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<p>PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS</p><p>Graduação em Direito</p><p>A CONTRAVENÇÃO PENAL DE JOGO DE AZAR E A DESCRIMINALIZAÇÃO DO</p><p>PÔQUER NA MODALIDADE TEXAS HOLD’EM</p><p>Kelvin Brayan Vilaça</p><p>Poços de Caldas</p><p>2016</p><p>Kelvin Brayan Vilaça</p><p>A CONTRAVENÇÃO PENAL DE JOGO DE AZAR E A DESCRIMINALIZAÇÃO DO</p><p>POQUER NA MODALIDADE TEXAS HOLD’EM</p><p>Monografia apresentada ao curso de</p><p>Graduação em Direito da Pontifícia</p><p>Universidade Católica de Minas Ge-</p><p>rais – campus Poços de Caldas –</p><p>como requisito parcial para obtenção</p><p>do título de Bacharel em Direito.</p><p>Orientador: Prof. José Carlos Trinca</p><p>Zanetti.</p><p>Poços de Caldas</p><p>2016</p><p>Kelvin Brayan Vilaça</p><p>A CONTRAVENÇÃO PENAL DE JOGO DE AZAR E A DESCRIMINALIZAÇÃO DO</p><p>POQUER NA MODALIDADE TEXAS HOLD’EM</p><p>Monografia apresentada ao curso de</p><p>Graduação em Direito da Pontifícia</p><p>Universidade Católica de Minas Ge-</p><p>rais – campus Poços de Caldas –</p><p>como requisito parcial para obtenção</p><p>do título de Bacharel em Direito.</p><p>_____________________________________________</p><p>Professor José Carlos Trinca Zanetti (Orientador)</p><p>_____________________________________________</p><p>Professor (a) Examinador (a)</p><p>_____________________________________________</p><p>Professor (a) Examinador (a)</p><p>Poços de Caldas, ____ de ________________ de 2016.</p><p>DEDICATÓRIA</p><p>Dedico este trabalho às pessoas que</p><p>contribuíram com seus auxílios, ideias e</p><p>incentivos para a elaboração do presen-</p><p>te tema de pesquisa, como também</p><p>àqueles que fizeram parte desta minha</p><p>trajetória de formação técnica e huma-</p><p>nística.</p><p>Em especial, ao meu avô, advogado</p><p>criminalista, por ter dedicado sua vida a</p><p>cuidar da minha, por ter sido minha forta-</p><p>leza, motivo de orgulho e estímulo ao es-</p><p>tudo das ciências jurídicas, mormente as</p><p>da seara penalista.</p><p>Ao meu pai e à minha tia, pessoas que</p><p>me apoiaram na escolha do curso de</p><p>graduação.</p><p>Aos meus amigos, Edilvan, Agnelo, Ab-</p><p>ner, Raquel, Anderson, Ana Luíza e</p><p>Frank, que tanto contribuíram com o for-</p><p>necimento de informações, dicas e mate-</p><p>riais para que esta monografia pudesse</p><p>ser concluída.</p><p>Aos meus queridos amigos e colegas de</p><p>trabalho, Virgínia, Marcelo e Renato</p><p>Maia, pela torcida, cooperação e aten-</p><p>ção ao meu crescimento estudantil e</p><p>profissional.</p><p>E prometo que, independente do cami-</p><p>nho que eu venha a trilhar de hoje em</p><p>diante, levarei sempre cada um na me-</p><p>mória como exemplos de competência e</p><p>humanidade.</p><p>AGRADECIMENTOS</p><p>Agradeço a Deus, por ter dirigido meus passos e por ter iluminado sem-</p><p>pre o caminho certo a ser seguido.</p><p>À Universidade e a todo seu corpo docente, direção e administração,</p><p>que abriram as janelas pelas quais hoje consigo vislumbrar um horizonte superior,</p><p>eivado pela confiança no mérito e eticidade aqui presentes.</p><p>Ao meu orientador, José Carlos Trinca Zanetti, por todo amparo, ensi-</p><p>namentos, incentivos e correções, os quais permitiram que eu pudesse aprender e a</p><p>evoluir cada vez mais.</p><p>Obrigado também a todos os familiares, amigos e colegas, que enten-</p><p>deram minha ausência e me ajudaram a crer que seria possível.</p><p>Agradeço, ainda, a cada pessoa que, na sua simplicidade, nas suas</p><p>possibilidades, me ajudaram e torceram por mim durante esta jornada.</p><p>“Nenhum vencedor acredita no acaso.”</p><p>(NIETZSCHE, 1976).</p><p>RESUMO</p><p>Esta pesquisa teve o objetivo de demonstrar, conforme estudos doutriná-</p><p>rios, jurisprudenciais, de cientistas, especialistas e matemáticos, que o Pôquer, na</p><p>modalidade Texas Hold’em, não constitui a contravenção penal de jogo de azar –</p><p>artigo 50 do Decreto-Lei 3.688/41 – justamente por não depender o ganho e a perda</p><p>“exclusiva e principalmente da sorte”. Dessa maneira, a investigação foi elaborada</p><p>com a utilização de metodologia preponderantemente teórica, bibliográfica e científi-</p><p>ca.</p><p>A propósito, os resultados revelam que o pôquer é, ainda, vislumbrado</p><p>paradoxalmente como uma contravenção penal pela doutrina tradicional e pela mai-</p><p>oria dos tribunais brasileiros, não obstante o pôquer, jogo tolerado para o direito civil,</p><p>já ter sido mundial e nacionalmente reconhecido como esporte e não afrontar mais</p><p>seus bens jurídicos. Assim sendo, propomos uma forma de interpretação em que o</p><p>pôquer, na modalidade esportiva sem apostas reais (Texas Hold’em), não constitui a</p><p>contravenção de jogo de azar.</p><p>Ante a atipicidade formal, material e conglobante da conduta, a criminali-</p><p>zação desse jogo de cartas se mostra como medida antiquada, escorchante e ilegí-</p><p>tima na contemporaneidade.</p><p>Palavras-chave: contravenção penal; criminalização; habilidade; jogo de azar;</p><p>licitude; pôquer; Texas Hold’em;</p><p>ABSTRACT</p><p>This research had a finality to demonstrate conform doctrinaire, jurispruden-</p><p>tial,of scientists, experts and mathematical studies that the Texas Hold’em poker is</p><p>not prohibited by the criminal game of chance’s law, because your win or lose does</p><p>not depend from exclusively or mainly from the luck. In this manner the investigation</p><p>is maked using theoretical, bibliographic and scientific methodologies.</p><p>By the way, the poker is still regarded contradictively such as a criminal law by</p><p>the majority of the brazilian courts, although the poker has been a tolerated game at</p><p>the civil law. It’s already recognized like a sport and does not confront moral valors,</p><p>good customs and the work in the country. In this case, we propose a interpretation’s</p><p>way to avoid this crime: a poker whithout real bets and like an sport (Texas Hold’em).</p><p>In front of the formal, material and global atypical fact of the behavior, the</p><p>criminalization of this game of cards is showed like antiquated, excessive and ilegiti-</p><p>mate way actually.</p><p>Keywords: criminal law; criminalization; licit; poker; skill; Texas Hold’em;</p><p>LISTA DE ILUSTRAÇÕES</p><p>FIGURA 1: Jogo da vida: habilidades fundamentais do pôquer que se aplicam ao dia</p><p>a dia.........................................................................................................................(29)</p><p>FIGURA 2: Entenda um pouco sobre o esporte......................................................(46)</p><p>LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS</p><p>AgR – Agravo Regimental</p><p>Ap – Apelação</p><p>Art. – Artigo</p><p>CBTH – Confederação Brasileira de Texas Hold'em</p><p>CF – Constituição Federal</p><p>CP – Código Penal</p><p>CPP – Código de Processo Penal</p><p>DJ –Diário de Justiça</p><p>DJe –Diário do Judiciário Eletrônico</p><p>e.g. – exempli gratia (por exemplo)</p><p>Ed. – Edição</p><p>EDcl – Embargos de Declaração</p><p>Ement. – Ementa</p><p>HC – Habeas Corpus</p><p>i.e. – id est (isto é)</p><p>IMSA – Associação Internacional dos Esportes Mentais</p><p>J. – Julgado</p><p>JECRIM – Juizado Especial Criminal</p><p>JESP – Juizado Especial</p><p>Jr. – Júnior</p><p>LCP – Lei de Contravenções Penais</p><p>ME – Ministério do Esporte</p><p>MG – Minas Gerais</p><p>Min – Ministro</p><p>MP – Ministério Público</p><p>MPF – Ministério Público Federal</p><p>MPMG – Ministério Público de Minas Gerais</p><p>MS – Mandado de Segurança</p><p>OJ – Orientação Jurisprudencial</p><p>Pub. – Publicação</p><p>Rel – Relator</p><p>REsp – Recurso Especial</p><p>RJ – Rio de Janeiro</p><p>RT – Revista dos Tribunais</p><p>STF – Supremo Tribunal Federal</p><p>STJ – Superior Tribunal de Justiça</p><p>T. – Turma</p><p>TH – Texas Hold'em</p><p>TJMG – Tribunal de Justiça de Minas Gerais</p><p>TJPI – Tribunal de Justiça do Piauí</p><p>TJPR – Tribunal de Justiça do Paraná</p><p>TJRJ – Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro</p><p>TJRS – Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul</p><p>TJSC – Tribunal de Justiça de Santa Catarina</p><p>TRF – Tribunal Regional Federal</p><p>TST – Tribunal Superior</p><p>Justiça Trabalhista</p><p>37</p><p>(Orientação Jurisprudencial 199 do Tribunal Superior do Trabalho) não reconhece a</p><p>existência de vínculo empregatício nessas relações de trabalho justamente por ser</p><p>derivada de atividade antijurídica15.</p><p>OJ-SDI1-199. TST. JOGO DO BICHO. CONTRATO DE TRABALHO. NULI-</p><p>DADE. OBJETO ILÍCITO</p><p>É nulo o contrato de trabalho celebrado para o desempenho de atividade</p><p>inerente à prática do jogo do bicho, ante a ilicitude de seu objeto, o que sub-</p><p>trai o requisito de validade para a formação do ato jurídico.</p><p>A maior explanação usada pela maioria dos tribunais, com especial relevo à</p><p>inteligência perfilhada pelo TRT da 2ª Região, para negar provimento à demanda de</p><p>trabalhador contra empregador que explora atividade econômica com jogos de azar,</p><p>v.g, como ocorre, por exemplo, não só no pôquer, como também no jogo do bicho,</p><p>se baseia no respaldo de que estes seriam ilegais, eis que são notoriamente repudi-</p><p>ados por contravenção penal (ALMEIDA, 2007). Veja-se:</p><p>TRT-2 - RECURSO ORDINÁRIO RO 00004403320135020010 SP</p><p>00004403320135020010 A28 (TRT-2)</p><p>Data de publicação: 10/06/2015</p><p>Ementa: VÍNCULO EMPREGATÍCIO. CROUPIER. CLUBE DE PÔQUER. No</p><p>âmbito do carteado, croupier é a pessoa que dirige o jogo, responsável pelo</p><p>gerenciamento das apostas e pagamento dos prêmios, bem como pelo emba-</p><p>ralhamento, fornecimento de cartas aos jogadores e pela exposição das car-</p><p>tas da mesa. Configurado nos autos que o jogo de cartas funcionava à base</p><p>de apostas, isto é, os jogadores compravam fichas no caixa e com essas fi-</p><p>chas realizavam suas apostas na mesa, o que lhes permitiam jogar. Concer-</p><p>nindo o objeto da ação a declaração de vínculo empregatício de ocupação ti-</p><p>da como não lícita (croupier), com estabelecimento cuja atividade denota ser</p><p>contravencional (art. 50 , do Decreto-Lei n. 3.688 /41), a presente ação deve</p><p>ser extinta sem julgamento do mérito, por configurar pedido juridicamente im-</p><p>possível (artigo. 267 , VI, CPC ).</p><p>Em primeiro lugar, para fins de analogia, a atividade de jogo do bicho, jogo de</p><p>azar, em muitos estados da federação brasileira, principalmente no Nordeste, é fran-</p><p>camente não proibida ou tolerada, sendo disciplinada e fiscalizada pela própria Ad-</p><p>ministração Pública. A exemplo do governo da Paraíba – Loteria do Estado da Para-</p><p>íba (LOTEP), existe concessão a particulares o direito de exploração econômica</p><p>desse jogo de azar (ALMEIDA, 2007).</p><p>15 Trabalho ilícito é todo aquele cujo objeto consista na prestação de atividades criminosas ou contra-</p><p>vencionais. Assim, se alguém presta serviços a um empregador decorrente de atividade ilícita, não</p><p>haverá relação de emprego (art. 104, II, do Código Civil).</p><p>http://trt-2.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/311857972/recurso-ordinario-ro-4403320135020010-sp-00004403320135020010-a28</p><p>http://trt-2.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/311857972/recurso-ordinario-ro-4403320135020010-sp-00004403320135020010-a28</p><p>38</p><p>Curiosamente, o jogo do bicho no Estado da Paraíba é regularizado por lei es-</p><p>tadual desde 1967 numa iniciativa do Governador João Agripino Maia, não obstante</p><p>ser em tese criminalizada pela contravenção penal em estudo – Decreto-Lei nº</p><p>3688/1941 (lei federal).</p><p>Entretanto, reza o folclore político que o Governador foi convocado na época</p><p>pelo Comandante do 4º (Quarto) Exército com o propósito de findar toda e qualquer</p><p>jogatina. O chefe político teria dito ao General que somente coibira a prática desse</p><p>jogo de azar com a condição de que a União concedesse empregos para mais de</p><p>4.000 (quatro mil) "bicheiros" paraibanos. Assim, continuou a jogatina a ser livremen-</p><p>te perpetrada desde então. (VASCONSELOS, 2013)</p><p>Decerto, outros comerciantes têm, agora no Estado de Pernambuco, uma as-</p><p>sociação denominada AVAL, bastante conhecida pela população, que é mantenedo-</p><p>ra do adimplemento das apostas. Nessas duas unidades federativas, é plenamente</p><p>possível apostar à luz do dia, sem represálias morais, sociais, políticas e jurídicas,</p><p>pacificamente feitas em locais públicos devidamente identificados com cartazes, pla-</p><p>cas e anúncios (ALMEIDA, 2006).</p><p>Por amor ao debate, a situação dos jogos de azar é tão mal solvida que, se o</p><p>jogo do bicho é uma contravenção, estatuída por lei federal, e no estado paraibano</p><p>está regido por lei estadual há mais de 30 anos, como é possível, ainda, que este</p><p>seja legalizado não só lá, mas também em outras unidades da federação? (VAS-</p><p>CONSELOS, 2013).</p><p>Não fosse o bastante, acrescenta Almeida (2007, p. 60-61) ad litteram:</p><p>“O Brasil não é apenas o Sudeste. As dimensões continentais do seu</p><p>território torna-o um país múltiplo. Se no Rio de Janeiro ou em São</p><p>Paulo esse tipo de loteria é associado ao tráfico de drogas ou a outras</p><p>modalidades do crime organizado, o mesmo não ocorre, necessaria-</p><p>mente, nos demais estados da federação. As decisões da máxima ins-</p><p>tância trabalhista negando quaisquer direitos aos reclamantes que tra-</p><p>balham vendendo apostas do Jogo do Bicho não levam em considera-</p><p>ção a diversidade cultural do país e as situações fáticas que, quem sa-</p><p>be, levem essa atividade, nos grandes estados da União, a se associa-</p><p>rem a alguma modalidade de criminalidade organizada, enquanto em</p><p>outros estados não há tal tipo de associação. Em algumas pequenas lo-</p><p>calidades do interior do Nordeste o banqueiro do Jogo do Bicho é, não raro,</p><p>um cidadão querido pela coletividade e digno de respeito, não se envolven-</p><p>do em qualquer atividade reprovável aos olhos dos outros. Essa diversidade</p><p>há que ser tomada em consideração, sob pena de se perder o foco sobre o</p><p>mundo concreto onde ocorrem os conflitos que incumbe ao Judiciário diri-</p><p>mir, substituindo-se a compreensão dos fatos reais por meras abstrações.”</p><p>(grifo nosso)</p><p>39</p><p>Para o autor, admitir que um explorador de jogo do bicho se furte a honrar</p><p>com as obrigações procedentes do contrato de trabalho, sob o pretexto de que seu</p><p>empreendimento é ilícito, justificativa geralmente aviada pelo próprio capitalista no</p><p>processo, é o mesmo que premiar a torpeza, a improbidade, o comportamento des-</p><p>leal e consagrar a injustiça – nemo auditur propiam turpitudinem allegans (vedação à</p><p>alegação da própria torpeza em juízo) (ALMEIDA, 2007).</p><p>Não bastasse, ex vi dos princípios da adequação social, alteridade e da lesi-</p><p>vidade (ou ofensividade), elucida Nucci (2014) que demasiados são os jogos de azar</p><p>tolerados ou que contam com a anuência da sociedade; o que refuta, terminante-</p><p>mente, qualquer justificativa de dano ou perigo de lesão aos bons costumes (objeto</p><p>jurídico).</p><p>Por isso, não é suficiente a adequação do fato à norma (subsunção), é indis-</p><p>pensável, além do mais, que tal conduta provoque lesão ou ameaça de ofensa a um</p><p>bem jurídico alheio relevante para o direito penal. Quer dizer, esse comportamento</p><p>(ação ou omissão), além de merecer a guarida do direito criminal, deve ao menos ter</p><p>o condão de afligir objetos jurídicos significativos (importantes) e de terceiros (dife-</p><p>rentemente da autolesão, prostituição, destruição de coisa própria etc.).</p><p>De resto, o pôquer passou por um processo de espetacularização, exsurgente</p><p>da propagação de seus eventos em veículos midiáticos, sobretudo, na televisão e na</p><p>rede mundial de computadores (Internet), quer em programas e propagandas de te-</p><p>vê, quer em sites relacionados ao desporto.</p><p>Nesse compasso, é o que prenuncia Proni verbo ad verbum (1998, p.75):</p><p>"Sem dúvida, a mercantilização e a espetacularização do esporte – proces-</p><p>sos que foram iniciados ainda na sociedade burguesa – foram elevados à</p><p>máxima potência na sociedade de massa. A ação da mídia especializada e</p><p>as oportunidades criadas por um mercado publicitário em expansão certa-</p><p>mente contribuíram para revolucionar o universo do esporte contemporâ-</p><p>neo, particularmente em virtude da relação que se estabeleceu entre o es-</p><p>porte-espetáculo, a televisão e o marketing esportivo."</p><p>Em adendo, ao repisar a indubitável</p><p>popularidade do esporte, recorda Neves</p><p>(2012, p. 44):</p><p>“Como fica claro, cada vez mais, o Poker torna-se um jogo popular perante</p><p>as pessoas, sendo inclusive transmitido para o público em mais de 5 (cinco)</p><p>canais televisivos. A nível nacional, cabe frisar que apenas em 2010 houve</p><p>pela primeira vez no Brasil a criação de um programa nacional de Poker em</p><p>programação aberta, sendo transmitido pela rede Bandeirantes e apresen-</p><p>40</p><p>tado por Otávio Mesquita, onde o apresentador recebeu em seu programa</p><p>“Poker das Estrelas”, diversas celebridades brasileiras e adeptas do jogo,</p><p>como o piloto Felipe Massa, o ex-pugilista Maguila e o ex-tenista Gustavo</p><p>Kuerten.16 ”</p><p>Mais ainda, Greco ensina sobre o princípio da adequação social, engendrado</p><p>por Hans Welzel, que o instituto possui dupla função. De um lado, sua função é a de</p><p>restringir o alcance do tipo penal, reduzindo sua exegese e dele excepcionando</p><p>comportamentos socialmente aceitos e tolerados. Por outra parte, é direcionado ao</p><p>legislador em duas vertentes. Fala-se em orientação sobre a seleção de condutas</p><p>que queira proibir, visando tutelar bens jurídicos mais caros e valiosos ao ambiente</p><p>social, e em reflexão daquelas ações adaptadas à evolução histórica da sociedade.</p><p>Explica-se melhor, se a conduta estiver cabalmente adequada à dinâmica social,</p><p>não poderá o Poder Legislativo se valer do direito penal para incriminá-la (2012).</p><p>Não é à toa que existem diversos projetos de lei17 no Congresso Nacional pa-</p><p>ra regulamentação dos jogos de azar, deixando de caracterizá-los como infrações</p><p>penais e procurando, assim, reverter de modo favorável os reflexos dele esperados</p><p>(trabalhistas, empresariais, tributários, criminais) para todo o sodalício.</p><p>Não estranhamente, o Projeto de Lei do Senado nº 186/201418 da autoria do</p><p>senador Ciro Nogueira (BRASIL, 2016), aprovado no Senado Federal e já em trâmite</p><p>na Câmara dos Deputados para deliberação final, autoriza a prática desses jogos,</p><p>possuindo a seguinte redação no art. 2º: “fica autorizada, nos termos desta Lei e de</p><p>seu regulamento, a exploração de jogos em todo o território nacional em reconheci-</p><p>mento ao seu valor histórico-cultural e à sua finalidade social para o País”.</p><p>De acordo com o parlamentar, a lei pode proporcionar uma arrecadação em</p><p>torno de R$ 18 bilhões e a abertura de 400 mil empregos diretos com os jogos físi-</p><p>cos de azar. Além do mais, especialistas estimam uma receita de R$ 20 bilhões</p><p>anuais para custeio da Previdência Social. (LEGALIZAÇÃO... 2016)</p><p>Porém, ainda há pessoas, incluindo aí operadores do direito, que associam os</p><p>carteados aos jogos de azar e ao submundo dos crimes. Essa não é a realidade do</p><p>16 Algumas estrelas que jogam o carteado: Ronaldo "Fenômeno", Rafael Nadal, Michael Phelps, Boris</p><p>Becker, Neymar, Gianluigi Buffon, Anderson Silva "Spider". Disponível em:</p><p>. Acesso em 13 de outubro de 2016.</p><p>17 PL-5/1951, PL-1176/1991, PL-1212/1991, PL-383/1999, PLS nº 186/2014, entre tantos outros.</p><p>18 Do ponto de vista da legitimidade do projeto de lei, em consulta pública, nota-se que aproximada-</p><p>mente 74% da população brasileira é a favor da regulamentação de todos os jogos de azar. Disponí-</p><p>vel em: . Acesso em 19 de</p><p>outubro de 2016.</p><p>https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaomateria?id=117805</p><p>41</p><p>pôquer, um jogo complexo e de habilidade, tanto é verdade que se propagou inter-</p><p>nacionalmente como esporte. Sua fama lúdica é tão grande que já existem vários</p><p>clubes, ligas, torneios e federações de pôquer espalhados no Brasil e em todo o glo-</p><p>bo, sem mencionar a existência de inúmeras revistas, artigos e livros especializados</p><p>no tema (SELDOMAR, 2014).</p><p>No Brasil, a repercussão do pôquer se mostra tão agigantada que um instituto</p><p>de pesquisa de mercado (IBOPE) estimou que aproximadamente 2,3% dos internau-</p><p>tas jogam pôquer na modalidade online, isto é, correspondendo a cerca de 838 mil</p><p>jogadores somente na categoria virtual (SERBENA, 2013).</p><p>Ainda que não fosse possível mensurar qual fator prepondera (sorte ou habili-</p><p>dade), é sabido que não se avalia como bom jogador o competidor que, quando está</p><p>vencendo, enfatiza o acaso em detrimento da perícia. Desta feita, quando o jogador</p><p>mais habilidoso está perdendo, ele não culpa a sorte ou azar, mas reavalia as pró-</p><p>prias habilidades, a fim de saber o que fez de errado (MANGABEIRA, 2015).</p><p>Logo, álea e destreza, mais do que faces da mesma moeda, são, para os pro-</p><p>fissionais, ideias complementares. São dinâmicas diferentes, como uma linha cujas</p><p>extremidades são, de uma ponta, sorte total, e, de outra, somente perícia, sabendo,</p><p>assim, que o jogo acontece no meio termo, seja pendendo mais para um lado, seja</p><p>para o outro, mas sempre indo e retornando a um ponto médio (MANGABEIRA,</p><p>2015).</p><p>42</p><p>Figura 2: Pôquer - entenda um pouco sobre o esporte.</p><p>Fonte: BRASIL, 2007.</p><p>2.3 Antinormatividade, tipicidade conglobante e o pôquer como esporte mental</p><p>e jogo tolerado no ordenamento jurídico</p><p>Estando em conformidade com as preleções de Zaffaroni, a teoria da tipicida-</p><p>de conglobante19 é, sobremodo, útil, pois soluciona algumas incompatibilidades teó-</p><p>ricas havidas no caso concreto entre o sistema penal e o sistema jurídico como um</p><p>19 Apesar de não reconhecida pela legislação e jurisprudência, a doutrina considera a tipicidade con-</p><p>globante uma causa supralegal de exclusão da tipicidade (formal e material).</p><p>43</p><p>todo. Essa construção doutrinária possibilita corrigir eventuais contrariedades, pau-</p><p>tada em conseqüências lógicas (princípios da identidade e não-contradição)20.</p><p>Em face da explicação do critério da antinormatividade, Salvador (2009), as-</p><p>sim, apregoa ipsis litteris:</p><p>“Para a tentativa de solucionar os impasses das tradicionais construções da</p><p>teoria do delito, ZAFFARONI insere o conceito de antinormatividade para a</p><p>concretização da tipicidade conglobante, como forma de nele representar</p><p>todas as realidades normativas do ordenamento jurídico geral, evitando, a</p><p>princípio, antinomias no sistema.”. (SALVADOR, 2009)</p><p>De acordo com a tese do penalista argentino, a tipicidade conglobante é o re-</p><p>sultado da existência da tipicidade legal (formal) somada à tipicidade material em</p><p>agregado com a denominada antinormatividade. Aquela se relaciona com a mera</p><p>subsunção do comportamento humano ao tipo penal, enquanto que a última, por seu</p><p>turno, é alusiva à antinormatividade e à tipicidade material. Isso, porque “a conduta,</p><p>pelo fato de ser penalmente típica, necessariamente deve ser também antinormati-</p><p>va.” (SALVADOR, 2009, p. 4).</p><p>Mutatis mutandis, uma norma não poderá ser típica e, simultaneamente, nor-</p><p>mativa. Insta observar que a tipicidade penal (tipicidade formal juntamente com a</p><p>tipicidade conglobante) sempre consistirá em antinormatividade. (ZAFFARONI,</p><p>2006).</p><p>TIPICIDADE PENAL = TIPICIDADE FORMAL + TIPICIDADE CONGLOBANTE</p><p>TIPICIDADE CONGLOBANTE = TIPICIDADE MATERIAL + ANTINORMATIVIDADE</p><p>Por conseguinte, a tipicidade conglobante reputa que o Estado não deve nem</p><p>pode definir uma conduta como típica, por este mesmo, incentivada, fomentada ou</p><p>ordenada se comparada panoramicamente com outras normas vigentes no ordena-</p><p>mento. Pode-se dizer que tudo aquilo que for permitido, favorecido ou determinado</p><p>mediante um princípio ou regra não poderá ser vedado por outra lei ou ato adminis-</p><p>trativo.</p><p>20 “Sob o ponto de vista ontológico, como lei geral do ser, o princípio da identidade formula-se assim:</p><p>toda coisa (ser) é idêntica a si mesma. O que é, é: o que não é, não é. ‘a’ é ‘a’, uma coisa é o que é...</p><p>O princípio de contradição</p><p>– também chamado não-contradição – formula-se assim: do ponto de vista</p><p>ontológico: nenhuma coisa é e não é, simultaneamente e sob o mesmo aspecto ou relação. Do ponto</p><p>de vista lógico: o mesmo predicado não pode ser afirmado e negado ao mesmo sujeito, ao mesmo</p><p>tempo e sob o mesmo aspecto ou relação [...]”. ALVES, Alaôr Caffé. Lógica: pensamento formal e</p><p>argumentação, elementos para o discurso jurídico. São Paulo: Edipro, 2000, p. 150-151.</p><p>44</p><p>Quanto à natureza antinormativa, é indispensável pronunciar que o pôquer já</p><p>foi aclamado como um desporto intelectual (ou da mente), em pé de igualdade com</p><p>a Dama, o Gamão e o Xadrez, pela International Mind Sports Association – IMSA</p><p>(Associação Internacional dos Esportes Mentais) e pelo Ministério do Esporte Brasi-</p><p>leiro (BRASIL, 2014).</p><p>É bom lembrar que o Ministério do Esporte, órgão do Sistema Brasileiro do</p><p>Desporto (art. 5º, I, da Lei nº 7.984/2013) (BRASIL, 2013), tem a responsabilidade</p><p>de erigir a Política Nacional de Esporte. Além de promover o desenvolvimento do</p><p>esporte de alta performance, o ME busca trabalhar ações de inserção social por</p><p>meio da atividade esportiva, garantindo à população o acesso gratuito à prática do</p><p>esporte, qualidade de vida e desenvolvimento humano (ESPORTE, 2016).</p><p>Nesse esteio, convém consignar que o ME já declarou o pôquer como esporte</p><p>intelectual (ou da mente) e registrou, oficialmente, a Confederação Brasileira de Te-</p><p>xas Hold’em. Na prática, isso permite que seus eventos possam ser incluídos no ca-</p><p>lendário esportivo oficial do país (MARQUES, 2012)21.</p><p>De resto, é de oportuno recordar que, para o direito civil, os jogos e as apos-</p><p>tas se classificam resumidamente em dois grupos: permitidos e os proibidos. Os</p><p>primeiros, tidos como lícitos, podem ser classificados, ainda, em tolerados e autori-</p><p>zados (legais ou regulamentados). (VASCONSELOS, 2013).</p><p>Com fulcro no art. 814, §3º, do Código Civil e, precipuamente, no supedâneo</p><p>do art. 170, § único, da Constituição Federal, Marques (2012) e Melo (2013) esclare-</p><p>cem que a exploração comercial (ou empresarial) de torneios esportivos intelectuais,</p><p>ressaltando aí o pôquer (jogo tolerado, permitido ou não proibido), como exercício</p><p>regular de atividade exploração econômica e, enfim, como conduta normativa para o</p><p>arcabouço jurídico em vigor.</p><p>Ante essa antinomia imprópria semântica22, sendo um jogo não proibido, per-</p><p>mitido ou tolerado, nos termos legais do diploma civilista, não há que se falar em</p><p>impedimento legal para seu estabelecimento ou exploração para o direito penal, con-</p><p>21 Para maiores informações, disponível em: e . Ambos acessados em 08 de outu-</p><p>bro de 2016.</p><p>22 Resumidamente, é um conflito de normas decorrente de um mesma expressão jurídica, porém que</p><p>comporta ambiguidade ou polissemia (vários significados), dependendo do ramo jurídico em que é</p><p>empregada.</p><p>http://espn.uol.com.br/noticia/549056_ministerio-do-esporte-dara-inicio-a-trabalho-de-regulamentacao-do-poker-afirma-presidente-da-confederacao</p><p>http://espn.uol.com.br/noticia/549056_ministerio-do-esporte-dara-inicio-a-trabalho-de-regulamentacao-do-poker-afirma-presidente-da-confederacao</p><p>http://esportes.r7.com/mais-esportes/noticias/poquer-e-reconhecido-oficialmente-por-ministerio-do-esporte-e-ja-pode-entrar-no-calendario-nacional-20120129.html</p><p>http://esportes.r7.com/mais-esportes/noticias/poquer-e-reconhecido-oficialmente-por-ministerio-do-esporte-e-ja-pode-entrar-no-calendario-nacional-20120129.html</p><p>45</p><p>tanto que não envolva apostas em pecúnia (conduta onerosa efetuada) para adquirir</p><p>maior quantidade de fichas.</p><p>Lapidar, nesse sentido, é de bom alvitre gizar o entendimento do Egrégio Tri-</p><p>bunal de Justiça de Santa Catarina (2010):</p><p>“Adianto, desde logo, que o pôquer não é jogo proibido porque não é de</p><p>azar, assim como também não é legalmente permitido, vale dizer, não há lei</p><p>a seu respeito, como existe em relação às diversas loterias, ou seja, trata-se</p><p>tão somente de um jogo não proibido. Por conseguinte, resta proibida a</p><p>aposta ou o jogo a dinheiro. Frisa-se, proibida é a aposta, não o jogo. ”</p><p>Nos conselhos de Marques (2012), Promotor de Justiça, Mestre em Direito</p><p>Empresarial e Tributário e praticante do carteado, existe um forte viés de o próprio</p><p>Estado permitir a exploração econômica de torneios de pôquer. Não deixa, de mais</p><p>a mais, de requerer sua regulamentação, até de modo a permitir e facilitar a tributa-</p><p>ção das diferenças havidas entre as quantias arrecadadas pelas empresas e o mon-</p><p>tante das recompensas distribuídas aos competidores por intermédio da incidência,</p><p>v.g., de Impostos Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) sobre o rake23 e Im-</p><p>posto de Renda (IR) sobre a premiação.</p><p>23 Taxas de comissão pagas cobradas pelos serviços de organização dos torneios (MARQUES,</p><p>2012).</p><p>46</p><p>4 DESCRIMINALIZAÇÃO DO PÔQUER NA MODALIDADE TEXAS HOLD’EM</p><p>Apesar de o minimalismo penal e seus postulados (fragmentariedade, subsi-</p><p>diariedade, lesividade, proporcionalidade etc.) terem sido albergados pela "Constitui-</p><p>ção Cidadã", como é cediço, o sistema criminal tem convivido com uma política de</p><p>"Lei e Ordem" (maximização do direito penal), movimento em crise e carente de legi-</p><p>timidade, que forjam condutas típicas, sem falar no recrudescimento de sanções,</p><p>mas manejado pelos legisladores brasileiros (SANTOS, 2014).</p><p>Na inteligência de Sheila Santos (2014), citando Cervini e Luiz Flávio Gomes,</p><p>descriminalizar é o mesmo que retirar o caráter criminoso de um comportamento,</p><p>possuindo, em essência, três tipos de descriminalização: a) puramente formal; b)</p><p>substitutiva; e c) de fato. No mais, dessa maneira, debate:</p><p>A primeira forma de descriminalização se lastreia na ciência de condutas, ou-</p><p>trora penalmente proibidas, deixando de considera-las antijurídicas (ou ilícitas); en-</p><p>quanto que a substitutiva elimina o caráter criminoso do comportamento, mas o</p><p>transfere para a proteção de outras esferas jurídicas (administrativa, civil, trabalhista,</p><p>etc.); e, por último, não deixa de conceitua-lo como delito, mas este passa a não ser</p><p>penalizado, já que a sociedade, com bom senso e parcimônia, não o vê como nocivo</p><p>à civilidade.</p><p>Posto isso, se porventura uma lei não estiver cumprindo seu papel social, na-</p><p>da mais justo, lógico e razoável do que caber ao intérprete e julgador do caso con-</p><p>creto, o qual ocupa o lugar cimeiro de garantidor dos direitos e garantias fundamen-</p><p>tais insculpidos na Constituição, não a acatar para decidir o direito (SANTOS, 2014).</p><p>Em embargos, não é, sobremodo, advertir que a Lei de Contravenções Pe-</p><p>nais se situa defasada, porquanto fora editada, sob a égide da Constituição de 1937,</p><p>epitetada por “Polaca”, cuja índole ditatorial, fascista e truculenta servia de sustentá-</p><p>culo à toda liceidade (SANTOS, 2014).</p><p>Como modelos de descriminalização e despenalização havidos no seio do di-</p><p>reito brasileiro, a doutrina costuma citar os vetustos crimes de sedução e adultério e</p><p>a posse ilegal de droga para consumo pessoal (SANTOS, 2014). É de bom alvitre</p><p>dizer que as duas primeiras infrações penais já foram completamente revogadas, ao</p><p>passo que a derradeira (porte ilícito de droga para consumo próprio), inobstante já</p><p>ter sido despenalizada (suavização da pena), está em vias de realmente ser extirpa-</p><p>da do acervo normativo.</p><p>47</p><p>Arrematadas essas observações, no que concerne à descriminalização e à</p><p>normatização dos jogos de azar no país, a doutrina brasileira se encontra em cizâ-</p><p>nia. Há uma corrente favorável à retirada da reprimenda para afasta-la, eis que o</p><p>próprio</p><p>Estado explora atividades desse jaez e a sociedade não o censura, e, em</p><p>igual passo, jurisconsultos dissertam que subsiste enormes e gravosas perdas soci-</p><p>ais advindas dessa atividade, a qual tem o potencial de macular o patrimônio das</p><p>pessoas, a moralidade, os bons costumes, o repúdio à ociosidade e ao ganho fácil,</p><p>como, inclusive, o sentimento religioso24. (SZNICK, 1991)</p><p>O Pôquer é um esporte mental que emprega habilidades essenciais ao mer-</p><p>cado de trabalho na atualidade. É possível fazer uma analogia do jogo com os ne-</p><p>gócios empresariais. A distribuição das cartas é aleatória, variável sobre a qual não</p><p>há controle. A despeito disso, o participante pode calcular probabilística e estatisti-</p><p>camente quais são suas chances de vencer uma rodada versus o custo de oportuni-</p><p>dade relacionado à aposta (UNIFIMES, 2016).</p><p>E isso pode ser um resultado auspicioso se aliado a uma gestão estratégica</p><p>de tomada de decisões, calcada na análise do padrão comportamental dos oponen-</p><p>tes. Analogamente, diversas decisões empresariais são feitas em ambientes de in-</p><p>certeza. Pari passu, as ações de uma empresa no mercado, por vezes, não prescin-</p><p>dem do movimento que o concorrente faz (UNIFIMES, 2016).</p><p>Noutro giro, em paralelo às estratégias econômicas, às inovações de mercado</p><p>e ao desenvolvimento de ciências e tecnologias, o pôquer é equiparado à competi-</p><p>ção dos negócios:</p><p>"Em alguns jogos simples como o jogo-da-velha, uma pessoa inteligente</p><p>pode calcular todos os ataques e contra-ataques e prever toda a disputa na</p><p>sua mente. Esses jogos têm um resultado previsível para jogadores inteli-</p><p>gentes, e é por este motivo que pessoas inteligentes raramente jogam</p><p>aquele jogo. Em outros jogos como o pôquer, calcular todas as jogadas é di-</p><p>fícil demais e os jogadores diminuem sua previsibilidade através de blefes e</p><p>variações. No pôquer, uma jogada é imprevisível antes que ela ocorra e in-</p><p>teligível logo após. Nesse aspecto, a competição dos negócios se parece</p><p>com o pôquer. Para cada jogada há um contra-ataque. A estratégia de mai-</p><p>or sucesso é aquela mais difícil de contra-atacar e a jogada mais difícil de</p><p>contra-atacar é aquela imprevisível." (COOTER, 2007)</p><p>24 Até existe uma referência bíblica à repreensão moral aos jogos de azar, quando diz que os solda-</p><p>dos partilharam as vestes de Jesus e sobre elas lançaram “sortes”. Entre os romanos, os jogos de</p><p>dados eram proibidos. Carlos Mango chegou a proibir todos os jogos. Durante a Idade Média, ao lado</p><p>das leis romanas, o direito canônico repreendia também toda e qualquer espécie de jogo, houvesse</p><p>sorte ou não. (SZNICK, 1991).</p><p>48</p><p>O Procurador da República Peterson de Paula, representante do Ministério</p><p>Público Federal e Secretário de Relações Institucionais do Parquet Federal, critica a</p><p>legalização dos jogos de azar, dizendo que estudos nos Estados Unidos e na Euro-</p><p>pa já trazem a imagem do ''ludopata'' (doente em jogos). Assim, "Hoje, o SUS tem</p><p>dificuldade de cuidar do próprio viciado em drogas. Os centros de atendimento es-</p><p>pecializados não se estruturam no nosso País [...] Custa crer que esse novo impacto</p><p>no nosso sistema de saúde teria uma resposta adequada". (PGR... 2016)</p><p>Já o Instituto Brasileiro Jogo Legal (IBJL) replicou nesse esteio (PGR... 2016):</p><p>"Quando se traz o jogo pra legalidade, torna-se possível controlar a operação</p><p>do jogo. 'Você passa a ter informações precisas para poder estabelecer qual</p><p>a quantidade de jogadores patológicos'. Para o instituto, as políticas públicas</p><p>poderão minimizar o impacto desse problema. 'Poderão ser criadas também</p><p>campanhas educativas para minimizar o impacto do jogo'. "</p><p>Para o MPF, contrário à ampliação da modalidade de jogos lícitos para o Pa-</p><p>ís, a experiência da instituição tem sido muito negativa no desempenho contra as</p><p>organizações criminosas que exploram as atividades de jogos de azar, pois, com a</p><p>legalização, a atuação do Poder Público terá maiores dificuldades para combater a</p><p>prática de delitos e, consequentemente, sua maior desenvoltura nesse trabalho.</p><p>(PGR... 2016)</p><p>Por outro lado, o IBJL, instituto responsável por fomentar estudos e pesquisas</p><p>sobre os jogos de azar, crê que os jogos já regularizados fazem circular hoje, no</p><p>Brasil, aproximadamente R$ 14 bilhões, enquanto os jogos ilegais movimentam cer-</p><p>ca de R$ 20 bilhões. No mais, destacam: "baseados nessas premissas de que o</p><p>Brasil já tem jogo legal e tem jogo clandestino, nós entendemos que é oportuno que</p><p>o Congresso Nacional crie uma lei para trazer esse mercado clandestino para a le-</p><p>galidade." (PGR... 2016)</p><p>A respeito da lavagem de capitais e a relação com os jogos de azar, o mem-</p><p>bro do órgão ministerial, opina da seguinte maneira (PGR... 2016):</p><p>"Quando a indústria dos jogos na clandestinidade se fortalece, chega um</p><p>momento que precisa ganhar a legalidade para ampliar os negócios. 'O em-</p><p>presário que explora os jogos vai ter dificuldade de começar a justificar aque-</p><p>les ganhos porque lava dinheiro em um lugar ou outro, mas isso cria proble-</p><p>mas', afirma o procurador. 'Com a legalização, ele ganha um espaço maior</p><p>para lavagem de dinheiro. É um segmento que satura do ponto de vista da</p><p>clandestinidade e precisa ganhar a luz do dia'."</p><p>De outra banda, o IJBL arremata (PGR... 2016):</p><p>49</p><p>"Lavar dinheiro em jogo é caro e arriscado, entende o instituto. Existiriam ati-</p><p>vidades prestadoras de serviços em que o 'lavador' pagará apenas 16,33%</p><p>em tributos Federal e municipal. 'A legislação brasileira obriga que prêmios</p><p>acima de R$ 10 mil sejam informados pelos operadores de jogos e loterias ao</p><p>Conselho de Controle de Operações Financeiras - COAF, órgão vinculado ao</p><p>Ministério da Fazenda e responsável pela fiscalização sobre lavagem de capi-</p><p>tais no País, além da tributação de 27,5% de Imposto de Renda sobre o prê-</p><p>mio'. "</p><p>No cipoal jurídico dessas polêmicas, consoante já patenteado, a grande ce-</p><p>leuma não recai sobre o jogo de pôquer em si – se é de destreza ou de acaso, e sim</p><p>a possíveis apostas realizadas durante as sessões.</p><p>Em síntese, Moraes (2016), advogado especialista em direito penal econômi-</p><p>co, postula "As cartas recebidas pelos jogadores não são tão relevantes, logicamen-</p><p>te, quanto sua habilidade. Impossível afirmar que o jogo dependa exclusivamente ou</p><p>principalmente de sorte. A parcela de sorte é mínima."</p><p>Pampuch, França e Júnior (2014) consideram algumas categorias, como as</p><p>que exercitam controle sobre o dinheiro investido, pagamento prévio para entrada na</p><p>competição ou até mesmo alguns modelos que permitem a reentrada não merece-</p><p>doras de serem marginalizadas ao signo do azo e do risco. Afinal, não se trata tecni-</p><p>camente de apostas, mas sim de um pagamento ultimado por todos os jogadores a</p><p>um montante fixo de fichas, cujos valores são meramente representativos e não re-</p><p>ais. Dentre essas modalidades, eles apresentam a variante Texas Hold’em.</p><p>Dito isso, deve-se atentar para a recomendação agregada ao exercício do es-</p><p>porte em torneios (nos quais todos os jogadores apenas pagam um valor determina-</p><p>do para entrar no evento, estes iniciam com a mesma quantidade de chips25 e o ga-</p><p>nhador obtém uma premiação no final da competição, podendo ser dinheiro ou não)</p><p>(QUEIROGA, 2011).</p><p>A corroborar o expedido acima, no contexto jurídico, impende replicar as li-</p><p>ções dos mestres e causídicos Fábio Martins de Andrade e Marcelo Goyanes ad</p><p>litteram:</p><p>“Parece-nos legalmente viáveis o estabelecimento e a exploração de tornei-</p><p>os de pôquer no País, desde que algumas precauções fundamentais sejam</p><p>observadas, a saber: a aplicação da modalidade competição esportiva, co-</p><p>mo manifestação do entendimento de que em tal circunstância não haveria</p><p>predominância da sorte; e de que não existam apostas no torneio, mas</p><p>25 Fichas de jogo em inglês.</p><p>50</p><p>apenas cobranças pela inscrição em eventos e premiação pelo resultado fi-</p><p>nal obtido</p><p>na competição. ” (ANDRADE; GOYANES, p. 11) (grifo nosso).</p><p>Neste prisma, é o que assevera Neto (2011). Recomenda o escritor que, con-</p><p>quanto que não se tenha apostas pecuniárias, a promoção de torneios de pôquer</p><p>não se enquadra na contravenção penal em apreço, a fiscalização do governo se</p><p>torna relativamente mais facilitada nestes eventos com o fito de esquadrinhar a mon-</p><p>ta dos prêmios envolvida e a renda angariada pelos competidores.</p><p>Com efeito, vale a pena arguir a orientação da Corte catarinense alusivamen-</p><p>te ao mandado de segurança impetrado por Overbet Eventos LTDA em desfavor da</p><p>entidade coatora (autoridade impetrada) – Secretário Estadual de Segurança Pública</p><p>e Defesa do Cidadão, que havia se recusado a consentir na deflagração de um</p><p>evento esportivo de pôquer, na categoria Texas Hold'em, arrazoando que o torneio</p><p>configurava atividade contravencional de exploração de jogos de azar (SANTA CA-</p><p>TARINA, 2010):</p><p>“Oportunamente, salienta-se que o campeonato realizado não permite apos-</p><p>tas em dinheiro, ou seja, para participar da competição o jogador paga uma</p><p>determinada quantia e recebe um número de fichas, com valores fictícios,</p><p>sendo vedada a aquisição de novas fichas ou apostas intervenientes. Sa-</p><p>gra-se campeão do torneio não aquele que possuir o maior número de fi-</p><p>chas, mas aquele que permanecer por último na mesa, verificando-se que o</p><p>importante é não ser eliminado. A premiação, neste caso, é o rateio dos va-</p><p>lores arrecadados com as inscrições de acordo com os lugares ocupados</p><p>pelos concorrentes ao final da competição.</p><p>Por conta disso, afasta-se qualquer suposição de que o campeonato em</p><p>questão pudesse envolver apostas ou jogo a dinheiro, o que seria defeso</p><p>por lei.</p><p>Apenas a título de exemplo, importa gizar que este evento ora em debate</p><p>muito se assemelha aos nossos tradicionais campeonatos de dominó, onde</p><p>os participantes pagam uma taxa de inscrição, sendo vedada qualquer</p><p>aposta interveniente, e o prêmio para os vencedores é rateado conforme os</p><p>valores arrecadados. ”</p><p>Cravada na alínea “c”, do § 3º, do art. 50, da LCP, penalmente tipificada é a</p><p>modalidade de “aposta”, não especificando, contudo, a prescrição normativa sobre</p><p>qual tipo de jogo esta deva abranger. Enfim, independentemente do esporte ou</p><p>competição adotados, essa contravenção abrange, como visto, tanto partidas de</p><p>“bolão de futebol” como jogos de pôquer, sobretudo, no estilo de “mesa aberta”</p><p>(cash games).</p><p>Como amálgama dessas premissas, Ferreira (2007, p. 22-23) densifica que,</p><p>não existindo nos torneios a figura de apostas reais, apenas fictícias sobre o mon-</p><p>51</p><p>tante de fichas, não há que se falar em subsunção da alínea “c” do art. 50 da LCP in</p><p>casu. Veja-se:</p><p>“Como ocorre em qualquer outra competição esportiva idônea, os jogadores</p><p>se inscrevem no evento e iniciam a competição com o mesmo número de</p><p>pontos e disputam entre si para descobrir quem são os vencedores. O obje-</p><p>tivo é eliminar os adversários até que se chegue à final. Não existe, portan-</p><p>to, aposta de dinheiro nas mesas, mas apenas a disputa de pontos que</p><p>qualificará os melhores atletas à final”. Ao final, o atrativo destes cam-</p><p>peonatos é que: “Os vencedores recebem prêmios, sejam estes ofere-</p><p>cidos em forma de troféus, dinheiro proveniente de patrocinadores, di-</p><p>nheiro proveniente do pool de recursos pagos pelos participantes na</p><p>inscrição do torneio ou mesmo pacotes de viagens, eletrodomésticos,</p><p>entre outros, fornecidos por patrocinadores."</p><p>Nesse compasso, semelhante é a orientação de Melo (2012, p. 13):</p><p>“Em se tratando de estabelecimentos empresariais voltados para a realiza-</p><p>ção de torneios de Poker, e aqui pouco importa se eles são físicos ou virtu-</p><p>ais, a doutrina e a jurisprudência estão caminhando firme para a possibili-</p><p>dade de autorização de funcionamento, desde que não sejam permitidas</p><p>apostas avulsas e aleatórias em dinheiro. Portanto, não há qualquer obstá-</p><p>culo para a realização de um torneio em que os participantes pagam deter-</p><p>minada quantia, denominada de “Buy in”, e em troca recebem fichas de</p><p>valor fictício (por exemplo: R$ 300,00 = 8000 fichas), para disputar prêmios,</p><p>também em dinheiro, na esteira do que permite os §§ 2º e 3º do ar!go 814</p><p>do Código Civil.” (grifos no original)</p><p>Ad exemplum, Garcia (2015), outro advogado criminalista e especialista em</p><p>direito econômico, articula que "a aposta consiste na própria prática do esporte, ra-</p><p>zão pela qual o Pôquer nesta modalidade seria atípico também para o artigo 50, §3º,</p><p>alínea ‘c‘, por não se tratar propriamente de uma aposta 'sobre' uma competição es-</p><p>portiva de terceiros, mas sim em (e inerente a) sua própria prática."</p><p>Na mesma toada, Andrade e Goyanes (2011) observam que a acusação (nes-</p><p>ta hipótese, representada pelo Ministério Público), a fim de ver atendido o jus puni-</p><p>endi estatal, deve desincumbir-se cabalmente de seu ônus probatório, i.e., não só</p><p>pode arguir, mas deve, outrossim, comprovar efetivamente que as disputas de pô-</p><p>quer, sem quaisquer tipos de apostas reais, não têm seu ganho (ou perda) depen-</p><p>dentes exclusiva e principalmente da sorte. E isso poderia ser demonstrado por meio</p><p>da juntada de laudos periciais e de livros detalhados no assunto. Em sentido oposto,</p><p>não haveria sequer justa causa26 para prosseguir com a persecução penal (investi-</p><p>gação e ação criminais).</p><p>26 Justa causa é uma condição da ação penal consistente em um lastro probatório mínimo de indícios</p><p>razoáveis de autoria e materialidade aptos a ensejar o pleito condenatório.</p><p>52</p><p>Em sólido embasamento jurisprudencial, a veneranda decisão da Corte do</p><p>Estado de São Paulo compara o pôquer ao pif-paf e, assim, como jogo de habilida-</p><p>de:</p><p>Ementa: Jogo de azar – "Pif-paf" – Inexistência de infração contravencional –</p><p>Acordam os juízes da Primeira Câmara do Tribunal de Justiça por unanimida-</p><p>de de votos, negar provimento ao recurso e confirmar a decisão recorrida pe-</p><p>los seus próprios fundamentos, que são jurídicos e estão de acordo com a</p><p>prova do processo.</p><p>Assim decidem, por já ter sido o "pif-paf" considerado jogo não punível,</p><p>em reiterada jurisprudência do Egrégio Supremo Tribunal Federal. É cer-</p><p>to que o "pif-paf" como o "pôquer", não pode ser considerado como jo-</p><p>go de azar, pois não dependem exclusivamente de sorte, como o "baca-</p><p>rat", a "campista" e outros jogos carteados. O ganho depende da habili-</p><p>dade e da observação dos parceiros. A polícia surpreendeu os parceiros,</p><p>segundo consta do auto de flagrante, apenas na prática do "pif-paf". Nenhum</p><p>jogo de azar, como seja "roleta", "bacarat", "campista", etc., estavam prati-</p><p>cando. Era o local, ainda, um apartamento, sem nenhuma característica de</p><p>"cassino", como pretende a polícia, pois não se demonstrou o pagamento de</p><p>entradas, nem tampouco a cobrança de "baratos", ou quaisquer outras contri-</p><p>buições para a realização do jogo de "pif-paf". A sentença, com apoio da ju-</p><p>risprudência, é, assim, inatacável.(TJ/SP – AC – RT 228/499). (grifos nossos)</p><p>Num relance, o Tribunal de Justiça do Piauí prolatou o seguinte aresto (TJPI.</p><p>Agravo em Execução nº 0003212-72.2012.8.18.0003. Rel. Juiz João Henrique Sou-</p><p>sa Gomes. DJe 16.06.2016):</p><p>Ementa: APELAÇÃO CRIMINAL. CONTRAVENÇÃO PENAL. JOGO DE</p><p>AZAR. BARALHO. AUSÊNCIA DA DEMONSTRAÇÃO EFETIVAMENTE DO</p><p>JOGO DE AZAR. EIS QUE DEPENDE MAIS DA OBSERVAÇÃO E HABILI-</p><p>DADE DO JOGADOR DO QUE DA SORTE, A QUAL INFLUI EM PEQUENA</p><p>PARCELA. AUSÊNCIA DO ACERVO COMPROBATÓRIO CONTUDENTE</p><p>SOBRE O TIPO DE JOGO DE CARTAS QUE ERÃO FEITA AS APOSTAS.</p><p>PRINCÍPIO LEGAL DO IN DÚBIO PRO REU. SENTENÇA REFORMADA</p><p>PARA ABSOLVER O RÉU.</p><p>A esse propósito, firme é a exegese dos tribunais sulistas do país (TJSC, MS</p><p>nº: 2010047810-1/SC, Rel. Sérgio Roberto Baasch Luz. Julgado em 26.10.2011 e</p><p>TJRS, MS nº: 70025424086, Rel. Irineu Mariani. Julgado em 17.12.2008).</p><p>53</p><p>“Não se pode inverter o sentido da norma legal, interpretando-a como sendo</p><p>de azar o jogo em que o ganho e a perda não dependam exclusiva ou prin-</p><p>cipalmente da habilidade. É o contrário. O que não pode prevalecer é o fator</p><p>sorte, e não o fator habilidade.”.</p><p>“O jogo de pôquer não é jogo de azar, pois não depende ¿exclusiva ou prin-</p><p>cipalmente da sorte¿ (DL 3.688/41, art. 50, ¿a¿), norma cujo rumo não pode</p><p>ser invertido, como se dissesse que de azar é o jogo cujo ganho ou perda</p><p>não depende exclusiva ou principalmente da habilidade. É o contrário. Diz</p><p>que pode prevalecer é o fator sorte, e não que deve prevalecer o fator habi-</p><p>lidade. ”.</p><p>Nesse mesmo raciocínio, é de todo oportuno trazer à tona a ementa do acór-</p><p>dão do Tribunal de Justiça Mato Grossense:</p><p>TJ-MT - Apelação APL 00161747120148110015 64465/2015 (TJ-MT)</p><p>Data de publicação: 09/03/2016</p><p>Ementa: EMENTA APELAÇÃO CÍVEL – AÇÃO DE REPARAÇÃO DE DANOS</p><p>– QUEBRA DE SINAL DA INTERNET - INDEFERIMENTO DA INICIAL SOB</p><p>O ARGUMENTO DE QUE O PLEITO ESTARIA CONTAMINADO POR ATO</p><p>ILEGAL – JOGO DE POQUER MODALIDADE TEXAS HOLD’EM NÃO É</p><p>CONSIDERADO JOGO DE AZAR – SENTENÇA ANULADA – RETORNO</p><p>DOS AUTOS PARA SEU REGULAR PROSSEGUIMENTO. Recurso conhe-</p><p>cido e provido. Na modalidade que se verifica, o jogo de poker é atividade</p><p>reconhecida como esporte cuja representação em âmbito nacional se dá</p><p>pela Confederação Brasileira de Texas Hold’em – CBTH, entidade cadas-</p><p>trada no ministério do esporte, não havendo como ser indeferida a inici-</p><p>al sob esse argumento, motivo pelo qual os autos devem retornar a ins-</p><p>tancia primaria para o seu regular prosseguimento. O poker não pode</p><p>ser considerado jogo de azar na exata definição do art. 50 , LCP . É que</p><p>jogos de cartas dependem e muito da habilidade do jogador. Sentença anula-</p><p>da para que o feito, em que se pretende indenização por danos materiais e</p><p>morais pela saída do ar da INTERNET, com perda do sinal, de responsabili-</p><p>dade da apelada. O feito deve prosseguir com analise do direito material pos-</p><p>to sob apreciação do órgão jurisdicional. (Ap 64465/2015, DES. SEBASTIÃO</p><p>DE MORAES FILHO, SEGUNDA CÂMARA CÍVEL, Julgado em 02/03/2016,</p><p>Publicado no DJE 09/03/2016) (grifos nossos)</p><p>Sobre tal aspecto, parcimoniosa, outrossim, é a jurisprudência do Tribunal de</p><p>Justiça Federal da 4ª Região:</p><p>TRF-4 - APELAÇÃO CIVEL AC 50154454820154047000 PR 5015445-</p><p>48.2015.404.7000 (TRF-4)</p><p>Data de publicação: 22/03/2016</p><p>Ementa: ADMINISTRATIVO. AÇÃO ORDINÁRIA. PEDIDO DE DECLARA-</p><p>ÇÃO DA LEGALIDADE DAS ATIVIDADES CONCERNETES À PROMOÇÃO</p><p>E REALIZAÇÃO DE TORNEIOS DE PÔQUER. MERA ALEGAÇÃO DE</p><p>EVENTUAL PRECONCEITO. FALTA DE INTERESSE DE AGIR. EXTINÇÃO</p><p>DO PROCESSO SEM JULGAMENTO DO MÉRITO. 1. Inexistência de inte-</p><p>resse de agir, na medida em que a atividade desenvolvida pela parte auto-</p><p>ra, além de lícita, detém todas as autorizações para o seu funcionamen-</p><p>to, não sendo crível que a mera alegação de eventual preconceito em face</p><p>desta atividade resulte na caracterização da necessidade da intervenção do</p><p>poder judiciário. 2. Sentença Mantida. (grifos nossos)</p><p>http://trf-4.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/382847880/apelacao-civel-ac-50154454820154047000-pr-5015445-4820154047000</p><p>http://trf-4.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/382847880/apelacao-civel-ac-50154454820154047000-pr-5015445-4820154047000</p><p>54</p><p>Demonstrada a possibilidade de adoção do pôquer na modalidade esportiva</p><p>Texas Hold'em e à promoção de torneios sem quaisquer formas de apostas reais, o</p><p>que não se confunde com o pagamento de inscrições para adentrar na competição,</p><p>sob o crivo de estudos científicos, doutrinários e jurisprudenciais, imperioso é reco-</p><p>nhecer sua liceidade e sua consequente descriminalização.</p><p>55</p><p>CONCLUSÃO</p><p>Esta investigação buscou demonstrar, conforme estudos doutrinários, ju-</p><p>risprudenciais, de cientistas, especialistas e matemáticos, que o Pôquer, na modali-</p><p>dade Texas Hold’em, não constitui a contravenção penal de jogo de azar – artigo 50</p><p>do Decreto-Lei 3.688/41 – justamente por não depender o ganho e a perda “exclusi-</p><p>va e principalmente da sorte”. Ademais, a pesquisa foi realizada com a utilização de</p><p>uma metodologia predominantemente teórica, bibliográfica e científica.</p><p>Seus resultados comprovaram que a doutrina e a jurisprudência cami-</p><p>nham a largos passos para permitir o estabelecimento e a exploração comerciais de</p><p>torneios esportivos de pôquer. Estudos científicos, realizados no Brasil e no exterior,</p><p>demonstram que o fator sorte não é predominante. Esse esporte é considerado um</p><p>jogo tolerado no direito civil e já foi declarado mundial e nacionalmente como des-</p><p>porto intelectual. Além do mais, é um jogo que conta com a anuência de boa parte</p><p>da sociedade, não havendo razão dizer que o mesmo viola bens jurídicos mais caros</p><p>ao convívio social.</p><p>Ante a falta de predominância da sorte (atipicidade formal), a ausência de re-</p><p>levante ofensa ou ameaça de lesão aos bens jurídicos (tipicidade material), o reco-</p><p>nhecimento do pôquer como esporte mental e sua tolerância pelo direito civil (anti-</p><p>normatividade), contanto que respeitadas as devidas proporções (modalidade espor-</p><p>tiva e sem apostas financeiras reais), concluímos que mesmo a prática e a explora-</p><p>ção empresariais do pôquer são cabalmente lícitas à luz da tipicidade conglobante</p><p>no ordenamento jurídico.</p><p>56</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ALMEIDA, Eduardo Sérgio de. Jogo do bicho e relação de emprego. Revista do</p><p>Tribunal Regional do Trabalho da 13ª Região. João Pessoa. v. 15. n. 1. 2007.</p><p>ANDRADE, Fábio Martins de. GOYANES, Marcelo. 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A matemática no pôquer: explorando problemas de</p><p>probabilidade. 2014. Dissertação de mestrado profissional em matemática em rede</p><p>nacional junto ao Instituto de Matemática, Estatística e Física da Universidade Fede-</p><p>ral do Rio Grande (FURG).</p><p>SERBENA, Carlos. Fatores de personalidade e a prática do pôquer: um estudo</p><p>exploratório em curitiba. V Congreso Internacional de Investigación y Práctica Pro-</p><p>fesional en Psicología XX Jornadas de Investigación Noveno Encuentro de Investi-</p><p>gadores en Psicología del MERCOSUR. Facultad de Psicología - Universidad de</p><p>Buenos Aires, Buenos Aires. 2013.</p><p>SILVA, José Geraldo da. LAVORENTI, Wilson. GENOFRE, Fabiano. Leis penais</p><p>especiais anotadas. 7. ed. rev. e atual. 2008.</p><p>SIMONSEN, Mario Henrique. Teoria dos jogos: conceitos básicos. Nº 150. [s.l].</p><p>1990.</p><p>SOUZA, Oswald de. Jogos de azar ou sorte?. BNL - Boletim Novidades Lotéricas.</p><p>Disponível em: . Acesso em 07 de setembro de 2016.</p><p>SZNICK, Valdir. Contravenções penais. 2. ed. São Paulo: Universitária, 1991.</p><p>UNIFEMES. Centro Universitário de Mineiros. Aula de pôquer é introduzida como</p><p>esporte. 2016. Mineiros-GO. Disponível em:</p><p>. Acesso em 13</p><p>de novembro de 2016.</p><p>http://www.unifimes.edu.br/paginas/noticias/noticia.php?id=3578</p><p>64</p><p>VALVERDE, Alda da Graça Marques; FETZNER, Néli Luiza Cavalieiri; JUNIOR, Nel-</p><p>son Carlos Tavares. Lições de argumentação jurídica: da teoria à prática. Rio de</p><p>Janeiro: Forense, 2013.</p><p>VASCONSELOS, Fernando Antônio. Contratos de jogo e aposta: permissão ou</p><p>proibição? Direito e Liberdade, Natal, v. 15, n. 2 (9), p. 79-95, maio/ago. 2013.</p><p>ZAFFARONI, Eugenio Raúl; PIERANGELI, José Henrique. Manual de Direito Penal</p><p>Brasileiro: São Paulo, RT, v. 1, 2011.</p><p>ZAFFARONI, Eugenio Raúl; PIERANGELI, José Henrique.Manual de direito penal</p><p>brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais. V. 1, 2006.</p><p>65</p><p>BIBLIOGRAFIA</p><p>GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Direito Penal Esquematizado, Parte Especial.</p><p>4ª ed. São Paulo, Saraiva, 2014.</p><p>GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal. 10ª ed. Niteroi, RJ: Impetus, 2014. v. 4.</p><p>HUNGRIA, Nélson. Comentários ao Código Penal. 2ª ed. Rio de Janeiro: Forense,</p><p>1959. v. 9.</p><p>JESUS, E. DAMASIO. Código Penal Anotado. 17ª ed. São Paulo: Saraiva, 2005.</p><p>LENZA, Pedro. Direito Constitucional Esquematizado. 17ª ed. ver., atual e ampl.</p><p>São Paulo: Saraiva, 2013.</p><p>MACHADO, Hugo de Brito. Introdução ao estudo do direito. 3ª ed. São Paulo:</p><p>Atlas, 2012.</p><p>MASSON, Cléber. Direito Penal Esquematizado: Parte Especial, arts. 213 a 359-H.</p><p>4ª ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2014.</p><p>MAZZILLI, Hugo Nigro. Introdução ao Ministério Público. 6ª ed. rev. e atual. São</p><p>Paulo: Saraiva, 2007.</p><p>NUCCI, Guilherme de Souza. Código Penal Comentado. 14ª ed. Rio de Janeiro:</p><p>Forense, 2014.</p><p>SANCHES, Rogerio. Manual de direito penal, Parte Especial.7ª ed. Salvador: Jus-</p><p>PODIVIM, 2015.</p><p>66</p><p>ANEXO A – LAUDO Nº: 01/020/21432/2011 DO INSTITUTO DE CRIMINALÍSTICA</p><p>DA SUPERINTENDÊNCIA DA POLÍCIA TÉCNICO-CIENTÍFICA PERTENTECENTE</p><p>À SECRETARIA DE SEGURANÇA PÚBLICA DE SÃO PAULO.</p><p>67</p><p>ANEXO B – LABORATÓRIO DE PERÍCIAS PROF. RICARDO MOLINA DE FI-</p><p>GUEIREDO</p><p>68</p><p>ANEXO C – ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SANTA CATARINA NO</p><p>MANDADO DE SEGURANÇA Nº: 2010047810-1/SC, REL. SÉRGIO ROBERTO</p><p>BAASCH LUZ, JULGADO EM 26 DE OUTUBRO DE 2011.</p><p>0DQGDGR GH 6HJXUDQoD Q� �������������� GD &DSLWDO</p><p>5HODWRU� 'HV� 6pUJLR 5REHUWR %DDVFK /X]</p><p>0$1'$'2 '( 6(*85$1d$� 5($/,=$d­2 '( 7251(,2</p><p>'( 3Ð48(5� $8725,'$'( &2$725$ 48( 6( 1(*28 $</p><p>&21&('(5 $8725,=$d­2� 325 6( 75$7$5 '( -2*2 '(</p><p>$=$5� -2*2 48( '(3(1'( 35(321'(5$17(0(17( '$6</p><p>+$%,/,'$'(6 '2 3$57,&,3$17( ( 1­2 0(5$0(17( '$</p><p>6257(� 02'$/,'$'( 48( 1­2 6( (148$'5$ 12</p><p>35(&(,72 '2 $57� ��� � ��� �$�� '2 '(&5(72 ���������</p><p>&$03(21$72� $'(0$,6� 48( 9('$ $3267$ 28 -2*2 $</p><p>',1+(,52� -2*2 1­2 352,%,'2� /,0,1$5 &21),50$'$�</p><p>6(*85$1d$ &21&(','$�</p><p>���� Ʊ 2 MRJR GH S{TXHU QmR p</p><p>MRJR GH D]DU� SRLV QmR</p><p>GHSHQGH ƳH[FOXVLYD RX SULQFLSDOPHQWH GD VRUWHÆ´ �'/ ���������</p><p>DUW� ��� ƳDÆ´�� QRUPD FXMR UXPR QmR SRGH VHU LQYHUWLGR� FRPR VH</p><p>GLVVHVVH TXH GH D]DU p R MRJR FXMR JDQKR RX SHUGD QmR GHSHQGH</p><p>H[FOXVLYD RX SULQFLSDOPHQWH GD KDELOLGDGH� e R 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CONCEITOS, NOÇÕES E IDEIAS SOBRE O PÔQUER E OS JOGOS DE AZAR</p><p>NO BRASIL................................................................................................................17</p><p>2 ANÁLISE LEGISLATIVA, DOUTRINÁRIA E JURISPRUDENCIAL SOBRE A TI-</p><p>PICIDADE PENAL DO PÔQUER COMO JOGO DE AZAR ..................................... 21</p><p>2.1 Tipicidade formal ............................................................................................... 22</p><p>2.2 Tipicidade material ............................................................................................ 38</p><p>2.3 Antinormatividade, tipicidade conglobante e o pôquer como esporte mental</p><p>e jogo tolerado no ordenamento jurídico...............................................................46</p><p>3 DESCRIMINALIZAÇÃO DO PÔQUER NA MODALIDADE TEXAS HOLD’EM .... 49</p><p>4 CONCLUSÃO ........................................................................................................ 58</p><p>5 REFERÊNCIAS ...................................................................................................... 60</p><p>6 ANEXOS.................................................................................................................68</p><p>12</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Esta pesquisa tem como objetivo demonstrar se, conforme se depreende</p><p>de reflexões doutrinárias e jurisprudenciais, bem como de estudos de cientistas, es-</p><p>pecialistas e matemáticos, o Pôquer, na modalidade Texas Hold’em, constitui con-</p><p>travenção penal de jogo de azar, nos moldes do artigo 50 do Decreto-Lei 3.688/41,</p><p>no qual o ganho e a perda “dependem exclusiva e principalmente da sorte” ou ao</p><p>combinarem habilidades lógicas, estratégicas e de avaliação corporal-psicológicas</p><p>como principal fator de sucesso.</p><p>O trabalho se refere a tema polêmico com grande divergência de orienta-</p><p>ções entre juristas, a despeito de especialistas, profissionais e praticantes do espor-</p><p>te ressaltarem a sobrepujança da habilidade em relação às influências do acaso,</p><p>mormente no que diz respeito à natureza (lícita/ilícita) desse estilo de pôquer para o</p><p>ordenamento jurídico do país.</p><p>Para tanto, no primeiro capítulo, desenvolvemos uma sucinta abordagem</p><p>sobre o pôquer e os jogos de azar no Brasil, trazendo à tona alguns conceitos, no-</p><p>ções e ideias sobre as repercussões jurídicas de tais jogos e do pôquer para a ciên-</p><p>cia criminal.</p><p>No segundo momento, discorremos esmiuçadamente acerca da análise</p><p>legal, doutrinária e jurisprudencial do pôquer como jogo de azar, contravenção penal</p><p>estampada no art. 50 da Lei de Contravenções Penais (Decreto-Lei 3.688/41), sob o</p><p>enfoque jurídico de sua tipicidade formal (ou legal), material, antinormatividade e, em</p><p>última instância, no seu caráter conglobante1 (causa supralegal).</p><p>Já, na terceira parte do trabalho, tratamos do conjunto de decisões reite-</p><p>radas dadas pelos tribunais acerca do tema, quer decretando o pôquer como ilícito</p><p>penal, quer o proclamando como jogo de habilidade (o qual não depende primordi-</p><p>almente da sorte). Ademais, propomos uma possibilidade de interpretação adequada</p><p>à descriminalização ou permissividade desse esporte no bojo do arcabouço jurídico</p><p>pátrio.</p><p>1 Em apertada síntese, a tipicidade conglobante é o resultado da presença da tipicidade legal (formal)</p><p>somada à tipicidade material em conjunto com a antinormatividade. A primeira (tipicidade legal) se</p><p>relaciona com o encaixe (subsunção) do comportamento humano ao tipo penal, ao passo que a tipici-</p><p>dade conglobante faz alusões à observância da antinormatividade e à tipicidade material. (ZAFFA-</p><p>RONI, 2011).</p><p>13</p><p>Este estudo foi desenvolvido mediante pesquisa bibliográfico-doutrinária,</p><p>legislativa e jurisprudencial, em âmbito nacional, valendo-se do levantamento de da-</p><p>dos e informações em compêndios legislativos, estudos doutrinários, julgados, publi-</p><p>cações científicas e de avaliações periciais.</p><p>14</p><p>1. CONCEITOS, NOÇÕES E IDEIAS SOBRE CONTRAVENÇÕES PENAIS, JO-</p><p>GOS DE AZAR, APOSTAS E O PÔQUER NO BRASIL</p><p>Na inteligência dos dicionários de língua portuguesa (HOUAISS, 2001; MI-</p><p>CHAELIS, 2010), a expressão “jogo de azar” vulgarmente designa todo aquele em</p><p>que a perda ou o ganho dependem mais da sorte do que da habilidade e do cálculo,</p><p>ou de modo que resulte apenas da álea, do fortuito ou acaso. A título de exemplo, as</p><p>obras apontam como jogos desse jaez: bingos, baralhos em geral, os da roleta,</p><p>black-jack, do monte e de máquinas caça-níqueis.</p><p>Devemos ter em mente segundo o manual Aurélio (FERREIRA; ANJOS;</p><p>FERREIRA, 2010) que, embora não seja definido como jogo de azar, o vocábulo</p><p>“pôquer” reproduz a concepção de: “cada uma das diversas modalidades do jogo de</p><p>cartas, de origem norte-americana, para dois ou mais parceiros, em que estes apos-</p><p>tam sobre o valor real ou fictício das cartas que recebem.”.</p><p>Grosso modo, refere-se a uma espécie lúdica que implica “ajuste entre pes-</p><p>soas de opiniões diversas, no qual a que não acerta deve pagar à outra algo de an-</p><p>temão determinado.” (FERREIRA; ANJOS; FERREIRA, 2010).</p><p>Historicamente, jogos e apostas são tão remotos quanto o surgimento da hu-</p><p>manidade. Há relatos arqueológicos de que o “Código de Manu” na Índia já estabe-</p><p>lecia no capítulo “jogos e combate de animais”, condenações aos entretenimentos</p><p>lúdicos e a esses ajustes. Igualmente, na Antiguidade, o Alcorão os julgavam como</p><p>“furtos manifestos” e Maomé os cunhava como “abominações” (VASCONSELOS,</p><p>2013).</p><p>Aliás, desde os primórdios da civilização, os jogos de azar sempre desperta-</p><p>ram e cativaram o fascínio de pessoas, tendo em vista às chances de enriquecimen-</p><p>to fácil e imediato. Destarte, esses apostadores tinham convicção de sua credibilida-</p><p>de (de que os prêmios seriam pagos) e a certeza de que nada iria intervir no resulta-</p><p>do dos jogos, a não ser, por obviedade, a própria sorte (DUARTE, 2006).</p><p>Em rigor, não se sabe ao certo onde surgiu o Pôquer, mas o relato de maior</p><p>acepção remete à uma tradição pérsica e que foi passada aos povos europeus pelos</p><p>marinheiros da região, conhecidos como “As Nas”. A nomenclatura “poker” (inglês)</p><p>provém do termo “poque” (em francês) ou de “pochen” (em alemão), jogos da época,</p><p>mas que não possuíam muitas semelhanças. (PAMPUCH; FRANÇA; JUNIOR, 2014)</p><p>15</p><p>Apesar disso, dados históricos mais recentes apontam para os arredores de</p><p>New Orleans, cidade estadunidense com influência da cultura francesa, aproxima-</p><p>damente na data de 1830, onde o pôquer adquiriu maior destaque. A partir daí, foi</p><p>difundido por intermédio das embarcações marítimas e das Grandes Guerras, ob-</p><p>tendo paulatinamente uma roupagem mais desportiva até 1970, momento da criação</p><p>da World Series of Poker2 (WSOP) e de sua "viralidade" na contemporaneidade com</p><p>a vinda da internet. (PAMPUCH; FRANÇA; JUNIOR, 2014)</p><p>No País a punição aos jogos de azar já se achava registrada no Livro 5, título</p><p>82, das Ordenações; no art. 281 do Código Criminal de 1830, nos capítulos II e III do</p><p>“Estatuto Repressivo” de 1890, bem como nos anteprojetos (arts. 395 e 403/4) João</p><p>Vieira, (arts. 552, 554 e 557/9) de Sá Pereira e (art. 386) de Alcântara Machado, e</p><p>(arts. 75 a 82) do projeto (SZNICK, 1991).</p><p>No Estado brasileiro, contravenção (do latim contraventione) ordinariamente</p><p>sugere uma ilicitude de menor importância, inferior a um crime (ou delito), principal-</p><p>mente, com o advento da Lei dos Juizados Especiais (Lei nº 9.099/95), pois é asso-</p><p>ciada às infrações de menor potencial ofensivo3.</p><p>Lembra-se que o crime (ou delito) e a contravenção penal (“delito-anão”4) são</p><p>formas de infrações penais, tendo como diferença básica existente entre elas os</p><p>elencos de sanções respectivos que a legislação comina</p><p>GH DSRVWDU� GH</p><p>GHGX]LU DV FDUWDV GRV RXWURV� EHP FRPR GHWHFWDU R VHX FRPSRUWDPHQWR� &RQVWDWD�VH�</p><p>DVVLP� TXH LQWHUIHUH QR VXFHVVR GR MRJR R WUHLQR� D FDSDFLGDGH GH LQWXLU D LQWHQomR</p><p>DOKHLD H R FRQKHFLPHQWR GRV SDGU}HV GH FRPELQDo}HV TXH VXUJHP HP XPD PHVD GH</p><p>S{TXHU�</p><p>0,&+$(/ '('2112 H '28*/$6 '(77(50$1 UHDOL]DUDP SHVTXLVDV FRP</p><p>GRLV JUXSRV GH MRJDGRUHV� 2V JUXSRV FRPHoDP D H[SHULrQFLD VHP TXDOTXHU LQVWUXomR</p><p>DFHUFD GDV KDELOLGDGHV H FRQKHFLPHQWRV TXH OHYD� D JDQKDU QR S{TXHU� 7HUPLQDGD D</p><p>VpULH GH ��� URGDGDV� XP JUXSR p LQWHLUDGR GH FRQKHFLPHQWRV H DUWLItFLRV HILFLHQWHV</p><p>QR MRJR GH S{TXHU� 2 RXWUR JUXSR UHFHEH DSHQDV LQIRUPDo}HV VREUH D KLVWyULD GR</p><p>S{TXHU� 2 JUXSR TXH UHFHEHX LQVWUXo}HV H LQGLFDomR GH HVWUDWpJLDV SDVVD D WHU</p><p>DSURYHLWDPHQWR EHP PDLV VLJQLILFDWLYR GR TXH R JUXSR GH MRJDGRUHV TXH DSHQDXV IRL</p><p>LQWHLUDGR GD KLVWyULD GR S{TXHU� 'LDQWH GHVVD FRQVWDWDomR FRQFOXHP RV DXWRUHV TXH R</p><p>S{TXHU p� SULQFLSDOPHQWH� XP MRJR GH KDELOLGDGHV� D SRQWR GH GL]HUHP TXH� ƳWKH</p><p>XQHTXLYRFDO ILQGLQJ LV WKDW S{TXHU LV D JDPH RI VNLOOÆ´�</p><p>,JXDOPHQWH� HVWXGR VREUH KDELOLGDGH HP MRJRV H[DPLQD D DSOLFDomR GH GLYHUVD</p><p>HVWUDWpJLDV� VHQGR YHULILFiYHO R VXFHVVR HP MRJRV RX FRPSHWLo}HV DR VH VRFRUUHU GH</p><p>HVWUDWpJLDV� FRQFOXLQGR�VH TXH DV GLIHUHQoDV GD KDELOLGDGH GH MRJDGRUHV VmR</p><p>GHWHUPLQDQWHV LPSRUWDQWHV FRP UHODomR DR VXFHVVR GR MRJDGRU HP MRJRV FRPR</p><p>S{TXHU� EDVNHWEDOO� QHJyFLRV H SROtWLFD�</p><p>3RU ILP� HVWHV HVWXGRV YrP DR HQFRQWUR GD FRQFOXV}HV FRQVWDQWHV GH /DXGR GR</p><p>,QVWLWXWR GH &ULPLQDOtVWLFD GH 6mR 3DXOR DFHUFD GR MRJR GH S{TXHU 7H[DV +ROG</p><p>HP�</p><p>ƳWUDWD�VH GH XP MRJR GH KDELOLGDGH� SRLV ILFRX FRQVWDWDGR TXH D KDELOLGDGH GR</p><p>MRJDGRU TXH SDUWLFLSD GHVWD PRGDOLGDGH GH MRJR GHSHQGH GD PHPRUL]DomR� GDV</p><p>FDUDFWHUtVWLFDV �Q~PHUR H FRU� GDV ILJXUDV DSUHVHQWDGDV QR GHFRUUHU GR MRJR H GR</p><p>FRQKHFLPHQWR GDV UHJUDV H HVWUDWpJLD GH DWXDomR HP IXQomR GHVWHV 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Para alguns, ocorre que tal car-</p><p>teado não depende primordialmente da sorte, mas sim de perícia, esperteza e estra-</p><p>2 World Series of Poker (WSOP), é atualmente considerado o maior evento de pôquer do mundo em</p><p>termos estruturais. Disponível em: . Acesso em: 13 de agosto de 2016.</p><p>3 Infração penal de menor potencial ofensivo abrange todas as contravenções penais e os delitos,</p><p>cuja pena máxima em abstrato não exceda a 2 (dois) anos, cumulada ou não com multa (art. 61 da</p><p>Lei nº 9.099/95). (BRASIL, 1995).</p><p>4 Expressão utilizada por Nelson Hungria como sinonímia para contravenção penal, uma vez que</p><p>nosso Código Penal adotou o critério dicotômico (ou bipartido), dividindo as infraç��es penais em cri-</p><p>mes (ou delitos) e em contravenções penais, definidas no art. 1º da Lei de Introdução ao Código Pe-</p><p>nal (LICP). (STEFAM; GONÇALVES, 2016).</p><p>16</p><p>tégia do jogador, enquanto outros sustentam que depende sim do acaso na etapa</p><p>inicial de distribuição das cartas (STEFAM; GONÇALVES, 2016).</p><p>Pelo princípio da especialidade (art. 1º do Decreto-lei nº 3.688/1941 – Lei de</p><p>Contravenções Penais) (BRASIL, 1941), se a lei contravencional regulamentar al-</p><p>gum assunto de modo determinado, esta será aplicada em detrimento do Código</p><p>Penal. Todavia, se a LCP nada dispuser acerca do tema, deverão incidir as regras</p><p>gerais elencadas no próprio CP. Exempli gratia: excludentes de antijuridicidade,</p><p>concurso de pessoas, causas de extinção da punibilidade, dentre outros institutos da</p><p>parte geral do Codex Criminal (STEFAM; GONÇALVES, 2016).</p><p>Necessário é trazer a lume que o Decreto-lei de 1941 consigna o princípio da</p><p>territorialidade exclusiva para as normas contravencionais, ou seja, somente no inte-</p><p>rior do território brasileiro poderão ser aplicadas (STEFAM; GONÇALVES, 2016).</p><p>Brevemente, de acordo com o art. 3º da LCP, para a existência da contraven-</p><p>ção, salvo quando a lei dispuser de modo diverso, independentemente de dolo ou</p><p>culpa, basta a presença de voluntariedade – mera vontade de realizar o tipo penal,</p><p>despida de qualquer direcionamento (animus). Em embargo, Damásio, louvado pe-</p><p>los penalistas e citado por Stefam e Gonçalves (2016), apregoa que tal preceito já se</p><p>encontra obsoleto, uma vez que, adotada a teoria finalista da ação e vedada a res-</p><p>ponsabilidade penal objetiva pela reforma de 1984 do Código Penal, não assistiria</p><p>mais razão alguma a aplicabilidade desse norma no sistema jurídico.</p><p>No mais, por critérios de política criminal, impôs o legislador, segundo o co-</p><p>mando inserto no art. 4º da LCP, que as tentativas de contravenção não são puní-</p><p>veis.</p><p>Ab initio o art. 5º da LCP dispõe que as penas principais para os delitos-anões</p><p>são prisão simples e a multa. Ainda, no art. 7º, o ato normativo aduz que o exercício</p><p>de contravenção só importará em reincidência se o réu já tiver sido responsabilizado</p><p>definitivamente por algum crime ou, no Brasil, por outra contravenção penal. Essa</p><p>penalidade de prisão simples não poderá exceder a 5 (cinco) anos de cumprimento</p><p>nos termos do art. 10 da LCP.</p><p>No art. 8º da LCP, a lei menciona a figura do “erro de direito”. Em que pese</p><p>ser inescusável o desconhecimento da lei (art. 21 do CP), tal dispositivo antevê uma</p><p>situação de perdão judicial (causa extintiva da punibilidade) quando for desculpável</p><p>a falsa percepção (erro) em que qualquer “pessoa média, simples ou comum” pode-</p><p>ria cometer. No entanto, Damásio, apud Stefam e Gonçalves (2016), fala que essa</p><p>17</p><p>norma, durante a reforma criminal de 1984, também foi revogada pelo art. 21 do CP,</p><p>que trata do instituto do “erro de proibição” – causa excludente de culpabilidade por</p><p>carecer de potencial consciência da ilicitude.</p><p>Ora, sendo as contravenções normas penais de ação penal pública incondici-</p><p>onada (art. 17 da LCP), resta patente e inequívoco ser o Ministério Público (MP ou</p><p>Parquet), nos termos do art. 129, I, da Constituição Federal (BRASIL, 1988), titular</p><p>exclusivo da ação pública, a parte legitimada para o processamento do feito.</p><p>Significa que o chamado procedimento judicialiforme (art. 26 do CPP), em que</p><p>prevê, nos casos de contravenções penais, a ação penal seria iniciada por portaria</p><p>do delegado de polícia ou pela própria autoridade judiciária, não foi recepcionado</p><p>pela Constituição de 1988.</p><p>De pronto, o Decreto-Lei nº 3.688/1941 (LCP), em seu art. 50, caput, asseve-</p><p>ra que a conduta de estabelecer ou explorar jogo de azar em lugar público ou aces-</p><p>sível ao público, mediante o pagamento da entrada ou sem ele, será punível com as</p><p>iras de prisão simples combinadas com multa, estendendo-se os efeitos da conde-</p><p>nação à perda dos móveis e objetos de decoração do local (BRASIL, 1941).</p><p>Tendo sido restaurada a vigência do art. 50 pelo Decreto-Lei nº 9.215/1946, o</p><p>qual já estava ab-rogado (revogado totalmente) na época, estabeleceu-se novamen-</p><p>te a repressão aos jogos de azar derivada de um imperativo de consciência univer-</p><p>sal e oriunda de convicções religiosas e morais do povo brasileiro, entre tantos ou-</p><p>tros discursos conservadores. Embora seja um diploma normativo antigo, o Poder</p><p>Legislativo recentemente reforçou tal entendimento, acarretando modificações na</p><p>redação do precitado dispositivo pela Lei nº 13.155/2015, que passou a prescrever,</p><p>a partir de então, que não se pode participar de jogos de azar nem virtualmente</p><p>(FARIA, 2016).</p><p>É preciso lembrar que muitas conclusões sobre o pôquer, quiçá até precon-</p><p>ceituosas, decorrem do fato de que este carteado era jogado em cassinos, estabele-</p><p>cimentos que foram fechados pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra, na medida em</p><p>que tudo que ali se jogava chegou a se tornar definitivamente proibido (MARQUES,</p><p>2012).</p><p>Depreende-se do §2º do mesmo comando normativo, além disso, que incor-</p><p>rem em pena de multa aqueles que são encontrados participando destes jogos como</p><p>18</p><p>ponteiro ou apostador5, ainda que seja pela internet ou por outro meio de comunica-</p><p>ção (BRASIL, 1941).</p><p>Já, nas alíneas "a" e "c", do §3º, do art. 50, determinou o legislador que se</p><p>consideram jogos de azar: a) o jogo em que o ganho e a perda dependem exclusiva</p><p>ou principalmente da sorte6; c) as apostas sobre qualquer outra competição esporti-</p><p>va (BRASIL, 1941). (grifos nossos)</p><p>Solapando qualquer imbróglio, jogo e aposta7 são conceitos distintos, como</p><p>melhor será explicado adiante, ambos regulados pelo Código Civilista. De início, im-</p><p>porta dizer que o primeiro basicamente seria todo aquele que é mais dependente do</p><p>empenho dos contendores, como o boxe, futebol e o xadrez (esportes em geral), ao</p><p>passo que a aposta decorre de um ajuste entre participantes, atuando estes como</p><p>simples espectadores à espera do acaso – sorte ou azar (VASCONSELOS, 2013).</p><p>5 Ponteiro ou apontador é todo aquele que está à frente do jogo, que toma notas, recebe apostas etc.,</p><p>ao passo que a figura do apostador se refere a quem participa de jogo de azar, fazendo apostas ou</p><p>se arriscando (ANDREUCCI, 2013; SILVA; LAVORENTI; GENOFRE, 2005).</p><p>6 A elementar “sorte” traduz a concepção de ganho ou perda não condicionado à destreza do jogador,</p><p>sendo o resultado do jogo definido por fatores fortuitos, casuísticos ou randômicos (ANDREUCCI,</p><p>2013). O termo “jogo de azar” indica que os componentes sorte e risco são determinantes para ob-</p><p>tenção de vantagem econômica,</p><p>sendo a habilidade despicienda (SILVA; LAVORENTI; GENOFRE,</p><p>2005).</p><p>7 A título de curiosidade, considera-se aposta consoante os dizeres de Maria Helena Diniz à luz do</p><p>art. 814 do Código Civil: "aposta é a convenção em que duas ou mais pessoas de opiniões discordan-</p><p>tes sobre qualquer assunto prometem, entre si, pagar certa quantia ou entregar determinado bem</p><p>àquela cuja opinião prevalecer em virtude de um evento incerto." (2012, p. 594).</p><p>19</p><p>2 ANÁLISE CIENTÍFICA, DOUTRINÁRIA E JURISPRUDENCIAL SOBRE A TIPI-</p><p>CIDADE PENAL DO PÔQUER COMO JOGO DE AZAR</p><p>Consoante estudos de cientistas, especialistas e matemáticos no assunto</p><p>(SÃO PAULO, 2006; FIGUEIREDO, 2006), vem sendo olvidada pela doutrina</p><p>(MARQUES, 2012), jurisprudência (MATO GROSSO, 2016; PARANÁ, 2013; RIO</p><p>GRANDE DO SUL, 2008; PIAUÍ, 2016; RIO DE JANEIRO, 2014; SANTA CATARI-</p><p>NA, 2011, 2013) e autoridades públicas (MELO, 2013; KOJIKOVSKI, 2016) no país</p><p>a interpretação de que o Pôquer, notadamente, no estilo Texas Hold’em, se amolda</p><p>à contravenção penal de jogo de azar, justamente por não depender, nos termos da</p><p>lei, seu ganho e perda “exclusiva ou principalmente da sorte”.</p><p>Afinal, neste jogo de cartas, podemos dizer que triunfa ou tem como principal</p><p>fator de sucesso quem souber coadunar habilidades cognitivas – lições de estraté-</p><p>gia, lógica e de cálculos matemáticos – ao lado de competências emocionais. Não</p><p>fosse assim, o pôquer não teria sido classificado como uma categoria esportiva da</p><p>mente (COSTA, 2016, p. 21) pela International Mind Sports Association – IMSA (As-</p><p>sociação Internacional dos Esportes Mentais) e pelo Ministério do Esporte no Brasil</p><p>(ESPORTE, 2014) conjuntamente com o gamão e xadrez.</p><p>Aliás, dentre as modalidades desportivas do carteado, há o Texas Hold’em,</p><p>estilo comumente mais jogado e apreciado para determinar campeões mundiais na</p><p>World Series of Poker (WSOP), e versão que já possui, inclusive, sua própria confe-</p><p>deração no Brasil – Confederação Brasileira de Texas Hold’em (CBTH) – fundada</p><p>desde 29 de janeiro de 2009 e, como já dito alhures, autorizada pelo próprio Poder</p><p>Público (PAMPUCH; FRANÇA; JUNIOR, 2014).</p><p>Por outro lado, ainda tem sido agasalhada pela comunidade jurídica pátria</p><p>(MARTINS, 2013; JESUS, 2010; MINAS GERAIS, 2013; BRASIL, 2003) a tese de</p><p>que essa categoria, tachada como mais popular e complexa em termos de habilida-</p><p>de e estratégia, se enquadra à infração penal de jogo de azar, na medida em que a</p><p>destreza e a capacidade de raciocínio não são preponderantes para o resultado fi-</p><p>nal, a saber: a vitória do jogador.</p><p>2.1 Tipicidade formal (ou legal)</p><p>20</p><p>Passando ao exame do ato desviante do art. 50 da LCP, Valdir Sznick (1991)</p><p>preleciona que jogo de azar é todo aquele dependente da sorte, sendo o risco o fator</p><p>mais importante. Melhor dizendo, são jogos nos quais a influência do fortuito e do</p><p>acaso prevalecem, enquanto variáveis determinantes para o êxito. Frisa-se que não</p><p>possui natureza de azar o jogo quando forem precisos destreza, força (física) ou do</p><p>cálculo (mental). Acrescenta que o dispositivo em apreço procura tão somente tute-</p><p>lar os bons costumes8, a moralidade da sociedade, o combate à ociosidade e a pro-</p><p>teção do trabalho.</p><p>Nesse diapasão, faz-se mister transcrever a doutrina de Silva, Lavorenti e</p><p>Genofre:</p><p>“No §3º temos casos exemplificativos do que se deva entender como jogos de</p><p>azar. Não são hipóteses taxativas, não visa limitar o alcance do caput do arti-</p><p>go. Assim, nas diversas alíneas, podemos consignar: a) pouco interessa a</p><p>habilidade, perspicácia, malícia ou sagacidade do jogador, porque tudo</p><p>depende exclusiva ou preponderantemente da sorte. Portanto, o que</p><p>exige habilidade de execução como o bilhar ou o ‘snooker’ não caracte-</p><p>riza a contravenção [...] é uma redação abrangente a ponto de incluir,</p><p>por exemplo, ‘bolão’ de futebol. ” (SILVA; LAVORENTI; GENOFRE, 2005,</p><p>p. 551). (grifo nosso)</p><p>Andreucci (2013), por sua vez, aduz que a conduta típica capitulada, no art.</p><p>50 da LCP, vem representada pelos verbos-núcleos “estabelecer” (instalar, montar,</p><p>manter) e “explorar” (executar, fazer, tirar proveito, beneficiar-se). Ainda, esmiúça</p><p>que os jogos de azar devem ser praticados em lugares públicos (ruas, praças, par-</p><p>ques) ou acessíveis ao público (casas noturnas, bares etc.). No que tange aos efei-</p><p>tos penais, a lei contravencional relaciona no §4º que as casas particulares, o hotel</p><p>ou a casa de habitação coletiva, a sede ou a dependência de sociedade ou associa-</p><p>ção e o estabelecimento destinado à exploração de jogo de azar se equiparam a</p><p>locais de acesso pelo público.</p><p>Entrementes, Damásio de Jesus (2010) dispõe que são elementos do azo: a)</p><p>risco; e b) finalidade lucrativa. Para tanto, o resultado não pode estar condicionado à</p><p>destreza do jogador e/ou o jogo não deve estar vinculado com quaisquer vantagens</p><p>econômicas (v.g., pagar uma dose de bebida alcoólica ao vencedor). Infere o juris-</p><p>consulto, dessa maneira, que o pôquer se subsume como contravenção penal, con-</p><p>quanto que envolva apostas e que se refira a variantes eletrônicas (videopôquer).</p><p>8 Segundo Sznick (1991), bons costumes são a decência, a virtude, a moral e o pudor públicos.</p><p>21</p><p>O professor ministra na esteira de, independentemente de pagamento ou não</p><p>de “entrada”, que o pôquer tem natureza aleatória, a par da roleta, do monte e da</p><p>víspora. Entretanto, não interpreta, contrario sensu, como fato típico outros cartea-</p><p>dos, a exemplo da caixeta, canastra e o truco sem apostas em dinheiro (JESUS,</p><p>2010).</p><p>O truco não é jogo de azar, segundo o ensino de Gonçalves e Júnior (2016),</p><p>pois a malícia, a astúcia e a destreza do participante no desenrolar do jogo (e não</p><p>apenas das cartas sorteadas) enseja que não se amolde ao tipo penal.</p><p>Antes de tudo, é imperioso não se olvidar que a as apostas online no pôquer,</p><p>indiscutivelmente, não podem ser vedadas se o provedor do jogo estiver fora da ju-</p><p>risdição brasileira (princípio da territorialidade), porquanto as contravenções são im-</p><p>puníveis quando perpetradas em espaço estrangeiro (art. 2º da LCP). Em que pese</p><p>a prescrição seja feita dentro da circunscrição nacional, a concretização do resultado</p><p>e das apostas, neste caso, acontecem no exterior (STEFAM; GONÇALVES, 2016).</p><p>Ora, a respeito dos jogos de azar, prudente é transcrever as instruções cate-</p><p>dráticas de Gonçalves e Júnior (2016):</p><p>“Apesar do silêncio da lei, é claro que só ocorre a contravenção se o</p><p>jogo de azar for praticado mediante aposta. Um jogo de roleta que não</p><p>seja a dinheiro não caracteriza a infração, pois não há potencialidade lesiva.</p><p>A propósito: ‘para a tipificação da contravenção do jogo de azar é necessá-</p><p>rio que se prove também que a prática tenha como finalidade o lucro, o que</p><p>não se confunde com despesas feitas pelos participantes, normalmente be-</p><p>bidas, salgadinhos etc.”. (destaque nosso)</p><p>Em tempo, algumas doutrinas e jurisprudências vêm anunciando que o pô-</p><p>quer, como os jogos de dados, tampinha, roleta, são considerados jogos de azar por</p><p>dependerem exclusiva ou preponderantemente da sorte – distribuição aleatória das</p><p>cartas. Todavia, não dizem que o truco, a caixeta e o buraco, tipos de carteados, são</p><p>jogos de azar da mesma estirpe (SILVA; LAVORENTI; GENOFRE, 2005).</p><p>Com efeito, esse tem sido o posicionamento assente do Superior Tribunal de</p><p>Justiça, conforme se depreende literalmente do julgado a seguir:</p><p>“Os jogos de azar, caracterizados pela só álea no resultado, estão proibidos</p><p>no Brasil, proibição não absoluta porque sofre exceções”. De fato: “Permis-</p><p>são de funcionamento que, episódica e circunstancialmente situa-se nos es-</p><p>tritos limites da lei”. No seu voto, a Ministra Relatora Eliana Calmon consig-</p><p>nou que: “A questão dos jogos no Brasil sempre foi mal resolvida, pela ve-</p><p>dação absoluta dos jogos de azar, caracterizados como aqueles em que o</p><p>resultado submete-se inteiramente a uma</p><p>álea, sem possibilidade de mu-</p><p>22</p><p>dança, seja pela inteligência, habilidade ou conhecimento. Dentre esses</p><p>jogos, estão o pôquer, a víspora, o jogo do bicho, o bingo e outras</p><p>modalidades, inclusive sob a forma de jogos virtuais ou eletrônicos, os</p><p>quais não mudam em nada a álea do resultado”. (STJ – 2ª Turma –</p><p>ROMS 15.449 – Rel. Min. Eliana Calmon – j. 20.03.2003 – DJU</p><p>14.04.2003). (grifo nosso)</p><p>Sob o prisma da jurisprudência mineira, obliteram-se, sobremaneira, quais-</p><p>quer arrazoados e provas contundentes na tentativa de permitir a exploração e a</p><p>prática do aludido desporto. Na Apelação Cível nº 1.0223.12.016725-7/001, como</p><p>exemplo, o tribunal compreendeu que este jogo depende prevalentemente de sorte</p><p>no início da partida, pois "justamente e somente depois da distribuição aleatória das</p><p>cartas é que eventuais habilidades poderão ser exercitadas." (MINAS GERAIS,</p><p>2013).</p><p>A princípio, o TJMG exarou acórdão no sentido de que, uma vez que não se</p><p>trata de "habilidade inaugural" do jogador e devido à "repugnação ao lucro fácil e ao</p><p>vício" imposta pela vontade do legislador, visando proteger a moralidade, o esforço e</p><p>a dedicação ao trabalho honesto, o pôquer se configura como ilícito penal. (MINAS</p><p>GERAIS, 2013).</p><p>No Estado do Rio de Janeiro, treze pessoas foram condenadas pelo juiz Joa-</p><p>quim Domingos de Almeida Neto, titular da 9ª Vara do Juizado Especial Criminal da</p><p>Capital, a penalidades restritivas de direitos baseadas em prestação alternativa de</p><p>serviços à comunidades por terem sido detidos em uma casa que celebrava a reali-</p><p>zação de jogos de pôquer (RIO, 2013).</p><p>Segundo o livre convencimento do magistrado, não se pode desprezar a habi-</p><p>lidade no pôquer, até mesmo as probabilidades quanto ao número de cartas que</p><p>possam ser usadas em cada rodada pelo participante. A depender das cartas que</p><p>lhe foram dadas e o período de apostar ou não, como estratégia ou a posição do</p><p>jogador na mesa, isto é, se é o primeiro ou o último a fazer a aposta, o resultado fi-</p><p>nal não tem como requisito preponderante a habilidade (RIO, 2013).</p><p>Nestas fundamentações jurídicas, o juiz exarou seu decisum (RIO, 2013):</p><p>"Ainda que a rodada tenha sido abortada no meio, em razão de uma aposta</p><p>alta que não tenha acompanhamento dos demais jogadores - que certamente</p><p>não o fizeram porque não obtiveram boas cartas (sorte) na distribuição, pois</p><p>se tivessem, não há dúvidas de que o jogador iria até o final, com ou sem 'all</p><p>in'. É indiscutível que a distribuição das cartas preponderante para toda e</p><p>qualquer ação no jogo, decorre aleatoriamente".</p><p>Para compartilhar esse conteúdo, por favor utilize o link http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/05/1274030-juiz-considera-poquer-jogo-de-azar-e-condena</p><p>http://www4.tjmg.jus.br/juridico/sf/proc_resultado2.jsp?listaProcessos=10223120167257001</p><p>23</p><p>O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR), organi-</p><p>zação não governamental que visa assegurar a liberdade de expressão publicitária e</p><p>de zelar pelas prerrogativas constitucionais da propaganda comercial, já chegou a</p><p>indeferir a veiculação de propagandas de pôquer em sites especializados, conside-</p><p>rando o carteado como jogo de azar. (CONAR, 2013)</p><p>Fala-se que os bons costumes da referida infração são o objeto material (bem</p><p>jurídico) tutelado, bem como o patrimônio das pessoas (coletividade – sujeito passi-</p><p>vo), já que diversos indivíduos ficam viciados, obcecados ou descontrolados com</p><p>jogos de azar, levando, não raras vezes, famílias a ruínas (GONÇALVES; JUNIOR,</p><p>2016).</p><p>Para Nucci (2014) o bem jurídico escudado pela norma em comento também</p><p>são os bons costumes. Em tese, tencionou o legislador manter pessoas de hábitos</p><p>viciosos afastadas de jogos desse jaez, tendo em vista que estes dispensam a habi-</p><p>lidade do jogador, ao contrário do que acontece nas atividades desportivas.</p><p>Na leitura de Sznick (1991), é esse intuito de auferir lucro que acoroçoa (en-</p><p>coraja, incentiva) o agente a jogar, pois dificilmente o faz sem ter em mente tal von-</p><p>tade. Logicamente, os jogos autorizados e geridos pelo Estado (loto, loteria federal,</p><p>loteria esportiva, concursos públicos de prêmios etc.) não estão abrangidos pela</p><p>contravenção em tela.</p><p>Importante trazer à colação ainda o pensamento de Mendonça (2005) con-</p><p>cernente às consequências patológicas que os jogos de azar importam aos jogado-</p><p>res: fase da vitória, fase da perda e a fase do desespero.</p><p>Na primeira fase, o jogador passa por uma experiência de indescritível excita-</p><p>ção, êxtase e euforia no momento da vitória, o que o compele a jogar cada vez mais</p><p>e a ter a falsa percepção de que seu ganho não se deve à sorte, mas sim ao uso de</p><p>suas habilidades.</p><p>Após isso, as perdas, inevitáveis e decorrentes do azar, o levam a uma sen-</p><p>sação de elevada audácia, boa expectativa e autoconfiança de que conseguirá se</p><p>recuperar na próxima fase (neste momento, é possível considerar a existência de</p><p>um estado patológico).</p><p>A defluir do desespero, a situação se agrava de tal modo que o jogador passa</p><p>a se afastar de seus colegas, amigos e familiares, retarda o pagamento de suas dí-</p><p>vidas, dedica a maior parte de seu tempo ao jogo, faz gastos exorbitantes etc. Po-</p><p>rém, quando se defronta com a realidade, passa à utilização de meios ilícitos (rou-</p><p>24</p><p>bos, furtos, dentre outros) para pagar suas intermináveis, incontroláveis e crescentes</p><p>contas.</p><p>É neste derradeiro momento que é recorrente suceder o esgotamento físico e</p><p>psicológico do jogador, não sendo incomum que este tente o suicídio, comparando-</p><p>se ao alcoolismo e à dependência de tóxicos.</p><p>Em razão disso, a lei pune qualquer pessoa (sujeito ativo) que for proprietária</p><p>ou responsável pelo empreendimento (sobretudo, dos cassinos clandestinos). Pela</p><p>dicção do §2º, as figuras do ponteiro (distribuidor de cartas, aquele que faz rodar a</p><p>roleta etc.) ou apostador (jogador ou participante) incorrerão, outrossim, nas agruras</p><p>da norma penal (GONÇALVES; JUNIOR, 2016).</p><p>No que se refere ao tempo da consumação da infração, a jurisprudência tem</p><p>reclamado a necessidade de atos reiterados (habitualidade ou não eventualidade).</p><p>De outro turno, ainda que o ato seja eventual, se apostadores forem flagrados jo-</p><p>gando mediante apostas serão alcançados pela hermenêutica do comando normati-</p><p>vo sub examine (GONÇALVES; JUNIOR, 2016).</p><p>Numa guinada exegética, alguns tribunais intermediários (TJRS, TJRJ, TJMT,</p><p>TJSC, TJPR, entre outros) recentemente vêm aderindo ao parecer de Miguel Reale</p><p>Júnior, ex-ministro da justiça, elaborado a pedido da CBTH9 (HOLD'EM, 2014) e jun-</p><p>tado aos autos do Mandado de Segurança nº 2010.047810-1/SC10, do qual se aferi</p><p>que o pôquer não pode ser elencado como contravenção penal de jogo de azar, eis</p><p>que “tem como requisito preponderante e indispensável a habilidade”.</p><p>Numa alentada e pormenorizada análise, Miguel Reale Jr. traz à baila o racio-</p><p>cínio de Ricardo Molina11 nos autos em epígrafe:</p><p>“Assim, como assinala o perito RICARDO MOLINA DE FIGUEIREDO, no</p><p>jogo de pôquer a habilidade será a longo prazo o principal fator de sucesso,</p><p>pois depende da habilidade de se realizar cálculos matemáticos, ao lado da</p><p>artimanha de ocultar os próprios sentimentos e de captar corretamente os</p><p>sentimentos dos outros, em constante "avaliação psicológica", analisando</p><p>9 CBTH – Confederação Brasileira de Texas Hold’em.</p><p>10 Veja teor do acórdão em anexo.</p><p>11 Ricardo Molina de Figueiredo cursou Engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro</p><p>(UFRJ), mas acabou por se graduar em Música (Composição e Regência) pela Universidade Estadu-</p><p>al de Campinas (Unicamp). Nessa instituição, fez mestrado em Linguística e doutorado em Ciências,</p><p>tornando-se professor da universidade em 1995. Inicialmente, Molina trabalhou na área de fonética</p><p>forense, mas expandiu sua atuação para diversos outros campos periciais. Com 25 anos de atividade</p><p>profissional, já analisou mais de</p><p>dois mil casos, dentre estes, a famosa investigação da morte do ex-</p><p>tesoureiro Paulo César Farias. In: https://livreopiniao.com/2016/05/06/um-dos-peritos-mais-</p><p>requisitados-do-pais-ricardo-molina-escreve-sobre-os-casos-mais-polemicos-e-relevantes-em-que-</p><p>atuou/. Acesso em 18 de agosto de 2016.</p><p>https://livreopiniao.com/2016/05/06/um-dos-peritos-mais-requisitados-do-pais-ricardo-molina-escreve-sobre-os-casos-mais-polemicos-e-relevantes-em-que-atuou/</p><p>https://livreopiniao.com/2016/05/06/um-dos-peritos-mais-requisitados-do-pais-ricardo-molina-escreve-sobre-os-casos-mais-polemicos-e-relevantes-em-que-atuou/</p><p>https://livreopiniao.com/2016/05/06/um-dos-peritos-mais-requisitados-do-pais-ricardo-molina-escreve-sobre-os-casos-mais-polemicos-e-relevantes-em-que-atuou/</p><p>25</p><p>as reações e modos de ser de cada um dos contendores. ” (TJSC. Mandado</p><p>de Segurança nº: 2010047810-1/SC, Rel. Sérgio Roberto Baasch Luz, jul-</p><p>gado em 26 de outubro de 2011.).</p><p>Não obstante a existência de diversas categorias esportivas: Texas Hold’em,</p><p>Omaha, Seven-Card stud, Crazy Pineapple, Triple Draw, entre outras, o Pôquer teve</p><p>seu reconhecimento mundial e nacional como sendo um desporto intelectual (ou da</p><p>mente), em pé de igualdade com a Dama, o Gamão e o Xadrez, pela International</p><p>Mind Sports Association – IMSA (Associação Internacional dos Esportes Mentais) e</p><p>pelo Ministério do Esporte (PAMPUCH; FRANÇA; JUNIOR, 2014).</p><p>Outrossim, a corroborar a teoria de ser o pôquer um esporte da mente, Bello</p><p>obtempera ao comparar a habilidade deste jogo com a do futebol (2008, p. 26), ipsis</p><p>litteris:</p><p>“A repetição das situações levará o seu corpo a se comportar com naturali-</p><p>dade. Por meio desta naturalidade será possível atingir a consciência da</p><p>linguagem corporal. Como o jogador de futebol treina todos os dias o seu</p><p>chute, o jogador de poker treina suas reações, seu rosto, sua expressão e</p><p>sua fala. ”</p><p>Ad auctoritatem, o pós-doutor em matemática aplicada, professor do curso de</p><p>Ciências do Esporte e coordenador da disciplina "Fundamentos do Pôquer", ofereci-</p><p>da pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Cristiano Torrezan, diz que</p><p>neste jogo é possível aprimorar habilidades cotidianas, como o uso de estratégias,</p><p>de avaliação psicológica-corporal e análise de risco (LOES, 2013).</p><p>26</p><p>Figura 1: Jogo da vida: habilidades fundamentais do pôquer que se aplicam ao dia a</p><p>dia.</p><p>Fonte: LOES, 2013.</p><p>É o mesmo que leciona Rodrigues (1985): "O jogo de pôquer é uma fonte</p><p>bastante rica em exemplos e problemas interessantes, que podem ser utilizados pa-</p><p>ra ilustrar as aulas de análise combinatória e probabilidade no ensino médio.".</p><p>Outro matemático, Oswald de Souza, salienta, ainda, que não se pode consi-</p><p>derar como jogo de azar aquelas situações em que o jogador possui conhecimento,</p><p>perícia e destreza sobre as modalidades em disputa, porque não é a álea que define</p><p>o resultado (2011).</p><p>Respaldado nesse sólido embasamento, outros pesquisadores aduzem que</p><p>as ferramentas da lógica, do conhecimento de jogadas, da capacidade de percepção</p><p>e análise dos adversários, ao lado de outras competências cognitivas e emocionais,</p><p>27</p><p>são por vezes tão fundamentais ou até maior do que a quantia em fichas que um</p><p>jogador detém (PAMPUCH; FRANÇA; JUNIOR, 2014, p. 9).</p><p>Dito de outro modo, contribuem com seus intelectos (PAMPUCH; FRANÇA;</p><p>JUNIOR, 2014) ao despontar a existência de conhecimentos matemáticos neste car-</p><p>teado e ao cimentar a conjectura de que é essa consciência dos profissionais que</p><p>lhes confere larga vantagem em relação aos demais (leia-se: aqueles que não pos-</p><p>suem saberes, técnicas ou experiências similares).</p><p>Ademais, comentam que, à medida que os jogadores amadores obtêm novas</p><p>habilidades, experiências ou ao se agruparem contra o carteador mais forte, cons-</p><p>trangendo-lhe a fazer jogadas sem controles percentuais, estes aumentam enorme-</p><p>mente as probabilidades de o jogador mais habilidoso errar e ser eliminado da mesa.</p><p>Ou seja, a relação de equilíbrio de poder começa a pender menos para o jogador</p><p>mais competente, já que todos agora são mais equiparadamente poderosos (PAM-</p><p>PUCH; FRANÇA; JUNIOR, 2014).</p><p>Dispensando apresentações, forçoso é reproduzir adiante in verbis as elucu-</p><p>brações jurídicas de Miguel Reale Jr., citado pelo Delegado de Polícia Federal Bráu-</p><p>lio do Carmo Vieira de Melo como motivação per relationem (2013, p. 2):</p><p>“[...] Ora, como analisei anteriormente, o Pôquer constitui um jogo de com-</p><p>plexidade e de sofisticação de conhecimento similar ou superior ao Xadrez</p><p>ou ao Gamão, dependendo ainda mais que o Pif – Paf ou a Caixeta da habi-</p><p>lidade, que consiste em informação sobre probabilidades matemáticas, co-</p><p>nhecimento das regras e estratégias de jogo, capacidade psicológica de</p><p>apreender as reações dos adversários, possibilidade de dissimular as pró-</p><p>prias cartas e de prever as cartas dos demais.</p><p>Assim, o pôquer não pode ser reconhecido como Jogo de Azar, para cuja</p><p>caracterização é essencial que predomine o aleatório, a ponto de a habili-</p><p>dade não ter peso sequer pouco inferior, mas muito inferior ao fator sorte.</p><p>Pelo contrário, como antes analisado, o sucesso no jogo de pôquer, pela</p><p>própria natureza do jogo, depende em grande parte da habilidade do</p><p>jogador, razão pela qual o jogo de pôquer não pode ser tido como Jo-</p><p>go de Azar, não se perfazendo a tipicidade do estatuído no art. 50 da</p><p>Lei de Contravenções Penais no caso de exploração do jogo de pôquer</p><p>[...]”. (grifo nosso)</p><p>É, portanto, a influir das possibilidades de previsão com base nas cartas dos</p><p>adversários e das oportunidades de blefar, eis que o jogador poderá simular ter uma</p><p>combinação melhor do que aquela que os demais participantes possuem, que a par-</p><p>tida funciona e se estrutura para o profissionalismo do esporte mental. Noutro ritmo,</p><p>“estabelece-se um esporte longe da mera susceptibilidade à sorte, já que se pode</p><p>28</p><p>prever, antecipar e controlar – via apostas12 e dissimulação de emoções – o destino</p><p>do jogo; de fato, surge a categoria esporte calcada na habilidade e previsões estatís-</p><p>tico-matemáticas.” (MANGABEIRA, 2015, p. 27).</p><p>O mesmo teórico ministra no esteio de que esse desporto é um jogo de com-</p><p>binação de cartas. Assim, enquanto gênero, mostra inúmeras variações que, apesar</p><p>das dessemelhanças, partilham características básicas, como a hierarquia da força</p><p>das cartas e as suas combinações básicas (MANGABEIRA, 2015).</p><p>Referente à modalidade mais popular e estratégica, o Texas Hold´em é um</p><p>jogo no qual cada competidor recebe duas cartas fechadas – que apenas ele vê ou</p><p>sabe – ao passo que são dispostas, na mesa e em três momentos, cinco cartas dife-</p><p>rentes, ditas comunitárias. As apostas se dão em quatro eventuais etapas e a me-</p><p>lhor associação ou reunião de cinco cartas dentre as sete disponíveis (duas fecha-</p><p>das e pessoais, e cinco comunitárias), quando se alcança o último nível de aposta e</p><p>que perfaz a disposição da última carta comunitária na mesa, ganha a mão mais for-</p><p>te, levando as fichas apostadas (MANGABEIRA, 2015).</p><p>Sintetiza, ainda, nos dizeres de Bello que o “poker não é um jogo de azar por-</p><p>que, durante todo o tempo, você pode interferir no resultado de uma mão por meio</p><p>de suas ações. Você tem decisões e escolhas para tomar que modificam o destino</p><p>traçado para a mão. ” (2008, p. 54).</p><p>Caso contrário, o Instituto de Criminalística Perito Criminal Dr. Octávio Eduar-</p><p>do de Brito Alvarenga da Superintendência de Polícia Técnico-Científica do Estado</p><p>de São Paulo, em 2006, não teria elaborado laudo pericial (nº</p><p>01/020/0058872/2006)13, no qual a investigação atestou ser o pôquer um jogo de</p><p>destreza, raciocínio e esperteza, dependendo da memorização de valores e das car-</p><p>tas que saem a cada rodada, e do conhecimento de regras, lógicas e estratégias,</p><p>não se amoldando consequentemente na precitada lei de contravenções penais</p><p>(SÃO PAULO, 2006).</p><p>Na mesma vertente de raciocínio, o exame pericial14</p><p>da lavra de Ricardo Mo-</p><p>lina descreve o pôquer do seguinte modo:</p><p>12 O vocábulo “apostas” aqui não possui a mesma interpretação dos termos legais da contravenção</p><p>penal em estudo (art. 50, alínea ‘’c’’, da Lei de Contravenções Penais). Afinal, fala-se apenas em</p><p>apostar fichas, valores irreais.</p><p>13 Para maiores detalhes e informações, vide outro estudo pericial e mais recente em anexo (Laudo n:</p><p>01/020/21432/2011), elaborado pelo mesmo Instituto de Criminalística da Secretaria de Segurança</p><p>Pública da Polícia Técnico-Científica de São Paulo.</p><p>14 Vide documento anexado.</p><p>29</p><p>“O fator ‘habilidade’ é, no mínimo, importante para o sucesso no TH [Texas</p><p>Hold´em]. A quantificação precisa desse fator em comparação com o fator</p><p>“sorte” seria impossível, mas para o que se precisa demonstrar aqui, não é</p><p>preciso relacionar numericamente os dois fatores. Com efeito, como de-</p><p>monstramos matematicamente na seção II.4, se um dos jogadores tem mai-</p><p>or habilidade do que outro (independentemente de quanto mais habilidoso</p><p>ele seja, ou qual habilidade ele tenha desenvolvido), necessariamente este</p><p>jogador (o mais habilidoso), obterá mais ganhos ao fim de uma sequência</p><p>de partidas (e tanto maior será o ganho quanto maior for o número de parti-</p><p>das. Considerando que o TH, assim como outras modalidades de Pô-</p><p>quer, sempre são jogados em longas séries de partidas, podermos</p><p>afirmar, com segurança, que a habilidade é decisiva para definir o ven-</p><p>cedor. Observe-se que esta conclusão vale tanto para o TH “ao vivo” como</p><p>para os jogos on line, visto que, basicamente, a única informação não dis-</p><p>ponível em jogos na internet é a visual. Todas as demais, ou seja, estimati-</p><p>va de probabilidades, histórico de ações do(s) oponente(s), etc.,continuam</p><p>disponíveis.”</p><p>“Assim, voltemos ao texto do Decreto Lei 3688/41. Fala-se ali de ‘jogo de</p><p>azar’ como sendo aquele em que “o ganho e a perda dependam exclusiva</p><p>ou principalmente da sorte”. Com certeza, podemos afirmar que no TH não</p><p>se depende ‘exclusivamente’ da sorte. Quanto ao termo ‘principal (mente)’,</p><p>a definição que mais se aplica à discussão em tela, segundo o Dicionário</p><p>Houaiss da Língua Portuguesa, é a entrada, ou seja, ‘de maior relevância,</p><p>decisivo’. Como vimos, e demonstramos, inclusive matematicamente, a</p><p>habilidade é decisiva para o ganho no Texas Hold´em. De acordo, pois,</p><p>com a definição dada no texto do Decreto Lei 3688/41, ou por qualquer</p><p>outro critério no qual o nível de habilidade do jogador é decisiva para o</p><p>ganho, a modalidade de Pôquer conhecida como Texas Hold´em não</p><p>pode ser considerada jogo de azar." (FIGUEIREDO, 2006, p. 19/20) (in-</p><p>terpolação nossa) (grifo nosso).</p><p>Para confirmar essas assertivas, no discurso dos profissionais, falta aos ama-</p><p>dores, não só técnicas para jogar bem – blefar, controlar e avaliar emoções –, pois é</p><p>a percepção do longo prazo e de cálculos estatísticos que irão suplantar a aleatorie-</p><p>dade, dispondo-a num plano secundário, adjacente ou de menor proeminência</p><p>(MANGABEIRA, 2015). “É o modelo e considerações matemático-estatísticas do</p><p>quanto apostar e de que cartas jogar, por exemplo, quem consegue enfraquecer a</p><p>sorte, efetiva e discursivamente. ” (MANGABEIRA, 2015, p. 18)</p><p>Há de se ressaltar, estreme de dúvidas, as razões jurídicas de Melo (2013,</p><p>p.4) ad litteram:</p><p>"[...] se o pôquer fosse 'jogo de azar', haveria profissionais em suas diversas</p><p>modalidades, cursos em universidades, sites [8] estrangeiros e nacionais</p><p>especializados em treinamento e especialização de jogadores, periódicos</p><p>[9] e campeonatos mundiais? Será mesmo que existem tantos profissionais</p><p>no mundo que se dedicariam em estudos para tentar evoluir seu jogo e al-</p><p>cançar objetivos, elegendo-o como fonte única de renda, caso fosse jogo de</p><p>azar? Analogicamente, alguém já ouviu citações da existência de disputas</p><p>30</p><p>de habilidade por intermédio de campeonatos mundiais de 'roleta', 'bingo' ou</p><p>'jogo do bicho'? Conhecem algum profissional dos citados jogos de azar?"</p><p>Para o perito Ricardo Molina, ao ser entrevistado sobre a primazia do conhe-</p><p>cimento e da habilidade no resultado de uma partida de pôquer, disse que o bom</p><p>jogador se vale de variados tipos de destreza, ressaltando, entretanto, duas como</p><p>importantes: contar cartas e saber ler a linguagem corporal do oponente. Apregoa</p><p>que não é à toa que muitos profissionais utilizam óculos escuros, porque é mais um</p><p>jogo de psicologia comportamental do que de acaso. Pugnou, além disso, pela regu-</p><p>lamentação do TH, dizendo que neste prevalece, em verdade, a habilidade discre-</p><p>pantemente das loterias deflagradas pelo Governo (POLONI, 2010).</p><p>Em assonância com as explanações supramencionadas, eis o magistério de</p><p>Noga Alon, professor da Faculdade de Matemática e Ciências da Computação da</p><p>Universidade de TelAviv, em Israel, referenciado por Marques (2012, p.5) sobre a</p><p>variante Texas Hold'em:</p><p>"[...] a prática e o estudo realmente ajudam a melhorar no poker, e embora a</p><p>sorte possa desempenhar um papel essencial em uma única mão, acredi-</p><p>tamos que a habilidade é, de longe, o principal componente para decidir os</p><p>resultados de uma longa sequência de mãos; isso confirma solidariamente a</p><p>conclusão de que a habilidade é muito mais dominante do que a sorte e de</p><p>que o Poker é predominantemente um jogo de habilidade."</p><p>Não só o israelita, Charles Nesson, advogado, fundador de um grupo interna-</p><p>cional de estudos sobre o jogo e professor da Universidade de Havard, opinou, nu-</p><p>ma entrevista à revista Época, defendendo o ensino do esporte para crianças e ado-</p><p>lescentes como uma forma de refletir.</p><p>Segundo a opinião do entrevistado, o pôquer auxilia no desenvolvimento da</p><p>personalidade e da aprendizagem, tanto para jogadores, devido às particularidades</p><p>técnicas de lógica, matemática e controle emocional que o jogo estimula, quanto pa-</p><p>ra universitários e pesquisadores. Assim, “o pôquer não é um jogo de sorte, mas de</p><p>habilidade” (ÉPOCA, 2008).</p><p>Para tanto, digna de apontamento é a transcrição do diálogo do docente com</p><p>o repórter da Revista Época:</p><p>"ÉPOCA – De que maneira o pôquer pode ser útil na vida das pessoas?</p><p>Nesson – É um bom caminho para incentivar os jovens a entender mais so-</p><p>bre matemática e sobre como as coisas funcionam. Esse conhecimento po-</p><p>de ser usado na economia, na educação, no Direito e na psicologia. O pô-</p><p>31</p><p>quer ensina as pessoas a pensar por si próprias e lidar com os recursos</p><p>disponíveis. Os jogadores também aprendem a ser pacientes, a manter sua</p><p>postura e a respeitar seus inimigos.</p><p>ÉPOCA – Como lidar com a frustração da derrota?</p><p>Nesson – Se já é difícil lidar com o sucesso, lidar com o fracasso é ainda</p><p>mais difícil e mais importante. Muitas pessoas, quando perdem, decidem</p><p>que não vão jogar mais. E essa é a verdadeira derrota. As pessoas devem</p><p>se manter calmas, consertar os erros e jogar melhor na próxima partida.</p><p>ÉPOCA – Algumas pessoas ilustres, como o presidente americano Ri-</p><p>chard Nixon e o empresário Bill Gates, são exímios jogadores. Há rela-</p><p>ção entre o sucesso deles e o pôquer?</p><p>Nesson – Certamente. E seria muito bom que as pessoas soubessem</p><p>quantos líderes nos Estados Unidos – generais, educadores, advogados –</p><p>eram mestres no pôquer. O jogo é bom porque você aprende a ver as coi-</p><p>sas a partir do ponto de vista dos outros e ser um jogador – que é o que pe-</p><p>de a vida.[...]</p><p>ÉPOCA – Por que, em sua opinião, o pôquer é visto como algo fora da</p><p>lei?</p><p>Nesson – Essa visão está atrelada à história do jogo, com a imagem do ‘sa-</p><p>loon’, e a uma idéia simplista do que é apostar por parte de quem coloca o</p><p>pôquer como um jogo de azar, e não de habilidade. O xadrez é um jogo de</p><p>informações completas, sobre as quais você tem certeza. Pelo menos na</p><p>teoria, para cada posição, há sempre um lance correto que pode levar à vi-</p><p>tória. Já a maestria no pôquer envolve a qualidade da memória, de pensar</p><p>nos movimentos de toda a partida. É um ótimo exercício de estratégia</p><p>que</p><p>ensina a equilibrar forças opostas. O pôquer, de certa forma, é muito mais</p><p>acessível que o xadrez, já que você pode aprender a jogá-lo em uma hora.</p><p>Além disso, o xadrez nunca sofreu com a imagem negativa da aposta e ne-</p><p>nhum enxadrista foi criticado por perder muito dinheiro.[...]</p><p>ÉPOCA – No Brasil, os bingos foram proibidos recentemente. É possí-</p><p>vel comparar as duas situações?</p><p>Nesson – O bingo não é um jogo de habilidade, mas de pura sorte. Do pon-</p><p>to de vista das políticas públicas, as leis devem incentivar os jogos de habi-</p><p>lidade e regulamentar os jogos de azar como forma de entretenimento.</p><p>ÉPOCA – O senhor acha que a aposta é responsável pela imagem ne-</p><p>gativa?</p><p>Nesson – O risco no pôquer é totalmente controlável a partir do tipo de</p><p>aposta que você decide fazer. No pôquer on-line, é possível jogar a partir de</p><p>1 centavo, 2 centavos. É pôquer de excelente qualidade por um bom tempo.</p><p>Você pode ser derrotado e ainda assim não perder dinheiro. A idéia de que</p><p>alguém pode perder muito dinheiro jogando pôquer é estúpida. Não conhe-</p><p>ço ninguém que tenha perdido muito dinheiro com o pôquer que não tivesse</p><p>muito dinheiro a perder. O pôquer é um jogo, e algumas pessoas o têm co-</p><p>mo diversão. Poucos resolvem fazer dele um meio de ganhar a vida. A mai-</p><p>oria joga de acordo com seu limite, não vai entrar em uma partida de US$ 2</p><p>mil ou US$ 4 mil.</p><p>ÉPOCA – Que habilidades é preciso ter para ganhar no pôquer?</p><p>Nesson – É preciso desenvolver a habilidade de observar e de lidar com</p><p>números. É necessário também melhorar as habilidades emocionais, como</p><p>o autocontrole, e desenvolver o espírito de avaliação. São muitas habilida-</p><p>des úteis para muitos outros campos da vida. (ÉPOCA, 2008) (grifos no ori-</p><p>ginal)</p><p>Tão poderosa é a influência da lógica, estratégia e estatística envolvidas no</p><p>pôquer, que outro matemático, ao escrever a respeito da Teoria do Jogos, registra</p><p>no preâmbulo de sua obra ipsis litteris (SIMONSEN, 1990, p.2):</p><p>32</p><p>"Como tomar decisões cujos resultados dependem de ações de terceiros é</p><p>o que se procura analisar na teoria dos jogos. Trata-se de um programa</p><p>extremamente ambicioso, que levado às últimas conseqüências ensi-</p><p>naria qualquer indivíduo a transformar-se em campeão mundial de xa-</p><p>drez, a nivelar-se aos melhores profissionais do pôquer ou qualquer</p><p>outro jogo de cartas, a solucionar qualquer problema econômico, a ja-</p><p>mais perder qualquer eleição e a perpetuar-se como o maior general de</p><p>todos os tempos. Com efeito, não só o xadrez e o pôquer, mas também</p><p>a tomada de decisões econômicas, as campanhas políticas e a guerra</p><p>são jogos, no sentido que o resultado colhido por cada um não depen-</p><p>de apenas de suas ações, mas também das decisões de terceiros."</p><p>(grifo nosso).</p><p>Além disso, na publicação da revista "Isto É", Loes (2013) enaltece a experi-</p><p>ência da disciplina universitária - "Fundamentos do Pôquer" – lecionada no Brasil</p><p>sob responsabilidade de Torezzan, professor da Universidade Estadual de Campi-</p><p>nas (UNICAMP):</p><p>"Embora Torezzan seja o primeiro a propor um curso sobre o assunto em</p><p>uma faculdade brasileira, renomadas instituições de ensino superior no Exte-</p><p>rior, como a Universidade Harvard e o Massachusetts Institute of Technology</p><p>(MIT), ambas nos Estados Unidos, já oferecem, há alguns anos, o pôquer</p><p>como disciplina a seus alunos. Complexo a ponto de ser considerado um</p><p>esporte da mente, como xadrez e bridge, ele atrai interessados por pro-</p><p>babilidade e estatística, teoria de jogos e até psicologia." (grifo nosso).</p><p>Desta feita, criminalizar o pôquer, colocando-o em pé de igualdade com jogos</p><p>tradicionalmente reputados como de azar, tais como a roleta, a víspora, de máqui-</p><p>nas caça-níqueis e o monte, representa um ledo engano dos juristas que propugnam</p><p>pela manutenção de tal reprimenda. Afinal, inexistindo a prevalência da aleatorieda-</p><p>de em detrimento da perícia no pôquer, não há que se falar na presença da elemen-</p><p>tar (elemento objetivo) exigida pelo tipo penal.</p><p>Fustigando os auspícios da sorte sobre o carteado, preleciona Bello (2008, p.</p><p>54):</p><p>“Em um jogo de roleta, você consegue saber quanto cada tipo de aposta</p><p>paga. Sabe por exemplo que, ao apostar em apenas um número simples,</p><p>chamado de pleno, receberá para cada ficha que apostar outras 36 (35 +</p><p>uma que você apostou), caso acerte. Se apostar com uma ficha em dois</p><p>números ao mesmo tempo, receberá 16; em quatro números ao mesmo</p><p>tempo, receberá oito, e assim sucessivamente. Porém, depois de fazer suas</p><p>apostas, somente restará torcer para que acerte o número, a cor ou a dúzia.</p><p>E não é por que saiu dez vezes seguidas um número vermelho na roleta</p><p>que, na décima primeira vez, sairá um preto. As chances de um número</p><p>preto nas rodadas seguintes é exatamente a mesma que nas anteriores: 18</p><p>em 37 ou 48%, aproximadamente (no caso das roletas com apenas um ze-</p><p>ro). [...] em um jogo de azar, o resultado está totalmente nas mãos do desti-</p><p>no. A sorte é o único fator para determinar os vencedores. ”</p><p>33</p><p>À toda evidência e de modo a pulverizar o discurso do fortuito que alicerça a</p><p>legislação brasileira, o TH se define a partir da capacidade de autocontrole e gestão</p><p>que o jogador tem na sua mão e que sucede em todas as etapas de jogo, podendo</p><p>controlar sua própria sorte e a reduzir a singelos acontecimentos in loco, casuísticos,</p><p>que, em longo prazo, serão minorados perante a avaliação de dados e de operações</p><p>matemáticas.</p><p>Ipso facto, a cada momento e ao ter em mente uma conjunção de fatores: no-</p><p>ções de ordem psicológica – inteligência emocional – informações estatísticas e pro-</p><p>babilísticas que delimitam a aposta das fichas, isto é, respaldando-se na perícia, o</p><p>jogador domina as influências casuísticas (MANGABEIRA, 2015).</p><p>Para que não remanesça margens a quaisquer dúvidas, ao citar Annie Duke,</p><p>campeã de um dos torneios mais famosos de pôquer no planeta, Mangabeira retrata</p><p>a visão dela a respeito do jogo de cartas (2015, p.6):</p><p>“Doze horas, mas foram necessárias três décadas até eu chegar a esse</p><p>ponto. Logo comecei a pensar sobre tudo que esse irritante e emocionante</p><p>jogo de cartas havia me dado. Com ele consegui uma valiosa perspectiva</p><p>sobre minha vida. Ele já tinha me ajudado a compreender a paciência e o</p><p>controle emocional. Mais ainda, havia me ensinado que nada pode lhe</p><p>acontecer que seja tão ruim a ponto de não conseguir lidar com isso. Coisas</p><p>ruins acontecem a você quando está jogando pôquer e, no final, chega a</p><p>hora em que vem o pensamento: “Afinal não foi tão mau assim”. Oh, sim! E</p><p>os 2 milhões de dólares! Há isso também. ”</p><p>Não olvidando a existência do fator randômico, Duke apud Mangabeira, ob-</p><p>tempera que o campo de acontecimentos fortuitos é menos intenso do que a quali-</p><p>dade lógico-matemática envolta nas jogadas (2015, p.5)</p><p>"No pôquer, como na vida, é perigoso depreciar o papel da sorte e do aca-</p><p>so. A longo prazo, um bom jogador vai ganhar uma certa porcentagem das</p><p>vezes. [...] Mas o que acontece quando um profissional joga durante um</p><p>mês e ganha trinta vezes seguidas? Obviamente, esse resultado está na ex-</p><p>tremidade positiva de uma curva de probabilidades e é uma anomalia esta-</p><p>tística. Esse acontecimento vai ter de se equilibrar, portanto você terá um</p><p>mês em que perderá vinte vezes seguidas. É uma regressão para a média –</p><p>seja qual for a sua. Sua média talvez seja vencer, mas você ainda vai pas-</p><p>sar por uma curva em forma de sino distribuída em torno do seu real valor</p><p>esperado."</p><p>Nessa senda, advogados e representantes do Ministério Público (ANDRADE;</p><p>GOYANES, 2008; MARQUES, 2012) também vêm comungando com tal pensamen-</p><p>34</p><p>to no esteio de que o jogo não possui de fato a álea (ou sorte) como componente</p><p>eminente ou mais decisivo, pelo menos em longo prazo.</p><p>Adensando tais articulados, pesquisas levantadas por Marques (2012) chan-</p><p>celam a tese de predomínio dessa variável no jogo de pôquer:</p><p>“A empresa Cigital, examinou 103 milhões de mãos de pôquer Texas Hol-</p><p>d'em e constatou</p><p>que em mais de 75% dos casos as rodadas são definidas</p><p>por decisões dos jogadores antes de terminar a rodada com a abertura das</p><p>cartas em jogo, com o abandono do jogo antecipadamente, por cálculo do</p><p>jogador de que poderia perder diante de suas cartas e de uma ou duas das</p><p>comunitárias, abertas em comum. Muitas vezes, todavia, tal não correspon-</p><p>de à verdade, pois se verifica que metade dos jogos que chegam ao final é</p><p>ganha por jogadores que possuíam cartas piores daquelas detidas por jo-</p><p>gadores que haviam desistido. Erro de cálculo e artimanha do outro jogador</p><p>interfere no resultado, mais do que a sorte. ”</p><p>“Pesquisa realizada pelo site Pokerstars, em observação de mais de 100</p><p>milhões de mãos de jogo de pôquer, indica também, que 70% das rodadas</p><p>não chegaram a seu final, quando são reveladas as cartas, a demonstrar</p><p>que o vitorioso não contou com suas cartas, mas antes revelou capacidade</p><p>de apostar, de deduzir as cartas dos outros, bem como detectar o seu com-</p><p>portamento. Constata-se, assim, que interfere no sucesso do jogo o treino, a</p><p>capacidade de intuir a intenção alheia e o conhecimento dos padrões de</p><p>combinações que surgem em uma mesa de pôquer. ”</p><p>Outrossim, ministra Duarte (2006, p. 190) que, diversamente, e.g., da esgri-</p><p>ma, do futebol, do xadrez e do pôquer o apostador nos jogos de azar fica fortemente</p><p>à mercê do acaso – que “em regra não se vence no jogo e ganhar é exceção”.</p><p>Como já alinhavado, não havendo supremacia da sorte em detrimento dos ru-</p><p>dimentos da habilidade, destreza e perícia, rechaçada está a incidência formal da</p><p>contravenção penal em estudo.</p><p>2.2 Tipicidade material</p><p>Observados o reconhecimento da esportividade intelectual do pôquer e a re-</p><p>levância das competências cognitivas e emocionais para o triunfo do jogador, tudo a</p><p>comprovar a atipicidade formal da contravenção em pauta, teóricos, outrossim, de-</p><p>bruçaram-se a respeito da atipicidade material.</p><p>Relativamente à pertinência do controle exercido pelo Estado sobre loterias e</p><p>jogos de azar, juristas afirmam que a imposição estatal resguarda o direito de apos-</p><p>tadores que, devido ao fascínio, espanto e encantamento proporcionado pelos "en-</p><p>godos" com a probabilidade de enriquecerem facilmente, muitos jogadores passam a</p><p>35</p><p>adotar posturas demasiadamente ingênuas. Isso as leva a se transformarem, assim,</p><p>em “presas vulneráveis” armadas por empresários (DUARTE, 2006).</p><p>Argumentam que a protetividade estatal, à proporção em que tipifica como ilí-</p><p>cito penal, obstaculiza ações criminosas orientadas a obter volumosos recursos fi-</p><p>nanceiros, que, não raramente, desembocam, por sua vez, na realização de outras</p><p>infrações penais, como o tráfico, a corrupção, lenocínio e a lavagem de dinheiro</p><p>(DUARTE, 2006).</p><p>Em sentido diametralmente oposto, Vasconselos (2013, p. 10) tece suas ob-</p><p>jeções:</p><p>"Observa-se que, no Brasil, existe uma vontade política imensa de se regula-</p><p>rizar todo tipo de jogo ou aposta, mas, por outro lado, há um 'medo' exagera-</p><p>do de que esses jogos, até então considerados ilegais ou clandestinos, sir-</p><p>vam à lavagem de dinheiro ou ao crime como um todo. Pergunta-se: o Go-</p><p>verno conseguiu inibir a lavagem de dinheiro no país? E, naqueles Estados</p><p>onde se leva ao pé da letra a proibição do jogo do bicho e outras apostas, di-</p><p>minuiu a criminalidade?"</p><p>Preliminarmente, Nucci (2014) aduz que o princípio da intervenção mínima,</p><p>num Estado Democrático de Direito, traduz que o Direito Penal deve interferir mini-</p><p>mamente possível na esfera privada do indivíduo, porque os supostos conflitos soci-</p><p>ais, na maioria das vezes, precisam ser dirimidos por outros ramos do direito (admi-</p><p>nistrativo, civil, tributário, trabalhista etc.).</p><p>Em face do exposto, a imposição de uma normal penal incriminadora deve ser</p><p>excepcional ou o último recurso (ultima ratio) para punir o infrator. Há quem confes-</p><p>se que as contravenções penais não só são irrelevantes, ilegítimas e exasperadas,</p><p>como também o são deveras inconstitucionais. É o que se observa a partir da leitura</p><p>do verbatim a seguir (NUCCI, 2014, p. 90):</p><p>“O caminho ideal é a busca da descriminalização, deixando de considerar</p><p>infração penal uma série de situações ainda hoje tipificadas como tal.</p><p>Exemplo maior do que ora defendemos é a Lei de Contravenções Penais.</p><p>Seus tipos penais são, na maioria absoluta, ultrapassados, vetustos e anti-</p><p>democráticos. Promovem formas veladas de discriminação social e incenti-</p><p>vam a cizânia dentre pessoas, que buscam resolver seus problemas cotidi-</p><p>anos e superficiais, no campo penal. Pensamos que não haveria nenhum</p><p>prejuízo caso houvesse a simples revogação da Lei de Contravenções Pe-</p><p>nais, transferindo para o âmbito administrativo determinados ilícitos e sua</p><p>punição, sem que se utilize da Justiça Criminal para compor eventuais con-</p><p>flitos de interesse, como, por exemplo, uma ínfima contrariedade entre vizi-</p><p>nhos porque um deles está com um aparelho sonoro ligado acima do permi-</p><p>tido (art. 42, III, LCP). Ao longo dos comentários, pretendemos demonstrar a</p><p>inadequação desta lei, bem como os tipos penais que se tornaram, em face</p><p>da nova Constituição Federal de 1988, inaplicáveis pois inconstitucionais.”.</p><p>36</p><p>Ensina o penalista que os jogos de azar nem sequer deveriam mais ser clas-</p><p>sificados como infração penal, como assevera in verbis (NUCCI, 2014, p. 153):</p><p>“Não há mais sentido em se manter vigente a contravenção penal do art. 50</p><p>desta lei por variadas razões. Em primeiro plano, invocando o princípio da</p><p>intervenção mínima, não há fundamento para o Estado interferir, valendo-se</p><p>do Direito Penal, ou vida privada do cidadão que deseja aventurar-se em jo-</p><p>gos de azar. O correto seria regularizar e legalizar os jogos, afinal, inúmeros</p><p>são aqueles patrocinados pelo próprio Estado, como loterias em geral, além</p><p>de constituírem uma realidade as casas de bingo. Em segundo lugar, ha-</p><p>vendo a previsão da contravenção e inexistindo, ao mesmo tempo, punição</p><p>efetiva a todos aqueles que exploram esse tipo de jogo – e são vários – não</p><p>há eficiência para o Direito Penal, que somente se desmoraliza, gerando o</p><p>malfadado sentimento de impunidade. Parece-nos, pois, dispensável esta</p><p>infração penal, que se realiza, muitas vezes, na via pública, à luz do dia, na</p><p>frente de fóruns, delegacias de polícia, sem qualquer providência eficaz do</p><p>Estado. ”</p><p>À guisa de ilustração, salienta ser perfeitamente admissível a aplicação do</p><p>princípio da insignificância (ou bagatela) à infração em testilha, pois o direito penal</p><p>deve blindar os bens jurídicos mais caros ao convívio social, não devendo, em vista</p><p>disso, se preocupar com lesões reles, ínfimas ou irrelevantes. Urge frisar, ainda que</p><p>as pessoas se reunissem entre conhecidos, amigos ou parentes, costumeiramente,</p><p>com o fito de praticar jogos de azar (como exemplo, carteados em geral), que não</p><p>haveria razão alguma ao direito penal estorvar tal desiderato (NUCCI, 2014).</p><p>Pois bem, Nucci (2014) ressalva que a única ocasião em que o Estado deve-</p><p>ria atuar com mais razão, vigilância e eficiência seriam nas situações de cassinos</p><p>clandestinos ou sem autorização legal, uma vez que são, muitas vezes, estabeleci-</p><p>mentos de fachada empregados para atividades ilícitas. Todavia, mesmo assim, o</p><p>doutrinador pleiteia pela necessidade de regulamentação para os jogos de azar.</p><p>Há de se lembrar que o Estado é o único “banqueiro”, exercendo monopólio</p><p>dos jogos de azar no país. Em que pese o governo declare preservar a moralidade,</p><p>os bons costumes, o repúdio ao lucro fácil, dentre outras justificações, com essa</p><p>norma contravencional, o mesmo, estranhamente, promove o estabelecimento e a</p><p>exploração econômica de jogos que têm a natureza idêntica de azar – Loto, Mega-</p><p>Sena, Raspadinha, Quina, etc.</p><p>A despeito de o mercado dos jogos de azar e do bicho empregarem inúmeras</p><p>pessoas probas e trabalhadoras, é imperioso expender que nem mesmo o labor ho-</p><p>nesto e o repúdio à ociosidade o tipo penal tutela, pois a própria</p>

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