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Síndrome do dente trincado 
 Síndrome do dente trincado (SDT), ou 
síndrome do dente rachado ou gretado, é uma 
entidade clínica cujo termo foi introduzido 
pela primeira vez por Cameron; embora 
houvesse relatos anteriores desse quadro 
clínico, o termo ainda não era reconhecido. 
 Cameron percebeu uma correlação entre 
tamanho da restauração e ocorrência dessa 
síndrome. 
 O termo foi empregado para nomear um 
diagnóstico de fratura incompleta em dentes 
posteriores, que tipicamente apresentam 
sintomas constantes de dor ao mastigar e 
durante estímulos térmicos, principalmente 
frios. 
 A SDT geralmente evolui a partir de um dente 
fraturado; portanto, uma vez realizado o 
diagnóstico, o tratamento deve ser instituído a 
fim de aliviar os sintomas e garantir a 
segurança e a longevidade do dente. 
 Conhecer a ocorrência de tal síndrome é 
essencial para que ela não passe despercebida 
nos exames clínicos, além de constituir uma 
importante fonte de diagnóstico diferencial nas 
queixas de dor relatadas pelo paciente, 
especialmente quando comparada a cárie 
dentária e doença periodontal. 
Classificações dos tipos de fratura 
 Cameron atribuiu o termo “síndrome do dente 
trincado” em 1964 e a definiu como uma 
fratura incompleta em dentes vitais posteriores 
que podem ou não envolver a polpa. 
 Mais tarde, a Associação Americana de 
Endodontistas (AAE) identificou cinco tipos 
de trincas nos dentes, descritos a seguir. 
 
 A primeira fratura é uma “linha visível” que 
envolve apenas o esmalte; no entanto, nem 
sempre é possível determinar se uma fratura 
visível se limita apenas a esse tecido. 
 A segunda envolve “fraturas de cúspides”, 
originadas na coroa dos dentes, que se 
estendem por dentro da dentina e cuja linha de 
fratura termina na região cervical. Estão 
normalmente associadas a grandes 
restaurações. 
 A terceira refere-se a um “dente trincado” e é 
definida pela AAE como uma trinca que parte 
da superfície oclusal e se desenvolve em 
direção apical sem separação de dois 
segmentos. 
 O “dente dividido” consiste em uma trinca que 
se estende ao longo de ambas as cristas 
marginais, geralmente em direção mesiodistal, 
dividindo o dente completamente em dois 
segmentos distintos. 
 Fraturas radiculares verticais, originadas na 
raiz, são geralmente completas, embora 
também possam ser incompletas. 
 
A. Trinca restrita ao esmalte. B. Trinca que 
envolve esmalte e dentina até o limite 
cervical. C. Trinca em direção apical sem 
separação de fragmentos. D. Trinca em 
direção apical com separação de 
fragmentos. E. Trinca originada na raiz. 
 
 Recentemente um grupo de pesquisadores 
rearranjou essa entidade em três subgrupos: 
 
 Fissuras/trincas em esmalte: pequenas 
trincas/fissuras visíveis na superfície do dente. 
 Trincas/fraturas incompletas: uma trinca 
envolvendo dentina é observada, mas esses 
fragmentos não se separam visivelmente, pois 
são unidos por uma porção ainda íntegra de 
tecido dentário. 
 Fraturas completas: ocorrem quando os 
fragmentos entre as duas partes se separam. 
Envolvem dentina, podendo ainda envolver 
esmalte ou cemento, ou ambos. Esse tipo de 
fratura poderá envolver ou não o tecido pulpar. 
 
Etiologia 
 A SDT geralmente evolui a partir de um dente 
trincado, que nem sempre provoca dor. 
 De acordo com a literatura, a etiologia dos 
dentes trincados é multifatorial, estando 
relacionada com: 
 Fatores de predisposição natural (inclinação 
lingual da cúspide lingual de molares 
inferiores, cúspide/fossa íngreme de pré-
molares superiores, bruxismo, apertamento, 
atrição extensa e abrasão) 
 Causas iatrogênicas (uso de instrumentos 
rotatórios, preparo cavitário e largura e 
profundidade da cavidade) 
 Idade do paciente e dentária. 
 
 Essa condição está presente principalmente em 
pacientes com idades entre 30 e 50 anos, 
sendo homens e mulheres igualmente afetados. 
 Os segundos molares inferiores, seguidos dos 
primeiros molares inferiores, são os 
normalmente mais afetados. 
 Enquanto na maioria dos dentes as fraturas 
tendem a apresentar uma orientação 
mesiodistal, nos molares inferiores, elas 
podem seguir a direção bucolingual. 
Diagnóstico 
 A SDT é descrita na literatura como um 
problema de difícil diagnóstico e tratamento. 
 Um diagnóstico precoce, como uma 
intervenção de restauração recentemente 
realizada, a qual pode apresentar contato 
prematuro ou mesmo um contato oclusal com 
o antagonista com desequilíbrio de forças, é 
capaz de limitar a propagação da fratura com 
subsequente envolvimento pulpar e 
periodontal. 
 Esse diagnóstico depende da posição e da 
extensão da fratura, e tem sido baseado na 
sintomatologia, como localização e duração da 
dor, sensibilidade ao frio e relatos de dor à 
pressão. 
 O diagnóstico da SDT pode ser verificado por 
meio de uma sucessão de procedimentos ou 
testes realizados pelo clínico. 
Anamnese 
 Um importante relato do paciente é a 
informação de que a sintomatologia dolorosa 
se faz presente, especialmente ao mastigar 
alimentos sólidos. 
 Pode haver também relato de que essa 
sintomatologia ocorreu depois de 
determinados procedimentos protéticos ou 
extensas restaurações. 
 Em alguns casos, inclusive, o paciente relata a 
troca dessas restaurações sem alívio da 
sintomatologia dolorosa. 
Sintomas 
 Os pacientes frequentemente relatam dor 
breve e aguda quando mordem alimentos 
duros ou resistentes, o que muitos autores 
consideram como um sintoma primário 
quando o dente suspeito possui vitalidade. 
 É relevante ressaltar que a maioria dos 
pacientes relata sensibilidade a estímulos 
térmicos ou osmóticos. 
 Em certas situações, quando o dente possui 
tratamento endodôntico, ou seja, sem 
vitalidade, o paciente também pode relatar 
sintomatologia dolorosa ao mastigar; nesses 
casos, a trinca se estende até o ligamento 
periodontal. 
Exame clínico 
 Em certas situações, quando o dente possui 
tratamento endodôntico, ou seja, sem 
vitalidade, o paciente também pode relatar 
sintomatologia dolorosa ao mastigar; nesses 
casos, a trinca se estende até o ligamento 
periodontal 
 Teste de percussão: o dente com a SDT é 
negativo, na maioria das vezes, ao teste de 
percussão porque as forças aplicadas são 
verticais, mas não separam os segmentos 
fraturados e, dessa forma, não causam 
sintomatologia dolorosa positiva. Além disso, 
o ligamento periodontal, a menos que tenha 
contaminação por microrganismos, não estará 
inflamado e, desse modo, responderá 
negativamente ao teste 
 Teste oclusal: é um dos testes mais 
importantes, apresentando resultado positivo 
em mais de ¾ dos casos. Um dispositivo 
mecânico, que pode ser uma pequena 
borracha, cunha de plástico, palito de dente ou 
rolo de algodão, é colocado sobre o dente 
trincado suspeito, e nele indica-se fazer 
pressão. No momento da liberação, após os 
movimentos de abertura e fechamento, a 
ocorrência de dor geralmente indica a presença 
de trinca no dente. 
 
 Teste de sensibilidade pulpar: na maioria das 
vezes, o dente acometido pela trinca é positivo 
ao teste de vitalidade. Entretanto, dependendo 
do grau de comprometimento do elemento 
dentário trincado, pode também responder de 
forma negativa. Por tal razão, este teste poderá 
ser inconclusivo para o diagnóstico da SDT. 
Exames complementares 
 Exame radiográfico geralmente é inconclusivo 
e serve para traçar o diagnóstico diferencial de 
outras doenças, como cárie e doença 
periodontal localizada. 
 Uso de corantes, como fucsina, violeta de 
genciana, azul de metileno e iodo, também 
tem sido indicado para auxiliar na visualização 
da linha de fissura/trinca/rachadura, 
especialmente após remoção de restaurações. 
 A ultrassonografia também permite a 
visualizaçãode trincas, podendo representar 
uma importante ajuda para o diagnóstico. 
Entretanto, ainda está em fase de estudos e é 
muito dependente da orientação do ângulo de 
aplicação. 
 A transiluminação com luz de fibra óptica e o 
uso da magnificação (microscopia, lentes de 
aumento e ampliação de imagens) podem 
auxiliar na visualização de rachaduras; para 
isso, os dentes devem estar limpos, e a fonte 
de luz, incidindo diretamente sobre o dente. 
 A tomografia cone beam é uma modalidade de 
exame de imagem complementar que 
demonstra boa sensibilidade e deve ser 
considerada quando o exame radiográfico for 
inconclusivo e ainda persistirem dúvidas 
quanto ao diagnóstico. 
Tratamento 
 O tratamento para SDT depende da extensão 
da trinca. 
 Quando há dúvida de sua extensão e/ou 
localização, o tratamento tende a ser mais 
demorado e demanda mais de uma sessão 
clínica. 
 Os tratamentos podem incluir desde 
proservação do dente trincado até endodontia 
ou extração dentária. 
 Contudo, uma vez realizado o diagnóstico, a 
primeira manobra deve ser eliminação da dor, 
se houver, e estabilização do dente para evitar 
a progressão da trinca, o que poderá levar à 
perda do elemento dentário. 
 O protocolo específico de tratamento sugerido 
consiste em remoção de toda a restauração 
existente, avaliação da saúde da polpa e do 
remanescente dentário e, se indicado, 
confecção de coroa. 
 Qualquer dente com pulpite irreversível ou 
necrose pulpar deve passar por tratamento de 
canal radicular antes de receber a coroa. 
 A remoção da restauração existente e a 
aplicação de cimento sedativo (cimento à base 
de óxido de zinco e eugenol) com cimentação 
de uma banda ortodôntica para estabilização 
são alguns dos procedimentos recomendados. 
 Além disso, o ajuste oclusal e a confecção de 
uma coroa ou selamento da fenda com selantes 
ionoméricos podem ajudar no tratamento. 
 Em outros casos, quando há mobilidade dos 
fragmentos e envolvimento de furca, a opção 
de tratamento é a exodontia. 
 Esclarecimento ao paciente sobre as manobras 
que serão realizadas para o diagnóstico final 
da SDT. É preciso deixar bem claro que 
poderá ocorrer mais de uma sessão clínica 
para o diagnóstico definitivo dessa entidade. 
 Redução ou eliminação dos contatos oclusais 
do elemento dentário trincado, evitando o 
excesso de carga sobre os dentes com trincas. 
 Confecção de placas miorrelaxantes para 
alívio dos sintomas oclusais caso o paciente 
seja portador de desordens mandibulares, as 
quais podem desencadear trincas em outros 
elementos dentários 
 Quando o elemento dentário é negativo aos 
testes de sensibilidade pulpar, deve-se realizar 
a endodontia imediatamente, tentando-se 
checar a evidência de propagação de trincas na 
câmara pulpar ou ao longo da raiz 
 Nos casos de trincas que apresentem extensões 
subgengivais, é necessário expor a margem 
gengival do dente para remoção da trinca. 
 Extração dos fragmentos nos casos de fraturas 
do tipo “dente dividido” ou fratura completa, 
quando a trinca propaga-se na câmara pulpar, 
região de furca e ao longo da raiz em direção 
apical. 
 
 
 
 
Referências 
SILVA, Adriana Fernandes da; LUND, Rafael G. 
Dentística Restauradora - Do Planejamento à 
Execução. Rio de Janeiro: Santos, 2016. E-book. 
p.250. ISBN 9788527728782. Disponível em: 
https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/bo
oks/9788527728782/. Acesso em: 18 out. 2024.