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@odonto_gemeas Facilitando sua vida acadêmica! Siga a gente no Instagram Síndrome do dente trincado Síndrome do dente trincado (SDT), ou síndrome do dente rachado ou gretado, é uma entidade clínica cujo termo foi introduzido pela primeira vez por Cameron; embora houvesse relatos anteriores desse quadro clínico, o termo ainda não era reconhecido. Cameron percebeu uma correlação entre tamanho da restauração e ocorrência dessa síndrome. O termo foi empregado para nomear um diagnóstico de fratura incompleta em dentes posteriores, que tipicamente apresentam sintomas constantes de dor ao mastigar e durante estímulos térmicos, principalmente frios. A SDT geralmente evolui a partir de um dente fraturado; portanto, uma vez realizado o diagnóstico, o tratamento deve ser instituído a fim de aliviar os sintomas e garantir a segurança e a longevidade do dente. Conhecer a ocorrência de tal síndrome é essencial para que ela não passe despercebida nos exames clínicos, além de constituir uma importante fonte de diagnóstico diferencial nas queixas de dor relatadas pelo paciente, especialmente quando comparada a cárie dentária e doença periodontal. Classificações dos tipos de fratura Cameron atribuiu o termo “síndrome do dente trincado” em 1964 e a definiu como uma fratura incompleta em dentes vitais posteriores que podem ou não envolver a polpa. Mais tarde, a Associação Americana de Endodontistas (AAE) identificou cinco tipos de trincas nos dentes, descritos a seguir. A primeira fratura é uma “linha visível” que envolve apenas o esmalte; no entanto, nem sempre é possível determinar se uma fratura visível se limita apenas a esse tecido. A segunda envolve “fraturas de cúspides”, originadas na coroa dos dentes, que se estendem por dentro da dentina e cuja linha de fratura termina na região cervical. Estão normalmente associadas a grandes restaurações. A terceira refere-se a um “dente trincado” e é definida pela AAE como uma trinca que parte da superfície oclusal e se desenvolve em direção apical sem separação de dois segmentos. O “dente dividido” consiste em uma trinca que se estende ao longo de ambas as cristas marginais, geralmente em direção mesiodistal, dividindo o dente completamente em dois segmentos distintos. Fraturas radiculares verticais, originadas na raiz, são geralmente completas, embora também possam ser incompletas. A. Trinca restrita ao esmalte. B. Trinca que envolve esmalte e dentina até o limite cervical. C. Trinca em direção apical sem separação de fragmentos. D. Trinca em direção apical com separação de fragmentos. E. Trinca originada na raiz. Recentemente um grupo de pesquisadores rearranjou essa entidade em três subgrupos: Fissuras/trincas em esmalte: pequenas trincas/fissuras visíveis na superfície do dente. Trincas/fraturas incompletas: uma trinca envolvendo dentina é observada, mas esses fragmentos não se separam visivelmente, pois são unidos por uma porção ainda íntegra de tecido dentário. Fraturas completas: ocorrem quando os fragmentos entre as duas partes se separam. Envolvem dentina, podendo ainda envolver esmalte ou cemento, ou ambos. Esse tipo de fratura poderá envolver ou não o tecido pulpar. Etiologia A SDT geralmente evolui a partir de um dente trincado, que nem sempre provoca dor. De acordo com a literatura, a etiologia dos dentes trincados é multifatorial, estando relacionada com: Fatores de predisposição natural (inclinação lingual da cúspide lingual de molares inferiores, cúspide/fossa íngreme de pré- molares superiores, bruxismo, apertamento, atrição extensa e abrasão) Causas iatrogênicas (uso de instrumentos rotatórios, preparo cavitário e largura e profundidade da cavidade) Idade do paciente e dentária. Essa condição está presente principalmente em pacientes com idades entre 30 e 50 anos, sendo homens e mulheres igualmente afetados. Os segundos molares inferiores, seguidos dos primeiros molares inferiores, são os normalmente mais afetados. Enquanto na maioria dos dentes as fraturas tendem a apresentar uma orientação mesiodistal, nos molares inferiores, elas podem seguir a direção bucolingual. Diagnóstico A SDT é descrita na literatura como um problema de difícil diagnóstico e tratamento. Um diagnóstico precoce, como uma intervenção de restauração recentemente realizada, a qual pode apresentar contato prematuro ou mesmo um contato oclusal com o antagonista com desequilíbrio de forças, é capaz de limitar a propagação da fratura com subsequente envolvimento pulpar e periodontal. Esse diagnóstico depende da posição e da extensão da fratura, e tem sido baseado na sintomatologia, como localização e duração da dor, sensibilidade ao frio e relatos de dor à pressão. O diagnóstico da SDT pode ser verificado por meio de uma sucessão de procedimentos ou testes realizados pelo clínico. Anamnese Um importante relato do paciente é a informação de que a sintomatologia dolorosa se faz presente, especialmente ao mastigar alimentos sólidos. Pode haver também relato de que essa sintomatologia ocorreu depois de determinados procedimentos protéticos ou extensas restaurações. Em alguns casos, inclusive, o paciente relata a troca dessas restaurações sem alívio da sintomatologia dolorosa. Sintomas Os pacientes frequentemente relatam dor breve e aguda quando mordem alimentos duros ou resistentes, o que muitos autores consideram como um sintoma primário quando o dente suspeito possui vitalidade. É relevante ressaltar que a maioria dos pacientes relata sensibilidade a estímulos térmicos ou osmóticos. Em certas situações, quando o dente possui tratamento endodôntico, ou seja, sem vitalidade, o paciente também pode relatar sintomatologia dolorosa ao mastigar; nesses casos, a trinca se estende até o ligamento periodontal. Exame clínico Em certas situações, quando o dente possui tratamento endodôntico, ou seja, sem vitalidade, o paciente também pode relatar sintomatologia dolorosa ao mastigar; nesses casos, a trinca se estende até o ligamento periodontal Teste de percussão: o dente com a SDT é negativo, na maioria das vezes, ao teste de percussão porque as forças aplicadas são verticais, mas não separam os segmentos fraturados e, dessa forma, não causam sintomatologia dolorosa positiva. Além disso, o ligamento periodontal, a menos que tenha contaminação por microrganismos, não estará inflamado e, desse modo, responderá negativamente ao teste Teste oclusal: é um dos testes mais importantes, apresentando resultado positivo em mais de ¾ dos casos. Um dispositivo mecânico, que pode ser uma pequena borracha, cunha de plástico, palito de dente ou rolo de algodão, é colocado sobre o dente trincado suspeito, e nele indica-se fazer pressão. No momento da liberação, após os movimentos de abertura e fechamento, a ocorrência de dor geralmente indica a presença de trinca no dente. Teste de sensibilidade pulpar: na maioria das vezes, o dente acometido pela trinca é positivo ao teste de vitalidade. Entretanto, dependendo do grau de comprometimento do elemento dentário trincado, pode também responder de forma negativa. Por tal razão, este teste poderá ser inconclusivo para o diagnóstico da SDT. Exames complementares Exame radiográfico geralmente é inconclusivo e serve para traçar o diagnóstico diferencial de outras doenças, como cárie e doença periodontal localizada. Uso de corantes, como fucsina, violeta de genciana, azul de metileno e iodo, também tem sido indicado para auxiliar na visualização da linha de fissura/trinca/rachadura, especialmente após remoção de restaurações. A ultrassonografia também permite a visualizaçãode trincas, podendo representar uma importante ajuda para o diagnóstico. Entretanto, ainda está em fase de estudos e é muito dependente da orientação do ângulo de aplicação. A transiluminação com luz de fibra óptica e o uso da magnificação (microscopia, lentes de aumento e ampliação de imagens) podem auxiliar na visualização de rachaduras; para isso, os dentes devem estar limpos, e a fonte de luz, incidindo diretamente sobre o dente. A tomografia cone beam é uma modalidade de exame de imagem complementar que demonstra boa sensibilidade e deve ser considerada quando o exame radiográfico for inconclusivo e ainda persistirem dúvidas quanto ao diagnóstico. Tratamento O tratamento para SDT depende da extensão da trinca. Quando há dúvida de sua extensão e/ou localização, o tratamento tende a ser mais demorado e demanda mais de uma sessão clínica. Os tratamentos podem incluir desde proservação do dente trincado até endodontia ou extração dentária. Contudo, uma vez realizado o diagnóstico, a primeira manobra deve ser eliminação da dor, se houver, e estabilização do dente para evitar a progressão da trinca, o que poderá levar à perda do elemento dentário. O protocolo específico de tratamento sugerido consiste em remoção de toda a restauração existente, avaliação da saúde da polpa e do remanescente dentário e, se indicado, confecção de coroa. Qualquer dente com pulpite irreversível ou necrose pulpar deve passar por tratamento de canal radicular antes de receber a coroa. A remoção da restauração existente e a aplicação de cimento sedativo (cimento à base de óxido de zinco e eugenol) com cimentação de uma banda ortodôntica para estabilização são alguns dos procedimentos recomendados. Além disso, o ajuste oclusal e a confecção de uma coroa ou selamento da fenda com selantes ionoméricos podem ajudar no tratamento. Em outros casos, quando há mobilidade dos fragmentos e envolvimento de furca, a opção de tratamento é a exodontia. Esclarecimento ao paciente sobre as manobras que serão realizadas para o diagnóstico final da SDT. É preciso deixar bem claro que poderá ocorrer mais de uma sessão clínica para o diagnóstico definitivo dessa entidade. Redução ou eliminação dos contatos oclusais do elemento dentário trincado, evitando o excesso de carga sobre os dentes com trincas. Confecção de placas miorrelaxantes para alívio dos sintomas oclusais caso o paciente seja portador de desordens mandibulares, as quais podem desencadear trincas em outros elementos dentários Quando o elemento dentário é negativo aos testes de sensibilidade pulpar, deve-se realizar a endodontia imediatamente, tentando-se checar a evidência de propagação de trincas na câmara pulpar ou ao longo da raiz Nos casos de trincas que apresentem extensões subgengivais, é necessário expor a margem gengival do dente para remoção da trinca. Extração dos fragmentos nos casos de fraturas do tipo “dente dividido” ou fratura completa, quando a trinca propaga-se na câmara pulpar, região de furca e ao longo da raiz em direção apical. Referências SILVA, Adriana Fernandes da; LUND, Rafael G. Dentística Restauradora - Do Planejamento à Execução. Rio de Janeiro: Santos, 2016. E-book. p.250. ISBN 9788527728782. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/bo oks/9788527728782/. Acesso em: 18 out. 2024.