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<p>22 Morfossintaxe I</p><p>os seres humanos passem momentos agradáveis, perdidos</p><p>na irrealidade, emancipados da sordidez cotidiana, do in-</p><p>ferno doméstico ou da angústia econômica, em descon-</p><p>traída indolência intelectual, as fi cções da literatura não</p><p>podem competir com as oferecidas pelas telas, sejam de</p><p>cinema ou de TV. As ilusões forjadas com a palavra exigem</p><p>a participação ativa do leitor, um esforço de imaginação,</p><p>e, às vezes — quando se trata de literatura moderna —,</p><p>complicadas operações de memória, associação e criação,</p><p>algo de que as imagens do cinema e da televisão dispensam</p><p>os espectadores. E, por isso, os espectadores se tornam</p><p>cada vez mais preguiçosos, mais alérgicos a um entreteni-</p><p>mento que requeira esforço intelectual.</p><p>Digo isso sem a menor intenção beligerante contra os</p><p>meios audiovisuais, e a partir de minha condição confessa</p><p>de apreciador de cinema — vejo dois ou três fi lmes por</p><p>semana — que também desfruta com prazer um bom pro-</p><p>grama de TV (essa raridade). Mas, justamente por isso,</p><p>com o conhecimento de causa necessário para afi rmar que</p><p>nenhum dos fi lmes que vi, e me divertiram tanto, me aju-</p><p>dou a compreender o labirinto da psicologia humana como</p><p>os romances de Dostoievski — ou os mecanismos da vida</p><p>social como os livros de Tolstoi e de Balzac, ou os abis-</p><p>mos e os pontos altos que podem coexistir no ser huma-</p><p>no, como me ensinaram as sagas literárias de um Th omas</p><p>Mann, um Faulkner, um Kafka, um Joyce ou um Proust.</p><p>As ficções apresentadas nas telas são intensas por seu</p><p>imediatismo e efêmeras por seus resultados. Prendem-</p><p>-nos e nos desencarceram quase de imediato — das fic-</p><p>ções literárias nos tornamos prisioneiros pela vida toda.</p><p>Dizer que os livros daqueles escritores entretêm seria</p><p>injuriá-los, porque, embora seja impossível não ler tais</p><p>livros em estado de transe, o importante de sua boa lite-</p><p>ratura é sempre posterior à leitura — um efeito deflagra-</p><p>do na memória e no tempo. Ao menos é o que acontece</p><p>comigo, porque, sem elas, para o bem ou para o mal, eu</p><p>não seria como sou, não acreditaria no que acredito nem</p><p>teria as dúvidas e as certezas que me fazem viver.</p><p>Mario Vargas Llosa. In: O Estado de S. Paulo, 1996.</p><p>16 (Ibmec-SP) “... me divertiram tanto, me ajudou a compreender</p><p>o labirinto da psicologia humana como os romances de Dos-</p><p>toievski — ou os mecanismos da vida social como os livros de</p><p>Tolstoi e de Balzac, ou os abismos e os pontos altos que podem</p><p>coexistir no ser humano, como ensinaram as sagas literárias de</p><p>um Thomas Mann...”</p><p>Segundo o fragmento, a natureza humana é:</p><p>a) insegura e instável.</p><p>b) introspectiva e desequilibrada.</p><p>c) solitária e imprevisível.</p><p>d) efêmera e contrastante.</p><p>e) complexa e ambígua.</p><p>17 (Ibmec-SP) Assinale a alternativa que melhor corresponde à ideia</p><p>central do texto de Mario Vargas Llosa.</p><p>a) Os meios audiovisuais diminuíram o poder da palavra escrita.</p><p>b) O papel cívico da literatura está na complexidade do con-</p><p>teúdo da obra e dispensa o leitor.</p><p>c) O avanço da tecnologia audiovisual contribuiu para a morte</p><p>da literatura.</p><p>d) A literatura que não mobiliza o leitor torna-se estéril.</p><p>e) A literatura light possibilita a fuga da realidade objetiva.</p><p>18 (Ibmec-SP, adaptada) A metáfora que dá título ao texto refere-se:</p><p>a) ao caráter de passado que se atrela à literatura diante dos</p><p>meios audiovisuais.</p><p>b) à literatura que trata cientifi camente da Pré-História.</p><p>c) aos escritores que negam o caráter efêmero da literatura de</p><p>entretenimento.</p><p>d) ao desprestígio dos autores consagrados.</p><p>e) aos escritores que tentam emocionar seus leitores.</p><p>19 (PUC/Campinas-SP)</p><p>Se existe uma instituição moderna que de jovem não tem</p><p>nada é o restaurante. Não é tão velho como pode parecer</p><p>— tal como o conhecemos, quase nada tem a ver com</p><p>as estalagens da Antiguidade ou as tabernas medievais.</p><p>Mas também não nasceu ontem: o perfil do restaurante</p><p>moderno vem da segunda metade do século 18, portanto</p><p>há quase 250 anos.</p><p>MELO, Josimar. Caldo inaugura a história dos restaurantes.</p><p>Folha [sinapse]. Folha de S.Paulo, 24 set. 2002, p. 34.</p><p>O sentido da primeira frase do texto está corretamente repre-</p><p>sentado em:</p><p>a) O restaurante é uma instituição moderna, mas não recente.</p><p>b) O restaurante é uma instituição atual e jovem.</p><p>c) Nem todo restaurante é jovem, só o moderno.</p><p>d) Como instituição, o restaurante não é nem moderno nem</p><p>jovem.</p><p>e) Não existe instituição moderna que seja jovem como o</p><p>restaurante.</p><p>20 +Enem [H14] Observe a imagem abaixo, que é uma gravura de</p><p>Mauricio Nascimento.</p><p>Um artista, quando decide representar determinada cena,</p><p>imagem, sensação ou ideia, pode fazê-lo de maneira livre,</p><p>M</p><p>AU</p><p>RÍ</p><p>CI</p><p>O</p><p>N</p><p>AS</p><p>CI</p><p>M</p><p>EN</p><p>TO</p><p>23</p><p>G</p><p>R</p><p>A</p><p>M</p><p>ÁT</p><p>IC</p><p>A</p><p>Morfossintaxe I</p><p>mais fl exível em relação às regras da verossimilhança e da</p><p>fi delidade aos fatos e à realidade tangível do que um jorna-</p><p>lista, por exemplo, ao escrever uma notícia, ou um desenhista</p><p>que faz representações do corpo humano para um livro de</p><p>anatomia. Considerando essas informações, analise as afi r-</p><p>mações, com especial atenção para o sentido dos adjetivos</p><p>em destaque, e depois assinale a alternativa correta.</p><p>a) A relação de tamanho entre o submarino e o peixe</p><p>é desproporcional na gravura, considerando-se que a</p><p>representação visual do peixe da gravura não é de uma</p><p>espécie que possa atingir grandes proporções.</p><p>b) O fato de o peixe aparecer representado em um quadro</p><p>à parte mostra que, segundo as concepções do artista,</p><p>submarinos são nocivos à vida marinha e devem ser</p><p>banidos das águas dos mares e oceanos.</p><p>c) O peixe, representado em tamanho gigantesco, mostra</p><p>— de maneira metafórica — que a vida marinha pode</p><p>ser prejudicial para as pesquisas e expedições científi cas</p><p>realizadas por submarinos.</p><p>d) O tamanho do submarino, em relação à profundidade de</p><p>oceano representada, é proporcional, reproduzindo de</p><p>maneira fi el a realidade; isso não ocorre, porém, com o</p><p>tamanho do peixe.</p><p>e) A falta de proporção entre os elementos principais que apa-</p><p>recem na gravura — água, submarino, peixe e montanhas</p><p>— exclui o desenho da arte, não podendo essa representação</p><p>ser considerada uma manifestação artística.</p><p>Leia o fragmento de texto seguinte para responder às questões</p><p>21 e 22.</p><p>[...] O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo; eu</p><p>sentia-o no sangue que me agitava o coração. Bom almocre-</p><p>ve! Enquanto eu tornava à consciência de mim mesmo, ele</p><p>cuidava de consertar os arreios do jumento, com muito zelo</p><p>e arte. Resolvi dar-lhe três moedas de ouro das cinco que</p><p>trazia comigo; não porque tal fosse o preço da minha vida</p><p>— essa era inestimável; mas porque era uma recompensa</p><p>digna da dedicação com que ele me salvou. Está dito, dou-</p><p>-lhe as três moedas.</p><p>[...]</p><p>Fui aos alforjes, tirei um colete velho, em cujo bolso trazia</p><p>as cinco moedas de ouro, e durante algum tempo cogitei se</p><p>não era excessiva a gratifi cação, se não bastavam duas moe-</p><p>das. Talvez uma. Com efeito, uma moeda era bastante para</p><p>lhe dar estremeções de alegria. [...]</p><p>Ri-me, hesitei, meti-lhe na mão um cruzado em prata, ca-</p><p>valguei o jumento, e segui a trote largo, um pouco vexado,</p><p>melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha. [...]</p><p>Meti os dedos no bolso do colete que trazia no corpo e</p><p>senti umas moedas de cobre; eram os vinténs que eu deve-</p><p>ra ter dado ao almocreve, em lugar do cruzado em prata.</p><p>Porque, enfi m, ele não levou em mira nenhuma recompen-</p><p>sa ou virtude, cedeu a um impulso natural, ao tempera-</p><p>mento, aos hábitos do of ício; acresce que a circunstância</p><p>de estar, não mais adiante nem mais atrás, mas justamente</p><p>no ponto do desastre, parecia constituí-lo simples instru-</p><p>mento da providência; e de um ou de outro modo, o méri-</p><p>to do ato era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado</p><p>com esta refl exão, chamei-me pródigo, lancei o cruzado</p><p>à conta das minhas dissipações antigas; tive (por que não</p><p>direi tudo?) tive remorsos.</p><p>Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.</p><p>Capítulo XXI — O almocreve.</p><p>21 (U. F. Itajubá-MG) Examine as substituições lexicais realizadas</p><p>e assinale aquela em que não se manteve o sentido.</p><p>a) “essa era inestimável” — essa era incalculável</p><p>b) “Fui aos alforjes, tirei um colete velho” — Fui até o cofre,</p><p>tirei um colete velho</p><p>c) “um pouco vexado” — um pouco constrangido</p><p>d) “chamei-me pródigo” — chamei-me esbanjador</p><p>22 (U. F. Itajubá-MG) Pela leitura do texto, é possível afi rmar:</p><p>a) A ação do personagem é coerente do início ao fi m do acon-</p><p>tecimento.</p><p>b) O personagem não hesita sobre o valor da recompensa.</p><p>c) O personagem sente remorsos por não ter recompensado</p><p>devidamente seu salvador.</p><p>d) A valoração do ato do almocreve diminui gradativamente:</p><p>de fato heroico a fato sem mérito algum.</p><p>Leia os textos para responder às questões 23 e 24.</p><p>Texto I</p><p>A cada canto um grande conselheiro,</p><p>Que nos quer governar cabana e vinha,</p><p>Não sabem governar sua cozinha,</p><p>E podem governar o mundo inteiro.</p><p>Em cada porta um bem frequente olheiro,</p><p>Que a vida do vizinho e da vizinha</p><p>Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,</p><p>Para o levar à praça e ao terreiro.</p><p>Muitos mulatos desavergonhados,</p><p>Trazidos sob os pés os homens nobres,</p><p>Posta nas palmas toda a picardia.</p><p>Estupendas usuras nos mercados,</p><p>Todos os que não furtam muito pobres:</p><p>E eis aqui a cidade da Bahia.</p><p>MATOS, Gregório de. In: DIMAS, Antonio (org.).</p><p>Literatura comentada. São Paulo: Abril Educação, 1981. p. 13.</p><p>Texto II</p><p>Eu nem sei si vale a pena</p><p>Cantar São Paulo na lida,</p><p>Só gente muito iludida</p>