades, como Salvador, e tentando passar por libertos.
O fortalecimento do movimento abolicionista nas décadas de 1870 e 1880 motivou
muitas fugas. Os escravizados sentiam-se encorajados a escapar, frequentemente incentivados
por outros que já haviam fugido ou por membros de associações abolicionistas que apoiavam
os que buscavam a liberdade.
As fugas representaram uma estratégia significativa adotada pelos
escravizados para buscar a liberdade. Uma curiosidade adicional é que as fugas
individuais eram particularmente desafiadoras, exigindo habilidades de sobrevivência
no ambiente natural.
Durante o século XIX, as fugas individuais tornaram-se mais comuns, com
alguns escravizados buscando refúgio em grandes cidades, como Salvador, tentando
assumir uma nova identidade como libertos. O fortalecimento do movimento
abolicionista nas décadas de 1870 e 1880 teve um impacto significativo, encorajando
muitos escravizados a buscar a liberdade. A existência de quilombos já estabelecidos
também representou uma opção para aqueles que buscavam escapar do sistema
escravista. Essas fugas não apenas refletem a resiliência dos escravizados, mas
também a influência do movimento abolicionista na conscientização e mobilização
em prol da liberdade.
5
Formação de Quilombos
O quilombo dos Palmares, formado no
final do século XVI na região da capitania de
Pernambuco, hoje localizada em Alagoas, foi o
mais importante da história do Brasil.
Surgiu com escravizados que fugiram dos
engenhos em Pernambuco, estabelecendo-se
na Serra da Barriga, zona da mata de Alagoas.
Vistos pelos portugueses como agrupamentos de escravizados fugidos, os quilombos,
incluindo Palmares, mantinham importantes relações comerciais entre si e com pessoas
livres. Em 1694, o bandeirante Domingos Jorge Velho liderou uma expedição com
milhares de homens e canhões, encerrando o quilombo, embora a resistência
quilombola tenha persistido na região até meados do século XVIII.
Apesar de considerado o fim de Palmares em 1694, a resistência
continuou nos anos seguintes, com Zumbi resistindo até 1695, quando
foi emboscado e morto pelos portugueses.Tropas portuguesas
permaneceram na região para evitar o ressurgimento do
quilombo.
O quilombo dos Palmares, formado no final do século XVI, representa um
capítulo marcante na história do Brasil colonial. Uma curiosidade adicional é que esse
quilombo, localizado na Serra da Barriga, zona da mata de Alagoas, foi o mais
significativo e duradouro.
Apesar de vistos pelos portugueses como agrupamentos de escravizados
fugidos, os quilombos, incluindo Palmares, não eram apenas refúgios, mas também
estabeleciam importantes relações comerciais entre si e com pessoas livres. A
resistência quilombola foi notável, resistindo até 1694 quando o bandeirante
Domingos Jorge Velho liderou uma expedição para encerrar o quilombo.
Mesmo após a tomada de Palmares em 1694, a resistência persistiu, com Zumbi
resistindo até 1695, quando foi emboscado e morto pelos portugueses. A presença
de tropas portuguesas na região por vários anos após o evento reflete a preocupação
em evitar o ressurgimento do quilombo, destacando a importância simbólica e prática
da resistência quilombola na história do Brasil.
Quilombo do Catucá
6
O quilombo do Catucá é uma história
resultante da busca pela liberdade pelos escravizados
e das tumultuadas condições políticas em
Pernambuco entre 1817 e o final da década de
1830. Localizado próximo ao Recife, os quilombolas,
chamando-se mutuamente de malungos,
desenvolveram estratégias de sobrevivência,
incluindo cooperação com a população negra livre
e escravizada de engenhos próximos.
Situado nas matas próximas a Recife e Olinda, o quilombo do Catucá provavelmente se
formou entre 1817 e 1818. Descoberto pelas tropas imperiais durante a repressão à
Revolução Pernambucana, o primeiro registro de atividade data de novembro de 1818, com
onze negros identificados na região. De acordo com relatos, eles haviam atacado a
população local e causado mortes.
O quilombo do Catucá, situado próximo ao Recife, destaca-se como parte da
busca pela liberdade por parte dos escravizados em meio às tumultuadas condições
políticas em Pernambuco entre 1817 e o final da década de 1830. Uma curiosidade
adicional é que os quilombolas, chamando-se mutuamente de malungos,
desenvolveram estratégias de sobrevivência que incluíam cooperação com a
população negra livre e escravizada de engenhos próximos.
Formado nas matas próximas a Recife e Olinda, o quilombo do Catucá
provavelmente se estabeleceu entre 1817 e 1818. Descoberto durante a repressão à
Revolução Pernambucana pelas tropas imperiais, o primeiro registro de atividade
data de novembro de 1818, com relatos de ataques à população local. A história do
quilombo do Catucá reflete a complexidade das relações sociais e as estratégias de
resistência adotadas pelos escravizados em busca da liberdade em um contexto
político desafiador.
Outras formas de resistências
Além das formas mencionadas no PDF, a resistência dos escravizados contra a
escravidão incluía também suicídios, abortos (como meio de evitar que seus filhos fossem
escravizados) e a simples desobediência.
Fixando o Conteúdo
1. O que eram os quilombos durante o período colonial?
2. Onde estava localizado o Quilombo dos Palmares, o mais famoso quilombo?
3. Quais eram as principais atividades econômicas envolvendo escravos no Brasil colonial?
4. Quem eram os "escravos de eitos" e qual era sua principal função?
5. Quais eram as responsabilidades dos escravos domésticos?
6. O que eram os escravos de ganho e qual era sua função?
7
7. Quais eram algumas formas de resistência dos afrodescendentes durante o período da
escravidão?
8. Como eram as fugas individuais dos escravizados desafiadoras?
9. Qual foi o quilombo mais importante da história do Brasil, formado no final do século
XVI?
10. Quem liderou a expedição que encerrou o Quilombo dos Palmares em 1694?
11. O que caracterizou o Quilombo do Catucá em Pernambuco?
12. Além das formas de resistência mencionadas, quais outras estratégias os escravizados
utilizavam contra a escravidão?
8
Respostas
1. Os quilombos eram comunidades formadas por pessoas fugidas da escravidão,
geralmente descendentes de africanos escravizados.
2. O Quilombo dos Palmares, o mais famoso, estava localizado na região nordeste do Brasil.
3. As principais atividades econômicas envolvendo escravos eram plantações de cana-de-
açúcar, cultivo de algodão e tabaco.
4. Os "escravos de eitos" eram escravos mais diretamente envolvidos na produção,
realizando trabalhos árduos nas áreas rurais.
5. Escravos domésticos eram responsáveis por tarefas nas casas de seus senhores, como
cozinhar, cuidar do jardim e realizar recados.
6. Escravos de ganho estavam envolvidos no comércio de rua, oferecendo serviços como
transporte de cargas e barbearia.
7. Algumas formas de resistência incluíam fugas, assassinatos de senhores, suicídio, banzo,
resistência e negligência no trabalho, formação de quilombos, insurreições e alianças
indígenas e mestiços.
8. As fugas individuais eram desafiadoras, dependendo do sucesso na sobrevivência no
mato.
9. O Quilombo dos Palmares, formado no final do século XVI, foi o mais importante.
10. A expedição que encerrou o Quilombo dos Palmares foi liderada por Domingos Jorge
Velho.
11. O Quilombo do Catucá, próximo ao Recife, desenvolveu estratégias de sobrevivência e
cooperação com a população negra livre e escravizada.
12. Além das formas mencionadas, os escravizados também utilizavam suicídios, abortos e
desobediência contra a escravidão.
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J O Ã O J O S É R E I S
Quilombos
e revoltas
escravas no
Brasil
“Nos achamos em campo
a tratar da liberdade”
Embora não tivessem sido as únicas formas de resistência co-
letiva sob a escravidão, a revolta e a formação de quilombos foram
das mais importantes. A revolta se assemelha a ações coletivas
comuns na história de outros grupos subalternos, mas o quilombo
foi um movimento típico dos escravos. É difícil, porém, em muitos
casos, distinguir um do outro. Apesar de muitos quilombos terem
se formado aos poucos, através da adesão de fugitivos individuais
ou agrupados, outros tantos resultaram de fugas coletivas iniciadas
em revoltas. Tal parece ter sido, por exemplo, o caso de Palmares.
Ao mesmo tempo os quilombolas inúmeras vezes saíram de seus
esconderijos para sublevar a escravaria de engenhos e fazendas,
identificando-se perfeitamente ao que entendemos por revolta.
Este artigo é parte de um pro-
jeto mais amplo apoiado pelo
CNPq.
JOÃO JOSÉ REIS
é professor do
Departamento de
História da UFBa.
NA OUTRA PÁGINA,
À ESQUERDA,
AMULETO MALÊ, DE
1835; EM REDONDO,
GRAVURA DE
RUGENDAS,
CAPITÃO-DO-MATO,
DE JOHANN M.
RUGENDAS; E
ABAIXO, CAPELA
DO ENGENHO
SANTANA, ILHÉUS
(FOTO DO AUTOR)
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A própria existência do quilombo e so-
bretudo sua defesa militar e incursões em
território inimigo podem ser consideradas
revolta.
Se a relação entre quilombo e revolta era
complexa, não menos complexas eram as ex-
periências dos escravos, e de seus oponentes,
face a cada um desses movimentos. O
quilombo podia ser pequeno ou grande, tem-
porário ou permanente, isolado ou próximo
dos núcleos populacionais; a revolta podia
reivindicar mudanças específicas ou a liber-
dade definitiva, e esta para grupos específi-
cos ou para os escravos em geral. Além des-
sas questões mais amplas, há outras relativas
ao contexto histórico mais favorável ao
surgimento de quilombos e revoltas, o perfil
de seus participantese líderes, suas motiva-
ções e vocabulário. É pensando nessas ques-
tões — e outras delas decorrentes — que passo
a discutir a resistência coletiva dos escravos
no Brasil.
I
A formação de grupos de escravos fugiti-
vos se deu em toda parte do Novo Mundo
onde houve escravidão. No Brasil estes gru-
pos foram chamados de quilombos ou
mocambos, os quais às vezes conseguiram
congregar centenas e até milhares de pesso-
as. O grande quilombo dos Palmares, na
verdade uma federação de vários agrupamen-
tos, chegou a contar com uma população de
alguns milhares de almas, embora provavel-
mente não os quinze, vinte e até trinta mil
habitantes que os autores citam sem maior
rigor crítico das fontes (1). Um dos responsá-
veis por esse número alto foi Johan Nieuhoff,
que visitou o Brasil na década de 1640 e es-
creveu que havia seis mil quilombolas nos
“pequenos Palmairas”, cerca de oito mil nos
“grandes Palmairas”, “além de muitos ou-
tros” em outros mocambos palmarinos. Na
década de 1670, provavelmente para justifi-
car diante da metrópole seu fracasso contra o
quilombo, o governador de Pernambuco
Pedro de Almeida estabeleceu a cifra de vinte
mil. As mesmas razões podem ter levado um
outro governador, Francisco Brito, a declarar
trinta mil (2). A admitir números tão altos
teríamos de pensar onde estava todos quando
Palmares caiu e o que lhes aconteceu poste-
riormente, pois entre mortos e capturados as
fontes não ultrapassam a cifra de dois mil.
Como se repetiu em muitos outros
quilombos, esta população não era constituída
apenas de escravos fugidos e seus descen-
dentes. Para ali também convergiram outros
tipos de trânsfugas, como soldados desertores,
os perseguidos pela justiça secular e eclesiás-
tica, ou simples aventureiros, vendedores,
além de índios pressionados pelo avanço eu-
ropeu. Mas predominavam os africanos e seus
descendentes. Ali, africanos de diferentes
grupos étnicos administraram suas diferen-
ças e forjaram novos laços de solidariedade,
recriaram culturas. Apesar da falta de dados
mais diretos, considerando a direção do tráfi-
co atlântico na época, supõe-se que Palmares
foi predominantemente um cadinho de gru-
pos originários do Centro-Sul da África, gen-
te de grupos lingüísticos kikongo, kimbundu,
ovimbundo e outros da região Congo-Ango-
la. O próprio termo quilombo derivaria de ki-
lombo, uma sociedade iniciática de jovens
guerreiros mbundu adotada pelos invasores
jaga (ou imbangala), estes formados por gen-
te de vários grupos étnicos desenraizada de
suas comunidades. Esta instituição teria sido
reinventada, embora não inteiramente
reproduzida, pelos palmarinos para enfrentar
um problema semelhante, de perda de raízes,
deste lado do Atlântico. Teria sido de fato
depois de Palmares que o termo quilombo se
consagrou como definição de reduto de es-
cravo fugido. Antes se dizia mocambo (3).
Mas lá também esteve presente a cultura do
Novo Mundo. Escavações arqueológicas atu-
almente em curso na Serra da Barriga têm
recolhido um grande volume de cerâmica
indígena, o que pode significar uma presença
indígena mais importante do que até agora se
admitiu, ou a adoção intensiva pelos
palmarinos da cultura material nativa (4).
Nessas comunidades, ao que tudo in-
dica, homens e mulheres organizaram a pro-
dução de maneira eficiente e desenvolveram
estruturas originais de parentesco e de poder,
mas não se sabe muito sobre estes e outros
aspectos da organização interna de Palmares.
Os autores freqüentemente generalizam para
toda a história de Palmares informações to-
madas de fontes que retratam, sem muito
vagar, condições locais específicas e momen-
tos isolados de uma sociedade composta de
vários núcleos populacionais, que durou
quase cem anos. Por exemplo, a poliandria,
comentada por vários autores a partir de do-
cumento de 1677, se não foi mais um equívo-
17 R E V I S T A U S P , S Ã O P A U L O ( 2 8 ) : 1 4 - 3 9 , D E Z E M B R O / F E V E R E I R O 9 5 / 9 6
novembro, sendo sua cabeça exposta em lu-
gar público de Recife, para glorificar o feito
e provar aos escravos que o líder palmarino
não era imortal como acreditavam (8).
Depois de Palmares os escravos não con-
seguiram reproduzir no Brasil qualquer coisa
minimamente próxima do que representara o
grande quilombo. O historiador Raymond
Kent chama a atenção para desenhos de Frans
Post sobre mapa publicado na Rerum per
octenium in Brasilia, de Gaspar Barlaeus, em
que Pernambuco é emblematicamente repre-
sentado, em 1647, de um lado por um enge-
nho, do outro por Palmares, aliás a única re-
presentação iconográfica do quilombo de que
se tem conhecimento (9). Os senhores e
governantes coloniais cuidariam para que
nunca mais essa dualidade de poderes e vive-
res se repetisse. Silvia Lara mostra
detalhadamente como a colônia concebeu
estratégias repressivas que, se não puderam
eliminar a fuga, tentaram manter sob contro-
le o número de escravos fugidos e a formação
de mocambos. Foi nesse processo que se in-
ventou o famigerado capitão-do-mato (tam-
bém conhecido como capitão-de-entrada-e-
assalto e outros termos), instituição dissemi-
nada por toda colônia como milícia especi-
alizada na caça de escravos fugidos e destrui-
ção de quilombos (10).
Como era de se esperar de caçadores de
gente, os capitães-do-mato não figuravam
entre as pessoas mais íntegras da Colônia,
sendo freqüentemente acusados dos maiores
desmandos, entre os quais se contava o de
roubar escravos, usar indevidamente seu tra-
balho e prender e até matar cativos inocentes
para obter recompensas. Já em 1716 uma
ordem régia ameaçava a quem assim agisse
de “seu posto tirá-lo e castigá-lo como la-
drão” (11). Capitão-do-mato não contava,
efetivamente, entre as ocupações mais hon-
rosas. Em 1833, em Minas do Rio de Contas,
Bahia, o coiteiro de um casal de escravos
fugidos chamou de “pedestres e capitães do
matto”, a título de insulto, um grupo de guar-
das nacionais (12). Mas a estabilidade da
escravidão e da própria Colônia, depois do
Império, dependia, bem ou mal, dos serviços
desses homens. Um capitão-mor deles van-
gloriava-se disso, afirmando-os necessários
“à segurança interna dos Povos e o dominio
dos Senhores sobre os Escravos e malfeito-
res, que de outro modo ou todos [os escravos]
co de europeus desejosos de enfatizar a “bar-
baridade” dos palmarinos, podia estar circuns-
crita a um ou outro mocambo mais recente-
mente formado, e não todo Palmares, vez que
a falta de mulheres que a justificaria já devia
estar resolvida àquela altura (depois de várias
décadas de história palmarina) nos mocambos
mais antigos, demograficamente mais está-
veis (5). A historiografia de esquerda, que
desmitificou tantos aspectos de Palmares,
criou outros tantos mitos freqüentemente para
servir projetos políticos imediatos. Décio
Freitas, por exemplo, num ótimo livro sob
outros aspectos, descobriu até “assembléias
populares” em Palmares! E a versão muito
difundida de que se tratava de uma sociedade
economicamente igualitária e distributiva,
reapresentada carnavalescamente no filme
Quilombo, de Carlos Diegues, só é possível
através de uma leitura muito parcial das fon-
tes. A produção de excedentes para formar
estoques em “celeiros coletivos” parece mais
com mecanismos de tributo característicos de
várias formações sociais complexas. E é evi-
dente que havia uma elite constituída em tor-
no dos líderes, com muitos privilégios. Entre
estes, não tanto o controle da terra, como se
esta fosse a única maneira de dominar em
regimes agrários, mas o controle de gente para
reproduzir (daí a poligamia dos poderosos) e
para produzir, coletar e particularmente guer-
rear, saquear e controlar rotas e fontes de
comércio, comércio que existia entre os
palmarinos e a sociedade em seu torno. O
controle de guerreiros e armas de fogo, por
exemplo, deve ter sido uma fonte importante
de poder e prestígio, como era na África. Se
muito da hierarquia social era resultado da
guerra, nem por isso ela deixava de existir e
podia ser rígida (6).
O que se sabe mais sobre Palmares, e está
melhor desenvolvidoem suas várias versões,
diz respeito a sua história militar, pois era
isso que interessava aos adversários respon-
sáveis por escrever os documentos conheci-
dos sobre o quilombo (7). As várias comuni-
dades palmarinas (Macaco, a capital,
Subupira, Dambraganga, Tabocas, Osenga
entre outras) resistiram quase cem anos, ao
longo do século XVII, a várias expedições
militares de Portugal e Holanda, desafiando
duas potências mundiais da época. Macaco
caiu em 1694 e seu líder, Zumbi, teria sido
morto no ano seguinte, precisamente a 20 de
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fugiriam, ou se levantariam contra o mesmo
Paiz [...] devendo-se a este Corpo [de capi-
tães-do-mato] a segurança e tranquilidade
interna de todo o paiz d’America, e da sua
subsistencia” (13). Não satisfeitos com essas
tropas humanas, os senhores de escravos ain-
da recorreram a forças divinas, concedendo a
Santo Antônio patente militar, entre outras
coisas, por sua ajuda em encontrar
quilombolas (14).
Assombrada com as dimensões de
Palmares, a metrópole lusitana procurou com-
bater os quilombos no nascedouro. No século
XVIII quilombo já era definido como o ajun-
tamento de cinco ou mais negros fugidos
arranchados em sítio despovoado. Essa defi-
nição mesquinha, concebida para melhor
controlar as fugas, terminou por agigantar o
fenômeno aos olhos de seus contemporâneos
e de estudiosos posteriores. Contados a partir
de cinco pessoas, o número de quilombos foi
inflacionado nas correspondências oficiais.
Se não figuravam como ameaça efetiva à
escravidão, eles passariam a representar uma
ameaça simbólica importante, povoando o
pesadelo de senhores e funcionários coloni-
ais, além de conseguir fustigar com insistên-
cia desconcertante o regime escravista.
Para este, o problema maior estava exata-
mente em que os quilombos, pelo menos a
maioria deles, não ficaram isolados, perdidos
no alto das serras, além da sociedade
envolvente. Embora em lugares protegidos,
os quilombolas na sua maioria viviam pró-
ximos a engenhos, fazendas, lavras, vilas e
cidades, na fronteira da escravidão, manten-
do uma rede de apoio e interesses que envol-
via escravos, negros livres e mesmo bran-
cos, de quem recebiam informações sobre
movimentos de tropas e outros assuntos
estratégicos. Com essa gente eles trabalha-
vam, se acoitavam, negociavam alimentos,
armas, munições e outros produtos; com
escravos e libertos podiam manter laços
afetivos, amigáveis, parentais e outros. A
idéia muito comum, de que os quilombos
formavam comunidades isoladas e auto-
suficientes não é confirmada pela pesquisa.
Edison Carneiro já chamava atenção para
isso. Nem os quilombolas se relacionavam
apenas com os grupos excluídos socialmen-
te, como a tecer alianças de classe coerentes
e cristalinas (15). Estes grupos, na verdade,
tinham muitos limites na ajuda que podiam
dar para a sobrevivência dos quilombolas.
É claro que houve os casos de quilombos
isolados, às vezes topados por expedições que
até desconheciam sua existência, mas as evi-
dências para o próprio Palmares, e mais ainda
para os quilombos que o sucederam Brasil
afora, apontam para uma relação muito mais
intensa entre quilombolas e outros grupos
sociais. Quilombos como os que cercavam
Vila Rica durante o século XVIII, ou o do
Catucá, que se desenvolveu nos arredores de
Recife e Olinda entre 1817 e 1840, vários
quilombos instalados em redor de Salvador e
de São Paulo nas primeiras décadas do sécu-
lo XIX, o quilombo do Piolho nas vizinhan-
ças de Cuiabá na década de 1860, os
quilombos fluminenses da bacia do Iguaçu e
da periferia da Corte, assim como os da peri-
feria de Porto Alegre, ao longo do século XIX,
todos mantinham redes de comércio, rela-
ções de trabalho, de amizades, parentesco,
envolvendo escravos ainda assenzalados,
negros livres e libertos, comerciantes mesti-
ços e brancos. A essa longa cadeia de rela-
ções Flavio Gomes, interpretando o fenôme-
no em Iguaçu, chamou de “campo negro”,
porque constituía um espaço social, econô-
mico e geográfico através do qual circulavam
os quilombolas, articulando mocambos, sen-
zalas, tavernas, roças, plantações, caminhos
fluviais e pântanos, alcançando vilas de pe-
queno porte e cidades do porte do Rio de Ja-
neiro, que possuía mais de 200 mil habitantes
em meados do século XIX (16).
Essas relações de alto risco atormentavam
senhores e governantes coloniais e imperiais.
Mas os amocambados também assaltavam
viajantes nas estradas, às vezes tornando-as
intransitáveis, e atacavam povoados e fazen-
das, onde roubavam dinheiro e outros bens,
recrutavam escravos para fortalecer o grupo
e seqüestravam escravas para melhorar a
demografia predominantemente masculina
dos quilombos. Apesar disso não se pode di-
zer que uma economia “parasitária” tivesse
sido o aspecto central das atividades dos
quilombos (17). Além de assaltar, roubar e
sequestrar, também plantavam, colhiam, ca-
çavam, constituíam família. Seria tedioso
listar aqui quantas vezes os grupos de exter-
mínio destruíram roças de milho, frutas, al-
godão, cana e outros produtos cultivados pelos
quilombolas, sobretudo covas de mandioca,
roças que eram arrasadas para os quilombos
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“não tornarem a servir de Criminozo azilo”,
como escreveu o capitão-mor que assaltou os
quilombos do Orobó e Andaraí na Bahia em
1796 (18). Nas áreas de mineração — Minas
Gerais, Goiás, Mato Grosso, Maranhão — os
fugitivos se dedicavam à prospecção de pe-
dras e metais preciosos, que trocavam clan-
destinamente com taverneiros por produtos
necessários à sua sobrevivência, armas, mu-
nição e em alguns casos até compravam a
alforria, passando de negros fugidos para
negros libertos. Estudando Goiás, Mary
Karasch comenta que os quilombolas foram
responsáveis pela descoberta de inúmeras
lavras auríferas, as quais eram posteriormen-
te apropriadas pelos caçadores de escravos
(19). A caça ao quilombola e a procura do
ouro caminhavam juntas nas expedições fei-
tas ao interior. A entrada realizada em 1769,
a partir de Minas Gerais, pelo mestre-de-cam-
po Inácio Correia Pamplona, foi saldada por
um certo Francisco Camacho, sertanejo
versejador da “picada dos Goiases”, que en-
tre loas ao comandante arrematava:
“Tudo feito nesta maneira
pólvora, chumbo e patrona,
espingardas à bandoleira,
entrando duas bandeiras
Procurando Negros e ouro,
Deus nos depare um tesouro
para garrochiar neste touro” (20).
Edison Carneiro, a propósito, já escreve-
ra que “o quilombo [...] serviu ao
desbravamento das florestas além da zona de
penetração dos brancos e à descoberta de
novas fontes de riquezas” (21). Na capitania
e depois província do Rio de Janeiro, as fon-
tes sugerem que os quilombolas de Iguaçu
mantinham um intenso comércio de madei-
ras com a Corte e também empregavam-se
como trabalhadores nas fazendas de propri-
etários que sabiam estar contratando negro
fugido. No Maranhão, em 1867, um juiz de
direito denunciava “a ambição desregrada de
certos indivíduos, ambição que os leva a
sedusir escravos para fugir, tendo em vista
tirar vantagens com as colheitas destes que as
vendem por modicos preços...” (22). Esta era
aliás uma prática comum, como revelam os
anúncios de escravos fugidos publicados em
jornais do Brasil oitocentista, anúncios que
freqüentemente ameaçavam de processo e
exigiam indenização dos coiteiros. No sul da
Bahia, na vila de Barra do Rio de Contas (atu-
al Itacaré), em 1806, dezenas de escravos se
aquilombaram numa comunidade de lavra-
dores que os empregavam no cultivo da
mandioca. Quando este quilombo, chamado
Oitizeiro, foi disperso e uma devassa instala-
da para investigá-lo, descobriu-se que os pró-
prios escravos dos lavradores eram próspe-
ros produtores de mandioca e ativos coiteiros
de calhambolas. Repito: escravos que empre-
gavam outros escravos (23).
Isolados ou integrados, dados à predação
ou à produção, o objetivoda maioria dos
quilombolas não era demolir a escravidão,
mas sobreviver, e até viver bem, em suas fron-
teiras. Também não procede, exceto talvez
em poucos casos, a idéia de que os
quilombolas fugiam para recriar a África no
interior do Brasil, com o projeto de construir
uma sociedade alternativa à escravocrata e
além disso numa reação “contra-aculturativa”
ao mundo dos brancos (24). Obviamente que
os quilombos formados por africanos-natos
aproveitaram tradições e instituições origi-
nárias da África, como indiquei no caso de
Palmares. Mas isso não era um movimento
privativo dos quilombos. Apesar da vigilân-
cia senhorial, o mesmo acontecia nas senza-
las. Contudo, tanto nestas como naqueles, por
pouco que se conheça realmente da dinâmica
interna de ambos, predominou a reinvenção,
a mistura fina de valores e instituições várias,
a escolha de uns e o descarte de outros recur-
sos culturais trazidos por diferentes grupos
étnicos africanos ou aqui encontrados entre
os brancos e índios. Este deve ter sido o pro-
cesso de formação das culturas afro-brasilei-
ras — e escrevo no plural para indicar as
variações regionais e as diversas estratégias
de sincretismo cultural. Mesmo entre os
palmarinos parece ter sido assim. Sobre sua
religião, Nieuhoff escreveu: “Eles retêm algo
do culto religioso dos portugueses, mas têm
seus peculiares sacerdotes e juízes”. Mais de
dois séculos depois, em 1877, no quilombo
do Limoeiro, Maranhão, foram encontradas
pela expedição repressora, segundo seu co-
mandante, “duas casas de santos; sendo uma
com imagens de Santos, e outra onde encon-
tramos figuras extravagantes de madeira,
cabaças com ervas podres e uma porção de
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pedras de que em tempos remotos os indíge-
nas se serviam como machados, as quais a
maior parte dos mocambeiros venera como a
invocação de Santa Bárbara” (25). Essa dis-
ponibilidade para mesclar culturas era um
imperativo de sobrevivência, exercício de
sabedoria também refletida na habilidade
demonstrada pelos quilombolas de compor
alianças sociais, as quais inevitavelmente se
traduziam em transformações e
interpenetrações culturais. É óbvio que es-
cravos e quilombolas foram forçados a mu-
dar coisas que não mudariam se não subme-
tidos à pressão escravocrata e colonial, mas
foi deles a direção de muitas dessas mudan-
ças, pois não permitiram transformar-se na-
quilo que o senhor desejava. Nisso, aliás,
reside a força e a beleza da cultura que escra-
vos e quilombolas legaram à posteridade (26).
Da perspectiva da classe senhorial, os
quilombolas obviamente constituíam um
péssimo exemplo para os escravos. Daí o
cuidado com que foram reprimidos. Em
Minas Gerais, durante a primeira metade do
século XVIII, autoridades locais e os própri-
os governadores, atormentados com a proli-
feração dos mocambos, conceberam punições
bárbaras contra os quilombolas, como cortar-
lhes uma das pernas ou o tendão de aquiles.
Foi a metrópole que controlou a sanha dos
mineiros, recomendando a barbaridade me-
nor de imprimir com ferro em brasa a letra
“F” sobre a espádua do fujão e o corte de uma
orelha no caso de reincidência. A lei também
previa o corte de um braço do quilombola que
cometesse “delito capital” e a pena de morte
se reincidisse (27). Na Bahia, cinco
quilombolas que atuavam perto da capital
foram capturados, julgados sumariamente,
enforcados e esquartejados, no início do sé-
culo XVIII (28).
Mas nada detinha a fuga e a formação de
quilombos. Ambos eram parte irremovível
de relações sociais fundadas na violência do
chicote e outras, entre estas o cerceamento de
locomoção, trabalho independente, autono-
mia cultural e constituição de família e segu-
rança para seus membros. Por isso os capi-
tães-do-mato, apesar da ajuda de Santo Antô-
nio, eram insuficientes para dar conta dos
quilombos e periodicamente expedições es-
peciais eram montadas para assaltá-los, agru-
pando milícias locais (ordenanças), aventu-
reiros e índios. Estes últimos se encontravam
dos dois lados, e às vezes mudavam de lado
no decorrer do conflito. Como os quilombolas,
os índios eram caçados no interior da Colô-
nia. Os exemplos são muitos. Os paulistas
que venceram Palmares, antes fizeram guer-
ra a populações indígenas no Ceará e Rio
Grande do Norte. Em 1723, o Conselho Ul-
tramarino mandou que se organizasse uma
expedição ao sul da Bahia para extinguir ín-
dios hostis e destruir um mocambo com cerca
de quatrocentos habitantes (29). Como nesta
correspondência dos conselheiros do rei, os
verbos extinguir e destruir foram os mais
usados pela metrópole para se relacionar com
índios e negros rebeldes. Mas como a história
é cheia de ciladas, os índios também se des-
tacaram, em todo o Brasil e em várias épocas,
como tropa antiquilombo. Centenas, talvez
milhares, foram usados no assalto final a
Palmares, em 1694. Na Bahia colonial atua-
ram nesse ofício sistematicamente, sendo
responsáveis, por exemplo, pela destruição
do Buraco do Tatu, mocambo próximo a
Itapoã, em 1763, e do Oitizeiro, no sul da
Bahia, em 1806 (30). Neste último caso, a
tropa repressora de cinqüenta soldados era
formada exclusivamente por índios cariris (ou
Kiriri, como querem os antropólogos) da al-
deia de Pedra Branca.
A pressão militar era constante. Daí te-
rem sido poucos os quilombos que sobrevi-
veram por longo tempo, embora o mesmo
lugar pudesse servir de esconderijo para
outras levas de negros fugidos. Em geral os
quilombos eram flutuantes e móveis. Além
de formados em parte por escravos que circu-
lavam por eles periodicamente, sem fixarem
residência, os assaltos dos capitães-do-mato
e milicianos em geral resultavam em mortes,
prisões, tortura e na dispersão dos que conse-
guiam uma vez mais escapar. Sobretudo os
quilombos suburbanos eram obrigatoriamente
móveis, já que a proximidade dos centros
urbanos facilitava a denúncia e repressão. Da
mesma forma os quilombos dos últimos anos
da escravidão, em São Paulo por exemplo,
mais dedicados à predação do que à lavoura,
tanto pela maior repressão no campo como
pelo enxugamento de terras disponíveis à
ocupação quilombola (31). Daí ser difícil falar
sempre, sem maiores explicações, de “comu-
nidade quilombola”, porque comunidade
pressuporia alguma longevidade, que permi-
tisse certa estabilidade, a sucessão de gera-
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ções, o estabelecimento de uma memória
grupal, de costumes, rituais, valores própri-
os, formas consagradas de lideranças que
organizassem politicamente e defendessem
militarmente o grupo. Os quilombos que
conseguiam todas essas características não
foram muitos e se tornaram cada vez mais
raros com a expansão econômica e
demográfica para o interior. Mais amiúde o
quilombola, se pertencia a uma “comunida-
de”, era à comunidade escrava mais ampla,
pois, além de continuar circulando pela sen-
zala, tendo sido cativo ontem talvez viesse a
sê-lo amanhã. O escravo da senzala
freqüentemente tinha em seu currículo uma
ou mais passagens pelo quilombo. Volto a
lembrar a imagem de “campo negro” propos-
ta por Flávio Gomes, melhor do que “comu-
nidade” por ele também adotada, para com-
preender esses grupos quilombolas mais pas-
sageiros.
Apesar das dificuldades da ação repressi-
va, os senhores do Brasil, ao contrário de seus
iguais alhures, raramente negociaram a paz
(32). Uma dessas raras ocasiões foi o tratado
celebrado entre o Ganga Zumba de Palmares
e o governador de Pernambuco, Pedro de
Almeida, em 1678, que não deu certo em
parte pela oposição interna liderada por Zum-
bi. Como os tratados em outras colônias
escravistas, este previa a delimitação de um
território e a liberdade para os nascidos em
Palmares, os quais deveriam no entanto de-
volver os escravos fugidos e obviamente re-
jeitar a incorporação de novos fugitivos. Como
argumenta Richard Price, tivesse a paz preva-
lecido, Palmares talvez pudesse vir a ser uma