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1 RELIGIÃO E RELIGIOSIDADE AFRICANA Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 2 SUMÁRIO UNIDADE 1: INTRODUÇÃO ....................................................................................... 2 UNIDADE 2: A ÁFRICA E SUAS RELIGIÕES ........................................................... 4 UNIDADE 3: O PRINCÍPIO DA VIDA ......................................................................... 8 UNIDADE 4: AS RELIGIÕES ANCESTRAIS E OS CULTOS DOMÉSTICOS ........... 9 UNIDADE 5: ÁFRICA E O CRISTIANISMO COPTA ................................................ 13 UNIDADE 6: A ÁFRICA E O ISLAMISMO ............................................................... 15 UNIDADE 7: O PANTEÃO YORUBÁ ....................................................................... 19 UNIDADE 8: A RELIGIOSIDADE NA DIÁSPORA ATLÂNTICA ............................. 23 UNIDADE 9: AS IRMANDADES CATÓLICAS NO BRASIL .................................... 25 UNIDADE 10: O VODU DO HAITI ............................................................................ 28 UNIDADE 11: O CANDOMBLÉ E A UMBANDA NO BRASIL ................................. 31 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 43 Revisão ortográfica: Naiana Leme Camoleze Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 3 UNIDADE 1: INTRODUÇÃO A cultura brasileira construiu-se a partir de um longo e doloroso processo. Oriunda da migração, da diáspora e da escravidão, e do drama do genocídio (no caso dos ameríndios), nasceu ela, pluricultural desde o início, contudo, as relações de poder legaram espaços diferentes para a manifestação dos elementos da expressão cultural dos grupos distintos. Se os portugueses puderam ter sua cultura exteriorizada na língua que herdamos e na estrutura da religião que no período colonial se tornava oficial, aos africanos e ameríndios, restariam outros locais para que pudessem expressar suas respectivas crenças. No caso dos africanos escravizados, o campo da religiosidade foi um ambiente no qual as diversas culturas africanas puderam reconstruir seus valores e reencontrar sua dignidade. Observaremos aqui a trajetória das religiões em África e alguns dos caminhos das expressões da religiosidade africana aqui no Brasil, não apenas com o intuito de conhecermos mais sobre a nossa própria gente, mas, principalmente, com o objetivo de nos equipar contra o desconhecimento e o preconceito. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 4 UNIDADE 2: A ÁFRICA E SUAS RELIGIÕES Ivete Batista da Silva Almeida 1 . É fato que, erroneamente, comete-se, ainda hoje, dois grandes enganos quando o assunto se refere às religiões de origem africana: o primeiro engano é imaginar o candomblé como sinônimo da religião de todos os africanos, o que sabemos, não corresponde à verdade, nem hoje, nem no passado, uma vez que, desde o período da diáspora atlântica movida pelo escravismo colonial, eram várias as religiões dos diferentes africanos que por aqui chegaram. O segundo erro é associar algumas das formas de expressão do sentimento religioso, originárias de culturas africanas, a demonstrações de algo malévolo ou demoníaco. A presença dos visitadores do Santo Ofício da Inquisição em terras brasileiras e, suas normas, durante o período colonial, tiveram sobre nossa cultura grande influência e, em parte, um pouco dessa visão demonizante, das religiões africanas, se deve a isso. Parte dessa imagem negativa pode também ser atribuída ao total desconhecimento que temos sobre as culturas africanas. As imagens criadas pelo cinema, de uma África mágica, cheia de feiticeiros e feiticeiras, também contribuíram muito para nossa visão deturpada. Não podemos negar que, mesmo hoje, causa-nos mais estranhamento a narrativa sobre cerimônias realizadas por tribos africanas, nas quais animais eram sacrificados, do que as descrições da leitura dos auspícios nas entranhas dos bois, como faziam os gregos e romanos. Muito desse nosso espanto está ligado ao passado colonial, de negação da cultura africana e também às imagens do universo de fantasias da literatura e do cinema que, até pouco tempo, eram consideradas a única fonte de informações sobre a África que o grande público possuía. As religiões africanas, tal qual ocorreria posteriormente na própria Europa, constituíram-se, no passado, por manifestações que deificavam a natureza, personificando-a no formato de deuses, que na trama de seus destinos vivenciavam 1 Ivete Batista da Silva Almeida é professora da Universidade de Taubaté, em São Paulo, ocupando a cadeira de História da África e da Ásia. É autora de São Paulo durante a Revolução de 1932, participou como colaboradora na elaboração de materiais didáticos e paradidáticos na área de História. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 5 experiências que corresponderiam às origens dos fenômenos do mundo em que vivemos. Assim seria com a religião e a mitologia grega e, assim fora, anteriormente, com a religião e a mitologia egípcia. Os deuses do panteão egípcio são tão antigos quanto os próprios povos das margens do rio Nilo; formado por deuses antropozoomórficos – deuses com forma de homem e de animal – o panteão egípcio associava-se às forças da natureza e às virtudes humanas. A religião no Egito era organizada a partir dos templos, verdadeiros centros administrativos, nos quais os sacerdotes exerciam função de comando, não apenas da vida religiosa da comunidade, como também da vida econômica. Durante a maior parte da Antiguidade egípcia, ficou a cargo do templo administrar recursos, estocar alimento para a entressafra, redistribuí-los, arregimentar homens para as grandes construções e mesmo para a guerra. Declarar guerra, conduzir os homens na batalha e realizar as negociações com os Estados vizinhos, ficava a cargo do faraó (faraó significa “palácio”), que tinha o seu poder garantido enquanto fosse reconhecido como um deus vivo. Dentro das crenças egípcias, o imperador era compreendido como alguém que, em função de sua origem nobre, teria o poder de trazer à tona sua identidade divina, para assumir o trono, os sacerdotes auxiliavam-no em seu mergulho místico, a partir do qual passaria ele, o imperador, a ser o receptáculo de um espírito divino; um deus passaria a falar por ele, dizendo o que era certo ou errado fazer para alcançar a prosperidade, a segurança, a justiça e a vitória. Por um certo tempo, a historiografia questionou se esse sistema, no qual o imperador, ou seja, o faraó,seriam os instrumentos que melhor representariam a musicalidade africana. Segundo o teólogo Gabriel Gonzaga Bina, os tambores africanos formariam um universo próprio de instrumentos; seria uma infinidade, todos com diferentes “vozes”, representando justamente a pluralidade das vozes de um grupo, de uma aldeia, de um diálogo. Para Gonzaga Bina, é inconcebível para o negro deixá-los (os tambores) fora do culto (religioso) pelo fato de os tambores serem instrumentos natural e cultural do africano e, consequentemente, do afrodescendente brasileiro. “por ser usado nos candomblés e pelos povos negros (em seus cultos tradicionais, na África), o atabaque foi um instrumento discriminado pela hierarquia da igreja católica do Brasil formada quase que exclusivamente de brancos. Foi acusado de instrumento ‘de negro’, de macumba, do demônio, de instrumento barulhento e que tira a concentração. Este preconceito foi passado para o povo cristão, inclusive o povo negro, durante o processo de “evangelização”, domesticação e ideologia do embranquecimento, dificultando hoje o seu uso oculto. A lavagem cerebral foi tão profunda que o próprio povo negro ...já não reconhece de imediato o que sempre foi seu.” (BINA, p.19) Da mesma maneira que a música sacra norte-americana produzida por afrodescendentes mantém a característica da coletividade, do canto em coro, da dança e da alegria – elementos presentes no canto religioso africano – no Brasil, os tambores e atabaques, presentes em nossa música popular, estão lentamente sendo aceitos também como instrumentos de nossa música sacra, resgatando e permitindo a livre expressão do sentimento e da religiosidade de toda uma cultura. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 35 Mapa da África Ocidental, região do Rio Níger. Fonte: A history of african people. July, Robert. NY: The city University of New York, 1974. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 36 Mapa da Região do Rio Nilo. Fonte: A history of african people. July, Robert. NY: The city University of New York, 1974. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 37 Deuses do panteão egípcio: Fonte: QUESNEL, A. O Egito. Mitos e Lendas. pág.20. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 38 Deuses do panteão egípcio: Fonte: QUESNEL, Alain. O Egito. Mitos e Lendas. São Paulo: Editor Ática, 1997, pág.19 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 39 Deuses do panteão egípcio: Fonte: Fonte: QUESNEL, Alain. O Egito. Mitos e Lendas. São Paulo: Editor Ática, 1997, pág.18 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 40 Os cristãos do antigo Axum, atual Etiópia Acima, imagem da Igreja de São Jorge em Lalibela, Etiópia. Abaixo, imagem do Mural da Igreja: São Jorge matando o dragão. Fonte: Grandes Impérios e Civilizações, África vol., p.41. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 41 Deuses do panteão Yorubá: Ogum Oxossi Oxumaré Xangô Iansã Oxum Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 42 Iemanjá Oxalá Fonte: Imagens de Os Orixás. Arquivo de PLANETA, n° 4. Grupo de comunicação Três Ltda. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 43 REFERÊNCIAS BINA, Gabriel Gonzaga. O atabaque na igreja. Mogi das Cruzes: Editora e Gráfica Brasil, 2002. CAPONE, Stefania. A busca da África no Candomblé. Rio de Janeiro: Livraria contra Capa/ Pallas, 2004. GIORDANI, Mário Curtis. História da África. Petrópolis: Editora Vozes, 1985. Grandes impérios e civilizações. Madrid: Ediciones Del Prado, 1984, vol I e vol II. Haiti Oficializa o Vodu. BBC Brasil/ BBC World Service. 01 de maio de 2003. Publicado às 11h34. Disponível em http://KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra. Lisboaa: Publicações Europa-América, 1972. KI-ZERBO, Joseph. História Geral da África. Vol. I. São Paulo: Ática/UNESCO, 1988. KOGURUMA, Paulo. Conflitos do Imaginário. São Paulo; Annablume, 2001. MINTZ, Sidney e PRICE, Richard. O nascimento da cultura afroamericana. São Paulo: Pallas, 2004. MOKHTAR, Gamal. História Geral da África. Vol. II. São Paulo: Ática/UNESCO, 1988. QUESNEL, Alain. O Egito. Mitos e Lendas. São Paulo: Editor Ática, 1997. SIQUEIRA, Sônia. Sincretismo da crença no Brasil do Século XVI. In Revista de História, n°176. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1976. VIOTTI DA COSTA, Emília.Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue. São Paulo: cia das Letras, 1998. BIBLIOGRAFIA BÁSICA: CAPONE, Stefania. A busca da África no Candomblé. Rio de Janeiro: Livraria contra Capa/ Pallas, 2004. KI-ZERBO, Joseph. História da África Negra. Lisboa: Publicações Europa-América, 1972. KOGURUMA, Paulo. Conflitos do Imaginário. São Paulo; Annablume, 2001. MINTZ, Sidney e PRICE, Richard. O nascimento da cultura afroamericana. São Paulo: Pallas, 2004. MOKHTAR, Gamal. História Geral da África. Vol. II. São Paulo: Ática/UNESCO, 1988.era tido como um deus vivo, não passaria de um mecanismo de dominação, que serviria somente para manter os privilégios das classes dominantes em detrimento dos despossuídos. Todavia, hoje, perspectivas como a da História Cultural e História das Mentalidades abrem a discussão para uma outra perspectiva, aventando a hipótese de que, embora os interesses dos grupos privilegiados estivessem em jogo, trata-se de um mecanismo de cultura e religião, no qual tanto nobres, quanto o povo comum acreditavam. Mesmo a situação do faraó deus-vivo não era assim confortável, uma vez que, se o imperador Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 6 fracassava em suas decisões, rumores sobre sua incapacidade de estabelecer o contato com a divindade começavam a circular e, por vezes, acabavam por serem mortos por seus próprios sacerdotes, que acreditavam ter chegado a hora de procurar no sucessor do imperador o poder de recontactar-se com o mundo dos espíritos. O cidadão comum participava das grandes cerimônias oferecidas pelo templo, ao deus da cidade (como Aton, deus de Akhetaton ou Sobek, deus de Ombo e Crocodilópolis ou ainda o velho deus Ptá, deus da antiga capital Mênfis). Concebido a partir dos cálculos dos sacerdotes, que observavam as estrelas, o calendário era organizado, anualmente, pontuado pelas datas festivas. Nessas festividades, os populares tinham a oportunidade de ver a estátua do deus da cidade, havia entre os egípcios, tal qual entre os gregos, a ideia de que, o deus de fato, habitava a estátua, justamente por isso, no dia a dia, ela era banhada, vestida e maquiada pelos sacerdotes e seus ajudantes e somente era vista pelo povo, em dias de festividade, quando seguiam em barcas, carregadas pelos sacerdotes, em forma de procissão. Os populares acompanhavam o trajeto da estátua do deus e aproveitavam para fazer seus pedidos; se o cortejo continuava seguindo em frente após o pedido, significava a aprovação do deus, mas se o cortejo parasse ou desse um passo para trás, significava a desaprovação. Outras também eram as formas de consultar a vontade dos deuses. Os egípcios, como todos os outros povos da antiguidade, utilizavam-se dos oráculos; templos nos quais sacerdotes ou sacerdotisas teriam o poder de falar em nome de um deus. “Os oráculos divinos desempenham importante papel na vida dos egípcios. O oráculo de Amon em Tebas, o de Ísis em Coptos e o de Bes em Abidos são particularmente célebre. Diante de um problema difícil, pode-se ainda tirar a sorte em tabletes de madeira ou pequenas lâminas de caniço, nas quais estão inscritas diferentes respostas à pergunta feita. Pode-se também passar a noite num templo e esperar pelos conselhos do deus. Os sonhos são igualmente carregados de sentido, e os escribas desenvolveram um método complexo para interpretá-los: o homem que, no sonho, está olhando para o fundo de um poço será aprisionado; quem encontra um anão vai Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 7 perder metade da vida ...Em compensação se no sonho a pessoa está olhando por uma janela, é sinal de que o deus vai atender a seu pedido.” (QUESNEL, 1987, p.25) Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 8 UNIDADE 3: O PRINCÍPIO DA VIDA O surgimento da vida e do mundo como conhecemos, na concepção egípcia, estaria estritamente relacionado com aquilo que de mais concreto lhes parecia ser a fonte de suas próprias vidas: o Rio Nilo. De acordo com o mito, no início não havia nada, apenas o Num, um grande oceano que recobria tudo (não havendo, portanto, terra firme). É do Num, oceano primitivo que emerge uma massa, que forma a primeira ilha e dela surge um ovo, e desse o deus Rá, o deus o Sol, que após nascer, traz à luz seus filhos: Geb, o deus terra; Chu, o ar; Nut , o céu. Geb e Nut teriam quatro filhos: Osíris, Ísis, Néftis e Set. Se os filhos de Rá representam as forças da natureza, os netos representariam as virtudes, defeitos e conhecimentos necessários aos homens. Osíris, senhor do mundo dos mortos, conhecedor dos segredos da vida eterna; Ísis, Grande mãe e esposa, traz consigo não só o segredo da vida (por ser mãe), mas por ter trazido de volta o marido do mundo dos mortos; e Set, “o deus vermelho”, “o assassino de Osíris”, que representava a fúria, a inveja, a traição e a violência. Dos deuses do antigo Egito, sem dúvida, o mais popular de todos foi a deusa Ísis, adorada não apenas na região nilótica, mas também em todo o mundo antigo; após a conquista do Egito, o culto a Ísis passaria a ser o mais popular entre as mulheres romanas, que adotariam não apenas a deusa como guardiã das mulheres, como também passariam a adotar adornos e tecidos em suas vestimentas que aludissem ao Oriente, ao Egito. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 9 UNIDADE 4: AS RELIGIÕES ANCESTRAIS E OS CULTOS DOMÉSTICOS No caso africano – no qual a diversidade cultural é bastante grande – embora estejam presentes hoje, inúmeros grupos religiosos, utilizamos o termo “religiões tradicionais” ao nos referirmos às crenças e práticas milenares, de grupos étnicos que não empregam um termo específico e nem encerram suas práticas em um codex específico. A religião, como princípio básico para a compreensão e interpretação do mundo, está presente em todas as culturas africanas, poderíamos mesmo dizer que, se há um princípio de africanidade que une a todas as culturas africanas, esse princípio seria a compreensão religiosa da vida, mesmo não existindo, na maioria dos idiomas africanos, uma palavra específica para “religião”. “(Em África) a religião adquire-se ao nascer como um direito de primogenitura (por exemplo); não há conversão no sentido que se dá a esse termo no Ocidente” .(Grandes Impérios e Civilizações, p.31) . Essa compreensão religiosa da vida já foi definida pelos pesquisadores europeus do século XIX como sendo uma visão animista, ou seja, a crença na existência de espíritos que habitariam a natureza e todo o mundo material. Já foi definida também como uma visão mágica, em função da presença das cerimônias e amuletos. Mas hoje, os antropólogos tendem a definir essa compreensão africana do mundo como "um conjunto de religiões que partem do princípio da existência de uma força vital”. Esse termo tenta englobar o princípio ordenador das crenças que veem tanto os seres da natureza como portadores de alma, quanto aquelas que creem na intervenção dos antepassados como protetores de seus descendentes aqui na terra. Nessa visão religiosa do mundo e da vida, as diferentes religiões se colocam lado a lado na crença de que não há morte, tudo na natureza renasce emesmo os homens, ao morrerem, não deixam o clã, passam a ter uma nova função numa vida imaterial. “Nas ofertas costuma atuar como sacerdote o chefe de família ou do clã, mas se há altar, fazem nele os seus sacrifícios e, por vezes, é atendido por sacerdotes profissionais, plenamente dedicados ao culto. Em quase todas as sociedades há um especialista em matérias religiosas, muitas vezes denominado ‘médico bruxo’. As suas funções não consistem na prática da feitiçaria, mas em descobrir a origem do mal em todas as suas formas e em Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 10 aconselhar-se sobre a maneira de se ver livre dele. Por vezes, trata-se de uma pessoa que também conhece as virtudes das ervas e faz as vezes de curandeiro. (Para essas culturas) o mal pode proceder de antepassados desconsiderados, de espíritos malévolos ou de bruxas. Estas últimas costumam ser correntes, fazendo parte da comunidade, que podem ter, herdado o seu poder ou ter-se tornado bruxas involuntariamente, por ciúmes, ódio ou inveja. A eliminação da bruxaria é importante, dado que a bruxa não sabe por vezes que embruxou a pessoa em questão. No mundo africano, não é possível separar totalmente a magia e a bruxaria da religião.” (Grandes Impérios e civilizações, p. 33) As religiões tradicionais africanas têm em comum, além da crença na “força vital”, um grande respeito pela vida, não comporta princípios ascéticos, seus valores máximos estão ligados à harmonia na família e no clã, é essencialmente comunitária, não individual, a identidade do indivíduo se constrói a partir do lugar dos seus no grupo e de seu lugar na família; exatamente por isso a diáspora atlântica, ocorrida durante o escravismo colonial, foi profundamente traumática, tanto àqueles que ficaram, quanto àqueles que deixaram suas famílias. Enquanto os povos do Nilo – egípcios, merítas e kushitas – cultuavam os mesmos deuses cultuados no Egito antigo; os numidas, divindades gregas como Atena e Posseidon (Giordani, p.158) e também símbolos ligados à dendolatria, os povos da região da Costa da Guiné, Rio Níger, Delta do Níger, Congo-Angola e mesmo região Oriental – como o Zimbábwe - do continente representariam de forma mais plena os costumes das religiões ancestrais, as ditas “religiões tradicionais” africanas. Insistimos no fato de que, no caso das culturas das regiões citadas, não se definia um nome para a crença, pois, as expressões do sentimento religioso, para esses povos, manifestavam-se nos atos cotidianos, individuais e coletivos, ou seja, a religiosidade se manifesta em todos os costumes e práticas diárias, exatamente por isso não há um nome que separe o sentimento religioso da própria vida. Outro princípio que une todas essas visões religiosas é a crença na existência de um único princípio criador para tudo o que existe (esse fator facilitou muito a aceitação, tanto do islamismo, quanto do cristianismo entre os povos africanos). “Os atributos dessa divindade suprema são imprecisos. Deus (para eles) reside muito longe, quer além do firmamento, que nas profundezas. Este Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 11 distanciamento é, em certos mitos, a punição de uma falta humana, pois houve um tempo em que Deus e o céu estavam ao alcance do homem. Mas a conseqüência deste distanciamento de um Deus impessoal, todo-poderoso, que não tem necessidade de nada e (acrescentam alguns) infinitamente bom, portanto não podendo fazer o mal, é que a religião quase nunca se dirige a ele. (Para eles) Deus não tem necessidade dos homens. Entre os Dogon, Amma, o deus criador, possui um lugar especial no culto: cada chefe de família oferece-lhe sacrifício. Para os bambara, Faro, o deus superior, criou-se a si mesmo do caos original, venceu o deus da terra, Pemba, e organizou o mundo. Entre os achanti, Nyamé ou Nana é o deus supremo. Olorun ocupa esse lugar entre os yorubá. Na região dos grandes lagos o deus supremo é o todo-poderoso e onipresente Mulungu.” (Giordani, p. 160) Os deuses secundários seriam aqueles ligados às forças da natureza – o trovão, os raios, a terra, as águas etc – existindo ainda os gênios, que seriam como espíritos que vagam pela terra, podendo ter diferentes comportamentos, desde roubar comida, a revelar segredos ou mesmo proteger a aldeia. Também alguns animais representariam espíritos protetores, como o crocodilo – para egípcios e mandingas – as cobras gigantes e as tartarugas. Também os astros seriam considerados como divindades - como entre os primeiros povos da atual Etiópia – sendo o Sol e a Lua os mais importantes dentre eles. Tal como as religiões tradicionais que eram diversas, porém, com uma lógica semelhante, os cultos também possuíam particularidades e pontos em comum. Um desses pontos comuns era a existência dos sacrifícios. A função desses era sempre a de transferir forças, não apenas ao sacrificador, mas a todo o grupo a que ele pertencia. Acompanhando o sacrifício, as cerimônias eram sempre acompanhadas pelo canto e pela dança. Num mundo compreendido como um campo envolto por tanta magia, a figura dos sacerdotes, adivinhos e curandeiros, seria sempre muito importante, estendendo-se a função desses personagens a várias instâncias da vida cotidiana, como: prever problemas, detectar doenças, encontrar curas e localizar feiticeiros e feiticeiras. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 12 Nas sociedades africanas, a ideia da manipulação e interpretação da natureza para o bem coletivo era vista como algo necessário, contudo, a manipulação das forças da natureza para o mal não era tolerada. “A(O) feiticeira(o) era severamente punida(o). Descoberto, o feiticeiro era torturado, entregue às formigas, ou queimado e lançado como pasto às hienas” (Giordani, p. 164). No período do escravismo colonial, homens e mulheres, acusados de feitiçaria em suas tribos eram, freqüentemente, condenados a serem vendidos como escravos para os traficantes. Parte da imagem negativa e “demoníaca” que se construiu das religiões africanas entre os colonos brasileiros (imagem ainda perdura em nossos dias) tem sua origem no fato de que os próprios escravizados, que vinham num mesmo navio, identificavam os “feiticeiros” que ali estavam entre eles e alardeavam o perigo e os poderes que tais pessoas pretensamente teriam, porém, é fundamental para que possamos romper com o preconceito, que entendamos que essas religiões nada têm de malévola em suas origens e nem em suas crenças basilares. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 13 UNIDADE 5: ÁFRICA E O CRISTIANISMO COPTA A região do Axum correspondeao que os geógrafos chamam de “Chifre da África”, ali temos hoje as regiões da Etiópia e Eritreia. No passado, essa porção Leste do Continente africano foi palco de uma grande civilização. Organizada em torno de suas cidades e do comércio, a sociedade axumita tinha na tradição hebraica seu mito de formação. Para os axumitas, o reino teria suas origens no mito da rainha de Sabá. Diz o mito que quando Makeda, a rainha de Sabá, ouviu de um mercador que haveria um rico reino na região da Palestina, a rainha, que até então seguia o culto dos astros, resolveu viajar com uma caravana de mais de 700 cavalos para conhecer tal reino. Chegando a Israel, teria se encantado com a hospitalidade e a gentileza de Salomão, abandonado suas antigas crenças e, adotando o culto ao deus de Israel. Segundo a lenda, Salomão também teria se encantado pela rainha e teria arquitetado um plano para tê-la para si. Conforme o mito, Salomão oferecera um banquete de despedida com alimentos fortemente condimentados, para que a rainha sentisse sede mais tarde. À noite, prometera não tocá-la, contanto, que ela também não tocasse em nada do palácio. Atormentada pela sede, a rainha, no meio da noite, encontrou água somente nos aposentos do rei que, flagrando-a ao saciar sua sede, cobra dela a promessa que, por sua vez, vencida, acaba cedendo aos desejos do rei. Desse encontro, nasce em Sabá, Menelike, o Leão de Judá, que ao chegar a idade de um jovem voltaria a Israel e seria sagrado rei pelo próprio Salomão, que teria entregado a Menelike e sua comitiva, a preciosa arca da aliança, para que ficasse para sempre guardada em segurança em território africano. Esse mito alimenta a crença de fiéis até hoje, que garantem permanecer a arca, até nossos dias, em solo africano. Os judeus etíopes ainda existem, são os chamados falachas, vivem na região do Lago Tana e se consideram descendentes de Menelike. Contudo, segundo os historiadores, os primeiros reis axumitas não seguiam a religião de Israel, predominando naquelas terras o paganismo, até meados do século IV, quando o monge sírio Fromentius introduziu o cristianismo na região do Axum. O rei Ezana converte-se ao cristianismo e seu filho Ameda é batizado. Após a conversão da família real, o cristianismo etíope toma grande força e começa a traçar Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 14 suas características próprias, adotando a vertente do arianismo e, depois, do nestorianismo. Porém, àquela época, não apenas o Axum, dentre as regiões ao Norte da África mas, também, o Egito, adotara o cristianismo. O cristianismo egípcio é chamado de cristianismo copta - por ter seus textos escritos no formato da escrita copta, a última das formas das escritas antigas egípcias, formada por uma variação do demótico somado ao alfabeto grego - era bem mais antigo. Segundo a tradição, o cristianismo teria chegado à Alexandria já no ano 60, da Era Cristã, por intermédio de São Marcos Evangelista, fortalecendo-se desde então, até os nossos dias, sendo hoje a igreja oficial do Egito. Alexandria tornava-se um centro do cristianismo nestoriano em território africano, pois, submetiam-se à liderança do patriarca de Alexandria a igreja cristã etíope e também os cristãos da Abissínia. Por não concordar com as posições do concílio de Calcedônia, em 451, a Igreja Copta Egípcia separa-se adotando calendários e costumes distintos. Entre os cristãos coptas, as cerimônias eram realizadas com danças acompanhadas pelos tambores; em dias especiais, sacrificavam-se cabras; fazia-se distinção entre o que chamavam de “carne pura” e “carne impura” (animal estrangulado); havia a interdição de entrar na igreja no dia seguinte a relações sexuais e a observação do sábado (como na antiga tradição cristã) e não do domingo (como o fazem os católicos apostólicos romanos). Há ainda, até os nossos dias, a divisão do clero entre um clero secular – do povo – formado por ministros que devem se casar e constituir família; e um outro clero, o clero regular, do qual saem os bispos. A formação dos sacerdotes é complementada pelo estudo da leitura na antiga língua ge’ez e é ministrada até hoje nas escolas monásticas. Com a fusão da igreja Etíope com a Igreja Copta Egípcia, os etíopes tornaram-se dependentes das decisões de Alexandria. Hoje, o número de cristãos coptas é de mais de 42 milhões de fiéis, dentre os quais 10 milhões estariam no Egito; 30 milhões estariam na Etiópia e aproximadamente dois milhões na Eritréia. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 15 UNIDADE 6: A ÁFRICA E O ISLAMISMO Como sabemos, em meados do século VII, os árabes estavam em pleno processo de expansão, guerreando e conquistando terras em nome da religião que havia nascido com as palavras de Maomé: o islamismo. Em 642, os árabes avançavam sobre o Egito e seguiam em direção à porção Oeste do Norte da África, o Magreb (essa parte do continente é até hoje denominada assim, porque Magreb em árabe significa simplesmente Ocidente). Conforme Joseph Ki-zerbo explica em seu livro História da África Negra, esse período “foi um verdadeiro furacão”. A invasão árabe no continente africano transformou completamente o perfil da África do Norte, do Mediterrâneo até a faixa sudânica. Uma região que mantivera, até então, estreito contato com o mundo europeu (cultural e comercialmente, desde o florescimento do Império Egípcio, a colonização grega na Cirenaica, até o estabelecimento das colônias romanas na África Mediterrânica) passaria agora a voltar-se – cultural e economicamente – para o Oriente Médio; adotando dele não só costumes e a língua, mas também e, principalmente, a religião. A conversão das áreas conquistadas ao islamismo não ocorria unicamente e nem exclusivamente pela força: “(...) muitas vezes, também a conversão foi efetivada na ausência de toda a força, quer por marabus 2 isolados que não tinham outro poder senão sua fé, quer por infiltrações lentas. Procurava-se antes de tudo ganhar a aristocracia, depois, aos poucos, ganhar a massa camponesa” (Giordani, p. 130) Assim, por vezes, apenas o soberano e sua corte adotavam oficialmente o islamismo, garantindo a fidelidade ao Islã; em outras ocasiões a conversão do rei e de sua corte implicava conversão de todo o seu povo, nesse caso, para alguns povos, o islamismo, adotado pelo povo, convivia com as religiões ancestrais, enquanto para outros, a adoção de todo o reino ao islamismo implicava a proibição dos cultos ancestrais. 2 marabu (líder espiritual islâmico) Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 16 Outras vezes, ainda, o islamismo se impunha pela força: “O fanatismo e o orgulho dos conquistadores levava-os quer a desprezar os pagãos e a deixá-los viver submissos ou escravos, quer a deixar-lhes a escolha entre a morte e a conversão.” (Giordani, p.130) Alguns povos resistiram mais, outros menos. Osberberes do deserto, por exemplo, resistiram por muito tempo ao domínio territorial e cultural árabe. Na região do Axum, os cristãos etíopes também resistiram, mas sem enfrentamento, uma vez que, ainda durante o período em que se encontrava vivo, Maomé teria recebido uma carta do rei Etíope, que reconhecia como legítima a mensagem do profeta de Alá. Contudo, após a morte de Maomé, o Axum colocou-se contra a entrada do islamismo em seu território, que foi poupado da guerra santa, pelo menos até o século XII, em razão da simpatia que o profeta sentira pela mensagem do monarca axumita. Todavia, como insiste o historiador africano, Joseph Ki-Zerbo, não se pode acreditar de todo na intensidade da destruição causada pela chegada dos muçulmanos à África. Segundo o historiador, os relatos de tais acontecimentos, embora existam, não devem ser levados ‘ao pé da letra’, até mesmo porque a chegada dos muçulmanos trouxe à África Mediterrânica e Sudânica uma nova dinâmica comercial, além de uma nova relação com o registro da memória e da História, que até então eram fundamentalmente orais, e que a partir da presença dos árabes, com seus geógrafos, historiadores e astrônomos, passaria a ser escrito. Os muçulmanos trouxeram uma grande rede de contatos e comércio, fazendo com que as regiões islamizadas da África passassem a fazer parte desse ‘circuito’. Nos reinos que se convertiam ao islamismo, a fundação de cidades como Timbucto e Gao, na faixa do rio Níger, ou Sidjilmassa e Marrocos, no Magreb - era acompanhada pela construção de palácios e mesquitas. De toda forma, embora possa parecer que, no processo de islamização da África, essa teria perdido suas características próprias em detrimento da religião e da cultura islâmica, os historiadores estão de acordo ao afirmar que teria ocorrido justamente o oposto: o que houve foi uma “africanização do islã”. Se por um lado, o Egito, após a conquista territorial, vai deixando o cristianismo copta de lado e se tornando cada vez mais islamizado, alcançando o Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 17 posto de região mais importante do mundo islâmico entre os séculos XII e XIII; regiões a Costa Ocidental africana e mesmo o Magreb, desenvolveriam um islamismo que convive lado a lado com as tradições ancestrais, como no Songhai, onde o rei Sonni Ali era songhali (portanto, africano), muçulmano e respeitado feiticeiro. O islamismo penetrou as regiões da África do Norte e África Mediterrânica; zona central (entre o Senegal e o lago Chade, tomando os povos da região do rio Níger, os mande e os haussá) ; zona litoral Oriental (Eritreia, Somália, Madagascar e Zanzibar ). Quanto à organização da religião islâmica propriamente dita, no caso africano, as confrarias e sociedades secretas desempenharam um papel importante na organização do islamismo. Mesmo com relação aos princípios morais, a religião de Maomé não entraria em choque com o ethos das sociedades do Norte da África: o marabu não diferia muito da figura do adivinho; os anjos e os djinns (intermediários entre os homens e os anjos, no islamismo) não diferiam muito da figura dos espíritos de proteção e, mesmo a moral muçulmana, com relação a alguns princípios adaptava-se perfeitamente aos costumes da maioria dos povos, como a permissão para o homem possuir tantas esposas quantas pudesse manter (tradição existente tanto no Oriente Médio muçulmano, quanto entre os povos africanos dessa região). Um ponto característico da tradição islâmica, a peregrinação obrigatória à cidade sagrada de Meca (onde o profeta teria ouvido o chamado de Alá), que deveria ser realizada por todos os fiéis, pelo menos uma vez na vida, no islamismo africano teria sofrido modificações. Por se tornar longa, perigosa e cara, a peregrinação era realizada apenas raramente e, em geral, pelos governantes e seu séquito. Ampliava-se o culto aos homens santos e à visitação aos lugares pelos quais teriam passado. Outra característica marcante do islamismo africano é a salmodia (cântico dos salmos), que: “(...) eram tidas por encantamentos mágicos, a ponto de se espalhar o hábito de trazer em amuletos determinados versículos escritos em pergaminho. O amuleto muçulmano fascinava não só os novos convertidos, mas também os que ainda o não estavam, e não tardou a transformar-se Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 18 em indústria do maalam, que os preparava, benzia e vendia.” 3 (Giordani, 170) 3 Note-se que esses eram os mesmos amuletos utilizados aqui pelos escravizados de religião muçulmana. Em geral, as regiões islamizadas não eram alvo de apresamento de escravos, mas por vezes, homens negros muçulmanos eram capturados ou mesmo julgados e condenados à escravidão. No Brasil, esses escravizados, praticantes do islamismo eram chamados de MALÊS, e traziam consigo os amuletos descritos por Giordani. Durante o período colonial, acreditava-se que os versos escritos no amuleto eram, de fato, encantamentos. Durante a Revolta dos Malês, na Bahia em 1835, acreditava-se que os versos nos amuletos, na verdade eram instruções para a insurreição. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 19 UNIDADE 7: O PANTEÃO YORUBÁ A região ao Sul do Rio Níger, margeando o grande oceano da Costa Oeste africana, era considerada pelos povos antigos como uma região sagrada. Ali, o povo yorubá, um povo citadino, desenvolveu sua cultura e sua religião, que teve grande influência na formação das culturas afroamericanas após a diáspora atlântica. Embora hoje, grande parte da população da Nigéria e do atual Benim (antigo reino do Daomé) seja de cristão e muçulmano, a religião tradicional não deixou de ser praticada. “A religião tradicional dos Iorubas consta de um sistema de seres espirituais, ou quase espirituais, escalonados em quatro categorias. Na categoria superior está o ser supremo, Olodumaré, também conhecido por Olorum (senhor do céu). Os seus ministros, os deuses subordinados (orisha), ocupam o segundo escalão e entre eles seguem uma espécie de ordem hierárquica. O mais importante desses deuses de segunda fila é Obatalá. No terceiro posto, depois dos deuses secundários, encontram-se os antepassados deificados como Shango. Em último lugar, figuram os espíritos associados aos fenômenos naturais tais como a terra - Ile, os rios, as montanhas e as árvores. (Grandes Impérios, p.39) Embora não erigissem templos ou altares em nome de Olodumare, os yorubás entoavam orações ao seu deus supremo, contudo, os outros deuses e entidades menores, possuíam templos, altares, santuários e sacerdotes que organizavam seus cultos. Entre os populares, além da participação nas grandes cerimônias públicas em honra dos deuses era também muito forte o culto aos antepassados, bem como a adivinhação, sendo o oráculo mais famoso o da cidade de Ifá. “Os iorubas utilizam diversos sistemas de adivinhação. Os objetosbásicos do sistema conhecido com o nome de Ifá, são: cocos especialmente selecionados; a bandeja, que deve ter a forma retangular, circular ou semicircular; o sino, que deve ser de marfim ou de madeira e que se utiliza para invocar o espírito do oráculo; e grupos de objetos, que podem ser dentes de animais, conchas de caurim ou fragmentos de cerâmica. O sacerdote (o babalao), talvez o mais preparado de todos os sacerdotes iorubas, atua partindo de um conjunto de 16 poemas (odus) que contém todas as experiências que um ser humano é capaz de conhecer. Orunmila, uma das divindades mais importantes, encarna o poder que há por detrás do oráculo. Está embebido de sabedoria de Olodumaré e as pessoas tratam de propiciar a seu favor.” (Grandes Impérios, p.39) Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 20 O início Embora Olodumaré (Olorum, para a nação Ketu) seja o deus supremo, a vida dos homens estaria, conforme a tradição, associada a Obatalá, que é considerado entre os yorubás o mais importante entre os deuses menores, uma vez que teria sido Obatalá o representante de Olodumaré na criação. Após aprender com Olodumaré a dar forma aos seres humanos, moldou homens e mulheres que depois recebiam do ser supremo o princípio da vida. Na mitologia yorubá, cada orixá possui uma função, uma área sobre a qual atuaria e exerceria sua proteção; possui uma cor que o simboliza e uma expressão com a qual deve era saudado por seus seguidores. (Observe que algumas das expressões yorubás que representam os diferentes orixás podem ser encontradas em versos de alguns sambas antigos). Os principais deuses do panteão yorubá são: Iemanjá Um dos orixás mais conhecidos e festejados, principalmente, no Brasil. A senhora das águas (águas salgadas), mãe dos orixás, tem as vestes nas cores branco, azul ou verde claro, ornamentadas por colares de contas de vidro verde claro ou azul claro. Iemanjá é saudada pela expressão “Odô ia” e conforme a tradição, teve seus seios dilacerados em uma luta contra Exu, que desejava possuí- la, na luta feriu-se e de seus olhos correriam tantas lágrimas que formariam toda a água salgada do mundo. Nanã Senhora da lama do fundo dos rios, a lama que moldara todos os homens. É considerada como o orixá mais velho, sendo, justamente por isso, muito respeitada. Nanã se veste com roupas brancas e azuis, adornadas por contas de louça branca com riscos azuis e um cetro, o Ibiri. É saudada com a expressão “Saluba!”. Conforme a tradição, tentou-se fazer o homem com diferentes elementos, ar, água, fogo, mas nenhuma das tentativas deram certo. Assim sendo, Nanã teria emprestado o barro, com a condição de que, quando os homens morressem, lhe fosse devolvido. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 21 Ogum Deus ferreiro, Ogum identifica-se com a guerra e com as técnicas. Veste-se com azul escuro ou verde com listas azuis, adornado por colares de contas em azul escuro. É saudado com a expressão: ”Ogunhê!” Oxalá É um dos orixás ligados à criação do mundo, é denominado um orixá “funfun”, ou seja, que se veste de branco. É o deus criador dos homens e da cultura material; no Brasil é tido como o pai dos orixás. É comumente saudado com a expressão “Epa Babá!” Oxossi Rei da cidade de Ketu, Oxossi é identificado como um deus caçador, por isso, é identificado como protetor dos caçadores, dos chefes de família e dos animais que vivem nas florestas. Veste-se com as cores azul, verde e vermelho e a expressão com a qual o saúdam: “Okê aro Oxossi!”. Oxum Deusa da água doce. Representaria o ouro, o amor e a fecundidade. Veste-se de amarelo, dourado, rosa e azul claro, adornando-se com contas em amarelo claro ou escuro. Quando dança, utiliza um espelho na mão. É a segunda esposa de Xangô e é a que, de fato, possuiria o seu amor. É saudada com a expressão: “Ora ieie ô”. Iansã Senhora dos ventos e das tempestades; primeira esposa de Xangô e senhora dos raios. É a ela que pertenceriam as almas dos mortos. Veste-se de marrom e vermelho e, por vezes, de branco. É saudada pela expressão: “Eparrei!”. Xangô Senhor do trovão e da justiça; usa roupas brancas e vermelhas adornadas por contas das mesmas cores. Quando dança, usa coroa na cabeça (pois era rei de Oro) Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 22 e um machado duplo na mão, o oxé, que simboliza o julgamento e a justiça (lembre- se de que na mitologia romana, o símbolo da justiça era uma balança, ou seja, um instrumento bipartido, tal qual o oxé). Era saudado pela expressão: “Kawó-kabyesilé. Embora algumas das divindades da tradição yorubá sejam cultuadas localmente, em apenas algumas regiões ou mesmo em uma única região específica, outras, por sua vez, como Ogum, são reconhecidas e reverenciadas em todo o território ocupado pelos povos yorubás. “Segundo assegura a tradição, Ogum serviu-se do machete para abrir caminho aos deuses, com o objetivo de os atrair a viver na terra. Devido a sua habilidade no manuseio do machete e à sua força, foi considerado o deus dos caçadores, ferreiros e açougueiros, barbeiros, soldados e, hoje, dos caminhoneiros, assim como de todos quantos trabalham com o ferro e o aço. Ogum é também um testemunho de pactos e convenções. Hoje, quando um seguidor da religião tradicional ioruba tem de comparecer perante um tribunal, não jura pelo Alcorão nem pela Bíblia, mas fá-lo sobre um fragmento de ferro, que representa e simboliza Ogum.” (Grandes Impérios e Civilizações, p.39) Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 23 UNIDADE 8: A RELIGIOSIDADE NA DIÁSPORA ATLÂNTICA Conforme afirmam Sidney Mintz e Richard Price, na obra O nascimento da cultura afroamericana, na vinda à América, tanto brancos, quanto negros tiveram que recriar seus valores, crenças e modos de vida. Mesmo o branco, que tinha a seu favor o estabelecimento da língua, do domínio sobre as terras e, acima de tudo, a liberdade, pôde transpor por completo seus valores da Europa para a América. Todos teriam passado, de maneira mais ou menos traumática, por um processo de ressignificação de seus valores, de reconstrução das identidades e de reorganização da vida, contudo, os africanos escravizados teriam passado por esse processo, mas de forma infinitamente mais intensa e traumática, uma vez que a vinda para o novo continente significava a perda da terra, da família, do nome, da identidade e a da liberdade. Ao contrário do que se possa imaginar, reconstituir o universo de costumes e crenças deixado na África não era fácil e, muitas vezes, não era sequer possível. Os escravizados vinham, com freqüência, de regiõesdiferentes, falavam várias línguas (o que não era exatamente um problema, pois, era comum, na África, que um mesmo indivíduo fosse um falante de diversos idiomas, dada a pluralidade linguística de todas as regiões), muitos teriam que conviver com indivíduos de tribos inimigas; havendo ainda as rivalidades entre os criollos (os nascidos na América), os boçais (os que tinham chegado há mais tempo, já dominavam a língua e possuíam sua rede de contatos) e os ladinos (recém chegados). Não era possível recriar um universo cultural em particular, simplesmente porque aqueles indivíduos faziam parte de universos culturais distintos; e encontravam-se, mesmo entre escravizados, condições de poder variadas. Os recém chegados deveriam se submeter à liderança daqueles que aqui estavam a mais tempo, uma vez que passavam a fazer parte de uma nova ordem social. A religião e os elementos da cultura, em geral, seriam fortemente afetados por essa realidade. Qual modelo religioso reconstruir? Uma vez que a senzala comportava escravizados cristãos, muçulmanos, praticantes das diversas religiões ancestrais, praticantes do candomblé yorubá, qual modelo prevaleceria? Prevaleceria o modelo da maioria, contudo, não de forma pura, mas sim, somado: Os elementos que compunham as crenças dos demais, Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 24 Uma interpretação que não era do sacerdote, mas do escravizado- homem-comum; Ao cristianismo do colonizador, um cristianismo readaptado a uma vida distante dos olhos do centro de poder da Igreja; e Às crendices do branco homem/livre/pobre e do indígena, livre ou escravizado, que conviviam lado a lado com o escravizado africano e com ele aprendiam e ensinavam os conhecimentos e crenças populares sobre a vida. Dessa forma, no caso brasileiro, tendo sido a primeira fase do tráfico de escravos, marcado pela exploração da Costa Ocidental da África, um grande número de indivíduos vindos de regiões de cultura yorubá vieram para o Nordeste brasileiro. Isso não significa dizer que a religião recriada pelos homens negros de Pernambuco e da Bahia fosse o retrato da religião dos yorubás; significa apenas afirmar que a base da religiosidade ali recriada seria a das sociedades yorubás, contudo, a presença de elementos do cristianismo, por exemplo, são fortemente sentidas, tanto àquela época, quanto hoje. Podemos, portanto, afirmar que as religiões e as formas de expressão da religiosidade dos afro-brasileiros apresentava-se de maneira sincrética e miscigenada, como tudo o mais na vida da colônia. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 25 UNIDADE 9: AS IRMANDADES CATÓLICAS NO BRASIL No cenário das minas coloniais, um fenômeno que nos chama a atenção foi o do florescimento de um grande número de irmandades religiosas e confrarias. Leigos, organizados em torno de uma irmandade de fiéis que cuidavam da vida religiosa e até social de seus participantes. Homens, mulheres, brancos e negros, todos encontravam uma irmandade que os aceitassem. No caso específico dos africanos escravizados, a irmandade tornava-se não somente um espaço de sociabilidade, mas também um espaço para a construção de uma linguagem própria para a religiosidade de africanos e afrodescendentes que, agregavam aos ritos e costumes da religião católica elementos das culturas vindas da África. Além de espaço de reconstrução de uma identidade cultural, as irmandades dos homens pretos – como eram chamadas – cumpriam também função assistencialista, resgatando negros velhos e doentes ou mesmo possibilitando a reunião de uma família, separada pelo comércio de escravos. Embora alguns estudiosos tenham visto nas irmandades um espaço de aculturação do africano, que abandonaria suas crenças adotando a dos europeus, na visão do grande antropólogo Roger Bastide, o resultado não teria sido bem esse, pois, segundo o pesquisador: “a religião do colonizador sobressaiu-se à africana, porém, não a substituiu.” Os missionários wesleyanos em Demerara A presença do cristianismo, principalmente entre os colonos do continente americano, não se fez presente somente na figura dos missionários da ordem católica inaciana da Companhia de Jesus, também missionários cristãos protestantes e evangélicos aqui estiveram, contribuindo para a formação das culturas afroamericanas. No caso específico dos missionários metodistas wesleyanos, destacamos sua importância em relação aos negros escravizados que trabalhavam na produção de açúcar, na colônia inglesa de Demerara, na antiga Guiana Inglesa. Movidos pelo ideal de inconformismo que o próprio metodismo wesleyano trazia consigo – posto que ousava enfrentar o anglicanismo em plena Inglaterra – os jovens missionários, vindos das classes operárias, viajavam pelo mundo Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 26 impregnados pelos ideais de “liberdade, igualdade e fraternidade e um sentido de justiça que podiam facilmente voltar-se contra a ordem estabelecida. Isso seria particularmente verdadeiro nas sociedades escravistas, onde a ética, implícita nesse novo cristianismo evangélico, parecia não só deslocada, mas profundamente subversiva”. (VIOTTI DA COSTA, p.30) Ao chegarem nas terras americanas, os missionários procuravam evangelizar os escravizados, ensinando-lhes a ler a bíblia e a interpretá-la como uma mensagem de esperança; contudo, num contexto escravista, como coloca Emília Viotti em sua obra Coroas de Glória, Lágrimas de Sangue, a mensagem evangélica deu aos oprimidos um código para julgar seus opressores. “A maioria dos colonos estava convencida de que dar instrução religiosa aos escravos, ensiná-los a ler, tratá-los como iguais, chamá-los ‘irmãos’ – abolindo assim as distinções e protocolos sociais que na experiência diária reafirmavam o poder que os senhores tinham sobre eles – cedo ou tarde levaria os escravos a rebelar-se.” (VIOTTI DA COSTA, p.35) Em Demerara, o cristianismo dos missionários metodistas serviu de canal para a reorganização da comunidade negra na Guiana, da mesma maneira que aqui, no Brasil, as Irmandades religiosas teriam cumprido esse papel. É importante relembrarmos que, o sentimento de união com o grupo, o fortalecimento da vida em família e em comunidade, sempre foram para as sociedades africanas fator fundamental para a construção da própria identidade, da própria dignidade. A reorganização da comunidade negra, em Demerara, em torno da evangelização, propiciou a reconstrução da dignidade do grupo, que decidiu tomar as rédeas do próprio destino. Reuniam-se para as aulas de leitura e de bíblia, estruturavam uma hierarquia para a comunidade de evangelizandos em função de seus antigos laços na África e também em relação as suas novas posições na colônia (os mensageiros eram fundamentais para que o contato entre todos fosse efetivado; os escravos domésticos mantinham o grupo informado sobre as conversas dos senhores, principalmentesobre a situação das transformações na Inglaterra). Dessa forma, a religião, na colônia inglesa, tornou-se fórum privilegiado para a conscientização e para a organização política, fazendo com que em 1823, Demerara fosse o cenário de uma das maiores revoltas de escravos da história das Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 27 Américas: aproximadamente 12 mil escravos, segundo Emília Viotti, se sublevaram; mais de 200 negros entre escravos e libertos foram mortos, muitos foram julgados e vários enforcados. O missionário metodista wesleyano que se encontrava na colônia naquela época, John Smith, foi acusado de ter induzido os escravos à revolta, foi igualmente julgado e condenado à morte. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 28 UNIDADE 10: O VODU DO HAITI No caso haitiano, a religião também seria um elemento agregador. Constituída como uma colônia de exploração, o Haiti teve sua mão de obra escrava vinda, em sua maioria, de uma mesma região da África, o reino do Daomé. No início do tráfico negreiro, os senhores de engenho que vinham à colônia portuguesa, resistiam a compra de muitos escravos oriundos de um mesmo reino, temiam que se organizassem e se sublevassem, as experiências de Demerara, da Revolta dos Malês na Bahia e do Haiti, provaram que estavam certos. Embora o cristianismo tenha chegado às terras haitianas por meio dos missionários católicos, a religião daometana, o vodu, predominava, como predomina na ilha até hoje. É importante lembrar que, o sentimento religioso, para as culturas africanas, estaria ligado à forma de compreender o mundo e seu próprio lugar no mundo, assim, torna-se muito aberto a somar novos elementos para o universo da religiosidade. Contudo, em alguns casos, o olhar africano – de reverência à natureza, de conexão com o mundo espiritual por meio da música e da dança, etc. – iria absorver os elementos do catolicismo, como no caso da umbanda brasileira; em outros, o olhar africano teria uma presença subliminar, sendo absorvido pelo cristianismo com o qual tiveram contato aqui na América – como no caso das Irmandades religiosas de Minas Gerais – mas, em outros casos ainda, o catolicismo e a religião trazida da África, caminhariam lado a lado. Como dizem os próprios haitianos hoje: “90% dos haitianos são católicos, 10% são protestantes e 100% são do vodu” . Insistimos que, no caso haitiano, essa reconstrução não somente da crença trazida da África, mas também dos rituais e até mesmo das linhagens sacerdotais, só foi possível em função de serem indivíduos vindos de um mesmo reino; possuindo assim, um laço entre si, muito mais estreito. Tal qual o metodismo em Demerara, o vodu no Haiti também teria um papel importante na formação de uma consciência revolucionária entre os haitianos. Segundo a tradição, as discussões que culminaram na maior revolta de negros escravizados na América, resultando na independência do Haiti e na formação do primeiro Estado negro livre do continente. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 29 O vodu como expressão da religiosidade, assemelha-se às religiões ancestrais africanas, pois, acredita na existência de uma força criadora, na presença de gênios que circulam pelo mundo material e que podem ser consultados, a quem se pode pedir proteção; acreditam ainda na figura dos ancestrais como protetores das novas gerações. Segundo declaração do ex-diretor da Igreja Metodista Britânica Leslie Griffiths: “Ao contrário do que podem pensar fiéis ocidentais, (o vodu) não é do todo ruim. (...) Há excessos cometidos em nome do vodu que todo mundo condena, incluindo alguns seguidores do vodu, mas em geral, não é incomum para as pessoas frequetarem tanto o mundo do vodu quanto ao mundo do catolicismo (...) Pelo menos 95% do vodu é simplesmente invocar os espíritos (os lois e os ancestrais) para ajudar as pessoas a sobreviver no que é, muitas vezes, uma vida muito difícil.” (BBC-Brasil, 01/05/2003) Os especialistas concordam que muito da imagem negativa que se tem do vodu se deve a duas origens: as atitudes do antigo ditador haitiano François Duvalier, o ‘Papa Doc’ , e seu filho Jean Claude, ‘Baby Doc’, que usavam seus supostos poderes vodu (somados à força bruta militar e um regime de repressão) para oprimir o povo. No auge da crise política dos anos 60, Papa Doc afirmava que teria sido o responsável pelo assassinato do presidente John Kennedy, por ter jogado uma praga no presidente americano (BBC-Brasil, 01/05/2003). Outra fonte de mal-entendidos seria o cinema americano que, inspirado pelos mitos dos afroamericanos de Nova Orleans – também praticantes do vodu – criaria um universo de velhas bruxas e mortos vivos, que até hoje é explorado pelo turismo da região. Na verdade, segundo os pesquisadores, a “produção de zumbis” – mortos vivos – características dos mitos vodu, nada mais seria do que um truque de velhos sacerdotes que, conhecedores das ervas, induziriam, por meio de beberragens, sua vítima a um estado de catalepsia, sendo que depois, ao acordar, entrariam num estado hipnótico, no qual permaneceriam sob o comando do hipnotizador. Mesmo as “bonecas vodu” seriam, na verdade, muito mais relevantes para imagem hollywoodiana e para o comércio do turismo, do que para as cerimônias. Sendo uma religião fortemente ligada à veneração dos ancestrais, o vodu reconhece nos mortos – e não nos vivos – a autoridade para comandar a Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 30 comunidade; por essa razão, os ancestrais seriam evocados e consultados para auxiliar seus descendentes na jornada da vida, para que mantivessem sua identidade como povo. Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 31 UNIDADE 11: O CANDOMBLÉ E A UMBANDA NO BRASIL Embora ambos tenham suas origens na estrutura da religião dos yorubás, candomblé e umbanda são manifestações religiosas distintas. Praticado desde a chegada às terras brasileiras, o culto aos ancestrais e aos orixás, desde o século XVI, foi sendo reconstruído pelos homens e mulheres trazidos para cá à força. Embora siga uma estrutura muito semelhante àquela dos yorubás da África, o candomblé brasileiro possui as suas particularidades. Tal qual o rito africano, o candomblé corresponde a uma religião totêmica, que cultua um deus único, criador de simesmo e de tudo no universo – Olorum – e seus orixás – deuses menores – que comandam as forças da natureza. No candomblé, os espíritos não falam com os consulentes, diretamente, mas somente por meio do jogo de búzios – forma de oráculo que só pode ser compreendida por um sacerdote, o babalorixá. Em relação ao modelo africano, existem diferenças quanto a alguns adereços, cânticos, ritmos e mesmo quanto à forma de organização dos terreiros – que aqui recebe sempre a todos os orixás, enquanto lá, existe uma divisão. O candomblé desenvolveu-se fortemente na Bahia, onde a comunidade de sudaneses ocidentais de origem yorubá era numerosa. Isso não significa que todos os africanos migrados para lá à força fossem de origem yorubá; significa sim, compreender que, à medida que eram inseridos nessa nova coletividade, os africanos recém chegados assimilavam os novos modelos de organização social e religiosa, promovendo o crescimento e o fortalecimento dessa cultura afro-brasileira. O candomblé no período colonial, embora não fosse bem visto nem pelos senhores de escravos e nem pela igreja católica, foi sendo reconstruído a partir das lembranças do que se praticava na África e também das novas necessidades da vida desprovida da de liberdade. Em seu artigo Sincretismo da Crença no Brasil do Século XVI, Sônia A. Siqueira, apresenta fragmentos de correspondências de padres e senhores que, concordam entre si com a necessidade de permitir aos negros que tivessem um pequeno tempo para suas festas para que, assim, não se sentissem pressionados demais e não se rebelassem. A festa foi o espaço no qual a religião pôde renascer. Não entendendo como um círculo de pessoas que cantam e dançam, sem altar, nem imagens, poderia se configurar numa cerimônia religiosa, os portugueses acabavam permitindo que, bem Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 32 debaixo de seus olhos, um sentimento religioso renascesse e uma prática religiosa fosse construída. Tal qual o candomblé africano, o candomblé dos afro-brasileiros seria fortemente marcado pelo toque dos tambores, que “falam” pelos orixás: cada toque representa um orixá, cada ritmo um estado de espírito – irado, feliz, em guerra, em paz – como também a dança os representava, uma vez que para cada orixá, dançava-se de maneira diferente. Os cantos eram entoados em yorubá e, com o tempo, eram entoados a partir “daquilo que se lembravam, aquilo que acreditavam ser yorubá”. Hoje, grupos ligados à preservação da memória e da cultura, na Bahia, realizam um trabalho de resgate desses cânticos e também de transmissão formal da língua yorubá. Já a umbanda, corresponde a um fenômeno muito mais recente. Nascida nas metrópoles do século XIX (Rio e São Paulo), a umbanda corresponde a uma manifestação religiosa fortemente sincrética, pois, assimila os santos do catolicismo, personagens da mitologia ameríndia, da cultura popular e principalmente o espiritismo. Embora os orixás cultuados, na umbanda, sejam os mesmos do candomblé, na umbanda, existe toda uma gama de outras entidades que, ao contrário dos orixás do candomblé que não falam com seus fiéis, na umbanda, existem diversos espíritos que viriam à cerimônia e, ao serem incorporados por um médium (herança nítida do espiritismo) falariam com os participantes, comeriam e beberiam com eles e, principalmente, responderiam a suas perguntas sobre o presente e o futuro. A umbanda foi muito perseguida no final do século XIX e início do século XX. As cerimônias de “incorporação”, bem como as de consulta aos espíritos – seguindo a “mesa branca” espírita – eram identificadas como rituais demoníacos; a pedido da igreja, terreiros eram fechados e prisões eram realizadas. Para o célebre antropólogo Roger Bastides, essa expressão religiosa que aqui se desenvolveu trouxe consigo uma grande carga de influência dos rituais africanos ligados aos mortos. Os familiares mortos, os ancestrais apareceriam como conselheiros, como aqueles que conseguem “ver” com maior clareza o que está acontecendo e para onde estamos indo. Para Bastides, muito do que se tornou, Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 33 posteriormente, a umbanda e a “macumba” paulista, teve sua origem na organização dos rituais fúnebres nas irmandades de homens pretos. Contudo, principalmente a partir dos anos 30, com o crescimento das pesquisas antropológicas, tanto a umbanda, quanto o candomblé passaram a ser vistos como manifestações nascidas de um contexto muito específico de nosso passado cultural; essas manifestações seriam testemunhas da formação da cultura afro-brasileira e de todo o preconceito sofrido por aqueles que não se conformavam simplesmente em aceitar um modelo de crença importada mecanicamente da Europa. Essas manifestações representariam um primeiro impulso, uma primeira movimentação em busca de uma religiosidade que representasse a vida, as angústias do homem livre pobre, também, das comunidades negras do período colonial e, depois, do breve império brasileiro. Isso acontece simplesmente porque a cultura espelha as relações presentes e passadas de um povo; da mesma maneira que nossa forma de viver muda, transformam também as expressões culturais e, não a visão religiosa de uma sociedade, mas sim as maneiras pelas quais essa visão será representada. Sobre a umbanda, o historiador Paulo Koguruma, em sua obra Conflitos do Imaginário, afirma que: “Essa religião afrobrasileira (a umbanda) pode ser considerada como uma dentre as múltiplas interpretações, reelaborações, ressignificações e reinvenções das práticas e representações que foram legadas pelas tradições das diversas etnias que constituíram o conjunto da população brasileira. Ela pode ser caracterizada como uma ‘síntese’ inacabada de um tenso e conflituoso processo de sincretismo, em que houve a interpenetração das variadas formas de religiosidade e dos valores civilizatórios que se encontravam presentes no dramático desdobrar da formação de nossa sociedade. “ (KOGURUMA, 2001) Música e Missa afro A África, como sabemos, é um continente formado por diversas culturas e etnias, ali se construíram diferentes expressões da religiosidade que, teriam em comum: 1) a visão de uma única força criadora; 2) a visão de unidade entre Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 34 homem/natureza-homens/famílias/comunidades e 3) a crença na existência de uma força vital que perpassa toda criatura viva. Essas crenças basilares se fizeram presentes tanto nas várias formas de expressão religiosa surgidas no continente africano, quanto nas religiões nascidas durante a formação da cultura afroamericana. Da mesma forma que as religiões de origem africana possuem entre si pontos em comum, uma das formas de manifestação da religiosidade africana e afroamericana pode ser facilmente identificada: a presença da música. No caso africano, é importante entender que, os instrumentos de percussão