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<p>Contextualização Ao avistarmos uma pessoa que passa fome, um pedinte, e ao ouvirmos alguém que necessita de escuta em um dia do nosso acelerado cotidiano, podemos não ter tempo para ajudá-los. Mas aquele pedido pode nos fazer pensar, deter e levar a ajudá-los. Podemos tornar essa ajuda ao próximo um aspecto constante, e o sentido de nossas vidas. No cristianismo encontramos um ensinamento fundamental, presente no Novo Testamento -que o amor ao próximo (caridade) nos coloca em contato com Deus. A caridade vem acompanhada da fé e da esperança, formando assim, três virtudes que foram chamadas de teologais. Trata-se, pois, de excelências que fundamentam a ética e anunciam um modelo de teoria das virtudes que incorporam algo das teorias clássicas (greco-romanas) e trouxe para a ética a dimensão fundamental da relação com o próximo, que pode ser expandida para a própria natureza. Papa Francisco reforça que a economia deve estar ligada à ética Papa Francisco assinalou que "a economia produz um serviço ao bem comum se for ligada à ética, que é medida universal do autêntico bem humano", [pois] "tudo está interligado: a natureza e a sociedade que a habita". [...] há contradições na sociedade moderna: "por um lado a prevalência de critérios unicamente econômicos e de atividades dirigidas ao consumo e, por outro, manifesta-se cada vez mais a incapacidade de conciliar a justa distribuição de renda com a valorização das perspectivas de desenvolvimento. "Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. [...] Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior. Fonte: Laudato Sí, 2019. Papa Francisco, ao afirmar na Encíclica Laudato Sía perspectiva franciscana de uma ecologia integral, assinala a importância de compreendermos a situação do ser humano na natureza, e a necessidade de um cuidado da própria casa, ou seja, da Terra que está diretamente ligado com a caridade.</p><p>que é ECOLOGIA INTEGRAL? Conceito mais para a ecologia, contemplando as dimensões humanas e sociais. Integração Todos os seres vivos Dimensão Dimensão Dimensão Dimensão Dimensão AMBIENTAL ECONOMICA SOCIAL CULTURAL VIDA COTIDIANA As reflexões do Papa Francisco acerca da Ecologia Integral ao conduzir problematizar as ações humana sobre a Terra, [...] "sobre o cuidado da casa comum", ilustram o quanto os aspectos relacionados à teoria das virtudes, filosoficamente desenvolvida na Idade Média, vem sendo debatida por filósofos e teólogos que estudam o pensamento medieval e a filosofia cristã. Com as palavras do Pontífice, convidamos você a conhecer a Teoria das Virtudes, pois é necessária quando alerta o quanto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior. (Laudato 10) Construção conceitual e atuação investigativa No Texto Multimodal 1 você fará uma introdução à teoria das virtudes, que foi desenvolvida filosoficamente durante o período medieval. Até hoje essa teoria é debatida entre filósofos e teólogos que estudam o pensamento medieval e a filosofia cristã. Nesta introdução, você encontrará uma perspectiva teórica sobre a importância da teoria das virtudes na ética cristã, apenas considerando, indiretamente, o ensinamento teológico com o qual dialoga essa teoria. Até o Módulo III, você estudou algumas das mais importantes teorias da virtude nas éticas da antiguidade, desde Sócrates até o helenismo e o estoicismo romano. A partir da influência do cristianismo, gradualmente o mundo ocidental foi absorvendo a doutrina até ela se tornar o eixo principal da filosofia medieval. Não faremos um estudo abrangente de todos os períodos, fases, pensadores e teólogos que desenvolveram teorias nesse período. Propomos um estudo pontual sobre a teoria das virtudes, cujo núcleo permite compreender como os filósofos medievais adaptaram as teorias clássicas da virtude à mensagem do cristianismo.</p><p>TEXTO MULTIMODAL A teoria das virtudes no cristianismo Prof. Dr. Fabio Caprio Leite de Castro1 A filosofia ocidental foi profundamente marcada pelos ensinamentos de Jesus Cristo, cuja vida constituiu um marco divisório da história e da cultura universal. Em grande medida, a filosofia medieval constitui-se como um longo período da história da filosofia em que se confrontaram e se aproximaram o modelo de pensamento greco-romano e o modelo judaico-cristão, representado pelo testemunho sobre a vida e a ressurreição de Jesus. cristianismo, de forma geral, é a doutrina monoteísta revelada pelos evangelhos que compõem o Novo Testamento da Bíblia. O próprio cristianismo tem a sua história e deu origem a religiões, entre elas, a da Igreja Apostólica Romana, que se baseiam na fé em Jesus Cristo. caminho que levou o cristianismo ao encontro com a cultura greco-romana foi longo e difícil, inicialmente com duras perseguições aos cristãos e, posteriormente, com outras formas de disputa, até o seu definitivo estabelecimento na cultura ocidental. Não propomos nesta ocasião uma leitura religiosa do cristianismo, mas acerca da ética cristã, especialmente a partir do que se pode designar como a teoria das virtudes. A teoria das virtudes pode ser compreendida em diálogo com as teorias anteriormente estudadas. É possível compreendê-la como uma teoria que incorpora os ensinamentos anteriores, mas dá ainda um novo passo na compreensão da virtude como excelência moral. Vejamos como isso ocorre. A base da teoria das virtudes está na mensagem de Jesus Cristo, que trouxe a boa nova de uma promessa de redenção e vida eterna. seu ensinamento dirigiu-se aos pecadores, aos mais sofridos, aos mais pobres, e aos abandonados. Ao ser perguntado por um doutor da Lei qual dos mandamentos é o mais importante, Jesus respondeu:</p><p>"O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus é o único Senhor. Amarás, portanto, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. Eis aqui o segundo: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Outro mandamento maior do que esse não existe". (Marcos, 12, 29-31). As três virtudes teologais cristianismo trazia para os gregos uma forma completamente diferente de conceber a verdade, enquanto verdade revelada pela mensagem e vida de Jesus Cristo, narradas nas Escrituras. Além disso, trazia algo novo em sua concepção ética - a relação com Deus como fonte e fundamento das excelências morais. A concepção de amor a Deus e de amor ao próximo, em última instância, constituem a base do ensinamento cristão que comporta um novo capítulo das teorias da virtude na história da filosofia. Paulo de Tarso (5 a.C. - 67 d.C.), que inicialmente perseguiu cristãos, ainda no séc. d.C., e depois se converteu ao cristianismo, foi uma figura muito importante na redação das primeiras escrituras do Novo Testamento e na doutrina do cristianismo. Em sua primeira Carta aos Coríntios, ele afirma "Por ora subsistem a fé, a esperança e a caridade - as três. Porém, a maior delas é a caridade". (I Coríntios 13, 13). Com base no ensinamento do amor professado por Jesus configura-se assim uma nova mensagem sobre o que são as virtudes. cristianismo define uma nova dimensão espiritual, com efeito prático sobre a ética, que fundamenta uma nova forma de entendimento sobre as virtudes. Na filosofia cristã, essas três virtudes - a fé, a esperança e a caridade - são denominadas virtudes teologais, que são virtudes através das quais o ser humano se ordena e se orienta em relação a Deus. Fé Esperança Caridade VIRTUDES TEOLOGAIS</p><p>É importante assinalar que o Novo Testamento foi escrito em grego e foi traduzido para o latim somente mais tarde, por São Jerônimo (347-420), em uma versão que ficou conhecida como Vulgata. Um termo especialmente importante da Bíblia é o termo grego ágape, que foi traduzido ora como "amor" ora como "caritas" (ou caridade). amor cristão deve ser entendido, portanto, no cristianismo como caridade. A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Nem escandalosa. Não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (I Coríntios 13, 4-7). Ou seja, para além da concepção grega de "vida boa", como fim a ser buscado individualmente pelos cidadãos e coletivamente através do Estado, o cristianismo coloca em relevo a dimensão espiritual que nos reporta à Deus e à vida eterna, como fonte e fundamento das virtudes. No entanto, é importante destacar que as virtudes teologais, tal como sinalizadas por Paulo, não contradizem a concepção grega de virtude, ao contrário, essa é integrada na teoria das virtudes. As virtudes morais, as virtudes intelectuais e as virtudes teologais A relação entre a concepção greco-romana das virtudes e a concepção das virtudes teologais foi longamente estudada e debatida na filosofia medieval, tanto na filosofia patrística, quanto na filosofia escolástica. grande desafio dos filósofos medievais era conciliar, aproximar, e oferecer espaços de diálogo entre a filosofia greco-romana e o cristianismo. Também esse desafio se apresentou com relação à teoria das virtudes. Tiveram um papel importante nessa teorização Santo Ambrósio (340-397) e Santo Agostinho (354-430), que adaptaram o modelo das virtudes de Platão, que vimos no módulo I, sob o título de virtudes cardegis. Para a filosofia cristã, as virtudes cardegis são aquelas que, como os pontos cardeais, constituem as referências para ação humana e polarizam todas as demais virtudes. Considerando que os filósofos medievais SANTO AGOSTINHO reinterpretaram a coragem como "fortaleza" e a sabedoria como sabedoria prática ou "prudência", temos as seguintes virtudes cardegis: a justiça, a fortaleza, a prudência e a temperança.</p><p>Prudência Razão Discernimento Fortaleza Justica Suportar Equidade Não retroceder Alteridade Não corromper Temperança Equilibrar Harmonizar Moderar Nesse sentido, a filosofia medieval não renunciou a teoria das virtudes greco-romana, mas a adaptou a sua própria teoria das virtudes. Na obra de São Tomás de Aquino (1221-1274), expoente da filosofia escolástica, encontramos um enorme esforço de sistematização da teoria das virtudes, especialmente na Suma Teológica - primeira parte da Parte II, Questões LV a LXVII (AQUINO, 1980, pp. 1421-1527). Aquino adota a definição das SANTO TOMÁS DE AQUINO virtudes cardegis tal como proposta por Ambrósio para referir-se às quatro principais virtudes humanas. Além disso, Aquino adota a classificação aristotélica das virtudes morais e intelectuais. Nesse sentido, glém das virtudes morais, orientadas pelas virtudes cardegis para a boa condução dos apetites e desejos, há também virtudes intelectuais, que se referem exclusivamente às capacidades intelectuais. VIRTUDES VIRTUDES MORAIS INTELECTUAIS Prudência Razão Discernimento Fortaleza Justica guidade Alteridade Não retroceder Não Equilibrar Harmonizar Moderar Ponderação na Capacidades condução dos apetites intelectuais e dos desejos</p><p>No entanto, há ainda um tipo de virtude que é superior às virtudes humanas: "A fé, a esperança e a caridade são superiores às virtudes humanas; pois são virtudes do homem enquanto participante da graça divina" (AQUINO, 1980, Q. LVIII, Art. III, pp. 1453). Essas são as virtudes do ensinamento cristão, que orientam o ser humano segundo a sua relação com Deus. São também chamadas de virtudes divinas, porque por elas "Deus nos torna virtuosos e nos ordena para ele" (AQUINO, 1980, Q. LVIII, Art. III, pp. 1453). Sobre as virtudes já citadas há entre elas três que se destacam. Em relação as virtudes morais, a principal é a justiça, por ser aquela que se estabelece, não apenas na relação do ser humano consigo mesmo, mas na sua relação com outrem (AQUINO, 1980, Q. LVXI, Art. V, pp. 1511-1513). Dentre as virtudes intelectuais é a sabedoria a mais importante, pois é ela que permite julgar sobre a perfeição e alcançar o conhecimento de Deus (AQUINO, 1980, Q. LVXI, Art. V, pp. 1513-1515). VIRTUDES VIRTUDES VIRTUDES MORAIS INTELECTUAIS TEOLOGAIS (Cardeais) Modo da Virtude Modo da Virtude Modo da Virtude Ponderação de Capacidades do Ação humana em apetites e desejos intelecto relação a Deus Virtude Principal Virtude Principal Virtude Principal Justiça Sabedoria Caridade Por fim, entre as virtudes teologais é a caridade que é a maior, tal como Paulo afirmou na Primeira Carta Coríntios: "a caridade é a maior delas". Para Tomás de Aquino, na ordem de perfeição, a caridade precede a fé e a esperança, porque as duas últimas se formam e adquirem perfeição pela caridade. "Por onde, a caridade é a mãe e a raiz de todas as virtudes, enquanto forma de todos". (AQUINO, 1980, Q. LXIII, Art. I, p. 1485). Caridade Fé Esperança Tomás de Aquino, na ordem de perfeição, a caridade precede a fé e a esperança.</p><p>As formulações de Tomás de Aquino ganharam enorme expressão na filosofia escolástica, e produziram enorme influência na filosofia até os nossos dias. No Catecismo da Igreja Católica, na terceira parte, especialmente no artigo destinado às virtudes, reafirma-se a distinção entre as virtudes cardeais e as virtudes teologais: "as virtudes humanas radicam nas virtudes teologais, que adaptam as faculdades do homem à participação na natureza divina". Objeto da Ética Sagrado FÉ Piedade Amizade Transcendente Virtudes ESPERANCA AMOR Teologais JUSTICA Retidão Outras pessoas Virtudes FORTALEZA TEMPERANCA Cardeais (Morais) Disciplina Sobriedade Profano PRUDÊNCIA Eu A ética assenta-se, portanto, em uma releitura da teoria das virtudes, orientada não apenas pelas virtudes cardeais, mas sobretudo pelas virtudes teologais. As próprias questões da consciência moral, do livre-arbítrio e da bem- aventurança carregam com elas essa marca do entendimento das virtudes teologais, que nos permitem entender a excelência moral desde a perspectiva espiritual ensinada pelo cristianismo. Na Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco sinalizou que o amor, no sentido cristão, expande-se a todas as ações que visam construir um mundo melhor, tanto na busca do bem comum, quanto na construção de uma ecologia integral. amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as acções que procuram construir um mundo melhor. amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também 'as macrorrelações como relacionamentos sociais, económicos, Por isso, a Igreja propôs ao mundo o ideal duma do amor'. amor social é a chave para um desenvolvimento autêntico: 'Para tornar a sociedade mais humana, mais digna da pessoa, é necessário revalorizar o amor na vida social nos planos político, económico, cultural fazendo dele a norma constante e suprema do agir'. Nesse contexto, juntamente com a importância</p><p>dos pequenos gestos diários, o amor social impele-nos a pensar em grandes estratégias que detenham eficazmente a degradação ambiental e incentivem uma cultura do cuidado que permeie toda a sociedade. Quando alguém reconhece a vocação de Deus para intervir juntamente com os outros nessas dinâmicas sociais, deve lembrar-se que isso faz parte da sua espiritualidade, é exercício da caridade e, desse modo, amadurece e se santifica. (Encíclica Laudato Sí, pp. 70-71).</p>

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