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cozinha, a louça, as bebidas fermentadas competiam às mulheres; encar- regavam-se os homens das derrubadas, das pescarias, das caçadas e da guerra. As guerras ferviam contínuas; a cunhã prisioneira agregava-se à tribo vitoriosa, pois vigorava a idéia da nulidade da fêmea na procriação, exatamente como a da terra no processo vegetativo; os homens eram comidos em muitas tribos no meio de festas rituais. A antropofagia não despertava repugnância e parece ter sido muito vulgarizada: algumas tri- bos comiam os inimigos, outras os parentes e amigos, eis a diferença. Viviam em pequenas comunidades. Pouco trabalho dava fincar uns paus e estender folhas por cima, carregar algumas cabaças e panelas; por isso andavam em contínuas mudanças, já necessitadas pela escassez dos animais próprios à alimentação. De rixas minúsculas surgiam separações definitivas; grassava uma fissiparidade constante. Tradição muito vulgarizada explicava grandes migrações por disputas a propósito de um papagaio. O chefe apenas possuía autoridade nominal. Maior força cabia ao poder espiritual. Acreditavam em seres luminosos, bons e inertes, que não exigiam culto, e poderes tenebrosos, maus, vingativos, que cumpria propiciar para apartar sua cólera e angariar-lhes o favor contra os perigos: eram as almas dos avós. Entre eles contava-se o curador, pajé ou caraíba, senhor da vida e da morte, que ressuscitara depois de finado e não podia mais tornar a morrer. Tinham os sentidos mais apurados, e intensidade de observação da natureza inconcebível para o homem civilizado. Não lhes faltava talento artístico, revelado em produtos cerâmicos, trançados, pinturas de cuia, más- caras, adornos, danças e músicas. Das suas lendas, que às vezes os conservavam noites inteiras acordados e atentos, muito pouco sabemos: um dos primeiros cuidados dos missionários consistia e consiste ainda em apagá-las e substituí-las. Falavam línguas diversas, quanto ao léxico, mas obedecendo ao mesmo tipo: o nome substantivo tinha passado e futuro como o verbo; o verbo in- transitivo fazia de verdadeiro substantivo; o verbo transitivo pedia dois pro- nomes, um agente e outro paciente: a primeira pessoa do plural apresentava às vezes uma flexão inclusiva e outra exclusiva; no falar comum a parataxe dominava. A abundância e flexibilidade dos supinos facilitaram a tradução de certas idéias européias. 22 J. Capistrano de Abreu Fundada no exame lingüístico a etnografia moderna conseguiu agregar em grupos certas tribos mais ou menos estreitamente conexas entre si. No primeiro entram os que falavam a língua geral, assim chamada por sua área de distribuição. Predominavam próximo de beira-mar, vindos do sertão, e formavam três migrações diversas: a dos carijós ou guaranis, desde Cananéia e Paranapanema para o sul e oeste; os tupiniquins, no Tietê, no Jequitin- honha, na costa e sertão da Bahia, na serra da Ibiapaba; os tupinambás no Rio de Janeiro, a um e outro lado do baixo S. Francisco até o Rio Grande do Norte, e do Maranhão até o Pará. O centro de irradiação das três mi- grações deve procurar-se entre o rio Paraná e o Paraguai. Nos outros grupos falavam-se as línguas travadas: os jês, repre- sentados pelos aimorés ou botocudos próximo do mar, e ainda hoje nu- merosos no interior; os cariris disseminados do Paraguaçu até o Itapicuru e talvez Mearim, em geral pelo sertão, conquanto os tremem- bés habitassem as praias do Ceará; os caraíbas, cujos representantes mais orientais são os pimenteiras, no Piauí, ainda hoje encontrados no cha- padão e na bacia do Amazonas; os maipures ou nu-aruaques, que desde a Guiana penetraram até o rio Paraguai e ainda aparecem nas cercanias de sua antiga pátria, e até no alto Purus; os panos, os guaicurus, etc., Se abstrairmos do Amazonas, onde havia muitos maipures e não pou- cos caraíbas, só os tupis e os cariris foram incorporados em grande pro- porção à atual população do Brasil. Os cariris, pelo menos na Bahia e na antiga capitania de Pernambuco, já ocupavam a beira-mar quando chegaram os portadores da língua geral. Repelidos por estes para o interior, resistiram bravamente à invasão dos colonos europeus, mas os missionários conseguiram aldear muitos e a criação de gado ajudou a conciliar outros. Talvez provenha dos cariris a ca- beça chata, comum nos sertanejos de certas zonas. Se agora examinarmos a influência do meio sobre esses povos naturais, não se afigura a indolência o seu principal característico. Indolente o indígena era sem dúvida, mas também capaz de grandes esforços, podia dar e deu muito de si. O principal efeito dos fatores antropogeográficos foi dis- pensar a cooperação. Que medidas conjuntas e preventivas se podem tomar contra o calor? Qual o incentivo para condensar as associações? Como progredir com a comunidade reduzida a meia dúzia de famílias? Capítulos de História Colonial 23 A mesma ausência de cooperação, a mesma incapacidade de ação incorporada e inteligente, limitada apenas pela divisão do trabalho e suas conseqüências, parece terem os indígenas legado aos seus sucessores. 24 J. Capistrano de Abreu Leia o texto sobre as origens de São Paulo. A estratégia da penetração para o sertão, se foi amplamente aproveitada pelos colonos de São Paulo, nasce na prática da conversão jesuítica. (...) Embora por razões opostas, tanto as incursões dos jesuítas, tímidas é verdade, não se embrenhando muito além do núcleo piratiningano, como as bandeiras e as entradas dos colonos tinham um mesmo objetivo: o índio. (Amílcar Torrão Filho, A cidade da conversão: a catequese jesuítica e a fundação de São Paulo de Piratininga. Revista USP. São Paulo, n.º 63, 2004) O fragmento apresenta parte das condições que originaram a) a guerra travada entre a Igreja Católica, a favor da escravização indígena, e os colonos paulistas, defensores do trabalho livre. b) o conflito entre colonos e religiosos pelo controle da mão de obra indígena, presente no entorno de São Paulo. c) a leitura, com forte viés ideológico, que considerava desnecessária a exagerada violência dos jesuítas contra os povos indígenas. d) o desvínculo econômico de São Paulo com o resto da colônia, diante da impossibilidade de exploração da mão de obra indígena. e) o fracasso das missões religiosas em São Paulo, pois coube apenas ao Estado português o controle direto dos indígenas. 15 - (UERN) Nos dias atuais, a Igreja Católica não possui relação direta com o governo, de modo que o governo não interfere em suas questões internas e nem a Igreja no governo. Isso ocorre devido à laicização do Estado a partir da Constituição de 1991. Porém, essa relação já foi diferente, conforme descrito a seguir. Na época da colonização, a lei determinava que o catolicismo era a religião oficial em Portugal: todos os súditos portugueses deveriam ser católicos, caso contrário estariam sujeitos à perseguição. Religiosos católicos participaram do processo de colonização, num esforço conjunto com representantes do governo português. Isso porque o governo e a Igreja estavam ligados pelo regime do , um acordo entre o Papa e o Rei, que estabelecia uma série de deveres e direitos da Coroa Portuguesa em relação à Igreja. Entre os deveres da Coroa Portuguesa estavam: garantir a expansão do catolicismo em todas as terras conquistadas pelos portugueses, construir igrejas e cuidar de sua conservação, remunerar os sacerdotes por seu trabalho religioso. Em contrapartida, eram direitos da Coroa: nomear bispos e criar dioceses, recolher o dízimo ofertado pelos fiéis à Igreja. (Cotrim, Gilberto. História Global – Brasil e Geral. Vol. Único. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 206.) Assinale a alternativa que completa corretamente o trecho anterior. a) papado b) bispado c) dizimato d) padroado 16 - (UFT TO) Fonte: MEIRELLES, Victor. A primeira Missa no Brasil. 1860. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/obras/vm_missa.htm. Acesso em:07. dez. 2013. http://www.dezenovevinte.net/obras/vm_missa.htm A pintura “A Primeira Missa no Brasil”, do artista Victor Meirelles, é considerada uma “obra-prima” da história da arte nacional. A igreja católica no processo de colonização do Brasil assumiu diversos papéis, EXCETO o de: a) aceitar o convívio com outras matrizes religiosas b) garantir a disciplina social a partir da imposição de valores morais c) fornecer parte da base ideológica da conquista e povoamento d) executar funções na área administrativa e implantar a base educacional e) disciplinar a população de acordo com os preceitos cristãos europeus 17 - (UFJF MG) Em 1534, foi criada a Companhia de Jesus, ordem religiosa oficialmente reconhecida em 1540. Os jesuítas, como são chamados até hoje os membros dessa congregação, são conhecidos pelo seu trabalho missionário e educacional. Sobre a atuação dos jesuítas no processo de formação da América Ibérica, no período colonial, é INCORRETO afirmar: a) Na América Espanhola, os jesuítas entraram em conflito com os “encomenderos”, cuja ação consistia em aprisionar e escravizar indígenas. b) Na América do Sul, na região onde hoje é o Paraguai, os jesuítas estabeleceram, desde o século XVII, um conjunto de reduções, ou missões, jesuítico-guaranis. c) Na América Portuguesa, o objetivo dos jesuítas de cristianizar os índios entrava em conflito com os interesses dos bandeirantes paulistas. d) Na América Portuguesa, os jesuítas envolveram-se, diretamente, na criação de colégios voltados para a educação da elite colonial. e) Na América Ibérica, os jesuítas foram os principais responsáveis pela difusão da Reforma Protestante e da arte sacra barroca. 18 - (ENEM)