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<p>Cᴏɴғʀᴀʀɪᴀ ᴅᴏs Lɪᴠʀᴏs Bᴏɴs</p><p>Copyright	©	Viseu</p><p>Todos	os	direitos	reservados.</p><p>Proibida	a	reprodução	total	ou	parcial	desta	obra,	de	qualquer	forma	ou	por</p><p>qualquer	meio	eletrônico,	mecânico,	inclusive	por	meio	de	processos</p><p>xerográficos,	incluindo	ainda	o	uso	da	internet,	sem	a	permissão	expressa	da</p><p>Editora	Viseu,	na	pessoa	de	seu	editor	(Lei	nº	9.610,	de	19.2.98).</p><p>editor:	Thiago	Regina</p><p>revisão:	Tatiana	Rodrigues	da	Rocha</p><p>projeto	gráfico	e	diagramação:	Rodrigo	Rodrigues</p><p>capa:	Tiago	Shima</p><p>Todos	os	direitos	reservados,	no	Brasil,	por</p><p>Editora	Viseu	Ltda.</p><p>contato@editoraviseu.com.br</p><p>Cᴏɴғʀᴀʀɪᴀ ᴅᴏs Lɪᴠʀᴏs Bᴏɴs</p><p>Sumário</p><p>CAPÍTULO	I</p><p>CAPÍTULO	II</p><p>CAPÍTULO	III</p><p>CAPÍTULO	IV</p><p>CAPÍTULO	V</p><p>CAPITULO	VI</p><p>CAPÍTULO	VII</p><p>CAPÍTULO	VIII</p><p>CAPÍTULO	IX</p><p>Cᴏɴғʀᴀʀɪᴀ ᴅᴏs Lɪᴠʀᴏs Bᴏɴs</p><p>CAPÍTULO	X</p><p>CAPÍTULO	XI</p><p>CAPÍTULO	XII</p><p>CAPÍTULO	XIII</p><p>CAPÍTULO	XIV</p><p>CAPITULO	XV</p><p>CAPITULO	XVI</p><p>Cᴏɴғʀᴀʀɪᴀ ᴅᴏs Lɪᴠʀᴏs Bᴏɴs</p><p>A	Deus	por	ter	posto	em	meu	coração	esta	semente;</p><p>Cᴏɴғʀᴀʀɪᴀ ᴅᴏs Lɪᴠʀᴏs Bᴏɴs</p><p>À	minha	mãe	por	ter-me	ensinado	que	nem	somente	de	sonho	vive	o	homem;</p><p>A	uma	antiga	professora	que	um	dia	escreveu	“Never	give	up	on	your	dreams”</p><p>Viver	é	a	arte	de	amar	e	ser	amado.</p><p>Nossa	passagem	pela	esfera	terrestre	é	muito	breve,	mas	muitos	ainda	insistem</p><p>em	desperdiçar	seu	tempo	acumulando	mágoa,	rancor	e	vingança.	Além	de</p><p>passar	a	maior	parte	de	seu	tempo	valorizando	somente	os	bens	materiais	em</p><p>detrimento	dos	reais	valores,	os	espirituais.</p><p>Quando	nascemos,	nada	trazemos	e	quando	partirmos,	o	que	levaremos	são	o</p><p>reflexo	das	ações	que	praticamos,	os	valores	que	possuímos	e	o	amor	que</p><p>sentimos.</p><p>Não	importa	qual	tipo	de	amor.</p><p>Amor	à	Deus	sob	todas	as	coisas;</p><p>Ao	próximo	como	a	nós	mesmos;</p><p>Amor	à	nossa	família;</p><p>Aos	nossos	amigos;</p><p>Amar	nosso(a)	companheiro	(a);</p><p>Mas,	principalmente</p><p>Amor	a	si	próprio.</p><p>Porque	aquele	que	não	se	ama	verdadeiramente,</p><p>Não	tem	condições	de	amar	a	quem	quer	que	seja;</p><p>Não	respeita,	acolhe	ou	auxilia	ao	seu	irmão.</p><p>Somente	damos	aquilo	que	possuímos</p><p>E	só	levamos	aquilo	que	sentimos.</p><p>Portanto,	aproveitemos	melhor	o	presente	da	vida	que	recebemos</p><p>Nos	amando,	doando,	auxiliando,	honrando…</p><p>E	no	dia	de	nossa	partida</p><p>Estaremos	prontos	para	a	real	felicidade	da	vida	eterna.</p><p>Tatiana	Rodrigues	da	Rocha</p><p>CAPÍTULO	I</p><p>-	Meu	filho,	não	acredito	que	você	não	vai	ficar	em	casa	nem	mesmo	esta	noite?</p><p>Acabamos	de	sepultar	seu	pai	e	você	já	vai	se	deleitar	com	aquelas	mulheres	de</p><p>péssima	reputação?	Você	não	pode,	ao	menos	hoje,	ficar	em	casa	e	me	fazer</p><p>companhia?	Está	na	hora	de	pensar	no	futuro	Carl!</p><p>-	Minha	mãe,	quando	meu	pai	adoeceu,	fiz	tudo	o	que	esteve	ao	meu	alcance</p><p>para	ajudá-lo.	Até	buscar	médicos	em	Paris…	Agora,	quem	morreu	foi	ele	não</p><p>eu.	A	Sra.	não	pode	me	impedir	de	viver	a	minha	vida	enquanto	tenho	saúde,</p><p>juventude	e	beleza!</p><p>-	Você	não	percebe	que	age	como	um	menino	mimado	quando	deveria	agir	como</p><p>homem	feito	que	é?	O	tempo	passou	para	você	da	mesma	maneira	que	para	nós</p><p>meu	filho,	mas	você	não	criou	juízo	nem	com	a	doença	de	seu	pai?	A	partir	de</p><p>agora	você	se	tornará	o	homem	desta	casa	e	em	breve	receberá	o	título	que</p><p>pertencera	a	ele;	não	pode	mais	se	dar	ao	luxo	de	levar	esta	vida	devassa	e</p><p>doidivanas	que	têm	levado	até	então!	Além	do	mais,	nem	sequer	tem	uma</p><p>namorada,	quando	já	deveria	estar	casado	e	com	filhos,	como	todo	homem</p><p>respeitável!	Pois	muito	bem;	vá	e	despeçasse	de	seus	“amigos”,	pois	amanhã</p><p>mesmo	teremos	você	e	eu	uma	conversa	definitiva	sobre	o	nosso	futuro.</p><p>A	Duquesa	Mary	Ann	tornara-se	a	mais	recente	viúva	da	Inglaterra.	Seu	marido,</p><p>Sir	Alexander,	o	Duque	de	Charleston,	após	meses	de	luta	contra	a	tuberculose,</p><p>veio	a	óbito	em	uma	linda	manhã	de	primavera.</p><p>Mary	Ann	Evans	amara	o	jovem	Alexander	Murphy	a	primeira	vista,	quando	o</p><p>conhecera	em	um	banquete	oferecido	por	um	Conde	da	época.	Jovem	esbelta,	de</p><p>pele	alva	e	cabelos	louros	era	a	típica	inglesa,	mantendo	ainda,	apesar	de	seus	70</p><p>anos,	a	mesma	elegância	e	postura	clássicas,	dignas	da	nobreza	daquele	país.</p><p>Tivera	que	lutar	contra	o	preconceito	da	época,	pelo	fato	de	desejar	se	unir	a	um</p><p>irlandês	e	com	poder	aquisitivo	inferior	ao	de	sua	família,	porém,	era	mulher	de</p><p>fibra,	apesar	da	aparência	frágil	o	que	lhe	dava	uma	certa	“vantagem”.</p><p>Alexander	Murphy	fora	daquelas	pessoas	que	tinha	uma	“estrela”.	Herdara</p><p>pequena	propriedade,	mas	com	seu	carisma,	honestidade,	caráter	e	competência,</p><p>transformara	o	pequeno	legado	em	grande	fortuna,	o	que	lhe	rendera	o	título	de</p><p>Sir	e	mais	tarde	o	de	Duque,	tornando-se	suserano.</p><p>Sir	Alexander	era	um	perfeito	descendente	irlandês.	Homem	simpático	e</p><p>bonachão,	que	até	adoecer	tinha	uns	bons	20	quilos	a	mais	(o	que	lhe	dava	um</p><p>ar	de	bom	avô),	apesar	dos	cabelos	ruivos	terem	perdido	a	cor	devido	à	idade	e</p><p>a	doença,	nunca	perdeu	o	hábito	de	sorrir	diante	da	exigência	da	esposa	em</p><p>seguir	rigidamente	os	protocolos	ingleses.</p><p>O	casal	tivera	apena	um	filho,	Carl,	quando	ambos	julgavam	que	já	não	mais</p><p>seriam	pais,	portanto,	tudo	o	que	o	menino	pedia,	ganhava;	custasse	o	que</p><p>custasse.	Resultado:	Carl	tornou-se	um	homem	egoísta,	esbanjador,	fútil	e</p><p>mulherengo,	tendo	junto	à	sociedade,	péssima	reputação.</p><p>Carl	Richard	Evans	Murphy	já	contava	com	a	idade	45	anos.	Herdara	o	sorriso</p><p>fácil	e	otimismo	do	pai	e	a	beleza	e	sagacidade	da	mãe,	atributos	fundamentais</p><p>para	um	“bon	vivant”¹.	Com	notável	aptidão	para	fazer	novos	amigos	e</p><p>conquistar	as	mulheres,	decepcionou	em	muito	os	pais,	por	não	tê-los	seguido	no</p><p>quesito	“caráter”,	relacionando-se	com	pessoas	de	índole	duvidosa.</p><p>Após	a	saída	do	filho,	a	mãe	decide	tomar	uma	chá	e	prontamente	a	criada	lhe</p><p>serve	um	saboroso	e	quente	chá	de	camomila.</p><p>Esther	trabalhava	para	a	família	desde	que	ela	e	Homero,	seu	marido,	se	casaram</p><p>e	o	mesmo	além	de	jardineiro	fazia	às	vezes	de	cocheiro	por	tratar	muito	bem</p><p>dos	animais.</p><p>Se	vendo	sozinhas,	as	duas	(que	por	afinidade	e	força	da	convivência	haviam	se</p><p>tornado	amigas)	saboreavam	juntas	o	chá	e	dividiam	as	preocupações.</p><p>-	Esther,	o	que	será	de	meu	filho	a	partir	de	agora?	Já	fui	informada	pela	família</p><p>real	que	o	título	que	pertencia	ao	pai	será	transmitido	a	ele	brevemente	em</p><p>pomposa	cerimônia.	Mas	como	ele	assumirá	o	posto	de	Duque	mantendo	as</p><p>atitudes	que	vem	mantendo	até	então?	Temo	pelo	nosso	futuro,	pois	quase	todo</p><p>nosso	patrimônio	foi	investido	na	tentativa	de	salvar	a	vida	de	meu	marido.	Carl</p><p>precisa	se	casar	com	moça	de	boa	família	e	se	abastada,	tanto	melhor,	para	que</p><p>possamos	ao	menos	manter	nosso	padrão	de	vida,	mas	como	se	em	nossa</p><p>sociedade	nenhum	de	nossos	amigos	permitirão	que	Carl	despose	uma	de	suas</p><p>filhas?	E	ele	já	está	passando	da	idade	de	constituir	família!</p><p>-	Veja	seu	filho.	Quando	meninos	eram	amigos,	cresceram	juntos.	Porém	quando</p><p>se	tornou	um	homem,	James	buscou	outras	amizades	e	nunca	mais	quis	a</p><p>companha	de	Carl.	Hoje	ele	tem	uma	linda	esposa	e	um	neto	que	alegra	esta	casa</p><p>quando	nos	visitam.</p><p>-	Mary	Ann…	Tenha	um	pouco	de	paciência.	Cada	um	aprende	à	sua	maneira.</p><p>Quando	não	o	faz	pelo	amor,	o	acaba	fazendo	pela	dor.	Mas	Deus	misericordioso</p><p>há	de	ter	piedade	da	inocência	do	menino	Carl	e	tratar	de	lhe	mostrar	o	caminho</p><p>certo!</p><p>-	Menino?	Ora	Esther!	Não	sei	de	onde	você	tira	estas	ideias?	Meu	filho	é</p><p>homem-feito	há	muito!	De	menino	e	inocente	ele	não	tem	é	nada!</p><p>-	Para	a	eternidade	todos	somos	crianças,	quantas	vezes	terei	que	lhe	repetir	isto?</p><p>-	Ah,	lá	vem	você	com	estas	ideias	daquele	francês	Allan…	Allan	mesmo	do</p><p>que?</p><p>-	Allan	Kardec.	Você	deveria	aproveitar	que	agora	terá	muito	tempo	livre	e</p><p>estudar	sobre	a	doutrina	espírita.	Você	só	terá	a	ganhar.	Além	do	mais,	não	ficará</p><p>pela	casa	choramingando	de	saudades	pelo	seu	marido,	pois	vai	saber	que	ele</p><p>está	num	lugar	lindo…</p><p>-	Está	bem.	Para	mim	chega	desta	conversa	por	hoje.	Vou	para	meu	quarto	fazer</p><p>minhas	orações	e	dormir.	Boa	noite	Esther.</p><p>-	Bons	sonhos	Mary	Ann.</p><p>Ao	levar	a	bandeja	para	a	cozinha,	Esther	ergue	o	olhar	ao	céu	e	pede	em</p><p>silêncio	para	que	a	amiga	encontre	paz	em	seu	coração.</p><p>Na	manhã	seguinte,	preocupada	com	a	patroa	e	amiga,	procura	a	ajuda	da	nora</p><p>que	compactua	de	seu	interesse	em	socorrer	àquela</p><p>que</p><p>isto,	então	não	dramatize	tanto!	Sei	que	está	abalada	com	a	notícia,	mas	esta</p><p>reação	faz	parte	do	processo	e	em	poucos	dias	perceberá	que	tenho	razão.	Agora,</p><p>vá	se	refrescar	um	pouco	e	retocar	o	pó.	Sua	aparência	não	está	das	melhores…</p><p>Assim	os	dias	foram	se	seguindo	até	que	em	um	de	seus	rotineiros	passeios</p><p>matinais,	deparou-se	com	Carl	apoiado	no	madeirame	que	dividia	as</p><p>propriedades,	admirando-a.</p><p>Já	o	havia	percebido	em	outras	ocasiões	mas	desviava	sua	rota	para	não</p><p>encontrá-lo,	porém	nesta	manhã,	encontrava-se	tão	distraída	que	esqueceu-se</p><p>dele.</p><p>Levemente	puxou	as	rédeas	do	animal	para	cumprimentar	o	já	conhecido</p><p>conterrâneo.</p><p>Eis	que	uma	sombra	perturbou	seus	pensamentos	quanto	repentinamente</p><p>lembrou-se	das	estórias	que	ouvira	a	respeito	do	homem	que	agora	a	observava</p><p>como	um	animal	prestes	a	devorá-la.</p><p>Parou	rente	ao	madeirame	aparentando	todo	um	autocontrole	que	não	possuía.</p><p>-	Bom	dia	Sr.	Murphy.</p><p>-	Até	agora	meu	dia	fora	bom,	mas	ao	vê-la	tornou-se	especial.	É	um	privilégio</p><p>vê-la	cavalgar	com	tanta	leveza	e	elegância!</p><p>Corada,	Verônica	apenas	abaixou	o	olhar.</p><p>-	Oh	Srta,	perdoe-me	se	me	excedi	em	elogios,	mas	não	pude	controlar-me.</p><p>-	Aceito	suas	desculpas,	mas	devo	adverti-lo	que	suas	palavras	doces	não	vão</p><p>seduzir-me	como	bem	sei	que	está	acostumado.</p><p>Carl	jamais	esperaria	que	Verônica	por	trás	de	aparente	timidez	e	discrição	fosse</p><p>uma	mulher	capaz	de	desafiá-lo	com	tamanha	objetividade.	Mas	como	um</p><p>predador	nato,	sentiu-se	mais	atraído	por	ela.</p><p>-	Creio	que	a	Srta.	andou	ouvindo	mexericos	demais	e	posso	assegurar-lhe	de</p><p>que	em	sua	grande	parte,	tratam-se	de	lorotas.	A	verdade	é	que	mantive-me</p><p>solteiro	até	esta	idade	por	não	encontrar	uma	companheira	à	sua	altura.	Sempre</p><p>sonhei	com	alguém	com	suas	qualidades	e	agora	que	a	encontrei,	julgo	ser	tarde</p><p>demais…</p><p>Verônica	que	ainda	sentia-se	surpresa	consigo	mesma	pela	coragem	de	enfrentá-</p><p>lo,	imediatamente	penalizou-se	daquele	que	se	mostrava	um	jovem	enamorado.</p><p>-	O	que	o	Sr.	quer	dizer	com	tarde	demais?	Acaso	está	doente?</p><p>-	Se	ser	despertado	por	tão	nobres	sentimentos	a	esta	altura	da	vida	é	uma</p><p>doença,	então	confesso-lhe	que	estou	às	últimas.	Srta.	Bordeaux,	ficaria</p><p>imensamente	feliz	se	seu	tio	me	permitisse	fazer-lhe	a	corte,	já	que	seu	pai	se</p><p>encontra	na	Inglaterra.</p><p>-	Sr.	Murphy,	tive	uma	educação	bastante	rígida	e	confesso-lhe	que	jamais	fui</p><p>cortejada…	Sinto-me	confusa	com	suas	palavras…Mas,	prometo-lhe	pensar	e</p><p>amanhã	encontramo-nos	neste	mesmo	lugar	para	conversarmos.	Está	bem	assim?</p><p>-	Claro!	Qualquer	coisa	que	pedir,	o	farei	com	gosto.	Somente	não	suportaria	seu</p><p>desprezo.	Meu	coração	já	está	exultante!</p><p>-	Cuidado	com	emoções	avassaladoras,	elas	podem	ser	traiçoeiras	Sr.	Murphy.</p><p>Um	homem	maduro	deveria	saber	disto.</p><p>-	Até	amanhã.</p><p>Verônica	saiu	a	trote	e	quando	percebeu	que	não	era	mais	vista	por	ele,	seguiu</p><p>em	desabalada	carreira	até	a	casa	principal.</p><p>Atirou-se	na	cama	como	uma	adolescente	e	apertou	o	coração	que	batia</p><p>descompassadamente.</p><p>Madeleine	que	percebera	a	maneira	como	a	prima	entrara	em	casa,	foi	até	seu</p><p>quarto	preocupada.</p><p>-	Que	bom	que	veio	Madeleine!	Iria	procurá-la.	Não	poderia	contar	a	ninguém	se</p><p>não	a	você!</p><p>-	Contar	o	que?	Calma,	respire.	Você	parece	uma	menina	peralta…</p><p>Após	ouvir	minuciosamente	o	relato	da	sobrinha,	Madeleine	foi	a	janela</p><p>pensativa.</p><p>-	Bem,	vejo	que	está	apaixonada	pelo	Sr.	Murphy,	sem	dúvida,	mas	devo</p><p>prevenir-lhe	que	a	má	fama	deste	homem	ultrapassa	as	fronteiras…</p><p>-	Ele	disse-me	que	a	maioria	destas	estórias	são	inverdades.	Mas	como	saberei?</p><p>Estou	com	medo…</p><p>-	Acalme-se	Verônica.	Façamos	o	seguinte,	amanhã	a	acompanharei	em	seu</p><p>passeio	matinal.	Quero	conhecê-lo	melhor	e	avaliá-lo.</p><p>-	Obrigada,	assim	sinto-me	mais	segura.</p><p>Decidiu	retomar	seu	bordado	a	fim	de	distrair-se	na	esperança	de	que	o	tempo</p><p>passasse	mais	rápido.</p><p>No	retorno	à	casa	dos	amigos,	Carl	se	congratulava	de	um	lado,	mas</p><p>envergonhava-se	de	si	mesmo	de	outro,	perdido	em	seus	pensamentos.</p><p>-	A	quem	estou	enganando?	Minha	mãe	mandou-me	localizar	esta	mulher</p><p>obviamente	para	que	eu	a	conquistasse	e	a	desposasse.</p><p>-	Tudo	estaria	certo	não	fosse	o	fato	de	que	realmente	estou	interessado	nela.	E</p><p>pressinto	que	sou	correspondido	embora	ela	seja	uma	mulher	difícil.	O	que	me</p><p>atrai	mais	ainda…	E	está	cavalgando	o	meu	cavalo!	Neste	caso	está	claro	que	o</p><p>fazendeiro	que	o	adquiriu	é	parente	próximo	dela!	Preciso	ser	mais	cuidadoso	e</p><p>perspicaz.</p><p>Nesta	noite	Verônica	se	deteve	além	do	normal	com	seu	bordado,	dando</p><p>profundos	suspiros	ao	relembrar	o	encontro	da	manhã.	Mas	algo	a	incomodava.</p><p>Uma	sensação	de	perigo	iminente	se	fazia	presente	tentando	lhe	tirar	o	prazer	da</p><p>lembrança	daqueles	breves	momentos.</p><p>Decidida	a	não	se	deixar	levar	somente	pelo	coração	e	ouvir	a	voz	da	razão,	foi</p><p>para	seu	quarto,	porém	teve	uma	noite	repleta	de	sobressaltos.	Em	seus	sonhos</p><p>encontrou	a	mãe	de	quem	sentia	tantas	saudades	e	da	avó	que	se	fora	sem	sequer</p><p>se	despedir…</p><p>Na	manhã	seguinte	conforme	combinado,	Verônica	e	Madeleine	dirigiram-se	ao</p><p>local	marcado	para	o	encontro.	Carl	já	as	esperava	com	uma	grande	cesta	de</p><p>piquenique,	recheada	de	guloseimas	e	é	claro,	flores	para	sua	pretendente.</p><p>Ao	vê-las	se	aproximando,	pulou	o	cercado	de	madeira	feito	um	menino	e	com</p><p>seu	melhor	sorriso	recebeu	as	damas.</p><p>-	Confesso	que	estava	ansioso	por	nosso	encontro.	A	Srta.	ontem	me	pareceu	um</p><p>tanto	distante	e	cheguei	a	questionar	se	realmente	viria	a	meu	encontro	nesta</p><p>manhã.</p><p>-	Sr.	Murphy,	sou	mulher	de	uma	só	palavra,	aliás,	como	todos	deveriam	ser.</p><p>Ofende-me	confessar	que	duvidou	de	minha	palavra!</p><p>-	Perdoe-me	Srta.!	Ao	seu	lado	sinto-me	inseguro	como	um	adolescente	e	acabo</p><p>por	cometer	os	erros	de	tal	idade.</p><p>Madeleine	procurava	andar	afastada	o	suficiente	para	não	ouvir	o	diálogo	do</p><p>casal,	mas	não	a	ponto	de	perdê-los	de	vista,	e	em	seu	íntimo	punia-se	por	ter</p><p>concordado	em	acompanhar	Verônica.	Não	tinha	a	menor	dúvida	de	que	o	objeto</p><p>de	amor	da	prima	não	passava	de	um	menino	mimado	que	esquecera-se	de</p><p>crescer.	Se	fosse	só	isto,	menos	mal,	mas	algo	a	advertia	que	a	aproximação	à</p><p>Verônica	tinha	segundas	intenções…	Passaria	a	observar	cada	gesto	de	ambos.</p><p>Após	algumas	léguas	decidiram	parar	para	o	piquenique.	Estava	tudo	perfeito.</p><p>Carl	trouxe	até	mesmo	um	pequeno	vaso,	no	qual	depositou	um	ramalhete	de</p><p>flores	do	campo	para	enfeitar	a	refeição.</p><p>Madeleine	não	pode	mais	suportar	tal	situação	e	alegando	um	mal	súbito</p><p>retornou	sozinha	à	fazenda.</p><p>-	Oh	Sr.	Murphy,	sinto-me	tão	culpada!	Madeleine	só	nos	acompanhou	hoje	por</p><p>uma	questão	de	dever	com	a	família.	Meu	pai	jamais	a	perdoaria	se	ela	fosse</p><p>relapsa	comigo.	Mas	veja	coitadinha,	está	tão	cansada	que	nem	teve	condições</p><p>de	nos	acompanhar	nesta	refeição	maravilhosa…</p><p>-	Não	se	culpe	pelo	comportamento	de	sua	prima.	Talvez	ela	tenha	se	lembrado</p><p>de	algum	compromisso	antes	assumido	e	retornou	às	pressas	para	corrigir	seu</p><p>lapso.	Tratemos	de	saborear	estas	iguarias	e	me	permita	o	prazer	de	desfrutar	de</p><p>tão	graciosa	companhia.</p><p>Após	a	refeição,	ambos	sentaram-se	à	sombra	de	uma	árvore	frondosa	e	em</p><p>silêncio,	puderam	sentir	o	prazer	que	a	companhia	um	do	outro	proporcionava.</p><p>Mas	Verônica	não	se	permitiu	mergulhar	a	fundo	naquela	sensação	e	um	tanto</p><p>sonolenta,	convidou	seu	acompanhante	a	voltarem.</p><p>Por	um	milésimo	de	segundo	Carl	sentiu	o	sangue	ferver	de	raiva,	mas	mestre</p><p>em	dissimular,	concordou	com	a	jovem.</p><p>Em	cerca	de	uma	hora	despediram-se	no	ponto	em	que	se	encontraram.</p><p>-	Srta.	Verônica,	perdoe-me	a	ousadia	mas	mal	caibo	em	mim	tamanha	a</p><p>satisfação	em	ter	sua	companhia…Podemos	no	ver	novamente	amanhã?</p><p>-	Sr.	Murphy,	confesso	que	apreciei	sua	companhia	mas	creio	não	ser	correto	nos</p><p>encontrarmos	com	tanta	frequência.	Estou	hospedada	na	casa	de	meu	tio	e	não</p><p>me	perdoaria	se	o	decepcionasse	por	algum	gesto	impensado	de	minha	parte.</p><p>Creio	que	o	Sr.	me	entende,	não?</p><p>-	Oh	mas	é	claro!	Aprecio	quando	uma	donzela	mede	seus	passos	e	atitudes.</p><p>Assim,	só	me	cativas	ainda	mais,	creia-me.</p><p>-	Obrigada	pela	compreensão	Sr.	Murphy.	Sua	cortesia	e	cavalheirismo	me</p><p>tranquilizam,	pois	pressinto	que	posso	confiar	no	Sr.</p><p>Até	logo	e	obrigada	pela</p><p>surpresa.</p><p>Delicadamente,	virou	as	rédeas	do	cavalo	e	afastou-se	lentamente	com	um</p><p>sorriso	nos	lábios.	E	assim	chegou	à	sede	da	fazenda	minutos	depois.</p><p>-	Verônica,	precisamos	conversar!	Sou	mulher	experiente.	Aprendi	muito	da	vida</p><p>e	das	pessoas	com	meu	falecido	marido	e	posso	lhe	garantir	que	este	Sr,	não	tem</p><p>boas	intenções	para	com	você!	Não	deveria	tê-la	deixado	a	sós	com	ele,	mas	não</p><p>pude	mais	suportar	aquele	olhar	lânguido	com	o	qual	ele	a	olhava	e	você…	toda</p><p>derretida	como	uma	menina	de	18	anos!</p><p>-	Calma	Madeleine.	Sei	que	você	só	quer	o	meu	bem	e	por	isto	está	tão	nervosa,</p><p>mas	posso	lhe	assegurar	que	está	tudo	sob	controle.	Vou	tomar	um	banho	e	após</p><p>vou	à	cidade	cuidar	de	alguns	negócios.</p><p>-	Negócios?	Que	tipo	de	negócios?	Você	pode	resolver	tudo	o	que	precisa	aqui</p><p>mesmo	da	fazenda…</p><p>-	Nem	tudo	Madeleine…	Nem	tudo.</p><p>Pouco	antes	do	jantar,	Verônica	chega	numa	carruagem	de	aluguel	cheia	de</p><p>compras,	o	que	deixou	a	prima	mais	contrariada	do	que	já	estava.</p><p>-	Pois	diga-me	Verônica,	se	queria	ir	às	compras,	porque	não	me	convidou	à</p><p>acompanhá-la?	Conheço	as	melhores	lojas	de	Paris,	bem	sabes.</p><p>-	Ocorre	que	não	fui	comprar	vestidos,	chapéus	e	sapatos.	Comprei	tecidos	e</p><p>linhas	de	todas	as	cores	para	retomar	meus	bordados.	Jamais	dispensaria	sua</p><p>companhia	para	me	ajudar	a	escolher	novos	figurinos.	Vou	subir	para	meu</p><p>quarto,	tomar	um	banho	e	em	seguida	desço	para	o	jantar.</p><p>Sozinha	em	seu	quarto	Verônica	apenas	jogou	as	sacolas	sobre	a	cama	e</p><p>abraçada	ao	travesseiro,	deixou	que	as	lágrimas	lhe	escorressem	livremente	a</p><p>face.	Mas	como	num	passe	de	mágica,	levantou-se,	estufou	o	peito	e	disse	a	si</p><p>mesma	no	espelho:	-	“Veremos	quem	vai	brincar	de	gato	e	rato”!</p><p>Após	banhar-se	e	vestir	um	delicado	vestido	azul-celeste,	sentou-se	à	mesa	com</p><p>os	familiares	sem	que	ninguém	percebesse	qualquer	mudança	em	seu</p><p>comportamento.</p><p>Nos	dois	dias	seguintes	Verônica	não	saiu	para	cavalgar,	ao	invés	disto,</p><p>permaneceu	na	varanda	a	bordar.</p><p>Madeleine	se	viu	tentada	a	questioná-la	mas	achou	por	bem	não	fazê-lo	na</p><p>esperança	que	a	prima	houvesse	se	decepcionado	com	o	pretendente.</p><p>Na	tarde	do	segundo	dia	a	família	foi	agraciada	com	o	convite	a	reinauguração</p><p>do	teatro	da	cidade,	marcado	para	a	noite	seguinte,	evento	voltado	somente	para</p><p>a	elite	parisiense.</p><p>Na	hora	marcada	toda	a	família	foi	prestigiar	o	evento,	inclusive	a	Sra.	Vivien,</p><p>esposa	do	Sr.	Jean	Paul,	que	somente	saia	de	casa	em	casos	muitíssimos	raros,</p><p>devido	a	problemas	de	saúde.</p><p>Na	porta	do	teatro,	paravam	as	carruagens	mais	requintadas,	provando	assim	que</p><p>todo	público	seleto	comparecera	para	o	grande	evento.</p><p>Após	devidamente	instalados	em	seu	camarote,	as	primas	procuravam	com	seus</p><p>binóculos	reconhecer	todos	os	presentes.</p><p>Foi	quando	Verônica	ouve	uma	voz	grave	e	suave	atrás	de	si:</p><p>-	Procurando	alguém	Srta.?</p><p>Sentindo	o	coração	aos	pulos	e	todo	corpo	fraquejar,	muniu-se	de	seu	melhor</p><p>sorriso	e	encarou	o	dono	daquela	voz.</p><p>-	Que	surpresa	em	vê-lo	Sr.	Murphy!	Parece	que	o	destino	trata	de	nos	colocar</p><p>nos	mesmos	lugares	não	é	mesmo?</p><p>-	Ora	minha	cara,	então	a	Srta.	realmente	crê	em	destino?	Eu	diria	que	trata-se	de</p><p>predestinação!</p><p>-	Confesso-me	decepcionada	consigo.	Não	o	julgava	com	tamanha	pretensão,</p><p>mas	vejo	que	o	é!</p><p>-	Perdoe-me	se	dei	esta	impressão.	Apenas	procurava	um	motivo	para	me</p><p>aproximar	da	Srta.	já	que	me	evitas	deliberadamente.</p><p>-	Sr.	Murphy…	Não	o	estou	evitando	de	forma	alguma.	Apenas	não	mais	saí	a</p><p>cavalgar	devido	a	leve	indisposição.</p><p>-	Que	pelo	que	percebo	já	se	encontra	totalmente	restabelecida,	pois	sua</p><p>aparência	me	parece	excelente,	diria	mais,	a	Srta.	está	verdadeiramente</p><p>deslumbrante!</p><p>-	Obrigada!	O	Sr.	é	muito	gentil,	mas	percebo	exagero	em	seus	elogios…</p><p>Neste	momento,	Carl	que	jamais	fora	descartado	desta	forma,	pigarreou	e	sem</p><p>perder	a	elegância,	despediu-se	de	todos,	não	sem	antes	fixar	o	olhar	no	de</p><p>Verônica,	em	tentativa	desesperada	de	tocar	seu	coração	empedernido.</p><p>Após	a	retirada	do	cavalheiro,	Madeleine	parabenizou	a	prima	pela	coragem	de</p><p>colocá-lo	em	seu	lugar.</p><p>-	Minha	prima,	já	lhe	disse	que	não	precisa	se	preocupar	tanto	comigo.	Sei	me</p><p>cuidar	sozinha	e	quanto	ao	Sr.	Murphy,	creio	que	está	na	hora	dele	amadurecer.</p><p>A	peça	foi	um	sucesso	e	foi	aplaudida	de	pé	pelo	público.</p><p>Após	todos	se	recolherem	a	seus	quartos,	Verônica	abriu	sua	janela	e	saiu	para	a</p><p>sacada	a	fim	de	sentir	a	doce	brisa	das	noites	de	verão.</p><p>Em	sua	mente	a	imagem	daquele	a	quem	desejava	continuava	tão	nítida	quanto	o</p><p>fora	há	horas	e	ainda	podia	sentir	o	aroma	da	lavanda	usada	por	ele.</p><p>Na	fazenda	vizinha	a	mesma	cena	se	repetia	nos	aposentos	de	Carl.	“Como	uma</p><p>mulher	tão	inexperiente	se	tornaria	a	mais	difícil	de	sucumbir	a	seus	encantos”?</p><p>-	“Preciso	ser	mais	cauteloso,	até	porque,	não	posso	perdê-la!	Minha	mãe	jamais</p><p>me	perdoaria”…</p><p>Determinado	a	conquistar	Verônica	a	qualquer	custo,	recolheu-se	à	cama,e	por</p><p>fim,	adormeceu.</p><p>Na	tarde	seguinte	a	dama	retorna	ao	centro	de	Paris	sozinha	utilizando	a</p><p>desculpa	de	procurar	outro	médico	que	possa	aliviar	os	sintomas	indesejáveis</p><p>que	continuava	a	sentir.</p><p>-	Então	Sr.	Jonhson,	conseguiu	todas	as	informações	que	lhe	pedi?</p><p>Henri	Sautier	era	um	senhor	de	meia	idade,	com	ares	de	comerciante	afável	e</p><p>proprietário	de	uma	pequena	loja	de	tecidos	e	aviamentos,	bastante	frequentada</p><p>pelas	costureiras	de	Paris.	O	que	poucos	sabiam	era	que	no	andar	superior	de	seu</p><p>pequeno	estabelecimento	possuía	um	escritório	aonde	prestava	serviços	de</p><p>investigador	particular	a	uma	seleta	clientela	entre	as	quais	Verônica	se</p><p>encontrava.</p><p>Na	tarde	em	que	fora	comprar	os	tecidos	e	linhas	para	bordar,	o	gentil	senhor</p><p>percebeu	a	palidez	da	senhorita	e	matreiro	como	só,	acabou	por	envolvê-la	e</p><p>ofereceu-se	em	ajudá-la.	Verônica	realmente	precisava	desabafar	o	que	carregava</p><p>e	acabou	por	confiar	no	estranho.</p><p>-	Vejo	que	o	Sr.	é	bastante	astuto.	Vim	até	aqui	hoje	porque	preciso	ocupar</p><p>minha	mente	e	nada	melhor	do	que	o	bordado	para	me	entreter,	embora	aprecie</p><p>boa	leitura	também.	Mas…	Neste	momento,	não	consigo	me	concentrar	nos</p><p>livros	pois	meu	coração	e	minha	mente	se	encontram	num	outro	lugar…</p><p>-	Ora	Srta.,	herdei	este	ofício	de	meu	pai	e	aqui	aprendi	a	conhecer	os	desejos	e</p><p>temores	das	mulheres,	apenas	isto.	Mas	não	tenho	a	menor	intenção	de</p><p>intrometer-me	na	vida	quem	quer	que	seja.	Meu	objetivo	é	somente	esclarecer</p><p>possíveis	dúvidas	que	se	alojam	nos	corações	apaixonados.</p><p>Vamos	ao	meu	escritório	aonde	teremos	mais	privacidade.</p><p>-	Vejo	que	na	porta	está	escrito	Sr.	Jonhson	–	Detetive	Particular.	Mas	em	seu</p><p>armarinho	seu	nome	é	outro!	Acaso	pode	explicar-me?</p><p>-	No	meu	ofício	o	sigilo	é	a	alma	do	negócio.	O	Sr.	Jonhson	é	como	um</p><p>fantasma,	que	está	ora	aqui,	ora	ali,	porém	não	é	percebido	por	ninguém,	se	é</p><p>que	me	entende.</p><p>-	Bem...	que	seja.	Então	Sr.	Jonhson,	há	alguns	meses,	ainda	na	Inglaterra</p><p>conheci	um	homem	que	mesmo	de	longe,	fez	meu	coração	acelerar…	E	assim,</p><p>Verônica	contou	até	mesmo	do	piquenique	para	o	detetive.	Após	muito	pensar	e</p><p>pesar,	cheguei	a	conclusão	de	que	ele	veio	à	França	a	minha	procura	porque</p><p>descobriu	que	tornei-me	herdeira	de	considerável	capital	e,	devido	a	minha</p><p>inexperiência	com	os	homens,	certamente	seria	presa	fácil	a	ele.</p><p>-	Mas	Srta.,	já	que	está	de	posse	destas	informações,	o	que	mais	poderei	fazer</p><p>neste	caso.	A	Srta.	já	sabe	tudo	o	que	precisa!</p><p>-	Ocorre	Sr.	Jonhson	que	apesar	de	ser	uma	donzela,	tenho	uma	certa	bagagem</p><p>de	vida,	visto	que	minha	mãe	muito	me	ensinou	quando	viva	e	observei	as</p><p>atitudes	de	meus	irmãos.	Sei	como	os	homens	pensam	e	agem…	Além	do	mais,</p><p>preciso	saber	quem	realmente	é	o	homem	de	meu	interesse	para	que	eu	possa</p><p>agir	de	forma	justa	para	com	ele	e	comigo.</p><p>-	Muito	bem,	neste	caso,	preciso	de	todos	os	dados	que	a	Srta.	possui	para	que	eu</p><p>possa	começar	minhas	investigações.	Retorne	daqui	a	um	mês	para	que	eu	lhe</p><p>apresente	um	relatório	sobre	ele.	Quanto	ao	custo,	devo	preveni-la	de	que</p><p>necessito	e	uma	certa	quantia	adiantado	para	custear	a	viagem	a	Inglaterra	e	o</p><p>restante	me	pagará	na	entrega	do	relatório.</p><p>-	Mas,	de	graça,	lhe	darei	um	conselho.	Mantenha-se</p><p>afastada	o	máximo	possível</p><p>dele.	Tipos	como	ele	não	suportam	a	rejeição	e	acabam	por	desequilibrar-se	e</p><p>revelar-se.	Tenha	uma	boa	tarde	Srta.</p><p>-	Obrigada,	o	mesmo	para	o	Sr.	Ah,	boa	viagem!</p><p>Perdida	em	seus	pensamentos,	retornando	a	fazenda,	Verônica	diz	a	si	mesma:	-</p><p>“Desta	vez	o	Sr.	escolheu	a	vítima	errada	Sr.	Murphy”.</p><p>-	Boa	tarde	Srta.	Bordeaux!	Estava	ansioso	por	reencontrá-la!	Porém,	presumo</p><p>não	possuo	boas	notícias.</p><p>-	Espero	que	tenha	feito	uma	boa	viagem	Sr.	Jonhson.	Pode	começar	o	relatório.</p><p>Sou	toda	ouvidos.</p><p>O	detetive	surpreendeu-se	com	a	frieza	com	que	a	dama	recebeu	o	relato,	visto</p><p>estar	temeroso	de	como	narrar	fatos	tão	pérfidos.	Quando	relatou	sobre	a	amante</p><p>(incluindo	o	pianista),	Verônica	quase	sorriu,	como	se	ela	já	soubesse	de	tudo</p><p>por	antecipação.	Após	o	relato	verbal,	entregou	a	cliente	toda	documentação</p><p>comprobatória	dos	fatos	narrados.</p><p>-	Bom	trabalho	Sr.	Jonhson.	Aqui	está	o	restante	de	seus	honorários.	Foi	um</p><p>prazer	contratar	os	seus	serviços.	Até	mais	ver.	Ah,	quase	esqueci-me,	preciso	de</p><p>algum	material	para	bordar	meu	vestido	de	noiva.</p><p>Estupefato,	o	homem	acompanhou-a	até	o	andar	inferior	e	vendeu-lhe	o	que</p><p>havia	de	melhor	e	obviamente,	mais	caro.</p><p>Após	o	jantar,	antes	de	se	retirar	aos	seus	aposentos,	Verônica	informa	a	família</p><p>que	retornará	à	Inglaterra	no	dia	seguinte.</p><p>Todos	se	entreolharam	espantados	com	a	inesperada	notícia	e	somente</p><p>Madeleine	seguiu-a	até	o	quarto	a	fim	demovê-la	da	ideia	de	deixá-los.</p><p>-	Mas	Verônica,	aqui	você	tem	uma	qualidade	de	vida	superior	à	da	Inglaterra.</p><p>-	Concordo	em	termos	Madeleine.	Aqui	sou	mais	do	que	bem	tratada,	sei	que</p><p>sou	realmente	muito	querida	por	você	e	seus	pais,	mas	meu	pai	precisa	de	mim,</p><p>não	esqueça.</p><p>-	Bem…	Se	a	razão	de	sua	partida	é	esta,	então	não	me	resta	alternativa	senão</p><p>lhe	desejar	uma	boa	viagem.	Ambas	abraçaram-se	longamente,	pois	realmente</p><p>nutriam	um	sentimento	de	irmãs.</p><p>Na	manhã	seguinte	após	o	desjejum,	rumou	à	estação	tomando	o	primeiro	trem</p><p>em	direção	à	sua	casa.</p><p>Durante	todo	o	percurso,	manteve-se	submersa	em	seus	pensamentos,</p><p>regozijando-se	pelo	que	haveria	de	vir…</p><p>Carl	foi	ao	lugar	aonde	ambos	se	encontraram	todas	e	manhãs	no	afã	de</p><p>reencontrar	aquela	que	já	não	lhe	saia	do	pensamento,	mas	voltava	frustrado	ao</p><p>perceber	que	a	dama	não	fora	a	seu	encontro.	Após	alguns	dias,	pediu	a	um	dos</p><p>funcionários	de	seu	anfitrião	que	fosse	na	propriedade	ao	lado	tentar	obter</p><p>notícias	da	parente	inglesa.</p><p>E	foi	com	muito	pesar	que	recebeu	a	notícia	de	que	mesma	retornara	à	Londres</p><p>há	vários	dias.</p><p>Despediu-se	dos	amigos,	agradecendo	a	estada	e	simulando	preocupação	com	a</p><p>saúde	da	mãe	tomou	o	trem	da	mesma	noite.</p><p>Esta,	com	certeza,	fora	a	noite	mais	longa	da	vida	de	Carl,	pois,	de	um	lado,</p><p>temia	a	ira	da	mãe	por	seu	fracasso,	de	outro,	a	própria	vergonha	por	não	ter</p><p>conquistado	uma	donzela	de	40	anos!	Mas	o	que	mais	lhe	doía	era	admitir	que</p><p>verdadeiramente	apaixonara-se	por	ela.</p><p>CAPÍTULO	XI</p><p>-	Oh	Papai,	que	saudades!</p><p>Verônica	abraçava	o	pai	e	os	irmãos	entre	risos	e	lágrimas	e	até	o	fiscal	da</p><p>estação	emocionou-se	ao	ver	o	afeto	genuíno	daquela	família.</p><p>-	“Esta	é	uma	família	feliz!	Vê-se	que	o	dinheiro	não	mudou	estas	pessoas,	ao</p><p>contrário,	uniu-as	ainda	mais”,	pensou	o	funcionário	da	estação	ferroviária.</p><p>Após	o	jantar,	Verônica	colocou	o	pai	a	par	de	seus	planos.</p><p>-	Papai,	veja	bem,	esta	casa	foi	comprada	para	proporcionar	conforto	e	segurança</p><p>a	todos	desta	família.	Porém	ela	ainda	é	somente	uma	casa.	Desejo	que	entremos</p><p>de	uma	vez	por	todas	na	sociedade	londrina.	Como	não	comemorei	meu	último</p><p>aniversário,	darei	uma	recepção	de	inauguração	e	a	batizarei	como	“Solar	dos</p><p>Bordeaux”,	o	que	acha	da	ideia?</p><p>-	Pelo	que	vejo,	os	ares	parisienses	lhe	fizeram	muito	bem!	Quando	saiu	há</p><p>alguns	meses,	você	era	uma	mulher	pacata,	recatada	e	bastante	tímida.	Hoje</p><p>tenho	em	minha	frente	uma	mulher	linda,	vistosa,	arrojada	e	corajosa!	Mas,	vejo</p><p>também	que,	atrás	de	todo	este	poder,	ainda	está	a	minha	doce	e	romântica</p><p>menina.</p><p>-	Creio	que	devemos	falar	com	seus	irmãos	para	que	possamos	planejar	este</p><p>evento	todos	juntos,	afinal,	Nós	somos	os	Bordeaux!</p><p>-	Obrigada	Papai!!!!	Boa	noite,	sonhe	com	os	anjos!</p><p>-	Que	Deus	lhe	abençoe	minha	filha!</p><p>No	almoço,	a	família	se	reuniu	a	fim	de	cada	um	dar	ideias	sobre	a	inauguração</p><p>do	Solar.	Nos	dias	que	se	seguiram	este	virou	o	assunto	predileto	de	todos.</p><p>Verônica	pediu	ajuda	a	sua	velha	amiga	Rosimeri,	cuja	mãe	entendia	de	tudo	em</p><p>matéria	de	recepções.</p><p>A	Sra.	Bernadete	White	Marksuel	era	descendente	de	nobres	ingleses	assim</p><p>como	seu	marido,	porém	desenvolveu	uma	afeição	genuína	por	Verônica,	apesar</p><p>da	diferença	de	classe	social.	Tanto	que	no	noivado	de	Rosimeri,	cedera</p><p>gentilmente	um	belíssimo	vestido	para	que	a	amiga	da	filha,	não	porque	esta</p><p>pedira	e	sim	pelo	prazer	de	contemplar	a	beleza	e	elegância	de	Verônica.</p><p>Para	a	Sra.	Marksuel	ser	convidada	a	participar	da	organização	do	evento	de</p><p>Verônica,	lhe	era	como	um	presente.</p><p>Na	casa	dos	Bordeaux	o	clima	era	de	euforia	e	esperança.	Em	sua	lista	de</p><p>convidados	a	anfitriã	fez	questão	de	incluir	a	Duquesa	e	seu	filho,	apesar	das</p><p>reprimendas	do	pai.</p><p>Já	na	residência	dos	Murphy…</p><p>-	Mas	como	você	retorna	assim,	de	mãos	vazias!	Voziferava	Mary	Ann</p><p>decepcionada	com	o	revés	do	filho.	Uma	encalhada,	virgem,	inexperiente,</p><p>praticamente	uma	caipira!	Como	ela	não	cedeu	aos	seus	encantos?	Acaso</p><p>esqueceu-se	de	como	conquistar	uma	mulher?	Ou	talvez,	esteja	tão	acostumado</p><p>com	as	mundanas	que	não	lembra	como	se	trata	uma	dama?	Sim,	porque,	apesar</p><p>da	falta	de	glamour	desta	caipira,	ela	é	RIQUÍSSIMA!	Entendeu?	E	isto	faz	dela</p><p>a	mulher	mais	linda	e	cobiçada	da	Europa.	E	meu	filho,	um	conquistador	nato,</p><p>perdeu	a	grande	oportunidade	de	sua	vida!</p><p>-	Eu	sinto	muito	mamãe,	mas	a	Sra.	sequer	imagina	o	real	sentimento	que	me</p><p>consome.	Vou	descansar	em	meu	quarto.	Estou	muito	cansado.</p><p>No	dia	seguinte	ao	receber	o	convite,	Mary	Ann	regozija-se	pela	nova</p><p>oportunidade	e	vai	ter	com	o	filho	imediatamente.</p><p>-	Parece	que	os	céus	estão	lhe	ajudando!</p><p>-	O	que	houve	mamãe?</p><p>-	A	herdeira	vai	oferecer	uma	recepção	com	o	intuito	de	inaugurar	o	palácio	que</p><p>adquiriu	para	a	família	e	nos	convidou.	Ao	menos	ela	parece	ter	bom	gosto</p><p>quanto	a	selecionar	seus	convidados…</p><p>-	Mamãe,	na	situação	em	que	nos	encontramos,	ela	está	nos	fazendo	um	favor.</p><p>Não	esqueça	que	ninguém	mais	nos	convida	para	qualquer	evento.</p><p>-	Porque	será	que	fomos	excluídos	da	nobreza	Inglesa?</p><p>-	Não	estou	disposto	a	discutir	com	a	Sra.	mamãe.	Porque	a	Sra.	não	convida</p><p>Esther	e	vão	à	igreja	orar.	Um	pouco	de	oração,	com	certeza	lhe	fará	bem.</p><p>-	Pois	vou	é	providenciar	trajes	apropriados	à	ocasião,	afinal	conhecerei	minha</p><p>futura	nora.</p><p>À	noite,	sem	ter	com	quem	desabafar,	foi	a	procura	de	Lisa	May,	visto	crer	que	a</p><p>mesma	teria	a	capacidade	de	compreendê-lo.	Surpreendeu-se	ao	perceber	todas</p><p>as	luzes	apagadas,	porém	insistiu	em	bater	à	porta.	Um	vizinho	que	passava	não</p><p>pode	resistir	e	lhe	falou	sem	rodeios:</p><p>-	Não	perca	seu	tempo	Sr.	A	mulher	que	vive	nesta	casa	aparentemente	mudou-</p><p>se.	Tem	passado	os	últimos	tempos	naquele	hotel	barato	perto	da	estação.	Dizem</p><p>até	que	está	vivendo	com	um	dos	hóspedes	daquela	pocilga.</p><p>Para	Carl,	este	foi	o	golpe	de	misericórdia.	Sentou-se	no	último	degrau	da	escada</p><p>e	sentiu	o	peso	duro	da	mais	profunda	solidão.	Na	verdade	só	queria	ter	com</p><p>quem	conversar	e	poder	sentir-se	inteiro	outra	vez.	Levantou-se,	alisando	a	calça</p><p>amarrotada	e	dirigiu-se	ao	bar,	aonde	sabia	encontrar	os	velhos	amigos</p><p>apreciadores	de	etílico.</p><p>Como	não	havia	de	ser	diferente,	os	mesmos	parceiros	bebiam	na	mesma	mesa,</p><p>como	se	o	tempo	não	houvesse	passado.</p><p>O	recém-chegado	contou	da	viagem	aos	amigos	(exagerando	tudo	a	seu	favor,	é</p><p>claro)	e	passaram	a	noite	entre	um	brinde	e	outro	às	façanhas	do	futuro	Duque.</p><p>Já	era	dia	quando	Carl	chegou	em	casa	carregado	por	dois	homens	em	melhor</p><p>situação	que	a	dele.	Jogaram-no	à	cama	sob	os	xingamentos	da	mãe	e	se</p><p>retiraram	cambaleando	rua	à	fora.	Quando	o	ébrio	acordou	no	final	da	tarde,</p><p>pouco	se	lembrava	da	noite	anterior.	Banhou-se,	vestiu-se	com	esmero	e</p><p>ordenou</p><p>a	Homero	que	lhe	levasse	no	endereço	já	bem	conhecido	de	ambos.</p><p>Homero	notou	uma	certa	diferença	no	comportamento	do	senhor.	Mais	calado	e</p><p>menos	arrogante,	seguiram	o	trajeto	sem	o	terror	de	tempos	atrás.	Em	silêncio,</p><p>Homero	agradeceu	a	Deus	pela	súbita	mudança	do	patrão.</p><p>Lisa	May	que	já	soubera	da	chegada	do	amante,	o	esperava	como	de	costume</p><p>jogando-se	em	seus	braços	com	volúpia	e	lassívia.	Incapaz	de	resistir	aos</p><p>encantos	da	mulher,	Carl	se	deixou	levar	pela	luxúria	e	passaram	a	noite	se</p><p>amando.</p><p>Na	manhã	seguinte,	após	o	café,	Carl	confessou	a	Lisa	May	sobre	o	fracasso	que</p><p>fora	sua	viagem	(porém	omitiu	que	apaixonara-se	por	Verônica),	o	que	causou-</p><p>lhe	uma	ira	maior	que	a	de	Mary	Ann.	Após	ouvir	todos	os	palavrões	que	a</p><p>mundana	proferiu,	ele	apenas	levantou-se,	colocou	o	chapéu	e	saiu,	sem	sequer</p><p>se	despedir.</p><p>No	restante	do	dia	conseguiu	concatenar	as	ideias	e	algumas	lembranças	da</p><p>noitada	com	os	“amigos”	lhe	vieram	à	mente.	Lembrou-se	de	ter	recebido	os</p><p>parabéns	por	ter	se	livrado	daquela	interesseira	barata	(e	deram	muitas</p><p>gargalhadas	quando	um	outro	corrigiu:	-	Barata	não	meu	caro.	Aquela	mulher	é	a</p><p>mundana	mais	cara	da	corte!	Afinal,	arrancou	toda	fortuna	de	nosso	amigo</p><p>aqui…).	Carl	não	conseguia	raciocinar	corretamente	diante	de	toda	esta	situação</p><p>caótica	em	que	se	via	envolvido.	Percebeu	neste	momento	o	quanto	fora	tolo	por</p><p>todos	aqueles	anos	e	o	quanto	sua	mãe	estava	certa	e	envergonhou-se	de	si</p><p>próprio.</p><p>Após	banhar-se,	barbear-se	e	colocar-se	decentemente,	foi	ter	com	a	mãe	que</p><p>dava	ordens	à	Esther	na	cozinha.</p><p>-	Mamãe,	preciso	muito	lhe	falar.	Se	puder	me	acompanhar	até	a	sala….</p><p>-	Bem	Esther,	por	mim	você	já	pode	se	recolher.	Meu	filho,	você	vai	precisar	dos</p><p>serviços	de	Homero	hoje?	À	negativa	do	filho,	continuou:	-	Boa	noite	Esther	e</p><p>chame	seu	marido	para	se	recolherem	mais	cedo	esta	noite.	Vamos	ao	escritório</p><p>Carl.</p><p>A	conversa	com	a	mãe	foi	mais	fácil	do	que	imaginava.	Julgava	o	filho	que	a</p><p>mesma	tripudiaria	sobre	sua	dor,	mas	ao	invés	disto,	ela	o	abraçou	e	disse</p><p>somente:	-	Seja	bem-vindo	meu	filho!	Tudo	o	que	sempre	desejei	foi	ter	meu</p><p>filho	de	volta	e	se	muitas	vezes	fui	severa	e	até	cruel	com	você,	era	porque	não</p><p>sabia	mais	como	resgatá-lo.	Mas	a	vida	se	encarregou	disso	por	mim.	Agora</p><p>vamos	dormir,	pois	amanhã	tenho	muitas	decisões	a	tomar.	Precisaremos	vender</p><p>mais	alguns	bens,	infelizmente.</p><p>Carl,	após	a	decepção	sofrida,	passou	a	se	interessar	pelos	negócios	da	família,</p><p>como	forma	de	redenção	por	ter	causado	tanto	sofrimento	à	mãe	durante	tantos</p><p>anos,	decidiu	também	recolher-se.</p><p>Na	manhã	seguinte	foi	a	igreja	desejoso	de	desabafar	com	o	padre,	mentor</p><p>espiritual	e	amigo	de	todos.	Ao	adentrar	no	ambiente	sagrado,	após	fazer	suas</p><p>orações,	sentou-se	e	lá	permaneceu	em	silêncio	por	vários	minutos.	Já	ia	se</p><p>retirando	quando	o	padre	saiu	da	sacristia	acompanhado	por	uma	nobre	dama	a</p><p>quem	imediatamente	reconheceu:	Verônica	Bordeaux.</p><p>Em	vão	tentou	sair	sem	ser	notado,	pois	o	pároco	o	chamou:	-	Ora	vejam,	o	bom</p><p>filho	à	casa	torna!	Verônica,	minha	filha,	lembra-se	da	parábola	do	filho</p><p>pródigo?	Pois	este	homem	à	sua	frente	a	representa	muito	bem.	-	Seja	bem-vindo</p><p>à	casa	do	Senhor	Carl!</p><p>-	Obrigado	padre.	Eu	senti	vontade	de	colocar	meus	pensamentos	em	ordem	por</p><p>isto	estava	sozinho	a	pensar.</p><p>-	Oh,	desculpem	a	falta	deste	velho	padre.	Verônica	Bordeaux,	Carl	Murphy.</p><p>Na	verdade	quando	ambos	se	avistaram,	seus	olhos	não	conseguiram	se	desviar</p><p>um	do	outro	e	mal	ouviram	as	palavras	do	padre	que,	devido	à	experiência	de</p><p>vida,	não	deixou	de	perceber	o	interesse	mútuo.	Porém,	fingindo-se	de	inocente,</p><p>forçou-os	à	realidade,	apresentando-os	formalmente.</p><p>Carl,	sentiu-se	na	obrigação	de	tomar	a	palavra	e	gentilmente	beijou	a	mão	da</p><p>amada.	-	Como	tem	passado	Srta.	Verônica?	Devo	confessar-lhe	padre	que	já</p><p>fomos	apresentados	em	ocasião	pretérita,	porém	há	muito	não	nos</p><p>encontrávamos.</p><p>-	Estou	muito	bem	Sr.	Murphy	e	o	Sr.?	Espero	que	tenha	feito	uma	boa	viagem</p><p>de	retorno	à	Inglaterra.</p><p>-	Oh	sim,	obrigado.	A	propósito,	minha	mãe	e	eu	sentimo-nos	lisonjeados	com</p><p>seu	convite.	Iremos	à	sua	recepção,	com	certeza.</p><p>-	Fico	feliz	com	a	notícia.	Posso	garantir-lhes	que	reencontrarão	todos	os	velhos</p><p>amigos	de	sua	família,	aliás	saudosos	de	seu	pai.</p><p>-	Muito	bem	padre,	dirigiu-se	Verônica	ao	pároco,	o	aguardarei	na	hora	marcada</p><p>para	sua	benção	ao	nosso	novo	lar	e	mais	uma	vez,	muito	obrigada!</p><p>-	Srta,	vejo	que	está	se	retirando,	acaso	posso	acompanhá-la	até	sua	carruagem?</p><p>-	Com	muito	prazer,	Sr.	Murphy,	aliás,	o	Sr.	sempre	me	cobrindo	de	gentilezas…</p><p>Já	à	rua	ambos	se	despediram	e	mais	uma	vez	Carl	confirmou	sua	presença</p><p>naquele	que	seria	um	grande	evento	para	a	sociedade	londrina.</p><p>Após	a	carruagem	sumir,	um	novo	homem,	repleto	de	esperança	e	confiança,	vai</p><p>diretamente	ao	alfaiate	encomendar	um	novo	fraque,	desejoso	de	definitivamente</p><p>impressionar	a	bela	dama.	A	dama	em	questão	porém,	debatia-se	entre	a	razão	e</p><p>o	coração.	Ao	retornar	à	Inglaterra	estava	certa	de	que	Carl	iria	tentar	cortejá-la</p><p>visando	sua	fortuna	e	estava	disposta	a	ver	até	onde	ia	a	ambição	daquele</p><p>homem.	Ao	avistá-lo	na	igreja	porém,	algo	inesperado	aconteceu	e	seu	coração</p><p>encheu-se	de	ternura	ao	cruzar	com	seu	olhar.</p><p>No	dia	anterior	ao	evento,	começaram	a	chegar	uma	significante	quantidade	de</p><p>flores	na	residência	de	Verônica.	Todas	endereçadas	a	ela,	claro.	Vinham	de</p><p>todos	os	tipos,	tamanhos	e	qualidades.	Notava-se	que	todos	os	viúvos	e</p><p>solteirões	de	Londres	e	Paris	perceberam	a	presença	da	nova	mulher	que</p><p>despontava	no	cenário	da	elite	europeia.</p><p>Com	a	ajuda	de	Rosimeri,	Bernadete	e	Madeleine	que	viera	com	antecedência	a</p><p>fim	de	colaborar	nos	preparativos	finais,	todas	foram	distribuídas	pela	casa,</p><p>mesclando-se	às	que	haviam	sido	encomendadas	especialmente	para	tal.	A</p><p>anfitriã	não	cabia	em	si	de	alegria	por	ser	tão	cortejada	àquelas	alturas	da	vida,</p><p>mas	manteve	equilíbrio	suficiente	para	digerir	que	muitos	não	estavam</p><p>interessados	na	pessoa	dela	e	sim	na	fortuna	que	possuía.	Assim	como	Carl…</p><p>Por	um	momento	Verônica	desejou	que	ele	viesse	a	amá-la	verdadeiramente	e</p><p>não	estivesse	somente	cortejando-a	por	interesse.	Mas	sabia	exatamente	o	que</p><p>fazer	e	decidiu	confiar	mais	na	razão	do	que	na	emoção.</p><p>O	pai	e	os	irmãos,	obviamente,	já	demonstraram	o	excesso	de	zelo	para	com	ela,</p><p>mas	previam	que	não	demoraria	para	que	Verônica	escolhesse	um	pretendente	e</p><p>se	casasse.	Mas	não	permitiriam	que	fosse	enganada	pelo	primeiro	usurpador</p><p>que	surgisse.	Decidiram	entre	si	que	dariam	a	ela	uma	falsa	liberdade,	para	que</p><p>supusesse	que	a	escolha	foi	sua.	O	que	eles	não	sabiam	era	que	Verônica	estava</p><p>decidida	a	não	ser	manipulada,	nem	pelos	pretendentes,	nem	pelos	familiares.</p><p>Na	manhã	do	grande	dia	uma	entrega	em	especial	chamou	sua	atenção.	Um</p><p>pequeno	buquê	de	flores	do	campo.	Junto	dele	um	cartão	de	papel	comum	com</p><p>os	dizeres:	-	“Ainda	não	esqueci	de	nosso	piquenique.	Espero	que	me</p><p>acompanhe	em	outros	doravante.	Carl.”</p><p>Sua	cabeça	começou	a	girar	e	seu	coração	parou	de	bater	por	alguns	segundos.</p><p>Porém	quando	questionada	sobre	quem	fora	o	remetente,	retornou	a	realidade	e</p><p>dissimulou	respondendo	que	de	ninguém	especial.	Mas	não	permitiu	que	as</p><p>flores	ficassem	junto	com	as	outras.	Discretamente	levou-as	para	seus	aposentos</p><p>e	as	colocou	em	um	vaso	à	beira	de	sua	cama.</p><p>Em	seu	ser,	razão	e	emoção	misturavam-se	e	a	dama	já	não	sabia	discernir	o</p><p>certo	do	errado.	Havia	planejado	tudo	para	saborear	sua	doce	vingança,	mas</p><p>somente	em	imaginar,	um	gosto	de	fel	lhe	queimava	a	garganta.	Por	um	lado</p><p>tinha	certeza	de	que	a	Duquesa	e	seu	filho	pretendiam	lhe	dar	um	golpe	através</p><p>do	casamento,	porém	de	outro,	lembrava-se	do	olhar	afetuoso	do	homem	amado</p><p>e	não	podia	crer	que	tudo	passasse	de	uma	farsa.	Seus	olhos	diziam	que	a	amava!</p><p>-	“E	agora	o	que	farei?	Cheguei	muito	longe	para	recuar	e	não	vou	me	deixar</p><p>iludir	pelos	encantos	daquele	experiente	sedutor!	Ele	provavelmente	olha-me	da</p><p>mesma	forma	que	o	faz	com	todas	as	suas	“presas”	e	hei	de	provar	que	não	sou</p><p>uma	solteirona,	solitária	a	ponto	de	casar-me	com	o	primeiro	pretendente	que	me</p><p>surge,	ainda</p><p>mais	agora	que	possuo	tudo	o	que	perderam.	Mas	se	eu	estiver</p><p>cometendo	uma	injustiça	e	o	Sr.	Murphy	me	amar	realmente,	estarei	jogando</p><p>fora	a	minha	oportunidade	de	ser	feliz	ao	lado	do	homem	que	amo…	Não!</p><p>Aquela	víbora	da	Duquesa	é	por	demais	ardilosa	e	com	certeza	está	manipulando</p><p>o	filho	jogando-o	em	meus	braços	para	que	eu	morda	a	isca.	Pronto,	não	mudarei</p><p>meus	planos	e	se	algum	dia	o	Sr.	Murphy	me	amar	realmente,	o	futuro	se</p><p>encarregará	de	mostrar,	por	hoje,	preciso	preservar	minha	honra	e	dignidade”.</p><p>A	recepção	fora	oferecida	nos	jardins,	visto	ser	verão.	No	início	da	noite,	os</p><p>convidados	começaram	a	chegar.	As	mais	luxuosas	carruagens	com	cocheiros</p><p>elegantemente	trajados,	favoreciam	o	desembarque	da	mais	alta	casta	das	duas</p><p>cidades.</p><p>Os	anfitriões	obviamente	estavam	em	seus	melhores	trajes	de	gala.	Jean	Jaques	é</p><p>que	não	estava	muito	confortável.	Passara	muitos	anos	desde	que	saíra	da	França</p><p>e	realmente	preferia	uma	vida	e	trajes	mais	simples	e	confortáveis.	Já	Verônica</p><p>parecia	uma	princesa.	Usava	um	vestido	creme	com	detalhes	em	renda	e</p><p>acessórios	de	pérolas.	Optara	pela	simplicidade	aliada	ao	bom	gosto	e	elegância.</p><p>Deixara	que	a	extravagância	ficasse	por	conta	das	convidadas,	que	algumas</p><p>aliás,	esbanjavam.</p><p>Como	já	era	de	se	esperar,	os	olhares	dos	interessados	na	anfitriã	lhe	causaram</p><p>um	certo	desconforto,	visto	que	muitos	não	tinham	a	sutileza	que	a	mesma</p><p>apreciava.	Isto	até	a	chegada	da	Duquesa	de	Charleston	(Mary	Ann	não	perdeu	o</p><p>título	de	nobreza,	graças	a	sua	amizade	com	a	rainha)	e	seu	filho	que</p><p>decididamente,	era	o	homem	mais	elegante	e	atraente	da	noite.</p><p>Após	recebê-los	com	a	polidez	que	lhe	era	peculiar,	a	anfitriã	voltou	a	atenção</p><p>aos	demais	convidados.	Imediatamente	todos	os	olhares	femininos	se	voltaram	à</p><p>Carl,	menos	o	de	Verônica	que	conversava	com	um	Conde	francês.</p><p>Quando	o	palácio	estava	repleto,	chegou	o	grande	momento.	O	Bisbo	fizera</p><p>questão	de	abençoar	o	lar.	Na	entrada	principal	da	residência,	após	sucinto	e	belo</p><p>discurso	do	patriarca	da	família,	luzes	no	portão	se	acenderam	formando	o	nome</p><p>SOLAR	DOS	BORDEAUX.	Fogos	de	artifício	foram	queimados	ao	redor	de</p><p>toda	a	residência	e	uma	chuva	de	luzes	coloridas	banhou	os	jardins	floridos.</p><p>A	recepção	foi	servida	à	francesa,	facilitando	o	entrosamento	de	todos	os</p><p>convidados,	sem	a	pompa	dos	jantares	cerimoniosos	ingleses	que	acaba	por</p><p>segregar	algumas	pessoas.</p><p>No	jardim	de	inverno,	previamente	adaptado	como	salão	de	baile,	a	orquestra</p><p>começou	a	tocar,	atraindo	os	convidados	a	deslizarem	pelo	amplo	salão	ao	som</p><p>das	mais	belas	valsas	da	época.	Jean	Jaques	e	Verônica	foram	o	primeiro	casal	a</p><p>dançar	e	aos	poucos	os	pares	foram	se	formando	ao	redor	deles	até	o	salão	se</p><p>tornar	um	carrossel	de	vestidos	rodados.	Em	dado	momento	Carl	convidou-a	a</p><p>valsar,	porém	para	sua	surpresa	Verônica	mostrou	interesse	em	ter	com	a</p><p>Duquesa	e	seu	filho.</p><p>Mary	Ann	ao	ver	o	filho	ao	lado	da	anfitriã	e	ambos	vindo	em	sua	direção,</p><p>tomou	ares	de	surpresa	(simulados	é	claro)	e	ofereceu	seu	melhor	sorriso	à</p><p>acompanhante	do	filho	quando	Verônica	tomou	a	palavra.</p><p>-	Duquesa,	fiz	questão	de	convidá-los	á	minha	recepção	por	ser	este	um	dos</p><p>momentos	mais	importantes	de	minha	vida.	Sei	a	muito	das	intenções	de	seu</p><p>filho	para	comigo	e	tenho	certeza	de	que	sob	o	seu	consentimento	e	incentivo.</p><p>Pois	bem,	eu	sou	a	mesma	mulher	que	há	cerca	de	um	ano	atrás	foi	espezinhada</p><p>pela	senhora	na	noite	de	noivado	de	Rosimere	Marksuel,	talvez	não	lembre-se</p><p>mas	EU	lembro	MUITO	bem.	Naquela	ocasião	a	Sra.	disse-me	com	todas	as</p><p>palavras	que	eu	não	era	digna	de	seu	filho	e	de	que	não	passava	de	uma	golpista</p><p>atrás	da	fortuna	de	sua	família.	Cometeu	grande	injustiça	a	minha	pessoa,	que</p><p>jamais	me	aproximaria	de	um	cavalheiro	motivada	por	interesses	econômicos,	ao</p><p>contrário	de	seu	filho	que	não	possui	tal	virtude.	Quanta	ironia	ver	que	hoje	a	Sra</p><p>trata-me	com	respeito	somente	porque	possuo	bens,	joias,	enfim	tudo	aquilo	que</p><p>um	dia	a	Sra.	teve	e	já	não	mais	possui.	Desprezo	sua	atitude	e	a	de	seu	filho,</p><p>porém	façamos	um	acordo:	Eu	aceitarei	ser	cortejada	por	Carl	e	poderemos	até</p><p>nos	casarmos,	mas	que	fique	bem	claro	que	o	faço	porque	posso	comprar	um</p><p>marido,	alguém	tão	sem	caráter	que	se	sujeite	a	tal	humilhação:	seu	filho.</p><p>E	dirigindo-se	a	Carl	disse-lhe:	-	Agora	aceito	acompanhá-lo	em	uma	valsa</p><p>cavalheiro.	Mantendo	um	sorriso	inocente	acompanhou-o	até	o	salão	e	uniram-se</p><p>aos	outros	casais.	Porém	o	entrosamento	que	havia	entre	os	dois	era	visível	e</p><p>ambos	pareciam	flutuar	no	salão	fazendo	com	que	os	outros	casais	parassem	de</p><p>dançar	para	observá-los.	Por	fim,	ficaram	sozinhos	na	pista	com	todos	os</p><p>presentes	a	admirá-los.</p><p>Após	a	dança,	o	cavalheiro	agradeceu	a	dama,	procurou	por	sua	mãe	e	retiraram-</p><p>se	do	evento.	Em	grande	estilo,	assim	como	entraram.	Verônica	sentiu-se</p><p>vingada,	porém	um	aperto	no	peito	não	lhe	permitia	sentir	toda	a	satisfação	a</p><p>qual	havia	planejado.	Em	seguida	fora	requisitada	a	dançar	com	quase	todos	os</p><p>admiradores	da	mesma.</p><p>Devidamente	acomodados	na	carruagem	Mary	Ann	teve	um	acesso	de	raiva	e</p><p>quase	agrediu	fisicamente	o	filho.	-	Seu	incompetente!	Permitiu	que	aquela</p><p>mulherzinha	descobrisse	nossas	intenções!	E	agora	está	tudo	perdido…</p><p>-	Um	momento	mamãe,	preciso	retificar	que	as	más	intenções	são	suas,	não</p><p>minhas.	Inclusive	já	confessei-lhe	que	estou	sinceramente	enamorado	pela	Srta.</p><p>Bordeaux	e	me	casaria	com	ela	mesmo	que	ela	não	possuísse	dinheiro	algum.</p><p>-	Ora	deixe	de	bobagens	Carl!	Até	bem	pouco	você	frequentava	os	piores	lugares</p><p>e	suas	amizades	eram	de	péssima	reputação!	Sem	falar	daquela	messalina	com</p><p>quem	manteve	um	caso	por	anos.	Então	agora	não	me	venha	com	sermões	de</p><p>bom	moço,	porque	não	me	convence.</p><p>-	Eu	lamento	muito	minha	mãe,	porém	eu	mudei	muito	e	Sra.	não	teve	tempo	de</p><p>perceber.</p><p>No	Solar	a	recepção	estava	no	auge,	com	todos	os	casais	dançando	e	divertindo-</p><p>se.	Porém	ao	lado	de	um	arbusto	de	bromélias,	uma	jovem	deleitava-se	ao</p><p>observar	o	lindo	cenário	que	a	dança	proporcionava	e	mantinha-se	tão	entretida</p><p>que	não	percebeu	a	aproximação	de	garboso	cavalheiro.	-	A	Srta.	me	concede</p><p>uma	dança?	Sem	demonstrar	espanto,	virou-se	para	o	interlocutor,	encarou-o	a</p><p>fundo	nos	olhos	e	espantou-se	ao	perceber	que	tratava-se	de	Armand,	irmão	de</p><p>Verônica	que	não	a	reconhecera.</p><p>-	Será	um	prazer	acompanhá-lo	em	uma	valsa	Armand.	Oh,	me	desculpe,	creio</p><p>que	não	reconheceu-me.	Entendo	bem,	afinal	não	nos	vemos	há	muitos	anos.</p><p>-	Desculpe-me	bela	dama	mas	duvido	que	me	esqueceria	de	tão	belos	olhos!</p><p>-	Ora	vejam	só,	já	se	tornou	um	cavalheiro	garboso	e	conquistador!	Adaptou-se</p><p>rápido	à	nova	vida…</p><p>-	Por	quem	me	toma	Srta?	Acaso	conhece	meu	passado?	Sinto-me	ofendido	com</p><p>sua	colocação.</p><p>-	Está	bem.	Chega	de	jogos.	Armand,	sou	eu	Bella,	amiga	de	Verônica	desde</p><p>minha	infância.</p><p>-	Não	creio	no	que	meus	olhos	vêem.	Quando	sai	para	as	cruzadas	eras	apenas</p><p>uma	menina	sardenta	e	peralta.	Como	agora	me	deparo	com	uma	mulher	tão</p><p>formosa	e	refinada?</p><p>-	Você	passou	muitos	anos	fora.	Eu	cresci,	aprendi	muito	com	as	pessoas	e	com	a</p><p>vida.	Verônica	também	me	ajudou	muito	e…	eis-me	aqui!	Bem,	chega	de</p><p>conversa,	vamos	logo	dançar	porque	vim	aqui	foi	para	isto	e	não	para	relembrar</p><p>rusgas	do	passado.</p><p>E	de	braços	dados	misturaram-se	aos	outros	casais	e	não	se	separaram	até	o	final</p><p>da	festa,	quando	Armand	fez	questão	de	levá-la	em	casa	com	a	carruagem	da</p><p>família.</p><p>Na	manhã	seguinte,	após	ter	o	sono	recheado	pesadelos	Verônica	acorda</p><p>sobressaltada	e	com	o	coração	aos	pulos.</p><p>No	andar	térreo	do	solar,	todos	falavam	ao	mesmo	tempo	e	pareciam	atônitos.</p><p>Ao	questionar	o	que	ocorrera,	fora	informada	que	a	noite	passada	pouco	antes	de</p><p>chegarem	em	casa,	a	carruagem	da	Duquesa	sofrera	um	acidente.	A	mesma</p><p>ficara	com	múltiplos	traumatismos	e	seu	filho,	além	de	ter	ficado	preso	as	rédeas</p><p>dos	animas,	sofrera	ferimentos	internos	inclusive	no	crânio,	porém	ambos	já</p><p>haviam	sido	transportados	para	um	hospital	em	Londres.	O	cocheiro,	como	que</p><p>por	milagre,	sofreu	apenas	alguns	arranhões.</p><p>O	sentimento	de	culpa	se	apossa	de	Verônica	que	volta	para	seu	quarto	e	jogasse</p><p>na	cama	em	pranto	solto.</p><p>-	A	culpa	é	minha!	Se	eu	não	tivesse	usado	de	tanta</p><p>arrogância,	talvez	este	acidente	não	tivesse	ocorrido.	O	que	farei	agora?</p><p>Madeleine	que	percebera	a	reação	da	prima	decide	procurá-la</p><p>-	Verônica,	sou	eu	Madeleine.	Abra	a	porta!</p><p>-	Não	quero	conversar	com	ninguém	agora!	Respeite	minha	vontade,	por	favor!</p><p>Madeleine	percebera	que	a	prima	estava	apaixonada	por	Carl,	mas	não	esperava</p><p>uma	reação	tão	passional	de	sua	parte.	Decidiu	esperar	até	que	ela	se	acalmasse	e</p><p>mais	tarde	a	questionaria.</p><p>Como	a	prima	não	saiu	do	quarto	sequer	para	almoçar,	sua	preocupação</p><p>aumentou	e	procurou	o	pai	para	tentar	ajudar	a	prima.</p><p>-	Papai,	nem	sei	como	lhe	contar	mas…	o	fato	é	que	enquanto	Verônica	estava</p><p>em	nossa	casa,	estava	a	se	encontrar	com	Carl	Murphy.	Pensei	tratar-se	de	um</p><p>pequeno	flerte,	mas	devido	a	reação	de	Verônica	ao	saber	do	acidente,	suspeito</p><p>que	houve	algo	mais	que	desconhecemos.	Tente	fala-lhe,	pois	ela	não	me</p><p>permitiu	entrar	em	seu	quarto.</p><p>-	Minha	filha,	se	sua	prima	não	recebeu	a	você	que	é	sua	confidente,	o	que</p><p>poderei	fazer	eu?	Se	suas	suspeitas	forem	fundadas,	ela	jamais	confiará	seu</p><p>segredo	a	mim,	justo	irmão	de	seu	pai.</p><p>-	Me	acompanhe	até	lá,	lhe	rogo!</p><p>-	Está	bem,	vamos	tentar.</p><p>Ao	baterem	á	porta	do	quarto,	perceberam	que	estava	aberta	e	Verônica	não</p><p>estava	lá.	Desta	forma,	foram	forçados	a	revelar	a	Jean	Jaques	sobre	o</p><p>desaparecimento	da	filha.</p><p>-	Meu	irmão,	nunca	vi	minha	filha	desta	maneira!	Ela	passou	por	mim	e	tomou	a</p><p>carruagem	sem	dizer	seu	destino.	Estou	deveras	preocupado!</p><p>Rosemeri	que	estava	no	Solar,	ao	ouvir	a	conversa	prontamente	voluntariou-se</p><p>na	busca	pela	amiga.</p><p>-	Sr.	Jean	Jaques,	peguemos	minha	carruagem	e	seguiremos	atrás	de	Verônica!</p><p>Assim	o	pai,	o	tio,	a	prima	e	a	amiga	saem	seguindo	os	rastros	deixados	pelo</p><p>veículo	da	amiga.	Em	dado	momento	o	cocheiro	percebe	que	seguiu	a	caminho</p><p>das	terras	dos	Murphy	e	acelera	os	cavalos.</p><p>Neste	ínterim,	Verônica	já	estava	no	local	do	acidente	e	encontra	Homero</p><p>olhando	a	cena	da	noite	anterior.	Imediatamente	manda	seu	cocheiro	parar	e</p><p>corre	em	direção	ao	homem.</p><p>-	Sr.,	acaso	sabe	o	que	ocasionou	esta	catástrofe?</p><p>-	A	Srta	deve	ser	a	Srta.	Bordeuaux,	julgo	pelo	que	me	descreveram-na.	Permita-</p><p>me	apresentar-me.	Sou	Homero,	cocheiro	dos	Murphy.	É	uma	honra	conhecê-la.</p><p>Sem	tempo	a	perder,	Verônica	foi	direto	ao	assunto.</p><p>-	Muito	prazer	Homero.	Agora,	pelo	amor	de	Deus,	conte-me	o	que	realmente</p><p>aconteceu!</p><p>-	Srta.	Verônica,	não	esperava	que	saísse	em	tão	desabalada	carreira	para	ter</p><p>notícias	de	seus	desafetos!</p><p>-	Como	assim,	desafetos?</p><p>-	Quando	saímos	de	sua	casa	na	noite	passada,	a	Duquesa	estava	extremamente</p><p>zangada,	chegando	a	usar	expressões	que	eu	jamais	imaginara	ouvir	de	sua	boca</p><p>tão	nobre.	Deduzi	que	tiveram	alguma	discussão.	Ela	pediu	que	eu	exigisse</p><p>demais	dos	cavalos	e	bem	aqui,	na	última	curva	antes	da	casa	principal,	um	dos</p><p>animais	tropeçou	e	caiu,	derrubando	assim	a	todos	nós.	Devido	à	velocidade</p><p>fomos	arrastados	por	vários	metros	até	nosso	transporte	parar	de	vez.</p><p>-	Eu	sabia	–	dizia	em	lágrimas	a	dama	–	foi	tudo	culpa	minha!	Mas	conte-me</p><p>Homero,	qual	é	o	verdadeiro	estado	de	saúde	do	Sr.	Murphy?</p><p>-	Infelizmente	o	patrão	foi	o	que	mais	se	feriu,	pois	ficou	preso	entre	os	arreios	e</p><p>foi	carregado	por	uma	padiola	até	a	carruagem	do	hospital	aonde	recebeu	os</p><p>primeiros	socorros	e	após	foi	levado	de	para	Londres	ainda	desacordado.	A</p><p>Duquesa	machucou-se	muito	mas	está	no	hospital	mais	próximo.</p><p>-	Então	o	estado	dele	é	grave!	Oh	meu	Deus,	balbuciava	entre	lágrimas.</p><p>Neste	momento	chegam	os	parentes	e	Verônica	não	conseguiu	disfarçar	seu</p><p>desespero.	Ao	ser	inquirida	pelo	pai,	contou-lhe	a	verdade.</p><p>-	Minha	filha,	você	não	é	culpada	de	nada!	Estou	desconhecendo	a	mulher	forte</p><p>na	qual	se	tornou.	Você	está	totalmente	desequilibrada	e	não	está	raciocinando</p><p>como	deveria!	Veja	bem,	se	a	Duquesa	pediu	para	o	cocheiro	acelerar	a</p><p>velocidade	da	carruagem,	ela	foi	a	culpada	pelo	acidente	e	não	você!	Além	do</p><p>mais,	você	tratou-os	como	deveria.	É	muita	petulância	destes	dois	tentarem	dar</p><p>um	golpe	em	minha	filha,	abusando	de	sua	inocência!</p><p>Ao	ouvir	as	palavras	do	pai,	aos	poucos	Verônica	foi	recobrando	o	equilíbrio,</p><p>mas,	ainda	assim,	chamou	o	tio.</p><p>-	Meu	tio,	sei	que	o	que	lhe	pedirei	não	lhe	fará	nenhum	sentido,	mas	preciso	que</p><p>confie	em	mim	e	não	faça	perguntas,	por	favor!</p><p>-	Fale	querida,	o	que	lhe	aflige	tanto?	O	que	posso	fazer	para	ajudá-la?</p><p>-	Sei	de	sua	influência	junto	aos	melhores	médicos	parisienses.	Preciso	que	o	Sr.</p><p>entre	em	contato	imediatamente	com	algum	deles	e	solicite	a	remoção	de	Carl</p><p>para	o	melhor	hospital	da	França.	Porém,	peço-lhe	segredo	absoluto	sobre	meu</p><p>pedido.</p><p>-	Embora	realmente	não	entenda	seus	motivos,	farei	o	que	me	pedes.</p><p>No	dia	seguinte,	o	homem	acidentado	fora	transferido	para	a	França	e	passara	a</p><p>receber	o	melhor	tratamento	que	a	medicina	da	época	dispunha.</p><p>De	volta	ao	Solar	e	mais	calma	após	um	forte	chá	de	camomila,	Verônica	conta	a</p><p>prima	os	detalhes	da	discussão	da	véspera.	Ao	pai	não	revelou	o	quanto	fora</p><p>humilhada	pela	Duquesa	na	noite	do	noivado	de	Rosimeri,	para	poupá-lo.</p><p>-	Minha	prima,	estou	estupefata	em	saber	que	você	teve	tamanha	coragem!</p><p>Parabéns!	É	claro	que	você	feriu	a	fundo	o	orgulho	daquela	Duquesa	falida	cheia</p><p>de	pose,	mas	você	agiu	certo,	defendendo	sua	honra	e	dignidade	e	o	que	ela	fez</p><p>com	a	própria	vida	é	problema	dela,	não	seu.</p><p>-	Mas	Madeleine,	você	não	entende…	Eu	falei	todas	aquelas	coisas	porque	queia</p><p>humilhá-los	SIM,	mas	estou	perdidamente	apaixonada	por	Carl	e	estava	fingindo</p><p>que	me	casaria	com	ele	como	forma	de	comprá-lo,	para	preservar	o	meu	orgulho</p><p>e	não	admitir	a	verdade.	Aliás,	você	é	a	única	pessoa	que	sabe	a	verdade.	Jamais</p><p>revele	meu	segredo	a	quem	quer	que	seja,	rogo-te	de	coração	espedaçado!</p><p>-	Não	se	preocupe	minha	querida.	Jamais	irei	traí-la.	Mas	como	percebo	que</p><p>você	já	está	parcialmente	recuperada,	que	tal	comermos	alguma	coisa?	Você	não</p><p>almoçou	e	comi	muito	pouco	devido	a	preocupação	com	você.</p><p>-	Você	tem	razão.	Preciso	alimentar-me	para	recuperar	minhas	forças.</p><p>Após	um	lauto	lanche,	Madeleine,	espertamente	convida	a	prima	para</p><p>acompanhá-los	em	seu	retorno	à	França,	convite	aceito	imediatamente	pela</p><p>prima,	afinal	teria	a	oportunidade	de	acompanhar	o	tratamento	de	seu	amado..</p><p>Dois	dias	depois	Verônica	retorna	a	fazenda,	ansiosa	para	visitar	seu	grande</p><p>amor	hospitalizado.</p><p>CAPÍTULO	XII</p><p>Após	a	partida	dos	familiares,	Armand	foi	à	casa	de	Bella	a	fim	de	pedi-la	em</p><p>namoro.	A	jovem,	extremamente	enrubescida	sugeriu	que	passeassem	pelo</p><p>bosque	a	fim	de	ter	maior	privacidade.</p><p>-	Armand,	começou	Bella.	Você	não	pode	se	enamorar	por	mim.	Jamais</p><p>poderíamos	nos	casar!</p><p>-	Que	falas	são	estas	Bella?	Conheço-a	desde	a	mais	tenra	idade,	nossas	famílias</p><p>são	amigas,	e	além	do	mais,	já	estou	enamorado.	Não	há	nada	que	nos	impeça	de</p><p>viver	este	amor!</p><p>-	Meu	querido,	também	estou	enamorada	de	ti,	confesso.	Mas…	creio	ser</p><p>impossível	nosso	amor.</p><p>Após	inúmera	visitas	à	casa	da	jovem,	envio	de	flores	e	presentes,	o	coração	da</p><p>jovem	já	não	suportava	mais	guardar	seu	segredo	e	decidiu	revelar-lhe	a	verdade.</p><p>Na	vez	seguinte	em	que	o	jovem	procurou-a,	convidou-o	a	um	breve	passeio	ao</p><p>jardim,	a	fim	de	não	serem	ouvidos.</p><p>-	Armand,	o	que	tenho	a	revelar-te	é	por	demais	sério	e	se	após	meu	relato,</p><p>desistires	de	suas	intenções	para	comigo,	entenderei	ser	seu	direito.</p><p>-	Quando	eu	era	jovem	e	inexperiente,	pensava	que	só	um	bom	partido	me	traria</p><p>felicidade.	Queria	casar-me	com	um	homem	de	posses	e	ter	uma	vida	de</p><p>princesa!	Então	conheci	Henry	Moore,	filho	do	Barão	Charles	Moore.	Ele</p><p>passou	a	me	cortejar	e	prometeu-me	casamento.	E	eu…	tola,	ingênua	e	admito,</p><p>interesseira,	cedi	e	me	entreguei	a	ele.	Alguns	dias	depois	ele	nunca	mais</p><p>apareceu.	Meses	depois	descobri	que	mudara-se	para	a	Espanha	a	fim	de	exercer</p><p>a	profissão	de	médico	na	qual	era	recém-formado.	Está	vendo	porque	não</p><p>podemos	nos	casar?	Não	sou	digna	de	você	e	muito	menos	de	pertencer	à	sua</p><p>família!	Bella	estava	aos	prantos.</p><p>-	Não	chore,	minha	querida.	Todos	temos	nossos	erros	e	ninguém	é	perfeito.</p><p>Você	deu	um	mau</p><p>passo,	é	verdade.	Mas	quem	sou	eu	para	julgá-la?	Esquece-se</p><p>que	passei	muitos	anos	na	guerra	santa?	Nunca	pensei	que	fosse	abrir	minha</p><p>alma	desta	forma	mas	vejo	que	para	que	me	torne	digno	de	você,	preciso	fazê-lo.</p><p>Quando	o	bisbo	me	convenceu	a	seguir	com	as	tropas	da	igreja	numa	guerra</p><p>santa,	eu	támbém	fui	tolo,	inocente	e	interesseiro.	Sim,	almejava	ter	posto	de</p><p>liderança	junto	ao	exército	e	ser	aclamado	e	respeitado	por	todos.	Quanta	tolice	a</p><p>minha!	A	verdade	é	que	me	tornei	um	assassino.	Em	nome	da	Igreja	eu	matei</p><p>pessoas	inocentes!	E	minha	consciência	me	cobra	isto	todos	os	dias.	Tive</p><p>pesadelos	durante	meses	após	retornar	à	casa	de	meu	pai,	mas	graças	a	Deus</p><p>hoje	estou	praticamente	recuperado	dos	traumas,	mas,	ainda	assim,	nunca	tive</p><p>coragem	de	contar-lhe	para	evitar	o	desgosto	que	geraria	em	meu	bondoso	pai.</p><p>Está	vendo?	Agora	diga-me:	Quem	cometeu	o	pecado	maior,	você	ou	eu?</p><p>-	Oh	Armand,	nunca	pensei	encontrar	tanta	caridade	em	seu	coração!	Amo-o	e	se</p><p>me	aceita	como	sou,	hei	de	fazê-lo	o	homem	mais	feliz	do	mundo!</p><p>-	Farar-me-á	feliz	ao	dizer-me	uma	só	palavra:	Sim.</p><p>-	Sim,	meu	amor.	A	partir	de	agora	seremos	um	só	e	nosso	segredo	estará</p><p>guardado	em	nossos	corações	e	ninguém	jamais	saberá	o	que	me	contaste	agora.</p><p>-	O	mesmo	farei	eu.	Mas	prometo-te	respeitar-te	até	nos	casarmos,	afinal	você</p><p>continua	sendo	uma	moça	de	família,	respeitada	por	todos.	Mas	ai	daquele	que</p><p>tentar	lhe	lançar	um	olhar	lacivo!	Irá	ver-se	comigo!</p><p>-	Já	está	ficando	tarde,	vamos	para	casa.	Janta	conosco	hoje,	por	certo.	Assim,</p><p>daremos	a	notícia	aos	meus	pais	juntos.	Tenho	certeza	que	aprovarão.</p><p>A	partir	daquele	dia,	a	vida	de	ambos	ganhou	novo	sentido	e	brilho	e	os</p><p>dissabores	do	passado,	lá	ficaram.</p><p>Nos	dias	que	se	seguiram,	a	família	voltou	à	rotina.	Jean	Jaques	administrando	a</p><p>ferraria	(que	agora	produzia	também	ferramentas	de	carpintaria),	Armand	e</p><p>Christofer	aprendendo	com	o	pai	o	ofício	e	os	cuidados	da	casa	ficou	por	conta</p><p>dos	fiéis	e	dedicados	empregados.</p><p>Quando	tudo	parecia	virar	rotina,	Emanuelle,	esposa	de	Christofer,	surpreende	a</p><p>todos	com	a	notícia	da	primeira	gravidez.	A	felicidade	e	comoção	foi	geral.</p><p>Armand	e	Bella	decidiram	aproveitar	a	boa	fase	e	marcar	a	data	do	casamento.</p><p>Enfim,	fora	a	saudade	de	Verônica,	a	vida	da	família	Bordeaux	era	só	felicidade.</p><p>CAPÍTULO	XIII</p><p>Tão	logo	desembarcaram	na	fazenda,	Verônica	pediu	ao	tio	que	lhe	cedesse	o</p><p>cocheiro	para	ir	à	Paris,	visitar	o	Sr.	Murphy	no	hospital.	Jean	Paul	que	não</p><p>podia	negar-lhe	o	pedido,	visto	tratar-se	de	caridade	acima	de	tudo,	prontamente</p><p>permitiu	e	assim	a	dama	foi-se	com	o	coração	aos	pulos,	rever	seu	amado,</p><p>orando	por	sua	plena	recuperação.</p><p>Ao	chegar	ao	hospital	e	identificar-se,	Verônica	foi	conduzida	diretamente	à	sala</p><p>do	médico	responsável	pelo	tratamento	do	paciente.</p><p>-	Boa	tarde	Dr..	Não	estou	a	entender,	ao	chegar	a	recepção	solicitei	visitar	o	Sr.</p><p>Carl	Murphy,	internado	a	alguns	dias	e	trouxeram-me	até	aqui…	Acaso	ele	veio</p><p>a	óbito?	-	E	já	em	prantos	-	Dr.	Conte-me	a	verdade,	por	clemência!</p><p>-	Boa	tarde	Srta.	Boudeaux.	Eu	solicitei	que	a	trouxessem	até	minha	sala	porque,</p><p>primeiramente	por	desejar	conhecer	dama	de	tão	grande	generosidade	e	prestígio</p><p>junto	à	nossa	sociedade	e	já	que	não	frequento	os	salões	–	não	poderia	perder</p><p>esta	oportunidade.	Segundo	porque	preciso	inteirá-la	sobre	o	estado	de	saúde	de</p><p>meu	paciente.	Ele	se	encontra	em	coma	desde	que	chegou.	Realizamos	todos	os</p><p>exames	e	procedimentos,	mas	infelizmente	ele	não	reage	a	nenhum.</p><p>Aparentemente	seu	cérebro	não	sofreu	nenhum	dano	grave	que	justifique	o</p><p>coma,	mas	já	tivemos	casos	semelhantes	em	que	o	paciente	“acorda”	depois	de</p><p>um	certo	tempo,	mas	percebemos	que	o	fator	preponderante	nestes	casos	é	ter	a</p><p>companhia	das	pessoas	a	quem	ama.	Se	a	Srta.	quiser	vê-lo,	terei	o	maior	prazer</p><p>em	acompanhá-la,	mas	não	se	iluda.</p><p>Verônica	procurou	conter	o	pranto	para	não	agravar	mais	a	situação	do	amado.</p><p>-	O	sr,	Murphy	quando	aqui	chegou	estava	num	estado	clínico	bem	pior,	porém,</p><p>devido	a	rápida	transferência	para	nossas	dependências,	pudemos	estabilizado,</p><p>mas	como	já	lhe	relatei,	até	o	momento	permanece	desacordado.</p><p>Carl	foi	colocado	em	excelentes	instalações	e	a	dama	fez	questão	de	avaliar	as</p><p>condições	em	que	o	mesmo	estava	instalado.	Quarto	amplo	com	grandes	janelas,</p><p>vista	para	o	bosque	e	um	quarto	de	banho	em	anexo,	exclusivo	ao	paciente.</p><p>Percebeu	que	tomara	a	decisão	certa	em	solicitar	sua	transferência	para	este</p><p>hospital	que	aliás,	era	o	melhor	do	país.</p><p>-	Ele	pode	ouvir-nos	Dr.?</p><p>-	Não	temos	certeza	visto	que	a	medicina	ainda	está	engatinhando	nesta	área,</p><p>mas	minha	opinião	é	que	pacientes	nestes	casos	não	ouvem	como	nós,	mas</p><p>sentem,	será	que	me	entente?</p><p>-	Sim.	Então	não	há	problema	se	eu	conversar	com	ele	como	se	ele	estivesse	me</p><p>ouvindo?	Entenda	Dr.	não	quero	que	pense	que	estou	enlouquecendo,	mas	sinto</p><p>que	alguma	parte	do	seu	ser	reconhecerá	minha	voz	e	um	dia,	retornará	para	nós.</p><p>Após	a	saída	do	médico,	Verônica	ficou	longo	tempo	parada	aos	pés	da	cama</p><p>observando	o	homem	amado	como	se	tentando	decidir	o	que	fazer.	Após</p><p>pequena	oração,	encheu-se	de	coragem	e	pôs-se	a	falar:</p><p>-	Trouxe-lhe	flores	para	alegrar	o	ambiente.	Vejo	que	está	corado	e	creio	até	que</p><p>ganhou	alguns	quilos…</p><p>-	Vou	sentar-me	à	janela	e	lhe	descreverei	a	bela	paisagem	que	há	lá	fora.</p><p>Assim	Verônica	narrou	com	detalhes	cada	árvore,	flor	e	fruto	que	avistava	e</p><p>quando	em	vez	olhava	para	o	paciente	para	verificar	alguma	alteração,	mas	em</p><p>vão.	Percebia-se	que	estava	vivo	somente	devido	aos	aparelhos	conectados	ao</p><p>seu	coração.</p><p>Após	profundo	suspiro,	Verônica	despediu-se	dando-lhe	um	beijo	na	testa	e</p><p>prometendo	voltar	todos	os	dias.	E	assim	o	fez.</p><p>Na	manhã	seguinte	levou	um	livro	e	passou	entre	a	leitura	e	as	conversas	(ou</p><p>melhor	monólogos)	para	que	ele	digerisse	suas	palavras.	E	assim	o	fez	todos	os</p><p>dias	sem	jamais	desistir	de	seu	amado.</p><p>Ao	entardecer	voltava	para	a	fazenda	e	após	o	jantar	retomava	o	bordado	como</p><p>que	para	aliviar	sua	dor.	Em	uma	noite	Madeleine	senta-se	ao	lado	da	prima	e</p><p>observa	seu	bordado.</p><p>-	Querida,	você	borda	divinamente,	mas	gostaria	de	saber	qual	o	destino	destas</p><p>peças?</p><p>-	Estou	bordando	lençóis	para	o	berço	de	meu	sobrinho,	ou	sobrinha!</p><p>-	Verônica,	que	não	gostaria	de	admoestá-la	mas,	você	acredita	mesmo	que	o	Sr.</p><p>Murphy	algum	dia	acordará?	O	Dr.	lhe	disse	que	já	viu	muitos	casos	ocorrerem,</p><p>mas	não	lhe	disse	que	muitos	também	jamais	voltam	e	temo	por	sua	saúde…</p><p>-	Madeleine,	meu	pai	já	fora	informado	do	motivo	que	me	mantém	aqui	e</p><p>obviamente	respondeu-me	relutante,	duvidando	até	de	minha	sanidade	mental.</p><p>Não	cometa	o	mesmo	erro	que	ele,	por	favor!	Me	ajude	a	orar.	Tenho	certeza	que</p><p>Deus	há	de	ouvir	nossas	preces	e	me	conceder	esta	dádiva.</p><p>-	Está	bem,	prometo	que	de	hoje	em	diante,	antes	de	dormir,	dedicarei	minhas</p><p>orações	ao	pronto	restabelecimento	de	seu	amor,	mas	preciso	que	prometa-me</p><p>que	não	vai	descuidar	e	sua	alimentação	e	sono	sim?	Você	não	pode	adoecer,</p><p>caso	contrário,	quem	vai	passar	os	dias	lendo	para	o	Sr.	Murphy?	Boa	noite</p><p>querida.</p><p>-	Obrigada	Madeleine,	sempre	pude	contar	com	você…</p><p>Os	dias	se	seguiram	e	Verônica	manteve	a	rotina.	Até	que	os	dias	tornaram-se</p><p>semanas	e	estas	em	meses	e	o	estado	de	Carl	não	se	alterava.</p><p>Após	seis	meses	na	mesma	situação	a	enfermeira	comunica	a	dedicada	cuidadora</p><p>que	uma	pessoa	está	na	recepção	desejando	visitar	o	enfermo.	Ao	questionar	de</p><p>quem	se	tratava,	a	mesma	já	se	encontrava	a	porta	do	quarto,	pois	achava-se	no</p><p>direito	de	fazer	o	que	quisesse.	Quando	a	enfermeira	argumentou	que	ela	não</p><p>tinha	o	direito	de	adentrar	ao	quarto	sem	autorização,	imediatamente	arrependeu-</p><p>se	devido	a	forma	como	fora	tratada.	Verônica,	de	tão	consumida	pela	dor	e	o</p><p>sofrimento,	não	moveu	um	músculo	sequer,	como	que	guardando	energias	para	o</p><p>que	viria.	A	dois	passos	do	leito,	uma	senhora	bastante	envelhecida	apoiando-se</p><p>em	uma	bengala,	sem	sequer	olhar	para	o	enfermo,	fuzilava	Verônica	com	o</p><p>olhar.</p><p>-	O	que	a	Srta.	faz	aqui?	Acaso	veio	terminar	o	que	começou?	Dar	cabo	a	vida</p><p>de	meu	filho?!	Não	percebe	que	sua	presença	só	nos	faz	mal,	sua</p><p>víbora</p><p>vingativa!</p><p>Sem	levantar	da	poltrona,	Verônica	observa	a	figura	pedante	de	Mary	Ann	e</p><p>poderia	até	sentir	pena,	não	fosse	o	enorme	desprezo	que	sentia.</p><p>-	Se	a	Sra.	veio	até	aqui	me	agradecer	pelo	fato	de	EU	cuidar	de	seu	filho	por</p><p>todos	estes	meses,	incansavelmente,	creio	que	começou	muito	mal	seu	discurso.</p><p>Se	quer	notícias	sobre	o	real	estado	de	saúde	de	Carl,	procure	o	Dr.	Gilbert.	Se</p><p>deseja	descarregar	seu	veneno	sobre	alguém,	olhe-se	no	espelho	e	o	faça,	pois	a</p><p>SRA.	é	a	verdadeira	responsável	pelo	estado	em	que	o	mesmo	se	encontra.</p><p>-	Eu?	Ora	quanta	petulância!	A	Srta.	praticamente	nos	expulsou	de	sua	casa,</p><p>tratou-nos	como	dois	cães	sarnentos,	deixou-nos	com	os	nervos	a	flor	da	pele	e</p><p>ME	culpa	pelo	acidente	que	a	Srta.	causou?	A	Srta.	deveria	estar	presa	isto	sim	e</p><p>não	sentada	confortavelmente	ao	lado	de	meu	filho	enquanto	o	mesmo	descansa!</p><p>Neste	momento,	o	médico	entra	no	quarto	avisado	pela	enfermeira	que	quase</p><p>sem	fôlego	correu	a	chamá-lo.	Este	entrou	a	tempo	de	ouvir	a	última	frase	de</p><p>Mary	Ann.</p><p>-	Com	licença,	eu	sou	o	Dr.	Gilbert,	responsável	pelo	tratamento	do	Sr.	Murphy,</p><p>e	a	Sra.	quem	é?</p><p>-	Como	ousa	perguntar	quem	sou	eu?	EU	sou	a	Duquesa	de	Charleston	e	exijo</p><p>explicações	sobre	o	estado	de	saúde	de	meu	filho?</p><p>-	Se	a	Sra.	não	me	informasse	sobre	seu	título	de	nobreza,	eu	jamais	suspeitaria,</p><p>até	porque,	a	julgar	pelo	seu	descaso	com	o	próprio	filho	e	a	falta	de	educação,</p><p>poderia	confundi-la	com	qualquer	pessoa,	menos	como	uma	nobre.</p><p>-	Eu	não	abandonei	meu	filho!	Fui	submetida	a	longo	tratamento	médico	em</p><p>Londres	e	somente	agora	pude	viajar.	E	o	título	de	Dr.	não	lhe	dá	o	direito	de	me</p><p>destratar	desta	forma!</p><p>-	Eu	jamais	tive	a	intenção	de	destratá-la	Sra.,	porém	ocorre	que	seu	filho	está</p><p>em	coma	a	seis	meses	e	somente	agora	a	Sra.	questiona	sobre	seu	estado	de</p><p>saúde.	Se	é	algo	que,	enquanto	ser	humano	não	tolero,	é	a	injustiça.	Fui</p><p>informado	de	seu	tratamento	em	Londres	pelos	meus	colegas	e	pelo	que	me</p><p>consta,	enquanto	esteve	em	tratamento	a	Sra.	nunca	perguntou	pelo	seu	filho.	Ao</p><p>menos	até	saber	que	ele	estava	sendo	cuidado	pela	incansável	Srta.	Bordeaux,</p><p>que	em	todo	este	tempo	jamais	abandonou	a	cabeceira	de	seu	filho.	Fui</p><p>informado	inclusive	que	a	Sra.	saiu	do	hospital	a	mais	de	um	mês.</p><p>-	Ora,	quanta	petulância!	Eu	quero	falar	com	o	proprietário	deste	hospital!	Não</p><p>permitirei	que	meu	filho	fique	aqui	mais	um	dia	sequer	nas	mãos	de	um</p><p>charlatão	qualquer!	E	quanto	a	esta	mulher,	quero	que	saia	imediatamente!</p><p>Após	profundo	suspiro,	o	médico	responde	calmamente:</p><p>-	Sra.	hum,	perdoe,	Duquesa,	o	proprietário	deste	hospital	é	meu	pai	e	eu	sou	o</p><p>diretor	do	mesmo,	além	de	ser	mestre	e	doutor	e	neurologia.	Em	sendo	assim,</p><p>seu	filho	está	no	melhor	hospital	e	nas	mãos	do	melhor	especialista	do	mundo</p><p>nesta	área.	Ah,	e	quanto	a	dama	aqui	presente,	não	fosse	ela	abrir	mão	de	sua</p><p>própria	vida	e	dedicá-la	a	seu	filho,	o	mesmo	talvez	já	tivesse	ido	a	óbito.	Em</p><p>sendo	assim,	creio	que	a	única	pessoa	que	está	a	prejudicar	a	saúde	do	meu</p><p>paciente	é	a	Sra.</p><p>Mary	Ann,	sentindo-se	humilhada	e	já	sem	argumentos,	apoia-se	em	sua	bengala</p><p>e	vai	embora	bufando	de	raiva.</p><p>-	Obrigada	Dr.	por	me	defender	daquela	forma.	Faltam-me	palavras	para</p><p>agradecê-lo…</p><p>-	Srta.	Verônica,	depois	de	tantos	meses	observando	seu	comportamento,	pude</p><p>ter	certeza	que	seu	sentimento	pelo	Sr.	Murphy	é	genuíno	e	sua	determinação	e</p><p>obstinação	em	vê-lo	curado	é	comovente.	Nada	fiz	além	de	minha	obrigação</p><p>enquanto	médico	e	ser	humano.	Providenciarei	junto	a	recepção	que	esta	senhora</p><p>seja	impedida	de	retornar	a	este	hospital,	porém	sugiro-lhe	que	tome	cuidado	ao</p><p>sair	à	rua,	ela	me	parece	descontrolada	emocionalmente	e	apresenta	sintomas	de</p><p>desequilíbrio	mental.</p><p>-	Sim	Dr.	E	mais	uma	vez,	obrigada.</p><p>Vendo-se	sozinha	com	seu	amado,	sentou-se	à	beira	do	leito	e	passou	a	acariciar</p><p>seus	cabelos,	enquanto	as	lágrimas	insistiam	em	correr	em	suas	pálidas	faces.</p><p>Apesar	dos	conselhos	da	prima,	Verônica	não	estava	alimentando-se	bem.	A</p><p>preocupação	com	o	amado	lhe	tirava	o	apetite	e	se	contentava	em	passar	o	dia</p><p>com	leves	lanches.</p><p>Ao	entardecer,	rumou	para	a	fazenda	como	todas	as	noites,	mas	a	partir	deste	dia</p><p>passou	a	tomar	cuidado	para	não	ser	abordada	pela	já	insana	ex	Duquesa.</p><p>Ao	chegar,	a	prima	logo	percebeu	o	semblante	mais	abatido	do	que	o	normal	e</p><p>questionou-lhe	o	ocorrido.	Após	sentar-se	em	confortável	espreguiçadeira,</p><p>narrou	a	fatídica	visita	do	dia.	Madeleine,	como	era	de	se	esperar,	ficou</p><p>estupefata	com	os	fatos	narrados	e	tratou	de	informar	a	prima	que	a	Sra.	Murphy</p><p>perdera	o	título	de	nobreza	e	após	uma	síncope,	passou	a	agir	daquela	forma,</p><p>ofendendo	e	maltratando	a	todos	que	cruzasse	seu	caminho.	Segundo	a</p><p>informante,	esta	notícia	lhe	fora	passada	por	Emanuelle	que	temendo	pela</p><p>segurança	de	Verônica	escrevera	prevenindo	Madeleine,	porém	a	mesma	não</p><p>imaginou	que	uma	“demente”	conseguisse	viajar	até	a	França	naquelas</p><p>condições	e	não	quis	preocupar	ainda	mais	a	prima.</p><p>-	Oh,	querida,	me	perdoe	se	lhe	ocultei	estes	fatos,	mas	temia	que	mais	esta</p><p>preocupação	seria	uma	sobrecarga	sobre	seus	ombros	já	tão	cansados	com	os</p><p>cuidados	ao	enfermo.</p><p>-	Não	se	preocupe	Madeleine.	Tudo	acabou	bem	e	afinal,	estou	até	aliviada.</p><p>Assim	pude	saber	mais	sobre	o	hospital	e	o	Dr,	Gilbert	que	normalmente	fala</p><p>muito	pouco.</p><p>-	Verônica,	percebo	que,	ao	contrário	do	que	lhe	pedi,	não	está	alimentando-se</p><p>como	deveria	e	já	apresenta	sinais	de	palidez	e	fadiga.	Sugiro	que	descanse	por</p><p>uns	dois	dias	ao	menos.	Pedirei	a	cozinheira	que	faça	um	caldo	revigorante	e</p><p>permaneça	em	seu	quarto	durante	todo	o	dia	amanhã,	por	favor…</p><p>-	Minha	prima,	sei	que	aparento	cansaço,	mas	asseguro-lhe,	é	somente	devido	a</p><p>tensão	sofrida	no	dia	de	hoje.	Vou	deitar-me	mais	cedo	a	fim	de	recobrar	minhas</p><p>energias	e	amanhã,	com	certeza,	acordarei	melhor.</p><p>Madeleine,	mais	experiente,	tratou	de	ir	até	a	cozinha	e	pediu	à	cozinheira	que</p><p>fizesse	um	chá	de	ervas	bem	forte	para	a	prima	e	pessoalmente	levou	a	seu</p><p>quarto	com	um	comprimido,	usando	do	subterfúgio,	tratava-se	de	um	leve</p><p>analgésico	para	que	pudesse	dormir	melhor.	Após	ingerir	ambos	Verônica	sentiu-</p><p>se	extremamente	sonolenta	e	acordou	somente	12	hs	depois.</p><p>Na	manhã	seguinte,	sabendo	que	a	prima	dormiria	até	mais	tarde,	Madeleine</p><p>dirigiu-se	ao	hospital	para	ter	com	o	Dr.	Gilbert.</p><p>-	Após	identificar-se	e	ser	conduzida	à	sala	do	mesmo,	a	mulher	revela	ao</p><p>médico	sua	preocupação	com	a	prima	e	qual	o	comprimido	que	a	fizera	ingerir.</p><p>O	médico,	amigo	da	família,	agradeceu	a	presteza	da	Sra.	e	lhe	pôs	a	par	de	que</p><p>já	havia	aconselhando	a	Srta.	descansar	mais,	alimentar-se	melhor	e	até	mesmo</p><p>em	espaçar	suas	visitas,	visto	que	o	paciente	estava	sendo	monitorado	24	hs	por</p><p>dia,	além	dos	cuidados	constantes	das	enfermeiras,	mas	a	mesma	insistia	em</p><p>permanecer	ao	lado	do	mesmo	alegando	que	gostaria	de	estar	ao	seu	lado	quando</p><p>o	mesmo	acordasse.	Quanto	ao	leve	calmante,	fora	ele	mesmo	que	receitara	a</p><p>mãe	de	Madeleine	quando	a	mesma	apresentasse	crises	de	insônia.</p><p>Verônica	despertou	com	a	sensação	de	que	dormira	por	uma	semana,	tamanho	o</p><p>bem-estar	e	apetite	sentido.	Levantou-se	e	quando	percebeu	que	a	família	estava</p><p>almoçando,	deu-se	conta	de	quantas	horas	havia	dormido.	Sentou-se	á	mesa	e</p><p>almoçou	com	os	familiares,	porém	sentia	um	misto	de	gratidão	pelo	gesto	da</p><p>prima	e	remorso	por	ter	faltado	à	manhã	ao	lado	de	Carl.</p><p>Após	a	refeição,	vestiu-se	e	rumou	ao	hospital	encontrando	o	médico	no</p><p>corredor	de	entrada.</p><p>-	Boa	tarde	Srta.,	vejo	que	está	com	ótima	aparência!	-	Cumprimentou-a	o	Dr.</p><p>alegremente.</p><p>-	Boa	tarde	Dr..	Lamento	não	ter	acordado	esta	manhã	no	horário	de	costume.</p><p>Como	está	nosso	paciente?</p><p>-	Acalme-se	Srta.,	o	estado	dele	está	inalterado.	Já	lhe	falei	várias	vezes	que	não</p><p>há	a	necessidade	de	vir	todos	os	dias.	Caso	ocorra	alguma	alteração	em	seu</p><p>estado,	mandarei	avisá-la	imediatamente.</p><p>-	Eu	sei	Dr.,	mas	sinto-me	mais	segura	estando	ao	seu	lado	e	sei	que	ele	também</p><p>aprecia	a	minha	presença.</p><p>-	Pois	bem,	já	que	parece	irredutível,	façamos	um	trato:	A	Srta.	poderá	vir	passar</p><p>todas	as	tardes	com	ele,	podendo	assim,	descansar</p><p>pela	manhã	e	almoçar</p><p>decentemente	com	sua	família,	ou	acaso	julgas	que	não	percebi	que	sua</p><p>alimentação	é	fugaz?</p><p>-	Está	bem,	Dr.,	afinal	é	o	senhor	quem	manda	não	é?!</p><p>Ao	chegar	ao	quarto,	Verônica	depositou	as	flores	que	diariamente	levava	e</p><p>verificou	se	tudo	estava	em	ordem.	Após	ter	certeza	de	que	seu	amado	estava</p><p>bem,	sentou-se	à	beira	da	cama	e	pôs-se	a	admirá-lo	como	sempre	o	fazia.	Pegou</p><p>sua	mão,	beijou-a	e	tocou-a	em	seu	próprio	rosto.	Sentia	que	poderia	passar	a</p><p>eternidade	daquela	forma	tamanha	a	paz	que	sentia.	Levantou-se	do	leito	e</p><p>sentou	à	poltrona	para	seguir	a	leitura	do	dia	anterior.	Porém	foi	tomada	por	uma</p><p>leve	sonolência	que	aos	poucos	foi	aumentando	até	que	o	livro	caiu-lhe	ao	colo	e</p><p>a	dama	adormeceu.	Ao	acordar	já	estava	anoitecendo	e	saiu	às	pressas	temendo	a</p><p>preocupação	da	família	devido	aos	fatos	do	dia	anterior.</p><p>CAPÍTULO	XIV</p><p>Chegando	na	fazenda	percebeu	a	agitação	do	tio	e	imediatamente	soube	que	algo</p><p>havia	acontecido.	Questionado,	o	tio	revelou-lhe	que	seu	pai	tivera	um	ataque</p><p>cardíaco,	mas	que	já	passava	bem,	segundo	as	informações	de	Armand.	Verônica</p><p>sentiu-se	dividida	por	alguns	segundos,	mas	após	digerir	a	situação,	foi	a	seu</p><p>quarto	arrumar	suas	roupas	para	ter	com	o	pai.	Já	estava	fora	de	casa	a	muitos</p><p>meses	e	precisava	remediar	esta	situação.</p><p>Na	manhã	seguinte	o	cocheiro	deixou-a	na	estação	de	trem,	incumbido	de	levar</p><p>uma	missiva	para	o	Dr.	Gilbert,	informando	o	ocorrido.</p><p>Durante	a	viagem,	sentiu-se	culpada	por	ter	negligenciado	com	o	pai	e	julgando</p><p>que	se	não	tivesse	se	ausentado	por	tanto	tempo	talvez	o	mesmo	não	estivesse</p><p>em	tal	situação.</p><p>No	desembarque	os	irmãos	e	as	cunhadas	a	esperavam	a	fim	de	tranquilizá-la</p><p>quanto	ao	estado	de	saúde	do	pai,	sabedores	de	suas	angústias.</p><p>Antes	mesmo	de	abraçá-los	queria	notícias	do	pai	e	ao	tentar	consolá-la,	todos</p><p>começaram	a	falar	juntos,	gerando	maior	confusão	em	sua	cabeça	já	tão</p><p>atormentada.	Christofer,	justamente	o	mais	jovem	foi	o	que	teve	mais	equilíbrio</p><p>e	organizou	a	barbúrdia.</p><p>-	Calma	pessoal!	Verônica	está	nervosa	e	preocupada.	É	natural	sua	angústia	e</p><p>cabe	a	nós	tranquilizá-la,	não	perturbá-la	ainda	mais!</p><p>A	irmã	mais	velha	mirou	o	jovem	com	olhar	de	gratidão	e	todos	seguiram</p><p>dialogando	civilizadamente	até	o	solar.</p><p>Imediatamente	foi	ao	quarto	do	pai	que	descansava,	e	abraçou-o	como	se	fora</p><p>primeira	e	última	vez.	Todos	entraram	atrás	dela	como	que	para	assegurarem-se</p><p>de	que	devido	ao	susto,	o	pai	não	voltaria	a	ter	nova	crise.</p><p>-	Calma	minha	filha.	Seu	velho	pai	apenas	está	apenas	mostrando	sinais	da</p><p>idade.	Estou	muito	bem	agora,	até	porque	minha	princesa	está	em	meus	braços</p><p>novamente!	Todos	sorriram	e	por	sugestão	de	Bella	desceram	e	foram	fazer	um</p><p>lanche	no	jardim.</p><p>À	noite,	após	o	jantar,	o	pai	mostrou-se	desejoso	de	falar	a	sós	com	a	filha.</p><p>-	Enquanto	você	esteve	ausente,	aconteceram	alguns	fatos	bastante</p><p>desagradáveis.	Não	quis	falar	na	frente	de	seus	irmãos	porque	vão	comentar	com</p><p>suas	esposas	e	não	quero	dar	maior	proporção	aos	fatos,	mas	você,	que	está</p><p>intimamente	ligada	a	eles,	deve	saber	de	tudo.	À	cerca	de	um	mês,	a	ex-duquesa,</p><p>mãe	daquele	Sr.	que	está	internado	no	hospital	da	França	esteve	aqui.	Destratou</p><p>a	todos	nesta	casa	por	conta	de	sua	estada	com	seu	filho	em	Paris.	Armand	saiu	à</p><p>espreita	e	chamou	o	padre	que	conseguiu	acalmá-la.	Após	ele	mesmo	nos</p><p>revelou	que	a	Rainha	a	destituiu	do	título	de	nobreza	em	razão	de	sua	demasiada</p><p>arrogância.	Parece	que	quase	todos	os	servos	de	suas	terras	a	abandonaram</p><p>devido	ao	péssimo	tratamento	recebido	e	eu	mesmo	contratei	alguns	deles	para</p><p>trabalhar	em	nossa	indústria.	Sim,	nossos	negócios	estão	indo	de	vento	em	popa</p><p>e	pude	até	construir	casas	para	os	empregados	que	não	tinham	para	onde	ir.</p><p>Inclusive,	parece-me	que	ela	está	internada	em	uma	casa	de	repouso	e	as	terras</p><p>ficaram	nas	mãos	do	capataz.	Que	ironia	não?	Bem,	estas	são	as	notícias	boas…</p><p>-	Por	favor	meu	pai,	não	me	esconda	nada!	O	que	ocorreu	para	que	seu	coração</p><p>não	suportasse?	Acaso	foi	algo	que	fiz?	Desgostei-o	tanto	assim	ao	me	dedicar</p><p>ao	Sr.	Murphy?</p><p>-	Em	parte.	Calma,	você	não	tem	culpa	de	nada.	Ocorre	que	fui	procurado	pelo</p><p>Barão	de	Vilenev,	lembra	dele	e	de	sua	família?	Estiveram	na	inauguração	do</p><p>solar.	Não	importa.	Ocorre	que	o	filho	do	Barão,	Bertrand	é	pouco	mais	velho</p><p>que	seu	irmão	Armand	e	esteve	na	guerra	com	ele.	Segundo	o	Barão,	o	filho</p><p>ocupava	cargo	de	mensageiro	e	não	se	envolvia	diretamente	nas	batalhas,</p><p>diferentemente	de	seu	irmão.	Disse-me	aquele	verme	que	o	filho	tem</p><p>informações	sobre	atitudes	de	Armand	que	chocariam	toda	nossa	comunidade	e</p><p>que	não	mediria	forças	para	provar	que	Armand	desonrou	nosso	nome.</p><p>-	Espere	papai,	não	entendi	o	porquê	de	tais	ameaças.</p><p>-	O	Barão	quer	que	você	se	case	com	seu	filho.	Ao	me	revelar	sua	intenção,	não</p><p>consegui	ouvir	mais	nada	pois	senti	uma	pontada	no	coração	e	acordei	no</p><p>hospital.	Após	minha	recuperação	não	tive	notícias	de	que	ele	tenha	retornado	à</p><p>Inglaterra,	mas	temo	que	quando	souber	que	estou	plenamente	recuperado,	me</p><p>procure	novamente.	Devido	a	isto	pedi	que	Armand	lhe	chamasse.</p><p>-	E	Armand?	Sabe	do	ocorrido?</p><p>-	Você	lembra	quando	ele	retornou	da	guerra,	tinha	pesadelos	todas	as	noites?	Eu</p><p>tentei	convencê-lo	a	me	contar	o	que	se	passava,	mas	ele	saiu	à	espreita	e	como</p><p>em	seguida	mostrou	melhora,	não	quis	mais	tocar	no	assunto.	Agora	creio	que</p><p>seu	irmão	fez	algo	que	fora	contra	sua	consciência,	e	a	isso	deveram-se	os</p><p>pesadelos.</p><p>-	O	Sr.	fez	muito	bem	em	ter-me	contado.	Amanhã	mesmo	vou	ter	com	o	padre.</p><p>Ele,	como	membro	do	clero,	deve	ser	conhecedor	de	todos	os	fatos	daquele</p><p>episódio	sangrento	e	abominável.</p><p>Na	manhã	seguinte,	logo	cedo,	Verônica	foi	à	igreja	ter	com	o	padre	e	foi	direto</p><p>ao	assunto,	alegando	que	das	informações	do	clérigo	dependia	seu	futuro.</p><p>-	Minha	filha,	as	cruzadas	foi	um	movimento	dos	cristãos	na	intenção	de</p><p>doutrinarem	os	povos	que	não	creem	em	nosso	Deus	e	são	profanos.	Ocorre	que</p><p>às	vezes,	para	se	convencer	um	povo,	há	que	se	demonstrar	força	e	poder.	Eu,</p><p>aqui	na	minha	humilde	paróquia,	orei	todas	as	noites	pelos	filhos	desta	terra	para</p><p>que	não	cometessem	atos	contrários	à	vontade	de	Deus.	Mas	estes	meninos,</p><p>incluindo	seu	irmão,	foram	treinados	por	um	general	sanguinário,	que,	com</p><p>certeza	não	carrega	Deus	em	seu	coração	e	deve	ter	influenciado	muito	mal	os</p><p>nossos	meninos.	Quanto	à	ameaça	de	tornar	públicas	as	ações	de	seu	irmão,	não</p><p>temos	certeza	de	que	tipo	de	informação	o	filho	do	Barão	possui	e	sequer	se</p><p>realmente	as	possui.	Talvez	tenha	sido	somente	um	ato	de	desespero	do	pai	ao</p><p>perceber	que	você	estava	interessada	em	outro	que	não	no	próprio	filho.</p><p>Façamos	o	seguinte:	traga	seu	irmão	aqui	e	conversaremos	os	três.	Depois	você</p><p>poderá	tomar	sua	decisão.</p><p>-	Armand,	preciso	sair	à	tarde	e	gostaria	que	me	acompanhasse,	você	não	se</p><p>opõe	não	é	mesmo	Bella?</p><p>-	Claro	que	não,	afinal	vocês	precisam	mesmo	ter	um	tempo	a	sós,	após	tantos</p><p>meses	de	separação.	Vão	e	não	se	preocupem	comigo.</p><p>-	Verônica,	por	que	está	me	levando	à	igreja?	O	que	está	acontecendo?	Estou</p><p>ficando	nervoso?	Vamos,	responda!</p><p>Ao	sinal	de	desespero	do	irmão,	ela	não	precisaria	sequer	ir	adiante,	mas	havia</p><p>prometido	ao	padre	e	cumpriria	sua	promessa,	mesmo	que	magoasse	o	irmão,</p><p>afinal	era	para	o	bem	dele	também.</p><p>-	Que	Deus	te	abençoe	meu	filho,	disse	o	padre	ao	homem	que	já	estava	branco</p><p>feito	cera.	Vamos	à	minha	casa	nos	fundos	da	igreja,	tenho	um	café	fresquinho</p><p>para	degustarmos.</p><p>Nesta	conversa,	tanto	Verônica	quanto	o	padre	procuraram	ser	o	mais	delicados</p><p>possíveis	para	não	desequilibrar	o	ex	guerreiro,	porém	o	simples	fato	de	usarem</p><p>a	expressão	Guerra	Santa,	foi	o	suficiente	para	que	este	caísse	aos	prantos	como</p><p>um	menino.	O	padre	então,	interveio.</p><p>-	Meu	filho,	eu	lhe	batizei	e	realizei	sua	primeira	comunhão.	Sei	o	que	se	passa</p><p>em	seu	coração	e	Deus	mais	ainda.	Ele,	tudo	sabe	e	tudo	vê	e	se	alguém	cometeu</p><p>algum	ato	insano	em	Seu	nome,	porém	não	por	vontade	própria	e	sim	por</p><p>imposição	de	outrem,	já	está	perdoado.</p><p>-	Ocorre	padre,	arguiu	Armand	aos	soluços,	que	não	fui	forçado	a	nada.	Num</p><p>certo	momento	de	nossa	empreitada,	eu	percebi</p><p>que	aqueles	mouros	jamais	se</p><p>renderiam	ao	nosso	Deus	senão	pela	força.	Então	usei	minha	espada	e	tirei	a	vida</p><p>de	muitos,	inclusive	crianças.	Arrependo-me	a	cada	dia	que	acordo	por	tais	atos,</p><p>mas	não	posso	mudar	o	passado.</p><p>-	Pelos	poderes	a	mim	concedidos	por	Nosso	Senhor,	eu	te	perdoo	de	todos	os</p><p>atos	que	cometeste.	Já	conversei	com	o	Bispo	e	ele	me	confessou	que	o	general</p><p>que	os	chefiava	impôs	estes	valores	errôneos	em	seus	soldados	e	você	na</p><p>verdade	foi	mais	uma	vítima	do	que	algoz.	Vá	com	Deus	meu	filho.</p><p>Nenhuma	palavra	foi	trocada	entre	os	irmãos	no	retorno	ao	solar	e	Verônica	foi</p><p>imediatamente	para	seus	aposentos	a	fim	de	refletir	e	decidir	qual	decisão</p><p>tomaria	após	ter	ouvido	a	própria	confissão	do	irmão.</p><p>Na	noite	seguinte	durante	a	ceia	nenhuma	palavra	foi	dita	por	qualquer	membro</p><p>da	família	e	o	silêncio	tétrico	tornava	o	ambiente	pesado	e	a	comida	sem	sabor.</p><p>Após	a	sobremesa,	Jean	Jaques	convida	a	filha	para	uma	conversa	no	escritório.</p><p>A	portas	fechadas	assim	como	o	cenho	do	pai,	o	mesmo	apenas	declarou:</p><p>-	Depois	de	amanhã	o	Barão	de	Vilenev	e	sua	família	chegarão	ao	solar	a	fim	de</p><p>passar	uma	temporada	conosco.	Espero	que	você	não	esqueça	a	educação	que</p><p>lhe	dei	e	receba	muito	bem	meus	convidados.</p><p>-	Mas	papai,	o	Barão	de	Vilenev	foi	o	causador	de	seu	ataque	do	coração	e	nem</p><p>sabemos	se	Bertrand	tem	realmente	alguma	prova	contra	Armand.	O	Barão	de</p><p>nobre	só	possui	o	título,	sua	mulher	é	uma	matrona	que	só	faz	comer,	o	filho	é</p><p>pouco	mais	velho	que	Armand	e	não	consegui	conversar	com	ele	por	mais	de	5</p><p>minutos	devido	a	brutalidade	do	mesmo.</p><p>-	Não	lembro	de	ter	pedido	sua	opinião.	Apenas	lhe	fiz	um	comunicado,	afinal,</p><p>ainda	sou	o	dono	desta	casa.</p><p>-	Como	queira	meu	pai.	Tenha	uma	boa	noite.</p><p>No	dia	seguinte	chegaram	os	convidados	em	uma	carruagem	abarrotada	de	baús.</p><p>Verônica	chegou	a	pensar	que	eles	estavam	de	mudança,	devido	à	quantidade	de</p><p>roupas	que	trouxeram,	mas	logo	lembrou-se	que	para	acomodar	os	vestidos	da</p><p>Baronesa	realmente	necessitaria	de	muito	espaço.</p><p>O	pai	e	os	irmãos	já	haviam	saído	para	o	trabalho,	assim	coube	à	Verônica	e</p><p>Emanuelle	receber	e	acomodar	os	convidados	do	pai.	O	Barão	ao	saber	que	o</p><p>“amigo”	estava	na	empresa,	imediatamente	chamou	seu	cocheiro	e	foi	ter	com</p><p>Jean	Jaques.	A	baronesa	pediu	a	criada	um	lanchinho	antes	do	almoço	usando	o</p><p>cansaço	da	viagem	como	desculpa	para	sua	gula	desenfreada	e	o	filho	Bertrand</p><p>foi	para	os	aposentos	designados	a	ele	a	fim	de	descansar.</p><p>Assim,	Verônica	e	a	cunhada	foram	para	a	varanda	bordar	(queria	bordar	ela</p><p>mesma	o	enxoval	do	bebê).</p><p>Os	dias	foram	se	passando	assim,	sem	que	nada	alterasse	a	rotina	da	família	e	de</p><p>seus	convidados.</p><p>Certa	tarde,	Verônica	estava	no	balanço	do	jardim	das	rosas	quando	Bertrand</p><p>veio	ter	com	ela.</p><p>-	Posso	lhe	fazer	companhia	Srta.?</p><p>-	Claro,	fique	à	vontade.</p><p>-	A	Srta.	não	deveria	estar	a	bordar?	O	tempo	está	passando	e	talvez	não	haja</p><p>tempo	para	ultimar	seu	vestido.</p><p>-	Do	que	está	falando	Bertrand?</p><p>-	Do	seu	vestido	de	noiva!	Nos	casaremos	no	mês	que	vem.</p><p>-	O	quê?	Não	me	casarei	com	alguém	que	mal	conheço.	E	como	noiva,	eu	não</p><p>deveria	ser	a	primeira	e	não	a	última	a	saber?</p><p>-	Nossos	pais	fizeram	um	acordo	e	decidiram	por	nós.	Também	não	faço	gosto</p><p>mas	não	ouso	desobedecê-lo.</p><p>-	Você	não	passa	de	um	menino	mimado!	Não	quero	me	casar	com	você.</p><p>-	Eu	não	perguntei	se	a	Srta.	quer	se	casar	comigo,	apenas	a	informei	e	é	o	que</p><p>acontecerá,	gostando	a	Srta.	ou	não.	Ah,	aliás,	o	jantar	de	noivado	será	no</p><p>sábado	e	será	uma	recepção	somente	para	os	íntimos.</p><p>Não	suportando	a	arrogância	do	rapaz	e	a	dor	da	notícia,	Verônica	corre	para	seu</p><p>quarto,	chora	até	molhar	o	travesseiro	e	dormir.	Emanuelle	tentou	convencê-la	a</p><p>descer	para	o	jantar	mas	a	mesma	negou-se	alegando	indisposição.</p><p>No	sábado	pela	manhã	chegaram	Jean	Paul,	a	esposa	e	Madeleine.</p><p>Ao	ver	a	prima,	Verônica	levou-a	até	seu	quarto	a	fim	de	confidenciar	seus	reais</p><p>sentimentos.</p><p>-	Minha	prima	eu	quase	não	acreditei	quando	meu	pai	me	falou	de	seu	noivado,</p><p>mas	não	imaginava	tratar-se	de	um	acordo	entre	meu	tio	e	este	Barão	bufão.</p><p>Quando	me	casei	foi	por	amor.	Meus	pais	não	se	opuseram	e	após	o	falecimento</p><p>de	meu	amado,	jurei	jamais	colocar	outro	em	seu	lugar	e	eles	respeitam	a	minha</p><p>vontade.	Não	entendo	o	porquê	de	titio	obrigá-la	a	casar	com	este	praticamente</p><p>desconhecido.</p><p>Neste	momento,	Verônica	quase	revela	à	prima	que	o	pai	se	viu	obrigado	a</p><p>aceitar	este	acordo	pela	honra	de	Armand,	mas	conseguiu	desconversar,</p><p>simulando	não	saber	dos	motivos	do	pai.</p><p>Na	primeira	oportunidade	que	surgiu	Verônica	tentou	argumentar	com	o	pai,</p><p>chamando-lhe	à	lucidez.</p><p>-	Papai,	sei	que	somente	aceitou	este	acordo	devido	às	ameaças	do	Barão,	mas</p><p>lembre-se,	eu	mesma	fui	à	igreja	e	levei	também	Armand.	Basta	o	Sr.	enfrentar	o</p><p>Barão	e	não	aceitar	esta	chantagem	grotesca	e	humilhante.</p><p>-	Minha	filha,	apesar	de	você	ter	se	tornado	uma	mulher	inteligente	e	astuta,	há</p><p>alguns	aspectos	da	vida	que	você	ainda	desconhece.	Veja	bem,	se	o	Barão</p><p>espalhar	pelos	quatro	cantos	que	seu	irmão	é	um	assassino,	você	acredita	mesmo</p><p>que	o	padre	ou	o	bispo	intervirão	em	seu	favor?	Não	seja	ingênua…	Seu	irmão</p><p>estará	desonrado	e	o	nome	de	nossa	família	será	jogado	na	lama,	sem	que</p><p>possamos	fazer	nada	para	impedir,	a	não	ser…	que	você	case-se	com	Bertrand	e</p><p>salve	o	nosso	nome.	Não	quero	que	eles	saibam	que	lhe	revelei	a	verdade.</p><p>Prefiro	que	pensem	que	você	ignora	as	intenções	desta	família,	para	preservar-se.</p><p>-	Mas	papai,	O	Sr,	Murphy	ainda	está	em	coma	num	hospital	da	França!	E	eu	o</p><p>amo!	Não	posso	desposar	Bertrand	nestas	condições.</p><p>-	Pois	bem,	quanto	ao	Sr.	Murphy,	mesmo	antes	do	acidente,	soube	que	se</p><p>regenerou	e	tornou-se	homem	de	bem	e	garanto-lhe	que	resolverei	este	assunto</p><p>com	meu	irmão	e,	com	certeza,	sua	prima	irá	ter	com	ele	quando	sair	do	coma,</p><p>SE	sair.	Você	sabe	que	as	chances	dele	sobreviver	são	poucas	e	além	do	mais,</p><p>mesmo	que	sobreviva,	ele	perdeu	tudo	o	que	tinha,	o	pai,	o	título,	os	bens	e</p><p>agora	a	mãe	que	enlouqueceu.	Que	futuro	você	teria	ao	lado	deste	homem?	Bem</p><p>ou	mal,	os	Vilenev	possuem	uma	posição	sólida	junto	a	nobreza	francesa	e	você</p><p>estará	amparada.</p><p>Fingindo	dar-se	por	convencida,	a	filha	não	mais	argumenta,	porém	decide	tomar</p><p>outras	providências.	Na	manhã	seguinte,	como	de	costume,	a	Baronesa	estava</p><p>cercada	de	doces	e	biscoitos	à	mesa	e	somente	ao	vê-la	comer,	tirava	o	apetite	de</p><p>qualquer	um.	Porém	Verônica	tinha	motivos	mais	que	suficientes	para	ignorar	a</p><p>gula	da	matrona.</p><p>-	Baronesa,	me	perdoe	interromper	seu	lanche,	mas	temos	um	assunto	muito</p><p>sério	a	tratar.</p><p>-	Espero	que	seja	muito	importante	mesmo,	porque	estes	brioches	estão</p><p>divinos…</p><p>-	Seu	filho	me	falou	sobre	um	acordo	em	que	o	barão	e	a	senhora	fizeram	com</p><p>meu	pai	com	relação	a	meu	casamento	com	Bertrand.	Sra.,	existem	fatos	que</p><p>desconhece	e	preciso	ser	absolutamente	honesta.	Sou	muito	mais	velha	que	seu</p><p>filho	e	já	entrei	na	menopausa.	Veja	bem,	algum	dia	Bertrand	herdará	o	título	de</p><p>Barão,	porém	a	linhagem	de	sua	família	acabará	com	ele	visto	que	não	poderei</p><p>lhe	dar	filhos.	Para	uma	família	de	nobres	como	a	sua	este	é	um	óbice	deveras</p><p>importante.</p><p>-	Falarei	com	meu	marido	sobre	isto	mais	tarde.	Agora	se	a	Srta.	me	der</p><p>licença…</p><p>Após	o	jantar,	Verônica	procura	o	pai	novamente,	na	tentativa	de	convencê-lo	a</p><p>liberá-la	deste	acordo	ridículo.</p><p>-	Papai,	sempre	tivemos	uma	relação	de	amizade	acima	de	tudo.	Assumi	o	lugar</p><p>de	minha	mãe	cuidando	do	Sr.	e	dos	meninos	e	jamais	cometi	nenhum	ato	que</p><p>pudesse	me	levar	a	tamanha	punição.	Bertrand	e	eu	mal	nos	conhecemos,	ele</p><p>vive	somente	pela	memória	de	sua	falecida	esposa	e	percebo	que	não	terei	lugar</p><p>na	vida	dele.	Se	insistir	na	ideia	de	me	forçar	a	casar	com	ele	o	senhor	estará	me</p><p>condenando	á	infelicidade!</p><p>-	Minha	filha,	nós	já	falamos	sobre	este	assunto	e	acreditei	que	você	já	havia	se</p><p>conformado	com	seu	destino.</p><p>Percebendo	que	suas	possibilidades	de	se	livrar	dessa	situação	estavam	se</p><p>escasseando,	achou	por	bem	dormir	e	pensar	em	outra	maneira	de	fazê-lo.</p><p>Na	manhã	seguinte,	quinta-feira,	seria	a	véspera	do	jantar	de	noivado.	Verônica</p><p>acordou	sentindo-se</p><p>que	tanto	bem	lhes	fez	e	que</p><p>ora	se	encontra	em	tão	delicada	situação.</p><p>-	Christin	precisamos	orar	e	nos	orientar	com	nossos	mentores	a	fim	de,	ao</p><p>menos,	aliviar	o	sofrimento	daquela	mãe	tão	espezinhada	pelo	próprio	filho.</p><p>-	Tem	razão	minha	sogra.	Hoje	à	tarde	vamos	nos	encontrar	no	lugar	de	sempre	e</p><p>tenho	certeza	que	obteremos	a	ajuda	necessária.	Lamento	que	a	Sra.	Mary	Ann</p><p>não	compactue	com	nossas	crenças!	Se	o	fizesse,	sofreria	menos…</p><p>No	final	da	tarde	sogra	e	nora	despedem-se	e	combinam	de	passarem	o	domingo</p><p>na	casa	de	Mary	Ann	para	que	a	mesma	desfrute	da	companhia	do	pequeno	Dic,</p><p>o	filho	de	um	ano	do	jovem	casal	e	por	quem	a	mesma	possui	um	amor</p><p>incondicional	de	verdadeira	avó.</p><p>1	Bon	vivant	é	uma	expressão	francesa	que	significa	“boa	vida”	ou	que	qualifica</p><p>determinado	indivíduo	como	“amante	dos	prazeres	da	vida”.</p><p>CAPÍTULO	II</p><p>Jean	Jaques	Bordeaux	secava	o	suor	do	rosto	com	a	toalha	que	mantinha	ao</p><p>ombro,	após	retirar	mais	uma	espada	que	acabara	de	fabricar.	Não	sabia	se	o</p><p>calor	que	sentia	era	do	vapor	do	ferro	em	brasa	ou	da	revolta	que	lhe	consumia</p><p>por	ser	forçado	a	fabricar	tais	armas.</p><p>Homem	de	princípios	e	idoneidade	moral,	orgulhava-se	de	ser	o	melhor	ferreiro</p><p>da	Inglaterra	e	quiçá	de	toda	Europa!	Era	constantemente	procurado	pelos	mais</p><p>nobres	cavaleiros	para	confeccionar	ferraduras	personalizadas	a	seus	premiados</p><p>alazões.	Orgulhava-se	de	ter	criado	seus	filhos	dentro	dos	mais	rígidos	preceitos</p><p>morais	e	todos	os	domingos	ia	à	missa	com	toda	a	família	a	fim	de	dar-lhes	o</p><p>exemplo	de	um	bom	cristão.</p><p>No	entanto,	da	noite	para	o	dia,	vê-se	obrigado	a	realizar	tão	avultante	tarefa:</p><p>produzir	espadas	para	os	jovens	“cristãos”	invadirem	outros	países,	tirarem	vidas</p><p>e	escravizar	outros	seres	humanos,	em	nome	da	“igreja”.	Eram	as	cruzadas,	uma</p><p>guerra	chamada	de	“santa”	que	em	seu	ver	só	atingia	o	objetivo	do	clero,</p><p>saciando	sua	sede	de	poder.	Sua	consciência	não	admitia	que	tais	atrocidades</p><p>pudessem	ser	aprovadas	por	Deus	e	orava	todas	as	noites	para	que	tudo	aquilo</p><p>acabasse.</p><p>Ah,	que	Deus	me	perdoe	por	realizar	este	degradante	ofício	e	me	permita	ver	o</p><p>fim	desta	guerra	e	voltar	a	exercer	o	ofício	que	meu	pai	me	ensinou	e	que	me</p><p>trouxe	tanto	orgulho.</p><p>Na	porta	de	casa,	Verônica	a	filha	mais	velha,	observava	a	lide	do	pai²	e	condoía-</p><p>se	ao	ver	seu	semblante	torturado.	A	pouco,	seu	irmão	Armand,	com	a	idade	de</p><p>25	anos,	deixara-se	levar	pelos	argumentos	do	bispo	e	partira	para	unir-se	às</p><p>tropas	da	guerra	santa,	causando	maior	desgosto	ao	pai,	que	agora	somente</p><p>possuía	a	sua	companhia	e	a	de	Christofer,	seu	irmão	mais	jovem.</p><p>Apesar	de	origem	francesa,	Jean	Jaques	demonstrou	desde	sua	chegada	à</p><p>Inglaterra	o	desejo	de	fixar-se	naquele	solo,	jurando	fidelidade	eterna	a	Rainha.</p><p>Casou-se	com	Mildred	Smith,	moça	pacata	e	criada	para	os	deveres	de	esposa	e</p><p>mãe.	Tiveram	3	filhos,	Verônica,	Armand	e	Christofer,	e	desde	a	tenra	idade	dos</p><p>mesmos,	deixou	claro	ao	marido	que	os	meninos	assim	que	tivessem	idade</p><p>suficiente,	aprenderiam	seu	ofício	e	Verônica	seria	ensinada	como	ela	o	fora,</p><p>para	ser	uma	excelente	dona	de	casa	e	haveria	de	aprender	todas	as	prendas</p><p>domésticas	que	uma	boa	esposa	mulher	deve	saber.</p><p>Os	anos	se	passaram	e	assim	se	fez.</p><p>A	vida	porém,	às	vezes	nos	reserva	surpresas	não	tão	boas	e	quando	Verônica</p><p>contava	com	20	anos	sua	mãe	faleceu	do	coração.	A	partir	de	então	ela	passou	a</p><p>cuidar	da	casa	e	dos	três	homens	da	família.</p><p>Nestes	tempos	Verônica	já	contava	com	40	anos,	porém	seus	traços	não</p><p>revelavam-lhe	a	idade.	A	mistura	de	sua	descendência	lhe	deu	a	pele	alva	e	os</p><p>cabelos	negros,	sempre	cuidadosamente	arrumados	demonstrando	bom	gosto,</p><p>sobriedade	e	vaidade,	embora	jamais	ter	gozado	da	liberdade	de	sair	como	suas</p><p>amigas	o	faziam.	Seus	irmãos,	a	mando	do	pai,	mantinham-se	ao	seu	encalço</p><p>aonde	quer	que	fosse,	no	intento	de	impedir	a	aproximação	de	algum</p><p>aventureiro.	Mas	a	moça	não	reclamava.	Sentia-se	segura	com	a	vida	que	levava</p><p>embora	às	vezes	imaginasse	como	seria	poder	ser	dona	de	suas	próprias</p><p>vontades.	Quando	acabava	os	deveres	domésticos,	sentava-se	à	varanda	em</p><p>frente	a	casa	e	perdia-se	em	longos	e	lindos	bordados.	A	mãe	havia	lhe	ensinado</p><p>e	sempre	repetia:	uma	moça	de	boa	família	deve	bordar	seu	próprio	enxoval	para</p><p>quando	encontrar	um	homem	digo	de	seu	coração.	À	noite,	após	servir	o	jantar	e</p><p>preparar	a	cozinha	para	a	manhã	seguinte,	entretinha-se	com	a	leitura,	pois</p><p>sempre	mantinha	um	bom	livro	à	cabeceira	da	cama.</p><p>E	foi	neste	fim	de	tarde,	quando	o	pai	já	apresentava	sinais	de	extremo	cansaço</p><p>devido	às	horas	intermináveis	com	a	tarefa	que	lhe	desgostava,	que	percebe	a</p><p>aproximação	de	garboso	cavaleiro.	Ao	passar	pela	casa	e	ver	a	mulher	à	varanda,</p><p>faz-lhe	sutil	reverência,	como	era	costume	à	época.	Verônica	sequer	retribuiu	o</p><p>cumprimento	visto	manter-se	congelada	e	somente	dar-se	conta	de	si	mesma</p><p>quando	a	agulha	presa	ao	bordado	lhe	espetou	um	dos	dedos.	Imediatamente,</p><p>antes	que	o	sangue	manchasse	o	tecido,	entrou	em	casa	a	fim	de	estancar	o</p><p>pequeno	ferimento.	Após	precário	curativo	volta	a	varanda,	mas	o	homem	já</p><p>havia	ido	embora.	Após	breve	suspiro,	acomodou-se	como	de	costume	e</p><p>retomou	o	bordado.</p><p>Após	o	jantar,	o	pai	adverte	a	filha	sobre	o	inesperado	visitante.</p><p>-	Verônica	minha	filha,	percebi	esta	tarde	que	você	estava	na	varanda	quando</p><p>Carl	Murphy	veio	ver-me.	Não	é	de	meu	gosto	que	você	se	aproxime	dele	ou</p><p>permita	qualquer	aproximação	da	parte	dele	está	claro?!</p><p>-	Papai,	não	sei	do	que	está	falando…	Realmente	vi	um	fidalgo	que	pareceu-me</p><p>muito	educado,	aliás,	como	qualquer	outro	de	seus	clientes.	Desconheço	o	nome</p><p>ou	a	descendência	deste	senhor.</p><p>-	Ah	minha	filha!	Sua	mãe	e	eu	tivemos	tanto	zelo	para	mantê-la	em	segurança</p><p>que	não	existe	maldade	alguma	em	seu	coração…	Mas	ouça	seu	velho	pai.</p><p>Aquele	homem	é	conhecido	como	grande	conquistador.	Pertence	a	uma	das</p><p>famílias	mais	nobres	da	Inglaterra	e	embora	os	pais	sejam	de	boa	linhagem,	o</p><p>filho	saiu-se	totalmente	avesso	à	qualquer	norma	de	boa	conduta	e	retidão	moral.</p><p>Embriaga-se	frequentemente	e	não	raro,	trava	embates	corporais	com	outro</p><p>beberrão.	Também	é	famoso	por	conquistar	jovens	de	boa	família,	desonrá-las	e</p><p>abandoná-las.	Muito	cuidado	com	ele!</p><p>A	filha	limitou-se	a	aquiescer	e	dar	um	beijo	de	boa	noite	o	pai.	Mas	nesta	noite,</p><p>não	conseguiu	se	concentrar	na	leitura…</p><p>Neste	mesmo	momento	na	residência	da	Duquesa	de	Charleston,	a	mesma,	após</p><p>o	jantar	tomava	seu	licor	na	varanda.</p><p>-	Carl,	percebi	que	quando	chegou	no	final	da	tarde	estava	diferente.	E	também</p><p>não	saiu	para	suas	famosas	noitadas	como	de	costume.	O	que	houve?	Não	está	se</p><p>sentindo	bem?</p><p>-	Estive	cavalgando	por	horas	e	meu	cavalo	perdeu	uma	das	ferraduras.	Me	dirigi</p><p>até	o	ferreiro	indicado	pelo	Sr.	Thomas	e	fui	maltratado.	O	homem	estava</p><p>indignado,	afiando	espadas	e	além	de	não	me	atender,	me	ordenou	a	não</p><p>procurá-lo	mais.</p><p>-	Mas	filho,	não	percebi	nenhum	ar	de	desagrado	ou	irritação	em	você	e	sim,	um</p><p>certo	ar	de	mistério…</p><p>-	Mamãe,	a	Sra.	tem	o	direito	de	preocupar-se	comigo	mas	não	de	invadir	meus</p><p>pensamentos	então,	embora	lhe	deva	respeito,	reservo-me	o	direito	de	ter	meus</p><p>pensamentos	preservados.</p><p>-	Ah,	mas	é	claro!	Só	pode	ser	mais	uma	mundana	que	cruzou	seu	caminho,</p><p>imaginando	que	você	ainda	é	o	melhor	solteirão	do	reino!	Oh	coitada!	Mal	sabe</p><p>que	estamos	à	beira	da	miséria…	Não	se	iluda,	meu	filho.	Agora	é	você	quem</p><p>tem	que	conquistar	uma	nobre.	Esqueça	estas	interesseiras	que	não	lhe	darão</p><p>mais	do	que	algumas	horas	de	prazer.</p><p>Como	era	de	costume,	quando	Mary	Ann	propunha	um	diálogo,	seguia-se	um</p><p>monólogo	que	poderia	durar	horas…	Assim	Carl	apenas	beijou	a	testa	da	mãe,</p><p>desejando-lhe	boa	noite	e	balbuciou:	Mamãe,	hoje	eu	vi	um	anjo!</p><p>Naquela	noite,	Carl	pernoitou	em	casa,	em	vez	de	fazê-lo	na	casa	da	amante	Lisa</p><p>May.	De	alguma	forma,	sentia	que	algo	havia	mudado	dentro	de	si.</p><p>Lisa	May	após	esperar	horas	por	Carl	inutilmente,	decidiu	dividir	sua	solidão</p><p>com	o	amante	pianista	e	uma	boa	garrafa	de	whisky.</p><p>-	Que	surpresa!	Você	a	esta	hora!	Aonde	está	o	seu	rico	herdeiro?	Descobriu</p><p>quem	você	é	ou	você	já	arrancou	o	último	centavo	do</p><p>febril	e	não	desceu	para	o	café	da	manhã.	Madeleine	foi	até</p><p>seus	aposentos	com	uma	bandeja	de	café	da	manhã,	como	desculpa	para	ficarem</p><p>a	sós.</p><p>-	Querida,	você	tem	que	reagir.	Fugir	da	realidade	simulando	doença	não	vai</p><p>resolver	seu	problema.	Tome	seu	desjejum	e	arrume-se.	Vamos	à	Londres</p><p>comprar	um	vestido	novo	para	o	noivado	amanhã.</p><p>Tudo	o	que	Verônica	não	queria	ouvir	era	isso.	A	prima	e	confidente	não	a	estava</p><p>apoiando.	Sua	vida	estava	realmente	desmoronando...</p><p>Após	alimentar-se	e	banhar-se,	desceu	como	solicitado	pela	prima.	Ambas</p><p>estavam	na	carruagem	quando	Madeleine	confessou	que	estava	ao	lado	de</p><p>Verônica	e	que	se	pudesse	fazer	algo	para	ajudá-la,	o	faria.	Mas	percebera	que</p><p>todos	os	envolvidos	estavam	irredutíveis	e,	em	sendo	assim,	o	melhor	que	a</p><p>prima	poderia	fazer	era	fingir	que	aceitara	a	situação	e	deixar	que	o	tempo	se</p><p>encarregasse	de	livrá-la,	ou	não,	deste	fardo.</p><p>Olharam	várias	lojas	e	nada	agradava	a	futura	noiva.	Na	verdade	ela	queria	um</p><p>vestido	que	a	tornasse	invisível	para	poder	fugir	sem	ser	percebida.	Mas	tal</p><p>modelo	ainda	não	existia.</p><p>Na	próxima	loja	que	entraram,	Verônica	avistou	um	lindíssimo	vestido</p><p>totalmente	coberto	por	rendas	e	brocados.</p><p>-	É	este!	Sim,	este	é	o	vestido	que	usarei	amanhã	à	noite.</p><p>Madeleine	olhou	para	a	prima	como	se	não	reconhecesse	aquela	pessoa.</p><p>-	O	que	é	isto	minha	prima?	Acaso	esqueceste	que	amanhã	será	o	seu	jantar	de</p><p>noivado?</p><p>-	Por	isto	mesmo!	Já	que	não	tenho	alternativa,	irei	vestida	de	luto!</p><p>Nenhuma	palavra	mais	foi	proferida	pela	futura	noiva	até	chegarem	em	casa.</p><p>À	noite	desceu	para	o	jantar	da	mesma	forma.	Respondendo	monossilabicamente</p><p>há	alguma	pergunta	dirigida	a	si.</p><p>No	dia	seguinte,	como	desculpa	de	estar	bela	para	a	cerimônia,	passou</p><p>praticamente	o	dia	em	seus	aposentos	cuidando	da	beleza.	Na	verdade,	Verônica</p><p>desejava	que	a	terra	abrisse	a	seus	pés	e	ela	fosse	abduzida	pelo	vazio.	Mas	tal</p><p>não	ocorreu.	Ao	admirar-se	no	espelho	minutos	antes	da	cerimônia,	grossas</p><p>lágrimas	escorreram	de	suas	faces,	antevendo	seu	futuro.</p><p>Perdida	em	seus	pensamentos...”Casarme-ei	com	Bertrand	e	me	tornarei</p><p>inatingível	a	Carl.	E	quando	acordar	o	que	pensará	de	mim?	Bem,	mas	já	que</p><p>não	tenho	mais	como	escapar,	esta	família	irá	conhecer	meu	lado	negro”...</p><p>E	assim	foi	feito.	O	choque	de	todos	ao	perceber	a	inconformidade	da	noiva,</p><p>vestindo-se	de	preto	não	passou	despercebido	a	mesma	que	regozijou-se	ao	ver</p><p>as	enormes	bochechas	vermelhas	de	indignação	da	Baronesa.	Ao	chegar	ao	pé	da</p><p>escada,	seu	pai	a	tomou	pela	mão	e	discretamente	falou-se	ao	ouvido;	-	O	que</p><p>significa	isto?	Acaso	enlouqueceste?</p><p>Verônica	lançou	um	olhar	doce	ao	pai	e	apenas	balbuciou:	-	Estou	indo	para	a</p><p>forca	certo?	Então,	somente	estou	vestida	a	caráter.</p><p>A	cerimônia	correu	normalmente,	visto	que	todos	decidiram	não	piorar	as	coisas</p><p>mais	do	que	estavam.	A	data	do	casamento,	marcada	para	o	mês	seguinte	fora</p><p>confirmada	pelos	noivos	que	não	demonstravam	nenhuma	alegria	com	o	evento.</p><p>Bertrand	julgou	que	a	raiva	da	noiva	desapareceria	à	medida	que	os	dias	fossem</p><p>passando,	mas	Verônica	manteve	a	postura,	fria	e	inatingível.	A	partir	deste	dia</p><p>via-se	a	mesma	bordando	e	vez	por	outra	abanando-se	com	seu	leque	negro	para</p><p>aliviar	os	calores	que	seguidamente	a	acometiam.	Porém	não	mais	usava	a</p><p>varanda	e	sim	o	jardim	de	rosas	aonde	mandou	colocar	um	grande	banco	de	ferro</p><p>revestido	na	parte	interna	para	maior	conforto	da	dama.</p><p>Até	que	uma	tarde	Bertrand	fora	vencido	pelo	cansaço	e	foi	ter	com	a	futura</p><p>esposa.</p><p>-	Srta.,	bem	sei	que	não	nutre	nenhum	sentimento	pela	minha	pessoa	da	mesma</p><p>forma	que	também	eu	não	os	sinto	pela	sua.	Nossa	união	é	um	puro	acordo</p><p>comercial	entre	nossos	pais	e	não	há	nada	que	possamos	fazer	para	desistir	dela</p><p>nestas	alturas.	Porém,	peço	que	ao	menos	disfarce	na	frente	de	minha	mãe.	Ela,</p><p>embora	não	demonstre,	é	muito	sensível,	e	está	sofrendo	tanto	quanto	nós.</p><p>-	Sr.	meu	noivo,	procurei	a	Sra.	sua	mãe	e	expus	os	motivos	que	me	levavam	a</p><p>não	desejar	esta	união	e	ela	não	me	pareceu	nem	um	pouco	sensibilizada,	ao</p><p>contrário,	enxotou-me,	dando	mais	atenção	aos	brioches.	Portanto	não	venha	me</p><p>falar	sobre	poupá-la	da	verdade.	Este	acordo	não	fora	efetuado	somente	por</p><p>nossos	pais,	sua	mãe	também	participou	tenho	certeza,	aliás,	o	Sr.	subestima</p><p>minha	inteligência	com	suas	palavras.	Acaso	pensa	que	não	sei	que	foi	o	Sr.	que</p><p>levantou	a	possibilidade	de	chantagear	meu	pai	revelando	as	atitudes	de	meu</p><p>irmão?</p><p>O	noivo	vermelho	num	misto	e	raiva	e	vergonha,	girou	nos	calcanhares	e	saiu</p><p>sem	mais	uma	palavra.	Saiu	com	seus	pensamentos;	-	“Minha	doce	Amália</p><p>jamais	me	enfrentaria	desta	forma!	Ela	era	uma	mulher	perfeita	e	agora	sou</p><p>obrigado	a	unir-me	a	esta	víbora	somente	por	ser	rica	e	afamada!	Que	destino</p><p>cruel	criei	a	mim	mesmo...”</p><p>Alguns	dias	antes	da	cerimônia,	os	Bordeaux	foram	à	França	aonde	ocorreria	a</p><p>cerimônia,	visto	a	família	do	noivo	pertencer	a	nobreza	francesa.	No	trem	Jean</p><p>Jaques	sentado	ao	lado	da	filha	tenta	justificar-se	pela	atitude	intransigente.</p><p>-	Minha	filha,	sei	que	você	está	magoada	com	seu	velho	pai	mas	o	que	fiz	foi</p><p>para	o	bem	de	nossa	família.	Você	não	teria	condições	de	entender	meus	motivos</p><p>então	escondi-me	atrás	do	autoritarismo	a	fim	de	evitar	seus	questionamentos.</p><p>Temia	fraquejar	e	ver	nosso	nome	na	lama.	Além	do	mais	embora	eu	a	tenha</p><p>advertido,	ainda	assim	você	insistiu	em	se	envolver	com	aquele	tipo	do	Murphy.</p><p>Se	eu	permitisse	sua	união	com	ele	você	sofreria	muito,	visto	que	ele	não	está	a</p><p>sua	altura.	Hoje	talvez	você	não	entenda	isto,	mas	daqui	a	algum	tempo	talvez</p><p>venha	a	me	perdoar.</p><p>-	Papai,	eu	entendo	seus	argumentos	e	preocupação	com	minha	pessoa,	porém	o</p><p>Sr.	poderia	ter	ao	menos	conversado	comigo	sobre	o	assunto	e	talvez	eu	não</p><p>sentisse	tamanha	rejeição	a	esta	união.	Mas	não	vou	envergonhá-lo.	Assumi	o</p><p>compromisso	com	Bertrand	e	irei	respeitá-lo,	mesmo	sabendo	que	meu	coração</p><p>pertence	a	outro.</p><p>Após	instalarem-se	na	fazenda	de	Jean	Paul,	Verônica	e	Madeleine	utililizaram-</p><p>se	de	um	ardil	qualquer	para	que	a	noiva	pudesse	se	despedir	de	seu	amado,</p><p>mesmo	que	ele	não	soubesse...</p><p>A	cerimônia	de	casamento	realizou-se	na	catedral	de	Paris	com	toda	pompa	da</p><p>realeza.	Enquanto	Verônica	adentrava	a	nave	pelo	braço	do	pai	a	caminho	de	seu</p><p>noivo,	a	imagem	de	Carl	não	lhe	saia	da	cabeça,	e	as	lágrimas	da	noiva	foram</p><p>tomadas	pelos	convidados	como	de	felicidade	com	o	casamento.	Quando	Jean</p><p>Jaques	a	entregou	ao	futuro	marido,	beijou	a	testa	da	filha	e	balbuciou	em	seu</p><p>ouvido:	perdão.</p><p>A	festa	das	bodas	foi	o	acontecimento	do	ano	em	toda	Europa,	tamanha	a</p><p>extravagância	do	Barão	de	Vilenev.</p><p>Ao	chegar	à	nova	morada	–	o	castelo	do	Barão	–	Verônica	foi	levada	ao	quarto</p><p>pelo	marido.	Sem	saber	o	que	dizer	ou	fazer	a	recém-casada	ficou	feito	uma</p><p>estátua	diante	do	dossel	que	seria	o	leito	do	casal,	porém	o	marido	lhe	veio	em</p><p>socorro.	-	Ah	minha	querida,	quando	a	sós	não	precisaremos	fingir,	em	sendo</p><p>assim,	não	a	tocarei.	Este	quarto	será	somente	seu.	Agora	trate	de	dormir	porque</p><p>amanhã	sairemos	á	passeio	pelas	ruas	para	que	eu	possa	mostrar	a	todos	do	meu</p><p>mais	valioso	troféu.	Boa	noite!</p><p>Verônica	pensou	em	fugir,	mas	sabia	que	estava	sendo	vigiada,	afinal	um	troféu</p><p>merece	uma	redoma	de	vidro	e	era	exatamente	assim	se	sentia,	aprisionada	em</p><p>uma	gaiola	de	ouro.</p><p>Na	manhã	seguinte	durante	o	desjejum,	os	membros	da	família	limitaram-se	a</p><p>um	bom	dia	e	pareciam	não	vê-la.	Após,	conforme	combinado,	o	casal	saiu	de</p><p>braços	dados	pelas	ruas	de	Paris	e	Bertrand	fazia	questão	de	parar	para</p><p>cumprimentar	todo	tipo	de	gente,	somente	para	exibi-la.	Ela	nunca	imaginou	ser</p><p>tão	humilhada,	mas	não	perderia	a	pose	e	altivez,	seguindo	os	ensinamentos	da</p><p>mãe	que	lhe	dizia	quando	jovem:	-	“Querida,	quando	se	sentir	maltratada	pela</p><p>vida,	levante	a	cabeça	e	jamais	permita	que	quem	quer	que	seja	perceba	sua</p><p>tristeza.	A	verdadeira	coragem	se	manifesta	nestas	horas.	Não	esqueça	nunca</p><p>deste	conselho	minha	filha”.	Assim,	mesmo	entediada,	manteve	o	sorriso</p><p>congelado	nos	lábios.</p><p>Ao	voltar,	o	casal	dirigiu-se	à	sala	de	jantar	aonde	seria	servido	o	almoço	e</p><p>somente	a	Baronesa	lhes	faria</p><p>companhia,	visto	o	Barão	ter	saído	a	negócios.	À</p><p>tarde	Verônica	sentou-se	na	varanda	de	seus	aposentos	e	retomou	a	rotina	de</p><p>seus	bordados.	Desta	forma	sentia-se	mais	protegida	envolvida	num	mundo	só</p><p>seu	e	a	partir	deste	dia	assim	o	fez	o	máximo	tempo	que	podia.	Quando</p><p>encontrava	a	família	podia	sentir	que	não	era	desejada	no	ambiente	e	perdia	o</p><p>apetite.</p><p>Certa	noite	ao	perder	o	sono,	desceu	até	a	cozinha	a	fim	de	tomar	um	chá	e	ouviu</p><p>o	Barão	e	a	Baronesa	a	cochichar	no	escritório.	Não	resistiu	a	curiosidade	e</p><p>como	a	porta	estava	entre	aberta	pode	ouvir	o	que	diziam.</p><p>-	Eu	não	deveria	ter	concordado	com	este	acordo,	Sr.	meu	marido!	Esta	mulher	é</p><p>uma	insossa	que	só	sabe	passar	os	dias	mergulhada	entre	leques	e	bordados	e</p><p>alheia	ao	nosso	mundo!</p><p>-	Tanto	melhor!	Desta	forma	ela	não	descobrirá	que	fizemos	um	excelente</p><p>negócio…	O	dinheiro	do	dote	que	investi	já	me	rendeu	mais	de	três	vezes	e</p><p>ainda	teremos	todo	seu	patrimônio	ao	nosso	dispor	visto	terem	se	casado	com</p><p>comunhão	de	bens.	Deixe	que	a	mosca	morta	fique	a	bordar,	é	melhor	que	se</p><p>empanturrar	de	comida	e	tornar-se	uma	baleia	como	a	Sra.!	Ao	menos	nosso</p><p>filho	tem	uma	mulher	bonita	para	exibir	à	sociedade.</p><p>-	Meu	marido,	estás	a	me	ofender!</p><p>-	Ora,	deixe	de	fricotes	mulher!	Desde	que	nos	casamos	a	Sra.	sabia	como	seria</p><p>sua	vida,	então	não	me	venha	com	chantagem	emocional.	Agora	vá	para	nosso</p><p>quarto	preparar-se	que	em	seguida	subirei	e	quero	tê-la	esta	noite.</p><p>Verônica	entre	arrependida	e	envergonhada	por	ter	ouvido	a	conversa	dos	sogros</p><p>correu	para	a	cozinha	sem	fazer	qualquer	barulho	evitando	assim	ser	descoberta.</p><p>-	Pelo	menos	Bertrand	teve	a	decência	de	não	tocar-me.	Pensou,	escondida	na</p><p>cozinha.</p><p>No	dia	seguinte,	disse	ao	marido	que	desejava	falar-lhe	a	sós.	Os	sogros	de</p><p>entreolharam	temerosos	do	teor	da	conversa	do	jovem	casal.</p><p>-	Sr.	meu	marido,	diga-me	a	verdade.	Porque	me	desposaste?	Acaso	pensou	que</p><p>eu	não	descobriria	que	seus	pais	estão	à	beira	da	falência	e	eu	seria	a	solução</p><p>para	os	problemas	financeiros	da	família?	Por	quem	me	tomas?	Por	uma	mulher</p><p>desprovida	de	inteligência	e	autoestima	como	sua	mãe?</p><p>-	Calma,	minha	esposa.	Posso	lhe	explicar	tudo	se	a	Sra.	calar-se	e	me	permitir</p><p>falar.	Seu	irmão	mais	velho,	Armand	esteve	nas	cruzadas	por	muito	tempo,	bem</p><p>sabes.	Ocorre	que	na	tentativa	de	esquecer	minha	doce	Amália,	também	me</p><p>ofereci	como	voluntário	embora	fosse	mais	jovem	e	sem	qualquer	experiência.</p><p>Devido	a	isto	não	me	colocaram	na	frente	de	batalha	e	somente	executava	tarefas</p><p>menores	como	a	de	mensageiro	e	às	vezes	cozinheiro	da	tropa.	Em	uma	ocasião,</p><p>indignei-me	com	o	descaso	com	que	era	tratado	e	decidi	seguir	a	tropa	a</p><p>distância	a	fim	de	participar	de	alguma	batalha.	Mas	o	que	vi	foi	terrível.	Os</p><p>soldados	não	somente	guerreavam	com	os	homens	mas	também	matavam</p><p>mulheres	e	crianças,	além	de	pilhar	seus	bens.	Escrevi	a	meu	pai	alegando	uma</p><p>doença	e	solicitei	que	me	retirassem	da	guerra.	Meu	pai	percebeu	a	maneira</p><p>como	voltei	pois	estava	extremamente	revoltado	com	a	igreja	e	tudo	o	que	ela</p><p>representava	e	forçou-me	a	revelar	o	ocorrido.	Passei	a	ter	pesadelos	diários	até</p><p>que	um	doutor	me	indicou	medicamentos	que	me	trouxeram	de	volta	a	realidade.</p><p>Neste	ínterim	a	Sra.	já	havia	voltado	da	França	aonde	recebera	sua	herança	e</p><p>meu	pai	comunicou-me	que	me	casaria	com	a	Sra.	Sem	entender	nada,	apenas</p><p>aquiesci.	Mas	quando	fomos	na	recepção	oferecida	por	sua	família,	reconheci</p><p>seu	irmão	entre	os	homens	abomináveis	de	meus	pesadelos.	Meu	pai	percebeu</p><p>que	Armand	não	havia	contado	a	verdade	à	família	e	chantageou	seu	pai</p><p>obrigando-o	a	dar	sua	mão	em	casamento	em	troca	do	silêncio	sobre	as	atitudes</p><p>pérfidas	de	seu	irmão.	Foi	por	isto	que	nunca	lhe	toquei.	Ambos	fomos	vítimas</p><p>da	ambição	desmedida	de	meu	pai	e	tentei	poupá-la	de	humilhação	maior.</p><p>Verônica	às	lágrimas	não	tinha	palavras	para	descrever	o	asco	que	sentia	por</p><p>toda	a	família,	mas	sentiu	comiseração	por	Bertrand	e	decidiu	manter	aquela</p><p>farsa	desde	que	ele	jamais	a	toca-se.	Comunicou	que	passaria	algum	tempo	na</p><p>Inglaterra	em	visita	ao	pai	e	irmãos	e	que	ele	não	tentasse	detê-la.</p><p>E	assim	foi	feito,	em	dois	dias	Verônica	estava	no	Solar	na	companhia	da	família</p><p>e	procurava	o	melhor	momento	para	ter	com	o	pai.	Já	não	possuía	mágoa	dele,</p><p>afinal,	se	todos	soubessem	das	atrocidades	do	irmão	o	prejuízo	do	nome	da</p><p>família	seria	demasiado	e	oferecê-la	em	sacrifício	seria	a	menor	das	dores.</p><p>Embora	não	tivesse	filhos,	tentou	colocar-se	no	lugar	do	pai	e	perdoou-o.</p><p>Quando	teve	oportunidade	de	ficar	a	sós	com	o	pai,	limitou-se	a	dizer:	-	Meu	pai,</p><p>imagino	o	sofrimento	que	instalou-se	em	seu	coração	ao	ter	que	escolher	entre	o</p><p>sacrifício	de	sua	filha	pelo	bem	do	nome	da	família.	Quero	que	saibas	que	já	o</p><p>perdoei	e	que	manterei	minha	promessa	de	respeitar	e	honrar	meus	votos	do</p><p>matrimônio.	Faço	isto	porque	vi	nos	olhos	de	Armand	e	Bella	o	amor	que	um	dia</p><p>senti	e	que	me	fora	arrancado.</p><p>O	pai	abraçou-se	a	filha,	chorando	copiosamente,	envergonhado	pela	filha	ter</p><p>descoberto	sua	fraqueza,	mas,	ao	mesmo	tempo,	agradecia	a	Deus	pela	dignidade</p><p>com	que	ela	estava	encarando	toda	aquela	situação.</p><p>Após	o	pai	acalmar-se,	Verônica	continuou:	-	Papai,	agora	temos	que	tomar</p><p>providências	para	que	o	Barão	não	delapide	todo	nosso	patrimônio.	A	fazenda	de</p><p>tio	Jean	Paul	é	enorme	e,	com	certeza,	ele	aceitaria	criar	alguns	cavalos	nossos.</p><p>Façamos	assim,	o	Sr.	é	exímio	conhecedor	de	puros-sangues.	Encontre	alguns	e</p><p>mande-os	para	lá.	Eu	mesma	falarei	com	meu	tio,	e	ele	há	de	nos	apoiar.</p><p>Também,	Armand	e	Bella	em	seguida	se	casarão	então	compre	uma	bela	casa</p><p>para	ambos,	de	preferência	em	outro	país,	para	que	o	barão	perca	o	trunfo	que	o</p><p>levou	a	chantageá-lo.	Ah,	obras	de	arte.	Emanuelle	tem	gosto	bastante	apurado.</p><p>Sugira	acompanhá-la	em	leilões	e	arremate	as	mais	valiosas.	Todo	o	valor	que</p><p>investirmos	em	nossa	família	estarão	a	salvo	das	garras	daquele	abutre	e	sua</p><p>esposa.</p><p>E	assim	foi	feito.	É	obvio	que	fora	gasto	uma	grande	quantia	em	dinheiro,	mas</p><p>ficou	por	conta	da	idade	de	Jean	Jaques	que	supostamente	mostrara	sinais	de</p><p>senilidade.</p><p>Quanto	à	vida	de	Verônica,	convenceu	o	marido	a	adquirirem	sua	própria</p><p>mansão	e	quanto	mais	longe	dos	sogros,	melhor.	Bertrand	acabou	por	admitir</p><p>que	embora	a	esposa	fosse	totalmente	diferente	da	falecida,	era	uma	mulher</p><p>astuta	e	forte.	Adquiriram	um	chalé	não	muito	longe	de	paris,	mas	o	suficiente</p><p>para	evitar	a	presença	diária	do	casal.	Ela	própria	escolheu	o	imóvel	e	optou	pelo</p><p>que	tivesse	uma	varanda	com	vista	para	o	lago.</p><p>O	Barão	suspeitava	que	a	nora	descobrira	a	verdade	e	estava	protegendo	o</p><p>patrimônio	da	família	agindo	daquela	forma,	mas	não	podia	provar	nada	e	muito</p><p>menos	questioná-la.	Aos	poucos,	Bertrand	e	Verônica	tornaram-se	amigos	e	a</p><p>convivência	entre	ambos	era	pacífica	e	prazerosa.</p><p>Assim,	o	tempo	foi	se	encarregando	de	diminuir	a	mágoa	e	rancor	do	coração	de</p><p>Verônica.</p><p>Após	adquirir	quase	todas	as	espécies	de	orquídeas	da	loja,	a	Sra.	Vilenev	tomou</p><p>todas	as	providências	para	a	construção	de	um	orquidário.</p><p>No	jantar,	contou	ao	marido	de	suas	providências	e	o	mesmo	com	o	olhar</p><p>distante	mal	lhe	deu	atenção.</p><p>-	Bertand,	o	que	houve,	não	está	me	ouvindo?	Julguei	que	ficaria	feliz	com	as</p><p>novas	que	lhe	trago.</p><p>-	Verônica,	meu	pai	está	muito	doente.	Fui	comunicado	esta	tarde.	Talvez	tenha</p><p>que	cancelar	seus	planos,	pois	não	sabemos	o	que	o	futuro	nos	reserva.	Com</p><p>licença,	estou	sem	apetite.	Vou-me	deitar.	Boa	noite.</p><p>Sem	sequer	ter	tempo	de	responder,	viu	o	marido	pelas	costas	com	o	corpo</p><p>arquejado	pelo	sofrimento	da	notícia	recém-recebida.</p><p>No	dia	seguinte,	os	materiais	para	a	construção	do	orquidário	chegaram	e	os</p><p>profissionais	começariam	a	construção	imediatamente.	Verônica	estava	decidida</p><p>que	não	abriria	mão	de	seus	objetivos	devido	à	doença	do	sogro	que	nem	sabia</p><p>ser	verdade.	Além	do	mais,	o	mesmo	não	fora	honesto	consigo	e	ainda	guardava</p><p>mágoa	do	ardil	do	pai	de	seu	marido.</p><p>Em	dois	dias	a	obra	estava	pronta	e	as	mudas	puderem	ser	entregues	a	fim	de</p><p>que	a	dona	da	casa	cuidasse	pessoalmente	das	tão	delicadas	flores,	desde	o</p><p>plantio.	Os	dias	seguintes	passaram	muitíssimo</p><p>rápido	devido	a	entrega	de	todo</p><p>o	tempo	ao	seu	projeto.	Agradecida	a	Deus	por	ter	resistido	e	não	procurado</p><p>visitar	Carl,	Verônica	só	deixava	o	ambiente	para	as	refeições	e	em	seguida</p><p>retomava	a	tarefa.	Na	tarde	seguinte,	o	marido	chega	em	casa	mais	cedo	com	o</p><p>cenho	fechado.</p><p>-	O	que	houve	Bertrand?	Conte-me	o	aconteceu?</p><p>-	Meu	pai	acaba	de	falecer.	Arrume	nossas	malas.	Vamos	imediatamente	para	a</p><p>residência	de	meus	pais.</p><p>Ao	chegar	ao	castelo	dos	Vilenev,	dezenas	de	pessoas	já	se	encontravam</p><p>presentes	para	o	velório	que	ocorreria	em	uma	das	salas	do	mesmo.</p><p>Flores	chegavam	de	todas	as	partes	como	uma	última	homenagem	a	tão</p><p>importante	figura	europeia.</p><p>A	baronesa	só	fazia	chorar	e	seus	pequenos	olhos	estavam	inchados	pelo	pranto.</p><p>O	Barão	de	Vilenev	há	muito	sofria	de	problemas	cardíacos,	porém	mantinha	a</p><p>doença	em	segredo	devido	à	vaidade.	Para	um	homem	como	ele	reconhecer	uma</p><p>doença	seria	como	demonstrar	ao	mundo	sua	fragilidade	e	ele	jamais	o	faria.</p><p>Somente	alguns	dias	antes	do	infarto	fulminante	o	filho	descobriu	porque	ao</p><p>almoçar	com	o	pai	o	mesmo	sentiu	fortes	dores	no	peito	e	um	médico	socorreu-o</p><p>no	próprio	restaurante.</p><p>Os	Bordeaux	chegaram	a	tempo	de	se	despedirem	do	Barão	e	Verônica	pôde</p><p>rever	o	pai	e	os	irmãos.	Mantinham	contato	por	cartas	porém	o	sistema	de</p><p>comunicação	precário	da	época	não	permitia	que	as	missivas	fossem	mais</p><p>frequentes.	A	última	estada	de	Verônica	na	casa	do	pai	fora	por	ocasião	do</p><p>nascimento	da	sobrinha	Sophie,	filha	de	Christofer	e	Emanuelle.</p><p>Após	os	funerais,	Bertrand	trancou-se	com	a	mãe	no	escritório	por	horas	e</p><p>Verônica	sequer	suspeitava	o	motivo.	Por	fim,	Bertrand	saiu	do	escritório,	tomou</p><p>a	mão	da	esposa	convidando-a	a	irem	embora.	A	nora	não	pode	ao	menos</p><p>despedir-se	da	sogra	tamanha	a	pressa	do	marido.	Devido	à	intempestividade	da</p><p>atitude	do	marido,	ainda	na	carruagem	para	casa,	a	esposa	sentia	o	rosto	em</p><p>brasa	embora	julgasse	que	já	havia	se	libertado	de	tais	sintomas.	Agitando	o</p><p>leque	com	vigor,	observava	a	paisagem	evitando	assim	de	dirigir	a	palavra	ao</p><p>marido	que	parecia	enfurecido.</p><p>Chegaram	em	casa	exaustos	e	foram	ambos	para	seus	aposentos	balbuciando</p><p>apenas	um	“Boa	noite”.</p><p>Na	manhã	seguinte,	quando	Verônica	desceu	para	o	café	da	manhã	o	marido</p><p>estava	a	sua	espera	na	sala,	com	ares	de	uma	noite	mal	dormida.</p><p>-	Precisamos	conversar	seriamente.	Com	a	morte	de	meu	pai	assumirei	seus</p><p>negócios	e	seu	título,	mesmo	contra	minha	vontade.	Nos	próximos	dias	nos</p><p>mudaremos	para	a	casa	de	minha	mãe	e	pretendo	colocar	esta	casa	à	venda.</p><p>-	Não!	Quase	gritou	a	esposa.	Esta	casa	não	pode	ser	vendida.	Não	sei	o	que</p><p>você	e	sua	mãe	tanto	conversaram	ontem,	mas	não	posso	ser	prejudicada	mais	do</p><p>já	fui	com	este	casamento.	Pondere	Bertrand.</p><p>-	Você	não	sabe	de	nada	mesmo.	Não	tem	ideia	dos	compromissos	que	meu	pai</p><p>me	deixou.	Deixou-me	um	título	de	nobreza	e	dívidas.	Muitas	dívidas!	Se</p><p>preferir	deixemos	o	assunto	da	casa	para	depois,	mas	ainda	esta	semana	iremos</p><p>embora	daqui.	A	propósito,	daqui	para	frente	a	tratarei	como	deveria	tê-lo	feito</p><p>desde	nosso	casamento,	Sra.	minha	esposa	e	espero	da	Sra.	igual	tratamento.</p><p>Girou	os	calcanhares	e	saiu	sem	ao	menos	despedir-se.</p><p>Verônica	pressentia	que	um	período	muito	ruim	começaria	em	sua	vida	dali	para</p><p>frente.</p><p>A	vontade	do	marido	fora	feita	e	em	poucos	dias	estavam	alojados	no	castelo	do</p><p>Barão,	em	acomodações	separadas	ao	menos.	No	primeiro	dia	após	o	almoço	a</p><p>sogra	veio	ter	com	a	nora.</p><p>-	Vim	informar-lhe	que	amanhã	será	a	cerimônia	aonde	meu	filho	receberá	da</p><p>Rainha	o	título	que	pertencera	a	seu	pai	e	EU	continuarei	sendo	a	Baronesa</p><p>entendeu?	Não	pense	que	é	bem-vinda	nesta	casa.	Somente	a	aceitei	para</p><p>garantir	a	transmissão	do	título	a	meu	filho.	Ele	administrará	nosso	patrimônio	e</p><p>você	será	apenas	uma	peça	de	decoração	nesta	casa.	Aliás,	procure	manter-se</p><p>invisível	a	meus	olhos,	pois	quanto	menos	vê-la,	melhor	será	para	nós	duas.</p><p>Estamos	entendidas?</p><p>-	Não,	não	estamos	entendidas.	Meu	casamento	com	seu	filho	foi	uma	farsa</p><p>armada	pela	Sra.	e	seu	marido	e	naquele	momento	seu	filho	foi	tão	vítima	quanto</p><p>eu.	Hoje	percebo	que	Bertrand	compactua	com	a	Sra.	os	mesmos	valores	de</p><p>vaidade	e	egocentrismo,	porém	eu	jamais	participarei	disto.	Fui	forçada	a	viver</p><p>nesta	casa	sob	o	mesmo	teto	que	a	Sra.	mas	saiba	que	sua	enorme	presença	me	é</p><p>extremamente	desagradável.	Neste	caso,	farei	o	possível	para	não	vê-la	porque</p><p>EU	não	desejo	e	NÃO	porque	a	Sra.	quer.	Com	sua	licença,	vou	visitar	minha</p><p>prima	na	fazenda.	Ah,	já	ia	me	esquecendo,	vocês	não	armaram	meu	casamento</p><p>com	Bertrand	somente	para	garantir	o	título	de	barão	mas	também	pelos	meus</p><p>bens,	neste	caso,	um	mínimo	de	respeito	a	Sra.	deve	a	mim,	não	se	esqueça.</p><p>Agora	sim	estamos	conversadas.</p><p>A	caminho	da	fazenda	do	tio,	Verônica	tremia	da	cabeça	aos	pés	espantada	com</p><p>a	própria	coragem	de	enfrentar	a	matrona	daquela	maneira.	Mas	não</p><p>arrependera-se	de	nenhuma	palavra.	Sabia	que	a	vida	naquele	palácio	seria	um</p><p>inferno,	mas	enfrentaria	com	dignidade	como	sempre	o	fez.</p><p>Após	abraçar	a	prima	e	o	tio	foi	ver	a	tia	adoentada	em	seus	aposentos.	Em</p><p>seguida	pediu	um	favor	ao	tio:	“-	Acaso	meu	tio	teria	espaço	suficiente	em	seu</p><p>pasto	para	mais	alguns	animais?”</p><p>-	Claro,	querida.	Nos	últimos	anos	ampliei	a	área	de	pastagem	para	dar	melhor</p><p>qualidade	de	vida	aos	animais,	afinal,	eles	são	espécimes	valiosíssimos.	Mas</p><p>porque	deseja	adquirir	mais	animais?	Já	tem	vários…</p><p>A	sobrinha	contou	ao	tio	dos	últimos	acontecimentos	e	homem	de	negócios</p><p>esperto	como	era,	concordou	plenamente	com	a	sobrinha.</p><p>-	Não	se	preocupe,	a	pequena	Sophie	será	proprietária	das	melhores	éguas	do</p><p>mundo	e	quando	crescer,	saberá	da	coragem	e	sabedoria	da	tia	e	espero	que	ela</p><p>herde	suas	qualidades	também.</p><p>E	com	abraço	apertado,	tio	e	sobrinha	selaram	mais	um	segredo	e	prova	de</p><p>amizade	e	confiança.</p><p>Meu	tio,	não	gostaria	de	abusar	de	sua	generosidade,	mas	poderia	emprestar-me</p><p>a	carruagem	e	eu	cocheiro?	Preciso	ir	ao	hospital,	afinal	faz	um	ano	que	o	Sr.</p><p>Murphy	está	em	coma.</p><p>Claro	minha	querida,	apesar	de	ser	sabedor	de	seus	sentimentos	pelo	Sr.	Murphy,</p><p>você	sempre	se	mostrou	uma	esposa	digna	e	correta	e	sua	atitude	em	ir	vê-lo	não</p><p>mudará	esta	realidade.</p><p>Ao	chegar	no	quarto	do	paciente,	a	visitante	é	tomada	de	surpresa	ao	encontrar</p><p>oura	pessoa	à	visitá-lo.</p><p>Avalia	a	aparência	do	amado	(que	infelizmente	mantinha-se	inalterada)	e</p><p>somente	então,	dirige	a	palavra	a	visitante.</p><p>-	Posso	saber	o	que	a	sra	está	fazendo	aqui?	Acaso	não	sabe	que	o	Sr.	Murphy</p><p>está	em	estado	de	coma	há	mais	de	um	ano?	Ou	esperava	encontrá-lo</p><p>restabelecido	para	tentar	dar-lhe	outro	golpe?	Veja	bem,	não	saio	daqui	com	a</p><p>Sra.	a	fim	de	pô-la	em	seu	lugar,	porque	não	desejo	ser	vista	com	pessoa	da	sua</p><p>laia.	Agora,	queira	retirar-se	e	não	retorne	mais	aqui!</p><p>-	Para	uma	mulher	casada	a	Sra.	parece	muito	preocupada	com	o	nosso	amigo</p><p>aqui…	Somente	soube	do	estado	de	Carl	há	alguns	dias	e	senti	necessidade	de</p><p>ver	com	meus	próprios	olhos	o	seu	estado	de	saúde.	Não	deveria,	mas	vou-lhe</p><p>revelar	que	meu	amante	me	abandonou.	Foi	para	a	América,	estas	novas	terras</p><p>descobertas	por	Christóvão	Colombo.	Disse	que	lá	todos	tem	a	oportunidade	de</p><p>enriquecer	e	ambicioso	como	é,	foi-se	à	procura	de	nova	sorte.	Quanto	a	mim,</p><p>fiquei	absolutamente	sozinha,	visto	que	os	antigos	amigos	de	Carl	me	conhecem</p><p>muito	bem	e	não	tenho	a	menor	chance	com	qualquer	um	deles.	Vou-me	embora</p><p>porque	já	vi	o	que	precisava	e	a	propósito,	a	Sra,	não	pode	me	impedir	de	visitá-</p><p>lo	quantas	vezes	eu	desejar,	até	porque	acredito	que	seu	marido	não	ficaria	feliz</p><p>em	saber	que	a	dedicada	esposa	sai	de	casa	furtivamente	e	vem	para	um	hospital</p><p>velar	por	um	quase	moribundo…</p><p>-	Agora	chega!	Saia	daqui	imediatamente,	antes	que	eu	esqueça	que	sou	uma</p><p>dama.</p><p>-	Adeusinho	Sra.	Vilenev…</p><p>Verônica	bufava	de	raiva,	mas	não	perdera	totalmente	o	controle	na	frente	da</p><p>mundana,	mas	realmente	fora	muita	falta	de	sorte	encontrá-la.</p><p>Sentou-se	á	beira	da	cama	e	tomou	a	mão	do	amado	e	pôs-se	a	conversar	como</p><p>antigamente.</p><p>-	Meu	amor,	porque	a	vida	nos	separou	desta	maneira?	Às	vezes	creio	ser	melhor</p><p>que	estejas	neste</p><p>estado,	assim	não	sofres	como	eu.</p><p>O	Dr.	Gilbert	entra	no	quarto	neste	instante	e	penaliza-se	da	mulher	que	apesar</p><p>de	tudo	o	que	passou	(fora	informado	por	Madeleine	sobre	o	casamento</p><p>forçado),	manteve-se	firme	e	fiel	ao	seu	amor.	Chegou	a	desistir	de	revelá-la	o</p><p>motivo	que	o	levou	ao	quarto,	mas	de	nada	adiantaria	adiar	as	má	notícias.</p><p>-	Srta.,	oh	me	perdoe,	não	sei	como	chamá-la	agora.	Sra.	temo	lhe	transmitir	más</p><p>notícias.	O	resultado	dos	últimos	exames	neurológicos	que	realizamos	no</p><p>paciente	não	foram	nada	positivos,	visto	que	o	mesmo	apresentou	sinais	de</p><p>piora.	Seu	cérebro	está	definhando	a	cada	dia	e	se	este	processo	continuar,</p><p>rapidamente	terá	morte	cerebral	e	nada	mais	poderemos	fazer.	Fiquei	muito	feliz</p><p>quando	soube	que	conseguiu	vir	até	aqui,	pois	de	certa	forma,	julgo	que	esta</p><p>piora	foi	devido	a	sua	falta.	Mas,	veja	bem,	sei	que	hoje	é	uma	mulher	casada	e</p><p>que	não	poderá	vir	com	tanta	frequência	visitá-lo.	Mas	não	se	sinta	culpada,	no</p><p>estado	dele	acho	até	um	milagre	ter	sobrevivido	até	agora	e	se	o	fez,	com</p><p>certeza,	foi	por	sua	causa.	Fique	quanto	tempo	puder	e	quiser	e	se	preferir</p><p>podemos	nos	corresponder	para	que	mantenha-se	informada	do	quadro	clínico	de</p><p>nosso	amigo.</p><p>-	Obrigada	Dr.,	por	sua	honestidade	para	comigo,	mas	eu	acredito	em	milagres	e</p><p>tenho	certeza	que	um	dia	Carl	acordará	e	ainda	seremos	felizes	juntos.</p><p>-	Você	ouviu	querido?	O	médico	me	disse	que	você	sentiu	minha	falta.	Fico	tão</p><p>feliz!	Oh,	meu	amor,	quanta	saudade	senti	de	você	e	até	deste	lugar…	Mas</p><p>prometo-lhe	que,	apesar	de	não	poder	vir	diariamente	como	outrora,	virei	sempre</p><p>que	puder.	Jamais	lhe	abandonarei,	meu	amor.	Agora,	vou-me.	Já	me	demorei</p><p>demais.	Até	logo.</p><p>Deu-lhe	um	beijo	na	testa	e	saiu	tentando	não	pensar	no	que	o	médico	lhe	disse.</p><p>Já	na	fazenda,	combinaram	que	Madeleine	iria	com	ela	para	casa,	usando	a</p><p>desculpa	que	as	duas	esqueceram-se	do	tempo	passeando	e	conversando.	E	assim</p><p>fizeram.	O	marido	porém,	não	havia	chegado	ainda	e	a	sogra	estava	na	cozinha</p><p>se	empaturrando	de	guloseimas	e	sequer	percebera	sua	chegada.</p><p>Nesta	noite	não	conseguira	dormir,	relembrando	a	ameaça	velada	que	Lisa	May</p><p>fizera.	-	“E	se	ela	contar	para	alguém	nosso	encontro	no	hospital?	E	se	passar	a</p><p>me	chantagear?	Como	ficarei	livre	desta	mulher,	meu	Deus?!”</p><p>Na	manhã	seguinte,	o	marido	chamou-a	ao	escritório	a	fim	de	terem	uma</p><p>conversa	privada.	Seus	joelhos	tremiam	e	quase	não	conseguia	se	equilibrar</p><p>sobre	as	pernas.</p><p>-	Sra.	minha	esposa,	temos	um	assunto	de	extrema	urgência	a	tratar.	A	Sra.	sabe</p><p>que	tenho	sido	um	bom	marido,	atencioso	e	até	mesmo	adiei	a	venda	de	nossa</p><p>casa	a	seu	pedido	na	intenção	de	agradá-la.	Mas	hoje,	parece-me	que	fiz	tudo</p><p>errado.	Deveria	tê-la	tratado	como	meu	pai	o	fazia	com	minha	mãe,	assim	quem</p><p>sabe	a	Sra.	seria	mais	obediente	e	nada	faria	às	minhas	costas!</p><p>Neste	momento,	Verônica	lembrou-se	de	um	conselho	da	avó:	“Querida,	às</p><p>vezes,	o	ataque	é	a	melhor	defesa!”</p><p>-	Não	estou	entendendo	aonde	quer	chegar	Sr.	meu	marido?	Não	basta	eu	viver</p><p>praticamente	enclausurada	com	sua	mãe	nesta	casa?	O	Sr.	acaso	tem	ideia	das</p><p>ofensas	que	diariamente	ela	me	obriga	a	ouvir?	Não	há	nada	que	eu	faça	que</p><p>possa	desabonar	minha	conduta	enquanto	sua	esposa,	porém	o	mesmo	não	se	dá</p><p>com	sua	pessoa	que	não	tem	horário	certo	para	voltar	para	casa,	recebe	missivas</p><p>e	as	esconde	para	que	eu	não	as	veja	e	frequentemente	ouço	seus	passos	durante</p><p>a	noite	quando	perde	o	sono.	Acaso	para	ser	feliz	o	Sr.	deseja	que	eu	me	una	a</p><p>sua	mãe	na	cozinha	e	me	ponha	a	comer	o	dia	inteiro	até	ficar	desfigurada	como</p><p>ela?	Vamos,	diga-me,	do	que	me	acusas?</p><p>-	Vejo	que	a	Sra.	não	dormiu	bem	esta	noite,	pois	está	com	um	humor	terrível.</p><p>Bem,	o	assunto	que	gostaria	de	dividir	consigo	é	que	a	Sra.,	sabedora	de	nossa</p><p>situação	financeira,	eu	total	liberdade	financeira	a	seu	pai	e	o	mesmo	está</p><p>gastando	a	rodos.	Comprou	uma	mansão	para	Armand,	ampliou	em	3	vezes	a</p><p>própria	empresa	e	adquiriu	vários	cavalos	raros,	sem	falar	nos	quadros	que	vem</p><p>arrematando	nos	leilões!	Ora,	veja	bem,	não	estamos	em	condições	de	fazer</p><p>tantas	extravagâncias!</p><p>Após	um	suspiro	de	alívio,	pode	contra	argumentar	calmamente…</p><p>-	Sr.	meu	marido,	sempre	soube	que	seu	pai	armou	nosso	casamento	devido	a</p><p>fortuna	de	minha	família.	Eu	me	entreguei	em	sacrifício	pela	honra	de	meu</p><p>irmão,	mas	eu	não	posso	tratar	meu	pai	como	uma	criança	e	proibi-lo	de	realizar</p><p>seus	sonhos	porque	o	caça-níqueis	do	meu	marido	não	permite!	Aliás,	as	posses</p><p>de	MINHA	família	podem	ser	administradas	por	meu	pai	e	se	isto	lhe	incomoda,</p><p>paciência.	Ora,	Sr.	meu	marido,	se	o	fim	do	mundo	estiver	próximo,	o	Sr.	me</p><p>acusará	de	ser	a	culpada!	Era	só	o	que	faltava!	Agora,	queira	dar-me	licença,</p><p>pois	desejo	bordar	em	meu	quarto.	Bom	trabalho	Sr.	meu	marido.</p><p>E	subiu	as	escadas	com	um	sorriso	de	vitória	nos	lábios…</p><p>À	tarde,	com	a	desculpa	de	que	necessitava	de	mais	materiais	para	seus</p><p>bordados,	a	Sra.	Vilenev	vai	à	loja	do	Sr.	Sautier	e	após	algumas	palavras	ambos</p><p>se	dirigem	ao	escritório	no	andar	superior.</p><p>-	Bem	Sr.	Jonhson,	vou	direto	ao	assunto,	pois	preciso	resolver	um	problema</p><p>com	certa	urgência	e	creio	ser	o	Sr.	é	a	única	pessoa	que	pode	auxiliar-me	neste</p><p>momento.	Quando	do	relatório	que	me	apresentou	há	mais	de	um	ano,	o	Sr.	citou</p><p>o	nome	de	uma	tal	de	Lisa	May	e	seu	amante	pianista,	lembra-se?	Ocorre	que</p><p>segundo	consta,	o	tal	músico	foi-se	para	a	América	e	abandonou	a	tal	mulher.</p><p>Ontem	eu	a	encontrei	em	uma	situação	um	tanto	delicada	e	a	mesma	fez-me	uma</p><p>ameaça	velada.	Na	posição	em	que	me	encontro	hoje,	não	posso	ficar	a	mercê	de</p><p>uma	mundana.	Então,	racione	comigo,	se	o	amante,	que	é	extremamente</p><p>ambicioso,	receber	uma	proposta	de	emprego	e	ganhe	uma	boa	quantia	em</p><p>dinheiro,	quantia	esta	suficiente	para	levar	sua	parceira	até	ele	e	ambos	viverem</p><p>até	com	um	certo	conforto,	a	mesma	não	se	recusará	em	acompanhá-lo,	concorda</p><p>comigo?</p><p>-	Sra.	Vilenev,	se	acaso	algum	dia	necessitar	de	um	emprego,	com	certeza	a</p><p>contratarei	como	minha	assistente.	A	Sra.	é	brilhante!	Mas	diga-me,	como	vamos</p><p>entregar	esta	quantia	ao	músico	na	América?</p><p>-	Ah,	pois	é	aí	que	o	Sr.	entra	em	meus	planos.	Não	posso	afastar-me	da	Europa,</p><p>tampouco	tenho	conhecimento	do	sub-mundo,	então	o	Sr.	com	sua	perspicácia</p><p>vai	encontrar	uma	maneira	de	colocar	meu	plano	em	prática,	por	uma	boa</p><p>quantia,	obviamente.</p><p>-	Considere	feito.	Traga-me	o	valor	que	deseja	enviar	à	América	e	assim	que	a</p><p>meretriz	embarcar	mandarei	avisá-la	para	que	venha	pagar	meus	honorários.</p><p>Assim	ficamos	combinados.</p><p>-	Mais	uma	vez,	foi	um	prazer	realizar	negócios	com	o	Sr.,	Sr.	Jonhson!</p><p>Ao	chegar	em	casa	com	vários	pacotes,	quase	esbarra	na	sogra	no	andar	superior</p><p>da	casa	e	não	pode	deixar	de	ser	irônica:	-	“Minha	sogra,	o	que	está	a	fazer	nesta</p><p>ala	da	casa?	Acaso	esqueceu-se	que	a	cozinha	é	no	andar	de	baixo?”	E	entrou	em</p><p>seu	quarto	antes	que	a	sogra	tivesse	tempo	de	responder.	A	matrona	sentiu-se</p><p>aliviada	pela	nora	não	tê-la	surpreendido	remexendo	em	seus	pertences	a	fim	de</p><p>encontrar	algumas	joias	para	vendê-las.</p><p>Cerca	de	um	mês	após	este	episódio,	Verônica	recebe	uma	missiva	do	Dr.</p><p>Gilbert.:</p><p>-	Sra.	Vilenev,	preciso	falar-lhe	com	urgência.</p><p>Na	mesma	hora,	chama	o	cocheiro	e	dirige-se	ao	hospital	com	o	coração	aos</p><p>pulos,	temendo	receber	a	pior	notícia	que	poderia	suportar.	O	trecho	de	sua	casa</p><p>até	o	hospital	parecia-lhe	que	levara	horas	e	sua	aflição	só	fazia	aumentar.	Até</p><p>que	finalmente	chegando,	dirigiu-se	à	sala	do	médico.</p><p>-	Boa	tarde	Sra.Vilenev.	Vejo	que	atendeu	ao	meu	chamado	com	máxima</p><p>urgência!</p><p>-	Dr.	Não	me	deixe	nesta	agonia,	fale	o	porquê	de	seu	chamado!</p><p>-	Nos	dias	que	se	passaram	após	sua	visita	ao	meu	paciente,	percebi	seus	sinais</p><p>levemente	alterados	e	decidi	realizar	novos	exames.	Ocorre	que	recebi	o</p><p>resultado	hoje.	Os	danos	em	seu	cérebro	estão	regredindo	e	a	partir	de	agora</p><p>assim	como	a	Sra.	passarei	a	crer	em	milagres.	O	Sr.Murphy	ainda	está</p><p>desacordado,	mas	acredito	que	em	pouco	tempo,	se	recuperará	do	coma.</p><p>Continuemos	rezando,	porque	agora	sei	que	não	basta	ser	o	melhor	médico	do</p><p>mundo,	a	vontade	de	Deus	sempre	prevalecerá.</p><p>-	Oh	Dr.	que	felicidade!	E	abraçou-se</p><p>ao	médico	emocionada!	Posso	vê-lo?</p><p>-	Sim,	mas	não	se	demore.	Não	desejo	que	ele	tenha	emoções	muito	fortes.</p><p>Verônica	entrou	no	quarto	pé	ante	pé,	procurando	fazer	o	menor	som	possível	e</p><p>quando	avistou	a	figura	do	amado,	já	com	as	faces	mais	coradas,	não	resistiu	e</p><p>caiu	em	pranto	solto,	agradecendo	aos	céus	pela	recuperação	de	seu	amor.</p><p>Sentou-se	a	seu	lado,	pegou	em	sua	mão	e	assim	se	deixou	ficar	até	ficar</p><p>sonolenta.	Quando	já	se	sentia	vencida	pelo	sono,	sentiu	um	leve	roçar	na</p><p>própria	mão.	Julgou	ser	efeito	do	sono	e	pisou	várias	vezes	na	intenção	de</p><p>espantá-lo,	quando	sentiu	novamente	e	fixou	o	olhar	na	mão	de	Carl	que</p><p>lentamente	roçava	seu	dedo,	como	um	afago.	Chamou	a	enfermeira</p><p>imediatamente	e	em	poucos	minutos	o	médico	estava	a	seu	lado	a	fim	de</p><p>constatar	que	finalmente,	após	um	ano	e	meio,	Carl	Murphy	saíra	do	estado	de</p><p>coma.</p><p>-	Sra.	Vilenev,	-	disse	o	Dr.	-	“Agora	a	equipe	médica	precisa	realizar	alguns</p><p>exames	no	paciente	a	fim	de	verificar	possíveis	sequelas	neuronais	de	um	coma</p><p>tão	longo.	Peço-lhe	que	se	vá	e	em	breve	lhe	mandarei	notícias”.</p><p>Embora	desejasse	permanecer	ao	lado	do	amado,	aquiesceu	à	recomendação</p><p>médica,	despediu-se	e	fora	para	casa.</p><p>Após	a	discussão	que	tivera	com	a	esposa,	o	Barão	de	Vilenev	ficara	atordoado</p><p>com	a	reação	da	mesma	e	mais	preocupado	ainda	por	não	ter	condições	de	sanar</p><p>as	dívidas	que	se	acumulavam.	Os	dias	iam	passando	e	não	conseguia	encontrar</p><p>uma	solução	para	seus	problemas.	Maldisse	ao	pai	que	obrigou-lhe	a	casar-se</p><p>com	ela	julgando	tomar	posse	de	toda	sua	fortuna;	a	mãe	que	não	tinha	pulso</p><p>firme	para	mantê-la	em	casa	a	fim	de	não	permitir	que	dilapidasse	o	próprio</p><p>patrimônio	propositadamente	para	não	ter	de	dividir	com	ele.	Maldisse	a	esposa</p><p>que	demonstrava	ser	inofensiva,	mas	era	mulher	determinada	e	irresignável	e	por</p><p>fim,	maldisse	a	si	próprio	que,	por	ambição,	rompeu	o	juramento	que	fizera	à</p><p>amada,	comprometendo-se	a	não	colocar	mulher	alguma	em	seu	lugar.	Foi	por</p><p>este	motivo	que	nunca	tocou	em	Verônica,	para,	ao	menos,	manter	seu	corpo</p><p>limpo	em	razão	da	fidelidade	com	a	falecida	e	amada	esposa.	Ao	pensar	na</p><p>mesma,	lembrou-se	de	quanta	felicidade	ambos	viveram	e	sentiu	uma	vontade</p><p>irresistível	de	encontrar-se	com	ela.	Por	fim,	decidiu	que	sua	vida	já	não	valia</p><p>nada.	Fracassara	como	filho,	marido	e	nobre.	Só	lhe	restava	uma	coisa	a	fazer.</p><p>Abriu	a	gaveta	do	escritório,	dela	retirou	uma	caixa	de	madeira	ricamente</p><p>entalhada	e	utilizou-se	da	arma	guardada	dentro	dela,	suicidando-se.</p><p>Verônica	volta	para	casa	com	a	felicidade	de	uma	criança	em	manhã	de	Natal.</p><p>Porém	bastou	a	carruagem	se	aproximar	da	residência,	percebeu	uma</p><p>movimentação	estranha.	No	caminho	que	levava	à	entrada	principal	cruzou	com</p><p>policiais	que	fizeram-na	descer.	Atordoada	questionou	o	houvera	e	o	oficial	lhe</p><p>transmitiu	a	terrível	notícia.	Segundo	ele	a	sogra	ao	`ser	informada	desmaiou	e</p><p>fora	levada	ao	hospital.	A	dama	em	estado	de	choque	agradeceu	aos	policiais	e</p><p>procurou	inteirar-se	do	paradeiro	do	corpo	para	tomar	as	providências</p><p>necessárias.	Ao	entrar	em	casa	desabou	em	sua	cama,	sem	saber	o	que	fazer.</p><p>-	Meu	Deus!	Porque	tudo	isto	aconteceu	no	mesmo	dia?	Estava	eu	tão	feliz	com</p><p>a	recuperação	de	Carl	e	no	mesmo	momento	meu	marido	se	suicida!	Acaso	não</p><p>mereço	ser	feliz?</p><p>Sem	ter	com	quem	contar,	decidiu	fazer	o	que	uma	dedicada	esposa	enlutada</p><p>faria.	Chamou	o	cocheiro	e	fora	para	Paris	providenciar	os	atos	fúnebres	do</p><p>falecido	marido.	Como	o	mesmo	era	da	nobreza,	assim	que	chegou	ao	local</p><p>aonde	estava	o	corpo,	vários	outros	da	mesma	estirpe	já	estavam	chegando	e</p><p>cada	um	ofereceu-se	para	ajudá-la,	todos	tentando	amenizar	a	dor	da	recém-</p><p>viúva.	Verônica	agradeceu	a	ajuda	dos	amigos	da	família,	mas	declarou	que</p><p>desejava	cuidar	de	tudo	sozinha.	E	assim	o	fez.</p><p>Poucas	horas	depois	o	corpo	chegou	à	casa	da	família	aonde	seria	velado	na</p><p>mesma	sala	em	fora	seu	pai.	Coroas	de	flores	chegavam	a	cada	minuto,	enviadas</p><p>por	todos	os	que	pretendiam	fazer	uma	última	homenagem	ao	Barão.	Até	os</p><p>vassalos	mandaram	uma.	-	“Coitados	–	pensou	Verônica	–	foram	explorados	por</p><p>esta	família	por	anos	e	ainda	gastaram	o	pouco	que	possuem	para	homenagear</p><p>um	tirano”.	Na	tarde	seguinte	o	corpo	do	Barão	de	Vilenev	fora	sepultado	com</p><p>todas	as	honrarias	de	um	nobre	e	até	o	Rei	disse	algumas	palavras	de	despedida.</p><p>A	viúva	sentiu-se	anestesiada	durante	todo	o	processo.	Somente	saiu	do	lado	do</p><p>falecido	marido	para	comer	algo	leve,	pois	sequer	tinha	fome	e	brevemente</p><p>retornou.	Em	sua	mente,	pensava	em	como	seria	sua	vida	dali	para	frente	e</p><p>somente	sentia-se	confortada	pelo	braço	da	prima	que	veio	a	seu	encontro	assim</p><p>que	soube	da	notícia.	Terminada	a	cerimônia,	Verônica	foi	ao	hospital	visitar	a</p><p>sogra,	porém	a	mesma	não	quis	sequer	vê-la,	julgando-a	culpada	pelo	suicídio	do</p><p>filho	e	negando-se	a	reconhecer	que	a	nora	fora	apenas	um	joguete	nas	mãos	de</p><p>sua	família.	Visto	a	sogra	ter	idade	avançada,	apresentar	vários	problemas	de</p><p>saúde	em	razão	da	obesidade	e	apresentar	sintomas	de	insanidade	devido	a	morte</p><p>do	filho,	a	nora	decidiu	transferi-la	a	uma	clínica	especializada,	aonde	a	mesma</p><p>teria	todo	tratamento	necessário,	físico	e	psicológico,	embora	cobrasse	uma</p><p>razoável	quantia	mas	neste	momento,	o	vil	metal	já	não	tinha	a	menor</p><p>importância	para	Verônica.</p><p>Hospedada	na	fazenda	do	tio,	pode	refazer-se,	além	de	dividir	com	a	prima	e</p><p>amiga	todos	os	medos,	angústias	e	dúvidas	que	lhe	perpassavam	pela	mente.</p><p>Após	alguns	dias,	voltou	ao	hospital	para	rever	seu	amado	e	surpreendeu-se	com</p><p>sua	aparência.</p><p>Por	vários	minutos	ambos	ficaram	a	olhar-se	sem	dizer	palavra	alguma	e	o</p><p>silêncio	demonstrou	tudo	o	que	ambos	desejavam	confessar	e	não	possuíam</p><p>coragem	para	fazê-lo.	A	enfermeira	entra	no	quarto	a	fim	de	retirar	a	bandeja	do</p><p>lanche	do	enfermo	e	oferece	um	copo	de	suco	gelado	à	visita.</p><p>-	Obrigada	eu	já	estou	de	saída.</p><p>Carl	deixou	que	seu	sorriso	murchasse	ao	ouvir	tais	palavras.</p><p>-	Sr.	Murphy	eu	estava	na	administração	hospital	tratando	da	transferência	de</p><p>minha	sogra	e	decidi	lhe	fazer	uma	breve	visita.	Alegra-me	vê-lo	com	tão	boa</p><p>aparência	e	creio	que	logo	estará	restabelecido.	Se	precisar	de	alguma	coisa,	um</p><p>livro	talvez,	posso	providenciar.</p><p>-	Não	se	vá	ainda	Sra.!	Ouvi	as	enfermeiras	comentando	sobre	sua	recente</p><p>viuvez	e	lamento	o	ocorrido,	meus	sentimentos.</p><p>-	Obrigada	Sr.	Murphy.	A	vida	é	assim…	uns	vêm,	outros	vão,	quem	pode</p><p>entender	os	desígnios	de	Deus,	não	é	mesmo?	Amanhã	mandarei	um	mensageiro</p><p>lhe	trazer	algumas	obras	que	já	li	e	que	tenho	certeza,	o	Sr.	apreciará.</p><p>-	É	muita	gentileza	sua	porém	com	relação	ao	livro,	prefiro	que	seja	algo	que	lhe</p><p>agrada,	talvez	assim	eu	possa	conhecê-la	melhor…</p><p>-	Perdoe-me	Sra.,	mas	não	sei	seu	nome	de	casada.</p><p>-	Vilenev.	Fui	casada	com	o	Barão	de	Vilenev.	-	Então	está	bem.	Por	hoje	devo</p><p>retirar-me.	Estimo	suas	melhoras.	Até	logo,	Sr.	Murphy.</p><p>Após	a	saída	da	mulher	amada,	Carl	sentiu-se	tão	feliz	que	sentia	o	desejo	de	sair</p><p>dançando	pelo	quarto,	tamanha	a	felicidade	lhe	arrebatava	o	coração,	porém	ao</p><p>tentar	levantar-se	suas	pernas	não	o	obedeceram	e	o	mesmo	teve	uma	queda.</p><p>Em	seguida	o	médico	veio	até	o	quarto	e	recolocou-o	na	cama.</p><p>Sr.	Murphy,	ouça-me	bem.	O	Sr.	ficou	em	coma	por	muito	tempo.	Mal	recuperou</p><p>os	movimentos	das	mãos	e	a	fala	e	além	do	mais,	sofreu	um	trauma	muito	forte</p><p>na	coluna.	Devido	a	isto	ainda	levará	um	certo	tempo	até	que	recupere	o</p><p>movimento	das	pernas.	Por	enquanto	lhe	peço	que	não	tente	mais	levantar-se</p><p>sozinho.	Quando	eu	julgar	adequado,	mandarei	alguém	para	ajudá-lo	a	fazê-lo,</p><p>estamos	combinados?</p><p>Como	uma	criança	pega	em	plena	peraltice,	limitou-se	a	balbuciar:	-	Sim	Doutor.</p><p>Ao	sair	do	quarto	do	paciente,	o	médico	reúne-se	com	sua	equipe	e	solicita</p><p>novos	exames	do	paciente.</p><p>No	dia	seguinte	ao	examiná-los,	apresenta	ares	de	derrotado	e	comunica	a</p><p>recepção	do	hospital:</p><p>-	Quando	a	Sra.	Vilenev	vier	visitar	o	Sr.	Murphy,	encaminhem-na</p><p>imediatamente	à	minha	sala,	por	favor.</p><p>Verônica	saiu	do	hospital	tentando	disfarçar	a	felicidade.	Não	ficaria	bem	uma</p><p>recém-viúva	ser	vista	com	um	sorriso,	porém	sentia	como	se	a	vida	estivesse	lhe</p><p>dando	uma</p><p>nova	chance	e	tudo	ganhou	um	novo	colorido.	Retornou	à	fazenda</p><p>admirando	a	paisagem	como	se	fora	a	primeira	vez	que	a	visse.	Ao	chegar,	o	tio</p><p>e	a	prima	estavam	ansiosos	por	notícias	e	quando	as	relatou,	ambos	ficaram</p><p>aliviados	e	assim,	após	um	longo	banho,	desceu	para	o	jantar	resplandescente.</p><p>Na	semana	seguinte	ao	chegar	ao	hospital,	a	recepcionista	informou-a	de	que	o</p><p>médico	desejava	vê-la.	Assim	Verônica	foi	até	a	sala	do	mesmo	sem	ter	ideia	do</p><p>que	poderia	querer	falar-lhe.	Após	bater	á	porta	e	receber	o	consentimento	para</p><p>entrar,	deparou-se	com	o	semblante	preocupado	do	Dr.	e	seu	coração	disparou</p><p>como	um	sinal	de	algo	muito	sério	havia	acontecido.</p><p>-	Boa	tarde	Dr.,	a	recepcionista	disse-me	que	deseja	fala-me.</p><p>-	Boa	tarde	Sra.,	sente-se	por	favor.	O	que	tenho	para	lhe	dizer	é	muito</p><p>importante	e	vou	precisar	de	sua	ajuda.	Após	sua	última	visita	o	paciente	parece</p><p>ter-se	empolgado	e	tentou	levantar-se	sozinho,	quedando-se	e	derrubando	a</p><p>cadeira	sobre	si.	Sorte	que	a	enfermeira	estava	a	passar	em	frente	a	porta	e	ouviu</p><p>o	barulho.	Pois	bem,	decidi	realizar	novos	exames	imediatamente	e	o	resultado</p><p>não	é	nada	animador.	Como	já	sabe,	no	acidente	o	Sr.	Murphy	ficou	preso	entre</p><p>as	rédeas	dos	animais	e	o	estribo	que	as	prendiam.	Ocorre	que	sua	coluna</p><p>vertebral	ficou	deveras	danificada	e	com	danos	irreversíveis.</p><p>Neste	instante	Verônica	pôs-se	a	chorar	antevendo	o	final	do	relato	médico.</p><p>-	Tenha	calma	Sra.,	já	lhe	disse	que	sua	interação	será	vital	para	a	recuperação	do</p><p>paciente.	Como	estava	dizendo,	houve	rompimento	de	várias	vértebras,	porém</p><p>julgávamos	a	princípio	que	as	lesões	fossem	apenas	superficiais	e	não</p><p>comprometem-se	os	movimentos	do	paciente,	porém	infelizmente	devo</p><p>comunicar-lhe	que	o	Sr.	Murphy	jamais	voltará	a	andar.</p><p>-	Neste	momento,	ela	abraça-se	ao	médico	aos	prantos	implora:	-	Dr.	Por	tudo	o</p><p>que	é	mais	sagrado,	diga-me	que	existe	um	tratamento	alternativo,	qualquer</p><p>coisa	que	possa	fazer	o	meu	Carl	voltar	a	andar!	Eu	pago	o	que	for	necessário</p><p>para	iniciarmos	outro	tipo	de	tratamento	mas	recupere-o	pelo	amor	de	Deus!</p><p>E	caiu	na	poltrona	chorando	copiosamente.	Pensava	nos	planos	que	fizera	na</p><p>noite	anterior,	na	expectativa	de	levar	Carl	de	volta	à	Inglaterra	e	ambos</p><p>casarem-se…	E	agora…	Seu	mundo	desabara!	Munindo-se	de	um	lampejo	de</p><p>lucidez,	consegue	questionar	ainda:	-	Ele	já	sabe?</p><p>-	Não.	Achei	que	seria	melhor	que	ele	soubesse	por	alguém	que	o	ame	e	por</p><p>quem	ele	sinta	o	mesmo,	para	melhor	aceitar	a	nova	vida.</p><p>-	Um	momento	Dr.!	O	Sr.	Murphy	e	eu	nos	conhecemos	de	longa	data	é	verdade,</p><p>mas	nunca	tivemos	nenhum	tipo	de	envolvimento.	Além	do	mais,	acabo	de	ficar</p><p>viúva	e	suas	palavras	soam-me	como	um	insulto.</p><p>-	Perdoe-me	a	falta	de	tato,	mas	o	que	a	Sra.	tenta	esconder	está	tão	estampado</p><p>em	seu	olhar	que	é	preciso	ser	muito	inocente	para	não	perceber!	E	o	mesmo</p><p>acontece	com	o	Sr.	Murphy.	Mas	tenho	uma	notícia	que	talvez	lhe	sirva	de</p><p>alívio.	Já	existe	uma	cadeira	que	foi	adaptada	para	pessoas	como	ele,	que	pode</p><p>ser	empurrada	pelo	encosto	fazendo	com	que	a	pessoa	não	fique	restrita	ao	leito</p><p>ou	tenha	que	ser	carregado	ao	colo	a	fim	de	locomover-se.	É	claro	que	como</p><p>trata-se	de	uma	tecnologia	recente	não	é	um	investimento	acessível	aos</p><p>desabonados,	mas	para	a	Sra.	tenho	certeza	que	não	representará	nenhuma</p><p>fortuna.</p><p>-	Dr.,	eu	sei	que	serei	eu	quem	vai	contar-se	a	verdade,	mas	também	preciso	estar</p><p>preparada	para	tal.	Neste	caso,	não	irei	vê-lo	hoje,	mas	voltarei	o	mais	rápido</p><p>possível.	Com	sua	licença.</p><p>A	dor	em	seu	peito	era	tamanha	que	não	importava-se	em	ser	vista	aos	prantos</p><p>por	quem	quer	que	seja.	Quase	à	saída	do	hospital	uma	enfermeira	tenta	dar-lhe</p><p>um	sedativo	ao	qual	nega-se	terminantemente.	Seu	mundo	desabara	e	ninguém</p><p>poderia	ajudá-la…	O	cocheiro	ao	ver	a	dama	naquele	estado	toma	a	liberdade	de</p><p>oferecer-lhe	ajuda,	mas	Verônica	apesar	da	dor,	apenas	agradece	ao</p><p>oferecimento,	mas	responde	que	ninguém	pode	ajudá-la.	Solidário	a	dor	da</p><p>dama,	leva-a	diretamente	á	fazenda	sem	fazer	mais	nenhum	comentário.</p><p>Madeleine	ao	ver	a	prima	naquele	estado	correu	a	abraçá-la	assim	que	desceu	da</p><p>carruagem	e	levou-a	a	seus	aposentos.	Sentou-se	na	cama	e	deixou	que	a	prima</p><p>com	a	cabeça	em	seu	colo,	chorasse	todas	as	lágrimas	que	possuía	sem	dizer</p><p>uma	palavra	sequer.	Apenas	afagava	os	cabelos	daquela	que	demonstrava	tanto</p><p>sofrimento.</p><p>Cerca	de	uma	hora	depois,	Verônica,	já	cansada	de	tanto	chorar,	senta-se	ao	lado</p><p>da	confidente	e	revela-lhe	o	ocorrido.</p><p>-	Oh	minha	querida,	eu	lamento	tanto!	Justo	agora	que	você	reconheceu	que	o</p><p>ama	verdadeiramente	e	estava	disposta	a	enfrentar	tudo	e	todos	por	este	amor!…</p><p>Olhe	para	mim,	respire	fundo	e	tente	não	chorar	mais.	Você	já	percebeu	que	esta</p><p>atitude	não	vai	ajudar	a	Carl	além	de	prejudicá-la	também.	Não	gere	um</p><p>problema	maior	do	que	o	que	já	existe,	isto	não	faz	o	seu	gênero.	Aonde	está	a</p><p>mulher	forte	que	conheço	e	a	quem	Carl	evidentemente	ama?</p><p>-	Desculpe	Madeleine,	mas	eu	precisava	desabafar	toda	minha	dor	e	acho	que</p><p>você	é	a	pessoa	mais	bondosa	com	quem	já	convivi.	Você	tem	toda	razão.</p><p>Preciso	ser	forte	para	transmitir	esta	força	à	Carl	que,	com	certeza,	sofrerá	por</p><p>demais	com	a	notícia.	Estarei	lá,	segurando	sua	mão	para	provar	que	continuarei</p><p>ao	seu	lado	da	mesma	forma.</p><p>À	noite,	sonhou	novamente	com	a	mãe	e	a	avó,	mas	pela	manhã	não	conseguia</p><p>lembrar-se	do	sonho,	por	mais	que	forçasse	a	memória.	Mas,	por	alguma	razão</p><p>que	não	saberia	explicar,	acordou	com	uma	serenidade	que	não	imaginava	poder</p><p>sentir.</p><p>Após	o	almoço,	vestiu-se	e	foi	ao	hospital.	Ao	lado	de	fora	da	porta	principal,</p><p>parou,	estufou	o	peito	e	disse	à	si	mesma	-	“Verônica	Bordeaux,	você	herdou	a</p><p>coragem	de	sua	mãe	e	a	força	de	sua	avó,	então	vá	até	lá	e	faça	o	que	há	de	ser</p><p>feito”!	Ergueu	a	cabeça	e	dirigiu-se	ao	quarto	do	paciente.	Com	um	buquê	de</p><p>flores	as	mãos,	adentrou	vagarosamente	ao	quarto	aonde	o	enfermo	dormia.</p><p>Após	depositar	as	flores	em	uma	vaso,	sentou-se	confortavelmente	em	frente	a</p><p>janela	apreciando	a	vista	que	mais	lhe	parecia	uma	pintura.	Assim	deixou-se</p><p>levar	livremente	pela	liberdade	dos	pensamentos.	“Meu	Deus,	quanta	beleza!	Eu</p><p>que	sempre	admirei	as	flores,	hoje	vejo	que	na	verdade,	até	hoje,	não	me</p><p>apercebera	de	tamanha	a	beleza	que	o	Senhor	nos	proporciona	todos	os	dias!	E	já</p><p>que	o	Senhor	tudo	criou,	tudo	sabe	e	tudo	vê,	peço-lhe,	se	existe	alguma	chance</p><p>de	cura	para	meu	amado,	mostre-a,	se	não,	que	eu	tenha	forças	para	que	possa</p><p>dividi-la	com	ele”!</p><p>Ouviu	um	pequeno	gemido	e	olhar	para	a	cama,	pôs-se	a	admirar	o	homem</p><p>amado.	Assim,	quando	Carl	despertou	a	primeira	imagem	que	viu	foram	os	olhos</p><p>cheios	de	amor	da	mulher	amada.</p><p>-	A	Sra.	veio	me	ver!	Senti	muito	medo	que	não	mais	retornasse.	Porém	agora,</p><p>seus	olhos	acabaram	de	me	dizer	tudo	o	que	eu	mais	desejava	ouvir.	Que	me	ama</p><p>assim	como	eu	a	amo!</p><p>-	Sim	Sr.	Murphy.	Amo-o	desde	a	primeira	vez	em	que	o	vi,	mas	o	medo	e	a</p><p>influência	de	nossas	famílias	me	fizeram	manter	este	sentimento	sufocado	em</p><p>meu	peito.	Pegando	gentilmente	nas	mãos	do	amado,	a	dama	cria	coragem	e</p><p>começa	a	contar-lhe	aos	poucos	para	prepará-lo	para	a	terrível	notícia.	Enfim</p><p>quando	a	curiosidade	foi	mais	forte,	Carl	diz-lhe	de	sopetão:	-	“A	Sra.	está	muito</p><p>diferente.	Sinto	que	precisa	dizer-me	algo,	mas	não	possui	a	coragem	necessária</p><p>para	fazê-lo”!</p><p>-	Não	pensei	que	já	me	conhecesse	tão	profundamente	Sr.	Murphy!	Mas	já	que</p><p>fora	direto	ao	ponto,	não	tenho	como	mais	esconder-lhe.	Mas	antes	quero	que</p><p>saibas	que	meu	sentimento	é	genuíno	e	que	jamais	o	abandonarei,	não	importa	o</p><p>que	aconteça.	Ontem	tive	uma	conversa	muito	séria	com	o	seu	médico	e	ele	me</p><p>contou	que	lhe	fizeram	novos	exames	e	os	resultados	não	são	nada	animadores.</p><p>Sua	coluna	foi	por	demais	afetada	devido	ao	acidente	e	talvez	o	Sr.	não	venha</p><p>mais	a	andar.	Mas	enquanto	o	Sr.	estiver	aqui,	verei	vê-lo	sempre	que	puder	e</p><p>aos	poucos,	quem	sabe,	um	milagre	não	acontece?!	O	Sr.	acredita	em	milagres,</p><p>por	certo!</p><p>-	A	dedicação	e	o	afeto	que	a	Sra.	me	dedica,	fazem-me	sentir	mais	forte	e	já	que</p><p>acabou	de	declarar	que	não	me	abandonará,	não	sofrerei	por	não	mais	andar,	pois</p><p>terei	ao	meu	lado</p><p>a	quem	mais	amo	nesta	vida.	Quanto	a	crer	em	milagres…</p><p>confesso	que	creio,	mas	os	mesmos	devem	ser	dirigidos	a	quem	os	merece	e	não</p><p>a	grandes	pecadores	como	eu.	Com	certeza	Deus	está	cuidando	das	pessoas	de</p><p>melhor	índole	que	a	minha,	aquelas	que	vão	à	missa	aos	domingos	e</p><p>principalmente	aos	bons	filhos,	o	que	definitivamente	não	o	fui	até	então.</p><p>-	Não	vou	admitir	que	fale	de	si	próprio	desta	maneira!	Sei	que	cometeu	muitos</p><p>erros	no	passado,	mas	sei	também	que	uma	pessoa	que	não	recebe	um	elogio,	ao</p><p>contrário,	só	houve	reprimendas,	não	consegue	deixar	brotar	o	bem	dentro	de	si.</p><p>Nós	somos	como	as	flores.	De	nada	adiantaria	plantá-las	e	ao	invés	regá-las	com</p><p>água	fresca	e	lhes	dar	carinho,	raramente	as	olhamos	e	quando	fazemos	damos-</p><p>lhes	água	suja.	Neste	jardim	jamais	brotaria	uma	bela	flor.</p><p>-	Sua	doce	sabedoria	me	comove	e	confesso-lhe,	nunca	havia	pensado	desta</p><p>forma.	Bem,	mas	agora	falemos	de	assuntos	mais	alegres,	quero	ver	a	vista	desta</p><p>janela	que	tanto	admira.	Pode	chamar	alguém	para	ajudar-me	a	chegar	até	ela?</p><p>De	imediato,	Verônica	foi	ter	com	o	médico	e	em	poucas	palavras	revelou-lhe	o</p><p>diálogo	ocorrido	a	pouco.	O	mesmo	disse-lhe	que	uma	surpresa	a	aguardava	e</p><p>apresentou-a	a	cadeira	de	rodas	que	serviria	para	o	deslocamento	de	Carl.	Assim,</p><p>o	médico	e	um	enfermeiro	foram	até	o	leito	do	paciente	e	o	puseram	sentado	em</p><p>seu	novo	“trono”	e	Verônica	não	só	pode	levá-lo	até	a	janela	como	obteve</p><p>autorização	para	passear	com	o	paciente	até	o	bosque.</p><p>A	medida	em	que	Carl	se	recuperava,	sua	memória	foi	despertando	ao	passado	e</p><p>questionou	sobre	o	porquê	de	ter	sido	tão	bem	tratado	e	no	melhor	hospital	da</p><p>Europa.</p><p>-	Sra.,	lembro-me	bem	agora	de	nosso	último	encontro	antes	do	acidente.	À</p><p>época	não	demonstrava	preocupar-se	tanto	com	meu	estado...	Acaso	foi	a</p><p>responsável	por	meu	tratamento?</p><p>-	Não	vanglorie-se	tanto	Sr.	Murphy.	Talvez	não	lembre	mas	seu	estado	requereu</p><p>providências	sérias	e	imediatas	para	que	sobrevivesse.	E…	admito,	senti-me</p><p>responsável	pelo	acontecido,	devido	a	isto	aqui	estou.	Não	desejava	que	me</p><p>julgasse	uma	tirada	desalmada.</p><p>-	Então	o	que	fez	este	tempo	todo	foi	apenas	para	aliviar	seu	peso	de</p><p>consciência?	Oh	Sra.,	queira	me	desculpar.	Por	um	momento	não	sei	o	que	senti.</p><p>Bem,	mas...Não	gostaria	de	falar	sobre	assuntos	nefastos	neste	momento,	até</p><p>porque,	eu	mereci	ouvir	tudo	o	que	me	foi	dito.	Agora	conte-me,	como	está</p><p>minha	mãe?	Porque	não	veio	ver-me	ainda?</p><p>-	Sua	mãe	teve	mais	sorte	que	o	Sr.	e	devido	a	isto	ficou	no	hospital	em	Londres</p><p>e	segundo	fui	informada,	recupera-se	bastante	bem.	Tenho	certeza	de	que	assim</p><p>que	tiver	condições	ela	virá	vê-lo,	não	se	preocupe.</p><p>Infelizmente	Verônica	não	podia	ir	ao	hospital	todas	as	tardes,	devido	a	recente</p><p>viuvez,	mas	sempre	que	podia	passava	as	tardes	no	hospital	e	a	cada	dia	levava</p><p>um	novo	buquê	de	flores.	Ambos	passavam	o	tempo	passeando	e	admirando	a</p><p>natureza	e	quanto	mais	Carl	a	conhecia,	mais	a	amava.	Como	estavam	muito</p><p>próximos,	acabaram	por	tornar-se	confidentes	e	uma	espécie	de	cumplicidade	os</p><p>unia.</p><p>À	noite	na	fazenda,	ao	dar	asas	a	seus	pensamentos,	tecia	longos	bordados	e	seu</p><p>olhar	distante	era	visto	com	esperança	como	a	peça	a	ser	confeccionada.</p><p>Numa	tarde	de	outono,	Verônica	se	preparava	para	ir	ao	hospital	quando	sentiu</p><p>um	arrepio,	uma	certa	inquietação,	mas	não	deu	importância	exagerada	ao	fato	e</p><p>tratou	de	vestir-se	(ainda	de	luto)	e	visitar	o	amado	no	hospital.	Na	recepção</p><p>percebeu	que	a	recepcionista	sempre	dócil	e	sorridente	cumprimentou-a	com	um</p><p>ar	diferente	e,	mais	uma	vez,	não	levou	em	conta	e	foi	diretamente	para	o	quarto</p><p>do	enfermo.	Vazio.	A	cama	estava	feita,	os	móveis	todos	em	seus	lugares,	tudo</p><p>impecável	como	sempre	mas…	o	paciente	não	estava	no	leito.	Procurou	no</p><p>quarto	de	banho	e	também	não	encontrou-o.	Uma	sensação	de	perda,	tristeza	e</p><p>mágoa	começaram	a	tomar	conta	de	seu	ser	e	na	tentativa	de	evitar	pensamentos</p><p>nefastos	decidiu	admirar	o	bosque	que	tanto	adorava.	Antes	não	o	fizesse…</p><p>Há	cerca	de	uns	20	m.	avistou	um	homem	em	sua	cadeira	de	rodas	parado	junto</p><p>a	um	pequeno	lago	artificial	e	ao	seu	lado	uma	linda	mulher.	Verônica	apoiou-se</p><p>no	batente	da	janela	para	não	cair	visto	parar	de	sentir	as	próprias	pernas.	Era</p><p>ela!	Carl	estava	tranquilamente	conversando	com	ninguém	mais,	ninguém	menos</p><p>do	que	Lisa	May.	A	indignação	de	Verônica	foi	imediata	e	possuída	pelos	ciúmes</p><p>saiu	do	hospital	sem	ser	vista.	Já	na	rua	tomou	um	veículo	de	aluguel	e	rumou</p><p>para	o	armarinho.	O	proprietário	estava	recém	abrindo	a	loja	para	o	turno	da</p><p>tarde	quando	a	mulher	entrou	enfurecida	e	o	fuzilou	com	o	olhar.	Visto	não	ter</p><p>nenhuma	cliente	ainda,	foi	subindo	as	escadas	e	falando	ao	mesmo	tempo.</p><p>-	“Acaso	o	senhor	me	trapaceou?	O	que	lhe	fez	ter	a	ideia	de	pegar	meu	dinheiro</p><p>e	não	fazer	o	trabalho	encomendado”?	Julga-me	uma	tola,	por	certo?</p><p>O	homem	foi	logo	interrompendo	a	dama	antes	que	ela	tivesse	uma	síncope	e	foi</p><p>logo	esclarecendo.	-	Por	quem	me	toma	Sra.	Vilelev?	Efetuei	o	trabalho</p><p>exatamente	como	combinado	e	não	lembro	de	ter-lhe	aqui	chamado	para	cobrar-</p><p>lhe	meus	honorários?	Se	a	Sra.	deixar-me	falar,	posso	perfeitamente	lhe	passar	o</p><p>relatório	de	minha	missão.</p><p>-	Pois	bem,	explique-se.	Mas	é	bom	que	seja	convincente!</p><p>-	Conforme	combinamos	entrei	em	contato	com	meu	amigo	na	América	e	o</p><p>mesmo	deu	o	emprego	e	a	quantia	enviada	ao	pianista.	Conforme	previsto,	o</p><p>mesmo	escreveu	para	a	amante	inglesa,	e	segundo	meu	amigo	em	uma	noite	de</p><p>bebida	exagerada	o	músico	confidenciou-lhe	que	a	amada	logo	estaria	na</p><p>América	ao	seu	lado.	Não	segui	os	passos	da	mulher	porque	não	estava	em	nosso</p><p>trato	esta	parte,	mas	que	ela	recebeu	a	mensagem,	certifiquei-me	de	que	recebeu</p><p>e	isto	foi	a	uns	dois	ou	três	dias	atrás.	Estava	esperando	a	confirmação	do</p><p>embarque	da	mesma	para	contactá-la,	mas	parece	que	a	senhora	está	perdendo	o</p><p>juízo…	O	que	percebo	Sra.	Vilenev	é	que	a	mulher	que	entrou	nesta	sala	pela</p><p>primeira	vez,	chamando-se	Srta.	Bordeaux	não	mais	existe.	No	lugar	dela</p><p>encontra-se	uma	mulher	cujos	valores	foram	destorcidos	pelo	dinheiro	e	poder	e</p><p>que	julga	ser	proprietária	dos	pensamentos	de	outrem!	Ora	minha	Sra.!</p><p>Imediatamente	arrependeu-se	de	suas	palavras	e	contemporizou:	-	Façamos	o</p><p>seguinte:	Vá	para	casa,	descanse	e	reflita.	Assim	que	a	mulher	tomar	o	navio	eu</p><p>entro	em	contato	com	a	Sra.	conforme	combinado	anteriormente,	está	bem?</p><p>Em	choque	com	a	rispidez	com	que	fora	tratada,	girou	os	calcanhares	e	saiu	sem</p><p>ao	menos	despedir-se.</p><p>Já	na	fazenda,	na	companhia	da	prima	e	do	tio,	percebeu	que	realmente	algo</p><p>havia	mudado	dentro	de	si.	Naquela	noite,	passou	boa	parte	revendo	seus</p><p>valores,	relembrando	todos	os	acontecimentos	dos	últimos	dois	anos	e</p><p>envergonhada	mal	pode	olhar-se	no	espelho.	Tomou	um	copo	de	leite	quente	e</p><p>adormeceu.</p><p>Na	manhã	seguinte	confidenciou	a	Madeleine	o	ocorrido	no	hospital	e</p><p>obviamente	omitiu	a	conversa	que	tivera	com	o	Sr.	Jonhson	(até	porque	ninguém</p><p>tinha	conhecimento	de	sua	ligação	com	o	mesmo).	A	prima	após	pensar	por</p><p>alguns	segundos	sugeriu-lhe	que	voltasse	ao	hospital	na	mesma	tarde	e	tivesse</p><p>uma	conversa	franca	e	definitiva	com	o	Sr.	Murphy,	afinal,	tudo	poderia	tratar-se</p><p>apenas	de	uma	mal	entendido,	porém	Verônica	ainda	estava	muito	chocada	e</p><p>machucada	com	a	cena	que	vira	e	achou	melhor	não	fazê-lo.</p><p>-	Madeleine,	por	mais	que	me	doa	ter	que	fazer	isto,	voltarei	para	a	Inglaterra	o</p><p>mais	breve	possível.	Ficarei	aqui	somente	o	tempo	necessário	para	resolver	as</p><p>questões	da	herança	(ou	dívidas)	que	meu	falecido	marido	deixou.	Mas	não	se</p><p>preocupe.	Continuarei	aqui	na	fazenda	até	resolver	estas	questões.	Quanto	a</p><p>Carl…	não	quero	procurá-lo.	Seria	muita	humilhação	de	minha	parte.	Se	depois</p><p>de	tudo	o	que	fiz	por	ele,	recebo	a	traição	como	paga,	então	não	há	mais	o	que</p><p>conversarmos.	Quanto	ao	tratamento,	já	deixei	tudo	acertado	com	o	Dr.	e	nada</p><p>lhe	faltará.</p><p>-	Minha	querida,	reflita.	Bem	sei	que	o	passado	do	Sr.	Murphy	o	condena	mas</p><p>algo	me	diz	que	o	acidente,	o	coma	e	as	sequelas	o	transformaram.	Lembro	de</p><p>nossas	conversas	quando	você	chegava	das	visitas	que	fazia	a	ele,	esqueceu?</p><p>-	Desculpe	minha	prima,</p><p>agora	preciso	sair.	Preciso	encontrar-me	com	o</p><p>administrador	das	terras	de	Bertrand	e	acertar	tudo	com	ele.	Até	mais	tarde.</p><p>Nos	dias	que	se	seguiram	Verônica	ocupou-os	quase	que	totalmente	tratando	de</p><p>questões	pontuais	que	somente	ela	como	viúva	do	Barão	podia	resolver.	No	final</p><p>de	três	semanas,	após	um	balanço	patrimonial,	necessitou	vender	a	mansão</p><p>aonde	moravam	os	pais	de	Bertrand	a	fim	de	pagar	dívidas,	mas	conseguiu</p><p>manter	a	casa	que	ambos	adquiriram	juntos	pois	foi	o	único	lugar	em	que	foi</p><p>feliz	com	ele.	Tudo	resolvido,	agradeceu	mais	uma	vez	ao	tio	e	tia	pela</p><p>hospedagem,	abraçou	toda	a	família	e	embarcou	para	a	Inglaterra.</p><p>CAPITULO	XV</p><p>Quando	Lisa	May	deixou	o	enfermo	acomodado	em	seu	quarto,	o	mesmo	passou</p><p>o	restante	da	tarde	esperando	pela	visita	de	Verônica,	mas	ela	não	aparecera.</p><p>Nem	no	dia	seguinte,	e	na	semana	seguinte…	Até	que	Carl	decidiu	pedir	ajuda</p><p>ao	seu	médico.	Sentia-se	envergonhado	pelo	fato	de	um	homem	de	sua	idade,</p><p>após	ter	passado	tudo	o	que	passou	e	recuperar-se,	dar	tamanha	importância	as</p><p>coisas	do	coração.	Mas	enfim,	não	podia	mais	permanecer	na	ignorância,	sem</p><p>saber	o	porquê	do	afastamento	da	amada.</p><p>-	Bom	dia	Sr.	Murphy!	Saudou	o	médico	em	uma	manhã	ensolarada.	Trago	boas</p><p>novas!	-	O	paciente	logo	pensou	que	se	tratava	de	notícias	dela	e	seu	coração</p><p>ficou	aos	pulos	a	espera	das	boas	novas	–	Nos	próximos	dias	chegará	ao	nosso</p><p>hospital	um	novo	médico.	Sua	especialidade	é	Fisioterapia	e	você	será	o</p><p>primeiro	paciente	do	Dr.	Hanz.	Ele	é	de	origem	alemã	e	frequentou	a	melhor</p><p>universidade	de	seu	país.	Devido	ao	seu	excelente	currículo,	meu	pai	e	eu</p><p>decidimos	contratá-lo.</p><p>-	Mas	Dr.,	o	Sr.	acredita	que	algum	dia	voltarei	a	andar?</p><p>-	Se	não	acreditasse,	não	investiria	no	melhor	especialista	na	área.	Mas,	é	claro</p><p>que	sua	recuperação	também	vai	depender	de	sua	força	de	vontade.	Lembre-se,</p><p>somos	médicos,	não	santos	milagreiros.	Mas	acredito	sim	que	em	breve	o	verei</p><p>andando	novamente.	Verei	outros	pacientes	agora.</p><p>-	Espere	Dr.!	Eu	preciso	lhe	fazer	uma	pergunta…	Não	me	interprete	mal	mas…</p><p>e	Sra.	Vilenev?	Porque	não	voltou	a	me	visitar?	Ela	está	bem?	Sinto	muito	sua</p><p>falta…</p><p>-	Bem	Sr.	Murphy,	o	Sr.	é	sabedor	que	o	falecido	marido	da	Sra.	Vilenev</p><p>suicidou-se,	pois	não?	Ocorre	que	assim	o	fez	porque	seu	pai,	o	antigo	Barão</p><p>quando	faleceu	estava	praticamente	falido	e	ao	substitui-lo,	herdou	não	somente</p><p>o	título,	mas	o	peso	das	dívidas	também.	Obviamente	quem	assumiu	o	ônus	da</p><p>família	foi	a	Sra.	Vilenev,	que	corajosamente	negociou	pessoalmente	com	todos</p><p>os	credores	e,	coitada,	precisou	vender	a	mansão	da	família	para	saldar	o	restante</p><p>das	dívidas.	Mulher	corajosa	sua	amiga.	Aliás,	perdoe-me	a	intromissão,	mas</p><p>percebi	que	entre	vocês	não	existe	apenas	amizade.	Bem,	sou	seu	médico	e	não</p><p>tenho	o	direito	de	me	intrometer	em	seus	assuntos	pessoais.	Mais	uma	vez	queira</p><p>desculpar-me.	Ah,	ia-me	esquecendo,	antes	de	retornar	a	Inglaterra,	ela	esteve</p><p>em	meu	consultório	e	quitou	todo	seu	tratamento.	O	Sr.	pode	ficar	tranquilo</p><p>quanto	as	custas	médico-hospitalares.</p><p>A	tristeza	do	doente	foi	extrema	e	evidente,	tanto	que	o	médico	penalizou-se</p><p>dele,	mas	nada	podia	fazer.</p><p>-	Ela	voltou	para	a	Inglaterra?	E	não	veio	se	despedir	de	mim?	Dr.	preciso	de	um</p><p>favor	particular.	O	Sr.	poderia	mandar	um	mensageiro	à	fazenda	dos	Bordeux	e</p><p>pedir	que	a	Sra.	Madeleine	venha	até	aqui?</p><p>-	Claro.	Hoje	mesmo	o	farei.	Agora	descanse	que	nos	próximos	dias	seus	dias</p><p>serão	bastante	exaustivos,	posso	lhe	garantir.	Até	logo.</p><p>Ao	receber	a	mensagem,	Madeleine	já	sabia	o	que	o	porquê	de	tal	pedido	e	no</p><p>dia	seguinte	visitaria	o	Sr.	Murphy.</p><p>Bateu	à	porta	antes	de	entrar	e	ao	obter	o	consentimento,	adentrou	no	quarto	de</p><p>primeira	classe	no	qual	a	prima	havia	instalado	seu	amado.</p><p>-	Boa	tarde	Sr.	Murphy.	Recebi	sua	mensagem	e	preocupei-me	com	seu	estado,</p><p>mas	agora	vejo	que	está	bem	melhor,	felizmente.	Então	qual	o	motivo	de	seu</p><p>chamado?</p><p>Madeleine	apenas	tolerava	o	enfermo,	pois	durante	toda	a	vida	ouvira	estórias</p><p>escabrosas	sobre	o	comportamento	do	mesmo.	Porém	agora,	em	um	leito	de</p><p>hospital,	totalmente	solitário,	não	era	nem	a	sombra	do	homem	que	um	dia	fora.</p><p>E	em	seu	íntimo	chegou	a	pensar:	-	“Minha	prima	não	iria	apaixonar-se	tanto	por</p><p>este	cavalheiro	se	ele	não	apresentasse	algumas	qualidades.	Acho	que	estou</p><p>sendo	severa	demais	com	ele”.</p><p>-	Me	desculpe	importuná-la	Sra.,	mas	preciso	de	notícias	de	sua	prima.	Ela</p><p>voltou	à	Inglaterra	e	nem	sequer	se	despediu.	Creio	que	algo	motivou	esta</p><p>atitude.</p><p>-	Ah,	então	o	Sr.	nem	desconfia	o	porquê	de	minha	prima	não	querer	mais	vê-lo?</p><p>Pois	então	vou	reavivar	sua	memória.	Há	muitos	anos	era	sabido	por	todos	de</p><p>sua	péssima	reputação	e	também	de	seu	envolvimento	lascivo	e	desonroso	com</p><p>uma	certa	“dama”	inglesa.	Após	o	seu	acidente	a	única	pessoa	que	jamais	o</p><p>abandonou	foi	Verônica	e	agora	que	o	Sr.	já	está	praticamente	recuperado,</p><p>pretende	retomar	aquela	vida	mundana.	E	não	me	diga	que	trata-se	de	um</p><p>equívoco!	Minha	prima	esteve	aqui,	neste	quarto,	e	ao	olhar	pela	janela	o	viu	no</p><p>bosque	com	sua	antiga	amante.	Depois	de	tudo	o	que	ela	fez	pelo	Sr.	merecia</p><p>tratamento	melhor,	não	acha?	O	Sr.	poderia	ter	tido	ao	menos	a	dignidade	de</p><p>comunicá-la	que	desejava	retomar	sua	antiga	vida,	mas	ao	invés	disto,	fez	juras</p><p>de	amor	e	estraçalhou	o	coração	da	pobrezinha!</p><p>-	Meu	Deus,	ela	julgou	mesmo	que	eu	retomaria	minha	relação	com	aquela</p><p>mulher	interesseira	e	sem	coração?	Será	que	todo	o	tempo	em	que	convivemos,</p><p>aqui	mesmo	neste	hospital,	não	foi	o	suficiente	para	que	sua	prima	percebesse</p><p>que	me	transformei	em	um	novo	homem?	E	minha	transformação	deu-se	mais</p><p>por	ela	e	para	ela.	No	dia	em	que	“aquela	mulher”	esteve	aqui,	foi	para	despedir-</p><p>se.	Disse-me	que	seu	verdadeiro	amor	fora	para	América	e	após	mandou	chamá-</p><p>la	para	lá	casarem-se.	Acredite-me	Sra.,	amo	sua	prima	e	farei	o	possível	e	o</p><p>impossível	para	reconquistar	sua	confiança.	Jamais	a	trairia!</p><p>-	Pois	muito	bem.	Comigo	o	Sr.	já	se	esclareceu,	porém	para	reconquistar	minha</p><p>prima	terá	que	levantar	desta	cama	com	suas	próprias	pernas	e	voltar	para	a</p><p>Inglaterra.	Sabe	aonde	encontrá-la,	por	certo.	Desejo	de	coração	suas	melhoras,	e</p><p>quero	acreditar	em	suas	palavras.	Agora	vou-me.	Compromissos	me	aguardam</p><p>na	cidade.	Adeus	Sr.	Murphy.</p><p>A	partir	daquele	momento,	Carl	tomou	a	decisão	de	que	voltaria	a	andar	e</p><p>decidiu	fazer	o	impossível,	se	pudesse	até	realizar	seu	intento.</p><p>O	Dr.	Hanz	chegou	dois	dias	depois	e	encontrou	o	paraplégico	mais	animado	e</p><p>disposto	ao	tratamento	que	já	vira.	Apesar	do	tratamento	pesado	e	extenuante,</p><p>Carl	não	esmorecia.	Dizia	ao	médico	que	tinha	muita	pressa	em	se	recuperar	e</p><p>faria	os	exercícios	que	fossem	necessários	para	atingir	seu	objetivo.</p><p>CAPITULO	XVI</p><p>Na	Inglaterra,	a	vida	de	todos	parecia	correr	tranquilamente.	A	indústria	do	Sr.</p><p>Jean	Jaques	recebia	encomendas	de	todas	as	partes	do	mundo	e	inclusive</p><p>pensava	em	montar	uma	filial	na	América,	pois	sabia	que	uma	terra	recém-</p><p>descoberta	necessitaria	de	ferramentas	para	a	construção	de	uma	grande	nação.</p><p>Christofer	e	Emanuelle	tiveram	mais	um	filho	e	chamaram-no	Philip,	em</p><p>homenagem	ao	bisavô.</p><p>Bella	demorou-se	a	engravidar,	pois	ela	e	o	marido	viajaram	pelo	mundo	antes</p><p>de	acomodarem-se,	mas	quando	decidiram,	tiveram	gêmeos,	Marri	e	Simon.</p><p>Verônica	que	já	contava	com	44	anos,	esquecera-se	o	que	era	paz	e</p><p>tranquilidade,	pois	passava	os	dias	fazendo	festa	com	os	sobrinhos.</p><p>Na	antiga	residência	dos	Murphy,	os	infortúnios	tornaram-se	passado.	Mary	Ann</p><p>recuperou	a	sanidade	e	retornou	à	antiga	casa,	sendo	verdadeiramente	mimada</p><p>por	Esther	e	Homero	que	por	ela	nutriam	grande	afeição	e	gratidão.	Simon	e</p><p>Christin	passaram	a	frequentar	a	casa	e	o	filho	Dic	passou	a	reconhecer	Mary</p><p>Ann	como	vovó	Mary	o	que	lhe	deu	imensa	alegria.	Porém	Mary	Ann	sentia</p><p>muito	a	falta	do	filho,	com	o	qual	somente	se	correspondia	pois	não	possuía</p><p>meios	de	viajar	à	França.	Os	poucos	servos	que	ficaram,	o	fizeram	por</p><p>comiseração	a	família	que	fora	tão	destroçada	pelo	acidente	de	mãe	e	filho	e</p><p>devido	ao	mesmo,	Mary	Ann	se	tornara	uma	pessoa	melhor	após	o	tratamento	e</p><p>passou	a	pagar	salário	aos	camponeses</p><p>e	suas	famílias	e	os	lucros	que	vinha</p><p>obtendo,	utilizava-os	no	pagamento	aos	antigos	credores.</p><p>A	ex	Duquesa	já	não	possuía	a	beleza	e	altivez	de	outrora,	porém	negava-se	a</p><p>permitir	que	a	velhice	a	empertigasse.	Penteava	cuidadosamente	os	cabelos</p><p>totalmente	embranquecidos	e	os	prendia	cuidadosamente	em	um	coque,	sem</p><p>deixar	um	fio	sequer	solto	e	olhando-se	no	espelho,	dizia	a	Esther:	-	Sei	que	o</p><p>tempo	passou	e	envelheci,	mas	não	perdi	a	vaidade,	a	força	de	vontade	e</p><p>principalmente	a	esperança	de	ver	meu	filho	recuperado.	Todas	as	manhãs</p><p>repetia-se	a	mesma	cena,	até	em	uma	delas,	um	homem	em	seus	49	anos,	já</p><p>bastante	grisalho,	parado	atrás	de	Esther	responde:	Valeu	a	pena	esperar	minha</p><p>mãe.	Eu	voltei!	Os	três	se	abraçam	como	se	fora	o	primeiro	e	último	encontro	e</p><p>as	lágrimas	correram	livres	pois	eram	de	felicidade.</p><p>À	mesa	do	café	foi	posto	mais	um	lugar,	o	de	Carl	à	cabeceira	e	a	família	senta-</p><p>se	em	torno	à	mesa	para	o	melhor	café	de	suas	vidas.	Esther	e	Homero	também</p><p>participaram,	afinal,	tornaram-se	da	família	pelos	laços	de	amor.</p><p>-	Mamãe,	a	partir	de	hoje	vou	gerir	nossas	terras.	No	hospital	tive	tempo</p><p>suficiente	para	ler	e	aprender	sobre	administração	e	pretendo	utilizar	meus</p><p>conhecimentos	aqui,	porém	percebi	que	a	Sra.	já	tomou	as	primeiras</p><p>providências	libertando	os	servos	e	transformando-os	em	empregados,	com</p><p>salários	dignos.	Vou	começar	a	partir	daí,	investindo	em	mão-de-obra</p><p>especializada	e	valorizando	as	pessoas	como	elas	merecem.	Nestes	últimos	anos</p><p>aprendi	que	ninguém	é	melhor	ou	pior	que	o	outro.	Todos	somos	iguais	e	um	dia</p><p>haveremos	de	viver	em	um	mundo	justo.</p><p>Empenhado	na	tarefa	de	reerguer	as	finanças	da	família,	chegou	a	trabalhar	de</p><p>sol	a	sol	com	os	empregados,	a	fim	de	realizarem	mais	rápido	a	colheita	e</p><p>obterem	mais	lucro	com	víveres	de	melhor	qualidade.	Tudo	estava	quase	perfeito</p><p>não	fora	a	saudade	que	o	consumia.	Havia	decidido	que	haveria	de	provar	a</p><p>Verônica	o	novo	homem	que	era,	ao	invés	de	simplesmente	implorar	por	seu</p><p>perdão.	Decidira	que	reconquistaria	a	mulher	amada	por	suas	atitudes	e	ela	ainda</p><p>orgulhar-se-ia	dele,	assim	como	a	mãe	já	o	fazia.</p><p>E	o	tempo	foi	passando...</p><p>Certo	dia,	a	família	recebeu	convite	para	um	baile	oferecido	por	um	profissional</p><p>liberal	em	franca	ascendência	na	sociedade	londrina.	Mary	Ann	(que	já	não</p><p>valorizava	tanto	as	aparências)	sugeriu	que	o	filho	fosse	acompanhado	de	Simon</p><p>e	Christin	e	que	ela	e	Esther	cuidariam	de	Dic	com	o	maior	prazer.	Em	sendo</p><p>assim,	Carl	que	sonhava	em	voltar	aos	salões	aceitou	o	convite	e	o	velho/novo</p><p>amigo	também	mostrou-se	entusiasmado,	visto	que	após	o	nascimento	do	filho</p><p>quase	não	tinha	oportunidade	de	sair	com	a	esposa.	E	assim,	os	três	foram	a</p><p>Londres	levados	orgulhosamente	por	Homero.</p><p>Verônica	era	frequentemente	convidada	aos	eventos	sociais,	mas	sempre	usava</p><p>de	algum	artifício	para	não	comparecer.	Não	admitiria	a	quem	quer	que	fosse,</p><p>mas	sabia	que	seu	coração	ficara	destroçado	naquela	tarde	no	hospital	em	Paris.</p><p>As	damas	da	sociedade	estranhando	a	ausência	da	viúva	decidiram	fazer-lhe	uma</p><p>visita,	demonstrando	preocupação	com	sua	saúde.</p><p>-	Oh	querida,	perdoe-nos	vir	sem	avisar	mas	estranhamos	sua	ausência	em	todos</p><p>os	eventos	e	somente	agora	ficamos	sabendo	de	sua	viuvez!	Oh,	pobrezinha,</p><p>deve	estar	traumatizada	ainda…</p><p>-	Senhoras,	o	incidente	com	meu	marido	realmente	me	chocou	muito	e	decidi</p><p>manter	meu	luto,	mas	encontro	paz	e	tranquilidade	aqui,	junto	a	minha	família	e</p><p>por	isso	não	mais	frequento	os	salões.	Um	dia,	quem	sabe…	Bem,	mas,	já	que</p><p>aqui	estão,	aceitam	tomar	o	chá	das	cinco?</p><p>Obviamente	ambas	aceitaram	e	após	o	delicioso	chá,	recheado	de	guloseimas,	as</p><p>três	foram	para	o	jardim.</p><p>Sabe	querida,	você	está	fazendo	muita	falta	em	nosso	meio.	Até	o	Sr.	Murphy,</p><p>filho	do	falecido	Duque	de	Charleston,	aquele	que	sofreu	um	acidente</p><p>juntamente	com	a	mãe,	pois	é,	foi	visto	em	Londres	acompanhado	de	uma	bela</p><p>mulher.	E	perceba	que	ele	é	mais	velho	que	você.</p><p>Verônica	teve	o	ímpeto	de	estrangular	as	mexeriqueiras,	mas	manteve	a	postura</p><p>clássica	e	fez-se	de	desentendida	no	que	tangia	a	Carl.</p><p>-	Ah,	o	Sr.	Murphy	está	recuperado	do	acidente?	Fico	feliz	por	ele	e	pela	mãe.</p><p>Ela	deve	ter	sofrido	muito	pelo	filho!…</p><p>-	Pois	então,	você	precisa	reagir	e	nos	brindar	com	sua	beleza	e	elegância!</p><p>-	Está	bem,	na	próxima	vez	que	eu	for	convidada,	prometo	que	farei	o	possível</p><p>para	comparecer.</p><p>Assim	as	mulheres	se	convenceram	de	que	Verônica	estava	somente	mantendo	o</p><p>luto,	desistiram	de	fazer	mais	perguntas	e	foram	embora,	para	alívio	da	anfitriã.</p><p>Após	a	saída	das	duas,	a	dona	da	casa	trancou-se	em	seu	quarto	e	um	sentimento</p><p>de	perda	momentaneamente	se	apossarou	dela.	-“Então	o	Sr.	Murphy	se</p><p>recuperou	e	está	desfilando	nos	salões	com	uma	bela	dama.	Ah,	já	posso</p><p>imaginar	quem	é	a	“dama”!	Eu	hei	de	acertar	as	contas	com	ele,	afinal,	fez-me</p><p>juras	de	amor	quando	estava	paraplégico	e	agora	recuperado,	desfila	com	outra!</p><p>Que	acinte!”</p><p>No	domingo	após	a	missa,	o	padre	como	de	costume	despedia-se	dos	fiéis	à</p><p>porta	da	igreja.	Ao	cumprimentar	Verônica	convidou-lhe	a	participar	da</p><p>quermesse	que	realizar-se-ia	no	domingo	seguinte.	Ela	chegou	a	pensar	em</p><p>recusar,	mas	lembrou	das	visitantes	e	decidiu	confirmar	presença.</p><p>Durante	a	semana,	todos	os	membros	da	comunidade	empenharam-se	em</p><p>enfeitar	barracas	e	preparar	toda	sorte	de	brincadeiras	e	comes	e	bebes	para	a</p><p>quermesse.	E	o	Domingo	chegou…</p><p>Os	Bordeaux	em	trajes	típicos	franceses	montaram	a	barraca	de	canelé,	doce</p><p>francês,	muito	apreciado	na	região.</p><p>A	certa	altura	da	festa,	Verônica	saiu	para	apreciar	as	outras	barracas	e	provar</p><p>outras	delícias.	Porém,	mesmo	em	meio	a	multidão,	avistou	Carl,	conversando</p><p>divertidamente	com	Simon	e	Chirstin.	A	mesma	passou	por	eles	com	ar</p><p>despretensioso	e	fingiu	não	vê-los.	Ao	avistá-la,	Carl	sentiu-se	esperançoso	e</p><p>desejoso	de	reiniciar	aquilo	que	fora	desfeito	sem	justificativa,	mas	a	dama	nem</p><p>sequer	o	olhou.	Neste	momento,	a	festa	acabou-se	para	ele	e	retornou	para	casa</p><p>angustiado.	O	amigo	que	o	acompanhava	questionou	seu	comportamento,</p><p>desconhecendo	os	fatos	e	Carl	apenas	lhe	disse:	-	Amigo,	aquela	mulher	é	o</p><p>amor	de	minha	vida.	Quando	do	acidente,	permaneceu	a	meu	lado	durante	todo	o</p><p>período	do	coma	e	fugiu	de	mim	devido	a	uma	situação	duvidosa	e	não	procurou</p><p>a	verdade.	E	veio-se	embora,	sem	qualquer	explicação.</p><p>James	que	desconhecia	a	verdade	sobre	as	atitudes	de	ambos,	tentou	consolar	o</p><p>amigo,	mas	não	havia	muito	o	que	fazer,	visto	que	o	mesmo	desejou	ficar</p><p>sozinho,	embora	agradecido	pela	preocupação	do	amigo.</p><p>Verônica,	após	passar	por	Carl,	verificou	o	estado	emocional	que	causara	no</p><p>amado	e	regozijara-se	pela	vitória.</p><p>Após	este	evento,	abandonou	o	luto	e	todos	os	eventos	para	os	quais	era</p><p>convidada,	comparecia,	sempre	com	vestidos	deslumbrantes	e	continuava	a	ser</p><p>cortejada	pelos	viúvos	e	solteirões	presentes.	Quando	Carl	se	encontrava</p><p>presente,	consumia-se	pelo	ciúme	e	pela	dor	da	injustiça	e	não	encontrava	meios</p><p>de	explicar	a	mulher	amada	que	tudo	não	passara	de	um	equívoco.</p><p>Até	que	um	dia,	no	auge	de	seu	desespero,	Carl	lembrou-se	da	visita	de</p><p>Madeleine	ao	hospital	e	decidiu	escrever	a	ela	e	pedir	misericordiosamente	que</p><p>entrasse	em	contato	com	a	prima	e	esclarece	a	situação.	Madeleine	ao	ler	a</p><p>missiva	do	pretendente	da	prima,	não	conteve-se	e	pensou	em	voz	alta:	-	“Ah,</p><p>minha	prima,	seu	orgulho	está	na	frente	de	seu	coração	e	pode	lhe	trazer	muita</p><p>tristeza.	Preciso	lhe	ajudar”.</p><p>-	Tia	Verônica,	mamãe	mandou	dar	isto	para	a	senhora.</p><p>A	pequena	Sophie	já	contava	com	três	anos	e	adorava	a	tia.	Era	uma	carta	de</p><p>Madeleine	relatando	a	visita	que	fizera	ao	enfermo	o	hospital	e	lhe	relatou</p><p>exatamente	o	que	ele	falara.	Verônica	parou	de	ler,	questionando-se	sobre	a</p><p>suposta	injustiça	que	cometera	com	Carl	e	por	consequência	a	si	mesma.	Após</p><p>contar	as	novas	de	Paris,	mais	um	trecho	em	especial	lhe	chamou	a	atenção.	-</p><p>Fui	na	loja	de	artigos	para	bordar	que	você	costumava	ir	e	o	proprietário	pediu-</p><p>me	que	lhe	desse	um	recado,	que	aliás,	não	entendi	nada.	Disse	ele:	Por	favor,</p><p>avise	a	sua	prima	que	todos	na	América	estão	felizes	e	que	ela</p><p>não	me	deve</p><p>nada.</p><p>O	mundo	pareceu	desabar	naquele	momento.	Verônica	percebeu	que	cometera</p><p>uma	enorme	injustiça	com	o	homem	amado	e	não	tinha	a	menor	ideia	de	como</p><p>retratar-se.	Antes	do	jantar,	brincando	com	a	sobrinha,	a	mesma	lhe	revelou	o</p><p>que	fazer.</p><p>-	Tia	Verônica,	estas	duas	bonecas	brigaram,	mas	como	eu	não	gosto	de	brigas,</p><p>coloquei	as	duas	na	mesma	caixa	até	elas	fazerem	as	pazes	e	agora	está	tudo</p><p>bem.</p><p>Os	olhos	da	tia	marejaram-se	e	precisou	disfarçar	para	que	a	criança	não</p><p>percebesse	sua	emoção.</p><p>Num	domingo	não	muito	distante,	Mary	Ann	mandara	rezar	a	missa	de	quatro</p><p>anos	do	falecimento	de	seu	marido	e	toda	a	comunidade	fora	à	igreja	como</p><p>mandava	o	costume.	A	família	do	falecido	sentara-se	na	primeira	fila	e	em</p><p>determinado	momento	Carl	olhou	atrás	de	si	e	avistou	a	família	Bordeaux.	A</p><p>partir	deste	momento	teve	certa	dificuldade	em	concentrar-se	nos	rituais,	mas</p><p>quando	da	homilia	do	padre,	não	pode	deixar	de	assimilar	as	palavras	como	se</p><p>dirigidas	a	ele.</p><p>-	Queridos	irmãos,	encontramo-nos	hoje	em	nome	daquele	que	foi	um	grande</p><p>colaborador	desta	comunidade.	Um	homem	que	nunca	mediu	esforços	para</p><p>amparar	os	necessitados,	fosse	com	uma	oferta	de	emprego,	com	a	organização</p><p>de	um	mutirão	para	a	construção	de	casas	ou	até	mesmo	com	um	simples</p><p>conselho	ou	palavra	amiga.	Sir	Alexander	Murphy	foi	um	dos	homens	mais</p><p>atuantes	e	honrados	de	nossa	comunidade	e	por	conta	disto	a	Rainha	o	agraciou</p><p>com	o	título	de	nobreza	que	homenageou	a	ele	próprio	e	a	seu	bisavô,	o	também</p><p>amado	Sir	Richard	Charleston	que	nos	deixou	antes	de	receber	tal	comenda.	Mas</p><p>Sir	Alexander	foi	mais	do	que	minhas	simples	palavras	conseguem	descrevê-lo.</p><p>Foi	um	exemplo	de	perseverança	e	determinação.	Um	homem	obstinado	que	não</p><p>temeu	lutar	por	seus	objetivos,	mesmo	os	mais	ousados	como	sua	união	com</p><p>jovem	mais	cobiçada	da	cidade,	a	Srta.	Mary	Ann	Evans.	Graças	à	persistência	e</p><p>inúmeras	provas	de	retidão,	o	jovem	Alexander	conquistou	primeiramente	o</p><p>respeito	do	pai	da	jovem	e	após	seu	coração.	A	felicidade	que	ambos</p><p>encontraram	juntos	contaminou	a	muitos	outros	casais,	como	prova	de	que	o</p><p>verdadeiro	amor	tudo	pode	e	até	mesmo	realiza	milagres.	E	este	deve	ser	o</p><p>melhor	legado	que	ele	nos	deixou.	O	de	ser	um	homem	que	não	teve	medo	de</p><p>litar	e	amar.	Que	Deus	o	mantenha	junto	de	si.	Amém.</p><p>Lágrimas	corriam	dos	olhos	de	Mary	Ann,	Esther	e	de	outra	mulher	sentada	atrás</p><p>das	mesmas.	Carl	engoliu	suas	lágrimas	temendo	parecer	fraco	caso	as</p><p>libertasse,	porém	quando	seu	olhar	encontrou	com	os	de	Verônica,	não	mais	se</p><p>conteve	e	pelo	belo	rosto	do	homem	grossas	lágrimas	escorreram.</p><p>Na	saída	da	igreja	a	família	Muyphy	se	manteve	à	porta	a	fim	de	agradecer	a</p><p>presença	e	todos	e	despedir-se	pessoalmente	de	cada	participante	da	cerimônia.</p><p>Quando	o	casal	se	viu	frente	a	frente,	tomado	por	uma	súbita	coragem,	toma	a</p><p>liberdade	e	se	estende	na	despedida:	-	Sra.	Vilenev,	gostaria	de	agradecer-lhe	por</p><p>tudo	o	fez	por	mim.	Não	fosse	pela	Sra.,	eu	não	teria	sobrevivido…soube	pelo</p><p>Dr.	Gilbert	o	motivo	de	sua	partida	para	a	Inglaterra	e	gostaria	de	ter	uma	nova</p><p>chance	de	desfrutar	alguns	momentos	em	sua	companhia.</p><p>Devido	à	seriedade	da	cerimônia	e	a	paz	que	o	ambiente	gerava,	Verônica</p><p>encontrava-se	totalmente	desarmada	e	somado	ao	peso	na	consciência	pela</p><p>injustiça	cometida,	sem	perceber	respondeu	que	ele	poderia	visitá-la.</p><p>Extasiado	de	felicidade	o	homem	agradeceu	e	despediu-se	efusivamente	de	todos</p><p>seus	familiares	causando	certa	desconfiança	nos	homens	da	família.</p><p>Já	em	casa,	Jean	Jaques	questiona	a	atitude	da	filha.</p><p>-	Não	entendi	sua	atitude	minha	filha.	Soube	que	o	Sr.	Murphy	é	um	novo</p><p>homem,	mas,	ainda	assim,	não	vejo	motivo	para	convidá-lo	á	nossa	casa.</p><p>-	Papai,	será	que	o	Sr.	não	ouviu	nada	do	que	o	padre	falou?	O	coitado	está</p><p>visivelmente	com	os	sentimentos	em	frangalhos	devido	a	todos	os</p><p>acontecimentos	dos	últimos	anos,	a	começar	pela	perda	do	pai.	Além	do	mais,</p><p>passei	a	conhecer	melhor	o	Sr.	Murphy	enquanto	esteve	internado	no	hospital	em</p><p>Paris.	Visitava-o	com	certa	frequência	e	quando	retornei,	ele	estava	preso	a	uma</p><p>cadeira	de	rodas	com	pouquíssimas	chances	de	voltar	a	andar.	Ele	deve	ter	feito</p><p>um	esforço	sobre-humano	para	superar	as	sequelas	do	acidente	e	ainda	ao</p><p>retornar	para	casa,	retomou	a	administração	das	terras	da	família	e	pelo	que	ouvi</p><p>dizer,	revelou-se	um	excelente	administrador.	Papai,	eu	bem	sei	do	passado	deste</p><p>homem,	mas	todos	temos	direito	a	uma	nova	chance.	Veja	Armand,	acaso	por	ser</p><p>seu	filho,	as	faltas	que	cometeu	são	menores	que	a	dos	outros?	Não	estou</p><p>condenando	meu	irmão,	de	forma	alguma,	mas	ele	é	o	exemplo	mais	próximo	a</p><p>nós,	de	que	uma	pessoa	que	recebe	uma	nova	oportunidade,	se	transforma!</p><p>No	dia	seguinte,	pela	manhã,	Verônica	recebe	um	ramalhete	de	flores	do	campo</p><p>com	um	cartão.	O	entregador	diz	que	aguardará	a	resposta	imediata.</p><p>-	“Sra,	seria	muito	ousado	de	minha	parte	aceitar	seu	convite	amanhã	à	tarde?</p><p>Respeitosamente,	Carl	Murphy”</p><p>A	dama	novamente	dividida	entre	razão	e	emoção,	foi	até	o	rapaz	(que	admirava</p><p>os	jardins	com	o	entusiasmo	de	uma	criança)	e	lhe	dirigiu	a	palavra	com	a</p><p>serenidade	de	uma	brisa:</p><p>-	Diga	ao	remetente	que	minha	resposta	é	sim.</p><p>-	Obrigada	Sra.	e	perdoe-me	o	inconveniente	do	horário.	Adeus.</p><p>Quando	não	podia	mais	ser	vista,	correu	para	o	quarto	e	deitou-se	em	sua	cama</p><p>abraçada	às	flores	que	acabara	de	receber,	tal	como	uma	adolescente	vivendo	o</p><p>primeiro	amor.</p><p>O	amor	não	tem	idade,	nem	sexo,	nem	limites,	nem	pudores.	O	amor	é	apenas</p><p>sentimento	que	se	sente,	que	nutre	o	corpo,	abastece	a	alma	e	dá	colorido	à	vida.</p><p>Feliz	daqueles	que	têm	o	privilégio	de	viver	o	verdadeiro	amor!</p><p>Após	o	jantar,	comunica	à	família	de	que	receberá	a	visita	do	cavalheiro	na	tarde</p><p>seguinte.</p><p>O	pai	sentiu-se	na	obrigação	de	deixar	claro	sua	posição.</p><p>-	Minha	filha,	os	últimos	anos	transformaram	nossas	vidas	e	até	o	momento</p><p>penso	que	para	melhor.	Esta	noite,	consulte	seu	coração	e	sua	consciência	para</p><p>fazer	o	que	é	certo	e	não	vir	a	arrepender-se	depois.	Mas	não	esqueça	de	que,</p><p>não	importa	o	que	aconteça,	seu	velho	pai	sempre	estará	aqui.</p><p>-	Obrigada	meu	pai.	Se	todos	me	dão	licença...</p><p>Como	de	costume,	aconselhou-se	com	seu	melhor	amigo:	o	velho	e	silencioso</p><p>companheiro.	O	bordado	cuidadosamente	depositado	na	espreguiçadeira	da</p><p>varanda	aguardava	aquela	que	lhe	dava	vida.	Aquele	que	um	dia	fora	apenas	um</p><p>tecido	branco,	aos	poucos	tornava-se	uma	obra-prima	e	aceitava	pacientemente</p><p>todo	e	qualquer	motivo	que	sua	artesã	lhe	destinasse.</p><p>Um	turbilhão	de	pensamentos	gira	na	cabeça	da	mulher	apaixonada	neste</p><p>instante,	relembrando	a	última	vez	em	que	visitara	Carl	no	hospital.</p><p>A	simples	lembrança	daquela	mulher	ao	seu	lado	lhe	gera	uma	angústia	sem	par.</p><p>-“Até	que	ponto	estaria	pronta	para	perdoá-lo?	Teria	ele	realmente	merecimento</p><p>para	tal”?	Mas	outra	voz	lhe	sussurava:	“O	tempo	já	deu	suas	provas	de	que,</p><p>assim	como	você	mudou	e	se	tornou	mais	forte	e	determinada,	seu	amado</p><p>tornou-se	um	homem	de	bem,	dedicado	à	família,	amoroso	e	responsável.	O	que</p><p>esperas	mais?”</p><p>Verônica	sabedora	que	no	dia	seguinte	teria	de	tomar	uma	decisão,	prepondera	a</p><p>cerca	da	mesma,	pois	dela	dependerá	deu	futuro.	Se	reconhecer	este	amor	e</p><p>passar	uma	borracha	sobre	o	passado,	ou	dar	ouvidos	a	seu	orgulho	e	dizer</p><p>adeus.	Mas	seu	coração	teme	sentir	o	gosto	amargo	da	despedida.	Uma</p><p>despedida	sem	chegada…	uma	flor	que	morre	sem	desabrochar…</p><p>Decidida	a	acordar	com	boa	aparência	recolhe-se	a	seu	quarto	na	tentativa	de</p><p>dormir	e	tentar	não	pensar	no	futuro.	Ledo	engano.	Sua	noite	foi	recheada	de</p><p>pesadelos	aonde	seu	amado	aproximava-se	e	quando	prestes	a	tocá-la,	sua</p><p>imagem	desvanece-se	como	pó.	Já	estava	quase	amanhecendo	quando	decide</p><p>levantar-se	e	tomar	um	chá	calmante	que	a	mãe	lhe	ensinara	e	somente	então</p><p>conseguiu	dormir	em	paz.</p><p>Em	poucas	horas	o	calor	do	verão	adentrou	por	todos	os	quartos	fazendo	com</p><p>que	todos	não	suportassem	mais	ficar	à	cama.	Menos	Verônica	que	abatida,	não</p><p>sentia	forças	para	sair	da	cama.	Após	os	homens	retirarem-se	para	o	trabalho,</p><p>desceu	as	escadas	e	a	cunhada	chocou-se	ao	ver	seu	semblante	apático	e	as</p><p>profundas</p><p>trouxa?</p><p>-	Ora	não	me	amole.	Abra	esta	garrafa	e	vamos	beber.	Hoje	não	estou	para</p><p>conversa.	Vim	aqui	para	beber	e	nos	amarmos!</p><p>2	O	galpão	que	era	utilizado	como	oficina	do	ferreiro	ficava	ao	lado	da	casa	da</p><p>família,	permitindo	assim,	a	constante	comunicação	entre	os	membros.</p><p>CAPÍTULO	III</p><p>Alguns	dias	depois	Mary	Ann	recebe	um	convite.	Envelope	bordado,	branco	e</p><p>dentro	dele	papel	finíssimo,	adequado	aos	padrões	da	época,	escrito	em	letras</p><p>douradas:</p><p>“Sir	Laurence	Marksuel	e	esposa	convidam	Vsa.	e	filho	para	o	noivado	de	sua</p><p>filha	Rosimeri.	A	cerimônia	realizar-se-á	na	casa	de	campo	da	família	em	20	de</p><p>dezembro	próximo,	às	20	hr.”</p><p>Exultante,	chama	o	filho:</p><p>-	Carl!	Veja	só,	fomos	convidados	para	o	noivado	da	menina	Rosimeri!	Os</p><p>Marksuel	lembraram	de	nós!	Afinal	nem	tudo	está	perdido!</p><p>-	Ora	mamãe,	não	vejo	motivo	para	tanta	felicidade.	Vai	ser	mais	umas	daquelas</p><p>festas	enfadonhas	aonde	a	senhora	tenta	fazer-me	interessar	por	uma	das	filhas</p><p>de	suas	amigas...Até	lá	verei	se	poderei	comparecer.</p><p>-	Mary	Ann	olhava	para	o	filho	com	tristeza	por	ele	e	por	si	mesma.</p><p>Seu	filho	não	compreendia	a	urgência	e	inquietude	que	lhe	perpassavam	o</p><p>coração…</p><p>Neste	ínterim,	na	casa	de	campo	dos	Marksuel:</p><p>-	Papai,	eu	faço	questão	que	minhas	amigas	compareçam	ao	meu	noivado,	afinal</p><p>EU	sou	a	noiva	e	tenho	direito	de	decidir	meus	convidados.</p><p>-	Minha	filha,	desde	criança	sua	mãe	e	eu	percebemos	que	você	tem	um	certo</p><p>apreço	por	pessoas	de	um	nível	social	aquém	do	nosso.	São	pessoas	certamente</p><p>honestas	e	honradas	pelo	que	sei,	mas	ainda	assim,	não	estão	à	altura	de	tamanho</p><p>evento!	Não	pertencem	ao	nosso	círculo	de	amizades.	Que	você	queira	passear</p><p>pelos	campos	a	mexericar	com	suas	amigas	não	me	oponho,	mas	daí	a	convidá-</p><p>las	para	sua	festa	de	noivado…	Um	evento	social	desta	magnitude	requer	que</p><p>cada	detalhe	seja	perfeito	e,	nem	sabemos	se	estas	pessoas	têm	sequer	vestes</p><p>adequadas	a	ocasião!	E	seu	noivo?	Irá	se	desgostar	de	saber	que	você	mantém</p><p>estas	amizades.	Talvez	até	desista	do	casamento.	Pense	bem.</p><p>-	Papai,	se	meu	noivo	não	aceitar	minhas	amizades	então	é	ele	quem	não	serve</p><p>para	mim.	Talvez	o	senhor	não	tenha	percebido,	mas	já	tenho	idade	suficiente</p><p>para	fazer	minhas	próprias	escolhas	e	acaso	errada	estiver,	para	arcar	com	as</p><p>consequências	também.</p><p>A	mãe	que	até	então	permanecera	calada,	cansada	da	arrogância	de	seu	marido,</p><p>vai	em	defesa	da	filha:</p><p>-	Meu	marido,	se	me	permite	a	palavra,	acho	que	devemos	dar	um	voto	de</p><p>confiança	a	nossa	filha.	Afinal	ela	já	não	é	mais	uma	criança	e	quando	nos</p><p>casamos	tínhamos	a	idade	dela	lembra-se?</p><p>-	Desta	vez	tenho	que	concordar	com	a	senhora.	Mas	que	sejam	convidadas</p><p>somente	as	moças	que	tenham	um	comportamento	impecável,	pois	ao	menor</p><p>deslize	não	titubearei	em	pô-las	para	fora	no	mesmo	instante!</p><p>-	Obrigada	papai!	Eu	sabia	que	o	senhor	reconsideraria.</p><p>E	assim,	Rosimeri	White	Marksuel	sai	correndo	como	uma	menina	para</p><p>pessoalmente	convidar	suas	“convidadas	especiais”.</p><p>-	Christofer,	tem	alguém	chegando,	vá	ver	de	quem	se	trata!</p><p>-	Boa	tarde	Srta.	Rosimeri,	que	surpresa	em	vê-la.</p><p>-	Boa	tarde	Christofer.	Verônica	está	em	casa?	Preciso	falar-lhe	com	urgência!</p><p>-	Claro	que	sim.	Ela	está	preparando	nosso	jantar.	Vá	até	lá.	Foi	um	prazer	revê-</p><p>la.</p><p>Rosimeri	mal	ouviu	o	rapaz,	pois	dirigiu-se	à	cozinha	para	ter	com	sua	melhor</p><p>amiga.</p><p>Verônica	estava	preparando	um	cozido,	prato	predileto	de	seu	pai	e	tão	entretida</p><p>nesta	tarefa	nem	percebeu	a	chegada	de	Rosimeri.</p><p>-	Boa	tarde	Verônica!</p><p>Ao	perceber	o	susto	da	amiga,	tratou	de	desculpar-se	mas	não	a	tempo	de	evitar</p><p>que	a	mesma	queimasse	a	mão	no	caldeirão	de	ferro.</p><p>-	Oh	por	favor	me	perdoe,	minha	mãe	tem	razão	quando	diz	que	sou	toda</p><p>atrapalhada…</p><p>Verônica	ao	ver	o	olhar	de	arrependimento	da	amiga,	logo	tratou	de	enrolar	a</p><p>mão	no	avental	molhado	e	lhe	deu	um	caloroso	abraço.</p><p>-	O	que	é	isto	Rosimeri?	Eu	é	que	estava	desatenta.	Você	não	teve	culpa</p><p>nenhuma	por	este	pequeno	acidente.</p><p>-	Venha,	sente-se	aqui	e	me	conte	o	que	a	trouxe	a	estas	horas?</p><p>Novamente	empolgada,	Rosimeri	conta	a	amiga	sobre	o	noivado	e	lhe	faz	o</p><p>convite.</p><p>Após	alguns	momentos	de	hesitação,	Verônica,	com	um	carinho	maternal</p><p>declarou:</p><p>-	Querida,	desde	que	sua	família	comprou	esta	propriedade,	me	afeiçoei	a	você</p><p>como	uma	irmã	mais	velha.	Me	sinto	honrada	ao	ser	convidada	para	evento	de</p><p>tamanha	magnitude	e	importância,	mas	não	tenho	trajes	adequados	para	tal.</p><p>-	Eu	já	pensei	nisto	também.	Minha	mãe	tem	dezenas	de	vestidos	que	já	não	usa</p><p>e	todos	vieram	da	França!	Ela	me	autorizou	a	lhe	emprestar	o	que	você	escolher.</p><p>-	Ainda	assim,	meu	pai	não	me	permite	sair	sem	a	sua	companhia	ou	a	de	meu</p><p>irmão,	você	sabe.</p><p>-	Pode	deixar	isto	comigo.	Jantarei	com	vocês	hoje	e	tenho	certeza	de	que</p><p>convencerei	o	velho	Jean	Jaques!</p><p>-	De	você	eu	não	duvido	nada	mesmo…</p><p>E	assim	ocorreu.	O	poder	de	persuasão	de	Rosimeri	era	mesmo	fantástico.</p><p>No	dia	seguinte	Verônica	foi	até	a	casa	dos	Marksuel	e	acabou	escolhendo	um</p><p>modelo	rosa,	o	mais	discreto	que	pode	encontrar.</p><p>A	outra	convidada	foi	Bella,	uma	menina	pouco	mais	velha	que	Rosimeri,	com</p><p>sardas	que	lhe	davam	um	ar	de	boneca.	Filha	de	pequenos	comerciantes,	ao</p><p>contrário	de	Verônica,	tinha	a	ambição	de	encontrar	em	meio	aos	mais	abastados,</p><p>um	pretendente	que	lhe	proporcionasse	uma	vida	de	luxo	e	glamour.</p><p>O	dia	do	noivado	se	aproximava	e	Carl	não	se	encontrava	disposto	a	se	submeter</p><p>aos	olhares	e	comentários	da	sociedade	feudal,	assim	partiu	para	a	casa	de	Lisa</p><p>May,	a	fim	de	matar	as	saudades	da	amante.</p><p>-	Então	a	mamãe	ainda	não	encontrou	uma	“noivinha”	adequada	para	o	seu</p><p>bebezinho…</p><p>Lisa	divertia-se	com	a	situação	de	Carl	e	o	tratava	com	deboche	e	desrespeito</p><p>típicos	de	uma	mundana,	revelando	a	Carl	seu	verdadeiro	caráter.</p><p>Até	o	falecimento	de	seu	pai,	Lisa	May	mantinha	outro	comportamento.</p><p>Envolveu	Carl	em	uma	teia	de	mentiras	com	um	único	objetivo:	Unir-se	a	ele	e</p><p>herdar	toda	a	fortuna	da	família,	porém	quando	percebeu	que	jamais	passaria	de</p><p>uma	“amante”,	decidiu	mudar	seus	planos	e	atitudes.</p><p>De	sua	parte,	Carl	percebera	a	mudança	da	mulher,	porém,	estava	enfeitiçado	por</p><p>seus	carinhos	e	não	se	sentia	confortável	em	abandoná-la.	Mesmo	sabedor	de	seu</p><p>mau	caráter,	ainda	era	a	única	pessoa	com	quem	podia	desabafar.</p><p>Mas	já	não	possuía	meios	de	manter	as	extravagâncias	de	Lisa,	visto	as	finanças</p><p>da	família	estarem	cada	vez	mais	parcas	e	embora	se	considerasse	homem</p><p>experiente,	jamais	suspeitou	que	o	interesse	de	Lisa	não	passava	do	vil	metal.</p><p>Assim,	ambos	embebedaram-se,	amaram-se	e	caíram	em	sono	pesado	pouco</p><p>antes	do	amanhecer.</p><p>Quando	despertou,	Lisa	havia	saído.	Ainda	atordoado	com	a	bebida	da	noite</p><p>anterior,	vestira-se	e	rumara	para	casa.</p><p>Em	um	bilhete	sobre	a	mesa	somente	um	recado:	Fui	às	compras.</p><p>CAPÍTULO	IV</p><p>Há	uma	semana	do	noivado	de	Rosimeri,	Verônica	remexe	no	baú	da	mãe	a</p><p>procura	dos	acessórios	que	combinem	com	o	vestido	doado	pela	mãe	da	noiva.</p><p>Logo	encontra	os	sapatos	que	a	mãe	usara	no	próprio	casamento.	Um	par	de</p><p>sapatos	brancos	forrados	de	fino	cetim	e	que	foram	usados	somente	naquela</p><p>ocasião.</p><p>O	tempo	amarelara	o	tecido,	mas	a	mãe	lhe	ensinara	uma	fórmula	para	tingir</p><p>tecidos	e	decidiu	utilizar.</p><p>Como	o	dia	estava	ensolarado	seria	rápido	o	processo.</p><p>Assim,	na	noite	do	evento,	às	19:45	hs.	O	cocheiro	dos	Marksuel	já	se</p><p>encontrava	em	frente	a	casa	de	Verônica	a	fim	de	levá-la	como	combinado.</p><p>Peter,	meu	velho,	você	está	levando	o	maior	tesouro	que	possuo.	Trate	de	trazê-</p><p>la	às	22:30.	Caso	não	o	faça,	saberá	a	força	que	ainda	possuo	em	meu	braço!</p><p>Verônica	estava	linda.	O	vestido	longo	de	ceda	e	rendas	de	um	tom	de	rosa</p><p>discreto,	combinando	com	os	sapatos	forrados	praticamente	da	mesma	cor,</p><p>deram	a	ela	a	elegância	e	requinte	de	uma	verdadeira	nobre.</p><p>Muitos	olhares	se	voltaram	para	sua	figura	que,	embora	já	contasse	com	idade</p><p>avançada	para	uma	mulher	solteira,	ainda	mantinha	a	pele	de	pêssego	e	no	olhar</p><p>a	pureza	virginal.</p><p>Bella	já	se	encontrava	na	casa	e	ao	vê-la	não	conteve	sua	admiração.</p><p>-	Verônica,	sua	trapaceira!	Você	está	mais	bonita	e	elegante	que	a	mãe	da	noiva!</p><p>Como	fez	isto?</p><p>-	Ora</p><p>olheiros	abaixo	dos	olhos.	Com	carinho,	acompanhou-a	em	seu</p><p>desjejum	e	somente	após	ter	certeza	que	estava	bem	alimentada,	tocou	no</p><p>assunto.</p><p>-	Verônica,	não	podes	receber	seu	pretendente	com	esta	aparência!	Algo	teremos</p><p>de	fazer!</p><p>-	Não	se	preocupe	minha	querida,	falou	calmamente,	minha	prima	Madeleine</p><p>ensinou-me	uns	truques	de	tratamento	da	pele	para	momentos	como	este.	Pode</p><p>ficar	tranquila	que	à	tarde	estarei	com	a	pele	esplêndida.</p><p>Solicitou	à	criada	que	colhesse	uma	determinada	planta	no	quintal,	ferveu</p><p>algumas	flores	e	levou	o	recipiente	ao	retornar	aos	aposentos.</p><p>Devido	ser	verão	e	o	dia	estar	mais	abafado	que	o	normal,	decidiu	usar	um</p><p>vestido	de	tecido	leve,	branco.	Quando	Carl	chegasse,	Verônica	estaria	com	a</p><p>pele	fresca	como	orvalho,	as	faces	coradas	e	o	olhos	brilhantes	e	claros	como	um</p><p>amanhecer	ensolarado.</p><p>Às	14:00	ouve-se	as	rodas	de	uma	carruagem	aproximando-se	da	entrada</p><p>principal	do	solar.	Carl	estava	igualmente	de	branco,	pelos	mesmos	motivos	que</p><p>Verônica	e	tentava	disfarçar	o	suor	que	lhe	corria	pelas	têmporas.	Muitos</p><p>pensariam	ser	devido	ao	calor	do	dia,	mas	somente	seu	íntimo	sabia	quanta</p><p>ansiedade	carregava	ao	aguardar	este	encontro.	Também	não	dormira	bem	à</p><p>noite,	mas	não	pelos	mesmos	motivos	e	sim	pela	velocidade	com	que	seu</p><p>pensamento	divagava	nos	planos	que	sonhava	para	os	dois.</p><p>Ao	tocar	a	sineta,	surge	o	mordomo	que	o	recebe	com	a	elegância,	cortesia	e</p><p>frieza	dos	ingleses.	Carl	preferiu	esperar	em	pé	no	hall	de	entrada,	desejando	que</p><p>o	mordomo	não	percebesse	seus	joelhos	a	tremer.	Mas	sua	espera	foi	pouca,	pois</p><p>em	poucos	minutos	vislumbrava	a	figura	da	mulher	amada.	Em	seu	vestido</p><p>branco,	leve,	esvoaçando	ao	vento	da	janela,	parecia-lhe	a	figura	de	uma	deusa</p><p>grega.	Linda,	altiva	e	inatingível.</p><p>-	Boa	tarde	Sr.	Murphy,	perdoe-me	se	o	fiz	esperar.</p><p>Ao	beijar	sua	mão	as	palavras	lhe	fugiram	dos	lábios	como	se	alguém	falasse	por</p><p>ele.</p><p>-	Sua	beleza	me	faz	perder	as	palavras	Sra.	Não	aguardei	por	mais	de	dois</p><p>minutos,	mas	aguardaria	dois	anos	se	preciso	fosse,	somente	pelo	prazer	que</p><p>meus	olhos	sentem	ao	ver	sua	figura.</p><p>-	Vamos	ao	jardim	aonde	poderemos	conversar	a	vontade.</p><p>Ambos	saíram	pela	porta	da	frente	caminhando	lado	a	lado	e	logo	se</p><p>encontravam	no	primeiro	jardim.</p><p>No	primeiro	momento,	mantiveram	a	conversa	mais	formal,	evitando</p><p>transparecer	um	ao	outro	os	verdadeiros	sentimentos.	Porém	em	pouco	tempo</p><p>passaram	a	falar	de	suas	infâncias	e	peraltices,	o	que	gerou	agradáveis</p><p>lembranças	e	risos.	Após	adentrarem	ao	jardim	das	rosas,	uma	mesa	estava	posta</p><p>sob	um	caramanchão	coberta	por	refresco	e	guloseimas.	Ambos	sentaram	e</p><p>saborearam	os	quitutes	feitos	pela	exímia	cozinheira	contratada,	porém</p><p>mantendo	o	diálogo	leve	e	agradável.	A	cunhada	que	brincava	com	Sophie	em</p><p>um	balanço	à	sombra	alguns	metros	do	casal,	não	pode	deixar	de	perceber	que</p><p>ambos	estavam	apaixonados	e	que	formavam	um	lindo	par.</p><p>-	Sra.	Vilenev,	não	quero	parecer	ousado	e	atrevido,	mas	sua	companhia	traz-me</p><p>lembranças	muitíssimos	agradáveis.	Embora	tenha	permanecido	em	leito</p><p>hospitalar,	ainda	assim,	agradeço	pelo	acidente	que	nos	aproximou.	Ao	seu	lado</p><p>sinto	que	o	tempo	para,	e	que	nenhum	problema	seria	capaz	de	tirar-me	o	humor.</p><p>Toca-lhe	delicadamente	na	ponta	dos	dedos	que	estão	sobre	a	mesa	e	um	arrepio</p><p>lhes	percorre	os	corpos.	Verônica	porém	controla-se	bem	mais	que	o	amado.</p><p>-	Sr.	Murphy,	sua	companhia	me	é	deveras	agradável,	mas	creio	ser	demasiado</p><p>cedo	para	falarmos	destes	assuntos,	afinal,	mal	nos	reencontramos.	Preciso	ser</p><p>totalmente	honesta	com	o	Sr.	Embora	não	negue	meus	sentimentos,	também	não</p><p>posso	esquivar-me	da	grande	mágoa	que	ainda	sinto.</p><p>Na	tentativa	de	adiar	uma	decisão,	desconversa...</p><p>-	O	Sr.	acaso	aprecia	orquídeas?	Podemos	admirá-las	agora	que	já	não	está	tão</p><p>quente.</p><p>O	jardim	das	orquídeas	era	coberto,	visto	serem	flores	demasiadamente	frágeis,</p><p>porém	belíssimas.	Digno	de	ser	objeto	de	qualquer	pintor.	Ambos	caminharam</p><p>vagarosamente	admirando	todas	as	espécies	e	embora	Carl	nada	entendesse	de</p><p>plantas	ou	flores,	estava	deslumbrado	com	tamanha	variedade	de	cores	e	formas.</p><p>-	Este	jardim	parece	muito	com	a	Sra.	De	beleza	singular,	aparentemente	frágil,</p><p>mas	escondendo	uma	força	que	só	os	sentidos	mais	apurados	percebem…</p><p>A	anfitriã	corou	ao	ouvir	tais	palavras.</p><p>Num	instante	o	mundo	real	os	tirou	do	sonho	que	estavam	vivendo	com	a</p><p>aproximação	de	Armand.	Com	passos	e	gestos	truculentos,	sequer</p><p>cumprimentou	o	convidado	da	irmã.</p><p>-	Verônica,	venha	para	dentro,	papai	já	está	chegando.</p><p>Envergonhada	e	procurando	dissimular	o	mal-estar	criado	pela	presença	do</p><p>irmão,	tentou	amenizar	a	situação.</p><p>-	Armand,	espero	que	esteja	bem.	Não	é	normal	estar	em	casa	a	esta	hora.	Em</p><p>princípio,	preocupei-me	com	sua	saúde,	mas	vejo	que	está	muito	bem,	aliás,	está</p><p>como	sempre,	pecando	quanto	a	educação.	Você	esqueceu	de	cumprimentar	o	Sr.</p><p>Murphy.</p><p>-	Boa	tarde	Sr.,	como	tem	passado?</p><p>-	Bem,	obrigado.	Bem	Sra.	creio	que	está	demasiado	tarde	para	seguirmos</p><p>admirando	seus	jardins.	Melhor	será	que	acompanhe	seu	irmão	a	espera	de	seu</p><p>pai	que	não	tardará	em	chegar.	Meu	cocheiro	me	apanhará	em	seguida.	Vou-me</p><p>já	ao	encontro	dele	em	seu	portão.</p><p>Já	dentro	de	casa,	quando	Verônica	se	viu	sozinha	com	o	irmão,	deixou-se</p><p>dominar	pelos	verdadeiros	sentimentos.</p><p>-	O	que	está	acontecendo	Armand?	Diga-me?	Acaso	tenho	15	anos	e	necessito</p><p>ser	vigiada	24	horas	por	dia?</p><p>-	Vocês	não	percebem	que	por	culpa	de	vocês,	sim,	de	papai,	você	e	Christofer</p><p>estou	com	esta	idade	e	NUNCA	fui	cortejada?!	Fui	obrigada	a	casar-me	com</p><p>Bertrand	para	manter	limpo	o	nome	de	nossa	família	e	paguei	pelos	erros	que</p><p>VOCÊ	cometeu!	Agora	que	temos	uma	vida	melhor,	mais	confortável	e	com</p><p>menos	problemas,	eu	não	tenho	o	direito	de	sequer	conversar	com	um	homem?</p><p>Com	licença,	acabo	de	ficar	com	uma	terrível	dor	de	cabeça.</p><p>Homero	estava	preparando	a	carruagem	para	buscar	o	patrão	quando	viu	o</p><p>mesmo	se	aproximando.	Devido	ao	calor,	retirara	o	paletó	e	o	colete	e	puxara	as</p><p>mangas	da	camisa	ensopada	de	suor	pela	longa	caminhada.	Mary	Ann	surpresa</p><p>ao	ver	o	filho	tão	cedo,	tratou	de	inteirar-se	do	ocorrido	e	cobriu	o	filho	de</p><p>perguntas.</p><p>-	Mamãe,	não	lembro	de	ter	caminhado	tanto	em	toda	minha	vida.	Estou	com	os</p><p>pés	em	frangalhos.	Vou	banhar-me	e	dormir.	Não	se	preocupe	com	o	jantar.	Fiz</p><p>um	lanche	que	mais	parecia	um	banquete	e	estou	sem	fome.</p><p>-	Mas	Carl,	diga-me	ao	menos	se	foi	bem	recebido	pelos	Bordeux.</p><p>-	Mamãe,	apesar	de	todos	os	erros	que	cometi	em	minha	vida,	nunca	lhe	faltei</p><p>com	a	verdade	e	não	pretendo	fazê-lo	agora.	Estou	enamorado	pela	Sra.	Vilenev</p><p>e	desejo	ardentemente	conquistá-la	pela	pessoa	que	é	e	não	pelas	posses	que</p><p>possui.</p><p>Mary	Ann	agradeceu	aos	céus	e	acabou	por	falar	sozinha.	-	“Finalmente	meu</p><p>filho	está	enamorado	por	uma	moça	decente”!</p><p>Após	o	desabafo	com	o	irmão,	Verônica	toma	demorado	banho	e	coloca	um	leve</p><p>vestido	para	o	jantar.	Após	o	mesmo,	sem	qualquer	palavra	dos	integrantes	da</p><p>família	sobre	seu	visitante,	ela	retoma	seu	bordado	e	pensa	em	Carl.	Soube	que</p><p>ele	tornou-se	um	excelente	administrador	e	que	é	amado	pelos	empregados,	pela</p><p>generosidade	com	que	os	trata.	Teria	sido	feliz	ao	casar-se	com	ele?	Certamente</p><p>que	sim,	dizia	seu	coração,	que	somente	conheceu	o	amor	nas	palavras	de	um</p><p>homem:	Carl	Murphy.</p><p>As	palavras	de	Verônica	atingiram	Armand	como	uma	flecha	e	o	mesmo	ficou</p><p>totalmente	sem	reação	ao	descobrir	a	verdade	sobre	o	casamento	da	irmã.	À</p><p>época	chegou	a	questionar	ao	pai	e	o	mesmo	limitou-se	a	responder-lhe:	Ainda</p><p>estou	bastante	lúcido	para	tomar	minhas	próprias	decisões	e	embora	você	não</p><p>tenha	condições	de	entender	agora,	um	dia	agradecerá	a	mim	e	a	sua	irmã.	Neste</p><p>momento	o	pai	chega	e	o	filho	antes	de	cumprimentá-lo,	revela	a	conversa	que</p><p>teve	com	a	irmã	e	lhe	pede	explicações.	Jean	Jaques	imaginava	que	jamais</p><p>tocaria	neste	assunto	novamente	e	percebeu	que	o	passado	lhe	cobrava	velhas</p><p>atitudes.	Manda	chamar	Verônica	e	Christofer	e	os	quatro	vão	ao	escritório	para</p><p>uma	séria	conversa.</p><p>-	Meus	filhos,	julguei	que	este	momento	jamais	chegaria	mas	devo	ser	honesto	e</p><p>justo.	Verônica,	fiz	tudo	o	que	pude	para</p><p>mantê-la	afastada	do	Sr.	Murphy,	pois</p><p>suas	atitudes	pretéritas	eram	abomináveis	e	não	desejava	que	você	sofresse.	No</p><p>entanto,	obriguei-a	a	casar-se	com	Bertrand	para	impedir	que	ele	revelasse	as</p><p>atrocidades	cometidas	por	Armand	quando	na	“gerra	santa”	e	a	fiz	sofrer	muito</p><p>mais.	Hoje,	o	passado	bateu	em	nossa	porta	e	eu,	ao	invés	de	me	tornar	mais</p><p>tolerante	diante	de	todo	sofrimento	que	lhe	causei,	não	somente	mantive	minha</p><p>posição	contra	o	Sr.	Murphy,	como	influenciei	seus	irmãos	a	impedirem	uma</p><p>nova	aproximação.	Tenho	provas	mais	que	suficientes	que	o	Sr.	Murphy	é	um</p><p>novo	homem	e	mantive-me	irredutível	em	admitir,	tornando	a	errar.	Assim,</p><p>preciso	pedir-lhe	perdão	por	todo	sofrimento	que	lhe	causei	e	promete-lhe	que,	a</p><p>partir	de	hoje,	não	mais	interferirei	em	seus	planos.</p><p>Armand	jogou	de	lado	todo	seu	orgulho	e	abraçou-se	a	irmã	aos	prantos</p><p>pedindo-lhe	perdão.</p><p>Enquanto	isto,	na	residência	dos	Murphy...</p><p>-	Meu	filho,	estou	muito	orgulhosa	de	seu	trabalho	e	da	maneira	como	vem</p><p>conduzindo	nossas	terras	desde	que	voltou	da	França.	Enquanto	a	maioria	dos</p><p>senhores	estão	perdendo	seus	feudos,	você	não	somente	recuperou	o	que</p><p>havíamos	perdido,	como	ampliou	nosso	território.	Seu	pai,	aonde	quer	que</p><p>esteja,	sente	o	mesmo	que	eu,	tenho	certeza.	Porém	percebo	uma	certa</p><p>melancolia	em	seu	olhar.	Será	que	sua	velha	mãe	não	pode	ajudá-lo?</p><p>-	Mamãe,	a	senhora	sabe	que	o	sistema	feudal	está	em	franca	decadência.	A	Sra.</p><p>mesma	passou	a	não	se	importar	de	não	possuir	título	de	nobreza!	Hoje,	não</p><p>necessito	de	um	título,	sou	um	fazendeiro	e	muito	bem-sucedido,	graças	a	Deus!</p><p>Obrigado	por	seu	reconhecimento	e	suas	palavras,	mas	quanto	a	minha	tristeza</p><p>ninguém	pode	fazer	nada.	Revelei-lhe	anos	atrás	que	ao	tentar	conquistar	a	Srta.</p><p>Bordeaux,	visando	apenas	nossos	interesses,	fui	castigado	apaixonando-me</p><p>verdadeiramente	por	ela.	E	mal	tive	a	chance	de	lhe	revelar	meus	profundos</p><p>sentimentos.	Após	o	acidente,	ela	mostrou-se	generosa	e	caridosa,</p><p>acompanhando-me	em	cada	etapa	de	meu	tratamento.	Mas	devido	ao	infortúnio,</p><p>no	dia	em	que	Lisa	May	fora	ao	hospital	despedir-se,	pois	estava	embarcando</p><p>para	a	América,	a	Sra.	Vilenev	nos	avistou	de	longe	e	devido	ao	meu	passado</p><p>deduziu	que	eu	a	traíra	retomando	meu	romance	com	aquela	mulher.	Estou</p><p>envelhecendo	e	não	deixarei	herdeiros,	mas	se	ela	estivesse	ao	meu	lado	eu	seria</p><p>o	homem	mais	feliz	do	mundo.</p><p>-	Ah	meu	querido,	a	culpa	é	toda	minha!	Por	ambição	forcei-o	a	tal	conquista	e</p><p>hoje	estamos	ambos	sendo	punidos	por	isto.	Você,	por	não	viver	seu	grande	amor</p><p>e	eu,	por	não	ter	netos	e	pior,	ver	o	sofrimento	de	meu	filho	e	nada	poder	fazer	a</p><p>respeito.	Agora	vamos	dormir	meu	filho	que	amanhã	será	um	novo	dia	e,	quem</p><p>sabe,	não	nos	trará	gratas	surpresas?	Boa	noite.</p><p>Após	o	dia	mais	que	conturbado,	culminando	na	revelação	do	pai,	após	o	jantar,</p><p>todos	decidiram	se	recolher	mais	cedo,	inclusive	Verônica	que	tocou	em	seu</p><p>bordado,	mas	sem	coragem	de	continuá-lo,	após	profundo	suspiro,	recolheu-se	a</p><p>seus	aposentos	e	adormeceu	com	um	sorriso,	sonhando	com	seu	amor…</p><p>Na	semana	seguinte,	decide	passar	mais	uma	temporada	na	fazenda	do	tio	e</p><p>embora	soubesse	que	o	fazia	para	evitar	de	tomar	sua	decisão	pois	não	sentia-se</p><p>preparada	para	tal.</p><p>Como	sempre,	fora	muito	bem	recebida	e	sentia-se	em	casa	naquela	fazenda.	Lá</p><p>era	seu	refúgio.	O	lugar	que	lhe	acolhera	em	seus	melhores	e	piores	momentos</p><p>de	sua	vida	e,	devido	a	isto,	sentira-se	atraída	a	retornar.</p><p>Madeleine,	imediatamente	a	chegada	da	prima,	percebeu	que	algo	estava	errado</p><p>e	no	momento	certo,	foi	ter	com	a	mesma.</p><p>-	Minha	querida,	sabe	que	adoro	sua	companhia,	me	percebo	que	está	aqui	em</p><p>corpo,	mas	sua	mente	e	coração	estão	muito	longe.	Gostaria	de	ajudá-la,	se</p><p>puder.</p><p>Verônica	que	não	guardava	segredos	da	prima,	revelou-lhe	sua	angústia	e</p><p>Madeleine	não	pode	deixar	de	achar	graça	da	situação.</p><p>-	Desculpe	Verônica,	mas	não	creio	que	uma	mulher	que	passou	por	tudo	o	que</p><p>passou,	nestas	alturas	da	vida,	esteja	ainda	dividida!	Qualquer	criança	percebe</p><p>que	você	e	o	Sr.	Murphy	se	amam	e	que	ambos	somente	serão	realmente	felizes</p><p>juntos.</p><p>-	Não	tenho	tanta	certeza…	Eu	até	pensei	que	tinha,	mas	a	atitude	de	Armand</p><p>naquela	tarde,	me	fez	pensar	que	talvez	ele	saiba	de	algo	que	desconheço	e	senti-</p><p>me	insegura.</p><p>-	Está	bem.	Fique	aqui	o	tempo	que	desejar,	mas	preciso	que	saiba	que	quando	o</p><p>Sr.	Murphy	soube	que	você	voltou	para	a	Inglaterra	magoada	por	um	equívoco,</p><p>ficou	desesperado	e	eu,	na	tentativa	de	colocá-lo	à	prova,	desafiei-o	dizendo	que</p><p>ele	somente	lhe	reconquistaria	se	voltasse	a	andar	e	provasse	a	você	o	homem</p><p>em	que	se	tornou.	Sua	recuperação	foi	espantosa	e	os	próprios	médicos	custaram</p><p>a	crer	na	rapidez	com	que	se	recuperou.	Hoje	eu	tenho	certeza	querida	que	ele	o</p><p>fez	somente	por	seu	amor.	Agora,	fique	com	seus	pensamentos	e	pese	bem	os</p><p>dois	lados	da	balança.	Boa	noite.</p><p>Na	tarde	seguinte	estava	a	bordar	na	varanda	recebeu	uma	missiva:</p><p>“-	Verônica,	venha	para	o	Solar,	seu	pai	está	gravemente	doente.	Emanuelle”.</p><p>No	mesmo	momento	arrumou	suas	roupas	em	baús	e	comunicou	o	ocorrido	à</p><p>prima	dizendo	que	não	sabia	quando	voltaria.	Tomou	o	primeiro	trem	e	pela</p><p>manhã	chegou	a	casa	do	pai.	Bella,	a	mais	sensível,	estava	em	prantos	e</p><p>Emanuelle	tentava	consolá-la	ao	mesmo	tempo	que	cuidava	da	pequena	Sophie.</p><p>Verônica	foi	diretamente	ao	quarto	do	pai	aonde	estavam	os	dois	irmãos</p><p>ladeando	a	cama.	Jean	Jaques	ao	ver	filha	teve	um	lampejo	de	lucidez	e	pediu</p><p>que	lhe	desse	a	mão.</p><p>Meus	filhos,	eu	tive	uma	vida	dura	mas	fui	muito	feliz	por	ter	gerado	vocês	três.</p><p>Verônica,	minha	pequena	princesinha,	herdou	a	coragem	e	iniciativa	da	mãe,</p><p>porém	eu	não	permiti	que	seguisse	seu	coração	como	sua	mãe	o	fez	e	lhe	causei</p><p>infelicidade.	Armand,	o	destemido,	que	já	ao	nascer	era	forte	como	um	bezerro	e</p><p>sugava	sua	mãe	até	enfraquecê-la	e	Christofer,	meu	caçula,	foi	meu	companheiro</p><p>durante	toda	a	vida.	Pacato,	sensato	e	prudente	e	ainda	me	deu	uma	neta	que	é</p><p>uma	joia	rara,	a	pequena	Sophie.	Peço	a	vocês	que	perdoem	seu	velho	pai	pelos</p><p>erros	que	cometi,	principalmente	a	você	Verônica.	Orgulho-me	do	que	vocês	se</p><p>tornaram	e	hoje	posso	partir	em	paz,	porque	já	ouço	a	voz	de	minha	amada</p><p>Mildred	chamando-me	a	ficar	ao	seu	lado.	Irei	feliz.	E	seus	olhos	se	fecharam</p><p>como	que	num	sono	profundo,	sem	sofrimento	e	sem	dor.	Os	filhos	abraçaram-se</p><p>ao	corpo	do	pai	todos	chorando	e	falando	palavras	desconexas	devido	ao	choque,</p><p>mas	aos	poucos	foram	recuperando-se	e	Christofer	foi	o	que	teve	mais</p><p>equilíbrio.</p><p>-	Tendo	em	vista	que	fui	eu	quem	passou	mais	tempo	ao	lao	de	papai,	ele	me</p><p>confidenciou	como	gostaria	que	fosse	sua	despedida.	Peço	a	permissão	de	meus</p><p>irmãos	para	providenciar	tudo.</p><p>Os	irmãos	concordaram	de	pronto,	confiando	que	o	mesmo	realizaria	a	última</p><p>vontade	do	pai	e	sentindo-se	culpados	por	passar	tanto	tempo	longe	do	mesmo.</p><p>Os	familiares	da	França	vieram	para	os	funerais	e	permaneceram	até	a	missa	de</p><p>sétimo	dia	como	era	da	vontade	de	Jean	Jaques.</p><p>Durante	a	missa,	quando	o	padre	declarou	as	intenções	daquela	cerimônia,</p><p>Verônica	ficou	paralisada	ao	ouvir	que	tratava-se	do	sétimo	dia	de	falecimento</p><p>de	seu	pai	e	também	de	Mary	Ann	Evans	Murphy.	Isto	significava	que	Carl</p><p>também	estava	na	igreja	e	sofrendo	o	mesmo	que	ela.</p><p>Ao	final	da	cerimônia	Carl	se	encontrava	a	porta	da	igreja,	acompanhado	de	sua</p><p>família	de	coração.	Homero,	Esther,	Simon,	Christin,	Dic	e	sua	pequena	irmã</p><p>Mary	Ann.	Quando	as	famílias	se	encontraram,	abraçaram-se	em	condolências.</p><p>Ao	se	verem	frente	a	frente,	Verônica	e	Carl	apenas	olharam-se	profundamente	e</p><p>palavra	alguma	foi	dita.	Deram-se	as	mão	e	saíram	andando	sem	destino	certo.</p><p>Neste	momento	nada	era	mais	importante	do	que	a	companhia	de	um	ao	outro.</p><p>Todos	ficaram	a	observá-los	e	sentiram	a	paz	e	tranquilidade	que	só	o	verdadeiro</p><p>amor	possui.</p><p>Não	muito	distantes,	Sir	Alexander	e	Mildred,	contemplavam	a	mesma	cena.</p><p>-	Parabéns	minha	amiga.	Tivemos	uma	tarefa	árdua,	mas	finalmente	pudemos</p><p>unir	nossos	filhos.</p><p>-	Eu	sempre	lhe	disse	que	eles	acabariam	assim,	você	é	quem	não	me	acreditou.</p><p>Agora	podemos	voltar	para	o	nosso	verdadeiro	lar,	pois</p><p>nossa	missão	está</p><p>finalmente	cumprida.	Além	do	mais,	preciso	me	preparar	para	meu	regresso.</p><p>Um	mês	depois,	os	jardins	do	Solar	estavam	totalmente	enfeitados	e	até	o	céu</p><p>parecia	sorrir.</p><p>Carl	mal	conseguia	manter-se	equilibrado	nas	pernas	pela	visão	da	noiva	que</p><p>vinha	em	sua	direção.</p><p>…	E	eu	os	declaro,	marido	e	mulher…</p><p>E	um	beijo	quente	e	apaixonado,	selava-se	a	união	de	Carl	e	Verônica.</p><p>Um	ano	após	o	casamento,	Verônica	vai	até	a	varanda	da	nova	casa	que	o	marido</p><p>comprara,	a	fim	de	retomar	seu	bordado.	Porém	ao	erguer	o	tecido	percebeu	que</p><p>havia	algo	mais	que	o	novo	lençol	em	que	trabalhava.	Sob	o	leque	e	o	bordado,</p><p>uma	cesta	de	vime,	e	dentro	dela	um	menino	recém-nascido.	Ao	lado	da	criança,</p><p>uma	mensagem:	“Não	tenho	condições	de	criar	esta	criança,	mas	asseguro	que	é</p><p>fruto	de	um	grande	amor.	Criem-no	como	se	fosse	seu	e	que	Deus	me	perdoe	e</p><p>os	abençoe”.</p><p>FIM</p><p>Cover Page</p><p>Entre leques e bordados</p><p>Sumário</p><p>CAPÍTULO I</p><p>CAPÍTULO II</p><p>CAPÍTULO III</p><p>CAPÍTULO IV</p><p>CAPÍTULO V</p><p>CAPITULO VI</p><p>CAPÍTULO VII</p><p>CAPÍTULO VIII</p><p>CAPÍTULO IX</p><p>CAPÍTULO X</p><p>CAPÍTULO XI</p><p>CAPÍTULO XII</p><p>CAPÍTULO XIII</p><p>CAPÍTULO XIV</p><p>CAPITULO XV</p><p>CAPITULO XVI</p><p>Bella,	eu	apenas	estou	feliz.	Na	verdade,	nem	sei	bem	porque	mas,	sinto</p><p>que	algo	muito	importante	vai	acontecer	hoje!</p><p>Neste	momento	são	anunciadas	as	presenças	da	Duquesa	de	Charleston	e	seu</p><p>filho	Carl	Richard	Evans	Murphy.</p><p>Como	não	poderia	ser	diferente,	alguns	se	admiraram	em	vê-los,	visto	correr	o</p><p>boato	de	que	a	família	perdera	o	título	de	nobreza	devido	a	má	índole	do	único</p><p>herdeiro.	Outros,	sabedores	da	obstinação	de	Mary	Ann	não	duvidavam	de	que</p><p>aquele	era	o	momento	ideal	para	recuperarem	o	prestígio.	Verônica	ao	ver	Carl</p><p>sentiu	o	coração	lhe	pular	no	peito	e	precisou	de	um	certo	autocontrole	para</p><p>disfarçar	a	emoção.	A	partir	daquele	momento	procurou	não	ser	vista	por	ele.</p><p>Após	a	troca	de	alianças	e	a	formalização	do	noivado,	os	convidados	foram</p><p>chamados	a	ocuparem	seus	lugares	à	mesa	e	o	jantar	transcorreu	sem	quaisquer</p><p>imprevistos.	Após	os	noivos	dançarem	a	primeira	valsa,	foram	seguidos	pelos</p><p>casais	convidados.	Ao	observar	enfadonhamente	a	cena,	Carl	teve	chamada	a</p><p>atenção	para	aquela	linda	mulher,	que	de	tanto	tentar	ser	discreta,	acabou	por</p><p>aguçar	sua	curiosidade.</p><p>Quando	o	mesmo	rumou	em	sua	direção,	Verônica	sentiu	o	estômago	revirar	e</p><p>julgou	que	perderia	os	sentidos,	mas	se	descobriu	mais	forte	do	que	supunha.	Ao</p><p>perceber	a	presença	do	homem	à	sua	frente,	não	conseguiu	evitar	de	sustentar	o</p><p>olhar,	porém	quando	seus	olhos	se	encontraram,	ambos	sentiram	uma	magia</p><p>contagiante,	mas	procuraram	disfarçar.</p><p>Bella	que	de	nada	sabia,	abriu	seu	melhor	sorriso	para	o	elegante	cavalheiro	o</p><p>que	deixou	Verônica	um	tanto	incomodada,	embora	não	soubesse	o	porquê.</p><p>Boa	noite	Srtas.,	permitam	me	apresentar:	Sou	Carl	Richard	Evans	Murphy.</p><p>Tomou	a	mão	de	Verônica	e	ao	beijá-la	seus	olhares	encontraram-se	fazendo	o</p><p>tempo	parar.	Porém	antes	das	moças	apresentarem-se,	Rosimeri	se	aproxima	do</p><p>trio,	fazendo	com	que	todos	os	olhares	se	voltem	para	si.</p><p>Verônica	nunca	se	sentira	tão	agradecida	a	Rosimeri	quanto	agora;	abraçou	a</p><p>amiga	felicitando-a	e	retirou-se	à	francesa³	.	Bella	percebeu	a	estratégia	da	amiga</p><p>e	julgou	que	estava	colaborando	para	que	ficasse	mais	íntima	de	tão	garboso	(e</p><p>rico)	cavalheiro.	Apresentou-se	estendendo	a	mão	direita,	porém	Carl,	sem</p><p>perder	a	alegância	beijou-se	a	mão	e	tentou	retirar-se	à	procura	da	mulher	cujos</p><p>olhos	jamais	esqueceria,	porém	Bella,	tratou	de	inserir	assuntos	banais,	a	fim	de</p><p>mantê-lo	em	sua	companhia.	Quando	finalmente	desvencilhou-se	da	menina,	não</p><p>mais	encontrou	a	quem	procurava.</p><p>Tentando	chegar	à	carruagem	a	fim	de	pedir	que	o	cocheiro	a	levasse	para	casa</p><p>imediatamente,	foi	surpreendida	pela	Duquesa	que	lançou-lhe	um	olhar</p><p>congelante.</p><p>-	Tentando	sair	á	espreita	Srta.?	Veja	bem,	não	sei	quem	você	é	e	nem	me</p><p>interessa,	mas	vou	dar-lhe	um	conselho:	Mantenha-se	afastada	de	meu	filho!	Ele</p><p>é	um	nobre	e	jamais	se	interessaria	por	uma	plebeia	como	a	Srta.!	Se	acaso	tem</p><p>planos	de	dar	um	golpe	tentando	unir-se	a	um	homem	de	posses	e	renome,</p><p>procure	outro,	pois	jamais	permitirei	que	meu	filho	se	envolva	com	uma</p><p>qualquer!</p><p>Às	21:30	hs.	Chega	em	casa	para	o	espanto	do	pai	que	julgava	estar	a	filha</p><p>divertindo-se	em	sua	primeira	festa	desacompanhada	dos	irmãos.</p><p>Ao	perceber	que	a	filha	havia	chorado,	imediatamente	inquiriu-a	sobre	o</p><p>ocorrido.	A	filha	porém,	limitou-se	a	dizer	que	emocionara-se	por	demais	com	a</p><p>cerimônia	e	ao	pensar	que	talvez	jamais	ocupe	o	lugar	de	noiva,	sentiu-se</p><p>extremamente	infeliz.	Foi	para	seu	quarto	e	chorou	até	adormecer.</p><p>Jean	Jaques	sentiu-se	culpado	pelo	sofrimento	da	filha,	mas	preocupava-se	com</p><p>seu	futuro	pois	sabia	que	a	mesma	já	havia	passado	há	muito	da	idade	de	casar	e</p><p>temia	que	quando	partisse	a	mesma	ficasse	solitária	por	não	ter	sua	própria</p><p>família.</p><p>Na	verdade,	Verônica	era	feliz	à	sua	maneira,	cuidando	do	pai	e	dos	irmãos.	Ao</p><p>menos	o	fora,	até	aquela	noite.</p><p>Na	manhã	seguinte,	serviu	o	café	da	manhã	ao	pai	e	irmão	e	ambos	perceberam</p><p>seus	olhos	inchados,	mas	preferiram	nada	comentar	para	não	dar	vazão	a	maior</p><p>sofrimento	da	mesma.</p><p>A	caminho	do	galpão	o	pai	revelou	ao	filho	o	motivo	das	lágrimas	da	irmã,	o	que</p><p>gerou	o	mesmo	sentimento	de	culpa	que	o	pai,	mas	pensava:	-	“Ao	menos	minha</p><p>irmã	não	será	falada	pela	redondeza	como	acontece	com	as	moças	que	se	deixam</p><p>levar	pelas	paixões”.</p><p>Quando	ambos	saíram	ela	tratou	de	cuidar	dos	afazeres	da	casa	a	fim	de	se</p><p>distrair	e	não	pensar	mais	no	ocorrido,	mas	não	esquecia-se	da	figura	daquele</p><p>homem	lhe	sorrindo	com	tamanha	admiração	nos	olhos…	Certamente	a</p><p>reconhecera.	Assim	permaneceu	a	cismar	por	longo	tempo.</p><p>“A	quem	ele	pensa	que	engana?	Nem	toda	aquela	pompa,	roupas	engomadas	e</p><p>modos	refinados	à	mesa	escondem	quem	ele	realmente	é.	Um	homem	sem</p><p>coração!	Um	mero	sedutor	sem	escrúpulos!	E	a	arrogância	da	mãe?	Como</p><p>ousara	dirigir-se	a	ela	daquela	maneira?	Nem	sequer	lhe	dera	motivo”?</p><p>O	sentimento	de	injustiça	e	revolta	por	alguns	momentos	lhe	ferviam	a	cabeça,</p><p>mas	ao	lembrar	daquele	olhar,	tudo	se	desvanecia…	Ao	mesmo	tempo	que</p><p>sentia-se	irritada	por	não	conseguir	esquecer	seus	olhos,	havia	algo	que	lhe</p><p>alertava	para	algum	perigo	iminente	vindo	deles.	-	“Quer	saber	(pensou	alto),	um</p><p>dia	ambos	irão	se	arrepender	de	me	tratar	daquela	forma”!</p><p>O	que	Verônica	não	desconfiava	era	que	o	mesmo	sentimento	que	invadiu	seu</p><p>coração	ao	enfrentar	o	olhar	de	Carl,	o	havia	contaminado	como	um	vírus...</p><p>(Ah,	se	ela	soubesse	o	que	o	futuro	lhe	reservava…)</p><p>Alguns	dias	depois,	na	casa	de	campo	dos	Marksuel,	Rosimeri	e	Bella	ainda</p><p>tentavam	entender	o	que	sucedera	com	a	amiga	na	noite	do	noivado,	visto	ela</p><p>nunca	esclarecer	convincentemente	as	duas.</p><p>Ora	alegava	um	mal	súbito,	ora	a	preocupação	do	pai	com	o	horário,	ora	se</p><p>confessava	assustada	com	a	atitude	de	Carl…</p><p>-	Você	quer	saber	Bella	-	dizia	Rosimeri	–	Eu	tenho	o	pressentimento	que</p><p>Verônica	já	havia	encontrado	com	aquele	homem	e	que	de	alguma	forma	ele</p><p>mexeu	com	seu	coração!</p><p>3	Sair	furtivamente,	em	silêncio:	Esgueirar-se	de	um	local,	geralmente</p><p>escapando	de	uma	situação	incômoda.</p><p>CAPÍTULO	V</p><p>Passadas	algumas	semanas	Jean	Jaques	recebe	uma	mensagem	da	França.	Olhou</p><p>para	os	filhos	e	disse:	-	Sua	avó	está	muito	doente.	Arruma	a	mala	e	embarca	no</p><p>primeiro	trem.	Antes	de	sair,	não	poupou	as	intermináveis	recomendações,</p><p>típicas	de	pai	zeloso	como	o	era.</p><p>Assim,	Verônica	ficou	cuidando	da	casa	e	de	Christofer	que	contava	com	a	idade</p><p>de	20	anos.	Ambos	conversavam	e	criavam	jogos	após	o	jantar	todas	as	noites,	a</p><p>fim	de	afastar	o	tédio	e	a	preocupação	com	a	saúde	da	avó.</p><p>Nova	missiva	chega	à	casa	dos	Bordeaux	e	desta	vez	endereçado	à	Verônica.</p><p>-	Filha,	sua	avó	faleceu.	Volto	no	trem	da	manhã.	Amor.	Papai.</p><p>Na	manhã	seguinte,	Verônica	e	o	irmão	estavam	na	estação	aguardando	a</p><p>chegada	do	pai.	Mal	Jean	Jaques	desembarca	já	se	pôde	perceber	os	vincos</p><p>profundos	em	suas	faces	e	a	ausência	de	carnes	sob	suas	vestes.	O	pai</p><p>envelhecera	20	anos	em	2	meses.</p><p>Em	casa	conta	aos	filhos	todos	os	detalhes	e	o	porquê	da	demora.</p><p>Cristian,	que	estava	cortejando	uma	jovem	das	proximidades,	após	o	jantar	foi</p><p>encontrar-se	com	a	moça.	Jean	Jaques	aproveita	que	está	só	com	a	filha:</p><p>-	Minha	filha,	antes	de	embarcar	em	retorno,	fui	procurado	por	um	senhor	muito</p><p>distinto	que	me	incumbiu	de	lhe	entregar	esta	mensagem.	Deve	ser	importante,</p><p>pois	tive	que	assinar	responsabilizando-me	pelo	recebimento.</p><p>Verônica	olha	o	envelope	temerosa	de	seu	conteúdo,	visto	tratar-se	de	assuntos</p><p>legais.</p><p>“Srta.	Verônica	Smith	Bordeaux</p><p>Convidamos	V.Sa.	à	abertura	do	testamento	fechado	da	Sra.	Gilles	Moulin</p><p>Bordeaux,	que	realizar-se-á	no	dia	10	do	mês	de	maio	do	ano	de	1450,	às	14:00</p><p>na	sala	513	do	fórum	desta	cidade.”</p><p>Sem	entender	nada,	pôs-se	a	arrumar	sua	mala	e	cumprir	o	compromisso	que</p><p>sabia	ser	a	última	vontade	de	sua	avó.</p><p>Na	manhã	seguinte	Verônica	embarcava	no	primeiro	trem	para	Paris	rumo	ao	seu</p><p>futuro.</p><p>A	medida	em	que	o	comboio	adentrava	em	terras	francesas,	a	esperança</p><p>combinada	ao	receio	do	desconhecido,	retiraram	toda	firmeza	que	até	então</p><p>Verônica	demonstrava	ter.	Lágrimas	quentes	lhe	fugiam	dos	olhos	como	a</p><p>queimar	e	ela	se	deixou	ficar	naquele	misto	de	passado,	presente	e</p><p>futuro.	Após</p><p>profundo	suspiro,	adormeceu.</p><p>Sonhou	com	a	mãe	e	lembrou	da	história	de	amor	dos	pais.</p><p>Jean	Jaques	apaixonara-se	por	Mildred	Smith,	jovem	inglesa	que	costumava</p><p>passar	os	verões	na	fazendo	dos	tios,	vizinha	à	de	sua	família.	Embora	a	família</p><p>da	jovem	não	fosse	tão	abastada	quanto	a	dele,	isto	nunca	foi	impedimento	para</p><p>o	relacionamento	de	ambos	e	tão	logo	se	casaram,	partiram	para	a	Inglaterra	a</p><p>fim	de	começar	a	vida	a	dois	sem	a	interferência	das	famílias.</p><p>Na	estação	de	Paris	foi	recebida	por	sua	prima	Madeleine,	filha	do	irmão	mais</p><p>jovem	de	seu	pai	e	que	tinha	pouco	mais	que	a	sua	idade.	Até	a	fazenda	situada</p><p>em	uma	cidadezinha	não	muito	afastada	da	capital,	trataram	de	verbalizar</p><p>somente	amenidades,	como	se	ambas	temessem	confessar	o	que	lhes	perpassava</p><p>a	mente.</p><p>Após	algumas	horas	de	sono	confortante	e	revitalizador,	Verônica	se	via	pronta	a</p><p>percorrer	toda	a	fazenda	e	matar	a	saudade	das	terras	e	pessoas	que	guardavam</p><p>doces	recordações	de	sua	infância.</p><p>A	primavera	era	a	estação	mais	linda	do	ano	e	caminhar	por	entre	as	flores	dava</p><p>a	Verônica	toda	paz	e	energia	que	uma	pessoa	poderia	ter.	Tudo	estava	perfeito</p><p>mas	quando	menos	esperava	seu	coração	disparou	com	a	visão	de	um	novo</p><p>garanhão,	recém-adquirido	pelo	tio	que	era	o	administrador	da	fazenda.	Sua	avó</p><p>era	a	proprietária,	mas	não	possuía	há	vários	anos	condições	de	administrar	os</p><p>negócios.	Sendo	assim,	o	filho	era	quem	o	fazia,	e	com	maestria,	pois	era	um</p><p>administrador	nato.	Lembrava	que	seu	pai	contava	as	histórias	das	aventuras	dos</p><p>dois	irmãos	e	da	certeza	que	ambos	tinham	de	que	Jean	Paul	seria	o	herdeiro</p><p>natural	da	fazenda.</p><p>Avistou	o	tratador	dos	animais	e	logo	aproveitou	para	inquiri-lo	a	respeito	do</p><p>animal.</p><p>-	Jeremy!	Que	lindo	animal!	Nasceu	aqui	ou	foi	adquirido?</p><p>-	Seja	bem-vinda	Srta.	Verônica!	Fui	avisado	que	viria,	mas	calculei	que	tardaria</p><p>mais	alguns	dias.</p><p>-	Quanto	a	sua	curiosidade,	este	belo	espécime	foi	adquirido	por	seu	tio	há</p><p>poucas	semanas	de	um	nobre	inglês	à	beira	da	falência.	Eles	estão	em</p><p>dificuldades	financeiras	e	o	Sr.	Jean	Paul	fez	um	excelente	negócio.</p><p>-	Estranho…	Tenho	a	nítida	sensação	de	que	conheço	este	animal…</p><p>-	Ora,	se	ele	veio	da	Inglaterra	e	o	Sr.	Jean	Jaques	é	o	melhor	ferreiro	destas</p><p>terras,	talvez	pertencesse	a	algum	nobre	das	redondezas.</p><p>-	É...	pode	ser…Mas	Verônica	sabia	exatamente	há	quem	pertenceu	o	animal.</p><p>Absorta	em	seus	pensamentos	nem	ouvia	o	que	o	homem	dizia.	-	“Nobre	inglês	á</p><p>beira	da	falência…”	(Pensava	Verônica)</p><p>-	Pois	então	Srta.	o	mundo	está	de	cabeça	para	o	ar.	Os	ricos	estão</p><p>empobrecendo	e	não	sei	aonde	isto	vai	dar…</p><p>Os	tempos	estavam	realmente	mudando…</p><p>Num	primeiro	momento,	devido	a	crise	do	feudalismo.</p><p>O	surgimento	da	burguesia,	nova	classe	social	que	dominava	o	comércio	e	que</p><p>possuía	alto	poder	econômico	foi,	aos	poucos,	tirando	o	poder	dos	senhores</p><p>feudais;</p><p>O	renascimento	comercial,	impulsionado	pelas	cruzadas,	entre	outros,	eram	as</p><p>causas	da	crise	do	sistema	feudal.</p><p>A	evolução	é	necessária...</p><p>-	Você	poderia	selá-lo	para	mim?	Preciso	cavalgar	e	revisitar	cada	pedacinho</p><p>desta	fazenda.</p><p>-	É	claro	que	sim,	meu	filho	o	fará	e	em	seguida	a	Srta.	sentirá	toda	a	liberdade</p><p>só	se	tem	cavalgando	um	belo	animal	como	este!</p><p>Verônica	fez	questão	de	acompanhar	o	trabalho	do	rapaz,	mas	seu	pensamento</p><p>estava	muito	longe…</p><p>Observando	o	animal	recordou-se	da	primeira	vez	que	o	viu…	E	por	mais	que</p><p>tentasse	não	conseguia	esquecer	o	calor	daquele	olhar…</p><p>Após	o	tempo	que	lhe	pareceu	uma	eternidade,	iniciou	seu	passeio,	decidida	a</p><p>apreciar	e	relembrar	as	belezas	do	lugar.</p><p>Após	uma	boa	distância	da	casa	principal,	avistou	uma	grande	árvore,	totalmente</p><p>florida	e	decidiu	descansar	na	relva	sob	tão	belo	espécime	da	flora	local.</p><p>Prendeu	as	rédeas	do	cavalo	em	um	galho	e	deitou-se	na	relva	macia.</p><p>Ao	sentir	o	sol	morno	a	lhe	aquecer	a	pele,	fecha	os	olhos	e	por	um	momento</p><p>sente-se	abraçada	pelo	homem	que	não	lhe	sai	do	pensamento.</p><p>Levanta-se	imediatamente	a	fim	de	libertar-se	do	pensamento	que	lhe	assalta,</p><p>mas	a	sensação	de	felicidade	não	se	desvaneceu…</p><p>Como	esquecer	aquele	olhar?…</p><p>-	Senhor,	pede	aos	céus,	livra-me	destes	pensamentos.	Sei	que	ele	nem	lembra</p><p>que	eu	existo.	Não	posso	alimentar	esta	ilusão.</p><p>CAPITULO	VI</p><p>-	Depressa	cocheiro!	Não	percebe	que	já	estou	atrasado	para	o	meu	encontro?</p><p>-	Perdão	senhor.	Estou	exigindo	o	máximo	dos	cavalos	e	nesta	velocidade</p><p>podemos	facilmente	sofrer	um	acidente.</p><p>-	Ora	seu	estúpido,	você	é	pago	para	me	conduzir	e	não	para	pensar	em	minha</p><p>segurança.	Você	é	igual	aos	cavalos.	Para	mim	tem	a	mesma	utilidade.</p><p>Homero,	o	cocheiro,	homem	simples	que	trabalhava	para	o	Duque	há	cerca	de</p><p>trinta	anos,	não	sabia	como	conseguia	suportar	as	humilhações	do	filho,	Carl.</p><p>Finalmente	a	carruagem	chegou	a	uma	bela	casa	num	bairro	conhecido	como</p><p>“Bairro	dos	Burgueses”.</p><p>Ao	descer	do	veículo,	Carl	ajeita	a	vestimenta	para	causar	melhor	impressão	e</p><p>sobe	as	escadas	em	direção	à	porta.</p><p>Ao	bater,	surge	uma	mulher	deslumbrante,	vestida	apenas	com	um	penhoir</p><p>branco,	salientando	ainda	mais	suas	voluptuosas	curvas.</p><p>Carl	e	a	mulher	se	enlaçam	em	um	beijo	apaixonado	ali	mesmo,	esquecendo-se</p><p>que	a	porta	continuava	aberta	e	que	o	cocheiro	e/ou	qualquer	transeunte	poderia</p><p>vê-los.</p><p>Lisa	May	era	aquele	tipo	de	mulher	desejada	por	todos	os	homens,	mas	os</p><p>escolhia	a	dedo,	de	acordo	com	seus	próprios	interesses.	E	Carl	era	alguém	que</p><p>poderia	lhe	proporcionar	vida	de	luxo,	joias	e	tudo	mais	que	desejasse.	Com	a</p><p>morte	do	pai	a	mundana	julgava	que	o	amante	seria	em	breve	nomeado	Duque	e</p><p>voltaria	a	lhe	cobrir	de	joias,	então	decidira	manter	o	relacionamento	e	aguardar</p><p>os	fatos.	Amor	ela	não	conhecia.	Costumava	dizer	que	era	apenas	uma	questão</p><p>de	circunstância	e	jogava	a	cabeça	para	trás	fazendo	mais	um	brinde	com	a	taça</p><p>de	champagne.</p><p>Carl	a	conhecera	em	uma	festa	na	casa	de	amigos	e	ficou	interessado	naquelas</p><p>curvas.	Em	princípio	fora	apenas	atração	física,	mas	com	o	tempo,	não	saberia</p><p>descrever	por	que	continuava	a	frequentar	aquela	casa.</p><p>Dela,	obviamente	somente	havia	interesse	material.	O	affair⁴	que	mantinha	com</p><p>o	pianista	lhe	era	também	um	bom	negócio,	visto	que	o	mesmo	possuía	pouco</p><p>talento	ao	piano	mas	beleza	suficiente	para	explorar	mulheres	casadas,	cujos</p><p>maridos	lhes	davam	muito	dinheiro	e	pouca	atenção.	E	os	“lucros”	eram</p><p>divididos	com	Lisa,	a	quem	realmente	amava.</p><p>Ao	perceberem	sua	exposição,	cerram	a	porta	para	enfim,	esquivarem-se	do</p><p>mundo.</p><p>-	Lisa,	querida,	senti	tantas	saudades!	Depois	que	papai	se	foi	está	cada	vez	mais</p><p>difícil	sair	de	casa.	Minha	mãe	passou	a	controlar-me	como	se	eu	fora	um</p><p>menino.	Estou	preocupado	com	ela.	Está	obcecada	com	a	questão	do	título	de</p><p>nobreza	e	me	torturando...	Acho	que	não	vou	suportar!	Se	ela	insistir	muito,</p><p>pego	minhas	coisas	e	venho	morar	aqui	com	você.</p><p>-	Você	está	louco	homem!	Desprezar	um	título	de	Duque!	Visualize	comigo:</p><p>Carl	Richard	Evans	Murphy	–	Duque	de	Charleston!	Viu	como	combina?!	Meu</p><p>querido,	se	tivermos	que	passar	alguns	dias	sem	nos	ver,	por	mim	está	tudo	bem.</p><p>Pense	que	é	por	uma	excelente	causa.	É	o	nosso	futuro	que	está	em	jogo!</p><p>-	Mas	Lisa,	você	sabe	que	mamãe	jamais	permitiria	que	eu	a	desposasse!	Você,</p><p>assim	como	eu,	não	tem	uma	fama	que	se	diga	irretocável	(e	ambos	caem	na</p><p>gargalhada).</p><p>-	Carl,	querido,	desde	quando	eu	falei	em	casamento?	Sabe	que	não	nasci	para</p><p>isto.	Sou	mulher	que	gosta	das	coisas	boas	da	vida	e	o	casamento</p><p>definitivamente	não	é	uma	delas!	Quanto	a	sua	mãe,	tenha	paciência,	dentro	em</p><p>pouco	ela	sentirá	tantas	saudades	de	seu	pai	que	irá	fazer-lhe	companhia.</p><p>-	Ei,	veja	bem,	sei	que	minha	mãe	é	austera	e	às	vezes	até	me	leva	ao</p><p>descontrole,	mas	eu	a	amo	e	não	suporto	pensar	na	ideia	de	perdê-la!</p><p>-	Está	bem	meu	amor.	Prometo	que	não	toco	mais	neste	assunto.	Mas	até	que	o</p><p>humor	de	sua	mãe	se	arrefeça,	é	melhor	não	nos	vermos.	Para	que	irritá-la	ainda</p><p>mais?</p><p>-	Você	tem	razão.	Acho	que	já	vou.	Ficarei	ausente	pelo	restante	da	semana,	mas</p><p>não	coloque	outro	em	meu	lugar	sim?</p><p>-	Oh	querido,	sabe	que	meu	coração	é	só	seu!	Jamais	faria	isto	com	você…</p><p>Agora	vá.	Até	logo	meu</p><p>amor.</p><p>Carl	entra	na	carruagem	e	quando	olha	para	trás	sente	um	aperto	no	peito	como</p><p>se	algo	estivesse	errado	mas	não	consegue	detectar	o	que	é.	Decide	não	pensar</p><p>mais	nisso.</p><p>Ao	chegar	em	casa,	sua	mãe	há	muito	está	dormindo.	Pensa	em	ir	direto	para	a</p><p>cama	mas	passa	primeiro	na	adega	e	pega	uma	garrafa	de	vinho	para	degustá-lo</p><p>enquanto	o	sono	não	vem.</p><p>Neste	ínterim,	Homero,	o	cocheiro,	jardineiro	e	marido	de	Esther	entra	em	seus</p><p>aposentos	na	ponta	dos	pés	para	não	acordar	a	esposa,	mas	no	segundo	passo	é</p><p>flagrado	por	dois	olhos	astutos	e	a	pergunta:</p><p>-	Onde	o	Sr.	estava	até	esta	hora?</p><p>-	Sabe	que	não	gosto	de	chegar	tão	tarde.	Mas	aquele	arrogante	do	filho	da</p><p>Duquesa	quis	visitar	novamente	“aquela	mulher”,	você	sabe…</p><p>-	Está	bem,	venha	dormir.	Imagino	que	já	ouviu	toda	a	espécie	de	xingamentos</p><p>hoje,	não	precisa	de	mais	um.	Boa	noite	meu	amor!</p><p>-	Boa	noite	minha	querida!</p><p>4	Affair	é	uma	expressão	que	vem	do	francês	affaire,	que	significa	caso.	É</p><p>frequentemente	usada	em	português	para	definir	um	caso	amoroso	ou	romance</p><p>escandaloso,	que	pode	ser	público	ou	mantido	em	segredo.</p><p>CAPÍTULO	VII</p><p>Na	manhã	seguinte	a	Duquesa	recebe	um	chamado	da	casa	real	para	que</p><p>compareça	naquela	mesma	tarde.</p><p>Tomada	de	preocupação	e	ansiedade	chama	Esther	e	lhe	mostra	a	missiva.	Esta</p><p>por	sua	vez	responde	da	mesma	forma	calma	que	lhe	é	característica:</p><p>-	Mary	Ann,	você	deveria	ficar	feliz,	afinal	as	coisas	estão	se	resolvendo	mais</p><p>rápido	do	você	imaginou.	Provavelmente	querem	marcar	a	data	da	cerimônia	de</p><p>posse	de	Carl.	E	se	não	for,	estou	desconhecendo	você!	Sei	de	sua	história	de</p><p>vida	e	não	acredito	que	aquela	jovem	que	desafiou	a	tudo	e	a	todos	pelo	seu</p><p>amor	agora	se	tornou	uma	velha	medrosa!	Pense	no	que	Sir	Alexander	gostaria</p><p>que	você	fizesse	agora.</p><p>-	Você	tem	toda	razão	Esther.	Aliás,	como	sempre.	Me	ajude	a	procurar	um</p><p>vestido	bem	bonito	para	eu	fazer	jus	à	Rainha.</p><p>Às	16:30	hs.	A	Duquesa	de	Charleston	sai	de	casa	guiada	por	Homero.</p><p>-	Homero,	faça	o	percurso	com	toda	a	calma.	Não	podemos	chegar	muito	antes</p><p>das	5.	Você	sabe,	para	nós	ingleses,	o	chá	das	5	é	sagrado!</p><p>-	Sim	Duquesa.</p><p>Pontualmente	às	17:00	a	Duquesa	adentra	o	palácio	real	e	é	diretamente</p><p>encaminhada	para	o	salão	aonde	começa	a	ser	servido	o	chá.</p><p>Após	as	formalidades	de	praxe	e	todos	terem	se	retirado,	Mary	Ann	é	convidada</p><p>a	uma	conversa	reservada	com	a	Rainha.</p><p>-	Eu	sinto	muito	pelo	óbito	de	seu	marido,	mas	agora	precisamos	tratar	de</p><p>assuntos	mais	práticos.	A	Sra.	sabe	que	Sir	Alexander	somente	recebeu	o	título</p><p>de	Duque	devido	à	sua	retidão	de	caráter	não	sabe?	Pois	bem.	Quando	um	nobre</p><p>falece	é	comum	que	seu	primogênito	lhe	suceda,	porém	em	sua	família	temos</p><p>um	“se	não”	muito	importante.	Seu	filho	não	tem	merecimento	algum	para</p><p>receber	um	título!	A	Sra.	deve	estar	ciente	de	que	nosso	regime	está</p><p>enfraquecendo	e	se	dermos	um	título	de	nobreza	a	um	homem	mulherengo,</p><p>beberrão,	brigão	e	ainda	amante	de	uma	messalina,	será	o	fim.	O	capitalismo</p><p>tomará	conta	de	nosso	país	e	nós	ficaremos	como	os	quadros:	apenas	enfeites</p><p>empoeirados.</p><p>-	V.	Alteza	se	me	permite,	meu	filho	está	tentando	melhorar	suas	companhias.</p><p>Ontem	mesmo	ele	saiu	para	se	despedir	das	velhas	amizades	em	razão	do	título</p><p>que	receberá.	Então…	por	mim…	por	uma	mãe	desesperada…	não	nos	deixe	à</p><p>míngua!</p><p>-	Pois	bem,	façamos	um	trato.	Se	seu	filho	encontrar	uma	mulher	honesta	de	boa</p><p>família,	decente	e	digna	de	ser	uma	duquesa…	Em	até	seis	meses,	eu	darei	o</p><p>título	a	ele.</p><p>-	Oh	Alteza!	Não	sei	como	lhe	agradecer!	Farei	tudo	o	que	me	pedir	daqui	para</p><p>frente!	Saberá	que	tem	em	mim	uma	eterna	devedora…</p><p>-	Chega!	A	única	coisa	que	quero	da	Sra.	é	que	providencie	uma	noiva	para	o</p><p>inútil	do	seu	filho!	Agora,	com	sua	licença,	vou	para	meus	aposentos	reais.</p><p>Quando	Mary	Ann	se	vê	protegida	do	mundo	dentro	da	carruagem,	permite	se</p><p>entregar	a	dor	e	ao	pranto	que	até	a	pouco	lhe	queimava	o	coração.	Homero,</p><p>bondoso	como	a	esposa	tenta	consolá-la,	mas	naquele	momento	ninguém</p><p>poderia	fazê-lo.</p><p>Chegando	em	casa	a	mãe	procura	imediatamente	pelo	filho	que	está	sentado</p><p>numa	espreguiçadeira	no	jardim,	tranquilamente	a	divagar.</p><p>-	Ah,	aí	está	você!	Pensei	que	já	tinha	saído	para	suas	aventuras	noturnas!</p><p>-	Olá	mamãe.	O	que	houve?	Porque	está	me	tratando	desta	forma?	O	que	fiz</p><p>desta	vez	para	despertar	tamanha	fúria?</p><p>-	Não	foi	o	que	fez	e	sim	o	que	não	fez	de	sua	vida!	Não	constituiu	sua	própria</p><p>família,	não	tem	sequer	uma	profissão	e	após	45	anos	de	idade	ainda	não	sabe	o</p><p>quer	ser	quando	crescer!	Mas	a	culpa	é	minha!	Minha	e	de	seu	pai,	que	o</p><p>mimamos	demais.	Lhe	demos	tudo	o	que	queria	e	satisfizemos	todas	as	suas</p><p>vontades	e	agora	você	não	passa	de	um	nada!</p><p>-	Vamos	entrar	mamãe	e	conversar	civilizadamente.	A	Sra.	nunca	foi	dada	a</p><p>xingamentos	desta	forma,	então	só	posso	crer	que	algo	muito	grave	aconteceu.</p><p>Uma	vez	no	quarto	de	Mary	Ann	e	esta.	mais	calma,	conseguiu	conversar	com	o</p><p>filho	e	expor	o	problema.</p><p>-	Meu	filho,	tomei	o	chá	das	5	na	companhia	da	Rainha.	Após,	ela	me	disse	com</p><p>todas	as	letras	que	somente	lhe	passará	o	título	de	Duque	se	você	se	casar	com</p><p>uma	moça	de	boa	família.	E	no	prazo	de	seis	meses!	E	ainda	aceitou	isto	porque</p><p>quase	me	ajoelhei	a	seus	pés	implorando	por	você!</p><p>-	Mamãe,	veja	bem,	eu	sei	que	até	agora	fui	relapso	com	minha	própria	vida	e</p><p>acabei	prejudicando	a	vocês	também,	mas	nunca	pensei	que	minhas	atitudes</p><p>fossem	repercutir	desta	forma.	Se	a	exigência	da	rainha	é	que	eu	me	case,	então</p><p>teremos	que	imediatamente	procurar	uma	noiva	para	mim.	Mas…	Preciso	lhe</p><p>confidenciar	que	meu	coração	já	pertence	a	uma	mulher.</p><p>No	dia	seguinte	Carl	procura	Lisa	May	decidido	a	acabar	seu	relacionamento.</p><p>-	O	que?	Você	vai	se	casar	com	uma	dessas	engomadinhas?	Estas	sonsas	que	só</p><p>sabem	bordar	e	ainda	fazem	sexo	somente	visando	a	procriação?	É	esta	a	vida</p><p>que	você	quer?	Então	vai	me	descartar	assim?	E	acha	que	vou	aceitar	sem	lutar?</p><p>Neste	momento	percebeu	tê-la	como	inimiga,	seria	pior	do	que	como	amante,</p><p>desta	forma,	tentou	contemporizar.</p><p>-	Calma,	minha	querida!	Você	sempre	será	a	minha	preferida,	sabe	disto.</p><p>Continuarei	lhe	fazendo	pequenas	“visitas”	e	pouca	coisa	mudará	entre	nós.</p><p>-	Realmente	espero	que	sim.</p><p>Carl	e	princípio	julgava	a	explosão	de	Lisa	May	apenas	ciúmes	de	mulher</p><p>apaixonada,	mas	em	seguida	percebeu	o	quanto	perigosa	era	e	temia	que</p><p>colocasse	o	nome	de	sua	família	na	lama,	mais	a	fundo	do	que	já	estava.	Na</p><p>verdade,	Carl	sequer	desconfiava	quem	realmente	ela	era	e	do	que	ela	era	capaz.</p><p>CAPÍTULO	VIII</p><p>Na	França,	Verônica	estava	prestes	a	descobrir	que	novos	rumos	tomariam	sua</p><p>vida.	A	leitura	do	testamento	da	avó	seria	na	manhã	seguinte	e	pouco	dormiu</p><p>tamanha	a	ansiedade.	Não	tinha	grandes	ambições,	mas	desejava	secretamente</p><p>herdar	o	suficiente	para	dar	ao	pai	uma	vida	mais	digna	e	livrá-lo	do	sofrimento</p><p>dos	últimos	tempos.</p><p>No	horário	marcado	para	a	abertura	do	testamento,	os	intimados	se	encontram	na</p><p>sala	do	tabelião.	Verônica	não	conseguiu	ficar	à	vontade	em	momento	algum.</p><p>Sentia-se	febril	e	o	suor	lhe	corria	pelas	têmporas,	o	que	tentava	esconder</p><p>secando	discretamente	com	um	lenço.	Madeleine	não	pode	deixar	de	perceber</p><p>mas	julgou	ser	pela	emoção	do	momento.</p><p>Após	leitura	do	preâmbulo:</p><p>-	Em	sendo	assim,	destino	50%	de	meus	bens	à	minha	neta	Verônica	Smith</p><p>Bourdeaux,	e	o	restante…</p><p>Verônica	congelou	ao	saber	que	tornara-se	milionária	da	noite	para	o	dia	e	não</p><p>tinha	a	menor	ideia	do	que	fazer.</p><p>Já	em	casa,	foi	passear	com	seu	cavalo	(adotara-o),	a	fim	de	ordenar	os</p><p>pensamentos.	Em	oração	silenciosa,	pediu	a	Deus	sabedoria	para	melhor	utilizar</p><p>tamanha	fortuna.	Não	se	julgava	capaz	de	administrar	tantos	bens.</p><p>Após	horas	no	campo,	entre	flores	e	o	céu	azul,	encheu	os	pulmões	de	ar	puro	e</p><p>voltou	para	casa	grande,	decidida.</p><p>Escreveu	ao	pai	contando	o	ocorrido	e	mandou	através	de	um	mensageiro	que</p><p>levasse	à	estação	de	trem.</p><p>-	Christofer,	Christofer!	Aonde	está	menino?	Esbravejava	Jean	Jaques	com	um</p><p>papel	à	mão,	eufórico	como	há	muito	não	se	via.</p><p>-	O	que	houve	Papai?	O	que	aconteceu?</p><p>-	Sua	irmã	está	voltando	de	Paris.	Diz	que	tem	novidades	para	a	nossa	família.</p><p>Oh,	rogo</p><p>ao	Senhor	que	minha	mãe	tenha	sido	generosa	com	minha	filha	para</p><p>assim	aliviar	nosso	sofrimento…</p><p>-	Calma	papai!	Verônica	tornou-se	nosso	porto	seguro	desde	que	mamãe	se	foi.</p><p>Tenho	certeza	que	a	partir	de	agora	nos	apoiará	ainda	mais,	independente	do</p><p>valor	da	herança.</p><p>Após	abraços	e	lágrimas	no	reencontro	da	família,	todos	foram	para	casa	em</p><p>carruagem	de	aluguel	a	pedido	de	Verônica,	que	estava	decidida	a	dar	ao	pai</p><p>tudo	o	que	ele	merecia.</p><p>-	Papai,	agora	já	está	na	hora	de	falarmos	de	negócios.	Vou	lhe	dar	uma	certa</p><p>quantia	para	que	aumente	o	galpão	e	contrate	empregados.	Amanhã	mesmo,</p><p>vamos	procurar	uma	casa	melhor	e	maior	para	vivermos.</p><p>No	dia	seguinte,	após	visitar	alguns	imóveis	Verônica	se	encantou	com	uma</p><p>mansão	que	pertencera	a	um	nobre	falido.	Na	verdade	era	um	pequeno	castelo,</p><p>rodeado	por	jardins	de	todas	as	espécies	de	flores,	cores	e	perfumes.	Na	parte</p><p>interna,	os	móveis	estavam	em	perfeito	estado	de	conservação,	devido	aos</p><p>cuidados	dos	criados	que	permaneceram	no	imóvel	justamente	para	tal</p><p>propósito.</p><p>Após	breve	entrevista	com	os	criados,	a	herdeira	decidiu	comprar	a	propriedade</p><p>e	mantê-los	a	seu	serviço,	o	que	gerou	alívio	aos	mesmos,	visto	tratarem-se	de</p><p>aldeões	necessitados.</p><p>Em	poucos	dias,	o	ferreiro	Jean	Jaques	ampliou	seu	estabelecimento,	dobrando	o</p><p>tamanho	do	galpão,	porém	preservando	a	casa	principal	que	fora	o	lar	de	sua</p><p>amada	esposa	e	filhos.</p><p>Contratou	os	melhores	ferreiros	da	região	e	garantiu-lhes	salário	digno.	Porém</p><p>uma	parte	voltar-se-ia	à	confecção	de	ferraduras	(a	melhor),	afinal	este	era	seu</p><p>ofício	amado.	Os	outros	seguiriam	na	produção	do	material	bélico	como</p><p>ordenado	pelo	bispo.</p><p>-	Papai,	quando	tudo	estiver	organizado	por	aqui,	voltarei	à	Paris	para	ter	com</p><p>Madeleine.	Tio	Jean	Paul	me	trata	como	filha	e	prometi	a	eles	que	retornaria	tão</p><p>logo	o	Sr.	e	Christofer	estivessem	devidamente	acomodados.</p><p>-	Sentirei	muitas	saudades	querida,	mas	vejo	que	você	se	tornou	uma	mulher	tão</p><p>linda,	forte	e	determinada	quanto	sua	mãe	o	fora.	Tenho	certeza	que	ela,	esteja</p><p>aonde	estiver,	está	orgulhosa	de	você!</p><p>Com	lágrimas	de	saudade	da	mãe	e	esposa,	os	dois	se	abraçaram	e	assim</p><p>permaneceram	por	vários	minutos	até	o	jovem	Christofer	adentrar	abruptamente</p><p>o	ambiente	com	uma	missiva.	Nela	continha	informações	sobre	Armand.</p><p>“-	Querido	pai,	nossa	missão	foi	um	sucesso.	Volto	para	casa	em	poucos	dias,</p><p>para	seu	e	orgulho	da	Inglaterra.</p><p>Armand”</p><p>-	Que	felicidade	papai!	Armand	está	voltando!	E	justo	agora	que	Christofer	está</p><p>de	casamento	marcado.	Realmente	nossas	vidas	estão	tomando	novo	rumos!…</p><p>-	Bem,	neste	caso,	vou	aguardar	o	retorno	Armand	e	o	casamento	Christofer	para</p><p>então	retornar	à	França.	A	vida	na	fazenda	fez-me	muito	bem	e	Madeleine</p><p>tornou-se	como	uma	irmã	para	mim.	Espero	que	o	Sr.	não	se	oponha.</p><p>-	Minha	filha,	sua	mãe	e	eu	a	criamos	como	uma	joia	rara.	Seus	irmãos	a</p><p>protegeram	dos	perigos	mundanos	e	confesso	que	até	exagerei	nos	cuidados,	mas</p><p>foi	para	o	seu	bem.	Agora	você	é	uma	mulher	feita	e	provou	que	é	capaz	de</p><p>cuidar	de	sua	honra	sozinha.	Vá	minha	filha,	mas	venha	nos	visitar	com</p><p>frequência,	por	favor.	Não	abandone	este	seu	velho	pai.</p><p>Na	manhã	seguinte	Verônica	envia	uma	mensagem	a	prima	informando-a	de	seu</p><p>retorno	e	justificando	sua	demora.</p><p>A	chegada	de	Armand	foi	motivo	de	grande	alegria	para	a	família,</p><p>principalmente	para	o	pai	que,	além	de	ter	o	filho	de	volta,	saudável,	poderia</p><p>parar	com	a	produção	daquelas	terríveis	espadas.</p><p>Mas	algo	no	filho	estava	diferente.	Mais	quieto	e	com	o	semblante	pesado,</p><p>despertou	a	preocupação	dos	familiares.	Ao	seu	questionado,	alegou	ser	fruto	do</p><p>cansaço	e	da	emoção	ao	reencontrá-los	(Mas	somente	ele	sabia	a	dor	que</p><p>habitava	seu	coração).</p><p>Desde	a	primeira	noite	em	casa,	Armand	passou	a	ter	de	terríveis	pesadelos	e</p><p>acordava	gritando	no	meio	da	noite,	despertando	todos	os	moradores.	Durante	o</p><p>dia	permanecia	calado	e	não	respondia	às	perguntas	que	lhe	eram	feitas	sobre	os</p><p>mesmos.	Preocupada	a	irmã	foi	a	procura	das	famílias	de	outros	jovens	que</p><p>participaram	das	cruzadas	e	ouviu	de	muitas	o	mesmo	relato.	Em	uma	ocasião,</p><p>foi	abordada	por	um	rapaz	da	idade	do	irmão	que	lhe	confidenciou	que	vários</p><p>ex-cavaleiros	das	cruzadas	estavam	encontrando-se	em	determinado	lugar,	a	fim</p><p>de	relatarem	entre	si	as	experiências	vividas	e	assim	buscar	o	reequilíbrio	e	a</p><p>readaptação	em	sociedade.	Verônica	pediu	o	endereço	e	prometeu	convencer	o</p><p>irmão	a	frequentar	estas	reuniões.</p><p>Em	casa,	chamou	o	irmão	ao	jardim	e	relatou-lhe	o	que	ouvira.	Passou-lhe	o</p><p>endereço	e	pediu	que	ele	participasse	ao	menos	uma	vez	de	uma	reunião	e	que	se</p><p>não	aprovasse,	não	precisaria	voltar.	Armand	ouviu	a	irmã	cabisbaixo	e</p><p>balbuciou:</p><p>-	Minha	irmã,	você	não	tem	ideia	das	atrocidades	que	vivemos.	Nossas	almas	se</p><p>sentem	sujas	e	nos	envergonhamos	de	nossos	familiares.	Mas	sei	que	você</p><p>somente	deseja	meu	bem	e	jamais	me	pediria	que	fizesse	algo	que	não	fosse</p><p>neste	sentido.	Guardou	no	bolso	o	papel	com	o	endereço	e	foi	para	seu	quarto.</p><p>Durante	a	semana	que	se	seguiu,	os	pesadelos	continuaram	até	que	em	uma</p><p>manhã	o	irmão	decidiu	que	realmente	não	conseguiria	resolver	esta	questão</p><p>sozinho.	Pediu	que	a	irmã	não	contasse	ao	pai	e	à	noite	foi	encontrar-se	com	os</p><p>ex-companheiros.	Deste	este	dia,	uma	vez	por	semana,	Armand	passou	a</p><p>frequentar	as	reuniões	e	aos	poucos	apresentava	melhoras	em	seu</p><p>comportamento.	Com	o	passar	do	tempo	voltou	a	ser	o	mesmo	rapaz	que	fora</p><p>antes	do	episódio	da	guerra	santa.</p><p>As	bodas	de	Christofer	foi	um	acontecimento	para	a	região.	Verônica	sentira</p><p>uma	empatia	muito	grande	por	Emanuelle,	sua	cunhada,	assim	que	se</p><p>conheceram	anos	atrás	e	não	economizou	na	preparação	do	casamento.	Fez</p><p>questão	de	convidar	todos	os	nobres	da	Inglaterra	e	França,	com	exceção	da</p><p>Duquesa	de	Charleston	e	seu	filho,	como	forma	de	vingança	pelo	tratamento</p><p>recebido	outrora.	A	família	obviamente	viera	da	França	para	o	grande</p><p>acontecimento	e	também	com	a	promessa	de	levarem	Verônica	consigo	para</p><p>passar	nova	temporada	na	fazenda.</p><p>A	família	da	noiva	não	cabia	em	si	de	tanta	felicidade	ao	ver	a	filha	casada	com</p><p>o	homem	a	quem	amava	e	que	agora	poderia	lhe	dar	vida	melhor	do	que	a	que</p><p>tivera	até	então.</p><p>CAPÍTULO	IX</p><p>A	notícia	de	que	uma	desconhecida	tornara-se	herdeira	de	grande	fortuna	não</p><p>demorou	a	espelhar-se	pelas	bocas	das	mexeriqueiras…</p><p>-	Mary	Ann,	querida,	que	bom	que	aceitou	meu	convite	para	o	chá.	Tenho	ótimas</p><p>notícias	para	você!	Você	sabe	que	não	cuido	da	vida	alheia,	até	porque	sou	tão</p><p>assoberbada	que	mal	tenho	tempo	de	cuidar	de	minha	família...	mas	enfim,</p><p>soube	que	uma	moça,	alguém	que	jamais	frequentou	a	sociedade,	que	ironia,</p><p>uma	tal	de	Bordeaux,	é	a	mais	nova	milionária	da	Inglaterra.	Parece	que	herdou</p><p>uma	fortuna	da	avó	francesa	recentemente	falecida.</p><p>-	Pense	bem,	esta	pode	ser	a	solução	para	seu	filho!	Dizem	que	é	solteirona	e</p><p>totalmente	inexperiente.	Carl,	com	aquela	beleza	e	charme,	pode	facilmente</p><p>conquistá-la	e	quiçá	contrair	matrimônio.</p><p>-	Ah,	ela	foi,	ou	talvez	ainda	seja,	amiga	íntima	de	Rosimeri	Marxsuel.</p><p>-	Seus	problemas	acabaram	amiga!</p><p>Mary	Ann	se	limita	a	ouvir	fazendo-se	de	desentendida,	mas	intimamente	já</p><p>arquiteta	seu	plano.</p><p>Chegando	em	casa	chama	imediatamente	Esther.</p><p>-	Esther,	preciso	que	Homero	me	faça	um	grande	favor.	Quero	ele	vá	até	a</p><p>residência	dos	Marksuel	e	leve	esta	missiva	à	jovem	Rosimeri.</p><p>-	Mary	Ann,	conheço	este	brilho	no	olhar.	O	que	você	está	tramando?</p><p>-	Acalme-se,	se	meu	plano	der	certo,	vou	salvar	o	nome	e	o	patrimônio	de	minha</p><p>família…</p><p>Na	tarde	seguinte,	Mary	Ann	e	Rosimeri	tomam	o	chá	das	cinco	juntas.</p><p>-	Querida,	peço	desculpas	por	não	tê-la	vivitado,	mas	ando	tão	ocupada	com</p><p>tantas	responsabilidades!	Você	sabe	que	meu	filho	não	consegue	cuidar	dos</p><p>negócios	da	família	e	eu	tenho	que	administrar	tudo	sozinha…Mas	desde	o	seu</p><p>noivado	desejo	encontrá-la	para	parabenizá-la	pessoalmente.	Quero	realmente</p><p>sua	felicidade,	você	sabe	disso!</p><p>-	Duquesa,	a	Sra.	é	muito	gentil	comigo,	aliás	sempre	foi,	mas	não	havia</p><p>necessidade	de	me	receber	com	tamanha	pompa.</p><p>Assim	a	conversa	seguiu	amena,	até	a	mais	velha	entrar	no	real	motivo</p><p>do</p><p>convite.</p><p>-	Querida,	sempre	soube	de	seu	bom	gosto	em	escolher	suas	amizades,	mas</p><p>contaram-me	que	uma	de	suas	melhores	amigas	acaba	de	tornar-se	milionária.</p><p>Acaso	a	conheço?</p><p>-	Ah,	a	Sra.	deve	estar	se	referindo	à	Verônica.	Eu	mesma	a	apresentei	a	Sra.	Foi</p><p>uma	pena	que	ela	foi-se	embora	logo	na	primeira	valsa.	Preocupou-se	com	o	pai.</p><p>É	filha	do	ferreiro,	Sr.	Jean	Jaques,	excelente	profissional,	segundo	meu	pai	e</p><p>também	um	homem	muito	honesto.	Aliás	todos	na	família	são	de	uma	retidão</p><p>extraordinária.	Ela	mereceu	o	presente	que	Deus	lhe	deu.	E	já	está	fazendo	bom</p><p>uso	de	sua	herança.	Recentemente	seu	irmão	mais	jovem	casou-se	e	ela</p><p>proporcionou	aos	noivos	um	casamento	digno	da	realeza.</p><p>-	Ah,	acho	que	lembro-me	dela	sim.	É	uma	jovem,	ou	melhor,	não	tão	jovem</p><p>assim.	que	saiu	à	francesa	de	seu	noivado.	Sim,	lembro-me	melhor	agora.	Estava</p><p>muito	elegante,	porém	percebi	que	o	vestido	que	usava	era	de	sua	mãe.	Foi	o	que</p><p>mais	chamou-me	a	atenção	naquela	ocasião.</p><p>-	É	verdade.	À	época	não	possuía	condições	de	usar	trajes	sofisticados	e	minha</p><p>mãe	gentilmente	lhe	cedeu	um	de	seus	vestidos	que	já	não	usava	e	ela	ficou</p><p>deslumbrante,	fazendo	juz	ao	presente.</p><p>-	Na	ocasião	de	seu	noivado,	percebi	que	ela	possui	ares	distintos	mas	não</p><p>reencontrei-a	em	outros	eventos	da	sociedade.	Como	é	mesmo	o	nome	dela?</p><p>-	Verônica	Bordeaux.	Mas	no	momento	ela	está	na	França.	Disse-me	o	pai	que	os</p><p>ares	da	fazenda	lhe	fazem	muito	bem	e	além	disso	desfruta	das	lembranças</p><p>deixadas	pela	avó	que	faleceu	a	pouco.</p><p>-	Oh	coitadinha,	devia	ser	muito	apegada	à	avó!	Preciso	abusar	de	sua	bondade	e</p><p>lhe	pedir	um	favor…</p><p>-	Claro,	o	que	estiver	ao	meu	alcance.</p><p>-	Quando	ela	retornar,	poderia	avisar-me?	Quero	muito	conhecê-la	melhor.</p><p>Fiquei	bastante	impressionada	com	seu	porte	naquela	noite.	Se	não	me	dissesse</p><p>jamais	pensaria	tratar-se	da	filha	e	um	simples	ferreiro.</p><p>-	Duquesa,	jamais	se	deve	julgar	uma	pessoa	por	sua	profissão.	Como	já	lhe</p><p>disse,	seu	pai	é	um	dos	melhores	ferreiros	da	Inglaterra.	Quanto	ao	porte	de</p><p>Verônica,	deve	ser	herança	da	mãe,	que	era	inglesa	e	lhe	educou	segundo	nossos</p><p>hábitos.	Apesar	de	poucas	posses,	teve	a	educação	dos	fidalgos,	além	de	possuir</p><p>uma	elegância	como	poucas!</p><p>-	Ah,	me	perdoe	querida	se	me	mostrei	preconceituosa!	Não	tive	a	intenção	de</p><p>discriminá-la.	Mas	diante	de	todas	as	qualidades	que	você	acabou	de	me</p><p>descrever,	quero	realmente	conhecê-la	e	creio	que	ela	não	se	recusaria	em</p><p>visitar-me,	afinal,	novas	amizades	sempre	são	bem-vindas.</p><p>Após	a	saída	de	Rosimeri,	Mary	Ann	ficou	se	remoendo	de	raiva	de	si	mesma.	-</p><p>“Isto	é	um	castigo!	Só	pode!	Justo	aquela	pobretona	que	destratei	na	noite	do</p><p>noivado	da	menina	Rosimeri…	Terei	que	me	retratar	para	conquistá-la.	Ou	não.</p><p>Não	preocuparei-me	com	isto	agora.	Deixarei	isto	para	depois”.</p><p>À	noite,	Carl	encontra	a	mãe	com	a	muito	sério.</p><p>-	Carl,	meu	filho,	precisamos	conversar,	agora!</p><p>-	O	que	foi	desta	vez	mamãe?</p><p>-	Você	lembra	do	ferreiro	que	o	tratou	mal	em	certa	ocasião?	Então,	quero	que</p><p>descubra	tudo	sobre	a	sua	família.	E	amanhã	mesmo	quero	que	pegue	o	trem</p><p>para	a	França.	É	lá	que	estão	as	origens	dos	Bordeaux!	Se	estivéssemos	em</p><p>melhores	condições,	contrataria	alguém,	mas	devido	à	nossa	nova	condição,</p><p>você	mesmo	irá.	Até	porque	é	por	sua	causa	que	estamos	à	penúria!</p><p>Carl	sequer	argumentou.	Não	queria	mais	uma	discussão	com	a	mãe,	mas</p><p>preocupou-se	deveras,	pois	pressentia	que	ela	estava	tramando	alguma	coisa;	e</p><p>tinha	a	ver	com	ele,	certamente.</p><p>Na	manhã	seguinte,	no	desjejum	Mary	Ann	revela	“parte”	do	objetivo	daquela</p><p>viagem.</p><p>-	Quero	que	descubra	tudo	o	que	puder	sobre	os	Bordeaux	e,	principalmente</p><p>sobre	a	filha	do	ferreiro,	uma	tal	de	Verônica.	Se	for	necessário,	aproxime-se	da</p><p>família	como	Duque	de	Charleston,	afinal	você	o	será	em	breve.	E	me	mande</p><p>notícias	sobre	seu	progresso.	Não	me	decepcione!</p><p>-	Não	entendo	seu	interesse	nesta	família.	Afinal,	quem	são?	Nunca	ouvi	falar</p><p>(Não	queria	confessar	a	mãe	que	já	conhecera	àquela	a	quem	a	mãe	procurava).</p><p>-	Você	realmente	não	sabe	de	nada!	Não	fosse	por	mim	estaria	desabrigado,</p><p>vivendo	nas	ruas	como	os	ébrios.</p><p>-	Não	exagere	mamãe.	Tenho	minhas	fraquezas,	bem	sei,	mas	a	Sra.	é	muito</p><p>exagerada!</p><p>Ao	chegar	na	casa	do	ferreiro,	bastante	insatisfeito	por	óbvio,	Carl	percebeu	que</p><p>o	galpão	da	serraria	estava	em	obras.	Observou	por	alguns	minutos	a	casa</p><p>principal	ao	lado	na	esperança	de	localizar	o	morador	(ou	moradora),	mas	estava</p><p>tudo	deserto.	Imediatamente	reconheceu	o	lugar	e	lhe	veio	a	lembrança	a	mulher</p><p>na	sacada	com	um	bordado	às	mãos.	Perdido	em	seus	pensamentos,	foi</p><p>interrompido	por	um	dos	trabalhadores	da	obra	que	o	inquiriu:</p><p>-	Sr.	em	que	posso	ajudá-lo?</p><p>-	Procuro	pelo	ferreiro,	Sr.	Jean	Jaques.	Não	é	aqui	a	ferraria	dele?</p><p>-	Ah,	sim.	O	Sr.	está	no	lugar	certo,	porém	o	proprietário	não	vive	mais	aqui.</p><p>Estamos	trabalhando	na	reforma,	visto	que	a	guerra	santa	acabou	e	meu	patrão</p><p>deseja	ampliar	seu	estabelecimento.	Não	entendo	muito	de	negócios,	pois	sou</p><p>somente	um	pedreiro,	mas	ouvi	dizer	que	ele	pretende	fabricar	todo	tipo	de</p><p>ferramentas,	já	que	adquiriu	experiência	na	fabricação	de	espadas.</p><p>Não	satisfeito	com	a	informação,	Carl	retorna	a	cidade	em	busca	de	mais</p><p>informações.</p><p>Há	poucos	metros	avistou	a	jovem	Bella	que	havia	conhecido	no	noivado	de</p><p>Rosimeri	e	percebera	que	seria	muito	fácil	tirar	qualquer	informação	dela.	Aliás,</p><p>não	somente	informações…	Mas	estava	em	missão	para	a	mãe	e	não	tinha	tempo</p><p>para	mais	uma	conquista	barata.</p><p>Parou	seu	cavalo	ao	cruzar	com	o	dela	e	usou	de	todo	seu	charme	e	eloquência.</p><p>-	Bom	dia	Srta.!	Perdoe-me	abordá-la	desta	forma	mas	lembro-me	de	tê-la</p><p>conhecido	há	algum	tempo	na	casa	de	amigos	em	comum,	estou	certo?</p><p>-	Bom	dia!	O	Sr.	é	Carl	Murphy,	correto?</p><p>-	Hum,	vejo	que	além	da	beleza	a	Srta.	é	dona	de	excelente	memória!</p><p>-	Obrigada,	o	Sr.	é	que	é	muito	educado	e	galanteador,	pude	perceber.</p><p>-	Já	que	nos	encontramos	por	acaso,	nestas	imediações,	poderia	me	fornecer	uma</p><p>informação,	se	não	for	abusar	do	seu	tempo?</p><p>-	Pois	não,	em	que	posso	ajudá-lo?</p><p>-	Na	casa	que	acabei	de	passar,	morava	um	ferreiro	chamado	Jean	Jaques	e	meu</p><p>cavalo	precisa	de	novas	ferraduras.	Como	ouvi	dizer	que	não	há	melhor</p><p>profissional	na	região,	decidi	procurá-lo	mas	o	galpão	está	em	reforma	e	não	sei</p><p>como	encontrá-lo.</p><p>-	Isto	é	verdade.	O	Sr.	Jean	Jaques	era	o	ferreiro	dos	melhores	e	maiores</p><p>cavaleiros	do	Reino,	inclusive	o	era	de	seu	pai.	Mas	isto	foi	antes…</p><p>-	Antes	do	que?</p><p>-	Antes	do	Bispo	ordenar	que,	ao	invés	de	exercer	seu	ofício	normal,	ele	passaria</p><p>a	fabricar	espadas	para	os	soldados	das	cruzadas.	Mas	como	a	guerra	santa</p><p>acabou,	creio	que	voltará	ao	antigo	ofício,	apesar	de…</p><p>-	Srta.	será	que	poderia	ser	mais	objetiva?</p><p>-	Ah,	perdão	Sr.	é	que	a	mãe	do	Sr.	Jean	Jaques	faleceu	há	poucos	meses	e	minha</p><p>amiga	Verônica,	filha	do	ferreiro,	está	na	França,	na	fazenda	do	tio.</p><p>Provavelmente	o	pai	e	o	irmão	se	mudaram	devido	a	nova	situação	econômica</p><p>da	família.	Bem,	creio	que	falei	demais.	Me	desculpe,	tenho	trabalho	a	fazer.</p><p>Com	licença	Sr,	Murphy,	foi	um	prazer	reencontrá-lo.</p><p>-	O	prazer	foi	todo	meu	Srta.,	apenas	por	desfrutar	destes	poucos	momentos	em</p><p>sua	companhia.</p><p>-	Bella	seguiu	seu	caminho	com	um	sorriso	nos	lábios,	e	Carl	satisfeito	com	a</p><p>informação	foi	direto	à	estação	de	trem	comprar	sua	passagem	para	a	Paris.</p><p>Durante	a	viagem,	Carl	levantou	todas	as	possibilidades	para	justificar	esta</p><p>viagem.	Mas	nada	fazia	sentido.	Então,	decidiu	deixar	que	o	acaso	lhe	ajudasse.</p><p>Ao	desembarcar	foi	logo	questionando	o	encarregado	da	estação	sobre	a</p><p>residência	da	família	que	procurava.</p><p>-	Oh,	sim,	todos	os	conhecem!	Aliás,	há	algumas	semanas	chegou	da	Inglaterra</p><p>mais	uma	herdeira	da	família.	Moça	bonita	e	distinta	como	poucas...	Bem…	o</p><p>Sr.	deve	saber	que	a	Madame	Gilles,	matriarca	da	família	faleceu.	Vieram</p><p>familiares	de	todas	as	partes,	mas	àqueles	mais	íntimos	e	que	foram	agraciados</p><p>pelo	testamento	ainda	permanecem	na	fazenda.	A	Srta.	a	quem	me	refiro	parece</p><p>estar	se	adaptando	bem	à	corte	francesa.	Às	vezes	falo	demais.	Bem	mas…	e	o</p><p>Sr,	porque	tanta	curiosidade?</p><p>-	Mestre	em	dissimular,</p><p>não	foi	difícil	se	livrar	das	perguntas	do	homem.</p><p>-	Tomou	uma	carruagem	de	aluguel	em	busca	do	endereço	fornecido.</p><p>Observou	de	fora	a	propriedade	que	para	sua	sorte,	fazia	divisa	com	a	fazenda	de</p><p>amigos	para	aonde	seguiu	a	fim	de	se	recuperar	da	viagem	e	planejar</p><p>minuciosamente	seu	plano.	Afinal,	não	poderia	decepcionar	a	mãe	novamente.</p><p>CAPÍTULO	X</p><p>-	Verônica!	Tenho	excelentes	notícias!</p><p>-	Calma	Madeleine,	respire	e	depois	me	conte	o	que	está	acontecendo.</p><p>-	No	sábado	haverá	uma	recepção	para	o	príncipe	na	mansão	dos	Dior.	Fomos</p><p>convidadas!	Vamos	agora	mesmo	providenciar	os	mais	lindos	vestidos	e	joias</p><p>para	estarmos	deslumbrantes	no	evento.</p><p>-	Não	sei	se	devo	ir…	Tenho	me	sentido	um	tanto	indisposta	nos	últimos	dias…</p><p>-	Eu	percebi	que	desde	a	leitura	do	testamente	de	vovó	você	não	me	parece	bem.</p><p>Estamos	no	início	do	verão	e	o	clima	bastante	agradável	mas	percebo	que	você</p><p>parece	transpirar	às	bicas.	Façamos	o	seguinte:	Compraremos	um	lindo	leque</p><p>para	você	levar	à	recepção.</p><p>-	Não	vou	deixar	que	um	mau	estar	passageiro	a	mantenha	nesta	clausura	que	é</p><p>sua	vida!	Lembre-se	de	que	agora	é	milionária!	Além	do	mais,	apesar	da	idade</p><p>você	ainda	possui	muitos	encantos	e	quem	sabe	não	é	esta	noite	que	encontra</p><p>SEU	príncipe!…</p><p>-	Na	segunda	chamamos	um	médico	para	averiguar	esta	“indisposição”.	Até	lá,</p><p>quero	vê-la	linda	e	maravilhosa!</p><p>Bem	perto	dali	Carl,	muito	bem	acomodado,	mantém	conversa	descontraída	com</p><p>seus	anfitriões.</p><p>-	Então	meu	amigo,	que	bons	ventos	lhe	trouxeram	novamente	à	França?	Espero</p><p>que	não	se	trate	da	saúde	de	sua	mãe.</p><p>-	Sentimos	sua	falta,	comenta	a	dona	da	casa.	Há	tempos	não	nos	visita.</p><p>-	Também	senti	saudades,	mas	depois	da	morte	de	papai,	assumi	os	negócios	da</p><p>família	e	somente	por	estes	dias	consegui	me	furtar	de	alguns	compromissos.</p><p>-	Mas	não	pensem	que	estou	somente	à	passeio.	Preciso	localizar	uma	pessoa.	É</p><p>filha	do	ferreiro	local.	Veio	à	França	após	o	falecimento	da	avó	e	não	deu	mais</p><p>notícias.	O	pai	está	muito	preocupado.</p><p>-	Ora,	ora!	Não	diga	que	finalmente	meu	velho	amigo	finalmente	encontrou	sua</p><p>cara	metade!	Sim,	porque,	você	não	faria	esta	viagem	por	uma	mulher	sem</p><p>importância.</p><p>-	Vamos	com	calma	amigo,	preciso	ir	devagar	com	esta	dama.</p><p>-	Bem,	neste	caso,	enquanto	não	a	encontra,	divirta-se	conosco.	No	sábado</p><p>iremos	à	recepção	na	mansão	dos	Dior.	Nos	acompanhará,	certamente!</p><p>-	Terei	o	maior	prazer!</p><p>Quando	as	moças	adentraram	o	salão,	ficaram	boquiabertas	com	tamanho	luxo	e</p><p>pompa,	mas	como	ambas	estavam	vestidas	apropriadamente	logo	se	misturaram</p><p>aos	demais	convidados,</p><p>-	Então	a	Srta.	é	a	herdeira	que	veio	da	Inglaterra!	Exclamou	uma	baronesa	que</p><p>de	classe	somente	possuía	o	título.</p><p>-	Não	pensei	que	as	notícias	corressem	tão	rápido	por	aqui!</p><p>Arguiu	Verônica,	surpreendendo-se	consigo	mesma	pela	ousadia,	porém	sentia-</p><p>se	invadida	devido	a	abordagem	pouco	sutil	da	matrona.</p><p>“Bem	–	pensou	-	ao	menos	assim	todos	já	sabem	quem	sou	e	como	tratar-me</p><p>daqui	para	frente.	Frequentarei	a	alta	sociedade,	é	melhor	que	me	acostume	com</p><p>“certos	comentários””.</p><p>-	Se	me	dão	licença,	vou	ter	com	minha	prima.</p><p>-	Madeleine,	aonde	vivo	é	um	lugarejo	aonde	todos	se	conhecem	e	é	normal	que</p><p>as	notícias	corram	rápido,	mas	aqui!	Francamente	não	esperava!</p><p>-	Calma,	querida,	ocorre	que	vovó	era	pessoa	muito	conhecida	e	requisitada	na</p><p>alta	sociedade	parisiense	e	quando	você	chegou	à	fazenda,	a	notícia	se	espalhou</p><p>feito	rastilho	de	pólvora.	Relaxe,	você	está	divina	e	nossa	avó	ficaria	orgulhosa</p><p>se	a	visse	agora.	Mas…	até	aonde	pude	perceber	não	são	somente	as	Sras.	que</p><p>estão	interessadas	em	você,	vários	homens	já	lhe	lançaram	olhares	e	você	aí,	se</p><p>fazendo	de	cega!</p><p>-	Madeleine,	você	sabe	que	sou	pessoa	discreta!	Além	do	mais,	já	passei	da</p><p>idade	de	flertar	nos	salões…</p><p>De	repente,	seu	rosto	congelou	e	Verônica,	branca	como	cera,	preocupou</p><p>Madeleine.</p><p>-	O	que	houve	querida?	Parece	que	viu	um	fantasma!</p><p>-	Não	foi	nada,	apenas	um	mal	súbito.	Eu	lhe	falei	que	não	estava	me	sentindo</p><p>muito	bem	estes	dias…</p><p>A	verdade	é	que	Verônica	avistou	descendo	a	escadaria,	ele,	o	homem	que	não</p><p>saia	de	seus	pensamentos,	mas	sua	desculpa	convenceu	a	prima.</p><p>A	hora	seguinte	transcorreu	normalmente	e	a	presença	do	Príncipe	desviou	a</p><p>atenção	de	todos	para	si.</p><p>Quando	as	duas	estavam	se	despedindo	dos	anfitriões,	Verônica	sentiu	o	sangue</p><p>gelar	ao	ouvir	aquela	voz…</p><p>-	Perdoem-me	Srtas,	mas	não	é	demasiado	cedo	para	mulheres	tão	belas	se</p><p>retirarem?</p><p>-	Permitam-me	apresentar.	Sou...e	perdeu	a	voz	ao	reconhecer	o	olhar	que</p><p>também	não	lhe	saia	do	pensamento.	Pigarreou	e	retomou	o	rumo	da	frase.</p><p>Como	ia	dizendo,	Sou	Carl	Richard	Evans	Murphy,	seu	servo	e	tomou	a	mão	de</p><p>Verônica	e	a	beijou	como	no	último	encontro,	porém	desta	vez	ela	desviou	o</p><p>olhar	evitando	encará-lo,	temendo	capitular.</p><p>Madeleine	tratou	logo	de	corrigi-lo,	na	verdade	ajudando-o.</p><p>-	Sr.	Murphy,	ou	devo	chamá-lo	de	Duque?	Minha	prima	Verônica	é	Srta.	Eu	sou</p><p>viúva,	portanto	Sra.</p><p>Tomou	a	mão	de	Madeleine	e	a	tocou	nos	lábios,	respeitosamente,	mas	sua</p><p>atenção	estava	visivelmente	voltada	à	prima.</p><p>Madeleine,	percebendo	o	interesse	do	cavalheiro	pela	prima	se	deixou	ficar	por</p><p>mais	alguns	instantes.</p><p>Verônica	por	sua	vez	desejou	que	o	solo	abrisse	a	seus	pés,	mas	não	demonstrou</p><p>a	fim	de	não	desagradar	os	anfitriões.</p><p>Quando	ambas	se	foram,	Carl	se	quedou	a	cismar:</p><p>“O	que	está	acontecendo?	Lembro-me	bem	desta	Srta.	Tentei	me	aproximar	dela</p><p>no	noivado	da	filha	dos	Marksuel!”	Não,	devo	ter	exagerado	na	bebida	e	estou</p><p>vendo	o	que	não	é	real.”</p><p>Porém,	como	uma	luz	brilhante	em	sua	mente,	percebeu	com	clareza	os	fatos.</p><p>“Mas	é	claro!	Só	pode	ser	ela!”</p><p>Tratou	de	circular	despretensiosamente	pelo	salão,	trocando	algumas	palavras</p><p>com	um	ou	outro	até	conseguir	a	confirmação	de	tratava-se	daquela	a	quem	fora</p><p>procurar.</p><p>“Hoje	é	meu	dia	de	sorte!	Mamãe	ficará	feliz!”</p><p>-	Verônica	querida,	Vejo	que	apreciou	deveras	a	noite,	Seu	semblante	está</p><p>deslumbrante!	Enfatizou	a	prima	ao	chegarem	à	fazenda.	Ah,	um	pintor	neste</p><p>momento	para	retratá-la!</p><p>-	Realmente	apreciei	a	noite	Madeleine,	mas…	aquele	Sr.	que	nos	abordou	à</p><p>saída…	Ele	me	incomoda	um	pouco…</p><p>-	Cuidado	minha	prima!	Aquiete	seu	coração,	você	está	agindo	como	uma</p><p>adolescente!	Bem,	visto	seu	pai	mantê-la	afastada	da	sociedade	até	esta	idade,</p><p>não	é	de	se	surpreender	que	seja	tão	inexperiente.	Neste	caso,	devo	informá-la</p><p>que	aquele	educado	Sr.	tem	uma	péssima	reputação	e	definitivamente	não	está	à</p><p>sua	altura.	Mas,	por	outro	lado,	creio	que	este	mau	estar	dos	últimos	tempos	está</p><p>mexendo	com	seus	hormônios.</p><p>-	Você	tem	razão…	Deve	ser	isso	mesmo…	Aliviada	pela	prima	não	fazer-lhe</p><p>mais	perguntas	ao	perceber	a	fragilidade	de	suas	emoções.</p><p>No	dia	seguinte	após	consulta	com	o	médico	da	família…</p><p>-	Bem	Srta.,	o	que	tem	não	é	nada	grave,	aliás,	em	sua	idade	é	perfeitamente</p><p>natural.</p><p>-	Do	que	se	trata	Dr.?</p><p>-	A	Srta.	está	na	menopausa,	somente	isto.	Estes	sintomas,	embora</p><p>desagradáveis,	logo	desaparecerão.	Porém,	recentemente	foi	descoberto	um</p><p>medicamente	para	amenizar	tais	sintomas.	Creio	que	poderão	ajudá-la.	Mas,</p><p>caso	precise,	é	só	me	chamar.	Com	sua	licença…</p><p>Verônica	fez	questão	de	ir	pessoalmente	à	farmácia	comprar	o	medicamento,</p><p>pois	precisava	entender	exatamente	o	diagnóstico	do	médico.</p><p>Para	sua	sorte,	foi	atendida	pela	esposa	do	proprietário	do	estabelecimento	e</p><p>Verônica	pôde	sanar	todas	as	suas	dúvidas,	porém,	após	saber	a	verdade</p><p>arrependeu-se	e	desejou	ter	permanecido	na	ignorância.</p><p>Ao	retornar	à	fazenda	foi	direto	ter	com	a	prima	a	fim	de	desabafar.</p><p>-	Madeleine,	eu	descobri	o	que	tenho	e	estou	deveras	entristecida.	Preciso</p><p>desabafar…</p><p>-	Calma	minha	querida!	Eu	também	já	estou	nesta	fase	e	posso	garantir	que	é	a</p><p>melhor	fase	da	vida	das	mulheres!</p><p>-	Calma?!	Como	posso	ficar	calma?	Eu	nunca	tive	um	pretendente!	Não	fui</p><p>sequer	cortejada	e	agora	descubro	que	não	posso	gerar	um	filho!	É	muito	triste</p><p>isto!Você	é	viúva,	teve	os	filhos	que	desejou	e	hoje	se	orgulha	deles.	E	eu?	Qual</p><p>homem	vai	se	interessar	por	mim?	Vou	morrer	solteirona!</p><p>-	Ora	Verônica,	pare	de	sentir	pena	de	si	mesma.	Você	é	muito	mais	forte	do</p>

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