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<p>Mara Viveros Vigoya As cores da masculinidade Experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América PAPEIS SELVAGENS</p><p>Mara Viveros Vigoya é dou- tora em Antropologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris (EHESS). Pro- fessora titular da Universidade Na- cional da Colômbia onde ensina e realiza pesquisas desde 1998 no Departamento de Antropologia e na Escola de Estudos de Gênero. Tem sido membro da Escola de Ciência Social do Institute for Advanced Study em Princeton (USA), e pro- fessora convidada no Institut des Hautes Études sur l'Amérique La- tine (IHEAL), na EHESS de Paris, na Universidade da Bahia (Brasil), na Universidade de Guadalajara e na UAM-Xochimilco (México), na Universidade Nacional de Córdoba (Argentina) e no Graduate Institute of International and Development Studies Seus interesses de pesquisa incluem as relações entre diferenças e desigualdades sociais e as interseções de gêne- ro, sexualidade, classe, raça e et- nicidade nas dinâmicas sociais na América Latina. papeisselvagens.com</p><p>AS CORES DA MASCULINIDADE Experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América</p><p>MARA VIVEROS VIGOYA AS CORES DA MASCULINIDADE Experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa Tradução de Allyson de Andrade Perez PAPEIS SELVAGENS</p><p>Copyright Papéis Selvagens, 2018 Copyright Mara Viveros Vigoya, 2018 Copyright da tradução Allyson de Andrade Perez Coordenação Coleção Kalela María Elvira Projeto gráfico Rodríguez Imagem de Capa Glaucus Noia Diagramação Selvagens Tradução Allyson de Andrade Perez Revisão Brena O'Dwyer Conselho Editorial Alberto Giordano (UNR-Argentina) Ana Cecilia Olmos (USP) Elena Palmero (UFRJ) I Gustavo Silveira Ribeiro (UFMG) Jaime Arocha Jeffrey Cedeño juan Pablo Villalobos (Escritor-México) I Fernando Dias Duarte Maria Filomena Gregori (Unicamp) Mônica Menezes (UFBA) Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Belo Horizonte/MG) Viveros Vigoya, As cores da experiências interseccionais e práticas de poder na América / Mara Viveros Vigoya; tradutor Allyson de Andrade Perez. Rio de Janciro Papéis Selvagens, 2018. 224 p. : cm - (Kalela; V. 5) Bibliografia: p. 189-222 ISBN 978-85-92989-16-3 1. 2. Identidade de gêncro. 3. 4. I. Perez, Allyson de II. CDD [2018] Papéis Selvagens papeisselvagens@gmail.com</p><p>SUMÁRIO Prefácio por Raewyn Connell 9 Introdução 15 Como e quando cheguei ao estudo sobre homens e masculinidades? 18 Por que, como e para que trabalha uma mulher feminista sobre homens e masculinidades? 21 As cores da masculinidade. Identidades interseccionais e práticas de poder na Nossa América 24 o conteúdo deste livro 32 Primeira parte Teorias feministas e masculinidades 1. Para além do binarismo: teorias feministas, homens e masculinidades 37 o feminismo da "segunda onda", os homens e o masculino 37 Os estudos sobre masculinidade 41 o surgimento das diferenças entre mulheres e sua relação com a masculinidade 50 Masculinidades sem homens? 54 Conclusão 57 2. Trinta anos de estudos sobre homens e masculinidades na Nossa América 61 o que se estuda ao se estudar os homens e as masculinidades na Nossa América? 64 Identidades masculinas 67 Identidades masculinas nossamericanas 68 Trabalho e identidade profissionais masculinas 70 Masculinidades e identidades nacionais e étnico-raciais 73 Masculinidades e violências 77 Violências políticas e sociais 78 As violências das torcidas desportivas e das gangues juvenis 80</p><p>Violências domésticas 81 Problemas, dilemas e tensões em torno da saúde dos homens 83 As pesquisas sobre saúde sexual e reprodutiva 84 Fatores de risco para a saúde masculina ou a masculinidade como fator de risco 85 Afetos e sexualidades 86 Práticas e culturas homoeróticas 86 Práticas e representações da paternidade 88 Afetos e expressões emocionais de homens heterossexuais 90 Corpos de mulheres e identidades masculinas 91 Reflexões epistemológicas 92 Representações culturais das masculinidades 94 Espaços de homossocialidade masculina 96 Conclusão 97 Segunda parte Masculinidades nossamericanas 3. Corpos negros masculinos: mais além ou mais aquém da pele 101 A linguagem racista e a experiência vivida do corpo negro masculino 103 A imaginária europeia dos corpos africanos 105 Sexo, sexualidade e raça nos estereótipos sobre os homens negros 107 Dionísios negros: "o sabor, a gente traz no sangue" 108 Resistências limitadas 111 "Os do interior te dão fama" 114 Somos Pacífico/Estamos unidos/Nos unem a região/ o visual, a raça/e o dom do sabor... 115 Conclusão 124 4. Os benefícios da masculinidade branca: entre raça, classe, gênero e nação 129 A branquidade, esse obscuro objeto de estudo 129</p><p>Branquidade e masculinidade hegemônica na Nossa América 134 Branquidade e masculinidade hegemônica na Colômbia 141 A experiência local da identidade masculina branca e seus benefícios políticos recentes 144 homem que os colombianos elegeram por suas calças bem postas" 145 Um discurso político ancorado em uma identidade masculina regional 148 Pistas de gênero e raça para decifrar o enigma do "Presidente Teflon" 151 Conclusão 155 5. As masculinidades no continuum da violência na Nossa América 157 o continuum da violência na história da Nossa América 158 Alguns consensos em torno da relação entre violência e masculinidade 162 Projetos de intervenção com homens para prevenir e reduzir a violência de gênero 165 Violências e resistência masculinas à mudança social 170 Conclusão 175 Conclusão geral Masculinidades, homens e dinâmicas sociais nossamericanas 177 Agradecimentos 187 Bibliografia 189</p><p>PREFÁCIO Raewyn As cores da masculinidade é um livro importante e inspirador. Combina pesquisa social agudamente observada, apresentação clara de um campo de conhecimento emergente e uma perspectiva pós-colonial particular sobre gênero, homens e masculinidade. Abordando questões sobre masculinidades negras, o livro também revela a fabricação da branquidade e da masculinidade hegemônica branca. o público leitor alcançará uma compreensão mais profunda da violência social, da cultura popular e do racismo, bem como das mudanças contemporâneas nas relações de gênero. o livro é, em primeiro lugar, uma importante contribuição para o crescente campo de estudos sobremasculinidades Este campo que começou a partir de sementes plantadas pelo movimento de liberação das mulheres. Como Mara Viveros aponta, há uma tradição ativa e complicada no pensamento feminista sobre os homens. Na geração passada, uma onda de pesquisa social, cultural e psicológica, conduzida tanto por mulheres como por homens, traçou as formas pelas quais são construídas as masculinidades. Estas pesquisas mostraram que não há uma masculinidade, fixada por nossos genes, mas muitas masculinidades, feitas e refeitas na história. Algumas versões da masculinidade têm uma posição hegemônica culturalmente central e ligada à subordinação social das mulheres. Outras são marginalizadas ou abjetadas. Entrelaçamentos e combinações complexas ocorrem à medida que a ordem de gênero da sociedade se transforma. Em algumas circunstâncias, a masculinidade pode ser exercida por pessoas com corpos femininos, como, em outras circunstâncias, a feminilidade pode ser encarnada por pessoas com corpos masculinos. Pesquisas desse tipo têm sido realizadas nos mais diversos países em todas as regiões do mundo. Nós temos, hoje, uma vasta 1 Raewyn Connell é uma socióloga australiana conhecida por seus trabalhos sobre as Sua obra clássica Masculinities (1995) ainda não tem tradução no Brasil. Encontram-se traduzidas pela Nversos duas obras mais recentes: Gênero: uma perspectiva global (2015) e Gênero em tempos reais (2016). (N.T.)</p><p>10 Mara Viveros Vigoya biblioteca de estudos sobre construções locais e históricas da masculinidade. Mas, como Mara Viveros destaca, essa situação apresenta um Se imaginarmos o mundo como um mosaico de culturas separadas, facilmente caímos em uma visão estática, cultural- essencialista da feminilidade e da masculinidade. Podemos nos deixar seduzir pelo estereótipo do "machismo" dos homens na região comumente chamada de "América Latina". Uma das virtudes de As cores da masculinidade é rejeitar de modo decisivo este essencialismo ao mesmo tempo em que é capaz de falar sobre as especificidades da região, suas culturas e suas construções de masculinidade. o livro pode fazer isso porque Mara Viveros também posiciona seu trabalho em outra tradição de pensamento. o mundo colonial e pós-colonial (fora da global da Europa e da América do Norte) sempre foi importante no sistema de conhecimento moderno, tanto nas ciências naturais como nas sociais. Mas seu papel tem sido historicamente o de uma vasta mina de dados, alimentando com matéria-prima uma máquina de conhecimento universal controlada pelo Norte global. Sempre houve contestação em torno desta máquina. Em décadas recentes, as perspectivas críticas se multiplicaram nas ciências sociais e nas humanidades. Elas incluem o pensamento pós-colonial, a opção decolonial, a teoria do Sul, as perspectivas afrocêntricas, as ciências islâmicas e mais. As cores da masculinidade é um dos textos pioneiros que se constroem a partir de epistemologias pós-coloniais e mostram sua importância para a compreensão das masculinidades de fato, para a compreensão do próprio gênero. o livro se baseia no trabalho de intelectuais negros da notadamente Frantz Fanon e W. E. B. Du Bois, e no trabalho das feministas negras, na África e nas analisando a interação entre gênero e raça. Baseia-se na ampla tradição de estudos históricos pós-coloniais para mostrar como uma ordem de gênero de tipo particular emerge do caldeirão de conquista, colonização, escravidão, conflitos pós-independência e mudanças econômicas. Ao fazer isso, Mara Viveros usa o conceito de mas também faz uma revisão importante dessa ideia. Ela a trata como uma dinâmica histórica e não como uma geometria estática. Por exemplo, ela mostra como a necessidade de solidariedade sob a opressão racial modifica a política de</p><p>Prefácio 11 desigualdade de gênero e a forma de mobilização das mulheres nas comunidades indígenas e afro-colombianas. A autora deste livro possui uma combinação única de experiência e habilidades. Ela é uma pesquisadora experiente em questões de gênero, aliando a pesquisa de campo sociológica a uma perspicaz análise cultural. Ela tem uma compreensão da literatura acadêmica em francês, inglês, espanhol e português poucas(os) pesquisadoras(es) sobre masculinidades podem dizer o mesmo. Mara Viveros não é apenas uma pesquisadora empírica, mas também uma teórica, com um olhar afiado para os limites das ideias convencionais. A autora vem da intelligentsia de um estado pós-colonial que sintetiza a história do império. Nas terras que se tornaram Colômbia, a conquista esmagou a resistência indígena e foi seguida pela colonização e pelo mestizaje (mestiçagem). Uma economia escravocrata, instalada nas regiões costeiras, originou a segunda maior população afrodescendente do continente, menor em proporção apenas que a brasileira. A violência em grande escala irrompeu em vários estágios da história do país, na qual estiveram em jogo o poder neocolonial, a dependência, a insurreição e o narcotráfico. A vida intelectual foi afetada pelas políticas culturais da latinidade; Mara Viveros toma distância disso, reivindicando a região como Nuestra América (Nossa América). No entanto, ela é consciente da política da linguagem, sendo o castellano (castelhano), a língua do império, hoje cada vez mais deslocado pelo domínio global do inglês. Como uma mulher negra, Mara Viveros vive de perto a hierarquia de raça e de Sem sentimentalismo, mas sem hesitar, ela registra a terrivel história da escravidão e da violência racial e suas consequências na sociedade Ela explora os compromissos, as reivindicações e os atos de solidariedade através dos quais as comunidades negras têm sobrevivido. As cores da masculinidade oferece uma notável prova de como a posição de um(a) autor(a) pode se tornar um recurso para compreender a sociedade o livro conta uma série de Uma é a narrativa geral da mudança social na Colômbia colonização, independência, as lutas por influência e sobrevivência, modernidade, desenvolvimento dependente e guerra civil. A trajetória histórica das masculinidades é tecida através desta narrativa, incluindo as das elites do Estado independente voltadas para a Europa e as das</p><p>12 Mara Viveros Vigoya comunidades subordinadas, sejam indígenas, mestizo (mestiças) ou Outra é a história do conhecimento conhecimento sobre gênero, sobre masculinidades e sobre colonialidade. Uma característica especial do livro é a apresentação do panorama da pesquisa sobre masculinidades por toda a Nuestra América (Nossa América). Poucas pessoas fora da região percebem quão rica é essa literatura. Seus temas variam do poder e da violência à saúde, sexualidade, cultura popular e corporificação masculina. Suas preocupações incluem as tensões entre as normas de gênero e as mudanças sociais, e o impacto da reestruturação neoliberal-precococe e devastador nessa região - nas relações de gênero. Finalmente, o livro conta histórias específicas, às vezes contundentes e às vezes confrontadoras: o trabalho de dois grupos de música popular; a perspectiva de um grupo de jovens negros do interior chegando à capital; as táticas de um político de direita de sucesso e o assassinato brutal de uma mulher que despertou a indignação popular. Em cada caso Mara Viveros elucida o significado mais amplo sem perder a realidade local. Além de apresentar as histórias e seus antecedentes, o livro reelabora alguns conceitos importantes no campo. Examina criticamente a ideia de "multiculturalismo" como uma política de estado que nomeia a diversidade social e até incentiva a diferença, mas a separa das ideias de poder e exploração. o livro usa o conceito de "masculinidade hegemônica", mas também reelabora criativamente esta ideia no contexto pós-colonial. Um verdadeiro tour de force é a análise que o livro faz das masculinidades brancas em um capítulo inteiro que alça a discussão dessa questão a um novo nível. Apropriando-se das recentes discussões dos "estudos críticos sobre a branquidade", Mara Viveros posiciona firmemente este problema na história do império. Não (como em certa literatura decolonial) através de uma simples polaridade entre colonizador e mas sim, como um conjunto de transformações que conduzem da colonização ao presente. A ideia de "puro sangue", por exemplo, transformou-se de uma preocupação aristocrática entre conquistadores espanhóis em uma ideologia da diferença dentro de uma sociedade colonial multirracial; depois, fundiu-se a uma ideologia da modernidade e da nação na qual o direito à liderança</p><p>Prefácio 13 era culturalmente garantido a uma minoria. Em um livro tão abrangente, diferentes leitoras(es) encontrarão diferentes pontos altos. Para mim, estes incluem a discussão sobre a política cultural de Álvaro Uribe Vélez, o "Presidente Teflon". Uribe foi um político claramente de direita (contemporâneo de George W. Bush nos EUA) que atuou na "guerra ao terror" para validar sua linha agressiva na guerra civil. Ele acionou com sucesso uma masculinidade branca autoritária e sua reivindicação para representar a nação, bem como uma equação simbólica de virilidade e proteção contra o perigo. Igualmente fascinante, embora diferente no estilo, é a análise de Mara Viveros sobre a encarnação das masculinidades negras e a presença física da raça. Distinguindo entre um foco na pele e um foco na carne, e baseando-se no pensamento de Fanon, ela tece um relato sobre música, sexualidade e dança em sua conceituação da encarnação masculina dentro de um contexto social e político de vulnerabilidade. Um outro destaque, ainda, é o tratamento sutil que o livro faz da resistência à mudança. Embora identifique alguns ideólogos dos "direitos dos homens", a principal preocupação do livro é a recusa mais difusa que tornou a igualdade de gênero tão difícil de Muitos homens, é claro, não se entendem como defensores de uma posição de privilégio por mais claro que possa parecer o privilégio de gênero para a(o) cientista social. Em vez disso, muitos homens têm experimentado, nos últimos anos, perda de renda, segurança e poder no curso da reestruturação econômica neoliberal. Nesse contexto, mesmo os ganhos econômicos limitados das mulheres, ou o reconhecimento dos direitos dos homens homossexuais, podem ser ressentidos e resistidos. Os homens que lucram com o patriarcado, observa Mara Viveros, não são os mesmos homens que pagam a maior parte dos custos de masculinidades rígidas ou mudanças econômicas. As cores da masculinidade pode ser lido como um rico estudo sobre a Colômbia. Mas o trabalho é relevante de forma mais ampla, uma vez que os processos analisados aqui podem ser encontrados em todo o mundo. Como Horácio observou, mutato nomine, de te fabula narratur: mude nome e a história é sua! A dinâmica do neoliberalismo e da masculinidade tem sido ativa no meu país, na Austrália; a dinâmica da raça, do medo e da virilidade política teve recentemente uma influência dramática sobre a política dos EUA; a profunda história da masculinidade e da colonialidade se tornou</p><p>14 Mara Viveros Vigoya um foco de debate na Índia e na África. Mara Viveros demonstra que as relações de gênero, localmente realizadas, devem ser entendidas em um contexto global. Eu acredito que este livro magnífico tem importantes lições para o mundo. Sydney, 2017</p><p>INTRODUÇÃO Quando comecei a trabalhar sobre homens e masculinidades, há quase vinte anos, já tinha acumulado uma sólida experiência em pesquisas sobre mulheres. Como tantas outras pesquisadoras feministas, antes, com ou depois de mim, contribuí para a desconstrução da categoria "mulher", no singular, abstrata e geral, que definiria experiências universais. Foi assim que, a partir de minhas pesquisas sobre o trabalho feminino na floricultura, as representações e práticas de saúde e doença de mulheres camponesas, os direitos das empregadas domésticas ou as trajetórias de trabalho e familiares de mulheres executivas, pude captar a diversidade das experiências do sexismo, conforme a classe social e o local de residência, mas também a idade e a geração. Todavia, ainda que tenha me interessado muito cedo pelo caráter relacional do gênero, as lógicas sexuadas que estruturavam as experiências dos "homens" como empregadores, colegas, vizinhos, cônjuges, pais, irmãos ou filhos dessas mesmas mulheres, permaneceram durante muito tempo na sombra de meu trabalho. Trabalhar sobre homens e masculinidades, sendo feminista, não é de forma alguma evidente. Os riscos são muitos. Eu destacaria três que me parecem importantes para situar minha própria perspectiva de análise, alimentada tanto por minhas experiências de vida, como por minha prática intelectual. primeiro risco é a ilusão de simetria. Se o gênero é, de fato, relacional, ele o é enquanto relação de poder. Pode-se mesmo dizer, como a historiadora Joan W. Scott, que o gênero é uma "forma primária de significar as relações de poder" (Scott, 1986). Não se trata de considerar os homens como parte de um binômio simétrico, mas de historicizar e contextualizar estas relações desiguais para a partir de uma perspectiva crítica. Se estudar as mulheres de forma separada pode confirmar sua marginalidade, de forma contrária e inversa, pesquisar sobre os homens separadamente traz o risco de ocultar as desigualdades de gênero, reificando sua posição Para evitar esta armadilha, é necessário entender a masculinidade como um elemento no interior de uma estrutura e de uma configuração desta prática social que chamamos gênero: foi o que propôs R. W. Connell (2005) há mais de vinte anos, destacando o fato de que se</p><p>16 Mara Viveros Vigoya trata de um processo segundo risco remete aos sofrimentos e aos custos que representa para os homens responder ou não às rígidas expectativas sociais e culturais em relação à masculinidade que determinam seu valor social. Como destaca Christine Guionnet (2012), a questão dos sofrimentos e dos custos masculinos é um campo minado. A maioria dos trabalhos que descrevem as normas que oprimem os homens adotam uma perspectiva muito subjetiva, sem identificar com clareza a origem social do mal-estar identitário que alguns homens não conformes às normas podem Ora, a análise desse mal-estar não pode ser feita unicamente a partir do discurso dos atores sociais; convém levar em conta as relações de gênero, entre os sexos, mas também entre os homens. Por exemplo, a análise dos riscos para a saúde das condutas associadas à virilidade, tais como os comportamentos perigosos relacionados ao consumo de álcool, um elevado número de parceiras sexuais ou a negligência com relação aos serviços de saúde deve se inscrever em uma reflexão sociológica mais ampla sobre a masculinidade dominante e suas distintas expressões e efeitos sociais. Considerar essa posição ambivalente dos homens não deve impedir os estudos sobre a dominação masculina como o monopólio socialmente construído dos homens sobre certos instrumentos, saberes práticos e domínios da vida social (Tabet, 1988). É necessário, então, analisar, simultaneamente, os efeitos objetivos e subjetivos da posição dominante dos homens sobre as mulheres e as consequências nefastas para certos homens das exigências da Para fazê-lo, deve-se considerar que, da mesma forma que na diversidade de experiências do sexismo vivido pelas distintas mulheres, as diferenças de classe, orientação sexual e idade, entre outras, atravessam a categoria "homens" e distribuem entre eles custos e benefícios de modo desigual (Connell, 2005). Deve-se levar em conta também que os homens, em seu conjunto, se beneficiam dos dividendos assegurados pela sociedade patriarcal, isto é, das vantagens que tiram, enquanto grupo, da subordinação das mulheres. terceiro risco é o de afirmar que o sexismo é fruto da ignorância e que os homens poderiam, portanto, aprender a não ser sexistas: assim, se eliminaria a violência contra as mulheres através da educação, de oficinas de sensibilização, dos grupos de</p><p>Introdução 17 apoio etc. Isso equivale a ignorar a profunda cumplicidade que os homens compartilham no modelo hegemônico de masculinidade e o interesse que eles podem encontrar em apoiá-lo, mesmo quando seus comportamentos individuais se distanciam parcialmente dele. Sem dúvida, é bem-vinda a pergunta sobre o que os homens podem fazer para combater o sexismo. Seu desejo de agir nesse sentido é compreensível e necessário; mas não é menos complexo de interpretar. Com efeito, pode provir de uma atitude defensiva em face ao mal-estar de tomar consciência de sua própria cumplicidade no sexismo ou, para dissipar este mal-estar, significar a busca de uma reconciliação obtida com a condição de enterrar o passado (animado pelo desejo de se sentir melhor). Pela denúncia pública dos danos do sexismo para com as mulheres, pode também expressar, simplesmente, uma solidariedade ou uma forma de abertura para ações futuras. No entanto, antes de chegar à ação, falta muita escuta por parte dos homense antes de se orientarem para futuro, é necessário que eles enfrentem os desafios postos pela dominação masculina em vigor. Não basta supor que o ato performativo que afirma a existência de "novas lhes confere existência social real, como se apenas a enunciação desta postura realizasse uma ação. Antes de afirmar "eu não sou sexista ou machista, eu não sou um homem daqueles que o feminismo critica" (que não é sempre uma afirmação de má fé, nem implica necessariamente a ocultação da intensidade dos efeitos do sexismo), deve-se habitar o espaço da crítica, com sua temporalidade de longa duração, e reconhecer que o mundo que se critica é o mundo no qual vivemos e para o qual contribuímos com comportamentos cotidianos. Esta postura, que poderia ser percebida como prescritiva e capaz de obstaculizar as poucas iniciativas masculinas nesta direção, provém de minha desconfiança em face ao rápido advento das "novas masculinidades" nas agendas Embora as "novas masculinidades" tenham sido descritas como "posicionamentos que recusam a ser gendrados e associados permanentemente ao modelo patriarcal hegemônico" e como uma "insistência eminentemente política" (Garcia, 2012, p. 94), deve-se levar em conta que afirmá-lo não significa ato. Para que um enunciado seja performativo, devem ser preenchidas certas condições. E no caso das "novas masculinidades", declará-las sem levar em conta as condições que permitem este enunciado (a existência prévia de atos que elas autorizem) é imaginar que uma prática pode ser "trazida à experiência através da fala e da representação" (na mesma perspectiva, ver a crítica de Ahmed, 2004, relativa à afirmação do caráter performativo do antirracismo).</p><p>18 Mara Viveros Vigoya públicas. Mais do que lhes proporcionar condições para lutar contra o sexismo, os estudos sobre homens e masculinidades, inclusive em suas formas críticas, e os processos organizativos de homens deveriam se orientar para documentar o sexismo que persiste e se intensifica de muitas maneiras. Eis por que uma reflexão crítica sobre a "virada" que podem representar os estudos sobre a masculinidade no interior dos estudos feministas é importante. Se esta virada significa basicamente voltar- se para atender o chamado de alguns poucos homens esclarecidos e de boa vontade para com as mulheres, não passa de um gesto a serviço de uma afirmação narcisista. Os estudos feministas e de gênero sobre homens e masculinidades devem participar pelo menos de uma dupla virada: uma primeira, em direção à masculinidade como um tema de estudo legítimo enquanto elemento da estrutura de gênero; e uma segunda, a partir dos corpos daqueles que desfrutaram das vantagens patriarcais, em direção à crítica de sua participação e responsabilidade neste ordenamento de gênero, como tema atual. Esta "dupla virada", não é suficiente por si mesma, mas permitirá preparar o terreno para outros tipos de lutas travadas fora do âmbito universitário e para as quais podemos contribuir a partir de nosso trabalho de pesquisa. Quando e como cheguei ao estudo sobre homens e masculinidades? Os balanços teóricos e empíricos de Teresita de Barbieri (1993) e Enrique Gomáriz (1992), sobre o trabalho acumulado no campo dos estudos latino-americanos de gênero, assinalavam que existiam grandes vazios sobre as masculinidades na pesquisa e na reflexão no começo dos anos 1990. Foi neste contexto de relativa carência de trabalhos sobre os homens como atores gendrados que surgiu meu próprio interesse pelo tema. Nesse 3 Diferentes traduções têm sido adotadas no Brasil para o termo inglês gendered traduzido pela autora por generificado: "gendrado", "generificado", "no/de gênero" ou, ainda, no/pelo gênero". Optamos pelo vocábulo "gendrado", ainda que não dicionarizado, por sua economia e também por sua relação etimológica com "engendrar" (do latim ingenero, -are, gerar, fazer nascer, criar). Segundo contexto, "gendrado" deve ser, então, entendido como equivalente</p><p>Introdução 19 momento, porém, eu não estava preparada para compreender tal disposição. Como propõe Renato Rosaldo (2000), em seu livro Culturay Verdad, "todas as interpretações são realizadas por sujeitos que estão preparados para saber certas coisas e não Por isso, necessita-se às vezes de uma experiência pessoal para poder aceder a certos significados, para propiciar o desenvolvimento de certos interesses. No meu caso, esta experiência teve a ver, primeiramente, com minha consciência de não ser "simplesmente" uma mulher e de entender que o sexismo não se experimenta sempre da mesma maneira, já que o sexo não é a única fonte de opressão das mulheres Em seguida, e de forma muito relacionada a anterior, havia meu desejo de questionar a existência de uma dominação masculina com efeitos universais e invariáveis. No entanto, foi somente anos mais tarde, com a descoberta intelectual do Black Feminism [Feminismo e do "feminismo de cor" que meu desconforto pessoal e intelectual fez sentido. Dois dos postulados dessa corrente feminista foram particularmente úteis à minha própria pesquisa e reflexão sobre homens e o primeiro é a pertinência e o privilégio epistêmico de um conhecimento situado, construído a partir da valorização política de uma posição marginal para compreender a dominação. Assim, minha posição de mulher não-branca no contexto colombiano me levou a deslocar minhas perguntas sobre a dominação masculina de um cenário unidimensional de gênero para outro, pluridimensional, no qual o gênero se entrecruza com outras à "de ou "criado/constituído no/pelo (N.T) 4 Rosaldo escreve: etnógrafo, como sujeito posicionado, compreende certos fenômenos humanos melhor que outros. Ele ou ela ocupa uma posição ou localização estrutural e observa com uma perspectiva específica. A noção de posição se refere a como as experiências de vida permitem ou impedem certo tipo de explicação" (Rosaldo, 2000, pp. 39-40). Black Feminism não é ponto de vista das feministas "negras", mas uma corrente feminista de pensamento que define o gênero em relação a outras ordens de poder como o racismo e a relação de A denominação "feminismo de cor" foi adotada por algumas feministas chicanas* € "feministas do terceiro mundo" (Third world feminists) que questionaram o qualificativo "mulheres de e o ressignificaram como uma nova voz política "positiva", construída a partir da alteridade, da diferença e da especificidade (ver Dorlin, 2008; Viveros, 2007; Viveros & Gregorio, 2014). *Chicana se refere a uma pessoa dos EUA e que pertence à de origem mexicana lá existente. (N.T.)</p><p>20 Mara Viveros Vigoya formas de dominação (de classe, raça e o segundo postulado foi a adoção de uma postura feminista não Considero que o separatismo não é uma estratégia analítica e política ad equada para dar conta da complexidade do contexto social no qual opera a dominação masculina na Colômbia ou para gerar relações de solidariedade com as lutas feministas. Por outro lado, algumas teóricas do Black Feminism, como Beverly Guy-Shefthall (2001), salientaram a importância de incluir, na historiografia dosmovimentos feministas (nestecaso, estadunidenses), o forte compromisso que alguns pensadores e ativistas negros expressaram e tiveram nas lutas das mulheres por direitos. Frederick Douglass (2001), Alexander Crummell (2001) e William Edward Burghardt Du Bois (2001) foram alguns deles e deixaram testemunhos claros deste engajamento. Por essa razão, é importante recordar, como ato de justiça epistêmica, sua participação como aliados e apoiadores das lutas que travaram as mulheres estadunidenses de finais do século XIX (Foner, 1976; Guy-Shefthall, 2001). Como outras destas feministas sublinharam, a necessidade de reconstruir e transformar o comportamento dos homens e da masculinidade não está fundada em razões altruístas, mas sim em sua compreensão como parte de uma revolução feminista (hooks, 1981). As teóricas do Black Feminism buscaram relacionar-se com os homens de suas comunidades como possíveis aliados e não como seus principais opositores e tentaram compreender, de forma simultânea, a particularidade do sexismo vivido pelas mulheres negras e as vicissitudes experimentadas pelos homens Como apontaram Aimé Césaire (1955) e Frantz Fanon (1952), os sistemas de escravização, colonialismo e imperialismo não somente 6 A intersecção entre diferentes relações de dominação pode, com certeza, incluir outras relações e categorias de dominação, como a nacionalidade, a idade ou a situação de 7 feminismo separatista defende, em maior ou menor medida, a separação de homens e mulheres na luta feminista, partindo do princípio de que sua união prejudica as mulheres e reprime seu desenvolvimento político, encorajando orientações heteronormativas e Neste capítulo, utilizo o termo "negro" como adjetivo e não como substantivo, considerando que o negro não existe em si como uma substância, mas como uma qualidade relacional. Em contrapartida, quando faço referência aos membros de um coletivo; utilizo a inicial maiúscula.</p><p>Introdução 21 recusaram sistematicamente para eles uma posição dominante nas hierarquias de gênero, mas também impuseram formas específicas de terror com o fim de oprimi-los. Inspirada por este tipo de pensamento, pareceu-me importante, em termos políticos e analíticos, aprender a me dirigir aos homens e falar sobre eles com uma feminista que os desafia, mas sem diminuí-los, animada pelo anseio de gerar um espaço de solidariedade e transformação social com aqueles que expressem seu respaldo às lutas feministas. É nesta postura que reside a singularidade das contribuições que me ofereceu o Black Feminism (hooks, 1981) a uma compreensão complexa da dominação masculina e a seu questionamento político. Por que, como e para que trabalha uma mulher feminista sobre homens e masculinidades? Frequentemente me perguntam "por que" e "para que" trabalha uma mulher feminista sobre homens e Por trás dessas questões está, em primeiro lugar, a inquietude quanto à legitimidade e validade de um trabalho sobre homens e masculinidades realizado por uma mulher. Encontramos aqui uma velha controvérsia da que consiste em perguntar se faz sentido o estudo comparativo das sociedades humanas e, em caso afirmativo, se é preciso fazer parte de um grupo para poder Nos inícios da "antropologia da mulher", a argumentação de que as mulheres estavam melhor qualificadas que os homens para estudar as mulheres deixou aberta a questão sobre a competência das mulheres para estudar os homens. Por acaso, somente o pertencimento a um grupo justifica ou autoriza a possibilidade de seu estudo? Afinal, "se realmente se tivesse que pertencer a um grupo para chegar a conhecê- lo, a antropologia não seria mais que umagrande aberração" (Shapiro, 1981, p. 125). Por outro lado, é importante considerar que pertencer ao mesmo sexo não garante que pesquisadoras(es) e pesquisadas(os) compartilhem experiências e problemas comuns. As diferenças de classe, étnico-raciais ou geracionais entre mulheres ou entre homens podem ser às vezes mais fortes que as semelhanças. A suposta Suscito esta reflexão sobre a antropologia na discussão porque é o campo disciplinar no qual situo preferencial, mas não exclusivamente, meu trabalho de pesquisa.</p><p>22 Mara Viveros Vigoya vantagem dos homens na compreensão das masculinidades perde, então, seu sentido. Outra aresta interessante desta reflexão é a das relações de poder no trabalho de campo e no processo de interpretação dos dados. Em termos gerais, o intercâmbio entre pesquisador e sujeito pesquisado tem se caracterizado por uma relação hierárquica. o que acontece com essas hierarquias quando pesquisador" é uma mulher e os sujeitos pesquisados homens? De que maneira isto pode significar a subversão ou a transgressão desta relação de poder? Podemos lembrar, primeiro, que os grupos sociais geralmente estudados pelas ciências sociais têm sido os grupos dominados, como a escassez de estudos sobre grupos dominantes atesta. Esta ênfase se deve a que "a diferença" e "a alteridade", terrenos de predileção da pesquisa social acabaram, muitas vezes, sendo equiparadas a desigualdade. Assim, quando uma mulher estuda os homens, não como sinônimo de "seres humanos", mas como homens constituídos como tais pelo gênero, princípio organizador de normas diferentes e direitos desiguais, ela desafia o senso comum, para o qual gênero é equivalente a "mulheres", e argumenta que gênero não o sexo, e sim os sexos" (Bereni et al., 2008, p. 21). A do viés androcêntrico de uma grande parte do conhecimento produzido sobre as mulheres e a desconfiança com relação aos motivos dos homens para se implicar nas lutas pelos direitos das mulheres desembocaram muitas vezes em posições normativas que instituíram como "dever ser" da pesquisa feminista a condição das mulheres, deixando de lado a análise dos mecanismos de dominação a partir do ponto de vista do grupo social dominante. No entanto, o reconhecimento da dimensão relacional do gênero possibilitou o estudo do masculino por parte das mulheres feministas, superando tendências culpabilizantes e receosas dentro do movimento feminista frente ao estudo dos homens e das masculinidades. Além disso, destaco que a compreensão da dominação, como uma relação vinculada sempre com outras relações de poder, quer se chame de "interseccionalidade" "interconectividade", "simultaneidade de opressões" ou, ainda, "matriz de dominação" uma dívida que tenho com o legado teórico e político do Black Feminism me permitiu articular distintas narrativas sobre as experiências de ser "homem", "negro", "branco", "heterossexual" ou "homossexual" na reflexão sobre homens e</p><p>Introdução 23 perde, masculinidades na Colômbia. Na atualidade, os aportes da e da teoria de foucaultiana do poder permitem pensar as relações de dominação tação dos como um processo complexo e contraditório no qual intervém e é e sujeito possível a agência dos sujeitos. Ao mesmo tempo, relativizou-se a rquica. o ideia de que existem sujeitos exclusivamente dominados, como as or" é uma mulheres, ou exclusivamente dominantes, como os homens. Embora isto pode a dominação masculina responda a determinantes estruturais e le poder? estruturantes, é também um processo paradoxal, caleidoscópico, dinâmico e historicamente determinado, no qual intervêm múltiplas como variáveis que não são necessariamente aditivas, mas sim distintivas. A ta ênfase dominação não se exerce a partir da soma de certas condições, mas a redileção partir de uma determinada forma de habitar o gênero, a classe, a raça, aradas a aidade, a nacionalidade etc., como relações sociais que se coproduzem. não A análise interseccional, como forma de leitura das stituídos desigualdades sociais, refere-se à distribuição do poder e dos iferentes recursos da sociedade entre todas as posições, incluídas as gênero é dominantes, pensadas em todas as suas dimensões (Fassin, onstrói o 2015). Em meu trabalho, proponho uma análise interseccional, não apenas dos grupos sociais marginalizados, aos quais está parte do vinculada historicamente esta teoria, mas também daqueles que nça com ocupam posições dominantes em distintas ordens sociais, como os as pelos homens, as pessoas brancas ou de pele clara na Colômbia posições e as pessoas Ao mesmo tempo, busco dar conta eminista das desigualdades de classe e raça de forma diferenciada, anismos levando em conta que cada uma dessas formas de dominação "tem ante. um discurso ontológico diferente da dinâmica das relações de poder, gê nero eres 10 Compartilho ponto de vista e a definição de Nira Yuval-Davis (2015) que osas considera a interseccionalidade mais como um conjunto de ferramentas conceituais e teóricas que como um corpo teórico unificado. ee nsão 11 Na Colômbia, como de modo geral na América Latina, se reserva o termo "mestiço" outras às pessoas que possuem ancestrais europeus e indígenas. Igualmente, nesses lid ade", países, a remete ao mesmo tempo a ideologias nacionais. (No Brasil, o termo "mestiço" tem acepção mais geral, denotando as pessoas que possuem nda, ancestrais de diferentes categorias racializadas. o termo do espanhol colombiano mestizo se refere estritamente ao que, na terminologia tradicional, se chamava de ntas caboclo ou mameluco (descendente de colonizadores portugueses e indígenas). No nco", entanto, preferimos manter a tradução por "mestiço" pelo desuso das categorias tradicionais mencionadas e pelo uso geral que a autora também faz do termo em me ns e outras passagens do livro. (N.T.)</p><p>24 Mara Viveros Vigoya exclusão e/ou exploração" (Yuval-Davis, 2015, p. 194). As cores da masculinidade. Identidades interseccionais e práticas de poder na Nossa América o título deste livro quer visibilizar as distintas "cores", de pele, gênero e sexualidade que organizam as experiências dos homens colombianos e minar a ideia de uma masculinidade abstrata, universal e desencarnada. A metáfora da para falar da diversidade, das diferenças e desigualdades existentes entre homens e masculinidades é uma estratégia significante potente: a con é um signo que transmite mensagens, provoca sensações em relação à diferença e em evidência as analogias que impregnam nossa linguagem eforma de pensar e atuar frente a ela. Com estetítulo, busco afirmar não só a diversidade e heterogeneidade das masculinidades, mas também as desigualdades, tensões, ambiguidades e contradições que caracterizam as experiências da masculinidade na Colômbia, em uma sociedade Em meu trabalho prévio sobre homens e masculinidades na Colômbia (Viveros, 2002), mostrei que a masculinidade não é um atributo dos "homens", mas sim uma noção relacional e que não há uma masculinidade, mas muitas. Esta ideia se constrói em oposição à de feminilidade e em contraste com distintas masculinidades elas mesmas inscritas em diferentes relações sociais (de classe, idade, raça, etnicidade, cor de pele e região) que organizam hierarquicamente os vínculos entre homens. Ao mesmo tempo, busquei dar conta do caráter extenso das normas de masculinidade que se impõem a todos os homens sob a forma 12 Enquanto o sentido estadunidense da raça se caracteriza pela "regra da gota de sangue", que determina que descendentes de estão ligadas(os), por convenção, à raça ancestral (ou histórica) da/o ascendente que pertence a uma minoria racial (Hirschfeld, 1999, p. 20), na sociedade colombiana, a racialização se manifesta mais através de um jogo "pigmentocrático" que atravessa as fronteiras de classe, incorporando as diferenças As classes têm assim cores de pele, no sentido de que, geralmente, as pessoas e famílias mais dotadas de capitais (social, cultural, escolar, econômico, etc.) são mais "claras" e, inversamente, as menos dotadas destes capitais são mais "escuras" (Urrea; Viáfara & Viveros, 2014).</p><p>Introdução 25 de mandados comportamentais e morais, apesar da pluralidade de formas de masculinidade identificadas. Seja para adequar-se a elas ou para rejeitá-las, os homens devem situar-se perante essas normas. Sua posição está demarcada pela interação de distintos fatores, estruturais e posicionais, e das diferenças de recursos que possuem para confrontá-las. No caso analisado em 2002, mostrei as diferenças nas normas de gênero que operam em duas cidades colombianas, e e os modelos de masculinidade hegemônica com base nos quais os homens são avaliados, incluídos aqueles que os questionam ou não podem assumi-los subjetivamente (Viveros, 2009). Ora, por que privilegiar as relações de gênero e raça e seus entrecruzamentos como eixo de análise central deste livro sobre homens e masculinidades? Por razões históricas. No contexto colombiano e as ideologias de raça se entreteceram constantemente com a dominação de gênero, através do controle da sexualidade das mulheres e da subordinação dos homens para produzir um ordenamento sociopolítico no qual a genealogia continua ocupando um lugar preponderante (Stolcke, 1992; 2002; Weismantel, 2001; Wade, 2009a). A raça e o sexo/gênero têm o que Wade (2009a, p. 12) chama de uma "afinidade eletiva" nos sistemas de dominação e hierarquia. Assim, autoras como Colette Guillaumin (1992) utilizaram as críticas da categoria "raça" para pensar o sexo e redefinir as mulheres (e os homens, acrescentaria eu) não como grupo natural, mas como uma classe social naturalizada. A comparação entre a dominação sexual e o racismo me foi útil para entender o tratamento análogo que sofrem as mulheres e os 13 Capital do departamento do situado na costa dos oceanos Pacífico e A população do se autoidentifica majoritariamente como "negra" e é uma das mais pobres da 14 Capital do departamento do um dos departamentos mais ricos da zona cafeeira do país, habitada principalmente por descendentes de antioqueños*, um grupo regional que se autodefine pela ausência de população negra. *Gentílico que designa o natural do departamento colombiano da Antioquia. o termo será mantido no (N.T.) 15 No curso dos últimos trinta anos, surgiu uma acepção do conceito de "racialização" que dá conta do processo social pelo qual os corpos, os grupos sociais, as culturas e as etnicidades se produzem em termos raciais, como se eles pertencessem a categorias fixas de sujeitos (Garcia, 2012; Banton, 1996; Primon, 2007).</p><p>26 Mara Viveros Vigoya sujeitos racializados, como grupos que estão sociologicamente em situação de dependência ou inferioridade e que são pensados como particulares frente a um grupo geral supostamente desprovido de qualquer peculiaridade social (Viveros & Gregorio, 2014). A noção de experiência que utilizo neste livro não a concebe como um dado preexistente ou como um atributo das pessoas, mas sim como um evento histórico e discursivo, coletivo e individual que requer explicação (Scott, 2001). As experiências de masculinidade, negridade e que analiso aqui devem ser entendidas como eventos historicamente situados, que precisam de uma explicação particular (da especificidade de sua realidade material e suas implicações) e que, ao mesmo tempo, produzem novas explicações a partir de uma consciência específica desta realidade. Como observa Patricia Hill Collins (1989), uma das principais teóricas do Black Feminism, não há pensamento sem experiência e, por isso, é importante considerar que as experiências geram uma maneira particular de interpretar as realidades vividas. Neste trabalho, pretendo dar conta da experiência de gênero de alguns homens na Colômbia, a partir do conhecimento que eles expressam sobre esta experiência, como membros de grupos sociais particulares, e de minhas próprias interpretações, fruto de um pensamento mais especializado, mas igualmente situado. Seus comentários e análises do que vivem "como homens" permitem entender a centralidade das relações étnico-raciais e de classe para estabelecer hierarquias entre eles, em função de seus comportamentos no trabalho e na família dois âmbitos da organização social profundamente interconectados e modelados por estas relações. as representações de uns como cumplidores (provedores responsáveis, pais presentes e sexualmente contidos) e dos outros como quebradores (homens sempre prontos para a festa, a dança e o sexo, mas irresponsáveis como pais e cônjuges) estão ligadas aos estereótipos raciais que existem sobre uns e outros 16 Branquidade e negridade são as transposições do inglês blackness e whiteness, construídas com as palavras "branco" e "negro" e o sufixo "-idade" (como em brasilidade); o primeiro começou a se impor no brasileiro, mas o segundo ainda não. Estas noções permitem abordar o branco e o negro como cores de pele produzidas socialmente correspondendo a posições hierárquicas distintas no espaço social: o branco sendo a con dominante e, portanto, o padrão a partir do qual as outras cores são produzidas, marcadas e classificadas.</p><p>Introdução 27 e aos ordenamentos étnico-raciais e de classe que os localizam em distintos lugares do espaço social colombiano e lhes "recompensam" socialmente de forma diferente. Igualmente, o cumprimento ou não das injunções de gênero em termos de família, paternidade ou sexualidade podem ser utilizados para reforçar ou às vezes desafiar as hierarquias sociais e as fronteiras Falar dos homens de Quibdó e Armenia como homens "negros", "brancos" ou não foi nada óbvio no início de meu trabalho sobre masculinidades. Dada a dificuldade que pensar sobre raça na América Latina gerava no período em que realizei meu primeiro trabalho de campo (1997-1998), me senti obrigada a utilizar a linguagem da cultura regional para falar das diferenças entre esses homens. Por razões históricas, a raça tinha, na Colômbia, uma dimensão regional que dava lugar a distinções entre três áreas geográficas: as zonas costeiras, percebidas como negras; as zonas andinas do "interior", descritas como brancas e mestiças; as terras baixas amazônicas, apresentadas como indígenas. Na Colômbia, a alusão à região de origem permite referir-se à raça e à etnicidade sem nomeá-las. Estas dificuldades não estiveram alheias à minha própria subjetividade como mulher negra ou não branca no contexto colombiano. Eu me nomeio assim, não por ser filha de um homem "negro" e de uma mulher mas por ter me posicionado política e subjetivamente deste modo, consciente do efeito que podem ter, sobre a vida social e pessoal, os discursos sobre raça e etnicidade que circulam na Colômbia e que são objeto de minha reflexão neste livro. Minha identidade "negra" e não é uma identidade que eu sempre tenha pensado e sentido da mesma maneira; é uma identidade que foi construída e se nutriu dos debates que suscita a negridade e a na vida cotidiana, na prática acadêmica, no ativismo cultural, no trabalho transnacional de ONGs e nas práticas estatais (Wade, 2009b). Assim, minha própria relação com a negridade e a mestiçagem carrega a marca da trajetória histórica desses É preciso lembrar que, na Colômbia, 17 Utilizo as aspas para sublinhar a distância entre os qualificativos utilizados na Colômbia para fazer da cor da pele um dado objetivo. 18 Como assinala Verena Stolcke (2008), as(os) "mestiças(os)" não nascem, mas se tornam como tais em contextos históricos particulares.</p><p>28 Mara Viveros Vigoya antes da Constituição de 1991, não existiam senão referências indefinidas e ambíguas a estes conceitos, ao passo que, hoje, existe um consenso relativo em torno de uma definição que salienta o vínculo da negridade com a diáspora africana em um contexto no qual o discurso sobre a mestiçagem continua tendo poder. Apesar dos aspectos positivos da transformação constitucional, e depois, de mais de vinte anos de políticas multiculturalistas, o balanço que se pode fazer é que as formas de legibilidade impostas pelo multiculturalismo invisibilizaram, em primeiro lugar, os nexos das diferenças com as desigualdades sociais e as relações de dominação e, em segundo, as demandas políticas que não se expressam como reivindicação de direitos ou não se definem em termos de diferenças culturais. Poucas são as pesquisas que mostram como se articulam e entrecruzam as distintas ordens de dominação e que questionam os efeitos mais problemáticos do multiculturalismo estatal vigente, sem mencionar os que subsistem dos regimes de assimilacionistas precedentes. Nesse contexto, com este livro, pretendo oferecer "novas" perspectivas de leitura sobre a diferença e a dominação social, que permitam reconhecer sua estreita relação com as desigualdades em um ambiente marcado por uma forte celebração da diversidade, assim como resgatar o caráter complexo e consubstancial das diferenças. Em meu trabalho, "latino-americano" e "América Latina" são entendidos como "ideias" resultantes do processo de independência do controle metropolitano espanhol e português, iniciado, ao redor de 1830, pelas elites crioulas descendentes da população europeia. Seu projeto de construir novas nações se confrontou com o dilema ligado à composição racial das populações "latino-americanas", visivelmente misturadas, e com o desejo de aceder às vantagens do progresso e da civilização próprios dos estados-nação modernos europeus. Esta proposta de "latinidade", que apagava ou desvalorizava a participação de indígenas e afrodescendentes nessas nações, foi questionada, no final do século XIX, por intelectuais como o cubano José Em uma conferência em Nova York, intitulada "Nossa América", Martí advertia contra as novas ameaças que pairavam sobre a América Latina, cuja independência já não era, naquele momento, ameaçada pelas potências em da Espanha e Portugal, mas pelo auge e pretensões do nascente imperialismo dos Estados Unidos. Marti questionava o direito que os estadunidenses</p><p>Introdução 29 arrogavam de reivindicar para si sós o nome de América e defendeu uma nova versão da "latinidade", mais inclusiva. Seu projeto de dissidência se reivindicava, com otimismo, como legatário das lutas dos nativos americanos e dos americanos de origem africana em contraposição a uma América anglo-saxã que se apresentava como branca (Mignolo, 2007; Santos, 2009). A partir deste lugar, fazia um chamado à união entre os povos hispano-americanos como forma de apropriação de identidade cultural e de distinção de uma América "nossa" perante a América Ao longo do século XX e deste século XXI, as transformações políticas, econômicas, sociais e mas também a subjetividade daquelas(es) que habitam este subcontinente, aprofundaram os questionamentos de umaidentidade "latino-americana", forjada para responder a necessidades ultrapassadas. o imaginário continental se nutre, atualmente, de novos aportes oriundos dos diferentes povos indígenas, pessoas afrodescendentes e grupos que reivindicam um pensamento fronteiriço crítico e questionam a lógica que estruturou a ideia oitocentista de América Latina. Decidi conservar neste livro a expressão "Nossa América", como uma forma de reconhecimento a essas lutas precoces de reapropriação e ressignificação de nossa identidade, mas incluindo em seus significados as contribuições de duas pensadoras feministas, Gloria (1987) e Silvia Rivera Cusicanqui (1993), à compreensão de seu caráter "mestiço". A uma das ficções fundacionais latino- americanas (Sommer, 1990), foi considerada como a garantia primordial da homogeneidade nacional na Também deu lugar à famosa "ideologia da mestiçagem", afirmando o surgimento de uma nova cultura pela fusão harmônica, em termos biológicos e culturais, do melhor das "raças" e culturas de origem (Batalla & Arce, 1992). Esta visão tem sido criticada por que invisibiliza as desigualdades sociais internas ligadas à "raça". "Nossa América" busca uma reapropriação e um deslocamento do significado do caráter mestiço de nossa história, inspirado por uma maneira diferente de perceber a realidade a partir da consciência da Nova Mestiça da qual fala Glória Anzaldúa e da mestiçagem Che'je narrada 19 Utilizo aqui a palavra "região" no sentido de conjunto de países que possuem características particulares que lhe conferem uma certa É principalmente nesse sentido que ela será empregada neste livro.</p><p>30 Mara Viveros Vigoya por Silvia Rivera que significa isto? A "Nova Mestiça" é um projeto inacabado de luta para criar um espaço ("a ponte") onde seria possível reunir e desconstruir simultaneamente as diferentes experiências íntimas e reivindicações políticas, raciais, sexuais e de gênero que conformam essa identidade. Nossa América hoje é o projeto da Nova Mestiça e uma crítica à ideia de que existe um "mestiço universal". É também a afirmação da capacidade de ressonância que produz habilidade para viver nos limites, na fronteira, nesse espaço Che'je onde coexistem, em tensão e em conversação, o colonial e o colonizado. Falar de Nossa América em vez de América Latina é, finalmente, escolher uma denominação que não foi criada nos contextos acadêmicos hegemônicos metropolitanos para dar conta de experiências sociais particulares. o conteúdo deste livro o projeto que constitui este livro é, em termos simples, repensar e redefinir as experiências da masculinidade do ponto de vista interseccional. Sua aposta me levou a enfrentar alguns desafios teóricos. No campo acadêmico dos estudos de gênero na Colômbia, existem ainda poucas pesquisas que enfocam a interseccionalidade das diferentes ordens de Assim, as reflexões desenvolvidas neste livro contribuem para um terreno acadêmico que está associado ao âmbito político. Com efeito, as epistemologias feministas e decoloniais do "conhecimento situado", que orientam os estudos possibilitam não somente questionar as supostas certezas da "neutralidade" científica, mas também alimentar e incidir nas ações políticas dos diferentes movimentos. Neste último caso, trata-se de propor formas de atuação ancoradas nas práticas e experiências sociais - sempre ambíguas e contraditórias capazes de integrar a complexidade 20 Como assinalam Sébastien Chauvin e Alexandre Jaunait (2015, p. 55): "Loin de faire avec l'idée d'intersection, à laquelle on la réduit souvent, la notion d' intersectionnalité en est au contraire la déconstruction critique" que se poderia traduzir assim: "Longe de ser redundante com a ideia de à qual nós frequentemente a reduzimos, a noção de interseccionalidade é pelo contrário a desconstrução dela".</p><p>Introdução 31 criada pela imbricação das opressões sociais (Kergoat, 2010). Nesse horizonte, a primeira parte do livro, Teorias feministas e masculinidades, aborda os pressupostos e os principais vazios da teoria feminista para compreender e analisar a dominação masculina, a existência de novos tipos de homens nas novas circunstâncias sociais e a necessidade de pensar, de forma dissociada, os homens e as Em resumo, o primeiro capítulo situa os estudos sobre homens e masculinidades no campo dos estudos feministas e de gênero, um campo com tensões, dilemas de poder e configurações de relações internas próprias segundo os períodos e as tradições intelectuais e políticas. A maior parte da literatura sobre o tema foi publicada, em primeiro lugar, em inglês e, de forma secundária, em francês, e se refere aos problemas das relações de gênero nas sociedades norte- americanas e europeias Eis por que me pareceu importante rastrear, no segundo capítulo, a forma pela qual se tem abordado a problemática na Nossa América: os temas tratados, as ênfases que têm sido feitas e os problemas privilegiados. Este balanço, sem pretensões de exaustividade, permite identificar o alcance desses estudos, seus aportes ao subcampo dos estudos das masculinidades e as resistências que expressam quanto aos estereótipos sobre as "masculinidades A segunda parte do livro, intitulada Masculinidades nossamericanas, começa com o terceiro capítulo, que examina os imaginários e estereótipos existentes sobre a sexualidade masculina negra na Colômbia, em uma perspectiva histórica e a partir do ponto de vista dos próprios homens "negros" confrontados a esses imaginários. o capítulo busca compreender as diferentes maneiras pelas quais estes homens assumem tais estereótipos (que os apresentam como seres dionisíacos e fundamentalmente interessados no gozo dos sentidos) e os usos sociais que fazem deles, chegando, inclusive, a transformá-los em um valor positivo. Rastreia, igualmente, o papel que desempenham as diferentes formas de perceber, compreender e em ação o corpo negro masculino nessas estratégias. Estuda, enfim, o impacto que as práticas musicais e performativas de alguns grupos, percebidas como símbolos de afirmação e orgulho da cultura afro-colombiana, podem ter sobre esses imaginários dos corpos masculinos negros. o quarto capítulo explora as continuidades e descontinuidades</p><p>32 Mara Viveros Vigoya históricas da branquidade no contexto nossamericano [nuestroamericano], do período colonial aos dias atuais, em relação a constituição progressiva do significado contemporâneo da raça, sempre articulada com o sexo. Esta articulação produz hierarquias sociais e, em particular, uma masculinidade branca hegemônica que garantiu o domínio dos homens brancos ea subordinação das mulheres e dos homens não brancos. A título de exemplo dos benefícios que a masculinidade branca proporciona, analiso o uso midiático que o ex- presidente da Colômbia, Álvaro Uribe Vélez, fez dos valores associados à masculinidade e à branquidade, fontes de legitimidade política e de popularidade. Apesar das múltiplas análises sobre a figura e o estilo presidencial de Álvaro Uribe, poucas examinaram as dimensões de gênero e étnico-raciais presentes em seus discursos, comportamentos e em sua forma particular de governar. Essa abordagem mostra a utilidade de uma análise interseccional das relações sociais para dar conta dos fundamentos gendrados [generificados] e racializados do poder, da autoridade e da legitimidade. quinto capítulo explora as transposições entre a violência estrutural, proveniente da conquista e da colonização da Nossa América, e a violência doméstica e íntima da qual têm sido vítimas, desde então, principalmente as mulheres, mas também os homens subordinados em uma hierarquia de masculinidades. Na Nossa América, atualmente, as mortes violentas de mulheres excedem em muito o que se reporta e a caracterização, definição e classificação dos crimes relacionados a esse tipo de violência são objeto de controvérsia persistente nos estudos feministas Neste capítulo, este tipo de assassinato, ancorado em uma utilização predatória do corpo feminino, é ligado às atitudes masculinistas favorecidas pela neoliberalização da vida social e pelos conflitos geopolíticos na região. Finalmente, quero precisar que cada capítulo pode ser lido de forma independente, em função das perguntas que motivem sua No entanto, é importante assinalar que os capítulos surgiram uns dos outros, conduzindo quem os através de um caminho que gravita em torno da ideia que dá título ao livro: a análise das masculinidades à luz de uma perspectiva interseccional. Hoje, é particularmente importante sublinhar que os estudos sobre homens e masculinidades recobrem tanto interpretações progressistas como profundamente conservadoras e que, sem um conteúdo e um</p><p>Introdução 33 impulso político que insiste na desconstrução crítica das diferentes modalidades de dominação e na busca de uma justiça social indivisível, a referência reiterada à interseccionalidade não é mais que a repetição forçada de um "mantra multiculturalista" ("raça, classe, gênero e sexualidade"), para retomar a fórmula de Wendy Brown (1995). A aposta deste livro é a de escrever evitando as armadilhas do sexismo, do racismo e da homofobia que, entrelaçados, atormentam constantemente nossas vidas.</p><p>PRIMEIRA PARTE TEORIAS FEMINISTAS E MASCULINIDADES</p><p>1. PARA ALÉM DO BINARISMO: TEORIAS FEMINISTAS, HOMENS E MASCULINIDADES A relação entre as teorias feministas e os estudos sobre homens e masculinidades tem uma longa história. Assim como a implicação dos homens nas lutas pela igualdade de gênero, ainda que esta tenha sido sempre uma causa menor para eles (Gardiner, 2005; Van Der Gaag, 2014). No impulso do movimento pelos direitos das mulheres da segunda metade do século XX, diversas teorias buscaram explicar as causas da dominação masculina, corrigir as falsas presunções sobre as mulheres e os homens e prefigurar a existência de novos tipos de mulheres e de homens em novas circunstâncias sociais. Teóricas feministas do século XX, como Simone de Beauvoir, questionaram a pretensão masculina de se apropriar do significado universal da humanidade e de constituir as mulheres como o Outro. Esta pretensão não era, obviamente, inocente, como assinala Beauvoir na introdução de segundo sexo, citando uma frase de François Poulain de la Barre escrita no século XVIII: "Tudo o que tem sido escrito pelos homens acerca das mulheres deve ser considerado suspeito, pois eles são, ao mesmo tempo, juiz e parte". o problemático, destaca Beauvoir, é que toda a história das mulheres foi feita pelos homens e, neste sentido, o problema da mulher foi sempre um problema de homens (Beauvoir, 1977, p. 17). feminismo da "segunda os homens e o masculino Segundo um relato agora nos anos 1970, algumas representantes do feminismo liberal estadunidense, como Betty Friedan e a National Organisation for women [Organização Nacional das Mulheres], lutaram para garantir o acesso igualitário de mulheres e homens aos recursos e oportunidades sociais e estimularam as mulheres a exercer atividades que tinham sido, até então, reservadas aos homens. A grande maioria das feministas da época se dedicou 21 É importante assinalar que esta periodização das três ondas do feminismo tem sido amplamente questionada por sua pretensão de homogeneizar, em um só relato hegemônico, as trajetórias do feminismo em diferentes contextos geopolíticos.</p><p>38 Mara Viveros Vigoya à luta pela igualdade de gênero no plano jurídico, nos meios de comunicação, no seio do Estado e no trabalho; poucas se afastaram dos feminismos liberais reivindicando a diferença das mulheres e seu reconhecimento (Fraser, Entre meados dos anos 1970 e 1980, as correntes feministas da diferença ou feministas culturais, prevalecentes nos Estados Unidos, estimularam a reavaliação da feminilidade, opondo-se à subvalorização androcêntrica e sexista do mérito das mulheres e de seus corpos e emoções. Um dos trabalhos mais conhecidos desta corrente é In a Different Voice: Psychological Theory and Women's Development [Em uma diferente: teoria psicológica e desenvolvimento das mulheres], de Carol Gilligan (1982). A autora se opunha às abstrações universalistas, rejeitando, em particular, a teoria das fases do desenvolvimento moral, elaborada por Lawrence Kohlberg sobre um modelo masculino instituído como referência. Uma das críticas mais radicais às representações em vigor da sexualidade feminina foi a proposta pela psicanalista francesa Luce Irigaray (1974), que evidenciou o caráter falogocêntrico das interpretações freudianas e lacanianas da sexualidade feminina. Ela e Drucilla Cornell (1998) mostraram que estas imagens da feminilidade mascaravam a debilidade e vulnerabilidade dos homens, atormentados por suas angústias de castração. Para Cornell, este tipo de insegurança podia motivar uma política pró-feminista por parte dos homens, que encontrariam interesse em acompanhar as lutas do feminismo contra a ordem de gênero e assim minar também os inalcançáveis padrões de masculinidade. No entanto, nem todas as feministas percebiam os homens como possíveis Na mesma época, trabalhos como o da jurista estadunidens Catherine MacKinnon (1979) assinalaram a opressão das mulheres pelos homens como a primeira e mais persistente de todas as opressões. Para ela, os homens e a supremacia masculina, que os define enquanto homens, eram o inimigo principal das mulheres, representadas como suas vítimas. A conquista da igualdade de gênero implicava, em seu ponto de vista, a abolição ou a transformação radical da masculinidade. De acordo com MacKinnon, o que define o sexo e a mulher é a expropriação organizada de sua sexualidade pelos homens (MacKinnon, 1979, p. 515). Nesta perspectiva, para MacKinnon e sua colega Andrea Dworkin, a luta contra a pornografia é um dos principais campos de batalha para as mulheres contra um a</p><p>Para além do binarismo: teorias feministas, homens e masculinidades 39 prática de desigualdade, discriminação e exploração masculina que gera violência. Teóricas como a geógrafa Joni Seager (1993), identificaram liames estreitos entre a guerra e o culto militarizado da masculinidade, bem como entre os problemas ambientais e a cultura masculina das instâncias decisórias neste domínio. Segundo Seager, a cultura "masculinista", com seus pressupostos competitivos e suas prerrogativas não questionadas, é a cultura institucional responsável pelas maiores calamidades ambientais. Nesse sentido, as tentativas masculinas de dominar a natureza não são apenas nocivas, mas em perigo a sustentabilidade dos recursos naturais e ecossistemas necessários para a vida humana no planeta (Tickner, 1992). Exorta os homens a cessar sua cumplicidade com a perpetuação do poder masculino, a militarização global e a depredação da natureza. Encoraja também as mulheres feministas e os movimentos ambientais a admitir que a agenda política ecofeminista só poderá avançar desfazendo os vínculos entre as estruturas institucionais masculinistas e os desastres ambientais. Em contraste com as teorias feministas radicais mencionadas anteriormente, algumas feministas, como a socióloga e psicanalista Nancy Chodorow, propuseram outro tipo de explicação da violência masculina. Em seu livro The reproduction of mothering [A reprodução da maternidade], escrito em 1978, Chodorow sustenta que a agressividade masculina e outros atributos tradicionalmente associados à masculinidade são fruto de certas práticas sociais como a educação infantil, atribuída quase exclusivamente às mães e da qual foram isentos os pais. Em sua perspectiva, uma criação compartilhada poderia produzir estruturas de personalidade mais igualitárias e oferecer a todas as pessoas oportunidades até o momento limitadas a cada sexo de forma separada (Chodorow, 1978). Igualmente, pessoas de ambos os sexos poderiam ter uma maior flexibilidade na escolha de seus objetos sexuais. Estes argumentos foram muito criticados por negligenciarem o fato de que essas transformações exigiam importantes modificações nos estilos de vida masculinos, bem como por subestimarem o efeito da dominação social, das diferenças culturais e históricas e das diferenças entre os indivíduos de mesmo 22 Mais tarde, retomando suas teorias sobre a educação das(os) filhas(os), Chodorow</p><p>40 Mara Viveros Vigoya Enquanto os debates feministas estadunidenses se concentravam na dicotomia entre poder masculino e a falta de poder das mulheres ou nas diferenças psicológicas entre homens e mulheres, do outro lado do Atlântico, se desenvolveu uma outra reflexão sobre os sexos, não como categorias "biossociais", mas enquanto classes, no sentido marxista, constituídas por e nas relações de poder dos homens sobre as mulheres (Mathieu, 2000). A partir do feminismo materialista francês, autoras como Nicole Claude Mathieu (1991), Christine Delphy (2001), Paola Tabet (1998), Colette Guillaumin (1992) e Danièle Kergoat (2000) propuseram que as dominações não eram naturais, mas sim construídas sobre bases materiais, constituindo grupos dominantes e grupos dominados. Christine Delphy (2001), uma das figuras principais desta corrente, precisou, além disso, que as relações de poder dos homens sobre as mulheres constituíam o eixo central da definição mesma do gênero e de sua primazia sobre o sexo. Um dos conceitos chaves desta corrente é o de "patriarcado", entendido como sistema de subordinação das mulheres baseado nas relações econômicas (Delphy, 2001, p. 141). Neste sistema, as mulheres são descritas como uma "classe" fundada sobre a produção de um trabalho doméstico gratuito que permite definir sua opressão e exploração em termos completamente materiais (Bereni et al., 2008, p. 23), de modo que a divisão sexual do trabalho e as relações sociais de sexo (rapports sociaux de emergem como termos formando um sistema epistemológico (Kergoat, 2000, p. 40). As sociólogas Anne-Marie Daune-Richard e Anne-Marie Devreux assinalaram com pertinência que, para compreender completamente o funcionamento de uma relação social, era necessário analisar "ce qui amène chacune des deux catégories en présence à tenir la position dans laquelle elle est par rapport à l'autre" que leva cada buscou explorar os nexos culturais entre masculinidade, nacionalismo e violência, e relacionar a participação dos homens em atos de agressão e violência com os ciclos que revezam, durante a infância, as situações de humilhação e dominação entre homens adultos e jovens rapazes, em diferentes culturas (Chodorow, 2002). 23 É pertinente assinalar as reticências causadas pela polissemia da palavra gênero nas línguas latinas como o castelhano (Lamas, 1996). No caso francês, as resistências à adoção do termo gênero não diziam respeito ao seu caráter polissêmico, mas sim ao risco de eliminar a dimensão política (das relações de poder) integrada na conceitualização das relações sociais de sexo.</p><p>Para além do binarismo: teorias feministas, homens e masculinidades 41 uma das duas categorias presentes a ocupar a posição na qual está em relação à outra]. Nesse sentido, justificaram a importância de analisar "les pratiques, les représentations et les modes d'insertion des hommes dans les différents champs de la société" [as práticas, as representações e os modos de inserção dos homens nos diferentes campos da sociedade] (Daune-Richard & Devreux, 1992, p. 23). Os estudos sobre masculinidade A necessidade de enfatizar a dimensão relacional do conceito de gênero surgiu desde o início desses estudos. Não obstante, a maioria das pesquisas centraram sua atenção nas mulheres em razão da dificuldade de superar o individualismo metodológico para pensar em termos político-relacionais (Stolcke, 1996), e também porque as mulheres têm sido as principais afetadas pelas práticas patriarcais (Armengol & Carabi, 2008). Apesar desses obstáculos, repensar e redefinir a masculinidade se tornou uma urgência que fez emergir, nos anos 1970, um novo campo de estudos nas universidades estadunidenses. Os Men's Studies ou "Estudos das masculinidades", como prefere chamá-los Michael Kimmel (2008), um de seus precursores, nutriram-se de contribuições de diferentes movimentos sociais como o dos direitos civis, o movimento feminista e o movimento de liberação gay, e de seus questionamentos sobre os privilégios e a hegemonia do homem branco heterossexual. Esses trabalhos foram, em algumas oportunidades, acompanhados por grupos de homens militantes, como a National Organization for Men Against Sexism [Organização Nacional de Homens contra o Sexismo] (NOMAS), que buscaram apoiar os esforços do feminismo para promover a igualdade entre mulheres e homens em todos os âmbitos sociais. nexo entre esses grupos e os núcleos de pesquisa foi fundamental para a consolidação deste novo campo de pesquisa nas universidades Os estudos das masculinidades seguiram basicamente duas orientações distintas: as que se definem como aliadas do feminismo e as que reivindicam uma análise autônoma da masculinidade (Kimmel, 1992). As primeiras analisaram a construção social da masculinidade e têm sido realizados por homens que afirmam os seus vínculos com movimento feminista e os desenvolvimentos da</p><p>42 Mara Viveros Vigoya teoria feminista. As segundas foram influenciadas por uma literatura de ampla difusão inspirada no movimento mito-poético surgido ao redor do livro de Robert Bly, Iron John: a book about men [João de Ferro: um livro sobre homens]. A partir dos contos dos irmãos Bly descreve o desenvolvimento masculino e a profunda nostalgia que os homens sentem de uma vida com significado e que deixe marcas. Em relação às disciplinas sociais que os orientaram, os trabalhos publicados na América do Norte nos anos 1970 e 1980 surgiram dos campos da psicologia e da sociologia, enquanto nos anos 1990, as análises culturais e literárias da masculinidade ganharam particular importância (Kimmel, 2008). A socióloga australiana Raewyn Connell tem sustentado uma posição muito influente e interessante na primeira dessas duas orientações, pró-feminista. Desde o início de seu trabalho acadêmico, como Robert William Connell, propõe que as principais correntes de pesquisa sobre as masculinidades falharam em produzir um conhecimento científico coerente porque não as integraram às estruturas de gênero mais amplas "como forma de ordenamento da prática social" (1997, p. 35). Também porque não pensaram a masculinidade "como uma posição no seio das relações de gênero, um conjunto de práticas pelas quais homens e mulheres se comprometem com essa posição, e os efeitos dessas práticas na experiência corporal, na personalidade e na cultura" (2014b, p. 65). É importante precisar que, para Connell, o gênero, enquanto estrutura, deve ser abordado considerando as diferenças, mas também as interações entre três tipos de relações: as de poder, as de produção e as de (vínculo emocional), organizadas em torno do desejo sexual. Entre as definições da masculinidade, Connell (1997) identifica quatro enfoques cujas lógicas são distintas, mas que se superpõem constantemente na prática. No enfoque "essencialista", o núcleo do masculino é definido em torno de um traço central (a atividade para a psicanálise, por ao qual se acrescenta 24 o termo utilizado por R. Connell é cathexis, proposto por James Strachey para traduzir o conceito freudiano Besetzung para o inglês. Na tradução das obras completas de Freud no Brasil pela Imago, feita a partir da edição inglesa, foi adotado o termo "catexia", o qual é atualmente considerado impróprio para os investimentos libidinais de um sujeito sobre ou em direção a seus objetos. (N.T.) 25 Algumas formulações psicanalíticas associaram, de forma oposicional, a atividade</p><p>Para além do binarismo: teorias feministas, homens e masculinidades 43 uma série de características próprias das vidas dos homens. o enfoque "positivista" propõe uma definição simples da masculinidade: o que os homens realmente são. Este enunciado é a base lógica das escalas de feminilidade/masculinidade na psicologia ou das descrições etnográficas do que se denomina o modelo de masculinidade. o enfoque de tipo "normativo" reconhece as diferenças entre homens e propõe que a masculinidade é o que os homens deveriam Cada homem se aproximaria em maior ou menor medida desta norma, porém poucos se adequariam plenamente a ela, o que suscita o questionamento da legitimidade desta. Finalmente, os enfoques "semióticos" definem a masculinidade a partir de um sistema de diferenças simbólicas que contrastam as posições do masculino e do feminino. Na oposição a masculinidade é lugar da autoridade simbólica" enquanto a feminilidade é definida pela falta dessa característica. importante, para Connell, não é definir a masculinidade de forma mais ou menos inclusiva, mas sim centrar- se na análise dos processos e relações por meio das quais homens e mulheres desenvolvem uma existência organizada pelo gênero. A abordagem do gênero como estrutura organizadora da prática social supõe, ainda, incluir suas interações com outras estruturas sociais como a raça, a classe, a nacionalidade ou a posição na ordem mundial. Dito de outra forma, entender o gênero exige "constantemente mais além do próprio já que as relações de gênero são um componente principal da estrutura social como um todo" (Connell, 1997, p. 38). Em resumo, estudar as masculinidades, concebe Connell, é investigar teórica e empiricamente a lógica e as complexidades internas das masculinidades, no interior da estrutura de gênero e na sua relação com outras estruturas sociais como a origem étnica, a raça e a classe. Isso permite romper com pressuposto de que a masculinidade é uma qualidade essencial e estática e entender que é, pelo contrário, uma manifestação histórica, uma construção social e uma criação cultural cujos significados variam segundo as pessoas, as sociedades e as épocas (Connell, 1997; Kimmel, 1997). Levar em conta a articulação da masculinidade com as diferenças étnico-raciais, nacionais ou de classe comporta o risco de simplificar esses nexos, ao ponto de se afirmar a existência de uma masculinidade "negra" ou de classe trabalhadora (Connell, à masculinidade e a passividade à feminilidade.</p><p>44 Mara Viveros Vigoya 2014a, p. 73). Entretanto, trata-se não apenas de reconhecer as múltiplas masculinidades, mas também de entender as relações que elas mantêm entre si e identificar as relações de gênero que operam dentro delas (Connell, 1997). Um dos principais aportes do trabalho de Connell é sua contribuição para a distinção das múltiplas formas de masculinidade, mediante a formalização do conceito de "masculinidade hegemônica" como uma "configuração das práticas de gênero que buscam assegurar a perpetuação do patriarcado e a dominação dos homens sobre as mulheres" (Connell, 1995, p. 77). Para Connell (2014b), a masculinidade hegemônica não é um tipo de personalidade imutável, mas a masculinidade que está em posição hegemônica em uma estrutura dada de relações de gênero, uma posição que está, além disso, sempre sujeita a questionamentos. Como enfatizam Hagège e Arthur Vuattoux (apud Connell, 2014b, pp. 11-12), na introdução do livro Masculinité: enjeux sociaux de l'hégémonie [Masculinidade: questões sociais da hegemonia], esse conceito permite "construire une réflexion sur les masculinités au sein des études de genre" [construir uma reflexão sobre as masculinidades no seio dos estudos de e a obra Masculinities vai "cristalliser des enjeux politiques de positionnement face aux détournements masculinistes du concept [de masculinité [cristalizar questões políticas de posicionamento em face dos desvios masculinistas do conceito [de masculinidade hegemônica]]. Nos anos 2000, a reflexão do filósofo e sociólogo britânico Victor Seidler (1987; 2007) teve muito sucesso no mundo acadêmico e militante. Seidler considera que trabalhos como o de Connell são muito úteis para analisar, descrever e explicar as sociedades sexistas, porém insiste na necessidade de melhor compreender a dinâmica da emoção, da comunicação, do poder, das contradições da experiência de vida dos homens e das demandas das novas gerações no contexto atual (2007). Seu trabalho destaca uma forte identificação da masculinidade dominante com a modernidade, marcada pela moral protestante e pelo colonialismo. Ao mesmo tempo, mostra que a masculinidade moderna, definida pelos homens das classes e raças hegemônicas da época, foi intimamente ligada à razão instrumental, em oposição à natureza e à emoção (1997). A ênfase na racionalidade masculina permitiu estabelecer a ideia de que os homens são seres racionais que podem legislar para</p><p>Para além do binarismo: teorias feministas, homens e masculinidades 45 outros, mas sem levar em conta os grandes prejuízos que, segundo Seidler, esta presunção trouxe para os próprios homens. Negando para si mesmos o reconhecimento de sua dimensão corporal e emocional, eles não sabem como integrá-la de maneira construtiva, dando lugar algumas vezes a violências dirigidas contra outras pessoas ou contra si mesmos. Para Seidler (2007), é preciso que os homens redescubram seu corpo e sua emotividade, que desenvolvam novas solidariedades entre eles, aprendam a cuidar de si mesmos e a manejar seus sentimentos, sem delegar essa tarefa às mulheres próximas. o autor propõe criar grupos de reflexão de homens, como ferramentas de luta contra a desigualdade de gênero e contra o isolamento individualista que lhes censura o afeto e a proximidade entre homens. A partir de finais dos anos 1970, alguns trabalhos sobre a masculinidade também foram publicados na França. Eles foram em sua maioria elaborados por autoras(es) que buscavam compreender os efeitos dos questionamentos feministas sobre a identidade masculina. Uma obra clássica deste tipo foi o trabalho acadêmico e militante de Nadine Lefaucheur e Georges Falconnet, intitulado La fabrication des [A fabricação dos machos], publicado em 1975. A partir da análise de trinta entrevistas e de quatrocentos anúncios publicitários, o estudo buscou identificar conteúdo da ideologia masculina" e explicar como se constrói a identidade social masculina através das experiências masculinas no casal, no âmbito esportivo, no exército etc. Um de seus principais méritos foi ter dado a palavra a homens que questionavam os modelos de vida masculina. Neste sentido, assinala Devreux (1999), a pesquisa antecipou alguns dos temas que se tornariam centrais nos trabalhos posteriores sobre os homens e se situou no marco de um projeto antissexista que buscava traçar novas relações entre os homens, mas também com as mulheres e as(os) filhas(os). Durante as décadas de 1980 e 1990, algumas sociólogas, antropólogas e psicólogas como Anne-Marie Devreux (1988; 1998; 1999), Huguette Dagenais (1998), Michèle Ferrand (1984), Christine Castelain-Meunier (1988) e Pascale Molinier (1999), entre outras, continuaram questionando sobre silêncio dos homens" e a identidade masculina no mundo e também sobre os homens como seres sexuados e não como referências universais. Os números especiais de revistas e eventos acadêmicos dedicados ao</p><p>46 Mara Viveros Vigoya tema da masculinidade e, a amiúde, das masculinidades no plural se multiplicaram nestas décadas. Também foram realizados vários programas de pesquisa sobre as violências masculinas (Welzer- Lang; Barbosa & Mathieu, 1994) e sobre a virilidade defensiva nos âmbitos profissional e doméstico (Dejours, 1993; Molinier, 1999; 2002), que ressaltam a centralidade do trabalho e da sexualidade no sistema de gênero. Muitos dos trabalhos franceses sobre as masculinidades realizados por homens foram criticados por parte de suas colegas feministas que tinham estudado o tema. Elas apontaram o foco na noção de papel, no desconforto masculino e seu desinteresse pelas práticas e representações dos homens como grupo social dominante que gera e reproduz uma posição de dominação (Devreux, 1999). Apesar de alguns trabalhos como os de Pascal Duret (1999) ou de Christophe Dejours (1988) afirmarem que a identidade masculina não podia escapar às relações de sexo, continuavam, segundo Devreux, presos a uma conceptualização das diferenças entre os sexos em termos de papéis, capazes de se transformar sem afetar a estrutura e a relação social que os produz. Paralelamente, esta socióloga questionou a equiparação entre as especificidades femininas e as masculinas por desconhecer o que a teoria feminista havia proposto ao longo de sua existência: se os homens constituem uma categoria social de sexo específica é porque estão coletivamente em posição de dominação em relação às mulheres (Devreux, 1988). Para ela, e para o feminismo materialista francês em geral, é fundamental reconhecer que, como grupo social, os homens se beneficiaram da subordinação das mulheres como grupo social, apesar das grandes disparidades que existem nas vantagens atribuídas a certos homens ou subgrupos de homens comparativamente a outros homens e às mulheres. o trabalho de Pierre Bourdieu (1990; 1998) sobre a dominação masculina merece uma menção particular entre os estudos franceses sobre os homens e a masculinidade e na relação entre esses estudos e o feminismo pela importância intelectual e midiática do autor no panorama das ciências sociais. Bourdieu introduz seu artigo "A dominação masculina" (1990) sublinhando que "a suspeita preconceituosa que a crítica feminista lança frequentemente sobre os escritos masculinos tem fundamento". Esta primeira afirmação poderia levar a pensar que o autor vai</p><p>Para além do binarismo: teorias feministas, homens e masculinidades 47 se afastar da tradição masculina do tratamento tendencioso do tema para dialogar com os trabalhos feministas, criticando este viés interpretativo. No entanto, a obra de 1998 suscitou muitos dissabores nas leitoras feministas: as observações justas coabitam com seus desacertos e seu desconhecimento da produção teórica feminista, principalmente francesa, é flagrante. Em La domination masculine [A dominação masculina], Bourdieu realiza uma extensa e lúcida abordagem dos mecanismos que subjazem de forma quase universal (aparentemente) a relação de domínio dos homens sobre as mulheres. Ele constrói a reflexão a partir da extrapolação de uma análise das relações homens-mulheres na Cabília nos anos 1960, do estudo de uma das obras de Virginia Woolf e da socioanálise de alguns dos principais postulados da psicanálise. Não obstante, sua argumentação não supera as limitações do "masculinismo (Mathieu, 1999; Thiers-Vidal; 2002; 2004) de outros autores na "descrição do status quo" das mulheres e em uma espécie de "reconhecimento e confirmação desse status quo". Para Bourdieu, as mulheres feministas não dispõem de categorias de análise da realidade social diferentes das que respondem à ordem simbólica que se instaura sobre a diferença sexual, de forma que não escapam à dominação que pretendem combater. Ele nunca considera a possibilidade de abolir a masculinidade como forma de subjetividade e prática de opressão; pelo contrário, tenta salvaguardá- la, diferenciando-a da virilidade, que em sua "verdade de violência" seria seu aspecto negativo (1998, p. 58). Bourdieu (1990) considera necessário um equipamento teórico diferente para dar conta da dominação masculina, mas não enuncia claramente o que este seria e desenvolve pontos de vista Por um lado, desnaturaliza o destino socialmente atribuído às mulheres e, por outro, incorre em uma espécie de 26 A partir da análise efetuada por Nicole-Claude Mathieu (1999), Léo Thiers- Vidal (2004) resume o "masculinismo teórico" de Bourdieu da seguinte maneira: ele ignora as contribuições do trabalho teórico fundador das teorias feministas francófonas; privilegia a análise da dimensão simbólica da dominação masculina em detrimento dos aspectos materiais da opressão das mulheres; apresenta, com poucas uma visão desencarnada e despolitizada das relações sociais de sexo; vitimiza e desresponsabiliza os homens; e, finalmente, recusa considerar qualquer influência das circunstâncias histórico-materiais na forma pela qual os homens pensam as relações sociais de sexo.</p><p>48 Mara Viveros Vigoya naturalização da autoexclusão e da inclinação a "sucumbir à sedução do poder", minimizando com um "realismo conservador" o alcance de uma ação coletiva transformadora da qual os homens não poderiam participar a não ser "escapando à armadilha do privilégio" (p. 30). Além disso, ele critica algumas posturas feministas por tentarem universalizar um masreconhece que os homossexuais "podem pôr a serviço do universalismo [...] as vantagens ligadas ao particularismo" (Bourdieu, 1998, p. 134). Finalmente, a ruptura de tom em seu "post-scriptum sobre a dominação e o amor" não deixa de surpreender quando o autor pergunta se o amor é uma à lei da dominação masculina" e "uma suspensão da violência (1998, p. 116). Ainda que seja apreciável seu desafio por incluir o tema dos afetos e das emoções em sua reflexão acadêmica sobre a dominação masculina privilégio que uma pesquisadora em ciências sociais não poderia exercer sem riscos de censura sua explicação antropológica da "trégua milagrosa" da dominação que o amor permitiria carece de clareza. Na França, nos últimos dez anos, têm se desenvolvido numerosos trabalhos e eventos acadêmicos sobre a masculinidade, com diferentes perspectivas disciplinares e enfoques Vale a pena mencionar trabalhos históricos como o de George Mosse (1997), o de Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello (2011) e seminários como a Journée d'études "Histoire des masculinités en France": 1789-1945 [Jornada de Estudos EFiGiES "História das masculinidades na França": 1789-1945], realizado em agosto de 2006. o primeiro dos trabalhos citados, L'image de l'homme: l'invention de la virilité moderne [A imagem do homem: a invenção da virilidade moderna], traça a evolução do estereótipo masculino e sua ancoragem na história ocidental moderna desde o nascimento da sociedade burguesa. Mosse se interessa pela relação desse estereótipo com as convenções morais da modernidade, o nacionalismo europeu, o fascismo e onazismo e pela oposição entre as masculinidades ideais do escoteiro, do ginasta, do soldado moderno e do aventureiro, e as masculinidades estigmatizadas de judeus, ciganos e o segundo trabalho, Histoire de la virilité [História da virilidade], publicado posteriormente (2011), preenche 27 EFiGiES é uma associação de jovens pesquisadoras/es em Estudos Feministas, de Gênero e Sexualidade com sede em Paris, França. (N.T.)</p><p>Para além do binarismo: teorias feministas, homens e masculinidades 49 um vazio existente na história cultural sobre as representações da virilidade. Da Antiguidade grega e romana ao século XXI europeu, o livro rastreia as variações temporais e os diferentes contextos de uma matriz comum ao modelo de masculinidade que os autores definem como um "ethos viril, hégémonique, fondé sur un idéal de force physique, de fermeté morale, de puissance sexuelle et de domination masculine" [ethos viril, hegemônico, fundado sobre um ideal de força física, de firmeza moral, de potência sexual e de dominação masculina]. Enquanto o livro de Corbin, Courtine e Vigarello atribui pouca importância aos contrapontos críticos a esta matriz e às relações entre a virilidade e o poder político (Edelman et al., 2012; Molinier, 1999), o seminário sobre "A história das masculinidades na França entre 1789 e 1945" propôs uma reflexão sobre os homens enquanto categoria particular das relações de gênero e uma leitura das construções, discursos, práticas e representações das masculinidades que se articula às noções de dominação e de poder. Para finalizar este percurso breve e parcial pelos trabalhos sobre masculinidade em língua francesa, mencionar uma das raras pesquisas sobre masculinidades contemporâneas na África e uma compilação de trabalhos de geografia sobre o caráter sexuado dos espaços e o conhecimento produzido sobre eles. primeiro trabalho é o número duplo 209-210 da revista Cahiers d'études africaines [Cadernos de estudos africanos], coordenado por Christophe Broqua e Anne Doquet (2013). Os artigos reunidos questionam a pertinência do modelo binário masculino/feminino para dar conta das masculinidades no continente africano. Mostram, ao mesmo tempo, a ampla variabilidade das representações da masculinidade e a influência do status social, do lugar na estrutura do parentesco e, particularmente, o critério geracional nestas representações. Igualmente, evidenciam as lógicas de gênero nas violências masculinas, das quais os homens são, ao mesmo tempo, sujeitos e objetos, e as disputas entre as diferentes masculinidades para impor sua o segundo trabalho também propõe novos questionamentos sobre as masculinidades, desta vez no campo da geografia. Les espaces des masculinités [Os espaços das masculinidades] (2012), livro coordenado por Charlotte Prieur e Louis Dupont, analisa o caráter sexuado da produção do saber na disciplina da geografia, a produção relacional das masculinidades plurais e a questão do</p><p>50 Mara Viveros Vigoya poder e da dominação masculina no e através do espaço. Esses temas são explorados em terrenos e configurações identitárias muito diversos: o Bosque de Vincennes, as prisões, Austrália e Canadá, masculinidades normativas, homossexuais, trans, queer e femininas. Os trabalhos em língua francesa, como os mencionados nesta seção, contribuem para consolidar uma perspectiva relacional que apreende o gênero como uma categoria fundamental de análise e da transformação do social. o surgimento das diferenças entre mulheres e sua relação com a masculinidade A partir da metade dos anos 1980, o eixo da discussão feminista se deslocou em direção às diferenças entre as mulheres e entre os homens (Fraser, 1997). Recordemos que, até este momento, o debate havia privilegiado a oposição entre "a mulher" e "o homem", deixando de lado a análise das diferenças entre mulheres e entre homens, segundo classe social, pertencimento étnico e racial, idade e orientação sexual. Algumas das principais teóricas do Black Feminism, como Michelle Wallace (1978; 1982), Angela Davis (1981), bell hooks e Audre Lorde (1984) examinaram de forma crítica as dificuldades experimentadas por homens negros para alcançar as metas que as versões hegemônicas da masculinidade lhes impunham, sem deixar de lado as características sexistas de certas formas de masculinidade negra. Michelle Wallace, por exemplo, começa seu livro Black macho and the myth of the superwoman [0 macho negro e mito da supermulher] (1978) afirmando que os homens afro-americanos foram despojados de sua masculinidade pela supremacia branca. Por esta razão, argumenta que o cartaz que dizia / am a man [Eu sou um homem] que os coletores de lixo mobilizados por Martin Luther King carregavam em 1968 não era uma afirmação tautológica, mas uma reivindicação de seu direito à dignidade humana. Por outro lado, segundo Wallace, durante o período do movimento Black Power, "muitos homens afro-americanos chegaram a crer que a masculinidade e a autoridade masculina sobre as mulheres eram parte essencial de sua liberação" (Wallace apud Gardiner, 2005, p. 43). Em texto posterior, A black feminist's search for sisterhood [A busca</p><p>Para além do binarismo: teorias feministas, homens e masculinidades 51 de uma feminista negra por sororidade] (1982), Wallace questiona o sentido de ser mulher quando se é uma mulher negra, lembrando com veemência os preceitos que os homens negros revolucionários impunham às suas irmãs nos campi universitários dos anos 1970, para que se mantivessem em "seu lugar". Ela recorda também como as mulheres brancas e os homens negros se iludiram com as possibilidades de emancipação que o encontro amoroso inter-racial podia significar, como se ter estas relações sexuais e proclamá-las fosse uma expressão suficiente de luta contra o racismo e o sexismo. A autora assinala que, embora as relações amorosas inter-raciais possam efetivamente ser uma expressão antirracista, não o são por natureza e não podem sê-lo se não questionam o racismo como um fenômeno Em Talking back: thinking feminist, thinking black pensando feminista, pensando negra], bell hooks (2015) enfatizou a necessidade de lutar contra a dominação sexista dos homens negros sobre as mulheres negras, dentro e fora da família, e a importância de evidenciá-los nos escritos das mulheres negras. Também afirmou a necessidade de redefinir os termos do movimento de liberação negro de um modo não sexista e revolucionário. Hazel Carby (1987), na mesma linha, questionou a pertinência de certos conceitos como o de patriarcado para tratar das experiências de gênero das pessoas negras e pobres. Ela observa, por exemplo, que nem todas as mulheres são dominadas por todos os homens e sublinha que o tratamento diferenciado dos homens negros em um regime imperial ou colonial que se traduz em um maior desemprego que o das mulheres negras evidencia a inadequação do conceito de patriarcado para explicar por que os homens negros nunca obtiveram os benefícios do patriarcado branco. Enquanto a estratégia feminista branca foi separatista, a das 28 Na França, em uma entrevista dada a Vacarme (http://www.vacarme.org/ article2738.html), Houria Bouteldja tem uma posição similar, ainda que referida a outro contexto, quando observa: "Je ne crois pas que cette question [la mixité] se résolve au niveau du couple, elle se résout au niveau de la société et plus exactement au niveau du politique. se résout au niveau de la transformation des rapports sociaux, pas au niveau de l'amour ou des relations interpersonnelles" [Eu não acredito que esta questão [a mistura] se resolva no nível do casal, ela se resolve no nível da sociedade e mais precisamente no nível da Isso é resolvido com a transformação das relações sociais, não no nível do amor ou dos relacionamentos interpessoais.] (N.T.)</p><p>52 Mara Viveros Vigoya feministas de cor tomou outro caminho, como o exemplifica muito bem o Manifesto do Coletivo do Rio Combahee em 1974. 29 Nele, o "luxo do separatismo branco" é recusado em benefício da solidariedade com os homens negros, pois, como as mulheres, eles são vítimas da discriminação racial. o coletivo destacou a necessidade de constituir um espaço político de alianças e lutas comuns que incluía os homens racializados, para combater não somente a dominação de gênero e de classe, mas também o racismo e o heterossexismo. Propôs- se desenvolver uma análise e uma prática baseadas no princípio, segundo o qual, a imbricação dos sistemas de opressão racial, sexual, heterossexual e de classe tornava difícil sua distinção na experiência concreta das mulheres racializadas. Uma das contribuições mais importantes do Black Feminism à desnaturalização das categorias de raça e sexo foi sua oposição a todo tipo de determinismo biológico e, nesse sentido, também à essencialização dos homens por sua condição As mulheres negras têm tido consciência de que as experiências das mulheres e dos homens negros estão unidas por solidariedades objetivas e subjetivas, ainda que isso não signifique que as mulheres negras devam descuidar-se ou tolerar mais o sexismo dos homens negros que o dos demais. A esses postulados se somaram as reflexões propostas pela crítica pós-colonial que coincidiu com o Black feminism em sua análise da masculinidade como construção histórica e cultural específica. Diferentes autoras e autores argumentaram que, nos contextos coloniais, a masculinidade não podia ser analisada como uma simples transposição de um modelo construído na e exportado para as colônias, mas como uma configuração de gênero na qual se entrecruzam diferentes eixos de poder (classe, raça, status e diversas dinâmicas que vinculam colonialismo 29 Esta Declaração é de uma organização feminista lésbica radical que recebeu o nome de uma ação de libertação de 750 escravas(os) conduzida por Harriet Tubman em 1863 em Combahee A Declaração manifestava a vontade delas de lutar simultaneamente contras as diferentes formas de opressão: racial, sexual, heterossexual e de classe. 30 Africanos, árabes, asiáticos ou nativos americanos nunca constituíram grupos homogêneos, diferente dos colonizadores. Os primeiros foram feminizados ou hipervirilizados com base em seu status de colonizados e para responder às necessidades específicas de cada processo colonial. Os homens colonizados nunca foram os que definiram a masculinidade ideal, mas aqueles cuja "masculinidade"</p>