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Uma editora integrante do GEN | Grupo Editorial Nacional Travessa do Ouvidor, 11 – Térreo e 6º andar – 20040-040 – Rio de Janeiro – RJ Tel.: (21) 3543-0770 – Fax: (21) 3543-0896 faleconosco@grupogen.com.br | www.grupogen.com.br O titular cuja obra seja fraudulentamente reproduzida, divulgada ou de qualquer forma utilizada poderá requerer a apreensão dos exemplares reproduzidos ou a suspensão da divulgação, sem prejuízo da indenização cabível (art. 102 da Lei n. 9.610, de 19.02.1998). Quem vender, expuser à venda, ocultar, adquirir, distribuir, tiver em depósito ou utilizar obra ou fonograma reproduzidos com fraude, com a finalidade de vender, obter ganho, vantagem, proveito, lucro direto ou indireto, para si ou para outrem, será solidariamente responsável com o contrafator, nos termos dos artigos precedentes, respondendo como contrafatores o importador e o distribuidor em caso de reprodução no exterior (art. 104 da Lei n. 9.610/98). Capa: Danilo Oliveira Produção digital: Ozone Fechamento desta edição: 17.07.2017 CIP – Brasil. Catalogação na fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ. M491i Mendes, Aluisio Gonçalves de Castro Incidente de resolução de demandas repetitivas : sistematização, análise e interpretação do novo instituto processual / Aluisio Gonçalves de Castro Mendes. – Rio de Janeiro : Forense, mailto:faleconosco@grupogen.com.br http://www.grupogen.com.br 2017. Inclui bibliografia ISBN: 978-85-309-7656-9 1. Processo civil - Brasil. I. Título. 17-43303 CDU: 347.91./95(44) Aos professores e amigos JOSÉ CARLOS BARBOSA MOREIRA, LUIZ FUX, PAULO CEZAR PINHEIRO CARNEIRO, CÂNDIDO RANGEL DINAMARCO, HUMBERTO THEODORO JÚNIOR, JOSÉ ROBERTO DOS SANTOS BEDAQUE, JOSÉ ROGÉRIO CRUZ E TUCCI e LEONARDO GRECO, expoentes maiores do Direito Processual no Brasil e no Mundo, eternamente grato pelo exemplo e pelos valiosos ensinamentos. Para a minha amada esposa, MARJORIE, e meus adoráveis filhos, CHRISTIAN e CAROLINA, fontes inesgotáveis de felicidade, que são a minha razão de viver. Aos meus queridos pais, OLIVIA (in memoriam) e ALUIZIO, e irmão, MARCELO, pela formação e carinho. Este texto decorre da tese apresentada como requisito parcial para a obtenção da Cátedra em Direito Processual Civil na conceituada Faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). A renomada Comissão Examinadora do concurso de promoção foi composta por uma constelação do Direito Processual: Paulo Cezar Pinheiro Carneiro, Luiz Fux, Humberto Theodoro Júnior, Cândido Rangel Dinamarco, Leonardo Greco, José Rogério Cruz e Tucci e José Roberto dos Santos Bedaque. Extremamente honrado, houve a aprovação por unanimidade, após longo e rigoroso exame, realizado diante de um Salão Nobre repleto de colegas e amigos professores, magistrados, promotores, advogados, doutorandos, mestrandos, profissionais e estudiosos do Direito, a quem agradeço pelo apoio e pelo carinho. Em especial, destaco a presença de Rodrigo Fux e de Carlos Roberto Barbosa Moreira, que representava a família do querido mestre e referência eterna, Professor José Carlos Barbosa Moreira. A trajetória da titularidade na UERJ foi trilhada e alcançada em conjunto com o Professor Humberto Dalla Bernardina de Pinho. Por certo, será uma grande responsabilidade, da nossa parte, a incumbência de manter a tradição, o renome e a qualidade do ensino do Direito Processual, considerando a excelência dos juristas que fizeram a história da nossa Congregação. É com muita honra que passamos a integrar a seleta categoria de Professor Titular da Faculdade de Direito da UERJ, composta atualmente pelos docentes Alexandre Aragão, Ana Paula de Barcellos, Carmen Tibúrcio, Daniel Sarmento, Gustavo Binenbojm, Gustavo Tepedino, Heloísa Helena Barboza, Luís Roberto Barroso, Luiz Fux, Maria Celina Moraes, Maria Teresa Lima, Nelson Massini e Paulo Cezar Pinheiro Carneiro. Na UERJ, todo o procedimento ocorreu durante a gestão e contou com o apoio dos magníficos Reitor, Vice-Reitora e Sub-Reitor, respectivamente, Professores Ruy Garcia Marques, Georgina Washington e Egberto Moura, e do Diretor e Vice-Diretor da Faculdade de Direito, Professores Ricardo Lodi e Ivan Garcia. Registre-se que a posição de Professor Titular, agora obtida na UERJ, após dezessete anos de docência na instituição, tive o prazer de alcançar, também, alguns anos atrás, na Universidade Estácio de Sá (Unesa), cujo Programa de Pós- Graduação em Direito (PPGD) tenho a satisfação de integrar desde o ano de 2002, sendo atualmente coordenado pelo Professor Carlos Eduardo Japiassu e supervisionado pelo Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa, Professor Rafael Mario Iorio Filho, a quem rendo as homenagens e os agradecimentos pelo constante apoio. A obra resultou de pesquisa desenvolvida com a colaboração de várias instituições e pessoas. Ressalto, inicialmente, que me deixou extremamente lisonjeado o convite formulado pelo Instituto Max Planck de Luxemburgo, dirigido pelo Professor Burkhard Hess, para figurar como o primeiro professor brasileiro a usufruir da oportunidade de estadia nesta entidade especializada no Direito Processual, tendo desfrutado, na ocasião, do agradável convívio de estimados colegas e amigos, dentre os quais os Professores Peter Gottwald, Eduardo Oteiza e Marta Requejo Isidro. A permanência contou com o fundamental apoio da Fundação Alexander von Humboldt, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região e do Conselho da Justiça Federal, salientando nestes últimos o apoio de todos os eminentes pares, especialmente dos Desembargadores Poul Erik Dyrlund e André Fontes (presidente anterior e atual, respectivamente), Guilherme Couto de Castro (relator) e da Ministra Laurita Vaz (no exercício da presidência do CJF). Durante o processo de elaboração da tese, pude contar com a inestimável colaboração da qualificada assessoria do gabinete no tribunal (Adiel de Araújo, Ana Maria Leandro, Ana Paula Rebelo, Bruno Machado, Cinthia Leitão, Clarissa Braga, Eduardo Cordeiro, Felipe Lazzarini, Gustavo Braga, Larissa Pochmann, Marcela Cardoso, Marcela Nápoli, Márcia Lopes, Mário Eduardo Serrano, Paulo Renato Martins, Rafael Gomes, Tatiane Melo, Thiago Sanches e Victor Branco), que foi essencial para que a dedicação à atividade acadêmica pudesse ser conciliada com a manutenção da prestação judicial em dia. Para a consecução da escrita final, tive, mais uma vez, o imprescindível apoio da eterna amiga Beatriz Chargel, a quem sou sempre grato e que não poupou esforços no sentido de contribuir para a revisão e o aprimoramento do texto. Por fim, mas não menos importante, registro a felicidade de ter este livro, repleto de significado para a minha vida acadêmica e profissional, publicado, com a prestimosa colaboração do amigo Guilherme Zincone, pela conceituada Editora Forense, referênciaem média 11.256 processos por ano, 1.125 por mês, 281 por semana, 56 por dia útil. No primeiro grau11 da Justiça Estadual, Federal e do Trabalho, entraram, nos anos de 1990, 1994, 1998, 2007, 2011 e 2015, ao todo, 5.117.059, 5.147.652 10.201.289, 19.274.760, 24.227.727 e 23.281.308 processos, respectivamente. No ano de 2015, eram 69.988.968 processos pendentes, totalizando 93.270.276 processos em tramitação somente no primeiro grau. Considerando que se encontravam providos 14.882 cargos de juiz de primeiro grau, havia uma média de 6.267 processos por magistrado, tendo em vista os casos novos e pendentes. Se contabilizados apenas os novos processos recebidos, cada juiz recebeu, no ano de 2015, 1.564 casos novos, ou seja, contabilizados os períodos de férias, 156 processos novos por mês, 39 por semana, quase oito processos novos por dia. Portanto, cada juiz teria, basicamente, uma hora para cada processo, levando-se em conta que os 60 minutos seriam destinados para a realização de todos os atos processuais, dentre os quais a leitura da petição inicial e da contestação, elaboração de despachos e decisões interlocutórias, realização de audiências, eventual recebimento de advogados, prolação da sentença e todos os atos praticados em termos de cumprimento ou execução da sentença. Por fim, o quadro geral do Poder Judiciário reflete este número extraordinário de demandas. Foram 101.216.596 (cento e um milhões, duzentos e dezesseis mil, quinhentos e noventa e seis) processos recebidos em todos os órgãos jurisdicionais no ano de 2015, perfazendo uma média global de 5.837 novos processos por magistrado, representando 583 processos por mês, 145 por semana, 29 por dia. Portanto, cada juiz recebe, em média, 3,65 processos por hora. Sendo assim, cada magistrado pode dispor de 16 minutos para cada processo, considerando uma jornada ininterrupta de 8 horas por dia, durante cinco dias por semana, descontando neste cálculo os feriados e o recesso forense do final do ano, mas computando as férias legais. Deve-se levar em conta também o próprio custo financeiro com o Poder Judiciário e com o número elevado de processos. Os dados oficiais apontam12 que o custo total do Poder Judiciário no Brasil, em 2015, foi de R$ 79.227.335.015. O número de processos existentes, considerando os pendentes (73.936.309) mais os casos novos (27.280.287), totaliza 101.216.596. Portanto, cada processo custou em 2015, em média, R$ 782,75. A perspectiva de incremento do acesso à Justiça13 e da existência de processos menos formalistas, mais simples, céleres e eficazes, pode-se dizer, está presente em todo o mundo, seja nas discussões relacionadas com os projetos de reforma do Poder Judiciário, como ocorreu na Argentina14 e no Brasil15, seja nos debates acerca de modificações propostas para o direito processual, como, v.g., na Alemanha.16 2.2. Para o pleno funcionamento do Estado Democrático de Direito, a possibilidade de solução dos conflitos mediante o devido processo legal deve ser efetiva e não apenas formal. Para tanto, devem ser equacionadas as modificações sociais, econômicas, políticas e culturais existentes. O direito processual, assim, deve estar preparado para enfrentar uma realidade, em que o contingente populacional mundial ultrapassa o patamar de sete bilhões de pessoas17, no qual a revolução industrial transforma-se em tecnológica, diminuindo as distâncias no espaço e no tempo, propiciando a massificação e globalização das relações humanas e comerciais18. Na verdade, a necessidade de instrumentos supraindividuais não é nova, pois há muito tempo ocorrem lesões a direitos, que atingem coletividades, grupos ou certa quantidade de indivíduos, que poderiam fazer valer os seus direitos de modo coletivo. A diferença é que, na atualidade, tanto na esfera da vida pública como privada, as relações de massa expandem-se continuamente, bem como o alcance dos problemas correlatos, fruto do crescimento da produção, dos meios de comunicação e do consumo, bem como do número de funcionários públicos e de trabalhadores, de aposentados e pensionistas, da abertura de capital das pessoas jurídicas e consequente aumento do número de acionistas e dos danos ambientais causados. Multiplicam-se, portanto, as lesões sofridas pelas pessoas, seja na qualidade de consumidores19, contribuintes, aposentados, servidores públicos, trabalhadores, moradores etc., decorrentes de circunstâncias de fato ou relações jurídicas comuns. OS INSTRUMENTOS PROCESSUAIS COLETIVOS E O ACESSO À JUSTIÇA Os danos resultantes das lesões supramencionadas são, frequentemente, se considerados separadamente, em termos econômicos, de pequena monta, fazendo com que, na relação custo-benefício, o ajuizamento de ações individuais seja desestimulante e, na prática, quase que inexistente, demonstrando, assim, a fragilidade e as deficiências em relação ao acesso à Justiça. A eventual falta ou deficiência dos instrumentos processuais adequados para os chamados danos de “bagatela”,20 que, considerados globalmente, possuem geralmente enorme relevância social e econômica, estimula a repetição e perpetuação de práticas ilegais e lesivas. Por conseguinte, tendem a se beneficiar, em vez de serem devidamente sancionados, os fabricantes de produtos defeituosos de reduzido valor, os entes públicos que cobram tributos indevidos ou não concedem os direitos funcionais cabíveis e os fornecedores que realizam negócios abusivamente, apenas para citar alguns exemplos. De pouca ou nenhuma valia passam a ser as normas de direito material, que estabelecem direitos para os lesados, se a referida proteção não encontra também amparo efetivo nos meios processuais disponíveis. Dentro da ideia custo-benefício, a questão pode ser enfrentada sob duas vertentes. Em primeiro lugar, estão os lesados que dispõem de recursos para o pagamento das despesas processuais, mas estas representariam valor aproximadamente igual ou superior ao próprio benefício pretendido. Junte-se a isso que a pretensão, sob o prisma da renda e do padrão de vida da pessoa atingida, terá um valor patrimonial irrisório, não compensando sequer a utilização de tempo e esforços, que, se quantificados, significariam montante acima da pretensão almejada. Sob prisma relativamente diverso, encontram-se as pessoas desprovidas dos meios necessários para o pagamento de custas e despesas processuais, além dos honorários advocatícios. Embora gozem de isenção legal no que diz respeito a essas verbas, os gastos com tempo e dinheiro, necessários para o encaminhamento do problema, seriam excessivos, na medida em que os dias e as horas são absorvidos na labuta, indispensável para a subsistência própria e/ou da família. O desequilíbrio entre as partes pode ser também, por outro lado, um fator decisivo para que a pessoa lesada deixe de buscar individualmente a proteção judicial ou, então, para a própria correlação de forças na relação processual. A tendência é que o causador da lesão disponha de mais recursos materiais e humanos e, portanto, em tese, se apresente mais bem preparado para o embate, provido que estará para a contratação de profissionais de qualidade e para a produção de provas que lhe sejam favoráveis – desigualdade que se mostra ainda mais gritante quando o lesado não dispõe de recursos próprios para custear a sua defesa, tendo em vista as limitações materiais dos órgãos encarregados da assistência judiciária gratuita. Com a cumulação de demandas, a situação tende a ser alterada, tendo em vista que o próprio valor patrimonialda causa, que individualmente seria mínimo, passa a ser de grande relevância, chegando, por vezes, a importâncias astronômicas, o que, per se, já pode ser suficiente para ensejar o interesse de bons profissionais para a causa, além de recursos necessários para a propositura e colheita de provas. As ações coletivas, se bem estruturadas, podem ser, portanto, um efetivo instrumento para o aperfeiçoamento do acesso à Justiça, eliminando os entraves relacionados com os custos processuais e o desequilíbrio entre as partes. Assim, por exemplo, são investidas nas causas coletivas vultosas somas de dinheiro nos escritórios de advocacia norte-americanos; na Alemanha, há partidos, sindicatos21 e associações que dispõem de forte estrutura, inclusive econômica, para prover a contratação de profissionais e os meios de prova necessários, situação essa que não se encontra ainda devidamente resolvida no sistema brasileiro. O processo coletivo pode servir, igualmente, para garantir a importância política de determinadas causas, relacionadas, dentre outras, com os direitos civis, minorias e meio ambiente. Foi o que ocorreu, por exemplo, nas class actions, ajuizadas nos Estados Unidos, visando ao pagamento de indenizações para os judeus que realizaram trabalhos forçados durante o regime nazista ou nas que visaram à invalidação de regras discriminatórias contra negros. Por fim, o problema da falta de formação e informação jurídica ainda representa sério entrave para o acesso à Justiça22. O processo coletivo pode, no entanto, superar ou atenuar o problema, na medida em que o direito das pessoas menos esclarecidas juridicamente não ficará relegado ao abandono, porque poderá ser defendido por terceiro, legitimado extraordinariamente para a tutela transindividual. A iniciativa quanto à propositura da ação, bem como da eventual necessidade de comunicação aos lesados, informando sobre o litígio, proposta de acordo etc., ficará sob a responsabilidade do demandante coletivo, também chamado de autor ideológico ou parte representativa. 2.3. O IRDR COMO INSTRUMENTO DE ECONOMIA JUDICIAL E PROCESSUAL O direito processual é um direito eminentemente instrumental e, como tal, serve para a realização do direito material. Consequentemente, o processo, como um todo, bem como os respectivos atos e procedimentos devem estar inspirados na economia processual. Esse princípio, por sua vez, precisa ser entendido de modo mais amplo, sob o ponto de vista subjetivo, como orientação geral para o legislador e para o aplicador do direito processual e, objetivamente, como sede para a escolha das opções mais céleres e menos dispendiosas para a solução das lides. Sobre o assunto, escreveu Andrea Giussani:23 “La maggioranza della più recente dottrina statunitense converge nell’individuare una delle finalità primarie delle class actions nella realizzazione di obiettivi di economia processuale. In proposito si deve mettere in evidenza che il principio di pragmatici fondamentali della disciplina positiva del processo civile nordamericano, almeno presso le corti federali: si è trattato infatti di uno dei principali elementi ispiratori della riforma del 1938, e in tale occasione è stato recepito dalla Rule 1 delle Federal Rules of Civil Procedure. (…) Va sottolineato immediatamente che si tratta di una finalità intensa in modo affatto conforme alla prevalenza degli obiettivi di risoluzione dei conflitti. L’economia processuale, secondo la concezione prevalente negli Stati Uniti, consiste infatti nel risolvere la liti al minor costo possibile”. A questão24 não deixa de ser também lógica, pois, a priori, os conflitos eminentemente singulares devem ser resolvidos individualmente, enquanto os litígios de natureza essencial ou acidentalmente coletiva precisam contar com a possibilidade de solução metaindividual. A inexistência ou o funcionamento deficiente de mecanismos coletivos dentro do ordenamento jurídico processual, nos dias de hoje, dá causa à multiplicação desnecessária do número de ações distribuídas, de decisões proferidas e de recursos interpostos, agravando ainda mais a sobrecarga do Poder Judiciário. Na verdade, são lides com enorme semelhança, pois decorrem de questão comum de fato ou de direito, passando a ser decididas de modo mecânico pelos juízes, através do que se convencionou chamar de sentenças-padrão ou repetitivas, vulgarizando-se a nobre função de julgar. É o que vem ocorrendo, v.g., na Justiça Federal brasileira. Nas circunscrições do Rio de Janeiro e de Niterói25, por exemplo, as sentenças- padrão representaram, no cômputo do total de sentenças cíveis de mérito, entre os anos de 1998 e 2001, respectivamente, 62,5% e 73%. A atividade judicial descaracteriza-se, com essa prática, por completo, passando a ser exercida e vista como mera repetição burocrática, desprovida de significado e importância. Com a pulverização de ações, a causa também é fracionada e acaba não sendo, de fato, decidida por nenhum dos juízes de primeiro ou de segundo grau, na medida em que a lide estará sendo apreciada, simultaneamente, por centenas ou milhares de julgadores. Consequentemente, apenas o pronunciamento final ou dos tribunais superiores passa a ter relevância, sob o ponto de vista da solução do conflito. A falta de solução adequada para os conflitos coletivos, em sentido lato, é responsável, portanto, em grande parte, pelo problema crônico do número excessivo de processos em todas as instâncias, não podendo, por conseguinte, ser tratado como situação que diga respeito apenas ao Supremo Tribunal Federal ou aos tribunais superiores26. Por outro lado, costuma-se enfatizar, diante do problema, a necessidade de mais juízes. Não obstante a carência de julgadores ser realidade que demande solução, a comparação do número de processos com o de juízes não deve ser analisada apenas sob o prisma deste último. O aumento do número de juízes pode e deve ser acompanhado da diminuição do número de processos, mediante o aperfeiçoamento do sistema processual, como pretende demonstrar o presente trabalho. Junte-se a isso que a confrontação numérica entre países não vem, por vezes, sendo feita com o rigor científico recomendado pelo direito comparado, pois não tem sido acompanhada do estudo dos sistemas27. O aumento do número de juízes depara-se também com dificuldades conjunturais e locais. Sob o ponto de vista conjuntural, trabalha-se, no contexto mundial, atualmente, com a redução do tamanho do Estado, tendo em vista os problemas de déficit público e do endividamento estatal. No âmbito regional e local, por outro lado, não se pode pretender equiparar, em termos proporcionais, o número de juízes em Estados não desenvolvidos ou em desenvolvimento com o contingente existente nos países ricos. As modificações e proposições levadas a cabo nos países do chamado terceiro mundo devem ser consentâneas com as suas limitações financeiras, o que reforça, ainda mais, a importância e o papel central de um eficiente sistema processual civil coletivo, como solução para a sobrecarga do Poder Judiciário e melhoria dos serviços judiciais. A perspectiva de soluções não dispendiosas, no entanto, se faz presente mesmo nos países mais desenvolvidos e ricos, como ressalta Giussani: “La rilevanza applicativa del principio di economia processuale ha però compiuto un vero e proprio ‘salto di qualità’ a partire degli anni ’60, allorché nella cultura giuridica nordamericana si è ravvisata la necessità di rispondere a una tendenza all’esplosione’ del contenzioso civile”.28 De fato, a explosão do contencioso civil deixou de ser uma tendência, parase consubstanciar em realidade mundial, embora com peculiaridades nacionais. No Brasil e nos países da América Latina, o incremento do número de ações ajuizadas passou a ser extremamente significativo a partir do final da década de 80, com a democratização dos regimes políticos e o fortalecimento dos órgãos judiciários. No âmbito global, o aumento do número de processos judiciais cíveis pode ser considerado como resultado da chamada onda renovatória do acesso à Justiça,29 tendo em vista que várias medidas foram adotadas para facilitar o exercício do direito de ação, removendo ou atenuando várias barreiras existentes. Diante da explosão de litígios, outras soluções foram ensaiadas ou incrementadas, algumas de cunho restritivo, no âmbito material ou processual, com o não reconhecimento de novos direitos ou a limitação do direito de ação, como formulado pela teoria norte-americana da judicial restraint;30 ou, então, buscando-se a criação e/ou fortalecimento de mecanismos extrajudiciais ou não contenciosos para a resolução dos conflitos, como, v.g., a arbitragem e a conciliação. Porém, como assinalado por Giussani, a “judicial economy, per converso, 2.4. indipendentemente dal sistema giurisdizionale in cui venga adottata come finalità, si traduce in un’ampliamento della capacità del sistema di risolvere conflitti a parità di ricorse disponibili, e può addirittura favorire l’attuazione del diritto sostanziale promovendo l’eguaglianza delle opportunità di risorse finanziarie tra le parti (sebbene non la elimini del tutto ed in alcune ipotesi, come si vedrà fra breve, l’accentui). L’economia processuale, infatti, può giustificare la compressione delle garanzie processuali individuali anche in un ordinamento non particolarmente interessato all’attuazione del diritto sostanziale in senso stretto: per insistere sulla ormai consueta metafora, essa può ridurre il potere delle parti di giocare quelle carte che limitino la possibilità degli altri consociati di giocare a loro volta (compatibilmente, come si è osservato, con il rispetto delle garanzie costituzionali e con l’esigenza di non sopprimere surrettiziamente i loro diritti soggettivi sostanziali)”31. O PRINCÍPIO DA IGUALDADE DIANTE DA LEI E A SEGURANÇA JURÍDICA Com a multiplicação de ações individuais, que tramitam perante diversos órgãos judiciais, por vezes espalhados por todo o território nacional, os juízes chegam, com frequência, a conclusões e decisões variadas e até mesmo antagônicas. Não raramente essas decisões de variado teor acabam por transitar em julgado, diante da não interposição tempestiva de recurso cabível ou pelo não conhecimento deste em razão de outra causa de inadmissibilidade. Por conseguinte, pessoas em situações fáticas absolutamente idênticas, sob o ponto de vista do direito material, recebem tratamento diferenciado diante da lei, decorrente tão somente da relação processual. O direito processual passa a ter, assim, caráter determinante e não apenas instrumental. E, sob o prisma do direito substancial, a desigualdade diante da lei torna-se fato rotineiro e não apenas esporádico, consubstanciando, portanto, ameaça ao princípio da isonomia. A miscelânea de pronunciamentos, liminares e definitivos, diferenciados e antagônicos, do Poder Judiciário passa a ser fonte de descrédito para a própria função judicante, ensejando enorme insegurança jurídica para a sociedade. 2.5. 2.6. Consequentemente, quando ocorre tal anomalia, a função jurisdicional deixa de cumprir a sua missão de pacificar as relações sociais. O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas pode, entretanto, cumprir um grande papel, no sentido de serem eliminadas as disfunções supramencionadas, na medida em que concentra a resolução de questões comuns, eliminando ou reduzindo drasticamente a possibilidade de soluções singulares e contraditórias, para questões jurídicas, no âmbito do direito material e processual. OS MEIOS PROCESSUAIS COLETIVOS COMO INSTRUMENTO PARA O EQUILÍBRIO DAS PARTES NO PROCESSO Embora haja formalmente a igualdade das partes no processo, no plano material e prático acabam os litigantes, por vezes, dispondo de gritante diferença se comparados os meios disponíveis para o embate judicial. É o que ocorre com frequência nas causas potencialmente coletivas, quando consumidores, aposentados, funcionários públicos, contribuintes e moradores, dentre outros, isoladamente, encontram-se em posição de fraqueza diante do porte de adversários como grandes comerciantes ou produtores, de empreendedores imobiliários ou do próprio Estado. Na verdade, a parte contrária aos interesses coletivos possui sempre a dimensão global dos atos por ela praticados, tendo, portanto, uma ideia exata do alcance de outras eventuais ações ajuizadas, bem como das possibilidades das perdas delas decorrentes. A possibilidade de os interesses e direitos lesados serem defendidos concomitantemente faz que a correlação de forças entre os litigantes seja redimensionada em benefício da parte individualmente fraca, mas razoavelmente forte quando agrupada, levando por terra, assim, a política maquiavélica da divisão para reinar. OS MECANISMOS COLETIVOS COMO INSTRUMENTO PARA O CUMPRIMENTO DO DIREITO MATERIAL O cometimento de atos ilícitos pode representar, pelo menos sob a ótica limitada e imediatista, um proveito para o autor da conduta contrária ao ordenamento. Isso pode ocorrer especialmente quando o malfeito provoca prejuízos em maior escala e apenas um percentual não significativo busca o ressarcimento dos danos causados. Não por outra razão se desenvolveu a denominada teoria da punitive damages, ou seja, a cominação de condenações com o intuito de provocar uma punição, suscetível, por sua vez, de incitar e coagir o responsável pelo dano a não mais prosseguir no cometimento dos atos ilícitos praticados. Entretanto, se apenas um número reduzido de pessoas afetadas procura a satisfação dos seus direitos e isso pode ocorrer, como visto nos itens anteriores, tendo em vista uma série de fatores, como a falta de informação, de tempo e de recursos do lesado, a relação custo-benefício sob o prisma individual, as dificuldades de acesso à justiça etc., as condenações impostas, ainda que acrescidas de multas punitivas, poderão ser insuficientes para a coibição da prática do ato ilícito. Junte-se a isso que, quanto menor a quantidade de pessoas que buscar o ressarcimento, maior teria que ser a condenação a título de punitive damages, o que, em regra, enseja questionamentos, por parte dos tribunais, em termos de desproporcionalidade entre o prejuízo sofrido e a compensação advinda, ensejando o que se chama normalmente de “enriquecimento sem causa”. As ações coletivas, portanto, cumprem mais esta função, ou seja, a de propiciar que a totalidade, ou pelo menos uma quantidade mais significativa, alcance os seus direitos, fazendo com que não haja, por parte do cometedor do ato ilícito, uma apropriação indevida, dimensionada pelas dificuldades de acesso à justiça. Pois, deste modo, não haveria punição real, mas, sim, locupletamento e estímulo para a continuidade da prática de atos em desconformidade com a lei. A Suprema Corte Canadense32 foi precisa, ao apontar, este importante escopo para as ações coletivas: “class actions serve efficiency and justice by ensuring that actual and potential wrongdoers do not ignore their obligations to 2.7. the public. Without class actions, those who cause widespread but individually minimal harm might not take into account the full costs of their conduct,because for any one plaintiff the expense of bringing suit would far exceed the likely recovery. Cost-sharing decreases the expense of pursuing legal recourse and accordingly deters potential defendants who might otherwise assume that minor wrongs would not result in litigation”33. O PAPEL E OS LIMITES DO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS O Direito Processual deve oferecer possibilidades, dentro de uma perspectiva de eficiência e adequação, para a resolução dos litígios, dentro de uma perspectiva multiportas. Desse modo, o princípio inscrito no art. 5º, inciso XXXV, da Constituição da República, da inafastabilidade da jurisdição34, é essencial, pois os meios oferecidos não podem, naturalmente, vulnerar a garantia inscrita constitucionalmente. Esta primeira afirmação é importante no sentido de se indicar que, não obstante sejam muito importantes as soluções consensuais e os instrumentos tipicamente coletivos, estes não podem impedir, sempre que ameaçado ou violado um direito individual, que os seus titulares busquem a proteção jurisdicional. Podem e devem ser introduzidos mecanismos de estímulo ou de facilitação para que estes meios, consensuais ou coletivos, sejam efetivamente utilizados. O próprio CPC-2015 inseriu, no rol do art. 139, o inciso X, como poder- dever dirigido ao juiz, no sentido de oficiar o Ministério Público, a Defensoria Pública e, na medida do possível, outros legitimados a que se referem o art. 5º da Lei nº 7.347, de 24 de julho de 1985, e o art. 82 da Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, para, se for o caso, promover a propositura da ação coletiva respectiva, quando se deparar com diversas demandas individuais repetitivas. Entretanto, o magistrado não poderá, obviamente, obstaculizar as demandas repetitivas individuais até então ajuizadas ou que venham a ser propostas no futuro. Do mesmo modo, a regra do art. 139, inciso X, se, por um lado, representa claro estímulo ao processo coletivo, por outro, não pode significar sequer uma imposição aos legitimados para a propositura da ação coletiva, na medida em que estes últimos devem aferir a presença dos requisitos necessários para, como indicado na lei (se for o caso), a proposição. É de se salientar também que, em relação às ações coletivas, há no ordenamento brasileiro restrições legais, especialmente no art. 1º, parágrafo único, da Lei nº 7.347/1985, incluído por força da Medida Provisória nº 2.180, ainda que se possa questionar a sua constitucionalidade, afastando o cabimento de ação civil pública para a veiculação de pretensões que envolvam tributos, contribuições previdenciárias e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço – FGTS ou outros fundos de natureza institucional cujos beneficiários podem ser individualmente determinados. Nestes casos, a inevitabilidade das demandas individuais estaria patente. Portanto, o IRDR e os recursos repetitivos seriam praticamente os únicos meios para se lograr a economia processual e a preservação do princípio da isonomia. Entretanto, mesmo nas demais hipóteses, em que não há restrição legal, o sistema não poderia permanecer passivo diante da multiplicação de processos individuais, congestionando o Poder Judiciário e ensejando decisões de teor diverso, diante de questões jurídicas comuns, comprometendo a celeridade e a credibilidade da prestação jurisdicional. Embora a própria denominação do IRDR indique o escopo voltado para a uniformização do entendimento nas demandas repetitivas, o seu regramento legal acabou propiciando ao instituto uma abrangência ainda mais ampla, porque, em tese, cabível a sua aplicação mesmo para casos heterogêneos, se houver, em termos de direito material ou processual, controvérsia sobre uma questão comum de direito que seja relevante para o processamento ou julgamento do pedido formulado. É o que se pode deduzir do contido no inciso I do art. 976 do CPC-2015. A hipótese acima, ou seja, de aplicação do IRDR em demandas relacionadas a direitos individuais heterogêneos não pode ser desprezada quanto ao seu alcance e importância para o sistema, na medida em que a questão comum35 1 pode se fazer presente em diversos processos, ainda que fundados em fatos diversos. A questão comum pode se fazer presente na própria alegação de defesa, não sendo, portanto, a base para a demanda repetitiva. Muitos exemplos podem ser oferecidos, em sede de direito material ou processual: a) o alcance da ressalva contida no § 5º do art. 37 da Constituição da República36, em termos de imprescritibilidade, para as ações de ressarcimento, fundadas em ato ilícito que causem prejuízo ao erário; b) a invocação, em controle concreto, de inconstitucionalidade formal de uma lei, na qual haja a regulamentação de situações diversas; c) necessidade de prévio requerimento administrativo37, para se postular judicialmente pretensões administrativas ou previdenciárias; d) a constitucionalidade, em controle difuso, de critério estabelecido para a concessão de assistência jurídica. Naturalmente, nestas hipóteses não seria possível o ajuizamento de demandas coletivas e, portanto, o IRDR seria o meio de coletivização possível para que a questão comum pudesse ser, de modo concentrado e mais célere, definida, possibilitando o acesso à justiça, a economia processual e a isonomia. Portanto, o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas insere-se dentro de uma perspectiva instrumentalista38 do processo, que precisa oferecer os meios tecnicamente adequados para a consecução do direito material em tempo razoável, de modo isonômico e econômico, ensejando a devida segurança jurídica. Sobre este fenômeno, dentre outros que devem ser criticamente analisados, José Carlos Barbosa Moreira escreveu: “Não poucos críticos da situação atual deixam entusiasmar-se por um determinado remédio que lhes parece capaz de debelar todos os males. Só têm olhos para suposta panaceia. Desdobram-se, a propósito de tudo e até sem propósito algum, em exortações ao uso da receita. Há casos de autêntica obsessão. (...) A verdade é que simplesmente não existe fórmula de validade universal para resolver por inteiro a equação. Temos de combinar estratégias e táticas, pondo de lado o receio de parecermos incoerentes se, para enfermidades de diferente 2 3 4 5 6 7 diagnóstico, experimentarmos remédios também diferenciados. O simplismo das palavras de ordem, já indesejável na política, revela-se aqui funesto.” O futuro da Justiça: alguns mitos. Temas de Direito Processual – Oitava Série, São Paulo: Saraiva, 2004, p. 6-7. Nesse sentido, CARNEIRO, Paulo Cezar Pinheiro; PINHO, Humberto Dalla Bernardina de (coords.), Novo Código de Processo Civil: Lei 13.105, de 16 de março de 2015 – anotado e comparado, Rio de Janeiro: Forense, 2015, p. 569: “Uma das mais importantes inovações do Código é o incidente de resolução de demandas repetitivas, que tem por escopo promover uma superior concretização dos princípios da isonomia e da segurança jurídica”. Como indica Luiz Fux: “O excesso de demandas mercê de pertencer ao campo interdisciplinar da sociologia jurídica encontra amparo na cláusula do acesso à justiça, garantido pelo princípio constitucional de que nenhum direito ou ameaça a direito deve escapar à apreciação do Poder Judiciário. (...) O incidente revela-se vantajoso ao permitir a solução de milhares de demandas com idêntica questão jurídica, por meio de solução única, mercê de tornar obrigatória a normação adotada que irá influir, inclusive na admissibilidade de eventuaisrecursos para os tribunais locais ou superiores, porquanto fixada a tese, a sua adoção será obrigatória”, em Teoria Geral do Processo, 2. ed., Rio de Janeiro: Forense, 2016. O tema foi inicialmente tratado pelo autor no livro Ações coletivas e meios de resolução coletiva de conflitos no direito comparado e nacional, 4. ed., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014. MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro, Problemas e reforma do Poder Judiciário no Brasil, Revista da Escola da Magistratura Regional Federal, v. 2. Rio de Janeiro: Escola da Magistratura Regional Federal, 2000. A Alemanha é considerada o país com melhor relação entre número de juízes por habitante (um para cada 4.100 habitantes, levando-se em conta a existência de uma população de 82 milhões de pessoas e 20 mil juízes, segundo Perfil da Alemanha, p. 15 e 198). Todavia, vários aspectos do direito processual alemão foram objeto de discussão, tendo em vista a proposta governamental de reforma do Código de Processo Civil (ZPO), convertida em lei no mês de junho de 2001. A Zivilprozessordnung (ZPO) alemã data de 1877 e tem passado por constantes atualizações e alterações. Os dados foram extraídos diretamente do site do STF: . Acesso em: 2 nov. 2015. A nova sistemática foi regulamentada apenas na Emenda Regimental nº 21, de 30.04.2007, que foi publicada e entrou em vigor em 03.05.2007. Dados retirados do site do STJ, disponível em: , em 02.11.2016. Segundo o relatório Justiça em Números de 2016, disponível no site do CNJ: . Acesso em: 3 nov. 2016, eram estimados nesta data 7.461.819.961 de pessoas. Vide MARINONI, Luiz Guilherme. Novas linhas do processo civil. 2. ed. São Paulo: Malheiros, 1996, p. 53 e ss. A perspectiva de um processo civil para o direito do consumidor foi reclamada e abordada por Harald Koch, no seu livro Verbraucherprozeßrecht: verfahrensrechtliche Gewährleistung des Verbraucherschutzes. Heidelberg: C. F. Müller Jur. Verlag, 1990. (Direito processual do consumidor: a garantia processual da proteção do consumidor). Vide, também, a oportuna observação feita pelo National Consumer Council, ao ser inquirido sobre novos procedimentos para demandas coletivas, que acabou sendo consignada no relatório final do Lorde Woolf sobre acesso à Justiça: “As we become an increasingly mass producing and mass consuming society, one product or service with a flaw has the potential to injure or cause other loss to more and more people. Yet our civil justice system has not adapted to mass legal actions. We still largely treat them as a collection of individual cases, with the findings in one case having only limited relevance in law to all of the others” (Como nos tornamos, de modo crescente, uma sociedade de produção e consumo em massa, um produto ou serviço defeituoso tem o potencial de prejudicar ou causar dano para mais e mais pessoas. O nosso sistema judicial ainda não está adaptado para as ações judiciais de massa. Nós ainda as tratamos, em grande parte, como uma coleção de casos individuais, possuindo relevância limitada o julgamento de um caso sobre todos os demais) (Woolf, Lord M. R. Final report on access to justice. jul. 1996). Vide SCHÄFER, Hans-Bernd, Anreizwirkungen bei der Class Action und der Verbandsklage In: BASEDOW, Jürgen (org.). Die Bündelung gleichgerichteter Interessen im Prozeß. Tübingen: Mohr Siebeck, 1999; e ALEXANDER, Janet Cooper, An introduction to class action procedure in the United States, que pode ser acessado em: . Só para se ter uma ideia, uma das maiores preocupações dos sindicatos alemães é com o aspecto financeiro. As entidades procuram manter, sob sigilo absoluto, vultosas economias, pois representam poder de pressão nas negociações, tendo em vista que os sindicatos se preparam para custear os http://www.worldometers.info/licensing/ https://law.duke.edu/grouplit/papers/classactionalexander.pdf 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 salários da categoria durante a greve. Assim sendo, quanto mais dinheiro em caixa, por mais tempo poderá ser mantida a greve, o que, por conseguinte, irá influenciar no poder de barganha e na fixação do acordo. O tema foi especificamente abordado por Luiz Guilherme Marinoni, Novas linhas do processo civil, cit., p. 32-34, 53-54. Studi sulle “class actions”, Milão: Cedam, 1996, p. 195 e ss. Como será visto na seção seguinte. Segundo boletim estatístico fornecido pelo Setor de Organização e Informática da Seção Judiciária do Estado do Rio de Janeiro. Nesse sentido, a introdução dos recursos repetitivos, nos anos de 2006 e 2008, é complementada no CPC/2015 com a criação do IRDR, fazendo com que a sistemática seja adotada para todo o Poder Judiciário. É o que ocorre, por exemplo, nas comparações com a Alemanha, que possui, de fato, um número elevado de juízes (exatos 20.300, em janeiro de 2016; número, aliás, menor do que os 20.999 que funcionavam em dezembro de 1999), mas esse fato também ocorre porque os Landesgerichte, que exercem ora a função de primeiro grau de jurisdição, ora a de revisordos pronunciamentos dos Amtsgerichte, são órgãos colegiados, fazendo com que haja o incremento do número de juízes em proporção não coincidente com a de órgãos julgadores. GIUSSANI, Andrea, Studi sulle “class actions”, cit., p. 197. CAPPELLETTI Mauro; GARTH, Bryant, Acesso à justiça, cit. GIUSSANI, Andrea, Studi sulle “class actions”, cit., p. 199. Idem, p. 200. No julgado Western Canadian Shopping Centres Inc. v. Dutton, 2001 SCC 46, [2001] 2 S.C.R. 534. Em livre tradução: “as ações de classe propiciam eficiência e justiça, assegurando que os malfeitores de fato e em potencial não ignorem suas obrigações para com o público. Sem ações coletivas, aqueles que causam danos generalizados, mas mínimos individualmente, poderão não ter que arcar integralmente com os custos provenientes de suas condutas, porque para cada demandante a despesa com o ajuizamento de uma ação individual poderá exceder em muito a recompensa. A repartição de despesas (em uma ação coletiva) reduz os custos com o ajuizamento de medidas processuais e, assim, sendo poderá deter potenciais demandados que assumiriam, de outro modo, que os danos de bagatela produzidos não resultariam em litígios”. 34 35 36 37 38 MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Princípio da Inafastabilidade da Prestação Jurisdicional à Luz do Acesso à Justiça. In: TORRES, Ricardo Lobo; KATAOKA, Eduardo Takemi; GALDINO, Flavio. Dicionário de princípios jurídicos. São Paulo: Elsevier & Campus, 2011. A análise deste aspecto somente é realizada neste tópico, sob o prisma da função, mas será retomada em outros momentos, como no capítulo sobre o cabimento, a suspensão dos processos individuais etc. Como se sabe, a questão foi apreciada pelo Plenário do STF, no Recurso Extraordinário nº 669.069, Rel. Min. Teori Zavascki, com trânsito em julgado em 31.08.2016. A questão foi decidida pelo Plenário do STF, no Recurso Extraordinário nº 631.240, Rel. Min. Roberto Barroso, em 03.09.2014, com a fixação de teses e regras de transição para variados benefícios e situações diversas. Vide especialmente: DINAMARCO, Cândido Rangel. A instrumentalidade do processo. 3. ed. São Paulo: Malheiros, 1993; Instituições de Direito Processual Civil. São Paulo: Malheiros, 2001; Fundamentos do Processo Civil moderno. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 2002; BEDAQUE, José Roberto dos Santos. Direito e processo: influência do direito material sobre o processo. 2. ed. São Paulo: Maheiros, 2001; Efetividade do processo e técnica processual. São Paulo: Malheiros, 2006; Instrumentalismo e garantismo: visões opostas do fenômeno processual? In: BEDAQUE, José Roberto dos Santos; CINTRA, Lia Carolina Batista; EID, Elie Pierre. Garantismo processual: Garantias processuais aplicadas ao processo. Brasília: Gazeta Jurídica, 2016. 3.1. TEST CLAIMS (DEMANDAS TESTE), PILOT JUDGMENTS (JULGAMENTOS PILOTO), MUSTERVERFAHREN (PROCEDIMENTO MODELO), GROUP LITIGATION ORDER (DECISÃO SOBRE LITÍGIOS DE GRUPO) E OUTROS JULGAMENTOS DE QUESTÕES COMUNS OU POR AMOSTRAGEM No direito estrangeiro, as ações coletivas vêm se fortalecendo de modo progressivo. Mas também outros institutos vêm se desenvolvendo. Em especial, o sistema de procedimento-modelo, test claim ou julgamento piloto, nas suas variadas configurações, vem assumindo um papel destacado. Nesse contexto, é que se faz importante a análise dos equivalentes históricos do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas no direito estrangeiro. Várias experiências podem ser mencionadas: as antigas ações de ensaio (test claims) norte- americanas e inglesas; os dois sistemas de Musterverfahren na Alemanha; a previsão contida na legislação de fundos de investimento da Suíça; o mecanismo, não mais vigente, da agregação de ações no Regime Processual Experimental português; a extensão de efeitos na jurisdição contenciosa administrativa da Espanha; a Group Litigation Order (GLO)1 da Inglaterra e do País de Gales; e até mesmo em tribunais internacionais, como o Pilot-judgment procedure da Corte Europeia de Direitos Humanos2. É de se ressaltar que os novos instrumentos foram estabelecidos sem prejuízo das respectivas ações coletivas, ou seja, das Verbandsklagen (ações associativas) na Alemanha3 e das representatives actions (ações representativas) na Inglaterra e País de Gales, ocorrendo do mesmo modo nos demais países. O estudo das experiências supramencionadas é de grande relevância, especialmente para a realização efetiva da comparação entre os respectivos mecanismos, sob o ponto de vista das pertinentes características, em termos de finalidades, concepção, regramento, efeitos e resultados práticos. Para que se possa realizar uma análise minimamente aprofundada e considerando que o presente texto não se resume a um trabalho de direito comparado, optou-se pelo recorte principalmente da experiência alemã em torno do Musterverfaren. Naturalmente, um ou outro aspecto do sistema adotado em outros países poderá ser referido. Esta escolha não foi aleatória, naturalmente. Ela se deu com base em algumas razões. Em primeiro lugar, deve ser ressaltado o caráter preponderante que a experiência alemã vem tendo em torno do denominado procedimento modelo. Como se verá adiante, a vivência em torno do instituto remonta ao final da década de 1970, quando se iniciou, ainda sem regulamentação legal, o seu uso pelos órgãos judiciais com competência para as causas administrativas. O debate em torno da sua utilização, e constitucionalidade, chegou em 1980 à Corte Constitucional. Em seguida, discutiu-se a sua regulamentação, que entrou em vigor em 1991, na Verwaltungsgerichtsordnung (VwGO)4 – Estatuto alemão da Jurisdição Administrativa. Em 2005, é introduzido, em caráter experimental, um novo sistema de Musterverfahren no âmbito das ações relacionadas ao mercado de capitais, com a aprovação da KapMuG (Gesetz über Musterverfahren in kapitalmarktrechtlichen Streitigkeiten – Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz ou Lei sobre o Procedimento-Modelo nos conflitos jurídicos do mercado de capital), tendo a sua vigência renovada em 2010 e, depois, bastante reformado em 2012, com derrogação prevista para 2020, caso não seja incorporado em definitivo até lá. Neste interregno, houve, ainda em 2008, a introdução do 3.2. modelo público de Musterverfahren, adotado pela Justiça Administrativa, também no ordenamento legal do ramo jurisdicional alemão que cuida da Assistência e Previdência Social (Sozialgerichtsgesetz). Portanto, sob o prisma desta espécie de mecanismo, o procedimento-modelo alemão é o mais regulado e o mais analisado e comentado no âmbito nacional e internacional. Há ainda mais dois motivos que justificam a escolha. A Alemanha é uma referência fundamental no âmbito do Direito Processual Civil, dentro da família do Civil Law. A influência da escola processual alemã no cenário mundial é notória, tendo direta e indiretamente significativa repercussão no Direito Processual Civil brasileiro. E, de modo publicamente assumido, o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas inspirou-se, em termos de experiência estrangeira, principalmente no instrumento alemão5. Esta influência, contudo, não foi absoluta. Muito pelo contrário, o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas também buscou inspiração no próprio Direito Processual brasileiro6 e, por outro lado, ousou inovar em vários aspectos, o que torna o estudo comparado, no caso, entre os dois institutos (o Musterverfahren e o IRDR), um exercício complexo e desafiador. Esta comparação com as principais fontes de inspiração do direito estrangeiro se iniciarácom a exposição do desenvolvimento do procedimento- modelo na Alemanha, neste capítulo, mas se prolongará ao longo dos demais, sempre que a comparação puder fornecer subsídios para a análise do instituto nacional. O SURGIMENTO DO MUSTERVERFAHREN (PROCEDIMENTO- PADRÃO) NA ALEMANHA: A EXPERIÊNCIA PRÁTICA SEM PREVISÃO LEGAL Nas décadas de 1960 a 1980, a Administração Pública da Alemanha enfrentou uma grande quantidade de objeções a projetos relacionados com a construção de usinas nucleares. Os números foram expressivos: 16 mil diante do centro de Breisig; 25 mil quanto a Lingen II; 55 mil no que diz respeito a Biblis; 64 mil para com Breisach; 75 impugnações dirigidas a Brokdorf; e 100 mil diante do centro nuclear de Wyhl7. Houve também um significativo número de questionamentos contrários a projetos de aeroportos em solo germânico: 14 mil ao de Bielefeld Nagelholz; 15 mil objeções ao de Hamburg--Kaltenkirchen; e 30 mil ao de Düsseldorf. A legislação alemã prevê a possibilidade de um controle administrativo dos projetos públicos, com a possibilidade de se acessar a Justiça Administrativa contra a decisão proferida no procedimento de controle perante a Administração Pública. Este controle massivo administrativo deslocou-se, no momento seguinte, para o ramo especializado do Poder Judiciário. A quantidade elevada de procedimentos administrativos e judiciais começou a ser percebido pelo governo alemão e pela academia. No ano de 1975, o então professor da Universidade de Speyer, Hans-Werner Laubinger, elabora, atendendo solicitação do Ministério da Justiça, um parecer sobre um possível regramento legal futuro para procedimentos de massa no Direito Processual Administrativo e no Direito Processual para as Cortes Administrativas (Gutachten über eine künftige gesetzliche Regelung für Massenverfahren im Verwaltungsverfahrensrecht und im Verfahrensrecht für die Verwaltungsgerichte). Em 1979, diante do projeto de construção do aeroporto internacional de Munique, foram ajuizadas 5.724 demandas perante o Tribunal Administrativo de Munique. Considerando a avalanche de demandas, as dificuldades para o andamento concomitante destes processos e verificando que havia uma identidade muito significativa, em termos de fatos e alegações, o órgão judicial de primeiro grau (Verwaltungsgericht München) resolve inovar, efetuando uma triagem inicial de 40 procedimentos, que teriam seguimento para processamento, produção de provas e julgamento. Os demais permaneceriam suspensos, por tempo indeterminado, aguardando o julgamento paradigmático dos procedimentos-modelo (Musterverfahren). É de se ressaltar que, na época, 1979-1980, a legislação alemã não previa expressamente o referido procedimento adotado (Musterverfahren). A decisão adotada pelo órgão de primeiro grau de Munique foi questionada perante a Corte Constitucional (Bundesverfassungsgericht) da República Federativa da Alemanha que, no mesmo ano, decidiu pela constitucionalidade da medida adotada pelo tribunal de primeira instância, entendendo ainda que a queixa constitucional havia sido abusivamente utilizada, razão pela qual fixou multa por litigância de má fé contra os queixosos8. Na ocasião, a Corte Suprema alemã considerou que o tribunal de primeiro grau estava diante de um problema processual e que se deveria analisar o que poderia o órgão judicial efetuar. Em especial, afastou as alegações de afronta ao art. 19, (4), 1; e art. 3, (1), ambos da Lei Fundamental. Os dispositivos tratam, respectivamente, dos princípios da inafastabilidade da prestação jurisdicional e da igualdade perante a lei. Na motivação, mencionou-se que o primeiro dispositivo constitucional garante a mais completa proteção judicial possível contra a alegada lesão à esfera jurídica dos cidadãos praticada pelo Poder Público. Entendeu-se que isso garantia também um procedimento judicial dentro de tempo razoável, o que estaria sendo viabilizado mediante a inovação experimentada. No mais, afirmou a Suprema Corte que o procedimento adotado não afastaria a proteção judicial daqueles que tiveram os processos suspensos, após o julgamento padrão, com a formulação de sentenças padrão (Musterurteile), porque teriam os seus direitos processuais preservados e, em caso de premência, poderiam, mesmo antes, requerer medidas de urgência. Por fim e em síntese, afastou a alegação de abuso de autoridade, por entender que a escolha feita pelo órgão judicial foi realizada a partir de fundamentos plausíveis, em razão da economia propiciada pela escolha de alguns dos 5.724 procedimentos para a realização das provas e o prosseguimento do processo9. Dos 40 procedimentos-modelo inicialmente selecionados, 34 chegaram, em 27.05.1981, a decisões finais de improcedência, contra as quais foram interpostas apelações em 31 processos. Em 1991, encerraram-se todos os processos, após os julgamentos dos recursos perante os tribunais de 2º grau e superior (Verwaltungsgerichtshof e Bundesverwaltungsgericht). Estima-se10 que a economia obtida com a suspensão dos processos, no caso do aeroporto de Munique, foi de 89 milhões de marcos alemães (moeda da época), equivalentes a cerca de 45,5 milhões de euros ou 160 milhões de reais11. A criação e a utilização do procedimento-modelo na Alemanha suscitam uma primeira reflexão quanto à prescindibilidade de previsão legal para a aplicação da técnica. A resposta da Corte Constitucional foi clara no sentido de que a técnica de processamento e de julgamento foi uma solução prática e consentânea com os princípios constitucionais, especialmente o do acesso à justiça e da inafastabilidade da prestação jurisdicional, cuja garantia deve abranger a ideia de efetividade do processo dentro de uma duração razoável. Portanto, os órgãos judiciais, ao elaborarem o procedimento-modelo, agiram em conformidade com a previsão maior da Carta Magna, não se verificando, em tese, qualquer mácula para as partes que tiveram os seus processos suspensos, na medida em que não se obstaculizariam os direitos processuais a serem exercidos quando da aplicação do entendimento firmado nos processos que ficaram aguardando, bem como da possibilidade de serem requeridas eventuais medidas urgentes. Contudo, a Corte Constitucional alemã ficou adstrita aos questionamentos firmados naquele julgamento, sem se pronunciar sobre outras questões, como a própria sistemática de aplicação do entendimento firmado nos julgamentos modelo nos processos pendentes, tendo em vista que ainda não havia uma clara regulamentação da questão. É de se concluir, portanto, sobre a possibilidade dos próprios tribunais estabelecerem mecanismos de gestão, como o do procedimento modelo, com o escopo de garantir a economia processual e, consequentemente, do princípio do acesso à justiça e da efetividade do processo dentro de um tempo razoável. Nesse sentido, pode-se apontar, no Brasil, que o regramento das ações coletivas e dos recursos repetitivos, inicialmente, à luz do CPC revogado e da legislação especial, não previa, por exemplo, a suspensão de ofício dos processos, mas, tão somente, a suspensão requerida, no caso das ações coletivas, e o sobrestamento dos recursos, na hipótese dos repetitivos. Entretanto, a suspensão dos processos incorporou-se na prática forense, inclusive do Supremo Tribunal Federal e dos 3.3. Tribunais Superiores12, a partir de razões de ordem prática. Por fim, esta sistemática foi sedimentada no Código de Processo Civil de 2015. A INTRODUÇÃO DO MUSTERVERFAHREN NO ORDENAMENTO JURÍDICO ALEMÃO Com a experiência prática do procedimento-modelo na Justiça Administrativa deMunique e a sua chancela pela Corte Constitucional, houve o encaminhamento, em 27.04.1990, da proposta de inserção de um novo parágrafo (93a) no Estatuto da Justiça Administrativa (Verwaltungsgerichtsordnung – VwGO), de 1960, prevendo expressamente, no ordenamento legal, o Musterverfahren. O parlamento alemão aprovou em 17.12.1990, o projeto de lei, entrando em vigor o novel § 93a, com a regulamentação do procedimento modelo no âmbito da jurisdição administrativa, em 01.01.1991. Em seguida, o julgamento-padrão foi introduzido no âmbito do mercado mobiliário mediante a edição da Lei sobre procedimento-modelo nos conflitos jurídicos do mercado de capitais (Gesetz über Musterverfahren in kapitalmarktrechtlichen Streitigkeiten – KapMuG), de 16.08.2005, que entrou em vigor em 01.11.2005. A referida lei foi concebida como uma experiência temporária, com término de vigência inicialmente previsto para 01.11.2010. Mas, o período de vigência acabou sendo prorrogado13 até 31.10.2012. Por fim, uma nova versão da lei entrou em vigor no dia 01.11.2012, sofrendo pequena alteração em 04.07.2013. O texto atual14 manteve o caráter temporário da KapMuG, prevendo expressamente, no seu § 28, a sua derrogação a partir de 01.11.2020. A edição da KapMuG decorreu da grande quantidade de demandas individuais que foram ajuizadas na Alemanha, especialmente em Frankfurt, em face da empresa Deutsche Telekom, que possui cerca de três milhões de acionistas, sob o fundamento de que a demandada teria produzido, nos anos de 1999 e 2000, prospectos com informações incorretas, gerando prejuízos aos investidores. O número elevado de processos, aproximadamente doze mil apenas no Landesgericht de Frankfurt, ensejou demora nos julgamentos e reclamações 1 2 3 que chegaram até a Corte Constitucional alemã, sob a alegação de denegação de justiça, tendo a Corte Suprema, já em 2004, apontado para os órgãos judiciais envolvidos que deveriam adotar outros procedimentos como o julgamento de casos-modelo para a prestação jurisdicional.15 Por fim, no ano de 2008, o legislador alemão insere16 o instrumento do procedimento-modelo também no âmbito do ramo do Poder Judiciário que cuida dos conflitos envolvendo a previdência e assistência social, com a introdução do parágrafo 114a na Sozialgerichtsgesetz, contendo praticamente o mesmo texto do parágrafo 93a do Estatuto da Justiça Administrativa. É de se notar que os procedimentos adotados nos ramos administrativo e da previdência e assistência social são idênticos, mas diferem do que foi estabelecido para o mercado de capitais, razão pela qual serão expostos, objetiva e separadamente, nos capítulos seguintes. Em termos metodológicos, ao longo dos dois capítulos se fará não apenas uma descrição dos dois sistemas existentes na Alemanha, mas se tentará realizar a comparação interna. Embora tida como fonte secundária, a experiência inglesa também será detalhada em outro capítulo. Por fim, os elementos colhidos do direito estrangeiro servirão também para a realização do cotejo com as soluções adotadas para o IRDR no direito brasileiro. A Inglaterra e o País de Gales editam, em 2000, o seu primeiro Código de Processo Civil, com a previsão das decisões de litígios de grupo (Group Litigation Order), ao lado da própria demanda-teste (test claim). Vide ESCHMENT, Jörn. Musterprozesse vor dem Europäischen Gerichtshof für Menschenrechte. Frankfurt: Peter Lang, 2010. Para um estudo mais geral sobre a tutela coletiva na Alemanha, podem ser indicadas, dentre outras que serão mencionadas, as seguintes obras: BASEDOW, Jürgen; HOPT, Klaus J.; KÖTZ, Hein; BETGE, Dietmar. Die Bündelung gleichgerichteter Interessen im Prozeß. Tübingen: Mohr Siebeck, 1999; BRÖNNEKE, Tobias (Hrsg.) Kollektiver Rechtsschutz im Zivilprozeßrecht. Baden-Baden: Nomos, 2001; BURCKHARDT, Markus. Auf em Weg zu einer class action in Deutschland? Baden-Baden: Nomos, 4 5 6 7 8 2005; EINHAUS, Stefan. Kollektiver Rechtsschutz im englischen und deutschen Zivilprozessrecht. Berlin: Duncker & Dumblot, 2008; HALFMEIER, Axel. Popularklagen im Privatrecht. Tübingen: Mohr Siebeck, 2006; KESKE, Sonja E. Group Litigation in European Competition Law: A Law and Economics Perspective. Intersentia, 2010; KOHLER, Kristin. Die grenzüberschreitende Verbraucherberbandsklage nach dem Unterlassungsklagengesetz im Binnenmarkt. Frankfurt am Main: Peter Lang, 2008; LANGE, Sonja. Das begrenzte Gruppenverfahren. Tübingen: Mohr Siebeck, 2011; OR-GEL, Marc. Class arbitration: Von der Gruppenklage zum Gruppenschiedsverfahren und zurück? Eine Untersuchung zum U.S.-amerikanischen Schiedsverfahrensrecht. Tübingen: Mohr Siebeck, 2013; SÄCKER, Franz Jürgen. Die Einordnung der Verbandsklage in das Szstem des Privatrechts. München: C. H. Beck, 2006. § 93a. Na exposição de motivos redigida pela comissão que elaborou o anteprojeto do novo Código de Processo Civil brasileiro, indica-se expressamente a inspiração no direito alemão. Não obstante a fonte estrangeira, pode-se apontar que o novo instituto, encontra raízes também nos denominados incidentes de recursos repetitivos, previstos nos artigos 543-B e 543-C do CPC/1973, respectivamente para os recursos extraordinário e especial, a partir dos anos de 2006 e 2008. Estes mecanismos propiciaram razoável redução no número de processos em tramitação no Supremo Tribunal Federal e no Superior Tribunal de Justiça. O incidente agora proposto terá como objetivo a redução do número de processos nos tribunais de segundo grau e a suspensão dos processos em primeiro grau, propiciando economia, mas também uniformidade e segurança na prestação jurisdicional. Os dados são mencionados na obra de Walter Christian Schmel, Massenverfahren vor den Verwaltungsbehörden und den Verwaltungsgerichten: Darstellung des Problems und Überprüfung der besonderen Regelungen zur Behandlung und Bewältigung, Berlin: Duncker & Humblot, de 1982. BVerfG, decisão de 27.03.1980, Az. 2 BvR 316/80, assim ementada: Verfassungsrechtliche Unbedenklichkeit bei Auswahl von Musterverfahren – Flughafen München. Es ist von Verfassungs wegen nicht zu beanstanden, wenn ein Verwaltungsgericht für die mündliche Verhandlung von den bei ihm anhängigen 5.724 Verfahren gegen den Planfeststellungsbeschluß für 9 einen Flughafen einige auswählte und die Verhandlung der anderen einstweilen zurückstellt. “Gründe: Das Verwaltungsgericht verstößt nicht gegen Verfassungsrecht, wenn es für die mündliche Verhandlung im April, Mai, Juni und Juli 1980 von den bei ihm anhängigen 5.724 Verfahren gegen den Planfeststellungsbeschluß für den Flughafen M. einige auswählte und die Verhandlung der anderen einstweilen zurückstellt. Es liegt auf der Hand, daß das vorliegende Großverfahren, an dem eine Vielzahl von Klägern beteiligt ist und das eine komplexe Behördenentscheidung zum Gegenstand hat, das Verwaltungsgericht vor ungewöhnliche verfahrensrechtliche Probleme stellt. Die Frage, welche prozessualen Maßnahmen das Gericht zur Durchführung, Vereinfachung und Beschleunigung dieses Großverfahrens im einzelnen treffen kann, bestimmt sich in erster Linie nach einfachem Prozeßrecht, dessen Anwendung und Auslegung vom Bundesverfassungsgericht grundsätzlich nicht nachgeprüft wird. Es mag dahinstehen, ob die Durchführung einer einzigen mündlichen Verhandlung für alle 5.724 anhängigen Verfahren überhaupt möglich wäre, was mit guten Gründen bezweifelt werden kann. Mit seinem Vorgehen verkennt das Verwaltungsgericht jedenfalls nicht die Tragweite der Grundrechte der Beschwerdeführer. 1. Art. 19 Abs.4 Satz 1 GG ist nicht verletzt. Diese Vorschrift gewährleistet einen möglichst lückenlosen gerichtlichen Schutz gegen die behauptete Verletzung der Rechtssphäre des Einzelnen durch Eingriffe der öffentlichen Gewalt (BVerfGE 8, 274 [326], stRspr). Sie garantiert auch die Wirksamkeit des Rechtsschutzes; der Bürger hat einen substantiellen Anspruch auf eine möglichst wirksame gerichtliche Kontrolle (BVerfGE 40, 272 [275], stRspr). Dies erfordert die Durchführung eines gerichtlichen Verfahrens innerhalb angemessener Zeit. Die Bemessung der Verfahrenskosten darf nicht in einer Weise erfolgen, die es dem Betroffenen praktisch unmöglich macht, das Gericht anzurufen (vgl. BVerfGE 11, 139 [143]). a) Für die Beschwerdeführer, über deren Verfahren das Verwaltungsgericht demnächst verhandeln will, wird der Rechtsschutz nicht in verfassungsrechtlich unzulässiger Weise erschwert. Zwar mag sich das Prozeßkostenrisiko für sie erhöhen, wenngleich sich auch nicht ohne weiteres mit einer Steigerung der Gerichtskosten und der Anwaltsgebühren rechnen müssen, weil sich der Gegenstandswert bei Anfechtungsklagen gegen Planfeststellungsbeschlüsse nach der herrschenden Meinung aus der Beeinträchtigung des einzelnen Klägers errechnet. Die Beschwerdeführer können im Hinblick auf Art. 19 Abs. 4 Satz 1 GG aber nicht verlangen, daß das Prozeßkostenrisiko durch gleichzeitige Verhandlung aller beim Verwaltungsgericht anhängiger Verfahren möglichst niedrig gehalten wird. Das Kostenrisiko ist für sie im Rahmen des bei einem Großverfahren Möglichen abschätzbar. Sie mußten ohnedies von vornherein damit rechnen, daß das Verwaltungsgericht zunächst nur über einige Verfahren verhandeln würde. Im übrigen hat keiner der Beschwerdeführer vorgetragen, daß er zur Rechtsverfolgung außerstande sei und die für diesen Fall vorgesehene Möglichkeit der Beantragung des Armenrechts (vgl. § 166 VwGO iVm §§ 114 ff. ZPO ) bereits vergeblich ausgeschöpft hätte. b) Auch für die Beschwerdeführer, deren Verfahren das Verwaltungsgericht vorerst zurückgestellt hat, wird der Rechtsschutz nicht in verfassungsrechtlich unzulässiger Weise erschwert. Ihnen werden nach dem Ergehen der ‚Musterurteile‘ noch alle prozessualen Möglichkeiten offenstehen, umfassenden gerichtlichen Schutz zu erlangen. Unbeschadet der bereits ergangenen Entscheidungen werden sie ihre besonderen Anliegen vorbringen und eine umfassende Nachprüfung des Planfeststellungsbeschlusses herbeiführen können. Bei einem etwaigen Baubeginn steht ihnen die Möglichkeit offen, vorläufigen Rechtsschutz zu begehren. Angesichts des außerordentlichen Umfangs des gesamten Verfahrens kann derzeit auch nicht davon ausgegangen werden, daß die zurückgestellten Verfahren unangemessen verzögert werden, wenn das Verwaltungsgericht für sie vorerst einen Termin zur mündlichen Verhandlung nicht anberaumt. 2. Das Vorgehen des Verwaltungsgerichts verstößt nicht gegen Art. 3 Abs. 1 GG. Das Verwaltungsgericht handelte nicht willkürlich. Es gibt sachliche Gründe dafür, zunächst nur für einige der 5.724 Verfahren eine mündliche Verhandlung anzuberaumen. Diese Gründe bedürfen keiner weiteren Darlegung. Das Verwaltungsgericht ist auch bemüht, die Auswahl der zu verhandelnden Verfahren nach sachlichen Gesichtspunkten zu treffen. Daß für dieses Vorgehen eine besondere gesetzliche Ermächtigung in der Verwaltungsgerichtsordnung fehlt, stößt nicht auf verfassungsrechtliche Bedenken. Da die Verfassungsbeschwerde offensichtlich der Verzögerung des verwaltungsgerichtlichen Verfahrens dienen soll, ist sie mißbräuchlich im 10 11 12 13 14 15 16 Sinne des § 34 Abs. 5 BVerfGG. Den Beschwerdeführern wird daher jeweils eine Gebühr in Höhe von einhundert Deutsche Mark auferlegt. Diese Entscheidung ist unanfechtbar.” BVerfG, Beschluß vom 27.03.1980 – Aktenzeichen 2 BvR 316/80. Os dados foram indicados por Jan J. Kruppa, na obra Kapitalanleger- Musterverfahrensgesetz (KapMuG) – Bestandsaufnahme und Perspektiven, Hamburg: Kovac, 2011, p. 82. As conversões foram feitas, respectivamente, levando em consideração os valores de câmbio indicados pelo site https://coinmill.com e pelo jornal O Globo (http://oglobo.globo.com/), acessados em 10.11.2016. No Superior Tribunal de Justiça, a questão foi debatida especialmente no REsp nº 1.110.549 – RS, que pode ser considerado um marco sobre o assunto, tendo se originado de situação que guarda certa similitude com o contexto alemão. A situação surgiu por ocasião do lapso final para o ajuizamento de demandas relacionadas aos expurgos inflacionários em cadernetas de poupança, quando houve um número muito elevado de novos processos, especiamente no Rio Grande do Sul. Houve varas que receberam milhares de processos em apenas alguns dias, tendo se tornado inviável o processamento destas demandas, diante da falta de recursos materiais e humanos disponíveis. Como solução para o problema, os juízes de primeiro grau começaram a entender que deveriam priorizar as ações coletivas, separando-as por instituição financeira, suspendendo os respectivos processos individuais até a decisão final coletiva. Com o trânsito em julgado da decisão coletiva, haveria, conforme o caso de procedência ou não dos pedidos formulados coletivamente, a aplicação do resultado nos respectivos processos individuais suspensos. Por força do art. 5.º da Lei de 24.07.2010. Vide o texto vigente, na íntegra, nas versões em alemão e em inglês, em Vide BverfG (2004) 3321. Mediante a Lei para a modificação do Estatuto da Justiça Social e do Estatuto da Justiça do Trabalho (Gesetz zur Änderung des Sozialgerichtsgesetzes und des Arbeitsgerichtsgesetzes (SGGuaÄndG), de 26.03.2008, que entrou em vigor no dia 01.04.2008, nos termos do art. 5º. https://coinmill.com http://oglobo.globo.com/ https://www.gesetze-im-internet.de/kapmug_2012/ https://www.gesetze-im-internet.de/englisch_kapmug/index.html 4.1. Capítulo 4 O MUSTERVERFAHREN (PROCESSO- MODELO) DA JURISDIÇÃO ADMINISTRATIVA E DA PREVIDÊNCIA E ASSISTÊNCIA SOCIAL CONSIDERAÇÕES INICIAIS. O REGRAMENTO SUCINTO E UNIFICADO PARA O MUSTERVERFAREN NO DIREITO PÚBLICO Os Estatutos da Jurisdição Administrativa (Verwaltungsprozessordnung), no § 93a1, e da Previdência e Assistência Social (Sozialgerichtsgesetz), no § 114a2, possuem praticamente a mesma previsão no que diz respeito ao Musterverfahren.3 As respectivas normas estão dispostas em um único dispositivo4, como se indicou acima, subdividido em duas partes (1) e (2), contendo a primeira três orações, enquanto a segunda parte, seis. É de se notar, portanto, que se trata de um regramento extremamente sucinto. Esta característica poderia ser atribuída ao caráter incipiente do instituto, quando da sua aprovação, em 1990. Mas, como supramencionado, foi praticamente mantido in totum o texto, quando transposto para o Estatuto da Justiça Social (Previdenciária), no ano de 2008, denotando, assim, o propósito de manter um regramento objetivo e unificado no âmbito do direito público. O regramento mínimo indica o comando no sentido de manutenção do “devido processo legal” a partir das normas comuns, preservando, assim, não apenas o “juiz natural”, mas o próprio procedimento e julgamento que os casos- piloto teriam, se desprovidos da qualidade paradigmática5. 4.2. No Musterverfahren há o julgamento completo do(s) pedido(s) formulado(s), havendo, portanto, cognição ampla e exauriente, com a apreciação das questões de fato e de direito. Por esta razão, a produção de prova é ampla. CABIMENTO E ADMISSIBILIDADE.ESCOLHA DOS PROCEDIMENTOS-MODELO O legislador estabeleceu, na primeira parte de cada um dos respectivos dispositivos6, que se a conformidade jurídica de uma medida, nas respectivas áreas administrativa ou social, for questionada em mais de vinte7 processos, o órgão judicial poderá prosseguir com um ou mais processos adequados, que se tornarão os processos-modelo (padrão, piloto, test claims) ou paradigmáticos para o julgamento dos demais, que ficarão suspensos. A norma estabelece mais de vinte, portanto exige-se a existência de, no mínimo, 21 (vinte e um) processos nos quais se impugna a conformidade jurídica da medida praticada pela repartição pública. No estatuto da Jurisdição Social, especificou-se ainda que a multiplicidade de processos seria perante o mesmo órgão judicial. A utilização do verbo können (poder) indica que caberá ao órgão judicial a análise da conveniência a partir do número, mas também de outros fatores, como a maior ou menor homogeneidade das situações individuais ou das alegações formuladas. Cabe aqui mencionar que a própria questão da divisibilidade parece ser de grande importância para a decisão, pois, em caso de indivisibilidade, a concentração do julgamento será fundamental diante do caráter unitário. A norma se utiliza da denominação procedimento-modelo (Musterverfahren) para os processos escolhidos para o processamento e para o julgamento, mencionando que os demais ficarão suspensos. Na doutrina e nos tribunais, estes processos sobrestados são denominados de Nachverfahren (procedimentos posteriores). A norma prevê expressamente que as partes deverão ser ouvidas previamente em relação à adoção do procedimento, em observância ao princípio do contraditório. Mas, a decisão judicial tomada em relação ao estabelecimento do procedimento-padrão é irrecorrível. As duas regras, embora voltadas para objetivos opostos, são muito importantes e, de certo modo, se complementam. A primeira é a expressão da concepção mais ampla e tradicional do princípio do contraditório no direito germânico, inscrito como regra geral no § 139 da Zivilprozessordnung (ZPO), o Estatuto do Processo Civil alemão, que serviu de inspiração para o art. 10 do Código de Processo Civil brasileiro de 2015. No caso do procedimento-modelo (Musterverfahren) do direito público, a determinação da condução, mediante a técnica do julgamento piloto, não precisa ser requerida, podendo e devendo, quando for o caso da sua aplicabilidade, ser estabelecida de ofício pelo órgão judicial. Entretanto, a oitiva prévia das partes é fundamental, não apenas para que possam se manifestar sobre a adoção do procedimento-modelo, oferecendo argumentos e dados a favor ou contra, mas para que possam, também e desde já, contribuir para, em caso de admissibilidade, o esclarecimento em relação aos fundamentos das demandas e a escolha das causas para o processamento e o julgamento paradigmático. A primeira parte da norma estabelece que a triagem, para o processamento e julgamento piloto, poderá recair em um ou mais processos adequados. O legislador não estabeleceu parâmetros para a seleção. No entanto, alguns julgados fizeram expressa menção aos critérios que foram sopesados. Por exemplo, já no primeiro caso, do aeroporto de Munique, em 1980, a decisão adotou um parâmetro mais subjetivo, indicando que os maiores interessados foram escolhidos a partir de dados como o de autores que possuíam propriedades dentro da área do planejado aeroporto e propriedades no âmbito limítrofe da planejada zona de proteção8. Em julgado proferido em 2008, o Tribunal Federal Administrativo (Bundesverwaltungsgericht – BVerwG)9 foi taxativo no sentido de que os procedimentos-modelo precisam preencher duas exigências, sobre as quais os órgãos judiciais possuem responsabilidade na seleção: (a) deve-se garantir que todos os pontos de vista sejam examinados, de modo a serem aferidas as pretensões formuladas nas demandas propostas; (b) deve-se estar seguro de que os processos escolhidos como Musterverfahren não estejam sobrecarregados com outros problemas específicos, que não sejam representativos para a maioria dos interessados. Em síntese, se procurou fixar que a escolha deve ser norteada por critérios objetivos, a partir das questões suscitadas nos processos, de modo que os processos escolhidos para o julgamento piloto sejam representativos, de modo a concentrar, nos que servirão de modelo, o espectro de questões a serem resolvidas em todos os demais processos e, além disso, que não contenham também outras peculiaridades. Este segundo aspecto serve, na verdade, para que o órgão judicial possa se concentrar, com exclusividade ou predominância, em questões comuns, não perdendo tempo e energia com outras questões peculiares. A orientação acima se justifica não apenas para a celeridade no julgamento dos procedimentos-modelo. Mas, também, por razões lógicas, em relação aos demais processos. Em primeiro lugar, porque as questões peculiares provavelmente dependerão do julgamento das questões comuns, que poderão ser preliminares ou prejudiciais em relação à apreciação das particularidades. Pode-se pensar, por exemplo, que a questão comum diga respeito à necessidade de requerimento administrativo, como condição da ação (interesse) para a postulação judicial, sendo, portanto, preliminar. A questão comum pode ser também a alegação, por parte da administração demandada, da existência de prescrição, ou mesmo se houve uma falha no serviço público. Portanto, a análise prévia apenas destas questões comuns pode representar grande economia, isonomia e segurança jurídica. Do mesmo modo, o Tribunal de Apelação de Kassel10, em julgado proferido em 2008, esclareceu, em síntese, que os procedimentos-modelo devem ter a capacidade de responder às muitas questões levantadas, cuidando do grande número de típicas perplexidades comuns existentes. Por sua vez, o exame da constelação de questões atípicas deve ser conferido aos Nachverfahren, ou seja, aos processos que serão apreciados posteriormente. Na escolha dos processos-modelo, três critérios podem ser extraídos da norma legal e das decisões supramencionadas: a) objetivo, sob o prisma das questões fáticas e jurídicas levantadas no conjunto de processos; b) subjetivo, decorrente da aferição das partes que possuem um interesse mais significativo em relação ao objeto da(s) causa(s)-piloto; c) eletivo, decorrente da necessidade de se estabelecer o contraditório prévio, possibilitando, assim, que haja pelas próprias partes a escolha dos processos-modelo, levando-se em conta a necessária abrangência das matérias fáticas e jurídicas pelo processo, ou processos, representativo(s) da controvérsia, mas também a escolha consensual não apenas dos processos-piloto, mas dos representantes adequados. A irrecorribilidade, quanto à admissibilidade, por outro lado, procura evitar que este debate preliminar, sobre a adoção do procedimento-modelo, acabe se prolongando e atrasando o processamento e o julgamento dos Musterverfahren e, consequentemente, também dos processos sobrestados. Por outro lado, as partes, tanto dos procedimentos-modelo quanto dos processos suspensos, não ficarão, naturalmente, desprovidas da possibilidade, em cada momento oportuno, de impugnação em relação ao mérito, invocando inclusive a inaplicabilidade da decisão-modelo aos seus respectivos casos. No sistema de procedimento-modelo para o julgamento dos casos administrativos e previdenciários, a decisão de admissibilidade, bem como o processamento e julgamentodo Direito Processual, e que integra o prestigiado Grupo Editorial Nacional | GEN, manifestando os agradecimentos aos estimados Editores Francisco Bilac Pinto e Henderson Fürst. PREFÁCIO O Professor Aluisio Mendes me honra com o convite para prefaciar o seu novo livro Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, que foi a tese apresentada no concurso de Professor Titular de Processo Civil para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, no qual o autor foi aprovado, unanimemente, pelos componentes da banca examinadora: Professores Paulo Cezar Pinheiro Carneiro, Leonardo Greco, Cândido Rangel Dinamarco, Humberto Theodoro Júnior e José Rogério Cruz e Tucci. O tema escolhido pelo autor – incidente de resolução de demandas repetitivas – é, possivelmente, o mais importante, complexo e inovador instituto contido no novo Código de Processo Civil. Adianto, desde logo, que é o melhor e mais completo trabalho escrito sobre o tema, até os dias de hoje, que tive a oportunidade de ler. O autor não se limitou a desenvolver o tema, o que de fato fez com maestria, esgotando-o em todos os seus pormenores, antes situou o IRDR no contexto sociojurídico do mundo contemporâneo, apresentando suas fontes de inspiração: test clains (demandas teste), pilot judgments (julgamentos--piloto), Musterverfahren (procedimento modelo), group litigation order (decisão sobre litígios de grupo) e outros julgamentos de questões comuns ou por amostragem. Na sequência, fez uma vigorosa incursão no estudo dos precedentes e o papel da jurisprudência nos sistemas do common law e do civil law para assentar as bases do seu estudo. Mas não foi só, na abordagem do instituto, o Professor Aluisio Mendes apresenta de forma absolutamente precisa e fidedigna a genealogia do IRDR, desde a formulação da proposição na comissão de juristas, texto da proposta do projeto do novo Código de Processo Civil, até as aprovações pelo Senado, pela Câmara dos Deputados, inclusive a redação final do texto sancionado. Todos os detalhes relevantes sobre o tema, tais como natureza jurídica, objeto, cabimento, legitimidade, competência, intervenientes, o papel do juiz, das partes, do Ministério Público e da Defensoria Pública, passando pelo procedimento desde a fase de admissibilidade, divulgação, publicidade e a suspensão dos processos, até as fases de instrução e julgamento com a fixação da tese jurídica, o seu âmbito de abrangência e os recursos cabíveis, foram detidamente examinados. Deixei conscientemente de antecipar detalhes, outras propostas e temas versados pelo autor, porque o prefácio, como um trailer que é, não visa dispensar a leitura do livro, muito menos resumi-lo, mas antes aguçar o desejo daqueles que virão a lê-lo. Tenho certeza de que o livro Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas será um marco na literatura jurídica sobre o tema, servindo a todos aqueles que têm a sua atuação voltada para a defesa dos direitos transindividuais. Paulo Cezar Pinheiro Carneiro Professor Titular de Teoria Geral do Processo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Junho de 2017 O novo Código de Processo Civil preocupou-se, sobretudo, com a funcionalidade do processo, consagrando, entre suas normas fundamentais, a instrumentalidade, a efetividade e a eficiência como princípios determinantes para a implantação de uma prestação jurisdicional justa, adequada e tempestiva. Nessa linha de orientação, um dos mais relevantes institutos introduzidos no ordenamento jurídico instrumental pátrio pela codificação de 2015 foi, incontestavelmente, o incidente de resolução de demandas repetitivas (IRDR). A inspiração mais próxima foi buscada, pelo legislador, no direito alemão, sem embargo de que elementos procedimentais de igual espírito já fossem conhecidos do processo civil nacional, embora tímidos e pouco explorados na vivência de nossos tribunais. É de se lembrar, v.g., dos incidentes de uniformização de jurisprudência e de declaração de inconstitucionalidade, além da técnica de julgamento dos recursos repetitivos nos tribunais superiores. A simbiose da experiência estrangeira com os antecedentes históricos de nossa prática processual gerou, no IRDR, um instituto aprimorado com características próprias e com alto potencial de enfretamento da enorme crise da justiça civil gerada pela moderna sociedade dominada pela litigiosidade de massa, crescente numa progressão avassaladora, a desafiar a capacidade de absorção pelas estruturas arcaicas da justiça estatal. Como toda inovação jurídica de grandes dimensões, o IRDR vem despertando intensos debates em torno dos mais variados aspectos, desafiando os processualistas a investigar e definir, com maior precisão, as características e o papel atribuídos ao novel incidente processual. Nessa perspectiva, a obra que o Professor Aluisio Gonçalves de Castro Mendes está lançando apresenta-se como um esforço vitorioso e exemplar, visto que logra não só definir e posicionar o IRDR dentro das estruturas do processo civil brasileiro, como correlacioná-lo, no âmbito do direito comparado, com figuras afins já praticadas no estrangeiro. Ciente de que o direito é um produto histórico cultural, o autor, com propriedade, expõe os antecedentes nacionais do instituto inovador do CPC/2015, com exploração de interessantes apanhados jurisprudenciais. Já à luz do instituto, tal como modelado pelo direito positivo atual, o autor cuida de precisar-lhe a natureza e de analisar seus pressupostos processuais, seu cabimento e seus requisitos, levando em conta, ainda, a legitimação para provocar o incidente e a competência para admiti-lo, processá-lo e julgá-lo. A abordagem dos aspectos procedimentais é ampla e minuciosa. Apenas a título de exemplificação, podem ser destacados títulos como os relacionados com a técnica da fixação da tese jurídica assentada no julgamento do IRDR; com a importância do contraditório ampliado; com o sistema recursal a observar. É notável a demonstração da constitucionalidade dos mecanismos de julgamento por amostragem e da força vinculante das teses assim enunciadas pelos tribunais superiores. Objeções como “violação da separação entre os Poderes”, “ofensa aos princípios do acesso à justiça e ao contraditório”, violação à liberdade do “exercício do direito de ação”, são todas convincentemente rebatidas. Nesse terreno, merece ser registrada a existência de objeção que condiciona o cabimento do IRDR à existência de processos em curso no tribunal, ao argumento de que sua suscitação com base em procedimentos ainda no 1º grau de jurisdição ofenderia a definição de competência dos tribunais feita pela Constituição. A rejeição desse entendimento foi adequadamente formulada pela tese ora editada, diante da demonstração de que a Constituição não trata da matéria como objeto de reserva exclusiva da ordem constitucional. A própria Constituição deixa o tema a cargo de legislação infraconstitucional. Ademais, quando a evolução da ordem jurídica teve de inovar ou acrescer competências para os tribunais superiores, o STF não viu nisso ofensa à Constituição, como bem demonstrado pelo Professor Castro Mendes. A nosso ver, uma conclusão geral sobre o tema, pode ser estabelecida levando em conta a posição histórica e sistemática adotada pela Suprema Corte: as atribuições de competência formuladas pela Constituição, sem dúvida, representam um mínimo que o legislador ordinário não pode ignorar e, muito menos, reduzir. Não há, porém, vedação na Constituição a que odos processos escolhidos, ocorre perante o órgão judicial de primeiro grau. Deve-se consignar, todavia, que a primeira instância é composta de tribunais colegiados, permitindo-se, entretanto, em determinados casos, que o processamento e o julgamento possam ocorrer monocraticamente. Embora a norma não impeça expressamente a possibilidade do procedimento-modelo ser delegado ao juiz presidente ou relator11, a hipótese de transferência para o processamento e decisão por juiz singular não parece ser a mais conveniente, em razão de alguns motivos. O primeiro é que, no § 93a (2), 1, se estabelece que, após o julgamento definitivo transitado em julgado no(s) procedimento(s)-modelo (Musterverfahren), poderá haver uma decisão extensiva aos processos que estavam suspensos, desde que por unanimidade. Portanto, não faria sentido se exigir um julgamento colegiado, nas decisões subsequentes, sem que o mesmo ocorra no processo paradigmático a ser seguido. Em segundo lugar, o estatuto (VwGO, § 6, (1), 1 e 2) prevê que, como regra, haja a 4.3. transferência do processamento e do julgamento ao juiz singular integrante da câmara, quando (1) a questão não apresentar complexidade, de fato ou de direito; (2) a questão não requerer aplicação de princípio, hipóteses que poderão ocorrer no Musterverfahren. Entretanto, ainda que improvável e em caráter excepcional, a delegação poderá existir, com base no § 87a, (2) e (3), para o presidente ou para o relator, se houver concordância das partes12. É importante registrar que não se prevê, pelo menos no formato do procedimento-padrão perante a Jurisdição Administrativa, bem como no da Previdência e Assistência Social, qualquer regra especial de competência ou mesmo quanto ao seguimento e julgamento do procedimento-padrão. Portanto, o tribunal de primeiro grau é quem realizará o juízo de admissibilidade, bem como o processamento, instrução e julgamento do Musterverfahren. Do mesmo modo, prevalecerão as regras gerais para o procedimento-modelo no âmbito recursal. PROCESSAMENTO E JULGAMENTO DO MUSTERVERFAHREN E DOS NACHVERFAHREN Na segunda parte13, preocupou-se o legislador em regular os efeitos e desdobramentos do procedimento-padrão nos processos individuais que ficaram suspensos. Com o trânsito em julgado da sentença ou do acórdão proferido no procedimento-padrão, o tribunal de primeira instância, depois de ouvir as partes, poderá mediante simples decisão se pronunciar sobre o mérito nos processos individuais se considerar, por unanimidade, que estes não possuem peculiaridades essenciais, fáticas ou jurídicas, em relação ao(s) julgamento(s)-- modelo. As partes deverão ser intimadas deste pronunciamento, que poderá ser impugnado mediante apelação. O legislador alemão, corretamente, preocupou-se, no regramento aprovado em 1990, com o duplo controle quanto à verificação da identidade das questões fáticas e/ou jurídicas existentes nos processos paradigmáticos e os sobrestados. A primeira verificação é feita quando da suspensão do processo. Em seguida, após o julgamento do procedimento-modelo, a norma legal exige que haja nova 1 apreciação, determinando que se faça por decisão colegiada a verificação quanto à existência ou não de peculiaridades essenciais, fáticas ou jurídicas, bem como se os fatos pertinentes aos processos suspensos foram devidamente esclarecidos, tudo considerando os processos-modelo já decididos. Esta decisão deve ser precedida da manifestação das partes e os tribunais somente poderão considerar os processos sobrestados em condição de julgamento imediato, ou seja, afastando a existência de particularidades essenciais ou a necessidade de se prosseguir com a dilação probatória, se for tomada por unanimidade. O órgão judicial poderá também determinar a introdução de provas produzidas no procedimento-modelo em outros processos, bem como ordenar a realização de novas provas, dentre as quais depoimentos de testemunhas ou mesmo perícia pelo mesmo perito ou por outro. Igualmente, o tribunal poderá denegar a produção de novas provas acerca de fatos que tenham sido demonstrados no(s) procedimento(s)-modelo, segundo a sua livre convicção, e retarde a solução do litígio. Verwaltungsgerichtsordnung (VwGO), § 93a: (1) Ist die Rechtmäßigkeit einer behördlichen Maßnahme Gegenstand von mehr als zwanzig Verfahren, kann das Gericht eines oder mehrere geeignete Verfahren vorab durchführen (Musterverfahren) und die übrigen Verfahren aussetzen. Die Beteiligten sind vorher zu hören. Der Beschluß ist unanfechtbar. (2) Ist über die durchgeführten Verfahren rechtskräftig entschieden worden, kann das Gericht nach Anhörung der Beteiligten über die ausgesetzten Verfahren durch Beschluß entscheiden, wenn es einstimmig der Auffassung ist, daß die Sachen gegenüber rechtskräftig entschiedenen Musterverfahren keine wesentlichen Besonderheiten tatsächlicher oder rechtlicher Art aufweisen und der Sachverhalt geklärt ist. Das Gericht kann in einem Musterverfahren erhobene Beweise einführen; es kann nach seinem Ermessen die wiederholte Vernehmung eines Zeugen oder eine neue Begutachtung durch denselben oder andere Sachverständige anordnen. Beweisanträge zu Tatsachen, über die bereits im Musterverfahren Beweis 2 3 4 erhoben wurde, kann das Gericht ablehnen, wenn ihre Zulassung nach seiner freien Überzeugung nicht zum Nachweis neuer entscheidungserheblicher Tatsachen beitragen und die Erledigung des Rechtsstreits verzögern würde. Die Ablehnung kann in der Entscheidung nach Satz 1 erfolgen. Den Beteiligten steht gegen den Beschluß nach Satz 1 das Rechtsmittel zu, das zulässig wäre, wenn das Gericht durch Urteil entschieden hätte. Die Beteiligten sind über dieses Rechtsmittel zu belehren. Sozialgerichtsgesetz (SGG), § 114a: (1) Ist die Rechtmäßigkeit einer behördlichen Maßnahme Gegenstand von mehr als 20 Verfahren an einem Gericht, kann das Gericht eines oder mehrere geeignete Verfahren vorab durchführen (Musterverfahren) und die übrigen Verfahren aussetzen. Die Beteiligten sind vorher zu hören. Der Beschluss ist unanfechtbar. (2) Ist über die durchgeführten Musterverfahren rechtskräftig entschieden worden, kann das Gericht nach Anhörung der Beteiligten über die ausgesetzten Verfahren durch Beschluss entscheiden, wenn es einstimmig der Auffassung ist, dass die Sachen gegenüber dem rechtskräftig entschiedenen Musterverfahren keine wesentlichen Besonderheiten tatsächlicher oder rechtlicher Art aufweisen und der Sachverhalt geklärt ist. Das Gericht kann in einem Musterverfahren erhobene Beweise einführen; es kann nach seinem Ermessen die wiederholte Vernehmung eines Zeugen oder eine neue Begutachtung durch denselben oder andere Sachverständige anordnen. Beweisanträge zu Tatsachen, über die bereits im Musterverfahren Beweis erhoben wurde, kann das Gericht ablehnen, wenn ihre Zulassung nach seiner freien Überzeugung nicht zum Nachweis neuer entscheidungserheblicher Tatsachen beitragen und die Erledigung des Rechtsstreits verzögern würde. Die Ablehnung kann in der Entscheidung nach Satz 1 erfolgen. Den Beteiligten steht gegen den Beschluss nach Satz 1 das Rechtsmittel zu, das zulässig wäre, wenn das Gericht durch Urteil entschieden hätte. Die Beteiligten sind über das Rechtsmittel zu belehren. No link , encontra--se a tradução em inglês do parágrafo 93a do Estatuto da Jurisdição Administrativa. Os estatutos legais alemães se utilizam tradicionalmente de parágrafos (§), em vez de artigos, embora a Grundgesetz (GG), ou seja, a Lei Fundamental ou Constituição, se utilize destes últimos. https://www.gesetze-im-internet.de/englisch_vwgo/index.html5 6 7 8 9 10 11 12 13 A tradicional denominação test claim parece, de fato, ser menos apropriada, pois perpassa a ideia de algo experimental, dotado de provisoriedade. No entanto, os casos escolhidos seriam processados e julgados, com caráter definitivo, com a aplicação da ratio decidendi aos demais casos. Parágrafos 93a da VwGO e 114a da SGG. A norma administrativa (93a), em vigor desde 01.01.1991, previa, inicialmente, um número maior que 50 processos. Entretanto, o parâmetro foi modificado para mais de 20 procedimentos, com a aprovação da 6. VwGoÄndG (BGBl. I S 1626), que entrou em vigor em 01.01.1997. KRUPPA, Jan J. Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz (KapMuG) – Bestandsaufnahme und Perspektiven, Hamburg: Kovac, 2011, p. 93-94. Vide a decisão em http://www.dfld.de/Presse/LaO/2008/081103a.pdf, acessado em 11.11.2016. Mencionada por Jan J. Kruppa, na obra supramencionada, p. 94-95. Vide: . Acesso em: 11 nov. 2016. Mencionada por Jan J. Kruppa, na obra mencionada, p. 94. Estas são as duas possibilidades previstas no § 87a (2) e (3). A regra atualmente, por força do § 6 da VwGO, é de que a câmara transfira o litígio a um dos seus membros, para que processe e julgue monocraticamente, se, nos termos da alínea (1), itens 1 e 2, a questão não apresentar complexidade, de fato ou de direito; e a questão não requerer a aplicação de um princípio. Vide sobre a questão: Schoch/Schneider/Bier/Rudisile, Verwaltungsgerichtsordnung: VwGO – Loseblatt-Kommentar. 31. Auf., Munique: C. H. Beck, 2016, § 93a Rn. 12. Parágrafos 93a da VwGO e 114a da SGG. http://www.dfld.de/Presse/LaO/2008/081103a.pdf http://www.dfld.de/Presse/LaO/2008/081103a.pdf 5.1. A lei sobre procedimento-padrão para os litígios jurídicos envolvendo o mercado de capitais (Gesetz über Musterverfahren in kapitalmarktrechtlichen Streitigkeiten – KapMuG)1 previu, em linhas gerais, um sistema também calcado na possibilidade de julgamento de um caso-piloto, contendo questões jurídicas ou fáticas comuns a outros processos. Estabeleceu, assim como descrito no item anterior, que o julgamento do caso-modelo servirá como paradigma para o julgamento dos processos individuais, que permaneceriam suspensos durante o processamento e julgamento do procedimento-padrão. A KapMuG fixou, entretanto, um conjunto de regras específicas, o que acabou criando uma razoável diferença entre este sistema e o descrito no capítulo anterior2. Em linhas gerais, o incidente pode ser resumido em três fases, que correspondem às três seções da lei. A primeira, perante o órgão de primeiro grau, no qual é formulado e apreciado um requerimento de admissibilidade, havendo a determinação de publicidade, em caso de deferimento. A segunda consiste no processamento e julgamento do caso-piloto pelo tribunal de segundo grau. Por fim, na terceira fase, os processos individuais serão julgados em conformidade com o entendimento firmado no caso-modelo. A FASE DE ADMISSIBILIDADE DA INSTAURAÇÃO DO PROCEDIMENTO-PADRÃO (MUSTERVERFAHREN) No regime do mercado mobiliário, não se previu, como no âmbito da jurisdição administrativa e também no da previdência e assistência social, a determinação de ofício do incidente de julgamento padrão. Mas, sim, o requerimento, que poderá ser formulado tanto por autores como por demandados, perante o próprio juízo de primeira instância. O objeto da demanda poderá ser apenas uma pretensão de condenação em perdas e danos ou de cumprimento de um contrato relacionado com o mercado de capitais. O requerente da declaração padrão (Musterfestellung) deverá indicar o objetivo da declaração e as informações públicas pertinentes ao mercado de capitais, bem como as situações fáticas e meios de prova que pretende produzir. Deverá ainda demonstrar que o processo possui um significado para a resolução de questões jurídicas que se encontram na mesma situação. O órgão judicial deverá oportunizar a manifestação da parte contrária sobre o requerimento de instauração do procedimento-padrão. Nos termos do inciso 1 do 3º parágrafo, o requerimento de declaração- padrão deve ser rejeitado, em decisão irrecorrível, quando a decisão do conflito não depender da declaração pretendida; o meio de prova indicado for inapropriado; não se demonstrar que a decisão padrão terá significado para a solução de outros conflitos; ou o pedido de declaração-padrão servir para manobras protelatórias. O requerimento de procedimento-padrão admitido deve se tornar publicamente conhecido mediante inserção no órgão oficial federal (Bundesanzeiger), com a indicação dos principais dados, conforme indicado no inciso 2 do § 3º da referida lei. O processo-padrão será também objeto de inscrição em um registro eletrônico e de acesso gratuito, segundo a Lei de Procedimento-padrão de conflitos no mercado mobiliário. A comunicação deve conter a descrição das partes litigantes e dos seus representantes legais, dos investidores e acionistas interessados no procedimento-padrão, o órgão judicial, o número do processo e a data da inserção no registro (Klageregister). Os requerimentos que tiverem fundamento comum, envolvendo idêntico bem da vida, deverão ser registrados na mesma sequência, não havendo a necessidade de repetição da comunição no órgão oficial. 5.2. O Ministério da Justiça possui a incumbência de regulamentar e controlar o cadastro3 (registro) dos procedimentos-padrão, cujo acesso será gratuito, devendo-se zelar, contudo, pelo cumprimento das normas referentes ao tratamento de dados e bancos de informação, bem como pela segurança do sistema. O órgão judicial tem a responsabilidade, contudo, pela veracidade e correção dos dados informados ao cadastro. Os dados serão apagados em caso de inadmissibilidade ou após a conclusão do procedimento-padrão. Com a publicação da comunicação da existência do requerimento do procedimento-padrão, o processo, no qual se instaurou o incidente, será suspenso. Em seguida, se forem formulados pelo menos mais nove requerimentos4 de instauração de procedimento-padrão, com o mesmo fundamento, em qualquer comarca, no prazo de seis meses, a contar da publicação mencionada, o órgão judicial perante o qual foi apresentado o primeiro requerimento de instauração de procedimento-padrão admitido proferirá uma decisão, irrecorrível, fixando os pontos controvertidos comuns a serem decididos pelo respectivo tribunal de segundo grau (Oberlandesgericht). Se no referido prazo de seis meses não houver o ajuizamento de mais nove requerimentos de procedimento-padrão em demandas homogêneas, o incidente de julgamento padrão será revertido, dando-se continuidade ao processamento e julgamento como simples processo individual. PROCESSAMENTO DO PROCEDIMENTO-PADRÃO (DURCHFÜHRUNG DES MUSTERVERFAHRENS) A decisão de admissibilidade será publicada no Klageregister, produzindo a suspensão de todos os processos individuais já ajuizados ou que venham a ser instaurados até o trânsito em julgado da decisão-padrão, que dependam do julgamento da questão-padrão, e os autos remetidos para o tribunal de segundo grau (Oberlandesgericht). O legislador alemão introduziu importante inovação, quanto à prescrição, na versão vigente (2012/2013), em razão das modificações introduzidas na Lei do Procedimento-Padrão no Mercado Mobiliário KapMuG (§ 10 Abs. 2) e no Código Civil (Bürgerliches Gesetzbuch – BGB – § 204 Abs. 1 n. 6a). Pelas novas regras, os titulares de pretensões, as quais dependam do julgamento do procedimento-padrão, mas que aindanão tenham ajuizado as suas respectivas demandas, poderão inibir o prazo prescricional mediante a notificação (Zustellung) do seu requerimento de inscrição no registro do Musterverfahren, desde que proponham a sua ação dentro do prazo de até três meses após o trânsito em julgado da decisão-padrão (Musterentscheid). Prosseguindo no procedimento-padrão, o Oberlandesgericht efetuará, em decisão irrecorrível, a escolha das partes, dentre aqueles processos que tramitavam perante o juízo de origem, que figurarão como autor (Musterkläger) e réu (Musterbeglagte) no incidente, sem prejuízo da condição e participação dos demais interessados na condição de intervenientes (Beigeladenen). Na seleção, o tribunal levará em conta o valor da pretensão, o objeto do procedimento padrão e o entendimento da maioria dos autores em relação a quem deverá ser o autor- líder do procedimento padrão (Musterkläger). Os autores e réus dos processos suspensos serão considerados intervenientes no procedimento-padrão, nos termos do § 9, (3), da KapMuG, que estabelece ainda que os custos proporcionais do procedimento-padrão serão incluídos nas despesas de cada processo individual. Entretanto, a norma dispõe expressamente que os intervenientes não precisam ser mencionados nos despachos e decisões. A intimação dos intervenientes para os atos processuais e audiências poderá ser feita mediante comunicação pública, servindo para tal finalidade a realizada pela divulgação no Klageregister. Para tanto, entre a comunicação e o dia da audiência, haverá um prazo dilatório mínimo de quatro semanas. A lei prevê que, não havendo disposições específicas em contrário, serão aplicadas as regras da Zivilprozessordnung (Código de Processo Civil alemão). Há também a previsão expressa da possibilidade de introdução de autos virtuais, com processamento eletrônico, em conformidade com regras regulamentares a serem fixadas, no âmbito das suas atribuições, pela União e pelos Estados. Em preparação à audiência, estabelece a lei que o presidente, ou um outro membro por ele designado, do tribunal de 2º grau poderá fixar um prazo para que os intervenientes possam complementar as alegações e esclarecer os pontos controvertidos, dando-se ciência e abrindo-se, em seguida, a oportunidade de contraditório ao autor e réu do procedimento-padrão. As manifestações dos participantes (autor, réu e intervenientes) do procedimento-modelo e as decisões interlocutórias proferidas pelo Tribunal de 2º Grau serão introduzidas e conhecidas mediante sistema eletrônico de informações, acessível apenas aos sujeitos processuais do Musterverfahren, nos termos do § 12 (2). A desistência superveniente por parte de um dos requerentes do procedimento-padrão não terá qualquer efeito na tramitação do caso-piloto. Mas, se proveniente do autor-condutor (líder) do procedimento-padrão, assim como em razão da perda superveniente da capacidade para ser parte, processual ou postulatória, como a morte do autor ou a sua incapacidade, ou mesmo em função da instauração de um processo de insolvência, o tribunal deverá indicar um outro autor-condutor para o procedimento-padrão. A desistência por parte de um dos intervenientes também não produzirá qualquer modificação na tramitação do procedimento-teste. No processamento do procedimento-piloto, o legislador previu que os intervenientes receberão, no momento da sua intervenção, o processo no estado em que se encontra. Estarão autorizados a utilizar de todos os meios e instrumentos de postulação e defesa, bem como participar de todos os atos processuais, desde que as suas manifestações e condutas não contrariem a parte principal, ou seja, o autor ou o réu (Musterkläger ou Musterbeklagter). Em relação ao objeto da declaração do procedimento-padrão, poderão o autor, o réu e os intervenientes do caso-piloto requerer, até o término deste, que o tribunal se pronuncie também sobre outros pontos controvertidos, quando o julgamento dos processos individuais depender da apreciaçãos destas questões não apontadas inicialmente. A decisão quanto ao cabimento e utilidade do alargamento do objeto do procedimento-padrão será proferida pelo órgão de origem (de primeiro grau), sendo irrecorrível e ficando vinculado o tribunal de segundo grau, nos termos do § 15 da KapMuG, que providenciará, junto ao Klageregister, a publicidade da decisão pertinente à extensão dos pontos comuns a serem apreciados. Em continuidade e tendo em vista o procedimento oral seguido, o tribunal irá proferir, ao final, uma decisão-padrão (Musterentscheid) sobre os pontos controvertidos anteriormente definidos e que são fundamentais e prejudiciais para a apreciação dos processos individuais suspensos. Neste pronunciamento, não deve haver menção aos nomes dos intervenientes. As partes devem ser intimadas da decisão-padrão, inclusive mediante publicação. Na versão anterior da KapMuG, a lei germânica proibia que o procedimento-padrão fosse encerrado mediante composição das partes, salvo se estivessem acordes todos os sujeitos do processo, ou seja, autor, réu e intervenientes, conforme previsto na parte final da alínea 3 do § 14 da KapMuG anteriormente vigente. No texto atual, o legislador alemão adotou uma importante inovação, ao inserir um sistema de comunicação da proposta de acordo, com a possibilidade de autoexclusão (opt out – Austritt em alemão) por parte dos interessados. O § 17 estabelece que autor e réu do procedimento-padrão poderão formular uma proposta de acordo ou aceitar uma proposição do tribunal, com o objetivo de encerrar o procedimento-padrão e o processo originário. No entanto, a proposição deve ser levada ao conhecimento dos interessados, que terão a oportunidade de se manifestar, no prazo de um mês após a comunicação da proposta de acordo, requerendo a sua exclusão, se não concordarem com a oferta, nos termos do § 19 da KapMuG. Para que o acordo seja homologado, estabeleceu-se, no § 17, como limite que menos de 30% (trinta por cento) dos interessados exerçam o direito de autoexclusão. Portanto, se este percentual for atingido, a proposta de conciliação não será acolhida. Não havendo pedidos de exclusão ou se estes não alcançarem o percentual indicado, apenas os que manifestarem a exclusão ficarão desvinculados do acordo firmado e que será homologado, incidindo sobre todos os interessados que não manifestaram, tempestivamente, a sua contrariedade em relação à composição. O recurso cabível contra a decisão-padrão (Musterentscheid) é a Rechtsbeschwerde, que, neste caso, possui uma função equiparável ao nosso recurso ordinário. Isso porque a Rechtsbeschwerde, nos termos do § 574 do Código de Processo Civil alemão (ZPO), é cabível não apenas com a função de uniformização do direito, mas também quando os tribunais de segundo grau decidem valendo-se da sua competência originária, ou seja, como órgão de primeira instância. No caso, o Tribunal de Justiça (Oberlandesgericht) processa e julga o Musterverfahren em primeira instância, resolvendo, como supramencionado, questões comuns de direito ou de fato. Portanto, em tese, o recurso em questão tem esta potencial natureza dúplice. Na prática, contudo, é de esperar que as questões de direito tenham prevalência tanto na decisão inicialmente adotada pelo Tribunal de Justiça, como no pronunciamento a ser proferido pelo Bundesgerichtshof (BGH, equivalente ao Superior Tribunal de Justiça brasileiro), composto de 128 membros. A Rechtsbeschwerde poderá ser interposta por qualquer um dos sujeitosprocessuais do procedimento-modelo (autor, réu e intervenientes). Não poderá, entretanto, ser impugnado o pronunciamento de admissibilidade do procedimento-piloto efetuado pelo juízo de origem. O BGH comunicará os interessados (autores dos processos individuais suspensos), mediante aviso público no Cadastro de Procedimentos-Padrão (Klageregister), que terão um prazo peremptório de um mês, a contar da comunicação, para requererem, se assim o desejarem, o ingresso na condição de intervenientes no processo de julgamento da Rechtsbeschwerde. No âmbito do processamento e julgamento da Rechtsbeschwerde, os interesses das partes serão representados por condutores ou líderes, denominados, respectivamente, de Musterrechtsbeschwerdeführer e Musterrechtsbeschwerdegegner (parte recorrente e recorrida do procedimento- padrão). Se o recorrente era o líder, permanecerá, como regra nesta condição, ressalvando-se, aqui, também as possibilidades de sucessão ou substituição já ventiladas. Mas, se o recurso foi interposto por um, ou vários, dos intervenientes da fase anterior, será designado como condutor do recurso o que efetuara a interposição da primeira Rechtsbeschwerde. 5.3. VINCULAÇÃO DA DECISÃO-PADRÃO (WIRKUNG DES MUSTERENTSCHEIDS) A questão da vinculação parece ser um ponto central5 para o procedimento padrão, tanto para o direito alemão quanto para esta espécie de instrumento e também para as demais que compõem o denominado Direito Processual Coletivo. Especialmente se considerados os efeitos produzidos, em termos de vinculação, para os que não participaram efetivamente do processo. Portanto, o cotejo das soluções dadas no direito estrangeiro com as possibilidades existentes no direito brasileiro pode ser muito útil para o aprofundamento do estudo e do debate sobre o tema, que sempre foi de enorme relevância no âmbito das ações coletivas, dos acordos coletivos e dos procedimentos-padrão, inclusive no novel IRDR brasileiro, como se verá no momento oportuno. A Lei do Procedimento-Modelo para os litígios no mercado de capitais (KapMuG) é expressa, no seu § 22, no sentido de que a decisão modelo (Musterentscheid) vincula os órgãos judiciais, em relação ao julgamento dos processos que foram suspensos e que dependem da solução da pertinente declaração ou interpretação da questão jurídica decidida no procedimento-- padrão6. A decisão proferida no procedimento-padrão produzirá efeitos a favor ou contra todos os participantes do Musterverfahren, sejam as partes principais (Musterkläger e Musterbelagten) ou os interessados (Begeladenen). Do mesmo modo, ficam vinculados se tiverem manifestado a desistência apenas após o prazo definido no § 24, ou seja, de um mês após a comunicação da suspensão dos processos. Embora tenha adotado o efeito vinculante para todos os sujeitos processuais, conferiu-se tratamento parcialmente diferenciado entre os que foram parte no procedimento-padrão, ou seja, autor e réu do processo piloto (Musterkläger e Musterbeklagten), e os interessados dos processos suspensos (Beigeladenen)7. Em relação ao autor e réu do procedimento-padrão propriamente dito, não houve qualquer previsão restritiva quanto à vinculação, razão pela qual a doutrina vem apontando que o tratamento conferido foi o da coisa julgada. 1 Quanto aos Beigeladenen (que tiveram os seus processos individuais suspensos por força da instauração do incidente de procedimento-modelo), a lei alemã previu expressamente em que hipótese se poderá afastar o efeito vinculativo nos processos individuais em face de demandado comum. Trata-se de uma atuação viciada do autor do procedimento-modelo, se os intervenientes, na situação e no tempo em que intervieram, foram impedidos de se pronunciar ou utilizar dos meios processuais de ataque e defesa cabíveis ou, por desconhecimento, tenham deixado de se valer também destes meios, que não foram usados pela parte principal por dolo ou falta grave. Vide, dentre outras referências, os seguintes trabalhos sobre o Musterverfahren no âmbito do mercado mobiliário: BERGMEISTER, Felix. Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz (KapMuG). Tübingen: Mohr Siebeck, 2009; GEIGER, Caroline. Die Gruppenklage im Kapitalmarktrecht. Tübingen: Mohr Siebeck, 2015; HALFMEIER, Axel; ROTT, Peter; FEESS, Eberhard. Kollektiver Rechtsschutz im Kapitalmarktrecht. Frankfurt School Verlag, 2010; HANISCH, Brigitte. Das Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz (KapMuG). Baden-Baden: Nomos, 2011; HEITZIG, Markus. Das Kapitalanleger- Musterverfahrensgesetz als Lösung zur Bewältigung von Massenverfahren. Westfälische Wilhelms-Universität, 2010; HESS, Burkhard; REUSCHLE, Fabian; RIMMELSPACHER, Bruno (Hrsg.) Kölner Kommertar zum KapMuG. 2. Auf. Köln: Carl Heimanns, 2014; HEUFE, Stephanie. Das Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz (‚KapMuG‘). Berlin: Duncker & Humblot, 2012; KESKE, Sonja E.. Group Litigation in European Competition Law: A Law and Economics Perspective. Intersentia, 2010; KILIAN, Thomas. Ausgewählte Probleme des Musterverfahrens nach dem KapMuG. Baden-Baden: Nomos, 2007; KRENZER, Sina. Die Grundzüge des deutschen Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetzes (KapMuG) & der Fall Deutsche Telekom. GRIN Verlag, 2010; KRUPPA, Jan J. Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz (KapMuG) – Bestandaufnahme und Perspektiven. Hamburg: Dr. Kovac, 2011; LESER Christoph. Die Bindungswirking des Musterentscheids nach dem 2 3 4 5 Kapitalanlegermusterverfahrensgesetz. Baden-Baden: Nomos, 2014; PRUSSEIT, Peter. Die Bindungswirkung des Musterentscheides nach dem KapMuG. Sierke Verlag, 2009; RAU, Carina. Das Kapitalanleger- Musterverfahrensgesetz vor dem Hintergrund von Dispositions-und Verhandlungsgrundsatz. Hamburg: Dr. Kovac, 2008; REUSCHLE, Fabian. Das Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz – KapMuG: Erläuterung – Texte – Materialien. Bundesanzeiger(Verlag), 2005; RÖSSLER, Eberhard. Das Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz (KapMuG) unter besonderer Berücksichtigung der rechtlichen Stellung der Beigeladenen. Hartung- Gorre (Verlag), 2008; SCHILLING, Alexander. Das Kapitalanleger- Musterverfahrensgesetz und die class action im Rechtsvergleich. Hamburg: Dr. Kovac, 2010; STEINBERGER, Elisabeth. Die Gruppenklage im Kapitalmarktrecht. Baden- Baden: Nomos, 2016; VORWERK, Volkert; WOLF, Christian. Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz. C. H. Beck, 2007. Para uma análise (crítica) em termos de adequação dos instrumentos coletivos, inclusive da KapMuG, em relação ao sistema jurídico alemão: GOTTWALD, Peter. Kollektiver Rechtsschutz in Deutschland – nur KapMuG oder mehr? In: MIKROULEA Alexandra et alii (org.), Festschrift für Nikolaos Klamaris, v. II, Atenas: Sakkoulas, 2016. O cadastro é mantido junto ao Bundesanzeiger, uma espécie de imprensa oficial, que possui diversas atribuições de registro e comunicação. A interpretação desta exigência ensejou dúvida, no sentido de se saber se precisavam ser, ao todo, dez requerimentos formulados por autores de processos diversos ou não, ou seja, se litisconsortes do mesmo processo poderiam ser contabilizados, individualmente, para o fim de totalizar o número estabelecido. O Bundesgerichtshof (BGH) decidiu no sentido da possibilidade do número ser contado por litisconsorte. Desse modo, um único requerimento subscrito por dez litisconsortes já satisfaria o requisito numérico. BGH, Beschluss vom 16.06.2009, NJW 2009, 2539-2541. Vide KRUPPA, Jan J. Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz (KapMuG) – Bestandsaufnahme und Perspektiven, cit., p. 42-43. A importância do tema foi sentida porinúmeros autores alemães. Vide, dentre outros:LESER, Christoph. Die Bindugswirkung des Musterentscheids nach dem kapitalan- legermusterverfahrensgesetz, Baden-Baden: Nomos, 2014. Esta obra foi concluída no final de 2008, quando ainda vigente a redação anterior da KapMuG. Entretanto, foi 6 7 atualizada, em termos de literatura e julgados, até setembro de 2013, recebendo ainda, na parte final, um novo capítulo, no qual se abordou a reforma da KapMuG e o novel § 22. Há grande controvérsia na doutrina alemã sobre a terminologia e a natureza desta vinculação, especialmente em relação aos interessados, que tiveram os seus processos suspensos. Nesse sentido: HESS, Burkhard; REUSCHLE, Fabian; RIMMELSPACHER, Bruno. Kölner Kommentar zum KapMuG: Gesetz über Musterverfahren in kapitalmarktrechlichen Streitigkeiten (Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz – KapMuG), cit.; HALFMEIER, Axel, Zur Neufassung des KapMuG und zur Verjährungshemmung bei Prospekthaftungsanspruchüchen, Der Betrieb, n. 38, 2012, p. 2145 e ss.; e também a obra mencionada na nota anterior. HESS, Burkhard; REUSCHLE, Fabian; RIMMELSPACHER, Bruno, cit. Capítulo 6 A GROUP LITIGATION ORDER DO DIREITO BRITÂNICO1 O século XX termina com uma grande novidade para o direito na Inglaterra e no País de Gales, com a aprovação e entrada em vigor de um Código de Processo Civil, denominado Rules of Civil Procedure. Com a nova legislação, passam os ingleses a contar com um sistema de normas escritas no âmbito do direito processual civil, em substituição aos costumes e regras específicas editadas pelas diversas cortes. Para a elaboração do Código, em vigor desde 26 de abril de 1999, segundo José Carlos Barbosa Moreira2, foi “dado o passo decisivo em 1994, quando o então Lord Chancellor incumbiu eminente magistrado, Lord Woolf of Barnes, de empreender pesquisa relativa à situação da Justiça civil inglesa e de oferecer sugestões para melhorar-lhe o desempenho, ao qual se irrogavam defeitos do gênero lamentados mundo afora, em tantos outros sistemas judiciais: excessiva lentidão, custo exorbitante, desnecessária complexidade e consequentes incertezas. O trabalho levado a cabo por Lord Woolf achou expressão em dois relatórios sobre o acesso à Justiça, o Interim Report de 1995 e o Final Report do ano subsequente, cujas conclusões suscitaram, como era de esperar, reações contrastantes, variáveis entre um apoio entusiástico e uma veemente rejeição. Entretanto, o Civil Procedure Act de 1997 anunciava o próximo advento de um código unifi-cador; e a mudança de governo, com a ascensão dos trabalhistas ao poder, não arrefeceu o ímpeto reformista. Designado para reexaminar o assunto, Sir Peter Middleton elaborou novo relatório, publicado naquele mesmo ano, onde se recomendava a adoção das soluções propostas por Lord Woolf, com algumas modificações”. Lord Woolf, que exercia as suas funções judicantes na presidência da Seção Civil da Court of Appeal, estava particularmente preocupado com os litígios que causavam problemas para o sistema judiciário civil e em desenvolver novos mecanismos que incrementassem o acesso à Justiça, e, dentro deste contexto, as providências relacionadas com as ações denominadas multipartidárias mereciam destaque acentuado3. As novas regras processuais deveriam, conforme mencionado no item 2 do Capítulo 17, denominado Multi-Party Actions, do Relatório Final do Lord Woolf, alcançar os seguintes objetivos: a) providenciar o acesso à Justiça, quando um grande número de pessoas fosse afetado pela conduta de outra, mas o dano individual fosse diminuto a ponto de tornar economicamente inviável a propositura de uma ação individual; b) propiciar métodos expeditos, efetivos e proporcionais para a resolução de casos em que os prejuízos individuais sejam grandes o suficiente para justificar demandas singulares, mas que não podem ser satisfatoriamente conduzidos com os procedimentos normais, tendo em vista o número de autores e a natureza das questões envolvidas; c) atingir um equilíbrio entre os direitos de autores e réus, que seriam normalmente exercidos em termos de persecução e defesa, e os interesses de um grupo para exercer, como um todo, o seu direito de ação, de modo efetivo4. O Código inglês de Processo Civil faz parte, na verdade, de um grande projeto de reforma do sistema judicial civil da Inglaterra, mudança esta que vem sendo apregoada como a maior dos últimos cem anos5 e que, com a edição do novo estatuto, completou a sua primeira e mais importante fase. As Rules of Civil Procedure encontram-se dispostas em partes, além de disposições complementares, como Schedules, Index e um glossário. Para cada parte há, também, uma respectiva diretriz prática (practice direction), que, muitas vezes, serve, expressamente, como complemento para as rules. Mas o Código de Processo Civil inglês não representou uma inovação apenas para os ingleses ou para a common law. O novo estatuto, refletindo as preocupações contidas nos relatórios de Lord Woolf, fez questão de incorporar no seu texto normas expressamente dispostas sobre demandas coletivas, principalmente concentradas na Part 19, sob a denominação de parties andgroup litigation. O título encontra-se subdividido em três seções específicas, além da Norma 19.1, que se pretende geral: addition and substitution of parties, representative parties e group litigation. As Seções II e III estão diretamente relacionadas com o tema da tutela coletiva, embora apenas a última seja, de fato, uma inovação no direito inglês. As disposições relacionadas com as representative parties marcam a continuidade das representative actions, havendo grandes semelhanças entre as normas anteriormente inscritas na Order 5, Rules 12 e 13, das Rules of the Supreme Court, e os preceitos agora previstos nas Regras 19.66 e 19.77. respectivamente, das Rules of Civil Procedure. A Seção III, do Título 19, das Rules of Civil Procedure é toda destinada à group litigation, embora haja, também, normas relacionadas com o processo coletivo em outras partes do Código, como, v.g., a prevista na Regra 48.6A (5), que diz respeito às custas judiciais. Registre-se, também, que a Practice Direction 19b, destinada à complementação das regras contidas no Código, relacionada com os litígios de grupo, é extremamente importante, sob o aspecto normativo, não se limitando, portanto, a regulamentar as normas previstas no estatuto processual, razão pela qual deve ser vista e estudada em conjunto com as rules. Todavia, encontram-se nas practice directions, tão somente, preceitos relacionados com os litígios de grupo em que os interesses coletivos, em sentido estrito, são pleiteados no polo ativo, embora, pelo Código, seja possível a presença multi-individual também na parte demandada. Nesse caso, as cortes devem formular, quando necessário, as diretrizes cabíveis.8 Segundo as Regras 19.109 e 19.11 (1)10 do Código de Processo Civil inglês, um caso pode receber o tratamento de litígio coletivo – Group Litigation Order (GLO) – sempre que houver pretensões fundadas ou que contenham questões, de fato ou de direito, comuns ou relacionadas (GLO issues). O procedimento coletivo pode ser determinado de ofício pelo órgão judicial11 ou requerido pela parte12, devendo haver, todavia, consulta prévia ao Serviço de Informação sobre Ações Coletivas da Law Society, para se aferir sobre a existência de outros casos relacionados com as questões comuns sugeridas.13 E, caso a autorização para o processamento coletivo seja concedida, devem ser enviadascópias da decisão judicial (order), que a admitiu, para a Law Society e para o Senior Master da Queen’s Bench Division of the Royal Courts of Justice, com o intuito de se dar conhecimento e publicidade sobre a existência da respectiva demanda coletiva, nos termos da diretriz prática nº 11 sobre group litigation. Não há, entretanto, qualquer imposição apriorística e absoluta no sentido de se proceder à notificação das demais pessoas interessadas. Assim sendo, poderão as cortes agir com discrição na avaliação pertinente à necessidade e à viabilidade da notificação. A imposição ou não da obrigatoriedade quanto à comunicação será, como consta dos itens 47 a 50 do relatório final do Lord Woolf, decidida no caso concreto, levando-se em consideração fatores como a sistemática adotada em relação à vinculação dos efeitos (opt-out ou opt-in), a dimensão do grupo, o valor individual das pretensões, os custos estimados para a notificação etc.14. Não obstante as observações contidas no relatório Woolf, as Rules of Civil Procedure acabaram adotando e regulando, principalmente, o sistema do opt-in, centrado na adoção de um registro15, junto à management court, de pretensões que seriam inscritas no referido assentamento e que, por conseguinte, ficariam vinculadas ao julgamento da questão comum. Observe-se, no entanto, que, embora estabelecido o regime sob a forma de opt-in, as possibilidades de atrelamento são muito mais amplas do que as adotadas nos sistemas ordinários de inclusão. Isso porque a vinculação ocorre, de regra, em relação às pretensões que se encontram registradas no momento do julgamento, mas podem ser estendidas, também, a casos que sejam posteriormente inscritos, se a corte assim determinar, como consta na Regra 19.12 (1) do Código de Processo Civil16. Entretanto, a corte poderá estabelecer um prazo para que se efetue, independentemente de permissão específica, o registro de pretensões calcadas na mesma questão comum17. As novas regras são extremamente flexíveis em vários sentidos e conferem amplos poderes aos juízes18. Em primeiro lugar, há que se destacar que o processo pode conter questões predominantemente coletivas e outras de natureza 1 2 3 4 individual, sendo possível, portanto, a repartição do procedimento tendo em vista estas peculiaridades. Ou ainda, como previsto na Rule 19.15,19 pode haver a determinação pela Corte para que haja um processo teste ou modelo (test claim), cujo resultado possui, a priori, efeito vinculante em relação às demais demandas previamente registradas. As questões comuns ou as ações de ensaio devem ser processadas e julgadas por um determinado órgão judicial (management court),20 que ficará prevento para, inclusive, efetuar, também, o registro de pretensões individuais relacionadas com a common question ou com a test claim. Todavia, as questões individuais são normalmente julgadas por tribunais locais, levando em consideração a decisão coletiva ou o resultado da ação de ensaio e eventuais diretrizes formuladas pela management court.21 Por fim, cabe assinalar, ainda, que o estatuto processual inglês fez questão de regular, na Regra 48.6A (costs where the court has made a grouplitigation order), com detalhes, o problema da repartição das custas, diante da formulação de questões coletivas e individuais.22 O presente capítulo tomou como base o que foi anteriormente exposto em MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Ações coletivas e meios de resolução coletiva de conflitos no direito comparado e nacional. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, item 3.2. Uma novidade: o Código de Processo Civil inglês, p. 180. Na Introdução ao Capítulo 17 do Final Report, afirmou Lord Woolf: “The second part of my Inquiry was partly intended to deal with types of litigation causing particular problems for the system of civil justice. It was also designed to examine specific developments which would further access to justice. Clearly the arrangements for multi-party actions must be near the top of the list in both respects”. “The new procedures should achieve the following objectives: (a) provide access to justice where large numbers of people have been affected by another’s conduct, but individual loss is so small that it makes an individual action economically unviable; (b) provide expeditious, effective and proportionate methods of resolving cases, where individual damages are 5 6 7 large enough to justify individual action but where the number of claimants and the nature of the issues involved mean that the cases cannot be managed satisfactorily in accordance with normal procedure; (c) achieve a balance between the normal rights of claimants and defendants, to pursue and defend cases individually, and the interests of a group of parties to litigate the action as a whole in an effective manner.” Nesse sentido são as palavras do Lord Chancellor, no prefácio atualizado do Código: “On 26th April 1999, I introduced the most fundamental change to the civil justice system in England and Wales for over 100 years. This first phase of the civil justice reforms introduced a unified code of civil procedure applicable to all civil courts, ending unnecessary distinctions of practice and procedure between the High Court and the county courts”. “(1) Where more than one person has the same interest in a claim – (a) the claim may be begun; or (b) the court may order that the claim be continued, by or against one or more of the persons who have the same interest as representatives of any other persons who have that interest. (2) The court may direct that a person may not act as a representative. (3) Any party may apply to the court for an order under paragraph (2). (4) Unless the court otherwise directs any judgment or order given in a claim in which a party is acting as a representative under this rule – (a) is binding on all persons represented in the claim; but (b) may only be enforced by or against a person who is not a party to the claim with the permission of the court. (5) This rule does not apply to a claim to which rule 19.7 applies.” “(1) This rule applies to claims about – (a) the estate of a deceased person; (b) property subject to a trust; or (c) the meaning of a document, including a statute. (2) The court may make an order appointing a person to represent any other person or persons in the claim where the person or persons to be represented – (a) are unborn; (b) cannot be found; (c) cannot easily be ascertained; or (d) are a class of persons who have the same interest in a claim and – (i) one or more members of that class are within subparagraphs (a), (b) of (c); or (ii) to appoint a representative would further the overriding objective. (3) An application for an order under paragraph (2) – (a) may be made by – (i) any person who seeks to be appointed under the order; or (ii) any party to the claim; and (b) may be made at any time before or after the claim has started. (4) An application notice for an order under paragraph (2) must be served on – (a) all parties to the claim, if the claim has started; (b) the person sought to be appointed, if that person is not the applicant or a 8 9 10 11 12 13 14 party to the claim; and (c) any other person as directed by the court. (5) The court’s approval is required to settle a claim in which a party is acting as a representative under this rule. (6) The court may approve a settlement where it is satisfied that the settlement is for the benefit of all the represented persons. (7) Unless the court otherwise directs, any judgment or order given in a claim in which a party is acting as a representative under this rule – (a) is binding on all personsrepresented in the claim; but (b) may only be enforced by or against a person who is not a party to the claim with the permission of the court.” Practice Direction 19b, n. 1. “A Group Litigation Order (GLO) means an order made under rule 19.11 to provide for the case management of claims which give rise to common or related issues of fact or law (the ‘GLO issues’).” “The court may make a GLO where there are or are likely to be a number of claims giving rise to the GLO issues.” Practice Direction 19b, GLO made by court of its own initiative, n. 4: “Subject to obtaining the appropriate consent referred to in paragraph 3.3 and the procedure set out in paragraph 3.4, the court may make a GLO of its own initiative. (CPR 3.3 deals with the procedure that applies when a court proposes to make an order of its own initiative)”. Practice Direction 19b, n. 3.1: “An application for a GLO must be made in accordance with CPR Part 23, may be made at any time before or after any relevant claims have been issued and may be made either by a claimant or by a defendant”. Practice Direction 19b, preliminary steps, n. 2: “Before applying for a Group Litigation Order (‘GLO’) the solicitor acting for the proposed applicant should consult the Law Society’s Multi Party Action Information Service in order to obtain information about other cases giving rise to the proposed GLO issues”. “47. If members of a group are to opt out, or to join the register, they must know about the multi-party action. Notice may also be necessary at various other times throughout the course of the proceedings, e.g., determination of generic issues; on settlement. In reaching the decision on notice the court must have in mind the cost of such notice and its usefulness: in some cases notice may be so expensive as to be disproportionate to the costs and benefits of the litigation, or it may not serve a useful purpose. 48. In a 15 multi-party action where there are many claims, each of which is small, there is little to recommend in a rule making notice to each potential claimant mandatory. The costs of identifying potential claimants, and preparing and sending the notice, will make the litigation as a whole uneconomic. In any event, where such claimants receive the notice and choose to opt out, they will receive nothing. Because with small claims it is uneconomic for them to litigate individually, they will almost invariably remain members of the group. In the United States, in small claims group actions, very few of the tens of thousands – in some cases millions – of potential claimants actually notified choose to opt out. Accordingly, courts must have the discretion to dispense with notice enabling parties to opt out having regard to factors such as the cost, the nature of the relief, the size of individual claims, the number of members of a group, the chances that members will wish to opt out and so on. 49. Once the claims become more substantial, however, individual notice is economically possible. It is difficult to set a figure and the matter must be left to judicial discretion, taking into account the factors I have already mentioned. Yet even if the court decides that notice must be given to members of a group, it should have a discretion as to how this is to be done – individual notification, advertising, media broadcast, notification to a sample group, or a combination of means, or different means for different members of the group. In each case the court must take into account the likely cost and benefit before deciding on the course of action. 50. The court should have a discretion to order by whom the advertising should be undertaken. The Law Society’s working party recommended that the Law Society should provide further guidance to solicitors on advertisements placed in the early stages prior to the establishment of a group action. I welcome that. The Law Society also recommended that the timing and placement of subsequent advertisements should be approved by the court. There is also a need to approve the content of the advertisements and for the court to decide on the appropriate body who should place the advertisement – either the lead solicitor, the Law Society itself with its substantial media expertise, the Legal Aid Board or the court itself.” Practice Direction 19b, The group register, n. 6.1: “Once a GLO has been made a Group Register will be established on which will be entered such details as the court may direct of the cases which are to be subject to the GLO”. 16 17 18 19 20 “19.12 – Effect of the GLO: (1) Where a judgment or order is given or made in a claim on the group register in relation to one or more GLO issues – (a) that judgment or order is binding on the parties to all other claims that are on the group register at the time the judgment is given or the order is made unless the court orders otherwise; and (b) the court may give directions as to the extent to which that judgment or order is binding on the parties to any claim which is subsequently entered on the group register.” Practice Direction 19b, Cut-off dates, n. 13: “The management court may specify a date after which no claim may be added to the Group Register unless the court gives permission. An early cut-off date may be appropriate in the case of ‘instant disasters’ (such as transport accidents). In the case of consumer claims, and particularly pharmaceutical claims, it may be necessary to delay the ordering of a cut-off date”. Como afirma Christopher Hodges, no texto Multi-party actions: a European approach: “The primary virtue of this approach is, therefore, its flexibility. The Rule enables all similar cases to be transferred to a single management court and to be managed in a consistent, but not necessarily identical, fashion. The Rule is an enabling mechanism and leaves extensive discretion to the managing judge. It may be, for example, that individual cases are not resolved together, or that the result in a small number of test cases does in fact bind all the others. The English Rule adopts a minimalist procedural approach: all, it is suggested, that is necessary”. “(1) Where a direction has been given for a claim on the group register to proceed as a test claim and that claim is settled, the management court may order that another claim on the group register be substituted as the test claim. (2) Where an order is made under paragraph (1), any order made in the test claim before the date of substitution is binding on the substituted claim unless the court orders otherwise.” “19.11 – Group Litigation Order: (1) (…). (2) A GLO must – (a) contain directions about the establishment of a register (the “group register”) on which the claims managed under the GLO will be entered; (b) specify the GLO issues which will identify the claims to be managed as a group under the GLO; and (c) specify the court (the “management court”) which will manage the claims on the group register. (3) A GLO may – (a) in relation to claims which raise one or more of the GLO issues – (i) direct their transfer to the management court; (ii) order their stay (GL) until further order; and (iii) direct their entry on the group register; (b) direct that from a specified 21 22 date claims which raise one or more of the GLO issues should be started in the management court and entered on the group register; and (c) give directions for publicising the GLO.” Nesse sentido, encontra-se previsto na Practice Direction – Group Litigation: “15.1 The management court may give directions – (1) for the trial of common issues; and(2) for the trial of individual issues. 15.2 Common issues and test claims will normally be tried at the management court. Individual issues may be directed to be tried at other courts whose locality is convenient for the parties”. “(1) This rule applied where the court has made a Group Litigation Order (GLO). (2) In this rule – (a) ‘individual costs’ means costs incurred in relation to an individual claim on the group register; (b) ‘common costs’ means – (i) costs incurred in relation to the GLO issues; (ii) individual costs incurred in a claim while it is proceeding as a test claim, and (iii) costs incurred by the lead solicitor in administering the group litigation; and (c) ‘group litigant’ means a claimant or defendant, as the case may be, whose claim is entered on the group register. (3) Unless the court orders otherwise, any order for common costs against group litigants imposes on each group litigant several liability(GL) for an equal proportion of those common costs. (4) The general rule is that where a group litigant is the paying party, he will, in addition to any costs he is liable to pay to the receiving party, be liable for – (a) the individual costs of his claim; and (b) an equal proportion, together with all the other group litigants, of the common costs. (5) Where the court makes an order about costs in relation to any application or hearing which involved – (a) one or more GLO issues; and (b) issues relevant only to individual claims, the court will direct the proportion of the costs that is to relate to common costs and the proportion that is to relate to individual costs. (6) Where common costs have been incurred before a claim is entered on the group register, the court may order the group litigant to be liable for a proportion of those costs. (7) Where a claim is removed from the group register, the court may make an order for costs in that claim which includes a proportion of the common costs incurred up to the date on which the claim is removed from the group register. (Part 19 sets out rules about group litigation)”. 7.1. A exposição histórica em torno da elaboração do instituto do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas é importante, especialmente por dois motivos. O primeiro, naturalmente, diz respeito à documentação e perpetuação de todo o processo prévio e legislativo que resultou na criação do IRDR. O segundo, que decorre do primeiro, está relacionado ao fornecimento de elementos que propiciem a melhor compreensão do instituto, a partir de uma interpretação autêntica e sistemática. A FORMULAÇÃO DA PROPOSIÇÃO NA COMISSÃO DE JURISTAS, O (ANTE)PROJETO DE NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL E O TEXTO APROVADO NO SENADO FEDERAL O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, como mencionado anteriormente, surgiu na Comissão de Juristas designada pelo Senado Federal para a elaboração do Anteprojeto de novo Código de Processo Civil. Logo no início dos trabalhos, sob a presidência de Luiz Fux, estabeleceu-se que cada integrante formularia proposições para serem debatidas. A proposta do instituto foi apresentada na Comissão por Paulo Cezar Pinheiro Carneiro, tendo recebido, inicialmente, a denominação de Incidente de Coletivização. A ideia, acolhida pela Comissão, buscava estabelecer um mecanismo que pudesse ser utilizado a partir da primeira instância, sempre que identificada controvérsia com potencial de gerar relevante multiplicação de processos fundados em idêntica questão de direito e de causar grave insegurança jurídica. Pretendia-se o fortalecimento do precedente, sucedendo, mas diferenciando-se, contudo, do incidente de uniformização de jurisprudência, do Código de Processo Civil de 1973. No primeiro documento público em que foram expostas as proposições formuladas pela Comissão, o novo instituto já assumia uma posição de destaque: “Tendo como premissa esse objetivo, construiu-se a proposta de instituição de um incidente de coletivização dos denominados litígios de massa, o qual evitará a multiplicação das demandas, na medida em que o seu reconhecimento numa causa representativa de milhares de outras idênticas, imporá a suspensão de todas, habilitando o magistrado na ação primeira, dotada de amplíssima defesa, com todos os recursos previstos nas leis processuais, proferir uma decisão com largo espectro, definindo o direito controvertido de tantos quantos se encontram na mesma situação jurídica, trazendo uma solução de mérito consagradora do princípio da isonomia constitucional.”1 O texto acima poderia sugerir que o novo instituto seria semelhante ao Musterverfahren (procedimento-modelo) adotado na Alemanha no âmbito do direito público (nos ramos da Administração Pública e da Previdência e Assistência Social), que é processado e julgado, inicialmente, pelo próprio órgão de primeiro grau. Em junho de 2010, veio a lume o texto do Anteprojeto de novo CPC, confirmando a inspiração alemã, mas dentro de um regramento significativamente mais próximo do sistema adotado para o Musterverfahren do mercado de capitais, introduzido com a KapMuG, em 2005, como se pode observar na respectiva exposição de motivos: Proporcionar legislativamente melhores condições para operacionalizar formas de uniformização do entendimento dos Tribunais brasileiros acerca de teses jurídicas é concretizar, na vida da sociedade brasileira, o princípio constitucional da isonomia. Criaram- se figuras, no novo CPC, para evitar a dispersão18 excessiva da jurisprudência. Com isso, haverá condições de se atenuar o assoberbamento de trabalho no Poder Judiciário, sem comprometer a qualidade da prestação jurisdicional. Dentre esses instrumentos, está a complementação e o reforço da eficiência do regime de julgamento de recursos repetitivos, que agora abrange a possibilidade de suspensão do procedimento das demais ações, tanto no juízo de primeiro grau, quanto dos demais recursos extraordinários ou especiais, que estejam tramitando nos tribunais superiores, aguardando julgamento, desatreladamente dos afetados. Com os mesmos objetivos, criou-se, com inspiração no direito alemão,19 o já referido incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, que consiste na identificação de processos que contenham a mesma questão de direito, que estejam ainda no primeiro grau de jurisdição, para decisão conjunta.20 O incidente de resolução de demandas repetitivas é admissível quando identificada, em primeiro grau, controvérsia com potencial de gerar multiplicação expressiva de demandas e o correlato risco da coexistência de decisões conflitantes. É instaurado perante o Tribunal local, por iniciativa do juiz, do MP, das partes, da Defensoria Pública ou pelo próprio Relator. O juízo de admissibilidade e de mérito caberão ao tribunal pleno ou ao órgão especial, onde houver, e a extensão da eficácia da decisão acerca da tese jurídica limita-se à área de competência territorial do tribunal, salvo decisão em contrário do STF ou dos Tribunais superiores, pleiteada pelas partes, interessados, MP ou Defensoria Pública. Há a possibilidade de intervenção de amici curiae. O incidente deve ser julgado no prazo de seis meses, tendo preferência sobre os demais feitos, salvo os que envolvam réu preso ou pedido de habeas corpus. O recurso especial e o recurso extraordinário, eventualmente interpostos da decisão do incidente, têm efeito suspensivo e se considera presumida a repercussão geral, de questão constitucional eventualmente discutida. Enfim, não observada a tese firmada, caberá reclamação ao tribunal competente”.2 A configuração inicialdo IRDR revela a criação de um instituto novo, que, embora tenha recebido a inspiração alemã, assumia características próprias, com a conjugação de instrumentos nacionais e a introdução de aspectos genuínos. No ordenamento brasileiro, pode-se assinalar que o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas complementa o sistema de julgamento de litígios seriados que foi inaugurado, respectivamente em 2006 e 2008, com os recursos extraordinários e especiais repetitivos. Estes mecanismos careciam de solução que propiciasse economia mais efetiva para toda a estrutura jurisdicional, em especial para o primeiro e segundo graus de jurisdição, que continuavam tendo que julgar de modo atomizado e anti-isonômico as demandas de massa e as questões comuns. Nesse sentido, o art. 848 do anteprojeto, na essência reproduzido no texto final do art. 928 do CPC, já apontava para um sistema de julgamento de casos repetitivos, ainda que algumas peculiaridades fossem mantidas para cada uma das espécies (IRDR e recursos repetitivos). Em segundo lugar, o antigo Incidente de Uniformização de Jurisprudência era, de certo modo, sucedido pelo IRDR, no anteprojeto, e depois também pelo Incidente de Assunção de Competência (IAC). Mas, o projetado Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas incorporava ainda a sistemática de outro mecanismo já conhecido do ordenamento jurídico brasileiro: o Incidente de Declaração de Inconstitucionalidade, especialmente no que dizia respeito ao procedimento de fracionamento do julgamento em duas fases: a) o órgão judicial fracionário ou de primeiro grau suscitariam o incidente e, depois de apreciado o seu mérito, efetuariam o julgamento do caso concreto; b) o órgão mais amplo do tribunal, inicialmente o plenário ou o órgão especial (na redação final, o que fosse definido pelo regimento interno), apreciaria a admissibilidade e o mérito do incidente, que seria concentrado na resolução da “questão jurídica”, com a fixação da “tese jurídica”. Por fim, haveria semelhança quanto à suspensão do processo, que ficaria aguardando a apreciação do incidente, e no efeito vinculativo do julgamento proferido no incidente, pois o órgão originário ficaria 7.2. adstrito ao posicionamento adotado na resolução do incidente. A técnica do incidente de declaração de inconstitucionalidade, na versão do IRDR, seria, contudo, ampliada nas suas potencialidades, principalmente quanto a dois aspectos: a) seria adotada também diante de processos que estivessem tramitando no juízo de primeiro grau; b) contra a decisão proferida no IRDR, caberia diretamente a interposição dos recursos especial e extraordinário. O anteprojeto da Comissão de Juristas foi convertido no Projeto de Lei nº 166, de 2010, tendo sido o teor do texto referente ao Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, praticamente, mantido3 na sua integralidade, na versão que foi aprovada, em primeiro turno, no Senado Federal. A VERSÃO DO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS NO TEXTO APROVADO NA CÂMARA DOS DEPUTADOS4 No substitutivo aprovado na Câmara dos Deputados, houve modificações significativas em relação ao texto anteriormente aprovado no Senado Federal. A primeira dela foi quanto ao afastamento do caráter, de certo modo, preventivo, que estava presente na versão anterior, pois o incidente seria cabível “sempre que identificada controvérsia com potencial de gerar relevante multiplicação de processos”. No texto da Câmara, passou-se a exigir “efetiva repetição de processos”. Esta primeira mudança no texto, por si só, não ensejou maiores resistências, tanto que foi posteriormente mantida, como se verá oportunamente, na redação final aprovada no Senado Federal. Houve significativa redução no campo de cabimento e de aplicação do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas em razão (a) da exclusão do juiz do rol de legitimados para suscitar o incidente; (b) do incidente somente poder ser provocado na pendência de processo no tribunal, afastando-se o cabimento do incidente enquanto não houver processo, tramitando no tribunal, que contenha a controvérsia sobre a questão comum de direito. No que diz respeito à legitimação, se, por um lado, houve a exclusão do juiz de primeiro grau, por outro, a redação da Câmara ampliou a relação, para incluir a pessoa jurídica de direito público e a associação civil cuja finalidade institucional inclua a defesa do interesse ou direito objetivo do incidente. Esta ampliação, entretanto, não subsistiu na redação final aprovada no Senado Federal. Importante acréscimo realizado na Câmara, mas que não perdurou no texto que acabou sendo chancelado no Senado, foi o da suspensão da prescrição em relação às pretensões pertinentes à questão de direito submetida ao IRDR. A previsão, como se verá oportunamente, que se encontra presente, com peculiaridades, também no procedimento-modelo do mercado de capitais no ordenamento alemão, parece ser uma peça importante dentro do sistema de julgamento de causas repetitivas, para que o incidente de resolução da questão comum possa alcançar o seu objetivo pleno. Se devidamente divulgada a sua pendência e a desnecessidade do ajuizamento das demandas repetitivas, em razão da suspensão do lapso prescricional, parece ser indubitável que a medida seria um grande estímulo no sentido de se conter o ajuizamento em massa durante a pendência do IRDR. Por outro lado, na Câmara foram incorporadas importantes regras que acabaram se mantendo no texto definitivo, como: a) a da possibilidade de ser novamente suscitado incidente anteriormente inadmitido por falta de pressuposto, desde que este esteja presente na reiteração; b) a do descabimento do incidente quando a questão de direito já estiver afetada para decisão em recurso extraordinário ou especial repetitivo; c) a isenção de custas no IRDR. Quanto ao prazo para o julgamento do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, o lapso de seis meses foi ampliado para um ano, que se manteve na redação final, sendo, de fato, mais consentâneo com a realidade dos tribunais no âmbito nacional. Por fim, mas não menos importante foi a inclusão feita na Câmara dos Deputados, no sentido de se estabelecer que a tese jurídica fixada a partir do julgamento do incidente seria aplicada a todos os processos que tramitem na área do respectivo tribunal, inclusive àqueles que tramitem nos juizados especiais do respectivo Estado ou região. A sugestão de inclusão, que foi apresentada pela 7.3. Comissão Permanente de Processo Civil da Associação dos Juízes Federais (AJUFE), possui grande alcance, considerando o excessivo volume de processos que tramitam no âmbito dos juizados especiais5. Entretanto, a proposta era mais ampla, pois atribuía aos próprios órgãos dos juizados especiais a competência para a apreciação do IRDR, compatibilizando-se, assim, com a respectiva estrutura e competência6. O IRDR NA REDAÇÃO FINAL APROVADA NO SENADO FEDERAL E NO TEXTO SANCIONADO A análise detalhada da redação final aprovada se fará ao longo dos próximos capítulos. Cabe, neste momento, apenas assinalar que a modificação mais sensível efetuada por ocasião da aprovação final no Senado Federal foi quanto à concepção pretendida pela Câmara dos Deputados, no sentido de condicionar o cabimento do Incidente de Resolução de Demandas repetitivas à existência de processo em tramitação no tribunal de segundo grau. Como já apontado, esta visão já se contrapunha ao anteprojeto redigido pela Comissão de Juristas, bem como à versão aprovada em primeiro turno no Senado. Ressalte-se que o objetivo do IRDR estava focadona economia processual, na isonomia, na segurança jurídica e na busca da duração razoável dos processos. Em princípio, para que estes objetivos já pudessem se sentir, de modo mais direto, em todo o Poder Judiciário, pretendia-se a sua utilização de modo mais amplo, o que seria atingido se o incidente pudesse ser acionado mais rapidamente, ou seja, a partir da multiplicação em primeiro grau, sem a necessidade de se aguardar que chegassem aos tribunais de segundo grau, seja por força de ação originária ou de recurso. O tema foi enfrentado, com destaque, no parecer final apresentado pelo Relator no Senado Federal7, concluindo no sentido de que: Os §§ 1º, 2º e 3º do art. 988 do SCD desfiguram o incidente de demandas repetitivas. Com efeito, é nociva a eliminação da possibilidade da sua instauração em primeira instância, o que prolonga situações de incerteza e estimula uma desnecessária multiplicação de demandas, além de torná-lo similar à hipótese de uniformização de jurisprudência. Na verdade, os supramencionados8 §§ 1º e 2º, do art. 988 do Substitutivo da Câmara dos Deputados (SCD), foram, de fato, excluídos do texto, enquanto o § 3º teve a sua redação deslocada para outro artigo e alterada, para reincluir o juiz no rol dos que poderiam suscitar o incidente. Registre-se que houve a supressão de parte dos legitimados arrolados no dispositivo do substitutivo da Câmara (pessoa jurídica de direito público e associação civil cuja finalidade institucional inclua a defesa do interesse ou direito objeto do incidente) sem que houvesse motivação explicitada no parecer final subscrito pelo relator. Duas outras significativas modificações foram sentidas no texto final, em relação ao teor do projeto aprovado na Câmara dos Deputados. A primeira foi a que introduziu o parágrafo único no art. 978 do novo Código de Processo Civil. Estabeleceu-se que o órgão colegiado incumbido de julgar o incidente e de fixar a tese jurídica julgará igualmente o recurso, a remessa necessária ou o processo de competência originária. Este dispositivo vem sendo objeto de grande controvérsia, a começar pela sua constitucionalidade formal e material9. No âmbito formal do processo legislativo, porque a norma não constava em nenhum dos textos anteriormente aprovados, respectivamente no Senado Federal ou na Câmara dos Deputados, embora, no parecer final, se tenha afirmado que já estivesse implícita na redação do SCD. Sob o prisma material, a norma afrontaria o disposto no art. 96, I, a, da Constituição da República, na medida em que esta teria previsto que compete privativamente aos tribunais a elaboração dos seus regimentos internos, dispondo sobre a competência e o funcionamento dos respectivos órgãos jurisdicionais e administrativos. É de se notar que o próprio parecer final do Senado, em referência a outro dispositivo10, foi enfático, ao afirmar que “desborda de seus limites quando invade, com muita intensidade, autonomia de organização interna do tribunal por meio do regimento interno”. No plano material, porque a norma estaria em afronta ao art. 96, inciso I, da Constituição da República, que atribui privativamente aos tribunais a elaboração dos seus regimentos internos, dispondo sobre a competência e o funcionamento dos respectivos órgãos jurisdicionais. Portanto, não caberia ao CPC a fixação de competência interna dos tribunais. A outra alteração significativa foi a supressão da norma pertinente à suspensão da prescrição das pretensões, nos casos em que se repete a questão de direito. A justificativa apresentada11 foi “que tal matéria é afeta ao Direito Civil e em razão de a suspensão da prescrição perdurar durante a tramitação do processo nos termos do parágrafo único do art. 202 do Código Civil. Não é oportuno inserir, na norma processual, um dispositivo que poderá conflitar com esse dispositivo do Código Civil”. O relator parece ter incorrido em equívoco. Isso porque a previsão contida no SCD diz respeito à suspensão da prescrição das pretensões, abrangendo, portanto, aquelas que ainda não tenham sido demandadas. Como supramencionado12, a norma poderia ter um elevado alcance, tornando desnecessário, e talvez improvável, o ajuizamento de inúmeras demandas, enquanto estiver pendente o respectivo Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR), propiciando enorme economia para o Poder Judiciário e para as partes, especialmente nas hipóteses em que o resultado for desfavorável às pretensões. Por sua vez, o argumento topográfico, pertinente ao Código Civil, é completamente insuficiente, pois: a) a pureza material nunca foi absoluta; pelo contrário, a história demonstra a reiterada prática no sentido do cruzamento de normas entre os respectivos estatutos; b) a norma teria relação direta com o novo instituto processual criado, sendo natural, portanto, que disciplinasse os efeitos decorrentes da sua utilização, como efetuado, por exemplo, pelo legislador alemão na lei sobre o procedimento-modelo nos conflitos relacionados ao direito do mercado mobiliário13 – Gesetz über Musterverfahren in kapitalmarktrechtlichen Streitigkeiten (Kapitalanleger- Musterverfahrensgesetz – KapMuG). Por fim, ainda quanto ao processo legislativo, mas na sua etapa final, ou seja, quando da sanção presidencial, há que se apontar a modificação realizada, a título de revisão de redação, no texto aprovado no Senado Federal, que acabou 1 2 sendo encaminhado ao Poder Executivo, no art. 977, com repercussão no art. 986, do Código de Processo Civil. Na redação aprovada, o art. 977,14 que tratava dos legitimados para suscitar o incidente, continha dois incisos, ipsis litteris: “I – pelo juiz ou relator, por ofício; II – pelas partes, pelo Ministério Público ou pela Defensoria Pública”. Entretanto, o texto que passou por “revisão de redação”, foi submetido ao Executivo e acabou sendo sancionado e publicado continha os seguintes três incisos: “I – pelo juiz ou relator, por ofício; II – pelas partes, por petição; III – pelo Ministério Público ou pela Defensoria Pública, por petição”. Por sua vez, o artigo que correspondia (983), no parecer final aprovado, ao disposto no art. 986, fazia referência ao então inciso II, que compreendia as partes, o Ministério Público e a Defensoria Pública. Entretanto, a reestruturação realizada, após a aprovação final no Senado, não foi seguida no art. 986, que atribui a legitimidade para o requerimento de revisão da tese firmada em IRDR apenas aos legitimados mencionados no inciso III (limitados ao Ministério Público e à Defensoria Pública). A revisão operada extrapolou, portanto, os limites do poder de revisão, alterando o alcance da norma, em afronta ao processo legislativo, devendo-se assegurar, não apenas em razão desta inconstitucionalidade formal, mas também, como decorrência do princípio do acesso à justiça e da inafastabilidade da prestação jurisdicional, a legitimidade das partes em relação ao procedimento de revisão das teses firmadas em sede de julgamento de questões comuns (repetitivas), tanto no âmbito do IRDR como no dos recursos repetitivos15. O documento, subscrito pelo presidente da Comissão, Luiz Fux e datado de janeiro de 2010, encontra-se disponível em: legislador comum adicione novas atribuições às Cortes Judiciárias. É emblemática a posição do STF, por exemplo, adotada em relação às modernas leis que sucessivamente foram incluindo a competência para decidir com força vinculante erga omnes. Quando, pela primeira vez, o tema foi tratado em emenda constitucional, apenas para a ação declaratória de constitucionalidade, o STF validou igual previsão feita em lei infraconstitucional para a ação direta de inconstitucionalidade. E o argumento decisivo foi o de que o fato de a regra ter sido tratada pela Constituição para uma causa, não é empecilho para que o legislador comum a estenda a outra causa, de igual natureza. Idêntica foi a posição do STF em face da reclamação constitucional, que a CF inclui apenas na competência dos Tribunais Superiores, o que, entretanto, não deveria impedir que o legislador estadual também o ingerisse na competência dos tribunais de justiça. Enfim, pensamos que a linha de orientação histórica do STF permite a conclusão de que as competências judiciais traçadas pela Constituição são um mínimo e não um máximo, intransponível pela legislação infraconstitucional. O dinamismo dos tempos modernos e a concorrência das múltiplas garantias fundamentais que hão de ser implementadas pelo processo judicial impedem que se avaliem as regras constitucionais sobre competência de maneira estática e inflexível. Sobre o acesso aos tribunais superiores, para expandir os efeitos do IRDR além da circunscrição territorial do tribunal de segundo grau em que o incidente se instaurou, houve expressa e convincente explanação do autor. A tese do Professor Castro Mendes, a propósito, reconhece que, sem o concurso dos Recursos Especial e Extraordinário, o IRDR não cumpriria seu objetivo institucional de eliminar a divergência em torno de norma federal, em todo o território nacional. Daí a previsão de medida cautelar de suspensão de processos em todo o País, deferível pelo STF ou pelo STJ, enquanto se aguarda o julgamento do tribunal local (art. 982, §§ 3º e 4º). Mas a simples medida cautelar não vai além da suspensão temporária dos processos em curso fora da jurisdição do tribunal por onde corre o IRDR. É preciso, após a fixação da tese pelo tribunal local, que haja um julgamento de mérito do Tribunal Superior sobre o tema objeto do IRDR. O interesse nesse recurso especial ou extraordinário nem sempre se baseia na sucumbência ou na insurreição contra o decidido pelo tribunal local. Aqueles que se acham sob a jurisdição do órgão que julgar o IRDR só têm interesse em recorrer para o STF ou STJ se foram imediatamente prejudicados pelo julgamento do incidente. Diversa, porém, é a situação dos promoventes da medida cautelar deferida pelo STF ou pelo STJ, em caráter preparatório da possível extensão da eficácia do julgamento do IRDR para todo o território nacional. Esse desiderato, provisoriamente assegurado em sede cautelar, ficará frustrado se contra o julgado do tribunal local, não se interpuser, em tempo hábil, o recurso para o STF ou STJ. É que a suspensão cautelar cessará, ex lege, “se não for interposto recurso especial ou recurso extraordinário contra a decisão proferida no incidente” (art. 982, § 5º). Dir-se-á que, em semelhante conjuntura, o RE e o REsp estariam sendo manejados sem que se atendesse aos requisitos constitucionais da ofensa à Constituição ou à Lei Federal. Mas não é bem isso o que acontece. Se se tem em mira a garantia de obter-se a solução da questão federal com eficácia nacional, a persistência do efeito do IRDR apenas na área de jurisdição do tribunal, em detrimento daqueles que obtiveram a medida cautelar do art. 982, §§ 3º e 4º, estaria, sem dúvida, acarretando-lhes violação da garantia constitucional da isonomia e segurança jurídica, ou de ter a lei federal aplicada a todos de maneira uniforme. Mesmo, portanto, quando o terceiro interessado recorre ao STF ou ao STJ, apenas para ampliar o efeito do IRDR para todo o território nacional, o faz dentro dos requisitos constitucionais dos recursos extraordinário e especial. É esse detalhe da recorribilidade prevista para o julgamento do IRDR que, a meu ver, merece ponderação e realce. Na verdade, o que visou o novo CPC foi incluir o STF e o STJ como sujeitos que também participem da função atribuída ao IRDR, tendo em conta a necessidade inegável de que a uniformização da interpretação e aplicação da Constituição e da lei federal nunca devem permanecer restritas ao âmbito dos Tribunais locais. É algo semelhante ao que levou o legislador a criar ou ampliar remédios processuais para, por exemplo, solucionar no STJ conflitos jurisprudenciais entre os Juizados Especiais e aquela Corte Superior, bem como a estender a reclamação constitucional, por jurisprudência do STF e por disposição de lei comum, para defesa da autoridade dos julgados dos tribunais locais. Registra o estudo, a respeito dos recursos especial e extraordinário no campo do IRDR, lições doutrinárias no sentido de que a competência definida constitucionalmente se mostra inalterável pelo legislador ordinário. É muito importante, todavia, advertir que os conceitos em que se apoia a regra constitucional muitas vezes são fixados pela lei ordinária. Por exemplo, a coisa julgada é protegida constitucionalmente contra a retroatividade da lei. Mas a Constituição não define o que é a coisa julgada. Assim, o legislador ordinário pode ora ampliar, ora reduzir o conceito e extensão da incidência da coisa julgada, como por exemplo, se passa entre as ações singulares e as ações coletivas. Da mesma maneira, muitos institutos previstos na Constituição têm sido ampliados não só por lei, mas até por interpretação jurisprudencial evolutiva, como, por exemplo, no caso da reclamação e da força vinculante da decisão da ação direta de inconstitucionalidade. Por isso, tenho como ultrapassada pela vivência pretoriana a antiga tese da absoluta intocabilidade das competências constitucionais. Se, porém, esta inflexibilidade ainda pode prevalecer para as competências políticas delineadas pela Constituição, não vale, entretanto, em caso de competência processual, que põe em jogo as garantias dos direitos fundamentais, cuja tutela reclama cada vez mais regras maleáveis e dinâmicas, e não rígidas, estáticas e intocáveis. Muitas vezes, alargar competência jurisdicional, para abranger hipóteses novas, em vez de atritar com o sistema constitucional, o reforça e incrementa, sem, reduzir qualquer outra competência anteriormente atribuída pela Constituição a órgão diverso. Por exemplo: o incidente de resolução de demandas repetitivas não existia ao tempo em que a CF definiu a competência do STF e do STJ para os recursos extraordinário e especial. Não há, a meu ver, ofensa à Lei Maior em ampliar o terreno de admissibilidade daqueles recursos extremos, para neles incluir o acórdão do tribunal local em IRDR. Na sequência, abordagens inteligentes foram feitas no ensaio ora divulgado, sobre cognição e fundamentação na aplicação da tese assentada no IRDR ao caso concreto, assim como seu afastamento por distinção ou superação. Importante, ainda, foi o tratamento do tema relacionado à revisão da tese pelo próprio tribunal que a fixou. No fecho do riquíssimo estudo, quase uma centena de conclusões resumem os resultados do notável esforço doutrinário desenvolvido e levado a cabo com sucesso pelo autor. Ali, mais do que um simples rol de títulos, o leitor encontrará um catálogo completo do pensamento exposto ao longo da obra, facilitando, a um só tempo, uma visão de conjunto e o acessoessa possibilidade não é recente. Alfredo Buzaid já aludia a ela, advertindo que https://www.senado.gov.br/senado/novocpc/pdf/1a_e_2a_Reuniao_PARA_grafica.pdf há uma grande diferença entre as decisões adaptadas ao contexto histórico em que proferidas e aquelas que prestigiam interpretações contraditórias da mesma disposição legal, apesar de iguais as situações concretas em que proferidas. Nesse sentido: “Na verdade, não repugna ao jurista que os tribunais, num louvável esforço de adaptação, sujeitem a mesma regra a entendimento diverso, desde que se alterem as condições econômicas, políticas e sociais; mas repugna-lhe que sobre a mesma regra jurídica deem os tribunais interpretação diversa e até contraditória, quando as condições em que ela foi editada continuam as mesmas. O dissídio resultante de tal exegese debilita a autoridade do Poder Judiciário, ao mesmo passo que causa profunda decepção às partes que postulam perante os tribunais (Uniformização de Jurisprudência. Revista da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul, 34/139, jul. 1985). 19 No direito alemão a figura se chama Musterverfahren e gera decisão que serve de modelo (= Muster) para a resolução de uma quantidade expressiva de processos em que as partes estejam na mesma situação, não se tratando necessariamente, do mesmo autor nem do mesmo réu. (Ralf-Thomas Wittmann. Il ‘contenzioso di massa’ in Germania, in: Giorgetti Alessandro e Valerio Vallefuoco, Il Contenzioso di massa in Italia, in Europa e nel mondo, Milão: Giuffrè, 2008, p. 178). 20 Tais medidas refletem, sem dúvida, a tendência de coletivização do processo, assim explicada por Rodolfo de Camargo Mancuso: “Desde o último quartel do século passado, foi tomando vulto o fenômeno da ‘coletivização’ dos conflitos, à medida que, paralelamente, se foi reconhecendo a inaptidão do processo civil clássico para instrumentalizar essas megacontrovérsias, próprias de uma conflitiva sociedade de massas. Isso explica a proliferação de ações de cunho coletivo, tanto na Constituição Federal (arts. 5º, XXI; LXX, ‘b’; LXXIII; 129, III) como na legislação processual extravagante, empolgando segmentos sociais de largo espectro: consumidores, infância e juventude; deficientes físicos; investidores no mercado de capitais; idosos; torcedores de modalidades desportivas, etc. Logo se tornou evidente (e premente) a necessidade da oferta de novos instrumentos capazes de recepcionar esses conflitos assim potencializado, seja em função do número expressivo (ou mesmo indeterminado) dos sujeitos concernentes, seja em função da indivisibilidade do objeto litigioso, que o torna insuscetível de partição e fruição por um titular exclusivo” (A resolução de conflitos e a função judicial no Contemporâneo Estado de Direito. São Paulo: Revista dos 3 4 5 6 7 8 Tribunais, 2009, p. 379-380). Houve modificações tão somente na ordem e numeração de alguns artigos. Vide os arts. 895 a 906 do Anteprojeto e arts. 930 a 941 do Projeto nº 166/2010, na versão aprovada no Senado. Sobre as duas versões, ou seja, a do Senado em primeiro turno e a da Câmara dos Deputados, vide BUENO, Cassio Scarpinella. Projetos de novo Código de Processo Civil comparados e anotados: Senado Federal PLS nº 166/2010 e Câmara dos Deputados PL nº 8.046/2010, São Paulo: Saraiva, 2014. Os números são elevados. Somente em 2015, foram 6.360.854 casos novos nos juizados especiais, representando 28,63% do montante protocolado em primeiro grau. Dos processos pendentes em primeiro grau (68.475.728), no final de 2015, 7.763.123 estavam nos juizados especiais, representando 11,33% do total de processos no primeiro grau de jurisdição. Os dados são da Justiça em Números 2016, disponível em: , acesso em 15 nov. 2016. A proposta era de que os órgãos equivalentes nos juizados especiais, tais como as turmas reunidas, no âmbito regional ou estadual, de acordo com a estruturação pertinente, ficassem com a competência para os Incidentes de Resolução de Demandas Repetitivas que fossem suscitados pelos órgãos dos juizados especiais, sem prejuízo da vinculação às teses fixadas pelos Tribunais Regionais ou de Justiça, quando matéria comum fosse afetada a estes órgãos. A questão será apreciada oportunamente no capítulo destinado à competência. Trata-se do parecer final nº 956, de 2014, da Comissão Temporária destinada a estudar o Substitutivo da Câmara ao Projeto de Lei do Senado nº 166, de 2010, que estabelece o Código de Processo Civil, cujo relator era o então Senador Vital do Rêgo. A redação dos dispositivos era a seguinte: “§ 1º O incidente pode ser suscitado perante tribunal de justiça ou tribunal regional federal. § 2º O incidente somente pode ser suscitado na pendência de qualquer causa de competência do tribunal. § 3º O pedido de instauração do incidente será dirigido ao presidente do tribunal: http://www.cnj.jus.br/programas-e-acoes/pj-justica-em-numeros 9 10 11 12 13 14 15 I – pelo relator ou órgão colegiado, por ofício; II – pelas partes, pelo Ministério Público, pela Defensoria Pública, pela pessoa jurídica de direito público ou por associação civil cuja finalidade institucional inclua a defesa do interesse ou direito objeto do incidente, por petição”. Como será analisado no capítulo da competência. No caso, o art. 991, §§ 1º a 3º, do Substitutivo da Câmara dos Deputados. Vide parecer final, p. 179. No parecer final, p. 180, alínea “e”, referindo-se ao art. 990, § 5º, do SCD. No item anterior, 7.2. Como mencionado anteriormente. Vide o capítulo específico sobre a KapMuG. Que correspondia ao art. 974 do parecer final apresentado. Vide página 511 do referido documento. O tema será oportunamente enfrentado no capítulo pertinente à revisão da tese jurídica. 8.1. Capítulo 8 CONSIDERAÇÕES PRÉVIAS SOBRE PRECEDENTES E JURISPRUDÊNCIA: PAPEL, FATORES E PERSPECTIVAS NO DIREITO BRASILEIRO CONTEMPORÂNEO. O CARÁTER VINCULATIVO NO ART. 927 DO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL INTRODUÇÃO (OU BREVE RETROSPECTO SOBRE O TEMA NOS ÚLTIMOS 25 ANOS) A PARTIR DA VIVÊNCIA E DO OLHAR DO AUTOR Em primeiro lugar, é importante consignar que, sob o prisma acadêmico, o tema começou a fazer parte das inquietações do autor destas linhas já nos idos de 1990-1992, por ocasião das lições recebidas de José Carlos Barbosa Moreira, que já assinalava o pensamento advindo de Rubens Limongi França, como representante de corrente, então minoritária, que defendia a inclusão da jurisprudência como uma das fontes formais do Direito, com reflexos no Direito Processual. Em seguida, no ano de 1993, na qualidade de mestrando na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, o contato com esta linha de pensamento foi intensa por ocasião da audiência nas aulas de Carlos Alberto Bittar, que, na condição de discípulo de Rubens Limongi França, recomendava vivamente a leitura das obras do mestre, dentre as quais O direito, a lei e a jurisprudência, editada em 1974. É de se registrar que, no ano de 1993, foi introduzida a previsão de ação direta de constitucionalidade, no art. 102, inciso I, alínea a, da Constituição da República, ao lado da ação direta de inconstitucionalidade. E, como no § 1º, no art. 102, foi inserida norma estabelecendo expressamente a eficácia contra todos e o efeito vinculante para as decisões definitivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, nas ações declaratórias de constitucionalidade. Pode- se dizer que o efeito, por sinal, já deveria ser concebido naturalmente com caráter vinculante e erga omnes, diante do caráter concentradoe difuso do respectivo controle nas ações diretas de constitucionalidade. Do contrário, não faria qualquer sentido prático ou jurídico. O tema do caráter vinculativo, propriamente dito, dos precedentes judiciais talvez tenha ficado, de certo modo, adormecido nos anos seguintes. Sem dúvida, eram tempos de redemocratização do país, de redescoberta do Poder Judiciário e de afirmação da independência deste e dos seus magistrados, que passariam a exercer um controle mais efetivo sobre a constitucionalidade das leis e dos atos estatais. Entretanto, a importância da jurisprudência, especialmente dos Tribunais Superiores, começava a se impor, ainda que de modo relativamente singelo, ao se conferir poderes para o Relator decidir monocraticamente. E as modificações legislativas foram sendo paulatinamente introduzidas e ampliadas. Em 1995, a Lei nº 9.139 modifica a redação do art. 557 do Código de Processo Civil de 1973, que, na sua redação original previa, apenas para o agravo, em caso de manifesta improcedência, a possibilidade de decisão monocrática indeferitória, para permitir que o Relator pudesse, nos recursos em geral, negar seguimento (leia-se provimento), se a pretensão fosse contrária à súmula do tribunal ou de tribunal superior. Logo depois, em 1998, a Lei nº 9.756 efetua nova modificação no respectivo art. 557, estabelecendo-se que o recurso deveria ser improvido monocraticamente pelo Relator se estivesse em confronto (sentido contrário) não apenas com a súmula, mas com a jurisprudência dominante (a qualificação talvez fosse despicienda) do respectivo tribunal, do Supremo Tribunal Federal ou de Tribunal Superior. E, no parágrafo único do mencionado dispositivo, amplia- se também a possibilidade de julgamento monocrático, para o provimento do recurso, diante de decisão que estivesse em manifesto confronto com súmula ou jurisprudência do Supremo Tribunal Federal ou de Tribunal Superior. Mas, não se permitia o mesmo se a súmula ou a jurisprudência fosse do respectivo tribunal. Em 2004, o tema volta à baila com a Emenda Constitucional nº 45, diante da nova redação do § 2º do art. 102 da Constituição da República, prevendo expressamente que, tanto nas ações diretas de constitucionalidade quanto de inconstitucionalidade, as decisões definitivas de mérito proferidas pelo Supremo Tribunal Federal produziriam eficácia contra todos e efeito vinculante, relativamente aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal. A EC nº 45 inseriu ainda o art. 103-A na Constituição Federal, instituindo a denominada Súmula Vinculante do Supremo Tribunal Federal, cujos enunciados possuem efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal. A doutrina, por sua vez, já apontava para o fortalecimento desta aproximação do direito processual brasileiro com institutos do common law, indicando o efeito vinculante de decisões judiciais como sinal de uma aproximação com o sistema de precedentes, ou stare decisis. Nesse sentido, Barbosa Moreira enunciava o exemplo da súmula vinculante, recentemente criada, no texto O processo civil entre dois mundos, no ano de 2004. Na experiência prática, na qualidade de magistrado, é de se assinalar que o autor destas linhas sempre foi um adepto da vinculação, por entender que não haveria sentido em se insurgir contra entendimentos já firmados pelos tribunais superiores e aos quais se encontrava vinculado. Do mesmo modo, quando, em 2005, foi convocado para o Tribunal Regional Federal, procurou, de maneira geral, alinhar os seus votos com o pensamento consolidado nos órgãos judiciais colegiados em que participou e isso não se modificou quando foi promovido ao cargo de desembargador. Pelo contrário, sob vários aspectos, que serão em 8.2. seguida abordados, consolidou-se o entendimento a favor dos julgamentos em conformidade com a jurisprudência e com os precedentes, mesmo quando possuísse posicionamento pessoal em outra direção. O tema dos precedentes, na vida docente deste autor, é introduzido nas aulas ministradas nos Programas de Pós-Graduação em Direito, na UERJ e na Unesa, e acaba se materializando, em um primeiro momento, na orientação de mestrandos e doutorandos. Nesse sentido, iniciam-se as primeiras orientações sobre o tema, dos mestrandos Luiz Norton Baptista de Mattos, em 2006, Gustavo Santana Nogueira, em 2008, e Daniela Pereira Madeira, em 2010, que resultaram em excelentes trabalhos, dois deles publicados (Súmula vinculante: análise das principais questões jurídicas no contexto da reforma do Poder Judiciário e do Processo Civil brasileiro. Coord. Alexandre Freitas Câmara e Aluisio Gonçalves de Castro Mendes. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010. (Coleção Direito Processual Civil Moderno) e Stare decisis et non quieta movere: a vinculação aos precedentes no direito comparado e brasileiro. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011), dos dois primeiros mencionados. No âmbito do doutorado, pode-se mencionar também a ótima tese “Modificações na Jurisprudência e Proteção da Confiança”, apresentada por Odilon Romano Neto, no ano de 2016. Nesta caminhada, chega-se ao Código de Processo Civil de 2015, que contém, no rol das suas grandes inovações, o fortalecimento da jurisprudência e dos precedentes, especialmente manifestado nos arts. 926 e 927, que será objeto de maior análise nos itens seguintes. Mas não menos importante, foi a oportunidade de organizar, ao lado de Teresa Arruda Alvim Wambier (que inaugurou o projeto, com o primeiro volume, e seguiu firme na coordenação dos dois outros volumes) e de Luiz Guilherme Marinoni, a obra Direito Jurisprudencial, volume II. Por fim, encontra-se no prelo o terceiro volume desta coleção que vem reunindo primorosos textos sobre o tema da jurisprudência e dos precedentes, agora dividindo a organização com Teresa Arruda Alvim e Dierle Nunes. COMMON LAW E CIVIL LAW O estudo do “direito jurisprudencial” encontra, de certo modo, como pano de fundo, as características das duas famílias jurídicas ocidentais, ou seja, do civil law e do common law. Isso porque a posição do precedente, sob variados aspectos, assume, tradicionalmente, um papel diferenciado nos dois sistemas. A doutrina contemporânea vem apontando, contudo, certa, digamos, aproximação entre estas duas realidades. José Carlos Barbosa Moreira, por exemplo, em artigo publicado sob o sugestivo título “O processo civil brasileiro entre dois mundos”,1 afirma ser “indubitável que o peso do universo anglo-- saxônico tem aumentado no direito brasileiro, talvez mais noutros campos, agora diretamente alcançados pelas vagas da globalização econômica, mas também no terreno do processo civil”, citando, como sinais desta mudança, a presença da fórmula “devido processo legal”, as técnicas de proteção coletiva dos direitos e interesses supraindividuais, as experiências de small claim courts para a criação e fortalecimento dos Juizados Especiais, a inspiração no mecanismo norte- americano da certiorari para o instituto da repercussão geral e, por fim, a eficácia vinculativa para os enunciados da súmula do STF, como “versão bastante mitigada do mecanismo dos binding precedents norte- -americanos, em todo caso fonte indiscutível de inspiração”.2 De fato, a realidade contemporânea, a partir da dinamização dos meios de comunicação e de locomoção, vem assinalando para a interlocução e aproximação entre as culturas, especialmente em paísesem que há uma maior liberdade e poder aquisitivo. Neste contexto, a ciência, inclusive jurídica e processual, acaba iniciando ou aprimorando conhecimentos além das respectivas fronteiras. Por conseguinte, há incremento no intercâmbio acadêmico e profissional, sendo crescente o interesse no estudo das soluções engendradas por outros países e culturas jurídicas, fortalecendo-se a curiosidade sobre o funcionamento de outros sistemas e o incremento do direito processual comparado3 É interessante notar, contudo, que a aproximação supramencionada é, por vezes, relativa, pois, embora se procure estudar e conhecer melhor a realidade alheia, inclusive com a eventual introdução de mecanismos inspirados no direito estrangeiro, as diferenças estruturais, culturais e sistêmicas podem continuar sendo gritantes, ou, talvez, possam ficar ainda mais perceptíveis, o que não deixa de ser, ou poder ser, um segundo passo para uma reanálise dos institutos e, por conseguinte, modificações mais profundas. O estudo dos precedentes representa, naturalmente, ponto central nesta comparação entre as famílias jurídicas do common law e do civil law, tendo em vista o papel central que o instituto representa no primeiro sistema, considerando-se que o direito costumeiro é declarado, reconhecido ou criado4 a partir da ratio decidendi dos casos julgados. Representa, assim, parâmetro para a sociedade, base para o ensino, para a prática profissional do direito e para os próprios julgadores. O método indutivo do common law contrapõe-se, assim, ao dedutivo do nosso sistema, que sempre procurou priorizar a interpretação a partir do arcabouço constitucional e legal5 A própria caracterização da jurisprudência como forma ou fonte de expressão do direito sempre foi vista como posição minoritária, embora defendida por juristas como Limongi França6 Este, por sua vez, afirmava que7 “os juristas estão marcadamente divididos, com referência à posição da jurisprudência como forma geral de expressão do direito, a ponto de podermos dividi-los, em três grupos bem distintos. O primeiro, seria o dos negativistas, que atribuem pouco ou nenhum valor à jurisprudência como tal. O segundo, dos que exacerbam o valor da mesma, e que chamaríamos de jurisprudencialistas. O terceiro, o dos que se poderiam denominar realistas, pois, segundo nos parece, colocam a questão nos seus devidos termos”. Concluía que8 “a jurisprudência (não os julgados, mas a repetição constante, racional e pacífica destes) pode adquirir verdadeiro caráter de preceito geral. É, a nosso ver, quando, pela força da reiteração e, sobretudo, da necessidade de bem regular, de modo estável, uma situação não prevista, ou não resolvida expressamente pela lei, ela assume os caracteres de verdadeiro costume judiciário”. Por outro lado, registre-se que a preocupação da doutrina, em relação ao tema da jurisprudência, não se limita mais apenas à discussão de outrora, ou seja, sobre a sua inclusão ou não no rol das fontes do direito, assim caracterizada pela sua eficácia vinculativa (binding precedent) e não apenas persuasiva. Embora este aspecto continue sendo nuclear, as inquietações passaram a abarcar a necessidade de uma ampliação e aprofundamento do objeto do estudo do precedente. Por conseguinte, os olhares passaram a se voltar para a prestação jurisdicional como um todo, envolvendo uma análise do papel, das estruturas e do modo como vem sendo exercida a atividade judicante no Brasil. O estudo do precedente, no âmbito do common law, vem propiciando profundas reflexões na teoria da decisão judicial, vista tradicionalmente, na nossa realidade do civil law, como pronunciamento capaz de encerrar um conflito, caracterizado pela pretensão resistida, mas não como formuladora de um ponto de referência normativo para o sistema, com capacidade de vinculação vertical e horizontal, a partir de uma tese jurídica (ratio decidendi ou holding), que precisa ser abstraída do julgado. O sistema do stare decisis et non quieta movere9 (mantenha-se o decidido e não mova o que se encontra assentado), no common law, trabalha com uma lógica de segurança jurídica, de racionalidade, de isonomia e de previsibilidade, a partir de uma tese jurídica acolhida por uma corte judicial e que, em princípio não deve ser modificada pelo próprio órgão prolator ou cortes inferiores (eficácia horizontal e vertical), salvo se houver uma forte razão para a alteração da norma estabelecida (overruling). Não havendo motivos para a superação do precedente, os demais casos deverão seguir o entendimento já firmado, estabelecido. O direito costumeiro trabalha, assim, com uma metodologia de estudo dos precedentes, a partir dos quais se extrai a razão de decidir que estará norteando os casos futuros a partir de elementos que foram considerados essenciais para a tomada de decisão condutora. Por sua vez, se o futuro caso envolver outros elementos essenciais peculiares, a corte deverá efetuar todo um trabalho de argumentação, no sentido de demonstrar que o novo caso não se enquadra dentro das características do precedente “a” ou “b” e que, portanto, merecerá a construção de raciocínio diverso (“c”), distinto do aplicado anteriormente, técnica esta denominada distinguishing. As duas famílias jurídicas reservam, assim, nítida diferença para o papel do precedente judicial, sob o ponto de vista teórico e prático. Registre-se que, no 8.3. que concerne aos precedentes, a ampliação e o aprofundamento do estudo do tratamento dado pelos países de common law poderão propiciar uma mudança de paradigma nos países de civil law, mas isto ainda se encontra relativamente distante da nossa realidade prática, não obstante modificações que se revelam na direção do fortalecimento dos precedentes judiciais no ordenamento jurídico brasileiro. A IMPORTÂNCIA DOS PRECEDENTES E DA JURISPRUDÊNCIA Dentro da visão clássica da separação de poderes, caberia ao Poder Judiciário tão somente a interpretação das normas editadas pelo Poder Legislativo. Não se pretende, naturalmente, neste momento, se revolver um quadro mais complexo em torno da questão. Mas, de antemão, pelo menos duas hipóteses podem ensejar uma atividade inovadora por parte do Poder Judiciário: (a) quando os preceitos estabelecidos pelo Legislador ensejarem diversidade de interpretação, de modo que haja a necessidade de se fixar o devido balizamento e padrão normativo de conduta e seja o Poder Judiciário provocado a fazê-lo; (b) quando o caso concreto não se enquadrar em preceito legislativo anterior e houver demanda sobre a questão, levando o Poder Judiciário, diante da proibição do non liquet, a enfrentar pioneiramente o assunto. Em sentido lato, parece que ambas as hipóteses supramencionadas possam ser tratadas como hard cases, pois, nas duas, o órgão judicial é instado a se antecipar, de maneira inovadora e procurando estabelecer um liame argumentativo com os princípios, regras e precedentes existentes no ordenamento, de modo a se constituir em sintonia com o sistema jurídico. Embora, na prática, as decisões judiciais nem sempre desenvolvam, com profundidade, esta linha de fundamentação, não sendo rara a prática evasiva de se reportar tão somente ao sentir, ao parecer ou entendimento pessoal do julgador ou a normas ou precedentes genéricos, sem que sejam enfrentadas, respectivamente, os raciocínios divergentes ou a falta de preceito específico sobre a questão posta em juízo. O caráter inovador ou criativo das decisões judiciais não decorre, portanto, principalmente da vontade do próprio julgador,mas das circunstâncias sociais, razão pela qual se toma a liberdade de criticar a expressão, pejorativa por sinal, “ativismo judicial”. Esta denominação poderia ser empregada, com razão, diante de uma manifestação do órgão judicial desprovida de provocação pelas partes, como, por exemplo, a de julgamento extra petita ou fora dos contornos de equilíbrio na condução do processo. No mundo contemporâneo, é fato notório e incontroverso que se vive em uma sociedade a cada dia mais dinâmica, na qual as inovações tecnológicas e comportamentais são a tônica. A edição de normas escritas, pelo Poder Legislativo, pressupõe a existência ou previsibilidade de um fato a ser regulado. Por sua vez, o processo legislativo, em sentido amplo, nas sociedades democráticas, é marcado por ritos procedimentais, que buscam assegurar o pleno debate e participação dos representantes do povo, demandando tempo. Entretanto, a vida não para. Os debates e conflitos acabam sendo levados ao Poder Judiciário. É interessante notar que, embora o processo judicial possa ter uma duração até mesmo prolongada até o seu término, o encaminhamento do conflito ao Poder Judiciário e a possibilidade de uma decisão judicial, ainda que em caráter apenas antecipatório, não demandam maior demora ou mesmo eventualmente custos elevados, o que o torna suscetível de rápida ou imediata provocação. A dificuldade de previsibilidade, por parte do legislador, faz que se tente contornar o problema mediante a edição de preceitos mais gerais, com cláusulas mais abertas, consideradas mandamentos de otimização, os denominados princípios, que compõem as normas, ao lado das regras. Nesse sentido, afirma Robert Alexy10 que o “ponto decisivo na distinção entre regras e princípios é que princípios são normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível dentro das possibilidades jurídicas e fáticas existentes. Princípios são, por conseguinte, mandamentos de otimização, que são caracterizados por poderem ser satisfeitos em graus variados e pelo fato de que a medida devida de sua satisfação não depende somente das possibilidades fáticas, mas também das possibilidades jurídicas. O âmbito das possibilidades jurídicas é determinado pelos princípios e regras colidentes. Já as regras são normas que são sempre ou satisfeitas ou não satisfeitas. Se uma regra vale, então, deve se fazer exatamente aquilo que ela exige; nem mais, nem menos. Regras contêm, portanto, determinações no âmbito daquilo que é fática e juridicamente possível. Isso significa que a distinção entre regras e princípios é uma distinção qualitativa, e não uma distinção de grau. Toda norma é ou uma regra ou um princípio”. Dentro desta concepção mais estrita, as duas possibilidades supramencionadas de hard cases poderiam ser esquematizadas do seguinte modo: (a) a colidência de regras, com o pronunciamento judicial a partir de princípios; (b) ausência de regras, com decisão judicial também calcada em princípios. Em ambas, a atividade concretizadora, em termos de regras, adviria do Poder Judiciário. Portanto, pode-se afirmar que os precedentes passam a ter mais significado para a definição das normas de conduta, no cenário atual, não apenas nos países de common law, mas também para os ordenamentos considerados de civil law. Em termos formais, o ordenamento processual brasileiro se referia especialmente à jurisprudência ou apenas a um dos seus instrumentos de exteriorização: a súmula. Entretanto, a evolução do sistema pressupõe o amadurecimento do tratamento conferido tanto à jurisprudência quanto aos precedentes. Isso porque ambos representam estágios correlacionados do fortalecimento do pronunciamento judicial, envolvendo as suas diversas qualidades. Dentro deste cenário, as decisões judiciais passam a ter uma importância não apenas sob o prisma da resolução do caso concreto, mas como fixadoras de padrões de conduta. Muitos exemplos poderiam demonstrar esta afirmação. Em seguida, serão apontados dois. O primeiro diz respeito à proibição do fumo nas aeronaves, estabelecida inicialmente a partir de uma decisão judicial proferida em ação civil pública, ajuizada pelo Ministério Público Federal, no ano de 1998, quando ainda não havia lei que expressamente proibisse esta prática em voos de longa duração. Levando-se em consideração princípios como o da segurança e da saúde, bem como a analogia com outras regras, a Justiça Federal do Rio Grande do Sul 8.4. determinou a proibição do fumo em todas as aeronaves, em voos nacionais, durante todo o percurso.11 O segundo exemplo pode ser apontado nos julgamentos proferidos pelo STF na ADPF 132/RJ e na ADIn 4.277/DF, declarando a inconstitucionalidade de distinção de tratamento legal às uniões estáveis constituídas por pessoas de mesmo sexo, o que acabou por ensejar a edição da Res. 175/2013, do CNJ, ampliando a incidência do posicionamento firmado para aplicá-lo aos casos de habilitação, celebração de casamento civil, ou de conversão de união estável em casamento, entre pessoas de mesmo sexo. Em ambos os casos, as decisões judiciais proferidas representaram importantes inovações, que se anteciparam em relação a eventuais mudanças legais, ensejando provimento de caráter criador e pacificador para as relações sociais. O STARE DECISIS E AS QUALIDADES DOS PRECEDENTES E DA JURISPRUDÊNCIA O funcionamento do stare decisis se baseia na ideia de segurança jurídica, previsibilidade e de isonomia, com a sociedade podendo se nortear a partir dos valores e das normas estabelecidas com base nos costumes reconhecidos ou estabelecidos nos precedentes judiciais. Portanto, a delimitação das razões de decidir e das circunstâncias essenciais do caso julgado é fundamental para a caracterização do que está abarcado ou não nos limites do entendimento firmado pela corte. Esta operação costuma distinguir, portanto, a essência da tese jurídica assumida (ratio decidendi) de elementos acidentais ou pronunciados a latere (obter dicta) no julgamento. Por sua vez, o precedente possui uma eficácia horizontal e vertical, ou seja, vinculando o próprio órgão judicial prolator e os que estão em posição inferior, ou melhor, submetidos em termos de meios de impugnação ao seu julgamento. Naturalmente, o seu ponto de vista poderá influenciar e ser considerado por instâncias superiores, mas sem qualquer efeito vinculativo. Entretanto, se reformada a decisão, o pronunciamento proferido pela instância superior passará a ser vinculante. O sistema trabalha, assim, com uma ideia de manutenção de entendimento se não houver nenhum fator relevante a determinar uma mudança de entendimento, o que, naturalmente, é possível, mas não frequente. E, de qualquer modo, quando overruled, ou seja, superada a tese anterior, há que se realizar toda uma construção argumentativa a justificar a alteração de entendimento. As cortes são, portanto, muito ciosas no sentido da preservação dos seus precedentes. Por outro lado, parece haver um respeito em relação a este posicionamento por parte das instituições jurídicas. Naturalmente, esta respeitabilidade, ou melhor, solidez decorre e é proporcional, em boa medida, à capacidade de fundamentação contida nas razões da decisão (ratio decidendi). Gustavo Santana Nogueira12 entretanto, discorre que, entre os fatores que costumam influenciar a força do precedente, nos Estados Unidos da América, estão se o mesmo versa sobre matéria constitucional13 os juízes que participaram da votação, o placar da votação, a idade do precedente e a repercussão em casos futuros. No direito britânico, a forçavinculante do precedente ficou assentada especialmente em 1898, a partir do caso London Tramways v. London City Council, julgado pela House of Lords14 tendo-se, na ocasião, ressaltado que ela própria estaria ungida pelas suas decisões e não poderia se afastar delas nos casos similares futuros.15 A rigidez desta vinculação gerou críticas, no sentido de que restringiria o natural desenvolvimento do direito e a sua conformidade com as mudanças operadas nos padrões e na cultura da sociedade. Desperta para o problema, a própria House of Lords retratou-se oficialmente, em 1966, mediante uma declaração sobre “precedente judicial”, publicada em todos os repositórios jurídicos da Inglaterra. No documento, ressaltou-se que o uso do precedente é uma base indispensável sobre a qual se decide qual é o direito e a sua aplicação para os casos individuais. Entretanto, os membros da Corte reconheceram que uma aderência extremamente rígida ao precedente poderia conduzir à injustiça em um caso específico e também indevidamente restringir o normal desenvolvimento do direito. Propuseram, assim, a modificação da respectiva prática, em relação às decisões anteriores da House of Lords que seriam normalmente vinculantes, afastando-se de uma decisão anterior quando se mostrar correto que assim seja feito. Por conseguinte, ressaltaram que, na aplicação deste novo entendimento, os julgadores daquela corte levariam em consideração o perigo de se causar distúrbio retrospectivamente em relação aos negócios contratuais, direitos de propriedade e disposições fiscais já em vigor, bem quanto ao direito penal.16 Não obstante a ressalva final, a possibilidade de superação do precedente (overruling) poderia ocorrer mesmo nas áreas mais sensíveis mencionadas. Isso ficou claro no caso Regina v. Shivpuri, envolvendo matéria criminal, conforme desdobramento que se verá em seguida. No ano de 1975, a House of Lords julgou o caso Regina v. Smith, no qual o réu foi acusado de tentar manusear ou negociar produtos roubados. Demonstrou- se que, embora o réu acreditasse que os bens haviam sido subtraídos, na verdade não tinham sido roubados, o que normalmente pode ser classificado como crime impossível. A tese foi acolhida pela House of Lords, que absolveu o acusado. Posteriormente, no ano de 1981, o legislador britânico editou o Criminal Attempts Act, no qual previa, na Seção 1, item 2, que “uma pessoa pode ser condenada por tentativa de cometimento de um crime, previsto nesta seção, mesmo quando os fatos sejam de tal modo que a consumação do crime seja impossível...”. De se notar ainda que a Comissão Legislativa havia publicado uma exposição de motivos, na qual mencionava exatamente o exemplo do acusado que estaria com objetos que supunha roubados, mas que, na verdade, não haviam sido subtraídos. Em seguida, a House of Lords é chamada a julgar, no ano de 1985, o caso Anderton v. Ryan, no qual a ré havia adquirido um equipamento de vídeo, pensando que o mesmo fosse roubado, embora, de fato, não o fosse. A ré foi acusada de ter praticado a conduta, mencionando-se expressamente o novo Criminal Attempts Act, de 1981. A ré foi absolvida em primeira instância, pela Trial Court, mas condenada em segundo grau, pela Divisional Court of the Queen’s Bench Division. Por último, a Casa dos Lordes restabeleceu o teor da decisão de primeiro grau, julgando a ré, senhora Anderton, não culpada, com base no precedente Regina v. Smith e desconsiderando o Criminal Attempts Act de 1981. O caso foi extremamente debatido na literatura jurídica, que majoritariamente criticou de modo severo a falta de aplicação do ato legislativo recentemente editado. Por fim, ocorre o julgamento do caso Regina v. Shivpuri, no ano de 1987, no qual o réu é acusado do crime de tentativa de tráfico de droga, que pensava ser heroína, violando o Criminal Attempts Act 1981. Na verdade, a substância não era heroína, mas, sim, uma substância vegetal inofensiva. O réu foi condenado, em primeiro grau, pela Trial Court, sendo mantida a condenação pela divisão criminal da Court of Appeal e pela House of Lords. O réu alegou o precedente Anderton, pois, do mesmo modo que a ré, equivocadamente, havia pensado que o material era roubado, ocorrera com Shivpuri em relação à droga, o que tornaria ambos os crimes impossíveis. Expressando a maioria da então Suprema Corte britânica, o voto de Lord Bridge of Harwich assume que não seria o caso de se efetuar a distinção em relação ao julgamento proferido em Anderton v. Ryan. Mas, sim e ainda que tivesse participado da decisão anterior, que aquele pronunciamento anterior estava errado. Indagou, então, o que deveria ser feito. E que, não sendo a hipótese distinta, pela aplicação estrita da doutrina do precedente, o apelo deveria ser provido. Pergunta ainda se seria permitida a superação do precedente com base no Practice Statement (Judicial Precedent) [1966] não obstante a especial necessidade de segurança no direito penal, para responder afirmativamente pela possibilidade de afastamento do precedente. Para tanto, fundamenta, em síntese: (1) que a decisão proferida no caso Anderton v. Ryan era bem recente, que a Practice Statement, sobre precedente judicial representava um efetivo abandono da pretensão de infalibilidade da corte e que, se um sério erro contido em uma decisão do tribunal estivesse distorcendo o direito, quanto mais rápido se pudesse corrigir o equívoco melhor; (2) que ele não entendia factível que alguém pudesse ter acreditado que se tratava de afirmar que a conduta anterior havia sido feita, inocentemente, de acordo com a lei e que agora não; (3) não se poderia desconsiderar a mudança realizada pela lei de 198117 Como se pode ver e retomando a indicação das qualidades desejáveis em relação aos precedentes e à jurisprudência, pode-se apontar que, em termos de mutabilidade, o compromisso deve ser, em primeiro lugar, no sentido da segurança jurídica, ou seja, os precedentes devem vincular os próprios órgãos prolatores e os submetidos à sua jurisdição. No entanto, isso não significa imutabilidade absoluta. Por conseguinte, os precedentes podem ser superados pela alteração das condições em que foram proferidos, como, por exemplo, pela mutação constitucional ou legal superveniente, tal como supramencionado no caso Regina v. Shivpuri; bem como pelo reconhecimento de erro anteriormente cometido, para que serve também o exemplo anterior britânico; ou ainda por não se enquadrar mais dentro dos valores supervenientemente assumidos pela sociedade. Neste último contexto, a história aponta inúmeros exemplos, como as alterações de paradigmas em relação à escravidão, no Poder Judiciário norte- americano, ou mesmo dos casos de segregação, como Brown v. Board of Education, ou, ainda, na própria experiência brasileira, diante da aceitação da relação de casamento e união estável, entre pessoas do mesmo sexo, nas mais variadas esferas. O ponto de equilíbrio, em relação ao respeito aos precedentes, parece estar distante na realidade brasileira, que precisa, sem dúvida, amadurecer neste aspecto, diante da profusão de decisões divergentes proferidas e do caráter meramente persuasivo considerado no que toca não apenas aos precedentes, mas até mesmo a jurisprudência e os enunciados contidos nas súmulas. Por exceção, o binding effect é reconhecido apenas na súmula vinculante do STF e nos julgamentos em sede de controle abstrato de constitucionalidade e inconstitucionalidade no âmbito doSTF. Por certo, para que o precedente seja respeitado, impõe-se uma mudança cultural e, eventualmente, legislativa, no sentido de que os órgãos judiciais tenham que observar os precedentes e, somente com a devida fundamentação, a partir dos métodos de distinção ou de superação, ousar não aplicar o precedente. 8.5. 8.5.1. Os precedentes precisam dispor de clareza, solidez e profundidade nos seus fundamentos, pois, do contrário, dificilmente serão respeitados e seguidos. Isso não significa que este cuidado tenha que estar presente em todas as decisões judiciais. Esclarecendo, as decisões judiciais, em geral, precisam estar fundamentadas. Mas, se não representam inovação, mas simples aplicação de precedentes, poderão, naturalmente, se valer dos fundamentos, e consequentemente da clareza, solidez e profundidade contidos no leading case seguido. Portanto, a preocupação reforçada com a fundamentação seria inerente aos precedentes e também às decisões que venham se distanciar do precedente, seja a partir do distinguishing ou do overruling. Os precedentes devem ser firmados dentro de um tempo razoável. Isso significa que os tribunais, especialmente em casos repetitivos, devem julgar com o devido amadurecimento as causas, procurando ter o domínio das teses e argumentações formuladas em um conjunto de processos, para que possa melhor decidir o precedente. O julgamento tardio, assim como precoce, pode ser deletério para o sistema jurídico. A demora no julgamento produz, naturalmente, incerteza e acúmulo de demandas, diante da falta de definição sobre a questão em aberto. O pronunciamento precoce, assim entendido como o proferido em momento em que o órgão julgador ainda não equacionou devida, ampla e profundamente todas as teses e argumentos pertinentes, pode tornar a fundamentação menos sólida e qualificada, motivo de enfraquecimento para o precedente, causando maior probabilidade de modificação. As qualidades supramencionadas estão imbricadas com alguns fatores que serão analisados nos próximos itens. PRINCIPAIS FATORES QUE INFLUENCIAM EM TERMOS DE PRECEDENTES NO CONTEXTO BRASILEIRO Fatores culturais O aspecto cultural é primordial, sob o ponto de vista do papel e funcionamento dos precedentes. Nesta seara, a cultura brasileira é marcada pelo 8.5.2. paradoxo. Se, por um lado, almeja a segurança jurídica, a igualdade e a previsibilidade, por outro, é fortemente marcada pelo desejo de mudança, decorrente de um sentimento de insatisfação com o status quo. A visão institucional é suplantada, rotineiramente, pelo personalismo; os direitos e deveres são, com frequência, sufocados pelo poder ou pela falta de informação e educação. A luta contra o passado autoritário confunde-se, por vezes, com a liberdade sem limites. No cenário jurídico, isso se reflete na personificação de julgados, no inconformismo renitente diante de posicionamentos assentados pelos tribunais, na visão belicista dos conflitos, no número diminuto de processos resolvidos pela conciliação ou por meios consensuais, na elevada resistência diante do cumprimento de deveres e decisões judiciais, até mesmo por órgãos integrantes da administração pública. Por certo, a configuração multicultural do país, ao mesmo tempo em que propicia uma realidade dinâmica e plural na sua essência, acentua a heterogeneidade. Há, portanto, uma profusão de valores, credos, expectativas e objetivos, que contribuem para um contexto em ebulição, em que a homogeneidade da jurisprudência ou a previsibilidade dos precedentes nem sempre encontram um porto seguro. Educação jurídica A educação jurídica brasileira é calcada, em termos gerais, na dogmática e no positivismo. Há também, infelizmente, um desnível considerado entre as instituições universitárias. De certo modo, uma elite composta das universidades públicas e algumas instituições privadas, nas quais o corpo docente possui uma formação e titulação mais qualificada, bem como um corpo discente em quantitativo mais reduzido. Por outro lado, houve, nas últimas décadas, um crescimento enorme do número de cursos privados de direito, bem como do respectivo número de estudantes de direito, que acabam esbarrando nas dificuldades de aprendizado e qualificação. Por fim, o próprio mercado acaba não absorvendo ou propiciando boas condições para um número tão elevado de 8.5.3. bacharéis que se formam constantemente no país. O número elevado de candidatos e o montante de não aprovados em concursos públicos e nos exames da Ordem dos Advogados do Brasil indicam a massificação e perda de qualidade. A formação jurídica é calcada principalmente no estudo do ordenamento jurídico a partir da constituição e das leis, sendo manifestamente secundário o estudo de casos e principalmente das razões das decisões proferidas pelos tribunais. Por vezes, os julgados são analisados tão somente com base no resultado do julgamento, sem a análise e comparação das razões de decidir dos pronunciamentos judiciais. A diversidade do ensino oferecido e também na aferição do conhecimento adquirido pelos estudantes de direito proporciona grandes diferenças nas carreiras jurídicas e no nível dos profissionais. Na Alemanha18 por exemplo, os estudantes de direito submetem-se a dois exames estatais (Staatsexamen), cuja aprovação é exigida para todas as carreiras jurídicas, o que acaba estabelecendo um padrão mínimo de conhecimento e qualificação para todos os profissionais da área jurídica. Por outro lado, no Brasil, a metodologia é fundada no estudo de manuais e textos legais, bem como a demonstração do conhecimento por meio de provas discursivas. A resolução de casos, quando existente, é formulada, na maioria das vezes, a partir da subsunção dos fatos aos dispositivos constitucionais e legais. A metodologia de estudos de casos, centrada nas razões de decidir e no comparativo e sistematização de julgados é desenvolvida em quantidade ínfima de instituições. Por conseguinte, os estudantes de direito sequer desenvolvem, a contento, habilidades calcadas na análise de casos concretos, razão pela qual, por vezes, apresentam dificuldades para a elaboração de pareceres ou sentenças. Estrutura e organização do Poder Judiciário A influência da estrutura e da organização do Poder Judiciário para o sistema de precedentes tem recebido, de certo modo, por parte da academia, pouca atenção.19 Entretanto, me parece que é um fator de grande importância para o aprimoramento da prestação jurisdicional e de fundamental relevância para o fortalecimento dos precedentes judiciais, especialmente nos países de civil law. O primeiro aspecto a ser observado é que, ao longo dos tempos, o Poder Judiciário foi, gradativamente, ampliando o seu universo de alcance. Há, portanto, uma enorme gama de matérias que são apreciadas pelos juízes: conflitos envolvendo famílias, funcionários públicos, contribuintes, questões ambientais, aposentadorias, pensões, crimes das mais diversas naturezas, execuções fiscais, licitações, contratos, relações trabalhistas, militares, financeiras, administrativas, de marcas, patentes, consumeristas, eleitorais, responsabilidade civil, desastres aéreos, terrestres, marítimos e fluviais etc. Em segundo lugar, o número de processos também aumentou vertiginosamente20. O resultado deste crescimento avassalador e combinado com o fenômeno da ampliação e diversificação de assuntos e matérias tratados nos processos é a maior dificuldade para que os magistrados, como um todo, possam desenvolver, em tempo razoável,com qualidade e segurança, a prestação jurisdicional. Os dois aspectos supramencionados (diversidade de matérias e quantidade de processos) acabam esbarrando em um terceiro elemento de dificuldade: a relativa falta ou reduzida especialização dos órgãos julgadores. O fenômeno, de certo modo, pode ser indicado como estando na contramão da história moderna e contemporânea, na qual a sociedade, a indústria, os serviços, as empresas, o ensino e os profissionais caminharam no sentido da especificação e repartição das áreas de estudo e de trabalho. No próprio ensino jurídico e na advocacia, constata-se o crescente incremento desta ramificação. No entanto, pode-se apontar, ainda, no Brasil, como deveras limitada a especialização dos órgãos judiciais. Façamos uma comparação, por exemplo, com a Alemanha21, país que possui menos da metade da nossa população e um território bem menor. O que temos sob a jurisdição dita comum encontra-se dividido na Alemanha nos ramos das Justiças Administrativa, Financeira, Social 8.5.4. e Comum. O Bundesgerichtshof, equivalente ao nosso STJ, mas que não julga as matérias administrativas, financeiras e previdenciárias, é composto por 128 ministros, subdivididos em 24 órgãos especializados (Senate), com competência exclusiva para cada matéria22. Não há, por conseguinte, competência concorrente entre as turmas (Senate). Portanto, cada órgão fracionário possui competência exclusiva para determinadas matérias. Por exemplo, direitos autorais ou de propriedade intelectual são julgados apenas pelo Primeiro Senado Cível; já as causas de direito societário no Segundo Senado Cível; as causas sucessórias pelo Quarto Senado Cível; os conflitos envolvendo locações residenciais e comerciais pelo Quarto Senado; os crimes envolvendo meios de transporte pelo Quarto Senado Criminal; para as causas agrícolas há um Senado Especial e por aí em diante. É de se constatar, naturalmente, que a realidade brasileira destoa bastante da estrutura alemã. No nosso país, até pouco tempo atrás, a divisão estava limitada às matérias criminais e cíveis. Nos últimos vinte anos, houve um avanço na especialização. Entretanto, em geral, nos tribunais e na primeira instância, tanto na Justiça Comum, como nos ramos especializados (Trabalho, Eleitoral e Militar), ainda há uma concentração grande de matérias nos mesmos órgãos judiciais. Com isso, a estrutura judiciária brasileira ainda é marcada pela generalidade, ou clínica geral, o que, na opinião do autor deste texto, acaba não contribuindo para a melhoria da prestação jurisdicional, em termos de duração, qualidade e segurança na prestação jurisdicional. Representa, assim, um grande problema para o fortalecimento do sistema de precedentes. Por certo, a estabilidade e previsibilidade dependem do conhecimento aprofundado das matérias, o que se torna humanamente impossível diante do amplo rol de assuntos que são encaminhados, hodiernamente, ao Poder Judiciário. O papel dos profissionais do direito Nos países em que há um maior respeito e consideração em relação aos precedentes judiciais, os profissionais da área jurídica possuem o dever de conhecer e de agir de acordo com os precedentes. Representa, assim, um dever 8.6. funcional para os juízes e advogados. Para os magistrados, significa o efeito vinculante horizontal e vertical, no sentido de seguirem as teses consagradas nos próprios tribunais e nos tribunais superiores. A advocacia passa a ter o dever de colaborar com o sistema, orientando os seus clientes sobre as posições consolidadas nos tribunais e exercendo o patrocínio de acordo com esta orientação. Isso não pode, naturalmente, constranger o advogado ou as partes a defender teses jurídicas que se oponham ao status quo. Entretanto, para que não fique caracterizada uma espécie de “litigância de má fé”, deve haver fundadas razões para se alimentar a expectativa de mudança, que deve estar devidamente fundamentada. Isso pode ocorrer mesmo em países de civil law. Christoph Kern23 ao discorrer sobre os padrões profissionais na Alemanha, aponta que deve ser notado que os tribunais consideram, de longa data, que os advogados devem, em princípio, conhecer o direito e a sua interpretação pelas cortes. Em particular, os advogados possuem o dever, em relação aos seus clientes, de esclarecê-los sobre todos os precedentes relevantes, com os quais devem estar alinhados os seus aconselhamentos jurídicos e as estratégias processuais. Se o cliente sofrer danos em consequência da violação deste dever jurídico, o patrocinado poderá demandar o respectivo advogado, bem como a sua companhia de seguro, para a respectiva compensação. Entretanto, pondera o autor alemão, que por mais estrita que seja a responsabilidade, o dever de conhecer e respeitar os precedentes somente fará sentido se o advogado supõe que os tribunais normalmente seguirão os precedentes. Por fim, conclui que a existência de tal dever, portanto, é um sinal do alto respeito que, normalmente, as cortes alemãs demonstram pelos precedentes e isso, ao mesmo tempo, reforça o respeito. AS FONTES FORMAIS DO DIREITO NO BRASIL A discussão em torno do caráter vinculativo ou não dos precedentes remete, como supramencionado, a uma polêmica antiga, que poderia ser estruturada em três correntes: a) negativista, que não considera a jurisprudência ou os precedentes como fonte formal do direito; b) afirmativa, no sentido de que se poderia aplicar no Brasil o sistema de stare decisis, a partir dos precedentes em geral; c) realistas, que considerariam como fonte formal apenas os precedentes identificados como vinculativos na legislação ou que tivessem a característica de reiteração nas cortes, caracterizando um verdadeiro costume judiciário. O tema, por si só, merece o devido aprofundamento. Mas, a leitura do texto constitucional parece indicar que, em geral, adota-se, no Brasil, em conformidade com a família de civil law, o sistema da legalidade. Portanto, para o cidadão isso representa a liberdade de fazer ou não fazer, que somente poderá ser privada em virtude de lei, nos termos do inciso II, do art. 5º da Constituição. Por outro lado, para os órgãos estatais, como se sabe, representa a possibilidade de realização de atos em conformidade com a previsão legal, observando-se, assim, o princípio da legalidade, nos termos, dentre outros, do art. 37 da Constituição. Por sua vez, em relação à magistratura, é de se notar que a Constituição estabeleceu principalmente normas organizacionais e os principais princípios que regem a atividade jurisdicional, remetendo à lei complementar, de iniciativa do Supremo Tribunal Federal, o denominado Estatuto da Magistratura. Houve, contudo, como mencionado na introdução, a inclusão, no capítulo do Supremo Tribunal Federal, de duas normas (arts. 102, § 2º, e 103-A), que estabeleceram, respectivamente, o efeito vinculante, em relação às decisões definitivas de mérito em controle concentrado de constitucionalidade e aos enunciados da “súmula vinculante”. É de se registrar que, no caso, o efeito vinculante não se encontra restrito aos demais órgãos do Poder Judiciário somente, mas abrange também, expressamente, os órgãos da administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal. No atual estatuto da magistratura, a Lei Complementar nº 35/79 prevê, no art. 35, inciso I, como dever do juiz, cumprir e fazer cumprir, com independência, serenidade e exatidão, as disposições legais e os atos de ofício. Em síntese, em termos de disposições normativas sobre as fontes formais do direito brasileiro, o tratamento geralnão foi feito no âmbito constitucional. A 8.7. matéria, como fonte formal em termos gerais, não foi reservada também ao nível de lei complementar, salvo no aspecto relacionado ao estatuto da magistratura. Registre-se que a Lei Complementar nº 95/98 tratou apenas de outros aspectos pertinentes à elaboração, redação, alteração e consolidação das leis. Portanto, a previsão pertinente às fontes formais pode ser extraída do art. 4º do DL nº 4.657/1942, que estabelece que, quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito. Sendo assim, o que se pretende demarcar, como primeira premissa, é que a Constituição fixa tão somente o primado da lei como fonte formal do direito brasileiro. Mas, ao fazê-lo, o realiza com limitações que não se aplicam ao tema das fontes formais para a decisão do juiz em geral. Por isso, a complementação realizada na denominada Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro, conforme redação dada pela Lei nº 12.376, de 2010, não padece de qualquer vício de constitucionalidade, ao prever que os juízes deverão decidir o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais do direito. E, como decorrência, não se torna aceitável a alegação de que apenas a Constituição poderia fixar normas de caráter vinculativo para os órgãos judiciais. Como consequência lógica do raciocínio acima exposto, pode-se afirmar que o novo Código de Processo Civil, sendo uma lei ordinária, é, assim, também fonte primária e básica no direito brasileiro. Por conseguinte, os juízes devem, nos termos do art. 35, inciso I, da Lei Complementar nº 35, cumprir e fazer cumprir as normas legalmente estabelecidas, dentre as quais a do art. 927 do novo CPC. A IDEIA DE INDEPENDÊNCIA FUNCIONAL DOS MAGISTRADOS Poder-se-ia, contudo, objetar ainda com base no próprio Estatuto da Magistratura, que o efeito vinculativo seria passível de afastamento em razão da expressão “com independência, serenidade e exatidão”, do contrário a primeira qualidade ficaria tolhida. Mas esta objeção, com a máxima vênia, não parece se coadunar com a norma estabelecida. Pois, naturalmente, não se pretendeu mencionar a independência diante da norma. Mas, sim, que a sua aplicação deveria ser feita com independência, ou seja, não se curvando aos demais poderes, sujeitos, fatores e interesses políticos, econômicos, religiosos e de outra natureza envolvidos. É claro que se pode extrair esta independência até mesmo em relação a outros membros do Poder Judiciário, na eventualidade de se tentar influenciar, de modo indevido, sub-reptício, a decisão do juiz. Isso não possui qualquer relação com o cumprimento da lei e do caráter vinculativo estabelecido nas hipóteses previstas nos incisos do art. 927 do Código de Processo Civil. O Código de Processo Civil não afastou a independência dos magistrados e, mesmo no que diz respeito à interpretação das normas não efetuou vinculação absoluta. Isso porque não há um sistema absoluto de precedentes, ou seja, apenas nas situações indicadas no art. 927 haverá efeito vinculativo, embora se possa e se deva também, na totalidade ou maioria dos casos, se estimular a observância do entendimento firmado pelos tribunais superiores ou pelo tribunal ao qual o órgão judicial está vinculado, ainda que em razão do caráter persuasivo dos precedentes. Por outro lado, o caráter vinculativo não dispensa a análise do caso concreto e dos argumentos apresentados. Não se trata de trabalho mecânico. Há que se verificar a identidade ou não das circunstâncias determinantes, com a devida fundamentação, para que se possa analisar a subsunção ou a distinção do caso concreto com os precedentes. Mas, naturalmente, esta operação não deve servir de instrumento para se escamotear a necessidade de observância. Marinoni24 discorreu muito bem sobre os aspectos culturais que tanto influenciam na tendência à observância ou não dos precedentes. Poder-se-ia acrescentar que há uma forte cultura de descumprimento de normas e de padrões no comportamento existente na sociedade brasileira. E os juízes precisam perceber que, ao se desconsiderar os precedentes, se está enfraquecendo as decisões judiciais e, consequentemente, as normas legais. A legitimidade do Poder Judiciário, e também as suas condições de trabalho acabam sendo influenciadas pelo seu próprio comportamento. Afinal, se o juiz 8.8. não segue o que é fixado pelo Supremo Tribunal Federal ou pelos Tribunais Superiores, porque os comerciantes ou cidadãos em geral se sentirão estimulados a cumprir as decisões judiciais? OS PRECEDENTES E O CONTEXTO ATUAL DO PODER JUDICIÁRIO BRASILEIRO O contexto atual da prestação jurisdicional apresenta, por certo, uma realidade difícil e complexa. Embora existam aspectos extremamente positivos, como a estruturação do Poder Judiciário a partir do ingresso na carreira mediante concursos públicos, fortalecendo a sua independência; a ampliação do acesso à Justiça; a alta produtividade; a publicidade dos atos processuais e o bom funcionamento de tutelas de urgência e de evidência, há notórios problemas, dentre os quais o número elevadíssimo de processos (cem milhões, para uma população de duzentos milhões), a consequente demora no julgamento dos processos e eventual perda de qualidade na prestação jurisdicional em razão desta desproporção entre o número de julgadores e de processos, bem como a falta de uniformidade das decisões, levando à quebra da isonomia e da segurança jurídica. Não se precisa ser um estudioso do processo, para se perceber que a falta de unidade na interpretação das normas pelos órgãos judiciais faz crescer não apenas o número de recursos, mas também o número de demandas ajuizadas. É claro, se há sempre uma possibilidade de se obter uma solução favorável no Judiciário, porque as pessoas, naturais ou jurídicas, iriam ajustar o seu comportamento ao da jurisprudência? Por que não demandar ou resistir à pretensão, ainda quando os tribunais superiores ou a jurisprudência do tribunal local esteja em sentido oposto, se há também juízes e tribunais desafiando o entendimento majoritário. Não por outra razão, já se falou de “loteria judiciária”, o que expressa, naturalmente, sentido altamente depreciativo. A ideia de independência dos magistrados suscita a falsa ideia e afirmação de que os juízes podem julgar, sempre, a partir das suas convicções pessoais. Na verdade, isso nunca foi possível. O juiz está adstrito às fontes normativas do 8.9. direito. E, naturalmente, os tribunais superiores têm uma finalidade expressamente prevista na constituição, começando pelo Supremo Tribunal Federal, na guarda da Carta Magna. Não se pode conceber um sistema judicial que não guarde e tenha coerência, a partir de funções constitucionalmente delimitadas. E os próprios tribunais, de certo modo, foram e continuam sendo ainda benevolentes com a indefinição. Conformam-se, por exemplo, com decisões desencontradas entre órgãos fracionários ou dentro do próprio órgão, sem buscar uma definição. Mas, a simples definição de questões jurídicas não é suficiente para conter o problema, se não for suficientemente debatida e embasada em sólidos fundamentos jurídicos, pois a fragilidade nos argumentos do pronunciamento judicial enfraqueceria sobremaneira a jurisprudência, a ponto de comprometer a sua estabilidade. A JURISPRUDÊNCIA E OS PRECEDENTES EM PAÍSES DE COMMON E CIVIL LAW Retornando um pouco à discussão sobre as fontes formais do direito, é importante notar que, tanto nos países de common law, como nos de civil law,não há, necessariamente, normas expressas a determinar o caráter vinculativo dos precedentes. Pelo contrário, não há, em regra, na constituição ou em lei ordinária, a norma, que é abstraída principalmente dos costumes jurídicos e como decorrência lógica do sistema judicial estabelecido. Mesmo quando existente uma norma expressa neste sentido, como ocorre na Alemanha, em relação às decisões da Corte Constitucional (Bundesverfassungsgericht), isso ocorre mediante a previsão apenas em norma ordinária. Vide, neste sentido, a disposição contida no § 31 (1) da lei sobre a Corte Federal Constitucional da Alemanha, que estabelece que as decisões do Tribunal Federal Constitucional vinculam os órgãos constitucionais da União e dos Estados, bem como todos os órgãos judiciais e repartições públicas25. Não há, portanto, qualquer norma constitucional que preveja esta vinculação, mas apenas, como dito, a norma infraconstitucional apontada. E não há nenhuma 8.10. objeção à constitucionalidade desta norma. Pelo contrário, vem-se interpretando de modo ampliativo a disposição, para abranger não apenas a decisão propriamente dita, ou seja, na parte dispositiva, mas os próprios fundamentos utilizados pela Corte26. Em relação aos demais tribunais, embora não haja norma expressa de caráter vinculativo, a persuasão é praticamente total, sendo o próprio ensino extremamente calcado nas decisões proferidas27. O SISTEMA DE PRONUNCIAMENTOS VINCULATIVOS NO CONTEXTO DO NOVO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL Com a edição do novo Código de Processo Civil, pode-se dizer que há um sistema de pronunciamentos qualificados, ou de jurisprudência e de precedentes definido legalmente e que, nestes termos, não pode ser considerado como um regime típico de stare decisis, ou seja, que os precedentes em geral passam a ter um caráter vinculativo no sentido vertical e horizontal. Mas, por outro lado, não existe apenas um mero efeito persuasivo nas hipóteses indicadas nos cinco incisos do art. 927. Embora, como já mencionado, as duas primeiras situações não constituam inovação, porque já se encontravam anteriormente previstas na própria Constituição da República. As hipóteses elencadas no art. 927 se justificam plenamente. Em primeiro lugar, as decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade, como já abordado, possuem efeito erga omnes e caráter vinculativo para os órgãos judiciais e da Administração Pública, no âmbito federal, estadual e municipal, por determinação da própria Constituição da República, nos termos dos arts. 102, § 2º, e 103-A. Não poderia ser de outra maneira, ainda que não houvesse previsão expressa, porque o controle concentrado serve exatamente para isso, ou seja, se estabelecer uma decisão e segurança jurídica geral, e não apenas em relação às partes, quanto à constitucionalidade ou não da norma questionada. Do contrário, não haveria controle concentrado e abstrato nas ações diretas de constitucionalidade e de inconstitucionalidade. Do mesmo modo, os enunciados da súmula vinculante do STF prescindiriam da previsão contida no art. 927. A sua inserção, portanto, procurou apenas consolidar o sistema, permitindo-se, assim, uma imediata visualização das hipóteses vinculativas. Mas, o Código pretendeu ir além. Em primeiro lugar, ainda que constando do inciso IV, e não chegando a estabelecer uma vinculação em relação a todas as decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, como fixado pelo legislador alemão, e pelos Tribunais Superiores, ampliou a abrangência para os enunciados das respectivas súmulas, desde que versando sobre matéria constitucional, as do Supremo Tribunal Federal, e de matéria infraconstitucional, para as do Superior Tribunal de Justiça. Preservaram-se, assim, as respectivas funções jurisdicionais, procurando-se evitar a possibilidade de dupla vinculação ou de sobreposição de comandos, ainda que, na prática, possa existir certa controvérsia sobre a natureza da matéria sumulada. O inciso III trata, basicamente, de três sistemáticas: a) recursos repetitivos; b) incidente de resolução de demandas repetitivas (IRDR) (rectius de questões comuns); e incidente de assunção de competência (IAC). Nas duas primeiras, adotou-se uma técnica de concentração, a partir de casos ou questões comuns, respectivamente, com a suspensão dos demais. Naturalmente, somente farão sentido os dois instrumentos (recursos repetitivos e IRDR), se a decisão proferida de modo concentrado for aplicada aos processos dependentes do pronunciamento concentrado. Representa técnica, como já mencionado, inspirada no Musterverfahren alemão, ainda que com algumas peculiaridades. O Poder Judiciário precisa adotar medidas de economia processual, principalmente diante do elevado número de processos existentes no Brasil, sem, contudo, descuidar da preservação do devido processo legal e dos direitos das partes e interessados, o que parece ter sido protegido nas respectivas regulamentações. Do mesmo modo, o incidente de assunção de competência, nos termos do art. 947 do CPC, prevê o deslocamento para órgãos mais amplos, que devem ter a competência para a uniformização da jurisprudência, para decidir questão de direito com grande repercussão social. As normas processuais devem propiciar a 8.11. devida segurança jurídica. E, naturalmente, as funções contemporâneas do Poder Judiciário são fundamentais no sentido de orientar a sociedade diante de novos fatos, da ausência de regras específicas ou da controvérsia estabelecida em relação à interpretação das normas. Os órgãos judiciários servem para propiciar a solução dos conflitos e não para fomentá-los. Por isso, a preocupação com a isonomia e com a segurança jurídica. Dessa forma, os órgãos vinculados ao respectivo tribunal devem seguir o entendimento fixado. Na mesma direção do que se disse no parágrafo anterior encontra-se o inciso V, pois deve haver uma uniformidade no posicionamento do tribunal. Em vários países, esta preocupação chega a se materializar, nos julgamentos colegiados, mediante a divulgação apenas do pronunciamento da corte, não se disponibilizando sequer os votos vencidos. Além da coesão do tribunal, busca-se a adesão dos órgãos vinculados, pois a manutenção de entendimento divergente somente iria protrair a duração dos processos, com a necessidade da interposição de recursos, para que se possa efetivar no caso concreto o pensamento já dominante em instância superior. A RUPTURA NECESSÁRIA DE PARADIGMAS E OS SEUS DESDOBRAMENTOS Por fim, ou resumindo o que se disse acima, o caráter vinculativo para determinados pronunciamentos judiciais, disposto no art. 927 do novo CPC, se afigura em conformidade com a ordem constitucional. Mas, não deixa de representar uma ruptura com a cultura e os paradigmas estabelecidos na comunidade jurídica, de que se pode e se deve sempre ajuizar uma demanda, resistir a uma pretensão ou interpor um recurso, ainda que contra o entendimento dos tribunais, não se impondo limites à inconformidade. Este pensamento encontra-se incrustado nos diversos profissionais do direito. No advogado, que não orienta o seu cliente quanto à posição dos tribunais. No juiz, que não segue a jurisprudência. Nos integrantes dos tribunais, que preferem divergir, ao invés de convergir, diante do entendimento firmado. Por sua vez, os tribunais passam a ter uma responsabilidade maior, no 1 2 3 4 5 sentido de observar as normas processuais, especialmente a de buscar a uniformização da sua jurisprudência, mantendo-a estável, íntegra e coerente, nos termos doart. 926. Mas também quanto ao contraditório e fundamentação, para que as suas decisões possam se impor mais pelo conteúdo dos seus argumentos, do que pela autoridade do comando legal. E, por consequência, isso faz que a sociedade, em geral, e os profissionais do direito, em particular, passem a exercer um controle ainda maior quanto à estruturação, funcionamento e composição dos tribunais, para que a sua organização e os seus quadros estejam sempre à altura dos novos tempos e das novas exigências. Temas de direito processual: oitava série, São Paulo: Saraiva, 2004, p. 41- 52. Idem, p. 47. Vide, especialmente, Comparative civil procedure, de Peter Gottwald, in: Ritsumeikan Law Review: International Edition, 2005; Prozeßrechtsvergleichung, de Peter Gilles, Köln: Carl Heymanns, 1996; e Einführung in die Rechtsvergleichung, de Konrad Zweigert e Hein Kötz, 3. Auf., Tübingen: J. C. B. Mohr, 1996. Sobre o caráter declaratório ou constitutivo dos pronunciamentos judiciais, Teresa Arruda Alvim Wambier, em Precedentes e evolução do direito, leciona que: “No fundo, não são muito diferentes as polêmicas que giram em torno da tal já referida declaratory theory do common law (uma teoria segundo a qual o juiz não cria direito, mas “declara” o direito preexistente) e do “positivismo” jurídico no civil law (o juiz decide conforme a lei)”. Para concluir que: “Todos sabem que o juiz cria direito. É mais honesto intelectualmente reconhecê-lo de uma vez por todas e tentar estabelecer limites para esta ‘criatividade’ ou, em outras palavras, para o tal ‘ativismo’ judicial – que são conceitos muito próximos, cuja essência, no meu entender, como observei antes, é idêntica”. Nesse sentido, José Rogério Cruz e Tucci, Parâmetros de eficácia e critérios de interpretação do precedente judicial: “A peculiaridade da 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 incidência do precedente em cotejo com a aplicação da lei consiste sobretudo na amplitude da área de discricionariedade que os juízes possuem. A individuação da ratio decidendi é uma operação heurística de natureza casuístico-indutiva, pela qual a regra jurídica é extraída do confronto entre a anterior decisão e o caso concreto submetido à apreciação judicial. A sentença do juiz do civil law, a seu turno, também pressupõe um labor intelectual, porém, de cunho normativo-dedutivo, no qual deve ser apresentada uma justificação das circunstâncias fáticas e jurídicas que determinaram a subsunção destes a determinado texto de lei”. Vide os livros Manual de direito civil, São Paulo: Revista dos Tribunais, 1980, e especialmente O direito, a lei e a jurisprudência, São Paulo: Revista dos Tribunais, 1974. Em O direito, a lei e a jurisprudência, p. 169-170. Idem, p. 178-179. Vide, sobre o tema, o livro Stare decisis et non quieta movere: a vinculação aos precedentes no direito comparado e brasileiro, de Gustavo Santana Nogueira, Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011, fruto da sua dissertação de mestrado. Teoria dos direitos fundamentais, 2. ed. São Paulo: Malheiros, 2012, p. 90- 91. A notícia sobre o fato está disponível em: . Stare decisis et non quieta movere: a vinculação aos precedentes no direito comparado e brasileiro, p. 174-178. Segundo o autor, na obra supramencionada e com lastro em Lee Strang e Polly Price, “os precedentes sobre matéria constitucional têm uma força menor em comparação com precedentes que interpretam leis escritas ou a common law, por causa da grande dificuldade de se eliminar um precedente constitucional incorreto por meios extrajudiciais” (idem, p. 175). Sucedida pela Supreme Court for the United Kingdom, em 2005. BYRD, B. Sharon. Einführung in die anglo-amerikanische Rechtssprache: Introduction to anglo-american law and language. München: Beck, 1997. “Practice Statement (Judicial Precedent) [1966] 3 All E. R. 77 – Before judgments were given in the House of Lords on July 26, 1966, Lord Gardiner, L. C., made the following statement on behalf of himself and the Lords of Appeal in Ordinary: Their lordships regard the use of precedent as http://www1.folha.uol.com.br/fsp/coti-dian/ff23109823.htm 17 an indispensable foundation upon which to decide what is the law and its application to individual cases. It provides at least some degree of certainty upon which individuals can rely in the conduct of their affairs, as well as a basis for orderly development of legal rules. Their lordships nevertheless recognize that too rigid adherence to precedent may lead to injustice in a particular case and also unduly restrict the proper development of the law. They propose therefore to modify their present practice and, while treating former decisions of this House as normally binding, to depart from a previous decision when it appears right to do so. In this connection they will bear in mind the danger of disturbing retrospectively the basis on which contracts, settlements of property and fiscal arrangements have been entered into and also the especial need for certainty as to the criminal law. This announcement is not intended to affect the use of precedent elsewhere than in this House.” “(...) The following excerpt is from Lord Bridge of Harwich’s speech representing the opinion of the majority of the House of Lords in Regina v. Shivpuri: ‘I am thus led to the conclusion that there is no valid ground on which Anderton v. Ryan can be distinguished. I have made clear my own conviction, which as a party to the decision (and craving the indulgence of my noble and learned friends who agreed in it) I am the readier to express, that the decision was wrong. What then is to be done? If the case is indistinguishable, the application of the strict doctrine of precedent would require that the present appeal be allowed. Is it permissible to depart from precedent under the Practice Statement (Judicial Precedente) [1966] 1 W.L.R. 1234 notwithstanding the especial need for certainty in the criminal law? The following considerations lead me to answer that question affirmatively. First, I am undeterred by the consideration that the decision in Anderton v. Ryan was so recent. The Practice Statement is an effective abandonment of our pretention to infallibility. If a serious error embodied in a decision of this House has distorted the law, the sooner it is corrected the better. Secondly, I cannot see how, in the very nature of the case, anyone could have acted in reliance on the law as propounded in Anderton v. Ryan in the belief that he was acting innocently and now find that, after all, he is to be held to have committed a criminal offence. Thirdly, to hold the House bound to follow Anderton v. Ryan because it cannot be distinguished and to allow the appeal in this case would, it seems to me, be tantamount to a declaration that the Act of 1981 left the law of criminal attempts unchanged 18 19 20 21 22 23 following the decision in Reg. v. Smith [1975] A.C. 476. Finally, if, contrary to my present view, there is a valid ground on which it would be proper to distinguish cases similar to that considered in Anderton v. Ryan, my present opinion on that point would not foreclose the option of making such a distinction in some future case.” BYRD, B. Sharon. Einführung in die anglo-amerikanische Rechtssprache: introduction to anglo-american law and language, p. 10-11. Vide Christoph A. Kern, The respect for court decisions in German Law. In: MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro; WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. O processo em perspectiva: jornadas brasileiras de direito processual – Homenagem a José Carlos Barbosa Moreira, p. 147-150. Christophparticular a cada tema e respectivos fundamentos. A obra é densa, profunda, pelo rigor científico com que foi construída. É, por outro lado, didática porque redigida em linguagem precisa e de fácil compreensão, associando sempre a teoria aos exemplos práticos. Sua larga utilidade, pois, dar-se-á tanto no mundo acadêmico como na atividade forense. Pela importância e novidade do tema explorado, não poderia ser mais atual sua publicação, de cujo sucesso estou plenamente seguro, principalmente pela matéria com que se houve o autor na respectiva exposição. Humberto Theodoro Júnior Belo Horizonte, junho de 2017 MATERIAL SUPLEMENTAR O acesso ao material suplementar é gratuito. Basta que o leitor se cadastre em nosso site (www.grupogen.com.br), faça seu login e clique em Ambiente de Aprendizagem, no menu superior do lado direito. É rápido e fácil. Caso haja alguma mudança no sistema ou dificuldade de acesso, entre em contato conosco (sac@grupogen.com.br). http://www.grupogen.com.br 2.1. 2.2. 2.3. 2.4. 2.5. 2.6. 2.7. 3.1. INTRODUÇÃO Capítulo 1 – Posição propedêutica do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (rectius de questão comum) (IRDR ou IRQC) Capítulo 2 – As funções do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas no contexto sociojurídico do mundo contemporâneo Acesso à Justiça e a economia judicial e processual Os instrumentos processuais coletivos e o acesso à Justiça O IRDR como instrumento de economia judicial e processual O princípio da igualdade diante da lei e a segurança jurídica Os meios processuais coletivos como instrumento para o equilíbrio das partes no processo Os mecanismos coletivos como instrumento para o cumprimento do direito material O papel e os limites do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas Capítulo 3 – As fontes de inspiração do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas no direito estrangeiro Test claims (demandas teste), pilot judgments (julgamentos piloto), Musterverfahren (procedimento modelo), Group Litigation Order (decisão sobre litígios de grupo) e outros julgamentos de questões 3.2. 3.3. 4.1. 4.2. 4.3. 5.1. 5.2. 5.3. 7.1. 7.2. comuns ou por amostragem O surgimento do Musterverfahren (procedimento-padrão) na >Alemanha: a experiência prática sem previsão legal A introdução do Musterverfahren no ordenamento jurídico alemão Capítulo 4 – O Musterverfahren (processo-modelo) da Jurisdição Administrativa e da Previdência e Assistência Social Considerações iniciais. O regramento sucinto e unificado para o Musterverfaren no direito público Cabimento e admissibilidade. Escolha dos procedimentos-modelo Processamento e julgamento do Musterverfahren e dos Nachverfahren Capítulo 5 – O Musterverfahren (procedimento-padrão) dos litígios relacionados ao mercado de capitais (KapMuG) A fase de admissibilidade da instauração do procedimento-padrão (Musterverfahren) Processamento do procedimento-padrão (Durchführung des Musterverfahrens) Vinculação da decisão-padrão (Wirkung des Musterentscheids) Capítulo 6 – A Group Litigation Order do direito britânico Capítulo 7 – Resgatando a genealogia do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas no direito nacional A formulação da proposição na Comissão de Juristas, o (ante) projeto de novo Código de Processo Civil e o texto aprovado no Senado Federal A versão do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas no texto aprovado na Câmara dos Deputados 7.3. 8.1. 8.2. 8.3. 8.4. 8.5. 8.5.1. 8.5.2. 8.5.3. 8.5.4. 8.6. 8.7. 8.8. 8.9. 8.10. 8.11. O IRDR na redação final aprovada no Senado Federal e no texto sancionado Capítulo 8 – Considerações prévias sobre precedentes e jurisprudência: papel, fatores e perspectivas no direito brasileiro contemporâneo. O caráter vinculativo no art. 927 do novo Código de Processo Civil Introdução (ou breve retrospecto sobre o tema nos últimos 25 anos) a partir da vivência e do olhar do autor Common law e civil law A importância dos precedentes e da jurisprudência O stare decisis e as qualidades dos precedentes e da jurisprudência Principais fatores que influenciam em termos de precedentes no contexto brasileiro Fatores culturais Educação jurídica Estrutura e organização do Poder Judiciário O papel dos profissionais do direito As fontes formais do direito no Brasil A ideia de independência funcional dos magistrados Os precedentes e o contexto atual do Poder Judiciário brasileiro A jurisprudência e os precedentes em países de common e civil law O sistema de pronunciamentos vinculativos no contexto do novo Código de Processo Civil A ruptura necessária de paradigmas e os seus desdobramentos Capítulo 9 – A natureza do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas 9.1. 9.2. 9.3. 10.1. 10.1.1. 10.1.2. 10.2. 10.3. 10.4. 10.4.1. 10.4.2. 11.1. 11.2. 11.3. 11.4. Considerações iniciais sobre a jurisdição. A ampliação da acep- ção de jurisdição A análise formal do IRDR O objeto do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas Capítulo 10 – Cabimento e requisitos para o incidente de resolução de demandas repetitivas Efetiva repetição de processos que contenham controvérsia sobre questão comum de direito A efetiva repetição de processos A questão unicamente (rectius comum) de direito Risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica Requisito negativo: que a questão jurídica não esteja afetada em recurso especial ou extraordinário repetitivo A controvérsia em torno da exigência de que o incidente tenha como base apenas processos já em tramitação no tribunal A posição de que o incidente somente pode ser suscitado na pendência de causa no tribunal O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas pode ser suscitado a partir de causas em tramitação perante juízes ou tribunais de segundo grau Capítulo 11 – Legitimidade e sujeitos processuais no incidente Legitimidade para o IRDR Os sujeitos processuais no Musterverfahren alemão Os intervenientes no IRDR: a influência na formação da tese jurídica As medidas fundamentais para a preservação dos direitos subjacentes 11.5. 11.5.1. 11.5.2. 11.5.3. 11.5.4. 11.6. 12.1. 12.2. 12.3. 12.4. 12.5. 12.5.1. 12.5.2. 12.5.3. 12.5.4. ao IRDR sob o aspecto subjetivo Considerações em torno dos legitimados para suscitar o IRDR O juiz, o relator e os órgãos judiciais colegiados As partes Ministério Público Defensoria Pública Despesas e honorários advocatícios no IRDR Capítulo 12 – Competência para a admissibilidade, processamento e julgamento do IRDR e dos processos pendentes Competência dos tribunais de segundo grau Competência funcional do órgão definido pelo Regimento Interno, com atribuição para a uniformização da jurisprudência A importância da organização e da especialização para a uniformização da jurisprudência e a fixação de precedentes vinculativos Cabimento do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas nos Tribunais Superiores Juizados Especiais Breve digressão histórica em torno da criação dos juizados especiais no Brasil O art. 98, I, da Constituição da República O modelo de uniformização de jurisprudência nos Juizados Especiais e suas deficiências O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas nos Juizados Especiais 12.5.5. 13.1. 13.2. 13.3. 14.1. 14.2. Conclusões sobre o tema Juizados Especiais e IRDR Capítulo 13 – Divulgação e publicidade do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. Cadastro nos Tribunais e no Conselho Nacional de Justiça. A resolução nº 235/2016 do Conselho Nacional de Justiça. As dificuldades práticas para a implementação do Cadastro Nacional de Incidentes de Resolução de Demandas Repetitivas A importância da comunicação nos julgamentos de questõesKern, no estudo supramencionado, abordou o tema basicamente sob o prisma do recrutamento e carreira dos magistrados, enaltecendo que a seleção a partir de resultados obtidos em exames, na Alemanha, assim como no Brasil, de certo modo, contribui para a independência dos juízes. E, no país germânico, para o fortalecimento dos precedentes. Vide p. 151- 152. Conforme dados indicados no primeiro capítulo. Vide, também, nesse sentido: MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro Mendes. Ações coletivas e meios de resolução coletiva de conflitos no direito comparado e nacional, 4. ed., especialmente p. 31, e Poder Judiciário: problemas, propostas e controle externo. Os números são impressionantes especialmente na Corte Constitucional alemã: entre 1951 e 1997, houve apenas nove mudanças de entendimento, dentro de um total de 3.500 decisões. Ou seja, uma média de praticamente uma alteração a cada cinco anos. Nesse sentido, Christoph Kern, The respect for court decisions in German Law. São 12 Turmas, denominadas Senate em alemão, Cíveis, 4 Turmas Criminais e 8 Turmas Específicas. Todas elas especializadas para em determinadas matérias, sem que haja competência concorrente. Há, ainda, uma quinta turma criminal, com competência definida pelo território específico de alguns estados. The respect for court decisions in German Law, p. 154: “It should also be noted that courts have since long held that lawyers must, in principle, know the law and its interpretation by the courts. In particular, lawyers owe their clients a professional duty to know all relevant precedents and to align their legal counseling and procedural strategy with them. If the client suffers 24 25 26 27 damages as a consequence of a lawyer’s violation of this duty, the client can sue the lawyer and his or her professional indemnity insurance company for compensation. (…) However strict the liability is, a duty to know and respect precedents makes only sense if the lawyer or civil servant must expect that courts normally follow precedents. The existence of such duty is, therefore, a sign of the high respect German courts normally show for precedents; at the same time, it reinforces this respect.” A ética dos precedentes, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014. Gesetz über das Bundesverfassungsgericht (Bundesverfassungsgerichtsgesetz – BVerfGG), § 31 (1) Die Entscheidungen des Bundesverfassungsgerichts binden die Verfassungsorgane des Bundes und der Länder sowie alle Gerichte und Behörden. Vide, neste sentido, ROSENBERG, Leo; SCHWAB, Karl Heinz; GOTTWALD, Peter. Zivilprozessrecht. 17. Auflage, München, 2010, § 17, Rn. 4. Como referido em trabalho anterior: MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro Mendes. Precedentes e jurisprudência: papel, fatores e perspectivas no direito brasileiro contemporâneo, In: MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro; MARINONI, Luiz Guilherme; WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Direito Jurisprudencial – II, São Paulo: RT, 2014. 9.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE A JURISDIÇÃO. A AMPLIAÇÃO DA ACEPÇÃO DE JURISDIÇÃO A jurisdição1 é uma das funções do Estado, mediante a qual o Poder Público, substituindo os titulares dos interesses em conflito, resolve, imparcialmente, a lide. O Estado irá dizer, afirmar ou efetivar o direito a ser protegido. Nas palavras de Chiovenda,2 “é a função do Estado que tem por escopo a atuação da vontade concreta da lei por meio da substituição, pela atividade dos órgãos públicos, da atividade de particulares ou de outros órgãos públicos, já no afirmar a existência da vontade da lei, já no torná-la, praticamente, efetiva”. Decorre, desse modo, o caráter substitutivo da jurisdição, na medida que o Estado proíbe a autotutela e, portanto, ao proibi-la, estabelece um dever para si de atuar, de realizar uma atividade, no sentido de resolver o conflito, impondo às partes uma solução que não foi proveniente dos envolvidos, mas, sim, decidida por terceiro. A atuação pode se dar tanto no âmbito cognitivo, executivo ou cautelar. Na esfera cognitiva, exercendo uma atividade denominada de processo de conhecimento, o juiz vai atuar no sentido de conhecer as alegações, o conflito, com o objetivo de afirmar o direito. A solução do conflito pode passar também por uma atividade executiva, ou seja, já há uma certeza em relação a quem dispõe do direito, portanto não há mais uma dúvida em relação a quem esteja correto, sob o ponto de vista do ordenamento jurídico, mas há uma resistência ao cumprimento da obrigação que já está definida. A certeza já está consubstanciada, materializada, em um título executivo judicial ou extrajudicial. O que se vai reclamar ou pedir para o Estado é, na verdade, a realização de atos materiais, para se conseguir que aquilo que deve ser seja efetivamente prestado. No âmbito cautelar, a jurisdição é exercida apenas com caráter preventivo, para se tomar uma medida urgente e capaz de assegurar provisoriamente, enquanto não resolvido de modo definitivo em outro processo, um direito, com probabilidade aparente e que, sem a atuação requerida e imediata, poderia se tornar impossível ou de difícil realização. A função legislativa busca a produção, a edição, de normas gerais e abstratas. Então, o que se estabelece na verdade é um padrão, que estará aguardando, a partir do momento de sua vigência, a realização de fatos e atos concretos que se enquadrem exatamente à norma abstratamente estabelecida. A função jurisdicional, em geral, também estabelece, na atividade cognitiva, uma norma. Mas, classicamente, não uma regra geral e abstrata. Pelo contrário, um comando concreto, ou seja, fixa uma determinação para o caso concreto, tanto que, quando se forma a coisa julgada, provida dessa definitividade, é fundamental se delimitar, no âmbito do que foi decidido, os seus limites objetivos e subjetivos. Isso significa que a decisão estará relacionada ao caso concreto, tornando-se imutável apenas para os que subjetivamente estavam ligados ao processo. Por exemplo, se há uma pessoa jurídica ou uma pessoa natural questionando o pagamento de um imposto, alegando a inconstitucionalidade da lei que criou ou majorou o tributo, a parte irá a juízo pedir a devolução da quantia recolhida. Pede-se a devolução do tributo pago no ano passado. Se no ano seguinte, voltar a ser cobrado de forma irregular ou indevida, haverá necessidade da parte ir ao Judiciário para se insurgir contra o imposto exigido. Então, são objetos diversos. Quando se vai ao juízo pedir que seja invalidado um determinado auto de infração, é aquele auto de infração in concreto que será questionado. Ainda que haja na causa, na argumentação levantada, uma questão que possa dizer respeito a outras pessoas ou até àquela mesma pessoa em outros casos, a norma judicial fixada não terá caráter abstrato ou genérico. A rigor, só perante alguns órgãos judiciais3 é que se pode fazer o controle direto da constitucionalidade das leis. Em geral, as pessoas não podem questionar de forma abstrata a própria lei ou o ato normativo. Por isso é importante saber qual foi o pedido feito na petição inicial, porque há o princípio da congruência. O juiz só poderá julgar aquilo que foi pedido, ele não pode, portanto, julgar nem fora do pedido, nem além do pedido, nem aquém do pedido. O magistrado precisa julgar exata e tão somente o pedido. Isso difere substancialmente da atividade legislativa, na qual se formulam leis gerais e abstratas. Para tanto, se está falando do ato que substancialmente pode ser considerado como lei. A concepção tradicional supramencionada da jurisdição enfrenta, todavia, algumas dificuldades práticas eteóricas. Como enfrentado no capítulo anterior, pelo menos em duas hipóteses pode ocorrer um perigoso vácuo normativo: a) diante de fatos novos não previstos expressamente no ordenamento; b) quando ocorre controvérsia em relação ao sentido da norma ou da sua aplicação. Diante das duas situações, o Poder Judiciário pode ser demandado, individual ou coletivamente, para a resolução do conflito. Mas, além disso, o ordenamento contém, atualmente, instrumentos de controle abstrato, especialmente quanto à constitucionalidade das normas ou mesmo da sua omissão. Nesta última hipótese, a própria Constituição já desenhava a possibilidade da atuação normativa, abstrata e geral, do Poder Judiciário. Nesse sentido, podem ser indicados, por exemplo, o mandado de injunção4 coletivo e o poder normativo da Justiça do Trabalho5. Em todos os instrumentos apontados (ação direta de constitucionalidade, ação direta de inconstitucionalidade, mandado de injunção coletivo e poder normativo da Justiça do Trabalho), fica patente a preocupação e a abrangência coletiva destes mecanismos, não se limitando a atuação jurisdicional à resolução de casos concretos e individualizados. Não há que se falar, por outro lado, em quebra do equilíbrio entre os Poderes. Em primeiro lugar, porque o controle da constitucionalidade das leis é uma conquista mundialmente aceita e praticada, considerando que a ausência de controle é que propiciaria um poder desenfreado para se legislar sem a observância das normas 9.2. Constitucionais, que não são elaboradas, mas apenas interpretadas pelo Poder Judiciário. Por sua vez, nas duas últimas ferramentas (mandado de injunção coletivo e poder normativo da Justiça do Trabalho), a atuação é supletiva, não se mantendo ou sobrepondo, respectivamente, em relação às leis e convenções que venham a ser editadas. Esta nova feição da jurisdição está relacionada com os princípios constitucionais do acesso à justiça, da segurança jurídica, da isonomia e da duração razoável dos processos. E conjuga a atuação coletiva, prévia e instrumental do Poder Judiciário. A jurisdição não fica mais adstrita apenas aos conflitos de Caio e Tício, para passar a pensar e a se nortear, cada vez mais, por uma visão geral da sociedade. Outro elemento fundamental é que o Poder Judiciário passa a se preocupar mais e a atuar, como visto na gênese do Musterverfahren alemão, também a partir de técnicas de gestão, levando-o inevitavelmente a soluções mais inteligentes, eficazes e eficientes em termos de prestação jurisdicional. Dentro deste novo contexto é que surge, e deve ser interpretado, o novo Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR). A ANÁLISE FORMAL DO IRDR O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, como a denominação já indica, não se trata de uma demanda individual ou coletiva, mas, sim, de um incidente processual. Cândido Rangel Dinamarco e Bruno Vasconcelos Carrilho Lopes definem, com precisão, o conceito de incidente processual: “Incidente processual. Conjunto de atos formalmente coordenados a serem realizados no curso do processo. É um pequeno procedimento inserido no contexto do procedimento maior. Exemplos típicos são os incidentes de desconsideração da personalidade jurídica e de arguição de inconstitucionalidade”.6 Mas, mesmo como incidente processual, possui peculiaridades significativas. A primeira peculiaridade é que, normalmente, os incidentes processuais, como por exemplo o incidente decorrente da controvérsia quanto à admissibilidade da assistência7; de desconsideração da personalidade jurídica8; de impedimento ou suspeição9; de arguição de falsidade de documento10; de remoção11; para indenizações decorrentes de atos processuais, como a prevista no § 5º do art. 828 do CPC; de assunção de competência ou mesmo de arguição de inconstitucionalidade, são baseados em relações processuais de duas partes (autor e réu). Quanto ao incidente de assunção de competência, há expressa disposição afastando a admissibilidade em caso de repetição em múltiplos processos. No entanto, quanto à arguição de inconstitucionalidade, bem como em relação a outros, a possibilidade de o incidente ser representativo da controvérsia existente em vários processos parece ser plausível, na ausência de regra proibitiva. Na arguição de inconstitucionalidade, pelo contrário, a previsão contida no parágrafo único do art. 949, quanto à desnecessidade de nova provocação, quando já houver pronunciamento sobre a questão, parece indicar claramente a possibilidade de se suscitar um incidente representativo da controvérsia de múltiplos processos. Entretanto, no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas o procedimento padrão diz respeito à questão jurídica pertinente a processos paralelos12, nos quais figura sempre um número significativo de interessados. A metodologia é inerente ao procedimento estabelecido, pois haverá sempre um interesse plúrimo em relação à questão de direito a ser decidida. O modelo calcado em processos paralelos é algo relativamente novo no Direito Processual, pois tradicionalmente os processos e os respectivos incidentes são calcados no modelo da dualidade de partes. O sistema de procedimentos paralelos enseja uma série de questões jurídicas processuais relacionadas a este novo modelo, como a da competência, legitimação, comunicação dos interessados, representação, possibilidades e limites para a intervenção, relação entre o incidente e o julgamento dos processos paralelos, efeito vinculativo, recursos, coisa julgada, revisão e rescisória. 9.3. O OBJETO DO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS Durante o processo legislativo, pode-se dizer que houve, de certo modo, uma controvérsia sobre a concepção adotada respectivamente nas versões aprovadas no Senado Federal e na Câmara dos Deputados. Esta divergência foi marcada especialmente pela abrangência do juiz como legitimado e se haveria a necessidade de se instaurar o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas a partir de processos que pudessem estar tramitando na primeira instância ou se apenas quando estivessem no tribunal, em razão de competência recursal ou originária. Esta dualidade de concepções, por vezes, era apresentada como se fosse o próprio objeto do IRDR, ou seja, se deveria ser julgada apenas a questão jurídica, com a formulação da respectiva tese, ou se também a respectiva causa em concreto. Em síntese, defende-se que o objeto do incidente seja (a) o julgamento apenas da questão jurídica, com a formulação simplesmente da tese jurídica; ou (b) do caso piloto, portanto do respectivo pedido. Como se pode constatar na análise do processo legislativo13, o Senado Federal, em segundo turno, optou expressamente pela primeira concepção, ao excluir todos os dispositivos inseridos na Câmara dos Deputados, que exigiam a presença prévia de processo em tramitação perante o tribunal. A redação final, por sua vez, foi muito clara ao indicar um procedimento voltado para a questão de direito controvertida14, no qual o conteúdo do acórdão abrangerá a análise de todos os fundamentos suscitados concernentes à tese jurídica15 discutida. Julgado o incidente, a tese jurídica16 será aplicada a todos os processos individuais ou coletivos que versem sobre idêntica questão de direito e que tramitem na área de jurisdição do respectivo tribunal17 (e não apenas no próprio tribunal), inclusive àqueles que tramitem nos juizados especiais do respectivo estado ou região, bem como aos casos futuros18 que versem idênticaquestão de direito e que venham a tramitar no território de competência do tribunal. Não observada, naturalmente por outro órgão, a tese jurídica adotada no incidente19, caberá reclamação. Se o incidente tiver por objeto questão relativa à prestação de serviço concedido, permitido ou autorizado, será comunicado ao órgão, ao ente ou à agência reguladora competente para fiscalização da efetiva aplicação, por parte dos entes sujeitos à regulação, da tese adotada20. Por sua vez, o art. 986 indica a possibilidade da revisão da tese jurídica firmada no incidente. E, por fim, o art. 987, menciona que do julgamento do mérito do incidente, e não do posterior julgamento de processos ou recursos, caberá recurso extraordinário ou especial, conforme o caso. Entretanto, neste momento, por razões metodológicas, não se pretende o prolongamento desta discussão dentro deste tópico, ou seja, da sua natureza. Isso porque o debate pertinente ao julgamento da causa originária, ou das causas originárias, ou não pelo tribunal, ou melhor, pelo mesmo órgão, e concomitantemente com o incidente, na verdade não diz respeito à natureza, propriamente dita, do incidente. Isso porque, no ordenamento brasileiro, está muito nítido que o objeto do incidente é a questão jurídica, com a formulação de uma tese jurídica A controvérsia, sim, parece residir em relação aos pressupostos para o cabimento do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, ou seja, se deve haver, necessariamente, processo em tramitação no tribunal, para que esteja, digamos, firmada a competência para o julgamento do incidente (segundo a posição restritiva) ou que se poderia suscitar o julgamento a partir de processos em tramitação no primeiro ou no segundo grau (posição não restritiva). A discussão acima, sobre o pressuposto21, tem sido aglutinada com o debate subsequente ao julgamento do IRDR, ou seja, quanto à constitucionalidade, formal e material, do parágrafo único do art. 978, no sentido de atribuir ao mesmo órgão, que efetua a apreciação do incidente, com a fixação da tese jurídica, a competência para julgar igualmente o recurso, a remessa necessária ou o processo de competência originária de onde se originou o incidente. A segunda questão, pelo menos em tese, não representa uma decorrência lógica e necessária da primeira. Ad argumentandum apenas, pode-se conceber, por exemplo, que a causa em tramitação no tribunal seja um pressuposto, indispensável, por exemplo, para a fixação da competência do tribunal para o incidente (posição que não será, em princípio, a adotada neste texto). Mas, isso 1 2 3 4 5 6 7 não significa que o mesmo órgão interno tenha que julgar o incidente e o processo em tramitação no tribunal, se admitida a inconstitucionalidade, formal ou material do art. 978 do Código de Processo Civil. Do mesmo modo, pode-se não admitir a tramitação da causa no tribunal como pressuposto, mas, por outro lado, se entender que a regra prevista no parágrafo único do art. 978 seja uma norma de prevenção, bem como que não tenha ocorrido qualquer violação formal ou material. Portanto, embora paralelas e relacionadas, as duas indagações devem ser apreciadas ao seu devido tempo e modo. Por tudo isso e apenas para se elucidar, preliminarmente, o devido lugar e tempo para a análise das questões, ou seja, dos requisitos e da competência para a apreciação do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, é que se redigiram as linhas acima, a título de tentativa de saneamento, para que se possa tornar ainda mais profícua a análise das controvérsias mencionadas, valendo indagar se estas próprias questões acima ventiladas não poderiam ser objeto de IRDR. O autor pode discorrer mais longamente sobre a jurisdição em MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Teoria Geral do Processo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009. CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições, 2. ed., v. II, p. 11. Trad. J. Guimarães Menegale. Notas de Enrico Tullio Liebman. São Paulo: Saraiva, 1943. Supremo Tribunal Federal, quando relacionada com a Constituição da República, e do respectivo Tribunal de Justiça, quando pertinente à Constituição do Estado. Art. 5º, inciso LXXI, da Constituição da República. Art. 114, § 2º, da Carta Magna. DINAMARCO, Cândido Rangel; LOPES, Bruno Vasconcelos Carrilho. Teoria Geral do novo Processo Civil: de acordo com a Lei 13.256, de 4.2.2016. São Paulo: Malheiros, 2016, p. 242. Art. 120, parágrafo único, do CPC. 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 Art. 133 e seguintes do CPC. Arts. 146, §§ 1º, 2º e 3º, e 148 do CPC. Art. 436, inciso III, do CPC. Art. 623, parágrafo único, do CPC. Sobre a discussão em torno da bipartição entre processos com dualidade de partes e o da vinculação de procedimentos paralelos, vide HESS, Burkhard; REUSCHLE, Fabian; RIMMELSPACHER, Bruno. Kölner Kommentar zum KapMuG: Gesetz über Musterverfahren in kapitalmarktrechlichen Streitigkeiten (Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz – KapMuG), 2. Auflage, Köln: Carl Heymanns, 2014, p. 22. Conforme anteriormente mencionado, no capítulo sobre a genealogia do incidente. Art. 983 do CPC. Grifos nossos. Art. 984, § 2º, do CPC. Art. 985, caput, do CPC. Art. 985, inciso I, do CPC. Art. 985, inciso II, do CPC. Art. 985, § 1º, do CPC. Art. 985, § 2º, do CPC. A utilização do termo pressuposto será oportunamente enfrentada. Mas, desde logo, justifica-se a opção, por se entender que os requisitos estão relacionados abstratamente aos processos em geral e não às condições da ação, na medida em que a existência ou não de processo em tramitação no tribunal como condição sine qua non independe da aferição em concreto de elementos como as partes, o pedido ou a causa de pedir. Nesta direção, vide a definição de pressupostos processuais em DINAMARCO, Cândido Rangel; LOPES, Bruno Vasconcelos Carrilho. Teoria Geral do novo Processo Civil: de acordo com a Lei 13.256, de 4.2.2016, p. 251. 10.1. 10.1.1. Capítulo 10 CABIMENTO E REQUISITOS PARA O INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS O incidente de resolução de demandas repetitivas exige o risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica, diante da efetiva repetição de processos que contenham controvérsia sobre a mesma questão unicamente de direito. São requisitos cumulativos. Há ainda divergência quanto à existência de outro requisito, que seria a necessidade de pendência de processos relacionados à questão jurídica objeto do IRDR no tribunal perante o qual tramitará o incidente. Estes tópicos serão analisados separadamente nos itens seguintes. EFETIVA REPETIÇÃO DE PROCESSOS QUE CONTENHAM CONTROVÉRSIA SOBRE QUESTÃO COMUM DE DIREITO Em síntese, havendo efetiva repetição de processos que contenham controvérsia sobre questão comum de direito, de ofício ou a requerimento, poderá ser suscitado o incidente, que será apreciado, em termos de admissibilidade e mérito, pelo tribunal de segundo grau, com a suspensão de todos os processos na área do tribunal que dependam da resolução da questão de direito. A efetiva repetição de processos O primeiro elemento objetivo, portanto, é a existência de certo número significativo de processos (repetição de processos). O legislador brasileiro não fixou um número mínimo. No direito alemão1, o procedimento modelo (Musterverfahren), no âmbito administrativo, fixou inicialmente2 o número mínimo de 51 (superior a 50). Em seguida, no ano de 1996, houve mudança, que entrou em vigor a partir de 01.01.1997, estabelecendo que o número deveria ser superior a 20 processos, questionando a mesma medida administrativa. O referenciallegal alemão para a Justiça Administrativa pode ser considerado uma base, mas mesmo nos casos práticos a quantidade de litígios foi significativamente maior. No primeiro, antes mesmo da introdução na lei, foram 5.724. Em outros casos, o patamar foi sempre elevado de demandas, como nos questionamentos relacionados ao aeroporto de Leipzig/Halle, no ano de 2004 (5.700 processos), do aeroporto de Berlin-Schönefeld, também em 2004 (4.000 demandas individuais) e ao aeroporto de Frankfurt am Main, em 2008 (mais de 200 processos)3. A norma prevê que o tribunal poderá, inicialmente, conduzir um ou vários procedimentos-modelo. Portanto, não basta o número mínimo. No caso do plano de transporte de Kassel, foram instaurados 70 processos. Entretanto, o órgão judicial entendeu que o Musterverfahren não seria necessário e conveniente para a solução dos casos, tendo indeferido o processamento piloto. Houve recurso, tendo o Tribunal Superior da Justiça Administrativa negado provimento4. É de se registrar certa semelhança quanto ao juízo feito pelos tribunais administrativos alemães, com o requisito construído no direito norte-americano, em relação às class actions, no sentido da predominância das questões comuns e da superioridade do instrumento processual coletivo. É uma análise prática, mas calcada nos princípios do acesso à justiça e da duração razoável do processo, que devem conduzir, em síntese, ao meio mais adequado para a prestação jurisdicional. Esta aferição do instrumento mais eficiente também se faz frequente, de modo geral, nas Civil Procedure Rules, da Inglaterra e do país de Gales5. Na esfera do Musterverfahren do mercado mobiliário, o legislador não estabeleceu na KapMuG6 uma quantidade mínima de processos, mas, sim, o 10.1.2. número mínimo de 10 (dez) requerimentos de instauração do procedimento- modelo. Portanto, pressupõe-se que haja um montante maior de processos. No direito brasileiro, não se exigiu um número mínimo de requerimentos. Pelo contrário, se permitiu que houvesse a provocação até mesmo de ofício, pelo juiz ou pelo relator. Portanto, o importante é que haja um número suficiente a tornar conveniente a utilização do incidente. Nesse sentido, parece que o direito brasileiro pode e deve, neste aspecto, se socorrer dos critérios que norteiam as class actions norte-americanas e também o Musterverfahren da jurisdição no âmbito administrativo, que apontam para uma análise pragmática em termos de superioridade do instrumento coletivo para que ocorra uma melhor prestação jurisdicional. Os norte-americanos falam em predominância das questões comuns e superioridade das class actions. De modo análogo, deve se analisar o Incidente de Repetição de Demandas Repetitivas, ou seja, quanto à capacidade deste instrumento para ser, de fato, o mecanismo processual mais adequado diante do contexto. Portanto, se a efetiva repetição de processos, que dependam da resolução da questão controversa, não for efetivamente significativa em termos numéricos, o resultado obtido poderá não ser tão relevante, a ponto de compensar as mudanças processuais decorrentes, especialmente a suspensão dos processos e o procedimento especial estabelecido nos tribunais. Nesse sentido, deve-se levar em conta não apenas o número existente de processos em um determinado órgão jurisdicional, mas também em outros e até mesmo quanto à potencial multiplicação de novos casos futuros, embora seja necessária, no momento da provocação, uma efetiva repetição de processos. A questão unicamente (rectius comum) de direito Estar-se-á diante de questão de direito, que poderá ser material ou processual. A identidade apenas fática não autoriza, ao contrário do que ocorre no regime alemão, a instauração do incidente brasileiro. Por outro lado, o texto legal (inciso I do art. 976) utiliza-se da expressão “unicamente de direito”. O objetivo do legislador foi ressaltar que apenas as questões de direito poderão ser definidas no incidente. As questões de fato, que poderão ou não guardar também identidade, embora possam ser admitidas como passíveis de apreciação concentrada em outros ordenamentos, como no Musterverfahren alemão, não foram concebidas dentro do objeto de apreciação no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, segundo a previsão expressa do Código de Processo Civil. Isso não significa, contudo, que, para a resolução dos casos concretos, não haja a necessidade de aferição, e eventual produção de prova, em relação às questões fáticas. Mas, esta análise, segundo o sistema brasileiro concebido, deverá ser feita em momento posterior e de modo individualizado em cada processo. É de se indagar, contudo, se a opção quanto à impossibilidade de análise concentrada da questão fática, desde que comum, naturalmente, teria sido a melhor. É claro que o procedimento modelo se tornaria mais complexo e haveria as dificuldades decorrentes de uma eventual produção de prova, considerando que o incidente, no Brasil, seria admitido e processado perante os tribunais de segundo grau. Mas, ainda assim, soluções poderiam ser concebidas, como às hipóteses em que houvesse apenas prova documental ou ainda que a prova pudesse ser produzida perante o órgão de primeiro grau. Entretanto, há que se convir que a falta de experiência quanto ao procedimento fracionado do IRDR, com a limitação à questão jurídica, talvez o torne de mais fácil absorção, como uma primeira experiência, deixando-se para um momento posterior, se positiva a experiência, a ampliação do seu objeto. Portanto, melhor um passo seguro, ainda que limitado quanto ao alcance, do que uma entrada abrupta em terreno ainda não conhecido e sedimentado. O incidente poderá ser suscitado em relação às questões de direito material ou processual. Do mesmo modo, poderão ser questões preliminares, prejudiciais ou posteriores ao mérito. O Código de Processo Civil não exigiu que fosse pertinente ao mérito do pedido formulado na demanda. Poderá, portanto, ser uma questão prejudicial ao mérito (constitucionalidade ou legalidade de um tributo criado ou majorado, por exemplo) ou mesmo decorrente dele (como a divergência estabelecida sobre uma regra pertinente à fixação de honorários advocatícios de sucumbência), mas também uma questão processual preliminar ao mérito ou posterior a ele, como, por exemplo, a controvérsia relacionada à 10.2. competência para o julgamento ou pertinente ao cumprimento da sentença, respectivamente. Em sendo assim, como já mencionado anteriormente, o incidente não está limitado aos denominados direitos individuais homogêneos. Entretanto, como a própria denominação do instituto indica, as demandas repetitivas, que têm por base especialmente os direitos individuais homogêneos, são uma parte fundamental no espectro de abrangência do novel instrumento. Registre-se ainda que, embora a norma mencione a singularidade da questão jurídica, o incidente pode, e deve, dependendo do contexto, reunir mais de uma questão jurídica, quando se fizer necessário para a elucidação dos processos pendentes. Esta foi uma preocupação que norteou, praticamente desde o início, o Musterverfahren alemão, no sentido de que os casos escolhidos como modelo reunissem as questões e argumentos de modo representativo, de modo a possibilitar, em seguida e a partir destes julgamentos paradigmáticos, a solução de todos os casos pendentes, ainda que as alegações e questões não estejam integralmente presentes em todos os processos. É o que vem se buscando também nos recursos representativos, mediante o comando estabelecido especialmente nos §§ 1º, 4º, 5º e 6º do art. 1.036,complementado pelo inciso III do art. 1.037, do Código de Processo Civil. Parece ser possível também, a título de técnica aplicável, a utilização de subclasses, como praticado no direito coletivo norte americano. Desse modo, se há questões comuns relacionadas, mas que podem ser metodologicamente separadas, com o objetivo de facilitar o julgamento do incidente ou dos processos pendentes, realiza-se a divisão das questões em subgrupos, o que pode contribuir também para a melhor delimitação das teses e a posterior aplicação aos casos concretos, nos processos suspensos. RISCO DE OFENSA À ISONOMIA E À SEGURANÇA JURÍDICA O segundo requisito, disposto no art. 976, inciso II, do Código de Processo Civil, é que haja risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica. Pode-se falar aqui em risco concreto e não abstrato. A simples existência de vários processos em tramitação perante órgãos judiciais já potencializaria um risco eventual de 10.3. que fossem decididos de modo diverso, havendo, em tese, a possibilidade de quebra da isonomia e da segurança jurídica. No entanto, se assim fosse, bastaria, na verdade, o primeiro requisito, indicado no inciso I, do art. 976, do CPC. Não basta, portanto, que haja a controvérsia entre partes, mas que esta esteja efetivamente ensejando divergência no seio do Poder Judiciário, capaz de comprometer, de fato, o princípio da isonomia e da segurança jurídica. E este risco deve ser atual, como por exemplo alguns juízes começam a conceder e outros a negar a concessão de liminares ou de antecipação de tutela. Do mesmo modo, se alguns magistrados estiverem julgando procedente o pedido, enquanto outros improcedente. Entretanto, se a questão já se encontra pacificada, com a observância da tese, mesmo que em razão de eficácia meramente persuasiva, a existência de divergência passada, ainda que este posicionamento continue a ser apenas ressalvado, de modo isolado, por um único ou poucos magistrados, não enseja o IRDR, se estes votos ou manifestações não estiverem produzindo resultados negativos em concreto, por serem quantitativamente insignificantes, isolados ou não estejam sendo reiterados na atualidade7. Contudo, se o problema ainda é contemporâneo, na medida em que ainda haja a efetiva repetição de processos e decisões proferidas em contraposição ao entendimento predominante, com a capacidade de reiteração, haverá interesse (necessidade- utilidade) na instauração do incidente, considerando-se o efeito vinculativo da decisão proferida no IRDR. Se a questão jurídica já tiver sido resolvida com a atribuição de efeito vinculativo perante os órgãos judiciais envolvidos, como nas hipóteses previstas no art. 927 do Código de Processo Civil, não haverá também interesse para a provocação do IRDR, pois, se houver a aplicação da tese, se estará diante da possibilidade de interposição do respectivo recurso ou de reclamação, conforme o caso. Entretanto, se o efeito vinculativo não atinge apenas outros órgãos, como na hipótese de IRDR apreciado por outro tribunal regional ou estadual, o interesse existirá, se ainda não interposto recurso especial ou extraordinário repetitivo. REQUISITO NEGATIVO: QUE A QUESTÃO JURÍDICA NÃO ESTEJA AFETADA EM RECURSO ESPECIAL OU EXTRAORDINÁRIO REPETITIVO O terceiro requisito expresso no § 4º, do art. 976, do Código de Processo Civil, é o da inexistência de recurso, especial ou extraordinário, repetitivo, sobre a mesma questão jurídica, já afetado por tribunal superior e pendente de julgamento. A razão é a falta de interesse, pois a questão de direito, nesta hipótese, já será resolvida, em grau superior e com efeito vinculativo em âmbito nacional. Portanto, não faz sentido que concorram, em paralelo, o instrumento regional ou estadual com o mecanismo nacional, que deveria, naturalmente, prevalecer. A norma expressa menciona apenas a afetação, mas se deve exigir que a questão ainda esteja pendente de resolução. Isso porque, se já julgado o recurso repetitivo, com a apreciação da questão jurídica, a tese firmada terá, com base no art. 927, inciso III, in fine, efeito vinculativo sobre os órgãos judiciais em todo o território nacional. Portanto, o desejo de suscitar o IRDR esbarrará no requisito indicado no requisito anterior, pois não haverá mais o risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica, porque pacificada a questão. A eventual inobservância da tese deverá ser corrigida pelas vias ordinárias ou mediante a apelação. Não se trata mais, por isso, de se iniciar um procedimento com o objetivo de se produzir a uniformização da jurisprudência, com a fixação de tese que já fora firmada. Por outro lado, é importante também afirmar que os recursos especiais ou extraordinários afetados à sistemática repetitiva poderão, posteriormente, perder esta qualidade, sendo desafetados, ou sequer ser conhecidos (como na hipótese de não reconhecimento da repercussão geral8). Em assim sendo, o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas não encontrará mais óbice para a instauração. A afetação da questão jurídica a Incidente de Resolução de Demanda Repetitiva perante outro tribunal de segundo grau, independentemente se federal ou estadual, não impede, em princípio, a provocação de novos IRDRs. Ressalte- se, entretanto, que a provocação de novos incidentes será possível apenas se e enquanto não houver a determinação de suspensão de todos os processos 10.4. 10.4.1. individuais e coletivos em curso no território nacional que versem sobre a questão objeto do incidente, nos termos do § 3º do art. 982 do CPC. A suspensão dos processos representará a sustação de todos os atos processuais que não se enquadrem no âmbito da tutela de urgência, inclusive dos respectivos incidentes. A medida de suspensão nacional tem exatamente o escopo de proporcionar ainda maior economia e concentração na resolução da questão jurídica, evitando-se a proliferação de inúmeros incidentes com o mesmo objeto. A CONTROVÉRSIA EM TORNO DA EXIGÊNCIA DE QUE O INCIDENTE TENHA COMO BASE APENAS PROCESSOS JÁ EM TRAMITAÇÃO NO TRIBUNAL Como mencionado anteriormente9, no decorrer do processo legislativo, ficaram caracterizadas duas nítidas concepções sobre a moldura de instituto que se pretendia construir, que correspondiam aos textos aprovados no Senado Federal e na Câmara dos Deputados. Em síntese, a concepção que predominou no Senado, tanto na versão aprovada em primeiro turno, quanto na redação final, foi no sentido de que o incidente poderia ser provocado quando houvesse processos em primeira instância ou no tribunal, razão pela qual o incidente poderia ser suscitado tanto pelo juiz de primeiro grau quanto pelo relator, assim como pelas partes, pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública. No Substitutivo da Câmara dos Deputados, no entanto, constavam dispositivos que expressamente mencionavam a exigência de que, para ser suscitado, o incidente deveria tomar como base processos que já estivessem em tramitação no tribunal de segundo grau e, por isso, o IRDR não poderia ser provocado pelo juiz de primeiro grau. Não obstante a clara manifestação a respeito, no parecer final que norteou o texto aprovado em última versão no Senado Federal, que foi sancionado e publicado, a controvérsia ainda persiste. Por certo, as duas posições encontram-se embasadas em fundamentos jurídicos sólidos e serão a seguir expostas. A posição de que o incidente somente pode ser suscitado na pendência de causa no tribunal O entendimento, no sentido de que o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas somente poderá ser suscitado com lastro em processos que já estejam tramitando no tribunal, possui, emtermos de fundamento, algumas nuances, que serão expostas a seguir, de modo separado, por razões metodológicas. a) Competência dos tribunais de segundo grau fixada constitucionalmente O primeiro argumento seria de que os tribunais de segundo grau teriam a sua competência fixada em normas constitucionais, ou seja, no art. 108 da Constituição da República, para os Tribunais Regionais Federais, e nas Constituições Estaduais, por força da determinação contida no § 1º do art. 125 da Magna Carta. Portanto, o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, ou cláusula geral que pudesse abarcar esta possibilidade, deveria estar expressamente arrolado nos respectivos textos constitucionais. Invoca-se ainda que a natureza incidental não afastaria a necessidade de previsão constitucional expressa, pois mesmo nestas hipóteses a Carta Federal teve a preocupação de arrolar a competência dos tribunais, como nos conflitos de competência entre juízes, cuja competência para os TRFs foi fixada no art. 108, inciso I, alínea e. Na falta de previsão expressa, os tribunais somente poderiam conhecer dos incidentes pertinentes a processos que fossem da sua competência constitucional. A tese, de fato, é sedutora, tendo em vista o princípio consagrado do juiz natural. Entretanto, devem ser levados em consideração também outros aspectos. Em primeiro lugar, o de que a competência dos tribunais de segundo grau não é matéria constitucional. Poderia ser considerada como matéria constitucional, no máximo, a organização e a competência do Supremo Tribunal Federal10. No âmbito dos tribunais superiores, nem todos possuem a discriminação da sua competência na Constituição da República. No caso dos Tribunais Superiores do Trabalho, Eleitoral e Militar, a competência é fixada pelo legislador infraconstitucional11. A competência do Superior Tribunal de Justiça, de fato, é fixada na Constituição da República. Entretanto, o legislador já estabeleceu, mediante norma ordinária, a ampliação desta competência, fixando o denominado Incidente de Uniformização da Jurisprudência dos Juizados Especiais Federais (JEFs), nos termos do art. 14, § 4, da Lei nº 10.259, de 12.07.2001. De modo similar, também foi instituído o pedido de uniformização de interpretação de lei na esfera dos Juizados Especiais da Fazenda Pública, perante o Superior Tribunal de Justiça, na hipótese do art. 18, § 3º, da Lei nº 12.153, de 22.12.2009. Em ambas as hipóteses, os respectivos incidentes não estavam previstos expressamente no rol do art. 105 da Constituição da República e eram suscitados a partir do julgamento proferido por outros órgãos (Turma Nacional de Uniformização e Turmas Estaduais, respectivamente). Por sua vez, estes incidentes não foram declarados inconstitucionais, mas, pelo contrário, chancelados pelo Supremo Tribunal Federal, diante da necessidade de se preservar a segurança jurídica e da compatibilidade com as funções exercidas pelo Superior Tribunal de Justiça, justificando-se a utilização destes incidentes e da própria reclamação, em caráter excepcional, diante, na ocasião, da inexistência de procedimento semelhante no âmbito da Justiça Estadual12. Os Tribunais Regionais Federais possuem, de fato, a sua competência fixada na Constituição da República, nos termos do art. 108, bem como os Tribunais de Justiça nas respectivas Constituições dos Estados, conforme determinação do art. 125, § 1º, da Carta Federal. Entretanto, o art. 108 da Constituição da República não especifica todos os incidentes cabíveis e apreciáveis pelos TRFs, concentrando-se principalmente nas causas originárias e nos respectivos recursos, modelo que, em regra, é adotado também nas Constituições Estaduais. Por isso, efetuou menção apenas ao conflito de competência entre juízes federais vinculados ao Tribunal, nos termos da alínea e, do inciso I, do art. 108 da Magna Carta. No entanto, a Constituição Federal, assim como, em regra, as Estaduais, não previram, dentro da lista de competências dos TRFs ou dos TJs, outros incidentes, especialmente o de impedimento ou suspeição do juiz, ou mesmo de instrumentos criados ou fortalecidos mais recentemente, como a reclamação. No caso da recusa, pelo juiz, quanto à alegação de impedimento ou suspeição, o Código de Processo Civil de 1973 já previa a remessa ao tribunal da exceção, para julgamento, norma esta que nunca foi afastada, em razão dos fundamentos agora levantados em relação ao IRDR. No CPC-2015, o mecanismo deixou de ser chamado de exceção, sendo denominado expressamente de “incidente”. Mas, em linhas gerais, seguindo-se o procedimento anterior, ou seja, não sendo o vício reconhecido pelo juiz, é remetido o incidente ao tribunal, nos termos do art. 146, § 1º, parte final, que terá a competência para processar e julgar o incidente. O argumento formal que nega a competência dos tribunais para o IRDR parece também não atentar para a existência de outras hipóteses, além do incidente de impedimento ou de suspeição do juiz, nas quais, de longa data, os tribunais de segundo grau passaram a receber atribuições delimitadas pela legislação infraconstitucional, em especial pelo próprio Código de Processo Civil. É o que ocorre, por exemplo, no julgamento per saltum, introduzido inicialmente no § 3º do art. 515 do CPC-1973, a partir da Lei nº 10.352, de 26.12.2001, e ampliado no CPC-2015, nos termos do art. 1.013, §§ 3º e 4º. São hipóteses em que, a rigor, o tribunal estará julgando o mérito da causa, sem que tenha havido o arrolamento expresso deste procedimento na lista da competência fixada constitucionalmente. Diga-se, de certo modo, o mesmo em relação à reclamação, com a agravante (que deveria ser levantada pelos defensores da tese ora em comento) de que esta se encontra literalmente inscrita na competência do Supremo Tribunal Federal (art. 102, inciso I, alínea l) e do Superior Tribunal de Justiça (art. 105, inciso I, alínea f). No art. 108, entretanto, a ausência de previsão literal para a competência dos Tribunais Regionais Federais não parece excluir este tribunal, bem como os Tribunais de Justiça que não encontrem também a indicação da reclamação na respectiva Constituição do Estado, do alcance amplo da reclamação disciplinada nos arts. 988 a 993 do Código de Processo Civil de 2015. Há ainda que se mencionar que, assim como os seus respectivos tribunais superiores, os tribunais de segundo grau, no âmbito da Justiça do Trabalho, Eleitoral e Militar, também não possuem as suas respectivas competências fixadas por norma constitucional, o que tornaria o fundamento formal ventilado desprovido de abrangência mais ampla, na medida em que o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas também pode ser, em tese, desde que preenchidos os requisitos, suscitado no processo trabalhista, eleitoral e penal (incluindo-se o militar). Ressalte-se ainda que o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas é um mecanismo processual completamente novo no ordenamento nacional. Portanto, as Constituições, Federal e Estaduais, não poderiam prever algo inexistente ao tempo das respectivas promulgações. Portanto, o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas deve ser visto sob uma ótica mais ampla e menos formalista, pois atende aos preceitos maiores da Constituição, especialmente o do acesso à justiça, da isonomia, da duração razoável dos processos, da economia processual e da segurança jurídica. As funções conferidas aos respectivos órgãos judiciais, no IRDR, por sua vez, estão em conformidade com a organização e com o sistema de competências estabelecidos na Carta Magna, dentrode uma concepção de uniformização regional ou estadual do Direito, encontrando o ápice nacional nos tribunais superiores. Longe de afrontar, o novel incidente encontra a sua fonte maior na Constituição de 1988, considerando que o acesso à justiça, previsto no inciso XXV, deve guardar sintonia com os valores inscritos no caput do art. 5º, a começar pela igualdade, considerando que se trata de um direito não apenas individual, mas coletivamente considerado, como enunciado no seu Capítulo I, do Título II, dos direitos e das garantias fundamentais. b) O parágrafo único do art. 978 do Código de Processo Civil Parte da doutrina13 funda a defesa da tese restritiva, no sentido de que o IRDR somente poderia ser suscitado se houvessem processos já tramitando no tribunal e apenas a partir destes, com fulcro na regra enunciada no parágrafo único do art. 978 do Código de Processo Civil. Como este dispositivo estabelece que o órgão colegiado incumbido de julgar o incidente e de fixar a tese jurídica julgará igualmente o recurso, a remessa necessária ou o processo de competência originária, de onde foi suscitado o IRDR, defende-se a indispensabilidade da presença destes no tribunal, não apenas no momento do julgamento, mas da sua provocação. A apreciação deste fundamento exige, contudo, uma análise da norma, contida no parágrafo único do art. 978, sob dois prismas: i) a sua constitucionalidade, formal e material; ii) o seu sentido e alcance14. O parágrafo único do art. 978 já foi objeto de comentário inicial, por ocasião da análise do processo legislativo, ressaltando-se que a sua redação, e sentido, não se faziam presentes em nenhuma das versões aprovadas inicialmente no Senado Federal ou na Câmara dos Deputados. Portanto, estaria formalmente contaminada pelo vício de inconstitucionalidade, em afronta ao disposto no art. 65 da Magna Carta, pois teria havido clara inovação no texto submetido unicamente à votação final e promulgação. Em acréscimo, a regra parece conter também vício material, por invadir a competência legislativa interna privativa dos tribunais, para dispor sobre a competência e o funcionamento dos respectivos órgãos jurisdicionais, nos termos do art. 96, inciso I, alínea a, da Constituição da República. Por último, ainda que a norma não estivesse contaminada pelos vícios supramencionados, restaria ainda a análise do seu conteúdo, sentido e alcance. Parece ser evidente que se trata de uma norma de prevenção, provavelmente motivada pelo desejo de que a aplicação da tese em concreto seja realizada com a devida fidelidade, o que seria garantido, ou mais provável, se o mesmo órgão judicial realizar também o julgamento, em sede de competência recursal ou originária, do(s) processo(s) de onde se originou o IRDR. É claro que o IRDR pode ter se originado de processo já em tramitação no tribunal. De modo algum, se pretendeu afastar esta possibilidade, que decorre expressamente do sistema instituído, na medida em que pode ser instaurado pelo juiz ou relator (inciso I do art. 977), ensejando clara interpretação de que tanto os processos em tramitação perante a primeira instância quanto no tribunal poderão ensejar o pedido de instauração, pelo próprio órgão judicial ou pelos demais legitimados (incisos II e III do art. 977). O importante, contudo, parece ser que a existência eventual de uma regra de prevenção, no caso, não teria o condão de levar à conclusão de que apenas os processos em tramitação no tribunal poderiam ensejar a instauração do IRDR. Mas, sim, que naqueles instaurados a partir de processos em tramitação no tribunal, o órgão competente julgaria a tese e a causa em concreto, estabelecendo-se, assim, vis attractiva para a prevenção. Os demais aspectos relacionados à competência, no sentido desta prevenção, serão apreciados no capítulo pertinente. c) O raciocínio dialético no sentido de que as questões jurídicas precisam estar mais maduras para serem sedimentadas e uniformizadas A escolha do modelo de procedimento padrão representa, por certo, mais uma discussão relacionada à política legislativa do que propriamente de interpretação. Registre-se, como já exposto no cotejo com o direito estrangeiro, que, na Alemanha, foram estabelecidos dois sistemas, que ainda convivem, de Musterverfahren. O procedimento modelo vigente nos órgãos judiciais que julgam a matéria administrativa e de previdência e assistência social é realizado perante a primeira instância, sendo admitido que haja a suspensão de todos os processos, para que apenas um tribunal (de primeira instância) possa processar e julgar o Musterverfahren. No entanto, no sistema adotado para os litígios ocorridos no mercado de capitais, o órgão de primeiro grau, perante o qual houve o primeiro requerimento de instauração do procedimento-padrão, apenas realiza a admissibilidade, cabendo ao respectivo Tribunal de Justiça o julgamento dos Musterverfahren. A versão aprovada na Câmara dos Deputados estabelecia, como anteriormente mencionado, que o IRDR somente poderia ser suscitado quando os processos relacionados com a questão jurídica controversa já estivessem tramitando no âmbito do tribunal. Por certo, haveria, com exceção dos processos que chegassem ao tribunal em razão da sua competência originária, um debate prévio no primeiro grau de jurisdição, fazendo com que as causas já estivessem mais amadurecidas para o julgamento em segunda instância. No texto aprovado, esta possibilidade não se encontra descartada. Pelo contrário, ao tribunal cabe um juízo de conveniência a partir dos requisitos estabelecidos (efetiva repetição de processos e risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica), que poderá 10.4.2. levá-lo a certa dilação quanto à admissibilidade do incidente, quando considerar que ainda não há uma quantidade tão significativa de processos ou que não se estabeleceu um risco significativo de ofensa à isonomia e à segurança jurídica. Mas, a opção legislativa foi claramente definida, no sentido de se priorizar a duração razoável dos processos, a isonomia, a economia processual e a segurança jurídica, que serão agasalhadas com a possibilidade de definição mais rápida da questão jurídica e com a técnica de concentração em torno desta. Ressalte-se ainda que houve o estabelecimento de um procedimento especial, no qual se alargaram os espaços destinados ao debate, como será oportunamente visto, permitindo-se a atuação paralela dos interessados15 (pessoas, órgãos e entidades), a intervenção obrigatória do Ministério Público, a participação de amici curiae, a ampliação de prazos e a revisão da tese, além do cabimento eventual do recurso especial e extraordinário diretamente em relação ao IRDR. Tudo isso representa um espaço privilegiado de discussão em torno da questão jurídica, talvez muito mais amplo, profundo e democrático do que o de um simples caso individual, que poderia formar um precedente16, até mesmo com caráter vinculativo, se incidente uma das demais hipóteses previstas no art. 927 do CPC. O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas pode ser suscitado a partir de causas em tramitação perante juízes ou tribunais de segundo grau O novo Código de Processo Civil estabeleceu uma clara inovação, com a criação do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, a partir de um sistema semelhante ao do Musterverfahren adotado na Alemanha para os litígios do mercado de capitais. Contudo, no modelo brasileiro, o tribunal de segundo grau decide apenas em relação à questão jurídica, fixando a tese respectiva, para que haja a apreciação dos casos concretos pelo juiznatural, ou seja, o órgão competente perante o qual tramita o processo, seja ele de primeira instância ou o próprio tribunal. A opção representa uma opção política no sentido de considerar a gravidade dos problemas existentes, destacando-se o número excessivo de demandas repetitivas, o congestionamento de processos no Poder Judiciário, a demora no julgamento dos processos, a diversidade de pronunciamentos em torno de questões comuns, a necessidade de fortalecimento da isonomia e da segurança jurídica. A doutrina já apontava a necessidade do estabelecimento de mecanismos que propiciassem maior economia e segurança jurídica no âmbito de todo o Poder Judiciário e não apenas na esfera dos tribunais superiores. Por isso, a adoção de um instrumento que somente pudesse ser acionado quando os processos já tivessem alcançado os tribunais de segundo grau seria limitado quanto ao seu alcance e resultado. O risco seria grande se houvesse a limitação pretendida na versão aprovada na Câmara dos Deputados. Isso porque haveria um requisito necessário, que poderia retardar a instauração do IRDR, a ponto de comprometer os seus objetivos. Ressalte-se que o novo procedimento se faz eficiente se for instaurado, processado e julgado dentro de um tempo razoável. Do contrário, poderá se prolongar uma situação patológica de quantidades imensas de processos suspensos indefinidamente, gerando instabilidade e descrédito em relação à prestação jurisdicional. O mecanismo do IRDR aposta em uma solução a médio prazo, ou seja, a partir de uma técnica de gestão, na qual a suspensão dos processos poderá gerar economia. Presume-se que os órgãos judiciais poderão se concentrar em outros processos. Em qualquer modelo eficiente de gestão, seria altamente questionável se todos os envolvidos se dedicassem concomitantemente às mesmas funções e atividades, sem que houvesse uma repartição mínima de trabalho. Embora a futura aplicação da tese jurídica firmada não represente uma aplicação mecânica, na medida em que se deverá analisar a adequação do caso fático à tese, a economia existirá se, de fato, os juízes não tiverem que se debruçar, todos, sobre as mesmas questões jurídicas. Se o IRDR, contudo, somente se torna admissível em momento posterior, quando os processos alcançaram os tribunais, a tendência é que os juízes já tenham despendido energias na análise das questões jurídicas controversas, com a elaboração de decisões e sentenças sobre a matéria, de modo que a economia será muito menor do que se poderia obter em um momento 1 2 3 4 5 6 7 anterior. Por outro lado, os efeitos de decisões proferidas em sede de tutela provisória, liminares ou de cumprimento de sentenças também poderão significar um risco muito maior de quebra da isonomia e da segurança jurídica, decorrente da maior demora na instauração e julgamento do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. A opção pelo julgamento concentrado não é peculiar apenas ao IRDR. Representa tendência, com as respectivas consequências, adotada pelo ordenamento brasileiro. Nesse sentido, podem ser apontados outros mecanismos, como o das ações diretas de inconstitucionalidade e de constitucionalidade, o mandado de injunção coletivo e individual, a arguição de descumprimento de preceito fundamental, os recursos repetitivos, o modelo de arguição de inconstitucionalidade nos tribunais e a criação da súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal. Como visto, no respectivo capítulo. Na primeira versão do § 93a, aprovada em 17.12.1990, que entrou em vigor a partir de 1991. O Estatuto da Justiça Administrativa data de 21.01.1960, tendo entrado em vigor no dia 01.04.1960. A atual versão é de 19.03.1991, com modificações pontuais posteriores. Vide KRUPPA, Jan J., Kapitalanleger-Musterverfahrensgesetz (KapMuG) – Bestandsaufnahme und Perspektiven, p. 84-88. BVerwG, Beschluss vom 01.04.2009, Az. 4 B 61.08, 4 B 62.08. Vide: MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Ações coletivas e meios de resolução coletiva de conflitos no direito comparado e nacional. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 63; HODGES, Christopher. Multi- party actions: a European approach. Duke Journal of Comparative & International Law, vol. 11, number 2, Spring, 2001. Lei sobre procedimento-modelo nos conflitos jurídicos do mercado de capitais (Gesetz über Musterverfahren in kapitalmarktrechtlichen Streitigkeiten – KapMuG). A previsão numérica se encontra no § 6. A ausência deste requisito (risco de ofensa à isonomia e à segurança 8 9 10 jurídica) serviu como fundamento, além de outros, para se inadmitir um dos primeiros IRDRs suscitados no Tribunal Regional Federal da 2ª Região. O Ministério Público Federal havia proposto o incidente, para a fixação da tese de que “a presença do Ministério Público em um dos polos da demanda é suficiente para ensejar a competência da justiça federal para apreciar e julgar o processo”. Entretanto, a questão já se encontrava, como se encontra, pacificada na jurisprudência, restando apenas o posicionamento tópico de órgãos judiciais. Nesse sentido: “4. Por fim, não se mostraria apropriada, de qualquer sorte, à vista das circunstâncias, a adoção do IRDR para ações civis públicas e ações de improbidade administrativa propostas pelo Ministério Público Federal, quando eventual divergência seria de uma única turma deste Tribunal Regional Federal da 2ª Região, ao passo que o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal são acordes no sentido de que a presença do MPF atrai a competência da Justiça Federal. Basta pensar que: (i) admitido o incidente, o relator suspenderá os processos pendentes, individuais ou coletivos, que tramitam no Estado ou na região, conforme o caso (art. 982, I, do CPC); (ii) a extensão da suspensão a todos os processos individuais ou coletivos em curso no território nacional, como previsto nos §§ 3º e 4º do art. 982, constituiria evidente demasia, diante da posição isolada de órgão judicante; (iii) o recurso extraordinário ou especial, contra o julgamento de mérito do IRDR tem efeito suspensivo, presumindo-se a repercussão geral de questão constitucional eventualmente discutida (art. 987, § 1º, do CPC), o que potencializa a duração da suspensão dos processos e facilitaria o recurso extraordinário em relação a questão já tranquila na Suprema Corte.” TRF-2, IRDR, nº 0003096-69.2016.4.02.0000 (2016.00.00.003096-9), Órgão Especial, Rel. Des. Luiz Paulo da Silva Araujo Filho, decisão em 27.10.2016, disponibilizada em 10.11.2016. Nos termos do art. 1.039, parágrafo único, do CPC. Pode-se pensar em uma situação restrita a uma região do estado, em que haja uma quantidade razoável de demandas repetitivas, mas que o Supremo Tribunal Federal venha a negar a repercussão geral. No caso, a multiplicidade local de processos e o risco de ofensa à isonomia poderão ensejar o interesse em relação à instauração do IRDR. Vide sobre o processo legislativo no capítulo sobre as origens do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas no direito nacional. Mesmo assim, há ordenamentos constitucionais que permitem ao legislador 11 12 13 14 15 16 ordinário o estabelecimento complementar das competências da Corte Suprema, como ocorre no art. 93 (2) da Lei Fundamental alemã. Nos termos dos arts. 113, 121 e 124, parágrafo único, da Constituição da República, respectivamente. Nesse sentido, RE 571572 ED, Re. Min. Ellen Gracie, Tribunal Pleno, j. 26.08.2009, DJe 223, RTJ, vol. 216-01, p. 540, valendo destacar na ementa: “2. Quanto ao pedido de aplicação da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça,observe-se que aquela egrégia Corte foi incumbida pela Carta Magna da missão de uniformizar a interpretação da legislação infraconstitucional, embora seja inadmissível a interposição de recurso especial contra as decisões proferidas pelas turmas recursais dos juizados especiais. 3. No âmbito federal, a Lei 10.259/2001 criou a Turma de Uniformização da Jurisprudência, que pode ser acionada quando a decisão da turma recursal contrariar a jurisprudência do STJ. É possível, ainda, a provocação dessa Corte Superior após o julgamento da matéria pela citada Turma de Uniformização. 4. Inexistência de órgão uniformizador no âmbito dos juizados estaduais, circunstância que inviabiliza a aplicação da jurisprudência do STJ. Risco de manutenção de decisões divergentes quanto à interpretação da legislação federal, gerando insegurança jurídica e uma prestação jurisdicional incompleta, em decorrência da inexistência de outro meio eficaz para resolvê-la. 5. Embargos declaratórios acolhidos apenas para declarar o cabimento, em caráter excepcional, da reclamação prevista no art. 105, I, f, da Constituição Federal, para fazer prevalecer, até a criação da turma de uniformização dos juizados especiais estaduais, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça na interpretação da legislação infraconstitucional”. Nesse sentido: CÂMARA, Alexandre Freitas. O novo processo civil brasileiro, 3. ed., São Paulo: Atlas, 2017. Embora sob este aspecto, o tema possa ser revisitado e aprofundado no capítulo pertinente à competência. No presente momento, a análise estará focada principalmente no debate pertinente aos requisitos. Art. 983 do CPC. O tema será retomado por ocasião da eficácia vinculativa do IRDR. 11.1. LEGITIMIDADE PARA O IRDR O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas poderá ser suscitado de ofício, pelo juiz de primeiro grau ou pelo relator, bem como requerido pelas partes, pelo Ministério Público e pela Defensoria Pública, por petição, nos termos do art. 977, incisos I, II e III, do Código de Processo Civil. Em razão da natureza do IRDR, este procedimento se caracteriza pela multiplicidade de interesses paralelos, que serão afetados em razão do efeito vinculativo da decisão proferida sobre a questão comum. Há, portanto, uma característica muito distinta do processo tradicionalmente concebido como de duas partes, ainda que possa haver o fenômeno do litisconsórcio em um ou nos dois polos da relação processual. Nos processos paralelos, os interessados, assim considerados todos os que discutam nos respectivos processos a questão objeto do IRDR, não figuram, em princípio, como parte, mas, no sistema brasileiro, dispõem do poder de atuação voluntária no incidente, para fiscalizar e complementar as partes do incidente. No Código de Processo Civil, há menção expressa aos interessados em dispositivos como o § 4º do art. 982, para requerer a suspensão nacional dos processos, nos termos do § 3º do art. 982; no caput do art. 983, que serão (rectius poderão ser) ouvidos pelo relator, bem como requerer a juntada de documentos e as diligências necessárias para elucidação da questão de direito controvertida; e na alínea b, inciso II, do art. 984, para efetuar a sustentação oral. Entretanto, 11.2. deve ser tido como exemplificativo o rol mencionado, pois, de modo geral, poderão praticar os atos processuais pertinentes ao incidente, considerando o interesse jurídico inerente. Sendo assim, ainda que não mencionados, outros atos poderão ser realizados, como a interposição de recursos ou o requerimento de revisão da tese, em especial se a decisão não considerar aspectos relevantes da fundamentação esposada pelos interessados. O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas se enquadra em uma categoria relativamente nova de procedimentos, que têm como base processos individuais paralelos e vinculados a questões comuns. Diferencia-se, em princípio, das ações coletivas, porque estas se fundam em representantes adequados, segundo a lei ou juiz. No âmbito dos procedimentos modelo, o julgamento dos casos continua sendo feito de modo individualizado, embora calcados em um pronunciamento concentrado focado em questões comuns. O modo de escolha das partes atuantes no procedimento é variado. OS SUJEITOS PROCESSUAIS NO MUSTERVERFAHREN ALEMÃO Na Alemanha, os dois sistemas de Musterverfahren também se diferenciam sob o prisma subjetivo. No âmbito administrativo e social, a escolha é feita pelo órgão judicial que, como mencionado, pode levar em consideração até mesmo o grau de interesse das partes para a escolha dos casos que deverão servir de modelo. Na esfera do mercado de capitais, houve um detalhamento maior das regras aplicáveis e, como mencionado anteriormente, o Tribunal de Justiça proferirá, em decisão irrecorrível, a designação das partes que atuarão no procedimento modelo, como autor (Musterkläger) e réu (Musterbeglagte), nos termos do § 9 (2) da Lei do Procedimento-Padrão no Mercado Mobiliário (KapMuG). Como critérios para a escolha, o tribunal deverá considerar, por expressa determinação da lei, (i) a aptidão do autor para conduzir de modo apropriado o procedimento-padrão em consideração aos interesses das partes paralelas afetadas; (ii) o acordo da maioria dos autores em relação a quem deva conduzir o procedimento; (iii) a dimensão da pretensão que está sendo deduzida 11.3. em cada processo relacionado com o procedimento modelo. Os aspectos considerados na legislação alemã podem e devem servir de parâmetro, de lege ferenda, para o intérprete brasileiro. Isso porque quando o IRDR for suscitado por sujeito que não seja parte, ou seja, pelo órgão judicial e, em certos casos, pelo Ministério Público ou Defensoria Pública, caberá a estes a escolha não de quem irá intervir no incidente, mas das peças que melhor representem a controvérsia, a exemplo do que ocorre nos recursos repetitivos. OS INTERVENIENTES NO IRDR: A INFLUÊNCIA NA FORMAÇÃO DA TESE JURÍDICA No ordenamento brasileiro, portanto, não cabe ao órgão judicial a escolha de quem irá intervir no incidente. Entretanto, quando este é suscitado pela parte ou mesmo pelo Ministério Público ou Defensoria Pública, quando não estiverem figurando como parte, presume-se que o requerente irá acompanhar e intervir no incidente. Contudo, quando suscitado pelo órgão judicial, revela-se certa preocupação diante deste novo modelo de procedimento, em que há a figura dos processos paralelos, com interessados que são partes nestes processos, mas que não têm uma intervenção provocada no incidente. Há, portanto, uma significativa mudança cultural e procedimental, pois, no processo fundado em partes contrapostas, o autor formula a sua demanda e, como tal, passa a integrar a relação processual. Por sua vez, o réu é citado e passa a integrar o polo passivo. No IRDR, o procedimento poderá ser provocado, instaurado e julgado sem que haja a interferência direta da maioria das partes interessadas na solução da questão jurídica a ser dirimida. Esta característica vem fazendo com que o novel instituto receba, por parcela da doutrina1, críticas e até mesmo a alegação de inconstitucionalidade, em razão da eventual falta de representatividade adequada. Entretanto, há que se cotejar a crítica com a sistemática adotada em outros institutos nos quais se produz resultado semelhante, no âmbito do direito estrangeiro e também do direito nacional. Em especial, cabe aqui a comparação2 com o sistema de precedentes adotado nos países de common law e nos 11.4. pronunciamentoscom caráter vinculativo, nos termos do art. 927 do Código de Processo Civil. De maneira geral, e isso deve ser ressaltado, ainda que de modo acaciano, o precedente possui relevância especial para a solução de outros casos. Contudo, nunca se exigiu, nos precedentes, até porque esta característica somente é revelada no futuro e não previamente, a representatividade adequada ou outros requisitos típicos de processos coletivos. E as razões de decidir (ratio decidendi ou holding) são extraídas de processos coletivos ou individuais indistintamente, sem que se exija ou faça qualquer controle especial quanto à representatividade adequada. AS MEDIDAS FUNDAMENTAIS PARA A PRESERVAÇÃO DOS DIREITOS SUBJACENTES AO IRDR SOB O ASPECTO SUBJETIVO Há que se registrar que no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, o aspecto subjetivo não foi desprezado. No procedimento, estão previstas algumas medidas que são fundamentais para a preservação dos direitos subjacentes aos interessados que ficarão vinculados à decisão proferida no incidente. Dentre as providências previstas, devem ser destacadas (a) a mais ampla e específica divulgação e publicidade, por meio de registro eletrônico no Conselho Nacional de Justiça e nos bancos eletrônicos dos tribunais; (b) a intimação de todas as partes dos processos suspensos, que deve ser determinada pelos respectivos juízes e relatores, imediatamente após a comunicação de suspensão, nos termos do art. 1.037, § 8º, que deve ser aplicado também nos casos de IRDR, combinado com o art. 982, § 1º, do CPC; (c) a possibilidade de intervenção dos interessados no incidente, conforme supramencionado; (d) a intervenção obrigatória do Ministério Público. Das medidas acima, a intimação das partes que tiveram os seus respectivos processos suspensos e que sofrerão o efeito vinculativo previsto no art. 927, inciso III, do Código de Processo Civil, parece ser fundamental para que se garanta a higidez do sistema. A intimação se faz necessária sob dois aspectos: (i) controle da identidade entre a(s) questão(ões) de direito objeto do IRDR e as que estejam sendo discutidas no processo suspenso, para que se possa verificar se a suspensão e futura aplicação da tese jurídica são, de fato, pertinentes; (ii) possibilitar que as partes do processo suspenso, possam, na qualidade de interessados, acompanhar todo o procedimento do IRDR, exercendo os seus respectivos direitos, inclusive aditando argumentos, requerendo a juntada de peças processuais ou documentos, recorrendo e realizando todos os atos necessários para que a questão jurídica seja apreciada a partir dos seus fundamentos e interesses. A inexistência da intimação, preconizada no § 8º do art. 1.037 do CPC, não deve, no entanto, por si só, conduzir à ineficácia do efeito vinculativo em relação à parte não comunicada e, muito menos, a qualquer problema quanto à validade do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. Parece que a inobservância da regra aplicável ao IRDR, embora prevista para os recursos repetitivos, guarda certa semelhança com a situação decorrente da ausência de notificação ao membro da classe, nas class actions norte-americanas, sobre a existência da ação de classe e a possibilidade do exercício do direito de exclusão (opt-out right)3. Em ambas as hipóteses, a parte prejudicada deverá comprovar não apenas a ausência da intimação, mas também, cumulativamente, que não tomou conhecimento do IRDR e que os argumentos jurídicos levantados no seu processo não foram efetivamente, de modo direto ou indireto, deduzidos e apreciados no incidente, para que possa se afastar do efeito vinculativo previsto nos arts. 927, inciso III, e 985, inciso I, do Código de Processo Civil. Neste caso, parece que os princípios do acesso à justiça, do devido processo legal e do contraditório serviriam de óbice para a subsunção obrigatória do caso concreto à tese jurídica firmada. Como os argumentos não foram analisados, não ficariam cobertos pelo efeito vinculativo do IRDR e poderiam, assim, ser acatados ou não pelo julgador no caso concreto. Situação, portanto, semelhante à do membro da classe que, nas class actions, não é notificado e consegue comprovar que acabou sendo prejudicado pela impossibilidade de ter exercido o direito de exclusão, porque teria fundamentos capazes de ensejar um julgamento diverso para o seu caso. As garantias destacadas não afastam outras que, ainda que não previstas 11.5. 11.5.1. expressamente, podem ser adotadas, como a permissão de que os interessados possam contar com o apoio de outros legitimados coletivos para a defesa dos direitos, como entes públicos ou associações4. Esta intervenção pode ser útil para que a intervenção dos interessados se realize de modo eficiente e organizado, evitando-se a habilitação multitudinária de interessados e as consequências negativas de um eventual tumulto processual em torno do incidente5. No sistema brasileiro, a legislação estabeleceu basicamente quem seriam os legitimados, a intervenção obrigatória do Ministério Público6 e a possibilidade de participação dos interessados. CONSIDERAÇÕES EM TORNO DOS LEGITIMADOS PARA SUSCITAR O IRDR O juiz, o relator e os órgãos judiciais colegiados No âmbito dos legitimados, cabe destacar cada uma das situações. Em primeiro lugar, o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas poderá ser suscitado pelos órgãos judiciais, tendo o código indicado expressamente o juiz ou o relator. Há que se indagar se o órgão colegiado não poderia também suscitar o incidente. E o ponto seria, em especial, relevante nas hipóteses em que a necessidade de decisão concentrada sobre a questão jurídica fosse levantada durante julgamento colegiado, em que o relator fosse vencido neste tópico. Parece que, na hipótese, o posicionamento minoritário do relator não poderia ter o condão de impedir, com base apenas na literalidade do inciso I do art. 977 do CPC. Se o relator pode suscitar, com muito maior autoridade poderá o órgão colegiado. É o que ocorre em situações semelhantes, como no próprio incidente de arguição de inconstitucionalidade, em que a arguição é submetida, em um primeiro momento, ao órgão fracionário, que acolhendo, encaminhará a questão, em conformidade com a estrutura e com o respectivo regimento, ao plenário ou ao órgão especial do tribunal7. No art. 948 do CPC, também se menciona que o relator submeterá a questão à turma ou à câmara. Contudo, qualquer integrante do colegiado poderá, naturalmente, suscitar eventual inconstitucionalidade a ser declarada. Entretanto, o incidente somente será instaurado se o colegiado, por unanimidade ou por maioria, entender pelo acolhimento. No caso do IRDR exigiu-se, no entanto, menos, ou seja, aqui se permitiu, sim, com o objetivo de se alcançar um resultado mais rápido, tendo em vista a multiplicidade de processos, que o relator, desde logo, se antecipasse ao próprio órgão fracionário, para suscitar direta e previamente o incidente. Mas, não o fazendo desde logo, nada impede que o próprio relator ou qualquer outro integrante do respectivo órgão fracionário suscite em momento posterior. Em princípio, a iniciativa de provocação do incidente pode partir de qualquer relator ou órgão do tribunal. Portanto, a proposta de instauração do IRDR pode partir de questões surgidas em casos que estejam em tramitação no Pleno, nas Seções Especializadas ou nas Câmaras e Turmas. Em relação ao órgão judicial, é de se afirmar ainda que apenas poderá provocar o incidente aquele que, de fato, possuir processos em que se discute a questão controversa a ser dirimidacomuns. O surgimento de cadastros no direito estrangeiro e a evolução no direito nacional O banco eletrônico de dados dos tribunais e no Conselho Nacional de Justiça. A Resolução nº 235/2016 do CNJ. Momento do lançamento do registro. Dados essenciais As dificuldades práticas para a implementação do Cadastro Nacional de Incidentes de Resolução de Demandas Repetitivas. Capítulo 14 – O procedimento inicial do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. Distribuição e juízo de admissibilidade; a definição da questão jurídica objeto do incidente O procedimento inicial do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. Distribuição. Juízo de admissibilidade Definição do objeto do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas: a questão de direito Capítulo 15 – A suspensão dos processos pendentes. Competência para o estabelecimento da suspensão. Suspensão cogente ou facultativa. Possibilidade de suspensão parcial. Tempo de suspensão. Prorrogação da suspensão. Comunicação da suspensão. Requerimento de suspensão ou de sustação da suspensão. Recursos contra a decisão sobre a suspensão. Revogação da suspensão. Atos processuais que podem ser realizados durante a suspensão 15.1. 15.2. 15.3. 15.4. 15.5. 15.6. 15.7. 15.8. 15.9. 15.10. 15.11. 15.12. 16.1. 16.2. 16.3. 16.4. A suspensão dos processos pendentes Competência para o estabelecimento da suspensão Suspensão cogente ou facultativa Possibilidade de suspensão parcial Suspensão em todo o território nacional Tempo de suspensão Prorrogação da suspensão Comunicação da suspensão (ou a suspensão efetiva dos processos que versem sobre a questão do IRDR). Devido processo legal e contraditório Requerimento de suspensão ou de sustação da suspensão Recursos contra a decisão sobre a suspensão Cessação da suspensão Atos processuais que podem ser realizados durante a suspensão Capítulo 16 – Procedimento preparatório do julgamento. Informações. O papel do relator e dos sujeitos do incidente. Contraditório. Amicus curiae Procedimento preparatório do julgamento Informações. Fundamentos em torno da questão objeto do IRDR O papel do relator e dos sujeitos do incidente na preparação do julgamento do IRDR. A legitimação do procedimento modelo e do sistema de processos paralelos Definição final da questão do IRDR. Contraditório pleno e aprofundado em torno dos fundamentos pertinentes ao objeto do IRDR. Providências que podem ser tomadas pelo relator 17.1. 17.2. 17.3. 17.4. 18.1. 18.2. 18.3. 18.4. 18.5. 18.6. 18.6.1. 18.6.2. Capítulo 17 – Julgamento do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas O órgão competente e o objeto do julgamento De novo, a importância do contraditório ampliado O procedimento para o julgamento do IRDR A fixação da tese jurídica Capítulo 18 – Recursos contra a decisão proferida no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas Recursos cabíveis: considerações gerais Breve histórico sobre as origens, influências e escopos dos recursos extraordinário e especial no Brasil Os recursos extraordinários e especiais e as “causas decididas em única ou última instância”. A visão tradicional diante de institutos como o incidente de arguição de inconstitucionalidade e de uniformização de jurisprudência Do individual para o coletivo: o estudo do desenvolvimento dos instrumentos processuais voltados para a solução de questões comuns, repetitivas e coletivas no Brasil, como premissa para a interpretação da expressão “causas decididas em única ou última instância” Os julgados do Supremo Tribunal Federal e o Enunciado nº 513 da sua Súmula Fundamentos para a constitucionalidade do art. 987 do Código de Processo Civil A previsão de causa decidida em única ou última instância é constitucional, mas a sua definição não é constitucional, podendo ser fixada legalmente O novo conceito de jurisdição e os respectivos mecanismos 18.6.3. 18.6.4. 18.6.5. 18.6.6. 18.6.7. 18.7. 18.8. 19.1. 19.2. processuais Acesso à Justiça e contraditório – o direito dos interessados de intervir no IRDR e de recorrer da decisão de mérito . Interpretação sistemática do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (I) (possibilidade de suspensão nacional cautelar e o cabimento do recurso extraordinário e especial diante do julgamento de mérito do IRDR – art. 982, §§ 4º e 5º do CPC) Interpretação sistemática do Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (II) (desistência do processo do qual se originou o IRDR) Coisa julgada da questão prejudicial e das decisões parciais de mérito. Recursos excepcionais contra o julgamento em agravo de instrumento O enunciado nº 513 da Súmula do Supremo Tribunal Federal e o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas Legitimados para a interposição dos recursos Efeitos devolutivo e suspensivo nos recursos extraordinário e especial contra a decisão de mérito no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. Presunção da repercussão no recurso extraordinário Capítulo 19 – Efeito vinculativo da decisão proferida no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas Delimitação do tratamento do tema. O tratamento normativo geral do efeito vinculativo no novo Código de Processo Civil Levantamento e análise das principais críticas formuladas por parte da doutrina ao sistema de julgamento de demandas repetitivas no novo Código de Processo Civil, especialmente no que se refere ao efeito vinculativo 19.3. 19.4. 19.5. 19.6. 20.1. 20.2. 20.3. 20.4. Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (ou sistema de resolução de demandas repetitivas ou de questões comuns) versus ou plus ações coletivas Violação da separação ou colaboração entre os Poderes A alegada ausência de legitimação adequada para a defesa dos interesses coletivos e a ofensa aos princípios do acesso à justiça e ao contraditório, na medida em que pessoas que não tiveram participação no processo, ou seja, o seu dia na corte, estariam sendo atingidas no seu direito A invocação da violação ao direito de ação, em razão da ausência da garantia do direito de autoexclusão (opt-out right) Capítulo 20 – Aplicação da tese jurídica. Cognição, fundamentação, vícios e meios de correção. Distinção e superação da tese jurídica firmada. Efeitos e consequências processuais decorrentes do julgamento repetitivo: a construção de um sistema. Revisão da tese O âmbito de aplicação da tese jurídica Cognição e fundamentação na aplicação da tese ao caso concreto. Vícios decorrentes da falta de motivação e meios de correção. Distinção e superação em relação à tese firmada Efeitos e consequências processuais decorrentes do julgamento repetitivo: a construção de um sistema Revisão da tese Capítulo 21 – Solução consensual e Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas PRINCIPAIS CONCLUSÕES REFERÊNCIAS INTRODUÇÃO Procurou-se escolher um tema atual, importante e instigante no âmbito do Direito Processual Civil. O incidente de resolução de demandas repetitivas (IRDR) é um dos principais instrumentos trazidos a lume pelo Código de Processo Civil (CPC) brasileiro de 2015. A criação do novo procedimento foi obra de sofisticada engenharia realizada pela Comissão de Juristas, presidida pelo Professor e Ministro Luiz Fux, integrada, dentre outros, pelos eminentes Professores Teresa Arruda Alvim, Paulo Cezar Pinheiro Carneiro, Humberto Theodoro Júnior e José Roberto dos Santos Bedaque, que elaborou o anteprojeto do novo estatuto processual. Por um lado, foi concebido sob a inspiração do direito estrangeiro, especialmente o germânico, a partir do Musterverfahren (procedimento-padrão). Por outro, engendrouno incidente. Neste ponto, se faz necessário revolver, naturalmente, o posicionamento diante dos requisitos para a instauração. Para os que entendem que a existência de processos em tramitação perante o tribunal é condição sine qua non para que o tribunal tenha competência para conhecer e julgar o incidente, afirma-se que isto não afastaria, por completo, o reconhecimento da legitimidade do juiz para suscitar o incidente. O magistrado de primeiro grau, no caso, poderia suscitar o incidente, indicando a existência de processos no tribunal nos quais a questão jurídica comum tivesse relevância. Mas, mesmo assim, parece que esta provocação teria que encontrar fundamento na atuação em concreto do magistrado que estivesse processando ou julgando causas relacionadas com a questão de direito a ser dirimida. Do contrário, a atuação do magistrado estaria desvinculada das suas funções jurisdicionais, não se compatibilizando com o seu mister e com os preceitos do juiz natural e da inércia. Entretanto, para a posição que afasta este requisito, caberá ao juiz e, de modo geral, ao relator, que suscitar o incidente, instruir o ofício com os 11.5.2. documentos necessários à demonstração do preenchimento dos pressupostos para instauração do incidente, nos termos do parágrafo único do art. 977, a partir dos processos que estejam sob a sua responsabilidade. Saliente-se, ainda, que o requisito da efetiva repetição de processos pode ser aferido não apenas a partir de um único órgão jurisdicional. Contudo, há que existir processos, ainda que em quantidade não tão expressiva como em outros órgãos, para que o magistrado possa identificar a questão comum e as peças representativas da controvérsia, de modo a fornecer os elementos necessários para a apreciação da questão de direito. As partes O autor ou o réu poderá suscitar o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, indicando a questão de direito do seu processo que seja comum com a de outros processos, em quantidade significante e que estejam tendo solução diversa perante os órgãos judiciais. Nada impede que alguns autores ou réus o façam de modo conjunto. O dispositivo, inciso II do art. 977 do Código de Processo Civil, menciona as partes, mas a indicação do plural diz respeito a que qualquer uma delas poderá fazê-lo, não dependendo, naturalmente, do consentimento da parte contrária, embora nada impede que ambos convencionem neste sentido. A atuação das partes no IRDR ocorrerá não apenas no momento do requerimento, mas também na fase preparatória (nos termos do art. 983, em prazo comum, no qual poderão requerer a juntada de documentos e a realização de diligências necessárias para a elucidação da questão de direito); por ocasião do julgamento, em sustentação oral (conforme art. 984, inciso II, alínea a); na hipótese de interposição do recurso especial ou extraordinário, na condição de recorrente ou de recorrido (art. 987); e, ainda que sem menção expressa, para eventual postulação da revisão de tese. Em relação a este último aspecto, que será aprofundado em capítulo específico, cabe apenas adiantar que, na redação do texto aprovado, o art. 986 atribuía a revisão aos legitimados então indicados no art. 977, inciso II, que, quando aprovado no Senado, reunia as partes, o 11.5.3. Ministério Público e a Defensoria Pública. No entanto, em revisão que antecedeu o envio para a sanção presidencial, realizou-se o desmembramento do art. 977 em três incisos e o art. 986 passou a se referir, em manifesta violação ao processo legislativo, apenas ao inciso III. Entretanto, a manutenção das partes, como legitimadas para a revisão, não deve ser defendida apenas em razão do indevido processo de revisão, mas porque possuem direta relação com a questão jurídica apreciada e com a tese firmada. Ministério Público A atuação do Ministério Público no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas encontra fundamento, em primeiro lugar, na incumbência de defesa da ordem jurídica, nos termos do art. 127, caput, combinado com o art. 129, inciso IX, ambos da Constituição Federal. No caso, a função que lhe foi conferida pelo Código de Processo Civil, nos arts. 976, § 2º, e 977, inciso III, é compatível com a defesa da ordem jurídica, considerando o caráter uniformizador do direito a ser aplicado, em prol do princípio da isonomia e da segurança jurídica, bem como do acesso à justiça, da duração razoável dos processos e da economia processual. Por isso, ainda quando não for parte, deverá zelar para que o IRDR busque a consecução destes valores, mediante o devido processo legal. Em segundo lugar, o funcionamento do Ministério Público poderá também, eventualmente, estar voltado para a proteção de interesses coletivos, quando a questão comum estiver relacionada a direitos individuais homogêneos, entende- se que estes estão contidos na parte final do inciso III do art. 129 da Constituição da República. Como já mencionado, o IRDR poderá ser suscitado para a resolução de questão comum de direito. Portanto, sendo possível a sua utilização para a resolução de questão de direito comum, de mérito ou processual, em processos cujas demandas poderão ostentar um caráter heterogêneo em relação às demandas formuladas. Entretanto, e provavelmente na maioria dos casos, o incidente servirá, como o próprio nome indica, para a elucidação de questão pertinente a demandas repetitivas, nas quais são pleiteados direitos individuais 11.5.4. 11.6. homogêneos. Sendo assim, a presença do Ministério Público se fará necessária para a proteção dos interesses coletivos, atuando na condição de parte ou em função da sua intervenção obrigatória. Defensoria Pública A Defensoria Pública poderá cumprir um importante papel no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. A nova incumbência dá prosseguimento a uma trajetória em que a Defensoria deixou de ter uma atuação apenas como representante judicial em caráter individual para assumir um papel institucional como legitimado extraordinário para a defesa de direitos e interesses coletivos. Representa, assim, um salto de qualidade nas suas funções, pois pode deixar de ter um desempenho atomizado, para desenvolver um trabalho mais amplo, molecularizado e mais eficiente, pois, com o dispêndio de menos recursos, pode pleitear e obter um alcance maior para as pretensões que lhe chegam no dia a dia. O pedido de instauração poderá ser feito não apenas quando for parte. Mas também quando verificar que já existem processos em profusão com uma questão jurídica comum, o risco de ofensa à isonomia e à segurança jurídica e a pertinência das demandas ou da questão comum com pessoas necessitadas, nos termos do art. 134 da Constituição da República. Ressalte-se que o funcionamento da Defensoria Pública deve estar em sintonia com as incumbências constitucionais, ou seja, com a orientação jurídica e defesa dos necessitados, sem que esta tenha um caráter de exclusividade. DESPESAS E HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS NO IRDR O § 5º do art. 976 estabeleceu expressamente que não serão exigidas custas processuais no Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. Não se regulamentou, entretanto, as demais despesas, dentre as quais os honorários advocatícios e a indenização de viagem (que pode ser necessária para o deslocamento do advogado para a sede do TRF ou do TJ, bem como para o Distrito Federal, se interposto recurso especial ou extraordinário e o causídico não tiver o seu escritório no Distrito Federal). A análise dos dispositivos relacionados aos honorários parece também indicar no sentido de que no IRDR não haveráelementos já conhecidos e consagrados no direito nacional, provenientes de institutos como os incidentes de uniformização de jurisprudência e de declaração de inconstitucionalidade nos tribunais, bem como os recursos repetitivos. A simbiose propiciou a inventiva de um instituto processual com características próprias, que precisam ser devidamente investigadas, debatidas e testadas à luz dos debates teóricos e dos resultados práticos. Naturalmente, esta tese estará mais voltada para o primeiro aspecto, considerando ainda a incipiência da sua prática pelos tribunais. O incidente de resolução de demandas repetitivas vem despertando, desde os tenros momentos da sua concepção, acalorados debates em torno de variados aspectos, sobre os quais este trabalho tentará se desenvolver, de modo a oferecer subsídios para o estudo, o conhecimento, a interpretação e a aplicação do novel instituto. Na primeira parte, o autor buscará uma definição em torno da identificação e posicionamento do incidente de resolução de demandas repetitivas no cenário jurídico e das suas principais funções no contexto sociojurídico contemporâneo. Em seguida, fará uma breve incursão no direito estrangeiro, com ênfase no direito alemão. Desde logo, constata-se a necessidade de maiores esclarecimentos quanto ao Musterverfahren, surgido a partir de ousadas práticas judiciais realizadas no final do século passado, quando ainda inexistente qualquer previsão legal expressa, mas que foram chanceladas pela Corte Federal Constitucional alemã e depois incorporadas na legislação. Os dois sistemas existentes na Alemanha, do direito público e do direito privado, serão analisados em separado. A genealogia do incidente no direito nacional será resgatada e analisada na sequência, bem como tecidas considerações correlatas em torno do arcabouço da jurisprudência e dos precedentes, tendo em vista o aspecto vinculativo das teses firmadas no procedimento padrão. Esta parte será canalizada para o capítulo seguinte, sobre a natureza jurídica do incidente de resolução de demandas repetitivas. A análise dos aspectos fundamentais supramencionados será complementada com a abordagem dos seus pressupostos processuais, do cabimento do incidente e dos seus requisitos, levando-se em conta a legitimidade para a provocação do instituto e a competência para a sua admissibilidade e julgamento. As normas e questões pertinentes ao procedimento e ao sistema do IRDR serão sopesadas depois em capítulos destinados à necessária e diferenciada publicidade, à suspensão dos processos e às respectivas garantias a serem observadas, à fase preparatória e ao julgamento do incidente. Por fim, serão enfrentados os assuntos pertinentes aos recursos, à aplicação da tese jurídica aos casos concretos e da possibilidade de soluções consensuais no bojo do incidente de resolução de demandas repetitivas. As indagações em torno da denominação, da constitucionalidade, das funções, da natureza, da eficiência, dos requisitos de admissibilidade, da competência, da legitimidade, dos mecanismos relacionados ao funcionamento do instituto, do julgamento, da tese firmada, da sua aplicação vinculativa, do cabimento direto dos recursos especial e extraordinário contra a decisão de mérito proferida e da possibilidade de soluções consensuais no curso do incidente de resolução de demandas repetitivas serão ponderadas dentro da hipótese de investigação se o instituto processual analisado pode ser considerado um efetivo meio para propiciar ou colaborar para a consecução da economia processual, da duração razoável dos processos, da isonomia e da segurança jurídica. O Direito Processual não representa a panaceia para todos os problemas da humanidade. Por certo, não pode e não deve se encantar com devaneios, ainda que teóricos, ou falsas promessas. Contudo, tem a missão de perseguir, estudar e construir os meios mais adequados para a preservação dos direitos. A tese aqui esposada e que se tentará demonstrar é a de que o incidente de resolução de demandas repetitivas encontra-se em sintonia com as normas e os propósitos constitucionais relacionados à prestação jurisdicional. Para tanto, o instituto deve ser concebido, interpretado e aplicado em sintonia com estes valores, como se tentará sistematizar e apontar a seguir. O atual Código de Processo Civil (CPC)1 brasileiro, Lei nº 13.105, de 16.03.2015, representa, por certo, um marco para o estudo do Direito Processual não apenas no âmbito nacional, mas também no cenário internacional, em razão, principalmente, das inovações contidas na sua nova redação. Dentre estas, uma das suas grandes apostas, se não a maior, é o novel Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR), inserido no Capítulo VIII, com a denominação e conteúdo destinado exclusivamente ao instituto, do Título I (Da Ordem dos Processos e dos Processos de Competência Originária dos Tribunais), no Livro III (Dos Processos nos Tribunais e dos Meios de Impugnação das Decisões Judiciais), da Parte Especial. A gênese do instituto ocorreu no seio da Comissão do Senado, quando a Comissão, presidida por Luiz Fux, estabeleceu, como metodologia inicial, que cada um dos seus membros apresentasse um rol de sugestões a serem incorporadas no estatuto que se pretendia elaborar. Na sequência, Paulo Cezar Pinheiro Carneiro encaminhou a ideia da criação do instituto inicialmente denominado de Incidente de Coletivização. A proposta levava em consideração o desejo de fortalecimento dos precedentes, mas pretendia também ter um caráter preventivo a partir da própria potencialidade aferida na primeira instância, diferenciando-se, assim, do então vigente incidente de uniformização da jurisprudência. Por sua vez, não se desejava concorrer com os trabalhos que estavam sendo empreendidos pela Comissão de Juristas, nomeada pelo Ministro da Justiça, para a elaboração de um anteprojeto de nova Lei da Ação Civil Pública, que resultou no Projeto de Lei nº 5.139/2009. Em janeiro de 2010, em documento2 subscrito por seu presidente, Luiz Fux, a Comissão de Juristas torna público as linhas mestras do que seria o novo Estatuto Processual, exteriorizando, logo no seu limiar, que se construiu “a proposta de instituição de um incidente de coletivização dos denominados litígios de massa, o qual evitará a multiplicação das demandas, na medida em que o seu reconhecimento numa causa representativa de milhares de outras idênticas, imporá a suspensão de todas, habilitando o magistrado na ação primeira, dotada de amplíssima defesa, com todos os recursos previstos nas leis processuais, proferir uma decisão com largo espectro, definindo o direito controvertido de tantos quantos se encontram na mesma situação jurídica, trazendo uma solução de mérito consagradora do princípio da isonomia constitucional”. No próprio documento, se indicava que se tratava de denominação provisória, tendo contribuído, por certo, para a sua modificação, as dificuldades com que se deparou, naquele momento, o referido Projeto de nova Lei da Ação Civil Pública. O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas encontra-se regulado em doze artigos (976 a 987), no novo CPC. Embora tenha sido objeto de discussões ao longo da tramitação legislativa, é um instrumento novo no ordenamento brasileiro e que também não seguiu um padrão completamente coincidente com os meios similares existentes no direito estrangeiro, notadamente a sua principal fonte externa, ou seja, o Musterverfahren (Procedimento Modelo) alemão. A realidade do século XXI vemapontando para a conjugação de elementos que confluem para o incremento progressivo de conflitos em massa e da procura de mecanismos de solução dos litígios em escala. O aumento da população, especialmente sentido em países continentais, como o Brasil, é um dos fatores. Por outro lado, a melhoria gradativa das condições de vida, do acesso às informações e à educação impulsiona o esclarecimento, propiciando o que Norberto Bobbio denominou de “era dos direitos”, com efeitos multiplicadores nos Estados Democráticos de Direito. O desaguadouro natural das esperanças, desilusões e pretensões passa a ser o Poder Judiciário, que, por sua vez, também sofre com as limitações de recursos materiais e humanos para fazer diante do desabrochar desta procura incessante e crescente. Busca-se, assim, a racionalização e eficiência dos meios processuais, que precisam se reinventar para fazer frente às novas demandas. Neste cenário, é que se inserem os mecanismos que possam tentar realizar a árdua tarefa de julgar os litígios envolvendo direitos individuais homogêneos de centenas, milhares ou milhões de pessoas, mediante uma ou poucas ações coletivas ou outros meios de resolução coletiva de demandas repetitivas, de massa ou plúrimas. E também os instrumentos voltados para a solução de questões comuns enfrentadas pelos órgãos judiciários, ainda que em demandas heterogêneas, com o escopo de se garantir, ao mesmo tempo, a economia processual e o princípio da isonomia3. O fenômeno acima vem ocorrendo não apenas na realidade nacional, mas ainda que com graus diferenciados, considerando fatores variados, como a dimensão do país, o quantitativo populacional e a sua maior ou menor concentração, aspectos culturais, econômicos e políticos, praticamente, em todo o cenário mundial e de modo crescente. Neste contexto, a primeira afirmação que se procura desenvolver neste trabalho é no sentido de que o novo Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas está inserido no âmbito do Direito Processual Coletivo. Este ramo, por sua vez, pode ser subdividido em três subáreas: a) as ações coletivas ou representativas propriamente ditas, incluindo as suas várias subespécies, como as class actions, as ações associativas (Verbandsklagen), ação civil pública, ação popular, ações de grupo etc.; b) os meios consensuais de resolução de conflitos coletivos, como os termos de ajustamento de conduta; c) os instrumentos de solução de questões comuns ou de julgamentos a partir de procedimentos ou casos-modelo, como as test-claims (ações ou demandas teste), o Musterverfahren (procedimento-modelo), o Group Litigation Order (GLO) (Decisão sobre o litígio de grupo), os recursos repetitivos e o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas (IRDR)4-5. Embora o IRDR esteja previsto no Código de Processo Civil, a sua aplicação não se encontra limitada ao âmbito do Processo Civil, tendo em vista que, em princípio, não se mostra incompatível com outros ramos específicos, como o Processo Penal, do Trabalho ou Eleitoral. O art. 15 do novo Código de Processo Civil estabelece que as suas disposições se aplicam, supletiva e subsidiariamente, na ausência de normas que regulem os processos eleitorais, trabalhistas ou administrativos. Por sua vez, o art. 4º da Lei de Introdução às normas do Direito Brasileiro já aponta, de longa data, que, quando a lei for omissa, o juiz decidirá com base na analogia, costumes e nos princípios gerais do direito. No âmbito do Direito Processual, há normas gerais previstas na Constituição da República, em tratados e em leis ordinárias, ao lado de regras específicas aplicáveis apenas ao processo civil, trabalhista, penal ou eleitoral. Em outra obra6, o autor pode assinalar que o “direito processual civil é o que possui uma maior abrangência, porque não cuida propriamente apenas da matéria civil, mas, sim, por exclusão, o que não se encontra abrangido pelo processo penal ou do trabalho. Por conseguinte, as normas processuais civis, na verdade, estarão sendo aplicadas nos processos envolvendo, por exemplo, matéria constitucional, civil, administrativa, tributária, ambiental e empresarial”. Exatamente em razão desta maior amplitude, é que as suas normas acabam regulando mais institutos gerais, a ponto de ser denominado de direito processual comum pela Consolidação das Leis do Trabalho, e, portanto, servindo como fonte, supletiva e subsidiária, para os demais ramos processuais. O art. 15 alcança os processos judiciais e administrativos. É de se registrar a ausência de referência expressa em relação ao processo penal. Contudo, a omissão não deve ser interpretada como exclusiva. Isso porque, diante da omissão de norma específica, aplicar-se-á, à luz do art. 4º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro e do próprio art. 3º do Código de Processo Penal, a analogia e os princípios gerais do direito. O novel art. 15 reforça o que já se encontrava disposto no art. 769 da Consolidação das Leis do Trabalho, em relação aos processos trabalhistas. E supre omissão existente no Código Eleitoral, que fazia remissão, no art. 364, tão somente ao Código de Processo Penal, para os processos e julgamentos dos crimes eleitorais. O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas integra o objeto de estudo mais específico do Direito Processual Coletivo7, considerando que este congrega (a) as ações coletivas; (b) as soluções consensuais para conflitos coletivos; e (c) outros meios de resolução coletiva de questões comuns e litígios coletivos. O Direito Processual Coletivo pode ser concebido como o ramo do Direito que se ocupa do conjunto de princípios, normas e institutos jurídicos vinculados aos meios de resolução de questões comuns e conflitos coletivos, no âmbito jurisdicional ou extrajudicial. O Direito Processual Coletivo possui ampla ligação com outros ramos do Direito. Em primeiro lugar, com a Teoria Geral do Processo e os respectivos ramos do Direito Processual Civil, do Direito Processual do Trabalho e mesmo do Direito Processual Penal. Está relacionado também intrinsecamente com o Direito Constitucional, considerando que a Carta Magna prevê inúmeros princípios e garantias constitucionais relacionados com o Direito Processual e, em especial, no que diz respeito aos conflitos e incidentes de natureza ou efeitos coletivos. Nesse sentido, a inafastabilidade da prestação jurisdicional no âmbito coletivo, como inscrito atualmente em diversas Constituições, como a brasileira, a portuguesa e a argentina, e também como um dever do Estado, conforme decidido pela Suprema Corte Canadense no caso Western Canadian Shopping Centres Inc. V. Dutton8. Do mesmo modo, os princípios do devido processo legal, do contraditório e da ampla defesa, da publicidade e da celeridade possuem importância e aplicação especial na esfera do Direito Processual Coletivo, tendo em vista a irradiação dos pronunciamentos proferidos e a possibilidade de serem 1 2 atingidas as denominadas “partes ausentes” ou interessados. Naturalmente, os instrumentos do Direito Processual Coletivo possuem uma aplicabilidade maior no âmbito do Direito Processual Civil9, mas também são muito importantes na esfera do Direito Processual do Trabalho e podem ser aplicados eventualmente na seara do Direito Processual Penal e Eleitoral. A elaboração do novo Estatuto Processual Civil iniciou-se formalmente, no Senado Federal, com a nomeação, pelo Ato nº 379, de 30.09.2009, de Comissão de Juristas, presidida pelo Professor e Ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, tendo comoRelatora a Professora Teresa Arruda Alvim, composta pelos professores Adroaldo Furtado Fabrício, Benedito Cerezzo Pereira Filho, Bruno Dantas, Elpídio Donizetti Nunes, Humberto Theodoro Júnior, Jansen Fialho de Almeida, José Miguel Garcia Medina, José Roberto dos Santos Bedaque, Marcus Vinicius Furtado Coelho e Paulo Cesar Pinheiro Carneiro. Em 08.06.2010, a Comissão encaminha o Anteprojeto ao Senador José Sarney, que, na mesma data, o apresenta como Projeto de Lei do Senado nº 166. No dia 15.12.2010, é aprovado, no Senado, Substitutivo apresentado, sendo remetido à Câmara dos Deputados. Na Câmara dos Deputados, é recebido, em 22.12.2010, Projeto de Lei nº 8.046/2010. Depois de longo período em que houve amplo debate nacional, é chancelado na Câmara novo Substitutivo, no dia 26.03.2014. Em razão das modificações realizadas na Câmara, retorna ao Senado, onde é aprovado, no dia 17.12.2014, novo Substitutivo oferecido no Senado, com modificações. Em seguida, é realizada revisão final de redação e encaminhado à sanção presidencial, ocorrida no dia 16.03.2015, com a publicação da Lei nº 13.105 no dia 17.03.2015 e entrada em vigor no dia 18.03.2016. Em relação ao IRDR, é de se notar as variações em torno das concepções e do texto em cada uma das fases do processo legislativo, o que será oportunamente destacado, em diversos momentos do presente trabalho, especialmente quando se mostrar relevante para a interpretação e aplicação do instituto em muitos aspectos. A íntegra do documento pode ser encontrada em: . Acessado em https://www.senado.gov.br/se-nado/novocpc/pdf/1a_e_2a_Reuniao_PARA_grafica.pdf 3 4 5 03.11.2016. Nesse sentido, a lição de Cândido Rangel Dinamarco e Bruno Vasconcelos Carrilho Lopes: “A implantação dessa técnica insere-se no contexto de um movimento voltado a superar os inconvenientes dos microprocessos que se multiplicam às dezenas, centenas ou quiçá milhares, todos portadores da mesma questão jurídica a ser decidida tantas vezes quantos forem esses microprocessos. Quando tantos casos tramitam isoladamente pelo Poder Judiciário, sua dispersão e a repetição do julgamento da mesma quaestio juris constituem fatores perversos de contrariedade à promessa constitucional de tutela jurisdicional em tempo razoável (Const., art. 5º, inc. LXXVIII), além de atentarem contra o desiderato de harmonia entre julgados”, em Teoria Geral do novo Processo Civil: de acordo com a Lei 13.256, de 4.2.2016, São Paulo: Malheiros, 2016, p. 216, no item 154. O recurso especial e o recurso extraordinário repetitivos e o incidente de resolução de demandas repetitivas. A correlação é feita por Luiz Fux: “Esse quantitativo de demandas estava intimamente vinculado ao denominado “contencioso de massas”, no qual milhares de ações em trâmite no território nacional versavam a mesma questão jurídica, revelando ações homogêneas que não deviam ser reguladas processualmente como aquelas que compõem a litigiosidade de varejo. Erigiu-se, então, o denominado incidente de resolução de demandas repetitivas instaurado em cada unidade da federação, perante o primeiro grau de jurisdição para o tribunal, possibilitando ao juiz, às partes, à Defensoria Pública ou ao Ministério Público provocarem uma manifestação dos tribunais locais sobre as ações com identidade de questões jurídicas”, em Teoria Geral do Processo, 2. ed., Rio de Janeiro: Forense, 2016, p. 37. Humberto Theodoro Júnior, na mesma direção, aponta que: “A sociedade contemporânea sofreu profunda modificação no que toca aos conflitos jurídicos e aos meios de sua resolução em juízo. As crises de direito deixaram de se instalar apenas sobre as relações entre um e outro indivíduo e se expandiram para compreender outras numerosas relações plurilaterais, ensejadoras de conflitos que envolvam toda a coletividade ou um grande número de seus membros. Surgiram, assim, os conflitos coletivos, a par dos sempre existentes conflitos individuais. É que o relacionamento social passou, cada vez mais, a girar em torno de interesses massificados, interesses homogêneos, cuja tutela não pode correr o risco de ser dispensada pela Justiça de maneira individual e distinta, isto é, com a 6 7 possibilidade de soluções não idênticas, caso a caso. Esse risco põe em xeque a garantia basilar da democracia, qual seja, a de que, perante a lei, todos são necessariamente iguais. Se assim é, no plano dos direitos materiais, também assim haverá de ser no plano do acesso à justiça e da tutela jurisdicional proporcionada a cada um e a todos que demandam. A igualdade em direitos seria quimérica, se na solução das crises fossem desiguais as sentenças e os provimentos judiciais. Os tribunais modernos, portanto, têm de se aparelhar de instrumentos processuais capazes de enfrentar e solucionar, com adequação e efetividade, os novos litígios coletivos, ou de massa. Dessa constatação da realidade, nasceram diversos tipos de tutela judicial coletiva, ora como modalidade de ações coletivas (em que num só processo se define solução uniforme e geral para um grupo de titulares de direitos individuais, semelhantes), ora como incidente aglutinador de ações originariamente singulares (por meio do qual uma só decisão se estende às diversas causas individuais de objeto igual). Exemplo típico de ação coletiva é a ação civil pública manejada por um só autor, mas em defesa de um grupo de titulares de direitos subjetivos iguais, qualificados como direitos individuais homogêneos. Exemplo típico de incidente de potencial efeito expansivo a mais de uma causa é o de uniformização de jurisprudência do CPC/1973, assim como o do sistema instituído pelo CPC/2015 de julgamento de recursos repetitivos, no âmbito do STF e do STJ, e o de assunção de competência. O Novo Código de Processo Civil deu um grande passo no terreno da coletivização da prestação jurisdicional instituindo um novo incidente processual, a que atribuiu o nome de incidente de resolução de demandas repetitivas (arts. 976 a 987), e cuja aplicação é ampla, já que pode acontecer perante qualquer tribunal, seja da Justiça dos Estados, seja da Justiça Federal”, no Curso de Direito Processual Civil – v. III, 49. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016, p. 906. MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Teoria Geral do Processo. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2009, p. 5. O autor procurou desenvolver mais a ideia de perspectiva multiportas para a resolução coletiva de conflitos e de questões comuns no trabalho O direito processual coletivo e o novo código de processo civil: Estudos em homenagem ao Professor e Jurista Luiz Fux, in: ALVIM, Teresa Arruda; BEDAQUE, José Roberto dos Santos; CARNEIRO, Paulo Cezar Pinheiro; MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro; O novo processo civil brasileiro: 8 9 temas relevantes – Estudos em homenagem ao Professor, Jurista e Ministro Luiz Fux. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2017 (no prelo). MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro. Ações coletivas e meios de resolução coletiva de conflitos no direito comparado e nacional. 4. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 149 e 399-416. É de se registrar que o campo do Direito Processual Civil pode ser mais ou menos amplo, de acordo com o ordenamento nacional, pois podem existir subdivisões internas variadas no Direito Processual. Por exemplo, na Alemanha, há o Direito Processual Administrativo, que é aplicado aos litígios judiciais relacionados às causas envolvendo a Administração Pública. Capítulo 2 AS FUNÇÕESDO INCIDENTE DE RESOLUÇÃO DE DEMANDAS REPETITIVAS NO CONTEXTO SOCIOJURÍDICO DO MUNDO CONTEMPORÂNEO O Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas não pode ser visto como uma solução mágica1 e única para os problemas que afligem o tratamento dos litígios no Brasil. É preciso compreendê-lo, em primeiro lugar, dentro de um conjunto de instrumentos no seio do Direito Processual Coletivo, ao lado das ações coletivas e dos meios adequados e consensuais de resolução coletiva das lides. E que dialoga com soluções dentro de todo o Direito Processual, bem como com modificações estruturais, de gestão e culturais. Contudo, é, sem dúvida, um dos principais instrumentos para a consecução das funções almejadas pelo novo Código de Processo Civil2. Naturalmente, por razões metodológicas, este texto não pretende avançar sobre as questões que extrapolam o objetivo do trabalho. Mas, como se poderá perceber com facilidade, os três aspectos acima mencionados (estrutura, gestão e cultura) possuem importância capital para o próprio sucesso do novo instrumento. Como se verá adiante, o IRDR está voltado, precipuamente, para a racionalização dos julgamentos, a partir da solução de questões jurídicas comuns que se repetem em inúmeros processos e que são apreciadas exaustivamente por inúmeros magistrados, que acabam chegando, muitas vezes, a conclusões diversas. A demanda em relação à prestação jurisdicional é extraordinária e 2.1. supera a capacidade de oferta de uma prestação jurisdicional qualitativa e tempestivamente satisfatória. A falta de uniformidade nos julgamentos propicia, por outro lado, a sensação de incerteza e de insegurança. Para que o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas funcione e produza os resultados esperados, há que encontrar tribunais e magistrados preparados para a nova sistemática. Os juízes terão que se desprender de uma cultura que acabou se consolidando de automatização na função de julgar as questões e causas seriais. O mecanicismo diante das demandas repetitivas terá que ceder à lógica da gestão, na qual o julgamento reiterado e desenfreado terá que dar lugar à lógica da racionalização, em que, como se diz atualmente, o “menos pode ser mais”. O juiz ou o tribunal não irá julgar logo várias demandas, mas o próprio órgão julgador, as partes, o Ministério Público ou a Defensoria Pública poderá suscitar o incidente, sempre que se deparar com uma questão jurídica comum relevante para inúmeros processos em tramitação. Portanto, se buscará a discussão concentrada sobre a questão jurídica comum, de modo a se obter a uniformização. O resultado estatístico inicial e aparente pode ser até inverso, pois a tendência imediata será o aumento dos acervos, em razão da suspensão dos processos. Porém, em uma perspectiva mais prolongada e duradoura, a economia e a racionalização poderão apresentar resultados profícuos, em termos de qualidade e quantidade3. Em seguida, serão analisados, de modo mais detalhado, o contexto sociojurídico relacionado à solução dos litígios e o papel dos meios de resolução de questões coletivas4 e comuns, especialmente o Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas. ACESSO À JUSTIÇA E A ECONOMIA JUDICIAL E PROCESSUAL O Poder Judiciário possui a função precípua de resolver as lides existentes na sociedade. Essa tarefa, por vezes, não é das mais fáceis, tendo em vista não apenas a complexidade das causas, mas, principalmente, nos dias de hoje, a quantidade de processos5 e a limitação dos recursos humanos e materiais disponíveis6 para a pretendida tarefa judicante. O resultado é a piora da prestação jurisdicional, tanto sob o aspecto do tempo como da qualidade. A simples enumeração de alguns dados é suficiente para atestar o problema no Brasil. O Supremo Tribunal Federal7 recebeu, no ano de 1940, 2.419 processos; em 1970, 6.367 processos; em 1980, foram 9.555; dez anos depois, 18.564; no ano de 2000 o número atingiu o montante de 105.307 processos protocolados; e em 2006 foram 127.535. Com a adoção da exigência da repercussão geral e da sistemática dos recursos repetitivos8, nos termos dos arts. 543-A e 543-B, introduzidos no CPC-1973, pela Lei nº 11.418, de 19.12.2006, houve considerável redução nos números, embora a curva decrescente tenha cessado em 2011, retomando-se a escalada de aumento novamente em 2012. Portanto, em 2007, o número caiu para 119.324. E, em 2011, chegou ao patamar mínimo de 64.018 protocolados. Mas, em 2012, subiu para 72.148 e, em 2015, atingiu o montante de 93.503 processos protocolados, dos quais 65.108 foram distribuídos. No ano de 2015, as estatísticas do Supremo Tribunal Federal indicam que foram proferidas 93.713 decisões monocráticas e 10.869 julgamentos colegiados. Tomando-se por base apenas os pronunciamentos colegiados, foram mais de mil julgamentos colegiados por mês, representando cerca de 250 por semana. Se considerados todos os pronunciamentos proferidos pela Corte Suprema, houve a média anual de 9.500 processos por Ministro, cerca de 1.000 processos por mês, 250 por semana e 50 por dia. Cabe lembrar que o STF, na essência, é a Corte Constitucional brasileira composta de apenas 11 Ministros. Órgãos semelhantes, no cenário internacional, apresentam realidade completamente diversa. A Suprema Corte americana recebeu, em 1945, 1.460 casos, em 1960 foram 2.313 e nos últimos anos, aproximadamente, 9.200 petições por ano, das quais cerca de apenas 100 são julgadas em plenário com sustentação oral. Em Portugal, entraram no Tribunal Constitucional 571 processos em 1994, 778 no ano 2000 e 1.133 em 2006. No Superior Tribunal de Justiça brasileiro9, nos anos de 1989 e 1990, foram distribuídos, respectivamente, 6.103 e 14.087 processos. Em 2000, o número subiu para 150.738 e, em 2007, para 313.364. No ano de 2008, os recursos especiais repetitivos foram introduzidos no ordenamento nacional, com o art. 543-C, inserido no CPC-1973, pela Lei nº 11.672, de 08.05.2008, regulamentado pela Resolução nº 8, de 07.08.2008. No ano de 2010, o número de processos distribuídos caiu para 228.981. Entretanto, voltaram a subir já no ano seguinte, 2011, para 290.901, e em 2015 alcançaram o montante de 332.905 processos distribuídos, o maior patamar de todos os tempos no STJ. Tomando por base estes últimos números e o fato de que três Ministros ficam praticamente afastados da atuação nas Turmas e Seções, cada Ministro recebeu uma média anual de 11.000 processos, ou seja, 1.109 processos novos por mês, 277 por semana, 55 por dia. No Tribunal Superior do Trabalho10, por sua vez, o crescimento foi, do mesmo modo, vertiginoso. Entre os anos de 1941 e 1945, foram recebidos 3.192 processos, ou seja, uma média de 638 processos por ano. O número praticamente triplica no quinquênio seguinte, passando a 12.935 entre 1946 e 1950, seguindo uma trajetória de aumento constante, que somente foi interrompido do lustro de 1961-1965 para o de 1966-1970, com os quantitativos de 45.551 e 40.554, fruto do período de fechamento político. Nos períodos posteriores à Constituição de 1988, os números foram crescendo em progressão geométrica: 92.063 (entre 1986 e 1990), 240.481 (1991-1995), 571.352 (1996-2000), 602.540 (2001- 2005), 904.201 (2006-2010) e 1.350.831 (2011-2015). A quantidade de processos recebidos em 2011-2015 foi, portanto, em setenta anos, 423 vezes maior do que o que ingressou em 1941-1945. Considerando a composição atual de 27 Ministros, com 24 compondo as Turmas, cada Ministro, com exercício da jurisdição plena, julgou