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Presidência da República Luiz Inácio Lula da Silva Ministério da Justiça e Segurança Pública Ricardo Lewandowski Secretaria Nacional de Segurança Pública Mario Luiz Sarrubbo Diretoria de Ensino e Pesquisa Michele Gonçalves dos Ramos Coordenação-Geral de Ensino Márcia Alencar Machado da Silva Coordenação de Ensino a Distância Tainara Leiria da Silveira Coordenação Pedagógica Joyce Cristine da Silva Carvalho Conteudistas Fernanda Schieber Saúde Vilas Boas de Oliveira Jota Juliana Antunes Barros Amorim Patrícia Simone Bozolan Gerente de Curso Tainara Leiria da Silveira Revisão Técnica Rosa de Sahron Alves Firmino Pinto Revisão Textual Rachel Goretti de Landa Vergara Revisão Pedagógica Ardmon dos Santos Barbosa Joyce Cristine da Silva Carvalho Programação e Edição Renato Antunes dos Santos Designer Zulmiro José Machado Filho Design Instrucional Luana Manuella de Sales Mendes SUMÁRIO Apresentação do Curso ................................................................................... 4 Objetivos do Curso ......................................................................................... 5 Objetivo Geral ................................................................................................. 5 Objetivos Específicos ....................................................................................... 5 Estrutura do Curso ................................................................................................ 6 Módulo 1 - Aspectos legais dos crimes e do atendimento à criança e ao adolescente vítima ou testemunha de crime .................................................... 7 Apresentação do módulo ................................................................................ 7 Objetivos do módulo ...................................................................................... 7 Estrutura do módulo ....................................................................................... 8 Aula 1 – Microssistema legal no combate aos crimes contra criança e adolescente – Estatuto da Criança e do Adolescente, Código Penal, Lei da Escuta Protegida e Lei Henry Borel ................................................................. 9 Aula 2 - Legislação criminal – dos crimes contidos no Código Penal, no Estatuto da Criança e do Adolescente e em demais legislações .................... 15 Aula 3 - Noções gerais sobre a colheita da prova nos crimes em espécie ..... 35 Aula 4 – O Depoimento especial como instrumento de coleta de prova e a investigação de crimes sexuais ...................................................................... 40 Finalizando .................................................................................................... 50 Módulo 2 - Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil e os efeitos da violência .............................................................................................................. 51 Apresentação do módulo .............................................................................. 51 Objetivos do módulo .................................................................................... 51 Estrutura do módulo ..................................................................................... 51 Aula 1: Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil que são fundamentais para a abordagem de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência ........................................................................................................ 52 Aula 2: O modelo bioecológico de compreensão do desenvolvimento humano e sua relação com a violência .......................................................... 56 Aula 3: Consequências psicopatológicas da vivência de violência ................. 65 Finalizando .................................................................................................... 76 Módulo 3 – Da atuação policial na proteção da criança e ao adolescente vítima ou testemunha de crime ........................................................................ 78 Apresentação do módulo .............................................................................. 78 Objetivos do módulo .................................................................................... 78 Estrutura do módulo ..................................................................................... 79 Aula 1 – O Atendimento Policial e suas atribuições legais ............................ 80 Aula 2 – O registro da ocorrência policial ..................................................... 86 Aula 3 – Os aspectos gerais de proteção e a atividade policial ..................... 91 Aula 4 – A importância da rede na atenção às pessoas em situação de violência. O trabalho interdisciplinar. Elos ligados. ........................................ 95 Finalizando .................................................................................................. 100 Módulo 4 - A escuta protegida ...................................................................... 101 Apresentação do módulo ............................................................................ 101 Objetivos do módulo .................................................................................. 101 Estrutura do módulo ................................................................................... 101 Aula 1 – Aspectos históricos da voz da criança e do adolescente ............... 102 Aula 2 – A Lei nº 13.431/2017 e a voz da criança e do adolescente ............ 110 Aula 3 – A escuta especializada ................................................................... 119 Aula 4 – O Depoimento Especial ................................................................. 126 Aula 5 - A revelação da criança e do adolescente e as evidências de veracidade. .................................................................................................. 133 Finalizando .................................................................................................. 138 Referências Bibliográficas .............................................................................. 139 4 Apresentação do Curso Caro(a) aluno(a), Prestar um serviço público de excelência em segurança pública é um dever do Estado. Ainda na pauta de proteção às crianças e aos adolescentes temos uma grande necessidade de aperfeiçoamento, especialmente com a edição e publicações das últimas legislações, que trazem grandes responsabilidades para as instituições de segurança pública no Brasil. O enfretamento à violência contra as crianças e adolescentes é parte do Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (PNSPDS), na ação estratégica 12, que objetiva desenvolver e apoiar ações articuladas destinadas à prevenção e à repressão à violência e à criminalidade relacionadas aos jovens e a grupos vulneráveis1. Além disso, a capacitação dos profissionais de segurança pública nessa temática é urgente, especialmente porque há legislação específica (Lei nº 13.431/2017 e outras) que normatiza e organiza o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência e ainda cria mecanismos para prevenir e coibir a violência. Apesar de ser uma legislação muito recente, traz uma grande inovação: a inclusão da segurança pública como parte da rede de proteção. A Lei ainda regula os instrumentos de atendimento policial nesses casos, instituindo ferramentas de escuta protegida em situações em que crianças e adolescentes sejam instados a se manifestarem verbalmente. Assim, os profissionais de segurança pública carecem de formação qualificada nessa temática. Ao final desse curso, esperamos que você transfira para sua prática profissional todos os saberes aqui desenvolvidos e mais: que você se comprometa comforma como podemos e devemos robustecer a prova durante o trabalho policial, tanto pela polícia ostensiva, que pode já preservar algumas provas para serem colhidas, quanto pela polícia de repressão que deve ser cautelosa e criteriosa com colheita de provas dos crimes cometidos. Assim percebemos que a atividade policial é um conjunto de atos cadenciados, primeiro identificando os diversos crimes possíveis para, em seguida, fazer a melhor colheita das provas permitindo que a investigação policial cumpra seu papel, responsabilizando aqueles que praticaram crime e protegendo um público mais vulnerável que os demais. 3.1 A atuação do policiamento ostensivo na colaboração com a colheita da prova É sabido que cabe à Polícia Civil o ônus da apuração criminal e, consequentemente, é sobre ela que recai a maioria dos atos de produção probatória. Contudo, é inegável que o policiamento ostensivo desempenha papel importante nesse contexto e pode colaborar com alguns desdobramentos na colheita da prova, podendo ser identificados ao menos três momentos em que essa cooperação possui extrema importância. O primeiro momento está relacionado ao local do crime, uma vez que é, como regra, o policiamento ostensivo quem chega primeiro. Nesse momento será possível obter facilmente informações com populares ali reunidos sobre eventual conhecimento da autoria ou da dinâmica dos fatos. Essa atuação permitirá o repasse de informações que irão auxiliar na colheita de prova. Podemos dizer que a atuação estará pautada na observância 36 ao princípio de colaboração das forças de segurança em prol da sociedade. No caso concreto, ao chegar em um local de crime, o policial que ouvir entre os populares presentes o que uma pessoa específica confessou ter visto toda cena do crime, ele deverá reunir esforços para identificar imediatamente a pessoa que fez a confissão. A chegada da polícia repressiva ao local, momentos depois, pode não ter o mesmo êxito na obtenção dessa prova testemunhal, uma vez que a pessoa pode já ter deixado o local, sem qualquer identificação. Um segundo momento está relacionado ao encaminhamento da vítima a uma Delegacia de Polícia pelo policiamento ostensivo para o registro de ocorrência policial. Novamente, para efetuar esse encaminhamento, o policial já pode fazer uma análise prévia das provas mais adequadas e pode ajudar na formação do conjunto probatório, como exemplo, conduzir a vítima acompanhada de uma testemunha mais central em detrimento de outras que não têm muito a contribuir com a investigação. Por fim, um terceiro momento que essa cooperação ganha ainda mais evidência é nas situações flagranciais, nas quais não somente autor e vítima são conduzidos, mas possíveis testemunhas, objetos que serão apreendidos, como proveito ou arma do crime. Há aqui que se reconhecer que, quanto mais o olhar desse policial estiver treinado para identificar a prova mais adequada, maior será a eficácia da responsabilização penal do autor do crime, em situação flagrancial. 3.2 A colheita da prova nos crimes praticados contra crianças e adolescentes; A investigação policial segue um caminho lógico até a obtenção de um conjunto probatório adequado que permita uma eficaz responsabilização penal, o qual se traduz no encerramento do inquérito policial e a sua remessa ao Poder Judiciário. No Título VII, Capítulo I ao XI do Código de Processo Penal estão detalhados os principais tipos de prova, dentre as quais: o exame de corpo de delito e as perícias em geral, o interrogatório do acusado, a confissão, as testemunhas, o auto 37 de reconhecimento de pessoas e coisas, a acareação, a prova documental, os indícios, a busca e apreensão. Embora não esteja no título que cuida das provas, entendemos que há outras medidas cautelares que podem ser fontes de prova, por exemplo a quebra de sigilo telefônico, telemático, fiscal e bancário. Na rotina policial, a colheita da prova pode ser sintetizada por meio do gráfico abaixo que aponta os caminhos a serem percorridos, como regra geral, pela investigação: Figura 6 - Investigação esquematizada Fonte: BOZOLAN (2022). A ordem acima pode sofrer alterações, uma vez que há sempre que se ter em mente o caso concreto. Contudo, no que tange à oitiva da vítima nos crimes praticados contra criança e adolescente, vamos perceber no tópico seguinte que ela deverá, preferencialmente, ser uma das últimas providências a ser tomada por meio da realização do Depoimento Especial. Na rotina policial existem alguns crimes praticados contra esse público que tem preponderância sobre os demais, vale dizer, crimes que ocorrem com mais frequência se comparados a outros. Estão dentre eles o delito de maus tratos, pornografia por meio da rede mundial de computadores, estupro de FATO CRIMINAL REGISTRO DO FATO CRIMINAL (oc. policial, acionamento pol. ostensiva, denúncias) INÍCIO DAS DILIGÊNCIAS INVESTIGATIVAS MEDIDAS CAUTELARES BUSCA DE VESTÍGIOS MATERIAIS e EXAMES PERICIAIS OITIVA DE TESTEMUNHAS RECONHECIMENTO DE PESSOAS E OBJETOS OITIVA DA VÍTIMA e OITIVA DO AUTOR DOS FATOS FINALIZAÇÃO DO INQUÉRITO POLICIAL 38 vulnerável e exploração sexual. Para tais infrações, a colheita da prova se apresenta com níveis de dificuldades diferentes. O crime de maus tratos, como regra, apresenta um nível baixo de complexidade na colheita da prova. Na maioria das vezes, ele é traduzido em ações objetivas que podem ser identificadas facilmente, como por exemplo, marcas físicas no corpo da vítima que serão constatadas por meio do Laudo de Exame de Corpo de Delito de Lesão Corporal, aspectos de cuidados não preservados, como sujeira e desnutrição de fácil percepção e comportamentos mais engajados das testemunhas e/ou denunciantes. O resultado da investigação nesse crime costuma ser robusto e satisfatório, aumentando os índices positivos de responsabilização penal do autor. A pornografia por meio da rede mundial de computadores ou por meio de produção ou armazenamento, sem que haja a distribuição, nos termos dos artigos já estudados, possui maior nível de complexidade. Se por um lado, quando descoberto, trata-se de crime de farta materialidade, uma vez que é da essência do tipo penal encontrar arquivos que contenham a denominada pornografia; por outro lado é fato que a apuração desses crimes necessita de um policial treinado para compreender a forma técnica da colheita probatória. Não vamos adentrar nas especificidades deste tipo de investigação, uma vez que há necessidade de capacitação específica para esse fim, pois dominar conceitos como torrente P2P, dark ou deep web, internet protocol, provedores de acesso ou armazenamento, interceptação telemática, infiltração policial cibernética (Art. 190 A-E do Estatuto da Criança e do Adolescente) etc carecem de treinamento específico, razão pela qual na sessão Saiba Mais você poderá obter informações sobre essas capacitações. Nos crimes sexuais, mais precisamente no estupro de vulnerável, o nível de complexidade probatória é bem elevado, isso porque é sabido que esse crime é praticado nas sombras, longe de testemunhas e muitas vezes sem vestígios. Nesses delitos a realização do Depoimento Especial nos termos da Lei nº 13431/17 e seu Decreto Regulamentador nº 9603/18 tem especial importância, sendo um instrumento imprescindível para uma colheita de prova robusta. Aqui vamos destacar algumas situações práticas da atuação policial 39 sobre a colheita da prova quando estivermos diante do crime de Estupro de Vulnerável, sendo elas: a) Colheita de material genético por meio de cumprimento de mandado de busca e apreensão: nos casos de estupro de vulnerável em que se obtenha perfil genéticodo autor e ele se recuse a fornecer material para comparação, em observância ao princípio nemo tenetur se detegere – ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo - é possível, nos termos do art. 240, §1.º, alínea h, do Código de Processo Penal, representar pelo cumprimento de Mandado de Busca e Apreensão para coletar objetos que podem conter material genético que permita a extração e a adequada comparação de perfil genético entre o material do autor e aquele encontrado na vítima. Alguns objetos possuem potencial maior de extração do perfil genético, dentre eles escova de dentes, escova de cabelo, meias usadas e não lavadas, chinelo de uso diário, etc. b) Alguns critérios de encaminhamento da vítima ao IML para exame de corpo delito: Como regra, sempre que o crime deixar vestígios, a vítima é encaminhada ao IML para realização de Exame de Corpo delito, o que nada mais é do que uma das formas de produção probatória. Entretanto, quando estamos falando de violência sexual há casos em que o exame se fará necessário mesmo sem vestígios aparentes relatados. Dentre esses casos é comum vítimas com tenra idade que não possuem capacidade de narrativa ou essa é diminuída, sendo importante o encaminhamento ao IML. Nesse ponto, entretanto, vale lembrar que o Decreto nº 9.603/18, no art. 13, §7º, apregoa que a perícia física será realizada somente nos casos em que se fizer necessária à coleta de vestígios, evitada a perícia para descarte da ocorrência de fatos. c) Utilização de Banco de Dados de Perfil Genético: É possível também, havendo material biológico coletado da vítima com extração de perfil genético, solicitar comparação no Banco de Perfil Genético. Trata-se de uma poderosa ferramenta investigativa que você pode conhecer melhor acessando https://www.gov.br/pt-br/noticias/justica-e-seguranca/2021/04/banco- nacional-de-perfis-geneticos-atinge-a-marca-de-100-mil-perfis-cadastrados d) Direito ao silêncio: Um ponto importante que devemos observar é que, de acordo com o art. 5., inc. VI da Lei nº 13.431/17, crianças e 40 adolescentes, ainda que testemunhas, têm direito ao silêncio. Diante deste dispositivo legal, precisamos buscar outras fontes de colheita de prova, caso elas desejarem permanecer em silêncio, impedindo que o agente do Estado insista ou obrigue a criança ou adolescente a depor, a falar. Aula 4 – O Depoimento especial como instrumento de coleta de prova e a investigação de crimes sexuais 1. Introdução Na aula 1 aprendemos sobre o microssistema legislativo que rege o enfrentamento à violência contra criança e adolescente, nele estão a lei 13.431/17 e o Decreto Regulamentador de n. 9603/18. Dentre os muitos dispositivos protetivos previstos nestas normas, dois deles têm especial importância para o trabalho dos profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), quais sejam, o depoimento especial e a escuta especializada. Apesar de os dois instrumentos serem formas utilizadas para coletar a narrativa da criança ou do adolescente, eles possuem finalidades distintas. A escuta especializada, por disposição expressa do art. 7º da lei, é o procedimento de entrevista perante a rede de proteção, estando limitado ao cumprimento de sua finalidade e não tem o escopo de produzir prova para o processo de investigação e de responsabilização penal, conforme art. 19, § 4º do Decreto. Já o depoimento especial, cuja definição é encontrada no art. 8º da Lei e complementado pelo art. 22 do Decreto, é procedimento de oitiva perante a autoridade policial ou judiciária com a finalidade de produção de prova. Além de definições distintas, os dois instrumentos possuem requisitos específicos que são mais facilmente visualizados no quadro abaixo: Figura 7 - Quadro Comparativo DEPOIMENTO ESPECIAL ESCUTA ESPECIALIZADA Âmbito policial ou judiciário Órgãos de rede de Proteção (educação, saúde, assistência social, direitos humanos, segurança pública) 41 Finalidade de produção de prova Proteção social e provimentos de cuidado Profissional capacitado Idem Infraestrutura adequada Idem Uso de protocolo Não Gravação em áudio e vídeo Não Fonte: BOZOLAN (2022). Embora a Escuta Especializada tenha papel fundamental na Rede de Proteção, o Decreto nº 9603/18 previu expressamente em seu art. 19, a sua utilização por profissionais da Segurança Pública. Tal disposição está em harmonia com o art. 13, §2º do mesmo diploma, uma vez que é assegurado o registro de ocorrência policial à criança ou ao adolescente mesmo que estejam desacompanhadas dos responsáveis. Assim, no caso concreto, os profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), podem ouvir o relato espontâneo de uma criança ou de um adolescente sobre fatos dos quais são vítimas ou testemunhas. Importante nesse ponto ressaltar que não está permitido, por meio da escuta, iniciar diversos questionamentos sobre pontos atinentes à investigação, como quem fez, o que fez, onde fez, etc, sob pena de afronta aos ditames legais no que tange ao uso do Depoimento Especial que exige uso de protocolo e gravação em áudio e vídeo para a colheita de elementos de prova. 2. O Depoimento Especial e Protocolo de Polícia Judiciária7 como instrumento de colheita probatória Para além do conceito trazido pelo legislador, precisamos compreender que o Depoimento Especial nada mais é do que uma ferramenta de investigação destinada a fornecer subsídios probatórios para a responsabilização criminal do autor do crime. Em sede policial, conforme preconiza a legislação, o Depoimento Especial precisa ser feito com uso de Protocolo, por profissional capacitado e com gravação em áudio e vídeo. Atendendo essa diretriz, a Polícia Civil do Distrito Federal em parceria com UnB 7https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/PROTOCOLO_DPCA_25_10_18.pdf Acesso em 02/10/2022 https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/PROTOCOLO_DPCA_25_10_18.pdf 42 – Universidade de Brasília, criou o primeiro Protocolo de Polícia Judiciária para colheita de narrativa de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de crimes, cuja utilização foi aprovada pela Resolução nº 02/2019 do Conselho Nacional dos Chefes de Polícia Civil - CONCPC8. Sobre ele, podemos afirmar que: Este protocolo buscou sistematizar, de modo científico, as técnicas utilizadas nacional e internacionalmente, sempre sob a perspectiva da proteção integral da criança e do adolescente e da garantia dos direitos fundamentais do investigado na esfera de Polícia Judiciária, tendo como objetivo “colher, na esfera policial, o Depoimento Especial de crianças e adolescentes apontados como vítima ou testemunha de violência - priorizando a condição de ser em desenvolvimento, a diminuição dos danos da revitimização e garantindo a oportunidade de direito de fala - com a finalidade de produzir elementos probatórios, com base na legislação vigente. Realizá-lo, exclusivamente por policiais devidamente capacitados, por meio do presente protocolo que auxilie na elucidação e compreensão dos fatos em apuração. (BOZOLAN, MACHADO, MENDES, SANTIAGO, 2021, Pedofilia Doutrina e Prática – A visão do Delegado, p. 162,163). A existência desse Protocolo, além de atender aos requisitos da lei, permite que a investigação policial possa ser feita de maneira técnica e segura, no que tange as possíveis nulidades processuais, pois embora ele seja feito no bojo do inquérito policial, conhecido por sua característica inquisitória e devendo as provas produzidas serem convalidadas em juízo. É notório que os crimes com alta complexidade probatória podem ter no Depoimento Especial a base da estruturação das provas e, possuir a narrativa da vítima invalidada em sede processual diante da inobservância do uso de um protocolo, certamente acarretará prejuízos que podemdefinir o resultado da responsabilização penal. Para a correta aplicação do Protocolo de Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança e a Adolescente foi criado também o Manual 8http://www.concpc.com.br/res-concpc-02- 2019/#:~:text=Institui%20diretrizes%20a%20serem%20observadas,a%20Lei%20n%C2%BA%201 3.431%2F17. Acesso em 04/10/2022 http://www.concpc.com.br/res-concpc-02-2019/#:~:text=Institui%20diretrizes%20a%20serem%20observadas,a%20Lei%20n%C2%BA%2013.431%2F17 http://www.concpc.com.br/res-concpc-02-2019/#:~:text=Institui%20diretrizes%20a%20serem%20observadas,a%20Lei%20n%C2%BA%2013.431%2F17 http://www.concpc.com.br/res-concpc-02-2019/#:~:text=Institui%20diretrizes%20a%20serem%20observadas,a%20Lei%20n%C2%BA%2013.431%2F17 43 de Uso9 que especifica cada uma das 8 fases do Protocolo, apontando as diretrizes e o percurso a ser seguido pelo policial que conduz a colheita da narrativa, conforme tabela abaixo: Figura 8 - Fases do Protocolo de Polícia Judiciária PROTOCOLO DE POLÍCIA JUDICIÁRIA PARA DEPOIMENTO ESPECIAL DE CRIANÇA OU ADOLESCENTE FASE 1 Ambientação FASE 2 Avaliação da criança ou adolescente para a oitiva FASE 3 Orientações e instruções (criança) ou transição (adolescente) FASE 4 Orientações e instruções (adolescente) ou transição (criança) FASE 5 Relato livre sobre o fato em apuração FASE 6 Questões pertinentes à investigação policial FASE 7 Fechamento FASE 8 Tópico Neutro Fonte: BOZOLAN (2022). Dessa maneira, o Depoimento Especial entendido como uma ferramenta de investigação, realizado com rigidez técnica e gravação em áudio e vídeo, atinge elevada importância na violência sexual, em razão da escassez probatória que esses crimes frequentemente apresentam, como veremos de forma pormenorizada no tópico seguinte. 3. A investigação nos crimes de cunho sexual Dados estatísticos apontam que os crimes sexuais representam a maior violação praticada contra crianças e adolescentes, representando cerca de 56% se comparado com o crime de maus tratos e de lesão corporal, de acordo com estudo estatístico do Fórum Brasileiro de Segurança Pública10, significando assim o maior volume do trabalho policial. Além disso, como dito anteriormente, essa violência apresenta uma maior complexidade probatória se comparada a outros tipos de delitos, pois 9https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/Manual_DPCA_atualizado.pdfAcesso em 03/10/2022 10https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/12/violencia-contra-criancas-e- adolescentes-2019-2021.pdf acesso em 04/10/2022 https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/Manual_DPCA_atualizado.pdf https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/12/violencia-contra-criancas-e-adolescentes-2019-2021.pdf https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/12/violencia-contra-criancas-e-adolescentes-2019-2021.pdf 44 dificilmente deixam vestígios e não possuem testemunhas e nos dizeres do Delegado-Chefe Adjunto da Delegacia de Proteção da Criança e do Adolescente da Polícia Civil do Distrito Federal Filipe Augusto Villela Campos: “A prática demonstra que crimes sexuais cometidos em face de crianças e adolescentes dificilmente deixam vestígios/elementos de informação que possam ser identificados por outra forma que não seja a oitiva da vítima. Em razão do sentimento geral de extrema repugnância e reprovação aos delitos sexuais, assim como àqueles perpetrados em face de crianças e adolescentes, é majorado o interesse do autor em manter-se nas sombras”. Assim, enquanto em outros crimes a investigação pode ter à sua disposição diversos elementos de prova, no crime sexual podemos ter somente o depoimento especial ou apenas depois da realização dele é que poderemos coletar mais evidências da prática criminosa. Graficamente, a investigação nos crimes sexuais pode ser assim representada: Figura 9 - Representação Gráfica Investigação Fonte: BOZOLAN (2022). Desta forma, ao realizar o Depoimento Especial nos crimes de cunho sexual, o policial responsável pela investigação, além de observar os parâmetros legais de utilização de protocolo e gravação em áudio e vídeo, não deve se contentar apenas com a mera confirmação da vítima de que os fatos ocorreram. Em um exemplo prático, se uma vítima com 10 anos de idade e com boa capacidade de narrativa afirmar que “meu padrasto tirou a roupa e colocou o pipi dele na minha boca”, teremos, do ponto de vista jurídico, o completo preenchimento do tipo penal previsto no Art. 217-A do Código Penal. Testemunhas Perícias Medida Cautelar (MBA, interceptação telemática, telefônica) Depoimento Especial Provas 45 Contudo, encerrar o depoimento especial apenas com a confirmação dos fatos, é lançar a criança/adolescente no perigoso terreno da “palavra da vítima versus palavra do autor”. Apesar de nos crimes sexuais a palavra da vítima ter especial valia em detrimento da palavra do autor, conforme jurisprudência sedimentada em nossos tribunais, é certo que a colheita de alguns elementos ou circunstâncias que possam dar mais robustez a esse relato, bem como irá aumentar as chances de uma responsabilização penal adequada. Para facilitar a compreensão de como o Depoimento Especial deve ser conduzido pelo policial, mesmo quando já tiver ocorrida a confirmação dos fatos, vamos separar as circunstâncias que permeiam o crime em fundamentais, periféricas e adicionais. A partir disso, deve-se percorrer todos os itens elencados, numa espécie de checklist, afastando o encerramento do Depoimento especial apenas com a confirmação do crime feito pela vítima. Figura 10 - Tabela Circunstâncias CIRCUNSTÂNCIAS FUNDAMENTAIS PERIFÉRICAS ADICIONAIS • confirmação dos fatos • dinâmica da execução • material biológico (sêmen, sangue, saliva) • mídias ou sistema de monitoramento de vídeo • autor, local e tempo do crime • testemunha de revelação • testemunhas em geral • outras vítimas • condições do local • rotina da vítima e das pessoas envolvidas em seu núcleo de convivência • mudança de comportamento • interações verbais entre autor e vítima • coação e ameaça • segredos e subornos • riscos e conivência dos responsáveis Fonte: BOZOLAN (2022). No intuito de sedimentarmos um pouco mais o que foi acima explicitado, vamos utilizar tal quadro em dois exemplos práticos e perceber como explorar as circunstâncias pode trazer resultados significativos para a investigação, partindo da regra de que nos dois casos não temos nem testemunha e nem laudos periciais. Exemplo 01: 46 “Menina de 7 anos de idade relatou para a professora da escola que seu pai fazia coisas feias com ela e que ela não gostava de colocar o pipi dele em sua boca” Figura 11 - Exercício - Tabela Circunstâncias CIRCUNSTÂNCIAS Fundamentais Periféricas Adicionais - nome do pai - local e tempo dos fatos -confirmado os fatos, acrescentando a vítima que além de o pai colocar o pipi na boca dela, ele também tirava a roupa dela e colocava a língua em sua genitália”. - explorando condições do local e rotina dos envolvidos, a vítima ainda narrou que os pais eram divorciados. Às quartas e sextas-feiras seu pai ia até a casa onde ela vivia com a mãe para buscá-la e deixar na escola. No meio do caminho, ele parava em um local isolado, praticava os atos sexuais e ela sempre chegava atrasada na escola nesse dia. - nenhum dado acrescentado. Fonte: BOZOLAN (2022). Após a confirmação dos atos criminosos, a coleta de informações seguiu explorando algumas circunstâncias periféricas. A partir delas, foram feitas diligências na escola em que a criança estudava e o estabelecimento contava com registro eletrônico de entrada e saída dos alunos, sendo constatado que, às quartas e sextas-feiras, a criança sempre chegava cerca de 30 a 40min atrasada.Exemplo 02 “Menina de 11 anos de idade relatou para uma amiga que o pai adotivo vinha praticando atos sexuais com ela, incluindo tentativa de penetração vaginal e sexo oral” Figura 12 - Exercício - Tabela Circunstâncias CIRCUNSTÂNCIAS Fundamentais Periféricas Adicionais - nome do pai - local e tempo dos fatos - confirmado os fatos, acrescentando a vítima que os abusos ocorriam desde os 9 anos de idade e que, apesar de ter tentado introduzir o pênis em sua vagina, ele sempre parava quando ela dizia que estava com - explorando a rotina dos envolvidos e mudança de comportamento, a vítima ainda narrou que possui um irmão gêmeo que também havia sido adotado junto com ela pelo pai adotivo. Afirmou que o pai sempre viajava com ela e deixava o irmão em casa. Disse que constantemente ganhava muitos presentes do pai e que o irmão nunca ganhava e que mesmo quando era aniversário dos dois, o presente dela era sempre melhor do que o do irmão. Narrou também que quando - excesso de presentes com valores expressivos. 47 medo. os abusos começaram a se intensificar, sempre tinha crises de choro e era o irmão que conseguia acalmá-la, mas ela nunca teve coragem de contar para ele o que estava acontecendo. Fonte: BOZOLAN (2022). Aqui, mais uma vez temos a confirmação dos fatos que não deixam dúvidas quanto ao preenchimento do crime de estupro de vulnerável. Todavia, considerando que novamente não temos testemunhas do abuso e nem materialidade, precisamos explorar todas as circunstâncias que permearam o crime. Assim, após o relato, foi ouvido o irmão como testemunha, sendo confirmado que por diversas vezes, por volta de 9 ou 10 anos de idade, a irmã tinha crises muito forte de choro, que não sabia o porquê, pois ela não respondia, mesmo quando ele perguntava. Confirmou também que nunca entendeu porque ganhava presentes tão simples e a irmã presentes tão caros e que quando fizeram 10 anos, a irmã ganhou um aparelho celular muito bom e ele ganhou só uma camiseta. Disse também que o pai só viajava com a irmã e sempre se recusava a levá-lo junto. Como podemos observar, se durante a realização do Depoimento Especial tivéssemos encerrado o procedimento apenas com a confirmação do abuso sexual, teríamos apenas a palavra da vítima e a negativa do autor, dificultando assim uma possível responsabilização criminal. Nos dois exemplos dados, a busca por mais detalhes, aqui denominadas circunstâncias periféricas, possibilitou que a narrativa ou a confirmação dos fatos ganhasse maior robustez, ainda que ausentes testemunhas diretas do crime e laudos periciais de constatação de violência. 4. Breves considerações sobre o Depoimento Especial em sede judicial O Depoimento Especial em âmbito judicial pode acontecer em dois momentos distintos, o primeiro em sede de produção antecipada de provas, conforme previsão do art. 11 da Lei nº 13.431/17, e o segundo momento durante a instrução e julgamento da ação penal, ocorrendo em ambos o exercício do contraditório e da ampla defesa. 48 Algumas interpretações têm sido feitas sob a ótica de que quando se tratar de crime sexual e nos casos de crianças menores de 7 anos, o Depoimento Especial deve ser feito apenas por meio de audiência de produção antecipada de prova. Essa interpretação, se adotada de forma generalizada em todos os casos, pode ser equivocada e até mesmo pouco protetiva. Como abordado anteriormente, o Depoimento Especial, sobretudo nos crimes sexuais, é importante ferramenta de coleta de evidências, de coleta de prova. Se de um lado é certo que em alguns casos, o depoimento em sede policial pode ser dispensado diante da existência de vários outros elementos de provas, por outro lado, é certo que isso se verifica na minoria dos casos, especialmente nos crimes sexuais. Desta feita, afirmar que o Depoimento Especial, no caso de violência sexual, deve necessariamente ser feito em Juízo é permitir alguns graves desdobramentos, conforme elencados abaixo: i. Proteção deficiente dos direitos fundamentais da criança e do adolescente, porquanto a condução por profissional que não tem expertise investigativa pode acarretar um depoimento com a mera confirmação, pondo-se de lado a exploração de circunstâncias que trarão robustez para o relato. ii. Redução da efetividade da investigação criminal e da persecução penal em razão da perda do elemento surpresa que permite a polícia se movimentar rapidamente, por exemplo, para apreender mídias produzidas durante o abuso cuja existência é revelada somente em sede de Depoimento Especial. iii. Impossibilidade de realização em 100% dos crimes de violência sexual, por exemplo, quando a autoria é vagamente referenciada ou quando os fatos são precariamente narrados. iv. Judicialização de situações que sequer terão força para subsidiar o oferecimento de denúncia pelo Ministério Público posteriormente, gerando um impacto nas agendas de audiência em um Poder Judiciário. 49 v. Desconsideração das características de uma medida cautelar da qual é espécie a antecipação de prova, devendo assim serem analisados outros requisitos previstos no Art. 156 do CPP, no que tange a proporcionalidade, necessidade e adequação, pois, se admitido interpretação diversa, teríamos que para o Promotor de Justiça haveria o dever de ajuizar uma ação cautelar de antecipação de prova, independente da presença dos pressupostos característicos de medidas da respectiva natureza, e para o juízo competente não caberia espaço para decidir com base nas peculiaridades do caso concreto. Por fim, não podemos esquecer que os comandos inseridos na Lei nº 13.431/17 precisam ser interpretados em harmonia, razão pela qual há que se ter em conta o disposto no § 2º do art. 14, que determina que “nos casos de violência sexual, cabe ao responsável da rede de proteção garantir a urgência e a celeridade necessárias ao atendimento de saúde e à produção probatória, seguido do disposto no art. 2º, inc. V do Decreto que afirma que “a criança e o adolescente devem receber intervenção precoce, mínima e urgente das autoridades competentes tão logo a situação de perigo seja conhecida. Pelos dispositivos, parece restar claro que postergar a realização do Depoimento Especial para que seja feito unicamente em sede judicial é não dar a urgência e a celeridade que a lei impõe, devendo assim haver uma harmonização dos dispositivos para permitir que a responsabilização criminal ocorra de forma robusta e eficaz. 50 Finalizando Neste módulo, você aprendeu que: • O enfrentamento da violência contra a criança e o adolescente deve ser feito com a observância da existência de um Microssistema legislativo, composto pelo Estatuto da Criança e a Adolescente, pelo Código Penal, pela Lei da Escuta Protegida e seu Decreto Regulamentador e a denominada Lei Henry Borel. • Os crimes dos quais criança e adolescente podem ser vítimas estão previstos não somente no Estatuto, mas também no Código Penal e em diversas outras legislações e alguns deles possuem singularidades e peculiaridades que podem dificultar sua identificação durante a rotina policial, acarretando uma atuação inadequada e menos protetiva; • Após a identificação do crime, as diligências investigativas seguem um caminho lógico até a finalização do inquérito policial, possibilitando a responsabilização penal adequada do agressor; • Os crimes cometidos contra criança e adolescente possuem níveis diferentes de complexidade probatória, sendo o crime de cunho sexual o que impõe o maior desafio. • A Lei nº 13.431/17 introduziu em nosso ordenamento os instrumentos adequados para coleta de relatos de violência, sendo eles a Escuta Especializada e o Depoimento Especial; • O Depoimento Especial, em sede policial,é regido pelo Protocolo de Polícia Judiciária, e é considerado como uma ferramenta de investigação; • Durante a realização do Depoimento Especial, o policial deverá estar atento não somente para a confirmação dos fatos, mas também para as circunstâncias fundamentais, periféricas e adicionais do crime. 51 Módulo 2 - Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil e os efeitos da violência Apresentação do módulo Neste módulo vamos abordar as características do desenvolvimento humano que são importantes para o Depoimento Especial. Vamos compreender através do Modelo Bioecológico de Bronfenbrenner quais são os fatores de risco e proteção para a ocorrência de violência com crianças e adolescentes. Por fim, vamos apontar quais são as principais consequências comportamentais e psicopatológicas da vivência de situações traumáticas. Objetivos do módulo Este módulo tem por objetivos: • Identificar aspectos do desenvolvimento humano que influenciam na escuta policial de crianças e adolescentes; • Analisar os fatores de risco e proteção para ocorrência de violências; • Compreender a violência como um fenômeno transgeracional e complexo; • Identificar as principais consequências psicopatológicas da vivência de situações de violência. Estrutura do módulo Este módulo compreende as seguintes aulas: Aula 1 – Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil que são fundamentais para a abordagem de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência; Aula 2 – O modelo bioecológico de compreensão do desenvolvimento humano e sua relação com a violência; Aula 3 – Consequências psicopatológicas da vivência de violência. 52 Aula 1: Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil que são fundamentais para a abordagem de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. Quando se fala de desenvolvimento humano, diversas teorias apontam para suas fases, bem como fatores que influenciam sua formação. Este curso optou por dois modelos teóricos que serão apresentados seguidamente. O desenvolvimento cognitivo e o modelo ecológico de Bronfenbrenner. Esse último aponta para questões fundamentais, seja qual for o modelo teórico adotado. Menores de idade têm sido chamados a prestarem depoimentos a respeito das violências que sofreram ou de que foram testemunhas. Cada dia mais, aquilo que elas têm para relatar tem sido levado em consideração. Porém, há que se ter em mente que, a despeito de toda evolução no que se refere aos direitos deles, as características do seu processo de desenvolvimento precisam ser levadas em consideração de modo a se obter um relato o mais próximo possível da realidade. Com a promulgação da Lei nº 13.431/2017, que trata do depoimento especial, o testemunho de crianças e adolescentes tem sido cada vez mais valorizado. O que há alguns anos era considerado irrelevante, atualmente, tem recebido notável reconhecimento. Crianças e adolescentes têm recebido diversas mensagens educacionais no que se refere ao cuidado com o próprio corpo, bem como ao conceito de violência sexual, qual seja, “qualquer conduta que constranja a criança ou o adolescente a praticar ou presenciar conjunção carnal ou qualquer outro ato libidinoso, inclusive exposição do corpo em foto ou vídeo por meio eletrônico” (artigo 4º, inciso III Lei nº 13.431/2017). Diversas ações preventivas de violência são realizadas em escolas e veiculadas pela grande mídia, razão pela qual houve um significativo aumento no número de denúncias de violação de direitos entre jovens, o que fez a Rede de Atenção a Pessoas em Situação de 53 Violência se debruçar nos estudos de como escutar esses jovens de modo menos revitimizador. Quando se pretende ouvir pessoas em estado de desenvolvimento no contexto policial ou judicial, é preciso considerar quais são os limites e possibilidades de cada fase no que tange, especialmente, à memória e linguagem. A mente humana é uma grande máquina que trabalha de forma interconectada. As duas funções acima citadas não se desenvolvem de maneira destacada, mas ligada a outros processos, por exemplo as emoções e a atenção. Optou-se por focar na memória e na linguagem para que fique mais fácil a compreensão. O que será listado abaixo refere-se às fases do desenvolvimento da memória e linguagem infantojuvenil catalogadas no estudo de Rovinski, 2020. Primeira Infância: os 3 primeiros anos • Entre os dois e os três anos e meio de idade, a capacidade da criança em se comunicar eficazmente vai sendo aprimorada tanto no nível do vocabulário receptivo como no expressivo. • O vocabulário da criança é muito limitado, vocaliza frases de cerca de duas palavras, e comete erros de subextensão (ex.: chamar chapéu apenas ao seu chapéu, e não a todos os chapéus), de sobre-extensão (ex.: chamar carro a todos os veículos de quatro rodas ou árvore a todas as plantas). • A forma de pensar da criança apresenta ainda algumas características que poderão dificultar a sua capacidade de testemunhar: (a) concreticidade – incapacidade de pensar em conceitos abstratos; (b) egocentrismo – incapacidade de ver uma situação do ponto de vista do outro; (c) centração – incapacidade de explorar todos os aspectos de um estímulo; (d) incapacidade de pensar em transformações – ex.: transformação dos estados físicos da matéria; e (e) irreversibilidade – ausência do conceito de conservação como consequência da centração. Os estudos apontam que crianças até 3 anos de idade são capazes de reter memória, porém, não conseguem acessá-las de forma clara e fidedigna. Dessa forma, o protocolo de depoimento especial é calibrado para crianças maiores de 3 anos. 54 Período pré-escolar: 3 a 6 anos • A partir dos três anos de idade a capacidade comunicativa da criança torna-se cada vez mais complexa e ela começa a ser capaz de compreender diferentes perspectivas simbólicas e diferenciar a vida mental do mundo real. • Entre os quatro e os cinco anos de idade, a criança já é capaz de atribuir diferentes estados mentais a si e aos outros, e de prever e explicar o comportamento dos outros com base nos seus respectivos estados mentais. • Dos quatro aos seis anos de idade as crianças começam a ponderar a possibilidade de existirem diversos pontos de vista acerca do mesmo objeto e a serem capazes de distinguir a verdade de uma mentira. • As crianças tornam-se capazes de cooperar com terceiros, começam a estabelecer relações causais, compreender e controlar as suas emoções, bem como falar abertamente sobre elas. • Aos cinco anos de idade, as crianças são já capazes de interpretar e responder adequadamente a questões de resposta aberta, como “O que você fez hoje?” • Nesta idade crianças exibem uma tendência a se fixarem nos acontecimentos centrais do episódio a recordar (ex.: comportamento do criminoso), ignorando os acontecimentos periféricos (ex.: comportamento de outras testemunhas) e centrando-se menos nos pormenores relevantes para a investigação policial. • Neste período as crianças têm dificuldade em monitorizar a fonte das suas memórias, por exemplo, distinguir se recordam certo episódio porque o presenciaram ou porque foi relatado pelos pais. • Para diminuir a chance de recordações equivocadas será necessário utilizar pistas de recuperação baseadas no que a criança disse anteriormente, para direcionar a conversa e obter relatos mais extensos. Não obstante, este tipo de pistas de recuperação deverá ser cuidadosamente utilizado, pois pistas inadequadas (ex.: pistas sugestivas) poderão aumentar a quantidade de informação incorreta evocada. 55 • O entrevistador precisa certificar-se de que a criança não responde com o intuito de agradar a alguém (ex.: família) ou ao próprio entrevistador, fornecendo a informação que acha que o adulto pretende ouvir. É importante transmitirà criança que poderá afirmar que “não se lembra” sempre que quiser, pois esta é uma resposta tão boa como outra qualquer. • Crianças no período pré-escolar, ou mais novas, demonstram dificuldade em manter a atenção num objeto ou tarefa, torna-se vital estar atento ao seu comportamento e perceber quando convém introduzir uma pausa na entrevista. • Embora estas crianças já sejam capazes de localizar eventos no espaço e no tempo, fazem-no na maioria das vezes de uma forma prática e com referência ao que lhes é familiar (ex:, “Aconteceu lá onde eu como, depois de ver televisão”). Assim, perguntas como “Que horas eram quando você ouviu seus pais brigarem?” devem ser substituídas por “O que você estava fazendo quando ouviu seus pais brigando?”. Segunda infância - período escolar • A partir dos seis anos de idade, o vocabulário da criança aumenta consideravelmente devido a sua entrada no sistema educativo. • As crianças tornam-se capazes de avaliar comportamentos com base no seu conceito de moralidade, interpretando certas atitudes como negativas ou inadequadas e inibindo-as. • O desenvolvimento do conceito de moralidade poderá traduzir-se na omissão de detalhes por parte das crianças durante a entrevista. Ex: a criança poderá omitir comportamentos sexuais do agressor por considerá-los constrangedores. • Neste período, tal como na adolescência, fatores sociais como a aceitação dos pares e o medo de ser rejeitada têm particular importância. • É no período escolar que as crianças se tornam capazes de compreender o conceito de sugestionabilidade, sendo, por exemplo, capazes de identificar se o entrevistador utiliza técnicas sugestivas. • A evocação livre destas crianças já é equiparável a dos adultos. Assim, a utilização do relato livre e de questões abertas (ex.: “O que aconteceu 56 hoje?”) é fundamental de forma a aumentar o número de informações evocadas e diminuir a quantidade de erros cometidos. O entrevistador deve evitar sempre que possível o uso de questões fechadas, particularmente questões sugestivas – “O ladrão tinha uma pistola, certo?” Adolescência • No que diz respeito ao funcionamento cognitivo e de memória dos adolescentes, equiparável ao dos adultos, eles podem ser entrevistados como tal no que diz respeito às suas capacidades intelectuais (ex.: complexidade das questões). • No entanto, é importante considerar os fatores emocionais e sociais anteriormente descritos na construção e execução da entrevista policial ou forense, tendo em vista que o medo da pressão pública, do ofensor e da exclusão social resultante do processo judicial podem influenciar a motivação da testemunha para relatar o crime. Independente da fase na qual crianças e adolescentes se encontrem no momento da entrevista, é fundamental ter em perspectiva que neste trabalho aborda-se pessoas em situações de violência e, consequentemente, em possível estado de sofrimento mental. Ao solicitar que o sujeito se recorde de eventos traumáticos, é possível que afetos negativos sejam mobilizados. Dessa forma, é preciso refletir sobre o modo como se aborda esses indivíduos para evitar sofrimentos e traumas adicionais. Aula 2: O modelo bioecológico de compreensão do desenvolvimento humano e sua relação com a violência A ecologia social de Bronfenbrenner considera que crianças e adolescentes crescem em um ambiente social complexo, que influencia seu desenvolvimento (LIDCHI, 2010). Isso fica bastante evidente quando esse sujeito em desenvolvimento sofre algum tipo de violência. O modelo ecológico inclui o processo de desenvolvimento da criança e do adolescente em uma rede de sistemas interativos, que permite compreender os fatores que vão influenciar o seu dia a dia. O modelo 57 ajuda a compreender a influência de fatores presentes em diferentes níveis de contexto (familiar, comunitário, institucional e social). Isso quer dizer que cada um desses níveis influencia o surgimento tanto de fatores de risco quanto de proteção para o desenvolvimento pleno do sujeito. Dessa forma, não é possível fazer uma análise simplista ou individual quando se pretende compreender uma situação de violência envolvendo crianças e adolescentes. Se isso ocorrer, corre-se o risco de a ação não ser efetiva e, após um tempo, nova situação de violação de direitos surgir na vida daquele sujeito. Segue abaixo o modelo de desenvolvimento que Bronfenbrenner (1979) desenvolveu: Figura 13 - Modelo de desenvolvimento que Bronfenbrenner Fonte: JOTA, 2022. MICROSSISTEMAS: Aqueles que mantêm relação direta com a criança. Promovem estimulação intelectual, apoio emocional e educação moral. Ex.: família, escola, amigos, igreja. MESOSSISTEMAS: Aqueles que estabelecem a relação entre os microssistemas. Ex.: a relação entre a escola e a família. Como esses dois se relacionarão, beneficiará ou não o desenvolvimento da criança. EXOSISTEMAS: Aqueles que vão impactar o desenvolvimento da criança, mas não de forma direta. Ex.: o trabalho dos pais. Se a mãe tem ou não 58 licença maternidade determinará como serão os cuidados iniciais desse recém- nascido. MACROSSISTEMAS: Aqueles que representam os valores culturais de uma sociedade. Esses influenciarão, por exemplo, a construção ou enfraquecimento das políticas públicas de proteção à infância e adolescência. O modo como os sistemas se relacionarão entre si apontam para os riscos ou proteção para o surgimento de situações de violência para crianças e adolescentes. Em toda família e sociedade é possível aplicar esse modelo de análise. Seguindo essa linha de estudo, a Organização Mundial de Saúde – OMS - publicou em 2002 o Relatório Mundial sobre Violência e Saúde que trouxe a necessidade de toda a sociedade e seus eixos político-institucionais se comprometerem para a erradicação das situações de violência contra crianças e adolescentes. Para tal, chamou a atenção para os fatores de risco mais prementes para sua ocorrência. NA FAMÍLIA NA COMUNIDADE/SOCIEDADE • Tamanho/Densidade •Leis de proteção a crianças e adolescentes inexistentes • Baixo nível socioeconômico • Valor diminuído de crianças • Isolamento social • Desigualdades sociais • Elevados níveis de estresse • Violência (guerras, taxas de criminalidade) • Histórico de violência/abuso familiar • Violência na mídia • Normas culturais NO INDIVÍDUO NOS PAIS • Sexo • Jovens • Prematuro • Monoparentalidade • Gravidez indesejada • Gestação indesejada • Necessidades especiais • Habilidades parentais prejudicadas • História de exposição à violência • Abuso de substâncias • Cuidado pré-natal insuficiente • Doenças mentais ou físicas • Problemas de relacionamento 59 Diante do exposto acima, faz-se fundamental o esforço de toda a sociedade civil, assim como das instituições de saúde, assistência social e segurança pública no sentido de promover cenários cada vez mais propícios para o pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes. A TRANSGERACIONALIDADE DA VIOLÊNCIA Foi possível aprender até aqui sobre os fatores individuais e sociais que influenciam o pleno desenvolvimento ou não de crianças e adolescentes, assim como os fatores de risco e proteção envolvidos para o surgimento da violência contra esse público. Neste momento será realizada uma reflexão importante sobre a influência da transgeracionalidade familiar das vivências de violência doméstica, sexual, maus tratos, etc.; ou como o processo de repetição dos padrões de relacionamento em sucessivas gerações impactam o modo como os sujeitos são tratados dentro de uma família (BELLO, 2020). Assista o vídeo: Vida de Maria Figura 14 - Vida Maria Fonte: Youtube, 2017. A transgeracionalidade da violência é facilmente vista quando se pergunta para o familiar que está acompanhando a vítima em algum serviço da Rede se eletambém já sofreu https://youtu.be/yFpoG_htum4 60 violência daquele tipo. Nos serviços de saúde e assistência social utiliza-se uma ferramenta bastante interessante chamada genograma, através da qual se traça o mapa daquela família em 3 gerações, abordando seus aspectos biopsicossociais. Segue abaixo a imagem de um exemplo de genograma apresentado por NASCIMENTO, 2005. Nele, é possível observar os elementos gráficos que representam pessoas do sexo feminino e masculino, bem como mortes, casamentos e separações. Além dessas, outras informações podem ser acrescentadas como, por exemplo, quem já foi vítima de violência e de quais tipos. Dessa forma, os padrões de repetição são identificados e reflexões sobre eles podem ser iniciadas. Figura 15 - Genograma Fonte: NASCIMENTO (2005). Estudos mostram que a maioria das violências sexuais ou maus tratos contra crianças e adolescentes ocorrem dentro da família ou são perpetradas por pessoas conhecidas. É o que aponta o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022. Além disso, os crimes ocorrem sobretudo no ambiente doméstico. A caracterização do fenômeno nesses termos é essencial para que as políticas de prevenção da violência e de proteção às vítimas após a 61 ocorrência do fato sejam pensadas levando em consideração um contexto em que se trata de um crime cometido no contexto da família, contra quem muitas vezes ainda sequer possui condições de compreender e denunciar a violência sofrida. A revelação de uma violência sexual intrafamiliar costuma abalar as estruturas e relações anteriormente estabelecidas. A partir da notícia da violência, dois caminhos podem se abrir para a família: ou uma mudança ou uma cristalização (COSTA, 2007). O caminho da mudança é, de modo geral, repleto de reconhecimentos e sofrimento. Implica no rompimento dos segredos que as gerações carregam ao longo do tempo. Rompe-se também padrões de relacionamento em que a presença da violência tornou-se lugar comum. Mulheres e homens que atualmente se tornaram mães e pais acabam por perceber que estavam normalizando e naturalizando maneiras violentas de se relacionaram com seus filhos. A cristalização ou paralização implica na manutenção do segredo. Muitas vezes isso ocorre através da negação de que o fato ocorreu naquela família. Dessa forma, acabam afastando o olhar das instituições que muitas vezes ajudariam a refletir sobre os modelos sistêmicos de relações violentas. Infelizmente, não são incomuns notícias sobre famílias no interior do Brasil onde ainda se entende como “normal” o pai iniciar sexualmente suas filhas. Essas relações complexas exigem que o profissional atuante na Rede de Proteção a Crianças e Adolescentes possa ampliar sua capacidade de análise e olhar para esses eventos de maneira sistêmica e dinâmica, evitando julgamentos simplistas e analisando o cenário de maneira dinâmica. Segue abaixo um estudo de caso que ajudará a visualizar os aspectos teóricos acima expostos. ESTUDO DE CASO Fátima é uma mulher de 48 anos que procura o serviço de atendimento em saúde para seu filho Jonas de 14 anos. Ela alega que o filho revelou-lhe ter sofrido violência sexual por parte do irmão Francisco de 31 anos. Fátima é mãe também de Clóvis, de 33 anos, e Pâmela de 21 anos. Fátima nasceu no interior 62 de um estado do Nordeste do Brasil. Sofreu violência sexual aos 11 anos por parte do pai. Conta que o pai sempre a abordava de maneira inadequada, mas que apesar disso sempre foi muito amorosa com ele, pois se sentia vinculada a ele de maneira afetiva. Fátima conta que um dia sua mãe disse ao pai que fosse embora para outro local, pois precisava ficar na cidade para cuidar de uma das filhas de 16 anos que se apresentava doente. Fátima desconfiava que a irmã estivesse grávida, pois ao despedir-se a mesma teria dito-lhe para fugir do pai. De fato, essa irmã estava grávida do pai. O mesmo levou Fátima para uma casa abandonada no meio do mato. Fátima refere que sentia muito medo, pois imaginava que o pai iria tentar estuprá-la como já fazia com sua irmã mais velha. Até que certa vez durante à noite, quando estava dormindo, acordou com um homem na cama esfregando a genitália em sua mão. Ela gritou e chamou o pai. O homem era o pai, mas ela não sabia que era ele, porque estava escuro. Então ele saiu e voltou, como se não fosse ele. Ela falou para ele que achava que estava sonhando e ficou com muito medo. Depois disso, o pai sempre a perseguia para fazer violência e ela tentava fugir. Ela conta que reagia para ele não conseguir realizar a penetração vaginal. A irmã de Fátima que tinha ficado na cidade com sua mãe para tratar a “tal doença” acabou morrendo durante o parto, assim como o bebê que gestava. Quando Fátima soube disso, fugiu de casa temendo que o mesmo acontecesse com ela. Acabou descobrindo que o pai praticava violência sexual com todos os 16 filhos, inclusive aqueles do sexo masculino. Fátima disse antes de fugir que passou a sofrer assédio de tios e amigos da família que acabaram por saber que o pai era abusador. Conta que ouvia frases como “Deixa eu tirar sua virgindade antes que seu pai tire”. Quando uma amiga a chamou para trabalhar em casa de família fora da cidade, não pensou duas vezes. Acreditou que aquela era a oportunidade para fugir de tantas violências. Porém, ela e a amiga haviam sido aliciadas e levadas para um prostíbulo. Fátima tinha 14 anos e ficou presa nessa casa e teve sua virgindade vendida. Depois de 6 meses naquele local, Fátima acabou engravidando do primeiro filho e não sabe quem é o pai do seu filho. Conseguiu contato com a mãe e voltou para a casa dela. Clóvis nasceu na casa 63 da mãe de Fátima e foi bem acolhido pela família, mas o pai de Fátima nunca a deixou em paz. Conta que ele não mais a abusava sexualmente, mas física e psicologicamente. Fátima refere que passou a sofrer assédio sexual por parte de homens mais velhos da cidade. Disse que vivia uma vida de medo. Todo dia que saía de casa achava que seria estuprada por alguém na rua. Aos 17 anos, conheceu Borges, ficou grávida e teve seu segundo filho, Francisco. O pai dela continuava a perseguindo, mas ela tentava se proteger. Um dia, acordou com o pai tentando estuprá-la e decidiu ir embora. Então Fátima foi para Brasília para trabalhar em casa de família e deixou os dois filhos com a mãe. Na capital do país ficou trabalhando em casa de família até que aos 19 anos conheceu Elias. Refere que ele não tinha família, pois havia sido criado em um orfanato, mas que ele era um homem trabalhador, apesar de ser usuário abusivo de álcool. Quando se casou com Elias, decidiu voltar para o Nordeste para pegar os dois filhos que havia deixado com sua mãe, porém descobriu que seu pai também tinha estuprado seus dois filhos. Elias entrou com um processo judicial para adotar as crianças. Posteriormente, tiveram mais dois filhos: Pâmela e Jonas. Elias piorou o uso de álcool e praticava violência psicológica com Fátima e com os filhos. Ela sofreu muito com ele, mas tentou manter o casamento por causa da família. Ficou casada com ele por 27 anos e o ajuda até hoje por pena e gratidão. Relata que nunca fez tratamento de Saúde Mental. Tem muito sofrimento, mas consegue manter a fé e o pensamento positivo. Gosta de orar, de se arrumar e de se cuidar para ficar bem. Faz artesanato e tem um sonho de viver de sua arte: “Tudo que tenho de ruim, coloco para fora fazendo coisas boas e bonitas”. A violência segue ocorrendo de forma transgeracional nessa família: O filho Clóvis de 33 anos sofreu violência sexual do avô materno, é dependente químico e está morando na rua. Fátima refere que já o levou para 64 tratamento diversas vezes, mas que ele sempre volta a usar drogas fazendo furtos para sustentar o vício. O filho Francisco de 31 anos éportador de esquizofrenia. Sofreu violência sexual do avô materno e reproduziu a violência com seu irmão, Jonas de 14 anos. Mora com a esposa em outra casa. A filha Pâmela, de 21 anos, tem depressão e Transtorno de Personalidade Borderline. Faz tratamento no CAPS. Sofreu violência sexual do irmão Clóvis. Cursa faculdade de Pedagogia. Tem humor instável. Jonas, o filho mais novo de 14 anos sofreu violência sexual do irmão Francisco, ele pegou em suas partes íntimas. Também sofreu violência sexual por parte de uma cuidadora quando tinha 1 ano. Na época, Fátima pegou o filho e viu que ele estava com a genitália sangrando. Atualmente, Jonas não consegue ir para a escola, pois está com muitos problemas psicológicos. Fátima conta toda essa história com muito choro, porém com aspectos surpreendentes de resiliência, acredita que tudo ficará bem. ANÁLISE DO CASO Fátima nasceu em uma família em que o abuso sexual contra os filhos é algo naturalizado. Seu pai acreditava que era seu direito iniciar os filhos sexualmente. O microssistema familiar está altamente contaminado por uma cultura de violência. Quando os homens da cidade compreenderam que o pai de Fátima foi o responsável pelo estupro de sua filha, passaram a assediá-la no caminho para a escola fazendo-lhe propostas sexuais, ou seja, o microssistema comunidade também legitimava a violência e Fátima ficou sem recursos de proteção. Os ecossistemas que circulavam Fátima também foram desprotetivos. O Conselho Tutelar, o hospital da cidade onde a irmã de Fátima teve o bebê, a escola, etc. Nenhuma dessas instituições encaminhou denúncia aos órgãos de justiça ou segurança pública. O que contribuiu para a violência se perpetuar ao longo dos anos. O pai de Fátima também praticava violência física e psicológica com sua mãe. Fátima nomeia a mãe como uma mulher guerreira e forte. Esse é um discurso bastante comum no que se refere a mulheres vítimas de violência. Elas 65 ganham um status de mulheres fortes que conseguiram superar o desafio. Isso é bastante prejudicial para a compreensão da posição de vítima na história. No que se refere à transgeracionalidade, é possível identificar como o fenômeno da violência se repete nessa família ao longo das gerações. O pai de Fátima cometia violência contra as filhas e netos e esses netos reproduziram a violência contra seus próprios irmãos. Fátima não fala do seguimento da vida dos seus irmãos, conta apenas que todos os 16 filhos afirmaram ter vivido violência sexual, física e emocional por parte do pai. Todos os filhos de Fátima apresentam transtornos mentais: o que é bastante comum em vítimas de violência. Isto mostra que proteger crianças e adolescentes de uma vida de violência é, além de um problema de segurança pública, também uma questão de saúde pública, como bem aponta o relatório sobre violência e saúde da OMS (2002). É preciso haver um esforço conjunto tanto das instituições públicas quanto da sociedade civil para que casos como o de Fátima e sua família deixem de existir. Assim, crianças e adolescentes têm seus direitos preservados e seu desenvolvimento saudável garantido. Aula 3: Consequências psicopatológicas da vivência de violência A infância é um período crítico de desenvolvimento, sendo, por isso, fundamental compreender a influência que as experiências vividas nesta idade podem ter na estrutura psicológica. Viver experiências violentas nessa fase podem produzir efeitos patológicos tanto a curto como a longo prazo. Diversos estudos apontam para a importância da preservação dos cuidados físicos e mentais na primeira infância. Está claro que esse é o período da vida no qual se forma não só conexões neurais fundamentais para o pleno funcionamento do organismo como também a base de crenças a respeito de si e do mundo. Quando crianças em tenra idade passam por situações de privação material e afetiva, infere-se que consequências psicopatológicas surgirão. 66 Segundo BORDIN, 2007, existem 4 tipos fundamentais de fatores de risco que influenciam no surgimento de problemas de saúde mental em crianças e adolescentes. São eles: Figura16 - Fatores de risco Fonte: JOTA, 2022. Os fatores biológicos estão relacionados a anormalidades do sistema nervoso central, causadas por lesões, infecções, desnutrição. Os fatores genéticos são aqueles passados de geração em geração, por exemplo: a tendência à depressão e à esquizofrenia. Os fatores psicossociais são aqueles ligados a disfunções na vida familiar, conflitos conjugais, doença mental materna ou paterna, criminalidade dos pais, falta de laços afetivos entre pais e filhos; eventos traumáticos ao longo da vida, como: maus-tratos, negligência, abandono e violência sexual. Por fim, os fatores ambientais são aqueles relacionados a comunidades caóticas. Dessa maneira, é possível perceber que a vivência da violência é um dos fatores que influenciam no surgimento de doenças mentais em crianças e adolescentes. Infelizmente, o que chega de forma comum aos serviços da Rede são indivíduos que, além da violência, trazem os demais fatores de risco associados. 67 Além disso, na maioria dos casos de crianças violentadas, ocorre um lapso de tempo entre a ocorrência da violência, a revelação e o recebimento do atendimento psicossocial devido. Tudo isso aumenta a possibilidade de instalação e cronificação de quadros psicopatológicos. Outro fator agravante é a quantidade de vezes a que uma criança ou adolescente é submetido a uma situação violenta. A repetição do evento contribui de forma proporcional ao agravamento do estado psicológico. Esses intervalos de tempo são suficientes também para causar movimentos nem sempre sadios dentro da família. Como dito anteriormente, a cristalização diante da revelação da violência pode gerar, inclusive, a continuação do fenômeno dentro da família ou da comunidade. Dessa forma, a atitude da família diante da revelação da violência pela criança ou adolescente também influenciarão no agravamento ou arrefecimento de um processo psicopatológico. COSTA, 2018, explica de forma detalhada os três momentos do processo de revelação da violência sofrida por crianças e adolescentes. 68 Figura 17 - Processo de revelação Fonte: JOTA, 2022. É possível inferir então que a revelação é um processo. Logo, é possível que ao contar sobre o ocorrido, a vítima não apresente tudo de uma vez. Ela pode ir testando o ambiente para saber se, de fato, será acolhida ou julgada. A revelação do abuso sexual é um momento crucial para a vítima, pois pode gerar revitimizações caso os adultos não acreditem em seu relato e tomem as medidas protetivas cabíveis. A rede de apoio social e afetiva da criança pode minimizar ou potencializar os danos do abuso sexual no momento em que a criança consegue romper o segredo e revelar a violência. Tal rede é compreendida como o conjunto de sistemas e de pessoas significativas (estrutura) que compõem os relacionamentos existentes e percebidos pela criança, e que podem atuar no sentido de efetivamente protegê-la (função). (HABIGZANG, 2011). Essa grande Rede formada principalmente pela família, escola, comunidade, Conselho Tutelar, Delegacia, Órgãos da Justiça dentre outros, vai ajudar a vítima ou testemunha a nomearem de forma correta o que viveram e, • Vivências de fantasias. • Sentimentos e expectativas quanto às consequências da revelação. • Julgamento com relação ao que viveu com o abusador. • Reflexões sobre não ter conseguido dizer não e aos significados que atribui a isso. • Avaliação sobre os sentimentos e sensações boas ou ruins vivenciados na situação do abuso sexual. PRÉ REVELAÇÃO • Decisão de como e para quem contar. • A vítima escolhe alguém de sua confiança, estabelecendo com esta pessoa um sentimento de proximidade. REVELAÇÃO • À medidaque a narrativa da vítima se torna pública, surgem os desdobramentos que podem ajudar ou atrapalhar o processo que se segue, mobilizando o aparecimento de crises na família nuclear e extensa. REPERCUSSÕES DA REVELAÇÃO 69 assim, ressignificarem a experiência, saindo do lugar de culpada que muitos ofensores a colocam. A menina, ou a mulher, como culpada da violência que viveram corresponde a um princípio sustentado pela sociedade machista. No discurso do ofensor, muitas vezes, a vítima aparece como “provocadora”, “sedutora” e o perpetrador da violência como “homem que tem a carne fraca”, “aquele que não conseguiu resistir”. Os órgãos de atenção a pessoas em situação de violência precisam estar atentos e cumprirem seu papel de orientação e proteção, mas também de rompedores de estatutos patriarcais que aprisionam mulheres e crianças no lugar de objeto e não de sujeitos. Outra forma de compreender tais interações é acusar o objeto de desejo de uma provocação exagerada, de maneira que tanto a postura de sedução como a falta de cuidado em esconder o corpo seriam motivos para que o polo ativo sentisse desejo e, com ele, uma necessidade incorrigível de “aliviá-lo”. Trata-se de uma lógica que animaliza os homens que simbolicamente ocupam esse polo ativo (ENGELS, 2017) Se estamos falando de crianças e adolescentes, é preciso compreender que as interações com os adultos precisam ser no âmbito do respeito pela sua condição de sujeito em desenvolvimento. Isso quer dizer que, mesmo que uma criança ou adolescente apresentem atitudes sexualizadas, cabe ao adulto convocar os responsáveis por aquele sujeito e apontar que algo ali não vai bem e adotar atitudes protetivas. Até porque, a hiperssexualização é reconhecido como um sintoma de vivência de violência sexual prévia. Apesar de muitos autores apontarem para consequências comuns a vítimas de violência sexual, não existe uma categoria clínica chamada” síndrome da criança abusada”. Isso significa que é preciso fazer uma análise ampla de cada situação para compreender se aqueles sintomas presentes indicam conjuntamente que uma criança ou adolescente foi abusada. SERAFIM, 2011 avaliou 205 crianças e adolescentes com idade entre 6 e 14 anos, sendo 130 meninas e 75 meninos vítimas de abuso sexual. Eles passaram por avaliação psicológica e psiquiátrica individual no período de 2005 a 2009 e os principais sentimentos, sintomas e condições psiquiátricas encontradas foram as seguintes. 70 Figura 18 - Sentimentos mais comuns após vivência de violência sexual Fonte: JOTA, 2022. Figura 19 - Aspectos comportamentais mais comuns após vivência de violência sexual Fonte: JOTA, 2022. 77% sentem culpa 64% vergonha 61% medo 59% insegurança MENINOS 33% Isolamento 2% Comportamento erotizado 41% Retraimento perante a figura masculina 18% Agressividade 71 Figura 20 - Comportamentos mais comuns em meninas após vivência de violência sexual Fonte: JOTA, 2022. Nesse sentido, é possível perceber que meninas e meninos costumam apresentar reações distintas. Meninos se isolam mais e meninas se erotizam mais após vivência de violência sexual. Tal fato é concernente a aspectos culturais que, infelizmente, ainda vigoram na sociedade no que se refere ao papel da menina - como trabalhado anteriormente. O mesmo autor apresenta dados para os quadros psicopatológicos mais encontrados em vítimas de violência sexual. No caso das meninas, 59,2% apresentaram depressão e 36,1% apresentaram TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático). Já com os meninos, 38,6% tiveram quadros depressivos e 29,3% apresentaram TEPT. Ademais, resta evidente que esses não são os únicos quadros encontrados na prática clínica com vítimas e testemunhas de violência. Principalmente no que se refere a crianças e adolescentes, têm crescido fortemente os quadros ansiosos com presença de automutilação e tentativas de suicídio. Para que melhor se compreenda quais são os sintomas mais comuns desses quadros psicopatológicos, seguem abaixo informações sobre os critérios MENINAS 15% Isolamento 23% Comportamento erotizado 33% Retraimento perante a figura masculina 12% Agressividade 72 clínicos de cada transtorno apontado pelo DSM 5 (Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais). TRANSTORNO DEPRESSIVO MAIOR Humor deprimido na maior parte do dia, quase todos os dias, conforme indicado por relato subjetivo (p. ex., sente-se triste, vazio, sem esperança) ou por observação feita por outras pessoas (p. ex., parece choroso). (Nota: Em crianças e adolescentes, pode ser humor irritável.) Acentuada diminuição do interesse ou prazer em todas ou quase todas as atividades na maior parte do dia, quase todos os dias (indicada por relato subjetivo ou observação feita por outras pessoas). Perda ou ganho significativo de peso sem estar fazendo dieta (p. ex., uma alteração de mais de 5% do peso corporal em um mês), ou redução ou aumento do apetite quase todos os dias. (Nota: Em crianças, considerar o insucesso em obter o ganho de peso esperado.) Insônia ou hipersonia quase todos os dias. Agitação ou retardo psicomotor quase todos os dias (observáveis por outras pessoas, não meramente sensações subjetivas de inquietação ou de estar mais lento). Fadiga ou perda de energia quase todos os dias. Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada (que podem ser delirantes) quase todos os dias (não meramente autorrecriminação ou culpa por estar doente). Capacidade diminuída para pensar ou se concentrar, ou indecisão, quase todos os dias (por relato subjetivo ou observação feita por outras pessoas). Pensamentos recorrentes de morte (não somente medo de morrer), ideação suicida recorrente sem um plano específico, uma tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio TRANSTORNO DE PÂNICO Ataques de pânico recorrentes e inesperados. Um ataque de pânico é um surto abrupto de medo intenso ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos e durante o qual ocorrem quatro (ou mais) dos seguintes sintomas: 1. Palpitações, coração acelerado, taquicardia. 2. Sudorese. 73 3. Tremores ou abalos. 4. Sensações de falta de ar ou sufocamento. 5. Sensações de asfixia. 6. Dor ou desconforto torácico. 7. Náusea ou desconforto abdominal. 8. Sensação de tontura, instabilidade, vertigem ou desmaio. 9. Calafrios ou ondas de calor. 10. Parestesias (anestesia ou sensações de formigamento). 11. Desrealização (sensações de irrealidade) ou despersonalização (sensação de estar distanciado de si mesmo). 12. Medo de perder o controle ou “enlouquecer”. Nota: Podem ser vistos sintomas específicos da cultura (p. ex.: tinido, dor na nuca, cefaleia, gritos ou choro incontrolável). 13. Medo de morrer. TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO * Critérios diagnósticos para pessoas acima de 6 anos de idade A. Exposição a episódio concreto ou ameaça de morte, lesão grave ou violência sexual em uma (ou mais) das seguintes formas: 1. Vivenciar diretamente o evento traumático. 2. Testemunhar pessoalmente o evento traumático ocorrido com outras pessoas. 3. Saber que o evento traumático ocorreu com familiar ou amigo próximo. Nos casos de episódio concreto ou ameaça de morte envolvendo um familiar ou amigo, é preciso que o evento tenha sido violento ou acidental. 4. Ser exposto de forma repetida ou extrema a detalhes aversivos do evento traumático (p. ex., socorristas que recolhem restos de corpos humanos; policiais repetidamente expostos a detalhes de abuso infantil). Nota: O Critério A4 não se aplica à exposição por meio de mídia eletrônica, televisão, filmes ou fotografias, a menos que tal exposição esteja relacionada ao trabalho. B. Presença de um (ou mais) dos seguintes sintomas intrusivos associados ao evento traumático,começando depois de sua ocorrência: 74 1. Lembranças intrusivas angustiantes, recorrentes e involuntárias do evento traumático. Nota: Em crianças acima de 6 anos de idade, pode ocorrer brincadeira repetitiva na qual temas ou aspectos do evento traumático são expressos. 2. Sonhos angustiantes recorrentes nos quais o conteúdo e/ou o sentimento do sonho estão relacionados ao evento traumático. Nota: Em crianças, pode haver pesadelos sem conteúdo identificável. 3. Reações dissociativas (p. ex.: flashbacks) nas quais o indivíduo sente ou age como se o evento traumático estivesse ocorrendo novamente. (Essas reações podem ocorrer em um continuum, com a expressão mais extrema na forma de uma perda completa de percepção do ambiente ao redor). Nota: Em crianças, a reencenação específica do trauma pode ocorrer na brincadeira. 4. Sofrimento psicológico intenso ou prolongado ante a exposição a sinais internos ou externos que simbolizem ou se assemelhem a algum aspecto do evento traumático. 5. Reações fisiológicas intensas a sinais internos ou externos que simbolizem ou se assemelhem a algum aspecto do evento traumático. C. Evitação persistente de estímulos associados ao evento traumático, começando após a ocorrência do evento, conforme evidenciado por um ou ambos dos seguintes aspectos: 1. Evitação ou esforços para evitar recordações, pensamentos ou sentimentos angustiantes acerca de ou associados de perto ao evento traumático. 2. Evitação ou esforços para evitar lembranças externas (pessoas, lugares, conversas, atividades, objetos, situações) que despertem recordações, pensamentos ou sentimentos angustiantes acerca de ou associados de perto ao evento traumático. D. Alterações negativas em cognições e no humor associadas ao evento traumático começando ou piorando depois da ocorrência de tal evento, conforme evidenciado por dois (ou mais) dos seguintes aspectos: 1. Incapacidade de recordar algum aspecto importante do acontecimento traumático (geralmente devido a amnésia dissociativa, e não a outros fatores, como traumatismo craniano, álcool ou drogas). 2. Crenças ou expectativas negativas persistentes e exageradas a respeito de si mesmo, dos outros e do mundo (p. ex.: “Sou mau”, “Não se deve confiar em ninguém”, “O 75 mundo é perigoso”, “Todo o meu sistema nervoso está arruinado para sempre”). 3. Cognições distorcidas persistentes a respeito da causa ou das consequências do evento traumático que levam o indivíduo a culpar a si mesmo ou os outros. 4. Estado emocional negativo persistente (p. ex.: medo, pavor, raiva, culpa ou vergonha). 5. Interesse ou participação bastante diminuída em atividades significativas. 6. Sentimentos de distanciamento e alienação em relação aos outros. 7. Incapacidade persistente de sentir emoções positivas (p. ex.: incapacidade de vivenciar sentimentos de felicidade, satisfação ou amor). E. Alterações marcantes na excitação e na reatividade associadas ao evento traumático, começando ou piorando após o evento, conforme evidenciado por dois (ou mais) dos seguintes aspectos: 1. Comportamento irritadiço e surtos de raiva (com pouca ou nenhuma provocação) geralmente expressos sob a forma de agressão verbal ou física em relação a pessoas e objetos. 2. Comportamento imprudente ou autodestrutivo. 3. Hipervigilância. 4. Resposta de sobressalto exagerada. 5. Problemas de concentração. 6. Perturbação do sono (p. ex.: dificuldade para iniciar ou manter o sono, ou sono agitado). F. A perturbação (Critérios B, C, D e E) dura mais de um mês. G. A perturbação causa sofrimento clinicamente significativo e prejuízo social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo. H. A perturbação não se deve aos efeitos fisiológicos de uma substância (p. ex.: medicamento, álcool) ou a outra condição médica. Os quadros psicopatológicos apresentados aqui são os mais comumente encontrados em vítimas ou testemunhas de violência. Os critérios diagnósticos do Transtorno de Estresse Pós-traumático especialmente, fornecem indícios fundamentais para forças policiais identificarem nas 76 entrevistas com esse público. Porém, é mister salientar que não existe a síndrome da criança abusada. Ou seja, nem todas as vítimas apresentam esses sintomas, assim como nem todas desenvolverão transtornos psiquiátricos. O esforço empreendido nesta capacitação tem como objetivo a ampliação do olhar sobre a vítima e sobre a dinâmica da violência. Inúmeros fatores aqui apresentados no que se refere a risco e proteção de crianças e adolescentes fortalecerão ou diminuirão as chances de um quadro psicopatológico ser instalado. Todos os profissionais da Rede precisam ter conhecimento da temática para que proceda aos encaminhamentos necessários após a entrevista realizada. O trabalho não se esgota com o depoimento especial. Aquele ser humano em desenvolvimento precisa ter apoio para reestabelecer o curso saudável de sua história de vida. Finalizando Neste módulo você aprendeu que: • É preciso compreender de forma integral quais são aspectos do desenvolvimento humano que influenciam na escuta policial de crianças e adolescentes. • Esse público está em processo de desenvolvimento e que cada fase aponta para os limites e possibilidades no que se refere à memória e à linguagem. • A ecologia social de Bronfenbrenner considera que crianças e adolescentes crescem em um ambiente social complexo, que influencia seu desenvolvimento, bem como as experiências positivas e negativas que vão surgir em suas vidas. • A OMS elenca fatores de risco e proteção para o surgimento de situações de violação de direitos e que elas precisam ser levadas em consideração quando do atendimento de uma vítima ou testemunha de violência. • A violência é um fenômeno transgeracional que atravessa as famílias pelos padrões culturais violadores; a normalização de situações de 77 violência dentro de uma família pode protelar o reconhecimento por parte da vítima de que está vivendo uma situação como tal. • A revelação de uma violência é um processo e costuma abalar as estruturas e relações anteriormente estabelecidas podendo influenciar no depoimento especial. Ela ocorre em 3 momentos: pré revelação, revelação e repercussões da revelação. • Os principais sentimentos após a vivência da violência são: culpa, medo, vergonha e insegurança. Além disso, crianças e adolescentes costumam se isolar socialmente, apresentam agressividade, comportamento erotizado e retraimento perante a figura masculina. • Os principais fatores que influenciam no surgimento de um adoecimento mental são os biológicos, genéticos, psicossociais e ambientais. A violência se encaixa tanto no ambiente quanto no psicossocial. • A vivência de situações de violência pode gerar consequências psicopatológicas. Os quadros mais comuns são os depressivos, ansiosos e TEPT. 78 Módulo 3 – Da atuação policial na proteção da criança e ao adolescente vítima ou testemunha de crime I Apresentação do módulo Neste módulo iremos estudar alguns aspectos do atendimento policial no combate aos crimes praticados contra crianças e adolescentes, desde o momento do acionamento policial, passando pelo registro de ocorrência policial e durante todo o curso das diligências investigativas, bem como veremos providências de proteção que podem ser adotadas pelos profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Por fim, entender a importância de um trabalho em rede com a finalidade de prover todos os direitos e garantias que crianças e adolescentes possuem. Objetivos do módulo Este módulo tem por objetivos: • Conhecer as atribuições legais e peculiaridades do atendimento policial no combate aos crimes cometidos contra crianças e adolescentes;a defesa dos direitos de crianças e adolescentes dentro da sua circunscrição. Desejamos-lhe um excelente estudo! 1 Fonte: Plano Nacional de Segurança Pública e Defesa Social. Acesso em 02/11/2022. Disponível: https://www.gov.br/mj/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/categorias-de- publicacoes/planos/plano_nac-_de_seguranca_publica_e_def-_soc-_2021___2030.pdf http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13431.htm https://www.gov.br/mj/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/categorias-de-publicacoes/planos/plano_nac-_de_seguranca_publica_e_def-_soc-_2021___2030.pdf https://www.gov.br/mj/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/categorias-de-publicacoes/planos/plano_nac-_de_seguranca_publica_e_def-_soc-_2021___2030.pdf 5 Objetivos do Curso Objetivo Geral Capacitar os integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), especificamente policiais civis e militares, para adquirirem os conhecimentos necessários com vistas a desenvolver e apoiar ações articuladas destinadas à prevenção e à repressão à violência e à criminalidade relacionadas às crianças e aos adolescentes – oferecendo um serviço público de qualidade e pautado na legislação vigente. Objetivos Específicos ▪ Conhecer os aspectos legais dos crimes relacionados às diversas violências cometidas ou testemunhadas por crianças e adolescentes; ▪ Entender o que é violência contra crianças e adolescentes e como determinadas crenças podem perpetuar esse cenário de violência; ▪ Estimular a atuação operacional integrada com as demais instituições componentes da rede no enfrentamento (combate e prevenção) à violência contra crianças e adolescentes; ▪ Conhecer os aspectos do desenvolvimento humano aplicados ao atendimento especializado a crianças e adolescentes; ▪ Compreender os instrumentos legais de escuta protegida; ▪ Aplicar os conceitos vistos contra a violência, em defesa a crianças e adolescentes nas rotinas de segurança pública; ▪ Valorizar os direitos das crianças e adolescentes; ▪ Promover a conscientização da necessidade de uma atuação policial direcionada ao atendimento qualificado atento ao princípio da dignidade humana; ▪ Fomentar a integração das forças de segurança para o enfrentamento em rede da violência contra as crianças e adolescentes em âmbito local. 6 Estrutura do Curso Este curso possui 40 horas e compreende os seguintes módulos: Módulo 1 - Aspectos legais dos crimes e do atendimento à criança e ao adolescente vítima ou testemunha de crime Módulo 2 - Aspectos do desenvolvimento infantojuvenil e os efeitos da violência Módulo 3 - Da atuação policial na proteção de crianças e adolescentes Módulo 4 - A escuta protegida 7 Módulo 1 - Aspectos legais dos crimes e do atendimento à criança e ao adolescente vítima ou testemunha de crime Apresentação do módulo Nesse módulo vamos abordar como e onde estão estruturados os crimes que têm como vítima, especificamente, crianças e adolescentes. A partir da identificação dessas infrações, entenderemos um pouco mais sobre a especificidade da colheita da prova durante a investigação policial. Por fim, estudaremos as Leis nº 13.431/2017 e 14.344/2022 e os principais aspectos práticos para a atividade policial. Objetivos do módulo Este módulo tem por objetivos: • Identificar crimes de maior complexidade cometidos contra crianças e adolescentes; • Analisar as diversas formas de colheita de provas em sede de investigação policial; • Compreender o papel do Depoimento Especial como instrumento de colheita de prova; • Identificar e aplicar instrumentos protetivos diversos contidos na legislação que regula o sistema de garantia de direitos à criança e ao adolescente. 8 Estrutura do módulo Este módulo compreende as seguintes aulas: Aula 1 - Microssistema Legal no combate aos crimes contra criança e adolescente – Estatuto da Criança e do Adolescente, Código Penal, Lei da Escuta Protegida e Lei Henry Borel Aula 2 - Legislação criminal: dos crimes contidos no Código Penal, no Estatuto da Criança e do Adolescente e em demais legislações Aula 3 - Noções gerais sobre a colheita da prova nos crimes em espécie Aula 4 – O Depoimento Especial como instrumento de coleta de prova e a investigação de crimes sexuais 9 Aula 1 – Microssistema legal no combate aos crimes contra criança e adolescente – Estatuto da Criança e do Adolescente, Código Penal, Lei da Escuta Protegida e Lei Henry Borel Ao iniciar o aprendizado sobre o tema de violência contra criança e adolescente, os profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp) devem compreender que atualmente esse enfrentamento deve ser feito sob a ótica de quatro principais leis que vão estruturar não somente a proteção a esse público vulnerável, como também fornecerão importantes balizas para nortear a atuação policial. O código Penal, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei nº 13431/17 e seu Decreto regulamentador nº 9603/18 e a Lei nº 14344/22 perfazem hoje a base dessa atuação, tanto em termos protetivos quanto repressivos. Há ainda que se fazer referência à possibilidade de utilização da Lei Maria da Penha, a depender do caso concreto, diante de algumas divergências sobre a competência entre o juízo da vara comum e o juízo dos Juizados de Violência doméstica. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é, dentre esses instrumentos legislativos, o mais amplo, abordando além de crimes específicos, dentre eles os relacionados com a pornografia infantojuvenil, também diretrizes protetivas e preventivas ao trazer à baila o denominado Princípio da Proteção Integral. Basicamente, a doutrina jurídica da proteção integral adotada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente assenta-se em três pilares a saber: a) criança e adolescente como sujeitos de direito, deixando de ser objetos passivos para se tornarem titulares de direitos; b) destinatários de absoluta prioridade; c) condição peculiar de pessoa em desenvolvimento2. 2https://crianca.mppr.mp.br/pagina- 1222.html#:~:text=Doutrina%20da%20Prote%C3%A7%C3%A3o%20Integral%3A%20representa, aprovada%20pela%20Assembl%C3%A9ia%20Geral%20dasAcesso em 10/10/2022 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/decreto/d9603.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/lei/L14344.htm https://crianca.mppr.mp.br/pagina-1222.html#:~:text=Doutrina%20da%20Prote%C3%A7%C3%A3o%20Integral%3A%20representa,aprovada%20pela%20Assembl%C3%A9ia%20Geral%20das https://crianca.mppr.mp.br/pagina-1222.html#:~:text=Doutrina%20da%20Prote%C3%A7%C3%A3o%20Integral%3A%20representa,aprovada%20pela%20Assembl%C3%A9ia%20Geral%20das https://crianca.mppr.mp.br/pagina-1222.html#:~:text=Doutrina%20da%20Prote%C3%A7%C3%A3o%20Integral%3A%20representa,aprovada%20pela%20Assembl%C3%A9ia%20Geral%20das 10 Nessa esteira de proteção e prevenção, o Estatuto traz núcleos destinados aos profissionais de segurança pública apregoando, por exemplo, a necessidade de capacitação policial continuada, em seu art. 70-A, IX, que os órgãos policiais não devem identificar criminalmente o adolescente que possua identificação civil Ademais, o art. 109 explica que é vedada a divulgação de atos policiais que digam respeito a esse público, art. 143 e, por fim, há a previsão de infiltração policial virtual nos crimes sexuais, conforme art. 190 A-E. Um ponto que chama a atenção é que no ano de 1990, data em que o Estatuto foi promulgado, já se falava em capacitação profissional continuada de todos• Entender o Registro de Ocorrência Policial como marco inicial de colheita da prova e conhecer dispositivos legais que regulam esse ato policial; • Compreender o papel de proteção, para além da responsabilização penal, que deve ser exercido pelo profissional integrante do Sistema Único de Saúde; • Conhecer a importância da rede que integra o sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes; • Saber como atuar em conjunto com os demais órgãos da rede de proteção. 79 Estrutura do módulo Este módulo compreende as seguintes aulas: Aula 1 – O atendimento policial e suas atribuições legais Aula 2 – O registro da ocorrência policial Aula 3 – Os aspectos gerais de proteção e a atividade policial Aula 4 – A importância da rede na atenção às pessoas em situação de violência. O trabalho interdisciplinar. Elos ligados. 80 Aula 1 – O Atendimento Policial e suas atribuições legais Inicialmente, é importante ressaltar que o atendimento policial, assim como qualquer prestação de serviço, precisa ser feito com qualidade. Entretanto, isso só será atingido se observados requisitos gerais e específicos. No primeiro caso, como requisitos gerais estão aqueles relacionados à forma como o policial se relaciona com o outro, ou seja, suas relações interpessoais, a forma adequada de se comunicar, sem ruídos ou barreiras, a capacidade do policial em promover uma escuta empática e a sua motivação para o trabalho. Já os requisitos específicos estão relacionados com a ocupação de cargo público, com as funções inerentes ao agente do Estado e as regras e os normativos a que estão submetidos. 1. Requisitos gerais do atendimento policial Nestes requisitos estão envolvidas habilidades emocionais que, por vezes, possuímos de forma natural e, em outros casos, precisamos desenvolvê- las. Conforme dito anteriormente, alguns pontos são estruturantes na prestação de um serviço de qualidade, até mesmo se analisarmos sob a ótica da iniciativa privada. Estar motivado ou não para o trabalho, ou a forma como ele lida com o outro e até consigo mesmo, podem interferir no atendimento policial. Sem a pretensão de nos aprofundarmos nesses temas, vamos fazer uma rápida abordagem sobre alguns aspectos principais, dentre os quais: a) Comunicação adequada e sem barreiras: A comunicação nada mais é do que a ação ou efeito de se comunicar, de receber ou transmitir informações e ideias, podendo ser escrita, verbal ou não verbal11.Por meio da comunicação é que efetuamos todo e qualquer atendimento, daí a razão de nos debruçarmos, ainda que brevemente, sobre ela. De forma geral, existem algumas barreiras, tecnicamente chamadas de barreiras 11https://www.dicio.com.br/comunicacao/Acesso em 14/10/2022 https://www.dicio.com.br/comunicacao/ 81 do emissor12 que podem impedir a comunicação adequada, afetando assim a qualidade no atendimento. Dentre elas, podemos citar o uso de linguagem inadequada, o tom de voz, características pessoais como timidez e impaciência, escolha do momento impróprio para efetuar a comunicação e suposição de que o receptor já domina o assunto. Todos esses aspectos, quando não observados, podem gerar um atendimento truncado, resvalando na má qualidade da prestação dos serviços. Acompanhe comigo esse vídeo que mostra uma boa síntese do que é a comunicação e os diversos aspectos que podem influenciá-la, como nossos gestos e tom de voz. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=C46FsySwXGs Figura 21 - Comunicação humana Fonte: Youtube, 2018. 12 KUNSCH, Margarida Maria Krohling. Comunicação organizacional: conceitos e dimensões dos estudos e das práticas: Faces da cultura e da comunicação organizacional. São Caetano do Sul: Difusão Editora, 2006 em https://repositorio.usp.br/directbitstream/739d6a63-fa14-4d6f-a0f0- 6d487377d15f/AlineFernandaTrindadedosSantos%20-%20PI.pdfAcesso em 14/10/2022 https://www.youtube.com/watch?v=C46FsySwXGs https://repositorio.usp.br/directbitstream/739d6a63-fa14-4d6f-a0f0-6d487377d15f/AlineFernandaTrindadedosSantos%20-%20PI.pdf https://repositorio.usp.br/directbitstream/739d6a63-fa14-4d6f-a0f0-6d487377d15f/AlineFernandaTrindadedosSantos%20-%20PI.pdf https://www.youtube.com/embed/C46FsySwXGs?feature=oembed 82 b) A escuta empática: Um outro elemento que afeta a qualidade do atendimento a ser prestado é a capacidade de realizar uma escuta empática, conceito desenvolvido por CARL ROGERS (2009), pesquisador e psicólogo clínico da abordagem centrada no cliente. A escuta empática se refere à capacidade de nos colocar no lugar da outra pessoa13. Assim, quando o policial efetua o atendimento ao cidadão, ele deve ser capaz de ouvi-lo com atenção, deixando- o seguro de que está sendo ouvido, oferecendo conforto e solução ou resposta adequada. Vamos comigo novamente conhecer um pouco mais sobre a escuta empática por meio desse vídeo: Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=SobADwQ5lA4 Figura 22 - Escuta empática Fonte: Youtube, 2021. 13 COSTA, Sandra Garcia. A construção da identidade docente num contexto de readaptação funcional (Curso de Especialização em Residência Docente para Formação de Educadores da Educação Básica) Universidade Federal de Minas Gerais -UFMG, 26 p. 2020. http://hdl.handle.net/1843/35370 https://www.youtube.com/watch?v=SobADwQ5lA4 http://hdl.handle.net/1843/35370 https://www.youtube.com/embed/SobADwQ5lA4?feature=oembed 83 c) Motivação para o trabalho: Este aspecto certamente é o mais subjetivo e envolve ferramentas emocionais muito particulares e intrínsecas à personalidade de cada um dos profissionais de segurança. Contudo, é fato que buscar estar motivado para a realização de um trabalho tão essencial à nossa sociedade é de extrema importância, mesmo que às vezes precisamos executá-lo em condições adversas. O professor e filósofo Mario Sérgio Cortella faz diversas considerações sobre essa temática e, por isso, selecionei um vídeo que pode auxiliar você a refletir sobre a motivação para o trabalho. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=dd1bsHYYqjg Figura 23 - Faça o teu melhor Fonte: Youtube, 2018. 2. Requisitos específicos do atendimento policial Neste ponto, chamamos a atenção sobre aspectos legais que envolvem a atuação do profissional de Segurança Pública, pois sabemos que ao tomar posse em um cargo público estamos automaticamente submetidos a normativos internos e externos que regulam nossa atividade. Esses https://www.youtube.com/watch?v=dd1bsHYYqjg https://www.youtube.com/embed/dd1bsHYYqjg?feature=oembed 84 mecanismos reguladores podem ser tanto internos, por meio da Corregedoria e Ouvidoria da nossa corporação, como externo, por meio, por exemplo, do exercício do controle externo da atividade policial realizado pelo Ministério Público. No atendimento realizado pelos profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), durante a atuação de enfrentamento à violência praticada contra criança, alguns aspectos legais ganham relevância, dentre os quais a violência institucional e a revitimização, motivo pelo qual discorreremos brevemente, deixando à parte os demais tipos de controle, seja interno ou externo. A violência institucional foi recentemente alçada à categoria de crimes, com a inserção do art. 15-A na Lei nº 13.869/1914 que versa sobre os crimes de abuso de autoridade, asseverando que: Art. 15-A. Submeter a vítima de infração penal ou a testemunha de crimes violentos a procedimentos desnecessários, repetitivos ou invasivos, que a leve a reviver, sem estrita necessidade: (Incluído pela Lei nº 14.321, de 2022) I - a situação de violência; ou (Incluído pela Lei nº 14.321, de 2022) II - outras situações potencialmente geradoras de sofrimento ou estigmatização: (Incluídopela Lei nº 14.321, de 2022) Pena - detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa. (Incluído pela Lei nº 14.321, de 2022) § 1º Se o agente público permitir que terceiro intimide a vítima de crimes violentos, gerando indevida revitimização, aplica-se a pena aumentada de 2/3 (dois terços). (Incluído pela Lei nº 14.321, de 2022) § 2º Se o agente público intimidar a vítima de crimes violentos, gerando indevida revitimização, aplica-se a pena em dobro. (Incluído pela Lei nº 14.321, de 2022) Ao analisar rapidamente o tipo penal, percebemos que ele não está vinculado diretamente à atuação frente à criança e ao adolescente, mas é sabido que a violência institucional é comumente identificada quando envolvidos os chamados grupos vulneráveis, dentre os quais crianças e adolescentes, mulheres, idosos e a comunidade LGBTQIA+. Aliás, corroborando esse fato, observamos que é na Lei nº 13.431/17, Lei da Escuta 14http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/Lei/L13869.htm Acesso em 14/10/22 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/Lei/L14321.htm#art2 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/Lei/L13869.htm 85 Protegida que você já estudou aqui na Aula 1 do Módulo I, que a violência institucional foi pela primeira vez conceituada em uma legislação. O art. 4º, inc. IV da Lei nº 13.431/17, afirma que a violência institucional é aquela entendida como a praticada por instituição pública ou conveniada, inclusive quando gerar revitimização. Note-se que a violência institucional vem elencada, juntamente com a física, a psicológica, a patrimonial e a sexual, como mais uma das formas de violência a que crianças e adolescentes podem ser submetidos. Ademais, o art. 5 º do Decreto nº 9603/18, nos incisos I e II trouxe um detalhamento ainda maior do que pode ser compreendido como violência institucional. Nele você pode perceber que essa violência é aquela praticada por agente público no desempenho de função pública, em instituição de qualquer natureza, por meio de atos comissivos ou omissivos que prejudiquem o atendimento à criança ou ao adolescente vítima ou testemunha de violência. Observa-se aqui a menção expressa ao que seria o “sujeito passivo” do crime, qual seja, crianças e adolescentes, além de também prever que essa violência pode ser praticada por ação ou omissão (atos comissivos ou omissivos). O Decreto ainda avançou um pouco mais e conceituou o que seria a revitimização, asseverando que é discurso ou prática institucional que submeta crianças e adolescentes a procedimentos desnecessários, repetitivos, invasivos, que levem as vítimas ou testemunhas a reviver a situação de violência ou outras situações que gerem sofrimento, estigmatização ou exposição de sua imagem. Pelo acima exposto, você pode observar que o atendimento adequado a esse público perpassa por uma relação estreita com os limites definidores do que é a violência institucional e a revitimização. 86 Aula 2 – O registro da ocorrência policial Você concorda que o registro do fato criminal é considerado o momento inicial da investigação, constituindo um marco determinante para a sua efetividade e celeridade? Se sim, você acertou. Mas será que você saberia explicar o motivo? É o que você vai entender agora. Dessa maneira, você vai compreender a importância do registro de ocorrência policial e o impacto que ele pode ter no desenrolar de toda a investigação e até mesmo em seu resultado. Podemos afirmar que o registro do fato criminal é considerado o momento inicial da investigação, constituindo um marco determinante para a sua efetividade e celeridade. Para facilitar o estudo deste tópico, você fará a análise do registro de ocorrência policial a partir de três critérios: o primeiro sobre os dados e informações que deverão ser observados e colhidos; o segundo diz respeito a correlação direta entre um registro de ocorrência feito de maneira ampla e completa e os impactos na continuidade das diligências investigativas; por fim, o terceiro, critérios específicos previstos na legislação sobre o registro da ocorrência policial quando o crime for praticado contra criança e adolescente. 1. Dados e informações relacionados ao fato criminal É no momento do registro da ocorrência policial que a investigação se inicia, sendo equivocada a interpretação de que o registro pode ser breve e sucinto, sem se debruçar sobre importantes circunstâncias do crime. A respeito dessas circunstâncias, utilize a classificação que você já viu na Aula 4 do Módulo I, as quais podem ser fundamentais, periféricas e adicionais. A utilização desta mesma classificação não é aleatória e visa mostrar que a investigação é una e se inicia no registro da ocorrência policial, perpassando pelas diligências das equipes de investigação e seguindo durante a realização do depoimento especial, até sua regular finalização por meio do encerramento do inquérito policial. Assim, pode-se afirmar que o policial deve 87 estar atento para as circunstâncias do crime o tempo todo, não se restringido a fazê-lo em um ou outro momento determinado. Dito isso, o registro da ocorrência policial deve explorar, ponto a ponto, as seguintes circunstâncias: a) Circunstâncias fundamentais: aquelas que compõe a base da tipificação penal, devendo ser explorados a dinâmica da conduta criminal propriamente dita, respondendo questões de onde, como e quando o crime ocorreu, inclusive para verificar a possibilidade ou não de uma situação flagrancial; as pessoas envolvidas (comunicante, autor, vítima, testemunhas diretas ou de revelação) deverão ser identificadas completamente, salvo se não for possível, devendo se fazer uso dos mecanismos de pesquisas em banco de dados para evitar identificações genéricas, como a pesquisa do CPF no Infoseg, informação essa que, se inexistente, inviabiliza até mesmo a inserção do procedimento no Processo Judicial Eletrônico (PJe) naqueles estados que já implementaram a sua utilização.; exploração sobre a forma como o comunicante tomou conhecimento dos fatos; exploração sobre a possiblidade de existência de líquidos seminais, sangue, saliva ou outros materiais biológicos; a existência de possível filmagem, ante a verificação de que o local conta com sistema de câmeras de monitoramento e, por fim, a motivação do crime; b) Circunstâncias periféricas: aspectos que não envolvem diretamente a estruturação do tipo penal, mas constituem informações importantes para a investigação, devendo ser exploradas a existência de intervenção de terceiros durante a pratica criminal, possíveis interações verbais entre autor e vítima; condições específicas do local onde os fatos ocorreram, a existência de outras vítimas, juntada de documentos trazidos ou apresentados pelo comunicante, como relatório escolar, relatório de acompanhamento do Conselho Tutelar, relatórios de acompanhamento psicológico; c) Circunstâncias adicionais: nesse ponto, deve ser explorada a existência de situações que envolvam coação, ameaça, segredos, subornos e riscos de convívio com o agressor. 88 Importante ressaltar que todas estas circunstâncias possuem natureza “exploratórias”, ou seja, considerando que o registro de ocorrência é o inícioda investigação, todas as possiblidades devem ser questionadas e, até mesmo, consignadas sobre a sua inexistência ou não. Por exemplo, no caso concreto, ao explorar as circunstâncias fundamentais, o policial toma conhecimento de que não se tem notícia da existência de outras vítimas, essa informação deverá ser registrada, restando claro que houve exploração de todas as circunstâncias. Essa medida permitirá nortear a continuidade das investigações, não havendo necessidade de mais uma vez inquirir o comunicante sobre pontos que não foram explorados ou, se explorados, não foram devidamente consignados. Por fim, a exploração completa de todas as circunstâncias permitirá ao policial responsável a tomada de algumas providências imediatas, como, por exemplo, efetuar prisão em flagrante, requerer medidas protetivas adequadas em favor da vítima, apreender imagens constantes em sistemas de monitoramento de segurança, solicitar perícias criminais pertinentes, juntar pesquisa de antecedentes criminais, em especial nos crimes sexuais que podem apontar um padrão de comportamento reiterado, entre outras providências. 2. Impactos do Registro de Ocorrência Policial na continuidade das diligências investigativas Você já sabe que a investigação é una e, por isso, deve ser considerada todas as circunstâncias do crime desde o registro da ocorrência até a finalização do inquérito policial. O registro de ocorrência feito de maneira técnica e completa trará diversas repercussões para o curso e a celeridade das investigações, como veremos abaixo: a) Tempo de conclusão das diligências ou de finalização do inquérito policial: As informações e dados coletados de forma completa e exauriente durante o registro de ocorrência permitirão uma conclusão célere das investigações, uma vez que o trabalho investigativo será iniciado não de um ponto zero, mas sim de elementos probatórios já coletados. Assim, por exemplo, se durante o registro a testemunha referida é devidamente qualificada, com dados 89 completos, incluindo dados de localização, como endereço, telefone e redes sociais, as declarações dela poderão ser colhidas rapidamente. Ao contrário, a identificação incompleta da testemunha, acarretará a necessidade de que sejam feitas diversas diligências extras até que se possa finalmente identificar, localizar e ouvir essa testemunha. Esse mesmo cenário se repete quando, embora tenha sido ouvida a pessoa que comunicou os fatos, suas declarações foram precariamente exploradas ou, se exploradas, suas respostas não foram consignadas adequadamente. Quando isso ocorre, será necessário colher novas declarações, seja para complementar o que não foi explorado ou para repetir perguntas que, embora tenham sido feitas, não foram consignadas. b) Prejuízo concreto para o resultado final da investigação: há circunstâncias que se não forem devidamente exploradas no primeiro momento em que os fatos são noticiados, não haverá possibilidade de reparar os prejuízos gerados para o resultado adequado da investigação. Estão nesta categoria a não verificação sobre a existência de imagens, uma vez que atualmente mesmo os locais que contam com monitoramento, por meio de câmeras, possuem capacidade de armazenagem reduzida e imagens não preservadas tempestivamente não poderão ser obtidas em momento posterior. Também aqui estão as situações em que a não identificação adequada das pessoas envolvidas resultará na impossibilidade de colher suas declarações, uma vez que não é raro nos depararmos com testemunhas que nunca são localizadas, embora citadas desde o início. Nesta categoria também estão as perícias não realizadas, em razão da exploração inadequada das circunstâncias que permearam o crime. Por exemplo, tempos depois é obtida a informação de que a roupa que a criança usava no dia do crime tinha vestígios de material biológico (sêmen), mas, depois de registrar a ocorrência, a comunicante acabou jogando fora essa importante prova. c) Prejuízo para a realização do Depoimento Especial: No capítulo que você estudou sobre o Depoimento Especial como instrumento de 90 coleta de prova, foi dito sobre a importância de percorrer, explorar todas as circunstâncias do crime, nos mesmos moldes aqui abordado. Para a realização de um Depoimento Policial que seja eficaz, do ponto de vista da responsabilização, essas circunstâncias devem ser exploradas não somente durante sua realização, diretamente com a vítima, mas também previamente. Ter em mãos o maior número de informações sobre o crime será fundamental ao policial condutor do depoimento para extrair da vítima um relato sólido e adequado dos fatos apurados. É comum, durante a realização do Depoimento Especial, que a vítima forneça um relato sucinto dos fatos e as informações coletadas previamente é que permitirão a obtenção de detalhes importantes. Vale lembrar que a obtenção desse detalhamento deve ser feita sem qualquer questionamento indutivo, utilizando todas as técnicas do Protocolo de Polícia Judiciária15. No caso concreto, por exemplo, quando na ocorrência policial o comunicante informa que a vítima comentou que havia revelado os fatos para algumas amigas, sem dizer quem eram essas amigas, essa informação poderá ser explorada pelo policial, se em um primeiro momento a vítima não revelar espontaneamente. 3. Critérios específicos previstos na legislação acerca do Registro de Ocorrência Policial Nesse último tópico sobre o registro da ocorrência policial, você, profissional do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), deve observar disposições inseridas no Decreto nº 9.603/18, que regulamentou a Lei nº 13.431/17, especificamente versando sobre o registro nos crimes em que crianças e adolescentes são vítimas. O § 1º do art. 13 do Decreto afirma que, sempre que possível, as informações a serem consignadas no registro de ocorrência devem ser extraídas 15https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/PROTOCOLO_DPCA_25_10_18.pdf Acesso em 02/10/2022 https://www.pcdf.df.gov.br/images/documentos/PROTOCOLO_DPCA_25_10_18.pdf 91 dos documentos já produzidos por outros órgãos integrantes da rede de proteção, bem como do acompanhante ou responsável pela criança ou adolescente, de modo a preservar a vítima. Seguindo, o § 2º do mesmo artigo afirma que crianças e adolescentes têm direito ao registro de ocorrência policial, mesmo se estiverem desacompanhados. Nesse ponto, convém salientar que, caso isso aconteça, o policial deve fazer uso do instrumento de coleta de relato denominado Escuta Especializada, sendo vedado fazer perguntas diretas e com finalidade de produção de provas, tema que deve ser restrito ao Depoimento Especial. O policial deve estimular o relato livre e espontâneo necessário à tomada das primeiras providências, utilizando perguntas abertas, como por exemplo: Conte o que aconteceu? Em que mais eu posso ajudar? Tem mais alguma informação que você gostaria de me contar? Nos § 4º e 5º estabelece-se também que a coleta do relato não deve ser feita na presença da criança e do adolescente, preservando-os e, sempre que possível, a descrição dos fatos não deve ser feita em local público, com exposição da identidade da criança. Encerra-se assim a análise sobre aspectos relevantes sobre o registro da ocorrência policial. Aula 3 – Os aspectos gerais de proteção e a atividade policial Os aspectos de proteção, realizados pelos profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança (Susp), possuem importantes balizas em nossa legislação e você verá mais detalhadamente nesta aula. Antes, porém, é importante destacar que o Princípio da Proteção Integral, visto na Aula 1 do Módulo I do nosso curso, possui três principais bases ou premissas que são: criança e adolescente como sujeitos de direito, destinatários de absoluta prioridade esua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. Nesse sentido, é possível afirmar que a responsabilização criminal também é considerada uma das formas de observância ao referido princípio, uma vez que, como sujeitos de direitos, crianças e adolescentes devem ter uma 92 investigação técnica, célere e eficaz permitindo a punição adequada do agressor pelo crime praticado. Assim, a proteção na Segurança Pública tem ligação estreita com a responsabilização penal, ganhando importância, então, os tópicos anteriores estudados no que tange à identificação dos crimes, à colheita da prova e ao depoimento especial, ao registro adequado da ocorrência policial e à observância do microssistema legislativo que rege toda essa atividade. Além do aspecto de proteção supramencionado, a legislação também elenca outros instrumentos de proteção que devem ser ofertados a esse público vulnerável pela Rede de Segurança Pública que são as denominadas Medidas de Proteção ou Medidas Protetivas de Urgência. De modo geral, as medidas protetivas ou de proteção têm por finalidade salvaguardar a vítima, impedindo que a violência continue ou prevenindo violência futura, ou seja, independente da terminologia adotada, essas medidas possuem em sua essência a mesma finalidade e o mesmo conceito. No entanto, em razão especificamente das últimas atualizações legislativas feitas pela Lei nº 13.431.17 e pela Lei nº 14.344.22, essas medidas apresentam algumas diferenças que veremos abaixo: 1. Medidas Protetivas de Urgência e Medidas de Proteção a. Medidas de proteção: As medidas de proteção têm previsão expressa na Lei nº 13.431/17, afirmando em seu art. 5 º, inc. V que é direito da criança e do adolescente recebê-las, sempre que houver risco à vida ou à integridade física da criança ou do adolescente, art. 12, §2º. O capítulo IV, que tem como título DA SEGURANÇA PÚBLICA discorre expressamente sobre deveres impostos durante a atuação policial, razão pela qual a lei preconiza que a autoridade policial deverá solicitar imediatamente medidas de proteção sempre que as vítimas estiverem em risco. As principais medidas elencadas são de proibição de contato e de afastamento do investigado da residência da vítima, não havendo menção expressa quanto à proibição de contato, em que pese entendermos ser perfeitamente possível o requerimento que será feito ao Juiz no momento do registro da ocorrência, ou posteriormente no curso das investigações. 93 Por fim, importante frisar que essas medidas não possuem rito próprio quanto ao prazo e só poderão ser utilizadas quando a violência não tiver sido praticada no contexto familiar e doméstico. b. Medidas Protetivas de Urgência As medidas protetivas de urgência foram introduzidas pela Lei nº 14.344/22 e guardam extrema semelhança com a Lei nº 11.340/06, Lei Maria da Penha. Em verdade, a Lei Henry Borel (14.344/22) veio justamente ampliar os aspectos de proteção nos casos em que a violência, além de direcionada a crianças e adolescentes, é praticada no núcleo doméstico e familiar. O rol de medidas protetivas de urgência, previso no art. 20, é mais extenso, se comparado com as medidas de proteção da Lei nº 13.431/17, mas muito similar àquelas previstas na Lei Maria da Penha. Assim, sempre que houver risco, podem ser solicitadas medidas de: restrição ou suspensão à posse ou porte de armas; afastamento do lar, proibição de contato e aproximação; proibição de frequentar determinados lugares; suspensão ou restrição de visitas, prestação de alimentos provisórios; determinação de que o agressor frequente programas de recuperação ou reeducação; inserção da criança, do adolescente, familiares, denunciante ao programa de proteção à vítima ou testemunha. Essas medidas serão decididas pelo Juiz no prazo de 24 horas. Destarte, podemos perceber a semelhança com a Lei Maria da Penha, pois a lei prevê a possibilidade de a medida protetiva de urgência de afastamento do agressor do lar ser concedida pelo delegado de polícia, quando o município não for sede de comarca, e pelo policial no município que não for sede de comarca e não houver delegado de polícia disponível no momento da denúncia. Nesses casos, após a concessão, o juiz deverá ser informado no prazo de 24 horas, decidindo sobre a manutenção ou revogação da medida. Por fim, a lei também trouxe um crime específico pelo descumprimento das medidas protetivas de urgência, que já estudamos aqui. Para auxiliar o seu estudo, veremos abaixo um quadro comparativo entre as medidas de proteção e as medidas protetivas de urgência: 94 Figura 24 - Quadro comparativo QUADRO COMPARATIVO MEDIDAS DE PROTEÇÃO MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA Previsão Lei nº 13.421/17 Lei nº 14.344/17 Contexto Crimes fora do contexto familiar e doméstico Crimes dentro do contexto familiar e doméstico Tipos Proibição de contato; Afastamento do investigado do lar Restrição ou suspensão à posse ou porte de armas; Afastamento do lar; Proibição de contato e aproximação; Proibição de frequentar determinados lugares; Suspensão ou restrição de visitas; Prestação de alimentos provisórios; Determinação de que o agressor frequente programas de recuperação ou reeducação; Inserção da criança, do adolescente, de familiares e de denunciante ao programa de proteção à vítima ou à testemunha. Prazo juiz decidir Não tem 24 horas Concessão por Delegado de Polícia ou Policial Não Sim Crime por descumprimento Não Sim Fonte: BOZOLAN (2022). 2. Encaminhamentos diversos A atuação policial, ainda sob a ótica protetiva, completa-se com o que podemos chamar de encaminhamentos ou providências diversas. Por previsão legal, no momento do registro da ocorrência policial ou no curso da investigação, a autoridade policial poderá encaminhar a vítima ao Sistema 95 Único de Saúde e ao Conselho Tutelar, quando observar que estes órgãos também compõem a Rede de Proteção não tiverem sido acionados. Deverá, ainda, sempre que necessário e quando houver risco à vida, efetuar o transporte da vítima e seu acompanhante para serviço de acolhimento existente ou local seguro e garantir proteção policial, de acordo com o art. 13, inc. III e IV da Lei nº 14.344/22. Aula 4 – A importância da rede na atenção às pessoas em situação de violência. O trabalho interdisciplinar. Elos ligados. Ninguém consegue atender situações de violência sozinho. Talvez essa seja uma unanimidade em todos os agentes da Rede de Proteção a Pessoas em Situação de Violência. Essa Rede foi sendo reconhecida ao longo dos anos e legitimada através da Lei nº 13.431/17. Ali estão expostos os principais articuladores do sistema de garantia de direitos de crianças e adolescentes. A ideia é que a Rede funcione de forma interconectada e de maneira horizontal, ou seja, todos os órgãos que a compõem trabalham juntos e sem hierarquia. Todos os elos são fundamentais. Se cada um desempenhar bem o seu papel, será possível oferecer cuidado, proteção e responsabilização. Mas o que é essa tal Rede? Veja o que diz o Artigo 13 do ECA. Os serviços de saúde em suas diferentes portas de entrada, os serviços de assistência social em seu componente especializado, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e os demais órgãos do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente deverão conferir máxima prioridade ao atendimento das crianças na faixa etária da primeira infância com suspeita ou confirmação de violência de qualquer natureza, formulando projeto terapêutico singular que inclua intervenção em rede e, se necessário, acompanhamento domiciliar. A Rede é, portanto, o conjunto dos órgãos que tem por objetivo garantir a integridade e bem-estar biopsicossocial de crianças e adolescentes. Sua composiçãoinclui Conselho Tutelar (CT), Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), Escolas, Creches, Abrigos, Ministério Público (MP), 96 Defensoria Pública, Varas da Infância e da Juventude (VIJ), Delegacias de Proteção às Crianças e Adolescentes (DPCA), Delegacia Especializada de Atenção à Mulher (DEAM), Instituto Médico Legal (IML), Disque Denúncia (Disque 100), Organizações não-governamentais (ONGs), Unidades Básicas de Saúde (UBS), Hospitais e outros serviços. É possível dividir o trabalho da Rede em 3 eixos primordiais. Quais sejam: Figura 25 - Eixos da Rede Fonte: JOTA, 2022. A proteção é exercida por aqueles equipamentos focados na interrupção imediata da violência, pensando sobre onde e com quem essa criança ou adolescente ficará após a denúncia. São eles: Conselhos Tutelares, Varas da Infância e da Juventude, Ministério Público, Defensoria Pública. A responsabilização envolve organismos que atuarão para punir aqueles que praticaram a violência. São eles: Delegacias, IML, Varas Criminais, Ministério Público. Já o atendimento é realizado por órgãos da Saúde, Assistência Social e Educação. Na saúde encontram-se serviços hospitalares tanto emergenciais quanto ambulatoriais. Nas emergências hospitalares o paciente poderá ter acesso ao protocolo medicamentoso pós exposição (PEP) recebendo fármacos que atuarão para prevenir doenças sexualmente transmissíveis e uma possível gravidez. Nos serviços ambulatoriais, receberá atendimento com fins de promoção de reabilitação biopsicossocial da violência que viveu. Proteção ResponsabilizaçãoAtendimento 97 Para organizar o fluxo de atendimento no âmbito da Saúde, o Ministério da Saúde publicou o documento Linha de Cuidado para a Atenção Integral de Crianças e Adolescentes e suas Famílias em Situação de Violência. Segue abaixo o fluxo proposto no texto (pág. 51). Figura 26 - Linha de cuidado Fonte: Ministério da Saúde, 2022. No âmbito da Assistência Social existem dois serviços preconizados pelo SUAS (Sistema Único de Assistência Social): o CRAS (Centro de Referência em Assistência Social) e o CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social). O primeiro atua com famílias no sentido de promover ações que previnam a ocorrência de violações de direitos, entre eles a violência. Já o CREAS atua com famílias nas quais já ocorreu algum tipo de violação. Nesse equipamento serão trabalhadas as questões psicossociais envolvidas na violência, bem como será promovido acesso a direitos socioassistenciais. Outra instância fundamental no cuidado com vítimas de violência menores de idade é a Educação. Tanto escolas quanto ONGs que promovem contraturnos são locus fundamentais de revelação de violações de direitos. Crianças e adolescentes passam bastante tempo nessas instituições e estabelecem com elas relações de proteção e cuidado. Com isso, sentem-se à vontade para contar suas rotinas, bem como o que acontece em suas famílias. 98 O grande desafio do processo de atendimento de pessoas em situação de violência é a articulação de todos esses órgãos. Na tentativa de sanar essa questão, a Lei Nº 13.431/17 trouxe uma grande novidade: a diferenciação entre quem faz Escuta Especializada e quem faz Depoimento Especial. Primeiro vamos diferenciar os dois conceitos apresentados no corpo da Lei. Figura 27 - Escuta especializada e Depoimento Especial Fonte: JOTA, 2022. Conhecer essa diferença conceitual é fundamental para o andamento da Rede. Antes de iniciar a abordagem a uma vítima ou testemunha de violência, questione-se: O que vou fazer agora é escuta especializada ou depoimento especial? Uma questão diferencial entre os dois procedimentos é: apesar dos elementos colhidos na escuta especializada serem importantes na composição do processo de investigação policial, somente o que é colhido em depoimento especial tem fins de produção de prova, visto que o procedimento exige uma série de protocolos que são listados no corpo da Lei nº 13.431/17. Para compreender melhor a importância do funcionamento da Rede de atenção a Crianças e Adolescentes vítimas ou testemunha de violência, será apresentado o caso de Larissa, criança e vítima de violência sexual que chegou na Emergência de um Hospital Infantil. • Procedimento de entrevista sobre situação de violência com criança ou adolescente perante órgão da rede de proteção, limitado o relato estritamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade. Escuta Especializada • Procedimento de oitiva de criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência perante autoridade policial ou judiciária. Depoimento Especial 99 ESTUDO DE CASO Larissa é uma criança de 2 anos de idade que chegou ao Hospital da cidade nos braços de seu pai. Este refere que quando chegou em casa do trabalho encontrou a filha embaixo do berço com sinais de sangue na roupa, desesperou-se e a trouxe para o hospital. João, o pai da criança, tem 38 anos e mora com sua companheira e outro filho do casal que tem 9 anos. João disse que sua companheira tem 30 anos e é usuária de drogas. Refere que quando sai para trabalhar, pede para a vizinha “correr o olho nos filhos”, pois sabe que a mãe deles não se encontra em condições de dispor cuidados aos filhos. O pai diz que o filho de 9 anos também estava dormindo quando chegou em casa e não sabia informar sobre o que tinha acontecido com a irmã. Quando os médicos examinaram a criança, deram conta da gravidade do caso. Existiam importantes ferimentos nas regiões genital e anal. Além disso, puderam constatar que havia ali presença de sêmen, o que se configura como vestígios biológicos da violência que Larissa havia sofrido. Os médicos avaliaram que antes de encaminhar a paciente para a cirurgia pediátrica, seria necessário que o plantão policial fosse acionado para que este solicitasse ao IML colheita do vestígio presente na criança. Assim foi feito. Após a chegada do IML, a criança foi encaminhada para a cirurgia pediátrica e um trabalho de Rede foi acionado. Inicialmente, juntaram-se Conselho Tutelar, CREAS, Psicólogos e Assistentes Sociais do Hospital para ouvir o pai. O pai da criança pôde expor a situação de vulnerabilidade social na qual vivia. Referiu que não podia deixar o trabalho, pois este era o único meio de sustento dos filhos e já havia tentado uma vaga para Larissa na creche, mas não tinha conseguido. Foram acionados o CREAS para verificar os benefícios socioassistenciais a que essa família tinha direito e o Conselho Tutelar para intervir junto à Regional de Ensino em busca de uma vaga na creche para Larissa. A ONG que oferece contraturno escolar na região foi contactada para que o irmão mais velho estivesse protegido em alguma instituição enquanto o pai trabalha. 100 A Unidade Básica de Saúde e o CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) foram acionados para montarem um Plano Terapêutico Singular para a mãe de Larissa que é usuária de crack. Dessa forma, foram acionados 10 órgãos da Rede (destacados em verde) para promover a atenção integral à família de Larissa de modo a cuidar da violência que aconteceu, bem como prevenir eventos futuros. Os profissionais envolvidos no atendimento a situações de violência precisam trabalhar de forma horizontal, sem hierarquização. Todos são importantes. De ponta a ponta do atendimento, cada um fazendo seu trabalho, é possível cuidar de forma técnica e humanizada. Finalizando Neste módulo, você aprendeu que: • O atendimento policial de qualidade possui requisitos gerais e específicos. São requisitos gerais as relações interpessoais, a comunicação adequada e sem barreiras, a escuta empática e a motivação para o trabalho. Já os requisitos específicos estão relacionados aos deveres impostosa todo agente do Estado e seus mecanismos de controle, como, por exemplo, a tipificação do crime de Violência Institucional; • O registro da ocorrência policial é o marco inicial da colheita probatória, devendo, durante a sua realização, ser observadas a existência de circunstâncias fundamentais, periféricas e adicionais que permeiam o crime; • A lei prevê normas a serem observadas especificamente durante o registro de ocorrência policial, dentre os quais o dever de buscar informação com os acompanhantes da criança e do adolescente, de modo a preservá-las; • Cumprindo seu papel protetivo, o profissional de segurança pública além de zelar por uma adequada responsabilização penal, deverá também ofertar Medidas de Proteção ou Medidas Protetivas de Urgência. 101 Módulo 4 - A escuta protegida Apresentação do módulo Este módulo estabelecerá as condições para que você possa ampliar seus conhecimentos sobre as especificidades do trabalho com grupo de crianças e adolescentes vulneráveis, as peculiaridades das fases de vida - infância e adolescência - e seus impactos na escuta protegida. E ainda conhecer os instrumentos para escuta de crianças e adolescentes e seus requisitos legais. Objetivos do módulo Este módulo tem por objetivos: • Identificar as demandas do público vulnerável criança e adolescente; • Executar os procedimentos de escuta, nos limites da Lei. • Refletir sobre o direito das crianças e adolescentes a se manifestarem em processos que lhes digam respeito; • Respeitar tal grupo em suas características especiais promovendo proteção e responsabilização, numa oitiva protegida. Estrutura do módulo Este módulo compreende as seguintes aulas: Aula 1 – Aspectos históricos da voz da criança e do adolescente; Aula 2 – A Lei 13.431/2017 e a voz da criança e do adolescente; Aula 3 – A Escuta especializada; Aula 4 – O Depoimento Especial Aula 5 – A revelação da criança e do adolescente e as evidências de veracidade. 102 Aula 1 – Aspectos históricos da voz da criança e do adolescente A criança e o adolescente precisam ser considerados atores sociais e sujeitos histórico-culturais. É fato que, historicamente, as vozes deles foram silenciadas. As crianças não eram compreendidas como seres em desenvolvimento, mas eram consideradas adultos em miniatura – haja vista a brevidade da infância. A valorização dos anos da infância é algo muito recente e o conceito vem sofrendo alterações significativas ao longo da história. É essencial compreender esse antecedente e os avanços nesses conceitos, analisando a infância do ponto de vista histórico, porque isso nos revelará muito sobre a sua situação de crianças e adolescentes nos dias atuais. Ser criança nos primórdios da história representava pouco em termos de participação social e até mesmo familiar. A brevidade da vida não estava somente associada ao curto período em que estas permaneciam entre seus pares ou isoladas do mundo adulto, mas também à sua pequena expectativa de vida em função dos números elevados de mortalidade infantil, gerando na sociedade da época um sentimento de indiferença tanto à criança quanto à sua morte, visto como algo natural e necessário. Ou seja: não havia motivos suficientes para se valorizar aquilo que crianças falavam ou suas manifestações de pensamento. Não se percebia a criança como um ser diferente do adulto, com particularidades e especificidades. Não se havia um sentimento de infância. No século XIII, as crianças eram vistas como seres com modos de pensar e sentimentos primitivos, não civilizados, anteriores à razão e aos bons costumes. Era função dos adultos desenvolver nelas o caráter e a razão. Dessa forma, ao invés de se procurar entender e aceitar as diferenças e semelhanças das crianças, a originalidade de seu pensamento, elas já recebiam sua sentença: crianças eram páginas em branco a serem preenchidas, preparadas para a vida adulta – como uma matéria rústica e trabalhosa. 103 Segundo KOHAN (2003), era uma visão futurista da infância, porque ela não possuía características próprias. Apenas se consideravam as possibilidades, ou seja, a criança era vista como um ser em potencial. Assim, ela não poderia existir e viver e ser encarada como ela de fato é. Ela não é nada no presente. Sua existência é vista como projeção, por isso é preciso moldar e imprimir-lhe tudo o que é necessário a um bom cidadão. Tão logo a criança deixasse os primeiros anos de vida já eram equivalentes aos adultos – sendo incluídas nas tarefas domésticas, jogos e trabalhava como aprendiz. Suas roupas eram miniaturas do vestuário adulto, incômodas – restringindo-lhes a liberdade para o brincar e explorar o mundo que a infância necessita. Figura 28 - Cartão postal antigo representando crianças vestidas como pequenos adultos desempenhando atividades laborais como se adultos fossem. Fonte: https://pixabay.com/pt/illustrations/cart%c3%a3o-antigo-postal-fran%c3%a7a-1348456/. A infância era apenas uma fase anterior e inferior à vida adulta. Platão assevera esse pensamento com palavras bem duras. Veja só: [...] entre todas as criaturas selvagens, a criança é a mais intratável; pelo próprio fato dessa fonte de razão que nela existe ainda ser indisciplinada, a criança é uma criatura traiçoeira, astuciosa e sumamente insolente, diante do que tem que ser atada, por assim dizer, por múltiplas rédeas [...] (PLATÃO, 2010, p. 302). Mas esse contexto começa a se modificar nos séculos XVI e XVII, a partir de uma reforma moral e religiosa da época. https://pixabay/ 104 Ariès comenta que: de fato, foi nessa época que se começou realmente a falar na fragilidade e na debilidade da infância”. (Ariès,1981, p.25) O mundo passou a ser visto como muito arriscado para seres com características muito peculiares, como inocência, fragilidade e imperfeição, trazendo para o enfrentamento das questões da infância um caráter de preservação. O processo de reconhecimento e valorização da infância acontece juntamente com o processo de valorização da educação. Percebeu-se no processo educacional que crianças não estavam prontas, maduras o suficiente, para enfrentar a vida e por isso careciam de proteção especial. Ariès (1981, p. 194) chama essa proteção especial de “período de quarentena” antes de permitir que crianças se unissem aos adultos. Isso traz as crianças para uma cultura adultocêntrica: com o exercício do poder do adulto em relação aos menores numa relação de absoluta hierarquia com aspectos fortes na obediência e submissão direcionados às crianças. SAIBA MAIS! Para se promover um atendimento especializado de excelência para crianças e adolescentes é preciso se despir dos valores de adulto e buscar a empatia com esse grupo tão vulnerável que sofreu com essa vulnerabilidade historicamente construída. É preciso nos lembrarmos que já fomos crianças e que se colocar no lugar delas melhora nosso foco e nosso entendimento em relação a posição delas em face de situações de violência. Leia o artigo “O Conceito de adultocentrismo na história: Diálogos interdisciplinares”, disponível em https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/15814#:~ :text=Um%20conceito%20surgido%20na%20sociologia,%E2%80%9 D%20na%20historiografia%20infanto%2Dadolescente. Acesso em 17.11.2022. A criança como sujeito de direitos no Brasil só chega com a Constituição de 1988, reconhecendo-a como um ser que possui especificidades, https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/15814#:~:text=Um%20conceito%20surgido%20na%20sociologia,%E2%80%9D%20na%20historiografia%20infanto%2Dadolescente https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/15814#:~:text=Um%20conceito%20surgido%20na%20sociologia,%E2%80%9D%20na%20historiografia%20infanto%2Dadolescente https://ojs.ufgd.edu.br/index.php/FRONTEIRAS/article/view/15814#:~:text=Um%20conceito%20surgido%20na%20sociologia,%E2%80%9D%20na%20historiografia%20infanto%2Dadolescente105 que pertence a um grupo social diferenciado por possuir cultura e experiências diferentes das do adulto. A busca da construção de um outro olhar e de uma nova postura em direção à criança sugere que esta não seja vista sob a expectativa do adulto. Ela precisa ser vista como um ser único: com particularidades e características que a difere de nós, adultos. Assim, deve-se compreender o que ela pensa da sua realidade e acima de tudo acreditar na sua capacidade de dar opiniões, de dialogar sobre temas variados, de exercitar o direito de falar e de ser ouvida, ou seja, acreditar que elas podem dizer algo sobre si mesmas. Esse é um ponto nevrálgico do estudo. Para se prover um atendimento que de fato cause efeitos na proteção de crianças e adolescentes é necessário entender que o tempo em que eles não eram valorizados enquanto grupo acabou. DEMARTINI (2002) lembra a importância de aprendermos a ouvir as crianças, de escutar as suas vozes, do estabelecimento do diálogo com estes sujeitos, pois cada vez mais escutamos, por parte daqueles que convivem e trabalham com crianças, sobre a incapacidade de entendê-las. Enquanto profissionais de atendimento, devemos refutar ao máximo o distanciamento entre adulto e criança provocado pela modernidade. Nesse estudo, busca-se um novo olhar e uma nova postura frente às crianças e aos adolescentes; para que eles não sejam vistos da perspectiva dos adultos como aconteceu historicamente, mas acreditar na sua capacidade de dar opiniões, de dialogar sobre temas variados, de exercitar o direito de falar e de ser ouvida, ou seja, acreditar que elas podem dizer algo sobre si mesmas. Acompanhe esse vídeo que trata da infância sob os aspectos da sua individualidade: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tF94AYC9TTY https://www.youtube.com/watch?v=tF94AYC9TTY 106 Figura 29 - Crianças: mitos e verdades - Quintal da Cultura Fonte: Youtube, 2021. Sendo assim, é importante perceber que crianças e adolescentes precisam ser vistos em sua essência. E mais: em suas potencialidades. Atender pessoas em desenvolvimento não é apenas uma habilidade. É uma decisão. Decisão de entender e de mergulhar em suas visões de mundo, opiniões e entendimentos do universo frente às suas experiências que são únicas e construídas baseadas em suas vivências pessoais. A missão dos profissionais de segurança pública que têm como atribuição prestar o atendimento de crianças e adolescentes é mergulhar nesse universo e buscar compreendê-lo do ponto de vista do público-alvo. A professora Silvia Lordello resume bem esse entendimento. Observe: “Não é fácil aceitar a ideia de que precisamos renunciar a uma postura cultura adultocêntrica para compreender o universo infantil, sobretudo quando ele nos é apresentado por meio da linguagem. Isso significa que não é possível compreender a criança por nossos próprios parâmetros, pois os equívocos interpretativos seriam inevitáveis. Se estamos desempenhando a difícil tarefa de ouvir uma criança, o primeiro desafio é dar-lhe voz, permitindo que revele seu mundo, suas concepções, sua lógica peculiar”. Lordello, 2004 O processo histórico de construção da percepção de crianças e adolescentes que temos hoje passou por um grande amadurecimento. Todavia, https://www.youtube.com/embed/tF94AYC9TTY?feature=oembed 107 ainda estamos muito distantes de uma sociedade que de fato provê proteção e cuidados a esse grupo. Na realidade, pouco se sabe sobre as culturas infantis, porque pouco se ouve e pouco se pergunta às crianças e, ainda assim, quando isto acontece, a “fala” apresenta-se solta no texto, intacta, à margem das interpretações e análises. Estes parecem ficar prisioneiros de seus próprios “referenciais de análise”. No âmbito da Sociologia, há ainda resistência em aceitar o testemunho infantil como fonte de pesquisa confiável e respeitável. É preciso deixar a compreensão de que a criança não é um ator capaz de criar e modificar culturas. Elas interagem no mundo, negociam, compartilham, compreendem e têm seus próprios pontos de vistas baseados nos aspectos de desenvolvimento que possuem em cada fase de sua infância e, posteriormente, adolescência. Há ainda uma grande segregação entre infância e mundo adulto. Muitos dos conceitos históricos em relação a crianças ainda permeiam nossa sociedade, impedindo a comunicação entre adultos e crianças, sendo fruto da construção histórica equivocada que se tem disponível sobre os infantes. Figura 30 - Como repensar nossas atitudes e compreensões no que se refere a voz das crianças e dos adolescentes? Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/ressentimento-ficar-ofendido-5189363/. Logo, muito do que vemos em procedimentos policiais nos quais crianças e adolescentes são vítimas têm como base a construção histórica 108 desses seres ainda em desenvolvimento. Situações nas quais as relações de poder entre o adulto e a criança são caracterizadas pela condição de subalternidade desta em relação àquele. Historicamente, as crianças, assim como os idosos, eram consideradas meros fardos sociais, porém mais imaturos e incompletos e naturalmente dependentes dos adultos. Neste sentido, as crianças não formavam em si uma categoria social que despertasse preocupação conceitual ou epistemológica, e suas raras referências eram sempre vinculadas aos estudos relacionados à família e aos processos educativos (MÜLLER & CARVALHO, 2009). Em razão das suas históricas posições subordinadas tanto na estrutura social quanto nas concepções teóricas de infância e socialização, QVORTRUP (2010) acredita que as crianças têm sido constantemente marginalizadas e caladas. Por este motivo, chamamos atenção para o paradoxo de que apesar de sempre terem existido crianças, seres biológicos de geração jovem, nem sempre houve infância, categoria social de estatuto próprio. PACHECO aponta que: Esta desconsideração histórica do status de infância não significava a negação extrema da existência biológica destes indivíduos, mas sim o reconhecimento que antes do século XVI, a consciência social não admitia a existência autônoma da infância como uma categoria social diferenciada. Dessa forma, é a partir da modernidade que a ideia de infância ganha força ao se referir a um período da existência cuja incompletude, incapacidade e necessidade de proteção se tornam as características mais marcantes. Essa desconsideração histórica não tem relação com a negação extrema da existência biológica das crianças, mas sim do reconhecimento de que antes do século XVI, não se admitia a existência autônoma da infância como uma categoria social diferenciada. É somente a partir da modernidade que o conceito de infância se fortalece e passa a representar um período da vida que conta com incompletudes, incapacidades e necessidade de proteção especial. Que tal um novo modo de pensar esses conceitos a partir dessa poesia em forma de música? Vejam só: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zjUbPNWjLPE https://www.youtube.com/watch?v=zjUbPNWjLPE 109 Figura 31 - Palavra Cantada - Menina Moleca Fonte: Youtube, 2013. É sobre isso: incluir a infância em suas especificidades com vistas a garantir direitos. No trabalho de segurança pública é preciso mais: é necessário que se deixe a postura adultocêntrica. Há muito mais em jogo do que apenas se desacreditar da fala de uma criança ou de um adolescente. Eles serão instados a apresentar sua versão da história, sua visão de mundo durante o atendimento policial. Eles são sujeitos de direitos e o trabalho de prestação de segurança pública vai além de estabelecer a verdade sob nosso próprio ponto de vista, que é absolutamente afetado pelo histórico de construçãodo conceito de criança. A reflexão primordial dessa aula é: pare de pensar como adulto e de avaliar as situações que lhe forem apresentadas durante os atendimentos do seu próprio ponto de vista. Pare. Utilize um conceito muito difundido hoje, porém pouco aplicado que é a empatia. Pergunte-se: como será que essa criança ou esses adolescentes entendem tudo isso? A prática social que estabelece o poder aos adultos, deixando jovens e crianças com menos liberdade, não pode ter mais espaço na atuação dos atores da rede de garantia de direitos. Se mantivermos nossa posição de soberania https://www.youtube.com/embed/zjUbPNWjLPE?feature=oembed 110 adulta, determinamos que as crianças têm menos direitos, menos conhecimento e menos espaço do que nós, adultos. Figura 32 - Adultos protegendo e enxergando crianças e adolescentes como seres de igual valor, porém com mais necessidade de proteção e valorização. Fonte: https://pixabay.com/pt/illustrations/fam%c3%adlia-amor-cora%c3%a7%c3%a3o- 3256969/. O convite hoje é para que deixemos esse passado histórico na História e escrevamos um novo tempo para crianças e adolescentes que registrarão suas histórias a partir de quem eles são. Agora, prontos para a aula 2? Aula 2 – A Lei nº 13.431/2017 e a voz da criança e do adolescente E o que mudou em termos legislativos no que se refere às vozes de crianças e adolescentes frente às suas necessidades? Qual o panorama atual? Infelizmente a notícia não é boa: pouco mudou na prática. Em 2006, a Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou o Relatório Mundial sobre Violência contra Crianças. Esse relatório trouxe luz à prática generalizada de violência contra crianças ao redor do mundo, independentemente das situações 111 socioeconômicas e culturais dos países. E como esperado, a seguinte conclusão foi trazida à tona: a violência ainda é um fenômeno natural, porém intolerável. E mais: ela é invisível. Mas como isso? O quadro apresentado pelo estudo revelou que embora as crianças sejam vítimas das mais diversas violências, suas agruras se tornam invisíveis, porque não há mecanismos e instrumentos adequados e seguros para que suas queixas sejam registradas. Elas não têm suas vozes ouvidas diante das mais perversas realidades às quais são submetidas, reiterando práticas históricas de desrespeito aos direitos das crianças e à sua condição de ser especial em desenvolvimento. Figura 33 - Criança sozinha em meio ao caos que é o mundo para os infantes Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/sozinho-garoto-infeliz-triste-3742586/. Isso é absolutamente estarrecedor e preocupante. O Comitê sobre os Direitos das Crianças – órgão consultivo do estudo, ainda chamou a atenção para leis ultrapassadas referentes ao abuso sexual e também constatou informações confusas sobre o predomínio dos abusos e negligência infantil observando o baixo número de notificações – revelando indícios de que o sistema de registro dos casos de violência seja ineficaz, ou ainda, que o pensamento tradicional e historicamente construído impede a revelação das inúmeras violências que crianças sofrem pelo mundo. 112 Entretanto, você deve estar se questionando: “esse estudo é muito antigo. Já estamos em 2023, será que não fizemos grandes avanços nesses 16 anos?” Uma das provas do avanço está na publicação da Lei nº 13.431 de 04 de abril do ano de 2017. A lei que ficou conhecida como a Lei da Escuta Protegida veio com a finalidade de estabelecer o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência e alterar a Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente). Com a vacância de 1 ano, a referida lei passou a vigorar somente no ano de 2018 – 12 anos depois do estudo que tratamos anteriormente. SAIBA MAIS! O objetivo dessa aula não é tratar dos meandres e detalhes da lei, que já foi estudada no Módulo 1. Mas não podemos avançar sem uma leitura cuidadosa dos termos, conceitos e das definições referentes aos instrumentos de oitiva que esse dispositivo traz porque é absolutamente inovador e desafiador, tendo em vista o histórico do enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes. Aqui vamos descortinar nossos paradigmas frente a voz da criança e do adolescente. Faça uma nova leitura nessa perspectiva. Acesso pelo link: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2017/lei/l13431.htm. Acessado em 03.11.22 Sim. Há convenções e leis anteriores à Lei da escuta que tratavam do assunto e da proteção desse grupo vulnerável. Tem-se acompanhado uma evolução legislativa nessa pauta até que se chegasse ao reconhecimento da importância dos relatos de crianças e adolescentes sobre situações de violência. E mais: para que houvesse uma regulamentação das situações de oitiva especial. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13431.htm 113 Um dos documentos base - a primeira semente do que futuramente seria o depoimento especial e o regramento na Lei da Escuta Protegida - é a Convenção dos Direitos das Crianças de 1990. Ela foi adotada pela Assembleia Geral da ONU em 20 de novembro de 1989, mas só passou a vigorar em 2 de setembro de 1990. A Convenção de 1990 é o instrumento de direitos humanos mais aceito na história universal, inclusive pelo governo brasileiro em 24 de setembro de 1990. O trabalho versa sobre vários direitos das crianças, mas traz em seu artigo 12 um dos direitos mais lindos que nunca, em toda história, foi considerado: o direito à livre expressão e da oportunidade de a criança ser ouvida nos processos que lhes diga respeito. E que possa ser ouvida diretamente. Acesse a convenção pelo link da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância): https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da- crianca É muito emocionante ver o quanto crianças e adolescentes precisam de proteção especial. São seres ainda carentes de desenvolvimento em várias áreas. Não estão prontos para a vida adulta. E até chegarem lá deverão contar com proteção especial. Mas isso não faz deles seres de menor valor. Eles possuem condições, respeitadas suas individualidades de desempenharem suas essências e personalidades até a maturidade. Acompanhem esse vídeo e reflitam sobre essa máxima: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XIxpGdPkcL4 https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca https://www.unicef.org/brazil/convencao-sobre-os-direitos-da-crianca https://www.youtube.com/watch?v=XIxpGdPkcL4 114 Figura 34 - Direitos das crianças Fonte: Youtube, 2019. Chegamos a um tempo muito mais propício para a proteção de crianças e adolescentes. Há, porém, uma longa história desde a Convenção até chegarmos às garantias de oitiva da Lei nº 13.431 de 2017. A escuta protegida nasce da necessidade de se ouvir crianças e adolescentes vítimas de violência sexual – inicialmente, na maioria das vezes se tornavam acuadas e revitimizadas diante das regras processuais penais. Tudo isso somado à impunidade dos autores das violências que eram agraciados pelo silêncio de suas vítimas – amedrontadas e machucadas demais em suas almas para relatarem seus sofrimentos. Muitas são as histórias de juízes e policiais que se depararam com situações extremamente constrangedoras e cruéis, quando se era instada uma escuta de uma criança ou um adolescente sobre uma situação de violência vivida ou testemunhada por eles. No livro Lei do Depoimento Especial Anotada e Interpretada, o autor, FLÁVIO SCHMIDT, juiz de direito no estado de Minas Gerais, narra uma situação ocorrida em uma de suas audiências no ano de 2009. Observe: “Não muito distante, agora já emMuzambinho, Sul de Minas Gerais, em 2009, prestes a dar início às oitivas das testemunhas e vítimas de um crime contra os costumes, ingressou na sala de audiência uma menina, pouco mais de quatro anos, vítima do pior crime contra uma https://www.youtube.com/embed/XIxpGdPkcL4?feature=oembed 115 mulher: o estupro. Perplexo, vi entrar de mãos dadas com sua mãe, cabisbaixa, aquela menina sem qualquer reação, apenas caminhando em direção à cadeira que lhe esperava. Confesso que já havia nesses anos todos de magistratura ouvido inúmeras crianças e adolescentes, nunca com aquela tenra idade, e muito menos vítima de um crime tão bárbaro. No método tradicional de oitiva de vítima, não tinha nem como dar início aos trabalhos, porque não vinham as palavras certas... foi então que resolvi conversar com ela e perguntar-lhe de sua escola, suas brincadeiras, seu brinquedo favorito, o que gostava de comer, etc. Todos que ali estavam – Promotora, Advogado de Defesa, Escrevente e a própria mãe – observavam a dificuldade de ouvi-la. Não havendo outro meio, dei início ao método tradicional de oitiva das vítimas e disse-lhe que iria ler para ela o que ela havia dito à Polícia sobre os fatos e, ao final, se tudo aquilo fosse verdade, bastava ela confirmar com um simples gesto, ainda que fosse com a cabeça, tudo para evitar constrangimento. Ao dar início a essa leitura, pela gravidade dos fatos, parei! Disse a todos que estavam presentes: Não, isso é um absurdo! Não vou revitimizar essa criança. Não posso, não devo, não é justo com esse pequeno ser, depois de tanto sofrimento diante de pessoas estranhas e nesse ambiente hostil, reviver tudo o que sentiu. Desculpem-me, mas a audiência está encerrada e a partir de hoje, Muzambinho passará a aplicar o depoimento sem dano em defesa desses anjos, vítimas de um convívio de uma sociedade que não é capaz de conter os avanços de crimes contra crianças e adolescentes”. (apresentação do livro) Como essa, várias são as histórias de atendimentos com essas características. Até 2017, havia iniciativas de se transformar essa realidade aterradora no que tange à escuta de crianças e adolescentes, mas ainda muito restritas a órgãos e a localidades que não possuíam condições de tornar suas boas práticas um padrão no país. Uma dessas boas práticas que vale a pena ressaltar são os depoimentos realizados na Delegacia Especial de Atendimento à Criança e do Adolescente, da Polícia Civil do Distrito Federal. Essa unidade da Polícia realiza uma escuta especial desde sua inauguração no ano de 1999, ainda que de maneira bem intuitiva nos primeiros anos. Com o passar do tempo e com o esmerilar da prática, crianças e adolescentes passaram a ser ouvidos, com a garantia de seus direitos resguardados e maximizando o valor da prova testemunhal. Além desse exemplo temos o depoimento sem dano executado no âmbito da justiça gaúcha – movimento encabeçado pelo Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul José Antônio Daltoé Cezar em 2003. 116 Figura 35 - Depoimento especial na fase policial, nas dependências da Delegacia Especial de Atendimento à Criança e ao Adolescente. Fonte: Arquivo pessoal. Juliana Amorim, 2018. Figura 36 - Sala de depoimento sem dano no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul Fonte: https://www.tjrs.jus.br/novo/cij/noticias/metodo-do-depoimento-especial-completa-19- anos/. Em termos legislativos, houve uma primeira tentativa na Câmara dos Deputados de regulamentação do depoimento especial, o qual ocorreu em 2006 num projeto de lei que alterava o Código de Processo Penal, 117 acrescentando ao Capítulo IV-A a forma como seria feita a arguição de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas. Porém, mesmo com sua aprovação na Câmara, durante a audiência pública realizada pelo Senado Federal, entendeu- se que o texto deveria ser incorporado ao projeto do novo Código Penal e assim perdeu força. Parada por seis anos, a iniciativa de regulamentação desse direito retorna a discussão em 2015 com o Projeto de Lei nº 3.792/2015, que previa o estabelecimento de um sistema de garantia de direitos para crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. A fundamentação que levou adiante a iniciativa está calcada na absoluta ausência de legislação que protegesse os direitos das crianças e dos adolescentes expostos ao sistema de justiça. O que se via com muita frequência era a total ignorância à condição de “ser em desenvolvimento”, resultando em inúmeras situações de violência secundária – dentre elas a violência institucional durante as interações de crianças e adolescentes nos órgãos de proteção, segurança e justiça. A motivação era construir uma proposta legislativa que contemplasse as recomendações normativas internacionais, o que levou a criação de um grupo de trabalho sobre o Marco Normativo da Escuta de Crianças e Adolescentes. O grupo aprimorou o projeto e atuou na conformidade com a legislação nacional, bem como aos acordos internacionais de direitos humanos das crianças e dos adolescentes. Nessa esteira, nasce a nº Lei nº 13.431 de 04 de abril de 2017, regulamentada pelo Decreto nº 9.603 de 10 de dezembro de 2018. Logo, surgiu de um clamor público mundial no que tange à urgência em se estabelecer meios padronizados que permitissem que crianças e adolescentes fossem ouvidos e protegidos, mesmo diante de uma restrição de direitos anterior. É o Estado assumindo sua responsabilidade constitucional de assegurar a prioridade absoluta no atendimento desse grupo, protegendo-o de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. Dentre uma série de garantias, a inovação que essa lei trata está firmada no regramento dos modos de se ouvir crianças e adolescentes em https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2057263 118 processo que demandem uma proteção especial por parte da rede de proteção cuja segurança pública está incluída. No ponto, a lei traz dois instrumentos para que esse direito à voz possa ser exercido: a escuta especializada e o depoimento especial. Esses instrumentos serão meios de possibilitar que as crianças e os adolescentes exerçam um direito, e não um dever. O que isso significa? Falar é facultativo, haja vista que eles não são objetos de produção de prova. O direito de falar prevê 3 garantias: ser ouvido, expressar seus desejos e permanecer em silêncio. Veja o que CHRIS NEWLIN – diretor executivo do Núcleo Nacional de Defesa da Criança dos Estados Unidos escreve nessa perspectiva sobre a oitiva especial: Um método sensível ao nível de desenvolvimento e legalmente seguro para obter a informação fática a respeito das alegações de abuso e/ou exposição à violência, conduzido por um profissional neutro, competentemente treinado, que utiliza pesquisa e técnicas pautadas por práticas como parte de um processo investigativo mais amplo. (Newlin e outros. Forensic interview: bestpractices. Apud ENFAM. Curso de Depoimento Especial, conteudista Eduardo Rezende Melo, Unidade III, 2019, Capítulo I, p.2) O estabelecimento dessas regras também vai implicar na maneira como esse direito à voz deverá ser oferecido pelas instituições. Não será apenas satisfazer a pretensão punitiva a qualquer custo sob a aparência de direito da criança, mas é entender que é interesse do Estado e facultado à vítima. O interesse do Estado é secundário ao interesse da vítima. Sendo assim, é preciso se compreender que a lei traz a voz da criança para a posição de personagem protagonista. E sim, é um meio de se atender a necessidade de segurança da vítima que encontrará nos equipamentos do Estado a proteção de que ela necessita no momento em que uma revelação de violência acontece.Entretanto, ressalte-se que revelar vivências avassaladoras como aquelas relacionadas à violência sexual pode ser extremamente perturbador, uma vez que crianças e adolescentes vítimas são expostos a questões da sexualidade de maneira precoce, para a qual não tem condições de compreender ou dar qualquer consentimento. 119 A oitiva protegida prevista na lei é um caminho para a proteção e para a produção de prova. É proteção porque a partir de uma escuta a rede poderá prover os cuidados imediatos que a criança ou o adolescente necessitem. É proteção porque, assim como previsto na teoria de Maslow, o sentimento de segurança é um dos pilares da felicidade. Encontrar um espaço seguro para falar, diante da revelação haverá provimento de proteção, deve ser a motivação para dar voz a crianças e adolescentes. Aula 3 – A escuta especializada Entendemos que dar voz à criança e ao adolescente é um direito muito recente e que historicamente tal garantia era um sonho muito distante. Um longo caminho jurídico foi trilhado até chegarmos aos instrumentos atuais que possibilitam uma oitiva protegida e que de fato sirva às atribuições dos órgãos de segurança pública. É importante salientar que, nesse ponto de partida para a parte mais prática desse estudo quando falamos em maximizar as informações para os expedientes policiais, não estamos falando de usar a criança e o adolescente como objetos para a consecução de um fim, que, no caso da segurança pública, é o esclarecimento dos fatos e responsabilização dos agressores. MACHADO (2017) explica que: O sistema processual penal costuma ser lido como uma resposta formal e oficial do Estado às violências praticadas no contexto social que guardem relação aparente com o direito penal, ou seja, que possam configurar algum crime ou contravenção (Psicologia e polícia: diálogos possíveis/organização Aline Pozzolo Batista, Juliana Lima Medeiros – Curitiba: Juruá, 2017. P. 89) Nessa lógica, a vítima ou testemunha pode ser considerada apenas um “instrumento para viabilizar a punição do criminalizado”. Ou seja: seu lugar não é de sujeito, mas de objeto – não está colocada na história por aquilo que vivenciou, mas sim por aquilo que pode oferecer ao sistema. 120 O testemunho nessa lógica passa a ser meio de vingança e não de proteção, como é preconizado pela legislação atual. Quando se fala nos instrumentos legais para oitiva de crianças e adolescentes, quais sejam: escuta especializada e depoimento especial, estabelecem-se termos que garantam a proteção dessas pessoas ainda em condição especial de desenvolvimento. Daí a importância de um preparo técnico e ético para os profissionais que forem demandados a ouvir crianças e adolescentes, porque - sob um discurso de proteção - podem ser canais de danos irreparáveis tanto para o desenvolvimento delas como para o sucesso do procedimento policial. Com esse ponto de partida, vamos conhecer o primeiro instrumento? O que é a escuta especializada, então? De acordo com a Lei nº 13.431/2017 no seu artigo 7º estabelece: A Escuta especializada é o procedimento de entrevista sobre situação de violência com criança ou adolescente perante órgão da rede de proteção, limitado o relato estritamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade (finalidade de proteção social e de provimento de cuidados). Com esse conceito, pode-se dizer que a escuta especializada é um instrumento de oitiva com escopo terapêutico? Figura 37 - Sessão de terapia Fonte: https://inpaonline.com.br/blog/psicoterapia-infantil/. A resposta é não. A ideia do legislador era reduzir os danos da revitimização nas situações em que a criança ou o adolescente fossem instados a relatar situações violentas. Vamos de exemplo? 121 Imaginem que sua equipe foi acionada para atender um local onde supostamente ocorreu uma violência sexual contra uma criança. Sabe-se muito pouco dos fatos. Ao chegar ao local, ouve de populares que o suposto autor teria sido o genitor da criança e que ela estaria machucada. Como prover os primeiros cuidados, uma vez que a Polícia agora integra a rede de proteção de crianças e adolescentes? Se não houver como obter algumas informações com quem acompanha a vítima, será necessário conversar com ela para saber de que cuidados ela precisa. Para esses casos, a escuta especializada foi criada: saber que medidas tomar para a proteção imediata daquela criança. Se eu entender que a escuta especializada é um instrumento de terapia ela não atenderá aos objetivos da segurança pública nesse contexto. E mais: se eu entender que ela precisa de terapia somente poderá ser realizada por um psicólogo. Aqui não se trata de ouvir uma criança com a finalidade de tratar traumas ou questões emocionais que foram resultado da violência. Para isso, temos uma rede de atendimento que fará esse trabalho de maneira eficiente. A escuta especializada cumprirá seu papel de garantir os cuidados e proteção imediata no momento do atendimento policial. Ainda com base na conceituação legal de escuta especializada, eu posso considerá-la apenas um instrumento de entrevista forense? Figura 38 - Sala de audiência judicial Fonte: https://pixabay.com/pt/photos/sozinho-garoto-infeliz-triste-3742586/. 122 A resposta também é negativa. Todos os órgãos da rede de proteção do sistema de garantia de direitos: educação, saúde, assistência social, segurança pública e direitos humanos são responsáveis para a tomada de uma escuta especializada quando estiverem desempenhando a função de provimento de cuidados e proteção social. Portanto, não há previsão legal, conforme Decreto nº 9.603/2018, de escuta especializada em âmbito forense. Até agora entendemos o seguinte: 1. A EE (escuta especializada) é instrumento que poderá ser utilizado por toda a rede de proteção do Sistema de Garantia de Direitos; 2. Tem como finalidade apenas o provimento de cuidados e a proteção social; 3. Não pode ser confundida com entrevista forense ou atendimento terapêutico. E como se dará, portanto, uma escuta especializada dentro de uma atuação de segurança pública? A Escuta Especializada é uma atitude e um procedimento estruturante de se ouvir uma criança ou adolescente que revela um fato ocorrido nunca estruturado. É um procedimento mais livre, sem as amarras de protocolos ou procedimentos com regras e requisitos formais. Está fundamentado no relato livre – limitado estrita e exclusivamente ao necessário para o cumprimento de sua finalidade. Vamos às diretrizes para uma escuta especializada? Elas estão descritas no Decreto nº 9603/2018, entre os artigos 19 e 21. Diretriz #1 À criança ou ao adolescente deve ser informado em linguagem compatível com o seu desenvolvimento acerca dos procedimentos formais pelos quais terá de passar e sobre a existência de serviços específicos da rede de proteção, de acordo com as demandas de cada situação (Art. 19, Parágrafo 1º) 123 Desse modo, não se pode dissimular quando estiver escutando uma criança ou um adolescente. É preciso que eles entendam o procedimento da Polícia e sua finalidade. Diretriz #2 A busca de informações para o acompanhamento da criança ou do adolescente deverá ser priorizada com os profissionais envolvidos no atendimento, com seus familiares ou acompanhantes (Art. 19, Parágrafo 2º) A realização da EE não é obrigatória em todos os casos. Se houver condições de se obter informações iniciais para o provimento dos cuidados com terceiros, a criança e o adolescente serão preservados de serem ouvidos nessa modalidade de escuta. Diretriz #3 O profissional envolvido no atendimento primará pela liberdade de expressão da criança ou do adolescente e evitará questionamentos que fujam aos objetivos da escuta especializada (Art. 19, Parágrafoaqueles que atuam com esta temática, fato que ganhou extrema importância com o advento da Lei nº 13.431/17, como veremos mais adiante. Compondo esse microssistema, há também o Código Penal que tem extrema importância quando se trata da criminalização de determinadas condutas praticadas em desfavor de crianças e adolescentes. Embora ele não traga em seu bojo diretrizes específicas no que tange à proteção desse público, é nele que estão disciplinados alguns dos principais crimes, como estupro de vulnerável, subtração de incapaz e maus tratos. Na aula seguinte estudaremos especificamente alguns crimes em espécie previstos no Código Penal, no Estatuto e em outras legislações, os quais possuem extrema relevância para atuação dos profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Integrando também esse microssistema, temos a Lei nº 13.431/17 que foi introduzida em nosso ordenamento em 2017 - conhecida como lei da escuta protegida - que, no ano seguinte, foi publicado seu Decreto regulamentador nº 9603/18. No intuito de atingir seu propósito, a lei normatizou situações não contempladas em legislações anteriores, fortalecendo assim diretrizes apontadas no art. 227 da Constituição Federal, no próprio Estatuto da Criança e do Adolescente e na Convenção Internacional dos Direitos da Criança, internalizada por meio do Decreto nº 99.710/90. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/d99710.htm 11 A lei e o Decreto, como dito acima, além de fortalecerem orientações principiológicas anteriores, apresentaram normas inovadoras. Para compreender melhor os aspectos principais sob a ótica da atuação do profissional de segurança pública, apresentaremos abaixo a lei de forma esquematizada, facilitando assim sua compreensão: Figura 1 - Lei esquematizada LEI 13.431/17 – ESQUEMATIZADA PRINCÍPIOS GERAIS • proteção integral, vivência sem violência, preservação da saúde física e mental, desenvolvimento moral, intelectual e social TIPOS DE VIOLÊNCIA • física • psicológica (com citação expressa, bullying e alienação parental) • violência sexual (abuso, exploração e tráfico) • institucional • patrimonial FORMAS DE COLETA DO RELATO DE VIOLÊNCIA • escuta especializada • depoimento especial, com uso de protocolo e gravação em áudio e vídeo • ambos em local apropriado, acolhedor e com privacidade, por profissional capacitado GARANTIAS EXPRESSAS • prioridade absoluta • proteção da intimidade e condições pessoais e contra qualquer tipo de discriminação • receber informações adequadas à sua idade • ser ouvido ou respeitado o direito de permanecer em silêncio • receber assistência qualificada jurídica e psicossocial • limitação de intervenções e celeridade processual • ser ouvido em horário mais adequado • avaliação contínua de sua segurança, assistência de profissional capacitado • reparação de danos • convivência em família e em comunidade • confidencialidade das informações prestadas • adaptação das declarações para deficientes ou em outro idioma COLETA DE VESTÍGIOS • disposição expressa que cabe ao IML a coleta, guarda e preservação de vestígios de violência sexual DELEGACIAS ESPECIALIZADAS • previsão expressa de criação, incluindo destinação de recursos financeiros MEDIDAS CAUTELARES DE PROTEÇÃO • proibição de contato do autor com a vítima • afastamento do autor da residência em que vive a vítima • acionamento de órgãos socioassistenciais • inclusão em programas de proteção de vítima ou testemunha CRIMES EM ESPÉCIE • violação do sigilo do depoimento especial – Art. 24 Fonte: BOZOLAN (2022). 12 O Decreto, por sua vez, ao regulamentar o diploma acima, trouxe alguns detalhamentos importantes que também serão apontados em quadro esquematizado para facilitar a sua compreensão. Figura 2 - Decreto esquematizado DECRETO 9.603/18 – ESQUEMATIZADO PRINCÍPIOS GERAIS • repetição daqueles previstos na lei e em outros diplomas TIPOS DE VIOLÊNCIA • não repete os tipos de violência, mas no que tange à violência institucional apresenta conceito mais amplo, incluindo poder ser cometida por atos comissivos e omissivos • apresenta conceito amplo do que é revitimização FORMAS DE COLETA DE RELATO DE VIOLÊNCIA • escuta especializada, acrescentando expressamente que: ➢ não tem finalidade de produzir prova para a investigação e a responsabilização criminal ➢ utilização por profissionais de Segurança Pública • depoimento especial, acrescentando expressamente que: ➢ sua finalidade é a obtenção de provas ➢ local reservado, silencioso, com decoração acolhedora e simples ➢ pode ser repetido se houver problemas técnicos ou bloqueios emocionais GARANTIAS EXPRESSAS • repetição das garantias previstas na lei, com destaque para a inserção de alguns detalhamentos: ➢ direito de ser ouvido em processo administrativo ➢ direito de ser consultado sobre ser atendido ou não por profissional do mesmo gênero • previsão de estabelecimento de mecanismos que permitam a cooperação, a integração dos órgãos públicos, o compartilhamento de informações e atendimento intersetorial EDUCAÇÃO • previsão expressa de como deverá agir o órgão de educação quando for revelada uma violência - art. 11 REGISTRO DE OCORRÊNCIA POLICIAL • previsão expressa de alguns aspectos que deverão ser observados no momento do registro, dentre eles o direito a sua realização mesmo se estiverem desacompanhados Fonte: BOZOLAN (2022). Da análise dos dois instrumentos, é possível observar alguns regramentos que impactam diretamente a atividade policial, por exemplo a necessidade de capacitação continuada, a forma adequada de coleta do relato de violência, o direito ao registro de ocorrência (mesmo quando a criança ou adolescente estiver desacompanhado de pessoa responsável), a conceituação 13 de violência institucional e de revitimização e a criação de crime específico de violação do relato colhido em sede de depoimento especial. Desta forma, a atuação dos profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp) deve estar atenta aos normativos esculpidos, propiciando o atendimento adequado a esse público, fortalecendo seu papel protetivo na atuação preventiva e repressiva. Por fim, integrando a composição do microssistema, temos a Lei nº 14.344/22, conhecida como Lei Henry Borel, a qual veio trazer, à semelhança da Lei Maria da Penha, importantes instrumentos de proteção e prevenção quando a violência ocorrer em âmbito familiar. Abaixo, como forma de apresentar algumas linhas gerais deste novo diploma, apresentaremos novamente um quadro esquematizado para facilitar a sua compreensão. Figura 3 - Lei esquematizada LEI 14.344/22 – ESQUEMATIZADA PRINCÍPIOS GERAIS • reforço do princípio da proteção integral TIPOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA • no âmbito do domicílio • no âmbito da família • em qualquer relação doméstica e familiar GARANTIAS EXPRESSAS • quanto à atuação da autoridade policial que deverá: ➢ encaminhar a vítima ao sistema de saúde e ao IML ➢ encaminhar vítima, testemunha e familiares ao Conselho Tutelar ➢ garantir proteção policial à vítima ➢ fornecer transporte para serviço de acolhimento ou para local seguro à vítima e familiares PROTEÇÃO PARA QUEM DENUNCIA • previsão expressa de possibilidade de proteção e compensação do denunciante • denunciante pode condicionar o fornecimento de informações à execução imediata de medidas de proteção • possibilidade de ser incluindo no programa de proteção de testemunhas MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA DE AFASTAMENTO DO3º). Se você, integrante da segurança pública, precisar “descobrir coisas” a respeito do suposto fato criminoso eu NÃO PODEREI UTILIZAR A EE. E todas as perguntas que forem necessárias serão obrigatoriamente relacionadas a finalidade urgente do momento: prover cuidado e proteção. Diretriz #4 A escuta especializada será realizada por profissional capacitado (Art. 20). Somente os profissionais treinados para um atendimento especializado poderão conduzir uma EE, seja em qualquer das esferas da rede de proteção: segurança pública, saúde, educação, assistência social e direitos humanos. É preciso ser certificado num curso específico para esse fim para realizar uma escuta dessa natureza. Diretriz #5 Os órgãos, os serviços, os programas e os equipamentos adotarão procedimentos condizentes com os princípios estabelecidos no Art. 2º do Decreto nº 9.603/2018) (Art. 21). 124 SAIBA MAIS! Os órgãos de segurança pública que utilizarem o instrumento da EE deverão garantir os princípios a seguir: Proteção integral Melhor interesse Preferência em receber atendimento Intervenção precoce em situações de perigo Exprimir opiniões livremente Não discriminação em função de qualquer característica Direitos preservados Ser consultado sobre preferências Você pode conferir esses princípios no link: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015- 2018/2018/Decreto/D9603.htm (Acesso em 13/10/2022). Diretriz #6 As interações dos profissionais com a criança ou o adolescente, quando necessárias, devem seguir os procedimentos da escuta especializada a partir das orientações de cada serviço, não devendo de nenhum modo receber a conotação investigativa Art. 19º, parágrafo 4º. Mais uma vez se reitera: a EE não é procedimento para obtenção de prova ou para levantamento de detalhes do fato com vistas a esclarecê-lo. O foco aqui é a vítima ou testemunha, naquilo que elas precisarem no imediato atendimento. Diante das diretrizes acima, vamos partir para uma definição mais prática de uma escuta especializada. Ela ainda não pode ser confundida com uma revelação espontânea. A “revelação espontânea da violência” pela vítima ou testemunha geralmente ocorrerá no ambiente onde a criança ou o adolescente se sinta seguro para relatar a violação sofrida (família, escola, durante um atendimento de saúde, no balcão da delegacia, etc.). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Decreto/D9603.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2018/Decreto/D9603.htm 125 Em tais ocasiões, as pessoas às quais a situação de violência está sendo relatada devem apenas ouvir a criança ou o adolescente com atenção, sem qualquer intervenção e confeccionar o registro do relato. Isso pode acontecer em qualquer lugar e não se configura uma escuta especializada necessariamente. Se uma criança ou um adolescente se sentir seguro e tiver uma pessoa de confiança, eles poderão fazer um relato de violência em qualquer lugar para qualquer pessoa. Essa pessoa que ouvir uma revelação dessa natureza será conhecida como uma testemunha, denominada testemunha de revelação. Ela deverá narrar o que ouviu aos órgãos competentes a fim de buscar ajuda para proteção, esclarecimento dos fatos e, se for o caso a responsabilização do autor. Ela fará um relato da versão da história que ouvir, formalizando a revelação espontânea da criança. Caso o relato da testemunha de revelação não seja suficiente para o provimento dos cuidados iniciais, a criança ou o adolescente poderão ser ouvidos em escuta especializada. O Decreto nº 9.603/2018 relata a respeito do assunto no artigo 4, parágrafo 3, conforme descrito abaixo: Na hipótese de revelação espontânea da violência, a criança e o adolescente serão chamados a confirmar os fatos na forma especificada no § 1º deste artigo (escuta especializada ou depoimento especial). Resumindo: uma revelação espontânea poderá ensejar num procedimento de oitiva, seja ele em escuta especializada seja em depoimento especial. Vamos exemplificar algumas situações em que uma escuta especializada poderá necessária na rotina de atuação da segurança pública. Exemplo 1: Um adolescente sofre um roubo em via pública. Uma guarnição da Polícia Militar passa no local e é acionada pelo adolescente que informa o roubo. Um policial militar capacitado poderá proceder a escuta especializada do adolescente para saber se ele está machucado e para ir em busca do criminoso e do bem roubado, configurando uma situação flagrancial. Exemplo 2: Uma criança que se apresenta no balcão de uma delegacia de polícia narrando uma situação de violação de direitos dela ou de terceiros: sua mãe que vem sendo agredida fisicamente pelo companheiro. Ela poderá 126 comunicar a ocorrência sem necessidade de um representante legal (previsão no artigo 13 parágrafo 2º do Decreto nº 9.603/2018). O policial civil capacitado que fizer tal atendimento poderá ouvir a criança em escuta especializada, limitando suas indagações à proteção imediata da criança e da sua mãe. Exemplo 3: o batalhão escolar ou o policial responsável pelo projeto Proerd (Programa educacional de resistência às drogas), na caixinha de perguntas que deixam à disposição das crianças na escola, poderá se deparar com narrativas de violações de direitos - seja na condição de vítimas ou testemunhas. Uma vez identificado o escritor, poderão proceder a escuta especializada com vistas a proteger e cuidar da criança ou do adolescente em questão. Em suma: a EE tem uma finalidade específica, mas não uma estrutura rígida – sendo sua execução um procedimento que seguirá as diretrizes legais. Aula 4 – O Depoimento Especial O que é o Depoimento Especial? De acordo com a Lei nº 13.431/2018, é o procedimento de oitiva de criança ou adolescente vítima ou testemunha de violência perante autoridade policial ou judiciária (finalidade de produção de provas). Ou seja: é o procedimento que vai garantir à polícia e à justiça as informações nas declarações de crianças e adolescentes com vistas a esclarecer os fatos sob apuração e compor os procedimentos da investigação para instrução dos processos judiciais. É um procedimento formal e, por isso, possui requisitos obrigatórios. São eles: ▪ Gravação com equipamento que assegure a qualidade audiovisual. ▪ Regido por protocolo de oitiva. ▪ Conduzido por autoridades capacitadas, observado o disposto no art. 27 da Lei 13.431/2017 e realizado em ambiente adequado ao desenvolvimento da criança ou do adolescente. 127 ▪ Os profissionais do sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência participarão de cursos de capacitação para o desempenho adequado das funções previstas. ▪ Não repetição, exceto quando justificada a sua imprescindibilidade pela autoridade competente e houver a concordância da vítima ou da testemunha, ou de seu representante legal. ▪ Os órgãos policiais envolvidos envidarão esforços investigativos para que o depoimento especial não seja o único meio de prova para o julgamento do réu. É importante ressaltar que o DE não resume a investigação. Não é a prova menos importante que pode ser suprimida em todos os casos. Também não é a verdade absoluta dentro do suposto fato criminoso que estamos investigando. O DE é uma das engrenagens da máquina que move a apuração criminal. Ela funcionará bem conjuntamente com as demais provas que serão levantadas no corpo do apuratório. Figura 39 - O DE na investigação Fonte: Arquivo pessoal, Juliana Amorim. Diante desses requisitos, a polícia estava diante de um grande desafio: adequar suas práticas para atender a lei e tornar seu trabalho de enfrentamento cada vez mais profissional, técnico e científico. 128 Em 2017, com a edição da lei, a Polícia Civil do DistritoFederal – buscando se adequar totalmente à legislação para continuar seu trabalho dentro da Delegacia Especial de Proteção à Criança e ao Adolescente - iniciou o estudo com base nas experiências com escuta de crianças e adolescentes desde sua inauguração em 1999 - para a construção de protocolo de depoimento especial que se adequasse às necessidades do trabalho policial. O objetivo do documento, denominado Protocolo de Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança e Adolescente, é colher, na esfera policial, o Depoimento Especial de crianças e adolescentes apontados como vítima ou testemunha de violência, priorizando a condição de ser em desenvolvimento, a diminuição dos danos da revitimização e garantindo a oportunidade de direito de fala, com a finalidade de produzir elementos probatórios, com base na legislação vigente. Realizá-lo, exclusivamente por policiais devidamente capacitados, por meio do presente protocolo, como instrumento auxiliar na elucidação e compreensão dos fatos em apuração. Figura 40 - Protocolo de Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança e Adolescente. Fonte: Arquivo pessoal, Juliana Amorim. 129 Foi assim que a PCDF em parceria com a Universidade de Brasília desenvolveu o documento em tela. É um procedimento para a realização do DE dividido em 8 fases, quais sejam: apresentação, ambientação e avaliação, orientações e instruções, transição, relato livre, questões pertinentes à investigação policial, fechamento e tópico neutro. Figura 41 - Protocolo de Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança e Adolescente. Fonte: Arquivo pessoal, Juliana Amorim. A construção do documento acima se deu em virtude de alguns fatores, uma vez que já existiam à época vários protocolos, que atenderiam pelo menos minimamente, o requisito legal do uso de um documento com essa finalidade. Por que um protocolo novo no Brasil? 1. A necessidade de um protocolo específico à esfera policial baseado nas demandas da legislação vigente no país; 2. Exploração de peculiaridades da conduta criminosa que são fundamentais para a tipificação do crime; 3. Adequação ao ambiente policial e entendimento de sua realidade; 4. Outros protocolos não são capazes de abarcar as demandas do contexto; 130 5. Falta de padronização do uso de protocolos no país; 6. Falta de uso de protocolos no contexto de oitivas dentro da polícia. A realidade brasileira se mostrava muito fora dos padrões estabelecidos pela legislação. Era preciso que a partir da atribuição legal de tomada de depoimentos especiais as polícias apresentassem uma resposta que se adequasse à lei e às peculiaridades de seu trabalho. A construção, então, baseou-se como fontes de pesquisa: a) Literatura - concepção teórica sobre o tema e outros protocolos que abarcam a oitiva de crianças e adolescentes validados pela comunidade científica nacional e internacional; b) Entrevista com profissionais e especialistas da área; c) Grupos focais de policiais com formações em áreas do comportamento humano (psicologia, psicopedagogia, psicanálise e pedagogia), bem como vasta experiência em investigação policial e em coleta de relatos de crianças e adolescentes vítimas e testemunhas de violência. Nas atividades de construção, a equipe realizou um levantamento de protocolos já existentes (todos eles relacionados ao âmbito forense), grupos focais e construção dos itens que deveriam compor o procedimento. Vários documentos foram analisados e testados com vistas a entender se eles atenderiam a demanda do trabalho policial. Foram eles: 131 Figura 42 - Protocolos estudados para a construção do Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança e Adolescente. Fonte: Arquivo pessoal, Juliana Amorim. Além disso, foram realizados estudos de evidências de validade, com vistas a verificar se, de fato, o uso do protocolo trazia benefícios nas perspectivas da proteção quando da produção de prova. Verificou-se que com o uso do procedimento houve um aumento em mais de 30% de verbalizações de violência em relato livre – aumentando o valor probatório do depoimento. Houve ainda entrevistas com especialistas na temática de proteção de crianças e adolescentes que avaliaram o documento, opinando quanto a sua efetividade e legalidade. E, ao final, a elaboração de um manual de uso foi realizada, a fim de instrumentalizar os profissionais que fariam uso do protocolo em suas rotinas de investigação. 132 Figura 43 - Manual de uso Protocolo de Polícia Judiciária para Depoimento Especial de Criança e Adolescente. Fonte: Arquivo pessoal, Juliana Amorim. Ambos os documentos estão disponíveis no link a seguir: E ao final a elaboração de um manual de uso foi realizada, a fim de instrumentalizar os profissionais que fariam uso do protocolo em suas rotinas de investigação, contendo: ▪ Orientações para o uso do protocolo; ▪ Informe teórico sobre conceitos presentes; ▪ Material de referência para consulta; ▪ Especificações que agreguem ao protocolo. É imperioso enfatizar que este curso não habilita para a tomada de depoimento especial, uma vez que para tanto são necessários instruções e treinamento específicos. https://www.pcdf.df.gov.br/informacoes/manuais-e-protocolos 133 Aula 5: A revelação da criança e do adolescente e as evidências de veracidade. Como identificar se aquilo que está sendo dito pela criança corresponde ao que ela viveu ou assistiu? Quais são os elementos que apontam para a veracidade do relato? Quando uma força policial é chamada para atender um caso de vitimização de crianças e adolescentes, de modo geral, outros elementos são atendidos além da vítima ou testemunha em si. É possível dizer que são ouvidas, além da vítima, uma história e um adulto responsável. Até hoje, mesmo depois da promulgação da Lei nº 13.431/2017, crianças e adolescentes são ouvidos de forma reiterada pelos órgãos da Rede de Atenção a Pessoas em Situação de Violência, de modo a prejudicar a preservação da memória dos fatos, além de promover um processo chamado de revitimização. Tal conduta pode trazer consequências psicopatológicas importantes no que se refere à reatualização dos afetos referentes à situação previamente vivida de violência. Revitimização – discurso ou prática institucional que submeta crianças e adolescentes a procedimentos desnecessários, repetitivos, invasivos, que levem as vítimas ou testemunhas a reviver a situação de violência ou outras situações que gerem sofrimento, estigmatização ou exposição de sua imagem (BRASIL, DECRETO Nº 9.603, 10/12/2018). Quando uma pessoa em estado de desenvolvimento é ouvida por sua condição de vítima ou de testemunha de violência, é preciso levar em consideração quais são as condições de preservação da memória dos fatos, bem como sua capacidade de comunicar aquilo que viu ou viveu. A memória representa a habilidade dos seres vivos de adquirir, reter e usar informações ou conhecimentos (TULVING, 1987). Portanto, não se trata apenas de lembrar algo. Mas sim, de um processo complexo influenciado por vários elementos que vão desde decodificar o que se aprendeu a partir dos sentidos, passando por manter esse conteúdo até chegar na capacidade de contar sobre o que percebeu. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/decreto/d9603.htm 134 Segundo STEIN (2009), antes de ouvir uma criança ou adolescente é preciso compreender quais são os caminhos que seguem a tarefa de testemunhar. Conforme a autora, seriam eles: 1. O indivíduo percebe um determinado evento. 2. A experiência fica armazenada em sua memória. 3. A pessoa buscaacessar as informações retidas em sua memória. 4. A capacidade do sujeito de comunicar aquilo que está retido em sua memória. 5. Motivação do sujeito para contar. Quando o sujeito está diante de um evento de violência, vários fatores influenciam seu processo de codificação e armazenamento, ou seja, sua compreensão do que se trata aquilo que ele viu ou viveu. Depende, para isso, do seu nível atencional no momento, do seu conhecimento prévio sobre aquele tipo de evento, o interesse ou importância do ocorrido, a duração e repetição do evento original, assim como o nível do estresse no momento da codificação. Para que ocorra o resgate da experiência na memória é preciso levar em consideração a quantidade de tempo transcorrido entre o evento original e seu relato, o número de vezes que as lembranças da ocorrência são acessadas, a quantidade e o tipo de entrevistas às quais o sujeito foi submetido e as alterações nas crenças, ou seja, o quanto ele acredita que se tratar de um evento de violência de fato. Esses fatores influenciarão o quanto as recordações serão fortalecidas, enfraquecidas ou distorcidas. Além disso, o estado psicológico do indivíduo, a intensidade emocional do evento e a motivação para contar terão forte impacto no relato. Assim como a condição desta memória; como ela foi preservada. É preciso levar em consideração também o grau de semelhança ou discrepância entre as circunstâncias em que o evento foi vivenciado e aquelas nas quais o indivíduo está recuperando as informações, pois elas vão interferir no quanto se lembrará. Isso ocorre porque a memória humana é influenciada pelo conhecimento prévio esquemático ou conhecimento baseado em scripts. As memórias, porém, não são armazenadas de forma integral e, mesmo estabelecidas e consolidadas, não são permanentes. Este é o fenômeno do esquecimento: somos melhores na generalização e na 135 abstração de conhecimentos do que na retenção de um registro literal de eventos. O esquecimento é fisiológico e ocorre continuamente, enfraquecendo o traço de memória do que foi aprendido. De fato, esquecer é uma função essencial ao bom funcionamento da memória: seria impossível, e pouco prático, evocar com riqueza de detalhes todas as informações que necessitamos num único dia. (DALMAZ et all) Segundo ROVINSKI (2019), existem 6 fatores fundamentais que influenciam no grau de exatidão de um relato de vitimização: 1) As demandas cognitivas exigidas durante a coleta dos dados. 2) O tempo transcorrido do evento. 3) As circunstâncias em que o fato é recordado (ex.: tipo de perguntas formuladas). 4) Fatores emocionais e sociais. 5) Motivação para contar. 6) Desejo de agradar o entrevistador. Apesar de todo conhecimento científico construído em torno da Psicologia do Testemunho, ainda pesa sobre o entrevistador de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência o fato de que esse tipo de evento pode não deixar vestígios nos corpos da vítima e nem sempre deixam danos psicológicos facilmente detectáveis. A falta desses indícios psicopatológicos não pode ser vista como sinal de que não houve violência (STEIN et all, 2010). Em muitos casos, o relato da criança ou do adolescente torna-se a única evidência para tornar a violência visível e audível. Dessa forma, é preciso que expectativas sejam equalizadas no que se refere à produção de prova por parte da vítima. Além disso, é mister considerar que pessoas em estágio de desenvolvimento apresentam características especiais no que se refere à linguagem e memória como foi discutido anteriormente no Módulo 2. Uma estratégia muito eficiente na compreensão global do caso é a reunião de informações que a rede de serviços, instituições e pessoas que estão ao redor da vítima já produziu. Os serviços de saúde podem fornecer informações fundamentais sobre as condições físicas e emocionais da criança ou adolescente; assim como a escola pode relatar possíveis revelações 136 ocorridas ali. O Conselho Tutelar pode informar se já existe um histórico de acompanhamento de determinada família, ampliando o olhar sobre os atores envolvidos nela. Portanto, é preciso compreender que o atendimento de pessoas em situação de violência não se faz sozinho ou em uma instituição única. Para se dar conta da complexidade envolvida nos casos, é preciso que toda a Rede se reúna e, assim, possa oferecer um atendimento verdadeiramente integral. FALSAS MEMÓRIAS E DEPOIMENTO INFANTOJUVENIL Quando se pretende entrevistar uma vítima ou testemunha de violência que ainda esteja em estágio de desenvolvimento, o que se procura é um relato confiável que possa aumentar o valor da prova testemunhal. Porém, quando estamos falando dessa temática, o risco de promover aprofundamento no sofrimento através de entrevistas malconduzidas é enorme. O impacto do abuso sexual à saúde mental das vítimas tem sido extensamente estudado e relatado na literatura. É consenso entre os autores que a violência sexual aumenta o risco de as vítimas desenvolverem algum transtorno mental e apresentarem comportamentos autodestrutivos (SERAFIM, 2011). Não é possível perder a perspectiva de que nessa área de atuação lida- se com pessoas que sofreram traumas importantes e que por consequência, possam estar em estado de profunda fragilidade emocional e psicológica. As emoções aí envolvidas, são capazes de influenciar, inclusive, na qualidade da memória e na capacidade de comunicação desse sujeito. Estudos demonstram que “crianças em situações de estresse, ou seja, com alto teor emocional, com valência negativa e com alto nível de alerta, geralmente apresentam uma melhora da memória para o evento” (STEIN, 2010, p. 163)”. Todavia, com as informações periféricas relativas ao evento, como data e duração, parecem ocorrer falhas. Eles podem ser esquecidos ou distorcidos. Aqui apresenta-se um grande desafio no que se refere a abuso sexual e crenças limitantes. A imensa maioria dos abusos cometidos contra crianças e adolescentes são perpetrados por algum familiar ou pessoa próxima. Aqueles que ocorrem no âmbito doméstico, geralmente vêm associados a algum tipo de distorção no que diz respeito ao conceito do ato. Relatos de vítimas mostram 137 que muitos abusadores cometem o crime dizendo à sua vítima que aquilo se trata de algum tipo de carinho especial ou cuidado privilegiado. Isso pode diminuir o nível de estresse associado ao crime e fazer com que a vítima não consiga nomear a experiência de forma correta. Aqui entra a importância fundamental de campanhas educativas sobre abuso sexual nas escolas e em instituições que acolhem crianças e adolescentes. Outro dado importante referente à fidedignidade do relato se refere ao tempo transcorrido entre a violência vivida e o depoimento. Estudos de campo realizados por equipes especializadas em avaliar crianças vítimas de situações de abuso sexual e violência também indicam boa recordação das crianças para esse tipo de episódio. Entretanto, a qualidade da memória para o evento é prejudicada pelo tempo transcorrido entre a ocorrência do evento e a entrevista investigativa. Quanto mais demora em realizar a entrevista com crianças, maior perda de informações relevantes sobre o evento é observada (LAMB, STERNBERG e ESPLIN, 2000 apud STEIN, 2010, p. 164). Outro dado importante referente à fidedignidade do relato se refere ao tempo transcorrido entre a violência vivida e o depoimento. Entende-se que quanto menor a criança, menor a preservação de traços periféricos (detalhes) da violência na memória. Devido a essa constatação, a Lei nº 13.431/2017 traz a importância de que se colha depoimento especial de crianças de forma antecipada. Art. 11. O depoimento especial reger-se-á por protocolos e, sempre que possível, será realizado uma única vez, em sede de produção antecipada de prova judicial, garantida aampla defesa do investigado. § 1º O depoimento especial seguirá o rito cautelar de antecipação de prova: I - quando a criança ou o adolescente tiver menos de 7 (sete) anos; II - em caso de violência sexual. (BRASIL, LEI 13.431, 4/4/2017). Para além da carga emocional envolvida no evento e do tempo transcorrido entre a violência e o depoimento, outro desafio se impõe para a fidedignidade do relato. Este também pode ser influenciado pelo contexto social no qual a vítima ou testemunha está inserida. Dessa forma, a sugestionabilidade é um dos maiores empecilhos ao relato estrito do fato. A sugestionabilidade consiste na tendência de um indivíduo em incorporar informações distorcidas, provindas de fontes externas, de forma intencional ou acidental, às suas recordações pessoais (SCHACTER, 1999 apud STEIN, 2010, p. 167) http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13431.htm 138 Considerando que a recordação livre parece produzir menos erros, ela é o melhor método para se identificar possíveis elementos de sugestionabilidade no depoimento de uma criança ou adolescente. Além disso, como aponta STEIN (2010), tanto fatores inerentes ao estágio de desenvolvimento cognitivo da criança quanto o modo como ela é entrevistada, influenciarão na possibilidade do depoente ser sugestionável. Conclui-se, portanto, que a entrevista de crianças e adolescentes com fins de produção de provas precisa ser realizada por profissional treinado em protocolos de padrão científico para que se evite perguntas que levem a respostas sugestionadas. Finalizando Neste módulo, você aprendeu que: • O processo de valorização da voz de crianças e adolescentes vem sendo historicamente construído; • Já existe regulamentação em lei (Lei nº 13.431/2017) para se ouvir crianças e adolescentes sobre situações de violência; • A Escuta Especializada será realizada para proteção social e provimento de cuidados; • O Depoimento Especial será realizado apenas em âmbitos policial e judicial para produção de provas; • É possível avaliar as declarações de crianças e adolescentes de modo a garantir sua proteção e obter as informações necessárias para o esclarecimento dos fatos. 139 Referências Bibliográficas AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION et al. DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed Editora, 2014. Animação: Comunicação. Janela da Alma Psicanálise, 2018. Disponível em:https://www.youtube.com/watch?v=C46FsySwXGs&ab_channel=JaneladaAl maPsicanalise. Acessado em 01/11/2022. 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O microssistema apresentado nos tópicos acima demonstrou que, no enfrentamento à violência praticada contra criança e adolescente, os profissionais de segurança pública devem contextualizar o fato criminal sob a ótica desses instrumentos balizadores, seja para identificar corretamente o crime praticado, ou para utilizar o instrumento adequado de coleta de narrativa, para ofertar todas as medidas protetivas de urgência previstas e seja, ainda, para evitar a prática de violência institucional e de revitimização. Nas aulas e módulos que se seguem, vamos discorrer de forma mais detalhada sobre alguns tópicos aqui apresentados, dentre eles os crimes em espécie, a colheita da prova, o depoimento especial e a escuta especializada, as medidas protetivas de urgência, o registro da ocorrência policial e as formas de atendimento, reforçando assim o aprendizado. 15 Aula 2 - Legislação criminal – dos crimes contidos no Código Penal, no Estatuto da Criança e do Adolescente e em demais legislações Inicialmente, é imperioso salientar que quando pensamos em proteção à criança e ao adolescente, o primeiro diploma que vem à mente é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), uma vez que essa legislação assegura a esse público o direito à vida, saúde, alimentação, educação, esporte, lazer, profissionalização, cultura, dignidade, respeito, liberdade e convivência familiar e comunitária. A lei supramencionada contempla, ainda, diversas violações, contudo ela não esgota o rol de crimes que foram desenhados para trazer proteção a esse público, podendo ser observada a existência de outras legislações que trazem mais crimes que, de maneira direta ou indireta, visam protegê-los, como por exemplo o crime de violação do sigilo do depoimento especial, contido na Lei nº 13.431/17, os artigos 25 e 26 da Lei Henry Borel, os crimes previstos na lei que regula a posse e o porte de arma, entre outros. Nessa aula veremos com mais profundidade alguns tipos de crimes, dentre os quais aqueles mais difíceis de serem identificados, os que podem se apresentar em formatos diferentes ou ainda aqueles que são pouco conhecidos. Nosso estudo terá uma abordagem prática, voltada para atuação dos profissionais integrantes do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), permitindo a eles que, ao identificarem práticas violadoras, possam agir prontamente, cumprindo seu papel determinado por lei. 1. Dos crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente Primeiramente, alguns aspectos gerais atinentes a todos os crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e que tem importância e impacto direto na atividade policial merecem algumas observações. 16 Inicialmente, a primeira observação diz respeito à ação penal, asseverando o art. 227 que todos os crimes previstos no Estatuto são de Ação Pública Incondicionada e, por isso, não estão condicionados à vontade da vítima ou de seu representante legal, comumente pais e/ou mães. Assim, uma vez feito o registro de ocorrência policial ou a comunicação do crime por meio do acionamento do policiamento ostensivo, não será possível arquivar ou desistir do procedimento, nem em sede de Delegacia tampouco no Poder Judiciário, impondo ao Policial o dever de agir, independentemente de a parte querer ou não prosseguir com registro. O segundo ponto importante a ser ressaltado é que, de acordo com o art. 226, §1º e § 2º, houve uma inovação introduzida pela Lei nº 14.344/22 o qual não serão aplicadas as regras previstas para os crimes considerados de menor potencial ofensivo, como por exemplo, em caso de condenação, está vedada a aplicação de penas de cestas básicas, prestação pecuniária ou pagamento isolado de multa. Após abordarmos alguns aspectos que são inerentes a todos os crimes previstos no Estatuto, passaremos para uma análise geral e, sem seguida, destacaremos alguns delitos que possuem maior grau de dificuldade de serem visualizados, se praticados por meio de formas menos comum ou por determinados sujeitos ativos. Começaremos nossa análise, aqui separada em blocos, com os crimes relacionados aos serviços da área de saúde. De acordo com o Estatuto, será crime sempre que a gestante não tiver acesso ou não receber a declaração de nascimento contendo as informações de intercorrências e de desenvolvimento do neonato. Igualmente, é considerado crime a não identificação correta da parturiente e do neonato. Essas infrações estão previstas nos artigos 228 e 229 e possuem pena que variam entre 6 meses a 2 anos de detenção. Nota-se que eles são pouco difundidos e que, na atribulação diária da atividade policial, podem não ser percebidos pelo agente do estado. Comumente é possível observar uma consequência prática dessa conduta criminal, a tão temida troca de bebês em razão da não identificação 17 correta da mãe e do nascituro, fatos que frequentemente são estampadas em manchetes de jornal.3 Figura 4 - Reportagem Jornalística Fonte: Jornal Correio Braziliense (2022). Seguindo nossa análise agrupada em blocos, encontraremos alguns crimes que estão diretamente relacionados à atuação dos Agentes de Estado e com a execução de atos que envolvem a apreensão de menores em conflito com a lei, compreendidos aqui os aspectos de apreensão ilegal, da falta de comunicação sobre a apreensão e da extrapolação do prazo na liberação do menor apreendido. Inicialmente destacam-se os crimes previstos nos art. 230 e 231, que versam sobre as formalidades no momento de apreender menores em conflito com a lei. Art. 230. Privar a criança ou o adolescente de sua liberdade, procedendo à sua apreensão sem estar em flagrante de ato infracional ou inexistindo ordem escrita da autoridade judiciária competente: Pena - detenção de seis meses a dois anos. Parágrafo único. Incide na mesma pena aquele que procede à apreensão sem observância das formalidades legais. Art. 231. Deixar a autoridade policial responsável pela apreensão de criança ou adolescente de fazer imediata comunicação à autoridade judiciária competente e à família do apreendidoou à pessoa por ele indicada: Pena - detenção de seis meses a dois anos. 3https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2022/02/4983698-41-dias-depois-exame-de-dna- confirma-troca-de-bebes-em-hospital-de-goias.html Acesso em 13/09/2022 https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2022/02/4983698-41-dias-depois-exame-de-dna-confirma-troca-de-bebes-em-hospital-de-goias.html https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2022/02/4983698-41-dias-depois-exame-de-dna-confirma-troca-de-bebes-em-hospital-de-goias.html 18 No primeiro artigo notamos que é compreendido como crime a apreensão ilegal do menor, sem estar em situação flagrancial ou sem ordem judicial que justifique a apreensão. O segundo artigo aborda uma questão imediatamente posterior, ou seja, uma vez feita a apreensão com observância das normas legais pertinentes, o responsável pela apreensão deverá fazer a comunicação imediata à Autoridade Judiciária e à família do menor ou outra pessoa indicada por ele. Para os dois casos a pena a ser aplicada são iguais, detenção de 6 meses a 2 anos. Art. 234. Deixar a autoridade competente, sem justa causa, de ordenar a imediata liberação de criança ou adolescente, tão logo tenha conhecimento da ilegalidade da apreensão: Pena - detenção de seis meses a dois anos. Art. 235. Descumprir, injustificadamente, prazo fixado nesta Lei em benefício de adolescente privado de liberdade: Pena - detenção de seis meses a dois anos. Ainda, é considerado igualmente crime a manutenção do menor apreendido quando já houver causa que determine a sua liberação, quando já tiver expirado o prazo da apreensão imposta, por exemplo. Também será crime se, observada circunstância que torne a apreensão ilegal, não for o menor posto em liberdade imediatamente (art. 234 e 235). Art. 237. Subtrair criança ou adolescente ao poder de quem o tem sob sua guarda em virtude de lei ou ordem judicial, com o fim de colocação em lar substituto: Pena - reclusão de dois a seis anos, e multa. Art. 238. Prometer ou efetivar a entrega de filho ou pupilo a terceiro, mediante paga ou recompensa: Pena - reclusão de um a quatro anos, e multa. Parágrafo único. Incide nas mesmas penas quem oferece ou efetiva a paga ou recompensa. Art. 239. Promover ou auxiliar a efetivação de ato destinado ao envio de criança ou adolescente para o exterior com inobservância das formalidades legais ou com o fito de obter lucro: Pena - reclusão de quatro a seis anos, e multa. Parágrafo único. Se há emprego de violência, grave ameaça ou fraude: (Incluído pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003) Pena - reclusão, de 6 (seis) a 8 (oito) anos, além da pena correspondente à violência. Em relação aos crimes previstos nos artigos 237, 238 e 239, podemos evidenciar que a conduta está relacionada à retirada da criança ou adolescente de seu responsável com a finalidade específica de entregar a outrem. Logo, temos a subtração para colocação em lar substituto, prevista 19 no primeiro artigo. Em seguida temos a entrega de filho para adoção mediante pagamento ou recompensa, conduta descrita no art. 238. Por fim, temos a remessa para o exterior de criança ou adolescente sem as formalidades legais ou com a intenção de obtenção de lucro, no art. 239. Vale ainda ressaltar a respeito desses crimes que o art. 237 do Estatuto é diferente do art. 249 do CP, que cuida do crime de subtração de incapaz, uma vez que o primeiro tem finalidade específica de entregar a vítima a outrem e o crime previsto no Código Penal não tem. Subtração de incapazes Art. 249 - Subtrair menor de dezoito anos ou interdito ao poder de quem o tem sob sua guarda em virtude de lei ou de ordem judicial: Pena - detenção, de dois meses a dois anos, se o fato não constitui elemento de outro crime. § 1º - O fato de ser o agente pai ou tutor do menor ou curador do interdito não o exime de pena, se destituído ou temporariamente privado do pátrio poder, tutela, curatela ou guarda. § 2º - No caso de restituição do menor ou do interdito, se este não sofreu maus-tratos ou privações, o juiz pode deixar de aplicar pena. Importante ainda consignar que o art. 239 revogou tacitamente o art. 245, §2º do Código Penal, pois o crime previsto no referido Estatuto é mais abrangente do que o previsto no Código Penal, uma vez que no ECA está incluindo a punição àquele que, mesmo não tendo lucro, não observa as formalidades legais para o envio do menor ao exterior. É fundamental lembrar que por se tratar de remessa de criança ou adolescente para o exterior a atribuição pela investigação ficará a cargo da Polícia Federal. Agora veremos alguns crimes de maneira individual, em razão de sua maior singularidade, sempre sob a ótica rotineira da atividade policial. Art. 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente: Esse crime possui um aspecto pouco explorado pelos profissionais de Segurança Pública. Na descrição contida no referido artigo, essa vítima, criança ou adolescente, tem que estar sob a vigilância, guarda ou autoridade de outrem, conforme descrito abaixo. Art. 232. Submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento: Pena - detenção de seis meses a dois anos. 20 A forma normalmente aplicada é aquela destinada ao menor apreendido que pode ser submetido a vexame ou constrangimento pelo Agente do Estado que promove sua vigilância. Entretanto, também é possível a aplicação desse crime para os genitores que pratiquem condutas que importem em humilhações, rebaixamento moral ou desonra da criança ou do adolescente. Ademais, esta conduta também pode ser praticada em ambiente escolar, por meio de uma ação inadequada de um agente de educação, uma vez que o aluno estará sob a autoridade e, se submetido a um vexame ou constrangimento, deverá haver atuação policial. Assim, teremos a configuração do crime quando o professor impõe como punição por mau comportamento o uso de adereços ridículos, com palavras de menosprezo ou quando o aluno é colocado de castigo na frente da sala de aula de joelhos ou no canto para que todos vejam. NA PRÁTICA: “Um casal procurou a Delegacia de Polícia narrando que o filho, com 9 anos de idade, passou a ter problemas com um dos professores da escola em que estudava. Afirmaram que a criança tinha dificuldades de fala e que, às vezes, gaguejava. Durante as atividades em sala de aula, sempre que o aluno não conseguia cumprir a tarefa dada, o professor começava a imitá-lo e passava a gaguejar. Após algum tempo, o professor começou a colocar a turma toda da sala para imitar a criança. Por fim, dando continuidade a essa conduta, o professor sempre jogava os materiais da criança no chão para que ela pegasse e às vezes repetia essa conduta por diversas vezes seguidas. Após o relato, eles foram perguntados se o professor chegava a xingar ou ameaçar a criança ou se alguma vez tinha feito uso de violência física, tendo o casal respondido negativamente. Diante disso foram orientados apenas a mover ação por danos morais contra o professor e contra a Escola”. O exemplo acima mostrou o manuseio inadequado da legislação, uma vez que o correto seria a efetivação do registro de ocorrência policial, com base 21 no art. 232 do ECA, em razão de o professor, que tinha o aluno sob sua autoridade, ter submetido o aluno a vexame e constrangimento. NA PRÁTICA: Nesta manchete de jornal4 também encontramos descrito crime que, desta vez, foi corretamente capitulado, levando a responsabilização criminal do professor. Figura 5 - Reportagem Jornalística Fonte: Jornal Correio Braziliense (2022). Art. 240 do Estatuto da Criança e do Adolescente: Produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente. Começamos aqui a análise dos crimes associadosà pornografia infantojuvenil na rede mundial de computadores. Art. 240. Produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, cena de sexo explícito ou pornográfica, envolvendo criança ou adolescente: (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa. (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) § 1 o Incorre nas mesmas penas quem agencia, facilita, recruta, coage, ou de qualquer modo intermedeia a participação de criança ou adolescente nas cenas referidas no caput deste artigo, ou ainda quem com esses contracena. (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) § 2 o Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) se o agente comete o crime: (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) I – no exercício de cargo ou função pública ou a pretexto de exercê-la; (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) II – prevalecendo-se de relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade; ou (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) III – prevalecendo-se de relações de parentesco consanguíneo ou afim até o terceiro grau, ou por adoção, de tutor, curador, preceptor, 4https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/03/09/interna_cidadesdf,5795 80/professor-acusado-de-humilhar-estudante-ao-deixa-lo-descalco-e-condena.shtml Acesso em 12/09/2022 https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/03/09/interna_cidadesdf,579580/professor-acusado-de-humilhar-estudante-ao-deixa-lo-descalco-e-condena.shtml https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2017/03/09/interna_cidadesdf,579580/professor-acusado-de-humilhar-estudante-ao-deixa-lo-descalco-e-condena.shtml 22 empregador da vítima ou de quem, a qualquer outro título, tenha autoridade sobre ela, ou com seu consentimento. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Neste primeiro artigo temos seis verbos ou seis condutas que se relacionam com a criação de material pornográfico, atingindo aqueles que são responsáveis diretamente pela sua existência. Pune-se ainda o papel do mediador para esses crimes e, no §1º, temos um conjunto de verbos relacionados a quem agencia, facilita, recruta, coage ou intermedeia. Este artigo é complementado pelo Art. 241-E que traz o conceito do que é cena de sexo explícito e cena pornográfica. De acordo com ele, cena de sexo explícito pressupõe contato físico, enquanto a cena pornográfica revela imagens que apresentam atos obscenos, sem necessariamente contato físico. Art. 241-E. Para efeito dos crimes previstos nesta Lei, a expressão “cena de sexo explícito ou pornográfica” compreende qualquer situação que envolva criança ou adolescente em atividades sexuais explícitas, reais ou simuladas, ou exibição dos órgãos genitais de uma criança ou adolescente para fins primordialmente sexuais. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Não podemos esquecer aqui que se a participação nesse crime envolver menores de 14 anos, teremos ainda a ocorrência do Art. 217-A do Código Penal que cuida do Estupro de Vulnerável e que será estudado em tópico próprio. Trata-se assim de crimes autônomos, podendo o autor responder pelos dois crimes ao mesmo tempo. Art. 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente: Vender ou expor à venda fotografia ou vídeo com cenas de sexo explícito ou pornográfica que envolva criança ou adolescente. Aqui, diferentemente do artigo anterior, a punição recairá sobre aquele que vende o material produzido. Nota-se que se o sujeito que estiver vendendo for o mesmo que praticou as condutas do artigo anterior, ele responderá somente pelo primeiro crime, ou seja, somente pelo crime previsto no art. 240, sendo a venda, de acordo com a doutrina, post factum impunível. Art. 241. Vender ou expor à venda fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente: (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa. (Redação dada pela Lei nº 11.829, de 2008) 23 Art. 241-A do Estatuto da Criança e do Adolescente: Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, distribuir, publicar ou divulgar fotografia ou vídeo com cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança e adolescente. Art. 241-A. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, distribuir, publicar ou divulgar por qualquer meio, inclusive por meio de sistema de informática ou telemático, fotografia, vídeo ou outro registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Pena – reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) § 1 o Nas mesmas penas incorre quem: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) I – assegura os meios ou serviços para o armazenamento das fotografias, cenas ou imagens de que trata o caput deste artigo; (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) II – assegura, por qualquer meio, o acesso por rede de computadores às fotografias, cenas ou imagens de que trata o caput deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) § 2 o As condutas tipificadas nos incisos I e II do § 1 o deste artigo são puníveis quando o responsável legal pela prestação do serviço, oficialmente notificado, deixa de desabilitar o acesso ao conteúdo ilícito de que trata o caput deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Aqui a conduta criminosa está desenhada para abarcar aquele que, muito embora não tenha produzido ou não pretenda obter lucro, passa adiante o material. Assim, mesmo que o sujeito não saiba quem produziu os arquivos, mesmo que tenha chegado em suas mãos sem que ele solicitasse, se passar adiante o material recebido ou encontrado, será autor deste crime, sujeito, portanto, à punição de 3 a 6 anos de reclusão. A conduta, então, está associada à difusão da pornografia infantojuvenil. Importante ressaltar ainda que o §1.º deste artigo pune também aquele que, embora não faça a difusão de forma direta, assegura para que ela seja feita. Enquadra-se aqui, por exemplo, os responsáveis pelos sites de hospedagem. O parágrafo seguinte impõe que o responsável pela hospedagem esteja ciente da existência do material e, embora oficialmente notificado, manteve o conteúdo. Destarte, a doutrina entende que a Polícia pode notificar o responsável pela hospedagem para que ele desabilite o acesso ao conteúdo ilícito. Por fim, 24 vale ainda ressaltar que o recém incluído artigo 218-C5 do Código Penal será aplicado aos chamados Estupro de Vulnerável somente quando a vulnerabilidade for decorrente de outra circunstância que não seja a faixa etária, como, por exemplo, vulnerabilidade em razão de embriaguez total. NA PRÁTICA: “Uma pessoa, integrante de um grupo de WhatsApp, recebe um vídeo contendo pornografia infantojuvenil. Apesar de não ter solicitado e o recebimento não podia ser evitado, uma vez que habilitada a configuração de download automático, o recebedor decide passar adiante o conteúdo, compartilhando o arquivo com outras pessoas”. Essa conduta está amoldada no Art. 241-A do Estatuto. A pessoa que recebe conteúdo ilícito deverá fazer a exclusão imediata do material e jamais passar adiante, sob pena restar configurado o crime em comento. Art. 241-B do Estatuto da Criança e do Adolescente: Adquirir, possuir ou armazenar fotografia ou vídeo com cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança e adolescente. Neste artigo temos a conduta com punição mais branda, se cotejado com os artigos anteriores. Art. 241-B. Adquirir, possuir ou armazenar, por qualquer meio, fotografia, vídeo ou outra forma de registro que contenha cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Pena – reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) § 1 o A penaé diminuída de 1 (um) a 2/3 (dois terços) se de pequena quantidade o material a que se refere o caput deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) § 2 o Não há crime se a posse ou o armazenamento tem a finalidade de comunicar às autoridades competentes a ocorrência das condutas descritas nos arts. 240, 241, 241-A e 241-C desta Lei, quando a comunicação for feita por: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) I – agente público no exercício de suas funções; (Incluído pela Lei nº 5Art. 218-C. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender ou expor à venda, distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio - inclusive por meio de comunicação de massa ou sistema de informática ou telemática -, fotografia, vídeo ou outro registro audiovisual que contenha cena de estupro ou de estupro de vulnerável ou que faça apologia ou induza a sua prática, ou, sem o consentimento da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia: Pena - reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, se o fato não constitui crime mais grave 25 11.829, de 2008) II – membro de entidade, legalmente constituída, que inclua, entre suas finalidades institucionais, o recebimento, o processamento e o encaminhamento de notícia dos crimes referidos neste parágrafo; (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) III – representante legal e funcionários responsáveis de provedor de acesso ou serviço prestado por meio de rede de computadores, até o recebimento do material relativo à notícia feita à autoridade policial, ao Ministério Público ou ao Poder Judiciário. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) § 3 o As pessoas referidas no § 2 o deste artigo deverão manter sob sigilo o material ilícito referido. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Por conseguinte, o sujeito não produziu, não comercializou e tampouco difundiu, mas mantém armazenado o material ilícito. Podemos então afirmar que o tipo penal visa responsabilizar a figura do “receptador”, aquele que recebe e mantém consigo material ilícito. Importante aqui a norma contida no §2º que prevê uma excludente de ilicitude, caso o material armazenado tenha a finalidade de comunicar às autoridades competentes. A pena aqui varia entre 1 a 4 anos de reclusão. NA PRÁTICA: “Um policial, no exercício de sua função, recebe material ilícito com conteúdo de pornografia infantojuvenil encaminhado por pessoa da comunidade que deseja denunciar a existência do material recebido. De posse do material, o policial acaba passando para algumas pessoas a título de curiosidade, essa conduta estará amoldada no artigo estudado”. No caso concreto, o agente que receber a denúncia deverá tomar as medidas necessárias para a apuração do caso e jamais passar adiante, por qualquer razão que seja. Art. 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente: Simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança e adolescente por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia ou vídeo. Art. 241-C. Simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Pena – reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) 26 Parágrafo único. Incorre nas mesmas penas quem vende, expõe à venda, disponibiliza, distribui, publica ou divulga por qualquer meio, adquire, possui ou armazena o material produzido na forma do caput deste artigo. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Neste artigo o que se pretende ainda é a proteção da integridade física e moral da criança ou adolescente, não importando se a simulação foi bem ou mal feita. Igualmente punível será a conduta daquele que praticar o núcleo de todos os artigos anteriores, dessa vez por meio de material simulado. Art. 241-D do Estatuto da Criança e do Adolescente: Aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer meio de comunicação, criança, com o fim de com ela praticar ato libidinoso. Esse tipo penal tem como alvo aquele que se utiliza de um meio de comunicação para atrair crianças para a prática de ato de natureza sexual. Art. 241-D. Aliciar, assediar, instigar ou constranger, por qualquer meio de comunicação, criança, com o fim de com ela praticar ato libidinoso: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Pena – reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Parágrafo único. Nas mesmas penas incorre quem: (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) I – facilita ou induz o acesso à criança de material contendo cena de sexo explícito ou pornográfica com o fim de com ela praticar ato libidinoso; (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) II – pratica as condutas descritas no caput deste artigo com o fim de induzir criança a se exibir de forma pornográfica ou sexualmente explícita. (Incluído pela Lei nº 11.829, de 2008) Note-se que este tipo penal fala somente da CRIANÇA, excluindo assim a sua aplicação ao adolescente, uma vez que é possível que o adolescente, acima de 14 anos, possa travar conversas de cunho sexual sem que o tipo penal seja realizado. Contudo, em nossa atividade cotidiana, nos deparamos com uma lacuna que, por vezes, fica de difícil reposta na esfera penal, que é o caso dos adolescentes que possuem idade compreendida entre 12 e 14 anos, que não podem manter relação sexual, uma vez que inválido o seu consentimento, mas que podem ser abordados por adultos, mantendo com eles conversa de conteúdo sexual. O caso concreto deve ser analisado com rigor, podendo haver a configuração de estupro de vulnerável virtual ou armazenamento de material pornográfico infantojuvenil ou ainda a conduta do art. 218-A do Código Penal. 27 Observa-se pela explanação acima que os crimes de pornografia infanto-juvenil possuem diferentes tipos penais para cada uma das formas em que é praticado, separando-se os crimes a partir de quem produz, quem difunde e quem armazena, sendo sempre de maior gravidade aquele que é o verdadeiro produtor do material ilícito e que poderá também responder, concomitantemente pelo crime de estupro de vulnerável. Art. 242 do Estatuto da Criança e do Adolescente: Vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de qualquer forma, à criança ou adolescente arma. No artigo ainda é mencionado as palavras munição ou explosivo, contudo houve revogação parcial trazida pela Lei nº 10.826/03, o chamado Estatuto do Desarmamento. Art. 242. Vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de qualquer forma, à criança ou adolescente arma, munição ou explosivo: Pena - reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos. (Redação dada pela Lei nº 10.764, de 12.11.2003) Nesse sentido, o artigo não será aplicado para armas de fogo ou munição, mas poderá ser aplicado para as chamadas armas brancas, sendo exemplo adaga, punhal, num tchaku, soco inglês, etc. A pena para esse crime é relativamente grave, podendo variar entre 3 a 6 anos de reclusão, possuindo assim a mesma pena prevista para a arma de fogo, de acordo com o Art. 16, § 1º, inc. V, do Estatuto do Desarmamento. Art. 243 do Estatuto da Criança e do Adolescente: Vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que gratuitamente, à criança ou adolescente bebida alcoólica ou, sem justa causa, outros produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica. Art. 243. Vender, fornecer, servir, ministrar ou entregar, ainda que gratuitamente, de qualquer forma, à criança ou a adolescente bebida alcoólica ou, sem justa causa, outros produtos cujos componentes possam causar dependência física ou psíquica: (Redação dada pela Lei nº 13.106, de 2015) Pena - detenção de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa, se o fato não constitui crime mais grave. (Redação dada pela Lei nº 13.106,de 2015) Até 2015 não havia a expressão "bebida alcoólica" no tipo penal e os 28 casos em que crianças ou adolescentes recebiam bebida alcoólica eram combatidos pela Lei de Contravenções Penais, por meio do Art. 63, inc. I. Importante ainda estudarmos um outro aspecto desse tipo penal que é a parte que faz referência a "produtos que possam causar dependência física ou psíquica". Entende-se que este artigo cuida tão somente de substância cujo uso é permitido, mas que não há justa causa para o fornecimento, caso sejam substâncias tidas como de uso proibido, como as alucinógenas (cocaína, heroína, maconha etc) o crime será outro e encontra abrigo no art. 33 da Lei nº 11.343/06. NA PRÁTICA: “A genitora tinha o hábito de dar aos quatro filhos, sem prescrição médica, medicação com efeito calmante que causavam dependência, no intuito de tornar o controle sobre eles mais fácil.” Note-se que nesse caso o artigo pode ser aplicado, atentando-se somente para o fato de que, se a ingestão tiver causado maior dano, o crime poderá ser outro. Art. 244 do Estatuto da Criança e do Adolescente: Vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de qualquer forma, à criança ou adolescente fogos de estampido ou de artifício, exceto aqueles que, pelo seu reduzido potencial, sejam incapazes de provocar danos. Nesse artigo estamos diante do crime que visa punir a utilização por esse público de material de uso perigoso e que coloca em risco a integridade física da criança ou do adolescente. Art. 244. Vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de qualquer forma, à criança ou adolescente fogos de estampido ou de artifício, exceto aqueles que, pelo seu reduzido potencial, sejam incapazes de provocar qualquer dano físico em caso de utilização indevida: Pena - detenção de seis meses a dois anos, e multa. Note-se que no Brasil é comum na época das festividades juninas o uso por crianças dos chamados "estalinhos", esses, de acordo com a parte final do artigo, não são capazes de provocar o dano, razão pela qual a utilização por crianças não é considerada crime. A pena aqui vai variar entre 6 meses a 2 anos de detenção. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del3688.htm 29 Art. 244 B do Estatuto da Criança e do Adolescente: Um dos delitos mais comuns na rotina policial é a corrupção de menores, uma vez que frequentemente nos deparamos com a participação de adolescentes na prática criminosa juntamente com um adulto. O importante é notar que será punido também aquele que utiliza a rede mundial de computadores para corromper o menor de 18 anos, induzindo-o à prática de crimes. Art. 244-B. Corromper ou facilitar a corrupção de menor de 18 (dezoito) anos, com ele praticando infração penal ou induzindo-o a praticá-la: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) Pena - reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) § 1 o Incorre nas penas previstas no caput deste artigo quem pratica as condutas ali tipificadas utilizando-se de quaisquer meios eletrônicos, inclusive salas de bate-papo da internet. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) § 2 o As penas previstas no caput deste artigo são aumentadas de um terço no caso de a infração cometida ou induzida estar incluída no rol do art. 1 o da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) 2. Dos crimes com previsão no Código Penal6 Continuando nossa abordagem prática de alguns crimes, seguiremos nossa análise sobre alguns dispositivos do Código Penal. Inicialmente, um dos principais pontos a ser dito sobre estes dispositivos é que, para além de alguns tipos penais específicos, o art. 61, do Código Penal, traz as chamadas circunstâncias agravantes dentre elas o agravamento da pena do crime cometido contra criança - leitura do inc. II, alínea h -, apontando, assim, a intenção de ofertar maior proteção a um público mais vulnerável. Além do referido artigo, temos em vários outros dispositivos as agravantes específicas, circunstâncias desenhadas dentro de alguns crimes como causa de aumento de pena. Dentre esses, podemos citar os crimes contra a honra (injúria, calúnia e difamação) que terão suas penas aumentadas se praticado contra criança ou adolescente. O crime de perseguição, recentemente inserido no Art. 147-A, também contempla causa de aumento de pena, assim como o crime de redução análoga a de escravo, o de tráfico de pessoas, o de estelionato, etc. 6http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm Acesso em 12/09/2022 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm 30 Logo, vários serão os crimes que, embora não instituídos especificamente para proteger criança ou adolescente, sofrerão a incidência das causas de aumento de pena se praticado em desfavor desse público. Por outro lado, há crimes que, embora não tragam como condição o sujeito passivo ser criança ou adolescente, podendo ser aplicado para qualquer pessoa que reúna as condições elencadas no tipo, na rotina policial estão, em sua maioria, associados às infrações cometidas contra criança e adolescente, como por exemplo o crime de abandono de incapaz e de maus-tratos, artigos 133 e 136 do Código Penal. Como crimes em espécie, instituídos com a finalidade precípua de proteção do público vulnerável, temos os crimes de abandono material, abandono intelectual e subtração de incapaz - artigos 244, 246 e 249. São delitos constantemente vistos na rotina policial e que aqui não serão analisados individualmente, seguindo a lógica de análise apenas daqueles um pouco mais complexos ou desconhecidos. Dos crimes que merecem destaque, abordaremos o assédio sexual com causa de aumento de pena se a vítima for menor de 18 anos, Art. 216-A; o estupro de vulnerável, art. 217-A; em sua modalidade virtual, os Art. 218 e 218- A; corrupção de menores e satisfação de lascívia e o induzimento a fuga ou sonegação de incapaz, art. 248. Art. 217-A do Código Penal: Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos. Este artigo, na maioria das vezes, tem fácil explicação, uma vez que o critério é objetivo, ou seja, analisar se houve ou não ato libidinoso ou relação sexual com menor de 14 anos. Sendo positiva a resposta, o delito restará configurado. Aqui a atenção recai sobre a forma como ele pode ser praticado. Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) § 1º Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) 31 § 2º (VETADO) (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) §3ºSe da conduta resulta lesão corporal de natureza grave: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) Pena - reclusão, de 10 (dez) a 20 (vinte) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) § 4º Se da conduta resulta morte: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) Pena - reclusão, de 12 (doze) a 30 (trinta) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) § 5º As penas previstas no caput e nos §§ 1º, 3º e 4º deste artigo aplicam-se independentemente do consentimento da vítima ou do fato de ela ter mantido relações sexuais anteriormente ao crime. (Incluído pela Lei nº 13.718, de 2018) Atualmente, as interações virtuais realizadas por crianças e adolescentes são cada vez maiores e, dessa forma, a possibilidade da prática de estupro de vulnerável por meio de modalidade virtual aumenta. Assim, mesmo que não haja contato físico algum, é possível que o autor responda pelocrime, desde que peça à vítima que pratique condutas libidinosas específicas. Em resumo, é equivocada a atuação no combate ao estupro de vulnerável sob a perspectiva de que ele só ocorrerá se houver contato físico, ele poderá sim estar configurado em ambiente unicamente virtual, sem qualquer contato físico, como descrito no exemplo abaixo. NA PRÁTICA: “A vítima, menor de 14 anos, a pedido do autor e seguindo suas orientações passa a se exibir na câmera, introduzindo objetos em suas partes íntimas ou se masturbando”. Haverá aqui a incidência do Art. 217-A. O estupro virtual ainda pode estar configurado para adolescentes acima de 14 anos, porém por meio de grave ameaça. Nesse caso o crime seria o previsto no Art. 213 do CP. Art. 216-B do Código Penal: Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função. A pena é aumentada em até um terço se a vítima é menor de 18 anos. 32 Art. 216-B. Produzir, fotografar, filmar ou registrar, por qualquer meio, conteúdo com cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo e privado sem autorização dos participantes: (Incluído pela Lei nº 13.772, de 2018) Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano, e multa. Parágrafo único. Na mesma pena incorre quem realiza montagem em fotografia, vídeo, áudio ou qualquer outro registro com o fim de incluir pessoa em cena de nudez ou ato sexual ou libidinoso de caráter íntimo. (Incluído pela Lei nº 13.772, de 2018) O crime aqui é o chamado assédio sexual e, embora ele não tenha sido desenhado necessariamente para o público vulnerável, por ter aplicação comumente ligada aos ambientes corporativos, pode ser aplicado em ambientes escolares onde encontramos relatos recorrentes de jovens que se sentem intimidados por profissionais de educação que, prevalecem-se de sua função, visam favorecimento ou vantagem sexual. Art. 218 do Código Penal: Induzir alguém menor de 14 anos a satisfazer a lascívia de outrem. Este artigo acaba sendo pouco reconhecido em nossa atuação cotidiana e, por isso, merece alguns esclarecimentos. Art. 218. Induzir alguém menor de 14 (catorze) anos a satisfazer a lascívia de outrem: (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009) Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos. (Redação dada pela Lei nº 12.015, de 2009) Parágrafo único. (VETADO). (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) Considera-se crime a conduta daquele que induz menor de 14 anos a se mostrar de maneira lasciva, erotizada. Note-se que a conduta aqui deve ser mais contemplativa, sob pena de ambos os envolvidos responderem por estupro de vulnerável. Art. 218-A do Código Penal: Neste artigo a conduta punível é a de permitir que menor de 14 anos presencie atos sexuais. Responde também o indivíduo que induz o menor, “planta a ideia” de assistir ao ato e não somente quem pratica o ato sexual na frente da criança/adolescente. Art. 218-A. Praticar, na presença de alguém menor de 14 (catorze) anos, ou induzi-lo a presenciar conjunção carnal ou outro ato libidinoso, a fim de satisfazer lascívia própria ou de outrem: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) Pena - reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009) 33 Art. 248 do Código Penal: A conduta tipificada muitas vezes deixa de ser aplicada, uma vez que o mais comum é pensarmos tão somente no crime previsto no artigo subsequente, nominado como subtração de incapazes. Contudo, aquele que, embora não tenha subtraído o menor, recusa-se a devolvê-lo, também praticará o crime. Art. 248 - Induzir menor de dezoito anos, ou interdito, a fugir do lugar em que se acha por determinação de quem sobre ele exerce autoridade, em virtude de lei ou de ordem judicial; confiar a outrem sem ordem do pai, do tutor ou do curador algum menor de dezoito anos ou interdito, ou deixar, sem justa causa, de entregá-lo a quem legitimamente o reclame: Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa. NA PRÁTICA: “Uma adolescente, com 14 anos de idade, foge de casa em razão de brigas ocorridas com os genitores. Imediatamente ela pede abrigo na casa da tia e madrinha. Após relatar a razão da briga, a tia entende que os pais estão errados e que a situação imposta à adolescente é extremamente injusta. A genitora, por sua vez, ao tomar conhecimento de que a filha está na casa da tia, pede para que ela traga a adolescente de volta. A tia argumenta que a forma como a sobrinha vem sendo tratada é inadmissível e que não foi ela (tia) quem subtraiu a adolescente, tendo essa vindo e permanecido por vontade própria e que por isso não é obrigada a devolvê-la”. A conduta se amolda no art. 248 do CP, devendo a força policial atuar. 3. Dos crimes previstos em Legislação Especial Neste momento dos estudos, iremos abordar alguns crimes em leis diversas que têm repercussão e importância para a atividade policial voltada para a proteção de crianças e adolescentes. Alguns têm uso cotidiano muito bem difundido, como o previsto na Lei nº 10.826/2003, no Art. 16, § 1.º, inc. V – Estatuto do Desarmamento, enquanto outros ainda são novidades e por isso serão analisados em tópico próprio. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.826.htm 34 3.1 - Art. 25 da Lei nº 14.344/22 (Lei Henry Borel): Descumprir decisão judicial que defere medida protetiva de urgência prevista nesta Lei. A pena consiste em 3 meses a 2 anos detenção. A referida lei abrange o crime específico de desobediência às chamadas Medidas Protetivas de Urgência, nos mesmos moldes do art. 24-A da Lei Maria da Penha. Assim o descumprimento dessas medidas, uma vez deferidas, está sujeito a crime próprio e, em caso de prisão em flagrante, apenas o juiz poderá arbitrar a fiança. 3.2 - Art. 26 da Lei nº 14.344/22 (Lei Henry Borel): Deixar de comunicar à autoridade pública a prática de violência, de tratamento cruel ou degradante ou de formas violentas de educação, correção ou disciplina contra criança ou adolescente ou o abandono de incapaz. A pena consiste em 6 meses a 3 anos de detenção. O crime inova no aspecto de tornar obrigatório a qualquer pessoa que tem ciência de que uma criança ou adolescente está sendo vítima de uma das condutas previstas no artigo comunique o crime às autoridades competentes. Note-se ser qualquer pessoa, vizinhos, conhecidos, colegas de trabalho e não somente alguém da família. Aliás, ser parente é circunstância de aumento de pena, uma vez que é esperado que a família seja a primeira a ofertar proteção e, quando isso não ocorre, haverá uma reprovação moral maior, reverberando assim na pena imposta. 3.3 - Art. 24 da Lei nº 13.431/22: Violar sigilo processual, permitindo que depoimento de criança ou adolescente seja assistido por pessoa estranha ao processo, sem autorização judicial e sem o consentimento do depoente ou de seu representante legal. Esse crime tem pena que varia entre 1 a 4 anos de reclusão e tem previsão na lei que estabeleceu o sistema de garantia de direitos de crianças ou adolescentes vítimas ou testemunhas de violência já estudado. O crime, em regra, será cometido por aquele que viola o sigilo processual e divulga o que a vítima ou testemunha narrou acerca dos fatos, ou seja, divulga o depoimento de criança ou adolescente, permitindo que um terceiro estranho aos autos tenha conhecimento do seu conteúdo. 35 Aula 3 - Noções gerais sobre a colheita da prova nos crimes em espécie Na aula anterior treinamos o nosso olhar para identificar os diversos crimes dos quais crianças e adolescentes podem ser vítimas, entendendo que alguns têm pouca aplicação, outros são mais complexos e existem aqueles que são menos observados em nossa rotina policial. Agora vamos dar ênfase para a