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<p>TE</p><p>X</p><p>TO</p><p>B</p><p>A</p><p>SE ECONOMIA</p><p>NACIONAL E</p><p>INTERNACIONAL</p><p>Prof. Dr. Lucio Flávio da Silva Freitas e</p><p>Prof.ª Dr.ª Fabiana Dessotti</p><p>UNIVERSIDADE MUNICIPAL DE SÃO CAETANO DO SUL</p><p>Portal: www.uscs.edu.br</p><p>Tel.: (11) 4239-3200</p><p>Av. Goiás, 3400 – São Caetano do Sul – SP – CEP: 09550-051</p><p>Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, a transmissão total ou parcial</p><p>por qualquer forma e/ou qualquer meio (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia,</p><p>gravação e distribuição na web), ou o arquivamento em qualquer sistema de banco de</p><p>dados sem a permissão por escrito da Universidade Municipal de São Caetano do Sul.</p><p>DÚVIDAS? FALE CONOSCO!</p><p>eadsuporte@online.uscs.edu.br</p><p>(11) 4239-3351</p><p>EQUIPE TÉCNICA EDITORIAL</p><p>Pró-reitoria de Inovação em Ensino: Prof. Dr. Nonato Assis de Miranda.</p><p>Professor conteudista: Profº. Drº. Lucio Flávio da Silva Freitas e Prof.ª Dr.ª Fabiana</p><p>Dessotti.</p><p>Projeto gráfico: Renata Kuba, Luana Santos do Nascimento, Juliana Pereira Alves e</p><p>Wallace Campos de Siqueira.</p><p>Design Instrucional: Kethly Garcia e Luciana de Almeida Cunha.</p><p>Capa: Kaique Biscaro e Pedro Minganti Juliano.</p><p>Diagramação: Kaique Biscaro e Pedro Minganti Juliano.</p><p>Revisão: Profa. M.e Marialda Almeida e Isabelle Correa Borian.</p><p>O Núcleo de Educação a Distância da USCS garante a revisão gramatical e ortográfica dos</p><p>conteúdos dos Textos-Base de todas as disciplinas ofertadas desde que seus autores respeitem</p><p>os prazos de entrega de acordo com o calendário acadêmico corrente. No entanto, lembramos</p><p>que o conteúdo apresentado nesses livros é de autoria e de total responsabilidade do professor</p><p>conteudista, profissional qualificado para desenvolver esses materiais.</p><p>ECONOMIA</p><p>NACIONAL E</p><p>INTERNACIONAL</p><p>Prof. Dr. Lucio Flávio da Silva Freitas e Prof.ª Dr.ª Fabiana Dessotti</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>DO PLANO REAL, ESTABILIDADE, CRESCIMENTO E DISTRIBUIÇÃO ATÉ</p><p>O FIM DO GOVERNO LULA, 2010</p><p>AS FASES DO PLANO REAL ..........................42</p><p>Os anos Fernando Henrique Cardoso: o Brasil entre 1995 e</p><p>2002 .................................................................................. 46</p><p>RESUMO: DO PLANO CRUZADO AO PLANO</p><p>REAL .............................................................54</p><p>RESUMO: O BRASIL ENTRE 1995 E 1999 ....57</p><p>POLÍTICA E ECONOMIA: A PRIMEIRA FASE,</p><p>2003 A 2005 .................................................61</p><p>ENSAIO DESENVOLVIMENTISTA: A POLÍTICA</p><p>ECONÔMICA DE 2006 A 2008 .......................64</p><p>A CRISE FINANCEIRA INTERNACIONAL E A</p><p>REAÇÃO DO GOVERNO BRASILEIRO, 2008 A</p><p>2010..............................................................71</p><p>A EVOLUÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO</p><p>PÓS-2004 .....................................................73</p><p>REFERÊNCIAS ...............................................82</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>5</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>Nesta segunda unidade veremos como a estabilização ocorreu</p><p>à custa de um elevado nível de endividamento do setor público, à</p><p>medida que, juntamente com a abertura, resultaram em déficit co-</p><p>mercial conjugado aos juros elevados. A década de 1990 inaugurou</p><p>tendências e políticas que repercutem ainda hoje. É um período fun-</p><p>damental para a compreensão do Brasil atual.”</p><p>A unidade 2 também é dedicada ao estudo da economia brasileira</p><p>entre os anos de 2003 e 2010. O período é marcado pela chegada</p><p>do Partido dos Trabalhadores (PT) ao governo federal e pelo cres-</p><p>cimento econômico impulsionado pelo ciclo das commodities e de-</p><p>pois pelo mercado interno. Depois de superar a incerteza causada</p><p>no mercado financeiro, por meio da manutenção do tripé da política</p><p>macroeconômica, o governo Lula tomou uma série de medidas que</p><p>contribuíram para que os benefícios do crescimento econômico al-</p><p>cançassem também, e mais fortemente, aos mais pobres. Houve re-</p><p>forço do mercado interno pelo aumento do crédito, da formalização</p><p>e pela melhor distribuição de renda, tornados possíveis pela estabili-</p><p>dade macroeconômica e pelas medidas de cunho microeconômico.</p><p>Uma vez mais, houve, no período como um todo, valorização cam-</p><p>bial, e a tendência à atrofia do setor industrial não foi revertida. Quan-</p><p>do as contas externas assinalavam a queda no superavit comercial</p><p>e o aumento do déficit em transações correntes, eclodiu a crise in-</p><p>ternacional que impôs uma nova agenda econômica ao governo. A</p><p>partir de 2008, foram adotadas políticas anticíclicas de estímulo ao</p><p>consumo e, sem a mesma eficácia, ao investimento. Daí adiante há</p><p>uma deterioração do quadro fiscal, que, entretanto, contribuiu para</p><p>manter estável o mercado de trabalho.</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>6</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>AS FASES DO PLANO REAL</p><p>Depois de acumular aprendizado com os sucessivos fracassos</p><p>dos planos de combate à inflação dos anos 1980, e de encontrarem</p><p>um ambiente externo mais favorável, com a retomada do crédito in-</p><p>ternacional, os formuladores de política econômica conceberam um</p><p>plano que enfim poria termo ao descontrole dos preços no país.</p><p>O Plano Real diagnosticava a inflação como decorrente do de-</p><p>sacerto das contas públicas e dos mecanismos de indexação que</p><p>produziam a inflação inercial. O plano tinha três etapas que pre-</p><p>tendiam: i) recuperar o equilíbrio das contas públicas; ii) criar um</p><p>padrão estável de valor, e; iii) definir regras capazes de preservar a</p><p>estabilidade monetária. À diferença das experiências anteriores, o</p><p>Plano Real foi aplicado gradualmente, e de forma transparente junto</p><p>ao público. Não haveria congelamentos e os desequilíbrios da eco-</p><p>nomia seriam corrigidos.</p><p>A primeira fase foi consolidada no Plano de Ação imediata (PAI),</p><p>de 1993. O PAI estabeleceu um corte de gastos públicos, de 9%</p><p>para o nível federal, e de 2,5% para todos os níveis de governo.</p><p>Ademais, houve a renegociação das dívidas dos estados e municí-</p><p>pios com a esfera federal e a intensificação do combate à evasão de</p><p>impostos. As principais medidas para o ajuste fiscal foram a criação</p><p>do Fundo Social de Emergência (FSE), que obteve recursos pela</p><p>desvinculação das receitas do governo, o aumento coletivo de 5%</p><p>dos impostos e o corte nos investimentos públicos e nos gastos com</p><p>pessoal e empresas estatais. O ajuste fiscal foi, portanto, baseado</p><p>em medidas temporárias, não era uma reforma estrutural, para o</p><p>equilíbrio fiscal ser duradouro seriam necessários novos ajustes no</p><p>futuro.</p><p>Embora o déficit público observado fosse pequeno, cerca de 1%</p><p>do PIB apenas, os formuladores da política econômica acreditavam</p><p>que havia no Brasil um efeito “Oliveira-Tanzi às avessas” (CASTRO,</p><p>2005), ou seja, que o déficit era pequeno pois a indexação das re-</p><p>ceitas do setor público as mantinha mais protegidas da inflação que</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>7</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>as despesas do próprio setor público. Desse modo, o déficit, que</p><p>se podia esperar elevado, acabava diminuído ao longo do ano pelo</p><p>efeito da inflação.</p><p>O padrão estável de valor foi alcançado com a criação da Uni-</p><p>dade Real de Valor (URV). Com a URV, o governo pretendia zerar a</p><p>“memória inflacionária”, isto é, o componente inercial da inflação. O</p><p>cruzeiro passou a ter paridade fixa e determinada diariamente com</p><p>a URV, que, por sua vez, tinha paridade com o dólar. A cotação em</p><p>cruzeiro aumentava conforme a variação cambial. Os agentes eco-</p><p>nômicos foram deixados livres para escolher se os contratos e os</p><p>preços seriam cotados em cruzeiros ou URV.</p><p>Assim, ao invés de projetar a inflação passada para os preços atu-</p><p>ais, os agentes teriam como referência outra moeda</p><p>do trabalho e, em menor escala, aos programas sociais de transfe-</p><p>rência de renda, mais importantes no norte e nordeste. Vale notar</p><p>que o aumento do salário mínimo atinge também as aposentadorias</p><p>e outros direitos sociais.</p><p>Do ponto de vista institucional, contribuíram para o aumento na</p><p>formalização do trabalho: a maior eficácia da fiscalização do Mi-</p><p>nistério do Trabalho sobre os acordos e contratos entre patrões e</p><p>empregados, desde 1999, inicialmente com vistas ao aumento na</p><p>receita do FGTS. Cabe aqui um destaque para a consolidação dos</p><p>dados da Receita Federal e Previdência Social, que daria origem,</p><p>em 2007, à chamada Super Receita, facilitando a fiscalização das</p><p>empresas. A atuação do Ministério Público do Trabalho na apuração</p><p>de irregularidades à legislação trabalhista e o papel da Justiça do</p><p>Trabalho, no reconhecimento dos direitos de trabalhadores informais</p><p>e responsabilização dos contratantes de serviços terceirizados so-</p><p>bre a observação das leis trabalhistas por suas contratadas (BAL-</p><p>TAR, et al, 2010).</p><p>Algumas indicações acerca do padrão de crescimento atual da</p><p>economia brasileira sugerem que serão grandes os desafios vindou-</p><p>ros para a continuidade da estruturação do mercado de trabalho.</p><p>Em primeiro lugar, paira a dúvida acerca da sustentabilidade, em</p><p>longo prazo, da taxa de câmbio nesses patamares. Possivelmente,</p><p>a deterioração do saldo em transações correntes pode levar a um</p><p>estrangulamento do setor externo, ou ainda, à perda da dinâmica do</p><p>setor industrial.</p><p>O ciclo recente de recuperação do nível de atividade econômica</p><p>não veio acompanhado, no mesmo ritmo, do crescimento da trans-</p><p>formação industrial e do investimento autônomo. O crescimento ba-</p><p>seado no aumento do consumo das famílias, não traz consigo, na</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>38</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>mesma proporção, a geração de postos de trabalho de maior pro-</p><p>dutividade. Já o aumento da ocupação no setor de serviços foi es-</p><p>sencialmente em funções de menor qualificação, as mesmas que se</p><p>tornam mais vulneráveis diante de situações de crise, como revelam</p><p>os dados de 2008-2009 (QUADROS, 2010). Evidentemente, a manu-</p><p>tenção da política de elevação do salário mínimo e de transferência</p><p>de rendas encontrará limites fiscais. Logo, a convergência entre os</p><p>rendimentos do trabalho, até aqui arquitetada a partir dos acrésci-</p><p>mos observados nas rendas da base da pirâmide social poderão</p><p>perder o fôlego, caso o governo não consiga reativar o investimento</p><p>da economia.</p><p>ORIGEM, CAUSAS E IMPACTO DA CRISE (VALOR ECONÔMICO,</p><p>13/09/2011). JOSÉ LUIS OREIRO.</p><p>A crise financeira de 2008 foi</p><p>a maior da história do capitalis-</p><p>mo desde a grande depressão</p><p>de 1929. Começou nos Estados</p><p>Unidos após o colapso da bolha</p><p>especulativa no mercado imo-</p><p>biliário, alimentada pela enorme</p><p>expansão de crédito bancário e</p><p>potencializada pelo uso de no-</p><p>vos instrumentos financeiros a</p><p>crise financeira se espalhou pelo</p><p>mundo todo em poucos meses.</p><p>O evento detonador da crise foi a</p><p>falência do banco de investimen-</p><p>to Lehman Brothers no dia 15 de</p><p>setembro de 2008, após a recusa</p><p>do Federal Reserve (Fed, banco</p><p>central americano) em socorrer</p><p>a instituição. Essa atitude do Fed</p><p>teve um impacto tremendo so-</p><p>bre o estado de confiança dos</p><p>mercados financeiros, rompendo</p><p>a convenção dominante de que</p><p>a autoridade monetária norte-</p><p>-americana iria socorrer todas as</p><p>instituições financeiras afetadas</p><p>pelo estouro da bolha especula-</p><p>tiva no mercado imobiliário.</p><p>O rompimento dessa conven-</p><p>-ção produziu pânico entre as</p><p>instituições financeiras, o que</p><p>resultou num aumento signifi-</p><p>cativo da sua preferência pela</p><p>liquidez, principalmente no caso</p><p>dos bancos comerciais. O au-</p><p>mento da procura pela liquidez</p><p>detonou um processo de venda</p><p>de ativos financeiros em larga</p><p>escala, levando a um processo</p><p>Minskiano de “deflação de</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>39</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>senvolvidos responderam a</p><p>essa crise por meio do uso</p><p>de políticas fiscal e monetária</p><p>expansionistas. O Fed reduziu</p><p>a taxa de juros de curto pra-</p><p>zo para 0% e aumentou o seu</p><p>balanço em cerca de 300% para</p><p>proporcionar liquidez para os</p><p>mercados financeiros nos EUA.</p><p>Políticas similares foram adota-</p><p>das pelo Banco Central Europeu</p><p>(BCE) e pelo Banco do Japão.</p><p>Nos Estados Unidos, o presi-</p><p>dente Barack Obama conseguiu</p><p>aprovar uma expansão fiscal</p><p>de quase US$ 800 bilhões para</p><p>estimular a demanda agregada.</p><p>Na área do euro, os governos</p><p>foram liberados das amarras</p><p>fiscais do Tratado de Maastricht,</p><p>sendo autorizados a aumen-</p><p>tar os déficits fiscais além dos</p><p>limites impostos pelo Tratado em</p><p>consideração. Esforços similares</p><p>foram realizados no Reino Unido</p><p>e nos países em desenvolvimen-</p><p>to. Na China, por exemplo, o</p><p>governo aumentou o investimen-</p><p>to público – fundamentalmente</p><p>em infraestrutura – em mais de</p><p>US$ 500 bilhões com o intuito</p><p>de manter uma elevada taxa de</p><p>crescimento econômico. No Bra-</p><p>sil, a expansão fiscal começou</p><p>antes da expansão monetária</p><p>devido a um “comprometimento</p><p>irracional” do Banco Central</p><p>ativos”, com queda súbita e</p><p>violenta dos preços dos ativos fi-</p><p>nanceiros, e contração do crédito</p><p>bancário para transações comer</p><p>ciais e industriais. A “evaporação</p><p>do crédito” resultou numa rápida</p><p>e profunda queda da produção</p><p>industrial e do comércio interna-</p><p>cional em todo o mundo.</p><p>Com efeito, no último trimestre</p><p>de 2008 a produção industrial</p><p>dos países desenvolvidos expe-</p><p>rimentou uma redução bastante</p><p>significativa, apresentando, em</p><p>alguns casos, uma queda de</p><p>mais de 10 pontos base com res-</p><p>peito ao último trimestre de 2007.</p><p>Mesmo os países em desen-</p><p>volvimento, que não possuíam</p><p>problemas com seus sistemas</p><p>financeiros, como o Brasil, tam-</p><p>bém constataram uma fortíssima</p><p>queda na produção industrial e</p><p>no Produto Interno Bruto (PIB).</p><p>De fato, no caso brasileiro, a pro-</p><p>dução industrial caiu quase 30%</p><p>no último trimestre de 2008 e o</p><p>PIB apresentou uma contração</p><p>anualizada de 14% durante esse</p><p>período.</p><p>As bolhas e a fragilidade finan-</p><p>ceira nasceram do capitalismo</p><p>neoliberal adotado a partir dos</p><p>anos 70.</p><p>Os governos dos países de-</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>40</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>(BC) com um regime de metas de</p><p>inflação muito rígido. Nesse con-</p><p>texto, o governo Lula aprovou um</p><p>pacote de estímulo fiscal no fim</p><p>de 2008, constituído de aumento</p><p>do investimento público, redução</p><p>de impostos e aumento do salário</p><p>mínimo e do seguro desempre-</p><p>go. A redução da taxa de juros</p><p>começou apenas em janeiro de</p><p>2009, após o colapso da produ-</p><p>ção industrial e da disseminação</p><p>de rumores quanto a possível</p><p>demissão do presidente do BC.</p><p>Como resultado da demora no re-</p><p>laxamento na política monetária,</p><p>o PIB declinou 0,7% em 2009.</p><p>Apesar da forte queda da pro-</p><p>dução industrial e do PIB tanto</p><p>nos países desenvolvidos como</p><p>nos países em desenvolvimento,</p><p>a severidade da crise de 2008</p><p>ficou muito aquém dos resulta-</p><p>dos catastróficos verificados na</p><p>década de 1930. No fim de 2009,</p><p>a economia americana começou</p><p>a apresentar sinais positivos de</p><p>recuperação, apontando para um</p><p>crescimento modesto em 2010.</p><p>França e Alemanha saíram da</p><p>recessão técnica em meados de</p><p>2009, o mesmo ocorrendo com</p><p>o Reino Unido no último trimestre</p><p>desse ano.</p><p>Os países em desenvolvimento</p><p>tiveram um desempenho eco-</p><p>nômico muito superior ao dos</p><p>países desenvolvidos durante</p><p>a crise. O crescimento econô-</p><p>mico da China foi de 8,5% em</p><p>2009, mostrando uma pequena</p><p>redução com respeito a 2008,</p><p>quando a economia cresceu</p><p>9%. A performance econômica</p><p>da Índia também foi boa. Após</p><p>uma expansão de 7,3% do PIB</p><p>em 2008, o</p><p>crescimento foi</p><p>reduzido para 5,4% em 2009.</p><p>A performance econômica do</p><p>Brasil durante a crise não foi tão</p><p>boa como a da China e da Índia.</p><p>Após um crescimento robusto</p><p>de 5,1% em 2008, o PIB caiu</p><p>0,7% em 2009. Em 2010, contu-</p><p>do, a economia brasileira apre-</p><p>sentou uma forte recuperação,</p><p>apresentando um crescimento</p><p>econômico superior a 7%. En-</p><p>tre os Brics, apenas a Rússia</p><p>apresentou uma queda forte do</p><p>nível de atividade econômica.</p><p>Com efeito, o PIB da Rússia caiu</p><p>7,5% em 2009, após um cresci-</p><p>mento de 5,6% em 2008.</p><p>O regime de crescimento</p><p>“wage-led” foi substituído por</p><p>um “finance-led”.</p><p>A intensidade da crise fi-</p><p>nanceira de 2008 coloca duas</p><p>questões fundamentais para os</p><p>economistas e formuladores de</p><p>política econômica. A primei-</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>41</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>ra questão se refere às origens</p><p>da crise. A segunda se refere</p><p>às consequências dessa crise</p><p>para a economia mundial. Sobre</p><p>essas questões se formou uma</p><p>“sabedoria convencional”, a qual</p><p>será detalhada na sequência,</p><p>mas que apresenta respostas</p><p>essencialmente incorretas para</p><p>as mesmas.</p><p>No que se refere à primeira</p><p>questão a “sabedoria convencio-</p><p>nal” afirma que a crise financeira</p><p>de 2008 foi apenas o resultado</p><p>de uma regulação financeira ina-</p><p>dequada, combinada com uma</p><p>política monetária muito frouxa</p><p>conduzida pelo Fed durante a</p><p>administração Greenspan. Se</p><p>assim for, então não será neces-</p><p>sária a implementação de polí-</p><p>ticas que revertam a tendência</p><p>ao aumento da desigualdade na</p><p>distribuição de renda nos países</p><p>desenvolvidos, verificada nos</p><p>últimos 30 anos. Uma mudança</p><p>limitada na regulação financeira e</p><p>a redefinição do regime de metas</p><p>de inflação de maneira a incluir</p><p>a estabilização dos preços dos</p><p>ativos financeiros como um dos</p><p>objetivos da política monetária,</p><p>por intermédio de uma espécie</p><p>de “regra de Taylor ampliada”,</p><p>seria suficiente para evitar uma</p><p>nova crise financeira no futuro.</p><p>No que se refere à segunda</p><p>questão, a “sabedoria conven-</p><p>cional” estabelece que a crise</p><p>de 2008 foi apenas um desvio</p><p>temporário no curso normal de</p><p>eventos (um momento Minsky),</p><p>de tal forma que, no futuro pró-</p><p>ximo, as economias capitalis-</p><p>tas irão retomar a trajetória de</p><p>crescimento observa da antes</p><p>da crise. O crescimento mundial</p><p>poderá ser novamente puxado</p><p>pela expansão de crédito nos</p><p>Estados Unidos e a política</p><p>econômica poderá voltar a ser</p><p>conduzida com base no assim</p><p>denominado “novo consenso</p><p>macroeconômico”, o qual esta-</p><p>belece que o objetivo fundamen-</p><p>tal, se não o único, da política</p><p>macroeconômica é a estabilida-</p><p>de da taxa de inflação.</p><p>A crise financeira de 2008 não</p><p>foi apenas o resultado da combi-</p><p>nação perversa entre desregula-</p><p>ção financeira e política monetá-</p><p>ria frouxa. Essas são apenas as</p><p>causas próximas da crise. Mas</p><p>existe uma causa mais funda-</p><p>mental, qual seja: o padrão de</p><p>capitalismo adotado nos Esta-</p><p>dos Unidos e na Europa a partir</p><p>do final da década de 1970, o</p><p>qual pode ser chamado de “ca-</p><p>pitalismo neoliberal”. Entre 1950</p><p>e 1973, as economias capitalis-</p><p>tas avançadas vivenciaram uma</p><p>“época de ouro” de crescimento</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>42</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>econômico, no qual a distribuição</p><p>pessoal e funcional da renda era</p><p>progressivamente mais equitati-</p><p>va, a taxa de acumulação de ca-</p><p>pital era mantida em patamares</p><p>elevados devido à existência de</p><p>um ambiente macroeconômico</p><p>estável (inflação baixa, juros bai-</p><p>xos, taxas de câmbio estáveis)</p><p>e forte expansão da demanda</p><p>agregada.</p><p>Além disso, a taxa de desem-</p><p>prego era inferior a 4% da força</p><p>de trabalho em quase todos os</p><p>países desenvolvidos (exce-</p><p>to, curiosamente, nos Estados</p><p>Unidos). Durante esse período,</p><p>os mercados financeiros eram</p><p>pesadamente regulados, a mo-</p><p>vimentação de capitais entre as</p><p>fronteiras nacionais era bastante</p><p>restrita, as taxas de câmbio eram</p><p>fixas com respeito ao dólar ameri-</p><p>cano e os salários reais cresciam</p><p>aproximadamente ao mesmo rit-</p><p>mo da produtividade do trabalho.</p><p>A combinação entre estabilida-</p><p>de macroeconômica, crescimen-</p><p>to acelerado e baixo desemprego</p><p>permitia que os governos dos</p><p>países desenvolvidos operassem</p><p>com baixos déficits fiscais e uma</p><p>dívida pública reduzida como</p><p>proporção do PIB. O “Estado do</p><p>Bem-Estar Social” não represen-</p><p>tava um fardo para as contas</p><p>públicas.</p><p>Esse “capitalismo socialmen-</p><p>te regulado” apresentava um</p><p>regime de crescimento do tipo</p><p>“wage-led”, ou seja, um regi-</p><p>me no qual o crescimento dos</p><p>salários reais (num ritmo igual</p><p>à produtividade do trabalho)</p><p>permitia uma forte expansão da</p><p>demanda de consumo, a qual</p><p>induzia as firmas a realizar um</p><p>volume elevado de investimen-</p><p>tos na ampliação de capacidade</p><p>produtiva, ao mesmo tempo em</p><p>que mantinha as pressões infla-</p><p>cionárias relativamente contidas</p><p>devido à estabilidade do custo</p><p>unitário do trabalho.</p><p>Com o colapso do Sistema de</p><p>Bretton Woods e os choques do</p><p>petróleo em 1973 e 1979, o am-</p><p>biente macroeconômico muda</p><p>radicalmente e o mundo desen-</p><p>volvido passa a conviver com</p><p>o fenômeno da “estagflação”.</p><p>Esse ambiente macroeconômico</p><p>permitiu o ressurgimento daque-</p><p>las doutrinas liberais.</p><p>Após a eleição de Margare-</p><p>th Thatcher no Reino Unido e</p><p>Ronald Reagan nos Estados</p><p>Unidos, as políticas econômicas</p><p>nos países desenvolvidos foram</p><p>progressivamente pautadas</p><p>pelos motes da desregulação,</p><p>privatização e redução de im-</p><p>postos. Os mercados financeiros</p><p>foram liberalizados, os contro-</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>43</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>les de capitais foram abolidos</p><p>nos países desenvolvidos e os</p><p>impostos foram reduzidos, princi-</p><p>palmente sobre os mais ricos. Os</p><p>sindicatos de trabalhadores fo-</p><p>ram deliberadamente enfraqueci-</p><p>dos pelas políticas adotadas por</p><p>Reagan e Thatcher, registrando-</p><p>-se uma forte redução da filiação</p><p>sindical da força de trabalho.</p><p>O resultado macroeconômico</p><p>desse novo “padrão de capitalis-</p><p>mo” foi uma crescente desigual-</p><p>dade na distribuição funcional e</p><p>pessoal da renda, a medida que</p><p>os salários passaram a crescer</p><p>num ritmo bem inferior ao da</p><p>produtividade do trabalho e o sis-</p><p>tema tributário perdeu, em vários</p><p>países, o seu caráter progressivo.</p><p>O aumento da concentração de</p><p>renda e o crescimento anêmico</p><p>dos salários reais foi o respon-</p><p>sável pela perda do dinamismo</p><p>endógeno dos gastos de consu-</p><p>mo, notadamente nos Estados</p><p>Unidos, os quais passaram a de-</p><p>pender cada vez mais do aumen-</p><p>to do endividamento das famílias</p><p>para a sua sustentação a médio</p><p>e longo prazo. Nesse contexto, a</p><p>desregulação.</p><p>Nesse contexto, a desregula-</p><p>ção dos mercados financeiros</p><p>tornou-se funcional, uma vez que</p><p>a mesma permitiu um aumento</p><p>considerável da elasticidade da</p><p>oferta de crédito bancário, via-</p><p>bilizando assim o crescimento</p><p>do endividamento das famílias,</p><p>necessário para a sustentação</p><p>da expansão dos gastos de</p><p>consumo. O aumento extraordi-</p><p>nário do crédito bancário resul-</p><p>tou num processo cumulativo de</p><p>aumento dos preços dos ativos</p><p>reais e financeiros, permitindo</p><p>assim a sustentação de posturas</p><p>financeiras cada vez mais frágeis</p><p>(especulativa e Ponzi) por parte</p><p>das famílias, empresas e bancos.</p><p>Daqui se segue que no “capi-</p><p>talismo neoliberal” as bolhas e</p><p>a fragilidade financeira não são</p><p>“anomalias” no sistema, mas</p><p>parte integrante do seu modus</p><p>operandi.</p><p>No que se refere à tese de que</p><p>a crise de 2008 seria apenas um</p><p>desvio temporário da trajetória</p><p>de crescimento de longo prazo</p><p>das economias capitalistas, os</p><p>eventos ocorridos depois de</p><p>2009 parecem apontar claramen-</p><p>te para a falsidade dessa conjec-</p><p>tura.</p><p>Com efeito, a crise de 2008</p><p>não foi apenas um “curto circui-</p><p>to” na máquina</p><p>capitalista, o qual</p><p>poderia ser corrigido por inter-</p><p>médio da intervenção do Estado</p><p>no “mecanismo de ignição” das</p><p>economias capitalistas. Isso</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>44</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>porque o regime de crescimento</p><p>do tipo “finance-led” teve como</p><p>contrapartida uma elevação</p><p>significativa do endividamento do</p><p>setor privado nos anos anteriores</p><p>a crise de 2008.</p><p>Considerando apenas os pa-</p><p>íses da área do euro, constata-</p><p>mos que entre 1997 e 2008, a</p><p>dívida das empresas não finan-</p><p>ceiras passou de 250% para</p><p>280% do PIB, o endividamento</p><p>dos bancos aumentou de 190%</p><p>para 250% do PIB e o endivida-</p><p>mento das famílias aumentou em</p><p>quase 50%.</p><p>Após o colapso do Lehman</p><p>Brothers o setor privado nos</p><p>países desenvolvidos iniciou</p><p>um processo de “deflação de</p><p>dívidas”, no qual a “propensão</p><p>a poupar” dos agentes privados</p><p>é aumentada com o intuito de</p><p>permitir uma redução do estoque</p><p>de endividamento. Esse aumento</p><p>da propensão a poupar do se-</p><p>tor privado atuou no sentido de</p><p>anular (par- cialmente) o efeito</p><p>sobre a produção e o emprego</p><p>do aumento dos déficits fiscais.</p><p>O resultado combinado do</p><p>aumento da propensão a poupar</p><p>do setor privado e redução da</p><p>poupança do setor público foi</p><p>uma pequena recuperação do</p><p>nível de atividade econômica e</p><p>uma “socialização na prática” de</p><p>parcela considerável da dívida</p><p>privada, transferida agora para o</p><p>setor público. Essa “socialização</p><p>das dívidas privadas” é uma das</p><p>causas da crise fiscal da área</p><p>do Euro, a qual, na ausência</p><p>de uma monetização parcial do</p><p>endividamento do setor público</p><p>dos países por ela afetados, irá</p><p>resultar em vários anos de con-</p><p>tração fiscal, retardando assim</p><p>a recuperação econômica do</p><p>mundo desenvolvido. A pers-</p><p>pectiva para os países da área</p><p>do Euro (e em menor medida</p><p>para os Estados Unidos) é de</p><p>vários anos de estagnação eco-</p><p>nômica.</p><p>Em suma, a crise financeira de</p><p>2008 foi o resultado do modus</p><p>operandi do “capitalismo neoli-</p><p>beral” implantado no final da dé-</p><p>cada de 1970 e os seus efeitos</p><p>sobre o nível de produção e de</p><p>emprego nos países desenvolvi-</p><p>dos serão duradouros devido ao</p><p>elevado endividamento do setor</p><p>privado, gerado por um re-</p><p>gime de crescimento do tipo</p><p>“finance-led”.</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>45</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ABREU, M.P.; WERNECK, R.L.F. Estabilização, abertura e privati-</p><p>zação, 1990 – 1994. In: ABREU, Marcelo de Paiva (org.). 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In: SADER, E.;</p><p>GARCIA, M.A.: Brasil entre o Passado e o Futuro. São Paulo: Editora</p><p>Fundação Perseu Abramo e Boitempo Editorial, 2010.</p><p>BRESSER-PREREIRA, L.C. A crise da América Latina: Consenso</p><p>de Washington ou crise fiscal?. Pesquisa e Planejamento Econô-</p><p>mico, v. 21 n. 1, abril 1991, p. 3-23.</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>46</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>BRESSER-PEREIRA, L.C. ; MARCONI, N. ; OREIRO, J.L., Develo-</p><p>pmental Macroeconomics: New Developmentalism as a Growth</p><p>Strategy. London: Routledge, 2014.</p><p>CARNEIRO, R. Desenvolvimento em Crise: A economia brasi-</p><p>leira no último quarto do século XX. São Paulo: Editora da UNESP,</p><p>2002.</p><p>CURADO, M. Uma avaliação da economia brasileira no Governo</p><p>Lula. Economia & Tecnologia, Ano 07, Volume Especial, 2011.</p><p>DEDECCA, C.D. ; TROVÃO, C.J.B.M. ; SOUZA, L.F., Desenvolvi-</p><p>mento e equidade: desafios do crescimento brasileiro. Novos Estu-</p><p>dos, março, 2014.</p><p>FILGUEIRAS, L. História do Plano Real. 2. ed. São Paulo: Boitem-</p><p>po , 2003.</p><p>GIAMBIAGI, F.; VILLELA, A.; CASTRO, L.B.; HERMANN, J. Econo-</p><p>mia Brasileira Contemporânea: 1945-2004. Rio de Janeiro: Cam-</p><p>pus Elsevier, 2005.</p><p>GREMAUD, P.A.; VASCONCELLOS, M.A.S.; TONETO JÚNIOR,</p><p>R. Economia Brasileira Contemporânea. 6. ed. São Paulo: Atlas,</p><p>2005.</p><p>IPEADATA. Pesquisa por tema. Disponível em: . Acesso em: julho de 2015.</p><p>LACERDA, A.C.; BOCCHI, J.I.; REGO, J.M.; BORGES, M.A.; MAR-</p><p>QUES, R.M. Economia Brasileira. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 2006.</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>47</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>MUSACCHIO, A. ; LAZZARINI, S. Reinventing State Capitalism:</p><p>Leviathan in Business, Brazil and Beyond. Harvard University</p><p>Press, forthcoming. Capítulo 1 Disponível em: www.sergiolazzarini.</p><p>insper.edu. br/ , acesso em 01/07/2015.</p><p>NERI, M. A nova classe média: o lado brilhante da base da pirâ-</p><p>mide. Editora Saraiva, São Paulo, 2012.</p><p>NETO, C.C., SOUZA, F.H., Avaliação dos investimentos do PAC:</p><p>uma comparação das metodologias utilizadas pela Casa Civil, ONG</p><p>Contas Abertas e IPEA. In: IPEA, 2010. Diretoria de Estudos e Políti-</p><p>cas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura. Radar: tec-</p><p>nologia, produção e comércio exterior. Nº 11, Brasília, 2010.</p><p>QUADROS, W. (2010). Melhorias Sociais no Período 2004 a 2008.</p><p>In: Texto para Discussão nº 176, IE-UNICAMP, Campinas.</p><p>SANDRONI, P. (Org.), Novíssimo Dicionário de Economia. São</p><p>Paulo: Best Seller, 1999.</p><p>WERNECK, R.L.F., Alternância política, redistribuição e crescimen-</p><p>to, 2003 a 2010. In: ABREU, M.P. (Org.). A ordem do progresso:</p><p>dois séculos de política econômica no Brasil. 2ª Edição. Rio de</p><p>Janeiro: Editora Campus / Elsevier, 2014.</p><p>ou, no caso, a</p><p>URV. Com a cotação diária os prazos de reajuste foram encurtados,</p><p>solucionando o problema da sincronização dos preços. A URV teve</p><p>a duração de três meses, e depois foi substituída pelo novo padrão</p><p>monetário, o Real, o governo adotou a âncora cambial para a infla-</p><p>ção, fixando o valor da moeda americana.</p><p>A terceira etapa, que pretendia dar lastro à nova moeda, foi cum-</p><p>prida pela âncora cambial. Ou seja, [...] à medida que caíam os pre-</p><p>ços das importações em moeda local, os aumentos de preços entre</p><p>os produtores nacionais ficavam, por necessidade, cada vez mais</p><p>moderados (BAER, 2009, p. 229).</p><p>Inicialmente, o regime era de câmbio livre, mas com teto da pari-</p><p>dade em US$1,00 = R$1,00, a entrada de investimentos financeiros</p><p>em portfólio deixaria o real com valor superior ao dólar no lançamen-</p><p>to da moeda. Para a execução dessa estratégia, foi necessário o</p><p>acúmulo prévio de reservas cambiais. O Brasil havia voltado a par-</p><p>ticipar do mercado financeiro internacional, desde as negociações</p><p>iniciadas em 1992, no âmbito dos planos Brady. O Gráfico 2 mostra</p><p>a evolução das reservas cambiais desde 1989.</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>8</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>Gráfico 2 – Evolução das reservas cambiais, em milhões de US$,</p><p>mensal de 1989 a 1999.</p><p>A contenção da inflação provocou aumento da demanda agrega-</p><p>da. Primeiro, devido ao fim do imposto inflacionário sobre os mais</p><p>pobres, que não tinham como aplicar recursos para se defenderem</p><p>da perda de valor da moeda, mas também, pela recomposição dos</p><p>mecanismos de crédito e pelo aumento do investimento, devido à</p><p>maior previsibilidade do cálculo econômico, típica da estabilidade</p><p>monetária. Ademais, uma valorização da moeda, ao baratear os</p><p>bens exportáveis, aumenta o poder aquisitivo das famílias, o que</p><p>repercute sobre a demanda dos bens não-exportáveis, aumentan-</p><p>do seus preços. O comportamento da inflação desde 1989 a 2002</p><p>pode ser visualizado no Gráfico 3.</p><p>Fonte: Banco Central do Brasil, Boletim, Seção Balanço de Pagamentos (BCB Bo-</p><p>letim/ BP)¹ Disponível em ipeadata.gov.br, acesso em 03/07/2015.</p><p>¹ Dados disponíveis em: . Acesso em: 03 jul. 2015..</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>9</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>Gráfico 3 – Índice de preço ao consumidor amplo, mensal, de</p><p>1989 a 2002</p><p>Para evitar pressões inflacionárias a taxa de juros foi mantida em</p><p>patamar elevado, com consequências que se mostrariam profundas</p><p>sobre a dívida pública. A política fiscal não acompanhou o aperto</p><p>monetário, e os juros elevados não evitaram o aumento da deman-</p><p>da. O país cresceu 4,9% em 1993 e 5,9% no ano seguinte. Foi a</p><p>crise mexicana, no final de 1994, seguida de um novo aumento no</p><p>patamar dos juros, o que arrefeceu a atividade econômica no se-</p><p>gundo semestre de 1995.</p><p>OS ANOS FERNANDO HENRIQUE CARDOSO: O BRASIL EN-</p><p>TRE 1995 E 2002</p><p>No final do ano de 1994 a crise da moeda mexicana espalhou no</p><p>mercado financeiro internacional a dúvida sobre a sustentação das</p><p>moedas fixas de outros países emergentes. A incerteza somada à</p><p>Fonte: IBGE, Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consumidor (SNIPC), 2015²</p><p>² Dados disponíveis em: . Acesso em: 03 jul. 2015.</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>10</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>deterioração do Balanço de Pagamentos brasileiro, devido ao au</p><p>mento das importações decorrente do câmbio supervalorizado e da</p><p>demanda aquecida, levou o governo a desvalorizar o real em 6%,</p><p>em março de 1995, e a elevar as taxas nominais de juros. A partir</p><p>daí o câmbio seria fixo e desvalorizaria em 7% ao ano, o que era</p><p>insuficiente para corrigir a supervalorização inicial.</p><p>Tais medidas levaram à redução da inflação, pela contenção da</p><p>demanda, atração de investimentos financeiros estrangeiros e a de-</p><p>saceleração da atividade econômica. Ou seja, ao invés da correção</p><p>de rumos pela desvalorização da moeda em magnitude suficiente</p><p>para o reequilíbrio das contas externas, o governo optou pela con-</p><p>tenção da demanda, que diminui o ritmo das importações. Também</p><p>foram introduzidos controles sobre a as importações, a alíquota mé-</p><p>dia da tarifa de importação subiu de 13% para 13,8% e para 16,6%,</p><p>de 1995 a 1996 e primeiro semestre de 1999 (GREMAUD et</p><p>al., 2009).</p><p>Alguns autores chamam atenção ainda para o que representaria</p><p>a abertura comercial conjugada à abertura financeira dos merca-</p><p>dos emergentes. Em tese, a falta de competividade das indústrias</p><p>locais, conjugadas à valorização da moeda, decorrente da entrada</p><p>de recursos na conta de capital, traria, inevitavelmente, déficits co-</p><p>merciais, que exigiriam aumento dos juros para a continuidade do fi-</p><p>nanciamento do setor externo. Os juros altos comprometeriam ainda</p><p>o desempenho da política fiscal (FILGUEIRAS, 2003).</p><p>Nesses termos, o fluxo de capitais implica maior fragilidade finan-</p><p>ceira dos mercados emergentes, que, em tese, devem lidar com</p><p>a supervalorização do câmbio, decorrente da entrada de capitais</p><p>especulativos. Nesse contexto, o regime de câmbio fixo é vulnerável</p><p>a ataques especulativos do mercado, sob o câmbio flutuante neces-</p><p>sário à manutenção de juros elevados, comprometendo as contas</p><p>do setor público.</p><p>Com efeito, nos anos de 1993, 1994 e 1996 houve entradas ma-</p><p>ciças de investimentos em portfólio (vide o balanço de pagamentos</p><p>reproduzido na tabela 1)</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>11</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>A estratégia de combate à inflação, própria do Plano Real, exi-</p><p>giria um grau de competitividade da economia brasileira, que</p><p>lhe permitisse conviver com seu elevado grau de abertura e</p><p>sobrevalorização do Real – até janeiro de 1999 -, que colocam</p><p>problemas para seu balanço de pagamentos. Em resumo, o</p><p>país não tem capacidade competitiva para se inserir na globa-</p><p>lização na forma como vem ocorrendo e que vem implicando</p><p>grande dependência para com os capitais especulativos de</p><p>curtíssimo prazo (FILGUEIRAS, 2003, p. 33).</p><p>Em 1995, o governo logrou defender a moeda de um ataque es-</p><p>peculativo, entretanto, as medidas foram insuficientes para corrigir</p><p>o deficit externo e também não contribuíram para o equilíbrio orça-</p><p>mentário. O gráfico 2, apresentado anteriormente, mostra a redução</p><p>das reservas entre o final de 1994 e meados de 1995, quando a</p><p>confiança na economia foi recuperada e o aumento dos juros atraiu</p><p>outra vez os investidores para o mercado brasileiro. Para não pres-</p><p>sionar a inflação ou revalorizar a moeda, os recursos advindos do</p><p>exterior precisavam ser esterilizados, o que tem custo fiscal. Afinal,</p><p>o aumento das reservas internacionais impõe sobre o setor público o</p><p>custo da diferença entre a taxa de juros nacional e taxa estrangeira.</p><p>As contas públicas se deterioram ano a ano, de um deficit ope-</p><p>racional de 0,1% o PIB em 1994, para um deficit de 8% em 1998.</p><p>Nesse cenário, é bastante difícil considerar que o resultado fiscal</p><p>seja consequência apenas do deficit externo, já que o saldo primá-</p><p>rio, que era de 5% do PIB no primeiro ano tornou-se um deficit no</p><p>último ano.</p><p>Houve desaceleração, porém, o crescimento do PIB foi positivo de</p><p>1995 a 1998, e a carga tributária aumentou. O pagamento de juros</p><p>contribuiu com 1/3 do aumento das Necessidades de Financiamen-</p><p>to do Setor Público, a taxa de juros, descontada da inflação, era de</p><p>22% ao ano, os outros 2/3 foram consequência da expansão fiscal.</p><p>O financiamento dos crescentes déficits do setor público tor-</p><p>nou-se possível</p><p>pela manutenção de taxas de juros extrema-</p><p>Do ponto de vista fiscal, o re-</p><p>sultado primário das contas</p><p>públicas é obtido pela dife-</p><p>rença entre a arrecadação do</p><p>governo federal, estadual e</p><p>municipal e suas respectivas</p><p>empresas estatais, menos as</p><p>despesas correntes, ou seja,</p><p>sem levar em conta os custos</p><p>financeiros (juros) sobre a dívi-</p><p>da (LACERDA et al., 2003, p.</p><p>243).</p><p>Você sabia ?</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>12</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>mente elevadas, cujo valor real aumentava à medida que a in-</p><p>flação caía [...] Consequentemente, o governo viu-se num ciclo</p><p>vicioso: para manter a taxa de câmbio e financiar seu déficit</p><p>teria que realizar empréstimos a taxas de juros crescentes, o</p><p>que, por sua vez, agravava a situação fiscal e naturalmente</p><p>minava ainda mais a confiança dos investidores (BAER, 2009,</p><p>p. 235).</p><p>A balança comercial registrou déficits sucessivos de 1995 a 1999.</p><p>O pagamento de juros, lucros e dividendos ao exterior cresceu ain-</p><p>da mais, em função do aumento do passivo externo. O pagamento</p><p>de juros dobrou entre 1994 e 2000, assim como o saldo negativo da</p><p>balança de serviços. Ao mesmo tempo, houve mudança qualitativa</p><p>importante na pauta de importações. Se em períodos anteriores o</p><p>estrangulamento externo surgia em função da importação de bens</p><p>de produção, nos anos 1990 aumentou mais aceleradamente a im-</p><p>portação de bens de consumo. Ou seja, uma parcela importante da</p><p>captação de poupança externa serviu para financiar o consumo e</p><p>não o investimento, como seria necessário para o aumento da pro-</p><p>dutividade.</p><p>A Tabela 1 mostra a evolução do balanço de pagamentos no perí-</p><p>odo entre 1990 e 2000.</p><p>Fonte: Banco Central (apud GREMAUD et al., 2009, p. 481).</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>13</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>O temor do recrudescimento do processo inflacionário e o ciclo</p><p>político-eleitoral impediram desvalorizações da moeda capazes de</p><p>inverter a trajetória das contas externas. De um lado, o México ha-</p><p>via experimentado a volta da inflação, depois de um processo mal</p><p>sucedido de desvalorização, o que suscitava medo do contágio. De</p><p>outro, o governo tinha grande popularidade, em função do Plano</p><p>Real, e aplicou todo seu capital político para a aprovação da emen-</p><p>da constitucional que autorizou a reeleição para os cargos do poder</p><p>executivo.</p><p>Havia ainda a expectativa de que o choque de competitividade</p><p>aumentasse a produtividade da economia, o que permitiria a des-</p><p>valorização gradual do câmbio. Entretanto, as políticas industriais</p><p>haviam sido suspensas em favor do realismo dos preços. Ainda que</p><p>poderosos, os incentivos de mercado não resultaram em um ganho</p><p>suficiente de produtividade da economia. Tampouco foram suficien-</p><p>tes para evitar, como será visto adiante, a crise energética de 2001.</p><p>Em 1998, o regime de câmbio fixo não resistiu a um novo ataque</p><p>especulativo, na esteira das crises asiática e russa, e da fragilidade</p><p>dos fundamentos econômicos nacionais. A solução adotada, depois</p><p>do pleito eleitoral, foi a maxidesvalorização da moeda. Em menos de</p><p>2 meses a taxa de câmbio saltou de R$ 1,2 para R$ 2,0 (GIAMBIAGI,</p><p>2005).</p><p>Uma parte importante da dívida externa pertencia ao setor privado</p><p>nacional, cerca de 1/3. A desvalorização só não levou a quebradeira</p><p>dessas empresas porque mais uma vez a dívida externa foi estatiza-</p><p>da pelo mecanismo de hedge do Banco Central. A proteção contra a</p><p>variação cambial foi feita pela venda de títulos da dívida indexados</p><p>à taxa de câmbio, pela perda de reservas internacionais e pela ven-</p><p>da de divisas no mercado futuro. Conforme Gremaud et al (2009)</p><p>A questão era quem ofereceria hedge em um momento no qual</p><p>todos avaliavam ser insustentável a política cambial. Novamen-</p><p>te, a resposta foi o setor público, como já havia sido feito em</p><p>outros momentos da história do país. [...] pode-se concluir que,</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>14</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>no momento da mudança cambial, apenas uma pequena par-</p><p>cela da dívida externa do setor privado não estava protegida.</p><p>Em resumo, o governo lidou com o déficit externo aumentando os</p><p>juros para atrair os investidores estrangeiros, e assim manter a taxa</p><p>de câmbio e a inflação controladas, mas pressionando o resultado</p><p>fiscal. O limite dessa estratégia se deu pelo aumento do endivida-</p><p>mento. Em 1998, a relação dívida/PIB alcançou 44%, contra 30%,</p><p>quando o Plano Real foi lançado. Ninguém mais queria financiar o</p><p>país. No final daquele ano o governo negociou um acordo com o</p><p>Fundo Monetário Internacional, que aportou US$ 42 bilhões na eco-</p><p>nomia brasileira e exigiu em contrapartida as medidas de austerida-</p><p>de típicas, especialmente, o superavit primário na casa dos 3% do</p><p>PIB.</p><p>Na maxidesvalorização, a inflação não disparou, como no caso</p><p>mexicano, em função do baixo crescimento econômico, da elevação</p><p>da taxa de juros, que alcançou 45% em 1999, e do superavit primário</p><p>realizado pelo setor público. As medidas contracionistas associadas</p><p>ao acordo com o FMI evitaram nova escalada dos preços. Em pouco</p><p>tempo, o dólar recuou de R$ 2,00 para R$ 1,90 e depois R$ 1,80.</p><p>O superavit primário foi obtido, principalmente, pelo aumento da</p><p>carga tributária, com destaque para a reedição da Contribuição Pro-</p><p>visória sobre a Movimentação Financeira. Em proporção do PIB, a</p><p>carga subiu de 29,64% para 35,65% entre 1998 e 2002. No ano</p><p>2000, a volta do crescimento também contribuiu para o aumento da</p><p>arrecadação. Naquele ano, a economia cresceu pouco acima de</p><p>4%, entretanto, sobre uma base reprimida, dado o crescimento qua-</p><p>se nulo dos dois anos anteriores. A desvalorização, à medida que</p><p>diminuía o risco cambial embutido nos juros, permitiu a queda da</p><p>taxa de juros e a o estímulo ao investimento. Não obstante, no ano</p><p>seguinte, o crescimento foi frustrado pela crise energética que levou</p><p>o país ao racionamento do consumo.</p><p>Com o fim do câmbio fixo, a âncora dos preços passou a ser o</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>15</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>sistema de metas de inflação, adotado a partir de 1999 depois da</p><p>nomeação de Armínio Fraga para o Ministério da Fazenda. Esse sis-</p><p>tema tenta coordenar as expectativas dos agentes em torno de um</p><p>alvo para a variação dos preços, caso a inflação esperada se distan-</p><p>cie do alvo, a taxa básica de juros é alterada para corrigir o desvio.</p><p>Desde a mudança no regime cambial até os três últimos anos do</p><p>governo Lula, a economia brasileira foi administrada segundo o tri-</p><p>pé: i) regime de metas de inflação, ii) superavit primário e, iii) câm-</p><p>bio flutuante. Nos anos FHC é certo que a manutenção da taxa de</p><p>câmbio valorizada, para o controle da inflação, impôs taxas de juros</p><p>elevadas e baixo crescimento econômico.</p><p>Os anos FHC foram importantes também do ponto de vista insti-</p><p>tucional. Uma série de reformas pretendia preparar o país para uma</p><p>nova inserção na economia global, mais aberta ao capital estran-</p><p>geiro e orientada pelo mercado. Dentre as transformações institu-</p><p>cionais devem ser lembradas as privatizações, o tratamento dado</p><p>ao capital estrangeiro, o saneamento do sistema financeiro, a rene-</p><p>gociação das dívidas estaduais, a lei de responsabilidade fiscal e</p><p>as agências reguladoras. Com a abertura esperava-se um choque</p><p>de competição no empresariado nacional, a estabilização alteraria</p><p>o comportamento de produtores e consumidores, já que permitiria</p><p>o cálculo econômico, e as mudanças institucionais confeririam ao</p><p>Estado mais capacidade de regulação e menos interferência direta</p><p>na atividade produtiva.</p><p>Foram privatizadas, principalmente, as empresas prestadoras de</p><p>serviços públicos, com destaque para as telecomunicações e o se-</p><p>tor energético. Os recursos obtidos com as privatizações foram da</p><p>mesma ordem das dívidas antigas reconhecidas pelo Estado, os</p><p>chamados “esqueletos fiscais”. Desse modo, as privatizações pou-</p><p>co contribuíram para a redução do endividamento público, mas, ao</p><p>menos, evitaram um endividamento ainda maior, em alguns casos,</p><p>permitiram a retomada dos investimentos, paralisados em função da</p><p>crise fiscal das empresas públicas. No caso da energia, a estraté-</p><p>O regime de metas para a in-</p><p>flação é um regime monetário</p><p>no qual o banco central se</p><p>compromete a atuar de forma</p><p>a garantir que a inflação efe-</p><p>tiva esteja em linha com uma</p><p>meta pré-estabelecida, anun-</p><p>ciada publicamente. O regi-</p><p>me de metas para a inflação</p><p>caracteriza-se geralmente por</p><p>quatro elementos básicos: i)</p><p>conhecimento público de me-</p><p>tas numéricas de médio-prazo</p><p>para a inflação; ii) comprome-</p><p>timento institucional com a</p><p>estabilidade de preços como</p><p>objetivo primordial da política</p><p>monetária; iii) estraté- gia de</p><p>atuação pautada pela trans-</p><p>parência para comunicar</p><p>claramente o público sobre</p><p>os planos, objetivos e razões</p><p>que justificam as decisões de</p><p>política monetária; e iv) meca-</p><p>nismos para tornar as autorida-</p><p>des monetárias responsáveis</p><p>pelo cumprimento das metas</p><p>para a inflação. Portanto, o re-</p><p>gime de metas para a inflação</p><p>envolve mais do que o anúncio</p><p>público de metas numéricas</p><p>para a inflação. A transparên-</p><p>cia e a prestação de contas re-</p><p>gulares à sociedade e a seus</p><p>representantes são elemen-</p><p>tos essenciais desse regime</p><p>(BANCO CENTRAL, 2015, p.</p><p>3).</p><p>Você sabia ?</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>16</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>O coeficiente de importação</p><p>(CI) é definido como a razão</p><p>entre a importação (M) e o</p><p>consumo aparente (CA) de um</p><p>setor, ou da economia como</p><p>um todo, assim:</p><p>Já o coeficiente exportado é</p><p>medido em relação à produ-</p><p>ção total, assim:</p><p>Você sabia ?</p><p>gia foi claramente insuficiente. A demanda cresceu mais veloz-</p><p>mente que os investimentos e o país viveu o racionamento em 2001.</p><p>Ao todo, foram 44 privatizações entre 1994 e 2001, que renderam,</p><p>entre vendas e transferências de débitos mais de R$ 27 bilhões. A</p><p>maior arrecadação foi a da Companhia Vale do Rio Doce, a empresa</p><p>de mineração rendeu R$ 6,8 bilhões. As maiores receitas por seto-</p><p>res vieram da siderurgia (22%), mineração (19%), energia (15%) e</p><p>petróleo e gás (13%).</p><p>A abertura e as privatizações representaram efetivamente uma re-</p><p>estruturação produtiva da economia. O coeficiente importado subiu</p><p>de 5,7% em 1990 para 20,3% em 1998, no caso dos bens de capital</p><p>passam de 20% para 100%. Em contrapartida o coeficiente expor-</p><p>tado aumentou apenas de 8% para 14% no mesmo período (CAR-</p><p>NEIRO, 2002).</p><p>As mudanças da estrutura industrial do país se fizeram ine-</p><p>quivocamente em duas direções; a mais importante foi a ada</p><p>ampliação da fatia dos setores intensivos em recursos naturais</p><p>e a consolidação de um segmento produtor e exportador de</p><p>material de transporte, classificado como intensivo em tecno-</p><p>logia. O peso das escalas de produção nacional para o setor</p><p>automotivo e da tradição da Embraer na montagem e comer-</p><p>cialização de aviões foi decisivo. Houve também uma perda</p><p>de participação de diversos segmentos intensivos em capital</p><p>e em trabalho. De tudo isso, resultou uma estrutura produtiva</p><p>muito menos diversificada do que no início da década e, não</p><p>fora pelo segmento de material de transporte, concentrada em</p><p>segmentos de pouco dinamismo. Com as exceções já apon-</p><p>tadas, a indústria brasileira tendeu a concentrar-se naqueles</p><p>segmentos direta ou indiretamente dependentes da base de</p><p>recursos naturais (CARNEIRO, 2002, p. 326).</p><p>A criação de mecanismos para a estabilidade da política fiscal</p><p>também recebeu atenção do governo FHC, deve ser lembrada a</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>17</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal, no ano 2000, a re-</p><p>forma da Previdência, que criou o fator previdenciário, em 1998, a</p><p>renegociação das dívidas estaduais e o saneamento do sistema fi-</p><p>nanceiro. Esses instrumentos têm permitido razoável transparência</p><p>e previsibilidade quanto ao comportamento das contas públicas, o</p><p>que aumenta a confiança dos investidores.</p><p>RESUMO: DO PLANO CRUZADO AO PLANO REAL</p><p>De modo analítico, pode-se dizer que a inflação dos anos 1980</p><p>tinha dois componentes. O primeiro determinava sua tendência e</p><p>era de caráter inercial, isto é, os mecanismos de indexação faziam</p><p>que um aumento inicial de preços fosse repetido nos períodos sub-</p><p>sequentes. O segundo componente determinava os choques que</p><p>faziam a inflação mudar de patamar. Na interpretação mais difun-</p><p>dida, os choques eram consequência da dificuldade de controle</p><p>dos gastos públicos, ocultada pela maior indexação das receitas</p><p>do governo frente à indexação de suas despesas. Ou seja, quando</p><p>o governo adiava seus pagamentos, a inflação diminuía o valor real</p><p>de suas dívidas, mas não fazia o mesmo com sua arrecadação. Uma</p><p>vez que a inflação desaparecesse, o déficit orçamentário ficaria vi-</p><p>sível.</p><p>Havia, no início dos anos 1980, um intenso debate sobre a melhor</p><p>forma de lidar com a inflação inercial. De um lado havia aqueles que</p><p>defendiam um “choque heterodoxo” nos preços, isto é, o congela-</p><p>mento temporário dos preços para que fosse eliminada a tendência</p><p>inflacionária via desindexação da economia e reestruturação finan-</p><p>ceira do Estado. Do outro lado, estavam aqueles que pregavam a</p><p>necessidade de uma reforma monetária, além da reestruturação dos</p><p>gastos públicos.</p><p>O Plano Cruzado, de 1986, que seguiu a proposta do choque he-</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>18</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>terodoxo, introduziu, entre outras medidas:</p><p>•	 Correção	dos	salários	conforme	o	poder	de	compra	dos	últi-</p><p>mos seis meses e mais um abono de 8%;</p><p>•	 Gatilho	 salarial,	 que	 corrigia	 os	 salários	 quando	 a	 inflação</p><p>chegas- se a 20%;</p><p>•	 Aumento	do	preço	da	energia	em	20%;</p><p>•	 Congelamento	de	todos	os	preços	a	partir	de	28/02/1986;</p><p>•	 Fixação	da	taxa	de	câmbio.</p><p>Em tese, mudanças estruturais deveriam ser realizadas durante a</p><p>vigência do congelamento. Na prática, o plano não tinha uma ânco-</p><p>ra bem definida para os preços. Os salários, âncora durante o regi-</p><p>me militar, passaram a pressionar o custo de produção, ao mesmo</p><p>tempo em que a correção do preço da energia provocava o mesmo</p><p>efeito.</p><p>O congelamento, anunciado de surpresa para evitar a antecipa-</p><p>ção de aumentos, acabou fixando também as distorções do siste-</p><p>ma de preços, que perderia a capacidade de sinalizar as melhores</p><p>oportunidades. Ou seja, como os preços não eram remarcados em</p><p>períodos suficientemente curtos, o congelamento, em alguns casos,</p><p>impediu a recomposição das margens de lucro, noutros, produziu</p><p>preços relativos artificialmente elevados.</p><p>A política fiscal e a política monetária não foram suficientemente</p><p>restritivas para conter a elevação da demanda logo que a inflação</p><p>recuou. O fim do imposto inflacionário elevou o poder de compra</p><p>da população, sobretudo a de menor renda, e criou pressão de de-</p><p>manda sobre os preços. Como não houve uma mudança estrutural</p><p>da economia ou dos gastos públicos, o plano se limitou ao congela-</p><p>mento, que se estendeu por um ano até cair em descrédito junto à</p><p>população.</p><p>O controle efetivo da inflação teve de esperar até 1993, quando foi</p><p>lançado o Plano</p><p>Real. Àquela altura, o Brasil já havia negociado sua</p><p>volta ao mercado internacional de capitais e promovido a abertura</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>19</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>financeira da economia, o que lhe permitiria receber investimentos</p><p>estrangeiros e aumentar suas reservas internacionais. Dessa vez,</p><p>optou-se pela reforma monetária, por meio da substituição da moe-</p><p>da. O governo Collor também já havia iniciado o processo de aber-</p><p>tura comercial e financeira da economia brasileira, reduzindo as tari-</p><p>fas de importação e as barreiras ao movimento de capitais. Algumas</p><p>das medidas mais relevantes do plano foram:</p><p>•	 Reforma	monetária:	 foi	 introduzida	uma	segunda	moeda	na</p><p>economia, a Unidade Real de Valor (URV), com paridade fixa em</p><p>relação ao dólar, e que se valorizava diariamente em relação ao cru-</p><p>zeiro. Com isso, o governo produziu um encurtamento dos prazos</p><p>de reajuste de preços em cruzeiros, porém manteve URV livre de</p><p>inflação. Depois de alguns meses, quando os preços já estavam</p><p>suficientemente sincronizados, o cruzeiro deixou de existir e a URV</p><p>foi substituída pela nova moeda, o real;</p><p>•	 Âncora	cambial:	de	 início	o	 real	flutuava	em	relação	ao	dó-</p><p>lar. Dado o aporte de capital estrangeiro, sobretudo em aplicações</p><p>financeiras entre 1993 e 1994, no lançamento da nova moeda um</p><p>dólar valia apenas 0,84 centavos de real, ou seja, houve supervalo-</p><p>rização do real, o que barateava as importações. Como a abertura</p><p>comercial já estava em curso, os produtores nacionais não podiam</p><p>mais aumentar preços como antes, já que agora havia a concorrên-</p><p>cia estrangeira. Posteriormente, a taxa de câmbio seria controlada e</p><p>lentamente desvalorizada;</p><p>•	 Âncora	 monetária:	 logo	 que	 a	 inflação	 baixou,	 para	 evitar</p><p>pressão de demanda, o governo aumentou significativamente a taxa</p><p>de juros (política monetária restritiva);</p><p>•	 Ajuste	fiscal:	como	o	governo	supunha	que	havia	um	déficit</p><p>fiscal mascarado pela inflação, ainda antes da reforma monetária,</p><p>procurou reduzir os gastos públicos, por meio da constituição do</p><p>Fundo Social de Emergência e da Desvinculação das Receitas da</p><p>União, e aumentar as receitas, pelo aumento de impostos;</p><p>•	 Reforma	do	Estado	e	desindexação	da	economia.</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>20</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>Em resumo, as lições extraídas do Plano Cruzado foram impor-</p><p>tantes para que os erros daquele plano não fossem cometidos no-</p><p>vamente. No Plano Real, as medidas foram tomadas gradualmen-</p><p>te e com transparência, sem choques sobre as expectativas dos</p><p>agentes, a âncora cambial funcionou para o controle dos preços. O</p><p>reequilíbrio fiscal, ao menos no início do plano, e a política monetá-</p><p>ria restritiva, contiveram a pressão de demanda logo que a inflação</p><p>recuou.</p><p>Em alguns anos, o aumento dos juros e a supervalorização da</p><p>moeda teriam efeitos negativos sobre as contas públicas e sobre a</p><p>balança comercial, o que levaria a uma nova orientação da econo-</p><p>mia em 1999.</p><p>RESUMO: O BRASIL ENTRE 1995 E 1999</p><p>A abertura comercial e financeira da economia brasileira cumpriu</p><p>um papel importante na estabilização dos preços no início do Plano</p><p>Real. A facilitação do comércio internacional e a redução na tari-</p><p>fa de importação (abertura comercial) transformaram os produtores</p><p>estrangeiros em concorrentes dos produtores nacionais, desestimu-</p><p>lando o aumento dos preços internos. Por outro lado, a liberalização</p><p>do fluxo de capitais financeiros (abertura financeira), permitiu a en-</p><p>trada de uma grande quantia de moeda estrangeira, especialmen-</p><p>te no biênio 1993/94, o que provocou a sobrevalorização do real.</p><p>Assim, as importações ficaram baratas e o custo de produção dos</p><p>bens que dependiam de insumos importados ficou controlado.</p><p>Entretanto, a abertura teve outros efeitos na economia. O controle</p><p>da inflação provocou um aumento imediato da demanda agrega-</p><p>da, em função do fim do imposto inflacionário. A combinação entre</p><p>demanda aquecida e câmbio sobrevalorizado resultou em déficits</p><p>comerciais entre 1995 e 1999.</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>21</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>O resultado negativo depois de 1994 poderia ser enfrentado pela</p><p>desvalorização do real, pela diminuição das reservas do Banco Cen-</p><p>tral, por um corte de gastos públicos, grande o bastante para conter</p><p>o aquecimento da economia e diminuir a demanda por importados,</p><p>ou pela entrada compensatória de divisas na conta corrente do Ba-</p><p>lanço de Pagamentos, seja por meio do Investimento estrangeiro</p><p>direto, ou das aplicações financeiras.</p><p>Como o governo temia pela volta da inflação, descartou uma des-</p><p>valorização mais aguda. No início, optou pela perda de reservas</p><p>internacionais para sustentar o câmbio. Porém, foi por meio da ele-</p><p>vação dos juros que atraiu recursos financeiros para a conta de ca-</p><p>pital. O aumento dos juros serviu também para controlar a demanda</p><p>agregada, evitando a pressão sobre os preços.</p><p>A política monetária restritiva teve impactos severos sobre as con-</p><p>tas públicas. O pagamento dos juros dificultou a obtenção do equi-</p><p>líbrio fiscal. O país estava diante de um cenário perverso em que</p><p>os juros eram mantidos elevados para atrair o capital estrangeiro e</p><p>manter câmbio e inflação controlados. Contudo, o pagamento de</p><p>juros agravou o déficit público, financiado por novos aumentos da</p><p>dívida e do risco-país. Para continuar financiando o governo, os in-</p><p>vestidores exigiam juros cada vez maiores. Essa situação era insus-</p><p>tentável no longo-prazo. De fato, em 1999 o regime de câmbio fixo</p><p>não resistiu a um novo ataque especulativo.</p><p>Em uma perspectiva mais geral, não só o Brasil, mas boa parte da</p><p>América Latina e outros países em desenvolvimento sofreram crises</p><p>semelhantes de suas moedas. Entrementes, a abertura comercial e</p><p>financeira acabou submetendo a moeda desses países à sobrevalo-</p><p>rização, como consequência do fluxo de capitais de curto-prazo, de</p><p>natureza especulativa.</p><p>A desregulamentação do mercado de capitais começou ainda nos</p><p>anos 1970, na esteira do euromercado de dólares e da ascensão po-</p><p>lítica do Neoliberalismo. Na América Latina, o processo de abertura</p><p>remete à adoção das ações neoliberais sugeridas pelo Consenso de</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>22</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>Washington (1989). Em suma, o consenso pressupunha que o in-</p><p>ter- vencionismo estatal e o populismo com política fiscal, que leva-</p><p>va a sucessivos déficits públicos, eram as causas do baixo cresci-</p><p>mento das economias latino-americanas nos anos 1980.</p><p>A redefinição do papel do Estado na economia deveria produzir</p><p>um ambiente mais favorável ao crescimento. A privatização das em-</p><p>presas estatais deveria aumentar a produtividade das mesmas, em</p><p>função da modernização das práticas de gestão e do aumento da</p><p>concorrência e eficiência. O Estado deveria eliminar os controles</p><p>diretos sobre os preços e o mercado, e assumir uma postura de re-</p><p>gulação da concorrência e correção das falhas de mercado. O equi-</p><p>líbrio fiscal e a estabilidade monetária promoveriam um sistema de</p><p>preços mais realista e, assim, aumentariam a confiança dos agentes</p><p>e a eficiência alocativa.</p><p>Em parte, a confiança de que os resultados positivos viriam no</p><p>médio prazo levou o governo a postergar alguma medida mais efeti-</p><p>va quando o déficit na balança comercial já se mostrava, ou quando</p><p>o aumento dos juros, também por força do contágio internacional</p><p>produzido pela crise mexicana, no fim de 1994,</p><p>agravou a situação</p><p>fiscal e gerou déficits públicos a cada ano. Ademais, havia o temor</p><p>de que a inflação pudesse voltar, os fatores somados levaram o go-</p><p>verno a adiar um ajuste no câmbio, o que aconteceu apenas em</p><p>1999, em um cenário de crise do regime cambial.</p><p>Depois de outras duas crises em economias emergentes, na Rús-</p><p>sia, em 1997, e no sudeste asiático, em 1998, foi a vez do Brasil, em</p><p>1999, sucumbir face um ataque especulativo contra a sua moeda.</p><p>Diante da fuga de capitais, o Banco Central foi incapaz de dar so-</p><p>brevida ao regime de câmbio fixo, adotado em 1995. O risco de não</p><p>pagamento da dívida provocou ainda a negociação de um emprés-</p><p>timo junto ao Fundo Monetário de Internacional (FMI).</p><p>Como é praxe, o FMI impôs condições sobre o empréstimo. A mais</p><p>relevante foi a obtenção de superavit primário (resultado fiscal des-</p><p>contado o pagamento dos juros da dívida pública) de 3% do PIB.</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>23</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>O governo federal então procedeu a um ajuste fiscal, que envolveu</p><p>o corte de gastos e a elevação de impostos, mas também medidas</p><p>estruturais, como uma reforma da previdência, a renegociação das</p><p>dívidas dos entes subnacionais e a aprovação da lei de responsabi-</p><p>lidade fiscal.</p><p>A moeda brasileira sofreu uma forte desvalorização. Foi adotado o</p><p>câmbio flutuante, que corrigia os desequilíbrios na balança comer-</p><p>cial e diminuía a pressão sobre a taxa de câmbio, e assim devolvia</p><p>a autonomia da política monetária, já que os juros não seriam, em</p><p>tese, utilizados para a atração de divisas. A âncora dos preços pas-</p><p>sou a ser a expectativa inflacionária, conforme prevê o regime de</p><p>metas de inflação. A taxa de juros passou a ser utilizada para fazer</p><p>convergir a inflação esperada à meta fixada pelo governo. Sempre</p><p>que a primeira supera a última, os juros são elevados, até que exista</p><p>a convergência. A combinação entre o superavit primário, o câmbio</p><p>flutuante e o regime de metas de inflação configurou o chamado</p><p>tripé da política economia a partir de 1999.</p><p>No regime de metas, o Banco Central (BC) se compromete a cum-</p><p>prir a meta estabelecida para a inflação. Caso a inflação esperada,</p><p>investigada a partir da consulta aos agentes econômicos e mode-</p><p>los de previsão do BC, esteja acima da meta estabelecida, a taxa</p><p>de juros deverá subir. Com os juros mais elevados, a demanda da</p><p>economia diminui, já que o crédito para o consumo e também para</p><p>o investimento fica mais caro. Logo, a atividade econômica desa-</p><p>celera, assim não há margem para o aumento de preços, a inflação</p><p>esperada diminui até convergir com a meta.</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>24</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>POLÍTICA E ECONOMIA: A PRIMEIRA FASE, 2003</p><p>A 2005</p><p>O ano eleitoral de 2002 foi marcado por uma intensa crise de con-</p><p>fiança na economia brasileira. Na esteira do racionamento de energia</p><p>vivido em 2001, a alternância de poder era iminente. A perspectiva</p><p>de vitória do então candidato da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva,</p><p>pelo PT, que dois anos antes havia proposto um plebiscito sobre o</p><p>pagamento da dívida pública, criou um ambiente de insegurança</p><p>sobre a condução da política macroeconômica. O risco país atingiu</p><p>1.400 pontos em dezembro de 2002, a taxa de câmbio nominal</p><p>oscilou de R$ 2,40 a R$ 3,70 (R$/US$) entre abril e outubro, e a in-</p><p>flação fechou aquele ano em 12%. As reservas internacionais eram</p><p>de US$ 37 bilhões, com US$ 21 bilhões provenientes do empréstimo</p><p>do FMI, esse valor equivalia, no mês de dezembro, a 10 vezes as</p><p>importações. A taxa de investimento caiu 5 pontos percentuais.</p><p>A reversão das expectativas começou em junho de 2002, com a</p><p>publicação da “Carta ao Povo Brasileiro”, assinada também pelo</p><p>candidato Lula, em que o PT se comprometia a manter a política</p><p>macroeconômica. “Vamos preservar o superávit primário quanto</p><p>for necessário para impedir que a dívida interna aumente e destrua</p><p>confiança na capacidade do governo honrar seus compromissos”</p><p>(Carta ao Povo Brasileiro, apud WERNECK, 2014, p. 359). Quan-</p><p>do assumiu o governo no ano seguinte, o presidente Lula nomeou</p><p>Antônio Palocci para o Ministério da Fazenda, e Henrique Meireles,</p><p>executivo do mercado financeiro, para o Banco Central. A taxa de ju-</p><p>ros foi aumentada e a meta de superavit primário elevada de 3,75%</p><p>para 4,25% do PIB. O salário mínimo teve aumento real de apenas</p><p>0,7% em 2003.</p><p>As medidas restritivas mantiveram a trajetória declinante da rela-</p><p>ção dívida/PIB e recuperaram a confiança do mercado financeiro,</p><p>também tiveram os efeitos esperados sobre a atividade econômica.</p><p>Em 2003, o crescimento do PIB foi de apenas 1,2%. O governo apro-</p><p>SPREAD. Taxa adicional de</p><p>risco cobrada sobretudo (mas</p><p>não exclusivamente) no mer-</p><p>cado financeiro internacional.</p><p>É variável conforme a liquidez</p><p>e as garantias do tomador do</p><p>empréstimo e o prazo de res-</p><p>gate. A crise de liquidez que se</p><p>instalou no mercado financeiro</p><p>internacional no final dos anos</p><p>1970 e início dos 1980, espe-</p><p>cialmente depois da segunda</p><p>grande elevação dos preços</p><p>do petróleo em 1979, genera-</p><p>lizou o uso do spread, o que</p><p>sobrecarregou a dívida exter-</p><p>na de muitos países. O Brasil</p><p>pagou spreads muito elevados</p><p>no processo de rolagem de</p><p>sua dívida externa durante os</p><p>anos 1980. A expressão aliga-</p><p>tor spread (spread de crocodi-</p><p>lo) é utilizada no mercado de</p><p>opções quando as comissões</p><p>pelas operações de compra e</p><p>venda de um operador são tão</p><p>elevadas que, mesmo que o</p><p>mercado corresponda às mu-</p><p>danças previstas (que induzi-</p><p>ram as aplicações), os ganhos</p><p>serão anulados por esses cus-</p><p>tos, não havendo lucro algum</p><p>(SANDRONI, 1999, p. 575).</p><p>Você sabia ?</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>25</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>vou ainda uma reforma da previdência, que procurou estabilizar</p><p>os gastos públicos com a seguridade social, e uma minirreforma</p><p>tribu-</p><p>tária, que tornou a arrecadação um pouco mais eficiente e ra-</p><p>cional, auxiliando as exportações e assegurando que a receita da</p><p>União seria aumentada nos anos seguintes, em termos nominais e</p><p>quanto ao PIB (BARBOSA; SOUZA, 2013).</p><p>No final de 2003, o risco país já havia caído para 700 pontos e o</p><p>dólar recuado para R$ 3,00. O spread foi reduzido e com ele a</p><p>taxa de juros pôde também entrar em trajetória descendente. As</p><p>reservas internacionais acumuladas alcançaram US$ 49,3 bilhões,</p><p>US$ 20,5 provenientes do acordo com o FMI, ou 12 vezes as impor-</p><p>tações de dezembro de 2003.</p><p>Com o aumento das exportações, a queda nos juros, e a base</p><p>retraída, em 2004, a economia cresceu vigorosos 5,7%. Ainda assim</p><p>a inflação recuou de 9,3% em 2003 para 7,3%. A balança comercial</p><p>continuou registrando superavits expressivos, ora em função do au-</p><p>mento das exportações (2003, 2004), ora pela queda das importa-</p><p>ções (2005). Em 2004, o investimento e as exportações cresceram</p><p>acima do PIB. Em 2005, foi a vez do consumo das famílias puxar a</p><p>demanda agregada. Naquele ano, depois de um aperto na política</p><p>monetária, o ritmo de crescimento desacelerou para 3,1%. O enten-</p><p>dimento da equipe econômica era de que a expansão do PIB estava</p><p>maior, que comportava o PIB potencial da economia, gerando pres-</p><p>são inflacionária.</p><p>As mudanças na condução da economia viriam das turbulências</p><p>vividas na política. Em 2005 veio à tona o que ficou conhecido da</p><p>imprensa como o “mensalão”. Segundo denunciou o deputado fede-</p><p>ral Roberto Jefferson, havia no Congresso Nacional um esquema de</p><p>corrupção, organizado pelo PT, em que deputados da base aliada</p><p>vendiam apoio nas votações das propostas governistas.</p><p>Além da</p><p>cúpula do partido, o escândalo atingiu a equipe econômica. O am-</p><p>biente tenso impediu que fosse aprovado um plano de ajuste fiscal</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>26</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>de longo-prazo, que obrigaria os gastos públicos a crescerem me-</p><p>nos que o PIB (WERNECK, 2014).</p><p>Em março de 2006, o Ministro da Fazenda Antônio Palocci foi</p><p>substituído por Guido Mantega, que assumiria uma postura mais</p><p>heterodoxa. Com o novo ministério e com a receita fiscal crescen-</p><p>te, em função do aumento do PIB e da melhora nos mecanismos</p><p>de arrecadação, a preocupação com o crescimento dos gastos foi</p><p>deixada em segundo plano. Não obstante, o superavit primário do</p><p>governo central permaneceu em todo o período Lula, e a relação</p><p>Dívida/PIB diminuiu.</p><p>O bom desempenho da balança comercial deveu-se sobretudo</p><p>ao ciclo de preços das commodities. O assombroso crescimento</p><p>chinês e de outros países asiáticos aumentou a demanda mundial</p><p>desses produtos, com isso, elevou seus preços. O Gráfico 1 ilustra</p><p>esse ponto.</p><p>Gráfico 1 – Exportações e preço internacional das commodities,</p><p>mensal, 1998 a 2010.</p><p>Embora tenha mantido o tripé da política macroeconômica, a saber,</p><p>o superavit primário, o câmbio flutuante com intervenção do Banco</p><p>Central, e o regime de metas de inflação. A nova equipe econômica</p><p>acrescentaria outros elementos, como o acúmulo mais acentuado</p><p>Fonte: IPEA (2015); Banco Central (2015).</p><p>Índice de preços das commodities no eixo à direita.</p><p>COMMODITY (Commodities).</p><p>O termo significa literalmente</p><p>“mercadoria” em inglês. Nas</p><p>relações comerciais interna-</p><p>cionais, o termo designa um</p><p>tipo particular de mercadoria</p><p>em estado bruto ou produto</p><p>primário de importância co-</p><p>mercial, como é o caso do</p><p>café, do chá, da lã, do algo-</p><p>dão, da juta, do estanho, do</p><p>cobre etc. Alguns centros se</p><p>notabilizaram como importan-</p><p>tes mercados desses produtos</p><p>(commodity exchange). Lon-</p><p>dres, pela tradição colonial e</p><p>comercial britânica, é um dos</p><p>mais antigos centros de com-</p><p>pra e venda de commodities,</p><p>grande parte das quais nem</p><p>sequer passa por seu porto</p><p>(SANDRONI, 1999, p. 113).</p><p>Você sabia ?</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>27</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>de reservas internacionais, o aumento agressivo das transferên-</p><p>cias e a tentativa de aumento do investimento público.</p><p>ENSAIO DESENVOLVIMENTISTA: A POLÍTICA</p><p>ECONÔMICA DE 2006 A 2008</p><p>A entrada de Guido Mantega no Ministério da Fazenda marcou</p><p>o início de uma gestão da economia mais próxima às ideias de-</p><p>senvolvimentistas, especialmente no que diz respeito ao ativismo do</p><p>Estado na promoção do desenvolvimento. A primeira tendência as-</p><p>sinalada foi o aumento do volume de crédito da economia.</p><p>Inicialmente, o ambiente macroeconômico mais estável permitiu</p><p>a retomada da oferta de crédito, levaram a isso a queda da taxa de</p><p>juros e da inflação, mas também, as inovações microeconômicas.</p><p>No final de 2003, foi criado o mecanismo do crédito consignado,</p><p>e no ano seguinte, a reforma da Lei das Falências simplificou as</p><p>operações de crédito às empresas que enfrentavam dificuldades</p><p>financeiras. Essa tendência se manteve de 2006 adiante.</p><p>O volume de crédito livre dobrou entre dezembro de 2005 e</p><p>dezembro de 2008. Os mercados de capitais tiveram os três</p><p>melhores anos da história recente, com emissões primárias to-</p><p>talizando praticamente R$ 400 bilhões no período. O crédito</p><p>direcionado, que representava 33% do crédito total em dezem-</p><p>bro de 2005, manteve sua participação relativa praticamente</p><p>estável até dezembro de 2008 (29% do total), com destaque</p><p>para o crédito habitacional (que passou de R$ 34,5 bilhões em</p><p>2006 para R$ 59,7 bilhões em 2008, alcançando o crescimento</p><p>de 73,2%) e para o BNDES (cujos desembolsos atingiram R$</p><p>90,8 bilhões em 2008). Na área da agricultura, o crédito agríco-</p><p>la foi beneficiado pela expansão do valor do Plano Safra, que</p><p>subiu de R$ 53,5 bilhões em 2005-2006 para R$ 78 bilhões em</p><p>2008-2009 (BARBOSA; SOUZA, 2010, p. 18).</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>28</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>As elevações de crédito associadas ao bom desempenho do mer-</p><p>cado de trabalho reforçaram o consumo interno. Com isso, apesar</p><p>da alta do preço das commodities e também das exportações, o</p><p>saldo comercial diminuiu da casa de US$ 44 bilhões em 2007 para</p><p>US$ 24 bilhões em 2008, dado o aumento das importações. O déficit</p><p>na balança de serviços aumentou, puxado pela conta das viagens</p><p>internacionais. A renda líquida enviada ao exterior também aumen-</p><p>tou bastante, de US$ 26 bilhões em 2005 para US$ 40 bilhões em</p><p>2008, devido principalmente à remessa de lucros e dividendos. O</p><p>saldo das transações correntes foi reduzido de um superavit de US$</p><p>13 bilhões em 2005 para um déficit de US$ 28 bilhões em 2008.</p><p>Não obstante, a entrada de recursos do exterior foi mais que su-</p><p>ficiente para financiar o déficit em conta corrente. A entrada líquida</p><p>de investimento estrangeiro direto dobrou no acumulado de 2006 a</p><p>2008, em relação ao período entre 2003 a 2005, de US$ 43 bilhões</p><p>para US$ 98 bilhões, o investimento em carteira, atraído pelos juros</p><p>elevados e expectativa de valorização da moeda, subiu de US$ 5,4</p><p>bilhões para US$ 56 bilhões (BARBOSA; SOUZA, 2010). O excesso</p><p>de divisas foi direcionado para o aumento das reservas internacio-</p><p>nais. Havia o entendimento de que a vulnerabilidade externa seria</p><p>diminuída com o acúmulo de reservas em grande volume. O Gráfico</p><p>2 mostra o crescimento das reservas.</p><p>Gráfico 2 – Reservas internacionais, US$ (bilhões), mensal, 2003</p><p>a 2010.</p><p>Fonte: Banco Central do Brasil, Boletim, Seção Balanço de Pagamentos (BCB Bo-</p><p>letim/ BP)¹.</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>29</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>A inflação declinou em 2006 para 3,1%, abaixo do centro da meta,</p><p>apesar do aquecimento da economia, o PIB subiu 4%. Algo seme-</p><p>lhante ocorreu em 2006, com crescimento de 6% do PIB e inflação</p><p>de 4,1%. A estabilidade dos preços foi facilitada pela valorização</p><p>cambial (vide Gráfico 3).</p><p>Em meados de 2007, o aquecimento da economia e a forte ele-</p><p>vação do preço das commodities (gráfico 1) implicaram em pres-</p><p>são inflacionária. Além de elevar a taxa básica de juros; em abril</p><p>de 2008, o governo desonerou a gasolina da Contribuição sobre</p><p>Intervenção no Domínio Econômico (CIDE). O aperto monetário não</p><p>foi acompanhado de uma política fiscal restritiva.</p><p>Outra tendência da do período 2006/08 foi o aprofundamento das</p><p>políticas de renda e dos programas sociais. O Bolsa Família, que</p><p>substituiu e ampliou os programas menores e mais focalizados de</p><p>transferência de renda do início dos anos 2000, saltou de 3,6 mi-</p><p>lhões de famílias beneficiadas em 2003 para 11 milhões de famílias</p><p>em 2006, e 12,8 milhões em 2010, ao custo irrisório de 0,4% do PIB</p><p>no último ano. O Gráfico 4 mostra o número de beneficiários e o valor</p><p>1 Dados disponíveis em: . Acesso em: 05 jul. 2015.</p><p>Gráfico 3 – Taxa de câmbio - efetiva</p><p>real - INPC - exportações - índice (mé-</p><p>dia 2005 = 100).</p><p>Fonte: IPEA, 20151</p><p>1 Dados disponíveis em:</p><p>. Acesso em: 05</p><p>jul. 2015.</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>30</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>médio do benefício.</p><p>Gráfico 4 – Bolsa Família, número de beneficiários e valor médio</p><p>do benefício, 2004 a 2010.</p><p>Enquanto o número de beneficiários dobrou de 2004 até 2006, o</p><p>valor médio</p><p>do benefício passou a aumentar somente a partir desse</p><p>último ano. A política de renda também foi feita por meio da ele-</p><p>vação do salário mínimo, que teve aumento real de 3,4% e 7% no</p><p>biênio 2004/05. Já nos três anos consecutivos esse aumento foi de</p><p>14%, 6% e 3,1%.</p><p>A visão desenvolvimentista do governo Lula também enfatizava</p><p>a importância das transferências de renda do governo federal</p><p>para as famílias como instrumento de desenvolvimento eco-</p><p>nômico. Em contraste com a visão neoliberal, para os desen-</p><p>volvimentistas as transferências de renda não se esgotavam</p><p>apenas como mecanismo de combate da extrema pobreza:</p><p>constituíam também um instrumento de expansão da demanda</p><p>agregada e de elevação dos salários reais da economia. Nesse</p><p>caso, para os desenvolvimentistas o principal instrumento de</p><p>atuação do Estado era a elevação do valor real do salário míni-</p><p>mo (BARBOSA; SOUZA, 2010, p. 11).</p><p>Fonte: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS)²</p><p>³ Entendida a pobreza como a renda domiciliar per capita inferior ao dobro da renda necessária para a aquisição de uma de bens capaz de</p><p>suprir as necessidades calóricas de uma pessoa, conforme as recomendações da Organização Mundial da Saúde (IPEA, 2015).</p><p>4</p><p>Elaborado pelo sociólogo italiano Corrado Gini, o índice captura a desigualdade de valores em uma distribuição de dados, por exemplo,</p><p>a distribuição de renda. O índice varia de 0 a 1, em que 0 significa uma distribuição de renda igualitária, ou seja, em todos têm a mesma</p><p>renda, e 1 representa a situação de “perfeita desigualdade”, em que um membro da população acumula toda a renda.</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>31</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>O objetivo do governo com essa política ia além do salário mínimo.</p><p>A expectativa era de aumentar o poder de barganha dos trabalha-</p><p>dores em geral na negociação salarial, com a intenção de promover</p><p>uma melhor distribuição da renda e de reforçar o mercado interno.</p><p>O aumento da demanda por consumo deveria ainda sancionar o</p><p>crescimento da oferta gerado pelos investimentos, e permitir que</p><p>uma parte maior do ganho de produtividade pudesse ser apropria-</p><p>da pelos trabalhadores. De fato, os programas sociais e o aumento</p><p>do mínimo tiveram grandes impactos no conjunto da sociedade. O</p><p>número de pessoas pobres caiu 50% de 2003 a 2009³. O índice de</p><p>Gini4 para a concentração de renda saiu de 0,593 em 2002 para</p><p>0,530 em 2010 (DEDECCA ET AL, 2014). Quase 60 milhões de bra-</p><p>sileiros ascenderam à chamada classe C, cujos rendimentos variam</p><p>entre R$ 1.200,00 e R$ 5.174,00, em valores de 2010 (NERI, 2012).</p><p>A política de investimentos públicos não teve o mesmo êxito que a</p><p>política de rendas. Para o triênio de 2007/10 o Programa de Acelera-</p><p>ção do Crescimento (PAC) previa um total de R$ 504 bilhões inves-</p><p>tidos em infraestrutura. A maior parte, R$ 436 bilhões, oriundos das</p><p>empresas estatais e setor privado, em uma tentativa de reedição</p><p>da articulação histórica entre o investimento público e o privado do</p><p>período desenvolvimentista, e R$ 68 bilhões provenientes do orça-</p><p>mento federal. Os recursos seriam destinados, principalmente, ao</p><p>setor energético (R$ 275 bi), dada a proeminência da Petrobrás no</p><p>plano de investimentos, aos transportes (R$ 58 bi), e à infraestrutura</p><p>social (R$ 171 bi).</p><p>Além da aplicação de recursos na infraestrutura, as outras áreas</p><p>do programa eram: i) a melhora do ambiente de investimento, por</p><p>exemplo, por meio do aperfeiçoamento do marco regulatório e do</p><p>fortalecimento do Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência; ii)</p><p>desoneração tributária, sobretudo para a construção civil e aquisi-</p><p>ção de bens de capital; iii) medidas fiscais de longo prazo, que de-</p><p>veriam limitar o crescimento do gasto público da União com a folha</p><p>de pagamento, além de estabelecer uma regra para o crescimento</p><p>³ Entendida a pobreza como a renda domiciliar per capita inferior ao dobro da renda necessária para a aquisição de uma de bens capaz de</p><p>suprir as necessidades calóricas de uma pessoa, conforme as recomendações da Organização Mundial da Saúde (IPEA, 2015).</p><p>4</p><p>Elaborado pelo sociólogo italiano Corrado Gini, o índice captura a desigualdade de valores em uma distribuição de dados, por exemplo,</p><p>a distribuição de renda. O índice varia de 0 a 1, em que 0 significa uma distribuição de renda igualitária, ou seja, em todos têm a mesma</p><p>renda, e 1 representa a situação de “perfeita desigualdade”, em que um membro da população acumula toda a renda.</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>32</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>do salário mínimo e iv) consistência fiscal, os formuladores do pla-</p><p>no contavam com o aumento da arrecadação, em função do cresci-</p><p>mento econômico e com a queda na taxa de juros, para alcançar o</p><p>equilíbrio fiscal e a redução da relação dívida/PIB.</p><p>Com o PAC, os investimentos públicos passaram da 1,79% do</p><p>PIB em 2003, para 3,31% em 2009 (o governo central aumentou de</p><p>0,3% para um 1,3%, o restante deveu-se às estatais). Contudo, o</p><p>montante investido e o resultado do programa estavam muito aquém</p><p>do necessário para elevar substancialmente a taxa de investimento</p><p>da economia e sustentar de um ritmo de crescimento de 5%, como</p><p>previa o governo.</p><p>O programa esbarrou em dificuldades gerenciais, como a demora</p><p>para a liberação dos recursos e obtenção das licenças ambientais,</p><p>ou o antigo problema da corrupção. Até 2010 foram liberados 84%</p><p>dos recursos previstos, entretanto, apenas 60% das ações foram</p><p>concluídas, dessas, a metade dizia respeito ao Financiamento Ha-</p><p>bitacional para a Pessoa Física. Outros pontos de estrangulamento</p><p>da infraestrutura brasileira, como a logística ou o setor de energia,</p><p>concluíram 15% e 33% das ações previstas até 2010 (IPEA, 2010).</p><p>O último grande plano de investimentos comandado pela burocracia</p><p>estatal foi o II PND. Claramente, e sobretudo a partir da opção feita</p><p>nos anos 1990, o Estado havia perdido a capacidade gerencial e de</p><p>execução de obras.</p><p>Em tese, o investimento público em infraestrutura deveria induzir</p><p>o setor privado a também investir, dados os efeitos multiplicadores</p><p>e o ganho de eficiência gerado pela modernização da infraestrutu-</p><p>ra. Todavia, o bom momento da arrecadação talvez tenha levado o</p><p>governo a minimizar a participação do capital privado nesses inves-</p><p>timentos. Nas áreas de energia e rodovias, por exemplo, o governo</p><p>havia previsto a estatização de toda a expansão planejada (WER-</p><p>NECK, 2014). Já os investimentos nos aeroportos viriam em grande</p><p>parte das concessões à iniciativa privada, mas só a partir de 2011.</p><p>O papel central dos investimentos para o crescimento sustentado da</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>33</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>economia pode ser visualizado a partir da Tabela 1.</p><p>Nos anos em que houve maior crescimento do PIB, houve também</p><p>grande expansão do investimento, exceto em 2005. O consumo das</p><p>famílias também subiu, sustentando o aumento da produção. Não</p><p>obstante, a valorização cambial poria em risco a competitividade da</p><p>economia brasileira. “Os indicadores de custo unitário da mão de</p><p>obra, medido em dólares, mostraram elevação substancial e persis-</p><p>tente ao longo dos oito anos do governo Lula” (WERNECK, 2014, p.</p><p>370).</p><p>O câmbio valorizado somado ao ciclo das commodities diminuiu</p><p>a participação dos bens industriais na pauta de exportações. Os</p><p>bens de alta tecnologia, que representavam 12,4% da pauta no</p><p>ano 2000, reduziram a participação para 5,9%, enquanto os bens</p><p>não industriais aumentaram de 16% para 31,6% no mesmo período</p><p>(CURADO, 2011). O saldo em transações</p><p>correntes tornou-se nega-</p><p>Fonte: Dedecca et al. (2012, p. 27).</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>34</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>tivo já no início de 2008. O risco dessa postura seria a dependência</p><p>excessiva da evolução dos preços das commodities, e o recorrente</p><p>estrangulamento do setor externo. Ademais, o setor industrial tem</p><p>efeitos dinâmicos que não estão presentes na mesma medida em</p><p>outros segmentos, como o rápido aumento de produtividade, as ino-</p><p>vações ou os efeitos de encadeamento de uma atividade sobre as</p><p>outras.</p><p>Nos anos Lula, “reproduz-se, portanto, o padrão de crescimento</p><p>com absorção da poupança, o que condicionada a sustentabilidade</p><p>de longo prazo do Balanço de Pagamentos às condições vigentes</p><p>de liquidez do mercado financeiro internacional para os países em</p><p>desenvolvimento” (CURADO, 2011, p. 100).</p><p>A CRISE FINANCEIRA INTERNACIONAL E A REA-</p><p>ÇÃO DO GOVERNO BRASILEIRO, 2008 A 2010</p><p>O primeiro efeito da crise financeira internacional no Brasil e no</p><p>exterior foi a suspensão do crédito, principalmente dos bancos co-</p><p>merciais, o que criava profundas dificuldades para a atividade do</p><p>setor produtivo. O governo lidou com a preferência pela liquidez dos</p><p>agentes financeiros pelo aumento da oferta de crédito e expansão</p><p>da liquidez, em moeda nacional e estrangeira. Para tanto, o Banco</p><p>Central reduziu o recolhimento compulsório e fez uso das reservas</p><p>internacionais para financiar empresas exportadoras (BARBOSA;</p><p>SOUZA, 2010). Em 2009, a taxa básica de juros entrou em um novo</p><p>ciclo de queda.</p><p>Outro canal de contágio foi o comércio exterior. A súbita queda no</p><p>preço das commodities atingiu o saldo da balança comercial brasi-</p><p>leira. As exportações, que em 2008 foram de US$ 190 bilhões, no</p><p>ano seguinte caíram a US$ 153 bilhões. Entretanto, dada a queda</p><p>das importações, o saldo comercial foi US$ 24 bilhões em 2008 e</p><p>US$ 25 bilhões em 2009. Entre agosto de 2008 e março do ano se</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>35</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>guinte a taxa de câmbio foi de R$ 1,56 a R$ 2,40, retornando a R$</p><p>1,67 já em 2010 (WERNECK, 2014).</p><p>Ainda no âmbito das medidas anticíclicas, o superavit fiscal pri-</p><p>mário foi reduzido de 2,4% do PIB, na média de 2006/08, para 1,3%</p><p>entre 2009 e 2010 (BARBOSA, 2013). Houve uma série de desonera-</p><p>ções tributárias, como a redução do Imposto sobre Produtos Indus-</p><p>trializados (IPI) cobrado da indústria automotiva e dos eletrodomés-</p><p>ticos da linha branca. Também foi lançado o programa habitacional</p><p>Minha Casa Minha Vida, que além de atender à população de baixa</p><p>renda, tinha a intenção de estimular um setor trabalho-intensivo.</p><p>No mercado de crédito, o Banco do Brasil, a Caixa Econômica</p><p>Federal e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e So-</p><p>cial (BNDES) foram usados para a expansão da oferta de crédito</p><p>e do investimento. A estratégia do governo era clara: aumentar os</p><p>investimentos públicos e privados, por meio da atuação do BNDES</p><p>e desonerações fiscais, além de estimular a demanda facilitando o</p><p>crédito para o consumo das famílias.</p><p>No ano de 2009, diante da incerteza, a retração do investimento e</p><p>do consumo provocou uma leve recessão, de 0,3% do PIB. A infla-</p><p>ção ficou em 5,9% em 2008 e recuou para 4,5% no ano seguinte. Em</p><p>2010, a economia voltou a crescer fortemente, 7,5% do PIB. Nesse</p><p>último ano, o crescimento foi puxado pelo investimento, com a con-</p><p>tribuição importante do consumo das famílias.</p><p>Algumas das críticas mais importantes à política econômica dos</p><p>anos Lula são: i) o saldo primário do governo não foi recomposto,</p><p>mesmo depois da recuperação de 2010, o que assinala desape-</p><p>go pelo equilíbrio fiscal, possivelmente em função do ciclo eleitoral</p><p>(WERNECK, 2014); ii) a política de crédito subsidiado do BNDES</p><p>teria distorcido os preços e favorecido a grandes grupos, que teriam</p><p>condições de captação de recursos em outros mercados (LAZZA-</p><p>RINI; MUSACCHIO, 2014); iii) uso de artifícios fiscais para omitir o</p><p>resultado das contas públicas (WERNECK, 2014); iv) o governo não</p><p>evitou a sobrevalorização cambial, o que, em tese, provoca a desin-</p><p>PREFERÊNCIA PELA LIQUI-</p><p>DEZ. Conceito Keynesiano</p><p>relacionado com a demanda</p><p>global de dinheiro. Em lugar de</p><p>consumir ou investir o dinheiro</p><p>em aplicações de menor liqui-</p><p>dez, as pessoas prefeririam</p><p>manter seus valores na forma</p><p>mais líquida possível (em di-</p><p>nheiro) por três motivos: 1) a</p><p>liquidez permite a realização</p><p>imediata de compras; 2) o mo-</p><p>tivo especulação; 3) o motivo</p><p>precaução (o enfrentamento</p><p>de acidentes ou imprevistos).</p><p>O grande problema da prefe-</p><p>rência pela liquidez ocorre em</p><p>economias em que a inflação</p><p>é intensa e corrói o valor do</p><p>papel-moeda: a liquidez não</p><p>estará garantida se for man-</p><p>tida nessa forma. Assim, nas</p><p>economias inflacionárias, a</p><p>preferência pela liquidez as-</p><p>sume outras formas, como a</p><p>manutenção de moeda estran-</p><p>geira estável, metais preciosos</p><p>amoedados ou não, joias, títu-</p><p>los a aplicações com cláusula</p><p>de correção monetária e com</p><p>prazos curtos de vencimento</p><p>etc. A defesa contra a desva-</p><p>lorização na forma de aquisi-</p><p>ção de imóveis (terrenos urba-</p><p>nos ou rurais, e/ou moradias)</p><p>apresenta o grande defeito</p><p>de reduzir consideravelmente</p><p>a liquidez do investidor (SAN-</p><p>DRONI, 1999, p. 490).</p><p>Você sabia ?</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL</p><p>36</p><p>ECONOMIA NACIONAL E INTERNACIONAL Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>dustrialização, uma tendência já observada na economia brasilei-</p><p>ra desde os anos 1990.</p><p>A EVOLUÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO PÓS-</p><p>2004</p><p>A economia brasileira registrou nos anos Lula uma melhora signi-</p><p>ficativa dos indicadores do mercado de trabalho. No período entre</p><p>2004 e 2008, antes da incidência da crise internacional, a taxa de</p><p>desemprego caiu de 9,7% para 7,8%. Em 2009 subiu para 9% e</p><p>retornou ao nível pré-crise no ano seguinte. Outro resultado impor-</p><p>tante, a informalidade do trabalho diminuiu de 57% para 50% da</p><p>população ocupada, de 2003 a 2010. Ademais, houve significativa</p><p>melhora na distribuição da renda do trabalho, com o coeficiente de</p><p>Gini recuando de 0,56 no primeiro ano para 0,53 no último. Esse</p><p>evento decorre da combinação virtuosa entre o crescimento econô-</p><p>mico, políticas sociais e de renda e também a fatores institucionais.</p><p>O crescimento econômico baseado no aumento do consumo, via</p><p>expansão do crédito e facilitado pela evolução favorável dos preços</p><p>das commodities agrícolas, trouxe para a classe média milhares de</p><p>indivíduos antes alijados do consumo. Cerca de 20 milhões de pes-</p><p>soas ingressaram na classe média. Depois de duas desvalorizações</p><p>significativas, em 1999 e 2002, a partir de 2003 o real apresenta</p><p>um percurso de valorização, assim, há um aumento importante do</p><p>poder de compra da população e barateamento dos insumos e pro-</p><p>dutos acabados importados, do mesmo modo, a queda na inflação</p><p>permitiu a manutenção do poder de compra também das classes</p><p>menos afluentes.</p><p>Para Quadros (2010), o aumento das oportunidades de trabalho</p><p>foi mais expressivo na classe C, destacam-se as ocupações rela-</p><p>cionadas à construção civil, conservação de edifícios, vigilância pri-</p><p>vada, motoristas, alimentação e outros serviços. Enquanto o cres-</p><p>Do milagre econômico à década perdida: o período entre 1964 e 1990</p><p>Abertura e Reforma: os anos 1990</p><p>37</p><p>Do Plano Real, estabilidade, crescimento e distribuição até o fim do governo Lula, 2010</p><p>Unidade 2</p><p>cimento fez aumentar a oferta de postos de trabalho, a dinâmica</p><p>favorável da ocupação, notadamente a mobilidade observada na</p><p>base da pirâmide social, responde, em boa medida, ao sucesso da</p><p>política de aumentos reais do salário mínimo, à maior formalização</p>

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