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# • COLEÇÃO
sinopses
PARA CONCURSOS
Coordenação
Leonardo Garcia
José Roberto Mello Porto
PROCESSO
COLETIVO
INCLUI
• Questões recentes de concursos
• Quadros de ATENÇÃO com partes importantes destacadas pelos autores
• Palavras-chave destacadas
• Entendimentosjurisprudenciais sobre o tema
• Jurisprudência do STF e do STJ
Prefácio: Daniel Amorim Assumpção Neves
2° edição
Reuista, atualisada
e ampliada
Ill
www.editorajuspodivm.com.br
EDITORA
Jt(ÇPODIVM
José Roberto Mello Porto
Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro.
Ex-assessor da Presidência do Supremo
Tribunal Federal (2020/2021).
Doutorando em Direito Processual (UERJ).
Mestre em Direito Processual (UERJ).
Pós-graduado em Direito Privado (UCAM).
Membro do Instituto Brasileiro de Direito
Processual (IBDP).
Presidente da Comissão de Estudos em Processo
Ciuil da Ordem dos Aduogados do Brasil —
Seccional Rio de Janeiro (2019/2021).
@joserobertomelloPorto
EDITORA
fiisPODIVM
www.editoraluspodivm.com.br
COLEÇAO
sinopses
PARA CONCURSOS
Coordenação
Leonardo Garcia
José Roberto Mello Porto
PROCESSO
COLETIVO
2' edição
Reoisto, atualijado
e ampliado
2022
1 1 EDITORA I JusPODIVM
www.editorajuspodivm.com.br
141 EDITORA JusPODIVM
www.editorajuspodivm.com.br
Rua Canuto Saraiva, 131 - Mooca - CEP: 03113-010 - São Paulo - São Paulo
Tel: (11) 3582.5757
• Contato: https://www.editorajuspodivm.com.br/sac
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Capa: Ana Caquetti
5617 Sinopses para Concursos - v.54 - Processo Coletivo / José Roberto Mello Porto -
São Paulo: Editora JusPodivm, 2022.
304 p. (Sinopses para Concursos / coordenador Leonardo Garcia)
Bibliografia.
ISBN 978-65-5680-812-3.
1. Direito Processual. 2. Processo coletivo. I. Porto, José Roberto Mello. II.
Garcia, Leonardo. Ill. Título.
CDD 341.4
Todos os direitos desta edição reservados a Edições JusPODIVM.
É terminantemente proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio
ou processo, sem a expressa autorização do autor e das Edições JusPODIVM. A violação dos
direitos autorais caracteriza crime descrito na legislação em vigor, sem prejuízo das sanções
civis cabíveis.
Atualizado até informativo 710 do STle 1.024 do STF.
Coleção Sinopses
para Concursos
A Coleção Sinopses para Concursos tem por finalidade a prepa-
ração para concursos públicos de modo prático, sistematizado e
objetivo.
Foram separadas as principais matérias constantes nos editais e
chamados professores especializados em preparação de concursos
a fim de elaborarem, de forma didática, o material necessário para
a aprovação em concursos.
Diferentemente de outras sinopses/resumos, preocupamo-nos
em apresentar ao leitor o entendimento do STF e do ST) sobre os
principais pontos, além de abordar temas tratados em manuais e
livros mais densos. Assim, ao mesmo tempo em que o leitor en-
contrará um livro sistematizado e objetivo, também terá acesso a
temas atuais e entendimentos jurisprudenciais.
Dentro da metodologia que entendemos ser a mais apropriada
para a preparação nas provas, demos destaques (ern outra cor) às
palavras-chaves, de modo a facilitar não somente a visualização,
mas, sobretudo, a compreensão do que é mais importante dentro
de cada matéria.
Quadros sinóticos, tabelas comparativas, esquemas e gráficos
são uma constante da coleção, aumentando a compreensão e a
memorização do leitor.
Contemplamos também questões das principais organizadoras
de concursos do país, como forma de mostrar ao leitor como o
assunto foi cobrado em provas. Atualmente, essa "casadinha" é
fundamental: conhecimento sistematizado da matéria e como foi a
sua abordagem nos concursos.
Esperamos que goste de mais esta inovação que a Editora Jus-
podivm apresenta.
6 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Nosso objetivo é sempre o mesmo: otimizar o estudo para que
você consiga a aprovação desejada.
Bons estudos!
Leonardo Garcia
leonardo@leonardogarcia.com.br
www.leonardogarcia.com.br
instagram: @leomgarcia
Guia de leitura da Coleção
A Coleção foi elaborada com a metodologia que entendemos
ser a mais apropriada para a preparação de concursos.
Neste contexto, a Coleção contempla:
• DOUTRINA OTIMIZADA PARA CONCURSOS
Além de cada autor abordar, de maneira sistematizada, os as-
suntos triviais sobre cada matéria, são contemplados temas atuais,
de suma importância para uma boa preparação para as provas.
Registre-se, por fim, ser intensa a polêmica em torno desse
pressuposto processual (capacidade de ser parte), pois:
0 há quem o negue, enquanto pressuposto processual autô-
nomo (DINAMARCO. V. 2, 2009, p. 61);
ii) há quem silencie quanto a ele (RODRIGUES, 2003, p. 273);
iii) há quem o considere requisito de validade (LACERDA, 1953,
p. 60-68).
• ENTENDIMENTOS DO STF E STJ SOBRE OS PRINCIPAIS PONTOS
Atenção!
Insta conferir alguns posicionamentos do STF e ST).
O STJ vinha se posicionando pela inconstitucionalidade dessa
prática, pois, na forma do art. 93, III, CF, órgãos jurisdicionais
são estruturados de forma hierarquizada, havendo hierar-
quia entre os membros dos tribunais e os juízes de primeira
instância e, por isso, não é cabível revisão de julgados de
juízes de primeira instância por outros juízes de primeira
instância - salvo nos Juizados Especiais (art. 98, CF) (como se
deu no HC n. 9.405-SP, 6' T., Rel. para acórdão Min. Maria The-
reza de Assis Moura, j. 11.09.207, DJ 17.11.2007; e HC n. 98.769-
SP, 5' T., Rel. Min. Laurita Vaz, j. 08.05.2008, Die 02.06.2008).
8 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
• PALAVRAS-CHAVES EM OUTRA COR
As palavras mais importantes (palavras-chaves) são colocadas
em outra cor para que o leitor consiga visualizá-la e memorizá-la
mais facilmente.
Na verdade, no contexto dos meios de prova, não há óbice
ao emprego daqueles previstos em lei estrangeira, por predomi-
nar em nosso ordenamento o princípio da atipicidade (art. 332,
CPC). Admite-se o emprego de meios atípicos de prova, desde
que legais e moralmente legítimos, ainda que não previstos em lei
processual brasileira.
• QUADROS, TABELAS COMPARATIVAS, ESQUEMAS E DESENHOS
Com esta técnica, o leitor sintetiza e memoriza mais facilmente
os principais assuntos tratados no livro.
Ação Direito
• QUESTÕES DE CONCURSOS NO DECORRER DO TEXTO
Através da seção "Como esse assunto foi cobrado em concurso?"
é apresentado ao leitor como as principais organizadoras de con-
curso do país cobram o assunto nas provas.
Como esse assunto foi cobrado em concurso
No VIII concurso para provimento de cargo de Procurador do
Trabalho - MPT, foi reconhecido o equívoco da assertiva de
que "a jurisdição é o instrumento pelo qual o Estado declara
o direito no caso concreto".
Dedico esse livro a três pessoas fundamentais na minha cami-
nhada até a aprovação: minha mãe, Lorena, minha avó, Assunção,
e minha (eterna) namorada, Maria Carolina. Amo vocês.
Nota do Autor
Caros leitores,
Fiz esse livro com enorme dedicação e com um foco bem claro:
facilitar a aprovação de vocês. Sei que muitos não devem ter es-
tudado o Direito Processual Coletivo na faculdade, e outros tantos
não o fizeram como gostariam.
Paciência.
A caminhada até a aprovação não contempla arrependimentos:
é um contínuo olhar para frente. Lamentar é perder tempo e per-
der tempo é demorar mais para ser aprovado. Ponto.
Essa sinopse traz os principais elementos do Processo Coletivo -
e que caem em prova. Eu a estruturei em quinze capítulos: quator-
ze deles com elementos fundamentais e um com vários aspectos
menores, peculiares dos processos coletivos, quando comparados
aos processos individuais.
Inseri as ações em espécie (o que têm de particular) nos pró-
prios capítulos, sem destacar um para a ação popular, outro para
o mandado de segurança coletivo, paraa ação de improbidade
administrativa (que, aliás, é tratada de forma isolada em outra
obra dessa coleção) e para o mandado de injunção coletivo. Acre-
dito que, assim, é facilitada a percepção do que é, efetivamente, o
microssistema de processos coletivos.
Fico à disposição de todos para retirar dúvidas e complementar
o estudo. Podem me procurar pelo Instagram (@joserobertomello-
porto) e seguir o canal do Telegram (José Roberto Mello Porto),
onde há conteúdo diário de qualidade.
Bons estudos! O sonhado cargo nunca esteve tão perto!
José Roberto Mello Porto
Prefácio
O autor do presente livro me honrou com a missão de escrever
o seu prefácio. Antes de destacar as evidentes e indiscutíveis quali-
dades da obra, peço a paciência do leitor para uma breve explica-
ção das razões que podem ter motivado tal convite.
Anos atrás - nem me lembro precisamente quando - recebi um
telefonema de Carlos Vinha, à época o "comandante" do Curso
Forum, localizado na Cidade Maravilhosa. Ele queria me fazer um
convite: ministrar um curso de zo horas de processo coletivo. Per-
guntado se eu tinha interesse, não faltei com a verdade a res-
ponder que sim. Questionado se estava acostumando em ministrar
aulas daquela matéria, respondi novamente que sim, mas dessa
vez faltei com a verdade, considerando que nunca havia ministrado
aulas dessa matéria.
Convite aceito deixei São Paulo e rumei ao Rio de janeiro, con-
sideravelmente nervoso, para dar início ao curso de processo co-
letivo. E naquela distante manhã de terça-feira, da Rua Candelária,
nasceram duas paixões: processo coletivo e Curso Forum. Até os
dias atuais ministro aulas no Curso Forum, indo ao Rio de janeiro
toda semana. E finalmente, anos atrás, escrevi meu Manual de Pro-
cesso Coletivo.
E o que isso tudo tem a ver com a presente obra e seu autor?
Muita coisa. José Roberto Mello Porto foi meu aluno no Curso Fo-
rum e atualmente, já sob a batuta de Camila incelli, é meu colega
na docência do mesmo curso. Da relação professor-aluno surgiu a
relação professor-professor, mas, ainda mais importante, uma re-
lação de amizade, que certamente justificou, muito além de outras
condições, o presente convite.
E qual não foi a minha felicidade em prefaciar justamente uma
obra de Processo Coletivo, a matéria que me levou ao Curso Forum,
onde conheci o autor e, durante os anos, com ele construí uma
relação de amizade.
A obra é organizada em 15 capítulos, o que por si só já anuncia
tratar-se de obra de fôlego. Me agradou muito a opção do autor de
14 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
não tratar de forma setorizada as espécies de ação coletiva, mas
distribuir a obra em capítulos que se referem a temas da tutela
coletiva, tratando incidentalmente, e quando necessário, das pecu-
liaridades de cada ação.
1-lá toda uma base para que o leitor ingresse no "mundo" do
processo coletivo sem sobressaltos: a exposição de conceitos es-
senciais, a origem da tutela coletiva, a descrição da situação legis-
lativa atual e o enfrentamento dos princípios do processo coletivo,
tão importantes para a compreensão e interpretação das normas
do microssistema coletivo, bem como da aplicação subsidiária a tal
microssistema processual do Código de Processo Civil.
Após formada a base necessária para voos mais longos, o autor
se debruça em institutos processuais que, embora presentes na tu-
tela individual, tem muitas peculiaridades na tutela coletiva. Nesse
sentido a legitimidade ativa e passiva; o litisconsórcio e as inter-
venções de terceiro, a competência, a sentença e coisa julgada, a
liquidação e a execução.
Não escapou também ao autor temas atuais e de extrema re-
levância acadêmica e prática, como a adoção das ações coletivas
para a implementação de políticas públicas, os processos estrutu-
rais e os instrumentos extrajudiciais coletivos, inclusive a possibi-
lidade de os conflitos serem resolvidos por atividade distinta da
jurisdicional.
Não resta dúvida de que o autor, seja pela organização da obra,
seja pela escrita fluida e agradável, ou ainda pelo conteúdo de
seus escritos, merece os parabéns! E o agradecimento de todos
que se interessam pelo tema da tutela coletiva por ter se empe-
nhado tanto para apresentar um trabalho de tamanha qualidade.
Só estou com uma dúvida: ainda não estou plenamente conven-
cido que prefaciei uma sinopse, tamanha a completude do traba-
lho. Seja como for, sinopse ou não, a obra merece atenta leitura.
Daniel Amorim Assumpção Neves
Sumário
CAPITULO I I CONCEITOS ESSENCIAIS 21
1. Tutela coletiva e meios de solução coletiva de conflitos 21
2. Ação coletiva e processo coletivo 22
2.1. Situações limítrofes 23
3. Classificações doutrinárias 24
3.1. Processo coletivo comum e processo coletivo especial 24
3.2. Tutela coletiva pela via principal e tutela coletiva pela via
incidental 24
3.3. Tutela metaindividual (transindividual) e tutela pluri-
-individual 25
3.4. Técnicas individuais de repercussão coletiva e técnicas
coletivas de repercussão individual 25
3.5. Coletivização parcial e coletivização total 26
3.6. Tutela de direitos coletivos e tutela coletiva de direitos 26
CAPÍTULO II I ORIGEM DA TUTELA COLETIVA 27
1. Origem remota 27
2. Origem próxima 28
CAPÍTULO III I LEGISLAÇÃO NO BRASIL 29
1. Evolução legislativa 29
2. Microssistema de tutela coletiva 34
CAPÍTULO IV > PRINCÍPIOS DO PROCESSO COLETIVO 37
1. Acesso à justiça 37
2. Universalidade da jurisdição 38
3. Isonomia 38
4. Segurança jurídica 39
5. Economia processual 39
6. Devido processo legal coletivo 40
7. Primazia do mérito ou continuidade da ação coletiva 40
8. Disponibilidade motivada (da ação e dos recursos) 40
9. Não taxatividade 43
16 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
lo. Atipicidade, máxima amplitude ou absoluta instrumentalidade 48
11. Obrigatoriedade temperada ou mitigada (indisponibilidade) 51
12. Discricionariedade controlada 51
13. Obrigatoriedade da execução 51
14. Prevalência da execução dos prejuízos individuais 53
15. Participação 53
16. Publicidade 53
17. Ampla divulgação ou adequada notificação dos membros do
grupo 54
18. Informação aos legitimados 54
19. Máximo benefício ou regime jurídico in utilibus 56
zo. Reparação integral do dano 56
21. Máxima efetividade, predominância dos aspectos inquisitivos
ou ativismo judicial 57
22. Competência adequada 58
23. Aplicação integrada das normas 58
CAPÍTULO V I DIREITOS E INTERESSES 59
i. Terminologia 59
1.1. Interesse material e interesse processual 59
1.2. Interesse privado, interesse social, interesse geral e inte-
resse público 59
1.3. Interesses ou direitos coletivos? 60
2. Classificação 62
2.1. Direitos difusos 64
2.2. Direitos coletivos 65
2.3. Direitos individuais homogêneos 67
2.4. Direitos individuais indisponíveis 70
2.5. Quadro síntese 72
3. Direitos essencialmente coletivos e direitos acidentalmente
coletivos 74
4. Objetos específicos 74
4.1. Ação popular 74
4.2. Ação de improbidade administrativa 76
4.3. Mandado de segurança coletivo 78
4.4. Mandado de injunção coletivo 79
CAPÍTULO VI I CONFLITOS COLETIVOS 81
1. Classificação 81
Sumário 17
1.1. Litígios transindividuais de difusão global 82
1.2. Litígios transindividuais de difusão local 82
1.3. Litígios transindividuais de difusão irradiada 83
1.4. Quadro síntese 84
CAPÍTULO VII LEGITIMIDADE 85
1. Natureza 85
2. Legitimados ativos 88
2.1. Ação civil pública 88
2.1.1. Ministério Público 89
2.1.2. Defensoria Pública 94
2.1.3. Administração Pública loo
2.1.4. Associações 101
2.1.5. Sindicatos 111
2.1.6. Partidos políticos 112
2.1.7. Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) 112
2.1.8. Cooperativas 113
2.1.9. Comunidades indígenas 114
2.2. Ação popular 114
2.3. Ação de improbidade administrativa119
2.4. Mandado de segurança coletivo 120
2.5. Mandado de injunção coletivo 124
3. Legitimados passivos 125
3.1. Ação civil pública 125
3.2. Ação popular 126
3.3. Ação de improbidade administrativa 126
3.4. Mandado de segurança coletivo 127
3.5. Mandado de injunção coletivo 129
4. Legitimidade bifronte 130
5. Representatividade adequada 132
6. Legitimidade extraordinária convencionada 133
7. Quadro síntese 134
CAPÍTULO VIII LMSCONSORCIO E INTERVENÇÕES 135
1. Litisconsórcio 135
2. Intervenção do indivíduo 137
3. Intervenção do Ministério Público e da Defensoria Pública 140
4. Intervenção de terceiros 143
18 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
CAPÍTULO IX I COMPETÊNCIA 145
1. Competência de Justiça 145
2. Competência de foro 146
2.1. Ação civil pública 146
2.2. Ação popular 149
2.3. Ação de improbidade administrativa 152
2.4. Mandado de segurança coletivo 153
2.5. Quadro síntese 153
3. Competência de juízo 153
CAPÍTULO X I RELAÇÃO ENTRE AÇÕES 159
1. Relação entre ações coletivas 159
2. Relação entre ação coletiva e ações individuais 165
2.1. Ação individual anterior à ação coletiva 166
2.2. Ação coletiva anterior à ação individual 170
2.3. Quadro síntese 171
CAPITULO XI > SENTENÇA E COISA JULGADA 173
i. Sentença coletiva 173
1.1. Direitos difusos e coletivos 173
1.2. Direitos individuais homogêneos 177
2. Coisa julgada 180
2.1. Limites objetivos 180
2.2. Limites subjetivos 180
2.3. Limites territoriais 183
2.4. Coisa julgada secundum eventum probationis 187
2.5. Coisa julgada secundum eventum litis in utilibus 190
3. Transporte in utilibus 191
4. Coisa julgada coletiva penal 192
CAPÍTULO XII I MEIOS DE IMPUGNAÇÃO DAS DECISÕES 193
1. Recursos 193
1.1. Cabimento 193
1.2. Legitimidade 195
1.3. Interesse 196
1.4. Tempestividade 196
1.5. Desistência e renúncia 197
1.6. Efeito suspensivo 198
Sumário 19
2. Remessa necessária 199
3. Requerimento de suspensão da decisão 203
CAPÍTULO XIII I LIQUIDAÇÃO E EXECUÇÃO 207
1. Direitos transindividuais 207
2. Direitos individuais homogêneos 208
3. Modalidades de execução 209
3.1. Execução coletiva 210
3.2. Execução individual 212
3.3. Execução pseudocoletiva 213
4. Meios executivos 214
5. Execução provisória 218
6. Execução negociada 219
CAPÍTULO XIV I TEMAS PECULIARES DO PROCESSO COLETIVO 221
1. Despesas processuais 221
2. Tutela provisória 229
3. Ação coletiva passiva 232
4. Controle de constitucionalidade 234
4.1. Controle de políticas públicas 235
5. Processos estruturantes 239
6. Acordos 241
6.1. Improbidade administrativa 243
7. Negócios jurídicos processuais 246
8. Ônus da prova 247
9. Peculiaridades procedimentais 248
9.1. Emenda da petição inicial 248
9.2. Reconvenção 249
9.3. Ação popular 250
9.4. Ação de improbidade administrativa 252
io. Prescrição 252
ii. Decadência 260
12. Dano moral coletivo 261
CAPÍTULO XV I INSTRUMENTOS EXTRAJUDICIAIS 265
i. Procedimentos instrutórios 265
1.1. Inquérito civil 266
20 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
1.1.1. Instauração 272
1.1.2. Instrução 274
1.1.3. Conclusão 275
2. Recomendação 278
3. Compromisso de ajustamento de conduta 280
3.1. Termo de ajustamento de conduta 285
4. Mediação e arbitragem 290
BIBLIOGRAFIA 291
•Capítulo
Conceitos Essenciais
1. TUTELA COLETIVA E MEIOS DE SOLUÇÃO COLETIVA DE CONFLITOS
Ao exercer a função jurisdicional, o Estado busca garantir pro-
teção a determinado bem jurídico, lesado ou ameaçado. Tal pro-
teção, produto dessa atividade eminentemente estatal, é a tutela
jurisdicional.
Em linhas simples, Daniel Assumpção afirma que a tutela coleti-
va é tutela voltada a proteção de determinados direitos materiais,
eleitos pelo legislador. Em outras palavras, a tutela será coletiva
quando o direito protegido for coletivo:
• Por essência (direitos metaindividuais - difusos e coletivos em
sentido estrito).
• Por opção legislativa (direitos individuais homogêneos).
• Por outro lado, alguns autores preferem compreender a tutela
como um elemento relacionado ao direito material protegido,
em contraposição ao processo, instrumento para tanto.
Prefiro, contudo, entender a tutela como gênero para resolver
conflitos coletivos. Existem, atualmente, no ordenamento brasileiro,
três meios de solução coletiva de conflitos, como ensinam Aluisio
Mendes e Larissa Pochmann:
2) Ações coletivas (processos coletivos);
2) Instrumentos de resolução de múltiplas demandas em reduzi-
da atividade jurisdicional, que podem ser:
a) Processos (causas) modelo, quando o incidente dispen-
sa o julgamento de um caso concreto, como em um IRDR
em que o recorrente do processo principal desiste do
recurso, de acordo com o art. 976, §L., do CPC; ou
22 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Processos (causas) piloto, quando existe o julgamento de
um caso concreto, com extensão da ratio decidendi (fun-
damentos da decisão) para os demais casos similares.
Meios extrajudiciais de solução de conflitos coletivos.
A esse respeito, vale destacar que, indiretamente, o Superior
Tribunal de justiça já reconheceu os incidentes de fixação de teses
como meios de tutela coletiva, ao reler o funcionamento do mi-
crossistema de processos coletivos (art. 104 do CDC) à luz da sis-
temática dos recursos repetitivos, inserida no art. 543-C do CPC/73,
sublinhando a obrigatória suspensão dos processos quando da
afetação do tema para julgamento "por amostragem" - como será
visto no capítulo referente à relação entre ações.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(FUNDEP - 2019 - DPE/MG - Defensor Público) No direito brasileiro, há
duas espécies de processos jurisdicionais coletivos: as ações coletivas
e o julgamento de casos repetitivos, com objetivos distintos, mas cujos
resultados devem ser analisados caso a caso para aferir a prejudicia-
lidade entre a coisa julgada coletiva e a eficácia vinculante da tese
jurídica.
A alternativa foi considerada correta.
2. AÇÃO COLETIVA E PROCESSO COLETIVO
Pode-se conceituar ação coletiva como o exercício de direito
que dá origem à demanda veiculada por um processo coletivo.
Por sua vez, existe divergência quanto à conceituação do ,
cesso coletivo, na doutrina, que pode ser dividida em dois grandes
grupos.
A primeira corrente (Aluisio Mendes e Antonio Gicli) conceitua
o processo coletivo a partir de três elementos fundamentais, que o
diferem do processo individual:
A legitimidade é, como regra, extraordinária, vez que,
quanto aos direitos transindividuais, a legitimidade or-
dinária funciona como um impeditivo para o acesso à
justiça. Pontualmente, porém, aponta-se a ação coleti-
va movida pela comunidade indígena como um excep-
cionalíssimo caso de legitimidade ordinária, em que o
I • Conceitos Essenciais 23
Ministério Público funcionará como assistente (art. 37 da
lei 6.001/73).
O objeto do processo coletivo, o seu pedido media-
to, que deve ser um direito coletivo ou coletivamente
considerado.
A coisa julgada alcançada no processo coletivo, onde a
imutabilidade do comando da sentença atinge toda a co-
letividade (ergo omnes) ou um grupo, categoria ou classe
em especial (ultra partes), indo além da mera eficácia
subjetiva inter partes.
Dentro dessa primeira linha conceitual, alguns autores (Rodol-
fo Mancuso e Sérgio Shimura) elegem um critério finalístico, afas-
tando a legitimidade da definição, bastando que haja proteção de
objeto coletivo e a peculiar coisa julgada.
A segunda corrente (Fredie Didier e Hermes Zaneti) foca no
objeto do processo e entende que, para que exista processo co-
letivo, é suficiente que haja uma relação jurídica material litigiosa
coletiva, que depende de:
a) O sujeito ativo ou passivo ser um grupo; e
b) O objeto ser umasituação jurídica coletiva (direito, de-
ver ou estado de sujeição de tal grupo).
2.1. Situações limítrofes
Apesar da clareza desse conceito, a natureza coletiva do pro-
cesso nem sempre se mostrava evidente. Certas ações ocupam au-
têntica zona cinzenta entre o processo individual e o coletivo.
São três as hipóteses apontadas pela doutrina (especialmen-
te, Ada Pellegrini Grinover, Kazuo Watanabe e Luiz Paulo de Araújo
Filho):
3.) Ações pseudocoletivas: prepondera o interesse individual dos
sujeitos de direito, tornando-se improdutivo o manejo da ação
coletiva. Após o processo judicial coletivo, a sentença genérica
teria que passar por uma execução individual tão ou quase
tão complexa quanto o procedimento de conhecimento. Exem-
plo: danos causados por um mesmo agente a diversas pes-
soas, mas atingindo cada uma delas de forma muito peculiar,
exigindo perícia complexa na fase de liquidação individual.
24 Processo Coletivo - Vol. 54 • Jose Roberto Mello Porto
2) Ações individuais com alcance coletivo: o direito pleiteado
pelo autor individual, se reconhecido pelo judiciário, gerará
inevitáveis reflexos em terceiros e na coletividade. Exemplo:
pedido de não fechamento da rua em que o autor mora, sem
autorização.
3) Ações pseudoindividuais: a relação de direito material, global-
mente considerada, recomenda a solução coletiva, e não pul-
verizada em diversas ações individuais. Exemplo: uma tarifa
abusiva inserida em contrato de adesão por empresa conces-
sionária de serviço público.
3. CLASSIFICAÇÕES DOUTRINARIAS
A doutrina tem desenvolvido algumas classificações, que em-
barcam tanto as diversas modalidades de solução coletiva de con-
flitos - especialmente, as duas primeiras - como aspectos exclusi-
vos dos processos coletivos.
3.1. Processo coletivo comum e processo coletivo especial
A doutrina (Teor Zavascki, Gregório Assagra de Almeida) per-
cebeu - e bem - que as ações de controle concentrado de constitu-
cionalidade também são espécie de processo coletivo. O segundo
autor cunhou as denominações processo coletivo comum e proces-
so coletivo especial.
No processo coletivo comum (ações coletivas em geral), o con-
flito objeto da relação jurídica processual é concreto, envolvendo
direitos materiais.
Por outro lado, no processo coletivo especial, o conflito é abs-
trato, teórico, em tese, consistindo na análise de compatibilidade
entre um ato normativo e o texto constitucional. Afinal, existe um
interesse coletivo em um sistema constitucional coeso.
3.2. Tutela coletiva pela via principal e tutela coletiva pela via
incidental
Em outra obra (Teoria Geral dos Casos Repetitivos), realizei a
diferenciação entre a tutela coletiva pela via principal e a tutela
coletiva pela via incidental.
Cap. I • Conceitos Essenciais 25
O primeiro grupo de instrumentos de tutela coletiva (pela via
principal) diz respeito a ações autônomas, por meio de processos
judiciais que possuam como objeto principal a resolução de confli-
tos coletivos, em concreto (materiais) ou em abstrato (normativos).
O segundo grande grupo de instrumentos de tutela coletiva
(pela via incidental) no ordenamento jurídico brasileiro é composto
por incidentes, que dependem da prévia existência de ações, indi-
viduais e coletivas, que versem sobre determinada matéria.
A partir delas, os tribunais podem, de ofício ou mediante pro-
vocação, iniciar procedimento voltado à resolução de uma questão
jurídica, pacificando um tema teórico, firmando tese jurídica a ser
adotada por todos os órgãos julgadores subordinados à corte que
julgou o incidente.
3.3. Tutela metaindividual (transindividual) e tutela pluri-indivi-
dual
Nessa mesma linha, alguns autores, como Bruno Dantas, di-
ferenciam a tutela metaindividual ou transindividual - processos
coletivos - da tutela pluri-individual, referente aos incidentes de
tratamento de questões repetitivas.
3.4. Técnicas individuais de repercussão coletiva e técnicas coleti-
vas de repercussão individual
Marcelo Abelha traça interessante distinção entre as técnicas
individuais de repercussão coletiva e as técnicas coletivas de re-
percussão individual (as ações coletivas que tutelam direitos indi-
viduais homogêneos).
Técnicas coletivas de repercussão
individual (TCRI)
Técnicas individuais de
repercussão coletiva (TIRC)
Tratam de situações coletivas Tratam de situações repetitivas
Coisa julgada secundum eventum lids in
utilibus
Vinculação à conclusão do julga-
mento, salvo distinguishing
Sem suspensão de demandas individuais
(de acordo com a lei)
Suspensão das demandas em
curso
Requer legitimidade adequada (rol legal de
legitimados)
Qualquer parte no processo pode
suscitar
26 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Diante dessas diferenças, o autor conclui que as primeiras téc-
nicas seriam mais benéficas que as outras, argumentando que o
contraditório seria insuficiente nas TIRC - como no Incidente de
Resolução de Demandas Repetitivas e nos Recursos Repetitivos.
3.5. Coletivização parcial e coletivização total
Gustavo Osna, por sua vez, analisando o Multidistrict norte-
-americano, realiza distinção entre essa técnica de coletivização
parcial (voltada, inicialmente, apenas à possibilidade de realização
de instrução conjunta, otimizando a produção de provas unificada
para diversos processos) e a técnica de coletivização total (as class
actions, processos coletivos norte-americanos).
Uma desvantagem da primeira é que o ganho à isonomia, ao
acesso à justiça e à administração judiciária é relativo, dependen-
do da provocação dos envolvidos.
3.6. Tutela de direitos coletivos e tutela coletiva de direitos
Teori Zavascki cunhou classificação muito conhecida - e, por-
tanto, cobrada em provas - ao divorciar a tutela de direitos coleti-
VOS — quando o objeto são direitos difusos ou coletivos em sentido
estrito - da tutela coletiva de direitos - quando o objeto do proces-
so forem direitos individuais homogêneos.
a
Capítulo
Origem da Tutela Coletiva
1. ORIGEM REMOTA
Na família romano-germânica (civil law), o antecedente mais re-
moto das ações coletivas é a ação popular do direito romano, que
consistia na tutela, pelo cidadão, da coisa pública, vista como direito
próprio seu, embora o resultado do processo vinculasse todos os
membros da coletividade. Protegia-se, portanto, direito difuso.
Num primeiro momento, o objeto da ação tinha contornos pe-
nais, com pedidos inibitórios e sancionatórios. Porém, posterior-
mente se passou a admitir a tutela de logradouros públicos e de
bens de uso comum do povo.
Esse instrumento permaneceu em ordenamentos de diversos
Estados filiados à tradição romana, até um significativo desapare-
cimento com a queda do Império Romano, reaparecendo no século
XIX. No Brasil, a ação popular foi recepcionada pelas ordenações
Filipinas de 1603 e permanece até os dias atuais, tendo sido objeto
de regulamentação pela lei 4.717/65.
Por sua vez, a tradição anglo-saxã (common law) encontra os
mais antigos ascendentes das ações coletivas na Inglaterra medie-
val (século XII), onde os interesses coletivos de certos grupos pas-
saram a ser representados, processualmente, por seus líderes.
Posteriormente, no século XVII, foi criada a bill of peace inglesa
(século XVII): nos autos da ação individual, se requeria autorização
para que fosse processada coletivamente, evitando multiplicação
de processos, para afastar a exigência de presença de todos os
interessados na relação processual para que fossem atingidos pela
coisa julgada (compulsory joinder rule/necessary parties rule).
28 Processo Coletivo - Vol. 54 • josé Roberto Mello Porto
2. ORIGEM PRÓXIMA
De maneira mais recente, a doutrina costuma apontar três ele-
mentos determinantes na evolução do processo coletivo.
O primeiro foi o estudo das gerações (dimensões) de direitos
fundamentais.
Percebeu-se que, ao lado dos direitos de liberdade (primei-ra dimensão, envolvendo uma abstenção estatal) e de igualdade
(segunda dimensão, envolvendo uma atuação estatal), existem di-
reitos de fraternidade ou solidariedade (terceira dimensão), que
demandam uma preocupação intergeracional, difusa.
O segundo elemento fundamental foi o estudo empreendido,
na década de 1950, por Mauro Cappelletti e Bryant Garth, intitulada
Projeto Florença de Acesso à justiça.
Após uma análise empírica de diversos países, identificaram-
-se três grandes grupos de barreiras a serem ultrapassadas para
que se atingisse um real e efetivo acesso à justiça, por meio de três
correspondentes ondas renovatórias.
A primeira onda se refere ao empecilho dos custos do proces-
so, um obstáculo decisivo para o hipossuficiente econômico.
A segunda onda diz respeito à tutela dos direitos transindivi-
duais em juízo. De fato, a concepção tradicional e individualista do
processo civil não conseguia atender pretensões referentes a direi-
tos metaindividuais e indivisíveis. Elementos centrais, como a legi-
timidade e a coisa julgada, precisavam ser repensados e receber
nova roupagem - o que impulsionou a compreensão de que deve-
riam ser desenhados novos instrumentos, como o processo coletivo.
Por fim, a terceira onda apresentada no estudo diz respeito ao
aperfeiçoamento da forma do processo, ideia a envolver os pro-
cedimentos previstos pela legislação, os custos em geral (também
os custos sociais do litígio) e o tempo exigido para que houvesse
satisfação do direito material.
O terceiro marco do moderno estímulo ao Direito Processual
Coletivo é a massificação das relações sociais, jurídicas e, portanto,
processuais, com proliferação de demandas judiciais repetitivas.
Ao comentar a Constituição Federal, em 1991, josé Carlos Bar-
bosa Moreira já averiguava a ocorrência de fenômenos de massa
(produção de massa, distribuição de massa, cultura de massa), os
quais desaguariam em processos de massa.
elCapítulo
Legislação no Brasil
1. EVOLUÇÃO LEGISLATIVA
O direito processual brasileiro foi concebido em bases eminen-
temente individualistas. No entanto, é inegável que certos elemen-
tos da tutela coletiva já se encontravam em nosso ordenamento,
de maneira esparsa.
Daniel Assumpção Neves elege quatro marcos legislativos do
processo coletivo no Brasil: a Lei da Ação Popular, a Lei da Ação
Civil Pública, a Constituição Federal e o Código de Defesa do Con-
sumidor. De fato, esses são os diplomas fundamentais para serem
estudados e que são cobrados nas provas.
Mesmo antes da Lei de Ação Popular, porém, o ordenamento
abordava a temática dos direitos coletivos, timidamente. Podem
ser apontados os seguintes diplomas, anteriores a 1965:
1) Ação popular prevista nas Ordenações Filipinas e nas Constitui-
ções Federais (salvo na de 1937);
2) Representação coletiva de associações de certas classes de
funcionários (Leis 1.134/50, 2.480/55 e 3.761/60 e de advoga-
dos, pela OAB (Lei 4.2154/63).
O primeiro marco legislativo de destaque, de todo modo, é a
Lei da Ação Popular (Lei 4.717/65). São elementos inaugurados por
esse diploma:
a) Previsão do objeto: originariamente, a tutela do patri-
mônio público, assim entendido como os bens e direi-
tos de valor econômico, artístico, estético ou histórico
(art. 1.). Posteriormente, a lei 6.513/77 agregou os bens
30 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
públicos de valor turístico a esse conceito legal. Com a
Constituição Federal de 1988, a ação popular passou a
ter como objetos também a moralidade administrativa,
o meio ambiente e o patrimônio histórico e cultural (art.
5., Lxxiii, da CF).
Legitimidade ativa extraordinária do cidadão (art. 1. e
§30);
c) Legitimidade bifronte da pessoa jurídica de direito públi-
co (art. 60, §30);
Coisa julgada material secundum eventum probationis
(art. 18);
Execução obrigatória da sentença condenatória (art. 16);
Reexame necessário da sentença terminativa ou de im-
procedência (art.19);
g) Prazo prescricional (art. 21).
O segundo marco é a Lei da Ação Civil Pública (Lei 7.347/85),
que foi inovadora quanto aos seguintes elementos:
,-1), Rol de direitos tuteláveis (art. 1.): originalmente, de na-
tureza taxativa, vez que vetada a menção a "qualquer
interesse difuso";
b) Rol de legitimados ativos (art. 50);
c) Previsão do inquérito civil (arts. 8. e 90);
d) Ministério Público como fiscal da lei (art. 50, §1.);
e) Assunção da ação pelo Ministério Público, em caso de
abandono (art. 5., §30).
Sua natureza é predominantemente processual, ressalvadas
pontuais disposições de natureza penal (art. to), cuja finalidade é
fazer valer as requisições ministeriais instrutórias, e material (art.
13), ao criar o fundo para receber as condenações em dinheiro
relativas a direitos difusos e coletivos.
O terceiro marco é a Constituição Federal de 1988, abordando
a temática dos direitos coletivos sob a ótica material e processual,
valendo destacar:
• Legislação no Brasil 31
g)
Inserção de direitos coletivos no rol de direitos funda-
mentais, notadamente no título do Capítulo I do Título II,
que passa a mencionar direitos e deveres individuais e
coletivos;
I)) Ampliação da cláusula de acesso ao judiciário, que não
mais menciona apenas lesão a direito individual (art.
5., XXXV);
C) Direito de representação associativa, com a legitimidade
das associações para a tutela dos associados (art. 50,
XXI);
d) Legitimidade dos sindicatos para direitos coletivos e indi-
viduais da categoria (art. 8., III);
e) Ampliação do objeto da ação popular (art. 5., LXXIII);
f) Menção expresso à ação civil pública e ampliação de seu
objeto (art. 129, III);
Criação do mandado de segurança coletivo (art. 5., 1XX).
O quarto marco da evolução legislativa do processo coletivo
brasileiro é o Código de Defesa do Consumidor (lei 8.078/90). Des-
tacam-se os seguintes elementos inaugurados:
a) Possibilidade de se firmar termo de ajustamento de con-
duta às exigências legais (art. 5., §6.) e de litisconsórcio
entre Ministérios Públicos (art. 50, §50), inseridos na Lei
da ACP;
h) Conceituação dos direitos tuteláveis (art. 81, parágrafo
único);
c) Regras de competência, inserindo o critério da extensão
do dano (art. 93);
d) Extensão subjetiva da coisa julgada (art. 103);
e) Regras de relação entre ações coletivas e ações indivi-
duais (art. 104).
O CDC possui tanta relevância que a doutrina chama seu título
Ill de Código Brasileiro de Processos Coletivos (Fredie Didier e Her-
mes Zaneti), bem como modelo estrutural para as ações coletivas
(Aluisio Mendes).
32 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Além dos quatro pilares ou marcos legislativos, vários outros
diplomas tratam ou trataram dos direitos coletivos e do processo
coletivo. Vale mencionar os seguintes:
i) Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6.938/81),
com previsão de ação de responsabilização civil por danos
ambientais;
2) Lei Orgânica dos Ministérios Públicos Estaduais (LC 40/81), com
previsão da função institucional de promoção da ação civil
pública;
3) Lei de apoio às pessoas portadoras de deficiência (Lei
7.853/89), com previsão de legitimidade, coisa julgada secun-
dum eventum probationis, reexame necessário e legitimidade
recursal;
4) Lei de responsabilização por danos aos investidores do mer-
cado de capitais (Lei 7.913/89), com previsão de ação coletiva
para tanto, com sistemática de execução própria;
5) Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/90), com ca-
pítulo próprio voltado à tutela coletiva desses sujeitos vulne-
ráveis, com regras próprias de competência, fixação de multa
cominatória, gratuidade e criação de fundo específico, para
além da permissão de proteção de direitos individuais indis-
poníveis desses sujeitos;
6) Lei de Improbidade Administrativa (Lei 8.429/92), com previsão
de ação própria para sancionar os agentes do ato de improbi-dade e para ressarcimento dos danos;
7) Lei Orgânica do Ministério Público da União (LC 75/93), com
previsão da função institucional de tutelar direitos coletivos
em sentido amplo, pela via da ação civil pública e do inquérito
civil;
8) Lei Antitruste (Lei 8.884/94), com previsão de tutela da ordem
econômica por meio de ação civil pública;
9) Leis restritivas do processo coletivo, com vedações a liminares
(Lei 8.437/92), aos efeitos territoriais (Lei 9.494/97) e ao objeto
da ação civil pública (MP 2.180/01);
io) Lei das Anuidades Escolares (Lei 9.870/99), com previsão de
ajuizamento de ação civil pública por associação de alunos e
pais de alunos;
Cap. III • Legislação no Brasil 33
Estatuto do Torcedor (Lei 10.671/03), com possibilidade de res-
ponsabilização das torcidas organizadas - o que é visto por
alguns como hipótese de ação coletiva passiva;
12) Estatuto do Idoso (Lei 10.741/03), com normas específicas para
a tutela coletiva dos direitos de tais sujeitos, em determinados
aspectos, como competência, tutela de direitos individuais in-
disponíveis e criação de fundo próprio;
13) Lei Maria da Penha (Lei 11.340/06), com abordagem de tutela
coletiva pelo Ministério Público e associações;
14) Lei 11.448/07 e LC 132/09, outorgando legitimidade à Defensoria
Pública;
15) Lei do Mandado de Segurança (Lei 12.016/09), que complemen-
tou a previsão constitucional da impetração coletiva;
16) Estatuto da Igualdade Racial (Lei 12.288/10), com previsão de
ação civil pública em prol dos grupos discriminados;
17) Lei de Defesa da Concorrência (Lei 12.529/n), com previ-
são de ação coletiva preventiva e repressiva em favor dos
prejudicados;
18) Lei Anticorrupção (Lei 12.846/13), que adota o rito da ação civil
pública para a ação de responsabilização das pessoas jurídi-
cas que pratiquem condutas nela previstas;
19) Lei do Mandado de lnjunção (Lei 13.300/16), com inédita previ-
são da impetração coletiva.
Ainda a respeito desse tema, é importante destacar que o
Código de Processo Civil de 2015, embora seja o diploma proces-
sual geral - e, assim, aplicável aos processos coletivos -, não abor-
dou a tutela coletiva. Apenas dois artigos tangenciam os processos
coletivos:
a) Art. 139, X: poder do magistrado de oficiar os legitima-
dos para a tutela coletiva, quando perceber demandas
repetitivas ("X - quando se deparar com diversas de-
mandas individuais repetitivas, oficiar o Ministério Pú-
blico, a Defensoria Pública e, na medida do possível,
outros legitimados a que se referem o art. 5. da Lei no
7.347, de 24 de julho de 1985, e o art. 82 da Lei no 8.078,
34 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Meto Porto
de ii de setembro de 1990, para, se for o caso, promo-
ver a propositura da ação coletiva respectiva.");
b) Art. 333: conversão da ação individual em ação coletiva.
Esse interessante instrumento, que serviria para a me-
lhor solução de situações limítrofes, especialmente as
demandas individuais com alcance coletivo, foi vetado
pela Presidência da República.
2. MICROSSISTEMA DE TUTELA COLETIVA
Como visto, as normas de regência do processo coletivo foram
surgindo aos poucos, formando um microssistema de tutela coleti-
va, também chamado de microssistema coletivo, minissistema cole-
tivo, sistema único coletivo ou sistema integrado de tutela coletiva.
Trata-se de um conjunto de normas que, pela semelhança de
suas finalidades, se aplicam reciprocamente, respeitadas, excep-
cionalmente, as peculiaridades de cada diploma específico.
Esse microssistema é formado por dois tipos de norma:
2) Núcleo duro: diplomas legais aplicáveis a todas as espécies de
ações, que são:
a) Lei da Ação Civil Pública; e
b) Código de Defesa do Consumidor (no seu Título III).
2) Outras normas, aplicáveis complementarmente, por:
a) Possuírem temática específica, como a Lei da Ação Popu-
lar, a Lei do Mandado de Segurança, a Lei de Improbida-
de Administrativa, o ECA;
b) Se aplicarem subsidiariamente, como o CPC.
> Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - Polícia Civil/MA - Delegado de Polícia) O MP de determi-
nado estado da Federação ajuizou uma ação civil pública por improbi-
dade administrativa contra determinado servidor estadual.
Nessa situação hipotética, a ação civil pública deverá observar inte-
gralmente a regulamentação específica, não sendo possível a aplicação
subsidiária do CPC.
A alternativa foi considerada incorreta.
Cap. III • Legislação no Brasil 35
Diante dessa concorrência de normas, surgem alguns ques-
tionamentos práticos, quando existe conflito entre as leis do
microssistema.
Um primeiro questionamento é o seguinte: entre a LACP e o
CDC, o que deve prevalecer? A doutrina aponta saídas variadas:
1) Primeira corrente (Fredie Didier, Hermes Zaneti, José dos San-
tos Carvalho Filho): prevalece a LACP, que, em seu artigo 21,
remete ao CDC, "no que for cabível";
2) Segunda corrente: prevalece o CDC, especialmente quando a
matéria for de direito consumerista, inclusive porque tal di-
ploma remete à LACP no seu artigo 90, "quando não contrariar
suas disposições";
3) Terceira corrente (Daniel Assumpção Neves): prevalece a nor-
ma que potencializa a efetividade da tutela coletiva e a prote-
ção dos direitos em juízo.
Um segundo questionamento diz respeito ao choque entre dis-
positivo do núcleo duro e outro em norma subsidiária. De novo, a
doutrina diverge, em algumas posições:
2) Primeira corrente (Fredie Didier, Hermes Zaneti): prioridade da
regra do núcleo duro, uniformizando o tratamento;
2) Segunda corrente (Gregório Assagra de Almeida): prioridade
da lei específica da matéria jurídica, prestigiando a vontade
do legislador;
3) Terceira corrente (Daniel Assumpção Neves, Fernando Gajardo-
ni): prioridade da lei mais benéfica para a tutela.
A jurisprudência não é definitiva quanto a tais questões. O
Superior Tribunal de Justiça, por exemplo, por vezes trata a Lei da
Ação Popular como regra geral (caso da remessa necessária) e, em
outras, como lei específica.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(MPE/SC - 2019 — MPE/SC - Promotor de Justiça)0 microssistema da tu-
tela coletiva é o conjunto formado pelas normas processuais, materiais
e heterotópicas sobre processo coletivo nas diversas normas jurídicas
positivadas em nosso ordenamento jurídico.
A alternativa foi considerada correta.
gliCapítulo
Princípios do Processo Coletivo
Os princípios jurídicos, fontes do direito, orientam todos os
seus ramos e, portanto, também o processo civil. Atualmente, a
constatação da constitucionalização do processo civil (Luiz Fux) -
teoria do direito processual constitucional (Paulo Cezar Pinheiro
Carneiro) - impede a compreensão da ciência de maneira divor-
ciada dos mandamentos constitucionais, em especial as garantias
fundamentais largamente estampadas.
O legislador de 2015, tomado pelo atual estado principiológico
do direito, foi didático ao enunciar extenso rol (exemplificativo) de
valores a serem perquiridos no desenrolar da relação processual.
Evidentemente, existem valores especialmente voltados ao
processo coletivo, alguns exclusivos e outros com particular enfo-
que quando analisados sob a ótica da tutela coletiva.
1. ACESSO À JUSTIÇA
Essa primeira e fundamental garantia, extraída do artigo 50,
XXXV, da Constituição Federal, assegura a possibilidade de provoca-
ção da tutela jurisdicional, em havendo qualquer lesão ou ameaça
de lesão ao patrimônio jurídico do cidadão.
Nos estudos de Cappelleti e Garth, a segunda onda renova-
tória do acesso à justiça se referia, justamente, à necessidade de
desenvolvimento de instrumentos capazes de levar a juízo, ade-
quadamente, direitos transindividuais - espaço ocupado pela tute-
la coletiva pela via principal (processos coletivos).
Complementarmente, a autorização legal para a tutela cole-
tivizada de direitos individuais, porque homogêneos, prestigia o
acesso à justiça, na medidaem que faz surgir interesse processual,
38 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Meio Porto
sob o plano global (danos agregados), quando, individualmente,
pela irrelevância dos danos isolados, não existiria.
Nesse ponto, fundamental trazer a paradigmática obra de
Paulo Cezar Pinheiro Carneiro como marco teórico, válida para
todos os processos, individuais e coletivos, com base em quatro
subprincípios:
3.) Princípio da acessibilidade: pressupõe três elementos: (i) o
direito à informação, (ii) a legitimidade adequada, e (iii) os
custos condizentes.
2) Princípio da operosidade: indica que os agentes envolvidos no
processo devem extrair dele o máximo possível.
3) Princípio da utilidade: indica que a jurisdição ideal seria ague-
la que pudesse, no momento mesmo da violação, conceder, a
quem tem razão, o direito material.
4) Princípio da proporcionalidade.
2. UNIVERSALIDADE DA JURISDIÇÃO
Decorre do acesso à justiça a ideia da ampliação dos sujeitos
atingidos pela atividade jurisdicional. Na tutela coletiva, a coleti-
vidade cujos direitos são tutelados pode ser formada até mesmo
por todos os sujeitos, ou ao menos os envolvidos em determinada
situação.
Essa circunstância representa autêntica vantagem para o exer-
cício da jurisdição, em razão dos princípios fundamentadores da
tutela coletiva, resolvendo-se conflitos que envolvem, não raro,
massas de pessoas. O acesso à justiça no direito processual cole-
tivo deve ser garantido a um número cada vez maior de pessoas,
englobando cada vez mais causas (Ada Pellegrini Crinover).
3. ISONOMIA
As ações coletivas (tutela coletiva pela via principal) prestigia-
ram consideravelmente a isonomia, funcionando como mecanismo
de reequilíbrio (Aluisio Mendes). Afinal, em geral o que sucede é
uma disputa de um litigante acidental (one shot) contra um habi-
tuado ao litígio (repeat player), gozando de uma visão macro do
problema, capaz de vislumbrar os reais custos do processo, para
além de maior formação jurídica, por vezes.
Cap. IV . Princípios do Processo Coletivo 39
Além disso, existe um segundo papel do princípio da igual-
dade, no aspecto processual, garantindo uma justa resposta ju-
risdicional, que se pressupõe idêntica para casos que ostentam o
mesmo direito material. É incoerente que dois usuários do serviço
de justiça recebam soluções díspares do mesmo judiciário (que é
uno), quando o provoquem em razão de lides iguais.
4. SEGURANÇA JURÍDICA
Intrinsicamente ligada à isonomia no aspecto exoprocessual
está a segurança jurídica. De fato, sabendo qual é a interpretação
definitiva do tribunal acerca do direito, pode-se garantir tratamen-
to igual a todos, obedecendo a esse entendimento fixado. Por ou-
tro lado, a aplicação coerente da norma permite que os sujeitos se
considerem seguros.
5. ECONOMIA PROCESSUAL
Outro forte valor que dialoga com os anteriores é o da econo-
mia processual. Trata-se de princípio que pode ser visto sob dois
principais enfoques.
O primeiro é o da economia processual macroscópica (econo-
mia judicial ou exoprocessual). Essa vertente diz respeito ao pano-
rama global do judiciário, reduzindo o número de processos.
A tutela coletiva que tem por objeto direitos individuais homo-
gêneos é um perfeito exemplo de economia global: em um único
processo, forma-se título executivo que satisfaz número elevado
de sujeitos, que, em outra hipótese, teriam que ajuizar múltiplas
ações individuais.
Segundo substrato do princípio é o da economia processual
microscópica (economia processual em sentido estrito ou endo-
processual). Este se refere à diminuição da quantidade de atos
no próprio processo, objetivo possibilitado pela menor extensão
das demandas que versem sobre questões repetitivas previamente
solucionadas.
Nos processos coletivos, não existe, propriamente, uma liga-
ção direta com a economia endoprocessual. Na verdade, a produ-
ção de provas conjunta pode ser até mesmo mais demorada do
que seria se distribuída em várias demandas individuais.
40 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
6. DEVIDO PROCESSO LEGAL COLETIVO
Existem diversas normas fundamentais que, de forma mais
concreta e objetiva, orientam a conduta dos sujeitos processuais
nela envolvidos. Tal conjunto representa o devido processo legal
coletivo, princípio mencionado modernamente pela doutrina (Edil-
son Vitorelli, Fredie Didier Jr, Hermes Zaneti jr) e que se aproxima
da noção de devido processo social, voltada à redução da burocra-
cia e ao incremento da efetividade.
Esse supraprincípio reúne diversos outros. A propósito, ine-
xiste sintonia doutrinária a respeito de quais seriam os princípios
próprios do direito processual coletivo, tampouco quais deles es-
tariam incluídos no devido processo legal coletivo.
7. PRIMAZIA DO MÉRITO OU CONTINUIDADE DA AÇÃO COLETIVA
Nos processos coletivos, a solução do mérito se torna espe-
cialmente prestigiada, inclusive havendo formação de coisa julgada
condicionada à apreciação de provas suficientes, nos julgamentos
de improcedência - a consubstanciar o interesse no melhor julga-
mento de mérito possível.
Também se aponta a existência de certa fungibilidade entre
ações coletivas que tenham objeto comum, como a ação civil pú-
blica, a ação popular e a ação de improbidade administrativa. Em
tais casos, a doutrina advoga que incompatibilidades processuais,
como a ilegitimidade do autor para uma das demais, não compro-
metam sua adaptação para que prossiga através da via adequada
(Daniel Assumpção Neves). Ademais, e ainda nessa linha, o com-
prometimento, pela prescrição, de uma das pretensões veiculá-
veis pela ação de improbidade administrativa não compromete o
ajuizamento posterior de outra ação quanto à parcela subsistente.
Além disso, existe especial enfoque na sucessão processual,
por meio do princípio da disponibilidade motivada.
8. DISPONIBILIDADE MOTIVADA (DA AÇÃO E DOS RECURSOS)
Especial manifestação do princípio da primazia do mérito nos
processos coletivos é o regramento da desistência (expressa ou
tácita - abandono) por parte do legitimado ativo.
Cap. lv • Princípios do Processo coletivo 41
O microssistema estatui diretamente que, no caso de desistên-
cia infundada ou de abandono por parte das associações autoras,
o Ministério Público ou outros legitimados assumirão a titularidade
da demanda (art. 5 0, §30 da LACP e art. 9. da LAP).
O que diz a lei?
LACP: Art. 5., § 3. Em caso de desistência infundada ou abandono da ação
por associação legitimada, o Ministério Público ou outro legitimado assu-
mirá a titularidade ativa.
LAP: Art. 9. Se o autor desistir da ação ou der motiva à absolvição da
instância, serão publicados editais nos prazos e condições previstos no
art. 7., inciso II, ficando assegurado a qualquer cidadão, bem como ao
representante do Ministério Público, dentro do prazo de 90 (noventa) dias
da última publicação feita, promover o prosseguimento da ação.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2019 - MPE/PI - Promotor de justiça) Determinada associação
de proteção ao meio ambiente, legalmente constituída havia seis me-
ses, ajuizou ação civil pública a fim de cessar obra que estava acon-
tecendo em área destinada à preservação ambiental em determinado
município. O juiz competente, considerando a relevância do bem jurí-
dico tutelado, dispensou requisito de pré-constituição e deu prosse-
guimento ao processo. A associação autora, entretanto, abandonou a
ação sem prestar esclarecimentos ao juízo.
Considerando o disposto na lei que rege a ação civil pública, assinale
a opção correta, a respeito da referida ação.
a) A titularidade ativa da ação poderá ser assumida por qualquer ou-
tro legitimado.
b) A ação deverá ser extinta sem julgamento de mérito.
c) A titularidade ativa da ação deverá ser assumida exclusivamente
pelo Ministério Público.
d) A ação deverá ser extinta com julgamento de mérito e farácoisa
julgada.
e) A ação deverá ser declarada prescrita quando decorrerem cinco
anos contados da data do abandono da causa.
A alternativa A foi considerada correta.
Na Lei da Ação Popular, existe previsão de publicação de editais
e intimação do Ministério Público, para que o Parquet ou outro cida-
dão se habilite no caso de desistência e de extinção terminativa do
42 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
processo (leitura atual da terminologia "absolvição de instância",
atinente ao CPC/39). Na doutrina, Daniel Neves advoga a restrição
da segunda hipótese à desistência e ao abandono, em correlação
com o art. 50, §30, da LACR
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - PGE-PE - Procurador do Estado) É vedado ao MP assumir
a titularidade de ação popular na hipótese de desistência do autor,
ainda que nenhum outro cidadão legitimado promova o prosseguimen-
to da ação.
A alternativa foi considerada incorreta.
(MPE/SC - 2019 - MPE/SC - Promotor de Justiça) Há previsão expressa
no microssistema da tutela coletiva para a assunção da condução do
processo, tanto na fase do conhecimento, quanto na fase de cumpri-
mento de sentença.
A alternativa foi considerada correta.
De todo modo, não existe uma rígida e inegociável obrigação
de tutela processual do conflito coletivo. Todos os legitimados po-
dem, ao longo do processo, concluir pela inviabilidade da deman-
da, o que não se confunde com a inviável disposição do próprio
direito material.
Diante disso, a desistência pode estar devidamente funda-
mentada, podendo, como reconhece o Superior Tribunal de Justiça,
se demonstrar a manifesta improcedência da pretensão ou que a
lide seja temerária (desistência motivada).
Como entende a jurisprudência?
Nos termos dos arts. 5., §3., e 15, da Lei n.. 7.347/85, nos casos de desis-
tência infundada ou de abandono da causa por parte de outro ente legi-
timado, deverá o Ministério Público integrar o pólo ativo da demanda. Em
outras palavras, homenageando-se os princípios da indisponibilidade
e obrigatoriedade das demandas coletivas, deve-se dar continuidade
ação civil pública, a não ser que o Parquet demonstre fundamen-
talmente a manifesto improcedência da ação ou que a lide revele-se
temerária. (...)
(Sri, REsp zoo.289/SP, Rel. Ministro Vasco Della Giustina (Desembargador
Convocado do Tj/RS), Terceira Turma, julgado em 02/09/2010)
Surge, nesse particular, a discussão acerca da possibilidade de
desistência pelo Ministério Público, vez que caberia à instituição
Cap. IV • Princípios do Processo Coletivo 43
assumir a ação quando todos os demais legitimados não demons-
trassem interesse. Existem duas correntes:
1) Primeira corrente (José dos Santos Carvalho Filho): impossível
a desistência pelo Parquet, semelhantemente à ação penal pú-
blica, ante a indisponibilidade dos bens tutelados.
2) Segunda corrente (majoritária): admite-se a disponibilidade
processual superveniente por todos os legitimados, inclusive
o Ministério Público.
Em havendo um controle judicial da desistência aparentemen-
te infundada pelo membro do Ministério Público, discute-se qual
deveria ser o proceder do juiz:
1) Primeira corrente (Hugo Nigro Mazzilli): o magistrado deveria
remeter informações ao Conselho Superior do Ministério Pú-
blico, para sua deliberação, por analogia ao arquivamento do
inquérito civil (art. 90, §30, da LACP);
2) Segunda corrente (Gregório Assagra de Almeida, Ricardo de
Barros Leonel, Daniel Assumpção Neves): a revisão caberia ao
chefe institucional, em analogia com o art. 28 do Código de
Processo Penal;
3) Terceira corrente (Motauri Chiocchetti de Souza): desnecessá-
ria qualquer confirmação, devendo ser extinto imediatamente
o processo, sem resolução do mérito.
O Superior Tribunal de Justiça possui decisão na linha da pri-
meira corrente.
Como entende a jurisprudência?
Somente a efetiva e fundamentada demonstração pelo Parquet de que a
Ação Civil Pública é manifestamente improcedente ou temerária pode en-
sejar seu arquivamento, que deverá ainda ser ratificada pelo Conselho
Superior do Ministério Público, nos termos do art. 9. da Lei n. 7.347/85.(...)
(STJ, REsp 1372593/SP, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, jul-
gado em 07/05/2013)
9. NÃO TAXATIVIDADE
O princípio da não taxatividade revela a abertura do sistema
de tutela coletiva: a priori, qualquer direito pode ser tutelado no
processo coletivo.
44 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Sob o aspecto material, a tutela coletiva pela via principal é, a
princípio, ilimitada. Embora, nas ações específicas pode haver res-
trições a determinadas matérias e pedidos, como na ação popular,
na ação de improbidade administrativa e no mandado de seguran-
ça coletivo, o cenário geral, trazido pela ação civil pública, é amplo.
Na redação originária, o art. io da LACP não trazia uma cláu-
sula de abertura, uma vez que foi vetada pelo Executivo. Porém, o
Código de Defesa do Consumidor acrescentou o atual inciso IV, que
torna o rol exemplificativo - bem como desnecessárias as várias
modificações aditivas promovidas.
1 0 que diz a lei?
tACP: Art. 1. Regem-se pelas disposições desta Lei, sem prejuízo da ação
popular, as ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais
causados: IV- a qualquer outro interesse difuso ou coletivo.
Apesar da aparente limitação a direitos difusos e coletivos,
não há dúvidas de que estão inseridos todos os direitos individuais
homogêneos no objeto da ação civil pública.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - DPE/AL - Defensor Público) A Defensoria Pública moveu
ação civil pública, com base no Estatuto da Criança e do Adolescen-
te, contra determinado município e em favor dos interesses de uma
criança de quatro anos de idade, que não havia sido matriculada na
educação infantil por falta de vagas. O réu alegou em contestação que
a ação civil pública não pode ser utilizada para demandas individuais,
que as vagas na educação infantil, em razão da demanda expressiva,
não podem ser destinadas para casos específicos, devendo ser obser-
vada uma ordem de inscrição, sob pena de violação ao princípio da
igualdade perante a lei.
Considerando essa situação hipotética, assinale a opção correta.
a) A ação civil pública é inviável na medida em que no Estatuto da
Criança e do Adolescente não há previsão expressa de ações de
responsabilidade por ofensa aos direitos assegurados à criança e
ao adolescente referentes ao não oferecimento ou oferta irregular
do atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a cinco
anos de idade.
b) A medida intentada pela Defensoria Pública é descabida: a ação
civil pública destina-se a tutelar interesses difusos ou coletivos, não
Cap. IV • Princípios do Processo Coletivo 45
sendo instrumento jurídico-processual hábil a tutelar interesses
individuais indisponíveis de apenas uma criança, de modo que o
processo deve ser extinto sem resolução de mérito.
c) A ação civil pública é viável na medida em que no Estatuto da Crian-
ça e do Adolescente há previsão expressa de ações de responsabi-
lidade por ofensa aos direitos assegurados à criança e ao adoles-
cente referentes ao não oferecimento ou oferta irregular do ensino
obrigatório e de atendimento em creche e pré-escola às crianças de
zero a cinco anos de idade.
d) A causa terá seguimento, visto que é cabível a ação civil pública
na hipótese, mas, no julgamento do mérito, os argumentos do réu
deverão ser acolhidos, já que conferir tratamento desigual à crian-
ça implica violação ao princípio da igualdade, o que não encontra
amparo na norma especial do Estatuto da Criança e do Adolescente.
A alternativa C foi considerada correta.
No entanto, o ordenamento, após essa etapa de abertura,
acabou por admitir restrições no objeto da ação civil pública. A
medida provisória 2.180/01 inseriu o parágrafo único no art. 1. da
LACP, vedandoque a demanda tenha como objeto:
a) Tributos e contribuições previdenciárias;
b) FGTS e outros fundos de natureza institucional cujos be-
neficiários sejam individualmente determinados.
A finalidade da norma passa, naturalmente, por enfraquecer
o processo coletivo e a resolução global de conflitos em desfavor
do Poder Público - o que é criticado pela doutrina, por ofender a
inafastabilidade da jurisdição.
Algumas observações são importantes.
A primeira é que a lei nada diz a respeito de tarifas, que re-
muneram serviços públicos concedidos, o que não se confunde com
tributos (impostos e taxas).
Como entende a jurisprudência?
O Ministério Público ostenta legitimidade para a propositura de Ação Civil
Pública em defesa de direitos transindividuais, como sói ser a pretensão
de emissão de faturas de consumo de energia elétrica, com dois códigos
de leitura ótica, informando de forma clara e ostensiva os valores cor-
respondentes à contribuição de iluminação pública e à tarifa de energia
elétrica, ante a ratio essendi do art. 129, III, da Constituição Federal, arts.
46 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Meio Porto
81 e 82, do Código de Defesa do Consumidor e art. 10, da Lei 7.347/85 (ST1,
REsp Loio.i3o/MG, Rel. Min. Luiz Fux, Primeira Turma, DJ de 24/11/10).
A segunda é que os tribunais superiores admitem ação coletiva
a envolver matéria tributária, quando o resultado puder beneficiar
o erário (quando se pleiteia a anulação de acordo tributário ou de
concessão ilegal de isenções e benefícios em geral, por exemplo).
1 Como entende a jurisprudência?
No STF: (...) O Parquet tem legitimidade para propor ação civil pública com
o objetivo de anular Termo de Acordo de Regime Especial - TARE, em face
da legitimação ad causam que o texto constitucional lhe confere para de-
fender o erário. IV - Não se aplica à hipótese o parágrafo único do artigo
10 da Lei 7.347/1985. (...) (STF, RE 576155, Rel. Min. Ricardo Lewandowski,
Tribunal Pleno, julgado em 12/08/2010, Repercussão Geral - Mérito).
No STI: (...) O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 576.155/DF,
submetido ao rito da repercussão geral (art. 542-B do CPC), decidiu que o
Ministério Público possui legitimidade para propor ação civil pública com
o objeto de anular Termo de Acordo de Regime Especial - TARE, em face
da legitimação ad causam que o texto constitucional lhe confere para
defender o erário. 3. Aplicação do mesmo entendimento à hipótese em
tela, na qual se busca, pela via da ação civil pública, a anulação de ato
administrativo de efeitos concretos praticado pelo Secretário de Fazenda
e Planejamento do Distrito Federal, autorizando a concessão de emprésti-
mo para pagamento de 'CMS como consequência da adesão da empresa
beneficiada ao Programa de Promoção do Desenvolvimento Econômico
Integrado e Sustentável do Distrito Federal - PRO-OF, com suposta renúncia
fiscal por parte daquele ente federativo.(...) (STJ, REsp 871.473/DE, Rel. Mi-
nistra Eliana Calmon, Segunda Turma, julgado em 20/08/2013).
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2019 - MPC/PA - Procurador)A respeito das competências e
da legitimidade do Ministério Público no âmbito de ação civil pública, é
correto afirmar, à luz do entendimento do STF, que o Ministério Público
tem legitimidade para questionar, em sede de ação civil pública, a
concessão de benefício fiscal a determinada empresa.
A alternativa foi considerada correta.
(CESPE - 2019 - DPE/DF - Defensor Público) O Ministério Público detém
legitimidade ativa ad causam para propor ação civil pública que vise
anular termo de acordo de regime especial (TARE) firmado entre ente
federativo e determinados contribuintes.
A alternativa foi considerada correta.
Cap. iv • Princípios do Processo Coletivo 47
A terceira atenta para o fato de que a vedação prevista em lei
é sua referência ao pedido da ação, não sendo proibida a aborda-
gem de questões tributárias ou relativas aos fundos na causa de
pedir.
Como entende a jurisprudência?
Hipótese de ação civil pública que se encontra fora do alcance da veda-
ção prevista no parágrafo único do art. 1. da Lei n. 7.347/85, porquanto
a matéria tributária figura como causa de pedir, e não como pedido
principal, sendo sua análise indispensável para que se constate eventual
ofensa ao princípio da legalidade imputado na inicial ao agente político
tido como ímprobo. (ST], REsp 1387960/SP, Rel. Ministro Og Fernandes, Se-
gundo Turma, julgado em 22/05/2014)
Quanto à matéria previdenciária, o Supremo Tribunal Federal
já admitiu ação coletiva pleiteando o acesso à informação junto
ao INSS e o Superior Tribunal de justiça autorizou o ajuizamento
buscando a revisão de benefício previdenciário, já que não dizem
respeito a contribuições previdenciárias.
Por sua vez, o pedido envolvendo os fundos institucionais com
beneficiários individualizáveis, destacadamente o FGTS, também so-
fre interpretação crítica.
No Supremo Tribunal Federal, existem decisões concluindo pela
viabilidade da ação civil pública que discuta expurgos inflacionários
em contas vinculadas ao fundo e, recentemente, a corte fixou tese
jurídica em julgamento com repercussão geral, no sentido da possi-
bilidade de tutela de direitos sociais relativos ao FGTS.
Como entende a jurisprudência?
3. A demanda intenta o resguardo de direitos individuais homogêneos
cuja amplitude possua expressiva envergadura social, sendo inafastcível
a legitimidade do Ministério Público para ajuizar a correspondente ação
civil pública. 4. É o que ocorre com as pretensões que envolvam tributos,
contribuições previdenciárias, o Fundo de Garantia do Tempo de Servi-
ço - FGTS ou outros fundos de natureza institucional cujos beneficiários
podem ser individualmente determinados (parágrafo único do art. da
Lei 7.347/1985). 5. Na hipótese, o Tribunal Regional Federal da 5. Região,
pautado na premissa de que o direito em questão guarda forte conotação
social, concluiu que o Ministério Público Federal detém legitimidade ativa
para ajuizar ação civil pública em face da Caixa Econômica Federal, uma
vez que se litiga sobre o modelo organizacional dispensado go FGTS, má-
48 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
xime no que se refere à unificação das contas fundiárias dos trabalhado-
res. 6. Recurso Extraordinário a que nega provimento. Tese de repercussão
geral proposta: o Ministério Público tem legitimidade para a propositura
de ação civil pública em defesa de direitos sociais relacionados ao FGTS.
(STF, RE 643978, Relator(a): Min. Alexandre de Moraes, Tribunal Pleno, jul-
gado em 09/10/2019).
to. ATIPICIDADE, MÁXIMA AMPLITUDE OU ABSOLUTA INSTRUMENTALIDADE
Sob o aspecto processual, um dos princípios mais importantes
para a tutela coletiva é o da atipicidade, que decorre do princípio
constitucional do acesso à justiça (art. 50, XXXV, da CF) e, especifica-
mente no núcleo duro, do art. 83 do CDC e no art. 30 da LACP.
0 que diz a lei?
LACP: Art. 3. A ação civil poderá ter por objeto a condenação em dinheiro
ou o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer.
CDC: Art. 83. Para a defesa dos direitos e interesses protegidos por este
código são admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar
sua adequada e efetiva tutela.
Primeiramente, extrai-se dessa norma a noção de que é possí-
vel pleitear qualquer espécie de tutela jurisdicional nas demandas
coletivas: declaratória, (des)constitutiva, condenatória e, para os
que admitem, executiva e mandamental.
Nessa linha, o Superior Tribunal de justiça já realizou a me-
lhor interpretação do art. 83 do CDC, lendo a conjunção alternativa
("ou") como aditiva.
Como entende a jurisprudência?
A exegese do art. 3. da Lei 7.347/85 ("A ação civil poderá ter por objeto a
condenação em dinheiro ou o cumprimento de obrigação de fazer ou não
fazer"), a conjunção 'ou' deve ser considerada com o sentido de adi-
ção (permitindo,com a cumulação dos pedidos, a tutela integral do meio
ambiente) e não o de alternativa excludente (o que tornaria a ação civil
pública instrumento inadequado a seus fins). (...)
A exigência para cada espécie de prestação, da propositura de uma ação
civil pública autônoma, além de atentar contra os princípios da instrumen-
talidade e da economia processual, ensejaria a possibilidade de senten-
ças contraditórias para demandas semelhantes, entre as mesmas partes,
com a mesma causa de pedir e com finalidade comum (medidas de tutela
• Princípios do Processo Coletivo 49
ambiental), cuja única variante seriam os pedidos mediatos, consistentes
em prestações de natureza diversa. (Sri, REsp 625.249/PR, Rel. Ministro Luiz
Fux, Primeira Turma, julgado em 15/08/2006)
/ Como esse assunto foi coorado em concurso?
(VUNESP - 2019 - Prefeitura de Poá - Procurador Jurídico) Quanto ao
dano ambiental, não é admitida a condenação do réu à obrigação de
fazer ou à de não fazer cumulada com a de indenizar, devendo ser
propostas ações distintas para cada um dos objetos da demanda.
A alternativa foi considerada incorreta.
Em segundo lugar, decorre desse princípio que a legitimidade
definida pelo microssistema não deve ser limitada a determinada
espécie de ação.
Assim, embora a Defensoria Público e o Ministério Público não
sejam legitimados, pela lei, ao ajuizamento de ação popular ou à
impetração de mandado de segurança coletivo, a atipicidade reco-
menda que, se tais ações forem as mais aptas à solução do conflito
coletivo, se admita sua promoção - legitimidade conglobante (Her-
mes Zaneti jr).
Por fim, a atipicidade, aliada a outros valores, autoriza a im-
petração coletiva de remédios constitucionais mesmo sem menção
expressa por parte do ordenamento, como no caso do habeas cor-
pus coletivo, admitido pelo STF e pelo STJ.
Como entende a jurisprudência?
STF: I - Existência de relações sociais massificadas e burocratizadas, cujos
problemas estão a exigir soluções a partir de remédios processuais cole-
tivos, especialmente para coibir ou prevenir lesões a direitos de grupos
vulneráveis. H - Conhecimento do writ coletivo homenageia nossa tradição
jurídica de conferir a maior amplitude possível ao remédio heroico, co-
nhecida como doutrina brasileira do habeas corpus. Ill - Entendimento que
se amolda ao disposto no art. 654, § 2°, do Código de Processo Penal -
CPP, o qual outorga aos juízes e tribunais competência para expedir, de
ofício, ordem de habeas corpus, quando no curso de processo, verificarem
que alguém sofre ou está na iminência de sofrer coação ilegal. IV - Com-
preensão que se harmoniza também com o previsto no art. 580 do CPP,
que faculta a extensão da ordem a todos que se encontram na mesma si-
tuação processual. V - Tramitação de mais de loo milhões de processos no
Poder judiciário, a cargo de pouco mais de 16 mil juízes, a qual exige que
50 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
o STF prestigie remédios processuais de natureza coletiva para emprestar
a máxima eficácia ao mandamento constitucional da razoável duração do
processo e ao princípio universal da efetividade da prestação jurisdicio-
nal VI - A legitimidade ativa do habeas corpus coletivo, a princípio, deve
ser reservada àqueles listados no art. 12 da Lei 13.30o/2016, por analogia
ao que dispõe a legislação referente ao mandado de injunção coletivo.
VII - Comprovação nos autos de existência de situação estrutural em que
mulheres grávidas e mães de crianças (entendido o vocábulo aqui em seu
sentido legal, como a pessoa de até doze anos de idade incompletos, nos
termos do art. 2. do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA) estão, de
fato, cumprindo prisão preventiva em situação degradante, privadas de
cuidados médicos pré-natais e pós-parto, inexistindo, outrossim berçários
e creches para seus filhos. (...) XV - Extensão da ordem de ofício a todas
as demais mulheres presas, gestantes, puérperas ou mães de crianças e
de pessoas com deficiência, bem assim às adolescentes sujeitas a medi-
das socioeducativas em idêntica situação no território nacional, observa-
das as restrições acima. (HC 143641, Relator(a): Min. Ricardo Lewandowski,
Segundo Turma, julgado em 20/02/2018)
STJ: Trata-se de Habeas Corpus Coletivo "em favor das crianças e adoles-
centes domiciliados ou que se encontrem em caráter transitório dentro
dos limites da Comarca de Cajuru-SP" contra decisão liminar em idêntico
remédio proferida pela Camara Especial do Tribunal de Justiça do Esta-
do de São Paulo. Narra-se que a Juíza da Vara de Infância e Juventude
de Cajuru editou a Portaria 01/2011, que criaria um "toque de recolher",
correspondente à determinação de recolhimento, nas ruas, de crianças e
adolescentes desacompanhados dos pais ou responsáveis: a) após as 23
horas, b) em locais próximos a prostíbulos e pontos de vendas de drogas
e c) na companhia de adultos que estejam consumindo bebidas alcoólicas.
A mencionada portaria também determina o recolhimento dos menores
que, mesmo acompanhados de seus pais ou responsáveis, sejam flagra-
dos consumindo álcool ou estejam na presença de adultos que estejam
usando entorpecentes. (...) Habeas Corpus concedido para declarar a ile-
galidade da Portaria 01/2011 da Vara da Infância e Juventude da Comarca
de Cajuru. (HC 2o7.72o/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma,
julgado em 01/12/2011)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(FUNDEP - 2019 - DPENIG - Defensor Público) O microssistema de tutela
coletiva pode ser aplicado na seara penal, a exemplo da utilização
do habeas corpus coletivo, porém, de modo excepcional e justificado.
A alternativa foi considerada correta.
Cap. IV • Princípios do Processo Coletivo 51
OBRIGATORIEDADE TEMPERADA OU MITIGADA (INDISPONIBILIDADE)
A tutela coletiva é, em grande parte dos casos, voltada a in-
teresses públicos, especialmente os primários, que ostentam na-
tureza indisponível. Por conta disso, tradicionalmente se atribui
traços de obrigatoriedade à proteção desses bens jurídicos, re-
conhecendo-se um princípio da indisponibilidade. No entanto, soa
mais correto mencionar o princípio da obrigatoriedade temperada
ou mitigada.
Primeiramente, a obrigatoriedade se refere à tutela coletiva,
não ao ajuizamento de ação coletiva. Os instrumentos extrajudiciais
merecem prioritária atenção por parte dos legitimados.
Além disso, no curso do processo, o legitimado pode perceber
que a pretensão se enfraqueceu, afigurando-se temerário o pros-
seguimento da demanda. Em casos tais, desaparece a obrigatorie-
dade, desde que a desistência da ação se mostre fundada - o que
será verificado nos moldes do que orienta o princípio (regra) da
disponibilidade motivada.
u. DISCRICIONARIEDADE CONTROLADA
Aponta parte da doutrina (Hugo Mazzilli), como um princípio
autônomo, que o Ministério Público, pela independência funcional
de seus membros e pela autonomia institucional, decide quando
intervém em uma ação coletiva, identificando interesse público, ou
não - hipótese em que funcionará um sistema de controle próprio.
13. OBRIGATORIEDADE DA EXECUÇÃO
Uma vez formado o título executivo, existe sistemática voltada
à sua satisfação de forma obrigatória, por meio do princípio da
obrigatoriedade da execução. O microssistema menciona a exis-
tência de dever funcional do Ministério Público e faculdade dos
demais legitimados.
Quanto aos direitos transindividuais (difusos e coletivos), a Lei
da Ação Civil Pública prevê que, se a associação autora não promo-
ver a execução em sessenta dias, contados do trânsito em julgado,
deverá fazê-lo o Ministério Público ou poderão fazê-lo os demais
legitimados. Na Lei da Ação Popular, existe um marco inicial diverso:
52 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
contam-se os sessenta dias a partir da decisão condenatória de
segunda instância.
1 0 que diz a lei?
LACP: Art. 15. Decorridos sessentadias do trânsito em julgado da senten-
ça condenatória, sem que a associação autora lhe promova a execução,
deverá fazê-lo o Ministério Público, facultada igual iniciativa aos demais
legitimados.
LAP: Art. 16. Caso decorridos 60 (sessenta) dias da publicação da sen-
tença condenatória de segunda instância, sem que o autor ou terceiro
promova a respectiva execução. o representante do Ministério Público a
promoverá nos 30 (trinta) dias seguintes, sob pena de falta grave.
1 Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(MPE/PR - 2019 - MPE/PR - Promotor de justiça) Caso decorridos 60
(sessenta) dias da publicação da sentença condenatória de segunda
instância, sem que o autor ou terceiro promova a respectiva execução,
é facultado ao representante do Ministério Público promovê-la nos 30
(trinta) dias seguintes.
A alternativa foi considerada incorreta.
Nesse segundo comando, parece haver norma excepcional,
nesse tipo de ação, a exigir a promoção de execução provisória,
enquanto a regra do núcleo duro menciona apenas a execução
definitiva. No entanto, as peculiaridades que envolvem o cumpri-
mento de sentença provisório, como a responsabilização objetiva
pelos danos, levam parte da doutrina (Daniel Assumpção Neves) a
sugerir o abandono da regra, prevalecendo a LACR
Existe decisão do Superior Tribunal de justiça aplicando esse
princípio para a promoção da liquidação da sentença coletiva, ape-
sar de a doutrina considerar que se trate de procedimento de
conhecimento.
Por outro lado, quando a tutela for de direitos individuais ho-
mogêneos, a obrigatoriedade executiva está ligada à superveniên-
cia da liquidação e execução fluidas (fluid recovery), nos moldes do
art. loo do CDC.
Cap. • Princípios do Processo Coletivo 53
14. PREVALÊNCIA DA EXECUÇÃO DOS PREJUÍZOS INDIVIDUAIS
Ainda no que diz respeito à execução, aponta-se um subprin-
cípio, quando há concorrência entre execuções individuais e cole-
tivas: o da prevalência da execução dos prejuízos individuais (art.
99 do CDC), que prioriza a satisfação dos sujeitos lesados quando
inexistir verba para o pleno cumprimento da obrigação contida no
título executivo.
0 que diz a lei?
CDC: Art. 99. Em caso de concurso de créditos decorrentes de condenação
prevista na Lei n.. 7.347, de 24 de julho de 1985 e de indenizações pelos
prejuízos individuais resultantes do mesmo evento danoso, estas terão
preferência no pagamento.
15. PARTICIPAÇÃO
No processo coletivo, prestigia-se o elemento da participação
pelo processo, na linha da universalidade da jurisdição e do máxi-
mo benefício, mas reduzir-se a participação no processo, exercen-
do-se o contraditório de forma indireta, através do representante
adequado (Ada Pellegrini Grinover).
O aumento da participação é desejável, nos limites previstos
no ordenamento, o que se dá em duas frentes: em relação à so-
ciedade (convocação externa) e em relação ao próprio tribunal
(convocação interna).
Quanto à primeira, Hermes Zaneti Jr. e Fredie Didier Jr. mencio-
nam, ao analisar a tutela coletiva genericamente, o modelo experi-
mentalista de reparação, na public law litigation, no qual o juiz perde
a centralidade, convoca a ampla participação processual e social
- por meio de intervenção de terceiros (e amicus curiae) e de audiên-
cias públicas, respectivamente) -, e, em diálogo plural, constrói-se
um programa de resolução de conflitos. Desse modo, permite-se um
controle democrático das decisões (democratic accountability).
16. PUBLICIDADE
A própria natureza expansiva da tutela coletiva impõe certas
exigências, como a de informação suficiente acerca dos atos pro-
cessuais, especialmente o início e o julgamento.
54 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Esse pilar, ao lado da ampliação de participação, exerce fun-
ção primordial no diálogo com a sociedade civil, não tanto ao
trazê-la para o processo (como ocorre com audiências públicas e
intervenção de terceiros), mas ao levar o processo até ela, comple-
mentando o princípio anterior.
17. AMPLA DIVULGAÇÃO OU ADEQUADA NOTIFICAÇÃO DOS MEMBROS DO
GRUPO
Um valor considerado como princípio específico por parte
da doutrina (Fredie Didier e Hermes Zaneti) é a cientificação dos
membros da coletividade tutelada acerca do ajuizamento da ação
coletiva.
Essa preocupação vem tratada pelo art. 94 do CDC, aplicável às
ações coletivas em geral.
0 que diz a lei?
CDC: Art. 94. Proposta a ação, será publicado edital no órgão oficial, a fim
de que os interessados possam intervir no processo como litisconsortes,
sem prejuízo de ampla divulgação pelos meios de comunicação social por
parte dos órgãos de defesa do consumidor.
Os instrumentos eleitos são:
• A publicação de editais - atualmente, porém, existem meios
mais modernos, que podem ser utilizados. Por exemplo: obri-
gar ao próprio réu que comunique o ajuizamento através de
mensagens de texto ou e-mails das vítimas que constem em
seus bancos de dados;
A ampla divulgação nos meios de comunicação.
Desse modo, os autores individuais podem comunicar nos au-
tos de seus processos o ajuizamento da demanda metaindividual,
permitindo o funcionamento do sistema de opt out.
18. INFORMAÇÃO AOS LEGITIMADOS
Tendo em vista a natureza de relevância pública dos direi-
tos tutelados no processo coletivo, preocupou-se o legislador em
estimular a cientificação dos legitimados acerca de fatos aptos a
ensejar o ajuizamento de tais demandas.
• Princípios do Processo Coletivo 55
1 0 que diz a lei?
LACP: Art. 6. Qualquer pessoa poderá e o servidor público deverá provo-
car a iniciativa do Ministério Público, ministrando-lhe informações sobre
fatos que constituam objeto da ação civil e indicando-lhe os elementos
de convicção.
Lei 7.347/85: Art. 70 Se, no exercício de suas funções, os juízes e tribunais
tiverem conhecimento de fatos que possam ensejar a propositura da ação
civil, remeterão peças ao Ministério Público para as providências cabíveis.
ECA: Art. 221. Se, no exercício de suas funções, os juízos e tribunais tiverem
conhecimento de fatos que possam ensejar a propositura de ação civil,
remeterão peças ao Ministério Público para as providências cabíveis.
El: Art. 90. Os agentes públicos em geral, os juízes e tribunais, no exercí-
cio de suas funções, quando tiverem conhecimento de fatos que possam
configurar crime de ação pública contra idoso ou ensejar a propositura
de ação para sua defesa, devem encaminhar as peças pertinentes ao
Ministério Público, para as providências cabíveis.
Existem, assim, dois elementos a serem comunicados:
Fatos que sejam objeto de possível ação coletiva;
Elementos de convicção (provas).
Tal dever é reforçado pelo Código de Processo Civil, ampliando
o rol de destinatários do ofício para incluir a Defensoria Pública e,
na medida do possível demais legitimados (art. 139, X), havendo
estímulo ao exercício do direito de ação.
1 Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2019 - MPE/PI - Promotor de Justiça) No exercício de suas fun-
ções, o juiz de direito que tomar conhecimento de fatos que possam
ensejar a propositura de ação civil pública deverá, para que sejam
tomadas as providências cabíveis, remeter peças ao
a) presidente do tribunal.
b) STF, se o agente envolvido for ministro de Estado.
c) tribunal de justiça, se o agente envolvido for prefeito.
d) Ministério Público.
e) delegado competente, requerendo a instauração de inquérito
policial.
A alternativa D foi considerada correta.
56 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Meto Porto
19. MÁXIMO BENEFÍCIO OU REGIME JURÍDICO IN UTILIBUS
Em decorrência da primazia dada à proteção dos direitos co-
letivos em sentido amplo e da economia processual macroscópica,
aponta-se a existência de um princípio referente aos efeitos da
solução judicial. A ideia é que a resposta jurisdicional dada no
processo coletivo produza o máximo de resultados favoráveis à co-letividade, nos direitos transindividuais, ou aos indivíduos lesados,
na hipótese dos direitos individuais homogêneos.
Concretamente, o microssistema traz mecanismos para tanto,
cabendo destacar:
a) A relação entre as ações coletivas e as individuais, per-
mitindo a conversão da demanda em liquidação da sen-
tença coletiva sobrevinda;
A extensão da coisa julgada coletiva para o plano indivi-
dual (extensão in utilibus)- há autores (Fabricio Bastos),
inclusive, que mencionam a existência de um princípio
do transporte in utilibus das ações coletivas.
1 Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2019 - MPE/PI - Promotor de Justiça) Em determinada ação
que visava proteger direitos coletivos, foi proferida sentença de im-
procedência, que, em regra, apresenta efeitos ultra partes. Nesse
caso, os efeitos da coisa julgada não impedem a propositura de ações
individuais.
É correto afirmar que caracteriza a situação precedente o princípio
processual
a) da não taxatividade das ações coletivas.
b) do transporte in utilibus.
c) da certificação adequada da tutela.
d) da representatividade adequada.
e) da primazia do mérito.
A alternativa B foi considerada correta.
20. REPARAÇÃO INTEGRAL DO DANO
Em razão da titularidade dos direitos colocados em juízo,
deve a resposta no processo coletivo ser a mais completa possível,
• Princípios do Processo Coletivo 57
reparando todos os danos. Trata-se de reflexo do máximo benefício
esperado de uma ação coletiva.
A Lei da Ação Popular possui comando específico que corrobo-
ra esse entendimento. Para alguns autores (Fredie Didier Jr, Hermes
Zaneti Jr), tal provimento independeria até mesmo de pedido ex-
presso do autor coletivo.
0 que diz a lei?
LAP: Art. 11. A sentença que, julgando procedente a ação popular, decretar
a invalidade do ato impugnado, condenará ao pagamento de perdas e
danos os responsáveis pela sua prática e os beneficiários dele, ressalva-
da a ação regressiva contra os funcionários causadores de dano, quando
incorrerem em culpa.
21. MÁXIMA EFETIVIDADE, PREDOMINÂNCIA DOS ASPECTOS INQUISITIVOS
OU ATIVISMO JUDICIAL
O direito processual de determinado ordenamento pode, tra-
dicionalmente, seguir dois modelos:
Publicista ou inquisitorial: confere protagonismo ao magistrado;
Privatista ou dispositivo: as partes possuem maior margem
para flexibilizar o procedimento estatuído em lei.
Modernamente, se considera haver um terceiro modelo de
processo, o cooperativo, em que todos esses sujeitos processuais
formam uma comunidade colaborativa, em pé de igualdade, bus-
cando a melhor decisão de mérito.
A doutrina indica, que, na tutela coletiva, predominam os as-
pectos inquisitoriais, como uma forma de equilibrar a relação entre
participação efetiva das partes e a atividade oficiosa do magistra-
do, que deve primar pela efetividade.
Nessa linha, o direito tutelado deve influenciar na postura
adotada pelo julgador (se os direitos forem patrimoniais e disponí-
veis, a participação deve ser menor; se indisponíveis, maior), bem
como a complexidade do litígio, o grau de disponibilidade do bem
jurídico e a vulnerabilidade de seus titulares.
Concretamente, percebe-se que o legislador espera uma maior
atuação do juiz, que deve:
58 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
a) Oficiar os legitimados acerca de possível ajuizamento;
b) Controlar a representatividade adequada e a condução
do processo pelo autor;
c) Atrair a sociedade para a discussão de políticas públicas;
d) Fixar valor devido na execução por fluid recovery;
e) Prorrogar prazos de resposta.
22. COMPETÊNCIA ADEQUADA
Parte da doutrina sustenta a existência de princípio específico
voltado à fixação da competência, notadamente a territorial, nas
ações coletivas.
Advoga-se uma visão finalística dos dispositivos referente à
competência territorial, no microssistema, especialmente o art. 93,
II, do CDC, para atrair o processo para local que aumente a efetivi-
dade e a racionalidade da prestação jurisdicional.
A preocupação decorre da existência de foros concorrentes,
a permitir um forum shopping, à escolha do autor. Defende-se que
prevaleça o forum non conveniens, cabendo ao juiz verificar se a
produção da prova, a defesa do réu, a publicidade e a notificação
dos envolvidos ficam facilitadas ou não se o julgamento ocorrer no
foro de sua competência. Porém, a jurisprudência segue, no geral,
a literalidade dos comandos legais.
23. APLICAÇÃO INTEGRADA DAS NORMAS
Aponta-se, a título de princípio (Adriano Andrade, Landolfo
Andrade e Cleber Masson) ou de postulado hermenêutico (Fredie
Didier e Hermes Zaneti) da tutela coletiva, a aplicação integrada
de diversos diplomas, o diálogo das fontes inerente aos micros-
sistemas. Todo o estudo do direito processual coletivo passa pela
interpretação conjunta dos dispositivos que ordenam o processo
coletivo.
alCapítulo
Direitos e Interesses
1. TERMINOLOGIA
Um ponto comumente constante nos editais de concursos pú-
blicos são as espécies de interesses. Existe uma grande divergência
doutrinária a respeito da natureza dos bens jurídicos protegidos
pelo processo coletivo (se seriam interesses ou direitos), mas, an-
tes de partir para essa questão terminológica, importa visitar al-
guns conceitos trazidos pela doutrina acerca dos interesses.
Li. Interesse material e interesse processual
Uma primeira espécie mencionada é a do interesse material,
sua compreensão no plano material, como a utilidade apresentada
por um bem, que pode ou não ser reconhecida pelo ordenamento,
para satisfazer uma necessidade, permitindo a realização do bem-
-estar (Ricardo de Barros Leonel).
Iá no plano processual, o interesse processual (ou interesse
de agir) diz respeito à necessidade, adequação e utilidade que
revestem a pretensão exercida em juízo por algum sujeito. Trata-se
de um aspecto instrumental, sendo a tutela jurisdicional o bem em
questão.
1.2. Interesse privado, interesse social, interesse geral e interes-
se público
Interesse privado seria aquele marcado pelo regime jurídico
de direito privado, ao contrário do interesse público, decorrente
do direito público, se caracterizando pela disponibilidade e pela
60 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
equivalência com outros interesses privados, igualdade das partes
da relação jurídica e a autonomia da vontade vigente.
Por outro lado, interesse social não tem um único sentido.
Pode significar o interesse de toda a sociedade ou o interesse de
determinada pessoa jurídica. Os autores que o abordam, no estu-
do da tutela coletiva, o referem no primeiro sentido, englobando
o interesse da maioria da sociedade civil (Rodolfo Mancuso) ou
mesmo de alguma parcela da sociedade, como uma comunidade
específica.
O termo, a propósito, é utilizado pela Constituição, ao tratar
das funções institucionais do Ministério Público (art. 127 da CF).
O interesse geral é um conceito muito próximo, e às vezes
idêntico, ao de interesse social. Quando se os diferencia, geralmen-
te se adota o segundo conceito de interesse social (desejo de um
determinado grupo), reputando o interesse de toda a coletividade
como interesse geral.
Quanto ao interesse público, há quem o utilize no sentido do
interesse da coletividade como um todo - o que o aproxima dos
dois conceitos anteriores - ou como interesse do Estado.
Nessa segunda linha, o interesse público é dividido em:
Interesse público primário: bem geral para a coletivida-
de (bem comum);
b) Interesse público secundário: a forma como a Adminis-
tração Pública enxerga o bem geral (Renato Alessi), ou
seja, os interesses da Administração enquanto pessoa
jurídica (Ricardo Leonel).
Atualmente, toda essa diferenciação terminológica, vem sendo
mitigada, em sede doutrinária (em especial, Rodolfo Mancuso), por
não trazer utilidade prática.
1.3. Interesses ou direitos coletivos?
Tendo em vista essaconceituação doutrinária acerca dos inte-
resses, existe um questionamento, eminentemente teórico, acerca
da real natureza jurídica dos bens objetos da tutela coletiva.
• Direitos e Interesses 61
Discute-se se se trataria de interesses intermediários entre os
interesses privados e o interesse público, ou se seriam direitos. É
possível enxergar três correntes:
Primeira corrente (Hugo Mazzilli): termo ideal é interesse,
já que os objetos da tutela coletiva não se enquadram na
conceituação de direito subjetivo, por pertencerem a uma
coletividade e porque seus limites não são perfeitamente
individualizáveis;
Segunda corrente (Fredie Didier Jr e Hermes Zaneti Jr): termo
ideal é direitos, por não existir utilidade na diferenciação e
porque basta a ampliação do conceito de direitos para que se
ultrapasse a concepção individualista que se quer evitar;
Terceira corrente (Kazuo Watanabe, Daniel Assumpção Neves,
Ricardo Leonel): os termos são sinônimos, sendo ambos igual-
mente tuteláveis no processo coletivo.
Outra justificativa para a distinção pretendida por alguns auto-
res está na experiência do direito comparado: na Itália, por exem-
plo, a proteção de interesses se resolve pelo contencioso admi-
nistrativo (em face da Administração), enquanto os direitos são
discutidos na justiça comum.
Na prática, os termos podem ser empregados como sinôni-
mos, inclusive porque o próprio ordenamento, o Supremo Tribunal
Federal e o Superior Tribunal de Justiça usualmente utilizam as ex-
pressões indistintamente.
O que dizem a lei e a Constituição?
CDC: Art. 81. A defesa dos interesses e direitos dos consumidores e das
vítimas poderá ser exercida em juízo individualmente, ou a título coletivo.
Art. 83. Para a defesa dos direitos e interesses protegidos por este códi-
go são admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar sua
adequada e efetiva tutela.
LACP: Art. 5., § 5. Admitir-se-á o litisconsórcio facultativo entre os Ministé-
rios Públicos da União, do Distrito Federal e dos Estados na defesa dos
interesses e direitos de que cuida esta lei.
CF: Art. 8. É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguin-
te: HI - ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou in-
dividuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas.
62 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Art. 127. 0 Ministério Público é instituição permanente, essencial à função
jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do
regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis.
Art. 134. A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à função
jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do
regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica, a promo-
ção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial e extra-
judicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e gratuita,
aos necessitados, na forma do inciso LXxiV do art. 5. desta Constituição
Federal.
2. CLASSIFICAÇÃO
Com o Código de Defesa do Consumidor passou a existir, no
ordenamento brasileiro, um conceito legal (art. 81, parágrafo úni-
co), envolvendo três modalidades de direitos coletivos em sentido
amplo (lato sensu):
a) Direitos difusos;
b) Direitos coletivos em sentido estrito (strict° sensu);
c) Direitos individuais homogêneos.
0 que diz a lei?
CDC: Art. 81 Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se
tratar de:
I - interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste
código, os transindivíduais, de natureza indivisível, de que sejam titulares
pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de faro;
II - interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos des-
te código, os transindividuais, de natureza indivisível de que seja titular
grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte
contrária por uma relação jurídica base;
III - interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os
decorrentes de origem comum.
A classificação feita pelo legislador leva em conta três critérios:
a) Subjetivo:
I) se o direito é transindividual ou individual; e
ii) se os titulares são determináveis ou não.
• Direitos e Interesses 63
b) Objetivo: se o direito é indivisível ou divisível, o que
pode ser verificado através de dois testes:
0 se o conflito exige tratamento unitário para todos os
membros do grupo ou não;
ii) se o direito admite divisão cômoda ou não.
c) Origem: se existia prévia relação jurídica ou não - tam-
bém chamado fator de agregação.
Quanto ao aspecto subjetivo, existe uma grande indetermina-
ção acerca de quem, verdadeiramente, é o titular do direito. Na
doutrina, existem várias correntes:
1) Primeira corrente (posição coletivista - Fredie Didier, Hermes
Zaneti, Daniel Assumpção Neves, Antonio Gidi, Teori Zavascki):
o titular desses direitos é toda a coletividade, nos difusos,
ou uma coletividade consistente em um grupo, uma categoria
ou uma classe, nos coletivos. Ninguém é titular por possuir
o direito isoladamente, mas apenas enquanto membro dessa
coletividade.
2, Segunda corrente (posição individualista - Adriano Andrade,
Landolfo Andrade, Cleber Masson): os titulares desses direitos
são os membros que compõem a coletividade. O CDC, aparen-
temente, coloca como titular do direito as pessoas que com-
põem a coletividade.
Terceira corrente (Marcelo Abelha Rodrigues, Waldemar Mariz
de Oliveira Júnior): os direitos pertencem a ninguém e a todos
ao mesmo tempo. É uma posição que tenta ser conciliadora,
sem, no entanto, resolver a questão.
Quarta corrente (José Maria Tesheiner): os direitos transindivi-
duais não pertencem a qualquer pessoa, servindo o processo
coletivo para tutelar o direito objetivo, semelhantemente a
processos de controle de constitucionalidade, por exemplo.
Quinta corrente (Edilson Vitorelli): a avaliação deve se dar em
concreto, ao se instaurar o litígio, e não em abstrato, fora do
litígio, já que as correntes anteriores são insuficientes.
Por fim, duas observações são importantes, inclusive para so-
lucionar várias questões de prova.
64 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
A primeira: uma boa dica é avaliar a espécie de direito com
base nos pedidos formulados.
A segunda: na mesma ação coletiva, pode-se proteger direitos
de diferentes espécies (ação de tutela híbrida, como reconhecido
pelo STI).
2.1. Direitos difusos
0 que diz a lei?
CDC: Art. 81 Parágrafo único. A defesa coletiva sercí exercida quando se
tratar de:
I - interesses ou direitos difusos, assim entendidos, para efeitos deste
código, os transindividuais, de natureza indivisível, de que sejam titulares
pessoas indeterminadas e ligadas por circunstâncias de fato.
Pode-se apontar, então, com base no CDC, que os direitos di-
fusos são:
Transindividuais, pertencentes a coletividade formada por su-
jeitos indeterminados e indetermináveis - ou seja, é desne-
cessária a especificação dos beneficiários da tutela na petição
inicial;
Indivisíveis;
Decorrentes de situação de fato (homogênea) - ou seja, não
existindo necessária relação jurídica anterior entre os mem-
bros ou entre cada membro e a parte contrária.
Um exemplo esclarecedor é o direito ao meio ambiente sau-
dável, em todas as suas acepções, protegido quando se pretende
cessar a poluição gerada por uma fábrica, já que o ar prejudicado
será partilhado por toda a coletividade.
Passemos às observações que melhor explicam os critérios
apontados acima.
Quanto ao aspecto subjetivo, dois elementos não estão evi-
denciados pela lei.
O primeiro é que a indeterminabilidade dos sujeitos que for-
mam o agrupamento pode ser uma indeterminabilidade relativa
(Barbosa Moreira), bastando que a determinação dos componentes
• Direitos e interesses 65
se revele extremamente difícil etrabalhosa para que esteja atendi-
do o requisito, como na veiculação de uma publicidade enganosa:
os métodos para se aferir quantos assistiam, realmente, à trans-
missão não são totalmente precisos.
O segundo aspecto referente ao critério subjetivo, nesses di-
reitos, é sua intensa onflituosidade (litigiosidade) interna (Rodol-
fo Mancuso), já que existe um natural entrechoque de massas de
interesses dos membros que compõem o grupo, o que torna mais
complexa a solução do litígio.
Por exemplo: na discussão relativa ao direito ambiental envoi-
vendo uma construção de uma usina hidrelétrica, se contrapõem os
desejos econômicos de diversos grupos, os anseios da comunidade
local e da comunidade indígena eventualmente ali habitante.
Quanto ao aspecto da origem, vale sublinhar que pode até
existir um vínculo jurídico, por vezes amplo, como a nacionalidade
dos habitantes de determinado país, mas esse elemento é ape-
nas acidental e não guarda relação direta com o objeto do litígio
(Kazuo Watanabe).
2.2. Direitos coletivos
O que diz a lei?
CDC: Art. Si Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se
tratar de:
II - interesses ou direitos coletivos, assim entendidos, para efeitos des-
te código, os transindividuais, de natureza indivisível de que seja titular
grupo, categoria ou classe de pessoas ligadas entre si ou com a parte
contrária por uma relação jurídica base.
Pode-se dizer que os direitos coletivos (em sentido estrito)
SãO:
3.) Transindividuais, pertencentes a coletividade (grupo, catego-
ria ou classe) formada por sujeitos indeterminados, porém
determináveis;
2) Indivisíveis;
3) Decorrentes de situação na qual existe relação jurídica base
anterior, que pode se dar:
66 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
a) Entre os membros do grupo, categoria ou classe;
b) Entre cada membro do grupo, categoria ou classe e a
parte contrária.
Dois aspectos mudam, em relação aos direitos difusos: a de-
terminabilidade dos membros e a existência de vínculo jurídico
anterior.
Ambos acabam por estar relacionados, pois a possibilidade
de determinação dos sujeitos beneficiários decorre, justamente, da
relação preexistente, havendo um dado organizativo nesse grupo
que o limita, em comparação com um direito de natureza difusa
(Ricardo de Barros Leonel).
Uma boa forma de entender a diferença entre os dois tipos
de direitos transindividuais, que não é nada clara, na prática, em-
bora seja simples, na teoria (felizmente, cobrada em questões ob-
jetivas), é justamente entender que o direito difuso envolve um
grupo mais fluido e sem vínculo jurídico relacionado com o conflito,
enquanto o direito coletivo envolve uma parcela específica dessa
coletividade geral: um grupo, uma categoria ou uma classe.
É importante trazer o alerta de parte da doutrina (Kazuo Wa-
tanabe, Daniel Assumpção Neves) de que a relação jurídica base
não se confunde com a relação jurídica controvertida (lesão ou
ameaça de lesão ao direito coletivo). Na analogia de Barbosa Mo-
reira, ocorre o mesmo que com um condomínio: existe uma relação
jurídica anterior entre os membros, que não é a mesma levada a
juízo, ainda que dela decorra.
Por outro lado, na comparação com a outra espécie de direito
tutelado pelo microssistema, os direitos individuais homogêneos,
é fundamental entender que o direito coletivo não é a reunião de
interesses individuais. O elemento da indivisibilidade é crucial.
Nem por isso a distinção é simples. Vários exemplos trazidos
pela doutrina para os direitos coletivos não convencem. Um deles é
o dos alunos que, guardando cada um deles relação jurídica prévia
com a escola ou faculdade, ingressam em juízo para evitar o au-
mento da mensalidade (Daniel Assumpção). Outro é o da proibição
da retirada de autos em cartório por advogados (Fredie Didier,
Hermes Zaneti), que atinge categoria profissional específica, cujos
V • Direitos e Interesses 67
membros guardam vínculo jurídico anterior, uns com os outros atra-
vés da OAB.
Nada impede, ao ver de outra parcela da doutrina - na qual
me incluo - que cada um deles ajuíze sua ação individual, resolven-
do sua relação destacadamente com a parte contrária.
Por sua vez, me parece correto o exemplo do pedido da as-
sociação atinente à adequação da grade curricular aos novos pa-
râmetros do Ministério da Educação para a validade e o creden-
ciamento do curso, porque a relação material é apenas uma, não
sendo possível existir uma base curricular para um aluno e outra
para os demais.
Da mesma forma, acontece com o meio ambiente do trabalho,
que afeta uniformemente uma categoria profissional.
Na jurisprudência, o Superior Tribunal de Justiça já reconheceu,
como exemplo de direito coletivo, o de determinado grupo de ser
contemplado com vagas reservadas em concurso público.
2.3. Direitos individuais homogêneos
O que diz a lei?
CDC: Art. 81 Parágrafo único. A defesa coletiva será exercida quando se
tratar de:
Ill - interesses ou direitos individuais homogêneos, assim entendidos os
decorrentes de origem comum.
De acordo com o CDC, os direitos individuais homogêneos são:
1) Individuais, pertencentes a sujeitos determinados ou, ao me-
nos, determináveis;
2) Divisíveis;
3) Decorrentes de uma origem comum, que pode ser de fato ou de
direito (relação jurídica), sem que haja necessidade de identi-
dade temporal ou factual - ou seja, podendo atingir sujeitos em
momentos diversos (por exemplo, uma publicidade enganosa
veiculada repetidamente). Essa origem comum pode ser:
Próxima: quando a causa dos danos é diretamente co-
mum (queda de um mesmo avião, por exemplo);
68 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Remota: quando a origem comum está mais afastada do
fato ensejador do dano (produto nocivo à saúde, que
pode ter prejudicado diversos consumidores por razões
outras, próximas, como condições pessoais).
Trata-se do tipo de direito tutelado de mais fácil identificação:
a rigor, existem direitos individuais que poderiam ser levados a
juízo por seus titulares, mas que podem ser protegidos por um
dos legitimados coletivos, por uma questão de política legislativa
fundada em duas razões principais:
Economia processual macroscópica: resolução de diver-
sos casos em um único processo, permitindo, ainda, de-
cisão com isonomia e segurança jurídica;
Interesse processual: danos que, individualmente, não
despertariam interesse de agir (microlesões), quando
somados (danos agregados), se tornam vultosos e dig-
nos de proteção jurisdicional.
Portanto, entendo que o conceito deve vir sempre no plural
(direitos individuais homogêneos), não no singular (direito indivi-
dual homogêneo).
Existe, de lege ferenda, um requisito específico: a homogenei-
isto é, a existência de aspectos comuns, a prevalência da
dimensão coletiva sobre a individual (Ada Pellegrini Grinover).
Tal prevalência coletiva deve se dar tanto sob o ponto de vista
objetivo como pelo subjetivo:
Predominância coletiva objetiva: similitude dos direitos,
analisando se a sentença genérica verdadeiramente se
mostrará útil, ou se, no momento da liquidação indivi-
dual pelos beneficiados, a atividade cognitiva se mostra-
rá tão complexa quanto teriam sido as ações individuais
de conhecimento (ação pseudocoletiva);
Prevalência coletiva subjetiva: número razoável de sujei-
tos beneficiados.
Como entende a jurisprudência?
Nas ações em que se pretende a defesa de direitos individuais homogê-
neos, não obstante os sujeitos possam ser determináveis na fase de co-
nhecimento (exigindo-se estejam determinados apenas na liquidação de
• Direitos e Interesses 69
sentença ou na execução), não se pode admitir seu ajuizamento sem que
haja, ao menos, indícios de que a situação a ser tutelada é pertinente a
um número razoável de consumidores. O promovente da ação civil pública
deve demonstrar que diversos sujeitos, e não apenas um ou dois, estão
sendo possivelmentelesados pelo fato de "origem comum", sob pena de
não ficar caracterizada a homogeneidade do interesse individual a ser
protegido. (ST), REsp 823.063/PR, Rel. Ministro Raul Araújo, Quarta Turma,
julgado em 14/02/2012).
Há quem sustente, com inspiração nas class actions for dama-
ges do direito norte-americano (Ada Grinover, Aluisio Mendes) um
terceiro: a superioridade da tutela coletiva, no que diz respeito à
justiça e à eficácia da decisão, apenas havendo interesse de agir
em um processo coletivo capaz de gerar solução efetiva, com uti-
lidade prática.
Por fim, cabe abordar as iases da tutela dos direitos indi-
viduais homogêneos. De acordo com a doutrina (Teori Zavascki),
existe um modelo bifásico:
No processo de conhecimento, verifica-se o núcleo de
homogeneidade (se se deve, o que se deve e quem
deve);
Na fase de liquidação, verifica-se a margem de hetero-
geneidade (para quem se deve e o quanto se deve).
Outros autores (Fredie Didier e Hermes Zaneti) preferem um
modelo trifásico, acrescentando uma terceira etapa: a reparação
fluida (fluid recovery), quando volta a interessar o núcleo de homo-
geneidade, com aferição do quantum debeatur.
Por conta dessa dinâmica gradual, não há necessidade de que,
na fase de conhecimento, o legitimado esmiúce as situações indi-
viduais de todos os envolvidos, bastando que descreva o que há
de comum.
I Como entende a jurisprudência?
Em ações coletivas, é suficiente para a caracterização do interesse de agir
a descrição exemplificativa de situações litigiosas de origem comum (art.
81, Ill, do CDC), que precisam ser solucionadas por decisão judicial. (...)
A exigência de que o autor arrole todas as ações judiciais ajuizadas pelos
substituídos, nas quais teriam ocorrido em tese a tributação indevida, é
70 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
incompatível com o microssistema do processo coletivo, em que prevalece
a repartição da atividade cognitiva em duas fases, caracterizada pela li-
mitação da cognição, num primeiro momento, às questões fáticas e jurídi-
cas comuns às situações dos envolvidos. Apenas posteriormente, em caso
de procedência do pedido, é que a atividade cognitiva é integrada pela
identificação das posições individuais de cada um dos substituídos
Portanto, é prescindível que a causa de pedir da ação coletiva propria-
mente dita (primeira fase cognitiva) contemple descrição pormenorizada
das situações individuais de todos os servidores que supostamente foram
submetidos a pagamento indevido de Imposto de Renda.
(STJ, REsp 1395875/PE, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segundo Turma, jul-
gado em 20/02/2014).
2.4. Direitos individuais indisponíveis
Em certas hipóteses, o ordenamento garante que certos di-
reitos, ainda que individuais, possam vir a ser tutelados em ação
coletiva em razão de sua importância e indisponibilidade.
1 0 que diz a lei?
ECA: Art. 201. Compete ao Ministério Público: V - promover o inquérito civil
e a ação civil pública para a proteção dos interesses individuais, difusos
ou coletivos relativos à infância e à adolescência, inclusive os definidos no
art. zzo, § 3. inciso II, da Constituição Federal.
El: Art. 74. Compete ao Ministério Público: I - instaurar o inquérito civil e
a ação civil pública para a proteção dos direitos e interesses difusos ou
coletivos, individuais indisponíveis e individuais homogêneos do idoso.
Para além dessas hipóteses legais, a doutrina e a jurispru-
dência vêm identificando a categoria dos sujeitos hipervulneráveis
como aquele subgrupo dos vulneráveis em que as pessoas se en-
contram em situação de especial necessidade.
Tal circunstância autoriza o ajuizamento de ação civil pública
para a tutela de seus direitos, mesmo que apenas beneficie um único
sujeito, porque, a rigor, o maior beneficiado é a sociedade (critério
qualitativo dos beneficiários diretos), como o STJ entendeu quanto às
pessoas com deficiência física, mental ou sensorial e para os idosos.
1 Como entende a jurisprudência?
A categoria ético-política, e também jurídica, dos sujeitos vulneráveis inclui
um subgrupo de sujeitos hipervulneráveis, entre os quais se destacam,
• Direitos e Interesses 71
por razões óbvias, as pessoas com deficiência física, sensorial ou mental.
(...) A tutela dos interesses e direitos dos hipervulneráveis é de inafastcí-
vel e evidente conteúdo social, mesmo quando a Ação Civil Pública, no seu
resultado imediato, aparenta amparar uma única pessoa apenas. É que,
nesses casos, a ação é pública, não por referência à quantidade dos su-
jeitos afetados ou beneficiados, em linha direta, pela providência judicial
(= critério quantitativo dos beneficiários imediatos), mas em decorrência
da própria natureza da relação jurídica-base de inclusão social imperati-
va. Tal perspectiva, que se apoia no pacto jurídico-político da sociedade,
apreendido em sua globalidade e nos bens e valores ético-políticos que o
abrigam e o legitimam, realça a necessidade e a indeclinabilidade de pro-
teção jurídica especial a toda uma categoria de indivíduos (=critério quali-
tativo dos beneficiários diretos), acomodando um feixe de obrigações vo-
calizadas como jus cogens. Ao se proteger o hipervulnerável, a rigor quem
verdadeiramente acaba beneficiada é a própria sociedade, porquanto
espera o respeito ao pacto coletivo de inclusão social imperativa, que lhe
é caro, não por sua faceta patrimonial, mas precisamente por abraçar a
dimensão intangível e humanista dos princípios da dignidade da pessoa
humana e da solidariedade. Assegurar a inclusão judicial (isto é, reconhe-
cer a legitimação para agir) dessas pessoas hipervulneráveis, inclusive
dos sujeitos intermediários a quem incumbe representá-las, corresponde
a não deixar nenhuma ao relento da justiça por falta de porta-voz de seus
direitos ofendidos." (STJ. REsp 931.513/RS, Rel. Ministro Carlos Fernando
Mathias (Juiz federal convocado do TRF região), Rel. p/ Acórdão Ministro
Herman Benjamin, primeira seção, julgado em 25/11/2009).
"No caso, o direito fundamental tutelado está entre os mais importantes,
qual seja, o direito à saúde. Ademais, o grupo de consumidores potencial-
mente lesado é formado por idosos, cuja condição de vulnerabilidade já
é reconhecida na própria Constituição Federal, que dispõe no seu art. 230,
sob o Capítulo Vil do Título VIII ("Da Família, da Criança, do Adolescente,
do jovem e do Idoso"): "A família, a sociedade e o Estado têm o dever de
amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade,
defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida".
'A expressão 'necessitados' (art. 134, co put, da Constituição), que qualifica,
orienta e enobrece a atuação da Defensoria Pública, deve ser entendida, no
campo da Ação Civil Pública, em sentido amplo, de modo a incluir, ao lado
dos estritamente carentes de recursos financeiros - os miseráveis e pobres
-, os hipervulneráveis (isto é, os socialmente estigmatizados ou excluídos,
as crianças, os idosos, as gerações futuras), enfim todos aqueles que, como
indivíduo ou classe, por conta de sua real debilidade perante abusos ou
arbítrio dos detentores de poder econômico ou político, 'necessitem' da
mão benevolente e solidarista do Estado para sua proteção, mesmo que
contra o próprio Estado. Vê-se, então, que a partir da ideia tradicional da
instituição forma-se, no Welfare State, um novo e mais abrangente círculo de
72 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
sujeitos salvaguardados processualmente, isto é, adota-se uma compreen-
são de minus habentes impregnada de significado social, organizacional e
de dignificação da pessoa humana'." (STI. EREsp LL92577/RS, Rel. Min. Laurita
Vaz, corte especial, julgado em 21/10/2015).
"0 status de índio não depende do local em que se vive, já que, a ser
diferente, estariam os indígenas ao desamparo, tão logo pusessem os
pés fora de sua aldeia ou Reserva. Mostra-se ilegal e ilegítimo, pois,o
discrímen utilizado pelos entes públicos na operacionalização do serviço
de saúde, ou seja, a distinção entre índios aldeados e outros que vivam
foram da Reserva. Na proteção dos vulneráveis e, com maior ênfase, dos
hipervulneráveis, na qual o legislador não os distingue, descabe ao juiz
fazê-lo, exceto se for para ampliar a extensão, o grau e os remédios em
favor dos sujeitos especialmente amparados." (STj. REsp Lo64009/SC, Rel.
Min. Herman Benjamin, segunda turma, julgado em 04/08/2009).
Por outro lado, parcela da doutrina (Daniel Neves) compreen-
de que se trate apenas de uma pontual autorização para a subs-
tituição processual, como ocorre com a legitimidade do MP para
o requerimento de alimentos em favor de incapaz (súmula 594 do
STJ), e não de ação coletiva propriamente.
2.5. Quadro síntese
Critério subjetivo
Transindividuais Transindividuais (su-
(sujeitos inde- jeitos determinados/
termináveis) determináveis)
Individuais
Critério objetivo Indivisíveis
Critério da
origem
Situação fática
comum
Relação jurídica
base
origem co-
mum (fática
jurídica)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(MPE/GO - 2019 - MPE/G0- Promotor de justiça) Segundo lição de Hugo
Nigro Mazilli, entre o interesse público e privado, há interesses me-
taindividuais ou coletivos, referentes a um grupo de pessoas, que
excedem o âmbito individual mas não chegam a constituir interesse
público. A definição legal de Direitos ou Interesses Difusos, coletivos
ou Individuais Homogêneos encontra-se exposta no artigo 81 do Códi-
go de Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078/90). Segundo o mencionado
diploma legal:
• Direitos e Interesses 73
a) Constituem interesses ou direitos coletivos, os transindividuais, de
natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas indeterminadas
e ligadas por circunstâncias de fato;
b) Constituem interesses ou direitos difusos, os transindividuais, de
natureza indivisível de que seja titular grupo, categoria ou classe de
pessoas ligadas entre si ou com a parte contrária por uma relação
jurídica base;
c) Constituem interesses ou direitos individuais homogêneos os decor-
rentes de origem comum;
d) Constituem interesses ou direitos coletivos, os transindividuais, de
natureza indivisível, de que sejam titulares pessoas determinadas e
ligadas por circunstâncias de fato.
A alternativa C foi considerada correta.
(VUNESP - 2019 - Prefeitura de Valinhos - Procurador) Foram apresen-
tadas três situações ao procurador do município: (i) a construção de
uma empresa de rejeitos de minério de ferro ao lado de um rio que
tem nascente no Município, em área considerada de proteção ambien-
tal; (ii) a contaminação com o vírus da AIDS de vários pacientes do
hospital municipal da cidade que receberam transfusão de sangue; (iii)
o aumento de determinado tributo municipal em que se questiona o
suposto confisco.
Diante dessas situações hipotéticas, dentro da classificação dos direi-
tos transindividuais, o procurador conclui que
a) todos os casos são classificados como direitos difusos.
b) a hipótese (i) se refere a direito difuso e os itens (ii) e (iii) referem-
-se a direitos individuais homogêneos.
c) o item (i) é classificado como direito coletivo em sentido estrito, o
item (ii) como individual homogêneo e o (iii) difuso.
d) o item (i) é classificado como difuso, o item (ii) como individual ho-
mogêneo e o (iii) direito coletivo em sentido estrito.
e) todos os casos são classificados como individuais homogêneos.
A alternativa D foi considerada correta.
(CESPE - 2019 - DPE/DF - Defensor Público) Os interesses difusos, coleti-
vos strictu sensu e individuais homogêneos possuem como característi-
ca comum a indivisibilidade do objeto.
A alternativa foi considerada incorreta.
74 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
3. DIREITOS ESSENCIALMENTE COLETIVOS E DIREITOS ACIDENTALMENTE
COLETIVOS
Tendo em conta essa classificação traçada pelo legislador, Bar-
bosa Moreira cunhou uma diferenciação em dois grupos: os direi-
tos essencialmente coletivos e os direitos acidentalmente coletivos.
Os direitos essencialmente coletivos são, por sua natureza,
transindividuais e indivisíveis, sendo impossível seu fracionamento
para gozo exclusivo e destacado de um ou alguns dos membros da
coletividade.
São espécies desse gênero os direitos difusos e os coletivos
em sentido estrito (direitos transindividuais ou metaindividuais).
Por outro lado, os direitos acidentalmente coletivos são, por
sua natureza, individuais e divisíveis, sendo possível seu fraciona-
mento para gozo exclusivo e destacado de um ou alguns dos mem-
bros da coletividade.
A bem da verdade, se está diante de direitos individuais, que
poderiam ser tutelados de maneira isolada por cada um de seus
titulares, determinados.
São espécies desse gênero os direitos individuais homogêneos
(critério quantitativo dos beneficiários), e os direitos individuais
indisponíveis (critério qualitativo dos beneficiários).
4. OBJETOS ESPECÍFICOS
Para além da ação civil pública, onde o objeto é bastante am-
plo, existem outras espécies de ações coletivas, mais estreitas.
4.1. Ação popular
Na ação popular, são objetos os atos, comissivos ou omissivos:
a) Ilegais: violam normas específicas que regem sua prá-
tica ou se desviam dos princípios gerais que norteiam
a Administração Pública, aí incluídos princípios e pre-
cedentes judiciais (ideia da juridicidade, para além da
legalidade);
b) Lesivos: ofendem um dos direitos protegidos:
i) Patrimônio público;
Cap. V • Direitos e interesses 75
ii) Patrimônio histórico e cultural;
iii) Moralidade administrativa;
iv) Meio ambiente.
O que dizem a lei e a Constituição?
LAP: Art. I. Qualquer cidadão será parte legítima para pleitear a anu-
lação ou a declaração de nulidade de atos lesivos ao patrimônio da
União, do Distrito Federal, dos Estados, dos Municípios, de entidades
autárquicas, de sociedades de economia mista (Constituição, art. 141, §
38), de sociedades mútuas de seguro nas quais a União represente os
segurados ausentes, de empresas públicas, de serviços sociais autô-
nomos, de instituições ou fundações para cuja criação ou custeio o te-
souro público haja concorrido ou concorra com mais de cinquenta por
cento do patrimônio ou da receita ânua, de empresas incorporadas ao
patrimônio da União, do Distrito Federal, dos Estados e dos Municípios,
e de quaisquer pessoas jurídicas ou entidades subvencionadas pelos
cofres públicos.
§ - Consideram-se patrimônio público para os fins referidos neste
artigo, os bens e direitos de valor econômico, artístico, estético, histó-
rico ou turístico.
CF: Art. 3. LXXIII - qualquer cidadão é parte legítima para propor
ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou
de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa,
ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o au-
tor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da
sucumbência.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2016 - TCE/SC - Auditor de controle Externo) De acordo com
o STJ, o juiz pode determinar, na ação popular, a anulação do ato le-
sivo ao patrimônio público, sendo-lhe vedado, entretanto, determinar
o ressarcimento, o que exige instrução probatória em processo de
conhecimento.
A alternativa foi considerada incorreta.
(CESPE - 2019 - Prefeitura de Boa Vista - Procurador) Após tomar pos-
se, o prefeito nomeou para exercer o cargo de motorista do seu ga-
binete o seu sobrinho. Nessa situação, para a anulação da referida
nomeação, um instrumento processual adequado é a ação popular.
A alternativa foi considerada correta.
76 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Quanto ao requisito da lesividade, é importante lembrar que
a potencialidade lesiva pode bastar, na ação popular preventiva.
No tocante à necessidade de haver sempre lesão aos cofres
públicos, emborahaja alguma divergência, não é essencial que o
ato lesivo tenha causado prejuízo econômico ao erário bastando
que tenha causado lesão ao meio ambiente ou à moralidade admi-
nistrativa, mesmo que daí não decorra qualquer espécie de dano
ao patrimônio público.
Como entende a jurisprudência?
Para o cabimento da Ação Popular, basta a ilegalidade do ato administra-
tivo por ofensa a normas específicas ou desvios dos princípios da Admi-
nistração Pública, dispensando-se a demonstração de prejuízo material.
Nesse sentido: "mesmo não havendo lesão no sentido pecuniário, de pre-
juízo econômico para o Estado, a ação popular é cabível, uma vez que visa
proteger não apenas o patrimônio pecuniário, mas também o patrimônio
moral e cívico da administração" (Resp 849.297/DF, Rel. Ministro Mauro
Campbell Marques, Segunda Turma, Die 8.10.2012). Confira-se ainda: "A
ação popular é instrumento hábil à defesa da moralidade administrativa,
ainda que inexista dano material ao patrimônio público. Precedentes do
STJ: AgRg no REsp 774.932/GO, DJ 22.03.2007 e Resp 552.691/MG, DJ 30.5.2005"
(STJ, REsp 474475/SR Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em
09/09/2008, Die 6.10.2008. No mesmo sentido, os precedentes do SIT: RE
120.768/S p. Rel. Min. limar Galvão, Diu de 13.8.99; RE 160.381/SP, Rel. MM.
Marco Aurélio, DJ 12.8.94; RE 170.768/SP, Rel. Min. limar Galvão, DJ 13.8.1999.
(STI, REsp 1252697/Rj, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segundo Turma, jul-
gado em 27/11/2012)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2012 - TI/CE - Juiz de Direito) A respeito da ação popular, assi-
nale a opção correta:
a) Esse tipo de ação não enseja ressarcimento do patrimônio público
lesado.
b) É essencial ao cabimento dessa ação o efetivo prejuízo econômico
do erário público.
As alternativas foram consideradas incorretas.
4.2. Ação de improbidade administrativa
Na ação de improbidade administrativa, combatem-se os
de improbidade, assim entendidos aqueles que:
Car • Direitos e Interesses 77
a) Atinjam umas das entidades elencadas em lei (- •
passivos);
b) Sejam praticados por agentes públicos, em conceito
absolutamente amplo que inclui qualquer pessoa que
exerça, ainda que transitoriamente e sem remuneração,
função pública e os terceiros que induzem, concorrem
ou se beneficiam com o ato improbo (sujeitos afivos);
c) Sejam tipificados pela LIA como:
i) Atos que gerem enriquecimento ilícito, desde que
dolosos;
ii) Atos que gerem prejuízo ao erário, dolosos ou
culposos;
iii) Atos que ofendam os princípios da Administração
Pública, desde que dolosos.
0 que diz a lei?
LIA: Art. jo Os atos de improbidade praticados por qualquer agente públi-
co, servidor ou não, contra a administração direta, indireta ou fundacio-
nal de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal,
dos Municípios, de Território, de empresa incorporada ao patrimônio pú-
blico ou de entidade para cuja criação ou custeio o erário haja concorrido
ou concorra com mais de cinqüenta por cento do patrimônio ou da receita
anual, serão punidos na forma desta Lei.
Parágrafo único. Estão também sujeitos às penalidades desta Lei os atos
de improbidade praticados contra o patrimônio de entidade que receba
subvenção, benefício ou incentivo, fiscal ou creditício, de órgão público
bem como daquelas para cuja criação ou custeio o erário haja concorrido
ou concorra com menos de cinqüenta por cento do patrimônio ou da recei-
ta anual, limitando-se, nestes casos, a sanção patrimonial à repercussão
do ilícito sobre a contribuição dos cofres públicos.
Art. 2. Reputa-se agente público, para os efeitos desta Lei, todo aquele
que exerce, ainda que transitoriamente ou sem remuneração, por eleição,
nomeação, designação, contratação ou qualquer outra forma de investi-
dura ou vínculo, mandato, cargo, emprego ou função nas entidades men-
cionadas no artigo anterior.
Art. 3. As disposições desta Lei são aplicáveis, no que couber, àquele que,
mesmo não sendo agente público, induza ou concorra para a prática do
ato de improbidade ou dele se beneficie sob qualquer forma direta ou
indireta.
78 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - Prefeitura de Belo Horizonte - Procurador do Município)
Mandado de segurança e ação civil pública por improbidade adminis-
trativa podem ser ajuizados preventivamente.
A alternativa foi considerada incorreta, já que a ação de improbidade
tem sempre caráter repressivo.
4.3. Mandado de segurança coletivo
No mandado de segurança coletivo, o objeto passa por três
elementos:
a) UM direito líquido e certo de uma coletividade - com-
preendido sob a ótica processual, ou seja, como aquele
provado independentemente de instrução probatória
dentro do processo;
b) Ameaçado ou violado por ato abusivo ou ilegal;
c) De autoridade pública ou agente revestido de atribuição
pública.
O que dizem a lei e a Constituição?
LMS: Art. 1. Conceder-se-á mandado de segurança para proteger direito
líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, sempre
que, ilegalmente ou com abuso de poder, qualquer pessoa física ou jurídica
sofrer violação ou houver justo receio de sofrê-la por parte de autoridade,
seja de que categoria for e sejam quais forem as funções que exerça.
§ 1. Equiparam-se às autoridades, para os efeitos desta Lei, os represen-
tantes ou órgãos de partidos políticos e os administradores de entidades
autárquicas, bem como os dirigentes de pessoas jurídicas ou as pessoas
naturais no exercício de atribuições do poder público, somente no que
disser respeito a essas atribuições.
§ 2. Não cabe mandado de segurança contra os atos de gestão comercial
praticados pelos administradores de empresas públicas, de sociedade de
economia mista e de concessionárias de serviço público.
§ 30 Quando o direito ameaçado ou violado couber a várias pessoas, qual-
quer delas poderá requerer o mandado de segurança.
CF: Art. 5. LXIX - conceder-se-á mandado de segurança para proteger di-
reito líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data,
quando o responsável pela ilegalidade ou abuso de poder for autoridade
pública ou agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder
Público.
Cap. V• Direitos e interesses 79
4.4. Mandado de injunção coletivo
No mandado de injunção coletivo, tem-se uma omissão regu-
lamentadora a ser combatida, podendo ser total (inércia estatal
absoluta) ou parcial (norma editada pelo órgão competente insu-
ficiente), dizendo respeito a direitos, liberdades e prerrogativas
pertences à coletividade de pessoas de um grupo, categoria ou
classe.
O que dizem a lei e a Constituição?
LMI: Art. 2° Conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta total
ou parcial de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direi-
tos e liberdades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionali-
dade, à soberania e à cidadania.
Parágrafo único. Considera-se parcial a regulamentação quando forem in-
suficientes as normas editadas pelo órgão legislador competente.
Art. 12 Parágrafo único. Os direitos, as liberdades e as prerrogativas pro-
tegidos por mandado de injunção coletivo são os pertencentes, indistinta-
mente, a uma coletividade indeterminada de pessoas ou determinada por
grupo, classe ou categoria.
CF: Art. 5. LXXI - conceder-se-á mandado de injunção sempre que a falta
de norma regulamentadora torne inviável o exercício dos direitos e liber-
dades constitucionais e das prerrogativas inerentes à nacionalidade, à
soberania e à cidadania.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(FGV - 2019 - DPE/RJ - Técnico Superior Jurídico) Joana estava impossi-
bilitada de fruir determinado direito constitucional em razão da au-
sência de norma regulamentadora, que deveria ter sido editada pelo
Congresso Nacional. Esse estado de mora legislativa vinha sendo reco-
nhecido pelo SupremoTribunal Federal nos últimos cinco anos, em di-
versos mandados de injunção anteriores, tendo o Congresso Nacional
descumprido sistematicamente o prazo fixado para que a mora fosse
sanada.
Considerando a sistemática estabelecida pela ordem jurídica, em es-
pecial pela Lei n. 13.30o/2016, a injunção requerida por Joana deve ser:
a) indeferida, considerando a inexistência de interesse processual,
pois a mora legislativa já fora reconhecida;
b) deferida, para determinar prazo razoável para que o impetrado
promova a edição da norma regulamentadora;
80 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
c) deferida, para que o impetrado tome ciência da mora legislativa e
adote as providências necessárias à sua superação;
d) indeferida, pois a existência de mandados de injunção anteriores
denota o caráter coletivo da temática, o que impede a atuação iso-
lada de Joana;
e) deferida, para estabelecer o modo como se dará o exercício do
direito ou as condições em que o interessado pode promover ação
própria visando a exercê-lo.
A alternativa E foi considerada correta.
¡I'llCapítulo
Conflitos Coletivos
Diante das dificuldades colocadas a partir da classificação elei-
ta pelo legislador, Edilson Vitorelli propôs o enfoque não nos direi-
tos, mas nos conflitos (litígios).
A proposta passa pelo abandono de noções apriorísticas e
abstratas, partindo de diversas concepções sociológicas, evidencia-
-se que a relação sociedade-Estado é falha e incompleta.
O que importa, no fim, é a parcela de sujeitos atingida por
aquela conduta do réu, efetivamente e de maneira destacada. O
ponto de partida para a solução do litígio será a situação litigiosa,
não o direito íntegro.
Um exemplo pode ajudar: o derramamento de óleo em certa
baía ou lagoa, em tese, por ofender direito difuso (meio ambiente),
a todos atinge. Contudo, essa lesão atingirá, em especial, grupos
específicos, como os pescadores da região, em escala tão superior
a outras parcelas sociais (empresários urbanos e moradores de
outras regiões, por exemplo).
1. CLASSIFICAÇÃO
Essa classificação leva em conta dois critérios:
a) Critério endógeno (conflituosidade): uniformidade das
posições dos integrantes da sociedade em relação ao
litígio (visões diversas sobre o conflito);
b) Critério exógeno (complexidade): multiplicidade de solu-
ções para o conflito (propostas diversas de saída para o
conflito, admitidas pelo ordenamento).
82 Processo Coletivo - Vol. 54 • Jose Roberto Mello Porto
Em geral, os dois critérios estarão relacionados, apesar de
não serem dependentes. Contudo, podem existir conflitos comple-
xos, como os ambientais (despoluição de um rio), que não sejam
conflituosos, existindo uma unidade no grupo atingido.
A partir desses parâmetros, litígios (ou direitos) serão dividi-
dos em:
a) Litígios transindividuais de difusão global;
b) Litígios transindividuais de difusão local;
c) Litígios transindividuais de difusão irradiada.
1.1. Litígios transindividuais de difusão global
Nesses litígios, não existem interesses de qualquer pessoa es-
pecialmente comprometidos pela lesão - essa categoria leva em
conta a noção de sociedade como estrutura.
A conflituosidade é muito baixa, decorrendo a proteção ao
bem jurídico do interesse genérico que todos possuem.
A complexidade será baixa, no geral, embora, pontualmente, a
solução ideal possa se dificultar, por conta de divergências técnicas
e científicas.
São exemplos o derramamento de óleo em quantidade peque-
na e a perfuração profunda no meio do oceano.
1.2. Litígios transindividuais de difusão local
Nesses litígios, se atinge, de maneira destacada, uma parcela
da coletividade (uma comunidade) - essa categoria leva em conta
a noção de sociedade como solidariedade.
Existem dois círculos desse tipo de litígio.
No primeiro círculo, o grupo ofendido possui grande consciên-
cia de identidade própria e senso de lealdade entre seus mem-
bros, caracterizando-se como um conjunto com alto grau de con-
senso interno. Os efeitos causados a esses sujeitos, que formam
o grupo, são tão mais sérios e relevantes que os gerados sobre o
restante da sociedade que se afigura razoável considerar apenas
a sua titularidade.
• Conflitos Coletivos 83
A conflituosidade é ainda baixa ou média, decorrendo a pro-
teção ao bem jurídico do interesse específico que a comunidade
possui.
A complexidade será média, pois, ainda que haja uniformi-
dade no grupo atingido, pode haver divergências internas e opi-
niões diferentes, mas a comunidade mantém sua capacidade de
agregação.
São exemplos de direitos transindividuais locais os titulariza-
dos por comunidades indígenas ou quilombolas.
No segundo círculo, estão grupos que compartilham perspec-
tivas sociais próprias, ainda que com vínculo subjetivo mais tênue
que as comunidades, como as minorias, o que permite a eles atri-
buir a titularidade dos direitos, inclusive para fins de transações.
São exemplos de direitos transindividuais locais desse segun-
do tipo as discussões sobre igualdade de gênero, por exemplo,
tendem a interessar mais às mulheres que aos homens.
1.3. Litígios transindividuais de difusão irradiada
Nesses litígios, se atingem diversas parcelas da coletividade,
com diversas relações especiais de titularidade em concreto - essa
categoria leva em conta a noção de sociedade como criação.
A conflituosidade é alta, pois a coletividade atingida não possui
coerência interna, com múltiplas compreensões próprias de mundo
e preferências específicas (megaconflitos ou litígios mutáveis).
Além disso, podem existir ofensas em graus diversos (conflitos
multipolares), como as ondas de uma pedra atirada ao lago, irra-
diadas a partir do centro:
a Os que estão no centro do conflito serão mais envolvi-
dos (lesões centrípetas) e, caso prevaleçam, a socieda-
de será nucleada;
Os na periferia do litígio serão atingidos de forma mais
uniforme (lesões centrífugas) e, caso prevaleçam, a so-
ciedade será não nucleada.
b)
A complexidade será alta, pois cada um dos agrupamentos
atingidos sugerirá uma saída específica.
84 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
São exemplos de direitos transindividuais irradiados a cons-
trução de uma hidrelétrica em determinado rio, que opõe as prefe-
rencias da população ribeirinha, da população da cidade próxima,
da sociedade empresária responsável e da população que recebe-
rá a energia produzida, ou de uma casa de eventos noturnos em
determinada localidade.
A grande consequência processual é a necessidade de amplo
contraditório, inclusive social, trazendo para o debate todas os
grupos realmente envolvidos.
1.4. Quadro síntese
Litígios coletivos de difusão Global Local Irradiada
Conflituosidade Baixa Baixa/média Alta
Complexidade Baixa Baixa/média Alta
1:1111Capítulo
Legitimidade
1. NATUREZA
Como visto no capítulo dos conceitos essenciais, uma das gran-
des peculiaridades do processo coletivo é a legitimidade para agir,
condição da ação.
Em regra, a legitimidade ativa coletiva será:
a) Extraordinária: o titular do direito material não estará
em juízo. A esse respeito, duas observações:
i) Existe divergência acerca dessa natureza jurídica,
como veremos adiante.
ii) Existe entendimento de que a legitimidade das co-
munidades indígenas é, excepcionalmente, ordinária
(art. 232 da CF).
b) Primária: o legitimado extraordinário não depende de
prévia inércia dos titulares do direito para que possa
agir;
c) Autônoma: o legitimado extraordinário não precisa estar
em litisconsórcio com os legitimados ordinários (titula-
res do direito);
cl) Concorrente (plúrimas): existem vários legitimados elei-
tos pelo legislador. A exceção fica por conta da ação
popular (na qual só o cidadão é legitimado);
e) Disjuntiva (isolada): cada um dos vários legitimados
pode ajuizar a ação isoladamente, inexistindo litiscon-
sórcio ativo necessário ou ordem de prioridade;86 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
f) Mic : existem tanto entes públicos como privados legi-
timados. A exceção fica por conta da ação de improbi-
dade administrativa (na qual apenas o MP e a pessoa
jurídica de direito público são legitimados).
Como esse assunto foi cobrado em corieurso7
(CESPE - 2013 - TINA - Juiz de Direito O ajuizamento da ação coletiva
pelas entidades legalmente autorizadas configura legitimação concor-
rente e disjuntiva, ou seja, qualquer legitimado pode ajuizar a ação,
independentemente dos outros, sem prevalência alguma entre eles.
A alternativa foi considerada correta.
Cabe uma palavra sobre a natureza jurídica da legitimidade
ativa. Existe considerável divergência histórica na doutrina a res-
peito, podendo serem sintetizadas as seguintes posições:
Primeira corrente (posição inicialmente assumida por Paulo
Cezar Pinheiro Carneiro, Kazuo Watanabe, José Afonso da Silva,
Rodolfo Mancuso, Ada Pellegrini Grinover e Vicenzo Vigoriti):
legitimidade ordinária. Argumentos:
O Ministério Público é constitucionalmente incumbido de
defender o interesse público;
b) As associações agem em nome próprio, tutelando inte-
resse próprio (distinto de seus membros), até porque o
ordenamento constitucional, desde 1969, estimulava a
atividade associativa. É a ideia da legitimidade ordinária
das formações sociais.
Segunda corrente (Nelson Nery, Ricardo de Barros Leonel -este,
apenas quanto aos direitos transindividuais): legitimidade au-
tônoma para a condução do processo, categoria desenvolvida
pelo direito alemão. Argumentos:
a) É inadequada a tese da legitimidade ordinária, já que
o legitimado coletivo não defende direito próprio. Mes-
mo as associações, quando tutelam matérias relativas a
seus interesses institucionais, não são exclusivas titula-
res desses direitos.
b) É igualmente inadequada a tese da legitimidade extraor-
dinária, porque haveria defesa de direito próprio, para
• Legitimidade 87
além do alheio. Além disso, não seria possível identifi-
car, sempre, os titulares do direito discutido.
Terceira corrente (Daniel Neves, Aluisio Mendes, Teor Zavascki,
Fredie Didier, Hermes Zaneti): legitimidade extraordinária.
Argumentos:
Toda legitimidade é para a condução do processo;
A legitimidade autônoma para a condução do processo
nada acrescenta, na prática - ao contrário da Alemanha,
onde a variação tem a ver com a necessidade de autori-
zação para o ajuizamento;
O legitimado ativo atua, em nome próprio, em favor de
direito alheio.
Na linha dessa última corrente, majoritária na doutrina, a ju-
risprudência dos tribunais superiores corriqueiramente se refere à
legitimidade na tutela coletiva como extraordinária.
1 Como entende a jurisprudência?
CONSTITUCIONAL. MINISTÉRIO PÚBLICO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA PARA PROTEÇÃO DO
PATRIMÔNIO PÚBLICO. ART. 129, III, DA CF. Legitimação extraordinária con-
ferida ao órgão pelo dispositivo constitucional em referência, hipótese
em que age como substituto processual de toda a coletividade e, conse-
quentemente, na defesa de autêntico interesse difuso, habilitação que, de
resto, não impede a iniciativa do próprio ente público na defesa de seu
patrimônio, caso em que o Ministério Público intervirá como fiscal da lei,
pena de nulidade da ação (art. 17, § 4°, da Lei no 8.429/92). Recurso não
conhecido. (STF, RE 208790, Relator(a): Min. limar CaNab, Tribunal Pleno,
julgado em 27/09/2000
1 Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(FCC - 2019 - Ti/AL - Juiz de Direito) Nas ações coletivas para defesa de
interesses individuais homogêneos, seu ajuizamento só poderá ocorrer
em nome próprio do legitimado.
A alternativa foi considerada incorreta.
(MPE/SC - 2019 - MPE/SC - Promotor de justiça) A legitimação extraordi-
nária é de aplicação exclusiva do processo coletivo.
A alternativa foi considerada incorreta.
(CESPE - 2019 - DPE/DF - Defensor Público) Parte da doutrina entende
que a natureza jurídica da legitimidade ativa para a tutela coletiva é
88 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
de legitimação autônoma para a condução do processo, categoria que
se confunde com a legitimação extraordinária.
A alternativa foi considerada incorreta.
Quanto aos limites da legitimidade, é importante ressaltar que,
segundo o STJ, o legitimado não pode dispor de interesses perso-
nalíssimos dos substituídos, sendo impossível requerer a quebra
de sigilo para instruir a ação coletiva, mesmo em seu aparente
favor.
Como entende a jurisprudência?
O sigilo bancário, enquanto consectário reconhecido da tutela da priva-
cidade e da intimidade, é oponível ao Poder Público, cedendo apenas
quando contrastado com as legítimas expectativas de obtenção de recei-
tas públicas ou com o exercício monopolista do poder sancionador do Es-
tado, situações, todavia, que dependem da prévia existência de processo
administrativo ou judicial instaurado contra indivíduo cujos dados serão
compartilhados. O exercício da legitimação extraordinária, conferida para
tutelar direitos individuais homogêneos em ação civil pública, não pode
ser estendido para abarcar a disposição de interesses personalíssi-
mos, tais como a intimidade, a privacidade e o sigilo bancário dos subs-
tituídos. (STI, REsp 1611821/MT, Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira
Turma, julgado em 13/06/2017)
2. LEGITIMADOS ATIVOS
2.1. Ação civil pública
Os legitimados coletivos para ajuizamento da ação civil pública
estão elencados em dois róis: art. 5. da Lei da Ação Civil Pública e
art. 82 do Código de Defesa do Consumidor.
No entanto, o ordenamento traz outras entidades autorizadas
a promover ação coletiva. De todo modo, o rol legal é taxativo -
ainda que não esteja concentrado em apenas um dispositivo.
0 que diz a lei?
LACP: Art. 5. Têm legitimidade para propor a ação principal e a ação
cautelar:
I - o Ministério Público;
II - a Defensoria Pública;
Ill - a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios;
• Legitimidade 89
IV - a autarquia, empresa pública, fundação ou sociedade de economia
mista;
V - a associação que, concomitantemente:
a) esteja constituída há pelo menos 2 (um) ano nos termos da lei civil;
b) inclua, entre suas finalidades institucionais, a proteção ao patrimônio
público e social, ao meio ambiente, ao consumidor, à ordem econômica, à
livre concorrência, aos direitos de grupos raciais, étnicos ou religiosos ou
ao patrimônio artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico.
CDC: Art. 82. Para os fins do art. 82, parágrafo único, são legitimados
concorrentemente:
I - o Ministério Público,
H - a União, os Estados, os Municípios e o Distrito Federal;
Ill - as entidades e órgãos da Administração Pública, direta ou indireta,
ainda que sem personalidade jurídica, especificamente destinados à de-
fesa dos interesses e direitos protegidos por este código;
IV - as associações legalmente constituídas há pelo menos um ano e que
incluam entre seus fins institucionais a defesa dos interesses e direitos
protegidos por este código, dispensada a autorização assemblear.
2.1.1. Ministério Público
A legitimidade do Ministério Público para o ajuizamento da
ação civil pública está, além de nos primeiros incisos das listas do
núcleo duro do microssistema, no art. 129, III, da Constituição Fede-
ral, em redação originária.
/ O que diz a Constituição?
CF: Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público:
III - promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a proteção do
patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses
difusos e coletivos.
A previsão constitucional se refere apenas aos interesses
fusos e coletivos. Em decorrência direta, os tribunais superiores
entendem que, para tutelas esses direitos, a legitimidade do MP é
ampla, sem restrição temática qualquer.
> Como entende a jurisprudência?
STF: LEGITIMIDADE ATIVA DO MINISTÉRIO PÚBLICO PARAPROPOSITURA DA AÇÃO
CIVIL PÚBLICA. O Supremo Tribunal Federal possui sólida jurisprudência so-
90 Processo Coletivo - Vol. 54 • Jose Roberto Mello Porto
bre o cabimento da ação civil pública para proteção de interesses difusos
e coletivos e a respectiva legitimação do Ministério Público para utilizcí-
-la, nos termos dos arts. 127, co put, e 129, Ill, da Constituição Federal.
(STF, RE 511961, Relator(a): Min. Gilmar Mendes, Tribunal Pleno, julgado em
17/06/2009).
STJ: Assim, a orientação adotada pela Corte de origem merece ser pres-
tigiada, uma vez que os interesses envolvidos no litígio revestem-se da
qualidade de coletivos e, por conseguinte, podem ser defendidos pelo
Ministério Público em ação civil pública. (STJ, REsp 933.002/Rj, Rel. Ministro
Castro Meira, Segundo Turma, julgado em 16/06/2009).
Quanto aos direitos coletivos em sentido estrito, Hugo Nigro Ma-
zzilli defende que a o MP somente poderia atuar quando o interesse
atraísse a atuação institucional, existindo efetiva conveniência social,
ou quando própria lei previsse expressamente sua legitimidade.
Por outro lado, a tutela de direitos individuais homogêneos
não vem mencionada na CF. Existem várias posições a respeito:
Primeira corrente (José dos Santos Carvalho Filho): é impossí-
vel a tutela de tais direitos pelo Ministério Público;
Segunda corrente (Ada Pelegrini Grinover, em 1993): é sempre
possível a tutela de tais direitos pelo Ministério Público.
Nessa linha, decisões pontuais do STJ: "Os interesses in-
dividuais homogêneos são considerados relevantes por
si mesmos, sendo desnecessária a comprovação desta
relevância" (ST], REsp 910.192/MG, Rel. Ministra Nancy An-
drighi, Terceira Turma, julgado em 02/02/2010).
Terceira corrente (posição recorrente do STF e do ST): o Mi-
nistério Público pode tutelar direitos individuais homogêneos:
a) Indisponíveis, sempre;
b) Disponíveis, quando existir relevância social, também
chamada de interesse social qualificado ou acentuado.
Esse elemento - a relevância social - será avaliada caso a caso.
De todo modo, o STJ já reconheceu sua existência com base em
alguns parâmetros:
Natureza do bem jurídico (aspecto objetivo);
Qualidade especial dos sujeitos protegidos (aspecto subjetivo);
• Legitimidade 91
3) Dimensão do dano;
4) Repercussão no interesse público.
Como entende a jurisprudência?
STF: No entanto, há certos interesses individuais que, quando visualizados
em seu conjunto, em forma coletiva e impessoal, têm a força de transcen-
der a esfera de interesses puramente particulares, passando a represen-
tar, mais que a soma de interesses dos respectivos titulares, verdadeiros
interesses da comunidade. Nessa perspectiva, a lesão desses interesses
individuais acaba não apenas atingindo a esfera jurídica dos titulares
do direito individualmente considerados, mas também comprometendo
bens, institutos ou valores jurídicos superiores, cuja preservação é cara a
uma comunidade maior de pessoas. (STF, RE 631111, Relator(a): Min. Teorí
Zavascki, Tribunal Pleno, julgado em 07/08/2014).
ST): O Superior Tribunal de justiça reconhece a legitimidade ad causam
do Ministério Público, seja para a tutela de direitos e interesses difusos
e coletivos seja para a proteção dos chamados direitos individuais ho-
mogêneos, sempre que caracterizado relevante interesse social. In casu,
tanto a dimensão do dano e suas características como a relevância do
bem jurídico a ser protegido determinam a atuação do Ministério Público
(CDC, art .82, § I.). (AgRg no REsp 938.951/DF, Rel. Ministro Humberto Martins,
Segundo Turma, julgado em 23/02/2010)
A relevância social pode ser objetiva (decorrente da própria natureza dos
valores e bens em questão, como a dignidade da pessoa humana, o meio
ambiente ecologicamente equilibrado, a saúde, a educação) ou subjetiva
(aflorada pela qualidade especial dos sujeitos - um grupo de idosos ou
de crianças, p. ex. - ou pela repercussão massificada da demanda).(...)
(STj, REsp 347.752/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segundo Turma, julga-
do em 08M/2007)
0 MP está legitimado a defender direitos individuais homogêneos, quando
tais direitos têm repercussão no interesse público. (STJ, EREsp 114.908/SP,
Rel. Ministra Eliana Calmon, Corte Especial, julgado em 07/11/2001)
Apesar desse grau de indefinição, a jurisprudência dos tribunais
de cúpula já deu resposta definitiva em alguns casos, dentre os quais:
Direitos de segurados do DPVAT: o STJ possuía enten-
dimento no sentido negativo (súmula 470), mas o STF,
ao julgar a questão em sede de recurso extraordiná-
rio com repercussão geral, considerou se tratarem de
interesses sociais qualificados, razão pela qual o STj
cancelou a súmula;
92 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Direitos dos consumidores, mesmo que atinentes a ser-
viços públicos (súmula 6o1 do STJ: O Ministério Público
tem legitimidade ativa para atuar na defesa dos direitos
difusos, coletivos e individuais homogêneos dos consu-
midores, ainda que decorrentes da prestação de servi-
ços públicos), havendo um interesse social presumido
pela própria Constituição;
Tutela do patrimônio público (súmula 329 do STJ: O Mi-
nistério Público tem legitimidade para propor ação civil
pública em defesa do patrimônio público);
Ilegalidade do reajuste de mensalidades escolares (sú-
mula 643 do STF: O Ministério Público tem legitimidade
para promover ação civil pública cujo fundamento seja
a ilegalidade de reajuste de mensalidades escolares);
Direitos indígenas, ante a vulnerabilidade deste grupo,
devendo a análise ser mais qualitativa que quantitativa
(STJ, REsp 1.064.009/SC, Rel. Ministro Herman Benjamin, Se-
gunda Turma, Die de 27/04/2011; AgInt no AREsp 16888o9/SP,
Rel. Ministra Assusete Magalhães, Segunda Turma, julgado
em 26/04/2021);
Ilegalidade de práticas por parte de instituições finan-
ceiras, inclusive pelo Ministério Público Federal, por con-
ta dos interesses federais envolvidos, já que os órgãos
federais disciplinam e normatizam suas atividades (STJ,
REsp 1573723/RS, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva,
Terceira Turma, julgado em 1o/12/2019);
Impedimento da veiculação de vídeo que contenha ce-
nas de crimes cometidos contra crianças, ainda que por
intermédio de matéria jornalística (Si], REsp 5o9.968-SP,
rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 6/12/2012);
Exclusão de dados referentes a consumidores em cadas-
tros de inadimplentes, se o débito ainda está em fase de
discussão judicial (ST], REsp 1.148.179-MG, rel. Min. Nancy
Andrighi, julgado em 26/02/2013);
Fornecimento de cesta básica de produtos sem glúten para
portadores de doença celíaca, já que a instituição deve
defender direitos individuais disponíveis (AgRg no AREsp
91.114-MG, rel. Min. Humberto Martins, julgado em 7/2/2013);
Cap. \»: • Legitimidade 93
Não interrupção do fornecimento do serviço de energia
elétrica à pessoa carente financeiramente e gravemente
doente (Si], REsp 1.324.712-MG, rel. Min. Luis Felipe Salo-
mão, julgado em 24-9-2013).
Como esse assunto foi cobrado em concurso:-
(MPE/C0 - 2019 - MPE/GO - Promotor de justiça) Acerca da legitimidade
ativa do Ministério Público para atuar na defesa de direitos difusos,
coletivos e individuais homogêneos, bem como do posicionamento do-
minante no âmbito do Superior Tribunal de justiça (STO acerca do tem
a, assinale a alternativa correta:
a) O Ministério Público tem legitimidade ativa para atuar na defesa de
direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos dos consumi-
dores, salvo quando decorrentes da prestação de serviço público.
b) O Ministério Público não possui legitimidade ativa para postular em
juízo a defesa de direitos transindividuais de consumidores que
celebram contratos de compra e venda de imóveis com cláusulas
pretensamente abusivas.
c) O Ministério Público não possui legitimidade para, no âmbito de ação
civil pública em que se discute a execução de parcelamentode solo
urbano com alienação de lotes sem aprovação de órgãos públicos
competentes, formular pedido de indenização em prol daqueles que
adquiriram os lotes irregulares.
d) O Ministério Público possui legitimidade para figurar no polo ativo
de ação civil pública destinada à defesa de direitos individuais ho-
mogêneos de natureza previdenciária.
Apenas a alternativa D foi considerada correta.
(VUNESP 2019 - Prefeitura de Poa - Procurador jurídico) Assinale a
alternativa que traz corretamente o entendimento de uma súmula do
STF ou do STJ sobre direitos difusos e coletivos.
a) O Ministério Público não tem legitimidade para promover ação civil
pública cujo fundamento seja a ilegalidade de reajuste de mensali-
dades escolares.
b) O Ministério Público tem legitimidade ativa para atuar na defesa de
direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos dos consumido-
res, ainda que decorrentes da prestação de serviço público.
c) O Ministério Público não tem legitimidade para pleitear, em ação
civil pública, a indenização decorrente do DPVAT em benefício do
segurado.
A alternativa B foi considerada correta.
94 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
2.1.2. Defensoria Pública
Na redação originária da lei 7.347/85 e do Código de Defesa do
Consumidor, a Defensoria Pública não era contemplada no rol de
legitimados ativos. Também a Constituição Federal e a legislação
orgânica (LC 8o/94), nos moldes iniciais, não mencionavam a função
de tutela coletiva da instituição.
Nem por isso, porém, a Defensoria deixava de ajuizar ações
coletivas, baseando sua legitimidade no art. 82, III, do CDC, autori-
zação voltada aos órgãos da Administração Pública, como o Núcleo
de Defesa do Consumidor da DPGE/RJ, com aval do Superior Tribunal
de Justiça.
A evolução legislativa da legitimidade defensorial passa pelos
seguintes pontos:
Lei 11.448/2007: dá nova redação ao art. 5. da Lei da
Ação Civil Pública, inserindo a Defensoria Pública no rol
de legitimados;
LC 132/09: modifica LC 8o/94 (Lei Orgânica Nacional da
Defensoria Pública), trazendo funções coletivas, dentre
as quais podemos destacar:
Menção à proteção de direitos coletivos no conceito
de Defensoria Pública (art. 10);
ii) Ajuizamento de ações coletivas quando puderem
beneficiar grupo de pessoas hipossuficientes (art.
4., VII);
iii) Defesa de direitos individuais, difusos, coletivos e
individuais homogêneos (art. 4., VIII);
iv) Ajuizamento de todas as espécies de ações para a
promoção da defesa dos direitos fundamentais dos
necessitados, abrangendo seus direitos individuais,
coletivos, sociais, econômicos, culturais e ambientais
(art. 4., X);
v) Defesa dos interesses individuais e coletivos da
criança e do adolescente, do idoso, da pessoa por-
tadora de necessidades especiais, da mulher vítima
de violência doméstica e familiar e de outros grupos
sociais vulneráveis que mereçam proteção especial
do Estado (art. 4., XI).
• Legitimidade 95
Emenda Constitucional 8o/14, que remodelou a feição da
Defensoria Pública, inscrevendo no texto da Constituição
Federal a atuação coletiva (art. 134).
1 O que diz a Constituição?
CF: Art. 134. A Defensoria Pública é instituição permanente, essencial à
função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe, como expressão e instru-
mento do regime democrático, fundamentalmente, a orientação jurídica,
a promoção dos direitos humanos e a defesa, em todos os graus, judicial
e extrajudicial, dos direitos individuais e coletivos, de forma integral e
gratuita, aos necessitados, na forma do inciso LXXIV do art. 50 desta Cons-
tituição Federal.
A grande discussão, então, passou a dizer respeito aos limites
da atuação da Defensoria - ou seja, quem poderia ser substituído
em juízo pela instituição. A doutrina e as decisões judiciais se divi-
diram em dois grandes grupos.
Primeira corrente (sentido restritivo): a Defensoria Pública
somente poderia atuar quando envolvidos direitos de hipos-
suficientes econômicos, primordialmente, em decorrência da
insuficiência de recursos mencionada no art. 50, LXXIV, da CF.
Segunda corrente (sentido ampliativo): a Defensoria pode ajui-
zar ações coletivas sempre que envolvidos vulneráveis (hipos-
suficientes) de qualquer espécie. Alguns chegavam até mesmo
a sustentar que a instituição não sofreria limitação alguma.
Na linha restritiva, o STJ entendeu, pontualmente, que a insti-
tuição não poderia ajuizar ação coletiva em prol de idosos contra
pianos de saúde particulares, por conta da abusividade do aumen-
to (STj, REsp 1.192.577/RS, rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em
15/05/2014).
Por outro lado, o tribunal decidiu por várias vezes a legitimi-
dade da Defensoria à luz da efetivação da dignidade da pessoa
humana, sublinhando que a instituição "não se guia pelas caracte-
rísticas ou perfil do objeto de tutela (=critério objetivo), mas pela
natureza ou status dos sujeitos protegidos, concreta ou abstrata-
mente defendidos, os necessitados (=critério subjetivo)" (STJ, REsp
1264116/RS, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado
em 18/10/2011).
96 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Por fim, em sua Corte Especial, ultrapassou o anterior entendi-
mento, relativo aos idosos usuários de planos de saúde, haja vista
serem hipervulneráveis.
Como entende a jurisprudência?
EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA NO RECURSO ESPECIAL NOS EMBARGOS INFRINGEN-
TES. PROCESSUAL CIVIL. LEGITIMIDADE DA DEFENSORIA PÚBLICA PARA A PROPO-
SITURA DE AÇÃO CIVIL PÚBLICA EM FAVOR DE IDOSOS. PLANO DE SAÚDE. REAJUS-
TE EM RAZÃO DA IDADE TIDO POR ABUSIVO. TUTELA DE INTERESSES INDIVIDUAIS
HOMOGÊNEOS. DEFESA DE NECESSITADOS, NÃO SO OS CARENTES DE RECURSOS
ECONÔMICOS, MAS TAMBÉM OS HIPOSSUFICIENTES JURÍDICOS. EMBARGOS DE DI-
VERGÊNCIA ACOLHIDOS.
1. Controvérsia acerca da legitimidade da Defensoria Pública para propor
ação civil pública em defesa de direitos individuais homogêneos de consu-
midores idosos, que tiveram seu piano de saúde reajustado, com arguida
abusividade, em razão da faixa etária.
2. A atuação primordial da Defensoria Pública, sem dúvida, é a assistên-
cia jurídica e a defesa dos necessitados econômicos, entretanto, também
exerce suas atividades em auxílio a necessitados jurídicos, não necessa-
riamente carentes de recursos econômicos, como é o caso, por exemplo,
quando exerce a função do curador especial, previsto no art. 90, inciso
II, do Código de Processo Civil, e do defensor dativo no processo penal,
conforme consta no art. 265 do Código de Processo Penal.
3. No caso, o direito fundamental tutelado está entre os mais importantes,
qual seja, o direito à saúde. Ademais, o grupo de consumidores poten-
cialmente lesado é formado por idosos, cuja condição de vulnerabilidade
já é reconhecida na própria Constituição Federal, que dispõe no seu art.
230, sob o Capítulo VII do Título VIII ("Da Família, da Criança, do Adoles-
cente, do Jovem e do Idoso"): "A família, a sociedade e o Estado têm o
dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na
comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o
direito à vida."
4. "A expressão 'necessitados' (art. 134, caput, da Constituição), que quali-
fica, orienta e enobrece a atuação da Defensoria Pública, deve ser enten-
dida, no campo da Ação Civil Pública, em sentido amplo, de modo a incluir,
ao lado dos estritamente carentes de recursos financeiros - os miserá-
veis e pobres os hipervulneráveis (isto é, os socialmente estigmatizados
ou excluídos, as crianças, os idosos, as gerações futuras), enfim todos
aqueles que, como indivíduo ou classe, por conta de sua real debilidade
perante abusos ou arbítrio dos detentores de poder econômico ou polí-
tico, 'necessitem' da mão benevolente e solidarista do Estado para sua
proteção, mesmo que contra o próprio Estado. Vê-se, então, que a partir
• Legitimidade 97
da ideia tradicional da instituição forma-se, no Welfare State,um novo e
mais abrangente círculo de sujeitos salvaguardados processualmente, isto
é, adota-se uma compreensão de minus habentes impregnada de signifi-
cado social, organizacional e de dignificação da pessoa humana" (S71, REsp
1.264.116/RS, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segundo Turma, julgado em
18/10/2011, Eqe 13/04/2012).
5. O Supremo Tribunal Federal, a propósito, recentemente, ao julgar a
ADI 3943/OF, em acórdão ainda pendente de publicação, concluiu que a
Defensoria Pública tem legitimidade para propor ação civil pública, na de-
fesa de interesses difusos, coletivos ou individuais homogêneos, julgando
improcedente o pedido de declaração de inconstitucionalidade formula-
do contra o art. 50, inciso II, da Lei n.o 7.347/1985, alterada pela Lei n..
n448/2007 ("Art. 50 Têm legitimidade para propor a ação principal e a
ação cautelar: II - a Defensoria Pública").
6. Embargos de divergência acolhidos para, reformando o acórdão embar-
gado, restabelecer o julgamento dos embargos infringentes prolatado pelo
Terceiro Grupo Cível do Tribunal de justiça do Estado do Rio Grande do Sul,
que reconhecera a legitimidade da Defensoria Pública para ajuizar a ação
civil pública em questão.
(STj, EREsp 1192577/RS, Rel. Ministra Laurita Vaz, Corte Especial, julgado em
21/10/2015)
Por sua vez, o Supremo Tribunal Federal enfrentou o tema da
legitimidade da Defensoria em dois julgados importantes:
ADIn 3.943, na qual a Confederação Nacional do Ministé-
rio Público (CONAMP) questionava a constitucionalidade
do inciso ll do art. 50 da lei 7.347/85, sustentando a in-
constitucionalidade da legitimidade, por violar a defesa
exclusiva de hipossuficientes em processo individuais,
e, subsidiariamente, a interpretação conforme do dis-
positivo, restringindo a legitimidade para a proteção
de sujeitos efetivamente pobres. O Plenário do STF, por
unanimidade, reconheceu a legitimidade, enquanto fer-
ramenta de acesso à justiça.
RE 733433/MG, com repercussão geral, fixando a seguinte
tese, a ser levada em conta nas provas: "A Defensoria
Pública tem legitimidade para a propositura da ação civil
pública em ordem a promover a tutela judicial de direitos
difusos e coletivos de que sejam titulares, em tese, pessoas
necessitadas". Nos embargos de declaração, o STF escla-
receu que não há qualquer obrigação de a Defensoria
98 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Pública comprovar, na inicial, que existe, efetivamente,
algum necessitado no grupo beneficiado, vez que a ava-
liação deve ser realizada no plano teórico ("em tese").
Como entende a jurisprudência?
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. LEGITIMIDADE ATIVA DA DEFENSORIA
PÚBLICA PARA AJUIZAR AÇÃO CIVIL PÚBLICA (ART. 50, INC. II, DA LEI N. 7.347/1985,
ALTERADO PELO ART. 2. DA LEI N. 11.448/2007). TUTELA DE INTERESSES TRANSIN-
DIVIDUAIS (COLETIVOS STRITO SENSU E DIFUSOS) E INDIVIDUAIS HOMOGÊNEOS.
DEFENSORIA PÚBLICA: INSTITUIÇÃO ESSENCIAL À FUNÇÃO JURISDICIONAL. ACESSO À
JUSTIÇA. NECESSITADO: DEFINIÇÃO SEGUNDO PRINCÍPIOS HERMENÊUTICOS GARAN-
TIDORES DA FORÇA NORMATIVA DA CONSTITUIÇÃO E DA MAXIMA EFETIVIDADE DAS
NORMAS CONSTITUCIONAIS: ART. 50, INCS. XXXV, LXXIV, LXXVIII, DA CONSTITUIÇÃO
DA REPÚBLICA. INEXISTÊNCIA DE NORMA DE EXCLUSIVIDADE DO MINISTÉRIO PÚ-
BLICO PARA AJUIZAMENTO DE AÇÃO CIVIL PÚBLICA. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO INSTI-
TUCIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO PELO RECONHECIMENTO DA LEGITIMIDADE DA
DEFENSORIA PÚBLICA. AÇÃO JULGADA IMPROCEDENTE. (ADI 3943, Relator(a): Min.
Carmen Lúcia, Tribunal Pleno, julgado em 07/05/2015).
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NA AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. REGÊN-
CIA: CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL/1973. LEGITIMIDADE ATIVA DA DEFENSORIA PÚ-
BLICA PARA AJUIZAR AÇÃO CIVIL PÚBLICA (INC. II DO ART. 5. DA LEI N. 7.347/1985,
ALTERADO PELO ART. 20 DA LEI N. 11.448/2007). TUTELA DE INTERESSES TRANSINDI-
VIDUAIS (COLETIVOS STRITO SENSU E DIFUSOS) E INDIVIDUAIS HOMOGÊNEOS. ACES-
SO À JUSTIÇA. NECESSITADO: DEFINIÇÃO SEGUNDO PRINCÍPIOS DE INTERPRETAÇÃO
QUE GARANTEM A EFETIVIDADE DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS PREVISTAS NOS
INCS. XXXV, IffilV E LXXVIII DO ART. 50 DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. A LEGI-
TIMIDADE DA DEFENSORIA PÚBLICA PARA AJUIZAR AÇÃO CIVIL PÚBLICA NÃO ESTÁ
CONDICIONADA A COMPROVAÇÃO PRÉVIA DA HIPOSSUFICIÊNCIA DOS POSSÍVEIS BE-
NEFICIADOS PELA PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. AUSÊNCIA DE CONTRADIÇÃO, OMIS-
SÃO OU OBSCURIDADE. A QUESTÃO SUSCITADA PELA EMBARGANTE FOI SOLUCIONA-
DA NO JULGAMENTO DO RECURSO EXTRAORDINÁRIO N. 733-433/MG, EM CUJA TESE
DA REPERCUSSÃO GERAL SE DETERMINA: "A DEFENSORIA PÚBLICA TEM LEGITIMIDA-
DE PARA A PROPOSITURA DA AÇÃO CIVIL PÚBLICA EM ORDEM A PROMOVER A TUTE-
LA JUDICIAL DE DIREITOS DIFUSOS E COLETIVOS DE QUE SEJAM TITULARES, EM TESE,
PESSOAS NECESSITADAS" (DJ 7.4.2016). EMBARGOS DE DECLARAÇÃO REJEITADOS.
(ADI 3943 ED, Relator(a): Min. Carmen Lúcia, Tribunal Pleno, julgado em
18/05/2018).
Ambos os tribunais superiores, portanto, realizam interpre-
tação ampla do termo "necessitados" contido na Constituição Fe-
deral, incluindo diversos tipos: organizacionais, jurídicos, técnicos,
contextuais.
Car, • Legitimidade 99
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - DPE-PE - Defensor Público) A respeito do ajuizamento
de ação civil pública pela Defensoria Pública para tutela de defesa de
interesses individuais homogêneos de consumidores, assinale a opção
correta de acordo com o entendimento jurisprudencial do SR
a) Na hipótese de tutela de direitos individuais homogêneos, a De-
fensoria Pública somente pode atuar em nome dos indivíduos que
expressa e previamente autorizaram propositura de ação coletiva.
b) A Defensoria Pública apenas tem legitimidade para tomar medida
individual, e não coletiva, para representar consumidores hipossufi-
cientes ou carentes de recursos financeiros.
c) A legitimidade da Defensoria Pública abrange diversas formas de
vulnerabilidades sociais, não se limitando à atuação em nome de
carente de recursos econômicos.
Apenas a última alternativa é correta.
CcEsPr - 2017 - DPE Al Defen- , r Público A Defensoria Pública tem
legitimidade para a propositura da ação civil pública que vise pro-
mover a tutela judicial de direitos coletivos de que sejam titulares
quaisquer grupos de pessoas ligadas por uma relação jurídica com a
parte contrária.
A alternativa foi considerada incorreta, por não indicar qualquer
limitação.
(CESPE - 2019 - DPE/DF Detensor Publico) Defensoria Pública estadual
ou a distrital não têm legitimidade para ajuizar demanda que tutele
direitos coletivos quando, apesar da existência de circunstâncias de
fato comuns, os interesses e supostos prejuízos forem heterogêneos e
disponíveis para os possíveis beneficiários da demanda coletiva.
A alternativa foi considerada correta, por conta do aspecto heterogê-
neo dos direitos.
(FUNDEP - 2019 - DPE/MG - Defensor Público Quanto à atuação da De-
fensoria Pública na esfera coletiva, o STJ encampou interpretação res-
tritiva da condição de "necessitado", possibilitando a proteção exclusi-
va de hipossuficientes sob o aspecto econômico.
A alternativa foi considerada incorreta.
A dúvida que aparentemente permanece diz respeito à exten-
são dessa legitimidade quanto à fase executiva de direitos indivi-
duais homogêneos. Duas são as posições:
Primeira corrente (menção obter dictum no voto da Min. Cár-
men Lúcia, relatora): na etapa de execução, a Defensoria ape-
nas poderia representar hipossuflcientes econômicos.
100 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Meio Porto
Segunda corrente (Franklyn Roger, Diogo Esteves): a ampla le-
gitimidade reconhecida se estende, também, para a fase exe-
cutiva, sob pena de ferir o acesso à justiça que fundamenta a
tutela coletiva.
2.1.3. Administração Pública
A Administração Pública, direta (União, Estados, Municípios e
Distrito Federal) e indireta (suas autarquias, fundações, sociedades
de economia mista e empresas públicas), é expressamente legiti-mada pelo núcleo duro do microssistema (art. 50, III e IV, da LACP e
art. 82, II e III, do CDC).
No tocante à Administração Pública direta, o Superior Tribunal
de justiça dispensa a demonstração de pertinência temática, por-
que os entes políticos são, presumivelmente, os maiores interessa-
dos na persecução dos interesses coletivos (STJ, REsp 1509586/SC,
Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 15/05/2018).
O filtro colocado pela doutrina (Ricardo Leonel, Kazuo Watana-
be, Hugo Mazzilli) é o da pertinência territorial, restringindo a atua-
ção do ente político aos interesses do seu território. Outros autores
preferem enxergar essa limitação como ínsita ao interesse de agir
(Daniel Neves). Do mesmo modo, o STJ acolhe essa restrição.
A representação processual será feita nos moldes gerais e,
no tocante aos municípios, pelos seus procuradores ou prefeitos,
sendo inviável que se constitua uma associação de municípios e
prefeitos para fins de ajuizamento de ações coletivas, como reco-
nheceu o STJ (STj, REsp i5o3oo7/CE, Rel. Ministro Herman Benjamin,
Primeira Seção, julgado em 14/06/2017).
Em acréscimo, O Código de Defesa do Consumidor alarga a
legitimidade para os órgãos públicos da Administração, mesmo
sem personalidade jurídica, voltados à proteção de direitos dos
consumidores - previsão bastante peculiar que garante capacidade
judiciária a quem, por ser órgão, não possui personalidade jurídica
autônoma.
Como esse assunto foi cobrado em concurs''
(CESPE - 2019 - DPE/DF - Defensor Público) O PROCON tem legitimidade
para propor ação civil pública em defesa de direitos individuais homo-
• Legitimidade 101
gêneos, com clara repercussão social, em matéria de direito do consu-
midor, inclusive podendo postular reparação por dano moral coletivo.
A alternativa foi considerada correta.
Quanto à Administração Pública indireta, é exigida, pelo STJ, a
pertinência temática entre a atuação da pessoa jurídica e os bens
jurídicos que se busca tutelar (por exemplo, uma autarquia de en-
sino público não poderia tutelar direitos dos consumidores).
Cabe, por fim, um questionamento: as fundações mencionadas
pelo art. 50, IV, da LACP são as públicas ou também as privadas?
Existem duas posições a respeito:
Primeira posição (José dos Santos Carvalho Filho): apenas as
fundações públicas, já que existiria uma menção implícita, tendo
em vista que o inciso se referiria apenas a entes públicos, ao
contrário do seguinte, que traz a legitimidade das associações;
Segunda posição (Hugo Mazzilli): tanto as fundações públicas
como as privadas podem promover ações coletivas, tendo em
vista que o legislador não trouxe qualquer limitação.
2.1.4. Associações
As associações receberam um papel importante pela Constitui-
ção Federal, que trouxe a representação associativa como um direito
fundamental (art. 50, XXI). Precisamente no microssistema, sua legitimi-
dade está prevista tanto na LACP (art. 50, v) como no CDC (art. 82, IV).
O que diz a Constituição?
CF: Art. 50, XXI - as entidades associativas, quando expressamente au-
torizadas, têm legitimidade para representar seus filiados judicial ou
extra judicialmente.
No entanto, as associações, para atuar coletivamente, devem
preencher certos requisitos específicos. Sua ausência, inclusive,
pode ser reconhecida de ofício pelo magistrado, de acordo com o
STJ (STJ, REsp 1213614/RJ, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Tur-
ma, julgado em 01/1o/2015).
O primeiro requisito específico é a )ré-constituiçãe: para que
a associação possa ajuizar uma ação coletiva, deve existir há um
ano, no mínimo - ou seja, ter sido registrada em cartório, conforme
art. 45 do Código Civil e art. 119 da Lei de Registros Públicos.
102 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
A finalidade do microssistema é, com isso, repelir as associa-
ções de ocasião (de gaveta, ad hoc), pessoas jurídicas criadas não
com base no ideal associativo e representativo, mas apenas se
beneficiarem de certos direitos do processo coletivo, como o não
adiantamento das custas processuais.
Sobre a pré-constituição, algumas observações são importantes:
O decurso pode se dar no curso do processo, em home-
nagem aos princípios da economia processual, da máxi-
ma efetividade, e ao art. 493 CPC - que autoriza o juiz a
levar me conta elementos supervenientes ao ajuizamen-
to da ação -, de acordo com o STJ (STJ, RESID 705.469/MS,
Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em
16/06/2005);
Alterações substanciais dos atos constitutivos, especial-
mente quanto às finalidades institucionais, exigem a con-
tagem de novo prazo anual;
O requisito fixo pode ser excepcionado pelo juiz - a pre-
sunção é, portanto, relativa -, quando ficar comprovado
um manifesto interesse social na ação, advindo da:
Dimensão do dano (elemento subjetivo: quantos su-
jeitos foram afetados);
Natureza do dano (elemento objetivo: gravidade da
lesão);
Relevância do bem jurídico.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(VUNESP - 2019 - VAC - juiz de Direito) A "Associação ABC", constituída
há seis meses, cuja finalidade institucional é a proteção ao patrimônio
público e social, ao meio ambiente, ao consumidor e à ordem econômi-
ca, ajuizou ação civil pública com o objetivo de restituir tributos pagos
indevidamente pelos seus associados.
Considerando essa situação hipotética, nos termos da Lei da Ação Civil
Pública (Lei no 7.347/1985), é correto afirmar que a referida ação
a) está em desconformidade com a Lei, tendo em vista que, embora
o objeto da ação seja legalmente admitido, a associação, para ter
legitimidade ativa, deveria estar constituída há pelo menos um ano
e este requisito não pode, em tese, ser dispensado.
• Legitimidade 103
b) está em desacordo com a Lei, uma vez que, embora o requisito da
pré-constituição possa, em tese, ser dispensado pelo juiz em certos
casos, o objeto da demanda não pode ser veiculado por meio de
ação civil pública.
c) pode ser legalmente conhecida e processada pelo Poder judiciário,
tendo em vista que o requisito da pré-constituição está dentro das
exigências legais e o objeto da ação é previsto na Lei.
d) pode ser legalmente conhecida e processada pelo Poder judiciário,
considerando que, nesse caso, o requisito da pré-constituição pode
ser dispensado pelo juiz e o objeto da ação não é vedado pela Lei.
A alternativa B foi considerada correta.
O segundo requisito específico é a pertinência temática: as
associações só podem atuar para proteger bens jurídicos atinentes
às suas finalidades, o que, de acordo com o STj e com a doutrina,
não quer dizer nem que a previsão dos atos constitutivos seja ab-
solutamente específica, nem que possa ser excessivamente genéri-
ca, gerando uma legitimidade ampla demais.
Como entende a jurisprudência?
O estatuto da associação recorrente prevê, em seu art. 4., que um de seus
objetivos é "frielar pela manutenção e melhoria da qualidade de vida do
bairro, buscando manter sua ocupação e seu desenvolvimento em ritmo e
grau compatíveis com suas características de zona residencial".
Desta cláusula, é perfeitamente possível extrair sua legitimidade para
ação civil pública em que se pretende o seqüestro do conjunto arquitetôni-
co "Mansão dos Loge", a cessação imediata de toda atividade predadora e
poluidora no conjunto arquitetônico e a proibição de construção de anexos
e de obras internas e externas no referido conjunto arquitetônico. Dois são
os motivos que levam a tal compreensão. (S11, REsp 876.93f/Rj, Rel. Ministro
Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 10/08/2010)
Ademais, o outro fundamento autônomo adotado pela Corte de origem
para não reconhecer a legitimação ad causam da demandante, anotando
que o estatuto da associação, ora recorrente, é desmesuradamente gené-
rico, possuindo "referência genérica a tudo: meio ambiente, consumidor,
patrimônio histórico, e é uma repetição do teor do art. 5.,inciso II, da
Lei 7.347/85" tem respaldo em precedente do STJ, assentando que as as-
sociações civis necessitam ter finalidades institucionais compatíveis com
a defesa do interesse transindividual que pretendam tutelar em juízo.
Embora essa finalidade possa ser razoavelmente genérica, "não pode
ser, entretanto, desarrazoada, sob pena de admitirmos a criação de
uma associação civil para a defesa de qualquer interesse, o que desna-
104 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
turaria a exigência de representatividade adequada do grupo lesado".
(AgRg no REsp 9o1.936/Rj, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em
16/10/2008, Die 16/03/2000 (STJ, REsp 1213614/RJ, Rei. Ministro Luis Felipe
Salomão, Quarto Turma, julgado em 01/10/2015).
O terceiro requisito específico é um dos temas mais sensíveis,
atualmente e para fins de provas, no processo coletivo: a exigência
de autorização específica.
A exigência de autorização específica, em assembleia, é afasta-
da pelo Código de Defesa do Consumidor (art. 82, IV, parte final). A
doutrina (Ricardo de Barros Leonel e Kazuo Watanabe) comemorou
o comando, já que a autorização seria ínsita à própria constituição
da associação. Por isso, sustentam que se trataria de norma geral
do microssistema.
A jurisprudência dos tribunais superiores, porém, é bem mais
confusa. Podemos examinar o tema através de alguns marcos
temporais:
Primeiro momento: STF e STJ dispensavam a autorização
específica;
Segundo momento (julgamento do RE 572.232 pelo STF, acompa-
nhado, depois, pelo STD: o Supremo passou a exigir a autoriza-
ção específica dos associados para o ajuizamento, de maneira
individual ou em assembleia com essa finalidade, porque a
Constituição Federal seria expressa ao exigir autorização para
que as associações possam representar em juízo seus filiados
(art. 50, XXI). O STF fixou uma tese dupla:
3' A previsão estatutária genérica não é suficiente para le-
gitimar a atuação, em juízo, de associações na defesa
de direitos dos filiados, sendo indispensável autoriza-
ção expressa, ainda que deliberada em assembleia, nos
termos do artigo 50, inciso XXI, da Constituição Federal;
As balizas subjetivas do título judicial, formalizado em
ação proposta por associação, são definidas pela re-
presentação no processo de conhecimento, limitada a
execução aos associados apontados na inicial.
1 Como entende a jurisprudência?
REPRESENTAÇÃO - ASSOCIADOS - ARTIGO 50, INCISO XXI, DA CONSTITUIÇÃO FE-
DERAL. ALCANCE. O disposto no artigo 50, inciso XXI, da Carta da República
Cap. Vii • Legitimidade 105
encerra representação específica, não alcançando previsão genérica do
estatuto da associação a revelar a defesa dos interesses dos associados.
TITULO EXECUTIVO JUDICIAL - ASSOCIAÇÃO - BENEFICIÁRIOS. As balizas subje-
tivas do título judicial, formalizado em ação proposta por associação, é
definida pela representação no processo de conhecimento, presente a
autorização expresso dos associados e a lista destes juntada à inicial.
(STF, RE 573232, Relator(a): Min. Ricardo Lewandowski, Relator p/ acórdão:
Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 14/05/2014, repercussão geral)
Com o julgamento do RE 573.232/SC pelo Supremo Tribunal Federal, os au-
tos foram devolvidos p&p Vice-Presidência do STJ a esta relatoria em aten-
ção ao disposto no § 3° do art. 543-13 do Código de Processo Civil, diante da
necessidade de adequação do julgamento ao entendimento firmado pelo
Supremo Tribunal Federal.
A Segundo Turma desta Corte Superior havia decidido que tanto o sindicato
como a associação possuem legitimidade para defender os interesses da
categoria na fase de conhecimento ou execução, sendo desnecessária a jun-
tada de relação nominal dos filiados, bem como de autorização expressa.
Ocorre que a questão foi posta ao exame do Plenário do Supremo Tribunal
Federal que, reconhecendo a repercussão geral da matéria, apreciou e jul-
gou o RE 573.232/SC, de relatoría da Min. RICARDO LEWANDOWSKL relator para
Acórdão MM. MARCO AURÉLIO, ocasião em que as "balizas subjetivas do títu-
lo judicial, formalizado em ação proposta por associação, é definida pela
representação no processo de conhecimento, presente a autorização ex-
presso dos associados e a lista destes juntada à inicial". (STJ, REsp 1468734/
SP, Rel. Ministro Humberto Martins, Segundo Turma, julgado em 01/03/2016)
3) Terceiro momento (julgamento dos embargos de declaração
no RE 572.232): o STF afastou a modulação do entendimento e
esclareceu que a tese só se aplica às ações coletivas "de rito
ordinário" e não às ações civis públicas, que possuem pro-
cedimento próprio, voltada à tutela de direitos coletivos em
sentido amplo. O STJ também elucidou a matéria e adequou
sua conclusão e distinguindo duas hipóteses - inclusive, em
recurso especial repetitivo, formando precedente vinculante:
a)
b)
Ação na qual a associação representa seus membros
(ação coletiva representativa), usando a previsão gené-
rica do art. 50, XXI, da CF: necessária autorização prévia
(representação processual);
Ação coletiva movida por associação, nos moldes do mi-
crossistema de tutela coletiva: desnecessária autoriza-
ção prévia (substituição processual).
106 Processo Coletivo Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Como entende a jurisprudência?
"Por fim, cumpre prestar esclarecimento quanto ao alcance da tese, a qual
se mostra restrita às ações coletivas de rito ordinário. O que articulado no
tocante às ações civis públicas foi enfrentado quando do julgamento do
extraordinário. Salientei a distinção no voto." (STF. RE 612043 ED, Rel. Min.
Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 06/06/2018).
Não se aplica ao caso vertente o entendimento sedimentado pelo STF no
RE n. 573.232/SC e no RE n. 612.o43/RR, pois a tese firmada nos referidos
precedentes vinculantes não se aplicam às ações coletivas de consumo ou
quaisquer outras demandas que versem sobre direitos individuais homo-
gêneos. Ademais, a Supremo Corte acolheu os embargos de declaração no
RE n. 612.o43/PR para esclarecer que o entendimento nele firmado alcança
tão somente as ações coletivas submetidas ao rito ordinário.
O microssistema de defesa dos interesses coletivos privilegia o aproveita-
mento do processo coletivo, possibilitando a sucessão da parte ilegítima
pelo Ministério Público ou por algum outro colegitimado, mormente em
decorrência da importância dos interesses envolvidos em demandas co-
letivas. (Aglnt no REsp 171982o/MG, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado
em 15/04/2019)
"As teses sufragadas pela eg. Supremo Corte referem-se à legitimidade ativa
de associado para executor sentença prolatada em ação coletiva ordinária
proposta por associação autorizada por legitimação ordinária (ação coleti-
va representativa), agindo a associação por representação prevista no art.
50, XXI, da Constituição Federal, e não à legitimidade ativa de consumidor
para executar sentença prolatada em ação coletiva substitutiva proposta
por associação, autorizada por legitimação constitucional extraordinária (p.
ex., CF, art. 5., LXX) ou por legitimação legal extraordinária, com arrimo, es-
pecialmente, nos arts. 81, 82 e 91 do Código de Defesa do Consumidor (ação
civil pública substitutiva ou ação coletiva de consumo).
Conforme a Lei da Ação Civil Pública e o Código de Defesa do Consumidor-,
os efeitos da sentença de procedência de ação civil pública substitutiva,
proposta por associação com a finalidade de defesa de interesses e direi-
tos individuais homogêneos de consumidores (ação coletiva de consumo),
beneficiarão os consumidores prejudicados e seus sucessores, legitiman-
do-os à liquidação e à execução, independentemente de serem filiados à
associação promovente.
Para os fins do art. 927 do CPC, é adotada a seguinte Tese: "Em Ação Civil
Pública proposta por associação, na condição de substituta processual
de consumidores, possuemlegitimidade para a liquidação e execução da
sentença todos os beneficiados pela procedência do pedido, independen-
temente de serem filiados à associação promovente." (REsp 1438263/SP,
Rel. Ministro Raul Araújo, Segundo Seção, julgado em 28/04/2021)
• legitimidade 107
O cenário, portanto, é confuso e, nas provas objetivas, é me-
lhor seguir a literalidade da tese, nos moldes dados nos embargos
de declaração.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - EMAP Analista) A eficácia subjetiva da coisa julgada for-
mada em ação coletiva de rito ordinário, ajuizada por associação civil
na defesa de interesses dos seus associados, somente alcançará os seus
filiados residentes no âmbito da jurisdição do órgão julgador se estes
tiverem a condição de filiado até a data da propositura da demanda.
A alternativa foi considerada correta.
A questão é interessante porque permite realizar uma dife-
renciação feita por parcela da doutrina, no gênero da legitimidade
extraordinária, que passa a englobar:
Substituição processual: dispensa autorização específica
e prévia do substituído;
Representação processual: exige autorização específica
do titular do direito material tutelado.
Enquanto vigorava o segundo momento apontado, o Si] enten-
deu que era impossível a substituição do polo ativo por outra asso-
ciação, vez que seus membros eram diversos e que não tinha havido
autorização anterior ao ajuizamento (STJ, REsp 1405697/MG, Rel. Mi-
nistro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 17/09/2015).
Com o novo entendimento, o tribunal passou a admitir a sucessão.
Um último tema relativo às associações, referente não tanto
à legitimidade, mas aos efeitos territoriais da coisa julgada, é o
da limitação dos efeitos da decisão aos associados residentes no
âmbito de competência do órgão julgador.
Em 2017, o STF (STF, RE 612.043) formulou outra tese, quanto à
eficácia subjetiva da sentença coletiva, restringindo-a aos associa-
dos que forem domiciliados no âmbito da jurisdição (na verdade,
competência) do órgão julgador: A eficácia subjetiva da coisa jul-
gada formada a partir de ação coletiva, de rito ordinário, ajuizada
por associação civil na defesa de interesses dos associados, so-
mente alcança os filiados, residentes no âmbito da jurisdição do
órgão julgador, que o fossem em momento anterior ou até a data
da propositura da demanda, constantes da relação jurídica juntada
à inicial do processo de conhecimento.
108 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Como entende a jurisprudência?
EXECUÇÃO - AÇÃO COLETIVA - RITO ORDINÁRIO - ASSOCIAÇÃO - BENEFICIÁRIOS. Be-
neficiários do título executivo, no caso de ação proposta por associação,
são aqueles que, residentes na área compreendida na jurisdição do órgão
julgador, detinham, antes do ajuizamento, a condição de filiados e cons-
taram da lista apresentada com a peça inicial. (STF, RE 612043, Relator(a):
Min. Marco Aurélio, Tribunal Pleno, julgado em 145/2017).
Serviu como fundamentação o art. 2.-A da lei 9.494/97, que
expressamente traz a restrição territorial e, em seu parágrafo úni-
co, a exigência de acompanhamento da petição inicial por ata da
assembleia com relação nominal dos associados e seus endereços,
ou seja, uma individualização daqueles sujeitos que autorizam a
representação pela associação, em juízo.
O que diz a lei?
Art. 2.-A. A sentença civil prolatada em ação de caráter coletivo proposta por
entidade associativa, na defesa dos interesses e direitos dos seus associa-
dos, abrangerá apenas os substituídos que tenham, na data da propositura
da ação, domicilio no âmbito da competência territorial do órgão prolator.
Parágrafo único. Nas ações coletivas propostas contra a União, as Estados,
o Distrito Federal, os Municípios e suas autarquias e fundações, a petição
inicial deverá obrigatoriamente estar instruída com a ata da assembléia
da entidade associativa que a autorizou, acompanhada da relação nomi-
nal dos seus associados e indicação dos respectivos endereços.
Outro dispositivo que trata da limitação é o art. 16 da LACP,
que foi declarado inconstitucional pelo STF, garantindo os efeitos
da sentença coletiva a todos os beneficiários, independente de seu
domicílio estar nos limites da competência do órgão julgador.
Como entende a jurisprudência?
STF: A Constituição Federal de 1988 ampliou a proteção aos interesses di-
fusos e coletivos, não somente constitucionalizando-os, mas também pre-
vendo importantes instrumentos para garantir sua pela efetividade. 2. O
sistema processual coletivo brasileiro, direcionado à pacificação social no
tocante a litígios meta individuais, atingiu status constitucional em 1988,
quando houve importante fortalecimento na defesa dos interesses difusos
e coletivos, decorrente de uma natural necessidade de efetiva proteção a
uma nova gama de direitos resultante do reconhecimento dos denominados
direitos humanos de terceira geração ou dimensão, também conhecidos
como direitos de solidariedade ou fraternidade. 3. Necessidade de absoluto
;. • Legitimidade 109
respeito e observância aos princípios da igualdade, da eficiência, da segu-
rança jurídica e da efetiva tutela jurisdicional. 4. Inconstitucionalidade do
artigo 16 da LACP, com a redação da Lei 9.494/1997, cuja finalidade foi osten-
sivamente restringir os efeitos condenatórios de demandas coletivas, limi-
tando o rol dos beneficiários da decisão por meio de um critério territorial
de competência, acarretando grave prejuízo ao necessário tratamento iso-
nômico de todos perante a justiça, bem como à total incidência do Princípio
da Eficiência na prestação da atividade jurisdicional. 5. RECURSOS EXTRAOR-
DINÁRIOS DESPROVIDOS, com a fixação da seguinte tese de repercussão geral:
"I - É inconstitucional a redação do art. 16 da Lei 7.347/1985, alterada pela
Lei 9.494/1997, sendo repristinada sua redação original. II - Em se tratando
de ação civil pública de efeitos nacionais ou regionais, a competência deve
observar o art. 93, II, da Lei 8.078/1990 (Código de Defesa do Consumidor).
III - Ajuizadas múltiplas ações civis públicas de âmbito nacional ou regional
e fixada a competência nos termos do item II, firma-se a prevenção do
juízo que primeiro conheceu de uma delas, para o julgamento de todas as
demandas conexas". (RE 1101937, Relator(a): Alexandre de Moraes, Tribunal
Pleno, julgado em 08/04/2021 - Tema 1.075 da Repercussão Geral)
De todo modo, uma segura hipótese em que o art. 20-A da lei
9.494/97 não se aplica, no entendimento do Supremo Tribunal Fe-
deral, é o mandado de segurança coletivo, no qual não incidem as
limitações territoriais nem a exigência de autorização. O Superior
Tribunal de Justiça entende, nessa mesma linha, que o critério não
é o geográfico, mas o da atribuição da autoridade coatora.
Como entende a jurisprudência?
STF: Não aplicação, ao mandado de segurança coletivo, da exigência
inscrita no art. 2.-A da Lei no 9.494/97, de instrução da petição inicial
com a relação nominal dos associados da impetrante e da indicação
dos seus respectivos endereços. Requisito que não se aplica à hipótese
do inciso LXX do art. 5. da Constituição. Precedentes: MS no 21.514, rel.
Min. Marco Aurelio, e RE no 141.733, rel. Min. limar Gaivão, (MS 23769,
Relator(a): Min. Ellen Gracie, Tribunal Pleno, julgado em 03/N/2cm).
Súmula 629 STF: A impetração de mandado de segurança coletivo por enti-
dade de classe em favor dos associados independe da autorização destes.
STI: Na espécie, a eficácia do título judicial deve estar relacionada aos
limites geográficos pelos quais se estendem as atribuições da autori-
dade administrativa (Diretor-Geral do DNOCS), e não aos substituídos do-
miciliados no âmbito de jurisdição do órgão prolator da decisão. (AgRg no
AgRg no AgRg no REsp 1366615/CE, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda
Turma, julgado em 23/06/2015)
110 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto MelloPorto
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - MPE/RR - Promotor de justiça) As associações precisam
de autorização especial para propor ACP ou mandado de segurança
coletivo na defesa de interesses de seus associados.
A alternativa foi considerada incorreta.
(CESPE - 2019 - TUDF1 - Titular de Serviços de Notas e de Registros,
Acerca da propositura de ação de natureza coletiva por associação,
entidade de classe ou organização sindical, assinale a opção correta à
luz do entendimento do STF.
a) As associações e os sindicatos possuem legitimidade para propor a
ação em defesa de seus filiados, na qualidade de substitutos pro-
cessuais, independentemente de autorização expressa ou de procu-
ração individual por eles fornecida.
b) Durante a fase de cumprimento de sentença, os associados que
não tenham conferido autorizações para a propositura da demanda
podem se beneficiar do título executivo judicial constituído na fase
de conhecimento.
c) A expressão contida no art. 50, XXI, da Constituição Federal de 1988 (CF),
refere-se à substituição processual e não à representação processual.
d) Na hipótese de mandado de segurança coletivo, as associações
atuam como representantes processuais daqueles filiados que bus-
quem defender os interesses de seus membros ou associados.
As alternativas foram consideradas incorretas.
Quanto aos demais legitimados, a jurisprudência do STj já ul-
trapassou a limitação territorial contida no art. 16 da LACP - como
será visto no capítulo referente à coisa julgada.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2019 - DPE/DF - Defensor Público) Associação de defesa dos
consumidores em determinado estado da Federação promoveu de-
manda coletiva discutindo a ilegalidade da cobrança de taxa de conve-
niência por fornecedor que oferecia a venda pela Internet de ingressos
para apresentação de renomado artista. Nesse caso, segundo entendi-
mento do ST], os efeitos e a eficácia da sentença coletiva restringem-se
aos limites do território da competência do órgão judicante, conside-
rando-se sempre a extensão do dano e a qualidade dos interesses
metaindividuais postos em juízo.
A alternativa foi considerada incorreta.
• Legitimidade 111
2.1.5. Sindicatos
Os sindicatos estão legitimados diretamente pela Constituição
Federal.
O que diz a Constituição?
CF: Art. 8. É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguin-
te: Ill - ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou in-
dividuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas.
De acordo com o STF e com o STJ, a atuação dos sindicatos
como autores de ações coletivas se dá em indiscutível substituição
processual, dispensando prévia autorização dos filiados e não ha-
vendo restrição territorial aos efeitos da decisão final.
Como entende a jurisprudência?
A Primeira Seção desta Corte, nos autos do EREsp 2.77o.377/RS, Rel. Min.
Herman Benjamin, Die 7/5/202o, se manifestou no sentido de que, quando
em discussão a eficácia objetiva e subjetiva da sentença proferida em ação
coletiva proposta em substituição processual (como ocorre quando a ação
é ajuizada por sindicato), a aplicação do art. 2.-A da Lei 9.494/1997 deve se
harmonizar com os demais preceitos legais aplicáveis ao tema, de forma
que o efeito da sentença coletiva nessas hipóteses não está adstrito aos
filiados à entidade sindical à época do oferecimento da ação coletiva, nem
limitada sua abrangência ao âmbito territorial da jurisdição do órgão pro-
lator da decisão. Naquela oportunidade registrou-se o distinguishing entre
aquele caso e a orientação do Supremo Tribunal Federal no âmbito do RE
622.043/PR (Tema 499), julgado em repercussão geral, onde foi reconhecida
a constitucionalidade do art. 2.-A da Lei 9.494/1997. A pretensão de limitar
os efeitos da sentença coletiva à base territorial do sindicato que atuou
em substituição processual não encontra respaldo no art. 2.-A da Lei n.
9.494/1997, o qual, no que diz respeito a limites territoriais, trata apenas
da competência territorial do órgão judicial prolator da decisão, em nada
adentrando na questão relativa à base territorial sindical, de modo que o
recurso especial não merece conhecimento (...) (REsp 2887827/SP, Rel. Minis-
tro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 03/11/2020).
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - PGE-PE - Procurador do Estado) O ST) entende que o
sindicato possui legitimidade para ajuizar, na qualidade de substituto
processual, ação civil pública para a defesa de direitos individuais ho-
mogêneos da categoria que ele representa.
A alternativa foi considerada correta.
112 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
(CESPE - 2019 - DPE/DF - Defensor Público) A apuração da legitimidade
ativa das associações e dos sindicatos como substitutos processuais
em ações coletivas passa pelo exame da pertinência temática entre os
fins sociais da entidade e o mérito da ação proposta.
A alternativa foi considerada correta.
(CESPE - 2019 - TJ/DFT - Titular de Serviços de Notas e de Registros)
Os sindicatos possuem ampla legitimidade para atuar como substitutos
processuais dos integrantes da categoria que representem, mesmo na
fase de cumprimento de sentença, independentemente de autorização
dos sindicalizados.
A alternativa foi considerada correta.
2.1.6. Partidos políticos
Existe entendimento doutrinário (Ricardo de Barros Leonel) no
sentido de que os partidos políticos possuem legitimidade para o
ajuizamento de ação coletiva, enquanto espécie de associações -
natureza jurídica que não é pacífica.
Vale lembrar que, no mandado de segurança coletivo, a legiti-
midade é expressa (art. 50, LXX, da CF).
2.1.7. Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)
Também a Ordem dos Advogados do Brasil possui legitimidade
para o ajuizannento de ações coletivas, de acordo com o art. 54, XIV,
do Estatuto da OAB (para o Conselho Federal), com o art. io5, V. do
Regulamento da OAB (que trata dos Conselhos Seccionais), e com o
art. 81, III, do Estatuto do Idoso.
/ 0 que diz a lei?
EOM: Art. 54. Compete ao Conselho Federal: XIV - ajuizar ação direta de
inconstitucionalidade de normas legais e atos normativos, ação civil pú-
blica, mandado de segurança coletivo, mandado de injunção e demais
ações cuja legitimação lhe seja outorgada por lei.
ROAB: Art. to5. Compete ao Conselho Seccional, além do previsto nos arts.
57 e 58 do Estatuto: V - ajuizar, após deliberação: b) ação civil pública,
para defesa de interesses difusos de caráter geral e coletivos e indivi-
duais homogêneos.
El: Art. Si. Para as ações cíveis fundadas em interesses difusos, coletivos,
individuais indisponíveis ou homogêneos, consideram-se legitimados, con-
correntemente: Ill - a Ordem dos Advogados do Brasil.
• Legitimidade 113
Art. 2.-A. A sentença civil prolatada em ação de caráter coletivo proposta
por entidade associativa, na defesa dos interesses e direitos dos seus
associados, abrangerá apenas os substituídos que tenham, na data da
propositura da ação, domicílio no âmbito da competência territorial do
órgão prolator.
Parágrafo único. Nas ações coletivas propostas contra a União, os Estados,
o Distrito Federal, os Municípios e suas autarquias e fundações, a petição
inicial deverá obrigatoriamente estar instruída com a ata da assembléia
da entidade associativa que a autorizou, acompanhada da relação nomi-
nal dos seus associados e indicação dos respectivos endereços.
Também existe entendimento doutrinário (Ricardo de Barros
Leonel) no sentido da legitimidade enquanto associação - nova-
mente, natureza jurídica que não é nada pacífica, já que o STF a
considera como um serviço público independente.
A jurisprudência do STj é no sentido de que a legitimidade
da OAB não se sujeita à pertinência temática, possuindo aptidão
genérica para atual em prol dos interesses supraindividuais,salvo
os Conselhos Seccionais, cuja atuação deve estar limitada pelos
contornos territoriais.
/ Como entende a jurisprudência?
Em razão de sua finalidade constitucional específica, da relevância dos
bens jurídicos tutèlados e do manifesto viés protetivo de interesse social,
a legitimidade ativa da OAB não está sujeita à exigência da pertinência
temática no tocante à jurisdição coletiva, devendo lhe ser reconhecida ap-
tidão genérica para atuar em prol desses interesses supraindividuais. No
entanto, "os conselhos seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil po-
dem ajuizar as ações previstas - inclusive as ações civis públicas - no art.
54, XIV, em relação aos temas que afetem a sua esfera local, restringidos
territorialmente pelo art 45, § 2°, da Lei n.8.906/84" (STI, REsp 1351760/PE,
Rel. Ministro Humberto Martins, Segundo Turma, julgado em 26/11/2o13,
Die 9/12/2013). 7. No presente caso, como o recurso de apelação da OAB
não foi conhecido, os autos devem retornar ao Tribunal de origem para a
reapreciação da causa, dando-se por superada a tese da ilegitimidade do
autor. 8. Recurso especial parcialmente provido. (STJ, REsp 1423825/CE, Rel.
Ministro Luis Felipe Salomão, Quarto Turma, julgado em 07/11/2017)
2.1.8. Cooperativas
Em 2019, passou a haver previsão de legitimidade das socieda-
des cooperativas em substituição processual na tutela de direitos
coletivos de seus membros.
114 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
0 que diz a lei?
Lei 5.764/71: Art. 88-A. A cooperativa poderá ser dotada de legitimidade
extraordinária autônoma concorrente para agir como substituta proces-
sual em defesa dos direitos coletivos de seus associados quando a causa
de pedir versar sobre atos de interesse direto dos associados que tenham
relação com as operações de mercado da cooperativa, desde que isso
seja previsto em seu estatuto e haja, de forma expresso, autorização
manifestada individualmente pelo associado ou por meio de assembleia
geral que delibere sobre a propositura da medida judicial.
Art. 21. 0 estatuto da cooperativa, além de atender ao disposto no artigo
4., deverá indicar: XI - se a cooperativa tem poder para agir como substi-
tuta processual de seus associados, na forma do art. 88-A desta Lei.
Também existem requisitos específicos:
1) Causa de pedir deve ser ato(s) de interesse direto dos as-
sociados e com relação com as operações de mercado da
cooperativa;
2) Previsão no estatuto;
3) Expressa autorização, individual ou por assembleia geral, para
a propositura.
2.1.9. Comunidades indígenas
A Constituição Federal outorga legitimidade aos índios e às co-
munidades e organizações indígenas para a tutela judicial de seus
direitos (art. 232), o que é visto por alguns autores (Fredie Didier,
Hermes Zaneti) como uma excepcional hipótese de legitimidade
ordinária na tutela coletiva.
O que diz a Constituição?
Art. 232. Os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas
para ingressar em juízo em defesa de seus direitos e interesses, intervin-
do o Ministério Público em todos os atos do processo.
2.2. Ação popular
Na ação popular, a parte ativa será um cidadão, como garanti-
do pela Constituição e pela própria LAP.
• legitimidade 115
O que diz a Constituição e a lei?
CF: Art. so LXXIII - qualquer cidadão é parte legítima para propor ação
popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade
de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambien-
te e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada
má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência.
LAP: Art. lo Qualquer cidadão será parte legítima para pleitear a anula-
ção ou a declaração de nulidade de atos lesivos ao patrimônio da União,
do Distrito Federal, dos Estados, dos Municípios, de entidades autárqui-
cas, de sociedades de economia mista (Constituição, art. 141, § 38), de
sociedades mútuas de seguro nas quais a União represente os segurados
ausentes, de empresas públicas, de serviços sociais autônomos, de insti-
tuições ou fundações para cuja criação ou custeio o tesouro público haja
concorrido ou concorra com mais de cinqüenta por cento do patrimônio
ou da receita ânua, de empresas incorporadas ao patrimônio da União,
do Distrito Federal, dos Estados e dos Municípios, e de quaisquer pessoas
jurídicas ou entidades subvencionadas pelos cofres públicos.
§ 3. A prova da cidadania, para ingresso em juízo, será feita com o título
eleitoral, ou com documento que a ele corresponda.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - PGE-PE - Procurador do Estado) De acordo com lei que
disciplina o mandado de injunção, uma vez transitada em julgado a de-
cisão final, o relator poderá, monocraticamente, estender seus efeitos
a casos análogos.
A alternativa foi considerada correta.
(VUNESP - 2019 - Prefeitura de Poá - Procurador jurídico) Antônia, ci-
dadã residente, mora na periferia de uma cidade que tem como mar-
co histórico um casarão ocupado pelo Imperador do Brasil na época
do Império. Tal local serve hoje de área de lazer para os munícipes.
A prefeitura desse município não tem mais interesse em manter tal
localidade e foi autorizada sua demolição e, ainda, a privatização do
espaço para que vire estacionamento.
Para preservar tal patrimônio histórico e cultural, Antônia
a) poderá propor uma ação civil pública que deverá ser fiscalizada
pelo Ministério Público do Estado, solicitando uma liminar para evi-
tar a demolição do imóvel.
b) fazer uma denúncia, por se tratar de interesse individual homogê-
neo, ao Ministério Público e às Defensorias Públicas do Estado que
são legitimados ativos exclusivos para propor ação civil pública.
116 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
c) poderá, em litisconsórcio ativo necessário com o Ministério Público,
propor ação popular contra o Município para evitar a destruição do
imóvel.
d) poderá propor ação popular requerendo a concessão da liminar
para evitar a demolição e privatização do local, tratando-se de di-
reito difuso.
e) terá apenas a via administrativa para apresentar sua denúncia, a
fim de que o Ministério Público, após apuração em inquérito civil,
veja se há possibilidade do manejo de ação civil pública.
A alternativa D foi considerada correta.
O critério de definição é o do gozo dos direitos políticos, tendo
o legislador eleito como elemento comprobatório o título de eleitor
ou documento correspondente.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - IRE/TO - Analista judiciário) Em razão da existência de ato
lesivo ao patrimônio público, determinado cidadão propôs ação popular
e incluiu no polo passivo da ação o gestor público e a pessoa jurídica
de direito público responsáveis pelo ato, além dos particulares supos-
tamente beneficiados. Nessa situação hipotética, de acordo com a lei, a
prova da cidadania que o autor deve fazer para promover esse tipo de
ação ocorre exclusivamente pela apresentação do título de eleitor.
A alternativa foi considerada incorreta.
De todo modo, o STj entende que não existe uma restrição
territorial: o cidadão de um município ou estado pode ajuizar ação
popular por ato ocorrido em outro ente federativo.
Como entende a jurisprudência?
Note-se que a legitimidade ativa é deferida a cidadão. A afirmativa é
importante porque, ao contrário do que pretende o recorrente, a legi-
timidade ativa não é do eleitor, mas do cidadão.
0 que ocorre é que a Lei n. 4717/65, por seu art. 10, § 30, define que a
cidadania será provada por título de eleitor.
Vê-se, portanto, que a condição de eleitor não é condição de legitimi-
dade ativa, mas apenas e tão-só meio de prova documental da cida-
dania, daí porque pouco importa qual o domicílio eleitoral do autor
da ação popular. Aliás, trata-se de uma exceção à regra da liberdade
probatória (sob a lógica tanto da atipicidade comoda não-taxatividade
dos meios de provas) previsto no art. 332, CPC. (...)
Cap. VI • Legitimidade 117
Aquele que não é eleitor em certa circunscrição eleitoral não necessa-
riamente deixa de ser eleitor, podendo apenas exercer sua cidadania
em outra circunscrição. Se for eleitor, é cidadão para fins de ajuizamen-
to de ação popular. (...)
Então, se até para fins eleitorais esta relação domicílio-alistamento é
tênue, quanto mais para fins processuais de prova da cidadania, pois,
onde o constituinte e o legislador não distinguiram, não cabe ao judiciário
fazê-lo - mormente para restringir legitimidade ativa de ação popular,
instituto dos mais caros à participação social e ao controle efetivos dos
indivíduos no controle da Administração Pública. (ST], REsp 1242800/MS, Rel.
Ministro Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 07/06/2011)
No tocante à capacidade de estar em juízo, discute-se necessi-
dade ou não de assistência para que o cidadão, menor de 18 anos
e maior de 16, possa estar em juízo, como autor da ação popular:
Primeira corrente (José Afonso da Silva): é desnecessária a
assistência porque representaria uma restrição indevida à ga-
rantia constitucional que é a ação popular;
2) Segunda corrente (Humberto DaIla, Rodolfo Mancuso, Marco
Antonio Rodrigues): exige-se a assistência, aplicando-se o re-
gramento geral, que não confunde a cidadania com o exercício
do direito de ação.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - PGE/SE - Procurador do Estado) Conforme entendimento
majoritário da doutrina, o cidadão-eleitor de dezesseis anos possui
plena capacidade processual para o ajuizamento de ação popular.
A alternativa foi considerada correta.
Outra discussão diz respeito à capacidade postulatório: ape-
sar de existir alguma divergência, é bastante tranquilo, na jurispru-
dência, que o cidadão deverá estar patrocinado por um advogado
ou defensor público.
Como entende a jurisprudência?
Não merece reparo o entendimento da Corte de origem no sentido de
que o autor da ação popular, por ser procurador do Estado, não detém a
capacidade postulatória necessária para demanda que subscreveu. (STI,
REsp 45o.919/MA, Rel. Ministro Humberto Martins, Segundo Turma, julgado
em 15/08/2006)
118 Processo Coletivo - Vol. 54 • Jose Roberto Mello Porto
Além disso, vale lembrar que pode existir um litisconsórcio
facultativo entre cidadãos, desde que haja interesse jurídico para
ingressar na demanda.
A título de observação, é interessante mencionar a posição de
Teor Zavascki e Luis Roberto Barroso, ao verificarem o alargamento
dos objetos da ação popular pela Constituição de 1988, concluin-
do que existiria a legitimidade do cidadão para a tutela coletiva,
através dessa "peculiar ação civil pública" do meio ambiente, patri-
mônio público, histórico e cultural e da moralidade administrativa.
Último tópico importantíssimo sobre a legitimidade na ação
popular diz respeito ao alargamento do rol, incluindo-se pessoas
jurídicas ou instituições.
Quanto às pessoas jurídicas, existe a súmula 365 do STF, ne-
gando a possibilidade, apesar de existir entendimento doutriná-
ria minoritário favorável, ainda que somente no caso da tutela do
meio ambiente.
Como entende a jurisprudência?
Súmula 365 do STF: Pessoa jurídica não tem legitimidade para propor ação
popular.
Impossibilidade de ingresso do Estado-membro na condição de autor, ten-
do em vista que a legitimidade ativa da ação popular é tão-somente do
cidadão. Ingresso do Estado de Roraima e de outros interessados, inclu-
sive de representantes das comunidades indígenas, exclusivamente como
assistentes simples. (Pet 3388, Relator(a): Min. Carlos Britto, Tribunal Pleno,
julgado em 19/03/2009)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(VUNESP - 2019 - Prefeitura de Cerquilho - Procurador jurídico) Sobre
a Ação Popular, é correto afirmar: pessoa jurídica não tem legitimidade
para propor ação popular.
A alternativa foi considerada correta.
Por outro lado, existe entendimento mais robusto permitindo
o ajuizamento de ação popular pelo ministério Público, com funda-
mento no princípio da atipicidade e no acesso à justiça.
O STJ possui decisão admitindo a tese e chamando esse remé-
dio processual de ação popular multitudinária, que não seria mais
do que uma ação civil pública com idêntico objeto.
_ • • Legitimidade 119
Como entende a jurisprudência?
No mesmo sentido, se a lesividade ou a ilegalidade do ato administrativo
atingem o interesse difuso, passível é a propositura da Ação Civil Pública
fazendo as vezes de uma Ação Popular multilegitimcíria.
As modernas leis de tutela dos interesses difusos completam a definição
dos interesses que protegem. Assim é que a LAP define o patrimônio e a
LACP dilargou-o, abarcando áreas antes deixadas ao desabrigo, como o
patrimônio histórico, estético, moral, etc.
A moralidade administrativa e seus desvios, com conseqüências patrimo-
niais para o erário público enquadram-se na categoria dos interesses
difusos, habilitando o Ministério Público a demandar em juízo acerca dos
mesmos. (STJ, REsp 01.9640, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, jul-
gado em 22/10/2002)
Pelas mesmas razões, também a Defensoria Pública seria
legitimada.
2.3. Ação de improbidade administrativa
Diz a LIA (art. 17 da lei 8.429/92) que são legitimados o Ministé-
rio Público e a pessoa jurídica interessada.
Uma discussão corrente é a extensão da previsão a respeito
da pessoa jurídica:
i) Primeira corrente (Adriano Andrade, Cleber Masson, Landolfo
Andrade): apenas as pessoas jurídicas de direito público são le-
gitimadas, porque a finalidade é proteger o patrimônio público;
2) Segunda corrente (Daniel Assumpção Neves): pessoas jurídicas
de direito privado, quando lesionadas pelo ato improbo, po-
dem ajuizar a ação.
Outro debate interessante é sobre a legitimidade da Defenso-
ria Pública.
1) Primeira corrente: a DP não possui legitimidade, seja porque
ausente do rol legal, seja porque suas funções institucionais
não se identificam com o objeto da ação de improbidade;
2) Segunda corrente (Franklyn Roger, Diogo Esteves, Felipe Iiirch-
ner, Patrícia hetterman): a legitimidade merece integração à luz
do microssistema, para não ferir o acesso à justiçam, já que a
função constitucional e legal da Defensoria é a proteção de gru-
pos vulneráveis, os mais afetados pelos atos de improbidade.
120 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
2.4. Mandado de segurança coletivo
No MS coletivo, a impetração será sempre em nome da pró-
pria entidade, enquanto substituição processual. Os legitimados es-
tão mencionados no art. 5., LXX, da Constituição e no art. 21 da LMS
(lei 12.016/09).
> O que diz a Constituição e a lei?
CF: Art. 50 LXX - o mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por:
a) partido político com representação no Congresso Nacional;
b) organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente
constituída e em funcionamento há pelo menos um cum, em defesa dos
interesses de seus membros ou associados.
LMS: Art. 21. 0 mandado de segurança coletivo pode ser impetrado por
partido político com representação no Congresso Nacional, na defesa de
seus interesses legítimos relativos a seus integrantes ou à finalidade par-
tidária, ou por organização sindical, entidade de classe ou associação le-
galmente constituída e em funcionamento há, pelo menos, 1 (um) ano, em
defesa de direitos líquidos e certos da totalidade, ou de parte, dos seus
membros ou associados, na forma dos seus estatutos e desde que perti-
nentes às suas finalidades, dispensada, para tanto, autorização especial.
Existem, portanto, dois grupos bem delineados pela CF:
a) Os partidos políticos;
b) Os sindicatos, entidades de classe ou associações.
Os partidos políticos devem, para possuir legitimidade:
a) estarem representados no Congresso Nacional - isto é,
ter ao menos um parlamentar de seus quadros exercen-do mandato na legislatura federal;
b) impetrar o MS na defesa dos seus interesses legítimos
relativos:
i) A seus integrantes; ou
ii) À finalidade partidária.
> Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - TRE/PE - Analista Judiciário) Partido político tem legitimi-
dade para impetrar mandado de segurança coletivo, sem a necessida-
de de demonstrar representação no Congresso Nacional.
A alternativa foi considerada incorreta.
• Legitimidade 121
Várias observações são importantes, aqui.
Quanto ao primeiro requisito específico, a representação no
Congresso Nacional, existe entendimento (André Roque, Francisco
Duarte) de que deve haver um filtro pela extensão do objeto da
ação, de modo que, se o objeto for estadual ou local, a represen-
tação deverá se dar na Assembleia Legislativa ou na Câmara dos
Vereadores, respectivamente.
Outro questionamento diz respeito à perda superveniente des-
sa representação. Duas correntes discutem a consequência:
1; Primeira corrente: aferição no momento do ajuizamento da
ação, a exemplo do entendimento seguido pelo Supremo Tri-
bunal Federal no controle concentrado de constitucionalidade;
Segunda corrente (André Roque): necessária a presença da
exigência ao longo de todo o processo - caso contrário, pres-
tigiando-se o julgamento do mérito da questão coletiva, deve
haver oportunização para outros legitimados assumirem o
polo ativo.
Quanto ao segundo requisito específico, percebe-se que não
existe previsão constitucional, tendo o legislador aparentemente
inovado ao exigir uma pertinência temática subjetiva (interesses
dos integrantes) ou objetiva (finalidade partidária). Existem algu-
mas correntes doutrinárias sobre o tema:
Primeira corrente (Hely Lopes Meirelles, Carlos Velloso, deci-
sões do ST] logo após a CF): entendimento restritivo - os par-
tidos políticos somente poderiam impetrar o MS coletivo na
defesa dos interesses de seus membros;
Segunda corrente (Fredie Didier Jr, Hermes Zaneti jr, Ada Gri-
nover, Daniel Assumpção Neves): entendimento ampliativo - a
restrição se revela inconstitucional. Além disso, se pode inter-
pretar a "finalidade partidária" como o bem comum e assen-
tar a natureza associativa dos partidos políticos, que permite
inseri-los na alínea b do art. 5., 1.XX;
Terceira corrente (Teor Zavascki): entendimento intermediário -
legitimidade quando a autoridade coatora ameaçar ou violar
direitos de seus filiados ou de terceiros não filiados, desde que
esteja a defesa desses direitos compreendida na finalidade ins-
titucional ou seja objetivo programático do partido.
-)
122 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Como entende a jurisprudência?
Em decisão anterior à atual Lei do Mandado de Segurança, o Supre-
mo Tribunal Federal concluiu inexistir limitação relativa ao interesse
dos membros dos partidos, podendo proteger direitos mesmo de pes-
soas não filiadas a ele. Contudo, não possuiriam a condição da ação
quando os direitos fossem relativos a determinados grupos ou clas-
ses: "0 partido político não está, pois, autorizado a valer-se do man-
dodo de segurança coletivo para, substituindo todos os cidadãos na
defesa de interesses individuais, impugnar majoração de tributo."
(STF, RE 196184, Rel. Min. Ellen Gracie, Primeira Turma, julgado em 27/10/2004).
Mais recentemente, revisitou-se o tema, em medida cautelar, reconhecen-
do que, à época do primeiro julgamento, foi excessivamente restritivo,
e se filiando à posição segundo a qual a legitimidade dos partidos não
guarda ligação com seus membros (MS 34070 MC, Rel. Min. Gilmar Mendes,
julgado em 18/03/2016).
No segundo grupo, estão as associações, as entidades de clas-
se e os sindicatos, que podem proteger direitos de todo o grupo
ou apenas de parte (súmula 630 do STF).
Além disso, ao contrário da polêmica instaurada para sua le-
gitimidade na ação civil pública, é pacífico, no MS coletivo, ser des-
necessária a prévia autorização dos associados (súmula 629 do
STF), por isso não se exige a lista de membros e seus endereços
na petição inicial, de acordo com o Supremo Tribunal Federal (MS
23769, Rel. Min. Ellen Gracie, Tribunal Pleno, julgado em 03/04/2002).
Especificamente a respeito das associações, é exigida a pré-
-constituição - os sindicatos estão dispensados (STF, RE 198919, Rel.
Min. Ilmar Galvão, Primeira Turma, julgado em 15/06/1999). Discute-
-se se é aplicável a dispensa desse requisito ao MS, com base no
microssistema:
Primeira corrente (Adriano Andrade, Cleber Masson, Landolfo
Andrade): impossível a utilização do dispositivo do CDC, por-
que a Constituição não permitiu exceção;
Segunda corrente (Fredie Didier, Hermes Zaneti): é possível
a aplicação do art. 82, §10, do CDC, quando houver manifesto
interesse social.
Questão interessantíssima diz respeito à legitimidade de outras
entidades para a impetração coletiva, destacadamente o Ministé-
rio Público e a Defensoria Pública. Existem duas grandes correntes:
• Legitimidade 123
1) Primeira corrente (Cruz e Tucci, Buzaid, Gomes Júnior e Favre-
to): o rol constitucional é taxativo;
2\ Segunda corrente (Hermes Zaneti, Scarpinella Bueno, Gregório
Assagra de Almeida, Nelson Nery, Helio Pereira e Eduardo Cam-
bi): se admite a legitimidade, porque:
A Constituição traria apenas uma garantia mínima;
O Ministério Público intervém obrigatoriamente nes-
sas demandas;
Existe o princípio da atipicidade no art. 83 do CDC;
Existe a tese da legitimidade conglobante: a exemplo
da crítica visão acerca da tipicidade (no direito pe-
nal), não pode haver contradição no ordenamento
jurídico, não sendo possível retirar de uma institui-
ção a legitimidade para determinado instrumento
apto a efetivar sua missão constitucional;
O ECA (art. 212, §20) menciona expressamente o ca-
bimento de ação mandamental coletiva, não restrin-
gindo legitimados;
A Lei do Mandado de Injunção expressamente inclui
a DP e o MP no rol de legitimados.
Na jurisprudência, a tendência, ao menos já demonstrada pelo
ST], é no sentido da primeira corrente, restritiva. Por outro lado,
existe decisão admitindo a legitimidade do MP.
Como entende a jurisprudência?
Posição contrária: RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA. FALTA DE LEGI-
TIMIDADE DA DEFENSOR1A PÚBLICA PARA IMPETRAR MANDADO DE SEGURANÇA
COLETIVO. IMPETRAÇÃO GENÉRICA. DECLARAÇÃO DE DIREITO EM TESE. SEGURANÇA
NORMATIVA. NÃO CABIMENTO. RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. 1. 0 rol
dos legitimados a impetrar mandado de segurança coletivo previsto no
art. 5., inciso LXX, da Constituição Federal, assim como no art. 21 da Lei
n. 12.016/20°9, não elenco a Defensoria Pública. 2. Considerando que a
impetração se deu em nome próprio, como sustentado pela Defensoria
Pública neste recurso, incabível o mandamus porquanto a pretensão con-
substancia pedido de declaração, em tese, do direito, finalidade para
a qual não se presta o writ. 3. Desse modo, é incabível o writ porque a
Defensoria Pública não tem legitimidade para impetrar mandado de se-
124 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
gurança coletivo e também porque não se admite mandado de segurança
normativo. 4. Recurso ordinário a que se nega provimento.(RMS 49.257/DF,
Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura, Sexta turma, julgado em
03/11/2015, Die 19/11/2015)
Mandado de segurança coletivo: questão de legitimidade extraordinária
de estado-membro em defesa de interesses da sua população. Ao esta-
do-membro não se outorgou legitimação extraordinária para a defesa,
contra ato de autoridade federal no exercício de competência privativa
da união, seja para a tutela de interesses difusos de sua população - que
e restrito aos enumerados na lei da ação civil pública (I. 7.347/85), seja
para a impetração de mandado de segurança coletivo, que e objeto
da enumeração taxativa do art. 5., LXX da constituição. Além de não se
poder extrair mediante construção ou raciocínio analógicos, a alegadalegitimação extraordinária não se explicaria no caso, porque, na estrutura
do federalismo, o estado-membro não e órgão de gestão, nem de repre-
sentação dos interesses de sua população, na orbita da competência pri-
vativa da União. (MS 21059, Relator(a): Min. Sepúlveda Pertence, Tribunal
Pleno, julgado em 05/09/1990
Posição favorável: PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. AÇÃO CIVIL PÚBLICA.
TELEFONIA MÓVEL. CLÁUSULA DE FIDELIZAÇÃO. DIREITO CONSUMERISTA. LEGITIMI-
DADE ATIVA DO MINISTÉRIO PÚBLICO.
(...) 5. Hodiernamente, após a constatação da importância e dos inconve-
nientes da legitimação isolada do cidadão, não há mais lugar para o veto
da legitimatio ad causam do MP para a Ação Popular, a Ação Civil Pública
ou o Mandado de Segurança coletivo.
6. Em conseqüência, legitima-se o Parquet a toda e qualquer demanda que
vise à defesa dos interesses difusos e coletivos, sob o ângulo material ou
imaterial.
(STj, REsp 7oo.2o6/MG, Rel. Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, julgado em
09/03/201o, Die 19/03/2010)
Por fim, é importante sublinhar que o Conselho Federal da
OAB, embora não conste no rol da Constituição Federal, possuiria
legitimidade, de acordo com o art. 54, XIV, do Estatuto da OAB.
2.5. Mandado de injunção coletivo
Para o mandado de injunção coletivo, são legitimados o Mi-
nistério Público, a Defensoria Pública, os partidos políticos com
representação no Congresso Nacional, os sindicatos, as entidades
de classe ou as associações legalmente constituídas e em funciona-
mento há, pelo menos, um ano.
Cap. './1 • Legitimidade 125
0 que diz a lei?
Lei 13.300/16: Art. 12. 0 mandado de injunção coletivo pode ser promovido:
I - pelo Ministério Público, quando a tutela requerida for especialmente
relevante para a defesa da ordem jurídica, do regime democrático ou dos
interesses sociais ou individuais indisponíveis;
II - por partido político com representação no Congresso Nacional, para
assegurar o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas de seus inte-
grantes ou relacionados com a finalidade partidária;
Ill - por organização sindical, entidade de classe ou associação legalmente
constituída e em funcionamento há pelo menos i (um) ano, para assegurar
o exercício de direitos, liberdades e prerrogativas em favor da totalidade
ou de parte de seus membros ou associados, na forma de seus estatutos
e desde que pertinentes a suas finalidades, dispensada, para tanto, au-
torização especial;
IV - pela Defensoria Pública, quando a tutela requerida for especialmente
relevante para a promoção dos direitos humanos e a defesa dos direitos
individuais e coletivos dos necessitados, na forma do inciso 'XXIV do art.
50 da Constituição Federal.
A grande peculiaridade do tratamento legal do mandado co-
letivo é a explicitação da pertinência temática para cada um dos
legitimados, o que não sucedeu em outras normas.
1 Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(FUNDEP - 2019 - DPE/MG - Defensor Público) Havendo omissão injus-
tificada e danosa a uma coletividade quanto à regulamentação de
eventual norma que envolva o tema direitos humanos, não poderá a
Defensoria Pública propor eventual mandado de injunção coletivo para
combater tal inefetividade, por ausência de legitimidade e regulamen-
tação do procedimento de tal ação.
A alternativa foi considerada incorreta.
3. LEGITIMADOS PASSIVOS
3.1. Ação civil pública
Na ação civil pública, não existem limitações taxativas ao polo
passivo. Poderá ser réu aquele que tenha gerado um dano ou tenha
potencial de fazê-lo, como funcionaria em qualquer ação judicial.
126 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
3.2. Ação popular
No polo passivo da ação popular, estarão:
a) Agente público (autoridades, funcionários e administra-
dores) responsáveis pelo ato impugnado;
b) Pessoa jurídica lesada;
c) Beneficiários diretos pelo ato.
Existe, assim, um litisconsórcio passivo necessário entre os
responsáveis pela prática do ato lesivo e seus beneficiários dire-
tos. Se algum dos réus for desconhecido, a demanda deverá ser
ajuizada apenas em face dos demais legitimados passivos.
Por outro lado, o litisconsórcio pode ser classificado da se-
guinte forma:
a) quanto ao pedido desconstitutivo, o litisconsórcio é
unitário;
b) quanto ao pedido condenatório, o litisconsórcio é simples.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - TRE/TO - Analista judiciário) Em razão da existência de
ato lesivo ao patrimônio público, determinado cidadão propôs ação
popular e incluiu no polo passivo da ação o gestor público e a pessoa
jurídica de direito público responsáveis pelo ato, além dos particulares
supostamente beneficiados. Nessa situação hipotética,
a) a pessoa jurídica de direito público deve obrigatoriamente contestar
a demanda, sob pena de responsabilização do advogado público.
b) o litisconsórcio formado no polo passivo da ação popular deve ser
classificado como necessário e simples.
Apenas alternativa B foi considerada correta.
3.3. Ação de improbidade administrativa
No polo passivo, a ação de improbidade sempre deverá con-
tar com um agente público. Quando os agentes particulares forem
réus, haverá um litisconsórcio passivo necessário, embora simples.
Como entende a jurisprudência?
Os particulares que induzam, concorram, ou se beneficiem de improbida-
de administrativa estão sujeitos aos ditames da Lei no 8.429/1992, não sen-
do, portanto, o conceito de sujeito ativo do ato de improbidade restrito
aos agentes públicos (inteligência do art. 3. da LIA).
• Legitimidade 127
Inviável, contudo, o manejo da ação civil de improbidade exclusivamente
e apenas contra o particular, sem a concomitante presença de agente
público no polo passivo da demanda. (STI, REsp lipoi7/PA, Rel. Ministro
Sergio Kukina, Primeira Turma, julgado em 25/02/2014)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - Prefeitura de Belo Horizonte - Procurador do Município)
Se o MP for autor de ação civil pública por ato de improbidade adminis-
trativa, a pessoa jurídica de direito público interno interessada integrará
a lide na condição de litisconsorte passivo do agente público ímprobo.
A alternativa foi considerada incorreta.
(CESPE - 2015 - Ti/PB - juiz de Direito) A tipificação de ato de improbi-
dade é ampla e abrange o que for praticado por terceiro, sem partici-
pação de agente público.
A alternativa foi considerada incorreta.
3.4. Mandado de segurança coletivo
Se o mandado de segurança coletivo é impetrado em face de
ato ilegal ou abusivo, deve haver, em juízo, uma autoridade públi-
ca, apontada causadora de uma ameaça ou lesão a direito líquido
e certo, sempre possuindo poderes de decisão sobre o ato.
Também se incluem no conceito largo de autoridade pública os
agentes de pessoas jurídicas no exercício de atribuições do Poder
Público, sendo estes os agentes privados que executem atividades
em nome do Poder Público.
No caso de atos submetidos a autoridades diferentes, será apon-
tada entidade hierárquica superior, mesmo que não tenha a referida
autoridade praticado os atos que atinjam a diversos associados.
Há grande discussão sobre a legitimidade passiva no mandado
de segurança.
Primeira corrente (Humberto DaIla, Cássio Scarpinella Bueno,
Arnold Wald, Gilmar Mendes, Hely Lopes Meirelles): o polo pas-
sivo é formado pela autoridade coatora ao lado da pessoa
jurídica de direito público;
Segunda corrente (Humberto Theodoro júnior, José Henrique
Mouta): o polo passivo é formado somente pela pessoa jurídi-
ca que a autoridade integra;
128 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
3) Terceira corrente: o polo passivo é formado somente pela au-
toridade coatora.
Os tribunais superiores não são absolutamente precisos quan-
to a esse debate. O Supremo Tribunal Federal possui decisão na
linha da segunda corrente.
Por sua vez, o STJ já concluiu que a consequência da equivoca-
da indicaçãoda autoridade coatora é a extinção do processo, por
ilegitimidade. Porém, deve ser dada a possibilidade de emendar
a inicial e, caso seja facilmente perceptível o erro, que o próprio
magistrado determine sua notificação.
Como entende a jurisprudência?
STF: Mandado de segurança: legitimação passiva da pessoa de direito
público ou assemelhada, à qual seja imputável o ato coator, cabendo
à autoridade coatora o papel de seu representante processual, posto
que de identificação necessária: consequente possibilidade de sanar-se
o erro do impetrante na identificação da autoridade coatora, median-
te emenda da inicial, para o que se determina a intimação da parte:
voto médio do relator para o acórdão. (Rcl 367, Relator(a): Min. Marco
Aurélio, Relator(a) p1 Acórdão: Min. Sepúlveda Pertence, Tribunal Pleno,
julgado em 04/02/1993)
STI: Desde que, pela leitura da inicial e exame da documentação anexada,
seja viável a identificação correta da autoridade responsável pelo ato
impugnado no writ, nada obsta que o julgador determine que a notificação
seja adequadamente direcionada ou que possibilite ao impetrante opor-
tunidade para emendar a inicial, sanando a falha, corrigindo-se, nessas
hipóteses, equívoco facilmente perceptível. (RMS 45•495/SP, Rel. Ministro
Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 26/08/2014)
No tocante à legitimidade passiva no MS, o STj adota a teoria da
encampação (súmula 628), que permite a continuidade do mandado
de segurança impetrado apontando equivocadamente a autoridade
coatora. São três os requisitos cumulativos para sua aplicação:
Vínculo hierárquico entre a autoridade que prestou informa-
ções e a que ordenou a prática do ato impugnado;
Manifestação a respeito do mérito nas informações prestadas;
Ausência de modificação de competência estabelecida na
Constituição Federal.
Cap. vu • Legitimidade 129
I Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(MPE/C0 - 2019 - MPE/G0- Promotor de justiça) A teoria da encampação é
aplicada no mandado de segurança quando presentes, cumulativamen-
te, dois requisitos: a) existência de vínculo hierárquico entre a autorida-
de que prestou informações e a que ordenou a prática do ato impugna-
do; e b) manifestação a respeito do mérito nas informações prestadas.
A alternativa foi considerada incorreta.
(CESPE - 2019 - 11/SC- Juiz de Direito) Segundo entendimento do S11,
para a aplicação da teoria da encampação em mandado de segurança,
é suficiente que se demonstrem nos autos, cumulativamente,
a) a existência das informações prestadas pelo órgão de representa-
ção judicial, a manifestação a respeito do mérito nas informações
prestadas e a ausência de modificação de competência estabelecida
na Constituição Federal.
b) o vínculo hierárquico entre a autoridade que prestou as informa-
ções e a que ordenou a prática do ato impugnado, a manifestação
a respeito do mérito nas informações prestadas e a ausência de
modificação de competência estabelecida na Constituição Federal.
c) a manifestação do órgão de representação judicial da pessoa jurídi-
ca interessada e as informações prestadas pela autoridade indicada
como coautora.
d) o vínculo hierárquico entre a autoridade que prestou informações e
a que ordenou a prática do ato impugnado e a não configuração de
qualquer das hipóteses de incompetência absoluta estabelecidas na
Constituição Federal.
e) a manifestação a respeito do mérito nas informações prestadas nos
autos e a não configuração de qualquer das hipóteses de incompe-
tência absoluta estabelecidas na Constituição Federal.
A alternativa B foi considerada correta.
3.5. Mandado de injunção coletivo
O polo passivo da demanda é composto pelo Poder, órgão ou
autoridade com atribuição para a edição da norma faltante.
Quando se tratar de norma de iniciativa reservada, também o
titular da iniciativa deverá figurar como réu, surgindo hipótese de
litisconsórcio necessário.
De todo modo, deve ser indicada, na inicial, a pessoa jurídica
de que o impetrado faz parte.
130 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Meto Porto
4. LEGITIMIDADE BIFRONTE
O Poder Público, no microssistema, possui participação pro-
cessual peculiar, em alguns casos (ação popular e ação de im-
probidade administrativa). Trata-se da chamada legitimidade du-
pla, legitimidade bifronte, reversibilidade, intervenção móvel ou
encampação.
0 que diz a lei?
LAP: Art. 6. A ação será proposta contra as pessoas públicas ou privadas
e as entidades referidas no art. 1., contra as autoridades, funcionários ou
administradores que houverem autorizado, aprovado, ratificado ou prati-
cado o ato impugnado, ou que, por omissas, tiverem dado oportunidade
à lesão, e contra os beneficiários diretos do mesmo.
§ 3. A pessoas jurídica de direito público ou de direito privado, cujo ato
seja objeto de impugnação, poderá abster-se de contestar o pedido, ou
poderá atuar ao lado do autor, desde que isso se afigure útil ao interesse
público, a juízo do respectivo representante legal ou dirigente.
LIA: Art. 17 § 3. No caso de a ação principal ter sido proposta pelo Minis-
tério Público, aplica-se, no que couber, o disposto no § 3° do art. 6. da Lei
no 4.717, de 29 de junho de 1965.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - Prefeitura de Fortaleza - Procurador do Município)
Conforme o STJ, a pessoa jurídica de direito público ré de ação civil
pública possui ampla liberdade para mudar de polo processual, ainda
que haja pretensão direcionada contra ela.
A alternativa foi considerada incorreta.
Se permite que o ente público, cientificado da existência da
ação (pela citação enquanto réu, na ação popular, ou pela intima-
ção, na ação de improbidade - esta última vista como facultativa,
pelo STD escolha entre:
a) Defender o ato impugnado (contestando como réu);
b) Ficar inerte;
c) Se tornar litisconsorte da parte autora.
Essa última possibilidade se justifica pelo interesse público e
pela mutabilidade política da Administração Pública. Afinal, é co-
mum que se combata um ato praticado por Administração anterior.
• Legitimidade 131
Para tanto, o STJ exige um especial interesse: a migração só
deve ser admitida se, em concreto, a pessoa jurídica tomou as me-
didas para desfazer o ato e ressarcir os prejudicados.
Como entende a jurisprudência?
A alteração subjetiva, por óbvio, implica reconhecimento implícito dos pe-
didos, sobretudo os de caráter unitário (p. ex., anulação dos atos admi-
nistrativos impugnados), e só deve ser admitida pelo juiz, em apreciação
ad hoc, quando o ente público demonstrar, de maneira concreta e in-
dubitável, que de boa-fé e eficazmente tomou as necessárias providên-
cias saneadoras da ilicitude, bem como medidas disciplinares contra os
servidores ímprobos, omissos ou relapsos.
No presente caso ficou assentado pelo Tribunal de justiça que o Estado de
São Paulo embargou as obras do empreendimento e instaurou processo
administrativo para apurar a responsabilidade dos agentes públicos au-
tores do irregular licenciamento ambiental. Também está registrado que
houve manifesto interesse em migrar para o polo ativo da demanda.
(STI, REsp 1391263/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, jul-
gado em 06/05/2014).
Discute-se até que momento poderia se dar essa migração.
Primeira corrente (Arnold Wald, Gilmar Mendes): segue a lite-
ralidade do dispositivo da LAP, apenas admitindo a reversão
no prazo para contestação, sucedendo preclusão temporal
após ou, se já apresentada a peça defensiva, preclusão lógica;
Segunda corrente (Daniel Assumpção Neves): se admite até a
sentença, por conta do interesse público envolvido e da com-
plexidade na apuração. No STJ, encontram-se decisões bastan-
te flexíveis quanto ao momento preclusivo.
Como entende a jurisprudência?
O deslocamento de pessoa jurídica de Direito Público do polo passivo para
o ativo na Ação Popular é possível, desde que útil ao interesse público, a
juízo do representantelegal ou do dirigente, nos moldes do art. 6., § 3.,
da Lei 4.717/1965.
Não há falar em preclusão do direito, pois, além de a mencionada lei
não trazer limitação quanto ao momento em que deve ser realizada a
migração, o seu art. 17 preceitua que a entidade pode, ainda que tenha
contestado a ação, proceder à execução da sentença na parte que lhe
caiba, ficando evidente a viabilidade de composição do polo ativo a qual-
quer tempo. (STJ, REsp 945.238/SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda
Turma, julgado em 09/12/2oo8)
132 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Os precedentes do ST) que apontam não haver nulidade pelo fato de a
pessoa jurídica não ter participado do processo como litisconsorte devem
ser entendidos à luz do espírito da Lei de Improbidade e do interesse
público protegido. Não há nulidade porque inexiste prejuízo para o ente
público quando ato de improbidade praticado em seu detrimento vem a
ser punido sem a sua participação. Prejuízo, aliás, haveria na hipótese
contrária, ou seja, se condenação por improbidade fosse anulada por a
pessoa jurídica lesada não ter participado do processo.
Se a pessoa jurídica não foi intimada da existência do processo desde
o seu início, nada impede que se permita sua intervenção em momento
posterior, recebendo ela o processo no estado em que se encontra. (ST),
REsp 1283253/5E, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado
em 09/08/2016).
Por fim, existe doutrina (Ricardo de Barros Leonel) que men-
ciona a reversibilidade de mão dupla ou inversa, autorizando que
a pessoa jurídica de direito público que tenha se posicionado ao
lado do autor a, reconhecendo a licitude do ato impugnado, passar
a defendê-lo.
5. REPRESENTATIVIDADE ADEQUADA
Como os titulares do direito material não os podem defender,
no processo, diretamente, há que se garantir que a parte formal, o
ente legitimado, seja apto a bem representar os interesses.
Não se trata de sinônimo da pertinência temática, que é o
cotejo do perfil institucional do legitimado com o objeto do litígio
coletivo, verificação que ocorre em todos os casos, nos moldes vis-
tos no tópico próprio para cada um dos possíveis autores.
Quanto à representatividade adequada, o microssistema elege
algumas entidades presumivelmente capazes de tutelar os interes-
ses do grupo em juízo, criando uma presunção legal, traduzindo um
controle ope legis
Discute-se, no Brasil, a aplicação de um controle judicial (ope
iudicis) da representatividade adequada, servindo como um segun-
do filtro.
2) Primeira corrente (Elton Venturi, Gregório Assagra de Almeida):
ante a literalidade da lei, apenas existe controle ope legis;
2) Segunda corrente (Hermes Zaneti Jr, Ricardo de Barros Leonel):
cabe uma ulterior avaliação pelo juiz, em concreto, evitando
Cap. VII . Legitimidade 133
a ocupação do polo ativo por ente sem aptidão técnica, por
exemplo.
3) Terceira corrente (Daniel Assumpção Neves): o controle judicial
é favorável, mas exigiria, para ser aplicado, de previsão legal.
Na jurisprudência, é possível encontrar decisões do STJ favo-
ráveis à tese, desde que a avaliação não fira a imparcialidade
da magistratura, calcando-se em elementos objetivos, o que seria
especialmente útil quando a ação for promovida por associações.
1 Como entende a jurisprudência?
Esta exegese permite ao magistrado bem avaliar, no específico caso das
associações, se a demandante efetiva e adequadamente representa os
interesses da respectiva coletividade, de modo a viabilizar a consecução
de direitos que alegadamente guardariam relevância pública e inequívo-
ca repercussão social. Em relação aos demais legitimados, esta análise,
ainda que pertinente, afigura-se naturalmente atenuada ante a finalidade
institucional decorrente de lei.
Não se descurando da compreensão de que a lei, ao estabelecer os le-
gitimados para promover a ação coletiva, presumivelmente reconheceu
a correlação destes com os interesses coletivos a serem tutelados, certo
é que o controle judicial da adequada representatividade, especial-
mente em relação às associações, consubstancia importante elemento
de convicção do magistrado para mensurar a abrangência e, mesmo, a
relevância dos interesses discutidos na ação, permitindo-lhe, inclusive,
na ausência daquela, obstar o prosseguimento do feito, em observância
ao princípio do devido processo legal à tutela jurisdicional coletiva, a fim
de evitar o desvirtuamento do processo coletivo. (91, REsp 105697/MG,
Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 17/09/2015)
6. LEGITIMIDADE EXTRAORDINÁRIA CONVENCIONADA
Discute-se se seria possível a criação de legitimidade extraordi-
nária pela via consensual, ou seja, por negócio jurídico processual.
Na tutela coletiva, a doutrina, em geral, não aceita a criação
negocial da legitimação extraordinária, em razão de o legitimado,
previsto em lei, não ser o titular do direito material pleiteado, por-
que seria uma situação de fraude à lei.
7. QUADRO SÍNTESE
Legitimados
ativos
Legitimados
passivos
Legitimidade
bifronte?
Ação civil Ação
pública popular
Ministério
Público
Defen-
soria
Pública
Adminis-
tração
Pública
Associa-
ções
Sindicatos
Partidos
políticos
OAB
Coopera-
tivas
Comu-
nidades
indígenas
Causados
do dano
coletivo
Cidadão
Agente
público
Pessoas
jurídi-
ca de
direito
público
lesada
Benefi-
ciários
diretos
(even-
tualmen-
te)
Ação de
improbidade
administrativa
Ministério
Público
Pessoa jurídica
lesada
Agente público
(sempre) m pre)
Agentes parti-
culares (even-
tualmente)
Sim
Mandado Mandado
de de
segurança injunção
coletiva coletivo
Partidos
políticos
Associa-
ções
Entidades
de classe
Sindicatos
Pessoa
jurídica
de direito
público +
indicar au-
toridade
coatora
Ministério
Público
Defen-
soria
Pública
Partidos
políticos
Associa-
ções
Entidades
de classe
Sindicatos
Poder,
órgão ou
autorida-
de com
atribuição
para
editar
norma +
indica-
ção da
pessoa
jurídica
de direito
público
‘21 11Capítulo
litisconsúrcio e Intervenções
i. LITISCONSÓRCIO
Na tutela coletiva, são, em regra, cabíveis o litisconsórcio ati-
vo - já que o rol é de legitimação disjuntiva - e o passivo.
Quanto ao litisconsórcio entre legitimados ativos, existe uma
expressa autorização legal para habilitação do Poder Público e de
outras associações, como litisconsortes das partes, na LACP. O me-
lhor entendimento inclui os demais legitimados nesse rol, permitin-
do um litisconsórcio facultativo ulterior, expressamente menciona-
do na Lei 7.853/89.
O que diz a lei?
LACP: Art. 50, § 2° Fica facultado ao Poder Público e a outras associações
legitimadas nos termos deste artigo habilitar-se como litisconsortes de
qualquer das partes.
Lei 7.853/89: Art. 3., § 5° Fica facultado aos demais legitimados ativos ha-
bilitarem-se como litisconsortes nas ações propostas por qualquer deles.
Outro tema relevante diz respeito ao litisconsórcio entre Mi-
nistérios Públicos diversos, permitido pela LACR
que diz a lei?
LACP: Art. 50, § 50 Admitir-se-á o litisconsórcio facultativo entre os Ministé-
rios Públicos da União, do Distrito Federal e dos Estados na defesa dos
interesses e direitos de que cuida esta lei.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(MPE/GO - zol9 - MPE/G0- Promotor de Justiça) Admitir-se-á o litiscon-
sórcio facultativo entre os Ministérios Públicos da União, do Distrito
136 Processo Coletivo - vol. 54 • Jose Roberto Mello Porto
Federal e dos Estados na defesa dos interesses e direitos de que cuida
a Lei n. 7.347/85 (Lei da Ação Civil Pública).
A alternativa foi considerada correta.
Existe divergência doutrinária a respeito da real viabilidade.
1) Primeira corrente: o litisconsórcio, embora autorizado pela
legislação, é impossível, já que vige o princípio da unidade,
havendo apenas um Ministério Público, dividido para fins de
eficiência no desempenhoda função;
2" Segunda corrente (Nelson Nery): não se trata de litisconsórcio,
mas de atuação conjunta de órgãos de atuação, seguindo-se a
ideia da unidade do Ministério Público;
3) Terceira corrente (Ricardo de Barros Leonel, Fredie Didier Jr,
Hermes Zaneti Jr): o princípio da unidade diz respeito a cada
um dos Ministérios Públicos, isoladamente, havendo indepen-
dência administrativa e funcional entre eles.
A posição atual do Superior Tribunal de Justiça é favorável,
cabendo até mesmo o litisconsórcio entre MPU, MPE e MPT.
Como entende a jurisprudência?
A luz do art. 128 da CF/88, o Ministério Público abrange: o Ministério Públi-
co da União, composto pelo Ministério Público Federal, o Ministério Público
do Trabalho, o Ministério Público Militar e o Ministério Público do Distrito
Federal e Territórios; e os Ministérios Públicos dos Estados.
Assim, o litisconsórcio ativo facultativo entre os ramos do MPU e os MPs
dos Estados, em tese, é possível, sempre que as circunstâncias do caso
recomendem, para a propositura de ações civis públicas que visem à
responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados ao meio-am-
biente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico, estético, históri-
co e paisagístico, à ordem econômica e urbanística, bem como a qualquer
outro interesse difuso ou coletivo, inclusive de natureza trabalhista.
Dessa forma, diante da pluralidade de direitos que a presente demanda
visa proteger, quais sejam: direitos à ordem econômica, ao trabalho, à
saúde e ao consumidor, é vidvel o litisconsórcio ativo entre o MPF, MPE
e MPT. (ST), REsp 1444484/RN, Rel. Ministro Benedito Gonçalves, Primeira
Turma, julgado em 18/09/2014)
A possibilidade, em tese, de atuação do Ministério Público Estadual e
do Federal em litisconsórcio facultativo não dispensa a conjugação de
interesses afetos a cada um, a serem tutelados por meio da ação civil
Cap. VIII • Litisconsórcio e Intervenções 137
pública. A defesa dos interesses dos consumidores é atribuição comum
a ambos os órgãos ministeriais, o que torna injustificcível o litisconsórcio
ante a unicidade do Ministério Público, cuja atuação deve pautar-se pela
racionalização dos serviços prestados à comunidade. (STJ, REsp 1254428/
MG, Rel. Ministro João Otávio De Noronha, Terceira Turma, julgado em
02/06/2016)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - TRF-5. Região - Juiz Federal) O Ministério Público de de-
terminado estado da Federação e o Ministério Público Federal ajuiza-
ram, em litisconsórcio, ação civil pública para tutela de direitos indivi-
duais homogêneos de consumidores lesados por contrato de consumo.
De acordo com o STj, nessa situação hipotética, deve ser permitida a
formação do litisconsórcio ativo independentemente de razão específi-
ca que justifique a atuação conjunta na lide, bastando que se verifique
a legitimidade ministerial para propositura de demanda.
A alternativa foi considerada incorreta.
2. INTERVENÇÃO DO INDIVÍDUO
Apesar de não possuir legitimidade originária (ou seja, para
o ajuizamento da ação coletiva), o indivíduo pode intervir em tais
ações.
Para a ação popular, existe previsão expressa para tanto - até
porque se trata do único caso em que o cidadão é legitimado ativo.
O que diz a lei?
LAP: Art. 6., § s. É facultado a qualquer cidadão habilitar-se como litiscon-
sorte ou assistente do autor da ação popular.
O requisito específico que a doutrina impõe, para tanto, é a
existência de interesse jurídico, ou seja, que o cidadão pudesse ter
ajuizado aquela ação popular.
Para os que propõem a ampliação da legitimidade ativa na
ação popular, também os outros legitimados poderiam se habilitar.
Essa lógica é estendida pela doutrina para a ação civil pública
que tutele direitos transindividuais clue poderiam ser protegidos
em ação popular (patrimônio público, meio ambiente, moralidade
administrativa, patrimônio histórico e cultural). Também aqui se
138 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
exige o interesse jurídico, retirado da pertinência temática (ser o
indivíduo membro da coletividade afetada).
A discussão que se coloca diz respeito à natureza jurídica da
intervenção:
i) Primeira corrente (Humberto Da11a): trata-se de litisconsórcio
ulterior, facultativo, que, portanto, pode ser limitado pelo ma-
gistrado, quando multitudinário;
2) Segunda corrente (Fredie Didier Jr, Hermes Zaneti Jr, Ricardo de
Barros Leonel): trata-se de assistência litisconsorcial.
Quando a ação civil pública tutelar direitos individuais homo-
gêneos, é permitida a intervenção dos indivíduos.
O que diz a lei?
CDC: Art. 94. Proposta a ação, será publicado edital no &gel° oficial, a fim
de que os interessados possam intervir no processo como litisconsortes,
sem prejuízo de ampla divulgação pelos meios de comunicação social por
parte dos órgãos de defesa do consumidor.
Art. 103 § Na hipótese prevista no inciso Ill, em caso de improcedência
do pedido, os interessados que não tiverem intervindo no processo como
litisconsortes poderão propor ação de indenização a título individual.
Com o ajuizamento da ação, deve ser publicado edital no ór-
gão oficial, a fim de que os interessados possam intervir no pro-
cesso como litisconsortes, sem prejuízo de ampla divulgação pelos
meios de comunicação social por parte dos órgãos de defesa do
consumidor. Tal pedido instaura incidente processual.
Como entende a jurisprudência?
O pedido de intervenção no feito como litisconsorte nada mais é do que
incidente processual, haja vista que o consumidor, aproveitando-se do
poder de disposição em aderir ou não ao processo coletivo, solicita seu
ingresso no feito, na qualidade de litisconsorte facultativo ulterior. Em sen-
do assim, não cabe condenação da ré em custas e honorários advocatícios
nesta fase. (STj, REsp iii6897/PR, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão, Quarto
Turma, julgado em 24/09/2013)
Atualmente, a jurisprudência aponta que a melhor forma de
notificação seja a publicação de editais na rede mundial de compu-
tadores, ou mesmo por conta do próprio réu.
Cap. VIII • Litisconsórcio e Intervenções 139
Como entende a jurisprudência?
Sob a égide do CPC/15, foi estabelecida a regra de que a publicação de
editais pela rede mundial de computadores é o meio mais eficaz da
informação atingir um grande número de pessoas, devendo prevalecer,
por aplicação da razoabilidade e da proporcionalidade, sobre a onerosa
publicação em jornais impressos.
Precedentes. (Sri, REsp 1821688/RS, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira
Turma, julgado em /24, 09, 2019)
O efeito dessa intervenção é o seguinte:
a) O indivíduo substituído que não requer sua habilitação
apenas se submete ao decidido na ação coletiva se o be-
neficiar (coisa julgada secundum eventum litis in utilibus);
b) O indivíduo que intervém estará vinculado ao resultado do
processo, mesmo se negativo (coisa julgada pro et contra).
Apesar dessa sistemática legal, o Superior Tribunal de justiça já
definiu que a falta de publicação do edital não impede a produção
de efeitos erga omnes de sentença de procedência relativa a direi-
tos individuais homogêneos.
Como entende a jurisprudência?
Desse modo, os efeitos do acórdão em discussão nos presentes autos são
erga omnes, abrangendo a todas as pessoas enquadráveis na situação
do substituído, independentemente da competência do órgão prolator da
decisão. Não fosse assim, haveria graves limitações à extensão e às po-
tencialidades da ação civil pública, o que não se pode admitir.
A ausência de publicação do edital previsto no art. 94 do CDC, com vistas a
intimar os eventuais interessados da possibilidade de intervirem no pro-
cesso como litisconsortes, constitui vício sanável, que não gera nulidade
apta a induzir a extinção da ação civil pública, porquanto, sendo regra
favorável ao consumidor, como tal deve ser interpretada.
Recurso especial a que se dá provimento, a fimde reconhecer que a falta
de publicação do edital previsto no art. 94 do CDC não obsta a concessão
de efeito erga omnes ao acórdão recorrido. (STI, REsp 1377400/SC, Rel. Mi-
nistro Og Fernandes, Segundo Turma, julgado em 18/02/2014)
A natureza jurídica dessa intervenção é também controvertida.
Primeira corrente (Ada Pellegrini Grinover, Elton Venturi): se
trata de litisconsórcio, com a peculiaridade de não poder o
indivíduo realizar novos pedidos;
140 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Segunda corrente (Fredie Didier Jr, Hermes Zaneti Jr, Luiz Paulo
de Araújo Filho, Ricardo de Barros Leonel): se trata de assis-
tência litisconsorcial, porque o indivíduo não possui legitimida-
de para o ajuizamento autônomo;
3) Terceira corrente (Joaquim Spadoni): se trata de assistência
coletiva simples, com a peculiaridade de que não existe, a
rigor, interesse jurídico para a intervenção, por conta da coisa
julgada apenas pro formada;
4) Quarta corrente (Daniel Assumpção Neves): se trata de inter-
venção atípica, já que não se trata de litisconsórcio, como
aponta a segunda corrente, nem de assistência, como aponta
a terceira corrente.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(MPE/GO - 2019 - MPE/G0- Promotor de justiça) Em se tratando da de-
fesa dos interesses ou direitos individuais homogêneos, o próprio Có-
digo de Defesa do Consumidor admite expressamente o litisconsórcio
ulterior dos indivíduos lesados (interessados).
A alternativa foi considerada correta.
Se o termo inicial do pedido é claro (desde a propositura da
ação, desde que o indivíduo tome ciência dela), é debatido o termo
final, isto é, até quando poderia haver o requerimento, que a lei não
elucida. Para os autores que consideram se tratar de assistência, não
existe limitação temporal (art. 119, parágrafo único do CPC).
Outra discussão importante diz respeito à possibilidade ou
não de, em o legitimado originário abandonando a ação, poderia o
indivíduo assumir a demanda sozinho.
Primeira corrente (Fredie Didier Jr, Hermes Zaneti Jr): é pos-
sível a assunção exclusiva do polo ativo pelo indivíduo, até
porque o legislador não rechaçou tal hipótese;
Segunda corrente (Adriano Andrade, Cleber Masson, Landolfo
Andrade): não é possível a assunção, estendendo para esse
momento a ausência de legitimidade para o ajuizamento.
3. INTERVENÇÃO DO MINISTÉRIO PÚBLICO E DA DEFENSORIA PÚBLICA
O microssistema traz a necessidade de intervenção do minis
tério Público nos processos coletivos como fiscal do ordenamento
Cap • Litisconsórcio e Intervenções 141
jurídico (custos iuris). Desse modo, caso não seja o autor da ação,
o Parquet nela participará.
No tocante à Lei de Ação Popular, existe vedação expressa à
defesa do ato impugnado pelo Ministério Público.
1 0 que diz a lei?
LACP: Art. 50, § O Ministério Público, se não intervier no processo como
parte, atuará obrigatoriamente como fiscal da lei.
LAP: Art. 6., § 4. 0 Ministério Público acompanhará a ação, cabendo-lhe
apressar a produção da prova e promover a responsabilidade, civil ou cri-
minal, dos que nela incidirem, sendo-lhe vedado, em qualquer hipótese,
assumir a defesa do ato impugnado ou dos seus autores.
LIA: Art. 17, § 40 O Ministério Público, se não intervier no processo como
parte, atuará obrigatoriamente, como fiscal da lei, sob pena de nulidade.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - Polícia civil/MA - Delegado de Polícia) O MP de determi-
nado estado da Federação ajuizou uma ação civil pública por improbi-
dade administrativa contra determinado servidor estadual.
Nessa situação hipotética, a ação civil pública será integrada pelo MP
na qualidade de custos legis.
A alternativa foi considerada incorreta.
(CESPE - 2017 - TRE/PE - Analista Judiciário) Em ação de improbidade
administrativa, é facultado ao Ministério Público agir no processo como
fiscal da lei, desde que ele não atue como parte.
A alternativa foi considerada incorreta, pois a intervenção é obrigatória.
(MPE/PR - 2019 - MPE/PR - Promotor de Justiça) Nos termos da Lei n.
4.717/1965 (Lei da Ação Popular), ao Ministério Público é vedado, em
qualquer hipótese, assumir a defesa do ato impugnado.
A alternativa foi considerada correta.
Por sua vez, vem crescendo a aceitação da tese de interven-
ção da Defensoria Pública como custos vulnerabilis (fiscal dos di-
reitos dos vulneráveis), também chamada de amicus communitas
ou amicus plebis (Camilo Zufelato), trabalhada pela doutrina insti-
tucional (Maurilio Maia, Jorge Bheron Rocha, Edilson Santana Filho),
decorrendo da própria função constitucional da Defensoria (art.
134 da CF).
142 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Enquanto a intervenção do Ministério Público se dá com base
em parâmetros objetivos (tutela do ordenamento), a da Defensoria
Pública se pauta em elemento subjetivo (direitos dos vulneráveis).
Essa intervenção é especialmente viável em:
a) Ações coletivas, onde pode ser requerida analogicamen-
te ao previsto para os amid curiae (art. 138 do CPC);
b) Incidentes formadores de precedentes, onde pode ser
requerida com base nos arts. 1.038, I, e 983 do CPC.
A nova figura vem sendo admitida pela jurisprudência dos tri-
bunais locais, desde ações coletivas e possessórias até processos
criminais.
Por sua vez, o Superior Tribunal de justiça autorizou, em deci-
são pioneira, a Defensoria Pública da União a participar em recurso
especial repetitivo.
Como entende a jurisprudência?
Embargos de declaração acolhidos, em parte, apenas para admitir a DPU
como custos vulnerabilis. (EDcl no REsp 1712163/SP, Rel. Ministro Moura
Ribeiro, Segundo Seção, julgado em 25/09/2019)
Em outra ocasião, o tribunal admitiu a intervenção da Defenso-
ria Pública da União como custos vulnerabilis para atuar em habeas
corpus coletivo impetrado em favor dos presos provisórios em ra-
zão da não prestação de fiança, no contexto da pandemia.
Como entende a jurisprudência?
Apesar de não existir previsão legal para a figura do custos vulnerabi-
lis, depreende-se de alguns dispositivos legais a chancela para a sua
admissão.
O art. 134 da Constituição Federal de 1988 tutela que: A Defensoria Públi-
ca é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado,
incumbindo-lhe, como expressão e instrumento do regime democrático,
fundamentalmente, a orientação jurídica, a promoção dos direitos huma-
nos e a defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos
individuais e coletivos, de forma integral e gratuita, aos necessitados, na
forma do inciso LXXIV do art. 5. desta Constituição Federal.
já o art. 1.038, I, do Novo Código de Processo Civil, emprestado ao proces-
so penal por meio de aplicação analógica expressamente autorizada pelo
artigo 3. do Código de Processo Penal, estabelece que o relator poderá
Cap. VIII • Litisconsórcio e Intervenções 143
solicitar ou admitir manifestação de pessoas, órgãos ou entidades com
interesse na controvérsia, considerando a relevância da matéria e con-
soante dispuser o regimento interno.
In casu, como já ressaltado, trata-se da defesa de presos - que praticaram
atos de menor gravidade - que não possuem condições financeiras de
saldar o valor estipulado a título de fiança e por isso permanecem presos
(ainda que em período reconhecido como de pandemia). Ora, a vulnerabi-
lidade econômica do grupo social que aqui se avulta é patente, mas, além
dela, trata-se, também, de pessoas em vulnerabilidade social.
No mais, também não há dúvida de que ao tratar de prisão de pessoas em
vulnerabilidade econômica e social em presídios com superlotação e insalu-
bridade em tempos de COVID-19, estamos tratando de direitos humanos, vez
que se defende, aqui, a liberdade como direito civil e também a liberdade
real advinda dos direitos sociais. Assim, defiro o pedido da Defensoria Pú-
blica da União para atuar no feito como custos vulnerabilis. (Petno Habeas
Corpus No 568.693 - ES, Ministro Sebastião Reis júnior, 03/04/2020)
) Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(FUNDEP - 2019 - DPE/MG - Defensor Público) Em conflitos urbanos, v.g.,
envolvendo invasões ou regularização fundiária, poderá a Defensoria
Pública atuar na defesa autônoma e coletiva como custus vulnerabilis,
bem como na defesa individual dos acionados.
A alternativa foi considerada correta.
4. INTERVENÇÃO DE TERCEIROS
A assistência é admitida, nos moldes do Código Fux, com as
peculiares hipóteses de intervenção mencionadas acima, cuja natu-
reza jurídica não é pacífica, como visto.
A admissão de denunciação da lide é controvertida.
1) Primeira corrente (Hugo Nigro Mazzilli): a denunciação é sem-
pre vedada, por não haver previsão no microssistema;
2) Segunda corrente (Daniel Assumpção Neves, Fredie Didier Jr,
Hermes Zaneti Jr, Ada Pellegrini Crinover): a denunciação deve
ser, como regra, admitida, com base no CPC, para homenagear
a eficiência e a economia processual. Em duas hipóteses, po-
rém, a denunciação não será cabível, quando:
o A relação principal discutir responsabilidade objetiva
e a secundária envolver responsabilidade subjetiva,
144 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
por conta da teoria da dupla garantia, adotada pelo
STF e pelo STJ;
ii) A matéria em debate envolver responsabilidade do
fornecedor, conforme vedação expressa do CDC, es-
tendida pelo STJ para toda hipótese de responsabi-
lidade, não apenas do comerciante.
I 0 que diz a lei?
CDC: Art. 88. Na hipótese do art. 13, parágrafo único deste código, a ação
de regresso poderá ser ajuizada em processo autônomo, facultada a pos-
sibilidade de prosseguir-se nos mesmos autos, vedada a denunciação da
lide.
Como entende a jurisprudência?
A vedação à denunciação da lide prevista no art. 88 do CDC não se res-
tringe à responsabilidade de comerciante por fato do produto (art. 13 do
CDC), sendo aplicável também nas demais hipóteses de responsabilidade
civil por acidentes de consumo (arts. 12 e 14 do CDC) (STJ, REsp n. 1.165.279/
SP, Relator Ministro Paulo De Tarso Sanseverino, Terceira Turma, julgado
em 22/05/2012).
0 chamamento ao processo também é aceito, pela doutrina
em geral, apesar do entendimento que reputa que a vedação do
CDC, na verdade, diz respeito ao chamamento, por conta da solida-
riedade (Fredie Didier, Hermes Zaneti).
o amicus curiae tem campo fértil para atuação na tutela co-
letiva, objetivando subsidiar o magistrado com o maior número
possível de elementos, para que a decisão seja a mais efetiva e
adequada possível ao caso concreto.
a
Capítulo
Competência
1. COMPETÊNCIA DE JUSTIÇA
A primeira etapa para descobrir o juízo competente para jul-
gar uma demanda é indagar a justiça competente - o que é res-
pondido pela CF.
Na tutela coletiva, não existe exceção específica às regras ge-
rais, cabendo indagar se há interesse da justiça do Trabalho, da
Eleitoral, da Militar e, senão, procurar se a matéria ou a pessoa
envolvida atrai a competência da justiça Federal, ou, senão, se será
hipótese tie julgamento pela residual justiça Estadual.
Nesse ponto, um questionamento interessante é se o simples
fato de a ação ser movida pelo Ministério Público Federal já atrai
a competência da justiça Federal.
Os tribunais superiores e a doutrina tendem a concluir que, se
a matéria não atrair a competência da justiça Federal e tampouco
houver intervenção, fundada, das pessoas que atraiam o processo
para uma vara federal, o processo deve correr na justiça comum.
Como entende a jurisprudência?
STF: AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EXTRAORDINÁRIO. CONSTITUCIONAL. COM-
PETÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL AO QUAL SE NEGA PROVIMENTO. 1. O Supremo
Tribunal Federal assentou que a circunstância de figurar o Ministério Pú-
blico Federal como parte na lide não é suficiente para determinar a
competência da justiça Federal para o julgamento da lide. 2. Compete
à justiça comum processar e julgar as causas em que é parte sociedade
de economia mista, exceto se houver interesse jurídico da União no feito.
(STF, RE 596836 AgR, Relator(a): Min. Cármen Lúcia, Primeira Turma, julgado
em 10/05/2011).
146 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
ST): Via de regra, o simples fato de a ação ter sido ajuizada pelo Ministério
Público Federal implica, por si só, a competência da justiça Federal, por
aplicação do art. 109, I, da Constituição, já que o MPF é parte da União.
Contudo, a questão de uma ação ter sido ajuizada pelo MPF não garante
que ela terá sentença de mérito na justiça Federal, pois é possível que se
conclua pela ilegitimidade ativa do Parquet Federal, diante de eventual
falta de atribuição para atuar no feito. (RMS 56.135/SP, Rel. Ministro Her-
man Benjamin, Segundo Turma, julgado em 17/09/2019)
Em outro sentido, concluindo na linha da atração automática da compe-
tência da justiça Federal: Segundo mandamento constitucional, o fato de
a demanda ter sido ajuizada pelo Parquet Federal, por si só, determina
a competência da Justiça Federal. 3. "Em ação proposta pelo Ministério
Público Federal, órgão da União, somente a justiça Federal está constitu-
cionalmente habilitada a proferir sentença que vincule tal órgão, ainda
que seja sentença negando a sua legitimação ativa" (CC 40534/R1, Rel. Min.
Teori Albino Zavaski, DIU de 17.05.04). 4. Agravo regimental não provido.
(AgRg no CC io7.638/SP, Rel. Ministro Castro Meira, Primeira Seção, julgado
em 28/03/2014
2. COMPETÊNCIA DE FORO
A grande peculiaridade da determinação do juízo competente
na tutela coletiva diz respeito à escolha do foro competente, se-
gunda etapa na concretização da competência.
2.1. Ação civil pública
A matéria é tratada no núcleo duro do microssistema (art. 20
da LACP e art. 93 do CDC). Excepcionalmente, há outras previsões
em diplomas específicos.
0 que diz a lei?
LACP: Art. 2. As ações previstas nesta Lei serão propostas no foro do
local onde ocorrer o dano, cujo juízo terá competência funcional para
processar e julgar a causa.
CDC: Art. 93. Ressalvada a competência da justiça Federal, é competente
para a causa a justiça local:
- no foro do lugar onde ocorreu ou deva ocorrer o dano, quando de
âmbito local;
II - no foro da Capital do Estado ou no do Distrito Federal, para os danos
de âmbito nacional ou regional, aplicando-se as regras do Código de Pro-
cesso Civil aos casos de competência concorrente.
4) IX • Competência 147
A própria lei dá um palpite doutrinário e aponta que a na-
tureza das regras é de competência funcional - ou seja, espécie
de competência ditada pela função desempenhada por um órgão
julgador. Outra parcela doutrinária prefere considerar que o mais
acertado seria reputá-la como competência territorial absoluta.
De todo modo, o que interessa é saber que a competência
tem natureza absoluta, com todas as implicações daí decorrentes.
Tomando como base os dois dispositivos mencionados, tem-se
a determinação da competência de foro com base no critério da
extensão do dano:
a) Dano local: o foro competente será o do local onde ocor-
reu (tutela repressiva) ou onde deveria ocorrer (tutela
preventiva) o dano (art. 20 da LACP e art. 93, I, do CDC);
b) Dano regional: o foro competente será o da capital do
Estado ou do Distrito Federal (art. 93, II, do CDC);
c) Dano nacional: o foro competente será o da capital do
Estado ou do Distrito Federal (art. 93, II, do CDC).
Seguindo a literalidade do art. 93, II, do CDC, o STJ e a maior
parte da doutrina (Aluisio Mendes, Daniel Assumpção Neves) enten-
de que, sendo regional ou nacional o dano, cabe ao autor escolher
entre o dano da capital do Estado ou do DF.
Como entende a jurisprudência?
Tratando-se de dano de âmbito nacional, que atinja consumidores de mais
de uma região, a ação civil pública será de competência de uma das varas
do Distrito Federal ou da Capital de um dos Estados, a escolha do autor.
(CC 112.235/DF,Rel. Ministra Maria Isabel Gallon', Segundo Seção, julgado
em 09/02/2011).
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - TRE/PE - Analista Judiciário)
O processamento e o julgamento das ações civis públicas competem ao
juízo do domicílio do causador do dano.
A alternativa foi considerada incorreta.
Se houver ajuizamento em mais de um local, cabe reconhecer
a litispendência ou a conexão/continência, reunindo-as para julga-
mento no juízo prevento.
148 Processo Coletivo - Vol. 54 • Jose Roberto Mello Porto
A grande dificuldade é estabelecer a distinção entre dano lo-
cal, regional e nacional - especialmente, o dano regional, que, uma
vez definido, permite compreender os demais.
Primeira corrente (Ricardo de Barros Leonel): dano regional é,
aproximadamente, o dano estadual, desde que atinja a maior
parte ou número considerável de cidades (STJ, REsp 1101057/
MT, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em
07/04/2011);
2) Segunda corrente: dano regional é o dano que atinge mais de
uma comarca;
3) Terceira corrente (Felippe Borring): dano regional é o que
atinge mais de duas (ou "não poucas comarcas" do mesmo
estado);
4) Quarta corrente (Anteprojeto de Código Brasileiro de Processo
Coletivo, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Direito Proces-
sual): dano regional é o que atinge mais de quatro comarcas;
5) Quinta corrente (Fredie Didier e Hermes Zaneti): não deve ha-
ver critério rígido para a determinação do dano regional, não
bastando que atinja determinado número de comarcas ou que
atinja um estado inteiro.
Essa verdadeira falta de critério doutrinário também é perce-
bida quanto ao dano nacional:
1) Primeira corrente: dano nacional é o que atinge mais de um es-
tado, mas sem caráter puramente concentrado (AgRg no REsp
789.122/MG, Rel. Ministro Francisco Falcão, Primeira Turma, jul-
gado em 02/10/2008 e REsp 1018214/PR, Rel. Ministro Mauro
Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 02/06/2009);
Segunda corrente (Adriano Andrade, Cleber Masson, Landolfo
Andrade): dano nacional é o que atinge todo o país (CC 26.842/
DF, Rel. Ministro Waldemar Zveiter, Rel. p/ Acórdão Ministro Ce-
sar Asfor Rocha, Segunda Seção, julgado em 10/10/2001).
Tamanha indefinição leva à conclusão de que o fundamental
é a análise concreta do dano, fazendo surgir a proposta doutriná-
ria (Fredie Didier Jr; Hermes Zaneti Jr, Daniel Assumpção Neves) do
princípio da competência adequada, que procura uma verdadeira
proximidade com o local de ocorrência do dano ou do ato ilícito,
) !\ • Competência 149
passando a haver filtro pelo julgador, evitando-se o chamado forum
shopping.
Na jurisprudência, não há a adoção, ainda, de tal princípio,
mas, com base na efetividade, o STJ já apontou que a melhor saída,
em processo de dano ambiental, seria a competência do juízo do
local afetado (AgRg no CC 118.o23/DF, Rel. Ministro Benedito Gonçal-
ves, Primeira Seção, julgado em 28/03/2012).
Apesar desse tratamento geral sobre a competência territo-
rial, alguns diplomas trazem regras próprias para a ACP, como o
ECA e o El:
0 que diz a lei?
ECA: Art. 209. As ações previstas neste Capítulo serão propostas no foro
do local onde ocorreu ou deva ocorrer a ação ou omissão, cujo juízo
terá competência absoluta para processar a causa, ressalvadas a com-
petência da justiça Federal e a competência originária dos tribunais
superiores.
El: Art. 80. As ações previstas neste Capítulo serão propostas no foro
do domicílio do idoso, cujo juízo terá competência absoluta para pro-
cessar a causa, ressalvadas as competências da justiça Federal e a
competência originária dos Tribunais Superiores.
a) ECA: competência do local da ação ou da omissão. (teo-
ria da atividade). A regra é prestigiada pela doutrina
e pelo STJ (STJ, REsp 1191446/DF, Rel. Ministro Gurgel de
Faria, Primeira Turma, julgado em 15/08/2017);
1)'; El: competência do local do domicílio do idoso. Parte da
doutrina critica a regra, por criar uma aparente plurali-
dade de foros, e parte da doutrina entende que se trata
de mera repetição da regra geral do microssistema, fo-
cada no local do dano.
2.2. Ação popular
A LAP não trata da competência de foro. Duas posições discu-
tem a lacuna, na doutrina:
1, Primeira corrente (Daniel Assumpção Neves, Fredie Didier JR,
Hermes Zaneti Jr): devem ser aplicadas as regras gerais do
microssistema (local do dano), garantindo unidade;
150 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
2) Segunda corrente (Susana Henriques da Costa): devem ser
aplicadas as regras da CF e do CPC - local do domicílio do au-
tor, local do fato, local do bem ou no Distrito Federal.
O STJ possui jurisprudência nesse último sentido.
Como entende a jurisprudência?
Considerando a necessidade de assegurar o cumprimento do preceito
constitucional que garante a todo cidadão a defesa de interesses cole-
tivos (art. 5., LXXIII), devem ser empregadas as regras de competência
constantes do Código de Processo Civil - cuja aplicação está prevista na
Lei 4.717/65 -, haja vista serem as que melhor atendem a esse propósito.
Nos termos do inciso I do art. 99 do CPC, para as causas em que a União
for ré, é competente o foro da Capital do Estado. Esse dispositivo, toda-
via, deve ser interpretado em conformidade com o § 2° do art. 109 da
Constituição Federal, de modo que, em tal caso, "poderá o autor propor
a ação no foro de seu domicfiio, no foro do local do ato ou fato, no
foro da situação do bem ou no foro do Distrito Federal" (PIZZOL, Patrícia
Miranda. "Código de Processo Civil Interpretado", Coordenador Antônio
Carlos Marca to, São Paulo: Editora Atlas, 2004, p. 269). Trata-se, assim, de
competência concorrente, ou seja, a ação pode ser ajuizada em quaisquer
desses foros. (CC 47.950/DF, Rel. Ministra Denise Arruda, Primeira Seção, DJ
7/5/200).
A citada Lei 4.717/65, entretanto, em nenhum momento fixa o foro em que
a ação popular deve ser ajuizada, dispondo, apenas, em seu art. 22, se-
rem aplicáveis as regras do Código de Processo Civil, naquilo em que não
contrariem os dispositivos da Lei, nem a natureza específica da ação. Por-
tanto, para se fixar o foro competente para apreciar a ação em comento,
mostra-se necessário considerar o objetivo maior da ação popular, isto é,
o que esse instrumento previsto na Carta Magna, e colocado à disposição
do cidadão, visa proporcionar" (CC 47.954F, Rel. Ministra Denise Arruda,
Primeira Seção, DIU de 07.05.07) (CC 107.109/RJ, Rel. Ministro Castro Meira,
Primeira Seção, julgado em 24/02/2010)
Pontualmente, contudo, o tribunal realizou distinguishing, es-
pecialmente em ação popular em matéria ambiental, entendendo
que a melhor leitura seja à luz do microssistema (local do dano) e,
subsidiariamente apenas, do CPC. O caso concreto (ação popular
sobre o desastre de Brumadinho) trazia a peculiaridade de que
havia outras ações coletivas e múltiplas ações individuais sobre a
questão.
Cap. 1X. • Competência 151
Como entende a jurisprudência?
Deveras a Lei de Ação Popular (Lei 4.717/1965) não contém regras de defi-
nição do foro competente.
À época de sua edição, ainda não vigorava a Lei da Ação Civil Pública
(Lei 7.347/1985); portanto se utilizava, até então, o CPC, subsidiariamente.
Todavia, com a promulgação da retromencionada Lei 7.347/1985, a apli-
cação subsidiária do CPC passou a ser reservada àqueles casos para os
quais as regras próprias do processo coletivo também não se revelassem
suficientes.
Nesse contexto, a definição do foro competente para a apreciação da
Ação Popular, máxime em temas como o de direito ambiental, reclama a
aplicação, por analogia, da regra pertinente contida no artigo 2. da Lei da
Ação Civil Pública. Tal medida se mostra consentânea com os princípios
do Direito Ambiental, por assegurar a apuração dos fatos pelo órgão ju-
dicante que detém maior proximidade com o local do dano e, portanto,
revela melhor capacidade de colheras provas de maneira célere e de
examiná-las no contexto de sua produção.
É verdade que, ao instituir a Ação Popular, o legislador constituinte bus-
cou privilegiar o exercício da fiscalização e da própria democracia pelo
cidadão. Disso não decorre, contudo, que as Ações Populares devam ser
sempre distribuídas no foro mais conveniente a ele; neste caso, o de seu
domicilio. Isso porque, casos haverá, como o destes autos, em que a de-
fesa do interesse coletivo será mais bem realizada no local do ato que,
por meio da ação, o cidadão pretenda ver anulado. Nessas hipóteses, a
sobreposição do foro do domicílio do autor ao foro onde ocorreu o dano
ambiental acarretará prejuízo ao próprio interesse material coletivo tu-
telado por intermédio desta ação, em benefício do interesse processual
individual do cidadão, em manifesto afronta à finalidade mesma da de-
manda por ele ajuizada.
Cumpre destacar que, devido ao processamento eletrônico, as dificulda-
des decorrentes da redistribuição para local distante do domicilio do au-
tor são significativamente minimizadas, se não totalmente afastadas, em
decorrência da possibilidade de acesso integral aos autos por meio do
sistema de movimentação processual.
Na presente hipótese, é mais razoável determinar que o foro competente
para julgamento desta Ação Popular seja o do local do fato. Logo, como
medida para assegurar a efetividade da prestação jurisdicional e a defe-
sa do meio ambiente, entende-se que a competência para processamento
e julgamento do presente feito é da 17« Vara Federal da Seção Judiciária
do Estado de Minas Gerais. (CC 164.362/MG, Rel. Ministro Herman Benjamin,
Primeira Seção, julgado em 12/06/2019)
152 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
2.3. Ação de improbidade administrativa
Também a LIA silencia a respeito da competência territorial.
Duas interpretações são extraídas:
Primeira corrente (Daniel Assumpção Neves): devem ser apli-
cadas as regras gerais do microssistema (local do dano).
Segunda corrente (Susana Henriques da Costa): devem ser
aplicadas as regras do CPC, logo, se houver pedido de repara-
ção ao erário, o correto será o foro do local do ato de impro-
bidade (art. 53, IV, a, do CPC).
O STJ possui decisão no primeiro sentido.
Como entende a jurisprudência?
ADMINISTRATIVO. PROCESSO CIVIL. IMPROBIDADE. COMPETÊNCIA. LOCAL DO DANO.
MATÉRIA FÁTICO-PROBATÓRIA. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 7/STI. SÚMULA 83/STJ. RE-
CURSO ESPECIAL. ALÍNEA "C". NÃO DEMONSTRAÇÃO DA DIVERGÊNCIA. OFENSA
AO ART. 535 DO CPC NÃO CONFIGURADA. AGRAVO NÃO PROVIDO. 1. Cuida-se de
Recurso Especial interposto contra Acórdão da Segundo Seção do Tribunal
Regional Federal da 3. Região, que conheceu do conflito de competência
suscitado nos autos de Ação de Improbidade Administrativa, pelo juízo da
3. Vara Federal de Sorocaba/SP em face do juízo da 3. Vara Federal de
Bauru/SP, para declarar competente o juízo suscitado, sob o fundamento
de que, no caso dos autos, o local em que ocorridos os danos à Adminis-
tração Pública fora o Município de Bauru, onde consumados os atos ím-
probos praticados, em favor de pessoas físicas e empresas privadas, por
empregados e dirigentes da Diretoria Regional dos Correios de Bauru. 2. 0
Tribunal a quo declarou competente o juízo da 3« Vara Federal de Bauru e
consignou na sua decisão: "Assim, uma vez identificado o dano em ques-
tão como a ofensa a integridade e aos princípios da Administração Públi-
ca, exsurge, que o local em que tal dano ocorreu coincide com o da pratica
dos atos de improbidade, vale dizer, o dano ocorreu justamente no local
onde ultimadas as transferências das ACF's, com a participação de empre-
gados e dirigentes da Diretoria Regional dos Correios de Bauru. Significa
dizer que o dano foi suportado pela ECT, no caso, na sede administrativa
localizada em Bauru" (fl. 571, grifo acrescentado). 3. Portanto, quanto ao
local do dano, o Tribunal de origem entendeu que foi na sede adminis-
trativa de Bauru. 4. A jurisprudência desta Corte possui entendimento de
que a competência para julgamento de demanda coletiva deve ser a do
local do dano. (AgRg nos EDcl no CC i2o.iii/DF, Rel. Ministra Eliana Calmon,
Primeira Seção, julgado em 8.5.2013, Die 17.5.2013). (AgRg no REsp 2447388/
SP, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segundo Turma, julgado em 12/02/2015)
Cap, . Competência 153
2.4. Mandado de segurança coletivo
O foro competente, quando não houver foro por prerroga-
tiva de função, será o do local onde a autoridade exerce suas
atividades.
Se forem mais de uma as autoridades coatoras, haverá foros con-
correntes, à escolha do impetrante. Porém, se existir hierarquia entre
elas, prevalecerá o local de exercício funcional da autoridade superior.
2.5. Quadro síntese
Ação civil pública Local do dano
Ação civil pública (matéria do ECA) Local da conduta (ação ou omissão)
Ação civil pública (matéria do El) Domicílio do idoso
Ação popular
Lei: silente
STJ: Regras do cc e da CF
Ação de improbidade
administrativa
Lei: silente
511: local do dano
Mandado de segurança coletivo Local de exercício da autoridade coatora
3. COMPETÊNCIA DE JUÍZO
Na terceira etapa de determinação da competência, chega-se
ao órgão que deverá julgar o conflito. Aqui, mais uma vez, impor-
tarão as regras de competência em razão da matéria, da pessoa
(atraindo o processo para uma vara fazendária, por exemplo), e,
também, do valor da causa.
No processo coletivo, duas questões merecem atenção:
a) Quando a ação coletiva envolver direitos das crianças
e adolescentes, devem correr na vara da infância e da
juventude (STJ, REsp 1684694/MA, Rel. Ministro Herman
Benjamin, Segunda Turma, julgado em 21/11/2017), mesmo
quando não houver situação de risco (STJ, REsp 1217380/
SE, Rel. Ministro Castro Meira, Segunda Turma, julgado em
10/05/ 2011);
Nos juizados especiais fazendários e nos juizados es-
peciais federais, existe vedação para o trâmite de ação
coletiva (art. 3., §10, I, da lei 10.259/01 e o art. 20, §10, I,
da lei 12.153/09).
154 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Inclusive, o Superior Tribunal de justiça entende que os juiza-
dos especiais fazendários não possuem competência para julga-
mento de execuções individuais de sentenças coletivas (que se en-
quadrassem no valor máximo de sua competência), bem como que
não se pode usar o rito sumaríssimo nas varas fazendárias comuns
que julgarão essas execuções. Uma vedação completa, portanto.
Como entende a jurisprudência?
Fixa-se a seguinte tese repetitiva para o Tema i.029/S71: "Não é possível
propor nos juizados Especiais da Fazenda Pública a execução de título
executivo formado em Ação Coletiva que tramitou sob o rito ordinário,
assim como impor o rito sumaríssimo da Lei 12.153/zoo9 ao juízo comum
da execução." (REsp 18a4186/SC, Rel. Ministro Herman Benjamin, Primeira
Seção, julgado em 12/08/2020 - Tema 1.029 dos Recursos Repetitivos)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - PGE-PE - Procurador do Estado) Observada a regra
que determina que o valor da causa não pode ultrapassar o limite de
sessenta salários mínimos, o juizado especial da fazenda pública pos-
sui competência para julgar ação civil pública para a tutela de direito
difuso decorrente de dano ambiental simples.
A alternativa foi considerada incorreta.
Nos juizados especiais cíveis, não há menção legal. A doutrina
diverge acerca do cabimento:
Primeira corrente (Luis Felipe Salomão): o CDC permite, implici-
tamente, o ajuizamento, devendo ser desconsiderado o valor
da causa;
Segunda corrente (Felippe Borring Rocha): é impossível o ajui-
zamento, por conta do teto de valor estabelecido, da restrição
de legitimados e das peculiaridades procedimentais.
Por fim, existe uma importante discussão quanto à existência
de foro por prerrogativa de função na ação de improbidade admi-
nistrativo, haja vista seu caráter sancionador.
Primeira corrente (Teori Zavascki,Hely Lopes Meirelles, Arnold
Wald e Gilmar Mendes): pela teoria das competências implíci-
tas complementares, deve-se estender o foro por prerrogativa
de função previsto para os processos criminais;
• Competência 155
Segunda corrente (Daniel Assumpção Neves, Emerson Garcia):
deve-se respeitar a intenção do constituinte, que não previu
competência originária de tribunal para tal demanda.
O Supremo Tribunal Federal segue esse segundo posicionamen-
to, afastando a competência originária de tribunais. O ST] também
segue o entendimento, apenas o tendo excepcionado, pontualmen-
te, para governadores, fundamentando-se na exceção feita pelo
STF quanto a seus próprios membros.
Como entende a jurisprudência?
STF: DIREITO CONSTITUCIONAL. AGRAVO INTERNO EM AGRAVO DE INSTRUMENTO.
AÇÃO DE IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA. FORO DIFERENCIADO. INEXISTÊNCIA.
PRECEDENTES. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é firme no
sentido de que inexiste foro por prerrogativa de função nas ações de
improbidade administrativa proposta, em razão do seu nítido caráter
civil. Precedentes. (Al 762136 AgR, Relator(a): Min. Roberto Barroso, Primei-
ra Turma, julgado em 26/10/2018).
STJ: As regras constitucionais de competência dos tribunais superiores têm
natureza excepcional. Portanto, a interpretação deve ser restritiva. O foro
por prerrogativa de função se limita às ações penais. Não há previsão
de foro por prerrogativa de função para as ações de improbidade admi-
nistrativa. Pelo contrário, extrai-se do art. 37, §40, da Constituição Fede-
ral que a perda da função pública é sanção político-administrativa, que
independe de ação penal. Se é verdade que existe um voto em sentido
contrário do Min. Teori Zavascki na Pet. n. 3.240 - com pedido de vista do
Min. Roberto Barroso (Informativo n. 768/STF) -, não é menos exato afirmar
que a jurisprudência do guardião da Constituição já está consolidada (ADI
2.797; Pet 3.067; RE 377.114 AgR). (AgRg Mt Rd 10.037/MT, Rel. Ministro Luis
Felipe Salomão, Corte Especial, julgado em 21/10/2015)
Exceção para governadores: Constitucional. Competência. Ação de im-
probidade contra Governador de Estado. Duplo regime sancionatório dos
agentes políticos: legitimidade. Foro por prerrogativa de função: reconhe-
cimento. Usurpação de competência do ST). Procedência parcial da Recla-
mação. 1. Excetuada a hipótese de atos de improbidade praticados pelo
Presidente da República (art. 85, V), cujo julgamento se dá em regime es-
pecial pelo Senado Federal (art. 86), não há norma constitucional alguma
que imunize os agentes políticos, sujeitos a crime de responsabilidade,
de qualquer das sanções por ato de improbidade previstas no art. 37,
§ 4°. Seria incompatível com a Constituição eventual preceito normativo
infraconstitucional que impusesse imunidade dessa natureza. 2. Por de-
cisão de 13 de março de 2008, a Suprema Corte, com apenas um voto
contrário, declarou que compete ao Supremo Tribunal Federal julgar ação
156 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
de improbidade contra seus membros (QO na Pet. 3.211-o, Min. Menezes
Direito, DI 27.06.2008). Considerou, para tanto, que a prerrogativa de foro,
em casos tais, decorre diretamente do sistema de competências estabele-
cido na Constituição, que assegura a seus Ministros foro por prerrogativa
de função, tanto em crimes comuns, na própria Corte, quanto em crimes
de responsabilidade, no Senado Federal. Por isso, "seria absurdo ou o
máximo do contra-senso conceber que ordem jurídica permita que Minis-
tro possa ser julgado por outro órgão em ação diversa, mas entre cujas
sanções está também a perda do cargo. Isto seria a desestruturação de
todo o sistema que fundamenta a distribuição da competência" (voto do
Min.Cezar Peluso). 3. Esses mesmos fundamentos de natureza sistemática
autorizam a concluir, por imposição lógica de coerência interpretativa, que
norma infraconstitucional não pode atribuir a juiz de primeiro grau o jul-
gamento de ação de improbidade administrativa, com possível aplicação
da pena de perda do cargo, contra Governador do Estado, que, a exemplo
dos Ministros do STF, também tem assegurado foro por prerrogativa de
função, tanto em crimes comuns (perante o STD, quanto em crimes de
responsabilidade (perante a respectiva Assembléia Legislativa). É de se
reconhecer que, por inafastável simetria com o que ocorre em relação aos
crimes comuns (CF, artio5, I, a), há, em casos tais, competência implícita
complementar do Superior Tribunal de justiça. 4. Reclamação procedente,
em parte. (Pc! 2.79o/SC, Rel. Ministro Teori Albino Zavascki, Corte Especial,
julgado em 02/12/20o9, Die 04/03/2010)
Em 2002, a Lei 10.628/02 passou a prever a prerrogativa de fun-
ção, nos parágrafos io e 20 no art. 84 do Código de Processo Penal.
O Supremo Tribunal, considerou inconstitucionais os dispositivos,
por violar a reserva constitucional para previsão de competência
originária de tribunais (ADI 2797, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, Tri-
bunal Pleno, julgado em 15/09/2005).
A propósito, não se deve confundir, como notado pelo STJ, a
ação em que se pede a perda do cargo em decorrência de ato de
improbidade e aquela em que se busca a perda do cargo por infra-
ções disciplinares. Nessa última, a legislação prevê a competência
originária de tribunal para julgar certos agentes, como promotores
de justiça, ainda que afastados da atividade (REsp 1737900/SP, Rel.
Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, julgado em 19/11/2019).
Aqui, apenas se deve mencionar a existência de competência
originária de tribunais para o julgamento do mandado de seguran-
e do mandando de injunção, com extensão para as modalidades
coletivas, quando o impetrado estiver no rol constitucional.
›. • Competência 157
O que diz a Constituição?
Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda
da Constituição, cabendo-lhe:
I - processar e julgar, originariamente:
d) o habeas corpus, sendo paciente qualquer das pessoas referidas nas
alíneas anteriores; o mandado de segurança e o habeas data contra
atos do Presidente da República, das Mesas da Câmara dos Deputados
e do Senado Federal, do Tribunal de Cantos da União, do Procurador-
-Geral da República e do próprio Supremo Tribunal Federal;
q) o mandado de injunção, quando a elaboração da norma regulamen-
tadora for atribuição do Presidente da República, do Congresso Nacío-
nal, da Camara dos Deputados, do Senado Federal, das Mesas de uma
dessas Casas Legislativas, do Tribunal de Contas da União, de um dos
Tribunais Superiores, ou do próprio Supremo Tribunal Federal;
Art. 105. Compete ao Superior Tribunal de justiça:
I - processar e julgar, originariamente:
b) os mandados de segurança e os habeas data contra ato de Ministro
de Estado, dos Comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáu-
tica ou do próprio Tribunal; (Redação dada pela Emenda Constitu-
cional n. 23, de 1999)
h) o mandado de injunção, quando a elaboração da norma regulamen-
tadora for atribuição de órgão, entidade ou autoridade federal, da
administração direta ou indireta, excetuados os casos de competên-
cia do Supremo Tribunal Federal e dos órgãos da justiça Militar, da
Justiça Eleitoral, da justiça do Trabalho e da justiça Federal.
a
Capítulo
Relação entre Ações
1. RELAÇÃO ENTRE AÇÕES COLETIVAS
A concorrência de ações coletivas semelhantes ou iguais é pos-
sível e até mesmo frequente. O microssistema não trata especifica-
mente da temática, devendo-se seguir o CPC.
Na comparação de ações, não importa a parte processual (o
legitimado que figura em juízo em nome próprio), mas a parte ma-
terial, os beneficiários da tutela (substituídos ou representados).
1 Como entende a jurisprudência?
Segundo a jurisprudência do STJ, nas ações coletivas, para análise da con-
figuração de litispendência, a identidade das partes deve ser aferida sob
a ótica dos possíveis beneficiários do resultado das sentenças, tendoem
vista tratar-se de substituição processual por legitimado extraordinário.
(STI, REsp 1726147/SP, Rel. Ministro Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma,
julgado em 14/o5/2019).
Também é indiferente a espécie de ação, ou seja, o procedi-
mento específico. Assim, pode haver identidade entre ação popular
e ação civil pública, por exemplo.
1 Como entende a jurisprudência?
Trata-se de ação popular por meio da qual o autor pretende obter a nuli-
dade de Convênio assinado entre a União, que repassou verbas públicas,
e a Prefeitura Municipal de jandaia do Sul, constatando-se, dessa forma,
o interesse da União na lide, sendo acertada a decisão a quo que anulou
a sentença monocrática proferida pelo juízo estadual, e remeteu o feito à
justiça Federal, na qual já existe uma ação civil pública, movida pelo Minis-
tério Público Federal, onde se poderá verificar a possível conexão entre as
160 Processo Coletivo - Vol. 54 • Jose Roberto Mello Porto
ações, apesar de suas diversidades de objeto e partes, e também evitar
eventual duplicidade de condenação. (STJ, REsp 936.205/PR, Rel. Ministro
Francisco Falcão, Primeira Turma, julgado em 07/08/zoo7)
A discussão, no ST], fica por conta da reunião entre ação civil
pública e um mandado de segurança coletivo.
Primeira corrente (AgRg no REsp 1505359/PE, Rel. Ministro Her-
man Benjamin, Segunda Turma, julgado em 22/11/2016): é pos-
sível, já que as consequências práticas são as mesmas;
Segunda corrente (AgRg nos EDcl no MS 13.71o/DF, Rel. Ministro
Celso Limongi (Desembargador convocado do TJ/SP), Terceira
Seção, julgado em 23/09/2009): é impossível, especialmente
quando houver foro por prerrogativa de função.
Nos casos de identidade parcial dos elementos das ações
comparadas, a conexão e a continência são aceitas.
A conexão vem especialmente reforçada pela modalidade da
conexão por afinidade ou em grau mínimo (art. 55, §30 do CPC), que
ocorre diante do risco de prolação de decisões contraditórias, como
as demandas ajuizadas pelo Ministério Público e por uma associação
de defesa dos consumidores contra seguradoras diversas, mas com
base na mesma tese de abusividade de determinada cláusula.
Quanto à continência, o ST] já reputou existir entre ação coleti-
va que pleiteia a venda do brinde, em lanche infantil, em separado
e demanda que pedia a cessação da venda do pacote (lanche mais
brinde), ainda que em face de réus diversos.
Como entende a jurisprudência?
Note-se que a pretensão direcionada contra a empresa titular da marca
Bob's - consubstanciada na venda em separado dos conhecidos brindes
fornecidos quando da compra de lanches voltados ao público infantil -
está, por assim dizer, contida na pretensão formulada em face da sus-
citante e das outras duas empresas titulares das marcas "Mc Donald's"
e "Big Burger", resumida na cessação da venda de lanches voltados aos
infantes conjugada à oferta de brindes, mesmo que vendidos separada-
mente. (CC 112.137/SP, Rel. Ministro Paulo De Tarso Sanseverino, Segundo
Seção, julgado em 24/11/2010)
Comum, também, é confundir a continência (um pedido é mais
amplo que outro) e a litispendência parcial (cumulação de um
• Relação entre Ações 161
pedido já veiculado em outra ação pendente e um pedido inédito).
Exemplo apontado para essa segunda hipótese é o das ações que,
diante de mesmo ato de improbidade, pedem a anulação do ato e,
em outra, a anulação e a imposição de sanções.
A conexão e a continência, porém, recebem duas peculiarida-
des, no processo coletivo:
A doutrina e o STJ delineiam uma competência suis gene-
ris no processo coletivo: embora seja absoluta, admite
a modificação por conta da conexão e da continência;
1 Como entende a jurisprudência?
Súmula 489: Reconhecida a continência, devem ser reunidas na justiça
Federal as ações civis públicas propostas nesta e na justiça estadual.
A saída para a ocorrência do fenômeno não é obrigato-
riamente a reunião de ações, podendo haver:
i) Reunião para julgamento conjunto, no juízo prevento;
ii) Reunião sem julgamento conjunto, permitindo que
um órgão julgador possua a visão geral do conflito
coletivo, sem engessar a decisão de cada um deles;
iii) Suspensão por prejudicialidade externa (art. 313, V.
a e §40, do CPC), especialmente quando impossível
a reunião.
Quanto ao juízo prevento para reunião das ações, há previ-
sões no microssistema, que trazem o critério da primeira proposi-
tura (ou seja, primeiro protocolo da petição inicial).
O que diz a lei?
LACP: Art. 2.. Parágrafo único. A propositura da ação prevenirá a jurisdição
do juízo para todas as ações posteriormente intentadas que possuam a
mesma causa de pedir ou o mesmo objeto.
LAP: Art. 5., § 3. A propositura da ação prevenirá a jurisdição do juízo para
todas as ações, que forem posteriormente intentadas contra as mesmas
partes e sob os mesmos fundamentos.
LIA: Art. 17, § 5. A propositura da ação prevenirá a jurisdição do juízo para
todas as ações posteriormente intentadas que possuam a mesma causa
de pedir ou o mesmo objeto.
162 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
O Superior Tribunal de justiça, como regra, segue esse critério.
Pontualmente, em caráter excepcional, já se entendeu que a ação
proposta cronologicamente depois se afigurará como a que preve-
nirá o juízo, por razões qualitativas.
Como entende a jurisprudência?
PO que se ressalvar, no entanto, as situações que envolvam aspectos es-
tritamente humanos e econômicos da tragédia (tais como o ressarcimento
patrimonial e moral de vítimas e familiares, combate a abuso de preços
etc) ou mesmo abastecimento de água potável que exija soluções peculia-
res ou locais, as quais poderão ser objeto de ações individuais ou coleti-
vas, intentadas cada qual no foro de residência dos autores ou do dano.
Nesses casos, devem ser levadas em conta as circunstâncias particulares e
individualizadas, decorrentes do acidente ambiental, sempre com base na
garantia de acesso facilitado ao Poder Judiciário e da tutela mais ampla e
irrestrita possível. Em tais situações, o foro de Belo Horizonte não deverá
prevalecer, pois significaria óbice à facilitação do acesso à justiça, marco
fundante do microssistema da ação civil pública. Saliento que em outras
ocasiões esta Corte de justiça, valendo-se do microssístema do processo
coletivo, aplicou a regra específica de prevenção estabelecida na Lei de
Ação Civil Pública para definir o foro em que deveriam ser julgadas as
ações coletivas. Precedentes. (CC 144.922/MG, Rel. Ministra Diva Malerbi
(Desembargadora convocada TRF 3« Região), Primeira Seção, julgado em
22/06/2016)
/ Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - Polícia Civil/MA - Delegado de Polícia) O MP de determi-
nado estado da Federação ajuizou uma ação civil pública por improbi-
dade administrativa contra determinado servidor estadual.
Nessa situação hipotética, a ação civil pública irá tornar prevento o juí-
zo para todas as ações posteriores intentadas que possuam a mesma
causa de pedir ou o mesmo objeto.
A alternativa foi considerada correta.
(CESPE - 2012 - TJ/PI - Juiz de Direito) O ajuizamento da ação popular
não gera prevenção para mandado de segurança coletivo.
A alternativa foi considerada incorreta, seguindo entendimento dou-
trinário no sentido de que a expressão "para todas as ações" inclui
qualquer modalidade, inclusive o mandado de segurança.
A prevenção, em geral, encontra um limite temporal, quando
uma das ações tiver sido sentenciada (súmula 235 do STD.
Cap. X • Relação entre Ações 163
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - Polícia Civil/SE - Delegado de Polícia) A empresa Solu-
ções Indústria de Eletrônicos !Ida. veiculou propaganda considerada
enganosa relativa a determinado produto: as especificações eram dis-
tintas das indicadas no material publicitário. Em razão do anúncio, cer-
ca de duzentos mil consumidores compraram o produto. Diante dessefato, uma associação de defesa do consumidor constituída havia dois
anos ajuizou ação civil pública com vistas a obter indenização para
todos os lesados. Com referência a essa situação hipotética, julgue o
item seguinte:
Na hipótese de existir outra ação com idêntica causa de pedir da ação
civil pública proposta e de tal ação ter sido sentenciada por outro
juízo, o fenômeno da conexão exigirá que as duas demandas sejam
reunidas.
A alternativa foi considerada incorreta.
Contudo, o próprio STj já afastou a restrição, em ação coletiva,
porque a natureza absoluta da regra de competência se desdobra-
ria para o comando que determina a prevenção no juízo da primei-
ra propositura, desde que não tenha havido trânsito em julgado.
Como entende a jurisprudência?
O parágrafo único do art. 20 da Lei no 7347/85 (Lei de Ação Civil Pública)
prevê uma hipótese de conexão em ações coletivas: "A propositura da
ação prevenirá a jurisdição do juízo para todas as ações posteriormente
intentadas que possuam a mesma causa de pedir ou o mesmo objeto".
Havendo na Lei de Ação Civil Pública norma específica acerca da conexão,
competência e prevenção, é ela que deve ser aplicada para a ação civil
pública. Logo, o citado parágrafo substitui as regras que no CPC definem a
prevenção (artigos io6 e 219).
A competência na ação civil pública é absoluta (art. 2. da Lei no 7347/85).
A conexão, em regra, só pode modificar competência relativa. O parágrafo
único do referido dispositivo criou uma conexão que permite alterar a
competência absoluta, ensejando a reunião dos processos para o julga-
mento simultâneo. Porém, tal parágrafo se mostra incompatível com o art.
16 da Lei no 7347/85.
No presente caso, há ações civis públicas conexas correndo em comarcas
situadas em estados diversos, surgindo um problema: como compatibilizar
o art. 2., parágrafo único, e o art. 16 da Lei no 7347/85, que restringe a
eficácia subjetiva da coisa julgada em ação coletiva, impondo uma limi-
tação territorial a essa eficácia restrita à jurisdição do órgão prolator da
decisão? Nessa situação, concluímos que a regra do artigo 16 aplica-se
164 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
apenas aos casos de ações conexas envolvendo dano de âmbito regional.
Quando as ações civis públicas conexas estiverem em trâmite em comarcas
situadas em estados diversos, busca-se a solução do Código de Defesa do
Consumidor, conforme estabelecido no art. 21 da Lei de Ação Civil Pública.
Conforme enunciado Sumular 235/STJ "A conexão não determina a reunião
dos processos, se um deles já foi julgado". Porém, se o conflito decorre de
regra de competência absoluta (art. 93, inciso II, do CDC), como no presen-
te caso, não há restrição a seu conhecimento após prolatada a sentença,
desde que não haja trânsito em julgado.
(CC 126.601/MG, Rel. Ministro Mauro Campbell Marques, Primeira Seção,
julgado em 27/11/2013)
No caso de identidade total, pode haver coisa julgada ou litis-
pendência entre as ações comparadas.
Aqui, os efeitos da decisão podem influir na comparação: o
STJ possui decisões no sentido de, em se aplicando a limitação
territorial dos efeitos das ações movidas por associações, não se
deve falar em identidade de ações que correm em locais diversos
(estados, no caso da justiça estadual, ou seções judiciárias, na jus-
tiça federal).
Como entende a jurisprudência?
O reconhecimento da litispendência e a consequente extinção da ação civil
pública, no presente caso, importou em violação reflexa ao artigo 16 de
Lei 7.347/85, tendo em vista a interpretação conferida ao dispositivo legal
pela Segunda Seção deste Superior Tribunal de justiça (Embargos de Diver-
gência em Recurso Especial n. 411.529/SP, julgado emu) de março de 2010).
Eventual decisão favorável prolatada pela justiça do Estado de São Paulo,
no caso, não poderia, conforme entendimento firmado por esta Corte, ser
executada no Estado do Rio Grande do Sul, o que prejudicaria não apenas
a parte autora, mas também os consumidores ali residentes.
(AgRg nos EDcl no REsp 942.435/RS, Rel. Ministro Paulo de Tarso Sanseverino,
Terceira Turma, julgado em 07/06/2011, Die 13/06/2011)
Se o primeiro processo houver atingido o trânsito em julgado,
existirá coisa julgada formada, com extinção do segundo processo
sem resolução do mérito, com aplicação das regras próprias do
microssistema.
Se a coincidência de demandas se der antes que uma se en-
cerre existirá litispendência, com extinção terminativa do proces-
so no qual, por último, se operou a citação válida. No processo
C . x • Relação entre Ações 165
coletivo, existe discussão quanto à melhor saída, no caso de ações
movidas por legitimados diversos.
Primeira corrente (Aluisio Mendes, Hugo Nigro Mazzilli, Daniel
Assumpção Neves, Ricardo de Barros Leonel): deve haver ex-
tinção da segunda ação, sendo atécnica a reunião, por carecer
de previsão legal, gerar tumulto e sobrecarga de trabalho;
Segunda corrente (Fredie Didier Jr, Hermes Zaneti Jr, Marcelo
Abelha, Fernando Gajardoni): deve haver reunião das ações
idênticas, porque os colegitimados podem se habilitar como
assistentes litisconsorciais do autor que moveu o processo co-
letivo pré-existente;
Terceira corrente: só deve ser admitida a reunião de ação po-
pular com outra ação coletiva, para não ofender o direito de
ação constitucional do cidadão.
2. RELAÇÃO ENTRE AÇÃO COLETIVA E AÇÕES INDIVIDUAIS
A outra face da relação entre demandas que envolve proces-
sos coletivos se dá na interação entre uma ação coletiva e ações
individuais.
No caso de identidade parcial, a primeira possibilidade de
relação entre demandas coletivas e individuais se refere à conexão
ou à continência, admitidas, majoritariamente, pela doutrina.
Quanto aos efeitos, existe divergência significativa:
Primeira corrente (Hugo Nigro Mazzilli, Rodolfo Mancuso): a
reunião não é obrigatória e será indicada apenas quando hou-
ver um elemento que a justifique;
Segunda corrente (Fredie Didier Jr, Hermes Zaneti Jr, Daniel As-
sumpção Neves, Ricardo de Barros Leone!): o efeito deve ser a
suspensão das ações individuais, priorizando-se a ação coletiva.
No caso de identidade total, há expressa negativa de existên-
cia de litispendência entre ação coletiva e ações individuais, o que
se aplica para todas as espécies de direitos tutelados (difusos,
coletivos e individuais homogêneos).
> 0 que diz a lei?
CDC: Art. 104. As ações coletivas, previstas nos incisos 1 e 11 e do parágrafo
único do art. 81, não induzem litispendência para as ações individuais,
166 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
mas os efeitos da coisa julgada erga omnes ou ultra partes a que aludem
os incisos li e Ill do artigo anterior não beneficiarão os autores das ações
individuais, se não for requerida sua suspensão no prazo de trinta dias, a
contar da ciência nos autos do ajuizamento da ação coletiva.
I Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 DPE-AL - Defensor Público) Inexiste litispendência en-
tre ações individuais e ação civil pública coletiva que tenham objetos
idênticos.
A alternativa foi considerada correta.
Igualmente, se prevê extenso regramento da coisa julgado co-
letiva, capaz de alcançar os indivíduos, sempre para beneficiá-los,
tanto da tutela de direitos individuais homogêneos, como na de
direitos transindividuais, por conta do transporte in utilibus.
2.1. Ação individual anterior à ação coletiva
O microssistema de tutela coletiva possui saída específica para
a questão da convivência entre ações individuais e ação coletiva: a
suspensão das ações individuais em curso
I 0 que diz a lei?
CDC: Art. Km. As ações coletivas, previstas nos incisos I e II e do parágrafo
único do art. 81, não induzem litispendência para as ações individuais,
mas os efeitos da coisa julgada erga omnes ou ultra partes a que aludem
os incisos II e III do artigo anterior não beneficiarão os autores das açõesindividuais, se não for requerida sua suspensão no prazo de trinta dias, a
contar da ciência nos autos do ajuizamento da ação coletiva.
O primeiro passo será a realização de uma comunicação, na
ação individual, do ajuizamento da demanda coletiva, inspirada na
fair notice das class actions.
Discute-se a quem incumbiria esse dever de aviso:
1) Primeira corrente (Fredie Didier Jr, Hermes Zaneti Jr): trata-se
de ônus do réu comum, da ação individual e da ação coletiva,
por conta dos princípios da boa-fé e da cooperação;
2) Segunda corrente (Daniel Assumpção Neves, Hugo Nigro Mazzil-
li): também o juiz pode determinar a comunicação, de ofício,
bem com a ciência pode vir de outros meios.
Cap. X • Relação entre Ações 167
A partir do conhecimento indiscutível, começa a correr prazo
de 30 dias para escolha entre duas possibilidades - o que esclarece
que a exclusão é um direito (right to opt out) -, podendo o indiví-
duo requerer:
A suspensão de seu processo individual, até o término
do coletivo e, então:
Se favorável a sentença coletiva, passe diretamente
à liquidação da sentença coletiva, se lhe for favo-
rável - salvo se o recurso for recebido com efeito
suspensivo, na visão do ST);
Se desfavorável a sentença coletiva, retome o curso
da ação individual;
A continuidade de seu processo individual, não sendo
beneficiado por eventual sentença coletiva favorável.
Como entende a jurisprudência?
Se o recurso interposto contra a sentença que decidiu a ação coletiva
foi recebido com efeito suspensivo mitigado, autorizando-se, de maneira
expresso, a liquidação provisória do julgado, não há motivos para que se
vincule esse ato ao trânsito em julgado da referida sentença. A interpre-
tação conjunta dos dispositivos da LACP e do CDC conduz à regularidade
desse procedimento.
A autorização de que se promova a liquidação do julgado coletivo não
gera prejuízo a qualquer das partes, notadamente porquanto a atuação
coletiva deve prosseguir apenas até a fixação do valor controvertido, não
sendo possível a prática de atos de execução antes do trânsito em julgado
da ação coletiva.
(ST), REsp 1189679/RS, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, jul-
gado em 24/11/2010)
A interpretação do silêncio do autor individual diverge a
doutrina:
Primeira corrente: na sua omissão, a ação individual seguiria,
como sugere a literalidade do dispositivo;
Segunda corrente (Fredie Didier Jr e Hermes zaneti Jr): o si-
lêncio deve gerar a suspensão do processo individual, não se
podendo presumir uma renúncia tácita à jurisdição coletiva.
168 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Também se discute até que momento procedimental poderia
haver pedido de suspensão:
Primeira corrente (Fredie Didier Jr, Hermes Zaneti Jr, Antonio
Gid0: a sentença é o limite máximo, salvo se pendente recurso.
2) Segunda corrente (Hugo Nigro Mazzi110: deve ser permitida a
suspensão a qualquer momento, funcionando como limite o
julgamento final de uma das ações, já que a lei não restringiu.
Esse panorama legal que indica a opção pela suspensão, no
entanto, é fundamentalmente reinterpretado pela jurisprudência
do STJ, que, em sede de recursos repetitivos, firmou tese jurídica
no sentido da obrigatoriedade da suspensão de todos os proces-
sos individuais sobre a mesma questão tratada na ação coletiva,
até o trânsito em julgado da ação coletiva,
Os argumentos adotados pelo Superior Tribunal de justiça, nos
referidos precedentes, são, em síntese:
A releitura do art. 104 à luz da sistemática dos recursos
repetitivos, inserida no art. 543-C do CPC/73, sublinhando
a obrigatória suspensão dos processos quando da afeta-
ção do tema para julgamento "por amostragem";
b) A efetividade do judiciário;
c) Ausência de ofensa ao acesso à justiça, porque a de-
manda pode ser ajuizada - o que se obsta é seu
prosseguimento;
d) Maior eficiência na produção de prova coletiva;
e) Os danos de magnitude, se não tratados coletivamen-
te, são insuficientemente tutelados, porque apenas
os indivíduos que primeiro ajuizassem ações seriam
ressarcidos.
Como entende a jurisprudência?
Ajuizada ação coletiva atinente a macro-lide geradora de processos multi-
tudincírios, suspendem-se as ações individuais, no aguardo do julgamento
da ação coletiva.
Entendimento que não nega vigência aos aos arts. 51, ni e § 1., 103 e 104
do Código de Defesa do Consumidor; 122 e 166 do Código Civil; e 2. e 6. do
Código de Processo Civil, com os quais se harmoniza, atualizando-lhes a
• Relação entre Ações 169
interpretação extraída da potencialidade desses dispositivos legais ante
a diretriz legal resultante do disposto no art. 543-C do Código de Processo
Civil, com a redação dada pela Lei dos Recursos Repetitivos (Lei n. 11.672,
de 8.5.2008). (S11, REsp ino549/RS, Rel. Ministro Sidnei Beneti, Segundo
Seção, julgado em 28/10/2oo9)
A tese a ser firmada, para efeito do art. 1.036 do CPC/20/5 (art. 543-C do
CPC/1973), é a seguinte: Até o trânsito em julgado das Ações Civis Públi-
cas n. 5004891-93.2011.4004.7000 e n. 2001.70.00.019188-2, em tramítação
na Vara Federal Ambiental, Agrária e Residual de Curitiba, atinentes à
macrolide geradora de processos multitudincírios em razão de suposta
exposição à contaminação ambiental decorrente da exploração de jazida
de chumbo no Município de Adrianópolis-PR, deverão ficar suspensas as
ações individuais. (Srl, REsp 1525327/PR, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão,
Segundo Seção, julgado em 12/12/2018)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(MPE/GO - 2019 - MPE/G0- Promotor de justiça) Ajuizada ação coleti-
va atinente a macro-lide geradora de processos multitudinários, sus-
pendem-se as ações individuais, no aguardo do julgamento da ação
coletiva.
A alternativa foi considerada correta.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2019 - DPE/DF - Defensor Público) Entende o STJ que, ajuizada
ação coletiva atinente a uma macrolide geradora de processos multitu-
dinários, é possível a suspensão, pelo magistrado, de ação individual
existente sobre a mesma matéria discutida no feito coletivo, de ofício
e independentemente do consentimento do autor da respectiva lide
individual, a fim de aguardar o julgamento da ação coletiva.
A alternativa foi considerada correta.
Por fim, é importante sublinhar que o tratamento do tema na
legislação não é uníssono, existindo exceções. Para o mandado de
segurança coletivo e o mandado de injunção coletivo, exige-se a de-
sistência da ação individual para que o indivíduo seja beneficiado
pela sentença coletiva.
O que diz a lei?
LMS: Art. 22, § 10 0 mandado de segurança coletivo não induz litispendên-
cia para as ações individuais, mas os efeitos da coisa julgada não bene-
ficiarão o impetrante a título individual se não requerer a desistência
170 Processo Coletivo - vol. 54 • José Roberto Mello Porto
de seu mandado de segurança no prazo de 30 (trinta) dias a contar da
ciência comprovada da impetração da segurança coletiva.
LMI: Art. 13. Parágrafo único. O mandado de injunção coletivo não induz
litispendência em relação aos individuais, mas os efeitos da coisa julgada
não beneficiarão o impetrante que não requerer a desistência da de-
manda individual no prazo de 30 (trinta) dias a contar da ciência compro-
vada da impetração coletiva.
Apesar disso e de a jurisprudência ainda não ter relativizado
o comando, existe ampla crítica doutrinária (Daniel Assumpção Ne-
ves, Fredie Didier Jr e Hermes Zaneti Jr) à escolha legislativa, por
conta de se tratarem de garantias constitucionais e da inafastabili-
dade da jurisdição, ante o curto prazo decadencial para impetra-
ção (120 dias).
2.2. Ação coletiva anterior à ação individual
Outra hipótese não solucionada pelo microssistema diz res-
peito ao efeito do ajuizamento da ação coletiva em relação aos
litigantes que não ajuizaram ações anteriormente (ação coletiva
anterior à ação individual).
O Superior Tribunal deJustiça, apesar do silencia do legislador
e da tradicional lição de que existe reserva legislativa em matéria
de prescrição, em algumas ocasiões, entendeu que a citação válida
na demanda coletiva que verse sobre direitos individuais homogê-
neos interrompe a prescrição para ações individuais, como forma
de desencorajar o ajuizamento de múltiplas ações individuais, mes-
mo quando extinta o processo coletivo sem julgamento do mérito.
Como entende a jurisprudência?
O ordenamento jurídico pátrio, a teor dos arts. 103, § 2., e 104, da Lei n..
8.078/90 - Código de Defesa do Consumidor -, impele o Substituído a per-
manecer inerte até a conclusão do processo coletiva, na medida em que
a ele impõe o risco de sofrer os efeitos da sentença da improcedência da
ação coletiva - quando nela ingressar como litisconsorte -, e de não se
beneficiar da sentença de procedência - quando demandante individual.
Diante desse contexto, a citação válida no processo coletivo, ainda que
este venha ser julgado extinto sem resolução do mérito em face da ilegiti-
midade do Substituto Processual, configure causa interruptiva do prazo
prescricional para propositura da ação individual. (STI, REsp 1055419/AP,
Rel. Ministra Laurita Voz, Quinta Turma, julgado em 06/09/2011)
• Relação entre Ações 171
Esse entendimento se aplica também para a fase executiva
coletiva, na visão do SR
Como entende a jurisprudência?
Transitada em julgado em 05/11/2002 a sentença genérica proferida na
ação coletiva n.o 95.00.8957-2/PR, o Sindicato promoveu a execução cole-
tiva, que foi extinta em decorrência do reconhecimento da ilegitimidade
do Ente Coletivo para promover a execução, em decisão transitada em
13/01/2006. Assim, interrompido restou o prazo prescricional da pretensão
executória, nos termos do art. 90 do Decreto n.o 20.910/32.
Ajuizada a presente execução individual em 20/11/2007, é de ser afastada
a ocorrência da prescrição, na medida em que proposta antes do prazo
de dois anos e meio, computados a partir do trânsito em julgado da deci-
são que reconhecera a ilegitimidade do Sindicato. (AgRg no REsp 1143254/
PR, Rel. Ministra Laurita Voz, Quinta Turma, julgado em 02/02/2012)
Esse regramento se estende para as ações coletivas que tute-
lem direitos difusos e coletivos, que interrompem o prazo para de-
mandas individuais, tendo em vista o possível transporte in utilibus.
Como entende a jurisprudência?
O ajuizamento de ação versando interesse difuso tem o condão de inter-
romper o prazo prescricional para a apresentação de demanda judicial
que verse interesse individual homogêneo. (STj, REsp 164n67/RS, Rel. Mi-
nistra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 13/03/2018)
2.3. Quadro síntese
Ação coletiva anterior à ação Lei: silente
individual STI: suspensão da prescrição individual
Ação individual anterior à coletiva Lei: suspensão facultativa
ST]: suspensão obrigatória
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2019 - MPC/PA - Procurador) Caso a Associação de Servidores
do Estado do Pará proponha ação civil pública para tutelar direitos in-
dividuais homogêneos decorrentes de origem comum dos associados,
a) eventual ação individual proposta posteriormente por servidor do
estado do Pará com o mesmo objeto e idêntica causa de pedir acar-
retará em extinção do processo sem resolução do mérito, devido à
litispendência.
172 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
b) eventual ação popular proposta posteriormente por cidadão brasi-
leiro com mesmo objeto e idêntica causa de pedir acarretará a extin-
ção do processo sem resolução do mérito, devido à litispendência.
c) eventual execução individual, caso servidor do estado do Pará seja
beneficiado pela sentença genérica, deverá ser ajuizada no foro em
que for proferida decisão da ação civil pública
d) efetiva tutela dos direitos coletivos ocorrerá na hipótese de a pro-
moção da execução pela autora buscar satisfazer, de forma indivi-
dualizada e identificada, o direito de cada um dos servidores do
estado do Pará.
e) se os servidores do estado do Pará promoverem diversas ações
individuais com o mesmo objeto e idêntica causa de pedir, deverá
haver extinção da ação coletiva, visto que a microlide prepondera
sobre a macrolide.
A alternativa B foi considerada correta.
a
Capítulo
Sentença e Coisa Julgada
1. SENTENÇA COLETIVA
1.1. Direitos difusos e coletivos
Quando o processo tiver como objeto direitos difusos e coleti-
vos, não existe grande peculiaridade a respeito da sentença.
Uma preocupação, contudo, deve permear a decisão, mor-
mente em se tratando de obrigações de fazer e não fazer: a Prio
ridade pela prestação específica, seja ela preventiva (evitando o
dano) ou repressiva (restituindo o estado anterior ao dano) - prin-
cípio da maior coincidência entre o direito e sua realização na
tutela coletiva.
O que diz a lei?
CDC: Art. 84. Na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação
de fazer ou não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou
determinará providências que assegurem o resultado prático equivalente
ao do adimplemento.
§ 1. A conversão da obrigação em perdas e danos somente sera admis-
sível se por elas optar o autor ou se impossível a tutela específica ou a
obtenção do resultado prático correspondente.
ECA: Art. 213. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação
de fazer ou não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou
determinará providências que assegurem o resultado prático equivalente
ao do adimplemento.
El: Art. 83. Na ação que tenha por objeto o cumprimento de obrigação de
fazer ou não-fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou
determinará providências que assegurem o resultado prático equivalente
ao adimplemento.
174 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2019 -TJ/SC- Juiz de Direito) Em caso de ação que tenha por ob-
jeto o cumprimento da obrigação de fazer ou não fazer, o juiz deverá
dar prioridade à conversão da obrigação em perdas e danos.
A alternativa foi considerada incorreta.
(CESPE - 2019 - MPE/PI - Promotor de Justiça) De acordo com o Código
de Defesa do Consumidor, em ação coletiva que tenha por objeto o
cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer, há a possibilidade de
conversão dessa obrigação em pagamento de indenização por perdas
e danos somente se
a) o autor optar pela conversão.
b) o réu optar pela conversão.
C) a tutela específica ou a obtenção do resultado prático correspon-
dente for impossível.
d) o autor optar pela conversão ou se for impossível a tutela específica
ou a obtenção do resultado prático correspondente.
e) o réu optar pela conversão ou se for impossível a tutela específica
ou a obtenção do resultado prático correspondente.
A alternativa D foi considerada correta.
São perfeitamente cumuláveis a obrigações de pagar e de fa-
zer ou não fazer, não existindo restrição quanto aos pedidos.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - Polícia Civil/MA - Delegado de Polícia) O MP de determi-
nado estado da Federação ajuizou uma ação civil pública por improbi-
dade administrativa contra determinado servidor estadual.
Nessa situação hipotética, a ação civil pública poderá requerer a con-
denação pecuniária do servidor para a reparação de dano, mas não
formular pedido de cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer
de qualquer natureza.
A alternativa foi considerada incorreta.
De outro lado, quando a sentença contiver condenação em
obrigação de pagar, o valor deverá ser revertido para um fundo -
geralmente, o Fundo de Direitos Difusos, criado pela LACP - , salvo
quando o dano tiver atingido o erário, caso em que a doutrina
admite a reparação direta aos cofres públicos.
r • Sentença e Coisa Julgada 175
0 que diz a lei?
LACP: Art. 13. Havendo condenação em dinheiro, a indenizaçãopelo dano
causado reverterá a um fundo gerido por um Conselho Federal ou por
Conselhos Estaduais de que participarão necessariamente o Ministério Pú-
blico e representantes da comunidade, sendo seus recursos destinados à
reconstituição dos bens lesados.
§ 1.. Enquanto o fundo não for regulamentado, o dinheiro ficará depo-
sitado em estabelecimento oficial de crédito, em conta com correção
monetária.
§ 2.. Havendo acordo ou condenação com fundamento em dano causado
por ato de discriminação étnica nos termos do disposto no art. 10 desta
Lei, a prestação em dinheiro reverterá diretamente ao fundo de que trata
o caput e sera utilizada para ações de promoção da igualdade étnica,
conforme definição do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Ra-
cial, na hipótese de extensão nacional, ou dos Conselhos de Promoção de
Igualdade Racial estaduais ou locais, nas hipóteses de danos com exten-
são regional ou local, respectivamente.
Observação: o FDD é regrado pela lei 9.008/95 e regulamentado pelo
decreto 1.306/94.
ECA: Art. 214. Os valores das multas reverterão ao fundo gerido pelo Con-
selho dos Direitos da Criança e do Adolescente do respectivo município.
§ 1. As multas não recolhidas até trinta dias após o trânsito em julgado da
decisão serão exigidas através de execução promovida pelo Ministério Pú-
blico, nos mesmos autos, facultada igual iniciativa aos demais legitimados.
§ 20 Enquanto o fundo não for regulamentado, o dinheiro ficará depositado
em estabelecimento oficial de crédito, em conta com correção monetária.
El: Art. 84. Os valores das multas previstas nesta Lei reverterão ao Fundo
do Idoso, onde houver, ou na falta deste, ao Fundo Municipal de Assistên-
cia Social, ficando vinculados ao atendimento ao idoso.
Parágrafo único. As multas não recolhidas até 30 (trinta) dias após o trân-
sito em julgado da decisão serão exigidas por meio de execução promo-
vida pelo Ministério Público, nos mesmos autos, facultada igual iniciativa
aos demais legitimados em caso de inércia daquele.
O FDD é gerido por conselho federal ou estadual, formados
por representante do Ministério Público e da comunidade, para
além de outros membros (art. 3° do decreto 1.306/94 e art. 2° da
lei 9.008/95).
Dentre os recursos que compõem o fundo, destacam-se os
valores recebidos a título de condenação, nas ações coletivas.
176 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Existe uma sutil divergência doutrinária acerca de quais seriam
essas verbas:
Primeira corrente (Hugo Nigro Mazzilli, Fredie Didier Jr, Hermes
Zaneti Jr, Daniel Assumpção Neves, Fabrício Bastos): critério é
o da indivisibilidade dos direitos tutelados, logo as verbas em
dinheiro oriundas de processos sobre direitos difusos e coleti-
vos em sentido estrito irão para o fundo;
segunda corrente (Adriano Andrade, Cleber Masson, Landolfo
Andrade): a reversão de verbas ao fundo se restringe aos di-
reitos difusos.
Existem outras fontes de receita, como multas corninatórias
nos processos envolvendo esses direitos e doações de pessoas
físicas ou jurídicas.
1 Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - TRF-5. Região - Juiz Federal) Em se tratando de ação civil
pública por danos ambientais ajuizada
a) por associação de vítimas, eventuais multas processuais serão re-
vertidas em favor dos associados.
b) pelo Ministério Público, a indenização arbitrada em sentença será
destinada às vítimas diretas do prejuízo ambiental.
c) por estado-membro, a indenização arbitrada em sentença será des-
tinada ao erário estadual.
d) por associação, a indenização arbitrada em sentença será destinada
aos associados.
e) pelo Ministério Público, eventuais multas processuais serão reverti-
das em favor do Fundo de Direitos Difusos.
A alternativa E foi considerada correta.
Tais recursos serão destinados à reconstituição do bem lesa-
do, de acordo com a LACP. A legislação do FDD complementa essa
finalidade central com outras:
a) Recuperação do bem;
b) Educação em direitos (promoção de eventos educativos,
elaboração de material informativo);
c) Modernização administrativa dos órgãos responsáveis
pelas políticas públicas.
.1 • Sentença e Coisa Julgada 177
Extrapolando uma restrita interpretação desse rol, o Superior
Tribunal de justiça já decidiu pela possibilidade do uso dos recur-
sos para custeio da perícia requerida em ação coletiva pelo Minis-
tério Público.
1 Como entende a jurisprudência?
Inexistência de circunstância capaz de qualificar a decisão impugnada
como manifestamente ilegal ou teratológica, pois a Primeira Seção desta
Corte, no julgamento dos EREsps 733.456/SP e 981.949/RS, ocorrido na as-
sentada do dia 24 de fevereiro de zolo, decidiu que, conquanto não se
possa obrigar o Ministério Público a adiantar os honorários do perito nas
ações civis públicas em que figura como parte autora, diante da norma
contida no art. 18 da Lei 7.347/85, também não se pode impor tal obriga-
ção ao particular, tampouco exigir que o trabalho do perito seja prestado
gratuitamente.
Diante desse impasse, afigura-se plausível a solução adotada no caso, de
se determinar a utilização de recursos do Fundo Estadual de Reparação
de Interesses Difusos Lesados, criado pela Lei Estadual 6.536/89, consi-
derando que a ação civil pública objetiva interromper o parcelamento
irregular de solo em área de mata atlântica, ou seja, sua finalidade última
é a proteção ao meio ambiente e a busca pela reparação de eventuais
danos que tenham sido causados, coincidentemente com a destinação
para a qual o Fundo foi criado. (RMS 3o.Siz/SP, Rel. Ministra Ella na Calmon,
Segunda Turma, julgado em 04/03/2010)
1.2. Direitos individuais homogêneos
Quando o processo tiver como objeto direitos individuais ho-
mogêneos, a sentença coletiva será quase sempre genérica, fixan-
do apenas a existência da obrigação e as partes da obrigação,
enquanto a extensão do dano sofrido por cada envolvido será defi-
nida na liquidação individual. Contudo, a sentença pode trazer pa-
râmetros específicos a serem observados na posterior liquidação e
no cumprimento, como reconhecido pelo STJ.
1 Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(FCC - 2019 - Ti/AL - juiz de Direito) Nas ações coletivas para defesa de
interesses individuais homogêneos, em caso de procedência do pedi-
do, a condenação será certa e determinada, fixando-se a responsabi-
lidade do réu pelos danos causados e os legitimados a requererem o
cumprimento do julgado, individualizados.
A alternativa foi considerada incorreta.
178 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Tal sentença deverá ser amplamente divulgada, e, para tanto,
o ST) indica que a melhor forma de notificação seja a publicação
de editais na rede mundial de computadores, ou mesmo por conta
do próprio réu.
1 Como entende a jurisprudência?
Sob a égide do CPC/I5, foi estabelecida a regra de que a publicação de
editais pela rede mundial de computadores é o meio mais eficaz da in-
formação atingir um grande número de pessoas, devendo prevalecer, por
aplicação da razoabilidade e da proporcionalidade, sobre a onerosa pu-
blicação em jornais impressos.
Precedentes. (Sri, REsp 1821688/RS, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira
Turma, julgado em 24/09/2019)
Em razão do dever do juiz de assegurar o resultado prático do julga-
do, determinando todas as providências legais que entender necessárias
para a satisfação do direito da ação e com vistas ao alcance do maior
número de beneficiários, a obrigação imposta ao recorrente de divulgar
a sentença genérica em jornais de grande circulação deve ser substituída
pela publicação na internet, nos sites de órgãos oficiais e no da própria
recorrente, pelo prazo de 15 dias. (STj, REsp 157o698/MT, Rel. Ministra Nan-
cy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 11/09/2018)
1 Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(FCC - 2019 - VAL - juiz de Direito) Nas ações coletivas para defesa deinteresses individuais homogêneos, ajuizada a demanda será publica-
do edital no órgão oficial, a fim de que os interessados possam intervir
no processo como litisconsortes, sem prejuízo de ampla divulgação
pelos meios de comunicação social por parte dos órgãos de defesa do
consumidor.
A alternativa foi considerada correta.
A respeito dos juros, o Superior Tribunal de Justiça fixou tese,
em recurso repetitivo, no sentido de que o termo inicial é a citação
na ação coletiva, pouco importando a comunicação na liquidação
individual.
1 Como entende a jurisprudência?
A sentença de procedência da Ação Civil Pública de natureza condenató-
ria, condenando o estabelecimento bancário depositário de Cadernetas
de Poupança a indenizar perdas decorrentes de Planos Econômicos, esta-
belece os limites da obrigação, cujo cumprimento, relativamente a cada
um dos titulares individuais das contas bancárias, visa tão-somente a ade-
• Sentença e Coisa Julgada 179
quar a condenação a idênticas situações jurídicas específicas, não interfe-
rindo, portando, na data de início da incidência de juros moratórios, que
correm a partir da data da citação para a Ação Civil Pública.
Dispositivos legais que visam à facilitação da defesa de direitos individuais
homogêneos, propiciada pelos instrumentos de tutela coletiva, inclusive
assegurando a execução individual de condenação em Ação Coletiva, não
podem ser interpretados em prejuízo da realização material desses direi-
tos e, ainda, em detrimento da própria finalidade da Ação Coletiva, que é
prescindir do ajuizamento individual, e contra a confiança na efetividade
da Ação Civil Pública, O que levaria ao incentivo à opção pelo ajuizamento
individual e pela judícialização multitudindria, que é de rigor evitar.
Para fins de julgamento de Recurso Representativo de Controvérsia (CPC,
art. 543-C, com a redação dada pela Lei 11.418, de 19.12.2006), declara-se
consolidada a tese seguinte: "Os juros de mora incidem a partir da cita-
ção do devedor na fase de conhecimento da Ação Civil Pública, quando
esta se fundar em responsabilidade contratual, se que haja configura-
ção da mora em momento anterior." (STJ, REsp 1361800/SP, Rel. Ministro
Raul Araújo, Rel. P1 Acórdão Ministro Sidnei Beneti, Corte Especial, julgado
em 21/05/2014)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - TRF-5. Região - Juiz Federal) O Ministério Público de de-
terminado estado da Federação e o Ministério Público Federal ajuiza-
ram, em litisconsórcio, ação civil pública para tutela de direitos indivi-
duais homogêneos de consumidores lesados por contrato de consumo.
De acordo com o ST), nessa situação hipotética, se o réu for condena-
do em obrigação de dar quantia certa, os juros de mora incidirão a
partir da sentença condenatória que vier a ser prolatada na fase de
conhecimento.
A alternativa foi considerada incorreta, pois o marco correto é a citação.
O Superior Tribunal de justiça possui entendimento no sentido
de que, para que haja execução dos juros remuneratórios pelo
indivíduo beneficiado pela sentença coletiva, deve ter havido pre-
visão expressa na sentença.
Em um caso peculiar, uma primeira ação civil pública foi julga-
da, mas a decisão transitou sem mencionar os juros. Posteriormen-
te, outra ação foi movida e, aí sim, houve previsão a respeito. A
Corte da Cidadania entendeu que o indivíduo que já tinha execu-
tado o primeiro título executivo (sem os juros, portanto) poderia
promover outro cumprimento de sentença, em relação ao segundo
180 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
título, apenas em relação aos juros (REsp 1.934.637-SC, Rel. Min.
Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em
08/06/2021).
2. COISA JULGADA
Na tutela coletiva, uma visão sobre a coisa julgada importa-
da da tutela individual significaria comprometimento aos direitos
posto em juízo, que não pode ser defendido pelos seus titulares,
assim como não se pode abrir mão da imutabilidade garantida
pelo instituto.
2.1. Limites objetivos
Para facilitar o estudo, pode-se afirmar que a coisa julgada, no
processo coletivo, possui limites peculiares.
Os limites objetivos, usualmente restritos ao dispositivo da sen-
tença, são flexibilizados no transporte in utilibus, no qual o legislador
autoriza a ampliação objetiva do título executivo em processo sobre
direitos transindividuais em favor de direitos individuais - como será
visto no capítulo referente à liquidação da sentença coletiva.
2.2. Limites subjetivos
Quanto aos limites subjetivo:,, tem-se a formação de coisa jul-
gada ultra partes e erga omnes dependendo da espécie de direito
tutelada, bem como da delimitação (ou não) do grupo que será
beneficiado pela decisão - e não meramente inter partes, como no
processo individual.
1 O que diz a lei?
CDC: Art. 103. Nas ações coletivas de que trata este código, a sentença fará
coisa julgada:
I - erga omnes, exceto se o pedido for julgado improcedente por insufi-
ciência de provas, hipótese em que qualquer legitimado poderá intentar
outra ação, com idêntico fundamento valendo-se de nova prova, na hipó-
tese do inciso I do parágrafo único do art. 81;
II - ultra partes, mas limitadamente ao grupo, categoria ou classe, salvo
improcedência por insuficiência de provas, nos termos do inciso anterior,
quando se tratar da hipótese prevista no inciso II do parágrafo único do
art. 81;
• Sentença e Coisa Julgada 181
III - erga omnes, apenas no caso de procedência do pedido, para be-
neficiar todas as vítimas e seus sucessores, na hipótese do inciso Ill do
parágrafo único do art. 82.
O panorama legal é o seguinte:
Direitos difusos: coisa julgada erga omnes;
Direitos coletivos em sentido estrito: coisa julgada ultra
partes;
Direitos individuais homogêneos: coisa julgada erga omnes.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(MPE/SC - 2019 - MPE/SC - Promotor de justiça) Nas demandas es-
sencialmente coletivas, a eficácia subjetiva da coisa julgada material
é erga omnes, conforme art. 103, I, do Código de Defesa do Consumidor,
quando a tutela jurisdicional tiver como objeto o direito difuso, e será
ultra partes, conforme art. 103, II, do Código de Defesa do Consumidor
e art. 21, I, da Lei n. 12.016/2009, quando versar sobre a tutela jurisdi-
cional do direito coletivo em sentido estrito.
A alternativa foi considerada correta.
(MPE/SC - 2019 - MPE/SC - Promotor de Justiça) Nas ações coletivas de
que trata o Código de Defesa do Consumidor, a sentença fará coisa
julgada, ultra partes, em todo e qualquer caso, limitado ao grupo ou
classe que guarde relação com o tema demandado.
A alternativa foi considerada incorreta.
No mandado de segurança coletivo, existe um aparente re-
gramento próprio para a coisa julgada, limitada aos membros do
grupo ou categoria substituídos pelo impetrante. A doutrina, po-
rém, costuma enxergar no comando um mero esclarecimento da
natureza de substituição processual dos legitimados.
0 que diz a lei?
LMS: Art. 22. No mandado de segurança coletivo, a sentença fará coisa
julgada limitadamente aos membros do grupo ou categoria substituídos
pelo impetrante.
No mandado de injunção coletiva com a edição da legislação
própria, optou-se por adotar, como regra, a posição concretista
intermediária coletiva.
182 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Mesmo na impetração individual, após o trânsito em julgado,
poderá haver extensão dos efeitos aos casos análogos, ampliando
a extensão subjetiva em prol da isonomia.
/ 0 que diz a lei?
LMI: Art. 13. No mandado de injunção coletivo, a sentença fará coisa jul-
gada limitadamente às pessoas integrantes da coletividade, do grupo,
da classe ou da categoria substituídos pelo impetrante, sem prejuízo do
disposto nos §§ e 2° do art. 9..
Art. 9., § 2. Transitada em julgado a decisão, seus efeitos poderão ser
estendidos aos casos análogos por decisão monocrcítica do relator.1 Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - PGE-PE - Procurador do Estado) De acordo com lei que
disciplina o mandado de injunção, uma vez transitada em julgado a de-
cisão final, o relator poderá, monocraticamente, estender seus efeitos
a casos análogos.
A alternativa foi considerada correta.
(VUNESP - 2019 - Câmara de Piracicaba - Advogado) Determinada cate-
goria de servidores públicos ajuizou mandado de injunção para obten-
ção de um direito constitucional em razão da falta da respectiva norma
regulamentadora, obtendo decisão favorável para usufruir desse di-
reito. Assim, considerando o que dispõe o direito brasileiro a respeito
desse instituto, é correto afirmar que
a) a decisão judicial terá eficácia subjetiva limitada às partes e produ-
zirá efeitos até eventual edição da norma regulamentadora, ainda
que a aplicação da norma lhe seja mais favorável.
b) sem prejuízo dos efeitos já produzidos, a decisão poderá ser revis-
ta, a pedido de qualquer interessado, quando sobrevierem relevan-
tes modificações das circunstâncias de fato ou de direito.
c) transitada em julgado a decisão, seus efeitos não mais poderão ser
estendidos aos casos análogos por decisão monocrática do relator.
d) se, eventualmente, a norma regulamentadora for editada antes da
decisão, não ficará prejudicada a impetração, devendo o processo
ter regular prosseguimento com resolução de mérito.
e) a decisão terá eficácia ultra partes ou erga omnes e produzirá efeitos
que prevalecerão sobre a norma regulamentadora.
A alternativa B foi considerada correta.
Cap. XI • sentença e Coisa julgada 183
2.3. Limites territoriais
Originariamente, o microssistema não fazia qualquer menção
limites territoriais, mas duas medidas provisórias reduziram a efi-
cácia da decisão.
a) A MP 1.570/97, convertida na lei 9.494/97, inseriu a restri-
ção territorial na LACP.
b) A MP 2.180-35/01 impôs restrição específica para as
associações.
0 que diz a lei?
1ACP: Art. 16. A sentença civil fará coisa julgada erga omnes, nos limites da
competência territorial do órgão prolator, exceto se o pedido for julga-
do improcedente por insuficiência de provas, hipótese em que qualquer
legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento, valendo-
-se de nova prova.
Lei 9.494/97: Art. 20-A. A sentença civil prolatada em ação de caráter coleti-
vo proposta por entidade associativa, na defesa dos interesses e direitos
dos seus associados, abrangerá apenas os substituídos que tenham,
na data da propositura ria ação, domicílio no âmbito da competência
territorial do órgão prolator.
Parágrafo único. Nas ações coletivas propostas contra a União, os Estados,
o Distrito Federal, os Municípios e suas autarquias e fundações, a petição
inicial deverá obrigatoriamente estar instruída com a ata da assembleia
da entidade associativa que a autorizou, acompanhada da relação nomi-
nal dos seus associados e indicação dos respectivos endereços.
A doutrina, contudo, aponta a inconstitucionalidade dos dispo-
sitivos e sua atecnia, com base em vários fundamentos
i) Ausência dos requisitos de urgência e relevância exi-
gidos para a edição de medida provisória;
ii) Violação do princípio da isonomia;
iii) Violação do princípio da segurança jurídica e da ga-
rantia constitucional da coisa julgada, por se admitir
o conflito lógico e prático de julgado;
iv) Violação do princípio da eficiência;
v) Violação ao princípio do acesso à justiça, ao dificul-
tar a tutela dos direitos coletivos;
184 • José Roberto Mello Porto
;X)
Violação da razoabilidade e da desproporcionalida-
de, porque são dispositivos editados tão somente
em função dos interesses fazendários;
Confusão entre competência e jurisdição, esta última
uma e nacional;
Confusão entre competência e limites subjetivos e
objetivos da coisa julgada: pouco importa o órgão
que julga o conflito, o relevante são os sujeitos atin-
gidos (substituídos em juízo) e o próprio direito;
Indivisibilidade dos direitos coletivos transindividuais,
não admitindo respostas jurisdicionais díspares.
O Superior Tribunal de justiça, inicialmente, aplicava a restri-
ção totalmente. Por fim, em julgamento de recurso repetitivo, a
Corte Especial assentou que os efeitos e a eficácia da sentença não
estão limitados pelo elemento geográfico, mas apenas ao que foi
decidido e em relação a quem se decidiu.
/ Como entende a jurisprudência?
Para efeitos do art. 543-C do CPC: 1.1. A liquidação e a execução individual
de sentença genérica proferida em ação civil coletiva pode ser ajuizada
no foro do domicílio do beneficiário, porquanto os efeitos e a eficácia da
sentença não estão circunscritos a lindes geográficos, mas aos limites
objetivos e subjetivos do que foi decidido, levando-se em conta, para
tanto, sempre a extensão do dano e a qualidade dos interesses me-
taindividuais postos em juízo (arts. 468, 472 e 474, CPC e 93 e 103, CDC).
A sentença genérica proferida na ação civil coletiva ajuizada pela Apadeco,
que condenou o Banestado ao pagamento dos chamados expurgos inflacio-
nários sobre cadernetas de poupança, dispôs que seus efeitos alcançariam
todos os poupadores da instituição financeira do Estado do Paraná. Por isso
descabe a alteração do seu alcance em sede de liquidação/execução indivi-
dual, sob pena de vulneração da coisa julgada. Assim, não se aplica ao caso
a limitação contida no art. 2.-A, caput, da Lei n. 9.494/97. (STJ, REsp 1243887/
PR, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão, Corte Especial, julgado em 19/10/2011)
Para fins do art. 543-C do Código de Processo Civil: a) a sentença proferida
pelo juízo da 12. Vara Cível da Circunscrição Especial judiciária de Brasília/
DF, na ação civil coletiva n. 1998.01.1.016798-9, que condenou o Banco do
Brasil ao pagamento de diferenças decorrentes de expurgos inflacionários
sobre cadernetas de poupança ocorridos em janeiro de 1989 (Plano Ve-
rão), é aplicável, por força da coisa julgada, indistintamente a todos os
detentores de caderneta de poupança do Banco do Brasil, independente-
• Sentença e Coisa Julgada 185
mente de sua residência ou domicílio no Distrito Federal, reconhecendo-se
ao beneficiário o direito de ajuizar o cumprimento individual da sentença
coletiva no juízo de seu domicílio ou no Distrito Federal;
b) os poupadores ou seus sucessores detêm legitimidade ativa - também
por força da coisa julgada -, independentemente de fazerem parte ou não
dos quadros associativos do idec, de ajuizarem o cumprimento individual
da sentença coletiva proferida na Ação Civil Pública n. 1998.01.1.016798-9,
pelo juízo da 12. Vara Cível da Circunscrição Especial Judiciária de Brasília/
DF. (Sri, REsp 1391198/R5, Rel. Ministro Luis Felipe Salomão, Segundo Seção,
julgado em 13/08/2014)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(MPE/GO - 2019 - MPE/GO - Promotor de justiça) A liquidação e a exe-
cução individual de sentença genérica proferida em ação civil coletiva
pode ser ajuizada no foro do domicílio do beneficiário, porquanto os
efeitos e a eficácia da sentença não estão circunscritos a lindes geográ-
ficos, mas aos limites objetivos e subjetivos do que foi decidido, levan-
do-se em conta, para tanto, sempre a extensão do dano e a qualidade
dos interesses metaindividuais postos em juízo.
A alternativa foi considerada correta.
(CESPE - 2019 - DPE/DF - Defensor Público) Associação de defesa dos
consumidores em determinado estado da Federação promoveu de-
manda coletiva discutindo a ilegalidade da cobrança de taxa de conve-
niência por fornecedor que oferecia a venda pela Internet de ingressos
para apresentação de renomado artista. Nesse caso, segundo entendi-
mento do S11, os efeitos e a eficácia da sentença coletiva restringem-se
aos limites do território da competência do órgão judicante, conside-
rando-se sempre a extensão do dano e a qualidade dos interesses
metaindividuais postos em juízo.
A alternativa foi considerada incorreta.Além disso, o Superior Tribunal de Justiça esclarece que, no
caso dos sindicatos, a restrição quanto ao domicílio dos beneficia-
dos não se coloca, realizando um distinguishing desde sempre.
Como entende a jurisprudência?
A Primeira Seção desta Corte, nos autos do EREsp 1.770.377/RS, Rel. Min.
Herman Benjamin, Dje 7/5/2020, se manifestou no sentido de que, quando
em discussão a eficácia objetiva e subjetiva da sentença proferida em ação
coletiva proposta em substituição processual (como ocorre quando a ação
é ajuizada por sindicato), a aplicação do art. 2.-A da Lei 9.494/1997 deve se
harmonizar com os demais preceitos legais aplicáveis ao tema, de forma
186 Processo coletivo - vol. 54 • José Roberto Mello Porto
que o efeito da sentença coletiva nessas hipóteses não está adstrito aos
filiados à entidade sindical à época do oferecimento da ação coletiva, nem
limitada sua abrangência ao âmbito territorial da jurisdição do órgão pro-
lator da decisão. Naquela oportunidade registrou-se o distinguishing entre
aquele caso e a orientação do Supremo Tribunal Federal no âmbito do RE
612.o43/PR (Tema 499), julgado em repercussão geral, onde foi reconhecida
a constitucionalidade do art. zo-A da Lei 9.494/1997. A pretensão de limitar
os efeitos da sentença coletiva à base territorial do sindicato que atuou
em substituição processual não encontra respaldo no art. 2.-A da Lei no
9.494/1997, o qual, no que diz respeito a limites territoriais, trata apenas
da competência territorial do órgão judicial prolator da decisão, em nada
adentrando na questão relativa à base territorial sindical, de modo que o
recurso especial não merece conhecimento (...) (REsp 1887817/SP, Rel. Minis-
tro Mauro Campbell Marques, Segundo Turma, julgado em 03/11/2020).
Recentemente, o art. 16 da LACP foi declarado inconstitucional
pelo STF, incidentalmente na fixação de tese em Repercussão Geral,
garantindo os efeitos da sentença coletiva a todos os beneficiários,
independente de seu domicílio estar nos limites da competência do
órgão julgador, em homenagem aos princípios da isonomia, eficiên-
cia, segurança jurídica e efetividade da jurisdição.
Como entende a jurisprudência?
A Constituição Federal de 1988 ampliou a proteção aos interesses difu-
sos e coletivos, não somente constitucionalizando-os, mas também pre-
vendo importantes instrumentos para garantir sua pela efetividade. 2. 0
sistema processual coletivo brasileiro, direcionado à pacificação social
no tocante a litígios meta individuais, atingiu status constitucional em
1988, quando houve importante fortalecimento na defesa dos interesses
difusos e coletivos, decorrente de uma natural necessidade de efetiva
proteção a uma nova gama de direitos resultante do reconhecimento
dos denominados direitos humanos de terceira geração ou dimensão,
também conhecidos como direitos de solidariedade ou fraternidade.
3. Necessidade de absoluto respeito e observância aos princípios da
igualdade, da eficiência, da segurança jurídica e da efetiva tutela ju-
risdicional. 4. Inconstitucionalidade do artigo 16 da LACP, com a redação
da Lei 9.494/1997, cuja finalidade foi ostensivamente restringir os efeitos
condenatórios de demandas coletivas, limitando o rol dos beneficiários
da decisão por meio de um critério territorial de competência, acar-
retando grave prejuízo ao necessário tratamento isonômico de todos
perante a justiça, bem como à total incidência do Princípio da Eficiência
na prestação da atividade jurísdicional. 5. RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS
DESPROVIDOS, com a fixação da seguinte tese de repercussão geral: "I -
É inconstitucional a redação do art. 16 da Lei 7-347/1985, alterada pela
- • Sentença e Coisa Julgada 187
Lei 9.494/1997, sendo repristinada sua redação original. li - Em se tra-
tando de ação civil pública de efeitos nacionais ou regionais, a compe-
tência deve observar o art. 93, II, da Lei 8.078/1990 (Código de Defesa
do Consumidor). Ill - Ajuizadas múltiplas ações civis públicas de âmbito
nacional ou regional e fixada a competência nos termos do item II, fir-
ma-se a prevenção do juízo que primeiro conheceu de uma delas, para
o julgamento de todas as demandas conexas". (RE 1101937, Relator(a):
Alexandre de Moraes, Tribunal Pleno, julgado em 08/04/2021)
De todo modo, prevalece a extensão contida no título transitada
em julgado. Não é possível sua ampliação no momento da execução.
1 Como esse assunto foi cobrado em concurso'
(MPE/GO - 2019 - MPE/GO - Promotor de justiça) A abrangência nacional ex-
pressamente declarada na sentença coletiva pode ser, excepcionalmente,
alterada na fase de execução, sem que haja ofensa à coisa julgada.
A alternativa foi considerada incorreta.
Cabe, aqui, uma palavra sobre o mandado de injunção cole-
: após a implementação da norma pelo judiciário, pode ser
que surja regulamentação por parte do real incumbido - essa nova
norma produzirá efeitos apenas ex nunc, não retroagindo quanto
aos beneficiários da impetração anterior, salvo se mais benéfica.
0 que diz a lei?
LMI: Art. ii. A norma regulamentadora superveniente produzirá efeitos
ex nunc em relação aos beneficiados por decisão transitada em julgado,
salvo se a aplicação da norma editada lhes for mais favorável.
2.4. Coisa julgada secundum eventum probationis
Na tutela coletiva, existe a possibilidade de repropositura da de-
manda julgada improcedente por insuficiência de provas, no caso de
direitos difusos ou coletivos - coisa julgada secundum eventum pro-
bationis, ou seja, condicionada ao grau de prova obtido no processo.
1 Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - DPE-AL - Defensor Público) A sentença de improcedência
proferida em ação civil pública que tenha por objeto a defesa de inte-
resses coletivos formará coisa julgada secundum eventum probationis.
A alternativa foi considerada incorreta, possivelmente por excluir os
interesses difusos.
188 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Essa nova ação coletiva pode ser intentada por qualquer dos
legitimados, inclusive por aquele que moveu a primeira demanda.
0 que diz a lei?
LACP: Art. 16. A sentença civil ford coisa julgada erga omnes, nos limites da
competência territorial do órgão prolator, exceto se o pedido for julgado
improcedente por insuficiência de provas, hipótese em que qualquer
legitimado poderá intentar outra ação com idêntico fundamento, va-
lendo-se de nova prova.
CDC: Art. 103. Nas ações coletivas de que trata este código, a sentença fará
coisa julgada:
I - erga omnes, exceto se o pedido for julgado improcedente por insufi-
ciência de provas, hipótese em que qualquer legitimado poderá inten-
tar outra ação, com idêntico fundamento valendo-se de nova prova, na
hipótese do inciso I do parágrafo único do art. 81;
li - ultra partes, mas limitadamente ao grupo, categoria ou classe, salvo im-
procedência por insuficiência de provas, nos termos do inciso anterior,
quando se tratar da hipótese prevista no inciso lido parágrafo único do art. 81.
LAP: Art. 18. A sentença terá eficácia de coisa julgada oponível "erga om-
nes", exceto no caso de haver sido a ação julgada improcedente por
deficiência de prova; neste caso, qualquer cidadão poderá intentar
outra ação com idêntico fundamento, valendo-se de nova prova.
LMI: Art. 90, § 30 0 indeferimento do pedido por insuficiência de prova
não impede a renovação da impetração fundada em outros elementos
probatórios.
Esse regramento leva a doutrina a discutir se, verdadeiramen-
te, existe coisa julgada material, no primeiro julgado:
Primeira corrente (Hugo Nigro Mazzilli): não há imutabilidade na
primeira decisão, logo a segunda ação, sem fundamentação em
prova nova, deve ser extinta por ausência de interesse de agir;
Segunda corrente (Daniel Assumpção Neves): há imutabilidade
e coisa julgada, mas condicionada, logo a segunda ação, sem
fundamentação em prova nova, deve ser extinta por existência
de coisa julgada.Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - TCM/BA - Analista de Controle F A hipótese que
indica conteúdo de sentença de mérito proferida em ação popular,
mas sem eficácia de coisa julgada oponível erga omnes é o julgamento
de improcedência por deficiência de prova.
• Sentença e Coisa julgada 189
A alternativa foi considerada correta. No entanto, é questionável se a
redação é a melhor, já que, a rigor, há coisa julgada nos limites subjeti-
vos da ação popular (erga omnes), mas que não impede a propositura
de nova ação.
Essa particularidade apenas existe na tutela de direitos difu-
sos e coletivos em sentido estrito, mas não na de direitos indivi-
duais homogêneos, como reconhece o Superior Tribunal de justiça,
atento à literalidade do CDC.
Como entende a jurisprudência?
A apuração da extensão dos efeitos da sentença transitada em julgado
proferida em ação coletiva para a defesa de direitos individuais homogê-
neos passa pela interpretação conjugada dos artigos 81, inciso Ill, e 103,
inciso Ill e 520, do Código de Defesa do Consumidor.
Nas ações coletivas intentadas para a proteção de interesses ou direitos
individuais homogêneos, a sentença fará coisa julgada erga omnes ape-
nas no caso de procedência do pedido. No caso de improcedência, os
interessados que não tiverem intervindo no processo como litisconsortes
poderão propor ação de indenização a título individual.
Não é possível a propositura de nova ação coletiva, mas são resguarda-
dos os direitos individuais dos atingidos pelo evento danoso. (STJ, REsp
1302596/S P. Rel. Ministro Paulo De Tarso Sanseverino, Rel. P/ Acórdão Mi-
nistro Ricardo Villas Bôas Cueva, Segundo Seção, julgado em 09/12/2015)
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - TRF-5a Região - Juiz Federal) O Ministério Público de de-
terminado estado da Federação e o Ministério Público Federal ajuiza-
ram, em litisconsórcio, ação civil pública para tutela de direitos indivi-
duais homogêneos de consumidores lesados por contrato de consumo.
De acordo com o STJ, nessa situação hipotética, caso seja rejeitado o
pedido, com sentença transitada em julgado, estará vedada a pro-
positura de nova demanda coletiva, com o mesmo objeto, por outro
legitimado coletivo.
A alternativa foi considerada correta.
A prova nova deve reunir dois requisitos:
Requisito substancial: ser, ao menos na avaliação superficial
do juiz da segunda ação, aparentemente capaz de gerar um
julgamento favorável;
Requisito formal: a doutrina debate o que seria prova nova
para fins da repropositura:
190 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Primeira corrente (Daniel Assumpção Neves, Hugo Nigro
Mazzilli): prova nova é aquela não utilizada no primeiro
processo, ainda que existente à sua época;
Segunda corrente (Ada Pellegrini Grinover): prova nova
tem que ser uma prova superveniente (adotando-se o
critério temporal, portanto).
Discute-se, ainda, a necessidade de menção expressa à ausên-
cia de provas, na primeira sentença, transitada em julgado:
Primeira corrente (Rodolfo Mancuso, Gregório Assagra, Ada Pel-
legrini Grinover): deve haver expressa menção na decisão ou
fundamentação que indique a falta de provas (tese restritiva);
Segunda corrente (Daniel Assumpção Neves, Ricardo de Barros
Leone!): é desnecessário que se extraia da decisão transitada
em julgado a falta de provas (tese ampliativa).
2.5. Coisa julgada secundum eventum litis in utilibus
No processo coletivo, a coisa julgada se forma de acordo com
o resultado do processo (secundum eventum litis), e apenas em
benefícios dos indivíduos (in utilibus).
Esse regramento se aplica:
Aos direitos individuais homogêneos, com exceção da-
queles que tenham se habilitado como litisconsortes do
autor coletivo;
Aos direitos difusos e coletivos, impedindo o transporte
in utilibus, mas não o ajuizamento individual.
0 que diz a lei?
CDC: Art. 103. Nas ações coletivas de que trata este código, a sentença ford
coisa julgada:
Ill - erga omnes, apenas no caso de procedência do pedido, para bene-
ficiar todas as vítimas e seus sucessores, na hipótese do inciso Ill do
parágrafo único do art. 81.
§ lo Os efeitos da coisa julgada previstos nos incisos I e II não prejudica-
rão interesses e direitos individuais dos integrantes da coletividade, do
grupo, categoria ou classe.
§ 2. Na hipótese prevista no inciso III, em caso de improcedência do pedi-
do, os interessados que não tiverem intervindo no processo como litiscon-
Xi • Sentença e Coisa Julgada 191
sortes poderão propor ação de indenização a título individual.
§ 30 Os efeitos da coisa julgada de que cuida o art. 16, combinado com
o art. 13 da Lei no 7.347, de 24 de julho de 1985, não prejudicarão as
ações de indenização por danos pessoalmente sofridos, propostas in-
dividualmente ou na forma prevista neste código, mas, se procedente o
pedido, beneficiarão as vítimas e seus sucessores, que poderão proceder
à liquidação e à execução, nos termos dos arts. 96 a 99.
3. TRANSPORTE IN UTILIBUS
Os danos a direitos difusos ou coletivos podem atingir também
sujeitos individuais, mas, no processo coletivo, apenas se tutelar os
direitos transindividuais.
O microssistema, nesse caso, permite a extensão da coisa jul-
gada sobre direitos transindividuais para o plano individual
porte in utilibus), com a habilitação dos indivíduos lesados dire-
tamente na fase de liquidação (liquidação in utilibus) e posterior
execução para liquidar e executar seus danos pessoais.
0 que diz a lei?
CDC: Art. 103. § 3. Os efeitos da coisa julgada de que cuida o art. 16, combi-
nado com o art. 13 da Lei no 7.347, de 24 de julho de 1985, não prejudica-
rão as ações de indenização por danos pessoalmente sofridos, propostas
individualmente ou na forma prevista neste código, mas, se procedente o
pedido, beneficiarão as vítimas e seus sucessores, que poderão proce-
der à liquidação e à execução, nos termos dos arts. 96 a 99.
Trata-se de ampliação subjetiva e objetiva da coisa julgada, em
homenagem ao princípio da economia processual, como no caso da
condenação de determinado fornecedor a retirar um produto noci-
vo do mercado, vez que tem potencial de gerar danos, bem como
daquela referente a dano ambiental, como um derramamento de
óleo em região explorada por pescadores.
A natureza jurídica do comando é levemente controvertida, na
doutrina:
Primeira corrente (Fredie Didier Jr, Hermes Zaneti Jr): trata-se
de ampliação objetiva da coisa julgada;
Segunda corrente (Teori Zavascki): não se trata de extensão
legal, mas de efeito secundário da sentença cível condenatória
de tornar certa a obrigação de indenizar as vítimas individuais;
192 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
3) Terceira corrente (Hugo Nigro Mazzilli): não há qualquer am-
pliação, devendo haver pedido expresso para que haja conde-
nação em obrigação de indenizar os indivíduos.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(MPE/SC - 2019 - MPE/SC - Promotor de Justiça) No regime jurídico da
coisa julgada, nos processos coletivos, existe a possibilidade do apro-
veitamento do resultado do processo na esfera jurídica individual, que
se denomina transporte in utilibus.
A alternativa foi considerada correta.
4. COISA JULGADA COLETIVA PENAI.
Além disso, é possível que haja a abertura objetiva do julgado
criminal que concluir pela prática de crime contra bem jurídico co-
letivo, mas com ofensa, em paralelo, a indivíduo, na chamada ação
coletiva ex delicio ou transporte in utiiibus da coisa julgada crimi-
nal coletiva, da qual são bons exemplos as decorrentes de crimes
contra as relações de consumo, o mercado de capitais, a proteção
da concorrência ou o meio ambiente.
0 que diz a lei?
CDC: Art. 103 § 30 Os efeitos da coisa julgada de que cuida o art. 16, combi-
nado com o art. 13 da Lei no 7-347, de 24 de julho de 1985, não prejudica-
rão as ações de indenização por danos pessoalmente sofridos,propostas
individualmente ou na forma prevista neste código, mas, se procedente o
pedido, beneficiarão as vítimas e seus sucessores, que poderão proce-
der à liquidação e à execução, nos termos dos arts. 96 a 99.
§ 4° Aplica-se o disposto no parágrafo anterior à sentença penal
condenatória.
Assim, o indivíduo que se veja lesado deve promover a liqui-
dação do título executivo judicial genérico, tendo que provar, seme-
lhantemente à liquidação imprópria (transporte in utilibus), a existên-
cia de dano, o nexo de causalidade com a conduta do executado que
gerou o título coletivo e a extensão dos prejuízos sofridos.
el
Capítulo
Meios de Impugnação
das Decisões
1. RECURSOS
Os recursos, na tutela coletiva, seguem o regramento geral do
CPC, com peculiaridades em relação a certos pressupostos recur-
sais e quanto aos efeitos.
Cabimento
A exemplo do que ocorre no processo individual, na tutela
coletiva a apelação é cabível contra a sentença.
Uma peculiaridade que pode haver diz respeito a ações cole-
tivas sobre matéria tratada no ECA, onde existe efeito regressivo e
prioridade na tramitação.
0 que diz a lei?
ECA: Art. 198. III - os recursos terão preferência de julgamento e dispen-
sarão revisor.
Art. 198. VII - antes de determinar a remessa dos autos à superior ins-
tância, no caso de apelação, ou do instrumento, no caso de agravo, a
autoridade judiciária proferirá despacho fundamentado, mantendo ou
reformando a decisão, no prazo de cinco dias.
Por sua vez, o cabimento do -,gravo de instrumento gera
polêmica própria, já que a LAP prevê a possibilidade de atacar
qualquer decisão interlocutória pela via do agravo. Vários deba-
tes decorrem daí.
194 Processo Coletivo - vol. 54 • José Roberto Mello Porto
1 0 que diz a lei?
LAP: Art. 19, §io Das decisões interlocutórias cabe agravo de instrumento.
Primeiramente, cabe questionar se o comando representa ex-
ceção ou não à sistemática do rol taxativo de cabimento (ainda que
mitigado, de acordo com o STJ) do CPC/15:
Primeira corrente (Fredie Didier Jr, Leonardo Carneiro da Cunha
e Fabrício Bastos): o diploma geral não gera modificação na
tutela coletiva, porque, na época de sua criação, a intenção
do legislador havia sido diferenciar o cabimento do agravo
na ação popular do sistema do Código (CPC/39), que também
trazia róis taxativos, funcionando a regra da LAP como exceção
ao sistema do CPC.
Segunda corrente (Andre Roque): a LAP apenas reproduz uma
regra geral do CPC/73, razão pela qual deve ser visto, atual-
mente, sob a ótica do Código de 2015, somente cabendo agra-
vo nos moldes do diploma geral.
O segundo debate se refere ao dispositivo da LAP ser ou não
um comando geral do microssistema de tutela coletiva:
Primeira corrente (Daniel Assumpção Neves, Fabrício Bastos,
Fredie Didier Jr, Leonardo Carneiro da Cunha): a regra deve ser
ampliada e vista como norma geral do microssistema, sendo
aplicável a outras ações coletivas;
Segunda corrente (Henrique Fleury): nas demais ações coletivas,
deve ficar aberta a vida do recurso de apelação contra decisões
interlocutórias fora do rol taxativo do art. 1.015 do CPC.
O Superior Tribunal de Justiça se inclina em favor do amplo
cabimento do agravo de instrumento também em outras ações co-
letivas, como na ação civil pública.
1 Como entende a jurisprudência?
Discute-se a aplicação, por analogia, do art. 19, § io, da Lei n. 4.717/65 (Lei
da Ação Popular) na hipótese em que o agravo de instrumento é interpos-
to contra decisão interlocutória proferida no âmbito de ação civil pública,
matéria que extrapola a tese firmada no julgamento dos REsp's 1.696.396/
MT e 1.7o4.52o/MT (Tema no 988), sob o rito repetitivo.
Nas ações civis públicas, cabível se revela a interposição de agravo de ins-
trumento contra decisão interlocutória, devendo a lacuna existente na Lei
• Meios de Impugnação das Decisões 195
rt. 7.347/85 (Lei de Ação Civil Pública) ser colmatada mediante a aplicação
de dispositivo também integrante do microssistema legal de proteção aos
interesses ou direitos coletivos, a saber, o art. 19, § 1., da Lei n. 4.717/65
(Lei de Ação Popular). Nessa toada hermenêutica: REsp 14704OP, Rel.
Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, julgado em 21/02/2017,
Die 24/02/2017.
Afora isso, o cabimento do agravo de instrumento contra decisões interlocu-
tórias proferidas em demandas coletivas também encontra amparo no pró-
prio inciso XIII do art. 1.015 do CPC/2015, cujo dispositivo admite a interposição
do recurso instrumental em "outros casos expressamente referidos em lei".
Nesse mesmo sentido: AgInt no REsp 1•733•540/DF, Rel. Ministro Gurgel de Fa-
ria, Primeira Turma, julgado em 25/11/2019, Die 4/12/2019. (REsp 1828295/MG,
Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, julgado em 11/02/202o)
Como esse assunto foi cobrado em concurso
(CESPE - 2018 - STj - Analista judiciário' Em uma ação civil pública ajuizada
pelo Ministério Público, o promotor de justiça participou de audiência na
qual o magistrado, entre outras providências, prolatou decisão indefe-
rindo o pedido de inversão do ônus da prova apresentado na petição
inicial. Acerca dessa situação hipotética, julgue o item que se segue.
No momento processual em questão, será possível opor embargos de
declaração, mas eventual recurso para reformar a decisão de indefe-
rimento da inversão do ônus da prova somente poderá ser interposto
após a prolação da sentença, por via do recurso de apelação.
A alternativa foi considerada incorreta. Note que, independente da dis-
cussão abordada acima, essa seria a conclusão, porque o próprio CPC,
no art. 1.015, XI, admite o agravo sobre a decisão de (não) redistribui-
ção do ônus da prova.
Não se pode, além disso, esquecer do cabimento do • ri
ordinário constitucional nos processos de mandado de segurança
coletivo e mandado de injunção coletivo, a serem julgados:
a) Pelo STF, quando interposto contra decisão denegatória de
MS ou MI de competência originária de tribunal superior;
b) Pelo Si], quando interposto contra decisão denegatória
de MS de competência originária de tribunais locais.
Legitimidade
Na LAP, está previsto que o cidadão que não é parte formal do
processo pode recorrer, bem como Ministério Público e do autor
196 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
popular. Na lei 7.853/89, existe comando parecido, autorizando
qualquer legitimado a recorrer.
0 que diz a lei?
LAP: Art. 19, § 2. Das sentenças e decisões proferidas contra o autor da
ação e suscetíveis de recurso, poderá recorrer qualquer cidadão e tam-
bém o Ministério Público.
Lei 7.853/89: Art. 4., § 2. Das sentenças e decisões proferidas contra o autor
da ação e suscetíveis de recurso, poderá recorrer qualquer legitimado
ativo, inclusive o Ministério Público.
Esse alargamento é visto por parte da doutrina (Daniel As-
sumpção Neves) como uma regra geral da tutela coletiva, permitin-
do que todos os colegitimados recorram das decisões proferidas
no curso do processo coletivo, dentro dos moldes exigidos pelo
limitador da pertinência temática.
Interesse
Na tutela coletiva, como o julgamento de improcedência por
ausência de provas autoriza o ajuizamento de nova ação (coisa jul-
gada secundum eventum probationis), é viável que o réu, vencedor,
possua interesse em recorrer (sucumbência material, embora não
formal), buscando a improcedência plena.
1.4. Tempestividade
Na ausência de comandos específicos no núcleo duro e nas leis
esparsas do microssistema, incidem nas ações coletivas os prazos
previstos no Código de Processo Civil. Do mesmo modo, a prerro-
gativa do prazo em dobro para Ministério Público, Fazenda Pública
e Defensoria Pública deve ser sempre respeitada, decorrendo da
regra geral do CPC (arts. 18o, 183 e 188).
No caso de tutela de interesses do patrimônio indígena, o Es-
tatuto do Índio estende os benefícios da Fazenda Pública para os
demais legitimados ativos, o que implica na duplicaçãodo prazo.
0 que diz a lei?
Lei 6.001/73: Art. 61. São extensivos aos interesses do Patrimônio Indígena
os privilégios da Fazenda Pública, quanto à impenhorabilidade de bens,
rendas e serviços, ações especiais, prazos processuais, juros e custas.
• Meios de Impugnação das Decisões 197
Quando a ação coletiva proteger direitos da infância e da ju-
ventude, existe uma dicotomia, já que o ECA prevê prazos recursais
de lo dias, em dias corridos. Apesar disso, o Superior Tribunal de
justiça possui entendimento no sentido de que as regras específi-
cas do estatuto não são aplicáveis às ações coletivas sobre direitos
das crianças e dos adolescentes.
1 Como entende a jurisprudência?
A ação civil pública é disciplinada pela lei num. 7.347/85, que determina
a aplicação do CPC naquilo em que não contrariar outras disposições. A
referida lei não regula prazo para apelação. Este deve, portanto, ser o
previsto no CPC - 15 dias - contado em dobro (art. 188, CPC). O Estatuto
da criança e do Adolescente recepcionou o sistema recursal do CPC. (STJ,
REsp 128.o81/RS, Rel. Ministro Garcia Vieira, Primeira Turma, julgado em
17/04/1998)
1.5. Desistência e renuncia
Na tutela coletiva, é possível que o legitimado recorrente desis-
ta do recurso interposto ou renuncie antecipadamente ao recurso.
A peculiaridade que a doutrina traz é a necessidade de intimação
dos colegitimados para que prossigam no processo, analogicamente
ao que está previsto, no microssistema, para a desistência na ação.
1 0 que diz a lei?
LACP: Art. 5., § 3. Em caso de desistência infundada ou abandono da ação
por associação legitimada, o Ministério Público ou outro legitimado assu-
mirá a titularidade ativa.
A doutrina controverte sobre a possibilidade de controle acer-
ca da desistência ou de renúncia por parte do Ministério Público.
Primeira corrente (Daniel Assumpção Neves): basta o controle
judicial, ou seja, não há necessidade de revisão provocada
por outro órgão do próprio MP;
Segunda corrente (Cregório Assagra de Almeida e Hugo Nigro
Mazzilli): o juiz deve remeter informações ao Conselho Supe-
rior do Ministério Público, que se posicionará em definitivo;
Terceira corrente (Ricardo de Barros Leonel): o juiz, se não se
convence dos argumentos trazidos pelo MP, deve comunicar
ao chefe institucional da instituição para apreciação.
198 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
1.6. Efeito suspensivo
Na tutela coletiva, os recursos não ostentam efeito suspensivo
próprio, cabendo ao juiz, se houver fundamento, concedê-lo (efeito
suspensivo impróprio).
O que diz a lei?
LACP: Art. 14. 0 juiz poderá conferir efeito suspensivo aos recursos, para
evitar dano irreparável à parte.
ECA: Art. 215. 0 juiz poderá conferir efeito suspensivo aos recursos, para
evitar dano irreparável à parte.
El: Art. 85. 0 juiz poderá conferir efeito suspensivo aos recursos, para evi-
tar dano irreparável à parte.
Chama atenção, nesse aspecto, a previsão da LAP, que traz
efeito suspensivo para o recurso de apelação contra sentença de
procedência.
1 0 que diz a lei?
LAP: Art. 19. A sentença que concluir pela carência ou pela improcedência
da ação está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito
senão depois de confirmada pelo tribunal; da que julgar a ação proce-
dente caberá apelação, com efeito suspensivo.
A doutrina diverge quanto à aplicabilidade do comando:
Primeira corrente (Rodolfo Mancuso, Fredie Didier Jr, Hermes
Zaneti Jr): prevalece o comando, existindo exceção ao sistema
geral da tutela coletiva na ação popular, ante a presunção de
legalidade dos atos administrativos impugnados.
2) Segunda corrente (Cregório Assagra de Almeida, Daniel As-
sumpção Neves): deve ser realizada uma leitura sistemática,
afastando o comando e o efeito suspensivo na ação popular,
prevalecendo a regra geral do microssistema, mais protetivo
à tutela dos direitos.
A primeira posição foi pontualmente adotada pelo Superior
Tribunal de justiça.
1 Como entende a jurisprudência?
É que o efeito suspensivo típico da apelação em ação popular não per-
dura, via de regra, nos recursos extraordinários (em sentido lato). Além
Cap. XII • Meios de Impugnação das Decisões 199
disto, a confirmação por tribunal limita-se ao primeiro provimento cole-
giado, não abarcando, pois, os demais. (ST), REsp 1188564/SP, Rel. Ministro
Mauro Campbell Marques, Segundo Turma, julgado em 10/08/2010)
2. REMESSA NECESSÁRIA
No núcleo duro do microssistema, não existe previsão de re-
messa necessária, que funciona, em geral, como causa impeditiva
da eficácia do provimento jurisdicional, que não gera efeitos até
que seja revisto.
Excepcionalmente, na lei do mandado de segurança, pode ha-
ver execução, o que traduz uma natureza jurídica de causa obstati-
va do trânsito em julgado.
De todo modo, deve ser aplicada, aos processos coletivos, a
previsão do Código de Processo Civil. A peculiaridade da remessa
necessária no microssistema está na LAP e na Lei 7.853/89.
0 que diz a lei?
CPC: Art. 496. Está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo
efeito senão depois de confirmada pelo tribunal, a sentença:
I - proferida contra a Unido, os Estados, o Distrito Federal, os Municí-
pios e suas respectivas autarquias e fundações de direito público;
II - que julgar procedentes, no todo ou em parte, os embargos à exe-
cução fiscal.
§ 3. Não se aplica o disposto neste artigo quando a condenação ou o
proveito econômico obtido na causa for de valor certo e líquido inferior a:
I - 1.000 (mil) salários-mínimos para a União e as respectivas autarquias e
fundações de direito público;
II - 500 (quinhentos) salários-mínimos para os Estados, o Distrito Federal,
as respectivas autarquias e fundações de direito público e os Municípios
que constituam capitais dos Estados;
III - ioo (cem) salários-mínimos para todos os demais Municípios e respec-
tivas autarquias e fundações de direito público.
§ 4° Também não se aplica o disposto neste artigo quando a sentença
estiver fundada em:
I - súmula de tribunal superior;
II - acórdão proferido pelo Supremo Tribunal Federal ou pelo Superior
Tribunal de justiça em julgamento de recursos repetitivos;
III - entendimento firmado em incidente de resolução de demandas repe-
titivas ou de assunção de competência;
200 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
IV - entendimento coincidente com orientação vinculante firmada no âmbi-
to administrativo do próprio ente público, consolidada em manifestação,
parecer ou súmula administrativa.
LMS: Art. 14, § io Concedida a segurança, a sentença estará sujeita obriga-
toriamente ao duplo grau de jurisdição.
§ 30 A sentença que conceder o mandado de segurança pode ser execu-
tada provisoriamente, salvo nos casos em que for vedada a concessão da
medida liminar.
LAP: Art. 19. A sentença que concluir pela carência ou pela improcedência
da ação está sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito
senão depois de confirmada pelo tribunal; da que julgar a ação proceden-
te caberá apelação, com efeito suspensivo.
Lei 7.853/89: Art. 4., § 1. A sentença que concluir pela carência ou pela
improcedência da ação fica sujeita ao duplo grau de jurisdição, não pro-
duzindo efeito senão depois de confirmada pelo tribunal.
O cenário final é o seguinte:
Remessa necessária comum (art. 496 do CPC), quando a
sentença for desfavorável à Fazenda Pública;
Remessa necessária inversa ou às avessas (art. 19 da
LAP), quando a sentença for:
i) Terminativa por carência da ação;
ii) De improcedência.
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2017 - TRE/TO - Analista judiciário) Em razão da existência de
ato lesivo ao patrimônio público, determinado cidadão propôs ação
popular e incluiu no polo passivo da ação o gestor público e a pessoa
jurídica de direito público responsáveis pelo ato, além dos particula-
res supostamente beneficiados. Nessa situaçãohipotética, a sentença
proferida se submeterá ao regime de remessa necessária apenas se o
ente público vier a ser condenado.
A alternativa foi considerada incorreta.
(VUNESP - 2019 Prefeitura de Cerquilho - Procurador jurídico) Sobre a
Ação Popular, é correto afirmar: a sentença que concluir pela carência
ou pela improcedência da ação está sujeita ao duplo grau de jurisdi-
ção, produzindo efeito imediatamente.
A alternativa foi considerada incorreta.
Cap. Xr • Meios de Impugnação das Decisões 201
(FUNCERN - 2019 - Prefeitura de Jardim de Piranhas - Procurador) Se-
gundo o artigo 14 da Lei Federal no. 12.016/20°9, da sentença, denegan-
do ou concedendo o mandado de segurança, cabe apelação. É dispo-
sição também dessa lei que concedida a segurança, a sentença estará
sujeita obrigatoriamente ao duplo grau de jurisdição.
A alternativa foi considerada correta.
Quanto à primeira hipótese do processo coletivo (sentença
terminativa por carência de ação), existe divergência quanto à sua
amplitude:
2) Primeira corrente: qualquer sentença terminativa deverá dar
azo à remessa necessária;
2) Segunda corrente (Fredie Didier Jr e Hermes Zaneti Jr): apenas
a sentença terminativa por falta de interesse processual ou
por ilegitimidade estão aí compreendidas.
O Superior Tribunal de Justiça, quando teve oportunidade, op-
tou por adotar interpretação restritiva.
Como entende a jurisprudência?
Não obstante a análise da legitimidade ativa dever ser ampla, de modo
a facilitar o acesso à justiça do autor popular, o artigo 19, lex specialis em
relação ao CPC vigente à época do decisum, é explícito ao estabelecer que
"a sentença que concluir pela carência ou pela improcedência da ação está
sujeita ao duplo grau de jurisdição, não produzindo efeito senão depois de
confirmada pelo tribunal". O STI, interpretando o art. 19 da Lei 4.717/1965,
considera hipótese de reexame necessário somente quando a sentença que
extinguiu o feito sem exame do mérito se der por carência da ação (ST), REsp
1.115.586/DE, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Turma, Dje 22/8/2016).
7. Assim, carência de ação não abrange os casos de extinção com fulcro
no art. 267, I e IV, do CPC de 1973, que são as hipóteses possíveis no caso
concreto. (...) (AC 47/RS, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma,
julgado em 20/02/2018)
O principal questionamento diz respeito à aplicabilidade do
comando para as demais ações coletivas.
O STJ já enfrentou a questão e aplica a remessa necessária da
LAP para outras espécies de ação coletiva (inclusive para a ação de
improbidade administrativa), salvo para as que tutelem direitos indi-
viduais homogêneos, porque a transindividualidade do bem jurídico
e a relevância para toda a coletividade não estariam presentes.
202 Processo Coletivo - vol. 54 • José Roberto Mello Porto
Como entende a jurisprudência?
Por aplicação analógica da primeira parte do art. 19 da Lei no 4.717/65, as
sentenças de improcedência de ação civil pública sujeitam-se indistinta-
mente ao reexame necessário. Doutrina. (STj, REsp 1/08542/SC, Rel. Ministro
Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 19/05/2009)
O fundamento da remessa ou reexame necessário consiste em uma pre-
caução com litígios que envolvam bens jurídicos relevantes, de forma a
impor o duplo grau de jurisdição independentemente da vontade das
partes.
Ações coletivas que versam direitos individuais homogêneos integram sub-
sistema processual com um conjunto de regras, modos e instrumento pró-
prios, por tutelarem situação jurídica heterogênea em relação aos direitos
transindividuais.
Limites à aplicação analógica do instituto da remessa necessária, pois
a coletivização dos direitos individuais homogêneos tem um sentido
meramente instrumental, com a finalidade de permitir uma tutela
mais efetiva em juízo, não se deve admitir, portanto, o cabimento da
remessa necessária, tal como prevista no art. 19 da Lei 4.717/65. (ST1,
REsp 1374232/ES, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em
26/09/2017)
Verifica-se que, no acórdão embargado, a Primeira Turma decidiu que não
há falar em aplicação subsidiária do art. 19 da Lei 4.717/65, mormente por
ser o reexame necessário instrumento de exceção no sistema processual.
Já o v. acórdão paradigma da Segundo Turma decidiu admitir o reexame
necessário na Ação de Improbidade.
A jurisprudência do STj se firmou no sentido de que o Código de Processo
Civil deve ser aplicado subsidiariamente à Lei de Improbidade Administra-
tiva. Nesse sentido: REsp 1.217.554/SP, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segundo
Turma, Die 22/8/2013, e REsp 1.098.669/GO, Rel. Ministro Arnaldo Esteves
Lima, Primeira Turma, Dje 12/11/2010.
Portanto, é cabível o reexame necessário na Ação de Improbidade Admi-
nistrativa, nos termos do artigo 475 do CPC/1973. Nessa linha: REsp 1556576/
PE, Rel. Ministro Herman Benjamin, Segunda Turma, Die 31/5/2016.
Diante do exposto, dou provimento aos Embargos de Divergência para que
prevaleça a tese do v. acórdão paradigma de que é cabível o reexame
necessário na Ação de Improbidade Administrativa, nos termos do ar-
tigo 475 do CPC/1973, e determino o retorno dos autos para o Tribunal de
origem a fim de prosseguir no julgamento.
(ST), EREsp 1220667/MG, Rel. Ministro Herman Benjamin, Primeira Seção,
julgado em 24/05/2017)
Cap. X' • Meios de Impugnação das Decisões 203
Como esse assunto foi cobrado em concurso?
(CESPE - 2018 - PGE-PE - Procurador do Estado) De acordo com o STJ, a
sentença que julgar improcedente a ação de improbidade administrati-
va se submeterá ao regime de reexame necessário, independentemen-
te do valor atribuído à causa.
A alternativa foi considerada correta.
A última dúvida é se as hipóteses de não aplicação de remessa
necessária previstas no CPC se aplicam às ações coletivas:
Primeira corrente (Hugo Nigro Mazzilli): a dispensa se aplica a
processos coletivos.
Segunda corrente (Marco Antonio Rodrigues): a dispensa do
CPC não se aplica, sob pena de uma norma geral afastar norma
especial.
3) Terceira corrente: as hipóteses referentes ao proveito econô-
mico não se aplicam (art. 496, §30), mas as decorrentes do
conteúdo da sentença se aplicam (art. 496, §4°).
3. REQUERIMENTO DE SUSPENSÃO DA DECISÃO
Tanto nas liminares (tutelas provisórias), como na sentença, é
possível o requerimento, complementar ao recurso, da suspensão
dos efeitos da sentença, pela via administrativa, em pedido dirigi-
do ao presidente do tribunal competente para apreciar o recurso
contra a decisão.
O que diz a lei?
lACP: Art. 12. Poderá o juiz conceder mandado liminar, com ou sem justifi-
cação prévia, em decisão sujeita a agravo.
§ I. A requerimento de pessoa jurídica de direito público interessada,
e para evitar grave lesão à ordem, à saúde, à segurança e à economia
pública, poderá o Presidente do Tribunal a que competir o conhecimento
do respectivo recurso suspender a execução da liminar, em decisão fun-
damentada, da qual caberá agravo para uma das turmas julgadoras, no
prazo de 5 (cinco) dias a partir da publicação do ato.
Lei 8.437/92: Art. 4. Compete ao presidente do tribunal, ao qual couber o
conhecimento do respectivo recurso, suspender, em despacho fundamen-
tado, a execução da liminar nas ações movidas contra o Poder Público
ou seus agentes, a requerimento do Ministério Público ou da pessoa
204 Processo Coletivo - Vol. 54 • José Roberto Mello Porto
jurídica de direito público interessada, em caso de manifesto interesse
público ou de flagrante ilegitimidade, e para evitar grave lesão à or-
dem, à saúde, à segurança e à economia públicas.
§ io Aplica-se o disposto neste artigo à sentença proferida em processo de
ação cautelar inominada, no processo de ação popular e na ação civil
pública, enquanto não transitada em julgado.
Lei 9.494/97: Art. 10 Aplica-se à tutela antecipada prevista nos arts. 273 e 461
do Código de Processo Civil o disposto nos arts. 50 e seu