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Pensamento Político Medieval

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PENSAMENTO 
POLÍTICO MEDIEVAL
AULA 4
E - B O O K B P A S F O R M A S D E G O V E R N O N A H I S T Ó R I A
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Nesta quarta aula do curso a nossa missão é estudar as ideias das 
formas de governos que surgiram na Idade Média. 
Esta aula está estruturada em três momentos. No primeiro, discorro 
um pouco sobre a história do direito e da política da Idade Média. No 
segundo, começo a expor os pensamentos medievais a respeito das 
formas de governo. Eu entendi que era muito importante apresentar 
antes um pouco a história do direito e da política medievais, dado que as 
mudanças do ponto de vista da sociedade e da organização política são 
muito grandes. O fortalecimento da Igreja, a queda do Império Romano 
e seus desdobramentos tornam tudo tão diferente que, se vocês não 
compreenderem esse aspecto, fica muito difícil de entender porque, das 
ideias que foram surgindo, algumas parecem até bastante inocentes e 
imaturas perto das que já haviam surgido da Idade Antiga e outras, ao 
contrário, são bastante complexas, até inovadoras, e podem trazer luzes 
ao nosso tempo. E, no terceiro momento, tento mostrar como no período 
da Idade Média vão aparecendo ideias que possibilitarão o surgimento das 
teorias modernas, que é o escopo da quinta e sexta aula, até finalmente 
coroarmos o curso com a recepção brasileira de todas essas concepções. 
PANORAMA HISTÓRICO
Como todos sabem, a Idade Média começa tradicionalmente, 
segundo a periodização oficial atribuída pelos historiadores, com a 
Queda do Império Romano do Ocidente. Para nós que não estamos num 
curso de História, mas de História das Ideias Políticas, basta lembrarmos 
que essa queda significa que existia uma certa estabilidade estatal66 e 
um centro romano de governo que, pelo menos do ponto de vista dos 
direitos civil, administrativo e penal, expandia a sua atividade por um 
66 Lembrem-se que a palavra “estado” está sendo aqui usada em um sentido bastante elástico, para abarcar as 
formas antigas.
INTRODUÇÃO
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território enormemente grande, ainda mais para as proporções da época. 
Se observarmos hoje, o Brasil provavelmente é maior do que o Império 
Romano, mas para as dimensões da época aquilo era absolutamente 
extraordinário. Temos de recordar que o horizonte de consciência do 
homem antigo sobre o qual estamos falando limitava-se justamente 
àquelas terras que correspondiam ao continente europeu, ao norte da 
África e ao oeste da Ásia. Isso que era conhecido, esse é o mundo antigo. 
O mundo antigo romano era bastante unificado. Culturalmente 
era muito diversificado, mas, do ponto de vista do direito, ele estava 
conseguindo criar algo que, sem precisar de uma mesma religião e de 
uma mesma cultura, era capaz de estabelecer parâmetros de conduta 
— primeiro, parâmetros limitadores; segundo, parâmetros contratuais; 
e, terceiro, parâmetros administrativos. Podia-se contar com coleta de 
impostos, com administração de estradas, pontes etc. Esse direito romano 
será bastante desenvolvido por escrito no Império Romano do Oriente, 
onde realmente será catalogado, principalmente na época de Justiniano, 
e se criará então um cânone. Contudo, esse cânone do direito romano 
retornará para o Ocidente muito tempos depois. 
Por volta do século IV acontecem as Invasões Bárbaras67, ou seja, 
as invasões germânicas no Ocidente. Uma série de povos germânicos 
fundaram reinos, e às vezes esses reinos duravam muito pouco, porque 
brigavam com o reino ao lado e sucumbiam, ou se uniam ou se anexavam. 
Eles não tinham uma cultura suficientemente capaz de gerar uma 
tradição, uma organização política. Embora fossem fortes, eles não eram 
muito organizados administrativamente, nem eram bons do ponto de 
vista do direito. Podemos nomear vários desses germânicos (para não ficar 
usando a palavra “bárbaro”), entre os quais a tribo de Odoacro68 que de fato 
67 Na História da Europa, dá-se o nome de invasões bárbaras a uma série de migrações de vários povos, nomea-
damente tribos germânicas, durante e após o declínio do Império Romano Ocidental. Tradicionalmente, conside-
ra-se que este período começou em 375 d.C. (possivelmente já em 300) e terminou em 568.
68 Flávio Odoacro (c. 431-493), filho de um príncipe da corte de Átila, rei dos Hunos, foi um soldado que, em 476, 
depôs o imperador Rômulo Augusto e tornou-se o primeiro rei da Itália (476-493). Tradicionalmente, considera-se 
a deposição de Rômulo Augusto como o marco do fim do Império Romano do Ocidente, bem como da Roma 
Antiga.
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derruba o imperador romano, os Godos69 em geral (ostrogodos e visigodos) 
— daí vem inclusive a palavra “gótico” —, os Vândalos70, os Suevos71, os 
Alanos72, os Anglos73, os Saxões74 etc. Essa invasão foi muito diferente em 
diversos pontos onde existia uma certa unidade. Por exemplo, a Inglaterra, 
então Britânia75, já tinha povos originários (os bretões) e era uma parte de 
Roma, mas depois foi invadida pelos anglos e saxões. Portugal também — à 
época Lusitânia76 — já era uma colônia romana e a partir das invasões se 
tornará principalmente um reino visigótico. 
Posteriormente, quando esse período se estabiliza, as coisas vão se 
modificando muito do ponto de vista da política e do governo. Daí surge a 
nobreza, uma nova classe. Esses germânicos, muitos de pele clara, cabelos 
loiros e olhos azuis, alijando os antigos governantes romanos, os patrícios, a 
ordem jurídica e política estabelecida, vão constituindo uma nobreza. Por 
isso a diferença no aspecto: os mais claros vão adquirindo mais poder político 
69 Os godos, cuja origem é incerta, eram uma tribo germânica composta por um ajuntamento de clãs com 
diversos líderes. Em 98 d.C., são mencionados como habitantes da foz do Rio Vístula e, em torno do ano 200, 
passaram a deslocar-se em direção ao Mar Negro, fixando-se na atual Ucrânia e Bielorrússia. No encontro com o 
Império Romano, no século IV, dividem-se em Ostrogodos (godos do oeste) e Visigodos (godos do leste). Estes se 
estabeleceram na Gália e na Hispânia e aqueles na Península Itálica e na Polônia. No século VI os ostrogodos são 
derrotados pelo Império Bizantino. Já os visigodos, originários do leste europeu, tiveram um papel importante na 
Europa nos 250 anos que se seguiram, particularmente na Península Ibérica, onde substituíram o domínio romano 
na Hispânia, reinando de 418 até 711, ano da invasão muçulmana. Os vestígios visigóticos em Portugal e Espanha 
incluem várias igrejas e descobertas arqueológicas crescentes, mas destaca-se também a notável quantidade de 
nomes próprios e apelidos que deixaram nestas e noutras línguas românicas.
70 Os vândalos eram uma tribo germânica oriental que penetrou no Império Romano durante o século V, entran-
do na Gália, atravessando a Ibéria e conquistando o norte da África, onde criaram um Estado e estabeleceram a 
sua capital em Cartago, antiga cidade fenícia que fora ocupada pelos romanos desde o fim das Guerras Púnicas. 
No ano de 455, os vândalos saquearam Roma, destruindo muitas obras de arte. 
71 Grupo de povos germanos originário da região entre os rios Elba e Oder, dos quais uma parte migrou para 
Hispânia durante as Invasões Bárbaras e fundou um reino na antiga província romana da Galícia (atual norte de 
Portugal e Galiza). Este reino veio a ser o “embrião” de Portugal e durou entre 409 e 585 d.C., ano em que foi anexa-
do pelos visigodos.
72 Povo com origem iraniana no nordeste do Cáucaso, entre o rio Dom e o mar Cáspio. Pontuaram entre os povos 
que penetraram o Império Romano tardio no período das migrações dos povos bárbaros, migrando em direção ao 
ocidente nos séculos IV e V. Fundaram o reino em Lusitânia, na Península Ibérica, e ali permaneceram até serem 
obrigados a seguir para o norte da África, onde estabeleceram o reino dos Vândalos e dos Alanos, extinto no séculoVI, com a dominação bizantina.
73 Seu nome está na origem do nome “Inglaterra” (terra dos anglos). Um dos principais povos germânicos, 
provavelmente originários da antiga região da Ânglia, os anglos se estabeleceram na Britânia, no período pós-ro-
mano, instalando-se na Ânglia Oriental, na Mércia e na Nortúmbria, no século V, e fundando vários dos reinos da 
Inglaterra anglo-saxônica.
74 Uma confederação de tribos germânicas nas planícies do norte da Germânia, alguns dos quais migraram 
para a Ilha da Grã-Bretanha durante a Idade Média e se fundiram com os anglos, formando os anglo-saxões, que 
formariam o primeiro Reino da Inglaterra.
75 Província romana do centro-sul da ilha da Grã-Bretanha que existiu entre 43 e 410 d.C. No início do século IV 
a.C., quando gregos e cartagineses trocavam estanho com os bretões, as ilhas Britânicas eram conhecidas pelos 
gregos como as Cassiteritas (“ilhas de estanho”).
76 Nome atribuído na Antiguidade ao território oeste da Península Ibérica, onde viviam os povos lusitanos des-
de o Neolítico. Após a conquista romana, passou a designar uma nova província romana da Hispânia. A Lusitânia 
romana incluía aproximadamente todo o atual território português a sul do rio Douro, a Estremadura espanhola 
e parte da província de Salamanca. Lusitânia era e é frequentemente usada como um nome alternativo para Por-
tugal.
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e os de traços mais latinos vão se transformando mais em obedientes, em 
servos. A constante estabilização dos diversos reinos em reinos menores 
é que cria progressivamente a Idade Média. 
O que caracteriza melhor a Idade Média é a Cristandade. Diante 
desse cenário que acabei de pintar, Cristandade significa que, se para os 
germânicos faltavam cultura, tradição, capacidade administrativa, o mesmo 
não faltava para muitos dos clérigos. Não pensem, contudo, que já eram 
todos geniais escritores, conhecedores, herdeiros magnos do classicismo 
greco-romano. O fim da Antiguidade quer dizer também a destruição 
de muitos bens físicos (a destruição de bibliotecas, a perda de livros) e 
uma confusão administrativa tal que a memória jurídica foi perdida. Era 
realmente um caos. Entretanto, muitos clérigos da nascente Igreja — não 
pensem em edifícios, mas em uma comunidade unida mais pelo elo de 
uma certa tradição — conseguem prover de uma cultura comum, de uma 
expectativa transcendente e ao mesmo tempo de uma certa organização 
administrativa, pelo acúmulo de dados escritos, uma vez que sabiam ler e 
escrever77. Vai havendo então uma certa estabilização, não política com 
um império de novo, pois são vários reinos diferentes, mas do ponto de 
vista da cultura e da tradição. Nesse sentido, vemos a cristandade se impor. 
Evidentemente é muito ingênuo pensar que naquele momento 
(séculos V, VI e VII d.C.) havia uma unificação; ao contrário, há uma grande 
fragmentação. E ainda que houvesse, como no Oriente desde o século IV, o 
surgimento de comunidades eclesiásticas que começavam a se transformar 
nos antigos monges, criando uma vida monástica, isso não era o padrão. A 
organização papal, por exemplo: pensar que a ordem do papa percorreria 
todo o mundo antigo é de uma ingenuidade, inocência ou má-fé enormes. 
Isso não tinha como acontecer, era tudo muito dificultoso. Uma certa 
cultura e uma certa tradição é que unificava aquilo tudo. 
77 Esse é o motivo pelo qual a língua latina continua predominando, pelo menos como língua de estudo. O latim 
já havia se sobreposto antes, mas ele vai se impondo inclusive sobre os germânicos.
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Do ponto de vista jurídico parece tudo um recomeço. Num dado 
momento, o Código de Justiniano78, porque respondia a muitas questões 
(por exemplo, como regular um contrato, como administrar uma cidade) 
foi percorrendo todas as comunidades germânicas que estavam se 
convertendo em cidades cristãs. Esse direito romano passará a ser chamado 
de uma espécie de direito tradicional ou até entrará nos costumes. Quando 
não se usava o Código, ele se transformava num modo costumeiro de 
resolver as coisas herdado dos romanos. E ao mesmo tempo, a partir da 
Cristandade, passarão a existir novas maneiras de interpretar o que era o 
direito, principalmente do que chamamos hoje de direito natural. 
A pergunta central era: qual é a expectativa de Deus em relação a 
nós enquanto comunidade? Essa questão era uma tentativa de descobrir 
quais eram os desígnios de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Deus a respeito 
dos cristãos em comunidade. E isso vai trazendo respostas. Essas respostas 
gerarão algumas obras escritas, mas originarão sobretudo respostas na 
prática, e estas por sua vez criarão aquilo que conhecemos hoje como 
sociedade medieval tradicional. Ou seja, teremos uma nobreza, e algumas 
comunidades darão mais ou menos força para uma figura única, que seria 
um rei; um estamento de clérigos, que será o clero; e um outro estamento 
daqueles que, uma vez recebendo o acesso à moradia, a terras e à proteção 
— recordem que era um momento de guerras contínuas, de grandes 
invasões — produziam, cultivavam os campos e entregavam parte da sua 
proteção aos senhores. 
Esse sistema, conhecido como o conjunto daqueles que rezam, 
daqueles que guerreiam e daqueles trabalham, é o ternário que se 
cristalizará, principalmente no chamado reino franco (atual França), e 
acabará se expandindo como organização tradicional da Idade Média. É 
78 Oficialmente chamado de Corpus Juris Civilis, herança do direito romano, era um conjunto de leis aplicadas 
ao Império Bizantino e representou um importante avanço jurídico para aquele território. Tendo em vista o seu 
projeto de unificação e expansão, o imperador bizantino Justiniano percebeu ser indispensável a criação de uma 
legislação congruente e padronizada, capaz de atender os litígios e demandas à época. Aplicado em 533, o Código 
continha leis relacionadas à propriedade privada, a liberdade intelectual, e determinava a gravidade dos crimes e 
suas penas.
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claro que se considerarmos Portugal, algumas coisas um pouco diferentes 
aconteceram porque, depois que o reino visigótico e o clero se entendem, 
de fato se forma uma nobreza e surgem trabalhadores-servos. Mas logo 
ocorrem as invasões islâmicas a partir do século VI. 
Da parte histórica resta mais um ponto importante. Vocês precisam 
entender o direito e a política da época de uma forma muito complexa, 
pois existiam ordens jurídicas sobrepostas. Havia um certo direito 
consuetudinário (o direito costumeiro) que derivava em alguma medida 
do direito romano, o direito romano escrito — em alguns lugares, por 
exemplo, os germânicos traduziram o Código de Justiniano em alemão 
(primitivo muitas vezes) e chamaram de Pandectas79 — e posteriormente 
o surgimento de um direito cristão. Na verdade, é uma concepção cristã 
de direito natural e de direito eterno para que se tenha uma visão 
adequada de direito humano, ou seja, quais são as leis que governam no 
mundo, as leis de Deus. Ainda não estamos falando das leis de Newton de 
funcionamento da natureza, mas é como se Deus estabelecesse algumas 
regras para o comportamento das coisas: das árvores, dos rios e das pessoas. 
O direito eterno (como funciona o universo) derivará para um direito 
da natureza (como funcionam as coisas da natureza), que por sua vez 
refletirá num direito humano. Além de todos esses aspectos unificados, 
ainda há o chamado regalismo80. Nos locais onde um rei vai ganhando 
proeminência, ele é identificado também como fonte de direito, ou seja, 
o que ele dizia era importante de se cumprir. 
79 Pandectas ou Digesto é uma compilação de fragmentos de jurisconsultos clássicos. A obra é composta de 
50 livros, subdivididos em aproximadamente 1.500 títulos, segundo o assunto.Sob cada um dos títulos figuram 
fragmentos de obras de mais de quarenta jurisconsultos romanos do período clássico. É muito comum na cultura 
alemã a referência ao Pandectas.
80 Ideia de que o monarca tem supremacia sobre a Igreja como instituição, frequentemente referindo-se espe-
cificamente à monarquia espanhola e à Igreja Católica Romana no Império Espanhol. Os regalistas procuraram 
reformas cujo objetivo era redefinir o clero como uma classe de especialistas espirituais com menos responsabili-
dades judiciais e administrativas e menos independência do que na época dos Habsburgos.
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AS FORMAS DE GOVERNO 
Uma vez também colocados os personagens dentro de seus cenários 
adequados, é muito importante entender que quem pensava e quem 
escrevia eram clérigos, pessoas ligadas à Igreja. À princípio muitas vezes 
eram os párocos mesmo, padres e bispos. O próprio Santo Agostinho era 
um sacerdote e depois foi nomeado bispo de Hipona81. Se vocês lerem os 
Padres da Igreja, os chamados Santos Padres82, irão notar que todos eles 
pregavam constantemente para as suas comunidades. É justamente 
da pregação, da luta de ideias existente nesse esforço evangelizador, 
que vai surgindo uma filosofia, um pensamento originário. Veremos um 
pensamento mais organizado a partir da chamada Escolástica83, onde há 
monges cujas regras também tinham relação com o estudo. Em virtude 
de um certo ócio, de uma certa vida estável, de uma proteção, eles vão 
conseguindo desenvolver teorias — aí, sim, podemos dizer — com o mesmo 
estatuto e dignidade daquelas antigas, embora eu também considere 
que as teorias feitas em praça pública, como o pensamento socrático, 
têm um grande valor. O pensamento dos Santos Padres vem da praça, 
o pensamento dos escolásticos vem do claustro, do scriptorium, da 
reflexão tranquila em suas salas de estudo. Essa é a grande diferença.
As primeiras versões das formas de governo 
As formas puras tradicionais de governo que remontam a Heródoto 
são monarquia, aristocracia e democracia. Na transformação do mundo 
medieval, o ternário medieval que mencionei anteriormente introduz 
81 Aurélio Agostinho de Hipona (345-430), também conhecido como Santo Agostinho, foi teólogo, filósofo, e bis-
po de Hipona. considerado como um dos mais importantes Padres da Igreja Latina no período patrística. Os seus 
escritos influenciaram o desenvolvimento da filosofia ocidental e do cristianismo ocidental. Suas muitas obras 
importantes incluem A Cidade de Deus, Sobre a Doutrina Cristã e Confissões.
82 O escolasticismo foi uma escola de filosofia medieval que utilizou um método crítico de análise filosófica ba-
seado num currículo católico latino que dominou o ensino nas universidades medievais na Europa por cerca de 
600 anos. Teve origem nas escolas monásticas cristãs, base das primeiras universidades europeias. O pensamento 
escolástico é também conhecido pela análise conceitual rigorosa e pelo desenho cuidadoso de distinções. Na sala 
de aula e por escrito, assume frequentemente a forma de disputa explícita (disputatio) Devido à sua ênfase no 
método dialético rigoroso, o escolasticismo acabou por ser aplicado a muitos outros campos de estudo.
83 Os Pais da Igreja, Pais da Igreja Primitiva ou Pais Cristãos eram antigos e influentes teólogos cristãos e es-
critores que estabeleceram os fundamentos intelectuais e doutrinais do Cristianismo. O período histórico da Era 
Patrística abrange aproximadamente o final do século I a meados do século VIII, com um florescimento durante 
os séculos IV e V.
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nessa organização de formas de governo uma estrutura de sociedade. 
Temos de compreender a estrutura de sociedade para entender quem 
manda mais. 
O monge que definiu a sociedade medieval como aquela composta 
por aqueles que rezam, aqueles que guerreiam e aqueles que trabalham, 
dá origem a uma primeira versão. Aqueles que rezam são os que também 
instruem para a vida, porque esta vida e o modo como cada uma a conduz 
acarretará nas benesses da bem-aventurança eterna ou na condenação 
eterna. Portanto, eles também são orientadores de almas. Como a vida 
em comunidade pode fazer bem ou mal para a alma, e o fim da vida 
humana não é a vida em comunidade, ou seja, a vida em comunidade não 
é realizadora do fim da vida humana, então, além de rezar, eles orientam 
a alma. Dessa forma, os que rezam têm um certo poder. Aqueles que 
guerreiam não só guerreiam, mas também protegem, isto é, coordenam 
construções de grandes castelos e estão à frente dos esforços de guerra 
quando necessários. Isso significa também que, em tempo de paz, do 
ponto de vista de governo, eles são governantes. Há, portanto, um poder 
sobre a alma, que é enorme, e um poder sobre a organização da sociedade 
mais imediata. E, por fim, aqueles que trabalham de fato sustentam as 
outras duas classes. 
Na Idade Média, aquelas duas outras classes (os que rezam e os que 
guerreiam) são representativas de duas forças — a Igreja propriamente 
é uma força espiritual. São as famosas duas espadas: a da Igreja, por 
um lado, e, por outro, a do estado. Temos, pois, o governo secular e o 
governo das almas para que elas possam atingir a vida eterna com Deus. 
A conjugação desses poderes, a harmonia ou desarmonia e a resposta 
às perguntas que surgem da vida prática, dos conflitos e desafios entre 
esses poderes, é o que dará uma noção de qual é a forma de governo 
ideal. Os medievais começam refletindo, primeiro, a forma de governo.
Na visão dos cristãos primitivos, por ocasião das conquistas 
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germânicas e das formações de reinos — como o visigótico e franco em 
Portugal e o surgimento de Alexandre Magno, por exemplo — o governo 
se estabelecia mediante monarquia. E, porém, não era fruto apenas da 
experiência histórica, mas também da perspectiva de como se governa o 
universo. Quem governa o universo não são deuses, e sim Deus. Ele que 
deu as regras, Ele que governa, Ele que manda. Então a primeira concepção 
que surge é muito intuitiva. Tanto do ponto de vista do cenário que os 
envolve quanto do teórico, um é que deve governar. Daí vão surgindo 
aqueles tratados chamados espelhos de príncipe84. Na Idade Média 
aparecem alguns que mais adiante citarei. 
Um dos primeiros pensadores a respeito de forma de estado 
é Isidoro de Sevilha85 no século VI. Isidoro de Sevilha apresenta uma 
concepção de estado que pode nos remeter à visão negativa de 
Platão, pois ele diz que não há estado perfeito, pelo menos neste 
mundo. Contudo, há uma pequena diferença. Para Platão os estados são 
todos corrompidos, exceto os da aristocracia ou da monarquia dos sábios 
(o Estado ideal) — conforme uma determinada forma de ler A República, 
como já disse em outra aula; ao passo que Isidoro de Sevilha está trazendo 
a concepção a respeito do pecado original, da maldade nata do homem 
e da finalidade da vida humana. A reflexão a partir disso mostra que a 
organização da sociedade visa impedir que haja abusos, crimes, matanças 
e assim por diante. É algo para impor o temor, o mesmo temor que se deve 
sentir a Deus, para que as coisas funcionem harmonicamente no mais 
mínimo que possam ficar harmoniosas, para que as pessoas possam se 
dedicar àquilo que importa à vida cristã. Então percebe-se uma concepção 
negativa, no sentido prescrito mesmo, do estado. Podemos, pensando 
84 Gênero literário educativo de escrita política durante a Alta Idade Média, Idade Média e Renascença, fazem 
parte do gênero mais amplo do especulum ou da literatura espelhada. Sob a forma de livros de texto, instruíam 
diretamente os reis ou governantes jovens sobre certos aspectos da regra e do comportamento. Em um sentido 
mais amplo o termo é também utilizado para cobrir histórias ou obras literáriasdestinadas a criar imagens de reis 
para imitação ou evitação. Uma das primeiras obras foi escrita pelo poeta irlandês Sedulius Scottus.
85 Isidore de Sevilha (c. 560), um erudito e clérigo espanhol, foi arcebispo de Sevilha por mais de três décadas. É 
amplamente considerado “o último estudioso do mundo antigo”. Numa época de desintegração da cultura clássi-
ca, Isidoro esteve envolvido na conversão dos reis visigodos arianos ao catolicismo. A sua fama após a sua morte foi 
baseada na sua Etimologiae, uma enciclopédia etimológica que reuniu extratos de muitos livros da antiguidade 
clássica que, de outra forma, teriam se perdido.
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como Isidoro de Sevilha, até prescrever um estado melhorzinho ou um 
pior, mas sempre será ruim. Esta vida nunca será boa dentro do estado. 
A concepção da Cidade de Deus de Santo Agostinho86 séculos antes 
é análoga à de Isidoro de Sevilha: a Cidade de Deus que é a cidade perfeita 
e a pátria dos cristãos. Santo Agostinho viveu o fim do Império Romano, ele 
é um homem da Antiguidade. Vemos que já nasce com Santo Agostinho a 
reflexão primeiro a partir do contexto histórico: o fim do Império Romano, 
quando tudo está dando errado e decaindo. A ideia de que é possível, pelo 
direito, pela administração, por um governo as coisas funcionarem, isso 
tudo rui. É necessário buscar a virtude, buscar o caminho para Deus e 
assim vai encontrar a cidade adequada, o estado adequado quando 
chegar à vida eterna. 
Ainda por volta dessa fase, começam a surgir reflexões que se 
destinarão mais a ética, e uma ética cristã às vezes muito assemelhada 
aos livros de Sêneca87, embora os estoicos tenham perseguido os 
cristãos. Quando se fala de política, geralmente se fala de ética. Ou seja, o 
governante tem de observar se as pessoas estão ultrapassando um limite 
ético último. Se elas não estão ultrapassando, isso importa para a questão 
da alma delas. E quem deve controlar isso são os párocos. Isso é problema 
dos padres, dos pastores de almas.
No período da Escolástica, século XIV, há um escritor chamado 
Bártolo88. Entre 1314 e 1350, ele escreveu o livro De regimine civitatis, no 
qual desenvolve qual seria o tirano mais adequado — me refiro justamente 
àquele monarca que exerce o poder até com algo de terror — e ele 
diz que existe a tirania adequada e a inadequada. Se compararmos o 
pensamento dele com o dos antigos, a princípio ele quer dizer que não 
86 Esta concepção encontra num livro extraordinário com o mesmo título no qual ele descreve detalhadamente 
a cidade perfeita.
87 Lúcio Aneu Sêneca (ca. 4 a.C.-65), filósofo estoico e um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais 
do Império Romano. Como escritor, é conhecido pelas suas obras filosóficas e pelas suas peças de teatro (Medeia, 
Tiestes e Fedra). É imensa a influência de Séneca nas gerações posteriores. Durante o Renascimento, ele foi consi-
derado como um oráculo de moral (mesmo de edificação cristã) um mestre do estilo literário e um modelo para 
arte dramática.
88 Bártolo de Sassoferrato (1314-1357), um jurisconsulto medieval, um dos mais notáveis comentadores do Direito 
Romano, é considerado o maior expoente dentre os comentadores e foi um dos juristas mais importantes da Eu-
ropa Continental durante o Século XIV.
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existe uma forma de governo perfeita, ideal, neste mundo. Aqui temos 
arranjos possíveis, e os melhores são os de um monarca que, mesmo 
que tirano, seja legítimo. E o que significa legítimo? Ele chegou ao poder, 
conquistou o poder dentro de regras adequadas e até sob a anuência 
divina. Portanto, ele está introduzindo também uma visão de que a Igreja, 
como mediadora entre céu e terra, deve ter a missão de indicar qual é 
o tirano legítimo. Ao mesmo tempo ele precisa de legitimidade para ser 
empossado, deve também obediência às regras quando já está no exercício 
do poder. Por conseguinte, o tirano pode perder legitimidade no exercício 
inadequado do poder. Esta é a concepção mais básica de Bártolo: além de 
uma certa legitimidade para se chegar ao poder, é necessário também 
manter-se virtuoso enquanto governante.
Já próximo à modernidade, Coluccio Salutati89 escreve um tratado 
sobre o tirano, no qual ele fará uma reflexão já com base na obra literária 
de Dante Alighieri — aqui observa-se que a cultura clássica já estava 
começando a fazer parte das ponderações medievais. Dante Alighieri 
coloca no último círculo do Inferno os assassinos de Júlio Cesar, e a questão 
de Coluccio Salutati no De Tyranno é justamente descobrir se César foi 
realmente um tirano malvado, uma vez que ele não está lá nos últimos 
círculos do Inferno. Se ele foi um tirano, e é assim que se governa, então os 
assassinos dele é que são piores. Para Salutati, o tirano está cumprindo 
com o seu dever dentro das possibilidades que a vida neste mundo 
permite. 
E próprio Salutati apresentará uma classificação um pouco mais 
desenvolvida de governante. Ele define três príncipes: (1) princeps patrum 
regius, (2) princeps patrum politicus e (3) princeps patrum despoticus. 
Nota-se, por essa classificação, que ele leu Aristóteles, uma vez que 
o príncipe régio, ou o príncipe-rei, é aquele que governa como um pai 
89 Lino Coluccio di Pierio di Salutati (1331-1406), filósofo, literato e chanceler da República de Florença, foi um dos 
mais importantes líderes políticos e culturais do renascimento florentino. Contemporâneo de Petrarca e Bocaccio, 
dos quais foi amigo.
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trata com os filhos, ou seja, visando o bem dos filhos e a autonomia e 
crescimento deles; e o rei político governa com um quê de superioridade, 
mas para o bem de si e dos outros, como numa relação com a esposa. Ou 
seja, o primeiro governa principalmente para o bem dos governados e o 
segundo para o bem de ambos com algo de superioridade. E o príncipe 
déspota é aquele que governa como se estivesse diante de escravos: ele 
usa a sua comunidade para buscar o seu próprio bem, afinal os escravos 
são instrumentos humanos do senhor. Se um governante usa sua 
comunidade como um instrumento humano para a busca da realização 
de seus próprios objetivos e fins, ele é um déspota. Nota-se que a visão 
gira muito em torno da monarquia. Ela é a ideal. No entanto, repito: isso se 
deve sobretudo à circunstância histórica e à visão religiosa. 
As ponderações sobre a forma de governo se tornam um pouco 
mais complexas justamente em São Tomás de Aquino90. Refiro-me 
notadamente a algumas questões da Suma Teológica que dizem respeito 
à lei e à justiça. Essas questões tratarão primeiro de como existe a relação 
entre Deus e as expectativas de Deus. Ele não faz essa reflexão em abstrato, 
e sim usando como fontes a Bíblia, os pensadores cristãos (Santos Padres) 
que lhe antecederam, filósofos seculares e a sua própria reflexão dentro 
dos parâmetros do pensamento dialético tão exaltado pela Escolástica, 
principalmente com o aprendizado de Aristóteles. Aliás, sempre que ele 
escreve “o filósofo”, está se referindo a Aristóteles. 
Além da Suma Teológica, ele escreve ao rei de Chipre um tratado 
sobre o reino, uma espécie de espelho de príncipes, em que explica e 
orienta como deve ser o rei perfeito, expõe quais são as formas de governo 
existentes e por que a monarquia é melhor. Ele defende que a monarquia 
é muito superior, pois existe justamente a possibilidade de um ser 
virtuoso e sábio estar à frente. Isso tem uma grande relação com aquelas 
90 Tomás de Aquino (1225-1274), frade dominicano da Ordem dos Pregadores (dominicano), conhecido como 
Doctor Angelicus, Doctor Communis e Doctor Universalis, suas obras influenciaram enormemente a teologia e a 
filosofia, principalmente a tradição Escolástica.
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respostas antigas à pergunta de quem governa ou quem deve governar. E 
ao mesmo tempo existem regras específicas e universais para o rei. Uma 
dessas regras muito interessante é a de procurar, com os seus atos, fazer 
com que a sociedade tenha, primeiro, alguém em quem se espelhar, ou 
seja, que ela tenha um bom exemplo; e, segundo, fazer com que essa 
administração seja voltada para a virtude cristã, ajudando as pessoas a 
alcançar o céu. Esse regramento é uma analogia com a teoria aristotélica. 
A teoria aristotélica de sociedade também tinha essa concepção 
de que a sociedade visava ao bem comum. O bem supremo era a 
eudaimonia: a vida para o intelecto, para uma espécie de ócio reflexivo 
visando a contemplação. A existência de uma pólis que permitisse a 
existência da vida inteligente era o supremo da vida humana, a ciência 
política, a ciência suprema, é a realidade. A vida inteligente de um Platão 
e de um Aristóteles dentro de uma pólis que permite isso é o ápice da 
vida humana. Já para São Tomás de Aquino havia uma analogia. Também 
é o bem comum, mas o bem comum é justamente alcançar a vida 
eterna junto a Deus. Era necessário ter algo de Aristóteles, ou seja, alguns 
precisavam ter essa vida no ócio, no estudo, como era o caso dos monges, 
contudo, o mais importante era que todos tivessem uma vida virtuosa 
e uma vida que os possibilitasse entrar no paraíso. Essa era uma norma 
para o rei.
Mas isso é mais complexo em São Tomás de Aquino. Da questão 90 
em diante do Livro II da Suma Teológica, em algumas bem específicas, 
ele tratará da doutrina do governo misto e chegará a dizer, em termos 
abstratos e ideais, que o ideal seria uma sociedade na qual vigorasse o 
governo misto. Os argumentos dele, muito semelhantes aos de Políbio91, 
eram de que o governo misto possibilita, primeiro, que um rei exerça aquilo 
que é adequado para um monarca virtuoso e sábio, e ao mesmo tempo 
91 Políbio (c. 203-120 a.C.), geógrafo e historiador da Grécia Antiga, famoso pela sua obra Histórias, narrando a 
história do mundo Mediterrâneo no período de 220 a.C. a 146 a.C. Sua análise da constituição mista ou da separação 
de poderes no governo influenciou a Constituição de Montesquieu em O Espírito das Leis e os autores da Consti-
tuição dos Estados Unidos.
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ele tenha uma compensação, um equilíbrio, com uma nobreza. 
O que acontece com a mentalidade medieval e também com a 
nossa lendo textos antigos? Um monte de anacronismos. É natural que 
seja assim, ao ler os textos antigos, quando não há professores para explicar 
a história grega. São Tomás de Aquino não falava nem lia grego, mas tinha 
tradutores. Faltava de repente historiadores para ajudar na historicidade, 
na contextualização. 
Quando os medievais começam a usar essas teorias — e elas 
aparecem em outros autores como o próprio Bártolo e Salutati, não 
apenas em São Tomás de Aquino — eles desenvolvem uma concepção 
que interpreta a aristocracia como aquela casta nobre germânica de 
guerreiros. Há, portanto, uma substituição — já não são mais os cidadãos 
excelentes por méritos identificáveis, nem tampouco os cidadãos 
excelentes (caso do contexto de Atenas) —, não porque eles sejam 
proprietários, tenham ócio, tenham tempo para se dedicar à pólis, e sim 
porque são os herdeiros dos conquistadores que também herdaram a 
missão de proteger aquela comunidade. Daí nasce a nobreza medieval, 
uma nobreza hereditária. A concepção não é a de que eles têm tempo 
para pensar. Muitos poucos deles estudavam. Eles eram guerreiros 
descendentes de guerreiros conquistadores, mas eram os nobres e, como 
tais, protegiam e governavam. Quando eles herdam a teoria medieval, 
é como se ficassem com o recipiente da teoria, mas tivessem perdido 
o conteúdo. E como neste continente o que coube foi o conteúdo do 
contexto deles, eles passam a interpretar a aristocracia justamente como 
essa nobreza hereditária. 
Isso começará a equalizar também com o clero. Se pensarmos 
bem, aqueles que são mediadores entre Deus e o homem têm algo de 
aristocratas também. Contudo, essa palavra não é tão usada. Se utilizarmos 
a palavra grega como categoria para interpretar, os nobres tendiam a 
dedicar, por exemplo, o seu primogênito, ou alguns de seus filhos, à Igreja, 
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a enviá-lo para a Igreja, porque ela ao mesmo tempo tinha poder temporal 
também. E aí podemos identificar nessa conjugação de poderes, em toda 
essa complexidade medieval, uma solução muito original, muito diferente 
daquela de tempos passados: há os que pensam, os que escrevem, os 
que documentam. Por exemplo, nos alvores, até meados daquele milênio 
medieval, o nascimento é registrado pelo clero, o decreto é documentado 
pelo clero. Posteriormente, aparece uma nobreza que se inteirará do 
governo, da cobrança de impostos. Isso é um processo, mas a nobreza 
começa com uma forma bastante diferente da antiga. 
A transposição para os muitos na Idade Média é tardia. Os muitos, 
na Idade Média, não eram uma multidão como é hoje, nem tampouco 
aquele conjunto de cidadãos que era visto na pólis ateniense. Se Atenas 
tinha 300 a 400 mil habitantes, dez mil habitantes eram os cidadãos, e 
estes exerciam a democracia — a democracia boa pelo menos. No período 
medieval, a ideia do indivíduo como detentor de direitos naturais — e eu 
sou um dos que defendem que até a ideia de direitos humanos surge na 
Idade Média —, inclusive direitos contra o abuso de governantes, demora 
um pouco a aparecer. 
A Idade Média é muito organizada em corporações. Um homem 
medieval faz parte de algum grupo, cujas regras — elas existem— e 
hierarquias são obedecidas, e todos têm direitos dentro da sociedade. 
Muitas dessas corporações são de ofícios, existe o conjunto dos ferreiros, o 
dos sapateiros etc.92 Se um sujeito era ferreiro, ele fazia parte de toda uma 
estrutura que diz respeito aos ferreiros, e dentro dessa estrutura existia 
toda uma escala entre mestre e aprendiz. Desse modo, quando se falava 
em democracia, o medieval não estava pensando na democracia grega 
e muito menos na democracia atual que temos, mas em algum direito 
que deveria ser dado. Voltando a São Tomás de Aquino, se houvesse uma 
92 Muitos sobrenomes vêm dessas corporações. Por exemplo, ferreiro. Em português, o Ferreira deriva do ferreiro 
e, em alemão, sapateiro dá origem ao Schumacher (sobrenome do famoso corredor de Fórmula 1, Michael Schum-
acher). “Macher” parece “maker” e “Schu” é sapato, então ele é sapateiro.
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constituição mista, algum direito deveria ser dado à canalização das vozes 
das corporações. 
Basicamente é assim que vai se organizando a visão das formas 
de governo na Idade Média. Elas se diferenciam nesses detalhes das 
concepções da Antiguidade, mas formam uma boa transição para a Idade 
Moderna. E elas são uma boa transição, primeiro porque esse reforço à 
ideia de que a monarquia é a melhor das formas — uma ideia muito 
presente —, e inclusive à ideia de classificar os modelos mais adequados 
de monarquia, será herdado e aprofundado pelos modernos. Lembrem-se 
que é na Idade Moderna que aparece o absolutismo, é nesse período que 
os reis ficarão mais fortes. Embora a concepção de monarquia fosse forte 
na Idade Média, ela era forte dentro daquela complexidade que expliquei 
na primeira parte da aula: existiam direitos naturais, um direito divino, 
um direito consuetudinário, uma espécie de direito civil (que é o direito 
romano) e existia também um direito regalista, que era quase inexpressivo 
e de difícil comunicação, pois as diversas comunidades estavam muito 
isoladas dentro de suas próprias realidades. 
Quando chega a fase moderna, ocorrerá a transformação dessasdiversas pequenas cidades em unidades maiores. Essas unidades maiores 
foram também criadas para proteção das estradas, para que houvessem 
lugares comuns, moeda comum e inclusive uma língua comum. Mesmo 
que tudo isso não tivesse sido feito objetivando esses fins, mesmo que 
sem querer, isso foi alcançado. Com a expansão dos territórios unificados, 
o poder central do rei aumentou e o acúmulo de riquezas por parte do 
poder central também cresceu. E junto com esse acúmulo de riquezas, 
surgem novos projetos que, por sua vez, criam o mundo moderno. 
Os primeiros projetos que derivam diretamente do mundo 
medieval são os das grandes navegações realizadas principalmente pelos 
portugueses, espanhóis, genoveses e venezianos. Posteriormente as 
armadas da França, da Inglaterra sobretudo, e até da Holanda se fortalecem 
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com base nos exemplos de Portugal e Espanha, principalmente. Depois 
ocorre o fortalecimento de grandes contingentes armados unificados 
e, mais tarde, também a busca crescente pelo enriquecimento e uma 
modificação estrutural dos estudos. Os estudiosos vão deixando de 
ser tão-somente padres e monges. Muitas vezes aqueles nobres que 
começam a aprender, a estudar e a querer ter uma voz diferente, e por 
outras vezes os conselheiros de príncipes passam a se inserir na vida de 
estudos. Aquelas pessoas — algumas do clero, outras não — vinculadas a 
príncipes e reis que ganham e acumulam mais poder, justamente dentro 
dessa classe que é a nobreza, elas vão adquirir, além de poder, também 
um pensamento bastante desenvolvido.
Haverá um retorno aos clássicos, porém um pouco diferente do que 
foi feito no fim da Idade Média. Quando a Idade Média absorve os clássicos, 
como fez São Tomás de Aquino, ela os relaciona com a tradição da Igreja, 
com a Bíblia, com o que disseram os Santos Padres etc. Na Idade Moderna, 
parece existir um afã de jogar fora o milênio inteiro da Idade Média, 
descartar a cristandade, para pegar o classicismo e reunir a ideias novas 
recém-nascidas. Esse é um problema que já surge na Idade Média. O passo 
inicial para a modernidade foi dado por Guilherme de Ockham93, mas vários 
pensadores medievais passaram a valorizar mais as discussões dos clássicos, 
dos direitos individuais e outros temas que terão muita importância na 
Idade Moderna. 
O fortalecimento do rei começará a aparecer no fim da Idade Média 
principalmente. No início, embora falassem bem da monarquia, todos 
entendiam que as vilas tinham de ter também as suas próprias concepções 
de autogoverno, deveria haver o respeito aos direitos consuetudinários e 
toda aquela complexidade que já expliquei. A modernidade se caracteriza 
pela simplificação. Grandes territórios com simplificação e fortalecimento 
93 Guilherme de Ockham (1285-1347), também conhecido como Doctor Invincibilis e Venerabilis Inceptor, é con-
siderado como o representante mais eminente da escola nominalista e reconhecido como um importante con-
tribuinte para o desenvolvimento de ideias constitucionais ocidentais, especialmente para a ideia de governo com 
responsabilidade limitada. Foi um dos primeiros autores medievais a defender uma forma de separação da Igreja 
e do Estado e foi importante para o desenvolvimento precoce da noção de direitos de propriedade.
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do regalismo, ou seja, o direito que deriva do rei. E não só a fonte de direito, 
mas a de justiça deriva dele. As decisões que hoje chamamos de judiciais 
vinham do rei ou de pessoas indicadas por ele. 
Esse é outro cenário histórico que dará origem a outras teorias de 
formas de governo, algumas das quais tratarei na quinta aula, falando 
um pouco de Maquiavel, Jean Bodin e Thomas Hobbes. E na sexta aula, 
comentarei principalmente sobre Montesquieu e algumas ideias que 
aportaram no Brasil no século XIX, como as de Benjamin Constant. Também 
mencionar en passant Voltaire, com o despotismo esclarecido, e pensar um 
pouco no Portugal do Marquês de Pombal, que também herda essas ideias. 
Nesta aula tracei a princípio um panorama histórico, na sequencia 
expus um pouco das ideias de forma panorâmica, mas bastante 
concentrada nas ideias ligadas às formas de governo e, ao final, passei a 
concluir e a mostrar a transição da Idade Média para a Idade Moderna.
Bem-vindos à quinta aula do curso sobre as formas de governo.