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25/05/2023, 19:58 O conceito de Idade Média e as discussões historiográficas
https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04611/index.html# 1/59
O conceito de Idade Média e as discussões
historiográ�cas
Prof.ª Marta Carvalho Silveira
Descrição
Idade Média como uma leitura de divisão e organização do tempo.
Propósito
O conhecimento de conceitos básicos sobre o tempo e a interpretação do tempo medieval são importantes
para a compreensão do momento histórico e como referências nas demandas políticas contemporâneas.
Objetivos
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Módulo 1
A historiogra�a medieval
Reconhecer o significado de Idade Média.
Módulo 2
A história da História na Idade Média
Listar formas de produção da história na Idade Média.
Módulo 3
Fontes diversas para o estudo da Idade Média
Identificar metodologias para o estudo de fontes na Idade Média.
Introdução
A historiografia do século XIX, seguindo um processo iniciado já em fins dos séculos medievais,
convencionou chamar de Idade Média o período entre os séculos V e XV. Eminentemente política, essa
historiografia demarcou o “início” e o “fim” da Idade Média com dois movimentos que se referiram à
desagregação do antigo Império Romano. Dessa forma, o início da Idade Média foi situado em 476, quando
uma tribo germânica, os hérulos, ocupou a cidade de Roma, capital do Império Romano Ocidental. Já a

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conquista da cidade de Constantinopla, capital do Império Romano Oriental (ou Império Bizantino), em 1453,
pelos turcos otomanos, marcou o fim da Idade Média.
Nota-se, então, que a identidade temporal medieval não foi instituída com base nos seus próprios critérios
estruturais, mas naqueles firmados pela modernidade e contemporaneidade sob uma visão constituída
acerca da Antiguidade greco-romana.
O desafio dos historiadores contemporâneos é, portanto, desprender-se da visão da Idade Média constituída
a partir dos critérios historiográficos do século XIX e buscar conhecê-la, por meio da análise das fontes
históricas, em suas próprias características estruturais. Os historiadores atuais entendem que nenhum
período histórico pode ser conhecido plenamente em sua essência, mas consideram que, a partir dos
múltiplos vestígios históricos deixados pelos homens ao longo da sua existência, é possível aproximarem-
se da forma como entendiam a realidade e lidavam com ela.
1 - A historiogra�a medieval
Ao �nal deste módulo, você será capaz de reconhecer o signi�cado de Idade Média.
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Historiogra�a em torno do conceito de Idade Média
Idade Média em perspectiva
Assista e observe as maneiras como a Idade Média já foi vista ao longo do tempo com exemplos de
pinturas, filmes, literaturas e as mil formas que ela já foi interpretada.
A construção da ideia de Idade Média pode ser encontrada em algumas obras, como por exemplo:
Francesco Petrarca (1304-1374)
Poeta italiano que já se referia, de forma desdenhosa, ao período anterior ao seu como tenebrae (OBREGÓN,
2012).

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Giovanni Andrea Bussi (1415-1475)
Humanista e primeiro bibliotecário do Vaticano, além de secretário de vários papas, que usou em suas obras
os termos “medium tempus” e “media tempora”, e foi seguido por vários humanistas do período.
Como vimos, difundia-se, assim, entre os humanistas de fins da Idade Média, o uso do termo “tempo médio”
para referir-se ao período em que viviam.
No século XVI, Giorgio Vasari (1511-1574), pintor e arquiteto, popularizou o uso do termo “renascitá”
(renascimento) para referir-se às inovações levadas a cabo pelos artistas italianos, que se contrapunham à
arte produzida nos séculos anteriores (VASARI, 1896). Vasari difundiu em seus escritos o uso das
expressões media aetas, medias antiquitas e media tempora para referir-se aos períodos anteriores ao seu.
Giorgio Vasari (1511-1574).
Com o avançar das reflexões estéticas e filosóficas que os humanistas estabeleceram nos séculos XV e
XVI, a arte medieval, por fugir dos padrões greco-romanos clássicos, foi vista como grosseira, como
veremos nas considerações dos autores a seguir:
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Rafael Sanzio (1483-1520)
Pintor e escultor italiano, que chamou de “gótica”, termo utilizado praticamente como sinônimo de “bárbara”,
dado seu pouco requinte técnico, em que a perspectiva e o jogo de luzes, inovações da arte renascentista,
não existiam.
François Rabelais (1483-1553)
Escritor francês, que se referia à Idade Média como a “espessa noite gótica”, e ajudou a consagrar a noção
da Idade Média como um período trevoso e sombrio.
Nascia, assim, o mito historiográfico da Idade Média como a Idade das Trevas, que foi adotado, no século
XVI, pelos eruditos alemães e franceses.
No século XVII, os eruditos preservaram o sentido filológico do termo Idade Média, que deixava entrever o
sentido básico legado pelos renascentistas. “Ou seja, também para o século XVII os tempos “medievais”
teriam sido de barbárie, ignorância e superstição” (FRANCO JR., 2001, p. 12).
Comentário
Esse foi o sentido empregado nos manuais escolares produzidos nesse século, o que deu origem à
construção de uma noção de Idade Média, no âmbito pedagógico, que se expandiu para a cultura escolar
ocidental e influenciou diretamente a forma como a Idade Média ainda é ensinada no Brasil do século XXI.
Além disso, o século XVII foi o palco de uma série de embates religiosos decorrentes da Reforma
Protestante.
A Europa Ocidental se dividiu entre reinos católicos e protestantes, que enfrentaram períodos de intensas
guerras civis. Em decorrência disso, difundiu-se também entre os eruditos uma tendência a fundamentar a
concepção de Idade Média em elementos político-religiosos, de forma que esse período passou a
representar o domínio da Igreja Católica.
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Guerras religiosas na França, Massacre do Dia de São Bartolomeu.
Visões de mundo
Os intelectuais setecentistas consideravam-se racionalistas e, consequentemente, deploravam a cultura
medieval, por seus valores espirituais e sobrenaturais. Como apontou Franco Jr. (2001), os homens ligados
às monarquias absolutistas viam a Idade Média como o período dos reis fracos e marcado pela anarquia
feudal, que enfraquecia o poder régio e lançava os reinos em guerras internas e caos social. Já a burguesia
comercial considerava os tempos medievais malfadados pelas limitações econômicas que existiam em
relação às práticas comerciais limitadas.
O desenvolvimento da filosofia iluminista, no século XVIII, perpetuou a concepção de Idade Média elaborada
no século anterior.
O século XVIII assume e aperfeiçoa – com as principais línguas europeias
substituindo o latim – esta divisão ternária da história (Antiguidade, Idade
Média, tempos modernos) para melhor celebrar [...] a vitória das Luzes sobre o
obscurantismo clerical e o triunfo de uma civilização refinada sobre a grosseria
da barbárie destes longínquos séculos de ferro.
(AMALVI, 2006, p. 538)
Nesse momento, ficou caracterizada, portanto, a visão da Idade Média como a Idade das Trevas. Os
filósofos iluministas condenavam a Idade Média por representar uma ruptura na marcha de
desenvolvimento que a humanidade iniciara na Antiguidade e somente recobrara naa noção de que a Idade Média não produzia ciência,
limitando-se os sábios medievais a simplesmente copiarem antigos tratados greco-romanos. Essa
perspectiva equivocada deixou fora do radar dos medievalistas o estudo das obras tratadísticas que mais
recentemente têm sido revisitadas, como os tratados de:
Medicina (como aqueles produzidos por Trótula de Salerno e Hildegard de Bingen),
Geologia (o Lapidário de Afonso X, por exemplo), dentre outros.
Além disso, a Idade Média foi um período profícuo na produção de códigos jurídicos que basearam o Direito
moderno e que possui referências no Direito contemporâneo. No período alto-medieval, foram produzidos
códigos germânicos (como a Lei Sálica, dos francos, e o Código Visigótico) por iniciativa dos monarcas
germânicos e das forças episcopais locais interessados em regular o convívio entre romanos e germânicos
que habitavam os reinos. Vejamos:
Direito canônico
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No século XII, a Igreja retomou intensamente os estudos do Direito romano, especialmente do Corpus Juris
Civilis.
O código romano compilado a mando do imperador bizantino Justiniano (482-565) –, e tomou dele os
elementos necessários para compor o Direito canônico.
Direito régio
No século XIII, sobretudo com a formação das monarquias medievais, o Direito régio foi elaborado a partir
das várias referências jurídicas do período. Para aqueles que se interessam em entender as leis como
mecanismos de exercício de poder e como facilitadoras e disciplinadoras das dinâmicas sociais, é só
buscar os textos legais, já largamente difundidos na formas impressa e virtual.
Em busca de documentos
O contato mais intenso com a arqueologia tem propiciado mais um salto nos estudos relativos ao período
medieval. Conforme a arqueologia amplia suas descobertas, mais os historiadores têm elementos para
entender a forma como os povos se conectavam comercial e economicamente, observando o
deslocamento de pessoas e de produtos entre as diversas regiões, como pretendem os historiadores da
história global, por exemplo. Mas também lhes é permitido desvendar a forma como os homens medievais
lidavam com suas realidades cotidianas, como a alimentação, o vestuário, a moradia, os instrumentos de
trabalho, de diversão, dentre outros.
A ampliação documental gerou o alargamento das temáticas e das formas de fazer história. Sendo assim, a
história medieval tem sido visitada por historiadores interessados em estudar as categorias de gênero, em
explorar as conexões globais e mesmo a forma como as práticas e os símbolos medievais foram sendo
apropriados pelos períodos modernos e contemporâneos.
Curiosidade
Em linhas gerais o estudo sobre as mulheres e sua atuação na sociedade medieval tem sido de interesse de
vários medievalistas. Estes optam por compreender esse tema a partir do papel social que essas mulheres
desenvolveram, o que caracteriza a História Social das mulheres, ou aos elementos culturais (práticas e
símbolos) que envolvem a construção da noção feminilidade e de masculinidade na sociedade medieval,
sendo esta a ótica dos estudos de gênero.
Outra perspectiva historiográfica que tem incrementado os estudos medievais é a História Global e a
História Conectada, como veremos a seguir:
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Wallerstein (1974) elaborou uma teoria política e econômica que, partindo da relação moderna de
interdependência inter-regional e transnacional, iniciada no século XVI com a instauração do sistema
colonial, propôs uma divisão mundial entre países centrais, semiperiféricos e periféricos. A influência
de Wallerstein foi em grande medida responsável por criar pontes entre as perspectivas globais
ainda incipientes na História e na Sociologia, abrindo os olhos e inspirando algumas gerações de
pesquisadores a pensar as desigualdades na escala global a partir do processo de descolonização
do século XIX.
Na década seguinte, Abu-Lughod (1991) avançou com os estudos em perspectiva global quando
demonstrou que a interdependência regional já existia em períodos anteriores ao século XVI, no
entanto, sem centros hegemônicos. Partindo desse pressuposto, Abu-Lughod evidenciou as
conexões comerciais entre os continentes africano, europeu e asiático centrando-se nos séculos XIII
e XIV, sem identificar um centro hegemônico. A autora defende que as práticas desenvolvidas a partir
da inter-relação regional pré-moderna lançaram os fundamentos que possibilitaram o
desenvolvimento de uma nova ordem mundial, no século XVI, na qual a Europa assumiria a
hegemonia da maior parte do mundo. Dessa forma, demonstrou que as características dos
sistemas-mundo não são invariáveis e que não existe um único caminho de conexão entre eles.
Caminhando no estudo das conexões entre os diversos espaços e povos, Libera (1999) criticou a
equiparação do conceito de Idade Média ao de Ocidente cristão. Dessa forma, o que não era
simultaneamente ocidental e cristão era colocado à margem pelos estudiosos, considerado exótico
e sem legitimidade própria. Em reação a isso, De Libera propôs-se a entender a Filosofia Medieval a
partir da perspectiva da translatio studiorum, ou seja, do movimento fluído do conhecimento
executado por obras e agentes do saber que se moviam pelas rotas de comércio, mercados, cortes,
universidades, madrassas e escolas de tradução pré-modernas.
Apesar de a História Global ser ainda pouco precisa metodologicamente e abrigar diversas perspectivas
teóricas na sua constituição, sendo um campo analítico ainda em desenvolvimento, ela tem contribuído
bastante para a exploração de novos espaços e culturas, investindo na análise das suas conexões. Contudo,
o uso de uma perspectiva global pode originar análises excessivamente generalizantes e não significa a
derrocada dos estudos voltados para sociedades específicas, espacialmente localizadas, pois esses
estudos específicos e locais é que oferecem subsídios para o estabelecimento das análises globais.
História Global 
História Conectada 
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A Idade Média e a cultura
Outra perspectiva historiográfica que tem contribuído para o entendimento das representações que se
constituíram em torno da cultura e dos símbolos medievais pelos períodos históricos posteriores recebe
nomes como medievalismos e/ou neomedievalismos. Como vimos anteriormente, a Idade Média serviu
como uma espécie de reserva de símbolos e de referências tanto para os historiadores quanto para os
artistas. No que se refere ao campo artístico, os símbolos medievais estiveram presentes na:
O medievalismo, como campo de estudo, surgiu na década de 1970, a partir de uma dupla iniciativa: a de
Workman (1997, p. 29), “quem primeiro sistematizou e incentivou a criação de um campo acadêmico que
reunisse pesquisas cujo objeto fosse as apropriações da Idade Média em períodos pós-medievais”, e de
uma conferência realizada na cidade de Salzburg sobre a recepção da poesia medieval.
Comentário
As reflexões iniciadas nesse âmbito inauguraram o interesse dos medievalistas por, mediante uma
interlocução transdisciplinar, refletir sobre a forma como a noção de Idade Média e as temáticas a ela
vinculadas foram historicamente constituídas e culturalmente apropriadas a partir de motivações
específicas, em que elementos políticos e ideológicos são protagonistas.
A complexidade dos medievalismos abriga subdivisões, e uma delas é o neomedievalismo, que trata mais
especificamente da forma como a cultura pop contemporânea acerca-se das referências simbólicas
medievais, sobretudo no que tange aos elementos fantásticos, como veremos a seguir:
Literatura PinturaArquitetura divulgadora dos
estilos gótico e neogótico
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Filme inspirado na Idade Média.
Referências simbólicas medievais
Para produzir filmes, séries, histórias em quadrinhos, livros e jogos.
“Meme” produzido com base em Illuminura da época medieval.
Referências simbólicas medievais
Também para outros produtos culturais que cada vez mais alcançam o grande público contemporâneo.
Os estudos medievais, portanto, são cada vez mais marcados pelo dinamismo das abordagens e do uso das
fontes históricas, mas ainda há muito o que caminhar no sentido de pelo menos minimizar os efeitos
negativos que os estereótipos largamente difundidos acerca desse período ainda geram no meio
acadêmico e no senso comum. Por isso, concluimos com um alerta que ainda é bastante válido.
A Idade Média tem má reputação. Talvez, mais do que qualquer outro período
histórico; mil anos de história da Europa Ocidental, entre os séculos V a XV,
entregues às ideias preconcebidas e a um menosprezo inextirpável, cuja
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função é, sem dúvida, permitir que as épocas ulteriores forjem a convicção de
sua própria modernidade e de sua capacidade em encarar os valores da
civilização. A obstinação dos historiadores em desafiar os lugares-comuns não
fez nada contra isso, ou muito pouco. A opinião comum continua sendo
associar a Idade Média às ideias de barbárie, de obscurantismo e de
intolerância, de regressão econômica e de desorganização política. Os usos
jornalísticos e da mídia confirmam esse movimento, fazendo apelo
regularmente aos epítetos “medieval”, ou mesmo “medievalesco”, quando se
trata de qualificar uma crise política, um declínio dos valores ou um retorno do
integralismo religioso.
(BASCHET, 2006, p. 23)
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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Há diferença entre práticas ou linhas historiográficas e proposições metodológicas de abordagem da
história medieval. A perspectiva da história cultural aponta para
A a busca dos modos de produção e a maneira como se organizava a sociedade.
B um olhar mais lúdico para as narrativas históricas da época.
C um foco no estudo dos monges, que se dedicaram ao trabalho intelectual.
D
a busca da compreensão de como pensavam as pessoas na Idade Média e suas
representações.
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Parabéns! A alternativa D está correta.
A discussão dessa perspectiva é sobre como o poder se materializa, pelo reconhecimento ou
discursos. Nesse sentido, essa perspectiva diz mais respeito ao estudo da estrutura reconhecida, do
que da estrutura social. A lógica da História Cultural é notar como esses mecanismos funcionavam e
quais discursos os legitimavam.
Questão 2
Uma ciência que tem sido importante para o entendimento da Idade Média, gerando dúvidas e trazendo
novas luzes, é a
Parabéns! A alternativa E está correta.
A produção e a busca de materiais podem ser críticas para o entendimento da Idade Média. Conforme a
Arqueologia amplia suas descobertas e com a amplitude do entendimento de documento, expandem-se
as temáticas e os elementos de estudo e se diversificam as formas de fazer história.
E a percepção de práticas identitárias trocadas, por exemplo, pelo uso do termo
medievalidade.
A Antropologia.
B Teologia.
C Numerologia.
D Astronomia.
E Arqueologia.
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Considerações �nais
A construção da História é uma invenção. Como vimos, por exemplo, os marcos de início e fim da Idade
Média são relativos e dizem respeito às escolhas historiográficas e à abordagem pedagógica do tempo.
Conhecemos abordagens para seu estudo historiográfico, mas também como se deu a produção de história
no próprio período. Percebemos que os conhecimentos são dinâmicos, com elementos que surgem ou são
revisitados por novas fontes, metodologias ou perspectivas. Assim, a ideia da Idade Média como período de
trevas e barbárie, em vez de ser entendida como a única ou definitiva, deve dar espaço para a busca do
entendimento do período com base em seus próprios conceitos estruturais.
Podcast
Para encerrar, ouça um panorama sobre os principais tópicos que foram abordados.
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Referências
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ABU-LUGHOD, J. L. Before European Hegemony: the world system AD 1250-1350. USA: Oxford University
Press, 1991.
AMALVI, C. Idade Média. In: LE GOFF, J.; SCHMITT, J-C. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Bauru,
SP: Edusc, 2006.
BASCHET, J. A Civilização Feudal. Do Ano Mil à Colonização da América. São Paulo: Globo, 2006.
BOURDÉ, G.; MARTIN, H. As escolas históricas. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.
BURKE, P. A nova história, seu passado e seu futuro. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo:
UNESP, 1992.
FRANCO JR., H. Idade Média. Nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001.
GLÉNISSON, J. O objeto material da pesquisa: o documento. In: Iniciação aos Estudos Históricos. 3ª Edição.
São Paulo-Rio de Janeiro: Difel – Difusão Editorial, 1979.
HANSEN, V. O Ano 1000. Quando exploradores conectaram o mundo – E a globalização iniciou. Rio de
Janeiro: Alta Books, 2021.
LE GOFF, J. Em busca da Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
LE GOFF, J. As raízes medievais da Europa. Petrópolis: Vozes, 2007.
LIBERA, A. de. Pensando na Idade Média. São Paulo: Editora 34, 1999.
MARROU, H. Saint Augustin et la fin de la culture antique. Paris: Editions E de Boccard, 1983.
McNEELY, I. F.; WOLVERTON, L. A reinvenção do conhecimento. De Alexandria à Internet. Rio de Janeiro:
Record, 2013.
OBREGÓN, A. de. Francisco Petrarca con los seys triunfos de toscano. Sacados en castellano con el
comento que sobrellos se hizo. Logroño: Arnao Guillén de Brocar, v. 1512, 2012.
PIRENNE, H. Mahomet e charlemagne. Paris: Presses Universitaires de France, 1992.
SILVA, P. D. O debate historiográfico sobre a passagem da Antiguidade à Idade Média: considerações sobre
as noções de Antiguidade Tardia e Primeira Idade Média. Revista Signum, 2013, v. 14, n. 1.
VASARI, G. et al. Le vite de'più eccellenti pittori, scultori e architettori. Florenza: Apprefflo i Giunti, 1896.
WALLERSTEIN, I. O sistema mundial moderno. Vol. I: a agricultura capitalista e as origens da economia-
mundo europeia no século XVI. Porto: Afrontamentos, 1974.
WORKMAN, L. J. Medievalism today. Medieval Feminist Forum: A Journal of Gender and Sexuality. Society
for Medieval Feminist Scholarship, p. 29-33. 1997.
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https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04611/index.html# 59/59
Explore +
Par aprofundar o assunto tratado, sugerimos que leia:
RICHARDS, J. Sexo, desvio e danação. As minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
TATE, G. O Oriente das Cruzadas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.
Visite a página da Associação Brasileira de Estudos Medievais e acesse os materiais e revistas disponíveis.Idade Moderna. Como
veremos a seguir, de acordo com os acontecimentos nos séculos:
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XVII
Esse século aristocrático e anticlerical, “censurava sobretudo a forte religiosidade medieval, o pouco apego
da Idade Média a um estrito racionalismo e o peso político de que a Igreja então desfrutara.” (FRANCO JR.,
2001, p. 12).
Contudo, apesar das intensas críticas à Idade Média, de acordo com Amalvi (2006), na França ela continuou
a inspirar obras literárias e musicais que identificavam nesse período elementos referenciais da identidade
cultural ocidental.
Autoridade espiritual. O julgamento de Wycliff.
XIX
A perspectiva iluminista da Idade Média foi matizada com o desenvolvimento de um sentimento
nacionalista no Ocidente europeu em virtude das mudanças políticas que abarcaram o contexto da primeira
metade do século XIX, marcado pelos efeitos que as invasões napoleônicas haviam gerado no mapa
político europeu, dentre os quais assinala-se a formação da Itália e da Alemanha. Sobre essa suposta
reabilitação da Idade Média feita pelo romantismo, Le Goff (2005, p. 63) concluiu que “a Idade Média tornou-
se um folclore, uma espécie de infância da nação, felizmente atingindo a idade adulta com o Renascimento.”
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Clérigos estudando astronomia e geometria.
Nesta perspectiva, o Romantismo, movimento estético que investia na liberdade artística, reforçou o
pensamento nacionalista e investiu na Idade Média como um “espaço das origens” e como forma de
contraposição ao excessivo cientificismo e a racionalização iluminista. “A nostalgia romântica pela Idade
Média fazia com que ela fosse considerada o momento de origem das nacionalidades, satisfazendo assim
os novos sentimentos do século XIX.” (FRANCO JR., 2001, p. 14). Os aspectos maravilhosos e fantásticos
do imaginário medieval encantaram muitos autores românticos e terminaram construindo uma visão
idealizada do período, que ainda hoje alimenta suas representações veiculadas tanto na arte quanto na
mídia, contribuindo também para forjar outros estereótipos sobre o período medieval.
Essa Idade Média dos escritores e músicos românticos era tão preconceituosa
quanto a dos renascentistas e dos iluministas. Para estes dois, ela teria sido
uma época negra, a ser relegada da memória histórica. Para aqueles, um
período esplêndido, um dos grandes momentos da trajetória humana, algo a
ser imitado, prolongado.
(FRANCO JR., 2001, p. 13)
E como o século XX tratou a Idade Média?
A primeira metade do século XX foi marcada por duas guerras mundiais, uma crise econômica mundial e a
ascensão de regimes totalitários. Tais regimes inspiraram-se em um passado medieval idealizado para
justificar a instalação de medidas autoritárias, a pregação de nacionalismos extremados e o xenofobismo,
que justificaram a perseguição violenta de opositores e de minorias étnicas.
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Século XX marcado por guerras.
O passado ideologicamente construído acerca do Sacro Império Romano Germânico, por exemplo, serviu
como justificativa para o estabelecimento do nazifascismo, bem como o ideal da reconquista ibérica foi
apropriado pelo governo franquista para fomentar a identidade espanhola e rechaçar a influência cultural
muçulmana. Mas, paralelamente a esse tipo de uso político por regimes totalitários, a Idade Média se
manteve tanto como um espaço de reserva moral e simbólica na constituição histórica e identitária do
Ocidente, quanto como seu local de nascimento.
Paralelamente aos usos políticos nacionais da Idade Média, os historiadores, empenhados em romper com
a concepção de história do século XIX, que se tornara uma seleção cronológica e narrativa de fatos ligados
aos feitos dos grandes homens, investiram em um entendimento mais profundo e dinâmico do processo
histórico. Nesse sentido, surgiram duas grandes correntes historiográficas:

Marxista

Analítica
Historiogra�as contemporâneas
A historiografia marxista parte do pressuposto de que as condições materiais de existência direcionam o
andamento do processo histórico, que se move a partir da luta de classes travada no âmbito das
sociedades, onde os indivíduos se organizam em torno da posse dos meios de produção.
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Aqueles que possuem e dominam os bens de produção fazem parte da classe
dominante, enquanto a classe dominada é constituída por aqueles que, sem
possuir os bens de produção, são obrigados a dobrar-se à exploração da classe
dominante.
Pelo menos até o momento em que, alcançada a consciência de classe, os dominados conduziriam as
mudanças revolucionárias necessárias para que a sociedade avançasse mais um degrau em direção a um
novo modo de produção, que implicaria mudanças na forma produtiva.
Pensando a sociedade a partir de um processo evolutivo que teria início nas sociedades tribais primitivas e
finalizaria com a implantação do modo de produção comunista, onde a propriedade dos bens seria coletiva,
os historiadores marxistas consideram a Idade Média como o momento de vigência do modo de produção
feudal.
Livro de horas Les très riches heures du duc, de Berry.
A característica mais efetiva do modo de produção feudal seria a divisão social entre as classes:
Dominante
Constituída pelos senhores, detentores da propriedade da terra.
Dominada
Constituída por camponeses explorados pelos senhores em um regime de servidão.

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Nos âmbitos político, social e cultural, considerados pelos historiadores marxistas subordinados às
demandas econômicas, a ausência de um poder político central, a subordinação dos diversos tipos sociais
ao direcionamento senhorial e o predomínio da ideologia cristã largamente difundida pela igreja romana
seriam as características essenciais da configuração feudal.
Algumas questões podem ser levantadas em relação ao uso da historiografia marxista na construção do
conceito de Idade Média. Sua contribuição aos estudos medievais ao favorecer o estudo dos conflitos
sociais no medievo, que se tornaram mais frequentes a partir de então, deu margem à constituição de uma
visão esquemática acerca do período medieval, não favorecendo o estudo das peculiaridades espaciais e
temporais que caracterizaram os dez séculos que oficialmente compõem a Idade Média, a saber, séculos V
a XV.
O foco direcionado para as relações econômicas comprometem significativamente
o entendimento dos demais campos do processo histórico, os campos político,
social e cultural são entendidos de forma subordinada e a reboque das relações
econômicas determinantes.
Além disso, a concepção de que as relações de servidão eram preponderantes no medievo fundamentaram
um modelo analítico que partiu de elementos supostamente europeus ocidentais para o entendimento de
sociedades orientais, já que os medievalistas marxistas entendiam que o modo de produção feudal foi
vigente tanto no Ocidente, quanto no Oriente, baseando-se nas relações de servidão.
A perspectiva analítica se desenvolveu no início do século XX, com a fundação, na Escola de Altos Estudos
da França, da chamada escola dos Annales, em 1929, por dois historiadores:
Marc Bloch (1886-1944)
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Lucien Febvre (1878-1956)
Eles pretendiam rompercom a ideia de que a história deveria ficar atrelada somente ao campo político ou
econômico, mas deveria ser entendida em uma perspectiva total.
A história total considera que, para que o processo histórico seja de fato analisado, faz-se necessário
abarcar elementos referentes aos quatro campos fundamentais da história, sem que exista uma hierarquia
entre eles:
Dessa forma, o que guia a análise realizada pelo historiador é a problemática por ele levantada.
Atenção!
Político.
Econômico.
Social.
Cultural.
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A problemática é a alma da pesquisa. É ela que direciona o olhar do historiador em meio a um mar de
elementos contextuais e fontes históricas e permite que a pesquisa desenvolvida esteja circunscrita a um
dos campos da História, mas que só pode ser entendido em consonância com os demais.
A história-problema é uma das grandes inovações da historiografia analítica e permite o entendimento do
processo histórico como algo que não se encontra restrito somente ao passado, mas estabelece relações
complexas e por vezes indiretas com a sociedade contemporânea. Até porque conhecer o passado, na
perspectiva analítica, é uma forma de compreender o presente.
A complexidade do processo histórico pode ser desvendada, de acordo com os Annales, a partir do
entrecruzamento de três temporalidades:
Somente assim, o historiador poderá abarcar a multiplicidade de fatores que caracterizam o fenômeno
histórico alvo da sua problemática.
Cientes de que a história total, a história-problema e a concepção diversificada do tempo histórico não
poderiam ser devidamente efetivadas sem a análise das fontes históricas, os Annales ampliaram a própria
noção de documentação, entendendo como fontes documentais todo vestígio deixado pelo homem sobre a
Terra. Dessa forma, materiais arqueológicos, textos, imagens, construções, objetos etc. se tornaram
passíveis de serem utilizados pelos historiadores como fontes de informações acerca da forma como as
sociedades se organizaram ao longo da história humana.
A ampliação da noção de documento possibilitou a profusão das temáticas a serem estudadas, gerando
também dificuldades quanto à manipulação metodológica adequada desse aparato documental. Diante
disso, a historiografia analítica fez da interdisciplinaridade uma prática fundamental, entabulando contatos e
criando pontes com outros campos do conhecimento dos quais tomou emprestadas reflexões teóricas e
metodológicas variadas.
Tempo curto
O tempo do acontecimento.
Tempo médio
O tempo da conjuntura.
Tempo longo
O tempo da estrutura.
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A escola dos Annales foi um movimento historiográfico.
Nota-se, então, que a historiografia analítica em muito contribuiu para a inovação dos estudos históricos e é
largamente utilizada pelos medievalistas para a análise das temáticas e do contexto medieval. Isso porque
as diretrizes teórico-metodológicas propostas contribuíram grandemente para o alargamento das temáticas
de pesquisa em Idade Média, e a ampliação da noção de fonte histórica permitiu aos medievalistas inovar
em suas pesquisas explorando corpus documentais variados com a segurança intelectual que as demais
áreas do conhecimento têm a oferecer. Assim, no âmbito da Escola dos Annales, realizaram-se muitas
pesquisas em busca do homem medieval, o entendimento que possuía da sua realidade e as formas que
elaborou para lidar com ela nos seus mais diversos níveis.
Re�exão
Analisando as contribuições marxistas e analíticas para o entendimento da Idade Média, nota-se o quanto
elas promoveram, cada qual a sua forma, uma revisão dos estereótipos constituídos em torno desse
período, mesmo longe de extingui-los. Contudo, favoreceram a elaboração de critérios teóricos e
metodológicos que fundamentaram o estudo de novas temáticas e a exploração de novas fontes
documentais.
Idade Média: concepções de tempo e dimensões
cronológicas
Sendo uma sociedade essencialmente ruralizada, a concepção de tempo partilhada pelo homem medieval é
constituída a partir da sua vivência cotidiana e do ciclo natural. O ritmo das estações regulava o trabalho no
campo e a existência. Logo, não havia preocupação com uma contagem precisa do tempo por parte da
maioria dos homens medievais.
O esforço em estabelecer uma contagem do tempo mais precisa ocorreu no âmbito
eclesiástico, que tinha entre suas necessidades fundamentar uma liturgia que
garantisse o exercício coletivo da religião.
Nos primórdios da Idade Média, era imperativo que a Igreja, em seu movimento de expansão da
cristianização no Ocidente, estabelecesse rituais litúrgicos que substituíssem as práticas religiosas
germânicas e consolidassem as práticas religiosas cristãs.
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Fundamenta-se, assim, no âmbito eclesiástico, uma concepção de tempo linear e teleológica: que começa
na criação do mundo por Deus e termina com a parúsia, a volta de Cristo e o Juízo Final.
A definição das subdivisões nesse tempo universal coube aos clérigos, que, após diversos concílios e
divergências, estabeleceram as datas sacras fixas (como o Natal) e móveis (como foi a Páscoa). O controle
formal e artificial do tempo era, portanto, uma prerrogativa dos clérigos e dos homens de gabinete, e a partir
destes, expandiu-se, lentamente, para círculos cada vez mais amplos (GLÉNISSON, 1979).
Concílios ecumênicos.
Apesar da laicidade que caracterizou a sociedade ocidental pós-iluminista, a concepção do tempo linear,
mas não mais teleológico, perpetuou-se da Idade Média, e afetou a própria construção dos limites
temporais medievais, sendo esses limites temporais constituídos historiograficamente e claramente
artificiais e ideologicamente elaborados.
Re�exão
Como alertou Baschet, ao tratar-se desse amplo período, é preciso lembrar que ele guarda uma
heterogeneidade não só espacial, mas também temporal. “Falar da Idade Média é, então, um procedimento
redutor e perigoso, se permitirmos que se entenda por esta expressão tratar-se de uma época igual a si
mesma desde seu início até o seu fim e, então, imóvel” (BASCHET, 2006, p. 22).
Cientes dessas diversidades conjunturais e estruturais entre os séculos medievais, os medievalistas
desenvolveram algumas periodizações para o estudo desse período. Mais comum na historiografia
francesa, o modelo temporal tripartido da Idade Média difundiu-se largamente. A Alta Idade Média se
estendeu dos séculos V a X e caracterizou-se pela convergência de três modelos culturais:

Romano

Cristão
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
Germânico
Culminou na organização dos primeiros reinos germânicos e formação do Império Carolíngio, bem como
sua desagregação e a consolidação do sistema feudal. Analise as diferenças a seguir:
Idade Média Central
Corresponde aos séculos XI a XIII, e representou o que alguns autores consideraram o florescimento
social, econômico, cultural e político do Ocidente, em função do incremento da vida urbana e das
relações comerciais, da formação da burguesia, das escolas catedralícias e das universidades, e da
fundamentação das monarquias medievais com a consolidação do poder régio.
Baixa Idade Média
Corresponde aos séculos XIV e XV, e representou o período em que a crise do sistema feudal se
instalou, a peste bubônica se espalhou pelo Ocidente, impactando enormemente a taxa demográfica e
produtiva europeia, dentre outros fatores.
É comum também a divisão bipartida para o estudo do período medieval, na qual a Alta Idade Média
abarcaria os séculos Va X e a Baixa Idade Média, os séculos XI a XV. O importante é notar que, em ambas
as formas de estabelecer as subdivisões temporais medievais, o ano 1000 é considerado um marco de
intensas transformações que representaram rupturas com o período anterior e a configuração de novas
estruturas.
É comum também a divisão bipartida para o estudo do período medieval, na qual a Alta Idade Média
abarcaria os séculos V a X e a Baixa Idade Média, os séculos XI a XV. Vejamos as considerações de alguns
autores a seguir:

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O ano 1000
Para autores como Georges Duby, o ano 1000 representou um período de transformações econômicas
internas, que promoveram o aumento demográfico e o impulso produtivo dos séculos seguintes, e de
transformações culturais, já que propiciou as bases para a constituição de novos elementos de
religiosidade popular e de exercício do poder papal.
O ano 1000
Já para autores como Valerie Hansen, mais interessada em explorar as conexões comerciais e culturais
entre os diversos povos, o ano 1000 foi o período em que “as rotas comerciais ganharam forma no mundo
todo, permitindo que produtos, tecnologias, religiões e pessoas saíssem de casa e fossem a um lugar
novo” (HANSEN, 2021, p. 14).
O início da Idade Média é convencionalmente estabelecido em 476, com a conquista de Roma pelos hérulos,
mas essa datação não é unanimemente utilizada pelos historiadores. Várias controvérsias historiográficas
se estabeleceram em torno dessa temática a reboque da discussão acerca do “fim” do Império Romano, que
foi tratado, ainda no século V, pelos autores pagãos. Estes imputaram-no à consolidação do cristianismo e a
fraqueza moral dele decorrente, que impediu uma resposta efetiva às invasões bárbaras ocorridas na
primeira metade do século V.
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Já na ótica dos autores cristãos da patrística, inspirados por Agostinho de Hipona, o “fim” de Roma se deu
em função do cumprimento do plano salvífico cristão, quando Deus, em função dos inúmeros pecados,
puniu os romanos com a desagregação da sua civilização e a violência das invasões bárbaras.
Os estudiosos do processo de transição da Antiguidade para a Idade Média debruçaram-se sobre os
elementos históricos que o caracterizaram e definiram novos marcos cronológicos.
Comentário
Os adeptos da noção de Antiguidade Tardia concentram suas pesquisas nas continuidades culturais
existentes entre a Antiguidade e a Idade Média, em detrimento das mudanças ocorridas. Defendem, então,
que entre os anos 200-700 foi constituído um mundo radicalmente distinto do que fora a Antiguidade e do
que viria a ser a Idade Média, que pode ser acessado, especialmente, pelos estudos movidos no campo das
mentalidades, do cotidiano e da história cultural.
Para detectar essa nova configuração histórico-cultural, os adeptos dessa perspectiva privilegiam o estudo
das regiões do Mediterrâneo oriental e dão pouca relevância às questões relativas ao declínio e à queda do
Império Romano do Ocidente.
A tese da Antiguidade Tardia ganhou força, sobretudo, a partir do pós-Segunda Guerra e foi difundida
principalmente pelo historiador da arte suíço Burckhardt, sendo alguns dos seus adeptos no campo da
História historiadores como:
Henri-Irénée Marrou (1904-1977)
Peter Brown
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O diálogo constante com a Antropologia e a Arqueologia endossa grande parte dos estudos realizados por
esses historiadores que se debruçam sobre as expressões artísticas, intelectuais e estéticas do período.
Os críticos dessa tese, apesar de reconhecerem sua importância para desconstruir o estereótipo da Idade
Média como a Idade das Trevas, mostrando a vitalidade que existiu nesse período transitório, apresentam
três críticas fundamentais, de acordo com Silva (2013):
A noção de Primeira Idade Média
Tomando outro caminho para o entendimento dos elementos que compuseram o processo histórico de
transição da Antiguidade para a Idade Média, Franco Jr. (2001) nomeou esse momento inicial como
Primeira Idade Média, que se estenderia entre os séculos:
A falta de uma precisão cronológica, pois seu foco encontra-se nos elementos culturais, o que
pode dificultar seu uso para o estudo dos outros campos históricos.
O foco nas continuidades, que são apontadas de forma genérica e baseadas em evidências
arqueológicas ou literárias dispersas.
Como os estudos encontram-se concentrados na área mediterrânica oriental, fica perceptível
certa negligência em relação aos processos desenvolvidos no Ocidente, correndo-se o risco
de criar um panorama de exotismo religioso e cultural.
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III
Quando ocorreu a crise do Império Romano.
VIII
Quando os reinos germânicos foram inicialmente formados e o Império Carolíngio consolidado.
A Primeira Idade Média se caracterizou, de acordo com seus defensores, pela intensa troca cultural entre os
elementos:

Romanos

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Representou a sobrevivência de instituições e símbolos culturais do Baixo Império Romano que propiciaram
o desenvolvimento do caráter sagrado da monarquia, da aceitação dos germanos em território imperial, da
petrificação da hierarquia social, do fiscalismo sobre o campo e, da efervescência espiritual que possibilitou
o sucesso cristão.

Germânicos
Representou a sobrevivência de elementos da cultura dos povos germânicos que propiciaram a noção de
pluralidade política e a difusão da concepção de obrigações recíprocas entre chefes e guerreiros, além do
deslocamento do eixo de gravidade político e econômico para o norte.

Cristãos
Já a cristianização, levada a cabo pelos bispos e monges, seria responsável pela articulação entre a
influência romana e germânica, e também como herdeira do caráter universalista do romanismo, ajudou a
dissimular o uso do latim vulgar e do cristianismo como religião de Estado.
Se o “início” da Idade Média está longe de ser um consenso entre os historiadores, o mesmo ocorre com o
seu “fim”. Tradicionalmente, a conquista da cidade de Constantinopla pelos turcos otomanos, em 1453, teria
marcado o término do período medieval. Como alternativa a essa perspectiva historiográfica, vejamos as
considerações de outros autores:
Le Goff propôs a existência de uma “Longa Idade Média”, que se estenderia do século IV ao XVIII, ou
seja, entre o fim do Império Romano e o desenvolvimento da Revolução Industrial. O objetivo do
historiador era subverter as ilusões do Renascimento e dos Tempos Modernos. Esse longo período
não seria imóvel, e sim possuidor de especificidades, como as que caracterizam sua última fase,
habitualmente chamada de Tempos Modernos.
Dessa forma, o Renascimento não teria marcado o fim da Idade Média, mas faria parte de um
conjunto de renascimentos que ocorreram no período e que possuíam a característica comum de
buscar uma idade do ouro que ficou para trás.
Le Goff 
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Revolução Industrial, representação de edifícios industriais com Chaminés e Fumaça.
Baschet (2006), acerca do “fim” da Idade Média, situa o marco final desse período histórico no ano
de 1492. A “descoberta” da América foi considerada um acontecimento-chave, especialmente pelos
medievalistas latino-americanos, por ter propiciadouma alteração na lógica de organização e de
produção da sociedade europeia, instaurando o sistema colonial.
Nessa perspectiva, a Idade Média seria uma espécie de “antimundo anterior ao reinado do mercado”
(BASCHET, 2006, p. 15). Tomando outro caminho para analisar as relações entre o mundo medieval e
o mundo moderno e ressaltando seu impacto sobre a constituição das sociedades coloniais
americanas, especialmente as da América Espanhola, Baschet (2006) entendeu que os fatores
motivadores que impulsionaram os europeus na descoberta de novas terras encontraram-se ligados
a uma mentalidade medieval.
A conquista de novos territórios se deu com base em um desejo econômico de conseguir mais
territórios, produtos e metais preciosos, mas também em um desejo espiritual de difundir uma visão
de mundo e de valores medievais e de materializar a geografia imaginária da Idade Média (BASCHET,
2006). Apoiando-se nos estudos do antropólogo Lévi-Strauss, Baschet conclui: “Como sugeriu Lévi-
Strauss, os espanhóis deixaram suas terras menos para adquirir conhecimentos inéditos do que para
confirmar suas velhas crenças: e eles projetaram sobre o Novo Mundo a realidade e a tradição do
antigo” (BASCHET, 2006, p. 28).
Baschet 
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Representação do primeiro desembarque de Cristóvão Colombo na América.
Como vimos, toda essa discussão mostra-se válida para que os historiadores se sintam estimulados a cada
vez mais avançar sobre novos tempos e novos espaços, explorando, sobretudo, suas conexões, contudo,
atentos ao alerta dado, como veremos a seguir:
Já tenho dito que, no meu modo de ver, um fato histórico é sempre construído
por um historiador. Da mesma forma o são os períodos – e estes mais ainda.
Não há nada a nos assinalar que se entra numa época, nem que se saia da
outra.
(Le Goff, 2005, p. 54)
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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Identifique o elemento que se relaciona à formação do conceito de Idade Média como temporalidade da
experiência humana.
A O fortalecimento político do Império Carolíngio.
B As invasões externas ocorridas nos séculos V e VI.
C A limitação do poder romano, permanecendo a Antiguidade como ideia.
D A ampliação do poder papal.
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Parabéns! A alternativa E está correta.
A ideia da Idade Média como linear é ilusória: o período não tem uma verdade única de olhar, mas
interpretações de grupos diversos e olhares diversos. Nesse sentido, a noção de Idade Média foi
construída posteriormente a partir das concepções do século XVI ao XIX, bem como atualmente em
que produzimos obras historiográficas, mas também discursos múltiplos sobre o período.
Questão 2
Sobre os marcos para definir a Idade Média, é correto afirmar:
Parabéns! A alternativa A está correta.
A tendência a buscar marcos de forma direta é uma falha de leitura historiográfica. Entretanto é
comum, ao propor uma cronologia baseada em eventos específicos, ter um objetivo pedagógico
diretamente relacionado às escolhas dos historiadores. Portanto, dependendo da corrente
E As leituras dos séculos XVI e XIX que interpretam a Idade Média.
A
A definição da Idade Média é objeto de debate entre os estudiosos, mas é comum que
busquemos tendências para a organização cronológica.
B
A Queda de Constantinopla, a inauguração do papado e as reformas protestantes são
inadequadamente relacionados à Idade Média.
C
O início no século V e o fim no século XV seguem uma lógica que respeita a estrutura do
período.
D
A definição da Idade Média será sempre imprecisa, em razão da escassez de fontes
para determinar com precisão esse período.
E Foram determinados contemporaneamente, por razões políticas.
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historiográfica, os pesquisadores podem lançar luz sobre determinados acontecimentos a fim de
debater seus objetos.
2 - A história da História na Idade Média
Ao �nal deste módulo, você será capaz de listar formas de produção da história na Idade
Média.
Como se escreve a história na Idade Média?
Há uma tendência por parte dos historiadores, especialmente aqueles que não trabalham diretamente com
a Idade Média, de não reconhecer o período medieval como um espaço onde tenha se produzido história.
O fato de os homens medievais não terem escrito a História seguindo os preceitos científicos adotados no
século XIX não significa em absoluto que não tenham produzido sua história, a partir de critérios próprios.
Algumas características gerais predominaram na noção de história presente na sociedade medieval, como:
1
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Podemos destacar a predominância de uma perspectiva teleológica, em que Deus dirige o rumo da
humanidade.
Pintura medieval em mural que decora a Igreja de Sant Climent de Taüll (Espanha).
2
Outra característica é seu caráter mnemônico, ou seja, o registro de fatos e feitos passados e
contemporâneos voltado a preservar a memória das grandes figuras eclesiásticas e laicas medievais, visto
que boa parte das obras produzidas com esse intuito foram patrocinadas pelo alto clero, pela alta nobreza e
pelas monarquias.
Representação da Coroação do Imperador Carlos Magno.
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3
Uma terceira característica é a presença de elementos sobrenaturais dispostos na narrativa como sinais da
manifestação divina, aprovando ou condenando a ação dos personagens.
Altar Frontal da igreja de Santa Maria d’Avià.
4
Um quarto ponto é a presença, nas narrativas com teor histórico, de documentos originários do campo
eclesiástico ou laico, que por vezes foram utilizados para corroborar o relato. E por fim, podemos apontar o
uso indiscriminado de números que reforçam ou desmerecem a ação dos personagens.
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A Folha de Morgan, da Bíblia de Winchester.
A produção histórica na Alta Idade Média (séculos V a X)
De acordo com Bourdé e Martin (2018, p. 41), “A riqueza da produção historiográfica na Alta Idade Média é
muitas vezes subestimada, já que certos autores preferem reter desse período apenas o abastardamento
dos modelos antigos”. Na tentativa de mostrar que houve uma produção de histórica alto-medieval própria,
os autores ressaltaram as contribuições de Agostinho de Hipona (354-430), Gregório de Tours (538-594),
Isidoro de Sevilha (560-636), Beda, o Venerável (673-735), Paulo Diácono (720-799) e Flodoardo de Reims
(893-966).
Todos esses autores eram clérigos. Ocupando posições importantes no corpo clerical, tiveram acesso a
arquivos, pessoas e circunstâncias que lhes permitiram combinar, em seus relatos, fatos passados e
contemporâneos. Além disso, todos receberam a tarefa de redigirem seus relatos do alto clero ou dos reis
para registrar a história de uma diocese, de um reino etc. Vejamos sobre as obras de cada um deles a
seguir:
Preocupado em criar um entendimento teológico para a história humana e sobretudo empenhado em
rebater a tese de que o cristianismo teria arruinado o Império Romano, especialmente a partir do
saque da cidade de Roma pelas tropas visigodas, em 410, Agostinho de Hipona redigiu Cidade de
Deus,em 22 livros, entre 413 e 426. Nessa obra, Agostinho empenhou-se em valorizar o cristianismo,
em detrimento da religião romana tradicional, e em explicar sua concepção histórico-teológica,
inspirada no platonismo grego, que considerava a cidade terrestre um reflexo da cidade celeste, onde
Deus reinava com sua corte e garantia a ordem perfeita. A cidade de Deus, portanto, é aberta a todos
aqueles que se dedicam à vontade divina e “agem na história sob a forma de uma Igreja militante,
que peregrina por esta terra e luta na expectativa do triunfo” (BOURDÉ; MARTIN, 2018, p. 42).
A concepção agostiniana predominou entre os autores alto-medievais e “serviu como base teórica
para a cristandade medieval” (BOURDÉ; MARTIN, 2018, p. 43). Foi apropriada, em fins do século VI,
pelo papa Gregório VI, o Grande (590-604), que difundiu um “agostinismo elementar e vulgarizado” e
que, de acordo com Marrou (1983), sustenta a tese de que Deus não só rege a História, como
também rege a natureza e, por meio dela, emite os sinais da sua vontade, que precisam ser
decifrados pelos homens, embora possa interferir quando quiser “através de milagres e prodígios,
nos ciclos naturais e no curso da história” (BOURDÉ; MARTIN, 2018, p. 43). A perspectiva histórica
Agostinho de Hipona 
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agostiniana influenciou diretamente as obras posteriores que, a partir dela, registraram a história de
locais e reinos específicos, inserindo-os no caminhar da história humana.
Xilogravura representando Agostinho escrevendo A Cidade de Deus.
A obra de Gregório de Tours, é um exemplo da tendência agostiniana, e podemos considerá-lo como
um dos grandes cronistas do reino franco. Nascido em Clermont e membro de uma ilustre família
senatorial romana, Gregório tornou-se bispo de Tours e envolveu-se diretamente nos conflitos
políticos que envolveram a realeza franca e a de Borgonha. Dirigiu suas obras para o enaltecimento
do reino e da igreja franca, estimulando o culto ao túmulo de São Martin, apóstolo dos gauleses, que
havia sido sepultado na cidade de Tours.
O bispo de Tours escreveu “dez livros de história, sete de milagres, um sobre a vida dos Padres da
Igreja, um comentário dos Salmos e um livro sobre os ofícios eclesiásticos” (BOURDÉ; MARTIN,
2018, p. 44). Inovou no estilo, colocando-se como testemunha da história, uma fonte viva que se
somava a outras, já que Gregório coletava relatos vindos do âmbito tanto eclesiástico quanto laico. O
uso dos testemunhos orais não prescindia das fontes escritas variadas que eram cuidadosamente
ponderadas pelo autor.
É claro na obra de Gregório de Tours o louvor à história dos francos, o que delegava aos inimigos do
reino (os outros povos germânicos e os judeus) um olhar estereotipado e pejorativo. Em História dos
Francos, o bispo criou novo espaço historiográfico, porque fundiu o relato cronístico ao hagiográfico,
utilizando recursos narrativos para envolver seus leitores, abusando dos elementos sobrenaturais e
milagrosos para justiçar a ação dos personagens e os atos narrados. De acordo com Bourdé e
Martin (2018, p. 47):
O bispo de Tours nos diz, aliás, que as relíquias e os amuletos são eficazes para os que têm fé. Deus
se tornou o autor principal da história. Direta ou indiretamente, através de seus intermediários na
terra, ele manipula ao mesmo tempo as forças naturais e os agentes históricos.
Gregório de Tours 
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Manuscrito com as obras hagiográficas completas de Gregório de Tours.
Também inspirando-se na concepção histórica agostiniana e no direcionamento para uma narrativa
da história de um reino ou uma diocese específica, Flodoardo de Reims, além de seguir a tendência
já existente de inspirar-se nos autores clássicos e em relatos hagiográficos, e de colocar-se como
testemunha da história, apresentou algumas inovações na sua narrativa ao ter o cuidado de inserir
em seu relato documentos dos mais diversos tipos (atas, contratos de compra e venda de escravos,
testamentos, cânones de concílios, cartas papais etc.) e tratá-los de forma impessoal. Contudo, não
teve o mesmo cuidado com personagens (a quem atribuiu características e valores de acordo com
critérios próprios) e lugares citados (por vezes imprecisos, se comparado a outras fontes), além de
abusar das cifras fantasiosas e dos discursos fictícios escritos por ele mesmo.
O cuidado de Flodoardo com a forma da escrita rendeu-lhe o reconhecimento por parte dos
historiadores, que identificaram a importância que a retórica e o uso costumaz da documentação
ocupou em sua obra. “Tudo bem pesado, Flodoardo não inventou grande coisa, mas como operário
consciencioso da história, teve o mérito de utilizar arquivos bastante variados, às vezes de maneira
um tanto árida” (BOURDÉ; MARTIN, 2018, p. 55).
Obra digitalizada “Les Annales de Flodoard“ de Flodoardo de Reims.
Flodoardo de Reims 
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Seguiram a linha de narrativa histórica de Gregório de Tours. Paulo, o Diácono, Isidoro de Sevilha e
Beda, o Venerável, que se dedicaram a escrever, respectivamente, a história dos reinos lombardo,
visigodo e anglo-saxão.
Manuscrito da "História Eclesiástica do Povo Inglês" obra de Beda.
Formas de escrever História na Idade Média para os
pares
A forma como os autores alto-medievais usaram para escrever a história se relaciona completamente com o
contexto político marcado por acontecimentos como a desagregação do Império Romano, e sua
consequente fragmentação, que promoveu a formação dos reinos germânicos. Reinos estes que, para
fundamentar o poder régio, recém-implantado, entre povos não habituados a uma realeza permanente nem
ao sedentarismo, careceu de justificativas ideológico-religiosas, providas pelo cristianismo, para assegurar
as bases do poder monárquico.
Re�exão
Na nova configuração política e religiosa que o Ocidente viu surgir após o Império Romano, a Igreja (tanto
por parte do papado, quanto dos monges e dos bispos, especialmente) desempenhou um papel
fundamental, tanto na cristianização dos povos germânicos, quanto na justificação do poder régio,
entendido como atribuído ao rei pela vontade divina.
Outros intelectuais 
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Os primeiros relatos históricos produzidos, portanto, se empenhavam não só em marcar as origens
históricas do reino protagonista da narrativa, inserindo-o na história da humanidade dirigida por Deus, mas
também em identificar a conversão dos reis ao cristianismo e a ação de figuras e instituições religiosas
como o marco histórico da sua formação e de constituição da sua identidade coletiva. De posse dessas
informações é mais fácil entendermos os fatores motivadores que levaram Gregório de Tours, Paulo, o
Diácono, Isidoro de Sevilha e Beda, o Venerável, dentre outros, a produzirem suas obras.
A formação do Império Carolíngio, a partir do reino franco, representou um passo à frente nesse
aprimoramento dos relatos históricos. Portador de um projeto imperial, claramente inspirado no modelo
romano, Carlos Magno empenhou-se em garantir certa identidade político-cultural comum a um império
marcado pela heterogeneidade de povos na sua composição.
Carlos Magno, e a sua frente, com o livro na mão, Alcuíno
Nesse sentido, Carlos Magno cercou-se de homens sábios, originários do clero, que o auxiliaram no que foi
nomeado por historiadores de “renascença carolíngia”. Apesar de as realizações da alta cultura carolíngia
não serem tão amplas quanto se considerou posteriormente enem o imperador ter uma cultura tão
profunda quanto a imagem a posteriori propôs, Carlos Magno “Pensava que o saber, a instrução, era uma
manifestação e um instrumento de poder necessários” (LE GOFF, 2007, 58).
Alcuíno de York (735-804).
Uma das figuras que levou adiante o projeto cultural carolíngio foi Alcuíno de York (735-804), ele foi o
principal conselheiro do imperador. Responsável por retomar e difundir a escrita em latim, Alcuíno foi autor
de uma gramática latina e de uma série de obras de cunho educativo, base para a formação daqueles que
frequentavam as escolas palacianas e episcopais, onde se ensinavam as sete artes liberais.
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Vejamos as sete artes liberais a seguir:
Trivium
Gramática, Lógica e Retórica.
Quadrivium
Aritmética, Geometria, Astronomia e Música.
A renascença carolíngia estimulou a difusão da escrita, a educação e a cópia de textos clássicos, advindos
em sua maioria do intercâmbio comercial e cultural com o Império Bizantino. As cópias foram em sua
maioria realizadas e arquivadas nos monastérios. Sobre o impacto dessa renascença:
Sem cair no exagero, é preciso, todavia, reconhecer que a atividade intelectual
carolíngia foi um dos estratos da cultura europeia. A importância do saber para
o governo de um estado e seu prestígio foi sublinhada por Carlos Magno no
capitular De litteris colendis.
(LE GOFF, 2007, p. 60)
Os impactos da “renascença” carolíngia se expandiram para além do reinado de Carlos Magno, vigorando no
reinado dos seus sucessores, seu filho Luís, o Pio, e seu neto, Carlos, o Calvo.
O declínio da Dinastia Carolíngia e a chegada das ondas invasoras dos séculos IX e X, que implicaram
ataques militares e conquistas territoriais promovidas pelos húngaros ou lombardos (que se deslocavam a
partir do Leste Europeu), pelos vikings (oriundos da Escandinávia) e pelos muçulmanos (que buscavam
ampliar suas conquistas em direção ao domínio da bacia ocidental mediterrânica), tornaram os monastérios
os espaços mais seguros para a preservação das obras copiadas, evitando, mas não impedindo, que
fossem destruídas nos ataques dos invasores.
Quando se estuda a história do monasticismo no Ocidente medieval, observa-se o grande papel que os
mosteiros tiveram na preservação, na reprodução dos textos clássicos e na produção de conhecimentos.
Fugindo da vida urbana, por opção, os mosteiros eram fundados em áreas ermas que propiciavam o
afastamento da sociedade e a instalação de uma vida coletiva marcada pela busca da espiritualidade, que
não beneficiaria somente os monges, mas garantiria as bençãos divinas sobre toda a comunidade.
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Representação dos monges no Monastério.
Logo, em momentos de colapso da vida urbana, em função de invasões e revoltas internas, os monastérios:
Estavam, portanto, notavelmente bem adaptados para cuidar da preservação
do saber em tempos de decadência e devastação. Eles estão entre as
instituições de mais longa vida contínua existente no mundo medieval. A
longevidade é componente integral do mosteiro, parte de seu DNA
institucional.
(McNEELY; WOLVERTON, 2013, p. 52)
O papel dos monastérios, no que tange ao conhecimento, não era só o de reprodução e preservação da
cultura clássica, mas também produção de conhecimentos que auxiliassem o homem na sua caminhada
terrestre, a respeito da vida, da morte e da salvação, de acordo com os princípios cristãos. Os monastérios,
portanto, contribuíram para consolidar na alta cultura medieval a concepção de tempo cristã e os
parâmetros a partir dos quais os homens deveriam relacionar-se com o conhecimento e com Deus.
A influência da cultura intelectual monástica foi bastante consolidada no Império Carolíngio quando Carlos
Magno promoveu a reforma dos monastérios propondo o uso da regra beneditina como referência, e
manteve-se forte mesmo por ocasião da segunda onda invasora dos séculos IX e X.
A adoção da regra beneditina difundiu ainda mais a prática da escrita de textos que perfaziam os aspectos
teológicos e históricos, de forma que as narrativas históricas e hagiográficas se retroalimentavam, em um
esforço de construir a memória de uma instituição eclesiástica, das cortes senhoriais e das casas régias.
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A Regra de São Bento.
A produção histórica na Baixa Idade Média (séculos XI a
XV)
Foi no ambiente monástico que surgiu a chamada reforma gregoriana e todo o projeto de teocracia papal
que pretendia estabelecer a primazia do papado sobre os poderes seculares, garantir o respeito à hierarquia
eclesiástica e submeter a sociedade ao direcionamento moral da Igreja. Além disso, as cruzadas pregadas
pela primeira vez pelo papa Urbano II, em 1095, conclamaram toda a cristandade a lutar contra os
muçulmanos infiéis, resultantes do clima reformista reinante na Igreja.
O ambiente reformista da Igreja e as Cruzadas promoveram a intensificação da produção cronística e
ampliaram o acesso ocidental às obras orientais, via mundo muçulmano.
Curiosidade
O contato entre o mundo muçulmano e o ocidente já existia antes mesmo das Cruzadas e se dava,
principalmente, a partir da Península Ibérica e da Península Itálica, onde o trânsito de mercadorias
(incluindo-se manuscritos) e pessoas era intenso.
Se as cruzadas não representaram o fim do isolamento do Ocidente em relação ao Oriente, como pensou
Pirenne (1992), elas intensificaram o volume do comércio e do contato cultural e intelectual entre essas
regiões.
Durante muito tempo, os historiadores lidaram com uma concepção de Idade Média voltada somente para o
Ocidente. Embora existam diferenças culturais marcantes entre as sociedades ocidental e oriental ao longo
do período medieval, grande parte delas advindas das referências religiosas, a medievalística
contemporânea já caminha para o entendimento de uma visão conectada da História Medieval. Sem negar
os processos históricos locais, a história conectada, como o próprio nome aponta, pretende explorar as
conexões existentes entre os diversos espaços e culturas.
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Um forte movimento de tradução de textos gregos e árabes marca o fortalecimento da intelectualidade europeia.
Iluminura representando um acadêmico medieval fazendo medições sobre um manuscrito.
A ascensão do domínio político-territorial muçulmano na bacia mediterrânica oriental e ocidental implicou a
intensificação das rotas comerciais que uniram a Península Ibérica ao Extremo Oriente.
A difusão da língua árabe como símbolo da identidade muçulmana intensificou o acesso a inúmeras obras
clássicas (que haviam sido traduzidas do grego para o siríaco, sob o patrocínio dos imperadores persas
sassânidas) e a obras provenientes do Extremo Oriente traduzidas para o árabe, além daquelas que eram
produzidas nas madrassas muçulmanas.
Tais obras circulavam nos principais centros de tradução do árabe para o latim, ou para as línguas
vernáculas, presentes na Península Itálica e na Península Ibérica, e dali difundiam-se pela rede de abadias e
centros de saber espalhados pelo Ocidente medieval, também alimentados pelos sábios bizantinos.
Atenção!
As transformações que marcaram os séculos XI e XII possibilitam notar a ampliação das fontes escritas
que se dedicaram ao registro da memória e aos relatos com um cunho histórico. Como lembram Bourdé e
Martín (2018, p. 61): Nunca se sublinhará a extrema variedade dos gêneros históricos na época feudal.
O século XI foi marcado pelo incremento da economia senhorial e por mudançasclimáticas que
favoreceram a ampliação das áreas agrícolas, por meio do uso de novas tecnologias, como o arado, o
cultivo trienal, o moinho de vento etc.
O aumento da taxa demográfica, a intensificação da vida urbana e das atividades comerciais e artesanais e
a formação da burguesia foram resultados dessa dinâmica de crescimento socioeconômico.
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As cidades se tornaram centros não só econômicos, mas também de saber. As escolas catedralícias
ofereciam àqueles que pudessem pagar uma educação pautada nas sete artes liberais, o que representou o
ascenso dos laicos à cultura letrada, o desenvolvimento de novos ofícios (como os juristas, por exemplo)
que eram absorvidos na nova vida urbana e nas cortes régias e a difusão da prática da escrita. A partir do
século XIII e nos séculos seguintes, essa difusão pedagógica e da escrita manteve-se nas escolas
catedralícias e perpetuou-se nas universidades recém-fundadas.
Manuscrito medieval mostrando uma reunião de doutores.
A História escrita a partir das universidades
O saber produzido nas escolas catedralícias e nas universidades foi a base a partir da qual desenvolveu-se
no Ocidente medieval uma nova perspectiva acerca da própria existência humana. Na efervescência
intelectual que caracterizou o século XII, uma nova concepção acerca do ser humano e da sua função na
história estabeleceu-se, a ponto de alguns historiadores considerarem esse período como o nascimento de
uma “consciência ativa da história” que se remeteu aos campos filosófico, teológico, jurídico, entre outros.
Re�exão
Sobre essa nova consciência, Bourdé e Martin (2018, p. 59) concluíram que esse novo censo da história vai
de par com um novo senso da natureza, percebida como um cosmo ordenado, e do papel do homem no seu
seio. O homo faber, cuja ação se inscreve no tempo, tem por tarefa prolongar e completar a obra criadora de
Deus.
Inaugura-se, assim, uma antropologia que pretende refletir sobre o ser humano e seu papel na história. A
aventura do homem na terra passou a ser valorizada, e não somente algo efêmero frente a importância da
vida celeste.
Sob a nomenclatura de crônicas, é comum reunir-se vários tipos de relatos que se propuseram a construir
uma narrativa em torno dos feitos de personagens importantes, alinhando datas e lugares que a
corroborem.
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Contudo, há uma variedade de tipologias narrativas ainda pouco mensurada pelos historiadores. Apesar das
indefinições a que se remete, na Idade Média, a noção de crônica era “tanto uma narrativa do dia a dia
quanto um afresco abrangendo vários séculos” (BOURDÉ; MARTIN, 2018, p. 59).
Tradução búlgara da Crónica de Constantino Manasses (século XII).
Dedicando-se ao registro da ação do homem no tempo, os cronistas medievais, portadores de uma erudição
de base, produzem uma narrativa simples e clara, fundada na cronologia e em oposição às fábulas, que
reuniam ficções.
Nota-se, então, entre os cronistas, do século XII em diante, apesar da diversidade
narrativa, alguns cinco elementos comuns.
Um primeiro elemento que caracteriza as crônicas produzidas a partir do século XII e que se manteve no
gênero desde a Alta Idade Média foi as narrativas terem sido, geralmente, encomendadas por autoridades
eclesiásticas ou laicas. No período baixo-medieval houve um aumento considerável das crônicas régias,
produzidas em decorrência do patrocínio de monarcas, ávidos por demarcar, na memória histórica coletiva,
a origem dos seus reinos e suas contribuições (e das suas dinastias) para seu desenvolvimento, a fim de
justificar a hierarquia e a centralidade do poder monárquico. Vários foram os cronistas régios, que poderiam
ser laicos ou clérigos, como veremos a seguir:
Clérigos
Os clérigos dominaram por muito tempo esse ofício. Os primeiros foram majoritariamente os monges
beneditinos, mas, com o tempo, o clero secular dedicou-se aos registros históricos. Esse foi o caso de
Guillaume de Potiers e Adão de Bremen.
Laicos

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Com a ampliação do acesso à cultura escrita, conforme mencionado, os historiadores laicos tornaram-
se mais numerosos no período baixo-medieval, sendo majoritários, no século XV, entre os cronistas
borgonheses e bretões.
Um segundo elemento a se levar em consideração é que as crônicas baixo-medievais resultavam tanto do
esforço de autoria individual quanto coletiva. Os chamados “homens de corte” eram os herdeiros dos
clérigos da corte e dos jograis feudais que se dedicavam a narrar os grandes feitos dos barões e dos santos,
seguindo os moldes cronísticos alto-medievais. Os “historiadores de gabinete” eram empregados nas cortes
régias e episcopais e tinham acesso privilegiado aos documentos originais. O avanço das chancelarias,
decorrente, sobretudo, da necessidade político-administrativa das monarquias do século XIII, tornou-as os
espaços da memória burocrática e as fez disputar com os monastérios o posto de guardiãs e de registro da
memória régia. Vejamos os cronistas a seguir:
Jan Dlugosz
O cronista que escreveu História da Polônia, entre 1445 e 1480, e teve amplo acesso aos arquivos do
capítulo e da chancelaria da Cracóvia, além daqueles que se encontravam em diversos conventos, sendo
exemplo de cronista que empreendeu vasta pesquisa documental para redigir sua crônica.
Jean Froissart
Atuou mais como um “cronista-repórter”. Considerado por Bourdé e Martin (2018) “o pai da história oral”,
escreveu suas obras tendo como base os relatos que recolhia em suas viagens por meio de entrevistas
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detalhadas feitas às suas testemunhas. Apesar do relato envolvente, o remanejamento de fatos e lugares,
por vezes, comprometeu a veracidade das informações.
As crônicas produzidas poderiam ser resultantes tanto do esforço de um cronista quanto do de uma equipe
de autores, que poderiam ter suas autorias declaradas ou não na obra, podendo atuar como uma equipe ou
isoladamente.
Exemplo
Historia Compostelana é um exemplo de autoria cronística coletiva, produzida a mando do arcebispo de
Santiago de Compostela, Diego Gelmírez, no século XII, com o objetivo de enaltecer a origem da sua diocese
frente às demais dioceses do reino, mas especialmente frente à diocese de Toledo, com quem disputava a
primazia da igreja castelhana. O projeto da obra era tão ambicioso, que se estendeu por vários anos e, ao
longo do texto, é possível identificar a autoria de quatro clérigos que, em momentos diversos, foram
responsáveis pela redação da obra.
Um marco na produção cronística foi General Estoria, uma obra destinada a contar a história da Espanha
desde sua origem até o reinado do rei de Leão e Castela, Fernando III.
Sua produção foi coordenada pelo rei Afonso X, filho e sucessor do monarca, sob a direção do monge
franciscano Juan Gil de Zamora, que tinha sob sua liderança uma equipe de cronistas que atuavam no
scriptorium afonsino. Sua feitura contar com a supervisão ativa do monarca, e patrono da obra, a quem
também se atribuiu o fato de ter sido escrita em castelhano, inaugurando uma tendência de escrever as
crônicas na língua vernácula, e não em latim, tornou-a referência na produção cronística baixo-medieval.
Afonso X de Castela (221-1284).
O terceiro elemento que pode ser identificado nas crônicas baixo-medievais é o fato de elas serem
produzidas tendo em vista a apresentação de um personagem principal. Seguindo a tendência de alinhar
feitos e costurá-los em um relato narrativo que caracterizaesse gênero desde a Alta Idade Média, as
crônicas dos séculos XII em diante centravam-se mais nas ações individuais, como veremos:

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O homenageado na crônica era representado como portador de virtudes morais que geralmente o
assemelhavam aos ideais cavaleirescos, mas não só ele como toda sua parentela.

Por outro lado, seus opositores, suas linhagens e seus feitos eram frequentemente difamados. Logo, a
história dos protagonistas da crônica misturava-se à história dos reinos, em uma busca intensa por
uma origem gloriosa.
Isso nos remete ao quarto elemento que caracterizou as fontes desse período, a inserção das narrativas
dos reinos e dos seus protagonistas na história humana. Dessa forma, era comum que os cronistas régios,
principalmente, recuassem aos tempos mais longínquos para elaborar a história do reino e nele observar
elementos que demonstravam a intervenção divina nos momentos críticos. Contudo, rompendo com a
tendência das crônicas alto-medievais, que frequentemente faziam uso dos elementos sobrenaturais
próprios dos relatos hagiográficos, os cronistas baixo-medievais diminuíram consideravelmente as
inserções sobrenaturais nos seus relatos.
Chega-se, então, à quinta característica da literatura cronística baixo-medieval, o uso de informações
adquiridas em documentos, por vezes transcritos na narrativa. O fato de as chancelarias terem sido
fundadas e ampliado sua forma de organização interferiu diretamente na forma como os cronistas
construíram sua narrativa. Portanto, as crônicas produzidas nos séculos XIV e XV não incluem somente
menções aos textos cronísticos mais antigos, mas também à transcrição direta de documentos e dados
sobre sua localização arquivística.
Crônicas e História nos reinos ibéricos
Vamos a um estudo de caso com a professora Marta, em que ela discute a importância das crônicas e da
História na formação dos reinos ibéricos na Baixa Idade Média.


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Falta pouco para atingir seus objetivos.
Vamos praticar alguns conceitos?
Questão 1
Quanto à missão da escrita da História e seu registro durante a Idade Média, pode-se afirmar que
Parabéns! A alternativa D está correta.
As crônicas, associadas à ideia de ciclos, e a história, associada à visão de narrativa, tinham no seu
cerne o papel de legitimar algo, fosse o rei, a Igreja e até a própria divindade.
Questão 2
A as crônicas se limitavam ao papel lúdico, para entretenimento da nobreza.
B as crônicas e histórias eram um instrumento para reduzir o poder da Igreja.
C as crônicas e histórias só poderiam ser escritas por laicos.
D as crônicas e as histórias eram instrumentos de legitimidade.
E as histórias buscavam retomar os valores clássicos.
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A produção de história durante a Baixa Idade Média foi fortemente impactada pela criação e
consolidação das
Parabéns! A alternativa E está correta.
As universidades tinham papel primordial na consolidação e organização do pensamento, criando
núcleos atrativos e de altos estudos, assim, em seu espaço, a produção da história ganha novos
aspectos.
A catedrais.
B monarquias.
C práticas papais.
D guerras santas.
E universidades.
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3 - Fontes diversas para o estudo da Idade Média
Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car metodologias para o estudo de fontes na
Idade Média.
As variedades metodológicas
Documentos, Famílias e desa�os de investigar a História
medieval
Neste vídeo, será apresentado o que é um documento por meio de um estudo de caso, usando as
legislações para mostrar como é complexo estudar o passado.
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Uma das grandes contribuições da Escola dos Annales para a historiografia foi a “revolução documental”
estabelecida ao entender qualquer vestígio deixado pelo homem sobre a Terra como uma fonte para o
estudo da História, quebrando o entendimento de que somente os documentos oficiais escritos deveriam
ser considerados fontes válidas para o fazer história. A ampliação da noção de fonte histórica propiciou,
então, que os historiadores explorassem novas temáticas e novos objetos.
De qualquer forma, se os historiadores estão mais preocupados que seus
antecessores com uma maior variedade de atividades humanas, devem
examinar uma maior variedade de evidências. Algumas dessas evidências são
visuais, outras orais.
(BURKE, 1992, p. 14)
Para lidar com a variedade de fontes que envolve essa revolução documental, os historiadores estão
permanentemente instados a recorrer a outros campos do conhecimento para encontrar elementos que lhes
permitam desenvolver novas metodologias de análise documental. É assim que a análise de discurso, a
análise de conteúdo, o comparativismo, a semiótica, os métodos quantitativos, a história serial etc.
adentraram o mundo historiográfico e têm sido revisitados e aprimorados com o passar do tempo.
No que se refere aos estudos medievais, a ampliação do leque documental
contribuiu essencial e significativamente para derrubar alguns estereótipos ainda
sedimentados atribuídos ao período medieval.
O desenvolvimento das chancelarias medievais legou aos medievalistas uma gama de documentos oficiais,
sobretudo a partir do século XIII. A isso somou-se o interesse de historiadores ligados às monarquias e às
instituições eclesiásticas de preservar a memória institucional por meio da organização dos arquivos
nacionais e clericais.
Portanto, muitas crônicas, cartas e decretos oficiais, atas conciliares, dentre outras formas oficiais de
documentação, encontram-se catalogados em grandes arquivos e, com o advento da tecnologia virtual,
disponibilizados na Internet para consulta também em sua versão manuscrita.
25/05/2023, 19:58 O conceito de Idade Média e as discussões historiográficas
https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/04611/index.html# 49/59
Boa parte das obras literárias medievais, que foram preservadas por bibliotecários e livreiros ao longo dos
anos, encontram-se disponíveis em versões físicas e digitais, em língua original ou já traduzidas para
diversos idiomas. As obras têm servido como objetos de estudo de profissionais de várias áreas, dentre elas
historiadores, que, partilhando de um olhar interdisciplinar, especialmente em parceria com linguistas e
filólogos, têm buscado nelas referências da cultura e do modo de pensar medieval.
Digitalização da Coleção medieval A Miscelânea Rothschild, disponível no Museu de Israel.
Os textos filosóficos e teológicos têm sido largamente visitados por historiadores, filósofos e teólogos em
busca de entender a forma como os homens medievais concebiam o mundo e as formas espirituais.
Curiosidade
Obras como as de Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, passando pelos escritos de sábios
muçulmanos como Avicena e Averróis, têm circulado e alimentado a produção de conhecimento desde a
Modernidade, e são largamente difundidas em versões virtuais e impressas ao longo dos anos.
A Idade Média também produziu uma série de tratados ligados a diversas áreas de conhecimento. Contudo,
nem sempre os medievalistas se empenharam em desbravá-los. Em grande parte, isso se dá porque a
noção de cientificidade da modernidade difundiu