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Embriologia e Desenvolvimento Ocular Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Esp. Roberta Leal Revisão Textual: Mateus Gonçalves Santos Estrutura e Fisiologia das Células e Tecidos Estrutura e Fisiologia das Células e Tecidos • Reconhecer as células como as menores unidades funcionais dos seres vivos; • Conhecer as funções das organelas presentes no interior das células eucarióticas; • Compreender as diferentes propriedades das membranas celulares; • Descrever as formas de substâncias através da membrana; • Reconhecer os processos de divisão celular e sua importância prática para os organismos; • Compreender os fenômenos biológicos em nível celular, relacionando-os com os diversos tipos de tecidos e órgãos humanos identificando suas estruturas microscópicas. OBJETIVOS DE APRENDIZADO • Introdução ao Estudo das Células; • Partes da Célula; • Divisão Celular; • Classificação Geral Histológica. UNIDADE Estrutura e Fisiologia das Células e Tecidos Contextualização Nesta unidade, vamos tratar das estruturas mais básicas para o surgimento da vida de qualquer ser vivo. Porém nosso maior foco é abordar o funcionamento do ser humano. Tenha em mente a ideia de que tudo o que podemos ver de grandioso no organismo é resultado da ação de pequenas estruturas. E falando em resultados, esperamos que os seus, durante a vida, sejam os melhores! Estamos aqui para ajudar nisso! Mas não se esqueça: isso dependerá muito mais de você! Nós, aqui, direcionaremos um pouco o seu olhar para as coisas mais importan- tes e para as ideias que precisam ser compreendidas para o entendimento desta e das próximas disciplinas do seu curso. Mas quem é o grande responsável pelo aprendizado, de fato, é você! Por isso, não estude só o que tiver ao longo dessas páginas. Vá além! Leia muito: jornais, revistas, coisas sobre ciências e sobre o mundo – afinal, ele é grande demais para caber em alguns capítulos! Não se engane: o conhecimento é sempre o melhor investimento. Conte comigo e com toda a Equipe Cruzeiro do Sul durante essa tarefa. Pode estar certo(a) de que estamos torcendo por você! 8 9 Introdução ao Estudo das Células Já parou para pensar do que somos feitos? O que todos os seres vivos têm em co- mum? Se você acha que respirar é a resposta para essa pergunta, você está enganado(a)! Na verdade, o que nos torna seres vivos é a presença de células. Enquanto alguns seres vivos têm trilhões de células, como as árvores, outros têm uma só, como as bactérias. A célula é uma unidade funcional e estrutural que estabelece interação entre seus componentes e sob o meio extracelular. Unidade estrutural, porque as células consti- tuem nosso organismo; e unidade funcional, porque são capazes de exercer as funções básicas da vida, como metabolismo, produção de energia e reprodução. Mas se todos os seres vivos são formados por células, como possuímos características diferentes? As cé- lulas fazem parte de um nível hierárquico de organização de um ser vivo e juntas formam um tecido, que, em conjunto, formam um órgão, e, por sua vez, formam sistemas até dar origem ao nível mais complexo de ser vivo, um organismo (Figura 1). As diferentes composições do material que se encontra nas células e, por consequência, nos tecidos, órgãos, e sistemas é o que torna os seres vivos diferentes entre si. Você Sabia? Os vírus não possuem células, por isso, necessitam da célula de um hospedeiro para so- breviver, portanto, não são considerados seres vivos. Entretanto muitos cientistas acre- ditam que a capacidade de sofrer mutações e de se reproduzir já os torna seres vivos. Há uma grande discussão sobre o assunto. Nível de tecido Nível de célula Nível molecular Nível atômico Nível do dispositivo Nível do organismo Nível do órgão Figura 1 – Níveis de organização do corpo humano Fonte: Adaptado de Wikimedia Commons 9 UNIDADE Estrutura e Fisiologia das Células e Tecidos Partes da Célula A célula é uma unidade pequena, mas muito complexa, e muito semelhante com uma fábrica. Assim como a fábrica, a célula possui muros delimitando sua área, portas de entrada e saída, setores com atribuições específicas e um centro de comando. Os muros da célula são representados pela membrana plasmática, que separa o conteúdo intracelular do meio extracelular. A área setorizada da célula é o citoplasma, onde se localizam as organelas, que são as estruturas responsáveis pelas diferentes funções da célula. O centro de comando da célula é o núcleo, região que contém todo o material genético do indivíduo (Figura 2). Célula animal Aparelho de Golgi Centrossoma Citoplasma Ribossomo Lisossoma Núcleo Nucléolo Vesícula Membrana Citoesqueleto Mitocôndria Retículo endoplasmático liso Retículo endoplasmatico rugoso Figura 2 – Partes da célula Fonte: Adaptado de Getty Images Agora imagine como um grupo de células pode formar um tecido, por exemplo, o tecido nervoso. Isso é possível porque estas células são idênticas e, agrupadas, podem desempenhar a mesma função. Conforme veremos nesta unidade, no caso do tecido nervoso todas essas células são capazes de propagar impulsos nervosos. Dentro de um organismo existem diferentes tipos de células (Figura 3). Estas células são especializadas para diferentes funções, e isto torna possível a existência dos nossos diferentes órgãos. Célula humana Hemácia Glóbulo brancoNeurônios motores Célula de esperma Óvulo Célula óssea Células no revestimento interno do intestino Figura 3 – Diferentes tipos de células do corpo humano Fonte: Adaptado de Getty Images 10 11 Membrana Plasmática A membrana plasmática é uma película fina, delicada e elástica, que define os meios intra e extracelulares. Essa característica delimita o conteúdo da célula e confere indi- vidualidade a ela. A membrana mede cerca de 7 a 10 µm de espessura e só pode ser vista no microscópio eletrônico. É constituída por uma bicamada fluida de fosfolipídios e proteínas. As proteínas da membrana plasmática atuam nos mecanismos de transpor- te, organizando verdadeiros túneis. Esses túneis permitem a passagem de substâncias para dentro e para fora da célula. Além disso, funcionam como receptores de membra- na, encarregados de receber sinais de substâncias que levam mensagens para a célula. Sabe por que a chamamos de bicamada fluida? Porque são duas camadas não estáticas, ou seja, os lipídios movem-se proporcionando fluidez à membrana, como vemos na Figura 4. Esses fosfolipídios e proteínas são componentes essenciais para fazer com que a membrana não seja permeável a todas as substâncias. Tal composição permite à membrana estabelecer uma seleção sobre o que entra e o que sai da célula, fenômeno chamado de permeabilidade seletiva. Fosfolipídios são moléculas anfipáticas, ou seja, possuem parte da molécula que é hidrofílica e a outra parte que é hidrofóbica: Possuem uma cabeça constituída pelo grupo fosfato (polar) ligado a uma cauda constituída por cadeias de ácidos graxos (apolares). Na membrana celular as cabeças polares ficam voltadas para o exterior e as caudas apolares para o interior. Curiosamente, esta fluidez significa que se você inserir uma agulha muito fina em uma célula, a membrana irá simplesmente fluir ao redor da agulha; e, uma vez que a agulha é removida, a membrana irá se reconstituir sem qualquer problema. Fora da membrana celular Dentro da membrana celular (citoplasma) Cadeia de carboidratos Proteína globular Glicoproteína Bicamada fosfolipídica Proteína Hidrofóbica Alfa HéliceProteína periférica Colesterol Canal de proteína (proteína de transporte) Proteína integral Polar Polar Não polar Glicolipídeo Cabeça hidrofílica Cauda hidrofílica Fosfolipídeo Figura 4 – Componentes da membrana plasmática em seu modelo mosaico fl uido Fonte: Adaptado de Getty Images 11 UNIDADE Estrutura e Fisiologia das Células e Tecidos Por que será que a membrana plasmática é tão importante? Um exemplo relevante sobre a importância da membrana plasmáticatem relação com o vírus que ocasionou uma das maiores pandemias da história da humanidade, o coronavírus, que causa a COVID-19. Resumidamente, o vírus necessita de uma célula hospedeira para se repro- duzir e, portanto, seu principal objetivo é conseguir entrar na célula. No entanto, a membrana tem a habilidade de escolher o que pode entrar, e o que não pode entrar na célula. Pesquisadores no mundo inteiro buscaram fármacos adequados para o tratamento da do- ença, até que se descobriu que o vírus podia entrar na célula a partir de uma porta especí- fica, ou seja, todos nós temos um receptor na membrana que permite a entrada do vírus na célula, para que, enfim, ele possa se reproduzir. Essa porta de entrada para o vírus na célula é a enzima conversora da angiotensina 2 (ECA2). Alojada na membrana plasmática, ela fun- ciona como um receptor para os coronavírus SARS-CoV-1 e SARS-CoV-2. Portanto, sabemos que a entrada do SARS-CoV-2 nas células pode ser bloqueada por anticorpos neutralizantes das estruturas envolvidas na formação desse receptor de membrana. Transportes de membrana Como vimos, a membrana plasmática é fundamental para o funcionamento da célula, e sua deterioração configura a morte da célula como um todo. Isso acontece porque ela é bem mais do que um simples envoltório. A membrana plasmática também atua regulando a passagem e a troca de substâncias entre a célula e o meio em que ela se encontra. Esse transporte de substâncias entre o meio interno e externo da célula pode acontecer de duas maneiras, são eles: transporte passivo e o transporte ativo. As principais diferenças entre as duas maneiras de transporte de membrana são respectivas ao gasto energético envolvido para a passagem da substância intencionada. Enquanto no transporte ativo, há gasto de energia, no transporte passivo não há. Mas o que é e como funciona o gasto energético das células? Para que a célula possa exercer funções, ela precisa de energia. Essa energia celular é armazenada na molécula de adenosina trifosfato (ATP). A molécula de ATP funciona como pilha, estocando os nutrientes absorvidos da quebra dos alimentos que consumimos. Quando a célula pre- cisa realizar alguma reação, a molécula de ATP funciona como “moeda” liberando sua energia em troca do objetivo celular. Sendo assim, enquanto algumas substâncias exigem o uso de ATP para seu trans- porte, outras podem passar livremente pela membrana sem gasto energético (Figura 5). Transporte Ativo Transporte Passivo moléculas se movem baixa a alta concentração precisa de ATP moléculas se movem concentração alta a baixa sem necessidade de energia Figura 5 – Tipos de transporte de membrana: ativo e passivo Fonte: Adaptado de Getty Images 12 13 Transporte passivo Acontece quando as substâncias se deslocam livremente pela membrana, sem que a célula precise gastar energia. Não há gasto de energia porque as substâncias deslocam- -se naturalmente do meio mais concentrado para o menos concentrado, ou seja, a favor do gradiente de concentração (Figura 6). Existem três tipos de transporte passivo: a difusão simples, a difusão facilitada e a osmose. Fora da célula Dentro da célula Transporte Passivo Figura 6 – Transporte passivo Fonte: Adaptado de Getty Images • Difusão simples: É feita quando as substâncias que atravessam a membrana são consideravelmente pequenas, ou lipossolúveis. Substâncias pequenas atravessam a membrana facilmente pela bicamada; e substâncias lipossolúveis passam facilmen- te, devido à composição lipoprotéica da membrana. Um exemplo dessa situação é a troca do gás oxigênio e do gás carbônico nos alvéolos; • Difusão facilitada: É feita quando as substâncias que atravessam a membrana não são lipossolúveis. Dessa maneira, o transporte ocorre através de uma pro- teína transmembrana; • Osmose: É um tipo de difusão exclusivo para a passagem de água pela membrana plasmática. A osmose controla a concentração de água no ambiente interno e ex- terno da célula, igualando as concentrações entre uma solução hipotônica e outra hipertônica, até que se atinja um equilíbrio. Transporte ativo Acontece quando a célula precisa gastar energia para promover o transporte de subs- tâncias através da membrana plasmática. Há gasto de energia porque o deslocamento das substâncias se dá do meio menos concentrado, para o mais concentrado, ou seja, contra o gradiente de concentração. Nesse transporte, há participação das enzimas transportadoras. Um exemplo fundamental para compreendermos o transporte ativo é quando falamos da bomba de sódio e potássio. Na bomba de sódio e potássio, nossas células do sistema nervoso absorvem íons de potássio e eliminam íons de sódio por transporte ativo (Figura 7). 13 UNIDADE Estrutura e Fisiologia das Células e Tecidos Fora da célula Dentro da célula Transporte Ativo Figura 7 – Transporte ativo Fonte: Adaptado de Getty Images Em Síntese A membrana plasmática mantém constante o meio intracelular, tem receptores para hormônios e outros sinais químicos, e estabelece conexões entre as células e com a ma- triz extracelular. Citoplasma Lembra daquela analogia que fizemos sobre a célula funcionar como a fábrica? Então, no citoplasma da célula temos a setorização da produção. A membrana delimita e sele- ciona o que entra e sai da célula, mas é no citoplasma que tudo acontece. O citoplasma é constituído por um material semifluido, gelatinoso que se chama hialoplasma. No hia- loplasma ficam imersas as organelas celulares, estruturas que desempenham diferentes funções vitais, como digestão, respiração, excreção e circulação. Veja a seguir o quadro com as principais organelas presentes no citoplasma e suas respectivas funções (Tabela 1). Tabela 1 – Principais organelas celulares e suas respectivas funções Organela Função Mitocôndrias Realizam a respiração celular – produção de energia (ATP). Retículo Endoplasmático Liso Rede de tubos e bolsas membranosas que sintetiza lipídeos. Retículo Endoplasmático Rugoso Rede de tubos e bolsas membranosas que produz as proteí- nas estruturais das membranas. Complexo de Golgi Responsável pela secreção celular. Lisossomos Responsável pela digestão celular. Ribossomos Grânulos especializados na produção de proteínas. Centríolos Responsáveis pela formação do fuso de divisão celular (mitose e meiose). 14 15 Núcleo Quando falamos a palavra “núcleo”, pensamos em uma região central, de comando. Não é diferente na célula. O núcleo aloja a parte mais importante da célula, a molécula de DNA. Em quase todas as células do nosso organismo temos uma região delimitada exclusivamente para proteger o nosso DNA, o núcleo. Isso é fundamental, já que o DNA é uma molécula muito grande, e sua função é comandar a célula. Veremos isso mais detalhadamente em outra unidade. Os componentes do nú cleo sã o: o envoltó rio nuclear (ou carioteca), a cromatina, o nucleoplasma e os nuclé olos (Figura 8). Existem algumas células humanas que não possuem núcleo, como por exemplo, as hemá- cias. Por outro lado, algumas outras células podem ser polinucleadas, como por exemplo, as células musculares. Ribossomo Envelope nuclear Nuclear lamina Nucleoplasma Cromatina Nucléolo Poro nuclear Figura 8 – Partes do núcleo da célula Fonte: Adaptado de Getty Images O envoltório nuclear ou carioteca O envoltório nuclear é a membrana que delimita o núcleo. Também chamado de carioteca, separa o núcleo do citoplasma e é responsável por dar ao núcleo essa carac- terística de compartimento distinto da célula. Além disso, permite à célula o controle de acesso ao seu material genético. Cromatina A cromatina é constituída pela associação entre o DNA e proteínas específicas, cha- madas proteínas histonas. O DNA é uma molécula de quase 2 metros de comprimento, e precisa se condensar dentro do núcleo. As proteínas histonas realizam essa compactação do DNA. A formação da cromatina permite que uma molécula gigante, como o DNA, pos- sa ser armazenada no núcleo, cujo diâmetroé de aproximadamente 10 µm. Este fantástico 15 UNIDADE Estrutura e Fisiologia das Células e Tecidos grau de compactação exerce um papel fundamental para as nossas células, porque quanto maior o volume de informação genética, mais complexo pode ser o organismo (Figura 9). Figura 9 – O cromossomo condensado, quando desenrolado expõe a cromatina Fonte: Getty Images A cromatina é desenrolada progressivamente e, quando desassociada das proteínas histonas, apresenta apenas a dupla hélice de DNA. Nucleoplasma O nucleoplasma é uma massa incolor constituída por água, proteínas, RNAs, nucle- otídeos e íons, onde encontraremos mergulhados os nucléolos e a cromatina. Ele possi- bilita as reações químicas do metabolismo da célula. Nucléolos O nucléolo é a região do nucleoplasma onde se localizam os genes que são trans- critos em RNA. Como você verá no final desta disciplina, existem três classes de RNA. Nos nucléolos acontece a formação de moléculas de RNA ribossomal, estruturas impor- tantes para a transcrição gênica. Divisão Celular Certamente, um dos fenômenos biológicos mais importantes para a manutenção da vida é a divisão celular. Na biologia, diferentemente das outras ciências, a divisão será a mesma coisa que multiplicação celular. A multiplicação celular garante que nós, organis- mos formados por trilhões de células, mantenhamos um número constante de células e consigamos repor o que perdemos todos os dias, seja pela descamação da nossa pele, ou pela morte natural de hemácias em nosso sangue, por exemplo. O entendimento da divisão celular foi fundamental para a ciência, principalmente para as ciências médicas. Isso porque muitas doenças se transmitem não só entre os tecidos, mas principalmente através de suas células individuais. Como sintetizado pelo famoso aforisma do médico Virchow, “Omnis cellula e cellula”, isto é, toda célula pro- vém de outra preexistente. 16 17 Para uma célula se multiplicar e dar origem a células filhas, é preciso que sejam respeitados alguns passos. A primeira coisa que precisa acontecer é a duplicação de todas as organelas e todas as estruturas que têm dentro do núcleo celular. Cromosso- mos duplicam-se antes de sua divisão. Como veremos posteriormente, um indivíduo da espécie humana tem 46 cromossomos numa célula somática. Antes que uma célula se divida, é necessário que os 46 cromossomos se dupliquem. Depois dessa fase, ocorre a separação de todas as estruturas celulares. Em seguida, refaz-se a membrana que reves- te o núcleo e dividem-se as organelas já duplicadas. Assim, cada célula-filha fica com o mesmo número de organelas e de cromossomos da célula-mãe. Células somáticas são todas as células com exceção dos gametas. Soma=corpo. Esse fantástico fenômeno de divisão celular tem duas maneiras de acontecer: Mitose e Meiose. Existem diferenças importantes entre elas, como vemos na tabela 2: Tabela 2 – Diferenças entre a mitose e a meiose Diferenças Mitose Meiose Função Crescimento e regeneração dos tecidos. Formação de células responsáveis pela reprodução (espermatozoides e óvulos). Tipo de célula Ocorre normalmente na maioria das células somáticas. Ocorre em células germinativas (gametas). Número de divisões por evento Uma divisão nuclear e uma divisão citoplasmática. Duas divisões nucleares e duas di- visões citoplasmáticas. Número de células fi lhas por divisão Uma célula-mãe produz duas células-filhas. Uma célula-mãe produz quatro células-filhas. Conteúdo genético das células-fi lhas Os conteúdos genéticos das célu- las-filhas são idênticos entre si e também iguais aos da célula- mãe. Os conteúdos genéticos das célu- las-filhas diferem da célula-mãe e também diferem entre si. Número de cromossomos das células-fi lhas O número de cromossomos das células-filhas é o mesmo que o da célula-mãe. O número de cromossomos das células-filhas é a metade do da célula-mãe. Mitose A mitose é o tipo de divisão celular em que cada célula-mãe produz duas células-filhas geneticamente idênticas, ou seja, células somáticas. Por esse motivo, chamamos a mi- tose de divisão celular equacional. Através da mitose, é possível regular a quantidade de células no organismo, o cresci- mento de tecidos e a reparação de tecidos lesados. A mitose é dividida em fases: • Intérfase: Os filamentos de cromatina se duplicam; • Prófase: Os cromossomos começam a ficar visíveis devido à espiralação, e os centríolos começam a projetar fibras de fuso que ajudarão na divisão celular. Além disso, o núcleo absorve água, aumenta de volume e desorganiza a carioteca; 17 UNIDADE Estrutura e Fisiologia das Células e Tecidos • Metáfase: os cromossomos são bem visíveis e se prendem às fibras de fuso na região equatorial da célula, um ao lado do outro; • Anáfase: As fibras de fuso começam a se encurtar e, por consequência, cada fila- mento é puxado para um dos pólos da célula; • Telófase: Os cromossomos começam a se desespiralar, os nucléolos e a carioteca começam a aparecer e os centríolos já se localizam em dupla em cada célula-filha; • Citocinese: É a fase final da mitose em que acontece a divisão da célula em duas. Meiose A meiose é o tipo de divisão celular em que cada célula-mãe produz quatro novas células-filhas com metade do número de cromossomos. Por esse motivo, chamamos a mitose de divisão celular reducional. A meiose possui essa característica porque sua função é formar gametas e reduzindo à metade a quantidade de cromossomos dessas células, prepara-as para a fecundação. Assim, com a fusão de dois gametas, reconstitui-se o número de cromossomos caracte- rístico de cada espécie. Os gametas também são chamados de células sexuais, ou células germinativas, e são célu- las responsáveis pela reprodução. Na espécie humana, os gametas masculinos são os esper- matozoides, e os gametas femininos são os óvulos. A meiose é dividida em fases: • Intérfase: Os filamentos de cromatina se duplicam; • Prófase I: Os cromossomos se espiralam, saem as fibras de fuso e os homólogos duplicados fazem o pareamento. Nesta fase ocorre o crossing-over; • Metáfase I: Os cromossomos homólogos se dispõem na região mediana da célula, um em cima do outro; • Anáfase I: As fibras se encurtam, os cromossomos homólogos se separam, e as cromátides-irmãs permanecem unidas; • Telófase I: Os cromossomos se desespiralam e originam duas células filhas haploi- des, sem cromossomos homólogos; • Prófase II: Há nova espiralação dos cromossomos, com fibras de fuso. • Metáfase II: Os cromossomos se prendem novamente às fibras de fuso pelo centrômero; • Anáfase II: Ocorre duplicação dos centrômeros e com o encurtamento das fibras de fuso. Somente agora ocorre a separação das cromátides irmãs; • Telófase II: Há a reorganização das quatro células filhas haplóides e com metade do número de cromossomos inicial. As células diploides possuem cromossomos homólogos de dois progenitores, já as células haploides apresentam metade do número de cromossomos inicial 18 19 Importante! Uma das principais características da meiose é que ela proporciona o surgimento da di- versidade entre os indivíduos. Pense só: a função da meiose é formar gametas, certo? Se as mulheres e homens formassem óvulos e espermatozoides idênticos entre si, todos os filhos de um mesmo casal seriam idênticos. Porém, o que vemos é que há semelhança, mas o material genético entre irmãos dos mesmos pais biológicos é diferente e, portan- to, irmãos apresentam diferentes características entre si. Como isso é possível? Através de um mecanismo chamado crossing-over! O crossing-over é o fenômeno responsável por “embaralhar” os cromossomos, produzindo inúmeras sequências completamente diferentes da original. Isso acontece tanto na formação de espermatozoides, quanto na formação de óvulos. Portanto, cada um dos espermatozoides e cada um dos óvu- los carrega um material genético completamente diferente do outro. Essas diferentes combinações de uma mesma sequência de DNApossibilitam que os filhos nascidos dos mesmos pais biológicos possam ser parecidos, mas nunca idênticos. Classificação Geral Histológica Sabemos agora perfeitamente que a célula é a menor unidade estrutural e funcional dos organismos. Unidade estrutural porque as células constituem os tecidos e os órgãos, e unidade funcional porque são capazes de exercer as funções básicas da vida, como metabolismo, produção de energia e reprodução. Isto torna possível a compreensão do conceito de histologia. A histologia é o estudo da estrutura do material biológico e das maneiras como os componentes individuais se relacionam estrutural e funcionalmente, ou seja, da maneira com que as células se or- ganizam em tecidos. Quando olhamos as células no microscópio, podemos identificar perfeitamente a sua localização no organismo. Para isso, é preciso saber que o tamanho e a forma da célula estão relacionados à sua função. Mas um grande obstáculo para a identificação da forma da célula é que a estrutura da membrana plasmática é muito fina, e muitas vezes não é visível ao microscópio de luz. Portanto, para se ter orientação sobre a morfologia da célula, deve-se ter uma ideia pelo formato do seu núcleo. O núcleo geralmente reflete a morfologia da célula, pois seu eixo é semelhante às delimitações da célula. As células agrupam-se em tecidos, e estes, por sua vez, em órgãos. Segundo as características morfológicas e as propriedades funcionais, há quatro tipos básicos de tecidos: o tecido epitelial, o tecido conjuntivo, o tecido muscular e o tecido nervoso. Tecido conjuntivo O tecido conjuntivo, como diz o nome, é capaz de unir tecidos, servindo para cone- xão, sustentação e preenchimento. Sua composição diferenciada o torna funcional para absorver impactos, resistir à tração e ter elasticidade, por exemplo. Entre as suas diver- 19 UNIDADE Estrutura e Fisiologia das Células e Tecidos sas funções, esse tecido pode ser especializado no armazenamento lipídico, utilizado na produção de energia ou calor; no armazenamento de íons, na defesa do organismo, na coagulação sanguínea, na cicatrização etc. Como os demais tecidos, o tecido conjuntivo é composto por células e por matriz extracelular. As células do tecido conjuntivo propriamente dito são: as células mesen- quimais, os fibroblastos, os plasmócitos, os macrófagos, os mastócitos, as células adiposas e os leucócitos. Classificação: • Tecido conjuntivo frouxo; • Tecido conjuntivo denso modelado e não modelado; • Tecido elástico; • Tecido reticular (ou linfoide); • Tecido mucoso; • Tecido adiposo; • Tecido cartilaginoso; • Tecido ósseo; • Tecido mieloide (ou hematopoético); • Tecido sanguíneo. Tecido epitelial A denominação epitélio (do grego epi – sobre; theleo – papila) refere-se à localiza- ção desse tecido sobre o tecido conjuntivo, que comumente forma projeções chamadas papilas. O epitélio caracteriza-se pela aproximação das células e pela pouca matriz ex- tracelular de células cúbicas. Sua principal função é o revestimento, já que é capaz de cobrir a toda superfície do corpo, protegendo-o; reveste os tratos digestório, respiratório e urogenital, as cavidades corporais e os vasos sanguíneos e linfáticos. Além disso, este tecido realiza absorção, como nos intestinos, excreção, como nos túbulos renais, e secreção, como nas glândulas. Classificação: Epitélio simples (escamoso, cúbico ou colunar) e epitélio estratificado (escamoso, cúbico ou colunar) (Figura 10). Figura 10 – Tipos de células epiteliais Fonte: Adaptado de Wikimedia Commons 20 21 Tecido muscular O tecido muscular possui células alongadas e ricas em filamentos contráteis. A con- tração do tecido muscular promove o movimento de estruturas ligadas a ele, como os ossos, e, consequentemente, o corpo. Permite ainda o movimento, pelo organismo, de substâncias e líquidos, como o alimento, o sangue e a linfa. As células musculares são alongadas, por isso são também chamadas de fibras musculares. Elas são ricas nos filamentos de actina e de miosina, responsáveis pela sua contração. Contração muscular por actina e miosina, disponível em: https://youtu.be/-Mfo3Af5E3c Tecido nervoso O tecido nervoso encontra-se distribuído pelo organismo e está interligado, resultan- do no sistema nervoso. É formado por células chamadas neurônios (Figura 11), capazes de propagar impulsos nervosos. Forma órgãos como o encéfalo e a medula espinhal, que compõem o sistema nervoso central (SNC). Além do SNC, o tecido nervoso tam- bém dá origem ao sistema nervoso periférico (SNP), que é constituído por gânglios nervosos e nervos. O tecido nervoso recebe informações do meio ambiente através dos sentidos (visão, audição, olfato, gosto e tato) e do meio interno, como temperatura, estiramento e ní- veis de substâncias, por exemplo. Processa essas informações e elabora respostas que podem resultar em ações, como a contração muscular e a secreção de glândulas; em sensações, como dor e prazer, ou em informações cognitivas, como o pensamento, o aprendizado e a criatividade. Além disso tudo, este tecido é capaz de armazenar todas essas informações para uso posterior, o que chamamos de memória. Classificação: Sistema Nervoso Central (SNC) e Sistema Nervoso Periférico (SNP). Dentrite Axônio Mielina Nó de ranvier Células de Schwann Soma Núcleo Figura 11 – Anatomia do neurônio Fonte: Adaptado de Getty Images 21 UNIDADE Estrutura e Fisiologia das Células e Tecidos Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Sites Projeto Célula Interativa 3D https://bit.ly/3orfMnn Vídeos Transporte de membrane – Animação em Português https://youtu.be/-CaPKp-B8jQ Leitura Histologia https://bit.ly/33GohTu Brasil entra em Projeto que quer Mapear todas as Células Humanas https://bit.ly/2KZrOFP 22 23 Referências AMABIS, J. M.; MARTHO, G. R. Conceitos de biologia. Moderna, 2001. DE ROBERTIS, E. J. H. Bases da Biologia celular e molecular. 3.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2001. p. 1. GENESER. Op. cit., p. 43. 91 JUNQUEIRA & CARNEIRO. Histologia básica. Op. cit., p. 67. ROSS, M. H.; PAWLINA, W. Histologia: texto e atlas, em correlação com Biologia celular e molecular. 6.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. pp. 24, 104 23