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<p>- -1</p><p>Imunidades genéricas e</p><p>específicas</p><p>Lucas Gomes da Silva</p><p>Introdução</p><p>Quando se fala em imunidade, o que vem a sua cabeça? Provavelmente, estar imune a algo, estar livre de algo.</p><p>Esse termo é muito usado na área da saúde, principalmente para referir-se ao indivíduo que tomou determinada</p><p>vacina e, por isso, está imune a determinada doença. É mais ou menos isso que ocorre no Direito Tributário.</p><p>Acompanhe os estudos deste tema e entenda!</p><p>Ao final desta aula, você será capaz de:</p><p>• diferenciar a imunidade genérica da imunidade específica, compreendendo o conceito jurídico de cada</p><p>uma;</p><p>• compreender o sistema de imunidades, comparando-o com as diferentes espécies de tributos.</p><p>Conceito de imunidade genérica e imunidade</p><p>específica</p><p>Segundo Mazza (2017, p. 346), assim como os princípios tributários, “as imunidades têm natureza jurídica</p><p>dúplice na medida em que são, ao mesmo tempo, limitações constitucionais ao poder de tributar, restringindo o</p><p>poder do Fisco de instituir tributos, e também garantias fundamentais do contribuinte”.</p><p>•</p><p>•</p><p>- -2</p><p>Figura 1 - Imunidade tributária tal como na área da saúde</p><p>Fonte: UGREEN 3S, Shutterstock, 2019.</p><p>Reunindo os elementos fundamentais integrantes dos conceitos apresentados pela doutrina é possível concluir</p><p>acerca da conceituação do instituto das imunidades tributárias: 1) são normas contidas no texto da Constituição</p><p>de 1988; 2) atuam limitando as regras de competência tributária das entidades federativas; 3) afastam a</p><p>possibilidade de instituição de tributos sobre determinados atos, fatos e pessoas (MAZZA, 2017).</p><p>Conclui-se, portanto, que imunidades são normas constitucionais que limitam a competência tributária,</p><p>afastando a incidência de tributos sobre determinados itens ou pessoas (MAZZA, 2017).</p><p>Quanto à imunidade geral ou genérica, Mazza (2017) define como a que, objetivando proteger determinada</p><p>pessoa ou produto, afasta a incidência de mais de um tributo. São exemplos de imunidades genéricas, sem</p><p>excluir outras, as constantes do art. 150, VI, da CF/1988: a) das entidades federativas (alínea a); b) religiosa</p><p>(alínea b); c) dos partidos políticos e outras entidades (alínea c); d) de imprensa (alínea d); e) dos fonogramas e</p><p>videofonogramas musicais produzidos no Brasil (alínea e).</p><p>No que tange às imunidades específicas, Mazza (2017, p. 361) assevera que estas “são as previstas no Texto</p><p>Constitucional afastando a incidência de um só tributo”. Existem diversas hipóteses de imunidades específicas</p><p>previstas na CF/1988, por exemplo: a) IPI sobre produtos destinados ao exterior (art. 153, § 3º, III, CF); b) ITR</p><p>sobre pequenas glebas rurais (art. 153, § 4º, II, CF); c) ICMS sobre operações com ouro definido em lei como</p><p>ativo financeiro (art. 155, § 2º, X, c, CF); d) ICMS sobre serviço de comunicação nas modalidades de radiodifusão</p><p>SAIBA MAIS</p><p>A imunidade tributária constitui-se exceção ao princípio jurídico da tributação, decorrente de</p><p>preceito constitucional e que, como tal, não admite interpretação extensiva. No Brasil, são</p><p>imunizados os casos expressos, relacionados apenas aos impostos (arts. 150-152 da CF/1988).</p><p>Para saber mais sobre expressões utilizadas no Direito Tributário, consulte o “Dicionário</p><p>Jurídico” de Sidou (2016).</p><p>- -3</p><p>ativo financeiro (art. 155, § 2º, X, c, CF); d) ICMS sobre serviço de comunicação nas modalidades de radiodifusão</p><p>sonora e de sons e imagens de recepção livre e gratuita (art. 155, § 2º, X, d, CF).</p><p>As imunidades mais importantes, segundo Mazza (2017), são as quatro dispostas no art. 150, VI, da CF,</p><p>conhecidas como imunidades gerais. São elas: imunidade recíproca (art. 150, IV, a); imunidade religiosa (art.</p><p>150, IV, b); imunidade dos partidos políticos art. 150, IV, c); imunidade de imprensa (art. 150, IV, d).</p><p>Para nos ajudar a compreender a diferença entre imunidade, isenção e não incidência é importante analisarmos</p><p>com calma a figura seguinte.</p><p>Figura 2 - Imunidade, isenção e não incidência</p><p>Fonte: Adaptada de Palsen, 2018.</p><p>Imunidade e isenção são coisas inconfundíveis, do ponto de vista jurídico-tributário. Conforme Mazza (2017), a</p><p>imunidade ocorre no plano constitucional, interagindo com as regras que definem a competência para</p><p>instituição de tributos antes que o fato gerador ocorra. Por sua vez, a isenção constitui-se um benefício legal</p><p>concedido pelo legislador. Assim, excluindo o crédito tributário (art. 175 do CTN), é liberado o contribuinte de</p><p>fazer o pagamento do tributo após a ocorrência do fato gerador.</p><p>FIQUE ATENTO</p><p>As imunidades excluem apenas a obrigação tributária principal, isto é, o dever de pagar o</p><p>tributo. As chamadas obrigações tributárias secundárias ou acessórias (ou deveres</p><p>instrumentais) subsistem mesmo para quem foi beneficiado pela norma imunizante (MAZZA,</p><p>2017).</p><p>- -4</p><p>Figura 3 - Imunidade e isenção</p><p>Fonte: Adaptada de Mazza, 2017.</p><p>Passemos agora ao estudo do que é imunidade genérica de impostos. Prossiga!</p><p>Imunidade genérica de impostos</p><p>Conforme Sabbag (2017, p. 401), “é cediço que os impostos diretos não devem incidir sobre os entes públicos,</p><p>por força do manto protetor da norma imunizante”. Essa é a razão por que não haverá, por exemplo, a incidência</p><p>de IPTU sobre a propriedade de bem imóvel da União, de IPVA sobre a propriedade de veículo automotor de</p><p>município, ou de IR sobre a remessa de juros para o exterior, feita por Estado-membro, por contrato de mútuo</p><p>(SABBAG, 2017).</p><p>Figura 4 - A classificação doutrinária das imunidades</p><p>Fonte: Adaptada de Mazza, 2017.</p><p>É importante frisar que a imunidade para os templos de qualquer culto consiste na desoneração de impostos que</p><p>possam recair sobre a propriedade desses bens imóveis (SABBAG, 2017). Nessa medida, não estão exonerados</p><p>os demais tributos, diversos dos impostos, que terão a normal incidência, pois, considerando que o texto</p><p>constitucional fala de impostos, refere-se ao fato de tal imunidade, não se aplicando, portanto, às taxas, à</p><p>contribuição de melhoria, às contribuições sociais ou parafiscais e aos empréstimos compulsórios (SABBAG,</p><p>2017).</p><p>Possuem também imunidade de impostos os partidos políticos e as fundações atreladas aos partidos políticos.</p><p>- -5</p><p>Possuem também imunidade de impostos os partidos políticos e as fundações atreladas aos partidos políticos.</p><p>Isto porque, objetivando a divulgação da ideologia partidária, muitos partidos políticos costumam criar</p><p>fundações, o que resulta na imunidade a tais fundações dos partidos políticos, em relação a impostos incidentes</p><p>sobre o seu patrimônio, renda ou serviços (SABBAG, 2017).</p><p>Há a imunidade para os sindicatos de empregados, os quais possuem imunidade em relação a patrimônio, renda</p><p>e serviços, isto é, tais entidades estão imunes à incidência de impostos sobre patrimônio, renda e serviços, a</p><p>serem exigidos por quaisquer entidades tributantes (SABBAG, 2017).</p><p>Temos ainda a imunidade musical, que objetiva reduzir a carga de impostos de tais produtos, ou seja, propiciar a</p><p>baixa de preços nos CDs, DVDs e Blue-Rays que contenham a obra artística musical e também nas músicas</p><p>comercializadas pela internet ou via telefonia, objetivando desestimular a comercialização clandestina de “cópias</p><p>piratas” (SABBAG, 2017).</p><p>Existe previsão de imunidades de impostos também para instituições de educação e entidades de assistência</p><p>social. Ademais, o art. 150, VI, “d”, da CF prevê imunidade para os impostos que incidem sobre livro, jornal,</p><p>periódico e papel destinado à impressão de tais veículos de pensamento (SABBAG, 2017).</p><p>Imunidade da contribuição social para a</p><p>seguridade social</p><p>Presente no artigo 195, § 7º, da Constituição Federal, essa imunidade diz respeito às contribuições de seguridade</p><p>social, abrangendo as contribuições previdenciárias, as contribuições de PIS e Cofins, inclusive na importação, e</p><p>a contribuição social sobre o lucro. Contribuições com outras finalidades, ainda que incidentes sobre as mesmas</p><p>EXEMPLO</p><p>A imunidade musical e a imunidade dos livros e dos periódicos são exemplos de imunidade</p><p>objetiva. Já a imunidade conferida aos partidos políticos e aos sindicatos dos empregados</p><p>são</p><p>exemplos de imunidades subjetivas conferidas pela legislação tributária.</p><p>FIQUE ATENTO</p><p>A imunidade musical possui característica objetiva, pois afeta apenas os objetos relacionados à</p><p>música, como o ICMS, entre outros. Aqueles tributos incidentes sobre a gravadora (IPTU, IPVA,</p><p>taxas, contribuições) continuarão a incidir normalmente, porquanto a norma imunizante é</p><p>clara ao desonerar apenas as obras musicais e os objetos afetos a ela (SABBAG, 2017).</p><p>- -6</p><p>a contribuição social sobre o lucro. Contribuições com outras finalidades, ainda que incidentes sobre as mesmas</p><p>bases, não são alcançadas (PAULSEN, 2018). Além disso, a imunidade do art. 195, § 7º, da CF não abrange as</p><p>contribuições destinadas a terceiros, como as contribuições ao Sesc, Senac, Sebrae, Apex e ABDI (PAULSEN,</p><p>2018).</p><p>No mais, os requisitos são os estabelecidos pela Lei nº 12.101/09, cujo texto estabelece a certificação, como</p><p>entidades beneficentes de assistência social, para fins de desoneração às contribuições de seguridade social, das</p><p>entidades de direito privado, sem fins lucrativos, que prestem serviços nas áreas de assistência social, saúde ou</p><p>educação, sendo que deverão obedecer ao princípio da universalidade do atendimento, sendo vedado dirigir</p><p>suas atividades exclusivamente a seus associados ou a categoria profissional (PAULSEN, 2018).</p><p>A imunidade em questão diz respeito às contribuições de seguridade social, o que abrange todas aquelas</p><p>instituídas no exercício da competência delimitada pelo art. 195, I a IV, da CF/1988, e também as instituídas no</p><p>exercício da competência residual outorgada pelo § 4º do mesmo dispositivo (PAULSEN, 2018).</p><p>Imunidade da contribuição social sobre o lucro</p><p>líquido</p><p>A Emenda Constitucional 33/2001 acrescentou o dispositivo enumerado como inciso I, § 2º, no art. 149 da CF, o</p><p>qual dispõe sobre a não incidência sobre as receitas decorrentes de exportação para as contribuições sociais e de</p><p>intervenção no domínio econômico relacionadas no do artigo (PAULSEN, 2018), a saber: “Competecaput</p><p>exclusivamente à União instituir contribuições sociais, de intervenção no domínio econômico e de interesse das</p><p>categorias profissionais ou econômicas, como instrumento de sua atuação nas respectivas áreas”, sendo</p><p>observado o disposto nos arts. 146, III, e 150, I e III, e no art. 195, § 6°, acerca das contribuições a que alude o</p><p>dispositivo (BRASIL, 1988).</p><p>Fechamento</p><p>Neste tema, estudamos que as imunidades também fazem parte do sistema de limitações ao poder de tributar,</p><p>constituindo-se uma forma garantia ao contribuinte. As imunidades visam proteger os temas que são mais caros</p><p>à democracia, às liberdades e à sociedade como um todo.</p><p>Nesta aula, você teve a oportunidade de:</p><p>• diferenciar a imunidade genérica da imunidade específica, compreendendo o conceito jurídico de cada</p><p>uma;</p><p>• compreender o sistema de imunidades, comparando-o com as diferentes espécies de tributos.</p><p>Referências</p><p>BRASIL. [Constituição (1988)]. . Brasília: CongressoConstituição da República Federativa do Brasil de 1988</p><p>Nacional, 1988.</p><p>BRASIL. . Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966 Dispõe sobre o Sistema Tributário Nacional e institui normas</p><p>gerais de direito tributário aplicáveis à União, Estados e Municípios. Brasília: DF, 1966.</p><p>CASSONE, V. . 28. ed. São Paulo: Atlas, 2018.Direito tributário</p><p>•</p><p>•</p><p>- -7</p><p>CASSONE, V. . 28. ed. São Paulo: Atlas, 2018.Direito tributário</p><p>MAZZA, A. . 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.Manual de direito tributário</p><p>PAULSEN, L. . 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2018.Curso de direito tributário completo</p><p>SABBAG, E. de M. . 9. ed. São Paulo: Saraiva, 2017.Manual de Direito Tributário</p><p>SIDOU, J. M. O. : Academia Brasileira de Letras Jurídicas. 11. ed., rev. e atual. Rio de Janeiro: Dicionário Jurídico</p><p>Forense, 2016.</p><p>Introdução</p><p>Conceito de imunidade genérica e imunidade específica</p><p>Imunidade tributária tal como na área da saúde</p><p>Imunidade, isenção e não incidência</p><p>Imunidade e isenção</p><p>Imunidade genérica de impostos</p><p>A classificação doutrinária das imunidades</p><p>Imunidade da contribuição social para a seguridade social</p><p>Imunidade da contribuição social sobre o lucro líquido</p><p>Fechamento</p><p>Referências</p>