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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS Departamento de Ciências da Religião Disciplina: Cultura Religiosa I Prof. Arnon de Miranda Gomes Curso: __________ Nome: ________________ Não vi e não gostei Eu conheço muito bem esse tipo - A simplificação estereotipada Estereótipos são rótulos usados para qualificar, superficial e genericamente, grupos étnicos, raciais, religiosos, nacionais e até grupos de pessoas do mesmo sexo ou profissão (“As mulheres são volúveis”; “Os portugueses são burros”; “Os médicos são mercenários”; “Os advogados são ladrões”). Geralmente verbalizados, os estereótipos constituem imagens simplificadas ou caricaturais. É bem verdade que alguns estereótipos fazem menções elogiosas ou favoráveis aos grupos a que se referem: o japonês é trabalhador, o inglês é pontual, o brasileiro é criativo, o alemão é disciplinado, etc. De qualquer forma, mesmo sendo “elogiados”, esses estereótipos constituem apreciações distorcidas, levando-nos a julgar qualquer pessoas a partir de características que atribuímos às categorias às quais ela pertence ou acreditamos pertencer. Nós somos os melhores – A visão etnocêntrica O etnocentrismo é um dos fenômenos que dão origem e sustentação ao preconceito. É um ponto de vista segundo o qual o modo de vida de alguém é percebido e sentido como superior a todos os outros. Quando consideramos e julgamos sociedades racial e/ou culturalmente diversas da nossa a partir de critérios e interesses transmitidos pela nossa própria cultura, estamos procedendo de forma etnocêntrica. Em suas manifestações mais extremadas, o etnocentrismo faz com que membros de uma determinada cultura vejam os “estrangeiros” como animais e, até mesmo , como “coisas”, negando-lhes, assim, a própria condição humana. Sinto muito, a vaga já foi preenchida – A lógica da discriminação Muitas sociedades complexas, apesar de proclamarem a igualdade de seus membros, tratam de maneira desigual determinados indivíduos ou grupos sociais. Com isso acabam privando-os de certos direitos simplesmente por serem adeptos de um determinado credo religioso ou membros de uma comunidade étnica específica ou, por exercerem certas ocupações consideradas inferiores. Discriminação é a palavra usada para designar esse tipo de tratamento diferencial. Entre nós, a discriminação relativa aos homossexuais é fortemente sentida no mercado de trabalho. Algumas empresas não contratam funcionários negros para certos cargos. Negros em uniforme branco são tomados por umbandistas ou enfermeiros e jamais por médicos ou dentistas. Mulheres negras e mulatas economicamente bem-situadas costumam ouvir dos que batem à porta de suas residências a seguinte indagação: “A patroa está?”... A discriminação condiciona até mesmo o destino de crianças órfãs e abandonadas. Casais interessados em adotá-las dão preferência às meninas e meninos brancos, recusando-se na maior parte das vezes, a aceitar crianças negras ou “pardas”. Quem você pensa que é? Cresça e apareça – Grupos minoritários Grupos religiosos, étnicos, nacionais, raciais, etc, quando negativamente avaliados, discriminados e/ou segregados, constituem as chamadas “minorias” ou “grupos minoritários”. Na África do Sul, por exemplo, até recentemente, os negros, maioria da população daquele país (cerca de 75%), formavam uma minoria segregada. Todo o controle político do país, os privilégios e os cargos bem remunerados eram monopolizados pelos brancos sul-africanos. Na Índia, os mulçumanos constituem minoria religiosa; ao passo que na Espanha são os bascos que fazem parte do grupo étnico minoritário. Em alguns países europeus, para onde se dirigem imigrantes africanos, paquistaneses, turcos, indianos e árabes, registram-se surtos de xenofobia, aversão a pessoas estrangeiras. Cada macaco no seu galho – As medidas segregacionistas Em muitos casos, preconceito e discriminação levam à segregação daqueles indivíduos ou grupos cujos direitos não são legalmente reconhecidos ou, quando reconhecidos, são desrespeitados. A segregação estabelece a evitação de contatos e é marcada pelo distanciamento geográfico e social, pela separação, perda de convívio e de proximidade física com outros grupos. Os segregados costumam viver nos limites dos guetos. Esse fenômeno não é incomum: Em alguns países da Europa, por exemplo, os judeus tinham que residir e trabalhar em guetos, porque eram vítimas de forte discriminação. Na África do Sul, o planejamento urbano previa a ocupação do centro das cidades pelos brancos, destinando a periferia ou cidades-satélites para os negros. A “Solução final” – A prática do genocídio Sempre que, por motivos religiosos, raciais ou políticos, a força e a violência são usadas deliberadamente para exterminar ou desintegrar grupos humanos, os responsáveis por tais práticas cometem genocídio. A ONU o considera um delito contra a humanidade. O holocausto, que vitimou praticamente a metade dos judeus residentes na Europa, não é o único exemplo conhecido de genocídio. Segundo especialistas no assunto, o desaparecimento de muitos grupos indígenas nas Américas deve-se às práticas de etnocídio. É sabido, por exemplo, que grandes contingentes das populações indígenas brasileiras foram extintos pela força das armas. Também há denúncias segundo as quais os brancos teriam jogado de avião sobre uma aldeia, roupas usadas por tuberculosos, o que permitiu aos assassinos usurpar as terras desses índios sem enfrentar maiores resistências. Mais dramático ainda foi o caso dos índios Cintas Largas, pequena tribo praticamente desconhecida do vale do Jiparaná, que foi atingida por uma das fronteiras da economia extrativista. Uma reportagem publicada na revista Fatos e Fotos do Rio de Janeiro (18 de abril de 1968) descreve a selvageria com que esses índios foram abatidos pelos que queriam apoderar-se de suas terras. 'O pequeno avião monomotor já havia feito dois rasantes sobre a aldeia e agora, mais baixo, quase tocando com as rodas nas folhas das árvores, se aproximava fazendo grande ruído. Na maloca, os índios corriam para dentro de suas palhoças e no meio do terreiro as mulheres e crianças choravam desorientadas. De repente, uma explosão levanta palha, madeira, terra e corpo de gente. Em seguida outra explosão e o avião desaparece sobre a copa de uma grande castanheira para dar mais uma volta e sobrevoar a aldeia. Ele ganhou alguma altura e desta vez vem de pique sobre o acampamento. Com o barulho do motor não dá para se escutar o ruído dos tiros, mas em suas janelas se vê o braço de um homem trepidando com o pipocar de uma metralhadora. As pessoas saem correndo das poucas casas que ainda restam e a maioria tomba alguns metros adiante, sem alcançar o mato pra se proteger. Assim foi exterminada quase uma tribo inteira de índios Cintas Largas, no Estado de Mato Grosso, em meados de 1963. Bananas de dinamite eram jogadas sobre as malocas e os índios que conseguiam sobreviver ao primeiro ataque foram alvejados a tiros de metralhadora. Ao todo, ali viviam trinta índios, mas apenas dois puderam contar essa história'. (Reportagem de Ronald de Carvalho). Mas não ficou nisto, porque os chacinadores voltaram depois por terra, para liquidar os sobreviventes. Ocorre, então, o seguinte episódio: “Após terem metralhado um grupo de índios acampados junto a um rio, os homens da expedição ouviram um choro de criança, abafado pela mão da mãe. Para os que deviam regressar na manhã seguinte com a missão cumprida, aquele pequeno ruído mostrava que o serviço não fora perfeito. Rapidamente eles acendem as lanternas e saem vasculhando o mato. Sob dois corpos crivados de balas estavam escondidas mãe e filha. Os homens que as encontraram fizeram uma festa. Dois tentavam violentar a mulher e um beliscava a garotinha que chorava, vendo a aflição da mãe. Em volta fechando o círculo, o grupo se divertia. Nas mãos dos dois nordestinos fortes a mulher índia se debatia. Nesse instante, aproveitando um descuido, a criança libertou-se, correu em socorro da mãe e,com raiva, mordeu a perna de um dos homens. A mulher em pânico tentava cuidar da menina e, ao mesmo tempo, livrar-se dos homens que a violentavam. O homem com a perna mordida foi substituído por outro, afastou-se da índia e com ódio começou a estrangular a criança. Alguém, querendo terminar com o espetáculo paralelo que atrapalhava o primeiro, tomou a menina das mãos de seu estrangulador e lhe deu um tiro de pistola 45 na cabeça. A testa da garotinha explodiu e o sangue salpicou a roupa dos que estavam volta. Vendo a filha morta, a mulher não resistiu e desmaiou. Indefesa nas mãos dos chacinadores, a índia foi violentada por todos e depois retalhada a facão". (Ibidem) (RIBEIRO, Darcy. Os índios e a Civilização. Petrópolis, RS: Vozes, 1977, p. 189-190). Quando não faz na entrada, faz na saída – O preconceito não é instintivo Os seres humanos não nascem preconceituosos, ou seja, o preconceito não é um fenômeno natural, instintivo ou inevitável. As crianças passam longos anos ouvindo dos adultos frases como: homem não chora; você deve aprender a cozinhar para que possa se casar; lugar de mulher é na cozinha; os negros têm o samba no sangue; eu odeio os judeus; os nordestinos são todos preguiçosos; coitada da fulana, casou-se com um preto; você fez serviço de preto; se você não comer, o negão vem te pegar; se você não obedecer, eu chamo o homem do saco; Assim você vai ficar pra titia; os médicos só pensam em dinheiro,etc. Desse modo, idéias preconceituosas e estereotipadas vão sendo criadas, cristalizadas e transmitidas de geração a geração (no meio familiar, no convívio social mais amplo, através da mídia), sem que as pessoas se dêem ao trabalho de verificar se são falsas ou não. Campanhas de esclarecimento auxiliam na erradicação de preconceito. Oh, que pobreza! – O preconceito de classe Eu detesto pobre, isto é comida de pobre, pobre cheira mal, coisa de favelado, cobertor de pobre, alegria de pobre dura pouco. Quem não já ouviu afirmações como essas? A concentração da riqueza nas mãos de poucos e a desigual divisão de tarefas criam condições para a desvalorização dos que realizam trabalhos braçais, em oposição àqueles que desempenham tarefas intelectuais, consideradas mais “nobres” e bem mais remuneradas. Para a sociedade brasileira, que ainda não conseguiu se desvencilhar completamente do passado escravista, as ocupações manuais são desprestigiadas, desqualificando os profissionais que a elas se dedicam. Se Deus marcou não foi à toa – preconceito relativo aos deficientes O preconceito também atinge os que são portadores de deficiência física ou mental. Cegos, surdos-mudos, paraplégicos, mutilados, portadores de distúrbios mentais e síndrome de Down costumam sofrer discriminação no convívio social e no mercado de trabalho. São pessoas estigmatizadas porque trazem consigo certas marcas físicas ou comportamentos, facilmente perceptíveis, que não as habilitam para a aceitação social plena. O cinema tem abordado com certa freqüência a sina dos portadores de deformidades físicas e outras deficiências. Basta lembrar aqui o corcunda de Notre Dame, um estranho no ninho, o homem elefante, o homem sem face, sempre amigos, pequeno milagre, na ponta dos pés, o despertar de um homem. Esses filmes mostram o caráter profundamente humano dos personagens. Suas virtudes permanecem ocultas atrás das deformidades físicas e limitações mentais, revelando-se apenas aos que são capazes de vencer as barreiras do preconceito. Eva era africana – A origem comum da humanidade Nós, os seres humanos, pertencemos todos à mesma espécie biológica, Homo Sapiens. O início da nossa história evolutiva localiza-se no continente africano (na região que hoje reúne os territórios do Quênia, da Tanzânia e da Etiópia), considerado o “berço da humanidade”. Portanto, não é à toa que estudos recentes revelam profunda homogeneidade genética dos seres humanos das mais diversas raças e nas diferentes regiões do planeta, o que proporciona bases sólidas para a teoria da origem comum da humanidade. As aparências enganam – As raças humanas A suposição de que pessoas de pele clara são superiores às de pele mais escura não passa de um mito, pois, as raças humanas não pertencem a espécies biológicas diferentes nem foram criadas separadamente. É por isso que as características raciais não determinam a linguagem ou o modo de vida dos diferentes povos. São os fatores culturais que desempenham um papel dominante na configuração da maioria dos padrões de comportamento observados nas distintas populações humanas. Não está no sangue? – 0 Racismo O problema fundamental do racismo consiste, pois, na confusão entre a noção puramente biológica de raça e as produções sociológicas e psicológicas das culturas humanas. O racismo transforma diferenças físicas e culturais em desigualdade, exclusão e separação e prestou-se muito bem ao papel de justificar privilégios econômicos e sociais conquistados por meio da subordinação e da exploração dos grupos humanos considerados biologicamente inferiores. O preconceito aparece inicialmente como uma dificuldade dos seres humanos em lidar com as diferenças. As desigualdades existentes entre os homens são histórica, social, e economicamente produzidas: não surgem em conseqüência de fatores biológicos, raciais, nem expressam uma superioridade natural de certos grupos em relação a outros. QUEIROZ, Renato da Silva. Não vi e não gostei. O fenômeno do preconceito. Moderna, São Paulo: 1995.