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<p>Na narrativa eurocêntrica sobre a história da humanidade, tudo começa com os gregos. Além de ignorar</p><p>as civilizações que se desenvolveram antes ou ao mesmo tempo, essa his- tória também reproduz certas</p><p>ideias sobre a cultura clássica que reafirmam o protagonismo europeu. É bastante conhe- cida a tese de</p><p>que, na cultura grega antiga, a invenção do bárbaro contribuiu sobremaneira para a própria constituição</p><p>de uma identidade coletiva entre os povos que habitavam a Hélade e suas colônias. Como salientou o</p><p>historiador francês François Hartog (1999), os gregos olhavam os estrangeiros como se mirassem um</p><p>espelho invertido, enumerando como características dos povos considerados bárbaros não apenas</p><p>aquilo que eles viam enquanto diferença, como também os atributos indesejados na personalidade e na</p><p>cultura grega. O bárbaro passou a ser o exótico, o forasteiro, e foi tomado como sinônimo de selvagem,</p><p>desprovido de graça e polidez. A polarização entre aqueles que pertenciam à Hélade e co- nheciam sua</p><p>língua e cultura e os que pertenciam a outra territorialidade e inscrição cultural, como os persas, por</p><p>exemplo, acabou por assentar a imagem do homem ideal como aquele conformado pelas práticas</p><p>sociais, políticas e culturais daquela civilização do Ocidente, em oposição às diversas civilizações</p><p>orientais com as quais os helenos trava- ram contato.</p><p>Como aquelas sociedades eram fundamentadas em princípios patriarcais, na maior parte das poleis, as</p><p>mulheres eram proibidas de atuar no espaço público e eram respon- sáveis pela vida doméstica,</p><p>resultando em uma concepção de democracia e, posteriormente, de cidadania muito exclu- dente. Além</p><p>do impedimento de acesso à participação polí- tica aos estrangeiros e aos escravizados, também as</p><p>mulheres tiveram seus direitos políticos suprimidos em várias cidades gregas. Dessa maneira, aqueles</p><p>que deveriam comandar a pólis eram os homens gregos, que também eram responsá veis por legislar,</p><p>filosofar, guerrear, organizar a vida pública e cultural. Embora algumas mulheres tenham rompido com</p><p>esse aparato de dominação, é fortalecida a noção de que elas eram exceção à regra.</p><p>Contudo, vale a a pena a ressalva de que diversos autores, como Jack Goody (2008) que denuncia o roubo</p><p>da his- tória realizado pelo Ocidente em relação às invenções das civilizações não ocidentais, têm</p><p>destacado como essa nar- rativa de que a razão e o pensamento nascem na Grécia e de- pois se</p><p>universalizam faz parte de um projeto de poder e de afirmação da cultura europeia, mas não tem</p><p>fundamentação histórica. Martin Bernal afirma que a inspiração dos gregos no mundo egipcio era,</p><p>inclusive, bastante reconhecida na Europa até o século XVIII. Segundo sua análise, foram os intelectuais</p><p>do Iluminismo que apostaram em uma narrativa histórica que estabeleceu uma linha de continuidade</p><p>entre a Grécia clássica e a Europa ilustrada, como se a razão e a ciência que haviam nascido no mundo</p><p>antigo alcançassem</p><p>pleno desenvolvimento no Século das Luzes. Estudos histó ricos como esse são importantes para que</p><p>possamos desna- turalizar verdades que são afirmadas como inquestionáveis (Bernal apud Ortiz, 2015).</p><p>O Cristianismo contribuiu para a ampliação da noção de universalidade. Como uma religião monoteista e</p><p>de ma- triz judaica, sua pregação sustenta a afirmação de que existe um único Deus e um só caminho</p><p>para a salvação da alma. Os cristãos passaram a reivindicar o posto de povo escolhido e a determinar</p><p>como um de seus pilares a atividade missio- nária. Esse Deus onipresente, onipotente e onisciente será o</p><p>ponto de partida de uma visão de mundo e expressão cultu- ral que afirmam que toda a verdade fora</p><p>revelada na Bíblia e que essa verdade deve sobrepor-se a qualquer outra tentativa de explicar a vida, a</p><p>morte e tudo que ocorre entre um acon- tecimento e outro.</p><p>Religião, cultura e interesses econômicos aproximaram- -se no período da expansão marítima europeia e</p><p>na insti- tuição de entrepostos comerciais e colônias europeias na América, na Ásia e na África. A</p><p>afirmação do Cristianismo como a religião correta e a violência empenhada para pro- mover o</p><p>apagamento das demais crenças e religiões foram alguns dos capítulos mais obscuros da história. Como</p><p>se não fosse pouco, na expansão imperialista do século XIX, mais uma vez a religião foi utilizada como</p><p>justificativa para os crimes coloniais e a expropriação dos povos e da natureza de continentes inteiros.</p><p>O pensamento decolonial tem-nos oferecido boas ferramentas para criticar as heranças da colonização</p><p>euro- peia e também de um neocolonialismo estadunidense - nas Américas. Para o intelectual peruano</p><p>Aníbal Quijano</p><p>(2005), a conquista da América pelos europeus e a sua co- lonização deram início a um novo padrão de</p><p>poder mun- dial, baseado na colonialidade. Nesse novo padrão, as rela- ções sociais passaram a ser</p><p>mediadas por três características fundamentais: a formação do sistema capitalista de trocas comerciais</p><p>em escala mundial; a afirmação da modernidade curopeia como paradigma do pensamento, da ciência e</p><p>da constituição dos discursos verdadeiros sobre a realidade; e a racialização de povos não brancos.</p><p>Segundo Maria Lugones (2014), a imposição das relações entre homens e mulheres, a partir de</p><p>concepções de gênero típicas das sociedades euro- peias nas Américas, também é uma atribuição desse</p><p>processo histórico.</p><p>Para ilustrar esse último aspecto, podemos citar uma passagem de Caliba e a bruxa (2017), na qual Silvia</p><p>Federici analisa uma história relatada pela antropóloga Eleanor Leacock: o jesuita francês Paul Le Jeune</p><p>registrou em seu di- ário impressões de seus encontros com os indígenas da tribo Innu, que viviam onde</p><p>hoje se localiza o Canadá. Segundo o padre, os Innus eram desprovidos de noções de propriedade</p><p>privada, autoridade e superioridade masculina, e foram os franceses que cumpriram o importante papel</p><p>de lhes ensinar que o homem é o senhor e que, na França, as mulheres não mandam em seus maridos.</p><p>Os religiosos também comemo- raram como uma vitória quando finalmente induziram o castigo às</p><p>crianças como uma prática punitiva aceita social- mente. O seguinte trecho, reprodução de um diálogo</p><p>entre Le Jeune e um homem Innu, retirado do diário do jesuita, é elucidativo sobre como as relações entre</p><p>os gêneros masculi no e feminino eram muito diferentes entre os franceses e os Innus em meados do</p><p>século XVII:</p><p>Eu disse-lhe que não era honrável para uma mulher amar a qualquer um que não fosse o seu marido e</p><p>que, com este mal pairando, ele não poderia ter certeza de que seu filho era realmente seu. Ele respondeu:</p><p>'Não tens juízo. Vocês franceses amam apenas os seus filhos, mas nós amamos a todos os filhos de nossa</p><p>tribo. Comecei a rir, vendo que ele filosofava como os cavalos e as mulas (Federici, 2017, p. 222).</p><p>Ainda refletindo sobre essas questões, é bastante proble- mática a própria utilização de conceitos como</p><p>Ocidente e até mesmo a forma como Europa assume a força de uma enti- dade. Sobre o assunto, o</p><p>sociólogo brasileiro Renato Ortiz argumenta:</p><p>Primeiro, postula-se a existência de um espaço deno- minado Ocidente [...]. Sua concretude seria irrefutá</p><p>vel, material, e não o resultado de uma representação cuja história é perfeitamente possível de se</p><p>reconstruir. A Europa, ou seja, o relato que dela se faz, deixa de se constituir em uma unidade simbólica,</p><p>imaginada, para transformar-se numa realidade conjugada no singular. jamais no plural. Ela encerraria,</p><p>em sua personalidade imanente, em sua essência, valores, disposições espiritu ais, inclinações jurídicas</p><p>e econômicas radicalmente dis- tintas de todas as outras sociedades (Ortiz, 2015, p. 47).</p><p>A afirmação da Europa como uma identidade constante, que se confunde com a ideia de uma essência</p><p>da humanida- de, é o principal problema do universalismo que encontrou sua forma mais acabada na</p><p>filosofia do Iluminismo. As con- cepções iluministas de liberdade, igualdade, nação, povo, democracia,</p><p>progresso, modernidade, entre outras, foram</p><p>transformadas em verdades inquestionáveis e padrões para</p><p>toda a humanidade, afirmando a história da Europa como modelo para o desenvolvimento de todos os</p><p>povos, todos os Estados, todas as culturas. Talvez o caminho para a supera- ção desse universalismo que</p><p>aniquila as diferenças e impõe um padrão único para o processo histórico seja o que Ortiz nos propõe</p><p>como uma territorialização do pensamento e da experiência histórica europeia. Isso significaria</p><p>compreender a história daquele continente, situando-a geograficamente, isto é, entendendo que a</p><p>história da Europa é uma entre tan- tas outras histórias ao redor do planeta. Ela não é A história da</p><p>humanidade, ela é UMA história. Precisamos conhecer outras histórias também, não para apagar a</p><p>história euro- peia, mas para colocá-la em seu devido lugar.</p><p>Essa empreitada já está em curso há algumas décadas. Muitos historiadores, cientistas sociais e filósofos</p><p>têm con- tribuído com suas pesquisas para que concepções deturpadas sejam desmistificadas e para</p><p>que tenhamos o conhecimento efetivo da história de outras civilizações e culturas. O pro- blema é que,</p><p>por muitos anos, até mesmo a historiografia contribuiu para a afirmação da pretensa universalidade dos</p><p>valores europeus. O surgimento da História como uma disciplina nos moldes que conhecemos hoje</p><p>aconteceu no século XIX, em território europeu. Além da preocupação dos historiadores em pesquisar</p><p>criticamente e a partir de métodos rígidos os acontecimentos do passado, a escrita da História naquele</p><p>periodo foi muito marcada por dois pro- cessos históricos centrais para os países europeus: o forta-</p><p>lecimento dos Estados-nacionais e a expansão imperialista. Naquele cenário, a historiografia não em sua</p><p>totalidade, mas em sua maioria contribuiu para a construção de nar- rativas monocausais, lineares e</p><p>unitárias, que afirmavam a inexorabilidade do processo histórico europeu, da organiza- ção política em</p><p>torno do Estado-nação e da necessidade de todo o globo seguir os passos da Europa.</p><p>Com os impactos de grandes movimentos sociais e políticos das décadas de 1960, 1970 e 1980, tais como</p><p>os movimentos por independência pelos territórios que foram invadidos por potências imperialistas,</p><p>movimentos de con- tracultura, movimentos por direitos civis e reivindicações da voz e memória das</p><p>vítimas de episódios traumáticos como o Holocausto, o neocolonialismo e regimes de exceção, a his-</p><p>toriografia transformou-se para dar expressão aos diferentes grupos que cobravam seu lugar na História.</p><p>Esforços foram envidados para que fosse ampliada a gama de sujeitos histó ricos e para que histórias até</p><p>então apagadas chegassem ao conhecimento da comunidade como um todo. O surgimen- to da história</p><p>das mulheres como um campo específico da pesquisa historiográfica é, em grande parte, resultado dos</p><p>movimentos feministas das décadas de 1960 e 1970, que denunciavam que a história oficial era narrada</p><p>apenas sob a perspectiva masculina. A história das mulheres contribuiu para que muitas pessoas e suas</p><p>histórias pudessem finalmen- te ser conhecidas e respeitadas.</p><p>Mas vamos voltar um pouquinho no tempo para in- vestigar melhor como essa imagem de um sujeito</p><p>universal projetou-se na produção literária e quais teriam sido algu mas de suas consequências. No</p><p>século XIX, a efervescência de projetos para a nação tornou perceptível a importância da proposição de</p><p>uma lingua nacional e da defesa de que os falantes de uma comunidade também eram capazes de</p><p>constituir uma comunidade de leitores. Não somente foram estimuladas as letras que contribuíssen para</p><p>a formação do cidadão e de valores como o patriotismo, como fora também incentivada a produção de</p><p>literatura, a fim de forjar um canone nacional. Aqui é que reside nossa principal questão: embora muitas</p><p>mulheres tenham-se empenhado em se expressar em obras históricas, obras literárias, poesias e</p><p>romances, elas foram invisibilizadas e excluídas em diversos níveis. Primeiramente, por meio do veto à</p><p>publicação de textos, comentários, resenhas, poesias e literatura escritos por mulheres. Muitas tiveram</p><p>seus trabalhos recusados não pela qualidade do material avaliado, mas pelo simples fato de serem</p><p>mulheres. Isso levou grandes autoras a adotarem nomes masculinos, como foi o caso de Mary Ann Evans,</p><p>escritora britânica que viveu no século XIX e adotou o pseudônimo George Elliot. Por muitos anos, nós</p><p>mulheres fomos convencidas de que o motivo para uma história tão centrada nas ações e criações</p><p>masculinas, bem como para a ausência de nomes femininos na maioria das listas de historiadores,</p><p>filósofos e escritores clássicos, não era outro, senão o fato de que, por causa da dominação patriarcal e</p><p>da clausura no ambiente doméstico às quais as mulheres foram submetidas por séculos - simplesmente</p><p>não havia em nosso passado mulheres que efetivamente tivessem contribuído para a transformação</p><p>social como personagens destacadas nos eventos históricos, ou mesmo que tenham conseguido dedicar</p><p>suas vidas a desenvolver seus talentos como autoras de obras de historiografia de filosofia ou de</p><p>literatura, exceto raríssimas exceções. A pesquisa de muitas mulheres e também de alguns homens,</p><p>desde fins da década de 1960, tem-nos mostrado o contrário. Embora seja inegável que, em muitos países</p><p>e culturas, o feminino tenha sido associado à vida privada e ao trabalho doméstico de manutenção da</p><p>vida e cuidado dos vulneráveis, ainda assim, uma quantidade expressiva de mulheres rompeu essa</p><p>discriminação de gênero e ocupou espaços públicos, lançando-se em tarefas e oficios que até então eram</p><p>destinados exclusivamente aos homens. A his tória tem-nos apresentado um número significativo de mu-</p><p>lheres que foram lideres e participantes de eventos históricos responsáveis por grandes transformações</p><p>sociais, e ajudado a compreender como viviam as mulheres que resistiam ao patriarcado. Essas</p><p>pesquisas também nos têm revelado a produção intelectual de mulheres que foram esquecidas de</p><p>nossas histórias. Mas o apagamento de seus nomes e de seu trabalho foi um gesto tão violento que muitas</p><p>pesquisadoras e pesquisadores têm encontrado enorme dificuldade em ras- trear essas escritoras e</p><p>encontrar vestigios que nos informem melhor sobre suas histórias de vida e luta contra um merca- do</p><p>editorial brutalmente excludente.</p><p>Heloisa Buarque de Hollanda. Lucia Nascimento Araújo e sua equipe de pesquisadores realizaram uma</p><p>gran- de investigação em torno das mulheres que escreveram sobre literatura e artes de 1860 a 1991. O</p><p>resultado dessa pesquisa foi a publicação do livro/dicionário Ensaistas brasileiras, em 1993. No volume,</p><p>as autoras apresentam-nos quase trezen- tas páginas em verbetes sobre mulheres brasileiras que se de-</p><p>dicaram à crítica e ao ensaísmo sobre as artes no período citado. É um trabalho impressionante em vários</p><p>aspectos.</p><p>Primeiramente, pela possibilidade de conhecermos tantas intelectuais que participaram ativamente do</p><p>debate cultural. Também por percebermos, com mais clareza, que o proces- so de exclusão patriarcal</p><p>não se esgota na caracterização das atribuições de cada gênero e na imposição da reclusão femi- nina,</p><p>mas se amplia e se consolida na produção de esque- cimento. Por fim, mas não menos importante, as</p><p>autoras nos oferecem um panorama de trabalhos que as antecede- ram, produzidos no final do oitocentos</p><p>e ao longo do sécu- lo XX, nos quais as mulheres se empenharam em manter a memória do trabalho</p><p>intelectual feminino, produzindo antologias, dicionários, catálogos, perfis, galerias, entre ou- tros, com o</p><p>objetivo de apresentar as "mulheres ilustres", as escritoras brasileiras, as "mulheres célebres e notáveis",</p><p>as intelectuais etc. Buarque de Hollanda e Nascimento Araújo (1993. p. 15) nos dizem:</p><p>Pode-se perceber, nestas obras pioneiras da prática crí tica feminina, o eixo central da preocupação com</p><p>a ló- gica do 'silenciamento' na construção da série literária, marcando uma tendência, de claro acento</p><p>político, em denunciar e tentar romper com</p><p>a estigmatização da pre- sença feminina na literatura.</p><p>A escritora inglesa Virginia Woolf foi convidada para proferir duas palestras no ano de 1928, uma na Arts</p><p>Society, do Newnham College, e outra para a ODTAA, do Girton College ambas eram escolas apenas para</p><p>mulheres na Universidade de Cambridge. A extensão dos artigos moti- vou sua ampliação e subsequente</p><p>publicação, dando origem ao ensaio Um teto todo seu (2014). O convite recebido pela Sra Woolf tornara</p><p>explícito o tema da conferência: as mu- lheres e a ficção. Diante de um tópico tão abrangente e que</p><p>poderia ser abordado por diferentes prismas, a autora do cé lebre romance Mrs. Dalloway decidiu</p><p>interrogar-se sobre as possibilidades reais para que uma mulher pudesse dedicar-se à ficção como um</p><p>oficio.</p><p>A personagem de seu ensaio ficcional, Mary Benton, chega à conclusão inicial de que, para tal, uma</p><p>mulher não poderia contar com menos do que uma renda fixa anual que garantisse o seu sustento e um</p><p>teto todo seu. Ela assevera que a liberdade intelectual depende de coisas materiais: boa alimentação,</p><p>roupas para se proteger no inverno, condições de manter boa saúde e, de preferência, uma casa, um</p><p>espaço, onde essa mulher pudesse dedicar-se à leitura, à reflexão, à escrita e à reescrita.</p><p>Considerando as oportunidades disponíveis para as mu- lheres em seu país desde alguns séculos, Woolf</p><p>chega à con- clusão de que as mulheres sempre foram condenadas a viver em situações de pobreza, seja</p><p>porque pertenciam ao estrato menos abastado da sociedade ou pela impossibilidade de dispor de suas</p><p>heranças. Ademais, viviam assoberbadas com o trabalho não remunerado de gerar e criar filhose, muitas</p><p>vezes, também se ocupavam de sua instrução, cuidar das casas, cozinhar, coser e tantas outras tarefas</p><p>que as deixavam completamente exauridas no final do dia e sem tempo ou condições para dedicarem-se</p><p>a atividades rentáveis.</p><p>Comparando com as oportunidades de um homem que tenha vivido em uma mesma comunidade e no</p><p>mesmo período, a autora conclui que as mulheres nunca tiveram a chance mais remota de escrever</p><p>prosa. Em seu exercício ficcional, ela imagina se Shakespeare, grande nome da litera- tura inglesa, tivesse</p><p>uma irmă dotada de semelhante talento para a dramaturgia. Teria ela se tornado o maior nome do</p><p>Renascimento inglés no século XVI e um dos maiores auto- res em lingua inglesa de todos os tempos? E</p><p>Woolf continua sua provocação: seria possível medir o sucesso de grandes autores cujas obras são</p><p>consideradas clássicas na literatura universal apenas tendo como critério o talento, como se este fosse</p><p>um dom inato?</p><p>Talvez um primeiro incômodo surja no próprio enfren- tamento da expressão literatura universal, pois,</p><p>afinal, quem são os autores e as obras que gozam de tal legitimidade? Via de regra, aquilo que é anunciado</p><p>e comercializado como li- teratura universal consiste em um catálogo composto majo- ritariamente por</p><p>obras de escritores homens, em sua maioria europeus-ou descendentes de europeus nas Américas, prin-</p><p>cipalmente nos Estados Unidos e pertencentes à tradição cultural e religiosa judaico-cristă. A própria</p><p>Virginia Woolf é uma das poucas mulheres presentes em algumas listas que elencam os maiores</p><p>escritores do século XX. É a única mu- lher cujo livro foi analisado pelo crítico da literatura Erich Auerbach</p><p>no famoso Mimesis (2004). Uma exceção à regra. Não por acaso, "A meia marrom", capítulo no qual</p><p>Auerbach analisa Ao farol, livro de Woolf, é o último de um percurso que começa com a Odisseia, quase</p><p>como uma sugestão de que, com o início do século XX, as mulheres finalmente adentravam o cânone da</p><p>literatura universal.</p><p>O que nos preocupa é que, nos dias de hoje, inúme ros setores da sociedade ainda são ensinados e</p><p>estimulados a consumir literatura e cultura em geral como se existisse uma manifestação cultural que</p><p>nos servisse como norma, e que, por isso, ali se concentrasse a maneira correta de represen tação da vida</p><p>e do mundo. Seguindo essa lógica, as demais expressões culturais seriam cópias do original, em</p><p>diferentes graus de aproximação e afastamento ou mesmo de comple ta inadequação em relação ao</p><p>padrão estabelecido. É assim que a cultura de matriz europeia nos é apresentada: como o parâmetro</p><p>universal. A forma como os autores europeus constroem seus personagens, tecem suas tramas e</p><p>represen- tam o mundo é admitida como o modelo a ser seguido, caso alguém almeje o reconhecimento</p><p>de seu trabalho como uma obra de literatura.</p><p>Além desse traço etnocêntrico, há na construção discur- siva sobre a existência de uma literatura</p><p>universal-que deve ser de conhecimento de todos para a formação do sujeito e do cidadão o</p><p>silenciamento sobre a exclusão feminina por meio de uma manobra de gênero já consolidada pela noção</p><p>enraizada socialmente de que o homem das letras é um ho- mem. Portanto, nenhum leitor ou nenhuma</p><p>leitora surpre ende-se quando descobre que o autor de um grande clássico da literatura como Moby Dick</p><p>é um homem neste caso, 0 escritor estadunidense Herman Melville. Mas é possível que surja alguma</p><p>comoção na revelação de que uma história tão terrível quanto comovente, como Frankenstein, é de</p><p>autoria de Shelley, MARY Shelley, escritora inglesa e filha de Mary Wollstonecraft, pioneira na luta</p><p>feminista na Inglaterra.</p><p>Woolf nos fala desse "acúmulo de vida sem registro". seja nas biografias, nas historiografias ou na</p><p>literatura, na qual a autora via as mulheres sempre rondando os protago nistas masculinos.</p><p>Pois todos os jantares foram preparados, os pratos e os copos, lavados; as crianças enviadas para a</p><p>escola e sol tas no mundo. Disso tudo, nada permaneceu. Tudo se desvaneceu. Nem as biografias nem a</p><p>história têm algo a Abeer unsere leurs (Woolf 2014, p. 128)</p><p>Contudo, sua palavra não é pessimista. Ao contrário, ela convocou as mulheres que eram sua audiência</p><p>nas palestras proferidas em 1928, bem como as mulheres que viriam a ser leitoras de Um teto todo seu,</p><p>no início do seu século ou quase um século depois, para que juntas pudessem superar a longa opressão</p><p>materializada em apagamento. E que as poetas e romancistas que não o puderam ser forneçam-nos sua</p><p>força e inspiração para a transformação dessa realidade.</p><p>Mas acredito que essa poeta que nunca escreveu uma linha e foi enterrada no cruzamento ainda está viva.</p><p>Ela está viva em você e em mim, e em muitas outras mulhe res que não estão aqui esta noite, porque estão</p><p>lavando a louça ou colocando os filhos na cama. Mas ela está viva, pois os grandes poetas nunca morrem;</p><p>são presen ças duradouras, precisam apenas de uma oportunidade para andar entre nós em carne e osso.</p><p>Essa oportunida- de, acredito, está agora ao alcance de vocês. Pois acredito que se vivermos por mais um</p><p>século estou falando da vida comum que é a vida real, não das vidinhas isoladas que levamos como</p><p>indivíduose tivermos quinhentas libras por ano e um espaço próprio; se cultivarmos o hábito da liberdade</p><p>e a coragem de escrever exatamente o que pensamos; [...] então a oportunidade surgirá e a poeta morta</p><p>que era irmă de Shakespeare encarnară no corpo que tantas vezes ela sacrificou. [...] ela virá se tra</p><p>balharmos por ela, e que esse trabalho, seja na pobreza, seja na obscuridade, vale a pena (Woolf, 2014,</p><p>p. 159).</p><p>Apesar da beleza e da profundidade das palavras de Virginia Woolf, é certo que alguém poderia questionar</p><p>quantos autores hoje reconhecidos viveram vidas miseráveis, quantos conviveram com doenças que</p><p>abreviaram sua ju- ventude, entre outros tantos que tinham a mente atormen- tada por perseguições</p><p>políticas. Alguns podem até mesmo considerar a conjunção entre um teto todo seu e as quinhen- tas libras</p><p>por ano uma condição burguesa para a produção de literatura. E deve ser mesmo. O que não invalida,</p><p>nem mesmo diminui, a força e a pertinência da crítica de Woolf. Todavía se, para escrever literatura, uma</p><p>mulher precisa</p><p>de um teto todo seu e as quinhentas libras por ano, o que dizer de Quarto de despejo (2014), livro que</p><p>Carolina Maria</p><p>de Jesus escreveu entre 1955 e 1960, época na qual residia na favela do Canindé, em São</p><p>Paulo? A escritora vivia em um barraco com seus três filhos, que ela sustentava com o seu trabalho como</p><p>catadora de papel. Entre o cuidado com os filhos, a dura lida nas ruas, a árdua tarefa de colocar na panela</p><p>a pouca comida que conseguia comprar junto com as sobras que catava aqui e ali, preparando uma</p><p>refeição para quatro, enquanto zuniam confusões na favela, estendiam-se as horas de desespero e o</p><p>horizonte parecia se fechar, Carolina de Jesus procurava, nas brechas da miséria e da fome, a inspiração</p><p>para escrever os seus diários. Neles, ela registrava sua luta, mas que ela sabia que era também a luta de</p><p>muitas pessoas, e, por isso, estava decidida a publicá-los, contar ao mundo como era a vida na favela e</p><p>viver de literatura ou ao menos comprar um par de sapatos decentes para Vera Eunice, já que a menininha</p><p>não gostava de andar descalça. O barraço da favela não era um teto todo seu, ele era o quarto de despejo:</p><p>era a materialização da pobreza, do des caso, da precariedade. Carolina chamou assim o lugar onde</p><p>morava porque era assim que ela se sentia, como alguém que a qualquer momento poderia perder tudo,</p><p>perder as paredes, o teto, o chão, a vida. Essa vida escapava e era perseguida dia após dia, pois, se havia</p><p>sabão e manteiga na segunda, nada garantia que ela teria o que dar de comer aos seus filhos na terça.</p><p>Isso porque a renda que Carolina de Jesus conseguia conquistar com o seu trabalho catando papel pelas</p><p>ruas de São Paulo não eram as quinhentas libras por ano, e sua cabeça jamais estava em paz: era um</p><p>vender o almoço para comprar a janta de endoidecer gente så. Mas a literatura estava lá, fazendo-lhe</p><p>companhia. A escritora teria dito certa vez que, quando não tinha nada para comer, ao invés de xingar, ela</p><p>escrevia. O que é necessário para uma mulher escrever literatura? Minha pergunta é um pouco diferente:</p><p>o que é necessário para o que uma mulher escreve ser considerado literatura? Quais são as condições de</p><p>possibilidade para que o livro escrito por uma mulher favelada seja considerado literatura? Gloria</p><p>Anzaldúa, em "Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo", também</p><p>reflete sobre a quase impossibilidade de uma mulher escre- ver. Não desejadas nesse círculo, sentem</p><p>psicologicamente o peso da exclusão. Ao desencorajamento simbólico soma-se o peso do cotidiano de</p><p>mulheres que vivem o dia para garantir o pão de sua família, em comunidades carentes, em países</p><p>empobrecidos pelo colonialismo e o imperialismo. Tudo afasta a escrita. A falta de tempo, a falta de lugar,</p><p>a falta de acesso à educação formal, as tarefas domésticas, a falta de estímulo. Anzaldúa sabe bem que</p><p>os desafios são muitos. Citando Luisah Teish, ela sensivelmente sublinha que a si tuação das mulheres</p><p>do chamado Terceiro Mundo é tal que, "se vocês não se encontram no labirinto que (nós) estamos, é muito</p><p>dificil lhes explicar as horas do dia que não possuí- mos" (Anzaldúa, 2019a, p. 88).</p><p>O limite da escrita é o próprio limite da sobrevivência. Em meio a tantos perigos, por que eu deveria</p><p>escrever? O que eu teria para falar de alguma utilidade? E se trocarmos essas perguntas por. "por que eles</p><p>têm tanto medo de que eu escreva a ponto de me silenciar desta forma?" ou "o que eu posso dizer que</p><p>seja capaz de gerar tamanho desconforto?". É certo que o que uma mulher realmente quer dizer não vai</p><p>agradar a todos. E é exatamente al que reside o caráter revo- lucionário dessa escrita.</p><p>Para além de todos esses desafios, a escrita em si nos aparece como uma questão quase ontológica: se</p><p>escrever é produzir o eu, buscar sua exterioridade, alcançar seu ama- go, como é possível para uma</p><p>mulher de cor escrever se, na sociedade à qual ela pertence, o seu eu é, na verdade, enten- dido como o</p><p>outro não como alteridade, diferença; mas como ausência, incompletude. A escrita torna-se um ato de</p><p>valentia, de confrontação da norma e de conciliação com nós mesmas. Porque, quando descobrimos em</p><p>nós que esse outro é um eu, a vida passa a ter novo sentido, e a voz e a escrita transformam-se em nossas</p><p>armas para mudar o mundo. Anzaldúa proclama que "não existe separação entre a vida e a escrita e nos</p><p>exorta a escrever como dá: "esqueça o quarto só para si escreva na cozinha, tranque-se no ba- nheiro.</p><p>Escreva no ônibus ou na fila da previdência social, no trabalho ou durante as refeições, entre o dormir e o</p><p>acor- dar. Eu escrevo sentada no vaso" (Anzaldúa, 2019a, p. 90). Eu leio, faço anotações, preparo aulas,</p><p>corrijo trabalhos em balada nos trilhos da Supervia. Não é fácil. Na verdade, é exaustivo. Exige o dobro de</p><p>concentração, resulta em um trabalho fragmentado e muito se perde entre a leitura que foi realizada no</p><p>trem lotado, a inspiração que surgiu e preci- sa ser registrada e a impossibilidade de acessar o lápis na</p><p>mo- chila, que está presa entre as pernas. Talvez Virginia Woolf ficasse escandalizada com essas</p><p>condições de trabalho. Ela não poderia ter ideia do que mulheres do chamado Terceiro Mundo, mulheres</p><p>pobres, mulheres de cor, mulheres que desafiam o binarismo sexual têm enfrentado para se fazer ouvir.</p><p>E nem em suas projeções mais otimistas o que não era la o seu forte poderia antecipar como suas vozes</p><p>têm - reverberado cada vez mais alto.</p>