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MICROSSISTEMA E PRINCÍPIOS DO PROCESSO COLETIVO Faculdade Anhanguera / Curso de Direito / Prof. João Stein A INSUFICIÊNCIA DO PROCESSO CIVIL INDIVIDUAL Código de Processo Civil brasileiro é norma individualista de inspiração neoliberal CPC, Art. 18. Ninguém poderá pleitear direito alheio em nome próprio, salvo quando autorizado pelo ordenamento jurídico. Parágrafo único. Havendo substituição processual, o substituído poderá intervir como assistente litisconsorcial. A INSUFICIÊNCIA DO PROCESSO CIVIL INDIVIDUAL O processo coletivo nasce porque o processo civil individual não dá conta de responder a demandas transindividuais. “Pode-se dizer que os instrumentos processuais suficientes e adequados para a solução de litígios individuais, marcantes da sociedade liberal, perdem a sua funcionalidade perante os novos e demasiadamente complicados conflitos coletivos˜. A INSUFICIÊNCIA DO PROCESSO CIVIL INDIVIDUAL No processo coletivo, contrariando a regra do processo individual, haverá pessoa escolhida para defender toda a coletividade. Substituição processual: pessoa física ou jurídica ingressa em juízo, defendendo, em nome próprio, o direito alheio, devido permissão legal. X Representação processual: pessoa física ou jurídica, que não é parte, está em juízo defendendo direito alheio, em nome alheio. A INSUFICIÊNCIA DO PROCESSO CIVIL INDIVIDUAL Legitimação ordinária: ocorre quando alguém ingressa em juízo, procurando obter tutela para um direito próprio. X Legitimação extraordinária: ocorre quando alguém defende em nome próprio o direito alheio. Partes do processo não são os titulares da relação jurídica. A INSUFICIÊNCIA DO PROCESSO CIVIL INDIVIDUAL Sobre a legitimação extraordinária: deve estar autorizada por lei; o legitimidade extraordinário é parte no processo; a coisa julga alcança apenas o patrimônio do substituído; o substituto não tem poderes de disposição do direito material discutido. CONCEITO DE PROCESSO COLETIVO ‘aquele instaurado por ou em face de um legitimado autônomo/, em que se postula um direito coletivo lato sensu ou se afirma a existência de uma situação jurídica coletiva passiva, com o fito de obter um provimento jurisdicional que atingirá uma coletividade, um grupo ou um determinado número de pessoas” (DIDIER JR.) CLASSIFICAÇÃO DO PROCESSO COLETIVO QUANTO AOS SUJEITOS: Processo Coletivo ativo: é aquele cuja titularidade ativa da ação é da coletividade. Regra no Brasil. Processo Coletivo passivo: a coletividade é ré. Ex: ações coletivas ajuizadas pelo MPF para evitar greve de servidores federais. CLASSIFICAÇÃO DO PROCESSO COLETIVO QUANTO AO OBJETO Processo Coletivo especial: objeto de estudo do direito constitucional. Referente às ações objetivas para controle abstrato de constitucionalidade, a exemplo da ADI e da ADC... Processo Coletivo comum: objeto de estudo do processo coletivo. Ações para a tutela dos direitos metaindividuais. São exemplos: Ação Civil Pública (Lei 7.347/85); Ação Popular (Lei n. 4.717/65); Mandado de Segurança Coletivo (Lei 12.016/09) MICROSSISTEMA Microssistema da tutela coletiva e do processo coletivo é formado por uma reunião intercomunicante de diversos diplomas legislativos. Não existe, em nosso sistema jurídico, uma codificação específica para o processo coletivo. Normas estão espalhadas pelo ordenamento jurídico. MICROSSISTEMA Lei da Ação Popular O processo coletivo no Brasil começou a se estruturar com a reforma de 1977 da Lei da Ação Popular (Lei 4.717/1965), que originalmente visava proteger apenas o patrimônio público. A reforma ampliou a proteção para incluir também bens e direitos não econômicos, como valores artísticos, históricos, estéticos e turísticos (art. 1º, & 1º); Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (1981) A Lei 6.938/1981 reforçou a atuação do Ministério Público, que passou a ter legitimidade para propor ações reparatórias por danos ao meio ambiente, consolidando a atuação do órgão na defesa de interesses difusos (art. 14, & 1º); MICROSSISTEMA Ação Civil Pública (1985) A Lei 7.347/1985 criou um importante mecanismo de responsabilidade civil por danos ao meio ambiente, ao consumidor e a bens culturais, sendo uma referência para ações coletivas de grande impacto social; Constituição Federal de 1988 A Constituição de 1988 foi um marco na evolução do processo coletivo, atribuindo ao Ministério Público a missão de promover o inquérito civil e a ação civil pública para proteger o patrimônio público, o meio ambiente e outros interesses difusos e coletivos. Também ampliou a legitimação de outros entes para ajuizar essas ações; MICROSSISTEMA Código de Defesa do Consumidor (1990) O CDC (Lei 8.078/1990) estabeleceu um microssistema de processo coletivo aplicável a toda a proteção de interesses coletivos lato sensu, inclusive os individuais homogêneos, ampliando o alcance das ações coletivas em diversas áreas, como o consumo. MICROSSISTEMA [...] o Código de Defesa do Consumidor em 1990 trouxe impacto sobre o processo civil individualista, pois possibilitou a tutela simultânea de um número incontável de pessoas titulares de determinados direitos lesionados, sem que seja necessário o reconhecimento processual dessas pessoas e nem mesmo a específica lesão que cada um tenha sofrido (Claudia Lima Marques, 2006) NORMAS DE REENVIO. NÚCLEO ESSENCIAL Art. 21. Aplicam-se à defesa dos direitos e interesses difusos, coletivos e individuais, no que for cabível, os dispositivos do Título III da lei que instituiu o Código de Defesa do Consumidor. (Incluído Lei nº 8.078, de 1990) Art. 90. Aplicam-se às ações previstas neste título as normas do Código de Processo Civil e da Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985, inclusive no que respeita ao inquérito civil, naquilo que não contrariar suas disposições. FINALIDADE DO MICROSSISTEMA Resolver omissões existentes na regulação dos instrumentos da tutela coletiva (aplicação subsidiária). Ex: prazo prescricional para a propositura de uma ação civil pública – omissão da lacp – resposta vem do art. 27 do cdc, do art. 21 da lacp: 5 anos. Quando o microssistema não dá conta da lacuna, aplica-se o código civil (direito material) e o código de processo civil (direito processual) (aplicação residual) PRINCÍPIOS A palavra princípio, em sua raiz latina, significa aquilo que se toma primeiro (primum capere), designando início, começo, ponto de partida. Princípios encerram enunciações normativas, de valor genérico, envolvendo a interpretação, aplicação e integração do ordenamento jurídico. ACESSO À JUSTIÇA CF, Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito; CPC, Art. 3º Não se excluirá da apreciação jurisdicional ameaça ou lesão a direito. ACESSO À JUSTIÇA “O princípio que, no processo individual, diz respeito exclusivamente ao cidadão, objetivando nortear a solução de controvérsias limitadas ao círculo de interesses da pessoa, no processo coletivo transmuda-se em princípio de interesse de uma coletividade, formada por centenas, milhares e às vezes milhões de pessoas”; O acesso à justiça, para não se transformar em mera garantia formal, desafia o Estado a prover meios para que ele se concretize em toda a sua plenitude. ACESSO À JUSTIÇA Instituir a legitimação extraordinária como padrão, admitindo-se que determinadas pessoas ou entes compareçam a juízo, em nome próprio, para defender direito ou interesse alheio. UNIVERSALIDADE DA JURISDIÇÃO Se, no processo individual, o alargamento do acesso à justiça limitava-se às lides interindividuais, o desenvolvimento do processo coletivo representou um imenso ganho para a universalização da jurisdição, uma vez que somente ele levou a tutela jurisdicional às massas eaos conflitos de massas. PARTICIPAÇÃO PELO PROCESSO Participar no processo, em suma, e ter assegurado o direito ao contraditório, ou seja, de ser informado acerca dos atos processuais e de pratica-los. Participar pelo processo significa utilizá-lo para influir nos destinos da nação e do Estado, ou seja, e empregá-lo com vistas ao seu escopo político. O processo coletivo valorizou a participação pelo processo ao outorgar aos por meio da lei a legitimidade para a defesa em juízo de grandes causas. ECONOMIA PROCESSUAL Mais resultados empregando o mínimo possível de atividades processuais. O processo coletivo potencializa o alcance desse princípio, mormente no caso das ações em prol de direitos individuais homogêneos PRIMAZIA DO CONHECIMENTO DO MÉRITO Impede que na demanda coletiva se busque, num formalismo exagerado, justificativa para extinguir o processo, afetando o reconhecimento de um direito difuso ou coletivo. Instrumentalidade das formas e flexibilização da técnica processual. Relevância transindividual do litígio. MÁXIMA PRIORIDADE JURISDICIONAL DA TUTELA COLETIVA Deve haver prioridade no julgamento dos processos coletivos em relação aos processos individuais. Justificativa: evitar a proliferação de processos individuais; afastar o indesejável efeito das sentenças individuais conflitantes entre si e com a sentença coletiva; o interesse social prevalece sobre os individuais. DISPONIBILIDADE MOTIVADA DAS AÇÕES COLETIVAS Dada a relevância social dos interesses objeto das ações coletivas, delas não se pode desistir sem um justo motivo, tampouco se pode simplesmente abandoná-las. Segundo esse princípio, a desistência infundada ou o abandono da ação coletiva demandam a assunção do polo ativo pelo Ministério Público ou por outro legitimado. DISPONIBILIDADE MOTIVADA DAS AÇÕES COLETIVAS LACP, Art. 5º [...] § 3° Em caso de desistência infundada ou abandono da ação por associação legitimada, o Ministério Público ou outro legitimado assumirá a titularidade ativa. (Redação dada pela Lei nº 8.078, de 1990) LAP, Art. 9º Se o autor desistir da ação ou der motiva à absolvição da instância, serão publicados editais nos prazos e condições previstos no art. 7º, inciso II, ficando assegurado a qualquer cidadão, bem como ao representante do Ministério Público, dentro do prazo de 90 (noventa) dias da última publicação feita, promover o prosseguimento da ação. NÃO TAXATIVIDADE DA AÇÃO COLETIVA PERSPETIVA PROCESSUAL Art. 83. Para a defesa dos direitos e interesses protegidos por este código são admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela. NÃO TAXATIVIDADE DA AÇÃO COLETIVA PERSPECTIVA MATERIAL Art. 1º Regem-se pelas disposições desta Lei, sem prejuízo da ação popular, as ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados: l - ao meio-ambiente; ll - ao consumidor; III – a bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico; IV - a qualquer outro interesse difuso ou coletivo. (...) MÁXIMO BENEFÍCIO DA TUTELA JURISDICIONAL COLETIVA Coisa julgada coletiva; Uma única sentença pode aproveitar um expressivo número de interessados, otimizando a pacificação dos conflitos sociais, e evitando a proliferação de ações individuais na fase de conhecimento. A sentença coletiva pode ser liquidada pelos titulares do direito. MÁXIMO BENEFÍCIO DA TUTELA JURISDICIONAL COLETIVA A coisa julgada do processo coletivo só beneficia o indivíduo, nunca prejudica. Se o juiz de uma ação coletiva a julga procedente, e, em grau de recurso, o tribunal mantém a improcedência, essa decisão transita em julgado, porém não prejudica as ações individuais. CDC, Art. 103, § 3º Os efeitos da coisa julgada de que cuida o art. 16, combinado com o art. 13 da Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985, não prejudicarão as ações de indenização por danos pessoalmente sofridos, propostas individualmente ou na forma prevista neste código, mas, se procedente o pedido, beneficiarão as vítimas e seus sucessores, que poderão proceder à liquidação e à execução, nos termos dos arts. 96 a 99. OBRIGATORIEDADE DA EXECUÇÃO PELO MP No processo coletivo comum, caso o autor da ação deixe de executar a sentença, o Ministério Público é obrigado a fazê-lo. No caso da ação civil pública, tal obrigação só incide depois do trânsito em julgado (LACP, art. 15). Já na hipótese de ação popular, a obrigação existirá tanto em relação à execução definitiva (sentença transitada em julgado), como em relação à execução provisória (com a ressalva de que, nas ações populares, apenas a sentença de segunda instância é passível de execução provisória, conforme o art. 16 da LAP). OBRIGATORIEDADE DA EXECUÇÃO PELO MP LACP, Art. 15. Decorridos sessenta dias do trânsito em julgado da sentença condenatória, sem que a associação autora lhe promova a execução, deverá fazê-lo o Ministério Público, facultada igual iniciativa aos demais legitimados. LAP, Art. 16. Caso decorridos 60 (sessenta) dias da publicação da sentença condenatória de segunda instância, sem que o autor ou terceiro promova a respectiva execução. o representante do Ministério Público a promoverá nos 30 (trinta) dias seguintes, sob pena de falta grave. AMPLA DIVULGAÇÃO DA DEMANDA CDC, Art. 94. Proposta a ação, será publicado edital no órgão oficial, a fim de que os interessados possam intervir no processo como litisconsortes, sem prejuízo de ampla divulgação pelos meios de comunicação social por parte dos órgãos de defesa do consumidor. AMPLA DIVULGAÇÃO DA DEMANDA CDC, Art. 104. As ações coletivas, previstas nos incisos I e II e do parágrafo único do art. 81, não induzem litispendência para as ações individuais, mas os efeitos da coisa julgada erga omnes ou ultra partes a que aludem os incisos II e III do artigo anterior não beneficiarão os autores das ações individuais, se não for requerida sua suspensão no prazo de trinta dias, a contar da ciência nos autos do ajuizamento da ação coletiva. AMPLA DIVULGAÇÃO DA DEMANDA LEI MS, Art. 22. No mandado de segurança coletivo, a sentença fará coisa julgada limitadamente aos membros do grupo ou categoria substituídos pelo impetrante. (Vide ADIN 4296) § 1º O mandado de segurança coletivo não induz litispendência para as ações individuais, mas os efeitos da coisa julgada não beneficiarão o impetrante a título individual se não requerer a desistência de seu mandado de segurança no prazo de 30 (trinta) dias a contar da ciência comprovada da impetração da segurança coletiva. INFORMAÇÃO AOS ÓRGÃOS LEGITIMADOS Qualquer pessoa pode - e o servidor público deve - levar ao conhecimento dos 6rgaos legitimados para ajuizar uma ação coletiva a ocorrência de fatos que possam motiva-la. INFORMAÇÃO AOS ÓRGÃOS LEGITIMADOS LACP, Art. 6º Qualquer pessoa poderá e o servidor público deverá provocar a iniciativa do Ministério Público, ministrando-lhe informações sobre fatos que constituam objeto da ação civil e indicando-lhe os elementos de convicção. (PRINCÍPIO DEMOCRÁTICO DE PARTICIPAÇÃO / DEVER CÍVICO) LACP, Art. 7º Se, no exercício de suas funções, os juízes e tribunais tiverem conhecimento de fatos que possam ensejar a propositura da ação civil, remeterão peças ao Ministério Público para as providências cabíveis. (DEVER CÍVICO) MAIOR COINCIDÊNCIA ENTRE O DIREITO E SUA REALIZAÇÃO Não é dado ao autor da ação, mero substituto processual, nem mesmo ao próprio magistrado, oferecer ao titular do direito material envolvido solução diversa que não a restituição do próprio direito in natura, já que essa é, sempre, a tutela jurisdicional mais efetiva. MAIOR COINCIDÊNCIA ENTRE O DIREITO E SUA REALIZAÇÃO CDC, Art. 84. Na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação de fazer ou não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou determinará providências que assegurem o resultado prático equivalente ao do adimplemento. MÁXIMA EFETIVIDADE Atribui-se ao juiz possibilidades extraordinárias na condução do processo coletivo.No processo coletivo, o juiz pode-deve: Instruir o processo da forma mais aguda, livre e ampla possível; Operar, quando necessário, flexibilização procedimental; Desvincular-se do pedido. O que interessa é a tutela, não o pedido. image1.jpeg