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44 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA liberais ou republicanas não pareciam comover as populações interioranas, em geral fiéis ao rei, a quem consideravam ainda o árbitro supremo de suas existências e das de seus filhos. Isolada pelas dificuldades de comunicação e meios de transporte, a maio- ria da população parecia mal informada e indiferente aos acon- tecimentos. Na sua opinião, as agitações eram promovidas por estrangeiros e as revoluções nas províncias, obra de algumas fa- mílias ricas e poderosas. Ao viajante francês parecia que a maioria dos brasileiros não tinha opinião formada sobre a dinâmica da administração. Não divergiam entre si por motivos ideológicos, mas por rivalidades entre cidades, ódios de famílias, simpatias ou antipatias individuais ou “quejandos motivos mesquinhos quan- to estes”. Ao arguto observador não escapava a razão profunda da indiferença das camadas inferiores da sociedade. A massa popular, dizia ele, a tudo ficava indiferente, parecendo perguntar como o burro da fábula: “não terei a vida toda de carregar a alabarda?”.39 No interior do país, o que parecia valer era a atitude do che- fe local e não as idéias políticas, em geral pouco conhecidas ou mal assimiladas. A ignorância das populações do interior é re- tratada num fato ocorrido no Ceará, por ocasião do juramento das bases da Constituição portuguesa proclamada em 14 de abril de 1821. Chegada a notícia ao sertão, a palavra constituição provocou as mais variadas e contraditórias interpretações – isso numa região que participara, em 1817, da revolução realizada em nome das idéias liberais e constitucionalistas. Diziam uns ser a constituição uma inovação da forma de governo em prejuízo do rei, portanto uma impiedade, um atentado contra a religião, segundo as afinidades que estabeleciam entre Deus e o rei. Ou- tros consideravam a Constituição um atentado à liberdade dos pobres, aos quais se pretendia escravizar. Outros, finalmente, a tomavam por uma entidade palpável a que atribuíam uma per- versidade de horripilar. As populações rurais, imersas na igno- rância, seguiam os potentados locais de cuja clientela faziam parte. No Crato, a Constituição não seria jurada porque o líder político local, capitão-mor José Pereira Filgueiras, não o permi- 39 Ibidem, p.103 e 106. DA MONARQUIA À REPÚBLICA 45 tiu, enquanto no Jardim, vila próxima, onde o vigário Antônio Manuel era favorável à Constituição, esta foi jurada sem a me- nor hesitação.40 Conflito entre portugueses e brasileiros O conflito de pontos de vista entre os liberais portugueses e os brasileiros não tardou a emergir. A série de medidas toma- das pelas Cortes tornou patente a nova orientação assumida em relação ao Brasil, revelando as intenções de restringir a autonomia administrativa da colônia, limitar a liberdade de comércio, restabelecer monopólios e privilégios que os portu- gueses haviam usufruído anteriormente à transferência da Corte portuguesa para o Brasil. Antes que os representantes brasilei- ros tivessem tido tempo de chegar a Lisboa, já as Cortes deci- diam transferir para Portugal o Desembargo do Paço, a Mesa de Consciência e Ordens, o Conselho da Fazenda, a Junta de Comércio, a Casa de Suplicação e outras repartições instala- das no país por D. João VI. Decretos de setembro e outubro determinavam a volta do príncipe regente para Portugal, no- meando para cada província, na qualidade de delegado do po- der executivo, um governador de armas, independentemente das juntas governativas que se tinham criado. Ao mesmo tem- po destacavam-se novos contingentes de tropas com destino ao Rio de Janeiro e a Pernambuco. As decisões tomadas pelas Cortes repercutiram no Brasil como uma declaração de guerra, provocando tumultos e mani- festações de desagrado. Ficava patente que os deputados brasi- leiros, em número inferior ao dos representantes portugueses (75, dos quais apenas 50 compareceram, num total de 205), nada poderiam fazer em Lisboa em defesa dos interesses brasileiros. No Brasil crescia o número dos adeptos da Independência. Pro- clamações apareciam pregadas nas paredes, panfletos eram dei- 40 João Brígido, Apontamentos para a história do Cariri, p.80, 81, citado por Maria Isaura Pereira de Queiroz, O mandonismo local na vida política bra- sileira. Da colônia à Primeira República. São Paulo: Estudos de Sociolo- gia e História, 1957, p.216. 46 EMÍLIA VIOTTI DA COSTA xados no umbral das casas protestando contra a política das Cortes e concitando a população e o príncipe a resistirem.41 Os propósitos recolonizadores das Cortes tinham agravado a tensão entre colônia e metrópole, pondo em risco a solução de compromisso almejada pela maioria dos que compunham a clas- se dominante do Brasil. Estes encaravam inicialmente com sim- patia a instituição de uma monarquia dual, desde que fosse resguardada a autonomia do Brasil. Essa era a opinião, por exem- plo, de José Bonifácio, figura de proa no movimento de Inde- pendência,42 o qual encarava com suspeição as situações revolucionárias que envolviam mobilização das massas. Mas não era ele o único a se declarar inimigo da democracia e a confessar sua aversão pelas massas em geral. A aversão às formas popula- res de governo, a desconfiança em relação à massa ignara que compunha a maioria da população, o receio da revolta de escra- vos que a situação revolucionária poderia propiciar levariam es- ses homens a contemporizar, enquanto puderam, com a monarquia portuguesa. Finalmente, romperam com esta quan- do perceberam a inviabilidade dessa união. O príncipe regente lhes apareceu então como o instrumento ideal para a conquista e consolidação da autonomia desejada, sem que para isso fosse preciso mobilizar a população. O “Fico” e a Proclamação da Independência Em 9 de janeiro de 1822, o príncipe, aceitando a solicitação do Senado da Câmara do Rio de Janeiro, decidiu-se a desobede- cer às ordens de Lisboa e a permanecer no Brasil. Não se tratava ainda de uma ruptura, pois o gesto de desobediência foi saudado com gritos de Viva as Cortes, Viva a Religião, Viva a Constitui- ção, Viva El Rei Constitucional, Viva o Príncipe Constitucio- nal, Viva a União de Portugal com o Brasil. Tentava-se ainda manter aberta a possibilidade de se constituir uma monarquia dual com sede simultânea em Portugal e no Brasil, visando manter 41 Documentos para a História da Independência. Rio de Janeiro, 1923, v.1, p.361. 42 Veja-se cap.2, sobre José Bonifácio. DA MONARQUIA À REPÚBLICA 47 o Brasil como Reino Unido a Portugal. Ao mesmo tempo, pro- curava-se preservar a autonomia administrativa e comercial alcançada. Convergiram para o príncipe aspirações as mais contraditó- rias. Para os portugueses, ele representava a possibilidade de man- ter o Brasil unido a Portugal. Acreditavam eles que só a permanência do príncipe no Brasil poderia evitar um movimen- to separatista. Os brasileiros que almejavam a preservação das regalias obtidas e pretendiam a criação de uma monarquia dual consideravam também essencial a permanência do príncipe. O mesmo pensavam os que almejavam a Independência definitiva e total, mas temiam as agitações do povo. Para estes, o príncipe representava a possibilidade de realizar a Independência sem alteração da ordem. A tensão entre colônia e metrópole agravou-se depois do “Fico”. O príncipe procurou apoio entre os homens de prestígio do país e de reconhecida fidelidade à Monarquia. A idéia de monarquia dual Durante algum tempo, ainda se alimentou a esperança de manter unidas as duas Coroas. Em 23 de maio de 1822, pouco menos de quatro meses antes da Independência formal, o Senado da Câmara do Rio de Janeiro redigia uma solicitação para que fosse convocada uma Assembléia Geral das Províncias do Brasil, com o objetivo, entre outros, de deliberar sobre as justas condi- ções com que o Brasil devia permanecer unido a Portugal. Mo- narquia dual, com dois congressos, regente e tribunais brasileiros foi a sugestão apresentada em 17 de junho de 1822 às Cortes portuguesas pela Comissão encarregada dos artigos adicionaisà Constituição para o Brasil. Ainda às vésperas da Independência era essa a intenção dos conselheiros do príncipe, como revelam as Atas do Conselho.43 Numa reunião havida em 3 de junho de 1822, uma representação dirigida ao príncipe solicitando a con- 43 Atas do Conselho de Estado, 1822-1823, Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, Caixa 295. a) o governo do marechal da Costa e Silva, no qual foi decretado o Ato Institucional n. 5, que conferia ao presidente da República poderes totais para reprimir e perseguir as oposições. b) o governo do general Emílio Garrastazu Médici, caracterizado como o auge da repressão militar, no qual os direitos fundamentais do cidadão estavam suspensos. c) a consolidação do regime militar e o início do apoio dos Estados Unidos e das empresas multinacionais, o que exigiu do governo brasileiro assumir posições favoráveis aos interesses do capitalismo norte-americano. d) a forte repressão às ideias socialistas ou “comunistas”, manifestando-se com ações policiais contra várias entidades sociais que se alinhavam com essas ideias e se colocavam contra o governo do marechal Castelo Branco. e) o auge do autoritarismo, com o decreto do Ato Institucional n. 4, que dava ao governo poderes para elaborar uma Nova Constituição. 104 - (FGV) Em 1966, Carlos Lacerda procurou antigos adversários políticos, como João Goulart e Juscelino Kubitschek, com o objetivo de organizar uma alternativa política à Ditadura Militar, contornando os limites do bipartidarismo imposto pelo regime. Tal articulação ficou conhecida como a) Movimento Democrático Brasileiro. b) Anistia Ampla, Geral e Irrestrita. c) Frente Ampla. d) Frente Popular. e) Diretas Já. 105 - (UCS RS) Considere as seguintes afirmativas sobre o Regime Militar, instaurado no Brasil a partir do golpe de 1964. I Representou um período de desenvolvimento econômico, que atingiu amplos setores da sociedade brasileira, desde empresários até operários. Em especial no período Geisel de 15 de março de 1974 a 15 de março de 1979. II Decretou, durante o governo do Marechal Artur da Costa e Silva, o Ato Institucional nº 5 (AI-5), que conferia ao presidente da república poderes totais para reprimir e perseguir as oposições. Entre outras coisas, ele poderia suspender os direitos civis de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos; restringir liberdades individuais e suspender a garantia ao habeas corpus. III Extinguiu os partidos políticos e instituiu apenas dois: um para apoiar totalmente o governo (Aliança Renovadora Nacional – ARENA) e outro para fazer uma oposição dentro de limites considerados aceitáveis pelos militares (Movimento Democrático Brasileiro – MDB). Das proposições acima, a) apenas I está correta. b) apenas II está correta. c) apenas I e II estão corretas. d) apenas II e III estão corretas. e) I, II e III estão corretas. 106 - (ENEM) “É para abrir mesmo e quem quiser que eu não abra eu prendo e arrebento.” Frase pronunciada pelo presidente João Baptista Figueiredo. Apud RIBEIRO, D. Aos trancos e barrancos e o Brasil deu no que deu. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. A frase do último presidente do regime militar indicava a ambiguidade da transição política no país. Neste contexto, houve resistências internas ao processo de distensão planejado pela alta cúpula militar, que se manifestaram com a) as campanhas no rádio, TV e jornais em favor da lei de anistia. b) as posições de prefeitos e governadores em apoio à instalação de eleições diretas. c) as articulações no Congresso pela convocação de uma nova Assembleia Nacional Constituinte. d) os atos criminosos, como a explosão de bombas, de militares inconformados com o fim da ditadura. e) as articulações dos parlamentares do PDS, PMDB e PT em prol da candidatura de Tancredo Neves à presidência. 107 - (ENEM) TEXTO I A anistia pode ser considerada muito mais uma concessão do que uma conquista ou, mais precisamente, uma manobra política com duas finalidades: reduzir a pressão advinda de setores organizados contra o regime; e produzir defesas substantivas às possíveis revisões do passado com o término previsto do autoritarismo. SOARES, S. A.; PRADO, L. B. B. O processo político da anistia e os espaços de autonomia militar. In: SANTOS, CM.; TELES, E.; TELES, J. A. Desarquivando a ditadura: memória e justiça no Brasil. São Paulo: Hucitec, 2009 (adaptado). TEXTO II A anistia foi uma conquista. Não foi dádiva, foi luta. Não tem que rever. Entrevista com Therezinha de Godoy Zerbini. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 1 ago. 2012 (fragmento). A Lei de Anistia, aprovada pelo Congresso Nacional em 28 de agosto de 1979, tem sido debatida pela sociedade brasileira. Nos textos, as posições assumidas revelam a) retomada da ditadura militar em nome da unidade nacional. http://www1.folha.uol.com.br/ b) valorização dos movimentos ligados à luta armada a partir da abertura dos arquivos. c) relativização dos direitos humanos com base na experiência ditatorial brasileira. d) reescrita da história do terrorismo esquerdista para compreender o passado. e) reflexão crítica sobre o passado em função de mudanças no cenário político. 108 - (Fac. Direito de Sorocaba SP) Com o golpe militar de 1964, o modelo político no Brasil passou a ser caracterizado a) pela proibição dos partidos, autorizados a partir da lei de anistia. b) pelo autoritarismo crescente, com a imposição de atos institucionais. c) pela censura irrestrita, existindo apenas órgãos oficiais de comunicação. d) pelo fechamento do Congresso, reaberto na redemocratização dos anos 80. e) pela ausência de eleições, pois o governo indicava os ocupantes do Legislativo. 109 - (FM Petrópolis RJ) Lei de Anistia (1979) “Art. 1º É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexos com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e Indireta, de fundações vinculadas ao poder público, aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares. (…) § 2º – Excetuam-se dos benefícios da anistia os que foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro e atentado pessoal.” BRASIL. Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979. Concede anistia e dá outras providências. Brasília, DF, 1979. Disponível em: . Acesso em: 14 abr. 2015. http://www/