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137 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO Unidade III 7 DIREITO AUTORAL (LEI N. 9.610/1998) E NOÇÕES GERAIS DE CONTRATOS Prosseguindo com nosso estudo, veremos agora os principais conceitos envolvendo direito autoral e contratos. 7.1 Direito autoral (Lei n. 9.610/1998) A legislação sobre direitos autorais tem como objeto principal a proteção do direito do autor e direitos conexos não sobre a ideia em si, mas sobre sua concepção, sua forma de expressão materializada na obra intelectual propriamente dita. Logo, é preciso ressaltar que não se trata de uma proteção da ideia, mas, sim, da sua externalização. Figura 23 Disponível em: https://encurtador.com.br/tuHN1. Acesso: 18 ago. 2023. A legislação em vigor regulamenta o direito autoral quanto à quantidade de autores (individual, em regime de coautoria, em colaboração e coletiva), quanto ao processo de criação (originária e derivada), quanto à proteção (obra protegida e entrada em domínio público) e quanto à titularidade (originária e derivada). Antes de discutirmos pormenorizadamente cada uma dessas classificações, é conveniente nos debruçarmos sobre alguns dos conceitos definidores utilizados pelo legislador. 138 Unidade III São conceitos básicos tratados na Lei de Direitos Autorais: • Plágio: refere‑se ao comportamento de apropriação indevida de obra que não é da autoria do indivíduo. O plágio pode se dar por meio da prática de cópia, imitação ou, ainda, apropriação mediante aposição de assinatura como se sua a titularidade da obra. E tal plágio ocorre com o intuito de obtenção de alguma vantagem (direta ou indireta), evidenciando uma violação das normas de direito autoral. • Reprodução: é a cópia da obra feita, sempre, com a autorização do titular do direito autoral a ela relacionado. • Pirataria: também conhecida como pirataria intelectual, diz respeito à reprodução da obra (cópia) sem a autorização do titular do direito autoral sobre ela, tendo tal reprodução o objetivo de obtenção de lucro para aqueles que ilicitamente promovem essa reprodução. Há a previsão, no Código Penal, para tal conduta, que é considerada crime: “Art. 184. Violar direitos de autor e os que lhe são conexos. Pena: detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa” (Brasil, 2003). • Direitos conexos: a garantia dos chamados direitos conexos busca proteger o interesse de âmbito patrimonial‑jurídico do direito de terceiros, pessoas físicas ou jurídicas que, de alguma forma, colaboram para tornar a obra acessível e possibilitar seu conhecimento ao público. Vale ressaltar que se assemelha ao direito do autor, mas não se confunde com ele. Isso porque o direito conexo está ligado àqueles que agregam à obra mediante habilidades técnicas de execução e interpretação com o objetivo de torná‑la amplamente conhecida, com um intuito lucrativo. O prazo fixado para o direito conexo está previsto na lei e varia de acordo com o tipo de obra, como pode ser observado a seguir. Art. 89. As normas relativas aos direitos de autor aplicam‑se, no que couber, aos direitos dos artistas intérpretes ou executantes, dos produtores fonográficos e das empresas de radiodifusão. Parágrafo único. A proteção desta Lei aos direitos previstos neste artigo deixa intactas e não afeta as garantias asseguradas aos autores das obras literárias, artísticas ou científicas. [...] Da Duração dos Direitos Conexos: Art. 96. É de setenta anos o prazo de proteção aos direitos conexos, contados a partir de 1º de janeiro do ano subsequente à fixação, para os fonogramas; à transmissão, para as emissões das empresas de radiodifusão; e à execução e representação pública, para os demais casos (Brasil, 1998). • Domínio público: esse conceito é relevante e fixa o prazo em que a obra poderá ter seus direitos patrimoniais exclusivamente em prol do titular originário da obra. 139 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO O domínio público se aplica a obras científicas, literárias e artísticas e ainda, aos programas de computador. No momento em que uma dessas obras cai no domínio público, ela deixa de ser exclusividade do titular, e, assim, todos podem utilizá‑la livremente. Observação O domínio público trata do uso patrimonial, já que o direito moral sobre tais obras continua pertencendo exclusivamente ao seu titular (ou titulares). Qual a finalidade de a norma prever a existência do domínio público? A intenção é garantir que a obra possa ser utilizada em favor de todas as pessoas sem com isso retirar do(s) titular(es) criador(es) o direito de se beneficiar dos fins econômicos de sua criação. Assim, após o prazo temporal de exclusividade patrimonial do(s) titular(es), todos podem usufruir da obra no âmbito patrimonial. Já no âmbito moral, continua pertencendo ao(s) titular(es), devendo ser mantida a indicação dos créditos pela criação. Art. 112. Se uma obra, em consequência de ter expirado o prazo de proteção que lhe era anteriormente reconhecido pelo § 2º do art. 42 da Lei n. 5.988, de 14 de dezembro de 1973, caiu no domínio público, não terá o prazo de proteção dos direitos patrimoniais ampliado por força do art. 41 desta Lei (Brasil, 1998). • Obra fixada: considera‑se uma obra fixada quando ela é “registrada” em um suporte, este nada mais sendo que o meio pelo qual a obra é identificada como “existente” no mundo, com forma escrita ou gravada. Como exemplo, pense em um indivíduo cantarolando uma melodia de sua criação e outra pessoa gravando (ou o próprio autor): nesse caso, a obra estará fixada. Com relação às possibilidades de classificação da obra intelectual, vejamos caso a caso. • Quanto aos autores: — individual (um só autor); — em regime de coautoria (dois ou mais autores); — em colaboração (vários autores, com participações criativas definidas); — coletiva (vários autores, com participações criativas indefinidas). Art. 11. Autor é a pessoa física criadora de obra literária, artística ou científica. Parágrafo único. A proteção concedida ao autor poderá aplicar‑se às pessoas jurídicas nos casos previstos nesta Lei. 140 Unidade III Art. 12. Para se identificar como autor, poderá o criador da obra literária, artística ou científica usar de seu nome civil, completo ou abreviado até por suas iniciais, de pseudônimo ou qualquer outro sinal convencional. Art. 13. Considera‑se autor da obra intelectual, não havendo prova em contrário, aquele que, por uma das modalidades de identificação referidas no artigo anterior, tiver, em conformidade com o uso, indicada ou anunciada essa qualidade na sua utilização. Art. 14. É titular de direitos de autor quem adapta, traduz, arranja ou orquestra obra caída no domínio público, não podendo opor‑se a outra adaptação, arranjo, orquestração ou tradução, salvo se for cópia da sua. Art. 15. A coautoria da obra é atribuída àqueles em cujo nome, pseudônimo ou sinal convencional for utilizada. § 1º Não se considera coautor quem simplesmente auxiliou o autor na produção da obra literária, artística ou científica, revendo‑a, atualizando‑a, bem como fiscalizando ou dirigindo sua edição ou apresentação por qualquer meio. § 2º Ao coautor, cuja contribuição possa ser utilizada separadamente, são asseguradas todas as faculdades inerentes à sua criação como obra individual, vedada, porém, a utilização que possa acarretar prejuízo à exploração da obra comum. Art. 16. São coautores da obra audiovisual o autor do assunto ou argumento literário, musical ou literomusical e o diretor. Parágrafo único. Consideram‑se coautores de desenhos animados os que criam os desenhos utilizados na obra audiovisual. Art. 17. É assegurada a proteção às participações individuais em obras coletivas. § 1º Qualquer dos participantes, no exercício de seus direitos morais, poderá proibir que se indique ou anuncie seu nome na obra coletiva, sem prejuízo do direito de haver a remuneração contratada. § 2º Cabe ao organizador a titularidade dos direitos patrimoniais sobre o conjunto da obra coletiva. 141intelectuais como medida para garantir direito autoral, no entanto, esse registro pode ser feito de modo facultativo de acordo com a vontade do autor. No art. 7º, encontramos um rol exemplificativo das obras protegidas pela lei de direitos autorais, ao passo que no artigo seguinte o legislador apresentou rol taxativo do que não é protegido pela legislação em análise. Doutrinariamente, há uma divisão quando tratamos do direito à imagem: imagem‑retrato e imagem‑atributo. E, em especial quanto aos casos de inobservância do direito à imagem praticada pelo meio de comunicação da imprensa, podemos identificar duas modalidades de danos que podem decorrer dessa violação os danos morais e o dano material. 170 Unidade III Na sequência, tratamos sobre questões relacionadas às noções de contrato. Apresentou‑se o conceito de contrato como o acordo bilateral de vontades que envolve duas ou mais partes denominadas contratado e contratante. O contrato é utilizado como instrumento jurídico pactuado entre duas ou mais pessoas que declaram, de forma voluntária, a intenção e o interesse na realização de uma relação jurídica onde as partes pretendem adquirir, resguardar, transferir, conservar, modificar ou extinguir um direito ou uma obrigação, gerando, assim, efeitos jurídicos entre si. Insta conhecer os princípios fundamentais e básicos que regulam a relação contratual com o intuito de aprimorar os elementos que compõem os contratos: autonomia de vontade; supremacia da ordem pública; consensualismo; relatividade dos contratos; obrigatoriedade dos contratos; onerosidade excessiva e boa‑fé. Em prosseguimento, foram apresentados os requisitos de validade e os requisitos formais que dão validade aos contratos. São os requisitos objetivos: o objeto do contrato deve ser licito; possibilidade física ou jurídica do objeto; o objeto deve ser determinado, certo ou, no mínimo, determinável e a economicidade de seu objeto deve ter capacidade de se converter, direta ou indiretamente, em dinheiro. Já os elementos subjetivos presentes na relação contratual são capacidade genérica das partes contratantes para prática de atos da vida civil, aptidão específica para contratar e consentimento das partes contratantes. Os requisitos formais estão ligados à forma como o contrato pode ser realizado, e esses requisitos visam dar validade e efeito jurídico ao contrato (livre, solene e contratual). A interpretação dos contratos exerce função objetiva e subjetiva. Nos contratos escritos, a análise do texto (interpretação objetiva) conduz à descoberta da intenção das partes (interpretação subjetiva), alvo principal da operação. O Código Civil deu prevalência à teoria da vontade sobre a da declaração. A regra interpretativa para as espécies de contrato de adesão que apresentam cláusulas ambíguas ou contraditórias deverá ser aquela que se mostrar mais favorável ao aderente. Na espécie contrato de transação, a interpretação dever ser restritiva, e na espécie contrato de fiança, não se admite interpretação extensiva (consoante prevê o art. 819 do Código Civil Brasileiro). 171 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO O contrato celebrado entre os envolvidos pode ser realizado através de manifestação de vontade de forma expressa, sendo esta verbalizada ou por escrito. Há ainda a possibilidade de a celebração do contrato ocorrer por manifestação tácita, que ocorre através da ausência de manifestação contrária à execução do contrato. No tocante às hipóteses em que a manifestação de vontade não tem força vinculante: quando a manifestação de aceite chegar tardiamente ao conhecimento do proponente; e nos casos em que ocorre a retratação do aceite, mas esta chega antes do aceite anteriormente manifestado ou ainda simultaneamente a este. Também é importante ressaltar, quanto ao elemento aceitação, quando os contratantes não se encontram na presença um do outro. Nessa situação a aceitação poderá ocorrer no momento chamado de momento da informação ou cognição, no momento da declaração ou agnição ou, ainda, no momento chamado lugar da celebração. Outras classificações foram estudadas ao longo da unidade, como a que tipifica os efeitos jurídicos decorrentes da relação contratual: unilaterais, bilaterais e plurilaterais e gratuitos e onerosos, comutativos e aleatórios por natureza. A que versa sobre a formação do contrato: paritários ou tradicionais e adesão. A que trata da execução: execução imediata ou instantânea, de execução diferida e de execução continuada ou de trato sucessivo. A que aborda o modo de execução: principais, acessórios e derivados ou subcontratos. A que relaciona a forma contratual: solenes, não solenes e reais. O distrato é o acordo de vontades cujo objetivo é extinguir um contrato anteriormente celebrado. Para a ocorrência do distrato, deverão as partes observar as mesmas condições de forma no momento da contratação. Já para a quitação de um contrato, não há nenhuma forma preestabelecida na lei, exigindo‑se apenas a forma escrita. Para concluir o estudo da unidade, tratamos sobre a definição e as regras do Marco Civil da Internet. Essa lei regulamenta e fixa princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet, gerenciando o uso das redes por usuários e provedores. Também assegura a privacidade do acesso aos conteúdos pelos usuários, além da inviolabilidade e do sigilo das comunicações pela internet, dos dados pessoais e dos registros das conexões realizadas pelos usuários. 172 Unidade III Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros após ordem judicial específica. Quanto à previsão de sanções por inobservância das regras legais previstas no ordenamento, sempre que ocorrer o descumprimento pelos provedores, haverá a aplicação de penalidades, como advertência, multas, suspensão e proibição permanente das atividades. 173 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO Exercícios Questão 1. A Lei n. 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, altera e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências. Essa lei define alguns termos, como publicação, transmissão, retransmissão, distribuição, comunicação ao público e reprodução. Em relação a esse tema e com base nas definições presentes na Lei n. 9.610/1998, avalie as afirmativas. I – Publicação é colocar, à disposição do público, o original ou a cópia de obras literárias, artísticas ou científicas, interpretações ou execuções fixadas e fonogramas, mediante a venda, a locação ou qualquer outra forma de transferência de propriedade ou posse. II – Transmissão (ou emissão) é difundir sons ou sons e imagens, por meio de ondas radioelétricas; sinais de satélite; fio, cabo ou outro condutor; meios óticos ou qualquer outro processo eletromagnético. III – Reprodução é fazer a cópia de um ou vários exemplares de uma obra literária, artística ou científica ou de um fonograma, de qualquer forma tangível, incluindo qualquer armazenamento permanente ou temporário por meios eletrônicos ou qualquer outro meio de fixação que venha a ser desenvolvido. É correto o que se afirma em: A) I, apenas. B) II, apenas. C) III, apenas. D) II e III, apenas. E) I, II e III. Resposta correta: alternativa D. Análise da questão As definições apresentadas na Lei n. 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, estão reproduzidas a seguir. “Art. 5º Para os efeitos desta Lei, considera‑se: I – publicação – o oferecimento de obra literária, artística ou científica ao conhecimento do público, com o consentimento do autor, ou de qualquer outro titular de direito de autor, por qualquer forma ou processo; 174 Unidade III II – transmissão ou emissão – a difusão de sons ou de sons e imagens, por meio de ondas radioelétricas; sinais de satélite; fio, cabo ou outro condutor; meios óticos ou qualquer outro processo eletromagnético;III – retransmissão – a emissão simultânea da transmissão de uma empresa por outra; IV – distribuição – a colocação à disposição do público do original ou cópia de obras literárias, artísticas ou científicas, interpretações ou execuções fixadas e fonogramas, mediante a venda, locação ou qualquer outra forma de transferência de propriedade ou posse; V – comunicação ao público – ato mediante o qual a obra é colocada ao alcance do público, por qualquer meio ou procedimento e que não consista na distribuição de exemplares; VI – reprodução – a cópia de um ou vários exemplares de uma obra literária, artística ou científica ou de um fonograma, de qualquer forma tangível, incluindo qualquer armazenamento permanente ou temporário por meios eletrônicos ou qualquer outro meio de fixação que venha a ser desenvolvido; VII – contrafação – a reprodução não autorizada; VIII – obra: a) em coautoria – quando é criada em comum, por dois ou mais autores; b) anônima – quando não se indica o nome do autor, por sua vontade ou por ser desconhecido; c) pseudônima – quando o autor se oculta sob nome suposto; d) inédita – a que não haja sido objeto de publicação; e) póstuma – a que se publique após a morte do autor; f) originária – a criação primígena; g) derivada – a que, constituindo criação intelectual nova, resulta da transformação de obra originária; h) coletiva – a criada por iniciativa, organização e responsabilidade de uma pessoa física ou jurídica, que a publica sob seu nome ou marca e que é constituída pela participação de diferentes autores, cujas contribuições se fundem numa criação autônoma; 175 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO i) audiovisual – a que resulta da fixação de imagens com ou sem som, que tenha a finalidade de criar, por meio de sua reprodução, a impressão de movimento, independentemente dos processos de sua captação, do suporte usado inicial ou posteriormente para fixá‑lo, bem como dos meios utilizados para sua veiculação.” Disponível em: https://encurtador.com.br/dANXY. Acesso em: 13 abr. 2023. Questão 2. Leia o texto a seguir. O que é o Marco Civil da Internet? Por Rahellen Santos – Publicado em 06/08/2021 “A Internet não é terra sem lei”. Provavelmente, você já escutou essa frase em algum momento da sua vida. De fato, podemos afirmar que o Direito é onipresente e suas regras também englobam a supervisão do mundo digital. Dessa forma, com o objetivo de regulamentar e formular os princípios para o uso da Internet em nosso país, o governo brasileiro aprovou, em 2014, a Lei n. 12.965, mais conhecida como Marco Civil da Internet. Neste texto, você conhecerá os principais pontos dessa legislação, os motivos que levaram à sua criação e as mudanças que estão sendo discutidas. Vem com a gente! O que é o Marco Civil da Internet? A Lei n. 12.965 é uma lei ordinária federal de iniciativa do Poder Executivo que consiste em uma espécie de “Constituição da Internet”. Isso porque, por ser uma legislação de cunho principiológico, tem como principal finalidade estabelecer os princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Para isso, institui uma série de diretrizes que deverão ser seguidas pelos entes federativos (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), provedores de internet, empresas e todos os outros envolvidos na aplicação, disponibilização e uso do ciberespaço. O Marco Civil norteia todo processo de aplicação da i nternet, elegendo os usuários como protagonistas no contexto da inovação da sociedade em rede, com foco na tutela dos direitos fundamentais consagrados em sede constitucional. Dessa forma, desde os direitos de acesso dos usuários ao processamento de seus dados e à responsabilidade por danos, a lei tem o propósito de garantir que todos possuam uma condição digna em termos de experiência tecnológica, desenvolvendo sua personalidade e exercitando a sua cidadania em meios digitais. O que diz a lei? Muito exaltada por se tratar de uma lei de vanguarda, em forma e conteúdo, no que diz respeito à regulamentação dos direitos humanos nas redes digitais, o Marco Civil da Internet tem 32 artigos que 176 Unidade III tratam sobre temas como os direitos e as garantias dos usuários, a provisão de conexão e de aplicações da internet, a responsabilidade dos provedores, a atuação do poder público, entre outros. Além disso, a Lei n. 12.965/2014 é ainda fundamentada em três pilares: a liberdade de expressão, a neutralidade da rede e a privacidade. O primeiro, bem‑conceituado no inciso IX do art. 5º da Carta Magna, corresponde à liberdade de pensar e adotar livremente as ideias que circulam nas redes sem ser julgado por isso. Contudo, vale lembrar que, assim como consta no texto constitucional, veda‑se o anonimato. Isso significa dizer que esse direto não é absoluto e que cabe a responsabilização cível ou criminal daquele que excede os limites na hora de se expressar. Na sequência temos a neutralidade de rede, prevista no art. 9° do Marco Civil, segundo a qual os provedores de Internet devem tratar os pacotes de dados que trafegam em suas redes de forma isonômica, ou seja, sem discriminação em razão do conteúdo, origem, destino, aplicação etc. Esse princípio, que foi um dos mais polêmicos quando da discussão do projeto de lei, permite que possamos acessar qualquer conteúdo na internet sem que a operadora de telecomunicação interfira na navegação, tornando‑a mais lenta ou bloqueando o acesso. Por último, temos a privacidade, que também se encontra entre as garantias fundamentais previstas no art. 5º da Constituição brasileira. No âmbito do Marco Civil da Internet, este pilar tem por objetivo proteger os dados dos usuários, exigindo o consentimento expresso destes para quaisquer operações realizadas com essas informações, bem como determina a indenização por dano material ou moral decorrente de violações à intimidade, de comunicações sigilosas e da vida privada dos usuários. Adaptado de: https://tinyurl.com/23crmmax. Acesso em: 13 abr. 2023. Com base na leitura, avalie as afirmativas. I – O Marco Civil da Internet estabelece os princípios relativos ao uso da internet no Brasil e as diretrizes que devem ser obedecidas pelos entes federativos e por todos os envolvidos no escopo da Lei n. 12.965/2014. II – O Marco Civil da Internet tem como figura central os usuários, com foco na garantia dos direitos fundamentais previstos na Constituição. III – O Marco Civil da Internet fundamenta‑se em três pilares: a liberdade de expressão, a intervenção da rede e a privacidade. 177 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO É correto o que se afirma em: A) I, II e III. B) I e II, apenas. C) II e III, apenas. D) I e III, apenas. E) I, apenas. Resposta correta: alternativa B. Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: segundo o texto, a Lei n. 12.965, “por ser uma legislação de cunho principiológico, tem como principal finalidade estabelecer os princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil”. Assim, “para isso, institui uma série de diretrizes que deverão ser seguidas pelos entes federativos (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), provedores de internet, empresas e todos os outros envolvidos na aplicação, disponibilização e uso do ciberespaço”. II – Afirmativa correta. Justificativa: segundo o texto, “o Marco Civil norteia todo processo de aplicação da internet, elegendo os usuários como protagonistas no contexto da inovação da sociedade em rede, com foco na tutela dos direitos fundamentais consagrados em sede constitucional”. III – Afirmativa incorreta. Justificativa: segundo o texto, “a Lei n. 12.965/2014 é ainda fundamentada em três pilares: a liberdade de expressão, a neutralidade da rede e a privacidade”. 178 REFERÊNCIAS Textuais ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2003. ASPN SOLUÇÕES LEGAIS. Dicas ASPN. São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://encurtador.com.br/hGJS8. Acesso em:18 ago. 2023. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS AGÊNCIAS DE PROPAGANDA (ABAP) et al. Código Brasileiro de Autorregulação Publicitária. São Paulo, 1980. Disponível em: https://encurtador.com.br/efCH0. Acesso em: 18 ago. 2023. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LICENCIAMENTO DE MARCAS E PERSONAGENS. Manual do licenciamento de marcas e personagens. 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VIGÉSIMA CÂMARA CÍVEL DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Agravo de instrumento n. 0013822‑08.2010.8.19.0000. 30 jun. 2010. Disponível em: https://encurtador.com.br/ahjn7. Acesso em: 18 ago. 2023. 182 183 184 Informações: www.sepi.unip.br ou 0800 010 9000ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO § 3º O contrato com o organizador especificará a contribuição do participante, o prazo para entrega ou realização, a remuneração e demais condições para sua execução (Brasil, 1998). • Quanto ao processo de criação: — originária (obra baseada em criação original); — derivada (obra baseada em outra preexistente). Art. 5º[...] VIII – obra: a) em coautoria – quando é criada em comum, por dois ou mais autores; b) anônima – quando não se indica o nome do autor, por sua vontade ou por ser desconhecido; c) pseudônima – quando o autor se oculta sob nome suposto; d) inédita – a que não haja sido objeto de publicação; e) póstuma – a que se publique após a morte do autor; f) originária – a criação primígena; g) derivada – a que, constituindo criação intelectual nova, resulta da transformação de obra originária; h) coletiva – a criada por iniciativa, organização e responsabilidade de uma pessoa física ou jurídica, que a publica sob seu nome ou marca e que é constituída pela participação de diferentes autores, cujas contribuições se fundem numa criação autônoma (Brasil, 1998). • Quanto à proteção: — protegida (obra intelectual com prazo de proteção legal em curso); — entrada em domínio público (obra cujo prazo de proteção legal já decorreu). 142 Unidade III Art. 43. Será de setenta anos o prazo de proteção aos direitos patrimoniais sobre as obras anônimas ou pseudônimas, contado de 1º de janeiro do ano imediatamente posterior ao da primeira publicação. Parágrafo único. Aplicar‑se‑á o disposto no art. 41 e seu parágrafo único, sempre que o autor se der a conhecer antes do termo do prazo previsto no caput deste artigo. Art. 44. O prazo de proteção aos direitos patrimoniais sobre obras audiovisuais e fotográficas será de setenta anos, a contar de 1º de janeiro do ano subsequente ao de sua divulgação. Art. 45. Além das obras em relação às quais decorreu o prazo de proteção aos direitos patrimoniais, pertencem ao domínio público: I – as de autores falecidos que não tenham deixado sucessores; II – as de autor desconhecido, ressalvada a proteção legal aos conhecimentos étnicos e tradicionais (Brasil, 1998). • Quanto à titularidade da obra: — Titularidade originária: no art. 11 consta definição do titular originário, que é o criador da obra intelectual, podendo esse autor (pessoa física) criar obra literária, artística ou científica. A obra originária poderá ser criada por um único autor e será considerada uma obra originária de autoria individual ou em regime de coautoria ou colaboração. Na titularidade originária o autor detém os direitos patrimoniais e morais sobre sua criação. Por exemplo: a compositora “X” cria a música (obra) e por ser cantora a interpreta e resolve gravá‑la e vendê‑la. Ou seja, “X” é autora e também titular originário da obra. — Titularidade derivada: haverá titularidade derivada quando o titular originário optar por ceder/ licenciar/transferir seus direitos patrimoniais a terceiro alheio a criação da obra. Por exemplo: o compositor “A” criou a música “B” e cedeu os direitos patrimoniais dela ao grupo “C”. Então, “A” será o titular originário, e “grupo C” será o titular derivado. Cabe lembrar que aquele que adapta, traduz, arranja ou orquestra obra entrada em domínio público também é titular de direitos de autor; tal previsão está disposta no art. 14 da lei n. 9.610/1998: “É titular de direitos de autor quem adapta, traduz, arranja ou orquestra obra caída no domínio público, não podendo opor‑se a outra adaptação, arranjo, orquestração ou tradução, salvo se for cópia da sua” (Brasil, 1998). 143 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO Saiba mais Caso selfie do macaco: a fotografia que a macaca fez dela mesma na Indonésia, em 2011, gerou disputa judicial para solucionar controvérsias sobre a autoria e titularidade. E a pergunta que se faz é: pode um animal ser detentor de direitos autorais? Veja as reportagens e entenda mais sobre o caso. DEUTSCHE WELLE. Disputa em torno de selfie de macaco chega ao fim. Mundo, G1, 12 set. 2017. Disponível em: https://encurtador.com.br/elzC1. Acesso em: 18 ago. 2023. PIEROZAN, F. Historiando o caso envolvendo os direitos autorais da selfie do macaco e transpondo à lei brasileira. Migalhas, 20 set. 2017. Disponível em: https://encurtador.com.br/jlwJL. Acesso em: 18 ago. 2023. • Quanto ao registro de obras musicais (prova de anterioridade), não há na Lei de Direitos Autorais previsão de obrigatoriedade do registro das obras intelectuais como medida para garantir direito autoral, no entanto, esse registro pode ser feito de modo facultativo de acordo com a vontade do autor. O registro é importante nos casos de dúvida de autoria, pois comprova a anterioridade de registro autoral; trata‑se de um ato declaratório que serve como prova de anterioridade da criação. Lembrete Nos termos do art. 18 da Lei n. 9.610/1998, a proteção dos direitos autorais não depende do registro da obra. Logo, seu registro é facultativo. 7.1.1 O autor e sua proteção legal de direitos morais, patrimoniais e de imagem A legislação em comento (Brasil, 1998) promove uma subdivisão na proteção dos direitos em morais e patrimoniais. Vejamos como isso se dá. Os direitos morais do autor são irrenunciáveis e inalienáveis. Logo, tais direitos permitem que se reivindique, a qualquer momento temporal, a autoria de uma obra ou, ainda, o direito de ver seu nome (ou pseudônimo) na exploração da obra. Esses direitos possibilitam também conservar a obra inédita, impedir alterações ou modificações e até mesmo retirar a obra de circulação. 144 Unidade III Observação É irrenunciável aquele direito de que o seu titular não pode dispor (ou dispor de sua titularidade) e inalienável aquele direito que não pode ser restringido ou revogado (por se tratar de um direito inerente ao ser humano). Os direitos patrimoniais protegidos referem‑se ao direito do autor de usufruir, utilizar e dispor da obra, sendo garantidas a ele vantagens econômicas decorrentes de tal exploração. Em outras palavras, o direito patrimonial está diretamente relacionado à exploração econômica da obra por parte do seu titular, enquanto os direitos morais não têm relação com a valoração econômica propriamente dita. Lembrete Quando uma obra entra em domínio público, os direitos patrimoniais deixam de ser observados, pois a obra passa a ser de todos, no entanto, os direitos morais do autor devem ser respeitados, assim como os créditos pela criação a ele concedidos. 7.1.2 Registro de obras intelectuais A anterioridade fica caracterizada pelo registro realizado de forma espontânea ou facultativa que permite sanar dúvidas quanto à criação mais antiga pelo autor. Atualmente o Governo Federal implementou, na plataforma gov.br, um acesso ao serviço de registro de obras intelectuais, administrado pela Fundação Biblioteca Nacional. A ideia foi desburocratizar e simplificar o procedimento de registro de obras intelectuais. Esse serviço online permite que o solicitante não necessite ir até uma das agências para realizar a entrega dos documentos. Saiba mais A seguir está o link para a solicitação de registro na Biblioteca Nacional. GOV.BR. Registrar ou averbar direitos autorias na Biblioteca Nacional. Disponível em: https://encurtador.com.br/avM35. Acesso em: 18 ago. 2023. Com o deferimento da solicitação de registro, o assentamento marca a anterioridade da criação da obra intelectual, bem como a preservação da cópia da obra registrada, pelo prazo de duração dos direitos patrimoniais, para consulta e referência futura, ressalvadas as restrições de acesso às obras inéditas protegidas pelo direito moral do autor. 145 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO 7.1.3 Obras protegidas pela legislação de direito autoral O art. 7º da Lei de Direitos Autorais (Brasil, 1998) apresenta um rol taxativo das obras que são passíveis de proteção, quais sejam: as criações do espírito que são expressas por qualquermeio ou fixadas em qualquer suporte (tangível ou intangível), como: • textos de obras literárias, artísticas ou científicas; • conferências, alocuções, sermões; • obras dramáticas e dramático‑musicais; • obras coreográficas e pantomímicas cuja execução cênica se fixe por escrito ou por qualquer outra forma; • composições musicais (tenham ou não letras); • obras audiovisuais (inclusive as cinematográficas); • obras fotográficas; • obras de desenhos, pintura, gravura, escultura, litografia e arte cinética; • ilustrações; • cartas geográficas; • projetos, esboços e obras plásticas concernentes à geografia, engenharia, topografia, arquitetura, paisagismo, cenografia e ciência; • adaptações e traduções; • programas de computador; • coletâneas ou compilações, antologias, enciclopédias, dicionários, bases de dados etc. 7.1.4 Obras que não são protegidas pela legislação de direito autoral O art. 8º dessa lei também apresenta o rol taxativo das obras que não recebem proteção dos direitos autorais. São elas: • ideias; • procedimentos normativos; 146 Unidade III • sistemas, métodos, projetos ou conceitos matemáticos; • esquemas, planos ou regras para realizar atos mentais, jogos ou negócios; • formulários em branco; • textos de tratados ou convenções; • leis, decretos, regulamentos, decisões judiciais e demais atos oficiais; • informações de uso comum como calendários, agendas, cadastros ou legendas; • nomes e títulos isolados; • aproveitamento industrial ou comercial de ideias contidas nas obras. 7.1.5 Prazo de proteção fixado para proteção do direito autoral Os direitos patrimoniais do autor têm seu prazo fixado pela norma da seguinte maneira: • O direito patrimonial acompanha toda a vida do autor e perdura por 70 anos, contados a partir de 1º de janeiro do ano subsequente ao de seu falecimento. • Quando a obra for de autoria anônima ou pseudônima e, ainda, em se tratando de obras audiovisuais e fotográficas, a lei fixou como prazo de proteção 70 anos, contados a partir de 1º de janeiro do ano imediatamente posterior ao da primeira publicação, para aquelas, ou divulgação, para estas. Podem ser registradas obras intelectuais como obras audiovisuais, fotografias, músicas (com ou sem letra), desenhos, projetos, esboços, cenografias, textos literários, projetos de paisagismo e arquitetura, sermões, conferências, coreografias e pantomimas com execução cênica escrita. Lembrete Diferentemente do que se dá com os direitos patrimoniais, os direitos morais de autor são imprescritíveis, ou seja, o autor sempre poderá, a qualquer momento, exigir seus direitos no que tange a questões relacionadas a eventual dano moral. 147 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO 7.1.6 Características do direito de imagem O direito à imagem é autônomo. Em outras palavras, ele se faz valer independentemente da presença de outros direitos da personalidade, como honra, vida privada ou intimidade. Logo, trata‑se de um direito autônomo e de conteúdo próprio, existente mesmo sem gerar qualquer reflexo na vida privada e na intimidade. A Constituição Federal, em seu art. 5º, X, elenca os bens jurídicos por ela protegidos, entre eles a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem Disso, pode‑se depreender que os bens autônomos não dependem um dos outros. Portanto, por ser a imagem um bem jurídico, dotado de total autonomia, para que seu direito seja violado não se faz necessária a transgressão de qualquer outro direito. Os indivíduos detêm como uma garantia constitucional, também prevista no art. 5º, X, o direito fundamental de controlar o uso e a exploração da imagem, sendo assegurada a faculdade de solicitar indenização por danos causados pela violação desse direito. Vejamos: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo‑se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...] X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação (Brasil, 1988). No entanto, além da previsão constitucional, encontramos no ordenamento jurídico civil e penal regras sobre o direito de imagem. O art. 20 do Código Civil proíbe a exposição da imagem de terceiros sem sua anuência e ainda garante que a utilização da imagem sem concordância que promova dano à honra desse terceiro ou tenha fins comerciais será passível de indenização. Entretanto, é importante salientar que nem sempre haverá necessidade de obtenção de uma autorização, como nos casos de manutenção da ordem pública. Vejamos: Art. 11. Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária. [...] Art. 20. Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se destinarem a fins comerciais (Brasil, 2002). 148 Unidade III Também encontramos uma normatização no Código Penal Brasileiro quanto à pena a ser aplicada nos casos de uso indevido da imagem de terceiros. Art. 218‑C. Oferecer, trocar, disponibilizar, transmitir, vender ou expor à venda, distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio – inclusive por meio de comunicação de massa ou sistema de informática ou telemática, fotografia, vídeo ou outro registro audiovisual que contenha cena de estupro ou estupro de vulnerável ou que faça apologia ou induza a sua prática, ou sem o consentimento da vítima, cena de sexo, nudez ou pornografia. Pena – reclusão, de 1 (um) a 5 (cinco) anos, se o fato não constitui crime mais grave. Aumento de pena: § 1º A pena é aumentada de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terços) se o crime é praticado por agente que mantém ou tenha mantido relação íntima de afeto com a vítima ou com o fim de vingança ou humilhação (Brasil, 1940). Como é cediço, não há direito absoluto, logo, em alguns momentos, essa garantia constitucional à preservação do direito à imagem poderá ceder lugar a um outro direito. Observação Vale ressaltar que, ao falar em direito à imagem, também é abrangida a violação em outras formas, como exposição, captação e publicação de imagem, voz, jargões e mímicas, entre outras características que distinguem uma pessoa de outra. Doutrinariamente, há uma divisão quando tratamos do direito à imagem: • A imagem‑retrato refere‑se aos traços físicos, ou seja, elementos visíveis que permitem a distinção entre os indivíduos. • A imagem‑atributo busca valores que a pessoa tem perante a sociedade, ou seja, valores identificadores com honra objetiva e subjetiva e seu decoro. No caso de indivíduos usando de sua imagem para propalar sua notoriedade, obviamente, não há que se falar em violação ao direito à imagem. No caso de pessoas públicas (como atores, músicos e políticos, entre outros), também não há que se falar em punição por violação de direito à imagem de terceiros sem autorização. Cabe, no entanto, destacar que a análise dessa violação deverá ocorrer no caso concreto diante da possibilidade de a ocorrência se dar no espaço da sua intimidade privada. Segundo Vendruscolo: “Assim quando o político, o artista ou o atleta se dispõe a se mostrar publicamente, há que 149 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO se concluir, diante das circunstâncias, que ele autorizou a captação e utilização de sua imagem, tendo em conta a própria condição que ostente no meio social” (Vendruscolo, 2008, p. 130). Os meios de divulgação da imagem em razão dos avanços tecnológicos crescentes e, ainda,o aumento do uso da internet através das redes sociais vêm viabilizando uma grande diversidade nas formas de disseminação da imagem. Vejamos algumas dessas formas. • Desenho: meio de divulgação que utiliza como técnica lápis ou pincel para expressar, por meio de formas e cores, temas imaginários ou a própria realidade. Na caricatura, por exemplo, que se baseia no destaque de aspectos físicos de um indivíduo, se for constatado um avanço de forma ofensiva (realçando parte do corpo de modo a destacar deficiências com a intenção de humilhar o caricaturado), haverá ofensa à garantia constitucional do direito à imagem. Caso contrário, sendo certo que o uso do desenho respeita os limites lícitos, não há que se falar em indenização. • Pinturas/esculturas: meio de divulgação pelo uso de técnicas em pincel, aquarela, entalhamento em madeira, barro ou fundimento, entre outros. Ao expressar uma imagem através da pintura/ escultura, o artista utiliza grande subjetivismo na forma de expressar o retratado e, assim, sempre que o fizer sem ofensa aos traços fisionômicos, estará respeitando os limites do direito à imagem, não havendo, portanto, base para se falar em indenização por danos. • Fotografia: meio de divulgação e reprodução da imagem através de cópia. Aqui, há dois direitos à imagem envolvidos na divulgação de imagens fotográficas. O direito à imagem do fotografado e o direito do autor da fotografia pelo direito de uso do profissional que é o titular do direito autoral da imagem – já que a fotografia é considerada obra de arte protegida pela Lei de Direito Autoral (Brasil, 1998). Ressalte‑se que, quanto ao direito autoral garantido ao profissional que fotografa, cabe somente a garantia de direitos patrimoniais de sua obra, ao passo que, com relação ao fotografado, há a proteção aos direitos morais e patrimoniais em caso de eventual configuração de dano à sua imagem explorada sem sua autorização. • Internet: meio de comunicação em escalada/evolução diante dos constantes avanços tecnológicos que vêm gerando incontáveis ações judiciais na busca pelo ressarcimento de danos pelo uso de imagens sem observância dos direitos decorrentes relacionados (em especial no que tange ao direito a honra, a direitos autorais e direitos de imagem). Diante da facilidade da inserção de dados nos sites, há uma falsa impressão de que, se está na internet, não há restrições de uso (impressão totalmente equivocada). A mesma coisa se dá com a obtenção da imagem de outros meios de comunicação, como revistas, jornais ou outras homepages, canais de comunicação os quais obtiveram autorização para a veiculação. A ausência de autorização do indivíduo de forma tácita ou expressa para uso de sua imagem vem crescendo assustadoramente. Logo, cabe ao responsável pela inserção da notícia a preocupação com a obtenção da autorização. 150 Unidade III É verdade que a lei prevê algumas situações onde a autorização é presumida, como no já citado exemplo de pessoas públicas, mas mesmo nesses casos a notícia deve ter caráter de relevância e interesse público, não sendo absoluta essa presunção de autorização. • Televisão: meio de comunicação com múltiplas funções, como entreter, persuadir, educar e informar, sendo essa última a que trata da divulgação das notícias do cotidiano. Quando tratamos sobre a função de informar, podemos perceber a relevância dessa função, que conecta o indivíduo e a informação, como importante meio de comunicação. Aqui também a divulgação da imagem vem gerando inúmeras ações judiciais por danos decorrentes da violação de direitos (direito à imagem). • Imprensa escrita: meio de comunicação que se utiliza da escrita para divulgação de suas informações e está presente não só em jornais, mas também em revistas e periódicos, entre outros. Evidentemente, há a utilização, também pela imprensa escrita, de imagens. Em realidade, elas são utilizadas intensamente, o que gera, em algumas situações, a inobservância das questões de direito de imagem (já que há a necessidade de autorização da pessoa que é objeto da notícia para que possa ser feita veiculação e associação de sua imagem à informação). Essa inobservância gera o dever de ressarcimento de eventuais danos de âmbito moral e material. Observação Faz‑se necessário ressaltar que os meios de comunicação têm assegurado o direito à liberdade de noticiar e divulgar imagens, independentemente de expressa autorização, não de forma ilimitada, quando a notícia for de interesse público. Em especial quanto aos casos de inobservância do direito à imagem praticados pelos meios de comunicação da imprensa, podemos identificar duas modalidades de danos: • dano moral; • dano material. No caso do dano moral, haverá dever de indenizar sempre que, ao divulgar a notícia, a imprensa viole a intimidade, a honra (objetiva ou subjetiva) ou a imagem da pessoa ao divulgar informações sobre ela ou que a envolvam de forma direta ou indireta. Já quanto a prejuízos que venham a causar dano material à pessoa, esses decorrem sempre que houver lesão patrimonial ou, ainda, situações que venham a colocar em risco bens de caráter intelectual ou material da pessoa sobre a qual a notícia trata direta ou indiretamente. 151 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO 7.1.7 Da liberdade de imprensa Para entender a liberdade de imprensa, é preciso lembrar que a Constituição Federal, em seu art. 5º, IV, prevê a liberdade de expressão de pensamento. Sendo a liberdade de imprensa uma das formas de manifestação do pensamento, ela detém, dessa forma, garantia constitucional. Ainda com relação à liberdade de imprensa, o exercício de informar é um direito, estando tal garantia vinculada sobretudo à informação jornalística, principal função da imprensa escrita. Destaque‑se que é de grande relevância o resguardo desse direito, já que a informação jornalística alcança a coletividade e possibilita aos cidadãos aprimorar suas ideias, opiniões e conhecimento sobre os temas informados. E é justamente em razão desse importante papel que a informação pode influenciar comportamentos, mesmo quando carregada de equívocos ou dados intencionalmente pautados na inverdade e no abuso da boa‑fé, gerando ofensa do direito à imagem. Dada essa relevância, caberá ao profissional jornalista zelar pelo cumprimento dos padrões legais fixados pela Constituição no momento da feitura de seu trabalho, preocupando‑se em preservar direitos e garantias de terceiros no momento da execução do seu exercício de informação (já que a informação de caráter público deve ser exercida com respeito e responsabilidade preservando valores como a honra, a imagem e a intimidade). Quanto ao uso de imagens com fins jornalísticos, não há restrições no que se refere ao uso de fotografias que retratam terceiros desde que não haja violação à imagem dos indivíduos fotografados em ações públicas. Diversos são os julgados dos tribunais que tratam sobre violações ao direito à imagem por intermédio do uso da fotografia. No que tange à utilização da imagem pela imprensa escrita e pela televisão, cabe esclarecer que não há diferenciação de tratamento para a divulgação da imagem de terceiros. Enquanto a utilização tiver como finalidade a divulgação de notícias do interesse público, ela independe de autorização. Contudo, em uma eventual situação de abuso quanto ao prescrito pela lei, será o caso de analisar cada ocorrência isoladamente. O uso de imagens obtidas por diferentes sites também deve respeito e observância em relação às regras de direito do uso de imagens. A falsa ideia de que o que consta da rede está livre da obrigação de respeito às normas constitucionais não procede, havendo necessidade da prévia autorização do retratado (com exceções nos casos em que se presume que a autorização tenha respaldo legal nos casos, como o uso de imagens de pessoas públicas em razão de sua atuação gerar presunção de voluntariedade da exposição). Muito falamos sobre a autorização do direito deuso de imagem concedida por terceiros para uso nos meios de comunicação, seja internet, televisão, imprensa, fotografias e desenhos, entre outros. E como a doutrina trata dessa autorização? Há duas espécies de autorização do uso de imagem: a primeira reconhecida como consentimento tácito e a segunda mediante consentimento expresso. Vejamos melhor cada uma delas. 152 Unidade III No primeiro caso, qual seja o consentimento tácito, o indivíduo não autoriza expressamente o uso de sua imagem, mas nada faz para impedir ou esclarecer que o uso não deve acontecer. Por exemplo: uma pessoa que se deixa fotografar e, pela situação fática, é evidente que tal imagem será divulgada (como em um evento social cuja cobertura pelo meio de comunicação está evidenciada e até se espera tal divulgação). Quanto à segunda forma de autorização, o consentimento expresso, não há como presumir a permissão de uso. Nessa hipótese, a autorização somente poderá ocorrer de forma verbal ou por escrito. Ou seja, o terceiro envolvido, expressa e inequivocamente, autoriza a utilização de sua imagem. 7.2 Noções gerais de contratos Contrato é um acordo bilateral de vontades que envolve duas ou mais partes denominadas contratado e contratante (toda relação contratual envolve duas ou mais pessoas que a celebram). O contrato é utilizado como instrumento jurídico pactuado entre duas ou mais pessoas que declaram, de forma voluntária, a intenção e o interesse na realização de uma relação jurídica em que as partes pretendem adquirir, resguardar, transferir, conservar, modificar ou extinguir um direito ou uma obrigação, gerando assim efeitos jurídicos entre si. Figura 24 Disponível em: https://encurtador.com.br/osxCW. Acesso em: 18 ago. 2023. Não compete, via de regra, ao profissional da publicidade empregado elaborar minutas de contrato, mas seu conhecimento e sua interpretação são muito importantes no desempenho de suas obrigações. Já quando o profissional atua como prestador de serviço direto a uma pessoa (física ou jurídica), saber interpretar e elaborar um contrato torna‑se essencial para a segurança legal da relação entre o publicitário e seu cliente e/ou fornecedor, isso porque um contrato bem elaborado garante às partes uma execução que satisfaça aos objetivos dos envolvidos. 153 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO O contrato estabelecerá, entre as partes contratantes, uma relação jurídica que as compele ao cumprimento de suas obrigações e direitos. 7.2.1 Princípios fundamentais e básicos Há, na doutrina, várias classificações quanto aos princípios fundamentais inerentes ao direito contratual, mas, em todas, sempre estão presentes os seguintes princípios básicos fundamentais: • Autonomia da vontade: o princípio da autonomia busca estabelecer que, nas relações contratuais, as partes envolvidas têm a liberdade de contratar nos termos que lhes convém, ou seja, as cláusulas são fixadas sem a intervenção do Estado. Dessa forma, constata‑se a liberdade contratual dos envolvidos de determinar voluntariamente o que lhes é mais conveniente e atende seus interesses, regulando, assim, os efeitos jurídicos que serão produzidos entre eles e perante terceiros. A previsão de tal autonomia se encontra nos arts. 421 e 425 do Código Civil brasileiro. Vejamos: Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato. (Redação dada pela Lei n. 13.874, de 2019) Parágrafo único. Nas relações contratuais privadas, prevalecerão o princípio da intervenção mínima e a excepcionalidade da revisão contratual. (Incluído pela Lei n. 13.874, de 2019) [...] Art. 425. É lícito às partes estipular contratos atípicos, observadas as normas gerais fixadas neste Código (Brasil, 2002). • Supremacia da ordem pública: esse princípio coloca o interesse público em destaque e, dessa forma, acaba por estabelecer uma limitação à autonomia da vontade (já que esta não poderá se sobrepor ao interesse público). • Consensualismo: o ato consensual de contratar dá validade e legalidade ao contrato, já que os contratos são decorrentes da vontade livre de contratar. Da mesma forma, o contrato se aperfeiçoa com o cumprimento das obrigações das partes envolvidas. Assim, esse princípio fixa que o consenso entre as partes envolvidas para pactuar efeito jurídico no contrato basta para produzir um contrato válido e eficaz. • Relatividade dos contratos: o pactuado livremente entre as partes envolvidas somente produz efeitos entre os contratantes. A vontade pactuada entre as partes vincula unicamente os pactuantes, não produzindo seus efeitos perante terceiros que não tiveram qualquer participação. Entretanto, é necessário destacar que existem algumas exceções previstas na lei, como quando as partes contratam voluntariamente e estabelecem condições em favor de terceiros que não são os contratantes. 154 Unidade III • Obrigatoriedade dos contratos: refere‑se ao dever de cumprir as obrigações e deveres decorrentes do contrato pactuado entre os envolvidos, ou seja, o que foi combinado deverá ser cumprido, não sendo possível, salvo em caso de ilegalidade, terceiros alterarem as condições pactuadas. Assim como o pactuado deve ser cumprido, as vontades devem ser respeitadas exatamente nos termos ajustados, sob pena de ser a parte não cumpridora executada por inadimplemento contratual. Observação O arrependimento, depois de pactuado o contrato, é considerado um ilícito contratual, já que, uma vez cumprido e legalmente constituído o contrato, este somente poderá ser alterado por nova manifestação de vontade com a intenção de destituir o anteriormente combinado entre os contratantes. • Revisão dos contratos ou da onerosidade excessiva: há possibilidade de, ocorrendo uma onerosidade excessiva, em razão de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, para uma das partes, esta recorrer ao Poder Judiciário para promover um reequilíbrio contratual. Art. 478. Nos contratos de execução continuada ou diferida, se a prestação de uma das partes se tornar excessivamente onerosa, com extrema vantagem para a outra, em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis, poderá o devedor pedir a resolução do contrato. Os efeitos da sentença que a decretar retroagirão à data da citação. Art. 479. A resolução poderá ser evitada, oferecendo‑se o réu a modificar equitativamente as condições do contrato. Art. 480. Se no contrato as obrigações couberem a apenas uma das partes, poderá ela pleitear que a sua prestação seja reduzida, ou alterado o modo de executá‑la, a fim de evitar a onerosidade excessiva (Brasil, 2002). Para promover essas alterações, aplica‑se a chamada cláusula rebus sic stantibus (ou cláusula da teoria da imprevisão). • Boa‑fé: esse princípio corrobora a ideia de que as partes contratantes devem se comportar de forma correta e lícita, evitando, assim, que uma delas se beneficie em detrimento da outra, não importando em que momento da relação contratual as partes possam estar quanto a tratativas, formação, execução contratual. Sendo assim, podemos afirmar que esse princípio prevê que a intenção dos envolvidos deverá prevalecer sobre a essência literal da escrita. Segundo o art. 422 do Código Civil, “os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa‑fé”. (Brasil, 2002). 155 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO Observação A obrigatoriedade contratual também é conhecida como pacta sunt servanda. 7.2.2 Requisitos contratuais: validade e formas Para verificar a validade de um contrato, a doutrina apresenta um rol de três requisitos: objetivos, subjetivos e formais. Os requisitos objetivos são aqueles ligados ao objeto do contrato: • O objeto do contrato deve ser lícito. • Deve haver a possibilidade física ou jurídica do objeto. • O objeto deve ser determinado, certo ou, no mínimo, determinável. • A economicidade do objeto deve ter capacidade de se converter,direta ou indiretamente, em dinheiro. Os requisitos subjetivos estão ligados aos envolvidos no contrato (as partes): • Capacidade genérica das partes contratantes para prática de atos da vida civil (as partes envolvidas precisam ter capacidade civil para contratar, ou seja, serem maiores de 18 anos, e responderem pelos atos praticados na vida civil). • Aptidão específica para contratar. • Consentimento das partes contratantes. Os requisitos formais estão ligados à forma como o contrato pode ser realizado, a fim de dar validade e efeito jurídico a ele (livre, solene e contratual). A regra é a liberdade da forma de contratar, ou seja, a liberdade das partes ao contratar de forma livre, estabelecendo as cláusulas que vão reger a relação de obrigações contratuais. Exceções estão previstas no ordenamento jurídico quando, para produzir seus efeitos legais, o contrato deverá observar algumas cláusulas, independentemente da vontade dos contratantes, que devem fazer parte de um contrato obrigatoriamente (solene). No entanto, ressalvadas essas condições, a estipulação das regras fica a critério das partes envolvidas. 156 Unidade III Para o contrato ser considerado válido e produzir seus efeitos jurídicos, é preciso que a sua forma (externalização) seja prescrita e não proibida por lei. Via de regra, a forma de externalizar o contrato é livre, podendo as partes contratantes realizar o contrato de forma particular ou pública, por escrito ou de forma verbal. Em algumas situações específicas, a lei determina a observância de uma forma (solenidade), ou seja, ela exige, para o contrato ser considerado válido e eficaz, uma forma especifica/ especial, como a escritura pública num caso de compra e venda de imóveis. 7.2.3 Interpretação dos contratos A interpretação dos contratos exerce função objetiva e subjetiva. Nos contratos escritos, a análise do texto (interpretação objetiva) conduz à descoberta da intenção das partes (interpretação subjetiva), alvo principal da operação. O Código Civil deu prevalência à teoria da vontade sobre a da declaração, conforme art. 112: “nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciada do que ao sentido literal da linguagem” (Brasil, 2002). Há algumas regras interpretativas para alguns tipos específicos de contrato: • No contrato de adesão, existindo cláusulas ambíguas ou contraditórias, a interpretação, segundo o art. 423, deverá ser aquela mais favorável ao aderente: “quando houver no contrato de adesão cláusulas ambíguas ou contraditórias, dever‑se‑á adotar a interpretação mais favorável ao aderente” (Brasil, 2002). • No contrato de transação, conforme o art. 843, a interpretação deve ser restritiva “a transação interpreta‑se restritivamente, e por ela não se transmitem, apenas se declaram ou reconhecem direitos” (Brasil, 2002). • No contrato de fiança, de acordo com o art. 819, não se admite interpretação extensiva: “a fiança dar‑se‑á por escrito, e não admite interpretação extensiva” (Brasil, 2002). • Nas disposições sobre testamento, havendo dúvidas quanto à interpretação da cláusula testamentária, a interpretação que deverá prevalecer é aquela que melhor assegure a observância da vontade do testador. “Art. 1.899. Quando a cláusula testamentária for suscetível de interpretações diferentes, prevalecerá a que melhor assegure a observância da vontade do testador” (Brasil, 2002). 7.2.4 Formação do contrato O contrato será formado pelo resultado de duas ou mais manifestações de vontade. Tais elementos não dependem de forma especial, salvo quando expressamente previsto na legislação. • Elemento proposta, também conhecida como oferta, policitação ou oblação. • Elemento aceitação. 157 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO Quanto ao elemento proposta, ela ocorre após as negociações preliminares, a chamada de fase de puntuação. A proposta formulada de forma consciente vincula a parte proponente que promoveu a oferta, no entanto, a fase de puntuação não vincula os contratantes: “Art. 427. A proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não resultar dos termos dela, da natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso” (Brasil, 2002). A sua retirada sujeita o proponente ao pagamento das perdas e danos. O Código Civil abre exceções a essa regra se o contrário resultar dos termos dela, da natureza do negócio ou das circunstâncias do caso. Tais circunstâncias são elencadas no art. 428: Art. 428. Deixa de ser obrigatória a proposta: I – se, feita sem prazo a pessoa presente, não foi imediatamente aceita. Considera‑se também presente a pessoa que contrata por telefone ou por meio de comunicação semelhante; II – se, feita sem prazo a pessoa ausente, tiver decorrido tempo suficiente para chegar a resposta ao conhecimento do proponente; III – se, feita a pessoa ausente, não tiver sido expedida a resposta dentro do prazo dado; IV – se, antes dela, ou simultaneamente, chegar ao conhecimento da outra parte a retratação do proponente. Art. 429. A oferta ao público equivale a proposta quando encerra os requisitos essenciais ao contrato, salvo se o contrário resultar das circunstâncias ou dos usos. Parágrafo único. Pode revogar‑se a oferta pela mesma via de sua divulgação, desde que ressalvada esta faculdade na oferta realizada (Brasil, 2002). O CDC é mais abrangente quanto ao elemento oferta que o Código Civil brasileiro, já que o elemento oferta no CDC atinge um número indeterminado de pessoas na chamada contratação em massa. No entanto, a recusa indevida de dar cumprimento à proposta dá ensejo à execução específica estipulada no art. 35 do CDC, podendo o consumidor optar, em seu lugar, por aceitar outro produto, rescindir o contrato e pedir perdas e danos. Art. 35. Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento à oferta, apresentação ou publicidade, o consumidor poderá, alternativamente e à sua livre escolha: I – exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta, apresentação ou publicidade; 158 Unidade III II – aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente; III – rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente antecipada, monetariamente atualizada, e a perdas e danos (Brasil, 1990b). Após a apresentação da puntuação e da oferta e havendo anuência das partes envolvidas com as condições pactuadas, ocorre a fase do elemento aceitação, quando a manifestação de vontade deverá ser expressa com o intuito de concluir o contrato. Quanto à aceitação, essa deve ser clara, pura e simples. E, se ocorrer após prazo definido na proposta, com adições, restrições ou modificações, importará nova proposta, denominada contraproposta. Art. 431. A aceitação fora do prazo, com adições, restrições, ou modificações, importará nova proposta. Art. 432. Se o negócio for daqueles em que não seja costume a aceitação expressa, ou o proponente a tiver dispensado, reputar‑se‑á concluído o contrato, não chegando a tempo a recusa. Art. 433. Considera‑se inexistente a aceitação, se antes dela ou com ela chegar ao proponente a retratação do aceitante (Brasil, 2002). Quanto à manifestação de vontade, ela pode ser expressa ou tácita. Assim, o contrato celebrado entre os envolvidos pode ser realizado através de manifestação de vontade de forma expressa, sendo esta verbalizada ou por escrito. Há ainda a possibilidade de a celebração do contrato se dar por manifestação tácita, a qual se caracteriza pela ausência de manifestação contrária à execução do contrato. São situações em que a manifestação não tem força vinculante: • Quando a manifestação de aceite chegar tardiamente ao conhecimento do proponente. Nesse caso, ele deverá avisar ao aceitante de imediato, evitando, assim, o pagamento de eventuais perdas e danos, conforme previsto no art. 430 do Código Civil (Brasil, 2002). • Quando há a retratação do aceite, mas esta chega antes do aceite anteriormente manifestado ou ainda simultaneamente a este. Sobreo momento da efetivação contratual, dois cenários são possíveis: entre contratantes presentes, reputa‑se concluído no momento da aceitação; entre contratantes ausentes, há três fases. Vejamos cada uma delas: • Momento da informação ou cognição: momento da ciência pelo proponente da inteira resposta da manifestação de vontade do outro contratante. 159 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO • Momento da declaração ou agnição: momento da declaração propriamente dita (considera o momento da redação), da expedição e da recepção (entrega ao destinatário). • Lugar da celebração: reputa‑se celebrado o contrato no lugar em que foi feita a proposta. Conforme previsto no art. 435 do Código Civil: “Reputar‑se‑á celebrado o contrato no lugar em que foi proposto” (Brasil, 2002). E conforme o Decreto‑lei n. 4.657/1942: Art. 9º Para qualificar e reger as obrigações, aplicar‑se‑á a lei do país em que se constituírem. [...] § 2º A obrigação resultante do contrato reputa‑se constituída no lugar em que residir o proponente (Brasil, 1942). O contrato é considerado concluído na impossibilidade de a prestação ser cumprida. Resolve‑se a obrigação contratual quando se torna impossível o seu cumprimento, já que não há como realizar o que é considerado impossível para todas as pessoas indistintamente. Segundo o art. 106 do Código Civil, “a impossibilidade inicial do objeto não invalida o negócio jurídico se for relativa, ou se cessar antes de realizada a condição a que ele estiver subordinado” (Brasil, 2002). 7.2.5 Classificação dos contratos Quanto aos efeitos jurídicos decorrentes da relação contratual, os contratos podem ser: • Unilaterais, bilaterais e plurilaterais (com relação às partes envolvidas no contrato e que sofrerão os efeitos das manifestações de vontade de contratar): — unilateral: gera obrigações (efeitos jurídicos) somente para uma das partes envolvidas (como um contrato de doação pura); — bilateral: produz obrigações (efeitos jurídicos) para ambos os contratantes (como um contrato de compra e venda de bem móvel ou imóvel); — plurilateral: produz obrigações (efeitos jurídicos) entre duas ou mais partes envolvidas (como um contrato de sociedade). • Gratuitos, onerosos, comutativos ou aleatórios por natureza: — gratuitos ou benéficos: são os contratos em que apenas uma das partes receberá os benefícios ou vantagens decorrentes desse contrato (como no caso de doações puras); — onerosos: são os contratos em que ambos os contraentes obtêm algum proveito ou benefício (como em um contrato de compra e venda); 160 Unidade III — comutativos: são os contratos cujas prestações são certas e determinadas, não envolvendo nenhum risco; — aleatórios: são os contratos que tem a incerteza para uma ou ambas as partes (contratos de jogo, aposta e seguro, por exemplo, são aleatórios por natureza, porque a álea, o risco, lhes é peculiar). Quanto aos efeitos jurídicos decorrentes da relação contratual, os contratos podem ser: • Paritários ou tradicionais: são os contratos em que as partes discutem livremente as condições, estando em uma situação de paridade. • Adesão: são os contratos em que a liberdade de contratar sofre algumas restrições para uma das partes devido à preponderância da vontade de um dos contratantes, que elabora todas as cláusulas. Assim, o outro somente adere ao modelo que foi elaborado, não podendo promover qualquer modificação nessas cláusulas. Quanto ao momento de sua execução, os contratos podem ser: • De execução imediata ou instantânea: trata‑se dos contratos que se resolvem imediatamente em um único ato de execução após sua celebração. Tal é o caso da compra e venda à vista de um objeto (um paga e o outro entrega o objeto, estando o contrato concluído mediante a execução das obrigações recíprocas). • De execução diferida: são os contratos que devem ser cumpridos pelas partes em uma única execução, só que, diferentemente do contrato de execução imediata, estes preveem cumprimento em momento futuro. • De execução continuada ou de trato sucessivo: são os contratos que se cumprem por meio de atos reiterados em determinado tempo estipulado. Quanto ao agente (ou contratantes), os contratos podem ser: • Personalíssimos ou intuitu personae: são os contratos cujo elemento “qualidades pessoais” de um dos contraentes é o componente essencial para a execução do contrato. • Impessoais: são aqueles contratos cuja prestação pode ser cumprida, indiferentemente, pelo obrigado ou por terceiro, não havendo qualquer singularidade da parte no cumprimento da execução contratual. • Individuais: são contratos em que as vontades são individualmente consideradas, ainda que envolvam várias pessoas. 161 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO • Coletivos: são os contratos que passam pelo acordo de vontades entre duas pessoas jurídicas de direito privado, representativas de categorias profissionais. Quanto ao modo de execução, os contratos podem ser: • Principais: são contratos que têm existência própria e não dependem de qualquer outro contrato para promover sua execução. • Acessórios: são os contratos que, para ter existência executória, estão subordinados à existência do contrato principal (como no caso de um contrato de fiança). • Derivados ou subcontratos: são os contratos que estão subordinados a direitos previstos em outros contratos (como em um contrato de subempreitada). Quanto à forma, os contratos podem ser: • Solenes: são os contratos que devem observar uma forma prescrita em lei para se aperfeiçoar. • Não solenes: são contratos cuja forma é livre, não tendo que observar elementos prescritos pela lei. Assim, basta o consentimento para a sua formação. • Reais: são os contratos que, para formalização, exigem outro elemento além da manifestação de vontade de contratar a entrega da coisa que lhe serve de objeto (caso de um contrato de depósito). Quanto ao objeto do contrato: • Preliminar, pactum de contrahendo ou pré‑contrato: caso de contratos que têm um objeto único e definitivo. • Definitivo: caso de contratos que têm diversos objetos, de acordo com a natureza de cada um. Quanto à designação, os contratos podem ser: • Nominados: são os contratos com identificação própria (como o contrato de compra e venda). • Inominados: são os contratos que não têm denominação própria. • Típicos: são os contratos regulados pela lei, tendo o seu perfil nela traçado. • Atípicos: são os contratos obtidos por um acordo de vontades, não estando presente nenhum elemento, característica ou requisito definido e regulado pela lei. • Mistos: são os contratos que resultam da combinação de um contrato típico com cláusulas criadas pela vontade dos contratantes. 162 Unidade III Contratos bilaterais Nos contratos bilaterais, as prestações são recíprocas. Logo, uma parte não pode exigir da outra o cumprimento de dada obrigação se não tiver cumprido a sua parte da obrigação contratual (pense na exceptio non adimpleti contractus, a exceção do contrato não cumprido). Diz o art. 476 do Código Civil: “nos contratos bilaterais, nenhum dos contratantes, antes de cumprida a sua obrigação, pode exigir o implemento da do outro” (Brasil, 2002). Já o art. 477 do Código Civil prevê a garantia de execução da obrigação a prazo: Art. 477. Se, depois de concluído o contrato, sobrevier a uma das partes contratantes diminuição em seu patrimônio capaz de comprometer ou tornar duvidosa a prestação pela qual se obrigou, pode a outra recusar‑se à prestação que lhe incumbe, até que aquela satisfaça a que lhe compete ou dê garantia bastante de satisfazê‑la (Brasil, 2002). O art. 475, por sua vez, promove o reconhecimento do inadimplemento como condição resolutiva: “a parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do contrato, se não preferir exigir‑lhe o cumprimento, cabendo, em qualquer dos casos, indenização por perdas e danos” (Brasil, 2002). Distrato e quitação Distrato é o acordo de vontades cujo objetivo é extinguirum contrato anteriormente celebrado. Para a ocorrência do distrato, deverão as partes observar as mesmas condições de forma no momento da contratação. Segundo o art. 472: “o distrato faz‑se pela mesma forma exigida para o contrato” (Brasil, 2002). Já para a quitação de um contrato, não há nenhuma forma preestabelecida na lei, exigindo‑se apenas a forma escrita. Art. 320. A quitação, que sempre poderá ser dada por instrumento particular, designará o valor e a espécie da dívida quitada, o nome do devedor, ou quem por este pagou, o tempo e o lugar do pagamento, com a assinatura do credor, ou do seu representante (Brasil, 2002). 163 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO 8 O MARCO CIVIL DA INTERNET A Lei n. 12.965/2014 regulamenta e fixa princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da internet e gerencia o uso das redes por usuários e provedores. Saiba mais A seguir, você tem a primeira decisão judicial a citar a iniciativa do Marco Civil da Internet, na qual a desembargadora Letícia de Faria Sardas ressalta: “Ponto muito importante e positivo do Marco Civil é a forma como propõe regular os direitos e deveres relativos aos vários dados gerados pelo usuário quando navega”. Você pode ler o documento na sua integralidade acessando o link indicado. VIGÉSIMA CÂMARA CÍVEL DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Agravo de instrumento n. 0013822‑08.2010.8.19.0000. 30 jun. 2010. Disponível em: https://encurtador.com.br/ahjn7. Acesso em: 18 ago. 2023. A fixação do princípio da neutralidade do uso da rede garante que todos os usuários pagarão somente pela velocidade contratada, e não pela página que pretenda acessar, sem levar em consideração o conteúdo. Além da neutralidade, a lei que regula o marco civil também assegura a privacidade do acesso aos conteúdos pelos usuários e, ainda, a inviolabilidade e o sigilo das comunicações pela internet e dos dados pessoais, assim como os registros das conexões realizadas pelos usuários. Dessa forma, somente por determinação judicial será possível a violação da privacidade dos usuários na rede. Houve muitas objeções à criação dessa norma por parte de ciberativistas. Isso em razão do forte caráter de vigilância durante a tramitação do projeto de lei. Saiba mais A seguir, estão os princípios a serem observados para a governança e o uso da internet no Brasil. COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL. Resolução CGI.br/RES/2009/003/P. São Paulo: CGI.br, 2009. Disponível em: https://encurtador.com.br/fhAM8. Acesso em: 18 ago. 2023. 164 Unidade III 8.1 Princípios para a governança e o uso da internet no Brasil O art. 3º da norma assim trata sobre os princípios: Art. 3º A disciplina do uso da internet no Brasil tem os seguintes princípios: I – garantia da liberdade de expressão, comunicação e manifestação de pensamento, nos termos da Constituição Federal; II – proteção da privacidade; III – proteção dos dados pessoais, na forma da lei; IV – preservação e garantia da neutralidade de rede; V – preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede, por meio de medidas técnicas compatíveis com os padrões internacionais e pelo estímulo ao uso de boas práticas; VI – responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades, nos termos da lei; VII – preservação da natureza participativa da rede; VIII – liberdade dos modelos de negócios promovidos na internet, desde que não conflitem com os demais princípios estabelecidos nesta Lei. Parágrafo único. Os princípios expressos nesta Lei não excluem outros previstos no ordenamento jurídico pátrio relacionados à matéria ou nos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte (Brasil, 2014a). Para estabelecer orientações quanto às medidas e ações a serem seguidas para cumprimento da Lei do Marco Civil, foram estabelecidos alguns princípios fundamentais para a internet no Brasil: • Princípio da preservação da liberdade, da privacidade e dos direitos humanos: o uso da internet deverá pautar‑se pela observância das garantias da liberdade de expressão, da privacidade do indivíduo, assegurada a preservação de sua honra e dos direitos humanos fixados pela Constituição, objetivando‑se a preservação de uma sociedade pautada na justiça e na democracia. • Princípio da prática da governança na internet como medida de controle: a governança da internet deve ser praticada sempre de forma transparente e democrática a fim de atender ao interesse de todos, mediante a participação dos vários segmentos da sociedade pública e privada, e sempre com a intenção de preservar a manifestação da criação coletiva. 165 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO • Princípio da universalidade do acesso a todos: garantir o acesso à internet a todos os indivíduos pretendendo estabelecer e assegurar o desenvolvimento social, a interação coletiva com o foco na constituição de uma sociedade solidária e não discriminatória. • Princípio da diversidade: a governança deverá sempre se preocupar em garantir a diversidade cultural em seus aspectos amplos de manifestação, impedindo a imposição de crenças, costumes e valores uns sobre os outros. • Princípio da inovação: deverá ser foco constante da governança a promoção e a divulgação de novas tecnologias e meios de acesso que viabilizem a constante evolução da sociedade em busca do exercício da liberdade de expressão e da democracia. • Princípio da neutralidade da rede: a neutralidade na rede, muito discutida entre os ciberativistas, deve ser preocupação constante da governança a fim de que o tráfego de informações observe sempre critérios técnicos e éticos. Cabe buscar, ainda, inviabilizar o tráfego de informações pautadas em assuntos das mais diversas áreas (políticos, religiosos, entre outros) sempre que tratados de forma discriminatória ou buscando favorecer uns em detrimento de outros. • Princípio da inimputabilidade da rede: baseado na observância do princípio da liberdade, da privacidade e do respeito aos direitos humanos, a governança deverá, de forma efetiva, combater as ilicitudes praticadas na rede com o intuito de punir os responsáveis pelas violações. • Princípio da funcionalidade, segurança e estabilidade: a governança deverá atuar buscando, de forma ativa e passiva, estabelecer padrões de âmbito internacional para o uso da internet, sempre através da aplicação de normas técnicas. • Princípio da padronização e interoperabilidade: devem‑se estabelecer padrões que permitam a todos participar do desenvolvimento da internet. • Princípio regulatório e ambiente legal: a internet deve ser tratada como um espaço de participação e colaboração onde todos devem observar seus princípios e garantir o uso, livre de ilicitudes. Quanto ao chamado rastro digital, é necessário promover uma legislação que possibilite o registro, pelas empresas provedoras, do conteúdo navegado por um período de até seis meses e, se houver expressa autorização do usuário, o provedor poderá fazer uso de tais dados. A lei, em seu art. 19, trata sobre a questão: Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário (Brasil, 2014a). 166 Unidade III Quanto à previsão de sanções por inobservância das regras legais previstas no ordenamento, sempre que se observar o descumprimento por parte dos provedores, haverá a aplicação das penalidades cabíveis, como advertência, multas, suspensão e até proibição permanente das atividades. Art. 12. Sem prejuízo das demais sanções cíveis, criminais ou administrativas, as infrações às normas previstas nos arts. 10 e 11 ficam sujeitas, conforme o caso, às seguintes sanções,aplicadas de forma isolada ou cumulativa: I – advertência, com indicação de prazo para adoção de medidas corretivas; II – multa de até 10% (dez por cento) do faturamento do grupo econômico no Brasil no seu último exercício, excluídos os tributos, considerados a condição econômica do infrator e o princípio da proporcionalidade entre a gravidade da falta e a intensidade da sanção; III – suspensão temporária das atividades que envolvam os atos previstos no art. 11; ou IV – proibição de exercício das atividades que envolvam os atos previstos no art. 11. Parágrafo único. Tratando‑se de empresa estrangeira, responde solidariamente pelo pagamento da multa de que trata o caput sua filial, sucursal, escritório ou estabelecimento situado no País (Brasil, 2014a). Sendo certo que o marco civil destaca, para além das garantias, os direitos e deveres dos usuários, além da observância e do cumprimento da lei brasileira sobre o tema. Lembrete A Lei do Marco Civil da Internet (ou Constituição da Internet Brasileira, como também é conhecida) tem como objetivo assegurar e garantir clareza e regulamentação na relação entre o usuário da rede e as empresas que prestam serviços associados à internet. 8.2 Responsabilidade civil na internet Cabe esclarecer que o marco civil atua na preservação da garantia constitucional da liberdade de expressão, e não na censura, ficando garantido, somente mediante determinação judicial, a aplicação ao provedor de internet ser responsabilizado pelos danos causados a terceiros em razão dos conteúdos expostos. Tal medida de responsabilização é subsidiária e ocorre se, e somente se, o provedor descumprir a determinação judicial de indisponibilidade ou retirada de conteúdo e imagens ou vídeos após tomar ciência da determinação. 167 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO Art. 18. O provedor de conexão à internet não será responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros. Art. 19. Com o intuito de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, o provedor de aplicações de internet somente poderá ser responsabilizado civilmente por danos decorrentes de conteúdo gerado por terceiros se, após ordem judicial específica, não tomar as providências para, no âmbito e nos limites técnicos do seu serviço e dentro do prazo assinalado, tornar indisponível o conteúdo apontado como infringente, ressalvadas as disposições legais em contrário (Brasil, 2014a). 8.3 Dispositivos legais do uso da internet no âmbito da comunicação São muito rápidas as mudanças tecnológicas que inovam o meio digital e, em razão disso, os dispositivos legais que avançam na preservação do uso da internet esbarram em algumas normas em vigor: • No âmbito internacional, a União Europeia, em 2022, regulamentou o acesso igualitário na rede digital através da chamada Lei de Serviços Digitais. • A Lei do Marco Civil da Internet regulamenta o direito de uso de plataformas e sites, além de fixar parâmetros de neutralidade, privacidade, e liberdade de expressão. • A Lei n. 12.737/2012 (Lei Carolina Dieckmann) regulamenta o uso da internet e permite tipificar crimes e delitos informáticos, incluindo invasão a aparelhos eletrônicos, roubo de dados e a interrupção de serviços digitais. • A Lei n. 13.709/2018 (Lei Geral de Proteção de Dados) protege os direitos fundamentais de cunho personalíssimo, como dados pessoais que indevidamente possam ser expostos na rede, garantindo, assim, que aqueles que detêm a informação sejam responsabilizados pela sua guarda e pelo seu sigilo. Observação A Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça (SAL/MJ), em parceria com a Escola de Direito do Rio de Janeiro da Fundação Getúlio Vargas (FGV Direito Rio), lançou o projeto para a construção colaborativa de um Marco Civil da Internet no Brasil. Nessa ocasião, o Ministério da Cultura emprestou sua plataforma para os debates e, durante a primeira fase (entre 29 de outubro e 17 de dezembro de 2009), foram mais de 800 contribuições entre comentários, e‑mails e referências propositivas em sites. 168 Unidade III Resumo Nesta unidade, vimos conceitos sobre legislações relevantes e de importância, como direito autoral, noções gerais de contrato e legislação sobre marco civil da internet. A aplicação da normativa constante da relação de direito autoral, ou seja, as regras constantes do direito autoral, busca estabelecer a proteção do direito do autor e dos direitos conexos, não sobre a ideia em si. Essa normativa regulamenta o direito autoral quanto à quantidade de autores (individual, em regime de coautoria, em colaboração e coletiva), quanto ao processo de criação (originária e derivada), quanto à proteção (obra protegida e caída em domínio público) e quanto à titularidade (titularidade originária e derivada). Conhecer alguns conceitos tratados por esta norma é essencial. O plágio acontece por meio da prática de cópia ou imitação ou, ainda, por apropriação mediante aposição de assinatura como se sua a titularidade da obra. A reprodução é a cópia da obra que ocorre sempre com a autorização do titular do direito autoral da obra. A pirataria ocorre quando uma obra é reproduzida (copiada) sem autorização do titular do direito autoral sobre ela e tal reprodução tem como objetivo a obtenção de lucro para aqueles que ilicitamente promovem a reprodução. A obra é considerada fixada quando é “registrada” em um suporte. Tal suporte é a maneira como a obra é identificada como “existente” no mundo e poderá ocorrer de forma escrita ou gravada (por exemplo, se alguém cantarolar uma melodia de sua criação, e outro indivíduo gravá‑la, a obra estará fixada – bem como se o próprio autor a gravar). Em prosseguimento, tratamos sobre direitos conexos, direitos que buscam proteger o interesse de âmbito patrimonial‑jurídico, o direito de terceiros, pessoas físicas ou jurídicas que, de alguma forma, colaboram para tornar a obra acessível e dar conhecimento/publicidade dela ao público. Assemelha‑se ao direito do autor, mas não se confunde com ele. O direito conexo está ligado àqueles que agregam a obra mediante habilidades técnicas de execução e interpretação para torná‑la amplamente conhecida com intuito lucrativo. O prazo fixado para o direito conexo está previsto na lei e varia de acordo com o tipo de obra. 169 ÉTICA E REGULAMENTAÇÃO EM COMUNICAÇÃO Além disso, tratamos do domínio público. O conceito de domínio público é relevante e fixa o prazo em que a obra poderá ter seus direitos patrimoniais exclusivamente em prol do titular originário da obra. O domínio público se aplica para obras científicas, literárias e artísticas e, ainda, para os programas de computador. No momento em que uma dessas obras entra no domínio público, ela deixa de ser exclusividade do titular, e, assim, todos podem utilizá‑la livremente. O domínio público trata do uso patrimonial, já que o direito moral sobre tais obras continua pertencendo exclusivamente ao seu titular (ou titulares). Na sequência, estudamos a classificação quanto aos autores que assim se identificam na obra intelectual em individual (um só autor), em regime de coautoria (dois ou mais autores), em colaboração (vários autores, com participações criativas definidas) e em regime coletivo (vários autores, com participações criativas indefinidas). Quanto ao processo de criação, as obras intelectuais podem ser originárias (obra baseada em criação original) ou derivadas (obra baseada em outra preexistente). No que tange ao período de proteção da lei autoral, esta será de setenta anos (o prazo de proteção aos direitos patrimoniais sobre as obras anônimas ou pseudônimas), contado de 1º de janeiro do ano imediatamente posterior ao da primeira publicação. O art. 11 da norma apresenta a classificação quanto à titularidade da obra, que pode ser originária e derivada. É importante ressaltar que não há na Lei de Direitos Autorais previsão de obrigatoriedade do registro das obras