Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Presidência da República 
Luiz Inácio Lula da Silva 
 
Ministério da Justiça e Segurança Pública 
Ricardo Lewandowski 
 
Secretaria Nacional de Segurança Pública 
Mario Luiz Sarrubbo 
 
Diretoria de Ensino e Pesquisa 
Michele Gonçalves dos Ramos 
 
Coordenação-Geral de Ensino 
Márcia Alencar Machado da Silva 
 
Coordenação de Ensino a Distância 
Tainara Leiria da Silveira 
 
Coordenação Pedagógica 
Joyce Cristine da Silva Carvalho 
 
Conteudistas 
Fernanda Schieber Saúde Vilas Boas de Oliveira Jota 
Juliana Antunes Barros Amorim 
Patrícia Simone Bozolan 
 
Gerente de Curso 
Tainara Leiria da Silveira 
 
Revisão Técnica 
Rosa de Sahron Alves Firmino Pinto 
 
Revisão Textual 
Rachel Goretti de Landa Vergara 
 
Revisão Pedagógica 
Ardmon dos Santos Barbosa 
Joyce Cristine da Silva Carvalho 
 
Programação e Edição 
Renato Antunes dos Santos 
 
Designer 
Zulmiro José Machado Filho 
 
Design Instrucional 
Luana Manuella de Sales Mendes 
 
 
SUMÁRIO 
Apresentação do Curso ................................................................................... 4 
Objetivos do Curso ......................................................................................... 5 
Objetivo Geral ................................................................................................. 5 
Objetivos Específicos ....................................................................................... 5 
Estrutura do Curso ................................................................................................ 6 
Módulo 1 - Aspectos legais dos crimes e do atendimento à criança e ao 
adolescente vítima ou testemunha de crime .................................................... 7 
Apresentação do módulo ................................................................................ 7 
Objetivos do módulo ...................................................................................... 7 
Estrutura do módulo ....................................................................................... 8 
Aula 1 – Microssistema legal no combate aos crimes contra criança e 
adolescente – Estatuto da Criança e do Adolescente, Código Penal, Lei da 
Escuta Protegida e Lei Henry Borel ................................................................. 9 
Aula 2 - Legislação criminal – dos crimes contidos no Código Penal, no 
Estatuto da Criança e do Adolescente e em demais legislações .................... 15 
Aula 3 - Noções gerais sobre a colheita da prova nos crimes em espécie ..... 35 
Aula 4 – O Depoimento especial como instrumento de coleta de prova e a 
investigação de crimes sexuais ...................................................................... 40 
Finalizando .................................................................................................... 50 
Módulo 2 - Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil e os efeitos da 
violência .............................................................................................................. 51 
Apresentação do módulo .............................................................................. 51 
Objetivos do módulo .................................................................................... 51 
Estrutura do módulo ..................................................................................... 51 
Aula 1: Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil que são fundamentais 
para a abordagem de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de 
violência ........................................................................................................ 52 
Aula 2: O modelo bioecológico de compreensão do desenvolvimento 
humano e sua relação com a violência .......................................................... 56 
Aula 3: Consequências psicopatológicas da vivência de violência ................. 65 
Finalizando .................................................................................................... 76 
Módulo 3 – Da atuação policial na proteção da criança e ao adolescente 
vítima ou testemunha de crime ........................................................................ 78 
Apresentação do módulo .............................................................................. 78 
 
Objetivos do módulo .................................................................................... 78 
Estrutura do módulo ..................................................................................... 79 
Aula 1 – O Atendimento Policial e suas atribuições legais ............................ 80 
Aula 2 – O registro da ocorrência policial ..................................................... 86 
Aula 3 – Os aspectos gerais de proteção e a atividade policial ..................... 91 
Aula 4 – A importância da rede na atenção às pessoas em situação de 
violência. O trabalho interdisciplinar. Elos ligados. ........................................ 95 
Finalizando .................................................................................................. 100 
Módulo 4 - A escuta protegida ...................................................................... 101 
Apresentação do módulo ............................................................................ 101 
Objetivos do módulo .................................................................................. 101 
Estrutura do módulo ................................................................................... 101 
Aula 1 – Aspectos históricos da voz da criança e do adolescente ............... 102 
Aula 2 – A Lei nº 13.431/2017 e a voz da criança e do adolescente ............ 110 
Aula 3 – A escuta especializada ................................................................... 119 
Aula 4 – O Depoimento Especial ................................................................. 126 
Aula 5 - A revelação da criança e do adolescente e as evidências de 
veracidade. .................................................................................................. 133 
Finalizando .................................................................................................. 138 
Referências Bibliográficas .............................................................................. 139 
 
 
 
 
4 
Apresentação do Curso 
 
Caro(a) aluno(a), 
 
Prestar um serviço público de excelência em segurança pública é um 
dever do Estado. Ainda na pauta de proteção às crianças e aos adolescentes 
temos uma grande necessidade de aperfeiçoamento, especialmente com a 
edição e publicações das últimas legislações, que trazem grandes 
responsabilidades para as instituições de segurança pública no Brasil. 
O enfretamento à violência contra as crianças e adolescentes é parte do 
Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS), na ação 
estratégica 12, que objetiva desenvolver e apoiar ações articuladas destinadas à 
prevenção e à repressão à violência e à criminalidade relacionadas aos jovens e 
a grupos vulneráveis1. Além disso, a capacitação dos profissionais de segurança 
pública nessa temática é urgente, especialmente porque há legislação específica 
(Lei nº 13.431/2017 e outras) que normatiza e organiza o sistema de garantia de 
direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência e ainda 
cria mecanismos para prevenir e coibir a violência. 
Apesar de ser uma legislação muito recente, traz uma grande inovação: 
a inclusão da segurança pública como parte da rede de proteção. A Lei ainda 
regula os instrumentos de atendimento policial nesses casos, instituindo 
ferramentas de escuta protegida em situações em que crianças e adolescentes 
sejam instados a se manifestarem verbalmente. Assim, os profissionais de 
segurança pública carecem de formação qualificada nessa temática. 
Ao final desse curso, esperamos que você transfira para sua prática 
profissional todos os saberes aqui desenvolvidos e mais: que você se 
comprometa comforma como podemos e devemos robustecer a prova durante o trabalho 
policial, tanto pela polícia ostensiva, que pode já preservar algumas provas para 
serem colhidas, quanto pela polícia de repressão que deve ser cautelosa e 
criteriosa com colheita de provas dos crimes cometidos. 
Assim percebemos que a atividade policial é um conjunto de 
atos cadenciados, primeiro identificando os diversos crimes 
possíveis para, em seguida, fazer a melhor colheita das provas 
permitindo que a investigação policial cumpra seu papel, 
responsabilizando aqueles que praticaram crime e protegendo 
um público mais vulnerável que os demais. 
 
3.1 A atuação do policiamento ostensivo na colaboração com a colheita da 
prova 
 
 É sabido que cabe à Polícia Civil o ônus da apuração criminal e, 
consequentemente, é sobre ela que recai a maioria dos atos de produção 
probatória. Contudo, é inegável que o policiamento ostensivo desempenha 
papel importante nesse contexto e pode colaborar com alguns desdobramentos 
na colheita da prova, podendo ser identificados ao menos três momentos em 
que essa cooperação possui extrema importância. 
 O primeiro momento está relacionado ao local do crime, uma vez que 
é, como regra, o policiamento ostensivo quem chega primeiro. Nesse momento 
será possível obter facilmente informações com populares ali reunidos sobre 
eventual conhecimento da autoria ou da dinâmica dos fatos. 
Essa atuação permitirá o repasse de informações que irão auxiliar na 
colheita de prova. Podemos dizer que a atuação estará pautada na observância 
 
36 
ao princípio de colaboração das forças de segurança em prol da sociedade. No 
caso concreto, ao chegar em um local de crime, o policial que ouvir entre os 
populares presentes o que uma pessoa específica confessou ter visto toda cena 
do crime, ele deverá reunir esforços para identificar imediatamente a pessoa 
que fez a confissão. A chegada da polícia repressiva ao local, momentos depois, 
pode não ter o mesmo êxito na obtenção dessa prova testemunhal, uma vez 
que a pessoa pode já ter deixado o local, sem qualquer identificação. 
 Um segundo momento está relacionado ao encaminhamento da 
vítima a uma Delegacia de Polícia pelo policiamento ostensivo para o 
registro de ocorrência policial. Novamente, para efetuar esse encaminhamento, 
o policial já pode fazer uma análise prévia das provas mais adequadas e pode 
ajudar na formação do conjunto probatório, como exemplo, conduzir a vítima 
acompanhada de uma testemunha mais central em detrimento de outras que 
não têm muito a contribuir com a investigação. 
 Por fim, um terceiro momento que essa cooperação ganha ainda mais 
evidência é nas situações flagranciais, nas quais não somente autor e vítima 
são conduzidos, mas possíveis testemunhas, objetos que serão apreendidos, 
como proveito ou arma do crime. Há aqui que se reconhecer que, quanto mais 
o olhar desse policial estiver treinado para identificar a prova mais adequada, 
maior será a eficácia da responsabilização penal do autor do crime, em situação 
flagrancial. 
 
3.2 A colheita da prova nos crimes praticados contra crianças e 
adolescentes; 
 
A investigação policial segue um caminho lógico até a 
obtenção de um conjunto probatório adequado que permita 
uma eficaz responsabilização penal, o qual se traduz no 
encerramento do inquérito policial e a sua remessa ao Poder 
Judiciário. No Título VII, Capítulo I ao XI do Código de Processo 
Penal estão detalhados os principais tipos de prova, dentre as 
quais: o exame de corpo de delito e as perícias em geral, o 
interrogatório do acusado, a confissão, as testemunhas, o auto 
 
37 
de reconhecimento de pessoas e coisas, a acareação, a prova 
documental, os indícios, a busca e apreensão. 
 
Embora não esteja no título que cuida das provas, entendemos que há 
outras medidas cautelares que podem ser fontes de prova, por exemplo a 
quebra de sigilo telefônico, telemático, fiscal e bancário. 
 Na rotina policial, a colheita da prova pode ser sintetizada por meio do 
gráfico abaixo que aponta os caminhos a serem percorridos, como regra geral, 
pela investigação: 
Figura 6 - Investigação esquematizada 
 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
 A ordem acima pode sofrer alterações, uma vez que há sempre que se 
ter em mente o caso concreto. Contudo, no que tange à oitiva da vítima nos 
crimes praticados contra criança e adolescente, vamos perceber no tópico 
seguinte que ela deverá, preferencialmente, ser uma das últimas providências a 
ser tomada por meio da realização do Depoimento Especial. 
 Na rotina policial existem alguns crimes praticados contra esse público 
que tem preponderância sobre os demais, vale dizer, crimes que ocorrem com 
mais frequência se comparados a outros. Estão dentre eles o delito de maus 
tratos, pornografia por meio da rede mundial de computadores, estupro de 
FATO CRIMINAL
REGISTRO DO FATO 
CRIMINAL (oc. 
policial, acionamento 
pol. ostensiva, 
denúncias)
INÍCIO DAS 
DILIGÊNCIAS 
INVESTIGATIVAS
MEDIDAS 
CAUTELARES 
BUSCA DE 
VESTÍGIOS 
MATERIAIS e 
EXAMES PERICIAIS
OITIVA DE 
TESTEMUNHAS
RECONHECIMENTO 
DE PESSOAS E 
OBJETOS
OITIVA DA VÍTIMA e 
OITIVA DO AUTOR 
DOS FATOS
FINALIZAÇÃO DO 
INQUÉRITO POLICIAL
 
38 
vulnerável e exploração sexual. Para tais infrações, a colheita da prova se 
apresenta com níveis de dificuldades diferentes. 
 O crime de maus tratos, como regra, apresenta um nível baixo de 
complexidade na colheita da prova. Na maioria das vezes, ele é traduzido em 
ações objetivas que podem ser identificadas facilmente, como por exemplo, 
marcas físicas no corpo da vítima que serão constatadas por meio do Laudo de 
Exame de Corpo de Delito de Lesão Corporal, aspectos de cuidados não 
preservados, como sujeira e desnutrição de fácil percepção e comportamentos 
mais engajados das testemunhas e/ou denunciantes. O resultado da 
investigação nesse crime costuma ser robusto e satisfatório, aumentando os 
índices positivos de responsabilização penal do autor. 
 A pornografia por meio da rede mundial de computadores ou por 
meio de produção ou armazenamento, sem que haja a distribuição, nos termos 
dos artigos já estudados, possui maior nível de complexidade. Se por um lado, 
quando descoberto, trata-se de crime de farta materialidade, uma vez que é da 
essência do tipo penal encontrar arquivos que contenham a denominada 
pornografia; por outro lado é fato que a apuração desses crimes necessita de 
um policial treinado para compreender a forma técnica da colheita probatória. 
Não vamos adentrar nas especificidades deste tipo de investigação, 
uma vez que há necessidade de capacitação específica para esse fim, pois 
dominar conceitos como torrente P2P, dark ou deep web, internet protocol, 
provedores de acesso ou armazenamento, interceptação telemática, infiltração 
policial cibernética (Art. 190 A-E do Estatuto da Criança e do Adolescente) etc 
carecem de treinamento específico, razão pela qual na sessão Saiba Mais você 
poderá obter informações sobre essas capacitações. 
Nos crimes sexuais, mais precisamente no estupro de vulnerável, o nível 
de complexidade probatória é bem elevado, isso porque é sabido que esse 
crime é praticado nas sombras, longe de testemunhas e muitas vezes sem 
vestígios. Nesses delitos a realização do Depoimento Especial nos termos da Lei 
nº 13431/17 e seu Decreto Regulamentador nº 9603/18 tem especial 
importância, sendo um instrumento imprescindível para uma colheita de prova 
robusta. Aqui vamos destacar algumas situações práticas da atuação policial 
 
39 
sobre a colheita da prova quando estivermos diante do crime de Estupro de 
Vulnerável, sendo elas: 
a) Colheita de material genético por meio de cumprimento de 
mandado de busca e apreensão: nos casos de estupro de vulnerável em que 
se obtenha perfil genéticodo autor e ele se recuse a fornecer material para 
comparação, em observância ao princípio nemo tenetur se detegere – ninguém 
é obrigado a produzir prova contra si mesmo - é possível, nos termos do art. 
240, §1.º, alínea h, do Código de Processo Penal, representar pelo cumprimento 
de Mandado de Busca e Apreensão para coletar objetos que podem conter 
material genético que permita a extração e a adequada comparação de perfil 
genético entre o material do autor e aquele encontrado na vítima. Alguns 
objetos possuem potencial maior de extração do perfil genético, dentre eles 
escova de dentes, escova de cabelo, meias usadas e não lavadas, chinelo de uso 
diário, etc. 
b) Alguns critérios de encaminhamento da vítima ao IML para 
exame de corpo delito: Como regra, sempre que o crime deixar vestígios, a 
vítima é encaminhada ao IML para realização de Exame de Corpo delito, o que 
nada mais é do que uma das formas de produção probatória. Entretanto, 
quando estamos falando de violência sexual há casos em que o exame se fará 
necessário mesmo sem vestígios aparentes relatados. Dentre esses casos é 
comum vítimas com tenra idade que não possuem capacidade de narrativa ou 
essa é diminuída, sendo importante o encaminhamento ao IML. Nesse ponto, 
entretanto, vale lembrar que o Decreto nº 9.603/18, no art. 13, §7º, apregoa que 
a perícia física será realizada somente nos casos em que se fizer necessária à 
coleta de vestígios, evitada a perícia para descarte da ocorrência de fatos. 
c) Utilização de Banco de Dados de Perfil Genético: É possível 
também, havendo material biológico coletado da vítima com extração de perfil 
genético, solicitar comparação no Banco de Perfil Genético. Trata-se de uma 
poderosa ferramenta investigativa que você pode conhecer melhor acessando 
https://www.gov.br/pt-br/noticias/justica-e-seguranca/2021/04/banco-
nacional-de-perfis-geneticos-atinge-a-marca-de-100-mil-perfis-cadastrados 
d) Direito ao silêncio: Um ponto importante que devemos observar 
é que, de acordo com o art. 5., inc. VI da Lei nº 13.431/17, crianças e 
 
40 
adolescentes, ainda que testemunhas, têm direito ao silêncio. Diante deste 
dispositivo legal, precisamos buscar outras fontes de colheita de prova, caso 
elas desejarem permanecer em silêncio, impedindo que o agente do Estado 
insista ou obrigue a criança ou adolescente a depor, a falar. 
 
 
Aula 4 – O Depoimento especial como instrumento de 
coleta de prova e a investigação de crimes sexuais 
 
1. Introdução 
Na aula 1 aprendemos sobre o microssistema legislativo que rege o 
enfrentamento à violência contra criança e adolescente, nele estão a lei 
13.431/17 e o Decreto Regulamentador de n. 9603/18. Dentre os muitos 
dispositivos protetivos previstos nestas normas, dois deles têm especial 
importância para o trabalho dos profissionais integrantes do Sistema Único de 
Segurança Pública (Susp), quais sejam, o depoimento especial e a escuta 
especializada. 
 Apesar de os dois instrumentos serem formas utilizadas para coletar a 
narrativa da criança ou do adolescente, eles possuem finalidades distintas. A 
escuta especializada, por disposição expressa do art. 7º da lei, é o 
procedimento de entrevista perante a rede de proteção, estando limitado ao 
cumprimento de sua finalidade e não tem o escopo de produzir prova para o 
processo de investigação e de responsabilização penal, conforme art. 19, § 4º 
do Decreto. Já o depoimento especial, cuja definição é encontrada no art. 8º 
da Lei e complementado pelo art. 22 do Decreto, é procedimento de oitiva 
perante a autoridade policial ou judiciária com a finalidade de produção de 
prova. Além de definições distintas, os dois instrumentos possuem requisitos 
específicos que são mais facilmente visualizados no quadro abaixo: 
Figura 7 - Quadro Comparativo 
DEPOIMENTO ESPECIAL ESCUTA ESPECIALIZADA 
 
Âmbito policial ou judiciário Órgãos de rede de Proteção (educação, 
saúde, assistência social, direitos humanos, 
segurança pública) 
 
41 
Finalidade de produção de prova Proteção social e provimentos de cuidado 
Profissional capacitado Idem 
Infraestrutura adequada Idem 
Uso de protocolo Não 
Gravação em áudio e vídeo Não 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
 
Embora a Escuta Especializada tenha papel fundamental na Rede de 
Proteção, o Decreto nº 9603/18 previu expressamente em seu art. 19, a sua 
utilização por profissionais da Segurança Pública. Tal disposição está em 
harmonia com o art. 13, §2º do mesmo diploma, uma vez que é assegurado o 
registro de ocorrência policial à criança ou ao adolescente mesmo que estejam 
desacompanhadas dos responsáveis. 
Assim, no caso concreto, os profissionais integrantes do Sistema Único 
de Segurança Pública (Susp), podem ouvir o relato espontâneo de uma criança 
ou de um adolescente sobre fatos dos quais são vítimas ou testemunhas. 
Importante nesse ponto ressaltar que não está permitido, por meio da escuta, 
iniciar diversos questionamentos sobre pontos atinentes à investigação, como 
quem fez, o que fez, onde fez, etc, sob pena de afronta aos ditames legais no 
que tange ao uso do Depoimento Especial que exige uso de protocolo e 
gravação em áudio e vídeo para a colheita de elementos de prova. 
 
2. O Depoimento Especial e Protocolo de Polícia Judiciária7 
como instrumento de colheita probatória 
 
 Para além do conceito trazido pelo legislador, precisamos compreender 
que o Depoimento Especial nada mais é do que uma ferramenta de 
investigação destinada a fornecer subsídios probatórios para a 
responsabilização criminal do autor do crime. Em sede policial, conforme 
preconiza a legislação, o Depoimento Especial precisa ser feito com uso de 
Protocolo, por profissional capacitado e com gravação em áudio e vídeo. 
Atendendo essa diretriz, a Polícia Civil do Distrito Federal em parceria com UnB 
 
7https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/PROTOCOLO_DPCA_25_10_18.pdf Acesso em 
02/10/2022 
https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/PROTOCOLO_DPCA_25_10_18.pdf
 
42 
– Universidade de Brasília, criou o primeiro Protocolo de Polícia Judiciária para 
colheita de narrativa de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de 
crimes, cuja utilização foi aprovada pela Resolução nº 02/2019 do Conselho 
Nacional dos Chefes de Polícia Civil - CONCPC8. Sobre ele, podemos afirmar 
que: 
Este protocolo buscou sistematizar, de modo científico, as técnicas 
utilizadas nacional e internacionalmente, sempre sob a perspectiva da 
proteção integral da criança e do adolescente e da garantia dos 
direitos fundamentais do investigado na esfera de Polícia Judiciária, 
tendo como objetivo “colher, na esfera policial, o Depoimento 
Especial de crianças e adolescentes apontados como vítima ou 
testemunha de violência - priorizando a condição de ser em 
desenvolvimento, a diminuição dos danos da revitimização e 
garantindo a oportunidade de direito de fala - com a finalidade de 
produzir elementos probatórios, com base na legislação vigente. 
Realizá-lo, exclusivamente por policiais devidamente capacitados, por 
meio do presente protocolo que auxilie na elucidação e compreensão 
dos fatos em apuração. (BOZOLAN, MACHADO, MENDES, SANTIAGO, 
2021, Pedofilia Doutrina e Prática – A visão do Delegado, p. 162,163). 
 
A existência desse Protocolo, além de atender aos requisitos da lei, 
permite que a investigação policial possa ser feita de maneira técnica e segura, 
no que tange as possíveis nulidades processuais, pois embora ele seja feito no 
bojo do inquérito policial, conhecido por sua característica inquisitória e 
devendo as provas produzidas serem convalidadas em juízo. É notório que os 
crimes com alta complexidade probatória podem ter no Depoimento Especial a 
base da estruturação das provas e, possuir a narrativa da vítima invalidada em 
sede processual diante da inobservância do uso de um protocolo, certamente 
acarretará prejuízos que podemdefinir o resultado da responsabilização penal. 
Para a correta aplicação do Protocolo de Polícia Judiciária para 
Depoimento Especial de Criança e a Adolescente foi criado também o Manual 
 
8http://www.concpc.com.br/res-concpc-02-
2019/#:~:text=Institui%20diretrizes%20a%20serem%20observadas,a%20Lei%20n%C2%BA%201
3.431%2F17. Acesso em 04/10/2022 
http://www.concpc.com.br/res-concpc-02-2019/#:~:text=Institui%20diretrizes%20a%20serem%20observadas,a%20Lei%20n%C2%BA%2013.431%2F17
http://www.concpc.com.br/res-concpc-02-2019/#:~:text=Institui%20diretrizes%20a%20serem%20observadas,a%20Lei%20n%C2%BA%2013.431%2F17
http://www.concpc.com.br/res-concpc-02-2019/#:~:text=Institui%20diretrizes%20a%20serem%20observadas,a%20Lei%20n%C2%BA%2013.431%2F17
 
43 
de Uso9 que especifica cada uma das 8 fases do Protocolo, apontando as 
diretrizes e o percurso a ser seguido pelo policial que conduz a colheita da 
narrativa, conforme tabela abaixo: 
Figura 8 - Fases do Protocolo de Polícia Judiciária 
PROTOCOLO DE POLÍCIA JUDICIÁRIA PARA DEPOIMENTO ESPECIAL DE CRIANÇA OU 
ADOLESCENTE 
FASE 1 Ambientação 
FASE 2 Avaliação da criança ou adolescente para a oitiva 
FASE 3 Orientações e instruções (criança) ou transição (adolescente) 
FASE 4 Orientações e instruções (adolescente) ou transição (criança) 
FASE 5 Relato livre sobre o fato em apuração 
FASE 6 Questões pertinentes à investigação policial 
FASE 7 Fechamento 
FASE 8 Tópico Neutro 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
Dessa maneira, o Depoimento Especial entendido como uma 
ferramenta de investigação, realizado com rigidez técnica e gravação em áudio 
e vídeo, atinge elevada importância na violência sexual, em razão da escassez 
probatória que esses crimes frequentemente apresentam, como veremos de 
forma pormenorizada no tópico seguinte. 
 
3. A investigação nos crimes de cunho sexual 
 
 Dados estatísticos apontam que os crimes sexuais representam a maior 
violação praticada contra crianças e adolescentes, representando cerca de 
56% se comparado com o crime de maus tratos e de lesão corporal, de acordo 
com estudo estatístico do Fórum Brasileiro de Segurança Pública10, significando 
assim o maior volume do trabalho policial. 
Além disso, como dito anteriormente, essa violência apresenta uma 
maior complexidade probatória se comparada a outros tipos de delitos, pois 
 
9https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/Manual_DPCA_atualizado.pdfAcesso em 
03/10/2022 
10https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/12/violencia-contra-criancas-e-
adolescentes-2019-2021.pdf acesso em 04/10/2022 
https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/Manual_DPCA_atualizado.pdf
https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/12/violencia-contra-criancas-e-adolescentes-2019-2021.pdf
https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/12/violencia-contra-criancas-e-adolescentes-2019-2021.pdf
 
44 
dificilmente deixam vestígios e não possuem testemunhas e nos dizeres do 
Delegado-Chefe Adjunto da Delegacia de Proteção da Criança e do Adolescente 
da Polícia Civil do Distrito Federal Filipe Augusto Villela Campos: 
“A prática demonstra que crimes sexuais cometidos em face de 
crianças e adolescentes dificilmente deixam vestígios/elementos de 
informação que possam ser identificados por outra forma que não 
seja a oitiva da vítima. Em razão do sentimento geral de extrema 
repugnância e reprovação aos delitos sexuais, assim como àqueles 
perpetrados em face de crianças e adolescentes, é majorado o 
interesse do autor em manter-se nas sombras”. 
 Assim, enquanto em outros crimes a investigação pode ter à sua 
disposição diversos elementos de prova, no crime sexual podemos ter somente 
o depoimento especial ou apenas depois da realização dele é que poderemos 
coletar mais evidências da prática criminosa. Graficamente, a investigação nos 
crimes sexuais pode ser assim representada: 
Figura 9 - Representação Gráfica Investigação 
 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
 Desta forma, ao realizar o Depoimento Especial nos crimes de cunho 
sexual, o policial responsável pela investigação, além de observar os parâmetros 
legais de utilização de protocolo e gravação em áudio e vídeo, não deve se 
contentar apenas com a mera confirmação da vítima de que os fatos ocorreram. 
Em um exemplo prático, se uma vítima com 10 anos de idade e com boa 
capacidade de narrativa afirmar que “meu padrasto tirou a roupa e colocou o 
pipi dele na minha boca”, teremos, do ponto de vista jurídico, o completo 
preenchimento do tipo penal previsto no Art. 217-A do Código Penal. 
Testemunhas Perícias
Medida Cautelar (MBA, 
interceptação telemática, 
telefônica)
Depoimento Especial
Provas
 
45 
Contudo, encerrar o depoimento especial apenas com a confirmação 
dos fatos, é lançar a criança/adolescente no perigoso terreno da “palavra da 
vítima versus palavra do autor”. Apesar de nos crimes sexuais a palavra da 
vítima ter especial valia em detrimento da palavra do autor, conforme 
jurisprudência sedimentada em nossos tribunais, é certo que a colheita de 
alguns elementos ou circunstâncias que possam dar mais robustez a esse relato, 
bem como irá aumentar as chances de uma responsabilização penal adequada. 
Para facilitar a compreensão de como o Depoimento Especial deve ser 
conduzido pelo policial, mesmo quando já tiver ocorrida a confirmação dos 
fatos, vamos separar as circunstâncias que permeiam o crime em fundamentais, 
periféricas e adicionais. A partir disso, deve-se percorrer todos os itens 
elencados, numa espécie de checklist, afastando o encerramento do 
Depoimento especial apenas com a confirmação do crime feito pela vítima. 
Figura 10 - Tabela Circunstâncias 
CIRCUNSTÂNCIAS 
 
FUNDAMENTAIS 
 
PERIFÉRICAS 
 
ADICIONAIS 
• confirmação dos fatos 
• dinâmica da execução 
• material biológico 
(sêmen, sangue, 
saliva) 
• mídias ou sistema de 
monitoramento de 
vídeo 
• autor, local e tempo 
do crime 
 
• testemunha de revelação 
• testemunhas em geral 
• outras vítimas 
• condições do local 
• rotina da vítima e das 
pessoas envolvidas em 
seu núcleo de convivência 
• mudança de 
comportamento 
• interações verbais entre 
autor e vítima 
 
• coação e ameaça 
• segredos e subornos 
• riscos e conivência 
dos responsáveis 
 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
 No intuito de sedimentarmos um pouco mais o que foi acima 
explicitado, vamos utilizar tal quadro em dois exemplos práticos e perceber 
como explorar as circunstâncias pode trazer resultados significativos para a 
investigação, partindo da regra de que nos dois casos não temos nem 
testemunha e nem laudos periciais. 
Exemplo 01: 
 
46 
“Menina de 7 anos de idade relatou para a professora da escola 
que seu pai fazia coisas feias com ela e que ela não gostava de 
colocar o pipi dele em sua boca” 
Figura 11 - Exercício - Tabela Circunstâncias 
CIRCUNSTÂNCIAS 
Fundamentais Periféricas Adicionais 
- nome do pai 
- local e tempo dos fatos 
-confirmado os fatos, 
acrescentando a vítima que 
além de o pai colocar o pipi na 
boca dela, ele também tirava a 
roupa dela e colocava a língua 
em sua genitália”. 
- explorando condições do local e 
rotina dos envolvidos, a vítima ainda 
narrou que os pais eram divorciados. 
Às quartas e sextas-feiras seu pai ia 
até a casa onde ela vivia com a mãe 
para buscá-la e deixar na escola. No 
meio do caminho, ele parava em um 
local isolado, praticava os atos 
sexuais e ela sempre chegava 
atrasada na escola nesse dia. 
- nenhum dado 
acrescentado. 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
 Após a confirmação dos atos criminosos, a coleta de informações 
seguiu explorando algumas circunstâncias periféricas. A partir delas, foram 
feitas diligências na escola em que a criança estudava e o estabelecimento 
contava com registro eletrônico de entrada e saída dos alunos, sendo 
constatado que, às quartas e sextas-feiras, a criança sempre chegava cerca de 
30 a 40min atrasada.Exemplo 02 
“Menina de 11 anos de idade relatou para uma amiga que o pai 
adotivo vinha praticando atos sexuais com ela, incluindo 
tentativa de penetração vaginal e sexo oral” 
Figura 12 - Exercício - Tabela Circunstâncias 
CIRCUNSTÂNCIAS 
Fundamentais Periféricas Adicionais 
- nome do pai 
- local e tempo dos 
fatos 
- confirmado os fatos, 
acrescentando a vítima 
que os abusos ocorriam 
desde os 9 anos de 
idade e que, apesar de 
ter tentado introduzir o 
pênis em sua vagina, ele 
sempre parava quando 
ela dizia que estava com 
- explorando a rotina dos envolvidos e 
mudança de comportamento, a vítima 
ainda narrou que possui um irmão gêmeo 
que também havia sido adotado junto 
com ela pelo pai adotivo. Afirmou que o 
pai sempre viajava com ela e deixava o 
irmão em casa. Disse que constantemente 
ganhava muitos presentes do pai e que o 
irmão nunca ganhava e que mesmo 
quando era aniversário dos dois, o 
presente dela era sempre melhor do que 
o do irmão. Narrou também que quando 
- excesso de 
presentes com 
valores expressivos. 
 
47 
medo. os abusos começaram a se intensificar, 
sempre tinha crises de choro e era o 
irmão que conseguia acalmá-la, mas ela 
nunca teve coragem de contar para ele o 
que estava acontecendo. 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
Aqui, mais uma vez temos a confirmação dos fatos que não deixam 
dúvidas quanto ao preenchimento do crime de estupro de vulnerável. Todavia, 
considerando que novamente não temos testemunhas do abuso e nem 
materialidade, precisamos explorar todas as circunstâncias que permearam o 
crime. Assim, após o relato, foi ouvido o irmão como testemunha, sendo 
confirmado que por diversas vezes, por volta de 9 ou 10 anos de idade, a irmã 
tinha crises muito forte de choro, que não sabia o porquê, pois ela não 
respondia, mesmo quando ele perguntava. Confirmou também que nunca 
entendeu porque ganhava presentes tão simples e a irmã presentes tão caros e 
que quando fizeram 10 anos, a irmã ganhou um aparelho celular muito bom e 
ele ganhou só uma camiseta. Disse também que o pai só viajava com a irmã e 
sempre se recusava a levá-lo junto. 
Como podemos observar, se durante a realização do Depoimento 
Especial tivéssemos encerrado o procedimento apenas com a confirmação do 
abuso sexual, teríamos apenas a palavra da vítima e a negativa do autor, 
dificultando assim uma possível responsabilização criminal. Nos dois exemplos 
dados, a busca por mais detalhes, aqui denominadas circunstâncias 
periféricas, possibilitou que a narrativa ou a confirmação dos fatos ganhasse 
maior robustez, ainda que ausentes testemunhas diretas do crime e laudos 
periciais de constatação de violência. 
4. Breves considerações sobre o Depoimento Especial em sede 
judicial 
 O Depoimento Especial em âmbito judicial pode acontecer em dois 
momentos distintos, o primeiro em sede de produção antecipada de provas, 
conforme previsão do art. 11 da Lei nº 13.431/17, e o segundo momento 
durante a instrução e julgamento da ação penal, ocorrendo em ambos o 
exercício do contraditório e da ampla defesa. 
 
48 
 Algumas interpretações têm sido feitas sob a ótica de que quando se 
tratar de crime sexual e nos casos de crianças menores de 7 anos, o 
Depoimento Especial deve ser feito apenas por meio de audiência de produção 
antecipada de prova. Essa interpretação, se adotada de forma generalizada em 
todos os casos, pode ser equivocada e até mesmo pouco protetiva. Como 
abordado anteriormente, o Depoimento Especial, sobretudo nos crimes sexuais, 
é importante ferramenta de coleta de evidências, de coleta de prova. 
Se de um lado é certo que em alguns casos, o depoimento em sede 
policial pode ser dispensado diante da existência de vários outros elementos de 
provas, por outro lado, é certo que isso se verifica na minoria dos casos, 
especialmente nos crimes sexuais. Desta feita, afirmar que o Depoimento 
Especial, no caso de violência sexual, deve necessariamente ser feito em Juízo 
é permitir alguns graves desdobramentos, conforme elencados abaixo: 
i. Proteção deficiente dos direitos fundamentais da criança e 
do adolescente, porquanto a condução por profissional que 
não tem expertise investigativa pode acarretar um 
depoimento com a mera confirmação, pondo-se de lado a 
exploração de circunstâncias que trarão robustez para o 
relato. 
ii. Redução da efetividade da investigação criminal e da 
persecução penal em razão da perda do elemento surpresa 
que permite a polícia se movimentar rapidamente, por 
exemplo, para apreender mídias produzidas durante o 
abuso cuja existência é revelada somente em sede de 
Depoimento Especial. 
iii. Impossibilidade de realização em 100% dos crimes de 
violência sexual, por exemplo, quando a autoria é 
vagamente referenciada ou quando os fatos são 
precariamente narrados. 
iv. Judicialização de situações que sequer terão força para 
subsidiar o oferecimento de denúncia pelo Ministério 
Público posteriormente, gerando um impacto nas agendas 
de audiência em um Poder Judiciário. 
 
49 
v. Desconsideração das características de uma medida 
cautelar da qual é espécie a antecipação de prova, devendo 
assim serem analisados outros requisitos previstos no Art. 
156 do CPP, no que tange a proporcionalidade, 
necessidade e adequação, pois, se admitido interpretação 
diversa, teríamos que para o Promotor de Justiça haveria o 
dever de ajuizar uma ação cautelar de antecipação de 
prova, independente da presença dos pressupostos 
característicos de medidas da respectiva natureza, e para o 
juízo competente não caberia espaço para decidir com 
base nas peculiaridades do caso concreto. 
 Por fim, não podemos esquecer que os comandos inseridos na Lei nº 
13.431/17 precisam ser interpretados em harmonia, razão pela qual há que se 
ter em conta o disposto no § 2º do art. 14, que determina que “nos casos de 
violência sexual, cabe ao responsável da rede de proteção garantir a 
urgência e a celeridade necessárias ao atendimento de saúde e à produção 
probatória, seguido do disposto no art. 2º, inc. V do Decreto que afirma que 
“a criança e o adolescente devem receber intervenção precoce, mínima e 
urgente das autoridades competentes tão logo a situação de perigo seja 
conhecida. Pelos dispositivos, parece restar claro que postergar a realização do 
Depoimento Especial para que seja feito unicamente em sede judicial é não dar 
a urgência e a celeridade que a lei impõe, devendo assim haver uma 
harmonização dos dispositivos para permitir que a responsabilização criminal 
ocorra de forma robusta e eficaz. 
 
 
 
 
 
 
 
50 
Finalizando 
 
Neste módulo, você aprendeu que: 
 
• O enfrentamento da violência contra a criança e o adolescente deve ser 
feito com a observância da existência de um Microssistema legislativo, 
composto pelo Estatuto da Criança e a Adolescente, pelo Código Penal, 
pela Lei da Escuta Protegida e seu Decreto Regulamentador e a 
denominada Lei Henry Borel. 
• Os crimes dos quais criança e adolescente podem ser vítimas estão 
previstos não somente no Estatuto, mas também no Código Penal e em 
diversas outras legislações e alguns deles possuem singularidades e 
peculiaridades que podem dificultar sua identificação durante a rotina 
policial, acarretando uma atuação inadequada e menos protetiva; 
• Após a identificação do crime, as diligências investigativas seguem um 
caminho lógico até a finalização do inquérito policial, possibilitando a 
responsabilização penal adequada do agressor; 
• Os crimes cometidos contra criança e adolescente possuem níveis 
diferentes de complexidade probatória, sendo o crime de cunho sexual o 
que impõe o maior desafio. 
• A Lei nº 13.431/17 introduziu em nosso ordenamento os instrumentos 
adequados para coleta de relatos de violência, sendo eles a Escuta 
Especializada e o Depoimento Especial; 
• O Depoimento Especial, em sede policial,é regido pelo Protocolo de 
Polícia Judiciária, e é considerado como uma ferramenta de investigação; 
• Durante a realização do Depoimento Especial, o policial deverá estar 
atento não somente para a confirmação dos fatos, mas também para as 
circunstâncias fundamentais, periféricas e adicionais do crime. 
 
 
 
 
 
51 
Módulo 2 - Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil 
e os efeitos da violência 
 
Apresentação do módulo 
 
Neste módulo vamos abordar as características do desenvolvimento 
humano que são importantes para o Depoimento Especial. Vamos compreender 
através do Modelo Bioecológico de Bronfenbrenner quais são os fatores de 
risco e proteção para a ocorrência de violência com crianças e adolescentes. Por 
fim, vamos apontar quais são as principais consequências comportamentais e 
psicopatológicas da vivência de situações traumáticas. 
 
Objetivos do módulo 
Este módulo tem por objetivos: 
• Identificar aspectos do desenvolvimento humano que influenciam 
na escuta policial de crianças e adolescentes; 
• Analisar os fatores de risco e proteção para ocorrência de 
violências; 
• Compreender a violência como um fenômeno transgeracional e 
complexo; 
• Identificar as principais consequências psicopatológicas da 
vivência de situações de violência. 
 
Estrutura do módulo 
Este módulo compreende as seguintes aulas: 
Aula 1 – Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil que são fundamentais 
para a abordagem de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de 
violência; 
Aula 2 – O modelo bioecológico de compreensão do desenvolvimento humano 
e sua relação com a violência; 
Aula 3 – Consequências psicopatológicas da vivência de violência. 
 
 
52 
Aula 1: Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil 
que são fundamentais para a abordagem de crianças e 
adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. 
 
Quando se fala de desenvolvimento humano, diversas teorias apontam 
para suas fases, bem como fatores que influenciam sua formação. Este curso 
optou por dois modelos teóricos que serão apresentados seguidamente. O 
desenvolvimento cognitivo e o modelo ecológico de Bronfenbrenner. Esse 
último aponta para questões fundamentais, seja qual for o modelo teórico 
adotado. 
Menores de idade têm sido chamados a prestarem depoimentos a 
respeito das violências que sofreram ou de que foram testemunhas. Cada dia 
mais, aquilo que elas têm para relatar tem sido levado em consideração. Porém, 
há que se ter em mente que, a despeito de toda evolução no que se refere aos 
direitos deles, as características do seu processo de desenvolvimento precisam 
ser levadas em consideração de modo a se obter um relato o mais próximo 
possível da realidade. 
Com a promulgação da Lei nº 13.431/2017, que trata do 
depoimento especial, o testemunho de crianças e 
adolescentes tem sido cada vez mais valorizado. O que há 
alguns anos era considerado irrelevante, atualmente, tem 
recebido notável reconhecimento. 
 Crianças e adolescentes têm recebido diversas mensagens educacionais 
no que se refere ao cuidado com o próprio corpo, bem como ao conceito de 
violência sexual, qual seja, “qualquer conduta que constranja a criança ou o 
adolescente a praticar ou presenciar conjunção carnal ou qualquer outro ato 
libidinoso, inclusive exposição do corpo em foto ou vídeo por meio eletrônico” 
(artigo 4º, inciso III Lei nº 13.431/2017). Diversas ações preventivas de violência 
são realizadas em escolas e veiculadas pela grande mídia, razão pela qual 
houve um significativo aumento no número de denúncias de violação de 
direitos entre jovens, o que fez a Rede de Atenção a Pessoas em Situação de 
 
53 
Violência se debruçar nos estudos de como escutar esses jovens de modo 
menos revitimizador. 
Quando se pretende ouvir pessoas em estado de desenvolvimento no 
contexto policial ou judicial, é preciso considerar quais são os limites e 
possibilidades de cada fase no que tange, especialmente, à memória e 
linguagem. A mente humana é uma grande máquina que trabalha de forma 
interconectada. As duas funções acima citadas não se desenvolvem de maneira 
destacada, mas ligada a outros processos, por exemplo as emoções e a atenção. 
Optou-se por focar na memória e na linguagem para que fique mais fácil a 
compreensão. 
 O que será listado abaixo refere-se às fases do desenvolvimento da 
memória e linguagem infantojuvenil catalogadas no estudo de Rovinski, 2020. 
Primeira Infância: os 3 primeiros anos 
• Entre os dois e os três anos e meio de idade, a capacidade da criança em 
se comunicar eficazmente vai sendo aprimorada tanto no nível do 
vocabulário receptivo como no expressivo. 
• O vocabulário da criança é muito limitado, vocaliza frases de cerca de 
duas palavras, e comete erros de subextensão (ex.: chamar chapéu 
apenas ao seu chapéu, e não a todos os chapéus), de sobre-extensão 
(ex.: chamar carro a todos os veículos de quatro rodas ou árvore a todas 
as plantas). 
• A forma de pensar da criança apresenta ainda algumas características 
que poderão dificultar a sua capacidade de testemunhar: (a) 
concreticidade – incapacidade de pensar em conceitos abstratos; (b) 
egocentrismo – incapacidade de ver uma situação do ponto de vista do 
outro; (c) centração – incapacidade de explorar todos os aspectos de um 
estímulo; (d) incapacidade de pensar em transformações – ex.: 
transformação dos estados físicos da matéria; e (e) irreversibilidade – 
ausência do conceito de conservação como consequência da centração. 
Os estudos apontam que crianças até 3 anos de idade são capazes de 
reter memória, porém, não conseguem acessá-las de forma clara e fidedigna. 
Dessa forma, o protocolo de depoimento especial é calibrado para crianças 
maiores de 3 anos. 
 
54 
Período pré-escolar: 3 a 6 anos 
• A partir dos três anos de idade a capacidade comunicativa da criança 
torna-se cada vez mais complexa e ela começa a ser capaz de 
compreender diferentes perspectivas simbólicas e diferenciar a vida 
mental do mundo real. 
• Entre os quatro e os cinco anos de idade, a criança já é capaz de atribuir 
diferentes estados mentais a si e aos outros, e de prever e explicar o 
comportamento dos outros com base nos seus respectivos estados 
mentais. 
• Dos quatro aos seis anos de idade as crianças começam a ponderar a 
possibilidade de existirem diversos pontos de vista acerca do mesmo 
objeto e a serem capazes de distinguir a verdade de uma mentira. 
• As crianças tornam-se capazes de cooperar com terceiros, começam a 
estabelecer relações causais, compreender e controlar as suas emoções, 
bem como falar abertamente sobre elas. 
• Aos cinco anos de idade, as crianças são já capazes de interpretar e 
responder adequadamente a questões de resposta aberta, como “O que 
você fez hoje?” 
• Nesta idade crianças exibem uma tendência a se fixarem nos 
acontecimentos centrais do episódio a recordar (ex.: comportamento do 
criminoso), ignorando os acontecimentos periféricos (ex.: 
comportamento de outras testemunhas) e centrando-se menos nos 
pormenores relevantes para a investigação policial. 
• Neste período as crianças têm dificuldade em monitorizar a fonte das 
suas memórias, por exemplo, distinguir se recordam certo episódio 
porque o presenciaram ou porque foi relatado pelos pais. 
• Para diminuir a chance de recordações equivocadas será necessário 
utilizar pistas de recuperação baseadas no que a criança disse 
anteriormente, para direcionar a conversa e obter relatos mais extensos. 
Não obstante, este tipo de pistas de recuperação deverá ser 
cuidadosamente utilizado, pois pistas inadequadas (ex.: pistas sugestivas) 
poderão aumentar a quantidade de informação incorreta evocada. 
 
55 
• O entrevistador precisa certificar-se de que a criança não responde com 
o intuito de agradar a alguém (ex.: família) ou ao próprio entrevistador, 
fornecendo a informação que acha que o adulto pretende ouvir. É 
importante transmitirà criança que poderá afirmar que “não se lembra” 
sempre que quiser, pois esta é uma resposta tão boa como outra 
qualquer. 
• Crianças no período pré-escolar, ou mais novas, demonstram dificuldade 
em manter a atenção num objeto ou tarefa, torna-se vital estar atento ao 
seu comportamento e perceber quando convém introduzir uma pausa na 
entrevista. 
• Embora estas crianças já sejam capazes de localizar eventos no espaço e 
no tempo, fazem-no na maioria das vezes de uma forma prática e com 
referência ao que lhes é familiar (ex:, “Aconteceu lá onde eu como, 
depois de ver televisão”). Assim, perguntas como “Que horas eram 
quando você ouviu seus pais brigarem?” devem ser substituídas por “O 
que você estava fazendo quando ouviu seus pais brigando?”. 
Segunda infância - período escolar 
• A partir dos seis anos de idade, o vocabulário da criança aumenta 
consideravelmente devido a sua entrada no sistema educativo. 
• As crianças tornam-se capazes de avaliar comportamentos com base no 
seu conceito de moralidade, interpretando certas atitudes como 
negativas ou inadequadas e inibindo-as. 
• O desenvolvimento do conceito de moralidade poderá traduzir-se na 
omissão de detalhes por parte das crianças durante a entrevista. Ex: a 
criança poderá omitir comportamentos sexuais do agressor por 
considerá-los constrangedores. 
• Neste período, tal como na adolescência, fatores sociais como a 
aceitação dos pares e o medo de ser rejeitada têm particular importância. 
• É no período escolar que as crianças se tornam capazes de compreender 
o conceito de sugestionabilidade, sendo, por exemplo, capazes de 
identificar se o entrevistador utiliza técnicas sugestivas. 
• A evocação livre destas crianças já é equiparável a dos adultos. Assim, a 
utilização do relato livre e de questões abertas (ex.: “O que aconteceu 
 
56 
hoje?”) é fundamental de forma a aumentar o número de informações 
evocadas e diminuir a quantidade de erros cometidos. O entrevistador 
deve evitar sempre que possível o uso de questões fechadas, 
particularmente questões sugestivas – “O ladrão tinha uma pistola, 
certo?” 
Adolescência 
• No que diz respeito ao funcionamento cognitivo e de memória dos 
adolescentes, equiparável ao dos adultos, eles podem ser entrevistados 
como tal no que diz respeito às suas capacidades intelectuais (ex.: 
complexidade das questões). 
• No entanto, é importante considerar os fatores emocionais e sociais 
anteriormente descritos na construção e execução da entrevista policial 
ou forense, tendo em vista que o medo da pressão pública, do ofensor e 
da exclusão social resultante do processo judicial podem influenciar a 
motivação da testemunha para relatar o crime. 
Independente da fase na qual crianças e adolescentes se encontrem no 
momento da entrevista, é fundamental ter em perspectiva que neste trabalho 
aborda-se pessoas em situações de violência e, consequentemente, em possível 
estado de sofrimento mental. Ao solicitar que o sujeito se recorde de eventos 
traumáticos, é possível que afetos negativos sejam mobilizados. Dessa forma, é 
preciso refletir sobre o modo como se aborda esses indivíduos para evitar 
sofrimentos e traumas adicionais. 
 
Aula 2: O modelo bioecológico de compreensão do 
desenvolvimento humano e sua relação com a violência 
 
A ecologia social de Bronfenbrenner considera que crianças e 
adolescentes crescem em um ambiente social complexo, que influencia seu 
desenvolvimento (LIDCHI, 2010). Isso fica bastante evidente quando esse sujeito 
em desenvolvimento sofre algum tipo de violência. 
O modelo ecológico inclui o processo de desenvolvimento da criança 
e do adolescente em uma rede de sistemas interativos, que permite 
compreender os fatores que vão influenciar o seu dia a dia. O modelo 
 
57 
ajuda a compreender a influência de fatores presentes em diferentes 
níveis de contexto (familiar, comunitário, institucional e social). 
Isso quer dizer que cada um desses níveis influencia o surgimento tanto 
de fatores de risco quanto de proteção para o desenvolvimento pleno do 
sujeito. Dessa forma, não é possível fazer uma análise simplista ou individual 
quando se pretende compreender uma situação de violência envolvendo 
crianças e adolescentes. Se isso ocorrer, corre-se o risco de a ação não ser 
efetiva e, após um tempo, nova situação de violação de direitos surgir na vida 
daquele sujeito. 
Segue abaixo o modelo de desenvolvimento que Bronfenbrenner (1979) 
desenvolveu: 
Figura 13 - Modelo de desenvolvimento que Bronfenbrenner 
 
Fonte: JOTA, 2022. 
MICROSSISTEMAS: Aqueles que mantêm relação direta com a 
criança. Promovem estimulação intelectual, apoio emocional e educação moral. 
Ex.: família, escola, amigos, igreja. 
MESOSSISTEMAS: Aqueles que estabelecem a relação entre os 
microssistemas. Ex.: a relação entre a escola e a família. Como esses dois se 
relacionarão, beneficiará ou não o desenvolvimento da criança. 
EXOSISTEMAS: Aqueles que vão impactar o desenvolvimento da 
criança, mas não de forma direta. Ex.: o trabalho dos pais. Se a mãe tem ou não 
 
 
58 
licença maternidade determinará como serão os cuidados iniciais desse recém-
nascido. 
MACROSSISTEMAS: Aqueles que representam os valores culturais de 
uma sociedade. Esses influenciarão, por exemplo, a construção ou 
enfraquecimento das políticas públicas de proteção à infância e adolescência. 
O modo como os sistemas se relacionarão entre si apontam para os 
riscos ou proteção para o surgimento de situações de violência para crianças e 
adolescentes. Em toda família e sociedade é possível aplicar esse modelo de 
análise. 
Seguindo essa linha de estudo, a Organização Mundial de Saúde – OMS - 
publicou em 2002 o Relatório Mundial sobre Violência e Saúde que trouxe a 
necessidade de toda a sociedade e seus eixos político-institucionais se 
comprometerem para a erradicação das situações de violência contra crianças e 
adolescentes. Para tal, chamou a atenção para os fatores de risco mais 
prementes para sua ocorrência. 
 
NA FAMÍLIA NA COMUNIDADE/SOCIEDADE 
• Tamanho/Densidade •Leis de proteção a crianças e 
adolescentes inexistentes 
• Baixo nível socioeconômico • Valor diminuído de crianças 
• Isolamento social • Desigualdades sociais 
• Elevados níveis de estresse • Violência (guerras, taxas de 
criminalidade) 
• Histórico de violência/abuso familiar • Violência na mídia 
 • Normas culturais 
NO INDIVÍDUO NOS PAIS 
• Sexo • Jovens 
• Prematuro • Monoparentalidade 
• Gravidez indesejada • Gestação indesejada 
• Necessidades especiais • Habilidades parentais prejudicadas 
 • História de exposição à violência 
 • Abuso de substâncias 
 • Cuidado pré-natal insuficiente 
 • Doenças mentais ou físicas 
 • Problemas de relacionamento 
 
59 
Diante do exposto acima, faz-se fundamental o esforço de toda a 
sociedade civil, assim como das instituições de saúde, assistência social e 
segurança pública no sentido de promover cenários cada vez mais propícios 
para o pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes. 
 
A TRANSGERACIONALIDADE DA VIOLÊNCIA 
 
Foi possível aprender até aqui sobre os fatores individuais e sociais que 
influenciam o pleno desenvolvimento ou não de crianças e adolescentes, assim 
como os fatores de risco e proteção envolvidos para o surgimento da violência 
contra esse público. 
Neste momento será realizada uma reflexão importante sobre a 
influência da transgeracionalidade familiar das vivências de violência doméstica, 
sexual, maus tratos, etc.; ou como o processo de repetição dos padrões de 
relacionamento em sucessivas gerações impactam o modo como os sujeitos são 
tratados dentro de uma família (BELLO, 2020). 
 
Assista o vídeo: Vida de Maria 
 
Figura 14 - Vida Maria 
 
Fonte: Youtube, 2017. 
 
A transgeracionalidade da violência é facilmente vista 
quando se pergunta para o familiar que está acompanhando a 
vítima em algum serviço da Rede se eletambém já sofreu 
https://youtu.be/yFpoG_htum4
 
60 
violência daquele tipo. Nos serviços de saúde e assistência 
social utiliza-se uma ferramenta bastante interessante chamada 
genograma, através da qual se traça o mapa daquela família 
em 3 gerações, abordando seus aspectos biopsicossociais. 
 
Segue abaixo a imagem de um exemplo de genograma apresentado 
por NASCIMENTO, 2005. Nele, é possível observar os elementos gráficos que 
representam pessoas do sexo feminino e masculino, bem como mortes, 
casamentos e separações. Além dessas, outras informações podem ser 
acrescentadas como, por exemplo, quem já foi vítima de violência e de quais 
tipos. Dessa forma, os padrões de repetição são identificados e reflexões sobre 
eles podem ser iniciadas. 
Figura 15 - Genograma 
 
Fonte: NASCIMENTO (2005). 
 
Estudos mostram que a maioria das violências sexuais ou maus tratos 
contra crianças e adolescentes ocorrem dentro da família ou são perpetradas 
por pessoas conhecidas. É o que aponta o Anuário Brasileiro de Segurança 
Pública de 2022. 
Além disso, os crimes ocorrem sobretudo no ambiente doméstico. A 
caracterização do fenômeno nesses termos é essencial para que as 
políticas de prevenção da violência e de proteção às vítimas após a 
 
61 
ocorrência do fato sejam pensadas levando em consideração um 
contexto em que se trata de um crime cometido no contexto da 
família, contra quem muitas vezes ainda sequer possui condições de 
compreender e denunciar a violência sofrida. 
 
A revelação de uma violência sexual intrafamiliar costuma abalar as 
estruturas e relações anteriormente estabelecidas. A partir da notícia da 
violência, dois caminhos podem se abrir para a família: ou uma mudança ou 
uma cristalização (COSTA, 2007). 
O caminho da mudança é, de modo geral, repleto de reconhecimentos 
e sofrimento. Implica no rompimento dos segredos que as gerações carregam 
ao longo do tempo. Rompe-se também padrões de relacionamento em que a 
presença da violência tornou-se lugar comum. Mulheres e homens que 
atualmente se tornaram mães e pais acabam por perceber que estavam 
normalizando e naturalizando maneiras violentas de se relacionaram com seus 
filhos. 
A cristalização ou paralização implica na manutenção do segredo. 
Muitas vezes isso ocorre através da negação de que o fato ocorreu naquela 
família. Dessa forma, acabam afastando o olhar das instituições que muitas 
vezes ajudariam a refletir sobre os modelos sistêmicos de relações violentas. 
Infelizmente, não são incomuns notícias sobre famílias no interior do Brasil 
onde ainda se entende como “normal” o pai iniciar sexualmente suas filhas. 
Essas relações complexas exigem que o profissional atuante na 
Rede de Proteção a Crianças e Adolescentes possa ampliar sua 
capacidade de análise e olhar para esses eventos de maneira 
sistêmica e dinâmica, evitando julgamentos simplistas e 
analisando o cenário de maneira dinâmica. 
Segue abaixo um estudo de caso que ajudará a visualizar os aspectos 
teóricos acima expostos. 
ESTUDO DE CASO 
Fátima é uma mulher de 48 anos que procura o serviço de atendimento 
em saúde para seu filho Jonas de 14 anos. Ela alega que o filho revelou-lhe ter 
sofrido violência sexual por parte do irmão Francisco de 31 anos. Fátima é mãe 
também de Clóvis, de 33 anos, e Pâmela de 21 anos. Fátima nasceu no interior 
 
62 
de um estado do Nordeste do Brasil. Sofreu violência sexual aos 11 anos por 
parte do pai. Conta que o pai sempre a abordava de maneira inadequada, mas 
que apesar disso sempre foi muito amorosa com ele, pois se sentia vinculada a 
ele de maneira afetiva. 
Fátima conta que um dia sua mãe disse ao pai que fosse embora para 
outro local, pois precisava ficar na cidade para cuidar de uma das filhas de 16 
anos que se apresentava doente. Fátima desconfiava que a irmã estivesse 
grávida, pois ao despedir-se a mesma teria dito-lhe para fugir do pai. 
De fato, essa irmã estava grávida do pai. O mesmo levou Fátima para 
uma casa abandonada no meio do mato. Fátima refere que sentia muito medo, 
pois imaginava que o pai iria tentar estuprá-la como já fazia com sua irmã mais 
velha. Até que certa vez durante à noite, quando estava dormindo, acordou com 
um homem na cama esfregando a genitália em sua mão. Ela gritou e chamou o 
pai. O homem era o pai, mas ela não sabia que era ele, porque estava escuro. 
Então ele saiu e voltou, como se não fosse ele. Ela falou para ele que achava 
que estava sonhando e ficou com muito medo. Depois disso, o pai sempre a 
perseguia para fazer violência e ela tentava fugir. Ela conta que reagia para ele 
não conseguir realizar a penetração vaginal. 
A irmã de Fátima que tinha ficado na cidade com sua mãe para tratar a 
“tal doença” acabou morrendo durante o parto, assim como o bebê que 
gestava. Quando Fátima soube disso, fugiu de casa temendo que o mesmo 
acontecesse com ela. Acabou descobrindo que o pai praticava violência sexual 
com todos os 16 filhos, inclusive aqueles do sexo masculino. 
Fátima disse antes de fugir que passou a sofrer assédio de tios e amigos 
da família que acabaram por saber que o pai era abusador. Conta que ouvia 
frases como “Deixa eu tirar sua virgindade antes que seu pai tire”. 
Quando uma amiga a chamou para trabalhar em casa de família fora da 
cidade, não pensou duas vezes. Acreditou que aquela era a oportunidade para 
fugir de tantas violências. Porém, ela e a amiga haviam sido aliciadas e levadas 
para um prostíbulo. Fátima tinha 14 anos e ficou presa nessa casa e teve sua 
virgindade vendida. Depois de 6 meses naquele local, Fátima acabou 
engravidando do primeiro filho e não sabe quem é o pai do seu filho. 
Conseguiu contato com a mãe e voltou para a casa dela. Clóvis nasceu na casa 
 
63 
da mãe de Fátima e foi bem acolhido pela família, mas o pai de Fátima nunca a 
deixou em paz. Conta que ele não mais a abusava sexualmente, mas física e 
psicologicamente. 
Fátima refere que passou a sofrer assédio sexual por parte de homens 
mais velhos da cidade. Disse que vivia uma vida de medo. Todo dia que saía de 
casa achava que seria estuprada por alguém na rua. 
Aos 17 anos, conheceu Borges, ficou grávida e teve seu segundo filho, 
Francisco. O pai dela continuava a perseguindo, mas ela tentava se proteger. 
Um dia, acordou com o pai tentando estuprá-la e decidiu ir embora. Então 
Fátima foi para Brasília para trabalhar em casa de família e deixou os dois filhos 
com a mãe. 
Na capital do país ficou trabalhando em casa de família até que aos 19 
anos conheceu Elias. Refere que ele não tinha família, pois havia sido criado em 
um orfanato, mas que ele era um homem trabalhador, apesar de ser usuário 
abusivo de álcool. 
Quando se casou com Elias, decidiu voltar para o Nordeste para pegar 
os dois filhos que havia deixado com sua mãe, porém descobriu que seu pai 
também tinha estuprado seus dois filhos. Elias entrou com um processo judicial 
para adotar as crianças. Posteriormente, tiveram mais dois filhos: Pâmela e 
Jonas. 
Elias piorou o uso de álcool e praticava violência psicológica com 
Fátima e com os filhos. Ela sofreu muito com ele, mas tentou manter o 
casamento por causa da família. Ficou casada com ele por 27 anos e o ajuda até 
hoje por pena e gratidão. 
Relata que nunca fez tratamento de Saúde Mental. Tem muito 
sofrimento, mas consegue manter a fé e o pensamento positivo. Gosta de orar, 
de se arrumar e de se cuidar para ficar bem. Faz artesanato e tem um sonho de 
viver de sua arte: “Tudo que tenho de ruim, coloco para fora fazendo coisas 
boas e bonitas”. 
A violência segue ocorrendo de forma transgeracional nessa família: 
O filho Clóvis de 33 anos sofreu violência sexual do avô materno, é 
dependente químico e está morando na rua. Fátima refere que já o levou para 
 
64 
tratamento diversas vezes, mas que ele sempre volta a usar drogas fazendo 
furtos para sustentar o vício. 
O filho Francisco de 31 anos éportador de esquizofrenia. Sofreu 
violência sexual do avô materno e reproduziu a violência com seu irmão, Jonas 
de 14 anos. Mora com a esposa em outra casa. 
A filha Pâmela, de 21 anos, tem depressão e Transtorno de 
Personalidade Borderline. Faz tratamento no CAPS. Sofreu violência sexual do 
irmão Clóvis. Cursa faculdade de Pedagogia. Tem humor instável. 
Jonas, o filho mais novo de 14 anos sofreu violência sexual do irmão 
Francisco, ele pegou em suas partes íntimas. Também sofreu violência sexual 
por parte de uma cuidadora quando tinha 1 ano. Na época, Fátima pegou o 
filho e viu que ele estava com a genitália sangrando. Atualmente, Jonas não 
consegue ir para a escola, pois está com muitos problemas psicológicos. 
Fátima conta toda essa história com muito choro, porém com aspectos 
surpreendentes de resiliência, acredita que tudo ficará bem. 
ANÁLISE DO CASO 
Fátima nasceu em uma família em que o abuso sexual contra os filhos é 
algo naturalizado. Seu pai acreditava que era seu direito iniciar os filhos 
sexualmente. O microssistema familiar está altamente contaminado por uma 
cultura de violência. 
Quando os homens da cidade compreenderam que o pai de Fátima foi 
o responsável pelo estupro de sua filha, passaram a assediá-la no caminho para 
a escola fazendo-lhe propostas sexuais, ou seja, o microssistema comunidade 
também legitimava a violência e Fátima ficou sem recursos de proteção. 
Os ecossistemas que circulavam Fátima também foram desprotetivos. O 
Conselho Tutelar, o hospital da cidade onde a irmã de Fátima teve o bebê, a 
escola, etc. Nenhuma dessas instituições encaminhou denúncia aos órgãos de 
justiça ou segurança pública. O que contribuiu para a violência se perpetuar ao 
longo dos anos. 
O pai de Fátima também praticava violência física e psicológica com sua 
mãe. Fátima nomeia a mãe como uma mulher guerreira e forte. Esse é um 
discurso bastante comum no que se refere a mulheres vítimas de violência. Elas 
 
65 
ganham um status de mulheres fortes que conseguiram superar o desafio. Isso 
é bastante prejudicial para a compreensão da posição de vítima na história. 
No que se refere à transgeracionalidade, é possível identificar como o 
fenômeno da violência se repete nessa família ao longo das gerações. O pai de 
Fátima cometia violência contra as filhas e netos e esses netos reproduziram a 
violência contra seus próprios irmãos. Fátima não fala do seguimento da vida 
dos seus irmãos, conta apenas que todos os 16 filhos afirmaram ter vivido 
violência sexual, física e emocional por parte do pai. 
Todos os filhos de Fátima apresentam transtornos mentais: o que é 
bastante comum em vítimas de violência. Isto mostra que proteger crianças e 
adolescentes de uma vida de violência é, além de um problema de segurança 
pública, também uma questão de saúde pública, como bem aponta o relatório 
sobre violência e saúde da OMS (2002). 
É preciso haver um esforço conjunto tanto das instituições públicas 
quanto da sociedade civil para que casos como o de Fátima e sua família 
deixem de existir. Assim, crianças e adolescentes têm seus direitos preservados 
e seu desenvolvimento saudável garantido. 
 
Aula 3: Consequências psicopatológicas da vivência de 
violência 
 
A infância é um período crítico de desenvolvimento, sendo, por isso, 
fundamental compreender a influência que as experiências vividas nesta idade 
podem ter na estrutura psicológica. Viver experiências violentas nessa fase 
podem produzir efeitos patológicos tanto a curto como a longo prazo. 
Diversos estudos apontam para a importância da preservação 
dos cuidados físicos e mentais na primeira infância. Está claro 
que esse é o período da vida no qual se forma não só conexões 
neurais fundamentais para o pleno funcionamento do 
organismo como também a base de crenças a respeito de si e 
do mundo. Quando crianças em tenra idade passam por 
situações de privação material e afetiva, infere-se que 
consequências psicopatológicas surgirão. 
 
66 
Segundo BORDIN, 2007, existem 4 tipos fundamentais de fatores de 
risco que influenciam no surgimento de problemas de saúde mental em 
crianças e adolescentes. São eles: 
Figura16 - Fatores de risco 
 
Fonte: JOTA, 2022. 
Os fatores biológicos estão relacionados a anormalidades do sistema 
nervoso central, causadas por lesões, infecções, desnutrição. 
Os fatores genéticos são aqueles passados de geração em geração, 
por exemplo: a tendência à depressão e à esquizofrenia. 
Os fatores psicossociais são aqueles ligados a disfunções na vida 
familiar, conflitos conjugais, doença mental materna ou paterna, criminalidade 
dos pais, falta de laços afetivos entre pais e filhos; eventos traumáticos ao longo 
da vida, como: maus-tratos, negligência, abandono e violência sexual. 
Por fim, os fatores ambientais são aqueles relacionados a 
comunidades caóticas. 
Dessa maneira, é possível perceber que a vivência da violência é um 
dos fatores que influenciam no surgimento de doenças mentais em crianças 
e adolescentes. Infelizmente, o que chega de forma comum aos serviços da 
Rede são indivíduos que, além da violência, trazem os demais fatores de risco 
associados. 
 
67 
Além disso, na maioria dos casos de crianças violentadas, ocorre um 
lapso de tempo entre a ocorrência da violência, a revelação e o recebimento do 
atendimento psicossocial devido. Tudo isso aumenta a possibilidade de 
instalação e cronificação de quadros psicopatológicos. Outro fator agravante é 
a quantidade de vezes a que uma criança ou adolescente é submetido a uma 
situação violenta. A repetição do evento contribui de forma proporcional ao 
agravamento do estado psicológico. 
Esses intervalos de tempo são suficientes também para causar 
movimentos nem sempre sadios dentro da família. Como dito anteriormente, a 
cristalização diante da revelação da violência pode gerar, inclusive, a 
continuação do fenômeno dentro da família ou da comunidade. Dessa forma, a 
atitude da família diante da revelação da violência pela criança ou adolescente 
também influenciarão no agravamento ou arrefecimento de um processo 
psicopatológico. 
COSTA, 2018, explica de forma detalhada os três momentos do 
processo de revelação da violência sofrida por crianças e adolescentes. 
 
68 
Figura 17 - Processo de revelação 
 
Fonte: JOTA, 2022. 
É possível inferir então que a revelação é um processo. Logo, é possível 
que ao contar sobre o ocorrido, a vítima não apresente tudo de uma vez. Ela 
pode ir testando o ambiente para saber se, de fato, será acolhida ou julgada. 
A revelação do abuso sexual é um momento crucial para a vítima, pois 
pode gerar revitimizações caso os adultos não acreditem em seu 
relato e tomem as medidas protetivas cabíveis. A rede de apoio social 
e afetiva da criança pode minimizar ou potencializar os danos do 
abuso sexual no momento em que a criança consegue romper o 
segredo e revelar a violência. Tal rede é compreendida como o 
conjunto de sistemas e de pessoas significativas (estrutura) que 
compõem os relacionamentos existentes e percebidos pela criança, e 
que podem atuar no sentido de efetivamente protegê-la (função). 
(HABIGZANG, 2011). 
Essa grande Rede formada principalmente pela família, escola, 
comunidade, Conselho Tutelar, Delegacia, Órgãos da Justiça dentre outros, vai 
ajudar a vítima ou testemunha a nomearem de forma correta o que viveram e, 
• Vivências de 
fantasias.
• Sentimentos e 
expectativas quanto 
às consequências da 
revelação.
• Julgamento com 
relação ao que viveu 
com o abusador.
• Reflexões sobre não 
ter conseguido dizer 
não e aos 
significados que 
atribui a isso.
• Avaliação sobre os 
sentimentos e 
sensações boas ou 
ruins vivenciados na 
situação do abuso 
sexual.
PRÉ
REVELAÇÃO
• Decisão de 
como e para 
quem contar.
• A vítima 
escolhe 
alguém de sua 
confiança, 
estabelecendo 
com esta 
pessoa um 
sentimento de 
proximidade. 
REVELAÇÃO
• À medidaque a 
narrativa da vítima se 
torna pública, 
surgem os 
desdobramentos que 
podem ajudar ou 
atrapalhar o 
processo que se 
segue, mobilizando o 
aparecimento de 
crises na família 
nuclear e extensa.
REPERCUSSÕES
DA REVELAÇÃO
 
69 
assim, ressignificarem a experiência, saindo do lugar de culpada que muitos 
ofensores a colocam. 
A menina, ou a mulher, como culpada da violência que viveram 
corresponde a um princípio sustentado pela sociedade machista. No discurso 
do ofensor, muitas vezes, a vítima aparece como “provocadora”, “sedutora” e o 
perpetrador da violência como “homem que tem a carne fraca”, “aquele que 
não conseguiu resistir”. Os órgãos de atenção a pessoas em situação de 
violência precisam estar atentos e cumprirem seu papel de orientação e 
proteção, mas também de rompedores de estatutos patriarcais que aprisionam 
mulheres e crianças no lugar de objeto e não de sujeitos. 
Outra forma de compreender tais interações é acusar o objeto de 
desejo de uma provocação exagerada, de maneira que tanto a postura 
de sedução como a falta de cuidado em esconder o corpo seriam 
motivos para que o polo ativo sentisse desejo e, com ele, uma 
necessidade incorrigível de “aliviá-lo”. Trata-se de uma lógica que 
animaliza os homens que simbolicamente ocupam esse polo ativo 
(ENGELS, 2017) 
Se estamos falando de crianças e adolescentes, é preciso compreender 
que as interações com os adultos precisam ser no âmbito do respeito pela sua 
condição de sujeito em desenvolvimento. Isso quer dizer que, mesmo que uma 
criança ou adolescente apresentem atitudes sexualizadas, cabe ao adulto 
convocar os responsáveis por aquele sujeito e apontar que algo ali não vai bem 
e adotar atitudes protetivas. Até porque, a hiperssexualização é reconhecido 
como um sintoma de vivência de violência sexual prévia. 
Apesar de muitos autores apontarem para consequências comuns a 
vítimas de violência sexual, não existe uma categoria clínica chamada” síndrome 
da criança abusada”. Isso significa que é preciso fazer uma análise ampla de 
cada situação para compreender se aqueles sintomas presentes indicam 
conjuntamente que uma criança ou adolescente foi abusada. 
SERAFIM, 2011 avaliou 205 crianças e adolescentes com idade entre 6 e 
14 anos, sendo 130 meninas e 75 meninos vítimas de abuso sexual. Eles 
passaram por avaliação psicológica e psiquiátrica individual no período de 2005 
a 2009 e os principais sentimentos, sintomas e condições psiquiátricas 
encontradas foram as seguintes. 
 
 
70 
Figura 18 - Sentimentos mais comuns após vivência de violência sexual 
 
Fonte: JOTA, 2022. 
 
Figura 19 - Aspectos comportamentais mais comuns após vivência de violência sexual 
 
 
Fonte: JOTA, 2022. 
 
77%
sentem culpa
64%
vergonha
61%
 medo
59%
insegurança
MENINOS
33%
Isolamento
2%
Comportamento 
erotizado
41%
Retraimento 
perante a figura 
masculina
18%
Agressividade
 
71 
Figura 20 - Comportamentos mais comuns em meninas após vivência de violência sexual 
 
Fonte: JOTA, 2022. 
Nesse sentido, é possível perceber que meninas e meninos costumam 
apresentar reações distintas. Meninos se isolam mais e meninas se erotizam 
mais após vivência de violência sexual. Tal fato é concernente a aspectos 
culturais que, infelizmente, ainda vigoram na sociedade no que se refere ao 
papel da menina - como trabalhado anteriormente. 
O mesmo autor apresenta dados para os quadros psicopatológicos 
mais encontrados em vítimas de violência sexual. No caso das meninas, 59,2% 
apresentaram depressão e 36,1% apresentaram TEPT (Transtorno de Estresse 
Pós-Traumático). Já com os meninos, 38,6% tiveram quadros depressivos e 
29,3% apresentaram TEPT. 
Ademais, resta evidente que esses não são os únicos quadros 
encontrados na prática clínica com vítimas e testemunhas de violência. 
Principalmente no que se refere a crianças e adolescentes, têm crescido 
fortemente os quadros ansiosos com presença de automutilação e tentativas de 
suicídio. Para que melhor se compreenda quais são os sintomas mais comuns 
desses quadros psicopatológicos, seguem abaixo informações sobre os critérios 
MENINAS
15%
Isolamento
23%
Comportamento 
erotizado
33%
Retraimento 
perante a figura 
masculina
12%
Agressividade
 
72 
clínicos de cada transtorno apontado pelo DSM 5 (Manual diagnóstico e 
estatístico de transtornos mentais). 
 
TRANSTORNO DEPRESSIVO MAIOR 
Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme indicado por 
relato subjetivo (p. ex., sente-se triste, vazio, sem esperança) ou por observação feita 
por outras pessoas (p. ex., parece choroso). (Nota: Em crianças e adolescentes, pode 
ser humor irritável.) 
Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades 
na maior parte do dia, quase todos os dias (indicada por relato subjetivo ou 
observação feita por outras pessoas). 
Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (p. ex., uma alteração 
de mais de 5% do peso corporal em um mês), ou redução ou aumento do apetite 
quase todos os dias. (Nota: Em crianças, considerar o insucesso em obter o ganho de 
peso esperado.) 
Insônia ou hipersonia quase todos os dias. 
Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observáveis por outras 
pessoas, não meramente sensações subjetivas de inquietação ou de estar mais 
lento). 
Fadiga ou perda de energia quase todos os dias. 
Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser 
delirantes) quase todos os dias (não meramente autorrecriminação ou culpa por 
estar doente). 
Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os 
dias (por relato subjetivo ou observação feita por outras pessoas). 
Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida 
recorrente sem um plano específico, uma tentativa de suicídio ou plano específico 
para cometer suicídio 
 
TRANSTORNO DE PÂNICO 
Ataques de pânico recorrentes e inesperados. Um ataque de pânico é um surto 
abrupto de medo intenso ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos e 
durante o qual ocorrem quatro (ou mais) dos seguintes sintomas: 
1. Palpitações, coração acelerado, taquicardia. 
2. Sudorese. 
 
73 
3. Tremores ou abalos. 
4. Sensações de falta de ar ou sufocamento. 
5. Sensações de asfixia. 
6. Dor ou desconforto torácico. 
7. Náusea ou desconforto abdominal. 
8. Sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio. 
9. Calafrios ou ondas de calor. 
10. Parestesias (anestesia ou sensações de formigamento). 
11. Desrealização (sensações de irrealidade) ou despersonalização (sensação de estar 
distanciado de si mesmo). 
12. Medo de perder o controle ou “enlouquecer”. Nota: Podem ser vistos sintomas 
específicos da cultura (p. ex.: tinido, dor na nuca, cefaleia, gritos ou choro 
incontrolável). 
13. Medo de morrer. 
 
TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO 
* Critérios diagnósticos para pessoas acima de 6 anos de idade 
A. Exposição a episódio concreto ou ameaça de morte, lesão grave ou violência 
sexual em uma (ou mais) das seguintes formas: 
 
1. Vivenciar diretamente o evento traumático. 
2. Testemunhar pessoalmente o evento traumático ocorrido com outras pessoas. 
3. Saber que o evento traumático ocorreu com familiar ou amigo próximo. Nos casos 
de episódio concreto ou ameaça de morte envolvendo um familiar ou amigo, é preciso 
que o evento tenha sido violento ou acidental. 
4. Ser exposto de forma repetida ou extrema a detalhes aversivos do evento traumático 
(p. ex., socorristas que recolhem restos de corpos humanos; policiais repetidamente 
expostos a detalhes de abuso infantil). 
 
Nota: O Critério A4 não se aplica à exposição por meio de mídia eletrônica, televisão, 
filmes ou fotografias, a menos que tal exposição esteja relacionada ao trabalho. 
 
B. Presença de um (ou mais) dos seguintes sintomas intrusivos associados ao 
evento traumático,começando depois de sua ocorrência: 
 
 
74 
1. Lembranças intrusivas angustiantes, recorrentes e involuntárias do evento 
traumático. 
Nota: Em crianças acima de 6 anos de idade, pode ocorrer brincadeira repetitiva na 
qual temas ou aspectos do evento traumático são expressos. 
2. Sonhos angustiantes recorrentes nos quais o conteúdo e/ou o sentimento do sonho 
estão relacionados ao evento traumático. Nota: Em crianças, pode haver pesadelos sem 
conteúdo identificável. 
3. Reações dissociativas (p. ex.: flashbacks) nas quais o indivíduo sente ou age como se 
o evento traumático estivesse ocorrendo novamente. (Essas reações podem ocorrer em 
um continuum, com a expressão mais extrema na forma de uma perda completa de 
percepção do ambiente ao redor). Nota: Em crianças, a reencenação específica do 
trauma pode ocorrer na brincadeira. 
4. Sofrimento psicológico intenso ou prolongado ante a exposição a sinais internos ou 
externos que simbolizem ou se assemelhem a algum aspecto do evento traumático. 
5. Reações fisiológicas intensas a sinais internos ou externos que simbolizem ou se 
assemelhem a algum aspecto do evento traumático. 
 
C. Evitação persistente de estímulos associados ao evento traumático, começando 
após a ocorrência do evento, conforme evidenciado por um ou ambos dos 
seguintes aspectos: 
 
1. Evitação ou esforços para evitar recordações, pensamentos ou sentimentos 
angustiantes acerca de ou associados de perto ao evento traumático. 
2. Evitação ou esforços para evitar lembranças externas (pessoas, lugares, conversas, 
atividades, objetos, situações) que despertem recordações, pensamentos ou 
sentimentos angustiantes acerca de ou associados de perto ao evento traumático. 
 
D. Alterações negativas em cognições e no humor associadas ao evento 
traumático começando ou piorando depois da ocorrência de tal evento, conforme 
evidenciado por dois (ou mais) dos seguintes aspectos: 
 
1. Incapacidade de recordar algum aspecto importante do acontecimento traumático 
(geralmente devido a amnésia dissociativa, e não a outros fatores, como traumatismo 
craniano, álcool ou drogas). 
2. Crenças ou expectativas negativas persistentes e exageradas a respeito de si mesmo, 
dos outros e do mundo (p. ex.: “Sou mau”, “Não se deve confiar em ninguém”, “O 
 
75 
mundo é perigoso”, “Todo o meu sistema nervoso está arruinado para sempre”). 
3. Cognições distorcidas persistentes a respeito da causa ou das consequências do 
evento traumático que levam o indivíduo a culpar a si mesmo ou os outros. 
4. Estado emocional negativo persistente (p. ex.: medo, pavor, raiva, culpa ou 
vergonha). 
5. Interesse ou participação bastante diminuída em atividades significativas. 
6. Sentimentos de distanciamento e alienação em relação aos outros. 
7. Incapacidade persistente de sentir emoções positivas (p. ex.: incapacidade de 
vivenciar sentimentos de felicidade, satisfação ou amor). 
E. Alterações marcantes na excitação e na reatividade associadas ao evento 
traumático, começando ou piorando após o evento, conforme evidenciado por 
dois (ou mais) dos seguintes aspectos: 
 
1. Comportamento irritadiço e surtos de raiva (com pouca ou nenhuma provocação) 
geralmente expressos sob a forma de agressão verbal ou física em relação a pessoas e 
objetos. 
2. Comportamento imprudente ou autodestrutivo. 
3. Hipervigilância. 
4. Resposta de sobressalto exagerada. 
5. Problemas de concentração. 
6. Perturbação do sono (p. ex.: dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou sono 
agitado). 
 
F. A perturbação (Critérios B, C, D e E) dura mais de um mês. 
 
G. A perturbação causa sofrimento clinicamente significativo e prejuízo social, 
profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. 
 
H. A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex.: 
medicamento, álcool) ou a outra condição médica. 
 
Os quadros psicopatológicos apresentados aqui são os mais 
comumente encontrados em vítimas ou testemunhas de violência. Os critérios 
diagnósticos do Transtorno de Estresse Pós-traumático especialmente, 
fornecem indícios fundamentais para forças policiais identificarem nas 
 
76 
entrevistas com esse público. Porém, é mister salientar que não existe a 
síndrome da criança abusada. Ou seja, nem todas as vítimas apresentam esses 
sintomas, assim como nem todas desenvolverão transtornos psiquiátricos. 
O esforço empreendido nesta capacitação tem como objetivo a 
ampliação do olhar sobre a vítima e sobre a dinâmica da violência. Inúmeros 
fatores aqui apresentados no que se refere a risco e proteção de crianças e 
adolescentes fortalecerão ou diminuirão as chances de um quadro 
psicopatológico ser instalado. Todos os profissionais da Rede precisam ter 
conhecimento da temática para que proceda aos encaminhamentos necessários 
após a entrevista realizada. O trabalho não se esgota com o depoimento 
especial. Aquele ser humano em desenvolvimento precisa ter apoio para 
reestabelecer o curso saudável de sua história de vida. 
 
Finalizando 
 
Neste módulo você aprendeu que: 
• É preciso compreender de forma integral quais são aspectos do 
desenvolvimento humano que influenciam na escuta policial de crianças 
e adolescentes. 
• Esse público está em processo de desenvolvimento e que cada fase 
aponta para os limites e possibilidades no que se refere à memória e à 
linguagem. 
• A ecologia social de Bronfenbrenner considera que crianças e 
adolescentes crescem em um ambiente social complexo, que influencia 
seu desenvolvimento, bem como as experiências positivas e negativas 
que vão surgir em suas vidas. 
• A OMS elenca fatores de risco e proteção para o surgimento de situações 
de violação de direitos e que elas precisam ser levadas em consideração 
quando do atendimento de uma vítima ou testemunha de violência. 
• A violência é um fenômeno transgeracional que atravessa as famílias 
pelos padrões culturais violadores; a normalização de situações de 
 
77 
violência dentro de uma família pode protelar o reconhecimento por 
parte da vítima de que está vivendo uma situação como tal. 
• A revelação de uma violência é um processo e costuma abalar as 
estruturas e relações anteriormente estabelecidas podendo influenciar 
no depoimento especial. Ela ocorre em 3 momentos: pré revelação, 
revelação e repercussões da revelação. 
• Os principais sentimentos após a vivência da violência são: culpa, medo, 
vergonha e insegurança. Além disso, crianças e adolescentes costumam 
se isolar socialmente, apresentam agressividade, comportamento 
erotizado e retraimento perante a figura masculina. 
• Os principais fatores que influenciam no surgimento de um adoecimento 
mental são os biológicos, genéticos, psicossociais e ambientais. A 
violência se encaixa tanto no ambiente quanto no psicossocial. 
• A vivência de situações de violência pode gerar consequências 
psicopatológicas. Os quadros mais comuns são os depressivos, ansiosos 
e TEPT. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
78 
Módulo 3 – Da atuação policial na proteção da criança e 
ao adolescente vítima ou testemunha de crime 
I 
Apresentação do módulo 
 
Neste módulo iremos estudar alguns aspectos do atendimento policial 
no combate aos crimes praticados contra crianças e adolescentes, desde o 
momento do acionamento policial, passando pelo registro de ocorrência 
policial e durante todo o curso das diligências investigativas, bem como 
veremos providências de proteção que podem ser adotadas pelos profissionais 
integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Por fim, entender a 
importância de um trabalho em rede com a finalidade de prover todos os 
direitos e garantias que crianças e adolescentes possuem. 
 
Objetivos do módulo 
 
Este módulo tem por objetivos: 
• Conhecer as atribuições legais e peculiaridades do atendimento policial 
no combate aos crimes cometidos contra crianças e adolescentes;a defesa dos direitos de crianças e adolescentes dentro da 
sua circunscrição. 
 
Desejamos-lhe um excelente estudo! 
 
1 Fonte: Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social. Acesso em 02/11/2022. 
Disponível: https://www.gov.br/mj/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/categorias-de-
publicacoes/planos/plano_nac-_de_seguranca_publica_e_def-_soc-_2021___2030.pdf 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13431.htm
https://www.gov.br/mj/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/categorias-de-publicacoes/planos/plano_nac-_de_seguranca_publica_e_def-_soc-_2021___2030.pdf
https://www.gov.br/mj/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/categorias-de-publicacoes/planos/plano_nac-_de_seguranca_publica_e_def-_soc-_2021___2030.pdf
 
5 
Objetivos do Curso 
 
Objetivo Geral 
Capacitar os integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), 
especificamente policiais civis e militares, para adquirirem os conhecimentos 
necessários com vistas a desenvolver e apoiar ações articuladas destinadas à 
prevenção e à repressão à violência e à criminalidade relacionadas às crianças e 
aos adolescentes – oferecendo um serviço público de qualidade e pautado na 
legislação vigente. 
 
Objetivos Específicos 
 
▪ Conhecer os aspectos legais dos crimes relacionados às diversas 
violências cometidas ou testemunhadas por crianças e adolescentes; 
▪ Entender o que é violência contra crianças e adolescentes e como 
determinadas crenças podem perpetuar esse cenário de violência; 
▪ Estimular a atuação operacional integrada com as demais instituições 
componentes da rede no enfrentamento (combate e prevenção) à 
violência contra crianças e adolescentes; 
▪ Conhecer os aspectos do desenvolvimento humano aplicados ao 
atendimento especializado a crianças e adolescentes; 
▪ Compreender os instrumentos legais de escuta protegida; 
▪ Aplicar os conceitos vistos contra a violência, em defesa a crianças e 
adolescentes nas rotinas de segurança pública; 
▪ Valorizar os direitos das crianças e adolescentes; 
▪ Promover a conscientização da necessidade de uma atuação policial 
direcionada ao atendimento qualificado atento ao princípio da dignidade 
humana; 
▪ Fomentar a integração das forças de segurança para o enfrentamento em 
rede da violência contra as crianças e adolescentes em âmbito local. 
 
6 
Estrutura do Curso 
 
Este curso possui 40 horas e compreende os seguintes módulos: 
Módulo 1 - Aspectos legais dos crimes e do atendimento à criança e ao 
adolescente vítima ou testemunha de crime 
Módulo 2 - Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil e os efeitos da 
violência 
Módulo 3 - Da atuação policial na proteção de crianças e adolescentes 
Módulo 4 - A escuta protegida 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
7 
Módulo 1 - Aspectos legais dos crimes e do 
atendimento à criança e ao adolescente vítima ou 
testemunha de crime 
 
Apresentação do módulo 
 
Nesse módulo vamos abordar como e onde estão estruturados os crimes 
que têm como vítima, especificamente, crianças e adolescentes. A partir da 
identificação dessas infrações, entenderemos um pouco mais sobre a 
especificidade da colheita da prova durante a investigação policial. Por fim, 
estudaremos as Leis nº 13.431/2017 e 14.344/2022 e os principais aspectos 
práticos para a atividade policial. 
 
Objetivos do módulo 
 
Este módulo tem por objetivos: 
• Identificar crimes de maior complexidade cometidos contra crianças e 
adolescentes; 
• Analisar as diversas formas de colheita de provas em sede de 
investigação policial; 
• Compreender o papel do Depoimento Especial como instrumento de 
colheita de prova; 
• Identificar e aplicar instrumentos protetivos diversos contidos na 
legislação que regula o sistema de garantia de direitos à criança e ao 
adolescente. 
 
 
 
 
 
 
8 
Estrutura do módulo 
 
Este módulo compreende as seguintes aulas: 
 
Aula 1 - Microssistema Legal no combate aos crimes contra criança e 
adolescente – Estatuto da Criança e do Adolescente, Código Penal, Lei da Escuta 
Protegida e Lei Henry Borel 
Aula 2 - Legislação criminal: dos crimes contidos no Código Penal, no Estatuto 
da Criança e do Adolescente e em demais legislações 
Aula 3 - Noções gerais sobre a colheita da prova nos crimes em espécie 
Aula 4 – O Depoimento Especial como instrumento de coleta de prova e a 
investigação de crimes sexuais 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
9 
Aula 1 – Microssistema legal no combate aos crimes 
contra criança e adolescente – Estatuto da Criança e do 
Adolescente, Código Penal, Lei da Escuta Protegida e 
Lei Henry Borel 
 
 Ao iniciar o aprendizado sobre o tema de violência contra criança e 
adolescente, os profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança 
Pública (Susp) devem compreender que atualmente esse enfrentamento deve 
ser feito sob a ótica de quatro principais leis que vão estruturar não somente a 
proteção a esse público vulnerável, como também fornecerão importantes 
balizas para nortear a atuação policial. O código Penal, o Estatuto da Criança e 
do Adolescente, a Lei nº 13431/17 e seu Decreto regulamentador nº 9603/18 e 
a Lei nº 14344/22 perfazem hoje a base dessa atuação, tanto em termos 
protetivos quanto repressivos. Há ainda que se fazer referência à possibilidade 
de utilização da Lei Maria da Penha, a depender do caso concreto, diante de 
algumas divergências sobre a competência entre o juízo da vara comum e o 
juízo dos Juizados de Violência doméstica. 
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é, dentre esses 
instrumentos legislativos, o mais amplo, abordando além de 
crimes específicos, dentre eles os relacionados com a 
pornografia infantojuvenil, também diretrizes protetivas e 
preventivas ao trazer à baila o denominado Princípio da 
Proteção Integral. Basicamente, a doutrina jurídica da proteção 
integral adotada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente 
assenta-se em três pilares a saber: 
a) criança e adolescente como sujeitos de direito, deixando de 
ser objetos passivos para se tornarem titulares de direitos; 
b) destinatários de absoluta prioridade; 
c) condição peculiar de pessoa em desenvolvimento2. 
 
2https://crianca.mppr.mp.br/pagina-
1222.html#:~:text=Doutrina%20da%20Prote%C3%A7%C3%A3o%20Integral%3A%20representa,
aprovada%20pela%20Assembl%C3%A9ia%20Geral%20dasAcesso em 10/10/2022 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/decreto/d9603.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/L14344.htm
https://crianca.mppr.mp.br/pagina-1222.html#:~:text=Doutrina%20da%20Prote%C3%A7%C3%A3o%20Integral%3A%20representa,aprovada%20pela%20Assembl%C3%A9ia%20Geral%20das
https://crianca.mppr.mp.br/pagina-1222.html#:~:text=Doutrina%20da%20Prote%C3%A7%C3%A3o%20Integral%3A%20representa,aprovada%20pela%20Assembl%C3%A9ia%20Geral%20das
https://crianca.mppr.mp.br/pagina-1222.html#:~:text=Doutrina%20da%20Prote%C3%A7%C3%A3o%20Integral%3A%20representa,aprovada%20pela%20Assembl%C3%A9ia%20Geral%20das
 
10 
Nessa esteira de proteção e prevenção, o Estatuto traz núcleos 
destinados aos profissionais de segurança pública apregoando, por exemplo, a 
necessidade de capacitação policial continuada, em seu art. 70-A, IX, que os 
órgãos policiais não devem identificar criminalmente o adolescente que possua 
identificação civil Ademais, o art. 109 explica que é vedada a divulgação de atos 
policiais que digam respeito a esse público, art. 143 e, por fim, há a previsão de 
infiltração policial virtual nos crimes sexuais, conforme art. 190 A-E. 
Um ponto que chama a atenção é que no ano de 1990, data em que o 
Estatuto foi promulgado, já se falava em capacitação profissional continuada de 
todos• Entender o Registro de Ocorrência Policial como marco inicial de colheita 
da prova e conhecer dispositivos legais que regulam esse ato policial; 
• Compreender o papel de proteção, para além da responsabilização 
penal, que deve ser exercido pelo profissional integrante do Sistema 
Único de Saúde; 
• Conhecer a importância da rede que integra o sistema de garantia de 
direitos de crianças e adolescentes; 
• Saber como atuar em conjunto com os demais órgãos da rede de 
proteção. 
 
 
 
 
79 
Estrutura do módulo 
 
Este módulo compreende as seguintes aulas: 
Aula 1 – O atendimento policial e suas atribuições legais 
Aula 2 – O registro da ocorrência policial 
Aula 3 – Os aspectos gerais de proteção e a atividade policial 
Aula 4 – A importância da rede na atenção às pessoas em situação de violência. 
O trabalho interdisciplinar. Elos ligados. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
80 
Aula 1 – O Atendimento Policial e suas atribuições 
legais 
 
Inicialmente, é importante ressaltar que o atendimento policial, assim 
como qualquer prestação de serviço, precisa ser feito com qualidade. 
Entretanto, isso só será atingido se observados requisitos gerais e específicos. 
No primeiro caso, como requisitos gerais estão aqueles relacionados à forma 
como o policial se relaciona com o outro, ou seja, suas relações interpessoais, a 
forma adequada de se comunicar, sem ruídos ou barreiras, a capacidade do 
policial em promover uma escuta empática e a sua motivação para o trabalho. 
Já os requisitos específicos estão relacionados com a ocupação de cargo 
público, com as funções inerentes ao agente do Estado e as regras e os 
normativos a que estão submetidos. 
 
1. Requisitos gerais do atendimento policial 
 
Nestes requisitos estão envolvidas habilidades emocionais que, por 
vezes, possuímos de forma natural e, em outros casos, precisamos desenvolvê-
las. Conforme dito anteriormente, alguns pontos são estruturantes na 
prestação de um serviço de qualidade, até mesmo se analisarmos sob a ótica da 
iniciativa privada. Estar motivado ou não para o trabalho, ou a forma como ele 
lida com o outro e até consigo mesmo, podem interferir no atendimento 
policial. Sem a pretensão de nos aprofundarmos nesses temas, vamos fazer 
uma rápida abordagem sobre alguns aspectos principais, dentre os quais: 
 
a) Comunicação adequada e sem barreiras: 
A comunicação nada mais é do que a ação ou efeito de se comunicar, 
de receber ou transmitir informações e ideias, podendo ser escrita, verbal ou 
não verbal11.Por meio da comunicação é que efetuamos todo e qualquer 
atendimento, daí a razão de nos debruçarmos, ainda que brevemente, sobre ela. 
De forma geral, existem algumas barreiras, tecnicamente chamadas de barreiras 
 
11https://www.dicio.com.br/comunicacao/Acesso em 14/10/2022 
https://www.dicio.com.br/comunicacao/
 
81 
do emissor12 que podem impedir a comunicação adequada, afetando assim a 
qualidade no atendimento. Dentre elas, podemos citar o uso de linguagem 
inadequada, o tom de voz, características pessoais como timidez e impaciência, 
escolha do momento impróprio para efetuar a comunicação e suposição de que 
o receptor já domina o assunto. Todos esses aspectos, quando não observados, 
podem gerar um atendimento truncado, resvalando na má qualidade da 
prestação dos serviços. 
Acompanhe comigo esse vídeo que mostra uma boa síntese do que é a 
comunicação e os diversos aspectos que podem influenciá-la, como nossos 
gestos e tom de voz. 
Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=C46FsySwXGs 
 
Figura 21 - Comunicação humana 
 
Fonte: Youtube, 2018. 
 
 
 
 
12 KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Comunicação organizacional: conceitos e dimensões dos 
estudos e das práticas: Faces da cultura e da comunicação organizacional. São Caetano do Sul: 
Difusão Editora, 2006 em https://repositorio.usp.br/directbitstream/739d6a63-fa14-4d6f-a0f0-
6d487377d15f/AlineFernandaTrindadedosSantos%20-%20PI.pdfAcesso em 14/10/2022 
https://www.youtube.com/watch?v=C46FsySwXGs
https://repositorio.usp.br/directbitstream/739d6a63-fa14-4d6f-a0f0-6d487377d15f/AlineFernandaTrindadedosSantos%20-%20PI.pdf
https://repositorio.usp.br/directbitstream/739d6a63-fa14-4d6f-a0f0-6d487377d15f/AlineFernandaTrindadedosSantos%20-%20PI.pdf
https://www.youtube.com/embed/C46FsySwXGs?feature=oembed
 
82 
b) A escuta empática: 
Um outro elemento que afeta a qualidade do atendimento a ser 
prestado é a capacidade de realizar uma escuta empática, conceito 
desenvolvido por CARL ROGERS (2009), pesquisador e psicólogo clínico da 
abordagem centrada no cliente. A escuta empática se refere à capacidade de 
nos colocar no lugar da outra pessoa13. Assim, quando o policial efetua o 
atendimento ao cidadão, ele deve ser capaz de ouvi-lo com atenção, deixando-
o seguro de que está sendo ouvido, oferecendo conforto e solução ou resposta 
adequada. 
Vamos comigo novamente conhecer um pouco mais sobre a escuta 
empática por meio desse vídeo: 
Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=SobADwQ5lA4 
 
Figura 22 - Escuta empática 
 
Fonte: Youtube, 2021. 
 
 
13 COSTA, Sandra Garcia. A construção da identidade docente num contexto de readaptação 
funcional (Curso de Especialização em Residência Docente para Formação de Educadores da 
Educação Básica) Universidade Federal de Minas Gerais -UFMG, 26 p. 2020. 
http://hdl.handle.net/1843/35370 
https://www.youtube.com/watch?v=SobADwQ5lA4
http://hdl.handle.net/1843/35370
https://www.youtube.com/embed/SobADwQ5lA4?feature=oembed
 
83 
c) Motivação para o trabalho: 
Este aspecto certamente é o mais subjetivo e envolve ferramentas 
emocionais muito particulares e intrínsecas à personalidade de cada um dos 
profissionais de segurança. Contudo, é fato que buscar estar motivado para a 
realização de um trabalho tão essencial à nossa sociedade é de extrema 
importância, mesmo que às vezes precisamos executá-lo em condições 
adversas. O professor e filósofo Mario Sérgio Cortella faz diversas considerações 
sobre essa temática e, por isso, selecionei um vídeo que pode auxiliar você a 
refletir sobre a motivação para o trabalho. 
Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=dd1bsHYYqjg 
 
Figura 23 - Faça o teu melhor 
 
Fonte: Youtube, 2018. 
 
 
2. Requisitos específicos do atendimento policial 
 
Neste ponto, chamamos a atenção sobre aspectos legais que envolvem 
a atuação do profissional de Segurança Pública, pois sabemos que ao tomar 
posse em um cargo público estamos automaticamente submetidos a 
normativos internos e externos que regulam nossa atividade. Esses 
https://www.youtube.com/watch?v=dd1bsHYYqjg
https://www.youtube.com/embed/dd1bsHYYqjg?feature=oembed
 
84 
mecanismos reguladores podem ser tanto internos, por meio da Corregedoria 
e Ouvidoria da nossa corporação, como externo, por meio, por exemplo, do 
exercício do controle externo da atividade policial realizado pelo Ministério 
Público. 
No atendimento realizado pelos profissionais integrantes do Sistema 
Único de Segurança Pública (Susp), durante a atuação de enfrentamento à 
violência praticada contra criança, alguns aspectos legais ganham relevância, 
dentre os quais a violência institucional e a revitimização, motivo pelo qual 
discorreremos brevemente, deixando à parte os demais tipos de controle, seja 
interno ou externo. 
A violência institucional foi recentemente alçada à categoria de 
crimes, com a inserção do art. 15-A na Lei nº 13.869/1914 que versa sobre os 
crimes de abuso de autoridade, asseverando que: 
Art. 15-A. Submeter a vítima de infração penal ou a testemunha de 
crimes violentos a procedimentos desnecessários, repetitivos ou 
invasivos, que a leve a reviver, sem estrita necessidade: (Incluído pela 
Lei nº 14.321, de 2022) 
I - a situação de violência; ou (Incluído pela Lei nº 14.321, de 2022) 
II - outras situações potencialmente geradoras de sofrimento ou 
estigmatização: (Incluídopela Lei nº 14.321, de 2022) 
Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa. (Incluído 
pela Lei nº 14.321, de 2022) 
§ 1º Se o agente público permitir que terceiro intimide a vítima de 
crimes violentos, gerando indevida revitimização, aplica-se a pena 
aumentada de 2/3 (dois terços). (Incluído pela Lei nº 14.321, de 2022) 
§ 2º Se o agente público intimidar a vítima de crimes violentos, 
gerando indevida revitimização, aplica-se a pena em dobro. (Incluído 
pela Lei nº 14.321, de 2022) 
 
Ao analisar rapidamente o tipo penal, percebemos que ele não está 
vinculado diretamente à atuação frente à criança e ao adolescente, mas é 
sabido que a violência institucional é comumente identificada quando 
envolvidos os chamados grupos vulneráveis, dentre os quais crianças e 
adolescentes, mulheres, idosos e a comunidade LGBTQIA+. Aliás, 
corroborando esse fato, observamos que é na Lei nº 13.431/17, Lei da Escuta 
 
14http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/Lei/L13869.htm Acesso em 
14/10/22 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/Lei/L13869.htm
 
85 
Protegida que você já estudou aqui na Aula 1 do Módulo I, que a violência 
institucional foi pela primeira vez conceituada em uma legislação. 
O art. 4º, inc. IV da Lei nº 13.431/17, afirma que a violência institucional 
é aquela entendida como a praticada por instituição pública ou conveniada, 
inclusive quando gerar revitimização. Note-se que a violência institucional 
vem elencada, juntamente com a física, a psicológica, a patrimonial e a sexual, 
como mais uma das formas de violência a que crianças e adolescentes podem 
ser submetidos. 
Ademais, o art. 5 º do Decreto nº 9603/18, nos incisos I e II trouxe um 
detalhamento ainda maior do que pode ser compreendido como violência 
institucional. Nele você pode perceber que essa violência é aquela praticada 
por agente público no desempenho de função pública, em instituição de 
qualquer natureza, por meio de atos comissivos ou omissivos que 
prejudiquem o atendimento à criança ou ao adolescente vítima ou 
testemunha de violência. 
Observa-se aqui a menção expressa ao que seria o “sujeito 
passivo” do crime, qual seja, crianças e adolescentes, além de 
também prever que essa violência pode ser praticada por ação 
ou omissão (atos comissivos ou omissivos). O Decreto ainda 
avançou um pouco mais e conceituou o que seria a 
revitimização, asseverando que é discurso ou prática 
institucional que submeta crianças e adolescentes a 
procedimentos desnecessários, repetitivos, invasivos, que 
levem as vítimas ou testemunhas a reviver a situação de 
violência ou outras situações que gerem sofrimento, 
estigmatização ou exposição de sua imagem. 
 
Pelo acima exposto, você pode observar que o atendimento adequado a 
esse público perpassa por uma relação estreita com os limites definidores do 
que é a violência institucional e a revitimização. 
 
 
 
86 
Aula 2 – O registro da ocorrência policial 
 
Você concorda que o registro do fato criminal é considerado o 
momento inicial da investigação, constituindo um marco determinante para a 
sua efetividade e celeridade? Se sim, você acertou. Mas será que você saberia 
explicar o motivo? É o que você vai entender agora. Dessa maneira, você vai 
compreender a importância do registro de ocorrência policial e o impacto que 
ele pode ter no desenrolar de toda a investigação e até mesmo em seu 
resultado. Podemos afirmar que o registro do fato criminal é considerado o 
momento inicial da investigação, constituindo um marco determinante para a 
sua efetividade e celeridade. 
Para facilitar o estudo deste tópico, você fará a análise do registro de 
ocorrência policial a partir de três critérios: o primeiro sobre os dados e 
informações que deverão ser observados e colhidos; o segundo diz respeito a 
correlação direta entre um registro de ocorrência feito de maneira ampla e 
completa e os impactos na continuidade das diligências investigativas; por fim, 
o terceiro, critérios específicos previstos na legislação sobre o registro da 
ocorrência policial quando o crime for praticado contra criança e adolescente. 
 
1. Dados e informações relacionados ao fato criminal 
 
É no momento do registro da ocorrência policial que a investigação se 
inicia, sendo equivocada a interpretação de que o registro pode ser breve e 
sucinto, sem se debruçar sobre importantes circunstâncias do crime. A respeito 
dessas circunstâncias, utilize a classificação que você já viu na Aula 4 do Módulo 
I, as quais podem ser fundamentais, periféricas e adicionais. 
A utilização desta mesma classificação não é aleatória e visa mostrar 
que a investigação é una e se inicia no registro da ocorrência policial, 
perpassando pelas diligências das equipes de investigação e seguindo durante 
a realização do depoimento especial, até sua regular finalização por meio do 
encerramento do inquérito policial. Assim, pode-se afirmar que o policial deve 
 
87 
estar atento para as circunstâncias do crime o tempo todo, não se restringido a 
fazê-lo em um ou outro momento determinado. 
Dito isso, o registro da ocorrência policial deve explorar, ponto a ponto, 
as seguintes circunstâncias: 
a) Circunstâncias fundamentais: aquelas que compõe a base da 
tipificação penal, devendo ser explorados a dinâmica da conduta 
criminal propriamente dita, respondendo questões de onde, como e 
quando o crime ocorreu, inclusive para verificar a possibilidade ou não 
de uma situação flagrancial; as pessoas envolvidas (comunicante, autor, 
vítima, testemunhas diretas ou de revelação) deverão ser identificadas 
completamente, salvo se não for possível, devendo se fazer uso dos 
mecanismos de pesquisas em banco de dados para evitar identificações 
genéricas, como a pesquisa do CPF no Infoseg, informação essa que, se 
inexistente, inviabiliza até mesmo a inserção do procedimento no 
Processo Judicial Eletrônico (PJe) naqueles estados que já 
implementaram a sua utilização.; exploração sobre a forma como o 
comunicante tomou conhecimento dos fatos; exploração sobre a 
possiblidade de existência de líquidos seminais, sangue, saliva ou 
outros materiais biológicos; a existência de possível filmagem, ante a 
verificação de que o local conta com sistema de câmeras de 
monitoramento e, por fim, a motivação do crime; 
b) Circunstâncias periféricas: aspectos que não envolvem 
diretamente a estruturação do tipo penal, mas constituem informações 
importantes para a investigação, devendo ser exploradas a existência de 
intervenção de terceiros durante a pratica criminal, possíveis interações 
verbais entre autor e vítima; condições específicas do local onde os 
fatos ocorreram, a existência de outras vítimas, juntada de documentos 
trazidos ou apresentados pelo comunicante, como relatório escolar, 
relatório de acompanhamento do Conselho Tutelar, relatórios de 
acompanhamento psicológico; 
c) Circunstâncias adicionais: nesse ponto, deve ser explorada a 
existência de situações que envolvam coação, ameaça, segredos, 
subornos e riscos de convívio com o agressor. 
 
88 
Importante ressaltar que todas estas circunstâncias possuem natureza 
“exploratórias”, ou seja, considerando que o registro de ocorrência é o inícioda 
investigação, todas as possiblidades devem ser questionadas e, até mesmo, 
consignadas sobre a sua inexistência ou não. Por exemplo, no caso concreto, 
ao explorar as circunstâncias fundamentais, o policial toma conhecimento de 
que não se tem notícia da existência de outras vítimas, essa informação deverá 
ser registrada, restando claro que houve exploração de todas as circunstâncias. 
Essa medida permitirá nortear a continuidade das investigações, não havendo 
necessidade de mais uma vez inquirir o comunicante sobre pontos que não 
foram explorados ou, se explorados, não foram devidamente consignados. 
 Por fim, a exploração completa de todas as circunstâncias permitirá ao 
policial responsável a tomada de algumas providências imediatas, como, por 
exemplo, efetuar prisão em flagrante, requerer medidas protetivas adequadas 
em favor da vítima, apreender imagens constantes em sistemas de 
monitoramento de segurança, solicitar perícias criminais pertinentes, juntar 
pesquisa de antecedentes criminais, em especial nos crimes sexuais que podem 
apontar um padrão de comportamento reiterado, entre outras providências. 
 
2. Impactos do Registro de Ocorrência Policial na continuidade 
das diligências investigativas 
 
Você já sabe que a investigação é una e, por isso, deve ser considerada todas as 
circunstâncias do crime desde o registro da ocorrência até a finalização do 
inquérito policial. O registro de ocorrência feito de maneira técnica e completa 
trará diversas repercussões para o curso e a celeridade das investigações, como 
veremos abaixo: 
a) Tempo de conclusão das diligências ou de finalização do 
inquérito policial: As informações e dados coletados de forma 
completa e exauriente durante o registro de ocorrência permitirão uma 
conclusão célere das investigações, uma vez que o trabalho 
investigativo será iniciado não de um ponto zero, mas sim de 
elementos probatórios já coletados. Assim, por exemplo, se durante o 
registro a testemunha referida é devidamente qualificada, com dados 
 
89 
completos, incluindo dados de localização, como endereço, telefone e 
redes sociais, as declarações dela poderão ser colhidas rapidamente. Ao 
contrário, a identificação incompleta da testemunha, acarretará a 
necessidade de que sejam feitas diversas diligências extras até que se 
possa finalmente identificar, localizar e ouvir essa testemunha. Esse 
mesmo cenário se repete quando, embora tenha sido ouvida a pessoa 
que comunicou os fatos, suas declarações foram precariamente 
exploradas ou, se exploradas, suas respostas não foram consignadas 
adequadamente. Quando isso ocorre, será necessário colher novas 
declarações, seja para complementar o que não foi explorado ou para 
repetir perguntas que, embora tenham sido feitas, não foram 
consignadas. 
b) Prejuízo concreto para o resultado final da investigação: há 
circunstâncias que se não forem devidamente exploradas no primeiro 
momento em que os fatos são noticiados, não haverá possibilidade de 
reparar os prejuízos gerados para o resultado adequado da 
investigação. Estão nesta categoria a não verificação sobre a existência 
de imagens, uma vez que atualmente mesmo os locais que contam com 
monitoramento, por meio de câmeras, possuem capacidade de 
armazenagem reduzida e imagens não preservadas tempestivamente 
não poderão ser obtidas em momento posterior. Também aqui estão as 
situações em que a não identificação adequada das pessoas envolvidas 
resultará na impossibilidade de colher suas declarações, uma vez que 
não é raro nos depararmos com testemunhas que nunca são 
localizadas, embora citadas desde o início. Nesta categoria também 
estão as perícias não realizadas, em razão da exploração inadequada 
das circunstâncias que permearam o crime. Por exemplo, tempos 
depois é obtida a informação de que a roupa que a criança usava no dia 
do crime tinha vestígios de material biológico (sêmen), mas, depois de 
registrar a ocorrência, a comunicante acabou jogando fora essa 
importante prova. 
c) Prejuízo para a realização do Depoimento Especial: No capítulo 
que você estudou sobre o Depoimento Especial como instrumento de 
 
90 
coleta de prova, foi dito sobre a importância de percorrer, explorar 
todas as circunstâncias do crime, nos mesmos moldes aqui abordado. 
Para a realização de um Depoimento Policial que seja eficaz, do ponto 
de vista da responsabilização, essas circunstâncias devem ser 
exploradas não somente durante sua realização, diretamente com a 
vítima, mas também previamente. Ter em mãos o maior número de 
informações sobre o crime será fundamental ao policial condutor do 
depoimento para extrair da vítima um relato sólido e adequado dos 
fatos apurados. É comum, durante a realização do Depoimento Especial, 
que a vítima forneça um relato sucinto dos fatos e as informações 
coletadas previamente é que permitirão a obtenção de detalhes 
importantes. Vale lembrar que a obtenção desse detalhamento deve ser 
feita sem qualquer questionamento indutivo, utilizando todas as 
técnicas do Protocolo de Polícia Judiciária15. No caso concreto, por 
exemplo, quando na ocorrência policial o comunicante informa que a 
vítima comentou que havia revelado os fatos para algumas amigas, sem 
dizer quem eram essas amigas, essa informação poderá ser explorada 
pelo policial, se em um primeiro momento a vítima não revelar 
espontaneamente. 
 
3. Critérios específicos previstos na legislação acerca do 
Registro de Ocorrência Policial 
 
Nesse último tópico sobre o registro da ocorrência policial, você, 
profissional do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), deve observar 
disposições inseridas no Decreto nº 9.603/18, que regulamentou a Lei nº 
13.431/17, especificamente versando sobre o registro nos crimes em que 
crianças e adolescentes são vítimas. 
O § 1º do art. 13 do Decreto afirma que, sempre que possível, as 
informações a serem consignadas no registro de ocorrência devem ser extraídas 
 
15https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/PROTOCOLO_DPCA_25_10_18.pdf Acesso em 
02/10/2022 
 
https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/PROTOCOLO_DPCA_25_10_18.pdf
 
91 
dos documentos já produzidos por outros órgãos integrantes da rede de 
proteção, bem como do acompanhante ou responsável pela criança ou 
adolescente, de modo a preservar a vítima. 
 Seguindo, o § 2º do mesmo artigo afirma que crianças e adolescentes 
têm direito ao registro de ocorrência policial, mesmo se estiverem 
desacompanhados. Nesse ponto, convém salientar que, caso isso aconteça, o 
policial deve fazer uso do instrumento de coleta de relato denominado Escuta 
Especializada, sendo vedado fazer perguntas diretas e com finalidade de 
produção de provas, tema que deve ser restrito ao Depoimento Especial. O 
policial deve estimular o relato livre e espontâneo necessário à tomada das 
primeiras providências, utilizando perguntas abertas, como por exemplo: Conte 
o que aconteceu? Em que mais eu posso ajudar? Tem mais alguma informação 
que você gostaria de me contar? 
Nos § 4º e 5º estabelece-se também que a coleta do relato não deve ser 
feita na presença da criança e do adolescente, preservando-os e, sempre que 
possível, a descrição dos fatos não deve ser feita em local público, com 
exposição da identidade da criança. 
Encerra-se assim a análise sobre aspectos relevantes sobre o registro da 
ocorrência policial. 
 
Aula 3 – Os aspectos gerais de proteção e a atividade 
policial 
 
Os aspectos de proteção, realizados pelos profissionais integrantes do 
Sistema Único de Segurança (Susp), possuem importantes balizas em nossa 
legislação e você verá mais detalhadamente nesta aula. Antes, porém, é 
importante destacar que o Princípio da Proteção Integral, visto na Aula 1 do 
Módulo I do nosso curso, possui três principais bases ou premissas que são: 
criança e adolescente como sujeitos de direito, destinatários de absoluta 
prioridade esua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. 
Nesse sentido, é possível afirmar que a responsabilização criminal 
também é considerada uma das formas de observância ao referido princípio, 
uma vez que, como sujeitos de direitos, crianças e adolescentes devem ter uma 
 
92 
investigação técnica, célere e eficaz permitindo a punição adequada do 
agressor pelo crime praticado. Assim, a proteção na Segurança Pública tem 
ligação estreita com a responsabilização penal, ganhando importância, então, 
os tópicos anteriores estudados no que tange à identificação dos crimes, à 
colheita da prova e ao depoimento especial, ao registro adequado da 
ocorrência policial e à observância do microssistema legislativo que rege toda 
essa atividade. 
Além do aspecto de proteção supramencionado, a legislação também 
elenca outros instrumentos de proteção que devem ser ofertados a esse público 
vulnerável pela Rede de Segurança Pública que são as denominadas Medidas 
de Proteção ou Medidas Protetivas de Urgência. De modo geral, as medidas 
protetivas ou de proteção têm por finalidade salvaguardar a vítima, impedindo 
que a violência continue ou prevenindo violência futura, ou seja, independente 
da terminologia adotada, essas medidas possuem em sua essência a mesma 
finalidade e o mesmo conceito. No entanto, em razão especificamente das 
últimas atualizações legislativas feitas pela Lei nº 13.431.17 e pela Lei nº 
14.344.22, essas medidas apresentam algumas diferenças que veremos abaixo: 
1. Medidas Protetivas de Urgência e Medidas de Proteção 
 
a. Medidas de proteção: 
 As medidas de proteção têm previsão expressa na Lei nº 13.431/17, 
afirmando em seu art. 5 º, inc. V que é direito da criança e do adolescente 
recebê-las, sempre que houver risco à vida ou à integridade física da criança ou 
do adolescente, art. 12, §2º. O capítulo IV, que tem como título DA 
SEGURANÇA PÚBLICA discorre expressamente sobre deveres impostos durante 
a atuação policial, razão pela qual a lei preconiza que a autoridade policial 
deverá solicitar imediatamente medidas de proteção sempre que as vítimas 
estiverem em risco. 
 As principais medidas elencadas são de proibição de contato e de 
afastamento do investigado da residência da vítima, não havendo menção 
expressa quanto à proibição de contato, em que pese entendermos ser 
perfeitamente possível o requerimento que será feito ao Juiz no momento do 
registro da ocorrência, ou posteriormente no curso das investigações. 
 
93 
 Por fim, importante frisar que essas medidas não possuem rito próprio 
quanto ao prazo e só poderão ser utilizadas quando a violência não tiver sido 
praticada no contexto familiar e doméstico. 
 
b. Medidas Protetivas de Urgência 
As medidas protetivas de urgência foram introduzidas pela Lei nº 
14.344/22 e guardam extrema semelhança com a Lei nº 11.340/06, Lei Maria da 
Penha. Em verdade, a Lei Henry Borel (14.344/22) veio justamente ampliar os 
aspectos de proteção nos casos em que a violência, além de direcionada a 
crianças e adolescentes, é praticada no núcleo doméstico e familiar. 
O rol de medidas protetivas de urgência, previso no art. 20, é mais 
extenso, se comparado com as medidas de proteção da Lei nº 13.431/17, mas 
muito similar àquelas previstas na Lei Maria da Penha. Assim, sempre que 
houver risco, podem ser solicitadas medidas de: restrição ou suspensão à posse 
ou porte de armas; afastamento do lar, proibição de contato e aproximação; 
proibição de frequentar determinados lugares; suspensão ou restrição de 
visitas, prestação de alimentos provisórios; determinação de que o agressor 
frequente programas de recuperação ou reeducação; inserção da criança, do 
adolescente, familiares, denunciante ao programa de proteção à vítima ou 
testemunha. Essas medidas serão decididas pelo Juiz no prazo de 24 horas. 
Destarte, podemos perceber a semelhança com a Lei Maria da Penha, 
pois a lei prevê a possibilidade de a medida protetiva de urgência de 
afastamento do agressor do lar ser concedida pelo delegado de polícia, quando 
o município não for sede de comarca, e pelo policial no município que não for 
sede de comarca e não houver delegado de polícia disponível no momento da 
denúncia. Nesses casos, após a concessão, o juiz deverá ser informado no prazo 
de 24 horas, decidindo sobre a manutenção ou revogação da medida. 
Por fim, a lei também trouxe um crime específico pelo descumprimento 
das medidas protetivas de urgência, que já estudamos aqui. 
Para auxiliar o seu estudo, veremos abaixo um quadro comparativo 
entre as medidas de proteção e as medidas protetivas de urgência: 
 
 
94 
Figura 24 - Quadro comparativo 
QUADRO COMPARATIVO 
 MEDIDAS DE 
PROTEÇÃO 
MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA 
Previsão Lei nº 13.421/17 Lei nº 14.344/17 
Contexto Crimes fora do 
contexto familiar 
e doméstico 
Crimes dentro do contexto familiar e 
doméstico 
Tipos Proibição de 
contato; 
Afastamento do 
investigado do 
lar 
Restrição ou suspensão à posse ou porte de 
armas; 
Afastamento do lar; 
Proibição de contato e aproximação; 
Proibição de frequentar determinados 
lugares; 
Suspensão ou restrição de visitas; 
Prestação de alimentos provisórios; 
Determinação de que o agressor frequente 
programas de recuperação ou reeducação; 
Inserção da criança, do adolescente, de 
familiares e de denunciante ao programa de 
proteção à vítima ou à testemunha. 
Prazo juiz decidir Não tem 24 horas 
Concessão por 
Delegado de 
Polícia ou Policial 
Não Sim 
Crime por 
descumprimento 
Não Sim 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
 
2. Encaminhamentos diversos 
 
A atuação policial, ainda sob a ótica protetiva, completa-se com o que 
podemos chamar de encaminhamentos ou providências diversas. Por previsão 
legal, no momento do registro da ocorrência policial ou no curso da 
investigação, a autoridade policial poderá encaminhar a vítima ao Sistema 
 
95 
Único de Saúde e ao Conselho Tutelar, quando observar que estes órgãos 
também compõem a Rede de Proteção não tiverem sido acionados. Deverá, 
ainda, sempre que necessário e quando houver risco à vida, efetuar o 
transporte da vítima e seu acompanhante para serviço de acolhimento 
existente ou local seguro e garantir proteção policial, de acordo com o art. 13, 
inc. III e IV da Lei nº 14.344/22. 
 
Aula 4 – A importância da rede na atenção às pessoas 
em situação de violência. O trabalho interdisciplinar. 
Elos ligados. 
 
Ninguém consegue atender situações de violência sozinho. Talvez essa 
seja uma unanimidade em todos os agentes da Rede de Proteção a Pessoas em 
Situação de Violência. Essa Rede foi sendo reconhecida ao longo dos anos e 
legitimada através da Lei nº 13.431/17. Ali estão expostos os principais 
articuladores do sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes. 
A ideia é que a Rede funcione de forma interconectada e de maneira 
horizontal, ou seja, todos os órgãos que a compõem trabalham juntos e sem 
hierarquia. Todos os elos são fundamentais. Se cada um desempenhar bem o 
seu papel, será possível oferecer cuidado, proteção e responsabilização. 
Mas o que é essa tal Rede? Veja o que diz o Artigo 13 do ECA. 
Os serviços de saúde em suas diferentes portas de entrada, os serviços 
de assistência social em seu componente especializado, o Centro de 
Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e os demais 
órgãos do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do 
Adolescente deverão conferir máxima prioridade ao atendimento das 
crianças na faixa etária da primeira infância com suspeita ou 
confirmação de violência de qualquer natureza, formulando projeto 
terapêutico singular que inclua intervenção em rede e, se necessário, 
acompanhamento domiciliar. 
A Rede é, portanto, o conjunto dos órgãos que tem por objetivo 
garantir a integridade e bem-estar biopsicossocial de crianças e 
adolescentes. Sua composiçãoinclui Conselho Tutelar (CT), Centro de 
Referência de Assistência Social (CRAS), Centro de Referência Especializado de 
Assistência Social (CREAS), Escolas, Creches, Abrigos, Ministério Público (MP), 
 
96 
Defensoria Pública, Varas da Infância e da Juventude (VIJ), Delegacias de 
Proteção às Crianças e Adolescentes (DPCA), Delegacia Especializada de 
Atenção à Mulher (DEAM), Instituto Médico Legal (IML), Disque Denúncia 
(Disque 100), Organizações não-governamentais (ONGs), Unidades Básicas de 
Saúde (UBS), Hospitais e outros serviços. 
É possível dividir o trabalho da Rede em 3 eixos primordiais. Quais 
sejam: 
 
Figura 25 - Eixos da Rede 
 
Fonte: JOTA, 2022. 
A proteção é exercida por aqueles equipamentos focados na 
interrupção imediata da violência, pensando sobre onde e com quem essa 
criança ou adolescente ficará após a denúncia. São eles: Conselhos Tutelares, 
Varas da Infância e da Juventude, Ministério Público, Defensoria Pública. 
A responsabilização envolve organismos que atuarão para punir 
aqueles que praticaram a violência. São eles: Delegacias, IML, 
Varas Criminais, Ministério Público. 
Já o atendimento é realizado por órgãos da Saúde, Assistência Social e 
Educação. Na saúde encontram-se serviços hospitalares tanto emergenciais 
quanto ambulatoriais. Nas emergências hospitalares o paciente poderá ter 
acesso ao protocolo medicamentoso pós exposição (PEP) recebendo fármacos 
que atuarão para prevenir doenças sexualmente transmissíveis e uma possível 
gravidez. Nos serviços ambulatoriais, receberá atendimento com fins de 
promoção de reabilitação biopsicossocial da violência que viveu. 
Proteção
ResponsabilizaçãoAtendimento
 
97 
Para organizar o fluxo de atendimento no âmbito da Saúde, o 
Ministério da Saúde publicou o documento Linha de Cuidado para a Atenção 
Integral de Crianças e Adolescentes e suas Famílias em Situação de 
Violência. Segue abaixo o fluxo proposto no texto (pág. 51). 
 
Figura 26 - Linha de cuidado
 
Fonte: Ministério da Saúde, 2022. 
No âmbito da Assistência Social existem dois serviços preconizados 
pelo SUAS (Sistema Único de Assistência Social): o CRAS (Centro de Referência 
em Assistência Social) e o CREAS (Centro de Referência Especializado em 
Assistência Social). O primeiro atua com famílias no sentido de promover ações 
que previnam a ocorrência de violações de direitos, entre eles a violência. Já o 
CREAS atua com famílias nas quais já ocorreu algum tipo de violação. Nesse 
equipamento serão trabalhadas as questões psicossociais envolvidas na 
violência, bem como será promovido acesso a direitos socioassistenciais. 
Outra instância fundamental no cuidado com vítimas de violência 
menores de idade é a Educação. Tanto escolas quanto ONGs que promovem 
contraturnos são locus fundamentais de revelação de violações de direitos. 
Crianças e adolescentes passam bastante tempo nessas instituições e 
estabelecem com elas relações de proteção e cuidado. Com isso, sentem-se à 
vontade para contar suas rotinas, bem como o que acontece em suas famílias. 
 
98 
O grande desafio do processo de atendimento de pessoas em situação 
de violência é a articulação de todos esses órgãos. Na tentativa de sanar essa 
questão, a Lei Nº 13.431/17 trouxe uma grande novidade: a diferenciação entre 
quem faz Escuta Especializada e quem faz Depoimento Especial. 
Primeiro vamos diferenciar os dois conceitos apresentados no corpo da 
Lei. 
Figura 27 - Escuta especializada e Depoimento Especial 
 
Fonte: JOTA, 2022. 
 Conhecer essa diferença conceitual é fundamental para o andamento 
da Rede. Antes de iniciar a abordagem a uma vítima ou testemunha de 
violência, questione-se: O que vou fazer agora é escuta especializada ou 
depoimento especial? Uma questão diferencial entre os dois procedimentos é: 
apesar dos elementos colhidos na escuta especializada serem importantes na 
composição do processo de investigação policial, somente o que é colhido em 
depoimento especial tem fins de produção de prova, visto que o procedimento 
exige uma série de protocolos que são listados no corpo da Lei nº 13.431/17. 
 Para compreender melhor a importância do funcionamento da Rede de 
atenção a Crianças e Adolescentes vítimas ou testemunha de violência, será 
apresentado o caso de Larissa, criança e vítima de violência sexual que chegou 
na Emergência de um Hospital Infantil. 
 
• Procedimento de entrevista sobre 
situação de violência com criança ou 
adolescente perante órgão da rede 
de proteção, limitado o relato 
estritamente ao necessário para o 
cumprimento de sua finalidade.
Escuta 
Especializada
• Procedimento de oitiva de criança ou
adolescente vítima ou testemunha
de violência perante autoridade
policial ou judiciária.
Depoimento 
Especial
 
99 
ESTUDO DE CASO 
 Larissa é uma criança de 2 anos de idade que chegou ao Hospital da 
cidade nos braços de seu pai. Este refere que quando chegou em casa do 
trabalho encontrou a filha embaixo do berço com sinais de sangue na roupa, 
desesperou-se e a trouxe para o hospital. 
 João, o pai da criança, tem 38 anos e mora com sua companheira e 
outro filho do casal que tem 9 anos. João disse que sua companheira tem 30 
anos e é usuária de drogas. Refere que quando sai para trabalhar, pede para a 
vizinha “correr o olho nos filhos”, pois sabe que a mãe deles não se encontra 
em condições de dispor cuidados aos filhos. 
 O pai diz que o filho de 9 anos também estava dormindo quando 
chegou em casa e não sabia informar sobre o que tinha acontecido com a irmã. 
 Quando os médicos examinaram a criança, deram conta da gravidade 
do caso. Existiam importantes ferimentos nas regiões genital e anal. Além disso, 
puderam constatar que havia ali presença de sêmen, o que se configura como 
vestígios biológicos da violência que Larissa havia sofrido. 
 Os médicos avaliaram que antes de encaminhar a paciente para a 
cirurgia pediátrica, seria necessário que o plantão policial fosse acionado para 
que este solicitasse ao IML colheita do vestígio presente na criança. 
 Assim foi feito. Após a chegada do IML, a criança foi encaminhada para 
a cirurgia pediátrica e um trabalho de Rede foi acionado. Inicialmente, 
juntaram-se Conselho Tutelar, CREAS, Psicólogos e Assistentes Sociais do 
Hospital para ouvir o pai. 
 O pai da criança pôde expor a situação de vulnerabilidade social na 
qual vivia. Referiu que não podia deixar o trabalho, pois este era o único meio 
de sustento dos filhos e já havia tentado uma vaga para Larissa na creche, mas 
não tinha conseguido. 
Foram acionados o CREAS para verificar os benefícios socioassistenciais 
a que essa família tinha direito e o Conselho Tutelar para intervir junto à 
Regional de Ensino em busca de uma vaga na creche para Larissa. A ONG que 
oferece contraturno escolar na região foi contactada para que o irmão mais 
velho estivesse protegido em alguma instituição enquanto o pai trabalha. 
 
100 
A Unidade Básica de Saúde e o CAPS AD (Centro de Atenção 
Psicossocial Álcool e Drogas) foram acionados para montarem um Plano 
Terapêutico Singular para a mãe de Larissa que é usuária de crack. 
Dessa forma, foram acionados 10 órgãos da Rede (destacados em 
verde) para promover a atenção integral à família de Larissa de modo a cuidar 
da violência que aconteceu, bem como prevenir eventos futuros. 
Os profissionais envolvidos no atendimento a situações de violência 
precisam trabalhar de forma horizontal, sem hierarquização. Todos são 
importantes. De ponta a ponta do atendimento, cada um fazendo seu trabalho, 
é possível cuidar de forma técnica e humanizada. 
 
Finalizando 
 
Neste módulo, você aprendeu que: 
 
• O atendimento policial de qualidade possui requisitos gerais e 
específicos. São requisitos gerais as relações interpessoais, a 
comunicação adequada e sem barreiras, a escuta empática e a motivação 
para o trabalho. Já os requisitos específicos estão relacionados aos 
deveres impostosa todo agente do Estado e seus mecanismos de 
controle, como, por exemplo, a tipificação do crime de Violência 
Institucional; 
• O registro da ocorrência policial é o marco inicial da colheita probatória, 
devendo, durante a sua realização, ser observadas a existência de 
circunstâncias fundamentais, periféricas e adicionais que permeiam o 
crime; 
• A lei prevê normas a serem observadas especificamente durante o 
registro de ocorrência policial, dentre os quais o dever de buscar 
informação com os acompanhantes da criança e do adolescente, de 
modo a preservá-las; 
• Cumprindo seu papel protetivo, o profissional de segurança pública além 
de zelar por uma adequada responsabilização penal, deverá também 
ofertar Medidas de Proteção ou Medidas Protetivas de Urgência. 
 
101 
Módulo 4 - A escuta protegida 
 
Apresentação do módulo 
 
Este módulo estabelecerá as condições para que você possa ampliar 
seus conhecimentos sobre as especificidades do trabalho com grupo de 
crianças e adolescentes vulneráveis, as peculiaridades das fases de vida - 
infância e adolescência - e seus impactos na escuta protegida. E ainda conhecer 
os instrumentos para escuta de crianças e adolescentes e seus requisitos legais. 
 
Objetivos do módulo 
Este módulo tem por objetivos: 
• Identificar as demandas do público vulnerável criança e adolescente; 
• Executar os procedimentos de escuta, nos limites da Lei. 
• Refletir sobre o direito das crianças e adolescentes a se manifestarem em 
processos que lhes digam respeito; 
• Respeitar tal grupo em suas características especiais promovendo 
proteção e responsabilização, numa oitiva protegida. 
 
Estrutura do módulo 
Este módulo compreende as seguintes aulas: 
Aula 1 – Aspectos históricos da voz da criança e do adolescente; 
Aula 2 – A Lei 13.431/2017 e a voz da criança e do adolescente; 
Aula 3 – A Escuta especializada; 
Aula 4 – O Depoimento Especial 
Aula 5 – A revelação da criança e do adolescente e as evidências de veracidade. 
 
 
 
 
 
 
102 
Aula 1 – Aspectos históricos da voz da criança e do 
adolescente 
 
A criança e o adolescente precisam ser considerados atores sociais e 
sujeitos histórico-culturais. É fato que, historicamente, as vozes deles foram 
silenciadas. As crianças não eram compreendidas como seres em 
desenvolvimento, mas eram consideradas adultos em miniatura – haja vista a 
brevidade da infância. 
A valorização dos anos da infância é algo muito recente e o conceito 
vem sofrendo alterações significativas ao longo da história. É essencial 
compreender esse antecedente e os avanços nesses conceitos, analisando a 
infância do ponto de vista histórico, porque isso nos revelará muito sobre a sua 
situação de crianças e adolescentes nos dias atuais. 
Ser criança nos primórdios da história representava pouco em termos 
de participação social e até mesmo familiar. A brevidade da vida não estava 
somente associada ao curto período em que estas permaneciam entre seus 
pares ou isoladas do mundo adulto, mas também à sua pequena expectativa de 
vida em função dos números elevados de mortalidade infantil, gerando na 
sociedade da época um sentimento de indiferença tanto à criança quanto à sua 
morte, visto como algo natural e necessário. Ou seja: não havia motivos 
suficientes para se valorizar aquilo que crianças falavam ou suas 
manifestações de pensamento. 
Não se percebia a criança como um ser diferente do adulto, 
com particularidades e especificidades. Não se havia um 
sentimento de infância. 
No século XIII, as crianças eram vistas como seres com modos de 
pensar e sentimentos primitivos, não civilizados, anteriores à razão e aos bons 
costumes. Era função dos adultos desenvolver nelas o caráter e a razão. Dessa 
forma, ao invés de se procurar entender e aceitar as diferenças e semelhanças 
das crianças, a originalidade de seu pensamento, elas já recebiam sua sentença: 
crianças eram páginas em branco a serem preenchidas, preparadas para a 
vida adulta – como uma matéria rústica e trabalhosa. 
 
103 
Segundo KOHAN (2003), era uma visão futurista da infância, porque ela 
não possuía características próprias. Apenas se consideravam as possibilidades, 
ou seja, a criança era vista como um ser em potencial. Assim, ela não poderia 
existir e viver e ser encarada como ela de fato é. Ela não é nada no presente. 
Sua existência é vista como projeção, por isso é preciso moldar e imprimir-lhe 
tudo o que é necessário a um bom cidadão. Tão logo a criança deixasse os 
primeiros anos de vida já eram equivalentes aos adultos – sendo incluídas nas 
tarefas domésticas, jogos e trabalhava como aprendiz. Suas roupas eram 
miniaturas do vestuário adulto, incômodas – restringindo-lhes a liberdade para 
o brincar e explorar o mundo que a infância necessita. 
Figura 28 - Cartão postal antigo representando crianças vestidas como pequenos adultos 
desempenhando atividades laborais como se adultos fossem. 
 
Fonte: https://pixabay.com/pt/illustrations/cart%c3%a3o-antigo-postal-fran%c3%a7a-1348456/. 
 
A infância era apenas uma fase anterior e inferior à vida adulta. Platão 
assevera esse pensamento com palavras bem duras. Veja só: 
[...] entre todas as criaturas selvagens, a criança é a mais intratável; pelo 
próprio fato dessa fonte de razão que nela existe ainda ser indisciplinada, a 
criança é uma criatura traiçoeira, astuciosa e sumamente insolente, diante 
do que tem que ser atada, por assim dizer, por múltiplas rédeas [...] 
(PLATÃO, 2010, p. 302). 
 
Mas esse contexto começa a se modificar nos séculos XVI e XVII, a partir 
de uma reforma moral e religiosa da época. 
https://pixabay/
 
104 
Ariès comenta que: 
de fato, foi nessa época que se começou realmente a falar na 
fragilidade e na debilidade da infância”. (Ariès,1981, p.25) 
 
O mundo passou a ser visto como muito arriscado para seres com 
características muito peculiares, como inocência, fragilidade e imperfeição, 
trazendo para o enfrentamento das questões da infância um caráter de 
preservação. O processo de reconhecimento e valorização da infância acontece 
juntamente com o processo de valorização da educação. 
Percebeu-se no processo educacional que crianças não estavam 
prontas, maduras o suficiente, para enfrentar a vida e por isso careciam de 
proteção especial. Ariès (1981, p. 194) chama essa proteção especial de 
“período de quarentena” antes de permitir que crianças se unissem aos adultos. 
Isso traz as crianças para uma cultura adultocêntrica: com o exercício do poder 
do adulto em relação aos menores numa relação de absoluta hierarquia com 
aspectos fortes na obediência e submissão direcionados às crianças. 
 
SAIBA MAIS! 
Para se promover um atendimento especializado de excelência para 
crianças e adolescentes é preciso se despir dos valores de adulto e 
buscar a empatia com esse grupo tão vulnerável que sofreu com essa 
vulnerabilidade historicamente construída. É preciso nos lembrarmos 
que já fomos crianças e que se colocar no lugar delas melhora nosso 
foco e nosso entendimento em relação a posição delas em face de 
situações de violência. Leia o artigo “O Conceito de adultocentrismo 
na história: Diálogos interdisciplinares”, disponível em 
https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/15814#:~
:text=Um%20conceito%20surgido%20na%20sociologia,%E2%80%9
D%20na%20historiografia%20infanto%2Dadolescente. 
Acesso em 17.11.2022. 
 
A criança como sujeito de direitos no Brasil só chega com a 
Constituição de 1988, reconhecendo-a como um ser que possui especificidades, 
https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/15814#:~:text=Um%20conceito%20surgido%20na%20sociologia,%E2%80%9D%20na%20historiografia%20infanto%2Dadolescente
https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/15814#:~:text=Um%20conceito%20surgido%20na%20sociologia,%E2%80%9D%20na%20historiografia%20infanto%2Dadolescente
https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/15814#:~:text=Um%20conceito%20surgido%20na%20sociologia,%E2%80%9D%20na%20historiografia%20infanto%2Dadolescente105 
que pertence a um grupo social diferenciado por possuir cultura e experiências 
diferentes das do adulto. A busca da construção de um outro olhar e de uma 
nova postura em direção à criança sugere que esta não seja vista sob a 
expectativa do adulto. Ela precisa ser vista como um ser único: com 
particularidades e características que a difere de nós, adultos. Assim, deve-se 
compreender o que ela pensa da sua realidade e acima de tudo acreditar na sua 
capacidade de dar opiniões, de dialogar sobre temas variados, de exercitar o 
direito de falar e de ser ouvida, ou seja, acreditar que elas podem dizer algo 
sobre si mesmas. 
Esse é um ponto nevrálgico do estudo. Para se prover um atendimento 
que de fato cause efeitos na proteção de crianças e adolescentes é necessário 
entender que o tempo em que eles não eram valorizados enquanto grupo 
acabou. 
DEMARTINI (2002) lembra a importância de aprendermos a ouvir as 
crianças, de escutar as suas vozes, do estabelecimento do diálogo com estes 
sujeitos, pois cada vez mais escutamos, por parte daqueles que convivem e 
trabalham com crianças, sobre a incapacidade de entendê-las. Enquanto 
profissionais de atendimento, devemos refutar ao máximo o distanciamento 
entre adulto e criança provocado pela modernidade. 
Nesse estudo, busca-se um novo olhar e uma nova postura frente às 
crianças e aos adolescentes; para que eles não sejam vistos da perspectiva dos 
adultos como aconteceu historicamente, mas acreditar na sua capacidade de 
dar opiniões, de dialogar sobre temas variados, de exercitar o direito de falar e 
de ser ouvida, ou seja, acreditar que elas podem dizer algo sobre si mesmas. 
Acompanhe esse vídeo que trata da infância sob os aspectos da 
sua individualidade: 
Disponível em: 
https://www.youtube.com/watch?v=tF94AYC9TTY 
 
 
 
 
 
 
https://www.youtube.com/watch?v=tF94AYC9TTY
 
106 
Figura 29 - Crianças: mitos e verdades - Quintal da Cultura 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Youtube, 2021. 
 
Sendo assim, é importante perceber que crianças e adolescentes 
precisam ser vistos em sua essência. E mais: em suas potencialidades. Atender 
pessoas em desenvolvimento não é apenas uma habilidade. É uma decisão. 
Decisão de entender e de mergulhar em suas visões de mundo, opiniões e 
entendimentos do universo frente às suas experiências que são únicas e 
construídas baseadas em suas vivências pessoais. A missão dos profissionais de 
segurança pública que têm como atribuição prestar o atendimento de crianças 
e adolescentes é mergulhar nesse universo e buscar compreendê-lo do ponto 
de vista do público-alvo. 
A professora Silvia Lordello resume bem esse entendimento. Observe: 
“Não é fácil aceitar a ideia de que precisamos renunciar a uma postura 
cultura adultocêntrica para compreender o universo infantil, 
sobretudo quando ele nos é apresentado por meio da linguagem. Isso 
significa que não é possível compreender a criança por nossos 
próprios parâmetros, pois os equívocos interpretativos seriam 
inevitáveis. Se estamos desempenhando a difícil tarefa de ouvir uma 
criança, o primeiro desafio é dar-lhe voz, permitindo que revele seu 
mundo, suas concepções, sua lógica peculiar”. Lordello, 2004 
 
O processo histórico de construção da percepção de crianças e 
adolescentes que temos hoje passou por um grande amadurecimento. Todavia, 
https://www.youtube.com/embed/tF94AYC9TTY?feature=oembed
 
107 
ainda estamos muito distantes de uma sociedade que de fato provê proteção e 
cuidados a esse grupo. Na realidade, pouco se sabe sobre as culturas infantis, 
porque pouco se ouve e pouco se pergunta às crianças e, ainda assim, quando 
isto acontece, a “fala” apresenta-se solta no texto, intacta, à margem das 
interpretações e análises. Estes parecem ficar prisioneiros de seus próprios 
“referenciais de análise”. No âmbito da Sociologia, há ainda resistência em 
aceitar o testemunho infantil como fonte de pesquisa confiável e respeitável. 
É preciso deixar a compreensão de que a criança não é um ator capaz 
de criar e modificar culturas. Elas interagem no mundo, negociam, 
compartilham, compreendem e têm seus próprios pontos de vistas baseados 
nos aspectos de desenvolvimento que possuem em cada fase de sua infância e, 
posteriormente, adolescência. 
Há ainda uma grande segregação entre infância e mundo adulto. 
Muitos dos conceitos históricos em relação a crianças ainda permeiam nossa 
sociedade, impedindo a comunicação entre adultos e crianças, sendo fruto da 
construção histórica equivocada que se tem disponível sobre os infantes. 
Figura 30 - Como repensar nossas atitudes e compreensões no que se refere a voz das crianças 
e dos adolescentes? 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/ressentimento-ficar-ofendido-5189363/. 
 
Logo, muito do que vemos em procedimentos policiais nos quais 
crianças e adolescentes são vítimas têm como base a construção histórica 
 
108 
desses seres ainda em desenvolvimento. Situações nas quais as relações de 
poder entre o adulto e a criança são caracterizadas pela condição de 
subalternidade desta em relação àquele. 
Historicamente, as crianças, assim como os idosos, eram consideradas 
meros fardos sociais, porém mais imaturos e incompletos e naturalmente 
dependentes dos adultos. Neste sentido, as crianças não formavam em si uma 
categoria social que despertasse preocupação conceitual ou epistemológica, e 
suas raras referências eram sempre vinculadas aos estudos relacionados à 
família e aos processos educativos (MÜLLER & CARVALHO, 2009). 
Em razão das suas históricas posições subordinadas tanto na estrutura 
social quanto nas concepções teóricas de infância e socialização, QVORTRUP 
(2010) acredita que as crianças têm sido constantemente marginalizadas e 
caladas. Por este motivo, chamamos atenção para o paradoxo de que apesar de 
sempre terem existido crianças, seres biológicos de geração jovem, nem sempre 
houve infância, categoria social de estatuto próprio. 
PACHECO aponta que: 
Esta desconsideração histórica do status de infância não significava a 
negação extrema da existência biológica destes indivíduos, mas sim o 
reconhecimento que antes do século XVI, a consciência social não 
admitia a existência autônoma da infância como uma categoria social 
diferenciada. Dessa forma, é a partir da modernidade que a ideia de 
infância ganha força ao se referir a um período da existência cuja 
incompletude, incapacidade e necessidade de proteção se tornam as 
características mais marcantes. 
 
Essa desconsideração histórica não tem relação com a negação extrema 
da existência biológica das crianças, mas sim do reconhecimento de que antes 
do século XVI, não se admitia a existência autônoma da infância como uma 
categoria social diferenciada. É somente a partir da modernidade que o 
conceito de infância se fortalece e passa a representar um período da vida 
que conta com incompletudes, incapacidades e necessidade de proteção 
especial. 
Que tal um novo modo de pensar esses conceitos a partir dessa poesia em 
forma de música? Vejam só: 
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zjUbPNWjLPE 
 
https://www.youtube.com/watch?v=zjUbPNWjLPE
 
109 
Figura 31 - Palavra Cantada - Menina Moleca 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Youtube, 2013. 
É sobre isso: incluir a infância em suas especificidades com vistas a 
garantir direitos. No trabalho de segurança pública é preciso mais: é necessário 
que se deixe a postura adultocêntrica. 
Há muito mais em jogo do que apenas se desacreditar da fala de uma 
criança ou de um adolescente. Eles serão instados a apresentar sua versão da 
história, sua visão de mundo durante o atendimento policial. Eles são sujeitos 
de direitos e o trabalho de prestação de segurança pública vai além de 
estabelecer a verdade sob nosso próprio ponto de vista, que é 
absolutamente afetado pelo histórico de construçãodo conceito de criança. 
A reflexão primordial dessa aula é: pare de pensar como 
adulto e de avaliar as situações que lhe forem apresentadas 
durante os atendimentos do seu próprio ponto de vista. 
Pare. Utilize um conceito muito difundido hoje, porém pouco 
aplicado que é a empatia. Pergunte-se: como será que essa 
criança ou esses adolescentes entendem tudo isso? 
A prática social que estabelece o poder aos adultos, deixando jovens e 
crianças com menos liberdade, não pode ter mais espaço na atuação dos atores 
da rede de garantia de direitos. Se mantivermos nossa posição de soberania 
https://www.youtube.com/embed/zjUbPNWjLPE?feature=oembed
 
110 
adulta, determinamos que as crianças têm menos direitos, menos 
conhecimento e menos espaço do que nós, adultos. 
 
Figura 32 - Adultos protegendo e enxergando crianças e adolescentes como seres de igual 
valor, porém com mais necessidade de proteção e valorização. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: https://pixabay.com/pt/illustrations/fam%c3%adlia-amor-cora%c3%a7%c3%a3o-
3256969/. 
 
O convite hoje é para que deixemos esse passado histórico na História 
e escrevamos um novo tempo para crianças e adolescentes que registrarão suas 
histórias a partir de quem eles são. 
Agora, prontos para a aula 2? 
 
Aula 2 – A Lei nº 13.431/2017 e a voz da criança e do 
adolescente 
 
E o que mudou em termos legislativos no que se refere às vozes de 
crianças e adolescentes frente às suas necessidades? Qual o panorama atual? 
Infelizmente a notícia não é boa: pouco mudou na prática. 
Em 2006, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou o 
Relatório Mundial sobre Violência contra Crianças. Esse relatório 
trouxe luz à prática generalizada de violência contra crianças ao 
redor do mundo, independentemente das situações 
 
111 
socioeconômicas e culturais dos países. E como esperado, a 
seguinte conclusão foi trazida à tona: a violência ainda é um 
fenômeno natural, porém intolerável. E mais: ela é invisível. 
Mas como isso? O quadro apresentado pelo estudo revelou que 
embora as crianças sejam vítimas das mais diversas violências, 
suas agruras se tornam invisíveis, porque não há mecanismos e 
instrumentos adequados e seguros para que suas queixas sejam 
registradas. Elas não têm suas vozes ouvidas diante das mais 
perversas realidades às quais são submetidas, reiterando 
práticas históricas de desrespeito aos direitos das crianças e à 
sua condição de ser especial em desenvolvimento. 
 
Figura 33 - Criança sozinha em meio ao caos que é o mundo para os infantes 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/sozinho-garoto-infeliz-triste-3742586/. 
 
Isso é absolutamente estarrecedor e preocupante. O Comitê sobre os 
Direitos das Crianças – órgão consultivo do estudo, ainda chamou a atenção 
para leis ultrapassadas referentes ao abuso sexual e também constatou 
informações confusas sobre o predomínio dos abusos e negligência infantil 
observando o baixo número de notificações – revelando indícios de que o 
sistema de registro dos casos de violência seja ineficaz, ou ainda, que o 
pensamento tradicional e historicamente construído impede a revelação das 
inúmeras violências que crianças sofrem pelo mundo. 
 
112 
Entretanto, você deve estar se questionando: “esse estudo é muito 
antigo. Já estamos em 2023, será que não fizemos grandes avanços nesses 16 
anos?” 
Uma das provas do avanço está na publicação da Lei nº 13.431 de 04 de 
abril do ano de 2017. A lei que ficou conhecida como a Lei da Escuta 
Protegida veio com a finalidade de estabelecer o sistema de garantia de 
direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência e 
alterar a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do 
Adolescente). 
Com a vacância de 1 ano, a referida lei passou a vigorar somente no 
ano de 2018 – 12 anos depois do estudo que tratamos anteriormente. 
 
SAIBA MAIS! 
O objetivo dessa aula não é tratar dos meandres e detalhes da lei, 
que já foi estudada no Módulo 1. Mas não podemos avançar sem 
uma leitura cuidadosa dos termos, conceitos e das definições 
referentes aos instrumentos de oitiva que esse dispositivo traz 
porque é absolutamente inovador e desafiador, tendo em vista o 
histórico do enfrentamento à violência contra crianças e 
adolescentes. Aqui vamos descortinar nossos paradigmas frente a 
voz da criança e do adolescente. Faça uma nova leitura nessa 
perspectiva. 
 
Acesso pelo link: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-
2018/2017/lei/l13431.htm. Acessado em 03.11.22 
 
Sim. Há convenções e leis anteriores à Lei da escuta que tratavam do 
assunto e da proteção desse grupo vulnerável. Tem-se acompanhado uma 
evolução legislativa nessa pauta até que se chegasse ao reconhecimento da 
importância dos relatos de crianças e adolescentes sobre situações de violência. 
E mais: para que houvesse uma regulamentação das situações de oitiva 
especial. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm
 
113 
Um dos documentos base - a primeira semente do que futuramente 
seria o depoimento especial e o regramento na Lei da Escuta Protegida - é a 
Convenção dos Direitos das Crianças de 1990. Ela foi adotada pela Assembleia 
Geral da ONU em 20 de novembro de 1989, mas só passou a vigorar em 2 de 
setembro de 1990. 
A Convenção de 1990 é o instrumento de direitos humanos mais aceito 
na história universal, inclusive pelo governo brasileiro em 24 de setembro de 
1990. O trabalho versa sobre vários direitos das crianças, mas traz em seu artigo 
12 um dos direitos mais lindos que nunca, em toda história, foi considerado: o 
direito à livre expressão e da oportunidade de a criança ser ouvida nos 
processos que lhes diga respeito. E que possa ser ouvida diretamente. 
Acesse a convenção pelo link da Unicef (Fundo das Nações 
Unidas para a Infância): 
https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-
crianca 
É muito emocionante ver o quanto crianças e adolescentes precisam de 
proteção especial. São seres ainda carentes de desenvolvimento em várias 
áreas. Não estão prontos para a vida adulta. E até chegarem lá deverão contar 
com proteção especial. Mas isso não faz deles seres de menor valor. Eles 
possuem condições, respeitadas suas individualidades de desempenharem 
suas essências e personalidades até a maturidade. 
Acompanhem esse vídeo e reflitam sobre essa máxima: 
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XIxpGdPkcL4 
 
 
 
 
 
 
 
https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca
https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca
https://www.youtube.com/watch?v=XIxpGdPkcL4
 
114 
Figura 34 - Direitos das crianças 
 
Fonte: Youtube, 2019. 
 
Chegamos a um tempo muito mais propício para a proteção de crianças 
e adolescentes. Há, porém, uma longa história desde a Convenção até 
chegarmos às garantias de oitiva da Lei nº 13.431 de 2017. 
A escuta protegida nasce da necessidade de se ouvir crianças e 
adolescentes vítimas de violência sexual – inicialmente, na maioria das vezes se 
tornavam acuadas e revitimizadas diante das regras processuais penais. Tudo 
isso somado à impunidade dos autores das violências que eram agraciados pelo 
silêncio de suas vítimas – amedrontadas e machucadas demais em suas almas 
para relatarem seus sofrimentos. 
Muitas são as histórias de juízes e policiais que se depararam com 
situações extremamente constrangedoras e cruéis, quando se era instada uma 
escuta de uma criança ou um adolescente sobre uma situação de violência 
vivida ou testemunhada por eles. 
No livro Lei do Depoimento Especial Anotada e Interpretada, o autor, 
FLÁVIO SCHMIDT, juiz de direito no estado de Minas Gerais, narra uma situação 
ocorrida em uma de suas audiências no ano de 2009. Observe: 
“Não muito distante, agora já emMuzambinho, Sul de Minas Gerais, 
em 2009, prestes a dar início às oitivas das testemunhas e vítimas de 
um crime contra os costumes, ingressou na sala de audiência uma 
menina, pouco mais de quatro anos, vítima do pior crime contra uma 
https://www.youtube.com/embed/XIxpGdPkcL4?feature=oembed
 
115 
mulher: o estupro. Perplexo, vi entrar de mãos dadas com sua mãe, 
cabisbaixa, aquela menina sem qualquer reação, apenas caminhando 
em direção à cadeira que lhe esperava. Confesso que já havia nesses 
anos todos de magistratura ouvido inúmeras crianças e adolescentes, 
nunca com aquela tenra idade, e muito menos vítima de um crime tão 
bárbaro. No método tradicional de oitiva de vítima, não tinha nem 
como dar início aos trabalhos, porque não vinham as palavras certas... 
foi então que resolvi conversar com ela e perguntar-lhe de sua escola, 
suas brincadeiras, seu brinquedo favorito, o que gostava de comer, 
etc. Todos que ali estavam – Promotora, Advogado de Defesa, 
Escrevente e a própria mãe – observavam a dificuldade de ouvi-la. 
Não havendo outro meio, dei início ao método tradicional de oitiva 
das vítimas e disse-lhe que iria ler para ela o que ela havia dito à 
Polícia sobre os fatos e, ao final, se tudo aquilo fosse verdade, bastava 
ela confirmar com um simples gesto, ainda que fosse com a cabeça, 
tudo para evitar constrangimento. Ao dar início a essa leitura, pela 
gravidade dos fatos, parei! Disse a todos que estavam presentes: Não, 
isso é um absurdo! Não vou revitimizar essa criança. Não posso, não 
devo, não é justo com esse pequeno ser, depois de tanto sofrimento 
diante de pessoas estranhas e nesse ambiente hostil, reviver tudo o 
que sentiu. Desculpem-me, mas a audiência está encerrada e a partir 
de hoje, Muzambinho passará a aplicar o depoimento sem dano em 
defesa desses anjos, vítimas de um convívio de uma sociedade que 
não é capaz de conter os avanços de crimes contra crianças e 
adolescentes”. (apresentação do livro) 
 
Como essa, várias são as histórias de atendimentos com essas 
características. Até 2017, havia iniciativas de se transformar essa realidade 
aterradora no que tange à escuta de crianças e adolescentes, mas ainda muito 
restritas a órgãos e a localidades que não possuíam condições de tornar suas 
boas práticas um padrão no país. 
Uma dessas boas práticas que vale a pena ressaltar são os depoimentos 
realizados na Delegacia Especial de Atendimento à Criança e do Adolescente, 
da Polícia Civil do Distrito Federal. Essa unidade da Polícia realiza uma escuta 
especial desde sua inauguração no ano de 1999, ainda que de maneira bem 
intuitiva nos primeiros anos. Com o passar do tempo e com o esmerilar da 
prática, crianças e adolescentes passaram a ser ouvidos, com a garantia de seus 
direitos resguardados e maximizando o valor da prova testemunhal. 
Além desse exemplo temos o depoimento sem dano executado no 
âmbito da justiça gaúcha – movimento encabeçado pelo Desembargador do 
Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul José Antônio Daltoé Cezar em 2003. 
 
116 
Figura 35 - Depoimento especial na fase policial, nas dependências da Delegacia Especial de 
Atendimento à Criança e ao Adolescente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Arquivo pessoal. Juliana Amorim, 2018. 
 
Figura 36 - Sala de depoimento sem dano no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: https://www.tjrs.jus.br/novo/cij/noticias/metodo-do-depoimento-especial-completa-19-
anos/. 
Em termos legislativos, houve uma primeira tentativa na Câmara dos 
Deputados de regulamentação do depoimento especial, o qual ocorreu em 
2006 num projeto de lei que alterava o Código de Processo Penal, 
 
117 
acrescentando ao Capítulo IV-A a forma como seria feita a arguição de crianças 
e adolescentes vítimas ou testemunhas. Porém, mesmo com sua aprovação na 
Câmara, durante a audiência pública realizada pelo Senado Federal, entendeu-
se que o texto deveria ser incorporado ao projeto do novo Código Penal e 
assim perdeu força. 
Parada por seis anos, a iniciativa de regulamentação desse direito 
retorna a discussão em 2015 com o Projeto de Lei nº 3.792/2015, que previa o 
estabelecimento de um sistema de garantia de direitos para crianças e 
adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. 
A fundamentação que levou adiante a iniciativa está calcada na 
absoluta ausência de legislação que protegesse os direitos das crianças e dos 
adolescentes expostos ao sistema de justiça. O que se via com muita frequência 
era a total ignorância à condição de “ser em desenvolvimento”, resultando em 
inúmeras situações de violência secundária – dentre elas a violência 
institucional durante as interações de crianças e adolescentes nos órgãos de 
proteção, segurança e justiça. 
A motivação era construir uma proposta legislativa que contemplasse 
as recomendações normativas internacionais, o que levou a criação de um 
grupo de trabalho sobre o Marco Normativo da Escuta de Crianças e 
Adolescentes. O grupo aprimorou o projeto e atuou na conformidade com a 
legislação nacional, bem como aos acordos internacionais de direitos humanos 
das crianças e dos adolescentes. 
Nessa esteira, nasce a nº Lei nº 13.431 de 04 de abril de 2017, 
regulamentada pelo Decreto nº 9.603 de 10 de dezembro de 2018. Logo, surgiu 
de um clamor público mundial no que tange à urgência em se estabelecer 
meios padronizados que permitissem que crianças e adolescentes fossem 
ouvidos e protegidos, mesmo diante de uma restrição de direitos anterior. É o 
Estado assumindo sua responsabilidade constitucional de assegurar a 
prioridade absoluta no atendimento desse grupo, protegendo-o de toda 
forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e 
opressão. 
Dentre uma série de garantias, a inovação que essa lei trata está 
firmada no regramento dos modos de se ouvir crianças e adolescentes em 
https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2057263
 
118 
processo que demandem uma proteção especial por parte da rede de 
proteção cuja segurança pública está incluída. 
No ponto, a lei traz dois instrumentos para que esse direito à voz possa 
ser exercido: a escuta especializada e o depoimento especial. 
Esses instrumentos serão meios de possibilitar que as crianças e os 
adolescentes exerçam um direito, e não um dever. O que isso significa? Falar é 
facultativo, haja vista que eles não são objetos de produção de prova. O direito 
de falar prevê 3 garantias: ser ouvido, expressar seus desejos e permanecer 
em silêncio. 
Veja o que CHRIS NEWLIN – diretor executivo do Núcleo Nacional de 
Defesa da Criança dos Estados Unidos escreve nessa perspectiva sobre a oitiva 
especial: 
Um método sensível ao nível de desenvolvimento e legalmente 
seguro para obter a informação fática a respeito das alegações de 
abuso e/ou exposição à violência, conduzido por um profissional 
neutro, competentemente treinado, que utiliza pesquisa e técnicas 
pautadas por práticas como parte de um processo investigativo mais 
amplo. (Newlin e outros. Forensic interview: bestpractices. Apud 
ENFAM. Curso de Depoimento Especial, conteudista Eduardo Rezende 
Melo, Unidade III, 2019, Capítulo I, p.2) 
O estabelecimento dessas regras também vai implicar na maneira como 
esse direito à voz deverá ser oferecido pelas instituições. Não será apenas 
satisfazer a pretensão punitiva a qualquer custo sob a aparência de direito da 
criança, mas é entender que é interesse do Estado e facultado à vítima. O 
interesse do Estado é secundário ao interesse da vítima. 
Sendo assim, é preciso se compreender que a lei traz a voz da criança 
para a posição de personagem protagonista. E sim, é um meio de se atender 
a necessidade de segurança da vítima que encontrará nos equipamentos do 
Estado a proteção de que ela necessita no momento em que uma revelação de 
violência acontece.Entretanto, ressalte-se que revelar vivências avassaladoras como 
aquelas relacionadas à violência sexual pode ser extremamente perturbador, 
uma vez que crianças e adolescentes vítimas são expostos a questões da 
sexualidade de maneira precoce, para a qual não tem condições de 
compreender ou dar qualquer consentimento. 
 
119 
A oitiva protegida prevista na lei é um caminho para a 
proteção e para a produção de prova. É proteção porque a 
partir de uma escuta a rede poderá prover os cuidados 
imediatos que a criança ou o adolescente necessitem. É 
proteção porque, assim como previsto na teoria de Maslow, o 
sentimento de segurança é um dos pilares da felicidade. 
Encontrar um espaço seguro para falar, diante da revelação 
haverá provimento de proteção, deve ser a motivação para dar 
voz a crianças e adolescentes. 
 
Aula 3 – A escuta especializada 
 
Entendemos que dar voz à criança e ao adolescente é um direito muito 
recente e que historicamente tal garantia era um sonho muito distante. Um 
longo caminho jurídico foi trilhado até chegarmos aos instrumentos atuais que 
possibilitam uma oitiva protegida e que de fato sirva às atribuições dos órgãos 
de segurança pública. 
É importante salientar que, nesse ponto de partida para a parte mais 
prática desse estudo quando falamos em maximizar as informações para os 
expedientes policiais, não estamos falando de usar a criança e o adolescente 
como objetos para a consecução de um fim, que, no caso da segurança pública, 
é o esclarecimento dos fatos e responsabilização dos agressores. 
MACHADO (2017) explica que: 
O sistema processual penal costuma ser lido como uma resposta 
formal e oficial do Estado às violências praticadas no contexto social 
que guardem relação aparente com o direito penal, ou seja, que 
possam configurar algum crime ou contravenção (Psicologia e polícia: 
diálogos possíveis/organização Aline Pozzolo Batista, Juliana Lima 
Medeiros – Curitiba: Juruá, 2017. P. 89) 
 
Nessa lógica, a vítima ou testemunha pode ser considerada apenas um 
“instrumento para viabilizar a punição do criminalizado”. Ou seja: seu lugar 
não é de sujeito, mas de objeto – não está colocada na história por aquilo que 
vivenciou, mas sim por aquilo que pode oferecer ao sistema. 
 
120 
O testemunho nessa lógica passa a ser meio de vingança e não de 
proteção, como é preconizado pela legislação atual. 
Quando se fala nos instrumentos legais para oitiva de crianças e 
adolescentes, quais sejam: escuta especializada e depoimento especial, 
estabelecem-se termos que garantam a proteção dessas pessoas ainda em 
condição especial de desenvolvimento. 
Daí a importância de um preparo técnico e ético para os profissionais 
que forem demandados a ouvir crianças e adolescentes, porque - sob um 
discurso de proteção - podem ser canais de danos irreparáveis tanto para o 
desenvolvimento delas como para o sucesso do procedimento policial. 
Com esse ponto de partida, vamos conhecer o primeiro instrumento? 
O que é a escuta especializada, então? 
De acordo com a Lei nº 13.431/2017 no seu artigo 7º estabelece: 
A Escuta especializada é o procedimento de entrevista sobre situação 
de violência com criança ou adolescente perante órgão da rede de 
proteção, limitado o relato estritamente ao necessário para o 
cumprimento de sua finalidade (finalidade de proteção social e de 
provimento de cuidados). 
 
Com esse conceito, pode-se dizer que a escuta especializada é um 
instrumento de oitiva com escopo terapêutico? 
Figura 37 - Sessão de terapia 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: https://inpaonline.com.br/blog/psicoterapia-infantil/. 
 
A resposta é não. A ideia do legislador era reduzir os danos da 
revitimização nas situações em que a criança ou o adolescente fossem instados 
a relatar situações violentas. 
Vamos de exemplo? 
 
121 
Imaginem que sua equipe foi acionada para atender um local onde 
supostamente ocorreu uma violência sexual contra uma criança. Sabe-se muito 
pouco dos fatos. Ao chegar ao local, ouve de populares que o suposto autor 
teria sido o genitor da criança e que ela estaria machucada. Como prover os 
primeiros cuidados, uma vez que a Polícia agora integra a rede de proteção de 
crianças e adolescentes? 
Se não houver como obter algumas informações com quem acompanha 
a vítima, será necessário conversar com ela para saber de que cuidados ela 
precisa. Para esses casos, a escuta especializada foi criada: saber que medidas 
tomar para a proteção imediata daquela criança. 
Se eu entender que a escuta especializada é um instrumento de terapia 
ela não atenderá aos objetivos da segurança pública nesse contexto. E mais: se 
eu entender que ela precisa de terapia somente poderá ser realizada por um 
psicólogo. 
Aqui não se trata de ouvir uma criança com a finalidade de tratar 
traumas ou questões emocionais que foram resultado da violência. Para isso, 
temos uma rede de atendimento que fará esse trabalho de maneira eficiente. 
A escuta especializada cumprirá seu papel de garantir os cuidados e 
proteção imediata no momento do atendimento policial. 
Ainda com base na conceituação legal de escuta especializada, eu 
posso considerá-la apenas um instrumento de entrevista forense? 
Figura 38 - Sala de audiência judicial 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/sozinho-garoto-infeliz-triste-3742586/. 
 
122 
A resposta também é negativa. Todos os órgãos da rede de proteção 
do sistema de garantia de direitos: educação, saúde, assistência social, 
segurança pública e direitos humanos são responsáveis para a tomada de uma 
escuta especializada quando estiverem desempenhando a função de 
provimento de cuidados e proteção social. Portanto, não há previsão legal, 
conforme Decreto nº 9.603/2018, de escuta especializada em âmbito forense. 
Até agora entendemos o seguinte: 
1. A EE (escuta especializada) é instrumento que poderá ser utilizado 
por toda a rede de proteção do Sistema de Garantia de Direitos; 
2. Tem como finalidade apenas o provimento de cuidados e a 
proteção social; 
3. Não pode ser confundida com entrevista forense ou atendimento 
terapêutico. 
E como se dará, portanto, uma escuta especializada dentro de uma 
atuação de segurança pública? 
A Escuta Especializada é uma atitude e um procedimento estruturante 
de se ouvir uma criança ou adolescente que revela um fato ocorrido nunca 
estruturado. 
É um procedimento mais livre, sem as amarras de protocolos ou 
procedimentos com regras e requisitos formais. Está fundamentado no relato 
livre – limitado estrita e exclusivamente ao necessário para o cumprimento de 
sua finalidade. 
Vamos às diretrizes para uma escuta especializada? Elas estão descritas 
no Decreto nº 9603/2018, entre os artigos 19 e 21. 
Diretriz #1 
À criança ou ao adolescente deve ser informado em linguagem 
compatível com o seu desenvolvimento acerca dos procedimentos formais 
pelos quais terá de passar e sobre a existência de serviços específicos da 
rede de proteção, de acordo com as demandas de cada situação (Art. 19, 
Parágrafo 1º) 
 
123 
Desse modo, não se pode dissimular quando estiver escutando uma 
criança ou um adolescente. É preciso que eles entendam o procedimento da 
Polícia e sua finalidade. 
Diretriz #2 
A busca de informações para o acompanhamento da criança ou do 
adolescente deverá ser priorizada com os profissionais envolvidos no 
atendimento, com seus familiares ou acompanhantes (Art. 19, Parágrafo 
2º) 
A realização da EE não é obrigatória em todos os casos. Se houver 
condições de se obter informações iniciais para o provimento dos cuidados 
com terceiros, a criança e o adolescente serão preservados de serem ouvidos 
nessa modalidade de escuta. 
Diretriz #3 
O profissional envolvido no atendimento primará pela liberdade 
de expressão da criança ou do adolescente e evitará questionamentos que 
fujam aos objetivos da escuta especializada (Art. 19, Parágrafoaqueles que atuam com esta temática, fato que ganhou extrema 
importância com o advento da Lei nº 13.431/17, como veremos mais adiante. 
 Compondo esse microssistema, há também o Código Penal que tem 
extrema importância quando se trata da criminalização de determinadas 
condutas praticadas em desfavor de crianças e adolescentes. Embora ele não 
traga em seu bojo diretrizes específicas no que tange à proteção desse público, 
é nele que estão disciplinados alguns dos principais crimes, como estupro de 
vulnerável, subtração de incapaz e maus tratos. Na aula seguinte estudaremos 
especificamente alguns crimes em espécie previstos no Código Penal, no 
Estatuto e em outras legislações, os quais possuem extrema relevância para 
atuação dos profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública 
(Susp). 
Integrando também esse microssistema, temos a Lei nº 
13.431/17 que foi introduzida em nosso ordenamento em 2017 
- conhecida como lei da escuta protegida - que, no ano 
seguinte, foi publicado seu Decreto regulamentador nº 
9603/18. No intuito de atingir seu propósito, a lei normatizou 
situações não contempladas em legislações anteriores, 
fortalecendo assim diretrizes apontadas no art. 227 da 
Constituição Federal, no próprio Estatuto da Criança e do 
Adolescente e na Convenção Internacional dos Direitos da 
Criança, internalizada por meio do Decreto nº 99.710/90. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d99710.htm
 
11 
 A lei e o Decreto, como dito acima, além de fortalecerem orientações 
principiológicas anteriores, apresentaram normas inovadoras. Para 
compreender melhor os aspectos principais sob a ótica da atuação do 
profissional de segurança pública, apresentaremos abaixo a lei de forma 
esquematizada, facilitando assim sua compreensão: 
Figura 1 - Lei esquematizada 
 LEI 13.431/17 – ESQUEMATIZADA 
PRINCÍPIOS 
GERAIS 
• proteção integral, vivência sem violência, preservação da saúde 
física e mental, desenvolvimento moral, intelectual e social 
TIPOS DE 
VIOLÊNCIA 
• física 
• psicológica (com citação expressa, bullying e alienação parental) 
• violência sexual (abuso, exploração e tráfico) 
• institucional 
• patrimonial 
FORMAS DE 
COLETA DO 
RELATO DE 
VIOLÊNCIA 
• escuta especializada 
• depoimento especial, com uso de protocolo e gravação em 
áudio e vídeo 
• ambos em local apropriado, acolhedor e com privacidade, por 
profissional capacitado 
GARANTIAS 
EXPRESSAS 
• prioridade absoluta 
• proteção da intimidade e condições pessoais e contra qualquer 
tipo de discriminação 
• receber informações adequadas à sua idade 
• ser ouvido ou respeitado o direito de permanecer em silêncio 
• receber assistência qualificada jurídica e psicossocial 
• limitação de intervenções e celeridade processual 
• ser ouvido em horário mais adequado 
• avaliação contínua de sua segurança, assistência de profissional 
capacitado 
• reparação de danos 
• convivência em família e em comunidade 
• confidencialidade das informações prestadas 
• adaptação das declarações para deficientes ou em outro idioma 
COLETA DE 
VESTÍGIOS 
• disposição expressa que cabe ao IML a coleta, guarda e 
preservação de vestígios de violência sexual 
DELEGACIAS 
ESPECIALIZADAS 
• previsão expressa de criação, incluindo destinação de recursos 
financeiros 
MEDIDAS 
CAUTELARES DE 
PROTEÇÃO 
 
 
• proibição de contato do autor com a vítima 
• afastamento do autor da residência em que vive a vítima 
• acionamento de órgãos socioassistenciais 
• inclusão em programas de proteção de vítima ou testemunha 
 
CRIMES EM 
ESPÉCIE 
• violação do sigilo do depoimento especial – Art. 24 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
 
12 
 O Decreto, por sua vez, ao regulamentar o diploma acima, trouxe 
alguns detalhamentos importantes que também serão apontados em quadro 
esquematizado para facilitar a sua compreensão. 
 
Figura 2 - Decreto esquematizado 
 DECRETO 9.603/18 – ESQUEMATIZADO 
PRINCÍPIOS 
GERAIS 
• repetição daqueles previstos na lei e em outros diplomas 
TIPOS DE 
VIOLÊNCIA 
• não repete os tipos de violência, mas no que tange à violência 
institucional apresenta conceito mais amplo, incluindo poder ser 
cometida por atos comissivos e omissivos 
• apresenta conceito amplo do que é revitimização 
 
FORMAS DE 
COLETA DE 
RELATO DE 
VIOLÊNCIA 
• escuta especializada, acrescentando expressamente que: 
➢ não tem finalidade de produzir prova para a investigação e 
a responsabilização criminal 
➢ utilização por profissionais de Segurança Pública 
• depoimento especial, acrescentando expressamente que: 
➢ sua finalidade é a obtenção de provas 
➢ local reservado, silencioso, com decoração acolhedora e 
simples 
➢ pode ser repetido se houver problemas técnicos ou 
bloqueios emocionais 
GARANTIAS 
EXPRESSAS 
• repetição das garantias previstas na lei, com destaque para a 
inserção de alguns detalhamentos: 
➢ direito de ser ouvido em processo administrativo 
➢ direito de ser consultado sobre ser atendido ou não por 
profissional do mesmo gênero 
• previsão de estabelecimento de mecanismos que permitam a 
cooperação, a integração dos órgãos públicos, o 
compartilhamento de informações e atendimento intersetorial 
 
EDUCAÇÃO • previsão expressa de como deverá agir o órgão de educação 
quando for revelada uma violência - art. 11 
REGISTRO DE 
OCORRÊNCIA 
POLICIAL 
• previsão expressa de alguns aspectos que deverão ser 
observados no momento do registro, dentre eles o direito a sua 
realização mesmo se estiverem desacompanhados 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
 
 Da análise dos dois instrumentos, é possível observar alguns 
regramentos que impactam diretamente a atividade policial, por exemplo a 
necessidade de capacitação continuada, a forma adequada de coleta do relato 
de violência, o direito ao registro de ocorrência (mesmo quando a criança ou 
adolescente estiver desacompanhado de pessoa responsável), a conceituação 
 
13 
de violência institucional e de revitimização e a criação de crime específico de 
violação do relato colhido em sede de depoimento especial. 
Desta forma, a atuação dos profissionais integrantes do Sistema 
Único de Segurança Pública (Susp) deve estar atenta aos 
normativos esculpidos, propiciando o atendimento adequado a 
esse público, fortalecendo seu papel protetivo na atuação 
preventiva e repressiva. 
 Por fim, integrando a composição do microssistema, temos a Lei nº 
14.344/22, conhecida como Lei Henry Borel, a qual veio trazer, à semelhança da 
Lei Maria da Penha, importantes instrumentos de proteção e prevenção quando 
a violência ocorrer em âmbito familiar. Abaixo, como forma de apresentar 
algumas linhas gerais deste novo diploma, apresentaremos novamente um 
quadro esquematizado para facilitar a sua compreensão. 
Figura 3 - Lei esquematizada 
 LEI 14.344/22 – ESQUEMATIZADA 
PRINCÍPIOS GERAIS • reforço do princípio da proteção integral 
TIPOS DE VIOLÊNCIA 
DOMÉSTICA 
• no âmbito do domicílio 
• no âmbito da família 
• em qualquer relação doméstica e familiar 
 
GARANTIAS 
EXPRESSAS 
• quanto à atuação da autoridade policial que deverá: 
➢ encaminhar a vítima ao sistema de saúde e ao IML 
➢ encaminhar vítima, testemunha e familiares ao 
Conselho Tutelar 
➢ garantir proteção policial à vítima 
➢ fornecer transporte para serviço de acolhimento ou 
para local seguro à vítima e familiares 
 
PROTEÇÃO PARA 
QUEM DENUNCIA 
• previsão expressa de possibilidade de proteção e 
compensação do denunciante 
• denunciante pode condicionar o fornecimento de 
informações à execução imediata de medidas de proteção 
• possibilidade de ser incluindo no programa de proteção de 
testemunhas 
MEDIDAS 
PROTETIVAS DE 
URGÊNCIA DE 
AFASTAMENTO DO3º). 
Se você, integrante da segurança pública, precisar “descobrir coisas” a 
respeito do suposto fato criminoso eu NÃO PODEREI UTILIZAR A EE. E todas 
as perguntas que forem necessárias serão obrigatoriamente relacionadas a 
finalidade urgente do momento: prover cuidado e proteção. 
Diretriz #4 
A escuta especializada será realizada por profissional capacitado 
(Art. 20). 
Somente os profissionais treinados para um atendimento especializado 
poderão conduzir uma EE, seja em qualquer das esferas da rede de proteção: 
segurança pública, saúde, educação, assistência social e direitos humanos. É 
preciso ser certificado num curso específico para esse fim para realizar uma 
escuta dessa natureza. 
Diretriz #5 
Os órgãos, os serviços, os programas e os equipamentos adotarão 
procedimentos condizentes com os princípios estabelecidos no Art. 2º do 
Decreto nº 9.603/2018) (Art. 21). 
 
 
124 
SAIBA MAIS! 
Os órgãos de segurança pública que utilizarem o instrumento da EE 
deverão garantir os princípios a seguir: 
Proteção integral 
Melhor interesse 
Preferência em receber atendimento 
Intervenção precoce em situações de perigo 
Exprimir opiniões livremente 
Não discriminação em função de qualquer característica 
Direitos preservados 
Ser consultado sobre preferências 
 
Você pode conferir esses princípios no link: 
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-
2018/2018/Decreto/D9603.htm (Acesso em 13/10/2022). 
 
Diretriz #6 
As interações dos profissionais com a criança ou o adolescente, 
quando necessárias, devem seguir os procedimentos da escuta 
especializada a partir das orientações de cada serviço, não devendo de 
nenhum modo receber a conotação investigativa Art. 19º, parágrafo 4º. 
Mais uma vez se reitera: a EE não é procedimento para obtenção de 
prova ou para levantamento de detalhes do fato com vistas a esclarecê-lo. O 
foco aqui é a vítima ou testemunha, naquilo que elas precisarem no 
imediato atendimento. 
Diante das diretrizes acima, vamos partir para uma definição mais 
prática de uma escuta especializada. 
Ela ainda não pode ser confundida com uma revelação espontânea. 
A “revelação espontânea da violência” pela vítima ou testemunha 
geralmente ocorrerá no ambiente onde a criança ou o adolescente se sinta 
seguro para relatar a violação sofrida (família, escola, durante um atendimento 
de saúde, no balcão da delegacia, etc.). 
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Decreto/D9603.htm
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Decreto/D9603.htm
 
125 
Em tais ocasiões, as pessoas às quais a situação de violência está sendo 
relatada devem apenas ouvir a criança ou o adolescente com atenção, sem 
qualquer intervenção e confeccionar o registro do relato. 
Isso pode acontecer em qualquer lugar e não se configura uma escuta 
especializada necessariamente. 
Se uma criança ou um adolescente se sentir seguro e tiver uma pessoa 
de confiança, eles poderão fazer um relato de violência em qualquer lugar para 
qualquer pessoa. Essa pessoa que ouvir uma revelação dessa natureza será 
conhecida como uma testemunha, denominada testemunha de revelação. Ela 
deverá narrar o que ouviu aos órgãos competentes a fim de buscar ajuda para 
proteção, esclarecimento dos fatos e, se for o caso a responsabilização do autor. 
Ela fará um relato da versão da história que ouvir, formalizando a 
revelação espontânea da criança. Caso o relato da testemunha de revelação não 
seja suficiente para o provimento dos cuidados iniciais, a criança ou o 
adolescente poderão ser ouvidos em escuta especializada. 
O Decreto nº 9.603/2018 relata a respeito do assunto no artigo 4, 
parágrafo 3, conforme descrito abaixo: 
Na hipótese de revelação espontânea da violência, a criança e o 
adolescente serão chamados a confirmar os fatos na forma 
especificada no § 1º deste artigo (escuta especializada ou depoimento 
especial). 
 
Resumindo: uma revelação espontânea poderá ensejar num 
procedimento de oitiva, seja ele em escuta especializada seja em depoimento 
especial. 
Vamos exemplificar algumas situações em que uma escuta 
especializada poderá necessária na rotina de atuação da segurança pública. 
Exemplo 1: Um adolescente sofre um roubo em via pública. Uma 
guarnição da Polícia Militar passa no local e é acionada pelo adolescente que 
informa o roubo. Um policial militar capacitado poderá proceder a escuta 
especializada do adolescente para saber se ele está machucado e para ir em 
busca do criminoso e do bem roubado, configurando uma situação flagrancial. 
Exemplo 2: Uma criança que se apresenta no balcão de uma delegacia 
de polícia narrando uma situação de violação de direitos dela ou de terceiros: 
sua mãe que vem sendo agredida fisicamente pelo companheiro. Ela poderá 
 
126 
comunicar a ocorrência sem necessidade de um representante legal (previsão 
no artigo 13 parágrafo 2º do Decreto nº 9.603/2018). O policial civil 
capacitado que fizer tal atendimento poderá ouvir a criança em escuta 
especializada, limitando suas indagações à proteção imediata da criança e 
da sua mãe. 
Exemplo 3: o batalhão escolar ou o policial responsável pelo projeto 
Proerd (Programa educacional de resistência às drogas), na caixinha de 
perguntas que deixam à disposição das crianças na escola, poderá se deparar 
com narrativas de violações de direitos - seja na condição de vítimas ou 
testemunhas. Uma vez identificado o escritor, poderão proceder a escuta 
especializada com vistas a proteger e cuidar da criança ou do adolescente em 
questão. 
Em suma: a EE tem uma finalidade específica, mas não uma estrutura 
rígida – sendo sua execução um procedimento que seguirá as diretrizes legais. 
 
Aula 4 – O Depoimento Especial 
 
O que é o Depoimento Especial? 
De acordo com a Lei nº 13.431/2018, é o procedimento de oitiva de 
criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência perante autoridade 
policial ou judiciária (finalidade de produção de provas). 
Ou seja: é o procedimento que vai garantir à polícia e à justiça as 
informações nas declarações de crianças e adolescentes com vistas a 
esclarecer os fatos sob apuração e compor os procedimentos da 
investigação para instrução dos processos judiciais. 
É um procedimento formal e, por isso, possui requisitos obrigatórios. 
São eles: 
▪ Gravação com equipamento que assegure a qualidade audiovisual. 
▪ Regido por protocolo de oitiva. 
▪ Conduzido por autoridades capacitadas, observado o disposto no 
art. 27 da Lei 13.431/2017 e realizado em ambiente adequado ao 
desenvolvimento da criança ou do adolescente. 
 
127 
▪ Os profissionais do sistema de garantia de direitos da criança e do 
adolescente vítima ou testemunha de violência participarão de cursos de 
capacitação para o desempenho adequado das funções previstas. 
▪ Não repetição, exceto quando justificada a sua 
imprescindibilidade pela autoridade competente e houver a 
concordância da vítima ou da testemunha, ou de seu representante legal. 
▪ Os órgãos policiais envolvidos envidarão esforços investigativos 
para que o depoimento especial não seja o único meio de prova para o 
julgamento do réu. 
É importante ressaltar que o DE não resume a investigação. Não é a 
prova menos importante que pode ser suprimida em todos os casos. Também 
não é a verdade absoluta dentro do suposto fato criminoso que estamos 
investigando. 
O DE é uma das engrenagens da máquina que move a apuração 
criminal. Ela funcionará bem conjuntamente com as demais provas que serão 
levantadas no corpo do apuratório. 
Figura 39 - O DE na investigação 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Arquivo pessoal, Juliana Amorim. 
Diante desses requisitos, a polícia estava diante de um grande desafio: 
adequar suas práticas para atender a lei e tornar seu trabalho de enfrentamento 
cada vez mais profissional, técnico e científico. 
 
128 
Em 2017, com a edição da lei, a Polícia Civil do DistritoFederal – 
buscando se adequar totalmente à legislação para continuar seu trabalho 
dentro da Delegacia Especial de Proteção à Criança e ao Adolescente - iniciou o 
estudo com base nas experiências com escuta de crianças e adolescentes desde 
sua inauguração em 1999 - para a construção de protocolo de depoimento 
especial que se adequasse às necessidades do trabalho policial. 
O objetivo do documento, denominado Protocolo de Polícia 
Judiciária para Depoimento Especial de Criança e Adolescente, é colher, na 
esfera policial, o Depoimento Especial de crianças e adolescentes apontados 
como vítima ou testemunha de violência, priorizando a condição de ser em 
desenvolvimento, a diminuição dos danos da revitimização e garantindo a 
oportunidade de direito de fala, com a finalidade de produzir elementos 
probatórios, com base na legislação vigente. Realizá-lo, exclusivamente por 
policiais devidamente capacitados, por meio do presente protocolo, como 
instrumento auxiliar na elucidação e compreensão dos fatos em apuração. 
 
Figura 40 - Protocolo de Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança e Adolescente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Arquivo pessoal, Juliana Amorim. 
 
129 
Foi assim que a PCDF em parceria com a Universidade de Brasília 
desenvolveu o documento em tela. 
É um procedimento para a realização do DE dividido em 8 fases, quais 
sejam: apresentação, ambientação e avaliação, orientações e instruções, 
transição, relato livre, questões pertinentes à investigação policial, fechamento e 
tópico neutro. 
 
Figura 41 - Protocolo de Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança e Adolescente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Arquivo pessoal, Juliana Amorim. 
 
A construção do documento acima se deu em virtude de alguns fatores, 
uma vez que já existiam à época vários protocolos, que atenderiam pelo menos 
minimamente, o requisito legal do uso de um documento com essa finalidade. 
Por que um protocolo novo no Brasil? 
1. A necessidade de um protocolo específico à esfera policial 
baseado nas demandas da legislação vigente no país; 
2. Exploração de peculiaridades da conduta criminosa que são 
fundamentais para a tipificação do crime; 
3. Adequação ao ambiente policial e entendimento de sua realidade; 
4. Outros protocolos não são capazes de abarcar as demandas do 
contexto; 
 
130 
5. Falta de padronização do uso de protocolos no país; 
6. Falta de uso de protocolos no contexto de oitivas dentro da 
polícia. 
A realidade brasileira se mostrava muito fora dos padrões estabelecidos 
pela legislação. Era preciso que a partir da atribuição legal de tomada de 
depoimentos especiais as polícias apresentassem uma resposta que se 
adequasse à lei e às peculiaridades de seu trabalho. 
A construção, então, baseou-se como fontes de pesquisa: 
a) Literatura - concepção teórica sobre o tema e outros protocolos 
que abarcam a oitiva de crianças e adolescentes validados pela 
comunidade científica nacional e internacional; 
b) Entrevista com profissionais e especialistas da área; 
c) Grupos focais de policiais com formações em áreas do 
comportamento humano (psicologia, psicopedagogia, psicanálise e 
pedagogia), bem como vasta experiência em investigação policial e em 
coleta de relatos de crianças e adolescentes vítimas e testemunhas de 
violência. 
 
Nas atividades de construção, a equipe realizou um levantamento de 
protocolos já existentes (todos eles relacionados ao âmbito forense), grupos 
focais e construção dos itens que deveriam compor o procedimento. 
Vários documentos foram analisados e testados com vistas a entender 
se eles atenderiam a demanda do trabalho policial. Foram eles: 
 
 
 
 
 
 
 
131 
Figura 42 - Protocolos estudados para a construção do Polícia Judiciária para Depoimento 
Especial de Criança e Adolescente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Arquivo pessoal, Juliana Amorim. 
 
Além disso, foram realizados estudos de evidências de validade, com 
vistas a verificar se, de fato, o uso do protocolo trazia benefícios nas 
perspectivas da proteção quando da produção de prova. Verificou-se que com 
o uso do procedimento houve um aumento em mais de 30% de 
verbalizações de violência em relato livre – aumentando o valor 
probatório do depoimento. 
Houve ainda entrevistas com especialistas na temática de proteção de 
crianças e adolescentes que avaliaram o documento, opinando quanto a sua 
efetividade e legalidade. 
E, ao final, a elaboração de um manual de uso foi realizada, a fim de 
instrumentalizar os profissionais que fariam uso do protocolo em suas rotinas 
de investigação. 
 
 
 
 
132 
Figura 43 - Manual de uso Protocolo de Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança 
e Adolescente. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Arquivo pessoal, Juliana Amorim. 
 
Ambos os documentos estão disponíveis no link a seguir: 
 
 
 
E ao final a elaboração de um manual de uso foi realizada, a fim de 
instrumentalizar os profissionais que fariam uso do protocolo em suas rotinas 
de investigação, contendo: 
▪ Orientações para o uso do protocolo; 
▪ Informe teórico sobre conceitos presentes; 
▪ Material de referência para consulta; 
▪ Especificações que agreguem ao protocolo. 
 
É imperioso enfatizar que este curso não habilita para a tomada de 
depoimento especial, uma vez que para tanto são necessários instruções e 
treinamento específicos. 
 
https://www.pcdf.df.gov.br/informacoes/manuais-e-protocolos 
 
133 
Aula 5: A revelação da criança e do adolescente e as 
evidências de veracidade. 
 
 Como identificar se aquilo que está sendo dito pela criança 
corresponde ao que ela viveu ou assistiu? Quais são os elementos que apontam 
para a veracidade do relato? 
Quando uma força policial é chamada para atender um caso de 
vitimização de crianças e adolescentes, de modo geral, outros elementos são 
atendidos além da vítima ou testemunha em si. É possível dizer que são 
ouvidas, além da vítima, uma história e um adulto responsável. 
Até hoje, mesmo depois da promulgação da Lei nº 13.431/2017, 
crianças e adolescentes são ouvidos de forma reiterada pelos órgãos da Rede 
de Atenção a Pessoas em Situação de Violência, de modo a prejudicar a 
preservação da memória dos fatos, além de promover um processo chamado 
de revitimização. Tal conduta pode trazer consequências psicopatológicas 
importantes no que se refere à reatualização dos afetos referentes à situação 
previamente vivida de violência. 
Revitimização – discurso ou prática institucional que submeta crianças 
e adolescentes a procedimentos desnecessários, repetitivos, invasivos, 
que levem as vítimas ou testemunhas a reviver a situação de violência 
ou outras situações que gerem sofrimento, estigmatização ou 
exposição de sua imagem (BRASIL, DECRETO Nº 9.603, 10/12/2018). 
Quando uma pessoa em estado de desenvolvimento é ouvida por sua 
condição de vítima ou de testemunha de violência, é preciso levar em 
consideração quais são as condições de preservação da memória dos fatos, 
bem como sua capacidade de comunicar aquilo que viu ou viveu. 
A memória representa a habilidade dos seres vivos de adquirir, reter e 
usar informações ou conhecimentos (TULVING, 1987). Portanto, não se trata 
apenas de lembrar algo. Mas sim, de um processo complexo influenciado por 
vários elementos que vão desde decodificar o que se aprendeu a partir dos 
sentidos, passando por manter esse conteúdo até chegar na capacidade de 
contar sobre o que percebeu. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/decreto/d9603.htm
 
134 
Segundo STEIN (2009), antes de ouvir uma criança ou adolescente é 
preciso compreender quais são os caminhos que seguem a tarefa de 
testemunhar. Conforme a autora, seriam eles: 
1. O indivíduo percebe um determinado evento. 
2. A experiência fica armazenada em sua memória. 
3. A pessoa buscaacessar as informações retidas em sua memória. 
4. A capacidade do sujeito de comunicar aquilo que está retido em 
sua memória. 
5. Motivação do sujeito para contar. 
Quando o sujeito está diante de um evento de violência, vários fatores 
influenciam seu processo de codificação e armazenamento, ou seja, sua 
compreensão do que se trata aquilo que ele viu ou viveu. Depende, para isso, 
do seu nível atencional no momento, do seu conhecimento prévio sobre aquele 
tipo de evento, o interesse ou importância do ocorrido, a duração e repetição 
do evento original, assim como o nível do estresse no momento da codificação. 
Para que ocorra o resgate da experiência na memória é preciso levar 
em consideração a quantidade de tempo transcorrido entre o evento original e 
seu relato, o número de vezes que as lembranças da ocorrência são acessadas, a 
quantidade e o tipo de entrevistas às quais o sujeito foi submetido e as 
alterações nas crenças, ou seja, o quanto ele acredita que se tratar de um 
evento de violência de fato. Esses fatores influenciarão o quanto as recordações 
serão fortalecidas, enfraquecidas ou distorcidas. 
Além disso, o estado psicológico do indivíduo, a intensidade emocional 
do evento e a motivação para contar terão forte impacto no relato. Assim como 
a condição desta memória; como ela foi preservada. É preciso levar em 
consideração também o grau de semelhança ou discrepância entre as 
circunstâncias em que o evento foi vivenciado e aquelas nas quais o indivíduo 
está recuperando as informações, pois elas vão interferir no quanto se lembrará. 
Isso ocorre porque a memória humana é influenciada pelo conhecimento 
prévio esquemático ou conhecimento baseado em scripts. 
As memórias, porém, não são armazenadas de forma integral e, 
mesmo estabelecidas e consolidadas, não são permanentes. Este é o 
fenômeno do esquecimento: somos melhores na generalização e na 
 
135 
abstração de conhecimentos do que na retenção de um registro literal 
de eventos. O esquecimento é fisiológico e ocorre continuamente, 
enfraquecendo o traço de memória do que foi aprendido. De fato, 
esquecer é uma função essencial ao bom funcionamento da memória: 
seria impossível, e pouco prático, evocar com riqueza de detalhes 
todas as informações que necessitamos num único dia. (DALMAZ et 
all) 
Segundo ROVINSKI (2019), existem 6 fatores fundamentais que 
influenciam no grau de exatidão de um relato de vitimização: 
1) As demandas cognitivas exigidas durante a coleta dos dados. 
2) O tempo transcorrido do evento. 
3) As circunstâncias em que o fato é recordado (ex.: tipo de 
perguntas formuladas). 
4) Fatores emocionais e sociais. 
5) Motivação para contar. 
6) Desejo de agradar o entrevistador. 
Apesar de todo conhecimento científico construído em torno da 
Psicologia do Testemunho, ainda pesa sobre o entrevistador de crianças e 
adolescentes vítimas ou testemunhas de violência o fato de que esse tipo de 
evento pode não deixar vestígios nos corpos da vítima e nem sempre 
deixam danos psicológicos facilmente detectáveis. A falta desses indícios 
psicopatológicos não pode ser vista como sinal de que não houve violência 
(STEIN et all, 2010). Em muitos casos, o relato da criança ou do adolescente 
torna-se a única evidência para tornar a violência visível e audível. 
Dessa forma, é preciso que expectativas sejam equalizadas no que se 
refere à produção de prova por parte da vítima. Além disso, é mister considerar 
que pessoas em estágio de desenvolvimento apresentam características 
especiais no que se refere à linguagem e memória como foi discutido 
anteriormente no Módulo 2. 
Uma estratégia muito eficiente na compreensão global do caso é a 
reunião de informações que a rede de serviços, instituições e pessoas que 
estão ao redor da vítima já produziu. Os serviços de saúde podem fornecer 
informações fundamentais sobre as condições físicas e emocionais da criança 
ou adolescente; assim como a escola pode relatar possíveis revelações 
 
136 
ocorridas ali. O Conselho Tutelar pode informar se já existe um histórico de 
acompanhamento de determinada família, ampliando o olhar sobre os atores 
envolvidos nela. 
Portanto, é preciso compreender que o atendimento de pessoas em 
situação de violência não se faz sozinho ou em uma instituição única. Para se 
dar conta da complexidade envolvida nos casos, é preciso que toda a Rede se 
reúna e, assim, possa oferecer um atendimento verdadeiramente integral. 
FALSAS MEMÓRIAS E DEPOIMENTO INFANTOJUVENIL 
Quando se pretende entrevistar uma vítima ou testemunha de violência 
que ainda esteja em estágio de desenvolvimento, o que se procura é um relato 
confiável que possa aumentar o valor da prova testemunhal. Porém, quando 
estamos falando dessa temática, o risco de promover aprofundamento no 
sofrimento através de entrevistas malconduzidas é enorme. 
O impacto do abuso sexual à saúde mental das vítimas tem sido 
extensamente estudado e relatado na literatura. É consenso entre os 
autores que a violência sexual aumenta o risco de as vítimas 
desenvolverem algum transtorno mental e apresentarem 
comportamentos autodestrutivos (SERAFIM, 2011). 
Não é possível perder a perspectiva de que nessa área de atuação lida-
se com pessoas que sofreram traumas importantes e que por consequência, 
possam estar em estado de profunda fragilidade emocional e psicológica. As 
emoções aí envolvidas, são capazes de influenciar, inclusive, na qualidade da 
memória e na capacidade de comunicação desse sujeito. 
Estudos demonstram que “crianças em situações de estresse, ou seja, 
com alto teor emocional, com valência negativa e com alto nível de alerta, 
geralmente apresentam uma melhora da memória para o evento” (STEIN, 2010, 
p. 163)”. Todavia, com as informações periféricas relativas ao evento, como data 
e duração, parecem ocorrer falhas. Eles podem ser esquecidos ou distorcidos. 
Aqui apresenta-se um grande desafio no que se refere a abuso sexual e 
crenças limitantes. A imensa maioria dos abusos cometidos contra crianças e 
adolescentes são perpetrados por algum familiar ou pessoa próxima. Aqueles 
que ocorrem no âmbito doméstico, geralmente vêm associados a algum tipo de 
distorção no que diz respeito ao conceito do ato. Relatos de vítimas mostram 
 
137 
que muitos abusadores cometem o crime dizendo à sua vítima que aquilo se 
trata de algum tipo de carinho especial ou cuidado privilegiado. 
Isso pode diminuir o nível de estresse associado ao crime e fazer com 
que a vítima não consiga nomear a experiência de forma correta. Aqui 
entra a importância fundamental de campanhas educativas sobre abuso 
sexual nas escolas e em instituições que acolhem crianças e adolescentes. 
Outro dado importante referente à fidedignidade do relato se refere 
ao tempo transcorrido entre a violência vivida e o depoimento. 
Estudos de campo realizados por equipes especializadas em avaliar 
crianças vítimas de situações de abuso sexual e violência também 
indicam boa recordação das crianças para esse tipo de episódio. 
Entretanto, a qualidade da memória para o evento é prejudicada pelo 
tempo transcorrido entre a ocorrência do evento e a entrevista 
investigativa. Quanto mais demora em realizar a entrevista com 
crianças, maior perda de informações relevantes sobre o evento é 
observada (LAMB, STERNBERG e ESPLIN, 2000 apud STEIN, 2010, p. 
164). 
Outro dado importante referente à fidedignidade do relato se refere ao 
tempo transcorrido entre a violência vivida e o depoimento. Entende-se que 
quanto menor a criança, menor a preservação de traços periféricos (detalhes) da 
violência na memória. Devido a essa constatação, a Lei nº 13.431/2017 traz a 
importância de que se colha depoimento especial de crianças de forma 
antecipada. 
Art. 11. O depoimento especial reger-se-á por protocolos e, sempre 
que possível, será realizado uma única vez, em sede de produção 
antecipada de prova judicial, garantida aampla defesa do investigado. 
§ 1º O depoimento especial seguirá o rito cautelar de antecipação de 
prova: I - quando a criança ou o adolescente tiver menos de 7 (sete) 
anos; II - em caso de violência sexual. (BRASIL, LEI 13.431, 4/4/2017). 
Para além da carga emocional envolvida no evento e do tempo 
transcorrido entre a violência e o depoimento, outro desafio se impõe para a 
fidedignidade do relato. Este também pode ser influenciado pelo contexto 
social no qual a vítima ou testemunha está inserida. Dessa forma, a 
sugestionabilidade é um dos maiores empecilhos ao relato estrito do fato. 
A sugestionabilidade consiste na tendência de um indivíduo em 
incorporar informações distorcidas, provindas de fontes externas, de 
forma intencional ou acidental, às suas recordações pessoais 
(SCHACTER, 1999 apud STEIN, 2010, p. 167) 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13431.htm
 
138 
Considerando que a recordação livre parece produzir menos erros, ela 
é o melhor método para se identificar possíveis elementos de 
sugestionabilidade no depoimento de uma criança ou adolescente. Além disso, 
como aponta STEIN (2010), tanto fatores inerentes ao estágio de 
desenvolvimento cognitivo da criança quanto o modo como ela é entrevistada, 
influenciarão na possibilidade do depoente ser sugestionável. 
Conclui-se, portanto, que a entrevista de crianças e adolescentes com 
fins de produção de provas precisa ser realizada por profissional treinado em 
protocolos de padrão científico para que se evite perguntas que levem a 
respostas sugestionadas. 
 
Finalizando 
 
Neste módulo, você aprendeu que: 
 
• O processo de valorização da voz de crianças e adolescentes vem sendo 
historicamente construído; 
• Já existe regulamentação em lei (Lei nº 13.431/2017) para se ouvir 
crianças e adolescentes sobre situações de violência; 
• A Escuta Especializada será realizada para proteção social e provimento 
de cuidados; 
• O Depoimento Especial será realizado apenas em âmbitos policial e 
judicial para produção de provas; 
• É possível avaliar as declarações de crianças e adolescentes de modo a 
garantir sua proteção e obter as informações necessárias para o 
esclarecimento dos fatos. 
 
 
 
 
 
 
 
139 
Referências Bibliográficas 
 
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e 
estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed Editora, 2014. 
 
Animação: Comunicação. Janela da Alma Psicanálise, 2018. Disponível 
em:https://www.youtube.com/watch?v=C46FsySwXGs&ab_channel=JaneladaAl
maPsicanalise. Acessado em 01/11/2022. 
 
Anuário Brasileiro de Segurança Pública: 2022. São Paulo: FBSP, 2022. 
 
ARIÈS, P. História social da infância e da família. Tradução: D. Flaksman. Rio de 
Janeiro: LCT, 1981. 
 
BELLO, Laura Dal; MARRA, Marlene O fenômeno da transgeracionalidade no 
ciclo de vida familiar: casal com filhos pequenos. Revista Brasileira de 
Psicodrama, v. 28, n. 2, p. 118-130, 2020. Disponível em: 
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-
53932020000200003 Acesso em 01/09/2022. 
 
BORDIN, Isabel.; PAULA, Cristiane. Estudos populacionais sobre saúde mental de 
crianças e adolescentes brasileiros. In: MELLO, M. F.; MELLO, A. A. F.; KOHN, R. 
(Org.). Epidemiologia da saúde mental no Brasil. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 
101-117. 
 
BOZOLAN, Patrícia Simone; MACHADO, Leonardo Miranda; MENDES, Jean Felipe 
e SANTIAGO, Ana Cristina Melo, 2021, A Lei 13431/2017 e o protocolo de 
Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança e Adolescente” em 
Pedofilia Doutrina e Prática – A visão do Delegado, p. 162,163). 
 
BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil. Promulgada no dia 05 
de outubro de 1988. Disponível em 
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. 
https://www.youtube.com/watch?v=C46FsySwXGs&ab_channel=JaneladaAlmaPsicanalise
https://www.youtube.com/watch?v=C46FsySwXGs&ab_channel=JaneladaAlmaPsicanalise
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-53932020000200003
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-53932020000200003
 
140 
BRASIL, Lei nº 13.431, de 04 de abril de 2017. Estabelece o sistema de garantia 
de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência e 
altera a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do 
Adolescente), Brasília, DF, 2017. Disponível em 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm 
 
BRASIL, Lei nº 14.344/22. Cria mecanismos para a prevenção e o enfrentamento 
da violência doméstica e familiar contra a criança e o adolescente, nos termos 
do § 8º do art. 226 e do § 4º do art. 227 da Constituição Federal e das 
disposições específicas previstas em tratados, convenções ou acordos 
internacionais de que o Brasil seja parte; altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de 
dezembro de 1940 (Código Penal), e as Leis nºs 7.210, de 11 de julho de 1984 
(Lei de Execução Penal), 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do 
Adolescente), 8.072, de 25 de julho de 1990 (Lei de Crimes Hediondos), e 
13.431, de 4 de abril de 2017, que estabelece o sistema de garantia de direitos 
da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência; e dá outras 
providências. Disponível em https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-
2022/2022/lei/l14344.htm. Promulgada em 24.02.2022. 
 
COSTA, Liana; PENSO, Maria Aparecida. Famílias com abuso sexual infantil: o 
dilema entre a mudança e a cristalização de influências transgeracionais. In: 
C.M.O. Cerveny (Org.), Família em movimento (pp. 203-226). São Paulo: Casa do 
Psicólogo, 2007. 
 
DALMAZ, Carla; ALEXANDRE NETTO, Carlos. A memória. Ciência e Cultura, v. 56, 
n. 1, p. 30-31, 2004. Disponível em: 
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-
67252004000100023&script=sci_arttext Acessado em 16/09/2022. 
 
Decreto nº 9.603/2018 Regulamenta a Lei nº 13.431, de 4 de abril de 2017, que 
estabelece o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima 
ou testemunha de violência. Publicado em 10.12.2018. 
 
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/l14344.htm
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/l14344.htm
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252004000100023&script=sci_arttext
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252004000100023&script=sci_arttext
 
141 
Direitos das Crianças - Direção-Geral da Saúde. Ano 2019. Disponível em 
https://www.youtube.com/watch?v=XIxpGdPkcL4. Acessado em 30/01/2023. 
 
DPCA/PCDF e UnB. Protocolo de Polícia Judiciária para Depoimento Especial de 
Criança e Adolescente, 2018. 
 
ENGEL, Cíntia Liara. As atualizações e a persistência da cultura do estupro no 
Brasil. 2017. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/8088 
Acessado em 08/09/2022. 
 
Escuta ativa empática | Socioemocional de Educadores | Tradução em Libras, 
2021. Disponível em 
https://www.youtube.com/watch?v=SobADwQ5lA4&ab_channel=InstitutoAyrto
nSenna. Acessado em 30/01/2023. 
 
ESTEVES, Maria Maia Gouvêa e ROCHA, Beatriz Karine Cardoso Rocha. A 
construção de conceitos geográficos na educação infantil. Simpósio 
pedagógico e pesquisa em educação. 2018. Disponível em: 
https://www.aedb.br/simped/artigos/artigos18/36927451.pdf. Acessado em 
21/09/2022. 
 
FARIA, Ana Lucia G.; DEMARTINI, Zelia B. F. Por uma cultura da infância: 
metodologias de Pesquisa com crianças. Campinas: Autores Associados, 2002. 
 
HABIGZANG, Luísa; RAMOS, Michele; KOLLER, Sílvia Helena. A revelação de 
abuso sexual: as medidas adotadas pela rede de apoio. Psicologia: Teoria e 
Pesquisa, v. 27, p. 467-473, 2011. Disponível em: 
https://www.scielo.br/j/ptp/a/Zs6C6DvBkVvgdt6hSTMVv6g/abstract/?lang=pt 
Acessado em: 03/09/2022. 
 
KOHAN, Walter Omar. Infância. Entre a Educação e a Filosofia. Belo Horizonte: 
Autêntica,2003. 
 
https://www.youtube.com/watch?v=XIxpGdPkcL4
http://repositorio.ipea.gov.br/handle/11058/8088
https://www.youtube.com/watch?v=SobADwQ5lA4&ab_channel=InstitutoAyrtonSenna
https://www.youtube.com/watch?v=SobADwQ5lA4&ab_channel=InstitutoAyrtonSenna
https://www.aedb.br/simped/artigos/artigos18/36927451.pdf
https://www.scielo.br/j/ptp/a/Zs6C6DvBkVvgdt6hSTMVv6g/abstract/?lang=pt
 
142 
LIDCHI, Victoria. Maus-tratos e proteção de crianças e adolescentes: uma visão 
ecossistêmica. Rio de Janeiro: Editora do Instituto NOOS, 2010. 
 
LORDELLO, Silvia. Desenvolvimento infantil: a revelação da criança pela 
linguagem. In: SANTOS, Benedito Rodrigues et al. (Orgs.). Escuta de crianças e 
adolescentes em situação de violência sexual: aspectos teóricos e 
metodológicos. Brasília: EdUCB, 2014. p. 43-55. Disponível em: 
https://www.childhood.org.br/publicacao/guia-de-referencia-em-escuta-
especial-decriancas-e-adolescentes-em-situacao-de-violencia-sexual-aspectos-
teoricos-emetodologicos.pdf. Acessado em: 21/09/2022. 
 
MARRA, Marlene; COSTA, Liana. Entre a revelação e o atendimento: família e 
abuso sexual. Avances em Psicología Latinoamericana, v. 36, n. 3, p. 459-475, 
2018. Disponível em: 
http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1794-
47242018000300459 Acessado em: 01/09/2022. 
 
Mario Sergio Cortella - Faça o Teu Melhor. Canal do Cortella, 2018. Disponível 
em 
https://www.youtube.com/watch?v=dd1bsHYYqjg&ab_channel=CanaldoCortell
a. Acessado em 30/01/2023. 
 
Ministério da Saúde. Linha de Cuidado para a Atenção Integral de Crianças e 
Adolescentes e suas Famílias em Situação de Violência. Disponível em: 
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/linha_cuidado_criancas_familias_vio
lencias.pdf. Acessado em 11/10/2022. 
 
MULLER, Fernanda; CARVALHO, Ana Maria Almeida. Teoria e Prática na Pesquisa 
com crianças: Diálogos com Willian Corsaro. São Paulo: Cortez, 2009. 
 
NASCIMENTO, Lucila; ROCHA, Semiramis; HAYES, Virginia Ellen. Contribuições 
do genograma e do ecomapa para o estudo de famílias em enfermagem 
pediátrica. Texto & Contexto-Enfermagem, v. 14, p. 280-286, 2005. Disponível 
http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1794-47242018000300459
http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1794-47242018000300459
https://www.youtube.com/watch?v=dd1bsHYYqjg&ab_channel=CanaldoCortella
https://www.youtube.com/watch?v=dd1bsHYYqjg&ab_channel=CanaldoCortella
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/linha_cuidado_criancas_familias_violencias.pdf
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/linha_cuidado_criancas_familias_violencias.pdf
 
143 
em: 
https://www.scielo.br/j/tce/a/vJTdMSgqXbNqdnTx64d7KTx/abstract/?lang=pt 
Acessado em: 03/10/2022. 
 
Newlin e outros. Forensic interview: bestpractices. Apud ENFAM. Curso de 
Depoimento Especial, conteudista Eduardo Rezende Melo, Unidade III, 2019, 
Capítulo I, p.2). 
 
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE; KRUG, Etienne G. Relatório mundial sobre 
violência e saúde. Genebra: Organização Mundial da Saúde, 2002. Disponível 
em: https://opas.org.br/wp-content/uploads/2015/09/relatorio-mundial-
violencia-saude.pdf Acesso em 01/10/2022. 
 
Pinheiro, Paulo Sérgio. Violência Contra crianças: informe mundial. Organização 
das Nações Unidas. 2006. 
 
QVORTRUP, Jens. A infância enquanto categoria estrutural. Educação e 
Pesquisa, São Paulo. 
 
ROSSATO, Luciano, LÉPORE, Paulo Eduardo, CUNHA, Rogério Sanches, “Estatuto 
de Criança e do Adolescente comentado” – 10.ª edição, 2018. 
 
ROVINSKI, Sonia; PELISOLI, Cátula. Violência Sexual Contra Crianças e 
Adolescente: testemunho e avaliação psicológica. São Paulo: Vetor Editora, 
2020. 
 
Sala de audiência judicial. Disponível em 
https://pixabay.com/pt/photos/sozinho-garoto-infeliz-triste-3742586/. 
Acessado em 30/01/2023. 
 
Sala de depoimento sem dano no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. 20 
de maio de 2022. Disponível em 
https://www.scielo.br/j/tce/a/vJTdMSgqXbNqdnTx64d7KTx/abstract/?lang=pt
https://opas.org.br/wp-content/uploads/2015/09/relatorio-mundial-violencia-saude.pdf
https://opas.org.br/wp-content/uploads/2015/09/relatorio-mundial-violencia-saude.pdf
https://pixabay.com/pt/photos/sozinho-garoto-infeliz-triste-3742586/
 
144 
https://www.tjrs.jus.br/novo/cij/noticias/metodo-do-depoimento-especial-
completa-19-anos/. Acessado em 13/01/2023. 
 
SANTOS JÚNIOR, José Pacheco dos. Olhares, vozes e debates sobre a infância 
no século XX: o “Século da Criança”. Revista Angelus Novus, USP, 2015. 
 
SCHMIDT, Flávio. Lei do depoimento especial anotada e interpretada. Leme, SP: 
JH Mizuno, 2020. 
 
SERAFIM, Antonio et al. Dados demográficos, psicológicos e comportamentais 
de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual. Archivesof Clinical 
Psychiatry, São Paulo., v. 38, p. 143-147, 2011. Disponível em: 
https://www.scielo.br/j/rpc/a/VS6r7mDKrQgqfYTK5RT5sjN/abstract/?lang=pt 
Acesso em 03/10/2022. 
 
STEIN, Lilian. Falsas memórias: Fundamentos científicos e suas aplicações 
clínicas e jurídicas. Porto Alegre: Artmed Editora, 2010. 
 
STEIN, Lilian; PERGHER, Giovanni; FEIX, Leandro. Desafios da oitiva de crianças e 
adolescentes: Técnica de entrevista investigativa. Brasília, DF: Secretaria Especial 
dos Direitos Humanos da Presidência da República, 2009. Disponível em: 
https://mpap.mp.br/images/infancia/t%C3%A9cnicas_de_entrevista_investigativ
a-1.pdf Acesso em 03/10/2022. 
 
TULVING, Endel. Multiple memory systems and consciousness. Human 
neurobiology, Berlim, v. 6, n. 2, p. 67-80, 1987. Disponível em: 
https://alicekim.ca/HumanNeurobiol87.pdf Acessado em: 18/09/2022. 
 
SITES CONSULTADOS 
 
https://crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/caopca/lei_13431_comentada_ju
n2018.pdf. Acessado em 09/09/2022. 
 
https://www.tjrs.jus.br/novo/cij/noticias/metodo-do-depoimento-especial-completa-19-anos/
https://www.tjrs.jus.br/novo/cij/noticias/metodo-do-depoimento-especial-completa-19-anos/
https://www.scielo.br/j/rpc/a/VS6r7mDKrQgqfYTK5RT5sjN/abstract/?lang=pt
https://mpap.mp.br/images/infancia/t%C3%A9cnicas_de_entrevista_investigativa-1.pdf
https://mpap.mp.br/images/infancia/t%C3%A9cnicas_de_entrevista_investigativa-1.pdf
https://alicekim.ca/HumanNeurobiol87.pdf
https://crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/caopca/lei_13431_comentada_jun2018.pdf.
https://crianca.mppr.mp.br/arquivos/File/publi/caopca/lei_13431_comentada_jun2018.pdf.
 
145 
https://meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br/2022/07/18/lei-henry-borel-
lei-14-344-22-principais-aspectos/ Acessado em 13/09/2022. 
 
Sessão de terapia. Disponível em https://inpaonline.com.br/blog/psicoterapia-
infantil/. Acessado em 13/01/2023. 
https://meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br/2022/07/18/lei-henry-borel-lei-14-344-22-principais-aspectos/
https://meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br/2022/07/18/lei-henry-borel-lei-14-344-22-principais-aspectos/
https://inpaonline.com.br/blog/psicoterapia-infantil/
https://inpaonline.com.br/blog/psicoterapia-infantil/LAR 
• poderá ser concedida por: 
➢ autoridade judicial 
➢ pelo Delegado de Polícia, quando o Município não for 
sede de comarca 
➢ pelo policial, quando o Município não for sede de 
comarca e não tiver Delegado de Polícia disponível no 
 
14 
momento da denúncia 
MEDIDAS 
PROTETIVAS DE 
URGÊNCIA: 
DISPOSIÇÕES GERAIS 
• prazo de 24h para juiz decidir 
• apreensão imediata de arma de fogo em posse do agressor 
• pode ser requerida pelo Ministério Público, pela autoridade 
policial, pelo conselho tutelar ou por aquele que represente 
o direito da vítima 
• possibilidade de concessão imediata, sem manifestação do 
Ministério Público e sem audiência com as partes 
• comunicação obrigatória ao responsável pela vítima sobre 
ingresso/saída do agressor da prisão 
MEDIDAS 
PROTETIVAS DE 
URGÊNCIA QUE 
OBRIGAM O 
AGRESSOR 
• suspensão/restrição de porte ou posse de armas 
• afastamento do lar 
• proibição de aproximação e contato 
• restrição/suspensão de visitas 
• proibição de frequentar determinados lugares 
• prestação de alimentos provisionais ou provisórios 
• comparecimento a programas de recuperação e 
reeducação 
• acompanhamento psicossocial 
MEDIDAS 
PROTETIVAS DE 
URGÊNCIA À VÍTIMA 
• matrícula em instituição de ensino próximo a sua casa, 
independentemente de vaga 
• inclusão em programas de proteção à vítima e testemunha 
 
SUSP • referência expressa sobre o atendimento de criança e/ou 
adolescente vítima de violência doméstica pelos 
integrantes do Sistema Único de Segurança Pública 
CRIMES EM ESPÉCIE • descumprimento de medidas protetivas - art. 25 
• deixar de comunicar a existência de crime contra criança e 
adolescente- art. 26 
Fonte: BOZOLAN (2022). 
 O microssistema apresentado nos tópicos acima demonstrou que, no 
enfrentamento à violência praticada contra criança e adolescente, os 
profissionais de segurança pública devem contextualizar o fato criminal sob a 
ótica desses instrumentos balizadores, seja para identificar corretamente o 
crime praticado, ou para utilizar o instrumento adequado de coleta de narrativa, 
para ofertar todas as medidas protetivas de urgência previstas e seja, ainda, 
para evitar a prática de violência institucional e de revitimização. Nas aulas e 
módulos que se seguem, vamos discorrer de forma mais detalhada sobre 
alguns tópicos aqui apresentados, dentre eles os crimes em espécie, a colheita 
da prova, o depoimento especial e a escuta especializada, as medidas protetivas 
de urgência, o registro da ocorrência policial e as formas de atendimento, 
reforçando assim o aprendizado. 
 
15 
Aula 2 - Legislação criminal – dos crimes contidos no 
Código Penal, no Estatuto da Criança e do Adolescente 
e em demais legislações 
 
Inicialmente, é imperioso salientar que quando pensamos em 
proteção à criança e ao adolescente, o primeiro diploma que vem à mente é o 
Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), uma vez que essa legislação 
assegura a esse público o direito à vida, saúde, alimentação, educação, esporte, 
lazer, profissionalização, cultura, dignidade, respeito, liberdade e convivência 
familiar e comunitária. 
A lei supramencionada contempla, ainda, diversas violações, 
contudo ela não esgota o rol de crimes que foram desenhados 
para trazer proteção a esse público, podendo ser observada a 
existência de outras legislações que trazem mais crimes que, de 
maneira direta ou indireta, visam protegê-los, como por 
exemplo o crime de violação do sigilo do depoimento especial, 
contido na Lei nº 13.431/17, os artigos 25 e 26 da Lei Henry 
Borel, os crimes previstos na lei que regula a posse e o porte de 
arma, entre outros. 
Nessa aula veremos com mais profundidade alguns tipos de crimes, 
dentre os quais aqueles mais difíceis de serem identificados, os que podem se 
apresentar em formatos diferentes ou ainda aqueles que são pouco conhecidos. 
Nosso estudo terá uma abordagem prática, voltada para atuação dos 
profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), 
permitindo a eles que, ao identificarem práticas violadoras, possam agir 
prontamente, cumprindo seu papel determinado por lei. 
 
1. Dos crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente 
 
Primeiramente, alguns aspectos gerais atinentes a todos os crimes 
previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e que tem importância 
e impacto direto na atividade policial merecem algumas observações. 
 
16 
Inicialmente, a primeira observação diz respeito à ação penal, 
asseverando o art. 227 que todos os crimes previstos no Estatuto são de Ação 
Pública Incondicionada e, por isso, não estão condicionados à vontade da 
vítima ou de seu representante legal, comumente pais e/ou mães. Assim, uma 
vez feito o registro de ocorrência policial ou a comunicação do crime por meio 
do acionamento do policiamento ostensivo, não será possível arquivar ou 
desistir do procedimento, nem em sede de Delegacia tampouco no Poder 
Judiciário, impondo ao Policial o dever de agir, independentemente de a 
parte querer ou não prosseguir com registro. 
 O segundo ponto importante a ser ressaltado é que, de acordo com o 
art. 226, §1º e § 2º, houve uma inovação introduzida pela Lei nº 14.344/22 o 
qual não serão aplicadas as regras previstas para os crimes considerados de 
menor potencial ofensivo, como por exemplo, em caso de condenação, está 
vedada a aplicação de penas de cestas básicas, prestação pecuniária ou 
pagamento isolado de multa. 
 Após abordarmos alguns aspectos que são inerentes a todos os crimes 
previstos no Estatuto, passaremos para uma análise geral e, sem seguida, 
destacaremos alguns delitos que possuem maior grau de dificuldade de serem 
visualizados, se praticados por meio de formas menos comum ou por 
determinados sujeitos ativos. 
 Começaremos nossa análise, aqui separada em blocos, com os crimes 
relacionados aos serviços da área de saúde. De acordo com o Estatuto, será 
crime sempre que a gestante não tiver acesso ou não receber a declaração de 
nascimento contendo as informações de intercorrências e de desenvolvimento 
do neonato. Igualmente, é considerado crime a não identificação correta da 
parturiente e do neonato. Essas infrações estão previstas nos artigos 228 e 229 
e possuem pena que variam entre 6 meses a 2 anos de detenção. Nota-se que 
eles são pouco difundidos e que, na atribulação diária da atividade policial, 
podem não ser percebidos pelo agente do estado. 
 Comumente é possível observar uma consequência prática dessa 
conduta criminal, a tão temida troca de bebês em razão da não identificação 
 
17 
correta da mãe e do nascituro, fatos que frequentemente são estampadas em 
manchetes de jornal.3 
Figura 4 - Reportagem Jornalística 
 
Fonte: Jornal Correio Braziliense (2022). 
 
Seguindo nossa análise agrupada em blocos, encontraremos alguns 
crimes que estão diretamente relacionados à atuação dos Agentes de Estado 
e com a execução de atos que envolvem a apreensão de menores em 
conflito com a lei, compreendidos aqui os aspectos de apreensão ilegal, da 
falta de comunicação sobre a apreensão e da extrapolação do prazo na 
liberação do menor apreendido. 
Inicialmente destacam-se os crimes previstos nos art. 230 e 231, que 
versam sobre as formalidades no momento de apreender menores em 
conflito com a lei. 
 
Art. 230. Privar a criança ou o adolescente de sua liberdade, 
procedendo à sua apreensão sem estar em flagrante de ato infracional 
ou inexistindo ordem escrita da autoridade judiciária competente: 
Pena - detenção de seis meses a dois anos. 
Parágrafo único. Incide na mesma pena aquele que procede à 
apreensão sem observância das formalidades legais. 
Art. 231. Deixar a autoridade policial responsável pela apreensão de 
criança ou adolescente de fazer imediata comunicação à autoridade 
judiciária competente e à família do apreendidoou à pessoa por ele 
indicada: 
Pena - detenção de seis meses a dois anos. 
 
 
3https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2022/02/4983698-41-dias-depois-exame-de-dna-
confirma-troca-de-bebes-em-hospital-de-goias.html Acesso em 13/09/2022 
 
https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2022/02/4983698-41-dias-depois-exame-de-dna-confirma-troca-de-bebes-em-hospital-de-goias.html
https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2022/02/4983698-41-dias-depois-exame-de-dna-confirma-troca-de-bebes-em-hospital-de-goias.html
 
18 
No primeiro artigo notamos que é compreendido como crime a 
apreensão ilegal do menor, sem estar em situação flagrancial ou sem ordem 
judicial que justifique a apreensão. O segundo artigo aborda uma questão 
imediatamente posterior, ou seja, uma vez feita a apreensão com 
observância das normas legais pertinentes, o responsável pela apreensão 
deverá fazer a comunicação imediata à Autoridade Judiciária e à família do 
menor ou outra pessoa indicada por ele. Para os dois casos a pena a ser 
aplicada são iguais, detenção de 6 meses a 2 anos. 
 
Art. 234. Deixar a autoridade competente, sem justa causa, de 
ordenar a imediata liberação de criança ou adolescente, tão logo 
tenha conhecimento da ilegalidade da apreensão: 
Pena - detenção de seis meses a dois anos. 
 Art. 235. Descumprir, injustificadamente, prazo fixado nesta Lei em 
benefício de adolescente privado de liberdade: 
Pena - detenção de seis meses a dois anos. 
 
Ainda, é considerado igualmente crime a manutenção do menor 
apreendido quando já houver causa que determine a sua liberação, quando 
já tiver expirado o prazo da apreensão imposta, por exemplo. Também será 
crime se, observada circunstância que torne a apreensão ilegal, não for o 
menor posto em liberdade imediatamente (art. 234 e 235). 
Art. 237. Subtrair criança ou adolescente ao poder de quem o tem 
sob sua guarda em virtude de lei ou ordem judicial, com o fim de 
colocação em lar substituto: 
Pena - reclusão de dois a seis anos, e multa. 
Art. 238. Prometer ou efetivar a entrega de filho ou pupilo a terceiro, 
mediante paga ou recompensa: 
Pena - reclusão de um a quatro anos, e multa. 
Parágrafo único. Incide nas mesmas penas quem oferece ou efetiva a 
paga ou recompensa. 
Art. 239. Promover ou auxiliar a efetivação de ato destinado ao envio 
de criança ou adolescente para o exterior com inobservância das 
formalidades legais ou com o fito de obter lucro: 
Pena - reclusão de quatro a seis anos, e multa. 
Parágrafo único. Se há emprego de violência, grave ameaça ou fraude: 
(Incluído pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003) 
Pena - reclusão, de 6 (seis) a 8 (oito) anos, além da pena 
correspondente à violência. 
 
Em relação aos crimes previstos nos artigos 237, 238 e 239, podemos 
evidenciar que a conduta está relacionada à retirada da criança ou 
adolescente de seu responsável com a finalidade específica de entregar a 
outrem. Logo, temos a subtração para colocação em lar substituto, prevista 
 
19 
no primeiro artigo. Em seguida temos a entrega de filho para adoção 
mediante pagamento ou recompensa, conduta descrita no art. 238. Por fim, 
temos a remessa para o exterior de criança ou adolescente sem as 
formalidades legais ou com a intenção de obtenção de lucro, no art. 239. 
Vale ainda ressaltar a respeito desses crimes que o art. 237 do Estatuto 
é diferente do art. 249 do CP, que cuida do crime de subtração de incapaz, 
uma vez que o primeiro tem finalidade específica de entregar a vítima a 
outrem e o crime previsto no Código Penal não tem. 
 
Subtração de incapazes 
Art. 249 - Subtrair menor de dezoito anos ou interdito ao poder de 
quem o tem sob sua guarda em virtude de lei ou de ordem judicial: 
Pena - detenção, de dois meses a dois anos, se o fato não constitui 
elemento de outro crime. 
§ 1º - O fato de ser o agente pai ou tutor do menor ou curador do 
interdito não o exime de pena, se destituído ou temporariamente 
privado do pátrio poder, tutela, curatela ou guarda. 
§ 2º - No caso de restituição do menor ou do interdito, se este não 
sofreu maus-tratos ou privações, o juiz pode deixar de aplicar pena. 
 
Importante ainda consignar que o art. 239 revogou tacitamente o art. 
245, §2º do Código Penal, pois o crime previsto no referido Estatuto é mais 
abrangente do que o previsto no Código Penal, uma vez que no ECA está 
incluindo a punição àquele que, mesmo não tendo lucro, não observa as 
formalidades legais para o envio do menor ao exterior. É fundamental 
lembrar que por se tratar de remessa de criança ou adolescente para o 
exterior a atribuição pela investigação ficará a cargo da Polícia Federal. 
 Agora veremos alguns crimes de maneira individual, em razão de sua 
maior singularidade, sempre sob a ótica rotineira da atividade policial. 
 
Art. 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Esse crime possui um aspecto pouco explorado pelos profissionais de 
Segurança Pública. Na descrição contida no referido artigo, essa vítima, criança 
ou adolescente, tem que estar sob a vigilância, guarda ou autoridade de 
outrem, conforme descrito abaixo. 
 
Art. 232. Submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, 
guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento: 
Pena - detenção de seis meses a dois anos. 
 
20 
A forma normalmente aplicada é aquela destinada ao menor 
apreendido que pode ser submetido a vexame ou constrangimento pelo 
Agente do Estado que promove sua vigilância. Entretanto, também é possível a 
aplicação desse crime para os genitores que pratiquem condutas que importem 
em humilhações, rebaixamento moral ou desonra da criança ou do adolescente. 
Ademais, esta conduta também pode ser praticada em ambiente 
escolar, por meio de uma ação inadequada de um agente de educação, uma 
vez que o aluno estará sob a autoridade e, se submetido a um vexame ou 
constrangimento, deverá haver atuação policial. Assim, teremos a configuração 
do crime quando o professor impõe como punição por mau comportamento o 
uso de adereços ridículos, com palavras de menosprezo ou quando o aluno é 
colocado de castigo na frente da sala de aula de joelhos ou no canto para que 
todos vejam. 
 
NA PRÁTICA: “Um casal procurou a Delegacia de Polícia 
narrando que o filho, com 9 anos de idade, passou a ter 
problemas com um dos professores da escola em que estudava. 
Afirmaram que a criança tinha dificuldades de fala e que, às 
vezes, gaguejava. Durante as atividades em sala de aula, sempre 
que o aluno não conseguia cumprir a tarefa dada, o professor 
começava a imitá-lo e passava a gaguejar. Após algum tempo, 
o professor começou a colocar a turma toda da sala para imitar 
a criança. Por fim, dando continuidade a essa conduta, o 
professor sempre jogava os materiais da criança no chão para 
que ela pegasse e às vezes repetia essa conduta por diversas 
vezes seguidas. Após o relato, eles foram perguntados se o 
professor chegava a xingar ou ameaçar a criança ou se alguma 
vez tinha feito uso de violência física, tendo o casal respondido 
negativamente. Diante disso foram orientados apenas a mover 
ação por danos morais contra o professor e contra a Escola”. 
 
O exemplo acima mostrou o manuseio inadequado da legislação, uma 
vez que o correto seria a efetivação do registro de ocorrência policial, com base 
 
21 
no art. 232 do ECA, em razão de o professor, que tinha o aluno sob sua 
autoridade, ter submetido o aluno a vexame e constrangimento. 
NA PRÁTICA: Nesta manchete de jornal4 também encontramos 
descrito crime que, desta vez, foi corretamente capitulado, 
levando a responsabilização criminal do professor. 
 
Figura 5 - Reportagem Jornalística 
Fonte: Jornal Correio Braziliense (2022). 
 
Art. 240 do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer 
meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou 
adolescente. Começamos aqui a análise dos crimes associadosà pornografia 
infantojuvenil na rede mundial de computadores. 
 
Art. 240. Produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, 
por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, 
envolvendo criança ou adolescente: (Redação dada pela Lei nº 11.829, 
de 2008) 
Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa. (Redação dada 
pela Lei nº 11.829, de 2008) 
§ 1 o Incorre nas mesmas penas quem agencia, facilita, recruta, coage, 
ou de qualquer modo intermedeia a participação de criança ou 
adolescente nas cenas referidas no caput deste artigo, ou ainda quem 
com esses contracena. (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) 
§ 2 o Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) se o agente comete o 
crime: (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) 
I – no exercício de cargo ou função pública ou a pretexto de exercê-la; 
(Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) 
II – prevalecendo-se de relações domésticas, de coabitação ou de 
hospitalidade; ou (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) 
III – prevalecendo-se de relações de parentesco consanguíneo ou afim 
até o terceiro grau, ou por adoção, de tutor, curador, preceptor, 
 
4https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/03/09/interna_cidadesdf,5795
80/professor-acusado-de-humilhar-estudante-ao-deixa-lo-descalco-e-condena.shtml Acesso 
em 12/09/2022 
 
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/03/09/interna_cidadesdf,579580/professor-acusado-de-humilhar-estudante-ao-deixa-lo-descalco-e-condena.shtml
https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/03/09/interna_cidadesdf,579580/professor-acusado-de-humilhar-estudante-ao-deixa-lo-descalco-e-condena.shtml
 
22 
empregador da vítima ou de quem, a qualquer outro título, tenha 
autoridade sobre ela, ou com seu consentimento. (Incluído pela Lei nº 
11.829, de 2008) 
 
Neste primeiro artigo temos seis verbos ou seis condutas que se 
relacionam com a criação de material pornográfico, atingindo aqueles que são 
responsáveis diretamente pela sua existência. Pune-se ainda o papel do 
mediador para esses crimes e, no §1º, temos um conjunto de verbos 
relacionados a quem agencia, facilita, recruta, coage ou intermedeia. Este artigo 
é complementado pelo Art. 241-E que traz o conceito do que é cena de sexo 
explícito e cena pornográfica. De acordo com ele, cena de sexo explícito 
pressupõe contato físico, enquanto a cena pornográfica revela imagens que 
apresentam atos obscenos, sem necessariamente contato físico. 
 
Art. 241-E. Para efeito dos crimes previstos nesta Lei, a expressão 
“cena de sexo explícito ou pornográfica” compreende qualquer 
situação que envolva criança ou adolescente em atividades sexuais 
explícitas, reais ou simuladas, ou exibição dos órgãos genitais de uma 
criança ou adolescente para fins primordialmente sexuais. (Incluído 
pela Lei nº 11.829, de 2008) 
 
Não podemos esquecer aqui que se a participação nesse crime envolver 
menores de 14 anos, teremos ainda a ocorrência do Art. 217-A do Código Penal 
que cuida do Estupro de Vulnerável e que será estudado em tópico próprio. 
Trata-se assim de crimes autônomos, podendo o autor responder pelos dois 
crimes ao mesmo tempo. 
 
Art. 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Vender ou expor à venda fotografia ou vídeo com cenas de sexo 
explícito ou pornográfica que envolva criança ou adolescente. Aqui, 
diferentemente do artigo anterior, a punição recairá sobre aquele que vende o 
material produzido. Nota-se que se o sujeito que estiver vendendo for o mesmo 
que praticou as condutas do artigo anterior, ele responderá somente pelo 
primeiro crime, ou seja, somente pelo crime previsto no art. 240, sendo a venda, 
de acordo com a doutrina, post factum impunível. 
 
Art. 241. Vender ou expor à venda fotografia, vídeo ou outro registro 
que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo 
criança ou adolescente: (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) 
Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa. (Redação dada 
pela Lei nº 11.829, de 2008) 
 
23 
Art. 241-A do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, distribuir, publicar ou divulgar 
fotografia ou vídeo com cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo 
criança e adolescente. 
 
Art. 241-A. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, distribuir, 
publicar ou divulgar por qualquer meio, inclusive por meio de sistema 
de informática ou telemático, fotografia, vídeo ou outro registro que 
contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança 
ou adolescente: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
Pena – reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa. (Incluído pela Lei 
nº 11.829, de 2008) 
§ 1 o Nas mesmas penas incorre quem: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 
2008) 
I – assegura os meios ou serviços para o armazenamento das 
fotografias, cenas ou imagens de que trata o caput deste artigo; 
(Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
II – assegura, por qualquer meio, o acesso por rede de computadores 
às fotografias, cenas ou imagens de que trata o caput deste artigo. 
(Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
§ 2 o As condutas tipificadas nos incisos I e II do § 1 o deste artigo são 
puníveis quando o responsável legal pela prestação do serviço, 
oficialmente notificado, deixa de desabilitar o acesso ao conteúdo 
ilícito de que trata o caput deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.829, 
de 2008) 
 
Aqui a conduta criminosa está desenhada para abarcar aquele que, 
muito embora não tenha produzido ou não pretenda obter lucro, passa adiante 
o material. Assim, mesmo que o sujeito não saiba quem produziu os arquivos, 
mesmo que tenha chegado em suas mãos sem que ele solicitasse, se passar 
adiante o material recebido ou encontrado, será autor deste crime, sujeito, 
portanto, à punição de 3 a 6 anos de reclusão. 
A conduta, então, está associada à difusão da pornografia 
infantojuvenil. Importante ressaltar ainda que o §1.º deste artigo pune também 
aquele que, embora não faça a difusão de forma direta, assegura para que ela 
seja feita. Enquadra-se aqui, por exemplo, os responsáveis pelos sites de 
hospedagem. O parágrafo seguinte impõe que o responsável pela hospedagem 
esteja ciente da existência do material e, embora oficialmente notificado, 
manteve o conteúdo. 
Destarte, a doutrina entende que a Polícia pode notificar o responsável 
pela hospedagem para que ele desabilite o acesso ao conteúdo ilícito. Por fim, 
 
24 
vale ainda ressaltar que o recém incluído artigo 218-C5 do Código Penal será 
aplicado aos chamados Estupro de Vulnerável somente quando a 
vulnerabilidade for decorrente de outra circunstância que não seja a faixa etária, 
como, por exemplo, vulnerabilidade em razão de embriaguez total. 
 
NA PRÁTICA: “Uma pessoa, integrante de um grupo de 
WhatsApp, recebe um vídeo contendo pornografia 
infantojuvenil. Apesar de não ter solicitado e o recebimento não 
podia ser evitado, uma vez que habilitada a configuração de 
download automático, o recebedor decide passar adiante o 
conteúdo, compartilhando o arquivo com outras pessoas”. Essa 
conduta está amoldada no Art. 241-A do Estatuto. A pessoa que 
recebe conteúdo ilícito deverá fazer a exclusão imediata do 
material e jamais passar adiante, sob pena restar configurado o 
crime em comento. 
 
Art. 241-B do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Adquirir, possuir ou armazenar fotografia ou vídeo com cena de sexo 
explícito ou pornográfica envolvendo criança e adolescente. Neste artigo temos 
a conduta com punição mais branda, se cotejado com os artigos anteriores. 
 
Art. 241-B. Adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, 
fotografia, vídeo ou outra forma de registro que contenha cena de 
sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente: 
(Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
Pena – reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. (Incluído pela 
Lei nº 11.829, de 2008) 
§ 1 o A penaé diminuída de 1 (um) a 2/3 (dois terços) se de pequena 
quantidade o material a que se refere o caput deste artigo. (Incluído 
pela Lei nº 11.829, de 2008) 
§ 2 o Não há crime se a posse ou o armazenamento tem a finalidade 
de comunicar às autoridades competentes a ocorrência das condutas 
descritas nos arts. 240, 241, 241-A e 241-C desta Lei, quando a 
comunicação for feita por: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
I – agente público no exercício de suas funções; (Incluído pela Lei nº 
 
5Art. 218-C. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender ou expor à venda, distribuir, 
publicar ou divulgar, por qualquer meio - inclusive por meio de comunicação de massa ou 
sistema de informática ou telemática -, fotografia, vídeo ou outro registro audiovisual que 
contenha cena de estupro ou de estupro de vulnerável ou que faça apologia ou induza a sua 
prática, ou, sem o consentimento da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia: Pena - 
reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, se o fato não constitui crime mais grave 
 
25 
11.829, de 2008) 
II – membro de entidade, legalmente constituída, que inclua, entre 
suas finalidades institucionais, o recebimento, o processamento e o 
encaminhamento de notícia dos crimes referidos neste parágrafo; 
(Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
III – representante legal e funcionários responsáveis de provedor de 
acesso ou serviço prestado por meio de rede de computadores, até o 
recebimento do material relativo à notícia feita à autoridade policial, 
ao Ministério Público ou ao Poder Judiciário. (Incluído pela Lei nº 
11.829, de 2008) 
§ 3 o As pessoas referidas no § 2 o deste artigo deverão manter sob 
sigilo o material ilícito referido. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
 
Por conseguinte, o sujeito não produziu, não comercializou e tampouco 
difundiu, mas mantém armazenado o material ilícito. Podemos então afirmar 
que o tipo penal visa responsabilizar a figura do “receptador”, aquele que 
recebe e mantém consigo material ilícito. Importante aqui a norma contida no 
§2º que prevê uma excludente de ilicitude, caso o material armazenado tenha a 
finalidade de comunicar às autoridades competentes. A pena aqui varia entre 1 
a 4 anos de reclusão. 
 
NA PRÁTICA: “Um policial, no exercício de sua função, recebe 
material ilícito com conteúdo de pornografia infantojuvenil 
encaminhado por pessoa da comunidade que deseja denunciar 
a existência do material recebido. De posse do material, o 
policial acaba passando para algumas pessoas a título de 
curiosidade, essa conduta estará amoldada no artigo estudado”. 
No caso concreto, o agente que receber a denúncia deverá 
tomar as medidas necessárias para a apuração do caso e jamais 
passar adiante, por qualquer razão que seja. 
 
Art. 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo 
explícito ou pornográfica envolvendo criança e adolescente por meio de 
adulteração, montagem ou modificação de fotografia ou vídeo. 
 
Art. 241-C. Simular a participação de criança ou adolescente em cena 
de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, 
montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra 
forma de representação visual: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
Pena – reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. (Incluído pela Lei nº 
11.829, de 2008) 
 
26 
 
Parágrafo único. Incorre nas mesmas penas quem vende, expõe à 
venda, disponibiliza, distribui, publica ou divulga por qualquer meio, 
adquire, possui ou armazena o material produzido na forma do caput 
deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
 
Neste artigo o que se pretende ainda é a proteção da integridade física 
e moral da criança ou adolescente, não importando se a simulação foi bem ou 
mal feita. Igualmente punível será a conduta daquele que praticar o núcleo de 
todos os artigos anteriores, dessa vez por meio de material simulado. 
 
Art. 241-D do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer meio de 
comunicação, criança, com o fim de com ela praticar ato libidinoso. Esse tipo 
penal tem como alvo aquele que se utiliza de um meio de comunicação para 
atrair crianças para a prática de ato de natureza sexual. 
 
Art. 241-D. Aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer 
meio de comunicação, criança, com o fim de com ela praticar ato 
libidinoso: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
Pena – reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. (Incluído pela Lei nº 
11.829, de 2008) 
Parágrafo único. Nas mesmas penas incorre quem: (Incluído pela Lei 
nº 11.829, de 2008) 
I – facilita ou induz o acesso à criança de material contendo cena de 
sexo explícito ou pornográfica com o fim de com ela praticar ato 
libidinoso; (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
II – pratica as condutas descritas no caput deste artigo com o fim de 
induzir criança a se exibir de forma pornográfica ou sexualmente 
explícita. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 
 
Note-se que este tipo penal fala somente da CRIANÇA, excluindo assim 
a sua aplicação ao adolescente, uma vez que é possível que o adolescente, 
acima de 14 anos, possa travar conversas de cunho sexual sem que o tipo penal 
seja realizado. Contudo, em nossa atividade cotidiana, nos deparamos com uma 
lacuna que, por vezes, fica de difícil reposta na esfera penal, que é o caso dos 
adolescentes que possuem idade compreendida entre 12 e 14 anos, que não 
podem manter relação sexual, uma vez que inválido o seu consentimento, mas 
que podem ser abordados por adultos, mantendo com eles conversa de 
conteúdo sexual. O caso concreto deve ser analisado com rigor, podendo haver 
a configuração de estupro de vulnerável virtual ou armazenamento de material 
pornográfico infantojuvenil ou ainda a conduta do art. 218-A do Código Penal. 
 
27 
Observa-se pela explanação acima que os crimes de pornografia 
infanto-juvenil possuem diferentes tipos penais para cada uma das formas em 
que é praticado, separando-se os crimes a partir de quem produz, quem 
difunde e quem armazena, sendo sempre de maior gravidade aquele que é o 
verdadeiro produtor do material ilícito e que poderá também responder, 
concomitantemente pelo crime de estupro de vulnerável. 
 
Art. 242 do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de qualquer 
forma, à criança ou adolescente arma. No artigo ainda é mencionado as 
palavras munição ou explosivo, contudo houve revogação parcial trazida pela 
Lei nº 10.826/03, o chamado Estatuto do Desarmamento. 
 
Art. 242. Vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de 
qualquer forma, à criança ou adolescente arma, munição ou explosivo: 
Pena - reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos. (Redação dada pela Lei nº 
10.764, de 12.11.2003) 
 
Nesse sentido, o artigo não será aplicado para armas de fogo ou 
munição, mas poderá ser aplicado para as chamadas armas brancas, sendo 
exemplo adaga, punhal, num tchaku, soco inglês, etc. A pena para esse crime é 
relativamente grave, podendo variar entre 3 a 6 anos de reclusão, possuindo 
assim a mesma pena prevista para a arma de fogo, de acordo com o Art. 16, § 
1º, inc. V, do Estatuto do Desarmamento. 
 
Art. 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que gratuitamente, 
à criança ou adolescente bebida alcoólica ou, sem justa causa, outros produtos 
cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica. 
 
Art. 243. Vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que 
gratuitamente, de qualquer forma, à criança ou a adolescente bebida 
alcoólica ou, sem justa causa, outros produtos cujos componentes 
possam causar dependência física ou psíquica: (Redação dada pela Lei 
nº 13.106, de 2015) 
Pena - detenção de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa, se o fato não 
constitui crime mais grave. (Redação dada pela Lei nº 13.106,de 2015) 
 
 
Até 2015 não havia a expressão "bebida alcoólica" no tipo penal e os 
 
28 
casos em que crianças ou adolescentes recebiam bebida alcoólica eram 
combatidos pela Lei de Contravenções Penais, por meio do Art. 63, inc. I. 
Importante ainda estudarmos um outro aspecto desse tipo penal que é a parte 
que faz referência a "produtos que possam causar dependência física ou 
psíquica". Entende-se que este artigo cuida tão somente de substância cujo uso 
é permitido, mas que não há justa causa para o fornecimento, caso sejam 
substâncias tidas como de uso proibido, como as alucinógenas (cocaína, 
heroína, maconha etc) o crime será outro e encontra abrigo no art. 33 da Lei nº 
11.343/06. 
 
NA PRÁTICA: “A genitora tinha o hábito de dar aos quatro 
filhos, sem prescrição médica, medicação com efeito calmante 
que causavam dependência, no intuito de tornar o controle 
sobre eles mais fácil.” Note-se que nesse caso o artigo pode ser 
aplicado, atentando-se somente para o fato de que, se a 
ingestão tiver causado maior dano, o crime poderá ser outro. 
 
Art. 244 do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de qualquer 
forma, à criança ou adolescente fogos de estampido ou de artifício, exceto 
aqueles que, pelo seu reduzido potencial, sejam incapazes de provocar danos. 
Nesse artigo estamos diante do crime que visa punir a utilização por esse 
público de material de uso perigoso e que coloca em risco a integridade física 
da criança ou do adolescente. 
 
Art. 244. Vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de 
qualquer forma, à criança ou adolescente fogos de estampido ou de 
artifício, exceto aqueles que, pelo seu reduzido potencial, sejam 
incapazes de provocar qualquer dano físico em caso de utilização 
indevida: 
Pena - detenção de seis meses a dois anos, e multa. 
 
Note-se que no Brasil é comum na época das festividades juninas o uso 
por crianças dos chamados "estalinhos", esses, de acordo com a parte final do 
artigo, não são capazes de provocar o dano, razão pela qual a utilização por 
crianças não é considerada crime. A pena aqui vai variar entre 6 meses a 2 anos 
de detenção. 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3688.htm
 
29 
Art. 244 B do Estatuto da Criança e do Adolescente: 
Um dos delitos mais comuns na rotina policial é a corrupção de 
menores, uma vez que frequentemente nos deparamos com a participação de 
adolescentes na prática criminosa juntamente com um adulto. O importante é 
notar que será punido também aquele que utiliza a rede mundial de 
computadores para corromper o menor de 18 anos, induzindo-o à prática de 
crimes. 
Art. 244-B. Corromper ou facilitar a corrupção de menor de 18 
(dezoito) anos, com ele praticando infração penal ou induzindo-o a 
praticá-la: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) 
Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos. (Incluído pela Lei nº 
12.015, de 2009) 
§ 1 o Incorre nas penas previstas no caput deste artigo quem pratica 
as condutas ali tipificadas utilizando-se de quaisquer meios 
eletrônicos, inclusive salas de bate-papo da internet. (Incluído pela Lei 
nº 12.015, de 2009) 
§ 2 o As penas previstas no caput deste artigo são aumentadas de um 
terço no caso de a infração cometida ou induzida estar incluída no rol 
do art. 1 o da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990. (Incluído pela Lei 
nº 12.015, de 2009) 
 
2. Dos crimes com previsão no Código Penal6 
Continuando nossa abordagem prática de alguns crimes, seguiremos 
nossa análise sobre alguns dispositivos do Código Penal. Inicialmente, um dos 
principais pontos a ser dito sobre estes dispositivos é que, para além de alguns 
tipos penais específicos, o art. 61, do Código Penal, traz as chamadas 
circunstâncias agravantes dentre elas o agravamento da pena do crime 
cometido contra criança - leitura do inc. II, alínea h -, apontando, assim, a 
intenção de ofertar maior proteção a um público mais vulnerável. 
Além do referido artigo, temos em vários outros dispositivos as 
agravantes específicas, circunstâncias desenhadas dentro de alguns crimes 
como causa de aumento de pena. Dentre esses, podemos citar os crimes contra 
a honra (injúria, calúnia e difamação) que terão suas penas aumentadas se 
praticado contra criança ou adolescente. O crime de perseguição, recentemente 
inserido no Art. 147-A, também contempla causa de aumento de pena, assim 
como o crime de redução análoga a de escravo, o de tráfico de pessoas, o de 
estelionato, etc. 
 
6http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm Acesso em 12/09/2022 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm
 
30 
Logo, vários serão os crimes que, embora não instituídos 
especificamente para proteger criança ou adolescente, sofrerão a incidência 
das causas de aumento de pena se praticado em desfavor desse público. 
Por outro lado, há crimes que, embora não tragam como condição o sujeito 
passivo ser criança ou adolescente, podendo ser aplicado para qualquer pessoa 
que reúna as condições elencadas no tipo, na rotina policial estão, em sua 
maioria, associados às infrações cometidas contra criança e adolescente, como 
por exemplo o crime de abandono de incapaz e de maus-tratos, artigos 133 e 
136 do Código Penal. 
 Como crimes em espécie, instituídos com a finalidade precípua de 
proteção do público vulnerável, temos os crimes de abandono material, 
abandono intelectual e subtração de incapaz - artigos 244, 246 e 249. São 
delitos constantemente vistos na rotina policial e que aqui não serão analisados 
individualmente, seguindo a lógica de análise apenas daqueles um pouco mais 
complexos ou desconhecidos. 
 Dos crimes que merecem destaque, abordaremos o assédio sexual com 
causa de aumento de pena se a vítima for menor de 18 anos, Art. 216-A; o 
estupro de vulnerável, art. 217-A; em sua modalidade virtual, os Art. 218 e 218-
A; corrupção de menores e satisfação de lascívia e o induzimento a fuga ou 
sonegação de incapaz, art. 248. 
 
Art. 217-A do Código Penal: 
Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 
anos. Este artigo, na maioria das vezes, tem fácil explicação, uma vez que o 
critério é objetivo, ou seja, analisar se houve ou não ato libidinoso ou relação 
sexual com menor de 14 anos. Sendo positiva a resposta, o delito restará 
configurado. Aqui a atenção recai sobre a forma como ele pode ser praticado. 
 
Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com 
menor de 14 (catorze) anos: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) 
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos. (Incluído pela Lei nº 
12.015, de 2009) 
§ 1º Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput 
com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o 
necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer 
outra causa, não pode oferecer resistência. (Incluído pela Lei nº 
12.015, de 2009) 
 
31 
§ 2º (VETADO) (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) 
§3ºSe da conduta resulta lesão corporal de natureza grave: 
(Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) 
Pena - reclusão, de 10 (dez) a 20 (vinte) anos. (Incluído pela Lei nº 
12.015, de 2009) 
§ 4º Se da conduta resulta morte: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 
2009) 
Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos. (Incluído pela Lei nº 
12.015, de 2009) 
§ 5º As penas previstas no caput e nos §§ 1º, 3º e 4º deste artigo 
aplicam-se independentemente do consentimento da vítima ou do 
fato de ela ter mantido relações sexuais anteriormente ao crime. 
(Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018) 
 
 
Atualmente, as interações virtuais realizadas por crianças e adolescentes 
são cada vez maiores e, dessa forma, a possibilidade da prática de estupro de 
vulnerável por meio de modalidade virtual aumenta. Assim, mesmo que não 
haja contato físico algum, é possível que o autor responda pelocrime, desde 
que peça à vítima que pratique condutas libidinosas específicas. Em resumo, é 
equivocada a atuação no combate ao estupro de vulnerável sob a perspectiva 
de que ele só ocorrerá se houver contato físico, ele poderá sim estar 
configurado em ambiente unicamente virtual, sem qualquer contato físico, 
como descrito no exemplo abaixo. 
 
NA PRÁTICA: “A vítima, menor de 14 anos, a pedido do autor e 
seguindo suas orientações passa a se exibir na câmera, 
introduzindo objetos em suas partes íntimas ou se 
masturbando”. Haverá aqui a incidência do Art. 217-A. 
 
O estupro virtual ainda pode estar configurado para adolescentes acima 
de 14 anos, porém por meio de grave ameaça. Nesse caso o crime seria o 
previsto no Art. 213 do CP. 
 
Art. 216-B do Código Penal: 
Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou 
favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior 
hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou 
função. A pena é aumentada em até um terço se a vítima é menor de 18 anos. 
 
 
32 
Art. 216-B. Produzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer 
meio, conteúdo com cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de 
caráter íntimo e privado sem autorização dos participantes: (Incluído 
pela Lei nº 13.772, de 2018) 
Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e multa. 
Parágrafo único. Na mesma pena incorre quem realiza montagem em 
fotografia, vídeo, áudio ou qualquer outro registro com o fim de 
incluir pessoa em cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de 
caráter íntimo. (Incluído pela Lei nº 13.772, de 2018) 
 
O crime aqui é o chamado assédio sexual e, embora ele não tenha sido 
desenhado necessariamente para o público vulnerável, por ter aplicação 
comumente ligada aos ambientes corporativos, pode ser aplicado em 
ambientes escolares onde encontramos relatos recorrentes de jovens que se 
sentem intimidados por profissionais de educação que, prevalecem-se de sua 
função, visam favorecimento ou vantagem sexual. 
 
Art. 218 do Código Penal: 
Induzir alguém menor de 14 anos a satisfazer a lascívia de outrem. Este 
artigo acaba sendo pouco reconhecido em nossa atuação cotidiana e, por isso, 
merece alguns esclarecimentos. 
Art. 218. Induzir alguém menor de 14 (catorze) anos a satisfazer a 
lascívia de outrem: (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009) 
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos. (Redação dada pela Lei 
nº 12.015, de 2009) 
Parágrafo único. (VETADO). (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) 
 
Considera-se crime a conduta daquele que induz menor de 14 anos a 
se mostrar de maneira lasciva, erotizada. Note-se que a conduta aqui deve ser 
mais contemplativa, sob pena de ambos os envolvidos responderem por 
estupro de vulnerável. 
 
Art. 218-A do Código Penal: 
Neste artigo a conduta punível é a de permitir que menor de 14 anos 
presencie atos sexuais. Responde também o indivíduo que induz o menor, 
“planta a ideia” de assistir ao ato e não somente quem pratica o ato sexual na 
frente da criança/adolescente. 
Art. 218-A. Praticar, na presença de alguém menor de 14 (catorze) 
anos, ou induzi-lo a presenciar conjunção carnal ou outro ato 
libidinoso, a fim de satisfazer lascívia própria ou de outrem: (Incluído 
pela Lei nº 12.015, de 2009) 
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos. (Incluído pela Lei nº 
12.015, de 2009) 
 
33 
Art. 248 do Código Penal: 
A conduta tipificada muitas vezes deixa de ser aplicada, uma vez que o 
mais comum é pensarmos tão somente no crime previsto no artigo 
subsequente, nominado como subtração de incapazes. Contudo, aquele que, 
embora não tenha subtraído o menor, recusa-se a devolvê-lo, também praticará 
o crime. 
Art. 248 - Induzir menor de dezoito anos, ou interdito, a fugir do 
lugar em que se acha por determinação de quem sobre ele exerce 
autoridade, em virtude de lei ou de ordem judicial; confiar a outrem 
sem ordem do pai, do tutor ou do curador algum menor de dezoito 
anos ou interdito, ou deixar, sem justa causa, de entregá-lo a quem 
legitimamente o reclame: 
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa. 
 
NA PRÁTICA: “Uma adolescente, com 14 anos de idade, foge 
de casa em razão de brigas ocorridas com os genitores. 
Imediatamente ela pede abrigo na casa da tia e madrinha. Após 
relatar a razão da briga, a tia entende que os pais estão errados 
e que a situação imposta à adolescente é extremamente injusta. 
A genitora, por sua vez, ao tomar conhecimento de que a filha 
está na casa da tia, pede para que ela traga a adolescente de 
volta. A tia argumenta que a forma como a sobrinha vem sendo 
tratada é inadmissível e que não foi ela (tia) quem subtraiu a 
adolescente, tendo essa vindo e permanecido por vontade 
própria e que por isso não é obrigada a devolvê-la”. A conduta 
se amolda no art. 248 do CP, devendo a força policial atuar. 
 
3. Dos crimes previstos em Legislação Especial 
 
Neste momento dos estudos, iremos abordar alguns crimes em leis diversas 
que têm repercussão e importância para a atividade policial voltada para a 
proteção de crianças e adolescentes. Alguns têm uso cotidiano muito bem 
difundido, como o previsto na Lei nº 10.826/2003, no Art. 16, § 1.º, inc. V – 
Estatuto do Desarmamento, enquanto outros ainda são novidades e por isso 
serão analisados em tópico próprio. 
 
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.826.htm
 
34 
3.1 - Art. 25 da Lei nº 14.344/22 (Lei Henry Borel): 
Descumprir decisão judicial que defere medida protetiva de urgência 
prevista nesta Lei. A pena consiste em 3 meses a 2 anos detenção. A referida lei 
abrange o crime específico de desobediência às chamadas Medidas Protetivas 
de Urgência, nos mesmos moldes do art. 24-A da Lei Maria da Penha. Assim o 
descumprimento dessas medidas, uma vez deferidas, está sujeito a crime 
próprio e, em caso de prisão em flagrante, apenas o juiz poderá arbitrar a 
fiança. 
3.2 - Art. 26 da Lei nº 14.344/22 (Lei Henry Borel): 
Deixar de comunicar à autoridade pública a prática de violência, de 
tratamento cruel ou degradante ou de formas violentas de educação, correção 
ou disciplina contra criança ou adolescente ou o abandono de incapaz. A pena 
consiste em 6 meses a 3 anos de detenção. O crime inova no aspecto de 
tornar obrigatório a qualquer pessoa que tem ciência de que uma criança 
ou adolescente está sendo vítima de uma das condutas previstas no artigo 
comunique o crime às autoridades competentes. 
Note-se ser qualquer pessoa, vizinhos, conhecidos, colegas de trabalho 
e não somente alguém da família. Aliás, ser parente é circunstância de aumento 
de pena, uma vez que é esperado que a família seja a primeira a ofertar 
proteção e, quando isso não ocorre, haverá uma reprovação moral maior, 
reverberando assim na pena imposta. 
3.3 - Art. 24 da Lei nº 13.431/22: 
Violar sigilo processual, permitindo que depoimento de criança ou 
adolescente seja assistido por pessoa estranha ao processo, sem autorização 
judicial e sem o consentimento do depoente ou de seu representante legal. 
Esse crime tem pena que varia entre 1 a 4 anos de reclusão e tem previsão na 
lei que estabeleceu o sistema de garantia de direitos de crianças ou 
adolescentes vítimas ou testemunhas de violência já estudado. O crime, em 
regra, será cometido por aquele que viola o sigilo processual e divulga o que a 
vítima ou testemunha narrou acerca dos fatos, ou seja, divulga o depoimento 
de criança ou adolescente, permitindo que um terceiro estranho aos autos 
tenha conhecimento do seu conteúdo. 
 
35 
Aula 3 - Noções gerais sobre a colheita da prova nos 
crimes em espécie 
 
Na aula anterior treinamos o nosso olhar para identificar os diversos 
crimes dos quais crianças e adolescentes podem ser vítimas, entendendo que 
alguns têm pouca aplicação, outros são mais complexos e existem aqueles que 
são menos observados em nossa rotina policial. Agora vamos dar ênfase para a

Mais conteúdos dessa disciplina