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A criança e a atitude autora e leitora Alfabetização e letramento Capítulo IV Introdução Prezado(a) aluno(a), eis-nos encerrando uma etapa de reflexões sobre alfabetização e letramento de pequenos a adultos... Trago esta poesia de Carlos Drummond de Andrade para pensarmos sobre o menino. Pensamentos e lembranças surgem... emergem lentamente... Lembranças da infância... Que pensamentos lhe vêm? Que lembranças emergiram? Drummond remete às lembranças da sua infância, das leituras, das histórias encantadas... E você, já leu esta obra? Conhece o personagem central Robinson Crusoé, do livro As aventuras de Robinson Crusoé, escrito por Daniel Defoe? Infância Meu pai montava a cavalo, ia para o campo, Minha mãe ficava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras Lia a história de Robinson Crusoé Comprida história que não acaba mais (...) Eu não sabia que minha história Era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Carlos Drummond de Andrade (2001) 136 Uniube O livro conta a história de um navio que naufragou e levou Crusoé, seu único sobrevivente, para uma desconhecida ilha. Robinson enfrentou muitos desafios para sobreviver e, de forma solitária, teceu suas roupas, construiu sua casa, preparou seus alimentos. Como vimos, a poesia explicita o papel que a imaginação desempenha na vida da criança, as variadas possibilidades de representação do mundo real e os modos próprios de estar e de interagir com ele. Neste sentido, nosso propósito é dar continuidade ao entrelaçamento dos fios iniciados no primeiro capítulo desta obra, que, gradativamente, foram se estruturando e possibilitando-nos a apropriação de novos conhecimentos sobre esta temática tão complexa e desafiadora: a alfabetização. Dessa forma, convido-lhe para dar continuidade a essa tessitura, a esses entrelaçamentos... Continuaremos as nossas reflexões, levando em consideração os fios delineados em capítulos anteriores, para que possamos finalizar esta tessitura neste último capítulo de estudos. Vamos lá? Uniube 137 Objetivos É nosso objetivo levá-lo(a) a • compreender a importância de as instituições escolares considerarem as variedades de usos e funções sociais da escrita, como ponto de partida para sua prática cotidiana; • conceituar a palavra “texto”; • compreender a apropriação do processo de escrita pela criança por meio das diferentes formas de expressão na escola; • compreender como as crianças se constituem autoras de suas expressões, de suas palavras, de seus modos de pensar e narrar o mundo; • compreender como ocorre o processo de aquisição da escrita e como a criança se desenvolve. Esquema 4.1 O texto 4.2 A apropriação do processo de escrita pela criança: uma necessidade ou uma habilidade? 4.3 Práticas pedagógicas com diferentes formas de expressão na escola 4.4 Considerações finais 138 Uniube O texto 4.1 Vivemos em uma sociedade imersa em escritas: os cartazes, os jornais, a internet, os letreiros de ônibus, as placas de rua, os manuais, os folhetos de propagandas e tantos outros. “No mundo em que vivemos é muito mais importante ler do que escrever”, assim afirma o professor e linguista Cagliari (2005, p. 169) (Figura 1). Figura 1 – Crianças e livros Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. Ele ainda complementa: O objetivo da escrita é a leitura, mas quem vai escrever só é capaz de fazê-lo se souber ler o que escreve. Portanto, a leitura é uma habilidade que precede a própria escrita. Por que, então, não começar a ensinar a escrever e a ler, dando mais ênfase à leitura? Vejo, assustado, os programas das aulas de alfabetização, cheios de atividades de escrita e quase nada de leitura. E, quando se fala em leitura, é para avaliar ou a pronúncia ou a capacidade de decifração de letras da escrita. Que absurdo! (CAGLIARI, 2005, p. 169) Uniube 139 E você, concorda com o professor Cagliari? As crianças podem aprender a ler antes de aprender a escrever? Ou podem aprender a ler sem aprender a escrever? Qual é a sua opinião? Então, como iniciar esse processo? Agora, reveja o que o autor afirma: “Sem dúvida; aliás, aprender a ler é mais fácil do que aprender a escrever.” (2005, p. 168). Acredito que você já foi tecendo esses conhecimentos ao longo desses estudos. Agora, neste capítulo, pretendemos finalizar a tessitura destes fios. E, para tal, veja o que diz o autor: Uma criança pode começar ouvindo histórias, [...] e se pôr a ler pequenos textos de cujo conteúdo já tem conhecimento (já ouviu) ou que sabe de cor, como canções, provérbios, adivinhações etc. Se esse tipo de atividade for intensificado, a criança passa a ter um outro tipo de contato com a escrita, que não é simplesmente um jogo de montar e desmontar sílabas e palavras. [...] Aprendidos os primeiros segredos da 140 Uniube leitura, as crianças ficam ávidas por ler [...]. (CAGLIARI, 2005, p. 168-169). Veja que interessante! “Aprendidos os primeiros segredos da leitura, as crianças ficam ávidas por ler” [...]. Sabemos que uma estratégia interessante é agrupar as crianças de forma a favorecer o diálogo, a troca, a colaboração, a circulação de informações entre elas que, com a ajuda dos já leitores e com a mediação do professor, as crianças aprenderão a ler pela prática da leitura, que será para eles uma situação de aprendizagem (CHAVES, 2017, p. 76). Nessa situação, a criança terá a oportunidade de dialogar, posicionar-se, refletir, aprender e isso favorecerá o desenvolvimento de suas próprias estratégias de leitura, inferências e resolução das questões apresentadas pelos textos. Bom, vamos então compreender o conceito da palavra texto? Será que há uma relação entre texto e tessitura? No trecho a seguir, você terá a oportunidade de compreender e conceituar a palavra “texto”. O ensino da Língua Portuguesa tem sido marcado por uma sequenciação de conteúdos que se poderia chamar de aditiva: ensina-se a juntar sílabas (ou letras) para formar palavras, a juntar palavras para formar frases e a juntar frases para formar textos. Essa abordagem aditiva levou a escola a trabalhar com “textos” que só servem para ensinar a ler. “Textos” que não existem fora da escola e, como os escritos das cartilhas, em geral, nem sequer podem ser considerados textos, pois não passam de simples agregados de frases. Se o objetivo é que o aluno aprenda a produzir e a Uniube 141 interpretar textos, não é possível tomar como unidade básica de ensino nem a letra, nem a sílaba, nem a palavra, nem a frase que, descontextualizados, pouco têm a ver com a competência discursiva*, que é questão central. Dentro desse marco, a unidade básica de ensino só pode ser o texto, mas isso não significa que não se enfoquem palavras ou frases nas situações didáticas específicas que o exijam. Um texto não se define por sua extensão. O nome que assina um desenho, a lista do que deve ser comprado, um conto ou um romance, todos são textos. A palavra “pare”, pintada no asfalto em um cruzamento, é um texto cuja extensão é a de uma palavra. O mesmo “pare”, numa lista de palavras começadas com “p”, proposta pelo professor, não é nem um texto nem parte de um texto, pois não se insere em nenhuma situação comunicativa de fato. *Competência discursiva, neste documento, está sendo compreendida como a capacidade de se produzir discursos – orais ou escritos – adequados às situações enunciativas em questão, considerando todos os aspectos e decisões envolvidos nesse processo. (BRASIL, 1997, p. 35-36). Conforme exemplo dado no trecho acima, vimos que uma simples palavra “pare” pintada no asfalto é um texto, embora a extensão, ou seja, o seu tamanho é de uma única palavra. Nesta situação comunicativa, a palavra “pare” está carregada de sentido, traz uma mensagem para os motoristas e transeuntes, portanto é um texto. Agora veja a diferença que nos esclarece a conceituação de texto: - Se a palavra “pare” estivesse escritanuma lista de palavras iniciadas com a letra “p”, não seria um texto, nem parte dele, mas sim uma simples palavra. A criança que está no processo de construção da escrita não percebe essa diferença exatamente como foi exposto anteriormente. Mas, percebe a palavra com sentido em forma de texto quando essa está carregada de sentimentos, sentidos e vivências de sua cultura. 142 Uniube Assim, quando esse fenômeno ocorre, tudo vira texto para ela e, consequentemente, desperta-a para a descoberta do mundo das palavras e para a curiosidade do não conhecido. Vejamos, agora, outra definição de texto: Como o próprio nome sugere, o texto deve ser entendido como um tecido que abriga um conjunto de marcas textuais sob as quais emerge a intencionalidade do autor, as quais são significadas pelo leitor... É preciso considerar o mundo como um texto universal e os textos oferecidos em diferentes suportes e em múltiplas linguagens, do livro à tela, como objetos do ato de ler. (RÖSING; SANTOS, 2009 p. 16-19). E qual o melhor tipo de texto para as crianças em processo de alfabetização? Para responder a essa pergunta, apresento a você um trecho de estudo dos Parâmetros Curriculares Nacionais da Língua Portuguesa – PCNs, que se refere à escolha de textos a serem trabalhados com as crianças em processo de alfabetização. Leia-o, atentamente: Analisando os textos que costumam ser considerados adequados para os leitores iniciantes, novamente aparece a confusão entre a capacidade de interpretar e produzir discurso e a capacidade de ler sozinho e escrever de próprio punho. Ao aluno são oferecidos textos curtos, de poucas frases, simplificados, às vezes, até o limite da indigência. Essa visão do que seja um texto adequado ao leitor iniciante transbordou os limites da escola e influiu até na produção editorial: livros com uma ou duas frases Uniube 143 por página e a preocupação de evitar as chamadas “sílabas complexas”. A possibilidade de se divertir, de se comover, de fruir esteticamente num texto desse tipo é, no mínimo, remota. Por trás da boa intenção de promover a aproximação entre crianças e textos há um equívoco de origem: tenta-se aproximar os textos das crianças – simplificando-os, no lugar de aproximar as crianças dos textos de qualidade. Não se formam bons leitores oferecendo materiais de leitura empobrecidos, justamente no momento em que as crianças são iniciadas no mundo da escrita. As pessoas aprendem a gostar de ler quando, de alguma forma, a qualidade de suas vidas melhora com a leitura. (BRASIL, 1997, p. 35-36) O que se pode perceber com este estudo é que o melhor livro, para se trabalhar com as crianças, é aquele que lhe traz prazer, sentido, sentimentos, enfim, significado. Para tal, o professor precisa trabalhar materiais com diferentes linguagens, por exemplo, pintura, desenhos, imagens, letras de músicas, poemas, poesias, contos de fada, de assombração, de aventura, mitos, provérbios, lendas, fábulas, piadas, textos de teatro, história em quadrinhos, poesias, receitas, adivinhas, propagandas, anúncios, bilhetes, listas, enfim, tudo aquilo que poderá fornecer à criança ampliação da sua visão cultural de leitura e de escrita. Parada para reflexão Em algum momento você já produziu algum texto por escrito sem ter muita familiaridade com o tema proposto? Tente se lembrar desse momento e reflita um pouco sobre essa experiência. 144 Uniube Segundo o material de formação docente da Secretaria de Ensino Fundamental, as situações [...] ficam um pouco mais restritas quando se trata de produzir textos por escrito, isto é, escrever textos; isto requer a coordenação de procedimentos complexos relacionados tanto com o planejamento do que se pretende expressar quanto com a própria escrita. É importante observar a distinção entre produzir textos e produzir textos por escrito, pois são dois processos diferentes. É possível produzir um texto oralmente, mesmo sem saber ainda escrevê-lo de próprio punho. Se tiver ouvido muitas histórias, uma criança que ainda não sabe ler e escrever pode criar histórias como as dos livros, utilizando inclusive a linguagem que se usa para escrever. (BRASIL, 1999, p. 90-91, grifo deles). Assim, as práticas de escrita e de leitura se complementam, relacionam- se e se modificam mutuamente no processo de letramento. É nesta perspectiva que consideramos que a relação destas duas práticas propiciará a formação de crianças leitoras que produzam textos com coesão, coerência e adequação às diferentes situações cotidianas. Acreditamos que a criança é um sujeito protagonista do seu processo de aprendizagem, mas essa não se dá no vazio, e, sim, a partir de situações significativas, de vivências coletivas e pessoais, nas quais a criança possa agir, refletir e interagir com o objeto de seu conhecimento. Nesta perspectiva, o documento Currículo Integrador da Infância Paulistana destaca: Ao longo da Educação Infantil e do Ensino Fundamental, bebês e crianças precisam de tempo e vivências para ampliar suas formas de ver, conceber e expressar o mundo através das diferentes linguagens que integram arte e ciência no complexo processo de apropriação e construção de conhecimento que envolve curiosidade, observação, atenção, percepção, pensamento, investigação, interpretação, criação Uniube 145 de hipóteses, imaginação e elaboração de teorias explicativas daquilo que vivem e observam. Tudo isso resulta em significativas aprendizagens que só acontecem pela atitude ativa da criança no meio social quando é tratada como sujeito capaz de realizar tudo isso. (SÃO PAULO, 2016, p. 17). Percebe a relevância da atitude ativa da criança no complexo processo de apropriação e construção de conhecimento? Percebe que é por meio das diversificadas vivências que a criança estabelecerá relações externas com a leitura e a escrita e isso faz com que essas ganhem significações e passam a ser internalizadas por meio das mediações que vão acontecendo? Esta concepção propicia ao educador uma prática pedagógica diferente e a sua mediação é determinante neste processo, seja no planejamento das atividades, seja na forma ousada de colaborar com cada criança. Enfim, o professor também é um sujeito atuante o tempo todo. A apropriação do processo de escrita pela criança: uma necessidade ou uma habilidade? 4.2 Agora, vamos tecer discussões sobre a apropriação do processo de escrita, na visão de Alexander Romanovich Luria. Esse pesquisador faz sua abordagem na perspectiva histórico-cultural de Vygotsky, que concebe o desenvolvimento como um processo marcado por descontinuidades e dependente da aprendizagem. Estudar esse processo de aquisição é importante, pois as crianças iniciam-no muito antes de chegar à escola, cabendo ao docente compreender como ele ocorre e como a criança se desenvolve. Ressalto, ainda, que este processo não ocorre de forma linear e harmônica, mas sim processual, de acordo com o contexto em que a criança está inserida. 146 Uniube Sabemos que, de alguma maneira, a maior parte dos contextos apresenta interação com a escrita, das mais simples, como escrever uma lista, até as mais sofisticadas e que exigem o domínio da escrita. Logo, a aquisição de habilidades da escrita ultrapassa o processo de ensino e aprendizagem no contexto da escola, tornando-se uma necessidade dos sujeitos inseridos em uma sociedade letrada (GONTIJO, 2002). No entanto, a apropriação do processo de escrita pela criança é uma necessidade, e não é uma habilidade inata, ou seja, que já nasce com ela. A escrita resulta da interação entre as pessoas, que, por necessidade de comunicação, criam signos atribuindo-lhes significados culturais. Assim, a escrita é um dos elementos da cultura aprendida, principalmente, na instituição escolar. Essa tem a função social de possibilitar a construção do conhecimento historicamente produzido pela humanidade. Saber como se desenvolve o processo de aquisiçãoda escrita é uma necessidade apontada pelo pesquisador Luria (1988), uma vez que a criança, ao escrever seus primeiros registros no caderno, não se encontra no seu primeiro estágio do desenvolvimento da escrita. Como afirma Luria (1988, p. 143), [...] se apenas pararmos para pensar na surpreendente rapidez com que uma criança aprende esta técnica extremamente complexa, que tem milhares de anos de cultura por trás de si, ficará evidente que isto só pode acontecer porque durante os primeiros anos de seu desenvolvimento, antes de atingir a idade escolar, a criança já aprendeu e assimilou um certo número de técnicas que prepara o caminho para a escrita, técnicas que a capacitam e que tornam incomensuravelmente mais fácil de aprender o conceito e a técnica da escrita. Parafraseando Luria, a autora Gontijo (2002) destaca que os rabiscos são os primeiros traços das crianças na tentativa de imitar a escrita Uniube 147 realizada pelos adultos. A escrita é carregada de significados adquiridos nos contextos culturais, portanto é muito mais que imitação de gestos ou riscos. Assim, para Luria (1988), a escrita é um meio pra recordar, para representar algum significado. Observe na Figura 2 a escrita dessa criança de 5 anos e 3 meses em que estabelece uma relação entre o desenho e a escrita: Figura 2 – Criança de 05 anos e 03 meses desenhando e escrevendo notebook, flor e caneta Fonte: Acervo da autora. 148 Uniube Figura 3 – Desenho e escrita da criança: celular, brinco, copo, boneca e óculos Fonte: Acervo da autora. Nesta abordagem, a escrita é uma criação cultural e, à medida que essas relações ocorrem, os conceitos do uso social da escrita na cultura vão sendo apropriados pela criança, muitas vezes, mesmo sem conhecer o nosso sistema de escrita. Isso quer dizer que o processo de apropriação da escrita não acontece da mesma forma, nem ao mesmo tempo para toda criança. Segundo Luria (1988), no processo de desenvolvimento da aquisição da escrita, a criança também apresenta a fase topográfica em que faz rabiscos sem relação com o conteúdo das frases faladas, produzindo o que o pesquisador chama de marcas topográficas. Para ele, essas Uniube 149 marcas, rabiscos realizados pela criança, são os primeiros rudimentos que se tornarão a escrita. De forma paralela à fase topográfica, desenvolve-se a fase pictórica, em que os desenhos têm a função simbólica do que a criança deseja representar (Figuras 4 e 5). Figuras 4 e 5 – Criança desenhando a sua família Fonte: Acervo da Autora. O desenho transforma-se, passando de simples representação para um meio, e o intelecto adquire um instrumento novo e poderoso na forma da primeira escrita diferenciada (LURIA, 1988, p. 166). Neste sentido, a escrita passa a ter para a criança valor simbólico e, em seus registros, outros elementos começam a aparecer e influenciam a escrita que se torna diferenciada. Nesta perspectiva, referindo-se ao desenvolvimento da escrita pela criança, Luria (1988, p. 161) afirma [...] que o desenvolvimento da escrita na criança prossegue ao longo de um caminho que podemos descrever como a transformação de um rabisco não diferenciado para um signo diferenciado. Linhas e rabiscos são substituídos por figuras e imagens, e estas dão lugar a signos. Nesta sequência de acontecimentos está todo o caminho do desenvolvimento da 150 Uniube escrita, tanto na história da civilização como no desenvolvimento da criança. Atualmente, sabemos que a maioria das crianças está em contato direto com o mundo letrado e a escrita está muito presente em suas vidas, conforme as figuras 6 e 7 a seguir, em que temos uma criança de 05 anos e 03 meses escrevendo e desenhando: Figura 6 – Criança desenhando e escrevendo boneca e óculos Figura 7 – Produção da criança Fonte: Acervo da Autora. Fonte: Acervo da Autora. Além do que muitas delas ingressam mais cedo na escola, permitindo- lhes (re)construir percepções e memórias sobre o processo de aquisição da escrita. E qual é a colaboração da instituição escolar e do docente no processo ensino-aprendizagem da escrita pela criança? Uniube 151 Na instituição escolar, a criança tem contato mais direto com o sistema de escrita alfabética e, desta forma, gradativamente, ela vai se apropriando dos conceitos e das regras que estruturam a escrita. Portanto, para que a criança se aproprie desse sistema, é imprescindível que o docente conheça como ela se desenvolve, como ela aprende, para assim realizar significativas mediações considerando as experiências de letramento que elas vivenciam em seus contextos. Porque “a escrita não é algo natural no desenvolvimento do ser humano, mas algo que se aprende dentro da cultura e, por isso, necessita do esforço de quem aprende e de quem ensina.” (DUARTE, 2014, p. 4). Neste enfoque, a autora Oliveira ressalta que É de fundamental importância que, desde o início, a alfabetização se dê num contexto de interação pela escrita. Por razões idênticas, deveria ser banido da prática alfabetizadora todo e qualquer discurso (texto, frase, palavra, “exercício”) que não esteja relacionado com a vida real ou o imaginário das crianças, ou em outras palavras, que não esteja por elas carregado de sentido. (OLIVEIRA, 1998, p. 70‐71). Assim, no que se refere à aquisição dos processos da escrita, é fundamental que a instituição escolar e o professor revejam seu fazer pedagógico, pois conforme os autores aqui abordados a escrita é construída a partir de necessidades dos sujeitos de se comunicarem com seus pares, sendo a escrita apreendida e significada por eles nas relações sociais ao longo de seu desenvolvimento. 152 Uniube Práticas pedagógicas com diferentes formas de expressão na escola 4.3 As autoras Lugle e Melo (2015), em seu artigo Produção de sentido para a linguagem escrita e formação da atitude leitora/autora, salientam que muitos docentes acreditam que antecipar o ensino da leitura e escrita para a primeira etapa da Educação Básica, a Educação Infantil, pode ser uma forma de combate à faceta do analfabetismo funcional e do fracasso da escola em promover a apropriação da escrita. No entanto, elas destacam que “a questão se apresenta mais complexa quando pensada e compreendida com base no enfoque histórico-cultural.” (2015, p. 188). Em capítulos anteriores, refletimos acerca de como a linguagem escrita tem sido apresentada para as crianças na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental e destacamos a importância delas vivenciarem experiências significativas envolvendo tanto a linguagem escrita como as demais formas de expressão. No entanto, quando analisamos as facetas mencionadas pelas autoras Lugle e Melo (2015), percebemos que realmente não se levam em consideração a relevância da cultura escrita como objeto cultural complexo e necessário para a vida social e para o desenvolvimento humano do sujeito, como elas apontam. Dessa forma, a partir desse pressuposto, vamos analisar duas práticas sobre a apresentação da cultura escrita numa perspectiva de formação de leitores e autores. Tal análise favorecerá a compreensão de como promover a formação de um sentido para a linguagem escrita possibilitando a apropriação da cultura escrita na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Veja agora os dois exemplos de práticas de leitura e escrita: Uniube 153 EXEMPLO 1 Imagine que uma professora alfabetizadora estava com sua turma nos espaços externos da escola, debaixo das árvores lendo uma determinada história. Num dado momento, em que a professora apresentava a obra, o autor, a capa e o título, uma criança perguntou-lhe se aquele autor era menino. A partir dessa curiosidade, a docente pensou na criação de um projeto com e para as crianças. O diálogo da professora com as crianças suscitou novas indagações e várias hipóteses emergiram, vindo à tona (Figura 8). Figura 8 – Grupo de crianças em atos de leiturae diálogo Fonte: Getty Images. Acervo Uniube. A professora leu o livro, oportunizou às crianças discutirem a história ouvida, todas se envolveram na seleção de materiais, montaram uma linha do tempo com informações sobre a vida e a obra do autor. Selecionaram fotos, imagens e etiquetaram. Perceberam o autor “menino” e na fase adulta. Leram e produziram textos diversos, desenharam, fizeram exposições e 154 Uniube uma série de atividades foi desenvolvida com as crianças, com a professora valorizando e encorajando as suas descobertas e conhecimentos. A docente oportunizou às crianças serem leitoras e autoras de suas produções. EXEMPLO 2 Uma professora do primeiro ano do Ensino Fundamental tinha como proposta alfabetizar sua turma com gibis. Percebendo o interesse da turma por eles, elaborou um projeto para ser desenvolvido com as crianças. Num dado momento, ela levou para o espaço da sala de aula uma caixa decorada com muitos gibis no seu interior que foram manuseados, lidos e explorados pela turma. Depois de todo o encantamento das crianças pelos gibis, a docente fez uma roda de conversa para a escuta atenta de cada criança que exteriorizou as suas descobertas, impressões e indagações sobre as histórias e os personagens. Fizeram oralmente o levantamento dos nomes dos personagens e, em seguida, de forma coletiva uma lista com os personagens das histórias lidas foi criada tendo como escriba a professora. As crianças entusiasmadas citaram os nomes das personagens e a docente foi registrando no quadro cada nome, levando-as a refletirem sobre o processo de construção da escrita. A professora fazia perguntas às crianças, hipóteses eram lançadas e, coletivamente, tiveram a oportunidade de refletirem e participarem deste momento de criação e descobertas. Uniube 155 As crianças também exploraram a seção de cartas dos gibis, lendo as mensagens enviadas para os personagens. Depois, em dupla, escreveram uma pequena mensagem para os personagens que mais gostavam e, quando todos finalizaram, a docente incentivou as crianças a lerem as mensagens escritas. No final, cada criança levou para casa um kit com gibis para ler. No dia seguinte, foi o momento do diálogo e da escuta atenta na qual elas contaram sobre a experiência dos gibis em casa. Um novo momento surgiu, a caracterização de cada personagem, em que logo veio à tona o Cascão com sua aversão à agua, a Magali comilona e a Mônica com seu coelho. Conversaram sobre higiene, sobre o banho, construíram uma lista de hábitos saudáveis, conversaram sobre as características dos colegas e fizeram adivinhações. As crianças fizeram um pequeno texto, citando as características dos colegas sem dizer o nome para que, ao ler, os demais adivinhassem de quem se tratava. Outro momento interessante foi o trabalho com as receitas. A turma fez uma pesquisa em casa e cada criança escreveu uma receita usada pela mãe. Em sala, trabalharam as características do texto instrucional: ingredientes e modo de fazer. Fizeram brigadeiros, organizaram-nos em bandejas, contaram e degustaram. Trabalharam os rótulos, as embalagens, a data de validade, fizeram uma lista de comidas que a Magali gostava e, em seguida, construíram a lista das comidas que a turma gostava. A professora mediando toda a situação e sempre fazendo reflexões sobre o sistema de escrita. Criaram um livro de receitas da Magali, inseriram imagens e ilustrações, assistiram pelo canal do YouTube ao vídeo “A 156 Uniube Turma da Mônica”, recontaram oralmente a história, depois em dupla, uma criança ditava e a outra escrevia a história. O desafio seguinte foi: agora vamos escrever a nossa história! Que momento encantador!!! Em momentos/dias diferentes, a professora apresentava uma dessas histórias no quadro e, coletivamente, as crianças eram instigadas a refletirem sobre a produção escrita, sobre os conhecimentos linguísticos. Para Bakhtin (2003, p.283), “a língua materna - sua composição vocabular e sua estrutura gramatical - não chega ao nosso conhecimento a partir de dicionários e gramáticas, mas de enunciações concretas [...]". Você percebe as enunciações concretas vivenciadas pelas crianças? A importância da inventividade e escuta atenta da professora que, junto com elas, viajou pelo campo da imaginação e da criação? Percebe os usos e as funções da escrita permeando todos os momentos de forma significativa? Para a pesquisadora Smolka (2003, p. 69), a relação com a língua materna “implica conhecer para quem eu escrevo, o que eu escrevo e por quê? [...] essa escrita precisa ser sempre permeada por um sentido, por um desejo, e implica ou pressupõe sempre um interlocutor”. Assim, fazendo uma relação entre as falas dos autores e os exemplos dados, podemos afirmar que foi um momento de muitas interações em que as crianças tiveram a oportunidade de criar, participar, ler, refletir, escrever e exteriorizar as suas descobertas e seus pensamentos. No Ensino Fundamental, essa relação com a cultura escrita (não com letras ou sílabas) se aprofunda e a Uniube 157 convivência das crianças com os textos escritos vai aos poucos se adensando, sem perder de vista que escrever é um ato de expressão, não se confunde com cópia nem com atividade repetitiva de escrita de letras ou números. Da mesma forma, ler é um ato de busca de significados na mensagem lida por um leitor. Essa nova compreensão do que seja ler e escrever, assim como a compreensão de como as crianças aprendem, remete à necessidade de se buscar novos procedimentos para o ensino da técnica da escrita para as crianças no Ensino Fundamental, de tal modo que o desejo da escrita seja uma necessidade vital das crianças e não uma tarefa imposta pela professora e pelo professor. (SÃO PAULO, 2016, p. 64). Vários docentes têm encontrado este caminho para trabalhar as várias áreas do conhecimento de forma interdisciplinar e criativa, atendendo aos interesses das crianças, ampliando as suas experiências e alfabetizando- as. No entanto, outros ainda não. Mas é muito importante você perceber que Os projetos vão além dos limites do currículo, pois os temas eleitos podem ser explorados de forma ampla e interdisciplinar, o que implica pesquisas, busca de informações, experiências de primeira mão, tais como visitas e entrevistas, além de possibilitarem a realização de inúmeras atividades de organização e de registro, feitas individualmente, em pequenos grupos ou com a participação de toda a turma. [...] Os projetos exigem cooperação, interesse, curiosidade, pesquisa coletiva em diferentes fontes, registros do que está sendo pesquisado como fotografias, desenhos, pinturas, colagens, maquetes, instalações, teatro, dramatizações etc. e os mais variados tipos de textos escritos. (BRASIL, 2007, p. 65-66). É dessa forma que nos constituímos leitores e autores críticos e criativos, por meio do acesso à pluralidade de linguagens e tendo a liberdade para criar relações, opinar, construir sentidos e novos conhecimentos, pois esses são produtos culturais. 158 Uniube A pesquisadora Mello (2018, p. 22) também destaca: Se, em lugar de respondermos rapidamente e de forma simplificada às perguntas das crianças, as transformamos em pequenos projetos de investigação coletiva, as crianças vão aprendendo as fontes onde podem buscar, conhecer o que lhes interessa e, também, a valorizar sua participação no processo de conhecer. Da mesma forma, quando instigamos as crianças a solucionar problemas, quando lhes damos tempo para pensar alternativas e discutir entre si, criamos nelas o prazer de resolver situações problemas. Dessa forma, Lugle e Melo (2015, p. 9) colaboram quando apontam que A necessidade de ler e de escrever não nasce com a criança. Necessidades e sentidos precisam ser constituídos nas crianças e nos alunos, isso se dá a partir das experiências vividas. No caso da linguagem escrita, sua necessidade e sentido se formam com as experiênciasvividas com a escrita. [...] A essência da leitura é compreender a intenção de comunicação de quem escreve o texto. O processo de ensinar a ler é dar, a saber, o porquê do ato de ler, é criar a necessidade de ler o mundo ao seu redor e não treinar palavras, pronúncias ou ritmo da leitura. Ampliando o conhecimento Vamos buscar em outra fonte a ampliação do que você acabou de ver. Busquemos a mestra Magda Soares (2004), no seu artigo - Letramento e alfabetização: as muitas facetas - que você pode encontrar no endereço: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n25/n25a01.pdf Uniube 159 As crianças interpretam a realidade, dão vida às suas palavras e aos seus fazeres, por meio de suas ações, criam formas de expressar o mundo. É essencial que as crianças usufruam do mundo da escrita, um mundo que não se limita às páginas do livro didático ou do caderno com atividades aleatórias. Elas precisam desempenhar a função de “produtoras, editoras e difusoras.” (JOLIBERT, 1994, p. 22). Para tal, é importante que as diferentes linguagens estejam presentes cotidianamente nos espaços, porque todas as crianças têm o direito de expressar, de representar o que viram, sentiram, fizeram e de escrever e falar sobre as suas representações. Nessa perspectiva, a criança é ativa, capaz e potente, disposta a participar, interagir com o mundo da cultura. São, portanto, sujeitos integrados desde o nascimento à inteireza da vida, que é marcada desde a tenra infância pelas circunstâncias históricas, sociais, econômicas, culturais, geográficas, políticas, religiosas, raciais, étnicas e de gênero que imprimem marcas diversas, nas formas como as crianças vivem suas infâncias. (SÃO PAULO, 2016, p. 12-13). Logo, isso tudo precisa ser considerado no desenvolvimento das práticas pedagógicas escolares, pois é com essa inteireza e riqueza de potencialidades que as crianças percebem, exploram e constroem conhecimentos nos diferentes contextos educativos. Nessa perspectiva, os espaços escolares constituem contextos privilegiados, potencializadores, que possibilitam às crianças experiências de: Ouvir histórias, narrativas, poesias, apreciar e criar desenhos, pinturas, modelagens, brincadeiras, danças, sons, músicas, explorar espaços amplos como os 160 Uniube parques e outras ações que envolvem um corpo que, na sua integralidade, sente, percebe, pensa, imagina, cria, planeja, investiga, age e se encanta com o mundo e seus diferentes contextos. (SÃO PAULO, 2016, p. 16). Assim, os professores/educadores como organizadores de experiências precisam levar em consideração estes contextos, desafios e proporcionar diariamente às crianças espaços de reflexão para que possam pensar, agir, descobrir, criar, recriar, expressar-se de forma ativa e autoral. Quer saber mais sobre procedimentos com a cultura escrita numa perspectiva de formação de crianças leitoras e autoras? Quer saber mais sobre diferentes linguagens? • Uma boa obra é a do educador e pedagogo francês Célestin Freinet (1896-1966) com suas ideias educacionais para crianças e adolescentes: As Técnicas Freinet da Escola Moderna. Assista ao vídeo • “Perigo de uma história única”: • https://m.youtube.com/watch?v=wQk17RPuhW8 Uniube 161 Considerações finais 4.4 Compreender e expressar a realidade por meio da literatura, dos contos, das fábulas, das poesias, por meio da arte feita com a palavra mobilizam nossa sensibilidade, imaginação e criação. Precisamos oferecer às crianças práticas de leitura e escrita que desenvolvam a fantasia, a imaginação, a reflexão e a crítica. Práticas que mobilizem a oralidade das crianças com a pluralidade de produções, com autores e modos de expressão diversos, incentivando-as a brincar livremente com as palavras, a buscar novas combinações, novas emoções, novos sentidos, e, dessa forma, se constituírem como autoras de suas expressões, de suas palavras, de seus modos de pensar e narrar o mundo. Para tal, o professor/educador, organizador de experiência, precisa trabalhar materiais com diferentes linguagens, por exemplo: pintura, desenhos, imagens, letras de músicas, poemas, poesias, contos de fada, de assombração, de aventura, mitos, provérbios, lendas, fábulas, piadas, textos de teatro, história em quadrinhos, poesias, receitas, adivinhas, propagandas, anúncios, bilhetes, listas, enfim, tudo aquilo que poderá fornecer à criança ampliação da sua visão cultural de leitura e de escrita. Assim, é importante que as diferentes linguagens estejam presentes cotidianamente nos espaços, porque todas as crianças têm o direito de Leia o livro: MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução Eloá Jacobina. 8. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 162 Uniube expressar, de representar o que viram, sentiram, fizeram e de escrever e falar sobre as suas representações. Tecemos discussões sobre a apropriação do processo de escrita, na visão de Alexander Romanovich Luria, cuja abordagem se deu na perspectiva histórico-cultural de Vygotsky, que concebe o desenvolvimento como um processo marcado por descontinuidades e dependente da aprendizagem. Logo, a apropriação do processo de escrita pela criança é uma necessidade, e não é uma habilidade inata, ou seja, que já nasce com ela. A escrita resulta-se da interação entre as pessoas, que, por necessidade de comunicação, criam signos atribuindo-lhes significados culturais. A autora Gontijo (2002) cita que os rabiscos são os primeiros traços das crianças na tentativa de imitar a escrita realizada pelos adultos e para Luria (1988) a escrita é um meio para recordar, para representar algum significado. Nesta abordagem, a escrita é uma criação cultural e, à medida que essas relações ocorrem, os conceitos do uso social da escrita na cultura vão sendo apropriados pela criança. A criança também apresenta, no processo de desenvolvimento da aquisição da escrita, a fase topográfica em que faz rabiscos sem relação com o conteúdo das frases faladas, produzindo o que o pesquisador Luria chama de marcas topográficas. Em muitas instituições escolares, professores continuam apresentando a escrita como treino, ou seja, treinam as crianças para que elas Uniube 163 façam a relação entre fonema e grafema, mas não as ensinam a ler. Consequentemente, a escola continua produzindo analfabetos funcionais em grande escala. Como vimos, é convivendo com os diversificados gêneros textuais que as crianças vão formando a atitude leitora. Desse modo, a cultura escrita precisa ser apresentada às crianças não de forma simplificada, fragmentada, com relações de letras, sons, sílabas, mas em sua forma social, pois, como aponta Luria (1988), é preciso ensinar a linguagem escrita, e não as letras. 164 Uniube Referências ANDRADE, Carlos Drummond. Antologia poética. Rio de Janeiro: Record, 2001. BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. 5. ed. São Paulo: Hucitec, 1990. BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003. BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa. Brasília: , Ministério da Educação. Secretaria de Ensino Fundamental, 1997. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro02.pdf. Acesso em: fev. 2022. BRASIL. Programa de desenvolvimento profissional continuado: alfabetização. Brasília: Ministério da Educação. 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