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<p>Cᴏɴғʀᴀʀɪᴀ ᴅᴏs Lɪᴠʀᴏs Bᴏɴs</p><p>Copyright © Viseu</p><p>Todos os direitos reservados.</p><p>Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, de qualquer forma ou por</p><p>qualquer meio eletrônico, mecânico, inclusive por meio de processos</p><p>xerográficos, incluindo ainda o uso da internet, sem a permissão expressa da</p><p>Editora Viseu, na pessoa de seu editor (Lei nº 9.610, de 19.2.98).</p><p>editor: Thiago Regina</p><p>revisão: Tatiana Rodrigues da Rocha</p><p>projeto gráfico e diagramação: Rodrigo Rodrigues</p><p>capa: Tiago Shima</p><p>Todos os direitos reservados, no Brasil, por</p><p>Editora Viseu Ltda.</p><p>contato@editoraviseu.com.br</p><p>Cᴏɴғʀᴀʀɪᴀ ᴅᴏs Lɪᴠʀᴏs Bᴏɴs</p><p>Sumário</p><p>CAPÍTULO I</p><p>CAPÍTULO II</p><p>CAPÍTULO III</p><p>CAPÍTULO IV</p><p>CAPÍTULO V</p><p>CAPITULO VI</p><p>CAPÍTULO VII</p><p>CAPÍTULO VIII</p><p>CAPÍTULO IX</p><p>Cᴏɴғʀᴀʀɪᴀ ᴅᴏs Lɪᴠʀᴏs Bᴏɴs</p><p>CAPÍTULO X</p><p>CAPÍTULO XI</p><p>CAPÍTULO XII</p><p>CAPÍTULO XIII</p><p>CAPÍTULO XIV</p><p>CAPITULO XV</p><p>CAPITULO XVI</p><p>Cᴏɴғʀᴀʀɪᴀ ᴅᴏs Lɪᴠʀᴏs Bᴏɴs</p><p>A Deus por ter posto em meu coração esta semente;</p><p>Cᴏɴғʀᴀʀɪᴀ ᴅᴏs Lɪᴠʀᴏs Bᴏɴs</p><p>À minha mãe por ter-me ensinado que nem somente de sonho vive o homem;</p><p>A uma antiga professora que um dia escreveu “Never give up on your dreams”</p><p>Viver é a arte de amar e ser amado.</p><p>Nossa passagem pela esfera terrestre é muito breve, mas muitos ainda insistem</p><p>em desperdiçar seu tempo acumulando mágoa, rancor e vingança. Além de</p><p>passar a maior parte de seu tempo valorizando somente os bens materiais em</p><p>detrimento dos reais valores, os espirituais.</p><p>Quando nascemos, nada trazemos e quando partirmos, o que levaremos são o</p><p>reflexo das ações que praticamos, os valores que possuímos e o amor que</p><p>sentimos.</p><p>Não importa qual tipo de amor.</p><p>Amor à Deus sob todas as coisas;</p><p>Ao próximo como a nós mesmos;</p><p>Amor à nossa família;</p><p>Aos nossos amigos;</p><p>Amar nosso(a) companheiro (a);</p><p>Mas, principalmente</p><p>Amor a si próprio.</p><p>Porque aquele que não se ama verdadeiramente,</p><p>Não tem condições de amar a quem quer que seja;</p><p>Não respeita, acolhe ou auxilia ao seu irmão.</p><p>Somente damos aquilo que possuímos</p><p>E só levamos aquilo que sentimos.</p><p>Portanto, aproveitemos melhor o presente da vida que recebemos</p><p>Nos amando, doando, auxiliando, honrando…</p><p>E no dia de nossa partida</p><p>Estaremos prontos para a real felicidade da vida eterna.</p><p>Tatiana Rodrigues da Rocha</p><p>CAPÍTULO I</p><p>- Meu filho, não acredito que você não vai ficar em casa nem mesmo esta noite?</p><p>Acabamos de sepultar seu pai e você já vai se deleitar com aquelas mulheres de</p><p>péssima reputação? Você não pode, ao menos hoje, ficar em casa e me fazer</p><p>companhia? Está na hora de pensar no futuro Carl!</p><p>- Minha mãe, quando meu pai adoeceu, fiz tudo o que esteve ao meu alcance</p><p>para ajudá-lo. Até buscar médicos em Paris… Agora, quem morreu foi ele não</p><p>eu. A Sra. não pode me impedir de viver a minha vida enquanto tenho saúde,</p><p>juventude e beleza!</p><p>- Você não percebe que age como um menino mimado quando deveria agir como</p><p>homem feito que é? O tempo passou para você da mesma maneira que para nós</p><p>meu filho, mas você não criou juízo nem com a doença de seu pai? A partir de</p><p>agora você se tornará o homem desta casa e em breve receberá o título que</p><p>pertencera a ele; não pode mais se dar ao luxo de levar esta vida devassa e</p><p>doidivanas que têm levado até então! Além do mais, nem sequer tem uma</p><p>namorada, quando já deveria estar casado e com filhos, como todo homem</p><p>respeitável! Pois muito bem; vá e despeçasse de seus “amigos”, pois amanhã</p><p>mesmo teremos você e eu uma conversa definitiva sobre o nosso futuro.</p><p>A Duquesa Mary Ann tornara-se a mais recente viúva da Inglaterra. Seu marido,</p><p>Sir Alexander, o Duque de Charleston, após meses de luta contra a tuberculose,</p><p>veio a óbito em uma linda manhã de primavera.</p><p>Mary Ann Evans amara o jovem Alexander Murphy a primeira vista, quando o</p><p>conhecera em um banquete oferecido por um Conde da época. Jovem esbelta, de</p><p>pele alva e cabelos louros era a típica inglesa, mantendo ainda, apesar de seus 70</p><p>anos, a mesma elegância e postura clássicas, dignas da nobreza daquele país.</p><p>Tivera que lutar contra o preconceito da época, pelo fato de desejar se unir a um</p><p>irlandês e com poder aquisitivo inferior ao de sua família, porém, era mulher de</p><p>fibra, apesar da aparência frágil o que lhe dava uma certa “vantagem”.</p><p>Alexander Murphy fora daquelas pessoas que tinha uma “estrela”. Herdara</p><p>pequena propriedade, mas com seu carisma, honestidade, caráter e competência,</p><p>transformara o pequeno legado em grande fortuna, o que lhe rendera o título de</p><p>Sir e mais tarde o de Duque, tornando-se suserano.</p><p>Sir Alexander era um perfeito descendente irlandês. Homem simpático e</p><p>bonachão, que até adoecer tinha uns bons 20 quilos a mais (o que lhe dava um</p><p>ar de bom avô), apesar dos cabelos ruivos terem perdido a cor devido à idade e</p><p>a doença, nunca perdeu o hábito de sorrir diante da exigência da esposa em</p><p>seguir rigidamente os protocolos ingleses.</p><p>O casal tivera apena um filho, Carl, quando ambos julgavam que já não mais</p><p>seriam pais, portanto, tudo o que o menino pedia, ganhava; custasse o que</p><p>custasse. Resultado: Carl tornou-se um homem egoísta, esbanjador, fútil e</p><p>mulherengo, tendo junto à sociedade, péssima reputação.</p><p>Carl Richard Evans Murphy já contava com a idade 45 anos. Herdara o sorriso</p><p>fácil e otimismo do pai e a beleza e sagacidade da mãe, atributos fundamentais</p><p>para um “bon vivant”¹. Com notável aptidão para fazer novos amigos e</p><p>conquistar as mulheres, decepcionou em muito os pais, por não tê-los seguido no</p><p>quesito “caráter”, relacionando-se com pessoas de índole duvidosa.</p><p>Após a saída do filho, a mãe decide tomar uma chá e prontamente a criada lhe</p><p>serve um saboroso e quente chá de camomila.</p><p>Esther trabalhava para a família desde que ela e Homero, seu marido, se casaram</p><p>e o mesmo além de jardineiro fazia às vezes de cocheiro por tratar muito bem</p><p>dos animais.</p><p>Se vendo sozinhas, as duas (que por afinidade e força da convivência haviam se</p><p>tornado amigas) saboreavam juntas o chá e dividiam as preocupações.</p><p>- Esther, o que será de meu filho a partir de agora? Já fui informada pela família</p><p>real que o título que pertencia ao pai será transmitido a ele brevemente em</p><p>pomposa cerimônia. Mas como ele assumirá o posto de Duque mantendo as</p><p>atitudes que vem mantendo até então? Temo pelo nosso futuro, pois quase todo</p><p>nosso patrimônio foi investido na tentativa de salvar a vida de meu marido. Carl</p><p>precisa se casar com moça de boa família e se abastada, tanto melhor, para que</p><p>possamos ao menos manter nosso padrão de vida, mas como se em nossa</p><p>sociedade nenhum de nossos amigos permitirão que Carl despose uma de suas</p><p>filhas? E ele já está passando da idade de constituir família!</p><p>- Veja seu filho. Quando meninos eram amigos, cresceram juntos. Porém quando</p><p>se tornou um homem, James buscou outras amizades e nunca mais quis a</p><p>companha de Carl. Hoje ele tem uma linda esposa e um neto que alegra esta casa</p><p>quando nos visitam.</p><p>- Mary Ann… Tenha um pouco de paciência. Cada um aprende à sua maneira.</p><p>Quando não o faz pelo amor, o acaba fazendo pela dor. Mas Deus misericordioso</p><p>há de ter piedade da inocência do menino Carl e tratar de lhe mostrar o caminho</p><p>certo!</p><p>- Menino? Ora Esther! Não sei de onde você tira estas ideias? Meu filho é</p><p>homem-feito há muito! De menino e inocente ele não tem é nada!</p><p>- Para a eternidade todos somos crianças, quantas vezes terei que lhe repetir isto?</p><p>- Ah, lá vem você com estas ideias daquele francês Allan… Allan mesmo do</p><p>que?</p><p>- Allan Kardec. Você deveria aproveitar que agora terá muito tempo livre e</p><p>estudar sobre a doutrina espírita. Você só terá a ganhar. Além do mais, não ficará</p><p>pela casa choramingando de saudades pelo seu marido, pois vai saber que ele</p><p>está num lugar lindo…</p><p>- Está bem. Para mim chega desta conversa por hoje. Vou para meu quarto fazer</p><p>minhas orações e dormir. Boa noite Esther.</p><p>- Bons sonhos Mary Ann.</p><p>Ao levar a bandeja para a cozinha, Esther ergue o olhar ao céu e pede em</p><p>silêncio para que a amiga encontre paz em seu coração.</p><p>Na manhã seguinte, preocupada com a patroa e amiga, procura a ajuda da nora</p><p>que compactua de seu interesse em socorrer àquela</p><p>que</p><p>isto, então não dramatize tanto! Sei que está abalada com a notícia, mas esta</p><p>reação faz parte do processo e em poucos dias perceberá que tenho razão. Agora,</p><p>vá se refrescar um pouco e retocar o pó. Sua aparência não está das melhores…</p><p>Assim os dias foram se seguindo até que em um de seus rotineiros passeios</p><p>matinais, deparou-se com Carl apoiado no madeirame que dividia as</p><p>propriedades, admirando-a.</p><p>Já o havia percebido em outras ocasiões mas desviava sua rota para não</p><p>encontrá-lo, porém nesta manhã, encontrava-se tão distraída que esqueceu-se</p><p>dele.</p><p>Levemente puxou as rédeas do animal para cumprimentar o já conhecido</p><p>conterrâneo.</p><p>Eis que uma sombra perturbou seus pensamentos quanto repentinamente</p><p>lembrou-se das estórias que ouvira a respeito do homem que agora a observava</p><p>como um animal prestes a devorá-la.</p><p>Parou rente ao madeirame aparentando todo um autocontrole que não possuía.</p><p>- Bom dia Sr. Murphy.</p><p>- Até agora meu dia fora bom, mas ao vê-la tornou-se especial. É um privilégio</p><p>vê-la cavalgar com tanta leveza e elegância!</p><p>Corada, Verônica apenas abaixou o olhar.</p><p>- Oh Srta, perdoe-me se me excedi em elogios, mas não pude controlar-me.</p><p>- Aceito suas desculpas, mas devo adverti-lo que suas palavras doces não vão</p><p>seduzir-me como bem sei que está acostumado.</p><p>Carl jamais esperaria que Verônica por trás de aparente timidez e discrição fosse</p><p>uma mulher capaz de desafiá-lo com tamanha objetividade. Mas como um</p><p>predador nato, sentiu-se mais atraído por ela.</p><p>- Creio que a Srta. andou ouvindo mexericos demais e posso assegurar-lhe de</p><p>que em sua grande parte, tratam-se de lorotas. A verdade é que mantive-me</p><p>solteiro até esta idade por não encontrar uma companheira à sua altura. Sempre</p><p>sonhei com alguém com suas qualidades e agora que a encontrei, julgo ser tarde</p><p>demais…</p><p>Verônica que ainda sentia-se surpresa consigo mesma pela coragem de enfrentá-</p><p>lo, imediatamente penalizou-se daquele que se mostrava um jovem enamorado.</p><p>- O que o Sr. quer dizer com tarde demais? Acaso está doente?</p><p>- Se ser despertado por tão nobres sentimentos a esta altura da vida é uma</p><p>doença, então confesso-lhe que estou às últimas. Srta. Bordeaux, ficaria</p><p>imensamente feliz se seu tio me permitisse fazer-lhe a corte, já que seu pai se</p><p>encontra na Inglaterra.</p><p>- Sr. Murphy, tive uma educação bastante rígida e confesso-lhe que jamais fui</p><p>cortejada… Sinto-me confusa com suas palavras…Mas, prometo-lhe pensar e</p><p>amanhã encontramo-nos neste mesmo lugar para conversarmos. Está bem assim?</p><p>- Claro! Qualquer coisa que pedir, o farei com gosto. Somente não suportaria seu</p><p>desprezo. Meu coração já está exultante!</p><p>- Cuidado com emoções avassaladoras, elas podem ser traiçoeiras Sr. Murphy.</p><p>Um homem maduro deveria saber disto.</p><p>- Até amanhã.</p><p>Verônica saiu a trote e quando percebeu que não era mais vista por ele, seguiu</p><p>em desabalada carreira até a casa principal.</p><p>Atirou-se na cama como uma adolescente e apertou o coração que batia</p><p>descompassadamente.</p><p>Madeleine que percebera a maneira como a prima entrara em casa, foi até seu</p><p>quarto preocupada.</p><p>- Que bom que veio Madeleine! Iria procurá-la. Não poderia contar a ninguém se</p><p>não a você!</p><p>- Contar o que? Calma, respire. Você parece uma menina peralta…</p><p>Após ouvir minuciosamente o relato da sobrinha, Madeleine foi a janela</p><p>pensativa.</p><p>- Bem, vejo que está apaixonada pelo Sr. Murphy, sem dúvida, mas devo</p><p>prevenir-lhe que a má fama deste homem ultrapassa as fronteiras…</p><p>- Ele disse-me que a maioria destas estórias são inverdades. Mas como saberei?</p><p>Estou com medo…</p><p>- Acalme-se Verônica. Façamos o seguinte, amanhã a acompanharei em seu</p><p>passeio matinal. Quero conhecê-lo melhor e avaliá-lo.</p><p>- Obrigada, assim sinto-me mais segura.</p><p>Decidiu retomar seu bordado a fim de distrair-se na esperança de que o tempo</p><p>passasse mais rápido.</p><p>No retorno à casa dos amigos, Carl se congratulava de um lado, mas</p><p>envergonhava-se de si mesmo de outro, perdido em seus pensamentos.</p><p>- A quem estou enganando? Minha mãe mandou-me localizar esta mulher</p><p>obviamente para que eu a conquistasse e a desposasse.</p><p>- Tudo estaria certo não fosse o fato de que realmente estou interessado nela. E</p><p>pressinto que sou correspondido embora ela seja uma mulher difícil. O que me</p><p>atrai mais ainda… E está cavalgando o meu cavalo! Neste caso está claro que o</p><p>fazendeiro que o adquiriu é parente próximo dela! Preciso ser mais cuidadoso e</p><p>perspicaz.</p><p>Nesta noite Verônica se deteve além do normal com seu bordado, dando</p><p>profundos suspiros ao relembrar o encontro da manhã. Mas algo a incomodava.</p><p>Uma sensação de perigo iminente se fazia presente tentando lhe tirar o prazer da</p><p>lembrança daqueles breves momentos.</p><p>Decidida a não se deixar levar somente pelo coração e ouvir a voz da razão, foi</p><p>para seu quarto, porém teve uma noite repleta de sobressaltos. Em seus sonhos</p><p>encontrou a mãe de quem sentia tantas saudades e da avó que se fora sem sequer</p><p>se despedir…</p><p>Na manhã seguinte conforme combinado, Verônica e Madeleine dirigiram-se ao</p><p>local marcado para o encontro. Carl já as esperava com uma grande cesta de</p><p>piquenique, recheada de guloseimas e é claro, flores para sua pretendente.</p><p>Ao vê-las se aproximando, pulou o cercado de madeira feito um menino e com</p><p>seu melhor sorriso recebeu as damas.</p><p>- Confesso que estava ansioso por nosso encontro. A Srta. ontem me pareceu um</p><p>tanto distante e cheguei a questionar se realmente viria a meu encontro nesta</p><p>manhã.</p><p>- Sr. Murphy, sou mulher de uma só palavra, aliás, como todos deveriam ser.</p><p>Ofende-me confessar que duvidou de minha palavra!</p><p>- Perdoe-me Srta.! Ao seu lado sinto-me inseguro como um adolescente e acabo</p><p>por cometer os erros de tal idade.</p><p>Madeleine procurava andar afastada o suficiente para não ouvir o diálogo do</p><p>casal, mas não a ponto de perdê-los de vista, e em seu íntimo punia-se por ter</p><p>concordado em acompanhar Verônica. Não tinha a menor dúvida de que o objeto</p><p>de amor da prima não passava de um menino mimado que esquecera-se de</p><p>crescer. Se fosse só isto, menos mal, mas algo a advertia que a aproximação à</p><p>Verônica tinha segundas intenções… Passaria a observar cada gesto de ambos.</p><p>Após algumas léguas decidiram parar para o piquenique. Estava tudo perfeito.</p><p>Carl trouxe até mesmo um pequeno vaso, no qual depositou um ramalhete de</p><p>flores do campo para enfeitar a refeição.</p><p>Madeleine não pode mais suportar tal situação e alegando um mal súbito</p><p>retornou sozinha à fazenda.</p><p>- Oh Sr. Murphy, sinto-me tão culpada! Madeleine só nos acompanhou hoje por</p><p>uma questão de dever com a família. Meu pai jamais a perdoaria se ela fosse</p><p>relapsa comigo. Mas veja coitadinha, está tão cansada que nem teve condições</p><p>de nos acompanhar nesta refeição maravilhosa…</p><p>- Não se culpe pelo comportamento de sua prima. Talvez ela tenha se lembrado</p><p>de algum compromisso antes assumido e retornou às pressas para corrigir seu</p><p>lapso. Tratemos de saborear estas iguarias e me permita o prazer de desfrutar de</p><p>tão graciosa companhia.</p><p>Após a refeição, ambos sentaram-se à sombra de uma árvore frondosa e em</p><p>silêncio, puderam sentir o prazer que a companhia um do outro proporcionava.</p><p>Mas Verônica não se permitiu mergulhar a fundo naquela sensação e um tanto</p><p>sonolenta, convidou seu acompanhante a voltarem.</p><p>Por um milésimo de segundo Carl sentiu o sangue ferver de raiva, mas mestre</p><p>em dissimular, concordou com a jovem.</p><p>Em cerca de uma hora despediram-se no ponto em que se encontraram.</p><p>- Srta. Verônica, perdoe-me a ousadia mas mal caibo em mim tamanha a</p><p>satisfação em ter sua companhia…Podemos no ver novamente amanhã?</p><p>- Sr. Murphy, confesso que apreciei sua companhia mas creio não ser correto nos</p><p>encontrarmos com tanta frequência. Estou hospedada na casa de meu tio e não</p><p>me perdoaria se o decepcionasse por algum gesto impensado de minha parte.</p><p>Creio que o Sr. me entende, não?</p><p>- Oh mas é claro! Aprecio quando uma donzela mede seus passos e atitudes.</p><p>Assim, só me cativas ainda mais, creia-me.</p><p>- Obrigada pela compreensão Sr. Murphy. Sua cortesia e cavalheirismo me</p><p>tranquilizam, pois pressinto que posso confiar no Sr.</p><p>Até logo e obrigada pela</p><p>surpresa.</p><p>Delicadamente, virou as rédeas do cavalo e afastou-se lentamente com um</p><p>sorriso nos lábios. E assim chegou à sede da fazenda minutos depois.</p><p>- Verônica, precisamos conversar! Sou mulher experiente. Aprendi muito da vida</p><p>e das pessoas com meu falecido marido e posso lhe garantir que este Sr, não tem</p><p>boas intenções para com você! Não deveria tê-la deixado a sós com ele, mas não</p><p>pude mais suportar aquele olhar lânguido com o qual ele a olhava e você… toda</p><p>derretida como uma menina de 18 anos!</p><p>- Calma Madeleine. Sei que você só quer o meu bem e por isto está tão nervosa,</p><p>mas posso lhe assegurar que está tudo sob controle. Vou tomar um banho e após</p><p>vou à cidade cuidar de alguns negócios.</p><p>- Negócios? Que tipo de negócios? Você pode resolver tudo o que precisa aqui</p><p>mesmo da fazenda…</p><p>- Nem tudo Madeleine… Nem tudo.</p><p>Pouco antes do jantar, Verônica chega numa carruagem de aluguel cheia de</p><p>compras, o que deixou a prima mais contrariada do que já estava.</p><p>- Pois diga-me Verônica, se queria ir às compras, porque não me convidou à</p><p>acompanhá-la? Conheço as melhores lojas de Paris, bem sabes.</p><p>- Ocorre que não fui comprar vestidos, chapéus e sapatos. Comprei tecidos e</p><p>linhas de todas as cores para retomar meus bordados. Jamais dispensaria sua</p><p>companhia para me ajudar a escolher novos figurinos. Vou subir para meu</p><p>quarto, tomar um banho e em seguida desço para o jantar.</p><p>Sozinha em seu quarto Verônica apenas jogou as sacolas sobre a cama e</p><p>abraçada ao travesseiro, deixou que as lágrimas lhe escorressem livremente a</p><p>face. Mas como num passe de mágica, levantou-se, estufou o peito e disse a si</p><p>mesma no espelho: - “Veremos quem vai brincar de gato e rato”!</p><p>Após banhar-se e vestir um delicado vestido azul-celeste, sentou-se à mesa com</p><p>os familiares sem que ninguém percebesse qualquer mudança em seu</p><p>comportamento.</p><p>Nos dois dias seguintes Verônica não saiu para cavalgar, ao invés disto,</p><p>permaneceu na varanda a bordar.</p><p>Madeleine se viu tentada a questioná-la mas achou por bem não fazê-lo na</p><p>esperança que a prima houvesse se decepcionado com o pretendente.</p><p>Na tarde do segundo dia a família foi agraciada com o convite a reinauguração</p><p>do teatro da cidade, marcado para a noite seguinte, evento voltado somente para</p><p>a elite parisiense.</p><p>Na hora marcada toda a família foi prestigiar o evento, inclusive a Sra. Vivien,</p><p>esposa do Sr. Jean Paul, que somente saia de casa em casos muitíssimos raros,</p><p>devido a problemas de saúde.</p><p>Na porta do teatro, paravam as carruagens mais requintadas, provando assim que</p><p>todo público seleto comparecera para o grande evento.</p><p>Após devidamente instalados em seu camarote, as primas procuravam com seus</p><p>binóculos reconhecer todos os presentes.</p><p>Foi quando Verônica ouve uma voz grave e suave atrás de si:</p><p>- Procurando alguém Srta.?</p><p>Sentindo o coração aos pulos e todo corpo fraquejar, muniu-se de seu melhor</p><p>sorriso e encarou o dono daquela voz.</p><p>- Que surpresa em vê-lo Sr. Murphy! Parece que o destino trata de nos colocar</p><p>nos mesmos lugares não é mesmo?</p><p>- Ora minha cara, então a Srta. realmente crê em destino? Eu diria que trata-se de</p><p>predestinação!</p><p>- Confesso-me decepcionada consigo. Não o julgava com tamanha pretensão,</p><p>mas vejo que o é!</p><p>- Perdoe-me se dei esta impressão. Apenas procurava um motivo para me</p><p>aproximar da Srta. já que me evitas deliberadamente.</p><p>- Sr. Murphy… Não o estou evitando de forma alguma. Apenas não mais saí a</p><p>cavalgar devido a leve indisposição.</p><p>- Que pelo que percebo já se encontra totalmente restabelecida, pois sua</p><p>aparência me parece excelente, diria mais, a Srta. está verdadeiramente</p><p>deslumbrante!</p><p>- Obrigada! O Sr. é muito gentil, mas percebo exagero em seus elogios…</p><p>Neste momento, Carl que jamais fora descartado desta forma, pigarreou e sem</p><p>perder a elegância, despediu-se de todos, não sem antes fixar o olhar no de</p><p>Verônica, em tentativa desesperada de tocar seu coração empedernido.</p><p>Após a retirada do cavalheiro, Madeleine parabenizou a prima pela coragem de</p><p>colocá-lo em seu lugar.</p><p>- Minha prima, já lhe disse que não precisa se preocupar tanto comigo. Sei me</p><p>cuidar sozinha e quanto ao Sr. Murphy, creio que está na hora dele amadurecer.</p><p>A peça foi um sucesso e foi aplaudida de pé pelo público.</p><p>Após todos se recolherem a seus quartos, Verônica abriu sua janela e saiu para a</p><p>sacada a fim de sentir a doce brisa das noites de verão.</p><p>Em sua mente a imagem daquele a quem desejava continuava tão nítida quanto o</p><p>fora há horas e ainda podia sentir o aroma da lavanda usada por ele.</p><p>Na fazenda vizinha a mesma cena se repetia nos aposentos de Carl. “Como uma</p><p>mulher tão inexperiente se tornaria a mais difícil de sucumbir a seus encantos”?</p><p>- “Preciso ser mais cauteloso, até porque, não posso perdê-la! Minha mãe jamais</p><p>me perdoaria”…</p><p>Determinado a conquistar Verônica a qualquer custo, recolheu-se à cama,e por</p><p>fim, adormeceu.</p><p>Na tarde seguinte a dama retorna ao centro de Paris sozinha utilizando a</p><p>desculpa de procurar outro médico que possa aliviar os sintomas indesejáveis</p><p>que continuava a sentir.</p><p>- Então Sr. Jonhson, conseguiu todas as informações que lhe pedi?</p><p>Henri Sautier era um senhor de meia idade, com ares de comerciante afável e</p><p>proprietário de uma pequena loja de tecidos e aviamentos, bastante frequentada</p><p>pelas costureiras de Paris. O que poucos sabiam era que no andar superior de seu</p><p>pequeno estabelecimento possuía um escritório aonde prestava serviços de</p><p>investigador particular a uma seleta clientela entre as quais Verônica se</p><p>encontrava.</p><p>Na tarde em que fora comprar os tecidos e linhas para bordar, o gentil senhor</p><p>percebeu a palidez da senhorita e matreiro como só, acabou por envolvê-la e</p><p>ofereceu-se em ajudá-la. Verônica realmente precisava desabafar o que carregava</p><p>e acabou por confiar no estranho.</p><p>- Vejo que o Sr. é bastante astuto. Vim até aqui hoje porque preciso ocupar</p><p>minha mente e nada melhor do que o bordado para me entreter, embora aprecie</p><p>boa leitura também. Mas… Neste momento, não consigo me concentrar nos</p><p>livros pois meu coração e minha mente se encontram num outro lugar…</p><p>- Ora Srta., herdei este ofício de meu pai e aqui aprendi a conhecer os desejos e</p><p>temores das mulheres, apenas isto. Mas não tenho a menor intenção de</p><p>intrometer-me na vida quem quer que seja. Meu objetivo é somente esclarecer</p><p>possíveis dúvidas que se alojam nos corações apaixonados.</p><p>Vamos ao meu escritório aonde teremos mais privacidade.</p><p>- Vejo que na porta está escrito Sr. Jonhson – Detetive Particular. Mas em seu</p><p>armarinho seu nome é outro! Acaso pode explicar-me?</p><p>- No meu ofício o sigilo é a alma do negócio. O Sr. Jonhson é como um</p><p>fantasma, que está ora aqui, ora ali, porém não é percebido por ninguém, se é</p><p>que me entende.</p><p>- Bem... que seja. Então Sr. Jonhson, há alguns meses, ainda na Inglaterra</p><p>conheci um homem que mesmo de longe, fez meu coração acelerar… E assim,</p><p>Verônica contou até mesmo do piquenique para o detetive. Após muito pensar e</p><p>pesar, cheguei a conclusão de que ele veio à França a minha procura porque</p><p>descobriu que tornei-me herdeira de considerável capital e, devido a minha</p><p>inexperiência com os homens, certamente seria presa fácil a ele.</p><p>- Mas Srta., já que está de posse destas informações, o que mais poderei fazer</p><p>neste caso. A Srta. já sabe tudo o que precisa!</p><p>- Ocorre Sr. Jonhson que apesar de ser uma donzela, tenho uma certa bagagem</p><p>de vida, visto que minha mãe muito me ensinou quando viva e observei as</p><p>atitudes de meus irmãos. Sei como os homens pensam e agem… Além do mais,</p><p>preciso saber quem realmente é o homem de meu interesse para que eu possa</p><p>agir de forma justa para com ele e comigo.</p><p>- Muito bem, neste caso, preciso de todos os dados que a Srta. possui para que eu</p><p>possa começar minhas investigações. Retorne daqui a um mês para que eu lhe</p><p>apresente um relatório sobre ele. Quanto ao custo, devo preveni-la de que</p><p>necessito e uma certa quantia adiantado para custear a viagem a Inglaterra e o</p><p>restante me pagará na entrega do relatório.</p><p>- Mas, de graça, lhe darei um conselho. Mantenha-se</p><p>afastada o máximo possível</p><p>dele. Tipos como ele não suportam a rejeição e acabam por desequilibrar-se e</p><p>revelar-se. Tenha uma boa tarde Srta.</p><p>- Obrigada, o mesmo para o Sr. Ah, boa viagem!</p><p>Perdida em seus pensamentos, retornando a fazenda, Verônica diz a si mesma: -</p><p>“Desta vez o Sr. escolheu a vítima errada Sr. Murphy”.</p><p>- Boa tarde Srta. Bordeaux! Estava ansioso por reencontrá-la! Porém, presumo</p><p>não possuo boas notícias.</p><p>- Espero que tenha feito uma boa viagem Sr. Jonhson. Pode começar o relatório.</p><p>Sou toda ouvidos.</p><p>O detetive surpreendeu-se com a frieza com que a dama recebeu o relato, visto</p><p>estar temeroso de como narrar fatos tão pérfidos. Quando relatou sobre a amante</p><p>(incluindo o pianista), Verônica quase sorriu, como se ela já soubesse de tudo</p><p>por antecipação. Após o relato verbal, entregou a cliente toda documentação</p><p>comprobatória dos fatos narrados.</p><p>- Bom trabalho Sr. Jonhson. Aqui está o restante de seus honorários. Foi um</p><p>prazer contratar os seus serviços. Até mais ver. Ah, quase esqueci-me, preciso de</p><p>algum material para bordar meu vestido de noiva.</p><p>Estupefato, o homem acompanhou-a até o andar inferior e vendeu-lhe o que</p><p>havia de melhor e obviamente, mais caro.</p><p>Após o jantar, antes de se retirar aos seus aposentos, Verônica informa a família</p><p>que retornará à Inglaterra no dia seguinte.</p><p>Todos se entreolharam espantados com a inesperada notícia e somente</p><p>Madeleine seguiu-a até o quarto a fim demovê-la da ideia de deixá-los.</p><p>- Mas Verônica, aqui você tem uma qualidade de vida superior à da Inglaterra.</p><p>- Concordo em termos Madeleine. Aqui sou mais do que bem tratada, sei que</p><p>sou realmente muito querida por você e seus pais, mas meu pai precisa de mim,</p><p>não esqueça.</p><p>- Bem… Se a razão de sua partida é esta, então não me resta alternativa senão</p><p>lhe desejar uma boa viagem. Ambas abraçaram-se longamente, pois realmente</p><p>nutriam um sentimento de irmãs.</p><p>Na manhã seguinte após o desjejum, rumou à estação tomando o primeiro trem</p><p>em direção à sua casa.</p><p>Durante todo o percurso, manteve-se submersa em seus pensamentos,</p><p>regozijando-se pelo que haveria de vir…</p><p>Carl foi ao lugar aonde ambos se encontraram todas e manhãs no afã de</p><p>reencontrar aquela que já não lhe saia do pensamento, mas voltava frustrado ao</p><p>perceber que a dama não fora a seu encontro. Após alguns dias, pediu a um dos</p><p>funcionários de seu anfitrião que fosse na propriedade ao lado tentar obter</p><p>notícias da parente inglesa.</p><p>E foi com muito pesar que recebeu a notícia de que mesma retornara à Londres</p><p>há vários dias.</p><p>Despediu-se dos amigos, agradecendo a estada e simulando preocupação com a</p><p>saúde da mãe tomou o trem da mesma noite.</p><p>Esta, com certeza, fora a noite mais longa da vida de Carl, pois, de um lado,</p><p>temia a ira da mãe por seu fracasso, de outro, a própria vergonha por não ter</p><p>conquistado uma donzela de 40 anos! Mas o que mais lhe doía era admitir que</p><p>verdadeiramente apaixonara-se por ela.</p><p>CAPÍTULO XI</p><p>- Oh Papai, que saudades!</p><p>Verônica abraçava o pai e os irmãos entre risos e lágrimas e até o fiscal da</p><p>estação emocionou-se ao ver o afeto genuíno daquela família.</p><p>- “Esta é uma família feliz! Vê-se que o dinheiro não mudou estas pessoas, ao</p><p>contrário, uniu-as ainda mais”, pensou o funcionário da estação ferroviária.</p><p>Após o jantar, Verônica colocou o pai a par de seus planos.</p><p>- Papai, veja bem, esta casa foi comprada para proporcionar conforto e segurança</p><p>a todos desta família. Porém ela ainda é somente uma casa. Desejo que entremos</p><p>de uma vez por todas na sociedade londrina. Como não comemorei meu último</p><p>aniversário, darei uma recepção de inauguração e a batizarei como “Solar dos</p><p>Bordeaux”, o que acha da ideia?</p><p>- Pelo que vejo, os ares parisienses lhe fizeram muito bem! Quando saiu há</p><p>alguns meses, você era uma mulher pacata, recatada e bastante tímida. Hoje</p><p>tenho em minha frente uma mulher linda, vistosa, arrojada e corajosa! Mas, vejo</p><p>também que, atrás de todo este poder, ainda está a minha doce e romântica</p><p>menina.</p><p>- Creio que devemos falar com seus irmãos para que possamos planejar este</p><p>evento todos juntos, afinal, Nós somos os Bordeaux!</p><p>- Obrigada Papai!!!! Boa noite, sonhe com os anjos!</p><p>- Que Deus lhe abençoe minha filha!</p><p>No almoço, a família se reuniu a fim de cada um dar ideias sobre a inauguração</p><p>do Solar. Nos dias que se seguiram este virou o assunto predileto de todos.</p><p>Verônica pediu ajuda a sua velha amiga Rosimeri, cuja mãe entendia de tudo em</p><p>matéria de recepções.</p><p>A Sra. Bernadete White Marksuel era descendente de nobres ingleses assim</p><p>como seu marido, porém desenvolveu uma afeição genuína por Verônica, apesar</p><p>da diferença de classe social. Tanto que no noivado de Rosimeri, cedera</p><p>gentilmente um belíssimo vestido para que a amiga da filha, não porque esta</p><p>pedira e sim pelo prazer de contemplar a beleza e elegância de Verônica.</p><p>Para a Sra. Marksuel ser convidada a participar da organização do evento de</p><p>Verônica, lhe era como um presente.</p><p>Na casa dos Bordeaux o clima era de euforia e esperança. Em sua lista de</p><p>convidados a anfitriã fez questão de incluir a Duquesa e seu filho, apesar das</p><p>reprimendas do pai.</p><p>Já na residência dos Murphy…</p><p>- Mas como você retorna assim, de mãos vazias! Voziferava Mary Ann</p><p>decepcionada com o revés do filho. Uma encalhada, virgem, inexperiente,</p><p>praticamente uma caipira! Como ela não cedeu aos seus encantos? Acaso</p><p>esqueceu-se de como conquistar uma mulher? Ou talvez, esteja tão acostumado</p><p>com as mundanas que não lembra como se trata uma dama? Sim, porque, apesar</p><p>da falta de glamour desta caipira, ela é RIQUÍSSIMA! Entendeu? E isto faz dela</p><p>a mulher mais linda e cobiçada da Europa. E meu filho, um conquistador nato,</p><p>perdeu a grande oportunidade de sua vida!</p><p>- Eu sinto muito mamãe, mas a Sra. sequer imagina o real sentimento que me</p><p>consome. Vou descansar em meu quarto. Estou muito cansado.</p><p>No dia seguinte ao receber o convite, Mary Ann regozija-se pela nova</p><p>oportunidade e vai ter com o filho imediatamente.</p><p>- Parece que os céus estão lhe ajudando!</p><p>- O que houve mamãe?</p><p>- A herdeira vai oferecer uma recepção com o intuito de inaugurar o palácio que</p><p>adquiriu para a família e nos convidou. Ao menos ela parece ter bom gosto</p><p>quanto a selecionar seus convidados…</p><p>- Mamãe, na situação em que nos encontramos, ela está nos fazendo um favor.</p><p>Não esqueça que ninguém mais nos convida para qualquer evento.</p><p>- Porque será que fomos excluídos da nobreza Inglesa?</p><p>- Não estou disposto a discutir com a Sra. mamãe. Porque a Sra. não convida</p><p>Esther e vão à igreja orar. Um pouco de oração, com certeza lhe fará bem.</p><p>- Pois vou é providenciar trajes apropriados à ocasião, afinal conhecerei minha</p><p>futura nora.</p><p>À noite, sem ter com quem desabafar, foi a procura de Lisa May, visto crer que a</p><p>mesma teria a capacidade de compreendê-lo. Surpreendeu-se ao perceber todas</p><p>as luzes apagadas, porém insistiu em bater à porta. Um vizinho que passava não</p><p>pode resistir e lhe falou sem rodeios:</p><p>- Não perca seu tempo Sr. A mulher que vive nesta casa aparentemente mudou-</p><p>se. Tem passado os últimos tempos naquele hotel barato perto da estação. Dizem</p><p>até que está vivendo com um dos hóspedes daquela pocilga.</p><p>Para Carl, este foi o golpe de misericórdia. Sentou-se no último degrau da escada</p><p>e sentiu o peso duro da mais profunda solidão. Na verdade só queria ter com</p><p>quem conversar e poder sentir-se inteiro outra vez. Levantou-se, alisando a calça</p><p>amarrotada e dirigiu-se ao bar, aonde sabia encontrar os velhos amigos</p><p>apreciadores de etílico.</p><p>Como não havia de ser diferente, os mesmos parceiros bebiam na mesma mesa,</p><p>como se o tempo não houvesse passado.</p><p>O recém-chegado contou da viagem aos amigos (exagerando tudo a seu favor, é</p><p>claro) e passaram a noite entre um brinde e outro às façanhas do futuro Duque.</p><p>Já era dia quando Carl chegou em casa carregado por dois homens em melhor</p><p>situação que a dele. Jogaram-no à cama sob os xingamentos da mãe e se</p><p>retiraram cambaleando rua à fora. Quando o ébrio acordou no final da tarde,</p><p>pouco se lembrava da noite anterior. Banhou-se, vestiu-se com esmero e</p><p>ordenou</p><p>a Homero que lhe levasse no endereço já bem conhecido de ambos.</p><p>Homero notou uma certa diferença no comportamento do senhor. Mais calado e</p><p>menos arrogante, seguiram o trajeto sem o terror de tempos atrás. Em silêncio,</p><p>Homero agradeceu a Deus pela súbita mudança do patrão.</p><p>Lisa May que já soubera da chegada do amante, o esperava como de costume</p><p>jogando-se em seus braços com volúpia e lassívia. Incapaz de resistir aos</p><p>encantos da mulher, Carl se deixou levar pela luxúria e passaram a noite se</p><p>amando.</p><p>Na manhã seguinte, após o café, Carl confessou a Lisa May sobre o fracasso que</p><p>fora sua viagem (porém omitiu que apaixonara-se por Verônica), o que causou-</p><p>lhe uma ira maior que a de Mary Ann. Após ouvir todos os palavrões que a</p><p>mundana proferiu, ele apenas levantou-se, colocou o chapéu e saiu, sem sequer</p><p>se despedir.</p><p>No restante do dia conseguiu concatenar as ideias e algumas lembranças da</p><p>noitada com os “amigos” lhe vieram à mente. Lembrou-se de ter recebido os</p><p>parabéns por ter se livrado daquela interesseira barata (e deram muitas</p><p>gargalhadas quando um outro corrigiu: - Barata não meu caro. Aquela mulher é a</p><p>mundana mais cara da corte! Afinal, arrancou toda fortuna de nosso amigo</p><p>aqui…). Carl não conseguia raciocinar corretamente diante de toda esta situação</p><p>caótica em que se via envolvido. Percebeu neste momento o quanto fora tolo por</p><p>todos aqueles anos e o quanto sua mãe estava certa e envergonhou-se de si</p><p>próprio.</p><p>Após banhar-se, barbear-se e colocar-se decentemente, foi ter com a mãe que</p><p>dava ordens à Esther na cozinha.</p><p>- Mamãe, preciso muito lhe falar. Se puder me acompanhar até a sala….</p><p>- Bem Esther, por mim você já pode se recolher. Meu filho, você vai precisar dos</p><p>serviços de Homero hoje? À negativa do filho, continuou: - Boa noite Esther e</p><p>chame seu marido para se recolherem mais cedo esta noite. Vamos ao escritório</p><p>Carl.</p><p>A conversa com a mãe foi mais fácil do que imaginava. Julgava o filho que a</p><p>mesma tripudiaria sobre sua dor, mas ao invés disto, ela o abraçou e disse</p><p>somente: - Seja bem-vindo meu filho! Tudo o que sempre desejei foi ter meu</p><p>filho de volta e se muitas vezes fui severa e até cruel com você, era porque não</p><p>sabia mais como resgatá-lo. Mas a vida se encarregou disso por mim. Agora</p><p>vamos dormir, pois amanhã tenho muitas decisões a tomar. Precisaremos vender</p><p>mais alguns bens, infelizmente.</p><p>Carl, após a decepção sofrida, passou a se interessar pelos negócios da família,</p><p>como forma de redenção por ter causado tanto sofrimento à mãe durante tantos</p><p>anos, decidiu também recolher-se.</p><p>Na manhã seguinte foi a igreja desejoso de desabafar com o padre, mentor</p><p>espiritual e amigo de todos. Ao adentrar no ambiente sagrado, após fazer suas</p><p>orações, sentou-se e lá permaneceu em silêncio por vários minutos. Já ia se</p><p>retirando quando o padre saiu da sacristia acompanhado por uma nobre dama a</p><p>quem imediatamente reconheceu: Verônica Bordeaux.</p><p>Em vão tentou sair sem ser notado, pois o pároco o chamou: - Ora vejam, o bom</p><p>filho à casa torna! Verônica, minha filha, lembra-se da parábola do filho</p><p>pródigo? Pois este homem à sua frente a representa muito bem. - Seja bem-vindo</p><p>à casa do Senhor Carl!</p><p>- Obrigado padre. Eu senti vontade de colocar meus pensamentos em ordem por</p><p>isto estava sozinho a pensar.</p><p>- Oh, desculpem a falta deste velho padre. Verônica Bordeaux, Carl Murphy.</p><p>Na verdade quando ambos se avistaram, seus olhos não conseguiram se desviar</p><p>um do outro e mal ouviram as palavras do padre que, devido à experiência de</p><p>vida, não deixou de perceber o interesse mútuo. Porém, fingindo-se de inocente,</p><p>forçou-os à realidade, apresentando-os formalmente.</p><p>Carl, sentiu-se na obrigação de tomar a palavra e gentilmente beijou a mão da</p><p>amada. - Como tem passado Srta. Verônica? Devo confessar-lhe padre que já</p><p>fomos apresentados em ocasião pretérita, porém há muito não nos</p><p>encontrávamos.</p><p>- Estou muito bem Sr. Murphy e o Sr.? Espero que tenha feito uma boa viagem</p><p>de retorno à Inglaterra.</p><p>- Oh sim, obrigado. A propósito, minha mãe e eu sentimo-nos lisonjeados com</p><p>seu convite. Iremos à sua recepção, com certeza.</p><p>- Fico feliz com a notícia. Posso garantir-lhes que reencontrarão todos os velhos</p><p>amigos de sua família, aliás saudosos de seu pai.</p><p>- Muito bem padre, dirigiu-se Verônica ao pároco, o aguardarei na hora marcada</p><p>para sua benção ao nosso novo lar e mais uma vez, muito obrigada!</p><p>- Srta, vejo que está se retirando, acaso posso acompanhá-la até sua carruagem?</p><p>- Com muito prazer, Sr. Murphy, aliás, o Sr. sempre me cobrindo de gentilezas…</p><p>Já à rua ambos se despediram e mais uma vez Carl confirmou sua presença</p><p>naquele que seria um grande evento para a sociedade londrina.</p><p>Após a carruagem sumir, um novo homem, repleto de esperança e confiança, vai</p><p>diretamente ao alfaiate encomendar um novo fraque, desejoso de definitivamente</p><p>impressionar a bela dama. A dama em questão porém, debatia-se entre a razão e</p><p>o coração. Ao retornar à Inglaterra estava certa de que Carl iria tentar cortejá-la</p><p>visando sua fortuna e estava disposta a ver até onde ia a ambição daquele</p><p>homem. Ao avistá-lo na igreja porém, algo inesperado aconteceu e seu coração</p><p>encheu-se de ternura ao cruzar com seu olhar.</p><p>No dia anterior ao evento, começaram a chegar uma significante quantidade de</p><p>flores na residência de Verônica. Todas endereçadas a ela, claro. Vinham de</p><p>todos os tipos, tamanhos e qualidades. Notava-se que todos os viúvos e</p><p>solteirões de Londres e Paris perceberam a presença da nova mulher que</p><p>despontava no cenário da elite europeia.</p><p>Com a ajuda de Rosimeri, Bernadete e Madeleine que viera com antecedência a</p><p>fim de colaborar nos preparativos finais, todas foram distribuídas pela casa,</p><p>mesclando-se às que haviam sido encomendadas especialmente para tal. A</p><p>anfitriã não cabia em si de alegria por ser tão cortejada àquelas alturas da vida,</p><p>mas manteve equilíbrio suficiente para digerir que muitos não estavam</p><p>interessados na pessoa dela e sim na fortuna que possuía. Assim como Carl…</p><p>Por um momento Verônica desejou que ele viesse a amá-la verdadeiramente e</p><p>não estivesse somente cortejando-a por interesse. Mas sabia exatamente o que</p><p>fazer e decidiu confiar mais na razão do que na emoção.</p><p>O pai e os irmãos, obviamente, já demonstraram o excesso de zelo para com ela,</p><p>mas previam que não demoraria para que Verônica escolhesse um pretendente e</p><p>se casasse. Mas não permitiriam que fosse enganada pelo primeiro usurpador</p><p>que surgisse. Decidiram entre si que dariam a ela uma falsa liberdade, para que</p><p>supusesse que a escolha foi sua. O que eles não sabiam era que Verônica estava</p><p>decidida a não ser manipulada, nem pelos pretendentes, nem pelos familiares.</p><p>Na manhã do grande dia uma entrega em especial chamou sua atenção. Um</p><p>pequeno buquê de flores do campo. Junto dele um cartão de papel comum com</p><p>os dizeres: - “Ainda não esqueci de nosso piquenique. Espero que me</p><p>acompanhe em outros doravante. Carl.”</p><p>Sua cabeça começou a girar e seu coração parou de bater por alguns segundos.</p><p>Porém quando questionada sobre quem fora o remetente, retornou a realidade e</p><p>dissimulou respondendo que de ninguém especial. Mas não permitiu que as</p><p>flores ficassem junto com as outras. Discretamente levou-as para seus aposentos</p><p>e as colocou em um vaso à beira de sua cama.</p><p>Em seu ser, razão e emoção misturavam-se e a dama já não sabia discernir o</p><p>certo do errado. Havia planejado tudo para saborear sua doce vingança, mas</p><p>somente em imaginar, um gosto de fel lhe queimava a garganta. Por um lado</p><p>tinha certeza de que a Duquesa e seu filho pretendiam lhe dar um golpe através</p><p>do casamento, porém de outro, lembrava-se do olhar afetuoso do homem amado</p><p>e não podia crer que tudo passasse de uma farsa. Seus olhos diziam que a amava!</p><p>- “E agora o que farei? Cheguei muito longe para recuar e não vou me deixar</p><p>iludir pelos encantos daquele experiente sedutor! Ele provavelmente olha-me da</p><p>mesma forma que o faz com todas as suas “presas” e hei de provar que não sou</p><p>uma solteirona, solitária a ponto de casar-me com o primeiro pretendente que me</p><p>surge, ainda</p><p>mais agora que possuo tudo o que perderam. Mas se eu estiver</p><p>cometendo uma injustiça e o Sr. Murphy me amar realmente, estarei jogando</p><p>fora a minha oportunidade de ser feliz ao lado do homem que amo… Não!</p><p>Aquela víbora da Duquesa é por demais ardilosa e com certeza está manipulando</p><p>o filho jogando-o em meus braços para que eu morda a isca. Pronto, não mudarei</p><p>meus planos e se algum dia o Sr. Murphy me amar realmente, o futuro se</p><p>encarregará de mostrar, por hoje, preciso preservar minha honra e dignidade”.</p><p>A recepção fora oferecida nos jardins, visto ser verão. No início da noite, os</p><p>convidados começaram a chegar. As mais luxuosas carruagens com cocheiros</p><p>elegantemente trajados, favoreciam o desembarque da mais alta casta das duas</p><p>cidades.</p><p>Os anfitriões obviamente estavam em seus melhores trajes de gala. Jean Jaques é</p><p>que não estava muito confortável. Passara muitos anos desde que saíra da França</p><p>e realmente preferia uma vida e trajes mais simples e confortáveis. Já Verônica</p><p>parecia uma princesa. Usava um vestido creme com detalhes em renda e</p><p>acessórios de pérolas. Optara pela simplicidade aliada ao bom gosto e elegância.</p><p>Deixara que a extravagância ficasse por conta das convidadas, que algumas</p><p>aliás, esbanjavam.</p><p>Como já era de se esperar, os olhares dos interessados na anfitriã lhe causaram</p><p>um certo desconforto, visto que muitos não tinham a sutileza que a mesma</p><p>apreciava. Isto até a chegada da Duquesa de Charleston (Mary Ann não perdeu o</p><p>título de nobreza, graças a sua amizade com a rainha) e seu filho que</p><p>decididamente, era o homem mais elegante e atraente da noite.</p><p>Após recebê-los com a polidez que lhe era peculiar, a anfitriã voltou a atenção</p><p>aos demais convidados. Imediatamente todos os olhares femininos se voltaram à</p><p>Carl, menos o de Verônica que conversava com um Conde francês.</p><p>Quando o palácio estava repleto, chegou o grande momento. O Bisbo fizera</p><p>questão de abençoar o lar. Na entrada principal da residência, após sucinto e belo</p><p>discurso do patriarca da família, luzes no portão se acenderam formando o nome</p><p>SOLAR DOS BORDEAUX. Fogos de artifício foram queimados ao redor de</p><p>toda a residência e uma chuva de luzes coloridas banhou os jardins floridos.</p><p>A recepção foi servida à francesa, facilitando o entrosamento de todos os</p><p>convidados, sem a pompa dos jantares cerimoniosos ingleses que acaba por</p><p>segregar algumas pessoas.</p><p>No jardim de inverno, previamente adaptado como salão de baile, a orquestra</p><p>começou a tocar, atraindo os convidados a deslizarem pelo amplo salão ao som</p><p>das mais belas valsas da época. Jean Jaques e Verônica foram o primeiro casal a</p><p>dançar e aos poucos os pares foram se formando ao redor deles até o salão se</p><p>tornar um carrossel de vestidos rodados. Em dado momento Carl convidou-a a</p><p>valsar, porém para sua surpresa Verônica mostrou interesse em ter com a</p><p>Duquesa e seu filho.</p><p>Mary Ann ao ver o filho ao lado da anfitriã e ambos vindo em sua direção,</p><p>tomou ares de surpresa (simulados é claro) e ofereceu seu melhor sorriso à</p><p>acompanhante do filho quando Verônica tomou a palavra.</p><p>- Duquesa, fiz questão de convidá-los á minha recepção por ser este um dos</p><p>momentos mais importantes de minha vida. Sei a muito das intenções de seu</p><p>filho para comigo e tenho certeza de que sob o seu consentimento e incentivo.</p><p>Pois bem, eu sou a mesma mulher que há cerca de um ano atrás foi espezinhada</p><p>pela senhora na noite de noivado de Rosimere Marksuel, talvez não lembre-se</p><p>mas EU lembro MUITO bem. Naquela ocasião a Sra. disse-me com todas as</p><p>palavras que eu não era digna de seu filho e de que não passava de uma golpista</p><p>atrás da fortuna de sua família. Cometeu grande injustiça a minha pessoa, que</p><p>jamais me aproximaria de um cavalheiro motivada por interesses econômicos, ao</p><p>contrário de seu filho que não possui tal virtude. Quanta ironia ver que hoje a Sra</p><p>trata-me com respeito somente porque possuo bens, joias, enfim tudo aquilo que</p><p>um dia a Sra. teve e já não mais possui. Desprezo sua atitude e a de seu filho,</p><p>porém façamos um acordo: Eu aceitarei ser cortejada por Carl e poderemos até</p><p>nos casarmos, mas que fique bem claro que o faço porque posso comprar um</p><p>marido, alguém tão sem caráter que se sujeite a tal humilhação: seu filho.</p><p>E dirigindo-se a Carl disse-lhe: - Agora aceito acompanhá-lo em uma valsa</p><p>cavalheiro. Mantendo um sorriso inocente acompanhou-o até o salão e uniram-se</p><p>aos outros casais. Porém o entrosamento que havia entre os dois era visível e</p><p>ambos pareciam flutuar no salão fazendo com que os outros casais parassem de</p><p>dançar para observá-los. Por fim, ficaram sozinhos na pista com todos os</p><p>presentes a admirá-los.</p><p>Após a dança, o cavalheiro agradeceu a dama, procurou por sua mãe e retiraram-</p><p>se do evento. Em grande estilo, assim como entraram. Verônica sentiu-se</p><p>vingada, porém um aperto no peito não lhe permitia sentir toda a satisfação a</p><p>qual havia planejado. Em seguida fora requisitada a dançar com quase todos os</p><p>admiradores da mesma.</p><p>Devidamente acomodados na carruagem Mary Ann teve um acesso de raiva e</p><p>quase agrediu fisicamente o filho. - Seu incompetente! Permitiu que aquela</p><p>mulherzinha descobrisse nossas intenções! E agora está tudo perdido…</p><p>- Um momento mamãe, preciso retificar que as más intenções são suas, não</p><p>minhas. Inclusive já confessei-lhe que estou sinceramente enamorado pela Srta.</p><p>Bordeaux e me casaria com ela mesmo que ela não possuísse dinheiro algum.</p><p>- Ora deixe de bobagens Carl! Até bem pouco você frequentava os piores lugares</p><p>e suas amizades eram de péssima reputação! Sem falar daquela messalina com</p><p>quem manteve um caso por anos. Então agora não me venha com sermões de</p><p>bom moço, porque não me convence.</p><p>- Eu lamento muito minha mãe, porém eu mudei muito e Sra. não teve tempo de</p><p>perceber.</p><p>No Solar a recepção estava no auge, com todos os casais dançando e divertindo-</p><p>se. Porém ao lado de um arbusto de bromélias, uma jovem deleitava-se ao</p><p>observar o lindo cenário que a dança proporcionava e mantinha-se tão entretida</p><p>que não percebeu a aproximação de garboso cavalheiro. - A Srta. me concede</p><p>uma dança? Sem demonstrar espanto, virou-se para o interlocutor, encarou-o a</p><p>fundo nos olhos e espantou-se ao perceber que tratava-se de Armand, irmão de</p><p>Verônica que não a reconhecera.</p><p>- Será um prazer acompanhá-lo em uma valsa Armand. Oh, me desculpe, creio</p><p>que não reconheceu-me. Entendo bem, afinal não nos vemos há muitos anos.</p><p>- Desculpe-me bela dama mas duvido que me esqueceria de tão belos olhos!</p><p>- Ora vejam só, já se tornou um cavalheiro garboso e conquistador! Adaptou-se</p><p>rápido à nova vida…</p><p>- Por quem me toma Srta? Acaso conhece meu passado? Sinto-me ofendido com</p><p>sua colocação.</p><p>- Está bem. Chega de jogos. Armand, sou eu Bella, amiga de Verônica desde</p><p>minha infância.</p><p>- Não creio no que meus olhos vêem. Quando sai para as cruzadas eras apenas</p><p>uma menina sardenta e peralta. Como agora me deparo com uma mulher tão</p><p>formosa e refinada?</p><p>- Você passou muitos anos fora. Eu cresci, aprendi muito com as pessoas e com a</p><p>vida. Verônica também me ajudou muito e… eis-me aqui! Bem, chega de</p><p>conversa, vamos logo dançar porque vim aqui foi para isto e não para relembrar</p><p>rusgas do passado.</p><p>E de braços dados misturaram-se aos outros casais e não se separaram até o final</p><p>da festa, quando Armand fez questão de levá-la em casa com a carruagem da</p><p>família.</p><p>Na manhã seguinte, após ter o sono recheado pesadelos Verônica acorda</p><p>sobressaltada e com o coração aos pulos.</p><p>No andar térreo do solar, todos falavam ao mesmo tempo e pareciam atônitos.</p><p>Ao questionar o que ocorrera, fora informada que a noite passada pouco antes de</p><p>chegarem em casa, a carruagem da Duquesa sofrera um acidente. A mesma</p><p>ficara com múltiplos traumatismos e seu filho, além de ter ficado preso as rédeas</p><p>dos animas, sofrera ferimentos internos inclusive no crânio, porém ambos já</p><p>haviam sido transportados para um hospital em Londres. O cocheiro, como que</p><p>por milagre, sofreu apenas alguns arranhões.</p><p>O sentimento de culpa se apossa de Verônica que volta para seu quarto e jogasse</p><p>na cama em pranto solto.</p><p>- A culpa é minha! Se eu não tivesse usado de tanta</p><p>arrogância, talvez este acidente não tivesse ocorrido. O que farei agora?</p><p>Madeleine que percebera a reação da prima decide procurá-la</p><p>- Verônica, sou eu Madeleine. Abra a porta!</p><p>- Não quero conversar com ninguém agora! Respeite minha vontade, por favor!</p><p>Madeleine percebera que a prima estava apaixonada por Carl, mas não esperava</p><p>uma reação tão passional de sua parte. Decidiu esperar até que ela se acalmasse e</p><p>mais tarde a questionaria.</p><p>Como a prima não saiu do quarto sequer para almoçar, sua preocupação</p><p>aumentou e procurou o pai para tentar ajudar a prima.</p><p>- Papai, nem sei como lhe contar mas… o fato é que enquanto Verônica estava</p><p>em nossa casa, estava a se encontrar com Carl Murphy. Pensei tratar-se de um</p><p>pequeno flerte, mas devido a reação de Verônica ao saber do acidente, suspeito</p><p>que houve algo mais que desconhecemos. Tente fala-lhe, pois ela não me</p><p>permitiu entrar em seu quarto.</p><p>- Minha filha, se sua prima não recebeu a você que é sua confidente, o que</p><p>poderei fazer eu? Se suas suspeitas forem fundadas, ela jamais confiará seu</p><p>segredo a mim, justo irmão de seu pai.</p><p>- Me acompanhe até lá, lhe rogo!</p><p>- Está bem, vamos tentar.</p><p>Ao baterem á porta do quarto, perceberam que estava aberta e Verônica não</p><p>estava lá. Desta forma, foram forçados a revelar a Jean Jaques sobre o</p><p>desaparecimento da filha.</p><p>- Meu irmão, nunca vi minha filha desta maneira! Ela passou por mim e tomou a</p><p>carruagem sem dizer seu destino. Estou deveras preocupado!</p><p>Rosemeri que estava no Solar, ao ouvir a conversa prontamente voluntariou-se</p><p>na busca pela amiga.</p><p>- Sr. Jean Jaques, peguemos minha carruagem e seguiremos atrás de Verônica!</p><p>Assim o pai, o tio, a prima e a amiga saem seguindo os rastros deixados pelo</p><p>veículo da amiga. Em dado momento o cocheiro percebe que seguiu a caminho</p><p>das terras dos Murphy e acelera os cavalos.</p><p>Neste ínterim, Verônica já estava no local do acidente e encontra Homero</p><p>olhando a cena da noite anterior. Imediatamente manda seu cocheiro parar e</p><p>corre em direção ao homem.</p><p>- Sr., acaso sabe o que ocasionou esta catástrofe?</p><p>- A Srta deve ser a Srta. Bordeuaux, julgo pelo que me descreveram-na. Permita-</p><p>me apresentar-me. Sou Homero, cocheiro dos Murphy. É uma honra conhecê-la.</p><p>Sem tempo a perder, Verônica foi direto ao assunto.</p><p>- Muito prazer Homero. Agora, pelo amor de Deus, conte-me o que realmente</p><p>aconteceu!</p><p>- Srta. Verônica, não esperava que saísse em tão desabalada carreira para ter</p><p>notícias de seus desafetos!</p><p>- Como assim, desafetos?</p><p>- Quando saímos de sua casa na noite passada, a Duquesa estava extremamente</p><p>zangada, chegando a usar expressões que eu jamais imaginara ouvir de sua boca</p><p>tão nobre. Deduzi que tiveram alguma discussão. Ela pediu que eu exigisse</p><p>demais dos cavalos e bem aqui, na última curva antes da casa principal, um dos</p><p>animais tropeçou e caiu, derrubando assim a todos nós. Devido à velocidade</p><p>fomos arrastados por vários metros até nosso transporte parar de vez.</p><p>- Eu sabia – dizia em lágrimas a dama – foi tudo culpa minha! Mas conte-me</p><p>Homero, qual é o verdadeiro estado de saúde do Sr. Murphy?</p><p>- Infelizmente o patrão foi o que mais se feriu, pois ficou preso entre os arreios e</p><p>foi carregado por uma padiola até a carruagem do hospital aonde recebeu os</p><p>primeiros socorros e após foi levado de para Londres ainda desacordado. A</p><p>Duquesa machucou-se muito mas está no hospital mais próximo.</p><p>- Então o estado dele é grave! Oh meu Deus, balbuciava entre lágrimas.</p><p>Neste momento chegam os parentes e Verônica não conseguiu disfarçar seu</p><p>desespero. Ao ser inquirida pelo pai, contou-lhe a verdade.</p><p>- Minha filha, você não é culpada de nada! Estou desconhecendo a mulher forte</p><p>na qual se tornou. Você está totalmente desequilibrada e não está raciocinando</p><p>como deveria! Veja bem, se a Duquesa pediu para o cocheiro acelerar a</p><p>velocidade da carruagem, ela foi a culpada pelo acidente e não você! Além do</p><p>mais, você tratou-os como deveria. É muita petulância destes dois tentarem dar</p><p>um golpe em minha filha, abusando de sua inocência!</p><p>Ao ouvir as palavras do pai, aos poucos Verônica foi recobrando o equilíbrio,</p><p>mas, ainda assim, chamou o tio.</p><p>- Meu tio, sei que o que lhe pedirei não lhe fará nenhum sentido, mas preciso que</p><p>confie em mim e não faça perguntas, por favor!</p><p>- Fale querida, o que lhe aflige tanto? O que posso fazer para ajudá-la?</p><p>- Sei de sua influência junto aos melhores médicos parisienses. Preciso que o Sr.</p><p>entre em contato imediatamente com algum deles e solicite a remoção de Carl</p><p>para o melhor hospital da França. Porém, peço-lhe segredo absoluto sobre meu</p><p>pedido.</p><p>- Embora realmente não entenda seus motivos, farei o que me pedes.</p><p>No dia seguinte, o homem acidentado fora transferido para a França e passara a</p><p>receber o melhor tratamento que a medicina da época dispunha.</p><p>De volta ao Solar e mais calma após um forte chá de camomila, Verônica conta a</p><p>prima os detalhes da discussão da véspera. Ao pai não revelou o quanto fora</p><p>humilhada pela Duquesa na noite do noivado de Rosimeri, para poupá-lo.</p><p>- Minha prima, estou estupefata em saber que você teve tamanha coragem!</p><p>Parabéns! É claro que você feriu a fundo o orgulho daquela Duquesa falida cheia</p><p>de pose, mas você agiu certo, defendendo sua honra e dignidade e o que ela fez</p><p>com a própria vida é problema dela, não seu.</p><p>- Mas Madeleine, você não entende… Eu falei todas aquelas coisas porque queia</p><p>humilhá-los SIM, mas estou perdidamente apaixonada por Carl e estava fingindo</p><p>que me casaria com ele como forma de comprá-lo, para preservar o meu orgulho</p><p>e não admitir a verdade. Aliás, você é a única pessoa que sabe a verdade. Jamais</p><p>revele meu segredo a quem quer que seja, rogo-te de coração espedaçado!</p><p>- Não se preocupe minha querida. Jamais irei traí-la. Mas como percebo que</p><p>você já está parcialmente recuperada, que tal comermos alguma coisa? Você não</p><p>almoçou e comi muito pouco devido a preocupação com você.</p><p>- Você tem razão. Preciso alimentar-me para recuperar minhas forças.</p><p>Após um lauto lanche, Madeleine, espertamente convida a prima para</p><p>acompanhá-los em seu retorno à França, convite aceito imediatamente pela</p><p>prima, afinal teria a oportunidade de acompanhar o tratamento de seu amado..</p><p>Dois dias depois Verônica retorna a fazenda, ansiosa para visitar seu grande</p><p>amor hospitalizado.</p><p>CAPÍTULO XII</p><p>Após a partida dos familiares, Armand foi à casa de Bella a fim de pedi-la em</p><p>namoro. A jovem, extremamente enrubescida sugeriu que passeassem pelo</p><p>bosque a fim de ter maior privacidade.</p><p>- Armand, começou Bella. Você não pode se enamorar por mim. Jamais</p><p>poderíamos nos casar!</p><p>- Que falas são estas Bella? Conheço-a desde a mais tenra idade, nossas famílias</p><p>são amigas, e além do mais, já estou enamorado. Não há nada que nos impeça de</p><p>viver este amor!</p><p>- Meu querido, também estou enamorada de ti, confesso. Mas… creio ser</p><p>impossível nosso amor.</p><p>Após inúmera visitas à casa da jovem, envio de flores e presentes, o coração da</p><p>jovem já não suportava mais guardar seu segredo e decidiu revelar-lhe a verdade.</p><p>Na vez seguinte em que o jovem procurou-a, convidou-o a um breve passeio ao</p><p>jardim, a fim de não serem ouvidos.</p><p>- Armand, o que tenho a revelar-te é por demais sério e se após meu relato,</p><p>desistires de suas intenções para comigo, entenderei ser seu direito.</p><p>- Quando eu era jovem e inexperiente, pensava que só um bom partido me traria</p><p>felicidade. Queria casar-me com um homem de posses e ter uma vida de</p><p>princesa! Então conheci Henry Moore, filho do Barão Charles Moore. Ele</p><p>passou a me cortejar e prometeu-me casamento. E eu… tola, ingênua e admito,</p><p>interesseira, cedi e me entreguei a ele. Alguns dias depois ele nunca mais</p><p>apareceu. Meses depois descobri que mudara-se para a Espanha a fim de exercer</p><p>a profissão de médico na qual era recém-formado. Está vendo porque não</p><p>podemos nos casar? Não sou digna de você e muito menos de pertencer à sua</p><p>família! Bella estava aos prantos.</p><p>- Não chore, minha querida. Todos temos nossos erros e ninguém é perfeito.</p><p>Você deu um mau</p><p>passo, é verdade. Mas quem sou eu para julgá-la? Esquece-se</p><p>que passei muitos anos na guerra santa? Nunca pensei que fosse abrir minha</p><p>alma desta forma mas vejo que para que me torne digno de você, preciso fazê-lo.</p><p>Quando o bisbo me convenceu a seguir com as tropas da igreja numa guerra</p><p>santa, eu támbém fui tolo, inocente e interesseiro. Sim, almejava ter posto de</p><p>liderança junto ao exército e ser aclamado e respeitado por todos. Quanta tolice a</p><p>minha! A verdade é que me tornei um assassino. Em nome da Igreja eu matei</p><p>pessoas inocentes! E minha consciência me cobra isto todos os dias. Tive</p><p>pesadelos durante meses após retornar à casa de meu pai, mas graças a Deus</p><p>hoje estou praticamente recuperado dos traumas, mas, ainda assim, nunca tive</p><p>coragem de contar-lhe para evitar o desgosto que geraria em meu bondoso pai.</p><p>Está vendo? Agora diga-me: Quem cometeu o pecado maior, você ou eu?</p><p>- Oh Armand, nunca pensei encontrar tanta caridade em seu coração! Amo-o e se</p><p>me aceita como sou, hei de fazê-lo o homem mais feliz do mundo!</p><p>- Farar-me-á feliz ao dizer-me uma só palavra: Sim.</p><p>- Sim, meu amor. A partir de agora seremos um só e nosso segredo estará</p><p>guardado em nossos corações e ninguém jamais saberá o que me contaste agora.</p><p>- O mesmo farei eu. Mas prometo-te respeitar-te até nos casarmos, afinal você</p><p>continua sendo uma moça de família, respeitada por todos. Mas ai daquele que</p><p>tentar lhe lançar um olhar lacivo! Irá ver-se comigo!</p><p>- Já está ficando tarde, vamos para casa. Janta conosco hoje, por certo. Assim,</p><p>daremos a notícia aos meus pais juntos. Tenho certeza que aprovarão.</p><p>A partir daquele dia, a vida de ambos ganhou novo sentido e brilho e os</p><p>dissabores do passado, lá ficaram.</p><p>Nos dias que se seguiram, a família voltou à rotina. Jean Jaques administrando a</p><p>ferraria (que agora produzia também ferramentas de carpintaria), Armand e</p><p>Christofer aprendendo com o pai o ofício e os cuidados da casa ficou por conta</p><p>dos fiéis e dedicados empregados.</p><p>Quando tudo parecia virar rotina, Emanuelle, esposa de Christofer, surpreende a</p><p>todos com a notícia da primeira gravidez. A felicidade e comoção foi geral.</p><p>Armand e Bella decidiram aproveitar a boa fase e marcar a data do casamento.</p><p>Enfim, fora a saudade de Verônica, a vida da família Bordeaux era só felicidade.</p><p>CAPÍTULO XIII</p><p>Tão logo desembarcaram na fazenda, Verônica pediu ao tio que lhe cedesse o</p><p>cocheiro para ir à Paris, visitar o Sr. Murphy no hospital. Jean Paul que não</p><p>podia negar-lhe o pedido, visto tratar-se de caridade acima de tudo, prontamente</p><p>permitiu e assim a dama foi-se com o coração aos pulos, rever seu amado,</p><p>orando por sua plena recuperação.</p><p>Ao chegar ao hospital e identificar-se, Verônica foi conduzida diretamente à sala</p><p>do médico responsável pelo tratamento do paciente.</p><p>- Boa tarde Dr.. Não estou a entender, ao chegar a recepção solicitei visitar o Sr.</p><p>Carl Murphy, internado a alguns dias e trouxeram-me até aqui… Acaso ele veio</p><p>a óbito? - E já em prantos - Dr. Conte-me a verdade, por clemência!</p><p>- Boa tarde Srta. Boudeaux. Eu solicitei que a trouxessem até minha sala porque,</p><p>primeiramente por desejar conhecer dama de tão grande generosidade e prestígio</p><p>junto à nossa sociedade e já que não frequento os salões – não poderia perder</p><p>esta oportunidade. Segundo porque preciso inteirá-la sobre o estado de saúde de</p><p>meu paciente. Ele se encontra em coma desde que chegou. Realizamos todos os</p><p>exames e procedimentos, mas infelizmente ele não reage a nenhum.</p><p>Aparentemente seu cérebro não sofreu nenhum dano grave que justifique o</p><p>coma, mas já tivemos casos semelhantes em que o paciente “acorda” depois de</p><p>um certo tempo, mas percebemos que o fator preponderante nestes casos é ter a</p><p>companhia das pessoas a quem ama. Se a Srta. quiser vê-lo, terei o maior prazer</p><p>em acompanhá-la, mas não se iluda.</p><p>Verônica procurou conter o pranto para não agravar mais a situação do amado.</p><p>- O sr, Murphy quando aqui chegou estava num estado clínico bem pior, porém,</p><p>devido a rápida transferência para nossas dependências, pudemos estabilizado,</p><p>mas como já lhe relatei, até o momento permanece desacordado.</p><p>Carl foi colocado em excelentes instalações e a dama fez questão de avaliar as</p><p>condições em que o mesmo estava instalado. Quarto amplo com grandes janelas,</p><p>vista para o bosque e um quarto de banho em anexo, exclusivo ao paciente.</p><p>Percebeu que tomara a decisão certa em solicitar sua transferência para este</p><p>hospital que aliás, era o melhor do país.</p><p>- Ele pode ouvir-nos Dr.?</p><p>- Não temos certeza visto que a medicina ainda está engatinhando nesta área,</p><p>mas minha opinião é que pacientes nestes casos não ouvem como nós, mas</p><p>sentem, será que me entente?</p><p>- Sim. Então não há problema se eu conversar com ele como se ele estivesse me</p><p>ouvindo? Entenda Dr. não quero que pense que estou enlouquecendo, mas sinto</p><p>que alguma parte do seu ser reconhecerá minha voz e um dia, retornará para nós.</p><p>Após a saída do médico, Verônica ficou longo tempo parada aos pés da cama</p><p>observando o homem amado como se tentando decidir o que fazer. Após</p><p>pequena oração, encheu-se de coragem e pôs-se a falar:</p><p>- Trouxe-lhe flores para alegrar o ambiente. Vejo que está corado e creio até que</p><p>ganhou alguns quilos…</p><p>- Vou sentar-me à janela e lhe descreverei a bela paisagem que há lá fora.</p><p>Assim Verônica narrou com detalhes cada árvore, flor e fruto que avistava e</p><p>quando em vez olhava para o paciente para verificar alguma alteração, mas em</p><p>vão. Percebia-se que estava vivo somente devido aos aparelhos conectados ao</p><p>seu coração.</p><p>Após profundo suspiro, Verônica despediu-se dando-lhe um beijo na testa e</p><p>prometendo voltar todos os dias. E assim o fez.</p><p>Na manhã seguinte levou um livro e passou entre a leitura e as conversas (ou</p><p>melhor monólogos) para que ele digerisse suas palavras. E assim o fez todos os</p><p>dias sem jamais desistir de seu amado.</p><p>Ao entardecer voltava para a fazenda e após o jantar retomava o bordado como</p><p>que para aliviar sua dor. Em uma noite Madeleine senta-se ao lado da prima e</p><p>observa seu bordado.</p><p>- Querida, você borda divinamente, mas gostaria de saber qual o destino destas</p><p>peças?</p><p>- Estou bordando lençóis para o berço de meu sobrinho, ou sobrinha!</p><p>- Verônica, que não gostaria de admoestá-la mas, você acredita mesmo que o Sr.</p><p>Murphy algum dia acordará? O Dr. lhe disse que já viu muitos casos ocorrerem,</p><p>mas não lhe disse que muitos também jamais voltam e temo por sua saúde…</p><p>- Madeleine, meu pai já fora informado do motivo que me mantém aqui e</p><p>obviamente respondeu-me relutante, duvidando até de minha sanidade mental.</p><p>Não cometa o mesmo erro que ele, por favor! Me ajude a orar. Tenho certeza que</p><p>Deus há de ouvir nossas preces e me conceder esta dádiva.</p><p>- Está bem, prometo que de hoje em diante, antes de dormir, dedicarei minhas</p><p>orações ao pronto restabelecimento de seu amor, mas preciso que prometa-me</p><p>que não vai descuidar e sua alimentação e sono sim? Você não pode adoecer,</p><p>caso contrário, quem vai passar os dias lendo para o Sr. Murphy? Boa noite</p><p>querida.</p><p>- Obrigada Madeleine, sempre pude contar com você…</p><p>Os dias se seguiram e Verônica manteve a rotina. Até que os dias tornaram-se</p><p>semanas e estas em meses e o estado de Carl não se alterava.</p><p>Após seis meses na mesma situação a enfermeira comunica a dedicada cuidadora</p><p>que uma pessoa está na recepção desejando visitar o enfermo. Ao questionar de</p><p>quem se tratava, a mesma já se encontrava a porta do quarto, pois achava-se no</p><p>direito de fazer o que quisesse. Quando a enfermeira argumentou que ela não</p><p>tinha o direito de adentrar ao quarto sem autorização, imediatamente arrependeu-</p><p>se devido a forma como fora tratada. Verônica, de tão consumida pela dor e o</p><p>sofrimento, não moveu um músculo sequer, como que guardando energias para o</p><p>que viria. A dois passos do leito, uma senhora bastante envelhecida apoiando-se</p><p>em uma bengala, sem sequer olhar para o enfermo, fuzilava Verônica com o</p><p>olhar.</p><p>- O que a Srta. faz aqui? Acaso veio terminar o que começou? Dar cabo a vida</p><p>de meu filho?! Não percebe que sua presença só nos faz mal, sua</p><p>víbora</p><p>vingativa!</p><p>Sem levantar da poltrona, Verônica observa a figura pedante de Mary Ann e</p><p>poderia até sentir pena, não fosse o enorme desprezo que sentia.</p><p>- Se a Sra. veio até aqui me agradecer pelo fato de EU cuidar de seu filho por</p><p>todos estes meses, incansavelmente, creio que começou muito mal seu discurso.</p><p>Se quer notícias sobre o real estado de saúde de Carl, procure o Dr. Gilbert. Se</p><p>deseja descarregar seu veneno sobre alguém, olhe-se no espelho e o faça, pois a</p><p>SRA. é a verdadeira responsável pelo estado em que o mesmo se encontra.</p><p>- Eu? Ora quanta petulância! A Srta. praticamente nos expulsou de sua casa,</p><p>tratou-nos como dois cães sarnentos, deixou-nos com os nervos a flor da pele e</p><p>ME culpa pelo acidente que a Srta. causou? A Srta. deveria estar presa isto sim e</p><p>não sentada confortavelmente ao lado de meu filho enquanto o mesmo descansa!</p><p>Neste momento, o médico entra no quarto avisado pela enfermeira que quase</p><p>sem fôlego correu a chamá-lo. Este entrou a tempo de ouvir a última frase de</p><p>Mary Ann.</p><p>- Com licença, eu sou o Dr. Gilbert, responsável pelo tratamento do Sr. Murphy,</p><p>e a Sra. quem é?</p><p>- Como ousa perguntar quem sou eu? EU sou a Duquesa de Charleston e exijo</p><p>explicações sobre o estado de saúde de meu filho?</p><p>- Se a Sra. não me informasse sobre seu título de nobreza, eu jamais suspeitaria,</p><p>até porque, a julgar pelo seu descaso com o próprio filho e a falta de educação,</p><p>poderia confundi-la com qualquer pessoa, menos como uma nobre.</p><p>- Eu não abandonei meu filho! Fui submetida a longo tratamento médico em</p><p>Londres e somente agora pude viajar. E o título de Dr. não lhe dá o direito de me</p><p>destratar desta forma!</p><p>- Eu jamais tive a intenção de destratá-la Sra., porém ocorre que seu filho está</p><p>em coma a seis meses e somente agora a Sra. questiona sobre seu estado de</p><p>saúde. Se é algo que, enquanto ser humano não tolero, é a injustiça. Fui</p><p>informado de seu tratamento em Londres pelos meus colegas e pelo que me</p><p>consta, enquanto esteve em tratamento a Sra. nunca perguntou pelo seu filho. Ao</p><p>menos até saber que ele estava sendo cuidado pela incansável Srta. Bordeaux,</p><p>que em todo este tempo jamais abandonou a cabeceira de seu filho. Fui</p><p>informado inclusive que a Sra. saiu do hospital a mais de um mês.</p><p>- Ora, quanta petulância! Eu quero falar com o proprietário deste hospital! Não</p><p>permitirei que meu filho fique aqui mais um dia sequer nas mãos de um</p><p>charlatão qualquer! E quanto a esta mulher, quero que saia imediatamente!</p><p>Após profundo suspiro, o médico responde calmamente:</p><p>- Sra. hum, perdoe, Duquesa, o proprietário deste hospital é meu pai e eu sou o</p><p>diretor do mesmo, além de ser mestre e doutor e neurologia. Em sendo assim,</p><p>seu filho está no melhor hospital e nas mãos do melhor especialista do mundo</p><p>nesta área. Ah, e quanto a dama aqui presente, não fosse ela abrir mão de sua</p><p>própria vida e dedicá-la a seu filho, o mesmo talvez já tivesse ido a óbito. Em</p><p>sendo assim, creio que a única pessoa que está a prejudicar a saúde do meu</p><p>paciente é a Sra.</p><p>Mary Ann, sentindo-se humilhada e já sem argumentos, apoia-se em sua bengala</p><p>e vai embora bufando de raiva.</p><p>- Obrigada Dr. por me defender daquela forma. Faltam-me palavras para</p><p>agradecê-lo…</p><p>- Srta. Verônica, depois de tantos meses observando seu comportamento, pude</p><p>ter certeza que seu sentimento pelo Sr. Murphy é genuíno e sua determinação e</p><p>obstinação em vê-lo curado é comovente. Nada fiz além de minha obrigação</p><p>enquanto médico e ser humano. Providenciarei junto a recepção que esta senhora</p><p>seja impedida de retornar a este hospital, porém sugiro-lhe que tome cuidado ao</p><p>sair à rua, ela me parece descontrolada emocionalmente e apresenta sintomas de</p><p>desequilíbrio mental.</p><p>- Sim Dr. E mais uma vez, obrigada.</p><p>Vendo-se sozinha com seu amado, sentou-se à beira do leito e passou a acariciar</p><p>seus cabelos, enquanto as lágrimas insistiam em correr em suas pálidas faces.</p><p>Apesar dos conselhos da prima, Verônica não estava alimentando-se bem. A</p><p>preocupação com o amado lhe tirava o apetite e se contentava em passar o dia</p><p>com leves lanches.</p><p>Ao entardecer, rumou para a fazenda como todas as noites, mas a partir deste dia</p><p>passou a tomar cuidado para não ser abordada pela já insana ex Duquesa.</p><p>Ao chegar, a prima logo percebeu o semblante mais abatido do que o normal e</p><p>questionou-lhe o ocorrido. Após sentar-se em confortável espreguiçadeira,</p><p>narrou a fatídica visita do dia. Madeleine, como era de se esperar, ficou</p><p>estupefata com os fatos narrados e tratou de informar a prima que a Sra. Murphy</p><p>perdera o título de nobreza e após uma síncope, passou a agir daquela forma,</p><p>ofendendo e maltratando a todos que cruzasse seu caminho. Segundo a</p><p>informante, esta notícia lhe fora passada por Emanuelle que temendo pela</p><p>segurança de Verônica escrevera prevenindo Madeleine, porém a mesma não</p><p>imaginou que uma “demente” conseguisse viajar até a França naquelas</p><p>condições e não quis preocupar ainda mais a prima.</p><p>- Oh, querida, me perdoe se lhe ocultei estes fatos, mas temia que mais esta</p><p>preocupação seria uma sobrecarga sobre seus ombros já tão cansados com os</p><p>cuidados ao enfermo.</p><p>- Não se preocupe Madeleine. Tudo acabou bem e afinal, estou até aliviada.</p><p>Assim pude saber mais sobre o hospital e o Dr, Gilbert que normalmente fala</p><p>muito pouco.</p><p>- Verônica, percebo que, ao contrário do que lhe pedi, não está alimentando-se</p><p>como deveria e já apresenta sinais de palidez e fadiga. Sugiro que descanse por</p><p>uns dois dias ao menos. Pedirei a cozinheira que faça um caldo revigorante e</p><p>permaneça em seu quarto durante todo o dia amanhã, por favor…</p><p>- Minha prima, sei que aparento cansaço, mas asseguro-lhe, é somente devido a</p><p>tensão sofrida no dia de hoje. Vou deitar-me mais cedo a fim de recobrar minhas</p><p>energias e amanhã, com certeza, acordarei melhor.</p><p>Madeleine, mais experiente, tratou de ir até a cozinha e pediu à cozinheira que</p><p>fizesse um chá de ervas bem forte para a prima e pessoalmente levou a seu</p><p>quarto com um comprimido, usando do subterfúgio, tratava-se de um leve</p><p>analgésico para que pudesse dormir melhor. Após ingerir ambos Verônica sentiu-</p><p>se extremamente sonolenta e acordou somente 12 hs depois.</p><p>Na manhã seguinte, sabendo que a prima dormiria até mais tarde, Madeleine</p><p>dirigiu-se ao hospital para ter com o Dr. Gilbert.</p><p>- Após identificar-se e ser conduzida à sala do mesmo, a mulher revela ao</p><p>médico sua preocupação com a prima e qual o comprimido que a fizera ingerir.</p><p>O médico, amigo da família, agradeceu a presteza da Sra. e lhe pôs a par de que</p><p>já havia aconselhando a Srta. descansar mais, alimentar-se melhor e até mesmo</p><p>em espaçar suas visitas, visto que o paciente estava sendo monitorado 24 hs por</p><p>dia, além dos cuidados constantes das enfermeiras, mas a mesma insistia em</p><p>permanecer ao lado do mesmo alegando que gostaria de estar ao seu lado quando</p><p>o mesmo acordasse. Quanto ao leve calmante, fora ele mesmo que receitara a</p><p>mãe de Madeleine quando a mesma apresentasse crises de insônia.</p><p>Verônica despertou com a sensação de que dormira por uma semana, tamanho o</p><p>bem-estar e apetite sentido. Levantou-se e quando percebeu que a família estava</p><p>almoçando, deu-se conta de quantas horas havia dormido. Sentou-se á mesa e</p><p>almoçou com os familiares, porém sentia um misto de gratidão pelo gesto da</p><p>prima e remorso por ter faltado à manhã ao lado de Carl.</p><p>Após a refeição, vestiu-se e rumou ao hospital encontrando o médico no</p><p>corredor de entrada.</p><p>- Boa tarde Srta., vejo que está com ótima aparência! - Cumprimentou-a o Dr.</p><p>alegremente.</p><p>- Boa tarde Dr.. Lamento não ter acordado esta manhã no horário de costume.</p><p>Como está nosso paciente?</p><p>- Acalme-se Srta., o estado dele está inalterado. Já lhe falei várias vezes que não</p><p>há a necessidade de vir todos os dias. Caso ocorra alguma alteração em seu</p><p>estado, mandarei avisá-la imediatamente.</p><p>- Eu sei Dr., mas sinto-me mais segura estando ao seu lado e sei que ele também</p><p>aprecia a minha presença.</p><p>- Pois bem, já que parece irredutível, façamos um trato: A Srta. poderá vir passar</p><p>todas as tardes com ele, podendo assim, descansar</p><p>pela manhã e almoçar</p><p>decentemente com sua família, ou acaso julgas que não percebi que sua</p><p>alimentação é fugaz?</p><p>- Está bem, Dr., afinal é o senhor quem manda não é?!</p><p>Ao chegar ao quarto, Verônica depositou as flores que diariamente levava e</p><p>verificou se tudo estava em ordem. Após ter certeza de que seu amado estava</p><p>bem, sentou-se à beira da cama e pôs-se a admirá-lo como sempre o fazia. Pegou</p><p>sua mão, beijou-a e tocou-a em seu próprio rosto. Sentia que poderia passar a</p><p>eternidade daquela forma tamanha a paz que sentia. Levantou-se do leito e</p><p>sentou à poltrona para seguir a leitura do dia anterior. Porém foi tomada por uma</p><p>leve sonolência que aos poucos foi aumentando até que o livro caiu-lhe ao colo e</p><p>a dama adormeceu. Ao acordar já estava anoitecendo e saiu às pressas temendo a</p><p>preocupação da família devido aos fatos do dia anterior.</p><p>CAPÍTULO XIV</p><p>Chegando na fazenda percebeu a agitação do tio e imediatamente soube que algo</p><p>havia acontecido. Questionado, o tio revelou-lhe que seu pai tivera um ataque</p><p>cardíaco, mas que já passava bem, segundo as informações de Armand. Verônica</p><p>sentiu-se dividida por alguns segundos, mas após digerir a situação, foi a seu</p><p>quarto arrumar suas roupas para ter com o pai. Já estava fora de casa a muitos</p><p>meses e precisava remediar esta situação.</p><p>Na manhã seguinte o cocheiro deixou-a na estação de trem, incumbido de levar</p><p>uma missiva para o Dr. Gilbert, informando o ocorrido.</p><p>Durante a viagem, sentiu-se culpada por ter negligenciado com o pai e julgando</p><p>que se não tivesse se ausentado por tanto tempo talvez o mesmo não estivesse</p><p>em tal situação.</p><p>No desembarque os irmãos e as cunhadas a esperavam a fim de tranquilizá-la</p><p>quanto ao estado de saúde do pai, sabedores de suas angústias.</p><p>Antes mesmo de abraçá-los queria notícias do pai e ao tentar consolá-la, todos</p><p>começaram a falar juntos, gerando maior confusão em sua cabeça já tão</p><p>atormentada. Christofer, justamente o mais jovem foi o que teve mais equilíbrio</p><p>e organizou a barbúrdia.</p><p>- Calma pessoal! Verônica está nervosa e preocupada. É natural sua angústia e</p><p>cabe a nós tranquilizá-la, não perturbá-la ainda mais!</p><p>A irmã mais velha mirou o jovem com olhar de gratidão e todos seguiram</p><p>dialogando civilizadamente até o solar.</p><p>Imediatamente foi ao quarto do pai que descansava, e abraçou-o como se fora</p><p>primeira e última vez. Todos entraram atrás dela como que para assegurarem-se</p><p>de que devido ao susto, o pai não voltaria a ter nova crise.</p><p>- Calma minha filha. Seu velho pai apenas está apenas mostrando sinais da</p><p>idade. Estou muito bem agora, até porque minha princesa está em meus braços</p><p>novamente! Todos sorriram e por sugestão de Bella desceram e foram fazer um</p><p>lanche no jardim.</p><p>À noite, após o jantar, o pai mostrou-se desejoso de falar a sós com a filha.</p><p>- Enquanto você esteve ausente, aconteceram alguns fatos bastante</p><p>desagradáveis. Não quis falar na frente de seus irmãos porque vão comentar com</p><p>suas esposas e não quero dar maior proporção aos fatos, mas você, que está</p><p>intimamente ligada a eles, deve saber de tudo. À cerca de um mês, a ex-duquesa,</p><p>mãe daquele Sr. que está internado no hospital da França esteve aqui. Destratou</p><p>a todos nesta casa por conta de sua estada com seu filho em Paris. Armand saiu à</p><p>espreita e chamou o padre que conseguiu acalmá-la. Após ele mesmo nos</p><p>revelou que a Rainha a destituiu do título de nobreza em razão de sua demasiada</p><p>arrogância. Parece que quase todos os servos de suas terras a abandonaram</p><p>devido ao péssimo tratamento recebido e eu mesmo contratei alguns deles para</p><p>trabalhar em nossa indústria. Sim, nossos negócios estão indo de vento em popa</p><p>e pude até construir casas para os empregados que não tinham para onde ir.</p><p>Inclusive, parece-me que ela está internada em uma casa de repouso e as terras</p><p>ficaram nas mãos do capataz. Que ironia não? Bem, estas são as notícias boas…</p><p>- Por favor meu pai, não me esconda nada! O que ocorreu para que seu coração</p><p>não suportasse? Acaso foi algo que fiz? Desgostei-o tanto assim ao me dedicar</p><p>ao Sr. Murphy?</p><p>- Em parte. Calma, você não tem culpa de nada. Ocorre que fui procurado pelo</p><p>Barão de Vilenev, lembra dele e de sua família? Estiveram na inauguração do</p><p>solar. Não importa. Ocorre que o filho do Barão, Bertrand é pouco mais velho</p><p>que seu irmão Armand e esteve na guerra com ele. Segundo o Barão, o filho</p><p>ocupava cargo de mensageiro e não se envolvia diretamente nas batalhas,</p><p>diferentemente de seu irmão. Disse-me aquele verme que o filho tem</p><p>informações sobre atitudes de Armand que chocariam toda nossa comunidade e</p><p>que não mediria forças para provar que Armand desonrou nosso nome.</p><p>- Espere papai, não entendi o porquê de tais ameaças.</p><p>- O Barão quer que você se case com seu filho. Ao me revelar sua intenção, não</p><p>consegui ouvir mais nada pois senti uma pontada no coração e acordei no</p><p>hospital. Após minha recuperação não tive notícias de que ele tenha retornado à</p><p>Inglaterra, mas temo que quando souber que estou plenamente recuperado, me</p><p>procure novamente. Devido a isto pedi que Armand lhe chamasse.</p><p>- E Armand? Sabe do ocorrido?</p><p>- Você lembra quando ele retornou da guerra, tinha pesadelos todas as noites? Eu</p><p>tentei convencê-lo a me contar o que se passava, mas ele saiu à espreita e como</p><p>em seguida mostrou melhora, não quis mais tocar no assunto. Agora creio que</p><p>seu irmão fez algo que fora contra sua consciência, e a isso deveram-se os</p><p>pesadelos.</p><p>- O Sr. fez muito bem em ter-me contado. Amanhã mesmo vou ter com o padre.</p><p>Ele, como membro do clero, deve ser conhecedor de todos os fatos daquele</p><p>episódio sangrento e abominável.</p><p>Na manhã seguinte, logo cedo, Verônica foi à igreja ter com o padre e foi direto</p><p>ao assunto, alegando que das informações do clérigo dependia seu futuro.</p><p>- Minha filha, as cruzadas foi um movimento dos cristãos na intenção de</p><p>doutrinarem os povos que não creem em nosso Deus e são profanos. Ocorre que</p><p>às vezes, para se convencer um povo, há que se demonstrar força e poder. Eu,</p><p>aqui na minha humilde paróquia, orei todas as noites pelos filhos desta terra para</p><p>que não cometessem atos contrários à vontade de Deus. Mas estes meninos,</p><p>incluindo seu irmão, foram treinados por um general sanguinário, que, com</p><p>certeza não carrega Deus em seu coração e deve ter influenciado muito mal os</p><p>nossos meninos. Quanto à ameaça de tornar públicas as ações de seu irmão, não</p><p>temos certeza de que tipo de informação o filho do Barão possui e sequer se</p><p>realmente as possui. Talvez tenha sido somente um ato de desespero do pai ao</p><p>perceber que você estava interessada em outro que não no próprio filho.</p><p>Façamos o seguinte: traga seu irmão aqui e conversaremos os três. Depois você</p><p>poderá tomar sua decisão.</p><p>- Armand, preciso sair à tarde e gostaria que me acompanhasse, você não se</p><p>opõe não é mesmo Bella?</p><p>- Claro que não, afinal vocês precisam mesmo ter um tempo a sós, após tantos</p><p>meses de separação. Vão e não se preocupem comigo.</p><p>- Verônica, por que está me levando à igreja? O que está acontecendo? Estou</p><p>ficando nervoso? Vamos, responda!</p><p>Ao sinal de desespero do irmão, ela não precisaria sequer ir adiante, mas havia</p><p>prometido ao padre e cumpriria sua promessa, mesmo que magoasse o irmão,</p><p>afinal era para o bem dele também.</p><p>- Que Deus te abençoe meu filho, disse o padre ao homem que já estava branco</p><p>feito cera. Vamos à minha casa nos fundos da igreja, tenho um café fresquinho</p><p>para degustarmos.</p><p>Nesta conversa, tanto Verônica quanto o padre procuraram ser o mais delicados</p><p>possíveis para não desequilibrar o ex guerreiro, porém o simples fato de usarem</p><p>a expressão Guerra Santa, foi o suficiente para que este caísse aos prantos como</p><p>um menino. O padre então, interveio.</p><p>- Meu filho, eu lhe batizei e realizei sua primeira comunhão. Sei o que se passa</p><p>em seu coração e Deus mais ainda. Ele, tudo sabe e tudo vê e se alguém cometeu</p><p>algum ato insano em Seu nome, porém não por vontade própria e sim por</p><p>imposição de outrem, já está perdoado.</p><p>- Ocorre padre, arguiu Armand aos soluços, que não fui forçado a nada. Num</p><p>certo momento de nossa empreitada, eu percebi</p><p>que aqueles mouros jamais se</p><p>renderiam ao nosso Deus senão pela força. Então usei minha espada e tirei a vida</p><p>de muitos, inclusive crianças. Arrependo-me a cada dia que acordo por tais atos,</p><p>mas não posso mudar o passado.</p><p>- Pelos poderes a mim concedidos por Nosso Senhor, eu te perdoo de todos os</p><p>atos que cometeste. Já conversei com o Bispo e ele me confessou que o general</p><p>que os chefiava impôs estes valores errôneos em seus soldados e você na</p><p>verdade foi mais uma vítima do que algoz. Vá com Deus meu filho.</p><p>Nenhuma palavra foi trocada entre os irmãos no retorno ao solar e Verônica foi</p><p>imediatamente para seus aposentos a fim de refletir e decidir qual decisão</p><p>tomaria após ter ouvido a própria confissão do irmão.</p><p>Na noite seguinte durante a ceia nenhuma palavra foi dita por qualquer membro</p><p>da família e o silêncio tétrico tornava o ambiente pesado e a comida sem sabor.</p><p>Após a sobremesa, Jean Jaques convida a filha para uma conversa no escritório.</p><p>A portas fechadas assim como o cenho do pai, o mesmo apenas declarou:</p><p>- Depois de amanhã o Barão de Vilenev e sua família chegarão ao solar a fim de</p><p>passar uma temporada conosco. Espero que você não esqueça a educação que</p><p>lhe dei e receba muito bem meus convidados.</p><p>- Mas papai, o Barão de Vilenev foi o causador de seu ataque do coração e nem</p><p>sabemos se Bertrand tem realmente alguma prova contra Armand. O Barão de</p><p>nobre só possui o título, sua mulher é uma matrona que só faz comer, o filho é</p><p>pouco mais velho que Armand e não consegui conversar com ele por mais de 5</p><p>minutos devido a brutalidade do mesmo.</p><p>- Não lembro de ter pedido sua opinião. Apenas lhe fiz um comunicado, afinal,</p><p>ainda sou o dono desta casa.</p><p>- Como queira meu pai. Tenha uma boa noite.</p><p>No dia seguinte chegaram os convidados em uma carruagem abarrotada de baús.</p><p>Verônica chegou a pensar que eles estavam de mudança, devido à quantidade de</p><p>roupas que trouxeram, mas logo lembrou-se que para acomodar os vestidos da</p><p>Baronesa realmente necessitaria de muito espaço.</p><p>O pai e os irmãos já haviam saído para o trabalho, assim coube à Verônica e</p><p>Emanuelle receber e acomodar os convidados do pai. O Barão ao saber que o</p><p>“amigo” estava na empresa, imediatamente chamou seu cocheiro e foi ter com</p><p>Jean Jaques. A baronesa pediu a criada um lanchinho antes do almoço usando o</p><p>cansaço da viagem como desculpa para sua gula desenfreada e o filho Bertrand</p><p>foi para os aposentos designados a ele a fim de descansar.</p><p>Assim, Verônica e a cunhada foram para a varanda bordar (queria bordar ela</p><p>mesma o enxoval do bebê).</p><p>Os dias foram se passando assim, sem que nada alterasse a rotina da família e de</p><p>seus convidados.</p><p>Certa tarde, Verônica estava no balanço do jardim das rosas quando Bertrand</p><p>veio ter com ela.</p><p>- Posso lhe fazer companhia Srta.?</p><p>- Claro, fique à vontade.</p><p>- A Srta. não deveria estar a bordar? O tempo está passando e talvez não haja</p><p>tempo para ultimar seu vestido.</p><p>- Do que está falando Bertrand?</p><p>- Do seu vestido de noiva! Nos casaremos no mês que vem.</p><p>- O quê? Não me casarei com alguém que mal conheço. E como noiva, eu não</p><p>deveria ser a primeira e não a última a saber?</p><p>- Nossos pais fizeram um acordo e decidiram por nós. Também não faço gosto</p><p>mas não ouso desobedecê-lo.</p><p>- Você não passa de um menino mimado! Não quero me casar com você.</p><p>- Eu não perguntei se a Srta. quer se casar comigo, apenas a informei e é o que</p><p>acontecerá, gostando a Srta. ou não. Ah, aliás, o jantar de noivado será no</p><p>sábado e será uma recepção somente para os íntimos.</p><p>Não suportando a arrogância do rapaz e a dor da notícia, Verônica corre para seu</p><p>quarto, chora até molhar o travesseiro e dormir. Emanuelle tentou convencê-la a</p><p>descer para o jantar mas a mesma negou-se alegando indisposição.</p><p>No sábado pela manhã chegaram Jean Paul, a esposa e Madeleine.</p><p>Ao ver a prima, Verônica levou-a até seu quarto a fim de confidenciar seus reais</p><p>sentimentos.</p><p>- Minha prima eu quase não acreditei quando meu pai me falou de seu noivado,</p><p>mas não imaginava tratar-se de um acordo entre meu tio e este Barão bufão.</p><p>Quando me casei foi por amor. Meus pais não se opuseram e após o falecimento</p><p>de meu amado, jurei jamais colocar outro em seu lugar e eles respeitam a minha</p><p>vontade. Não entendo o porquê de titio obrigá-la a casar com este praticamente</p><p>desconhecido.</p><p>Neste momento, Verônica quase revela à prima que o pai se viu obrigado a</p><p>aceitar este acordo pela honra de Armand, mas conseguiu desconversar,</p><p>simulando não saber dos motivos do pai.</p><p>Na primeira oportunidade que surgiu Verônica tentou argumentar com o pai,</p><p>chamando-lhe à lucidez.</p><p>- Papai, sei que somente aceitou este acordo devido às ameaças do Barão, mas</p><p>lembre-se, eu mesma fui à igreja e levei também Armand. Basta o Sr. enfrentar o</p><p>Barão e não aceitar esta chantagem grotesca e humilhante.</p><p>- Minha filha, apesar de você ter se tornado uma mulher inteligente e astuta, há</p><p>alguns aspectos da vida que você ainda desconhece. Veja bem, se o Barão</p><p>espalhar pelos quatro cantos que seu irmão é um assassino, você acredita mesmo</p><p>que o padre ou o bispo intervirão em seu favor? Não seja ingênua… Seu irmão</p><p>estará desonrado e o nome de nossa família será jogado na lama, sem que</p><p>possamos fazer nada para impedir, a não ser… que você case-se com Bertrand e</p><p>salve o nosso nome. Não quero que eles saibam que lhe revelei a verdade.</p><p>Prefiro que pensem que você ignora as intenções desta família, para preservar-se.</p><p>- Mas papai, O Sr, Murphy ainda está em coma num hospital da França! E eu o</p><p>amo! Não posso desposar Bertrand nestas condições.</p><p>- Pois bem, quanto ao Sr. Murphy, mesmo antes do acidente, soube que se</p><p>regenerou e tornou-se homem de bem e garanto-lhe que resolverei este assunto</p><p>com meu irmão e, com certeza, sua prima irá ter com ele quando sair do coma,</p><p>SE sair. Você sabe que as chances dele sobreviver são poucas e além do mais,</p><p>mesmo que sobreviva, ele perdeu tudo o que tinha, o pai, o título, os bens e</p><p>agora a mãe que enlouqueceu. Que futuro você teria ao lado deste homem? Bem</p><p>ou mal, os Vilenev possuem uma posição sólida junto a nobreza francesa e você</p><p>estará amparada.</p><p>Fingindo dar-se por convencida, a filha não mais argumenta, porém decide tomar</p><p>outras providências. Na manhã seguinte, como de costume, a Baronesa estava</p><p>cercada de doces e biscoitos à mesa e somente ao vê-la comer, tirava o apetite de</p><p>qualquer um. Porém Verônica tinha motivos mais que suficientes para ignorar a</p><p>gula da matrona.</p><p>- Baronesa, me perdoe interromper seu lanche, mas temos um assunto muito</p><p>sério a tratar.</p><p>- Espero que seja muito importante mesmo, porque estes brioches estão</p><p>divinos…</p><p>- Seu filho me falou sobre um acordo em que o barão e a senhora fizeram com</p><p>meu pai com relação a meu casamento com Bertrand. Sra., existem fatos que</p><p>desconhece e preciso ser absolutamente honesta. Sou muito mais velha que seu</p><p>filho e já entrei na menopausa. Veja bem, algum dia Bertrand herdará o título de</p><p>Barão, porém a linhagem de sua família acabará com ele visto que não poderei</p><p>lhe dar filhos. Para uma família de nobres como a sua este é um óbice deveras</p><p>importante.</p><p>- Falarei com meu marido sobre isto mais tarde. Agora se a Srta. me der</p><p>licença…</p><p>Após o jantar, Verônica procura o pai novamente, na tentativa de convencê-lo a</p><p>liberá-la deste acordo ridículo.</p><p>- Papai, sempre tivemos uma relação de amizade acima de tudo. Assumi o lugar</p><p>de minha mãe cuidando do Sr. e dos meninos e jamais cometi nenhum ato que</p><p>pudesse me levar a tamanha punição. Bertrand e eu mal nos conhecemos, ele</p><p>vive somente pela memória de sua falecida esposa e percebo que não terei lugar</p><p>na vida dele. Se insistir na ideia de me forçar a casar com ele o senhor estará me</p><p>condenando á infelicidade!</p><p>- Minha filha, nós já falamos sobre este assunto e acreditei que você já havia se</p><p>conformado com seu destino.</p><p>Percebendo que suas possibilidades de se livrar dessa situação estavam se</p><p>escasseando, achou por bem dormir e pensar em outra maneira de fazê-lo.</p><p>Na manhã seguinte, quinta-feira, seria a véspera do jantar de noivado. Verônica</p><p>acordou sentindo-se</p><p>que tanto bem lhes fez e que</p><p>ora se encontra em tão delicada situação.</p><p>- Christin precisamos orar e nos orientar com nossos mentores a fim de, ao</p><p>menos, aliviar o sofrimento daquela mãe tão espezinhada pelo próprio filho.</p><p>- Tem razão minha sogra. Hoje à tarde vamos nos encontrar no lugar de sempre e</p><p>tenho certeza que obteremos a ajuda necessária. Lamento que a Sra. Mary Ann</p><p>não compactue com nossas crenças! Se o fizesse, sofreria menos…</p><p>No final da tarde sogra e nora despedem-se e combinam de passarem o domingo</p><p>na casa de Mary Ann para que a mesma desfrute da companhia do pequeno Dic,</p><p>o filho de um ano do jovem casal e por quem a mesma possui um amor</p><p>incondicional de verdadeira avó.</p><p>1 Bon vivant é uma expressão francesa que significa “boa vida” ou que qualifica</p><p>determinado indivíduo como “amante dos prazeres da vida”.</p><p>CAPÍTULO II</p><p>Jean Jaques Bordeaux secava o suor do rosto com a toalha que mantinha ao</p><p>ombro, após retirar mais uma espada que acabara de fabricar. Não sabia se o</p><p>calor que sentia era do vapor do ferro em brasa ou da revolta que lhe consumia</p><p>por ser forçado a fabricar tais armas.</p><p>Homem de princípios e idoneidade moral, orgulhava-se de ser o melhor ferreiro</p><p>da Inglaterra e quiçá de toda Europa! Era constantemente procurado pelos mais</p><p>nobres cavaleiros para confeccionar ferraduras personalizadas a seus premiados</p><p>alazões. Orgulhava-se de ter criado seus filhos dentro dos mais rígidos preceitos</p><p>morais e todos os domingos ia à missa com toda a família a fim de dar-lhes o</p><p>exemplo de um bom cristão.</p><p>No entanto, da noite para o dia, vê-se obrigado a realizar tão avultante tarefa:</p><p>produzir espadas para os jovens “cristãos” invadirem outros países, tirarem vidas</p><p>e escravizar outros seres humanos, em nome da “igreja”. Eram as cruzadas, uma</p><p>guerra chamada de “santa” que em seu ver só atingia o objetivo do clero,</p><p>saciando sua sede de poder. Sua consciência não admitia que tais atrocidades</p><p>pudessem ser aprovadas por Deus e orava todas as noites para que tudo aquilo</p><p>acabasse.</p><p>Ah, que Deus me perdoe por realizar este degradante ofício e me permita ver o</p><p>fim desta guerra e voltar a exercer o ofício que meu pai me ensinou e que me</p><p>trouxe tanto orgulho.</p><p>Na porta de casa, Verônica a filha mais velha, observava a lide do pai² e condoía-</p><p>se ao ver seu semblante torturado. A pouco, seu irmão Armand, com a idade de</p><p>25 anos, deixara-se levar pelos argumentos do bispo e partira para unir-se às</p><p>tropas da guerra santa, causando maior desgosto ao pai, que agora somente</p><p>possuía a sua companhia e a de Christofer, seu irmão mais jovem.</p><p>Apesar de origem francesa, Jean Jaques demonstrou desde sua chegada à</p><p>Inglaterra o desejo de fixar-se naquele solo, jurando fidelidade eterna a Rainha.</p><p>Casou-se com Mildred Smith, moça pacata e criada para os deveres de esposa e</p><p>mãe. Tiveram 3 filhos, Verônica, Armand e Christofer, e desde a tenra idade dos</p><p>mesmos, deixou claro ao marido que os meninos assim que tivessem idade</p><p>suficiente, aprenderiam seu ofício e Verônica seria ensinada como ela o fora,</p><p>para ser uma excelente dona de casa e haveria de aprender todas as prendas</p><p>domésticas que uma boa esposa mulher deve saber.</p><p>Os anos se passaram e assim se fez.</p><p>A vida porém, às vezes nos reserva surpresas não tão boas e quando Verônica</p><p>contava com 20 anos sua mãe faleceu do coração. A partir de então ela passou a</p><p>cuidar da casa e dos três homens da família.</p><p>Nestes tempos Verônica já contava com 40 anos, porém seus traços não</p><p>revelavam-lhe a idade. A mistura de sua descendência lhe deu a pele alva e os</p><p>cabelos negros, sempre cuidadosamente arrumados demonstrando bom gosto,</p><p>sobriedade e vaidade, embora jamais ter gozado da liberdade de sair como suas</p><p>amigas o faziam. Seus irmãos, a mando do pai, mantinham-se ao seu encalço</p><p>aonde quer que fosse, no intento de impedir a aproximação de algum</p><p>aventureiro. Mas a moça não reclamava. Sentia-se segura com a vida que levava</p><p>embora às vezes imaginasse como seria poder ser dona de suas próprias</p><p>vontades. Quando acabava os deveres domésticos, sentava-se à varanda em</p><p>frente a casa e perdia-se em longos e lindos bordados. A mãe havia lhe ensinado</p><p>e sempre repetia: uma moça de boa família deve bordar seu próprio enxoval para</p><p>quando encontrar um homem digo de seu coração. À noite, após servir o jantar e</p><p>preparar a cozinha para a manhã seguinte, entretinha-se com a leitura, pois</p><p>sempre mantinha um bom livro à cabeceira da cama.</p><p>E foi neste fim de tarde, quando o pai já apresentava sinais de extremo cansaço</p><p>devido às horas intermináveis com a tarefa que lhe desgostava, que percebe a</p><p>aproximação de garboso cavaleiro. Ao passar pela casa e ver a mulher à varanda,</p><p>faz-lhe sutil reverência, como era costume à época. Verônica sequer retribuiu o</p><p>cumprimento visto manter-se congelada e somente dar-se conta de si mesma</p><p>quando a agulha presa ao bordado lhe espetou um dos dedos. Imediatamente,</p><p>antes que o sangue manchasse o tecido, entrou em casa a fim de estancar o</p><p>pequeno ferimento. Após precário curativo volta a varanda, mas o homem já</p><p>havia ido embora. Após breve suspiro, acomodou-se como de costume e</p><p>retomou o bordado.</p><p>Após o jantar, o pai adverte a filha sobre o inesperado visitante.</p><p>- Verônica minha filha, percebi esta tarde que você estava na varanda quando</p><p>Carl Murphy veio ver-me. Não é de meu gosto que você se aproxime dele ou</p><p>permita qualquer aproximação da parte dele está claro?!</p><p>- Papai, não sei do que está falando… Realmente vi um fidalgo que pareceu-me</p><p>muito educado, aliás, como qualquer outro de seus clientes. Desconheço o nome</p><p>ou a descendência deste senhor.</p><p>- Ah minha filha! Sua mãe e eu tivemos tanto zelo para mantê-la em segurança</p><p>que não existe maldade alguma em seu coração… Mas ouça seu velho pai.</p><p>Aquele homem é conhecido como grande conquistador. Pertence a uma das</p><p>famílias mais nobres da Inglaterra e embora os pais sejam de boa linhagem, o</p><p>filho saiu-se totalmente avesso à qualquer norma de boa conduta e retidão moral.</p><p>Embriaga-se frequentemente e não raro, trava embates corporais com outro</p><p>beberrão. Também é famoso por conquistar jovens de boa família, desonrá-las e</p><p>abandoná-las. Muito cuidado com ele!</p><p>A filha limitou-se a aquiescer e dar um beijo de boa noite o pai. Mas nesta noite,</p><p>não conseguiu se concentrar na leitura…</p><p>Neste mesmo momento na residência da Duquesa de Charleston, a mesma, após</p><p>o jantar tomava seu licor na varanda.</p><p>- Carl, percebi que quando chegou no final da tarde estava diferente. E também</p><p>não saiu para suas famosas noitadas como de costume. O que houve? Não está se</p><p>sentindo bem?</p><p>- Estive cavalgando por horas e meu cavalo perdeu uma das ferraduras. Me dirigi</p><p>até o ferreiro indicado pelo Sr. Thomas e fui maltratado. O homem estava</p><p>indignado, afiando espadas e além de não me atender, me ordenou a não</p><p>procurá-lo mais.</p><p>- Mas filho, não percebi nenhum ar de desagrado ou irritação em você e sim, um</p><p>certo ar de mistério…</p><p>- Mamãe, a Sra. tem o direito de preocupar-se comigo mas não de invadir meus</p><p>pensamentos então, embora lhe deva respeito, reservo-me o direito de ter meus</p><p>pensamentos preservados.</p><p>- Ah, mas é claro! Só pode ser mais uma mundana que cruzou seu caminho,</p><p>imaginando que você ainda é o melhor solteirão do reino! Oh coitada! Mal sabe</p><p>que estamos à beira da miséria… Não se iluda, meu filho. Agora é você quem</p><p>tem que conquistar uma nobre. Esqueça estas interesseiras que não lhe darão</p><p>mais do que algumas horas de prazer.</p><p>Como era de costume, quando Mary Ann propunha um diálogo, seguia-se um</p><p>monólogo que poderia durar horas… Assim Carl apenas beijou a testa da mãe,</p><p>desejando-lhe boa noite e balbuciou: Mamãe, hoje eu vi um anjo!</p><p>Naquela noite, Carl pernoitou em casa, em vez de fazê-lo na casa da amante Lisa</p><p>May. De alguma forma, sentia que algo havia mudado dentro de si.</p><p>Lisa May após esperar horas por Carl inutilmente, decidiu dividir sua solidão</p><p>com o amante pianista e uma boa garrafa de whisky.</p><p>- Que surpresa! Você a esta hora! Aonde está o seu rico herdeiro? Descobriu</p><p>quem você é ou você já arrancou o último centavo do</p><p>febril e não desceu para o café da manhã. Madeleine foi até</p><p>seus aposentos com uma bandeja de café da manhã, como desculpa para ficarem</p><p>a sós.</p><p>- Querida, você tem que reagir. Fugir da realidade simulando doença não vai</p><p>resolver seu problema. Tome seu desjejum e arrume-se. Vamos à Londres</p><p>comprar um vestido novo para o noivado amanhã.</p><p>Tudo o que Verônica não queria ouvir era isso. A prima e confidente não a estava</p><p>apoiando. Sua vida estava realmente desmoronando...</p><p>Após alimentar-se e banhar-se, desceu como solicitado pela prima. Ambas</p><p>estavam na carruagem quando Madeleine confessou que estava ao lado de</p><p>Verônica e que se pudesse fazer algo para ajudá-la, o faria. Mas percebera que</p><p>todos os envolvidos estavam irredutíveis e, em sendo assim, o melhor que a</p><p>prima poderia fazer era fingir que aceitara a situação e deixar que o tempo se</p><p>encarregasse de livrá-la, ou não, deste fardo.</p><p>Olharam várias lojas e nada agradava a futura noiva. Na verdade ela queria um</p><p>vestido que a tornasse invisível para poder fugir sem ser percebida. Mas tal</p><p>modelo ainda não existia.</p><p>Na próxima loja que entraram, Verônica avistou um lindíssimo vestido</p><p>totalmente coberto por rendas e brocados.</p><p>- É este! Sim, este é o vestido que usarei amanhã à noite.</p><p>Madeleine olhou para a prima como se não reconhecesse aquela pessoa.</p><p>- O que é isto minha prima? Acaso esqueceste que amanhã será o seu jantar de</p><p>noivado?</p><p>- Por isto mesmo! Já que não tenho alternativa, irei vestida de luto!</p><p>Nenhuma palavra mais foi proferida pela futura noiva até chegarem em casa.</p><p>À noite desceu para o jantar da mesma forma. Respondendo monossilabicamente</p><p>há alguma pergunta dirigida a si.</p><p>No dia seguinte, como desculpa de estar bela para a cerimônia, passou</p><p>praticamente o dia em seus aposentos cuidando da beleza. Na verdade, Verônica</p><p>desejava que a terra abrisse a seus pés e ela fosse abduzida pelo vazio. Mas tal</p><p>não ocorreu. Ao admirar-se no espelho minutos antes da cerimônia, grossas</p><p>lágrimas escorreram de suas faces, antevendo seu futuro.</p><p>Perdida em seus pensamentos...”Casarme-ei com Bertrand e me tornarei</p><p>inatingível a Carl. E quando acordar o que pensará de mim? Bem, mas já que</p><p>não tenho mais como escapar, esta família irá conhecer meu lado negro”...</p><p>E assim foi feito. O choque de todos ao perceber a inconformidade da noiva,</p><p>vestindo-se de preto não passou despercebido a mesma que regozijou-se ao ver</p><p>as enormes bochechas vermelhas de indignação da Baronesa. Ao chegar ao pé da</p><p>escada, seu pai a tomou pela mão e discretamente falou-se ao ouvido; - O que</p><p>significa isto? Acaso enlouqueceste?</p><p>Verônica lançou um olhar doce ao pai e apenas balbuciou: - Estou indo para a</p><p>forca certo? Então, somente estou vestida a caráter.</p><p>A cerimônia correu normalmente, visto que todos decidiram não piorar as coisas</p><p>mais do que estavam. A data do casamento, marcada para o mês seguinte fora</p><p>confirmada pelos noivos que não demonstravam nenhuma alegria com o evento.</p><p>Bertrand julgou que a raiva da noiva desapareceria à medida que os dias fossem</p><p>passando, mas Verônica manteve a postura, fria e inatingível. A partir deste dia</p><p>via-se a mesma bordando e vez por outra abanando-se com seu leque negro para</p><p>aliviar os calores que seguidamente a acometiam. Porém não mais usava a</p><p>varanda e sim o jardim de rosas aonde mandou colocar um grande banco de ferro</p><p>revestido na parte interna para maior conforto da dama.</p><p>Até que uma tarde Bertrand fora vencido pelo cansaço e foi ter com a futura</p><p>esposa.</p><p>- Srta., bem sei que não nutre nenhum sentimento pela minha pessoa da mesma</p><p>forma que também eu não os sinto pela sua. Nossa união é um puro acordo</p><p>comercial entre nossos pais e não há nada que possamos fazer para desistir dela</p><p>nestas alturas. Porém, peço que ao menos disfarce na frente de minha mãe. Ela,</p><p>embora não demonstre, é muito sensível, e está sofrendo tanto quanto nós.</p><p>- Sr. meu noivo, procurei a Sra. sua mãe e expus os motivos que me levavam a</p><p>não desejar esta união e ela não me pareceu nem um pouco sensibilizada, ao</p><p>contrário, enxotou-me, dando mais atenção aos brioches. Portanto não venha me</p><p>falar sobre poupá-la da verdade. Este acordo não fora efetuado somente por</p><p>nossos pais, sua mãe também participou tenho certeza, aliás, o Sr. subestima</p><p>minha inteligência com suas palavras. Acaso pensa que não sei que foi o Sr. que</p><p>levantou a possibilidade de chantagear meu pai revelando as atitudes de meu</p><p>irmão?</p><p>O noivo vermelho num misto e raiva e vergonha, girou nos calcanhares e saiu</p><p>sem mais uma palavra. Saiu com seus pensamentos; - “Minha doce Amália</p><p>jamais me enfrentaria desta forma! Ela era uma mulher perfeita e agora sou</p><p>obrigado a unir-me a esta víbora somente por ser rica e afamada! Que destino</p><p>cruel criei a mim mesmo...”</p><p>Alguns dias antes da cerimônia, os Bordeaux foram à França aonde ocorreria a</p><p>cerimônia, visto a família do noivo pertencer a nobreza francesa. No trem Jean</p><p>Jaques sentado ao lado da filha tenta justificar-se pela atitude intransigente.</p><p>- Minha filha, sei que você está magoada com seu velho pai mas o que fiz foi</p><p>para o bem de nossa família. Você não teria condições de entender meus motivos</p><p>então escondi-me atrás do autoritarismo a fim de evitar seus questionamentos.</p><p>Temia fraquejar e ver nosso nome na lama. Além do mais embora eu a tenha</p><p>advertido, ainda assim você insistiu em se envolver com aquele tipo do Murphy.</p><p>Se eu permitisse sua união com ele você sofreria muito, visto que ele não está a</p><p>sua altura. Hoje talvez você não entenda isto, mas daqui a algum tempo talvez</p><p>venha a me perdoar.</p><p>- Papai, eu entendo seus argumentos e preocupação com minha pessoa, porém o</p><p>Sr. poderia ter ao menos conversado comigo sobre o assunto e talvez eu não</p><p>sentisse tamanha rejeição a esta união. Mas não vou envergonhá-lo. Assumi o</p><p>compromisso com Bertrand e irei respeitá-lo, mesmo sabendo que meu coração</p><p>pertence a outro.</p><p>Após instalarem-se na fazenda de Jean Paul, Verônica e Madeleine utililizaram-</p><p>se de um ardil qualquer para que a noiva pudesse se despedir de seu amado,</p><p>mesmo que ele não soubesse...</p><p>A cerimônia de casamento realizou-se na catedral de Paris com toda pompa da</p><p>realeza. Enquanto Verônica adentrava a nave pelo braço do pai a caminho de seu</p><p>noivo, a imagem de Carl não lhe saia da cabeça, e as lágrimas da noiva foram</p><p>tomadas pelos convidados como de felicidade com o casamento. Quando Jean</p><p>Jaques a entregou ao futuro marido, beijou a testa da filha e balbuciou em seu</p><p>ouvido: perdão.</p><p>A festa das bodas foi o acontecimento do ano em toda Europa, tamanha a</p><p>extravagância do Barão de Vilenev.</p><p>Ao chegar à nova morada – o castelo do Barão – Verônica foi levada ao quarto</p><p>pelo marido. Sem saber o que dizer ou fazer a recém-casada ficou feito uma</p><p>estátua diante do dossel que seria o leito do casal, porém o marido lhe veio em</p><p>socorro. - Ah minha querida, quando a sós não precisaremos fingir, em sendo</p><p>assim, não a tocarei. Este quarto será somente seu. Agora trate de dormir porque</p><p>amanhã sairemos á passeio pelas ruas para que eu possa mostrar a todos do meu</p><p>mais valioso troféu. Boa noite!</p><p>Verônica pensou em fugir, mas sabia que estava sendo vigiada, afinal um troféu</p><p>merece uma redoma de vidro e era exatamente assim se sentia, aprisionada em</p><p>uma gaiola de ouro.</p><p>Na manhã seguinte durante o desjejum, os membros da família limitaram-se a</p><p>um bom dia e pareciam não vê-la. Após, conforme combinado, o casal saiu de</p><p>braços dados pelas ruas de Paris e Bertrand fazia questão de parar para</p><p>cumprimentar todo tipo de gente, somente para exibi-la. Ela nunca imaginou ser</p><p>tão humilhada, mas não perderia a pose e altivez, seguindo os ensinamentos da</p><p>mãe que lhe dizia quando jovem: - “Querida, quando se sentir maltratada pela</p><p>vida, levante a cabeça e jamais permita que quem quer que seja perceba sua</p><p>tristeza. A verdadeira coragem se manifesta nestas horas. Não esqueça nunca</p><p>deste conselho minha filha”. Assim, mesmo entediada, manteve o sorriso</p><p>congelado nos lábios.</p><p>Ao voltar, o casal dirigiu-se à sala de jantar aonde seria servido o almoço e</p><p>somente a Baronesa lhes faria</p><p>companhia, visto o Barão ter saído a negócios. À</p><p>tarde Verônica sentou-se na varanda de seus aposentos e retomou a rotina de</p><p>seus bordados. Desta forma sentia-se mais protegida envolvida num mundo só</p><p>seu e a partir deste dia assim o fez o máximo tempo que podia. Quando</p><p>encontrava a família podia sentir que não era desejada no ambiente e perdia o</p><p>apetite.</p><p>Certa noite ao perder o sono, desceu até a cozinha a fim de tomar um chá e ouviu</p><p>o Barão e a Baronesa a cochichar no escritório. Não resistiu a curiosidade e</p><p>como a porta estava entre aberta pode ouvir o que diziam.</p><p>- Eu não deveria ter concordado com este acordo, Sr. meu marido! Esta mulher é</p><p>uma insossa que só sabe passar os dias mergulhada entre leques e bordados e</p><p>alheia ao nosso mundo!</p><p>- Tanto melhor! Desta forma ela não descobrirá que fizemos um excelente</p><p>negócio… O dinheiro do dote que investi já me rendeu mais de três vezes e</p><p>ainda teremos todo seu patrimônio ao nosso dispor visto terem se casado com</p><p>comunhão de bens. Deixe que a mosca morta fique a bordar, é melhor que se</p><p>empanturrar de comida e tornar-se uma baleia como a Sra.! Ao menos nosso</p><p>filho tem uma mulher bonita para exibir à sociedade.</p><p>- Meu marido, estás a me ofender!</p><p>- Ora, deixe de fricotes mulher! Desde que nos casamos a Sra. sabia como seria</p><p>sua vida, então não me venha com chantagem emocional. Agora vá para nosso</p><p>quarto preparar-se que em seguida subirei e quero tê-la esta noite.</p><p>Verônica entre arrependida e envergonhada por ter ouvido a conversa dos sogros</p><p>correu para a cozinha sem fazer qualquer barulho evitando assim ser descoberta.</p><p>- Pelo menos Bertrand teve a decência de não tocar-me. Pensou, escondida na</p><p>cozinha.</p><p>No dia seguinte, disse ao marido que desejava falar-lhe a sós. Os sogros de</p><p>entreolharam temerosos do teor da conversa do jovem casal.</p><p>- Sr. meu marido, diga-me a verdade. Porque me desposaste? Acaso pensou que</p><p>eu não descobriria que seus pais estão à beira da falência e eu seria a solução</p><p>para os problemas financeiros da família? Por quem me tomas? Por uma mulher</p><p>desprovida de inteligência e autoestima como sua mãe?</p><p>- Calma, minha esposa. Posso lhe explicar tudo se a Sra. calar-se e me permitir</p><p>falar. Seu irmão mais velho, Armand esteve nas cruzadas por muito tempo, bem</p><p>sabes. Ocorre que na tentativa de esquecer minha doce Amália, também me</p><p>ofereci como voluntário embora fosse mais jovem e sem qualquer experiência.</p><p>Devido a isto não me colocaram na frente de batalha e somente executava tarefas</p><p>menores como a de mensageiro e às vezes cozinheiro da tropa. Em uma ocasião,</p><p>indignei-me com o descaso com que era tratado e decidi seguir a tropa a</p><p>distância a fim de participar de alguma batalha. Mas o que vi foi terrível. Os</p><p>soldados não somente guerreavam com os homens mas também matavam</p><p>mulheres e crianças, além de pilhar seus bens. Escrevi a meu pai alegando uma</p><p>doença e solicitei que me retirassem da guerra. Meu pai percebeu a maneira</p><p>como voltei pois estava extremamente revoltado com a igreja e tudo o que ela</p><p>representava e forçou-me a revelar o ocorrido. Passei a ter pesadelos diários até</p><p>que um doutor me indicou medicamentos que me trouxeram de volta a realidade.</p><p>Neste ínterim a Sra. já havia voltado da França aonde recebera sua herança e</p><p>meu pai comunicou-me que me casaria com a Sra. Sem entender nada, apenas</p><p>aquiesci. Mas quando fomos na recepção oferecida por sua família, reconheci</p><p>seu irmão entre os homens abomináveis de meus pesadelos. Meu pai percebeu</p><p>que Armand não havia contado a verdade à família e chantageou seu pai</p><p>obrigando-o a dar sua mão em casamento em troca do silêncio sobre as atitudes</p><p>pérfidas de seu irmão. Foi por isto que nunca lhe toquei. Ambos fomos vítimas</p><p>da ambição desmedida de meu pai e tentei poupá-la de humilhação maior.</p><p>Verônica às lágrimas não tinha palavras para descrever o asco que sentia por</p><p>toda a família, mas sentiu comiseração por Bertrand e decidiu manter aquela</p><p>farsa desde que ele jamais a toca-se. Comunicou que passaria algum tempo na</p><p>Inglaterra em visita ao pai e irmãos e que ele não tentasse detê-la.</p><p>E assim foi feito, em dois dias Verônica estava no Solar na companhia da família</p><p>e procurava o melhor momento para ter com o pai. Já não possuía mágoa dele,</p><p>afinal, se todos soubessem das atrocidades do irmão o prejuízo do nome da</p><p>família seria demasiado e oferecê-la em sacrifício seria a menor das dores.</p><p>Embora não tivesse filhos, tentou colocar-se no lugar do pai e perdoou-o.</p><p>Quando teve oportunidade de ficar a sós com o pai, limitou-se a dizer: - Meu pai,</p><p>imagino o sofrimento que instalou-se em seu coração ao ter que escolher entre o</p><p>sacrifício de sua filha pelo bem do nome da família. Quero que saibas que já o</p><p>perdoei e que manterei minha promessa de respeitar e honrar meus votos do</p><p>matrimônio. Faço isto porque vi nos olhos de Armand e Bella o amor que um dia</p><p>senti e que me fora arrancado.</p><p>O pai abraçou-se a filha, chorando copiosamente, envergonhado pela filha ter</p><p>descoberto sua fraqueza, mas, ao mesmo tempo, agradecia a Deus pela dignidade</p><p>com que ela estava encarando toda aquela situação.</p><p>Após o pai acalmar-se, Verônica continuou: - Papai, agora temos que tomar</p><p>providências para que o Barão não delapide todo nosso patrimônio. A fazenda de</p><p>tio Jean Paul é enorme e, com certeza, ele aceitaria criar alguns cavalos nossos.</p><p>Façamos assim, o Sr. é exímio conhecedor de puros-sangues. Encontre alguns e</p><p>mande-os para lá. Eu mesma falarei com meu tio, e ele há de nos apoiar.</p><p>Também, Armand e Bella em seguida se casarão então compre uma bela casa</p><p>para ambos, de preferência em outro país, para que o barão perca o trunfo que o</p><p>levou a chantageá-lo. Ah, obras de arte. Emanuelle tem gosto bastante apurado.</p><p>Sugira acompanhá-la em leilões e arremate as mais valiosas. Todo o valor que</p><p>investirmos em nossa família estarão a salvo das garras daquele abutre e sua</p><p>esposa.</p><p>E assim foi feito. É obvio que fora gasto uma grande quantia em dinheiro, mas</p><p>ficou por conta da idade de Jean Jaques que supostamente mostrara sinais de</p><p>senilidade.</p><p>Quanto à vida de Verônica, convenceu o marido a adquirirem sua própria</p><p>mansão e quanto mais longe dos sogros, melhor. Bertrand acabou por admitir</p><p>que embora a esposa fosse totalmente diferente da falecida, era uma mulher</p><p>astuta e forte. Adquiriram um chalé não muito longe de paris, mas o suficiente</p><p>para evitar a presença diária do casal. Ela própria escolheu o imóvel e optou pelo</p><p>que tivesse uma varanda com vista para o lago.</p><p>O Barão suspeitava que a nora descobrira a verdade e estava protegendo o</p><p>patrimônio da família agindo daquela forma, mas não podia provar nada e muito</p><p>menos questioná-la. Aos poucos, Bertrand e Verônica tornaram-se amigos e a</p><p>convivência entre ambos era pacífica e prazerosa.</p><p>Assim, o tempo foi se encarregando de diminuir a mágoa e rancor do coração de</p><p>Verônica.</p><p>Após adquirir quase todas as espécies de orquídeas da loja, a Sra. Vilenev tomou</p><p>todas as providências para a construção de um orquidário.</p><p>No jantar, contou ao marido de suas providências e o mesmo com o olhar</p><p>distante mal lhe deu atenção.</p><p>- Bertand, o que houve, não está me ouvindo? Julguei que ficaria feliz com as</p><p>novas que lhe trago.</p><p>- Verônica, meu pai está muito doente. Fui comunicado esta tarde. Talvez tenha</p><p>que cancelar seus planos, pois não sabemos o que o futuro nos reserva. Com</p><p>licença, estou sem apetite. Vou-me deitar. Boa noite.</p><p>Sem sequer ter tempo de responder, viu o marido pelas costas com o corpo</p><p>arquejado pelo sofrimento da notícia recém-recebida.</p><p>No dia seguinte, os materiais para a construção do orquidário chegaram e os</p><p>profissionais começariam a construção imediatamente. Verônica estava decidida</p><p>que não abriria mão de seus objetivos devido à doença do sogro que nem sabia</p><p>ser verdade. Além do mais, o mesmo não fora honesto consigo e ainda guardava</p><p>mágoa do ardil do pai de seu marido.</p><p>Em dois dias a obra estava pronta e as mudas puderem ser entregues a fim de</p><p>que a dona da casa cuidasse pessoalmente das tão delicadas flores, desde o</p><p>plantio. Os dias seguintes passaram muitíssimo</p><p>rápido devido a entrega de todo</p><p>o tempo ao seu projeto. Agradecida a Deus por ter resistido e não procurado</p><p>visitar Carl, Verônica só deixava o ambiente para as refeições e em seguida</p><p>retomava a tarefa. Na tarde seguinte, o marido chega em casa mais cedo com o</p><p>cenho fechado.</p><p>- O que houve Bertrand? Conte-me o aconteceu?</p><p>- Meu pai acaba de falecer. Arrume nossas malas. Vamos imediatamente para a</p><p>residência de meus pais.</p><p>Ao chegar ao castelo dos Vilenev, dezenas de pessoas já se encontravam</p><p>presentes para o velório que ocorreria em uma das salas do mesmo.</p><p>Flores chegavam de todas as partes como uma última homenagem a tão</p><p>importante figura europeia.</p><p>A baronesa só fazia chorar e seus pequenos olhos estavam inchados pelo pranto.</p><p>O Barão de Vilenev há muito sofria de problemas cardíacos, porém mantinha a</p><p>doença em segredo devido à vaidade. Para um homem como ele reconhecer uma</p><p>doença seria como demonstrar ao mundo sua fragilidade e ele jamais o faria.</p><p>Somente alguns dias antes do infarto fulminante o filho descobriu porque ao</p><p>almoçar com o pai o mesmo sentiu fortes dores no peito e um médico socorreu-o</p><p>no próprio restaurante.</p><p>Os Bordeaux chegaram a tempo de se despedirem do Barão e Verônica pôde</p><p>rever o pai e os irmãos. Mantinham contato por cartas porém o sistema de</p><p>comunicação precário da época não permitia que as missivas fossem mais</p><p>frequentes. A última estada de Verônica na casa do pai fora por ocasião do</p><p>nascimento da sobrinha Sophie, filha de Christofer e Emanuelle.</p><p>Após os funerais, Bertrand trancou-se com a mãe no escritório por horas e</p><p>Verônica sequer suspeitava o motivo. Por fim, Bertrand saiu do escritório, tomou</p><p>a mão da esposa convidando-a a irem embora. A nora não pode ao menos</p><p>despedir-se da sogra tamanha a pressa do marido. Devido à intempestividade da</p><p>atitude do marido, ainda na carruagem para casa, a esposa sentia o rosto em</p><p>brasa embora julgasse que já havia se libertado de tais sintomas. Agitando o</p><p>leque com vigor, observava a paisagem evitando assim de dirigir a palavra ao</p><p>marido que parecia enfurecido.</p><p>Chegaram em casa exaustos e foram ambos para seus aposentos balbuciando</p><p>apenas um “Boa noite”.</p><p>Na manhã seguinte, quando Verônica desceu para o café da manhã o marido</p><p>estava a sua espera na sala, com ares de uma noite mal dormida.</p><p>- Precisamos conversar seriamente. Com a morte de meu pai assumirei seus</p><p>negócios e seu título, mesmo contra minha vontade. Nos próximos dias nos</p><p>mudaremos para a casa de minha mãe e pretendo colocar esta casa à venda.</p><p>- Não! Quase gritou a esposa. Esta casa não pode ser vendida. Não sei o que</p><p>você e sua mãe tanto conversaram ontem, mas não posso ser prejudicada mais do</p><p>já fui com este casamento. Pondere Bertrand.</p><p>- Você não sabe de nada mesmo. Não tem ideia dos compromissos que meu pai</p><p>me deixou. Deixou-me um título de nobreza e dívidas. Muitas dívidas! Se</p><p>preferir deixemos o assunto da casa para depois, mas ainda esta semana iremos</p><p>embora daqui. A propósito, daqui para frente a tratarei como deveria tê-lo feito</p><p>desde nosso casamento, Sra. minha esposa e espero da Sra. igual tratamento.</p><p>Girou os calcanhares e saiu sem ao menos despedir-se.</p><p>Verônica pressentia que um período muito ruim começaria em sua vida dali para</p><p>frente.</p><p>A vontade do marido fora feita e em poucos dias estavam alojados no castelo do</p><p>Barão, em acomodações separadas ao menos. No primeiro dia após o almoço a</p><p>sogra veio ter com a nora.</p><p>- Vim informar-lhe que amanhã será a cerimônia aonde meu filho receberá da</p><p>Rainha o título que pertencera a seu pai e EU continuarei sendo a Baronesa</p><p>entendeu? Não pense que é bem-vinda nesta casa. Somente a aceitei para</p><p>garantir a transmissão do título a meu filho. Ele administrará nosso patrimônio e</p><p>você será apenas uma peça de decoração nesta casa. Aliás, procure manter-se</p><p>invisível a meus olhos, pois quanto menos vê-la, melhor será para nós duas.</p><p>Estamos entendidas?</p><p>- Não, não estamos entendidas. Meu casamento com seu filho foi uma farsa</p><p>armada pela Sra. e seu marido e naquele momento seu filho foi tão vítima quanto</p><p>eu. Hoje percebo que Bertrand compactua com a Sra. os mesmos valores de</p><p>vaidade e egocentrismo, porém eu jamais participarei disto. Fui forçada a viver</p><p>nesta casa sob o mesmo teto que a Sra. mas saiba que sua enorme presença me é</p><p>extremamente desagradável. Neste caso, farei o possível para não vê-la porque</p><p>EU não desejo e NÃO porque a Sra. quer. Com sua licença, vou visitar minha</p><p>prima na fazenda. Ah, já ia me esquecendo, vocês não armaram meu casamento</p><p>com Bertrand somente para garantir o título de barão mas também pelos meus</p><p>bens, neste caso, um mínimo de respeito a Sra. deve a mim, não se esqueça.</p><p>Agora sim estamos conversadas.</p><p>A caminho da fazenda do tio, Verônica tremia da cabeça aos pés espantada com</p><p>a própria coragem de enfrentar a matrona daquela maneira. Mas não</p><p>arrependera-se de nenhuma palavra. Sabia que a vida naquele palácio seria um</p><p>inferno, mas enfrentaria com dignidade como sempre o fez.</p><p>Após abraçar a prima e o tio foi ver a tia adoentada em seus aposentos. Em</p><p>seguida pediu um favor ao tio: “- Acaso meu tio teria espaço suficiente em seu</p><p>pasto para mais alguns animais?”</p><p>- Claro, querida. Nos últimos anos ampliei a área de pastagem para dar melhor</p><p>qualidade de vida aos animais, afinal, eles são espécimes valiosíssimos. Mas</p><p>porque deseja adquirir mais animais? Já tem vários…</p><p>A sobrinha contou ao tio dos últimos acontecimentos e homem de negócios</p><p>esperto como era, concordou plenamente com a sobrinha.</p><p>- Não se preocupe, a pequena Sophie será proprietária das melhores éguas do</p><p>mundo e quando crescer, saberá da coragem e sabedoria da tia e espero que ela</p><p>herde suas qualidades também.</p><p>E com abraço apertado, tio e sobrinha selaram mais um segredo e prova de</p><p>amizade e confiança.</p><p>Meu tio, não gostaria de abusar de sua generosidade, mas poderia emprestar-me</p><p>a carruagem e eu cocheiro? Preciso ir ao hospital, afinal faz um ano que o Sr.</p><p>Murphy está em coma.</p><p>Claro minha querida, apesar de ser sabedor de seus sentimentos pelo Sr. Murphy,</p><p>você sempre se mostrou uma esposa digna e correta e sua atitude em ir vê-lo não</p><p>mudará esta realidade.</p><p>Ao chegar no quarto do paciente, a visitante é tomada de surpresa ao encontrar</p><p>oura pessoa à visitá-lo.</p><p>Avalia a aparência do amado (que infelizmente mantinha-se inalterada) e</p><p>somente então, dirige a palavra a visitante.</p><p>- Posso saber o que a sra está fazendo aqui? Acaso não sabe que o Sr. Murphy</p><p>está em estado de coma há mais de um ano? Ou esperava encontrá-lo</p><p>restabelecido para tentar dar-lhe outro golpe? Veja bem, não saio daqui com a</p><p>Sra. a fim de pô-la em seu lugar, porque não desejo ser vista com pessoa da sua</p><p>laia. Agora, queira retirar-se e não retorne mais aqui!</p><p>- Para uma mulher casada a Sra. parece muito preocupada com o nosso amigo</p><p>aqui… Somente soube do estado de Carl há alguns dias e senti necessidade de</p><p>ver com meus próprios olhos o seu estado de saúde. Não deveria, mas vou-lhe</p><p>revelar que meu amante me abandonou. Foi para a América, estas novas terras</p><p>descobertas por Christóvão Colombo. Disse que lá todos tem a oportunidade de</p><p>enriquecer e ambicioso como é, foi-se à procura de nova sorte. Quanto a mim,</p><p>fiquei absolutamente sozinha, visto que os antigos amigos de Carl me conhecem</p><p>muito bem e não tenho a menor chance com qualquer um deles. Vou-me embora</p><p>porque já vi o que precisava e a propósito, a Sra, não pode me impedir de visitá-</p><p>lo quantas vezes eu desejar, até porque acredito que seu marido não ficaria feliz</p><p>em saber que a dedicada esposa sai de casa furtivamente e vem para um hospital</p><p>velar por um quase moribundo…</p><p>- Agora chega! Saia daqui imediatamente, antes que eu esqueça que sou uma</p><p>dama.</p><p>- Adeusinho Sra. Vilenev…</p><p>Verônica bufava de raiva, mas não perdera totalmente o controle na frente da</p><p>mundana, mas realmente fora muita falta de sorte encontrá-la.</p><p>Sentou-se á beira da cama e tomou a mão do amado e pôs-se a conversar como</p><p>antigamente.</p><p>- Meu amor, porque a vida nos separou desta maneira? Às vezes creio ser melhor</p><p>que estejas neste</p><p>estado, assim não sofres como eu.</p><p>O Dr. Gilbert entra no quarto neste instante e penaliza-se da mulher que apesar</p><p>de tudo o que passou (fora informado por Madeleine sobre o casamento</p><p>forçado), manteve-se firme e fiel ao seu amor. Chegou a desistir de revelá-la o</p><p>motivo que o levou ao quarto, mas de nada adiantaria adiar as má notícias.</p><p>- Srta., oh me perdoe, não sei como chamá-la agora. Sra. temo lhe transmitir más</p><p>notícias. O resultado dos últimos exames neurológicos que realizamos no</p><p>paciente não foram nada positivos, visto que o mesmo apresentou sinais de</p><p>piora. Seu cérebro está definhando a cada dia e se este processo continuar,</p><p>rapidamente terá morte cerebral e nada mais poderemos fazer. Fiquei muito feliz</p><p>quando soube que conseguiu vir até aqui, pois de certa forma, julgo que esta</p><p>piora foi devido a sua falta. Mas, veja bem, sei que hoje é uma mulher casada e</p><p>que não poderá vir com tanta frequência visitá-lo. Mas não se sinta culpada, no</p><p>estado dele acho até um milagre ter sobrevivido até agora e se o fez, com</p><p>certeza, foi por sua causa. Fique quanto tempo puder e quiser e se preferir</p><p>podemos nos corresponder para que mantenha-se informada do quadro clínico de</p><p>nosso amigo.</p><p>- Obrigada Dr., por sua honestidade para comigo, mas eu acredito em milagres e</p><p>tenho certeza que um dia Carl acordará e ainda seremos felizes juntos.</p><p>- Você ouviu querido? O médico me disse que você sentiu minha falta. Fico tão</p><p>feliz! Oh, meu amor, quanta saudade senti de você e até deste lugar… Mas</p><p>prometo-lhe que, apesar de não poder vir diariamente como outrora, virei sempre</p><p>que puder. Jamais lhe abandonarei, meu amor. Agora, vou-me. Já me demorei</p><p>demais. Até logo.</p><p>Deu-lhe um beijo na testa e saiu tentando não pensar no que o médico lhe disse.</p><p>Já na fazenda, combinaram que Madeleine iria com ela para casa, usando a</p><p>desculpa que as duas esqueceram-se do tempo passeando e conversando. E assim</p><p>fizeram. O marido porém, não havia chegado ainda e a sogra estava na cozinha</p><p>se empaturrando de guloseimas e sequer percebera sua chegada.</p><p>Nesta noite não conseguira dormir, relembrando a ameaça velada que Lisa May</p><p>fizera. - “E se ela contar para alguém nosso encontro no hospital? E se passar a</p><p>me chantagear? Como ficarei livre desta mulher, meu Deus?!”</p><p>Na manhã seguinte, o marido chamou-a ao escritório a fim de terem uma</p><p>conversa privada. Seus joelhos tremiam e quase não conseguia se equilibrar</p><p>sobre as pernas.</p><p>- Sra. minha esposa, temos um assunto de extrema urgência a tratar. A Sra. sabe</p><p>que tenho sido um bom marido, atencioso e até mesmo adiei a venda de nossa</p><p>casa a seu pedido na intenção de agradá-la. Mas hoje, parece-me que fiz tudo</p><p>errado. Deveria tê-la tratado como meu pai o fazia com minha mãe, assim quem</p><p>sabe a Sra. seria mais obediente e nada faria às minhas costas!</p><p>Neste momento, Verônica lembrou-se de um conselho da avó: “Querida, às</p><p>vezes, o ataque é a melhor defesa!”</p><p>- Não estou entendendo aonde quer chegar Sr. meu marido? Não basta eu viver</p><p>praticamente enclausurada com sua mãe nesta casa? O Sr. acaso tem ideia das</p><p>ofensas que diariamente ela me obriga a ouvir? Não há nada que eu faça que</p><p>possa desabonar minha conduta enquanto sua esposa, porém o mesmo não se dá</p><p>com sua pessoa que não tem horário certo para voltar para casa, recebe missivas</p><p>e as esconde para que eu não as veja e frequentemente ouço seus passos durante</p><p>a noite quando perde o sono. Acaso para ser feliz o Sr. deseja que eu me una a</p><p>sua mãe na cozinha e me ponha a comer o dia inteiro até ficar desfigurada como</p><p>ela? Vamos, diga-me, do que me acusas?</p><p>- Vejo que a Sra. não dormiu bem esta noite, pois está com um humor terrível.</p><p>Bem, o assunto que gostaria de dividir consigo é que a Sra., sabedora de nossa</p><p>situação financeira, eu total liberdade financeira a seu pai e o mesmo está</p><p>gastando a rodos. Comprou uma mansão para Armand, ampliou em 3 vezes a</p><p>própria empresa e adquiriu vários cavalos raros, sem falar nos quadros que vem</p><p>arrematando nos leilões! Ora, veja bem, não estamos em condições de fazer</p><p>tantas extravagâncias!</p><p>Após um suspiro de alívio, pode contra argumentar calmamente…</p><p>- Sr. meu marido, sempre soube que seu pai armou nosso casamento devido a</p><p>fortuna de minha família. Eu me entreguei em sacrifício pela honra de meu</p><p>irmão, mas eu não posso tratar meu pai como uma criança e proibi-lo de realizar</p><p>seus sonhos porque o caça-níqueis do meu marido não permite! Aliás, as posses</p><p>de MINHA família podem ser administradas por meu pai e se isto lhe incomoda,</p><p>paciência. Ora, Sr. meu marido, se o fim do mundo estiver próximo, o Sr. me</p><p>acusará de ser a culpada! Era só o que faltava! Agora, queira dar-me licença,</p><p>pois desejo bordar em meu quarto. Bom trabalho Sr. meu marido.</p><p>E subiu as escadas com um sorriso de vitória nos lábios…</p><p>À tarde, com a desculpa de que necessitava de mais materiais para seus</p><p>bordados, a Sra. Vilenev vai à loja do Sr. Sautier e após algumas palavras ambos</p><p>se dirigem ao escritório no andar superior.</p><p>- Bem Sr. Jonhson, vou direto ao assunto, pois preciso resolver um problema</p><p>com certa urgência e creio ser o Sr. é a única pessoa que pode auxiliar-me neste</p><p>momento. Quando do relatório que me apresentou há mais de um ano, o Sr. citou</p><p>o nome de uma tal de Lisa May e seu amante pianista, lembra-se? Ocorre que</p><p>segundo consta, o tal músico foi-se para a América e abandonou a tal mulher.</p><p>Ontem eu a encontrei em uma situação um tanto delicada e a mesma fez-me uma</p><p>ameaça velada. Na posição em que me encontro hoje, não posso ficar a mercê de</p><p>uma mundana. Então, racione comigo, se o amante, que é extremamente</p><p>ambicioso, receber uma proposta de emprego e ganhe uma boa quantia em</p><p>dinheiro, quantia esta suficiente para levar sua parceira até ele e ambos viverem</p><p>até com um certo conforto, a mesma não se recusará em acompanhá-lo, concorda</p><p>comigo?</p><p>- Sra. Vilenev, se acaso algum dia necessitar de um emprego, com certeza a</p><p>contratarei como minha assistente. A Sra. é brilhante! Mas diga-me, como vamos</p><p>entregar esta quantia ao músico na América?</p><p>- Ah, pois é aí que o Sr. entra em meus planos. Não posso afastar-me da Europa,</p><p>tampouco tenho conhecimento do sub-mundo, então o Sr. com sua perspicácia</p><p>vai encontrar uma maneira de colocar meu plano em prática, por uma boa</p><p>quantia, obviamente.</p><p>- Considere feito. Traga-me o valor que deseja enviar à América e assim que a</p><p>meretriz embarcar mandarei avisá-la para que venha pagar meus honorários.</p><p>Assim ficamos combinados.</p><p>- Mais uma vez, foi um prazer realizar negócios com o Sr., Sr. Jonhson!</p><p>Ao chegar em casa com vários pacotes, quase esbarra na sogra no andar superior</p><p>da casa e não pode deixar de ser irônica: - “Minha sogra, o que está a fazer nesta</p><p>ala da casa? Acaso esqueceu-se que a cozinha é no andar de baixo?” E entrou em</p><p>seu quarto antes que a sogra tivesse tempo de responder. A matrona sentiu-se</p><p>aliviada pela nora não tê-la surpreendido remexendo em seus pertences a fim de</p><p>encontrar algumas joias para vendê-las.</p><p>Cerca de um mês após este episódio, Verônica recebe uma missiva do Dr.</p><p>Gilbert.:</p><p>- Sra. Vilenev, preciso falar-lhe com urgência.</p><p>Na mesma hora, chama o cocheiro e dirige-se ao hospital com o coração aos</p><p>pulos, temendo receber a pior notícia que poderia suportar. O trecho de sua casa</p><p>até o hospital parecia-lhe que levara horas e sua aflição só fazia aumentar. Até</p><p>que finalmente chegando, dirigiu-se à sala do médico.</p><p>- Boa tarde Sra.Vilenev. Vejo que atendeu ao meu chamado com máxima</p><p>urgência!</p><p>- Dr. Não me deixe nesta agonia, fale o porquê de seu chamado!</p><p>- Nos dias que se passaram após sua visita ao meu paciente, percebi seus sinais</p><p>levemente alterados e decidi realizar novos exames. Ocorre que recebi o</p><p>resultado hoje. Os danos em seu cérebro estão regredindo e a partir de agora</p><p>assim como a Sra. passarei a crer em milagres. O Sr.Murphy ainda está</p><p>desacordado, mas acredito que em pouco tempo, se recuperará do coma.</p><p>Continuemos rezando, porque agora sei que não basta ser o melhor médico do</p><p>mundo, a vontade de Deus sempre prevalecerá.</p><p>- Oh Dr. que felicidade! E abraçou-se</p><p>ao médico emocionada! Posso vê-lo?</p><p>- Sim, mas não se demore. Não desejo que ele tenha emoções muito fortes.</p><p>Verônica entrou no quarto pé ante pé, procurando fazer o menor som possível e</p><p>quando avistou a figura do amado, já com as faces mais coradas, não resistiu e</p><p>caiu em pranto solto, agradecendo aos céus pela recuperação de seu amor.</p><p>Sentou-se a seu lado, pegou em sua mão e assim se deixou ficar até ficar</p><p>sonolenta. Quando já se sentia vencida pelo sono, sentiu um leve roçar na</p><p>própria mão. Julgou ser efeito do sono e pisou várias vezes na intenção de</p><p>espantá-lo, quando sentiu novamente e fixou o olhar na mão de Carl que</p><p>lentamente roçava seu dedo, como um afago. Chamou a enfermeira</p><p>imediatamente e em poucos minutos o médico estava a seu lado a fim de</p><p>constatar que finalmente, após um ano e meio, Carl Murphy saíra do estado de</p><p>coma.</p><p>- Sra. Vilenev, - disse o Dr. - “Agora a equipe médica precisa realizar alguns</p><p>exames no paciente a fim de verificar possíveis sequelas neuronais de um coma</p><p>tão longo. Peço-lhe que se vá e em breve lhe mandarei notícias”.</p><p>Embora desejasse permanecer ao lado do amado, aquiesceu à recomendação</p><p>médica, despediu-se e fora para casa.</p><p>Após a discussão que tivera com a esposa, o Barão de Vilenev ficara atordoado</p><p>com a reação da mesma e mais preocupado ainda por não ter condições de sanar</p><p>as dívidas que se acumulavam. Os dias iam passando e não conseguia encontrar</p><p>uma solução para seus problemas. Maldisse ao pai que obrigou-lhe a casar-se</p><p>com ela julgando tomar posse de toda sua fortuna; a mãe que não tinha pulso</p><p>firme para mantê-la em casa a fim de não permitir que dilapidasse o próprio</p><p>patrimônio propositadamente para não ter de dividir com ele. Maldisse a esposa</p><p>que demonstrava ser inofensiva, mas era mulher determinada e irresignável e por</p><p>fim, maldisse a si próprio que, por ambição, rompeu o juramento que fizera à</p><p>amada, comprometendo-se a não colocar mulher alguma em seu lugar. Foi por</p><p>este motivo que nunca tocou em Verônica, para, ao menos, manter seu corpo</p><p>limpo em razão da fidelidade com a falecida e amada esposa. Ao pensar na</p><p>mesma, lembrou-se de quanta felicidade ambos viveram e sentiu uma vontade</p><p>irresistível de encontrar-se com ela. Por fim, decidiu que sua vida já não valia</p><p>nada. Fracassara como filho, marido e nobre. Só lhe restava uma coisa a fazer.</p><p>Abriu a gaveta do escritório, dela retirou uma caixa de madeira ricamente</p><p>entalhada e utilizou-se da arma guardada dentro dela, suicidando-se.</p><p>Verônica volta para casa com a felicidade de uma criança em manhã de Natal.</p><p>Porém bastou a carruagem se aproximar da residência, percebeu uma</p><p>movimentação estranha. No caminho que levava à entrada principal cruzou com</p><p>policiais que fizeram-na descer. Atordoada questionou o houvera e o oficial lhe</p><p>transmitiu a terrível notícia. Segundo ele a sogra ao `ser informada desmaiou e</p><p>fora levada ao hospital. A dama em estado de choque agradeceu aos policiais e</p><p>procurou inteirar-se do paradeiro do corpo para tomar as providências</p><p>necessárias. Ao entrar em casa desabou em sua cama, sem saber o que fazer.</p><p>- Meu Deus! Porque tudo isto aconteceu no mesmo dia? Estava eu tão feliz com</p><p>a recuperação de Carl e no mesmo momento meu marido se suicida! Acaso não</p><p>mereço ser feliz?</p><p>Sem ter com quem contar, decidiu fazer o que uma dedicada esposa enlutada</p><p>faria. Chamou o cocheiro e fora para Paris providenciar os atos fúnebres do</p><p>falecido marido. Como o mesmo era da nobreza, assim que chegou ao local</p><p>aonde estava o corpo, vários outros da mesma estirpe já estavam chegando e</p><p>cada um ofereceu-se para ajudá-la, todos tentando amenizar a dor da recém-</p><p>viúva. Verônica agradeceu a ajuda dos amigos da família, mas declarou que</p><p>desejava cuidar de tudo sozinha. E assim o fez.</p><p>Poucas horas depois o corpo chegou à casa da família aonde seria velado na</p><p>mesma sala em fora seu pai. Coroas de flores chegavam a cada minuto, enviadas</p><p>por todos os que pretendiam fazer uma última homenagem ao Barão. Até os</p><p>vassalos mandaram uma. - “Coitados – pensou Verônica – foram explorados por</p><p>esta família por anos e ainda gastaram o pouco que possuem para homenagear</p><p>um tirano”. Na tarde seguinte o corpo do Barão de Vilenev fora sepultado com</p><p>todas as honrarias de um nobre e até o Rei disse algumas palavras de despedida.</p><p>A viúva sentiu-se anestesiada durante todo o processo. Somente saiu do lado do</p><p>falecido marido para comer algo leve, pois sequer tinha fome e brevemente</p><p>retornou. Em sua mente, pensava em como seria sua vida dali para frente e</p><p>somente sentia-se confortada pelo braço da prima que veio a seu encontro assim</p><p>que soube da notícia. Terminada a cerimônia, Verônica foi ao hospital visitar a</p><p>sogra, porém a mesma não quis sequer vê-la, julgando-a culpada pelo suicídio do</p><p>filho e negando-se a reconhecer que a nora fora apenas um joguete nas mãos de</p><p>sua família. Visto a sogra ter idade avançada, apresentar vários problemas de</p><p>saúde em razão da obesidade e apresentar sintomas de insanidade devido a morte</p><p>do filho, a nora decidiu transferi-la a uma clínica especializada, aonde a mesma</p><p>teria todo tratamento necessário, físico e psicológico, embora cobrasse uma</p><p>razoável quantia mas neste momento, o vil metal já não tinha a menor</p><p>importância para Verônica.</p><p>Hospedada na fazenda do tio, pode refazer-se, além de dividir com a prima e</p><p>amiga todos os medos, angústias e dúvidas que lhe perpassavam pela mente.</p><p>Após alguns dias, voltou ao hospital para rever seu amado e surpreendeu-se com</p><p>sua aparência.</p><p>Por vários minutos ambos ficaram a olhar-se sem dizer palavra alguma e o</p><p>silêncio demonstrou tudo o que ambos desejavam confessar e não possuíam</p><p>coragem para fazê-lo. A enfermeira entra no quarto a fim de retirar a bandeja do</p><p>lanche do enfermo e oferece um copo de suco gelado à visita.</p><p>- Obrigada eu já estou de saída.</p><p>Carl deixou que seu sorriso murchasse ao ouvir tais palavras.</p><p>- Sr. Murphy eu estava na administração hospital tratando da transferência de</p><p>minha sogra e decidi lhe fazer uma breve visita. Alegra-me vê-lo com tão boa</p><p>aparência e creio que logo estará restabelecido. Se precisar de alguma coisa, um</p><p>livro talvez, posso providenciar.</p><p>- Não se vá ainda Sra.! Ouvi as enfermeiras comentando sobre sua recente</p><p>viuvez e lamento o ocorrido, meus sentimentos.</p><p>- Obrigada Sr. Murphy. A vida é assim… uns vêm, outros vão, quem pode</p><p>entender os desígnios de Deus, não é mesmo? Amanhã mandarei um mensageiro</p><p>lhe trazer algumas obras que já li e que tenho certeza, o Sr. apreciará.</p><p>- É muita gentileza sua porém com relação ao livro, prefiro que seja algo que lhe</p><p>agrada, talvez assim eu possa conhecê-la melhor…</p><p>- Perdoe-me Sra., mas não sei seu nome de casada.</p><p>- Vilenev. Fui casada com o Barão de Vilenev. - Então está bem. Por hoje devo</p><p>retirar-me. Estimo suas melhoras. Até logo, Sr. Murphy.</p><p>Após a saída da mulher amada, Carl sentiu-se tão feliz que sentia o desejo de sair</p><p>dançando pelo quarto, tamanha a felicidade lhe arrebatava o coração, porém ao</p><p>tentar levantar-se suas pernas não o obedeceram e o mesmo teve uma queda.</p><p>Em seguida o médico veio até o quarto e recolocou-o na cama.</p><p>Sr. Murphy, ouça-me bem. O Sr. ficou em coma por muito tempo. Mal recuperou</p><p>os movimentos das mãos e a fala e além do mais, sofreu um trauma muito forte</p><p>na coluna. Devido a isto ainda levará um certo tempo até que recupere o</p><p>movimento das pernas. Por enquanto lhe peço que não tente mais levantar-se</p><p>sozinho. Quando eu julgar adequado, mandarei alguém para ajudá-lo a fazê-lo,</p><p>estamos combinados?</p><p>Como uma criança pega em plena peraltice, limitou-se a balbuciar: - Sim Doutor.</p><p>Ao sair do quarto do paciente, o médico reúne-se com sua equipe e solicita</p><p>novos exames do paciente.</p><p>No dia seguinte ao examiná-los, apresenta ares de derrotado e comunica a</p><p>recepção do hospital:</p><p>- Quando a Sra. Vilenev vier visitar o Sr. Murphy, encaminhem-na</p><p>imediatamente à minha sala, por favor.</p><p>Verônica saiu do hospital tentando disfarçar a felicidade. Não ficaria bem uma</p><p>recém-viúva ser vista com um sorriso, porém sentia como se a vida estivesse lhe</p><p>dando uma</p><p>nova chance e tudo ganhou um novo colorido. Retornou à fazenda</p><p>admirando a paisagem como se fora a primeira vez que a visse. Ao chegar, o tio</p><p>e a prima estavam ansiosos por notícias e quando as relatou, ambos ficaram</p><p>aliviados e assim, após um longo banho, desceu para o jantar resplandescente.</p><p>Na semana seguinte ao chegar ao hospital, a recepcionista informou-a de que o</p><p>médico desejava vê-la. Assim Verônica foi até a sala do mesmo sem ter ideia do</p><p>que poderia querer falar-lhe. Após bater á porta e receber o consentimento para</p><p>entrar, deparou-se com o semblante preocupado do Dr. e seu coração disparou</p><p>como um sinal de algo muito sério havia acontecido.</p><p>- Boa tarde Dr., a recepcionista disse-me que deseja fala-me.</p><p>- Boa tarde Sra., sente-se por favor. O que tenho para lhe dizer é muito</p><p>importante e vou precisar de sua ajuda. Após sua última visita o paciente parece</p><p>ter-se empolgado e tentou levantar-se sozinho, quedando-se e derrubando a</p><p>cadeira sobre si. Sorte que a enfermeira estava a passar em frente a porta e ouviu</p><p>o barulho. Pois bem, decidi realizar novos exames imediatamente e o resultado</p><p>não é nada animador. Como já sabe, no acidente o Sr. Murphy ficou preso entre</p><p>as rédeas dos animais e o estribo que as prendiam. Ocorre que sua coluna</p><p>vertebral ficou deveras danificada e com danos irreversíveis.</p><p>Neste instante Verônica pôs-se a chorar antevendo o final do relato médico.</p><p>- Tenha calma Sra., já lhe disse que sua interação será vital para a recuperação do</p><p>paciente. Como estava dizendo, houve rompimento de várias vértebras, porém</p><p>julgávamos a princípio que as lesões fossem apenas superficiais e não</p><p>comprometem-se os movimentos do paciente, porém infelizmente devo</p><p>comunicar-lhe que o Sr. Murphy jamais voltará a andar.</p><p>- Neste momento, ela abraça-se ao médico aos prantos implora: - Dr. Por tudo o</p><p>que é mais sagrado, diga-me que existe um tratamento alternativo, qualquer</p><p>coisa que possa fazer o meu Carl voltar a andar! Eu pago o que for necessário</p><p>para iniciarmos outro tipo de tratamento mas recupere-o pelo amor de Deus!</p><p>E caiu na poltrona chorando copiosamente. Pensava nos planos que fizera na</p><p>noite anterior, na expectativa de levar Carl de volta à Inglaterra e ambos</p><p>casarem-se… E agora… Seu mundo desabara! Munindo-se de um lampejo de</p><p>lucidez, consegue questionar ainda: - Ele já sabe?</p><p>- Não. Achei que seria melhor que ele soubesse por alguém que o ame e por</p><p>quem ele sinta o mesmo, para melhor aceitar a nova vida.</p><p>- Um momento Dr.! O Sr. Murphy e eu nos conhecemos de longa data é verdade,</p><p>mas nunca tivemos nenhum tipo de envolvimento. Além do mais, acabo de ficar</p><p>viúva e suas palavras soam-me como um insulto.</p><p>- Perdoe-me a falta de tato, mas o que a Sra. tenta esconder está tão estampado</p><p>em seu olhar que é preciso ser muito inocente para não perceber! E o mesmo</p><p>acontece com o Sr. Murphy. Mas tenho uma notícia que talvez lhe sirva de</p><p>alívio. Já existe uma cadeira que foi adaptada para pessoas como ele, que pode</p><p>ser empurrada pelo encosto fazendo com que a pessoa não fique restrita ao leito</p><p>ou tenha que ser carregado ao colo a fim de locomover-se. É claro que como</p><p>trata-se de uma tecnologia recente não é um investimento acessível aos</p><p>desabonados, mas para a Sra. tenho certeza que não representará nenhuma</p><p>fortuna.</p><p>- Dr., eu sei que serei eu quem vai contar-se a verdade, mas também preciso estar</p><p>preparada para tal. Neste caso, não irei vê-lo hoje, mas voltarei o mais rápido</p><p>possível. Com sua licença.</p><p>A dor em seu peito era tamanha que não importava-se em ser vista aos prantos</p><p>por quem quer que seja. Quase à saída do hospital uma enfermeira tenta dar-lhe</p><p>um sedativo ao qual nega-se terminantemente. Seu mundo desabara e ninguém</p><p>poderia ajudá-la… O cocheiro ao ver a dama naquele estado toma a liberdade de</p><p>oferecer-lhe ajuda, mas Verônica apesar da dor, apenas agradece ao</p><p>oferecimento, mas responde que ninguém pode ajudá-la. Solidário a dor da</p><p>dama, leva-a diretamente á fazenda sem fazer mais nenhum comentário.</p><p>Madeleine ao ver a prima naquele estado correu a abraçá-la assim que desceu da</p><p>carruagem e levou-a a seus aposentos. Sentou-se na cama e deixou que a prima</p><p>com a cabeça em seu colo, chorasse todas as lágrimas que possuía sem dizer</p><p>uma palavra sequer. Apenas afagava os cabelos daquela que demonstrava tanto</p><p>sofrimento.</p><p>Cerca de uma hora depois, Verônica, já cansada de tanto chorar, senta-se ao lado</p><p>da confidente e revela-lhe o ocorrido.</p><p>- Oh minha querida, eu lamento tanto! Justo agora que você reconheceu que o</p><p>ama verdadeiramente e estava disposta a enfrentar tudo e todos por este amor!…</p><p>Olhe para mim, respire fundo e tente não chorar mais. Você já percebeu que esta</p><p>atitude não vai ajudar a Carl além de prejudicá-la também. Não gere um</p><p>problema maior do que o que já existe, isto não faz o seu gênero. Aonde está a</p><p>mulher forte que conheço e a quem Carl evidentemente ama?</p><p>- Desculpe Madeleine, mas eu precisava desabafar toda minha dor e acho que</p><p>você é a pessoa mais bondosa com quem já convivi. Você tem toda razão.</p><p>Preciso ser forte para transmitir esta força à Carl que, com certeza, sofrerá por</p><p>demais com a notícia. Estarei lá, segurando sua mão para provar que continuarei</p><p>ao seu lado da mesma forma.</p><p>À noite, sonhou novamente com a mãe e a avó, mas pela manhã não conseguia</p><p>lembrar-se do sonho, por mais que forçasse a memória. Mas, por alguma razão</p><p>que não saberia explicar, acordou com uma serenidade que não imaginava poder</p><p>sentir.</p><p>Após o almoço, vestiu-se e foi ao hospital. Ao lado de fora da porta principal,</p><p>parou, estufou o peito e disse à si mesma - “Verônica Bordeaux, você herdou a</p><p>coragem de sua mãe e a força de sua avó, então vá até lá e faça o que há de ser</p><p>feito”! Ergueu a cabeça e dirigiu-se ao quarto do paciente. Com um buquê de</p><p>flores as mãos, adentrou vagarosamente ao quarto aonde o enfermo dormia.</p><p>Após depositar as flores em uma vaso, sentou-se confortavelmente em frente a</p><p>janela apreciando a vista que mais lhe parecia uma pintura. Assim deixou-se</p><p>levar livremente pela liberdade dos pensamentos. “Meu Deus, quanta beleza! Eu</p><p>que sempre admirei as flores, hoje vejo que na verdade, até hoje, não me</p><p>apercebera de tamanha a beleza que o Senhor nos proporciona todos os dias! E já</p><p>que o Senhor tudo criou, tudo sabe e tudo vê, peço-lhe, se existe alguma chance</p><p>de cura para meu amado, mostre-a, se não, que eu tenha forças para que possa</p><p>dividi-la com ele”!</p><p>Ouviu um pequeno gemido e olhar para a cama, pôs-se a admirar o homem</p><p>amado. Assim, quando Carl despertou a primeira imagem que viu foram os olhos</p><p>cheios de amor da mulher amada.</p><p>- A Sra. veio me ver! Senti muito medo que não mais retornasse. Porém agora,</p><p>seus olhos acabaram de me dizer tudo o que eu mais desejava ouvir. Que me ama</p><p>assim como eu a amo!</p><p>- Sim Sr. Murphy. Amo-o desde a primeira vez em que o vi, mas o medo e a</p><p>influência de nossas famílias me fizeram manter este sentimento sufocado em</p><p>meu peito. Pegando gentilmente nas mãos do amado, a dama cria coragem e</p><p>começa a contar-lhe aos poucos para prepará-lo para a terrível notícia. Enfim</p><p>quando a curiosidade foi mais forte, Carl diz-lhe de sopetão: - “A Sra. está muito</p><p>diferente. Sinto que precisa dizer-me algo, mas não possui a coragem necessária</p><p>para fazê-lo”!</p><p>- Não pensei que já me conhecesse tão profundamente Sr. Murphy! Mas já que</p><p>fora direto ao ponto, não tenho como mais esconder-lhe. Mas antes quero que</p><p>saibas que meu sentimento é genuíno e que jamais o abandonarei, não importa o</p><p>que aconteça. Ontem tive uma conversa muito séria com o seu médico e ele me</p><p>contou que lhe fizeram novos exames e os resultados não são nada animadores.</p><p>Sua coluna foi por demais afetada devido ao acidente e talvez o Sr. não venha</p><p>mais a andar. Mas enquanto o Sr. estiver aqui, verei vê-lo sempre que puder e</p><p>aos poucos, quem sabe, um milagre não acontece?! O Sr. acredita em milagres,</p><p>por certo!</p><p>- A dedicação e o afeto que a Sra. me dedica, fazem-me sentir mais forte e já que</p><p>acabou de declarar que não me abandonará, não sofrerei por não mais andar, pois</p><p>terei ao meu lado</p><p>a quem mais amo nesta vida. Quanto a crer em milagres…</p><p>confesso que creio, mas os mesmos devem ser dirigidos a quem os merece e não</p><p>a grandes pecadores como eu. Com certeza Deus está cuidando das pessoas de</p><p>melhor índole que a minha, aquelas que vão à missa aos domingos e</p><p>principalmente aos bons filhos, o que definitivamente não o fui até então.</p><p>- Não vou admitir que fale de si próprio desta maneira! Sei que cometeu muitos</p><p>erros no passado, mas sei também que uma pessoa que não recebe um elogio, ao</p><p>contrário, só houve reprimendas, não consegue deixar brotar o bem dentro de si.</p><p>Nós somos como as flores. De nada adiantaria plantá-las e ao invés regá-las com</p><p>água fresca e lhes dar carinho, raramente as olhamos e quando fazemos damos-</p><p>lhes água suja. Neste jardim jamais brotaria uma bela flor.</p><p>- Sua doce sabedoria me comove e confesso-lhe, nunca havia pensado desta</p><p>forma. Bem, mas agora falemos de assuntos mais alegres, quero ver a vista desta</p><p>janela que tanto admira. Pode chamar alguém para ajudar-me a chegar até ela?</p><p>De imediato, Verônica foi ter com o médico e em poucas palavras revelou-lhe o</p><p>diálogo ocorrido a pouco. O mesmo disse-lhe que uma surpresa a aguardava e</p><p>apresentou-a a cadeira de rodas que serviria para o deslocamento de Carl. Assim,</p><p>o médico e um enfermeiro foram até o leito do paciente e o puseram sentado em</p><p>seu novo “trono” e Verônica não só pode levá-lo até a janela como obteve</p><p>autorização para passear com o paciente até o bosque.</p><p>A medida em que Carl se recuperava, sua memória foi despertando ao passado e</p><p>questionou sobre o porquê de ter sido tão bem tratado e no melhor hospital da</p><p>Europa.</p><p>- Sra., lembro-me bem agora de nosso último encontro antes do acidente. À</p><p>época não demonstrava preocupar-se tanto com meu estado... Acaso foi a</p><p>responsável por meu tratamento?</p><p>- Não vanglorie-se tanto Sr. Murphy. Talvez não lembre mas seu estado requereu</p><p>providências sérias e imediatas para que sobrevivesse. E… admito, senti-me</p><p>responsável pelo acontecido, devido a isto aqui estou. Não desejava que me</p><p>julgasse uma tirada desalmada.</p><p>- Então o que fez este tempo todo foi apenas para aliviar seu peso de</p><p>consciência? Oh Sra., queira me desculpar. Por um momento não sei o que senti.</p><p>Bem, mas...Não gostaria de falar sobre assuntos nefastos neste momento, até</p><p>porque, eu mereci ouvir tudo o que me foi dito. Agora conte-me, como está</p><p>minha mãe? Porque não veio ver-me ainda?</p><p>- Sua mãe teve mais sorte que o Sr. e devido a isto ficou no hospital em Londres</p><p>e segundo fui informada, recupera-se bastante bem. Tenho certeza de que assim</p><p>que tiver condições ela virá vê-lo, não se preocupe.</p><p>Infelizmente Verônica não podia ir ao hospital todas as tardes, devido a recente</p><p>viuvez, mas sempre que podia passava as tardes no hospital e a cada dia levava</p><p>um novo buquê de flores. Ambos passavam o tempo passeando e admirando a</p><p>natureza e quanto mais Carl a conhecia, mais a amava. Como estavam muito</p><p>próximos, acabaram por tornar-se confidentes e uma espécie de cumplicidade os</p><p>unia.</p><p>À noite na fazenda, ao dar asas a seus pensamentos, tecia longos bordados e seu</p><p>olhar distante era visto com esperança como a peça a ser confeccionada.</p><p>Numa tarde de outono, Verônica se preparava para ir ao hospital quando sentiu</p><p>um arrepio, uma certa inquietação, mas não deu importância exagerada ao fato e</p><p>tratou de vestir-se (ainda de luto) e visitar o amado no hospital. Na recepção</p><p>percebeu que a recepcionista sempre dócil e sorridente cumprimentou-a com um</p><p>ar diferente e, mais uma vez, não levou em conta e foi diretamente para o quarto</p><p>do enfermo. Vazio. A cama estava feita, os móveis todos em seus lugares, tudo</p><p>impecável como sempre mas… o paciente não estava no leito. Procurou no</p><p>quarto de banho e também não encontrou-o. Uma sensação de perda, tristeza e</p><p>mágoa começaram a tomar conta de seu ser e na tentativa de evitar pensamentos</p><p>nefastos decidiu admirar o bosque que tanto adorava. Antes não o fizesse…</p><p>Há cerca de uns 20 m. avistou um homem em sua cadeira de rodas parado junto</p><p>a um pequeno lago artificial e ao seu lado uma linda mulher. Verônica apoiou-se</p><p>no batente da janela para não cair visto parar de sentir as próprias pernas. Era</p><p>ela! Carl estava tranquilamente conversando com ninguém mais, ninguém menos</p><p>do que Lisa May. A indignação de Verônica foi imediata e possuída pelos ciúmes</p><p>saiu do hospital sem ser vista. Já na rua tomou um veículo de aluguel e rumou</p><p>para o armarinho. O proprietário estava recém abrindo a loja para o turno da</p><p>tarde quando a mulher entrou enfurecida e o fuzilou com o olhar. Visto não ter</p><p>nenhuma cliente ainda, foi subindo as escadas e falando ao mesmo tempo.</p><p>- “Acaso o senhor me trapaceou? O que lhe fez ter a ideia de pegar meu dinheiro</p><p>e não fazer o trabalho encomendado”? Julga-me uma tola, por certo?</p><p>O homem foi logo interrompendo a dama antes que ela tivesse uma síncope e foi</p><p>logo esclarecendo. - Por quem me toma Sra. Vilelev? Efetuei o trabalho</p><p>exatamente como combinado e não lembro de ter-lhe aqui chamado para cobrar-</p><p>lhe meus honorários? Se a Sra. deixar-me falar, posso perfeitamente lhe passar o</p><p>relatório de minha missão.</p><p>- Pois bem, explique-se. Mas é bom que seja convincente!</p><p>- Conforme combinamos entrei em contato com meu amigo na América e o</p><p>mesmo deu o emprego e a quantia enviada ao pianista. Conforme previsto, o</p><p>mesmo escreveu para a amante inglesa, e segundo meu amigo em uma noite de</p><p>bebida exagerada o músico confidenciou-lhe que a amada logo estaria na</p><p>América ao seu lado. Não segui os passos da mulher porque não estava em nosso</p><p>trato esta parte, mas que ela recebeu a mensagem, certifiquei-me de que recebeu</p><p>e isto foi a uns dois ou três dias atrás. Estava esperando a confirmação do</p><p>embarque da mesma para contactá-la, mas parece que a senhora está perdendo o</p><p>juízo… O que percebo Sra. Vilenev é que a mulher que entrou nesta sala pela</p><p>primeira vez, chamando-se Srta. Bordeaux não mais existe. No lugar dela</p><p>encontra-se uma mulher cujos valores foram destorcidos pelo dinheiro e poder e</p><p>que julga ser proprietária dos pensamentos de outrem! Ora minha Sra.!</p><p>Imediatamente arrependeu-se de suas palavras e contemporizou: - Façamos o</p><p>seguinte: Vá para casa, descanse e reflita. Assim que a mulher tomar o navio eu</p><p>entro em contato com a Sra. conforme combinado anteriormente, está bem?</p><p>Em choque com a rispidez com que fora tratada, girou os calcanhares e saiu sem</p><p>ao menos despedir-se.</p><p>Já na fazenda, na companhia da prima e do tio, percebeu que realmente algo</p><p>havia mudado dentro de si. Naquela noite, passou boa parte revendo seus</p><p>valores, relembrando todos os acontecimentos dos últimos dois anos e</p><p>envergonhada mal pode olhar-se no espelho. Tomou um copo de leite quente e</p><p>adormeceu.</p><p>Na manhã seguinte confidenciou a Madeleine o ocorrido no hospital e</p><p>obviamente omitiu a conversa que tivera com o Sr. Jonhson (até porque ninguém</p><p>tinha conhecimento de sua ligação com o mesmo). A prima após pensar por</p><p>alguns segundos sugeriu-lhe que voltasse ao hospital na mesma tarde e tivesse</p><p>uma conversa franca e definitiva com o Sr. Murphy, afinal, tudo poderia tratar-se</p><p>apenas de uma mal entendido, porém Verônica ainda estava muito chocada e</p><p>machucada com a cena que vira e achou melhor não fazê-lo.</p><p>- Madeleine, por mais que me doa ter que fazer isto, voltarei para a Inglaterra o</p><p>mais breve possível. Ficarei aqui somente o tempo necessário para resolver as</p><p>questões da herança (ou dívidas) que meu falecido marido deixou. Mas não se</p><p>preocupe. Continuarei aqui na fazenda até resolver estas questões. Quanto a</p><p>Carl… não quero procurá-lo. Seria muita humilhação de minha parte. Se depois</p><p>de tudo o que fiz por ele, recebo a traição como paga, então não há mais o que</p><p>conversarmos. Quanto ao tratamento, já deixei tudo acertado com o Dr. e nada</p><p>lhe faltará.</p><p>- Minha querida, reflita. Bem sei que o passado do Sr. Murphy o condena mas</p><p>algo me diz que o acidente, o coma e as sequelas o transformaram. Lembro de</p><p>nossas conversas quando você chegava das visitas que fazia a ele, esqueceu?</p><p>- Desculpe minha prima,</p><p>agora preciso sair. Preciso encontrar-me com o</p><p>administrador das terras de Bertrand e acertar tudo com ele. Até mais tarde.</p><p>Nos dias que se seguiram Verônica ocupou-os quase que totalmente tratando de</p><p>questões pontuais que somente ela como viúva do Barão podia resolver. No final</p><p>de três semanas, após um balanço patrimonial, necessitou vender a mansão</p><p>aonde moravam os pais de Bertrand a fim de pagar dívidas, mas conseguiu</p><p>manter a casa que ambos adquiriram juntos pois foi o único lugar em que foi</p><p>feliz com ele. Tudo resolvido, agradeceu mais uma vez ao tio e tia pela</p><p>hospedagem, abraçou toda a família e embarcou para a Inglaterra.</p><p>CAPITULO XV</p><p>Quando Lisa May deixou o enfermo acomodado em seu quarto, o mesmo passou</p><p>o restante da tarde esperando pela visita de Verônica, mas ela não aparecera.</p><p>Nem no dia seguinte, e na semana seguinte… Até que Carl decidiu pedir ajuda</p><p>ao seu médico. Sentia-se envergonhado pelo fato de um homem de sua idade,</p><p>após ter passado tudo o que passou e recuperar-se, dar tamanha importância as</p><p>coisas do coração. Mas enfim, não podia mais permanecer na ignorância, sem</p><p>saber o porquê do afastamento da amada.</p><p>- Bom dia Sr. Murphy! Saudou o médico em uma manhã ensolarada. Trago boas</p><p>novas! - O paciente logo pensou que se tratava de notícias dela e seu coração</p><p>ficou aos pulos a espera das boas novas – Nos próximos dias chegará ao nosso</p><p>hospital um novo médico. Sua especialidade é Fisioterapia e você será o</p><p>primeiro paciente do Dr. Hanz. Ele é de origem alemã e frequentou a melhor</p><p>universidade de seu país. Devido ao seu excelente currículo, meu pai e eu</p><p>decidimos contratá-lo.</p><p>- Mas Dr., o Sr. acredita que algum dia voltarei a andar?</p><p>- Se não acreditasse, não investiria no melhor especialista na área. Mas, é claro</p><p>que sua recuperação também vai depender de sua força de vontade. Lembre-se,</p><p>somos médicos, não santos milagreiros. Mas acredito sim que em breve o verei</p><p>andando novamente. Verei outros pacientes agora.</p><p>- Espere Dr.! Eu preciso lhe fazer uma pergunta… Não me interprete mal mas…</p><p>e Sra. Vilenev? Porque não voltou a me visitar? Ela está bem? Sinto muito sua</p><p>falta…</p><p>- Bem Sr. Murphy, o Sr. é sabedor que o falecido marido da Sra. Vilenev</p><p>suicidou-se, pois não? Ocorre que assim o fez porque seu pai, o antigo Barão</p><p>quando faleceu estava praticamente falido e ao substitui-lo, herdou não somente</p><p>o título, mas o peso das dívidas também. Obviamente quem assumiu o ônus da</p><p>família foi a Sra. Vilenev, que corajosamente negociou pessoalmente com todos</p><p>os credores e, coitada, precisou vender a mansão da família para saldar o restante</p><p>das dívidas. Mulher corajosa sua amiga. Aliás, perdoe-me a intromissão, mas</p><p>percebi que entre vocês não existe apenas amizade. Bem, sou seu médico e não</p><p>tenho o direito de me intrometer em seus assuntos pessoais. Mais uma vez queira</p><p>desculpar-me. Ah, ia-me esquecendo, antes de retornar a Inglaterra, ela esteve</p><p>em meu consultório e quitou todo seu tratamento. O Sr. pode ficar tranquilo</p><p>quanto as custas médico-hospitalares.</p><p>A tristeza do doente foi extrema e evidente, tanto que o médico penalizou-se</p><p>dele, mas nada podia fazer.</p><p>- Ela voltou para a Inglaterra? E não veio se despedir de mim? Dr. preciso de um</p><p>favor particular. O Sr. poderia mandar um mensageiro à fazenda dos Bordeux e</p><p>pedir que a Sra. Madeleine venha até aqui?</p><p>- Claro. Hoje mesmo o farei. Agora descanse que nos próximos dias seus dias</p><p>serão bastante exaustivos, posso lhe garantir. Até logo.</p><p>Ao receber a mensagem, Madeleine já sabia o que o porquê de tal pedido e no</p><p>dia seguinte visitaria o Sr. Murphy.</p><p>Bateu à porta antes de entrar e ao obter o consentimento, adentrou no quarto de</p><p>primeira classe no qual a prima havia instalado seu amado.</p><p>- Boa tarde Sr. Murphy. Recebi sua mensagem e preocupei-me com seu estado,</p><p>mas agora vejo que está bem melhor, felizmente. Então qual o motivo de seu</p><p>chamado?</p><p>Madeleine apenas tolerava o enfermo, pois durante toda a vida ouvira estórias</p><p>escabrosas sobre o comportamento do mesmo. Porém agora, em um leito de</p><p>hospital, totalmente solitário, não era nem a sombra do homem que um dia fora.</p><p>E em seu íntimo chegou a pensar: - “Minha prima não iria apaixonar-se tanto por</p><p>este cavalheiro se ele não apresentasse algumas qualidades. Acho que estou</p><p>sendo severa demais com ele”.</p><p>- Me desculpe importuná-la Sra., mas preciso de notícias de sua prima. Ela</p><p>voltou à Inglaterra e nem sequer se despediu. Creio que algo motivou esta</p><p>atitude.</p><p>- Ah, então o Sr. nem desconfia o porquê de minha prima não querer mais vê-lo?</p><p>Pois então vou reavivar sua memória. Há muitos anos era sabido por todos de</p><p>sua péssima reputação e também de seu envolvimento lascivo e desonroso com</p><p>uma certa “dama” inglesa. Após o seu acidente a única pessoa que jamais o</p><p>abandonou foi Verônica e agora que o Sr. já está praticamente recuperado,</p><p>pretende retomar aquela vida mundana. E não me diga que trata-se de um</p><p>equívoco! Minha prima esteve aqui, neste quarto, e ao olhar pela janela o viu no</p><p>bosque com sua antiga amante. Depois de tudo o que ela fez pelo Sr. merecia</p><p>tratamento melhor, não acha? O Sr. poderia ter tido ao menos a dignidade de</p><p>comunicá-la que desejava retomar sua antiga vida, mas ao invés disto, fez juras</p><p>de amor e estraçalhou o coração da pobrezinha!</p><p>- Meu Deus, ela julgou mesmo que eu retomaria minha relação com aquela</p><p>mulher interesseira e sem coração? Será que todo o tempo em que convivemos,</p><p>aqui mesmo neste hospital, não foi o suficiente para que sua prima percebesse</p><p>que me transformei em um novo homem? E minha transformação deu-se mais</p><p>por ela e para ela. No dia em que “aquela mulher” esteve aqui, foi para despedir-</p><p>se. Disse-me que seu verdadeiro amor fora para América e após mandou chamá-</p><p>la para lá casarem-se. Acredite-me Sra., amo sua prima e farei o possível e o</p><p>impossível para reconquistar sua confiança. Jamais a trairia!</p><p>- Pois muito bem. Comigo o Sr. já se esclareceu, porém para reconquistar minha</p><p>prima terá que levantar desta cama com suas próprias pernas e voltar para a</p><p>Inglaterra. Sabe aonde encontrá-la, por certo. Desejo de coração suas melhoras, e</p><p>quero acreditar em suas palavras. Agora vou-me. Compromissos me aguardam</p><p>na cidade. Adeus Sr. Murphy.</p><p>A partir daquele momento, Carl tomou a decisão de que voltaria a andar e</p><p>decidiu fazer o impossível, se pudesse até realizar seu intento.</p><p>O Dr. Hanz chegou dois dias depois e encontrou o paraplégico mais animado e</p><p>disposto ao tratamento que já vira. Apesar do tratamento pesado e extenuante,</p><p>Carl não esmorecia. Dizia ao médico que tinha muita pressa em se recuperar e</p><p>faria os exercícios que fossem necessários para atingir seu objetivo.</p><p>CAPITULO XVI</p><p>Na Inglaterra, a vida de todos parecia correr tranquilamente. A indústria do Sr.</p><p>Jean Jaques recebia encomendas de todas as partes do mundo e inclusive</p><p>pensava em montar uma filial na América, pois sabia que uma terra recém-</p><p>descoberta necessitaria de ferramentas para a construção de uma grande nação.</p><p>Christofer e Emanuelle tiveram mais um filho e chamaram-no Philip, em</p><p>homenagem ao bisavô.</p><p>Bella demorou-se a engravidar, pois ela e o marido viajaram pelo mundo antes</p><p>de acomodarem-se, mas quando decidiram, tiveram gêmeos, Marri e Simon.</p><p>Verônica que já contava com 44 anos, esquecera-se o que era paz e</p><p>tranquilidade, pois passava os dias fazendo festa com os sobrinhos.</p><p>Na antiga residência dos Murphy, os infortúnios tornaram-se passado. Mary Ann</p><p>recuperou a sanidade e retornou à antiga casa, sendo verdadeiramente mimada</p><p>por Esther e Homero que por ela nutriam grande afeição e gratidão. Simon e</p><p>Christin passaram a frequentar a casa e o filho Dic passou a reconhecer Mary</p><p>Ann como vovó Mary o que lhe deu imensa alegria. Porém Mary Ann sentia</p><p>muito a falta do filho, com o qual somente se correspondia pois não possuía</p><p>meios de viajar à França. Os poucos servos que ficaram, o fizeram por</p><p>comiseração a família que fora tão destroçada pelo acidente de mãe e filho e</p><p>devido ao mesmo, Mary Ann se tornara uma pessoa melhor após o tratamento e</p><p>passou a pagar salário aos camponeses</p><p>e suas famílias e os lucros que vinha</p><p>obtendo, utilizava-os no pagamento aos antigos credores.</p><p>A ex Duquesa já não possuía a beleza e altivez de outrora, porém negava-se a</p><p>permitir que a velhice a empertigasse. Penteava cuidadosamente os cabelos</p><p>totalmente embranquecidos e os prendia cuidadosamente em um coque, sem</p><p>deixar um fio sequer solto e olhando-se no espelho, dizia a Esther: - Sei que o</p><p>tempo passou e envelheci, mas não perdi a vaidade, a força de vontade e</p><p>principalmente a esperança de ver meu filho recuperado. Todas as manhãs</p><p>repetia-se a mesma cena, até em uma delas, um homem em seus 49 anos, já</p><p>bastante grisalho, parado atrás de Esther responde: Valeu a pena esperar minha</p><p>mãe. Eu voltei! Os três se abraçam como se fora o primeiro e último encontro e</p><p>as lágrimas correram livres pois eram de felicidade.</p><p>À mesa do café foi posto mais um lugar, o de Carl à cabeceira e a família senta-</p><p>se em torno à mesa para o melhor café de suas vidas. Esther e Homero também</p><p>participaram, afinal, tornaram-se da família pelos laços de amor.</p><p>- Mamãe, a partir de hoje vou gerir nossas terras. No hospital tive tempo</p><p>suficiente para ler e aprender sobre administração e pretendo utilizar meus</p><p>conhecimentos aqui, porém percebi que a Sra. já tomou as primeiras</p><p>providências libertando os servos e transformando-os em empregados, com</p><p>salários dignos. Vou começar a partir daí, investindo em mão-de-obra</p><p>especializada e valorizando as pessoas como elas merecem. Nestes últimos anos</p><p>aprendi que ninguém é melhor ou pior que o outro. Todos somos iguais e um dia</p><p>haveremos de viver em um mundo justo.</p><p>Empenhado na tarefa de reerguer as finanças da família, chegou a trabalhar de</p><p>sol a sol com os empregados, a fim de realizarem mais rápido a colheita e</p><p>obterem mais lucro com víveres de melhor qualidade. Tudo estava quase perfeito</p><p>não fora a saudade que o consumia. Havia decidido que haveria de provar a</p><p>Verônica o novo homem que era, ao invés de simplesmente implorar por seu</p><p>perdão. Decidira que reconquistaria a mulher amada por suas atitudes e ela ainda</p><p>orgulhar-se-ia dele, assim como a mãe já o fazia.</p><p>E o tempo foi passando...</p><p>Certo dia, a família recebeu convite para um baile oferecido por um profissional</p><p>liberal em franca ascendência na sociedade londrina. Mary Ann (que já não</p><p>valorizava tanto as aparências) sugeriu que o filho fosse acompanhado de Simon</p><p>e Christin e que ela e Esther cuidariam de Dic com o maior prazer. Em sendo</p><p>assim, Carl que sonhava em voltar aos salões aceitou o convite e o velho/novo</p><p>amigo também mostrou-se entusiasmado, visto que após o nascimento do filho</p><p>quase não tinha oportunidade de sair com a esposa. E assim, os três foram a</p><p>Londres levados orgulhosamente por Homero.</p><p>Verônica era frequentemente convidada aos eventos sociais, mas sempre usava</p><p>de algum artifício para não comparecer. Não admitiria a quem quer que fosse,</p><p>mas sabia que seu coração ficara destroçado naquela tarde no hospital em Paris.</p><p>As damas da sociedade estranhando a ausência da viúva decidiram fazer-lhe uma</p><p>visita, demonstrando preocupação com sua saúde.</p><p>- Oh querida, perdoe-nos vir sem avisar mas estranhamos sua ausência em todos</p><p>os eventos e somente agora ficamos sabendo de sua viuvez! Oh, pobrezinha,</p><p>deve estar traumatizada ainda…</p><p>- Senhoras, o incidente com meu marido realmente me chocou muito e decidi</p><p>manter meu luto, mas encontro paz e tranquilidade aqui, junto a minha família e</p><p>por isso não mais frequento os salões. Um dia, quem sabe… Bem, mas, já que</p><p>aqui estão, aceitam tomar o chá das cinco?</p><p>Obviamente ambas aceitaram e após o delicioso chá, recheado de guloseimas, as</p><p>três foram para o jardim.</p><p>Sabe querida, você está fazendo muita falta em nosso meio. Até o Sr. Murphy,</p><p>filho do falecido Duque de Charleston, aquele que sofreu um acidente</p><p>juntamente com a mãe, pois é, foi visto em Londres acompanhado de uma bela</p><p>mulher. E perceba que ele é mais velho que você.</p><p>Verônica teve o ímpeto de estrangular as mexeriqueiras, mas manteve a postura</p><p>clássica e fez-se de desentendida no que tangia a Carl.</p><p>- Ah, o Sr. Murphy está recuperado do acidente? Fico feliz por ele e pela mãe.</p><p>Ela deve ter sofrido muito pelo filho!…</p><p>- Pois então, você precisa reagir e nos brindar com sua beleza e elegância!</p><p>- Está bem, na próxima vez que eu for convidada, prometo que farei o possível</p><p>para comparecer.</p><p>Assim as mulheres se convenceram de que Verônica estava somente mantendo o</p><p>luto, desistiram de fazer mais perguntas e foram embora, para alívio da anfitriã.</p><p>Após a saída das duas, a dona da casa trancou-se em seu quarto e um sentimento</p><p>de perda momentaneamente se apossarou dela. -“Então o Sr. Murphy se</p><p>recuperou e está desfilando nos salões com uma bela dama. Ah, já posso</p><p>imaginar quem é a “dama”! Eu hei de acertar as contas com ele, afinal, fez-me</p><p>juras de amor quando estava paraplégico e agora recuperado, desfila com outra!</p><p>Que acinte!”</p><p>No domingo após a missa, o padre como de costume despedia-se dos fiéis à</p><p>porta da igreja. Ao cumprimentar Verônica convidou-lhe a participar da</p><p>quermesse que realizar-se-ia no domingo seguinte. Ela chegou a pensar em</p><p>recusar, mas lembrou das visitantes e decidiu confirmar presença.</p><p>Durante a semana, todos os membros da comunidade empenharam-se em</p><p>enfeitar barracas e preparar toda sorte de brincadeiras e comes e bebes para a</p><p>quermesse. E o Domingo chegou…</p><p>Os Bordeaux em trajes típicos franceses montaram a barraca de canelé, doce</p><p>francês, muito apreciado na região.</p><p>A certa altura da festa, Verônica saiu para apreciar as outras barracas e provar</p><p>outras delícias. Porém, mesmo em meio a multidão, avistou Carl, conversando</p><p>divertidamente com Simon e Chirstin. A mesma passou por eles com ar</p><p>despretensioso e fingiu não vê-los. Ao avistá-la, Carl sentiu-se esperançoso e</p><p>desejoso de reiniciar aquilo que fora desfeito sem justificativa, mas a dama nem</p><p>sequer o olhou. Neste momento, a festa acabou-se para ele e retornou para casa</p><p>angustiado. O amigo que o acompanhava questionou seu comportamento,</p><p>desconhecendo os fatos e Carl apenas lhe disse: - Amigo, aquela mulher é o</p><p>amor de minha vida. Quando do acidente, permaneceu a meu lado durante todo o</p><p>período do coma e fugiu de mim devido a uma situação duvidosa e não procurou</p><p>a verdade. E veio-se embora, sem qualquer explicação.</p><p>James que desconhecia a verdade sobre as atitudes de ambos, tentou consolar o</p><p>amigo, mas não havia muito o que fazer, visto que o mesmo desejou ficar</p><p>sozinho, embora agradecido pela preocupação do amigo.</p><p>Verônica, após passar por Carl, verificou o estado emocional que causara no</p><p>amado e regozijara-se pela vitória.</p><p>Após este evento, abandonou o luto e todos os eventos para os quais era</p><p>convidada, comparecia, sempre com vestidos deslumbrantes e continuava a ser</p><p>cortejada pelos viúvos e solteirões presentes. Quando Carl se encontrava</p><p>presente, consumia-se pelo ciúme e pela dor da injustiça e não encontrava meios</p><p>de explicar a mulher amada que tudo não passara de um equívoco.</p><p>Até que um dia, no auge de seu desespero, Carl lembrou-se da visita de</p><p>Madeleine ao hospital e decidiu escrever a ela e pedir misericordiosamente que</p><p>entrasse em contato com a prima e esclarece a situação. Madeleine ao ler a</p><p>missiva do pretendente da prima, não conteve-se e pensou em voz alta: - “Ah,</p><p>minha prima, seu orgulho está na frente de seu coração e pode lhe trazer muita</p><p>tristeza. Preciso lhe ajudar”.</p><p>- Tia Verônica, mamãe mandou dar isto para a senhora.</p><p>A pequena Sophie já contava com três anos e adorava a tia. Era uma carta de</p><p>Madeleine relatando a visita que fizera ao enfermo o hospital e lhe relatou</p><p>exatamente o que ele falara. Verônica parou de ler, questionando-se sobre a</p><p>suposta injustiça que cometera com Carl e por consequência a si mesma. Após</p><p>contar as novas de Paris, mais um trecho em especial lhe chamou a atenção. -</p><p>Fui na loja de artigos para bordar que você costumava ir e o proprietário pediu-</p><p>me que lhe desse um recado, que aliás, não entendi nada. Disse ele: Por favor,</p><p>avise a sua prima que todos na América estão felizes e que ela</p><p>não me deve</p><p>nada.</p><p>O mundo pareceu desabar naquele momento. Verônica percebeu que cometera</p><p>uma enorme injustiça com o homem amado e não tinha a menor ideia de como</p><p>retratar-se. Antes do jantar, brincando com a sobrinha, a mesma lhe revelou o</p><p>que fazer.</p><p>- Tia Verônica, estas duas bonecas brigaram, mas como eu não gosto de brigas,</p><p>coloquei as duas na mesma caixa até elas fazerem as pazes e agora está tudo</p><p>bem.</p><p>Os olhos da tia marejaram-se e precisou disfarçar para que a criança não</p><p>percebesse sua emoção.</p><p>Num domingo não muito distante, Mary Ann mandara rezar a missa de quatro</p><p>anos do falecimento de seu marido e toda a comunidade fora à igreja como</p><p>mandava o costume. A família do falecido sentara-se na primeira fila e em</p><p>determinado momento Carl olhou atrás de si e avistou a família Bordeaux. A</p><p>partir deste momento teve certa dificuldade em concentrar-se nos rituais, mas</p><p>quando da homilia do padre, não pode deixar de assimilar as palavras como se</p><p>dirigidas a ele.</p><p>- Queridos irmãos, encontramo-nos hoje em nome daquele que foi um grande</p><p>colaborador desta comunidade. Um homem que nunca mediu esforços para</p><p>amparar os necessitados, fosse com uma oferta de emprego, com a organização</p><p>de um mutirão para a construção de casas ou até mesmo com um simples</p><p>conselho ou palavra amiga. Sir Alexander Murphy foi um dos homens mais</p><p>atuantes e honrados de nossa comunidade e por conta disto a Rainha o agraciou</p><p>com o título de nobreza que homenageou a ele próprio e a seu bisavô, o também</p><p>amado Sir Richard Charleston que nos deixou antes de receber tal comenda. Mas</p><p>Sir Alexander foi mais do que minhas simples palavras conseguem descrevê-lo.</p><p>Foi um exemplo de perseverança e determinação. Um homem obstinado que não</p><p>temeu lutar por seus objetivos, mesmo os mais ousados como sua união com</p><p>jovem mais cobiçada da cidade, a Srta. Mary Ann Evans. Graças à persistência e</p><p>inúmeras provas de retidão, o jovem Alexander conquistou primeiramente o</p><p>respeito do pai da jovem e após seu coração. A felicidade que ambos</p><p>encontraram juntos contaminou a muitos outros casais, como prova de que o</p><p>verdadeiro amor tudo pode e até mesmo realiza milagres. E este deve ser o</p><p>melhor legado que ele nos deixou. O de ser um homem que não teve medo de</p><p>litar e amar. Que Deus o mantenha junto de si. Amém.</p><p>Lágrimas corriam dos olhos de Mary Ann, Esther e de outra mulher sentada atrás</p><p>das mesmas. Carl engoliu suas lágrimas temendo parecer fraco caso as</p><p>libertasse, porém quando seu olhar encontrou com os de Verônica, não mais se</p><p>conteve e pelo belo rosto do homem grossas lágrimas escorreram.</p><p>Na saída da igreja a família Muyphy se manteve à porta a fim de agradecer a</p><p>presença e todos e despedir-se pessoalmente de cada participante da cerimônia.</p><p>Quando o casal se viu frente a frente, tomado por uma súbita coragem, toma a</p><p>liberdade e se estende na despedida: - Sra. Vilenev, gostaria de agradecer-lhe por</p><p>tudo o fez por mim. Não fosse pela Sra., eu não teria sobrevivido…soube pelo</p><p>Dr. Gilbert o motivo de sua partida para a Inglaterra e gostaria de ter uma nova</p><p>chance de desfrutar alguns momentos em sua companhia.</p><p>Devido à seriedade da cerimônia e a paz que o ambiente gerava, Verônica</p><p>encontrava-se totalmente desarmada e somado ao peso na consciência pela</p><p>injustiça cometida, sem perceber respondeu que ele poderia visitá-la.</p><p>Extasiado de felicidade o homem agradeceu e despediu-se efusivamente de todos</p><p>seus familiares causando certa desconfiança nos homens da família.</p><p>Já em casa, Jean Jaques questiona a atitude da filha.</p><p>- Não entendi sua atitude minha filha. Soube que o Sr. Murphy é um novo</p><p>homem, mas, ainda assim, não vejo motivo para convidá-lo á nossa casa.</p><p>- Papai, será que o Sr. não ouviu nada do que o padre falou? O coitado está</p><p>visivelmente com os sentimentos em frangalhos devido a todos os</p><p>acontecimentos dos últimos anos, a começar pela perda do pai. Além do mais,</p><p>passei a conhecer melhor o Sr. Murphy enquanto esteve internado no hospital em</p><p>Paris. Visitava-o com certa frequência e quando retornei, ele estava preso a uma</p><p>cadeira de rodas com pouquíssimas chances de voltar a andar. Ele deve ter feito</p><p>um esforço sobre-humano para superar as sequelas do acidente e ainda ao</p><p>retornar para casa, retomou a administração das terras da família e pelo que ouvi</p><p>dizer, revelou-se um excelente administrador. Papai, eu bem sei do passado deste</p><p>homem, mas todos temos direito a uma nova chance. Veja Armand, acaso por ser</p><p>seu filho, as faltas que cometeu são menores que a dos outros? Não estou</p><p>condenando meu irmão, de forma alguma, mas ele é o exemplo mais próximo a</p><p>nós, de que uma pessoa que recebe uma nova oportunidade, se transforma!</p><p>No dia seguinte, pela manhã, Verônica recebe um ramalhete de flores do campo</p><p>com um cartão. O entregador diz que aguardará a resposta imediata.</p><p>- “Sra, seria muito ousado de minha parte aceitar seu convite amanhã à tarde?</p><p>Respeitosamente, Carl Murphy”</p><p>A dama novamente dividida entre razão e emoção, foi até o rapaz (que admirava</p><p>os jardins com o entusiasmo de uma criança) e lhe dirigiu a palavra com a</p><p>serenidade de uma brisa:</p><p>- Diga ao remetente que minha resposta é sim.</p><p>- Obrigada Sra. e perdoe-me o inconveniente do horário. Adeus.</p><p>Quando não podia mais ser vista, correu para o quarto e deitou-se em sua cama</p><p>abraçada às flores que acabara de receber, tal como uma adolescente vivendo o</p><p>primeiro amor.</p><p>O amor não tem idade, nem sexo, nem limites, nem pudores. O amor é apenas</p><p>sentimento que se sente, que nutre o corpo, abastece a alma e dá colorido à vida.</p><p>Feliz daqueles que têm o privilégio de viver o verdadeiro amor!</p><p>Após o jantar, comunica à família de que receberá a visita do cavalheiro na tarde</p><p>seguinte.</p><p>O pai sentiu-se na obrigação de deixar claro sua posição.</p><p>- Minha filha, os últimos anos transformaram nossas vidas e até o momento</p><p>penso que para melhor. Esta noite, consulte seu coração e sua consciência para</p><p>fazer o que é certo e não vir a arrepender-se depois. Mas não esqueça de que,</p><p>não importa o que aconteça, seu velho pai sempre estará aqui.</p><p>- Obrigada meu pai. Se todos me dão licença...</p><p>Como de costume, aconselhou-se com seu melhor amigo: o velho e silencioso</p><p>companheiro. O bordado cuidadosamente depositado na espreguiçadeira da</p><p>varanda aguardava aquela que lhe dava vida. Aquele que um dia fora apenas um</p><p>tecido branco, aos poucos tornava-se uma obra-prima e aceitava pacientemente</p><p>todo e qualquer motivo que sua artesã lhe destinasse.</p><p>Um turbilhão de pensamentos gira na cabeça da mulher apaixonada neste</p><p>instante, relembrando a última vez em que visitara Carl no hospital.</p><p>A simples lembrança daquela mulher ao seu lado lhe gera uma angústia sem par.</p><p>-“Até que ponto estaria pronta para perdoá-lo? Teria ele realmente merecimento</p><p>para tal”? Mas outra voz lhe sussurava: “O tempo já deu suas provas de que,</p><p>assim como você mudou e se tornou mais forte e determinada, seu amado</p><p>tornou-se um homem de bem, dedicado à família, amoroso e responsável. O que</p><p>esperas mais?”</p><p>Verônica sabedora que no dia seguinte teria de tomar uma decisão, prepondera a</p><p>cerca da mesma, pois dela dependerá deu futuro. Se reconhecer este amor e</p><p>passar uma borracha sobre o passado, ou dar ouvidos a seu orgulho e dizer</p><p>adeus. Mas seu coração teme sentir o gosto amargo da despedida. Uma</p><p>despedida sem chegada… uma flor que morre sem desabrochar…</p><p>Decidida a acordar com boa aparência recolhe-se a seu quarto na tentativa de</p><p>dormir e tentar não pensar no futuro. Ledo engano. Sua noite foi recheada de</p><p>pesadelos aonde seu amado aproximava-se e quando prestes a tocá-la, sua</p><p>imagem desvanece-se como pó. Já estava quase amanhecendo quando decide</p><p>levantar-se e tomar um chá calmante que a mãe lhe ensinara e somente então</p><p>conseguiu dormir em paz.</p><p>Em poucas horas o calor do verão adentrou por todos os quartos fazendo com</p><p>que todos não suportassem mais ficar à cama. Menos Verônica que abatida, não</p><p>sentia forças para sair da cama. Após os homens retirarem-se para o trabalho,</p><p>desceu as escadas e a cunhada chocou-se ao ver seu semblante apático e as</p><p>profundas</p><p>trouxa?</p><p>- Ora não me amole. Abra esta garrafa e vamos beber. Hoje não estou para</p><p>conversa. Vim aqui para beber e nos amarmos!</p><p>2 O galpão que era utilizado como oficina do ferreiro ficava ao lado da casa da</p><p>família, permitindo assim, a constante comunicação entre os membros.</p><p>CAPÍTULO III</p><p>Alguns dias depois Mary Ann recebe um convite. Envelope bordado, branco e</p><p>dentro dele papel finíssimo, adequado aos padrões da época, escrito em letras</p><p>douradas:</p><p>“Sir Laurence Marksuel e esposa convidam Vsa. e filho para o noivado de sua</p><p>filha Rosimeri. A cerimônia realizar-se-á na casa de campo da família em 20 de</p><p>dezembro próximo, às 20 hr.”</p><p>Exultante, chama o filho:</p><p>- Carl! Veja só, fomos convidados para o noivado da menina Rosimeri! Os</p><p>Marksuel lembraram de nós! Afinal nem tudo está perdido!</p><p>- Ora mamãe, não vejo motivo para tanta felicidade. Vai ser mais umas daquelas</p><p>festas enfadonhas aonde a senhora tenta fazer-me interessar por uma das filhas</p><p>de suas amigas...Até lá verei se poderei comparecer.</p><p>- Mary Ann olhava para o filho com tristeza por ele e por si mesma.</p><p>Seu filho não compreendia a urgência e inquietude que lhe perpassavam o</p><p>coração…</p><p>Neste ínterim, na casa de campo dos Marksuel:</p><p>- Papai, eu faço questão que minhas amigas compareçam ao meu noivado, afinal</p><p>EU sou a noiva e tenho direito de decidir meus convidados.</p><p>- Minha filha, desde criança sua mãe e eu percebemos que você tem um certo</p><p>apreço por pessoas de um nível social aquém do nosso. São pessoas certamente</p><p>honestas e honradas pelo que sei, mas ainda assim, não estão à altura de tamanho</p><p>evento! Não pertencem ao nosso círculo de amizades. Que você queira passear</p><p>pelos campos a mexericar com suas amigas não me oponho, mas daí a convidá-</p><p>las para sua festa de noivado… Um evento social desta magnitude requer que</p><p>cada detalhe seja perfeito e, nem sabemos se estas pessoas têm sequer vestes</p><p>adequadas a ocasião! E seu noivo? Irá se desgostar de saber que você mantém</p><p>estas amizades. Talvez até desista do casamento. Pense bem.</p><p>- Papai, se meu noivo não aceitar minhas amizades então é ele quem não serve</p><p>para mim. Talvez o senhor não tenha percebido, mas já tenho idade suficiente</p><p>para fazer minhas próprias escolhas e acaso errada estiver, para arcar com as</p><p>consequências também.</p><p>A mãe que até então permanecera calada, cansada da arrogância de seu marido,</p><p>vai em defesa da filha:</p><p>- Meu marido, se me permite a palavra, acho que devemos dar um voto de</p><p>confiança a nossa filha. Afinal ela já não é mais uma criança e quando nos</p><p>casamos tínhamos a idade dela lembra-se?</p><p>- Desta vez tenho que concordar com a senhora. Mas que sejam convidadas</p><p>somente as moças que tenham um comportamento impecável, pois ao menor</p><p>deslize não titubearei em pô-las para fora no mesmo instante!</p><p>- Obrigada papai! Eu sabia que o senhor reconsideraria.</p><p>E assim, Rosimeri White Marksuel sai correndo como uma menina para</p><p>pessoalmente convidar suas “convidadas especiais”.</p><p>- Christofer, tem alguém chegando, vá ver de quem se trata!</p><p>- Boa tarde Srta. Rosimeri, que surpresa em vê-la.</p><p>- Boa tarde Christofer. Verônica está em casa? Preciso falar-lhe com urgência!</p><p>- Claro que sim. Ela está preparando nosso jantar. Vá até lá. Foi um prazer revê-</p><p>la.</p><p>Rosimeri mal ouviu o rapaz, pois dirigiu-se à cozinha para ter com sua melhor</p><p>amiga.</p><p>Verônica estava preparando um cozido, prato predileto de seu pai e tão entretida</p><p>nesta tarefa nem percebeu a chegada de Rosimeri.</p><p>- Boa tarde Verônica!</p><p>Ao perceber o susto da amiga, tratou de desculpar-se mas não a tempo de evitar</p><p>que a mesma queimasse a mão no caldeirão de ferro.</p><p>- Oh por favor me perdoe, minha mãe tem razão quando diz que sou toda</p><p>atrapalhada…</p><p>Verônica ao ver o olhar de arrependimento da amiga, logo tratou de enrolar a</p><p>mão no avental molhado e lhe deu um caloroso abraço.</p><p>- O que é isto Rosimeri? Eu é que estava desatenta. Você não teve culpa</p><p>nenhuma por este pequeno acidente.</p><p>- Venha, sente-se aqui e me conte o que a trouxe a estas horas?</p><p>Novamente empolgada, Rosimeri conta a amiga sobre o noivado e lhe faz o</p><p>convite.</p><p>Após alguns momentos de hesitação, Verônica, com um carinho maternal</p><p>declarou:</p><p>- Querida, desde que sua família comprou esta propriedade, me afeiçoei a você</p><p>como uma irmã mais velha. Me sinto honrada ao ser convidada para evento de</p><p>tamanha magnitude e importância, mas não tenho trajes adequados para tal.</p><p>- Eu já pensei nisto também. Minha mãe tem dezenas de vestidos que já não usa</p><p>e todos vieram da França! Ela me autorizou a lhe emprestar o que você escolher.</p><p>- Ainda assim, meu pai não me permite sair sem a sua companhia ou a de meu</p><p>irmão, você sabe.</p><p>- Pode deixar isto comigo. Jantarei com vocês hoje e tenho certeza de que</p><p>convencerei o velho Jean Jaques!</p><p>- De você eu não duvido nada mesmo…</p><p>E assim ocorreu. O poder de persuasão de Rosimeri era mesmo fantástico.</p><p>No dia seguinte Verônica foi até a casa dos Marksuel e acabou escolhendo um</p><p>modelo rosa, o mais discreto que pode encontrar.</p><p>A outra convidada foi Bella, uma menina pouco mais velha que Rosimeri, com</p><p>sardas que lhe davam um ar de boneca. Filha de pequenos comerciantes, ao</p><p>contrário de Verônica, tinha a ambição de encontrar em meio aos mais abastados,</p><p>um pretendente que lhe proporcionasse uma vida de luxo e glamour.</p><p>O dia do noivado se aproximava e Carl não se encontrava disposto a se submeter</p><p>aos olhares e comentários da sociedade feudal, assim partiu para a casa de Lisa</p><p>May, a fim de matar as saudades da amante.</p><p>- Então a mamãe ainda não encontrou uma “noivinha” adequada para o seu</p><p>bebezinho…</p><p>Lisa divertia-se com a situação de Carl e o tratava com deboche e desrespeito</p><p>típicos de uma mundana, revelando a Carl seu verdadeiro caráter.</p><p>Até o falecimento de seu pai, Lisa May mantinha outro comportamento.</p><p>Envolveu Carl em uma teia de mentiras com um único objetivo: Unir-se a ele e</p><p>herdar toda a fortuna da família, porém quando percebeu que jamais passaria de</p><p>uma “amante”, decidiu mudar seus planos e atitudes.</p><p>De sua parte, Carl percebera a mudança da mulher, porém, estava enfeitiçado por</p><p>seus carinhos e não se sentia confortável em abandoná-la. Mesmo sabedor de seu</p><p>mau caráter, ainda era a única pessoa com quem podia desabafar.</p><p>Mas já não possuía meios de manter as extravagâncias de Lisa, visto as finanças</p><p>da família estarem cada vez mais parcas e embora se considerasse homem</p><p>experiente, jamais suspeitou que o interesse de Lisa não passava do vil metal.</p><p>Assim, ambos embebedaram-se, amaram-se e caíram em sono pesado pouco</p><p>antes do amanhecer.</p><p>Quando despertou, Lisa havia saído. Ainda atordoado com a bebida da noite</p><p>anterior, vestira-se e rumara para casa.</p><p>Em um bilhete sobre a mesa somente um recado: Fui às compras.</p><p>CAPÍTULO IV</p><p>Há uma semana do noivado de Rosimeri, Verônica remexe no baú da mãe a</p><p>procura dos acessórios que combinem com o vestido doado pela mãe da noiva.</p><p>Logo encontra os sapatos que a mãe usara no próprio casamento. Um par de</p><p>sapatos brancos forrados de fino cetim e que foram usados somente naquela</p><p>ocasião.</p><p>O tempo amarelara o tecido, mas a mãe lhe ensinara uma fórmula para tingir</p><p>tecidos e decidiu utilizar.</p><p>Como o dia estava ensolarado seria rápido o processo.</p><p>Assim, na noite do evento, às 19:45 hs. O cocheiro dos Marksuel já se</p><p>encontrava em frente a casa de Verônica a fim de levá-la como combinado.</p><p>Peter, meu velho, você está levando o maior tesouro que possuo. Trate de trazê-</p><p>la às 22:30. Caso não o faça, saberá a força que ainda possuo em meu braço!</p><p>Verônica estava linda. O vestido longo de ceda e rendas de um tom de rosa</p><p>discreto, combinando com os sapatos forrados praticamente da mesma cor,</p><p>deram a ela a elegância e requinte de uma verdadeira nobre.</p><p>Muitos olhares se voltaram para sua figura que, embora já contasse com idade</p><p>avançada para uma mulher solteira, ainda mantinha a pele de pêssego e no olhar</p><p>a pureza virginal.</p><p>Bella já se encontrava na casa e ao vê-la não conteve sua admiração.</p><p>- Verônica, sua trapaceira! Você está mais bonita e elegante que a mãe da noiva!</p><p>Como fez isto?</p><p>- Ora</p><p>olheiros abaixo dos olhos. Com carinho, acompanhou-a em seu</p><p>desjejum e somente após ter certeza que estava bem alimentada, tocou no</p><p>assunto.</p><p>- Verônica, não podes receber seu pretendente com esta aparência! Algo teremos</p><p>de fazer!</p><p>- Não se preocupe minha querida, falou calmamente, minha prima Madeleine</p><p>ensinou-me uns truques de tratamento da pele para momentos como este. Pode</p><p>ficar tranquila que à tarde estarei com a pele esplêndida.</p><p>Solicitou à criada que colhesse uma determinada planta no quintal, ferveu</p><p>algumas flores e levou o recipiente ao retornar aos aposentos.</p><p>Devido ser verão e o dia estar mais abafado que o normal, decidiu usar um</p><p>vestido de tecido leve, branco. Quando Carl chegasse, Verônica estaria com a</p><p>pele fresca como orvalho, as faces coradas e o olhos brilhantes e claros como um</p><p>amanhecer ensolarado.</p><p>Às 14:00 ouve-se as rodas de uma carruagem aproximando-se da entrada</p><p>principal do solar. Carl estava igualmente de branco, pelos mesmos motivos que</p><p>Verônica e tentava disfarçar o suor que lhe corria pelas têmporas. Muitos</p><p>pensariam ser devido ao calor do dia, mas somente seu íntimo sabia quanta</p><p>ansiedade carregava ao aguardar este encontro. Também não dormira bem à</p><p>noite, mas não pelos mesmos motivos e sim pela velocidade com que seu</p><p>pensamento divagava nos planos que sonhava para os dois.</p><p>Ao tocar a sineta, surge o mordomo que o recebe com a elegância, cortesia e</p><p>frieza dos ingleses. Carl preferiu esperar em pé no hall de entrada, desejando que</p><p>o mordomo não percebesse seus joelhos a tremer. Mas sua espera foi pouca, pois</p><p>em poucos minutos vislumbrava a figura da mulher amada. Em seu vestido</p><p>branco, leve, esvoaçando ao vento da janela, parecia-lhe a figura de uma deusa</p><p>grega. Linda, altiva e inatingível.</p><p>- Boa tarde Sr. Murphy, perdoe-me se o fiz esperar.</p><p>Ao beijar sua mão as palavras lhe fugiram dos lábios como se alguém falasse por</p><p>ele.</p><p>- Sua beleza me faz perder as palavras Sra. Não aguardei por mais de dois</p><p>minutos, mas aguardaria dois anos se preciso fosse, somente pelo prazer que</p><p>meus olhos sentem ao ver sua figura.</p><p>- Vamos ao jardim aonde poderemos conversar a vontade.</p><p>Ambos saíram pela porta da frente caminhando lado a lado e logo se</p><p>encontravam no primeiro jardim.</p><p>No primeiro momento, mantiveram a conversa mais formal, evitando</p><p>transparecer um ao outro os verdadeiros sentimentos. Porém em pouco tempo</p><p>passaram a falar de suas infâncias e peraltices, o que gerou agradáveis</p><p>lembranças e risos. Após adentrarem ao jardim das rosas, uma mesa estava posta</p><p>sob um caramanchão coberta por refresco e guloseimas. Ambos sentaram e</p><p>saborearam os quitutes feitos pela exímia cozinheira contratada, porém</p><p>mantendo o diálogo leve e agradável. A cunhada que brincava com Sophie em</p><p>um balanço à sombra alguns metros do casal, não pode deixar de perceber que</p><p>ambos estavam apaixonados e que formavam um lindo par.</p><p>- Sra. Vilenev, não quero parecer ousado e atrevido, mas sua companhia traz-me</p><p>lembranças muitíssimos agradáveis. Embora tenha permanecido em leito</p><p>hospitalar, ainda assim, agradeço pelo acidente que nos aproximou. Ao seu lado</p><p>sinto que o tempo para, e que nenhum problema seria capaz de tirar-me o humor.</p><p>Toca-lhe delicadamente na ponta dos dedos que estão sobre a mesa e um arrepio</p><p>lhes percorre os corpos. Verônica porém controla-se bem mais que o amado.</p><p>- Sr. Murphy, sua companhia me é deveras agradável, mas creio ser demasiado</p><p>cedo para falarmos destes assuntos, afinal, mal nos reencontramos. Preciso ser</p><p>totalmente honesta com o Sr. Embora não negue meus sentimentos, também não</p><p>posso esquivar-me da grande mágoa que ainda sinto.</p><p>Na tentativa de adiar uma decisão, desconversa...</p><p>- O Sr. acaso aprecia orquídeas? Podemos admirá-las agora que já não está tão</p><p>quente.</p><p>O jardim das orquídeas era coberto, visto serem flores demasiadamente frágeis,</p><p>porém belíssimas. Digno de ser objeto de qualquer pintor. Ambos caminharam</p><p>vagarosamente admirando todas as espécies e embora Carl nada entendesse de</p><p>plantas ou flores, estava deslumbrado com tamanha variedade de cores e formas.</p><p>- Este jardim parece muito com a Sra. De beleza singular, aparentemente frágil,</p><p>mas escondendo uma força que só os sentidos mais apurados percebem…</p><p>A anfitriã corou ao ouvir tais palavras.</p><p>Num instante o mundo real os tirou do sonho que estavam vivendo com a</p><p>aproximação de Armand. Com passos e gestos truculentos, sequer</p><p>cumprimentou o convidado da irmã.</p><p>- Verônica, venha para dentro, papai já está chegando.</p><p>Envergonhada e procurando dissimular o mal-estar criado pela presença do</p><p>irmão, tentou amenizar a situação.</p><p>- Armand, espero que esteja bem. Não é normal estar em casa a esta hora. Em</p><p>princípio, preocupei-me com sua saúde, mas vejo que está muito bem, aliás, está</p><p>como sempre, pecando quanto a educação. Você esqueceu de cumprimentar o Sr.</p><p>Murphy.</p><p>- Boa tarde Sr., como tem passado?</p><p>- Bem, obrigado. Bem Sra. creio que está demasiado tarde para seguirmos</p><p>admirando seus jardins. Melhor será que acompanhe seu irmão a espera de seu</p><p>pai que não tardará em chegar. Meu cocheiro me apanhará em seguida. Vou-me</p><p>já ao encontro dele em seu portão.</p><p>Já dentro de casa, quando Verônica se viu sozinha com o irmão, deixou-se</p><p>dominar pelos verdadeiros sentimentos.</p><p>- O que está acontecendo Armand? Diga-me? Acaso tenho 15 anos e necessito</p><p>ser vigiada 24 horas por dia?</p><p>- Vocês não percebem que por culpa de vocês, sim, de papai, você e Christofer</p><p>estou com esta idade e NUNCA fui cortejada?! Fui obrigada a casar-me com</p><p>Bertrand para manter limpo o nome de nossa família e paguei pelos erros que</p><p>VOCÊ cometeu! Agora que temos uma vida melhor, mais confortável e com</p><p>menos problemas, eu não tenho o direito de sequer conversar com um homem?</p><p>Com licença, acabo de ficar com uma terrível dor de cabeça.</p><p>Homero estava preparando a carruagem para buscar o patrão quando viu o</p><p>mesmo se aproximando. Devido ao calor, retirara o paletó e o colete e puxara as</p><p>mangas da camisa ensopada de suor pela longa caminhada. Mary Ann surpresa</p><p>ao ver o filho tão cedo, tratou de inteirar-se do ocorrido e cobriu o filho de</p><p>perguntas.</p><p>- Mamãe, não lembro de ter caminhado tanto em toda minha vida. Estou com os</p><p>pés em frangalhos. Vou banhar-me e dormir. Não se preocupe com o jantar. Fiz</p><p>um lanche que mais parecia um banquete e estou sem fome.</p><p>- Mas Carl, diga-me ao menos se foi bem recebido pelos Bordeux.</p><p>- Mamãe, apesar de todos os erros que cometi em minha vida, nunca lhe faltei</p><p>com a verdade e não pretendo fazê-lo agora. Estou enamorado pela Sra. Vilenev</p><p>e desejo ardentemente conquistá-la pela pessoa que é e não pelas posses que</p><p>possui.</p><p>Mary Ann agradeceu aos céus e acabou por falar sozinha. - “Finalmente meu</p><p>filho está enamorado por uma moça decente”!</p><p>Após o desabafo com o irmão, Verônica toma demorado banho e coloca um leve</p><p>vestido para o jantar. Após o mesmo, sem qualquer palavra dos integrantes da</p><p>família sobre seu visitante, ela retoma seu bordado e pensa em Carl. Soube que</p><p>ele tornou-se um excelente administrador e que é amado pelos empregados, pela</p><p>generosidade com que os trata. Teria sido feliz ao casar-se com ele? Certamente</p><p>que sim, dizia seu coração, que somente conheceu o amor nas palavras de um</p><p>homem: Carl Murphy.</p><p>As palavras de Verônica atingiram Armand como uma flecha e o mesmo ficou</p><p>totalmente sem reação ao descobrir a verdade sobre o casamento da irmã. À</p><p>época chegou a questionar ao pai e o mesmo limitou-se a responder-lhe: Ainda</p><p>estou bastante lúcido para tomar minhas próprias decisões e embora você não</p><p>tenha condições de entender agora, um dia agradecerá a mim e a sua irmã. Neste</p><p>momento o pai chega e o filho antes de cumprimentá-lo, revela a conversa que</p><p>teve com a irmã e lhe pede explicações. Jean Jaques imaginava que jamais</p><p>tocaria neste assunto novamente e percebeu que o passado lhe cobrava velhas</p><p>atitudes. Manda chamar Verônica e Christofer e os quatro vão ao escritório para</p><p>uma séria conversa.</p><p>- Meus filhos, julguei que este momento jamais chegaria mas devo ser honesto e</p><p>justo. Verônica, fiz tudo o que pude para</p><p>mantê-la afastada do Sr. Murphy, pois</p><p>suas atitudes pretéritas eram abomináveis e não desejava que você sofresse. No</p><p>entanto, obriguei-a a casar-se com Bertrand para impedir que ele revelasse as</p><p>atrocidades cometidas por Armand quando na “gerra santa” e a fiz sofrer muito</p><p>mais. Hoje, o passado bateu em nossa porta e eu, ao invés de me tornar mais</p><p>tolerante diante de todo sofrimento que lhe causei, não somente mantive minha</p><p>posição contra o Sr. Murphy, como influenciei seus irmãos a impedirem uma</p><p>nova aproximação. Tenho provas mais que suficientes que o Sr. Murphy é um</p><p>novo homem e mantive-me irredutível em admitir, tornando a errar. Assim,</p><p>preciso pedir-lhe perdão por todo sofrimento que lhe causei e promete-lhe que, a</p><p>partir de hoje, não mais interferirei em seus planos.</p><p>Armand jogou de lado todo seu orgulho e abraçou-se a irmã aos prantos</p><p>pedindo-lhe perdão.</p><p>Enquanto isto, na residência dos Murphy...</p><p>- Meu filho, estou muito orgulhosa de seu trabalho e da maneira como vem</p><p>conduzindo nossas terras desde que voltou da França. Enquanto a maioria dos</p><p>senhores estão perdendo seus feudos, você não somente recuperou o que</p><p>havíamos perdido, como ampliou nosso território. Seu pai, aonde quer que</p><p>esteja, sente o mesmo que eu, tenho certeza. Porém percebo uma certa</p><p>melancolia em seu olhar. Será que sua velha mãe não pode ajudá-lo?</p><p>- Mamãe, a senhora sabe que o sistema feudal está em franca decadência. A Sra.</p><p>mesma passou a não se importar de não possuir título de nobreza! Hoje, não</p><p>necessito de um título, sou um fazendeiro e muito bem-sucedido, graças a Deus!</p><p>Obrigado por seu reconhecimento e suas palavras, mas quanto a minha tristeza</p><p>ninguém pode fazer nada. Revelei-lhe anos atrás que ao tentar conquistar a Srta.</p><p>Bordeaux, visando apenas nossos interesses, fui castigado apaixonando-me</p><p>verdadeiramente por ela. E mal tive a chance de lhe revelar meus profundos</p><p>sentimentos. Após o acidente, ela mostrou-se generosa e caridosa,</p><p>acompanhando-me em cada etapa de meu tratamento. Mas devido ao infortúnio,</p><p>no dia em que Lisa May fora ao hospital despedir-se, pois estava embarcando</p><p>para a América, a Sra. Vilenev nos avistou de longe e devido ao meu passado</p><p>deduziu que eu a traíra retomando meu romance com aquela mulher. Estou</p><p>envelhecendo e não deixarei herdeiros, mas se ela estivesse ao meu lado eu seria</p><p>o homem mais feliz do mundo.</p><p>- Ah meu querido, a culpa é toda minha! Por ambição forcei-o a tal conquista e</p><p>hoje estamos ambos sendo punidos por isto. Você, por não viver seu grande amor</p><p>e eu, por não ter netos e pior, ver o sofrimento de meu filho e nada poder fazer a</p><p>respeito. Agora vamos dormir meu filho que amanhã será um novo dia e, quem</p><p>sabe, não nos trará gratas surpresas? Boa noite.</p><p>Após o dia mais que conturbado, culminando na revelação do pai, após o jantar,</p><p>todos decidiram se recolher mais cedo, inclusive Verônica que tocou em seu</p><p>bordado, mas sem coragem de continuá-lo, após profundo suspiro, recolheu-se a</p><p>seus aposentos e adormeceu com um sorriso, sonhando com seu amor…</p><p>Na semana seguinte, decide passar mais uma temporada na fazenda do tio e</p><p>embora soubesse que o fazia para evitar de tomar sua decisão pois não sentia-se</p><p>preparada para tal.</p><p>Como sempre, fora muito bem recebida e sentia-se em casa naquela fazenda. Lá</p><p>era seu refúgio. O lugar que lhe acolhera em seus melhores e piores momentos</p><p>de sua vida e, devido a isto, sentira-se atraída a retornar.</p><p>Madeleine, imediatamente a chegada da prima, percebeu que algo estava errado</p><p>e no momento certo, foi ter com a mesma.</p><p>- Minha querida, sabe que adoro sua companhia, me percebo que está aqui em</p><p>corpo, mas sua mente e coração estão muito longe. Gostaria de ajudá-la, se</p><p>puder.</p><p>Verônica que não guardava segredos da prima, revelou-lhe sua angústia e</p><p>Madeleine não pode deixar de achar graça da situação.</p><p>- Desculpe Verônica, mas não creio que uma mulher que passou por tudo o que</p><p>passou, nestas alturas da vida, esteja ainda dividida! Qualquer criança percebe</p><p>que você e o Sr. Murphy se amam e que ambos somente serão realmente felizes</p><p>juntos.</p><p>- Não tenho tanta certeza… Eu até pensei que tinha, mas a atitude de Armand</p><p>naquela tarde, me fez pensar que talvez ele saiba de algo que desconheço e senti-</p><p>me insegura.</p><p>- Está bem. Fique aqui o tempo que desejar, mas preciso que saiba que quando o</p><p>Sr. Murphy soube que você voltou para a Inglaterra magoada por um equívoco,</p><p>ficou desesperado e eu, na tentativa de colocá-lo à prova, desafiei-o dizendo que</p><p>ele somente lhe reconquistaria se voltasse a andar e provasse a você o homem</p><p>em que se tornou. Sua recuperação foi espantosa e os próprios médicos custaram</p><p>a crer na rapidez com que se recuperou. Hoje eu tenho certeza querida que ele o</p><p>fez somente por seu amor. Agora, fique com seus pensamentos e pese bem os</p><p>dois lados da balança. Boa noite.</p><p>Na tarde seguinte estava a bordar na varanda recebeu uma missiva:</p><p>“- Verônica, venha para o Solar, seu pai está gravemente doente. Emanuelle”.</p><p>No mesmo momento arrumou suas roupas em baús e comunicou o ocorrido à</p><p>prima dizendo que não sabia quando voltaria. Tomou o primeiro trem e pela</p><p>manhã chegou a casa do pai. Bella, a mais sensível, estava em prantos e</p><p>Emanuelle tentava consolá-la ao mesmo tempo que cuidava da pequena Sophie.</p><p>Verônica foi diretamente ao quarto do pai aonde estavam os dois irmãos</p><p>ladeando a cama. Jean Jaques ao ver filha teve um lampejo de lucidez e pediu</p><p>que lhe desse a mão.</p><p>Meus filhos, eu tive uma vida dura mas fui muito feliz por ter gerado vocês três.</p><p>Verônica, minha pequena princesinha, herdou a coragem e iniciativa da mãe,</p><p>porém eu não permiti que seguisse seu coração como sua mãe o fez e lhe causei</p><p>infelicidade. Armand, o destemido, que já ao nascer era forte como um bezerro e</p><p>sugava sua mãe até enfraquecê-la e Christofer, meu caçula, foi meu companheiro</p><p>durante toda a vida. Pacato, sensato e prudente e ainda me deu uma neta que é</p><p>uma joia rara, a pequena Sophie. Peço a vocês que perdoem seu velho pai pelos</p><p>erros que cometi, principalmente a você Verônica. Orgulho-me do que vocês se</p><p>tornaram e hoje posso partir em paz, porque já ouço a voz de minha amada</p><p>Mildred chamando-me a ficar ao seu lado. Irei feliz. E seus olhos se fecharam</p><p>como que num sono profundo, sem sofrimento e sem dor. Os filhos abraçaram-se</p><p>ao corpo do pai todos chorando e falando palavras desconexas devido ao choque,</p><p>mas aos poucos foram recuperando-se e Christofer foi o que teve mais</p><p>equilíbrio.</p><p>- Tendo em vista que fui eu quem passou mais tempo ao lao de papai, ele me</p><p>confidenciou como gostaria que fosse sua despedida. Peço a permissão de meus</p><p>irmãos para providenciar tudo.</p><p>Os irmãos concordaram de pronto, confiando que o mesmo realizaria a última</p><p>vontade do pai e sentindo-se culpados por passar tanto tempo longe do mesmo.</p><p>Os familiares da França vieram para os funerais e permaneceram até a missa de</p><p>sétimo dia como era da vontade de Jean Jaques.</p><p>Durante a missa, quando o padre declarou as intenções daquela cerimônia,</p><p>Verônica ficou paralisada ao ouvir que tratava-se do sétimo dia de falecimento</p><p>de seu pai e também de Mary Ann Evans Murphy. Isto significava que Carl</p><p>também estava na igreja e sofrendo o mesmo que ela.</p><p>Ao final da cerimônia Carl se encontrava a porta da igreja, acompanhado de sua</p><p>família de coração. Homero, Esther, Simon, Christin, Dic e sua pequena irmã</p><p>Mary Ann. Quando as famílias se encontraram, abraçaram-se em condolências.</p><p>Ao se verem frente a frente, Verônica e Carl apenas olharam-se profundamente e</p><p>palavra alguma foi dita. Deram-se as mão e saíram andando sem destino certo.</p><p>Neste momento nada era mais importante do que a companhia de um ao outro.</p><p>Todos ficaram a observá-los e sentiram a paz e tranquilidade que só o verdadeiro</p><p>amor possui.</p><p>Não muito distantes, Sir Alexander e Mildred, contemplavam a mesma cena.</p><p>- Parabéns minha amiga. Tivemos uma tarefa árdua, mas finalmente pudemos</p><p>unir nossos filhos.</p><p>- Eu sempre lhe disse que eles acabariam assim, você é quem não me acreditou.</p><p>Agora podemos voltar para o nosso verdadeiro lar, pois</p><p>nossa missão está</p><p>finalmente cumprida. Além do mais, preciso me preparar para meu regresso.</p><p>Um mês depois, os jardins do Solar estavam totalmente enfeitados e até o céu</p><p>parecia sorrir.</p><p>Carl mal conseguia manter-se equilibrado nas pernas pela visão da noiva que</p><p>vinha em sua direção.</p><p>… E eu os declaro, marido e mulher…</p><p>E um beijo quente e apaixonado, selava-se a união de Carl e Verônica.</p><p>Um ano após o casamento, Verônica vai até a varanda da nova casa que o marido</p><p>comprara, a fim de retomar seu bordado. Porém ao erguer o tecido percebeu que</p><p>havia algo mais que o novo lençol em que trabalhava. Sob o leque e o bordado,</p><p>uma cesta de vime, e dentro dela um menino recém-nascido. Ao lado da criança,</p><p>uma mensagem: “Não tenho condições de criar esta criança, mas asseguro que é</p><p>fruto de um grande amor. Criem-no como se fosse seu e que Deus me perdoe e</p><p>os abençoe”.</p><p>FIM</p><p>Cover Page</p><p>Entre leques e bordados</p><p>Sumário</p><p>CAPÍTULO I</p><p>CAPÍTULO II</p><p>CAPÍTULO III</p><p>CAPÍTULO IV</p><p>CAPÍTULO V</p><p>CAPITULO VI</p><p>CAPÍTULO VII</p><p>CAPÍTULO VIII</p><p>CAPÍTULO IX</p><p>CAPÍTULO X</p><p>CAPÍTULO XI</p><p>CAPÍTULO XII</p><p>CAPÍTULO XIII</p><p>CAPÍTULO XIV</p><p>CAPITULO XV</p><p>CAPITULO XVI</p><p>Bella, eu apenas estou feliz. Na verdade, nem sei bem porque mas, sinto</p><p>que algo muito importante vai acontecer hoje!</p><p>Neste momento são anunciadas as presenças da Duquesa de Charleston e seu</p><p>filho Carl Richard Evans Murphy.</p><p>Como não poderia ser diferente, alguns se admiraram em vê-los, visto correr o</p><p>boato de que a família perdera o título de nobreza devido a má índole do único</p><p>herdeiro. Outros, sabedores da obstinação de Mary Ann não duvidavam de que</p><p>aquele era o momento ideal para recuperarem o prestígio. Verônica ao ver Carl</p><p>sentiu o coração lhe pular no peito e precisou de um certo autocontrole para</p><p>disfarçar a emoção. A partir daquele momento procurou não ser vista por ele.</p><p>Após a troca de alianças e a formalização do noivado, os convidados foram</p><p>chamados a ocuparem seus lugares à mesa e o jantar transcorreu sem quaisquer</p><p>imprevistos. Após os noivos dançarem a primeira valsa, foram seguidos pelos</p><p>casais convidados. Ao observar enfadonhamente a cena, Carl teve chamada a</p><p>atenção para aquela linda mulher, que de tanto tentar ser discreta, acabou por</p><p>aguçar sua curiosidade.</p><p>Quando o mesmo rumou em sua direção, Verônica sentiu o estômago revirar e</p><p>julgou que perderia os sentidos, mas se descobriu mais forte do que supunha. Ao</p><p>perceber a presença do homem à sua frente, não conseguiu evitar de sustentar o</p><p>olhar, porém quando seus olhos se encontraram, ambos sentiram uma magia</p><p>contagiante, mas procuraram disfarçar.</p><p>Bella que de nada sabia, abriu seu melhor sorriso para o elegante cavalheiro o</p><p>que deixou Verônica um tanto incomodada, embora não soubesse o porquê.</p><p>Boa noite Srtas., permitam me apresentar: Sou Carl Richard Evans Murphy.</p><p>Tomou a mão de Verônica e ao beijá-la seus olhares encontraram-se fazendo o</p><p>tempo parar. Porém antes das moças apresentarem-se, Rosimeri se aproxima do</p><p>trio, fazendo com que todos os olhares se voltem para si.</p><p>Verônica nunca se sentira tão agradecida a Rosimeri quanto agora; abraçou a</p><p>amiga felicitando-a e retirou-se à francesa³ . Bella percebeu a estratégia da amiga</p><p>e julgou que estava colaborando para que ficasse mais íntima de tão garboso (e</p><p>rico) cavalheiro. Apresentou-se estendendo a mão direita, porém Carl, sem</p><p>perder a alegância beijou-se a mão e tentou retirar-se à procura da mulher cujos</p><p>olhos jamais esqueceria, porém Bella, tratou de inserir assuntos banais, a fim de</p><p>mantê-lo em sua companhia. Quando finalmente desvencilhou-se da menina, não</p><p>mais encontrou a quem procurava.</p><p>Tentando chegar à carruagem a fim de pedir que o cocheiro a levasse para casa</p><p>imediatamente, foi surpreendida pela Duquesa que lançou-lhe um olhar</p><p>congelante.</p><p>- Tentando sair á espreita Srta.? Veja bem, não sei quem você é e nem me</p><p>interessa, mas vou dar-lhe um conselho: Mantenha-se afastada de meu filho! Ele</p><p>é um nobre e jamais se interessaria por uma plebeia como a Srta.! Se acaso tem</p><p>planos de dar um golpe tentando unir-se a um homem de posses e renome,</p><p>procure outro, pois jamais permitirei que meu filho se envolva com uma</p><p>qualquer!</p><p>Às 21:30 hs. Chega em casa para o espanto do pai que julgava estar a filha</p><p>divertindo-se em sua primeira festa desacompanhada dos irmãos.</p><p>Ao perceber que a filha havia chorado, imediatamente inquiriu-a sobre o</p><p>ocorrido. A filha porém, limitou-se a dizer que emocionara-se por demais com a</p><p>cerimônia e ao pensar que talvez jamais ocupe o lugar de noiva, sentiu-se</p><p>extremamente infeliz. Foi para seu quarto e chorou até adormecer.</p><p>Jean Jaques sentiu-se culpado pelo sofrimento da filha, mas preocupava-se com</p><p>seu futuro pois sabia que a mesma já havia passado há muito da idade de casar e</p><p>temia que quando partisse a mesma ficasse solitária por não ter sua própria</p><p>família.</p><p>Na verdade, Verônica era feliz à sua maneira, cuidando do pai e dos irmãos. Ao</p><p>menos o fora, até aquela noite.</p><p>Na manhã seguinte, serviu o café da manhã ao pai e irmão e ambos perceberam</p><p>seus olhos inchados, mas preferiram nada comentar para não dar vazão a maior</p><p>sofrimento da mesma.</p><p>A caminho do galpão o pai revelou ao filho o motivo das lágrimas da irmã, o que</p><p>gerou o mesmo sentimento de culpa que o pai, mas pensava: - “Ao menos minha</p><p>irmã não será falada pela redondeza como acontece com as moças que se deixam</p><p>levar pelas paixões”.</p><p>Quando ambos saíram ela tratou de cuidar dos afazeres da casa a fim de se</p><p>distrair e não pensar mais no ocorrido, mas não esquecia-se da figura daquele</p><p>homem lhe sorrindo com tamanha admiração nos olhos… Certamente a</p><p>reconhecera. Assim permaneceu a cismar por longo tempo.</p><p>“A quem ele pensa que engana? Nem toda aquela pompa, roupas engomadas e</p><p>modos refinados à mesa escondem quem ele realmente é. Um homem sem</p><p>coração! Um mero sedutor sem escrúpulos! E a arrogância da mãe? Como</p><p>ousara dirigir-se a ela daquela maneira? Nem sequer lhe dera motivo”?</p><p>O sentimento de injustiça e revolta por alguns momentos lhe ferviam a cabeça,</p><p>mas ao lembrar daquele olhar, tudo se desvanecia… Ao mesmo tempo que</p><p>sentia-se irritada por não conseguir esquecer seus olhos, havia algo que lhe</p><p>alertava para algum perigo iminente vindo deles. - “Quer saber (pensou alto), um</p><p>dia ambos irão se arrepender de me tratar daquela forma”!</p><p>O que Verônica não desconfiava era que o mesmo sentimento que invadiu seu</p><p>coração ao enfrentar o olhar de Carl, o havia contaminado como um vírus...</p><p>(Ah, se ela soubesse o que o futuro lhe reservava…)</p><p>Alguns dias depois, na casa de campo dos Marksuel, Rosimeri e Bella ainda</p><p>tentavam entender o que sucedera com a amiga na noite do noivado, visto ela</p><p>nunca esclarecer convincentemente as duas.</p><p>Ora alegava um mal súbito, ora a preocupação do pai com o horário, ora se</p><p>confessava assustada com a atitude de Carl…</p><p>- Você quer saber Bella - dizia Rosimeri – Eu tenho o pressentimento que</p><p>Verônica já havia encontrado com aquele homem e que de alguma forma ele</p><p>mexeu com seu coração!</p><p>3 Sair furtivamente, em silêncio: Esgueirar-se de um local, geralmente</p><p>escapando de uma situação incômoda.</p><p>CAPÍTULO V</p><p>Passadas algumas semanas Jean Jaques recebe uma mensagem da França. Olhou</p><p>para os filhos e disse: - Sua avó está muito doente. Arruma a mala e embarca no</p><p>primeiro trem. Antes de sair, não poupou as intermináveis recomendações,</p><p>típicas de pai zeloso como o era.</p><p>Assim, Verônica ficou cuidando da casa e de Christofer que contava com a idade</p><p>de 20 anos. Ambos conversavam e criavam jogos após o jantar todas as noites, a</p><p>fim de afastar o tédio e a preocupação com a saúde da avó.</p><p>Nova missiva chega à casa dos Bordeaux e desta vez endereçado à Verônica.</p><p>- Filha, sua avó faleceu. Volto no trem da manhã. Amor. Papai.</p><p>Na manhã seguinte, Verônica e o irmão estavam na estação aguardando a</p><p>chegada do pai. Mal Jean Jaques desembarca já se pôde perceber os vincos</p><p>profundos em suas faces e a ausência de carnes sob suas vestes. O pai</p><p>envelhecera 20 anos em 2 meses.</p><p>Em casa conta aos filhos todos os detalhes e o porquê da demora.</p><p>Cristian, que estava cortejando uma jovem das proximidades, após o jantar foi</p><p>encontrar-se com a moça. Jean Jaques aproveita que está só com a filha:</p><p>- Minha filha, antes de embarcar em retorno, fui procurado por um senhor muito</p><p>distinto que me incumbiu de lhe entregar esta mensagem. Deve ser importante,</p><p>pois tive que assinar responsabilizando-me pelo recebimento.</p><p>Verônica olha o envelope temerosa de seu conteúdo, visto tratar-se de assuntos</p><p>legais.</p><p>“Srta. Verônica Smith Bordeaux</p><p>Convidamos V.Sa. à abertura do testamento fechado da Sra. Gilles Moulin</p><p>Bordeaux, que realizar-se-á no dia 10 do mês de maio do ano de 1450, às 14:00</p><p>na sala 513 do fórum desta cidade.”</p><p>Sem entender nada, pôs-se a arrumar sua mala e cumprir o compromisso que</p><p>sabia ser a última vontade de sua avó.</p><p>Na manhã seguinte Verônica embarcava no primeiro trem para Paris rumo ao seu</p><p>futuro.</p><p>A medida em que o comboio adentrava em terras francesas, a esperança</p><p>combinada ao receio do desconhecido, retiraram toda firmeza que até então</p><p>Verônica demonstrava ter. Lágrimas quentes lhe fugiam dos olhos como a</p><p>queimar e ela se deixou ficar naquele misto de passado, presente e</p><p>futuro. Após</p><p>profundo suspiro, adormeceu.</p><p>Sonhou com a mãe e lembrou da história de amor dos pais.</p><p>Jean Jaques apaixonara-se por Mildred Smith, jovem inglesa que costumava</p><p>passar os verões na fazendo dos tios, vizinha à de sua família. Embora a família</p><p>da jovem não fosse tão abastada quanto a dele, isto nunca foi impedimento para</p><p>o relacionamento de ambos e tão logo se casaram, partiram para a Inglaterra a</p><p>fim de começar a vida a dois sem a interferência das famílias.</p><p>Na estação de Paris foi recebida por sua prima Madeleine, filha do irmão mais</p><p>jovem de seu pai e que tinha pouco mais que a sua idade. Até a fazenda situada</p><p>em uma cidadezinha não muito afastada da capital, trataram de verbalizar</p><p>somente amenidades, como se ambas temessem confessar o que lhes perpassava</p><p>a mente.</p><p>Após algumas horas de sono confortante e revitalizador, Verônica se via pronta a</p><p>percorrer toda a fazenda e matar a saudade das terras e pessoas que guardavam</p><p>doces recordações de sua infância.</p><p>A primavera era a estação mais linda do ano e caminhar por entre as flores dava</p><p>a Verônica toda paz e energia que uma pessoa poderia ter. Tudo estava perfeito</p><p>mas quando menos esperava seu coração disparou com a visão de um novo</p><p>garanhão, recém-adquirido pelo tio que era o administrador da fazenda. Sua avó</p><p>era a proprietária, mas não possuía há vários anos condições de administrar os</p><p>negócios. Sendo assim, o filho era quem o fazia, e com maestria, pois era um</p><p>administrador nato. Lembrava que seu pai contava as histórias das aventuras dos</p><p>dois irmãos e da certeza que ambos tinham de que Jean Paul seria o herdeiro</p><p>natural da fazenda.</p><p>Avistou o tratador dos animais e logo aproveitou para inquiri-lo a respeito do</p><p>animal.</p><p>- Jeremy! Que lindo animal! Nasceu aqui ou foi adquirido?</p><p>- Seja bem-vinda Srta. Verônica! Fui avisado que viria, mas calculei que tardaria</p><p>mais alguns dias.</p><p>- Quanto a sua curiosidade, este belo espécime foi adquirido por seu tio há</p><p>poucas semanas de um nobre inglês à beira da falência. Eles estão em</p><p>dificuldades financeiras e o Sr. Jean Paul fez um excelente negócio.</p><p>- Estranho… Tenho a nítida sensação de que conheço este animal…</p><p>- Ora, se ele veio da Inglaterra e o Sr. Jean Jaques é o melhor ferreiro destas</p><p>terras, talvez pertencesse a algum nobre das redondezas.</p><p>- É... pode ser…Mas Verônica sabia exatamente há quem pertenceu o animal.</p><p>Absorta em seus pensamentos nem ouvia o que o homem dizia. - “Nobre inglês á</p><p>beira da falência…” (Pensava Verônica)</p><p>- Pois então Srta. o mundo está de cabeça para o ar. Os ricos estão</p><p>empobrecendo e não sei aonde isto vai dar…</p><p>Os tempos estavam realmente mudando…</p><p>Num primeiro momento, devido a crise do feudalismo.</p><p>O surgimento da burguesia, nova classe social que dominava o comércio e que</p><p>possuía alto poder econômico foi, aos poucos, tirando o poder dos senhores</p><p>feudais;</p><p>O renascimento comercial, impulsionado pelas cruzadas, entre outros, eram as</p><p>causas da crise do sistema feudal.</p><p>A evolução é necessária...</p><p>- Você poderia selá-lo para mim? Preciso cavalgar e revisitar cada pedacinho</p><p>desta fazenda.</p><p>- É claro que sim, meu filho o fará e em seguida a Srta. sentirá toda a liberdade</p><p>só se tem cavalgando um belo animal como este!</p><p>Verônica fez questão de acompanhar o trabalho do rapaz, mas seu pensamento</p><p>estava muito longe…</p><p>Observando o animal recordou-se da primeira vez que o viu… E por mais que</p><p>tentasse não conseguia esquecer o calor daquele olhar…</p><p>Após o tempo que lhe pareceu uma eternidade, iniciou seu passeio, decidida a</p><p>apreciar e relembrar as belezas do lugar.</p><p>Após uma boa distância da casa principal, avistou uma grande árvore, totalmente</p><p>florida e decidiu descansar na relva sob tão belo espécime da flora local.</p><p>Prendeu as rédeas do cavalo em um galho e deitou-se na relva macia.</p><p>Ao sentir o sol morno a lhe aquecer a pele, fecha os olhos e por um momento</p><p>sente-se abraçada pelo homem que não lhe sai do pensamento.</p><p>Levanta-se imediatamente a fim de libertar-se do pensamento que lhe assalta,</p><p>mas a sensação de felicidade não se desvaneceu…</p><p>Como esquecer aquele olhar?…</p><p>- Senhor, pede aos céus, livra-me destes pensamentos. Sei que ele nem lembra</p><p>que eu existo. Não posso alimentar esta ilusão.</p><p>CAPITULO VI</p><p>- Depressa cocheiro! Não percebe que já estou atrasado para o meu encontro?</p><p>- Perdão senhor. Estou exigindo o máximo dos cavalos e nesta velocidade</p><p>podemos facilmente sofrer um acidente.</p><p>- Ora seu estúpido, você é pago para me conduzir e não para pensar em minha</p><p>segurança. Você é igual aos cavalos. Para mim tem a mesma utilidade.</p><p>Homero, o cocheiro, homem simples que trabalhava para o Duque há cerca de</p><p>trinta anos, não sabia como conseguia suportar as humilhações do filho, Carl.</p><p>Finalmente a carruagem chegou a uma bela casa num bairro conhecido como</p><p>“Bairro dos Burgueses”.</p><p>Ao descer do veículo, Carl ajeita a vestimenta para causar melhor impressão e</p><p>sobe as escadas em direção à porta.</p><p>Ao bater, surge uma mulher deslumbrante, vestida apenas com um penhoir</p><p>branco, salientando ainda mais suas voluptuosas curvas.</p><p>Carl e a mulher se enlaçam em um beijo apaixonado ali mesmo, esquecendo-se</p><p>que a porta continuava aberta e que o cocheiro e/ou qualquer transeunte poderia</p><p>vê-los.</p><p>Lisa May era aquele tipo de mulher desejada por todos os homens, mas os</p><p>escolhia a dedo, de acordo com seus próprios interesses. E Carl era alguém que</p><p>poderia lhe proporcionar vida de luxo, joias e tudo mais que desejasse. Com a</p><p>morte do pai a mundana julgava que o amante seria em breve nomeado Duque e</p><p>voltaria a lhe cobrir de joias, então decidira manter o relacionamento e aguardar</p><p>os fatos. Amor ela não conhecia. Costumava dizer que era apenas uma questão</p><p>de circunstância e jogava a cabeça para trás fazendo mais um brinde com a taça</p><p>de champagne.</p><p>Carl a conhecera em uma festa na casa de amigos e ficou interessado naquelas</p><p>curvas. Em princípio fora apenas atração física, mas com o tempo, não saberia</p><p>descrever por que continuava a frequentar aquela casa.</p><p>Dela, obviamente somente havia interesse material. O affair⁴ que mantinha com</p><p>o pianista lhe era também um bom negócio, visto que o mesmo possuía pouco</p><p>talento ao piano mas beleza suficiente para explorar mulheres casadas, cujos</p><p>maridos lhes davam muito dinheiro e pouca atenção. E os “lucros” eram</p><p>divididos com Lisa, a quem realmente amava.</p><p>Ao perceberem sua exposição, cerram a porta para enfim, esquivarem-se do</p><p>mundo.</p><p>- Lisa, querida, senti tantas saudades! Depois que papai se foi está cada vez mais</p><p>difícil sair de casa. Minha mãe passou a controlar-me como se eu fora um</p><p>menino. Estou preocupado com ela. Está obcecada com a questão do título de</p><p>nobreza e me torturando... Acho que não vou suportar! Se ela insistir muito,</p><p>pego minhas coisas e venho morar aqui com você.</p><p>- Você está louco homem! Desprezar um título de Duque! Visualize comigo:</p><p>Carl Richard Evans Murphy – Duque de Charleston! Viu como combina?! Meu</p><p>querido, se tivermos que passar alguns dias sem nos ver, por mim está tudo bem.</p><p>Pense que é por uma excelente causa. É o nosso futuro que está em jogo!</p><p>- Mas Lisa, você sabe que mamãe jamais permitiria que eu a desposasse! Você,</p><p>assim como eu, não tem uma fama que se diga irretocável (e ambos caem na</p><p>gargalhada).</p><p>- Carl, querido, desde quando eu falei em casamento? Sabe que não nasci para</p><p>isto. Sou mulher que gosta das coisas boas da vida e o casamento</p><p>definitivamente não é uma delas! Quanto a sua mãe, tenha paciência, dentro em</p><p>pouco ela sentirá tantas saudades de seu pai que irá fazer-lhe companhia.</p><p>- Ei, veja bem, sei que minha mãe é austera e às vezes até me leva ao</p><p>descontrole, mas eu a amo e não suporto pensar na ideia de perdê-la!</p><p>- Está bem meu amor. Prometo que não toco mais neste assunto. Mas até que o</p><p>humor de sua mãe se arrefeça, é melhor não nos vermos. Para que irritá-la ainda</p><p>mais?</p><p>- Você tem razão. Acho que já vou. Ficarei ausente pelo restante da semana, mas</p><p>não coloque outro em meu lugar sim?</p><p>- Oh querido, sabe que meu coração é só seu! Jamais faria isto com você…</p><p>Agora vá. Até logo meu</p><p>amor.</p><p>Carl entra na carruagem e quando olha para trás sente um aperto no peito como</p><p>se algo estivesse errado mas não consegue detectar o que é. Decide não pensar</p><p>mais nisso.</p><p>Ao chegar em casa, sua mãe há muito está dormindo. Pensa em ir direto para a</p><p>cama mas passa primeiro na adega e pega uma garrafa de vinho para degustá-lo</p><p>enquanto o sono não vem.</p><p>Neste ínterim, Homero, o cocheiro, jardineiro e marido de Esther entra em seus</p><p>aposentos na ponta dos pés para não acordar a esposa, mas no segundo passo é</p><p>flagrado por dois olhos astutos e a pergunta:</p><p>- Onde o Sr. estava até esta hora?</p><p>- Sabe que não gosto de chegar tão tarde. Mas aquele arrogante do filho da</p><p>Duquesa quis visitar novamente “aquela mulher”, você sabe…</p><p>- Está bem, venha dormir. Imagino que já ouviu toda a espécie de xingamentos</p><p>hoje, não precisa de mais um. Boa noite meu amor!</p><p>- Boa noite minha querida!</p><p>4 Affair é uma expressão que vem do francês affaire, que significa caso. É</p><p>frequentemente usada em português para definir um caso amoroso ou romance</p><p>escandaloso, que pode ser público ou mantido em segredo.</p><p>CAPÍTULO VII</p><p>Na manhã seguinte a Duquesa recebe um chamado da casa real para que</p><p>compareça naquela mesma tarde.</p><p>Tomada de preocupação e ansiedade chama Esther e lhe mostra a missiva. Esta</p><p>por sua vez responde da mesma forma calma que lhe é característica:</p><p>- Mary Ann, você deveria ficar feliz, afinal as coisas estão se resolvendo mais</p><p>rápido do você imaginou. Provavelmente querem marcar a data da cerimônia de</p><p>posse de Carl. E se não for, estou desconhecendo você! Sei de sua história de</p><p>vida e não acredito que aquela jovem que desafiou a tudo e a todos pelo seu</p><p>amor agora se tornou uma velha medrosa! Pense no que Sir Alexander gostaria</p><p>que você fizesse agora.</p><p>- Você tem toda razão Esther. Aliás, como sempre. Me ajude a procurar um</p><p>vestido bem bonito para eu fazer jus à Rainha.</p><p>Às 16:30 hs. A Duquesa de Charleston sai de casa guiada por Homero.</p><p>- Homero, faça o percurso com toda a calma. Não podemos chegar muito antes</p><p>das 5. Você sabe, para nós ingleses, o chá das 5 é sagrado!</p><p>- Sim Duquesa.</p><p>Pontualmente às 17:00 a Duquesa adentra o palácio real e é diretamente</p><p>encaminhada para o salão aonde começa a ser servido o chá.</p><p>Após as formalidades de praxe e todos terem se retirado, Mary Ann é convidada</p><p>a uma conversa reservada com a Rainha.</p><p>- Eu sinto muito pelo óbito de seu marido, mas agora precisamos tratar de</p><p>assuntos mais práticos. A Sra. sabe que Sir Alexander somente recebeu o título</p><p>de Duque devido à sua retidão de caráter não sabe? Pois bem. Quando um nobre</p><p>falece é comum que seu primogênito lhe suceda, porém em sua família temos</p><p>um “se não” muito importante. Seu filho não tem merecimento algum para</p><p>receber um título! A Sra. deve estar ciente de que nosso regime está</p><p>enfraquecendo e se dermos um título de nobreza a um homem mulherengo,</p><p>beberrão, brigão e ainda amante de uma messalina, será o fim. O capitalismo</p><p>tomará conta de nosso país e nós ficaremos como os quadros: apenas enfeites</p><p>empoeirados.</p><p>- V. Alteza se me permite, meu filho está tentando melhorar suas companhias.</p><p>Ontem mesmo ele saiu para se despedir das velhas amizades em razão do título</p><p>que receberá. Então… por mim… por uma mãe desesperada… não nos deixe à</p><p>míngua!</p><p>- Pois bem, façamos um trato. Se seu filho encontrar uma mulher honesta de boa</p><p>família, decente e digna de ser uma duquesa… Em até seis meses, eu darei o</p><p>título a ele.</p><p>- Oh Alteza! Não sei como lhe agradecer! Farei tudo o que me pedir daqui para</p><p>frente! Saberá que tem em mim uma eterna devedora…</p><p>- Chega! A única coisa que quero da Sra. é que providencie uma noiva para o</p><p>inútil do seu filho! Agora, com sua licença, vou para meus aposentos reais.</p><p>Quando Mary Ann se vê protegida do mundo dentro da carruagem, permite se</p><p>entregar a dor e ao pranto que até a pouco lhe queimava o coração. Homero,</p><p>bondoso como a esposa tenta consolá-la, mas naquele momento ninguém</p><p>poderia fazê-lo.</p><p>Chegando em casa a mãe procura imediatamente pelo filho que está sentado</p><p>numa espreguiçadeira no jardim, tranquilamente a divagar.</p><p>- Ah, aí está você! Pensei que já tinha saído para suas aventuras noturnas!</p><p>- Olá mamãe. O que houve? Porque está me tratando desta forma? O que fiz</p><p>desta vez para despertar tamanha fúria?</p><p>- Não foi o que fez e sim o que não fez de sua vida! Não constituiu sua própria</p><p>família, não tem sequer uma profissão e após 45 anos de idade ainda não sabe o</p><p>quer ser quando crescer! Mas a culpa é minha! Minha e de seu pai, que o</p><p>mimamos demais. Lhe demos tudo o que queria e satisfizemos todas as suas</p><p>vontades e agora você não passa de um nada!</p><p>- Vamos entrar mamãe e conversar civilizadamente. A Sra. nunca foi dada a</p><p>xingamentos desta forma, então só posso crer que algo muito grave aconteceu.</p><p>Uma vez no quarto de Mary Ann e esta. mais calma, conseguiu conversar com o</p><p>filho e expor o problema.</p><p>- Meu filho, tomei o chá das 5 na companhia da Rainha. Após, ela me disse com</p><p>todas as letras que somente lhe passará o título de Duque se você se casar com</p><p>uma moça de boa família. E no prazo de seis meses! E ainda aceitou isto porque</p><p>quase me ajoelhei a seus pés implorando por você!</p><p>- Mamãe, veja bem, eu sei que até agora fui relapso com minha própria vida e</p><p>acabei prejudicando a vocês também, mas nunca pensei que minhas atitudes</p><p>fossem repercutir desta forma. Se a exigência da rainha é que eu me case, então</p><p>teremos que imediatamente procurar uma noiva para mim. Mas… Preciso lhe</p><p>confidenciar que meu coração já pertence a uma mulher.</p><p>No dia seguinte Carl procura Lisa May decidido a acabar seu relacionamento.</p><p>- O que? Você vai se casar com uma dessas engomadinhas? Estas sonsas que só</p><p>sabem bordar e ainda fazem sexo somente visando a procriação? É esta a vida</p><p>que você quer? Então vai me descartar assim? E acha que vou aceitar sem lutar?</p><p>Neste momento percebeu tê-la como inimiga, seria pior do que como amante,</p><p>desta forma, tentou contemporizar.</p><p>- Calma, minha querida! Você sempre será a minha preferida, sabe disto.</p><p>Continuarei lhe fazendo pequenas “visitas” e pouca coisa mudará entre nós.</p><p>- Realmente espero que sim.</p><p>Carl e princípio julgava a explosão de Lisa May apenas ciúmes de mulher</p><p>apaixonada, mas em seguida percebeu o quanto perigosa era e temia que</p><p>colocasse o nome de sua família na lama, mais a fundo do que já estava. Na</p><p>verdade, Carl sequer desconfiava quem realmente ela era e do que ela era capaz.</p><p>CAPÍTULO VIII</p><p>Na França, Verônica estava prestes a descobrir que novos rumos tomariam sua</p><p>vida. A leitura do testamento da avó seria na manhã seguinte e pouco dormiu</p><p>tamanha a ansiedade. Não tinha grandes ambições, mas desejava secretamente</p><p>herdar o suficiente para dar ao pai uma vida mais digna e livrá-lo do sofrimento</p><p>dos últimos tempos.</p><p>No horário marcado para a abertura do testamento, os intimados se encontram na</p><p>sala do tabelião. Verônica não conseguiu ficar à vontade em momento algum.</p><p>Sentia-se febril e o suor lhe corria pelas têmporas, o que tentava esconder</p><p>secando discretamente com um lenço. Madeleine não pode deixar de perceber</p><p>mas julgou ser pela emoção do momento.</p><p>Após leitura do preâmbulo:</p><p>- Em sendo assim, destino 50% de meus bens à minha neta Verônica Smith</p><p>Bourdeaux, e o restante…</p><p>Verônica congelou ao saber que tornara-se milionária da noite para o dia e não</p><p>tinha a menor ideia do que fazer.</p><p>Já em casa, foi passear com seu cavalo (adotara-o), a fim de ordenar os</p><p>pensamentos. Em oração silenciosa, pediu a Deus sabedoria para melhor utilizar</p><p>tamanha fortuna. Não se julgava capaz de administrar tantos bens.</p><p>Após horas no campo, entre flores e o céu azul, encheu os pulmões de ar puro e</p><p>voltou para casa grande, decidida.</p><p>Escreveu ao pai contando o ocorrido e mandou através de um mensageiro que</p><p>levasse à estação de trem.</p><p>- Christofer, Christofer! Aonde está menino? Esbravejava Jean Jaques com um</p><p>papel à mão, eufórico como há muito não se via.</p><p>- O que houve Papai? O que aconteceu?</p><p>- Sua irmã está voltando de Paris. Diz que tem novidades para a nossa família.</p><p>Oh, rogo</p><p>ao Senhor que minha mãe tenha sido generosa com minha filha para</p><p>assim aliviar nosso sofrimento…</p><p>- Calma papai! Verônica tornou-se nosso porto seguro desde que mamãe se foi.</p><p>Tenho certeza que a partir de agora nos apoiará ainda mais, independente do</p><p>valor da herança.</p><p>Após abraços e lágrimas no reencontro da família, todos foram para casa em</p><p>carruagem de aluguel a pedido de Verônica, que estava decidida a dar ao pai</p><p>tudo o que ele merecia.</p><p>- Papai, agora já está na hora de falarmos de negócios. Vou lhe dar uma certa</p><p>quantia para que aumente o galpão e contrate empregados. Amanhã mesmo,</p><p>vamos procurar uma casa melhor e maior para vivermos.</p><p>No dia seguinte, após visitar alguns imóveis Verônica se encantou com uma</p><p>mansão que pertencera a um nobre falido. Na verdade era um pequeno castelo,</p><p>rodeado por jardins de todas as espécies de flores, cores e perfumes. Na parte</p><p>interna, os móveis estavam em perfeito estado de conservação, devido aos</p><p>cuidados dos criados que permaneceram no imóvel justamente para tal</p><p>propósito.</p><p>Após breve entrevista com os criados, a herdeira decidiu comprar a propriedade</p><p>e mantê-los a seu serviço, o que gerou alívio aos mesmos, visto tratarem-se de</p><p>aldeões necessitados.</p><p>Em poucos dias, o ferreiro Jean Jaques ampliou seu estabelecimento, dobrando o</p><p>tamanho do galpão, porém preservando a casa principal que fora o lar de sua</p><p>amada esposa e filhos.</p><p>Contratou os melhores ferreiros da região e garantiu-lhes salário digno. Porém</p><p>uma parte voltar-se-ia à confecção de ferraduras (a melhor), afinal este era seu</p><p>ofício amado. Os outros seguiriam na produção do material bélico como</p><p>ordenado pelo bispo.</p><p>- Papai, quando tudo estiver organizado por aqui, voltarei à Paris para ter com</p><p>Madeleine. Tio Jean Paul me trata como filha e prometi a eles que retornaria tão</p><p>logo o Sr. e Christofer estivessem devidamente acomodados.</p><p>- Sentirei muitas saudades querida, mas vejo que você se tornou uma mulher tão</p><p>linda, forte e determinada quanto sua mãe o fora. Tenho certeza que ela, esteja</p><p>aonde estiver, está orgulhosa de você!</p><p>Com lágrimas de saudade da mãe e esposa, os dois se abraçaram e assim</p><p>permaneceram por vários minutos até o jovem Christofer adentrar abruptamente</p><p>o ambiente com uma missiva. Nela continha informações sobre Armand.</p><p>“- Querido pai, nossa missão foi um sucesso. Volto para casa em poucos dias,</p><p>para seu e orgulho da Inglaterra.</p><p>Armand”</p><p>- Que felicidade papai! Armand está voltando! E justo agora que Christofer está</p><p>de casamento marcado. Realmente nossas vidas estão tomando novo rumos!…</p><p>- Bem, neste caso, vou aguardar o retorno Armand e o casamento Christofer para</p><p>então retornar à França. A vida na fazenda fez-me muito bem e Madeleine</p><p>tornou-se como uma irmã para mim. Espero que o Sr. não se oponha.</p><p>- Minha filha, sua mãe e eu a criamos como uma joia rara. Seus irmãos a</p><p>protegeram dos perigos mundanos e confesso que até exagerei nos cuidados, mas</p><p>foi para o seu bem. Agora você é uma mulher feita e provou que é capaz de</p><p>cuidar de sua honra sozinha. Vá minha filha, mas venha nos visitar com</p><p>frequência, por favor. Não abandone este seu velho pai.</p><p>Na manhã seguinte Verônica envia uma mensagem a prima informando-a de seu</p><p>retorno e justificando sua demora.</p><p>A chegada de Armand foi motivo de grande alegria para a família,</p><p>principalmente para o pai que, além de ter o filho de volta, saudável, poderia</p><p>parar com a produção daquelas terríveis espadas.</p><p>Mas algo no filho estava diferente. Mais quieto e com o semblante pesado,</p><p>despertou a preocupação dos familiares. Ao seu questionado, alegou ser fruto do</p><p>cansaço e da emoção ao reencontrá-los (Mas somente ele sabia a dor que</p><p>habitava seu coração).</p><p>Desde a primeira noite em casa, Armand passou a ter de terríveis pesadelos e</p><p>acordava gritando no meio da noite, despertando todos os moradores. Durante o</p><p>dia permanecia calado e não respondia às perguntas que lhe eram feitas sobre os</p><p>mesmos. Preocupada a irmã foi a procura das famílias de outros jovens que</p><p>participaram das cruzadas e ouviu de muitas o mesmo relato. Em uma ocasião,</p><p>foi abordada por um rapaz da idade do irmão que lhe confidenciou que vários</p><p>ex-cavaleiros das cruzadas estavam encontrando-se em determinado lugar, a fim</p><p>de relatarem entre si as experiências vividas e assim buscar o reequilíbrio e a</p><p>readaptação em sociedade. Verônica pediu o endereço e prometeu convencer o</p><p>irmão a frequentar estas reuniões.</p><p>Em casa, chamou o irmão ao jardim e relatou-lhe o que ouvira. Passou-lhe o</p><p>endereço e pediu que ele participasse ao menos uma vez de uma reunião e que se</p><p>não aprovasse, não precisaria voltar. Armand ouviu a irmã cabisbaixo e</p><p>balbuciou:</p><p>- Minha irmã, você não tem ideia das atrocidades que vivemos. Nossas almas se</p><p>sentem sujas e nos envergonhamos de nossos familiares. Mas sei que você</p><p>somente deseja meu bem e jamais me pediria que fizesse algo que não fosse</p><p>neste sentido. Guardou no bolso o papel com o endereço e foi para seu quarto.</p><p>Durante a semana que se seguiu, os pesadelos continuaram até que em uma</p><p>manhã o irmão decidiu que realmente não conseguiria resolver esta questão</p><p>sozinho. Pediu que a irmã não contasse ao pai e à noite foi encontrar-se com os</p><p>ex-companheiros. Deste este dia, uma vez por semana, Armand passou a</p><p>frequentar as reuniões e aos poucos apresentava melhoras em seu</p><p>comportamento. Com o passar do tempo voltou a ser o mesmo rapaz que fora</p><p>antes do episódio da guerra santa.</p><p>As bodas de Christofer foi um acontecimento para a região. Verônica sentira</p><p>uma empatia muito grande por Emanuelle, sua cunhada, assim que se</p><p>conheceram anos atrás e não economizou na preparação do casamento. Fez</p><p>questão de convidar todos os nobres da Inglaterra e França, com exceção da</p><p>Duquesa de Charleston e seu filho, como forma de vingança pelo tratamento</p><p>recebido outrora. A família obviamente viera da França para o grande</p><p>acontecimento e também com a promessa de levarem Verônica consigo para</p><p>passar nova temporada na fazenda.</p><p>A família da noiva não cabia em si de tanta felicidade ao ver a filha casada com</p><p>o homem a quem amava e que agora poderia lhe dar vida melhor do que a que</p><p>tivera até então.</p><p>CAPÍTULO IX</p><p>A notícia de que uma desconhecida tornara-se herdeira de grande fortuna não</p><p>demorou a espelhar-se pelas bocas das mexeriqueiras…</p><p>- Mary Ann, querida, que bom que aceitou meu convite para o chá. Tenho ótimas</p><p>notícias para você! Você sabe que não cuido da vida alheia, até porque sou tão</p><p>assoberbada que mal tenho tempo de cuidar de minha família... mas enfim,</p><p>soube que uma moça, alguém que jamais frequentou a sociedade, que ironia,</p><p>uma tal de Bordeaux, é a mais nova milionária da Inglaterra. Parece que herdou</p><p>uma fortuna da avó francesa recentemente falecida.</p><p>- Pense bem, esta pode ser a solução para seu filho! Dizem que é solteirona e</p><p>totalmente inexperiente. Carl, com aquela beleza e charme, pode facilmente</p><p>conquistá-la e quiçá contrair matrimônio.</p><p>- Ah, ela foi, ou talvez ainda seja, amiga íntima de Rosimeri Marxsuel.</p><p>- Seus problemas acabaram amiga!</p><p>Mary Ann se limita a ouvir fazendo-se de desentendida, mas intimamente já</p><p>arquiteta seu plano.</p><p>Chegando em casa chama imediatamente Esther.</p><p>- Esther, preciso que Homero me faça um grande favor. Quero ele vá até a</p><p>residência dos Marksuel e leve esta missiva à jovem Rosimeri.</p><p>- Mary Ann, conheço este brilho no olhar. O que você está tramando?</p><p>- Acalme-se, se meu plano der certo, vou salvar o nome e o patrimônio de minha</p><p>família…</p><p>Na tarde seguinte, Mary Ann e Rosimeri tomam o chá das cinco juntas.</p><p>- Querida, peço desculpas por não tê-la vivitado, mas ando tão ocupada com</p><p>tantas responsabilidades! Você sabe que meu filho não consegue cuidar dos</p><p>negócios da família e eu tenho que administrar tudo sozinha…Mas desde o seu</p><p>noivado desejo encontrá-la para parabenizá-la pessoalmente. Quero realmente</p><p>sua felicidade, você sabe disso!</p><p>- Duquesa, a Sra. é muito gentil comigo, aliás sempre foi, mas não havia</p><p>necessidade de me receber com tamanha pompa.</p><p>Assim a conversa seguiu amena, até a mais velha entrar no real motivo</p><p>do</p><p>convite.</p><p>- Querida, sempre soube de seu bom gosto em escolher suas amizades, mas</p><p>contaram-me que uma de suas melhores amigas acaba de tornar-se milionária.</p><p>Acaso a conheço?</p><p>- Ah, a Sra. deve estar se referindo à Verônica. Eu mesma a apresentei a Sra. Foi</p><p>uma pena que ela foi-se embora logo na primeira valsa. Preocupou-se com o pai.</p><p>É filha do ferreiro, Sr. Jean Jaques, excelente profissional, segundo meu pai e</p><p>também um homem muito honesto. Aliás todos na família são de uma retidão</p><p>extraordinária. Ela mereceu o presente que Deus lhe deu. E já está fazendo bom</p><p>uso de sua herança. Recentemente seu irmão mais jovem casou-se e ela</p><p>proporcionou aos noivos um casamento digno da realeza.</p><p>- Ah, acho que lembro-me dela sim. É uma jovem, ou melhor, não tão jovem</p><p>assim. que saiu à francesa de seu noivado. Sim, lembro-me melhor agora. Estava</p><p>muito elegante, porém percebi que o vestido que usava era de sua mãe. Foi o que</p><p>mais chamou-me a atenção naquela ocasião.</p><p>- É verdade. À época não possuía condições de usar trajes sofisticados e minha</p><p>mãe gentilmente lhe cedeu um de seus vestidos que já não usava e ela ficou</p><p>deslumbrante, fazendo juz ao presente.</p><p>- Na ocasião de seu noivado, percebi que ela possui ares distintos mas não</p><p>reencontrei-a em outros eventos da sociedade. Como é mesmo o nome dela?</p><p>- Verônica Bordeaux. Mas no momento ela está na França. Disse-me o pai que os</p><p>ares da fazenda lhe fazem muito bem e além disso desfruta das lembranças</p><p>deixadas pela avó que faleceu a pouco.</p><p>- Oh coitadinha, devia ser muito apegada à avó! Preciso abusar de sua bondade e</p><p>lhe pedir um favor…</p><p>- Claro, o que estiver ao meu alcance.</p><p>- Quando ela retornar, poderia avisar-me? Quero muito conhecê-la melhor.</p><p>Fiquei bastante impressionada com seu porte naquela noite. Se não me dissesse</p><p>jamais pensaria tratar-se da filha e um simples ferreiro.</p><p>- Duquesa, jamais se deve julgar uma pessoa por sua profissão. Como já lhe</p><p>disse, seu pai é um dos melhores ferreiros da Inglaterra. Quanto ao porte de</p><p>Verônica, deve ser herança da mãe, que era inglesa e lhe educou segundo nossos</p><p>hábitos. Apesar de poucas posses, teve a educação dos fidalgos, além de possuir</p><p>uma elegância como poucas!</p><p>- Ah, me perdoe querida se me mostrei preconceituosa! Não tive a intenção de</p><p>discriminá-la. Mas diante de todas as qualidades que você acabou de me</p><p>descrever, quero realmente conhecê-la e creio que ela não se recusaria em</p><p>visitar-me, afinal, novas amizades sempre são bem-vindas.</p><p>Após a saída de Rosimeri, Mary Ann ficou se remoendo de raiva de si mesma. -</p><p>“Isto é um castigo! Só pode! Justo aquela pobretona que destratei na noite do</p><p>noivado da menina Rosimeri… Terei que me retratar para conquistá-la. Ou não.</p><p>Não preocuparei-me com isto agora. Deixarei isto para depois”.</p><p>À noite, Carl encontra a mãe com a muito sério.</p><p>- Carl, meu filho, precisamos conversar, agora!</p><p>- O que foi desta vez mamãe?</p><p>- Você lembra do ferreiro que o tratou mal em certa ocasião? Então, quero que</p><p>descubra tudo sobre a sua família. E amanhã mesmo quero que pegue o trem</p><p>para a França. É lá que estão as origens dos Bordeaux! Se estivéssemos em</p><p>melhores condições, contrataria alguém, mas devido à nossa nova condição,</p><p>você mesmo irá. Até porque é por sua causa que estamos à penúria!</p><p>Carl sequer argumentou. Não queria mais uma discussão com a mãe, mas</p><p>preocupou-se deveras, pois pressentia que ela estava tramando alguma coisa; e</p><p>tinha a ver com ele, certamente.</p><p>Na manhã seguinte, no desjejum Mary Ann revela “parte” do objetivo daquela</p><p>viagem.</p><p>- Quero que descubra tudo o que puder sobre os Bordeaux e, principalmente</p><p>sobre a filha do ferreiro, uma tal de Verônica. Se for necessário, aproxime-se da</p><p>família como Duque de Charleston, afinal você o será em breve. E me mande</p><p>notícias sobre seu progresso. Não me decepcione!</p><p>- Não entendo seu interesse nesta família. Afinal, quem são? Nunca ouvi falar</p><p>(Não queria confessar a mãe que já conhecera àquela a quem a mãe procurava).</p><p>- Você realmente não sabe de nada! Não fosse por mim estaria desabrigado,</p><p>vivendo nas ruas como os ébrios.</p><p>- Não exagere mamãe. Tenho minhas fraquezas, bem sei, mas a Sra. é muito</p><p>exagerada!</p><p>Ao chegar na casa do ferreiro, bastante insatisfeito por óbvio, Carl percebeu que</p><p>o galpão da serraria estava em obras. Observou por alguns minutos a casa</p><p>principal ao lado na esperança de localizar o morador (ou moradora), mas estava</p><p>tudo deserto. Imediatamente reconheceu o lugar e lhe veio a lembrança a mulher</p><p>na sacada com um bordado às mãos. Perdido em seus pensamentos, foi</p><p>interrompido por um dos trabalhadores da obra que o inquiriu:</p><p>- Sr. em que posso ajudá-lo?</p><p>- Procuro pelo ferreiro, Sr. Jean Jaques. Não é aqui a ferraria dele?</p><p>- Ah, sim. O Sr. está no lugar certo, porém o proprietário não vive mais aqui.</p><p>Estamos trabalhando na reforma, visto que a guerra santa acabou e meu patrão</p><p>deseja ampliar seu estabelecimento. Não entendo muito de negócios, pois sou</p><p>somente um pedreiro, mas ouvi dizer que ele pretende fabricar todo tipo de</p><p>ferramentas, já que adquiriu experiência na fabricação de espadas.</p><p>Não satisfeito com a informação, Carl retorna a cidade em busca de mais</p><p>informações.</p><p>Há poucos metros avistou a jovem Bella que havia conhecido no noivado de</p><p>Rosimeri e percebera que seria muito fácil tirar qualquer informação dela. Aliás,</p><p>não somente informações… Mas estava em missão para a mãe e não tinha tempo</p><p>para mais uma conquista barata.</p><p>Parou seu cavalo ao cruzar com o dela e usou de todo seu charme e eloquência.</p><p>- Bom dia Srta.! Perdoe-me abordá-la desta forma mas lembro-me de tê-la</p><p>conhecido há algum tempo na casa de amigos em comum, estou certo?</p><p>- Bom dia! O Sr. é Carl Murphy, correto?</p><p>- Hum, vejo que além da beleza a Srta. é dona de excelente memória!</p><p>- Obrigada, o Sr. é que é muito educado e galanteador, pude perceber.</p><p>- Já que nos encontramos por acaso, nestas imediações, poderia me fornecer uma</p><p>informação, se não for abusar do seu tempo?</p><p>- Pois não, em que posso ajudá-lo?</p><p>- Na casa que acabei de passar, morava um ferreiro chamado Jean Jaques e meu</p><p>cavalo precisa de novas ferraduras. Como ouvi dizer que não há melhor</p><p>profissional na região, decidi procurá-lo mas o galpão está em reforma e não sei</p><p>como encontrá-lo.</p><p>- Isto é verdade. O Sr. Jean Jaques era o ferreiro dos melhores e maiores</p><p>cavaleiros do Reino, inclusive o era de seu pai. Mas isto foi antes…</p><p>- Antes do que?</p><p>- Antes do Bispo ordenar que, ao invés de exercer seu ofício normal, ele passaria</p><p>a fabricar espadas para os soldados das cruzadas. Mas como a guerra santa</p><p>acabou, creio que voltará ao antigo ofício, apesar de…</p><p>- Srta. será que poderia ser mais objetiva?</p><p>- Ah, perdão Sr. é que a mãe do Sr. Jean Jaques faleceu há poucos meses e minha</p><p>amiga Verônica, filha do ferreiro, está na França, na fazenda do tio.</p><p>Provavelmente o pai e o irmão se mudaram devido a nova situação econômica</p><p>da família. Bem, creio que falei demais. Me desculpe, tenho trabalho a fazer.</p><p>Com licença Sr, Murphy, foi um prazer reencontrá-lo.</p><p>- O prazer foi todo meu Srta., apenas por desfrutar destes poucos momentos em</p><p>sua companhia.</p><p>- Bella seguiu seu caminho com um sorriso nos lábios, e Carl satisfeito com a</p><p>informação foi direto à estação de trem comprar sua passagem para a Paris.</p><p>Durante a viagem, Carl levantou todas as possibilidades para justificar esta</p><p>viagem. Mas nada fazia sentido. Então, decidiu deixar que o acaso lhe ajudasse.</p><p>Ao desembarcar foi logo questionando o encarregado da estação sobre a</p><p>residência da família que procurava.</p><p>- Oh, sim, todos os conhecem! Aliás, há algumas semanas chegou da Inglaterra</p><p>mais uma herdeira da família. Moça bonita e distinta como poucas... Bem… o</p><p>Sr. deve saber que a Madame Gilles, matriarca da família faleceu. Vieram</p><p>familiares de todas as partes, mas àqueles mais íntimos e que foram agraciados</p><p>pelo testamento ainda permanecem na fazenda. A Srta. a quem me refiro parece</p><p>estar se adaptando bem à corte francesa. Às vezes falo demais. Bem mas… e o</p><p>Sr, porque tanta curiosidade?</p><p>- Mestre em dissimular,</p><p>não foi difícil se livrar das perguntas do homem.</p><p>- Tomou uma carruagem de aluguel em busca do endereço fornecido.</p><p>Observou de fora a propriedade que para sua sorte, fazia divisa com a fazenda de</p><p>amigos para aonde seguiu a fim de se recuperar da viagem e planejar</p><p>minuciosamente seu plano. Afinal, não poderia decepcionar a mãe novamente.</p><p>CAPÍTULO X</p><p>- Verônica! Tenho excelentes notícias!</p><p>- Calma Madeleine, respire e depois me conte o que está acontecendo.</p><p>- No sábado haverá uma recepção para o príncipe na mansão dos Dior. Fomos</p><p>convidadas! Vamos agora mesmo providenciar os mais lindos vestidos e joias</p><p>para estarmos deslumbrantes no evento.</p><p>- Não sei se devo ir… Tenho me sentido um tanto indisposta nos últimos dias…</p><p>- Eu percebi que desde a leitura do testamente de vovó você não me parece bem.</p><p>Estamos no início do verão e o clima bastante agradável mas percebo que você</p><p>parece transpirar às bicas. Façamos o seguinte: Compraremos um lindo leque</p><p>para você levar à recepção.</p><p>- Não vou deixar que um mau estar passageiro a mantenha nesta clausura que é</p><p>sua vida! Lembre-se de que agora é milionária! Além do mais, apesar da idade</p><p>você ainda possui muitos encantos e quem sabe não é esta noite que encontra</p><p>SEU príncipe!…</p><p>- Na segunda chamamos um médico para averiguar esta “indisposição”. Até lá,</p><p>quero vê-la linda e maravilhosa!</p><p>Bem perto dali Carl, muito bem acomodado, mantém conversa descontraída com</p><p>seus anfitriões.</p><p>- Então meu amigo, que bons ventos lhe trouxeram novamente à França? Espero</p><p>que não se trate da saúde de sua mãe.</p><p>- Sentimos sua falta, comenta a dona da casa. Há tempos não nos visita.</p><p>- Também senti saudades, mas depois da morte de papai, assumi os negócios da</p><p>família e somente por estes dias consegui me furtar de alguns compromissos.</p><p>- Mas não pensem que estou somente à passeio. Preciso localizar uma pessoa. É</p><p>filha do ferreiro local. Veio à França após o falecimento da avó e não deu mais</p><p>notícias. O pai está muito preocupado.</p><p>- Ora, ora! Não diga que finalmente meu velho amigo finalmente encontrou sua</p><p>cara metade! Sim, porque, você não faria esta viagem por uma mulher sem</p><p>importância.</p><p>- Vamos com calma amigo, preciso ir devagar com esta dama.</p><p>- Bem, neste caso, enquanto não a encontra, divirta-se conosco. No sábado</p><p>iremos à recepção na mansão dos Dior. Nos acompanhará, certamente!</p><p>- Terei o maior prazer!</p><p>Quando as moças adentraram o salão, ficaram boquiabertas com tamanho luxo e</p><p>pompa, mas como ambas estavam vestidas apropriadamente logo se misturaram</p><p>aos demais convidados,</p><p>- Então a Srta. é a herdeira que veio da Inglaterra! Exclamou uma baronesa que</p><p>de classe somente possuía o título.</p><p>- Não pensei que as notícias corressem tão rápido por aqui!</p><p>Arguiu Verônica, surpreendendo-se consigo mesma pela ousadia, porém sentia-</p><p>se invadida devido a abordagem pouco sutil da matrona.</p><p>“Bem – pensou - ao menos assim todos já sabem quem sou e como tratar-me</p><p>daqui para frente. Frequentarei a alta sociedade, é melhor que me acostume com</p><p>“certos comentários””.</p><p>- Se me dão licença, vou ter com minha prima.</p><p>- Madeleine, aonde vivo é um lugarejo aonde todos se conhecem e é normal que</p><p>as notícias corram rápido, mas aqui! Francamente não esperava!</p><p>- Calma, querida, ocorre que vovó era pessoa muito conhecida e requisitada na</p><p>alta sociedade parisiense e quando você chegou à fazenda, a notícia se espalhou</p><p>feito rastilho de pólvora. Relaxe, você está divina e nossa avó ficaria orgulhosa</p><p>se a visse agora. Mas… até aonde pude perceber não são somente as Sras. que</p><p>estão interessadas em você, vários homens já lhe lançaram olhares e você aí, se</p><p>fazendo de cega!</p><p>- Madeleine, você sabe que sou pessoa discreta! Além do mais, já passei da</p><p>idade de flertar nos salões…</p><p>De repente, seu rosto congelou e Verônica, branca como cera, preocupou</p><p>Madeleine.</p><p>- O que houve querida? Parece que viu um fantasma!</p><p>- Não foi nada, apenas um mal súbito. Eu lhe falei que não estava me sentindo</p><p>muito bem estes dias…</p><p>A verdade é que Verônica avistou descendo a escadaria, ele, o homem que não</p><p>saia de seus pensamentos, mas sua desculpa convenceu a prima.</p><p>A hora seguinte transcorreu normalmente e a presença do Príncipe desviou a</p><p>atenção de todos para si.</p><p>Quando as duas estavam se despedindo dos anfitriões, Verônica sentiu o sangue</p><p>gelar ao ouvir aquela voz…</p><p>- Perdoem-me Srtas, mas não é demasiado cedo para mulheres tão belas se</p><p>retirarem?</p><p>- Permitam-me apresentar. Sou...e perdeu a voz ao reconhecer o olhar que</p><p>também não lhe saia do pensamento. Pigarreou e retomou o rumo da frase.</p><p>Como ia dizendo, Sou Carl Richard Evans Murphy, seu servo e tomou a mão de</p><p>Verônica e a beijou como no último encontro, porém desta vez ela desviou o</p><p>olhar evitando encará-lo, temendo capitular.</p><p>Madeleine tratou logo de corrigi-lo, na verdade ajudando-o.</p><p>- Sr. Murphy, ou devo chamá-lo de Duque? Minha prima Verônica é Srta. Eu sou</p><p>viúva, portanto Sra.</p><p>Tomou a mão de Madeleine e a tocou nos lábios, respeitosamente, mas sua</p><p>atenção estava visivelmente voltada à prima.</p><p>Madeleine, percebendo o interesse do cavalheiro pela prima se deixou ficar por</p><p>mais alguns instantes.</p><p>Verônica por sua vez desejou que o solo abrisse a seus pés, mas não demonstrou</p><p>a fim de não desagradar os anfitriões.</p><p>Quando ambas se foram, Carl se quedou a cismar:</p><p>“O que está acontecendo? Lembro-me bem desta Srta. Tentei me aproximar dela</p><p>no noivado da filha dos Marksuel!” Não, devo ter exagerado na bebida e estou</p><p>vendo o que não é real.”</p><p>Porém, como uma luz brilhante em sua mente, percebeu com clareza os fatos.</p><p>“Mas é claro! Só pode ser ela!”</p><p>Tratou de circular despretensiosamente pelo salão, trocando algumas palavras</p><p>com um ou outro até conseguir a confirmação de tratava-se daquela a quem fora</p><p>procurar.</p><p>“Hoje é meu dia de sorte! Mamãe ficará feliz!”</p><p>- Verônica querida, Vejo que apreciou deveras a noite, Seu semblante está</p><p>deslumbrante! Enfatizou a prima ao chegarem à fazenda. Ah, um pintor neste</p><p>momento para retratá-la!</p><p>- Realmente apreciei a noite Madeleine, mas… aquele Sr. que nos abordou à</p><p>saída… Ele me incomoda um pouco…</p><p>- Cuidado minha prima! Aquiete seu coração, você está agindo como uma</p><p>adolescente! Bem, visto seu pai mantê-la afastada da sociedade até esta idade,</p><p>não é de se surpreender que seja tão inexperiente. Neste caso, devo informá-la</p><p>que aquele educado Sr. tem uma péssima reputação e definitivamente não está à</p><p>sua altura. Mas, por outro lado, creio que este mau estar dos últimos tempos está</p><p>mexendo com seus hormônios.</p><p>- Você tem razão… Deve ser isso mesmo… Aliviada pela prima não fazer-lhe</p><p>mais perguntas ao perceber a fragilidade de suas emoções.</p><p>No dia seguinte após consulta com o médico da família…</p><p>- Bem Srta., o que tem não é nada grave, aliás, em sua idade é perfeitamente</p><p>natural.</p><p>- Do que se trata Dr.?</p><p>- A Srta. está na menopausa, somente isto. Estes sintomas, embora</p><p>desagradáveis, logo desaparecerão. Porém, recentemente foi descoberto um</p><p>medicamente para amenizar tais sintomas. Creio que poderão ajudá-la. Mas,</p><p>caso precise, é só me chamar. Com sua licença…</p><p>Verônica fez questão de ir pessoalmente à farmácia comprar o medicamento,</p><p>pois precisava entender exatamente o diagnóstico do médico.</p><p>Para sua sorte, foi atendida pela esposa do proprietário do estabelecimento e</p><p>Verônica pôde sanar todas as suas dúvidas, porém, após saber a verdade</p><p>arrependeu-se e desejou ter permanecido na ignorância.</p><p>Ao retornar à fazenda foi direto ter com a prima a fim de desabafar.</p><p>- Madeleine, eu descobri o que tenho e estou deveras entristecida. Preciso</p><p>desabafar…</p><p>- Calma minha querida! Eu também já estou nesta fase e posso garantir que é a</p><p>melhor fase da vida das mulheres!</p><p>- Calma?! Como posso ficar calma? Eu nunca tive um pretendente! Não fui</p><p>sequer cortejada e agora descubro que não posso gerar um filho! É muito triste</p><p>isto!Você é viúva, teve os filhos que desejou e hoje se orgulha deles. E eu? Qual</p><p>homem vai se interessar por mim? Vou morrer solteirona!</p><p>- Ora Verônica, pare de sentir pena de si mesma. Você é muito mais forte do</p>