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Como_Trabalhamos_com_Grupos_Zimerman_Oso (1)

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<p>Z'7lc Zimerman, David E.</p><p>Como trabalhâmos colì ì gruì l i s . D:L\ ir l E. Ztncfi Ì ì :1._.. L: iz Ciìrìos</p><p>Osorio.. . [ct. al] - Porlo Al.cr. : . \ Írs \ Íédì.â!. I99:.</p><p>l . Técnicas psicoteÍápir$. L O\orio. L.C. IL TÍLrìo</p><p>cDU 615.85 r</p><p>Câtalogaçl io na publicâção: \ Íôn i( r Baììcjo Canlo - CR B l0/ 1023</p><p>ISBN 35 7:07-212-2</p><p>DAVID E. ZIMER]VIAN</p><p>LUIZ CARLOS OSORiO</p><p>H COLABORAI)ORES</p><p>COMO TRABALHAMOS COM</p><p>GRUPOS</p><p>PORTO ALEGRE, I997</p><p>õs</p><p>-?, -ã-</p><p>Sumário</p><p>Pref4nin</p><p>Clqudio M. Martins</p><p>PrÁìnon</p><p>Davìd E. Zímerman</p><p>PARTE 1- REVISÃO GERAL SOBR-E GRUPOS</p><p>I Fundamentos teóricos .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .23</p><p>David E. Zimerman</p><p>2 Fundamentos técnicos... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .33</p><p>Dqvid E. Zimerman</p><p>3 Atributos desejáveis para um coordenador de grupo ............. .................41</p><p>David E. Zímemun</p><p>4 A famíl ia como grupo primordial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .49</p><p>Luiz CarLos Osorío</p><p>5 Grupos espontâneos: as turmâs e gangues de adolescentes....................59</p><p>David E. Zímerman</p><p>ó Processos obstrutivos nos sistemas sociais, nos grupos e</p><p>nas inst i tuições. . . . . . . . . .69</p><p>Luíz Carlos Osorío</p><p>7 Classi f icação gerâl dos grupos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .75</p><p>David E. Zimerman</p><p>8 Como supervisionamos em grupoterapia .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .83</p><p>Luiz Carlos Osorio</p><p>PARTE 2 - PRÁTICA COM GRUPOS OPERATIVOS E PSICOTER(PICOS</p><p>9 Como agem os grupos operativos? .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .95</p><p>Janíce B. Fiscmann</p><p>l0 Grupos comunitários... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . l0l</p><p>Salv,ador Celia</p><p>11 Grupos de auto-ajuda... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 107</p><p>Carlos A.S.M. de Barros</p><p>12 Como agem os grupos terapêuticos? .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119</p><p>David E. Zìmennan</p><p>13 Grupoterapia psicânalít ica .. . . . . . . . . . . . . . .127</p><p>Davìd E. Zimernnn</p><p>L4 Psicanál ise compart i lhada: atual ização.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143</p><p>Gerqrdo Steín</p><p>15 Grupoterapia das configurações vinculares .. . . . . . . . . . . . . . .153</p><p>Waldemar José Fernandes</p><p>16 Laboratór io terapêut ico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 161</p><p>Francísco BapÍista Neto</p><p>17 Psicodrama. . . . . . . . . . . . . .169</p><p>Nedío Seminotti</p><p>PARTE 3. PRÁTICA COM GRUPOS ESPECIAIS</p><p>18 Grupoterapia com pacientes somáticos: 25 anos de experiência.......... 185</p><p>Júlio de Mello Filho</p><p>19 Grupos com portadores de transtomos al imentares . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .205</p><p>Rubén Zukerfeld</p><p>20 Grupoterapia para alcoolistas. ...........219</p><p>Sérgio de Paula Ramos</p><p>2l Grupos com drogadictos .. . . . . . . . . . . . . . . . . .229</p><p>Sílvía Brasiliqno</p><p>22 Grupo com deprimidos .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .241</p><p>Gilberto Brofman</p><p>23 Grupos com autistas... . . . . . . . . . . . . . . . . . , . . . . .249</p><p>Soni Mariq dos Santos Lewis</p><p>Viviane Costa de Leon</p><p>24 Psicoterapia com pacientes intemados e egressos .. . , . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .269</p><p>José Onildo B. Contel</p><p>PARTE 4. PRT(TICA COM GRTJPOS NA ÁREÁ DE FAMÍLIA</p><p>25Ocasal :umaent idadepsicanal í t ica. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .283</p><p>Janine Puseí</p><p>xvlIl</p><p>renan.vieira</p><p>Realce</p><p>renan.vieira</p><p>Realce</p><p>26A famíl ia como grupo e o gnÌpo como famíI ia. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .293</p><p>.lí. C ri s t itú Rav azzo lct</p><p>Susana Barilari</p><p>Gastórt Mazieres</p><p>Grupos com gestantes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .305</p><p>Geraldiv Rantos Viçosa</p><p>Grupos com cr ianças.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .311</p><p>Ruth Blay Levislq</p><p>. . . . .321</p><p>Luiz Carlos Osorio</p><p>Grupos com idosos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .</p><p>Guite L Zimerman</p><p>PARTE 5 - PRÂTICA COM GRUPOS NA AREA DO ENSINO E DA</p><p>APRENDIZAGEM</p><p>27</p><p>28</p><p>t0</p><p>30 . . . . . . . . . . . .331</p><p>Luiz Carlos llLafont Coronel</p><p>32 Grupos de educação médicâ ...</p><p>David E. Zímerman</p><p>33 O trabalho com gnìpos na escoIa.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .359</p><p>José Ouoni Outeiral</p><p>J4 Grupos de or ientação prof issional com alunos adolescentes.. . . . . . . . . . . . . . .373</p><p>Aidê Knijník Wainberg</p><p>PARTE 6 - PRÁTICA COM GRUPOS NA ÁREA INSTITUCIONAL</p><p>35 Terapia inst i tucional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .389</p><p>Luiz Cqrlos Osorio</p><p>36 Formação de l íderes: o grupo é o fórum adequado.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .399</p><p>Mauro Nogueíra de Olíveíra</p><p>37Atendimentoagruposeminst i tu ições.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .405</p><p>Neidí Margareth Schneider</p><p>38 Laboratório: exercício da autoridade, modelo Tavistok .......................413</p><p>Neidí Margareth Schneíder</p><p>Luiz Carlos Osorío</p><p>Mauro Nogueira de Olìveira</p><p>Mônica Guazellí Estrougo</p><p>Epílogo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .421</p><p>Luiz Carlos Osorio</p><p>PARTE 1</p><p>Revisão Geral</p><p>sobre Grupos</p><p>Fundamentos Teóricos</p><p>DAVIDE, ZIMERMAN</p><p>Coerente com a proposição geral deste livro, que é a de manter uma simplificação de</p><p>natureza didática dos assuntos pertinentes aos grupos, o presente capítulo vai abordar</p><p>unicamente alguns aspectos que fundamentam a teoria - tendo-se em vista a sua</p><p>aplicabilidade prática -, sem a menor pretensão de esgotar ou de explorar toda a</p><p>complexidade de um aprofundamento teórico que a dinâmica de grupo permite, pro-</p><p>picia e merece.</p><p>Inicialmente, a fim de situar o leitor que ainda não esteja muito familiarizado</p><p>com a área de grupos, mencionaremos e faremos uma breve referência a alguns dos</p><p>autores mais citados na literatura e que mais contribuíram para o desenvolvimento do</p><p>movimento grupalista. A seguir, será feita uma necessária revisão acerca da conce!</p><p>tuação de grupo e, por último, uma abordagem dos aspectos psicológicos contidos na</p><p>dinâmica do campo grupal.</p><p>ALGUNS AUTORES IMPORTANTES</p><p>J. Pratt. As grupoterapias estão comemorando o seu primeiro centenrírio de existên-</p><p>cia. Isso se deve ao fato de que a inauguração do recurso grupoteriípico começou com</p><p>este tisiologista americano que, a partir de 1905, em uma enfermaria com mais de 50</p><p>pacientes tuberculosos, criou, intüitivamente, o método de "classes coletivas", as</p><p>quais consistiam em uma aula prévia, ministrada por Pratt, sobre a higiene e os pro-</p><p>blemas da tuberculose, seguida de perguntas dos pacientes e da sua livre discussão</p><p>com o médico. Nessas reuniões, criava-se umclima de emulação, sendo que os pacien-</p><p>tes mais interessados nas atividades coletivas e na aplicação das medidas higieno-</p><p>dietéticas eram premiados com o privilégio de ocupar as primeiras filas da sala de</p><p>aula.</p><p>Esse método, que mostrou excelentes resultados na aceleração da recuperação</p><p>física dos doentes, está baseado na identificação desses com o médico, compondo</p><p>uma estrutura familiar-fratemal e exercendo o que hoje chamamos "função continen-</p><p>te" do grupo. Pode-se dizerque essa se constitui naprimeira experiência gmpoterápica</p><p>registrada na literatura especializada e que, embora tenha sido realizada em bases</p><p>empíricas, serviu como modelo para outras organizações similares, como, por exem-</p><p>plo, a da prestigiosa "Alcoólicos Anônimos", iniciada em 1935 e que ainda se man-</p><p>tém com uma popularidade crescente. Da mesma forma, sentimos uma emoção fasci-</p><p>nante que sentimos ao percebermos que na atualidade a essência do velho método de</p><p>24 . ZMERìaAN & osoRlo</p><p>Pratt está sendo revitalizada e bastante aplicada justamente onde ela começou, ou</p><p>seja, no campo da medicina, sob a forma de grupos homogêneos de auto-ajuda, e</p><p>coordenada por médicos (ou pessoal do corpo de enfermagem) não-psiquiatras.</p><p>Freud. Embora nunca tenha trabalhado diretamente com grupoterapias, Freud</p><p>trouxe valiosas contribuições específicas à psicologia dos grupos humanos tanto im-</p><p>plícita (petos ensinamentos contidos em toda a sua obra) como também explicita-</p><p>mente, através de seus 5 conhecidos trabalhos:</p><p>não estão suficientemente desen-</p><p>volvidas na criança. A relevância deste atributo se deve ao fato de que um filho</p><p>somente desenvolverá uma determinada capacidade - digamos, para exemplificar, a</p><p>de ser um continente para si aos demais - se a sua mãe demonstrou possuir essa</p><p>capacidade.</p><p>Igualmente, um coordenador de grupo deve estar atento e disponível para, du-</p><p>rante algum tempo, emprestar as suas funções do ego às pessoas que ainda não as</p><p>possuem, o que acontece comumente quando se trata de um grupo bastante regressi-</p><p>vo. Creio que, dentre as inúmeras capacidades egóicas que ainda não estão suficien-</p><p>temente desenvolvidas para determinadas funções, tarefas e comportamentos, e que</p><p>temporariamente necessitam de um "ego auxiliar" por paÍte do coordenador do gru-</p><p>po, meÍecem um registro especial as funções de pensar, discriminar e comunicar.</p><p>. Função de pensar. É bastante útil que um coordenador de grupo, seja qual for</p><p>a natureza deste, permaneça atento para perceber se os paÍticipantes sabem pensar âs</p><p>idéias, os sentimentos e as posições que são verbalizados, e ele somente terá condi-</p><p>ções de executar essa taÍefa se, de fato, possuir esta função de saber pensar.</p><p>Pode parecer estranha a afirmativa anterior; no entanto, os autores contempo-</p><p>râneos enfatizam cada vez mais a importância de um indivíduo pensar as suas expe-</p><p>riências emocionais, e isso é muito diferente de simplesmente "descarÍegar" os nas-</p><p>centes pensamentos abrumadores para fora (sob a forma de um discurso vazio, proje-</p><p>ções, actings, etc.) ou para dentro (somatizações). A capacidade para "pensar os pen-</p><p>samentos" também implica escutar os outros, assumir o próprio quinhão de responsa-</p><p>bilidade pela natureza do sentimento que acompanha a idéia, estabelecer confrontos</p><p>e correlações e, sobretudo, sentir uma liberdade para pensaÍ.</p><p>Vou me permitir observar que: "muitos indivíduos pensam que pensam, mas</p><p>não pensam, porque estão pensando com o pensamento dos outros (submissão ao</p><p>pensamento dos pais, professores, etc.), pâra os outros (nos casos de "falso sef'),</p><p>contra os outros (situações paranóides) ou, como é nos sujeitos excessivamente narci-</p><p>sistas: "eu penso em mim, só em mim, a partir de mim, e não penso em mim com os</p><p>outros, porque eu creio que esses devem gravitaÍ em tomo do meu ego".</p><p>. Discriminação. Faz parte do processo de pensar. Capacidade de estabelecer</p><p>uma diferenciação entre o que pertence ao próprio sujeito e o que é do outro, fantasia</p><p>e realidade, intemo e extemo, presente e passado, o desejável e o possível, o claro e</p><p>o ambíguo, verdade e mentira, etc. Particularmente para um cooÍdenador de grupo,</p><p>este atributo ganha relevância em razão de um possível jogo de intensas identifica-</p><p>A</p><p>ts</p><p>o</p><p>u</p><p>o</p><p>n</p><p>€</p><p>o</p><p>col\ro 1R^BÀLH^Ì!Íos coM cRUPos . 45</p><p>ções projetivas cruzadas em todas as direções do campo grupal, o qual exige uma</p><p>clara discriminação de "quem é quem", sob o risco do grupo cair em uma confusão de</p><p>papéis e de responsabilidades. Acredito que os terapeutas que trabalham com casais</p><p>e famflias podem testemunhar e concordar com esta última colocaçào.</p><p>. Comunicação, Para atestar a importância da função de comunicar - tânto no</p><p>conteúdo quanto na forma da mensagem emitida - cabe a afirmativa de que a lingua-</p><p>gem dos educadores determina o sentido e as significações das palavras e gerc as</p><p>estruturas da mente.</p><p>O atributo de um coordenador de grupo em saber comunicar adequadamente é</p><p>pârticularmente importante no caso de uma grupoterapia psicanalítica, pela respon-</p><p>sabilidade que representa o conteúdo de sua atividade interpretativa, o seu estilo de</p><p>comunicá-la e, sobretudo, se ele está sintonizado no mesmo canal de comunicação</p><p>dos pacientes (por exemplo, não adianta formular interpretações em termos de com-</p><p>plexidade simbólica para pacientes regressivos que ainda permanecem numa etapa</p><p>de pensamento concreto, e assim por diante). Em relaçío ao estiLo, deve ser dado um</p><p>destaque ao que é de natureza narcisista, tal como segue logo adiante.</p><p>Um aspecto parcial dacomunicação é o que diz respeito à atividade interpretativa,</p><p>e como essa está intimamente ligada ao uso das verdades, como antes foi ressaltado,</p><p>torna-se necessário estabelecer uma importante conexão entre a formulação de uma</p><p>verdade penosa de ser escutada e a manutenção da verdade. Tomarei emprestada de</p><p>Bion uma sentença que sintetiza tudo o que estou pretendendo destacar: anlor sent</p><p>verdade não é mais do aue naixão, no entanlo, verdade sem amor é crueldade.</p><p>É igualmente impo.tont" qu. ,r .oordenrdor de grupo qualquer valorize o fato</p><p>de que a comunicação não é unicamente verbal, porquanto tanto ele como o seu</p><p>grupo estão continuamente se comunicando através das mais sutis formas de lingua-</p><p>gem não-verbaì.</p><p>. Tfaços caracterológicos. Tanto meÌhor trabalhará um coordenador de grupo</p><p>quanto melhor ele conhecer a si próprio, os seus valores, idiosincrasias e caracterologia</p><p>predominante. Dessa forma, se eÌe for exageradamente obsessivo (embora com a</p><p>ressalva de que uma estrutura obsessiva, não excessiva, é muito útil, pois determina</p><p>seriedade e organização), vai acontecer que o coordenador terá uma absoluta intolerân-</p><p>cia a qualquer atraso, falta e coisas do gênero, criando um clima de sufoco, ou geran-</p><p>do uma dependência submissa. Igualmente, uma caracterologia fóbica do coordena-</p><p>dor pode determinar que ele evite entrar em contato com determinadas situações</p><p>angustiantes, e assim por diante.</p><p>No entanto, vale destacar aqueles traços caracterológicos que são predominan-</p><p>temente de natnÍezà narcisìsta. Nestes casos, o maior prejuízo é que o coordenador_-</p><p>estará mais voltado para o seu bem-estar do que para o dos demais. A necessidade de</p><p>receber aplausos pode ser tão imperiosa, que há o risco de que se estabeÌeçamconluios</p><p>inconscientes, com o de uma recíproca fascinação narcisista, por exemplo, onde o</p><p>valor máximo é o de um adorar o outro, sem que nenhuma mudança verdadeira ocor-</p><p>ra. Uma outra possibilidade nociva é a de que o coordenador seja tão brilhante que</p><p>eÌe deslumbra ("des" + "lumbre", ou seja, ofusca porque "tira a luz") às pessoas do</p><p>grupo, como seguidamente aconÍece entre plofessores e alunos, mas tambóin pode</p><p>aconlecer com grupoterapeu(as e seus pacientes.</p><p>Neste último caso, o dogmático discurso interpretativo pode estar mais a servi-</p><p>ço de uma fetichização, isto é, da manutenção do ilusório, de seduzir e dominar, do</p><p>t-</p><p>Í,</p><p>t-</p><p>o</p><p>F</p><p>ts</p><p>i-</p><p>t-</p><p>€</p><p>F</p><p>)-</p><p>i-</p><p>;-</p><p>:-</p><p>F</p><p>F.</p><p>r5</p><p>)r</p><p>LS</p><p>i-</p><p>s</p><p>) ,</p><p>r</p><p>a</p><p>t .</p><p>46 . zMsrÌ,r,aN a osoRro</p><p>que propriamente a uma comunicação, a uma resposta, ou a abertura para reflexões.</p><p>A retórica pode substituir a produção conceitual.</p><p>Um outro inconveniente que decorre de um coordenador excessivamente narci-</p><p>sista é que ele tem a sensação de que tem a propriedade privada sobre os ..seus pacien-</p><p>tes", do futuro dos quais ele crê ter a posse e o direito de determinar o valoi deles.</p><p>Nestes casos, é comum que este terapeuta trabalhe mais sobre os núcleos conflitivos</p><p>e os aspectos regressivos, descartando os aspectos mais maduros e as capacidades</p><p>sadias do ego.</p><p>Da mesma forma, um grupoterapeuta assim pode ser tentado a fazer exibição de</p><p>uma cultura erudita, de fazer frases de efeito que, mais do que um simples brilho que</p><p>lhe é tão necessário, o que ele basicamente visa, no plano inconsciente, é manter uma</p><p>larga diferença entre ele e os demais do grupo.</p><p>. Modelo de identiÍicação. Todos os grupos, mesmo os que não são especifica-</p><p>mente de natureza terapêutica, de uma forma ou outra, exercem uma função</p><p>psicoterápica. Isso, entre outras razões, deve-se ao modelo exercido pela figurado</p><p>coordenadordo grupo, pela maneira como ele enfrenta as dificuldades, pensaos proble-</p><p>mas, estabelece limites, discrimina os distintos aspectos das diferentes situações,</p><p>maneja com as verdades, usa o verbo, sintetiza, integra e dá coesão ao grupo. Òom</p><p>outras palavras, o grupo também propicia uma oportunidade para que os paÍicipan-</p><p>tes introjetem a figura do coordenador e, dessa forma, identifiquem-se com murtas</p><p>características e capacidades dele.</p><p>Nos casos de grupoterapia</p><p>psicanalítica, vale acrescentar que a atividade</p><p>interpretativa_do grupoterapeuta também deve visar a faz er desidentificações, ou seja,</p><p>desfazer as identificações patógenas que podem estar ocupando um largo espaço na</p><p>mente dos pacientes, e preencher esse espaço mental formado com neo-idànifica-</p><p>çõer, entre as quais pontifica as que procedem do modelo da pessoa real do grupote-</p><p>rapeuta.</p><p>. Empatia.Todos os atributos antes discriminados exigem uma condição básica</p><p>para que adquiram validade, qual seja a de que exista uma sintonia emocional do</p><p>coordenador com os participantes do grupo.</p><p>Tal como designa a etimologia desta palavra [as raízes gregas são: em (dentro</p><p>de) + parhos (sofrimento)], empatia refere-se ao atributo do coordenador de um qru-</p><p>po de poder se colocar no lugarde cadaum do grupo e entrar dentro do .,clima grupãt".</p><p>Isso é muito diferente de simpatia (que se forma a partir do prefixo sfiz, que quer</p><p>dizer ao lado de e não dentro de).</p><p>A empatia está muito conectada à capacidade de se poder fazer um aproveita-</p><p>mento útil dos sentimentos contratransferenciais que estejam sendo despertados den-</p><p>tro do coordenador do grupo, porém, pâra tanto, é necessário que ele tenha condições</p><p>de distinguir entre os sentimentos que provêm dos participantes daqueles que perten-</p><p>cem unicamente a ele mesmo.</p><p>. Síntes€ e integração. A função de síntese de um coordenador de grupo não</p><p>deve ser confundida com a habilidade de fazer resumos. A conceituação de síntese</p><p>alude à capacidade de se extrair um denominador comum dentre as inúmeras comu-</p><p>nicações provindas das pessoas do grupo e que, por vezes, aparentam ser totalmente</p><p>diferentes entre si, unificando e centralizando-as na tarefa prioritária do grupo, quan-</p><p>do este for operativo, ou no emergente das ansiedades inconscienles, no caso de gru-</p><p>po voltado ao ,r2s{g/rt. Por outro Íado, é a "capacidade sintética do ego" do grupotera-</p><p>peuta que lhe possibilita simbolizar significações opostas e aparentemente contraditó-</p><p>rias entre si.</p><p>Assim, também é útil estabelecer uma diferença conceitual entre sintetizar e</p><p>junto.r: a síntese consiste em fazer uma totalidade, enquantojrínÍcr consiste em fazer</p><p>uma nova ligação, isto é, em ligar de outro modo os mesmos elementos psíquicos.</p><p>Afunçáo de integraçõo, poÍ s\avez, designa uma capacidade de o coordenador</p><p>juntar aspectos de cada um e de todos, que estão dissociados e projetados em outros</p><p>(dentro ou fora do grupo), assim como também aqueles aspectos que estão confusos,</p><p>ou, pelo_menos, pouco claros, porque ainda não foram suficientemente bem discrimi-</p><p>nados. E particularmente importante a integração dos opostos, como, por exemplo, a</p><p>concomitância de sentimentos e atitudes agressivas com as amorosas que sejam cons-</p><p>trutivas e repaÍadoras, etc.</p><p>Para que um coordenador de grupo possa exercer adequadamente as funções</p><p>antes referidas, muito particularmente nas grupoterapias dirigidas ao insight, impõe-</p><p>se a necessidade de que seu estado mental esteja voltado para a posição de que o</p><p>crescimento psíquico dos indivíduos e do grupo consisteemaprender com as experiên-</p><p>cias emocionais que acontecem nas inter-relações grupais. Assim, ele deve comun-</p><p>gar com o grupo que o que é realmente valioso na vida é ter aliberdade para fantasiar,</p><p>desejar, a sentir, pensar, dizer, sofrer, gozar e estar junÍo com os outros.</p><p>Portanto, um importante critério de crescimento mental, embora possa parecer</p><p>paradoxal, é aquele que, ao contrário de valorizar sobremaneira que o indivíduo este-</p><p>ja em condições de haver-se sozinho, a terapia grupal deve visar que, diante de uma</p><p>dificuldade maior, o sujeito possa reconhecer a sua parte frágil, permita-se angustiar-</p><p>se e chorar e que se sinta capaz de solicitar e aceitar uma ajuda dos outros.</p><p>Vale enfatizar que a enumeração dos atributos que foram referidos ao longo</p><p>deste capítulo não pretende ser exaustiva. Os mencionados atributos comportam ou-</p><p>tras variantes, permitiriam muitas outras considerações, foram descritos em terÍnos</p><p>ideais e não devem ser levados ao pé da letra, como se fosse uma exigência intimidadora</p><p>ou u,ma constrangedora camisa de força. Antes, a descrição em itens separados visa a</p><p>dar uma amostragem da importância da pessoa do coordenador de qualquer tipo de</p><p>_crupo.</p><p>A expressão "qualquer tipo de grupo" implica uma abrangência tal, que alguém</p><p>poderia objetarque os atributos que foram arrolados não constituem nenhuma origina-</p><p>lidade específica, porquanto também devem valer para mil outras situações que não</p><p>rêm um enquadre grupal formalizado. A resposta que me ocoÍÌe dar aos hipotéticos</p><p>contestadores é que eles estão com a razão. Assim, em uma famíÌia nuclear é à dupla</p><p>parental que cabe a função de coordenar a dinâmica do grupo familiar. Em uma sala</p><p>de aula, é o professor quem executa essa função. Num grupo de teatro, esse papel é</p><p>do diretor do grupo. Numa empresa, cabe às chefias e diversas subchefías, e assim</p><p>ç'or diante.</p><p>Numa visualização macro-sociológica - uma nação, por exemplo -, as mesmas</p><p>:onsiderações valem para a pirâmide que govema os destinos do país, desde a cúpula</p><p>Jo presidente coordenando o seu primeiro escalão de auxiliares diretos, cada um</p><p>Jesses exercendo a função de coordenar os respectivos subescalões, em uma escala-</p><p>ü progressiva, passando pelos organismos sindicais em direção às bases. Se não</p><p>hyer verdade, respeito, coerência, empatia, etc., por parte das cúpulas diretivas (como</p><p>.r dos pais em uma família, a de um coordenador num gÍupo, etc.), é virtualmente</p><p>::no que a mesma conduta acontecerá por parte dos respectivos grupos.</p><p>O que importa destacar é o fato de que o modelo das lideranças é o maior res-</p><p>se.rri;ír'el pelos valores e características de um grupo, seja ele de que tipo for.</p><p>CoMoTRABALHAMOS COll CIUPOS r 47</p><p>A FamíIia como Grupo</p><p>Primordial</p><p>LUIZCÀRLOS OSORIO</p><p>EM BUSCA DE UM CONCEITO OPERATIVO DE FAMILIA</p><p>Família não éum conceito unívoco. Pode-se dizer que a família não é uma expressão</p><p>passível de conceituação, mas tão somente de descrições, ou seja, é possível descre-</p><p>ver as várias estruturas ou modalidades assumidas pela família através dos tempos,</p><p>mas não defini-la ou encontrar algum elemento comum a todas as formas com que se</p><p>apresenta este agrupamenlo humano.</p><p>Mesmo se a considerarmos apenas num dado momento evolutivo do processo</p><p>civilizatório temos dificuldades em integrar o proteimorfismo de suas configurações</p><p>numa pauta conceìtual. O que terá em comum nos dias atuais, por exemplo, uma</p><p>famflia de uma metrópole norte-americana com a de um vilarejo rural da China? Ou</p><p>a de um kibbutz israelense com a de um latifundiário australiano? Que similitude</p><p>encontrar entre a de um retirante nordestino e a de um lapão da Escandinávia? Ou a</p><p>de um porto-riquenho que vive num gueto nova-iorquino com a de um bem-sucedido</p><p>empresário suíço? Ou, ainda, como equiparar a de um siciliano mafioso com a de um</p><p>muçulmano paquistanense? Ou a de um bérbere norte-africano com a de um decadente</p><p>lorde inglês?</p><p>São tantas as variáveis ambientais, socrars, econômicas, culturais, políticas ou</p><p>religiosas que determinam as distintas composições das famílias até hoje, que o sim-</p><p>pÌes cogitar abarcá-las num enunciado integrador já nos paralisa o ânimo e tolhe o</p><p>propósito. Não obstante, como não podemos prescindir de uma definição, ainda que</p><p>precária e limitada, que nos facilite a comunicação e nos ajude a discriminar o funda-</p><p>mental do perfunctório, vamos à procura de um conceito que possa ser operativo para</p><p>as finalidades deste capítu1o, valendo-nos para tanto das contribuições de outros autores</p><p>que se debruçaram sobre a ingente tarefa de encontrar umanoção de família suficiente-</p><p>mente abrangente para servir-nos de parâmetro aqui e agora.</p><p>Dizer que a família é a unidade básica da interação social talvez seja a forma</p><p>nais _genérica e sintética de enunciá-la; mas, obviamente, não basta para situá-la</p><p>:u1mo agrupamento humano no contexto histórico-evolutivo do processo civilizatório.</p><p>Escardó observa-nos que "a palavra /amílía nío designa uma instituição padrão,</p><p>:-:re e invariável. Através</p><p>dos tempos, a famíia adota forïnas e mecanlsmos sumamente</p><p>::.. ersos, e na atualidade coexistem no gênero humano tipos de famflia constituídos so-</p><p>::: princípios morais e psicológicos diferentes e ainda contraditórios e ilconciliáveis".</p><p>50 . znrmve,N a osonro</p><p>A estruora familiar varia, portanto, enormemente, conforme a latitude, as distin-</p><p>tas épocas históricas e os fatores sócio-políticos, econômicos ou religiosos prevalentes</p><p>num dado momento da evolução de determinada cultura.</p><p>Segundo Pichon Rivtère,"a,família proporciona o marco adequado para a defini-</p><p>gão e conservação das diferenças humanas, dando forma objetiva aos papéis distin-</p><p>tos, mas mutuamente vinculados, do pai, da mãe e dos filhos, que constihlem os</p><p>papéis básicos em todas as culturas".</p><p>Para LéviStrauss, são três os tipos de relações pessoais qrue conírguram afamí-</p><p>lia: aliança (casal),filiação (pais e Írlhos) e consangüinidade (irmãos).lsso nos con-</p><p>duz a outro referencial intimamente vinculado à noção de famflia: o parentesco.</p><p>O parentesco consiste numa relação entre pessoas que se vinculam pelo casa-</p><p>mento ou cujas uniões sexuais geram filhos ou, aind4 que possuam ancestrais co-</p><p>muns. Nesta concepção, marido e mulher são parentes, independentemente de gera-</p><p>rem filhos, assim como o são os pais de uma criança, embora não sejam legalmente</p><p>casados; por outro lado, dois indivíduos que vivam maritalmente sem que essa rela-</p><p>ção seja oficializada legalmente ou que dela resultem filhos não são parentes.</p><p>Frcud, emTotem e taòu, assinala que o "parentesco é algo mais antigo do que a</p><p>vida familiar e, naìã-oria das sociedades primitivas que nos são conhecidas. a famí-</p><p>lia continha membros de mais de um parôntesco. Como veremos mais adiante, por</p><p>não se conhecer o papel do pai na reprodução, n_os povo_sprimitivo-s o parentesco era</p><p>restrito à linhagem matema.</p><p>NÌo o6Bkúite ã no-çãóãa família repouse sobre a existência do casal qlLelhe dâ</p><p>origem, considera-se que sua essência esteja representada na relaçã,o pais-filhns, jât</p><p>que a origem e o destino deste agrupamento humano coincidem no objetivo de gerar</p><p>e criar filhos.</p><p>. ,A,c,on(içã! neçtênica da espécie humana, ou seja, a impossibilidade de sua</p><p>descendência sobreviver sem cuidados ao longo dos primeiros anos de vida, foi, sem</p><p>dúvida, responsável pelo surgimento do núcleo familiar como agente de perpetuação</p><p>da vida humana, o que igualmente ocorre com outras espécies animais, cuja prole</p><p>também necessita da provisão de alimentos e proteção por parte de indivíduos adul-</p><p>tos, enquanto não pode fazêìa por seus próprios meios. A famflia toma-se, assim,</p><p>tanto no homem como em outras categorias zoológicas, o modelo natural para asse-</p><p>gurar a sobrevivência biológica da espécie; a par desta função básica, propicia simul-</p><p>taneamente a matriz para o desenvolvimento psíçico dos descendentes e a aprendi-</p><p>zagem da interação social.</p><p>Em realidade, não podemos dissociar a função biológica da função psicossocial</p><p>da família; se é fato que a finalidâde biológica de conservar a eèpécie está na origem</p><p>da formação da famíia, é igualmente pertinente dizer que a família é um-grupo espe-</p><p>- ctârrTaoo nallgguçao oe pessoas com vlnculos pecultares e que se consutul na celula</p><p>orimordial de toda e qualquer cultura.</p><p>----- Cõm6seiãèmàntoi introdutórios já estamos em condições de formular uma</p><p>defnição ad hoc, de cunho operativo, para os propósitos aqui presentes:</p><p>" Farnília é uma unidade grupal onde se desenvolvem três tipos de relações pessoais</p><p>- aliança (casal), filiação (pais/filhos) e consangüinidade (irmãos) - e que a partir</p><p>dos objertvos genéricos de preservar a espécie, nutrir e proteger a descendência e</p><p>fornecer-lhe condições para a aquisição de suas identidades pessoais desenvolveu</p><p>através dos tempos funções diversificadas de transmissõo de valores éticos, estétï</p><p>cos, religiosos e culturais".</p><p>t-</p><p>F</p><p>t-</p><p>te</p><p>ì-</p><p>S</p><p>t-</p><p>t-</p><p>rs</p><p>t-</p><p>t-</p><p>a</p><p>ú-</p><p>l Í</p><p>lá</p><p>iéL</p><p>la</p><p>m</p><p>io</p><p>,te</p><p>'l-n.</p><p>e-</p><p>rl-</p><p>ti-</p><p>coMorR^BALHAMos cov cnupos . 51</p><p>Consideraremos, ainda, que a família pode se apresentar, grosso modo, sob três</p><p>formatos básicos: a nuclear (conjugal), a extensa (consangüínea) e a abrangente.</p><p>Por família nuclear entenda-se a constituída pelo tripé pai-mãe-filhos; por famí-</p><p>lia extensa a que se componha também por outros membros que tenham quaisquer</p><p>laços de parentesco, e a abrangente a que inclua mesmo os não-parentes que coabitem.</p><p>Convencionaremos que doravante sempre que nos referirmos à famflia, a menos</p><p>que se particularize a modalidade de agrupamento familiar considerada, o estaremos</p><p>fazendo tendo em mente seu formato nuclear, prevalente na modema civilização oci-</p><p>dental, que baliza o cotidiano existencial daqueles a quem se destina este livro.</p><p>{S ORIGENS DA FAMÍLIA</p><p>A família é uma instituição cujas origens remontam aos ancestrais da espécie huma-</p><p>na e confundem-se com a própria trajetória filogenética.</p><p>A organização familiar não é exclusiva do homem; vamos encontrá-la em outras</p><p>espécies animais, quer entre os vertebrados, quer, mesmo sob formas rudimentares,</p><p>entre os invertebrados.</p><p>Assim como na espécie humana, encontram-se distintas formas de organização</p><p>familiar entre os animais. Há famílias nas quais, após o acasalamento, a prole fica aos</p><p>cuidados de um só dos genitores, geralmente, a fêmea; mas também poderá ser o</p><p>macho quem se encarrega dos cuidados com os descendentes, como em certas espé-</p><p>cies de peixes. Algumas espécies entre as aves vivem em família durante a época da</p><p>reprodução e em bandos durante as demais épocas do ano. Os pais podem permane-</p><p>cer junto aos filhotes pela vida toda, mas esses geralmenÍe deixam os pais antes que</p><p>nasçam outras ninhadas. Há também entre os animais famílias ampliadas (ou exten-</p><p>sas), onde os jovens ajudam a criar os irmãos. As abelhas operárias, que são filhas</p><p>estéreis das abelhas rainhas, constituem entre si uma fratria ou comunidade de irmãs</p><p>com funções de mútuos cuidados, proteção e alimentação.</p><p>Essa breve referência aos comportamentos familiares de certos animais tem o</p><p>propósito de enfatizar o caráter universal dos agrupamentos familiares e chamar a</p><p>atenção para suâ onipresença não só ao longo da evolução da espécie humana, mâs na</p><p>de outros seres do reino animal.</p><p>Curiosamente, a origem etimológica da palavra família nos remete ao vocábulo</p><p>latino famulus, qrl'e significa "servo" ou "escravo", sugerindo que primitivamente se</p><p>considerava a família como sendo o conjunto de escravos ou criados de uma mesma</p><p>pessoa. Parece-me, contudo, que essa raiz etimológica alude à natureza possessiva</p><p>das relações familiares entre os povos primitivos, onde a mulher devia obedecer seu</p><p>marido como se seu amo e senhor fosse, e os filhos pertenciam a seus pais, a quem</p><p>deviam suas vidas e conseqüentemente esses sejulgavam com direito absoluto sobre</p><p>elas. A noção de posse e aquestão do poderestão, portanto, intrinsecamente, vinculadas</p><p>à origem e à evolução do grupo familiar, conforme veremos mais adiante ao tratar-</p><p>mos dos mitos familiares.</p><p>Há várias teorias sobre a origem da família: umas a fundamentam em suas fun-</p><p>ções biológicas; outras, em suas funções psicossociais. Foram formuladas as mais</p><p>diÏersas hipóteses, tendo como ponto de partida questões atinentes à parentalidade,</p><p>ou seja, aos papéis patemo e matemo como estruturadores do grupo famiÌiar.</p><p>O vértice evolutivo - que considera que a família, tal qual os seres que a com-</p><p>poem, necessita passar por etapas sucessivas no curso de seu desenvolvimento - tem</p><p>sido a pedra de toque na fundamentação das diversas teorias que tentam explicar a</p><p>al</p><p>m</p><p>e-</p><p>Ia</p><p>us</p><p>rir</p><p>e</p><p>?u</p><p>Ìi-</p><p>52 . zmsnve" * oso*to</p><p>origem e a estruhlração do grupo familiar como o encontrâmos ao longo do processo</p><p>civilizatório e nas distintas culturas.</p><p>As famílias originalmente se organizavam sob a forma matriarcal, ao que parece</p><p>pelo desconhecimento do papel do pai na reprodução. Essa explicação, contudo, não</p><p>é consensual entre os antropólogos. No entanto, é o que nos parece ocorrer em certas</p><p>sociedades ditas matrilineares ainda encontradas em nossos dias - tais como os mela-</p><p>nésios</p><p>estudados por Malinovski -, onde a autoridade patema recai sobre a figura do</p><p>tio matemo (aúnculo), que, entre outras atribuições, tem a de "conceder a mão" das</p><p>sobrinhas aos eventuais pretendentes a com elas se casarem. Essa "transferência" ao</p><p>tio matemo dos direitos e deveres habirualmente atribuídos ao pai provém, ao que</p><p>tudo indica, do referido desconhecimento do papel do homem na reprodução em</p><p>tempos idos. Esses hábitos milenares dos melanésios com relação ao papel avuncular</p><p>teriam subsistido mesmo após a revelação da função reprodutora patema.</p><p>O matriarcado, segundo outras fontes, seria uma decorrência natural da vida</p><p>nômade dos povos primitivos, pois, enquanto os homens - desconhecendo ainda as</p><p>técnicas próprias ao cultivo da terra - tinham que sair à procura de alimento, as</p><p>mulheres ficavam nos acampamentos com os filhos, que cresciam praticamente sob a</p><p>influência exclusiva das mães, a quem cabia ainda fomecerum mínimo de estabilida-</p><p>de social a estes núcleos familiares incipientes.</p><p>Como decorrência dessa preponderância da figura materna, em certas socieda-</p><p>des matriarcais as mulheres tinham o direito de propriedade e certas prerrogativas</p><p>poÍticas, como entre os iroqueses canadenses estudados por Morgan no século passado.</p><p>Entre eles, as mulheres possuíam as terras cultiváveis e as habitações, podendo vetar</p><p>a eleição de um chefe, embora não ocupar um cargo no conselho supremo.</p><p>Para os evolucionistas, o desenvolvimento da agricultura e o conseqüente advento</p><p>do sedentarismo foram os responsáveis pela instalação progressiva do patriarcado.</p><p>Em fins do século passado e princípios deste houve um verdadeiro boom de</p><p>estudos antropológicos sobre populações primitivas, sustentando a emergência de</p><p>múltiplas teses sobre o comportamento dos grupos familiares. No entanto, é algo</p><p>temerário tirar-se conclusões sobre a origem da famflia a partir da observação das</p><p>tribos primitivas, pois a noção de evolução cultural linear não ó mais aceita entre os</p><p>antropólogos. Isso quer dizer que os povos ditos primitivos que nos são contemporâ-</p><p>neos não necessariamente estão reproduzindo formas de agrupamento familiar en-</p><p>contradas no passado remoto. Ainda assim, a constatação de que certos padrões são</p><p>reiteradamente encontrados em tempos e lugares diversos permite que se tome como</p><p>válidas muitas das afirmações feitas com base nesses estudos.</p><p>Ao discutir-se a origem da família, uma pergunta inicial que insistentemente</p><p>nos ocorre é se a instituição familiar é universal.</p><p>Em 1949, o antropólogo norte-americano G.P. Murdock publicou seu estudo</p><p>transcultural sobre parentesco, confirmando a hipótese da universalidade da família.</p><p>Para Murdock não apenas a família em geral, mas a famflia nuclear, em particulaÍ, é</p><p>universal, concluindo que nenhuma cultura ou sociedade pode encontrar um substi-</p><p>tuto adequado para a família nuclear.</p><p>A famflia nuclear, segundo esse autor, apresenta quatro funções elementares: a</p><p>sexual, a reprodutiva, a econômica e a educativa. Essas funções seriam requisitos</p><p>para a sobrevivência de qualquer sociedade. E baseando-se nesse fato que Murdock</p><p>afirma ser a família nuclear universal.</p><p>Há quem possa objetar com a observação de que temos em nossos tempos estrutu-</p><p>ras sociais que não incluem a famflia, como, por exemplo, os kibbutz de Israel. No</p><p>entanto, como observa Spiro, esta sociedade essencialmente voltada para a criança,</p><p>COIIIO TRABALHAMOS COM CRUPOS</p><p>'</p><p>53</p><p>o</p><p>ts</p><p>t-</p><p>/o</p><p>ls</p><p>lo</p><p>le</p><p>m</p><p>ar</p><p>da</p><p>as</p><p>as</p><p>DA</p><p>la-</p><p>la-</p><p>tas</p><p>do.</p><p>Íar</p><p>nto</p><p>o.</p><p>de</p><p>de</p><p>lgo</p><p>das</p><p>:os</p><p>lrâ-</p><p>en-</p><p>são</p><p>rmO</p><p>udo</p><p>ília.</p><p>)sti-</p><p>;itos</p><p>lock</p><p>embora do ponto de vista estrutural pareça constituir-se numa exceção à idéia da</p><p>universalidade da família, serve para confirmáìa do ponto de vista funcional e psicoló-</p><p>gïco.No kibbutz, acomunidade inteira passa a seruma grande família extensa. Somente</p><p>numa sociedade familial como o kibbutz, afirma Spiro, seria possível não haver a</p><p>família nuclear desempenhando suas funções indispensáveis.</p><p>A questão da origem da famflia conduz-nos naturalmente à discussão das ques-</p><p>tões relativas ao pârentesco, as relações entre o tabu do incesto e a exogami4 e a</p><p>instituição do casamento.</p><p>L.H. Morgan, advogado noÍte-americano que na segunda metade do século passa-</p><p>do se interessou vivamente pela observação da vida dos aborígenes que viviam na</p><p>fronteira dos EUA e Canadá, tomou-se o fundador da modema antropologia com</p><p>seus estudos pioneiros sobre as relações de parentesco. Embora seu enfoque</p><p>evolucionista possa ser contestado pelos avanços ulteriores da investigação antropoló-</p><p>gica, sua tipologia familiar perÌnanece como ponto de referência para o estudo das</p><p>estruturas familiares e das teorias sociológicas sobre a família.</p><p>Segundo Morgan havia originariamente uma promiscuidade absoluta, sem qual-</p><p>quer interdição para o intercurso sexual entre os seres humanos. Este teria sido o</p><p>peíodo da família consangüínea, estruturada a partir dos acasalamentos dentro de</p><p>um mesmo grupo.</p><p>A seguir, pelo surgimento da interdição do relacionamento sexual entre pais e</p><p>filhos e posteriormente entre irmãos, através do tabu do incesto, surgiu a famflia</p><p>punaluana, onde os membros de um grupo casam com os de outro grupo, mas não</p><p>entre si. Assim, os homens de um determinado grupo são considerados aptos a casar</p><p>somente com as mulheres de um outro determinado grupo, e esses dois grupos intei</p><p>ros casam entre si. Essa estrutura familiar é também conhecida como família por</p><p>grupo.</p><p>Na famflia sindesmática ou de casal, o casamento ocorre entre casais que se</p><p>constituem respeitando o tabu do incesto, mas sem condicionar sua ligação à obriga-</p><p>toriedade do casamento intergrupos. Essas famílias, encontradas entre os primitivos</p><p>povos nômades, caracterizam-se pela coabitação de vários casais sob a autoridade</p><p>matriarcal, responsável pela coesãò comunal atiavés da economia doméstica compar-</p><p>tida.</p><p>A repartição de tarefas advindas do desenvolvimento da agricultura teria dado</p><p>origem à família patriarcal, fundada sobre a autoridade absoluta do patriarca ou "che-</p><p>fe de família", que em geral vivia num regime poligâmico, com as mulheres habitual-</p><p>mente isoladas ou confinadas em determinados locais (gineceus, haréns).</p><p>Finalmente, temos a família monogâmica, paradigmática da civilização do oci-</p><p>dente, cujas origens se vinculam ao desenvolvimento da idéia de propriedade ao lon-</p><p>go do processo civilizatório. A fìdelidade conjugal como condição para o reconheci-</p><p>mento de filhos legítimos e a transmissão hereditária da propriedade, bem como o</p><p>estabelecimento da coabitação exclusiva demarcando o território da parentalidade</p><p>são os elementos emblemáticos desta que, ainda hoje, é o tipo de família prevalente</p><p>no mundo ocidental.</p><p>Engels, o colaborador de Marx na elaboração das bases programáticas do movi-</p><p>mento comunista, apoiando-se nas idéias de Morgan, sustentou sua tese de que a</p><p>famflia monogâmica teria sido a primeira famflia fundada não mais com base em</p><p>condições naturais, mas sociais,já que a monogamia para ele não seria uma decorrência</p><p>do amor sexual e, sim, do triunfo da propriedade individual sobre o primitivo comunis-</p><p>mo espontâneo. A monogamia é visualizada sob a ótica do materialismo histórico</p><p>não como uma forma mais evoluída de estrutura familiar. porém como a suieicão de</p><p>utu-</p><p>.No</p><p>nç4,</p><p>54 . ,*u*"on s oso^,o</p><p>um sexo ao outro a serviço do poder econômico. Como a inclinação natural do ho-</p><p>mem seria a liberdade de intercâmbio sexual, a monogamia teria sido responsável</p><p>pelo incremento da prostituição e pela falência desse sistema familiar nos dias atuais.</p><p>Sobre as relações de parentesco, podemos considerá-las sob duas apresenta-</p><p>ções: a consangüinidade em linha direta, que ocoÍTe entre pessoas que sejam uma</p><p>descendente direta da outra, e a consangüinidade em linha colateral, que se dá entre</p><p>pessoas que descendem de antepassados comuns, mas não descendem uma da outra.</p><p>Enquanto essas relações de parentesco seriam as determinadas pela natureza, aquelas</p><p>baseadas no casamento seriam as estabelecidas peÌas convenções sociais. Marido e</p><p>mulher são parentes em função</p><p>do contrato social que os uniu.</p><p>As relações de parentesco tidas como primárias ou fundantes das estruturas</p><p>familiares seriam as seguintes: marido e mulher, pais e filhos, e irmãos.</p><p>Lévi-Strauss, antropólogo contemporâneo formado na escola sociológica france-</p><p>sa, aplicou a perspectiva estruturalista à antropologia, descrevendo o que chama "as</p><p>estÍuturas elementares do parentesco". Partindo da noção de que a estrutura é um</p><p>sistema de leis que rege as transformações possíveis num dado conjunto, LévlStrauss</p><p>procurou estabeÌecer as relações constantes na estrutura familiar que determinam</p><p>não só sua aparência fenomênica em determinado instante histórico, como suas pos-</p><p>síveis modificações ao longo dos tempos.</p><p>Tomando como ponto de partida a teoria da "troca ritual do dom" de Mauss (um</p><p>de seus mestres na escola sociológica francesa acima mencionada) e bebendo nas</p><p>fontes da psicanálise e da lingüística, ramos do conhecimento apenas emergentes na</p><p>época de seus primeiros estudos, Lévi-Strauss procurou determinar que elementos</p><p>subjazem aos padrões relacionais que configuram a família desde suas fundações</p><p>mais arcaicas.</p><p>Cada elemento doado implica a obrigação de sua restituição pelo receptor, diz-</p><p>nos a aludida teoria de Mauss. Assim, na famflia estruturalmente mais simples (e</p><p>supostamente anterior ao conhecimento do papel do pai na reprodução), ao tio mater-</p><p>no (avunculus) catseria a função de "doar" mulheres à geração seguinte. Ao atribuir-</p><p>se tal função ao tio matemo estava-se simultaneamente criando a interdição do inces-</p><p>to, pois a sobrinha só poderia ser doada pelo tio a quem não pertencesse ao círculo</p><p>endogâmico (pai, irmãos).</p><p>A proibição do incesto então instalada é a regra da reciprocidade por excelên-</p><p>cia, pois a troca recíproca de mulheres assegura a circulação contínua das esposas e</p><p>filhas que o grupo possui. Com o tabu do incesto, a família marca a passagem do fato</p><p>natural da consangüinidade ao fato cultural da afinidade e a relação awncular é, por</p><p>assim dizer, o elemento axial a partir do qual se desenvolverá toda a estruhrra social</p><p>do parentesco.</p><p>O tabu do incesto e a exogamia que lhe é conseqüente estariam, segundo Lévi-</p><p>Strauss, nas raízes da sociedade humana. A exogamia, ou seja, o casamento fora do</p><p>grupo familiar primordial, funda-se na "troca", que é a base de todas as modalidades</p><p>da instituição matrimonial. O laço de afinidade com uma família diferente assegura o</p><p>domínio do social sobre o biológico, do cultural sobre o natural (por isso a afirmação</p><p>de Lévi-Strauss de que com o tabu do incesto a família marca a passagem da natureza</p><p>à cultura).</p><p>A exogamia, como a linguagem, teria a mesma função fundamental: a comuni-</p><p>cação com os outros. E dessa comunicação a possibilidade de que surja um novo</p><p>nível de integração no relacionamento humano. A partir desse propósito, é que a</p><p>exogamia dá origem à instituição matrimonial.</p><p>)</p><p>)</p><p>I</p><p>I</p><p>COIúO TRABALHAMOS COM CRUPOS . 5!</p><p>A instituição matrimonial nasceu vinculada aos ritos de iniciação que marca-</p><p>vâm a passagem da infância para a idade adulta. Nos povos primitivos, tais ritos</p><p>geralmente culminavam com a cerimônia do casamento.</p><p>Os costumes ligados à instituição matrimonial variaram muito através dos tem-</p><p>pos, mas desde o advento da noção de propriedade estiüeram de uma forma ou de</p><p>outra relacionados à idéia de uma "transação" ou "troca". Talvez a forma mais ele-</p><p>mentar desta permuta tenha sido a de uma mulher por outra, onde o homem que</p><p>quisesse casar-se ofereceria sua irmã, sobrinha ou serva em troca de uma noiva, de tal</p><p>soÍte que o pai desta teria compensada a perda da filha pela aquisição de outra mulher</p><p>que pudesse substituí-la nos afazeres domésticos. Posteriormente, essa troca física</p><p>foi substituídâ por um equivalente em bens ou dinheiro.</p><p>A compra de uma noiva foi, portanto, a forma mais primitiva de contrato matri-</p><p>monial. Essa modalidade de matrimônio, onde a mulher é tratada como mercadoria,</p><p>prevaleceu sobretudo nas famflias de organização patriarcal referidas anteriormente.</p><p>Um remanescente cultural deste consórcio em que a mulher é tida como propriedade</p><p>do marido está no costume ocidental de a mulher trocar o nome do pai pelo do marido</p><p>(ou apor ao do pai o deste) por ocasião do contrato matrimonial. Nos países de língua</p><p>espanhola, essa condição é explicitada pela partícula "de" entre o nome próprio da</p><p>mulher (seguido ou não do sobrenome de solteira) e o sobrenome do marido, como a</p><p>indicar a quem pertence doravante a nubente.</p><p>O dote é outro subproduto desta concepção do casamento como uma transação</p><p>comercial: sua instituição obedece ao propósito original de ressarcir o noivo (ou a</p><p>famflia deste) pelos custos posteriores com a manutenção da esposa. E ainda hoje a</p><p>aspiração, largamente difundida entre os pais, de um "bom partido" para seus filhos</p><p>ou filhas assinala a persistência deste referencial econômico para balizar a instituìção</p><p>do matrimônio.</p><p>À medida que o casamento se subordinou a interesses ligados à propriedade de</p><p>bens materiais ou patrimoniais, sua instituição foi saindo da esfera místico-religiosa</p><p>para a do direito civil. A partir da Idade Média e por muitos séculos houve no mundo</p><p>ocidental uma acirrada disputa entre o Estado e a Igreja para determinar a quem</p><p>caberia a prerrogativa de estabelecer o contrato nupcial. Só a partir do advento da Era</p><p>Contemporânea, o poder laìco e o religioso passaram a exercer sem maiores conflitos</p><p>suas respectivas esferas de influência nas questóes atinentes à instituição dc matrimô-</p><p>nlo.</p><p>O casamento sempre foi um terreno propício ao exercício do poder. Mesmo</p><p>onde não existam interesses econômicos em pauta (como na classe proletária), ou</p><p>onde não são os sentimentôs religiosos e tão apenas a força da tradição e da cultura</p><p>que preside os ritos matrimoniais, o poder parental se faz presente, manifesta ou</p><p>subrepticiamente, na determinação da escolha dos cônjuges. E até quando obje-</p><p>tivamente o casamento se funda no amor e mútuo consentimento, sem a explícita ou</p><p>implícita interferência dos pais, pode-se supor que tal poder esteja atuante nas iden-</p><p>tificações e motivações inconscientes que subjazem à eleição dos cônjuges.</p><p>É n muÍr,n o cRUPo PRIMoRDIAL?</p><p>Eis aí uma questão transcendental de Íesposta não tão fácil como seria de se</p><p>supor.Embora o senso comum e um raciocínio rudimentar nos levem a concluir que</p><p>homem, mulher e filho devam ter se constituído no mais elementar agrupamento</p><p>56 . ZMERMAN & OSORIO</p><p>humano, não há qualquer indício arqueológico ou inferência antropológica que nos</p><p>assegure ter esta composição de seres humanos configurado o que se entende por</p><p>famflia, com os papéis e funções que lhe são pertinentes na concepção que foi adqui-</p><p>rindo ao longo do processo civilizatório.</p><p>A simples coexistência primeva dessas três figuras representacionais da unida-</p><p>de familiar básica não constitui argumento suficiente para que se os visualize com-</p><p>poftando-se num contexto familiar. Talvez a verdadeira passagem da naturezaparr a</p><p>cultura tenha ocorrido quando esses três personagens de nossa proto-história revela-</p><p>ram sua necessidade de inteÍação social e deram origem aos afetos cimentadores das</p><p>relações familiares.</p><p>Se a família é o ponto de tangência ou intersecção entre a natureza e a cultura,</p><p>conforme postulam os antropólogos, não podemos deixarde considerá-la, para poder</p><p>melhor entendêla, a luz da evolução dos modelos culturais.</p><p>M. Mead considera tÉs tipos ou modelos culturais segundo os quais o homem</p><p>se relaciona com seus aÍìtepassados ou descendentes.</p><p>O primeiro deles corresponde às denominadas culturas pós-figurativas, que ex-</p><p>tnìem sua autoridade do passado, baseando-a num consenso acítico e na lealdade</p><p>inequívoca de cada geração que a precedeu. Nessas culturas, as crianças e os jovens</p><p>apreendem primordialmente com os adultos, e o futuro é visualizado como um prolon-</p><p>gamento do passado, ou seja, o passado dos adultos é o futuro de cada geração. Há</p><p>nessas culturas uma falta de "consciência de mudança", e o mito prevalente é o do</p><p>ancião como fonte do saber e dos valores a serem preservados</p><p>e transmitidos às</p><p>gerações futuras. Esse é o modelo cultural vigente até o advento da era contemporâ-</p><p>nea e ainda hoje encontrável em agrupamentos humanos primitivos ou isolados e,</p><p>portanto, à margem da onda civilizatória desencadeada pela revolução industrial.</p><p>O segundo desses modelos é chamado pela autora citadade culturas co-figurâti-</p><p>vas, onde háuma reciprocidade de influências entrejovens e adultos. Pelo surgimento</p><p>de novas formas de tecnologia, para as quais os mais idosos carecem de informação,</p><p>as camadas mais jovens da população passam a deter uma significativa parcela do</p><p>poder de influência proporcionado pelo conhecimento. Nessas culturas, o presente é</p><p>o que conta, e o mito nelas prevalente ê o do adulto produtivo. Esse é o modelo</p><p>predominante no mundo atual e que, partindo do ocidente, tende a globalizar-se na</p><p>medida em que as civilizações orientais são poÍ ele cooptadas.</p><p>Finalmente, temos o modelo das culturas pré-figurativas, onde o futuro não é</p><p>mais um simples prolongamento do passado, mas tem sua própria (e desconhecida)</p><p>identidade, prevalecendo as expectativas futuras sobre as realizações passadas. Nes-</p><p>sas culturas há uma exacerbação dos conteúdos revolucionários e das tendências</p><p>iconoclastas e podemos encontrálas não apenas em nações que estão sofrendo mu-</p><p>danças radicais em sua estrutura sócio-política, mas também sob a forma de "bolsões"</p><p>culturais quer do ocidente como do oriente. Nessas culturas, o mito dominante é o do</p><p>poderjovem.</p><p>E no contexto das culturas pré-figurativas que apontam para a civilização do</p><p>terceiro milênio que a famflia do futuro se insere e adquire seus contomos: uma</p><p>famflia onde os jovens chamam a si o papel de mediadores entre seus membros mais</p><p>idosos e a sociedade em processo de transmutação tecnol6gica.</p><p>Recolocando a questão sobre ser a família o grupo primordial e arregimentando</p><p>argumentos para confirmar tal assertiva, encontramos nas sagas mitológicas outro</p><p>importante subsídio para sustentar tal afirmação.</p><p>Na gênese dos mitos primitivos há sempre referência a situações que tomam o</p><p>contexto familiar como matéria-prima para sua elaboração temática, e os persona-</p><p>COMOTRAAALHAMOS COM CRUPOS</p><p>'</p><p>57</p><p>gens que neles se movem o fazem incorporando papéis familiares e desempenhando</p><p>sua representação simbólica a partir deles.</p><p>Tomemos, por exemplo, a vertente mitológica greco-romana e acompanhemos</p><p>por instantes sua versão da criação do universo e dos seres que o habitaram em seus</p><p>primórdios.</p><p>No princípio era o Ccos de onde originarum-se Erebo e sua irmã e esposa Noile</p><p>(tal q,lal Adão e Eva na antropogênese bíblica).</p><p>Erebo e a Noite procriam e dão origem a Eter e ao Di o, que, por sua vez, são o</p><p>pai e a mãe do céu (Urano) e da tena (Gaia\.</p><p>Urano gera, entre outros, três filhos: 7Ìrã, Saturno e Oceano.Esses se revoltam</p><p>contra o pai, mutilam-no e o impossibilitam de ter filhos.</p><p>Satumo, frlho segundo de Urano e Gaia, obteve de seu irmão, o primogênito</p><p>7itá', a permissão de reinar em seu lugar desde que sacrificasse todos os seus descen-</p><p>dentes masculinos a fim de assegurar que a sucessão ao trono fosse reservada a seus</p><p>próprios filhos. Salarno desposou Rála, com quem teve muitos filhos e a todos devo-</p><p>rou logo que nasciam, cumprindo o acordo feito com seu irmão (cumpre-se assim o</p><p>ritual cíclico do parricídio/infanticídio que mais tarde será o tema central do mito de</p><p>Edipo). Uma nova aliança configura-se no universo mítico: a da mãe com o filho</p><p>contra o pai. Ráia consegue, através de um ardil (substituir o filho por uma pedra,</p><p>então engolida por Satumo), salvar seu filho Jripiter de ser devorado pelo pai. Com</p><p>idêntico estratagema, ela salva outros dois filhos, Nenno_e Plutão. Júpiter declara</p><p>gueÍÍa a Satumo e vence-o, humilhando-o, tal qual este fizera com seu pai, Urano.</p><p>Mais tarde, aconselhado por T/lis, a prudência, com quem casara ainda adolescente,</p><p>Júpiter dâ uma beberagem a SaÍurno, e êste vomita, além das pedras engolidas, os</p><p>filhos anteriormente devorados. Depois, temeroso de sofrer o mesmo destino nas</p><p>mãos dos filhos que resultassem dessa união, renuncia a seu amor por lálls. Casa-se,</p><p>então, com Juno, sua irmã gêmea, com quem mantém um relacionamento que prelu-</p><p>dia todos os conflitos das relações conjugais entre os mortais: Juno o apoquenta com</p><p>seus ciúmes e contesta sua autoridade doméstica, enquanto Júpiter age como marido</p><p>rabugento, por vezes violento , maltratando Juno.</p><p>Creio que será fácil aos leitores identificar neste fragmento da mitologia greco-</p><p>romana a presença do contexto familiar como pano de fundo para as ações míticas.</p><p>Se é o conflito entre pai e filho ou entre marido e mulher que se toma manifesto</p><p>nessas concepções mitológicas da origem dos seres, na versão bíblica é a rivalidade</p><p>entre os irmãos Caim e Abel que comparece para aludir às vicissitudes da vida fami-</p><p>liar; por outro lado, podemos interpretar a expulsão de Adão e Eva do paraíso como</p><p>expressão do repúdio do pai aos filhos criados quândo estes não se comportam de</p><p>acordo com as expectativas patemas.</p><p>De uma forma geraÌ, todas as mitologias, ao darem suas versões da antropogênese,</p><p>logo que criam o homem o colocam numa situação relacional no seio do núcleo</p><p>familiar. E não só nos mitos de origem como também nos que retratam dramas ou</p><p>conflitos do périplo existencial vamos encontrar os protagonistas imersos em sua</p><p>circunstância familiar: o solitário Narciso, mirando-se nas águas, vê, mais além de</p><p>sua imagem refletida, as entranhas matemas para onde deseja retomar, e Édipo per-</p><p>corre seu calvário balizado pelas culpas incestuosas num complexo interjogo de rela-</p><p>ções fil iais, conjugais e parentais.</p><p>Ora, se as sagas míticas com tal reiteração universalizam a presença da família</p><p>em seus conteúdos e se são elas a proto-representação do mundo real, não se poderá</p><p>daí inferir a condição primordial da família como agrupamento humano?</p><p>58 . ,,",n*n oN u uso*,u</p><p>REFERENCIAS BIBI,IOG RAFICAS</p><p>CANEVACCI, Ì \ ' Í . (org) (t al. Di( l i t i .d (/r / Ê?rri l ia. Sao Paulo: I l rasi l icnse, l98l</p><p>CADERNOS dc Antropologia d.ì UniYL'f \ i ( Ìrdc dc BÍÌsí l ia.</p><p>ESCARDO, F. Ánotontia le la. luni l ía lJucnos AiÍes: Ateneo, 1955.</p><p>FAMILLE (Hístoì t t tle ltl Jdnlíll( ). P:,ns E liction da Connoisslnccs Moderncs, PÍcsse Encycloódiclues</p><p>dc France, 197 l .</p><p>FREUD, S. Totenì ( tdbt. S E.B. \oÌ. \ l Ì1. Rio dc Janciro: Inrago. 1974.</p><p>LÉVI-STRAUSS, C. L tntroy,!, ,*í t siü( 1&/-(, /( , . Paris: Pìon, 1958.</p><p>THE Ncw Enc] cÌof leJìr IJ.: i . l Ì r : l rü.r Clr i . . ìSo. I990.</p><p>O</p><p>\</p><p>rí</p><p>Grupos Espontâneos:</p><p>As Tirrmas e Gangues de</p><p>Adolescentes</p><p>DAVID E. ZIMERMAN</p><p>O ser humano é essencialmente gregário. Por essa razão, sempre haverá uma busca</p><p>natural das pessoas entre si, com a inevitável formação espontânea dos mais distintos</p><p>tipos de grupos.</p><p>O que importa consignar, no entanto, é que todo e qualquer grupo, quer tenha</p><p>sido formado espontânea ou artificialmente, quer tenha um ou outro tipo de finalida-</p><p>de, sempre estará sujeito a uma mesma série de fenômenos psicológicos, tanto cons-</p><p>cientes como inconscientes, os quais se reproduzem de forma análoga em todos os</p><p>campos grupais formados, com algumas variantes específicas, é claro. Assim, é útil</p><p>lembrar a diferença que existe enlÍe os pequenos grupos, que pertencem à área da</p><p>psicologia, e os grandes grupas, como são os das comunidades, sociedades, nações,</p><p>seitas e multidões, e que pertencem tanto ao campo da psicologia como da sociolo-</p><p>gia.</p><p>A formação dos diferentes tipos de grupos. O grupofan i/lar nuclear pode ser</p><p>considerado o protótipo de todos os demais grupos. De fato, em qualquer família há</p><p>a existência de um campo grupal dinâmico por onde circulam todos os fenômenos do</p><p>campo grupal, tal como estes últimos foram descritos no capítulo referente aos fun-</p><p>damentos teóricos.</p><p>Destarte, acompanhando a conceituação formulada para a caracterização do que</p><p>é um grupo, pode-se dizer que uma família, muito mais do que uma soma isolada dos</p><p>indivíduos que a compõem, constitui-se como uma novâ e abstrata entidade peculiar;</p><p>existe uma vivência de experiências</p><p>emocionais e uma interação afetiva entre todos</p><p>(com os ingredientes da ambivalência: amol agressão), assim como também há uma</p><p>interação comunicativa entre cada um e todos; existe uma hierarquia de posições,</p><p>funções e desempenho de papéis; há um contínuo jogo de projeções e introjeções; e</p><p>existe, sobretudo, uma formação de identidades, resultantes das identificações com</p><p>os valores, predições, proibições e expectativas dos pais, e destes com os seus respec-</p><p>tivos pais, em uma combinação de, no mínimo, três gerações. De acordo com estes</p><p>aspectos, as famflias estruturam-se com um perfil caracterológico variável de uma</p><p>para outra, porém com uma especificidade típica de cada uma delas, que, por exem-</p><p>plo, pode ser de natureza excessivamente simbiótica ou de características predomi-</p><p>60 . znreRMeÌ{ a osonro</p><p>nantemente obsessivas,</p><p>psicóticas, psicopáticas,</p><p>estruturadas e sadias.</p><p>narcisistas, paranóides, fóbicas, psicossomatizadoras,</p><p>etc, ou, naturalmente, apresentam-se como famílias</p><p>A dinâmica psicológica das multüões obedece a um esquema diferente,</p><p>quanto, conforme os estudos de Freud, diante de situações traumáticas</p><p>de pulsões inconscientes - como, porexemplo, diante de um tumulto social,</p><p>em recinto fechado, um estado de indignação coletiva, etc. -, os indivíduos perdem</p><p>controle sobre os seus valores habituais e, ou entram em um caótico "salve-se oue:</p><p>e como puder", ou seguem cegamente uma liderança forte. Um comprovante d</p><p>assertiva ó o de grupos que se estruturam em moldes de fanatismo em tomo de</p><p>líder de função altamente carismática, poÍador de um conteúdo ideacional de</p><p>inspiração mística e messiânica.</p><p>Dois exemplos servem para clarear a dinâmica dos grupos fanáticos: o da Ale-</p><p>manha hitlerista e o do episódio do suicídio coletivo ocorrido há alguns anos nas</p><p>Guianas. Este último fato ilustra o quanto uma multidão de fiéis, fixados em um nívd</p><p>de um predominante primitivismo no desenvolvimento biopsicossocial, podem, de</p><p>forma ordeira e disciplinada, sacrificar a própria vida em troca de promesias ilusóri-</p><p>as provindas de um líder psicótico (no caso, o pastor J. Jones), que dizia que a moÌte</p><p>representava o ingresso em um mundo muito melhor, o paraíso celestial.</p><p>O exemplo do fanatismo ocorrido na Alemanha sob a liderança de Hitler é mais</p><p>siqlificativo que o anterior, porquanto a multidão fanatizada não era composta poÍ</p><p>indivíduos, separadamente, primitivos; muito pelo contrário. O que ocorreu então?</p><p>Através da montagem de uma fantástica máquina de propaganda que produzia com</p><p>alta eficiência a ilusão coletiva de uma justa e nobre causa de reivindicação nacional</p><p>(no mínimo discutível), a cúpula hitlerista conseguiu atingir o núcleo íntimo de cada</p><p>indivíduo que não tolerava injustiças, que queria resgatar o que perdeu ou lhe foi</p><p>roubado, e assim eles mobilizaram uma indignação da totalidade da sociedade alemã</p><p>da época. A partir daí, o passo seguinte foi o de escolher um bode expiatório que</p><p>fosse o portador da projeção de toda a maldade, iniqüidade e sede de poder: a priniÉ</p><p>pj9, gssg papel foi depositado nos comunistas e, logo a seguir, aos judeus, que, se</p><p>eliminados, abririam o caminho para uma raça superior, um arianismopuro que prome-</p><p>tia ser um novo éden.</p><p>Essa louca organização fanática foi fortemente consolidada com o emprego de</p><p>recursos que facilitam uma hipnose coletiva, como são os auditivos e visuais, através</p><p>de comícios gigantescos, hinos marciais, bandeiras e faixas multicoloridas, um pa-</p><p>lanque que ficasse numa posição alta, de forma que a multidão ficasse apequenadà e</p><p>infantilizada, olhando de baixo para cima e com a forte luz dos holofotes nos olhos,</p><p>enquanto a fala mística penetrando pelos ouvidos ía provocando um estado de des-</p><p>lumbramento, ou sej4 quando uma luz é forte demais - tal como a de um farol alto de</p><p>um carro que vem em direção contrária à nossa-, priva-nos ("des") da luz ("lumbre").</p><p>FORMAçÃO DE TURMAS E GANGUES</p><p>Como não cabe aqui esmiuçar com maior profundidade os grupos antes citados, va-</p><p>mos nos ater, em particular, na formação dos grupos espontâneos, como o das turmas</p><p>e gangues, de modo mais restrito no âmbito dos adolescentes.</p><p>Antes de mais nada, cabe fazer uma breve revisão sobre as principais caracterís-</p><p>ticas da adolescência normal.</p><p>1. A etimologia da palavra "adoÌescência", composta dos prefixos latinos ad</p><p>(para a frente) + dolescere (crescer, com dores), designa claramente um período de</p><p>mutação, portânto, de crise.</p><p>2. A palavra "crise", por sua vez, deriva do étimo grego krinen, que quer dizer</p><p>"separação" (daí o sentido de palavras como crivo, critério, discriminar, etc.). De</p><p>fato, o adolescente está fazendo uma importante separação entre o seu estado de</p><p>criança em dependência dos pais e a sua preparação para a condição de adulto eman-</p><p>cipado. Além disso, ele está fazendo separações e modificações de seus valores, pro-</p><p>jetos e de sua corporalidade e sexualidade.</p><p>O termo adolescência abrange três níveis de maturação e desenvolvimento: a</p><p>puberdade, a adolescência propriamente dita e a adolescência tardia, cada uma delas</p><p>com caracteísticas próprias e específicas.</p><p>Assim, a puberdade, no período dos l2 aos 14 anos, caracteriza-se pelas mudan-</p><p>ças corporais, como, por exemplo, o aparecimento de pêlos pubianos (e, daí, o termo</p><p>"púbere"). A adolescência propriamente dita se estende do período dos 15 aos 17</p><p>anos e a sua característica mais marcante é a das mudanças psicológlcas. A adoles-</p><p>cência tardia é a que vai dos l8 aos 2l anos e se caracteriza, sobretudo, pela busca de</p><p>uma identidade própria, não só a individual e a grupal, mas também a da identidade</p><p>social.</p><p>3. Essas inevitáveis mudanças normais comumente são acompanhadas das se-</p><p>guintes manifestações:</p><p>. Uma busca de "si mesmo" através dos processos de diferenciação, separação e de</p><p>individuação.</p><p>. Uma testagem constante de como ele é visto e recebido pelos demais, devido ao</p><p>fato de que, como toda criatura humana, também eles se reconhecem através do</p><p>reconhecimento dos outros. É importante assinalar que, muitas vezes, as condu-</p><p>tas bizarras individuais ou grupais que tanto provocam preocupações nos famili-</p><p>ares visam a essa testagem e à necessidade de serem reconhecidos como pessoas</p><p>autônomas.</p><p>. Uma necessidade de fantasiar, intelectualizar e criar.</p><p>. Uma atitude de idealização tanto de pessoas como de crenças, assim como tam-</p><p>bém de uma permanente contestação. As dificuldades para adaptar-se às mudan-</p><p>ças do mundo intemo os levam a querer modificar o mudo fora de si mesmo, sob</p><p>a forma de querer reformar a humanidade, através da filosofia, religião, etc.</p><p>. Uma inconstância de humor e tomada de posições.</p><p>. Há uma certa confusão quanto à imagem corporal e não é raro que isso atinja um</p><p>grau de surgimento de sentimentos de despersonalìzação.</p><p>. Decorre daíuma supervalorização do corpo, a qual se traduz na busca do impacto</p><p>estético ou, pelo contrário, pela antiestética. Tanto uma como a outra costumam</p><p>se rnanifestar através de roupas, penteados, uso de espelhos durante horas, even-</p><p>tuars tatuagens, etc.</p><p>. Incremento do estado de paixões, assim como o de uma ambivalência entre os</p><p>sentimentos de amor e de ódro.</p><p>. Costuma haver um estado de taràulência com os pais. Isso se deve tanto ao fato</p><p>de os adolescentes necessitarem testar a flexibilidade, a sensibilidade e o grau de</p><p>interesse dos seus pais por eles, assim como uma forma de se diferenciarem de-</p><p>les. Portanto, é de importância fundamental o comportamento dos pais diante das</p><p>crises adolescentes quanto à determinação da qualidade estruturante ou</p><p>desestruturante, na passagem para â condição de adulto.</p><p>coMo TRABALHAMoS coM cRUPos . 61</p><p>62 . ZMERMAN & osoF.lo</p><p>. O ponto principal da influência dos pais na formação da identidade de seu filho</p><p>consiste no fato de que eles são os principais modelos de identificação.</p><p>. Nos casos patogênicos, as principais falhas dos pais residem em fatores como os</p><p>de querer, à força, modelar os seus filhos segundo a sua imagem e feição, seguin-</p><p>do o modelo dos seus respectivos pais, numa verdadeira compulsão à repetição</p><p>através</p><p>das gerações. Um outro fator, muito comum e igualmente prejudicial,</p><p>consiste no fato dos pais tentarem completar suas ambições não-realizadas atra-</p><p>vés dos seus filhos, criando assim um clima de expectativas que, muitas vezes,</p><p>são impossíveis de serem realizadas. Outros problemas equivalentes podem sero</p><p>de uma mãe muito simbiotizante ou deprimida, de um pai ausente ou super intole-</p><p>rante, de pais incoerentes nadeterminação dos limites e das limitações, nadesigna-</p><p>ção de papéis a serem estereotipadamente cumpridos ao longo da vida, na esco-</p><p>lha de um filho como o bode expiatório ou porta-voz da patologia familiar, e</p><p>assim por diante.</p><p>. Em função dos fatores até aqui apontados, é importante reconhecer que a típica</p><p>conduta desafiadora e provocativa por parte dos adolescentes pode dever-se ao</p><p>propósito inconsciente de serem punidos, assim aliviando as suas culpas e fortifi-</p><p>cândo a tese de que são vítimas, o que justificaria a sua posição agressiva, num</p><p>círculo vicioso que pode se tomâr crescente e intermirúvel.</p><p>. Outra conseqüência importante é que o adolescente pode preferir serumnada ou</p><p>ninguém a ter que assumir um feixe de identidades que lhe estão sendo impostas</p><p>de formas contraditórias e fragmentadas.</p><p>. Por último, uma característica maÍcante da adolescência e que se constitui no</p><p>principal enfoque deste capítulo é o que diz respeito à sua forte tendência à gru-</p><p>palidade.</p><p>Desde logo, é necessário discriminar os três tipos básicos de grupos formados</p><p>espontaneamente por adolescentes: os normais, os drogativos e os delinqüentes.</p><p>Os gruposnonnais assumem as características típicas que conespondem à faixa</p><p>etária da sua adolescência. Assim, no gntpo depúberes prevalece a linguagem corpo-</p><p>ral e lúdica, de acordo com as suas mudanças corporais, como antes foi frisado. Por</p><p>conseguinte, é comum que as meninas andem de mãos dadas e criem um espaço de</p><p>jogos coleúvos, enquanto os meninos se notabilizam pela comunicação por meio de</p><p>empurrões, socos e de espoíes mais agressivos.</p><p>Naadolescência propriamente dita e na íardia, prev alece a linguagem verbal de</p><p>tipo contestatório, e a não-verbal através das atuações nas atitudes e conduta. O pon-</p><p>to de vista fundamental é que se leve em conta a diferença entre "agressividade" e</p><p>"agressão". Explico melhor: o verbo "agredir" se origina dos étimos latinos ad (para</p><p>a frente) + gradior (movimento) e isso corresponde ao fato de que a agressividade</p><p>não só é natural, mas é indispensável para o ser humano, da mesma forma que no</p><p>reino animal, como um recurso de luta pela sobrevivência e de uma melhor qualidade</p><p>e sucesso na vida. O termo "agressão", por sua vez, designa a predominância dos</p><p>intentos destÍutivos.</p><p>Como se observa, a agressividade construtivâ e a agressão destrutiva tanto po-</p><p>dem se manifestar de forma claramente delimitada e diferenciada uma da outÍa como</p><p>podem tangenciar, altemar, confundir-se entre si e assumir formas que confundem o</p><p>observador extemo.</p><p>Um exemplo claro deste último aspecto pode ser dado pelâ costumeira contesta-</p><p>ção veemente que um adolescente possa estar fazendo contra os valores habituais do</p><p>establishment dos pais, escola e sociedade. Estaní essa contestação, nas múltiplas</p><p>formas como pode se apresentar, a serviço de uma agressão destrutiva, ou ela pode</p><p>estar significando movimentos importantes de uma agressividade voltada para o ob-</p><p>jetivo de uma auto-afirmação na construção de sua identidade de adulto?</p><p>Transportando para um plano sociológico, creio ser válida uma comparação</p><p>com as guerras de independência das nações (como as do continente americano no</p><p>século passado ou as africanas neste) contra os países colonizadores, quando elas</p><p>atingem um grau adolescente de desenvolvimento e de identidade de cidadania.</p><p>Vale a pena insistir neste ponto, pois ele é de fundamental importância na discri-</p><p>minação, nem sempre fácil de ser feita, entre a agressividade sadia dos indivíduos</p><p>nos grupos e o da patologia da violência, tanto a auto quanto a hetero destrutiva. Por</p><p>conseguinte, um cuidado especial que os educadores devem exercer é o de evitar um</p><p>apressado rótulo depreciativo ao caráter belicoso do adolescente, pois a imagem que</p><p>devolvermos a eles é a que subsistirá e formará a sua própria imagem e, portanto, a</p><p>sua identidade.</p><p>Cabe uma outra analogia, agora com uma queda d'água: a força avassaladora da</p><p>mesma tanto poderá destruir tudo o que ela atingir como poderá ser utilizada para</p><p>fins benéficos - por exemplo, quando a energia mecânica é devidamente drenada e</p><p>canalizada, ou é transformada em alguma outra forma de energia, como, por exem-</p><p>plo, a térmica ou a luminosa. Aliás, essa paridade entre energia construtiva e destrutiva</p><p>está bem expressa nas palavras "vigor" e "violência", ambas originadas do mesmo</p><p>étimo latino vrs, qu.e qu'er dízer força.</p><p>Da mesma maneira, em grande parte, compete aos educadores a responsabilida-</p><p>de pelo destino construtivo ou destrutivo da energia do adolescente. O passo inicial é</p><p>a de que os educadores - pais, mestres, etc. - entendam o porquê da formação de</p><p>grupos em condições normais e sadias, ainda que aparentemente doentias. Para tanto,</p><p>vamos listar alguns pontos mais relevantes:</p><p>. O grupo é o àabitat naf:'l,ral do adolescente. Nos casos sadios, vamos denominar</p><p>turmas, e nos que são destrutivos, Bangues.</p><p>. O grupo funciona como um objeto e um espaço transicional, ou seja, ele permite</p><p>a saudável criação de uma zona imaginária onde ainda existe uma mescla do real</p><p>com um forte sentimento, ilusão e magia onipotente. A diferença é que, nas tur-</p><p>mas, essa onipotência é transitória, e, nas gangues, peÍÍnanece mais intensa e</p><p>permanente.</p><p>. Dessa forma, a turma propicia a formação de uma nova identidade, intermediária</p><p>entre a família e a sociedade, com a assunção e o exercício de novos papéis.</p><p>Igualmente, a turma cria um novo modelo de superego ou de ideais de ego quan-</p><p>do os adolescentes sentem que não podem, ou não querem, cumprir com os valo-</p><p>res e ideais propostos e esperados pelos pais.</p><p>Costuma haver - por vezes com um colorido manifestamente histérico - uma</p><p>busca por ídolos que consubstanciem uma imagem - não importa se fabricada</p><p>pela mídia- de alguém que seja portador e porta-voz dos ideais dos adolescentes</p><p>tanto sob a forma de beleza quanto de prestígio, talento, riqueza ou de contesta-</p><p>ção libertária.</p><p>A tendência a se agruparem também se deve ao fato de que: sentem-se menos</p><p>expostos às críticas diretas; discriminam-se dos adultos; confiam mais nos valo-</p><p>res de seus pares; diluem os sentimentos de vergonha, medo, culpa e inferiorida-</p><p>de quando convivem com outros iguais a eles; reasseguram a auto-esÍima através</p><p>da imagem que os outros lhe remetem.</p><p>c'Mo TRAaALHAM'' co" c*r"os . 63</p><p>64 . z-"*na*l a osonro</p><p>O grupo propicia um jogo de projeções e introjeções, de idealizações e</p><p>mentos, de múltiplas dissociações e integrações. Da mesma forma, o</p><p>está ancorado na fantasia de que a "união faz a forçt", e com isso ele se</p><p>mais forte, e a sua voz ressoa mais longe e mais potente. Ao mesmo tempo,</p><p>turma possibilita que cada um reconheça e seja reconhecido pelos outros,</p><p>alguém que, de fato, existe como um indivíduo, e que tem um espaço próprio.</p><p>. A turma orooicia o fortalecimento da identidade sexual ainda não definida.</p><p>fácil entender que a "turma do Bolinha", cuio lema é o de "meninas não entram"</p><p>ou a contraDarte na "turma da Luluzinha" atestam não uma ho</p><p>latente que um juízo mais apressado poderia pressupor, mas, sim, como</p><p>forma de fugir do sexo oposto. Essa fuga tanto serve para marcar</p><p>as diferenças entre os gêneros sexuais, e assim consolidar a sua identidade</p><p>al, como também para proteger-se dos riscos inerentes às renascentes e</p><p>fantasias ligadas à reativação hormonal-libidinal.</p><p>. Uma outra forma de as turmas firmarem a sua diferenciação com os adultos</p><p>pela via da obtenção de um reconhecimento propiciado com sinars</p><p>como são as roupas-uniformes, o uso de motos potentes, a exibição de</p><p>de surf, o uso de insígnias, os penteados aìgo bizarros, um tipo de música</p><p>moda, etc. Nesses casos, pode-se dizer que, muitas</p><p>vezes, as "modas" tomam</p><p>lugar das identidades, enquanto estas ainda não estão claramente definidas.</p><p>. Nas turmas que denominamos drogativos - é diferente de drogadictos -,</p><p>estar acontecendo que se trate de um grupo normal, no qual a droga está</p><p>mente servindo como um modismo, uma espêcie de grffi de coragem e</p><p>çãojunto aos respectivos pares. Nesse caso, as drogas estariam</p><p>na atualidade, o mesmo papel que a proibição rigorosa do cigarro</p><p>para as gerações mais antigas. Assim, paradoxalmente, a droga pode estar</p><p>um fetiche que une e integra a turma.</p><p>. Dessa forma. é imDortante assinalar que a tendência antissocial da turma</p><p>cente referido anteriormente, a princípio, não é preocupante. Os indivíduos e</p><p>grupo assim espontaneamente formado necessitam apenas serem contidos</p><p>seus excessos nas transgressões das leis que regem a sociedade, sem</p><p>los para uma orientação adulta.</p><p>A FORMAÇAO DE GANGUES</p><p>Tal como antes foi consignado. o aspecto mais característico de uma gangue é o</p><p>predominância das pulsões agressivo-destrutivas, muitas vezes com requintes de</p><p>versidade e de crueldade. Por oue isso? A resoosta não é fácil. oois as</p><p>determinantes não são únicas e nem simples, pelo contrário, são múltiplas, comple-</p><p>xas e abrangem fatores tanto da natureza do psiquismo intemo como aqueles</p><p>dizem respeito às circunstâncias da família, os aspectos sócio-culturais, econômicog</p><p>oolíticos e também a influência da mídia.</p><p>Sabemos que existe uma constante interação entre o indivíduo e a sua socieda-</p><p>de, e que a identidade do sujeito - especialmente a do adolescente - fica seriamentc</p><p>ameaçada quando há um incremento de angústias, quer as provindas de dentro dele'</p><p>quer aquelas que, vindas de fora, abatem-se sobre ele com exigências e privações de</p><p>toda ordem.</p><p>COMO TRABAL}IAMOS COM GRUPOS . 65</p><p>F</p><p>a</p><p>o</p><p>E</p><p>E</p><p>l-</p><p>ls</p><p>ls</p><p>la</p><p>Assim, uma primeira e óbvia razão é a de que uma gangue agressiva representa</p><p>vn grito de desespero e de protesto contra uma sociedade que não só não os</p><p>entende, como ainda os desampara, humilha, mente, corrompe e degrada. Vale</p><p>assinalar que, nessa busca desesperada por uma libertação, forma-se um grande</p><p>paradoxo, porquanto a organização da gangue segue um tão rígido codigo de leal-</p><p>dade aos seus valores, que ele próprio acaba por se constituir num novo cativeiro.</p><p>Como a maioria das gangues se forma no seio das classes mais humildes, temos</p><p>uma tendência em aceitar essa explicação de natureza sócio-econômica como</p><p>suficiente para entender o porquê da conduta predatória dessas gangues contra a</p><p>sociedade burguesa. No entanto, em classes mais favorecidas, esse fenômeno</p><p>também não âcontece raramente, o que comprova que o extravasamento de senti-</p><p>mentos de ódio, inveja destrutiva e ímpetos de vingança cruel não é exclusivida-</p><p>de de classes e de pessoas economicamente carenciadas. A carência é mais pro-</p><p>funda e séria do que aquela unicamente econômica e diz respeito às privações de</p><p>ordem afetiva e do caos emocional de certas famílias.</p><p>Outra causa explicativa da empáfia arrogante e onipotente que caracteriza cada</p><p>um dos indivíduos que pertencem à gangue consiste no fato de que, muito refor-</p><p>çada pela antes aludida idéia de que a união faz a força, exacerba-se uma sensa-</p><p>ção de onipotência e prepotência. Sabemos todos que, muitas vezes, o sujeito</p><p>necessita recorrer ao recurso mágico da onipotência como uma forma de fugir da</p><p>depressão subjacente, do reconhecimento da sua fragilidade e da dependência</p><p>dos outros. Da mesma forma, um grupo favorece a diluição do fardo de responsabi-</p><p>lidades e de culpas de cada um, separadamente, em relação aos danos causados</p><p>aos outros.</p><p>Um aspecto importante a ser levado em conta é o fato de que, assim como, nas</p><p>turmas sadias, a supervalorização do tipo de vestimenta, penteado, gosto musi-</p><p>cal, etc., pode estar sendo o emblema designativo da sua diferenciação com o</p><p>establishment - ou, nas turmas drogativas o fetiche supervalorizado e diferenciador</p><p>seja representado pela droga nas gangues deliquenclals, a violência, por si mes-</p><p>ma, pode se constituir como insígnia principal. Dessa forma, o ideal da gangue se</p><p>organiza em tomo daidealização da violência, a qualnáo só não é criticada pelos</p><p>pares, como ainda o seu propósito antisocial é significado por eles como uma</p><p>demonstração de audácia e valentia e, portanto, como um passaporte para a acei-</p><p>tação e â admiração dos demais.</p><p>Modelo de uma cúpula diretiva corrompida, seja no âmbito familiar, seja no nível</p><p>govemamental.</p><p>A influência da mídia como um fator modelador da formação de gangues não</p><p>deve ser exagerada por parte dos estudiosos do assunto, porém também não deve</p><p>ser depreciada e está por merecer um estudo mais profundo.</p><p>Por último, um aspecto muito importante é aquele que diz respeito à dificuldade</p><p>em se conseguir modificar a progressiva expansão, numérica e destrutiva, das</p><p>gangues nascidas nas classes marginalizadas. Prendem-se ao fato de que os indiví-</p><p>duos nascem e crescem em um ambiente que tem uma cultura própria, com o</p><p>cultivo de valores outros que não aqueles habitualmente considerados por nós</p><p>como sendo os construtivos e saudáveis. Eles se organizam em uma sociedade</p><p>paralela e, por isso, a regra é que eles não se sentem como marginalizados, mas,</p><p>sim, como orgulhosos portadores de uma cultura diferente, umâ anticultura, com</p><p>um código de valores morais, éticos e jurídicos inteiramente à parte dos valores</p><p>vleentes.</p><p>66 . zrt.,tenr,aeL a osonro</p><p>COMO EMRENTAR O PROBLEMA?</p><p>Esta é a parte mais difícil do presente capítulo, especialmente no que tange aos</p><p>ves problemas das gangues deliquenciais. Talvez nenhum outro problema de</p><p>conseqüênciÍìs sociais e econômicas tenha merecido tantos estudos, conferências,</p><p>gressos e divulgação em todos veículos da imprensa e tanto tenhamobilizado a</p><p>pação nacional como este que se refere às crianças marginalizadas e abandonadas,</p><p>como conseqüência direta, à formação de bandos predatórios cada vez mais</p><p>Apesar de tudo isso, o problema continua crescente, sem solução definitiva à vista.</p><p>No entanto, alguma coisa pode ser dita e feita.</p><p>Assim, em relação às lrrmas que tanto costumam preocupar os pais, a primei</p><p>medida que se impõe é a de propiciar instrumentos que possibilitem uma</p><p>dos valores e dos problemas dos "mal-entendidos" entre as gerações, de modo a</p><p>gatar o diálogo entre pais e Íìlhos.</p><p>Uma forma de favorecer esse intercâmbio afetivo e atenuar o crucial</p><p>do mal-entendido na comunicação consiste na promoçáo de grupos de reflexão,</p><p>denados por técnicos bem preparados, não necessariamente grupoterapeutas.</p><p>grupos podem ser compostos exclusivamente por adolescentes, ou apenas pelos pai</p><p>ou ainda serem constituídos iuntamente oor diferentes adolescentes e</p><p>pais. Os problemas são comuns, e a troca de experiências pode clarear muita</p><p>reduzir culpas e temores exagerados, bem como abrirum espaço para a tolerância e</p><p>respeito recíproco.</p><p>Um dos aspectos mais importantes em relação às atitudes dos pais consiste</p><p>que estes tenham condições de perceber que, muitas vezes. a aparência de</p><p>desaforo e desafio por parte dos filhos representa um saudável intento de</p><p>de sua personalidade instável e que a bizarria da turma do seu filho se comporta</p><p>um espaço intermediário entre o seu mundo familiar e o mundo social adulto.</p><p>outras palavras, os pais devem entender que os conflitos inerentes às mudanças</p><p>nas são projetados e atuados sob a forma de mudanças extemas.</p><p>Em relação às tanz as dro gativas com adolescentes, antes de mais nada é</p><p>estão sendo consumidas não pela compulsoriedade de um vício (em cujo caso, já</p><p>estabeleceu um círculo vicioso entre o organismo e o psiquismo, de sorte que a</p><p>requer uma saciedade urgente e irrefreável), mas, sim, o adolescente da turma experi</p><p>menta a droga como um ilusório ritual de passagem à condição de adulto livre</p><p>reconhecido pelos seus pares.</p><p>A pergunta mais provável que deve estar ocorrendo ao leitor costuma ser</p><p>Não há o risco de um adolescente drogativo passar à condição de drogadicto?</p><p>responderia que sim e que não, tudo dependendo da estrutura emocional básica</p><p>cadã adolescèntes em particular. É a meì-a</p><p>coisa que perguntar por que a maiori</p><p>das pessoas bebe cerveja ou vinho, socialmente, e somente algumas delas</p><p>para o alcoolismo? Por que, entre tantas pessoas quejogam cartas por lazer,</p><p>delas se tomam jogadores compulsivos? E assim por diante.</p><p>A estrutura básica de cada adolescente, por sua vez, depende</p><p>de como foi e como continua sendo foriado na sua família nuclear. Como o</p><p>da relação grupal entre pais e filhos é muito extenso, não cabe aqui o seu</p><p>mento, mas basta dizer que um fator de primeira importância é o tipo de modelo</p><p>conduta transmitido pelos pais. Assim, é muito comum encontrarmos uma</p><p>sável estabelecer a diferença conceitual entre as expressões "drogadiqto 'e "drogativol</p><p>No primeiro caso. trata-se de uma adicção químic-a, ponanto. de uma dóença altament</p><p>preocupante. No segundo caso, trata-se do uso de drogas ativas, as quais. porém</p><p>cia entre o que os pais dizem, Íazem, e o que, de fato, eles rdo. Por exemplo, os pais</p><p>podem pregar verdadeiros discursos de alerta contra os vícios, ao mesmo tempo que</p><p>ostensivamente cultivam o seu vício ao cigarro, à comida, ou a remédios, etc.</p><p>O que essencialmente diferencia â existência de uma turma e de uma gangue é</p><p>que, na primeira, além deuma busca sadia por emancipação, prevalecem os sentimentos</p><p>amorosos, ainda que esses estejam camuflados por uma capa de onipotência e de</p><p>pseudo-agressão. A turma se dissolve ao natural, porquanto os seus componentes</p><p>crescem, tomam diferentes caminhos na vida e ficam absorvidos pelo eslúlishment.</p><p>É diferente nas gangues: neste câso, há a predominância dos sentimentos de</p><p>ódio e vingança, com a ausência manifesta de sentimentos de culpa e de intentos</p><p>reparatórios, ancorados que aqueles estão na idealização de sua destrutividade. Em</p><p>caso de dissolução da gangue, os seus membros seguem a mesma trilha de delinqüên-</p><p>cia ao longo da vida, tanto porque os conflitos sócio-econômicos estão continuamen-</p><p>te reforçando e justificando a violência como porque o processo de separação entre</p><p>eles não foi devido a um Drocesso natural de crescimento. mas. de</p><p>um foco infeccioso, cada um deles vai inoculando o vírus nas</p><p>o</p><p>ter a violência provinda das gangues organizadas em tomo de líderes que fazem da</p><p>crueldade o seu ideal de vida. Mesmo em países do primeiro mundo, com todos os</p><p>recursos econômicos e com técnicos especializados à disposição das autoridades, o</p><p>desafio do problema deliqüencial não está sendo vencido; pelo contrário.</p><p>Não se pode esquecer, no entanto, que, melhor do que simplesmente cruzar os</p><p>braços ou fazer o inútil jogo da retórica bonita - é efetivar uma real tomada de inici-</p><p>ativas que se dirijam não tanto unicamente à necessária ação repressiva dirigida isola-</p><p>damente a indivíduos ou algumas gangues, mas sim ao investimento em processos</p><p>educacionais, de tal sorte que, desde muito cedo, a criança marginalizada possa respei-</p><p>tar, admirar, e assim incorporar novos modelos de valores provindos de técnicos,</p><p>educadores.</p><p>É desnecessário esclarecer que a ênfase aqui tributada à educação de forma</p><p>nenhuma exclui a necessidade simultânea de uma ação repressiva por parte das autori-</p><p>dades competentes, especialmente porque a melhor maneira de mostrar amor por</p><p>uma criança ou adolescente é saber impor limites adequados à sua onipotência.</p><p>As outras medidas que idêalmente poderiam solucionar o problema das gangues</p><p>violentas são utópicas e totalmente inviáveis para a nossa realidade atual, porém não</p><p>custa fazer algumas cogitações:</p><p>. Uma mudança na mentalidade das classes dirigentes e na elite econômica, de tal</p><p>soÍe que o modelo que vem de cima para baixo não viesse impregnado com os</p><p>valores da hipocrisia e da comrpção.</p><p>. Uma profunda modificação na distribuição de renda, de maneira que se propici-</p><p>asse condições de vida, no mínimo dignas, principalmente para as crianças.</p><p>. Uma participação mais profunda do Estado junto às comunidades, de forma a</p><p>propiciar a disseminação de grupos operativos educativos dirigidos a crianças,</p><p>adolescentes, pais e educadores em geral.</p><p>Embora a já mencionada obviedade de que as duas primeiras cogitações são</p><p>totalmente inalcançáveìs em nosso meio, a terceira delas é bastante viável e talvez</p><p>possibilitasse, mais precocemente, uma mudança de mentalidade nas classes sociais</p><p>mais desfavorecidas, no sentido de substituir a idealização da violência por outros</p><p>valores e por uma outra ética de convívio grupal e social.</p><p>COMO TRABALHAMOS COM CRUPOS . 67</p><p>Processos Obstrutivos nos</p><p>Sistemas Sociais, nos Gru-</p><p>pos e nas Instituições</p><p>LUIZ CARLOS OSORIO</p><p>Qualquer sistema social, seja um casal, uma famíia, um gmpo terapêutico ou uma</p><p>instituição, não é um mero somatório de individualidades. Isso o sabemos todos nós,</p><p>mas tê-lo em conta na práxis de nossas atividades gnpais nem sempre é tão óbvio</p><p>quanto se poderia supor.</p><p>Sabemos, portanto, que um sistema (no caso, o sistema grupal) não é a soma de</p><p>suas paÍes. E o chamado princípio da não-somatividade, uma das pedras angulares</p><p>da teoria dos sistemas, mencionado por Watzlawick (1967). O conceito psicológico</p><p>de "gestú" deriva-se deste princípio e sinaliza a importância de considerÍìr-se o gÍu-</p><p>po como uma entidade peculiar, cujo perfìl psicodinâmico não pode ser simplistamente</p><p>reduzido à resultantê dos vetoÍes psicológicos de seus componentes.</p><p>Logo, os grupos têm sua dinâmica própria e leis inerentes a seu funcionamento.</p><p>Não podemos compreendê-los tão somente a partir da dinâmica intrapsíquica de seus</p><p>membros. Não obstante, sendo meu vértice de aproximação ao estudo dos gnrpos o</p><p>psicanalítico, é a partir de certas caracteísticas psicológicas dos seres humanos e que</p><p>se manifestam em suas interaçõs sociais que procuro entender o funcionamento grupal.</p><p>Se fiz a ressalva inicial é para que não se suponha que ingenuamente tenho a preten-</p><p>são de abarcar todo o universo das manifestações e vicissitudes das atiüdades grupais</p><p>apenas sob a ótica da psicanáIise: essa, como as demais abordagens propostas pelos</p><p>estudiosos do comportamento social dos seres humanos, é apenas uma das inúmeras</p><p>vias de entrada à compreensão dos processos grupais.</p><p>O fenômeno que centraliza a atividade de qualquer agrupamento humano é a</p><p>interação entre seus componentes. Na dinâmica dessa interação é que temos que focar</p><p>nosso interesse especulativo, independentemente do vértice teórico sob o qual nos</p><p>posicionamos, para compreender tanto os aspectos construtivos como os obstrutivos</p><p>da atividade grupal dos indivíduos.</p><p>Diz-se que o Homem é um ser gregário, aludindo-se com isso à sua inata tendência</p><p>a agrupar-se para íuisegurar sua identidade e sobrevivência como espécie. Mas, ao</p><p>contrário de outras espécies animais, o Homem náo se agrupa apenas píua defender-</p><p>se dos perigos naturais ou para multiplicar sua capacidade de prover sustento e prote-</p><p>ção para a prole. O Homem também se agrupa para instrumentalizar seu domínio e</p><p>poder sobre seus iguais, mesmo quando este domínio não está vinculado a questõ€s</p><p>70 . zuenurNaosonlo</p><p>de sobrevivência ou preservaçâo da espécie. E é quando isso ocorre que nos defron-</p><p>tamos com os mecanismos obstrutivos nos sistemas sociais, grupos ou instituições.</p><p>Os sistemas sociais, as instituições e os grupos em geral são sempre - a par de</p><p>seus objetivos específicos - instrumentos de busca e manutenção do Poder (assim</p><p>mesmo, maiusculado, para enfatizar sua magnitude e inadjetivado para caracterizar</p><p>sua abrangência). Essa aspiração ou desejo de Poder está ligado às origens da condi-</p><p>ção humana e é o substrato dinâmico para as vicissitudes dos indivíduos na sua vida</p><p>de relação.</p><p>Sabemos que os seres humanos são capazes de inibir seu desenvolvimento psíqui-</p><p>co e comprometer seriamente a realização de seus projetos de vida a partir de mecanis-</p><p>mos autodestrutivos, que vão desde as "inofensivas" somatizações que afetam os</p><p>indivíduos em geral até condutas francamente suicidas.</p><p>De forma análoga, poderíamos dizer que também os sistemas sociais "aniqui-</p><p>lam-se" ou "suicidam-se". Aí está a desintegração do Leste Europeu como evidêricia</p><p>contemporânea desses processos autodestrutivos num</p><p>As perspectivas futuras da terapêu-</p><p>tica psicanalítica (1910), Totetn e tabu (1913), Psicologia das massas e aruilise do</p><p>ego (1921), O futuro de uma ilusdo (1927) e Mal-estar na civilização (1930).</p><p>Já no trabalho de 1910, Freud revela uma de suas geniais previsões ao conceber</p><p>que "... o êxito que 1 terapia passa a ter no indivíduo haverá de obtêla na coletivida-</p><p>de". Em Totem e tabu, aÍravés do mito da horda selvagem, ele nos mostra que, por</p><p>intermédio do inconsciente, a humanidade transmite as suas leis sociais, assim como</p><p>estas produzem a cultura. No entanto, o seu trabalho de 1921 ê considerado como</p><p>particularmente o mais importante para o entendimento da psicodinâmica dos gru-</p><p>pos, e nele Freud traz as seguintes contribuições teóricas: umarevisão sobre a psicolo-</p><p>gia das multidões; os grandes grupos artificiais (igreja e exército); os processos iden-</p><p>tificatórios (projetivos e introjetivos) que vinculam as pessoas e os grupos; as lideranças</p><p>e as forças que influem na coesão e na desagregação dos grupos. Nesse mesmo traba-</p><p>lho, Freud pronuncia a sua clássica âfirmativa de que "a psicologia individual e a</p><p>social não diferem em sua essência", bem como aponta para as forças coesivas e as</p><p>disruptivas quejuntam e separam os indivíduos de um grupo. Esta última situação é</p><p>ilustrada por Freud com uma metáfora que ele tomou emprestada do filósofo</p><p>Schopenaueq a qual alude à idéia de uma manada de porcos espinhos, no invemo,</p><p>procura se juntar em um recíproco aconchego aquecedor; no entanto, a excessiva</p><p>aproximação provoca ferimentos advindos dos espinhos e força uma separàção, num</p><p>contínuo e interminável vaivém.</p><p>J. Moreno. Em 1930, este médico romeno introduziu a expressão "terapia de</p><p>grupo". O amor de Moreno pelo teatro, desde a sua infância, propiciou a utrlização da</p><p>importante técnica grupal do psicodrama, bastante difundido e praticado na atualidade.</p><p>K, Lewin. A vertente sociológica do movimento grupalista é fortemente inspi-</p><p>rada em KuÍ Lewin, criador da expressão "dinâmica de grupo", com a qual ele subs-</p><p>tituiu o conceito de "classe" pelo de "campo". Desde 1936, são relevantes os seus</p><p>estudos sobre a estrutura psicológica das maiorias e das minorias, especialmente as</p><p>judaicas. Da mesma forma são importantes as suas concepções sobre o "campo grupal"</p><p>e a formação dos papéis, porquanto ele postulava que qualquer indivíduo, por mais</p><p>ignorado que seja, faz parte do contexto do seu grupo social, o influencia e é por este</p><p>fortemente influenciado e modelado.</p><p>S,H.Foulkes. Este psicanalista britânico inaugurou a prática da psicoterapia</p><p>psicanalítica de grupo a partir de 1948, em Londres, com um enfoque gestáltico, ou</p><p>seja, para ele um grupo se organiza como uma nova entidade, diferente da soma dos</p><p>indivíduos, e, por essa razão, as interpretações do grupoterapeuta deveriam ser sem-</p><p>pre dirigidas à totalidade grupal. Foulkes introduziu uma série de conceitos e posnÌlados</p><p>que serviram como principal referencial de aprendizagem a sucessivas gerações de</p><p>grupoterapeutas, sendo considerado o líder mundial da psicoterapia analítica de gru-</p><p>DO.</p><p>j</p><p>I</p><p>COMOI RABAL}IAMOs COM ARUPOS . 25</p><p>Pichon Rivière. Trata-se de um psicanalista argentino altamente conceituado,</p><p>tendo se tornado o grande nome na área dos grupos operativos, com contribuições</p><p>originais, mundialmente aceitas e praticadas. Este autor, partindo do seu "esquema</p><p>conceitual-referencial-operativo"(ECRO), aprofundou o estudo dos fenômenos que</p><p>surgem no campo dos grupos e que se instituem para a finalidade não de terapia, mas,</p><p>sim, a de operar numa determinada tarefa objetiva, como, por exemplo, a de ensino-</p><p>aprendizagem. A partir das postulações de Pichon Rivière, abriu-se um vasto leque</p><p>de aplicações de grupos oper'Ìtivos, as quais, com algumas variações técnicas, são</p><p>conhecidas por múltiplas e diferentes denominações.</p><p>W.R.Bion. Durante a década 40, este eminente psicanalista da sociedade britânica</p><p>de psicanálise - fortemente influenciado pelas idéias de M. Klein, com quem se ana-</p><p>lisava na época -, partindo de suas experiências com grupos realizadas em um hospi-</p><p>tal militar durante a Segunda Guerra Mundial, e na Tavistock Clinic, de Londres,</p><p>criou e difundiu conceitos totalmente originais acerca da dinâmica do campo grupal.</p><p>Entre as suas contribuições vale destacar a sua concepção de que qualquer gru-</p><p>po se movimenta em dois planos: o primeiro, que eÌe denomina "grupo de trabalho",</p><p>opera no plano do consciente e está voltado para a execução de alguma tarefa; subja-</p><p>cente a esse existe em estado lâtente, o "grupo de pressupostos básicos", o qual está</p><p>radicado no inconsciente e suas manifestações clínicas correspondem a um primitivo</p><p>atavismo de pulsões e de fantasias inconscientes. Bion formulou três tipos de supos-</p><p>tos básicos: o de dependência (exige um líder carismático que inspire a promessa de</p><p>prover as necessidades existenciais básicas), o de /ata e fuqa (de nafireza, paranóide,</p><p>requer uma liderança de natureza tirânica para enfrentar o suposto inimigo ameaça-</p><p>dor) e o de apareaìnento (também conhecido como "acasalamento", alude à forma-</p><p>ção de pares no grupo que podem se acasalar e gerar um messias salvador; portanto,</p><p>é um suposto inconsciente que, para se manter, exige um líder que tenha algumas</p><p>características místicas). Além disso, Bion contribuiu bastante para o entendimento</p><p>da relação que um indivíduo portador de idéias novas (que ele chama de "místico" ou</p><p>"gênio") trava com o establishnlent no qual ele está inserido. Esta úÌtima concepção</p><p>tem se revelado de imprescindível importância para a compreensão dos problemas</p><p>que cercam as instituições.</p><p>Pela importância que Bion representa para o movimento grupalista, vale a pena</p><p>mencionar alguns dos aspectos que ele postulou:</p><p>. O grupo precede ao indivíduo, isto é, as origens da formação espontânea de gru-</p><p>pos têm suas raízes no grupo primordial, tipo a horda selvagem, tal como Freud a</p><p>menclonou.</p><p>. Os supostos básicos antes aludidos representam um atavismo do grupo primitivo</p><p>que está inserido na mentalidade e na cultura grupal.</p><p>. A cultura grupal consiste na permanente interação entre o indivíduo e o seu gru-</p><p>po, ou seja, entre o narcisismo e o socialismo.</p><p>. No plano tran ;-subjetivo, este atavismo grupal aparece sob a forma de mitos</p><p>grupais, como são, por exemplo, os mìtos de Eden (Deus versas Conhecimento,</p><p>sob ameaças de punição); Babel (Deus versrs Conhecimento, através do estabele-</p><p>cimento de confusão); Esfinge (tem o Conhecimento, porém luta pelo não-conhe-</p><p>cimento, tal como aparece na clássica sentença "decifra-me ou te devoro", ou,</p><p>"me devoro (suicídio) se me decifrares"); Edipo (castigado pela curiosidade ano-</p><p>sante e desafiadora).</p><p>2ó . zlltERrlÂN & osoRlo</p><p>. Organizâção da cultura, através da instituição de normas, Ìeis, dogmas, conven-</p><p>ções e um código de valores morais e éticos.</p><p>. O modelo que Bion propôs para a relação que o indivíduo tem com o grupo é o da</p><p>relação continente-conteúdo, a qual compoÍa três tipos: parasitiírio, comensal e</p><p>simbiótico.</p><p>. A relação ql'l.e o establÌshmeÌrÍ mantém com o indivíduo místico, sentido como</p><p>um ameçador portador de idéias novas, adquire uma dessas formas: simplesmen-</p><p>te o expulsam, ou ignoram, ou desqualificam, ou co-optam através da atribuição</p><p>de funções administrativas, ou ainda, decorrido algum tempo, adotam as suas</p><p>idéias, porém divulgam-nas como se elas tivessem partido dos pró-homens da</p><p>cúpula diretiva.</p><p>. A estruturação de qualquer indivíduo requer a sua participação em grupo.</p><p>Escola Francesa. Na década de 60, começam a surgir os trabalhos sobre a dinâ-</p><p>mica dos grupos com um novo enfoque, a partir dos trabalhos dos psicanalistas fran-</p><p>ceses D. Anzieu e R. Kàes, os quais, retomando alguns dos postulados originais de</p><p>Freud, propõem o importante conceito de "aparelho psíquico grupal", o qual está</p><p>dotado das mesmas instâncias que o psiquismo inconsciente individl:al, mas não dos</p><p>mesmos princípios de funcionamento. Com as concepções teóricas desses dois auto-</p><p>res, o edifício que abriga as grupoterapias começa a adquirir alicerces referenciais</p><p>sistema social. Em escala me-</p><p>nor, os gmpos também se autoflagelam, como nas dissidências ou fragmentações</p><p>institucionais.</p><p>Porém não é a essas formas extremas de aniquilação institucional que vamos</p><p>nos referir neste texto e, sim, aos processos obstrutivos lentos, insidiosos, crônicos,</p><p>nem sempre perceptíveis e que estão contínua e reiteradamente debilitando os organis-</p><p>mos grupais e minando seus objetivos imanentes. Tais processos seriam companíveis</p><p>às detenções no desenvolvimento, ou aos fenômenos regrgssivos nos indivíduos. E s€</p><p>quiséssemos continuar na analogia, diríamos que se estendem numa gama que vai</p><p>desde as fronteiras da normalidade até o nível psicótico, que não contempla as exi-</p><p>gências da realidade e acaba constituindo-se numa "morte em vida" pela impossibilid+</p><p>de de dar curso a um projeto existencial. Para lhes dar uma idéia mais clara daquilo a</p><p>que me refiro aqui, preciso recorrer a alguns conceitos e noções, aparentemente es-</p><p>parsas e desconexas, mas que aos poucos serão articuladas para dâr sustentação a</p><p>esta exposição.</p><p>Para um psicanalist4 falar em processos obstrutivos ou autodestrutivos é evo-</p><p>car inevitavelmente a idéia de um instinto ou pulsão de morte, tal como originalmen-</p><p>te a formulou Freud (1920). Esse é sabidamente um dos mais controversos conceitos</p><p>da teoria psicanalítica e há quem afirme que nem mesmo Freud se convenceu com</p><p>sua própria aÍgumentação a favor de sua existência. O- saggggqpsicanalistas que o</p><p>adotaramçqnó ferramênta epistemológica - M. Klein èìÍlóçlõ:ìãfr guraãÍn-no</p><p>de tal sorte que Douco lembra a forma coúo Freud inicialmente o concebeu.-Èì:meìa</p><p>meómílibèidãdè dé transTorm-raÇão õo èonieito ilara aÌtíptáJo aos</p><p>objetivos deste capítulo. Tomarei, então, o instinto de moÍe não como um hipotético</p><p>impulso ao auto-aniquilamento, mas como uma forma de inércia ao movimento em</p><p>direção à vida, ao crescimento, à evolução e suas exigências de diferenciação e reconhe-</p><p>cimento dapresença do Outro - como algo, enfim, que boicota ou sabota o desenvolvi</p><p>mento psíçico do indivíduo.</p><p>Sirvo-me da intuição dos poetas - esses sutis antecipadores do conhecimento</p><p>científico - para dadhes uma sintética idéia do instinto de morte como o visualizo e</p><p>apresento _aqui. Diz-nos M. Quintana (1973): " A única morte possível é não ter</p><p>nascido". E a esta recusa às vicissitudes da existência e ao desejo demanler ad aeterno</p><p>o estado de onipotência original que estou aludindo aqui quando me refrro ao instinto</p><p>de morte.</p><p>COMO TRABALHAMOS COM CRUPOS . 71</p><p>\ÍAS O QUE VEM A SER O ESTADO DE ONIPOTENCIA ORIGINAL</p><p>A\TES REFERIDO?</p><p>Suponhamos, para melhor entendê-lo, que o bebê dentro do útero matemo tem de si</p><p>e do que o rodeia a idéia de um todo fusionado e indissociável. Se um feto pensasse,</p><p>diria:;'O Universo sou Eu". Essa fórmula solipsista resume a essência psicoiógica do</p><p>estado de indiferenciação inicial do ser humano na vida intra-uterina. Essa fórmula</p><p>transforma-se, pela contingência do nascimento, na premissa "O Universo(Mãe) existe</p><p>em função de Mim", que será mantida ao longo dos primeiros meses de vida do bebê,</p><p>em razáo de sua condição neotênica, ou seja, sua incapacidade de sobreviver sem</p><p>cuidados extemos (maternagem).</p><p>A cisão primordial do nascimento e a conseqüente necessidade de adaptar-se às</p><p>exigências de uma realidade que confronta o ser humano com a evidência de sua</p><p>incompletude (e, posteriormente, com sua finitude) o levam a anelaÍ o retomo ao que</p><p>chamamos estado de onipotência original, representação mental do paraíso nirvânico,</p><p>sem angústias, sem conflitos, sem desejos a demandar satisfações e, conseqüente-</p><p>mente, o corolário da negação da vida e suas vicissitudes. O impulso que se opõe à</p><p>vida e às suas manifestações, tais como o desejo de crescer e aceitar os desafios do</p><p>périplo existencial, é o que aqui entendemos por instinto de morte, e seu objetivo</p><p>seria, portanto, o retomo ao estado de onipotência original, cujo paradigma é o narci-</p><p>sismo primário do bebê no "nirvana" uterino.</p><p>Narcisismo, noção intimamente relacionada e articulada com as anteriores, é</p><p>nossa próxima referência conceitual. Narcisismo que não é o amor a si próprio como</p><p>postulou-se inicialmente, fundamentando-se na expressão plástica da lenda que o</p><p>inspirou como conceito metapsicológico, mas, sim, q incapacidade de amar até_a si</p><p>próprio, conteúdo que transcende a imagem de Narciso mirando-se no espelho das</p><p>águas para evocar o aspecto autodestrutivo subjacente na representação alegórica da</p><p>voltâ ao estado onipotente original, pela fusão com a Mãe, simbolizada nas águas</p><p>onde se deixa afogar.</p><p>Outra vez os poetas vêm em meu auxílio para me adequar à necessidade de ser</p><p>breve. Desta feita é V. de Moraes quem nos alerta que "quem de dentro de si não sai</p><p>vai morrer sem amar ninguém". Narcisismo é, pois, como aqui o estamos consideran-</p><p>do, esta impossibilidade de sair de dentro de si para a interação com o Outro, esteja</p><p>esse Outro externalizado no seu mundo de relações pessoais ou intemalizado sob a</p><p>forma de representações de objetos afetivos no aparelho psíquico.</p><p>O narcisismo seria, então, a expressão da libido represada e que no contexto</p><p>grupal se evidencia por uma menor disponibilidade às interações afetivas e a uma</p><p>menor consideração pelos direitos alheios, alimentando, dessa forma, os processos</p><p>obstrutivos pelo estancamento da cooperação grupal indispensável à consecução da</p><p>tarefa a que o grupo se propõe, seja qual for esta. Por outro lado, a libido represada</p><p>impede a admiração, porque esta implica o reconhecimento do valor alheio. Destarte,</p><p>as posturas narcísicas ensejam a eclosão de sentimentos invejosos.</p><p>A inveja lança suas raízes no solo que lhe é propício, o narcisismo, medra regada</p><p>pela hostilidade e se espalha, qual erva daninha, no pasto da mediocridade. Outros-</p><p>sim, a inveja articula-se com o instinto de morte por ser um sentimento paralisante,</p><p>impeditivo do progresso de quem o alberga e que o deixa à margem dos movimentos</p><p>evolutivos de qualquer grupo do qual participe, aos quais irá sabotar, pois a emergên-</p><p>cia da criatividade grupal exarcerba o mal-estar do indivíduo invejoso que, via de</p><p>regÍa, pertence à parcela menos talentosa ou criativa dos grupos ou instituições. Como</p><p>72 . zIt,lrnulN a osonlo</p><p>sói acontecer que o invejoso não tenha consciência da pr6pria inveja (porque para</p><p>lo é preciso ter acesso ao processo criativo a que chamamos lnsrgftl e este está</p><p>do pela ação deletéria do instinto de morte enquanto agente bloqueador do</p><p>ou evolução) põe-se ele a atacar os movimentos construtivos do gmpo, i</p><p>as práticas sabotadoras das transformações criativas.</p><p>Outros sentimentos ou emoções humanas comparecem e causam</p><p>na malha interativa dos processos grupais, gerando ou exarceúando</p><p>obstrutivos a seu funcionamento. Entre tantos que deixaremos de mencionar e</p><p>tir para não exceder os limites convenientes a esta exposição, destacaremos, por</p><p>relevância para o tema em pauta, a arrogância (outro subproduto narcísico) e</p><p>contrapartida, o servilismo interesseiro, uma forma de mimetismo com as opiniões</p><p>intenções das lideranças grupais e que consiste em abrir-se mão da dignidade</p><p>para a obtenção das benesses do poder circulante no gmpo e ao qual o postulante</p><p>se supõe capaz de ter acesso a não ser pelo expediente da bajulação.</p><p>Tais condutas, decorrentes quer da arrogância de quem narcisicâmente se</p><p>bui um valor que não tem e desqualifica o mérito alheio, quer do peleguismo de</p><p>se humilha para contemplar seu triunfo narcísico espelhado no Outro, têm</p><p>estagnantes sobre a evolução do processo grupal e, conseqüentemente, podem</p><p>arroladas como elementos obstrutivos dos sistemas sociais.</p><p>A hipocrisia é outro agente obstrutivo grupal que não podemos deixarde</p><p>nar. Como sugerem suas raízes etimológicas, é a hipocrisia o reduto das atitudes</p><p>subvertem a mudança social por manter abaixo do nível crítico (hipo-crisis) a</p><p>cia dos aspectos conflitivos inerentes a qualquer agnrpamento humano.</p><p>Ao impedir-se, pela viacínica ou intermediação hipócrita, que venham à tona</p><p>sentimentos conflitantes, tamponam-se artificialmente as crises</p><p>institucionais e</p><p>tam-se as iniciativas paÍa promover as mudanças capazes de assegurar a</p><p>de dos processos grupais e, conseqüentemente, a manutenção da saúde</p><p>Recorde-se, en passanl, que a expressão crise (do grego kri.ris - ato ou facu</p><p>de de distinguir, escolher,decidir e./ou resolver), como lembra Erikson (1968), já</p><p>não padece em nossos dias do significado de catástrofe iminente que em certo</p><p>chegou a constituir-se em obstáculo à compreensão do real significado do</p><p>Atualmente, aceita-se que crise designa um ponto conjuntural necessário ao</p><p>vimento tanto dos indivíduos como de suas instituições. As crises mobilizam as</p><p>riências acumuladas e ensejam uma melhor (re-) definição de objetivos pessoais on</p><p>coletivos.</p><p>Todo e qualquer sistema social é uma caixa de ressonância que amplifica as</p><p>emoções humanas e as reverbera na trama interpessoal que lhe serve de sustentação.</p><p>Como, então, apresentam-se e interagern, na práxis societária, grupal ou institucionaL</p><p>elementos como os mencionados instinto de morte, narcisismo, busca e manutenção</p><p>de estados de poder, inveja, anogância, servilismo, hipocrisia e outros tantos apenas</p><p>sugeridos e não explicitamente mencionados no texto? E como se exteriorizam em</p><p>processos obstrutivos?</p><p>Vamos nos valer a seguir de uma situação fictícia que nos permita, através da</p><p>ilustração, preencher as lacunas da digressão teórica. Apenas descreveremos a aludi.</p><p>da situação, deixando aos leitores a tarefa de correlacioná-la com os conteúdos sobre</p><p>os quais estivemos a dissertar até agora.</p><p>Imaginemos que estamos reunidos num grupo informal pzrÍa estudÍtÍ os proces-</p><p>sos obstrutivos nas instituições sociais em geral. A motivação que nos aproximou é a</p><p>curiosidade compartida sobre esses fenômenos e o desejo de compreendêJos em</p><p>Ë-</p><p>z-</p><p>rto</p><p>do</p><p>ias</p><p>les</p><p>cu-</p><p>ma</p><p>a</p><p>:se</p><p>oal</p><p>trão</p><p>úri-</p><p>EM</p><p>itos</p><p>L sef</p><p>piG</p><p>que</p><p>gên-</p><p>Eì OS</p><p>bor-</p><p>úda-</p><p>tnal.</p><p>úda-</p><p>ique</p><p>Ento</p><p>rmo.</p><p>rvol-</p><p>xpe-</p><p>is ou</p><p>;a as</p><p>rção.</p><p>onal,</p><p>nção</p><p>,enas</p><p>nem</p><p>és da</p><p>rludi-</p><p>sobre</p><p>0ces-</p><p>ouéa</p><p>)s em</p><p>maior profundidade. Também compartilhamos a convicção de que é num grupo mul-</p><p>tidisciplinar que maior proveito advirá nosso intercâmbio de idéias.</p><p>Eis quando alguém repentinamente propõe: " - E se fundássemos uma socieda-</p><p>de para estudar os processos obstrutivos nos sistemas sociais e pudéssemos através</p><p>dela veicular nossa contribuição a tão relevante questão nos dias que conem? Ponho-</p><p>me desdejá à disposição do grupo para tomar as primeiras providências cabíveis". (O</p><p>proponente trai assim seu inefreável anseio de liderar tal sociedade.) Ato contínuo,</p><p>outro membro do grupo, salientando sua prévia experiência como comunicador, su-</p><p>gere uma sigla para a nascente instituição: " - Chamemo-la SPEPOS (Sociedade para</p><p>o Estudo dos Processos Obstrutivos Sociais)", ao que um terceiro, vocacionado prag-</p><p>maticamente para a codificação informática, contrapõe: " - Muito extensa.</p><p>Condensemo-la para SPOS. E suficiente para identificá-la e soa melhor".</p><p>Entrementes, outro aspirante à liderança do grupo sugere que se cogitem nomes</p><p>para compor a diretoria, e vai logo indicando dois ou três para cargos de secretiírio,</p><p>tesoureiro e relações públicas, deixando estrategicamente vacante o de presidente,</p><p>logo preenchido com seu próprio nome por proposta do secretário recém-indicado,</p><p>antigo companheiro de lutas políticas noutros anaiais. O tesoureiro, confirmando o</p><p>acerto da proposição de seu nome para o caÍgo, vai logo calculando e sugerindo o</p><p>valor de uma contribuição inicial para os sócios e... pronto! Lá se foi por água abaixo</p><p>o objetivo original do grupo, carregado pelo desejo coletivo de abrir espaço para o</p><p>exercício dos jogos de poder, a serviço dos núcleos narcísicos de cada um dos com-</p><p>ponentes. E não há como a promessa de um cargo diretivo para acionar as vaidades</p><p>circulantes e preencher as valências narcísicas sempre disponíveis para uma nova</p><p>tentativa de resgate do estado onipotente original.</p><p>O grupo institucional passa a ser, então, o continente propício a esta busca irre-</p><p>freável de restauração do poder original perdido e que, no registro existencial de cada</p><p>um de seus membros, jaz no passado arcaico que remonta ao estado de indiferenciação</p><p>inicial do bebê, onde impera soberana a condição narcísica primordial, que não reco-</p><p>nhece a existência do outro porque isso implica revelar a si próprio sua fragilidade e</p><p>incompletude.</p><p>Abstraindo-se o caráter caricatural do exemplo proposto, pode-se imaginar me-</p><p>lhor caldo de cultura do que a institucionalização de um grupo como foi descrito para</p><p>o florescimento da inveja, da arrogância, do mimetismo servilista, da hipocrisia aco-</p><p>modatícia, da desqualificação do valor alheio e outros tantos elementos pemiciosos à</p><p>integidade e ao progresso de um sistema social? São esses alguns dos mecanismos</p><p>obstrutivos que sabotam o crescimento de um grupo e erosam seus objetivos origi-</p><p>nais, trazendo como conseqüência a inércia e a estagnação que identificam a presen-</p><p>ça do instinto de morte, na acepção em que o consideramos.</p><p>Se quisermos correlacionar tais eventos com a teoria psicanalítica dos grupos'</p><p>conforme enunciada por Bion (1961), poderíamos acrescentar, a esta altura, que os</p><p>processos obstrutivos se instalam na vigência dos supostos básicos de dependência,</p><p>iuta-e-fuga e acasalamento messiânico; ou seja, um grupo deixa de cumprir seus</p><p>objetivos e apresenta um movimento de detenção evolutiva ou regressão sempre que</p><p>abandona a condição de grupo de trabalho para tomar-se um grupo de supostos bási-</p><p>cos, segundo a terminologia bioniana.</p><p>Uma última reflexão à guisa de conclusão:</p><p>Quando um grupo institucionaliza-se a serviço do poder e do culto ao narcisis-</p><p>mo de seus membros e desvia-se de seus objetivos originais, ele esclerosa-se, perde</p><p>vitalidade, e, mesmo que não venha a se aniquilar e desaparecer por inteiro, sofre um</p><p>lento, insidioso e gradativo processo de degradação' Se este processo de instituciona-</p><p>coMo TRABALHAM'' co" o*u"or . 73</p><p>74. r* t t*nto* a oto^ 'u</p><p>l ização antioperativa for muito precoce, o grupo pode chegar à extinção, aprisionadc</p><p>pela carapaçâ constritiva das estruturas narc ísicas de seus membros componentes, ta.</p><p>qual o cérebro dc um infante esmagado pela ossificação prcmatura do crânio.</p><p>Então - aÌguém poderá indagar-se, fazcndo ulna leitura parcializada ou equivo-</p><p>cada do que estou dizendo - todo o processo de institucionalização ó nocivo?</p><p>Obviamente, não. A instituição seja ela a família, o clube esportivo, o partidi</p><p>político ou a sociedade científica - é o arcabouço, o esqueÌeto do corpo societário. E</p><p>o que o sustenta c possibilita sua estruturação. Sem dúvida, contudo, a instituiçãc</p><p>sofre um inevitável processo de pauliìtina arÌtodestnÌição na medida em que se afast:</p><p>de seus objetivos precípuos para servir aos intcresses narcísicos de seus membros, ou</p><p>se restringe a opcrar como mero instrumento para o exercício do poder.</p><p>A aceitação da premissa de que os gÌxpos, como os indivíduos, são limitados e</p><p>finitos e que não podem sujeitar-se a sacrificar suas finalidades espccíficas para aten-</p><p>der às demandas narcísicas de seus componentes e à sua aspiração de resgatar ur</p><p>poder ilusório é condítìo sürc quír /ralÌ pariì que se atenuem os pÍoccssos obstrutivo:</p><p>que possam vir a ameaçar a sobrevivôncia operativa de qualquer grupo, instituição oL</p><p>sistema social.</p><p>Em outras palavras, não são as ideologias e sim os indivíduos que fracassam er,</p><p>suas tentativas de construir um mundo melhor, porque na sua pri'txis institucional este</p><p>mundo não ultrapassar as fronteiras de seus próprios egos.</p><p>Penso que adquirir rnslgÀt desses mccanismos obstrutivos vinculados à busca e</p><p>manutenção de estados de poder a serviço de pressupostos naÍcísicos que solapam c</p><p>funcionamento das instituições humanas e âmeâçam sua continuidade e existência é</p><p>de suma impoíância para todos nós quc trabalhamos com grupos. E preciso identificr-</p><p>los coneta e precocemente para, então, podermos introduzir as mudanças necessária:</p><p>à remoção dos pontos de e strangulamcÌ'Ìto que impedem o fluxo criativo dos proces-</p><p>sos grupais. Sem isso, os sistemas sociais tornam-se</p><p>antioperativos e contribuerÌ:</p><p>para o mal-estar existencial dos que neles convivem.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>BION, W. ( l96l) tVcriôncìa cont gnqtos. Rio dc Jnneiror Imago, 1970.</p><p>ERIKSON, E. (1968) Idcntkktt l , juvenwtl l crìsis. Ì lucnos Airesr Paidós, l97l.</p><p>FREUD, S. (1920) Mais alén do príncípio t lo pru;o: S.E.B. vol. XVIII . Rio dc JanciÍo: Imâgo, 1976.</p><p>MORAES. V. dc. Crutto de Ossatin (letra musicnÌ).</p><p>QUINTANA, M. I)o cadento H.Por1o Alegrc: Clobo, 1973.</p><p>WATZLAWICK, P. ct d. (196'/) Teoriu t l , : la contutt icacíótt larnrma. Bucnos Aircs: Tiempc'</p><p>ConternDorÍnlro. I971.</p><p>do</p><p>tal</p><p>ido</p><p>r .É</p><p>ção</p><p>Ìsta</p><p>,oü</p><p>)se</p><p>;en-</p><p>um</p><p>vos</p><p>,ou</p><p>Classifïcacão Geral dos)</p><p>Grupos</p><p>DAVID E. ZIMERMAN</p><p>E válido partir do princípio de que, virtualmente, a essáncra dos fenômenos grupais é</p><p>a mesma em qualquer tipo de grupo, e o que determina óbvias diferenças entre os</p><p>distintos grupos é a finalidade para a qual eles foram criados e compostos.</p><p>Assim, em algumas circunstâncias, os fenômenos psíquicos de um campo grupal</p><p>estão em estado latente, subjacente, e, em outras situações, é inerente à natureza do</p><p>grupo em questão que haja a emergência de ansiedades, resistências, transferências,</p><p>etc., e que as mesmas possam ser interpretadas e trabalhadas. Conforme fora finalidade</p><p>precípua do grupo, diferente também será a camada das pessoas que o compõem, a</p><p>natureza das combinações dosetting, o esquema referencial teórico adotado e o proce-</p><p>dimento técnico empregado.</p><p>É amplo o leque de aplicações da dinârnica grupal, vasta a possibilidade de fazer</p><p>arranjos combinatórios criativos entre os seus recursos técnicos e táticos, e, igualmen-</p><p>te, há uma certa confusão semântica na área da grupalidade; portânto, denominações</p><p>diferentes podem estardesignando um mesmo tipo de atividade grupal e, em contrapar-</p><p>tida, uma mesma denominação pode estar referindo distintas aplicações práticas. To-</p><p>dos esses fatos, acrescidos de tantas outras variáveis fáceis de serem imaginadas, po-</p><p>dem gerar uma confusão conceitual, inclusive com um prejuízo na comunicação relati-</p><p>va ao necessário intercâmbio de experiências e idéias entre os diferentes profissionais.</p><p>Para atenuar esse estado de coisas, impõe-se a necessidade de uma classificação</p><p>das distintas e múltiplas modalidades de grupos. Como não tenho conhecimento de</p><p>nenhuma classificação mais abrangente e que seja de utilização consensual, vou me</p><p>permitir propor um modelo classificatório das modalidades grupais, com a evidente</p><p>ressalva de que não há a pretensão de que ela seja completa ou rigorosamente certa.</p><p>Da mesma forma que qualquer outro intento de classificação, também este poderia</p><p>partir de muitos pontos de vista, como, por exemplo: a possibilidade de tomar as</p><p>vertentes teóricas como base para uma classificação; o tipo de serllng que foi instituí-</p><p>do e que preside o grupo (grupos homogêneos, grupos abertos e fechados, etc.); a</p><p>finalidade a ser alcançada; o tipo das pessoas componentes; â área em que o gÍupo</p><p>está sendo aplicado; o tipo de vínculo estabelecido com o coordenador; o tipo de</p><p>técnica empregada, e assim por diante.</p><p>A classificação que aqui está sendo proposta se fundamenta no critério dastnali-</p><p>dcdes a que se destina o grupo, e ela parte de uma divisão genérica nos dois seguintes</p><p>grandes ramos: operalivos e psicotertipìcos.</p><p>Lem</p><p>este</p><p>cae</p><p>mo</p><p>[ca-</p><p>lnas</p><p>ces-</p><p>uem</p><p>t976.</p><p>rmpo</p><p>76. znrEnvar a osorto</p><p>Cada um dcsses ramos, por sua vez, subdividc-se em outras ramificações, con-</p><p>forme o esquema simplificador que segue adiante, o qual visa unicamente a dar um:</p><p>informação sumaríssima, a fim de situar o leitor no contexto geral, visto que todas a:</p><p>modalidades grupais a seguir mencionadas serão objeto, separadamente, de capítulo:</p><p>específicos, por parte de colegas especialistas nas respectivas áreas.</p><p>GRUPOS OPERATIVOS</p><p>E tão ablangente a conceituaçiro da expressão "gl'upo opcrativo" e ó tão cxtensa.</p><p>gama de suas apÌicaçõcs práticls, que muitos preferem considerá-los como sendc</p><p>genericamentc, um continente dc todos os demais grupos, inclusive os terapêutico\.</p><p>mesmo os especificamcnte psicanaÌíticos. A conceituação, a divulgação e a aplica-</p><p>ção dos grupos operativos devenr muito ao psiclnalista argentino Pichon Rivière.</p><p>que, desde 1945, introduziu-os c os sisteÌnatizou. Esse autor construiu o seu "esque-</p><p>ma conceitual referenc ial operativo ' considcrando uma série de fatores, tanto consci-</p><p>entes como inconscientcs. que regem a dinâmica de qualquer campo grupal, e que s:</p><p>manifcstam nas três áre.rs: mentc. aorDo c mundo exterior.</p><p>É útil enÍììtizar quc u ativi.l.tde dó coordenrtìor dos grupos opcrativos deve fica:</p><p>centralizada unicamente na tarefa proposta. sendo que, somente nas situações em qü.</p><p>os fatores inconscìen1Ès inter-rclrcionais ameaçarem a intcgração ou evolução exitos:</p><p>do grupo, é quc caberlo eventLriÌis intcrvenções de ordenr interpretâtiva, por veze:</p><p>dir ig idrs ao plrrr to do ìncon.cicr l t .</p><p>Em linhas gerais, os gnÌpos operativos propriamente ditos cobrem os seguinte.</p><p>quatro càmpos: ettsíno</p><p>respectivos limites.</p><p>Terapêuticos. Tal como a denominação indica, os grupos operativos terapêutìcos</p><p>visam fundamentalmente a uma meÌhoria de aÌguma situação de patologia dos indivÊ</p><p>duos, quer seja estritamente no plâno da saúde orgânica, quer no do psiquismo, ou em</p><p>ambos ao mesmo tempo.</p><p>A forma mais utilizada desta modalidade grupal é conhecida sob o nome de</p><p>grupos de auto-ajuda e ela consiste no fato de comumente ser um grupo de formação</p><p>espontânea entre pessoas que se sentem identificadas por algumas caracteísticas</p><p>semelhantes entre si, e se unificam quando se dão conta que têm condições de ajuda-</p><p>rem reciprocamente. Outras vezes, estes grupos se formam a partir do estímulo inte-</p><p>grador de algum profissional que coordena o grupo até que este sinta ter chegado o</p><p>momento certo de caminhar sozinho, então o profissional se afasta definitiva ou transi-</p><p>toriamente, mantendo-se disponível para o grupo que ele ajudou a formar. Podemos</p><p>citar como exemplo a disseminação de grupos que, na maioria das vezes, formam-se</p><p>espontaneamente e que são conhecidos sob o rótulo de "Anônimos" (AÌcoólicos,</p><p>Fumantes, Neuróticos, etc.)</p><p>A utilização terapêutica do grupo de auto-ajuda, o qual também começa a ser</p><p>conhecido comÕ "grupo de mútua ajuda", merece ser destacada tanto pela razão de</p><p>sua indiscutível eficácia como também pelo largo âmbito das áreas beneficiadas e</p><p>pela sua incrível expansão, muito particularmente no campo da medicina. Os grupos</p><p>de auto-ajuda são, portanto, compostos por pessoas portadoras de uma mesma cate-</p><p>goria de prejuízos e de necessidades e que, de uma forma geral, podem ser enquadra-</p><p>dos nos seguintes seis tipos: Adictos (tabagistas, obesos, drogadictos, aÌcoólicos,</p><p>etc.), cuidados primários de saúde (programas preventivos de saúde, como um supor-</p><p>te para pacientes hìpertensos, diabéticos, reumáticos, etc.), reabilitação (infartados,</p><p>colostomizados, espancados, mutilados, etc.), sobrevivência social (estigmatizados,</p><p>como os homossexuais, os portadores dc defeitos físicos, etc.), suporte (pacientes</p><p>crônicos, físicos ou psíquicos, pacientes terminais, etc.), problemas sexuais e conju-</p><p>gais (mais utilizados nos Estados Unidos).</p><p>Cada um desses seis subgrupos pcrmite novas ramificações, e dai é fácil con-</p><p>cluir o número quase infinito de possíveis modalidades grupais dessa naturezâ e,</p><p>portanto, do extenso número de pessoirs que pode ser at ingido. E necessário enfatizar,</p><p>entretanto, que essas múltiplas e distintas ramificações de grupos operativos, naprática,</p><p>não são perfeitamente delimitadas; aÌltes, elas muitas vezes se interpõem, compÌe-</p><p>!</p><p>78 . ZIMERMAN & osoRlo</p><p>mentam-se e se confundem. Por exemplo: os gÍïpos operativos costumam</p><p>um benefício psicoteriípico e, da mesma forma, os grupos psicoter,'ápicos se</p><p>do esquema referencial operativo.</p><p>GRUPOS PSICOTERAPICOS</p><p>Embora, como anteriormente explicado, os gÌupos operativos também tenham</p><p>indiscutível ação psicoterápica, é útil reservar a terminologia de "grupo psicoterápico</p><p>estritamente para aquelas formas de psicoterapias que se destinam prioritariamente</p><p>aquisição de insight, notadamente, dos aspectos inconscientes dos indivíduos e</p><p>totalidade grupal.</p><p>Não há um específico e acabado corpo teórico-técnico que dê uma sólida</p><p>mentação a todas as formas de grupoterapias. Enquanto isso, elas vão se</p><p>de outras fontes, das quais merecem um registro à parte as quatro a seguir</p><p>a p sicodranuitica, a da teorin sistêmica, a da corrente</p><p>e, naturalmente, a de inspiração psicanalítica. Além</p><p>grupoterapia de abordagem múltipla holística, a qual</p><p>certa combinação das anteriores.</p><p>Psicodramática. A corrente Dsicodramática vem sanhando um</p><p>espaço em nosso meio. Criado por J. Moreno, na década de 30, o psicodrama</p><p>conserva o mesmo eixo fundamental constituído pelos seis elementos a seguir:</p><p>rio, protagonista, diretor, ego auxiliar, públíco e a cena a ser apresentada.</p><p>A dramatização pode propiciar areconstituição dos primitivos estágios</p><p>do indivíduo. Assim, uma primeira etapa da dramatizaçáo (técnica da dupla) visa</p><p>reconhecimento da indiferenciação entre o "eu" e o "outro". Numa segunda</p><p>(técnica do espelho), o protagonista sai do palco e, a partir do público, assiste</p><p>representação que uma outra pessoa, no papel de ego auxiliar, faz dele, e isso</p><p>lita que ele reconheça a si próprio, assim como na infância ele percorreu fases</p><p>reconhecer a sua imagem no espelho. A terceira etapa (técnica da inversão de</p><p>vai permitir que o sujeito possa colocar-se no lugar do outro, então desenvol</p><p>assim o sentimento de consideração pelos demais. Deve ficar claro que, no curso</p><p>tratamento, essas etapas não são estanques. Também é útil que fique clara a</p><p>entre "psicodrama", tal como foi antes resumido, e o emprego de "dramatizações",</p><p>quais podem ser eventualmênte utilizadas como um recurso auxiliar, no decurso</p><p>outÍas formas grupotenápicas.</p><p>Teoria sistêmica. Os praticantes dessa corrente partem do princípio de que</p><p>grupos funcionam como um sistema, ou seja, que há uma constante interação,</p><p>plementação e suplementação dos distintos papéis que foram atribuídos e que</p><p>um de seus componentes desempenha. Assim, um sistema se comporta como</p><p>conjunto integrado, onde qualquer modificação de um de seus elementos</p><p>mente irá afetar os demais e o sistema como um todo.</p><p>A terapia de família tem apresentado uma relevante expansão em nosso</p><p>sendo que, fundamentalmente, seus referenciais específicos são alicerçados na</p><p>sistêmica. No entanto, isso não impede que muitos terapeutas de família</p><p>utilizem o respaldo oferecido pelos conhecimentos psicanalíticos, assim como o</p><p>prego intercalado de técnicas de dramatizaçáo.</p><p>dessas, deve ser incluída</p><p>consiste no emprego de</p><p>Cognitivo-comportamental. Essa corrente fundamenta-se no postulado de que</p><p>todo indivíduo é um organismo processador de informações, recebendo estímulos e</p><p>dados, e gerando apreciações. Trata-se de uma teoria de aprendizagem social, na</p><p>qual, sobretudo, são valorizadas as expectativas que o sujeito se sinta na obrigação de</p><p>cumprir, a qualificação de seus valores, as significações que ele empresta a seus atos</p><p>e crenças, bem como a sua forma de adaptação à cultura vigente.</p><p>O tratamento preconizado pelos seguidores da corrente comportamentalista</p><p>(behavioristas) parte do fato de háuma necessidade de uma clara cognição dos aspec-</p><p>tos antes referidos e, a partir daí, a técnica terapêutica visa a três objetivos principais:</p><p>:uma reeducação - em nível consciente - das concepções errôneas, um treinamento</p><p>de habilidadei comportamentais e uma modificaçõo no estilo de viver' É uma técnica</p><p>que está sendo bastante utilizada no tratamento de drogadictos em geral, ou nos casos</p><p>de adicção sem drogas, como é, por exemplo, o tratamento em grupo com obesos.</p><p>Nesses casos, é de fundamental importância que haja o desenvolvimento de funções</p><p>do ego consciente, tais como a de antecipar, prevenir, modificar, além de lidar com as</p><p>situações que implicam risco de reincidência.</p><p>Psicanalítica. A conente psicanalítica, por sua vez, abriga muitas escolas: freu-</p><p>diana, teóricos das relações objetais (inspirados principalmente em M. Klein, Bion e</p><p>Winnicott), psicologia do ego (Hartmann, M. Mahler, etc.), psicologia dosef(Kohut),</p><p>estruturalista (Lacan, entre outros). No entanto, apesar da óbvia (e sadia) divergência</p><p>na conceituação da gênese e do funcionamento do psiquismo, e da fundamentação</p><p>dos postulados da metapsicologia, teoria, técnicae prática da psicanálise, essas diferen-</p><p>tes escolas convergem no que há de essencial relativamente aos fenômenos provin-</p><p>dos de um inconsciente dinâmico.</p><p>Particularmente em relação às grupoterapias psicanalíticas, não há um único</p><p>referencial teórico{écnico, o importante é que o grupoterapeuta tenha uma formação</p><p>psicanalítica, de preferência de natureza múltipla, isto é, de conhecer muito bem os</p><p>fundamentos básicos de todas as escolas, e, a partir daí, construir o seu estilo próprio</p><p>e autêntico de trabalhar psicanaliticamente, fazendo as necessárias adaptações às</p><p>peculiaridades do campo grupal, com as suas leis dinâmicas específicas.</p><p>O fato de que o grupoterapeuta</p><p>trabalhe com um referencial de fundamentação</p><p>psicanalítica não significa que ele deverá visar, sempre, a um objetivo rigorosamente</p><p>psicanalítico, no sentido restrito desse termo. Assim, da mesma forma como nas</p><p>psicoterapias individuais, também as grupoterapias podem funcionar por um período</p><p>de tempo longo ou cuÍo, podem ter uma finalidade precípua de lnsigÀr destinado a</p><p>mudanças caracterológicas, ou podem se limitar a benefícios terapêuticos menos pre-</p><p>tenciosos, com a simples remoção de sintomas, alívio de angistias ou resolução de</p><p>crises. Além disso, essas grupoterapias também podem limitar-se à busca única de</p><p>uma melhor adaptabilidade nas inter-relações familiares, profissionais e sociais, ou</p><p>podem objetivar a manutenção de um estado de equilíbrio psíquico (como, por exem-</p><p>plo, com psicóticos egressos), ou ainda, a de despeÍar as ocultas capacidades positi-</p><p>vas (como no caso de grupos com pacientes borderline, depressivos), e assim por</p><p>diante.</p><p>Um exemplo de como o referencial psicanalítico pode estender-se a outras aplica-</p><p>ções grupais que não somente as do clássico sztling com pacientes neuróticos consis-</p><p>te no emprego da "psicanálise das configurações vinculares", que, além dos grupos e</p><p>instituições, encontra a sua grande importância no atendimento a casais e a grupos</p><p>familiares.</p><p>COMO TRABALHAMOS COI!| Cnu"OS . 79</p><p>80 . zr,rmuer a oso*to</p><p>Todas as altemativas até aqui levantadas requerem uma variabilidade de</p><p>dres, como será exposto ao longo do livro, inclusive com um capítulo dedicado</p><p>cialmente à prática com grupoterapia psicanalítica propriamente dita, dirigida</p><p>insifl, com o propósito precípuo de obtenção de mudanças caracterológicas.</p><p>ESTADO ATUAL DAS DIVERSAS FORMAS DE GRUPOS</p><p>Seguindo o esquema de classificação proposto neste capítulo, pode-se dizer que</p><p>atual panorama é o seguinte:</p><p>Os grupos operativos - como, por exemplo, os "grupos de reflexão" - tanto</p><p>área de ensino-aprendizagem como nas diversas instituições, em distintas áreas</p><p>manísticas, em programas comunitários de saúde mental, etc., têm mostrado</p><p>crescimento visível, embora pareça que ainda estão muito aquém do que poderiam</p><p>deveriam estar. Cabe um registro especial aos grupos de auto-ajuda e mútua</p><p>pois eles vêm revelando, nos últimos anos, uma notável expansão e inquesti</p><p>benefícios, sobretudo em inúmeras aplicações na área da medicina, como são os</p><p>pos homogêneos realizados com pacientes diabéticos, hipertensos, aidéticos, reumáti</p><p>cos, colostomizados, pós-infartados, mastectomizados, deficientes ffsicos, etc.,</p><p>um leoue ürtualmente sem fim de benefícios teraoêuticos.</p><p>Em relação às gnrpoterapias, constata-se um significativo desenvolvimento</p><p>uma progressiva demanda de áreas como a de casais e a de família, o empÍego</p><p>técnicas psicodramáticas, grupos com psicóticos egressos, diversos tipos de</p><p>homogêneos (com pacientes depressivos, borderline, drogadictos, transtomos</p><p>mentares, etc.). Quanto às grupanálises, em nosso meio pelo menos, após o início</p><p>sua aplicação na década de 50 e o seu vigoroso crescimento na década de 60,</p><p>décadas de 70 e 80 foram marcadas por um progressivo declínio, e a de 90 ainda</p><p>está claramente defi nida.</p><p>À guisa de conclusão final deste capítulo, cabem algumas sugestões:</p><p>. Em atenção às peculiaridades de um país pobre e populoso como é o nosso,</p><p>utilização do recurso grupoterápico tem tudo para ser uma alternativa de</p><p>perspectivas, até agora não suficientemente exploradas. O aproveitamento</p><p>serviços já existentes, ou a criação de clínicas de grupoterapia para pessoas</p><p>média e baixa renda, atenderia a uma inquestionável necessidade da</p><p>. As instituições formadoras de profissionais da área da saúde biopsicossocial</p><p>os médicos em geral, psiquiatras em especial, psicólogos, assistentes sociais,</p><p>po de enfermagem, deveriam dedicar um maior espaço ao ensino da dinâmica</p><p>gmpo, inclusive com uma eventual utilização de técnicas grupais de ensino,</p><p>damente nos primeiros anos de formação profissionâ|.</p><p>. A continuidade na promoção de encontros entre todos os técnicos, muitas</p><p>anônimos, das mais diferentes áreas de especialização que, de uma forma</p><p>outÍa, estão empregando algum recurso de atividade gnrpal, em seus</p><p>campos profissionais. Não resta a menor dúvida quanto à importância - como</p><p>ponto de partida, para uma necessária integração - de se saber quem é quem, e</p><p>que cada um pensa, faz, por que e como faz, etc.</p><p>Finalmente, deve-se dar todo apoio aos institutos formadores de</p><p>de grupos e às entidades representativas, em suas tarefas de, entre outras,</p><p>cursos, programas, jomadas, algumas formas de intercâmbio de experiências,</p><p>COMO TRABALHAMOS COM CRUPOS . 81</p><p>quisa e produção de trabalhos científicos, estímulo ao estabelecimento de convênios</p><p>com órgãos estatais de assistência médica, empresas, sindicatos, instituições de en-</p><p>saio, entidades congêneres a essas e, sobretudo, promover alguma forma consistente</p><p>de diwlgação e esclarecimento ao grande público.</p><p>mto na</p><p>ãs hu-</p><p>algum</p><p>riam e</p><p>ajuda,</p><p>náveis</p><p>DS gru-</p><p>Dmáti-</p><p>b., em</p><p>lvezes</p><p>Era ou</p><p>btivos</p><p>no um</p><p>F'" o</p><p>Ento e</p><p>Ego de</p><p>EÍupos</p><p>bs ali-</p><p>Icio de</p><p>160, as</p><p>Ea não</p><p>;</p><p>BSO, a</p><p>landes</p><p>Fo "Tbas de</p><p>lidade.</p><p>I como</p><p>p, cor-</p><p>[ca de</p><p>I nota-</p><p>ldores</p><p>tr|over</p><p>t Pes-</p><p>Como Supervisionamos em</p><p>Grupoterapia</p><p>LUIZ CARLOS OSORIO</p><p>O ensino sob a forma de trabalho supervisionado é t^lvez a mais antiga forma de</p><p>transmissão de conhecimentos. Embora, com um pouco de imaginação, seja possível</p><p>situar seu surgimento no estágio tribal do processo civilizatório - onde os mais ve-</p><p>lhos "supervisionam" os mais jovens na aprendizagem de formas rudimentares de</p><p>sobrevivência através da caçâ, pesca e obtenção de elementos nutritivos do reino</p><p>vegetal -, foi durante a Idade Média que a supervisão se institucionalizou através da</p><p>dinâmica peculiar à relação do mestre-de-ofício e seus aprendizes.</p><p>No campo das ciências psicológicas, foi apsicanálise que introduziu em sua práxis</p><p>formativa a supervisão como um dos pilâÍes do treinamento de novos psicanalistas.</p><p>Kusnetzoff (Groisman, 1984), após assinalar a ausência significativa de uma</p><p>definição sobre o termo, na literatura sobre supervisão, define-a como "um sistema</p><p>de auditoria-assessoria, onde um estudante adquire as habilidades e os conhecimen-</p><p>tos necessários para um desempenho adequado na tarefa psicotenápica".</p><p>Tendo a supervisão da prática psicoterápica se originado - como se assinalou</p><p>antes - do modelo de treinamento psicanalítico, não seria de se estranhar que ela se</p><p>apoiasse na relação dual supervisor-supervisionado e privilegiasse o relato verbal</p><p>das sessões. No entanto, em se tratanto de grupos - como se verá adiante -, esse</p><p>modelo obsolesceu e se tomou insuficiente para a desejável transmissão de conheci-</p><p>mentos.</p><p>Como as distintas técnicas de supervisão atualmente empregadas em grupo.</p><p>terapias estão estreitamente vinculadas a suas modalidades, elas serão apresentadas</p><p>no contexto de cada uma dessas modalidades.</p><p>MODALIDADES DE ATENDIMENTO GRUPAL: SUAS PECULIARIDADES</p><p>E CORRESPONDENTES TÉCNICAS DE SUPERVISÃO</p><p>É tarefa extremamente complexa tentar qualquer forma de sistematização das distin-</p><p>tas modalidades de atendimento grupal: ora se pode referilas às linhas teóricas que</p><p>lhes dão sustentação (psicanrílise, psicodrama, teoria dos sistemas, teoria do campo</p><p>grupal, teoria da comunicação humana), ora à faixa etária que tem como alvo (crian-</p><p>ças, adolescentes, idosos), ora ao tipo de pacientes em questão (pacientes</p><p>psicossomáticos, pacientes terminais, drogadictos, psicóticos), ora ao contexto grupal</p><p>(casais, famílias, instituições), ora às dimensões do grupo (micro ou macrogrupos),</p><p>ora aos objetivos a que se destinam (ensino, terapia, realização de tarefas institucio-</p><p>nais), e assim por diante. Como se vê, nada fácil. Optou-se, então, por referir apenas</p><p>aquelas modalidades grupais em cujo contexto se desenvolveram os modelos ou téc-</p><p>nicas de supervisão prevalentes nos dias atuais no campô (!as grupoterapias em geral.</p><p>Grupoterapia analítica</p><p>A grupoterapia analítica é também referida como psicoterapia analítica de grupo,</p><p>psicanálise de grupo, psicoterapia grupal</p><p>de orientação analítica.</p><p>Se nos ocupamos dela inicialmente, é porque cronologicamente a psicanálise</p><p>foi o primeiro marco referencial teórico para o estudo e a compreensão dos agrupamen-</p><p>tos humanos, visando a instrumentar seu atendimento. Embora, a rìgor, o psicodrama</p><p>a tenha antecedido como método de abordagem grupal, não a precedeu como estÍutu-</p><p>ra teórica a partir da qual se pudesse entender os mecanismos grupais e pressupor</p><p>uma ação psicoterápica sobre os indivíduos que compõem um grupo.</p><p>A grupoterapia analítica, introduzida em nosso meio em meados da década de</p><p>50, experimentou rápida expansão em toda a América Latina, a partir de seu pólo</p><p>irradiador em Buenos Aires, tendo, no entanto, apresentado um acentuado declínio</p><p>nos aÌÌos 70 - para alguns, pela deserção dos pioneiros em função das pressões da</p><p>instituição psicanalítica contra a psicoterapia coletiva, sob a alegação de que psicaná-</p><p>lise só é possível numa relação dual e, para outros, em decorrência dos sistemas</p><p>políticos autocráticos vigentes no continente sul-americano nôs anos 60-70, todos</p><p>eles obviamente antagonizando quaisquer modalidades de práticas grupais, por supô-</p><p>las fermento de atividades subversivas. Só mais recentemente a grupoterapia analíti-</p><p>ca voltou a representar uma alternativa psicoterápica de peso, no contexto global das</p><p>grupoterapias em geral, mas já agora experimenÍado um afastamento gradual dos</p><p>delineamentos técnicos originais, muito comprometidos com a mera extrapolação</p><p>dos eventos inerentes à relação dual do processo analítico para a situação grupal.</p><p>Atualmente, a grupoterapia analítica vem incorporando a sua prática e se deixando</p><p>fecundar, em sua sustentação teórica, por elementos oriundos de outras vertentes, tais</p><p>como a dinâmica de grupo, a teoria dos grupos operativos, a teoria da comunicação</p><p>humana, a teoria sistêmica, o psicodrama e outras mais. Isso, ao que tudo indica,</p><p>deverá afetar singularmente a práxis das novas gerações de grupoterapeutas de linha-</p><p>gem psicanalítica e, conseqüentemente, a prática da supervisão, já não mais agora</p><p>apenas calcada no clássico modelo do relato verbal das sessões, mas enriquecendo-se</p><p>com a utilização do role-playÌng (contribuição das técnicas psicodramáticas), do em-</p><p>prego do espelho unidirecional e do vídeo (de uso corrente nas supervisões das tera-</p><p>pias familiares sistêmicas) e da utilização do próprio gÍupo em supervisão como</p><p>matriz do aprendizado (como nos grupos de reflexão sobre a tarefa, oriundos da prática</p><p>com grupos operativos).</p><p>Como a imensa maioria, para não dizer a totalidade, dos que praticam a grupo-</p><p>terapia analítica em nosso meio possui treinamento prévio em psicanálise ou psicote-</p><p>rapia analítica de grupo', sua práxis clínica é supervisionada segundo os cânones da</p><p>'Esta não é, contudo, uma p€culiaridade de nosso meio. Foulkes (1972) assinala que, num levnntamento estatístico realizado p€la</p><p>Associação Americaiâ de PsicoteÍâpia dc Crupo em 1961, 86% dos Srupotcmpeu(âs haviam sido previamente feinados com</p><p>modalidâdes de âtendimenlo individual.</p><p>superYrs</p><p>superr is</p><p>empregs</p><p>transfe re</p><p>uma for</p><p>onado i:</p><p>prime ii:</p><p>cer cc:-</p><p>nham::</p><p>segune:</p><p>COS ci- : :</p><p>seja ; --: :</p><p>SeuS:: : ì</p><p>mer'l: I f</p><p>fcrr:::.:</p><p>Ji : : : :a</p><p>: :_: : : : f l</p><p>i t r i : i : {</p><p>?:r</p><p>" :</p><p>t : l</p><p>'-:-=-i</p><p>-'I: - : : : : : l l f</p><p>. -: ' :: l i</p><p>._:: :. I</p><p>::i: : ìl</p><p>: . : : : q</p><p>:-:,:--,i</p><p>: . : - - |</p><p>- - . : í</p><p>tpo,</p><p>ilise</p><p>len-</p><p>Ììa</p><p>utu-</p><p>ryor</p><p>os),</p><p>cio-</p><p>:nas</p><p>Ìéc-</p><p>:ral.</p><p>ide</p><p>úlo</p><p>ínio</p><p>6da</p><p>má-</p><p>tÌìÍts</p><p>rdos</p><p>pc</p><p>[íri-</p><p>das</p><p>dos</p><p>ção</p><p>Pal.</p><p>ndo</p><p>tais</p><p>ção</p><p>k4</p><p>ha-</p><p>pra</p><p>>s€</p><p>tÌF</p><p>Ía-</p><p>tÌto</p><p>ÌÍ:a</p><p>Po-</p><p>tre-</p><p>rda</p><p>ldâ</p><p>odD</p><p>supervisão psicanalítica, onde o supervisionado traz o relato verbal das sessões, e o</p><p>supervisor discute com ele aspectos da compreensão dinâmica do grupo, da técnica</p><p>empregada, do emprego e adequação das interpretações e do manejo dos sentimentos</p><p>transferenciais e contratransferenciais. Não existindo entre nós, até recentemente,</p><p>uma formação sistematizada de psicoterapeutas de grupo, o trabalho assim supervisi-</p><p>onado se constituía na quase exclusiva forma de transmissão de conhecimentos. A</p><p>primeira geração de grupoterapeutas analíticos (décadas de 50-60), como sói aconte-</p><p>cer com os pioneiros, foi de formação basicamente autodidática, embora alguns te-</p><p>nham recebido treinamento não-sistematizado noutros centros (MaÍins, 1986). A</p><p>segunda geração (década de 60-70), ainda que na aquisição dos conhecimentos teóri-</p><p>cos continuasse em moldes autodidáticos, pôde enriquecer suas vivências gmpais,</p><p>seja como pacientes de grupos analíticos de colegas da geração precedente, seja como</p><p>seus supervisionados. A par disso, a experiência institucional subjacente a seu treina-</p><p>mento psicoterápico, cada vez mais impregnada pelas técnicas ambientoterápicas,</p><p>fomeceu-lhe subsídios apreciáveis para a familiarização com o atendimento de indivi</p><p>duos em grupos. A terceira geração que ora surge (década de 80), além dos elementos</p><p>de aprendizagem já mencionados, passa a contar com a possibilidade de sistematizar</p><p>seus conhecimentos teóricos e enriquecer a prática supervisionada com outras modali-</p><p>dades oriundas de distintos referenciais teóricos, conforme supracitado.</p><p>Por razões que não cabe aqui discutit não se tornou entre nós prática corrente -</p><p>a exemplo do que ocorreu noutros centros - o emprego doobsenador de grupo coÍno</p><p>uma modalidade de treinamento. Embora, a rigor, não se possa consideráJo propria-</p><p>mente uma forma de supervisão do trabalho grupal, pois seria o supervisor e não o</p><p>supervisionando que estaria atendendo o gÍupo, o aprendizado do atendimento grupal</p><p>através da prática de observar a forma como o grupo é conduzido porum profissional</p><p>mais experiente apresenta-se, por assim dizer, como o "negativo" da supervisão tradi-</p><p>cional e, portanto, enseja vivências qve, lato sezsu, permitem incluílo como uma</p><p>modalidade de supervisão. Supõe-se que, pelo caráter anômalo de se manter no gru-</p><p>po um membro institucionalizado como periférico e não-paÍicipante, isso criaria</p><p>uma distorção da dinâmica grupal que toma bastante discutível o método de aprendiza-</p><p>gem em questão. Para alguns, só a inclusão do supervisionando como co-terapeuta,</p><p>com direito implícito à iniciativa na condução do grupo e sem distingui-lo funcional-</p><p>mente do supervisor perante o grupo, permitirá manter-se o equilíbrio homeostático</p><p>para que decorra produtivamente o processo grupal. A co-terapia, ainda que levan-</p><p>do-se em conta, no caso, a defasagem no nível de experiência dos coordenadores,</p><p>propiciaria, então, um veículo mais adequado para a aprendizagem supervisionada,</p><p>por respeitar a estrutura funcional do grupo.</p><p>A supervisão em grupoterapia analítica pressupõe - a par das distintas maneiras</p><p>de conduzi-la - que se inicie já com a seleção e o agrupamento dos pacientes, uma</p><p>vez que a constituição do grupo é momento crucial para sua futura viabilização como</p><p>adequado continente psicotenípico. Há quem afiance que em nenhuma outra fase do</p><p>processo gmpal a supervisão tenha papel tão prepoderante a desempenhar como nes-</p><p>ses instantes prévios ao funcionamento propriâmente dito do grupo, o que metaforica-</p><p>mente se expressa neste aforisma de Anthony (1968): "cada terapeuta tem o grupo</p><p>que merece". E mister, então, selecionar e agrupar convenientemente seus membros,</p><p>respeitando não só a compatibilidade dos indivíduos que devem compô-lo como as</p><p>idiossincrasias contratransferenciais do terapeuta.</p><p>Para finalizar essas considerações sobre a supervisão em grupoterapia analítica,</p><p>consigne-se que, numa visão prospectiva, esta tarefa está cada vez mais impregnada</p><p>dos modelos de supervisão empregados em outras formas de atendimento grupal;</p><p>CoM0TRABALHAMoS Cor.,l OnUPos . 85</p><p>86. ZIMERMÀN & OSORIO</p><p>isso, contudo, náo compromete a utilização do referencial analítico para sustentar a</p><p>compreensão e o manejo dos grupos, mas apenas instrumenta a transmissão de conhe-</p><p>cimentos, via utilização de procedimentos cuja eficácia tenha sido comprovada, sobre-</p><p>tudo pela desmitificação da figura do supervisor como agente emissor de conhecimen-</p><p>tos e detentor do saber institucionalizado para</p><p>trazê-lo à sua real dimensão de mero</p><p>catalisador do processo de auto-aprendizagem, a pârtir da experiência clínica a ser</p><p>desenvolvida pelo supervisionando.</p><p>Psicodrama</p><p>O psicodrama, como instrumento psicoterápico, desenvolveu-se a partir do "teatro da</p><p>espontaneidade" e do sociodrama morenianos. Alicerça-se na "teoria dos papéis", ou</p><p>seja, no conjunto de posições imaginárias assumidas peÌo indivíduo desde seus</p><p>primórdios, na relação com os demars.</p><p>Para Moreno ( 1986), a psicoterapia grupal é um método para tratâr, consciente-</p><p>mente, e na fronteira de uma ciôncia empírica, as relações interpessoais e os proble-</p><p>mas psíquicos dos indivíduos de um grupo.</p><p>O método psicodramático ìJSa a representação dramática (a cena) como centro</p><p>de sua abordagem dos conflitos humanos, essa representação une a ação à palavra,</p><p>privilegiando a expressão corporal, ao lado da comunicação verbaÌ. Daí decorre que</p><p>o método de supervisão por excelêncìa utilizado na formação e no treinamento dos</p><p>que a empregam - o role-pkrying consiste em procedimentos em que o relato verbal</p><p>da supervisão analítica é substituído pela experiência revivenciada do processo psi-</p><p>coterápico através do "jogo de papéis".</p><p>Em que consiste o role-playíng?</p><p>Muito sumarìamente diríamos qtl'e o role-pktying é um "como se" da sessão</p><p>psicoterápica, no qual, por exemplo, supervìsor e supervisionando, assumìndo altema-</p><p>damente os papéis de terapeuta e pacieÌ'ìte, possam juntos compor as várias altemati-</p><p>vas do processo psicoterápico através do revivenciar psicodramático de situações</p><p>oconidas na(s) sessão(ões) prévia(s) ou ensaiar os passos fìturos de sessões vindou-</p><p>ras. Assim, não s6 o role-playr)rg serviria para preencher as lacunas compreensivas</p><p>do material de sessõesjá ocorridas, como possibilitaria a antecipação imaginária dos</p><p>eventos possíveis ou prováveis no devir grupal, ensejando ao supervisionando o domi</p><p>nio das ansiedades frente ao novo e desconhecido, que tantas vezes o paralisa em sua</p><p>função psicoterápica.</p><p>Ao dramatizar uma sessão já ocorrid a, o role-playhg permite ao supervisionan-</p><p>do revivenciá-la, experimentando distintos ângulos de (auto-)observação do papel</p><p>que desempenhou, bem como ampliar o enfoque compreensivo do material aportado</p><p>pelo grupo, através de sua observação especulaq pela rotatividade de papéis inerente</p><p>à própria natureza desta técnica de aprendizado.</p><p>Por outro lado, a representação, através do "como se" dramático, de uma sessão</p><p>futura, oferece-lhe a oportunidade de testar previamente suas atitudes e reações fren-</p><p>te a eventuais emergentes grupais, assim como lhe permite o confronto com as vicissi-</p><p>tudes da târefa, sem a sobrecarga ansiogênica da realidade factual</p><p>O caráter experimental dessa modalidade de supervisão confereìhe, analogicamente,</p><p>a função de retroaprendizagem que a pesquisa enseja a toda e qualquer ação terapêutica.</p><p>E, portanto, um cadinho de nuances e possibilidades da prática da supervisào.</p><p>O role-playing mostra-se de extremo valor no treinamento prévio, ao início do</p><p>trabalho psicoterápico com grupos; numa compitriìção quiçá um tanto inadequada,</p><p>dir-se</p><p>tes de</p><p>Grupos oper</p><p>Os gn</p><p>Pichc</p><p>te. d:</p><p>menl:</p><p>(</p><p>zfu e.</p><p>r inn l</p><p>Ìèr i rË</p><p>fcr::::</p><p>! rP!- : i</p><p>! . . : -</p><p>r a i : :- i t</p><p>r- : l : r</p><p>: : - i : . i</p><p>:a --:ì</p><p>J : : - - :</p><p>: : : : . i</p><p>. ' : : :</p><p>: : . : : :</p><p>: - :Ê_1</p><p>l</p><p>:::. :i</p><p>::: _'r</p><p>. . . ;</p><p>r -:r --r</p><p>: : : i</p><p>-'a - ,l</p><p>: : : : - .</p><p>: : : : :</p><p>::_:':</p><p>- . - !</p><p>i:-. :ì</p><p>:</p><p>Itar a</p><p>)nhe-</p><p>obre-</p><p>men-</p><p>coMorR^BALH^Mos cou cnuPos r 87</p><p>dir-se-ia que equivâle à realização de condições simuladas de práticas cinÍrgicas an-</p><p>tes de efetivá-las em determinado paciente.</p><p>Grupos operativos</p><p>Os grupos operativos foram introduzidos na práxis grupal pelo psicanalista argentino</p><p>Pichon Rivière, na sua famosa "experiência Rosário", em 1957. Trata-se, sinteticamen-</p><p>te, da inclusão do vértice psicanalítico na leitura dos processos grupais, feita anterior-</p><p>mente por Kurt Lewin, no que se convencionou denominar "dinâmica dos grupos".</p><p>Como assinala Tubert-Oklander ( 1986),"grupo operarlvo não é um termo utili-</p><p>zável para se referir a uma técnica específica de coordenação de grupos, nem a um</p><p>tipo determinado de grupo em função de seu objetivo, como poderia ser 'grupo</p><p>terapêutico', 'grupo de aprendizagem'ou 'grupo de discussão', mas se refere a uma</p><p>forma de pensar e operar em gÍÌpos que se pode aplìcar à coordenação de diversos</p><p>tipos de grupos".</p><p>Em nosso meio, institucionalizou-se uma príüica equivocada de se contrapor o</p><p>grltpo operativo ao analítìco, como sendo este todo grupo manejado com a técnica</p><p>instrumental da interpretâção dos conteúdos inconscientes, e aquele um grupo onde,</p><p>ainda que empreguemos o referencial analítico para compreender os fenômenos que</p><p>nele ocorrem, não se utilizam interpretações atnlíticas em seu manejo. Esta leitura</p><p>equivocada dos conceitos de grupo operotivo e analítico se deriva ou está a serviço</p><p>de uma compartimentzlïzaçío do poder terapêúico: os grupos analíticos seriam, nesta</p><p>concepção, território de ação exclusiva dos psicanalistas; todos os demais grupos</p><p>coordenados por não-psicanalistas, de acordo com esta ótica distorcida, cairiam na</p><p>vala comum dos grupos ditos operativos. Destarte, só os psicanalistas deteriam o</p><p>poder de realizar ações psicoterápicas em gÍupos com o referencial psicanalítico,</p><p>circunscrevendo-se a ação dos demais à prática nos grupos operativos, entendidos</p><p>assim como não-analíticos.</p><p>Como supracitado, tal concepção é errônea, poisjustamente os grupos operativos</p><p>se propõem a vincular as noções oriundas da dinâmica dos grupos ao referencial</p><p>psicanalítico. E, conforme sugere a observação de Tubert-Oklander transcrita anterior-</p><p>mente, um grupo analítico é um grupo operativo que se destina a tratar indivíduos em</p><p>grupo com o referencial psicanalítico. Além dos grupos operativos terapêuticos, existi-</p><p>riam grupos operativos de aprendizagem, de reflexão sobre uma determinada tarefa</p><p>grupal, de discussão de objetivos institucionais, e assim por diante.</p><p>Feito este esclarecimento conceituaÌ indispensável, face ao emprego inadequa-</p><p>do da expressão grupo opemtivo, vejamos qual sua contribuição para a práxis</p><p>supervlsora.</p><p>Ainda citando Tubert-Oklander ( 1986): "Nos grupos operativos, a tarefa interna</p><p>exige que os membros realizem uma permanente indagação das operações que se</p><p>realizam no seio do grupo, em função da relação com a tarefa extema, vista como</p><p>organizadora do processo grupal". Esta atitude de "re-fletir(se)" sobre a experiência</p><p>do próprio grupo enquanto grupo é o ponto de partida dos assim chamados grupos de</p><p>reflexão, contnbuição da teoria e da técnica dos grupos operativos à aprendizagem</p><p>supervisionada em grupos.</p><p>Esses grupos, onde os supervisionandos utilizam a própria experiência de par-</p><p>ticipar com membros de um grupo de ensino-aprendizagem como parte de seu treina-</p><p>mento, derivam-se dos chamados gruposT (training grorrps), introduzidos a partir de</p><p>1949 nos laboratórios sociais de dinâmica de grupo inspirados nas idéias de Lewin.</p><p>mero</p><p>a ser</p><p>tro da</p><p>s". ou</p><p>seu s</p><p>iente-</p><p>roble-</p><p>ìentro</p><p>üavra,</p><p>re que</p><p>to dos</p><p>lerbal</p><p>,o psl-</p><p>;essão</p><p>Iema-</p><p>:matl-</p><p>raçóes</p><p>ndou-</p><p>nslvas</p><p>'ia dos</p><p>domí-</p><p>m sua</p><p>LOnAn-</p><p>papel</p><p>crtado</p><p>erente</p><p>sessão</p><p>s fren-</p><p>icissi-</p><p>mente,</p><p>êutica.</p><p>cio do</p><p>quada,</p><p>88 . ZMERMAN & osoRlo</p><p>Os grupos T - por sua vez uma modificação dos grupos BST (àcslc skill taining</p><p>groups), cujo objetivo primordial era adestrar para a ação operativa em grupos -</p><p>lassâram a õentrJizar o aprendizado na indagação do que ocoÍre aos próprios partici-</p><p>pantes enquanto membros de um grupo de treinamento, revertendo a perspectiva de</p><p>ãdestramento, pois já não seria um saber institucionalizado externo ao próprio grupo</p><p>a fonte de aprèndizagem, mas, sim, os próprios fenômenos intragrupais focados a</p><p>partir da e em dÌreçõo â taÍefa inerente a tal modalidade grupal: o treinamento em</p><p>tÉnninac onrnrìs</p><p>Na AmÈrica Larina, a primeìra experiência sistematizada com tal forma de apren-</p><p>dizagem grupal ocorreu em Buenos Aires, a partir dos anos 70, conforme descrito por</p><p>um de seus mentores, A. Dellarosa</p><p>( I 979).</p><p>Resumidamente, os gntpos tle reJlexão oporttnizam a aprendizagem das técni-</p><p>cas grupais através do própno grupo de aprendizado involucrado na experiência de</p><p>treiúmènto, de tal sorte que a práxis supervisora inclua as vivências do supervisor</p><p>com seus supervisionados, e destes entre si, como elemento nuclear do processo de</p><p>aprendizagem,-</p><p>E miiter assinalar que, embora seja objetivo dos grupos de reflexão lidar com a</p><p>patologia do processo de transmissão-aquisição de conhecimentos, mediante a elabo-</p><p>iaçao ãas ansiedudes inerentes ao pÍocesso de aprendizagem e às relações humanas</p><p>neie involucradas, está interditada, por óbvias razões, qualquer utilização do material</p><p>emergente nesses grupos para assinalamentos ou interpretações que se dirijam à vida</p><p>privada dos participantes.^</p><p>Os grupos de reflexão Íèm por finalidade precípua desenvolver as habilidades</p><p>dos partiõipántes de "pensar" o próprio grupo a partir de umaexperiência compartilha-</p><p>da de apróndizagem, mantendo-se, contudo, uma cuidadosa discriminação entre a</p><p>propost; de utilizar os sentimentos emergentes no grupo para compreender os fenôme-</p><p>nos grupais, simultaneamente desenvolvendo as habilidades de seus componentes e</p><p>qual-queì outra intenção de cunho psicoterápico dirigida a seus membros Esta inten-</p><p>ção, ie*pre que estiver presente, seja na mente do(s) coordenador(es) como na dos</p><p>ãemais pãrticìpantes, será entendida como uma interferência indesejável e que com-</p><p>prometé a eficlência do grupo de reflexão enquanto instrumento de aprendizagem'</p><p>Terapia do grupo familiar</p><p>A terapia do grupo familiar é também designada como terapia familiar, terapia de</p><p>família e gruPoteraPia familiar.</p><p>A teiapia do grupo familiar experimentou, nas últimas décadas, um grande in-</p><p>fluxo, a partir de sua fundamentação na teoria sistêmica. Ainda que a família possae</p><p>tenha sião anteriormente abordada segundo o referencial de outras correntes teóri-</p><p>cas, tais como a psicanalítica e a comportamentalista, em verdade foi a abordagem</p><p>sistêmica a responsável por sua definitiva incorporação às modernas técnicas</p><p>psicoterípicas de maior expressão.</p><p>E em que consiste essa abordagem sistêmica?</p><p>A ruptura epistemológica oconida a partir das pesquisas de Bateson e colaborado-</p><p>res, no chamado grupo de Palo Alto, na década de 50, nos Estados Unidos, causou</p><p>uma mudança substancial no enfoque das doenças mentais, visualizadas a partir de</p><p>então não màis como uma decorrência dos conflitos intrapsíquicos, mas da interação</p><p>dos indivíduos no contexto do grupo familiar.</p><p>cOMo tRA|ìÂLHAMoS Cor,l Cnupos o 89</p><p>l l f i t / r : A cibemética, a teoria da comunicação humana e a teoria geral dos sistemas são</p><p>os três grandes vértices teóricos a partir dos quais se passou a consìderar o funciona-</p><p>mento do psiquismo humano em terÌnos interacionais, e não mais intrapsíquicos. A</p><p>metáfora central deste enfoque é o registro da cnria negra dos sistemas eletrônicos,</p><p>onde o importante a considerar não é o que está no "cérebro" do sistema, mas sim</p><p>seüs inputs e outpLús, o\ seja, as informações aferentes e eferentes.</p><p>Ao considerar a família como um sistema, o doente mental ou paciente identifi-</p><p>cado (PI) passa a ser visualizado como um emergente ou porta-voz da "doença" sistê-</p><p>mica, o que muda o enfoque psicoterâpico do intrapsíquico para o interacional, origi-</p><p>nando-se aquela que talvez tenha sido a maior revoÌução na abordagem dos conflitos</p><p>humanos desde o advento da psicanálise.</p><p>Ao retirar do foco diagnóstico e terapêutico o paciente individual e privilegiar o</p><p>estudo de seu grupo de origem, a terapia familiar foi responsável, indiscutivelmente,</p><p>pela revitalização do estudo, compreensão e metodologia das abordagens terapôuti-</p><p>cas dos grupos em geral e, como não poderia deixaÍ de ser, introduziu novas e revo-</p><p>lucionárias técnicas de supervisão.</p><p>O uso do espelho unidirecional e do videoteipe, já empregados anteriormente</p><p>de forma tímida e quase clandestina na supervisão das psicoterapias "clássicas", foi</p><p>institucionalizado entre nós pela terapia familiar. A par do emprego dos recursos da</p><p>modemâ tecnologia, outras técnicas auxiliares foram sendo inseridas: o uso do inter-</p><p>fone, permitindo a comunicação direta do supervisor com o supervisionado durante a</p><p>própria sessão; a solicitação da presença do supervisor durante a sessão, como uma</p><p>espécie de consultor ativo; a eventual substituição do terapeuta por seu supervisor na</p><p>condução de determinada sessão (ficando o supervisionando na sala ou no outro lado</p><p>do espelho, quando isso ocorrer); a ocorrência de uma inversão de papéis, funcionan-</p><p>do ocasionalmente o terapeuta como "supervisor" de seu superviso( e assim por</p><p>diante.</p><p>Todas essas variantes do modelo de supervisáo alicerçado na prática da sessão</p><p>observada ao vivo e/ou gravada em vídeo trouxeram uma mudança fundamental na</p><p>relação hierárquica supervìsor-supervisionando, além de desmitificar a figura do te-</p><p>rapeuta, outrora narcisicamente entricheirado no segredo da prática de seu ofício,</p><p>prática essa agora ostensivamente revelada pela observação simultânea, podendo os</p><p>passos do terapeuta, suas inseguranças, titubeios, erros ou acertos, seu estilo, enfim,</p><p>revelar-se por inteiro ao supervisor, do outro lâdo do espelho ou napantalha televisiva.</p><p>Com tais inovações, certas questões éticas foram suscitadas, como a decorrente</p><p>da necessidade de se apresentar à família o supervisor e de notificá-la da presença</p><p>dos demais eventuais membros do íeíÌr? psicoterápico presentes no outro lado do</p><p>espelho.</p><p>O sigilo profissional - que antes, quem sabe, servia mais aos propósitos de</p><p>proteger o terapeuta, no expor seus equívocos, do que ao próprio paciente em revelar</p><p>seus conflitos - precisou ser rediscutido neste novo contexto.</p><p>Podemos questionar, aceitando ou não, tais modalidades de supervisão introdu-</p><p>zida pela terapia familiar, mas indubitavelmente não podemos mais deixar de reconhe-</p><p>cer sua vigência e a contemporaneidade de suas propostâs.</p><p>E possível imaginar-se que, ao longo do tempo, o uso do espelho unidirecional</p><p>e o emprego do videoteipe se generalizarão nas supervisões de todas as formas de</p><p>psicoterapias, individuais ou grupais, e - heresia das heresias ! - na própria prática</p><p>psicanalítica.</p><p>Infelizmente, a extensão prevista para este capítulo não permite que se vá além</p><p>da simples menção dessas modalidades de supervisão, das quais já são íntimos, no</p><p>ì'tr.i-</p><p>\J d.</p><p>grup !i</p><p>dos. ì</p><p>lo em</p><p>ç:3:--</p><p>r isor</p><p>sc d:</p><p>:om a</p><p>labo-</p><p>ïmas</p><p>t inal</p><p>L\ lda</p><p>lades</p><p>t i lha-</p><p>Lue a</p><p>ôme-</p><p>Dten-</p><p>t dos</p><p>:om-</p><p>:m.</p><p>:a de</p><p>e in-</p><p>isa e</p><p>.'on-</p><p>gem</p><p>ic as</p><p>ado-</p><p>lsou</p><p>rde</p><p>rcão</p><p>90. ZIMERMAN & osoRlo</p><p>seu cotidiano profissional, os terapeutas de famílias e às quais poderão ter acesso os</p><p>demais, através da consulta à bibliografia especializada.</p><p>UMA EXPBRIÊT.ICU, PNSSOAL NA SUPERVISÃO DE</p><p>GRUPOTERAPEUTAS</p><p>Como ó de conhecimento geraÌ, a Íbrmação de grupoterapeutas em nosso meio, inicial-</p><p>mente levada a cabo de forma não-sistematizada e de cunho predominantemente</p><p>autodidát ico, surgiu entre os psicanal istas locais que também se dedicavam à</p><p>grupoterapia, seja em instituiçõcs, seja em seus consultórios particulares. A supervi-</p><p>são dos mais jovens pelos colegas mais experientcs, segundo o modelo clássico do</p><p>relato visuaÌ das sessões, foi quiçít a pedra de toque desses primeiros tempos, que</p><p>remontam à década de 60. Desde então, com a paulatina desativação da Sociedade de</p><p>Psicoterapia Analítica de Grupo de Porto Alegre, entidade que congregava os</p><p>psicoterapeutas de gntpo em nosso n]eio, a prítica gnrpoterápica supervisionada desÌo-</p><p>cou-se para outras Yertentes teóricns, tais como o psicodrama, a análise existenciaÌ, a</p><p>gestalterapia e, ÌÌìais recentementc, a terapia familiar.</p><p>Num esforço para Íesgatar iì nratriz de origem da formação grupoterápica entre</p><p>nós, e em função dc crescentes solicitações dc colegas maìs jovens interessados na</p><p>príticr com grupos, criou-se uma entidade'destinada, entre outros objetivos, a de-</p><p>senvolver um nrodelo de treinamento de novos grupoterapeutas. Este modelo é baseado</p><p>no tripé conhecimentos-habilidades-atitudes,</p><p>e sua estruturt inspirou-se nos progrl-</p><p>mas de educação continuada patrocinados pela Associação Médica do Rio Grande do</p><p>Sul, nos anos 70-80, nos quais cada módulo de ensino consta de uma parte teórica,</p><p>outra prática e um grupo de reflexão sobre a tarefa em questão.</p><p>Ainda que muito recentc, os delineamentos bÍsicos deste programa de forma-</p><p>ção de grupoterapeutas estão claramente esboçados e neles se privilegia o trabalho</p><p>supervisionado. Consideramos supervisão não apenas o trabalho dos alunos com seus</p><p>respectivos grupos sob a orientação do supervisor, mts igualmente o aprendizado na</p><p>parte prática, em que os temas teóricos são ilustrados a partir das vivências clínicas</p><p>dos alunos, como também a experiência nos gnrpos de reflexão, onde, como vimos</p><p>no item correspondente aos grupos operativos, o próprio grupo collstituído por alu-</p><p>nos e coordenadores é um instrumento de aprendizagcm, através das vivências com-</p><p>partidas e do pensâr cooperante em tomo da tarefa de ensino-aprendizado comum a</p><p>todos os membros do grupo.</p><p>Pretendemos gradativamente ir introduzindo Ìleste programa as práticas super-</p><p>visionadas a que alude o presente artigo, colocando a tônica na srTervisão coletivtt,</p><p>pois é em gnÌpo que se aprende a trabaÌhar com grupos.</p><p>Independentemente da modalidade de atendimento grupal que se queira ensi-</p><p>nar, as técnicas supervisionadas em qtestío (t olelkryin g, grupo de reflexão, acompa-</p><p>nhamento de sessões ao vivo no espelho unidirecional, discussão do registro em vi-</p><p>deoteipes) enriquecem sobremaneira o treinamento dos supervisionandos, e por isso</p><p>as preconizamos como indispensáveis a qualquer programa contemporâneo de forma-</p><p>çio de gÍupoterrpeutal</p><p>Como foi assinalado anteriormente, esta expcriência com supervisão de grupo-</p><p>terapeutas em formação é bastante recente e não permite ainda que dela se extraiam</p><p>_ r-r \sn</p><p>' Cen(ro de ProgrâmÂs de Educação Continuada (CEPEC).</p><p>COMO TRADALHAMOS COM CRUPOS . 91</p><p>SSO OS</p><p>nicial-</p><p>mente</p><p>ram à</p><p>pervF</p><p>ico do</p><p>s. que</p><p>rde de</p><p>iva os</p><p>desìo-</p><p>ciaÌ , a</p><p>Lentre</p><p>los na</p><p>a de-</p><p>seado</p><p>rc_qra-</p><p>de do</p><p>ónca,</p><p>DrTna-</p><p>balho</p><p>n seus</p><p>do na</p><p>ínicas</p><p>, imos</p><p>r alu-</p><p>com-</p><p>Ìum a</p><p>;uper-</p><p>etìva,</p><p>ensl-</p><p>rmpa-</p><p>m vi-</p><p>r isso</p><p>)rTna-</p><p>rupo-</p><p>raiam</p><p>elementos conclusivos ou que se retroalimentem os pressupostos enunciados; se a ela</p><p>aqui é feita referência, é pelo caráter de atualização deste livro. Num futuro próximo,</p><p>poder-se-á retomar a essa experiência pessoal para então focá-la apenas do ângulo</p><p>das expectativas ainda por cumpriq mas submetendo-a a uma análise crítica.</p><p>CONSIDERAÇOES FINAIS</p><p>A super-vistio, como a etimologia do termo sugere, pressupõe a existência de um</p><p>profissional mais experiente que lance um olhar soàre o trabalho de seu colega -</p><p>menos experiente e geralmente mais jovem - e que, da posição privilegiada de quem</p><p>detém o saber desejado, o oriente p eternoListÌcdnrcnte nos meandros da prática pro-</p><p>fissional em queslào, no caso a grupoterapiJ.</p><p>A evolução da grupoterapia através das modaÌidades técnicas resenhadas neste</p><p>artigo ensejou, conforme vimos, profundas mudanças na concepção e na metodologia</p><p>do trabalho supervisionado. A primeira e mais importante conseqüência dessas mu-</p><p>danças foi a desmitificação do supervisor como portador do saber gmpal e seu</p><p>realinhamento no processo de aprendizagem como modelo identificatório e catalisador</p><p>do saber a ser buscado pelo supervisionando. Uma segunda - e não menos significa-</p><p>tiva - conseqüência, foi a desmitificação da própria figura do terapeuta como habi</p><p>tante de uma "torre de marfim", profissional a que só dá acesso através do relato</p><p>verbal (consciente ou inconscientemente incompleto ou dìstorcido) de sua experiên-</p><p>cia pessoal ao supervisor: ele agora é despojado da maÌha protetora de seus relatos,</p><p>pela exposição integral de seu trabalho na transparência da observação simultânea do</p><p>mesmo. Um terceiro efeito, intimâmente vinculado aos anteriores, é o câmbio das</p><p>próprias atitudes do grupoterapeuta diante de seus pncientes, a quem não mais se</p><p>apresentaria como detentor dâ verdade e como líder inconteste do grupo, mas como</p><p>um de seus participantes, cuja hierarquia é determinada na medida em que formula</p><p>hipóteses compreensivas consensualmente validadas pelo grupo. Como conseqüên-</p><p>cia, a super-visao transforma-se numa co-visão, onde o olhar mais experiente neces-</p><p>sariamente não é o que melhor percebe ou discrimina, mas tão-somente o que aponta</p><p>os caminhos já palmilhados.</p><p>A função do supervisor - denominação que conservamos por consagrada pelo</p><p>uso, ainda que divergindo de sua concepção orìginal - é basicamente se oferecer</p><p>como modelo de identificação profissional e, para tanto, deve permitir que o supervi-</p><p>sionando tenha acesso, na própria experiência grupal de ensino-aprendizado compar-</p><p>tilhada, à observação direta de seu modo de sentir, pensar e rgir.</p><p>Concluindo, queremos enfatizar uma vez mais a contribuição das grupoterapias</p><p>à própria técnica da supervisão do trabalho psicoterápico com pacientes individuais</p><p>ou em grupo.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>ANTHONY, J. Reílect ions on twcnty-l ìvc ycars of group psychdhcíapy. húemational Journal o,f</p><p>Groupt herapy, 3: p. 2'11, 1968.</p><p>DELLAROSA, A. Grultos tle rcflexión. llucnos AiÍcs: Pâidós, 1979.</p><p>FOULKES, S.H. et al. Psícorterapia t le gruTro.2'cd. São Paulo: Ibrasa, 19'12. p. 196.</p><p>GROISMAN, M. & KUSNETZOFF, J.C. Supcrvisão c co-supervisão gÍupal: ensino: terapia e aprendi-</p><p>zagem em um setor inst i tucional. ln: .Atlolcscôncìaa saride mental.Porto A)egre: AÍtcs ÌUédicas.</p><p>1984. p. 112.</p><p>92 . ZNERMAN & osoRlo</p><p>MARTINS, C. Prólogo. In: OSORIO, L.C. et aLcruporcrcpia hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, 1986.</p><p>p.9.</p><p>MORENO, J.L., apadGARCIA, O.A. Psicodrama. In: OSORIO, L.C. et al. Grupoterapía hoje.PoÍlo</p><p>Alegre: Aíes Midicas. 1986. p. 20Ì.</p><p>TUBERT-OKLANDER, J. e/ .Ì/. Crupos opeÍativos. In: OSORIO et al. Grupoterapía hóJe. PoÍto AÌe-</p><p>gre: Artes Médicas, 1986. p. 135.</p><p>. 198ó.</p><p>PoÍto</p><p>PARTE 2</p><p>Prática com Grupos</p><p>Operativos e</p><p>Psicoterápicos</p><p>Como Agem os Grupos</p><p>Operativos?</p><p>JANICE B, FISCMANN</p><p>Sempre que ouvimos falar em grupos operativos, imediatamente surgem alguns con-</p><p>ceitos a respeito dos mesmos que não traduzem o seu significado e/ou abrangência, e</p><p>demonstram o quanto eles ainda são pouco conhecidos em nosso meio. A pergunta</p><p>mais ouvida é: os grupos operativos são terapêuticos? Muitos fazem essa distinção</p><p>entre os mesmos, o que revela a desinformação sobre esse tema.</p><p>Todo grupo operativo é terapêutico, mas nem todo grupo terapêutico é operativo.</p><p>Para Pichon Rivière, "o grupo operativo é um instrumento de trabalho, um método de</p><p>investigação e cumpre, além disso, uma função terapêutica". Todo grupo que tiver</p><p>uma tarefa a realizar e que puder, através desse trabalho operativo, esclarecer suas</p><p>dificuldades individuais, romper com os estereótipos e possibilitar a identificação</p><p>dos obstáculos que impedem o desenvolvimento do indivíduo e que, além disso, o</p><p>auxilie a encontrar suas próprias condições de resolver ou se enfrentar com seus</p><p>problemas é terapêutico</p><p>IIISTÓRICO</p><p>Os grupos operativos foram introduzidos por H. Pichon Rivière na década de 40 na</p><p>Argentina. Acho importante para a compreensão de sua teoria sabermos algo a res-</p><p>peito de seu autor: Pichon nasceu na Suíça, em Genebra mais precisamente, em 1907.</p><p>Quando tinha 4 anos, sua família estabeleceu-se na Argentina, na região do</p><p>Chaco, habitada por uma cultura indígena primitiva. Pichon desde cedo enfrenta os</p><p>primeiros choques de culturas. Aos 8 anos, vai com sua família para Corrientes cur-</p><p>sar o ginásio, e aos l8 anos muda-se para Rosário para estudar medicina.</p><p>Desde o ginásio, Pichon identifica-se com a psicanálise e a busca da desocultação</p><p>dos mistérios e questionamentos que motivavam a conduta dos grupos que vinha se</p><p>relacionando. Pichon refere no prólogo de seu clássico livro,O processo grupal (1988):</p><p>"meu contato com o pensamento psicanalítico foi anterior ao ingresso na faculdade</p><p>de medicina e surgiu como o achado de uma chave que permìtiria decodificar aquilo</p><p>que era compreensível na linguagem e nos níveis de pensamento</p><p>habituais".</p><p>Pichon (1986)considera o indivíduo "como um resultante dinâmico no interjogo</p><p>estabelecido entre o sujeito e os objetos intemos e extemos, e sua interação dialética</p><p>através de uma estrutura dinâmica que Pichon denomina de vínculo". Ele define o</p><p>96 . znreruaer r osonro</p><p>vínculo "como uma estnrtura complexa que inclui um sujeito, um objeto, e sua mútua</p><p>inter-relação com processos de comunicação e aprendizagem ' ( 1988): aproximando-</p><p>se da psiquiatria social, é levado à estudar o indivíduo não como um ser isolado, mas</p><p>incluído dentro de um grupo, basicamente o familiar.</p><p>A partir de sua observação e experiência com pacientes hospitalizados, perce-</p><p>bia que havia um interjogo evidente na relação entre o paciente, o grupo familiar que</p><p>se originava e a relação com a instituição que estava se tratando. Pichon começa</p><p>então a delinear conceitos como o de porta-voz, depositário, depositante e deposita-</p><p>do, construindo, assim, a sua teoria, tendo como premissa principal o indivíduo incluído</p><p>num gmpo, percebendo a intersecção entre sua história pessoal até o momento de sua</p><p>afiliação a esse gmpo (verticalidade) com a história social desse próprio gmpo até o</p><p>momento (horizontalidade). "A verticalidade e a horizontalidade do grupo se conju-</p><p>gam no papel, necessitando a emergência de um a mais porta-vozes, que, ao enunciar</p><p>seu problema, reatualizando seus acontecimentos históricos, denuncia o conflito da</p><p>situação grupal em relação à tarefa." (Osorio, 1991). Isso determina o que nós chama-</p><p>mos de horizontalidade, que pode ser entendidacomo o denominador comum compar-</p><p>tido pelo grupo, de maneira consciente ou inconsciente (fantasias básicas universais</p><p>do grupo).</p><p>Na minha prática clínica com grupos operativos, quando um paciente introduz</p><p>algum assunto no grupo, costumo me perguntar "Por que esse assunto está aparecen-</p><p>do aqui-agora-comigo com este exercício de pensar?", e então investigo viírios pon-</p><p>tos de intersecção entre a verticalidade do sujeito que enuncia o problema e a hori-</p><p>zontalidade do grupo. Ao fazer uma colocação que pode ser entendida como uma</p><p>transferência, o paciente introduz uma possibilidade de explicitação das fantasias</p><p>que estão bloqueando sua atividade grupal.</p><p>E impoÍante compreender que, para que um grupo evolua no propósito da resolu-</p><p>ção de tarefa, é fundamental explicitaÍ essas fantasias universais para permitir que o</p><p>processo de mudança ocorra. Essamudança vai caracterizar o grau de saúde ou patolo-</p><p>gia desse grupo. Quanto mais plásticos forem os papéis, mais saudável é o grupo, e</p><p>quanto mais estereotipados forem esses mesmos papéis, mais patológico ele se torna</p><p>por não possibilitar a rupturados mecânismos estereotipados de delegação e assunção</p><p>de papéis.</p><p>Temos como experiência em nossa prática clínica alguns grupos que precisam</p><p>se manter estereotipados para preservar a estabilidade do grupo que estão inseridos.</p><p>Há aproximadamente 16 anos, numa unidade de interação psiquiátrica, coordenei um</p><p>grupo denominado "grupo operativo de limpeza". Após viírias sessões, percebi que a</p><p>unidade se mantinha limpa, mas que o processo que se dava para que esse objetivo</p><p>fosse alcançado não se enquadrava no enfoque operativo. O grupo reunia-se semanal-</p><p>mente para "combinar" as atividades de limpeza. Fui percebendo que, na verdade,</p><p>daqueles 12 integrantes que participavam do grupo, apenas 1 realizava a faxina na</p><p>unidade. Isso era devido, certamente, às suas características pessoais obsessivas, mas</p><p>que "estavam à serviço" do interesse da unidade que ele estava baixado, porque sa-</p><p>bia-se que a unidade "se manteria limpa".</p><p>Quando tal mecanismo foi identificado, começou-se a trabalhar, terapeutica-</p><p>mente no grupo, a redistribuição de papéis, a divisão do trabalho e a explicação desse</p><p>funcionamento. A unidade começou a ficar suja, e a equipe começou a reclamar que</p><p>o grupo operativo não estava funcionando bem.</p><p>Percebe-se, nesse exemplo, que a forma previsível que o grupo vinha se desen-</p><p>volvendo "servia" para a instituição manter seus objetivos implícitos de controlu</p><p>obsessivamente os aspectos mobilizados pela situação de intemação de psicóticos.</p><p>Sear</p><p>apare</p><p>impor</p><p>psicú</p><p>tivos r</p><p>operà</p><p>de per</p><p>repre{</p><p>consti</p><p>e adF</p><p>denol</p><p>ticas I</p><p>resolo</p><p>pêutic</p><p>do de</p><p>indiri</p><p>"o gn</p><p>pen-q</p><p>r99l )</p><p>I</p><p>ÍÌìenrc</p><p>mudr</p><p>deprer</p><p>denl</p><p>tarcÍq</p><p>ì</p><p>gupo</p><p>que ol</p><p>ctaçn</p><p>\</p><p>dade: r</p><p>IO-</p><p>I</p><p>Pan q</p><p>ciais. r</p><p>to! (F</p><p>s€nÌr</p><p>em|:r</p><p>I</p><p>nÌar! a</p><p>omni</p><p>rel,or</p><p>à srl</p><p>z+ìõÊ</p><p>nd</p><p>I</p><p>perdrr</p><p>múfta</p><p>Ìando</p><p>0, mas</p><p>Perce-</p><p>ar que</p><p>omeça</p><p>Posita-</p><p>Eluído</p><p>de sua</p><p>oatéo</p><p>conju-</p><p>unciar</p><p>lito da</p><p>àama-</p><p>Drnpar-</p><p>versais</p><p>tÍoduz</p><p>Ìrecen-</p><p>rs pon-</p><p>a hori-</p><p>D Uma</p><p>ntasias</p><p>Í€solu-</p><p>rqueo</p><p>patolo-</p><p>Fpo, e</p><p>E toma</p><p>sunção</p><p>pcisam</p><p>pridos.</p><p>meium</p><p>bi que a</p><p>Èjetivo</p><p>:Ínânal-</p><p>erdade,</p><p>xina na</p><p>as, mas</p><p>Íque sa-</p><p>peutica-</p><p>b desse</p><p>mÍú que</p><p>È desen-</p><p>ontrolar</p><p>póticos.</p><p>Se a unidade estivesse limpa, os aspectos "loucos" de cada um dos elementos não</p><p>apareceriam. Se formos pensâr em termos de objetivos explícitos, reconheceremos a</p><p>importância do aprendizado de atividades laborativas no sucesso do tratamento a</p><p>psicóticos, no entanto, com o exemplo anterior percebemos que nem sempre os obje-</p><p>tivos explícitos têm ligação direta com os implícitos. Voltemos ao conceito de grupo</p><p>operativo de Pichon Rivière ( 1988): "Caracteriza o grupo como um conjunto restrito</p><p>de pessoas, que, ligadas porconstantes de tempo e espaço e articuladas por sua mútua</p><p>representação intema, propõe-se, em forma explícita ou implícita, a uma tarefa que</p><p>constitui sua finalidade, interatuando através de complexos mecanismos de assunção</p><p>e adjudicação de papéis".</p><p>A tarefa vai depender do campo operativo do grupo, ela trata de resolver o</p><p>denominador comum de ansiedade do grupo que adquire em cada membro caracteís-</p><p>ticas particulares. Por exemplo, se for um grupo ensino-aprendizagem, a tarefa será a</p><p>resolução das ansiedades ligadas à aprendizagem dessa disciplina se o grupo for tera-</p><p>pêutico propriamente dito, a tarefa será a cura da enfermidade através da resolução</p><p>do denominador comum da ansiedade do grupo que vai variar de indivíduo para</p><p>indivíduo dependendo de sua história pessoal e suas características particulares.</p><p>"O grupo é o agente da cura, e a tarefa se constitui num organizador dos processos de</p><p>pensamento, comunicação e ação que se dão entre os membros do grupo." (Osorio,</p><p>r991)</p><p>Podemos entender como cura a mudança de pautas estereotipadas de funciona-</p><p>mento e a integração do sentir, do pensar e do agir. Não podemos esquecer que toda</p><p>mudança implica o surgimento dos medos básicos de perda e ataque (ansiedades</p><p>depressivas e persecutórias) que podem funcionar como obstáculos nesse processo</p><p>de mudança. Dessa forma, identificamos três momentos de um grupo operativo: pré-</p><p>tarefa, tarefa e projeto.</p><p>Na pré{arefa se concentra a resistência à mudança; é c4ai que observamos nos</p><p>gntpos o predomínio das ansiedades e medos basicamente frente ao desconhecido</p><p>que obstaculizam o "entrar na tarefa". Encontramos também o predomínio da disso-</p><p>ciação entre o agir, o sentir e o pensar.</p><p>Vamos tomar como exemplo de pré-tarefa um grupo operativo que trata obesi-</p><p>dade: esse grupo reúne-se semanalmente e tem como objetivo comum o emagrecimen-</p><p>to.</p><p>Sabemos que o emagrecimento é uma tarefa extema, explícita e comum a todos.</p><p>Para que se emagreça, é necessário modificar hábitos: alimentares, familiares, so-</p><p>ciais, etc.; isto é o que denominaremos de tarefa interna, pois consiste nos movimen-</p><p>tos que os indivíduos devem realizar conjuntamente para obter essa mudança. Então,</p><p>semana após semana, cada membro do grupo vem atingindo seu objetivo explícito de</p><p>emagrecer.</p><p>Um dos elementos consegue um emâgrecimento notadamente superior aos de-</p><p>mais e essa pessoa é admirada e/ou invejada pelos outros membros do grupo. Uma</p><p>outra integraÌìte, por sua vez, não apresenta a mesma "performance" na balança, mas</p><p>relata e vivencia as profundas modificações que estão ocorrendo em sua vida devido</p><p>à sua paÍicipação no grupo. O grupo pega esses elementos e questiona suas verbali-</p><p>zações, uma vez que ela não "perde peso". Reforçam o colega anterior que está dimi-</p><p>nuindo progressivamente</p><p>específicos e representa uma tentativa no sentido de as grupoterapias adquirirem uma</p><p>identidade própria.</p><p>Escola Argentina. Os nomes dos psicanalistas argentinos L. Grinberg, M. Langer</p><p>e E. Rodrigué já são bastante conhecidos, porquanto o seu livro Psicoterapia del</p><p>grupo tornou-se uma espécie de bíblia para algumas gerações de grupoterapeutas em</p><p>formação. Na atualidade, é necessário destacar: Geraldo Stein, com as suas concep-</p><p>ções originais a respeito do que ele denomina "psicanálise compartida"; Rubén</p><p>Zuckerfeld, com as suas importantes contribuições na utilização de técnicas grupais</p><p>no atendimento a pacientes portadores de transtornos de alimentação; e grupo de</p><p>autores argentinos - no qual, entre outros, pontifica o nome de Janine Puget - que</p><p>vêm estudando e divulgando a modema " psicanálise das configurações vinculares",</p><p>notadamente com casais, famílias e grupos.</p><p>Brasil. No Brasil, a psicoterapia de grupo de inspiração psicanalítica teve co-</p><p>meço com Alcion B. Bahia; outros nomes importantes e pioneiros são os de Walderedo</p><p>Ismael de Oliveira e Wemer Kemper, no Rio de Janeiro; Bernardo Blay Neto, Luis</p><p>Miller de Paiva e Oscar Rezende de Lima, em São Paulo, e Cyro Martins, David</p><p>Zimmermann e Paulo Guedes, em Porto Alegre. Na atualidade, há no Brasil uma</p><p>série de pessoas, em diversas e múltiplas áreas, trabalhando ativamente em busca de</p><p>novos caminhos e de uma assistência mais ampla e abrangente com a aplicação dos</p><p>recursos da dinâmica grupal.</p><p>coNcErTUAçAO DE GRUPO</p><p>O ser humano é gregário por nâtureza e so.Iente existe, ou subsiste, em função de</p><p>seus inter-relacionamentos grupais. Sempre, desde o nascimento, o indivíduo partici-</p><p>pa de diferentes gÍupos, numa constante dialética entre a busca de sua identidade</p><p>individual e a necessidade de uma identidade sruDâl e social.</p><p>COMO I'RÂBALHAMOS COM ORUPO5</p><p>'</p><p>27</p><p>Um conjunto de pessoas constitui um grupo, um conjunto de grupos constitui</p><p>uma comunidade e um conjunto interativo das comunidades configura uma socieda-</p><p>de.</p><p>A importância do conhecimento e a utilização da psicologia gmpal decorre jus-</p><p>tamente do fato de que todo indivíduo passa a maior parte do tempo de sua vida</p><p>convivendo e interagindo com distintos grupos. Assim, desde o primeiro grupo natu-</p><p>ral que existe em todas as culturas - a família nuclear, onde o bebê convive com os</p><p>pais, avós, irmãos, babá, etc., e, a seguir, passando por creches, escolas maternais e</p><p>bancos escolares, além de inúmeros grupos de formação espontânea e os costumeiros</p><p>cursinhos paralelos -, a criança estabelece vínculos diversificados. Tais grupamentos</p><p>vão se renovando e ampliando na vida adulta, com a constituição de novas famílias e</p><p>de grupos associativos, profissionais, esportivos, sociais, etc.</p><p>A essência de todo e qualquer indivíduo consiste no fato dele ser portador de</p><p>um conjunto de sistemas: desejos, identificações, valores, capacidades, mecanismos</p><p>defensivos e, sobretudo, necessidades básicas, como a da dependência e a de ser</p><p>reconhecido pelos outros, com os quais ele é compelido a conviver. Assim, como o</p><p>mundo interior e o exterior são a continuidade um do outro, da mesma forma o indi-</p><p>vidual e o social não existem separadamente, pelo contrário, eles se diluem,</p><p>interpenetram, complementam e confundem entre si.</p><p>Com base nessas premissas, é legítimo afirmar que todo indívíduo é um grupo</p><p>(na medida em que, no seu mundo interno, um grupo de personagens introjetados,</p><p>como os pais, irmãos, etc., convive e interage entre si), da mesma maneira como todo</p><p>grupo pode comportar-se como uma individualidade (inclusive podendo adquirir a</p><p>uniformidade de uma caracterologia específica e típica, o que nos leva muitas vezes</p><p>a referir determinado grupo como sendo "um grupo obsessivo", ou "atuadoÍ", etc.).</p><p>É muito vaga e imprecisa a definição do termo "grupo", porquanto ele pode</p><p>designar conceituações muito dispersas num amplo leque de acepções. Assim, a pa-</p><p>lavra "grupo" tanto define, concretamente, um conjunto de três pessoas (para muitos</p><p>autores, umarelação bipessoaljá configuraum grupo) como também pode conceihrar</p><p>uma famflia, uma turma ou gangue de formação espontânea; uma composição artifi-</p><p>cial de grupos como, por exemplo, o de uma classe de aula ou a de um grupo</p><p>terapêutico; uma fila de ônibus; um auditório; uma torcida num estádio; uma multi-</p><p>dão reunida num comício, etc. Da mesma forma, a conceituação de grupo pode se</p><p>estender até o nível de uma abstração, como seria o caso de um conjunto de pessoas</p><p>que, compondo uma'audiência, esteja sintonizado num mesmo programa de televi-</p><p>são; ou pode abranger uma nação, unificada no simbolismo de um hino ou de uma</p><p>bandeira, e assim por diante.</p><p>Existem, portanto, grupos de todos os tipos, e uma primeira subdivisão que se</p><p>faz necessária é a que diferencia os grandes grupos (pertencem à iírea da macro-</p><p>sociologia) dos pequenos grupos (micropsicologia). No entanto, vale adiantar que,</p><p>em linhas gerais, os microgrupos - como é o caso de um grupo terapêutico - costu-</p><p>mam reproduzir, em miniatura, as características sócio-econômico-políticas e a dinâ-</p><p>mica psicológica dos grandes grupos.</p><p>Em relação aos microgrupos também se impõe uma necessária distinção entre</p><p>grupo propriamenÍe dito e agrupamento. Por "agrupamento" entendemos um con-</p><p>junto de pessoas que convive partilhando de um mesmo espaço e que guardam entre</p><p>si uma certa valência de inter-relacionamento e uma potencialidade em virem a se</p><p>constituir como um grupo propriamente dito. Pode servir de exemplo a situação de</p><p>uma "serialidade"de pessoas, como no caso de uma fila à espera de um ônibus: essas</p><p>pessoas compartem um mesmo interesse, apesar de não estar havendo o menor víncu-</p><p>28 . ZMERMAN & (xoRlo</p><p>lo emocional entre elas, até que um determinado incidente pode modificar toda a</p><p>configuração grupal. Um outro exemplo seria a situação de uma série de pessoas que</p><p>estão se encaminhando para um congresso científico: elas estão próximas, mas como</p><p>não se conhecem e não estão interagindo elas não formam mais do que um agrupa-</p><p>mento, até que um pouco mais adiante podem participar de uma mesma sala de dis-</p><p>cussão clínica e se constituírem como um interativo grupo de trabalho. Pode-se dizer</p><p>que a passagem da condição de um agrupamento para a de um gnrpo consiste na</p><p>transformação de "interesses comuns" para a de "interesses em comum".</p><p>O que, então, caracteriza um grupo propriamente dito? Quando o grupo, quer</p><p>seja de natureza operativa ou terapêutica, preenche as seguintes condições básicas</p><p>mínimas, está caracterizado:</p><p>. Um grupo não é um mero somatório de indivíduos; pelo contrário, ele se consti-</p><p>tui como nova entidade, com leis e mecanismos própfios e específicos.</p><p>. Todos os integrantes do grupo estão reunidos, face a face, em tomo deuma tarefa</p><p>e de um objetivo comuns ao interesse deles.</p><p>. O tamanho de um grupo não pode exceder o limite que ponha em risco a indis-</p><p>pensável preservação da comunicação, tanto a visual como a auditiva e a conceitual.</p><p>. Deve havera instituição de um enquadre (seÍing) e o cumprirnento das combina-</p><p>ções nele feitas. Assim, além de ter os objetivos claramente definidos, o grupo</p><p>deve levar em conta a preservação de espaço (os dias e o local das reuniões), de</p><p>tempo (horiários, tempo de duração das reuniões, plano de férias, etc.), e a combi-</p><p>nação de algumas regras e outras variáveis que delimitem e normatizem a ativi-</p><p>dade grupal proposta.</p><p>. O grupo é uma unidade que se comporta como uma totalidade, e vice-versa, de</p><p>modo que, tão importante quanto o fato de ele se organizar a serviço de seus</p><p>membros, é também a recíproca disso- Cabe uma analogia com a relação que</p><p>existe entre as peças separadas de um quebra-cabeças e deste com o todo a ser</p><p>arÍnado.</p><p>. Apesar de um grupo se constituir como uma nova entidade, com uma identidade</p><p>grupal própria e genuína, é também indispensável que fiquem claramente preser-</p><p>vadas, separadamente, as identidades específicas de cada urn dos indivíduos com-</p><p>ponentes do grupo.</p><p>. Em todo grupo coexistem duas forças contraditórias peÍmanentemente emjogo:</p><p>uma tendente à sua</p><p>o peso na balança.</p><p>A seguir, criam-se e são lançados no gÍupo desafios e metas que objetivam a</p><p>perda de peso. Todos, na semana seguinte, "perdem peso", mas não conseguem sentir</p><p>coMo</p><p>'RÂBALHAM''</p><p>c-oM o*u"u" . 97</p><p>98 . ZNERMAN & osoRro</p><p>nem observar que mudanças de atitudes estão obtendo. Isso pode ser entendido como</p><p>um momento de préìarefa, pois o "perder peso" impede que reflitam sobre seus</p><p>hábitos, atitudes e sentimentos.</p><p>Nesse momento, ocorre a clara dissociação do pensar, sentir e agir. O grupo atua</p><p>para não pensar nem sentir.</p><p>O momento da tarefa consiste na elaboração da ansiedade provocada pela mu-</p><p>dança e na integração do pensar, scntir e agir E nr tarefa que se consegue abordar o</p><p>objeto de conhecimento de forma a romper com as pautas estereotipadas que estan-</p><p>cam a mudança e bloqueiam a comunicação. Aqui se dã o insighí atÍavés da elabora-</p><p>ção dos medos básicos. O projeto é o que aparece emergindo da tarefa e que permite</p><p>o planejamento para o futuro.</p><p>No exemplo anterior, o gÍupo entraria na tarefa no momento em que ao planejar</p><p>o emagrecimento pudesse verbalizar, clarificar e esclarecer o processo em que cada</p><p>um, de acordo com suas caracteÍísticas pessoais, alcançaria esse objetivo. Trabalhan-</p><p>do o significado do emagrecimento para cada um, bem como as motivações que têm</p><p>para atingir o objetivo, poderiam dessa maneira, chegar ao projeto.</p><p>O papel do coordenador no grupo operativo é o de "coopensor", que Pichon</p><p>designa como aquele que pensr junto conì o grupo. ro mesmo tempo que integra c</p><p>pensamento grupal, facilitando a dinâmica dâ comunicação grupal. A interpretaçãc</p><p>no grupo operativo possibilita a emergência da fantasia básica do grupo através da</p><p>compreensáo do existente (explícito).</p><p>Serão apresentados, a seguiç alguns exemplos de situações de grupos operati-</p><p>vos que ilustram o material abordado até aqui.</p><p>Exemplo 1</p><p>Trata-se de um grupo operativo. cujl tlrefa e refletir sobre a formação de terapeutas</p><p>familiares, com alunos de um curso de formâção de terapia familiar. Ë terceira sess;ro</p><p>do grupo, onde os terapeutas estão se conhecendo como grupo, logo após uma ativi,</p><p>dade docente de laboratório onde havia sìdo rcalizado e filmado um atendimentc</p><p>familiar que o grupo assistiu pela câmera de TV No primeiro encontro após a filma,</p><p>gem, percebe-se que compârecem âpenas três participântes no horário combinado.</p><p>Começa-se o grupo falando sobre a pontualidade e assiduidade no curso e das possi</p><p>veis razóes para as faltas naquele dia.</p><p>Enquanto se discone sobre esse teríÌ4, cada um trazendo suas justificativas pes,</p><p>soais, uma das integÍantes começâ dizendo que estava muito mobilizada com a expe-</p><p>riência que tinha tido no dia anterior com o gÍupo. Referiu que ficou muito ansiosa ac</p><p>assistir a um entendimento de família e que havia se sentido incomodada com o fatc</p><p>de estarem sendo filmadas. Esse assunto é então colocado ao grupo, e começam a</p><p>falar de seus temores em não "conseguir entender" as famílias quando tiverem que</p><p>atendê-las, receios de não conseguirem concluir o curso por não terem condições</p><p>para tal. Lentamente, vai emergindo no grupo a fantasia grupal de não poderem se</p><p>expor para não revelar suas fantasias de incapacidade para a tarefa que estavam se</p><p>propondo. A coordenadora mostra que tiìlvez também estejam falando do receio de</p><p>se exporem no grupo, temendo não podcrenr concluir o curso de terapeutas familíares</p><p>ou de não compreenderem seu papel naquele grupo.</p><p>No momento em que essa fantasia ó expÌicitada, o grupo alivia-se e consegui</p><p>entrar na tarefa de forma mais tranqtiila.</p><p>Eremplo 2</p><p>r.; :</p><p>...:::</p><p>-:: ;</p><p>: i : :</p><p>: : :3</p><p>; -</p><p>:::: :</p><p>: . :</p><p>: : : l</p><p>- _:È</p><p>: :- : : t</p><p>- - : :, : :</p><p>- .1</p><p>: - :</p><p>'1</p><p>: : r -5</p><p>a- ' -zt</p><p>:a-- ] '</p><p>- . t</p><p>-: -:ã</p><p>: - i :11</p><p>t . rempi, ' - :</p><p>- -3</p><p>, - r</p><p>- ,-l</p><p>: - - a</p><p>, -</p><p>_.Ll</p><p>-</p><p>- l l</p><p>: '--t</p><p>. : . :</p><p>- l</p><p>. : . -^ l</p><p>: . ..(</p><p>: r.: I</p><p>.:{</p><p>-E{</p><p>:omo</p><p>seus</p><p>r atua</p><p>rmu-</p><p>dar o</p><p>stan-</p><p>DOra-</p><p>rmite</p><p>mejar</p><p>j câda</p><p>úhan-</p><p>e têm</p><p>lchon</p><p>lgÍa o</p><p>lação</p><p>És da</p><p>Érati-</p><p>COMO TRABALHAMOS COM CRUPOS . 99</p><p>Exemplo 2</p><p>Trata-se de um grupo de egressos num serviço público de saúde mental, que se reúne</p><p>há muitos anos e tem como características principais a participação de pacientes que</p><p>sofrem de doença mental e quejá tiveram pelo menos uma internação psiquiátrica. É</p><p>um grupo heterogêneo quanto ao diagnóstico, mas homogêneo quanto à cronicidade</p><p>da doença. Seu objetivo é evitar a reagudização da sintomatologia psicótica e evitar a</p><p>reintemação, e auxiliá-los a se ressocializarem através da vivência do grupo operativo.</p><p>Neste grupo há um paciente que não é muito valorizado pelos demais participantes</p><p>por apresentar um defeito esquizofrênico persistente de fuga de idéias. Sempre que o</p><p>mesmo fala alguma coisa, o grupo faz que não ouve e não valoriza sua verbalização.</p><p>Ao conversarmos sobre o assunto do dia, ou seja, a dificuldade que os mesmos sen-</p><p>tem de serem aceitos no seu grupo familiar e social em função do estigma que caÍre-</p><p>gam por sua doença, eles dizem que se sentem rechaçados e mal-compreendidos,</p><p>inclusive por seus próprios familiares. Então, o paciente citado corta o assunto e</p><p>começa a falar de que "os gatos têm sentimentos, que devem sentar à mesa, nas</p><p>cadeirinhas" (gesticulava com a mão em círculos, dirigindo-se para aquele círculo</p><p>que estávamos sentados). Os demais integrantes se olham, alguns se calam como se</p><p>não entendessem ou ignorando esse membro.</p><p>Um outro paciente corta o assunto, dirigindo-se ao psiquiatra do grupo ecomeçan-</p><p>do a falar sobre a medicação, interrompendo, assim, a verbalização do colega.</p><p>A partir desses acontecimentos, a coordenadora passa a mostrar ao grupo que o</p><p>que aconteceu naquele momento foi uma demonstÍação do assunto que eles estavam</p><p>trazendo. Ali eles também estavam revelando o quanto era difícil entenderem as dife-</p><p>renças que existiam entre si, no curso da doença de cada um. O paciente rechaçado</p><p>denuncia que a conflitiva abordada no grupo estava acontecendo ali no grupo tam-</p><p>bém. Fala, então, de sua necessidade de ser bem aceito como os demais. O falar sobre</p><p>o remédio, que é um assunto conhecido por todos, serve como um impedimento de</p><p>apaÍecer seus sentimentos com relação a esse tema e os temores de não serem com-</p><p>preendidos e aceitos pelos terapeutas e o grupo, e dessa forma modificar o problema.</p><p>Exemplo 3</p><p>Trata-se de um grupo operativo que trata a depressão, em um serviço público de</p><p>saúde mental. Este grupo tem uma história de 5 anos de tratamento com a mesma</p><p>coordenadora, que está para sair da instituição que trabalha, mas não havia ainda</p><p>colocado nem trabalhado tal assunto no grupo. Naquela sessão, estava iniciando uma</p><p>paciente nova que tinha como fator desencadeante de sua depressão o afastamento de</p><p>seu filho que fora fazer um curso no exterior. A paciente permanece queixosa e cho-</p><p>rosa no grupo. O tema perda é comum a todos, os demais pacientes a recebem tentan-</p><p>do tranqüilizá-la e contam sobre suas próprias perdas e os motivos que os trouxeram</p><p>a esse tratamento, bem como o quanto estavam podendo elaborar melhor tais perdas</p><p>ali no grupo. Recebem-nacom muita receptividade, verbalizando que "devemos apren-</p><p>der a deixar nossos filhos fazerem suas escolhas na vida". Dizem enfaticamente que</p><p>ela não estava perdendo o filho, mas, sim, ganhando um filho mais satisfeito e reali-</p><p>zado por estar podendo crescer em sua vida profissional. Esse processo permitiu ao</p><p>coordenador introduzir o assunto de sua saída, pois o grupo demonstrava que estava</p><p>começando a "aprender a lidar melhor com suas perdas".</p><p>Futas</p><p>FSSAO</p><p>rativi.</p><p>Erento</p><p>hlma-</p><p>inado.</p><p>possí-</p><p>E pes-</p><p>.expe-</p><p>DSa ao</p><p>o fato</p><p>Fma</p><p>m que</p><p>üições</p><p>Em se</p><p>am se</p><p>eio de</p><p>iliares</p><p>Eegue</p><p>100 . ZMERMAN & osoRlo</p><p>COMENTÁRIOS</p><p>Podemos resumir as finalidades e objetivos dos grupos operativos dizendo que "sua</p><p>atividade está centrada na mobilização de estruturas estereotipadas, nas dificuldades</p><p>de aprendizagem e comunicação devido ao montante de ansiedade despertado por</p><p>toda mudança". (Temas, 1984)</p><p>Com isso pode-se entender que tal mobilização é terapêutica, e os grupos</p><p>operativos são terapêuticos</p><p>por promoverem mudanças nos indivíduos que os com-</p><p>põem.</p><p>Voltemos, então, à pergunta título deste capítulo: Como agem os grupos</p><p>operativos? "Um grupo, diz Taylor, apresenta dados observáveis em seus difdrentes</p><p>momentos e que emergem de forma simuÌtânea ou consecutiva da complexa conduta</p><p>no diálogo e na açáo dos indivíduos que atuam em pares, trios ou outras configura-</p><p>çóes inteçessoais sobre outros indìvíduos ou sobre outras confìgurações interpessoais,</p><p>sobre o grupo como totalidade ou sobre o analìsta, ou reagem contra eles próprios."</p><p>(Pichon. 1988)</p><p>O processo terapêutico do qual o grupo operativo é instrumento consiste, em</p><p>última instância, na diminuição dos medos básicos através da centralização na tarefa</p><p>do grupo que promove o esclarecimento das dificuldades de cada integrante aos obstá-</p><p>culos.</p><p>O grupo operativo age de forma a fomecer aos participantes, através da técnica</p><p>operativa, a possibilidade de se darem conta e explorar suas fantasias básicas, crian-</p><p>do condições de mobilizar e romper suas estruturas estereotipadâs.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>OSORIO, L.C. e cols. Grupoterapia hoje.2.ed. Porto AlcgÍe: Artcs Médicas, 199 t. Caps. 8 e 9.</p><p>PICHON RIVIERE, H. Técnica do vhrculo. 2.ed. São Paulo: Mârtins Fontes, 1986.</p><p>PICHON RÌVIERE, H. O processo grupaL.39.cd. São PauÌo: Martins Fontes, 1988.</p><p>QUIROGA, A. /n/o4ues y leìslreclivas etn psicologia socictl. Buenos Aires: Ediciones, 1996.</p><p>TEMAS dc psicologia sociâ1. Publicação da 1u cscola privada dc Biologiâ Sociaì fundada pclo Dr H.</p><p>Pichon Rivière, ano VII, n.6, 1984.</p><p>BJBL IOTFCA</p><p>U/t///tlEP</p><p>O mur</p><p>ou de</p><p>consel</p><p>novos</p><p>)</p><p>tão rál</p><p>extrao</p><p>queal</p><p>i;</p><p>Uma Sl</p><p>conse(</p><p>nosso</p><p>global</p><p>de con</p><p>veis.</p><p>f</p><p>contnt</p><p>muitas</p><p>grupos</p><p>desagr,</p><p>mlcos</p><p>mosa(</p><p>de hojt</p><p>Ora, is</p><p>lremos</p><p>senvol</p><p>isso ge</p><p>senvoÌ,</p><p>Er</p><p>tambéÍ</p><p>tudo e i</p><p>bebês,,</p><p>cidades</p><p>: . 'sua</p><p>dades</p><p>lo por</p><p>Íupo s</p><p>com-</p><p>:rupos</p><p>rrentes</p><p>)nduta</p><p>Ígura-</p><p>ssoais,</p><p>prios."</p><p>;Ìe. em</p><p>r tarefa</p><p>, obstá-</p><p>técnica</p><p>. cnan-</p><p>10</p><p>Grupos Comunitários</p><p>SALVADORCELIA</p><p>O mundo em que vivemos sempre apresentou características próprias de cada tempo</p><p>ou de cada época, sendo interessante vermos algumas tradições que, apesar de tudo,</p><p>conseguiram permanecer, enquanto outras se perderam, sofreram transformações, ou</p><p>novos valores foram introduzidos no jeito de nos relacionarmos ou de convivermos.</p><p>Nunca houve, por certo, em todos os tempos, uma dinâmica de acontecimentos</p><p>tão rápidos, e com acesso a uma grande parte da população mundial. Refiro-me ao</p><p>extraordinário avanço tecnológico da assim chamada "Era das Comunicações", em</p><p>que a mídia televisiva, falada ou escrita, tomou-se mais acessível.</p><p>Igualmente, a vida hoje - praticamente dependendo do computador - trouxe</p><p>uma série de novidades aos nossos costumes, muitas delas, inclusive, acarretando</p><p>conseqüências psicossociais a todas as idades e camadas sociais das populações de</p><p>nosso planeta.</p><p>A assim chamada "Aldeia Global", que é o nosso mundo, muitas vezes não é tão</p><p>globalizada, pois a sociedade vive atualmente dificuldades imensas de comunicação,</p><p>de convivência, apesar de todos os meios de informação e acessos estarem disponí-</p><p>vels.</p><p>De certo modo vivemos um paradoxo, pois todas essas novidades ainda não</p><p>contribuíram para um melhor relacionamento entre os seres humanos. Pelo contrário,</p><p>muitas vezes tudo isso contribuiu para uma desintegração maior da convivência dos</p><p>grupos, entre eles, o principal de todos, a família.</p><p>Muito da crise de valores de referência, de saúde mental, para mim, passa pela</p><p>desagregação familiar em todos os sentidos. Fatores psicossociais, culturais e econô-</p><p>micos foram trazendo novas formas de convivência, sendo atualmente comum ver-</p><p>mos a existência de numerosas famílias monoparentais, onde, por exemplo, no Brasil</p><p>de hoje, 647o das mesmas têm mulheres como chefe da casa e de seu grupo familiar.</p><p>Ora, isso modifica toda uma situação dos papéis psicoÌógicos de uma famflia, onde</p><p>iremos observar as conseqúências, por exemplo, da falta do pai na criação e no de-</p><p>senvolvimento da personalidade dos filhos.</p><p>A diminuição da grande famflia, o distanciamento dos avós, tios e outros, fudo</p><p>isso gera uma nova identidade, um novo padrão referencial de convivência e de de-</p><p>senvolvimento.</p><p>Em função desses aspectos, todas as sociedades sofrem, assim como sofrem</p><p>também com um fenômeno universal charnado "Violência Social" que, atingindo a</p><p>tudo e a todos, não perdoa seus efeitos no comprometimento do desenvolvimento de</p><p>bebês, crianças e adolescentes que vivem nas áreas menos desenvolvidas de algumas</p><p>cidades. Essa "Violência Social" decorre de vários fatores, porém leva a um grande e</p><p>rÌo Dr H.</p><p>comum problema, a ruptura ou perda dos vínculos que se iniciam dentro de casa,</p><p>dentro da própria família.</p><p>Assim - nos EUA por exemplo, um país conhecido como do Primeiro Mundo -,</p><p>encontramos, em algumas áreas urbanas das grandes cidades, crianças e adolescentes</p><p>com problemas psicopatológicos, e, conseqüentemente, de desenvolvimento, simila-</p><p>res aos de Porto Alegre, ião Paulo, Montevideo, Buenos Aires, entre outros. De fato,</p><p>a diferença está na forma como isso acontece e na sua intensidade. Por exemplo, será</p><p>mais raro encontrar em alguns países, como no Brasil - onde 307o das crianças até 6</p><p>anos de idade sofrem de desnutrição - se comparadas com as crianças americanas,</p><p>que quase não passam fome, mas que, tal como no Brasil, sofrem de outras formas de</p><p>violência que também acanetam problemas no seu desenvolvimento. Refiro-me, por</p><p>exemplo, à violência urbana existente tanto nos EUA como no Brasil, que poderá</p><p>incidir de uma forma crônica, trazendo fatores comulativos que irão prejudicar lenta-</p><p>mente a personaÌidade da criança e do adolescente de hoje e o futuro cidadão adulto</p><p>do amanhã.</p><p>Diante de um quadro tão ameaçador e de perspectivas tão sombrias, vale a pena</p><p>referenciar aqui os estudos feitos por alguns pesquisadores, como Rutter, We.ner,</p><p>Garmezy e Haggerty, que estudaram a correlação entre os fatores protetores e a tussim</p><p>chamada "Capacidade de Resistência". (Parker, 1995) Esses autores investigaram e</p><p>descobriram que algumas pessoas, crianças e adolescentes, apesar de toda uma situ-</p><p>ação problemática, são capazes de "resilir", de enfrentar os desafios, de crescer e se</p><p>mostrarem competentes e saudáveis, inclusive na sua vida adulta.</p><p>"Resiliência" é uma força, uma perícia, uma habilidade que algumas pessoas</p><p>possuem de se mostrarem corajosas, de poderem enfrentar "os desafios normais da</p><p>vida" e mesmo outros que terminam por deixar o indivíduo com mais autoconfiança,</p><p>mais auto-estima, porque construíram um "ego resiliente". Ser maìs ou menos</p><p>"resiliente", todavia, não é apenas uma questão de mágica, mas, sim, uma questão</p><p>que tem a ver com o potencial de cada um que poderá ser reforçado, melhorado, e não</p><p>só deixar que o mesmo ocorra e se desenvolva pelo acaso. Pois esse é o grande desa-</p><p>fio do profissìonal das áreas humanísticas, como a da saúde, educação e direito, que</p><p>muito poderão contribuir, através da compreensão e desenvolvimento de atitudes</p><p>favorecedoras à melhor capacitação da resiliência das crianças.</p><p>Os resilientes são crianças e adolescentes que intrinsecamente possuem fatores</p><p>como temperamento mais flexível, curiosidade, auto-estima, senso de que são capa-</p><p>zes de modificar seu ambiente, têm um controle intemo, boa saúde, inteligência,</p><p>acreditam que as novas situações ou mudanças representam uma oportunidade para</p><p>melhorarem e se adaptarem, em vez de perda de esperança e expectativas.</p><p>Extrinsecamente, a estabilidade conjugal ou pelo menos uma "aliança" entre o</p><p>casal que respeite as funções de parentalidade; sentimentos de competência dos pais;</p><p>integração e suporte familiar entre os membros; famílias formadas por até 4 pessoas,</p><p>com intervaÌo de não mais de 2 anos entre os irmãos; fortes vínculos pelo menos com</p><p>o pai ou a mãe; estrutura e predicabilidade das rotinas diárias; possibilidades de su-</p><p>porte fora da família como avós, babás, igreja, professores, entre outros, são fatores</p><p>familiares que possibilitam o desenvolvimento da resiliência.</p><p>Entre os fatores extrafamiliares, tais</p><p>como a cultura e a vida na comunidade,</p><p>prevalecem aqueles que valorizam as crianças, nas quais aparticipação comunitária é</p><p>intensa, seja social, política ou religiosa, no bom sentido. Refiro-me aqui ao modo de</p><p>compreender, entender e oferecer apoio, suporte e inclusive locais para reuniões,</p><p>práticas, atividades sociais, recreativas e culturais.</p><p>I</p><p>i:-:rl</p><p>i: r-r</p><p>-:: ::l</p><p>: : : [</p><p>ti</p><p>:: -:rI</p><p>f</p><p>: : : i : '</p><p>i -_</p><p>- ,</p><p>:r:_d</p><p>C:rsd</p><p>í</p><p>: ::-_a</p><p>ì</p><p>: : . IÚ</p><p>i: , :::l</p><p>: : : : r {</p><p>a:: ï |</p><p>:::- rl</p><p>: :a:et</p><p>: : : : . 'A</p><p>-</p><p>!-:--l:*l</p><p>::: :;a</p><p>\</p><p>Z.:r: }|</p><p>::€::: I</p><p>: : t :ú</p><p>::\=- {</p><p>\</p><p>z-_: : : l</p><p>::: -:--:i</p><p>: i : : : [</p><p>-. :</p><p>3r</p><p>:5</p><p>l-: ::ll</p><p>-ì</p><p>::., : :=</p><p>.:: ::,-</p><p>n:a 3!</p><p>ì</p><p>Ì l i : : I</p><p>rr: . :::.::r. r</p><p>n:;:.ú</p><p>coMo TRABALHAMOS CoM GRUPos . 103</p><p>:Lia.</p><p>o-.</p><p>ntes</p><p>ÌiÌ a-</p><p>ato.</p><p>será</p><p>úé6</p><p>nas.</p><p>rs de</p><p>Nesse sentido, também a atividade política propriamente dita é fundamental no</p><p>sentido de se oferecer espaço físico e psicossocial para as crianças e adolescentes</p><p>desenvolverem seus potenciais (algumas cidades americanas com área de violência</p><p>urbana, como Chicago e Nova Iorque, apresentaram bons indicadores de saúde quan-</p><p>do várias poÌíticas psicossociais foram introduzidas em alguns bairros).</p><p>Assim, reforçar, fomentar e potencializar os indivíduos e suas comunidades são</p><p>forças poderosas para se diminuir o estresse e a violência social que abatem nosso</p><p>mundo.</p><p>Gostaria de lembrar algumas vivências comunitárias dos últimos l5 anos, quan-</p><p>do estive participando comó profissional da equipe de Saúde Mental da Secretaria da</p><p>Saúde do Govemo do Estado do RS, como assessor govemamental da área social</p><p>(Projeto Vida) e (Centro do Adolescente), e como cidadão voluntiírio participante do</p><p>Conselho Comunitário da Cidade de Canela.</p><p>Em todas essas atividades que tinham a ver com "o humano", com o psicossocial,</p><p>a participação comunitária foi fundamental.</p><p>Participação comunitária envoÌve um grupo de pessoas que se reúnem em busca</p><p>de algo comum, que tem a ver com seus desejos, suas necessidades, para exercerem e</p><p>viverem melhor seu estado de cidadanìa, sua quaÌidade de vida. Dessa reunião, deste</p><p>encontro de idéias, valores e cultura, nasce uma força que deriva da própria emergên-</p><p>cia de seus potenciais, pois, não fosse assim, essas famílias desfavorecidas não con-</p><p>seguiriam sobreviver. Produz-se uma "energia social" que é o somatório das partici-</p><p>pações individuais e que quando bem direcionada deixa esses grupos mais "ego-</p><p>resilientes", pois conseguem se situar melhor e se adaptar nas suas interações.</p><p>Essa energia social é a mesma que também é encontrada nos assim chamados</p><p>grupos de convivência, com fins terapêuticos, os mesmos podendo ser formados por</p><p>adolescentes, pais, idosos, gestantes, entre outros.</p><p>No Projeto Vida, com a criação do Vida Centro Humanístico, localizado na</p><p>Zona Norte de Porto Alegre, RS, um espaço físico privilegiado para acolher, principal-</p><p>mente, uma comunidade carenciada como a de bebês, crianças, adolescentes, mulhe-</p><p>res e idosos em situação de risco, no sentido de lhes oferecer apoio e suporte para</p><p>desenvolverem sua cidadania, a participação coletiva foi fundamental, além do dese-</p><p>jo govemamental de implementar o Projeto.</p><p>No coletivo, quero enfatizar a participação das entidades comunitárias daquela</p><p>zona, como Associação de Moradores, Clube de Mães, organizações recreativas e</p><p>culturais que terminaram por formar o Conselho Comunitário, que reuniu 60 entida-</p><p>des com o poder de participar numa co-gestão com a administração geral indicada</p><p>pelo Govemo.</p><p>Igualmente, a participação comunitiíria dos funcionários do Centro, em média</p><p>130 para atender quase 15.000 pessoas, às vezes, por mês, foi decisiva.</p><p>Uma proposta nova e inovadora só teria êxito se realmente fosse construída</p><p>após ter sido idealizada, se contasse com o apoio e a colaboração de todos, no sentido</p><p>da correção necessiíria para a realidade da dinâmica que é a convivência comunitária</p><p>nos seus aspectos sociais, políticos e culturais.</p><p>Dentro desse aspecto, o êxito obtido refletiu-se na melhora da auto-estima, do</p><p>seu EU, de sua cidadania para os que puderam absorver e viver essa filosofia, confor-</p><p>me a própria comunidade manifestou reiteradamente. Tudo isso foi mais que uma</p><p>política de ação social compensatória, pois proporcionou a muitos o espaço psicológico</p><p>necessário para o seu crescimento como "gente" que tem direitos e responsabilida-</p><p>des.</p><p>. por</p><p>derá</p><p>:nta-</p><p>lulto</p><p>Pen a</p><p>--ÌÌer.</p><p>sslm</p><p>arÌì e</p><p>sltu-</p><p>'ese</p><p>isoas</p><p>is da</p><p>rnç4,</p><p>enos</p><p>estão</p><p>e não</p><p>desa-</p><p>r. que</p><p>tudes</p><p>IÌOres</p><p>capa-</p><p>incia,</p><p>: para</p><p>]tÍe o</p><p>pal s;</p><p>;soas,</p><p>s com</p><p>ie su-</p><p>ìtores</p><p>ldade,</p><p>.Ãria é</p><p>do de</p><p>niões,</p><p>104 . z-r*ror r, oso*to</p><p>A co-gestão resolveu discutir os planos, apresentaÍ sugestões e ter o poder</p><p>decisório sobre as atividades realizadas no Centro, além de atingir a possibilidade de</p><p>gerir uma série de atividades e decisões comunitárias válidas não só para a clienteÌa</p><p>do mesmo, mas também para as suas associações de bairros.</p><p>Vários grupos de atividades foram criados no Centro Humanístico, alguns cha-</p><p>mados "Convivência", como os das mulheres, crianças, adolescentes e idosos, na</p><p>verdade, todos no seu funcionamento se assemelhando a grupos terapêuticos de Saú-</p><p>de Mental.</p><p>Na verdade, a "fiÌosofia comunitária" do Centro - que era acompanhada de</p><p>atividades integradas nas áreas da saúde, educação, lazer, cultura, esporte, ciência e</p><p>tecnologia, além dos direitos humanos e o oferecimento de possibilidades de interação</p><p>humana entre viírias gerações - viu-se acrescida da formação e das vivências dos</p><p>grupos assim chamados de convivência, com fins delimitados e claros para cada eta-</p><p>pa ou situação de vida.</p><p>Para se ter um exemplo do funcionamento no grupo de gestantes, as mulheres</p><p>participavam, além do gnìpo psicológico, de ginástica especializada, atividades cul-</p><p>turais e possibilidade de receber apoio jurídico para sua situação especial, como o</p><p>reconhecimento de leis protetoras que muito lhes poderiam ajudar, e também a seus</p><p>filhos futuros ou já existentes.</p><p>Nas atividades fora do Centro, ou seja, nas vilas, um dos programas mais necessá-</p><p>rios para a realidade brasileira, o da "Recuperação de Bebês Desnutridos", a participa-</p><p>ção da Associação Comunitária ocorreu também de uma maneira expressiva parr</p><p>melhorar a saúde mental das mães e bebês do programa.</p><p>Foi observado que, numa área situada não longe do Centro, mais de 207o das</p><p>crianças até os 4 anos sofriam de desnutrição. No estudo feito pelos técnicos do Vida,</p><p>notou-se que uma série de fatores psicossociais acompanhava o estado de desnutri-</p><p>ção. Encontrou-se também que os bebês desnutridos viviam com mães em estado</p><p>depressivo, o que tomava a interação mãe-bebê-mãe disfuncional. Entre os fatores</p><p>que levavam à depressão, estava a migração (perda de raízes), o abandono e a negli-</p><p>gência na infância das mães, o tempo de aleitamento curto, a falta do esposo ou</p><p>comDanheiro. entre outros.</p><p>É interessante notar que, no grupo controle, entre as mães pobres da Vila que</p><p>não tinham filhos desnutridos, a perda das raízes era compensada por terem parentes</p><p>próximos e por freqüentarem ou peftencerem à Associação dos Moradores local.</p><p>Sentiam-se apoiadas, podiam interacionar com a possibilidade da Associação desen-</p><p>volver o programa junto com o "Vida", colaborando com o crescimento das</p><p>potencialidades da entidade, tornando-se mais forte e podendo contribuir decisiva-</p><p>mente para o programa integrado de recuperação de crianças desnutridas. As mães</p><p>depressivas sentiam-se acolhidas, protegidas, participantes, melhorando sua depres-</p><p>são e a interação com seus bebês.</p><p>Eis aqui um claro exemplo de como se pode politicamente ajudar e potencializar</p><p>a capacidade de resiliência de determinados gn.rpos sociais. (Celia, 1992)</p><p>Um outro exemplo, muito signifìcatìvo, é o da participação comunitária no Fes-</p><p>tival de Teatro de Canela. Essa cidade, conhecida pelo seu potencial turístico, passou</p><p>a ser também um pólo cultural de referência não só estadual, mas nacional e interna-</p><p>cional, a partir de iniciativas tomadas com a participação comunitriria. Tal iniciativa</p><p>mobilizou</p><p>a comunidade canelense, a ponto de reforçar sua auto-estima, passando,</p><p>após os primeiros eventos teatrais, a ser realizadora de outros acontecimentos, de</p><p>referências educacionais, esportivas e ecológicas.</p><p>ma,ii</p><p>t i \ '31</p><p>as L.</p><p>fe s ti '</p><p>ou r:</p><p>ì r , r ' -</p><p>rÌì:::</p><p>C.-: ì</p><p>a \.::</p><p>: : ! . :</p><p>::-::</p><p>:.:+</p><p>: : : ,</p><p>: : : : :</p><p>:::e</p><p>: ;:5</p><p>,- '5</p><p>; -=</p><p>l.IFER.E}(</p><p>-:J</p><p>)der</p><p>ede</p><p>Itela</p><p>|.'OMO'Ì RABALHAIIIOS COM CRUPOS . IO5</p><p>O Festival surgiu há uma década, mais precisamente em 1987, num momento</p><p>em que se vivia a idéia de que nessa cidade, quando comparada com a vizinha Gra-</p><p>mado, tudo era diferente. Em Canela, as coisas não aconteciam por muito tempo.</p><p>Num trabalho realizado com vários canelenses, sugerimos a criação de um "Fes-</p><p>tival de Teatro Comunìtário" que abrigasse as várias manifestaçóes da comunidade,</p><p>as associações de bairros, dos adolescentes e seus professores que já se reuniam em</p><p>festivais nas escolas, entre outros exemplos.</p><p>Aliado à espera inconsciente da "alma da cidade" em busca de sua "encantaria"</p><p>ou referência, a mobilização grupal que possibilitou as artes cênicas, o esforço con-</p><p>junto da comunidade, trouxe o Festival, a continuidade do mesmo e a permanência da</p><p>motivação e mobilização comunitárias em várias áreas das atividades humanísticas.</p><p>Havia grupos naturaÌmente formados que necessitavam ser apoiados e reforça-</p><p>dos para potencializarem suas ações, pois Canela reunia em sua comunidade belos</p><p>exemplos de lideranças associativas, como grupos de professores, união de morado-</p><p>res, união de jovens e outros que necessitavam buscar espaços para a mostra de seus</p><p>talentos e possibilidades. (Celia, 1990)</p><p>Nesses exemplos referidos de participação comunitária, desde sua própria orga-</p><p>nização e desempenho nas atividades, ou mesmo passando pelos grupos de convivên-</p><p>cia, de apoio, de auto-ajuda, entre outros, podemos avaliar as possibilidades decor-</p><p>rentes das várias interações humanísticas que envolvem a área educativa, de expres-</p><p>são cultural, de favorecimento da saúde, de proteção dos indivíduos, enfim a luta na</p><p>construção de sua cidadania pela melhora da qualidade de vida, formando todos es-</p><p>ses componentes o que chamamos "Potenciais de Saúde"</p><p>É na observação, na escuta, no auxílio em forma de apoio, oferecendo espaços</p><p>físicos e psicológicos, que se podem preparar estratégias para potencìalizar as ativi-</p><p>dades individuais e coletivas existentes nos grupos humanos, para buscarem sua auto-</p><p>realização.</p><p>É função do profissional de saúde ter essa visão ampla, social, ecológica,</p><p>sistêmicada sociedade, dos indivíduos e de suas organizações;é pela visão humanística</p><p>interativa, integradora, que ele poderá agir, favorecendo a "resiliência" dos grupos</p><p>para que se preparem melhor para os desafios do dia-a-dia e do próximo milênio.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>CELIA, S. O teatro como lator de mobilização da comunidade. In: ORSOLIN, C. fualra, leÍlos e rotei-</p><p>ros, RS: IGEL, 1990.</p><p>CELIA, S.: ALVES, M.ì BEHS, B.; NUDELMANM, C.: SARAIVA, J.; SARAM, J.: Relatório da</p><p>Plenária do IV Congresso WAIPAD. Chicago, EUA, 1992.</p><p>FELDMAN, R.; SïFFMAN, A.i JUNY, K. Children at risk.EUA': Rutgers University Press, 1987.</p><p>PARKER, S.; ZUCKERMAN, B. Belnvioral and developnerttal pediatrics. EUA: Little Brown and</p><p>Company, 1995.</p><p>cha-</p><p>Saú-</p><p>la de</p><p>cla e</p><p>s dos</p><p>a eta-</p><p>heres</p><p>s cul-</p><p>)mo o</p><p>I SeUS</p><p>cessá-</p><p>ticipa-</p><p>a paÍa</p><p>% das</p><p>r Vida,</p><p>;nutri</p><p>estado</p><p>atores</p><p>)so ou</p><p>la que</p><p>trentes</p><p>local.</p><p>desen-</p><p>to das</p><p>ci siva-</p><p>s mães</p><p>lepres-</p><p>:ia\zar</p><p>ro Fes-</p><p>passou</p><p>ntema-</p><p>ciativa</p><p>;sando,</p><p>tos, de</p><p>11</p><p>Grupos de Auto-ajuda</p><p>CARLOS A.S.M. DE BARROS</p><p>"..- isto é a diütica da vida."</p><p>(lídeÍ de um grupo)</p><p>Desavisadamente, podemos, num primeiro momento, não reconhecer a amplitude da</p><p>agão e o valor suportivo dos grupos de auto-ajuda pelas finalidades educacionais e de</p><p>apoio mútuo, porque o ceme da ação terapêutica nesses grupos é a sugestão, sugestão</p><p>essa que foi necessária e adequadamente diferenciada no início deste século pelo Pai</p><p>da Psicanálise, que postulou um cientificismo na terapêutica. Toma-se oportuno escla-</p><p>recer que este capítulo é resultado de observações realizadas em grupos de auto-</p><p>ajuda.</p><p>Esta modalidade grupal é amplamente difundida e faz parte do "Projeto Saúde</p><p>para Todos no Ano 2000', da OMS. São os denominados self-help, com seus ma-</p><p>nuais operacionais de fundamento heurístico (conjunto de regras que conduzem à</p><p>solução de problemas) com valorização do fenômeno da sugestão para auxiliar as</p><p>pessoas a resolverem seus problemas de saúde e educacionais, decorrentes de um</p><p>evento desestruturador da qualidade de vida.</p><p>FUNDAMENTOS TEÓRICOS SOBRE GRUPOS DE AUTO-ÂJUDA</p><p>O gmpo de auto-ajuda, self-help, de auto-sugestão, procura auxiliar as pessoas a</p><p>resolver seus problemas relacionados a eventos traumáticos deconentes do acometi-</p><p>mento de doengas de natureza agudae, em especial, crônica; aos transtornos aditivos;</p><p>às incapacitações, a situações de causas existenciais e a traumas. São gmpos homogê-</p><p>neos no sentido de que seus participantes passam pelo mesmo sofrimento.</p><p>Rootes e Aanes (1992) conceituam o grupo de auto-ajuda baseados em sete</p><p>critérios: são de apoio mútuo e educacional, a liderança vem do interior do grupo,</p><p>reporta-se somente a um único evento desestruturador de vida, os membros do grupo</p><p>participam voluntariamente, não têm interesses financeiros ou fins lucrativos,</p><p>objetivam o crescimento pessoal dos integrantes, têm caníter anônimo e confidencial.</p><p>Os autores citados caracterizam oito princípios básicos de funcionamento dos grupos</p><p>de auto-ajuda: experiência compartilhada, educação, auto-administração, aceitação</p><p>de responsabilidade por si próprio, objetivo único, participação voluntária, concordân-</p><p>cia na mudança pessoal, anonimato e confidência.</p><p>108 r zrraenrvrm a osonro</p><p>Zukerfeld (1992), enfatizando a mudança psíquica no próximo século, através</p><p>dapsicanálise e da auto-ajuda, valorizaos grupos self-help, dizendo que"o comparti-</p><p>lhar experiências comuns proporciona aos seus integrantes uma enorme energia que</p><p>pode ser destinada para as exigências da vida, a ressocialização e a recuperação"</p><p>(p.77). O autor estabelece três hipóteses básicas para compreender o funcionamento</p><p>de auto-ajuda. Na h ipítese da homog eneidade, por mecanismos de identificação ocorre</p><p>a coesáo grupal, com o surgimento de alianças fratemais e a correspondente ação</p><p>transformadora. A segunda hipótese é a chamadamodelizaçõo, onde o mecanismo de</p><p>auto-ajuda será mais eficaz quanto maior for o compromisso emocional com paradig-</p><p>mas ou propostas explícitas de mudança ou de alguma ação determinada. Essas duas</p><p>hipóteses - a da lr omogeneidade e a da modelização - caracterizam, clinicamente, o</p><p>funcionamento das três anças: "a partir das semelhanças se gera a esperançâ e aumento</p><p>de confiança dos indivíduos em suas próprias capacidades" (p.80).</p><p>A terceira e última hipótese básica para compreender o funcionamento da auto-</p><p>ajudaê a daconfrontação, qüe é anecessidade dos membros do grupo de pôr à prova,</p><p>de confrontar sua subjetividade com os dados objetivos oriundos darealidade biológi</p><p>ca, psicológica e social. Por isso, quanto maior é o enfrentamento com a realidade,</p><p>maior a possibilidade de condutas saudáveis entre os membros do grupo de auto-</p><p>ajuda.</p><p>Zimerman (1993) assinala, quanto à formação dos grupos de auto-ajuda, que</p><p>eles podem ser do tipo espontâneo ol incentivado por algum técnico, com liderança</p><p>transitória ou eventual, ou com participação não-diretiva ou em disponibilidade para</p><p>quando o grupo necessitar. O funcionamento desses grupos homogêneos é de caracte-</p><p>ística autônoma.</p><p>Caracterizados os grupos de auto-ajuda, é necessário citar que os Alcoólicos</p><p>Anônimos (AA) nortearam todos os demais grupos com a filosofia de irmandade.</p><p>Essa filosofia se refere à informalidade nas reuniões, trocas de experiências entre</p><p>seus membros e o uso da confrontação, com um conseqüente aleÍa para os prejuízos</p><p>do consumo alcoólico e identificação dos mecanismos defensivos usados parajusti-</p><p>ficar o continuar bebendo. A filosofia da irmandade leva â uma atitude de auto-refle-</p><p>xão, dentro de um clima em que os membros participantes se sentem compreendidos,</p><p>apoiados e respeitados pelos seus pares, com a melhora da auto-estima.</p><p>Grupo de Pac</p><p>OGRU</p><p>de dois</p><p>consulü</p><p>do Sul-</p><p>h</p><p>um tipo</p><p>parte da</p><p>ção aÍtÍ</p><p>de funci</p><p>queixa r</p><p>articula</p><p>de quak</p><p>que neo</p><p>do medi</p><p>Cc</p><p>meta" el</p><p>dos mq</p><p>para am</p><p>vem refi</p><p>ao reuft</p><p>As</p><p>pessoíìs</p><p>como9</p><p>deradas</p><p>quenÍrs :</p><p>coorden</p><p>além de</p><p>motora I</p><p>rcalizaç</p><p>Ap</p><p>nominal</p><p>rotina d</p><p>ajudam</p><p>Na</p><p>assunto</p><p>pela ing</p><p>sorteio (</p><p>mentan(</p><p>po</p><p>privilég</p><p>senhora</p><p>que o s€</p><p>comendr</p><p>per, umÍ</p><p>ro grupa</p><p>eleva o</p><p>científic</p><p>desabafi</p><p>oBSERVAçAO DOS GRUPOS DE AUTO.AJUDA</p><p>Três grupos de auto-ajuda - de pacientes artríticos, de mulheres mastectomizadas e</p><p>de pessoas soro-positivas para HIV - foram observados durante cerca de 2 meses. As</p><p>caracteísticas, o funcionamento e os mecanismos de auto-ajuda são descritos a se-</p><p>guir. Inicialmente, foi feito um contato com os coordenadores destes grupos de auto-</p><p>ajuda, esclarecendo-se os motivos da observação com a preservação dos preceitos</p><p>éticos. A proposta foi apresentada pelo coordenador aos demais membros dos gru-</p><p>pos, que a aceitaram prontamente'.</p><p>'Agmdecemos aos gnrpos observados, à$ p€ssoãs participantes em seu anoniÍÌÌato e, em especial, às coordenadoÍâs, pela ajuda em</p><p>permitir qüe o observador divulgue os benefícios dos gÍupos de lulo-ajuda. Também agmdecemos aos assessoÍes dos Íespectivos</p><p>grupos, aos médicos Íeumâtologistâs Femando Appel da Silva e Cârlos Albeío Von Mühlen, do GRUPAL, à enfeÍmeirâ Eliane</p><p>Colgberg Rabin, do gÍupo de Ínastectomizâdas, e à psicóloga Cláudia Oliveirâ Domelles, do EncontÍo Positivo.</p><p>cor\1(] TR^B^Ì-HA]ÍOS COÀÍcRUpOS . 109</p><p>Grupo de Pacientes Artríticos de Porto Alegre (GRUPAL)</p><p>O GRUPAL é um grupo de auto-ajuda fundado em 3l de maio de I 98-1 por iniciativa</p><p>de dois médicos reumatologistas. Inicialmente, funcionor: na sala de espera de unr</p><p>consultório médico e, posteriormente, na sede da Associação Médica do Rio Grande</p><p>do Sul. Este grupo é o pioneiro em auto-ajudâ com artríticos, no Brasil.</p><p>De forma simplificada podemos caracterizar os artríticos como portadores dc</p><p>um tipo de doença auto-imune, com umâ etiologia ainda indeterminada. Na maior</p><p>parte dos casos, a evolução da doença é crônica, tendo como característica a inflama-</p><p>ção articular. A conseqüência dessa inflamação irá se exprcssar através de dificulda-</p><p>de funcional, seja para deambular ou até para segurar pequenos objetos. A dor é unra</p><p>queixa muito freqüente, mas há também os sinais extemos de caÌor, rubor e inchaço</p><p>articular. A artrite reumatóide é uma das formas de aÌlrite e costuma atingir pessoas</p><p>de qualquer ìdade, manifestando-se com mais frcqüência entre as do sexo feminino,</p><p>que necessitarão de tratamento multidisciplinar por período longo e, geralmente, usan-</p><p>do medicamentos.</p><p>Conforme o Informativo GRUPAL n" 5, de maio de 1991, o grupo tem como</p><p>meta, em seus encontros, "a troca de informação e o relato de experiências pessoais</p><p>dos membros do grupo, bem como a divulgaçiro de soluções cÍiativas encontradas</p><p>para amenizar o problema e atingir uma vida normal. Nos encontros, os grupos de-</p><p>vem reforçar recomendações como não fazer automedicação, comparecer reguÌârmente</p><p>ao reumatologista e não tÍocar receituário sem prévia autorização do médico".</p><p>As reuniões são semanais, com duas horas de duração e participação de 8 a l0</p><p>pessoas, em média. O clima é descontraído e alegre. Cada participante usa um crachá</p><p>com o seu nome e o logotipo do GRUPAL. Algumas usam pulseiras metálicas, consi-</p><p>deradas, por elas, energéticas. Ao clregar, as piìrticipantes depositam, na mesa, pc-</p><p>quenas sacolas que contêm doces ou salgados parzr a hora do Ìanche. Na mesa da</p><p>coordenadora se encontram livros de auto-ajuda, de orações e de letras de músicas,</p><p>além de gravador e pequenos objetos (artefatos utilizados para estimulação sensório-</p><p>motora do paciente, com o objetivo de diminuir ir dor e melhorar a função) para a</p><p>realização de exercícios com as mãos durante as reuniões.</p><p>Após os cumprimentos, a coordenadora inicia a reunião indagando a cada uma,</p><p>nominalmente, como foi a semana. Informalmente, passam a reÌatar situações de sua</p><p>rotina de vida: família, tarefas domésticas, visitas, assim como o uso de pomadas quc</p><p>ajudam nas dores, o uso de outros medicamentos e as consuÌtas médicas.</p><p>Na reunìão após um domingo de Páscoa, os presentes de chocolate foram o</p><p>assunto predominante. Algumas fizeram comentários sobre os prejuízos acarretados</p><p>pela ingestão exagerada de chocolate. Uma disse que, na próxima reunião, faria o</p><p>sorteio de um ovo de chocolate, o que deixa todas em alegre expectativa. Comple-</p><p>mentando, ela reforça que o ovo será dado por sorteio e não para qucm for a mais velha.</p><p>Podemos compreender, pela observação, que o fato de ser por sorteio e não pelo</p><p>privilégio da idade caracteriza a semelhança e igulldade entre eÌas. Em seguìda, unta</p><p>senhora comunicou a ausência de outra por tcr ido à coÌlsìilta médica. Outra comenta</p><p>que o seu fim-de-semana foi maravilhoso, tomando chimarrão debaixo da paineira.</p><p>:omendo "arroz de mãe, tão bom que é!", e que lbi muito fcliz na Páscoa. Sem interrom-</p><p>per. uma vai passando ìì outÍa os artefatos de massagear com as mãos. Este movimen-</p><p>to gmpal caracteriza a informalidade e a interaçaÌo. A coordenadora diz: "Esse grupo</p><p>eleva o ânimo das pessoas vítimas da dor, através da dcscontração, da informação</p><p>,'ientífica, da troca de idéias, das atividades manuais e do lazer c. em espccial. pelo</p><p>i:sabafo. isto é. a didática da vida".</p><p>110 . ZMERMAN & osoRlo</p><p>Neste momento, é realizada, pela coordenadora, a leitura científica de um artigo</p><p>sobre a maturescência feminina. Ao finalizar, indaga o que acharam da leitura. E uma</p><p>maneira estimulante para compartilhar suas experiências. Um aspecto importante</p><p>observado é que as pacientes vincularam ao tema lido fatos rotineiros relatados no</p><p>início da reunião e a sua própria história feminina.</p><p>Uma das participantes ressalta a importância do convívio familiar, mas observa</p><p>que também é importante ter a sua privacidade e ficar sozinha. Assim, evita o dese-</p><p>quilíbrio. "É muito importante paraìós receber afeto, exercer uma atividade e ajudaÍ</p><p>os outros."</p><p>Uma senhora, ao relataÍ a sua semana para as demais, conta um sonho com</p><p>situações traumáticas com crianças. Após, indaga sobre o que fazer com os sonhos</p><p>ruins. Uma diz que "não deve ficar ligada ao passado; procurar preencher o tempo em</p><p>casa, ocupâr-se é muito importante". Outra complementa a sua "interpretação do</p><p>sonho": "Tudo fica arraigado em ti, por isso, voltar ao passado é uma fase da vida,</p><p>depois passa". E um arranjo sugestivo, levando a prevalecer a razão e a ocupação</p><p>para não pensar no trauma. O grupo continua falante, todas opinando sobre os assun-</p><p>tos, fazendo exercícios com os "instrumentos fisioterápicos". Em seguida, é relatada</p><p>uma crônica de jomal: "A moça que chorava na sinaleira". Logo, uma senhora co-</p><p>menta que "o temporal (alusão à doença acometida) muda o rumo da vida; também</p><p>sou chorona, até ao ouvir o hino nacional aprendido no colégio". Várias citam situa-</p><p>ções com as quais se emocionam e enveredam pelos temas escolares. O assunto é</p><p>comentado por todas, comparando com o ensino atual, dos filhos e netos.</p><p>É realizada, pela coordenadora, a leitura de uma crônica que aborda as diferen-</p><p>ças entre as pessoas. Os comentários, após a leitura, são norteadores do funcionamento</p><p>grupal: "É importante conversarmos sobre o grupo, para evitar fofocas; somos pesso-</p><p>as e cada uma é diferente, temos qualidades e defeitos e podemos aprender com</p><p>todas; devemos ver o lado bonito das pessoas, por isso sentimos falta uma da outra,</p><p>para nos complementarmos".</p><p>A coordenadora dirige o olhar para o observador e relata que todas têm uma</p><p>lista com o nome, telefone, endereço e a data de aniversário. Uma liga para a outra</p><p>quando sente saudades. Uma participante diz: "O nosso grupo é homogêneo e sensacio-</p><p>nal; por essa ajuda mútua, somos energia circulante; quando uma está pm baixo e</p><p>outra mais pra cima, ocone o equilíbrio; assim a peteca não cai; muitas chegam ao</p><p>grupo com</p><p>a dor nas juntas, com o tempo essa dor desaparece; é a distração da dor".</p><p>A coordenadora encerra a primeira parte da reunião. Segue-se a hora do recreio,</p><p>do lanche. Todas se movimentim e alrumam a mesa com doies e salgados. É feita a</p><p>lista para o pedido de refrigerantes, que são pagos individualmente.</p><p>Inicia a segunda paÍe da reunião. A coordenadora diz ser a hora da música. O</p><p>caderno de letras de músicas é distribuído, sendo então escolhida uma música com a</p><p>aquiescência de todas. São cantadas com entusiasmo e alegria por todas, inclusive o</p><p>observador. No final de uma música, chega uma senhora que é cumprimentada por</p><p>todas. A coordenadoÍa ressalta que esta senhora é filha de uma ex-participante do</p><p>grupo, já falecida, e que "veio matar as saudades, visitando". Neste instante a coorde-</p><p>nadora indica nova letra de música, a conhecida "não posso ficar mais um minuto</p><p>sem você...". É expressiva a receptividade, a coesão grupal e a facilidade de lidar</p><p>com a dor. Depois das músicas populares, foi ligado o gravador com canto religioso.</p><p>Ocorre um movimento grupal em que âs participantes voltam para si, numa atitude</p><p>reflexiva.</p><p>É iniciado um exercício de visualização, segundo a orientação de um livro sobre</p><p>"A imagem que cura". É um método de relaxamento proprioceptivo e sugestivo de</p><p>melhor:</p><p>pelos pr</p><p>D</p><p>Com a,</p><p>chamad</p><p>denado</p><p>preseú</p><p>\</p><p>vo G4</p><p>colurn</p><p>GRL?I</p><p>residel</p><p>gunÍt(</p><p>A</p><p>um</p><p>$ie a</p><p>CrÇ-</p><p>I anlgo</p><p>E uma</p><p>corro r-R^Br\LHAÌ!Íos cont c*unos . L1.1.</p><p>melhora dos problemas e das dores, à medida que as partes do corpo são tocadas</p><p>pelos próprios dedos, com os olhos fechados.</p><p>Dando seguimento, é solicitado que apaguem as luzes e fechem as coninas-</p><p>Com a Ave Maria de Gounod como fundo musical, é repetida, por todiìs. uma oração</p><p>chamada "a benção da saúde", retirada de um livro que estava sobre a mesa da coor-</p><p>denadora. E feito um agradecimento nominal "aos médicos que assistem as pessoas</p><p>presentes, às ausentes, à reunião e às falecidas que pertenciam ao grupo".</p><p>Na segunda reunião observada, a coordenadora traz núm eros do jomal lrtfonnati-</p><p>vo Grupal, com artigos esclarecedores sobre a doença e o tratamento, além de uma</p><p>coluna de perguntas dos leitores, que são respondidas pelos médicos assessores do</p><p>GRUPAL. Nessa reunião, a primeira parte foi uma palestra informal de um médico</p><p>residente em reumatologia, que despertou muito interesse, provocando inúmeras per-</p><p>guntas.</p><p>A coordenadora esclarece que essa atividade é realizada quinzenalmente por</p><p>um médico que vem falar sobre um tema previamente combinado. Recebo o aviso de</p><p>que a reunião é suspensa quando chove ou faz muito frio no dia em que costuma ser</p><p>realizada (às segundas-feiras). Justificam que o frio e a chuva são prejudiciais ao</p><p>artrítico. Nessas ocasiões, o contato é telefônico.</p><p>Na terceira reunião observada, as participantes contam sobre a importância da</p><p>palestra médica, quando chega uma adolescente, membro do grupo. A coordenadora,</p><p>com o objetivo de não dificultar o andamento dos trabaÌhos, diz para a jovem: "Dá</p><p>um beijo geral". E esclarecido que ela é a maisjovem do grupo, é a mascote. O grupo</p><p>fala das dores, das dificuldades ao deambular, ao realizar as tarefas diárias e da dor</p><p>persistente. Quando citam as deformidades e as dificuldades em segurar objetos para</p><p>realizar tarefas diárias apontam para os pós, joelhos, braços e mãos. No intuito do</p><p>artrítico poder realizar a apreensão de colheres, facas, escovas de cabelo, etc., é ne-</p><p>cessário que esses objetos tenham mais volume do que comumente têm. Existe um</p><p>aparelho especial para enfiar os botões nas casas das roupas. Para as deformidades</p><p>dos pés, casas ortopédicas fabricam sapatos personalizados.</p><p>E Ìembrada, de forma enfática, uma frase expressa por uma senhora do grupo,</p><p>que realizava bonitos trabalhos manuais, mesmo com as deformidades: "Não importa</p><p>o que as mãos mostram, mas sim o que elas fazem". Esta senhora com artrose tinha</p><p>vergonha das deformidades das mãos e no grupo fez uma reflexão da sua vida, recor-</p><p>dando do cumprimento de seu papel como mãe, professora e pessoa, deixando de</p><p>lado a vergonha e se mostrando.</p><p>Uma senhora participante diz que quanto mais informações o artrítico e seus</p><p>familiares possuírem, mais possibilidades existirão para que as relações pessoais se-</p><p>jam mais harmoniosas, e a vida, mais digna de ser vivida.</p><p>Nesta reunião, o observador lembra da combinação do término de sua participa-</p><p>ção e agradece. E lembrado que, para o GRUPAL, "você não está sozinho, suas dores</p><p>e seus problemas são nossos também".</p><p>Grupo de Auto-ajuda de Mulheres Mastectomizadas</p><p>Este é um grupo de auto-ajuda que funciona no Serviço de Mastologia do Hospital de</p><p>Clínicas de Porto Alegre (HCPA), desde setembro de 1983, por iniciativa de uma</p><p>enfermeira, que mantém uma participação não-diretiva no funcionamento grupal. As</p><p>reuniões são semanais, com uma hora de duração, realizadas na sala do ambulatório.</p><p>As mulheres participantes passam por um processo de triagem feito pela enfermeira</p><p>trtante</p><p>dos no</p><p>bsen a</p><p>) dese-</p><p>aJudar</p><p>n com</p><p>sonhos</p><p>npo em</p><p>ção do</p><p>a vida.</p><p>upação</p><p>ilsSun-</p><p>elatada</p><p>oÍa co-</p><p>ambém</p><p>n situa-</p><p>sunto é</p><p>liferen-</p><p>amento</p><p>; pesso-</p><p>eÍ com</p><p>a outra.</p><p>'m uma</p><p>a outra</p><p>:nsacio-</p><p>t'airo e</p><p>sam ao</p><p>la doi ' .</p><p>recrelo.</p><p>1Ìel ta a</p><p>is ica. O</p><p>acoma</p><p>lusrve o</p><p>ada por</p><p>ante do</p><p>coorde-</p><p>minuto</p><p>de lidar</p><p>l ig ioso.</p><p>. atltude</p><p>ro sobre</p><p>st ivo de</p><p>t</p><p>112 r zrvnueN & osoRlo</p><p>responsável. As pacientes são oriundas do Serviço de Mastologia do HCPA, e tan-</p><p>bém de outras instituições, encaminhadâs, nesse caso, pela Legião Assistencial c:</p><p>Apoio ao Paciente de Câncer (LAAPAC) ou pelos próprios pacientes do grupo cì.</p><p>auto-ajuda. O tempo de permanência no grupo varia de 6 meses a 3 anos. As pacier-</p><p>tes realizam controle de saúde ambulâtorial periódico e recebem apoio e ajuda d:</p><p>voÌuntárias da LAAPAC, desde o diagnóstico do nódulo até o pós-operatório e, se fc:</p><p>o caso, na fase terÍninal, juntamente com os familiares. As voluntárias prestam apo:</p><p>afetivo e ajuda na aquisição de medicamentos, próteses mamárias, roupas e orient.-</p><p>ção sobre trabaÌhos manuais.</p><p>O grupo de auto-ajuda das mastectomizâdas, através da troca de experiêncir.</p><p>entre as participantes e de informação adequada, tem como objetivos: oportunizar.</p><p>expressão dos medos e fantasias sobre o câncer, superar os problemas da mutilaça:</p><p>com a retirada da mama doente, estimular a aderência ao tratamento com os diversc,</p><p>procedimentos e recomendações, cultivar a espcrança, valorizar a vida.</p><p>Antes das reuniões do gmpo de auto-ajuda, as participantes reaÌizam durant:</p><p>uma hora, sob coordenação das voluntárias, âtividades de trabalhos manuais diver-</p><p>sos, os quais são expostos fora do HCPA e vendidos pelas próprias.</p><p>Eventualmente, atendendo às necessidades do gmpo, são convidados profissir'</p><p>nais de saúde para prestar informações e dar orientação técnica às participantes.</p><p>Quanto à participação não-diretiva da enfermeira, esta se conceitua como "urn.</p><p>mola propulsora de ânimo". Uma voluntária da LAAPAC participâ do grupo, auxiìr-</p><p>ando com informações necessárias e facilitando o movimento grupal.</p><p>Foram observadas três reuniões consecutivas, no mês de abrilde 1996. O grup:</p><p>ocorre na mesma sala onde são feitos os trabalhos manuais com as voluntárias. A,</p><p>cadeiras são dispostas em círculo. A minha presença na condição de observador:</p><p>recebida com alegria e curiosidade. E feita a apresentação nominal de todas e mencic-</p><p>nado o tempo de mastectomia. A participante com l8 anos de cirurgia diz, alegremente.</p><p>que está bem e dirige seu olhar para qìiatro ìniciantes no grupo. Uma deÌas esclarec-</p><p>quc ainda não realizou a extirpação dâ mama, está em quimioterapia e foi recomendadr</p><p>por seu médico a participar do grupo como uma forma de preparação.</p><p>O tema centra-se nos depoimer'ìtos das novatas, que é o do impacto emociona.</p><p>com a descoberta do nódulo e a indicação da cimrgia. O rnedo de morrer foi grande</p><p>Uma jovem senhora diz que "estava na praia quando percebeu o nódulo e nunc:</p><p>imaginou ser câncer". Após breve pausa, diz: "Vê como é a vida; bronzeada pelo soÌ.</p><p>bonitinha e logo passando por tudo isso".</p><p>O assunto é angustiante, as veteranas do grupo ficam se olhando, e uma delas.</p><p>com dois nleses de mastectomia, levanta o braço e diz: "Eu já estou assim; antes, nã.</p><p>podia levantar os braços, nem fazer quase nada por causa da dor; fiz os exercícios eji</p><p>estou bem melhor". Várias senhoras levantam e movimentam os braços, olhandc</p><p>paÍa as novatas, como se dissessem "vão melhorar", dando uma mensagem de esperan-</p><p>ça. A enfermeira complementa com informações técnicas sobre as complicações ósteo-</p><p>musculares da mastectomia, a impoÍtância da prática dos exercícios e a visualizaçac</p><p>das que já passaram por essa fase do tretamento. E mlrclnte o alívio das novatas.</p><p>expresso em tímidos sorrisos ao saber do tempo de sobrevida das outras e do resgate</p><p>das relações pessoais. Uma delas já assinala para a novata em quimiolerapil qut</p><p>ainda não rcalizou a mastectomia que, sabendo como será depois, sua dor é aliviad:</p><p>e que terá todo o apoio no grupo. E enfatiza: "O grupo ó maravilhoso". Com o movi-</p><p>mento da cabeça e sorrisos, todas âs veteranas concordam. Aqui já observamos c</p><p>fenômeno das três anças: semelhança, esperança e confiança.</p><p>"Varr</p><p>mam'</p><p>mes I</p><p>do. E</p><p>pod:</p><p>con'Ì:</p><p>que.</p><p>uÌT:l i</p><p>tì; ":</p><p>ç: ; r</p><p>, : : : :</p><p>: : ; . . :</p><p>: : : : f</p><p>: I :-:l</p><p>:=:': '</p><p>. - . :</p><p>3</p><p>: : : ,T</p><p>: : : i</p><p>: : : -</p><p>! t - - I</p><p>:t_l</p><p>: _:-</p><p>-r{</p><p>: : :r</p><p>--Éi</p><p>-.i:l: :q</p><p>' :r3!l</p><p>-:..:ri</p><p>:.rÍI</p><p>-d</p><p>:;rd</p><p>:,:q</p><p>_:ví</p><p>'q</p><p>I</p><p>COÀIO l RABALHAITIOS COM GRUPOS</p><p>'</p><p>11.3</p><p>i ! .</p><p>I : :</p><p>) : :</p><p>la: -</p><p>I :- '</p><p>: : : :</p><p>] : :</p><p>l - : : -</p><p>.::::</p><p>i : . -</p><p>Lt l :</p><p>t \ : . -</p><p>ì - - ,</p><p>: : - -</p><p>e:.::</p><p>ra- i</p><p>Ì.ir. J r</p><p>) >: . .</p><p>El f , r .</p><p>. nt ._</p><p>s3r:</p><p>3tJn-</p><p>SIa(.ì-</p><p>':Ìtiì-i.</p><p>sgarc</p><p>r qu:</p><p>, ladtr</p><p>xo\ i -</p><p>Ìos 0</p><p>O grupo silencia em atitude reflexiva, a enfermeìra estimula a verbalização:</p><p>"Vamos lá, pessoal". Uma inicia contando quejá sabia do diagnóstico de câncer pela</p><p>mamografia. Decidiu fazer consulta a outro serviço para a cirurgia. Entregou os exa-</p><p>mes para o doutor, que olhou, chamou outro médico e ficaram afastados, cochichan-</p><p>do. Ela disse: "Doutor, não é preciso cochichar, eu sei que tenho câncer, o senhor</p><p>pode falar alto". Aceitou a indicação ciúrgica e no dia seguìnte foi operada e "Aqui</p><p>estou, no grupo, e bem". Com rápido movimento aproxima a mão do seio "que está</p><p>com prótese". Uma observação: todas âs mastectomizâdas presentes usam uma prótese</p><p>que, na maioria, é confeccionada pelas voluntárias em pano com painço (grãos de</p><p>uma gramínea, alimento para aves), e que, pela visualização, não se consegue identi-</p><p>ficar qual a mama ausente.</p><p>Cada uma procura verbalizar o impacto com a descoberta do câncer, uma doen-</p><p>ça potencialmente fatal, e com a extirpação do seìo - órgão sensível e carregado de</p><p>afeto -, acompanhada da fantasia da perda do sentimento de feminilidade. Uma</p><p>senhora mastectomizada diz "que ficou torta, sem o peso da mama e, por vezes,</p><p>ficava segurando no local". Quando começou a usar a prótese de painço melhorou de</p><p>postura e fica de sutiã o tempo todo, tirando apenas para o banho. Outra diz que</p><p>dorme com a prótese, sentindo-se melhor das dores nas costas. Todas valorizam o uso</p><p>da prótese e os exercícios para movimentar o braço do ìado operado. Uma relata que</p><p>'lá antes da cirurgia ficava treinando os exercícios para diminuir o edema, a dor</p><p>ensina a gemer, por isso os cuidados com a saúde". Quando sente qualquer mal-estar</p><p>no tórax, ela consulta no ambulatório. Outra senhora completa: "E o medo do cân-</p><p>cer".</p><p>Na semana seguinte, é indagado à novata, ainda não operada, como estava. Ela,</p><p>sorrindo, diz: "Melhorei, não sei como". Sorrisos gerais. Uma diz: "É porque estí no</p><p>grupo, ouvindo e falando sobre a doença, o tratamento e o apoio que uma dá pra outra</p><p>e recebemos aqui no grupo". Uma completa: "Todas passam igual". Uma senhora</p><p>com dois anos de mastectomia sob controle diz que ainda lembra da notícia do diag-</p><p>nóstico: "Ficava me perguntando, por que eu?". Diz que sente "um choro recoÌhido</p><p>ao falar do câncer". A do lado faz movimentos para cima com os ombros e diz:</p><p>"Deixa pra lá, não fala mais nisso, procura lembrar o que já conseguiste depois da</p><p>mastectomia". Uma delas, chamando-a pelo nome, de forma afetiva, dizlhe: "Tu</p><p>foste empurrada pelo grupo e melhoraste; não se pode esquecer do câncer porque</p><p>todos os dias, no banho e ao fazer exeÍcícios, a gente lembra, mas vai se vivendo".</p><p>O grupo como que emerge de uma atitude melancólica ao lidar com a dura</p><p>realidade da doença e valoriza o permanecer vivo. Logo, uma senhora conta como faz</p><p>para freqüentar a piscina do clube com os familiares. Já sai de casa com a prótese e o</p><p>maiô de /ycra colante por baixo da roupa. No clube não precisa trocar, pois "ninguém</p><p>precisa saber". Após sair da piscina, tranca-se no banheiro e troca de roupa. Uma das</p><p>participântes diz que sente vergonha e que poderia ter uma piscina só delas. Tal pro-</p><p>posição não é aceita por todas, que verbalizam sua discordância para a proponente de</p><p>forma afetiva e convincente. É dito que, se assim for, aumenta o preconceito e reforça</p><p>o medo do câncer.</p><p>No final de cada reunião é a hora da oração. A voluntária abre uma página</p><p>aleatória do livro de preces e passa para uma das senhoras fazer a leitura de otimismo</p><p>e de esperança. Diversas senhoras usam os adomos de pulseiras, as chamadas ener-</p><p>géticas.</p><p>Na última reunião observada, predominou o tema da vulnerabilidade humana</p><p>com a doença. Uma senhora relata a mudança ocorrida em si após o diagnóstico do</p><p>câncer e a mastectomia: "Senti que não somos tão fortes como pensamos i agora acei-</p><p>1L4 . ZMERMAN & osoRlo</p><p>to todos como são, sem preconceitos". Faz um breve silêncio e num movimento com</p><p>as mãos, direcionada a todas do círculo diz: "Todos somos iguais e frágeis; a doença</p><p>nos leva a pensar no que somos, e o grupo é a prática". Conelacionei a expressão</p><p>"didática da vida", utilizada no grupo das artríticas, com a das mastectomizadas "o</p><p>grupo é a prática".</p><p>Grupo de Auto-ajuda Encontro Positivo</p><p>O Encontro Positivo é um grupo de auto-ajuda pera pessoas infectadas com o vírus</p><p>da AIDS, que funciona desde novembro de 1995 no GAPA - Porto Alegre, RS. Este</p><p>grupo é coordenado por três mulheres infectaras que foram treinadas pela equipe</p><p>técnica do GAPA e que recebem assessoria de uma psicóloga.</p><p>O GAPA é uma instituição civil, sem fins lucrativos, que funciona em sede</p><p>própria. O trabalho técnico é voluntário. Através de plantáo de aconselhamento, visi</p><p>ta domiciliar, serviço de apoio terapêutico - individual e em grupo - e de grupo de</p><p>auto-ajuda, presta-se apoio às pessoas infectadas ou com a doença manifestada.</p><p>As reuniões do grupo de auto-ajuda, de periodicidade semanal e com duas horas</p><p>de duração, ocorrem numa graÍìde sala do GAPA, às quartas-feiras à noite.</p><p>Antes da observação das reuniões, foi feito um contato con a psicóloga asses-</p><p>sora das coordenadoras, expondo-se os motivos e soli:itioa a permissão para a práti-</p><p>ca. que foi prontamente aceita por todos.</p><p>Na primeira reunião observada, em abril de 1996, as 20 pessoas participantes do</p><p>grupo foram divididas, por iniciativa de uma das coordenadoras, em dois subgrupos</p><p>com temáticas diferentes: tratamento altemativo e boas-vindas aos novos pacientes.</p><p>Fiquei observando o subgrupo de tratamento alternativo, constituído por 12 pessoas.</p><p>Nas extremidades do sâlão estavam os dois subgrupos separados e em círculos. A</p><p>coordenadora iniciou, perguntando nominalmente, para cada um, o que tem desco-</p><p>berto e executado como tratamento altemativo para a infecção. Um rapaz relata que</p><p>esteve em outro Estado, fazendo consultas com uma química e comprou poções e</p><p>chás com ervas de ação terapêutica. Todos ouvem atentamente. Ele esclarece deta-</p><p>lhes quanto àficha preenchida, os depoimentos de "cura" e o nome de pessoas conheci-</p><p>das no meio artístico que lá estiveram buscando ajudà. Uns indagam sobre confiabi-</p><p>lidade e segurança, e outros dizem que 'ludo é válido fazer". As opiniões divergentes</p><p>fluem, um não espera o outro terminar de falar. A coordenadora maneja, pedindo</p><p>silêncio, e que deixem o falante concluir por ser importante para todos. Outro reinicia</p><p>dizendo</p><p>da importância da alimentação natural, evitando cames vermelhas e enlata-</p><p>dos. Outro complementa que atividade ao ar livre é bom. Novamente ocorrem conver-</p><p>sas paralelas, a coordenadora diz: "Pessoal, vamos ouvir o colega". Outro conta que</p><p>há 4 anos sabia que estava infectado, quando seu parceiro faleceu de AIDS. Esperou</p><p>1 ano e meio para fazer o exame. Quando foi buscar o resultado, a médica perguntou</p><p>se estava acompanhado. Respondeu à médica: "Não preciso, já sei do resultado".</p><p>Iniciou o AZT, interrompendo por passar mal com enjôos e por voltar a tomar cerve-</p><p>ja. Depois de um tempo, reiniciou a medicação e a alimentação natural. Outro, nova-</p><p>mente, valoriza o uso dos naturais, tomando a vida mais saudável.</p><p>De repente, um breve silêncio, e um honem diz que "O vírus veio para punir".</p><p>Logo, uma mulher não concorda. As conversas paralelas retomam, o clima fica dis-</p><p>cursivo. A coordenadora maneja, em tom de voz mais alto, dizendo: "Deixa ele falar</p><p>de suas coisas". Uma mulher diz: "São tuas culpas". Outro diz: "O sexo é muito</p><p>bom". Risos gerais, opiniões diversas, movimentos de toques e carícias afetivas entre</p><p>os qu</p><p>mals</p><p>ca" di</p><p>com0</p><p>perfu</p><p>pesso</p><p>mobil</p><p>cabeç</p><p>cias c</p><p>tenÌát</p><p>de ter</p><p>grantr</p><p>rado e</p><p>para a</p><p>(</p><p>nal er</p><p>tempo</p><p>troca c</p><p>des pe</p><p>cidade</p><p>tocam</p><p>"Pessc</p><p>cantar</p><p>do.Ér</p><p>ra con</p><p>própri;</p><p>À</p><p>Quand</p><p>L</p><p>assuntl</p><p>sinha t</p><p>opiniõr</p><p>desinte</p><p>paralel</p><p>aqulet:</p><p>que ten</p><p>écom,</p><p>coorde:</p><p>seguid:</p><p>ra lemt</p><p>Em tor</p><p>proteg€</p><p>grupo f</p><p>"Quanc</p><p>relatam</p><p>um mer</p><p>hospita</p><p>dos em</p><p>enxova-</p><p>anima r</p><p>os que estão sentados juntos. A coordenadora retoma a palavra, estimulando os de-</p><p>mais a falarem. O que primeiro relatou da viagem, buscando remédios com a quími-</p><p>ca, diz de forma bombástica: "O vírus é intrusivo na minha vida, ele causou estragos</p><p>como um alien saindo de dentro". Encosta a mão no peito e afasta, dando a idéia de</p><p>perfuração torácica. Outro logo complementa: "Ele entrou sem ser chamado". As</p><p>pessoas movimentam-se na cadeira, a forma dramática de expressar a infecção virótica</p><p>mobiliza grande ansiedade, como uma morte anunciada. A coordenadora diz que a</p><p>cabeça (aludindo ao psiquismo) ajuda ou prejudica a doença. Vários relatam experiên-</p><p>cias de atendimento psicoterápíco e uso de técnicas altemativas. Com a mudança</p><p>temática, a ansiedade grupal vai se reduzindo. E comentada a busca de alívio e o uso</p><p>de terapia altemativa. Reconheço nas pessoas as mesmas pulseiras usadas pelos inte-</p><p>grantes dos outros grupos de auto-ajuda e um anel chamado Atlanta, também conside-</p><p>rado energético. No breve intervalo, é oferecido café e chá. Uma jovem participante,</p><p>para auxiliar seu sustento, traz doces para vender.</p><p>Os dois subgrupos reúnem-se em círculo maior, sendo feita a apresentação nomi-</p><p>nal e mencionado o tempo de infecção do vírus. Os novatos ficam esperançosos pelo</p><p>tempo longo de alguns presentes na reunião. O propósito deste segundo momento é a</p><p>troca dos assuntos discutidos anteriormente. Um dos novatos à reunião relata dificulda-</p><p>des pessoais ocorridas após a infecção, perdendo seu emprego e tendo de mudar de</p><p>cidade. O seu relato deixa todos comovidos. Alguns se aproximam dos outros e se</p><p>tocam nas mãos, nos cabelos, e cochicham. A coordenadora do outro subgrupo diz:</p><p>"Pessoal, ele (o que relatou o efeito desestruturador) está de aniversário", e inicia a</p><p>cantar e bater palmas com o "parabéns a você". O aniversariante chora, sendo acalenta-</p><p>do. E retomado o tema da influência do estado emocional na infecção. A coordenado-</p><p>ra conta sua experiência com os tratamentos e, com as mãos direcionadas para si</p><p>própria, verbaliza calmamente: "Eu digo pra ele (o vírus), te aquieta".</p><p>Na reunião seguinte está escrito no quadro de avisos: Como contar? Por quê?</p><p>Quando? Grupo de novos: recepção. Negociação da camisinha.</p><p>O grupo inicia no horário, com 10 pessoas presentes, e a coordenadora lê os</p><p>assuntos agendados. Ocorre uma discussão sobre a responsabilidade no uso da cami-</p><p>sinha e corno contar ao novo parceiro que a pessoa está infectada. Todos emitem</p><p>opiniões diversas. Um diz, com movimentos de mãos, que está impotente e ficou</p><p>desinteressado sexualmente após saber da infecção. Vários sorrisos e comentários</p><p>paralelos. A coordenadora inÍerrompe um comentário pomográfico, dizendo: "Te</p><p>aquieta". O assunto da transmissão retoma. Alguém levanta a questão de "quem diz</p><p>que tem que dizer? Onde está escrito?". Uma pessoa afirma que transar com estranho</p><p>é com camisinha, a responsabilidade é de todos, de nós infectados e dos outros". A</p><p>coordenadora lembra a importância de evitar a reinfecção, que é prejudicial. Em</p><p>seguida, é feito o comentário de que "o pau é esponja", pegando tudo. A coordenado-</p><p>ra lembra dos ferimentos, pelo atrito das relações, como porta de entrada do vírus.</p><p>Em tom jocoso, outro diz que "tem de usar camisinha no dedo, na língua, para se</p><p>proteger". Ocorrem risos, a coordenadora aguarda e retoma aos temas agendados. O</p><p>grupo faz comentários sobre a atitude preconceituosa e de estigma social com a AIDS.</p><p>"Quando é homem, é bicha; se mulher, é drogada ou prostituta". Os_ participantes</p><p>relatam situações de rechaço ocorridas com eles no convívio social. E relatado que</p><p>um membro do grupo teve episódio diarréico, com desidratação, e foi conduzido para</p><p>hospitalização. Os participantes ficam pensativos e procuram saber detalhes, interessa-</p><p>dos em ajudar. Em seguida, é assinalado que uma participante grávida necessita de</p><p>enxoval para a criança. Vários se dispõem a trazer ob.jetos e roupas. O grupo se</p><p>anima de novo. Alguém dá notícias de outros GAPAs. São mostradas reportagens</p><p>coMorRAaALHAMos cur u*u"ur . LL5</p><p>116 . ZMERMAN & osoRlo</p><p>com atitudes de militância dos direitos para todos. É sugerida a confecção de camise-</p><p>tas do Encontro Positivo e o que pode ser escrito. Uma pessoa sugere um logotipo e</p><p>a expressão "AIDS, Amor, Rebeldia, Aceitação". A coordenadora propõe, e todos</p><p>aceitam, trazer as sugestões de logotipos na próxima reunião.</p><p>Observo que uma das três coordenadoras anota num cademo o nome dos parti-</p><p>cipantes e os assuntos debatidos com sugestões e opiniões.</p><p>Finalizando, uma das coordenadoras informa a alteração da data da próxima</p><p>reunião, devido ao uso da sala para treinamento do voluntariado do GAPA. Também</p><p>avisa que na próxima reunião do grupo será realizada uma palestra sobre novos me-</p><p>dicamentos. A coordenadora enfatiza para todos os presentes que, dependendo da</p><p>necessidade e interesse do grupo Encontro Positivo, são convidados profissionais de</p><p>saúde para realizar palestras educativas e informativas.</p><p>COMENTÁRIOS DAS OBSERVACÕES</p><p>1. Os gmpos dos pacientes artríticos, mulheres mastectomizadas e soro-positi-</p><p>vos para o HIV satisfazem as características necessárias da auto-ajuda: são de apoio</p><p>mútuo e educacional, a liderança emerge entre os pârticipantes com a aceitação de</p><p>todos, os membros são voluntários, não têm interesse pecuniário, procuram crescimen-</p><p>to pessoal e têm caráter anônimo e confidencial.</p><p>2. A sugestão é o ponto comum dos grupos de auto-ajuda, emergindo dos fenôme-</p><p>nos identificatórios entre seus membros e da força de coesão grupal dos assemelha-</p><p>dos.</p><p>3. Na busca do alívio do efeito desestruturador, causado pelo evento traumático</p><p>da doença e seu tratamento, o compartilhar experiências entre seus homogêneos é um</p><p>fator importante.</p><p>4. As coordenadoÍas e os participantes do grupo procuram fazer com que os</p><p>demais, em especial os novatos, sintam-se confortáveis, aceitos e estimulados a</p><p>verbalizar seus anseios.</p><p>5. Nos três grupos de auto-ajuda observados, além da aderência ao tratamento</p><p>especializado, todos utilizam, com uma maior ou menor crença, o recurso mágico.</p><p>sugestivo, para alívio do seu sofrimenlo.</p><p>6. No grupo dos artíticos e mastectomizadas é valorizado um momento de me-</p><p>ditação, com a leitura de preces e orações religiosas.</p><p>7. Poderíamos dizer que o mecanismo básico suportivo no grupo de auto-ajuda</p><p>é o fenômeno da sugestão, que procura "colocar uma pedra em cima", abafando a</p><p>trama conflitiva individual, focalizando a situação desestruturadora atual e a pessoa</p><p>acometida juntamente com todos: "Todos estão no mesmo barco". A linguagem</p><p>é</p><p>única e familiar, buscando o crescimento pessoal por meio de aceitação, estímulo e</p><p>apoio, porque o participante é valorizado como uma pessoa humana com suas</p><p>potencialidades para enfrentar o efeito desestruturador do transtomo acometido em</p><p>si e com o apoio mútuo e solidariedade dos participantes do gÍ1Ìpo. Embora se reconhe-</p><p>ça os benefícios dos grupos de auto-ajuda, estes têm caráter adaptatìvo e não-resolu-</p><p>tivos.</p><p>8. Tialvez pudéssemos refletir sobre as mensagens emergentes nos grupos observa-</p><p>dos - "didática da vida" (artríticos), "prática da vida" (mastectomizadas) e "o vírus é</p><p>intrusivo" (Encontro Positivo) -, dizendo que todos os eventos traumáticos que pos-</p><p>sam le</p><p>ca da'</p><p>as,ea</p><p>mento</p><p>veis. r</p><p>REFERÊNCI</p><p>ZIÌ\{ER</p><p>ZUKEJ</p><p>ROOTI</p><p>ar,l</p><p>s</p><p>I</p><p>t</p><p>a</p><p>a</p><p>é</p><p>e</p><p>s</p><p>n</p><p>!</p><p>F</p><p>l-</p><p>é</p><p>F</p><p>COMOTRABALHAMOS COM CRUPOS . 117</p><p>sam levar ao desequilíbrio são intrusivos à homeostase e à negação da morte. A práti-</p><p>ca da vida é não viver preconceituosamente: Todos são frágeis e iguais como pesso-</p><p>as, e a "didática da vida" é o convívio humano através da palavra, na busca do entendi</p><p>mento e aceitação do "como ser, como estar", reconhecendo as diferenças inevitá-</p><p>veis, mas sob o prisma do respeito mútuo.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>ZIMERMAN, D.E. Fundamentos básìcos das grupoterapias, Pofio Alegre: Artes Médicas, 1993.</p><p>ZUKERFELD, R. Ácto bulímico, cuerpo y tercera tópica. Buenos Aires: Ricardo vergara, 1992.</p><p>ROOTES, L.E.t AANES, D.L. Á conceptüal Íramework for understandíng self-help groups: hospital</p><p>and community psychiaÍtc, washington, 43(4):3'19-81, 1992.</p><p>t</p><p>I</p><p>I</p><p>I</p><p>'Jt</p><p>T2</p><p>Como Agem os Grupos</p><p>Terapêuticos</p><p>DAVID E. ZIMERMAN</p><p>Em todo e qualquer campo grupal, sempre existe a presença simultânea de fatores</p><p>disruptivos e coesivos, harmônicos e desarmônicos, da mesma forma que também</p><p>sempre estão presentes, de modo concomitante, elementos conscientes e também os</p><p>inconscientes, estes últimos de aparecimento manifesto ou subjacente.</p><p>Cabe uma analogiacom uma orquestra em que os diversos instrumentos, executa-</p><p>dos pelos respectivos músicos e sob a direção de um mâestro, tanto podem interpretar</p><p>suas partituras em perfeita sintonia - quando então produzem um generalizado esta-</p><p>do de bem-estar - como podem entrar em desarmonia pela desafinação de algum</p><p>executante ou por falhas do maestro, e todo conjunto pode desandar.</p><p>Da mesma forma, de acordo com o tipo e a finalidade do grupo constituído,</p><p>paÍicularmente com a eficácia da direção do coordenador do grupo em pauta, podem</p><p>ser construídos distintos ananjos entre os fatores sadios e os patológicos de cada um</p><p>e do grupo como uma totalidade. Então, do que depende um grupo para seu destino</p><p>ser de crescimento, estagnação ou de extinção? Fundamentalmente, ele depende do</p><p>melhor ou pior aproveitamento da potencialidade dos múltiplos vetores que fazem</p><p>parte integrante do campo grupalístico, sendo que, utilizando a mesma metáfora mu-</p><p>sical, alguns "instrumentos" são mais úteis e mais "executados" em algumas "compo-</p><p>sições grupais", enquanto outras composições exigirão que outros instrumentos se</p><p>sobressaiam, embora todos eles estejam virtualmente presentes e conjugados entre si.</p><p>Este capítulo vai se restringir a abordar os fatores instrumentais dos grupos que</p><p>estão precipuamente voltados para alguma finalidade terapêutica, quer esta seja pró-</p><p>pria de grupos operativos, grupoterapia lato senso, ou no sentido estrito de grupoterapia</p><p>psicanalítica.</p><p>Antes de mais nada, é útil enfatizar que nem tudo que se passa num campo</p><p>grupal terapêutico deve ficar limitado à busca e à resolução de conflitos. O ser huma-</p><p>no tem uma tendência inata para querer saber, criar, brincaq cuÍir prazeres e lazeres,</p><p>e também para filosofar [vem dos étimos gregos pàllos (amigo de) + sopàas (conhe-</p><p>cimentos)], sob uma forma que está presente em todas as culhrras humanas conheci-</p><p>das, que é a de conhecer de onde ele veio e para onde vai, o que ele é, por que e para</p><p>que vive; em resumo, todo indivíduo no fundo quer saber quem ele é, e qual é o seu</p><p>papel no contexto grupal, social ou universal em que está inserido.</p><p>Como esquema didático de exposição, segue uma apresentação dos principais</p><p>fatores que conconem para uma ação de coesão, harmonia e integração, com vistas a</p><p>120 . zrvenunn a osonro</p><p>um crescimento mental, ou, confolme a finalidade do grupo, a possibilidades curati-</p><p>vas.</p><p>Setting. A organização de um enquadre através da combinação de regras e nor-</p><p>mas que, embora possam ter alguma flexibilidade, devem ser cumpridas e preserva-</p><p>das ao máximo vai muito além de uma necessidade normativa unicamente de ordem</p><p>prática. A ação terapêutica do settlng consiste no fato de que ele estabelece:</p><p>. Uma necessária delimitação e hierarquia dos indivíduos entre si e, principalmen-</p><p>te, a desejável distância que deve ficar mantida entre eles e o grupoterapeuta.</p><p>Esse aspecto é particularmente relevante quando se trata de um grupo com pacien-</p><p>tes bastante regressivos, pois eles têm tendência auma simbiótica indiscriminação</p><p>entre o "eu" e o "outro", e, por conseguinte, a noção de limites está muito prejudi-</p><p>cada.</p><p>. O enquadre, estabelecido e mantido, representa a criação de um novo espaço,</p><p>onde podem ser reexperímentadas tanto as antigas vivências emocionais que fo-</p><p>ram mal resolvidas como as novas experiências emocionais que o grupo está</p><p>propiciando.</p><p>. Um grupo que permanece coeso funciona como sendo uma nova família, e, espe-</p><p>cialmente em grupos com pacientes depressivos, esse fato representa a reconstru-</p><p>ção e a restauração da família original que, nesses pacientes, coshrma estar intema-</p><p>lizada em cada um deles como estando dispersa e destruída.</p><p>. Em grupos como os de "auto-ajuda", a homogeneidade dos participantes favore-</p><p>ce que cada um assuma a sua doença, ou limitação, com menor culpa e vergonha</p><p>e com abrandamento da terrível sensação de se sentir um marginal diante das</p><p>pessoas "normais".</p><p>. A importância do setting consiste no fato de que ele é um valioso "continente"</p><p>das necessidades e angústias de todos.</p><p>Continente. Bion nos ensinou que em qualquer indivíduo, ou grupo, há um</p><p>"conteúdo", representado pelo seu contingente de necessidades, angústias, emoções,</p><p>ansiedades, defesas, etc., e, portanto, necessita de um "continente" que possa conter</p><p>o referido conteúdo (a palavra continente deriva de continei, que, em latim, quer</p><p>dizer conter). Assim, desde que nasce, o ser humano necessita vitalmente que a mãe</p><p>exerça adequadamente essafunção de acolher, reter durante algum tempo, descodificar</p><p>e dar um significado, um sentido e um nome às experiências emocionais vividas pela</p><p>criança.</p><p>Na situação de terapia individual, cabe ao psicoterapeuta exercer essa função;</p><p>nas grupoterapias, acontece um fato novo: não é somente o grupoterapeuta que executa</p><p>este papel, porém a própria gestalt grupal como uma abstração funciona com a açào</p><p>terapêutica de servir de continente para cada um em separado, e para a coesão do</p><p>todo grupal. Notadamente com pacientes bastante regressivos (psicóticos, borderline,</p><p>psicossomáticos, regressivos graves, drogadictos, etc.), essa função do grupo como</p><p>um novo continente adquire uma importância de primeira grandeza.</p><p>A função "continente" antes referida também é conhecida como holding</p><p>(conceituação de Winnicott), e o próprio Bíon também a chamava "capacidade de</p><p>rêveie" e "função alfa". Esta última alude mais especificamente ao exercício de</p><p>funções que são fundamentais para a estruturação do psiquismo da criança e que</p><p>devem servir como um modelo para o filho. E útil lembrar que, especialmente com</p><p>p aclenl</p><p>grupon</p><p>I</p><p>te no fa</p><p>seastü</p><p>mãe nã</p><p>menle I</p><p>manem</p><p>experiê</p><p>Ni</p><p>de mod</p><p>insensÍ</p><p>ra com</p><p>conflitc</p><p>como e</p><p>na, e et</p><p>\-j</p><p>delo de</p><p>uns piìr</p><p>À</p><p>em grà</p><p>ficam b</p><p>terapeu</p><p>abrir ur</p><p>conslÍu</p><p>identifi</p><p>um delr</p><p>Fr</p><p>uma "g</p><p>identifi,</p><p>ela trad</p><p>cada ur</p><p>espelho</p><p>de reco</p><p>acepçõr</p><p>. Cad</p><p>ou0</p><p>. Rec</p><p>' Ser</p><p>grar</p><p>. Oir</p><p>vita</p><p>' Acr</p><p>der</p><p>COI\íO TRABALHAÌIIOS CoIÍ cRUPoS . L2L</p><p>pacientes regressivos, como os anter iormente mencionados, a função de um</p><p>grupoterapeuta é isomórfica com a dos cuidados mâtemais originais com os filhos.</p><p>Modelo de identiÍìcação. A importância da mencionada "função alfa'consis-</p><p>te no fato de que uma crianca somente poderá desenvolver certas capacidades de ego,</p><p>se a sua mãe (no sentido genérico dessa palavra) as utilizou com o filho. Assim. se a</p><p>mãe não possuir uma capacidade de, por exemplo, ser um adequado continente. ceniì-</p><p>mente o filho também não possuirá essa mesma capacidade. O mesmo vale para a</p><p>maneira de perceber e lidar com os acontecimentos da vida, a forma de pensar as</p><p>experiências emocionais, o tipo de significação que empresta aos fatos cotidianos, etc.</p><p>Na situação de um campo grupal, é ao grupoterapeuta que cabe essa função alfa.</p><p>de modo que, indo muito além das interpretações propriamente ditas, sob uma forma</p><p>insensível, a totalidade do grupo vai absorvendo o "jeito"e se modelando pela manei-</p><p>ra como o terapeuta encara as angústias, dúvidas, incertezas; de como enfrenta os</p><p>conflitos; qual a sua forma de se relacionar, comunìcar e, muito especialmente, de</p><p>como ele raciocina e pensa as experiências emocionais que se passam na vida inter-</p><p>na, e externa, do grupo.</p><p>Não é unicamente o grupoterapeuta que funciona como um indispensável mo-</p><p>delo de identificação; os próprios pacientes também podem servir como modelos,</p><p>uns para os outros, de determinados aspectos.</p><p>Ainda em relação ao processo da identificação, deve ser acrescido o fato de que,</p><p>em grau maior ou menor, todo indivíduo é portador de identificações patógenas que</p><p>ficam bem evidenciadas no curso do gmpo. Nesse caso, a maneira como o gnìpo age</p><p>terapeuticamente consiste na possibilidade de promover des-identiJìcações, e assim</p><p>abrir um espaço na mente para neo-ìdentíficaçõe.r mais sadias e que favoreçam a</p><p>construção do sentimento de identidade.</p><p>A essencialidade da função de o terapeuta servir como um novo modelo de</p><p>identificação vale para qualquer grupo, ressalvando as devidas diferenças entre cada</p><p>um deles.</p><p>Função de espelho, Comumente os autores se referem ao campo grupal como</p><p>uma "galeria de espelhos", a qual é resultante de um intenso e recíproco jogo de</p><p>identificações projetivas e introjetivas.Trata-se de uma expressão muito feliz, pois</p><p>ela traduz a ação terapêutica do grupo que se processa através da possibilidade de</p><p>cada um se mirar e se refletir nos outros e, especialmente, de poder reconhecer no</p><p>espelho dos outros aspectos seus que estão negados em si próprio. Aliás, esta função</p><p>de reconhecimenta, se bem percebida e trabalhada pelo grupoterapeuta, nas quatro</p><p>acepções que seguem, exerce uma decidida ação terapêutìca, por permitir que:</p><p>. Cada um re-conlteça (volte a conhecer) aquilo que está esquecido ou alguma</p><p>outr:Ì forma de ocultamento em si mesmo.</p><p>. Reconheça ao oulro como uma pessoa autônoma e separada dele.</p><p>. Ser reconhecido ao outro (desenvolvimento do sentimento de consideração e de</p><p>gratidão).</p><p>. O indivíduo reconheça que, sob as mais diferentes formas, ele tem uma necessidade</p><p>vital de vir a ser reconhecido peLos outros.</p><p>. A conjugação de todos esses aspectos ajuda a promover a passagem de um estado</p><p>de narcisismo oara o de rm sociaL-ismo.</p><p>122 . zIlle*"or a oso*to</p><p>Sociabilização. Uma das características que diferencia a terapia individual d:</p><p>grïpal é que estaúltima oportuniza excelentes condìções de os indivíduos interagireÍl:</p><p>de uma forma menos egoística e defensiva, como comumente acontece. Em especia-</p><p>com pacientes regressivos, exageradamente defensivos e, por isso mesmo, ora ensi-</p><p>mesmados, quereÌantes ou polemizadores, abre-se uma possibilidade de contraíren</p><p>novos vínculos fundados em uma mutualidade de confiânça, respeito, solidariedade e</p><p>amizade, inclusive com a eventualidade de alguns se tornarem amigos, mesmo for:</p><p>da restrita situação grupal. Também contribui para o desenvolvimento da sociabílizaçãc</p><p>o fato de se sentirem compreendidos um pelo outro em razão de compartilharem uma</p><p>mesma linguagem, o que facilita o importante processo da comunicação.</p><p>Comunicação. Cabe repetir a afirmativa de que "o grande mal da humanidade</p><p>é o problema do mal-entendido". Um dos fatores que melhor responde à pergunta</p><p>"Como agem os grupos terapêuticos?" é justamente a oportunidade que o campo</p><p>grupal propicia para observar e trabalhar com a patologia da comunicação entre a-.</p><p>pessoas de um grupo qualquer. E no campo da terapia com família- mais notadamente</p><p>na terapia de casal - que, com maior evidência, manifestam-se os disnirbios da comu-</p><p>nicação: são pessoas que pensam que estão dialogando, quando, na verdade, o que</p><p>mais habitualmente ocorre é que há uma surdez entre elas, sendo que a preocupação</p><p>maior de cada um do casal é a de fazer prevalecer as suas teses prévias e de impor a</p><p>sua verdade sobre o outro.</p><p>Uma grupoterapia propicia que o terapeuta trabalhe no sentido de os indivíduo:</p><p>perceberem que podem estar ditorcendo a intenção das mensagens provindas dos</p><p>outros e que também podem estar emprestando significados que não existem... Da</p><p>mesma maneira, o campo grupal estabelece uma excelente oportunidade para traba-</p><p>lhar com as eventuais formas complicadas de cada um transmitir aquilo que pretende</p><p>dizer ao outro, e isso se manifesta com freqüência numa gama que vai da timidez de</p><p>um à arrogância do outro, de um membro que funciona como um silencioso contu-</p><p>maz ao do outro que participa como monopolizador crônico, etc.</p><p>Particularmente nos grïpos homogêneos, como os de auto-ajuda, um agente</p><p>terapêutico que deve ser valorizado é o fato de compartilharem uma linguagem co-</p><p>mum, o que faz com que mutuamente se sintam acolhidos, respeitados e, sobretudo.</p><p>compreendidos.</p><p>Também é possível evidenciar nos distintos campos grupais a presença de uma</p><p>forma de comunicação que pode passar despercebida, pois ela se processa através de</p><p>uma linguagem não-verbal, através de manifestações indiretas, como, por exemplo.</p><p>onde sentam, como vestem, sinais sutis de impaciência, enfado ou encantamento nos</p><p>momentos em que outros estiverem falando, assim como o surgimento de actings.</p><p>individuais ou coletivos, etc. A descodificação dessa linguagem não-verbal e a sua</p><p>transformação em linguagem verbal é uma ação terapêutica grupal importante.</p><p>Um aspecto que merece uma atenção especiaì, notadamente por parte do</p><p>grupoterapeuta de um grupo dirigido à aquisição de inslghr, é o destino que os pacientes</p><p>dão às interpretaçóes que ouvem, à forma como os participantes de qualquer grupo</p><p>terapêutico se Iigam às intervenções do coordenador.</p><p>Intervenções do grupoterapeuta. O termo "interpretação", no seu sentido estri-</p><p>to, está consagrado como sendo de uso exclusivo do referencial psicanalítico, e por</p><p>essa razão eu prefiro, neste capítulo, empregar o termo mais genérico "intervenções",</p><p>que é mais abrangente, de forma a englobar outras participações verbais do</p><p>grupoterapeuta que não só as clássicas interpretações transferenctals.</p><p>à aqr</p><p>o us(</p><p>Iific;</p><p>de a(</p><p>taçã(</p><p>teraF</p><p>.I</p><p>c</p><p>ç</p><p>t</p><p>c</p><p>r</p><p>. I</p><p>I</p><p>t</p><p>I</p><p>€</p><p>C</p><p>. (</p><p>!</p><p>t</p><p>a</p><p>(</p><p>(</p><p>I</p><p>I</p><p>. ì</p><p>i</p><p>i</p><p>I</p><p>poÍ</p><p>enct</p><p>ator</p><p>Ìe\t</p><p>mar</p><p>patr</p><p>ofe</p><p>orda</p><p>nrni</p><p>ÇoMo |R^a^LH^ÌrÍos coM cRupos . 123</p><p>tni-:</p><p>'e::,</p><p>le:</p><p>\^::</p><p>tr]l:</p><p>nP--</p><p>:nla</p><p>Ninguém contesta que, nas situações psicanalíticas que visam fundamentalmente</p><p>à aquisição deinslgàtdas fantasias e conflitos inconscientes, também no campo grupal</p><p>o uso das interpretações - muito particularmente aquelas que revelam o uso de iden-</p><p>tificações projetiv as deuns dentro dos outros -é considerado o instrumento máximo</p><p>de acesso ao inconsciente dos indivíduos e do todo grupal. Não obstante, a interpre-</p><p>tação não é o único instrumento curativo. Num grupo, também agem como fatores</p><p>terapèuticos as intervenções do grupoterapeula que propiciem:</p><p>. Perguntas, não as interrogatórias, mas sim aquelas que provÕquem reflexões,</p><p>com o estabelecimento de correlaçõe s. Assinalamentos de contradições e falsifica-</p><p>ções, da oposição entre o real e o ilusório, para que o grupo encontre um caminho</p><p>paÍa o importantíssimo aspecto do amor às verdades. Abertura de novos várÍices</p><p>de observação dos mesmos fatos, com vistas a possibilitar que as pessoas do</p><p>grupo mudem uma atitude radical e dogmática por uma outra mais flexível</p><p>coesão, e a outra, à sua desintegração.</p><p>. A dinâmica grupal de qualquer grupo se processa em dois planos, tal como nos</p><p>ensinou Bion: um é o da intencionalidade consciente (grupo de trabalho), e o</p><p>outro é o da interferência de fatores inconscientes (grupo de supostos básicos). É</p><p>claro que, na prática, esses dois planos não são rigidamente estanques, pelo contrá-</p><p>rio, costuma haver uma ceÍa flutuação e superposição entre eles.</p><p>. É inerente àconceituação degrupo a existência entre os seus membros de alguma</p><p>forma de interação afetiva, a qual costuma assumir as mais variadas e múltiplas</p><p>formas.</p><p>Nos gmpos sempre vai existir uma hierárquica distribuição de posições e de pa-</p><p>péis, de distintas modalidades.</p><p>É inevitável a formação de um campo grupal dinâmico, em que gravitam fantasi-</p><p>as, ansiedades, rnecanismos defensivos, funções, fenômenos resistenciais e trans-</p><p>ferenciais, etc., além de alguns outros fenômenos que são próprios e específicos</p><p>dos grupos, tal como pretendemos desenvolver no tópico que segue.</p><p>coMo TRÂaALHAIVÍOS coM CRUPOS . 29</p><p>O CAMPO GRUPAL</p><p>Como mencionado anteriormente, em qualquer grupo constituído se fonna um cam-</p><p>po grupal dinâmico, o qual se comporta como uma estrutura que vai além da soma de</p><p>seus componentes, da mesma forma como uma melodia resulta não da soma das</p><p>notas musicais, mas, sìm, da combinação e do arranjo entre elas.</p><p>Esse campo é composto por múltiplos fenômenos e elementos do psiquismo e,</p><p>como trata-se de uma estrutura, resulta que todos estes elementos, tanto os intra como</p><p>os inter-subjetivos, estão articulados entre si, de tal modo que a alteração de cada um</p><p>deles vai repercutir sobre os demais, em uma constante interação entre todos. Por</p><p>outro lado, o campo grupal representa um enorme potencial energético psíquico, tudo</p><p>dependendo do vetor resultante do embate entre as forças coesivas e as disruptivas.</p><p>Também é útil realçar que, embora ressalvando as óbvias diferenças, em sua essên-</p><p>cia, as leis da dinâmica psicológica são as mesmas em todos os grupos.</p><p>Como um esquema simplificado, vale destacar os seguintes aspectos que estão</p><p>alivamente presentes no campo grupal:</p><p>. Uma permanente interação oscilatória entre o grupo de trabalho e o de supostos</p><p>básicos, antes definidos.</p><p>. Uma presença permanente, manifesta, disfarçada o\ oculta, depulsões- libidinais,</p><p>agressivas e narcisísticas - que se manifestam sob a forma de necessidades, dese-</p><p>jos, demandas, inveja e seus derivados, ideais, etc.</p><p>. Da mesma foma, no campo grupal ctrcúam ansiedades - as quais podem ser de</p><p>natureza persecutória, depressiva, confusional, aniquilamento, engolfamento,</p><p>perda de amor ou a de castração - que resultam tanto dos conflitos intemos como</p><p>podem emergir em função das inevitáveis, e necessárias, frustrações impostas</p><p>pela realidade externa.</p><p>. Por conseguinte, para contrarrestar a essas ansiedades, cada um do grupo e esse</p><p>como um todo mobilizam mecanismos defensivos, que tanto podem ser os muito</p><p>primitivos (negação e controle onipotente, dissociação, projeção, idealizaçío,</p><p>defesas maníacas, etc.) como também circulam defesas mais elaboradas, a re-</p><p>pressão, deslocamento, isolamento, formação reativa, etc. Um tipo de defesa que</p><p>deve mereceruma atenção especial porparte do coordenador do grupo é a que diz</p><p>respeito às diversas formas de negação de certas verdades penosas.</p><p>. Em particular, para aqueles que coordenam grupoterapias psicanalíticas, é neces-</p><p>sário ressaltar que a psicanálise contemporânea alargou a concepção da estrutura</p><p>damente, em relação àtradicional fórmula simplista do conflito psíquico centrado</p><p>no embate entre as pulsões do ld versas as defesas do ego e aprolÏsiçáo do superego-</p><p>Na ahralidade, os psicanalistas aplicam na prática clínica os conceitos de: ego</p><p>anxiliar (ê uma parte do superego resultante da introjeção, sem conflitos, dos</p><p>necessários valores normativos e delimitadores dos pais); ego recl (conesponde</p><p>ao que o sujeito reolmente é emcontraposição ao que ele imagina ser); ego ideal</p><p>(herdeiro direto do narcisismo, corresponde a uma perfeição de valores que o</p><p>sujeito imagina possuir, porém, de fato, o sujeito não os possui e nem tem possi-</p><p>bilidades futuras para tal, mas baseia a sua vida nessa crença, o que o leva a um</p><p>constante conflito com a realidade exterior); ideal do ego (o sujeito fica prisio-</p><p>leiro das expectativas ideais que os pais primitivos inculcaram nele); alÍer-ego</p><p>(é uma parte do sujeito que está projetada em uma outra pessoa e que, portanto.</p><p>representa seÍ um "duplo" seu); contrã-ego ( é uma denominação que eu propo-</p><p>nho para designar os aspectos que, desde dentro do sefdo sujeito, organizam-se</p><p>30 . znasru.aeN a osor.ro</p><p>de forma patológica, e agem contra as capacidades do próprio ego. Como fica</p><p>evidente, a situação psicanalítica â paÍir destes referenciais da estruhrra da men-</p><p>te ganhou em complexidade, porém com isso também ganhou uma riqueza de</p><p>horizontes de abordagem clínica, sendo que a grupoterapia psicanalítica propicia</p><p>o surgimento dos aspectos antes referidos.</p><p>Um outro aspecto de presença importante no campo gmpal é o surgimento de um</p><p>jogo ativo de identirtcações, tanto as projetivas como as introjetivas, ou até mes-</p><p>mo as adesivas. O problema das identificações avulta de importância na medida</p><p>em que elas se constituem como o elemento formador do senso de idenúdade.</p><p>A comunicação,nias suas múltiplas formas de apresentação - as verbais e as não-</p><p>verbais -, representa um aspecto de especial importância na dinâmica do campo</p><p>grupal.</p><p>Igualmente, o desempenho de papáis, em especial os que adquirem uma caracte-</p><p>ística de repetição estereotipada - como, por exemplo, o de bode expiatório -, é</p><p>uma excelente fonte de observação e manejo por parte do coordenador do grupo.</p><p>Cada vez mais está sendo valorizada a forma como os vínculos (de amor, ódio,</p><p>conhecimento e reconhecimento), no campo grupal, manifestam-se e articulam</p><p>entre si, quer no plano intrapessoal, no interpessoal ou até no transpessoal. Da</p><p>mesma maneira, há uma forte tendência em trabalhar com as configurações vin-</p><p>cularcs, tal como elas aparecem nos casais, famílias, grupos e instituições.</p><p>No campo grupal, costuma aparecer um fenômeno específico e típico: a resso-</p><p>nâncìa, qu.e, como o seu nome sugere, consiste no fato de que, como um jogo de</p><p>diapasões acústicos ou de bilhar, a comunicação trazida por um membro do gru-</p><p>po vai ressoar em um outro; o qual, por sua vez, vai transmitir um significado</p><p>afetivo equivalente, ainda que, Fovavelmente, venha embutido numa naÍrativa</p><p>de embalagem bem diferente, e assim por diante. Pode-se dizer que esse fenôme-</p><p>no equivale ao da "livre associação de idéias" que acontece nas situações indivi-</p><p>duais e que, por isso mesmo, exige uma atenção especial por parte do coordena-</p><p>dor do grupo.</p><p>O campo grupal se constitui como uma galeria de espelftos, onde cada um pode</p><p>refletir e ser refletido nos, e pelos outros. Particularmente nos grupos psicotera-</p><p>pêuticos, essa oportunidade de encontro do sefde um indivíduo com o de outros</p><p>configura uma possibilidade de discriminar, afirmare consolidar a própria identi-</p><p>dade.</p><p>Um grupo coeso e bem constituído, por si só, tomado no sentido de uma abstra-</p><p>ção, exerce uma importantíssima função, qual seja, a de ser um continente das</p><p>angrístias e necessidades de cada um e de todos- Isso adquire uma importância</p><p>especial quando se trata de um grupo composto por pessoas bastante regressivas.</p><p>Apesar de todos os avanços teóricos, com o incremento de novas corentes do</p><p>pensamento grupalístico -ê a teoria sistêmica é um exemplo disso-, ainda não se</p><p>pode proclamar que a ciência da dinâmica do campo grupal já tenha encontrado</p><p>plenamente a sua autêntica identidade, as suas leis e referenciais próprios e ex-</p><p>clusivos, porquanto ela continua muito presa aos conceitos que tomou empresta-</p><p>do da psicanálise individual.</p><p>Creio ser legítimo conjecturar que, indo além dos fatos, das fantasias e dos confli-</p><p>tos, que podem ser percebidos sensorial e racionalmente, também existe no cam-</p><p>po grup;l muitos aipectos que perÍnanecem ocultos, enigmáticos</p><p>e com</p><p>novas altemativas de oosicionamento.</p><p>. É recomendável que o grupoterapeuta não perca de vista, em sua abordagem</p><p>interpretativa, que! para todo lado infantil do grupo que ele esteja acentuando,</p><p>também existe a contraparte adulta, e vice-versa; todo lado agressivo-destrutivo</p><p>não exclui o amoroso-construtivo, e vice-versa; que subjacentes à autodesvalia</p><p>existem potencialidades e capacidades esperando ser reconhecidas, resgatadas e</p><p>descobeÍas. E assim por diante.</p><p>. Ganham uma crescente importância como fator de ação terapêutica as interven-</p><p>ções do terapeuta dirigidas às funções do ego consciente dos pacientes. Dentre</p><p>essas, vale enfatizar a importância da capacidade paÍa pensar as experiências</p><p>emocionais e, a partir daí, conseguir verbalizá-las, e com isso se evita que as</p><p>emoções se expressem por formas primitivas de comunicação, como os aclifrgs,</p><p>as somatizações, os bloqueios de aprendizado, etc. Neste contexto, podemos consi-</p><p>derar como sendo um eficaz agente terapêutico, particularmente em gÌrpos com</p><p>pacientes bastante regressivos, que o grupoterapeuta, durante aIgum tempo, e mp re-</p><p>te ao grupo algumas das suas funções egóicas (pensar, conheceq juízo crítico, ser</p><p>continente, etc.) que neles ainda não estão suficientemente desenvolvidas.</p><p>. Faz parte da função interpretativa do grupoterapeuta que, diante de certos fatos e</p><p>acontecimentos, ele confira significados diferentes daqueles que as pessoas do</p><p>grupo comumente vivenciam sob a forma de crendices, tabus, mitos (e ritos) e,</p><p>acima de tudo, de concepções errôneas, tudo isso como uma resultante das signi-</p><p>ficações inoculadas pelo discurso educativo dos pais.</p><p>. Uma outra vantagem evidente proporcionada pela grupoterapia consiste no fato</p><p>de que ela faculta a observação "ao vivo e a cores" do desempenho dos papéis</p><p>que cada um assume dentro do contexto gÍupal.</p><p>Papéis. Conceitualmente, o termo "papel" é sinônimo da palavra"rol', a qual,</p><p>por sua vez, deriva etimologicamente de rotuLus: aqvilo que um ator deve recitar na</p><p>encenação teatral. Isso pressupóe a existência de um texto - uma estrutura na qual o</p><p>ator vai ocupar um certo lugar e desempenho que não é próprio dele, já que o referido</p><p>texto também pode ser igualmente recitado por outros. Essa metáfora vale principal-</p><p>mente para aqueles indivíduos, ou grupos, que agem sempre cumprindo os mesmos</p><p>papéis, de uma forma compulsoriamente estereotipada. Em resumo, esse fato designa</p><p>o fenômeno pelo qual, em graus e modos distintos, todo indivíduo está sujeìto a uma</p><p>ordem de determinações intemas e desconhecidas, sob a forma de mandamentos,</p><p>proibições, expectativas, crenças ilusórias e papéis a serem cumpridos.</p><p>uos</p><p>do:</p><p>D:</p><p>üa-</p><p>nde</p><p>rd.</p><p>Ìtu-</p><p>)nte</p><p>co-</p><p>rdo.</p><p>rma</p><p>;de</p><p>Plo.</p><p>nos</p><p>mì.r-</p><p>çã.-</p><p>or:</p><p>Ìgs,</p><p>sua</p><p>do</p><p>rÌes</p><p>lpo</p><p>por</p><p>do</p><p>124 . z*""ror a osonto</p><p>Também nesse aspecto particular, o funcionamento de um grupo representa uma</p><p>significativa vantagem como potencial terapêutico, pois há uma riqueza enorme de</p><p>combinações no desempenho de papéis e ocupação de posições que favorece o traba-</p><p>lho do grupoterapeuta na tarefa de obtenção de mudanças caracterológicas. Dessa</p><p>forma, é fácil perceber quando sistematicamente cabe a um determinado paciente ser</p><p>o "bonzinho" do grupo, a um outro assumir o papel de porta-voz da agressão de</p><p>todos, a um terceiro funcionar como o bode expiatório de tudo aquilo que os demais</p><p>não toleram perceber em si mesmos, a um quarto agir como um "atuador" dos dese-</p><p>jos inconfessados dos demais, e assim por diante. A experiência dos grupoterapeutas</p><p>confirma que os papéis desempenhados no grupo, qual uma miniatura do grande</p><p>mundo, reproduzem os mesmos papéis que cada um costuma assumir na sua vida real.</p><p>Os terapeutas de casal e de família trabalham de forma consistente e prioritiíria</p><p>em tomo dos problemas pertinentes à delegação e assunção de papéis, e as posições</p><p>que ficam distribuídas entre estes intimamente vinculados entre si. Assim, para ficar</p><p>em um único exemplo, é comum que um casal evidencie que um deles se comporta</p><p>como o submetedor, sádico, enquanto o outro do par funciona como o submetido, o</p><p>masoquista, sendo que esses papéis podem ficar permanentemente fixos, ou, qual</p><p>uma gangoÌra, ser altemantes. Na situação de terapia de família, vale enfatizar o</p><p>exemplo do chamado "paciente identificado", que consiste no fato de um membro,</p><p>geralmente o mais frágil e regressivo do grupo familiar, funcionar como depositário</p><p>dos problemas emocionais dos demats.</p><p>De um modo geral, pode-se afirmar que um bom critério para avaliar a marcha</p><p>mais ou menos exitosa deum grupo é quando, respectivamente, os papéis originalmente</p><p>assumidos ficam cambiantes e sofrem transformações, ou se, pelo contrário, eles se</p><p>mantêm inalterados. Dentre as transformações desejáveis vale destacar o desenvolvimen-</p><p>to de uma capacidade de solidariedade coletiva, no lugar de um egoísmo centralizador.</p><p>Possibilidade para reparações. A obtenção de uma solidariedade entre todos,</p><p>como antes referido, constitui-se num agente terapêutico peculiar das terapias grupais.</p><p>PaÍicularmente em grupos compostos por pacientes bastante regredidos, com sérios</p><p>problemas decorrentes das pulsões agressivas mal-elaboradas e, por conseguinte, alta-</p><p>mente desestruturantes do psiquismo, a terapia grupal propicia uma oportunidade</p><p>ímpar, qual seja, a de um paciente, de alguma forma, poder ajudar a um outro.</p><p>Este último aspecto age terapeuticamente não só porque auxilia o indivíduo a se</p><p>reconhecer, e ser reconhecido pelos outros, como alguém que é útil, capaz e, de fato,</p><p>pertencente ao grupo, como também possibilita o exercício da importantíssima capaci-</p><p>dade de fazer reparações aos danos que na realidade cometeram contra os outros e</p><p>contra si, ou que, devido à interferência das fantasias sádico-destrutivas, eles imagi-</p><p>nam ter cometido contra importantes objetos do passado e do presente.</p><p>É necessário frisar que essa função de reparar e auxiliar os companheiros de</p><p>grupo não deve ser confundida com uma bondade samaritana. Para ser eficaz e</p><p>estruturante, ela deve vir acompanhada de outros elementos próprios daquilo que a</p><p>escola kleiniana denomina "posição depressiva", ou seja, um reconhecimento da par-</p><p>cela de responsabilidade e de eventuais culpas pelos acontecimentos pâssados, e que</p><p>de alguma forma se reproduzem no seu grupo, assim como pelo desenvolvimento de</p><p>sentimentos de consideração e de preocupação pelo outro.</p><p>Não é samaritanismo, até porque é desejável que as pessoas do grupo se permi</p><p>tam serem francas umas com as outras, e isso muitas vezes implica uma atmosfera</p><p>grupal de aparência agressiva. Cabe ao coordenador do grupo não ficar assustado</p><p>com as manifestações de franqueza agressiva e, pelo contrário, servir como um mo-</p><p>delo d</p><p>sinc€Íi</p><p>de der</p><p>o cresl</p><p>uma li</p><p>danos</p><p>I</p><p>alude i</p><p>direçã</p><p>duos. I</p><p>por€m</p><p>xões e</p><p>tesep</p><p>dos ol</p><p>amor-</p><p>exercí</p><p>cer a ir</p><p>verdar</p><p>l</p><p>indirí</p><p>clas el</p><p>necess</p><p>seoir</p><p>términ</p><p>porqu</p><p>com o1</p><p>o grup</p><p>todos r</p><p>velme</p><p>como</p><p>como l</p><p>lE</p><p>lconorç</p><p>,/ lmpon</p><p>\ emDat,</p><p>\ meoo I</p><p>I OeS Oe</p><p>Ì.--</p><p>lnâls- n</p><p>' tenha l</p><p>.-'--</p><p>na-se I</p><p>L</p><p>grupo!</p><p>que, ft</p><p>todas e</p><p>em rel</p><p>COMO I RAIJALHAMOS COM ARUPOS . 125</p><p>IT:</p><p>Ë:</p><p>t3J-</p><p>,J:</p><p>;.-:</p><p>Í::</p><p>i -</p><p>E:--</p><p>i-^i</p><p>I !</p><p>i ; .</p><p>E-'</p><p>lsa</p><p>l : - ' .</p><p>ra3</p><p>z=</p><p>tT;.1-</p><p>eI-:</p><p>delo da diferença que deve existir entre agressividade (construtiva, a serviço de uma</p><p>sinceridade, leaÌdade e respeito pelo ovlro) e agressão, destrutiva (com o propósito</p><p>de denegrig humilhar, etc.). A experiência clínica comprova o quanto contribui para</p><p>o crescimento mental a oportunidade que um grupo propicia para as pessoas sent;rem</p><p>uma liberdade para serem verdadeiras consigo e com os outros, sem que daí resultem</p><p>danos que não possam ser reparados.</p><p>Função psicanalítica da personalidade, Esta expressão é original de Bion e</p><p>alude ao fato de ser inerente ao ser humano uma sadia curiosidade epistemofílica em</p><p>direção ao conhecimento das verdades. Essa pulsão epistemofílica, em muitos indivÉ</p><p>duos, fica entorpecida e bloqueada pelos diversos conflitos neuróticos e psicóticos,</p><p>porém ela pode e deve ser resgatada, pois a essa função consiste estabelecer cone-</p><p>xões</p><p>e correlações entre realidade e fantasia, consciente e inconsciente, fatos presen-</p><p>tes e passados, pensamentos e sentimentos, o que é responsabilidade dele e o que é</p><p>dos outros, a parte infantil com a adulta, os elos associativos entre os vínculos (de</p><p>amor, ódio, conhecimento e reconhecimento), etc. E especialmente importante no</p><p>exercício dessa função psicanalítica da personalidade que o sujeito consiga estabele-</p><p>cer a integração e a elaboração dos insights parciais, de modo a que eles resultem em</p><p>verdadeiras mudanças intemas e, por conseguinte, na conduta exterior.</p><p>Em resumo, a aquisição dessa função, que já preexiste em estado latente nos</p><p>indivíduos, consiste em desenvolver a capacidade, e o hábito, depensar as experiên-</p><p>cias emocionais cotidianas e conseguir extrair um aprendizado com as mesmas. E</p><p>necess;lrio acrescentar que essa "função psicanalítica" somente adquire legitimidade</p><p>se o indivíduo puder vir a exercê-la ao longo de sua vida, principalmente após o</p><p>término de sua terapia formal. Uma grupoterapia propicia a aquisição dessa capacidade,</p><p>porquanto cada sujeito do grupo faz contínuas introjeções de como os demais Iidam</p><p>com os problemas, sendo que a condição fundamental é a introjeção da maneira como</p><p>o grupoteraputa exerce a sua função psicanaÌítica.</p><p>Atributos do grupoterapeuta. No curso deste capítuÌo, fica evidente o quanto</p><p>todos os itens enumerados para elucidar a questão de "Como agem os grupos?" invaria-</p><p>velmente destacam a pessoa do grupoterapeuta e, não custa repetir, não unicamente</p><p>como a repetição de uma figura transferencial, mas também como uma pessoa real,</p><p>como um importante modelo de identificação.</p><p>( Embora já tenhamos feito em outros capítulos uma suficiente valorização das</p><p>icondições necessárias para um coordenador de gn:po terapêutico, cabe enfatizar a</p><p>importância imprescindjvel dele gostar de grupo e r/o seu grupo, ser verdadeiro" Íer</p><p>\\, empa.tia, funcionar como continente, saber commúcar,leÍ senso de humor, náo ter</p><p>\ qêdo de sZ envolver afetivamente - sem, no entanto,f car envolvido -,ter capacida-</p><p>'&!&jy!zo çritico, discriminação e de pensar as sensações e experiências emocio-</p><p>Jnais*rgs-peitar a maneira de cada um ser como essencialmente é, e sobretudo, que</p><p>tenha uma capacidade de síntese e integraçdo. ----E-'r -esLmo, a p-esú do grupoterãpeúta, põr si só, pelo seu verdadeiro ser, tor-</p><p>na-se um agente terapêutico fundamental nos grupos.</p><p>Conquanto este capítulo não tenha abordado diretamente como agem os outros</p><p>grupos que não os terapêuticos propriamente ditos (ensino, empresas, instituições,</p><p>etc.) - até porque isso será tratado nos artigos específicos - creio ser legítimo afirmar</p><p>que, ressalvando as óbvias peculiaridades de cada modalidade grupal em separado,</p><p>todas elas conservam a mesmaessâncta e a mesma validade do que aqui foi enfatizado</p><p>em relação aos grupos terapêuticos em geral.</p><p>I</p><p>I</p><p>I3</p><p>Grupoterapia Psicanalítica</p><p>DAVIDE, ZIMERMAN</p><p>Háuma longapolêmica geradora dos seguintes questionamentos: a grxpoterapia inspi-</p><p>rada e processada em fundamentos psicanalíticos pode serconsiderada uma "psicaná-</p><p>lise verdadeira"? Ela pode ser denominada "grupanálise"? Os autores se dividem nas</p><p>respostas, desde os grupoterapeutas, que mais discretamente advogam a simples deno-</p><p>minação "grupoterapia", até aqueles que assumem com absoluta naturalidade acondi-</p><p>ção de grupanalistas, como são os reconhecidamente competentes e sérios colegas da</p><p>Sociedade de Grupanálise de Lisboa. Nessa controvérsia, não levo em conta a opi-</p><p>nião francamente contrária em relação ao método grupotenípico de pretensão psicana-</p><p>lítica, que é provinda de psicoterapeutas e psicanalistas, os quais, embora muitas</p><p>vezes se trate de profissionais respeitáveis, nunca trabalharam com grupos.</p><p>Não vale a pena aqui nos aprofundarmos nesse tópico, pois isso exigiria uma</p><p>discussão por caminhos controvertidos e complicados, algo que está fora do propósi-</p><p>to do presente capítulo; no entanto, eu particularmente assumo a posição de que, não</p><p>obstante existam claras diferenças com a psicanálise individual em diversos aspec-</p><p>tos, não me resta a menor dúvida quanto à possibilidade relativa à obtenção de resul-</p><p>tados autenticamente psicanalíticos, com evidentes transformações caracterológicas</p><p>e estruturais do psiquismo do sujeito.</p><p>Por outro lado, da mesma forma como nas psicoterapias individuais, também as</p><p>grupoterapias podem funcionar psicanaliticamente com uma finalidade voltada ao</p><p>lnslgàt destinado a mudanças caracterológicas, ou podem se limitar a benefícios</p><p>terapêuticos menos pretenciosos, como o de uma simples remoção de sintomas; além</p><p>disso, podem objetivar à manutenção de um estado de equilíbrio (por exemplo, com</p><p>pacientes psicóticos egressos, ou borderline, elc.); ou ainda ficarem limitadas unica-</p><p>mente à busca de uma melhor adaptabilidade nas inter-relações humanas em geral.</p><p>Há um outro aspecto que necessita ser registrado: o fato da psicoterapia grupal</p><p>ser mais barata que as individuais está longe de ser reconhecido como um aspecto</p><p>alviçareiro e singularmente vantajoso, pela acessibilidade que isso poderia represen-</p><p>tar para uma ampla fatia da população. Pelo contrário, ser mais barata a desqualifica</p><p>e desvaloriza, em um meio sócio-cultural como é o nosso, no qual há um apelo ao</p><p>consumismo daquilo que melhor impressione aos outros, pelo que possa significar</p><p>um melhor s/a/as e, certamente, por um culto à propriedade privada.</p><p>O que importa consignar é que importantes autores têm manifestado a sua posi-</p><p>ção de que não se justifica a existência de uma concepção psicanalítica que faça uma</p><p>separação e distinção profunda entre os problemas que se passam no indivíduo e nos</p><p>grupos. Assim, podemos mencionar, dentre outros, o nome do próprio criador da</p><p>I</p><p>,</p><p>í</p><p>i1</p><p>128 . zuue*rueru a osoaro</p><p>.</p><p>I</p><p>I</p><p>psicanálise - visto que em inúmeras oportunidades Freud afirmou que "a psicologie</p><p>individual e a social não diferem em sua essência" - o de Bion, que foi um grande</p><p>criador e entusiasta da dinâmica grupal em bases psicanalíticas, e o de Joyce Mr</p><p>Dougall, que, em uma entrevista concedida à revista G radiva (n.41, p.16, 1988)fez</p><p>esta surpreendente declaração: " -.-E tive o prazer de descobrìr que as Íerapias de</p><p>grupo tocavam em aspectos da personalidade que não eram notados na psicanálisc</p><p>individual".</p><p>Existem muitas variações na foÍÍna, no nível e no objetivo grupotenápico, os</p><p>quais dependem fundamentalmente dos referenciais teórico-técnicos adotados pelos</p><p>respectivos grupoterapeutas. Na América Latina e em círculos psicanalíticos de al-</p><p>guns outros países que sofreram uma nítida influência kleiniana, estes últimos refe-</p><p>renciais fundamentaram toda a prática grupoteriípica de sucessivas gerações de grupo.</p><p>terapeutas, e isso prevalece até a atualidade, embora venha se observando uma tendên-</p><p>cia à adoção de novos modelos de teoria e técnica.</p><p>Particularmente, ainda conservo e utilizo os principais fundamentos da escola</p><p>kleiniana, no entanto, sem aquela conhecida rigidez que a caracterizou em certa épo-</p><p>ca, ao mesmo tempo adotei uma linha pluralista de referenciais provindos de outras</p><p>escolÍìs e, acima de tudo, fui sofrendo transformações na forma de entender e traba-</p><p>lhar psicanaliticamente com gÍupos, à medida que fui aprendendo o que os pacientes</p><p>me ensinavam na clínica privada.</p><p>Dessa forma, incorporo-me àqueles que pensam que a problemática atual vai</p><p>"mais além" daconflitiva clássica das pulsões e defesas, fantasias e ansiedades, agres</p><p>são destrutiva e culpas, etc. O aspecto predominante na atualidade consiste em que se</p><p>reconheça em cada indivíduo e no grupo como um todo, além da habitual presença</p><p>dos sintomas e traços caracterológicos, o desempenho de papeis, posições, valores.</p><p>modelos, ideais, projetos, atitudes, configurações vinculares, pressões da realidade</p><p>exterior, sempre levando em conta que a subjetividade permanentemente acompanha</p><p>e é inseparável dos processos da cultura e da vida social contemporânea. De modo</p><p>algum, isso implica subordinar a terapia psicanalítica às condições da cultura atual.</p><p>mas, sim, em</p><p>ajudar as pessoas do grupo a se harmonizarem com ela, a partir da</p><p>aquisição de uma liberdade interna. Os limites da pessoa se estendem aos do grupo e</p><p>da sociedade na qual estão inseridos. A ideologia grupal preconiza que o costumeiÍo</p><p>movimento inicial de "eu frente a eles" se transforme gradativamente em "nós frente</p><p>aos problemas do mundo".</p><p>Achei ser necessário fazer essa introdução, porque as considerações que se-</p><p>guem neste capítulo acerca dos aspectos eminentemente práticos da grupoterapia</p><p>psicanalítica em grande parte refletem a atual posição do autor e, portanto, é bem</p><p>possível que não reflita exatamente um consenso entre os grupoterapeutas latinG.</p><p>americanos.</p><p>Em obediência à proposição didática deste livro, utilizarei um esquema que</p><p>descreva separadamente as situações que dizem respeito àformação de um grupo de</p><p>finalidade psicanalíticae aosfenômenos que se processam no campo grupal, procuran-</p><p>do, sempre que possível, ilustrar com vinhetas clínicas.</p><p>FORMAçAODOGRUPO</p><p>A formação inicial de um grupo desta natureza passa por três etapas sucessivas: l)</p><p>encaminhamento, 2) se leçõo, 3) grupamento.</p><p>E</p><p>vista c</p><p>partlcr</p><p>e aindr</p><p>mento</p><p>muito</p><p>terapêl</p><p>defina</p><p>primei</p><p>ma linl</p><p>possib</p><p>até qu(</p><p>fato d(</p><p>númen</p><p>elemer</p><p>E</p><p>da hipl</p><p>no mín</p><p>clara q</p><p>pacienl</p><p>na me{</p><p>funcior</p><p>pode fi</p><p>funcior</p><p>fato de</p><p>vez qu</p><p>deram</p><p>impedi</p><p>geral,</p><p>vezes,</p><p>da fon</p><p>S</p><p>de um</p><p>probler</p><p>constn</p><p>pessoa</p><p>rnaugu</p><p>terceiÍ</p><p>um per</p><p>clente</p><p>assim I</p><p>exigir</p><p>fatores</p><p>E</p><p>psicani</p><p>dos na</p><p>em alg</p><p>sim, ar</p><p>coÀÍo rRABÀLH^Iíos cou cnupos r 129</p><p>È\ '</p><p>Encaminhamento. A etapa da divulgação, junto a demais colegas, tendo em</p><p>vista o encaminhamento de pacientes para a formação de um grupo, é importante</p><p>particularmente para um teÍapeuta que esteja se iniciando na prática de grupoterapia</p><p>e ainda não tenha uma expressiva procura por parte de pessoas interessadas em trata-</p><p>mento grupal. O realce deste aspecto justifica-se pela razão de ser muito comum, e,</p><p>muito frustrante, que o terapeuta já tenha um ou dois interessados, com o contrato</p><p>terapêutico alinhavado e possa decorrer um período de tempo significativo até que se</p><p>defina um terceiro e um quarto ou quinto pacientes, o que pode gerar desistências dos</p><p>primeiros, e assim por diante. Nestes casos, é recomendável a prática de manter algu-</p><p>ma linha de comunicação com os poucos pacientes já selecionados, inclusive com a</p><p>possibilidade de manter sessões individuais para os que se sentem mais necessitados</p><p>até que se atinja o número mínimo de três pessoas. E útiÌ fazer a ressalva acerca do</p><p>fato de que alguns grupoterapeutas preferem iniciar a grupoterapia com qualquer</p><p>número, inclusive com uma única pessoa, enquanto aguardam a entrada de novos</p><p>elementos.</p><p>Este importante passo inicial de um encaminhamento satisfatório, ainda dentro</p><p>da hipótese de que se trate de um grupoterapeuta iniciante, implica preenchimento,</p><p>no mínimo, de uma condição básica: a de que ele tenha para si uma definição muito</p><p>clara quanto ao nível de seus objetivos terapêuticos e, portanto, de qual é o tipo de</p><p>paciente que ele divulga e aguarda que lhe seja encaminhado. Essa condição é relevante</p><p>na medida em que se sabe que um mesmo paciente borderline, por exemplo, pode</p><p>funcionar exitosamente e muito se beneficiar num grupo homogêneo, enquanto ele</p><p>pode fracassar em um grupo formado exclusivamente com pacientes neuróticos, que</p><p>funcione em um nível egóico muito mais integrado que o dele.</p><p>Um ponto controvertido relativÕ à política de encaminhamento diz respeito ao</p><p>fato de que alguns autores têm expressado uma preferência no sentido de que, uma</p><p>vez que lhe tenha sido encaminhado um paciente por alguém de experiência, consi-</p><p>deram-no automaticamente incluído. evitando entrevistá-lo individualmente Dara</p><p>impedir a "contaminação" do campo grupal. Pelo contrário, em nosso meio, de modo</p><p>geral, postulamos a necessidade de que o grupoterapeuta entreviste, uma ou mais</p><p>vezes, o paciente que lhe foi encaminhado com o objetivo de cumprir a segunda etapa</p><p>da formação do grupo: a seleção.</p><p>Seleção. A primeira razão quejustifica a indispensabilidade do crivo de seleção</p><p>de um determìnado paciente para um determinado grupo diz respeito ao delicado</p><p>problema das indicações e contra-indicações. A segunda razão é a de evitar situações</p><p>constrangedoras - por exemplo, o risco de compor o gÍïpo com a presença de duas</p><p>pessoas que individualmente tenham sido bem selecionadas, porém que na sessão</p><p>inaugural tomam evidente a impossibilidade de virem a se tratar conjuntamente. Uma</p><p>terceira razão é a de diminuir o risco de surpresas desagradáveis, como, por exemplo,</p><p>um permanente desconforto contratransferencial, uma insuperável dificuldade do pa-</p><p>ciente para pagar os valores estipulados, ou para os dias e horários combinados, etc.,</p><p>assim como também o de uma deficiente motivação para um tratamento que vai lhe</p><p>exigir um trabalho sério, árduo e longo. Este último aspecto costuma ser um dos</p><p>fatores mais responsáveìs pelos abandonos prematuros.</p><p>Em relação às indicações considera-se que a grupoterapia de fundamentação</p><p>psìcanalítica é, lato senso, extensiva a todos os pacientes que não estiverem enquadra-</p><p>dos nas contra-indicações abordadas adiante. Em sentido estrito, pode-se dizer que</p><p>em algumas situações a grupoterâpia se constitui como tratamento de escolha. As-</p><p>sim. autores que têm uma sólida experiência no tratamento de Dâcientes adolescen-</p><p>a:</p><p>e::</p><p>1--</p><p>130 . ZMERMAN & osoRlo</p><p>tes, tanto individualmente como em grupos, preconizam a indicação prioritária des-</p><p>tes últimos. Uma outra indicação que pode serprioritária é quando o próprio consulente</p><p>manifesta uma inequívoca preferência por um Íratamento grupal. Da mesma forma.</p><p>sabemos que determinados pacientes não conseguem suportar o enquadre de uma</p><p>terapia individual, devido ao incremento de temores, como, por exemplo, os de natu-</p><p>reza simbiotizante, homossexual, com o terapeuta. A experiência clínica ensina que</p><p>tais pacientes que fracassaram em terapias individuais por não terem suportado uma</p><p>relação bipessoal íntima podem funcionar muito bem em grupoterapia (é claro que.</p><p>para outros casos, a recíproca também é verdadeira).</p><p>Quanto às contra-indicações. os seguintes pontos merecem uma consideração</p><p>especial para aqueles pacientes que:</p><p>. Estão mal-motivados tânto em relação à sua reaÌ disposição para um tratamento</p><p>longo e difícil quanto ao fato de ser especificamente em grupo. Não é raro que</p><p>algumas pessoas procurem um gÍïpoterapeuta sob a alegação de que querem ter</p><p>uma oportunidade de "observar como funciona um gupo", ou que vão unicamen-</p><p>te em busca de um grupo social que lhes falta, e assim por diante.</p><p>. Sejam excessivamente deprimidos, paranóides ou narcisistas: os primeiros. por-</p><p>que exigem atençáo e preocupação concentradas exclusivamente em si próprios</p><p>(é útil repetir que isso não exclui que possam evoluir muito bem em grupos homo-</p><p>gêneos, compostos exclusivamente com pessous mais seriamente deprimidas); os</p><p>segundos, pela razão de que a exagerada distorção dos fatos, assim como a sua</p><p>atitude defensivo-beligerante, pode impedir a evolução normal do grupo; os tercei-</p><p>ros, devido à sua compulsiva necessidade de que o grupo gravite em tomo de si.</p><p>o que os leva a se comportarem como "monopolistas crônicos".</p><p>. Apresentem uma forte tendência a aclìngs de natureza maligna. muitas vezes</p><p>envolvendo pessoas do mesmo grupo, como é o caso, por exemplo, da inclusão</p><p>de pacientes psicopatas.</p><p>. Aqueles que inspiram uma acentuada preocupação pela possibilidade de graves</p><p>riscos agudos, principalmente o de suicídio.</p><p>. Apresentem um déficit intelectual, ou uma elevada dificuldade de abstração, ou</p><p>de entrar em contato com o mundo das fantasias (tal com costuma ocoÍrer com</p><p>pacientes excessivamente hipocondríacos), pela razão de que todos eles dificilmen-</p><p>te poderão acompanhar o ritmo de crescimento dos demais de seu grïpo.</p><p>. Aqueles que estão no auge de uma séria situação crítica aguda, em cujo caso é</p><p>recomendável o esbatimento da crise por um atendimento individual para depois</p><p>cogitar incluÊlo numa grupoterapia.</p><p>. Pertencem a uma ceÍa condição profissional ou</p><p>política que representa sério-(</p><p>riscos para uma eventual quebra do sigilo grupal.</p><p>. Apresentam uma história de sucessivas terapias anteriores interrompidas, o que</p><p>nos autoriza a pensâr que se trate de "abandonadores compulsivos" (nestes casos.</p><p>há um sério risco de que este tipo de paciente faça um abandono prematuro, com</p><p>uma forte frustração para todos do grupo).</p><p>Grupamento. Os termos, conceituâlmente sinônimos, "grupamento" ou "com-</p><p>posição" designam um arranjo, um "encaixe" das peças isoladas, sendo que, no caso</p><p>de uma grupoterapia, referem-se a uma visualização antecipada de como será a partici-</p><p>pação interativa de cada um dos indivíduos selecionados na nova organização gestál-</p><p>tica. Neste contexto, o sentimento contratransferencial do grupoterapeuta durante as</p><p>pré \</p><p>são</p><p>adul</p><p>o ún</p><p>lític,</p><p>a in i</p><p>SANC</p><p>leva</p><p>grut</p><p>enm</p><p>a eq'</p><p>ocai</p><p>pess</p><p>com</p><p>coq</p><p>e \fts</p><p>ant:</p><p>d.z</p><p>cãi i</p><p>PJ Sx</p><p>cì--.]ì</p><p>l ì r Í</p><p>\r -l</p><p>t3! f</p><p>a \:ã</p><p>:::.,: -</p><p>i : : I</p><p>ì - : a</p><p>!a: I</p><p>i : - |</p><p>:-al</p><p>:-. !:í</p><p>:..::r</p><p>: : r : a</p><p>: : I</p><p>::-!</p><p>COMO I RAIIALHAN1oS COM ORUPO5</p><p>'</p><p>131</p><p>I</p><p>I</p><p>J:</p><p>) : .</p><p>Ë</p><p>' :</p><p>t:</p><p>prévias entrevistas de seleção funciona como um excelente indicador quanto à previ-</p><p>são de como será a complementaridade dos papéis a serem desempenhados.</p><p>E adequado incluir um adolescente em um grupo cuja totâlidade é composta por</p><p>adultos? E viável a inclusão de um paciente homossexual num grupo em que ele será</p><p>o único nessas condições? Podem participaÍ de um mesmo grupo psicoterápico ana-</p><p>lítico pessoas que tenham algum grau de conhecimento ou de parentesco? Está indicada</p><p>a inclusão de um paciente que seja escessivamente silencioso? Ou que esteja atraves-</p><p>sando uma crise aguda? Essas são algumas das inúmeras questões que coshlmam ser</p><p>levantadas, e cujas respostas não podem ser dadas com regras fixas, porém podem ser</p><p>respondidas, em grande parte, através do feelìng contratransferencial relativo ao</p><p>grupamento, para cada situação em particular.</p><p>No entanto, muitas vezes, o sentimento contratÍansferencial despertado pela</p><p>entrevista preliminar com um indivíduo, tendo em vista o grupamento, pode conduzir</p><p>a equívocos de seleção. Vale ilustrar com uma situação da minha clínica grupal: por</p><p>ocasião da formação de meu primeiro grupo de finalidade psicanalítica, incluí uma</p><p>pessoa que desde o início se mostrou exageradamente loquaz, debochada, jubilosa e</p><p>com uma perÌnanente irriquietude; enfim, um claro estado de funcionamento manía-</p><p>co que quase impossibilitou que o grupo tivesse um curso normal. Decorrido algum</p><p>tempo, perguntei-me o que teria me impelido a uma seleção tão desastrosa e, já maìs</p><p>experiente, encontrei a resposta: os outros pacientes que já estavam selecionados</p><p>antes dele apresentavam caÍacterísticas mais marcadamente depressivas e de timi-</p><p>dez, e inconscientemente eu estava ansioso com a possibilidade de que o grupo resul-</p><p>tasse "sem vida"; assim, a presença de um "agito maníaco" seria a minha salvação...</p><p>É necessário levar em conta que as considerações anteriores a respeito da sele-</p><p>ção e inclusão de pacientes em um gnrpo referem-se unicamente à situação da com-</p><p>posição inicial de um grupo que vai começar a funcionar, porquanto a conduta em</p><p>relação a pacientes a serem incluídos num grupojá em andamento obedece também a</p><p>outros critérios.</p><p>Pode servir como exemplo desta última afirmativa a experiência que tive com</p><p>um paciente homossexual que me procurou pâra tratamento grupal em duas ocasiões.</p><p>Na primeira delas, eu estava selecionando e compondo um gÍupo novo. com pacien-</p><p>tes normalmente neuróticos e, não obstante ele ter me despertado uma empatia, deci-</p><p>di não incluÊlo no grupo movido por um desconfortável sentimento contratransfe-</p><p>rencial ao imaginá-lo entregue a uma possível rejeição dos demais, uma rejeição</p><p>extensiva a mim também, com o risco do grupo logo se dissolver. Na segunda oca-</p><p>sião, quase 2 anos após, ele me procurou novamente, minha reação contratransferencial</p><p>foi de absoluta aceitação, e eu lhe propus a necessidade de declinar o seu nome e a</p><p>sua condição de homossexual para o grupo poder compartir comigo a decisão dele</p><p>ser incluído. Ele aceitou essa premissa, e durante umas quatro sessões o grupo anali-</p><p>sou as respectivas angústias que a situação nova despertaria; após, foi incluído, per-</p><p>manecendo neste grupo por 5 anos aproximadamente, não só com um bom aproveita-</p><p>mento, como também a sua participação auxiliou todos demais a ressignificarem</p><p>fantasias, tabus e preconceitos em relação à homossexualidade. Guardo uma convic-</p><p>ção de que, caso esse paciente fosse selecionado na primeira ocasião, não teria havi-</p><p>do a evolução favorável que houve, pois era muito forte a carga de ansiedades</p><p>paranóides que estavam presentes nos movimentos iniciais deste grupo.sl</p><p>t : -</p><p>132 . ZMERMAN & osoRlo</p><p>ENQUADRE (SETTING) GRUPAL</p><p>O enquadre ê conceituado como a soma de todos os procedimentos que organizam.</p><p>normatízam e possibilitam o processo psicoterápico. Assim, ele resulta de uma con-</p><p>junção de regras, atitudes e combinações, como, por exemplo, local, horários, núme-</p><p>ro de sessões semanais, tempo de duração da sessão, férias, honoriários, número de</p><p>pacientes, se será aberto ou fechado, etc.</p><p>O enquadre grupal não se compoÍa como uma situeção meramente passiva e</p><p>formal, unicamente para a facilitação de aspectos práticos do funcionamento do gru-</p><p>po; pelo contrário, eÌe está sujeito a uma contínua ameaça em vir a ser desvírtuado e</p><p>serve como um cenário ativo da dinâmica do campo grupal, que resulta do impacto de</p><p>constantes e múltiplas pressões de toda ordem. Além disso, o estabelecimento de um</p><p>setting, poÍ si só, também funciona como um agente de ação terapêutica, tendo em</p><p>vista que ele assegura uma necessária colocação de limites, delimitação de funções e</p><p>também pode funcionar como um "continente". Vale repetir que uma condição bási-</p><p>ca para que uma grupoterapia funcione de forma adequada é a de que, independente-</p><p>mente da combinação do enquadre no qual o grupo vai trabalhag a sua constância</p><p>seja preservada ao máximo, sem uma rigidez radical -é claro, porém, que com bastante</p><p>firmeza.</p><p>Segue a enumeração dos principais elementos que devem ser levados em conta</p><p>na configuração do sel/irg do campo grupal:</p><p>. Homogêneo ou heterogêneo. Por grupo homogêneo entende-se aquele que é</p><p>composto por pessoas que apresentam uma série de fatores e de características que.</p><p>em certo grau, são comuns a todos os membros. Esses grupos também costumam ser</p><p>chamados "grupos especiais". Pode servir como exemplo um grupo que seja compos-</p><p>to unicamente por pacientes deprimidos, borderlíne, drogadictos, etc.</p><p>Grupo heterogêneo designa uma composição grupal em que há uma maior di</p><p>versificação entreìs caracteiísticas básicas de seus membros. É o caso de uma</p><p>grupoterapia analítíca em que, por exemplo, um dos integrantes seja uma moça histé-</p><p>rica, um segundo, um senhor de meia idade, obsessivo, um terceiro é estudante soltei-</p><p>ro com problemas de identidade de gênero sexual, e assim por diante.</p><p>É claro que a conceihÌação de grupo homogêneo ou heterogêneo é muito relati-</p><p>va, dependendo do aspecto que serve de referencial, pois o grupo pode ser homogê-</p><p>neo quanto à patologia (por exemplo, deprimidos) e, ao mesmo tempo, ser heterogê-</p><p>neo quanto à idade, sexo, tipo e grau da doença, etc. A recíproca também é verdadei-</p><p>ra, isto é, um grupo heterogêneo na forma de patologia (como antes exemplificado r</p><p>pode ser homogêneo em muitos outros aspectos.</p><p>Na prática clínica parece ser consensual entre os gÍupoterapeutas que, em uma</p><p>grupoterapia analítica com pacientes neuróticos, é desejável que o grupo seja heterogê-</p><p>neo quanto aum certo tipo e grau de patologia, estilo de comunicação e desempenho</p><p>de papéis, para que se propicie uma maior integração dos indivíduos através de uma</p><p>complementaridade de suas funções; ao mesmo tempo, é necessário que haja um</p><p>mínimo de homogeneìdade nos níveis intelectuais e sócio-culturais Não sendo as-</p><p>sim, corre-se o risco de que falte uma possibilidade de entrosamento, ritmo e um</p><p>idioma comum de comunicação entre os integrantes</p><p>do grupo, bem como que o mem-</p><p>bro mais "diferente" seja expulso, ou se auto-expulse devido ao sentimento de margi-</p><p>nahzação.</p><p>de t(</p><p>grup</p><p>podt</p><p>d"q</p><p>grup</p><p>aoot</p><p>podi</p><p>dos</p><p>térm</p><p>dam</p><p>dade</p><p>umI</p><p>ro qì</p><p>posr</p><p>séne</p><p>gIUF</p><p>e !e)</p><p>deie</p><p>pÍ:n</p><p>qu-' i</p><p>de sl</p><p>nu:ll</p><p>tì--f</p><p>ul.t!</p><p>t::l</p><p>IT:]f,</p><p>*::r</p><p>3sq</p><p>num</p><p>núm</p><p>teml</p><p>6pa</p><p>sÍu!</p><p>trSs</p><p>ITLS'</p><p>er-J</p><p>coÌ!Ío rRÌ\BÀLHÂÌ!Íos colr cnupos . 133</p><p>. Aberto ou fechado. Por grupo aberto entendemos aquele que não tem prazo</p><p>de término previamente fixado, ficando claro que, na eventualidade de haver vaga no</p><p>grupo, ou diante da saída de algum membro, por interrupção ou por término, ele</p><p>poderá vir a ser substituído por um outro. Ao contrário, grupo fechado alude ao fato</p><p>de que a combinação feitâ com o grupo originário prevê que, uma vez composto o</p><p>grupo, não entra mais ninguém.</p><p>Virtualmente, todos os grupoterapeutas diante de grupoterapias psicanaìíticas</p><p>adotam o método de trabalharcom grupos abertos, de duração ilimitada. No entanto,</p><p>podem ocorrer duas eventualidades: a primeira é a possibilidade de que, após decorri-</p><p>dos alguns anos, o próprio grupo queira se transformar em grupo fechado, até o seu</p><p>término. Aindanão tive essa experiência, porém alguns autores que a tiveram recomen-</p><p>dam que nesses casos deve ser fixada uma data de finalização. A segunda possibili-</p><p>dade, com a qual já tive uma experiência, é a de fundir dois grupos que estavam com</p><p>um número reduzido de integrantes, transformando-os em um grupo único. Conside-</p><p>ro que foi uma experiência bastante interessante e que não trouxe maiores problemas.</p><p>. Número de pacientes. Em caso de grupoterapia analítica, o ideal é que o</p><p>número de participantes não seja inferior a 4 e que não passe de 9. Na verdade, o</p><p>número ótimo deve ser ditado pelo estilo particular de cada um, o que varia muito de</p><p>terapeuta para terapeuta. Particularmente, trabalho melhor com um número médio de</p><p>6 pacientes.</p><p>. Sexo e idade, Em relação ao sexo dos pacientes parece ser quase unânime a</p><p>posição dos grupoterapeutas em preferir uma composição mista, o que propicia uma</p><p>série de vantagens inegáveis. Os que se posicionam contrários a isso alegam que um</p><p>grupo misto representa um sério risco de ocorrência deacírrgs de envolvimento afetivo</p><p>e sexual, eventualidade que nunca ocorreu ao longo de minha prática.</p><p>Quanto à idade dos pacientes há uma maior diversificação de opiniões, alguns</p><p>defendendo r. ;:recessidade de manter uma homogeneidade de idade, enquanto outros</p><p>preferem uma ampla diferença etária para que ocorram vivências mais completas, em</p><p>que cada um poderá se espelhar no outro. Inclino-me mais para essa segunda posição</p><p>desde que não haja discrepâncias máximas.</p><p>. Número de sessões por semana e tempo de duração da sessão. Alguns</p><p>grupoterapeutas preferem realizar uma sessão semanal, porém de duração longa; ou-</p><p>tros grupanalistas adotam a realização de três sessões semanais como uma forma de</p><p>manter um enquadre o mais similar possível ao de uma psicanálise individual; no</p><p>entanto, a maioria no nosso meio, entre os quais me incluo, trabalham com duas</p><p>sessões semanais.</p><p>Em relação ao tempo de duração da sessão, ela costuma variar de acordo com o</p><p>número de pacientes, o número de sessões semanais e o esquema referencial teórico-</p><p>técnico do grupoterapeuta. Aqueles que trâbalham com uma sessão semanal geralmente</p><p>utilizam um tempo que fica numa média de noventa minutos (alguns preferem um</p><p>tempo de duas horas); os demais, habitualmente, reservam a duração de sessenta</p><p>minutos por sessão.</p><p>. Tempo de durâção do grupo,Um grupo pode ser de "duração limitada" ou de</p><p>"duração ilimitada". A primeira situação diz respeito aos grupos fechados, enquanto</p><p>a segunda comumente acompanha os grupos abertos.</p><p>L34 . znrerver.r * osonro</p><p>:</p><p>I</p><p>, l</p><p>ll</p><p>Os grupos de duração ilimitada prevalecem na clínica privada de cada grupote-</p><p>rapeuta, com a ressalva de que em determinado momento a totalidade grupal resolva</p><p>estabelecer uma data para o encerramento definitivo. Os grupos de duração limitada</p><p>geralmente acontecem em instituições, e podem adquirir duas modalidades. A pri-</p><p>meira é a de funcionar em regime de grupo fechado e deveráexistirum tipo de combi-</p><p>nação relativa ao tempo de duração, o qual varia muito em função das particularida-</p><p>des próprias de cada instituição. A segunda possibilidade é a de que o grupo de dura-</p><p>ção limitada funcione em regime aberto (permite o rodízio de pacientes), porém com</p><p>um pÍzrzo combinado de término, e nestes casos geralmente se utiliza a tática de</p><p>combinar que, ao final da data prevista - digamos, 2 anos - proceda-se a uma avalia-</p><p>ção, com o direito de prosseguirem por mais um período, ou não.</p><p>Observador co-terapeuta supervisor. A presença de um observador que se</p><p>mantivesse mudo durante todo o curso da grupoterapia que ele deveria assistir sistema-</p><p>ticâmente e se limitar a fazer apontamentos era preconizada pelos pioneiros como</p><p>uma forma de perceber os eventuais pontos cegos do grupoterapeuta e de dinamizar a</p><p>dinâmicado campo grupal através do natural surgimento das dissociações que reprodu-</p><p>ziriam aquelas que os filhos vivenciaram com a dupla dos pais. Na atualidade, esse</p><p>recurso está reservado às situações de ensino. Eu mesmo passei por essa experiência</p><p>de ser observador durante o início de minha formação e posso testemunhar o quanto</p><p>ela é útil.</p><p>Quanto à co-terapia, ela tem sido bastante utilizada, principalmente por aqueles</p><p>que trabalham com crianças, adolescentes e famílias. Parece que dá bons resultados;</p><p>no entanto, é necessário destacar que deve haveruma harmonia entre os dois terapeutas:</p><p>caso contrário, o gnÌpo, através de um jogo de identificações projetivas de seus pró</p><p>prios conflitos nos grupoterapeutas, podeú conseguir criar uma atmosfera de rivalidade</p><p>e competição entre ambos.</p><p>A efetivação de uma supervisão sistemática, pirÍece-me que ninguém duvid4</p><p>deve ser uma tarefa obrigatória para quem está iniciando, e é recomendável que pros-</p><p>siga por um bom tempo para aqueles que desejam ampliar os seus horizontes e não</p><p>querem ficar presos numa forma estereotipada de trabalhar com grupos.</p><p>Outras combinações. É claro que existem inúmeros outros detalhes que devem</p><p>ficar bem esclarecidos, como é o caso da modalidade e da responsabilidade pelo</p><p>pagamento, o plano de férias, etc. Todavia, desejo me referir mais especificamente ao</p><p>fato de que os grupoterapeutas não são uniformes quanto ao procedimento em rela-</p><p>ção ao modo como os pacientes devempaÍticipar nagrupoterapia, as regras de conduta</p><p>exterior, como, por exemplo, a importantíssima questão do sigilo, etc.</p><p>Alguns grupoterapeutas preferem fazer uma longa dissertação inicial, esmiu-</p><p>çando detalhe por detalhe aquilo que se espera de cadaum e do que presumivelmente</p><p>virá a acontecer. Outros, no entanto, preferem fazer as combinações iniciais básicas</p><p>e, à medida que o grupo for evoluindo e situações novas forem aparecen-do (inclu-</p><p>são de algum paciente novo, algumas formas de cctinS preocupantes, problemas com</p><p>horários ou pagamentos, necessidade de viagens, participação excessivamente</p><p>silenciosa,etc.), vão analisando as situações que surgem e, a partir daí, estabelecem</p><p>algumas combinações a mais. Eu me incluo entre estes últimos.</p><p>Entrada de um novo elemento. Cabe um registro quanto ao procedimento da</p><p>entrada de um elemento novo em um grupojá em funcionamento. A técnica que eu</p><p>utilizo é a de que, uma vez tendo selecionado um indivíduo para uma vaga existente,</p><p>peço a s</p><p>deliben</p><p>exitosa r</p><p>pessoa I</p><p>MANEJO DAS</p><p>A resií</p><p>mento I</p><p>deste a</p><p>distinçi</p><p>las quel</p><p>cada ud</p><p>Nr</p><p>dodeu</p><p>cabe ao</p><p>priedad</p><p>A'</p><p>mais cd</p><p>cosruÍE</p><p>i</p><p>Aq</p><p>Ted</p><p>d*l</p><p>poÍl</p><p>ry</p><p>otr{</p><p>ErìE</p><p>cod</p><p>Md</p><p>re|{</p><p>vis(</p><p>ocd</p><p>nrl</p><p>Exd</p><p>UÌd</p><p>$d</p><p>Col</p><p>Strl</p><p>Ud</p><p>Exd</p><p>Ot</p><p>ter{</p><p>I</p><p>Aí</p><p>pogÍq</p><p>I</p><p>.Md</p><p>anC</p><p>rupotÈ-</p><p>resol \ :1</p><p>imitadr</p><p>combr-</p><p>rìanda-</p><p>le dura-</p><p>im com</p><p>irica de</p><p>avalia-</p><p>que se</p><p>,tstema-</p><p>s como</p><p>Lrnizar a</p><p>eprodu-</p><p>oe. esse</p><p>eriênc ia</p><p>I quanto</p><p>aqueles</p><p>ultados:</p><p>apeutas:</p><p>eus pró-</p><p>çalidade</p><p>duvida,</p><p>ue pros-</p><p>es e não</p><p>e devem</p><p>rde pelo</p><p>nente ao</p><p>em Íela-</p><p>conduta</p><p>. esmlu-</p><p>relmente</p><p>i básicas</p><p>o (inclu-</p><p>mas com</p><p>ramente</p><p>Lrelecem</p><p>nento da</p><p>a que eu</p><p>:xlstente,</p><p>coMo .RABÁLH^Ì!Í'' cor o*uro" . 135</p><p>peço</p><p>a sua permissão para declinar o seu nome no grupo e esperar pela democrática</p><p>deliberação do mesmo. Aliás, uma das formas de avaliar a evolução mais ou menos</p><p>exitosa de um grupo é pela maneira mais ou menos receptiva com que recebem uma</p><p>pessoa nova e ainda desconhecida.</p><p>MANEJO DAS RESISTÊNCIAS</p><p>A resistência costuma seÍ definida como sendo tudo o que no decorrer de um trata-</p><p>mento analítico - ou seja, atos, palavras e atitudes do analisando - se opõe ao acesso</p><p>deste ao seu inconsciente. No entanto, é de fundamental importância que se faça a</p><p>distinção entre as resistências realmente obstrutivas ao livre curso da análise e aque-</p><p>las que devem ser acolhidas como bem-vindas, porquanto traduzem a forma de como</p><p>cada um e todos se defendem diante das suas necessidades e angústias.</p><p>Na situação grupal importa muito discriminar quando a resistência está provin-</p><p>do de uma pessoa em partìcular, ou se ela está sendo coletiva. Nesta última hipótese,</p><p>cabe ao grupoterapeuta se questionar se o gÍupo não está reagindo a alguma impro-</p><p>priedade sua.</p><p>A experiência clínica comprova qtJe as foftnas de manifestações resistenciais</p><p>mais comuns, quer da paÍe dos indivíduos isoladamente, ou da totalidade grupaÌ,</p><p>costumam ser as segulntes:</p><p>. Atrasos e faltas reiteradas.</p><p>. Tentativas de alterar as combinaçóes do setlin7 (por exemplo, continuados pedi-</p><p>dos por mudanças de horários, telefonemas, intervenção de familiares, pedidos</p><p>por sessões individuais, etc.).</p><p>. Prejuízo na comunicação verbal através de silêncios excessivos, de reticências</p><p>ou, ao contrário, uma prolixidade inútil.</p><p>. Ênfase excessiva em relatos da realidade exterior, ou em queixas hipocondríacas,</p><p>com o rechaço sistemático da atividade inteçretativa dirigida ao inconsciente.</p><p>. Manutenção de segredos: isso tanto pode ocorrer por parte dos indivíduos em</p><p>relação às confidências que fizeram particularmente ao grupoterapeuta na entre-</p><p>vista de seleção, mas que sonegam ao restante do grupo, como também pode</p><p>ocorrer por parte do grupo todo em relação ao terapeuta daquilo que eventual-</p><p>mente eles falaram entre si, fora do enquadre grupal.</p><p>. Excessivaintelectualização.</p><p>. Um acordo, inconsciente, por parte de todos, em não abordar determinados as-</p><p>suntos angustiantes, como, por exemplo, os de sexo ou morte.</p><p>. Complicações com o pagamento e horários.</p><p>. Surgimento de um (ou mais de um) líder no papel de "sabotador".</p><p>. Uma sistemática tentativa de expuÌsão de qualquer elemento novo.</p><p>. Excesso de ncrlngs, individuais ou coletivos.</p><p>. O grau máximo da manifestação resistencial é o da formação de impasses</p><p>terapêuticos, ou até mesmo o das tão temidas "reações terapêuticas negativâs".</p><p>As causas mais prováveis que determinam o surgimento de resistências no cam-</p><p>po grupal analítico costumam ser âs seguintes:</p><p>. Medo do surgimento do novo (especialmente quando há o predomínio de uma</p><p>ansiedade paranóide).</p><p>136 . ZIMERMAN & osoRlo</p><p>. Medo da depressão (a ansiedade depressiva os leva a crer que vão se confrontar</p><p>com um mundo intemo destruído, sem possibilidade de reparação).</p><p>. Medo da regressão (de perder o controle das defesas neuróticas, como as obsessi-</p><p>vas, por exemplo, e regredir a um descontrole psicótico).</p><p>. Medo da progressão (o progresso do paciente pode estar sendo proibido pelas</p><p>culpas inconscientes que o acusam de "não mereci'l lento").</p><p>. Excessivo apego ao ilusório mundo simbiótico-narcisista.</p><p>. Evitação de sentir humilhação e vergonha (de se r:conhecer e ser reconhecido</p><p>como alguém que não é e nunca será aquilo que ele crê ser ou aparenta ser).</p><p>. Predomínio de uma inveja excessiva (e, por isso, não concedem ao terapeuta o</p><p>"gostinho" deste ser bem-sucedido com ele).</p><p>. Manutenção da "ilusão grupal" (nome que designa uma situação específica da</p><p>dinâmica grupal, que se manifesta sob a forma de "nosso grupo está sempre óti-</p><p>mo", "ninguém é melhor do que nós",etc.) através da qual o grupo se ilude que é</p><p>auto-suficìente.</p><p>. Por úttimo, vale dizer que a resistência do grupo pode estar expressando uma</p><p>sadia resposta às possíveis inadequações do grupoterapeuta.</p><p>Pelo menos seis tipos de resistência que podem surgir a partir de determinados</p><p>indivíduos merecem um regìstro especial:</p><p>l) silencioso: a experiência mostra que a melhor forma de manejar com esse tipo de</p><p>paciente é ter paciência, fazer pequenos estímulos sem permitir uma pressío exage-</p><p>rada;</p><p>2\ monopolízador: o manejo com esse paciente é o do contínuo assinalamento de</p><p>sua enorme necessidade de ser visto por todos, diante do intenso pânico de caìr</p><p>no anonimato, ficar marginalizado;</p><p>3) desvìador de assuntos'. como o nome diz, trata-se de um tipo de paciente que</p><p>"capta" o risco de certos aspectos ansiogênicos, e consegue dar um jeito de mu-</p><p>dar para assuntos mais amenos, embora interessantes;</p><p>4) atuador: como sabemos, as atuações substituem a desrepressão de reminiscênci-</p><p>as, a verbalização de desejos e conflitos, e o 2ensar as experiências emocionais:</p><p>por essa razão, tanto no caso de o indivíduo estar atuando pelos demais, ou se</p><p>tratar de um dctlng coletivo, representa uma importante forma de resistência;</p><p>5) sabotador:àmoda de um lídernegativo, através de inúmeras maneiras, um indiví</p><p>duo pode tentar impedir que um grupo cresça exitosamente e que os seus compo-</p><p>nentes façam verdadeiras mudarças, pois ele se revelacomo um pseudocolaborador</p><p>e prefere as pseudo-adaptações;</p><p>6) ambíguo: trata-se paciente que apresenta contradição em seus núcleos de identida-</p><p>de, por isso maneja os seus problemas com técnicas psicopáticas e com isso gera</p><p>uma confusão nos demais, ao mesmo tempo em que aparenta estar bem integrado</p><p>no gÌupo.</p><p>Manejo técnico. Como antes foi referido, é de fundamental importância a ade-</p><p>quada compreensão e o manejo das resistências que, inevitavelmente, surgem em</p><p>qualquer campo grupal; caso contrário, o grupo vai desembocar em desistências ou</p><p>numa estagnação em impasses terapêuticos.</p><p>O primeiro passo, comojá foi dito, é a necessidade de que o grupoterapeuta saiba</p><p>fazer a discriminação entre as resistências que são de obstruçáo sistemática e as que</p><p>simplesmente são reveladoras de uma maneira de se proteger e funcionar na vida real.</p><p>TRANSFEI</p><p>Ec:</p><p>pf.fc</p><p>ab::</p><p>:::t</p><p>: : {</p><p>1:ÍI</p><p>:-q</p><p>;-J</p><p>.+</p><p>r:i</p><p>:',-f,</p><p>grul</p><p>CASC</p><p>repr</p><p>esú</p><p>pars</p><p>rmP</p><p>mtì-i</p><p>pì: r</p><p>l r</p><p>l r</p><p>_ì l</p><p>: l</p><p>:</p><p>::;E</p><p>:fÍ</p><p>:=</p><p>l:a</p><p>I :!a</p><p>a-,1</p><p>COMO TRÀI]ÀLHAMOS COM ORUPOS</p><p>'</p><p>137</p><p>rontar</p><p>)sessi-</p><p>I pelas</p><p>hecido</p><p>r) .</p><p>Euta o</p><p>flca da</p><p>tre otl-</p><p>o uma</p><p>Linados</p><p>tipo de</p><p>:nto de</p><p>de cair</p><p>ìre que</p><p>de mu-</p><p>scênci-</p><p>: ionai s:</p><p>;. ou se</p><p>indiví-</p><p>:omPo-</p><p>borador</p><p>lentida-</p><p>so gera</p><p>rcgrado</p><p>a a ade-</p><p>tem em</p><p>r ias ou</p><p>na saiba</p><p>) as que</p><p>ida real.</p><p>A segunda discriminação que ele deve fazer é se a resistência é da totalidade</p><p>grupal, ou se é por parte de um subgrupo, ou de um determinado indivíduo, em cujo</p><p>caso há duas possibilidades: ou o indivíduo está resistindo tl, grupo, ou ele é um</p><p>representante da resistência do grupo.</p><p>O terceiro passo do grupoterapeuta é o de reconheceç e assinalar ao grupo, o 4rre</p><p>está sendo resistido, por que, por quem, como e paro 4líe isso está se processando.</p><p>Finalmente, o quarto passo é o de que o coordenador do grupo procure ter claro</p><p>para si qual a sua participação nesse processamento resistencial, e isso nos remete ao</p><p>importantíssimo problema da cont ra-resistência, a qual pode assumir múltiplas for-</p><p>mas de o próprio grupoterapeuta se aliar às resistências dos pacientes do grupo.</p><p>TRANSFERÊNCIA E CONTRATRANSFERÊNCIA</p><p>É de consenso entre os psicoterapeutas que o fenômeno essencial em que se baseia o</p><p>processo de qualquer terapia psicanalítica é o da transferência, termo que embora</p><p>empregado no singular deve ser entendido na forma coletiva, ou seja, como uma</p><p>abreviação de múltipÌas e variadas reações transferenciats.</p><p>Particularmente nas grupoteraPias, as transferências aparecem de forma múlti</p><p>pla e cruzada, segundo quatro vetores:</p><p>l) de cada indivíduo em reÌação ao grupoterapeuta:</p><p>2) do grupo, como uma totalidade gestáltica, em relação ao gÍupoterapeuta;</p><p>3) de cada indivíduo em relação aos seus paresl</p><p>4) de cada um em relação</p><p>ao gÍupo como um todo. Além disso, cada uma dessas</p><p>formas pode adquirir distintos modos, graus e níveis de manifestações, através de</p><p>um jogo permanente de identificações projetivas e introjetivas</p><p>Não obstante isso, na atualidade, acredita-se que em todo processo terápico há</p><p>transferência, mas nem tudo deve ser entendido e trabalhado como sendo transferên-</p><p>cia. Assim, existem controvérsias acerca da concepção de qual é o papel do psicote-</p><p>rapeuta nessas situações. Para alguns autores, ele, sempre, não é mais do que uma</p><p>mera figura transferencial modelada pelas identificações projetivas dos personagens</p><p>que cada paciente carrega dentro de seu interior. Para outros, o psicanalistâ é também</p><p>um objeto real, com valores e idissioncrasias próprias e, como tal, ele virá a ser</p><p>introjetado.</p><p>Assim, cada vez maìs expressões como "pessoa real do analista" e "aliança</p><p>terapêutica" estão ganhando espaço nos trabaÌhos sobre transferência. Da mesma</p><p>forma, vem ganhando força o ponto de vista de autores que crêem que a atitude do</p><p>analista é em grande parte responsável pelo tipo de respostâ transferencial dos pacien-</p><p>tes.</p><p>Para uma compreensão mais profunda do fenômeno da transferência é útil que</p><p>façamos uma reflexão a partir desta questão: O fenômeno transferencial é unicamen-</p><p>Íe f]ma necessidade de repetiçõo (nos termos clássicos, tal como Freud postulou) ou,</p><p>antes, é a expressão de repetição de necessidades (náo sâtisfeitas no passado)? Uma</p><p>grupoterapia psicanalítica permite observar com clareza o quanto está presente a se-</p><p>gunda postulação. Esse aspecto relativo à necessidade das pacientes terem um novo</p><p>espaço e uma nova oportunidade de reexperimentarem antigas e maì-resoÌvidas ex-</p><p>periências emocionais é muito importante que esteja bem claro para o grupoterapeuta,</p><p>porquanto ele determina uma atitude psicanalítica interna de natureza mais empática</p><p>138 . r,*orol a oso*'o</p><p>Habitualmente, as transferências são classificadas, em função de sua qualidade</p><p>afetiva, como "positivas" ou "negativas". No entanto, essas denominações, embora</p><p>consagradas no jargão psicanalítico, não são adequadas pelo fato de conotarem um</p><p>juízo de valor moralístico. Ademais, sabemos que muitas transferências considera-</p><p>das "positivas" não passam de conluios resistenciais, enquanto que outras manifesta-</p><p>ções transferenciais de aparência agressiva, rotuìadas como "negativas", podem ser</p><p>positivas do ponto de vista psicoterápico, desde que bem absorvidas, entendidas e</p><p>manejadas.</p><p>A tendência atual é a de considerar o fenômeno transferencial não tanto pelos</p><p>afetos que veicula, mas muito mais pelos efeìtos que produz nos outros, através do</p><p>mecanismo conhecido como "contra-identificação projetiva", quando essa se proces-</p><p>sa dentro da pessoa do psicoteÍapeuta, caracterizando o conhecido fenômeno da con-</p><p>tratransferênc ia.</p><p>A contratransferência, como antes foi ressaltado, resulta essencialmente das</p><p>contra-identificações projetivas dos pacientes, razão porque ela tanto pode servir</p><p>como um instrumento de empatia como pode assumir características patogênicas,</p><p>caso o psicoterapeuta se confunda e se identifique com os objetos parentais nele</p><p>projetados.</p><p>Também é indispensável que tenhamos bem clara a distinção entre o que é con-</p><p>tratransferência propriamente dita e o que é simplesmente a transferência pessoal do</p><p>próprio terapeuta em relação aos seus pacientes. Uma vez que o analista tenha condi-</p><p>ções de fazer essa necessária discriminação, então, sim, ele pode utilizar os seus</p><p>sentimentos contratransferenciais como um meio de entender que esses correspondem</p><p>a uma forma de comunicação prìmitiva de sentimentos que o paciente não consegue</p><p>reconhecer e, muito menos, verbalizar.</p><p>No processo grupal, é importante que todos os componentes da grupoterapia</p><p>desenvolvam a capacidade de reconhecimento dos próprios sentimentos contratrans-</p><p>ferenciais que os outros lhe despertam, assim como os que ele despertou nos outros.</p><p>Isso tem uma dupla finalidade: uma, a de auxiliar a relevante função do ego de cada</p><p>indivíduo em discriminar entre o que é seu e o que é do outro; a segunda razáo éada</p><p>necessidade, para o crescimento de cada pessoa, de que ela reconheça, por mais pe-</p><p>noso que isso seja, aquilo que ela desperta e "passa" para os outros.</p><p>Finalmente, cabe destacar o sério risco de que se formem surdos conlrios</p><p>transferenciais-contratransferenciais, sob modalidades como as de: um ilusório "faz</p><p>de conta"; uma recíproca fascinação narcisística; um vínculo de poder de natureza</p><p>sadomasoquista, etc. Um conluio inconsciente que representa um sério prejuízo para</p><p>uma grupoterapia psicanalítica é quando o espaço do campo grupal está unicamente</p><p>ocupado pela idealização, pois assim fica inibido o surgimento de sentimentos agres-</p><p>sivos contidos na chamada "transferência negativa", e sem a análise da agressão e da</p><p>agressividade um tratamento analítico não pode ser considerado completo.</p><p>nr</p><p>(as</p><p>co-</p><p>. Éi</p><p>de</p><p>I</p><p>ATIVIDADE I</p><p>Ainda rl</p><p>rnstn{</p><p>tação Í</p><p>ten'enÍ</p><p>os 8lul</p><p>.{</p><p>natuÍ{</p><p>uma al</p><p>não pír</p><p>ser li&</p><p>o</p><p>proces</p><p>contin</p><p>terapêr</p><p>vlgent</p><p>evitad</p><p>e nunc</p><p>passad</p><p>indirÍ</p><p>grupal</p><p>resped</p><p>\l</p><p>artifici</p><p>doosl</p><p>técnic:</p><p>COMUNICAÇAO</p><p>As grupoterapias, mais do que o tratamento individual, propiciam o surgimento dos</p><p>problemas da comunicação e, portanto, favorecem o reconhecimento e o tratamento</p><p>de seus costumeiros distúrbios.</p><p>A normalidade e a patologia da comunicação abarcam um universo tão amplo</p><p>de configurações que seria impossível detalhá-los aqui; no entanto, em estilo telegrá-</p><p>fico, alguns pontos devem ser destacados:</p><p>COMO TRABALHAITíOS COM GRUPOS</p><p>'</p><p>139</p><p>)--::</p><p>::-</p><p>e::-</p><p>-</p><p>a-a</p><p>Li:</p><p>e-, .</p><p>; : ì -</p><p>c:{</p><p>r. ::</p><p>;li</p><p>: !^ : -</p><p>t l</p><p>€'j i</p><p>le::</p><p>d:</p><p>Ia:</p><p>'f:z</p><p>ÈZ!</p><p>nr.:</p><p>:nte</p><p>rE \_</p><p>:d:</p><p>d!. :</p><p>Inta</p><p>. Falar não é o mesmo que comunicar; assìm, a fala tanto pode ser util izada como</p><p>instrumento essencial da comunicação como, pelo contrário, pode estar a serviço</p><p>da lncomunicação.</p><p>. Cadapaciente, assim como cada gÍupoterapeuta, temumestilo peculiarde transmi-</p><p>tir as suas mensagens que, de modo geral, traduz como é a sua personalidade</p><p>(assim, pode-se reconhecer o estilo arrogante do narcisista, o dramático do histéri-</p><p>co, o detalhista e ambíguo do obsessivo, o evitativo do fóbico, o falacioso do</p><p>"falso self', o autodepreciativo dos deprimidos, o defensivoJitigante dos para-</p><p>nóides, o superlativo do hipomaníaco, e assim por diante).</p><p>. E de especial importância que o grupoterapeuta observe detidamente o destino</p><p>que as mensagens de uns ressoam nos outros, principalmente o de sua atividade</p><p>intemretativa.</p><p>. É igúalmente importante que o grupoterapeuta esteja atento às múltiplas formas</p><p>de comunicação não-verbaìs (gestos, posturas, maneirismos, choro, riso, vesti-</p><p>mentas, tonalidade de voz, somatizações, actrflgs, efeitos contratransferenciais,</p><p>etc.).</p><p>O que deve ser enfatizado é o fato de que, nas grupoterapias em que o emissor</p><p>(gnìpoterapeuta) e o receptor (grupo) não esfiverem sintonizados num mesmo canal,</p><p>a comunicação não se fará. Isso é particularmente importante para os problemas da</p><p>interpretação.</p><p>ATIVIDADE INTERPRETATIVA</p><p>Ainda que a interpretação não sejâ o único fator terapêutico, ela é, sem dúvida, o</p><p>instrumento fundamental. No entanto, é útìl estabelecer uma distinção entre interpre-</p><p>tação propriamente dita e atividade interpretativa, tal como ela está descrita nas "in-</p><p>tervenções do grupoterapeuta" no capítulo deste livro que versa sobre "Como agem</p><p>os grupos terapêuticos?".</p><p>A interpretação consta de tÍês aspectos: o conteúdo, a forma e o estilo, alêm,</p><p>naturalmente, de um sólido respaldo teórico-técnico, e cada um desses permitiria</p><p>uma alongada e relevante abordagem sobre a sua normalidade e patoÌogia. Todavia,</p><p>não pretendo fazê-la aqui, pois seria uma exposição relativamente longa, e ela pode</p><p>ser lida em um outro texto simìlar (Zimerman, I 993).</p><p>Creio ser útil partilhar com o leitor as profundas transformações que vêm se</p><p>processando em mim em relação à técnica interpretâtiva nesses meus 30 anos de</p><p>continuada prática grupoterápica. Assim, bem no início de meu trabalho com grupos</p><p>terapêuticos</p><p>psicanaÌíticos, mantive-me obediente aos postulados que os ensinamentos</p><p>vigentes na época postulavam: sempre interpretar o grupo como um todo, ìnchtsive</p><p>evitando a nominação dos indivíduos; sempre interpretar no aqui-agora transferencial</p><p>e nunca na extratransferência; evitar incluir na interpretação os aspectos infantis do</p><p>passado pela razão de que o grupo é uma abstração e, portanto, diferentemente dos</p><p>indivíduos, ele não tem uma história evolutiva desde a infância; entender o campo</p><p>grupal sob uma óptica kleiniana, isto é, sob a égide das pulsões destrutivas e das</p><p>respectivas ansiedades de natureza psicóticâ.</p><p>Minha fidelidade a tais princípios durou pouco tempo: tudo me parecia algo</p><p>artificial e eu me sentia um tanto violentado e, ao mesmo tempo, como que violentan-</p><p>do os pacientes. Aos poucos, e cada vez mais, fui me permitindo fazer mudanças</p><p>técnicas quanto à atividade interpretativa nos seguintes sentidos:</p><p>rplc</p><p>rrá-</p><p>L40 . znaerue.N a osonro</p><p>Discriminar as individualidades, ainda que sempre em conexão com o denomina-</p><p>dor comum do contexto grupal.</p><p>Uma maior valorização dos aspectos extratransferenciais.</p><p>Não faço mais uso de uma forma JiJle mática de interpretar no aqui-agora-conosco</p><p>(com exceção, é claro, das situações em que a ansiedade emergente do grupo</p><p>estiveÍ, de fato, ligada a mim).</p><p>Em contrapartida, utilizo mais uma atividade interpretativa constante de pergun-</p><p>tas (que instiguem indagações e reflexões); clareamentos; assinalamentos (de</p><p>paradoxos, lapsos, desempenho de papéis, formas de linguagem não-verbal, etc.):</p><p>abertura de novos vértices de percepção dos fatos; confrontos com a realidade</p><p>extenor, etc.</p><p>Uma maior importância e utilização ao assinalamento de como os pacientes utìli-</p><p>zam as suas funções do ego, notadamente as de percepção, pensamento, lingua-</p><p>gem, comunicação, juízo crítico e conduta.</p><p>Valorizo os aspectos positivos da personalidade, como, por exemplo, os que es-</p><p>tão nas entrelinhas de muitas resistências e atuações.</p><p>Enfatizo o desempenho de papéis fìxos e estereotipados presentes no grupo e que</p><p>reproduzem os da vida lá fora.</p><p>Uma valorização especial aos problemas da comunicação, em suas múltiplas ma-</p><p>nifestações.</p><p>Uma maior valorização dos aspectos contratransferenciais tanto porque isso pode</p><p>ser um impoÍante veículo de comunicação primitiva como porque pode levar ao</p><p>risco de contrair conluíos inconscier?Íes com os pacientes.</p><p>Permitir e, de certa forma, estimular que os próprios pacientes exerçam uma fun-</p><p>ção interpretativa.</p><p>Fazer, ao final de cada sessão, uma síntese (náo ê o mesmo que um resumo) das</p><p>púncipais experiências afetivas ocorridas ao longo dela, sempre visando a uma</p><p>integração e coesão grupal.</p><p>CRITÉRIOS</p><p>Conqr</p><p>ca an:</p><p>ligado</p><p>exprer</p><p>I</p><p>da</p><p>-sruaspecl</p><p>.Rr</p><p>.D</p><p>Ìn</p><p>rà</p><p>.Er</p><p>; i</p><p>.D</p><p>dr</p><p>ral</p><p>.D</p><p>_Ít</p><p>.c</p><p>ú</p><p>. L:</p><p>ur</p><p>_.ó</p><p>.D</p><p>a</p><p>.c</p><p>ql</p><p>.c</p><p>! I</p><p>.ã</p><p>: l</p><p>:I</p><p>. f ,</p><p>:1</p><p>í</p><p>-i</p><p>:I</p><p>. l</p><p>3</p><p>ACTINGS</p><p>Sabemos que os actingJ ocorrem como uma forma substitutiva de não lembrar, não</p><p>pensar, não verbalizar, ou quando as ansiedades emergentes dos pacientes não foram</p><p>devidamente interpretadas pelo psicanalista. Por essa razão, eles se constituem num</p><p>importantíssimo elemento do campo grupal, uma forma de comunicar algo, que tanto</p><p>pode ser de natureza benigna, e até sadia, como pode adquirir características bastante</p><p>malignas.</p><p>Dentre estas últimas, além do risco não-desprezível de que possa ocorrer um</p><p>envolvimento amoroso entre pessoas do grupo, um acting qtu.e devemos considerar</p><p>grave é o que diz repeito a uma quebra de sigilo do que se passa na intimidade do</p><p>gÍupo, inclusive com a divulgação pública de nomes das pessoas envolvidas. Guardo</p><p>uma convicção que muito do declínio das grupoterapias analíticas se deve a um des-</p><p>crédito que em grande parte foi devido a esse tipo de atuação, o qual costuma resultar</p><p>de uma seleção mal feita.</p><p>Os actings também podem estar a serviço das resistências do grupo e se confun-</p><p>dem com o desempenho de alguns papéis, tal como foi descrito no tópico relativo às</p><p>resistências. I</p><p>sis:: r</p><p>coMorR^BALHAMoS CoM cRUPos . 141</p><p>E</p><p>t:</p><p>s</p><p>É</p><p>CRITÉRIOS DE CURA</p><p>Conquanto eu esteja empregando o termo "cura" por ele ser de uso corrente na práti</p><p>ca analítica, creio que, acompanhando Bion, o conceito dessa palavra está muito</p><p>ligado à medicina, no sentido único de uma remoção de sintomas; por conseguinte, a</p><p>expressão mais adequada seria a de "crescimento mental".</p><p>Em termos mais estritamente grupais, pode-se afirmar que um processo e x itoso</p><p>da grupoterapia psicanalítica, em uma concepção ideal, deveria abarcar os seguintes</p><p>aspectos das mudanças psíquicas:</p><p>. Diminuição das ansiedades paranóides e depressivas. Isso implica que os indiví-</p><p>duos possam assumir a parcela de responsabilidade pelo que fizeram ou deixa-</p><p>ram de fazer para os outros e para si mesmos.</p><p>. Desenvolvimento de um bom "espírito de grupo", com um sentimento geral de</p><p>"pertencência" e de coesão.</p><p>. Capacidade de comunicação e intemção com os demais, sem a perda dos neces-</p><p>sários limites.</p><p>. Uso adequado das identificações projetivas, sendo que isso tanto vai possibilitar</p><p>uma menor distorção de como eles percebem os demais, como o desenvolvimen-</p><p>to de uma empatia, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro.</p><p>. Ruptura da estereotipia cronificada de certos papéis.</p><p>. Desenvolvimento da capacidade de fazer reconhecintentos: de si próprio; do ou-</p><p>tro como pessoa diferente e sepaÍado dele; ao outro, como uma expressão de</p><p>consideração e gratidão; e reconhecer Õ quanto cada um necessita vitalmente ser</p><p>reconhecido pelos outros.</p><p>. Em pacientes muito regressivos, a passagem do plano imaginário para o simbóli</p><p>co, o que, por sua vez, permitirá a passagem da posição de narcis-ismo para a de</p><p>social-ismo.</p><p>. Desenvolvimento do senso de identidade individual, grupal e social, assim como</p><p>o de uma harmonia entre essas.</p><p>. Capacidade de elaborar situações novas, com as respectivas perdas e ganhos.</p><p>. Capacidade de fazer discriminações entre aspectos dissociados: do que é dele e o</p><p>queédooutro; entre o pensar, o sent i r e o agir ; entreai Ìusãoeareal idade,etc.</p><p>. Capacidade de se permitir ter umaboa dependência (é diferente de submissão ou</p><p>simbiose), assim como o de uma relativa independência (é diferente de rebeldia,</p><p>autoritarismo ou de "não precisar de ninguém"). Aquisição de novos modelos de</p><p>identificação e, ao mesmo tempo, umanecessáriades-idefiirtcação comarc^icos</p><p>modelos de identificações patógenas.</p><p>. Desenvolvimento das capacidades de ser continente de ansiedades - das de ou-</p><p>tros e das suas próprias. Transformação da onipotência em capacidade parapen-</p><p>scr,'da omnisciência pela capacidade de exÍrair tmaprendizado com as experiên-</p><p>cias emocionais; da prepotência pela humildade em reconhecer a fragilidade e a</p><p>necessidade dos outros.</p><p>. Desenvolvimenro de uma função psicanalítica da personalidade, expressão de</p><p>Bion que designa uma boa introjeção do psicanalista e, portanto, uma capacidade</p><p>para alcançar r'nsl ghts e, no grupo, poder fazer assinalamentos interpretativos.</p><p>Em resumo, um verdadeiro crescimento mental de cada indivíduo do grupo con-</p><p>siste no fato dele ter tirado um aprendizado com as experiências emocionais vividas</p><p>n</p><p>:</p><p>r</p><p>142 . ZMERMAN & osoRlo</p><p>nas recíprocas inter-relações que o grupo propiciou, de modo a se posicionar na vida</p><p>pensando que o realmente valioso é adquirir a lìberdade para fantasiar, desejar, sen-</p><p>tir, pensaÌ, comunicar, sofrer, gozlr e estürjunto coiri os outros.</p><p>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</p><p>ZIMERMAN, D.E. Fundamentos básicos las grupotercpías. Porto Alegrc: Artcs Médicas, I993.</p><p>T4</p><p>Te|mo originrl t . I</p><p>I4</p><p>Psicanálise Compartilhada:</p><p>Atualizacão</p><p>GERARDOSTEIN</p><p>(Prática solidária que aÍnplia os alcânces do método)</p><p>De como o nutridor acaba também poÍ ser nutrido.</p><p>Tratou-se, em seu começo, de uma variante técnica dcstinadâ a investigar o emprego do</p><p>método psicanalítico no gÍupo. Essa expectativa conlinua sendo aÍualmente sua propos-</p><p>ta: investigar dc que modo é possíveÌ o desenvolvimcnto de processos psicanalíticos</p><p>ìndividuais em um contexto ÌnultipcssoaÌ. Seu exercício</p><p>na clínica mostrou-se cficaz</p><p>como recurso terapêutico, por um Iado, e demonstÍou, por outío, set um campo fecundo</p><p>em contribuições para â psicanálise, também na terâpêuÌica individual, de família e de</p><p>grupos pré-formados.</p><p>Este encontÍo fundânte é uma mctáfora antecipadora: a psicanálise se propõe a alimen-</p><p>taÍ a psicoterapia de grupo; a psicotcrapja dc grupo se dispõe a ser alimentada peÌa</p><p>psicanálise.</p><p>Na ação, as coisâs se tornam diÍe.cntcs do csperador a nutriz se toÍna também lactente.</p><p>A investigação, neste campo de encontros intersubjetivos, será atravessada pela mesma</p><p>modalidade: veí-se-á como, no âmbito do intersubjctivo, o devir psíquico é sempre de</p><p>natureza imprevisível e c.iativa. O enconlÍo dc duas intencionalidades gera sempre</p><p>intencionalidades novas. Mais ainda, o parentesco com as gendoÍas da união costuma</p><p>ficar muito disiante. Trata-se, cntão, de um modelo cuja proposta fundacional foi e con-</p><p>tinua sendo a investigação dc um modo possível para o desenvolvimento de processos</p><p>psicanalít icos individuais €m um contexto mult ipcssoal.</p><p>Os conceitos mencionados, e mais uma breve narração de suas origens, explicaÍão as</p><p>razões quc me inspiraram sua denominação: psicanálise compaÍtilhada'.</p><p>Iniciei a prática da psicoterapia psicanalítica de grupo na Policlínica de Lanús, em</p><p>meados de 1959.</p><p>"O Lanús", nome que até o presente identifica o Serviço de Psicopatologia,</p><p>fundado 2 anos antes pelo professor Mauricio Goldenberg, iniciou uma mudança</p><p>revolucionária na psiquiatria de nosso país e de outros da América Latina: foi a pri-</p><p>meira saída da Assistência em Saúde Mental fora do manicomial. Constituiu-se na</p><p>entrada inaugural da mesma no hospital geral.</p><p>A investigação do novo, sem outros limites do que a seriedade da tentativa, era</p><p>a norma do que ali era possível. Seu chefe confiou essa tarefa a um conjunto de</p><p>profissionais jovens, constituídos com ele em "Staff Diretivo" do serviço. Tïve a</p><p>l</p><p>I</p><p>I</p><p>:</p><p>' Termo original: psicoanálisis compaÍido.</p><p>144 . ZMERMAN & osoRlo</p><p>sorte de contar-me entre eles e, em pouco tempo, de assumir a direção do depana-</p><p>mento de grupos.</p><p>A amizade do Dr. Goldenberg com o Dr. Enrique Pichon Rivière e meu desejc.</p><p>junto com os de minha equipe, de contarcom sua ajuda, outorgaram-nos o privilégi:</p><p>de tê-lo como supervisor de nossa tarefa.</p><p>Sua forma de trabalhar a psicanálise nesta matéria ofereceu experiências sur-</p><p>preendentes. Fazia-nos ler o material clínico, sem mencionar o nome de seu produtor.</p><p>fosse paciente ou terapeuta. Ainda mais, não devíamos dizer quando deixava de fazê-</p><p>lo um e começava o outro. Tomava todo o material como a associação livre de ur:</p><p>único sujeito: o grupo. ,.</p><p>As interpretações deviam s'er dirigidas ao gÌupo. Operava-se com o conceito de</p><p>porta-voz. Se, por exempÌo, alguém dizia se sentir "uma pessoa desconsiderada". :</p><p>intervenção do psicanalista era: "O grupo expressa sentir-se'o desconsiderado' dor</p><p>grupos do Lanús".</p><p>Comecei a trabalhar conforme seus ensinamentos, o que foi feito durante ba:-</p><p>tante tempo, até que, em uma ocasião, sucedeu o inesperado: o surpreendente definidc:</p><p>da psicanálise, quando a eficácia do inconsciente se põe em evidência.</p><p>Transcorria uma sessão como tantas de meu primeiro grupo terapêutico. Achr-</p><p>va-me acompanhado por meus dois "observadores não-participantes" (naqueles tem-</p><p>pos, a função de observador era limitada: deviam registrar por escrito o material .</p><p>nada mais).</p><p>Pouco depois do início, mostrou-se chamativa a agressividade de Maria contr"</p><p>Julia. Assistíamos todos impotentes a esta cena cruel. Um sentimento de piedade po:</p><p>Julia promoveu uma transgressão impensada: "Maria", disse-Ìhe, "Seria important:</p><p>que pensasse a razão de sua raiva de Julia".</p><p>A situação se traÍìsfigurou, para surpresa generalizada; a própria agredida per-</p><p>deu sua atitude compungida e abatida, para unir-se ao olhar de cada um, cravado ni</p><p>analista, inclusive observadores não-participantes. Este se sentiu invadido por un</p><p>sentimento forte. Algo assim como o que experimentaria um religioso de quem esca-</p><p>passe um grito blasfemo durante a prática de uma missa solene.</p><p>A pessoa aludida logo se recompôs. Em tom de mestra, repreendendo benevolent:</p><p>um aluno desencaminhado, disse: "Eu agredindo!..., Doutor!... Não!... É o grupo!1...'</p><p>Maria revelou o que até então estâva oculto. Enquanto o trabalho interpretati\ i</p><p>se dirigia "ao grupo", seus integrantes realizavam sua atividade independentementÈ</p><p>Pôs-se em evidênciâ um pacto âté então invisível.</p><p>Posso descrevê-lo do seguinte modo: enquanto minha ocupação era falar para c</p><p>grupo, as pessoas conversavam entre si. Para eles, meu diálogo com "o grupo" er:</p><p>tido por uma "ocupação mágica", daquelas que não chamariam a atenção - como s-</p><p>em lugar de um psicanalista se tratasse de um "bruxo", dotado dos misteriosos segre-</p><p>dos da cura. Ele "devia saber o que fazia". A conseqüência era natural. Não cabi:</p><p>senão escutar, também em silêncio respeitoso, esse discurso a um interlocutor ocult.</p><p>e sempre silencioso (pelo menos para eles): "O GRUPO". Os efeitos deste "ato ritu-</p><p>al" seria "indubitavelmente benéficos para todos".</p><p>W. Bion ("Experiências com grupos") traz um enfoque esclarecedor para esse</p><p>suceder. Trata-se de um grupo operando segundo o pressuposto básico do acasala-</p><p>mento. O casal gestante da esperança messiânica acabou por ser constituído p..lc</p><p>psicanalista e por um ser ideal: "O Grupo". O Messias almejado era "A Cura". Cura</p><p>que como Messias devia não chegar, e assim cumprir sua função principal: manter</p><p>vlva a esperança.</p><p>soes</p><p>notó</p><p>satis</p><p>fund</p><p>teori</p><p>ação</p><p>retor</p><p>VCTSi</p><p>com,</p><p>rerpr</p><p>soÍx</p><p>nand</p><p>mals</p><p>úl t in</p><p>surpr</p><p>segu</p><p>xos (</p><p>guar</p><p>slmF</p><p>não l</p><p>uma</p><p>de st</p><p>atr\'(</p><p>Juan</p><p>(</p><p>T</p><p>(</p><p>Vale</p><p>t</p><p>Adri</p><p>I</p><p>(</p><p>I</p><p>t</p><p>Vale</p><p>?-.r exemplo: N3</p><p>'.=!suposÌos rncor!</p><p>:-:\ ris do própnc</p><p>,:e!. generalizaçôe</p><p>:: : . p.62); (ZI \ f l</p><p>.</p><p>STEIN, G. 'A ÂI</p><p>13 Argenl ina (19</p><p>COMO TRABALHAMOS COM GRUPOS . 145</p><p>Enquanto isso, os pacientes diziam estar melhor. Acorriam pontualmente às ses-</p><p>sões. A equipe terapêutica tinha, por sua vez, evidências de melhora, em alguns casos</p><p>notórias. Seria a força da esperança messiânica a sustentação ilusória de tais efeitos</p><p>satisfatórios? Inclino-me a pensar em uma resposta afirmativa.</p><p>Porém, seria esta a única razão? Outros investigadores devem ter chegado a</p><p>uma pergunta idêntica, a julgar por sua afirmações'.</p><p>Em mim, esse acontecimento e tais interrogações produziram efeitos.</p><p>Maria tinha feito um disparo contundente sobre minhas convicções. A potência</p><p>de seu impacto as levou por um caminho sem retomo.</p><p>Seu comentárío irônico operou ao modo de uma interpretação psicanalítica pro-</p><p>funda. Entrou em interação com meus próprios questionamentos inconscientes às</p><p>teorias sustentadas. Ali, e a partir de então em minha consciência, eles puseram em</p><p>ação mudanças insólitas. Arrasados meus pressupostos teóricos e técnicos, optei por</p><p>retomar ao mais conhecido: a psicanálise. Comecei simplesmente a escutar suas con-</p><p>versas espontâneas em atenção flutuante, tal como aprendera com Pichon Rivière,</p><p>como se escuta o livre associar de qualquer analisando. Isso, sim, esquecido do "in-</p><p>terpretar para o grupo", como mandato. Tal nível interpretativo seria ampliado, mas</p><p>somente quando o grupo manifestasse inquestionáveis evidências de estar funcio-</p><p>nando em termos de pressuposto básico. Como iria definir mais adia_nte, funcionando</p><p>mais sob as leis da massa'", e não as do pequeno grupo de trabalho. E no âmbito deste</p><p>último que a psicanálise e sua escuta não tardaram a me submeter novamente a suas</p><p>surpresas. Em uma ocasião, um paciente "4" falou de algum problema aflitivo. Em</p><p>seguida outro, a quem chamarei de "B", iniciou comentários aparentemente descone-</p><p>xos em relação aos de seu predecessor. Não obstante, seu conteúdo manifesto parecia</p><p>guÍìÍdar uma coerência sutil com o primeiro. O que sustentou tal coerência? Muito</p><p>simples: se "A" tivesse continuado seu discurso, dizendo ele o expresso por "B", eu</p><p>não teria vacilado em categorizá-lo como uma associação livre significativa.</p><p>Assim, tornou-se tentador investigar a natureza e o posicionamento</p><p>do nexo</p><p>ativo entre ambas as produções.</p><p>Juana: "Hoje, como sempre, vim por obrigação. Há algo que devo confessar a vocês.</p><p>O Dr. já sabe, vocês também têm o direito de saber. Eu venho porque me manda-</p><p>ram. Na realidade, não acredito neste tratamento".</p><p>(Silêncio inusualmente prolongado).</p><p>Valeria: "Adrián, recém me lembrei. Tu vinhas falando em adotar um bebê. Faz mui-</p><p>to tempo que não mencionas o tema. O que aconteceu?"</p><p>Adrián: "Eu não queria falar. Decidimos guardar segredo. Mas aqui é diferente. Ago-</p><p>ra que estão me perguntando, entendo que, em análise, não há razões paÍa silen-</p><p>ciar sobre isso. Me decidi, e falei com minha mulher. Levei-a para um café. Ali</p><p>não poderia agir como em casa. Sempre interrompe, por alguma coisa que tem</p><p>para fazer" .</p><p>Valeria: "Disseste a ela tudo o que estavas pensando?"</p><p>'Porexemplo: "Na verdade, quem tmbalha com grupos sabe que o campo gÍupal é muito cal€idoscópico e p€rmite uma gâmâ de</p><p>lressupostos inconscientes muito mais complexâ e variada. Aliás, essas linhas jí estavam escíitas quando me deparei com as</p><p>irlâvrâs do próprio Bion, âo ÍespondeÍ a uma perguntâ que lhe fizeram sobÍe â utilidade dos três supostos brísicos. 'São conÍru-</p><p>;ões, geneÍâlizações gÍosseims,., e se elas não me lembram a vida real, não me seÍvem pâra nada'." (ConyeÌsando coüÌ Bion,</p><p>1992, p- 62); (ZIMERM AN, D.E. Bìon: da teoria à prática - una leituru dìütica. Poío AleEÍ.. AÍes Médicâs, | 996. p. ?8).</p><p>" STEIN, G. "A APA, uma massa aíificial" le Il. Tmbdhos apresentados cada um em Íeunião científica da Associcçâo Psicânâ-</p><p>:úica Argentina (1986), para sua discussão em pleniíÍio e pequenos gÍupos.</p><p>È</p><p>r</p><p>a</p><p>r</p><p>e</p><p>146 o znlervlr a osonro</p><p>Adrián: "Tudo".</p><p>Valeria: "E?"</p><p>Adrián: "A verdade, ainda não posso acreditar. Ficou claro que ela estava esperando</p><p>essa atihrde minha. Estava decidida a adotar, mas não me via genuinamente conven-</p><p>cido. Agora penso que tinha razão".</p><p>Nadia: "Desculpem, mas eu fiquei com o que Juana disse no começo. Me incomodou</p><p>sua atitude. Escuta, Julia, se não tens vontade de vir, seria melhor que tu ficasses</p><p>em casa".</p><p>Adrián: (dirigindo-se a Nadia) "Não vejo por que tomas isso deste modo, se veio, e</p><p>disse isso enquanto se sentou, é porque deve querer falar disso".</p><p>A essa altura da sessão, a expressão de Juana se tornara eloqüente para o ânalis-</p><p>ta. Viâ-se como estava emocionada. Não havia muitas dúvidas sobre seu significado.</p><p>Devia sentir-se descoberta em seu segredo, isso de que não falava, mas era conhecido</p><p>por mint. Decidi, então, vir em seu auxílio.</p><p>Analista - Adrián: "Você acaba de dizer: 'Juana deve querer falar disso'. É provável</p><p>. que ignore o verdadeiro alcance de suas palavras. Em minba opinião, você sabe</p><p>mais do que acredita saber a respeito de Juana. Agora, certamente vão se esclare-</p><p>cer umas tantas coisas. Juana: você e eu sabemos algo que seus companheiros de</p><p>análise ignoram. É possível que considere que é chegado o momento de falá1o".</p><p>Juana: (começa a soluçar, e depois de um tempo fala) "Não posso falar. Por favor,</p><p>Dr., diga você".</p><p>Analista: "Juana me pede que lhes diga o motivo de sua presença aqui. Trata-se de</p><p>sua esterilidade. Valeria: Juana começou falando de "algo que queria confessar a</p><p>vocês, que o Dr. já sabe": no manifesto, foi sua falta de motivação para vir. Igno-</p><p>ro a forma com que seu inconsciente a escutou. Mas é surpreendente que logo</p><p>então você tivesse recordado o projeto de adoção de Adrián. Demasiado surpre-</p><p>endente para considerá-lo casual. Como se, em algum lugar de você, não houves-</p><p>se dúvidas a respeito de qual era a verdadeira confissão que Juana precisava</p><p>fazer. A da esterilidade".</p><p>Adrián: "Você disse também que 'Aqui não há razões para guardar segredo'. Mesmo</p><p>quando estava se referindo à sua própria pessoa, parece evidente haver funciona-</p><p>do para Juana, em ressonância com um desejo próprio a ela. Estou bastante segu-</p><p>ro de que seus desejos deram mais força aos dela: os de deixar de guardar o</p><p>segredo".</p><p>Juana havia iniciado sua análise havia 3 semanas. Recorreu a ela, queixando-se</p><p>de esterilidade e por conselho de seu ginecologista. Estudos clínicos exaustivos ti-</p><p>nham se mostrado infrutíferos para encontrar as causas. Por tais razões, foi diagnos-</p><p>ticada de origem psicológica. Seu encaminhamento para o tratamento psicanalítico</p><p>foi recebido com desagrado tanto por ela como por seu marido. Incoçorei-a a uma</p><p>equipe de psicanálise compartilhada, integrada por 4 outros pacientes. Como era de</p><p>se esperar, sua participação foi escassa durante as primeiras sessões. Era evidente seu</p><p>desinteresse. Para seus companheiros de análise, era um enigma o motivo de sua</p><p>consulta, nunca havia mencionado sua esterilidade.</p><p>Valeria referiu-se ao projeto de adoção de Adrián. Este último pôs a descoberto</p><p>um passo importante na compreensão de sua conflitiva inconsciente: seu rechaço</p><p>pela patemidade por adoção, em aliança com um sentimento idêntico em sua mulher.</p><p>Mais adiante, aprofundar-se-ia a análise de Juana. Isso nos depararia com uma nova</p><p>descobe</p><p>ponsáv€</p><p>casualid</p><p>a) Aal</p><p>b) Adr</p><p>c) Opr</p><p>d) Odr</p><p>minr</p><p>seu</p><p>d.tr</p><p>intel</p><p>ficar</p><p>cap</p><p>Ail</p><p>o que oc</p><p>descobri</p><p>lhos, a e</p><p>gir adeq</p><p>nafurezi</p><p>te, esta c</p><p>ce dar cr</p><p>Ne</p><p>compan</p><p>rios (coÍ</p><p>ser capa</p><p>discurso</p><p>A1</p><p>dos men</p><p>resse po</p><p>ao curso</p><p>com esü</p><p>flutuant(</p><p>AÌ i</p><p>al, recor</p><p>te, das n</p><p>ções incr</p><p>cidos po</p><p>pretaçõe</p><p>crevendr</p><p>dos outr</p><p>registrac</p><p>narureza</p><p>informal</p><p>novos eÍ</p><p>' FREUD, S. ComEbs a</p><p>Turosis obsesiví ' ( l9l l</p><p>coMOIRABALHAMoS Cov cnuPos r 147</p><p>descoberta: o rechaço inconsciente da matemidade por parte de Juana, possível res-</p><p>ponsável por sua esterilidade. E difícil, a partir de um pensar psicanalítico, atribuir à</p><p>casualidade o sucedido. Resumindo:</p><p>a) A associação de Valeria, precipitando o comentário de Adrián.</p><p>b) A descoberta de seu rechaço pela patemidade adotiva, incluído no mesmo.</p><p>c) O prenúncio precoce das possíveis causas psicoÌógicas da infertilidade de Juana.</p><p>d) O desdobramento, entre Nadia e Adrián, da conflitiva de Juana: a primeira, expri-</p><p>mindo o temor de investigar ("Seria melhor que ficasses em casa"); o segundo,</p><p>seu desejo e necessidade de fazê-lo ("Ali não poderia agir como em casa"... e,</p><p>depois, "Deve querer falar disso"). Isso foi eficaz de imediato. Considero-a uma</p><p>intervenção psicanalítica de primeira ordem: antecipa-nos, ao modo de exempli-</p><p>ficação, um ponto a desenvolver mais adiante: o exercício da função psicanalíti-</p><p>ca por parte de qualquer um dos analisandos.</p><p>Ainda hoje ignoro a linguagem empregada por Juana para informar o ocultado e</p><p>o que ocultava para si mesma ao inconsciente de seus companheiros de análise. Freud</p><p>descobriu um suceder capaz de lançar uma luz sobre isso. Afirmou, em vários traba-</p><p>lhos, a existência, em todas as pessoas, de um dispositivo inconsciente c apaz de rea-</p><p>gir adequadamente na leitura do inconsciente nos outros'. Depois de investigar a</p><p>natureza e o posicionamento do nexo ativo dessas produções, no exemplo preceden-</p><p>te, esta comunicação entre inconscientes acaba por ser a explicação que melhor pare-</p><p>ce dar conta destes observáveis.</p><p>Neste exemplo, produziu-se o que defini como "ato fundante de psicanálise</p><p>compartilhada". Tal aspecto acontece quando o profissional informa a algum ou vá-</p><p>rios (como neste caso) de seus integrantes que seu psiquismo inconsciente conseguiu</p><p>ser capaz de detectar e "interpretar" eficazmente a produção latente escondida no</p><p>discurso manifesto de um outro.</p><p>A partir desse suceder, proáuz-se uma mudança na forma de intervir de cada um</p><p>dos membros da equipe. Sem exceções, começa a desdobrar-se um chamativo inte-</p><p>resse por reconhecer associações pessoais e comunicá-las, por alheias que pareçam</p><p>ao curso da "conversa comum", A "conversa comum" se enriquece, a partir de então,</p><p>com este novo estímulo à intercomun icaçào, e sua riqueza para a escuta em atenção</p><p>fluhrante, por parte do analista, toma-se mais matizada.</p><p>A uma associação costuma suceder-se outra. O analista, no tratamento individu-</p><p>al, recorre a suas próprias associações. Elas são o derivado, em seu sistema conscien-</p><p>te, das ressonâncias que, em seu próprio inconsciente, terão desencadeado</p><p>e secretos. À</p><p>moda de uma conjectura imaginativa, cabe ousar dizer que também existe algo</p><p>cercado de algum mistério, que a nossa "vã psicologia ainda não explica", mas que</p><p>muitas vezes se manifesta por melhoras inexplicáveis, ou outras coisas do gênero.</p><p>COMO I'RABÂLHAMOS COM GRUPOS . 31</p><p>. Da mesma forma como, em termos de micropsicologia, foi enfatizada a relação</p><p>do indivíduo com os diversos grupos com os quais ele convive, é igualmente</p><p>relevante destacar, em termos macroscópicos, a relação do sujeito com a cultura</p><p>na qual ele está inserido. Uma afirmativa inicial que me parece importante é a de</p><p>que o fator sócio-cultural somente altera o modo de agir, mas não a natureza do</p><p>reagir.Explico melhor com um exemplo tirado da minhaprática como grupotera-</p><p>peuta, para ilustrar o fato de que, diante de uma mesma situação - a vida genital</p><p>de uma mulherjovem e solteira - foi vivenciada de forma totalmente distinta em</p><p>duas épocas distantes uns vinte anos uma da outra. Assim, na década 60, uma</p><p>jovem estudante de medicina levou mais de um ano para "confessar" ao grupo</p><p>que mantinha uma atividade sexuaì com o seu namorado, devido às suas culpas e</p><p>ao pânico de que sofreria um repúdio generalizado pela sua transgressão aos</p><p>valores sociais vigentes naquela época. Em contrapartida, em um outro grupo,</p><p>em fins da década 80, uma outra moça também levou um longo tempo até poder</p><p>poder partilhar com os demais o seu sentimento de vergonha e o temor de vir a ser</p><p>ridicularizada e humilhada por eles pelo fato de "ainda ser cabaçuda". Em resu-</p><p>mo, o modo de agir foi totalmente oposto, mas a natureza (medo, vergonha, cul-</p><p>pa, etc.) foi a mesma. Cabe tirarmos duas conclusões: uma, é a de que costuma</p><p>haver o estabelecimento de um conflito entre o ego individual e o ideal de ego</p><p>coletivo; a segunda constatação é a de que o discurso do Outro (pais e cultura) é</p><p>que determina o sentido e gera a estrutura da mente.</p><p>. Todos os elementos teóricos do campo grupal antes enumerados somente adqui-</p><p>rem um sentido de existência e de validade se encontrarem um eco de reciproci-</p><p>dade no exercício da técnica e prática grupal. Igualmente, a técnica também não</p><p>pode prescindir da teoria, de maneira que ambas interagem e evoluem de forma</p><p>conjugada e paralela. Pode-se afirmar que a teoria sem a técnica vai resvalar para</p><p>uma prática abstrata, com uma intelectualização acadêmica, enquanto a técnica</p><p>sem uma fundamentação teórica corre o risco de não ser mais do que um agir</p><p>intuitivo ou passional. Por essas razões, no capítulo que segue, tentaremos estabe-</p><p>lecer algumas inter-Íelações entre â teoria e a técnica da prática grupal.</p><p>Fundamentos Técnicos</p><p>DAVID E. ZIMERMAN</p><p>Conquanto os fundamentos teóricos e as leis da dinâmica grupal que presidem os</p><p>grupos, de forma manifesta ou latente. sempre estejam presentes e sejam da mesma</p><p>essência em todos eles, é inegável que as técnicas empregadas são muito distintas e</p><p>variáveis, de acordo, sobretudo, com a finalidade para a qual determinado grupo foi</p><p>criado. Em outras palavras: da mesma forma como todos os indivíduos que nos procu-</p><p>ram - pacientes, por exemplo - são portadores de uma mesma essência psicológica,</p><p>é óbvio que, no caso de um tratamento, para cada sujeito em especial igualmente vai</p><p>ser necessário um planejamento de atendimento particular, com o emprego de uma</p><p>técnica adequada às necessidades, possibilidades e peculiaridades de cada um deles.</p><p>Diante do fato de que existe um vasto polimorfismo grupalístico e que, por</p><p>conseguinte, também há uma extensa e múltipla possibilidade de variação nas estraté-</p><p>gias, técnicas e táticas, toma-se impossível pretender, em um único capítuÌo, esgotar</p><p>ou fazer um detalhamento minucioso de todas elas. Por essa razão, vamos nos limitar</p><p>a enumerar, de forma genérica, os principais fundamentos da técnica, que dizem respei</p><p>to ao cotidiano da prática grupal, tentando rastreá-los desde o planejamento da forma-</p><p>ção de um grupo, o seu funcionâmento durante o curso evolutivo, procurando acentu-</p><p>ar algumas formas de manejo técnico diante dos diferentes aspectos e fenômenos que</p><p>surgem no campo grupal dinâmico.</p><p>Planejamento. Inicialmente, creio ser útil fazer uma discriminação entre os</p><p>conceitos de logística, estratégia, técnica e tritica, termos que, embora provindos da</p><p>terminologia da área militar, parecem-me também adequados ao campo da psicolo-</p><p>gia. Por logística entendemos um conjunto de conhecimentos e equipamentos e um</p><p>lastro de experiência que servem de suporte para o planejamento de uma ação (no</p><p>caso, o da formação de um grupo). Estratégia destgna um estudo detalhado de como</p><p>utilizar a logística para atingir e alcançar um êxito operativo na finalidade planejada</p><p>(como hipótese, um grupo psicoterápico para pacientes de estrutura neurótica).Técnica</p><p>se refere a um conjunto de procedimentos e de regras, de aplicabilidade prática, e que</p><p>fundamentam a exeqüibilidade da operação (na hipótese que está nos servindo de</p><p>exempÌo, poderia ser a utilização de uma técnica de fundamentação psicanalítica).</p><p>Tótica alude às variadas formas de abordagem existentes, que, de acordo com as</p><p>circunstâncias da operação em curso e com o estìlo peculiar de cada coordenador,</p><p>embora a técnica permaneça essencialmente a mesma (ainda no nosso exemplo hipoté-</p><p>tico, é a possibilidade de que um grupoterapeuta prefira a interpretação imediata e</p><p>sistemática no "aqui-agora-comigo" da transferência, enquanto um outro grupotera-</p><p>peuta i,qualmente capaz, e de uma mesma corrente grupanalítica, opte pela tática de</p><p>34 . ZMERMAN su osoRlo</p><p>evitaÍ o emprego sistemático e exclusivo dessa forma de interpretar, como uma tática</p><p>capaz de criar um clima mais propício de acessibilidade aos indivíduos e ao todo</p><p>grupal).</p><p>Destarte, diante da resolução de criar e compor um gÍupo, devemos estâr aptos</p><p>a responder a algumas questões fundamentais, como as seguintes: Quem vai ser o</p><p>coordenador? (Qual é a sua logística, Qual é o seu esquema referencial?, etc.).PaÍao</p><p>què e para qual frnalidade o grupo está sendo composto? (E um grupo de ensino-</p><p>aprendizagem? De auto-ajuda? De. saúde mental? Psicoterápico? De família?, etc.).</p><p>Para quem ele se destina? (São pessoas que estão motivadas? Coincide com uma</p><p>necessidade por pane de um conjunto de indivíduos e que o grupo em planejamento</p><p>poderá preencher? São crianças, adolescentes, adultos, gestantes, psicóticos, empre-</p><p>siírios, alunos, etc.?). Como ele funcionará? (Homogêneo ou heterogêneo, aberto ou</p><p>fechado, com ou sem co-terapia, qual será o enquadre do número de participantes, o</p><p>número de reuniões semanais, o tempo de duração das mesmas, será acompanhado</p><p>ou não por um supervisor?, etc.). Onde, em quais circunstâncias, e com quais recur-</p><p>sos? (No consultório privado? Em uma instituição e, neste caso, tem o apoio da cúpu-</p><p>la administrativa? Vai conseguir manter a necessária continuidade de um mesmo</p><p>local e dos horários combinados com o grupo?, etc.).</p><p>Como uma tentativa de sintetizar tudo isso, vale afirmar que a primeira reco-</p><p>mendação técnica para quem vai organizar um grupo é a de que ele tenha uma idéia</p><p>bem clara do que pretende com esse grupo e de como vai operacionalizar esse seu</p><p>intentoi caso contrário, é muito provável que o seu grupo patinará num clima de</p><p>confusão, de incertezâs e de mâl-entendidos.</p><p>Seleção e grupamento. Os grupoterapeutas não são unânimes quanto aos crité-</p><p>rios de seleção dos indivíduos para acomposição deum grupo, quer esse seja operativo,</p><p>quer seja terapêutico. Alguns preferem aceitar qualquer pessoa que manifestar um</p><p>interesse em participar de um determinado grupo, sob a alegação de que os possíveis</p><p>contratempos serão resolvidos durante o próprio andamento do grupo. Outros, no</p><p>entanto, entre os quais particularmente me filio, preferem adotarum certo rigorismo</p><p>na seleção, ancorados nos argumentos que seguem:</p><p>É muito impoÍante e delicado o problema das indicações e contra-indicações.</p><p>Uma motivação por demais frágil acarreta uma alta possibilidade de uma partici-</p><p>pação pobre ou a de um abandono prematuro.</p><p>Esse tipo de abandono causa um mal-estar e uma</p><p>as produ-</p><p>ções inconscientes do livre associar de seu paciente. Esses derivadosjá foram reconhe-</p><p>cidos por Freud, precocemente, como a matéria-prima para a construção de suas inter-</p><p>pretações ("Recomendações ao médico"). No campo observacional que estamos des-</p><p>crevendo, somam-se aos do terapeuta os derivados produzidos pelos inconscientes</p><p>dos outros. Isso determina uma conseqüência inevitável. O objeto de investigação é</p><p>registrado e traduzido por mais de um "receptor". As conseqüências serão óbvias: a</p><p>natuÍeza das associações dos receptores gera novas ressonâncias e fomece, portanto,</p><p>informação nova a respeito dos receptores. os quais passam a operar também como</p><p>novos emlssores.</p><p>' FREUD, S. Consejos al médico en el trutamiento psicoanalítico (1912). Madrir B. Nueva, 1948, tomo II; "Lâ disposición a la</p><p>:ìeuÍosis obsesiva" (1913), Id. tomo L'I-o ìnconsciente", Id. Tomo I.</p><p>148 . znar"ro" a osonlo</p><p>Tais evidências encaminharão seguramente o leitor para uma melhor compreen-</p><p>são do porquê da denominação "psicanálise compartilhada".</p><p>Os achados que sucederam aos mencionados iniciaram novas derivações. Trata-</p><p>se de contribuições significativas à própria psicanálise: "de como o nutridor acabou</p><p>sendo tamMm nutrido".</p><p>Primeiro vou enumerar e depois desenvolver cada uma de tais contribuições.</p><p>. Circulação da função psicanalítica.</p><p>. Exercício espontâneo de estilos complementares e funções suplementares.</p><p>. Pulsão de saber e instinto de cura.</p><p>do ct</p><p>tal c(</p><p>qüên</p><p>é out</p><p>even'</p><p>emn</p><p>umE</p><p>O ide</p><p>nos o</p><p>da, e</p><p>Robe</p><p>recor</p><p>ca? E</p><p>rio: -</p><p>Tenu</p><p>quars</p><p>nho-r</p><p>com I</p><p>oqo</p><p>havia</p><p>senut</p><p>tralra</p><p>aoeqr</p><p>perda</p><p>perdi</p><p>simpl</p><p>incotr</p><p>ções:</p><p>pacie</p><p>l isra.</p><p>meim</p><p>eficar</p><p>do. lì</p><p>quarl</p><p>outrq</p><p>E)GRCÍCIO</p><p>SUPLEME!Ì</p><p>Cott!</p><p>proc€</p><p>que d</p><p>é q,r</p><p>I</p><p>munil</p><p>os eí</p><p>cos d</p><p>CIRCULACÃO DA FUNCÃO PSICANALÍTICA</p><p>A partir do ato fundante, não se passa muito tempo até que algum participante se</p><p>anime a produzir uma intervenção tão eficazmente psicanalítica como as melhores</p><p>produzidas pelo profissional. E indubitável que o pôde incorporar como modelo de</p><p>aprendizagem, evidência inefutável de algo: sua identificação com o método psica-</p><p>nalítico. E imprescindível destacar esse ponto, dado que tal identificação é a que, em</p><p>qualquer psicanálise, constitui a matriz sobre a qual irá se construindo a capacidade</p><p>futura de auto-análise do sujeito,</p><p>Assim como está aprendendo a "ler" o inconsciente de um outro, estará em</p><p>condições de ler o próprio, com o auxílío de um outro qualquer, quando houver termi-</p><p>nado sua análise. Defino, neste sentido, a auto-análise como algo possível, sempre</p><p>com a mediação de um outro. Se, manejando meu automóvel, escuto o insulto de</p><p>outro motorista e posso pensar, vencida minha raiva, "que terei feito para merecer</p><p>isto?", e descubro a transgressão que cometi de forma involuntária, estarei empregando</p><p>o impropério do desconhecido como a intervenção de um companheiro de análise</p><p>involuntário, que se tomou disparador de uma descoberta: meu "ato falho" conduzin-</p><p>do um carro. Talvez âté me esclareça sobre as causas do mesmo.</p><p>Resumindo o que foi dito até aqui, deparamo-nos com o incremento na produ-</p><p>ção e na comunicação de associações e com o surgimento do exercício de uma função</p><p>até então privativa do terapeuta, a de interpretar. Já que a presença de dois derivados</p><p>constitui o primeiro acesso à consciência de um novo saber sobre o inconsciente de</p><p>um outro, tal função merece ser incluída na mesma categoria que a criação de uma</p><p>interpretação: ambas ficam então constituindo o que defino como "exercício da fun-</p><p>ção psicanalítica". O reconhecimento explícito, porparte do psicanalista, da validade</p><p>e eficácia de tais intervenções facilita seu desenvolvimento, e a conseqüência é a</p><p>"livre circulação da função psicanalítica".</p><p>Também me deparei com o risco da "banalização" no exercício desta função. É</p><p>possível que qualquer paciente acabe vencido pela tentação de desfrutar dos deleites</p><p>de acreditar "ser o analista", e comece a ÍealizaÍ um uso espúrio desta circulação</p><p>livre. Isso não deve nos preocupar demais. Não tardará muito algum comentário -</p><p>por exemplo - de outro companheiro de análise que o traga de volta à realidade, com</p><p>uma genuína interpretação: "Parece que estás acreditando ser o analista". "Piíra com</p><p>isso,jáestás passando da medida". E isso seguido da aprovação geral dos companhei-</p><p>ros. Tais respostas só podem conduzir ao aprofundamento da análise das causas que</p><p>o terão levado a uma conduta tão ingênua. Estes últimos comentários apontam para</p><p>uma consideração básica: a circulação da função analítica não deve ser considerada</p><p>uma abdicação do lugar do analista. Este lugar ficará inquestionavelmente preserva-</p><p>COMO'I'RÂtsÂLHAMOS COM ORUPOS</p><p>'</p><p>I49</p><p>do como garantia do processo da cura. Ocorrerá, não obstante, de modo inevitável -</p><p>tal como ocorre em uma análise individual -, que algumas vezes o analista, em conse-</p><p>qüência do fragor do trabalho psicanalítíco, perca momentaneamente seu lugar. Esse</p><p>é outro tema a ser considerado. O colega que a esse respeito se considere imune a tal</p><p>eventualidade que atire a primeira pedra.</p><p>Eu não vi jamais um colega desses. Nem em meus analisandos didáticos, nem</p><p>em meus supervisionandos didáticos, nem em meus amigos profissionais. Trata-se de</p><p>um tema cuja abordagem é imprescindível: a neurose de contratransfeÍência do analista.</p><p>O ideal é que isso não aconteça, mas ocorre. O importante é saber o que fazer, quando</p><p>nos damos conta de quejá ocorreu. Suponhamos uma equipe de aniílise compartilha-</p><p>da, em que um dos pacientes se dirige a mim nestes termos: "Dr., quando fala a</p><p>Roberto, nota-se que está aborrecido". Suponhamos também que este aviso me permite</p><p>reconhecer a veracidade desta afirmação. Qual deve ser, então, rninha conduta técni-</p><p>ca? Em minha experiência, apenas uma, o reconhecimento da validade do comentá-</p><p>rio: "Tens razão, me dou conta agora que o disse. Estive aborrecido com Roberto.</p><p>Tentarei, por minha conta, averiguar quais podem ser meus motivos privados pelos</p><p>quais isso ocorreu. Não vou informar a vocês as conclusões que obtive disso. Propo-</p><p>nho-me a aproveitar o que ocorreu para compreender melhor o que está acontecendo</p><p>com o RobeÍo".</p><p>Isso não é uma "confissão contratransferencial", que é sempre desaconselhável.</p><p>O que no exemplo precedente ocorreu foi que a "confissão contratransferencial" já</p><p>havia sido produzida, apesar da própria intenção do analista, quando mostrou seu</p><p>sentir com Roberto. O que fez depois foi simplesmente reconhecer a "confissão con-</p><p>tratransferencial" previamente produzida, o que pôde fazer graças à interpretação</p><p>adequada que o paciente fez ao analista. Esse modo de proceder, longe de implicar a</p><p>perda de seu lugarcomo psicanalista, constitui a recuperação do mesmo, anteriormente</p><p>perdido ao ser vítima de sua neurose de contratransferência. Aqui, o analista mostrou</p><p>simplesmente que ele é uma pessoa a mais, e, como qualquer um, também possui um</p><p>inconsciente eficaz, cujas produções às vezes transcendem suas mais genuínas inten-</p><p>ções: neste caso, preservar a regra de abstinência. As porções perceptuais do ego do</p><p>paciente denunciante terão sido reconhecidas, e a capacidade auto-analítica do ana-</p><p>lista colocada em evidência. O que terá sido preservado, sobretudo, vai ser em pri-</p><p>meiro lugar a psicanálise. De uma maneira não-habitual, mas não por isso menos</p><p>eficaz, os pacientes terão uma nova evidência da profundidade e da eficácia do méto-</p><p>do. Terão, além disso, a evidência de como o modelo é válido para o anâlista tanto</p><p>quanto paÍa o analisando: a auto-análise, que, como sempre com o auxílio de um</p><p>outro, toma-se uma função sem cujo desdobramento suficiente não há cura possível.</p><p>EXERCÍCrO ESPONTÂNEO DE ESTTLOS COMPLEMENTARES E FUNçÕES</p><p>SUPLEMENTARES</p><p>Compartilho com muitos colegas a seguinte convicção: o estudo mais exaustivo do</p><p>pÍocesso de êxito de uma análise lança uma compreensão limitada sobre as causas</p><p>que determinam muitas de suas conquistas. Transitando pela investigação dessas causíìs</p><p>é que me deparei com os conceitos que intitulam esta parte do presente escrito.</p><p>David Liberman (comunicação</p><p>sensação de fracasso tanto no</p><p>indivíduo que não ficou no grupo como também no coordenador e na totalidade</p><p>do grupo; além disso, este último vai ficar sobrecarregado, ao mesmo tempo,</p><p>com sentimentos de culpa e.comum estado de indignação por se sentir desrespeita-</p><p>do e violentado, não unicamente pelo intruso que teve acesso à intimidade dos</p><p>participantes e fugou, mas também contra a negligência do coordenador.</p><p>Um outro prejuízo possível é o da composição de um inadequado "grupamento"</p><p>(esse termo não tem o mesmo significado de "agrupamento" e alude a uma gestalt,</p><p>ou seja, a uma visão globalística, à forma como cada indivíduo interagirá com os</p><p>demais na composição de uma totalidade grupal singular).</p><p>Além desses, podem acontecer outros incovenientes, como possibilidade de um</p><p>permanente estado de desconforto contratransferencial, assim como também po-</p><p>dem oconer certas situações constrangedoras quando, por exemplo, muito cedo</p><p>fica patente entre as pessoas componentes um acentuado desnível de cultura,</p><p>inteligência, patologia psíquica, etc.</p><p>col\lo 1RÂBÂLHAMOS COÌiÍ CRUPOS o 35</p><p>Pode servir como uma exemplificação mais completa do impoÍante processo</p><p>de seleção, particularmente para os leitores mais interessados em grupoterapia psica-</p><p>nalítica, a exposição presente no capítuÌo específico, na Parte 2 deste livro.</p><p>Enquadre (seÍrng). Uma importante recomendação de técnica grupalística con-</p><p>siste no estabelecimento de um enquadre e a necessidade de preservação do mesmo.</p><p>O enquadre é conceituado como a soma de todos os procedimentos que organizam,</p><p>noÍTnatizam e possibilitam o funcionamento grupaÌ. Assim, ele resulta de uma con-</p><p>junção de regras, atitudes e combinações, como, por exemplo, o local das reuniÕes.</p><p>os horários, a periodicidade, o plano de férias, os honorários (na eventualidade de</p><p>que haja alguma forma de pagamento, a combinação desse aspecto deve ficar bem</p><p>claro), o número médio de participantes, etc.</p><p>Todos esses aspectos formam "as regras dojogo", mas não ojogo propriamente</p><p>dito. O.retlirrg não se comporta como uma situação meramente passiva, pelo contrá-</p><p>rio, ele é um importante elemento técnico porque representa as seguintes e imponan-</p><p>tes funções:</p><p>. A criação de um novo espaço para reexperimentar e ressignificar fortes e antigas</p><p>experiências emocionais.</p><p>. Uma forma de estabelecer uma necessária delimitação de papéis e de posições,</p><p>de direitos e deveres, entre o que é desejável e o que é possível, etc.</p><p>. Este último aspecto ganha relevância nos grupos com pacientes regressivos, como,</p><p>por exemplo, os borderline, porquanto eles costumam apresentar uma "difusão</p><p>de identidade" por ainda não estarem claramente delimitadas as representações</p><p>do sefe dos objetos; portanto é imprescindível a colocação de limites, tal como</p><p>o settÌng pÍopicia.</p><p>. O enquadre está sob uma contínua ameaça de vir a ser desvirtuado pelas pressões</p><p>oriundas do interior de cada um e de todos, sob a forma de demandas insaciáveis,</p><p>por distintas manobras de envolvimento, pela ação de algumas formas resistenciais</p><p>e transferenciais, etc., e, por isso mesmo, o enquadre exige um manejo técnico</p><p>adequado, tendo por base a necessidade dele ser preservado ao máximo.</p><p>. Um aspecto que merece a atenção do coordenador se refere ao grau de ansiedade</p><p>no qual o grupo vai trabalhar, de rraneira a que não haja uma angústia excessiva,</p><p>porém uma falta total de ansiedade deve ser discriminada do que pode estar sen-</p><p>do um conformismo com a tarefa, uma apatia.</p><p>. Ainda um outro elemento inerente ao enquadre é o que podemos denominar "at-</p><p>mosfera grupal", a qual depende basìcamente da atitude afetiva intema do coor-</p><p>denador, do seu estilo pessoal de trabalhar e do emprego de táticas dentro de um</p><p>determinado referenciaÌ técnico.</p><p>. Os principais elementos a serem levados em conta na configuração de um J?/Íilg</p><p>grupal são os seguintes:</p><p>- E um grupo homogêneo (uma mesma categoria de patologia, ou de idade,</p><p>sexo, grau cultural, etc.) ou heterogêneo (comporta variações no tipo e grau</p><p>de doença, no caso de um gÍïpo terapêutico; no tipo e nível de formação e</p><p>qualificação profissional, no caso de um grupo operativo de aprendizado.</p><p>etc.)?</p><p>- E um grupo fechado (uma vez composto o grupo, não entra mais ninguém) ou</p><p>aberto (sempre que houver vaga, podem ser admitidos novos membros)?</p><p>- A combinação é a de duração limitada (em reláìção ao tempo previsto para a</p><p>existência do grupo ou da permanêncìa máxima de cada indivíduo nesse sru-</p><p>36 . znamull, c osonro</p><p>po, como comumente ocorre nas instituições), ou ele será de duração ilimita-</p><p>da (como pode ser no caso dos grupos abertos)?</p><p>- Quanto ao número de participantes, poderá variar desde um pequeno gmpo</p><p>com três participantes - ou dois, no caso de uma terapia de casal -, ou pode se</p><p>tratar do grupo denominado "numeroso", que comporta dezenas de pessoas.</p><p>- Da mesma forma, também abrigam uma ampla gama de variações - confor-</p><p>me o tipo e a finalidade do grupo - outros aspectos relevantes do enquadre</p><p>grupal, como é o caso do número de reuniões semanais (ou mensais), o tempo</p><p>de duração de cada reunião, e assim por diante.</p><p>Manejo das resistências. O melhor instrumento técnico que um coordenador</p><p>de grupo pode possuir para enfrentar as resistências que surgem no campo grupal é o</p><p>de ter uma idéia clara da função que elas estão representando para um determinado</p><p>momento da dinâmica de seu grupo. Assim, uma primeira observação que se impõe é</p><p>a que diz respeito à necessidade de o coordenador discriminar entre as resistências</p><p>inconscientes que de fato são obstrutivas e que visam a impedir a livre evolução</p><p>exitosa do grupo, e aquelas outras resistências que são benvindas ao campo grupal,</p><p>porquanto estão dando uma clara amostragem de como o sefde cada um e de todos</p><p>aprendeu a se defender na vida contra o risco de serem humilhados, abandonados,</p><p>não-entendidos, etc.</p><p>Da mesma forma, é útil que o coordenador possa reconhecer contra quais ansi-</p><p>edades emergentes no grupo uma determinada resistência se organiza: é ela de natu-</p><p>reza paranóide? (medo da situação nova, de não ser reconhecido como um igual aos</p><p>outros e de não ser aceito por esses, do risco de vir a passar vergonha e humilhações,</p><p>de vir a ser desmascarado, etc.), ou é de natureza depressiva? (no caso de uma</p><p>grupoterapia psicanalítica, é comum surgir o medo de enfrentâr o respectivo quinhão</p><p>de responsabilidade ou de eventuais culpas e o medo de se confrontar com um mundo</p><p>intemo destruído e sem possibilidade de repamções, o temor de ter que renunciar ao</p><p>mundo das ilusões, etc.,), e assim por diante.</p><p>Nos grupos operativos em geral (porexemplo, um grupo de ensino-prendizagem),</p><p>um critério que o coordenador pode utilizar como sinalisador da presença de resis-</p><p>tências é quando sucedem excessivos atrasos e faltas, aliados a um decréscimo da</p><p>leiora dos textos combinados, acompanhados por uma discussão não mais do que</p><p>moma, caracterizando um clima de apatia. Um outro sinal preocupante, porque invi-</p><p>sível na maioria das vezes, é quando o grupo elege os corredores como fórum de</p><p>debate de sentimentos, idéias e reivindicações. Da mesma forma, o condutor de um</p><p>grupo operativo deve estar alerta para a possibilidade de que os "supostos básicos"</p><p>estejam emergindo e interferindo no cumprimento da finalidade da tarefa do "grupo</p><p>de trabalho". Nestes últimos casos, é recomendável que o coordenador da tarefa</p><p>operativa solicite ao grupo que façam uma pausa na sua tarefa a fim de poderem</p><p>entender o que está se passando.</p><p>Ainda em relação às resistências, mais duas observações são necessárias e ambas</p><p>dizem respeito à pessoa do coordenador, qualquer que seja a natureza do grupo que</p><p>ele está conduzindo. A primeira é a possibiÌidade de que a resistência do grupo esteja</p><p>representando uma natural, e até sadia, reação contra as possíveis inadequações do</p><p>cooordenador na sua forma de conceber e conduzir o grupo. A segunda, igualmente</p><p>importante, diz respeito àpossível formação de um, inconsciente, "conluio resistencial"</p><p>entre o coordenador c os demais, contra o desenvolvimento de certos aspectos da</p><p>tarefa na qual estão trabalhando.</p><p>coMo TRABALHAì!íoS cov cnupos . 37</p><p>Manejo dos aspectos transferenciais. Da mesma forma como foi Íeferido em</p><p>relação às resistências, é necessário frisar que, diante do inevitável surgimento de</p><p>situações transferenciais, um manejo técnico adequado consiste em reconhecer e dis-</p><p>criminá-las. Assim, cabe afirmar que o surgimento de um movimento transferencial</p><p>está muito longe de representar que esteja havendo a instalação de uma "neurose de</p><p>transferência", ou seja, é legítimo dizer que no carnpo grupal, inclusive no grupana-</p><p>lítïco, há transferência em tudo, mas nem tudo é transferência a ser trabalhada.</p><p>No campo grupal, as manifestações transferenciais adquirem uma compÌexida-</p><p>de maior do que no individual, porquanto nele surgem as assim denominadas "transfe-</p><p>rências cruzadas", que indicam apossibilidade da instalação de quatro níveis de iransfe-</p><p>rência grupal: de cada indivíduo para com os seus pares, de cada um em relação à</p><p>figura central do coordenador de cada um para o grupo como uma totalidade, e do</p><p>todo grupal em relação ao coordenador.</p><p>Um aspecto que está adquirindo uma crescente importância técnica é o fato de</p><p>os sentimentos transferencias não representarem exclusivamente uma mera repetição</p><p>de antigas experiências emocionais com figuras do passado; eles podem também</p><p>estar refletindo novas experiências que estão sendo vivenciadas com a pessoa real do</p><p>coordenador e cada um dos demais.</p><p>Em relação aos sentimenÍos contratransferenciais, o impoÍante é que o coordena-</p><p>dor saibaque eles são de surgimento inevitável; que o segredo do êxito técnico consiste</p><p>em não permitir que os sentimentos despertados invadam a sua mente, de modo a se</p><p>tomarem patogênicos; pelo contrário, que eles possam se constituir como um instru-</p><p>mento de empatia; e que, finalmente, o coordenador esteja atento para o risco de,</p><p>inconscientemente, poder estar envolvido em algum tipo de "conluio inconsciente"</p><p>com o grupo, o qual pode ser de natureza narcisística, sado-masoquista, etc.</p><p>Manejo dos dcÍr'rrgs. Todos os técnicos que trabalham com grupos reconhecem</p><p>que a tendência ao acíing ("a açío") é de curso particularmente freqüente, e que a</p><p>intensidade deles cresceráem uma proporção geométrica com a hipótese de que indiví-</p><p>duos de caracterologia psicopática tenham sido incluídos na sua composição. Do</p><p>ponto de vista de ser utilizado como um instrumento técnico, é necessário que o</p><p>coordenador reconheça que os acllngs representam uma determinada conduta que se</p><p>processa como uma forma de substituir sentimentos que não conseguem se manifes-</p><p>tar no plano consciente. Isso costuma ocorrer devido a uma das cinco condições</p><p>s€guintes: quando os seltimentos re!relados ig:espqndelrygos, fantasias e ansie-</p><p>dades que estão reprimidas e que não são recoÈladas (como Freud ensinou), ou que</p><p>não são pensadas (segundo Bion), ou que não são comunicadas pela verbalização, ou</p><p>que não conseguem ficar contidas dentro do próprio indivíduo e, finalmente, o impor-</p><p>tante aspecto de que o acting pode estar funcionando como um recurso de comunica-</p><p>ção muito primitivo.</p><p>As atuações adquirem um extenso leque de manifestações; no entanto, o que de</p><p>fato mais importa é a necessidade de o coordenador do grupo saber discriminar com</p><p>segurança quando se trata de actings benignos (como é o caso das conversas pré e</p><p>pós-reuniões, encontros sociais entre os participantes, às vezes acompanhados dos</p><p>respectivos cônjuges, ou o exercício de alguma ação transgressora, mas que, no fun-</p><p>do, pode estar significando uma saudável tentativa de quebrar alguns tabus e este-</p><p>reotipias obsessivas) e de quando se ÍaÌz de actings malignos, como são, por exem-</p><p>plo, os de natureza psicopática. Há uma forma de atuação que, embora seja de apareci-</p><p>mento comum, apresentauma repercussão deletéria, devendo, por isso, ser bem traba-</p><p>lhada pelo coordenador: é a que se refere à divulgação, para fora do grupo, de alguma</p><p>38 . ãìíERMAN & osoRlo</p><p>situação muito sigilosa e privativa da intimidade deste. Não custa repetir qu" u.à</p><p>adequada seleção e composição na formação de um gmpo minimiza o risco de atua-</p><p>ções malignas.</p><p>Comunicação. Partindo da afirmativa de que "o grande mal da humanidade é o</p><p>problema do mal-entenlido", pode-se aquilatar a importância que os aspectos da</p><p>normalidade e patologia da comunicação nos gmpos representa para a técnica e a</p><p>prática grupalísticas. Dessa forma, o grupo é um excelente campo de observação de</p><p>como são transmitidas e recebidas as mensagens verbais, com as possíveis distoÍções</p><p>e reações por paÍe de todos. Um aspecto da comunicação verbal que merece atenção</p><p>especial é o que aponta para a possibilidade de que o discurso esteja sendo usado de</p><p>fato não para comunicar algo, porém, pelo contrário, que ele esteja a serviço da</p><p>incomunicação.</p><p>Por outro lado, não é unicamente a comunicação verbal que importa, porquanto</p><p>cada vez mais se toma relevante a importância das múltiplas formas de linguagem</p><p>não-verbais (gestos, tipo de roupas, maneirismos, somatizações, silêncios, choros,</p><p>actings, etc.).</p><p>Atividade interpretativa. Utilizo a expressão "atividade interpretativa" em</p><p>lugar de "interpretação", pelo fato desta última ser de uso mais restrito às situações</p><p>que visam a uma forma psicanalítica de acesso ao inconsciente individual e grupal,</p><p>enquanto a primeira expressão permite suporuma maior abrangência de recursos por</p><p>parte do coordenâdor de um grupo, como é o uso de perguntas que instiguem refle-</p><p>xões; claÍeamentos; assinalamentos de paradoxos e contradições; um confronto entre</p><p>arealidade e o imaginário; a abertura de novos vértices de percepção de uma determi-</p><p>nadaexperiência emocional, etc. Com "atividade interpretativa" tamMm estou englo-</p><p>bando toda a paÍicipação verbal do coordenador que, de alguma forma, consiga pro-</p><p>mover a integração dos aspectos dissociados dos indivíduos, da tarefa e do grupo.</p><p>Assim concebida, a atividade interpretativa no grupo constitui-se como o seu</p><p>principal instrumento técnico, sendo que não existem fórmulas acabadas e "certas"</p><p>de como e o que dizer, pois as situações práticas são muito variáveis e, além disso,</p><p>cada coordenador deve respeitar o seu esfilo peculiar e autêntico de formular e deser.</p><p>No caso de grupoterapia psicanalítica, a questão mais polêmica gira em tomo daque-</p><p>les gnrpoterapeutas que preferem interpretar sempre se dirigindo ao grupo como uma</p><p>totalidade gestáltica, enquanto outros advogam que a interpretação pode (ou deve) ser</p><p>dirigida aos indivíduos sepaÌadamente, desde que ela venha acompanhada de uma adi-</p><p>culação com a dinâmica da totalidade do grupo. Esse assunto é paÍticularmente rele-</p><p>vante e será abordado mais detidamente no capítulo sobre grupoterapias psicanalíticas.</p><p>Creio ser necessário sublinhar que, assim como existe a possibilidade de uma</p><p>"violência da interpÍetaçãÕ ' (como é o caso de um grupoterapeuta pretender impor</p><p>os seus próprios valores e expectativas, ou de apontar verdades doloridas sem uma</p><p>sensibilidade amorosa), também existe a "violência da imposição de preconceitos</p><p>técnicos universais", sem levar em conta as peculiaridades de cada tipo de grupo, ou</p><p>de situações e circunstâncias especiais.</p><p>Funções do ego. A situação do campo grupal propicia o surgimento das funções</p><p>do ego, isto é, de como os indivíduos utilizam a capacidade depercepção, pensamen-</p><p>to, conhecimento, juízo crítico, discrimínaçã.o, comunicação, açAo, etc.; por essa</p><p>razão, trabalhar com esses aspectos é parte importante da instrumentagão técnica.</p><p>Para dar um único exemplo, vale mencionar que a essência de uma terapia de casal,</p><p>ou de famflia, consiste basicamente em "ensinar" os participantes a usarem as fun-</p><p>ções de saber eJcrtdr o outro (é diferente de simplesmente "ouvir"), de cada um yer</p><p>o outro (é diferente de "olhar"), de po der pensar no que está escutando e nas experiên-</p><p>cias emocionais pelas quais eles estão passando, e assim por dianle.</p><p>Papéis. Convém enfatizar que uma das caracteísticas mais relevantes que per-</p><p>meiam o campo grupal é a transparência do desempenho de papéis por paíe de</p><p>cada</p><p>um dos componentes. A importância desse fenômeno grupal consiste no fato de que</p><p>o indivíduo também está executando esses mesmos papéis nas diversas áreas de sua</p><p>vida - como a familiar, profirssional, social, etc.</p><p>Eum deverdo coordenadordo grupo estar atento àpossibilidade de estar ocorren-</p><p>do uma fixidez e uma estereotipia de papéis patológicos exercidos sempre pelas mes-</p><p>mas pessoas, como se estivessem programadas para assim agirem ao longo de toda</p><p>vida. O melhor exemplo de como a atribuição e a assunção de papéis pode represen-</p><p>tar um recurso técnico por excelência é o que pode ser confirmado pelos</p><p>grupoterapeutas de famíli4 que tão bem conhecem o fenômeno do "paciente identifica-</p><p>do" (a família elege alguém para servir como depositário da doença oculta de todos</p><p>os demais) e outros aspectos equivalentes.</p><p>Vínculos. Cada vez mais, os técnicos da área da psicologia estão valorizando a</p><p>configuração que adquirem as ligações vinculares entre as pessoas. Indo muito além</p><p>do exclusivo conflito do vínculo do amor contra o do ódia, na atualidade, considera-</p><p>se mais importante a observação atenta de como se manifestam as diferentes formas</p><p>de amar, de agrediÍ e as interações entre ambas. Além disso, Bion introduziu o impor-</p><p>tantíssimo vínculo do conhecimento, que possibilita um melhor manejo técnico com</p><p>os problemas ligados às diversas formas de "negação" que explicam a gênese de</p><p>muitos quadros de psicopatolgia, assimcomo também favorece ao técnico uma maior</p><p>clareza na compreensão da circulação das verdades, falsidades e mentiras no campo</p><p>grupal. Particularmente, tenho proposto a existência de um quarto vínculo, o do reco-</p><p>nhecimento, através do qual é possível ao coordenador perceber o quanto cada indi-</p><p>víduo necessita, deformavital, ser reconhecido pelos demais do grupo como alguém</p><p>que, de fato, pertence ao grupo (é o fenômeno grupal conhecido como "pertencência"),</p><p>e também alude à necessidade de que cadarmreconheça ao outro como alguém que</p><p>tem o direito de ser diferente e emancipado dele.</p><p>Tendo por base esses quatro vínculos, e as inúmeras combinações e arranjos</p><p>possíveis entre eles, a compreensão e o manejo dos mesmos tomam-se um excelente</p><p>recurso técnico no trato de casais, famílias, grupos ou instituições.</p><p>Término. Termo que designa duas possibilidades: uma é a de que o grupo termi</p><p>ne, ou por uma dissolução dele, ou para cumprir uma combinação pÉvia, como é no</p><p>caso dos grupos "fechados"; a segunda eventualidade é a de que determinada pessoa</p><p>encerre a sua participação, embora o grupo continue, como é no caso dos grupos</p><p>"abertos". Saberte rminar algo, qu.epode ser uma tarcfa, um tratamento, um casamento,</p><p>etc., representâ um significativo crescimento mental. Daí considerarmos que deve</p><p>haver por parte do coordenador de qualquer grupo uma fundamentação técnica que</p><p>possibilite uma definição de critérios de término e um manejo adequado para cada</p><p>situação em particular, sempre levando em conta a possibilidade do risco de que os</p><p>resultados alcançados podem ter sido enganadores. Isso vale especialmente paÍa os</p><p>grupos de frnalidade terâpêutica, embora na atualidade o grupoterapeuta possa con-</p><p>tar com claros critérios de um verdadeiro crescimento psíquico.</p><p>coMo TRABALHAMoS cov cnuPos . 39</p><p>40 . zn .lgwaN E ..t.tt</p><p>Atributos de um coordenador de grupo. Decidi incorporaÍ este tópico como</p><p>integrante da fundamentação técnica, porque me parece impossível dissociarum ade-</p><p>quado manejo técnico em qualquer modalidade de grupo, sem que haja uma simultâ-</p><p>nea atitude intema na pessoa real do profissional.</p><p>Assim, além dos necessários crnliec imentos (provindos de muito estudo e leitu-</p><p>ras), de habilidades (treino e supervisáo), as atitudes (üm tratamento de base psica-</p><p>nalítica ajuda muito) são indispensáveis, e elas são tecidas com alguns atributos e</p><p>funções como as mencionadas a seguir:</p><p>. Gostar e acreditar em grupos.</p><p>. Ser continente (capacidade de conter as angústias e necessidades dos outros, e</p><p>também as suas próprias).</p><p>. Empatia (pder colocar-se no lugaÍ do outro e assim manter uma sintonia afetiva).</p><p>. Discrìminação (para não ficar perdido no cipoal das cruzadas identificações</p><p>projetivas e introjetivas).</p><p>. Novo modelo de identiJìcaçõo (contribui para a importante função de desidentifi-</p><p>cação e dessignificação de experiências passadas, abrindo espaço para neo-identifi-</p><p>cações e neo-significações).</p><p>o Comunìcação (tanto como emissoÍ ou receptor , com a linguagem verbal ou a</p><p>não-verbal, com a preservação de um estilo próprio, e como uma forma de mode-</p><p>lo para os demais do gnrpo).</p><p>. Sq verdadeiro (se o coordenador não tiver amor às verdades e Dreferir não</p><p>enfrentá-las, não poderá servir como um modelo para o seu grupo, e o melhor</p><p>será trocar de profissão).</p><p>. Senso de humor (um coordenador pode ser firme sem ser rígido, flexível sem ser</p><p>frouxo, bom sem seÍ bonzinho e, da mesma forma, pode descontrair, rir, brincar,</p><p>sem perder o seu papel e a manutenção dos necessários limites).</p><p>. Integração e síntese (ê acapacidade de extrair o denominador comum das mensa-</p><p>gens emitidas pelos diversos componentes do grupo e de integrá-las em um todo</p><p>coerente e unificado, sem artificialismos forçados).</p><p>Ao longo da leitura dos capítulos da prática clínica dos diversos autores deste</p><p>livro, nas suas entrelinhas, o leitor poderá identificar todos esses atributos, e outros</p><p>mais, como constituintes básicos da fi:ndamentação técnica.</p><p>Atributos Desejáveis para</p><p>um Coordenador de Grupo</p><p>DAVIDE, ZIMERMAN</p><p>Ao longo de virtualmente todos os capítulos deste livro, de uma forma ou de outra,</p><p>sempre há um destaque à pessoa do coordenador do grupo no tema que está sendo</p><p>especificamente abordado, como sendo um fator de fundamental importância na evo-</p><p>lução do respectivo grupo, seja ele de que naturezâ for. Creio que basta essa razão</p><p>parajustificar a inclusão de um capítulo que aborde de forma mais direta, abrangente</p><p>e enfática as condições necessárias, ou pelo menos desejáveis, para a pessoa que</p><p>coordena grupos. De certa forma, portanto, este capítulo é uma síntese de aspectos já</p><p>suficientemente destacados neste livro, tanto de modo explícito quanto implícito.</p><p>Inicialmente, é útil escÌarecer que o termo "coordenador" está aqui sendo empre-</p><p>gado no sentido mais amplo do termo, desde as situações que se formam naturalmen-</p><p>te, sem maiores formalismos (como pode ser, por exemplo, uma atendente com um</p><p>_erupo de bebês de uma creche, ou com criancinhas de uma escolinha matemal;um</p><p>grupo de auto-ajuda, no qual sempre surgem lideranças naturais que funcionam como</p><p>coordenadores; um professor universitário em uma sala de aula, um empresário com</p><p>a sua equipe de trabalho, etc.), passando por grupos especialmente organizados para</p><p>aÌguma tarefa, até a situação mais sofisticadae complexa de um grupoterapeuta coorde-</p><p>nando um grupo psicanaÌítico.</p><p>Vale ressaltar que, indo muito além do importante papel de figura transferencial</p><p>que qualquer condutor de grupo sempre representa, a ênfase do presente texto incidirá</p><p>de forma mais particular na pessoa real do coordenador, com o seu jeito verdadeiro</p><p>de ser, e, por conseguinte, com os âtributos humanos que eìe possui, ou lhe faltam.</p><p>Fazendo a necessária ressalva de que cada situação grupal específica também</p><p>eriee atributos igualmente especiais para a pessoa do coordenador, considero perfeita-</p><p>m:nte legítimo ressaltar que a essámcia das condições intemas deve ser a mesma em</p><p>:ada um deles. Uma segunda ressalva é a de que a discriminação em separado dos</p><p>Civersos atributos a seguir mencionados pode dar uma falsa impressão de que estamos</p><p>:resando uma enormidade de requisitos para um coordenador de grupo, quase que</p><p>:..ntìgurando uma condição de "super-homem". Se realmente for essa a impressão</p><p>i:irada. peço ao leitor que releve, pois tudo se passa de forma simultânea, conjunta</p><p>: :atural. e a quantidade de itens descritos não é mais do que um esquema de propósi-</p><p>:-. didático.</p><p>Destarte, seguindo uma ordem mais de lembrança do que de importância, vale</p><p>::ite.ar os seguintes atributos como um conjunto de condições desejáveis</p><p>e, para</p><p>j i:r. !ituacòes. imoresc ind íveis:</p><p>42 . znasrM,c,N a osorro</p><p>. Gostar e acreditar €m grupos, E claro que qualquer atividade profissional</p><p>exige que o praticante goste do que faz, caso contrário ele trabalhará com um enoÍïne</p><p>desgaste pessoal e com algum grau de prejuízo em sua tarefa. No entanto, atrevo-me</p><p>a dizer que, paÍicularmente na coordenação de grupos, esse aspecto adquire uma</p><p>relevância especial, porquanto a gestalt de um grupo, qual um "radar", capta com</p><p>mais facilidade aquilo que lhe é "passado" pelo coordenador, seja entusiasmo ou</p><p>enfado. verdade ou falsidade. etc</p><p>Cabe deixar bem claro que o fato de se gostar de trabalhar com grupos de modo</p><p>algum exclui o fato de vir a sentir transitóÍias ansiedades, cansaço, descrenças, etc.</p><p>. Amor às verdades. Não é exagero afirmar que essa é uma condiçâo sine qua</p><p>non para um coordenadorde qualquer grupo - muito especialmente para os de propósi-</p><p>to psicanalítico -, pois ninguém coniesta que a verdade é o caminho régio para a</p><p>confiaça, a criatividade e a liberdade.</p><p>E necessário esclarecer que não estamos aludindo a uma caça obsessiva em</p><p>busca das verdades, até mesmo porque as mesmas nunca são totalmente absolutas e</p><p>dependem muito do vértice de observação, mas, sim, referimos-nos à condição do</p><p>coordenador ser verdadeiro. O coordenador que não possuir esse atributo também</p><p>terá dificuldades em fazer um necessário discemimento entre verdades, falsidades e</p><p>mentiras que correm nos campos grupais. Da mesma forma, haverá um prejuízo na</p><p>sua importante função de servircomo um modelo de identificação, de como enfrentar</p><p>as situações difíceis da vida.</p><p>No caso dos grupos psicoterápicos, o atributo de o coordenador ser uma pessoa</p><p>veraz, além de um dever ético, também é um princípio técnico fundamental, pois</p><p>somente através do amor às verdades, por mais penosas que elas sejam, os pacientes</p><p>conseguirão fazer verdadeiras mudanças internas. Ademais, tal atitude do</p><p>grupoterapeuta modelará a formação do indispensável clima de uma leal franqueza</p><p>entre os membros que partilham uma grupoterapia.</p><p>. Coerênciâ. Nem sempre uma pessoa verdadeira é coerente, pois, conforme o</p><p>seu estado de espírito, ou o efeito de uma determinada circunstância exterior, é pos-</p><p>sível que ele próprio se "desdiga" e modifique posições assumidas. Pequenas incoe-</p><p>rências fazem paÍe da conduta de qualquer indivíduo; no entanto, a existência de</p><p>incoerências sistemáticas por parte de algum educador - como são aquelas provindas</p><p>de pais, professores, etc. - leva a criança a um estado confusional e a um abalo na</p><p>construção dos núcleos de confiança básica. De fato, é altamente danoso para o psi-</p><p>quismo de urna criança que, diante de uma mesma "arte", em um dia ela seja aplaudi-</p><p>da pelos pais e, num outro, seja severamente admoestada ou castigada; assim como é</p><p>igualmente patogênica a possibilidade de que cada um dos pais, separadamente, se-</p><p>jam pessoas coerentes nas suas posições, porém manifestamente incoerentes entre as</p><p>respectivas posições assumidas perante o filho. Essa atitude do educador constitui</p><p>uma forma de desrespeito à criança.</p><p>O mesmo raciocínio vale integralmente para a pessoa de coordenador de algum</p><p>grupo, porquanto, de alguma forma, ele também está sempre exercendo um certo</p><p>grau de função educadora.</p><p>. Senso de ética. O conceito de ética, aqui, alude ao fato de que um coordenador</p><p>de grupo não tem o direito de invadir o espaço mental dos outros, impondoìhes os</p><p>seus próprios valores e expectativas: pelo contrário, ele deve propiciar um alarga-</p><p>C OMO'I RAEA LHAMOS COV CRUPOS</p><p>'</p><p>43</p><p>mento do espaço interior e exterior de cada um deles, através da aquisição de um</p><p>senso de liberdade de todos, desde que essa liberdade não invada a dos outros.</p><p>Da mesma forma, falta com a ética o coordenador de grupo que não mantém um</p><p>mínimo de sigilo daquilo que lhe foi dado em confiança, ou pelas inúmeras outras</p><p>formas de faltar com o respeito para com os outros.</p><p>. Respeito. Este atributo tem um significado muito mais amplo e profundo do</p><p>que o usualmente empregado. Respeito vem de re (de novo) + specíore (olhar), ou</p><p>seja, é a capacidade de um coordenador de grupo voltar a olhar para as pessoas com</p><p>as quais ele está em íntima interação com outros oÌhos, com outras perspectivas, sem</p><p>a miopia repetitiva dos rótulos e papéis que, desde criancinha, foramJhes incutidos.</p><p>Igualmente, faz parte deste atributo a necessidade de que haja uma necess âriadistân-</p><p>cia ótima entre ele e os demais, uma tolerância pelas falhas e limitações presentes em</p><p>algumas pessoas do grupo, assim como uma compreensáo e paciência pelas eventu-</p><p>ais inibições e pelo ritmo peculiar de cada um.</p><p>Tudo isso está baseado no importante fato de que a imagem que uma mãe ou pai</p><p>(o terapeuta, no caso de uma grupoterapia) tem dos potenciais dos seus filhos (paci-</p><p>entes) e da família como um todo (equivale ao grupo) se toma parte importante da</p><p>imagem que cada indivíduo virá a ter de si próprio.</p><p>. Paciência. Habitualmente, o significado desta palavra está associado a uma</p><p>idéia de passividade. de resignação, e o que aqui estamos valorizando como um impor-</p><p>tante atributo deum coordenador de grupo é frontalmente oposto a isso. Paciência deve</p><p>ser entendida como uma atitude dtiva, como um tempo de espera necessi4rio para que</p><p>uma determinada pessoa do grupo reduza a sua possível ansiedade paranóide inicial,</p><p>adquira uma confiança basal nos outros, permita-se dar uns passos rumo a um terreno</p><p>desconhecido, e assim por diante. Assim concebida, a capacidade de paciência faz</p><p>parte de um atributo mais contingente, qual seja, o de funcionar como um continente.</p><p>. Continente. Cada vez mais, na literatura psicológica em geral, a expressão</p><p>"continente" (é original de Bion) amplia o seu espaço de utilização e o reconhecimento</p><p>pela importância de seu significado. Esse atributo alude originariamente a uma capa-</p><p>cidade que uma mãe deve possuir para poder acolher e conteÍ as necessidades e an-</p><p>gústias do seu filho, ao mesmo tempo que as vai compreendendo, desintoxicando,</p><p>emprestando um sentido, um significado e especialmente um nome, para só então</p><p>devolvêJas à criança na dose e no ritmo adequados às capacidades desta.</p><p>A capacidade do coordenador de grupo em funcionar como um continente é</p><p>impoÍante por três razões:</p><p>l. Permite que ele possa cor,rter as possíveis fu que podem emergir no</p><p>campo grupal provindas de cada um e de todos e que, por vezes, são colocadas de</p><p>forma maciça e volumosa dentro de sua pessoa.</p><p>3.</p><p>Possibilita que ele contenha as suas próprias angústias, como é o caso, por exem-</p><p>plo, de não saber o que está se passando na dinâmica do grupo, ou a existência de</p><p>dúvidas, de sentimentos despertados, etc. Essa condição de reconhecer e conter</p><p>as emoções negativas costuma ser denominada capacidade negativa e será me-</p><p>lhor descrita no tópico qne segue abaixo.</p><p>Faz parte da capacidade de continente da mãe (ou do coordenador de um grupo)</p><p>a assim denominada, por Bion, função alfa, que será descrita um pouco maìs</p><p>adiante, em "Função de ego auxiliar".</p><p>2.</p><p>44 . ZMERMAN & osoRlo</p><p>. Capacidade negativa. Como antes referido, no contexto deste capítulo, esta</p><p>função consiste na condição de um coordenador de gnrpo de conter as suas próprias</p><p>angrístias, que, inevitavelmente, por vezes, surgem em alguma forma e grau, de modo</p><p>a que elas não invadam todo espaço de sua mente.</p><p>Não há porque um coordenador de um grupo qualquer ficar envergonhado, ou</p><p>culpado, diante da emergência de sentimentos "menos nobres" despertados pelo todo</p><p>grupal, ou poÍ determinadas pessoas do gÍupo, como podem ser, por exemplo, um</p><p>sentimento de ódio, impotência, enfado, excitação erótica, confusão, etc., desde que</p><p>ele reconheça a existência dos mesmos, e assim possa conter e administrálos. Caso</p><p>contriário, ou ele sucumbiná a uma contra-atuação ou trabalhará com um enorme desgaste.</p><p>. Função de ego auxiliar. A "função alfa" antes referida, originariamente, con-</p><p>siste na capacidade de uma mãe exercer as capacidades de ego (perceber, pensar,</p><p>conhecer, discriminar, juízo crítico, etc.) que ainda</p>

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