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<p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a</p><p>Política sobre Drogas para</p><p>a Infância e Adolescência</p><p>Fortalecimento da atuação</p><p>dos conselheiros tutelares</p><p>e lideranças comunitárias</p><p>na política sobre drogas</p><p>M I N I S T É R I O D A</p><p>J U S T I Ç A E</p><p>S E G U R A N Ç A P Ú B L I C A</p><p>MÓDULO 3</p><p>O Conselho Tutelar e a</p><p>Política sobre Drogas para</p><p>a Infância e Adolescência</p><p>Alyne Alvarez Silva</p><p>Amanda de Almeida Sanches</p><p>Daniel Adolpho Daltin Assis</p><p>Daniel de Souza Campos</p><p>Débora Estela Massarente Pereira</p><p>Jalusa Silva de Arruda</p><p>Jéssica Vaz Malaquias</p><p>Letícia Silva de Abreu</p><p>Luz Arinda Barba Malves</p><p>Matheus Moreira Soares</p><p>Michaela Batalha Juhásová</p><p>Rachel Gouveia Passos</p><p>Vanessa Cristina dos Santos Saraiva</p><p>GOVERNO FEDERAL</p><p>PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL</p><p>Luís Inácio Lula da Silva</p><p>MINISTRO DE ESTADO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA</p><p>PÚBLICA</p><p>Ricardo Lewandowski</p><p>SECRETÁRIA NACIONAL DE POLÍTICAS SOBRE DROGAS E</p><p>GESTÃO DE ATIVOS</p><p>Marta Rodriguez de Assis Machado</p><p>DIRETOR DE PESQUISA, AVALIAÇÃO E GESTÃO DE</p><p>INFORMAÇÕES</p><p>Mauricio Fiore</p><p>DIRETORA DE PREVENÇÃO E REINSERÇÃO SOCIAL</p><p>Nara Denilse de Araújo</p><p>COORDENADORA-GERAL DE ENSINO E PESQUISA</p><p>Natália Neris da Silva Santos</p><p>COORDENADORA DE ARTICULAÇÃO DO OBSERVATÓRIO</p><p>BRASILEIRO DE INFORMAÇÕES SOBRE DROGAS</p><p>Geórgia Belisário Mota</p><p>COORDENADORA DE ARTICULAÇÕES E PARCERIAS – CAP</p><p>Alyne Alvarez Silva</p><p>CONTEUDISTAS</p><p>Alyne Alvarez Silva</p><p>Amanda de Almeida Sanches</p><p>Daniel Adolpho Daltin Assis</p><p>Daniel de Souza Campos</p><p>Débora Estela Massarente Pereira</p><p>Jalusa Silva de Arruda</p><p>Jéssica Vaz Malaquias</p><p>Letícia Silva de Abreu</p><p>Luz Arinda Barba Malves</p><p>Matheus Moreira Soares</p><p>Michaela Batalha Juhásová</p><p>Rachel Gouveia Passos</p><p>Vanessa Cristina dos Santos Saraiva</p><p>REVISÃO DE CONTEÚDO</p><p>Jessica Santos Figueiredo</p><p>APOIO</p><p>Brenda Juliana Silva</p><p>Laudilina Quintanilha Mendes Pedretti de Andrade</p><p>Luana Rodrigues Meneses de Sá</p><p>Maria Aparecida Alves Dias</p><p>Expediente</p><p>UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA</p><p>COORDENAÇÃO GERAL</p><p>Luciano Patrício Souza de Castro</p><p>FINANCEIRO</p><p>Fernando Machado Wolf</p><p>SUPERVISÃO TÉCNICA EAD</p><p>Giovana Schuelter</p><p>SUPERVISÃO DE PRODUÇÃO DE MATERIAL</p><p>Francielli Schuelter</p><p>SUPERVISÃO DE MOODLE</p><p>Andreia Mara Fiala</p><p>SECRETARIA ADMINISTRATIVA</p><p>Elson Rodrigues Natario Junior</p><p>DESIGN INSTRUCIONAL</p><p>Supervisão: Milene Silva de Castro</p><p>Larissa Usanovich de Menezes</p><p>Sofia Santos Stahelin</p><p>DESIGN GRÁFICO</p><p>Supervisão: Mary Vonni Meurer de Lima</p><p>Cintia Ferreira de Souza</p><p>Eduardo Celestino</p><p>Giovana Aparecida dos Santos</p><p>Luana Pillmann de Barros</p><p>REVISÃO TEXTUAL</p><p>Cleusa Iracema Pereira Raimundo</p><p>PROGRAMAÇÃO</p><p>Supervisão: Alexandre Dal Fabbro</p><p>Luan Rodrigo Silva Costa</p><p>AUDIOVISUAL</p><p>Supervisão: Rafael Poletto Dutra</p><p>Andrei Krepsky de Melo</p><p>Julia Britos</p><p>Luiz Felipe Moreira Silva Oliveira</p><p>Robner Domenici Esprocati</p><p>SUPERVISÃO TUTORIA</p><p>João Batista de Oliveira Júnior</p><p>Thaynara Gilli Tonolli</p><p>TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO</p><p>Alexandre Gava Menezes</p><p>André Fabiano Dyck</p><p>Todo o conteúdo do curso Fortalecimento da atuação dos conselheiros tutelares e</p><p>lideranças comunitárias na política sobre drogas, da Secretaria Nacional de Políticas</p><p>sobre Drogas e Gestão de Ativos (SENAD), Ministério da Justiça e Segurança Pública</p><p>(MJSP) do Governo Federal - 2024, está licenciado sob a Licença Pública Creative</p><p>Commons Atribuição - Não Comercial - Sem Derivações 4.0 Internacional.</p><p>BY NC ND</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a</p><p>Política sobre Drogas para</p><p>a Infância e Adolescência</p><p>Fortalecimento da atuação</p><p>dos conselheiros tutelares</p><p>e lideranças comunitárias</p><p>na política sobre drogas</p><p>Guia de ambientação</p><p>como ler o e-book</p><p>Módulos</p><p>Este curso está dividido</p><p>em módulos. O módulo</p><p>correspondente e o conteúdo</p><p>principal estão localizados na</p><p>capa do e-book, logo abaixo</p><p>do nome do curso.</p><p>Páginas internas</p><p>As páginas internas do e-book estão</p><p>estruturadas em duas colunas.</p><p>A coluna mais estreita e externa</p><p>(à esquerda) é utilizada para enquadrar</p><p>ícones criados com a finalidade de</p><p>destacar os recursos e elementos</p><p>instrucionais, como o “VÍDEO”.</p><p>Vídeo</p><p>Os vídeos contemplam conteúdos</p><p>complementares para enriquecimento</p><p>do aprendizado e seus links estão</p><p>representados pelo recurso QR Code.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 11</p><p>Apresentação</p><p>Olá, cursista!</p><p>Este módulo divide-se em duas unidades. A primeira visa</p><p>apresentar os principais normativos referentes aos direitos</p><p>das crianças e dos adolescentes e promover uma refl exão crí-</p><p>tica sobre a relação entre a teoria e a prática dos profi ssionais</p><p>que atuam nos serviços que integram o Sistema de Garantia</p><p>dos Direitos da Criança e do Adolescente (SGDCA). Inicia com</p><p>uma revisitação à luta histórica pela constitucionalização</p><p>dos direitos da criança e do adolescente, impulsionada por</p><p>marcos legais como a Convenção sobre os Direitos da Criança,</p><p>o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Sistema de Garantias</p><p>dos Direitos da Criança e do Adolescente e a participação ativa</p><p>da sociedade civil organizada.</p><p>A segunda unidade centra-se em discussões complexas e ne-</p><p>cessárias para atuação no campo da infância e adolescência,</p><p>como intersetorialidade e interseccionalidade, retomando</p><p>princípios e propondo caminhos para a prevenção de desfe-</p><p>chos negativos relacionados ao uso de drogas e o cuidado na</p><p>perspectiva da Redução de Danos. A partir de uma perspec-</p><p>tiva histórica e direcionada para a promoção da igualdade,</p><p>apresenta como a criança em situação de rua era vista no Bra-</p><p>sil colonial e imperial e como essa compreensão se perpetua</p><p>nos dias de hoje no cotidiano e nas práticas de atores sociais.</p><p>Essa unidade fi naliza apresentando refl exões tangíveis ao</p><p>trabalho do Conselho Tutelar, como órgão permanente e autô-</p><p>nomo, não jurisdicional, como previsto no Estatuto da Criança</p><p>e do Adolescente, tomando a intersetorialidade e a intersec-</p><p>cionalidade como direções ético-políticas na condução da</p><p>prática profi ssional dos/as conselheiros/as tutelares no Brasil.</p><p>O módulo convida o/a profi ssional que atua no Sistema de</p><p>Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente (SGDCA) em</p><p>interface com o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre</p><p>Drogas (SISNAD), que lida com crianças e adolescentes em</p><p>diversos contextos e situações, a rever sua práxis cotidiana</p><p>a partir do imprescindível alinhamento com o paradigma da</p><p>proteção integral.</p><p>Aponte a câmera</p><p>do seu dispositivo</p><p>móvel (smartphone</p><p>ou tablet) para o</p><p>QR Code ao lado</p><p>e assista ao vídeo</p><p>de apresentação</p><p>do Módulo 3, ou</p><p>acesse o link:</p><p>Objetivos do módulo</p><p>� Apresentar um breve panorama dos principais</p><p>normativos referentes aos direitos das crianças</p><p>e dos adolescentes.</p><p>� Analisar como o Estatuto da Criança e do</p><p>Adolescente transcende a doutrina da situação</p><p>irregular no Brasil.</p><p>� Apresentar a definição do conceito de</p><p>interseccionalidade.</p><p>Guia de ambientação</p><p>como ler o e-book</p><p>Destaque</p><p>Trechos de conteúdos importantes para</p><p>contribuir no aprendizado do cursista.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 22</p><p>Saiba mais</p><p>Leia o documento completo das Diretrizes</p><p>Internacionais sobre Direitos Humanos e Política de</p><p>Drogas, disponível em: https://www.humanrights-</p><p>drugpolicy.org/site/assets/fi les/1672/hrdp_</p><p>guidelines_portugese_2020.pdf.</p><p>Além dos direitos humanos apresentados</p><p>no documento, as diretrizes tratam de como</p><p>eles podem ser melhor aplicados diante das</p><p>condições de especial vulnerabilidade de</p><p>crianças e adolescentes.</p><p>Nesse aspecto, considerando a Convenção sobre os Direitos</p><p>da Criança, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o</p><p>Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente</p><p>(SGDCA), as diretrizes reafi rmam que crianças e adolescentes</p><p>afetados pelas drogas são sujeitos de direitos em sua inte-</p><p>gralidade, e a eles estes devem ser garantidos seguindo seus</p><p>cinco princípios.</p><p>Ícones</p><p>Ajudam a localizar, focalizar e ressaltar</p><p>respectivos textos informativos.</p><p>Cada ícone apresenta uma função:</p><p>Para refletir</p><p>Frase ou parágrafo que incentiva</p><p>para tirar lá parecia.</p><p>A menina não tinha maldade, dinheiro ou família.</p><p>O perigo conheceu vivendo. E a vida ela aprendeu o que é perdendo.</p><p>E o mundo foi se formando para ela ponto da maneira que foi apresentado.</p><p>O mundo para ela era uma rua enfeitada que só ela podia olhar.</p><p>Ela não podia ter ponto comprar.</p><p>E naquele lugar também era proibido sonhar.</p><p>Ela não sabia nada sobre proibição.</p><p>Mas ninguém dizia que era coisa da corrupção.</p><p>Ninguém queria por perto uma menina suja, curiosa e de pés no chão.”</p><p>(“Menina dos olhos fuxiqueiros”, Sol Vasconcelos, p. 93)</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 40</p><p>“Ontem, eu vi na esquina da minha rua.</p><p>Uma menina pequena que de tão pobre parecia nua.</p><p>Além da pobreza ela trazia uma tristeza que ninguém entendia.</p><p>Ela também não dizia.</p><p>Seu sorriso de felicidade era raro aparecer.</p><p>Só os olhos é que fuxicavam o momento de acontecer.</p><p>Era pelas vitrines de lojas comuns, lanchonetes e mercearias.</p><p>A menina dos olhos fuxiqueiros, sorria.</p><p>Ninguém entendia o motivo de sua alegria.</p><p>Ela passeava sozinha pelas avenidas e vielas.</p><p>Ninguém olhava para ela.</p><p>Mas se demorasse na porta de uma loja uma pessoa para tirar lá parecia.</p><p>A menina não tinha maldade, dinheiro ou família.</p><p>O perigo conheceu vivendo. E a vida ela aprendeu o que é perdendo.</p><p>E o mundo foi se formando para ela ponto da maneira que foi apresentado.</p><p>O mundo para ela era uma rua enfeitada que só ela podia olhar.</p><p>Ela não podia ter ponto comprar.</p><p>E naquele lugar também era proibido sonhar.</p><p>Ela não sabia nada sobre proibição.</p><p>Mas ninguém dizia que era coisa da corrupção.</p><p>Ninguém queria por perto uma menina suja, curiosa e de pés no chão.”</p><p>(“Menina dos olhos fuxiqueiros”, Sol Vasconcelos, p. 93)</p><p>Certamente você já ouviu falar de “interseccionalidade”,</p><p>ultimamente comum para, de alguma forma, se referir às</p><p>formas de opressão e violações de direito.</p><p>Para refletir</p><p>Mas você sabe o que significa? Usamos para falar</p><p>de gênero e raça? Entende a interseccionalidade</p><p>pelo senso comum, somente pelo que ouve das</p><p>redes sociais, ou já parou para compreender o que</p><p>realmente quer dizer? Já parou para pensar sobre</p><p>como esse conceito pode ser útil na defesa dos</p><p>direitos humanos de crianças e adolescentes?</p><p>Como a interseccionalidade pode nos auxiliar no</p><p>acolhimento e entendimento de casos de violência</p><p>contra crianças e adolescentes?</p><p>O racismo na infância e na juventude produz impactos negativos</p><p>no desenvolvimento integral. É uma grave violação de direito</p><p>que interfere na saúde física e mental, no acesso à educação,</p><p>e cria barreiras para o mercado de trabalho, além de promover</p><p>desigualdade social.</p><p>Saiba mais</p><p>Para saber mais e refletir sobre os impactos</p><p>negativos do racismo, assista ao vídeo da</p><p>Defensoria Pública da União (DPU): “Interfaces do</p><p>Racismo”, disponível em: https://www.youtube.</p><p>com/watch?v=hwIu6v2RBGI.</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=hwIu6v2RBGI</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=hwIu6v2RBGI</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 41</p><p>Neste tópico, vamos trabalhar o conceito de interseccionalidade</p><p>e exercitar sua potencialidade analítica e operacional para os</p><p>casos e demandas que chegam para atendimento. Na área da</p><p>infância e juventude, a interseccionalidade pode funcionar</p><p>como uma ferramenta para que possamos compreender as</p><p>múltiplas formas de discriminação e opressão que impac-</p><p>tam na vida e na garantia de direitos de meninos e meninas.</p><p>Para tanto, vamos pensar em interseccionalidade como uma</p><p>espécie de lente (ou lupa!) que permitirá observarmos com</p><p>maior proximidade como categorias sociais (raça, gênero,</p><p>classe, geração etc.) se entrecruzam para criar realidades e</p><p>experiências únicas e desiguais.</p><p>Fruto das reflexões do feminismo negro, é consenso na li-</p><p>teratura especializada que o conceito de interseccionalidade</p><p>recusa a ideia de que existem modelos aditivos de opres-</p><p>são (Collins, 2000; Crenshaw, 1991). Dito de outra maneira,</p><p>quer dizer, por exemplo, que não é exatamente correto dizer</p><p>que determinada pessoa é “uma vez” discriminada por ser</p><p>negra, “duas vezes” discriminada por ser negra e pobre ou</p><p>“três vezes” discriminada por ser negra, pobre e LGBTQIAP+.</p><p>Adotar o conceito de interseccionalidade é compreender que</p><p>a experiência concreta nos cobra pensar chaves analíticas</p><p>que considerem a interconexão de raça, gênero, sexualidade,</p><p>classe, geração, território etc. Assim, em vez de “somar” ra-</p><p>ça+classe+sexualidade, o conceito nos ensina que ser negra,</p><p>pobre e LGBTQIAP+ coloca determinada pessoa num lugar</p><p>muito específico, estruturado por opressões combinadas.</p><p>Interseccionalidade</p><p>Outras</p><p>categorias</p><p>sociais</p><p>Gênero</p><p>Raça</p><p>Sexualidade</p><p>Classe</p><p>GeraçãoTerritório</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 42</p><p>Lélia Gonzalez.</p><p>Fonte: Fundação Cultural Palmares.</p><p>Nos idos de 1970, as reflexões de Lélia Gonzalez (1935-1994),</p><p>intelectual e ativista nos movimentos negro e feminista,</p><p>inovou ao sugerir a peculiaridade da interseção racismo e</p><p>sexismo para pensar a condição da mulher negra na sociedade</p><p>brasileira. Suas reflexões são consideradas pioneiras para o</p><p>que atualmente chamamos de interseccionalidade.</p><p>Saiba mais</p><p>Para saber mais sobre a história de Lélia Gonzalez,</p><p>confira o vídeo “A história e o legado de Lélia</p><p>Gonzalez”, de Brasil de Fato, disponível em: https://</p><p>www.youtube.com/watch?v=fv5_xRpHV2s.</p><p>Outro exemplo: mulheres cotidianamente enfrentam sexismo</p><p>e seus impactos, seja na vida doméstica, que pode levá-las à</p><p>exaustão por acumularem trabalho fora de casa, cuidado com</p><p>filhos e com a manutenção da casa; ou no mercado de traba-</p><p>lho, quando dados oficiais indicam que, mesmo exercendo o</p><p>mesmo cargo ou função, mulheres têm remuneração menor</p><p>do que os homens. Contudo, dentro deste cenário que atinge</p><p>as mulheres como grupo social, não podemos dizer que todas</p><p>vivenciarão opressões da mesma forma. Mulheres brancas de</p><p>classe média não irão experienciar o sexismo do mesmo modo</p><p>que mulheres negras das periferias. Isso porque, se gênero cria</p><p>certa identidade entre elas, classe e raça vão distanciar suas</p><p>experiências com o sexismo.</p><p>A interseccionalidade nos ajuda a compreender esses cenários,</p><p>uma vez que embasa a observação das seguintes questões.</p><p>Questões observáveis a partir</p><p>da interseccionalidade</p><p>Ir além de visões unidimensionais sobre</p><p>desigualdades: assim, passamos a reconhecer</p><p>que as opressões não se manifestam de forma</p><p>isolada, já que, hipoteticamente, ninguém vive e</p><p>experiencia “somente” gênero, geração ou raça,</p><p>mas sim todas essas categorias simultaneamente</p><p>e, ainda que haja identificação em razão de uma</p><p>ou outra categoria, a interrelação com as demais</p><p>pode diferenciar substancialmente as opressões</p><p>e violações de direito.</p><p>Pensar justiça e reconhecimento de maneira mais</p><p>abrangente: é fundamental reconhecermos que,</p><p>se são diversas as experiências de opressão, a</p><p>busca por respostas também deve considerar</p><p>essa multiplicidade e as necessidades específicas</p><p>de cada grupo social. Ou seja, se os dados oficiais</p><p>indicam que adolescentes e jovens negros do sexo</p><p>masculino é o segmento social mais vulnerável à</p><p>violência letal (FBSP, 2024), precisamos de</p><p>políticas públicas integradas, voltadas para a</p><p>preservação da vida e da segurança de meninos</p><p>negros. Daí cabem ações específicas de:</p><p>permanência na escola; incentivos para ações</p><p>culturais, de esporte e lazer nas comunidades;</p><p>formação continuada para agentes do sistema</p><p>de justiça e segurança pública para reconhecer</p><p>racismo em suas práticas (a exemplo do recurso</p><p>do reconhecimento por foto); incentivo às</p><p>estratégias de participação e protagonismo</p><p>juvenil; entre tantas outras.</p><p>Compreender como desigualdades estruturais</p><p>produzem desigualdades sociais que se</p><p>reproduzem nas instituições (públicas ou</p><p>privadas) e nas relações sociais: como exemplo,</p><p>não podemos esquecer que nosso passado</p><p>escravocrata</p><p>criou falta de acessos, direitos</p><p>e oportunidades para população negra que</p><p>repercutem até os dias atuais. Dados oficiais</p><p>sobre taxas de desemprego, sujeição criminal,</p><p>letalidade, entre outras, nos atestam isso.</p><p>Questões observáveis a partir</p><p>da interseccionalidade</p><p>Ir além de visões unidimensionais sobre</p><p>desigualdades: assim, passamos a reconhecer</p><p>que as opressões não se manifestam de forma</p><p>isolada, já que, hipoteticamente, ninguém vive e</p><p>experiencia “somente” gênero, geração ou raça,</p><p>mas sim todas essas categorias simultaneamente</p><p>e, ainda que haja identificação em razão de uma</p><p>ou outra categoria, a interrelação com as demais</p><p>pode diferenciar substancialmente as opressões</p><p>e violações de direito.</p><p>Pensar justiça e reconhecimento de maneira mais</p><p>abrangente: é fundamental reconhecermos que,</p><p>se são diversas as experiências de opressão, a</p><p>busca por respostas também deve considerar</p><p>essa multiplicidade e as necessidades específicas</p><p>de cada grupo social. Ou seja, se os dados oficiais</p><p>indicam que adolescentes e jovens negros do sexo</p><p>masculino é o segmento social mais vulnerável à</p><p>violência letal (FBSP, 2024), precisamos de</p><p>políticas públicas integradas, voltadas para a</p><p>preservação da vida e da segurança de meninos</p><p>negros. Daí cabem ações específicas de:</p><p>permanência na escola; incentivos para ações</p><p>culturais, de esporte e lazer nas comunidades;</p><p>formação continuada para agentes do sistema</p><p>de justiça e segurança pública para reconhecer</p><p>racismo em suas práticas (a exemplo do recurso</p><p>do reconhecimento por foto); incentivo às</p><p>estratégias de participação e protagonismo</p><p>juvenil; entre tantas outras.</p><p>Compreender como desigualdades estruturais</p><p>produzem desigualdades sociais que se</p><p>reproduzem nas instituições (públicas ou</p><p>privadas) e nas relações sociais: como exemplo,</p><p>não podemos esquecer que nosso passado</p><p>escravocrata criou falta de acessos, direitos</p><p>e oportunidades para população negra que</p><p>repercutem até os dias atuais. Dados oficiais</p><p>sobre taxas de desemprego, sujeição criminal,</p><p>letalidade, entre outras, nos atestam isso.</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=fv5_xRpHV2s</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=fv5_xRpHV2s</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 43</p><p>Questões observáveis a partir</p><p>da interseccionalidade</p><p>Ir além de visões unidimensionais sobre</p><p>desigualdades: assim, passamos a reconhecer</p><p>que as opressões não se manifestam de forma</p><p>isolada, já que, hipoteticamente, ninguém vive e</p><p>experiencia “somente” gênero, geração ou raça,</p><p>mas sim todas essas categorias simultaneamente</p><p>e, ainda que haja identificação em razão de uma</p><p>ou outra categoria, a interrelação com as demais</p><p>pode diferenciar substancialmente as opressões</p><p>e violações de direito.</p><p>Pensar justiça e reconhecimento de maneira mais</p><p>abrangente: é fundamental reconhecermos que,</p><p>se são diversas as experiências de opressão, a</p><p>busca por respostas também deve considerar</p><p>essa multiplicidade e as necessidades específicas</p><p>de cada grupo social. Ou seja, se os dados oficiais</p><p>indicam que adolescentes e jovens negros do sexo</p><p>masculino é o segmento social mais vulnerável à</p><p>violência letal (FBSP, 2024), precisamos de</p><p>políticas públicas integradas, voltadas para a</p><p>preservação da vida e da segurança de meninos</p><p>negros. Daí cabem ações específicas de:</p><p>permanência na escola; incentivos para ações</p><p>culturais, de esporte e lazer nas comunidades;</p><p>formação continuada para agentes do sistema</p><p>de justiça e segurança pública para reconhecer</p><p>racismo em suas práticas (a exemplo do recurso</p><p>do reconhecimento por foto); incentivo às</p><p>estratégias de participação e protagonismo</p><p>juvenil; entre tantas outras.</p><p>Compreender como desigualdades estruturais</p><p>produzem desigualdades sociais que se</p><p>reproduzem nas instituições (públicas ou</p><p>privadas) e nas relações sociais: como exemplo,</p><p>não podemos esquecer que nosso passado</p><p>escravocrata criou falta de acessos, direitos</p><p>e oportunidades para população negra que</p><p>repercutem até os dias atuais. Dados oficiais</p><p>sobre taxas de desemprego, sujeição criminal,</p><p>letalidade, entre outras, nos atestam isso.</p><p>Em relação à atuação do Conselho Tutelar e dos demais órgãos,</p><p>serviços e agentes do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança</p><p>e do Adolescente (SGDCA), o conceito de interseccionalidade tem</p><p>contribuições importantes. Apesar de os estudos dedicados à</p><p>área da infância e juventude desenvolvidos ao longo do tempo</p><p>terem se dedicado pouco às categorias gênero e raça, essas ca-</p><p>tegorias sociais têm repercussão direta no cenário das violações</p><p>de direito dirigidas a meninos e meninas. É a interseção entre</p><p>racismo, classismo e sexismo que conduz as meninas negras</p><p>a maior vitimização pelas violências sexuais, a terem menos</p><p>oportunidades na oferta educacional, e os meninos negros à</p><p>violência letal, tal como citado logo acima (Arruda, 2020; Eurico,</p><p>2020; Ia, 2022). Quando nos permitimos compreender cenários</p><p>a partir de vulnerabilidades específicas, podemos proporcionar</p><p>atendimento mais individualizado e humanizado por meio de:</p><p>z Criação de vínculos de confiança mediados pelo</p><p>reconhecimento das experiências individuais.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 44</p><p>z Abordagens das demandas e das necessidades com</p><p>base na integralidade, ao considerarmos as diversas</p><p>dimensões e interseções dos marcadores sociais na</p><p>vida de crianças e adolescentes. Esse ponto nos conecta</p><p>diretamente ao caráter holístico da proteção integral.</p><p>z Adequação e revisão de protocolos e instrumentais</p><p>de atendimento que, não raro, desconsideram</p><p>informações e dados sobre desigualdades e podem</p><p>impactar as situações de violações de direito.</p><p>Para nos ajudar a refletir, vejamos um caso baseado em</p><p>fatos reais.</p><p>Podcast</p><p>Dona Maria e Joaquim</p><p>Dona Maria, 40 anos, é uma mulher negra e de baixa</p><p>escolaridade. Há um ano trabalha na empresa de</p><p>limpeza urbana da capital do estado. Tem cinco</p><p>filhos, dos quais cuidou e cuida sozinha. Dois ainda</p><p>moram com ela, numa casa de poucos cômodos,</p><p>localizada na periferia da cidade, mas não muito</p><p>distante de seu posto de trabalho. Pedro, o filho</p><p>mais velho, está numa escola de tempo integral,</p><p>mas o mais novo, de cinco anos, não. Apesar de ter</p><p>passado a noite na fila, Dona Maria não conseguiu</p><p>uma vaga para Joaquim na escola de tempo integral.</p><p>Não são poucos os dias em que, sem ter com quem</p><p>contar, ainda na correria da hora do almoço, busca o</p><p>pequeno na escola e tem que ficar com ele enquanto</p><p>termina o seu turno. Tem medo de deixá-lo sozinho</p><p>em casa: defende que, com ela, o filho está mais</p><p>seguro. Enquanto desempenha seu trabalho nas</p><p>imediações, por vezes deixa o menino numa praça,</p><p>orientando-o a permanecer sob “suas vistas”.</p><p>Um dia, distraído e levado pelas brincadeiras de</p><p>outras crianças, afastou-se dos olhos da mãe.</p><p>Uma senhora, que observava há tempos o menino</p><p>volta e meia sozinho na praça, ligou para o Conselho</p><p>Tutelar, dando conta de “um menino pequeno,</p><p>sozinho na rua”. Diligência imediata, naquele dia duas</p><p>conselheiras tutelares chegaram a tempo de ver</p><p>Joaquim subindo e descendo no escorregador.</p><p>Dona Maria tentou argumentar, mas sem sucesso:</p><p>nada mudava a sentença sobre o fato de Joaquim</p><p>estar só e desprotegido, pois na rua, na praça,</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 45</p><p>estava exposto a toda sorte de influência e violência.</p><p>Era negligência, que o expunha e o colocava em</p><p>risco. Havia de ter um lugar para o menino ficar</p><p>enquanto a mãe trabalhava. Citaram as medidas</p><p>aplicadas aos pais ou responsáveis previstas no</p><p>artigo 129 do Estatuto da Criança e do Adolescente.</p><p>Poderia ser uma advertência, mas havia outras</p><p>medidas mais severas. Não teve argumento.</p><p>Com o caso acima não queremos provocar posições manique-</p><p>ístas sobre acertos ou erros pontuais, mas propor reflexões</p><p>a partir do que o conceito de interseccionalidade nos sugere.</p><p>O exercício é utilizarmos a lente da interseccionalidade</p><p>para</p><p>refletirmos o contexto e ampliarmos nosso olhar.</p><p>Glossário</p><p>Maniqueísmo: fundado</p><p>por Maniqueu no século</p><p>III, o maniqueísmo nasceu</p><p>como um movimento</p><p>religioso que tem como</p><p>principal característica</p><p>o dualismo baseado no</p><p>antagonismo entre os</p><p>conceitos de bem e mal,</p><p>luz e trevas, corpo e alma.</p><p>Com a popularização do</p><p>termo, maniqueísta passou</p><p>a ser um adjetivo usado</p><p>para descrever todas as</p><p>doutrinas e posicionamentos</p><p>fundamentados na leitura</p><p>do mundo e de seus</p><p>acontecimentos a partir da</p><p>oposição entre o bem e o mal.</p><p>Contudo, precisamos refletir criticamente</p><p>sobre as desigualdades sociais e os recursos de</p><p>sobrevivência de muitas das famílias de meninos</p><p>e meninas que chegam aos Conselhos Tutelares.</p><p>Por vezes, as violações que identificamos falam</p><p>muito mais sobre desigualdades estruturais.</p><p>Se não temos essa percepção, corremos o risco</p><p>de cair na lógica menorista, na qual a pobreza</p><p>autorizava a intervenção na vida de crianças e</p><p>adolescentes. Não podemos perder de vista</p><p>as avaliações que referem que a disfunção/</p><p>desorganização familiar ou mesmo a aparente</p><p>falta de cuidado frequentemente estão ligadas à</p><p>culpabilização feminina, especialmente no caso</p><p>de famílias pobres monoparentais chefiadas por</p><p>mulheres que, no Brasil, são de maioria negra</p><p>(Marcondes et al., 2013).</p><p>Fique por dentro</p><p>Segundo dados da Pesquisa Nacional por</p><p>Amostra de Domicílios Contínua (PNAD</p><p>Contínua), do total de famílias chefiadas por</p><p>mulheres com filhos e sem cônjuge, 62% são</p><p>negras. Mulheres são 98% dos trabalhadores</p><p>domésticos no Brasil, sendo 68% mulheres</p><p>negras. São também mulheres negras as</p><p>mais pobres dentre os pobres. Segundo o</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 46</p><p>Departamento Intersindical de Estatística e</p><p>Estudos Socioeconômicos (DIEESE), as mulheres</p><p>negras são as que mais sofrem para entrar no</p><p>mercado de trabalho e possuem as maiores taxas</p><p>de desemprego (DIEESE, 2024; IBGE, 2024).</p><p>Ora, qual alternativa seria possível para a Dona Maria? E para</p><p>Joaquim? Se olharmos tão somente para o menino na praça e</p><p>refletirmos de maneira unidimensional a situação com a qual</p><p>nos defrontamos, há pouco a fazer.</p><p>Mas se (re)conhecermos o lugar social de Dona</p><p>Maria e realizarmos o atendimento através de</p><p>uma abordagem interseccional, ao ouvi-la,</p><p>perceberemos que, no lugar de uma intervenção</p><p>em advertência, uma atuação será eficiente e</p><p>atenderá ao princípio do melhor interesse e à</p><p>doutrina da proteção integral, se buscarmos</p><p>meios de auxiliar essa mãe, que, como é comum,</p><p>é solo e não conta com uma rede de apoio, bem</p><p>como garantir escola em tempo integral para seu</p><p>filho – e dentro da perspectiva de atuação do</p><p>Conselho Tutelar, tal como previsto no Estatuto</p><p>da Criança e do Adolescente.</p><p>Longe de ser um conceito de falas variáveis para criação de</p><p>perfis sociodemográficos – ao modo de identificar gênero,</p><p>raça, condições socioeconômicas etc. –, a interseccionalidade</p><p>nos permite atenção à complexidade causal, pois se dedica a</p><p>reconhecer as especificidades daquela pessoa, naquela condi-</p><p>ção, com aquela experiência, o que pode ser muito relevante</p><p>na garantia dos direitos humanos (Arruda, 2020). Por fim,</p><p>não podemos deixar de ratificar a importância da formação</p><p>continuada para que agentes do SGDCA desenvolvam habili-</p><p>dades e competências necessárias para oferecer acolhimento</p><p>e atendimento que considerem as diversidades das opressões</p><p>que marcam as violências e as violações dos direitos humanos</p><p>de crianças e adolescentes.</p><p>Para refletir</p><p>Como você compreende intolerância religiosa?</p><p>Do ponto de vista conceitual, no Brasil,</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 47</p><p>a intolerância religiosa é expressão do racismo e,</p><p>justamente por isso, fala-se em racismo religioso.</p><p>Os relatos referentes à intolerância religiosa indicam</p><p>que o alvo de discriminação e ataques são as</p><p>religiões de matriz africana. Há notícias e relatos de</p><p>racismo religioso dirigido a crianças e adolescentes</p><p>de religiões afro-brasileiras, especialmente nas</p><p>escolas, o que pode trazer prejuízo para o acesso</p><p>à educação e o desenvolvimento da vida escolar</p><p>(Arruda; Figueiredo; Santos, 2023; Silva Júnior;</p><p>Teixeira, 2016). Você se sente preparado para</p><p>atender casos de racismo religioso contra crianças e</p><p>adolescentes? Considerando que cabe ao Conselho</p><p>Tutelar atuar em todos os casos de ameaça ou</p><p>violação de direitos do segmento infantojuvenil,</p><p>como o conceito de interseccionalidade pode</p><p>contribuir em casos do tipo?</p><p>Além disso, cabe a reflexão sobre o conceito</p><p>de branquitude. Alertar os filhos sobre como se</p><p>comportar em uma abordagem policial,</p><p>ser rotineiramente visto como “suspeito” ou,</p><p>ainda que ocupante de postos de chefia, ser</p><p>“confundido” com funções menos valorizadas:</p><p>esses são apenas alguns exemplos de fatos</p><p>corriqueiros compartilhados por negros e negras,</p><p>e que não costumam fazer parte do repertório de</p><p>experiências de pessoas brancas. Para entender por</p><p>que isso acontece, branquitude é um conceito útil.</p><p>Como padrão e referências nas relações sociais,</p><p>ser branco é não precisar pensar-se enquanto</p><p>sujeito racializado. Por isso que branquitude é</p><p>conceito que fala do lugar social e de privilégios</p><p>de pessoas brancas na sociedade. Trata das</p><p>vantagens econômicas, culturais e simbólicas das</p><p>quais os brancos e brancas desfrutam, ainda que de</p><p>modo não consciente, em sociedades marcadas</p><p>pelo racismo (Bento, 2002).</p><p>Aponte a câmera</p><p>do seu dispositivo</p><p>móvel (smartphone</p><p>ou tablet) para</p><p>o QR Code ao</p><p>lado e assista</p><p>ao vídeo sobre</p><p>interseccionalidade</p><p>e o olhar do</p><p>Conselho Tutelar,</p><p>ou acesse o link:</p><p>https://youtu.</p><p>be/2IjDp7LtoHo.</p><p>https://youtu.be/2IjDp7LtoHo</p><p>https://youtu.be/2IjDp7LtoHo</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 48</p><p>2.3 Crianças na rua, crianças de rua: o que a</p><p>história do Brasil nos conta?</p><p>A criança que circula no espaço público parece nos deixar</p><p>sempre inquietos.</p><p>A mentalidade por trás dessas afirmações precipitadas so-</p><p>bre a realidade de crianças em situação de rua é perigosa.</p><p>Tais colocações, na verdade, entendem a situação de rua como</p><p>algo incorreto, passível de um julgamento moral e racista.</p><p>Esses julgamentos apenas implicam a família em uma dita irre-</p><p>gularidade, buscando-se muitas vezes puni-la e culpabilizá-la</p><p>sem oferecer recursos para sua transformação.</p><p>A raiz dessa forma de pensar e de intervir junto a essas crianças</p><p>e suas famílias é antiga. O Brasil do século XIX traz marcas</p><p>históricas desse discurso sobre a criança negra no período</p><p>colonial e, posteriormente, no período do Império no país.</p><p>A infância vivida pelas crianças negras e escravas no Brasil</p><p>colonial difere muito daquela das crianças brancas e livres.</p><p>A criança era tomada por infante, entregue à invisibilidade,</p><p>à menoridade e à ingenuidade (Del Priore, 2013). Sem qualquer</p><p>amparo no campo da saúde, da educação, da proteção ou ainda</p><p>da preservação dos vínculos familiares, a criança escravizada</p><p>experimentava uma posição social diferente daquela reservada</p><p>às crianças brancas. Aquela era vista como adequada para o</p><p>trabalho escravo e longe de ser reconhecida como sujeito que</p><p>é. A liberação sem libertação (Mattoso, 2013) conferida pela</p><p>Lei do Ventre Livre, de 28 de setembro de 1871 (Brasil, 1871),</p><p>indica como a criança filha de mãe escrava ainda permanecia</p><p>na lógica da exploração de sujeitos negros e subalternizados</p><p>na sociedade brasileira.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 49</p><p>Art. 1° Os filhos de mulher escrava que nascerem no</p><p>Império desde a data desta lei serão considerados de</p><p>condição livre.</p><p>§ 1° Os ditos filhos menores ficarão em poder ou sob</p><p>a autoridade dos senhores de suas mães, os quais</p><p>terão a obrigação de criá-los e tratá-los até a idade</p><p>de oito anos completos.</p><p>Brasil, 1871, grifos nossos</p><p>Percebemos também que as crianças filhas de mulher escra-</p><p>vizada eram denominadas na letra da lei como “menores”.</p><p>Ao ser nomeada como “menor” e ao ter seu</p><p>desenvolvimento sob o domínio de uma concepção</p><p>pautada pela lógica da escravidão, a criança</p><p>brasileira permanece demarcada pela ausência de</p><p>direitos, de cuidados e da atenção hoje valorizada</p><p>(Azambuja, 2006). Justificava-se uma política de</p><p>repressão, visando-se a culpabilização da criança</p><p>em situação irregular. Tidos como ameaças à ordem</p><p>pública, os “menores” eram vistos apenas como</p><p>alvos das políticas assistencialistas do Estado.</p><p>O movimento higienista e a filantropia que imperaram poste-</p><p>riormente no Brasil no século XX entendiam os jovens como</p><p>errantes, passíveis das influências de famílias supostamente</p><p>disfuncionais e pobres. Retirados de seus núcleos familiares,</p><p>que supostamente seriam incapazes de prover suas necessi-</p><p>dades adequadamente, restava-lhes o espaço da rua, também</p><p>classificado pelos intervencionistas como o lugar do vício,</p><p>da prostituição, da vagabundagem (Cardozo, 2011).</p><p>2.4 As intervenções com as crianças e suas</p><p>famílias em situação de rua: o exemplo do</p><p>afastamento do lar</p><p>Já vimos como determinados grupos familiares no Brasil são</p><p>atravessados por condições de pobreza e de falta de acesso a</p><p>direitos básicos. No cenário dessas famílias, são elaboradas</p><p>políticas sociais que preveem como o Estado deverá intervir</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 50</p><p>nas ditas inadequações de cada grupo sociofamiliar. Ao Estado é</p><p>conferida a autoridade de identificar os “problemas” e oferecer</p><p>as saídas para estes.</p><p>Nesse sentido, as famílias pobres vivenciam a entrada insistente</p><p>dos equipamentos do Estado. Com seus dispositivos, o ente</p><p>público – seja na educação, na assistência social, na Justiça da</p><p>Infância ou na atuação do Conselho Tutelar – avalia a condição</p><p>de pobreza como sinônimo de negligência. Quando avaliam uma</p><p>família pobre, o Estado e seus atores justificam a retirada das</p><p>crianças de seu convívio familiar. Uma família pobre se tornou</p><p>sinônimo de uma família negligente.</p><p>Precisamos conversar sobre tais avaliações que se fazem das</p><p>famílias empobrecidas. Acredita-se que uma criança na rua</p><p>precise ser institucionalizada, como medida de cuidado, proteção</p><p>ou segurança. Diferentemente disso, as análises psicossociais</p><p>desses grupos precisam levar em consideração as determi-</p><p>nações sócio-históricas que os impactam, lembrando-se das</p><p>desigualdades existentes na sociedade brasileira, dos truncados</p><p>caminhos de acesso às políticas públicas e da própria dinâmica</p><p>de cada família (Eurico, 2018).</p><p>Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente,</p><p>a situação de pobreza ou de rua não constitui razão</p><p>para o afastamento da criança ou adolescente de</p><p>sua família. É o que diz o art. 23 do ECA: “A falta</p><p>ou a carência de recursos materiais não constitui</p><p>motivo suficiente para a perda ou a suspensão</p><p>do poder familiar” (Brasil, 1990).</p><p>Na sequência, recortamos um trecho da obra literária “Quarto</p><p>de Despejo”, escrito por Carolina Maria de Jesus.</p><p>“[...] Fiquei pensando que precisava comprar pão, sabão e leite para</p><p>Vera Eunice. E os 13 cruzeiros não dava! Cheguei em casa, aliás no meu</p><p>barraco, nervosa e exausta. Pensei na vida atribulada que eu levo. Cato</p><p>papel, lavo roupa para dois jovens, permaneço na rua o dia todo. E estou</p><p>sempre em falta. A Vera não tem sapatos.</p><p>[...] Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas os custos</p><p>dos gêneros alimenticios nos impede a realização de nossos desejos.</p><p>Atualmente somos escravos do custo de vida”.</p><p>(Jesus, 1960)</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 51</p><p>Saiba mais</p><p>Confira a entrevista dada pela filha de Carolina</p><p>Maria de Jesus, disponível em: https://www.</p><p>brasildefato.com.br/2020/10/27/o-quarto-de-</p><p>despejo-esta-vivo-afirma-filha-de-carolina-</p><p>maria-de-jesus. Há relatos ainda mais vivos sobre</p><p>a realidade da família, vivida entre a favela do</p><p>Canindé, na cidade de São Paulo, e a rua.</p><p>Na narração autobiográfica que lemos de Carolina Maria de</p><p>Jesus, descrita em seu livro “Quarto de Despejo”, fica pal-</p><p>pável a realidade da ausência de direitos que ela, enquanto</p><p>mulher negra, e suas crianças vivenciavam cotidianamente.</p><p>Faltava comida, faltava acesso, faltava usufruir da reali-</p><p>zação de seus desejos, principalmente o de saciar a fome.</p><p>A pobreza impacta diretamente no modo de vida das famílias</p><p>e, consequentemente, na forma como os adultos conseguem</p><p>promover as condições necessárias ao desenvolvimento in-</p><p>fantil e adolescente.</p><p>Não podemos nos esquecer, conforme coloca Eurico (2018),</p><p>de que a concentração de famílias em situação de rua se dá em</p><p>função do racismo, da desigualdade social, do difícil acesso à</p><p>educação formal e de qualidade e à ocupação de postos de tra-</p><p>balho dignos, do uso de álcool e outras drogas, do desemprego,</p><p>da morosidade das políticas públicas, dentre outros aspectos</p><p>dentro desse cenário tão complexo.</p><p>Em muitos casos, há a tendência à retirada de crianças e</p><p>adolescentes de seu convívio familiar, aplicando-se a me-</p><p>dida de acolhimento institucional como a melhor resposta</p><p>à situação. Nesse raciocínio, apela-se ao acolhimento como</p><p>uma medida correcional, que objetiva punir ou reeducar a</p><p>família em questão. Com essa mentalidade, se justificaria,</p><p>por exemplo, que os filhos de Carolina Maria de Jesus deves-</p><p>sem ser acolhidos institucionalmente por lhes faltar comida,</p><p>sapatos ou mesmo acesso à escola ou creche.</p><p>Ao retomarmos o Estatuto da Criança e do Adolescente,</p><p>em seu artigo 101, vemos o acolhimento institucional como</p><p>uma medida protetiva, conforme o inciso VII. Além disso,</p><p>no mesmo artigo, em seu parágrafo primeiro, há uma diretiva</p><p>importante que qualifica a medida de acolhimento:</p><p>https://www.brasildefato.com.br/2020/10/27/o-quarto-de-despejo-esta-vivo-afirma-filha-de-carolina-maria-de-jesus</p><p>https://www.brasildefato.com.br/2020/10/27/o-quarto-de-despejo-esta-vivo-afirma-filha-de-carolina-maria-de-jesus</p><p>https://www.brasildefato.com.br/2020/10/27/o-quarto-de-despejo-esta-vivo-afirma-filha-de-carolina-maria-de-jesus</p><p>https://www.brasildefato.com.br/2020/10/27/o-quarto-de-despejo-esta-vivo-afirma-filha-de-carolina-maria-de-jesus</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 52</p><p>§ 1° O acolhimento institucional e o acolhimento</p><p>familiar são medidas provisórias e excepcionais,</p><p>utilizáveis como forma de transição para</p><p>reintegração familiar ou, não sendo esta possível,</p><p>para colocação em família substituta,</p><p>não implicando privação de liberdade.</p><p>Brasil, 1990, art. 101, Incluído pela</p><p>Lei n° 12.010, de 2009</p><p>A tendência à institucionalização de crianças e adolescentes</p><p>torna-se ainda mais iminente quando mãe e/ou pai faz(em) uso</p><p>de ácool e outras drogas. Os 26 anos em que encontrávamos no</p><p>ECA, em seu artigo 19, que o direito da criança e do adolescente</p><p>de serem criados e educados no seio de sua família deveria ser</p><p>“[...] em ambiente livre da presença de pessoas dependentes de</p><p>substâncias entorpecentes” (Brasil, 1990) reforçou o estigma</p><p>contra pessoas que fazem uso de substâncias psicoativas e o</p><p>moralismo que distorce a compreensão do princípio do melhor/</p><p>superior interesse da criança, à revelia da doutrina da proteção</p><p>integral. A alteração do artigo 19, em 2016, através do Marco</p><p>Legal da 1ª Infância, suprimiu a referência à condição de uso</p><p>de drogas de responsáveis e a substituiu pela necessidade de</p><p>garantir ambiente para desenvolvimento integral das crianças,</p><p>mas não conseguiu ser absorvida por todos aqueles que atuam</p><p>no Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adoles-</p><p>cente. Em nome do que se entende por melhor interesse da</p><p>criança, viola-se o direito à convivência familiar e comunitária,</p><p>base fundamental para o pleno desenvolvimento em função</p><p>do que a constitui sujeito: o vínculo afetivo.</p><p>O mesmo artigo define como excepcional a colocação em família</p><p>substituta, já que todos os esforços devem</p><p>ser empreendidos</p><p>no sentido de manter o convívio com a família (nuclear ou</p><p>extensa, em seus diversos arranjos), a fim de garantir que o</p><p>afastamento da criança ou do adolescente do contexto familiar</p><p>seja uma medida aplicada apenas nas situações de grave risco</p><p>à sua integridade física e/ou psíquica.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 53</p><p>Vale ressaltar que esses riscos não podem ser</p><p>pressupostos de modo generalizado a partir da lente</p><p>preconceituosa contra aquelas pessoas que fazem</p><p>uso de drogas, mas devem ser aferidos caso a caso,</p><p>a partir de um olhar singular por aqueles que atuam</p><p>no Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do</p><p>Adolescente, em contato com ou nos dispositivos</p><p>do SUS ou do SUAS, e fazem dos atendimentos</p><p>verdadeiros encontros; fazem dos protocolos</p><p>rígidos dos serviços que não as alcançam, ou mesmo</p><p>as rechaçam, uma clínica ética.</p><p>A excepcionalidade de afastamento também é assegurada</p><p>pela Resolução n° 425/2021, do Conselho Nacional de Justiça</p><p>(CNJ), que institui, no âmbito do Poder Judiciário, a Política</p><p>Nacional Judicial de Atenção a Pessoas em Situação de Rua</p><p>e suas interseccionalidades. A resolução afirma, em seu</p><p>artigo 30, que:</p><p>Às crianças e adolescentes em situação de rua</p><p>é assegurado o direito à convivência familiar</p><p>e comunitária, bem como proteção integral da</p><p>família em situação de vulnerabilidade social, de</p><p>modo a evitar a separação de mães e pais e outros</p><p>cuidadores em situação de rua e seus filhos e filhas</p><p>e outros dependentes.</p><p>Conselho Nacional de Justiça, 2021</p><p>Esmiuçando essa questão, o Plano Nacional de Promoção, Prote-</p><p>ção e Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes à Convivência</p><p>Familiar e Comunitária oferece diretrizes para que o sistema de</p><p>proteção atue diante das famílias. O plano afirma a necessária</p><p>desconstrução da ideia de que as famílias são incapazes de</p><p>orientar seus filhos. Como vimos, essa mesma leitura endossa</p><p>políticas paternalistas e correcionais do Estado, privando as</p><p>famílias de sua própria competência e conduzindo a assistência</p><p>à lógica do “prender para proteger” (Brasil, 2008).</p><p>O Plano Nacional sustenta então como a Constituição e o</p><p>próprio Estatuto apontam para a preservação dos vínculos</p><p>familiares da criança como um direito. A criança não pode</p><p>ser vista dissociada de seu contexto sociofamiliar e co-</p><p>munitário (Brasil, 2008). Assim, também as intervenções</p><p>precisarão ser pensadas a partir dessa indissociabilidade.</p><p>Diante de situações de risco e/ou de fragilização de vínculos</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 54</p><p>familiares, é preciso que o Sistema de Garantia dos Direitos</p><p>esgote as possibilidades de manutenção dos laços da criança.</p><p>E é nesse ponto que o Plano Nacional nos dá uma chave de</p><p>leitura interessante para as intervenções dos atores sociais:</p><p>o apoio socioeconômico e a construção de novas formas de</p><p>interação e vínculos familiares pensados a partir das com-</p><p>petências familiares.</p><p>Foto: © [DOERS] /</p><p>Shutterstock.</p><p>Fonte: © [VectorMine]</p><p>/ Shutterstock.</p><p>2.5 Por onde então recomeçar: repensando</p><p>intervenções a partir da atuação em rede e</p><p>da competência das famílias</p><p>Como já falamos em capítulos anteriores, o modelo de rede</p><p>para o trabalho com famílias em situação de violação de di-</p><p>reitos coloca o grupo familiar, em seu contexto sociocomu-</p><p>nitário, a usufruir dos equipamentos e dos vínculos sociais</p><p>e afetivos ali dispostos. Ao mesmo tempo, atuar em rede faz</p><p>com que os profissionais encontrem parceiros e estabeleçam</p><p>relações que os fortaleçam no trabalho cotidiano. Uma rede</p><p>viva e dinâmica fortalece as relações de um sujeito ou de um</p><p>grupo como fonte do necessário senso de pertencimento,</p><p>identidade, autonomia, de competência e de ação (Monte-</p><p>ro, 2006). Assim sendo, a organização de serviços de saúde,</p><p>assistência social, educação, justiça, entre outros, em rede</p><p>favorece também a responsabilidade compartilhada e a co-</p><p>nexão horizontal entre instituições e coletivos, evitando-se</p><p>hierarquias e conflitos no exercício das competências.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 55</p><p>Pensar em rede inclui ainda intervenções que visem não ape-</p><p>nas proteger os sujeitos dos riscos, mas oferecer estratégias</p><p>que fomentem condições para que as famílias enfrentem a</p><p>vulnerabilidade e o conflito (Saidón, 2002).</p><p>Além da perspectiva do trabalho em rede, há alguns recursos</p><p>dentro do paradigma sistêmico com famílias que auxilia a</p><p>entender como é possível fortalecer as competências dos</p><p>grupos familiares, respeitando-se seu contexto sociocomu-</p><p>nitário, seu tempo, sua linguagem e seus próprios recursos.</p><p>Quando o ator social tenta a todo custo lidar com a família,</p><p>vendo-a como “disfuncional”, as intervenções almejam ape-</p><p>nas corrigir erros e são focadas nas “hábeis” estratégias do</p><p>profissional. Nessa lógica, ficam esquecidos os recursos que</p><p>podem ser resgatados com a família, a fim de que ela mesma</p><p>possa gerir sua reorganização, orientada para a restituição</p><p>de direitos e de vínculos protetivos.</p><p>É possível engajar as famílias no tempo que elas necessi-</p><p>tam para observar, experimentar e mudar (Ausloos, 1996).</p><p>Assim, a instituição precisa da chave das famílias para faci-</p><p>litar a mudança no sistema que se cria no momento de uma</p><p>intervenção psicossocial. A família precisa poder reconhecer</p><p>seus êxitos e seus fracassos e, no vínculo com as equipes,</p><p>vislumbrar a própria história, suas experiências e seus saberes.</p><p>É recomendável que os profissionais abram mão</p><p>de suas próprias hipóteses e de seus mapas de</p><p>referência. Quando isso sai um pouco de cena,</p><p>ganha força a oportunidade de a família desenvolver</p><p>suas próprias hipóteses. Nisso, elas podem</p><p>problematizar as dificuldades que lhes foram</p><p>impostas (como o desemprego, a exclusão e o</p><p>racismo) e as próprias fragilidades. Esse movimento</p><p>culmina na abertura às histórias exitosas e às</p><p>estratégias que funcionam (Ausloos, 1996).</p><p>Retomando o princípio da excepcionalidade quanto ao afas-</p><p>tamento de crianças e adolescentes do seio de sua família,</p><p>para que esse princípio possa ser aplicado, é importante que</p><p>antes se busque promover o fortalecimento, a emancipação e</p><p>a inclusão social das famílias, por meio do acesso às políticas</p><p>públicas e às ações comunitárias. Dessa forma, antes de se</p><p>considerar a hipótese do afastamento, é necessário assegurar</p><p>à família o acesso à rede de serviços públicos e o atendimento</p><p>a suas necessidades básicas singulares para que possa criar</p><p>e/ou potencializar suas condições de ofertar à criança ou ao</p><p>adolescente um ambiente seguro de convivência e de desen-</p><p>volvimento pleno.</p><p>Vejamos agora uma retomada dos principais pontos traba-</p><p>lhados neste último módulo.</p><p>Aponte a câmera</p><p>do seu dispositivo</p><p>móvel (smartphone</p><p>ou tablet) para o</p><p>QR Code ao lado</p><p>e assista ao vídeo</p><p>sobre intervenção</p><p>do Estado junto</p><p>a crianças e</p><p>adolescentes e</p><p>suas famílias em</p><p>situação de rua,</p><p>ou acesse o link:</p><p>https://youtu.be/</p><p>OIJqUOtrXsM.</p><p>https://youtu.be/OIJqUOtrXsM</p><p>https://youtu.be/OIJqUOtrXsM</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 56</p><p>SÍNTESE DO MÓDULO</p><p>Neste módulo, apresentamos os principais</p><p>normativos referentes aos direitos das crianças e</p><p>dos adolescentes com a finalidade de promover</p><p>uma reflexão crítica sobre a relação entre a</p><p>teoria e a prática dos profissionais que atuam</p><p>nos serviços que integram o Sistema de Garantia</p><p>dos Direitos da Criança e do Adolescente</p><p>(SGDCA). Discutimos concepções complexas e</p><p>necessárias para atuação no campo da infância</p><p>e adolescência, como intersetorialidade e</p><p>interseccionalidade, e propusemos caminhos para</p><p>a prevenção de desfechos negativos relacionados</p><p>ao uso de drogas e o cuidado na perspectiva da</p><p>Redução de Danos. Finalizamos nossos estudos</p><p>apresentando, a partir de uma perspectiva</p><p>histórica e antirracista, como a criança em situação</p><p>de rua era vista no Brasil colonial</p><p>e imperial e como</p><p>essa compreensão, ainda identificada nos dias de</p><p>hoje no cotidiano e nas práticas de atores sociais,</p><p>precisa ser superada. Destacamos a seguir alguns</p><p>pontos importantes para fixar:</p><p>1. No século XIX e início do século XX,</p><p>era predominante a percepção da infância</p><p>como um momento da vida de preparação</p><p>para a fase adulta. Nesse período, crianças</p><p>e adolescentes não eram enxergados como</p><p>sujeitos de direitos.</p><p>2. A Constituição Federal de 1988 (CF) foi um</p><p>marco histórico na luta pelos direitos da criança</p><p>e do adolescente. No seu artigo de n° 227,</p><p>estabelece o dever da família, da sociedade e</p><p>do Estado de assegurar direitos fundamentais</p><p>para a manutenção da vida; além de possibilitar</p><p>à criança, ao adolescente e ao jovem a proteção</p><p>social e integral, com absoluta prioridade,</p><p>em quaisquer segmentos dos serviços públicos.</p><p>3. O Estatuto da Criança e do Adolescente é um</p><p>importante instrumento jurídico e social para</p><p>promover mudanças no Brasil, pois possibilita</p><p>fomentar os interesses pelos diálogos e lutas</p><p>relacionados aos direitos infantojuvenis,</p><p>bem como reconhece ferramentas de</p><p>promoção da cidadania.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 57</p><p>4. O Sistema de Garantia dos Direitos da Criança</p><p>e do Adolescente (SGDCA), instituído pelo</p><p>Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do</p><p>Adolescente (CONANDA), em 2006, configura-</p><p>se como uma rede de promoção, defesa e</p><p>controle da efetivação dos direitos humanos</p><p>desse público.</p><p>5. As Diretrizes Internacionais sobre Direitos</p><p>Humanos e Políticas de Drogas (ONU, 2019)</p><p>reafirmam que crianças e adolescentes</p><p>afetadas/os pelas drogas são sujeitos de direitos</p><p>em sua integralidade, os quais a eles devem ser</p><p>garantidos seguindo seus cinco princípios.</p><p>6. A intersetorialidade entre as distintas</p><p>políticas públicas se dá na medida em que</p><p>identificamos procedimentos próprios de</p><p>cada política em diálogos que produzam um</p><p>campo comum de atuação, em cujo centro se</p><p>encontre o público destinatário e, ao mesmo</p><p>tempo, protagonista das ações.</p><p>7. O protagonismo infantojuvenil no âmbito da RAPS</p><p>se concretiza na medida em que, entre outras</p><p>situações, crianças e adolescentes tenham sua</p><p>opinião levada em consideração não apenas em</p><p>relação aos procedimentos de saúde,</p><p>mas também quanto à atuação de seus</p><p>responsáveis sobre seus anseios e relatos de vida.</p><p>8. O racismo na infância e na juventude produz</p><p>impactos negativos no desenvolvimento integral.</p><p>É uma grave violação de direito que interfere na</p><p>saúde física e mental, no acesso à educação e</p><p>cria barreiras para o mercado de trabalho, além</p><p>de promover desigualdade social.</p><p>9. Adotar o conceito de interseccionalidade</p><p>é compreender que a experiência concreta</p><p>nos exige analisar as situações complexas</p><p>considerando a interconexão de raça, gênero,</p><p>sexualidade, classe, geração, território, entre</p><p>outras, que criam realidades e experiências</p><p>únicas e desiguais.</p><p>10. É a intersecção entre racismo, classismo e</p><p>sexismo que conduz as meninas negras a maior</p><p>vitimização pelas violências sexuais, a terem</p><p>menos oportunidades na oferta educacional e</p><p>os meninos negros à violência letal.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 58</p><p>11. Acredita-se que uma criança na rua precise ser</p><p>institucionalizada, como medida de cuidado,</p><p>proteção ou segurança. Segundo o Estatuto da</p><p>Criança e do Adolescente, a situação de pobreza</p><p>ou de rua não constitui razão para o afastamento</p><p>da criança ou adolescente de sua família.</p><p>12. O Plano Nacional de Promoção, Proteção e</p><p>Defesa do Direito de Crianças e Adolescentes</p><p>à Convivência Familiar e Comunitária oferece</p><p>diretrizes para que o sistema de proteção atue</p><p>diante das famílias, partindo da imprescindível</p><p>preservação dos vínculos familiares da criança</p><p>como um direito.</p><p>13. Antes de se considerar a hipótese do</p><p>afastamento da criança ou adolescente de</p><p>seu seio familiar, é necessário assegurar à</p><p>família o acesso à rede de serviços públicos</p><p>e o atendimento a suas necessidades</p><p>básicas singulares para que possa criar e/</p><p>ou potencializar suas condições de ofertar à</p><p>criança ou ao adolescente um ambiente seguro</p><p>de convivência e de desenvolvimento pleno.</p><p>Você finalizou o Módulo 3!</p><p>Esperamos que o curso tenha promovido reflexões proveitosas</p><p>e contribuições para sua rotina profissional.</p><p>Referências</p><p>ARRUDA, J. S. de. “Nos versos me seguro”: uma etnografia</p><p>documental da trajetória de meninas na medida socioeducativa</p><p>de internação no estado da Bahia. 2020. Tese (Doutorado em</p><p>Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas,</p><p>Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2020.</p><p>ARRUDA, J. S. de; FIGUEIREDO, O. V. A.; SANTOS, E. 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Branqueamento e branquitude no Brasil.</p><p>In: CARONE, I.; BENTO, M. A. S. (org.). Psicologia social do</p><p>racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento. 2. ed.</p><p>Petrópolis: Vozes, 2002. p. 25-57.</p><p>BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República</p><p>Federativa do Brasil. Promulgada em 5 de outubro de 1988.</p><p>Organização do texto por Juarez de Oliveira. 4. ed. São Paulo:</p><p>Saraiva, 1990. 168 p. (Série Legislação Brasileira).</p><p>BRASIL. Lei n° 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o</p><p>Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.</p><p>Brasília, DF: Presidência da República, 1990. Disponível em:</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm. Acesso</p><p>em: 5 set. 2024.</p><p>BRASIL. Ministério dos Direitos Humanos. Sistema Nacional</p><p>de Atendimento Socioeducativo (SINASE). 2024. Disponível</p><p>em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/</p><p>crianca-e-adolescente/acoes-e-programas/atendimento-</p><p>-socioeducativo. Acesso em: 25 jul. 2024.</p><p>BRASIL. Plano Nacional de Convivência Familiar e Comuni-</p><p>tária. Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adoles-</p><p>cente-CONANDA, Brasília/DF, 2008.</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS n° 2.198, de 6</p><p>de dezembro de 2023. Institui a Estratégia Antirracista para</p><p>a Saúde no âmbito do Ministério da Saúde. Diário Oficial da</p><p>União: seção 1, Brasília, DF, 7 dez. 2023. p. 126.</p><p>https://doi.org/10.21879/faeeba2358-0194.2023.v32.n69.p106-124</p><p>https://doi.org/10.21879/faeeba2358-0194.2023.v32.n69.p106-124</p><p>https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/view/1022</p><p>https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/view/1022</p><p>https://www.tjrj.jus.br/documents/10136/30354/codigo_mello_mattos_seus_reflexos.pdf</p><p>https://www.tjrj.jus.br/documents/10136/30354/codigo_mello_mattos_seus_reflexos.pdf</p><p>https://www.tjrj.jus.br/documents/10136/30354/codigo_mello_mattos_seus_reflexos.pdf</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/crianca-e-adolescente/acoes-e-programas/atendimento-socioeducativo</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/crianca-e-adolescente/acoes-e-programas/atendimento-socioeducativo</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/crianca-e-adolescente/acoes-e-programas/atendimento-socioeducativo</p><p>BRASIL. Decreto n° 3.597, de 12 de setembro de 2000. Regu-</p><p>lamenta a Convenção 182 da Organização Internacional do</p><p>Trabalho (OIT). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF,</p><p>13 set. 2000. p. 4.</p><p>BRASIL. Decreto n° 6.481, de 12 de junho de 2008. Institui</p><p>a Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP).</p><p>Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 13 jun. 2008. p.1.</p><p>BRASIL. Decreto n° 17.943-A, de 12 de outubro de 1927. Ins-</p><p>titui o Código de Menores (Código Mello Mattos). Brasília,</p><p>DF: Presidência da República, 1927. Disponível em: https://</p><p>www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-1929/d17943a.</p><p>htm. Acesso em: 2 set. 2024.</p><p>BRASIL. Lei n° 2.040, de 28 de setembro de 1871. Declara de</p><p>condição livre os filhos de mulher escrava que nascerem no</p><p>Império desde a data desta Lei. Coleção das Leis do Império</p><p>do Brasil, 1871.</p><p>BRASIL. Lei n° 12.435, de 6 de julho de 2011. Altera a Lei n°</p><p>8.742, de 7 de dezembro de 1993, que dispõe sobre a orga-</p><p>nização da Assistência Social. Brasília, DF: Presidência da</p><p>República, 2011. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/</p><p>CCivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12435.htm. Acesso em:</p><p>2 set. 2024.</p><p>BRASIL. Lei n° 12.594, de 18 de janeiro de 2012. Institui o</p><p>Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase).</p><p>Brasília, DF: Presidência da República, 2012. Disponível em:</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/</p><p>lei/l12594.htm. Acesso em: 2 set. 2024.</p><p>BRASIL. Lei n° 14.819, de 16 de janeiro de 2024. Institui a</p><p>Política Nacional de Atenção Psicossocial nas Comunidades</p><p>Escolares. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 17 jan.</p><p>2024. p. 4.</p><p>BUSS, P. M.; PELLEGRINI FILHO, A. A Saúde e seus Deter-</p><p>minantes Sociais. PHYSIS: Revista de Saúde Coletiva, Rio de</p><p>Janeiro, v. 17, n. 1, p. 77-93, 2007. 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Brasília, DF: CNJ, 2021.</p><p>Disponível em: https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/4169.</p><p>Acesso em: 5 set. 2024.</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-1929/d17943a.htm</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-1929/d17943a.htm</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1910-1929/d17943a.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12435.htm</p><p>http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12435.htm</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12594.htm</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12594.htm</p><p>https://www.scielo.br/j/physis/a/msNmfGf74RqZsbpKYXxNKhm/?format=pdf&lang=pt</p><p>https://www.scielo.br/j/physis/a/msNmfGf74RqZsbpKYXxNKhm/?format=pdf&lang=pt</p><p>https://www.scielo.br/j/physis/a/msNmfGf74RqZsbpKYXxNKhm/?format=pdf&lang=pt</p><p>https://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/4169</p><p>CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA E DO</p><p>ADOLESCENTE (CONANDA). Resolução n° 113, de 19 de abril</p><p>de 2006. Dispõe sobre os parâmetros para a institucionali-</p><p>zação e fortalecimento do Sistema de Garantia dos Direitos</p><p>da Criança e do Adolescente. Brasília, DF: CONANDA, 2006.</p><p>Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-in-</p><p>formacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-di-</p><p>reitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/</p><p>resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/</p><p>view. Acesso em: 5 set. 2024.</p><p>CONSELHO NACIONAL DOS DIREITOS DAS CRIANÇAS E DOS</p><p>ADOLESCENTES (CONANDA). Resolução n° 119, de 11 de de-</p><p>zembro de 2006. Dispõe sobre o Sistema Nacional de Aten-</p><p>dimento Socioeducativo e dá outras providências. Brasília,</p><p>DF: CONANDA, 2006. Disponível em: https://www.gov.br/</p><p>participamaisbrasil/blob/baixar/7721. Acesso em: 5 set. 2024.</p><p>CRENSHAW, K. Mapping the margins: intersectionality, identity</p><p>politics, and violence against women of color. 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Disponível em:</p><p>https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2024/07/</p><p>anuario-2024.pdf. Acesso em: 20 jul. 2024.</p><p>GALDEANO, Ana Paula; ALMEIDA, Ronaldo (coord.). Tráfico de</p><p>drogas entre as piores formas de trabalho infantil: mercados,</p><p>famílias e rede de proteção social. São Paulo: CEBRAP, 2018.</p><p>INSTITUTO ALIANÇA COM O ADOLESCENTE. Percepções</p><p>e sentidos: racismo, sexismo e intolerância religiosa na</p><p>infância e juventude em Salvador e no Recôncavo Baiano.</p><p>Elaboração: Jalusa Silva de Arruda; Natasha Maria Wangen</p><p>Krahn; Otto Vinicius Agra Figueiredo. Salvador: OIT, MPT,</p><p>UNICEF, Instituto Aliança com o Adolescente, 2022.</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/participamaisbrasil/blob/baixar/7721</p><p>https://www.gov.br/participamaisbrasil/blob/baixar/7721</p><p>https://www.dieese.org.br/boletimespecial/2024/mulheres2024.pdf</p><p>https://www.dieese.org.br/boletimespecial/2024/mulheres2024.pdf</p><p>https://www.humanrights-drugpolicy.org/site/assets/files/1672/hrdp_guidelines_portugese_2020.pdf</p><p>https://www.humanrights-drugpolicy.org/site/assets/files/1672/hrdp_guidelines_portugese_2020.pdf</p><p>https://www.humanrights-drugpolicy.org/site/assets/files/1672/hrdp_guidelines_portugese_2020.pdf</p><p>https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2024/07/anuario-2024.pdf</p><p>https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2024/07/anuario-2024.pdf</p><p>IBGE. PNAD Contínua – Pesquisa Nacional por Amostra de</p><p>Domicílios Contínua. 2024. Disponível em: https://www.</p><p>ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9171-pesquisa-na-</p><p>cional-por-amostra-de-domicilios-continua-mensal.html.</p><p>Acesso em: 20 jul. 2024.</p><p>JESUS, C. M. de. Quarto de despejo: diário de uma favelada.</p><p>3. ed. São Paulo: Editora José Olympio, 1960.</p><p>LORENZI, G. W. Uma breve história dos direitos da criança e</p><p>do adolescente no Brasil. Fundação Telefônica,</p><p>30 nov. 2016.</p><p>Disponível em: http://www.ipardes.pr.gov.br/pdf/indices/</p><p>IDHM_municipios_pr.pdf. Acesso em: 18 jul. 2024.</p><p>MARCONDES, M. M. et al. Dossiê mulheres negras: retrato</p><p>das condições de vida das mulheres negras no Brasil. Brasília:</p><p>IPEA, 2013.</p><p>MATTOSO, Kátia Queiroz. O filho da escrava. In: DEL PRIORE,</p><p>M. (org.). História das crianças no Brasil. São Paulo: Editora</p><p>Contexto, 2013.</p><p>MONTERO, M. Teoría y Práctica de la Psicologia Comunitaria:</p><p>La tensión entre comunidad y sociedad. 1. ed. Buenos Aires:</p><p>Paidós, 2006.</p><p>NOTO A. R. et al. (org.). Levantamento Nacional sobre o Uso de</p><p>Drogas entre Crianças e Adolescentes em Situação de Rua nas</p><p>27 Capitais Brasileiras. São Paulo, CEBRID, 2004. Disponível</p><p>em: https://www.cebrid.com.br/wp-content/uploads/2012/10/</p><p>Levantamento-Nacional-sobre-o-Uso-de-Drogas-entre-</p><p>-Crian%C3%A7as-e-Adolescentes-em-Situa%C3%A7%-</p><p>C3%A3o-de-Rua-nas-27-Capitais-Brasileiras-2003.pdf.</p><p>Acesso em: 2 set. 2024.</p><p>ONU. Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime.</p><p>Diretrizes Internacionais sobre a Prevenção do uso de Drogas.</p><p>2014. Disponível em: https://www.unodc.org/documents/</p><p>lpo-brazil/Topics_drugs/Publicacoes/Prevention_Stan-</p><p>dards_portugues-_Arquivo_Final.pdf. Acesso em: 15 jul. 2024.</p><p>PYL, B. O trabalho infantil no tráfico de drogas e a punição das</p><p>vítimas. Criança Livre de Trabalho Infantil, 2018. Disponível</p><p>em: https://livredetrabalhoinfantil.org.br/especiais/trabalho-</p><p>-infantil-sp/reportagens/o-trabalho-infantil-no-trafico-de-</p><p>-drogas-e-a-punicao-das-vitimas/. Acesso em: 2 set. 2024.</p><p>SANTOS, R. C. F. dos. Adolescentes em conflito com a lei:</p><p>repercussão da pobreza multidimensional não monetária</p><p>na criminalidade do município de Wenceslau Braz – PR.</p><p>Ponta Grossa, 2019.</p><p>SAIDÓN, Oscar. Las redes: pensar de outro modo. In: DABAS,</p><p>E.; NAJMANOVICH, D. (org.). Redes: El lenguaje de los vínculos.</p><p>Hacia la reconstrucción y el fortalecimiento de la sociedad</p><p>civil. Buenos Aires: Paidós, 2002. p. 203-207.</p><p>SARAIVA, V. C. da S. Diálogos e mediações sobre o Conselho Tu-</p><p>telar, racismo institucional e intersetorialidade. Praia Vermelha:</p><p>estudos de política e teoria social (UFRJ), v. 28, p. 675-698, 2018.</p><p>https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9171-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-mensal.html</p><p>https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9171-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-mensal.html</p><p>https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/trabalho/9171-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios-continua-mensal.html</p><p>http://www.ipardes.pr.gov.br/pdf/indices/IDHM_municipios_pr.pdf</p><p>http://www.ipardes.pr.gov.br/pdf/indices/IDHM_municipios_pr.pdf</p><p>https://www.cebrid.com.br/wp-content/uploads/2012/10/Levantamento-Nacional-sobre-o-Uso-de-Drogas-entre-Crian%C3%A7as-e-Adolescentes-em-Situa%C3%A7%C3%A3o-de-Rua-nas-27-Capitais-Brasileiras-2003.pdf</p><p>https://www.cebrid.com.br/wp-content/uploads/2012/10/Levantamento-Nacional-sobre-o-Uso-de-Drogas-entre-Crian%C3%A7as-e-Adolescentes-em-Situa%C3%A7%C3%A3o-de-Rua-nas-27-Capitais-Brasileiras-2003.pdf</p><p>https://www.cebrid.com.br/wp-content/uploads/2012/10/Levantamento-Nacional-sobre-o-Uso-de-Drogas-entre-Crian%C3%A7as-e-Adolescentes-em-Situa%C3%A7%C3%A3o-de-Rua-nas-27-Capitais-Brasileiras-2003.pdf</p><p>https://www.cebrid.com.br/wp-content/uploads/2012/10/Levantamento-Nacional-sobre-o-Uso-de-Drogas-entre-Crian%C3%A7as-e-Adolescentes-em-Situa%C3%A7%C3%A3o-de-Rua-nas-27-Capitais-Brasileiras-2003.pdf</p><p>https://www.unodc.org/documents/lpo-brazil/Topics_drugs/Publicacoes/Prevention_Standards_portugues-_Arquivo_Final.pdf</p><p>https://www.unodc.org/documents/lpo-brazil/Topics_drugs/Publicacoes/Prevention_Standards_portugues-_Arquivo_Final.pdf</p><p>https://www.unodc.org/documents/lpo-brazil/Topics_drugs/Publicacoes/Prevention_Standards_portugues-_Arquivo_Final.pdf</p><p>https://livredetrabalhoinfantil.org.br/especiais/trabalho-infantil-sp/reportagens/o-trabalho-infantil-no-trafico-de-drogas-e-a-punicao-das-vitimas/</p><p>https://livredetrabalhoinfantil.org.br/especiais/trabalho-infantil-sp/reportagens/o-trabalho-infantil-no-trafico-de-drogas-e-a-punicao-das-vitimas/</p><p>https://livredetrabalhoinfantil.org.br/especiais/trabalho-infantil-sp/reportagens/o-trabalho-infantil-no-trafico-de-drogas-e-a-punicao-das-vitimas/</p><p>SILVA JÚNIOR, H.; TEIXEIRA, D. (org.). Discriminação racial</p><p>é sinônimo de maus-tratos: a importância do ECA para a</p><p>proteção das crianças negras. São Paulo: Centro de Estudos</p><p>das Relações de Trabalho e Desigualdades, 2016.</p><p>VASCONCELOS, S. Menina dos olhos fuxiqueiros. In: SARAU</p><p>DA ONÇA (org.). O diferencial da favela: poesias e contos de</p><p>quebrada. Vitória da Conquista: Galinha Pulando, 2017. p. 93.</p><p>M I N I S T É R I O D A</p><p>J U S T I Ç A E</p><p>S E G U R A N Ç A P Ú B L I C A</p><p>REALIZAÇÃO</p><p>o</p><p>cursista à reflexão, trazendo perguntas</p><p>retóricas, reflexões ou questões que são</p><p>respondidas logo depois do recurso.</p><p>Saiba mais</p><p>Ao clicar no link, você é direcionado</p><p>para documentos disponibilizados na</p><p>internet, como leis e normas técnicas.</p><p>É preciso estar conectado à internet para</p><p>acessar o conteúdo.</p><p>Podcast</p><p>Este recurso apresenta de maneira</p><p>transcrita o trecho do conteúdo que</p><p>foi narrado e apresentado em formato</p><p>áudio na versão on-line do curso.</p><p>Citação</p><p>Transcrições exatas de partes dos</p><p>conteúdos dos autores utilizados</p><p>nos materiais didáticos.</p><p>Fique por dentro</p><p>Recurso utilizado para destacar</p><p>acontecimentos e marcos importantes</p><p>relacionados à temática do curso.</p><p>Glossário</p><p>Recurso utilizado para</p><p>explicar termos que</p><p>podem ser desconhecidos</p><p>ao cursista.</p><p>SÍNTESE DO MÓDULO</p><p>Trecho de conteúdo que contempla uma</p><p>síntese dos pontos mais importantes</p><p>vistos no módulo.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 40</p><p>O mundo para ela era uma rua enfeitada que só ela podia olhar.</p><p>Ela não podia ter ponto comprar.</p><p>E naquele lugar também era proibido sonhar.</p><p>Ela não sabia nada sobre proibição.</p><p>Mas ninguém dizia que era coisa da corrupção.</p><p>Ninguém queria por perto uma menina suja, curiosa e de pés no chão.</p><p>(“Menina dos olhos fuxiqueiros”, Sol Vasconcelos, p. 93)</p><p>Certamente você já ouviu falar de “interseccionalidade”,</p><p>ultimamente comum para, de alguma forma, se referir às</p><p>formas de opressão e violações de direito</p><p>Para refl etir</p><p>Mas você sabe o que signifi ca? Usamos para falar</p><p>de gênero e raça? Entende a interseccionalidade</p><p>pelo senso comum, somente pelo que ouve das</p><p>redes sociais, ou já parou para compreender o que</p><p>realmente quer dizer? Já parou para pensar sobre</p><p>como esse conceito pode ser útil na defesa dos</p><p>direitos humanos de crianças e adolescentes?</p><p>Como a interseccionalidade pode nos auxiliar no</p><p>acolhimento e entendimento de casos de violência</p><p>contra crianças e adolescentes?</p><p>O racismo na infância e na juventude produz impactos negativos</p><p>no desenvolvimento integral. É uma grave violação de direito</p><p>que interfere na saúde física e mental, no acesso à educação,</p><p>e cria barreiras para o mercado de trabalho, além de promover</p><p>desigualdade social.</p><p>Saiba mais</p><p>Para saber mais e refl etir sobre os impactos</p><p>negativos do racismo, assista ao vídeo da</p><p>Defensoria Pública da União (DPU): “Interfaces do</p><p>Racismo”, disponível em: https://www.youtube.</p><p>com/watch?v=hwIu6v2RBGI.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 23</p><p>Conheça cada um desses princípios no infográfi co a seguir.</p><p>Dignidade humana: é da dignidade inerente à pessoa</p><p>humana que derivam nossos direitos. Nenhuma lei, política</p><p>ou prática relativa às drogas deveria prejudicar ou violar</p><p>a dignidade de qualquer pessoa ou grupo de pessoas.</p><p>Igualdade no tratamento e não discriminação: todos são</p><p>iguais perante a lei e têm direito a igual proteção</p><p>e benefício, incluindo o gozo de todos os direitos</p><p>humanos sem discriminação por vários motivos (como</p><p>estado de saúde, que inclui dependência de drogas).</p><p>Acesso a todos os seus direitos: universalidade</p><p>e interdependência de direitos, inclusive nos contextos</p><p>de política de drogas, assistência ao desenvolvimento,</p><p>assistência à saúde e justiça criminal.</p><p>Participação na vida pública, podendo manifestar-se</p><p>sobre quaisquer leis e políticas públicas: inclui o direito</p><p>e avaliação das leis, políticas e práticas sobre drogas,</p><p>particularmente pelas pessoas diretamente afetadas.</p><p>Direito à proteção dos seus direitos pelo Estado: todo</p><p>Estado tem a obrigação de respeitar e proteger</p><p>os direitos humanos de todas as pessoas dentro de seu</p><p>território e sujeitas à sua jurisdição. Todos têm o direito</p><p>de solicitar e receber informações sobre como os Estados</p><p>cumpriram suas obrigações de direitos humanos</p><p>no contexto da política de drogas.</p><p>Os cinco princípios das Diretrizes Internacionais sobre</p><p>Direitos Humanos e Políticas de Drogas</p><p>Os cinco</p><p>princípios</p><p>das Diretrizes</p><p>Interacionais</p><p>Assim, crianças e adolescentes têm direito à proteção contra</p><p>drogas, devendo o Estado brasileiro e seus agentes públicos</p><p>tomar todas as medidas apropriadas (legislativas, adminis-</p><p>trativas, sociais e educacionais) para que elas não façam uso</p><p>ilícito de entorpecentes e substâncias psicotrópicas e para</p><p>impedir a exploração de crianças e adolescentes na produção</p><p>e no tráfi co de tais substâncias.</p><p>Glossário</p><p>Medidas apropriadas:</p><p>são baseadas em evidências</p><p>e compatíveis com normas</p><p>mais amplas de direitos</p><p>humanos.</p><p>Guia de ambientação</p><p>como ler o e-book</p><p>Siglas</p><p>AGNU – Assembleia Geral das Nações Unidas</p><p>CAPSi – Centro de Atenção Psicossocial Infantil</p><p>CDC – Convenção sobre os Direitos da Criança</p><p>CF – Constituição Federal</p><p>CNJ – Conselho Nacional de Justiça</p><p>CONANDA – Conselho Nacional dos Direitos da Criança e</p><p>do Adolescente</p><p>DIEESE – Departamento Intersindical de Estatística e</p><p>Estudos Socioeconômicos</p><p>DPU – Defensoria Pública da União</p><p>ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente</p><p>LGBTQIAP+ – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais/</p><p>Transgêneros/Travestis, Queer, Intersexual, Assexual,</p><p>Pansexual e demais orientações sexuais e identidades de gênero</p><p>Lista TIP – Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil</p><p>OIT – Organização Internacional do Trabalho</p><p>PNAD Contínua – Pesquisa Nacional por Amostra de</p><p>Domicílios Contínua</p><p>PTI – Projeto Terapêutico Institucional</p><p>PTS – Projeto Terapêutico Singular</p><p>SGDCA – Sistema de Garantia dos Direitos da Criança</p><p>e do Adolescente</p><p>SINASE – Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo</p><p>SISNAD – Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas</p><p>UAI – Unidade de Acolhimento Infantil</p><p>Sumário</p><p>Apresentação 11</p><p>Unidade 1 | Infância, adolescência e os</p><p>instrumentos legais, nacionais e internacionais,</p><p>para as políticas sobre drogas no Brasil 14</p><p>1.1 Afinal, o que era “ser criança” antes do ECA? 14</p><p>1.2. Avanços nas legislações em prol da defesa</p><p>dos direitos da criança e do adolescente 16</p><p>1.3 O Sistema de Garantia dos Direitos da</p><p>Criança e do Adolescente 19</p><p>1.4 Diretrizes Internacionais sobre Direitos</p><p>Humanos e Política de Drogas, seus princípios e</p><p>as obrigações resultantes dos direitos humanos</p><p>para crianças 20</p><p>Unidade 2 | A importância da intersetorialidade</p><p>e o papel dos Conselhos Tutelares 30</p><p>2.1 A intersetorialidade no cuidado de crianças e</p><p>adolescentes e suas famílias na Rede de Atenção</p><p>Psicossocial, Rede de Proteção Social e sistema</p><p>educacional 30</p><p>2.2 Interseccionalidades: infância, adolescência</p><p>e relações étnico-raciais 39</p><p>2.3 Crianças na rua, crianças de rua: o que a</p><p>história do Brasil nos conta? 48</p><p>2.4 As intervenções com as crianças e suas</p><p>famílias em situação de rua: o exemplo do</p><p>afastamento do lar 49</p><p>2.5 Por onde então recomeçar: repensando</p><p>intervenções a partir da atuação em rede e da</p><p>competência das famílias 54</p><p>Referências 59</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 11</p><p>Apresentação</p><p>Olá, cursista!</p><p>Este módulo divide-se em duas unidades. A primeira visa</p><p>apresentar os principais normativos referentes aos direitos</p><p>das crianças e dos adolescentes e promover uma reflexão crí-</p><p>tica sobre a relação entre a teoria e a prática dos profissionais</p><p>que atuam nos serviços que integram o Sistema de Garantia</p><p>dos Direitos da Criança e do Adolescente (SGDCA). Inicia com</p><p>uma revisitação à luta histórica pela constitucionalização</p><p>dos direitos da criança e do adolescente, impulsionada por</p><p>marcos legais como a Convenção sobre os Direitos da Criança,</p><p>o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Sistema de Garantia</p><p>dos Direitos da Criança e do Adolescente e a participação ativa</p><p>da sociedade civil</p><p>organizada.</p><p>A segunda unidade centra-se em discussões complexas e ne-</p><p>cessárias para atuação no campo da infância e adolescência,</p><p>como intersetorialidade e interseccionalidade, retomando</p><p>princípios e propondo caminhos para a prevenção de desfe-</p><p>chos negativos relacionados ao uso de drogas e o cuidado na</p><p>perspectiva da Redução de Danos. A partir de uma perspec-</p><p>tiva histórica e direcionada para a promoção da igualdade,</p><p>apresenta como a criança em situação de rua era vista no Bra-</p><p>sil colonial e imperial e como essa compreensão se perpetua</p><p>nos dias de hoje no cotidiano e nas práticas de atores sociais.</p><p>Essa unidade finaliza apresentando reflexões tangíveis ao</p><p>trabalho do Conselho Tutelar, como órgão permanente e autô-</p><p>nomo, não jurisdicional, como previsto no Estatuto da Criança</p><p>e do Adolescente, tomando a intersetorialidade e a intersec-</p><p>cionalidade como direções ético-políticas na condução da</p><p>prática profissional dos/as conselheiros/as tutelares no Brasil.</p><p>O módulo convida o/a profissional que atua no Sistema de</p><p>Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente (SGDCA) em</p><p>interface com o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre</p><p>Drogas (SISNAD), que lida com crianças e adolescentes em</p><p>diversos contextos e situações, a rever sua práxis cotidiana</p><p>a partir do imprescindível alinhamento com o paradigma da</p><p>proteção integral.</p><p>Aponte a câmera</p><p>do seu dispositivo</p><p>móvel (smartphone</p><p>ou tablet) para o</p><p>QR Code ao lado</p><p>e assista ao vídeo</p><p>de apresentação</p><p>do Módulo 3, ou</p><p>acesse o link:</p><p>https://youtu.be/</p><p>wvdyAjcdTMg</p><p>Objetivos do módulo</p><p>z Apresentar um breve panorama dos principais</p><p>normativos referentes aos direitos das crianças</p><p>e dos adolescentes.</p><p>z Analisar como o Estatuto da Criança e do</p><p>Adolescente transcende a doutrina da situação</p><p>irregular no Brasil.</p><p>z Apresentar a definição do conceito de</p><p>interseccionalidade.</p><p>https://youtu.be/wvdyAjcdTMg</p><p>https://youtu.be/wvdyAjcdTMg</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 12</p><p>z Discorrer a respeito dos marcadores sociais de</p><p>classe, gênero e raça na infância e adolescência e de</p><p>seus atravessamentos no curso do desenvolvimento</p><p>desses sujeitos.</p><p>z Abordar aspectos da intersetorialidade entre as políticas</p><p>de saúde mental, educacional e socioassistencial no</p><p>âmbito da infância e adolescência.</p><p>z Propor reflexões complexas sobre as dinâmicas</p><p>presentes nas interfaces práticas entre saúde mental,</p><p>assistência social e educação, no mesmo ciclo de vida.</p><p>z Apresentar as Diretrizes Internacionais sobre</p><p>Direitos Humanos e Política de Drogas e as</p><p>obrigações resultantes dos direitos humanos para</p><p>crianças e adolescentes.</p><p>z Apresentar um recorte histórico das práticas sociais</p><p>direcionadas a famílias e crianças em situações de</p><p>rua no Brasil.</p><p>z Problematizar intervenções voltadas para o controle e</p><p>a tutela de famílias historicamente vulnerabilizadas.</p><p>z Apresentar possibilidades de atenção à</p><p>complexidade da demanda de famílias em situação</p><p>de rua a partir da atuação em rede.</p><p>Módulo 3</p><p>Unidade 1</p><p>Infância, adolescência e os</p><p>instrumentos legais, nacionais e</p><p>internacionais, para as políticas</p><p>sobre drogas no Brasil</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 14</p><p>Unidade 1</p><p>Infância, adolescência e os</p><p>instrumentos legais, nacionais e</p><p>internacionais, para as políticas</p><p>sobre drogas no Brasil</p><p>As normativas legais precisam ser o ponto de partida das</p><p>intervenções que visam a garantia dos direitos de crian-</p><p>ças, adolescentes, jovens e suas famílias para o profissional</p><p>que as executa nos serviços da rede pública ou privada que</p><p>compõem o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do</p><p>Adolescente (SGDCA). O Conselho Tutelar emerge do Estatuto</p><p>da Criança e do Adolescente como um dos atores sociais que</p><p>são responsáveis por sustentar a mudança paradigmática</p><p>referente ao tratamento da infância e da adolescência no</p><p>Brasil. Assim, a posição do Conselho Tutelar está pautada</p><p>por diretrizes internacionais e nacionais que sustentam o</p><p>seu status diante da Justiça da Infância, da sociedade e das</p><p>famílias atendidas.</p><p>Nesta seção, abordaremos a essencial articulação entre a Con-</p><p>venção sobre os Direitos da Criança, o Estatuto da Criança e</p><p>do Adolescente (ECA) e o Sistema de Garantia dos Direitos da</p><p>Criança e do Adolescente (SGDCA), alinhados às diretrizes so-</p><p>ciais referentes ao cuidado integral de crianças e adolescentes</p><p>do país. Um breve resgate histórico apresentará a conformação</p><p>da ideia de proteção social obtida na contemporaneidade e</p><p>como ainda se faz necessário avançar em pontos alusivos à</p><p>operacionalização dos serviços. É importante salientar que</p><p>este texto não objetiva esgotar o debate relativo à garantia de</p><p>direitos de crianças e adolescentes, mas sim contribuir para</p><p>novas construções coletivas que fortaleçam as diretrizes do</p><p>Estatuto da Criança e do Adolescente e demais mecanismos</p><p>de garantia dos direitos para com essa parcela da população.</p><p>1.1 Afinal, o que era “ser criança” antes</p><p>do ECA?</p><p>Antes do Estatuto da Criança e do Adolescente, em 1990,</p><p>o imaginário social referente à infância e à juventude era</p><p>distinto da atualidade. No século XIX e início do século XX,</p><p>era predominante a percepção da infância como um momento</p><p>da vida de preparação para a fase adulta. Nesse período, crianças</p><p>e adolescentes não eram enxergados como sujeitos de direitos.</p><p>Esse pensamento era potencialmente mais prejudicial para</p><p>crianças e adolescentes negros e empobrecidos, duplamen-</p><p>te marginalizados. Instaurada pela lógica colonial, a então</p><p>perspectiva impactou na conformação de legislações que</p><p>reforçaram o controle sobre classes subalternizadas para</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 15</p><p>criminalizar esses públicos através de práticas com visões</p><p>repressivas, por meio da instauração do Código Penal Brasi-</p><p>leiro em 1830 (Código Criminal do Império) e posteriormente</p><p>no Código Penal de 1890.</p><p>O Código Penal Brasileiro de 1830 fixou a idade</p><p>de responsabilidade penal objetiva aos 14 anos e</p><p>facultou ao juiz a possibilidade de [...] mandá-la</p><p>para a cadeia a partir dos 7 anos. Portanto, o Brasil</p><p>adota critério biopsicológico entre 7 e 14 anos para</p><p>afirmar que a partir dos 14 se é tratado como adulto.</p><p>Tal modificação na legislação penal foi realizada</p><p>para permitir que D. Pedro II fosse considerado</p><p>‘adulto’ aos 14 anos, emancipado, e passasse a</p><p>governar o Brasil. José Bonifácio de Andrada e Silva</p><p>seria seu tutor até completar esta ‘nova’ maioridade.</p><p>Azevedo, 2007, p. 4</p><p>Com relação à inimputabilidade, o Código Penal</p><p>Brasileiro de 1890 fixou-a para aqueles que</p><p>gozassem de menos de 09 (nove) anos, sendo</p><p>que aqueles com idade entre 09 (nove) anos e</p><p>14 (catorze) anos, ao praticarem algum ilícito e</p><p>apresentando discernimento dos seus atos, deveriam</p><p>responder pela conduta. O Código continuou</p><p>O Código de Menores de 1927, instituído pelo Decreto de</p><p>n° 17.943-A, de 12 de outubro de 1927, também conhecido</p><p>como Código Mello Mattos (Brasil, 1927), foi um marco ins-</p><p>titucional para alocar a infância e a juventude na considerada</p><p>“situação irregular”, por meio do recolhimento às instituições</p><p>e aplicação de medidas corretivas, ao priorizar a sanção em</p><p>detrimento da promoção de direitos e seus desenvolvimentos.</p><p>Faz-se necessário expor que a condição de “irregularidade” se</p><p>referia aos fatos que o Estado considerava como transtornos à</p><p>ordem natural, como situação de rua, abandono, entre outros,</p><p>e que ensejariam o recolhimento da criança ou do adolescente</p><p>em uma instituição para “correção”.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 16</p><p>refletindo um retrocesso que se iniciou com o Código</p><p>Penal do Império, pois manteve a imputabilidade</p><p>penal abaixo dos 18 (dezoito) anos, apenas alterou a</p><p>idade de 07 (sete) anos para 09 (nove) anos.</p><p>Santos, 2019, p. 33</p><p>Exemplar do Código Penal de 1890.</p><p>Fonte:</p><p>Arquivo Nacional.</p><p>O Estado brasileiro não estava preocupado em construir</p><p>novas abordagens e mediações para a infância e a juventude.</p><p>Reforçavam-se práticas de inserção de crianças e adoles-</p><p>centes no trabalho, ações doutrinárias e massiva institu-</p><p>cionalização no intento de corrigir esse público e evitar</p><p>futuros problemas aos cidadãos da época, em um processo</p><p>chamado “Era do Menorismo” (Saraiva, 2018).</p><p>1.2. Avanços nas legislações em prol da defesa</p><p>dos direitos da criança e do adolescente</p><p>A Constituição Federal de 1988 (CF) foi um marco histórico</p><p>na luta pelos direitos da criança e do adolescente. No artigo</p><p>227, a CF estabelece o dever da família, da sociedade e do Es-</p><p>tado em assegurar direitos fundamentais para a manutenção</p><p>da vida, além de possibilitar à criança, ao adolescente e ao</p><p>jovem a proteção social e integral, com absoluta prioridade,</p><p>em quaisquer segmentos dos serviços públicos.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 17</p><p>PELOS DIREITOS DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES</p><p>Esse marco histórico apresentou</p><p>significativa mudança na</p><p>conjuntura dos direitos da criança</p><p>e do adolescente; contudo,</p><p>a construção dos diálogos e sua</p><p>constitucionalização não ocorreu</p><p>de forma solitária. Os movimentos</p><p>organizados da sociedade civil,</p><p>os representantes governamentais</p><p>dos debates sobre crianças e</p><p>adolescentes e os juristas foram</p><p>essenciais para a materialização de</p><p>uma nova direção social no âmbito</p><p>da prevenção, da proteção e do</p><p>cuidado integral (Lorenzi, 2024).</p><p>O Movimento Nacional dos Meninos de Rua, na década de</p><p>1980, é de suma importância na composição desses paradig-</p><p>mas enquanto fenômeno social que responde à demanda de</p><p>situação de rua, na qual se encontravam milhares de crianças e</p><p>adolescentes nos principais centros metropolitanos e capitais</p><p>do país. A Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) é outro</p><p>fator crucial à ampliação do cenário pós-promulgação da CF.</p><p>Adotada em 1989 pela Assembleia Geral das Nações Unidas,</p><p>a CDC, descrita como um tratado internacional, elucida os</p><p>direitos previstos às crianças, sem quaisquer discriminações</p><p>baseadas em raça, etnia, gênero, religião, posição econômica</p><p>e demais marcadores sociais.</p><p>Vista panorâmica do Salão da</p><p>Assembleia Geral da ONU durante as</p><p>deliberações e a adoção da Convenção</p><p>sobre os Direitos da Criança, em 20 de</p><p>novembro de 1989.</p><p>Foto: © UNICEF / Democracia e</p><p>mundo do trabalho.</p><p>Ademais, evidencia o protagonismo de crianças e adoles-</p><p>centes nas determinações que os afetam e na garantia de</p><p>direitos como a proteção contra a discriminação, o direito</p><p>à vida, à saúde, à educação e à liberdade de pensamento e</p><p>práticas religiosas.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 18</p><p>A CDC impactou globalmente nas decisões pertinentes à</p><p>promoção de direitos universais para crianças e adolescentes,</p><p>influenciou na elaboração de políticas públicas infantojuve-</p><p>nis e nas atuações da sociedade civil organizada. As inter-</p><p>locuções entre esses atores possibilitaram o fortalecimento</p><p>da discussão pertinente aos direitos fundamentais para</p><p>crianças e adolescentes, além do desuso da nomenclatura</p><p>“menor”, firmados na Lei n° 8.069, de 13 de julho de 1990,</p><p>conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).</p><p>A legislação brasileira – mesmo que implementada tardia-</p><p>mente – representa um marco na transformação das polí-</p><p>ticas públicas para a infância e a juventude ao priorizar as</p><p>necessidades e direitos dessa população. O artigo 3° do ECA</p><p>dispõe que “[...] a criança e o adolescente gozam de todos os</p><p>direitos fundamentais inerentes à pessoa humana” (Brasil,</p><p>1990) e, a partir dessa conquista, obtém-se gradativa mu-</p><p>dança no caráter de proteção social.</p><p>É considerada uma conquista porque consegue</p><p>finalmente materializar a Doutrina da Proteção</p><p>Integral. [...]. Com ela, o modelo de atendimento</p><p>pautado na Doutrina da Situação Irregular, onde a</p><p>criança era denominada enquanto menor sem direitos</p><p>e permanecia ’protegida‛ em grandes instituições como</p><p>a FUNABEM e as FEBEM’s passa a ser abandonado de</p><p>forma gradativa, [...] no sentido de se adequarem às</p><p>novas propostas.</p><p>Saraiva, 2018, p. 684</p><p>O caráter protecionista advindo da Lei n° 8.069/90 delimita</p><p>o fim legal de medidas punitivistas que o Estado impunha</p><p>às crianças e aos adolescentes como modelo de ajustamento</p><p>social. Com essa alteração, o Estado passa a ser responsável,</p><p>junto à família e à sociedade, pela construção de medidas</p><p>como, por exemplo, a descriminalização da pobreza – argu-</p><p>mento que durante muito tempo foi utilizado como motivo</p><p>para alocar crianças e adolescentes nos cadastros de adoção.</p><p>Além disso, ampliou os processos de cuidado ao instituir o</p><p>Conselho Tutelar como órgão de promoção e defesa dos di-</p><p>reitos infantojuvenis.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 19</p><p>1.3 O Sistema de Garantia dos Direitos da</p><p>Criança e do Adolescente</p><p>Como supracitado, o Conselho Tutelar emerge em decor-</p><p>rência da instauração do ECA, precisamente no artigo 131,</p><p>que o dispõe como “[...] órgão permanente e autônomo,</p><p>não jurisdicional, encarregado pela sociedade de zelar pelo</p><p>cumprimento dos direitos da criança e do adolescente [...]”</p><p>(Brasil, 1990). É nesse sentido que a chamada doutrina de</p><p>proteção integral, implementada pelo ECA, concretiza-se</p><p>a partir de movimentos sociais colaboradores na luta pelo</p><p>reconhecimento de crianças e adolescentes enquanto su-</p><p>jeitos de direitos.</p><p>Saiba mais</p><p>Para ler na íntegra a Lei n° 8.069/1990, que dispõe</p><p>sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente,</p><p>e, especificamente o artigo 136, que dispõe sobre</p><p>atribuições legais do Conselho Tutelar, acesse o site</p><p>do Planalto, disponível em: https://www.planalto.</p><p>gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm.</p><p>O Estatuto da Criança e do Adolescente é um importante ins-</p><p>trumento jurídico e social para promover mudanças no Brasil,</p><p>pois não só possibilita fomentar os interesses pelos diálogos e</p><p>lutas relacionados aos direitos infantojuvenis como também</p><p>reconhece ferramentas de promoção da cidadania.</p><p>Paralelo a isso, o Sistema de Garantia dos Direitos da Criança</p><p>e do Adolescente (SGDCA), instituído a partir da resolução</p><p>de n° 113 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do</p><p>Adolescente (CONANDA), de 19 de abril de 2006, configura-se</p><p>como uma rede de promoção, defesa e controle da efetivação</p><p>dos direitos humanos desse público, composta por diversos</p><p>agentes responsáveis por assegurar o bem-estar social e con-</p><p>tribuir com as especificidades da infância e da adolescência</p><p>nos atendimentos nos serviços multiprofissionais, através de</p><p>órgãos governamentais ou não.</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm</p><p>https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8069.htm</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 20</p><p>Saiba mais</p><p>Para ler na íntegra a Resolução n° 113 do</p><p>Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do</p><p>Adolescente, de 19 de abril de 2006, acesse o</p><p>PDF disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-</p><p>br/acesso-a-informacao/participacao-social/</p><p>conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-</p><p>e-do-adolescente-conanda/resolucoes/</p><p>resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-</p><p>do-sgd.pdf/view.</p><p>O ECA preconiza os parâmetros para as ações dos Conselhos</p><p>Tutelares que se movimentam também pelos eixos do SGDCA e</p><p>buscam garantir a proteção integral de crianças e adolescentes</p><p>contra quaisquer formas de violações de direitos e promover</p><p>o acesso à saúde, à educação, ao lazer, ao esporte e demais</p><p>políticas sociais, além de provocar o Estado, a sociedade civil</p><p>e a família para que cumpram com suas obrigações referentes</p><p>ao cuidado integral desse público.</p><p>1.4 Diretrizes Internacionais sobre Direitos</p><p>Humanos e Política de Drogas, seus princípios</p><p>e as obrigações resultantes dos direitos</p><p>humanos para crianças</p><p>As Diretrizes Internacionais sobre Direitos Humanos e Po-</p><p>líticas de Drogas (ONU, 2019)</p><p>fazem uma articulação entre</p><p>os princípios fundamentais dos direitos humanos e as con-</p><p>venções internacionais das Nações Unidas sobre drogas,</p><p>apresentadas a seguir.</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>https://www.gov.br/mdh/pt-br/acesso-a-informacao/participacao-social/conselho-nacional-dos-direitos-da-crianca-e-do-adolescente-conanda/resolucoes/resolucao-no-113-de-19-04-06-parametros-do-sgd.pdf/view</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 21</p><p>Convenção Única</p><p>sobre Entorpecentes</p><p>(com emendas)</p><p>Convenção Contra o Tráfico</p><p>Ilícito de Entorpecentes e</p><p>Substâncias Psicotrópicas</p><p>das Nações Unidas</p><p>Convenção sobre</p><p>Substâncias Psicotrópicas</p><p>1961</p><p>1971</p><p>1988</p><p>Convenções internacionais de controle de drogas</p><p>Desde o lançamento da Agenda 2030 para o Desenvolvimento</p><p>Sustentável e vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável,</p><p>foi intensificada, no debate internacional, a necessidade urgente</p><p>de aproximação entre as pautas da política sobre drogas e dos</p><p>direitos humanos. As resoluções da Assembleia Geral das Na-</p><p>ções Unidas (AGNU) reconhecem que o combate ao problema</p><p>mundial das drogas deve ser realizado em total conformidade</p><p>com todos os direitos humanos e liberdades fundamentais.</p><p>Nesse escopo, surgem orientações a fim de maximizar a pro-</p><p>teção aos direitos humanos na interpretação e implementação</p><p>das convenções de controle de drogas. Ou seja, as diretrizes</p><p>não apresentam novos direitos, mas trazem “[...] ferramentas</p><p>de referência para aqueles(as) que trabalham para garantir a</p><p>conformidade dos direitos humanos em nível local, nacional e</p><p>internacional [...]” (ONU, 2019, p. 4). É um documento impres-</p><p>cindível porque apresenta as obrigações resultantes de cada</p><p>direito humano em sua interface com a política internacional</p><p>sobre drogas.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 22</p><p>Saiba mais</p><p>Leia o documento completo das Diretrizes</p><p>Internacionais sobre Direitos Humanos e Política de</p><p>Drogas, disponível em: https://www.humanrights-</p><p>drugpolicy.org/site/assets/files/1672/hrdp_</p><p>guidelines_portugese_2020.pdf.</p><p>Além dos direitos humanos apresentados</p><p>no documento, as diretrizes tratam de como</p><p>eles podem ser melhor aplicados diante das</p><p>condições de especial vulnerabilidade de</p><p>crianças e adolescentes.</p><p>Nesse aspecto, considerando a Convenção sobre os Direitos</p><p>da Criança, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o</p><p>Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente</p><p>(SGDCA), as diretrizes reafirmam que crianças e adolescentes</p><p>afetados pelas drogas são sujeitos de direitos em sua inte-</p><p>gralidade, e a eles estes devem ser garantidos seguindo seus</p><p>cinco princípios.</p><p>https://www.humanrights-drugpolicy.org/site/assets/files/1672/hrdp_guidelines_portugese_2020.pdf</p><p>https://www.humanrights-drugpolicy.org/site/assets/files/1672/hrdp_guidelines_portugese_2020.pdf</p><p>https://www.humanrights-drugpolicy.org/site/assets/files/1672/hrdp_guidelines_portugese_2020.pdf</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 23</p><p>Conheça cada um desses princípios no infográfico a seguir.</p><p>Dignidade humana: é da dignidade inerente à pessoa</p><p>humana que derivam nossos direitos. Nenhuma lei, política</p><p>ou prática relativa às drogas deveria prejudicar ou violar</p><p>a dignidade de qualquer pessoa ou grupo de pessoas.</p><p>Igualdade no tratamento e não discriminação: todos</p><p>são iguais perante a lei e têm direito a igual proteção</p><p>e benefício, incluindo o gozo de todos os direitos</p><p>humanos sem discriminação por vários motivos (como</p><p>estado de saúde, que inclui dependência de drogas).</p><p>Acesso a todos os seus direitos: universalidade</p><p>e interdependência de direitos, inclusive nos contextos</p><p>de política de drogas, assistência ao desenvolvimento,</p><p>assistência à saúde e justiça criminal.</p><p>Participação na vida pública, podendo manifestar-se</p><p>sobre quaisquer leis e políticas públicas: inclui o direito</p><p>à participação significativa no projeto, implementação</p><p>e avaliação das leis, políticas e práticas sobre drogas,</p><p>particularmente pelas pessoas diretamente afetadas.</p><p>Direito à proteção dos seus direitos pelo Estado: todo</p><p>Estado tem a obrigação de respeitar e proteger</p><p>os direitos humanos de todas as pessoas dentro de seu</p><p>território e sujeitas à sua jurisdição. Todos têm o direito</p><p>de solicitar e receber informações sobre como os Estados</p><p>cumpriram suas obrigações de direitos humanos</p><p>no contexto da política de drogas.</p><p>Os cinco princípios das Diretrizes Internacionais sobre</p><p>Direitos Humanos e Políticas de Drogas</p><p>Os cinco</p><p>princípios</p><p>das Diretrizes</p><p>Internacionais</p><p>Assim, crianças e adolescentes têm direito à proteção contra</p><p>drogas, devendo o Estado brasileiro e seus agentes públicos</p><p>tomar todas as medidas apropriadas (legislativas, adminis-</p><p>trativas, sociais e educacionais) para que elas não façam uso</p><p>ilícito de entorpecentes e substâncias psicotrópicas e para</p><p>impedir a exploração de crianças e adolescentes na produção</p><p>e no tráfico de tais substâncias.</p><p>Glossário</p><p>Medidas apropriadas:</p><p>são baseadas em evidências</p><p>e compatíveis com normas</p><p>mais amplas de direitos</p><p>humanos.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 24</p><p>Um primeiro passo importante para implementar esse direito</p><p>está na produção, análise e disseminação de dados desagrega-</p><p>dos por idade sobre uso de drogas e envolvimento de crianças</p><p>e adolescentes no comércio de drogas ilícitas.</p><p>As diretrizes apontam quatro eixos</p><p>principais para o grupo específico de</p><p>crianças e adolescentes, que serão</p><p>tratados especificamente em</p><p>seguida, mas vale destacar que o</p><p>direito à participação é transversal e</p><p>significa que crianças e adolescentes</p><p>devem ser ouvidos em todas as</p><p>questões relacionadas à sua vida,</p><p>e sua opinião deve ser considerada</p><p>em todas as etapas do processo,</p><p>tanto administrativo quanto</p><p>judicial. Também, que sua opinião</p><p>será considerada para definir seu</p><p>melhor interesse e para a tomada</p><p>de decisões, em diversas situações,</p><p>como as que descrevemos a seguir.</p><p>O princípio do melhor interesse da</p><p>criança e do adolescente está previsto</p><p>no artigo 227 da CF e no artigo 3° do</p><p>Estatuto da Criança e do Adolescente,</p><p>e tem por finalidade proteger de</p><p>forma integral e com absoluta</p><p>prioridade seus direitos humanos.</p><p>Para isso, a opinião de crianças e</p><p>adolescentes deve ser considerada.</p><p>Na prevenção</p><p>Crianças e adolescentes têm o direito a acessar medidas de pre-</p><p>venção sobre drogas baseadas em evidências, o que exige infor-</p><p>mações precisas e objetivas sobre drogas e danos relacionados.</p><p>Além disso, nesse aspecto o papel da escola é</p><p>fundamental para garantir o direito a não receber</p><p>informações erradas, bem como seu direito à</p><p>privacidade. Para isso, é importante evitar testes</p><p>de drogas aleatórios, cães farejadores e revistas</p><p>em escolas. Diante de comportamentos de risco,</p><p>o direito à educação deve prevalecer, evitando</p><p>afastar crianças e adolescentes da escola.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas</p><p>para a Infância e Adolescência 25</p><p>Nas intervenções para crianças e adolescentes</p><p>que usam drogas</p><p>As crianças têm direito à saúde, a serem ouvidas</p><p>em questões relacionadas aos seus próprios</p><p>cuidados de saúde e a decisões baseadas na</p><p>necessidade clínica, no melhor interesse da</p><p>criança, incluindo decisões relacionadas a</p><p>intervenções para crianças que usam drogas.</p><p>ONU, 2019</p><p>Crianças e adolescentes usuários de drogas têm direito a</p><p>programas de prevenção e serviços de tratamento de de-</p><p>pendência de drogas. Para isso, é fundamental que não haja</p><p>restrição de idade para atendimento de saúde relacionado a</p><p>drogas. Ações que fortaleçam equipamentos especializados</p><p>no tratamento de crianças e adolescentes são um avanço</p><p>necessário, por exemplo, a ampliação do número de Centros</p><p>de Atenção Psicossocial Infantil (CAPSi) e de Unidades de</p><p>Acolhimento Infantil (UAI).</p><p>É importante que crianças e</p><p>adolescentes possam receber</p><p>informações de saúde relacionadas a</p><p>drogas, aconselhamento, serviços de</p><p>tratamento, sem o consentimento</p><p>dos pais ou responsáveis.</p><p>Se, por um lado, é direito da criança e do adolescente ter a</p><p>presença dos pais ou responsáveis em todos os atos adminis-</p><p>trativos ou judiciais, também é seu direito ter acesso a infor-</p><p>mações e tratamentos mesmo sem o consentimento dos pais.</p><p>Para resolver eventuais conflitos nesse ponto, é fundamental</p><p>ouvir e considerar a opinião da criança e do adolescente.</p><p>Quanto à criminalidade relacionada às drogas, é importante</p><p>que algumas questões sejam observadas.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 26</p><p>Questões observáveis em caso de</p><p>criminalidade relacionada às drogas</p><p>Os esforços para reduzir a criminalidade juvenil devem seguir</p><p>os padrões internacionais de justiça juvenil, com destaque para as</p><p>Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça</p><p>da Infância e da Juventude – Regras de Beijing – e os Princípios</p><p>das Nações Unidas para a Prevenção da Delinquência Juvenil</p><p>(Princípios Orientadores de Riad).</p><p>Crianças e adolescentes usuários não devem ser punidos pelo</p><p>uso ou posse de drogas para uso pessoal.</p><p>Deve-se priorizar a reabilitação ao invés da punição, evitando</p><p>o sistema de justiça juvenil e o sistema socioeducativo.</p><p>Saiba mais</p><p>Para ler o documento completo das Regras Mínimas</p><p>das Nações Unidas para a Administração da Justiça</p><p>da Infância e da Juventude – Regra de Beijing –,</p><p>acesse o site disponível em: https://acnudh.org/</p><p>pt-br/regras-minimas-das-nacoes-unidas-para-</p><p>a-administracao-da-justica-da-infancia-e-da-</p><p>juventude-regra-de-beijing/; e para ler na íntegra os</p><p>Princípios das Nações Unidas para a Prevenção da</p><p>Delinquência Juvenil (Princípios Orientadores de Riad),</p><p>acesse o site disponível em: https://www.camara.leg.</p><p>br/Internet/comissao/index/perm/cdh/Tratados_e_</p><p>Convencoes/Crian%C3%A7a/principios_onu_para_</p><p>prevencao_delinquencia_juvenil.htm.</p><p>Na proteção no contexto da dependência de</p><p>drogas parental</p><p>Crianças e adolescentes têm direito a serem cuidados da melhor</p><p>maneira possível, mesmo quando seus pais forem usuários ou</p><p>https://acnudh.org/pt-br/regras-minimas-das-nacoes-unidas-para-a-administracao-da-justica-da-infancia-e-da-juventude-regra-de-beijing/</p><p>https://acnudh.org/pt-br/regras-minimas-das-nacoes-unidas-para-a-administracao-da-justica-da-infancia-e-da-juventude-regra-de-beijing/</p><p>https://acnudh.org/pt-br/regras-minimas-das-nacoes-unidas-para-a-administracao-da-justica-da-infancia-e-da-juventude-regra-de-beijing/</p><p>https://acnudh.org/pt-br/regras-minimas-das-nacoes-unidas-para-a-administracao-da-justica-da-infancia-e-da-juventude-regra-de-beijing/</p><p>https://www.camara.leg.br/Internet/comissao/index/perm/cdh/Tratados_e_Convencoes/Crian%C3%A7a/principios_onu_para_prevencao_delinquencia_juvenil.htm</p><p>https://www.camara.leg.br/Internet/comissao/index/perm/cdh/Tratados_e_Convencoes/Crian%C3%A7a/principios_onu_para_prevencao_delinquencia_juvenil.htm</p><p>https://www.camara.leg.br/Internet/comissao/index/perm/cdh/Tratados_e_Convencoes/Crian%C3%A7a/principios_onu_para_prevencao_delinquencia_juvenil.htm</p><p>https://www.camara.leg.br/Internet/comissao/index/perm/cdh/Tratados_e_Convencoes/Crian%C3%A7a/principios_onu_para_prevencao_delinquencia_juvenil.htm</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 27</p><p>dependentes de drogas. Para tanto, os melhores interesses da</p><p>criança e do adolescente devem ser considerados nas decisões</p><p>sobre seus cuidados.</p><p>Ainda quanto a esse eixo, as decisões para remover as crianças</p><p>dos cuidados parentais ou impedir seu contato não devem se</p><p>justificar apenas no uso ou dependência de drogas pelos pais.</p><p>Nesse sentido, a Resolução n° 425/2021 do</p><p>Conselho Nacional de Justiça, que institui, no âmbito</p><p>do Poder Judiciário, a Política Nacional Judicial</p><p>de Atenção a Pessoas em Situação de Rua e suas</p><p>interseccionalidades, afirma, em seu artigo 31, § 5°,</p><p>que: “A situação de rua e/ou uso de substâncias</p><p>psicoativas por gestantes ou mães não deve,</p><p>por si só, constituir motivo para o acolhimento</p><p>institucional compulsório de seus filhos”, mas sim</p><p>para o estabelecimento de condições de cuidado e</p><p>garantia dos direitos das crianças e de suas famílias.</p><p>Saiba mais</p><p>Para ler a Resolução n° 425/2011 na íntegra, acesse o</p><p>site disponível em: atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/4169.</p><p>Na proteção contra exploração do trabalho no</p><p>comércio de drogas ilícitas</p><p>Crianças e adolescentes têm direito à proteção contra todas as</p><p>formas de exploração, inclusive a exploração de seu trabalho pelo</p><p>comércio de drogas ilícitas. Para isso, devem ser consideradas</p><p>as causas profundas que levam ao envolvimento no tráfico de</p><p>drogas, especialmente a pobreza, a marginalização e a violência.</p><p>A partir dessa perspectiva, crianças e adolescentes que te-</p><p>nham seu trabalho explorado pelo comércio ilícito de drogas</p><p>não devem ser vistos como criminosos, e sim como sujeitos</p><p>de direitos, aos quais devem ser garantidas as medidas de</p><p>proteção do Estatuto da Criança e do Adolescente.</p><p>Nesse sentido, é importante registrar a existência do Decreto</p><p>n° 3.597, publicado em 2000, que regulamenta a Convenção 182</p><p>da Organização Internacional do Trabalho (OIT); e o Decreto</p><p>n° 6.481, publicado em 2008, que institui a Lista das Piores</p><p>Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP). Ambos consideram</p><p>Glossário</p><p>Medidas de proteção:</p><p>as medidas de proteção estão</p><p>previstas nos artigos 98 e</p><p>101 do Estatuto da Criança</p><p>e do Adolescente e podem</p><p>ser aplicadas a crianças e</p><p>adolescentes sempre que seus</p><p>direitos forem ameaçados ou</p><p>violados por ação ou omissão</p><p>da sociedade ou do Estado;</p><p>por falta, omissão ou abuso</p><p>dos pais ou responsável; ou</p><p>em razão de sua conduta.</p><p>http://atos.cnj.jus.br/atos/detalhar/4169</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 28</p><p>que “a utilização, recrutamento e oferta de adolescente para</p><p>outras atividades ilícitas, particularmente para a produção e</p><p>tráfico de drogas” (Brasil, 2000), configuram uma das piores</p><p>formas de trabalho infantil.</p><p>Turnos de 8 a 15 horas de trabalho, incluindo em</p><p>horário noturno. Salários compostos por comissão</p><p>em relação às mercadorias vendidas. Exposição à</p><p>violência policial e ao crime. Essas são algumas</p><p>das características do trabalho no tráfico a que</p><p>estão expostos adolescentes em São Paulo. Apesar</p><p>de ser considerado uma das Piores Formas de</p><p>Trabalho Infantil (Lista TIP), regulamentada</p><p>por meio do Decreto n° 6.481/2008, a atuação de</p><p>adolescentes no tráfico de drogas, em geral, não</p><p>é considerada como trabalho infantil pela Justiça</p><p>brasileira, e sim como crime.</p><p>Pyl, 2018</p><p>Crianças e adolescentes exploradas/os pelo comércio ilícito de</p><p>drogas no Brasil via de regra são tratadas/os como criminosas/</p><p>os e encaminhadas/os para o sistema de justiça juvenil brasi-</p><p>leiro – que é orientado pelo Sistema Nacional de Atendimento</p><p>Socioeducativo (SINASE) –, a fim de que seja aplicada uma</p><p>medida socioeducativa.</p><p>Entretanto, toda a legislação nacional e internacional,</p><p>bem</p><p>como as Diretrizes Internacionais Sobre Direitos Humanos e</p><p>Políticas de Drogas, orientam para que a exploração do traba-</p><p>lho de crianças e adolescentes no comércio de drogas ilícitas</p><p>seja reconhecida e que sejam aplicadas medidas de proteção</p><p>a essas crianças e adolescentes.</p><p>Criminalizá-los é revitimizar grupos extremamente vulnera-</p><p>bilizados sem qualquer mudança efetiva do cenário, pelo con-</p><p>trário, aproxima essas crianças e adolescentes das organizações</p><p>criminosas. A mudança de perspectiva de maneira a reconhecer</p><p>a vulnerabilidade de crianças e adolescentes diante do tráfico</p><p>de drogas é passo essencial para permitir que essas crianças e</p><p>adolescentes possam ter acesso a seus direitos humanos.</p><p>Glossário</p><p>Sistema Nacional de</p><p>Atendimento Socioeducativo:</p><p>constitui-se de uma</p><p>política pública destinada</p><p>à promoção, proteção</p><p>e defesa dos direitos</p><p>humanos e fundamentais</p><p>de adolescentes e jovens</p><p>responsabilizadas/os pela</p><p>prática de ato infracional.</p><p>O SINASE foi aprovado pela</p><p>Resolução n° 119 do Conselho</p><p>Nacional dos Direitos das</p><p>Crianças e dos Adolescentes,</p><p>em 11 de dezembro de 2006,</p><p>e regulamentado pela Lei n°</p><p>12.594 de 2012 (Brasil, 2012).</p><p>Aponte a câmera</p><p>do seu dispositivo</p><p>móvel (smartphone</p><p>ou tablet) para o</p><p>QR Code ao lado</p><p>e assista ao vídeo</p><p>sobre normativos</p><p>nacionais e</p><p>internacionais</p><p>de garantia dos</p><p>direitos da criança</p><p>e do adolescente,</p><p>ou acesse o link:</p><p>https://youtu.be/</p><p>OEKMnXXrte0.</p><p>https://youtu.be/OEKMnXXrte0</p><p>https://youtu.be/OEKMnXXrte0</p><p>Módulo 3</p><p>Unidade 2</p><p>A importância da</p><p>intersetorialidade e o papel dos</p><p>Conselhos Tutelares</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 30</p><p>A importância da intersetorialidade e o</p><p>papel dos Conselhos Tutelares</p><p>Nesta unidade, vamos aprofundar o tema central das políticas</p><p>sociais abordadas na perspectiva do desenvolvimento infanto-</p><p>adolescente. Trata-se da intersetorialidade entre políticas de</p><p>saúde mental, assistência social e educacional no contexto do</p><p>cuidado de crianças e adolescentes. Trata-se também de políticas</p><p>básicas de grande abrangência e imprescindível conhecimen-</p><p>to porque, do ponto de vista do investimento público, levam</p><p>adiante os maiores orçamentos nacionais. E, na perspectiva</p><p>do cuidado e atenção, são altamente relevantes em razão de</p><p>serem os principais pilares de sustentação para construção e</p><p>ampliação, ao longo da vida, da capacidade de contratualidade</p><p>social desse segmento populacional.</p><p>2.1 A intersetorialidade no cuidado de</p><p>crianças e adolescentes e suas famílias na</p><p>Rede de Atenção Psicossocial, Rede de</p><p>Proteção Social e sistema educacional</p><p>Abordar noções de intersetorialidade no âmbito dos direitos</p><p>das crianças e adolescentes exige-nos atentar, inarreda-</p><p>velmente, às normas presentes em algumas leis nacionais,</p><p>como as apresentadas a seguir.</p><p>Unidade 2</p><p>Intersetorialidade nas normas</p><p>presentes em leis nacionais</p><p>“Promoção de espaços intersetoriais locais para</p><p>a articulação de ações [...] com participação de</p><p>profissionais de saúde, de assistência social e de</p><p>educação” (Brasil, 1990, art. 70−A, VI, ECA).</p><p>E a promoção da “[...] intersetorialidade entre os</p><p>serviços educacionais, de saúde e de assistência</p><p>social para a garantia da atenção psicossocial”</p><p>nas comunidades escolares (Brasil, 2024, art. 2º,</p><p>III, Lei n° 14.819).</p><p>A necessidade de “[...] formação profissional</p><p>com abrangência dos diversos direitos da</p><p>criança e do adolescente que favoreça a</p><p>intersetorialidade no atendimento da criança e</p><p>do adolescente e seu desenvolvimento integral”</p><p>(Brasil, 1990, art. 88, IX, ECA).</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 31</p><p>Intersetorialidade nas normas</p><p>presentes em leis nacionais</p><p>“Promoção de espaços intersetoriais locais para</p><p>a articulação de ações [...] com participação de</p><p>profissionais de saúde, de assistência social e de</p><p>educação” (Brasil, 1990, art. 70−A, VI, ECA).</p><p>E a promoção da “[...] intersetorialidade entre os</p><p>serviços educacionais, de saúde e de assistência</p><p>social para a garantia da atenção psicossocial”</p><p>nas comunidades escolares (Brasil, 2024, art. 2º,</p><p>III, Lei n° 14.819).</p><p>A necessidade de “[...] formação profissional</p><p>com abrangência dos diversos direitos da</p><p>criança e do adolescente que favoreça a</p><p>intersetorialidade no atendimento da criança e</p><p>do adolescente e seu desenvolvimento integral”</p><p>(Brasil, 1990, art. 88, IX, ECA).</p><p>A intersetorialidade entre as distintas políticas públicas se dá</p><p>na medida em que identificamos procedimentos próprios de</p><p>cada política em diálogos que produzam um campo comum</p><p>de atuação, em cujo centro se encontre o público destinatário</p><p>e, ao mesmo tempo, protagonista das ações.</p><p>No contexto infantoadolescente,</p><p>trata-se de promover iniciativas</p><p>a inventarem uma dimensão de</p><p>encontro de saberes e práticas que</p><p>apoiem crianças e adolescentes no</p><p>exercício de seus direitos humanos</p><p>para a tomada de decisões, com ou</p><p>sem participação parental.</p><p>Esse é o desafio!</p><p>As políticas em debate se concretizam por meio da prestação</p><p>positiva de ações e serviços, isto é, a partir de uma ação afirma-</p><p>tiva do Estado – em cooperação com a sociedade e a família (art.</p><p>227, CF/88) –, ao gerarem processos articulados de inclusão de</p><p>crianças e adolescentes em circuitos comunitários de perten-</p><p>cimento, participação e produção de autonomia.</p><p>A noção de pertencimento informa o nível de sociabilida-</p><p>de e interdependência em relação às pessoas do entorno.</p><p>Participação é direito expresso constitucionalmente nas</p><p>políticas sociais não apenas sob o viés do controle social,</p><p>mas, mais que isso, no âmbito da infância e adolescência,</p><p>é direito à escuta e à vontade ser levada em consideração no</p><p>cotidiano das políticas públicas e das dinâmicas intrafamiliares</p><p>e comunitárias. Autonomia assevera a imprescindibilidade da</p><p>concepção não tutelar, isto é, garantista, o que significa uma</p><p>concepção que garanta que o entorno se comporte conforme a</p><p>legislação e os princípios de valorização do interesse superior</p><p>da criança – autonomia, ademais, não disputa, mas convive</p><p>com a necessidade de apoio, sobretudo no ciclo de vida mais</p><p>jovem. E comunitarismo aponta para a natureza proximal</p><p>das ações dessas políticas específicas, que devem fortalecer,</p><p>por mediação, as relações no território.</p><p>Vamos, a seguir, detalhar essas dimensões de circuitos de</p><p>garantia de direitos nas três políticas sociais elencadas.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 32</p><p>2.1.1 Rede de Atenção Psicossocial</p><p>Podcast</p><p>No âmbito da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS),</p><p>o pertencimento de crianças e adolescentes</p><p>demanda de profissionais da RAPS que assumam</p><p>o papel de mediação nos processos de produção</p><p>de sentidos e enlaces comunitários que induzam</p><p>adultos ao redor das crianças e adolescentes a</p><p>se atentarem à importância do protagonismo</p><p>e autonomia dessas pessoas. Essas dinâmicas</p><p>também devem visar ao fortalecimento cultural</p><p>local, abrindo-se espaços de efetiva participação</p><p>do público mais jovem na condução das ações</p><p>dessa natureza. Para tanto, é fundamental que</p><p>os processos terapêuticos sejam organizados</p><p>a partir do reconhecimento dos modos de</p><p>cuidado tradicionais na família e na comunidade,</p><p>tentando-se harmonizar tecnologias do SUS com as</p><p>predecessoras práticas intrafamiliares, históricas,</p><p>linguísticas e religiosas que, há muito, orientam</p><p>a vida das pessoas envolvidas. O pertencimento</p><p>deve ser premissa e objetivo desde o início da</p><p>contratualização entre usuários do serviço e</p><p>profissionais envolvidos, a compor, inclusive,</p><p>o Projeto Terapêutico Singular (PTS). Essa dinâmica</p><p>só será possível se garantida a participação efetiva</p><p>nos processos decisórios sobre sua vida, sobretudo</p><p>aqueles inscritos em contextos extrafamiliares,</p><p>já que estes são bastante determinados por</p><p>atores comunitários e institucionais.</p><p>O protagonismo infantojuvenil no âmbito da RAPS se con-</p><p>cretiza na medida em que, entre outras situações, crianças</p><p>e</p><p>adolescentes tenham sua opinião levada em consideração não</p><p>apenas com relação aos procedimentos de saúde, mas à atua-</p><p>ção de seus responsáveis sobre seus anseios e relatos de vida.</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 33</p><p>Saiba mais</p><p>São clássicos os casos de conflito intergeracional</p><p>ocasionados por divergência em temas centrais</p><p>como uso de drogas, gravidez e infecções</p><p>sexualmente transmissíveis. São temas</p><p>sensíveis que, quando desejado pelas crianças</p><p>e adolescentes, devem ser tratados em sigilo,</p><p>inclusive em face dos responsáveis, dentro da</p><p>razoabilidade vislumbrada na tolerância aos</p><p>eventuais riscos oriundos da não partilha com</p><p>terceiros. Para saber mais, leia sobre prevenção</p><p>ao HIV e à aids para adolescentes e jovens no sítio</p><p>do Ministério da Saúde, disponível em: https://</p><p>www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/noticias/2023/</p><p>setembro/saude-reforca-importancia-do-acesso-</p><p>de-adolescentes-as-diferentes-formas-de-</p><p>prevencao-ao-hiv-e-a-aids.</p><p>Necessariamente, o fortalecimento do pertencimento e da</p><p>participação de crianças e adolescentes é convergente com</p><p>a noção de autonomia, diretriz constante da RAPS, e que</p><p>não disputa espaço com necessidade de apoio, vindo a ser</p><p>conviventes. E quanto maior o apoio, maior autonomia se</p><p>espera produzir e vivenciar. Propõe-se garantir autonomia</p><p>de crianças e adolescentes por meio da RAPS, a partir do res-</p><p>peito aos anseios e seu reconhecimento na contratualização</p><p>do PTS, como também pelo respeito às suas negativas em</p><p>face de determinações de adultos próximos.</p><p>Com isso, evidentemente, espera-se</p><p>a criativa atuação de profissionais</p><p>para mediar as relações com o</p><p>mundo adulto, papel central dos</p><p>serviços na atenção psicossocial de</p><p>crianças e adolescentes, para além de</p><p>específicas e individuais necessidades</p><p>terapêuticas. E a mediação está</p><p>atrelada à capacidade articulatória</p><p>com outras políticas, pois requer</p><p>força institucional para atuar sobre a</p><p>garantia de diversos direitos. Se saúde</p><p>é democracia – expressão proclamada</p><p>na 8ª Conferência Nacional de Saúde,</p><p>em 1986 -, a garantia do direito à</p><p>saúde mental, por consequência,</p><p>deve estar atrelada à garantia de</p><p>outros direitos humanos</p><p>(Buss; Pellegrini Filho, 2007).</p><p>https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/noticias/2023/setembro/saude-reforca-importancia-do-acesso-de-adolescentes-as-diferentes-formas-de-prevencao-ao-hiv-e-a-aids</p><p>https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/noticias/2023/setembro/saude-reforca-importancia-do-acesso-de-adolescentes-as-diferentes-formas-de-prevencao-ao-hiv-e-a-aids</p><p>https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/noticias/2023/setembro/saude-reforca-importancia-do-acesso-de-adolescentes-as-diferentes-formas-de-prevencao-ao-hiv-e-a-aids</p><p>https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/noticias/2023/setembro/saude-reforca-importancia-do-acesso-de-adolescentes-as-diferentes-formas-de-prevencao-ao-hiv-e-a-aids</p><p>https://www.gov.br/aids/pt-br/assuntos/noticias/2023/setembro/saude-reforca-importancia-do-acesso-de-adolescentes-as-diferentes-formas-de-prevencao-ao-hiv-e-a-aids</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 34</p><p>Ademais, de modo transversal, se a expressão</p><p>étnico-racial está presente nos contextos de</p><p>vida, deve ser qualificada, na RAPS, a Estratégia</p><p>Antirracista preconizada no SUS (Portaria GM/MS</p><p>n° 2.198). Orientam a Estratégia a promoção e o</p><p>fortalecimento, sob a ótica das necessidades e</p><p>iniquidades vivenciadas pelas populações negras</p><p>e indígenas, de princípios e políticas específicas</p><p>do SUS. Ao mesmo tempo, a Estratégia sinaliza</p><p>para a urgência de se promover o enfrentamento</p><p>ao racismo. E arremata asseverando o respeito à</p><p>diversidade cultural, linguística e religiosa.</p><p>Também devemos compreender que o Centro de Atenção Psi-</p><p>cossocial Infantojuvenil (CAPSi) – referência na coordenação</p><p>do cuidado de crianças e adolescentes – ou, na ausência deste,</p><p>o serviço de saúde mental de referência na localidade deve</p><p>prever, em seu Projeto Terapêutico Institucional (PTI), a ar-</p><p>ticulação entre redes de políticas diversas, chave da interseto-</p><p>rialidade. Isso não quer dizer, contudo, que a intersetorialidade</p><p>ocorre somente com serviços especializados. A condição para</p><p>sua prática não é ser orientada por especialismos, mas por</p><p>ações singularizantes, o que deve ser garantido pela orientação</p><p>institucional de qualquer serviço e em acordo com os desejos</p><p>específicos e singulares da pessoa demandante. Em outras</p><p>palavras, um serviço generalista em nível de atenção, como a</p><p>Unidade Básica de Saúde, poderá obter êxito na intersetoria-</p><p>lidade tão somente em razão de sua atenção singularizante,</p><p>a despeito de não ser serviço especializado.</p><p>2.1.2 Proteção social</p><p>A política de assistência social é orientada por três objeti-</p><p>vos: proteção social, vigilância socioassistencial e defesa de</p><p>direitos. No âmbito da proteção encontramos como um dos</p><p>públicos prioritários crianças e adolescentes “carentes” e</p><p>seu direito ao “amparo” (Brasil, 2011, art. 2°, Lei n° 12.435),</p><p>seguindo a previsão constitucional (Brasil, 1988, art. 203,</p><p>II, CF). Em linguagem contemporânea, o público “carente”</p><p>pode ser compreendido como aquele em situação de vulne-</p><p>rabilidade e risco sociais. Logo, as crianças e adolescentes</p><p>identificadas nessa condição deverão ser protegidas “[...] de</p><p>forma integrada às políticas setoriais” (Brasil, 2011, art. 2°,</p><p>parágrafo único, Lei n° 12.435).</p><p>Se é fundamental que a noção de pertencimento direcio-</p><p>ne as ações de proteção social tanto no âmbito individual</p><p>quanto no coletivo e familiar, é também necessário que a</p><p>sociabilidade e a interdependência sejam saudáveis, e para</p><p>isso é imprescindível o esforço institucional de fortaleci-</p><p>mento dos vínculos familiares e comunitários das crianças</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 35</p><p>e adolescentes. Cumpre-se, assim, o propósito do direito à</p><p>convivência, tão bem sedimentado pela legislação da infân-</p><p>cia e adolescência, e, de outro modo, da assistência social.</p><p>Essa perspectiva dialoga completamente com o direito à</p><p>participação, na medida em que o protagonismo é chave</p><p>central para a convivência familiar e a comunitária serem</p><p>singularmente afinadas com o interesse superior da criança</p><p>e da/o adolescente. Da mesma forma, podemos enquadrar a</p><p>noção de autonomia, na medida em que a convivência deve</p><p>ser saudável; logo, em acordo com os anseios e projeto de</p><p>vida, ainda que sempre como resultante de mediações que</p><p>incluem possibilidades e interesses de adultos do entorno.</p><p>Mas um novo elemento deve compor essa</p><p>construção reflexiva, a diferenciar essa política em</p><p>relação às de saúde mental e educacional: a política</p><p>socioassistencial é, por definição, residualmente</p><p>universal, isto é, garantida para quem, com direitos</p><p>violados ou na iminência de serem, delas necessita</p><p>para restabelecer condições de igualdade no</p><p>acesso aos demais direitos. Isso vale tanto para o</p><p>fortalecimento de vínculos familiares e comunitários</p><p>na prevenção à acentuação das vulnerabilidades</p><p>(proteção básica) quanto para sua reconstrução</p><p>(proteção especial).</p><p>Nesse sentido, tal como um “colchão social”, cabe à assis-</p><p>tência social atuar na medida em que demais direitos não</p><p>tenham sido satisfeitos. Porém, não para supri-los, e sim</p><p>para acionar suas respectivas políticas e restabelecer os</p><p>acessos, o que faz da política socioassistencial uma política</p><p>intersetorial por excelência. Mesmo que, dentre as ofertas</p><p>dessa política, vislumbre-se o direito de obtenção de renda</p><p>por meio de benefício/auxílio concedido via proteção social,</p><p>essa estratégia nada mais é do que ampliar a capacidade de</p><p>contratualidade social das pessoas beneficiárias aliando-se</p><p>a renda com o acesso às demais políticas.</p><p>Políticas de distribuição</p><p>/transferência de renda Demais políticas públicas</p><p>Política socioassistencial</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 36</p><p>2.1.3 Educação</p><p>Dita</p><p>como “segunda casa”, a escola é uma forte instituição</p><p>autocentrada e historicamente pouco demandante de outras</p><p>políticas para sua própria organização. Essa autorregulação</p><p>também gera descompassos na relação entre órgãos mais</p><p>próximos (como Conselhos Tutelares) e outros mais dis-</p><p>tantes (como serviços de saúde mental). Por isso, dentre</p><p>as três políticas em pauta, a educacional é a mais distante;</p><p>logo, com menor densidade no tecido da intersetorialidade.</p><p>Mesmo nos tempos mais recentes, muitas vezes, a interse-</p><p>torialidade vivida no campo da educação tem pouco “inter”,</p><p>e mais uma vivência paralela entre setores. As unidades de</p><p>saúde vão às escolas realizar ações educativas focadas, em</p><p>sua maioria, na saúde bucal – ensinar a escovar os den-</p><p>tes – e na puericultura, quando calculam peso e altura das</p><p>crianças. No âmbito do matriciamento, os profissionais vão</p><p>às escolas discutir os “casos-problema”, isto é, histórias</p><p>relacionadas a alunas/os às/aos quais se atribuem dificul-</p><p>dades de comportamento e de desenvolvimento. Dessas</p><p>reuniões “intersetoriais”, é comum profissionais saírem</p><p>com a sensação de que os setores pouco se entendem e que</p><p>um deles quer ascender sobre o(s) outro(s).</p><p>Assim, em novas agendas nacionais, bem como em experi-</p><p>ências territoriais específicas, ações de prevenção escolar</p><p>aos agravos à saúde, inclusive ao uso de álcool e outras dro-</p><p>gas, e de promoção de saúde, de fortalecimento de vínculos</p><p>e desenvolvimento de habilidades vêm sendo percebidas</p><p>como uma oportunidade de aprofundar a intersetoriali-</p><p>dade especialmente entre os campos da educação, saúde e</p><p>assistência social.</p><p>Glossário</p><p>Puericultura: é a prática</p><p>do acompanhamento de</p><p>crianças e adolescentes,</p><p>sob o enfoque de sua saúde</p><p>e bem-estar, visando à sua</p><p>promoção e proteção para um</p><p>desenvolvimento saudável.</p><p>Glossário</p><p>Matriciamento: conjunto</p><p>de procedimentos de</p><p>apoio técnico prestado</p><p>por uma equipe de saúde a</p><p>profissionais que estejam</p><p>em contexto de assistência</p><p>à saúde de determinadas</p><p>populações, visando-se ao</p><p>aprimoramento da prática,</p><p>à compreensão dos padrões</p><p>de estilos e modos de vida</p><p>dos usuários do serviço,</p><p>à ampliação do conhecimento</p><p>sobre as possibilidades de</p><p>cuidado em rede etc.</p><p>Aponte a câmera</p><p>do seu dispositivo</p><p>móvel (smartphone</p><p>ou tablet) para o</p><p>QR Code ao lado</p><p>e assista ao vídeo</p><p>de animação sobre</p><p>possibilidades para</p><p>a intersetorialidade</p><p>no âmbito</p><p>educacional,</p><p>ou acesse o link:</p><p>https://youtu.be/</p><p>UxXIzVUmIkQ.</p><p>Diversos são os relatos de profissionais das diferentes insti-</p><p>tuições educacionais de que as ações intersetoriais aconte-</p><p>cem, na realidade, de maneira paralela com outras políticas,</p><p>vindo, por exemplo, o setor saúde a participar de atividades</p><p>https://youtu.be/UxXIzVUmIkQ</p><p>https://youtu.be/UxXIzVUmIkQ</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 37</p><p>na escola não exatamente com seus profissionais, mas para</p><p>o ambiente escolar. Ou seja, sem o compartilhamento espe-</p><p>rado na intersetorialidade. De modo parecido ocorre com o</p><p>acionamento da assistência social para resolver situações</p><p>de vulnerabilidades sociais percebidas por ambos os setores.</p><p>As experiências mais recentes de prevenção escolar aos agra-</p><p>vos à saúde propõem modificar essa lógica na medida em</p><p>que os profissionais que lidam com seus alunos/pacientes/</p><p>usuários planejam e realizam ações conjuntas, comparti-</p><p>lhando decisões e a execução de ações. A implementação</p><p>de estratégias no campo da prevenção escolar ultimamente</p><p>realizada pelo governo brasileiro prevê componentes escola-</p><p>res e comunitários, aproximando as famílias desses alunos/</p><p>usuários às instituições.</p><p>No componente escolar, é esperado que os professores mu-</p><p>dem suas tradicionais posturas diante dos alunos e se tornem</p><p>facilitadores nos processos de sociabilidade, produção de</p><p>autonomia e participação, resultando na qualificação dos</p><p>processos de ensino-aprendizagem. Forjar, assim, espaços</p><p>para que os estudantes se exponham de forma saudável,</p><p>partilhem suas perspectivas de vida, apresentem seus valores</p><p>e vivências é função do corpo profissional da escola, o que</p><p>melhor se faz na medida em que haja trocas intersetoriais</p><p>com outras políticas territoriais.</p><p>Não por outro motivo as metodologias de prevenção escolares</p><p>com melhores resultados comprovados por pesquisas cien-</p><p>tíficas preveem trabalhar com o fortalecimento de vínculos</p><p>e habilidades, além de promover autonomia e sentimento de</p><p>pertença à comunidade escolar (ONU, 2014).</p><p>Com frequência, a partir do momento em que os estudantes</p><p>são ouvidos e protagonizam momentos em sala de aula, há</p><p>uma mudança na relação com os educadores e com a institui-</p><p>ção; o sentimento de pertencimento fica evidente e o desejo</p><p>de participar ativamente do cuidado e fortalecimento da</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 38</p><p>instituição acontece espontaneamente. Há diversos relatos</p><p>em que estudantes se organizam para cuidar de espaços es-</p><p>colares como biblioteca e muros, ativar grêmios estudantis,</p><p>ajudar na organização de momentos coletivos dos estudantes</p><p>como o recreio etc.</p><p>Foto: Câmara de Marechal</p><p>Floriano – Poder Legislativo –</p><p>Estado do Espírito Santo.</p><p>Se a escola ainda é a “segunda casa”, a mobilização prota-</p><p>gonista de discentes, portanto, é um fator determinante na</p><p>transformação da instituição educacional, tanto quanto já</p><p>mostram ser alguns tipos de serviços de saúde mental e de</p><p>proteção social. Assim, a produção de autonomia, a partici-</p><p>pação direta de alunas/os e o fortalecimento do sentimento</p><p>de pertencimento no ambiente escolar têm a capacidade de</p><p>mobilizar afetos no sentido do aprofundamento das relações</p><p>comunitárias, do exercício do direito à convivência familiar</p><p>e à cidade. Logo, também atraem para o contexto escolar a</p><p>perspectiva da imprescindibilidade de intersetorialidade com</p><p>saúde e assistência social.</p><p>Podcast</p><p>A intersetorialidade possibilita aos atores</p><p>educacionais partilhar o cuidado e a proteção</p><p>de seus discentes e profissionais. No entanto,</p><p>debates importantes surgem das divergências</p><p>sobre o nível de intersetorialidade necessário.</p><p>É o caso do papel do agente de saúde no</p><p>ambiente escolar: ele deve ser resolutivo</p><p>ou, sempre que necessário, acionar serviços</p><p>externos? É também o que vemos com relação</p><p>Módulo 3</p><p>O Conselho Tutelar e a Política sobre Drogas para a Infância e Adolescência 39</p><p>à violência – observada por professores –</p><p>sofrida por crianças e adolescentes no contexto</p><p>intrafamiliar: deve-se acionar a assistência social</p><p>ou o Conselho Tutelar? Primeiro, a polícia ou a</p><p>saúde? Trata-se de vivências cotidianas comuns</p><p>entre profissionais da educação e dúvidas que,</p><p>por vezes, não encontram respostas rápidas,</p><p>reforçando-se, em diversos momentos, práticas</p><p>inadequadas de centralização dos cuidados</p><p>restrita ao ambiente escolar, aprofundando o</p><p>caráter institucionalizante da escola. Ao mesmo</p><p>tempo, deve-se valorizar as estratégias correntes</p><p>no interior das escolas, pois, quando criativas e</p><p>respeitadoras da autonomia dos envolvidos,</p><p>nem sempre precisam acionar serviços externos.</p><p>Ou seja, a intersetorialidade tem sua boa medida</p><p>enquanto seja necessária para a organização</p><p>dos processos institucionais em conjunto com</p><p>o fortalecimento comunitário da autonomia,</p><p>participação e pertencimento de crianças</p><p>e adolescentes.</p><p>2.2 Interseccionalidades: infância,</p><p>adolescência e relações étnico-raciais</p><p>“Ontem, eu vi na esquina da minha rua.</p><p>Uma menina pequena que de tão pobre parecia nua.</p><p>Além da pobreza ela trazia uma tristeza que ninguém entendia.</p><p>Ela também não dizia.</p><p>Seu sorriso de felicidade era raro aparecer.</p><p>Só os olhos é que fuxicavam o momento de acontecer.</p><p>Era pelas vitrines de lojas comuns, lanchonetes e mercearias.</p><p>A menina dos olhos fuxiqueiros, sorria.</p><p>Ninguém entendia o motivo de sua alegria.</p><p>Ela passeava sozinha pelas avenidas e vielas.</p><p>Ninguém olhava para ela.</p><p>Mas se demorasse na porta de uma loja uma pessoa</p>