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<p>NÃO PODE FALTAR</p><p>CONTEXTO FILOSÓFICO DO SÉCULO XX</p><p>César Rocha Lima</p><p>Imprimir</p><p>CONVITE AO ESTUDO</p><p>Caro aluno, você sabia que o pensamento �losó�co in�uenciou grandemente na</p><p>construção da teologia do século XX? Creio que é do seu conhecimento que as</p><p>diversas áreas do saber não são estanques, mas, ao contrário, possuem diversas</p><p>conexões entre si. É por isso que as abordagens dos conteúdos no viés</p><p>interdisciplinar e transdisciplinar são tão apreciadas nas atuais produções</p><p>acadêmicas. Dessa forma, não tenha medo de buscar conexões entre a teologia e a</p><p>�loso�a, entre a teologia e a sociologia, entre a teologia e a psicologia, entre</p><p>outras, pois todas essas áreas estão conectadas, e o século XX funcionou como</p><p>uma espécie de contraste ao revelar as diversas conexões utilizadas pelo</p><p>pensamento teológico.</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Nesta unidade, forneceremos as ferramentas para você analisar as principais</p><p>correntes �losó�cas que vigoraram no século XX, buscando a compreensão de</p><p>suas nuances epistemológicas e de seus impactos na teologia.</p><p>Logo, iniciaremos a primeira seção desta unidade apresentando as temáticas da</p><p>�loso�a do século XX e as relações dialógicas entre a �loso�a e a teologia. Veremos</p><p>como alguns �lósofos in�uenciaram o pensamento teológico no século passado e,</p><p>nesse movimento, apresentaremos o �lósofo Jean-François Lyotard (1924-1998),</p><p>que observou como as duas grandes guerras do século XX impulsionaram o</p><p>desenvolvimento da tecnologia. Nessas premissas, a�rmou que “o desuso do</p><p>dispositivo metanarrativo de legitimação corresponde à crise da �loso�a metafísica</p><p>e a da instituição universitária que dela dependia” (LYOTARD, 2009, p. 16).</p><p>Dessarte, a racionalidade humana não mais suportaria o discurso metanarrativo, e</p><p>as narrativas teológicas (textos fundantes de algumas religiões) não exerceriam</p><p>mais in�uência sobre a mente humana.</p><p>Outro �lósofo cujos pensamentos in�uenciaram fortemente aquele século foi</p><p>Auguste Comte (1798-1857), também chamado de o primeiro �lósofo social. Para</p><p>Comte, o século XX seria um momento de superação do pensamento teológico e</p><p>metafísico e de direcionamento para o pensamento cientí�co e positivo.</p><p>Na segunda seção, trataremos do contexto social do século XX, momento em que,</p><p>com a criação de grandes corporações, o capitalismo se consolidou. Contudo,</p><p>através da sua racionalidade, o sistema capitalista tornou-se alvo de grandes</p><p>críticas. Além disso, veremos como alguns expoentes do catolicismo romano</p><p>levantaram a bandeira da justiça social, e como pari passu o movimento evangélico</p><p>obteve um crescimento vertiginoso e explosivo na América Latina.</p><p>Na terceira seção, faremos um voo panorâmico sobre algumas teologias</p><p>produzidas no século XX. Destacaremos os impactos do modernismo na teologia,</p><p>as divisões entre fé e história no contexto teológico, o surgimento de uma nova</p><p>hermenêutica para a compreensão do Cristo – chamada de “Cristo Histórico” –, e</p><p>abordaremos o surgimento da Teologia do Cativeiro e da Libertação, estimulada</p><p>pela �loso�a marxista, produzida no século XIX. Veremos ainda, no contexto</p><p>brasileiro, como Leonardo Bo� (1938- ), ex-padre, e Rubem Alves (1933-2014), ex-</p><p>pastor, tornaram-se alguns dos principais expoentes da Teologia do Cativeiro e da</p><p>Libertação no Brasil no período da ditadura militar (1964-1985).</p><p>Vamos dar início ao aprendizado. Bons estudos!</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Caro aluno, você gosta de assistir a �lmes? Prefere ir ao cinema a vê-los em casa?</p><p>Por acaso você já assistiu ao �lme Deus não está Morto? Caso ainda não o tenha</p><p>visto, marque a data, convide os amigos, se estiver em casa, prepare a pipoca com</p><p>refrigerante e aprecie esta maravilhosa produção do diretor Harold Cronck. Com</p><p>certeza você apreciará esse empolgante drama produzido em 2014.</p><p>Mas por que será que a Pure Flix Entertainment investiu cerca de 2 milhões de</p><p>dólares para gravar essa magní�ca produção? De acordo com os cristãos, Deus não</p><p>é eterno, imanente e transcendente? Não foi Ele que criou todas as coisas? Como</p><p>então Deus pode morrer? Alguém pode matar Deus?</p><p>A belíssima peça cinematográ�ca, produzida por Michael Scott, Russell Wolfe e</p><p>Anna Zielinski, foi criada com a �nalidade de manter viva a chama da fé cristã no</p><p>coração de milhares de jovens e adolescentes que foram e são impactados com as</p><p>�loso�as ateístas produzidas nos séculos XIX e XX.</p><p>Dessa forma, podemos compreender o �lme como uma reação às correntes</p><p>�losó�cas, em particular aos escritos do �lósofo Nietzsche, que a�rmou</p><p>tacitamente: “Deus está Morto”.</p><p>Nesta seção você compreenderá o pano de fundo histórico, �losó�co e teológico</p><p>que conduziu, no século XX, muitas pessoas a questionarem sobre a existência de</p><p>Deus. Você conhecerá alguns �lósofos que, diante da modernidade e do avanço da</p><p>tecnologia, romperam com a visão de mundo de sua época, propondo novas</p><p>metodologias para a compreensão das coisas e do mundo.</p><p>Ao �nal dos estudos desta seção, como teólogo em formação, você terá uma visão</p><p>mais crítica e completa do �lme Deus não está Morto. Que tal assistir ao �lme</p><p>antes e depois dos estudos?</p><p>Caro aluno, imagine que você, como teólogo em formação, fosse convidado pelo</p><p>jornal da sua cidade a contribuir com um artigo sobre o “fundamentalismo”. Seria</p><p>um desa�o estimulante pesquisar o tema, tabular as informações necessárias,</p><p>escolher um título e produzir o texto jornalístico.</p><p>O tema fundamentalismo é bastante atual, e, todas as vezes que ocorre algum tipo</p><p>de atentado por grupos extremistas, o assunto emerge nos meios de comunicação.</p><p>Caberá ao teólogo (além do sociólogo e do antropólogo) de�nir com precisão o que</p><p>é fundamentalismo e apresentar a sua gênese histórica a �m de evitar</p><p>compreensões equivocadas e julgamentos alheios.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Provavelmente você deve saber que o fenômeno religioso chamado de</p><p>“fundamentalismo” é um elemento que perpassa diversas religiões como o</p><p>catolicismo, o protestantismo, o budismo e o islamismo. E certamente você já deve</p><p>ter ouvido a expressão “muçulmanos fundamentalistas”. O termo</p><p>“fundamentalismo”, em seu sentido etimológico, aponta para um retorno aos</p><p>fundamentos da fé, da fé primeva, do início da religião. Portanto, não se trata</p><p>necessariamente de um movimento nocivo ou belicoso.</p><p>Muitos teólogos e sociólogos optam por utilizar o termo “extremismo” para de�nir</p><p>os movimentos religiosos nocivos (LIMA, 2019, p. 23). Dessa forma, para eles, os</p><p>grupos islâmicos que realizam atentados contra a vida devem ser chamados de</p><p>“muçulmanos extremistas”. Contudo, o movimento fundamentalista, ao contrário</p><p>do que muita gente pensa, teve a sua gênese no seio protestante. Pois, de acordo</p><p>com o pesquisador Isaac Malheiros, em 1910, numa Assembleia Geral da Igreja dos</p><p>Estados Unidos da América (EUA), um grupo de cristãos protestantes formalizou o</p><p>nascimento do fundamentalismo estadunidense. O documento, subscrito pelos</p><p>membros da assembleia, apresentava cinco pontos fundamentais da fé cristã, a</p><p>saber:</p><p>1. A inerrância do texto bíblico.</p><p>2. Jesus nasceu de uma virgem.</p><p>3. A morte de Jesus garantiu a redenção humana.</p><p>4. Jesus ressuscitou.</p><p>5. A crença nos milagres poderosos de Jesus (MALHEIROS, 2015, p. 259).</p><p>A partir do texto acima e do conteúdo da seção, pesquise e descreva que</p><p>movimentos no século XIX e XX foram responsáveis pelo surgimento do</p><p>fundamentalismo protestante e como isso ocorreu em uma relação de causa e</p><p>efeito, a �m estruturar o material para futuramente escrever o seu precioso texto</p><p>jornalístico.</p><p>Não se esqueça de criar um título (manchete) interessante que chame a atenção</p><p>do leitor para o seu artigo.</p><p>Então, mãos à obra! Adquira o �lme, pegue o bloquinho de anotações, anote as</p><p>dúvidas e se prepare para respondê-las durante a nossa jornada acadêmica. Bons</p><p>estudos!</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>Para entendermos o pensamento teológico</p><p>precisamos retomar alguns dos principais tópicos daquele</p><p>conteúdo.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Como vimos, na Idade Média, o �lósofo inglês Roger Bacon (1212-1294) propôs</p><p>uma nova forma de se fazer ciência, o chamado método empírico. A partir dele,</p><p>a�rmava-se que o conhecimento sobre o mundo só seria possível por intermédio</p><p>da experiência sensorial (dos cinco sentidos humanos). Esse método se opôs</p><p>ferrenhamente ao método racionalista, que dizia ser possível conhecer o mundo</p><p>pela razão.</p><p>No século XVII, o �lósofo francês René Descartes (1596-1650), a �m de aprimorar o</p><p>racionalismo, propôs a utilização de um método cientí�co para conduzir a razão na</p><p>busca pelo conhecimento (DESCARTES, [s. d.], p. 43). Tal método �cou conhecido</p><p>como racionalismo cientí�co.</p><p>No século XVIII, tanto David Hume (1711-1776) quanto Immanuel Kant (1724-1804)</p><p>opuseram-se ao puro racionalismo, porém com diferenças metodológicas, pois,</p><p>enquanto David Hume defendia o empirismo – a�rmando ser o hábito (e não a</p><p>experiência) a razão de muitos conceitos errôneos sobre Deus e a natureza –,</p><p>Immanuel Kant, na perspectiva criticista, entendia que o racionalismo e o</p><p>empirismo não eram realidades excludentes, mas complementares, visto que a</p><p>sensibilidade (sentidos) dá signi�cação ao conhecimento (GLOBO LIVROS, 2011, p.</p><p>166-171).</p><p>Pouco depois, o �lósofo Auguste Comte (1798-1857) propôs, como método</p><p>cientí�co, o positivismo, o qual foi desenvolvido para superar os conhecimentos</p><p>teológico e metafísico.</p><p>Com o surgimento da sociologia no século XIX, novas metodologias foram</p><p>propostas, dentre elas: o método funcionalista ou comparativo, desenvolvido pelo</p><p>sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917); o método compreensivo, elaborado</p><p>pelo sociólogo alemão Max Weber; e o método do materialismo histórico e</p><p>dialético, proposto pelo �lósofo alemão Karl Marx (1818-1883) (ARON, 2000).</p><p>O Modernismo, enquanto condição concreta da modernidade, �cou marcado pela</p><p>cristalização de diversos métodos cientí�cos para se compreender o mundo, os</p><p>quais, por sua vez, in�uenciaram profundamente o pensamento teológico. Dessa</p><p>forma, parte da tradição eclesiástica, encantada com a ciência da modernidade,</p><p>passou a utilizar as premissas dos métodos cientí�cos para realizar a interpretação</p><p>do texto bíblico, inaugurando assim uma nova metodologia para investigar as</p><p>sagradas escrituras, com a análise crítica e criteriosa das fontes bíblicas.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Se, por um lado, a adoção do novo método concentrasse esforços para a</p><p>compreensão do texto bíblico buscando a autenticidade, a veracidade e a</p><p>�delidade das fontes históricas, por outro, ele rompeu com a dogmática da igreja</p><p>(ADRIANO FILHO, 1985, p. 33).</p><p>Johann Salomo Semler (1725-1791), precursor do método histórico crítico,</p><p>publicou, em 1761, uma Tentativa de facilitar o uso de fontes na História do Estado</p><p>e da Igreja medievais. Tal obra estabeleceu o padrão para a crítica das fontes na</p><p>segunda metade do século XVIII (ARAÚJO, 2015, p. 98).</p><p>Semler ensinou que a “palavra de Deus” e o texto bíblico não eram a mesma coisa,</p><p>sugerindo que a Bíblia fosse apenas um registro histórico que deveria ser</p><p>examinado como qualquer outro documento. Assim, ao utilizar o método histórico</p><p>crítico, Semler rejeitou o cânon bíblico (conjunto de livros do antigo e do novo</p><p>testamentos reconhecidos pela Igreja) e o aspecto divino da composição da Bíblia</p><p>(COSTA, 2004, p. 304-305).</p><p>REFLITA</p><p>Caro aluno, você já ouviu falar do termo “cânon bíblico”? Já estudou sobre o</p><p>cânon do Velho Testamento? Ou sobre cânon do Novo Testamento?</p><p>A expressão “teologia liberal” teria sua gênese na obra de Semler: Tratado sobre a</p><p>Livre Investigação do Cânon, segundo a qual o método de investigação histórico</p><p>crítico estaria livre, ou seja, romperia os vínculos com a tradição dogmática</p><p>(HÄGGLUND, 2003, p. 300-303).</p><p>Em consequência da utilização do método histórico crítico, houve a divisão entre a</p><p>teologia e a literatura, entre a fé e a história, pois esse método despia o texto</p><p>bíblico de todos os demais elementos que pudessem comprometer a sua análise.</p><p>Outrossim, tanto o método histórico crítico, elaborado por Semler no século XVIII,</p><p>quanto a in�uência dos métodos cientí�cos dos séculos XVIII e XIX, adotados pela</p><p>teologia liberal, tornaram-se novas ferramentas para a compreensão das sagradas</p><p>escrituras. Contudo, alguns historiadores de orientação cristã recusaram-se a</p><p>adotar o método histórico crítico e/ou as premissas dos métodos cientí�cos para a</p><p>compreensão das sagradas escrituras. De acordo com Silva (2016, p. 36):</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>A UTILIZAÇÃO DO MÉTODO HISTÓRICO CRÍTICO NA BUSCA DO JESUS</p><p>HISTÓRICO</p><p>Caro aluno, os expoentes do método histórico crítico compuseram um movimento</p><p>chamado “criticismo” ou “alta crítica” e parte deles decidiu retomar as investigações</p><p>pelo Jesus histórico, diferenciando-o do Cristo da fé.</p><p>ASSIMILE</p><p>A busca pelo Jesus histórico não surgiu com a alta crítica, apenas ganhou</p><p>força, pois, no início do século XVIII, Hermann Samuel Reimarus (1694-1768)</p><p>convencera-se de que o judaísmo e o cristianismo tinham se apoiado em</p><p>alicerces equivocados, sendo necessária uma interpretação racional.</p><p>O Jesus histórico seria, dentro dessa perspectiva, diferente do Cristo apresentado</p><p>nos evangelhos – o Cristo da fé. Nessas premissas já não mais seriam dignos de</p><p>crédito os elementos milagrosos e sobrenaturais expostos na Bíblia (COSTA, 2004,</p><p>p. 312).</p><p>A procura pelo Jesus histórico baseou-se na conjectura de que havia um grande</p><p>abismo entre a �gura histórica de Jesus e a interpretação neotestamentária, pois,</p><p>para a alta crítica, a interpretação da igreja cristã estaria equivocada e cheia de</p><p>dogmas desnecessários e inadequados – como a crença na ressurreição e na</p><p>divindade de Jesus (McGRATH, 2005, p. 444).</p><p>Dessa forma, a busca pelo Jesus histórico se constituiria no exercício de retirar de</p><p>Jesus os dogmas adicionados pela igreja, como um Cristo sem pecado, nascido de</p><p>forma miraculosa, que operava milagres, que teria sido morto e ressurreto ao</p><p>terceiro dia. Era preciso buscar o Jesus que andou pela Terra, que foi um simples</p><p>carpinteiro, �lho de José e Maria, homem simples e com várias virtudes. “Assim,</p><p>difundiu-se a crença de que a nova abordagem literária em relação aos Evangelhos</p><p>sinópticos, permitiria que os estudiosos traçassem um per�l bastante nítido e real</p><p>de Jesus, que revelaria de forma mais clara a sua verdadeira personalidade”</p><p>(McGRATH, 2005, p. 446).</p><p>Importante é destacar que, já no século XIX, grandes historiadores como Leopold von Ranke (1795-1886) e Jacob</p><p>Burckhardt (1818-1897), oriundos da teologia, deram à religião grande importância em suas obras. De forma</p><p>bem madura, porém, Ranke tinha plena convicção de que as verdades religiosas não estavam no escopo da</p><p>ciência. Não era objetivo do método histórico comprovar ou refutar crenças religiosas. A historiogra�a</p><p>acadêmica, todavia, diante da história eclesiástica ou da história da religião, mantinha certa distância.“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>A partir do �nal do século XIX, veri�cou-se uma verdadeira enxurrada de obras</p><p>com o foco na “vida de Jesus”. Elas foram escritas na Inglaterra, nos Estados Unidos</p><p>da América (EUA), na França e na Alemanha com o objetivo de trazer aos homens o</p><p>“distante místico dos montes galileus” despido dos dogmas e das irrelevâncias</p><p>culturais, formando, assim, a base da fé das futuras gerações (McGRATH, 2005, p.</p><p>446).</p><p>Diante da elaboração de uma nova cristologia, calcada na interpretação histórico-</p><p>crítica da Bíblia, surgiram, dos opositores, três principais críticas:</p><p>A crítica apocalíptica: cujos principais expoentes foram Johannes Weiss (1863-</p><p>1914) e Albert Schweitzer (1875-1965), os quais entendiam que a tendência</p><p>escatológica do reino de Deus a�rmada por Jesus colocava em xeque a</p><p>interpretação histórico-crítica do Novo Testamento.</p><p>A crítica cética: elaborada por William Wrede (1859-1906), que questionava,</p><p>sobretudo, o status</p><p>histórico que se atribuía ao conhecimento sobre Jesus.</p><p>A crítica dogmática: proposta por Martin Kähler (1835-1912), a qual a�rmava</p><p>que o Jesus histórico era totalmente irrelevante para a fé cristã e que, por sua</p><p>vez, baseava-se no Cristo da fé (McGRATH, 2005, p. 449).</p><p>Caro aluno, como você pôde perceber, o método histórico-crítico proporcionou</p><p>vários desdobramentos na intepretação das sagradas escrituras e a busca do Jesus</p><p>histórico, que procuramos citar nesta seção, foi apenas um deles.</p><p>Mas, haveria outros métodos que in�uenciaram a teologia do século XX? Sim, outro</p><p>método cientí�co que ressoou na mesma frequência dos sinos das grandes</p><p>catedrais cristãs foi o materialismo histórico e dialético proposto por Karl Marx</p><p>(1818-1883).</p><p>MATERIALISMO HISTÓRICO E DIALÉTICO DE MARX</p><p>Caro aluno, você saberia dizer no que consiste este método?</p><p>As ideias de Karl Marx e de Friedrich Engels (1820-1895) também tiveram in�uência</p><p>na teologia do século XX. E, para compreender o pensamento teológico daquele</p><p>século, é necessário abordarmos alguns pontos da teoria de Marx.</p><p>Como visto na Seção 1.2, Marx e Engels se empenharam para compreender as</p><p>relações sociais estabelecidas após a Revolução Industrial do século XVIII na</p><p>Europa. Marx tinha uma visão histórica da sociedade, a qual era constituída por</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>intermédio de processos evolutivos, partindo dos caçadores-coletores, passando</p><p>pelas comunidades nômades, pastorais e agrícolas até chegar à sociedade</p><p>moderna (ANTUNES, 1999). Ele também entendia que esses processos históricos</p><p>deveriam ser examinados através das mudanças dos meios de produção</p><p>(máquinas e ferramentas utilizadas para gerar riquezas).</p><p>In�uenciado pelo �lósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), que</p><p>propôs uma visão dialética da história – uma espécie de mudança que se origina</p><p>da síntese de forças opostas, nas quais a tensão contraditória das ideias é</p><p>resolvida –, Marx estabeleceu seu método, que �cou conhecido como</p><p>“materialismo histórico e dialético” (GLOBO LIVROS, 2015, p. 28-31).</p><p>Materialismo porque estuda as sociedades a partir da produção material; histórico</p><p>porque presume uma escala evolutiva nas relações de trabalho; e dialético porque</p><p>se estabelece através de forças e de tensões opostas.</p><p>Marx estudou o universo do trabalho para a compreensão da vida social e listou</p><p>três elementos nos processos laborais:</p><p>A força de trabalho – humana.</p><p>O objeto do trabalho – aquilo que será modi�cado.</p><p>O meio do trabalho – local onde será realizada a atividade laboral.</p><p>Para esse autor, o trabalho tem a �nalidade de produzir a mercadoria como valor</p><p>de troca, que, vendida por seu proprietário, confere-lhe o lucro. “Mais valia” foi o</p><p>nome dado por Marx ao excedente do valor obtido pela exploração do trabalho</p><p>(SILVA, 2016, p. 219).</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>Em outras palavras, mais valia é a diferença entre o valor �nal da</p><p>mercadoria produzida e o valor produzido pelo trabalho (MARX, 1996, p.</p><p>327-343).</p><p>A mais valia poderia ser gerada de dois modos: o primeiro, aumentando a carga</p><p>horária do trabalhador, o que permitiria ao dono dos meios de produção aumentar</p><p>as riquezas geradas pelo operário (mais valia absoluta); o segundo, incorporando a</p><p>tecnologia aos meios de produção, o que exigiria maior produtividade do</p><p>trabalhador (mais valia relativa) (SILVA, 2016, p. 219).</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Outro conceito bastante utilizado na obra O Capital, de Marx, foi o de “alienação”.</p><p>Para o pensador, alienação representava o distanciamento entre a mercadoria</p><p>produzida pelo trabalhador e o próprio trabalhador (MARX, 1996, p. 231).</p><p>Outrossim, Marx, ao compreender a história da humanidade como a história da</p><p>luta de classes, estabeleceu as fricções dialéticas entre o burguês e o proletariado,</p><p>o opressor e o oprimido, o dono dos meios de produção e os trabalhadores.</p><p>Para além da economia e da política, as teses de Marx também in�uenciaram a</p><p>teologia. Tal qual abordado na Seção 1.2, como resultado dessa combinação, “os</p><p>teólogos da libertação abraçaram totalmente a abordagem marxista básica”</p><p>(LÖWY, 2016, p. 124).</p><p>Como a�rma Michael Löwy, não se pode negar que essa teologia que combina a</p><p>exegese bíblica com a análise marxista é atraente e tem uma lógica quase que</p><p>perfeita e parece responder às exigências da ciência e ao desa�o moral de nossa</p><p>época (LÖWY, 2016, p. 124).</p><p>PROTESTANTISMO, TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E O MÉTODO DO</p><p>MATERIALISMO HISTÓRICO E DIALÉTICO</p><p>Conforme apresentado na Seção 1.2, a Teologia da Libertação foi gestada no seio</p><p>da Igreja Católica Apostólica Romana e nasceu na Conferência de Medellín, na</p><p>Colômbia, em 1968, tendo como seu precursor o teólogo peruano Gustavo</p><p>Gutiérrez Merino (1928- ).</p><p>No Brasil, o principal expoente da Teologia da Libertação foi o teólogo Leonardo</p><p>Bo� (1938- ), que esperava, no movimento, uma “revolução cultural":</p><p>Contudo, a Teologia da Libertação também teve os seus expoentes no ramo do</p><p>protestantismo brasileiro. Muito antes da Conferência de Medellin, o teólogo</p><p>estadunidense Richard Shaull (1919-2002) já esboçava nos seus escritos as ideias</p><p>da teologia libertária.</p><p>Por �m, essa teologia não representou apenas uma revolução espiritual. Ela signi�cou também uma revolução</p><p>cultural. Contribuiu para que os pobres ganhassem visibilidade e consciência de suas opressões. Gestou</p><p>cristãos que se �zeram cidadãos ativos e, a partir de sua fé, empenharam-se em movimentos sociais, em</p><p>sindicatos e em partidos políticos, no propósito de dar corpo a um sonho, que, de algum modo, tem a ver com o</p><p>sonho de Jesus, o de construir uma convivência social na qual o maior número possa participar e todos juntos</p><p>possam forjar um futuro bom para a humanidade e para a natureza.</p><p>— (BOFF, 2014, p. 26)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Missionário na Colômbia entre 1942 e 1950 e no Brasil entre 1952 e 1962, o</p><p>catedrático, depois de sua aposentadoria no Princenton Theological Seminary</p><p>(EUA), ocupou os cargos de diretor acadêmico do Instituto Pastoral Hispânico e de</p><p>professor visitante no Seminário Presbiteriano do Sul e no Seminário Presbiteriano</p><p>Independente.</p><p>Em sua obra post mortem – Surpreendidos pela Graça –, Shaull apresenta os</p><p>primeiros passos para uma Teologia da Liberação:</p><p>Ao observar a exploração e o sofrimento dos pobres, Shaull propôs-se à re�exão e</p><p>ao reexame do texto bíblico. De acordo com ele, “muito antes de chegar ao Brasil,</p><p>já havia aprendido que a resposta da fé ao clamor do pobre suscita uma ação</p><p>comum para entender e responder às causas da pobreza” (SHAULL, 2003, p. 190).</p><p>Ao �nal da década de 1950, Shaull já via a necessidade de uma reforma agrária –</p><p>“Era claro que tal problema existia porque a maioria das terras estava nas mãos de</p><p>um pequeno grupo de latifundiários” (SHAULL, 2003, p. 192); do engajamento dos</p><p>pobres na política; e de maior ação dos cristãos na justiça social (SHAULL, 2003, p.</p><p>193).</p><p>Shaull teorizou questões bastantes sensíveis como: “teologia e revolução” e</p><p>“revolução e violência”, questões bem similares à revolução do proletariado</p><p>proposta por Karl Marx.</p><p>Embora declarasse que não era marxista, Shaull não tolerava o discurso das igrejas</p><p>populares, que espiritualizava o cristianismo vinculando-o unicamente à</p><p>moralidade, pois ele não se sentia mais à vontade numa igreja onde o sermão</p><p>E aqueles dentre nós que mais se envolveram com esse processo acabaram lançando as bases para um novo</p><p>tipo de re�exão teológica. Ao levar a diante os nossos estudos, ligados ao mesmo tempo aos convulsionados</p><p>acontecimentos sociais e políticos no Brasil, simplesmente não estávamos mais do que tentando descobrir e</p><p>expressar a mensagem do Evangelho para a nossa realidade.</p><p>— (SHAULL, 2003, p. 189)</p><p>“</p><p>A questão da participação de cristãos em movimentos que buscavam mudanças através de processos violentos,</p><p>não recebeu maior atenção naqueles primeiros anos. Minha compreensão dos ensinamentos e a vida de Jesus,</p><p>me convenciam de que segui-lo signi�cava um compromisso apaixonado na</p><p>luta em favor do pobre para a vida</p><p>e a justiça social em qualquer sociedade. Pensava que esse chamado estava essencialmente relacionado com a</p><p>ética da não-violência que, no entanto, não excluía a possibilidade de ação violenta em situações extremas.</p><p>— (SHAULL, 2003, p. 198)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>semanal não �zesse menção às lutas pela vida que ocorriam no mundo (SHAULL,</p><p>2003, p. 204).</p><p>Como pode ser veri�cado, caro aluno, a teologia de Shaull abrigava as sementes da</p><p>Teologia da Libertação, as quais só não germinaram no Brasil em função da sua</p><p>curta permanência aqui e do conservadorismo protestante.</p><p>Outro nome também merece destaque: trata-se do pastor Rubem Alves (1933-</p><p>2014), teólogo protestante, psicanalista e educador. Esse autor, em sua obra Por</p><p>uma Teologia da Libertação, prefaciada por Leonardo Bo� (tese defendida nos</p><p>EUA), apresentou seu interesse sobre a temática teologia e comunismo e relatou</p><p>as suas possíveis fricções com o Regime Militar, instaurado em 1964.</p><p>Acusado de comunista por seus pares, Rubens Alves descreveu em seu livro o</p><p>medo de ser preso e exilado pelos militares. Depois de uma viagem, ao voltar à sua</p><p>igrejinha em Lavras (MG), temendo a iminente chegada dos militares na residência</p><p>pastoral, o teólogo a�rmou:</p><p>Em 1968, Rubem Alves exilou-se do Brasil, indo para os EUA fazer o seu doutorado</p><p>em �loso�a no seminário Teológico de Princenton (ALVES, 2019, p. 33). Ele foi</p><p>aluno de Richard Shaull no Brasil e manteve sua amizade no período do exílio.</p><p>O teólogo conta, ainda, que não teve impedimentos ao escrever a sua tese “escrevi</p><p>o que quis”, mas, por ocasião da defesa, foi sugerido que a reescrevesse e, como</p><p>“nunca faria isso”, foi aprovado com a nota mínima (ALVES, 2019, p. 43).</p><p>Rubem Alves alinhou a sua tese de doutorado com as ideias socialistas em</p><p>efervescência naquela época. Assuntos como “consciência em busca da liberdade”,</p><p>“crítica à linguagem do tecnologismo” – crítica na esperança da tecnologia como</p><p>caminho para o futuro –, “linguagem teológica”, “linguagem da teologia da</p><p>esperança”, “nova linguagem” e “dialética da liberdade” permearam a sua obra</p><p>(ALVES, 2019, p. 76, 110, 126 e 165).</p><p>Foi uma noite inteira abrindo caixotes, separando livros, queimando, en�ando outros em sacos para serem</p><p>jogados no rio. Lembro-me que um deles foi Communism and the Theologians, de Charles West, coisa</p><p>perfeitamente inocente. Mas a capa era vermelha, e havia a foice e o martelo. Lá se foi ele, consumido pelas</p><p>chamas – e em tudo o sentimento de um grande absurdo pesadelo.</p><p>— (ALVES, 2019, p. 32)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Por �m, é importante ressaltar que ambos os precursores da Teologia da</p><p>Libertação no Brasil, tanto o pastor protestante Rubem Alves quanto o teólogo</p><p>católico Leonardo Bo�, ao afastarem-se do exercício de suas atividades religiosas,</p><p>mergulharam nas atividades cientí�cas e acadêmicas das ciências humanas com</p><p>vasta e notada produção intelectual.</p><p>Caro aluno, chegamos ao �m desta seção. Esperamos, com isso, que você tenha</p><p>uma visão panorâmica de como foram produzidas algumas teologias cristãs no</p><p>século XX.</p><p>Aprofunde-se nas obras citadas na bibliogra�a, pois certamente irão ajudá-lo a</p><p>compreender melhor os conteúdos abordados.</p><p>FAÇA VALER A PENA</p><p>Questão 1</p><p>O método histórico-crítico constituiu-se na aplicação do método cientí�co para</p><p>interpretar a Bíblia, objetivando um exame acurado das fontes documentais e, por</p><p>consequência, esvaziando o texto bíblico dos dogmas adicionados pela igreja cristã</p><p>no decorrer dos primeiros séculos (ARAÚJO, 2015, p. 98).</p><p>Constituiu-se como precursor do método histórico-crítico:</p><p>a. Johann Salomo Semler (1725-1791).</p><p>b. Gustavo Gutiérrez Merino (1928- ).</p><p>c. Leonardo Bo� (1938- ).</p><p>d. Johannes Weiss (1863-1914).</p><p>e. Albert Schweitzer (1875-1965).</p><p>Questão 2</p><p>De acordo com Alister McGrath, a partir do �nal do século XIX, veri�cou-se uma</p><p>verdadeira enxurrada de obras com o foco na “vida de Jesus”. Elas foram escritas</p><p>na Inglaterra, nos EUA, na França e na Alemanha com o objetivo de trazer aos</p><p>homens o “distante místico dos montes galileus” despido dos dogmas e das</p><p>irrelevâncias culturais, para formar a base de fé das futuras gerações (McGRATH,</p><p>2005, p. 446).</p><p>A respeito do contexto apresentado, a qual movimento McGrath (2005) está se</p><p>referindo?</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ADRIANO FILHO, J. O método histórico-crítico e seu horizonte hermenêutico.</p><p>Estudos de Religião, v. XXII, n. 35, p. 28-39, 1985.</p><p>ALVES, R. Por uma teologia da libertação. Juiz de Fora: Editora Siano, 2019.</p><p>a. Comprovação do Jesus da fé.</p><p>b. Mono�sismo.</p><p>c. Busca do Jesus histórico.</p><p>d. Monotelismo.</p><p>e. Segunda volta de Cristo.</p><p>Questão 3</p><p>Considerando o texto-base, podemos fazer as seguintes a�rmações acerca da</p><p>explicação do nome materialismo histórico e dialético:</p><p>I. Materialismo porque estuda os elementos materiais (concretos) e não os</p><p>espirituais (da fé).</p><p>II. Histórico porque presume uma escala evolutiva nas relações de trabalho.</p><p>III. Dialético porque se estabelece através de forças e tensões opostas.</p><p>Diante do contexto apresentado, é correto o que se a�rma em:</p><p>A Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX trouxe profundas transformações sociais, políticas e econômicas.</p><p>Com o êxodo rural das populações em direção às cidades fabris, em busca de emprego, muitos trabalhadores</p><p>foram explorados e submetidos a longas horas de trabalho sob condições insalubres e com baixos salários. O</p><p>�lósofo alemão Karl Marx (1818-1883) empenhou-se para compreender o universo do trabalho e seus</p><p>elementos laborais (força de trabalho, objeto de trabalho e meio de trabalho), propondo um método de análise</p><p>que �cou conhecido como “materialismo histórico e dialético".</p><p>— (GLOBO LIVROS, 2015, p. 28-31)</p><p>“</p><p>a. I, apenas.</p><p>b. II, apenas.</p><p>c. I e II, apenas.</p><p>d. II e III, apenas.</p><p>e. I e III, apenas.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>ANDRADE, A.; ROSSETTI, J. P. Governança Corporativa: fundamentos,</p><p>desenvolvimento e tendências. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2006.</p><p>ANTUNES, R. Os sentidos do trabalho: ensaio sobre a a�rmação e a negação do</p><p>trabalho. São Paulo: Boitempo Editorial, 1999.</p><p>ARAÚJO, A. de M. A verdade da crítica: o método histórico-crítico de August Ludwig</p><p>(von) Schlözer e o padrão histórico dos juízos. História da historiogra�a, Mariana,</p><p>v. 8, n. 18, p. 93-109, 2015.</p><p>ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Editora Martins</p><p>Fontes, 2000.</p><p>ARRETCHE, M. Trajetórias das desigualdades: como o Brasil mudou nos últimos</p><p>cinquenta anos. São Paulo: Editora Unesp: CEM, 2015.</p><p>BOFF, L. A ética e a formação de valores na sociedade. Instituto Ethos, São Paulo,</p><p>ano 4, n. 11, 2003. Disponível em: https://bit.ly/3ee6yb5. Acesso em: 2 mar. 2021.</p><p>BOFF. L. Teologia do cativeiro e libertação. 7. ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes,</p><p>2014.</p><p>COSTA, H. M. P. Raízes da teologia contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã,</p><p>2004.</p><p>DESCARTES, R. Discurso do Método. São Paulo: Ediouro, [s. d].</p><p>GLOBO LIVROS. O livro da �loso�a. São Paulo: Globo Livros, 2011.</p><p>GLOBO LIVROS. O livro da sociologia. São Paulo: Globo Livros, 2015.</p><p>GUNDRY, S. Teologia Contemporânea. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1983.</p><p>HÄGGLUND, B. História da Teologia. 7. ed. Porto Alegre: Concórdia, 2003.</p><p>HOBSBAWM, E. A era do capital: 1848-1875. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2012.</p><p>LÖWY, M. O que é cristianismo da libertação? São Paulo: Vozes, 2016.</p><p>MARX, K. O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Círculo do Livro, 1996.</p><p>v. 1.</p><p>McGRATH, A. E. Teologia sistemática, histórica e �losó�ca: uma introdução à</p><p>teologia cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.</p><p>SHAULL. R. Surpreendido pela graça: memórias de um teólogo – Estados Unidos,</p><p>América Latina, Brasil. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://www.ft.unicamp.br/~sandro/ST999/%C9tica%20e%20forma%E7%E3o%20de%20valores%20na%20sociedade.pdf</p><p>SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2016.</p><p>SILVA, A.</p><p>O. da. A Teologia de Rubem Alves. Revista Espaço Acadêmico, Maringá,</p><p>ano IX, n. 105, fev. 2010. Disponível em: https://bit.ly/3yWTgb3. Acesso em: 2 mar.</p><p>2021.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/download/9362/5256</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>DEÍSMO</p><p>César Rocha Lima</p><p>Imprimir</p><p>CONVITE AO ESTUDO</p><p>Prezado aluno, com bastante entusiasmo e dinamicidade, apresentamos a</p><p>disciplina Teologias Contemporâneas I, que lhe apresentará os conteúdos basilares</p><p>para a compreensão do pensamento teológico do século XX. Tal conhecimento é</p><p>indispensável para uma análise histórica, crítica e assertiva dos movimentos</p><p>religiosos ocorridos no século passado, além de ser enriquecedor para a cultura</p><p>teológica, pois fornece ao pro�ssional egresso as ferramentas imprescindíveis para</p><p>a compreensão e para a análise dos movimentos teológicos hodiernos.</p><p>Começaremos com a exposição e a análise do movimento deísta, que surgiu na</p><p>Inglaterra do século XVII. Para tanto, apresentaremos os principais expoentes</p><p>dessa corrente �losó�ca e teológica: os ingleses Edward Herbert (1583-1648), John</p><p>Locke (1632-1704), John Toland (1670-1722) e Matthew Tindal (1657-1733).</p><p>Veri�caremos que o deísmo foi um movimento que estabeleceu a razão como</p><p>única via do conhecimento divino, pois se propôs a extirpar do cristianismo todos</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>os elementos sobrenaturais. Compreenderemos também que os expoentes do</p><p>deísmo não foram unívocos em suas asserções, mas tiveram algumas</p><p>especi�cidades e alguns pontos em comum. Por último, veri�caremos como as</p><p>ideias deístas do século XVII corroboraram para o surgimento da teologia liberal do</p><p>século XIX e XX.</p><p>Ato contínuo, veremos como Johann Salomo Semler (1723-1791) cunhou o termo</p><p>“liberal” no âmbito da interpretação dos textos sagrados, criando, assim, a</p><p>expressão teologia liberal. Além disso, abordaremos os principais expoentes dessa</p><p>corrente, como: Friedrich Schleiermacher (1768-1834), Albrecht Ritschl (1822-1889);</p><p>Ernst Troeltsch (1865-1923), entre outros. Por �m, trataremos das fricções entre a</p><p>teologia liberal e a fé bíblica, apresentando o movimento fundamentalista como</p><p>uma resposta à primeira.</p><p>Finalizaremos esta unidade apresentando o movimento fundamentalista, que</p><p>surgiu ao �nal do século XIX e que se desenvolveu no início do século XX.</p><p>Mostraremos como os protestantes britânicos e estadunidenses reagiram ao</p><p>liberalismo teológico e ao modernismo cultural, enrijecendo as doutrinas da</p><p>inspiração e da inerrância bíblica e se opondo ao evolucionismo ensinado nas</p><p>escolas públicas dos Estados Unidos da América (EUA). Veremos ainda como o</p><p>movimento fundamentalista perpassou diversas con�ssões protestantes.</p><p>Caro aluno, como visto, o conteúdo apresentado nesta unidade constitui-se na</p><p>espinha dorsal para a compreensão dos principais movimentos que surgiram entre</p><p>os séculos XVII e XIX, mas que impactaram profundamente o pensamento</p><p>teológico do século XX.</p><p>Portanto, separe seu bloco de anotações, caderno ou tablet e mãos à obra para o</p><p>desenvolvimento de habilidades e de competências que o tornarão um teólogo de</p><p>excelência.</p><p>Bons estudos!</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Caro aluno, diante de determinada situação concreta, é comum que percebamos</p><p>as pessoas tomando diferentes decisões. Suponhamos que um casal esteja</p><p>passeando na calçada de uma rua importante e bastante movimentada, como a</p><p>Avenida Paulista, em São Paulo, e que, num dado momento, depare-se com uma</p><p>pessoa maltrapilha solicitando algumas moedas a �m de se alimentar.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>É possível que os dois atendam à pessoa ou que nenhum deles o faça, mas é</p><p>possível também que divirjam no tocante à necessidade de ajuda. Um deles</p><p>poderá ser tocado pela parte mais sensível, as emoções, imaginando que por trás</p><p>de um pedido haja outras pessoas, como crianças, necessitando de ajuda.</p><p>Enquanto o outro poderá ser mais racional, querendo provas de que o pedinte, de</p><p>fato, necessita de ajuda e pensando que o maltrapilho poderia estar procurando</p><p>trabalho em algum lugar.</p><p>Veja, a razão e a emoção são duas faces de uma mesma moeda, a saber, do ser</p><p>humano, que podem ser utilizadas de forma dosada ou pura. Há exemplos de</p><p>teólogos e de religiosos que foram conhecidos pelo seu aspecto puramente</p><p>emotivo ou puramente racional.</p><p>A freira de etnia albanesa, naturalizada indiana, Anjezë Gonxhe Bojaxhiu, foi um</p><p>exemplo de ser humano dedicado ao amor e à caridade. Madre Teresa de Calcutá</p><p>(1910-2003), conhecida assim pelos seus trabalhos missionários de carisma e</p><p>serviços na Índia, gastou a sua vida com atividades sociais dirigidas aos pobres e</p><p>necessitados. Sua abnegação e amor foram tantos que, em 1979, ela recebeu o</p><p>Prêmio Nobel da Paz e foi canonizada pela Igreja Apostólica Católica Romana em</p><p>2016.</p><p>Por outro lado, existem pessoas que exercitam o seu cristianismo com o máximo</p><p>de racionalidade, procurando excluir todo e qualquer tipo de sentimento ou</p><p>emoção. Você já conheceu alguém, no campo religioso, que toma decisões</p><p>unicamente pelo viés racional?</p><p>Na presente seção, apresentaremos alguns teólogos que procuraram racionalizar o</p><p>cristianismo ao máximo, extraindo da religião cristã toda e qualquer manifestação</p><p>sobrenatural e retirando, assim, da Bíblia todo elemento que possuísse alguma raiz</p><p>mística ou miraculosa.</p><p>Será que é possível construir uma “religião racional”? Será que é possível exercer fé</p><p>em elementos concretos? Ou será que a fé depende de coisas invisíveis? É possível</p><p>extirpar da religião a fé, os milagres e até mesmo as emoções? O que você pensa a</p><p>respeito disso?</p><p>Uma religião racionalizada seria universal? Pessoas com baixo capital cultural</p><p>poderiam aderir a esse tipo de religiosidade?</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>A partir dessa provocação, vamos ao século XVII, quando alguns teólogos e</p><p>�lósofos propuseram a expansão do racionalismo adotado pela Reforma</p><p>Protestante do século XVI ao máximo.</p><p>Frase A:</p><p>Frase B:</p><p>Frase C:</p><p>Caro aluno, as três citações acima são de autoria do �lósofo francês François-Marie</p><p>Arouet, conhecido pela academia como Voltaire (1694-1778), que foi escritor,</p><p>ensaísta, �lósofo iluminista e deísta. Ele se constituiu em um dos grandes bastiões</p><p>do deísmo francês, de temperamento forte e ideias revolucionárias, frequentou a</p><p>Société du Temple (Sociedade do Templo), que reunia libertinos e livres</p><p>pensadores.</p><p>Voltaire se empenhou no progresso da humanidade, na tolerância religiosa e no</p><p>anticlericalismo. Combateu o absolutismo através da publicação de críticas</p><p>dirigidas ao rei Luís XIV (1638-1715) da França, versos que lhe custaram a prisão na</p><p>Bastilha em 1717 e o exílio em Chátenay.</p><p>Caro aluno, como você deve ter percebido no conteúdo básico da presente seção,</p><p>desenvolvemos apenas o deísmo inglês e pouco falamos do deísmo francês. Dessa</p><p>forma, o objetivo desta atividade é estimulá-lo à pesquisa para além do conteúdo</p><p>A moral parece-me tão universal, tão calculada pelo ser universal que nos formou, tão destinada a servir como</p><p>contrapeso a nossas paixões funestas e a aliviar as penas inevitáveis desta curta vida, que, desde Zoroastro até</p><p>Lorde Shaftesbury, vejo todos os �lósofos ensinarem a mesma moral, embora todos tenham ideias diferentes</p><p>sobre os princípios das coisas.</p><p>— (VOLTAIRE, 1978, p. 322)</p><p>“</p><p>Quem não é iluminado pela fé encara um milagre unicamente como uma contravenção às leis eternas da</p><p>natureza. Não lhe parece possível que Deus altere sua própria obra; sabe que tudo no universo está ligado por</p><p>elos que nada pode romper. Sabe que, sendo Deus imutável, suas leis também o são; e que uma roda da</p><p>grande máquina não pode parar sem que a natureza inteira sofra com isso.</p><p>— (VOLTAIRE, 2007, p. 151)</p><p>“</p><p>A mesma força de nosso entendimento que nos fez conhecer a aritmética, a geometria, a astronomia, que nos</p><p>fez inventar as leis, também nos fez, portanto, conhecer Deus [...] não é necessária</p><p>uma revelação para</p><p>compreender que o homem não se fez a si mesmo e que dependemos de um ser superior, qualquer que seja.</p><p>— (VOLTAIRE, 2000, p. 9)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>abordado, uma vez que o deísmo francês, embora ainda pouco estudado, consiste</p><p>em um vasto campo de conhecimento a ser explorado.</p><p>Agora que você já pôde conhecer um pouco mais de Voltaire, suponha que precise</p><p>escrever um artigo cientí�co para uma revista sob a temática: in�uências do</p><p>deísmo inglês no pensamento de Voltaire. Contudo, a primeira tarefa a ser</p><p>realizada antes de escrever um artigo é fazer uma pesquisa para reunir elementos</p><p>que possibilitem uma conclusão para o fechamento do assunto.</p><p>Com isso, retome os apontamentos sobre o deísmo inglês em nossa seção e</p><p>procure as conexões entre os trechos das obras de Voltaire e o deísmo inglês.</p><p>Bom trabalho!</p><p>Seja bem-vindo à nossa seção de estudos, prepare a mente e o coração para</p><p>compreender a importância do pensamento deísta do século XVII na composição</p><p>do pensamento cristão dos séculos XIX e XX!</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>O DEÍSMO DO SÉCULO XVII</p><p>Após a Reforma Protestante do século XVI, surgiram alguns grupos e movimentos</p><p>que procuravam corrigi-la ou completá-la. Esses movimentos buscavam romper</p><p>com a ortodoxia protestante e o tratamento escolástico que a teologia reformada</p><p>deu à doutrina da predestinação proposta pelo reformador João Calvino (1509-</p><p>1564).</p><p>REFLITA</p><p>Caro aluno, você já ouviu falar do monge agostiniano Martinho Lutero</p><p>(1483-1546)? Você sabia que ele foi o principal expoente da Reforma</p><p>Protestante que ocorreu em 1517 na Alemanha? E, ainda, que as ideias da</p><p>Reforma Protestante se espalharam pela França, pela Suíça, pela Inglaterra</p><p>e pelos países baixos? Pesquise um pouco sobre a Reforma Protestante</p><p>para enriquecer a compreensão da presente seção.</p><p>A partir disso, os arminianos, seguidores de Jacob Arminius (1560-1609), surgiram</p><p>em oposição às doutrinas calvinistas; já o movimento pietista originou-se em</p><p>reação à ortodoxia protestante; e os puritanos e os metodistas nasceram do</p><p>esforço para completar as lacunas deixadas pela Reforma Protestante.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>No século XVII, início do Iluminismo, nasceu outro movimento no seio da teologia</p><p>protestante com uma proposta completamente diferente daquelas que se</p><p>propunham a corrigir ou a completar alguns aspectos da Reforma Protestante.</p><p>Esse movimento tomou como espinha dorsal a “autoridade da razão” para extirpar</p><p>os elementos místicos que a Reforma Protestante não teria dado conta de</p><p>eliminar.</p><p>ASSIMILE</p><p>O Iluminismo incluiu uma série de ideias centradas na razão como a</p><p>principal fonte de autoridade e de legitimidade. Além disso, defendia ideais</p><p>como liberdade, progresso, tolerância, fraternidade, governo constitucional</p><p>e separação Igreja-Estado.</p><p>O movimento que �cou conhecido como “deísmo” ou “religião natural” não possuía</p><p>nenhum profeta ou organização formal, e seus seguidores se espalharam a partir</p><p>da Inglaterra para a França, para a Europa Ocidental e para a América do Norte</p><p>(OLSON, 2001, p. 531, 532).</p><p>Nesta seção, trataremos do deísmo apresentando, de forma sucinta, os seus</p><p>principais expoentes a �m de fornecer um referencial teórico básico para a</p><p>compreensão desse movimento.</p><p>O SURGIMENTO DO DEÍSMO</p><p>O deísmo foi um movimento predominantemente �losó�co, porém com várias</p><p>implicações e aspectos teológicos, que surgiu no século XVII. Ele foi erguido sobre</p><p>uma base racionalista e procurou apartar-se dos elementos místicos que poderiam</p><p>contaminá-lo.</p><p>Esse movimento concentrou-se em duas principais vertentes: a inglesa, cujos</p><p>expoentes foram: David Hume (1711-1776), Edward Herbert (1583-1648), John</p><p>Locke (1632-1704), John Toland (1670-1722), Matthew Tindal (1657-1733), Thomas</p><p>Chubb (1679-1747), Thomas Hobbes (1588-1679), Viscount Bolingbroke (1678-</p><p>1751), entre outros; e a francesa, que foi mais literária, porém menos pujante que</p><p>o deísmo inglês, e cujos principais expoentes foram: Claude-Adrien Helvetius</p><p>(1715-1771), François-Marie Arouet, conhecido como Voltaire (1694-1778), Jean-</p><p>Jacques Rousseau (1712-1778), Denis Diderot (1713-1784), entre outros.</p><p>ASSIMILE</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>A Inglaterra e a França constituem-se nos principais nascedouros do</p><p>deísmo, sendo o inglês o precursor e o francês seu principal ramo de</p><p>expansão.</p><p>Caro aluno, é importante saber que não existe uma classi�cação rígida em relação</p><p>aos expoentes do deísmo, mesmo porque ele está encharcado de racionalismo e</p><p>ateísmo. Logo, alguns dos autores listados (�lósofos ou teólogos) poderão ser</p><p>classi�cados como deístas, racionalistas e até mesmo ateus.</p><p>A presente seção tem como objetivos:</p><p>Compreender as origens do deísmo enquanto movimento no seio do</p><p>protestantismo a �m de aprofundar a Reforma Protestante do século XVI,</p><p>extirpando todo elemento sobrenatural.</p><p>Conhecer os principais expoentes do deísmo inglês.</p><p>Entender como o movimento deísta do século XVII constituiu-se em mola</p><p>propulsora para o surgimento da teologia liberal.</p><p>EDWARD HERBERT (1583-1648)</p><p>O deísmo teve como o seu primeiro e principal expoente, o �lósofo inglês Edward</p><p>Herbert, também conhecido como Lord Herbert ou Herbert de Cherbury. Ele</p><p>desempenhou as funções de soldado, embaixador, membro do Conselho de</p><p>Guerra e �lósofo. A sua principal obra foi De veritate, prout distinguitur a</p><p>revelatione, a verisimili, a possibili, et a falso – “A verdade, distinta da revelação, e a</p><p>probabilidade de um possível falso”, publicada em 1624.</p><p>De acordo com Bengt Hägglund (1920-2015), o pensamento de Edward Herbert foi</p><p>o mais in�uente produzido na teologia iluminista, passando a ser chamado de</p><p>“religião natural”, visto que suas proposições abarcavam todos os grupos sociais e</p><p>etnias (HÄGGLUND, 2003, p. 293).</p><p>De Veritate apresentou a ideia de uma religião natural, comum a toda</p><p>humanidade, através da qual o ser humano poderia tornar-se bem-aventurado</p><p>mesmo sem o conhecimento da revelação. Outrossim, esta obra considerou Jesus</p><p>Cristo como um sábio mestre e apenas como um ser humano com muitas virtudes.</p><p>Cinco proposições �zeram parte do corpo teórico da religião natural exposta em</p><p>De Veritate, a saber:</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Existe um Deus, um ser supremo.</p><p>Esse ser supremo deve ser cultuado e servido.</p><p>A adoração a Deus deve ser dar por intermédio da piedade e das virtudes</p><p>humanas.</p><p>Caso haja arrependimento, também haverá perdão.</p><p>O mal será punido e o bem recompensado na vida futura (HÄGGLUND, 2003, p.</p><p>293-294).</p><p>As ideias da religião natural, propostas por Edward Herbert, foram posteriormente</p><p>chamadas de “deísmo”.</p><p>De acordo com o teólogo Alister McGrath (1953-):</p><p>Entretanto, se procurarmos um conceito mais aprofundado e preciso de “deísmo”,</p><p>observaremos que o conceito popular �ca muito aquém do acadêmico, pois não é</p><p>possível classi�car todos os deístas numa frase como: são pensadores que</p><p>acreditam que Deus criou o universo como um relojoeiro que construiu um</p><p>relógio, depois deu corda, estabeleceu as leis naturais e foi embora para sempre.</p><p>Nem todos os deístas eram céticos que negavam abertamente a existência de</p><p>milagres ou que compreendiam um mundo regido apenas pelas leis naturais,</p><p>excluindo qualquer ação sobrenatural de Deus. Em verdade, boa parte dos deístas</p><p>dos séculos XVII e XVIII considerava-se cristã e nem sempre rejeitava</p><p>explicitamente o sobrenatural, embora fosse cética e negasse os milagres e as</p><p>revelações especiais. Os principais deístas não excluíam Deus do mundo nem</p><p>relegaram a ele os papeis de “arquiteto original” ou “governante moral” que jamais</p><p>intervém no mundo ou sequer interage com os seres humanos (OLSON, 2001, p.</p><p>532).</p><p>É bastante provável que essa categorização simplória de deísmo tenha sua base</p><p>nos trabalhos de John Leland (1691-1766), teólogo protestante que escreveu a obra</p><p>A view of the principal deistical writers that have appeared in England in the last</p><p>O termo “deísmo” (do latim deus, “Deus”) é normalmente empregado em sentido geral para</p><p>designar aquela</p><p>visão de Deus que o mantém na condição de criador, mas nega seu envolvimento constante ou a sua presença</p><p>especial em meio a sua criação. Normalmente, põe-se em oposição ao “teísmo” (do grego theos, “Deus”), que</p><p>admite o contínuo envolvimento de Deus no mundo.</p><p>— (McGRATH, 2005, p. 222, grifos do autor)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>and present century – “Uma visão dos principais escritores deístas que surgiram na</p><p>Inglaterra no século passado”, publicada entre 1754 e 1755.</p><p>Nessa obra, Leland englobou os mais diversos escritores em uma mesma</p><p>categoria, aplicando o título de deísta àqueles que não eram amigos da religião</p><p>revelada. Para Leland, os primeiros deístas foram alguns cavalheiros franceses e</p><p>nobres italianos que, em meados do século XVI, encontraram uma forma elegante</p><p>de fugir da nomenclatura de ateus, procurando �rmar uma religião “cristã” que se</p><p>baseasse apenas em elementos naturais (LELAND, 1755, p. 1).</p><p>JOHN LOCKE (1632-1704)</p><p>John Locke foi um �lósofo e deísta inglês considerado por muitos como o pai do</p><p>liberalismo. Foi a partir da obra Essay concerning human understanding – “Ensaio</p><p>acerca do entendimento humano” –, publicada em 1690, que ele pavimentou a via</p><p>pela qual passariam diversos outros �lósofos deístas.</p><p>Locke, a �m de evidenciar o valor do entendimento humano, propôs uma</p><p>diferenciação entre razão e revelação, pois segundo o autor:</p><p>Dessa forma, caberia à razão humana a faculdade do discernimento, instrumento</p><p>efetivo para saber se dada revelação (passagem bíblica ou trecho bíblico) provém</p><p>ou não de Deus. Se determinada revelação, que está contrária à razão e ao</p><p>discernimento, for validada, corre-se o risco de tomar-se como verdadeiro algum</p><p>tipo de ensino sem qualquer possibilidade de apologia racional.</p><p>Por outro lado, esta mesma razão, pressupondo a necessidade de um criador para</p><p>justi�car a criação, levaria o ser humano ao conhecimento de uma verdade</p><p>evidente, a existência de um Deus onipotente, onisciente e onipresente. E mais, a</p><p>expansão dos atributos humanos num grau superlativo comporia a natureza divina</p><p>como: amor, bondade, justiça, equidade, etc., todos num grau de perfeição</p><p>absoluta (McGRATH, 2005, p. 222).</p><p>A razão, como contradistinguida da fé, assumo que é a descoberta da certeza ou probabilidade de tais</p><p>proposições ou verdades que a mente alcança por dedução feita de tais ideias, que adquiriu pelo uso de suas</p><p>faculdades naturais, ou seja, pela sensação ou re�exão. A fé, por outro lado, é o assentimento de qualquer</p><p>proposição, não estabelecida pelas deduções da razão, mas com base na con�ança do proponente, como</p><p>derivada de Deus, em algum meio extraordinário de comunicação. Este meio para desvendar a verdade aos</p><p>homens denominamos revelação.</p><p>— (LOCKE, 1999, p. 305)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>JOHN TOLAND (1670-1722)</p><p>John Toland, escritor racionalista e deísta inglês, publicou em 1696 o livro</p><p>Christianity not Mysterious – “Cristianismo sem mistérios”. Nessa obra empenhou-</p><p>se em extrair do cristianismo alguns dogmas que, por sua vez, eram pilares</p><p>essenciais à religião cristã (HÄGGLUND, 2003, p. 296).</p><p>De acordo com Toland (1702, p. 1):</p><p>Como pode ser observado, Toland tece uma crítica aos teólogos que procuravam</p><p>explicar alguns mistérios da religião cristã sem sequer compreendê-los. Como</p><p>poderiam tais teólogos requererem fé naquilo que era incompreensível? Toland</p><p>discorda do princípio defendido por um dos pais da igreja, Tertuliano (160-?), que,</p><p>no século II, defendia que a fé e a razão não precisavam andar juntas. Do contrário,</p><p>a fé legítima seria aquela que cresse no incrível, no impossível, no inteligível.</p><p>Tertuliano formulou a célebre frase em latim: Credo Quia Absurdum – “creio por</p><p>ser absurdo”.</p><p>Por �m, Toland sustentava a necessidade de exclusão de todos os elementos</p><p>religiosos contrários à razão, devendo permanecer somente aqueles veri�cáveis e</p><p>acessíveis às pessoas através dela e que se constituiriam à base de um cristianismo</p><p>autêntico (OLSON, 2001, p. 540).</p><p>MATTHEW TINDAL (1657-1733)</p><p>Outro distinto expoente do deísmo inglês foi o teólogo Matthew Tindal, cujas obras</p><p>causaram grande controvérsia e desa�aram, consequentemente, o consenso</p><p>cristão de sua época. Em sua obra Christianity as old creation – “Cristianismo tão</p><p>antigo quanto a criação”, publicada em 1730, ele alegou que o cristianismo não</p><p>passava de uma “representação da religião natural”, que compreendia Deus a</p><p>partir das ideias de justiça, racionalidade e sabedoria aceitas pelos homens.</p><p>De acordo com o teólogo Roger Olson, Tindal:</p><p>Não há nada que os homens façam mais barulho, especialmente em nosso tempo, do que aquilo que</p><p>geralmente professam entender. Pode-se concluir rapidamente, re�ro-me aos mistérios da religião cristã, que</p><p>os teólogos, cuja função peculiar consiste em explicar os milagres aos outros, quase unanimemente,</p><p>reconhecem sua ignorância quanto ao assunto. Eles nos dizem que devemos adorar o que não podemos</p><p>compreender.</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Dessa forma, para Tindal, a religião cristã deveria se preocupar exclusivamente</p><p>com o estabelecimento de padrões de moralidade, excluindo aqueles elementos</p><p>oriundos da revelação especial (escrituras) que apresentam ao ser humano a</p><p>necessidade de um salvador de suas almas. Só seria necessária a crença em um</p><p>ser supremo, criador de tudo, transcendente e imanente, que comporia a base</p><p>subjetiva da religião racional.</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>Caro aluno, você sabe o que signi�cam os termos imanente e</p><p>transcendente?</p><p>Transcendente – Deus está acima do universo que criou e é independente</p><p>dele.</p><p>Imanente – Deus não está somente acima do universo físico, não somente</p><p>é independente dele, mas permeia todas as coisas com a sua substância</p><p>mística e invisível (CLARK, 1988, p. 114-115).</p><p>De acordo com Olson (2001, p. 542), a obra de Tindal, Cristianismo tão antigo</p><p>quanto a criação, in�uenciou grandemente pensadores estadunidenses, como</p><p>Benjamim Franklin e Thomas Je�erson.</p><p>NOÇÕES COMUNS DO DEÍSMO</p><p>Caro aluno, os autores do deísmo do século XVII não tinham um pensamento</p><p>unívoco, mas apresentavam certas especi�cidades em suas teorias, ora mais</p><p>inclinadas ao Iluminismo, ora mais propensas ao racionalismo e ora mais</p><p>enviesadas pelo ceticismo.</p><p>Contudo, Roger Olson destacou algumas “noções comuns” do deísmo, ou seja,</p><p>ideias traçadas pelos precursores dessa linha de pensamento e defendidas por</p><p>seus principais proponentes. Eram elas:</p><p>Era certamente o mais erudito dos deístas e se de�nia como deísta cristão embora um dos seus principais</p><p>empreendimentos fossem demonstrar a impossibilidade de reconciliar o Deus mesquinho e arbitrário da</p><p>Revelação [da Escrituras] com o Deus imparcial e magnânimo da religião natural. A visão de Tindal sobre o</p><p>cristianismo seguiu a trajetória traçada por Locke e Toland até as últimas conclusões: o cristianismo verdadeiro</p><p>nada mais é do que um sistema ético racional sobre um pano de fundo vagamente teísta.</p><p>— (OLSON, 2001, p. 542)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>O cristianismo verdadeiro é totalmente compatível com a religião natural e com</p><p>a moralidade, as quais são universalmente acessíveis.</p><p>A religião verdadeira e o cristianismo verdadeiro tratam basicamente da</p><p>moralidade individual e social.</p><p>As pessoas inteligentes e esclarecidas devem tratar com ceticismo todas as</p><p>alegações de revelações e milagres sobrenaturais.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Resumidamente, caro aluno, na presente seção, você pôde compreender as</p><p>origens do deísmo inglês do século XVII como uma proposta de aprofundamento</p><p>do racionalismo protestante; também pôde vislumbrar, de forma panorâmica, o</p><p>pensamento dos principais expoentes do deísmo inglês, a saber: Edward Herbert,</p><p>o precursor do deísmo, cujas teses �caram conhecidas como “religião natural”;</p><p>John Locke, destacado �lósofo, chamado de pai do liberalismo e cujas obras</p><p>pavimentaram a via do deísmo para outros expoentes; John Toland, in�uente</p><p>escritor católico que propôs um deísmo racionalista e</p><p>que rejeitasse o</p><p>sobrenatural (milagres); e Matthew Tindal, teólogo que entendeu o cristianismo</p><p>como uma “religião natural”.</p><p>A partir desses conteúdos, você deve ter percebido que o movimento deísta se</p><p>constituiu em uma espécie de mola propulsora para o surgimento do liberalismo</p><p>teológico nos séculos XIX e XX. Além disso, o conteúdo desta seção serviu de base</p><p>para a compreensão do surgimento da teologia liberal, que afetou tanto o ramo</p><p>católico quanto o protestante do cristianismo.</p><p>Portanto, a �m de compreender ainda mais esse fenômeno, aprofunde-se na</p><p>bibliogra�a apresentada.</p><p>FAÇA VALER A PENA</p><p>Questão 1</p><p>O caminho intelectual para a primazia da religião natural sobre a religião revelada foi aberto pelo empirista</p><p>britânico John Locke. Ele propôs a tese revolucionária de que, uma vez destituído de sua bagagem dogmática, o</p><p>cristianismo era a manifestação religiosa mais racional. Sobre as bases dessa visão de Locke, os pensadores do</p><p>Iluminismo construíram o deísmo – uma alternativa teológica para a ortodoxia. Os teólogos do deísmo queriam</p><p>reduzir a religião a seus elementos mais básicos, universais e, portanto, racionais.</p><p>— (GRENZ; OLSON, 2013, p. 24)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Assinale a obra de John Locke que pavimentou a via pela qual passaram diversos</p><p>outros expoentes do deísmo.</p><p>a. A verdade, distinta da revelação e a probabilidade de um possível falso.</p><p>b. Cristianismo sem mistérios.</p><p>c. Cristianismo tão antigo quanto a criação.</p><p>d. Ensaio acerca do entendimento humano.</p><p>e. Deus e os homens.</p><p>Questão 2</p><p>Considerando a citação apresentada anteriormente, analise as a�rmativas a seguir:</p><p>I. Ela não esgota o conceito de deísmo e �ca muito aquém de uma de�nição</p><p>correta.</p><p>II. Ela representa somente o pensamento dos deístas ingleses do século XVII.</p><p>III. A frase representa somente o pensamento dos deístas franceses do século</p><p>XVIII.</p><p>Diante do contexto apresentado, é correto o que se a�rma em:</p><p>"O deísmo admite que existe um Deus pessoal, que ele criou o mundo e lhe imprimiu as leis que o governam.</p><p>Tendo feito isso, Deus se afastou do mundo, deixando-o entregue ao domínio da lei natural."</p><p>— (CLARK, 1988, p. 84)</p><p>“</p><p>a. I, apenas.</p><p>b. II, apenas.</p><p>c. I e II, apenas.</p><p>d. II e III, apenas.</p><p>e. I, II e III.</p><p>Questão 3</p><p>A mais in�uente das novas ideias introduzidas na teologia do iluminismo foi o conceito de religião natural . Este</p><p>foi desenvolvido em primeiro lugar no deísmo inglês do século XVII. Em seu livro De Veritate (1625) Herbert de</p><p>Cherbury apresentou a ideia de que há uma religião natural, comum a todos os homens e independente de</p><p>revelação, pela qual o homem pode tornar-se bem-aventurado mesmo se o conhecimento da revelação.</p><p>— (HÄGGLUND, 2003, p. 293, grifos nossos)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>CLARK, D. S. Compêndio de Teologia Sistemática. São Paulo: Casa Editora</p><p>Presbiteriana, 1988.</p><p>DUARTE, R. M. O diálogo entre a razão e a revelação na epistemologia de John</p><p>Locke: um estudo dos capítulos XVIII e XIX do livro IV do ensaio. Revista So�a,</p><p>Vitória, v. 7, n. 1, p. 41-61, jan./jul. 2018. Disponível em: https://bit.ly/3r9VReX.</p><p>Acesso em: 25 mar. 2021.</p><p>GONZALEZ, J. L. A era dos dogmas e das dúvidas. 2. ed. São Paulo: Edições Vida</p><p>Nova, 1990.</p><p>GRENZ, S. J.; OLSON, R. E. A teologia do século 20: e os anos críticos do século 21.</p><p>2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2013.</p><p>HÄGGLUND, B. História da teologia. 7. ed. Porto Alegre: Concordia, 2003.</p><p>HEFELBOWER, S. G. The relation of John Locke to english deism. Chicago:</p><p>University of Chicago Press, 1918.</p><p>Como visto anteriormente, Herbert de Cherbury ou Edward Herbert foi precursor</p><p>do deísmo inglês no século XVII, tendo publicado a obra De Veritate em 1625.</p><p>Considerando-se a obra citada e as cinco proposições elaboradas por esse autor,</p><p>as quais �zeram parte do corpo da “religião natural”, analise as a�rmativas a</p><p>seguir:</p><p>I. Existe um Deus, um ser supremo.</p><p>II. Deus não precisa ser cultuado ou servido, pois é transcendente.</p><p>III. O mal deve ser punido nesta vida, e o bem deve ser recompensado no</p><p>presente.</p><p>Diante do contexto apresentado, é correto o que se a�rma em:</p><p>a. I, apenas.</p><p>b. II, apenas.</p><p>c. III, apenas.</p><p>d. I e III, apenas.</p><p>e. I, II e III.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwjwltmOjdTvAhV5GLkGHS8sAFEQFjABegQIBRAD&url=https%3A%2F%2Fwww.periodicos.ufes.br%2Fsofia%2Farticle%2Fdownload%2F19634%2F13964%2F59918&usg=AOvVaw33ha4IbVHMA67lL8rgf-PT</p><p>LELAND, J. A view of the principal deistical writers that have appeared in</p><p>England in the last and present century. London: Printed for Charles Daly, 1755.</p><p>Disponível em: https://bit.ly/3wFQc1A. Acesso em: 12 jul. 2021.</p><p>LOCKE, J. Ensaio acerca do entendimento humano. São Paulo: Editora Nova</p><p>Cultural, 1999.</p><p>McGRATH, A. E. Teologia sistemática, histórica e �losó�ca: uma introdução à</p><p>teologia cristã. São Paulo: Sheed Publicações, 2005.</p><p>OLSON, R. E. História da teologia cristã: 200 anos de tradição e reformas. São</p><p>Paulo: Editora Vida, 2001.</p><p>TOLAND, J. Christianity not Mysterious: or, a treatise shewing, that there is not in</p><p>the gospel contrary to reason, nor above it: and that no Christian doctrine can be</p><p>properly called a mystery. London: [s. n.], 1702.</p><p>VOLTAIRE. O �lósofo ignorante. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os</p><p>Pensadores).</p><p>VOLTAIRE. Deus e os homens. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.</p><p>VOLTAIRE. A �loso�a da história. São Paulo: Martins Fontes, 2007.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://digital.library.yorku.ca/yul-501807/view-principal-deistical-writers-have-appeared-england-last-and-present-century#page/4/mode/2up</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>TEOLOGIA LIBERAL</p><p>César Rocha Lima</p><p>Imprimir</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Caro aluno, você já ouviu falar em teologia liberal, ou em liberalismo teológico, ou</p><p>ainda em protestantismo liberal? É bastante provável que, em algum momento de</p><p>sua jornada acadêmica, se não ouviu, ouvirá alguém dizer que determinado</p><p>teólogo é liberal por não crer nos relatos sobrenaturais das sagradas escrituras e</p><p>por ressigni�car ou negar tal relato.</p><p>Mas, será que todo teólogo que não aceita ou que não crê no elemento</p><p>sobrenatural das sagradas escrituras pode ser considerado um teólogo liberal?</p><p>Lembre-se de que na seção passada você estudou sobre o deísmo e conheceu</p><p>alguns de seus expoentes, os quais racionalizavam o texto sagrado e negavam os</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>elementos sobrenaturais. John Toland (1670-1722), por exemplo, sustentava a</p><p>exclusão de todos os elementos religiosos contrários à razão, mas nem por isso foi</p><p>considerado um teólogo liberal; ele era um deísta.</p><p>E o que diferencia um deísta de um teólogo liberal?</p><p>Nesta seção você terá a oportunidade de agregar conhecimentos a respeito da</p><p>teologia liberal e poderá compreender os elementos teológicos e �losó�cos que</p><p>propiciaram o surgimento do liberalismo teológico. Conhecerá também os</p><p>principais expoentes da teologia liberal do século XIX e XX, bem como as suas</p><p>principais obras, e entenderá como as reações contrárias à teologia liberal</p><p>corroboraram para o surgimento do fundamentalismo protestante, assunto da</p><p>nossa próxima seção.</p><p>Sendo assim, retome seus apontamentos sobre o deísmo, aula apresentada na</p><p>seção passada, revise os elementos que in�uenciaram o seu surgimento e anote</p><p>de forma resumida, em um bloco de anotações, pois essas informações serão úteis</p><p>para a compreensão do surgimento da teologia liberal.</p><p>Nessa dinâmica de estudos, logo você perceberá que a Teologia, a Filoso�a e a</p><p>História são áreas importantes cujos conhecimentos devem ser compreendidos</p><p>não de forma estanque, mas transdisciplinar. Na história do pensamento cristão, o</p><p>pensamento �losó�co e o pensamento teológico funcionam como a trama e o</p><p>urdume que tecem a história da religião cristã.</p><p>RAZÃO E REVELAÇÃO</p><p>Paul Johannes Oskar Tillich (1886-1965) foi um in�uente teólogo</p><p>e �lósofo da</p><p>religião, de origem alemã-estadunidense, que estudou teologia em Berlim,</p><p>Tübingen e Halle. Doutorou-se em �loso�a em 1910, na universidade de Breslau e</p><p>licenciou-se em teologia em 1912, na Universidade de Halle, com duas teses sobre</p><p>�loso�a da religião e misticismo no pensamento do �lósofo idealista Friedrich</p><p>Vamos considerar, agora, os princípios do pensamento ortodoxo. Entre os principais, encontra-se a relação com</p><p>a �loso�a, assunto bastante debatido no protestantismo. Lutero, dizem, não estava muito inclinado a aceitar</p><p>qualquer coisa que viesse da razão. Na realidade, não era assim. É verdade que se referiu, muitas vezes, contra</p><p>os �lósofos, até mesmo com desprezo e fúria, mas tinha em mente os escolásticos, em geral, seu mestre,</p><p>Aristóteles. Mas nas famosas palavras pronunciadas na Dieta de Worms, a�rmou que não voltaria atrás a não</p><p>ser que fosse refutado pelas Santas Escrituras ou pela razão. Lutero não era irracionalista. Rebelava-se contra</p><p>quaisquer tentativas de transformação da substância da fé pelas categorias da razão. A razão não poderia</p><p>salvar ninguém; ela precisava ser salva.</p><p>— (TILLICH, 2004, p. 274)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Schelling. Tillich pertenceu ao grupo formado por Theodor Adorno e Max</p><p>Horkheimer, que deu origem à Escola de Frankfurt. Seu pensamento se opôs à</p><p>neo-ortodoxia e ao liberalismo teológico.</p><p>Na citação acima, Tillich trabalha as categorias da razão e da revelação no</p><p>pensamento do reformador Martinho Lutero (1483-1546) para demonstrar que o</p><p>ex-monge agostiniano trabalhava tanto os conteúdos da razão quanto os da</p><p>revelação em sua prática ministerial.</p><p>Caro aluno, suponha que, como futuro bacharel em Teologia, você tenha sido</p><p>convidado a ser um dos palestrantes de um importante congresso. O público-alvo</p><p>será composto de teólogos, sociólogos e �lósofos que desejam aprofundar seus</p><p>conhecimentos a respeito do liberalismo teológico do século XX. O tema que lhe foi</p><p>destinado tem o seguinte título: Razão e revelação na perspectiva de alguns</p><p>autores da teologia liberal. Você terá o tempo máximo de quarenta minutos para</p><p>a exposição, que poderá ser apenas oral ou contar com recursos de multimídia.</p><p>Diante dessas informações, mãos à obra e bom trabalho!</p><p>Com isso, seja bem-vindo à nova seção de estudos e prepare sua mente (razão) e</p><p>seu coração (emoção) para entender como os expoentes do liberalismo</p><p>construíram o pensamento teológico nos séculos XIX e XX.</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>Caro aluno, na seção anterior apresentamos o deísmo inglês do século XVII, bem</p><p>como os seus principais expoentes, e a�rmamos que ele se constituiu numa</p><p>espécie de mola propulsora para o surgimento do liberalismo teológico dos</p><p>séculos XIX e XX.</p><p>Na presente seção, trataremos do liberalismo teológico como movimento surgido</p><p>no seio do protestantismo e que recebeu a in�uência do racionalismo, do deísmo,</p><p>do Iluminismo e da modernidade.</p><p>TEOLOGIA LIBERAL</p><p>A teologia liberal, ou liberalismo teológico, ou ainda “protestantismo liberal”, é,</p><p>sem sombra de dúvidas, um dos movimentos mais signi�cativos que se</p><p>manifestaram dentro do pensamento cristão moderno. Ele surgiu em meados do</p><p>século XIX, na Alemanha, sob a in�uência da modernidade (McGRATH, 2005, p.</p><p>138).</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>De acordo com Roger Olson (1952- ) é comum as pessoas se referirem ao</p><p>liberalismo teológico como um movimento de negação, uma vez que ele pode ser</p><p>caracterizado pela rejeição da inspiração bíblica e dos dogmas da igreja, como a</p><p>trindade e a divindade de Cristo (OLSON, 2001, p. 553). Contudo, é preciso saber o</p><p>porquê essa característica lhe é atribuída.</p><p>A teologia liberal surgiu como resultado de uma série de pensamentos �losó�cos e</p><p>teológicos maturados pela modernidade. Nesse âmbito, o liberalismo foi</p><p>fortemente in�uenciado pelo racionalismo, pelo deísmo e pelo Iluminismo, de</p><p>modo que a teologia liberal acabou excluindo o caráter sobrenatural dos textos</p><p>bíblicos. E, levando em consideração a modernidade, ela apresentou um grau</p><p>signi�cativo de �exibilidade em relação à ortodoxia, visto que “seus principais</p><p>escritores alegavam que essa renovação dogmática era essencial, se o cristianismo</p><p>tinha a pretensão de continuar sendo uma opção intelectual viável em meio ao</p><p>mundo moderno” (McGRATH, 2005, p. 138).</p><p>ASSIMILE</p><p>Ortodoxia:</p><p>“Doutrina correta”, em oposição à heresia.</p><p>Forma de cristianismo dominante na Rússia e na Grécia.</p><p>Corrente que surgiu no seio do protestantismo, sobretudo no �nal nos</p><p>séculos XVI e XVII, e que destacava a necessidade de uma de�nição</p><p>doutrinária (McGRATH, 2005, p. 656).</p><p>As reminiscências do termo estão nas diferenças teológicas e políticas que</p><p>surgiram entre os cristãos do Ocidente (Roma e Constantinopla) e do</p><p>Oriente (Europa Oriental e Rússia), que culminaram no Cisma de 1504.</p><p>Dessa forma, os expoentes da teologia liberal apresentaram, em seus escritos,</p><p>certo grau de liberdade quanto ao legado doutrinário do cristianismo e quanto aos</p><p>tradicionais métodos de interpretação bíblica.</p><p>Sendo assim, quando houvesse fricções entre o avanço do conhecimento humano</p><p>e os métodos clássicos de interpretação das escrituras ou dos dogmas tradicionais,</p><p>estes deveriam ser descartados e aquelas reinterpretadas, a �m de se alinharem</p><p>aos progressos cientí�cos da modernidade.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Alister McGrath demonstra como o liberalismo teológico tratava as fricções entre a</p><p>teologia ortodoxa (proveniente da Reforma Protestante) e a modernidade:</p><p>Ao que tudo indica, a utilização da expressão teologia liberal teve sua gênese na</p><p>obra do teólogo e historiador alemão Johann Salomo Semler (1725-1791), Tratado</p><p>sobre a livre investigação do cânon, na qual o método de investigação histórico</p><p>crítico estaria livre, ou seja, romperia com os vínculos da tradição dogmática</p><p>(HÄGGLUND, 2003, p. 300-303). Semler também fez a distinção entre a palavra de</p><p>Deus e as escrituras sagradas, princípio que veio nortear o liberalismo teológico.</p><p>Para uma compreensão mais assertiva do surgimento e do desenvolvimento da</p><p>teologia liberal, apresentaremos, de forma panorâmica, alguns de seus principais</p><p>expoentes e seus respectivos pensamentos.</p><p>FRIEDRICH DANIEL ERNST SCHLEIERMACHER (1738-1834)</p><p>Filósofo e teólogo alemão, Schleiermacher foi neto de dois pastores e �lho de um</p><p>capelão do exército. Foi educado num ambiente moraviano, porém rompeu com a</p><p>fé dos irmãos de Herrnhut quando tinha dezenove anos. Suas primeiras obras</p><p>foram os Reden über die Religion na die Gebildeten unter ihren Verächter –</p><p>“Discursos sobre a religião às pessoas cultas entre seus desdenhadores”,</p><p>publicadas em 1800. Nelas Schleiermacher associou-se com o romantismo, dando</p><p>expressão aos sentimentos recém-despertados para o elemento religioso</p><p>(HÄGGLUND, 2003, p. 307).</p><p>Em oposição ao racionalismo, Schleiermacher se propôs a descrever o caráter</p><p>distintivo da religião como função da alma humana, ou seja, a religião não consiste</p><p>nos elementos intelectuais ou morais, em lugar disso, refere-se a uma área mais</p><p>sensível da vida, a alma. Assim sendo, a verdadeira religião não é conhecer ou</p><p>Foram abolidos como algo que se baseava em pressupostos ultrapassados ou equivocados. A doutrina do</p><p>pecado original é um desses casos; atribuíram-na a uma interpretação equivocada do Novo Testamento, feita à</p><p>luz dos escritos de Agostinho, cuja opinião nessas questões havia sido obscurecida pelo seu envolvimento com</p><p>uma seita fatalista (os maniqueístas).</p><p>Foram reinterpretados de uma maneira mais adequada ao espírito da época. Várias doutrinas centrais,</p><p>relacionadas à pessoa de Jesus Cristo, podem ser incluídas nessa categoria, inclusive sua divindade</p><p>(reinterpretada como declaração das qualidades personi�cadas em Jesus, as quais a humanidade em geral</p><p>poderia ter esperanças de reproduzir).</p><p>— (McGRATH, 2005, p. 139)</p><p>“ 0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>fazer, mas é ter “a consciência imediata da existência universal de todas as coisas</p><p>�nitas dentro do in�nito e através do in�nito, de todas as coisas temporais</p><p>dentro</p><p>do eterno e através do eterno” (HÄGGLUND, 2003, p. 307).</p><p>Desta forma, nas Reden, Schleiermacher de�ne religião como “intuição do</p><p>universo”, uma consciência imediata de tudo que existe, do que o homem</p><p>experimenta nas relações com o divino.</p><p>A obra mais importante desse autor foi Der Christliche Glaube, “A Fé Cristã”,</p><p>publicada entre 1820 e 1822. Nesse livro, que trabalha preponderantemente no</p><p>campo da dogmática, a religião é de�nida como “um sentimento absoluto de</p><p>dependência”.</p><p>De acordo com Roger Olson:</p><p>ASSIMILE</p><p>O termo alemão Gefühl, “sentindo-me”, constituiu-se na fonte e na norma</p><p>da teologia adotada por Schleiermacher, em outras palavras, as próprias</p><p>escrituras sagradas deveriam ser interpretadas e até mesmo julgadas pelo</p><p>sentimento humano (OLSON, 2001, p. 559).</p><p>Schleiermacher não desprezava as sagradas escrituras, pelo contrário, as tinha em</p><p>mais alta estima e consideração e apreciava os ensinos e as tradições da igreja.</p><p>Contudo, entendia que a experiência religiosa possuía maior autoridade do que a</p><p>Bíblia, pois, para ele:</p><p>Ainda para Schleiermacher, a doutrina da trindade não possuía muita adesão com</p><p>a experiência humana a respeito de Deus. Porém, ele não negou nem defendeu o</p><p>dogma da trindade, mas reconheceu ter muitas dúvidas a respeito, declarando ser</p><p>Na época em que escreveu A Fé Cristã, Schleiermacher chegou a se referir ao Gefühl como “ter consciência de</p><p>Deus” e argumentou que existe uma consciência de Deus na humanidade e também formas religiosas</p><p>especi�cas dessa consciência nas religiões positivas. Segundo Schleiermacher, a teologia cristã não era apenas</p><p>uma re�exão sobre a revelação sobrenatural e divina, mas uma tentativa de colocar em palavras o sentimento</p><p>religioso.</p><p>— (OLSON, 2001, p. 559, grifos do autor)</p><p>“</p><p>A Bíblia não é a autoridade absoluta, mas o registro das experiências religiosas das comunidades cristãs</p><p>primitivas; portanto, fornece um padrão para as tentativas contemporâneas de interpretar a relevância de Jesus</p><p>Cristo para as circunstâncias especí�cas. Ela não é sobrenaturalmente inspirada e nem infalível.</p><p>— (OLSON, 2001, p. 560)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>o dogma trinitário praticamente inútil no escopo da teologia cristã por não se</p><p>tratar de uma declaração da consciência religiosa. De acordo com o autor:</p><p>Por �m, para Schleiermacher não deveria haver con�itos entre a ciência e o</p><p>cristianismo, pois a primeira operava com a racionalidade, enquanto o segundo</p><p>com o sentimento e a intuição humanos.</p><p>Schleiermacher foi considerado por muitos como o pai do liberalismo teológico</p><p>(COSTA, 2004, p. 295), e as suas contribuições foram signi�cativas para a história</p><p>da teologia, principalmente a tentativa de descrever o caráter constitutivo da</p><p>religião como “função da alma humana".</p><p>ALBRECHT RITSCHL (1822-1889)</p><p>Embora não possa ser comparado a Schleiermacher, Albrecht Ritschl constituiu-se</p><p>numa peça fundamental para a teologia liberal do século XIX. O ritschlianismo</p><p>tornou-se in�uente entre os anos de 1875 e 1925, de forma que foi considerado</p><p>sinônimo do protestantismo liberal.</p><p>Ritschl foi um teólogo alemão que nasceu na família de um bispo da igreja</p><p>protestante prussiana. Ele estudou em Bonn, Halle, Heidelberg e Tübingen e, com</p><p>tamanha erudição, foi professor de Teologia Sistemática em Bonn (1852-1859) e</p><p>Göttingen (1864-1874).</p><p>Embora tenha publicado diversos livros, sua obra mais importante foi um tratado</p><p>de três volumes, The Christian Doctrine of Justi�cation and Reconciliation – “A</p><p>doutrina da justi�cação e reconciliação” –, publicada entre 1870 e 1874.</p><p>Ao �nal do século XIX o cristianismo havia sido profundamente in�uenciado pelo</p><p>cienti�cismo e estava cercado pelo racionalismo e pelo materialismo. Para Ritschl</p><p>seria necessário fazer a distinção entre o conhecimento cientí�co e o saber</p><p>religioso, pois:</p><p>§172. Possuímos poucas razões para considerar a doutrina [da Trindade] como �nalmente estabelecida, uma</p><p>vez que ela não recebeu nenhum novo tratamento por ocasião da Reforma Protestante, consequentemente</p><p>deve haver a possibilidade de algum tipo de compreensão que analise a [doutrina] em seus primórdios.</p><p>— (SCHLEIERMACHER, 1922, p. 63)</p><p>“ 0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Ritschl recebeu in�uência tanto de Schleiermacher quanto de Kant e não aceitou a</p><p>“revelação” no signi�cado próprio da palavra, pois para ele a religião cristã tinha</p><p>seu ponto de referência no ajuntamento coletivo ao redor da pessoa de Cristo. A</p><p>tarefa principal da teologia era descrever a comunhão do ser humano com Deus,</p><p>como está se expressa no cristianismo histórico.</p><p>E, ainda para Ritschl, o cristianismo precisava se preocupar com duas áreas</p><p>dominantes: a ética cristã no reino de Deus e a salvação do indivíduo. Quanto à</p><p>ética cristã, esta impunha questões decisivas para Ritschl, pois a religião cristã</p><p>deveria promover e trazer à existência o reino de Deus, o qual, por sua vez, seria o</p><p>destino do homem concebido em categorias éticas. E, quanto à salvação, Ritschl a</p><p>de�nia como “justi�cação” ou “perdão de pecados”. Logo, o encontro entre o ser</p><p>humano e Deus constituir-se-ia numa reconciliação pela qual o homem</p><p>apresentaria “boas obras”. Dessa forma, a salvação não se referiria apenas à bem-</p><p>aventurança do indivíduo, mas também diria respeito a um objeto ético comum, a</p><p>concretização do reino de Deus, que é o bem supremo do homem (HÄGGLUND,</p><p>2003, p. 325).</p><p>A teologia cristã ortodoxa valia-se da meta�sica para explicar a existência, o ser e a</p><p>natureza de Deus. Alguns teólogos, por exemplo, empregavam as provas da</p><p>existência de Deus (argumento cosmológico, ontológico, teleológico, moral e</p><p>histórico ou etnológico) para estabelecer as bases racionais da fé cristã. Todavia,</p><p>Ritschl repelia peremptoriamente qualquer apoio da teologia na metafísica, pois,</p><p>para ele, a fusão entre o elemento cientí�co e o religioso deslegitimava a</p><p>verdadeira fé cristã (GRENZ; OLSON, 2013, p. 62).</p><p>REFLITA</p><p>Caro aluno, você já ouviu falar das “provas racionais da existência de Deus”?</p><p>Elas compõem os seguintes argumentos: ontológico, cosmológico,</p><p>teleológico, moral e histórico ou etnológico. Reserve algum tempo e</p><p>procure saber o que signi�ca e em que se baseia cada um desses</p><p>argumentos (BERKHOF, 1990, p. 27-29).</p><p>O conhecimento cientí�co busca a objetividade teórica pura, a desinteressada cognição das coisas em si. Esse</p><p>conhecimento procura compreender a natureza interna da realidade de uma posição de neutralidade. O</p><p>conhecimento religioso, por outro lado, consiste no julgamento de valores relativo à realidade. Ele interpreta a</p><p>realidade em termos do valor que as coisas têm para a realização plena do conhecedor. O conhecimento</p><p>religioso está ligado ao valor das coisas para atingir o bem maior do indivíduo.</p><p>— (GRENZ; OLSON, 2013, p. 61, grifos nossos)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Em suma, a teologia de Ritschl consistia em tentar harmonizar o cristianismo</p><p>tradicional com a “conscientização do mundo” do homem contemporâneo. Dessa</p><p>forma, não caberia à religião cristã explicar o mundo ou emitir pronunciamentos</p><p>teóricos, ou ainda, metafísicos. Ela poderia apenas realizar juízos de valor,</p><p>constituindo-se numa religião moral e espiritualmente perfeita (HÄGGLUND, 2003,</p><p>p. 326).</p><p>ERNEST PETER WILHELM TROELTSCH (1865-1923)</p><p>Ernest Troeltsch foi um �lósofo, historiador de alto gabarito e teólogo protestante</p><p>alemão. Ele pertenceu à History of Religions School e debruçou-se sobre diversos</p><p>trabalhos de Albrecht Ritschl e do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920).</p><p>Para Ernest Troeltsch o cristianismo não poderia ser considerado uma religião</p><p>absoluta, mas apenas uma forma de religião mais elevada. Ele fez uma distinção</p><p>entre a revelação e a história, pois “como é que se pode aceitar uma interpretação</p><p>histórica coerente do cristianismo e ao mesmo tempo a�rmar seu poder salvador e</p><p>seu papel na pregação contemporânea?” (HÄGGLUND, 2003, p. 343). Com isso,</p><p>Ernest Troeltsch buscou encontrar uma síntese cultural por intermédio do conceito</p><p>de religião natural.</p><p>Conforme sua opinião, todos os julgamentos de valor, morais e</p><p>religiosos estão baseados em pressupostos da razão humana.</p><p>Os teólogos liberais costumavam fazer a distinção entre historie (história, fatos</p><p>sociais) e</p><p>heilsgeschichte (história da salvação), criando dois mundos distintos e não</p><p>conectados: o mundo da história real, factível, e o mundo da fé, da história da</p><p>salvação.</p><p>A obra mais importante de Ernest Troeltsch foi The Social Teaching of the Christian</p><p>Churches - “O ensino social das igrejas cristãs”, publicada em 1912. Nela este autor</p><p>demonstra não compartilhar o otimismo progressista europeu, porém aponta para</p><p>uma crise e uma confusão cultural que fragmentaria os fundamentos da religião</p><p>cristã.</p><p>Dessa maneira, Troeltsch descreveu que as mudanças na sociedade,</p><p>proporcionadas pela modernidade, constituir-se-iam em uma ameaça à religião</p><p>cristã e que o “desencantamento do mundo”, acelerado pela racionalidade</p><p>humana, conforme descrito por Max Weber, estava em curso.</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>De acordo com Max Weber, com o avanço da modernidade, a religião</p><p>deixaria o espaço público e se concentraria cada vez mais no âmbito</p><p>privado; essas tensões seriam sentidas nas esferas econômica, política,</p><p>estética, erótica e intelectual. A minoração da participação da religião no</p><p>espaço público foi chamada por ele de “desencantamento do mundo”</p><p>(WEBER, 1997, p. 158-188).</p><p>A �m de explicar o declínio da religião, Troeltsch descreveu a civilização europeia</p><p>em três períodos, a saber: período antigo, referindo-se aos eventos passados,</p><p>desde o início da escrita até o medievo; período medieval, que se estenderia até o</p><p>século XVII; e período moderno, a partir do século XVII. Note que Troeltsch não</p><p>vincula a Reforma Protestante do século XVI ao início da modernidade.</p><p>Por �m, no campo teológico Troeltsch é mais conhecido como um historiador do</p><p>que como um teólogo liberal, contudo suas contribuições na história das religiões</p><p>que foram esquecidas têm despertado o interesse por parte dos teólogos e</p><p>cientistas da religião nas últimas décadas.</p><p>ADOLF VON HARNACK (1851-1930)</p><p>Harnack foi um teólogo protestante e historiador do cristianismo. Ele é um dos</p><p>grandes intérpretes responsáveis pela popularização da teologia liberal e foi</p><p>professor das disciplinas História Eclesiástica e Teologia Histórica na Universidade</p><p>de Berlim.</p><p>Suas obras mais conhecidas foram Lehrbuch der Dogmengeschichte – "Manual de</p><p>história do dogma" –, publicada em três volumes, entre 1886-1890; e a série de</p><p>palestras Das Wesen des Christentums – "A essência do cristianismo" –, texto</p><p>clássico da teologia liberal publicado em 1900.</p><p>Para Harnack, o cristianismo poderia ser apresentado em três princípios básicos, a</p><p>saber:</p><p>O cristianismo autêntico consiste na apresentação do reino de Deus e da sua</p><p>vinda – contudo, para Harnack isso não possuía nenhuma relação com eventos</p><p>sobrenaturais futuros, mas com o governo de Deus nos corações dos</p><p>indivíduos.</p><p>Deus é pai da humanidade, tanto dos crentes como dos incrédulos, e isso nos</p><p>torna a todos irmãos e irmãs.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Jesus ofereceu a justiça suprema e o mandamento de amor – a justiça estava</p><p>centralizada no amor e não no cumprimento frio e legalista da lei (OLSON,</p><p>2001, p. 566-567).</p><p>No tocante à compreensão da revelação, Harnack entendia que o cristianismo</p><p>autêntico era a mensagem do evangelho, que deveria ser separada das formas</p><p>culturais pelas quais foi comunicado no Novo Testamento. Ele propôs a tese de</p><p>que Jesus apresentou para a humanidade o Pai e não a si mesmo (GRENZ; OLSON,</p><p>2013, p. 69).</p><p>Harnack resumiu a revelação em três verdades inter-relacionadas:</p><p>O reino de Deus e a sua vinda.</p><p>Deus, o Pai, e o valor in�nito da alma humana.</p><p>A retidão mais elevada e o mandamento do amor.</p><p>De acordo com Grenz e Olson (2013, p. 68-69):</p><p>Por �m, o pensamento teológico de Harnack espraiou-se na América do Norte,</p><p>para ou outro lado do Oceano Atlântico, e serviu de semente e de adubo para o</p><p>surgimento e para o desenvolvimento do “evangelho social”, cujo proponente</p><p>principal foi o teólogo batista Walter Rauschenbush. A negação do sobrenatural</p><p>nos textos bíblicos e a eliminação dos dogmas transformaram a teologia (liberal)</p><p>proposta por Harnack em programas políticos, econômicos e sociais (OLSON, 2001,</p><p>p. 567, 568).</p><p>CRÍTICAS À TEOLOGIA LIBERAL</p><p>Apesar de o liberalismo teológico não ser um movimento unívoco, diversas críticas</p><p>foram direcionadas aos escritos liberais, as quais resumimos aqui:</p><p>O movimento apresenta a tendência de colocar grande ênfase sobre a ideia de</p><p>uma experiência religiosa humana universal, todavia trata-se de uma noção</p><p>muito vaga, mal de�nida e impossível de ser analisada e avaliada.</p><p>Adolf Harnack foi, talvez, o mais brilhante e popular defensor da teologia liberal protestante na virada do</p><p>século. [...] Suas palestras atraíam centenas de alunos e seus escritos (aproximadamente 1.600 títulos) eram</p><p>grandemente aclamadas no mundo acadêmico. [...] Harnack escreveu o discurso imperial para o povo alemão,</p><p>anunciando o início da 1ª Guerra Mundial, apoiava fortemente a política de guerra do kaiser. [...] Ele morreu em</p><p>1930. Hoje, um importante edifício do governo em Berlim, o “Adolf von Harnack Haus” serve de memorial para</p><p>essa importante �gura da teologia moderna.</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>O liberalismo é visto pelos críticos como um movimento que coloca ênfase</p><p>excessiva sobre criações culturais passageiras; o movimento é controlado pela</p><p>agenda cultural da modernidade.</p><p>O liberalismo sacri�ca as doutrinas ortodoxas do cristianismo para torná-lo</p><p>aceitável aos olhos da cultura contemporânea (McGRATH, 2005, p. 141).</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>A teologia liberal expandiu-se principalmente por intermédio dos seminários</p><p>teológicos (instituições cristãs dedicadas à formação de sacerdotes – pastores ou</p><p>padres) e pelas diversas denominações da Europa e da América do Norte. Ela fez</p><p>sentir a sua in�uência tanto no protestantismo quanto no catolicismo. Foi tão</p><p>rápida sua disseminação que muitas organizações religiosas foram pegas de</p><p>surpresa, redundando em muitas cisões denominacionais e fortes reações</p><p>(OLSON, 2001, p. 568).</p><p>A expansão do pensamento liberal foi responsável por outro movimento</p><p>protestante bastante radical que surgiu ao �nal do século XIX e que se espalhou</p><p>por diversas denominações no início do século XX. Trata-se do fundamentalismo</p><p>protestante, o qual veremos na próxima seção dos nossos estudos.</p><p>FAÇA VALER A PENA</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Questão 1</p><p>Assinale a obra de Adolf Harnack que foi considerada um texto clássico da teologia</p><p>liberal.</p><p>Um dos grandes intérpretes e responsáveis pela popularização da teologia protestante liberal foi Adolf Harnack</p><p>(1851-1930) [...]. Harnack era um intelectual alemão eminente que ensinava história eclesiástica e teologia</p><p>histórica na Universidade de Berlim. De muitas maneiras, foi sucessor de Schleiermacher e de Ritschl na</p><p>liderança do movimento teológico liberal.</p><p>— (OLSON, 2001, p. 566)</p><p>“</p><p>a. A essência do cristianismo, publicada em 1900.</p><p>b. A fé cristã, publicada entre 1820 e 1822.</p><p>c. Discursos sobre a religião às pessoas cultas entre seus desdenhadores, publicada em 1880.</p><p>d. Manual de história do dogma, publicada entre 1886 e 1890.</p><p>e. História do pensamento cristão, publicada em 1953.</p><p>Questão 2</p><p>Assinale a alternativa que corresponda ao expoente do liberalismo descrito no</p><p>texto apresentado.</p><p>Historiador e �lósofo da religião de alto gabarito, que também pode ser considerado representante da escola</p><p>da história das religiões. [...] baseou suas conclusões numa radical interpretação histórica do cristianismo. O</p><p>cristianismo, dizia, não pode ser considerado a religião absoluta, mas apenas a forma historicamente mais</p><p>elevada de religião do desenvolvimento da personalidade</p><p>— (HÄGGLUND, 2003, p. 343)</p><p>“</p><p>a. Friedrich Schleiermacher (1738-1834).</p><p>b. Albrecht Ritschl (1822-1889).</p><p>c. Ernest Troeltsch (1865-1923).</p><p>d. Adolf von</p><p>no século XX, alguns conhecimentos</p><p>prévios serão necessários. Primeiramente, precisamos compreender os principais</p><p>fatos sociais, econômicos e políticos que ocorreram nessa época. De forma</p><p>semelhante, é preciso saber como o pensamento �losó�co foi articulado na</p><p>transição do século XIX para este século e quais as suas in�uências na teologia.</p><p>Dessa forma, iniciaremos nossa exposição descrevendo de forma sucinta os</p><p>principais eventos ocorridos no século XX.</p><p>O SÉCULO XX E O GRANDE DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO</p><p>O século XX �cou marcado pelas céleres transformações sociais, econômicas e</p><p>políticas. No âmbito político, esse século �cou marcado por duas grandes guerras:</p><p>a Primeira Guerra Mundial, que ocorreu entre 1914 e 1918 (estima-se que tenham</p><p>morrido 17 milhões de soldados e civis nessa ocasião), e a Segunda Guerra</p><p>Mundial, que ocorreu entre 1939 e 1945 (já nesse período, estima-se que tenham</p><p>sido perdidas entre 60 e 70 milhões de vidas) (HOBSBAWM, 1995, posição 1109).</p><p>No aspecto econômico, no terceiro decênio do século XX, estourou uma profunda</p><p>depressão, também chamada de “crise de 1929”. Entendida por alguns autores</p><p>como crise de superprodução, ela contabilizou, nos EUA, 14 milhões de</p><p>desempregados em função da desvalorização das ações de Wall Street (distrito</p><p>�nanceiro da cidade de Nova Iorque.</p><p>Somando-se a essas baixas, em 1918 irrompeu um surto de infecções provocado</p><p>pela chamada Gripe Espanhola, a qual infectou cerca de um quarto da população</p><p>mundial e foi a causa de aproximadamente 40 milhões de mortes (RIBEIRO;</p><p>MARQUES; MOTA, 2020, p. 3).</p><p>Embora o século XX tenha sido marcado por terríveis eventos, ele notabilizou-se</p><p>por inúmeros avanços tecnológicos. A Guerra Fria (1945-1991), con�ito ocorrido</p><p>pela busca da hegemonia mundial entre os Estados Unidos da América (EUA) e a</p><p>União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), levou ambos os países a</p><p>investirem altas cifras em novas tecnologias, pois “as duas superpotências</p><p>estenderam e distorceram demais suas economias com uma corrida armamentista</p><p>maciça e muito dispendiosa” (HOBSBAWM, 1995, posição 5420). Em uma disputa</p><p>bastante acirrada, os norte-americanos e os russos engendraram todos os</p><p>esforços possíveis para a “conquista do espaço”. Isso porque possuir tecnologia e</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>lançar um foguete para além da troposfera era sinônimo de poderio bélico, pois,</p><p>com foguetes de alcance intercontinental, seria possível destruir o inimigo sem a</p><p>necessidade de enviar um homem sequer à batalha.</p><p>O clímax desse desenvolvimento tecnológico trouxe benefícios tanto aos russos</p><p>quanto aos americanos, pois os russos enviaram, no ano de 1961, o primeiro</p><p>homem para o espaço, o astronauta Iuri Alexeievitch Gagarin. Os americanos, por</p><p>sua vez, não �caram para atrás, e foram os primeiros, no ano de 1969, a pisar em</p><p>solo lunar. Tal façanha foi alcançada pelos astronautas Neil Armstrong e Buzz</p><p>Aldrin (HOBSBAWM, 1995, posição 13768).</p><p>Em 1946, na esteira da corrida espacial, os americanos inventaram o primeiro</p><p>computador, o Electronic Numerical Integrator And Computer, conhecido como</p><p>ENIAC. O “brinquedinho” do Tio Sam pesava 30 toneladas, ocupava uma área de</p><p>180 m2, possuía 70 mil resistores, 18 mil válvulas e consumia 200 mil watts de</p><p>energia.</p><p>Com os aperfeiçoamentos do ENIAC, tornou-se possível a manipulação de imensa</p><p>quantidade de dados e, por consequência, a ágil transformação de dados em</p><p>informação, que, por sua vez, fez expandir o conhecimento humano. Ao �nal do</p><p>século XX, a partir da popularização da World Wide Web, conhecida como</p><p>“internet”, o acesso a dados, informações e conhecimento tornou-se cada vez mais</p><p>massivo.</p><p>Dessa forma, podemos a�rmar que, no século XX, o conhecimento tornou-se um</p><p>instrumento importantíssimo tanto para os indivíduos que o transformaram em</p><p>mercadoria quanto para os países que o utilizaram como instrumento de poder</p><p>em busca da hegemonia entre as nações.</p><p>Mas, neste momento, você pode estar se perguntando: quais foram as</p><p>transformações sofridas pela teologia no contexto do século XX?</p><p>Primeiramente, precisamos entender que o desenvolvimento da ciência e a</p><p>invenção de novas tecnologias despertaram no ser humano o espírito crítico, que,</p><p>por sua vez, desembocou em diversos questionamentos à consistência das</p><p>narrativas teológicas e da própria existência de um Deus.</p><p>Vejamos de forma detalhada como isso ocorreu e quais foram os seus principais</p><p>expoentes.</p><p>A PÓS-MODERNIDADE E O FIM DAS METANARRATIVAS</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>A partir da análise do desenvolvimento tecnológico do século XX e das suas</p><p>principais transformações sociais, políticas e econômicas, um �lósofo francês</p><p>resolveu descrever essa realidade como “condição pós-moderna”. Para Jean-</p><p>François Lyotard (1924-1998), o século em questão apresentava um cenário pós-</p><p>moderno, cibernético-informático e informacional (LYOTARD, 2009, p. viii).</p><p>REFLITA</p><p>Você já leu em algum lugar ou ouviu alguém falar sobre pós-modernidade?</p><p>O conceito de pós-modernidade é bastante discutido entre os �lósofos, sociólogos,</p><p>historiadores e antropólogos. Estabelecendo um comparativo, na modernidade –</p><p>processo iniciado no século XVI –, houve uma ruptura bastante visível nos aspectos</p><p>social, político e econômico. No social, houve a migração de numerosa massa</p><p>populacional do campo para a cidade; no político, a partir da Revolução Francesa</p><p>(1789), a monarquia absolutista deu espaço para os regimes democráticos e</p><p>presidencialistas; e na economia, o sistema capitalista tornou-se a nova ordem</p><p>mundial.</p><p>No tocante à pós-modernidade, as rupturas não são tão visíveis assim, de forma</p><p>que os sociólogos, os �lósofos e outros estudiosos atribuem diversas designações</p><p>para esse momento social. Antony Giddens (1938- ) prefere utilizar o termo “alta-</p><p>modernidade” ou “modernidade re�exiva” – visto que, para ele, não houve</p><p>rupturas profundas na ordem social, política e econômica (GIDDENS, 1998).</p><p>Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo polonês, entendeu que não houve uma</p><p>ruptura profunda e, com o passar do tempo, abandonou o uso do termo “pós-</p><p>modernidade”; para o �lósofo, a característica marcante de transformação na</p><p>ordem social foi a quebra da solidez das instituições, dos contratos, das relações</p><p>sociais e das relações de trabalho. Por isso ele resolveu chamar o presente</p><p>momento de “modernidade líquida” (BAUMAN, 2001).</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>Isto posto e voltando para Lyotard, precisamos entender que o autor não</p><p>chamou a nova ordem social de pós-modernidade, mas de “condição pós-</p><p>moderna”, pois sua obra se trata de um ensaio.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Não nos ocuparemos da discussão dos termos que designam a condição social dos</p><p>séculos XX e XXI, visto que existem muitos sociólogos que vêm se debruçando</p><p>sobre o assunto e propondo suas hipóteses para explicar o presente momento e</p><p>as rupturas com a modernidade.</p><p>Contudo, existe algo que você precisa ter em mente antes de redigir um texto, uma</p><p>pesquisa ou um trabalho utilizando os termos “pós-moderno” ou “pós-</p><p>modernidade".</p><p>ASSIMILE</p><p>Os sociólogos possuem muitas reservas em chamar o presente momento</p><p>de pós-modernidade pelo fato do termo em si não trazer uma de�nição</p><p>precisa.</p><p>Assim, surge a pergunta inevitável: qual a ligação entre o avanço da tecnologia no</p><p>século XX, a condição pós-moderna de Lyotard, as metanarrativas e a teologia?</p><p>Em primeiro lugar, é preciso compreender que as metanarrativas assumem o</p><p>sentido das grandes histórias capazes de explicar todo conhecimento existente no</p><p>universo. Podemos tomar como exemplos de metanarrativas o Alcorão Sagrado –</p><p>revelado a Mohammed (Maomé) no século VII – e a Bíblia Sagrada – coletânea de</p><p>livros sacros dos judeus somada aos livros cristãos do primeiro século.</p><p>Lyotard, então, propõe em sua análise que, diante dos avanços da ciência e da</p><p>tecnologia, os seres humanos tendem, cada vez mais, a incorporarem os métodos</p><p>cientí�cos e a rejeitarem as metanarrativas. Numa síntese, esse autor a�rma:</p><p>“simpli�cando</p><p>Harnack (1851-1930).</p><p>e. Karl Barth (1886-1968).</p><p>Questão 3</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BERKHOF, L. Teologia Sistemática. Campinas: Luz para o Caminho, 1990.</p><p>COSTA, H. M. P. Raízes da teologia contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã,</p><p>2004.</p><p>GRENZ, S. J.; OLSON, R. E. A teologia do século 20: e os anos críticos do século 21.</p><p>2. ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2013.</p><p>HÄGGLUND, B. História da Teologia. 7. ed. Porto Alegre: Concórdia, 2003.</p><p>MATA, S. da. Ernst Troeltsch e a história: uma introdução. Locus: revista de</p><p>história, Juiz de Fora, v. 11, n. 1 e 2, p. 7-10, 2005. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3hBGn0k. Acesso em: 6 abr. 2021.</p><p>Considerando-se a citação apresentada e as críticas ao liberalismo teológico,</p><p>analise as a�rmativas a seguir:</p><p>I. O liberalismo teológico apresentou a tendência de colocar grande ênfase sobre</p><p>a ideia de uma experiência humana religiosa e universal.</p><p>II. A teologia liberal foi vista pelos críticos como um movimento que colocava</p><p>ênfase excessiva sobre as criações culturais passageiras.</p><p>III. O pensamento liberal sacri�cou as doutrinas ortodoxas do cristianismo para</p><p>ser aceitável aos olhos da cultura contemporânea.</p><p>Diante do contexto apresentado, é correto o que se a�rma em:</p><p>Na verdade, um dos paradoxos mais curiosos da teologia cristã recente está no fato de que alguns de seus</p><p>representantes mais dogmáticos se dizem genuinamente liberais! O liberalismo, no sentido verdadeiro e</p><p>respeitável da palavra, traz consigo um inalienável respeito pelas perspectivas alheias e abertura em relação a</p><p>elas: assim, deve ser um elemento essencial de todo ramo da teologia cristã. Entretanto, o termo passou a ter</p><p>um novo sentido que, com frequência, carrega em si matizes de descon�ança, de hostilidade ou de impaciência</p><p>em relação aos tradicionais dogmas e doutrinas cristãs.</p><p>— (McGRATH, 2005, p. 141)</p><p>“</p><p>a. I, apenas.</p><p>b. II, apenas.</p><p>c. III, apenas.</p><p>d. I e III, apenas.</p><p>e. I, II e III.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>https://repositorio.ufop.br/bitstream/123456789/7454/1/ARTIGO_ErnstTroeltschHist%C3%B3ria.pdf</p><p>McGRATH, A. E. Teologia sistemática, histórica e �losó�ca: uma introdução à</p><p>teologia cristã. São Paulo: Sheed Publicações, 2005.</p><p>OLSON, R. E. História da teologia cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São</p><p>Paulo: Editora Vida, 2001.</p><p>SCHLEIERMACHER, F. The Christian faith in outline. Edinburgh: W. F. Henderson</p><p>Publisher, 1922.</p><p>TILLICH, P. História do pensamento cristão. 3. ed. São Paulo: ASTE, 2004.</p><p>WEBER, M. Os economistas. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1997.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>FUNDAMENTALISMO CRISTÃO</p><p>César Rocha Lima</p><p>Imprimir</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Prezado aluno, você gosta de assistir a �lmes? Gosta mais de ir ao cinema ou de</p><p>vê-lo em casa? Por acaso você já assistiu ao �lme O vento será a tua herança? Caso</p><p>ainda não o tenha visto, marque a data, convide os amigos, alugue o �lme e, se</p><p>estiver em casa, prepare a pipoca com refrigerante e aprecie esse maravilhoso</p><p>clássico produzido por Stanley Kramer.</p><p>O �lme, produzido em 1960 em preto e branco, com 128 minutos de duração e</p><p>baseado em fatos reais, retrata um julgamento ocorrido em 1925, no estado do</p><p>Tennessee, em que um professor foi acusado por desrespeitar uma lei estadual</p><p>(Lei Butler), a qual proibia o ensino do darwinismo nas escolas públicas.</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>O julgamento �cou conhecido, de forma caricata, como “o julgamento do macaco”</p><p>e teve repercussão nacional em função da batalha travada entre os ilustres e</p><p>hábeis advogados de acusação e de defesa. O julgamento durou onze dias e foi o</p><p>primeiro a ser transmitido pelo rádio.</p><p>O �lme será uma peça importante para que você assimile os conteúdos desta</p><p>seção, visto que trataremos do “fundamentalismo protestante”, movimento de</p><p>reação à teologia liberal, à modernidade e ao evolucionismo.</p><p>O cenário do �lme permitirá que você, caro aluno, perceba como o</p><p>fundamentalismo ganhou força no início do século XX e como conseguiu imprimir</p><p>algumas leis que contivessem o avanço, nos espaços públicos, das teorias</p><p>evolucionistas propostas por Charles Robert Darwin (1809-1882) em sua obra A</p><p>Origem das Espécies, publicada em 1859.</p><p>Nesta seção você compreenderá o correto signi�cado do termo</p><p>“fundamentalismo”, aprenderá que o fundamentalismo protestante foi um</p><p>movimento reacionário a três elementos, a saber, à teologia liberal, ao</p><p>modernismo e às teorias evolucionistas de Charles Robert Darwin (18091882), e</p><p>perceberá que os fundamentalistas reforçaram os ensinamentos sobre inspiração</p><p>e sobre inerrância bíblica a �m de proteger as sagradas escrituras dos ataques das</p><p>especulações liberais.</p><p>A EVOLUÇÃO E A BÍBLIA</p><p>Caro aluno, a controvérsia que polarizou o movimento fundamentalista, o</p><p>julgamento de Scopes – também conhecido como “o julgamento do macaco” –,</p><p>trouxe, em rede nacional (programa de rádio), as divergências entre o sistema</p><p>Há outro lugar onde a inspiração verbal sofre forte ataque hoje. Esse ataque afeta somente uma pequena</p><p>porção do registro bíblico, mas é importante. Estamos nos referindo à questão da evolução e a Bíblia. Quase</p><p>não é preciso falar de ciência e a Bíblia, porque a ciência como um todo atinge muito pouco a Bíblia. Há poucos</p><p>pontos nos quais a química, a física, a matemática etc., apontam para as Escrituras, e muito menos a</p><p>contradizem. É verdade que às vezes esses poucos pontos são levados a sério demais, mas realmente não são</p><p>de grande importância. Por exemplo, alguns ridicularizam a Bíblia dizendo que ela dá um valor de 3 para pi, em</p><p>vez de 3,1416. É verdade que em 2 Crônicas 4.2 e também em 1 Reis 7.23 as dimensões da grande bacia de</p><p>bronze são dadas como trinta cúbitos de circunferência e dez de diâmetro, mas o que isso realmente prova?</p><p>Três é o valor de pi ao primeiro algarismo signi�cativo, e embora o valor de pi tenha sido calculado até muitos</p><p>decimais, seu valor exato não pode ser conhecido! [...] Nada há aqui para perturbar a fé de qualquer pessoa,</p><p>nem há base para se dizer que as Escrituras estão erradas em sua matemática. E assim é com muitas objeções</p><p>de menor importância.</p><p>— (HARRIS, 2004, p. 26)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>evolucionista, proposto por Charles Darwin, e os ensinamentos cristãos, ancorados</p><p>na Bíblia.</p><p>Essa controvérsia, entre Bíblia e evolução, ocorreu em outros séculos, com</p><p>diferentes protagonistas, a saber: fé e ciência nos séculos XIX e XX, com os deístas;</p><p>revelação e razão no pensamento do reformador Martinho Lutero (1483-1546),</p><p>no século XVI; fé e razão com Agostinho de Hipona (354-430), no século IV; fé e</p><p>evidências com Jesus e Tomé, no século I.</p><p>Os poucos exemplos acima demonstram que a discussão simplesmente perpassou</p><p>pelo século XX destacando três matizes:</p><p>Aqueles que tomam a ciência como exclusiva fonte da verdade.</p><p>Aqueles que tomam a Bíblia como fonte exclusiva da verdade.</p><p>Aqueles que procuram conciliar a ciência com a Bíblia.</p><p>Poderíamos, a princípio, classi�car seus respectivos protagonistas como:</p><p>Os ateus.</p><p>Os fundamentalistas.</p><p>Os teólogos liberais.</p><p>Caro aluno, suponha que você, como futuro bacharel em Teologia, tenha sido</p><p>convidado para um importante evento em determinado segmento religioso. O</p><p>público-alvo é composto de jovens universitários que desejam viver uma vida</p><p>equilibrada entre seu exercício da fé e o conhecimento cientí�co. E, diante das</p><p>discussões oriundas do período pandêmico da COVID-19, coube a você o tema: Fé</p><p>e Razão em tempos de pandemia. Prepare o esboço dessa palestra levando em</p><p>consideração que você terá quarenta minutos para a exposição.</p><p>Então, mãos à obra! Adquira o �lme, pegue o bloquinho de anotações, marque as</p><p>dúvidas e se prepare para respondê-las durante a nossa jornada acadêmica. Bons</p><p>estudos!</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>Caro aluno, na seção anterior, tratamos do liberalismo teológico, apresentando:</p><p>Os principais elementos que corroboraram o surgimento da teologia liberal</p><p>– o</p><p>deísmo, o Iluminismo, o racionalismo e a modernidade.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Os principais expoentes do pensamento liberal – Friedrich Schleiermacher</p><p>(1738-1834), Albrecht Ritschl (1822-1889), Ernest Troeltsch (1865-1923) e Adolf</p><p>von Harnack (1851-1930).</p><p>De forma bem resumida, as críticas direcionadas à teologia liberal.</p><p>Nesta seção trataremos do movimento que surgiu principalmente como reação à</p><p>teologia liberal, o fundamentalismo protestante.</p><p>O FUNDAMENTALISMO PROTESTANTE: O QUE NÃO É</p><p>FUNDAMENTALISMO</p><p>Quando ouvimos, na esfera religiosa, o termo “fundamentalismo”, logo pensamos</p><p>no “fundamentalismo islâmico”. Essa expressão é bastante utilizada pelos meios de</p><p>comunicação de massa para referir-se aos grupos islâmicos terroristas: Al-Qaeda,</p><p>no Paquistão; Boko Haram, na Nigéria; Estado Islâmico ou ISIS, no Iraque e na Síria;</p><p>Hamas, em Israel; Hezbollah, no Líbano; e Talibã, no Afeganistão e no Paquistão</p><p>(LIMA, 2019).</p><p>Contudo, no seu sentido etimológico, a palavra “fundamentalismo” remete aos</p><p>fundamentos, às bases. Nesse aspecto é importante saber que o fundamentalista,</p><p>no campo religioso, é aquele que vivencia a sua fé a partir das raízes de sua</p><p>religião. Como observado, o termo em si não remete à violência, mas ao retorno</p><p>aos fundamentos da fé.</p><p>Outrossim, os termos mais apropriados para caracterizar os movimentos religiosos</p><p>terroristas são “extremista”, “radical” ou “revolucionário”. É importante ter esses</p><p>conceitos bem de�nidos para não cometer erros e imprecisões nas abordagens</p><p>sobre determinados assuntos no campo da teologia ou das ciências da religião.</p><p>O MOVIMENTO FUNDAMENTALISTA COMO REAÇÃO À TEOLOGIA</p><p>LIBERAL</p><p>De acordo com Isaac Malheiros, em 1910, a Assembleia Geral Presbiteriana dos</p><p>Estados Unidos da América (EUA) assinalou o nascimento do fundamentalismo</p><p>protestante estadunidense, articulando um documento com cinco pontos</p><p>contrários ao liberalismo teológico.</p><p>Esse documento rea�rmava o que se supunha serem os pontos fundamentais da fé diante da ameaça liberal: 1)</p><p>a inerrância do texto bíblico; 2) o fato de Jesus ter nascido de uma virgem; 3) a morte de Jesus, que garantiu a</p><p>redenção humana; 4) a ressurreição de Jesus; 5) e a crença nos milagres poderosos de Jesus.</p><p>— (MALHEIROS, 2015, p. 259)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>O referido documento compôs um conjunto de pan�etos que procurou atrair o</p><p>maior número de adeptos para o movimento. Todavia, os cinco pontos não</p><p>conseguiram capturar a essência do fundamentalismo, dada a grande abrangência</p><p>das proposituras realizadas por seus diversos expoentes (HARRIS, 2008, p. 26).</p><p>De 1910 a 1915 foi publicado um conjunto de noventa ensaios sob o título The</p><p>Fundamentals: A Testimony To The Truth – “Os Fundamentos: um testemunho da</p><p>verdade”. Os artigos foram publicados trimestralmente e seu conteúdo teve por</p><p>objetivo desconstruir os argumentos propostos pelos teólogos liberais.</p><p>Os artigos procuraram defender, dos ataques da teologia liberal, alguns pontos-</p><p>chave da ortodoxia cristã, como: a autoria mosaica do pentateuco; a evidência da</p><p>legitimidade do quarto evangelho; o testemunho de Cristo no Antigo Testamento; a</p><p>existência de apenas um autor no livro de Isaías; o testemunho da arqueologia às</p><p>verdades expostas nas escrituras sagradas; a ciência e a fé cristã; a inspiração e a</p><p>inerrância bíblica; o testemunho que as escrituras dão de si mesmas; a deidade de</p><p>Cristo; o nascimento virginal de Cristo; o Deus Homem; a importância da</p><p>ressurreição de Cristo; a personalidade e a deidade do Espírito Santo; o Santo</p><p>Espírito e os �lhos de Deus; e o cristianismo que não falha (TORREY; DIXON, 2000,</p><p>p. 3-4).</p><p>A coletânea foi organizada pelos teólogos Reuben Archer Torrey (1856-1928),</p><p>ministro da Igreja Congregacional, e Amzi Clarence Dixon (1854-1925), pastor</p><p>batista. Eles enviaram os volumes para diversos ministros e missionários em</p><p>diferentes partes do mundo (TORREY; DIXON, 2000, p. 5).</p><p>Em 1919, William Bell Riley (1861-1947), pastor batista, emergiu como um líder do</p><p>fundamentalismo militante. Ele fundou a primeira organização explicitamente</p><p>fundamentalista, a World´s Christian Fundamentals Association (WCFA) –</p><p>“Associação Mundial de Fundamentos Cristãos” –, de caráter interdenominacional.</p><p>A maioria dos membros da WCFA era pré-milenista e antievolucionista. Contudo,</p><p>a organização produziu poucos frutos e perdeu o ímpeto bem cedo; o</p><p>individualismo de seus líderes foi o principal fator para sua desintegração (HARRIS,</p><p>2008, p. 28-29).</p><p>REFLITA</p><p>Caro aluno, você sabe o que é pré-milenismo? Trata-se de um ensinamento</p><p>que faz parte do corpo escatológico das doutrinas cristãs. A partir disso,</p><p>pegue papel e caneta e faça uma pesquisa sobre as correntes escatológicas</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>que descrevem a vinda de Jesus e o período de mil anos.</p><p>LIBERALISMO NO SEMINÁRIO PRESBITERIANO DE PRINCETON</p><p>Como abordado no �nal da última seção, a teologia liberal, que surgiu em meados</p><p>do século XIX, difundiu-se principalmente por intermédio dos seminários</p><p>teológicos, ou seja, de instituições cristãs dedicadas à formação de sacerdotes –</p><p>sejam padres, sejam pastores. Podemos citar como exemplo o Seminário Teológico</p><p>de Princeton, localizado no distrito de Princeton, em New Jersey (não confunda</p><p>com a Universidade de Princeton, pois, apesar de serem instituições localizadas no</p><p>mesmo distrito, são independentes entre si).</p><p>Na década de 1920, o liberalismo havia se enraizado no Seminário Teológico de</p><p>Princeton, mantido pela Presbyterian Church in USA (PCUSA). Nesse contexto, o</p><p>teólogo John Gresham Machen (1881-1937) destacou-se como o principal</p><p>articulista em reação à teologia liberal ensinada naquele seminário (MACHEN,</p><p>2001, p. II).</p><p>Em 1929, Machen e outros professores, como o �lósofo Cornelius Van Til (1895-</p><p>1987) e o teólogo Oswald Thompson Allis (1880-1973), descontentes com a teologia</p><p>liberal ensinada no Seminário de Princeton, resolveram romper com a instituição.</p><p>Para tanto, eles fundaram, em 1930, o Seminário Teológico de Westminster, na</p><p>Pensilvânia, que seguiria os padrões da teologia reformada.</p><p>ASSIMILE</p><p>Teologia reformada, ou fé reformada, trata-se de um movimento religioso</p><p>protestante cuja base teórica se encontra nos ensinamentos do teólogo e</p><p>reformador João Calvino (1509-1564).</p><p>Não demorou muito e as reações à teologia liberal encontraram, nas igrejas locais,</p><p>o seu novo campo de refregas. O liberalismo não era mais um assunto relegado</p><p>aos seminários teológicos ou universidades, pois a sua in�uência perpassava as</p><p>lições da Escola Dominical, os ensinamentos no púlpito e a imprensa religiosa</p><p>(MACHEN, 2001, p. 27).</p><p>Por conseguinte, em 1935, pelos mesmos motivos, cerca de um terço dos pastores</p><p>e presbíteros da PCUSA romperam com sua denominação, fundando a Orthodox</p><p>Presbyterian Church – “Igreja Presbiteriana Ortodoxa”.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>O movimento de reação ao liberalismo teológico cristalizou-se com o nome de</p><p>“fundamentalismo”, mas nem todos os seus expoentes aceitaram o rótulo. O</p><p>próprio Machen a�rmou que não gostava de ser chamado de “fundamentalista”</p><p>(HARRIS, 2008, p. 21).</p><p>A INSPIRAÇÃO E A INERRÂNCIA BÍBLICA</p><p>Excluindo-se as controvérsias geradas por Celso, que, no século III, questionou a</p><p>unidade dos livros da Bíblia (ORÍGENES, 2014), durante séculos a igreja cristã creu</p><p>que os vários livros das escrituras sagradas foram escritos pelos autores cujos</p><p>nomes levam (HARRIS, 2004, p. 19).</p><p>A teologia liberal, que adotou o método histórico-crítico para a análise dos textos</p><p>bíblicos, rompeu com essa tradição, pois apoiou-se na alta crítica e passou a</p><p>questionar a autoria de alguns livros das sagradas escrituras.</p><p>ASSIMILE</p><p>A “alta crítica”, expressão aplicada pela primeira vez à literatura bíblica por J.</p><p>G. Eichhron (1752-1827), constituiu-se em um dos importantes</p><p>desenvolvimentos do alto criticismo na busca do Jesus histórico, partindo</p><p>do princípio de que havia uma diferença fundamental entre ele e o Cristo</p><p>da fé. Como pressuposto, havia a ideia de</p><p>que os elementos milagrosos e</p><p>sobrenaturais da Bíblia já não eram dignos de crédito (COSTA, 2004, p. 312).</p><p>Nessa nova interpretação, o livro Gênesis passou a ter dois autores – teoria Javista</p><p>e Elohista –; o livro de Isaías, dois ou três autores – teorias deutero e trito Isaías – e</p><p>assim por diante (ARCHER JÚNIOR, 1988, p. 88-134, 250-289).</p><p>A progressão da teologia liberal no campo da análise da autoria dos textos bíblicos</p><p>foi demonstrada pelo teólogo Robert Laird Harris (1911-2008) quando a�rma:</p><p>Jean Astruc (1753) é creditado como a primeira observação da variação dos nomes divinos no Gênesis, tendo</p><p>concluído disso que parte do Gênesis era uma combinação de fontes diferentes. Ele sustentava de maneira</p><p>su�cientemente ortodoxa que Moisés havia usado duas fontes históricas antigas, uma que usava o nome</p><p>hebraico de Deus, YHWH, ou “Jeová”, e a outra que usava a palavra hebraica Elohim, que signi�ca “Deus”. Foram</p><p>escritores posteriores que estenderam essa hipótese de fontes documentárias a todo o Pentateuco e também a</p><p>escritos posteriores. Eles declararam que o Pentateuco não foi obra de Moisés, mas sim um composto de partes</p><p>históricas escritas por outras desconhecidas mãos.</p><p>— (HARRIS, 2004, p. 20)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Os fundamentalistas reagiram à utilização do método histórico-crítico e</p><p>defenderam a inspiração e a inerrância da Bíblia. Benjamin Breckinridge War�eld</p><p>(1851-1921), professor de teologia no Seminário Teológico de Princeton, discordou</p><p>da maioria liberal e declarou que o conceito de inspiração verbal estava presente</p><p>nos credos e no ensino da igreja protestante desde a Reforma (HARRIS, 2004, p.</p><p>60).</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>Caro aluno, a teoria da “inspiração verbal” a�rma que cada “palavra”</p><p>registrada no texto bíblico foi entregue aos escritores (autores dos livros da</p><p>Bíblia) por Deus e, por isso, possui um propósito de�nido para a salvação</p><p>dos homens (BOICE, 1989).</p><p>James Montgomery Boice (1938-2000), teólogo estadunidense, também reagiu à</p><p>teologia liberal ao a�rmar que a decadência na pregação bíblica se devia: “a um</p><p>declínio prévio na crença na Bíblia como Palavra de Deus, autoritativa e inerrante,</p><p>da parte dos teólogos da igreja, dos professores dos seminários, e daqueles</p><p>ministros que por eles são treinados” (BOICE, 1989, p. 145-146).</p><p>Vários outros nomes se posicionaram contra os métodos de interpretação bíblica</p><p>adotados pelos liberais. Eles �zeram um contraponto rea�rmando a sua crença na</p><p>inerrância e na inspiração da Bíblia. Dentre eles estavam Francis August Schae�er</p><p>(1912-1984), John H. Gerstner (1914-1996), James Innell Packer (1926-2020) e</p><p>Gleason Leonard Archer (1916-2004).</p><p>Por �m, em 1978, um grupo de cristãos reunidos nos EUA. escreveu A declaração</p><p>de Chicago sobre a Inerrância da Bíblia, cristalizando, assim, o movimento</p><p>fundamentalista nesse quesito.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>EVOLUCIONISMO VERSUS CRIACIONISMO</p><p>Além de se constituir em um movimento reacionário ao liberalismo teológico, o</p><p>fundamentalismo se opôs a alguns elementos da modernidade. As teorias</p><p>evolucionistas de Charles Robert Darwin (1809-1882), naturalista, geólogo e biólogo</p><p>britânico, estavam em efervescência nos EUA quando um episódio polarizou o</p><p>grupo fundamentalista.</p><p>Em 1925, um professor substituto, John Thomas Scopes, foi acusado de ensinar o</p><p>evolucionismo por utilizar as ideias de Darwin em suas aulas. O fato ocorreu no</p><p>estado do Tennessee, em uma escola pública da cidade de Dayton. O caso</p><p>rapidamente tomou proporções hercúleas dada sua difusão midiática e a</p><p>participação dos brilhantes advogados envolvidos: William Jennings Bryan (1860-</p><p>1925), três vezes candidato à presidente pelo partido dos Democratas, e Clarence</p><p>Darrow (1857-1938), advogado criminalista e famoso palestrante ateu (OLSON,</p><p>2001, p. 578-579).</p><p>De acordo com Phillip Johnson:</p><p>DECLARAÇÃO DE CHICAGO SOBRE A INERRÂNCIA DA BÍBLIA</p><p>ARTIGO I</p><p>A�rmamos que as Sagradas Escrituras devem ser recebidas como a Palavra o�cial de Deus.</p><p>Negamos que a autoridade das Escrituras provenha da Igreja, da tradição ou de qualquer outra fonte humana.</p><p>ARTIGO II</p><p>A�rmamos que as Sagradas Escrituras são a suprema norma escrita, pela qual Deus compele a consciência, e</p><p>que a autoridade da Igreja está subordinada à das Escrituras.</p><p>Negamos que os credos, concílios ou declarações doutrinárias da Igreja tenham uma autoridade igual ou maior</p><p>do que a autoridade da Bíblia.</p><p>ARTIGO III</p><p>A�rmamos que a Palavra escrita é, em sua totalidade, revelação dada por Deus.</p><p>Negamos que a Bíblia seja um mero testemunho a respeito da revelação, ou que somente se torne revelação</p><p>mediante encontro, ou que dependa das reações dos homens para ter validade.</p><p>— (MOODY..., [s. d., s. p., “tradução nossa”] )</p><p>“</p><p>Bryan acreditava na Bíblia, mas não era um literalista intransigente, pois acreditava que os “dias” do Gênesis se</p><p>referiam não ao período de 24 horas, mas eras históricas de duração in�nita. [...] Darrow habilmente fez com</p><p>que Bryan fosse interrogado como testemunha especialista na Bíblia e o humilhou num interrogatório</p><p>devastador. Tendo conseguido seu principal objetivo, Darrow admitiu que seu cliente tinha violado a lei e instou</p><p>aos jurados que o condenassem.</p><p>— (JOHNSON, 2008, p. 17)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Com o �m do julgamento, Scopes foi condenado a pagar uma multa nominal de</p><p>US$ 100 (cem dólares) por violação da Lei Butler.</p><p>ASSIMILE</p><p>Lei Butler – elaborada por John Washington Butler, membro da Câmara dos</p><p>representantes do Tennessee, aprovada em 21 de janeiro de 1925.</p><p>“Será ilegal para qualquer professor, em qualquer uma das Universidades</p><p>nossas e em todas as outras escolas públicas do Estado que são apoiadas</p><p>no todo ou em parte pelos fundos de escolas públicas do Estado, ensinar</p><p>qualquer teoria que negue a história do Divino Criador do homem</p><p>conforme ensinado na Bíblia e, em vez disso, ensinar que o homem</p><p>descendeu de uma ordem inferior de animais”. (GOULD, 1992, p. 264).</p><p>A lei permaneceu em vigor por quarenta anos no Tennessee, e o episódio virou</p><p>peça de teatro e �lme, tornando-se mais um elemento de polarização para o</p><p>movimento fundamentalista nos EUA.</p><p>Entre os anos de 1880 e 1900, foram produzidas cerca de 1.800 obras</p><p>antievolucionistas. A maior parte desse material foi produzida por partidários do</p><p>“criacionismo cientí�co”, que se articulou em três eixos principais, a�rmando que:</p><p>A Bíblia é um livro de ciência.</p><p>O dilúvio foi universal e é capaz de explicar toda parte da coluna geológica que</p><p>contém os fósseis.</p><p>E, por último, a evolução biológica é apenas uma teoria, não havendo um único</p><p>ancestral comum (SCHÜNEMANN, 2008, p. 72, 73).</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>O movimento fundamentalista do século XX, como reação ao liberalismo teológico,</p><p>teve diversos expoentes e muitas frentes de batalha. Ele enfrentou os adeptos da</p><p>alta crítica (crítica sobre a autenticidade do texto bíblico), os defensores do método</p><p>histórico-crítico das sagradas escrituras, os cristãos que negavam os elementos</p><p>sobrenaturais das escrituras, o modernismo, o evolucionismo, entre muitos outros</p><p>adversários.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>O fundamentalismo foi e continua sendo um movimento ativo no cristianismo</p><p>estadunidense, mesmo a despeito das várias proclamações de seu �m. São</p><p>diversos os livros, os congressos e os materiais produzidos na defesa da ortodoxia</p><p>cristã protestante.</p><p>FAÇA VALER A PENA</p><p>Questão 1</p><p>De acordo com a manchete do Notícias UOL do dia 24 de setembro de 2018, o</p><p>termo “fundamentalismo” está sendo utilizado como:</p><p>Fundamentalismo islâmico veta vacina com partes de porco na Indonésia</p><p>[...]</p><p>Jacarta, 24 set (EFE). - Funcionários do Ministério da Saúde da Indonésia encontraram uma recepção nada</p><p>calorosa quando chegaram a um povoado da ilha de Célebes, durante uma campanha de vacinação rejeitada</p><p>por parte da população muçulmana porque a vacina contém vestígios de porco. Os moradores de Popayato, na</p><p>província de Gorontalo, receberam os agentes com facões e são um dos exemplos que o subchefe</p><p>do gabinete</p><p>presidencial, Yanuar Nugroho, mencionou para alertar do risco de descumprir os objetivos do programa contra</p><p>o sarampo e a rubéola.</p><p>— (LIOSA, 2018, [s. p.])</p><p>“</p><p>a. Sinônimo de violência.</p><p>b. Referência ao catolicismo romano.</p><p>c. Referência ao protestantismo.</p><p>d. Sinônimo de fundamentos da fé islâmica.</p><p>e. Referência ao sistema de saúde nos países islâmicos.</p><p>Questão 2</p><p>O fundamentalismo é fruto de um contexto histórico e deve ser tomado como um</p><p>processo com vários personagens, fases e lugares. Nem mesmo a publicação de</p><p>The Fundamentals poderia simplesmente ser tomada como a manifestação</p><p>completa do fenômeno, pois “a complexidade do caso não permite que o todo seja</p><p>reduzido a somente uma de suas partes”. O movimento é complexo, está em</p><p>processo, é dinâmico, mas mantém alguma relação com suas origens.</p><p>(MALHEIROS, 2015, p. 259).</p><p>Considerando-se o texto-base apresentado anteriormente e o conteúdo da</p><p>presente seção, analise as a�rmativas a seguir:</p><p>Item 1</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>AGOSTINHO. Con�ssões. São Paulo: Paulus, 2014. E-book.</p><p>ARCHER JÚNIOR, G. L. Merece con�ança o Antigo Testamento? 4. ed. São Paulo:</p><p>Edições Vida Nova, 1988.</p><p>Item 2</p><p>Item 3</p><p>Item 4</p><p>É correto o que se a�rma em:</p><p>a. I, apenas.</p><p>b. II, apenas.</p><p>c. III, apenas.</p><p>d. I e III, apenas.</p><p>e. I, II e III.</p><p>Questão 3</p><p>Considerando-se o texto anterior e o conteúdo da presente seção, é correto</p><p>a�rmar que a alta crítica:</p><p>A alta crítica</p><p>Alta crítica foi um termo aplicado pela primeira vez à literatura bíblica por J. G. Eichhron (1752-1827) no prefácio</p><p>da segunda edição de sua obra Introdução ao Velho Testamento (1787). Um dos importantes desenvolvimentos</p><p>do alto criticismo foram as investigações na busca do Jesus histórico, partindo do princípio de que havia uma</p><p>diferença fundamental entre ele e o Cristo da fé. O Jesus histórico seria, dentro dessa perspectiva, diferente do</p><p>que apresentado nos evangelhos. Como pressuposto, havia a ideia de que os elementos milagrosos e</p><p>sobrenaturais da Bíblia já não seriam dignos de crédito.</p><p>— (COSTA, 2004, p. 312)</p><p>“</p><p>a. Foi um movimento que surgiu dentro do fundamentalismo protestante.</p><p>b. Surgiu como um movimento de reação ao deísmo francês.</p><p>c. Foi ferramenta utilizada pela teologia liberal para questionar alguns livros da Bíblia.</p><p>d. Apresentou-se como um movimento de reação ao fundamentalismo protestante.</p><p>e. Trata-se de um movimento de oposição ao deísmo inglês.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>BÍBLIA, N. T. João. In: Bíblia e Hinário Novo Cântico: antigo e novo testamento –</p><p>revista e atualizada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, Casa Editora</p><p>Presbiteriana, 2008.</p><p>BOICE, J. M. O alicerce da autoridade bíblica. 2. ed. São Paulo: Edições Vida Nova,</p><p>1989.</p><p>COSTA, H. M. P. Raízes da teologia contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã,</p><p>2004.</p><p>DARWIN, C. R. A origem das espécies. 6.ed. Porto: Planeta Vivo, 2009.</p><p>FERREIRA, F. A. Design Inteligente. Brasil Escola, [S. l., s. d.]. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3xJCOuK. Acesso em: 19 abr. 2021.</p><p>GOULD, S. J. A Galinha e seus dentes e outras re�exões sobre história natural.</p><p>Petrópolis: Paz e Terra, 1992.</p><p>HARRIS, H. A. Fundamentalism and Evangelicals. New York: Oxford University</p><p>Press, 2008.</p><p>HARRIS, R. L. Inspiração e Canonicidade da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã,</p><p>2004.</p><p>HENTGES, C. R.; ARAÚJO, A. M. Uma abordagem histórica-crítica do Design</p><p>Inteligente e sua chegada ao Brasil. Filoso�a e História da Biologia, [S. l.], v. 15, n.</p><p>1, p. 1-19, 2020. Disponível em: https://bit.ly/3yVvdt4. Acesso em: 19 abr. 2021.</p><p>JOHNSON, P. E. Darwin no banco dos réus. São Paulo: Editora Cultura Cristã,</p><p>2008.</p><p>LIMA, C. R. ASSALAMU ALAYKUM: o Islã no Brasil e os processos sociais utilizados</p><p>para a (re)construção da imagem elaborada pelos meios de comunicação de massa</p><p>a partir de 11 de setembro de 2001. 2019. Tese (Doutorado em Humanidades,</p><p>Direitos e Outras Legitimidades) – Faculdade de Filoso�a, Letras e Ciências</p><p>Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019.</p><p>LIOSA, R. P. Fundamentalismo Islâmico veta vacina com partes de porco na</p><p>Indonésia. Notícias UOL, [S. l.], 24 set. 2018. Disponível em: https://bit.ly/3xEIpCw.</p><p>Acesso em: 19 abr. 2021.</p><p>MACHEN, J. G. Cristianismo e Liberalismo. São Paulo: Editora Os Puritanos, 2001.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>https://brasilescola.uol.com.br/biologia/design-inteligente.htm</p><p>https://www.revistas.usp.br/fhb/article/view/fhb-v15-n1-01/fhb-v15-n1-01</p><p>https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2018/09/24/fundamentalismo-islamico-veta-vacina-com-partes-de-porco-na-indonesia.htm</p><p>MALHEIROS, I. Teologia ou estereótipo: o que de�ne o fundamentalismo cristão?</p><p>Plura – Revista de Estudos de Religião, [S. l.], v. 6, n. 2, p. 256-277, 2015.</p><p>MOODY Bible Institute. The Chicago statement on biblical inerrancy. Moody Bible</p><p>Institute, Chicago, [s. d.]. Disponível em: https://bit.ly/2VH9Mh8. Acesso em: 16</p><p>abr. 2021.</p><p>OLSON, Roger E. História da teologia cristã: 2000 anos de tradição e reformas.</p><p>São Paulo: Editora Vida, 2001.</p><p>ORÍGENES. Contra Celso. São Paulo: Paulus Editora, 2014.</p><p>PAULO II, J. L’Osservatore Romano, n. 44, 4 nov. 1992. Cidade do Vaticano:</p><p>Tipogra�a Vaticana, 1992.</p><p>SAGAN, C. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela</p><p>no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.</p><p>SCHÜNEMANN, H. E. S. O papel do “criacionismo cientí�co” no fundamentalismo</p><p>protestante. Estudos de Religião, [S. l.], v. 22, n. 35, p. 64-86, jul./dez. 2008.</p><p>TORREY, R. A.; DIXON, A. C. (ed.). The fundamentals: a testimony to the truth. USA:</p><p>AGES Software Rio, 2000. v. 1 e 2.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>https://www.moodybible.org/beliefs/the-chicago-statement-on-biblical-inerrancy/articles-of-affirmation-and-denial/</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>CONTEXTO HISTÓRICO DO CONCÍLIO VATICANO II</p><p>Marcos Porto Freitas da Rocha</p><p>Imprimir</p><p>CONVITE AO ESTUDO</p><p>Seja bem-vindo à Unidade 3 da disciplina Teologias Contemporâneas I. Nela</p><p>abordaremos o Concílio Vaticano II e as novas perspectivas da Igreja Católica para</p><p>o credo cristão católico apostólico romano.</p><p>Na primeira seção, conheceremos o contexto histórico do Concílio Vaticano II, bem</p><p>como o avanço do número de protestantes/evangélicos e a necessária resposta</p><p>católica aos sinais dos novos tempos. A di�culdade na participação das liturgias em</p><p>latim e o anseio por uma consciência de maior colegialidade entre os bispos</p><p>católicos são outros importantes tópicos. Para �nalizar, será feita uma análise</p><p>quanto à urgência de propostas para uma nova eclesiologia que seja adequada à</p><p>contemporaneidade.</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Na segunda seção, teremos como objeto a nova eclesiologia, a partir do Concílio</p><p>Vaticano II, em que abordaremos o advento da eclesiologia da Igreja Povo de Deus,</p><p>a superação de uma eclesiologia limitada à hierarquia e, em consequência disso, a</p><p>valorização de cada �el batizado, o que abriu portas para uma visão de que a</p><p>salvação não está limitada aos cristãos católicos.</p><p>Na terceira seção, Nova eclesiologia a partir do Concílio Vaticano II, serão</p><p>estudados temas como a possibilidade de a liturgia ser realizada na língua</p><p>vernácula, a participação ativa e consciente de cada �el batizado, a valorização da</p><p>centralidade da Escritura Sagrada nos estudos teológicos e a superação de uma</p><p>visão de Igreja composta apenas pelo clero.</p><p>Todas essas mudanças, propostas no Concílio Vaticano II, contribuíram para novos</p><p>modos de entender a teologia e estimularam o rompimento de antigos</p><p>paradigmas, dando origem a novos. Essas importantes transformações</p><p>propiciaram mudanças na eclesiologia, na liturgia e em outros dogmas e estruturas</p><p>da Igreja Católica Apostólica Romana.</p><p>Deixo aqui o convite a prazerosos momentos de estudo acerca desses temas. Bons</p><p>estudos!</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Caro estudante, seja bem-vindo à seção Contexto histórico do Concílio Vaticano II!</p><p>Através dela, caminharemos juntos pelos</p><p>fatos que antecederam e in�uenciaram</p><p>esse importante acontecimento da história da Igreja Católica.</p><p>Independentemente de qual seja o seu credo, é um fato que as transformações</p><p>ocorridas no entendimento dogmático dessa religião tenham in�uenciado o</p><p>mundo todo, especialmente o Ocidente.</p><p>Imagine-se em um missa celebrada apenas em latim. Quanto se aproveitaria do</p><p>que foi ministrado, seja através de leituras do Texto Sagrado, seja através dos</p><p>hinos cantados, se estes fossem proferidos na língua corrente? Quão mais</p><p>participativa seria a atuação do �el se suas opiniões fossem levadas em</p><p>consideração na realização do trabalho eclesiástico?</p><p>Qual a importância de os bispos e de os demais membros do clero poderem</p><p>discutir, sem medo de represálias, a possibilidade de propor novas abordagens</p><p>baseadas no Texto Sagrado?</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Essas perguntas �zeram parte da discussão do 21º Concílio Vaticano II.</p><p>Imagine-se participando do Concílio Vaticano II na função de teólogo que compõe</p><p>um grupo de trabalho (GT) ao qual é apresentada uma proposta de</p><p>aggiornamento, que visa alterar a estrutura eclesial, oportunizando uma maior</p><p>participação do laicato em decisões importantes da condução do trabalho pastoral</p><p>de uma paróquia. A proposta vai além da mera permissão de celebração de ritos</p><p>eucarísticos por um leigo que nem mesmo tenha sido ordenado ao diaconato mas</p><p>também de outras ações como homilias e outros responsabilidades pastorais.</p><p>Após intensa discussão, durante a qual foram considerados pontos acerca dos</p><p>limites da atuação do laicato, como a manutenção de princípios propostos pela</p><p>tradição, levantou-se a possibilidade de isso descaracterizar a identidade do clero,</p><p>causando confusão aos �éis sobre a função de cada pessoa na Igreja ou até</p><p>mesmo da própria instituição.</p><p>Além disso, destacou-se a capacitação que apenas os membros do clero têm em</p><p>relação à Sã Doutrina, de modo a explicar que eles seriam, portanto, os mais</p><p>preparados para interpretar e para realizar os atos litúrgicos próprios de sua</p><p>atividade.</p><p>Ainda assim permaneceu um impasse entre os que desejam reforçar o respeito à</p><p>tradição e os que pretendem abrir a Igreja a reinterpretações e atualizações. Então,</p><p>seus companheiros recorrem à sua experiência de atuação no Vaticano.</p><p>Considerando que sua posição é alinhada ao grupo composto pela cúria romana,</p><p>quais seriam os interesses a serem defendidos? Discorra sobre os argumentos que</p><p>você utilizaria com a intenção de convencer os padres conciliares ainda indecisos</p><p>sobre o posicionamento que devem defender. Você optaria pela modi�cação ou</p><p>pela manutenção do fechamento da Igreja para os ventos da modernidade?</p><p>Conhecer a história nos permite não repetir os mesmos erros de outrora. Ser parte</p><p>da mudança é mais e�caz do que esperar por ela. Assim �zeram mais de 2500</p><p>padres conciliares. Vamos conhecer essa história juntos!</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>O Concílio Vaticano II, para o qual o Papa João XXIII convocou bispos de todo o</p><p>mundo, ocorreu em Roma entre os anos de 1962 e 1965 e contou com o</p><p>comparecimento de milhares desses bispos. Foi o acontecimento eclesial de maior</p><p>relevância para a Igreja Católica Apostólica Romana no século XX, pois nele foram</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>discutidos temas de grande importância para a Igreja e foram promovidas</p><p>mudanças no catolicismo, um verdadeiro aggiornamento, atualização renovadora</p><p>que permitiu à Igreja desenvolver uma nova con�guração que trouxesse respostas</p><p>a anseios dos �éis, bem como esperança a eles.</p><p>Compreender sua importância envolve buscar respostas a perguntas como: em</p><p>que contexto ele ocorreu? Como se desenvolveu? Qual a sua dinâmica? E que</p><p>conclusões surgiram a partir dele? Para tanto, precisamos nos debruçar sobre seus</p><p>antecedentes histórico-teológicos</p><p>ANTECEDENTES HISTÓRICOS</p><p>Considerando o princípio do século XX, tivemos um cenário composto de velozes e</p><p>importantes transformações sociais, as quais promoveram o desmantelamento de</p><p>paradigmas estabelecidos e deram origem a outros. No campo sociopolítico,</p><p>ocorreram duas grandes guerras e surgiram regimes totalitários como o nazismo e</p><p>o fascismo. O socialismo e o comunismo se constituíram, ainda, como opções à</p><p>eminente hegemonia do capitalismo, com suas perceptíveis contradições. As</p><p>relações de força do mundo eram dominadas por um embate ideológico que</p><p>dividiria o planeta em dois blocos até o �nal do século. A ascensão do Terceiro</p><p>Mundo e a descolonização da África e da Ásia, por meio de con�itos marcados pela</p><p>luta por liberdade e por ideais de edi�cação de uma identidade nacional em</p><p>diversos países, contribuíram para a desocidentalização do catolicismo e do</p><p>cristianismo em todo o mundo.</p><p>Ney de Souza, historiador, destaca que o principal valor da modernidade que</p><p>estava em colapso e que resultou nas guerras era a absolutização moderna da</p><p>razão, da nação, do progresso e da indústria (SOUZA, 2005). Ele considera também</p><p>que fracassou a crença na razão iluminista, no ideal de nacionalismo, no progresso</p><p>pelo bem comum e no socialismo como alternativa para o capitalismo e seus</p><p>vícios. O declínio do eurocentrismo e a construção de um novo paradigma mais</p><p>global e diversi�cado foram consequências disto. Essa nova visão de emergente</p><p>in�uencia a sociedade em muitos de seus aspectos. A contestação da cultura</p><p>clássica por novos modelos culturais oportunizou um otimismo econômico, político</p><p>e cultural que trouxe questionamentos e desa�os para a Igreja, cujas re�exões e</p><p>respostas se deram lentamente.</p><p>A IGREJA CATÓLICA NO INÍCIO DO SÉCULO XX</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>O Concílio de Trento (1545-1563), ocorrido no século XVI, provocou na Igreja um</p><p>isolamento e uma construção de barreiras em crescente oposição ao “espírito</p><p>moderno”, o que foi visto como extremamente nocivo à fé cristã. Rodrigo Coppe</p><p>Caldeira, historiador, a�rma que a Igreja, frente às novas questões desse tempo,</p><p>viu-se ameaçada, primeiramente, por Lutero e seu protestantismo; depois, pelo</p><p>Iluminismo, com sua lógica racional empirista e com a supremacia da razão e do</p><p>indivíduo; e, em seguida, pelos princípios liberais da Revolução Francesa</p><p>(CALDEIRA, 2009).</p><p>O pensamento católico e a Igreja perceberam-se ameaçados. A Igreja se fechou</p><p>como em um cerco, pois compreendia a modernidade como um grave mal para o</p><p>catolicismo. E assim perdurou do Trento à eleição de João XXIII. Quase 400 anos de</p><p>uma cristandade com características do medievo e sustentadora de um modelo</p><p>institucional que fez oposição sistemática e categórica às reivindicações modernas</p><p>(MATOS, 2012). Caldeira (2009) considera que a Igreja proscreveu as ideias que</p><p>poderiam vir a ameaçar seu poder simbólico-temporal. Para se proteger de</p><p>ameaças externas, ela se fechou ao mundo externo.</p><p>No século XIX e no início do século XX, nos ponti�cados de Pio IX e Pio X, foram</p><p>consolidados esses pensamentos antimodernos. Guiseppe Alberigo enfatiza a</p><p>existência de uma estrutura que primava pela autoridade em sua face mais</p><p>coercitiva (ALBERIGO, 1999), a qual era usada como instrumento de oposição a</p><p>tudo que se relacionava com a modernidade, desde avanços tecnológicos até</p><p>novas categorias de pensamento que viessem a ser utilizados para questionar a</p><p>teologia tradicional católica.</p><p>A infalibilidade papal, dogma proposto em 1870, no Concílio Vaticano I, é um</p><p>perfeito exemplo da in�exibilidade da Igreja. Segundo Caldeira (2009, p. 32), boa</p><p>parte dos documentos produzidos pelo Vaticano nesse período carrega a</p><p>necessidade de apontar os “desregramentos presentes na sociedade”. O Syllabus</p><p>(1864) e o Quanta Cura (1864), de Pio IX, e o Pascendi Dominici Gregis (1907), de</p><p>Pio X, são excelentes exemplos da �rme oposição da Igreja às categorias modernas</p><p>do pensamento desenvolvidas por teólogos modernistas.</p><p>Os papados de Pio X, Bento XV, Pio I e Pio XII, de 1903 a 1958, foram marcados por</p><p>posturas claramente defensivas e condenatórias em relação à modernidade. Ainda</p><p>que alguns pequenos movimentos de renovação tenham ocorrido,</p><p>uma visão</p><p>negativa da sociedade é marcadamente o legado desse período.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Alguns pesquisadores destacam sinais de abertura e de renovação nos 50 anos</p><p>que antecederam O Concílio Vaticano II. O historiador Ney de Souza, o teólogo João</p><p>Batista Libânio e o também historiador Henrique Cristiano José Matos são aqueles</p><p>que assinalam essa pequena mudança no pensamento católico o�cial.</p><p>A fundação do Pontifício Instituto Bíblico por Pio X, em Roma, trouxe consideráveis</p><p>avanços na compreensão da redação e da inspiração do texto sagrado (LIBÂNIO,</p><p>2005a, p. 24). E a encíclica Divino A�ante Spiritu (1943), de Pio XII, permitiu uma</p><p>leitura mais completa da Bíblia, com seus gêneros literários, oportunizando a</p><p>liberdade de investigação cientí�ca.</p><p>Além disso, o incentivo do Papa Pio XI à missão dos leigos por meio da Ação</p><p>Católica (SOUZA apud GONÇALVES, 2005 p. 20) trouxe toda a problemática e a</p><p>re�exão modernas vividas nas situações cotidianas para dentro da Igreja através</p><p>do confronto dos leigos com os problemas da modernidade.</p><p>A eclesiologia teve avanço com a encíclica Mystici Corporis Christi (1943), de Pio XII,</p><p>o que fez ruir a imagem da Igreja como um corpo místico de Cristo. Ainda assim, o</p><p>pensamento dominante era de suspeita e não de abertura a qualquer</p><p>possibilidade de transformação que desestabilizasse o pensamento tradicional.</p><p>REFLITA</p><p>Poderia a Igreja Católica continuar a crescer se mantivesse a postura do</p><p>início do século XX, que promovia a exclusão de qualquer proposta de</p><p>modernização e que se fechava para o mundo e para suas transformações?</p><p>MOVIMENTOS DE RENOVAÇÃO ECLESIÁSTICA</p><p>A armadura erguida pela Igreja através da vigilância imposta por seus organismos</p><p>o�ciais contra as categorias modernas do pensamento não impediram que muitos</p><p>teólogos se esforçassem por traduzir, para a linguagem contemporânea, a</p><p>mensagem das boas novas. Isso ocorreu por meio da busca de uma renovação em</p><p>áreas como liturgia, estudos bíblicos, espiritualidade e teologia em geral.</p><p>No contexto do surgimento e do crescimento dos movimentos da Ação Católica, no</p><p>�nal da década de 1920, deu-se origem ao que comumente passou a se chamar,</p><p>em meados de 1945, movimentos de renovação (ALBERIGO, 1996, p. 95). Giuseppe</p><p>Alberigo os descreve como um modo de contestação interna e respeitosa, que</p><p>revelava outro posicionamento por parte do catolicismo do século XX, tornando-se</p><p>marcado por mais dinamismo e �exibilidade.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>O movimento litúrgico e o movimento bíblico ganharam maior visibilidade nessa</p><p>tentativa de renovação. Seu surgimento se deu a partir das grandes</p><p>transformações socioculturais que ocorriam no período pré-conciliar, e sua</p><p>principal marca foi a criatividade teológica, que serviu de base para uma postura</p><p>mais dialógica da Igreja.</p><p>João Batista Libânio, acerca do contexto da recepção desses ares de renovação,</p><p>compara o magistério da Igreja a pais que se preocupam, em seus lares, com a</p><p>educação dos �lhos e que, ao mesmo tempo, posicionam-se vigilantemente contra</p><p>os perigos de fora que podem ameaçar essa educação. Contudo, ao frequentarem</p><p>a modernidade de várias maneiras, os �lhos acabam por inseri-la, pouco a pouco,</p><p>em movimentos de renovação que �oresceram nos diferentes campos da vida</p><p>eclesial (LIBÂNIO, 2005b)</p><p>A Ação Católica foi um dos movimentos mais importantes para produzir repostas</p><p>aos desa�os apresentados à Igreja e sua base foi o protagonismo dos leigos. Pio XI,</p><p>na década de 1920, organizou esse movimento sob a inspiração de J. Cardijn (1882-</p><p>1967). Libânio a�rma que o movimento leigo permitiu a entrada da modernidade</p><p>com um reforço na teologia do laicato, que se encheu de ideias da modernidade</p><p>(LIBÂNIO, 2005b). Foi um movimento de proselitismo muito semelhante ao</p><p>realizado pelos protestantes em todo mundo.</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>A Ação Católica percebeu a importância de viver a fé inserida no cotidiano,</p><p>com bases na realidade do mundo do trabalho. Pio XI articulou o preparo</p><p>da juventude para a manutenção da �delidade à fé e ao seu mundo</p><p>cotidiano de jovem e para torná-la evangelizadora de seus amigos pelo</p><p>anúncio do evangelho em seu próprio ambiente. A atuação dos leigos é</p><p>importantíssima para a evangelização hoje.</p><p>Uma renovação que ocorreu antes do Concílio Vaticano II no campo da liturgia, naa</p><p>Bélgica, às vésperas da Primeira Grande Guerra, nasceu um movimento litúrgico</p><p>originalmente beneditino. Sua pretensão era ultrapassar o rubricismo litúrgico do</p><p>século anterior com suas minúcias e sua rigidez de uniformização. Para seus</p><p>idealizadores, os atos litúrgicos não deveriam ser ritos herméticos, fechados aos</p><p>demais e apenas realizados por poucos ministros especializados, dos quais os �éis</p><p>recebessem apenas a objetividade dos frutos, sem experimentá-los em suas vidas</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>(LIBÂNIO, 2005b). Com isso, é relevante destacar que uma experiência existencial</p><p>do rito pressupõe a possibilidade de compreensão do que é celebrado. Sendo</p><p>assim, a liturgia teve de passar por grandes transformações, já que havia se</p><p>cristalizado numa linguagem e numa cultura que se tornaram incompreensíveis</p><p>com o passar dos séculos.</p><p>Para tornar isto possível, houve grande esforço no sentido de transformar �éis</p><p>passivos em participantes ativos; assim, recorreram à patrística para restaurar</p><p>costumes importantes, seja através da revalorização de ritos veneráveis, seja por</p><p>meio de explicações ou de celebrações em língua corrente (vernácula) (ALBERIGO,</p><p>1996, p. 97).</p><p>As novidades indicavam a possibilidade de reformas mais profundas na Igreja, e,</p><p>através deste processo histórico, surgiram os alicerces do diálogo com a</p><p>modernidade e da renovação advinda do Concílio Vaticano II.</p><p>O EVENTO CONCÍLIO VATICANO II</p><p>A solene abertura, que se deu em 11 de outubro de 1962, iniciou o 21º Concílio</p><p>Ecumênico Vaticano II. Entre os presentes estavam 2540 padres conciliares, o</p><p>maior número da história. João XXIII foi claro em demonstrar a ideia de que algo</p><p>realmente novo aconteceria na Igreja quando se apresentou com a mitra, como os</p><p>outros bispos, e sem a tiara Papal (ALBERIGO, 2005. O simbolismo desse gesto e o</p><p>discurso inaugural, Gaudet mater Ecclesia (Exulta a mãe Igreja), deixaram clara a</p><p>necessidade de uma nova estrutura para o catolicismo.</p><p>Foi, então, manifestada por ele a vontade de aproximar as pessoas da tradição</p><p>sem desprezar as mudanças de cada época e sem condenar os erros; ele</p><p>apesentou, ao contrário, a validade da doutrina numa postura de acolhida, de</p><p>abertura e de diálogo com o mundo. Para isso, ele fez alusão ao desejo de “um</p><p>magistério de caráter predominantemente pastoral” (Gaudet Mater Ecclesia),</p><p>enfatizando a necessidade de uma atualização renovadora (aggiornamento),</p><p>precursora de um novo ciclo histórico, no qual a Igreja fosse ao encontro das</p><p>aspirações e dos anseios dos seres humanos de seu tempo.</p><p>Entretanto, um pequeno grupo, cuja base era a cúria romana, insistia pela</p><p>manutenção do modelo eclesial vigente. A falta de um consenso entre</p><p>progressistas e conservadores foi percebida imediatamente com o embate entre o</p><p>cardeal francês Liénart e o cardeal Tisserant, presidente da sessão, que tentou</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>negar-lhe a palavra para discutir a proposta de indicação dos membros das</p><p>comissões conciliares, ao que João XXIII interviu, estabelecendo o tom de liberdade</p><p>e de diálogo que nortearam os debates (MATOS, 2012, p. 59).</p><p>João XXIII indicou que a liturgia seria o primeiro assunto a ser debatido, temática</p><p>na qual a renovação estava mais amadurecida. A adoção da língua corrente</p><p>(vernácula), a reforma dos livros litúrgicos, a participação ativa dos �éis e demais</p><p>aspectos foram aceitos amplamente, encontrando resistência apenas de uma</p><p>minoria tradicionalista (ALBERIGO, 1995, p. 401).</p><p>ASSIMILE</p><p>Um importante conceito que devemos ressaltar se refere à origem das</p><p>celebrações da Igreja Primitiva, que eram feitas na língua vernácula</p><p>(corrente no local de realização).</p><p>Com isso, o argumento de que o latim</p><p>seria a língua original da liturgia cristã perdeu força e deu lugar à missa em</p><p>italiano, celebrada pelo Papa Paulo VI, e na língua vernacular de outros</p><p>países.</p><p>O segundo tratado discutido versava sobre as fontes da revelação, cujo texto</p><p>proposto gerou controvérsias, uma vez que grande parte dos debatedores</p><p>rejeitava estabelecer a Palavra de Deus e a tradição como fontes da revelação de</p><p>mesmo nível. Isso ocorreu devido à discordância da visão Protestante acerca da</p><p>Sola Scriptura, exclusividade da Bíblia como fonte da revelação, posição que</p><p>ameaçaria a reconciliação ecumênica (SOUZA, 2005, p. 20). Não obtendo o número</p><p>de votos para aprovação, foi recomendada a reelaboração por comissão mista</p><p>(ALBERIGO, 1995).</p><p>Os meios de comunicação social, terceiro esquema, versavam sobre o uso do</p><p>jornal, do rádio, do cinema e da TV, os quais foram aprovados com a sugestão de</p><p>que fossem limitados os princípios doutrinais e a direção pastoral contidos no</p><p>texto.</p><p>O último esquema, De Ecclesiae, cuja parte inicial do texto fora deveras</p><p>questionada por abordar o tema da unidade da Igreja sob a direção de um único</p><p>pastor, foi aprovado pela assembleia após a proposta do Cardeal Bea (SOUZA,</p><p>2005). Uma parte dele, que tratava da natureza e da estrutura da Igreja, foi</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>rejeitada pelos padres afeitos à nova eclesiologia já que abordava aspectos</p><p>institucionais em detrimento dos aspectos mistéricos e tinha pouca sensibilidade</p><p>às questões ecumênicas (ALBERIGO, 1995).</p><p>Dos cinco esquemas, nenhum foi aprovado integralmente. O próprio João XXIII, em</p><p>tom conciliatório, a�rmou que era compreensível ser necessário um tempo maior</p><p>para chegar a mais consensos (SOUZA, 2005). O exercício da colegialidade, uma</p><p>aproximação entre os padres conciliares e uma atitude de corresponsabilidade</p><p>nessa sessão inicial do Vaticano II foram os aspectos mais positivos.</p><p>Entre a primeira e a segunda sessão, João XXIII faleceu. Em 3 de junho de 1963, dia</p><p>de Pentecostes, o mundo foi tomando por uma enorme comoção. Um conclave foi</p><p>realizado de 19 a 21 de junho, o Cardeal Montini foi eleito papa sob o nome de</p><p>Paulo VI, e o 21º Concílio Ecumênico continuaria em Roma, em 1963 (SOUZA, 2005).</p><p>SEGUNDA SESSÃO (29/09/1963 – 04/10/1963)</p><p>Paulo VI, em 29 de setembro de 1963, deu reinício ao Concílio. Estabeleceu o</p><p>colégio de moderadores que fariam a ligação entre papa e assembleia e criou uma</p><p>categoria de ouvintes do Concílio, oportunizando voz aos leigos (ALBERIGO, 1995).</p><p>Além disso, ele rea�rmou os objetivos do Concílio: reforma eclesial interna,</p><p>exposição da doutrina de natureza da Igreja, diálogo da Igreja com o mundo</p><p>contemporâneo e valor da unidade dos cristãos (SOUZA, 2005). Por �m,</p><p>estabeleceu a Igreja como tema principal da segunda sessão, cuja natureza íntima</p><p>foi estudada com profundidade (PAULO VI apud MATOS, 2012).</p><p>Após reelaboração, De Ecclesia foi aprovado. Cada um dos quatro capítulos do</p><p>projeto (1 – Sobre o mistério da Igreja; 2 – Sobre a constituição hierárquica da</p><p>Igreja; 3 – Sobre o povo de Deus; e 4 – Sobre o chamado à santidade) foram</p><p>debatidos em outubro de 1963. Como não houve consenso sobre os temas, sua</p><p>votação �nal foi impedida e, em 15 de novembro, foi encerrado o debate</p><p>(ALBERIGO, 1995).</p><p>O esquema sobre o Ecumenismo foi discutido ente 18 de novembro e 2 de</p><p>dezembro. Ele tratava dos princípios católicos do ecumenismo (1º); da sua</p><p>con�guração (2º); das relações com as Igrejas orientais e protestantes (3º); sobre os</p><p>judeus (4º) e, por �m, sobre a liberdade religiosa (5º). Temas como os dois últimos</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>foram alvo de grandes oposições, ainda que houvesse um pouco de abertura para</p><p>o Ecumenismo. Mais uma vez houve impasse, sem aprovação �nal do texto</p><p>(ALBERIGO, 1995).</p><p>Em 4 de dezembro, os dois primeiros documentos conciliares foram promulgados:</p><p>a constituição sobre a liturgia (Sacrossanctum concilium) e o decreto sobre os</p><p>meios de comunicação social (Inter Miri�ca). Foi encerrada esta sessão do Concílio</p><p>com a percepção de que, realmente, imperava um clima de liberdade de opiniões e</p><p>de livre escolha, uma vez que os consensos eram obtidos apenas após longos</p><p>debates. Somente os esquemas debatidos e reformulados no ano anterior haviam</p><p>sido aprovados.</p><p>TERCEIRA SESSÃO (14/09/1964 – 21/11/1964)</p><p>Pela primeira vez no Concílio foi realizada uma concelebração em 14 de setembro</p><p>de 1964, modalidade con�rmada na recém-promulgada constituição sobre a</p><p>liturgia. O esquema sobre a Igreja foi retomado, seu novo texto fora dividido em</p><p>oito capítulos: mistério da Igreja (1); povo de Deus (2); estrutura hierárquica (3);</p><p>sobre os leigos (4); sobre a vocação universal à santidade (5); sobre os religiosos</p><p>(6); sobre o horizonte escatológico da Igreja (7); e, en�m, sobre a Virgem Maria (8).</p><p>A colegialidade episcopal gerava grandes debates, bem como o diaconato</p><p>permanente; e o capítulo mariano foi considerado um reducionismo mariológico,</p><p>já que a mãe de Jesus não recebia mais destaque. A comissão foi instada a</p><p>reelaborar pontos controversos sobre o esquema da Igreja (ALBERIGO, 1995).</p><p>Era grande a quantidade de esquemas que ainda deveriam ser discutidos. O</p><p>embate entre uma minoria conservadora (com ligações com a cúria romana) e a</p><p>maioria, que ansiava pela renovação da Igreja, fazia crescer o número de impasses,</p><p>com ambas as alas rejeitando os textos da outra.</p><p>Nesta terceira sessão, os esquemas sobre os bispos e sobre o governo das</p><p>dioceses; sobre a Igreja; sobre o ecumenismo, sobre a revelação e sobre as Igrejas</p><p>orientais passavam por reexames. Os textos que entraram na pauta perfaziam um</p><p>total de sete: sobre a educação cristã; sobre a formação sacerdotal; sobre o</p><p>ministério e a vida sacerdotal; sobre a liberdade religiosa; sobre o trabalho</p><p>missionário; sobre o projeto que tratava da relação entre Igreja e mundo; e sobre a</p><p>renovação da vida religiosa. Em 21 de novembro, foram solenemente promulgados</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>apenas osesquemas: De Eclessia, a constituição dogmática sobre a Igreja; Lumen</p><p>Gentium, o decreto sobre o ecumenismo; Unitatis Redintegratio; e o decreto sobre</p><p>as Igrejas orientais, Orientalium Ecclesiarum (SOUZA, 2005).</p><p>QUARTA SESSÃO E O ENCERRAMENTO (14/09/1965 – 08/12/1965)</p><p>O Papa Paulo VI, em 14 de setembro de 1965, exortou os participantes quanto ao</p><p>empenho e ao esforço necessários para o êxito do Concílio (ALBERIGO, 1995). O</p><p>primeiro esquema debatido nesta sessão tratava da liberdade religiosa. O decreto</p><p>Christus Dominus, sobre o múnus pastoral dos bispos, foi aprovado com</p><p>celeridade. Perferctae Caritatis, documento sobre a vida religiosa, foi sancionado</p><p>depois de nova redação. Optatam Totius, texto sobre a formação sacerdotal,</p><p>aprovado. Gravissimum Educationis, declaração sobre a educação cristã, foi</p><p>reelaborado e aprovado. Finalmente, Nostra Aetate, sobre a relação da Igreja com</p><p>as religiões não cristãs obteve aprovação (SOUZA, 2005).</p><p>Em 18 de novembro, Dei Verbum, a constituição dogmática sobre a revelação, foi</p><p>aprovado após a retomada das discussões. Nele se rea�rma a importância central</p><p>da Palavra de Deus para a vida cristã. Apostolicam Actuositatem, decreto sobre o</p><p>apostolado dos leigos, também, texto que valoriza o sacerdócio comum dos �éis</p><p>como fundamento para a missão dos leigos (ALBERIGO, 1995).</p><p>O Concílio Vaticano II concluiu seus trabalhos em 7 de dezembro de 1965,</p><p>aprovando os quatro documentos �nais: Dignitatis Humanae, declaração sobre a</p><p>liberdade religiosa; Ad gentes, decreto sobre a atividade missionária;</p><p>Presbiterorum Ordinis, decreto sobre a vida e o ministério sacerdotal; e Gaudium</p><p>et Spes, constituição pastoral sobre a Igreja no mundo contemporâneo. Em 8 de</p><p>dezembro, o Concílio Vaticano II foi encerrado na Praça de São Pedro, tendo sido</p><p>renovada a plena aprovação de tudo o que fora decidido sinodalmente pelo Papa</p><p>Paulo VI, que apelou para sua �el observância por todos (ALBERIGO, 1995).</p><p>Encerrado o Concílio Vaticano</p><p>II, a Igreja, munida do conjunto dos textos</p><p>conciliares, esforçou-se por traduzir para o cotidiano da vida eclesial o dinamismo</p><p>que essa renovação estava trazendo.</p><p>O Concílio Vaticano, em seu documento �nal, convidava a Igreja e os �éis à</p><p>renovação sob a luz do evangelho e impulsionada pelos sinais dos tempos, sem</p><p>qualquer imposição, mas em clima de diálogo, que permeou todo o evento. A</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>doutrina que o Concílio promulgou, de caráter notadamente pastoral, foi a aurora</p><p>de novo tempo para o catolicismo superar posições consolidadas. Esse espírito</p><p>privilegiava a colegialidade nas discussões e a unidade nas decisões.</p><p>FAÇA VALER A PENA</p><p>Questão 1</p><p>É possível a�rmar que, até a realização, de fato, do Concílio Vaticano II, na década</p><p>de 1960, a Igreja não tinha compreendido, no seu contexto, o que esse Concílio</p><p>Ecumênico realmente seria, quais rumos ele tomaria e que ele seria capaz de</p><p>marcar, de forma indelével, a mudança de uma época no catolicismo.</p><p>Em que ano o Concílio Vaticano II foi iniciado?</p><p>a. 1960.</p><p>b. 1961.</p><p>c. 1962.</p><p>d. 1963.</p><p>e. 1964.</p><p>Questão 2</p><p>Apesar do projeto conciliar de João XXIII apontar para um caminho de renovação</p><p>na Igreja e, consequentemente, atrair a maioria do episcopado, um pequeno</p><p>grupo, cuja base era a cúria romana, insistia em optar por manter o modelo</p><p>eclesial vigente. A esse grupo se opunham os progressistas.</p><p>Usando como referência o exposto, avalie as assertivas a seguir:</p><p>I. A polarização entre progressistas e conservadores, que discordavam em todos</p><p>os debates, foi um dos primeiros problemas enfrentados pelo Concílio Vaticano</p><p>II.</p><p>II. O comparecimento de poucos representantes dos diversos países do mundo</p><p>foi o maior entrave ao prosseguimento do Concílio Vaticano II.</p><p>III. O ambiente de paz que reinou sobre todo o Concílio Vaticano II foi rompido</p><p>pela morte de Paulo VI.</p><p>IV. A ação dos protestantes em aceitar todos os temas relacionados à Mariologia</p><p>impediu o Ecumenismo.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>V. A imposição da vontade do Papa Pio XII sobre temas importantes tornou as</p><p>discussões impossíveis e foi necessária a intervenção do Papa Francisco.</p><p>Diante do contexto apresentado, é correto apenas o que se a�rma em:</p><p>a. I.</p><p>b. II.</p><p>c. I e III.</p><p>d. II e IV.</p><p>e. I, III e V.</p><p>Questão 3</p><p>Considerando como verdadeiros os textos apresentados, analise as a�rmativas a</p><p>seguir:</p><p>I. O Concílio Vaticano II foi marcado pelo consenso em rejeitar qualquer tipo de</p><p>modernização ou atualização do dogma e da tradição católicos.</p><p>II. Os padres conciliares foram tratados com extremo desprezo pelos membros</p><p>da Cúria Antártica, que, em sua necessidade de criar uma espécie de</p><p>entendimento próprio, conduziram ao encerramento prematuro do Concílio</p><p>Vaticano II.</p><p>Existiam sinais cada vez mais numerosos de uma promissora primavera. Na Igreja, embora com di�culdade,</p><p>pululavam movimentos de renovação que envolviam �éis e teólogos, clérigos e leigos, bispos e cristãos comuns,</p><p>num compromisso de participação histórica e de reapropriação da fé. A convocação do Vaticano II aglutinou</p><p>esses fermentos, mostrando o seu sentido profundo como contribuição à vida e à �delidade de toda a Igreja.</p><p>— (ALBERIGO, 1999, p. 291)</p><p>“</p><p>A Igreja na saída da Idade Média parecia com pais super-protetores, preocupados, em casa, com a educação</p><p>dos �lhos menores e, ao mesmo tempo, vigilantes diante dos perigos de fora que lhes ameaçavam a educação</p><p>[...] Mas, ao mesmo tempo, os �lhos começavam a mudar de mentalidade frequentando de várias maneiras a</p><p>modernidade e inserindo-a discretamente em movimentos de renovação que brotavam nos diversos campos</p><p>da vida eclesial.</p><p>— (ALBERIGO, 2005, p. 16)</p><p>“</p><p>Esse concílio será o maior que a Igreja já celebrou nos seus vinte séculos de história, em razão de sua</p><p>con�uência espiritual e numérica, na unidade completa e pací�ca da sua hierarquia; será o maior em razão da</p><p>catolicidade de suas dimensões, verdadeiramente interessante a todo o mundo geográ�co e civil.</p><p>— (BEOZZO, 2005, p. 72)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ALBERIGO, G. A Igreja na História. São Paulo: Paulinas, 1999.</p><p>ALBERIGO, G. História do Concílio Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 1996. v. 1.</p><p>ALBERIGO, G. História dos Concílios Ecumênicos. São Paulo: Paulus, 1995.</p><p>ALBERIGO, G. O Vaticano II e sua história. Concilium, Estella, v. 4, n. 312, 2005.</p><p>BEOZZO, J. O. A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II 1959-1965. São Paulo:</p><p>Paulinas, 2005.</p><p>CALDEIRA, R. C. Os baluartes da tradição: a antimodernidade católica brasileira</p><p>no Concílio Vaticano II. 2009. Tese (Doutorado em Ciência da Religião) –</p><p>Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2009.</p><p>CALVANI, C. E. B. 50 anos do Vaticano II – o impacto ecumênico e a curiosa</p><p>atualização do Princípio Protestante em Lefébvre. Correlatio, [S. l.], v. 14, n. 27,</p><p>jun. 2015. Disponível em: https://bit.ly/3r5pzli. Acesso em: 18 mar. 2021.</p><p>COSTA, S. R. Contexto histórico do Concílio Vaticano II. In: TAVARES, S. S. (org.).</p><p>Memória e Profecia: A Igreja no Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 2005.</p><p>III. Com a morte de João XXIII e a consagração do Papa Francisco, o Concílio</p><p>Vaticano II teve seus princípios alterados para um profundo fechamento da</p><p>Igreja a movimentos fundamentalistas.</p><p>IV. Na visão de Pio XII, movimentos como a Ação Católica tiveram uma profunda</p><p>in�uência na condução de uma interpretação da atuação dos leigos no</p><p>processo de reformulação do dogma mariológico.</p><p>V. É possível a�rmar que, até a realização, de fato, do Concílio Vaticano II, a Igreja</p><p>não tinha compreendido, no seu contexto, o que esse Concílio Ecumênico</p><p>realmente seria, quais rumos ele tomaria e que ele fosse capaz de marcar, de</p><p>forma indelével, a mudança de uma época no catolicismo.</p><p>a. I, III, IV e V.</p><p>b. I, II e IV.</p><p>c. III e IV.</p><p>d. I e II</p><p>e. V.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/COR/article/view/5951</p><p>JOÃO XXIII. Discurso de sua santidade Papa João XXIII na abertura solene do</p><p>SS. Concílio – 11 de outubro de 1962. Vatican, [S. l., s. d.]. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/36wcS9M . Acesso em: 1 jul. 2021.LIBÂNIO, J. B. Concílio Vaticano II:</p><p>em busca de uma primeira compreensão. São Paulo: Loyola, 2005a.</p><p>LIBÂNIO, J. B. Contextualização do Concílio Vaticano II e seu desenvolvimento. J. B.</p><p>Libânio, São Leopoldo, 2005b. Disponível em: https://bit.ly/2VDdhoO. Acesso em:</p><p>18 mar. 2021.</p><p>MATOS, H. C. J. Concílio Vaticano II: história, herança e inspiração. Belo Horizonte:</p><p>O Lutador, 2012.</p><p>PIO X. Carta encíclica Pascendi Dominici Gregis – 1907. Vatican, [S. l., s. d.].</p><p>Disponível em: https://bit.ly/2UI8Kkz. Acesso em: 18 mar. 2021.</p><p>PIO IX. Enciclica Quanta Cura. Vatican, [S. l., s. d.]. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3i5JGvF. Acesso em: 18 mar. 2021.</p><p>PIO IX. Syllabus. Montfort, [S. l., s. d.]. Disponível em: https://bit.ly/3egQ9CV.</p><p>Acesso em: 1. jul. 2021.</p><p>SOUZA, F. V. de. Vaticano II e igreja local: aspectos históricos e teológicos da</p><p>recepção do Concílio Vaticano II na (Arqui) Diocese de Montes Claros (1966 – 1990).</p><p>2014. 90 p. Dissertação (Mestrado em Teologia) – Pontifícia Universidade Católica</p><p>de São Paulo, São Paulo, 2014.</p><p>SOUZA, N. Contexto e desenvolvimento histórico do Concílio Vaticano II. In:</p><p>GONÇALVES, P. S. L.; BOMBONATTO, V. I. (org.). Concílio Vaticano II: análise e</p><p>prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2005. p. 19.</p><p>WOLF, E. O ecumenismo no horizonte do Concílio Vaticano II. Atualidade</p><p>Teológica, Rio de Janeiro, Ano XV, n. 39, p. 403-428, set./dez. 2011.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://www.vatican.va/content/john-xxiii/pt/speeches/1962/documents/hf_j-xxiii_spe_19621011_opening-council.html</p><p>http://www.jblibanio.com.br/modules/mastop_publish/?tac=102</p><p>https://www.vatican.va/content/pius-x/pt/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis.html</p><p>https://conteudo.colaboraread.com.br/202102/DISCIPLINAS_EAD/TEOLOGIAS_CONTEMPORANEAS_I/LIVRO_DIGITAL/vatican.va/content/pius-ix/it/documents/encyclica-quanta-cura-8-decembris-1864.html</p><p>http://www.montfort.org.br/bra/documentos/enciclicas/silabo/</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>NOVA ECLESIOLOGIA A PARTIR DO CONCÍLIO VATICANO II</p><p>Marcos Porto Freitas da Rocha</p><p>Imprimir</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Caro estudante, seja bem-vindo à seção Nova eclesiologia a partir do Concílio</p><p>Vaticano II, na qual estudaremos mais detidamente o surgimento de uma</p><p>eclesiologia que enxerga a Igreja como “povo de Deus” e veremos como isso</p><p>conduziu a uma revisão da eclesiologia que se limitava à hierarquia, à consequente</p><p>valorização de todos os �éis e, ainda, à difusão da ideia de que a salvação não está</p><p>limitada aos católicos, fato que contraria o dogma Extra Ecclesia nulla salus, fora da</p><p>Igreja não há salvação.</p><p>Seja você religioso ou não, é preciso reconhecer que a religião permeia e in�uencia</p><p>todas as sociedades humanas. O entendimento dogmático católico encontra-se</p><p>difundido por todo o mundo, especialmente pelo Ocidente.</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Quando parte desse entendimento se transforma e a Igreja expande suas</p><p>interpretações para além de seus muros, valorizando cada �el e assumindo que há</p><p>salvação fora deles, todo o planeta muda?</p><p>Quando o �el se percebe participante da ação da Igreja no mundo e importante</p><p>entre os membros do clero, mesmo sem ser eclesiástico, sua visão de mundo e o</p><p>modo como participa do cotidiano da Igreja também se alteram?</p><p>Qual a importância do reconhecimento da possibilidade de existir salvação fora do</p><p>catolicismo?</p><p>Nesta seção nos debruçaremos sobre estes e outros questionamentos.</p><p>Considerando a conjuntura social, política, cultural e teológica do Brasil de 2020 e</p><p>2021, foi percebido um crescimento de grupos fundamentalistas entre as diversas</p><p>denominações religiosas, das quais não se excluem os cristãos e, em especial,</p><p>aqueles da Igreja Católica Apostólica Romana.</p><p>Entre os atos e discursos desses grupos, identi�caram-se posicionamentos que</p><p>contrariam a posição assumida pelo Concílio Vaticano II e a presente no esquema</p><p>da Constituição da Igreja, De Ecclesia e Lumen Gentium, a saber, Igreja como povo</p><p>de Deus. Esse esquema prevê não apenas a superação de uma eclesiologia</p><p>limitada à hierarquia, conforme a compreensão societas perfecta - sociedade</p><p>desigual, mas também a valorização de cada �el batizado, a atuação do laicato na</p><p>Igreja e, ainda, a visão de salvação que se limita aos cristãos católicos.</p><p>Dentre os posicionamentos que podem ser destacados, houve o fortalecimento</p><p>das alas conservadoras, que comumente �nanciam boa parte das obras sociais e</p><p>de infraestrutura das paróquias, e o fechamento da Igreja para dentro de si</p><p>mesma, numa perspectiva de não contaminação com o mundo e de rejeição aos</p><p>clamores sociais pelo respeito aos Direitos Humanos, pela descriminalização do</p><p>aborto, pela liberação da celebração de casamentos de casais homoafetivos, entre</p><p>outras pautas que são compartilhadas por setores progressistas dentro e fora da</p><p>Igreja.</p><p>Na condição de pároco de uma comunidade de fé, você se encontra pressionado</p><p>pelos vários grupos que fazem parte dessa comunidade e que possuem</p><p>posicionamentos ideológicos distintos entre si, num leque de nuances que vão</p><p>desde os ultraconservadores aos ultraliberais.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Apresenta-se, então, a oportunidade de realizar uma mesa redonda contando com</p><p>a presença dos representantes desses variados segmentos da comunidade. Você</p><p>atuará como mediador desse evento, de modo que deverá conduzir um diálogo</p><p>franco e respeitoso para se chegar a um consenso quanto ao posicionamento da</p><p>comunidade de fé frente a essas questões que vêm abalando a comunhão e a</p><p>fraternidade dos �éis.</p><p>Nessa ocasião, serão discutidos vários pontos, dentre eles, os transversais ao</p><p>disposto no Lumen Gentium, mencionados ao �m do primeiro parágrafo dessa</p><p>narrativa. Com isso, chega-se a um impasse sobre eles e torna-se preciso que você</p><p>apresente sua posição sobre os mesmos pontos à luz do que se desenvolveu no</p><p>Concílio Vaticano II e dos documentos nele originados.</p><p>Como você apresentaria argumentos que promovessem comunhão ao mesmo</p><p>tempo que estimulassem o entendimento dos conceitos de povo de Deus,</p><p>valorização dos leigos na igreja, salvação fora da Igreja Católica e reconhecimento</p><p>dos clamores sociais?</p><p>A verdadeira medida de um ser humano não é como ele se comporta em</p><p>momentos de conforto e conveniência, mas como ele se mantém em tempos de</p><p>controvérsia e desa�o. A partir dessa ideia, Martin Luther King Jr. nos convida a</p><p>abandonar nossa zona de conforto e a mudar o mundo. Venha conosco!</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>O Concílio Vaticano II foi um concílio acerca da Igreja e cujo foco foi</p><p>eminentemente a eclesiologia. Houve tal profusão de temas como nunca antes</p><p>havia ocorrido em qualquer outro (RAHNER apud SANTOS, 2005). A despeito de</p><p>todos os outros aspectos, o tema Igreja norteou todos os documentos por nele</p><p>produzidos, sem resultar em fazê-la centro da fé cristã. Este concílio originou a</p><p>reformulação da autocompreensão da Igreja, reconhecendo sua função e missão a</p><p>partir de deixar de ser o elemento mais importante ou pilar estruturador das</p><p>dimensões cultural e política da relação entre Igreja e Sociedade.</p><p>As re�exões nele realizadas tiveram como mote expor ao mundo de então os</p><p>aspectos da Igreja, marcando seu papel de servidora e de participante no diálogo</p><p>com os anseios e problemas desse tempo. Diálogo esse que deve ser profundo e</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>exigente e que deve considerar com seriedade a história, a subjetividade e a busca</p><p>de comunhão, aspectos em consonância com os objetivos de João XXIII para</p><p>melhor realização da missão salví�ca da Igreja (LORSCHEIDER, 2005).</p><p>É preciso entender que diálogo é uma das palavras-chave do Concílio Vaticano II,</p><p>algo inerente à pastoralidade, pois não coaduna com a ideia de uma Igreja fechada</p><p>em si, que se basta em si própria, que enclausura a verdade da revelação nas suas</p><p>normas e procedimentos desconsiderando a historicidade e o contexto dessa</p><p>verdade. O diálogo torna a pôr em primeiro plano a �nalidade da Igreja como</p><p>sacramento da salvação para o mundo, reinserindo-a na história da humanidade,</p><p>como participante do desenvolvimento humano, do convívio em sociedade e da</p><p>construção do futuro. O diálogo entre quem está fora e quem está dentro da Igreja</p><p>foi valorizado por permitir emergirem a historicidade, a subjetividade e a</p><p>comunidade, que molda a face da Igreja (MIRANDA, 2006).</p><p>SOCIETAS PERFECTA, INAEQUALIS HIERARCHICA</p><p>Para uma melhor compreensão desse posicionamento pró-mudança que inspirou</p><p>o Vaticano II, é preciso relembrar que, anteriormente, a eclesiologia fundamentava-</p><p>se no conceito de sociedade perfeita, societas perfecta, inspirando-se em conceitos</p><p>nominalistas que de�niam os poderes regentes da sociedade como o essencial</p><p>dela (COMBLIN, 2002). Comparava-se também a Igreja a uma sociedade</p><p>absolutamente independente e perfeita, detentora de poderes plenos para legislar,</p><p>julgar e fazer cumprir suas decisões, coercitivamente se necessário (CONGAR,</p><p>1970; LIBÂNIO, 2005). Imperava ainda a visão de que a Igreja se tratava de uma</p><p>sociedade desigual, societas inaequalis hierarchica (ALMEIDA, 2005), ou seja, que</p><p>ela encontrava-se completamente centralizada no Papa e em sua autoridade,</p><p>abaixo de quem estava a cúria romana. Sendo assim, desprezava-se qualquer</p><p>atribuição de valor à contribuição da ação dos �éis, do povo.</p><p>Conforme Yves Congar, isso constituía uma eclesiologia pautada em uma</p><p>hierarquia, uma “hierarcologia” (CONGAR, 1984, p. 15), uma vez que se enfatizava</p><p>somente a visão vertical, jurídica, institucional e uniformizada da Igreja, como se</p><p>houvesse um poder instituído divinamente sobre alguns, os membros do clero,</p><p>para ensinar, governar e santi�car.</p><p>Essa eclesiologia era constituída, praticamente, por uma legislação – tratado – de</p><p>direito público (CONGAR, 1984; BOFF, 1982). Nela, apresentava-se a Igreja como</p><p>sociedade organizada,</p><p>constituída pelo Papa, pelos bispos e pelo os sacerdotes,</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>que exerciam os poderes neles investidos. Essa eclesiologia jurídica predominou</p><p>até praticamente a década de 1940. Pio XII, em 1943, pela encíclica Mystici</p><p>Corporis, transcendeu os padrões dela, usando a perspectiva de que todos os �éis</p><p>batizados seriam, pela fé, partícipes do corpo – místico – de Cristo (CALIMAN,</p><p>2004). Pio XII a�rmou não existir nada mais nobre, excelente e divino que o</p><p>conceito imbuído na denominação Corpo Místico de Cristo para descrever e de�nir</p><p>Igreja de Cristo verdadeira, uma vez que ela é “santa, católica, apostólica Igreja</p><p>romana” (PIO XII, [s. d., s. p.]), conceito que é ensinado pela Igreja a partir de sua</p><p>interpretação da Bíblia e dos escritos papais.</p><p>IGREJA, CORPO DE CRISTO, POVO DE DEUS</p><p>O Corpo de Cristo é um importante conceito contido na eclesiologia católica,</p><p>contudo não pode ser interpretado como a síntese de toda a eclesiologia, pois</p><p>aquela que derivasse plenamente do corpo de Cristo manter-se-ia desencarnada,</p><p>a-histórica, sem ligação com as realidades humanas concretas (COMBLIN, 2002).</p><p>A proposta assumida pelo Vaticano II, a partir das orientações de João XXIII, é de</p><p>renovação da Igreja. O Papa expressava seu anseio por uma Igreja aberta ao</p><p>mundo contemporâneo, ao mundo dos pobres e aos cristãos não católicos, tendo</p><p>como princípio uma abordagem do mundo totalmente nova. O mundo deixa,</p><p>então, de ser encarado somente em sua negatividade para ser visto pelo olhar de</p><p>lócus da história humana, lugar em que Deus se dá a conhecer. Esse mundo, a</p><p>sociedade humana, pela perspectiva da teologia dos sinais dos tempos, passa a ser</p><p>entendido como lugar teológico, o qual vai de uma realidade terrestre e estranha à</p><p>Igreja a um lugar de missão dela.</p><p>Paulo VI, em seu discurso ao �nal do Concílio, imbuído dessa nova consciência,</p><p>interpretou a relação Igreja-mundo como a relação em que ela é servidora da</p><p>humanidade. Desse modo, recupera-se a dimensão profética da Igreja a partir do</p><p>humano, em um mundo pluralista, secular e desigual.</p><p>Novas circunstâncias históricas da modernidade favoreceram o novo</p><p>descobrimento da realidade humana da Igreja (COMBLIN, 2002) in�uenciando a</p><p>abertura proposta no Vaticano II.</p><p>Os participantes do Concílio adotaram essa perspectiva, que foi redescoberta na</p><p>tradição dos apóstolos, na releitura do Texto Sagrado, a qual pode ser observada</p><p>na Lumen Gentium: “Todos me conhecerão, desde o menor deles até o maior, diz o</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Senhor (Jr 31, 31-34). Foi Cristo quem instituiu esta nova aliança [...], não segundo a</p><p>carne, mas no Espírito, para que fosse o novo Povo de Deus” (Lumem Gentium, 9).</p><p>Trata-se, assim, de uma Igreja como comunidade, vivendo o mistério da comunhão</p><p>e fortalecida pelo Espírito Santo; não de mais uma Igreja como sociedade perfeita.</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>O Concílio Vaticano II foi um grande marco para a Igreja Católica por sua</p><p>posição favorável à abertura e ao diálogo amplo e por sua atitude de</p><p>reconciliação com os melhores anseios quanto à realidade do mundo no</p><p>qual está inserida. O Vaticano II não apenas �nalizou uma longa era de</p><p>Contrarreforma, mas também encerrou a separação entre a Igreja e a</p><p>sociedade. A ação de ser Igreja no mundo é fundamento da constituição</p><p>teológica da Igreja. Prescindir dessa relação, seja na prática, seja na teoria,</p><p>pressupõe rejeitar uma dimensão da essência da Igreja que lhe é</p><p>constitutiva.</p><p>Hoje, a Igreja vivencia, com o Papa Francisco, um momento de expansão</p><p>desse diálogo, fazendo-se presente em diversos países, visitando aqueles</p><p>nunca dantes visitados e abrindo-se ao diálogo com líderes religiosos de</p><p>todos os credos.</p><p>No lastro do Vaticano II, hoje se desenvolvem ações de reconhecimento de</p><p>excessos do clero e oportuniza-se a reconciliação entre Igreja e sociedade.</p><p>O Vaticano II fez com que a concepção de povo de Deus substituísse a noção de</p><p>sociedade desigual em sua eclesiologia. Devido às intervenções de muitos</p><p>participantes, propôs mudança substancial do esquema De Ecclesia, inserindo um</p><p>capítulo sobre o povo de Deus em geral, e o fez como segundo capítulo, deixando</p><p>para tratar de hierarquia e de laicato após tratar do que é comum a esse povo</p><p>como um todo.</p><p>Realizando uma fundamental inversão eclesiológica, contando com a decisiva</p><p>contribuição do Cardeal L. G. Suenens (MOELLER In: MILLER, 1967), subdividiu-se o</p><p>esquema em cinco capítulos, atualmente são oito os componentes do Lumen</p><p>Gentium: I – Mistério da Igreja; II – Povo de Deus; III – Hierarquia da Igreja; IV –</p><p>Leigos, etc. A inversão de posicionamento dos capítulos II e III não é considerada</p><p>pelos pesquisadores como algo redacional puramente, mas sim teológico-</p><p>simbólico (LIBÂNIO, 2004).</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>O Vaticano II, ao reconhecer os frutos positivos do movimento litúrgico, patrístico,</p><p>bíblico e ecumênico, permitiu-nos entender a profundidade do</p><p>redimensionamento da compreensão da Igreja (LIBÂNIO, 2005).</p><p>A Lumem Gentium, em seu capítulo II, enfatiza os conceitos de eleição, aliança e</p><p>missão, que caracterizam a ação salví�ca de Deus e seu desenrolar na história</p><p>humana. Deus, por sua vontade, constituiu as pessoas em um só povo, tendo</p><p>escolhido o povo de Israel para ser seu povo e tendo estabelecido, assim, uma</p><p>aliança com ele. Deus manifestou-se na história desse povo através de seus</p><p>desígnios, separando-o para si (santi�cando). Uma preparação para a nova aliança,</p><p>eterna, que viria a ser estabelecida em Jesus Cristo e que reuniria todos os povos</p><p>em unidade no Espírito Santo, constituindo, dessa forma, o novo povo de Deus</p><p>(Lumem Gentium, 9). Esse é o portador de todos os mistérios divinos, sendo ele</p><p>próprio um grande mistério-sacramento no meio dos povos, sinal de Deus e</p><p>convite a todos para viver o destino transcendente da jornada humana em direção</p><p>a Deus e a seu Reino. A Igreja possui muitos serviços e carismas, e diferentes</p><p>pessoas de diferentes etnias constituem sua unidade interna, coesa pela fé em</p><p>Cristo Jesus e inspirada pelo Espírito Santo (BOFF, 2004).</p><p>ASSIMILE</p><p>A secularização, fenômeno que pode ser entendido como emancipação do</p><p>ser humano em relação à esfera religiosa, provocou a necessidade de</p><p>importante revisão na estrutura eclesiológica da Igreja Católica. Foi preciso</p><p>superar, assim, o eclesiocentrismo através da formulação de uma</p><p>eclesiologia dialógica e profundamente ministerial. A Lumen Gentium traz</p><p>essa preocupação, apresentando um conceito de inclusão de todos os �éis</p><p>no capítulo II antes de realizar a distinção interna nos capítulos III e IV.</p><p>Dessa maneira, ao escolher a categoria povo de Deus, demonstra sua</p><p>intenção de expandir os horizontes das re�exões sobre a Igreja; para isso,</p><p>bebe das dimensões histórica, bíblica e patrística; de eleição, de aliança, de</p><p>missão e de índole escatológica do povo que realiza a dialética do – já e</p><p>ainda não – jam et nondum, que explicita a experiência de ser parte do</p><p>Reino e almejá-lo ao mesmo tempo.</p><p>Novas perspectivas são oportunizadas, a partir do Batismo, por essa concepção</p><p>eclesiológica, especialmente para a participação e para a missão, ambas regidas</p><p>pelo sacerdócio de Cristo sobre todos os �éis. Ele se concretiza no sacerdócio</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>profético e régio, chamado por muitos de sacerdócio universal, comum a todos.</p><p>Desse modo, é conferida, pelo batismo, a todos os �éis a capacidade para o</p><p>exercício da missão, que é comum a todo o povo de Deus, e para o relacionamento</p><p>com as coisas sagradas (NEVES, 1987).</p><p>O segundo capítulo da Lumen Gentium apresenta o norte para uma Igreja como</p><p>Povo de Deus, reconhecer sua maturidade, para o redescobrimento de sua</p><p>dimensão carismática, da rica variedade de dons infundidos em todos os batizados</p><p>pelo Espírito Santo. Ao destacar a graça batismal e o inerente princípio teológico</p><p>dos elementos comuns ao clericato e ao laicato por ela atribuídos, a saber, a</p><p>solidariedade, a unidade e a igualdade fundamental</p><p>ao extremo, considera-se ´pós-moderna´ a incredulidade em relação</p><p>aos metarrelatos” (LYOTARD, 2009, p. xvi).</p><p>Mas, existiria um campo próprio de estudo das metanarrativas? Por que elas têm</p><p>sobrevivido até o presente século? O campo do saber em que as metanarrativas</p><p>são estudadas e discutidas é a metafísica. Logo, se Lyotard entende como</p><p>“condição pós-moderna” o descrédito humano para as metanarrativas, por</p><p>consequência ele está deslegitimando a metafísica. Contudo, as metanarrativas</p><p>permanecem vivas até o presente século por causa da fé religiosa transmutada em</p><p>valores culturais.</p><p>Na mesma esteira dos apontamentos de Lyotard, outros �lósofos questionaram a</p><p>legitimidade da meta�sica. Vejamos a seguir.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>A CRISE DA METAFÍSICA</p><p>Você sabe dizer o que é metafísica? Esse termo vem da língua grega metàphysis,</p><p>que signi�ca “além da física” ou “além da natureza”. Dessa forma, metafísica é a</p><p>área do saber, ligada à �loso�a, que se ocupa das questões relacionadas à</p><p>existência do ser, da razão e do sentido da realidade. É a área do conhecimento</p><p>que procura compreender a origem de todas as coisas, inclusive as concepções</p><p>sobre Deus e sobre alma.</p><p>Desde Aristóteles (384-322 a.C.) o conceito de metafísica foi entendido como coisas</p><p>que vão para além da física. Embora o autor não tenha utilizado a palavra</p><p>metàphysis, o conceito está presente em seus escritos, nas expressões: “�loso�a</p><p>das causas primeiras” e “ciência das primeiras causas” (ARISTÓTELES, 2012).</p><p>Para Aristóteles, a investigação das “causas primeiras” transcendia a experiência</p><p>sensível, ou seja, não era realizada pelos sentidos, mas unicamente pela razão. Por</p><p>exemplo, a concepção de um ser divino poderia ser alcançada não pelos sentidos</p><p>do ser humano, mas pelos raciocínios a partir da necessidade da existência de um</p><p>criador – como causa primária. Como os objetos de investigação da metafísica</p><p>(Deus, alma, etc.) escapam à percepção dos sentidos humanos (tato, olfato,</p><p>paladar, audição e visão), eles foram examinados pela razão humana durante</p><p>séculos sem qualquer contestação.</p><p>Na Idade Média, o �lósofo inglês Roger Bacon (1212-1294) abriu as portas para a</p><p>utilização de outro método de investigação que se tornou bastante comum – o</p><p>método empírico. De acordo com o �lósofo, eram três as fontes do conhecimento:</p><p>a autoridade, a razão e a experiência. Porém, com o passar do tempo, a</p><p>“experiência” veio a tornar-se o principal método para a aquisição de</p><p>conhecimento. Os �lósofos que utilizavam essa metodologia em busca do</p><p>conhecimento eram chamados de “empiristas” e se opunham aos �lósofos que</p><p>utilizavam apenas a razão como guia às verdades, os chamados de “racionalistas”.</p><p>Nesse campo de batalha, o �lósofo escocês David Hume (1711-1776) a�rmou que o</p><p>hábito, ou seja, a repetição, por diversas vezes, de determinados conceitos</p><p>aprendidos leva-nos à crença de uma casualidade real. Dessa forma todos os</p><p>conceitos de Deus, céu, inferno, alma, anjos, etc., são meras repetições de histórias</p><p>que incorporaram hábitos mentais, não possuindo em si uma realidade objetiva.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Na mesma época, o �lósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) apresentou os</p><p>seus postulados questionando a meta�sica clássica como método válido de</p><p>conhecimento. Em sua obra basilar, A crítica da razão pura, ele se propôs a</p><p>derrubar os principais argumentos utilizados como prova da existência de Deus –</p><p>argumentos teológico, ontológico e cosmológico.</p><p>Em uma de suas teses a�rma: “Demonstrarei que a razão nada consegue nem por</p><p>uma das vias (a via empírica) nem pela outra (a via transcendental) e que em vão</p><p>abre as asas para se elevar acima do mundo sensível pela simples força da</p><p>especulação” (KANT, 2001, p. 591-592).</p><p>Além dos �lósofos anteriormente citados, muitos outros questionaram a utilização</p><p>da meta�sica como método legítimo para se obter o conhecimento verdadeiro.</p><p>Porém, foi um �lósofo francês do século XIX que propôs a utilização de um novo</p><p>método, o qual, segundo ele, em muito superaria o método utilizado pela</p><p>metafísica.</p><p>Dessa forma, caro aluno, você já deve ter percebido que os novos métodos de</p><p>busca pelo conhecimento (episteme) surgidos ao �nal do século XIX e início do</p><p>século XX, colocaram em xeque as fontes do conhecimento teológico, exigindo dos</p><p>futuros teólogos respostas e adequações para essas fricções.</p><p>O referido �lósofo francês trata-se de Auguste Comte (1798-1857), quem propôs</p><p>uma teoria amplamente abraçada no século XX: o positivismo. Comte se debruçou,</p><p>em 1822, sobre um plano de trabalhos necessários para a reorganização da</p><p>sociedade e, em 1830, iniciou a redação do Curso de Filoso�a Positiva, obra de seis</p><p>volumes.</p><p>Comte propôs o “método cientí�co” em que o investigador deveria assumir uma</p><p>atitude laica, desprendida dos conceitos metafísicos. Para o �lósofo, assim como</p><p>existem leis que governam a física, a química, a biologia, também existem leis que</p><p>governam a sociedade. E o positivismo seria o caminho mais adequado para o</p><p>progresso da humanidade.</p><p>A �m de explicitar essas leis, Comte propôs a “lei dos três estados”, segundo a qual</p><p>o espírito humano passaria por três fases sucessivas:</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Como visto, para Comte os seres humanos (nações e grupos étnicos)</p><p>impreterivelmente seguiriam uma escala linear em busca do saber, a qual</p><p>começaria com o “estado teológico”, que seria quando o ser humano explicaria</p><p>todos os fenômenos através da ação de Deus ou dos deuses. Num segundo</p><p>momento, o “estado metafísico” – quando os fenômenos seriam explicados pelas</p><p>forças da natureza, como um ser. E, por �m, o “positivismo” romperia com as fases</p><p>anteriores, fazendo imperar na humanidade o método cientí�co: a ciência pura.</p><p>O positivismo alastrou-se na Europa do século XIX, chegando ao Brasil no início do</p><p>século XX. Os militares brasileiros que atuaram na Primeira República (1889-1930)</p><p>inspiraram-se nas doutrinas positivistas, e o positivismo deixou as suas marcas até</p><p>mesmo na bandeira republicana do Brasil, na frase “Ordem e progresso”.</p><p>O positivismo, abraçado por muitos ateus e agnósticos, foi duramente criticado</p><p>pelos cristãos, chegando a ser chamado de positivismo religioso. É por isso que</p><p>pesquisadores do fenômeno religioso possuem diversas reservas às premissas</p><p>comteanas.</p><p>REFLITA</p><p>Você já imaginou um mundo sem religião? É possível eliminar da cultura de</p><p>um país o fenômeno religioso?</p><p>O QUESTIONAMENTO DE DEUS NO SÉCULO XX</p><p>Antes de entrarmos no século XX, faz-se necessário examinar o pensamento de</p><p>alguns �lósofos do século anterior cujas obras geraram grande impacto na esfera</p><p>religiosa. Na virada do século XIX, muitos �lósofos já estavam produzindo obras</p><p>que questionavam a existência de Deus.</p><p>Iniciaremos pelo �lósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872), que publicou, em</p><p>1841, sua principal obra A essência do cristianismo. Para ele não foi Deus que criou</p><p>o homem, mas o homem que criou Deus conforme a sua imagem e semelhança.</p><p>Nas palavras do autor: “A consciência de Deus é a consciência que o homem tem</p><p>Na primeira, o espírito humano explica os fenômenos atribuindo-os a seres, ou forças, comparáveis ao próprio</p><p>homem. Na segunda, invoca entidades abstratas, como a natureza. Na terceira, o homem se limita a observar</p><p>os fenômenos e a �xar relações regulares que podem existir entre eles, seja um momento dado, seja no curso</p><p>do tempo; renuncia a descobrir as causas dos fatos e se contenta em estabelecer as leis que os governam. A</p><p>passagem da idade teológica para a idade metafísica, e depois para a idade positiva, não se opera</p><p>simultaneamente em todas as disciplinas intelectuais.</p><p>— (ARON, 2000, p. 68)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>de si mesmo, o conhecimento de Deus é o conhecimento que o homem tem de si</p><p>mesmo” (FEUERBACH, 2007, p. 44). Feuerbach, então, apresenta Deus como</p><p>construção humana necessária para a explicação do mundo e dos seres. Dessa</p><p>forma, na visão do �lósofo, não seria a teologia (conhecimento de Deus) que</p><p>no contexto da existência</p><p>cristã (LIBÂNIO, 2004), assim como reconhecer a importância das realidades do</p><p>mundo e das realidades humanas, o Concílio Vaticano II tornou possível a</p><p>valorização da missão dos leigos na Igreja e fora dela.</p><p>Essa nova eclesiologia se torna uma reação radical às eclesiologias que esquecem a</p><p>realidade humana por completo e que tratam as pessoas como objetos</p><p>manipulados por um poder hierárquico com aspirações divinas. Essa eclesiologia a</p><p>ser combatida é constituída por um clero que habita num mundo além do humano</p><p>e que, a partir dele, toca os leigos para a salvação como se fossem gado ou objetos</p><p>desumanizados ante um clero inconsistente (COMBLIN, 2002).</p><p>Inaugura-se, no Vaticano II, a compreensão de um povo de Deus que é composto</p><p>pela totalidade dos cristãos, constituindo, desse modo, um só corpo com o próprio</p><p>Jesus como cabeça (Lumem Gentium, 9).</p><p>Apresenta-se assim uma realidade universal, que antecede aos carismas.</p><p>Introduzindo, na autocompreensão da Igreja, a fundamental nova percepção de</p><p>que todos possuem o mesmo valor, ainda que tenham diferentes dons. Como</p><p>marca de Deus no caráter dos cristãos, o batismo concede cidadania em igualdade</p><p>de condições a todas as pessoas, “Nisto não há judeu nem grego; não há servo</p><p>nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo</p><p>Jesus”,Gálatas 3.28 (BÍBLIA, 1969). Sendo assim, todos são irmãos e possuem igual</p><p>valor diante de Deus e da Igreja, a qual necessita buscar novo tipo de relações de</p><p>acolhimento, de reconhecimento e de respeito das alteridades, o que deve ocorrer</p><p>por meio de atitudes de con�ança mútua (TEPEDINO, 2005).</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Nessa concepção de Igreja, que é povo de Deus, há os que foram consagrados por</p><p>sacramento da ordem, os clérigos, que exercem o sacerdócio ministerial, também</p><p>chamado de hierárquico pelo sacra potestas, poder sagrado, e que têm a</p><p>atribuição de formar e de guiar o povo sacerdotal. O sacrifício eucarístico in</p><p>persona Christi é realizado por eles, que o oferecem em nome de todo o povo de</p><p>Deus (Lumem Gentium, 26, 28). E em Jesus Cristo são incorporados todos os �éis</p><p>através da graça batismal, unindo-se a Ele por meio de um sacrifício constituído da</p><p>oferta de si mesmo e de suas obras conforme escrito no livro de Romanos 12.1-2</p><p>(BÍBLIA, 1969).</p><p>O sacerdócio universal é comum a todos os que foram batizados. Quanto ao</p><p>sacerdócio ministerial, ordenam-se uns aos outros, fazendo diferença na essência</p><p>e no grau. Mesmo os que são ordenados ao sacerdócio ministerial não cessam de</p><p>ser participantes do sacerdócio universal. Desse modo, é preciso impedir que, a</p><p>partir do serviço em prol da comunidade, não se realize uma dominação sobre a</p><p>comunidade (Lumen Gentium, 32). Há uma a�nidade entre os ambos os</p><p>sacerdócios, pois provêm do mesmo Espírito Santo, sendo concedidos para a</p><p>constituição do corpo de Cristo (BARAÚNA, 1965).</p><p>A Igreja é o novo povo de Deus, que envolve todos os batizados para a missão</p><p>universal (PANAZZOLO, 2010). Isso torna evidente a pertença a Deus e a</p><p>constituição de seres humanos que vivem na igualdade e na diversidade (BOFF,</p><p>1982). Povo de Deus manifesta aquilo que há de comum a todos os que compõem</p><p>a Igreja. Antes de qualquer distinção interna, todos pertencem ao povo e são</p><p>iguais, são cidadãos do Reino.</p><p>Anteriormente à categoria de hierarquia, o Concílio estabeleceu a dignidade</p><p>humana e cristã. Essa imagem manifesta o modo de viver a fé na Igreja. A Lumem</p><p>Gentium reconhece e introduz a extraordinária riqueza dos ministérios e dos</p><p>carismas através dos quais o Espírito Santo constitui a Igreja em um contexto de</p><p>fundamental unidade dos cristãos. A multiplicidade de carismas, essencial à sua</p><p>constituição, permite a Igreja testemunhar e viver.</p><p>É mister perceber que, quando o Concílio de�niu as funções do povo de Deus,</p><p>utilizou as categorias de sacerdócio, de profecia e de missão, também utilizadas no</p><p>capítulo da de�nição dos ofícios especí�cos dos sacerdotes, onde há o acréscimo</p><p>da categoria governo. Infere-se que aquilo que o povo de Deus faz é constitucional,</p><p>assim como o que os ministros hierárquicos fazem também o são.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>O Concílio Vaticano II valorizou os leigos e sua participação na ação pastoral em</p><p>níveis vitais e suscitou novos modos de participação, promovendo o surgimento de</p><p>novos serviços e ministérios. Isso contribuiu para a superação de uma concepção</p><p>eclesiológica de sujeito passivo atribuída ao povo, destituído, na institucionalidade</p><p>da Igreja, de poder decisório (KEHL, 1997).</p><p>Em países continentais como o Brasil, a participação dos leigos é fundamental, haja</p><p>vista que muitas paróquias são distantes de centros urbanos e que contam com a</p><p>atuação de clérigos cuja atenção está dividida para várias localidades ao mesmo</p><p>tempo, tendo que se deslocar entre elas para realizar liturgias e sacramentos.</p><p>A participação dos leigos na liturgia dessas paróquias, inclusive de mulheres, foi</p><p>alvo de recente carta do Papa Francisco (10 de janeiro de 2021) ao prefeito da</p><p>Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Luís Ladaria, a qual versava sobre o</p><p>acesso de mulheres aos ministérios do leitorado e acolitado. Com isso, o sumo</p><p>pontí�ce formaliza a autorização para introduzir essa mudança no Código</p><p>Canônico. Isso permitirá que mulheres de todo o mundo sirvam ao altar como</p><p>coroinhas ou ministras da Eucaristia, bem como leitoras da Palavra de Deus.</p><p>A distinção entre os clérigos e os leigos advém da separação entre o sagrado e o</p><p>profano e, de certo modo, subsiste na teologia e nas mentes católicas até hoje.</p><p>Essa teologia dos dois gêneros persiste até mesmo na Lumem Gentium, no</p><p>capítulo IV, que distingue o leigo do clérigo, voltando à antiga distinção das duas</p><p>ordens: a primeira se ocupa das coisas sagradas e a segunda das coisas do mundo</p><p>(COMBLIN, 2002).</p><p>REFLITA</p><p>Ante a necessidade de romper com o eclesiocentrismo, o Vaticano II buscou</p><p>apresentar o conceito de povo de Deus, que, além de ser bíblico, resume-se</p><p>em povo que comunga da mesma fé em Cristo e que, sendo batizado, é</p><p>portador da multiplicidade de carismas do Espírito Santo. José Comblin tem</p><p>razão ao considerar que a teologia do povo de Deus se mostrou uma das</p><p>grandes inovações desenvolvidas pelo Concílio, porém não plenamente</p><p>aplicada na posteridade. Entretanto, essa situação não con�gura abandono</p><p>da doutrina, pois pressupõe uma necessidade de se buscar sua plena</p><p>implementação. Essa teologia deve �gurar em todos os capítulos</p><p>eclesiológicos por ser uma chave que possibilita estabelecer relação entre o</p><p>divino e o humano na Igreja</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>A teologia do povo de Deus, aprovada pelo Concílio, constrói os fundamentos da</p><p>promoção dos leigos na Igreja fornecendo conteúdo à sua missão. Quando se</p><p>a�rma que todo o povo que tem Cristo por cabeça recebeu a missão de ir ao</p><p>mundo inteiro, a�nal, de algum modo, todos se ordenam a ele (LUMEN GENTIUM,</p><p>9), o Concílio celebrou a harmonia que precisava haver entre leigos e hierarquia.</p><p>Entretanto, essa teologia não conseguiu, no próprio Concílio, e ainda menos no</p><p>pós-Concílio, produzir as bases eclesiásticas de poder deliberativo para concretizar</p><p>isso e para dar visibilidade e e�ciência à igualdade fundamental, garantindo real</p><p>participação ativa de leigos no “tríplice múnus” (LIBÂNIO, 2005, p. 114).</p><p>Há ainda um longo caminho a ser percorrido para tornar real a ideia de povo de</p><p>Deus no seio da Igreja Católica, ainda que, atualmente, o Papa Francisco tenha</p><p>realizado importantes reformas interpretativas que aproximam a Igreja dos �éis e</p><p>vice-versa.</p><p>FAÇA VALER A PENA</p><p>Questão 1</p><p>No discurso, ao �nal do Concílio, imbuído dessa nova consciência, o Papa</p><p>interpretou a relação Igreja-mundo como uma relação em que essa instituição é</p><p>servidora da humanidade, recuperando, assim, a dimensão profética da Igreja a</p><p>partir do humano, em um mundo pluralista, secular e desigual. As novas</p><p>circunstâncias históricas da modernidade favoreceram o novo</p><p>descobrimento da</p><p>realidade humana da Igreja e in�uenciaram a abertura proposta no Vaticano II.</p><p>Qual o papa conduziu o Concílio Vaticano II após a morte de João XXIII?</p><p>a. Pio X.</p><p>b. João Paulo II.</p><p>c. Bento XVI.</p><p>d. Francisco.</p><p>e. Paulo VI.</p><p>Questão 2</p><p>O corpo de Cristo é um importante conceito contido na eclesiologia católica,</p><p>entretanto não pode ser interpretado como a síntese de toda a eclesiologia, pois</p><p>uma que derivasse plenamente do corpo de Cristo manter-se-ia desencarnada, a-</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>histórica, sem ligação com as realidades humanas concretas (COMBLIN, 2002).</p><p>A proposta assumida pelo Vaticano II é de renovação da Igreja. O papa João XXIII</p><p>desejava uma Igreja aberta ao mundo contemporâneo, ao mundo dos pobres e</p><p>aos cristãos não católicos, tendo como princípio uma abordagem do mundo</p><p>totalmente nova. Desse modo, o mundo deixa de ser encarado somente em sua</p><p>negatividade para ser visto como o lugar em que Deus se dá a conhecer.</p><p>Considerando o texto apresentado, avalie as a�rmações a seguir:</p><p>I. O corpo de Cristo é o conceito que considera que todo cristão batizado é</p><p>participante da Igreja, que é corpo de Jesus Cristo, e do qual ele é a cabeça.</p><p>II. O corpo de Cristo é um conceito católico que compreende o vinho distribuído</p><p>para o consumo dos �éis na realização do sacramento eucarístico.</p><p>III. O corpo de Cristo é um conceito que envolve o reconhecimento do corpo</p><p>místico de Cristo como aquele composto pelos cristãos batizados. Também</p><p>pode ser identi�cado no documento canônico Mystici Corporis.</p><p>Diante do contexto apresentado, é correto o que se a�rma em:</p><p>a. I, apenas.</p><p>b. II, apenas.</p><p>c. III, apenas.</p><p>d. I e III, apenas.</p><p>e. I e II, apenas.</p><p>Questão 3</p><p>Para uma melhor compreensão do posicionamento pró-mudança que inspirou o</p><p>Vaticano II, é preciso relembrar que, anteriormente, a eclesiologia fundamentava-</p><p>se no conceito de sociedade perfeita, societas perfecta, inspirando-se em conceitos</p><p>nominalistas que de�niam os poderes regentes da sociedade como essenciais à</p><p>manutenção da ordem na sociedade.</p><p>Diante disso, faça a correlação das expressões da coluna A com termos em latim</p><p>da coluna B:</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ALMEIDA, A. J. de. Lumen Gentium: a transição necessária. São Paulo: Paulus,</p><p>2005.</p><p>ALVES, F. L. A Eclesiologia Latino-americana como acolhimento criativo do</p><p>Vaticano II: Um caminho para uma nova recepção da herança conciliar. 2011.</p><p>173 p. Dissertação (Mestrado em Teologia) – Pontifícia Universidade Católica do Rio</p><p>de Janeiro, Rio de Janeiro, 2011.</p><p>BARAÚNA, G. A Igreja do Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 1965.</p><p>BÍBLIA. Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João</p><p>Ferreira de Almeida. Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.</p><p>BOFF, L. Igreja: Carisma e Poder – Ensaios de Eclesiologia Militante. Petrópolis:</p><p>Vozes, 1982.</p><p>BOFF, L. Novas Fronteiras da Igreja: o futuro de um povo a caminho. Campinas:</p><p>Verus Editora, 2004.</p><p>COLUNA A COLUNA B</p><p>I. Sociedade desigual – termo atribuído à Igreja pela</p><p>centralização do porder no Papa e na cúria romana.</p><p>A. De Ecclesia.</p><p>II. Corpo místico – a verdadeira Igreja de Cristo,</p><p>composta por todos os batizados.</p><p>B. Societas inaequalis</p><p>hierarchica.</p><p>III. Constituição dogmática sobre a Igreja. C. Lumen Gentium.</p><p>IV. Esquema sobre a Igreja discutido no Vaticano II. D. Mystici Corporis.</p><p>Assinale alternativa que apresenta a ordem correta de correspondência das duas</p><p>colunas:</p><p>a. I-A; II-C; III-D; IV-B.</p><p>b. I-C; II-B; III-A; IV-D.</p><p>c. I-B; II-D; III-C; IV-A.</p><p>d. I-A; II-B; III-C; IV-D.</p><p>e. I-D; II-A; III-B; IV-C.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>CALIMAN, C. A Eclesiologia do Concílio Vaticano II e a Igreja no Brasil. In:</p><p>GONÇALVES, P. S. L.; BOMBONATTO, V. I. (org.). Concílio Vaticano II: análise e</p><p>prospectivas. São Paulo: Paulinas, 2004.</p><p>COMBLIN, J. O Povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2002.</p><p>CONGAR, Y. L’Église, de saint Augustin à l’époque moderne. Paris: Éditions du</p><p>Cerf, 1970. (Histoire des dogmes).</p><p>CONGAR, Y. Le Concile de Vatican II – Son Église peuple de Dieu et corps du</p><p>Christ. Paris: Beauchesne, 1984.</p><p>KEHL, M. A Igreja: uma Eclesiologia Católica. São Paulo: Loyola, 1997.</p><p>LIBÂNIO, J. B. Concílio Vaticano II: em busca de uma primeira compreensão. São</p><p>Paulo: Loyola, 2005.</p><p>LIBÂNIO, J. B. Lumen Gentium: Mina Inesgotável. Vida Pastoral, n. 236, 2004.</p><p>LORSCHEIDER, A. Linhas Mestras do Concílio Vaticano II. In: LORSCHEIDER, A.;</p><p>LIBÂNIO, J. B.; COMBLIN, J.; VIGIL, J. M.; BEOZZO, J. O. Vaticano II: 40 anos depois.</p><p>São Paulo: Paulus, 2005.</p><p>MIRANDA, M. de F. A Igreja numa sociedade fragmentada. Escritos</p><p>Eclesiológicos. São Paulo: Loyola, 2006.</p><p>MOELLER, C. Storia della struttura e delle idee della Lumen. In: MILLER, J. M. (ed.).</p><p>La teologia dopo il Vaticano II. Brescia: Morcelliana, 1967.</p><p>NEVES, A. O Povo de Deus – Renovação do Direito na Igreja. São Paulo: Loyola,</p><p>1987.</p><p>PANAZZOLO, J. Igreja comunhão, participação, missão. São Paulo: Paulus, 2010.</p><p>PAULO VI. Gaudium et Spes. Vatican, [S. l., s. d.]. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/36AzANW. Acesso em: 28 mar. 2021.</p><p>PAULO VI. Lumen Gentium. Vatican, [S. l., s. d.]. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3kaZCQ5. Acesso em: 28 mar. 2021.</p><p>PIO XII. Carta encíclica Mystici corporis. Vatican, [S. l., s. d.]. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/36ADsie. Acesso em: 1 jul. 2021.</p><p>RICHARD, P. A Força Espiritual da Igreja dos Pobres. Petrópolis: Vozes, 1989.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html#</p><p>https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html</p><p>https://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_29061943_mystici-corporis-christi.html</p><p>SANTOS, M. A. (org.). Concílio Vaticano II – 40 anos da Lumen Gentium. Porto</p><p>Alegre: EDIPUCRS, 2005.</p><p>TEPEDINO, A. M. Celebrando os 40 anos da Lumen Gentium: vivemos as �ores da</p><p>“inesperada primavera”. In: TAVARES, S. S. (org.). Memória e Profecia: A Igreja no</p><p>Vaticano II. Petrópolis: Vozes, 2005.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>NOVA LITURGIA A PARTIR DO CONCÍLIO VATICANO II</p><p>Marcos Porto Freitas da Rocha</p><p>Imprimir</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Olá, aluno, vamos continuar nossos estudos para aumentarmos nosso</p><p>conhecimento? Nesta seção nos aprofundaremos em outros temas do Concílio</p><p>Vaticano II, dentre os quais estão importantes assuntos discutidos, como a</p><p>possibilidade de a liturgia ser realizada na língua vernácula, cuja discussão</p><p>produziu o entendimento de que isso seria bené�co para a implementação do</p><p>Reino de Deus.</p><p>Outro importante tema foi a participação ativa e consciente de cada �el batizado</p><p>nas ações, na liturgia e até em decisões da Igreja. O próprio Concílio oportunizou a</p><p>participação de leigos na ocasião.</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>A valorização e a centralidade da Sagrada Escritura nos estudos teológicos foi</p><p>outro tema de extrema importância abordado, pois retoma a vocação histórica dos</p><p>estudos desde a patrística.</p><p>E o tema intimamente relacionado com a valorização da participação dos leigos foi</p><p>a superação de uma visão da Igreja apenas clerical, o que abriu espaço para que</p><p>leigos produzissem importantes análises e propostas para uma renovação da</p><p>Igreja.</p><p>Vamos juntos continuar esta caminhada prazerosa de estudos histórico-teológicos</p><p>que nos permitem entender a in�uência do Concílio Vaticano II no pensamento</p><p>atual da Igreja.</p><p>Considere que você foi convidado a avaliar as repercussões do Concílio Vaticano II</p><p>na liturgia de uma paróquia no interior do Brasil. Ao chegar lá, veri�cou que o</p><p>padre responsável por ela considerava que todos os sacramentos e todas as ações</p><p>litúrgicas deveriam ser celebrados em latim, que a única forma de realizar a</p><p>pastoral seria ensinando sobre uma relação vertical com Deus e que não havia</p><p>espaço para a modernidade proposta pelo Vaticano II, de modo que qualquer</p><p>proposta de participação mais ativa dos �éis era vista por ele como uma afronta à</p><p>hierarquia eclesiástica e um desrespeito ao ofício clerical.</p><p>Entretanto, como representante da Santa Sé, você foi recebido com muito respeito</p><p>por esse padre e também com esperança por parte da comunidade de fé.</p><p>Em uma conversa informal e reservada, o velho padre se abriu e explicou que a</p><p>comunidade, em tempos passados, recebeu a visita de um jovem padre que tinha</p><p>ideias muito modernas e que acabou por in�uenciar as pessoas, provocando um</p><p>processo de descaracterização da catolicidade da paróquia. Com isso, ao perceber</p><p>que a situação poderia se tornar algo irreversível, tomou para si a responsabilidade</p><p>de recolocar a comunidade de fé de volta nos eixos. Isso resultou na saída do</p><p>jovem padre e na perda de muitos �éis. Con�denciou, ainda, que está cansado,</p><p>mas que teme que qualquer novidade traga mais danos à comunidade.</p><p>Nessa situação, aproveitando a abertura que ele lhe concedeu com esse desabafo,</p><p>quais argumentos você usaria para que ele se dispusesse a ouvir o que o Concílio</p><p>Vaticano II propõe para a liturgia, para a valorização das Escrituras, para a</p><p>participação dos �éis, bem como sobre as benesses da utilização da língua</p><p>vernácula?</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Inspirados nas palavras do Papa Bento XVI, vamos renovar nossos estudos para o</p><p>bem da humanidade, pois: “a Igreja necessita de santos. Todos estamos chamados</p><p>à santidade, e só os santos podem renovar a humanidade”. Joseph Ratzinger.</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>A CENTRALIDADE DA PALAVRA NO ÂMBITO LITÚRGICO-ECLESIAL:</p><p>ITINERÁRIO HISTÓRICO E TEOLÓGICO</p><p>Após um exílio secular, a Palavra de Deus retorna ao centro da vida na Igreja. A</p><p>palavra exílio pode ser considerada por alguns como exagerada, entretanto</p><p>pretende descrever um período histórico em que a presença da Palavra de Deus</p><p>era, de fato, circunscrita a poucos lugares especí�cos, o que omitia a centralidade</p><p>da sua leitura, de sua proclamação e de sua discussão. Isso acabou cerceando,</p><p>muitas vezes, o acesso de todos os crentes às riquíssimas fontes de que elas</p><p>jorram (ALBERIGO, 1985).</p><p>Os fenômenos que caracterizam esse abandono são de várias ordens, do mesmo</p><p>modo que são aqueles que contribuíram para uma subsequente revalorização da</p><p>Escritura Sagrada, possibilitando que ela reconquistasse seu lugar central na</p><p>experiência de fé da Igreja de Cristo. Esse movimento pode ser visto nas mais</p><p>distintas áreas da Igreja, desde a prática pastoral até o pensamento teológico. É</p><p>possível veri�cá-lo também no enriquecimento e no fortalecimento da experiência</p><p>de fé de cada cristão em particular (ANTUNES, 2012).</p><p>O Concílio Vaticano II foi um dos momentos históricos mais relevantes para essa</p><p>mudança, que representa, indubitavelmente, um importante marco para a</p><p>valorização da Palavra de Deus no contexto litúrgico e eclesiástico. A sua realização</p><p>contribuiu para uma mais proveitosa experiência cristã fundada nas Escrituras</p><p>Sagradas, que se manifesta no alojamento da experiência litúrgica nessa mesma</p><p>Palavra, bem como no enriquecimento da experiência pessoal do �el ao</p><p>redescobrir, no encontro pessoal com a Palavra de Deus, que é Cristo, um dos seus</p><p>principais alimentos, conforme os textos do Evangelho de João, os quais chamam-</p><p>no de Logos e de Pão da Vida.</p><p>O CONCÍLIO VATICANO II E O SEU ENQUADRAMENTO</p><p>Mesmo reconhecendo o Vaticano II como um dos concílios que mais estudou a</p><p>Bíblia na história da Igreja (OLIVEIRA, 2012) e que extraiu dela importantíssimas</p><p>consequências para a vida da Igreja, é necessário perceber que estas</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>consequências são fruto de vários movimentos que o antecederam e que lhe</p><p>ofertaram a re�exão e o aprofundamento indispensáveis nesse debate,</p><p>possibilitando, assim, as posições que nele foram estabelecidas.</p><p>No Concílio Vaticano II foi rea�rmada a posição de destaque que a Bíblia e seu</p><p>estudo haveriam de ocupar na vida eclesial, apresentando-a como consagrada pelo</p><p>Espírito Santo, escrita, viva e verdadeira, e reiterando sua importância para a vida</p><p>comum dos cristãos (VAZ, 2012). Obviamente, sua presença sempre foi</p><p>considerada fundamental na e para a vida da Igreja, entretanto era inacessível para</p><p>muitos, sendo sua leitura destinada a clérigos e a pesquisadores. A Palavra era</p><p>restringida pelas exigências da utilização da tradução em latim, única permitida, e</p><p>de prévios conhecimentos teológicos para �ns de leitura e compreensão. Desse</p><p>modo, a real transformação se manifestou pela possibilidade do contato direto dos</p><p>crentes (todos eles) com a Sagrada Palavra (BIANCHI, 1985).</p><p>As consequências dessa transformação nos vários domínios da vida da Igreja são</p><p>notórias, com ênfase na liturgia. O movimento litúrgico precedente ao Vaticano II</p><p>possuía inspiração bíblica profunda, perceptível no próprio documento conciliar</p><p>relativo à liturgia. Da linguagem ao canto, muitos são os aspectos que evidenciam a</p><p>franca unidade da revalorização da Bíblia na vida da Igreja com o desejo de sua</p><p>renovação litúrgica (JOSSUA, 1967).</p><p>A Constituição Dogmática ressalta a íntima unidade entre as liturgias da Palavra e</p><p>da eucarística, estabelecendo-as como partes essenciais da mesma ação de culto,</p><p>que não existe caso qualquer uma delas lhe falte. A Constituição Conciliar</p><p>Sacrosanctum Concilium sobre a sagrada liturgia se pronuncia da seguinte forma:</p><p>“Estão tão intimamente ligadas entre si as duas partes de que se compõe, de</p><p>algum modo, a missa - a liturgia da Palavra e a liturgia eucarística - que formam um</p><p>só acto de culto” (PAULO VI, 1963, 56). Podemos perceber, então, que a liturgia da</p><p>Palavra é entendida, tanto pelos redatores da Sacrossanctum Concilium quanto</p><p>pelos padres conciliares, como um dos valores principais da celebração eucarística,</p><p>algo que pode ser conferido no mesmo documento, no postulado 24 (PAULO VI,</p><p>1963, 24).</p><p>É preciso entender o enquadramento litúrgico da época pelo fato de ser</p><p>fundamental para a compreensão do movimento que ganhou maior força e</p><p>abrangência a partir da Sacrossanctum Concilium, ainda que anterior a ela: foi o</p><p>primeiro documento conciliar aprovado. E mais do que isso, teve somente quatro</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>votos contrários. Essa Constituição representa mais do que a proclamação de uma</p><p>harmonia litúrgica: ela principia um movimento próprio, consagrando aquele já</p><p>iniciado pelo movimento litúrgico e reforçado pelo papa Pio XII, conforme encíclica</p><p>Mediator Dei, (GY, 1967). A necessidade de modi�cação da vida litúrgica permeou o</p><p>início do século XX e contribuiu muito para a revalorização da Sagrada Escritura e</p><p>da Palavra de Deus (CARDITA, 2009).</p><p>O movimento litúrgico em si é tomado e ensaiado em pequenas realidades até que</p><p>assuma uma forma mais universal (CORDEIRO, 2018; COSTA, 2010; ROUSSEAU,</p><p>1961; BROVELLI, 1989). Ele provém, diferentemente dos movimentos que surgem</p><p>do Vaticano para as comunidades, com a redescoberta da riqueza litúrgica e da</p><p>necessidade de sua expansão para o cotidiano do Povo de Deus, realizada pelas</p><p>comunidades monásticas, em especial as beneditinas. O valor da liturgia, em sua</p><p>profundidade teológica, somado ao resgate da importância e da riqueza das</p><p>celebrações das comunidades primitivas ajudam a esclarecer o surgimento deste</p><p>no interior da vida eclesial.</p><p>Assim, um conjunto de preocupações que se estenderam por várias regiões da</p><p>Europa, por intermédio de práticas instituídas nesses locais e da publicação de</p><p>incontáveis obras de índole teológica e litúrgica, essenciais para um</p><p>aprofundamento dos trâmites deste movimento, foram recepcionadas pela Igreja</p><p>Católica.</p><p>Posteriormente, Pio XII estabeleceu comissão para reforma litúrgica geral. Em</p><p>decorrência disso, do trabalho em várias dioceses e dos precedentes estabelecidos</p><p>pela Mediator Dei, resultaram quatro pontos de maior importância: a necessidade</p><p>da introdução de uma língua viva na liturgia, o caráter pastoral da própria</p><p>liturgia,</p><p>sua importância no contexto da missão e o desejo da concelebração (GY, 1967).</p><p>Houve outros acréscimos introduzidos na celebração dos mistérios da fé, com</p><p>irrevogáveis consequências para a vida e para a experiência dos �éis. Reformas</p><p>lentas e pequenas, porém amadurecidas, possibilitaram que o Concílio Vaticano II</p><p>produzisse uma teologia litúrgica nova, enraizada nas experiências positivas dos</p><p>anos anteriores.</p><p>Uma das mudanças mais relevantes e que rendeu frutos manifestadamente</p><p>reconhecidos foi a centralidade atribuída à Palavra de Deus e a sua posição no</p><p>âmbito da experiência de fé pessoal de cada indivíduo e no âmbito da experiência</p><p>celebrativa da comunidade. Essa mesma centralidade renovada é harmonizada por</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>esse movimento litúrgico, surgido em �ns do século XIX, não podendo ser</p><p>compreendido isoladamente, mas em conjunto com outros movimentos</p><p>contemporâneos: ecumênico, patrístico e bíblico. É premente o desejo inabalável</p><p>de regressar às fontes, possibilitando uma renovação da vida cristã no contexto de</p><p>sua experiência celebrativa e litúrgica, tendo como alicerce as primeiras</p><p>comunidades cristãs. Quem é cristão sabe bem o lugar excepcional ocupado pela</p><p>palavra nas celebrações (FERREIRA, 2018). Apesar das mudanças ocorridas no</p><p>decorrer da história, é evidente o desejo de que sua devida importância e lugar</p><p>sejam devolvidos.</p><p>O Concílio deixa clara a importância concedida à revalorização da Bíblia, seja na</p><p>utilização mais variada e frequente dos textos bíblicos, seja na coerência de sua</p><p>distribuição ao longo do ano litúrgico; na presença de três textos na celebração</p><p>dominical e nos comentários acerca deles na homilia; na restauração de elementos</p><p>como a do salmo responsorial; ou no uso das línguas vernáculas na ação litúrgica,</p><p>concedendo ao Povo de Deus a apropriação dessa ação (FERREIRA, 2018).</p><p>A presença da Palavra de Deus, estabelecida pelo próprio Vaticano II, estende-se a</p><p>todas as formas celebrativas, possuindo papel fundamental na reformulação dos</p><p>livros rituais. Percebamos como a celebração tanto dos sacramentos como dos</p><p>sacramentais estão imbuídos da Palavra de Deus não apenas em sua presença</p><p>explícita nos momentos de proclamação do Evangelho ou de leitura relacionada a</p><p>algum rito sacramental (BRADSHAW, 1992), como é comum no novo ritual para</p><p>administrar o sacramento da Penitência ou do Batismo (FERREIRA, 2018; CHAUVET,</p><p>2010), mas também em sua manifestação implícita, uma vez que que as orações</p><p>propostas tiveram a Sagrada Escritura como base em sua elaboração, deixando</p><p>clara a transversalidade do Texto Sagrado, que permeia todos os elementos</p><p>componentes das celebrações litúrgicas, uma linguagem unívoca, posto que é a</p><p>Palavra do próprio Deus que funda a própria liturgia (CHAUVET, 1992). Qualquer</p><p>ato litúrgico que que prescindisse uma liturgia da Palavra seria considerado uma</p><p>autêntica monstruosidade (CASSINGENA-TRÉVEDY, 2013).</p><p>Nos primeiros séculos de existência da Igreja, era nas assembleias litúrgicas que o</p><p>anúncio da Ressurreição de Cristo se mantinha proclamado, o que permitiu o</p><p>desenvolvimento das tradições evangélicas. Posteriormente, estas foram</p><p>registradas por escrito e consagradas como Palavra de Deus escrita e</p><p>canonicamente reconhecida (CHAUVET, 2010). Tal registro escrito traduz, ao</p><p>mesmo tempo, o desejo da manutenção, em tempo de perseguição e de crise, da</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>comunicação da memória cultual, protegendo a doutrina e o dogma contra a</p><p>heresia (JÖRNS, 1992). A própria escrita de Paulo deixa clara a prioridade da prática</p><p>ritual e litúrgica com o intuito de nela encontrar a norma que regulamenta a</p><p>prática sacramental. O que nos permite estabelecer, também, uma íntima ligação</p><p>entre tradição e Sagrada Escritura, conforme descrita na Dei Verbum (PAULO VI,</p><p>1965). Estes são muito mais do que conceitos autônomos, na verdade, trata-se de</p><p>dois requisitos pelos quais a Palavra ecoa viva na Igreja e no mundo até hoje.</p><p>O texto escrito é vivi�cado na Igreja, especialmente na celebração litúrgica, pela</p><p>reunião da assembleia dos santos (THEOBALD, 2009). A liturgia da Palavra é,</p><p>portanto, a visibilidade sacramental dos rudimentos que subsidiaram a produção</p><p>da Bíblia como Palavra de Deus, momento celebrativo que signi�ca, de forma mais</p><p>clara, a pertinência da Palavra proclamada em seu contexto (CHAUVET, 1992).</p><p>A Palavra de Deus é o início de toda a liturgia, pois congrega o povo de Deus na</p><p>assembleia dos santos, traz a ele iluminação e crescimento na fé, revelando-lhe</p><p>mais e mais o mistério que compõe o objeto da celebração; além disso, oferece-lhe</p><p>o próprio Deus, que é ouvido através de suas próprias palavras, e permite que esse</p><p>mesmo povo responda a Ele também com palavras, inspirando-lhe as preces e</p><p>dando-lhe o signi�cado cristão dos sinais. Ela é, dessa forma, primeiro a palavra de</p><p>Deus dirigida aos homens e, depois, a palavra com a qual a humanidade se atreve</p><p>a falar com Ele. Sem a palavra de Deus, a celebração seria mero discurso humano</p><p>(FERREIRA, 2018).</p><p>A restauração da Palavra traz benefícios que extrapolam o contexto litúrgico. É</p><p>possível encontrar, com facilidade, muitos grupos que criaram métodos de oração</p><p>baseados na escuta da Palavra e que renovaram importantíssimos métodos de</p><p>oração e de meditação fundamentados no texto bíblico. Um belo exemplo é a</p><p>Lectio Divina (CNBB, 2010). Práticas têm se mostrado muito fecundas e com</p><p>imenso poder transformador pelo no cotidiano das comunidades cristãs</p><p>(DUCHESNEAU, 1986).</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>Retomando o conceito e a prática da Lectio Divina, expressão bastante</p><p>presente no vocabulário católico e cuja tradução pode ser considerada</p><p>como leitura espiritual ou leitura divina, no Brasil, trata-se de uma leitura da</p><p>Bíblia em oração, que fornece imprescindível nutrição à vida espiritual de</p><p>cada cristão.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>É também um exercício de consciência da vontade divina e de Seu plano</p><p>para a humanidade, produzindo os frutos espirituais para a salvação.</p><p>Realizar a Lectio Divina é se permitir ser envolvido pelo plano da Salvação.</p><p>Seus princípios foram instituídos por volta do ano 220 e praticados por</p><p>monges católicos. O tempo dedicado diariamente a ela sempre foi maior e</p><p>o mais qualitativo do dia. Essa espiritualidade sempre foi bíblica e litúrgica.</p><p>Sua sistematização em método pode ser encontrada desde o século XII.</p><p>A Lectio Divina é, tradicionalmente, uma oração individual, mas, é possível</p><p>fazê-la em grupo. O principal é rezar com a Palavra de Deus, rememorando</p><p>o que dizem os bispos no Vaticano II e a mais antiga tradição católica:</p><p>conhecer a Sagrada Escritura é conhecer o próprio Cristo.</p><p>Alinhado ao movimento bíblico e ao movimento litúrgico, já mencionados e que se</p><p>tornaram deveras pertinentes para a compreensão dos temas que temos</p><p>abordado nesta seção, está o desejo implícito de retorno às fontes primárias do</p><p>cristianismo, como método de renovação da experiência litúrgica e evangélica, no</p><p>anseio de �delidade às origens conforme as intuições das comunidades cristãs</p><p>primitivas, ou primeiras comunidades. Desejo este que é explícito em ambos os</p><p>movimentos, bem como em outro que o ilustra de forma especialmente</p><p>proveitosa: o movimento patrístico, que leva em consideração todo o trabalho já</p><p>realizado de resgate, de tradução e de análise crítica dos escritos desse período da</p><p>antiguidade cristã, o qual demonstra ser um celeiro muitíssimo rico de</p><p>espiritualidade e uma nova descoberta sem igual no que se refere a sua</p><p>contribuição teológica para um novo vigor da re�exão sobre a Igreja.</p><p>O renovo da valorização da Palavra de Deus na vida de cada �el em Jesus, assim</p><p>como na vida da Igreja, em seu conjunto de estruturas e também como reunião</p><p>dos crentes em Cristo, está presente no movimento bíblico, que se iniciou no</p><p>começo do século XX. Já citamos alguns dos fatores históricos que relegaram a</p><p>Sagrada Escritura a um papel secundário ou que restringiram seu acesso pela</p><p>totalidade</p><p>dos cristãos (os mais importantes deles foram a exclusividade do</p><p>manejo, do estudo, da tradução e da interpretação do texto pelos clérigos e a</p><p>rejeição das versões em línguas que não fossem o hebraico, o grego e</p><p>preferencialmente o latim). Entretanto, esse afastamento também possui como</p><p>causa o surgimento de um novo entendimento da própria Sagrada Escritura.</p><p>REFLITA</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Conforme o Papa Bento XVI se pronunciou no Angelus, em 6 de novembro</p><p>de 2005, tendo a Constituição Conciliar Dei Verbum impresso forte estímulo</p><p>à valorização da Palavra de Deus, e deste derivou-se profundo renovo da</p><p>vida da Comunidade da Igreja, especialmente na teologia, na pregação, na</p><p>espiritualidade, na catequese e nas relações ecumênicas (BENTO XVI, 2005).</p><p>Certamente é a Palavra de Deus que, através da ação do Espírito Santo,</p><p>conduz os crentes à plenitude da verdade, o que corrobora o texto do</p><p>Evangelho de João 16.13: “Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade,</p><p>ensinar-vos-á toda a verdade, porque não falará por si mesmo, mas dirá o</p><p>que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão” (BÍBLIA, 1969).</p><p>Após a leitura do que lhe apresentamos nesta seção, você diria que foi o</p><p>Concílio Vaticano II que mudou a liturgia e que redescobriu a riqueza da</p><p>Palavra e dos estudos teológicos ou que foram os estudos teológicos</p><p>fundamentados na Palavra que in�uenciaram a liturgia e a necessidade do</p><p>Concílio Vaticano II?</p><p>A compreensão que se estabeleceu a partir da Reforma Protestante, a qual</p><p>possibilitou a interpretação pessoal da Bíblia conforme a proposta de Martinho</p><p>Lutero, conduziu a um rompimento entre a Palavra de Deus enquanto texto e a</p><p>interpretação dela pelo magistério eclesial, que é atestado por intermédio da</p><p>tradição e da sucessão apostólica, mas que é rejeitado pelo monge alemão.</p><p>Para evitar os perigos advindos dessa compreensão, a Igreja Católica estabeleceu</p><p>proibição da leitura descontextualizada da Sagrada Escritura, exigindo a sua</p><p>interpretação conforme a tradição da Igreja. Considerando que poucos conheciam</p><p>a língua latina, especialmente pelo decorrer dos séculos após a queda do Império</p><p>Romano, a di�culdade do acesso de cada cristão ao texto sagrado foi crescendo</p><p>exponencialmente, tornando quase impossível a experiência de fé e fazendo-a</p><p>restrita aos exercícios de piedade e à prática sacramental.</p><p>O movimento bíblico se constituiu, desse modo, com o objetivo de resgatar a</p><p>Sagrada Escritura como manancial de espiritualidade, reinserindo-a na vida de</p><p>cada cristão, ainda que ancorando sua leitura e sua interpretação à tradição e ao</p><p>magistério eclesial. Tornar possível a tradução da Sagrada Escritura para as línguas</p><p>vernáculas nas localidades foi outro dos benefícios que contribuiu para facilitar</p><p>esse acesso (SCHMIDT, 2018).</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Uma das importantes e relevantes ações foi a publicação da Encíclica Divino</p><p>A�ante Spiritu pelo papa Pio XII. Ela versa sobre estudos bíblicos e sobre fatos</p><p>determinantes para a revalorização desses estudos, como viemos discutindo ao</p><p>longo desta seção. A produção da Divino A�ante Spiritu intencionava regular os</p><p>métodos exegéticos e os métodos interpretativos que poderiam ser utilizados,</p><p>submetendo-os à exegese e à interpretação da tradição eclesial. Os estudos</p><p>bíblicos, após o desenvolvimento de ferramentas exegéticas mais modernas e dos</p><p>avanços relativos às descobertas históricas e arqueológicas ocorridas no século</p><p>XIX, receberam grande incentivo do papa Leão XIII por intermédio da Carta</p><p>Encíclica Providentissimus Deus. Porém, é sempre importante destacar as</p><p>respectivas reservas, como a dependência da ciência exegética tanto à Tradição</p><p>eclesial quanto às Tradições espiritual e interpretativa. A volta sedenta à riqueza</p><p>existente na Palavra de Deus resultou, posteriormente, na redação da Constituição</p><p>Dogmática Dei Verbum (SESBOÜÉ; THEOBALD, 1996).</p><p>A centralidade, já mencionada, conferida à Palavra de Deus no contexto da Igreja,</p><p>destaca ainda outro movimento importante que foi caracterizador das decisões</p><p>conciliares, pois o fato de conceder a primazia à Palavra estabeleceu o alicerce</p><p>para a atmosfera ecumênica, grande surpresa para os observadores advindos de</p><p>outras con�ssões cristãs, que se �zeram presentes nas muitas sessões conciliares</p><p>(ROUGUET, 1965). Mesmo que haja diferenças bem claras entre esse dogma e a</p><p>Sola Scriptura, doutrina protestante que prevê que a Escritura Sagrada é a única</p><p>regra de fé e de prática, houve claro desejo dos participantes do Concílio Vaticano</p><p>II de a�rmarem que toda a Liturgia se fundamenta nas Escrituras, como é possível</p><p>perceber através da leitura da Sacrosanctum Concilium, nº 24 (PAULO VI, 1963).</p><p>ASSIMILE</p><p>Quando o Papa Leão XIII publicou a encíclica Providentissimus Deus, em</p><p>1893, foi marcada uma importante posição contra os excessos racionalistas</p><p>realizados na análise hermenêutica da Sagrada Escritura. O Papa Pio XII</p><p>publicou a encíclica Divino A�ante Spiritu em 1943, pronunciando-se</p><p>contra uma exegese da Sagrada Escritura que fosse estritamente mística.</p><p>Sendo esses documentos anteriores ao Concílio Vaticano II, é possível</p><p>a�rmar que eles prepararam, bem como tornaram possível, o</p><p>desenvolvimento da compreensão teológica acerca da Palavra de Deus e</p><p>também da sua relação com os todos os elementos da fé cristã e da vida</p><p>eclesial.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Tudo isso reforça as a�rmações de que a Nova Liturgia, referendada pelo Concílio</p><p>Vaticano II, não apenas estabelece a primazia da Sagrada Escritura nos estudos</p><p>teológicos, mas também reforça a necessidade da disponibilização dela em língua</p><p>vernácula e de sua utilização na liturgia, possibilitando uma participação ativa de</p><p>cada �el e superando a visão de que a Igreja deve priorizar apenas o clero, porque</p><p>ela é composta, na realidade, por cada cristão dela participante.</p><p>FAÇA VALER A PENA</p><p>Questão 1</p><p>O Concílio Vaticano II foi um dos momentos históricos mais relevantes para uma</p><p>mudança que representa, indubitavelmente, importante marco da valorização da</p><p>Palavra de Deus no contexto litúrgico e eclesiástico. A sua realização contribuiu</p><p>para uma mais proveitosa experiência cristã fundada nas Escrituras Sagradas, que</p><p>é manifestada no alojamento da experiência litúrgica nessa mesma Palavra, bem</p><p>como no enriquecimento da experiência pessoal do �el ao redescobrir, no</p><p>encontro pessoal com a Palavra de Deus, que é Cristo, um dos seus principais</p><p>alimentos, conforme os textos do Evangelho de João corroboram ao chamá-lo de</p><p>Logos e Pão da Vida.</p><p>Qual movimento contribuiu grandemente para as modi�cações na liturgia</p><p>proposta pelo Vaticano II?</p><p>a. Movimento de translação.</p><p>b. Movimento de renovação epistemológica.</p><p>c. Movimento de modernidade.</p><p>d. Movimento litúrgico.</p><p>e. Movimento cristão.</p><p>Questão 2</p><p>Foram três os movimentos que se tornaram deveras pertinentes para a</p><p>compreensão dos temas, como o desejo implícito de retorno às fontes primárias</p><p>do cristianismo e o método de renovação da experiência litúrgica e evangélica no</p><p>anseio de �delidade às origens, conforme as intuições das comunidades cristãs</p><p>primitivas, ou primeiras comunidades. Esse desejo �ca explícito nos movimentos</p><p>que o ilustram, especialmente quando se leva em consideração todo o trabalho já</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>realizado de resgate, de tradução e de análise crítica dos escritos do período da</p><p>antiguidade cristã, que demonstram ser um celeiro muitíssimo rico em</p><p>espiritualidade e uma nova descoberta sem igual no que se refere a sua</p><p>contribuição teológica para um novo vigor da re�exão sobre a Igreja.</p><p>Considerando o texto-base, julgue as a�rmações adiante:</p><p>I. O movimento litúrgico é aquele que se debruçou sobre a análise da liturgia da</p><p>Igreja, tendo como princípio a sua revisão teológica e uma aproximação com os</p><p>atos de culto das comunidades primitivas, bem como a abertura para a</p><p>utilização da língua vernácula.</p><p>II. O movimento bíblico enfatiza a revalorização da centralidade da Escritura</p><p>Sagrada</p><p>tanto na liturgia como na vida eclesial e no cotidiano dos �éis,</p><p>promovendo, inclusive, o incentivo do acesso de todos os �éis à Palavra de</p><p>Deus em língua vernácula.</p><p>III. O movimento patrístico que, em concordância com outros movimentos,</p><p>auxiliou na tradução, no resgate e na interpretação dos textos dos períodos</p><p>iniciais das comunidades de fé cristã, trazendo importante contribuição para a</p><p>vida de toda Igreja hoje.</p><p>IV. O movimento eclético, que soma todos os movimentos de resistência às</p><p>vicissitudes do mundo pagão, resgata o primado da tradição cristã e refuta</p><p>qualquer possibilidade de mudança e modernização.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta as a�rmações corretas.</p><p>a. I, II e III.</p><p>b. III e IV.</p><p>c. I e II.</p><p>d. II, III e IV.</p><p>e. IV.</p><p>Questão 3</p><p>A Palavra de Deus é o início de toda a liturgia, pois congrega o povo de Deus na</p><p>assembleia dos santos, traz a ele iluminação e crescimento na fé, revelando-lhe</p><p>mais e mais o mistério que compõe o objeto da celebração; além disso, oferece-lhe</p><p>o próprio Deus, que é ouvido através de suas próprias palavras, e permite que esse</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ANTUNES, V. A Escritura na Igreja. In: VATICANO II: 50 anos, 50 olhares. Lisboa:</p><p>Paulus Editora, 2012.</p><p>BÉGUERIE, P. La Bible née de la Liturgie. La Maison-Dieu, Paris, n. 126, Les Éditions</p><p>du Cerf, 1976.</p><p>mesmo povo responda a Ele também com palavras, inspirando-lhe as preces e</p><p>dando-lhe o signi�cado cristão dos sinais. Ela é, dessa forma, primeiro a palavra de</p><p>Deus dirigida aos homens e, depois, a palavra com a qual a humanidade se atreve</p><p>a falar com Ele. Sem a Palavra de Deus, a celebração seria mero discurso humano</p><p>(FERREIRA, 2018).</p><p>COLUNA A COLUNA B</p><p>I. Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia. A. Providentissimus</p><p>Deus.</p><p>II. Carta Encíclica de Pio XII sobra a Sagrada Liturgia. B. Sacrossanctum</p><p>Concilium.</p><p>III. Carta Encíclica de Pio XII sobre os Estudos</p><p>Bíblicos.</p><p>C. Divino A�ante Spiritu.</p><p>IV. Encíclica de Leão XIII sobre a o estudo e</p><p>importância da Escritura Sagrada.</p><p>D. Mediator Dei.</p><p>Relacione o conteúdo da coluna A com os documentos eclesiásticos da coluna B e</p><p>marque a alternativa que evidencie a correta relação entre elas.</p><p>a. I-A; II-C; III-D; IV-B.</p><p>b. I-C; II-B; III-A; IV-D.</p><p>c. I-A; II-B; III-C; IV-D.</p><p>d. I-B; II-D; III-C; IV-A.</p><p>e. I-D; II-A; III-B; IV-C.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>BENTO XVI. ANGELUS, Domingo, 6 de Novembro de 2005 Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3iaDIK7. Acesso em 01 jul. 2021.</p><p>BIANCHI, E. Le caractère central de la Parole de Dieu. In: ALBERIGO, G.; JOSSUA, J.</p><p>(ed.). La Réception de Vatican II. Paris: Les Éditions du Cerf, 1985.</p><p>BÍBLIA. Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João</p><p>Ferreira de Almeida. Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.</p><p>BRADSHAW, P. F. Perspectives historiques sur l’utilisation de la Bible dans la</p><p>Liturgie. La Maison-Dieu, Paris, n. 189, Les Éditions du Cerf, 1992.</p><p>BROVELLI, F. Rassegna bibliográ�ca: spunti di método e di interpretazione. In:</p><p>BROVELLI, F. (ed.). Ritorno alla Liturgia, saggi di studio sul movimento litúrgico.</p><p>Roma: Centro Liturgico Vincenziano, 1989. p. 19-45.</p><p>CARDITA, Â. Verbum Domini: quando a Escritura devém palavra. Theologica,</p><p>Braga, v. 44, n. 2, p. 321-357, 2009. Disponível em: https://bit.ly/3efeIAb. Acesso em:</p><p>1 abr. 2021.</p><p>CASSINGENA-TRÉVEDY, F. La Parole en son Royaume: une approche liturgique.</p><p>Paris: Ad Solem éditions, 2013.</p><p>CHAUVET, L.-M. La dimension biblique des textes liturgiques. La Maison-Dieu,</p><p>Paris, n. 189, Les Éditions du Cerf, 1992.</p><p>CHAUVET, L.-M. Le Corps, chemin de Dieu: les sacrements. Paris: Bayard</p><p>Éditions, 2010.</p><p>CNBB. A Lectio Divina. Confederação Nacional de Bispos do Brasil, [S. l.], 19 maio</p><p>2010. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/a-lectio-divina/. Acesso em: 1 abr.</p><p>2021.</p><p>CORDEIRO, J. Apresentação. In: COSTA, B. F. Movimento Litúrgico em Portugal.</p><p>Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2018.</p><p>COSTA, B. O Movimento litúrgico e a redescoberta da qualidade teológica da</p><p>liturgia. António Coelho e a dimensão teológica do Mistério celebrado, Didaskalia,</p><p>Porto, v. 40, n. 2, p. 135-156, 2010. Disponível em: https://bit.ly/3rbigc6. Acesso em:</p><p>1 abr. 2021.</p><p>DUCHESNEAU, C. Une liturgie qui tire inspiration de la Sainte Écriture. La Maison-</p><p>Dieu, Paris, n. 166, Les Éditions du Cerf, 1986.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/angelus/2005/documents/hf_ben-xvi_ang_20051106.html</p><p>https://doi.org/10.34632/theologica.2009.1783</p><p>https://www.cnbb.org.br/a-lectio-divina/</p><p>https://revistas.ucp.pt/index.php/didaskalia/article/view/2285</p><p>ECCLESIAE. Dom Prosper Guéranger. Ecclesiae, [S. l., s. d.]. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3i612Zl. Acesso em: 2 jul. 2021.</p><p>FERREIRA, J. A Palavra e o Rito. In: FERREIRA, J. Os Mistérios de Cristo na Liturgia.</p><p>Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2018.</p><p>GY, P.-M. Situation Historique de la Constitution. In: CONGAR, Y. et al. La Liturgie</p><p>après Vatican II: bilans, études, prospective. Paris: Les Éditions du Cerf, 1967. v.</p><p>66. (Unam Sanctam).</p><p>JÖRNS, K. Liturgie – Berceau de l’Écriture. La Maison-Dieu, Paris, n. 189, Les</p><p>Éditions du Cerf, 1992.</p><p>JOSSUA, J. La constitution ‘Sacrosanctum Concilium’ dans l’ensemble de l’oeuvre</p><p>conciliaire. In: CONGAR, Y. et al. La Liturgie après Vatican II: bilans, études,</p><p>prospective. Paris: Les Éditions du Cerf, 1967. v. 66. (Unam Sanctam).</p><p>KORZENIOWSKI, D. Odo Casel OSB. Diecezjalna Diakonia Liturgiczna, [S. l., s. d.].</p><p>Disponível em: https://bit.ly/2U7fWqj. Acesso em: 2 jul. 2021.</p><p>LEÃO XIII. (1893). Providentissimus Deus. Vatican, [S. l., s. d.]. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3ec3fBy. Acesso em: 1 abr. 2021.</p><p>OLIVEIRA, A. O Concílio da Palavra de Deus. In: VATICANO II: 50 anos, 50 olhares.</p><p>Lisboa: Paulus Editora, 2012.</p><p>OLSON, C. E. Recovering the Cosmos: The theological and spiritual vision of Fr.</p><p>Louis Bouyer. 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Acesso em: 2 jul. 2021.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://ecclesiae.com.br/index.php?route=product/author&author_id=1497</p><p>https://www.liturgia.krakow.pl/materialy/materialy-ze-spotkan/ojcowie-odnowy-liturgicznej/odo-casel-osb</p><p>http://www.vatican.va/content/leo-xiii/en/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18111893_providentissimus-deus.html</p><p>https://www.catholicworldreport.com/2019/10/25/recovering-the-cosmos-the-theological-and-spiritual-vision-of-fr-louis-bouyer/</p><p>https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html</p><p>https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19631204_sacrosanctum-concilium_po.html</p><p>http://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_30091943_divino-afflante-spiritu.html</p><p>http://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_20111947_mediator-dei.html</p><p>https://www.vitaepensiero.it/autore-romano-guardini-105777.html</p><p>ROUGUET, A. 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Bíblia e Vaticano II. In: VATICANO II: 50 anos, 50 olhares. Lisboa: Paulus</p><p>Editora, 2012.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2018-03/concilio-vaticano-ii-sacrosanctum-concilium-palavra-ambao.html</p><p>https://www.newliturgicalmovement.org/2009/08/dom-lambert-beauduins-1914-programme.html#.YN9MMuhKjIV</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>CENÁRIO DOS EVANGÉLICOS</p><p>Marcos Porto Freitas da Rocha</p><p>Imprimir</p><p>CONVITE AO ESTUDO</p><p>Seja bem-vindo à Unidade 4 da disciplina Teologias Contemporâneas I. Nesta</p><p>unidade, denominada “Cenário religioso no século XX no contexto brasileiro”,</p><p>estudaremos as diversas religiões que compuseram a religiosidade nacional, bem</p><p>como a in�uência que transformações no campo da fé ao redor do mundo</p><p>provocaram no Brasil. Considerando que nosso país possui um altíssimo</p><p>percentual de declarantes das religiões cristãs, iniciaremos pelos evangélicos e</p><p>protestantes, em seguida, abordaremos as transformações católicas, culminando</p><p>com a análise dos aspectos sociais impactados pelas perspectivas teológicas em</p><p>questão. Buscaremos perceber, também, as alterações na fenomenologia das</p><p>religiões e suas in�uências em pesquisas sobre o(s) sagrado(s).</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Caríssimo aluno, conheceremos, nesta jornada, as teologias brasileiras e as</p><p>religiosidades presentes em nosso país.</p><p>Nesta unidade, perceberemos a importância da contribuição de cada matriz</p><p>religiosa para o contexto religioso nacional; tais contribuições não se resumem ao</p><p>ambiente religioso, nem mesmo à fenomenologia da religião.</p><p>Veremos que, com o aumento da parcela da população que se autodeclara</p><p>protestante, há o surgimento e um exponencial crescimento das denominações</p><p>evangélicas, o que poderemos perceber pela análise de dados obtidos a partir de</p><p>censos demográ�cos e religiosos de várias décadas. Além disso, autores como</p><p>Rocha (2020), Pierucci e Prandi (1995) e Camurça (2014) poderão nos auxiliar nessa</p><p>compreensão, ao lado de outros que também estudam o movimento evangélico.</p><p>Neste contexto, abordaremos, também, as aspirações de algumas denominações</p><p>evangélicas (em maior grau) e protestantes (em menor grau) para a ocupação de</p><p>cargos públicos eletivos e de livre nomeação. Além disso, procuraremos identi�car</p><p>as motivações para tais atos, bem como suas consequências políticas, sociais e</p><p>econômicas, além, é claro, das religiosas. Destacaremos, também, o aumento de</p><p>casos de intolerância religiosa contra religiões de matrizes diversas ao cristianismo.</p><p>Estudaremos as in�uências da religiosidade privada no espaço público, com a</p><p>designação de cargos em áreas da educação, da saúde e da segurança pública, por</p><p>exemplo, para correligionários de políticos reconhecidamente religiosos.</p><p>Perceberemos, en�m, um distanciamento de algumas denominações em relação</p><p>às questões sociais, de direitos humanos e de direitos sociais, e sua concentração</p><p>em questões de fé, bem como a ênfase de produção teológica ou discursos</p><p>teológicos apologéticos, destacando a rejeição às questões de diversidade de</p><p>gênero, às questões raciais e à cultura afro-brasileira.</p><p>Considere que você é membro de uma igreja evangélica e faz parte da liderança</p><p>religiosa, sem, contudo, ser o pastor ou a pastora. Imagine que, nesse contexto,</p><p>você seja uma pessoa que goza de in�uência e prestígio não apenas entre os</p><p>pares, que partilham a liderança, mas também entre a membresia.</p><p>Em uma reunião ministerial, apresenta-se a proposta de apoio a um determinado</p><p>político local, que é oriundo da mesma comunidade de fé, e que, por vezes, foi</p><p>auxiliado, quando era mais jovem, pelos programas de assistência social desta</p><p>igreja.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>O projeto político do candidato inclui a implementação de programas de</p><p>assistência social à comunidade civil no entorno da igreja. Trata-se de uma</p><p>população muito carente, de modo que grande parte das pessoas foi, inclusive,</p><p>assistida pelos programas sociais da igreja. As propostas do candidato são sólidas</p><p>e factíveis, estando distantes da autopromoção ou de ações por mera</p><p>conveniência, como a instalação de um centro social com vistas apenas à</p><p>“�delização política”; ao contrário, o candidato propõe ações fundamentadas na</p><p>criação de centros pro�ssionalizantes municipais e na valorização de categorias</p><p>pro�ssionais da educação, da saúde, da segurança pública, entre outras, com</p><p>melhorias em planos de carreira, apenas para citar alguns exemplos de seus</p><p>projetos interessantes.</p><p>Percebendo que o candidato apresenta boas propostas para a comunidade, o líder</p><p>religioso da igreja convoca a todos que compõem a liderança a apoiarem e</p><p>promoverem a candidatura deste político, com o argumento de que o candidato</p><p>estaria se propondo a retribuir todo o cuidado que recebeu da igreja, sem realizar</p><p>um bem exclusivo a ela, mas a toda a comunidade carente do entorno.</p><p>Diante desta proposta, e baseado nos valores preconizados nos evangelhos, como</p><p>você se posicionaria?</p><p>“A verdadeira medida de um homem não se vê na forma como ele se comporta em</p><p>momentos de conforto e conveniência, mas em como se mantém em tempos de</p><p>controvérsia e desa�o” - Dr. Martin Luther King Jr.</p><p>Aproveitemos este tempo, então, para deixar nossa zona de conforte e crescer</p><p>juntos.</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>PANORAMA CENSITÁRIO DA RELIGIÃO NO BRASIL - SÉCULO XX</p><p>O Instituto de Estudos da Religião (ISER) prestou muitas consultorias ao Instituto</p><p>Brasileiro de Geogra�a e Estatística (IBGE) no que se refere aos censos acerca da</p><p>religião no Brasil. Fernandes et al. (1998) previram que Organizações não</p><p>Governamentais (ONGs) sérias deveriam atrair pesquisadores da academia,</p><p>recursos da cooperação internacional ou contratados de instituições</p><p>governamentais nacionais para realizar pesquisas ágeis e e�cientes. Assim, a �m</p><p>de atender às exigências de celeridade, com vistas à aplicação de pesquisas e</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>avaliações em políticas públicas que não poderiam aguardar o ritmo próprio das</p><p>universidades e centros de pesquisa, cada vez mais se recorreu a instituições como</p><p>o ISER.</p><p>Em 1992, o núcleo de pesquisa do ISER realizou pesquisas quantitativas, algumas</p><p>combinadas com pesquisas de campo de caráter qualitativo, dentre as quais se</p><p>destaca um projeto intitulado Novo Nascimento: os evangélicos em casa, na igreja</p><p>e na política (1998), dando seguimento ao Censo Institucional Evangélico, realizado</p><p>pelo núcleo de pesquisa do ISER, em 1992.</p><p>Em 1996, Antônio Flávio Pierucci e Reginaldo Prandi, do departamento de</p><p>Sociologia da USP, publicavam a pesquisa Realidade social das religiões no Brasil:</p><p>religião, sociedade e política. Desse modo, registrou-se o panorama das religiões</p><p>no país, incluindo sua relação com a política/voto, para demarcar a</p><p>extensão/limites da “liberdade religiosa” em relação às “liberdades civis” e a ação</p><p>legislativa do Estado para o bem comum. Percebia-se, nesse contexto, a</p><p>estruturação de um mercado de concorrência entre as próprias religiões</p><p>(CARREIRO, 2009).</p><p>O Centro de Estatística Religiosa e Investigação Social (CERIS), fundado em 1962</p><p>pela Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB), como órgão de assessoramento,</p><p>realizava um Censo Anual da Igreja Católica no Brasil e um Banco de Dados e</p><p>Estatística com informações acerca da presença da Igreja na sociedade.</p><p>O Anuário Estatístico do Brasil, o Censo Demográ�co do Brasil (1940/1950/1960),</p><p>as Estatísticas do Culto Católico, as Estatísticas do Culto Protestante e o Boletim</p><p>Informativo do CERIS apresentavam a evolução do contingente populacional que</p><p>declaravam pertencer a algum credo religioso, isto nos permite analisar as</p><p>variações dos diversos grupos religiosos, trânsito religioso, crescimento ou</p><p>decréscimo de praticantes de algum credo, dentre outras informações.</p><p>REFLITA</p><p>É importante perceber que o protestantismo não deixou de existir com o</p><p>surgimento do evangelicalismo. O fato de o crescimento da população que</p><p>se declara membro de alguma denominação evangélica ter crescido</p><p>exponencialmente e até mesmo superado o contingente de protestantes</p><p>não signi�ca que os protestantes tornaram-se evangélicos. Desde a década</p><p>de 1980, gradualmente, o termo evangélico foi substituindo o termo</p><p>protestante, tanto na academia quanto no meio religioso, e os próprios</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>protestantes começaram a se denominar assim, até mesmo como reforço</p><p>de sua diferenciação dos cristãos católicos romanos, uma vez que,</p><p>anteriormente, os protestantes eram comumente chamados de cristãos ou</p><p>“bíblias”, posto que, não raro, carregavam um exemplar do Livro Sagrado</p><p>consigo.</p><p>O livro de Cândido Procópio Camargo, Católicos, Protestantes e Espíritas (1973),</p><p>uma das primeiras abordagens sociológicas do panorama religioso brasileiro,</p><p>baseava-se na tipologia religiosa dos Censos do IBGE de 1940 e 1950, que</p><p>apresentavam os seguintes dados: católicos 93,7%, protestantes 3,4%, espíritas</p><p>1,6%, budistas 0,3%, judeus 0,1%, ortodoxos 0,1%, maometanos 0,0%, outros 0,5%</p><p>e sem religião 0,5% (CAMARGO, 1973).</p><p>Convém observar, também, no período de 1980 a 2010, a variação entre os que se</p><p>declaram religiosos no Brasil e os que se declaram não adeptos de nenhuma</p><p>religião, conforme Tabela 4.1</p><p>Tabela 4.1 | População brasileira por religião – 1980-2010 (%)</p><p>1980 1991 2000 2010</p><p>Católicos romanos 89,0 83,3 73,6 64,6</p><p>Evangélicos 6,6 9,0 15,4 22,2</p><p>Espíritas 0,7 1,1 1,3 2,0</p><p>Umbandas e Candomblé 0,6 0,4 0,3 0,3</p><p>Outras religiosidades 1,5 1,4 1,8 2,9</p><p>Sem religião 1,6 4,8 7,4 8,0</p><p>Fonte: IBGE (1980; 1991; 2000; 2010).</p><p>ISER E CONTRIBUIÇÕES AO IBGE</p><p>Retomando a análise realizada na pesquisa intitulada Novo Nascimento sobre os</p><p>evangélicos, em casa, na igreja e na política, percebemos que, quanto à</p><p>metodologia e aos critérios classi�catórios, buscava-se, face à pluralidade de</p><p>denominações evangélicas no Brasil, complexi�car uma tipologia já clássica nos</p><p>estudos de protestantismo. A tipologia tradicional de caráter dualista dividia o</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>grupo religioso protestante em históricos e pentecostais; a nova classi�cação</p><p>proposta pelo ISER estabelecia uma divisão rami�cada e plural, acompanhando a</p><p>realidade empírica do protestantismo e, para tal, deu a nomenclatura de</p><p>“evangélico” para todo o segmento protestante, com vistas a recepcionar as novas</p><p>denominações religiosas em seus subgrupos, dividindo, então, a categoria em</p><p>segmentos: “assembleias”, “batistas”, “outras pentecostais”, “Universal”, “históricas”</p><p>e “renovadas” (FERNANDES et al., 1998).</p><p>A visibilidade que esta pesquisa obteve na opinião pública especializada, tanto na</p><p>academia quanto nos institutos de pesquisa públicos e privados, chamou a</p><p>atenção do IBGE, isso por conta da amplitude do trabalho e de sua ousadia</p><p>metodológica e temática ao tratar de uma realidade emergente no Brasil dos anos</p><p>1990, observando, em especial, o impacto do crescimento evangélico; foi assim</p><p>que essa pesquisa in�uenciou a tabulação do Censo de 1991, especialmente</p><p>quanto à pertença religiosa.</p><p>Havia di�culdades de classi�car as denominações (agora) evangélicas em virtude</p><p>da diversidade declarada pelos respondentes, por conta das similitudes, por</p><p>exemplo: “Casa da Benção”, “Internacional da Benção” ou “Templo da Benção”, e</p><p>“Igreja Cristã Maranata”, “Maranata-Amém”, “Igreja Evangélica Maranata”. Outra</p><p>di�culdade do IBGE foram as declarações de indivíduos com crenças sincréticas</p><p>das religiosidades populares católico-afro-brasileiras, como “Vó Rosa”, “Casa Vó-</p><p>Rosa”, entre outras (CAMURÇA, 2014). Ficou evidente, dessa maneira, que a antiga</p><p>tipologia de descritores, pouco especí�ca, não comportava mais a diversidade das</p><p>religiões declaradas pela população no censo. Neste sentido, ao invés do descritor</p><p>genérico “católicos”, foi proposto “católicos apostólicos romanos”, “católicos</p><p>apostólicos brasileiros” e “católicos ortodoxos”, dentro da rubrica que abarcava</p><p>“cristãos tradicionais”. Substituiu-se a categoria “protestantes” por “cristãos</p><p>reformados”, que se desdobrava em: “evangélicos tradicionais”, englobando</p><p>adventistas, batistas, luteranos, metodistas, presbiterianos e outros; “evangélicos</p><p>pentecostais”, englobando Assembleia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Deus</p><p>é Amor, Evangelho Quadrangular, Universal do Reino de Deus e outras (como O</p><p>Brasil para Cristo, Casa da Benção, Maranata, etc.); e “cristão reformado não-</p><p>determinado”, que reunia declarações genéricas, como “cristão pentecostal”,</p><p>“crente”, “evangélico”, “crente pentecostal”.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Foi criada a categoria “neocristãos”, abrangendo: mórmons, testemunhas de Jeová</p><p>e outros (“Ciência Cristã”, “Racionalismo Cristão”, etc.). As “religiões mediúnicas”</p><p>foram divididas em “espiritismo”, “umbanda” e “candomblé”. Os outros descritores</p><p>permaneceram como nos censos anteriores (CAMURÇA, 2014). Entretanto, nem</p><p>todos os descritores foram acatados pelo IBGE, seja no Censo em curso ou nos</p><p>posteriores, como veremos a seguir.</p><p>ASSIMILE</p><p>Pela categorização atual realizada pelo IBGE, as igrejas evangélicas são</p><p>divididas em dois grandes grupos.</p><p>O primeiro grupo é o segmento das religiões evangélicas denominadas de</p><p>históricas ou não pentecostais que, no Brasil, é composto, especialmente,</p><p>pelas denominações batista, luterana, episcopal, presbiteriana e metodista,</p><p>ainda que haja entre estas algumas Igrejas denominadas renovadas ou</p><p>pentecostais, que devem ser contabilizadas entre as que compõem o</p><p>próximo segmento.</p><p>O segundo grupo é o segmento das religiões evangélicas pentecostais, nas</p><p>quais se incluem as neopentecostais, sobretudo: Universal do Reino de</p><p>Deus, Assembleia de Deus, Congregação Cristã no Brasil, O Brasil para</p><p>Cristo, Deus é Amor, etc. A inovação incorporada por denominações</p><p>pentecostais e neopentecostais é a concentração de seu credo na ação do</p><p>Espírito Santo, o que se percebe manifestadamente na reprodução, durante</p><p>suas celebrações, de algumas porções do dia de Pentecostes, descrito no</p><p>livro de Atos dos Apóstolos, em que o �el falaria em “línguas estranhas”, em</p><p>uma reinterpretação do fato de que os Apóstolos falaram em suas línguas</p><p>natais e a assistência entendeu, cada um, em sua própria língua natal.</p><p>A Proposta preliminar de classi�cação das Declarações de Religião para o Censo</p><p>2000, elaborada pelo ISER, trouxe mais aberturas nos tipos se comparada à tabela</p><p>de classi�cação do censo anterior, como é o caso da categoria “religiões orientais”,</p><p>que se desdobrou em “budismo”, “hinduísmo”, “outras orientais” e “tradições</p><p>esotéricas” (MAFRA, 2004).</p><p>Mafra (2004), no entanto, faz indagações quanto à e�cácia das alterações feitas</p><p>pelo IBGE, não recepcionando a proposta do ISER quanto à nova tabela de</p><p>descritores. As categorias “católicos apostólicos brasileiros” e “católicos ortodoxos”</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>foram transferidas para “outras religiões”. Do mesmo modo, a categoria</p><p>“renovados” foi retirada de “evangélicos pentecostais”, transferida e repartida nas</p><p>classi�cações das igrejas “tradicionais”, a saber: adventista, batista, metodista,</p><p>presbiteriana e outras, o que resultou em um aumento arti�cial da categoria</p><p>“evangélicos tradicionais” (MAFRA, 2004).</p><p>Em 2000, havia, aproximadamente, 170 milhões de brasileiros, destes, 26 milhões</p><p>(15%) declararam-se evangélicos. Trata-se de um espantoso crescimento, que</p><p>se</p><p>re�ete em sua visibilidade na política nacional, tornando-os objeto de um bom</p><p>número de estudos. A título de comparação, em 1980, havia 7,8 milhões de</p><p>evangélicos no país. O aumento desse contingente também pode ser percebido</p><p>entre os membros do Poder Legislativo e do Poder Executivo, em diversos cargos</p><p>eletivos.</p><p>Vamos analisar, agora, as interpretações que emergem na literatura recente sobre</p><p>o segmento evangélico, o qual, a partir das alterações no censo já explicitadas,</p><p>abarca protestantes e evangélicos. Primeiro, existe uma interpretação de que os</p><p>evangélicos gozam de condições econômicas e sociais deveras adversas. A opção</p><p>pelo evangelicalismo seria, então, característica de segmentos sociais com poucos</p><p>recursos �nanceiros, algo que não se re�ete, no entanto, nos grandes líderes de</p><p>segmentos neopentecostais, especialmente aqueles com grande visibilidade na</p><p>mídia e meios políticos.</p><p>Essa primeira interpretação busca entender as razões relativas ao aumento de</p><p>evangélicos, enquanto outra interpretação tem por objetivo entender o padrão de</p><p>comportamento político dos indivíduos desse segmento religioso. Esta segunda</p><p>interpretação vincula os evangélicos a posições comumente ligadas à direita do</p><p>espectro político-ideológico. Motivados pelo posicionamento moral e político, estes</p><p>evangélicos seriam componentes da base social de uma recém-denominada nova</p><p>direita. Há, ainda, uma análise dos determinantes do voto: ser evangélico,</p><p>especialmente neopentecostal, de acordo com algumas pesquisas, pressupõe</p><p>lealdades políticas automáticas, no sentido de privilegiar o voto em nomes ligados</p><p>ao evangelicalismo, movimento também conhecido como “cristão vota em cristão”.</p><p>Em seguida, buscaremos diagnosticar ou mapear o comportamento político-</p><p>eleitoral dos evangélicos quanto: ao nível de so�sticação política; à preferência</p><p>partidária; e às principais determinantes do comportamento eleitoral.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>INTERPRETAÇÕES SOBRE O CRESCIMENTO DO PÚBLICO EVANGÉLICO</p><p>E SUA CONDUTA ELEITORAL</p><p>Uma das mais importantes transformações da arena religiosa no Brasil nas duas</p><p>últimas décadas do século XX tem sido o crescimento das religiões evangélicas,</p><p>algo que pode ser compreendido pela leitura da Tabela 4.2. Se, em 1980, por volta</p><p>de 6,6% da população brasileira declarava-se evangélica, o Censo de 2000 revelou</p><p>que, naquele ano, já perfaziam 14,6 % do total dos brasileiros (IBGE, 1980; 2000).</p><p>Tabela 4.2 | Distribuição da população brasileira segundo religiões (1980/2000)</p><p>Religião 1980 (%) 2000 (%) Variação sobre</p><p>N absoluto 1980/2000</p><p>(%)</p><p>Católica 88,9 73,8 18,1</p><p>Evangélica não</p><p>pentecostal</p><p>3,4 4,2 78,0</p><p>Evangélica pentecostal 3,2 10,4 357,9</p><p>Kardecistas 0,7 1,4 171,9</p><p>Afro-brasileiras 0,6 0,3 -15,8</p><p>Outras 1,2 1,6 79,7</p><p>Sem religião 1,6 7,3 531,3</p><p>Sem declaração 0,2 0,2 27,6</p><p>Total 100 100 -</p><p>População Total do Brasil</p><p>(N)</p><p>119.011.052 169.411.759 42,3</p><p>Fonte: IBGE (1982; 2000) e Bohn (2004, p. 291).</p><p>Interpretações acerca desse incremento da adesão à fé evangélica que apontem</p><p>de modo enfático para a existência de uma possível onda de “ressacralização” da</p><p>existência, ou, talvez, para um “reencantamento” do mundo são, evidentemente,</p><p>insu�cientes para apreender o que se passa, considerando que sua ocorrência se</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>dá ao mesmo tempo em que há grande crescimento, tanto relativo como absoluto,</p><p>do número de brasileiros sem vínculos religiosos (KNUTSEN, 2004). De 1980 a</p><p>2000, esse último grupo, que se limitava a 1,6%, cresceu até atingir a marca de</p><p>7,3% da população, um crescimento superior a 531% em números absolutos.</p><p>O aumento do número de evangélicos, e também do público irreligioso, é</p><p>associado, por alguns autores, ao declínio do protagonismo da igreja católica na</p><p>adaptação das relações entre as religiões e o Estado no Brasil (MONTERO;</p><p>ALMEIDA, 2000). Apesar de os brasileiros, predominantemente, ainda se</p><p>declararem católicos, esse percentual decresceu desde a laicização do Estado,</p><p>iniciada pela Constituição de 1891 (ROCHA, 2020). Mesmo a população nacional</p><p>tendo crescido 42,3% entre 1980 e 2000, o percentual de católicos caiu de 88,9%</p><p>para 73,8% da população, conforme Tabela 4.2.</p><p>A interpretação de que o declínio da predominância da Igreja Católica é um</p><p>importante fator para a compreensão do aumento de adeptos de outras religiões é</p><p>insu�ciente, porém, podemos observar uma queda de adeptos das religiões afro-</p><p>brasileiras (umbandas e candomblé), as quais foram perseguidas no período de</p><p>hegemonia católica por serem de con�ssões mediúnicas, caracterizadas, por</p><p>décadas, como crimes, e associadas a práticas de magia negra (MONTERO;</p><p>ALMEIDA, 2000).</p><p>Independentemente do que motive a atração de adeptos das religiões católica e</p><p>afro-brasileiras, é fato que o crescimento do segmento evangélico não ocorre de</p><p>forma homogênea. Nas duas últimas décadas do século XX, a região Nordeste teve</p><p>um crescimento maior em relação às outras regiões, especialmente a Sul (IBGE,</p><p>2000). Outro fator que merece destaque é que as religiões evangélicas</p><p>pentecostais apresentaram um crescimento muito maior do que as históricas. O</p><p>avanço do evangelicalismo pentecostal pode ter sido promovido pela razão de o</p><p>pentecostalismo e, mais especi�camente, o neopentecostalismo, não ser</p><p>considerado uma religião inteiramente estrangeira, pelo fato de conter alguns</p><p>elementos que possuem similaridades com práticas mediúnicas de religiões de</p><p>origem afro-brasileira (MONTERO, 1999; FERNANDES et al., 1998).</p><p>Outra possível razão que explica o crescimento dos evangélicos faz referência ao</p><p>desgaste da situação socioeconômica do país. Fernandes et al. (1998) argumentam</p><p>que o crescimento expressivo dos evangélicos advém de escolhas feitas pelos</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>pobres. Conforme outros autores, há grande relação entre membros de igrejas</p><p>pentecostais e condições que ensejam pobreza, o que não se veri�ca entre</p><p>evangélicos, de modo geral (MONTERO; ALMEIDA, 2000; PIERUCCI; PRANDI, 1995).</p><p>Evangélicos pentecostais possuem membros entre as camadas sociais mais ricas,</p><p>geralmente líderes religiosos e suas famílias, além de políticos in�uentes, mas</p><p>também conseguem penetrar nas margens da sociedade: áreas que têm se</p><p>apresentado, salvo raras exceções e por motivos diversos, com reduzido ou</p><p>pouquíssimo acesso a outros segmentos religiosos. São âmbitos sociais, e mesmo</p><p>espaços geográ�cos, que, em razão de sua precariedade, revelam que o poder</p><p>público pouco se faz presente (NOVAES, 2001; MONTERO, 1999; BURDICK, 1993).</p><p>O segmento evangélico atrai atenção acadêmica não apenas pela expansão,</p><p>natureza e rapidez de seu crescimento ou pela sua possível relação com a pobreza;</p><p>sua visibilidade no cenário eleitoral, especialmente sua maior e cada vez mais</p><p>comum presença nas câmaras legislativas e cargos nos poderes executivos de</p><p>todas as esferas, é o que mais chama a atenção. Esse fato nos leva a analisar quais</p><p>os fundamentos do comportamento dos eleitores brasileiros �liados a essas</p><p>denominações. Haveria uniformidade entre diferentes denominações quanto aos</p><p>determinantes do voto, às atitudes cívicas, aos níveis de participação política e ao</p><p>posicionamento ideológico?</p><p>Teses acerca da apatia de evangélicos em relação à esfera política, talvez fruto da</p><p>defesa do estado laico pelos protestantes históricos, não se sustentam, como</p><p>demonstram Pierucci (1989), Freston (1993), Fonseca (2002), Oro (2003) e Gomes</p><p>(1996). Para tanto, vários mapeamentos do comportamento político dos indivíduos</p><p>evangélicos foram realizados.</p><p>Com base na atuação dos deputados federais na Assembleia Nacional Constituinte</p><p>(1986-1988), Pierucci (1989), mesmo reconhecendo a existência de uma “esquerda</p><p>evangélica”, defende a tese de que os parlamentares de denominações</p><p>pentecostais e não pentecostais compuseram uma espécie de “nova direita”,</p><p>considerando que, além da defesa de posições socioeconômicas direitistas</p><p>tradicionais, autoproclamaram-se guardiões da moral e da família</p><p>(PIERUCCI,</p><p>1989). Ressalta, contudo, que a bancada evangélica não apresentou total</p><p>homogeneidade política e ideológica, o que indica heterogeneidade de suas bases</p><p>eleitorais (PIERUCCI, 1989).</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Pierucci e Mariano (1992) propõem que o repúdio à candidatura de Lula e a opção</p><p>por Fernando Collor, em 1989, advieram do receio das lideranças evangélicas em</p><p>relação à implantação de um possível comunismo ateu, em caso de vitória de Lula,</p><p>ou à retomada da predominância da Igreja Católica, especialmente dos setores que</p><p>se relacionam ao Partido dos Trabalhadores (PT). A história mostrou que nada</p><p>disso ocorreu, mesmo com a assinatura do Acordo Brasil – Santa Sé, Decreto nº</p><p>7107/2010.</p><p>Diversos trabalhos, além deste, realizam análises do comportamento eleitoral dos</p><p>evangélicos, e também ressaltam os traços antiesquerdistas deste segmento,</p><p>detalhando que, ao menos quanto à eleição presidencial de 1994, pentecostais e</p><p>neopentecostais foram os grupos religiosos entre os quais a candidatura de Lula</p><p>sofreu maior rejeição (BOHN, 2004).</p><p>Para além da análise do posicionamento à direita do espectro político-partidário</p><p>demonstrado pelos evangélicos, é preciso analisar os determinantes do seu voto.</p><p>Fonseca defende a tese de que os evangélicos votam em seus semelhantes, sejam</p><p>irmãos, pastores, ou aqueles que foram por estes indicados (FONSECA, 2002). Em</p><p>outra obra, é possível entender que essa associação é especialmente forte em �éis</p><p>da Igreja Universal do Reino de Deus (FERNANDES et al., 1998). Novaes, no entanto,</p><p>discorda que existam lealdades religiosas automáticas em relação a ofertas</p><p>partidário-eleitorais, uma vez que, considerando o enorme número de igrejas</p><p>evangélicas, é impossível garantir consensos entre denominações, tampouco é</p><p>possível a�rmar que estes votem, necessariamente, conforme a orientação de seus</p><p>líderes religiosos (NOVAES, 2001).</p><p>De fato, há uma grande diversidade entre as igrejas evangélicas: na pesquisa do</p><p>Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), foram identi�cadas 68 denominações evangélicas</p><p>(CESOP, 2002). É temerário, assim, sequer supor qualquer tipo de homogeneidade</p><p>de conduta ou comportamento político e eleitoral diante de tal diversidade.</p><p>Uma consideração importante é que o campo religioso evangélico se sujeita a, pelo</p><p>menos, dois tipos de movimento que atuam em direções opostas, entretanto, com</p><p>impactos sobre a �liação religiosa e a lealdade política. O primeiro é a ênfase na</p><p>�delidade ao local de culto, que incentiva a multiplicação de templos de uma</p><p>mesma visão religiosa, mas inibe a formação de hierarquias entre igrejas. No meio</p><p>neopentecostal, porém, ocorre a multiplicação de �liais religiosas com estruturas</p><p>equivalentes ao papado católico romano, que induzem a hegemonização de</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>pensamento religioso do “Pastor presidente” ou “Ancião”, e veiculam preferências</p><p>políticas homogêneas. Contudo, há, concomitantemente, uma fragilidade nas</p><p>relações de rompimento e criação de novas denominações motivadas por</p><p>divergências religiosas, pois não havendo um colegiado ao qual se recorra para</p><p>manter a coesão denominacional, facilmente os dissidentes fundam novas igrejas,</p><p>as quais são re�exos do pensamento religioso do líder recém-alçado.</p><p>Há, também, a intensa competitividade entre as denominações, o que di�culta a</p><p>formulação de pautas comuns de ação política.</p><p>Por mais paradoxal que pareça, o trânsito religioso existente não inibe que as</p><p>diferentes denominações evangélicas homogeneízem-se acerca de uma exigência</p><p>de exclusiva dedicação ao culto, algo que aumenta signi�cativamente os níveis de</p><p>assiduidade aos cultos e, em consequência, sua exposição à autoridade religiosa.</p><p>Assim, se, de certo modo, há um mercado religioso competitivo, de outro, as</p><p>autoridades são expressivamente mais presentes nas vidas dos membros, e as</p><p>lideranças gozam de mais espaço para in�uenciá-los politicamente, caso desejem.</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>DADOS DE FILIAÇÃO RELIGIOSA A PARTIR DA ESEB</p><p>Para nossa análise relativa à adesão religiosa da população brasileira nos</p><p>segmentos evangélicos, tomaremos como base o Estudo Eleitoral Brasileiro</p><p>(ESEB) (CESOP, 2002), que se utilizou de uma amostra que abrangeu todas</p><p>as regiões do país. Realizaram-se 2.513 entrevistas no período de 31 de</p><p>outubro a 28 de dezembro de 2002, nas quais foram encontradas 88</p><p>diferentes religiões, considerando separadamente cada denominação</p><p>evangélica. Apresentaremos duas subamostras que tratam os dados de</p><p>formas diferentes.</p><p>A Tabela 4.3 tem como objetivo destacar as características do público</p><p>evangélico em relação a outros grupos religiosos, em uma tentativa de</p><p>captar eventuais diferenças entre os segmentos. Ela reúne os principais</p><p>grupos religiosos, mas agrega os evangélicos não pentecostais e</p><p>pentecostais em um mesmo bloco. As religiões afro-brasileiras registradas</p><p>foram candomblé e umbanda. As religiões budista, judaica, messiânica,</p><p>seisho-no-iê, Perfeita Liberdade e Santo Daime foram reunidas na categoria</p><p>“Outras".</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Tabela 4.3 | Distribuição das religiões brasileiras (% na população e % na pesquisa ESEB)</p><p>Religiões (%) IBGE 2000 ESEB</p><p>Católica 73,8 69,2</p><p>Evangélica (total) 15,4 15,8</p><p>não pentecostal 4,2 3,7</p><p>pentecostal 10,4 11,1</p><p>Outros (sem especi�cação) 0,8 1,0</p><p>Kardecistas 1,4 2,5</p><p>Afro-brasileiras 0,3 0,9</p><p>Outras 1,6 4,0</p><p>Sem religião 7,3 7,4</p><p>Sem declaração 0,2 0,3</p><p>Total 100 100</p><p>Fonte: IBGE (2000); CESOP (2002); Bohn (2004, p. 295).</p><p>A segunda categorização, Tabela 4.4, enfoca o público evangélico, na</p><p>tentativa de analisar similitudes e divergências interdenominacionais. Em</p><p>virtude de prezar pela densidade estatística, enfocamos as denominações</p><p>da primeira coluna:</p><p>Tabela 4.4 | Distribuição das principais denominações evangélicas no ESEB</p><p>Religiões (%) Somente</p><p>evangélicas</p><p>(%) Total da</p><p>amostra</p><p>Evangélicas pentecostais</p><p>Assembleia de Deus 30,8 5,1</p><p>Congregação Cristã no Brasil 9,6 1,6</p><p>Igreja Universal do Reino de</p><p>Deus</p><p>6,8 1,1</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Outras Pentecostais 20,2 3,3</p><p>Evangélicas não pentecostais</p><p>Batista 12,9 2,1</p><p>Outras não pentecostais 9,8 1,6</p><p>Outras evangélicas</p><p>Não especi�cou</p><p>denominação</p><p>9,8 1,6</p><p>Total (Somente Evangélicas) 100 16,5</p><p>Donec eleifend Donec eleifend Cell 3</p><p>Outras Religiões 83,5</p><p>Total Geral 100</p><p>Fonte: CESOP (2002) e Bohn (2004, p. 296).</p><p>Em tese, podemos supor que hoje existam milhares de denominações</p><p>neopentecostais no Brasil. Surgem igrejas e locais de culto diariamente, com</p><p>amplas diferenças doutrinárias, utilizando, inclusive, recursos sincréticos, práticas</p><p>litúrgicas audaciosas, além de novas e riquíssimas ofertas de bens simbólicos</p><p>(ORO, 2005).</p><p>Segundo Bourdieu, as classi�cações cientí�cas fazem menos referência às coisas</p><p>da ordem do que à ordem das coisas (BOURDIEU, 2001), o autor diz, ainda, que</p><p>construímos e desconstruímos classi�cações no contexto de debates discursivos</p><p>acerca da validade de determinados princípios de visão e de divisão do mundo</p><p>social (BOURDIEU, 1989).</p><p>No entanto, a fragmentação demonstrada nos dados quantitativos apresentados</p><p>aponta para formatos pentecostais novos ou, ainda, para uma diversidade interna</p><p>ao campo denominado neopentecostal.</p><p>Até mesmo os fundamentos, como o batismo pelo espírito santo e a glossolalia,</p><p>marca do princípio do pentecostalismo norte-americano, cedem lugar a iniciativas</p><p>litúrgicas variadas, para o enfrentamento de problemas relacionados aos campos</p><p>sentimentais, �nanceiros, psíquicos e de saúde daqueles que recorrem aos</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>templos. A liturgia remodelada, impregnada de conteúdo mágico, relaciona-se com</p><p>simbologias e matrizes religiosas antes impensáveis ao pentecostalismo clássico e</p><p>até ao pentecostalismo da segunda onda.</p><p>A plural e variada demanda por bens de salvação, ou mesmo materiais mais</p><p>mundanos, tem in�uenciado os formatos da oferta religiosa. Ainda que não seja</p><p>um fenômeno, pois toda forma de extensão religiosa pressupõe uma duplicação</p><p>explicaria a antropologia (conhecimento do homem); pelo contrário, na</p><p>antropologia estariam as chaves para se compreender como o homem criou a</p><p>�gura de Deus.</p><p>O segundo �lósofo que merece destaque é o prussiano Friedrich Nietzsche (1844-</p><p>1900), cujas principais obras foram: Assim falou Zaratustra (1883), Para além do</p><p>bem e do mal (1886) e Crepúsculo dos ídolos e O anticristo (1888). O conjunto</p><p>dessas obras teceu ferrenhas críticas ao cristianismo.</p><p>Para Nietzsche, Deus estava morto e o cristianismo havia produzido homens</p><p>fracos, pois os cristãos, ao desprezarem a vida neste mundo em função da</p><p>condição além-morte, seriam responsáveis pela debilidade de toda nação. Para</p><p>ilustrar essa ideia o �lósofo a�rmou que “o cristianismo foi o vampiro do império</p><p>romano – destruiu numa noite a imensa obra dos romanos, a conquista de um</p><p>território para fundar uma grande civilização que tem o tempo diante de si”</p><p>(NIETZSCHE, 2008, p. 126, destaques nossos). Com isso, o imperador Constantino</p><p>e Licínio seriam os culpados por terem abraçado o cristianismo no século IV, que</p><p>posteriormente tornou-se a religião o�cial do Império Romano.</p><p>Por �m, pode-se citar o psicanalista alemão Sigmund Freud (1856-1939), que,</p><p>embora respeitasse o fenômeno religioso como manifestação cultural, apresentou</p><p>diversas críticas à fé religiosa, entendendo-a como alienação do mundo,</p><p>superstição e fenômeno calcado na imaginação.</p><p>A obra escrita em 1927, O futuro de uma ilusão, lançou duras críticas ao</p><p>pensamento religioso, pois, para esse autor, toda religiosidade era manifestação</p><p>de ilusões. “Quando digo que tudo isso são ilusões, preciso delimitar o signi�cado</p><p>da palavra. Uma ilusão não é o mesmo que um erro, e ela também não é</p><p>necessariamente um erro” (FREUD, 2011, p. 84). Para Freud, Deus deveria ser</p><p>colocado “fora do jogo”, e o ser humano deveria reconhecer de forma honesta a</p><p>origem puramente humana de todas as instituições e preceitos culturais (FREUD,</p><p>2011, p. 106).</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Caro aluno, como você pode perceber, esses pensadores cunharam críticas de alto</p><p>calibre sobre o fenômeno religioso, e as suas obras impactaram profundamente o</p><p>pensamento social do século XX.</p><p>Lembre-se ainda de que esse século fora inaugurado com a pandemia da gripe</p><p>espanhola, parcialmente arruinado pela crise de 1929, marcado pelas profundas</p><p>cicatrizes de duas grandes guerras mundiais, maculado pelas atrocidades da morte</p><p>de seis milhões de judeus nos campos de concentração e assombrado pela</p><p>iminência de uma terceira guerra mundial.</p><p>Assim, os tristes eventos históricos do século XX, irrigados pelas obras críticas ao</p><p>fenômeno religioso no século anterior, ecoaram na forma de diversos</p><p>questionamentos sobre a existência de Deus.</p><p>AS RELAÇÕES ENTRE FÉ E CIÊNCIA NO SÉCULO XX</p><p>Caro aluno, agora que você já sabe que muitos �lósofos do século XIX �zeram</p><p>contestações à metafísica e à impossibilidade de o ser humano conhecer Deus,</p><p>chegando, até mesmo, a questionar sua existência, e que, no século XX, com as</p><p>grandes atrocidades humanas e o salto da tecnologia, a manifestação religiosa foi</p><p>colocada em xeque, que tipos de fricções teriam ocorrido entre a fé religiosa e o</p><p>avanço da ciência?</p><p>Veremos mais à frente que as fricções entre a fé e a ciência produziram diversas</p><p>teologias e é por esta razão que o nome desta disciplina é Teologias</p><p>Contemporâneas.</p><p>Sendo assim, nas próximas seções teremos a oportunidade de examinar de forma</p><p>mais minuciosa as correntes teológicas produzidas nesse período.</p><p>Por enquanto, basta saber que, diante das fricções produzidas entre a condição</p><p>pós-moderna e as metanarrativas, entre as novas tecnologias e as práticas</p><p>religiosas, entre a ciência e a fé, caminharam por dois principais sentidos: a</p><p>justaposição e a separação.</p><p>O movimento da justaposição pode ser observado em situações em que os</p><p>teólogos tentaram harmonizar ciência e fé, chegando, até mesmo em algumas</p><p>ocasiões, a romper com as metanarrativas. Apresentaremos dois exemplos</p><p>clássicos disso. O primeiro no catolicismo e o seguinte no protestantismo.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>No dia 31 de outubro de 1992, a Igreja Católica Apostólica Romana reconheceu o</p><p>erro cometido contra Galileu Galilei no século XVII por proibir a circulação dos seus</p><p>livros, que apresentavam o heliocentrismo como verdade cientí�ca.</p><p>Dessa forma, a igreja católica reinterpretou o relato bíblico no livro de Josué 10.12-</p><p>14 a �m de harmonizá-lo com a ciência.</p><p>No protestantismo, a teologia liberal também se constituiu em tentativa de</p><p>harmonizar fé e ciência. A negação de alguns milagres, a busca pelo Jesus histórico</p><p>e a interpretação crítica dos livros da Bíblia constituíram-se numa tentativa de</p><p>utilizar o método cientí�co como instrumento para a leitura do texto sagrado.</p><p>No movimento de separação, podemos elencar as alas conservadoras do</p><p>catolicismo – que permaneceram refratárias à modernidade –, e a reação de um</p><p>grupo de protestantes ao liberalismo – chamado de grupo fundamentalista –</p><p>porque desejava voltar aos fundamentos da fé.</p><p>Caro aluno, ao �nalizarmos esta seção introdutória, queremos deixar claro que ela</p><p>objetivou apresentar-lhe as principais correntes �losó�cas que vigoraram no</p><p>século XX, a �m de que busquemos compreender suas nuances epistemológicas e</p><p>seus impactos na teologia contemporânea.</p><p>Esperamos que o conteúdo sirva de quadro teórico para a compreensão de forma</p><p>mais assertiva das próximas lições. Havendo possibilidade, aprofunde-se nas obras</p><p>citadas na bibliogra�a, certamente elas o ajudarão a compor esse magní�co</p><p>referencial teórico.</p><p>FAÇA VALER A PENA</p><p>Graças à sua intuição como um físico brilhante e ao con�ar em diferentes argumentos, Galileu, que</p><p>praticamente inventou o método experimental, entendeu por que apenas o Sol poderia funcionar como o</p><p>centro do mundo, como era então conhecido, isto é, como um sistema planetário. O erro dos teólogos da</p><p>época, quando mantiveram a centralidade da Terra, era pensar que nossa compreensão da estrutura do</p><p>mundo físico era, de alguma forma, imposta pelo sentido literal da Sagrada Escritura.</p><p>— (PAULO II, 1992 , s. p.)</p><p>“</p><p>Questão 1</p><p>A chamada Guerra Fria (1945-1991) constituiu-se numa disputa acirrada entre os</p><p>Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas (URSS) pela</p><p>conquista da hegemonia sobre as demais nações do globo terrestre. Essa disputa</p><p>levou ambos os países a comprometerem altas cifras do seu orçamento público.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>A respeito dessas a�rmações assinale a a�rmativa correta.</p><p>a. Os EUA, após a Guerra Fria, entraram numa grande depressão econômica devido aos gastos naquele</p><p>período.</p><p>b. A URSS logrou êxito ao �nal da Guerra Fria, anexando mais países ao seu território.</p><p>c. As duas superpotências, EUA e URSS, excederam-se nos gastos públicos e distorceram suas economias no</p><p>período da Guerra Fria.</p><p>d. Os EUA não conseguiram o mesmo desenvolvimento tecnológico que a URSS.</p><p>e. A URSS e os EUA, devido às altas fatias do orçamento público destinadas à corrida espacial, apresentaram</p><p>um parco desenvolvimento tecnológico.</p><p>Questão 2</p><p>Em 1841, o �lósofo alemão Ludwig Feuerbach (1804-1872) publicou sua obra</p><p>principal, cujo nome era A essência do cristianismo. Nas palavras desse autor: “A</p><p>consciência de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo, o</p><p>conhecimento de Deus é o conhecimento que o homem tem de si mesmo”</p><p>(FEUERBACH, 2007, p. 44).</p><p>Considerando o contexto apresentado, analise as a�rmativas a seguir:</p><p>I. Para Feuerbach, o homem poderia conhecer a consciência de Deus.</p><p>II. De acordo com Feuerbach, o homem é a manifestação da consciência de Deus.</p><p>III. Deus é apenas um produto da consciência humana segundo Feuerbach.</p><p>Diante do contexto apresentado, é correto o que se a�rma em:</p><p>a. I, II e III.</p><p>b. II e III, apenas.</p><p>c. I e II, apenas.</p><p>d. III, apenas.</p><p>e. II, apenas.</p><p>Questão 3</p><p>O termo “metafísica” vem do grego metàphysis, que signi�ca “além da física” ou</p><p>“além da natureza”. Assim, a metafísica</p><p>dos consentimentos feitos às representações religiosas dos leigos convertidos, nas</p><p>esferas tanto do dogma quanto da liturgia, assim recrutados (BOURDIEU, 1992),</p><p>salta aos olhos a rapidez de adaptação ou criação destas práticas, com lideranças</p><p>temporárias ou mais duradouras, que surgem ou se desvanecem, e com a criação</p><p>de locais de culto com nomes cada vez mais diversos.</p><p>FAÇA A VALER A PENA</p><p>Questão 1</p><p>No Brasil, o protestantismo começa a se instalar após 1808, como decorrência dos</p><p>tratados comerciais iniciados naquela década, que ensejaram a presença mais</p><p>sistemática de imigrantes europeus não ibéricos. Nesse caminho, no século XIX,</p><p>são fundadas por aqui as igrejas luteranas, batistas, metodistas, presbiterianas e</p><p>congregacionais.</p><p>Os denominados “evangélicos pentecostais” surgiram, principalmente, nos Estados</p><p>Unidos, durante a primeira década do século XX, e derivam do movimento de</p><p>reavivamento. Alguns estudiosos defendem um mito de origem do</p><p>pentecostalismo que teria ocorrido em 1906, numa Igreja Batista da Azusa Street,</p><p>320, Los Angeles, onde o pastor William J. Seymour teria experimentado, com seus</p><p>irmãos, uma nova primavera da experiência do batismo pelo Espírito Santo,</p><p>desfrutando do dom da glossolalia, chamado por estes de “falar em línguas</p><p>estranhas”, revivendo, assim, o ocorrido no livro de Atos dos Apóstolos 2.</p><p>No Brasil, os movimentos de avivamento dos evangélicos que vieram a</p><p>proporcionar o surgimento dos pentecostais e neopentecostais são identi�cados</p><p>pela literatura como ondas, havendo mais de uma delas e provocado profundas</p><p>transformações no cenário religioso brasileiro.</p><p>É possível identi�car, na literatura acadêmica, cerca de quantas ondas de</p><p>avivamento pentecostais?</p><p>a. Cinco ondas.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>b. Seis ondas.</p><p>c. Três ondas.</p><p>d. Sete ondas.</p><p>e. Oito ondas.</p><p>Questão 2</p><p>Uma das principais novidades da arena religiosa no Brasil nas últimas décadas tem</p><p>sido o crescimento das religiões evangélicas, que pode ser visto na tabela a seguir.</p><p>Se, em 1980, os evangélicos correspondiam a uma pequena parcela da população</p><p>brasileira, o último Censo revelou que, em 2000, os adeptos dessas religiões mais</p><p>que dobraram entre os brasileiros (IBGE, 2000).</p><p>Tabela | Distribuição da população brasileira segundo religiões (1980/2000)</p><p>Religião 1980 (%) 2000 (%) Variação sobre</p><p>N absoluto 1980/2000</p><p>(%)</p><p>Católica 88,9 73,8 18,1</p><p>Evangélica não</p><p>pentecostal</p><p>3,4 4,2 78,0</p><p>Evangélica pentecostal 3,2 10,4 357,9</p><p>Kardecistas 0,7 1,4 171,9</p><p>Afro-brasileiras 0,6 0,3 -15,8</p><p>Outras 1,2 1,6 79,7</p><p>Sem religião 1,6 7,3 531,3</p><p>Sem declaração 0,2 0,2 27,6</p><p>Total 100 100 -</p><p>População Total do Brasil</p><p>(N)</p><p>119.011.052 169.411.759 42,3</p><p>Fonte: IBGE (1982; 2000) e Bohn (2004, p. 291).</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Leia a seguir as a�rmações acerca da interpretação da tabela.</p><p>I – Os evangélicos perfaziam um total de 6,6% da população brasileira em 1980.</p><p>II – Os evangélicos perfaziam um total de 14,2% da população brasileira em 2000.</p><p>III – O número de kardecistas dobrou, em termos percentuais absolutos, de 1980 a</p><p>2000.</p><p>IV – O número de pessoas sem declaração de religião, em variação percentual</p><p>absoluta, permaneceu igual de 1980 a 2000.</p><p>V – O número de evangélicos foi o que sofreu maior aumento percentual absoluto.</p><p>Assinale a alternativa que julga corretamente as a�rmações.</p><p>a. Apenas as a�rmativas I e II estão corretas.</p><p>b. Apenas as a�rmativas III e IV estão corretas.</p><p>c. Apenas as a�rmativas IV e V estão corretas.</p><p>d. Apenas as a�rmativas II e III estão corretas.</p><p>e. Apenas as a�rmativas I e V estão corretas.</p><p>Questão 3</p><p>Teses acerca da apatia de evangélicos em relação à esfera política, talvez um fruto</p><p>da defesa do estado laico pelos protestantes históricos, não se sustentam. Para</p><p>tanto, vários mapeamentos do comportamento político dos indivíduos evangélicos</p><p>foram realizados. Com base na atuação dos deputados federais na Assembleia</p><p>Nacional Constituinte (1986-1988), Pierucci (1989), mesmo reconhecendo a</p><p>existência de uma “esquerda evangélica”, a�rma que os parlamentares de</p><p>denominações pentecostais e não pentecostais compuseram uma espécie de</p><p>“nova direita”, considerando que, além da defesa de posições socioeconômicas</p><p>direitistas tradicionais, autoproclamaram-se guardiões da moral e da família</p><p>(PIERUCCI, 1989).</p><p>Considerando o comportamento eleitoral dos evangélicos, leia as a�rmações a</p><p>seguir:</p><p>I – Houve um espantoso crescimento dos evangélicos no Brasil, que se re�ete em</p><p>sua visibilidade na política nacional, tornando-os objeto de diversos estudos.</p><p>II – Existe uma interpretação de que os evangélicos gozam de condições</p><p>econômicas e sociais enormemente favoráveis.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>III – A opção pelo evangelicalismo seria característica de segmentos sociais com</p><p>poucos recursos �nanceiros.</p><p>IV – Em razão de seu posicionamento moral e político, evangélicos seriam parte da</p><p>base social de uma social democracia.</p><p>Assinale a alternativa correta.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BÍBLIA. Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. Tradução de João</p><p>Ferreira de Almeida. Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.</p><p>BOHN, S. R. Evangélicos no Brasil. Per�l socioeconômico, a�nidades ideológicas</p><p>determinantes do comportamento eleitoral. Opinião pública, Campinas, v. 10, n.</p><p>2, p. 288-338, out. 2004. Disponível em: https://bit.ly/3j0gzdx. Acesso em: 9 jul.</p><p>2021.</p><p>BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.</p><p>BOURDIEU, P. A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1992.</p><p>BOURDIEU, P. A miséria do mundo. Petrópolis: Vozes, 2001.</p><p>BRANDÃO, A. A. P.; JORGE, A. L. A recente fragmentação do campo religioso no</p><p>Brasil: em busca de explicações. Revista Estudios Sociales, [S. l.], n. 69, p. 79-90,</p><p>jul.-set. 2019. Disponível em: https://bit.ly/2WuS3tI. Acesso em: 9 jul. 2021.</p><p>BRASIL. Decreto nº 7.107, de 11 de fevereiro de 2010. Promulga o Acordo entre o</p><p>Governo da República Federativa do Brasil e a Santa Sé relativo ao Estatuto Jurídico</p><p>da Igreja Católica no Brasil, �rmado na Cidade do Vaticano, em 13 de novembro de</p><p>2008. Disponível em: https://bit.ly/3i6OwtY. Acesso em: 1 maio 2021.</p><p>BURDICK, J. Looking for God in Brazil – The progressive Catholic Church in Brazil’s</p><p>religious arena. Berkeley: University of California Press, 1993.</p><p>CAMARGO, C. P. Católicos, Protestantes e Espíritas. Petrópolis: Vozes, 1973.</p><p>a. Apenas as alternativas I e II estão corretas.</p><p>b. Apenas as alternativas III e IV estão corretas.</p><p>c. Apenas as alternativas II e III estão corretas.</p><p>d. Apenas as alternativas II e IV estão corretas.</p><p>e. Apenas as alternativas I e III estão corretas.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://bit.ly/3j0gzdx</p><p>https://bit.ly/2WuS3tI</p><p>https://bit.ly/3i6OwtY</p><p>CAMPOS, L. S. Pentecostalismo e Protestantismo Histórico no Brasil: um século de</p><p>con�itos, assimilação e mudanças. Horizonte, Belo Horizonte, v. 9, n. 22, p. 504-</p><p>533, jul./set. 2011. Disponível em: https://bit.ly/377eCGU. Acesso em: 1 abr. 2021.</p><p>CAMURÇA, M. A. A religião e o Censo: enfoques metodológicos. Uma re�exão a</p><p>partir das consultorias do ISER ao IBGE sobre o dado religioso nos censos. In:</p><p>CUNHA, C. V.; MENEZES, R. C. (Orgs.). Religiões em conexão: números, direitos,</p><p>pessoas. Rio de Janeiro: Comunicações do Iser, 2014.</p><p>CARREIRO, G. S. Mercado Religioso Brasileiro: do monopólio à livre concorrência.</p><p>São Paulo: Nelpa, 2009.</p><p>CESOP. Centro de Estudos de Opinião Pública - UNICAMP. Estudo Eleitoral</p><p>Brasileiro (ESEB) – 2002. São Paulo: UNICAMP, 2002. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3ycLzxB. Acesso em: 1 abr. 2021.</p><p>FERNANDES, R. C. et al. Novo Nascimento: os evangélicos em casa, na igreja e na</p><p>política. 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Censo demográ�co: 1960. Rio</p><p>de Janeiro: IBGE, 1960. Disponível em: https://bit.ly/3yhw4Ve. Acesso em 9 jul.</p><p>2021.</p><p>IBGE. Instituto Brasileiro de Geogra�a e Estatística. Censo demográ�co: 1970. Rio</p><p>de Janeiro: IBGE, 1970. Disponível em: https://bit.ly/3f77QW2. Acesso em: 1 abr.</p><p>2021.</p><p>IBGE. Instituto Brasileiro de Geogra�a e Estatística. Censo demográ�co: 1980 –</p><p>Dados gerais, migração, instrução, fecundidade, mortalidade. Rio de Janeiro: IBGE,</p><p>1980. Disponível em: https://bit.ly/3l5W8i1. Acesso em: 1 abr. 2021.</p><p>IBGE. Instituto Brasileiro de Geogra�a e Estatística. Censo demográ�co: 1991 –</p><p>Resultados do universo relativos às características da população e dos domicílios.</p><p>Rio de Janeiro: IBGE, 1991. Disponível em: https://bit.ly/3l7hEmQ. Acesso em: 1 abr.</p><p>2021.</p><p>IBGE. Instituto Brasileiro de Geogra�a e Estatística. Censo demográ�co: 2000 –</p><p>Características gerais da população: resultados da amostra. 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Tese (Doutorado em Humanidades, Cultura e</p><p>Artes). 2020, p. 229, Universidade do Grande Rio, Rio de Janeiro, 2020.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://bit.ly/2VjHl8x</p><p>https://bit.ly/3750vlc</p><p>https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/n7JKdMPyTKH7yBBFSgr6PhP/?lang=pt&format=pdf</p><p>https://bit.ly/3BOHwJT</p><p>https://bit.ly/3rDtAxE</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>CENÁRIO DOS CATÓLICOS</p><p>Marcos Porto Freitas da Rocha</p><p>Imprimir</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Bem-vindo à segunda seção da Unidade 4, “Cenário religioso no século XX no</p><p>contexto brasileiro”. Nesta seção, estudaremos a conjuntura religiosa brasileira</p><p>pela perspectiva católica, analisando a in�uência da nova eclesiologia (Igreja: Povo</p><p>de Deus) originada nas orientações do Concílio Vaticano II.</p><p>Conheceremos, também, a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil</p><p>(CNBB) e suas contribuições para o fortalecimento da colegialidade dos bispos</p><p>brasileiros.</p><p>Veremos, ainda, que a década de 1980 foi marcada por uma intensa presença das</p><p>Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que in�uenciaram tanto o debate teológico</p><p>quanto a abordagem das questões sociais e políticas no período pré e pós</p><p>redemocratização, tendo como viés determinante um enfoque teológico pautado</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>na Teologia da Libertação e na valorização do sentido de comunidade, de</p><p>fortalecimento de laços familiares (em amplo sentido de família), além de pautas</p><p>sociais geralmente abordadas pelo posicionamento político de esquerda.</p><p>Por �m, abordaremos o surgimento da Renovação Carismática Católica (RCC),</p><p>como um movimento mais voltado à espiritualidade, com posicionamentos que</p><p>podem levar a uma percepção de que foi uma resposta de católicos conservadores</p><p>de direita ao pentecostalismo.</p><p>Imagine-se participante de uma comunidade de fé em que noventa por cento das</p><p>pessoas têm baixíssimo poder aquisitivo, vivendo em insegurança alimentar e</p><p>tendo de buscar sustento por meio de plantações em pequenos quintais, ou</p><p>fazendo trabalhos temporários de baixa remuneração. Nesta comunidade, muitos</p><p>são os que precisam de amparo da igreja na forma de cestas de alimentos, mas,</p><p>mesmo assim, todos contribuem com parte do pouco que ganham, no intuito de</p><p>auxiliar os que, porventura, estejam em situação de maior necessidade.</p><p>Neste contexto de grande necessidade, a secretaria de ação social do município</p><p>procura-os para realizar um censo com vistas a identi�car as maiores necessidades</p><p>da comunidade.</p><p>Alguns membros da comunidade percebem a oportunidade de consultar as</p><p>pessoas sobre possíveis pautas de reivindicação</p><p>junto à prefeitura, a �m de</p><p>solucionar questões de cunho social, mas também de outras áreas.</p><p>Assim, você é procurado pelos membros da comunidade com o pedido de</p><p>aproveitar o espaço eclesiástico para convocar assembleias comunitárias e</p><p>convidar representantes da prefeitura para ouvir as demandas da população,</p><p>propondo soluções e cobrando posicionamentos.</p><p>Qual seria seu parecer acerca desse pedido, e em qual movimento religioso este</p><p>tipo de posicionamento encontra a�nidade?</p><p>“Hoje, já aposentado, contemplo a vida relativizando o que é relativo em mim, na</p><p>sociedade e na Igreja, e absolutizando o que é absoluto: Deus e a humanidade” –</p><p>Dom Pedro Casaldáliga.</p><p>Inspirados por ele, convidamos você a construir o conhecimento sobre ambos:</p><p>Deus e a humanidade.</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>IGREJA COMO POVO DE DEUS</p><p>O conceito de Povo de Deus incide, primeiramente, sobre o próprio homem, logo,</p><p>possui valor antropológico. O Povo de Deus está cercado por outros povos,</p><p>vivendo entre eles e sendo semelhante a eles em muitos sentidos.</p><p>Conforme José Comblin trata, a falta de referência e/ou liderança é um dentre os</p><p>muitos problemas da constituição de um povo na atualidade, assim, faltam</p><p>pessoas que inspirem, também chamadas de “exemplos” ou “heróis”, pois elas</p><p>estimulam o povo a realizar sacrifícios em prol da coletividade (COMBLIN, 2002).</p><p>ASSIMILE</p><p>Podemos con�rmar esta observação pelo acompanhamento da in�uência</p><p>que as viagens do papa exercem sobre as pessoas. Ao perguntarmos a um</p><p>peregrino, católico ou não, sobre o que o motiva a se sacri�car para ver e</p><p>ouvir o que o Sumo Pontí�ce tem a dizer, certamente sua resposta será que</p><p>o papa é um exemplo, um referencial.</p><p>O Texto Sagrado testemunha a existência de heróis e de patriarcas aos</p><p>profetas, no Antigo Testamento, e de Jesus, aos Discípulos no Novo</p><p>Testamento; todos eles encarnaram os valores do povo de Deus em suas</p><p>próprias vidas, tornando-se exemplos.</p><p>Entretanto, os heróis da atualidade são indivíduos que alcançam status,</p><p>destacando-se em áreas como esporte, teatro, cinema, televisão, moda,</p><p>mídias, etc. Socialmente, impõe-se o sucesso pela competitividade e</p><p>mensura-se a vitória pelo resultado �nanceiro que ela traz.</p><p>Nosso modelo cultural e econômico é eurocêntrico e capitalista, e, neste</p><p>sentido, perde-se a essência do que é ser povo; falta orgulho real de</p><p>pertencimento, sobra orgulho super�cial. O hino nacional em um estádio,</p><p>por exemplo, enaltece pessoas que são alvo de admiração por seu sucesso</p><p>�nanceiro e não pela habilidade de promover o bem comum, eles são</p><p>melhores que os outros e não para os outros. Um orgulho que não dá fruto</p><p>à solidariedade. Isto conduz à exaltação do individualismo e à perda de</p><p>valor do povo, inevitavelmente (COMBLIN, 2002).</p><p>A ação pastoral tem como desa�o premente a reconstrução da identidade pessoal</p><p>para produzir a conquista de uma liberdade genuína em meio a uma sociedade</p><p>perdida em consumo (BRIGHENTI, 2006). O desejo de consumo que nunca se</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>satisfaz fragmenta e aprisiona as pessoas ao induzir falsas seguranças baseadas</p><p>naquilo que se pode possuir; em especial os jovens, em nome de sua autoimagem,</p><p>morrem tentando satisfazer desejos impostos pela sociedade e que não</p><p>preenchem seu vazio existencial.</p><p>A Igreja precisa apresentar, mais uma vez, Jesus Cristo como “caminho, verdade e</p><p>vida” (Jo 14,6), Ele une o Povo de Deus e, ao mesmo tempo, é o gerador deste Povo,</p><p>inspirando-o a se relacionar com Deus. O ministério de Jesus encontra-se centrado</p><p>no ser humano, como obra da criação de Deus, sendo o alfa e ômega da ação</p><p>pastoral (COMBLIN, 2002).</p><p>No Brasil, in�uenciado pela cristologia latino-americana, muito se insistiu na</p><p>restauração plena da humanidade de Jesus. Os poderosos do seu povo, numa ação</p><p>de reforma das estruturas do povo que deveria ser de Deus, rejeitaram Jesus e</p><p>mataram-no. Os pobres não conseguiram impedir que seu redentor fosse</p><p>assassinado pelos que queriam manter o status quo. Sua morte tem sentido</p><p>humano e heróico (COMBLIN, 2002).</p><p>A Igreja é bene�ciada pelo testemunho dos mártires que vieram após Jesus. Trata-</p><p>se de algo comum em sua história, desde Estevão (em Atos do Apóstolos). Estes</p><p>mártires viveram plena liberdade de vida, tomando para si o ideal do evangelho</p><p>com grande responsabilidade e, assim, experimentando vida e morte pelo</p><p>Evangelho, em defesa do verdadeiro sentido da Igreja de Cristo e do cristianismo:</p><p>espelhar-se nos atos de fé e entrega e construir o Povo de Deus.</p><p>Uma parte da constituição do ser é in�uência do meio. Uma coisa fundamental</p><p>para a formação da comunidade é o processo de identi�cação das pessoas que a</p><p>compõem. Nas comunidades de fé, a identidade, pautada na caridade, na</p><p>esperança e na fé, pode ser compreendida como marca identi�cadora de seus</p><p>membros. As comunidades eclesiais constituem-se pelas relações interpessoais</p><p>dos que a compõem, diferentemente da sociedade, que o faz por objetivos comuns</p><p>ou por relações jurídicas (BRIGHENTI, 2006).</p><p>A eclesiologia do Povo de Deus incide pastoralmente em uma comunidade,</p><p>inclusive pelo elemento antropológico cultural existente em qualquer povo. Um</p><p>povo que não se identi�ca culturalmente não se constitui como tal, é a existência</p><p>de um modo de ser, sentir, viver e estar no mundo, próprio deste grupo social, que</p><p>o torna povo. A cultura da comunidade in�uencia a identidade pessoal dos que a</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>compõem, ambas – pessoa e cultura – construindo e reconstruindo-se</p><p>mutuamente. Identi�car-se culturalmente com uma comunidade promove</p><p>valorização.</p><p>Este modelo repercute na pastoral litúrgica. A comunidade de oração resgata a</p><p>experiência de fé no formato da igreja doméstica. Este modelo dá origem à</p><p>Comunidade Eclesial de Base (CEB), de modo que a Igreja é a comunidade dos �éis,</p><p>que compartilham os caminhos da salvação pela Eucaristia enquanto banquete</p><p>comunitário (BRIGHENTI, 2006), experiência agregadora que promove contribuição</p><p>mútua para a construção de uma sociedade cada vez mais solidária e justa.</p><p>Comunidades verdadeiras contribuem para tal intento e isto é estimulado por</p><p>oportunidades de encontro, experiências de amizade e espaços de educação que</p><p>visam ao relacionamento solidário e fraterno e a práticas solidárias. Trata-se de um</p><p>desa�o com vistas a renovar a paróquia em comunidades menores, acolhendo</p><p>outras formas de viver a fé, sendo que o maior desa�o é incluir na comunidade e</p><p>na Igreja local os movimentos eclesiais (BRIGHENTI, 2006).</p><p>A re�exão teológica modi�cou-se a partir da metade do século XX, passando a</p><p>compreender o mundo como realidade que possui uma autonomia que não</p><p>contraria a fé cristã (BEDOUELLE, 2004). Na visão cristã, a sociedade constitui-se</p><p>em uma autêntica complementação das pessoas e das comunidades, e não em</p><p>uma limitação destas (BRIGHENTI, 2006).</p><p>Se a máxima diz que “o povo é quem faz a história” (COMBLIN, 2002), então o povo</p><p>é o que se constitui através de sua história, de modo que a cultura e os valores</p><p>próprios, construídos por todos, são unidos e organizados por um mesmo ideal.</p><p>Na esteira do Vaticano II, a �gura do Povo de Deus promove unidade, pois todas as</p><p>pessoas são convidadas a fazer parte do Povo de Deus (PAULO VI, 1964c), tendo</p><p>Deus convocado e instituído a Igreja para todos, tornando cada sacramento uma</p><p>evidência desta unidade salvadora (COMBLIN, 2002). O Povo de Deus faz remissão</p><p>ao caráter da universalidade, com manifestação aberta a todos a partir do dom</p><p>divino, pelo qual a Igreja católica, de modo e�caz e perpétuo, reúne toda a</p><p>humanidade sob o senhorio de Cristo e a unidade do Espírito Santo (PAULO VI,</p><p>1964c).</p><p>A dimensão ecumênica encontra oportunidade de diálogo na Eclesiologia do Povo</p><p>de Deus, em especial em relação aos protestantes, abordando o conceito de povo</p><p>eleito e de assembleia por Deus convocada, possibilitando a ideia de eleição e de</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>chamado divino que remete à iniciativa de Deus (CONGAR, 1965).</p><p>O conceito de Povo de Deus inclui mais do que os não católicos, recepcionando,</p><p>também, os não cristãos, no sentido de Igreja não visível, que encontra membros</p><p>mesmo fora dos limites das Igrejas cristãs em geral (COMBLIN, 2002), reinventando</p><p>o relacionamento do Povo de Deus com os povos da terra e impondo à Igreja a</p><p>necessidade de se conscientizar a respeito da contribuição das culturas e dos</p><p>povos em meio aos quais viveu. Há, também, uma perspectiva com repercussão</p><p>pastoral relevante, considerando o seguimento de Cristo mais importante do que a</p><p>imposição de verdades absolutas (FORTE, 2003). Outra grande contribuição do</p><p>conceito de Povo de Deus é a abertura missionária da Igreja, um estímulo para o</p><p>anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo e para a promoção da solidariedade e da paz</p><p>com todos os povos e culturas.</p><p>A ORIGEM DA CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL</p><p>(CNBB) E O REFORÇO DA AÇÃO MISSIONÁRIA PÓS VATICANO II</p><p>A CNBB foi constituída no dia 14 de outubro de 1952. A extensão continental do</p><p>território nacional, a precariedade das comunicações, bem como a quantidade de</p><p>Arquidioceses, Dioceses e Prelazias foram fatores decisivos para a criação da</p><p>CNBB, algo que, até então, só existia na França, Alemanha e Estados Unidos.</p><p>Em 25 de janeiro de 1961, o papa João XXIII convocou todos os bispos católicos a</p><p>Roma para a realização do Concílio Vaticano II, visando a analisar e propor</p><p>soluções para grandes problemas mundiais.</p><p>Ao �m dos trabalhos, em 1965, antes de regressarem de Roma, os bispos</p><p>brasileiros realizaram sua IX Assembleia Geral, elaborando o primeiro Plano de</p><p>Pastoral de Conjunto (PPC), contendo seis linhas de ação baseadas nos</p><p>documentos do Concílio Vaticano II, de modo que a Linha II foi a que de�niu,</p><p>especi�camente, o compromisso do clero nacional com a missão universal da</p><p>Igreja, evidenciada pelo Concílio.</p><p>Foram de�nidas Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja do Brasil, que, em</p><p>1995, tornaram-se Diretrizes Gerais da Ação evangelizadora da Igreja do Brasil.</p><p>Foram criados, também, os Planos Bienais, revisados nas Assembleias anuais dos</p><p>Bispos, nesses planos, foram registradas a importância, a urgência e a</p><p>conveniência do compromisso missionário ad gentes. Algumas das ações</p><p>estabelecidas foram: a necessidade de expandir o ad gentes para além dos</p><p>espaços eclesiásticos; o reconhecimento de que a missão con�ada por Jesus à sua</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Igreja não pode ser esquecida ou descuidada; e a ideia de que a Igreja local não</p><p>precisa esperar atingir a maturidade plena para realizar missões para além de seus</p><p>espaços, pois isso seria renegar o mandamento de Jesus.</p><p>Contudo, em 1973, na XIII Assembleia Geral da CNBB, Dom Mário Gurgel,</p><p>responsável pela Linha II (Dimensão Missionária), ressaltou, em seu relatório, a</p><p>existência de de�ciência de espírito missionário no Brasil. A�rmou, ainda, que a</p><p>dependência em relação aos missionários de outras terras, talvez por comodismo,</p><p>e a prática de um cristianismo pautado no egoísmo de salvar-se a si mesmo</p><p>trouxeram consequências para a Igreja do Brasil, tais como a falta de crescimento</p><p>e de senso de corresponsabilidade das comunidades, além de um desinteresse</p><p>pelos territórios de missão e pelas necessidades da Igreja.</p><p>Apontou, ainda, que �guravam entre as di�culdades para solucionar esta lacuna de</p><p>espírito missionário certas de�ciências estruturais na CNBB e nas Pontifícias Obras</p><p>Missionárias (POM), além da falta de comunicação e relacionamento mais próximo</p><p>entre elas. Tendo o Plano de Pastoral de Conjunto estipulado que a Linha II seria</p><p>responsável pela ação missionária, que pressupõe o empenho de todos os que</p><p>compõem o povo de Deus, conforme a vocação e função de cada um na Igreja,</p><p>houve a necessidade de uma reformulação da atribuição de responsabilidade dos</p><p>secretariados aos quais foram atribuídas as ações da Linha II.</p><p>Muitas vezes, o que se destinava a esta obra eram apenas as contribuições</p><p>�nanceiras, que pouco ajudavam a alavancar o espírito missionário, uma vez que</p><p>se enfatizava apenas a coleta de auxílios, mas pouco se capacitava pessoas para a</p><p>obra.</p><p>A falta de coordenação de esforços era a pior questão a ser solucionada, por isso</p><p>foi proposta a criação do Conselho Missionário Nacional (COMINA).</p><p>Em 1973, as POM renovaram o compromisso de ação e reconheceram que a Igreja</p><p>é missionária por natureza e que, por isso, as igrejas locais estabelecidas não</p><p>poderiam limitar a sua missionariedade apenas às atividades evangelizadoras dos</p><p>membros de suas comunidades. Rea�rmaram, então, o posicionamento de</p><p>expandir a evangelização ao redor da paróquia, no lugar de moradia e na vida</p><p>comunitária, não se limitando a esses espaços, mas crescendo e abrindo-se a</p><p>alcançar o mundo. Reconheceram que falharam em sentir e viver esta dimensão</p><p>da missionariedade, tendo envidado grandes esforços missionários, mas apenas</p><p>internamente. Apesar de esta dimensão interna ser urgente e necessária, é</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>insu�ciente quando não é conjugada com a dimensão universal, católica, sendo,</p><p>então, mister que a Igreja brasileira se comprometesse tanto com a ação</p><p>missionária universal quanto local.</p><p>A criação do COMINA promoveu a articulação e coordenação da dimensão</p><p>missionária no Brasil, produzindo harmonia entre POM, CNBB e outras instituições</p><p>engajadas nesse �m. A capacitação por intermédio de encontros, congressos e</p><p>outras atividades nas regionais e dioceses vem contribuindo para o</p><p>desenvolvimento deste aspecto, especialmente os cursos promovidos pelo Centro</p><p>Cultural Missionário (CCM); isso tudo enriqueceu o esforço de evidenciar a</p><p>verdadeira natureza e identidade missionária da Igreja.</p><p>O SURGIMENTO DAS CEBS E DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO</p><p>Na segunda metade do século XX, no Brasil, durante o regime militar (1964-1985),</p><p>os índices de in�ação, em 1964, ultrapassaram 100%; a concentração de renda</p><p>chegou a um ponto em que, em 1972, os 5% mais ricos acumulavam 39,8% das</p><p>riquezas, sendo que, em 1960, detinham 28,3%, além disso, os 1% ainda mais ricos,</p><p>que detinham 11,9% da riqueza no anos 1960, em 1972 já acumulavam, 19,1%.</p><p>Enquanto isso, os 50% mais pobres, em 1960, dividiam entre si 17,4% da riqueza,</p><p>porém, em 1972, passaram a possuir apenas 11,3% da riqueza nacional. O</p><p>crescimento da dívida externa, aliado à acumulação de juros anuais acima de 500</p><p>milhões, foi de 12 para 50 bilhões de dólares entre 1974 e 1977, criando o estopim</p><p>para o que explodiria no início dos anos 1980, comprometendo o desenvolvimento</p><p>futuro do país (SADER, 1990).</p><p>Todo este panorama econômico-social propiciou desa�os aos movimentos sociais</p><p>e populares, de modo que foi preciso reorganizar suas estratégias durante a</p><p>transição política da década de 1980. Esses movimentos buscavam, com isso, que</p><p>suas reivindicações fossem atendidas.</p><p>A ebulição política dos anos 1960 e 1970 contribuiu como pano de fundo para o</p><p>desenvolvimento, em meio aos grupos militantes Católicos, das Comunidades</p><p>Eclesiais de Base (CEBs) e da Teologia da Libertação (TL). O fracasso da política de</p><p>desenvolvimento dos anos pregressos e as crises econômicas e políticas</p><p>produzidas nos regimes militares agravaram-se, impactando, principalmente, os</p><p>pobres. Os movimentos sociais de esquerda tornaram-se uma saída, pois</p><p>apresentavam propostas de mudança social. O início do Papado de João XXIII e a</p><p>convocação do Concílio Vaticano II (1962-1965), bem como a Revolução Cubana de</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>1959, são fatores que se somam aos anteriores e tornaram possíveis re�exões e</p><p>esperanças de progressistas da Igreja Católica e da sociedade latino-americana</p><p>(LÖWY, 2000).</p><p>O Vaticano II produziu nova compreensão do ser Igreja, pautada no Povo de Deus,</p><p>que a estimulava a se abrir ao mundo e se envolver com seus problemas. A</p><p>Gaudium et Spes, de 1965, sustentava-se em princípios doutrinários que instavam</p><p>a investigar os sinais dos tempos em busca de respostas aos problemas</p><p>contemporâneos. Ela trazia o conceito de partilha</p><p>do sofrimento das pessoas com</p><p>Cristo e por Ele, o que tornava os problemas, em especial dos pobres, problemas</p><p>de toda Igreja (PAULO VI, 1965c).</p><p>Religiosos e leigos atuantes no trabalho popular deram início às primeiras</p><p>experiências que fundaram, posteriormente, as CEBs. As CEBs surgiram na década</p><p>de 1960, no Brasil, em Nísia Floresta (RN). Dividiam-se em pequenos grupos, ou</p><p>formavam um único grupo nas periferias. Reuniam pessoas da mesma fé, igreja e</p><p>região, que viviam uma comunhão acerca de seus problemas de sobrevivência,</p><p>moradia, lutas por melhores condições de vida, além de anseios e esperanças</p><p>libertadoras, sendo eminentemente de classes populares (BETTO, 2008). Em 1980,</p><p>Frei Betto apresentou a existência de 80 mil CEBs.</p><p>As CEBs surgiram onde não havia sacerdotes ou onde eles apareciam poucas vezes</p><p>(ANTONIAZZI, 2000), algo comum na América Latina de 1960. Como vimos</p><p>anteriormente, a Igreja valia-se de missionários estrangeiros, presentes em grande</p><p>número nessa década, tentando promover renovação ministerial. Conforme o</p><p>Centro de Estatística Religiosa da Igreja (CERIS), em 1964, 42,3% de um total 12.589</p><p>padres eram estrangeiros, ou seja, um para cada 6.200 habitantes (ANTONIAZZI,</p><p>2000). Com o tempo, comunidades que �caram sem sacerdote minimizaram sua</p><p>falta: a celebração era realizada na própria comunidade, prescindindo da presença</p><p>de um padre, caso este não incentivasse os trabalhos de interesse para o povo.</p><p>Parte dos con�itos ocorridos entre as CEBs e a hierarquia eclesiástica advinha da</p><p>divergência entre padres que não somavam à comunidade e acabavam sendo</p><p>rejeitados por ela.</p><p>Os símbolos e textos de cunho libertário da fé cristã mediavam, nas CEBs, a luta.</p><p>Argumentos em favor de uma sociedade justa e fraterna, ou sua preferência pelos</p><p>pobres, contida nos textos da Conferência de Puebla de 1979, faziam-se vivos no</p><p>cotidiano das comunidades, nas homilias e nas produções teológicas.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Estas experiências renovadoras contribuíram para a gênese da Teologia da</p><p>Libertação, que surgiu como um apoio para as CEBs e fundamentação teológica</p><p>para as lutas políticas. O comprometimento no combate à situação de pobreza das</p><p>pessoas carecia de instrumentos teóricos com e�cácia para compreender a</p><p>realidade social. Os irmãos Bo�, Gustavo Gutiérrez, Jon Sobrino, Enrique Dussel e</p><p>outros constituíram a primeira geração de, então chamados, teólogos da</p><p>libertação, com formações em Lovaine e Munique, tendo sido in�uenciados por</p><p>teólogos alemães e franceses importantes, especialmente os que participaram das</p><p>discussões acerca da posição da Igreja ante a secularização da vida moderna.</p><p>Esses teólogos, na América Latina, encontraram uma realidade muito diversa, onde</p><p>a miséria social e a opressão são temas mais importantes. Seu contato com a</p><p>realidade latino-americana e movimentos emergentes dessa conjuntura</p><p>in�uenciou tais teólogos a desenvolver uma teoria que auxiliasse nesse processo.</p><p>Em sua produção, utilizaram a análise das ciências sociais como método</p><p>instrumental e procuraram separar a ideologia materialista da metodologia.</p><p>Clodovis Bo� explica que esse instrumental tratava-se de uma mediação</p><p>socioanalítica, na qual a análise social da realidade servia de instrumento analítico,</p><p>ajudando a decodi�car o texto-social que, em seguida, precisava ser retomado sob</p><p>a ótica da fé, caso se almejasse realmente produzir teologia (BOFF, 2000).</p><p>Atualmente, Bo� realiza críticas à Teologia da Libertação.</p><p>Na consolidação da ação católica sobre movimentos populares urbanos e rurais,</p><p>podemos destacar as Conferências Episcopais de Medellín (1968) e Puebla (1979),</p><p>pois serviram para caracterizar o modelo de pastoral que uma minoria in�uente de</p><p>bispos latino-americanos assumiu, apoiando e utilizando a TL.</p><p>A organização das CEBs foi fundamental para a expansão da TL no Brasil, tendo a</p><p>CNBB, posteriormente, assumido essa teologia como orientação pastoral.</p><p>A CNBB foi criada e idealizada por Dom Hélder Câmara, em 1950, como</p><p>instrumento de união das linhas pastorais da Igreja, auxiliando na organização do</p><p>trabalho dos bispos, na formação de agentes de pastorais e na criação de grupos</p><p>de defesa dos direitos humanos, em especial durante a ditadura militar. A CNBB</p><p>era, também, o órgão o�cial da Igreja do Brasil no trato com o Vaticano. A maioria</p><p>de seus teólogos, entre 1970 e 1990, formou-se no Instituto Nacional de Pastoral,</p><p>tendo formação de teor eminentemente libertário (LIBÂNIO, 2000).</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Prova disso é que, sob o regime militar, diversos documentos da CNBB utilizavam-</p><p>se de análises socioeconômicas acerca da realidade brasileira e �caram conhecidos</p><p>pelo teor de suas críticas. Exemplo disso é o Documento dos Bispos do Nordeste,</p><p>“Eu ouvi os clamores do meu povo”, de maio de 1973. Em seu texto, bispos, como</p><p>Dom Hélder, ainda arcebispo de Olinda, analisaram a realidade sociopolítica e</p><p>econômica do Nordeste e abordaram temas como: trabalho, habitação, renda per</p><p>capita, alimentação, saúde e educação, dentre outros; estes temas compunham a</p><p>pauta de reivindicações dos movimentos populares. Destacaram os fatores</p><p>históricos causadores da miséria nordestina, de modo que o latifúndio, o descaso</p><p>político, a indústria da seca e o subdesenvolvimento tiveram destaque, realizando,</p><p>com isso, uma dura crítica à Ditadura Militar. Em sua conclusão, rea�rmaram e</p><p>justi�caram um necessário compromisso da Igreja em não se calar diante do</p><p>exposto (MAINWARING, 2004).</p><p>Parte de seu posicionamento antecipa-se às críticas dos que não se interessam em</p><p>entender, e que, mesmo ante os fatos e por força de interesses egoístas, tornaram-</p><p>se defensores do status quo. Com esse discurso, deixam transparecer tanto o</p><p>profetismo dos textos bíblicos quanto a in�uência da teoria socialista no discurso</p><p>de libertação, declarando que não resta à classe dominada outro recurso senão a</p><p>construção de uma nova sociedade, que torne possível aos oprimidos viverem</p><p>plena humanidade, livres das cadeias do sofrimento e vencendo o antagonismo de</p><p>classes no alcance da liberdade (MAINWARING, 2004).</p><p>Este texto é oriundo do período clássico das CEBs e da TL no Brasil. No início dos</p><p>anos 1980, quando começa a abertura política, o movimento experimenta nova</p><p>realidade. Para as CEBs, as duas últimas décadas do século XX foram marcadas</p><p>pela necessidade de prover novos rumos para as comunidades. Seu futuro, sua</p><p>eclesialidade e pressões das parcelas conservadoras da hierarquia eclesiástica</p><p>foram percebidos e discutidos em encontros nacionais, chamados de Interclesiais.</p><p>A década de 1990 trouxe aprofundamento às discussões; Leonardo Bo� não</p><p>considera ser possível realizar a mesma TL dos anos 1970 e 1980 (BOFF, 1996),</p><p>novos desa�os, então, são trazidos pelo surgimento de novo paradigma de</p><p>civilização.</p><p>A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA (RCC)</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Analistas e seguidores da Renovação Carismática Católica (RCC) atribuem sua</p><p>origem a uma estratégia para fortalecer a identidade católica ante o crescimento</p><p>do pentecostalismo (CARRANZA, 2009; GABRIEL, 2010; MACHADO, 1996; MARIZ;</p><p>MACHADO, 1994; ORO, 1996; PIERUCCI; PRANDI, 1996; PRANDI, 1997). Suas</p><p>análises debruçam-se sobre as divergências e as oposições que existem entre</p><p>ambos os movimentos, católico e evangélico. Recentemente, a RCC vem</p><p>desempenhando também o papel de proporcionar espaço privilegiado de</p><p>aproximação e diálogo entre católicos e evangélicos, eminentemente os</p><p>pentecostais, com a intenção de derrubar os muros erguidos nas décadas de 1980</p><p>e 1990. É um movimento com suportes e iniciativas de ambos os segmentos,</p><p>respaldado em con�uências e convergências já presentes, porém, é necessário</p><p>destacar que nem o pentecostalismo e nem a RCC são movimentos unívocos e</p><p>homogêneos, existindo, em seu meio, diversidade e heterogeneidade em</p><p>abundância.</p><p>A literatura das Ciências Sociais acerca da RCC e do pentecostalismo explicita as</p><p>suas principais diferenças e oposições, bem como as convergências</p><p>e</p><p>aproximações existentes, além da política do diálogo e de reuniões ecumênicas.</p><p>Estes dois movimentos religiosos têm origem nos Estados Unidos, tendo o</p><p>pentecostalismo surgido em 1906, na cidade de Los Angeles, e a RCC em 1967, na</p><p>Duquesne University. Relembramos que o primeiro espalhou-se pela América</p><p>Latina a partir de 1910, tendo ocorrido três ondas sucessivas.</p><p>A RCC também espalhou-se pela América Latina em três fases: a primeira, fase</p><p>fundacional, compreendeu a estruturação do movimento, nos anos de 1960 e</p><p>1970; a segunda, fase social e cultural, promoveu a consolidação de uma</p><p>evangelização através de música, lazer e oração, incluindo os carismas na rotina</p><p>dos �éis, nos anos de 1980 e 1990; e a terceira, fase midiática, foi a fase na qual a</p><p>RCC atingiu os meios de comunicação, com uma preferência pela cultura midiática,</p><p>a partir dos anos 2000 (CARRANZA, 2009).</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>Ressaltamos que, a partir da década de 1990, a RCC realizou megaeventos,</p><p>denominados encontrões, festivais, cenáculos ou rebanhões – parecidos</p><p>com os eventos dos evangélicos –, muitos dos quais contavam com</p><p>participações de padres cantores, como Fábio de Mello e Marcelo Rossi,</p><p>que, em 2008, venderam mais que Victor & Léo e Ivete Sangalo (FOLHA</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>ONLINE, 2009). As emissoras de rádio católicas regionais alinhadas à</p><p>Renovação Carismática destacam-se no cenário nacional, o mesmo ocorre</p><p>com as redes de TV que impulsionam a tendência dentro do catolicismo,</p><p>dentre as quais se destacam a Rede Vida e, especialmente, a TV Canção</p><p>Nova.</p><p>O pentecostalismo latino-americano foi, por muito tempo, interpretado, em alguns</p><p>meios católicos, como um adversário na disputa religiosa, pelo fato de captar</p><p>muitos �éis provenientes do catolicismo, o que foi, inclusive, alvo de críticas</p><p>depreciativas, em especial no período anterior ao Concílio Vaticano II (1962-1965).</p><p>E ainda que Unitatis Redintegratio, Nostra Aetate, Eclesiam Suam, Ad Gentes e</p><p>Lumen Gentium preconizem o diálogo entre religiões e rejeitem uma reivindicação</p><p>do monopólio religioso, houve continuidade da depreciação, especialmente contra</p><p>igrejas da terceira onda, acusadas de serem seitas a se combater (ORO, 1996). Por</p><p>esse motivo, em alguns meios católicos, a RCC foi considerada um movimento para</p><p>a retenção de �éis, visando a impedir o avanço pentecostal (ORO, 1996).</p><p>Entretanto, para outros, a RCC possuía, ainda, outros objetivos, tais como</p><p>enfrentar o aumento dos setores mais progressistas na Igreja, como a TL e as</p><p>CEBs, por exemplo (PIERUCCI; PRANDI, 1996).</p><p>Em 1975, foi emitido um documento acerca da Renovação Carismática, por</p><p>iniciativa do cardeal Leon Joseph Suenens. O texto Orientações teológicas e</p><p>pastorais da Renovação Carismática Católica (SUENENS, 1994) foi escrito com a</p><p>intenção de ser guia de orientação teológica e pastoral para a RCC e toda a Igreja.</p><p>Em 1987, em La Ceja, Colômbia, foi realizado o Encontro Episcopal Latino-</p><p>Americano sobre a Renovação Carismática Latino-Americana, no qual a tese de que</p><p>a Igreja vivia um novo pentecostes foi defendida. Em 1994, o episcopado brasileiro</p><p>tomou uma posição o�cial sobre a RCC durante a 34ª Reunião Ordinária do</p><p>Conselho Permanente da CNBB, quando os bispos aprovaram as Orientações</p><p>pastorais sobre a Renovação Carismática, contendo recomendações da CNBB e</p><p>coisas a serem evitadas (PRANDI, 1997).</p><p>A hierarquia católica fazia ressalvas: à prática da glossolalia e ao “repouso no</p><p>Espírito”; ao excesso de recurso a textos fundamentalistas e intimistas da Bíblia; à</p><p>fundamentação de que o Espírito Santo agia somente no interior da RCC; e à</p><p>ênfase aos grupos de oração, que são meios de atração de �éis à RCC (SOFIATI,</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>2009), além de comunidades de aliança, negligenciando atividades paroquiais.</p><p>Havia temor na Igreja de que a RCC caminhasse à margem da Igreja e/ou que fosse</p><p>dominada por práticas e conteúdos pentecostais.</p><p>Na tentativa de explicitar a diferenciação do pentecostalismo e impedir o último</p><p>temor, o magistério optou pelo acolhimento dos carismáticos, estabelecendo como</p><p>condições que participassem dos sacramentos, que reconhecessem a autoridade</p><p>papal e que enfatizassem devoção à Maria nos grupos de oração. A devoção à</p><p>Virgem garantia a permanência no universo católico, uma vez que ela é rejeitada</p><p>pelos pentecostais, reforçando a identidade católica (MARIZ; MACHADO, 1994).</p><p>Maria é um tema tão importante na RCC que pesquisadores nacionais e</p><p>internacionais apontam uma relação entre a presença da RCC e as aparições</p><p>marianas, muitas vezes disputando com paróquias e dioceses a divulgação e a</p><p>preparação de estrutura para tais eventos (STEIL, 2001).</p><p>REFLITA</p><p>Existe uma tendência interna ao catolicismo de �xar fronteiras entre o</p><p>pentecostalismo e a RCC, utilizando-se, principalmente, de elementos</p><p>simbólicos, com destaque para a devoção à Virgem Maria. Contudo,</p><p>paralelamente a isto, existe também, em ambos os segmentos religiosos,</p><p>um movimento de diálogos, aproximação e encontros, com vistas a superar</p><p>as fronteiras, enfatizando as convergências e aproximações entre ambos os</p><p>movimentos religiosos.</p><p>Nesse sentido, destaca-se a a�nidade política com ideologias de direita e</p><p>com o conservadorismo, preferindo pautas como família heteronormativa,</p><p>defesa da pátria, rejeição e até demonização do socialismo, do comunismo</p><p>e de pautas sociais, geralmente em oposição aos posicionamentos das CEBs</p><p>e da Teologia da Libertação.</p><p>Tendo conhecido os principais elementos sobre a in�uência do Vaticano II na</p><p>Eclesiologia do Povo de Deus no Brasil e suas repercussões missiológicas, podemos</p><p>entender melhor como surgiram as CEBs e quais as suas principais características.</p><p>É possível entender, também o surgimento da RCC e sua relação com a CNBB, as</p><p>CEBs e as religiões pentecostais.</p><p>Assim, aprendemos sobre o panorama do campo religioso brasileiro do século XX</p><p>pelo espectro católico. Esperamos que tenha sido enriquecedor e instigante.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>FAÇA A VALER A PENA</p><p>Questão 1</p><p>O conceito de Povo de Deus incide, primeiramente, sobre o próprio homem, logo,</p><p>possui valor antropológico. O Povo de Deus está cercado por outros povos,</p><p>vivendo entre eles e sendo semelhante a eles em muitos sentidos. Conforme José</p><p>Comblin trata, a falta de referência e/ou liderança é um dentre os muitos</p><p>problemas da constituição de um povo na atualidade, assim, faltam pessoas que</p><p>inspirem, também chamadas de “exemplos” ou “heróis”, pois elas estimulam o</p><p>povo a realizar sacrifícios em prol da coletividade (COMBLIN, 2002).</p><p>Assinale a alternativa que apresenta dois movimentos religiosos católicos com</p><p>grande expressão no Brasil.</p><p>a. Batistas e presbiterianos.</p><p>b. Lutheranos e messiânicos.</p><p>c. CEBs e RCC.</p><p>d. Santo Daime e candomblé.</p><p>e. Budistas e hare krishnas.</p><p>Questão 2</p><p>A ebulição política dos anos 1960 e 1970 contribuiu como pano de fundo para o</p><p>desenvolvimento, em meio aos grupos militantes Católicos, das Comunidades</p><p>Eclesiais de Base (CEBs) e da Teologia da Libertação (TL). O fracasso da política de</p><p>desenvolvimento dos anos pregressos e as crises econômicas e políticas</p><p>produzidas nos regimes militares agravaram-se, impactando, principalmente, os</p><p>pobres. Os movimentos sociais de esquerda tornaram-se uma saída, pois</p><p>apresentavam propostas de mudança social. O início do Papado de João XXIII e a</p><p>convocação do Concílio Vaticano II (1962-1965), bem como a Revolução Cubana de</p><p>1959, são fatores que se somam aos anteriores e tornaram possíveis re�exões e</p><p>esperanças de progressistas da Igreja Católica e da sociedade latino-americana</p><p>(LÖWY, 2000).</p><p>Leia as a�rmações a seguir acerca das CEBs:</p><p>I – Religiosos e leigos atuantes no trabalho popular deram início às primeiras</p><p>experiências que fundaram, posteriormente, as Comunidades Eclesiais de Base</p><p>(CEBs).</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>II – Constituíam-se, eminentemente, por pessoas de localidades distantes, com</p><p>pouca ou nenhuma a�nidade entre si. Os membros</p><p>tinham religiões orientais e</p><p>possuíam posicionamento contra pautas sociais.</p><p>III – Registra-se o surgimento das CEBs na década de 1960, no Brasil, tendo como</p><p>menção mais expressiva a que se formou em Nísia Floresta (RN), segundo autores.</p><p>IV – Reuniam pessoas da mesma fé, igreja e região, que viviam uma comunhão</p><p>acerca de seus problemas de sobrevivência, moradia, lutas por melhores</p><p>condições de vida, além de anseios e esperanças libertadoras, sendo</p><p>eminentemente de classes populares.</p><p>V – As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) eram compostas apenas por</p><p>religiosos e têm como característica a rejeição à atuação dos leigos.</p><p>Assinale a alternativa que julga corretamente as a�rmações.</p><p>a. Apenas as a�rmativas II, III e IV estão corretas.</p><p>b. Apenas as a�rmativas I, II e V estão corretas.</p><p>c. Apenas as a�rmativas II, IV e V estão corretas.</p><p>d. Apenas as a�rmativas I, III e IV estão corretas.</p><p>e. Apenas as a�rmativas I, III e V estão corretas.</p><p>Questão 3</p><p>A RCC também permeou-se pela América Latina em três fases: a primeira, fase</p><p>fundacional, compreendeu a estruturação do movimento, nos anos de 1960 e</p><p>1970; a segunda, fase social e cultural, promoveu a consolidação de uma</p><p>evangelização através de música, lazer e oração, incluindo os carismas na rotina</p><p>dos �éis, nos anos de 1980 e 1990; e a terceira, fase midiática, foi a fase na qual a</p><p>RCC atingiu os meios de comunicação, com uma preferência pela cultura midiática,</p><p>a partir dos anos 2000 (CARRANZA, 2009).</p><p>Julgue as assertivas quanto a serem Verdadeiras (V) ou Falsas (F).</p><p>( ) É possível atribuir a origem da RCC a uma estratégia para fortalecer a identidade</p><p>católica ante o crescimento do pentecostalismo.</p><p>( ) Recentemente, a RCC vem desempenhando também o papel de proporcionar</p><p>espaço privilegiado de aproximação e diálogo entre católicos e evangélicos.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>( ) Nem a RCC e nem as religiões pentecostais são movimentos unívocos e</p><p>homogêneos, existindo em seu meio diversidade e heterogeneidade em</p><p>abundância.</p><p>( ) Apenas as Comunidades Eclesiais de Base possuem diálogo com movimentos</p><p>religiosos de outros credos, em função de sua rejeição às pautas sociais, como o</p><p>casamento homoafetivo e o aborto.</p><p>Assinale a alternativa que julga corretamente as assertivas.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ANTONIAZZI, A. Leitura sócio-pastoral da Igreja no Brasil (1960-2000). In: CNBB.</p><p>Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Encarte Conjuntura Social e</p><p>Documentação Eclesial. CNBB, 2000.</p><p>BEDOUELLE, T. Mundo. In: LACOSTE, JY. Dicionário crítico de teologia. São Paulo:</p><p>Paulinas/Loyola, 2004. p. 1214.</p><p>BETTO, F. O que é Comunidade Eclesial de Base. São Paulo: Brasiliense, 2008.</p><p>BOFF, C. Como vejo a teologia latino-americana trinta anos depois. In: SUSIN, L. C.</p><p>(Org.). O Mar se abriu – Trinta anos de teologia na América Latina. São Paulo:</p><p>Loyola, 2000.</p><p>BOFF, L. A Teologia da Libertação – Balanço e Perspectivas. São Paulo: Ática,</p><p>1996.</p><p>BRIGHENTI, A. A pastoral dá o que pensar: a inteligência da prática</p><p>transformadora da fé. São Paulo: Paulinas/Valência/Siquem, 2006. p. 155.</p><p>CARRANZA, B. Perspectivas da neopentecostalização católica. In: CARRANZA, B;</p><p>MARIZ, C; CAMURÇA, M. Novas comunidades católicas. Aparecida: Ideias &</p><p>Letras, 2009.</p><p>a. V – F – V – F.</p><p>b. F – V – F – V.</p><p>c. V – F – V – V.</p><p>d. F – V – V – V.</p><p>e. V – V – V – F.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>CEB’S UMA IGREJA QUE NASCE DO POVO. Cartilha de preparação para o 4º</p><p>Encontro Estadual das Ceb’s, em Tubarão, SC – 14/15 de Setembro de 1985. [S. l]:</p><p>Comunidades Eclesiais de Base, 1985.</p><p>COMBLIN, J. O Povo de Deus. São Paulo: Paulus, 2002.</p><p>CONGAR, Y. MJ. A Igreja como Povo de Deus. Concilium, [S. l.], n. 1, p. 8-26, 1965.</p><p>FOLHA ONLINE. Padres lideram ranking dos CDs mais vendidos em 2008. Folha</p><p>Online, [S. l.], 16 abr. 2009, Disponível em:</p><p>http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u551926.shtml. Acesso em: 1</p><p>abr. 2021.</p><p>FORTE, B. A essência do cristianismo. Petrópolis: Vozes, 2003.</p><p>GABRIEL, E. Catolicismo carismático brasileiro em Portugal. 2010. 157 f. 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Decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja. Vaticano,</p><p>1965b. Disponível em: https://bit.ly/3rFRDfw. Acesso em: 1 abr. 2021.</p><p>PAULO VI. Decreto Unitatis Redintegratio, sobre o Ecumenismo. Vaticano, 1964b.</p><p>Disponível em: https://bit.ly/3fpu2Ll. Acesso em: 1 abr. 2021.</p><p>PAULO VI. Gaudium et Spes – Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II sobre a</p><p>Igreja no Mundo de Hoje. Vaticano, 1965c. Disponível em: https://bit.ly/3zKPGkF.</p><p>Acesso em: 1 abr. 2021.</p><p>PAULO VI. Lumen Gentium. Vaticano, 1964c. Disponível em: https://bit.ly/3l2IVqt.</p><p>Acesso em: 1 abr. 2021.</p><p>PIERUCCI, A. F.; PRANDI, R. A realidade social das religiões no Brasil. São Paulo:</p><p>Hucitec, 1996.</p><p>PRANDI, R. Um sopro do Espírito. São Paulo: Edusp, 1997.</p><p>SANTOS, Irinéia Maria Franco. Lutas e perspectivasda Teologia da Libertação: O</p><p>caso da Comunidade São João Batista, Vila Rica, São Paulo: 1980-2000. 2006. 229 f.</p><p>Dissertação (Mestrado em História) - Faculdade de Filoso�a, Letras e Ciências</p><p>Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3zJPvWP. Acesso em: 10 jul. 2021.</p><p>SADER, E. A transição no Brasil: da ditadura à democracia? São Paulo: Atual</p><p>Editora, 1990.</p><p>SOFIATI, F. M. Religião e juventude: os jovens carismáticos. 2009. Tese (Doutorado</p><p>em Sociologia), Faculdade de Filoso�a, Letras e Ciências Humanas, Universidade de</p><p>São Paulo, 2009.</p><p>STEIL, C. A. Aparições marianas contemporâneas e carismatismo católico. In:</p><p>SANCHIS, P. (Ed.). Fiéis & Cidadãos – Percursos de sincretismos no Brasil. Rio de</p><p>Janeiro: EdUERJ, 2001.</p><p>SUENENS, C. (Org.). Orientações teológicas e pastorais da Renovação</p><p>Carismática Católica. São Paulo: Edições Loyola, 1994.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://bit.ly/3rNcei8</p><p>https://bit.ly/3yaSw1T</p><p>https://bit.ly/3rFRDfw</p><p>https://bit.ly/3fpu2Ll</p><p>https://bit.ly/3zKPGkF</p><p>https://bit.ly/3l2IVqt</p><p>https://bit.ly/3zJPvWP</p><p>WAGNER, P. Terremoto en la Iglesia – La nueva reforma apostólica está</p><p>sacudiendo la Iglesia que conocemos. Nashville: Betania, 2000.</p><p>WYNARCZYK, H. Ciudadanos de dos mundos – El movimiento evangelico en la vida</p><p>pública argentina: 1980-2001. Buenos Aires: UNSAM, 2009.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>CENÁRIO DAS DEMAIS DENOMINAÇÕES RELIGIOSAS NO SÉCULO</p><p>XX NO BRASIL</p><p>Marcos Porto Freitas da Rocha</p><p>Imprimir</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Seja bem-vindo à Seção 4.3, “Cenário das demais denominações religiosas no</p><p>século XX no Brasil”. Nesta seção, estudaremos a respeito da presença e da</p><p>pluralidade de religiões de matrizes afro-brasileiras em nosso país, conhecendo o</p><p>desenvolvimento das lutas que seus adeptos enfrentaram para que pudessem</p><p>professar sua fé sem ser alvo de discriminações, preconceitos e demais violências.</p><p>Abordaremos as transformações ocorridas neste período que estimularam uma</p><p>signi�cativa alteração do per�l religioso brasileiro, incluindo as transformações no</p><p>âmbito internacional, que aqui reverberaram, bem como aquelas oriundas das</p><p>próprias dinâmicas internas. As mudanças perpassam os processos de</p><p>industrialização e urbanização ocorridos no início do século XX, além da</p><p>globalização, que permeou muitos países, trazendo consequências boas e ruins.</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Nossa sociedade passou a vivenciar processos que aprofundaram as</p><p>desigualdades sociais e impulsionaram não apenas um maior apego à religião, mas</p><p>uma busca por respostas a partir dela. Neste contexto, desenvolveram-se novas</p><p>religiosidades, e religiões tradicionais experimentaram processos de renovação,</p><p>como vimos recentemente, na seção anterior.</p><p>Discutiremos, também, sobre a convivência pací�ca entre as religiões como um</p><p>valor a ser aprendido e estimulado em todos os ambientes sociais e,</p><p>especialmente, na escola, fomentando o respeito à liberdade religiosa e ao diálogo</p><p>inter-religioso.</p><p>Sabemos que o Brasil tem sua população composta por múltiplas etnias,</p><p>nacionalidades e raças, assim, as diferentes culturas presentes têm sua origem</p><p>nessa multiplicidade de povos que compõem a sociedade brasileira, desde os</p><p>povos indígenas originários até os imigrantes europeus, africanos, asiáticos e</p><p>demais que aqui chegaram por diversas razões, e que hoje compõem a pluralidade</p><p>religiosa presente no Brasil.</p><p>Abordaremos, também, brevemente, a educação para a cidadania como forma de</p><p>estimular o diálogo inter-religioso, o que contribui para a expectativa de uma</p><p>sociedade menos intolerante e preconceituosa no futuro.</p><p>E, por �m, falaremos sobre as contribuições da Teologia e da(s) Ciência(s) da(s)</p><p>Religião(ões) para a construção de uma cultura de diálogo, de liberdade religiosa,</p><p>de estímulo ao acolhimento de minorias e para a edi�cação de um país em que as</p><p>pessoas não continuem sendo alvo de violência com motivação religiosa.</p><p>Imagine-se como convidado de um fórum escolar acerca da diversidade religiosa e</p><p>do respeito à liberdade religiosa. Você foi chamado para participar de uma mesa</p><p>redonda sobre os temas do fórum, com ênfase no combate a atos de</p><p>discriminação, intolerância e outras violências religiosas.</p><p>Um dos participantes argumenta sobre a existência, no Brasil, de uma possível</p><p>“cristofobia”, que, segundo ele, seria a discriminação, a rejeição ou a</p><p>desvalorização de princípios religiosos cristãos em uma sociedade cada vez mais</p><p>“mundanizada”, narcisista, hedonista e entregue à satisfação de suas vontades,</p><p>desprezando as possíveis consequências desse comportamento.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Parte dos argumentos incluía a defesa de posicionamentos pautados no direito de</p><p>ser contra o aborto, de se manifestar contra o casamento entre pessoas do mesmo</p><p>sexo, contra a liberação de drogas, e até apresentando propostas de combate à</p><p>violência com a liberação do acesso à posse e ao porte de armas de fogo por</p><p>cidadãos.</p><p>Após esta fala, lhe é dada a palavra para expressar seu posicionamento, tendo em</p><p>vista sua formação especí�ca em religiosidades. O mediador ressalta sua formação</p><p>acadêmica e lhe concede tempo para expor seu pensamento.</p><p>Qual seria o melhor caminho argumentativo para abordar a temática da</p><p>possibilidade da existência de uma “cristofobia” no Brasil?</p><p>“A escuridão não pode expulsar a escuridão; apenas a luz pode fazer isso. O ódio</p><p>não pode expulsar ódio; só o amor pode fazer isso” – Dr. Martin Luther King Jr.</p><p>Inspirados pela força do amor, vamos conhecer, juntos, sobre a diversidade</p><p>religiosa no Brasil.</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>AS RELIGIÕES DE MATRIZES AFRICANAS</p><p>As religiões de matrizes afro-brasileiras em nosso país têm sua origem a partir da</p><p>introdução, em território nacional, das religiosidades expressadas por pessoas</p><p>escravizadas, de origem africana, que preservaram tradições, idiomas,</p><p>conhecimentos e valores de suas etnias, originárias das sociedades que faziam</p><p>parte do continente africano. Essas pessoas representaram todo um esforço em</p><p>prol da resistência e da preservação, a preços altos, de uma memória ancestral. As</p><p>religiões de matrizes africanas foram perseguidas, e sua prática foi tratada como</p><p>crime, sendo, por muitas vezes, e em determinados momentos, proibidas ao longo</p><p>da história brasileira, além de continuadamente rotuladas como crendices, seitas e</p><p>feitiçarias (DHESCA BRASIL, 2010).</p><p>Como estratégia de sobrevivência em um país cuja religião o�cial era o catolicismo,</p><p>adeptos das religiões de matrizes africanas desenvolveram paralelismos que</p><p>equiparavam divindades africanas e santos católicos, contribuindo para o</p><p>sincretismo religioso que se observa no Brasil de hoje. Pela adoção do calendário</p><p>de festas do catolicismo, valorizaram a frequência aos ritos e sacramentos da</p><p>Igreja católica, com o intuito de integrarem-se à sociedade.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>O cidadão negro e, antes dele, o negro livre e, mais anteriormente, o escravo negro</p><p>entenderam a necessidade de tornarem-se católicos, e mais do que isso, de</p><p>empreender esforços para que a sociedade à sua volta acreditasse que haviam se</p><p>convertido ao catolicismo, como método de garantia ou manutenção de sua vida e,</p><p>em adição, como forma de serem recepcionados na sociedade. Por esta razão,</p><p>muitas pessoas que praticam religiões de matrizes afro-brasileiras, mesmo</p><p>atualmente, a�rmam ser – e se comportam como tal – �éis ao catolicismo,</p><p>entretanto, em sua prática, frequentam ritos católicos e também de suas religiões</p><p>de matrizes africanas.</p><p>A discriminação em relação aos adeptos das religiões de matrizes afro-brasileiras</p><p>encontra-se inserida em um contexto mais extenso de discriminação do negro na</p><p>sociedade brasileira. As diferentes variantes rituais das religiões de matrizes</p><p>africanas, dentre as quais podemos citar o candomblé, as umbandas, o tambor de</p><p>minas, a quimbanda, etc., foram, com o decorrer dos anos, desquali�cadas,</p><p>depreciadas e tratadas como manifestações primitivas e/ou arcaicas, que deveriam</p><p>ser relegadas ao desaparecimento por remeterem ao passado da humanidade</p><p>(DHESCA BRASIL, 2010).</p><p>As religiões de matrizes africanas, como já dissemos, foram proibidas e reprimidas,</p><p>inclusive de modo violento, desde sua introdução no Brasil. Um dos marcos dessas</p><p>ações foi um fato ocorrido no século XIX, no ano de 1829, quando a comunidade</p><p>de terreiro baiana Candomblé do Accu, localizada no bairro de Acupe de Brotas,</p><p>sofreu violenta repressão policial, com invasão e apreensão (na verdade,</p><p>sequestro) de bens litúrgicos, dentre outros (REIS; SILVA, 1989). A denúncia e a</p><p>organização da comunidade para fazer frente a essa injustiça são consideradas</p><p>como o marco inicial da luta das religiões afro-brasileiras por reconhecimento e</p><p>legitimidade. A partir desta resistência, sucederam-se ações que visavam à defesa</p><p>e à proteção de locais de culto de religiões de matrizes africanas. Outro fato</p><p>emblemático é o que aconteceu em 1831, quando o desembargador Honorato José</p><p>de Barros Paim acolheu a queixa de Florência Joaquina de São Bento, mulher</p><p>negra, contra Antonio Guimarães. Ocorreu que, mais uma vez, os auxiliares do juiz</p><p>da comarca haviam invadido um terreiro de candomblé e foram acusados por</p><p>Florência de roubar peças de fazenda e moedas de cobre, prata e ouro. O juiz</p><p>recebeu a queixa, mas, mais uma vez, defendeu seus auxiliares, obrigando, então,</p><p>a querelante a buscar o amparo da instância superior, o que fez com que o juiz</p><p>tivesse de se expor para defender-se (REIS; SILVA, 1989).</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Atualmente, os ataques às religiões de matrizes afro-brasileiras ocorrem, de</p><p>maneira mais expressiva, principalmente pelas chamadas religiões</p><p>neopentecostais (rever a Seção 4.1, em que tratamos dos evangélicos no Brasil),</p><p>que fazem uso de meios de comunicação para difundir a demonização da</p><p>religiosidade vitimada. Infelizmente, invasões e ataques a locais sagrados e de</p><p>culto de religiões de matrizes africanas continuam a ocorrer em muitos estados</p><p>brasileiros, por mais que sejam crimes, havendo ainda desrespeito, ofensas,</p><p>agressões verbais, psicológicas e até mesmo físicas contra pessoas que professam</p><p>credos de matrizes africanas. São fartos os relatos e as reportagens acerca de</p><p>invasões a terreiros de candomblé e umbanda, crimes perpetrados por milicianos,</p><p>tra�cantes de drogas e até por policiais, em muitos municípios, ocasionando desde</p><p>a intimidação e agressão até a expulsão do chamado “povo de santo” de</p><p>comunidades em todo o Brasil.</p><p>ASSIMILE</p><p>Como exemplo disso, destacamos o registro do Professor Marcos Porto F.</p><p>Rocha, dentre outros casos:</p><p>Como dito anteriormente, na atualidade, é possível observar atitudes de</p><p>intolerância religiosa para com pessoas adeptas de religiões de matrizes africanas,</p><p>sendo essas atitudes amplamente noticiadas e repudiadas nas diversas mídias</p><p>nacionais. Um número expressivo de templos, terreiros e demais locais sagrados é</p><p>atacado com violência por pessoas de outros segmentos religiosos, ou até mesmo</p><p>por pessoas sem adesão a qualquer credo.</p><p>Defender o discurso e o diálogo inter-religioso é, portanto, lutar também pela</p><p>liberdade de expressão de outros cidadãos, que evidentemente se apresenta</p><p>bastante ameaçada, vide registros da Comissão de Combate à Intolerância</p><p>Religiosa e a criação, em 2014, da Comissão de Combate às Discriminações e</p><p>Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional, pela Assembleia</p><p>Em fevereiro de 2007, na cidade de Belo Horizonte/MG, a polícia militar invadiu a</p><p>Comunidade Terreiro Unzo Atim Nzaze Yia Omin, sob a alegação de denúncia</p><p>anônima de pessoa em cárcere privado. O fato foi denunciado ao Comando Militar</p><p>e à Corregedoria da Polícia Militar. Durante o ano de 2009, em Maceió/AL, seis</p><p>terreiros de candomblé foram invadidos por policiais militares. A Comissão de</p><p>Direitos Humanos da OAB/Seccional Alagoas recebeu a denúncia e acompanhou o</p><p>caso. Em junho de 2007, no município de Jaraguá do Sul/SC, policiais militares</p><p>invadiram a Tenda de Umbanda Caboclo Pajelança.</p><p>— (ROCHA, 2016, p. 53-54)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ, 2014). Esta Comissão, desde março</p><p>de 2008, por iniciativa da sociedade civil carioca, tem por �nalidade garantir a</p><p>pluralidade de ideias e a diversidade cultural, visibilizando atos e práticas de</p><p>intolerância religiosa nas relações cotidianas, bem como defendendo e exigindo o</p><p>cumprimento do direito à liberdade religiosa, conforme a Constituição da</p><p>República Federativa do Brasil (ROCHA, 2020).</p><p>MUDANÇAS NO SÉCULO XX QUE ESTIMULARAM ALTERAÇÃO</p><p>SIGNIFICATIVA NO PERFIL RELIGIOSO BRASILEIRO</p><p>Todo processo histórico vivido pelo povo brasileiro, somado a um profundo</p><p>processo de industrialização e urbanização iniciado em meados do século XX, e</p><p>somado também à globalização e ao neoliberalismo, nos conduz à re�exão sobre</p><p>como as mais diferentes formas de cultura relacionam-se em um ambiente urbano</p><p>restrito espacialmente e que concentra, concomitantemente, um grande número</p><p>de indivíduos de culturas e meios sociais diferentes. Isabel Guerra (2008) propõe</p><p>que as cidades sempre �zeram oposição ao campo em razão de sua</p><p>heterogeneidade social e cultural, sendo, por de�nição, consideradas</p><p>cosmopolitas, visto que concentram, em um território delimitado, grande</p><p>diversidade de indivíduos, com culturas e meios sociais diferentes. Isso torna as</p><p>cidades lugares de inovação, geralmente é identi�cada com a cultura urbana, mas</p><p>também, e paradoxalmente, lugares de tensão e de confronto cultural (GUERRA,</p><p>2008).</p><p>É mister lembrar, ainda, que a urbanização brasileira ocorreu de forma</p><p>socialmente desordenada, de modo que milhares de pessoas deslocaram-se das</p><p>regiões Norte e Nordeste em direção, especialmente, às regiões Sudeste e Sul,</p><p>onde não encontraram uma infraestrutura mínima de habitação, de educação e de</p><p>saneamento básico, �cando à mercê da própria sorte e contribuindo, desta forma,</p><p>para o aumento da densidade populacional dos grandes centros urbanos, fazendo</p><p>aumentar, também, o número de comunidades carentes, chamadas de favelas.</p><p>João Ricardo Braga de Pinho nos rememora que a década de 1980 inseriu o país</p><p>em uma crise econômica ainda maior, aumentando os já existentes abismos</p><p>sociais e a segregação nas cidades. Os indicadores sociais urbanos seguiram</p><p>piorando, o processo de favelização se agravou, assim como a violência, e o</p><p>processo de migração para as cidades acabou por se intensi�car, isto se constituiu</p><p>em um ciclo de piora ainda maior dos indicadores (PINHO, 2012).</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Esse foi um processo que aprofundou a exclusão social, a miséria e o abandono,</p><p>inclusive de muitos que conviviam proximamente a pessoas com alto poder</p><p>aquisitivo. Neste cenário da sociedade brasileira, repleto de contradições sociais e</p><p>econômicas, é preciso considerar outro aspecto, não menos importante, que é a</p><p>relação intercultural.</p><p>Considerando que, nos últimos quarenta anos, as diversi�cações das crenças</p><p>religiosas aumentaram profundamente no Brasil, a Igreja Católica, ao que parece,</p><p>não acompanhou a nova realidade social presente em nosso país. Como resultado,</p><p>houve o já mencionado surpreendente surgimento e crescimento das Igrejas</p><p>Pentecostais, especialmente as neopentecostais, que propuseram respostas às</p><p>indagações ou mesmo aos sofrimentos e angústias gerados por esta nova</p><p>con�guração da vida, principalmente urbana, da sociedade brasileira.</p><p>Gamaliel da Silva Carreiro (2007) propõe uma análise acerca do papel</p><p>desempenhado pelas múltiplas pro�ssões de fé pentecostais e neopentecostais.</p><p>Para os teóricos do pentecostalismo clássico do Brasil e da América Latina, a</p><p>porção pentecostal do meio evangélico sempre foi entendida como refúgio das</p><p>classes populares e local de reintegração dos laços perdidos com os familiares</p><p>oriundos do interior, em razão da transferência de grandes contingentes do meio</p><p>rural para o urbano. As igrejas pentecostais desempenhariam o papel acolhedor</p><p>de pessoas humildes em comunidades fraternais, que têm a capacidade de</p><p>integrar os não privilegiados (CARREIRO, 2007).</p><p>A presença de novos credos, o declínio católico e, ao mesmo tempo, a crescente</p><p>secularização em nossa sociedade, geram a necessidade de um diálogo que</p><p>favoreça o pluralismo religioso, especialmente ante outras formas de pensamento</p><p>que remetem ao sagrado, ao sobrenatural. Há religiões de origem africana,</p><p>ocultismo, religiões do extremo oriente, agnosticismo e muitas outras perspectivas</p><p>religiosas. Neste complexo contexto, desenvolvem-se as pessoas que conviverão</p><p>cotidianamente em sala de aula e fora dela, desse modo, a escola deve constituir-</p><p>se em espaço aberto de diálogo e respeito, promovendo a valorização do direito à</p><p>igualdade e à liberdade. Propomos que haja uma re�exão acerca da igualdade, do</p><p>diálogo, da busca pelo bem comum e da liberdade de expressão e de religião,</p><p>temas tão caros às sociedades democráticas.</p><p>CONVIVÊNCIA PACÍFICA ENTRE OS DIVERSOS CREDOS NO BRASIL, UM</p><p>VALOR QUE TAMBÉM SE APRENDE NA ESCOLA</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>É necessário repensar as formas de nos relacionarmos com o outro, pois, quando</p><p>respeitamos a crença alheia, estamos demonstrando um profundo apreço ao ser</p><p>humano; por esta razão, a escola deve ser um espaço de aprendizagem importante</p><p>neste contexto, assim, uma das preocupações dos que nela atuam deve ser</p><p>propiciar</p><p>um trabalho de diálogo inter-religioso, voltado para a promoção do</p><p>encontro, do respeito mútuo, da ética, e da construção da cidadania através da</p><p>tolerância com as diferentes formas de relação com o sagrado. Em havendo êxito,</p><p>não apenas haverá um cotidiano escolar mais plural, como será construída uma</p><p>sociedade mais tolerante (ROCHA, 2020).</p><p>O caso brasileiro é deveras interessante em razão da pluralidade e da diversidade</p><p>religiosa de nosso povo. Uma breve re�exão sobre a história do nosso país nos</p><p>trará a memória de que ele foi e continua sendo habitado por uma in�nidade de</p><p>povos indígenas, que possuíam suas próprias crenças e suas próprias culturas,</p><p>dentre estes, destacamos os povos Tikúna, Guarani Kaiowá, Kaingang, Macuxí,</p><p>Terena, Tenetehara, Yanomámi, Potiguara, Xavante, Pataxó, Tupiniquim e Guarani</p><p>(IBGE, 2010).</p><p>No início do século XVI, em virtude da expansão do capitalismo mercantilista, o</p><p>colonizador português adentrou nossas terras e imprimiu um processo de</p><p>conquista e de ocupação, inicialmente, a partir do corte do pau-brasil, utilizando-se</p><p>do trabalho indígena. Depois, veio o plantio da cana-de-açúcar, com a importação</p><p>da mão de obra escravizada negra, trazida de diversos e distintos lugares da África,</p><p>totalizando, segundo Góes (2008), 3.600.000 escravizados. Essa população era</p><p>rapidamente separada do seu grupo linguístico e cultural e misturada com outros</p><p>de povos diferentes, para evitar comunicação, organização, resistência, rebelião e</p><p>fuga (GÓES, 2008).</p><p>Da metade do século XIX até o início do século XX, em razão da lavoura de café, o</p><p>Brasil teve mais uma forte leva de imigrantes, principalmente europeus, bem como</p><p>turcos e árabes, muçulmanos, em sua maioria, e, ainda, os japoneses, que na sua</p><p>chegada professavam, em geral, o budismo e o xintoísmo; além desses, muitos</p><p>outros credos foram trazidos para nosso país, ou aqui se desenvolveram.</p><p>Esse processo histórico permitiu ao Observatório da Laicidade do Estado concluir,</p><p>em comparação com outros países, que o campo religioso brasileiro é</p><p>notadamente complexo, abrangendo religiões de diferentes graus de</p><p>institucionalização, com origens em diferentes tradições culturais: do monoteísmo</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>judaico-cristão ao politeísmo indígena, ou de origem africana, sem desconsiderar</p><p>as incorporações de tradições orientais, bem como de religiões que não possuem a</p><p>noção de deus. Entre todas elas, encontram-se as igrejas evangélicas pentecostais,</p><p>umas mais institucionalizadas, outras menos, pois o surgimento de uma nova</p><p>igreja depende apenas da iniciativa e da liderança de algum dissidente,</p><p>inaugurando sua própria con�ssão (OLE, 2020).</p><p>A formação do povo brasileiro é, indubitavelmente, miscigenada e marcada pela</p><p>multirreligiosidade e pela multiculturalidade, pois a cultura é uma forma da</p><p>expressão da religião (PIAI, 2013).</p><p>Desde a época da chegada dos europeus no Brasil, o catolicismo tornou-se religião</p><p>o�cial até a Constituição de 1891, assim, houve um Estado confessional no período</p><p>que vai do Brasil Colônia até o Brasil Império. Entretanto, o Brasil, durante todo</p><p>este período, conviveu e incorporou, em sua cultura nacional, diversas práticas</p><p>religiosas indígenas, africanas e protestantes – após a chegada das primeiras</p><p>igrejas protestantes, concomitantemente com a vinda da família real portuguesa,</p><p>em 1808 –, além de outras possíveis religiosidades pouco divulgadas à época</p><p>(ROCHA, 2020).</p><p>REFLITA</p><p>As tradições religiosas foram muito importantes na formação da coesão</p><p>social e na de�nição da identidade sociocultural dos estados nacionais,</p><p>assumindo, neste momento, outra estrutura. O processo de diálogo inter-</p><p>religioso brasileiro começou, através de inciativas diversas, com vistas a</p><p>contribuir para uma sociedade diferenciada, sobretudo compreendendo a</p><p>importância da pluralidade cultural, que acabou por se tornar desa�adora,</p><p>mas que segue adiante verdadeiramente (JUNQUEIRA, 2002).</p><p>É possível apresentar um exemplo deste esforço: em maio de 1999, houve</p><p>um encontro entre 142 pessoas de diversas tradições religiosas. Nesse</p><p>encontro, dialogaram sobre a situação nacional e �zeram-se representar as</p><p>tradições: Anglicana; Antroposo�a; Baha’l; Brahma; Kumaris; Budismo</p><p>Mahayama; Budismo Tibetano; Budismo Zen; Candomblé; Católica;</p><p>Evangélica; Religião de Deus; Espiritualismo; Grande Fraternidade Universal;</p><p>Hare Krishna; Hinduísmo; Igreja Messiânica; Indígena, das tribos: Kariri,</p><p>Fulniö, Xocó, Krenac, Pataxó e Guarani; Islamismo; Kardecismo; Legião da</p><p>Boa Vontade; Luterana; Maçonaria; Metodista; Presbiteriana; Rosacruz;</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Santo Daime; Su�smo; Umbanda; Xamanismo; Xintoísmo e Oomoto (ISER,</p><p>1999, p. 22). Em São Paulo, no ano 2000, houve um segundo encontro; este</p><p>tipo de evento promove e exempli�ca o processo de diálogo que</p><p>prosseguiu no Brasil (ROCHA, 2020).</p><p>FOMENTO AO DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO POR MEIO DA EDUCAÇÃO</p><p>PARA A CIDADANIA</p><p>As escolas podem exercer um papel crucial na implantação de um diálogo inter-</p><p>religioso, contribuindo para que o aluno perceba que a sua crença é uma das</p><p>inúmeras possibilidades de relacionamento com o sagrado, e que ninguém e</p><p>nenhuma religião possui o monopólio da verdade, posto que as religiões têm a</p><p>função de acolher, apaziguar os temores e orientar seus adeptos a uma vida de</p><p>re�exão e relacionamento.</p><p>Luiz Antônio Piai (2013) propõe que crer é acreditar não estar só no mundo e</p><p>encontrar conforto em algo pode ajudar, seja pela presença mística, seja pela</p><p>iluminação, seja pelo conhecimento, e isto produz refrigério diante de temas como</p><p>morte, vida, existência e relações sociais (PIAI, 2013). Cada religião possui a sua</p><p>verdade, e não toda a verdade. Conhecer outras crenças torna possível</p><p>compreender outras dimensões da vida e do universo.</p><p>Deste modo, na realidade, não existem religiões falsas. A seu modo, todas são</p><p>verdadeiras e respondem, mesmo que de formas diversas, a condições dadas da</p><p>existência humana. Todas são igualmente religiões, assim como todos os seres</p><p>vivos são, do mesmo modo, vivos, desde os mais humildes plastídios até o homem</p><p>(DURKHEIM, 1983).</p><p>Há que se defender o diálogo inter-religioso, porque sua ausência abre espaço</p><p>para a intolerância. A história nos apresenta situações nas quais ela atingiu níveis</p><p>inimagináveis, tais como a Inquisição e os regimes totalitários, em especial o</p><p>nazismo.</p><p>Como resposta aos horrores e �agelos da Segunda Guerra Mundial, foi promovida</p><p>a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que diz, em seu art. 23:</p><p>Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de</p><p>mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo</p><p>culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.</p><p>— (ONU, 2009, [s. p.])</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>A Declaração Universal dos Direitos Humanos possui força legal no Brasil, a partir</p><p>da interpretação do art. 5º, §§ 2º, 3º e 4º da Constituição da República Federativa</p><p>do Brasil de 1988, representando um referencial para a tomada de consciência dos</p><p>direitos de todos os seres humanos, bem como da necessidade de serem</p><p>respeitados, principalmente por governos Democráticos que se encontram em</p><p>Estado de Direito:</p><p>Tendo a Constituição como referencial, é preciso reconhecer a necessidade do</p><p>diálogo inter-religioso, bem como o longo percurso para dirimir questões</p><p>relacionadas à intolerância religiosa. A educação para a cidadania é um ponto de</p><p>partida, a qual inclui o direito de livre expressão, de receber todas as informações</p><p>sobre o que está acontecendo, de reunião, de organização, de locomoção sem</p><p>restrição indevida e de tratamento igualitário perante a lei (JOHNSON, 1997).</p><p>A escola pública é, formalmente, espaço de presença do Estado laico e</p><p>democrático, no Brasil. Desse modo, referir-se à diversidade religiosa na escola nos</p><p>remete a formas de compreensão do sagrado e a relações interculturais.</p><p>é a área do saber ligada à �loso�a que se</p><p>ocupa com as questões relacionadas à existência do ser, da razão e do sentido da</p><p>realidade. Aristóteles (384-322 a.C.) foi um dos primeiros �lósofos a tratar da noção</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ARISTÓTELES. Metafísica. 2. ed. São Paulo: EDIPRO, 2012. Livros V, VI, VII e X.</p><p>ARON, R. As etapas do pensamento sociológico. São Paulo: Editora Martins</p><p>Fontes, 2000.</p><p>BAUMAN, Z. Modernidade Líquida. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 2001.</p><p>FEUERBACH, L. A essência do cristianismo. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2007.</p><p>FREUD. S. O futuro de uma ilusão. Porto Alegre: L&PM, 2011.</p><p>GIDDENS, A. Política, Sociologia e Teoria Social: encontros com o pensamento</p><p>social clássico e contemporâneo. São Paulo: Unesp, 1998.</p><p>HOBSBAWM, E. Era dos extremos: o breve século XX 1914-1991. 2. ed. São Paulo:</p><p>Companhia das Letras, 1995. E-book.</p><p>KANT, I. Crítica da razão pura. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.</p><p>de metafísica na expressão “ciências das primeiras causas”. Mais tarde Roger</p><p>Bacon (1212-1204), David Hume (1711-1776) e Immanuel Kant (1724-1804)</p><p>produziram teses que impactaram os conceitos da meta�sica.</p><p>Considerando o contexto apresentado, analise as a�rmativas a seguir:</p><p>I. Aristóteles foi o primeiro �lósofo a utilizar a palavra grega metàphysis em suas</p><p>obras.</p><p>II. Roger Bacon abriu as portas para o método de investigação empirista.</p><p>III. Immanuel Kant invalidou o método racionalista como instrumento para se</p><p>chegar ao conhecimento de Deus.</p><p>IV. David Hume formulou um método chamado Positivismo.</p><p>Diante do contexto apresentado, é correto o que se a�rma em:</p><p>a. I, II e IV, apenas.</p><p>b. I, II e III, apenas.</p><p>c. II, III e IV, apenas.</p><p>d. I e II, apenas.</p><p>e. II e III, apenas.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>LIMA, C. R. ASSALAMU ALAYKUM: o Islã no Brasil e os processos sociais utilizados</p><p>para a (re)construção da imagem elaborada pelos meios de comunicação de massa</p><p>a partir de 11 de setembro de 2001. 2019. 343 f. Tese (Doutorado em</p><p>Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades) – Faculdade de Filoso�a, Letras e</p><p>Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019.</p><p>LYOTARD, J.-F. A condição pós-moderna. 12. ed. Rio de Janeiro: Editora José</p><p>Olympio Ltda., 2009.</p><p>MALHEIROS, I. Teologia ou estereótipo: o que de�ne o fundamentalismo cristão?</p><p>Revista de Estudos de Religião, v. 6, n. 2, p. 256-277, 2015.</p><p>MORAIS, J. E. T.; FERREIRA, L. C.; GOMES, R. F. Palavra de Deus, na neo-ortodoxia,</p><p>segundo Karl Barth. Revista de Cultura Teológica, Belo Horizonte, v. 18, n. 70, p.</p><p>69-75, abr./jun. 2010. Disponível em: https://bit.ly/3AWV6KN. Acesso em: 7 fev.</p><p>2021.</p><p>NIETZSCHE, F. O anticristo – ensaio de crítica do cristianismo. São Paulo: Editora</p><p>Escala, 2008.</p><p>PAULO II, J. L’Osservatore Romano, n. 44, 4 nov. 1992. Cidade do Vaticano:</p><p>Tipogra�a Vaticana, 1992.</p><p>RIBEIRO, A. C. R. de C.; MARQUES, M. C. da C.; MOTA, A. A gripe espanhola pela</p><p>lente da história local: arquivos, memória e mitos de origem em Botucatu, SP,</p><p>Brasil, 1918. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, [S. l.], v. 24, p. 1-16, 2020.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=&ved=2ahUKEwidrZfV69juAhVkD7kGHXRPAegQFjAKegQIEBAC&url=https%3A%2F%2Frevistas.pucsp.br%2Findex.php%2Fculturateo%2Farticle%2Fdownload%2F15410%2F11511&usg=AOvVaw0CnLU0gquPlZ-i0u4K8gbN</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>CONTEXTO SOCIAL DO SÉCULO XX</p><p>César Rocha Lima</p><p>Imprimir</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Caro aluno, imagine que a renda mensal da sua família quintuplicasse. Isso não</p><p>seria maravilhoso? Você poderia fazer a tão sonhada pintura na casa, trocar ou</p><p>comprar um carro novo, ou ainda fazer aquela tão almejada viagem. Agora imagine</p><p>se a renda mensal caísse pela metade. Quão difícil seria pagar todas as contas ao</p><p>�nal do mês? Seria necessário um exercício hercúleo para cortar os gastos e</p><p>adequá-los ao novo orçamento. Pois bem, se, no âmbito familiar, as �nanças</p><p>provocam tanta diferença em nosso padrão de vida, imagine no âmbito nacional.</p><p>Diante dessa ilustração, você deve imaginar a efervescência das discussões na</p><p>Europa do século XIX em torno da ascensão do capitalismo e do surgimento do</p><p>socialismo como um sistema alternativo.</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Nesta seção utilizaremos como eixo principal da nossa exposição o sistema</p><p>capitalista. Apresentaremos como ele evoluiu desde o século XVI até sua</p><p>consolidação no século XX; trataremos das suas sementes – regadas pelo</p><p>protestantismo calvinista –, dos adubos utilizados – as teses de Adam Smith (1723-</p><p>1790) – e do seu crescimento por intermédio da Revolução Industrial, do</p><p>surgimento das corporações e do estabelecimento da ciência da administração.</p><p>Apresentaremos, ainda, as mazelas da Revolução Industrial do século XVIII, na</p><p>Inglaterra, e as teses propostas por Karl Marx (1818-1883) a �m de estatizar os</p><p>meios de produção (fábricas) e transferir o seu controle para o Estado. E como a</p><p>obra O Manifesto Comunista, de Marx e Engels, provocou diversas revoluções em</p><p>vários países no Ocidente e no Oriente.</p><p>Estudaremos, de forma concisa, o primeiro país a adotar o sistema socialista por</p><p>vias revolucionárias e o enorme número de baixas provocadas pela implantação e</p><p>pela manutenção desse sistema.</p><p>Veremos ainda como a Primeira e a Segunda Guerra Mundial impactaram a</p><p>condição humana, provocando dor e miséria, e como a teologia produzida no</p><p>século XX, que procurava soluções para a condição social das mazelas provocadas</p><p>pelo presente século, foi in�uenciada pelas teses marxistas – o que fez surgir a</p><p>Teologia da Libertação.</p><p>Por �m, mostraremos como o movimento pentecostal, surgido nos EUA, impactou,</p><p>na segunda metade do século XX, o crescimento dos evangélicos no Brasil.</p><p>NOÇÃO DE SALVAÇÃO NAS CEBS</p><p>O texto anterior, produzido na década de 1970 por Carlos Alberto Libânio Christo,</p><p>conhecido como Frei Betto (1944- ), apresenta a noção do termo “salvação” a partir</p><p>da ótica de funcionamento de uma Comunidade Eclesial de Base.</p><p>A salvação não é alguma coisa que se restrinja ao outro mundo ou a outra vida. Ela começa a se efetuar aqui,</p><p>onde o Reino de Deus já se fez presente em Jesus e permanece entre os povos. No tecido da história, a salvação</p><p>de Deus se traduz em LIBERTAÇÃO dos homens. Não basta uma LIBERTAÇÃO pessoal e interior do homem que</p><p>não transforme as estruturas eivadas de pecado em que ele vive e pelas quais se sente condicionado. Por isso</p><p>LIBERTAÇÃO tem necessariamente um alcance político, dentro de um contexto econômico social.</p><p>— (BETTO, 1981, p. 5, grifos nossos)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) foram organizadas em pequenos grupos,</p><p>por volta de 1960, funcionavam em torno de uma paróquia (área urbana) ou</p><p>capela (área rural) e eram dirigidas por iniciativa de leigos, padres ou bispos.</p><p>As CEBs, de natureza religiosa e de caráter pastoral, funcionavam com o número</p><p>de dez, vinte ou cinquenta pessoas e poderiam estar distribuídas nas periferias das</p><p>cidades ou reunidas em um único grupão.</p><p>A metodologia para as reuniões das CEBs adotava o seguinte lema: ver-julgar-agir,</p><p>pois, reunidos num barraco de vila, casa modesta ou salão paroquial, após os</p><p>cânticos e orações, os participantes expunham os seus problemas e di�culdades</p><p>(ver). Caberia, a partir daí, ao monitor ou coordenador facilitar essa interação</p><p>entre os participantes, simplesmente indagando como foi a semana em casa, no</p><p>bairro e no trabalho. Nos relatos, eram compartilhados os problemas e as</p><p>di�culdades, e a reunião acabava por se concentrar nos mais relevantes (julgar).</p><p>Por �m, as CEBs também possuíam um viés político por encaminharem os</p><p>problemas sociais da comunidade para a adoção de políticas públicas pelos</p><p>governantes responsáveis (agir) (BETTO, 1981).</p><p>Caro aluno, retomando o texto inicial do frei Betto (Noção de Salvação nas CEBs),</p><p>você perceberá que o autor entende salvação como</p><p>Logo, a</p><p>escola pode se constituir em um local apropriado para combater a intolerância, a</p><p>partir de uma ética do respeito à diferença e do respeito incondicional ao outro</p><p>(ROCHA, 2020).</p><p>As religiões que possuem compatibilidade com a democracia e que, desse modo,</p><p>podem contribuir para a realização do projeto democrático, são religiões</p><p>humanizadoras, capazes de superar os excessos da espiritualidade evasiva,</p><p>ajudando a constituir sujeitos livres, com consciência da luta contra o sofrimento, a</p><p>injustiça e a opressão. Estas são religiões que anunciam a dignidade humana</p><p>fundamentada na solidariedade entre povos e nos direitos humanos (PFEFFER,</p><p>2009).</p><p>§ 2º. Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos</p><p>princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.</p><p>§ 3º. Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do</p><p>Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes</p><p>às emendas constitucionais.</p><p>§ 4º. O Brasil se submete à jurisdição de Tribunal Penal Internacional a cuja criação tenha manifestado adesão.</p><p>— (BRASIL, 1988, [s. p.])</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Atualmente, a luta pelos direitos humanos é uma constante, tanto por meio dos</p><p>tratados internacionais, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos,</p><p>quanto por meio das leis nacionais, como os Estatutos da Criança e do Adolescente</p><p>(ECA) e do Idoso, dentre outros; assim, a ideia de igualdade é um imperativo que</p><p>deve alcançar todas as pessoas, sem distinção.</p><p>A liberdade religiosa é uma expressão da conquista dos direitos, contudo, é preciso</p><p>praticá-la, e a sala de aula é espaço para seu aprendizado, contribuindo para o �m</p><p>da intolerância. Concordamos que aquilo que é válido para uma revolução e/ou</p><p>uma contrarrevolução dos direitos humanos é especialmente válido para os</p><p>direitos humanos no plano religioso. Ora, a liberdade religiosa não é apenas o mais</p><p>fundamental dos direitos humanos, é, inclusive, o principal entre os direitos</p><p>presentes nos tratados internacionais (COTLER, 2000). Desse modo, difundir o</p><p>respeito à liberdade religiosa é fundamental para garantir o seu exercício na</p><p>sociedade.</p><p>CONTRIBUIÇÕES DA TEOLOGIA E DAS CIÊNCIAS DA RELIGIÃO</p><p>A Teologia pode ser compreendida como ciência que, conquanto se volte ao</p><p>Divino, reconhece não ser possível re�etir acerca do Criador e ignorar a criatura, a</p><p>criação e as relações �rmadas, em múltiplos e diversos níveis, entre esses</p><p>elementos. Desse modo, a Teologia constitui-se como importante ferramenta para</p><p>analisar as sociedades como um todo e, especialmente, para o desenvolvimento de</p><p>atitudes cidadãs quando se depara com saberes religiosos diferentes, sendo</p><p>possível considerar que a Teologia também reúne, em suas discussões, tal</p><p>conhecimento, notadamente por não separar a relação entre Criador e criações. A</p><p>Teologia, a(s) Ciência(s) da Religião e as Ciências Humanas e Sociais são</p><p>investigadoras da manifestação dos fenômenos religiosos nas múltiplas culturas e</p><p>sociedades, enquanto um dos bens simbólicos que resultam da busca do ser</p><p>humano por respostas aos enigmas do mundo, da vida e da morte. De modo</p><p>singular, complexo e diverso, esses fenômenos serviram de alicerces de distintos</p><p>sentidos e signi�cados de vida e diversas ideias de divindade(s), que foram eixos de</p><p>organização de cosmovisões, mitologias, linguagens, crenças, narrativas, saberes,</p><p>textos, símbolos, tradições, ritos, doutrinas, movimentos, práticas e princípios</p><p>éticos e morais. Os fenômenos religiosos, em sua multiplicidade de manifestações,</p><p>integram o substrato cultural da humanidade.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>A sociedade brasileira também vem se modi�cando ao longo das últimas décadas,</p><p>com destaque para o âmbito religioso, no qual há o crescente número de pessoas</p><p>em migração religiosa, especialmente do catolicismo para outras crenças, porém,</p><p>várias têm buscado em outra instituição religiosa, cristã ou não, no agnosticismo,</p><p>no ateísmo ou mesmo no ecletismo, as respostas que já não conseguem mais</p><p>obter em seus credos ou �loso�a (a)religiosa de origem. Isto retrata a gênese, a</p><p>partir da relação com o sagrado, de uma sociedade bastante diversi�cada e</p><p>complexa, a qual, segundo Chauí é a qualidade excepcional que uma sociedade</p><p>possui e que a distingue e separa de todas as outras, seja esta qualidade boa ou</p><p>má, seja bené�ca ou malé�ca, ou ainda protetora ou ameaçadora (CHAUÍ, 2003).</p><p>Como já abordamos anteriormente, a intolerância tem crescido a passos largos, à</p><p>medida que o diálogo é substituído por força e violência. Fernando Caulyt nos</p><p>alerta para o número de denúncias quanto à intolerância religiosa no Brasil</p><p>registradas pelo Disque 100 da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da</p><p>República, esse número aumentou de 15, em 2011, para 109, em 2012 (CAULYT,</p><p>2013).</p><p>EXEMPLIFICANDO</p><p>A importância da defesa da liberdade religiosa explicita-se em diversos</p><p>momentos na legislação nacional, seja pela recepção de conceitos e direitos</p><p>expressos na Declaração Universal de Direitos Humanos pela Constituição</p><p>da República Federativa do Brasil de 1988, seja por outras normas. O que se</p><p>percebe é uma preocupação com a manutenção da separação entre Estado</p><p>e instituições religiosas, denominada princípio da laicidade do Estado. Esse</p><p>princípio garante que o Estado não favorecerá qualquer credo e garantirá a</p><p>liberdade de crença, resguardando que nenhum credo se imponha por um</p><p>processo de hegemonização.</p><p>A proposta de uma ética do bem-estar investe na celebração da vida, na</p><p>autonomia, na solidariedade e na ajuda mútua, de modo que o Estado,</p><p>enaltecendo a razão humana e sua construção (a ciência) como canal de</p><p>acesso a uma vida melhor, positiva e autônoma, promove o bem-estar de</p><p>todos. Temos, então, uma fórmula da felicidade em sociedades laicas.</p><p>No âmbito brasileiro, o bem-estar está presente na Constituição de 1988,</p><p>com destaque para o Preâmbulo:</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Desse modo, é responsabilidade do Estado assegurar o bem-estar de seus</p><p>cidadãos, assim como de todos os habitantes do território nacional. Logo, é</p><p>possível considerar que este bem-estar deve ser assegurado, inclusive, na</p><p>escola, através do estudo acerca do fenômeno e do conhecimento religioso,</p><p>sem desprezar sua diversidade, inclusive as religiosidades laicas.</p><p>Chegamos ao �m desta seção, na qual aprendemos sobre religiões de matrizes</p><p>afro-brasileiras em território nacional, além das transformações ocorridas no</p><p>século XX, que estimularam alterações signi�cativas no per�l religioso brasileiro,</p><p>como o desenvolvimento de novas religiosidades e a renovação de religiões</p><p>tradicionais, conforme vimos na seção anterior.</p><p>Abordamos a importância da convivência pací�ca entre as religiões, que além de</p><p>ser um valor humano, é também muito bom para um país como o Brasil, que tem</p><p>sua população composta por múltiplas etnias, nacionalidades e raças. Vimos,</p><p>ainda, que a educação para a cidadania fomenta o diálogo inter-religioso e</p><p>contribui para uma sociedade melhor, combatendo a violência de cunho religioso.</p><p>Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional</p><p>Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o</p><p>exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o</p><p>desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma</p><p>sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e</p><p>comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pací�ca das</p><p>controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO</p><p>DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.</p><p>— (BRASIL, 1988, [s. p.])</p><p>“</p><p>FAÇA A VALER A PENA</p><p>Questão 1</p><p>As religiões de matrizes afro-brasileiras em nosso país têm sua origem a partir da</p><p>introdução, em território nacional, das religiosidades expressadas por pessoas</p><p>algo operado na Terra (e não</p><p>no Céu), sob o viés da “libertação” humana. Pode-se perceber que a palavra</p><p>“libertação” é predominante no excerto, pois aparece três vezes em poucos</p><p>parágrafos. Esse aspecto libertário do texto de frei Betto, evidencia certo vínculo</p><p>entre as CEBs e a Teologia da Libertação.</p><p>Considerando que você tenha sido convidado para dar uma palestra numa</p><p>faculdade sobre o tema “origem das comunidades eclesiais de base” e que, como</p><p>teólogo em formação, necessite procurar e apresentar as relações causais entre</p><p>uma (Teologia da Libertação) e a outra (CEBs), como você articularia os conteúdos</p><p>desta temática (CEBs) com o conteúdo apresentado pela seção?</p><p>Assim sendo, pegue o seu bloquinho de anotações, porque faremos uma viagem</p><p>impressionante pelo século XX. Bons estudos!</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>CONSOLIDAÇÃO E CRÍTICA AO CAPITALISMO</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Caro aluno, você já imaginou quão difícil é comprar um item numa loja ou adquirir</p><p>um produto na internet sem possuir um cartão de crédito ou de débito? As</p><p>“facilidades” que possuímos hoje nas transações de compra e venda fazem parte</p><p>da evolução de um sistema chamado capitalismo. Mas talvez você pergunte: a</p><p>utilização do cartão de débito ou de crédito indica um contexto de país capitalista?</p><p>Não necessariamente. Os chineses, por exemplo, se organizam em uma república</p><p>popular socialista e também utilizam os meios digitais para realizar as suas</p><p>compras. Mas, então, o que de�ne o sistema capitalista?</p><p>De acordo com Norberto Bobbio, existem algumas características inerentes ao</p><p>sistema capitalista que o distinguem de outros sistemas, sendo elas:</p><p>Propriedade privada dos meios de produção, para cuja ativação é necessária a</p><p>presença de trabalho assalariado formalmente livre.</p><p>Sistema de mercado baseado na iniciativa e na empresa privada.</p><p>Processos de racionalização dos meios e dos métodos diretos e indiretos para a</p><p>valorização do capital e para a exploração das oportunidades de mercado para</p><p>efeito de lucro (BOBBIO, 1998, p. 141).</p><p>Agora que você já sabe o que de�ne o modelo capitalista, vamos avançar mais um</p><p>pouco. Como visto na seção anterior, o século XX foi marcado por diversas</p><p>transformações na política, na economia e na sociedade. Apesar desse século</p><p>abrigar a Grande Depressão (1929), a pandemia da Gripe Espanhola (1918), duas</p><p>grandes guerras e a Guerra Fria (1945-1991), nele consolidou-se o sistema</p><p>capitalista. Mas, diante de tantas crises e atrocidades, como isso teria ocorrido?</p><p>De acordo com Adriana Andrade e José Paschoal Rossetti, o sistema capitalista</p><p>passou por, pelo menos, oito fatores determinantes em sua evolução antes de</p><p>consolidar-se no século XX (ANDRADE; ROSSETTI, 2006, p. 31, 32).</p><p>O primeiro fator da evolução do capitalismo foi a ética calvinista. João Calvino</p><p>(1509-1564), teólogo francês e reformador do protestantismo, iniciou, em 1537, os</p><p>trabalhos de reforma em Genebra, um dos cantões da Suíça. In�uenciado pelo</p><p>Iluminismo e pelas ideias da Reforma Protestante (1517), Calvino propôs a criação</p><p>do Banco de Genebra e legalizou a cobrança dos juros, prática condenada pela</p><p>Igreja Católica Apostólica Romana desde o Terceiro Concílio de Latrão (1179).</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>O reformador também compreendeu o exercício de uma pro�ssão como atividade</p><p>in majorem gloriam Dei (para a Glória de Deus), caráter partilhado pelo trabalho</p><p>dentro da vocação, que propiciava, até então, a vida mundana da sociedade</p><p>(WEBER, 2001, p. 90). E mais, Calvino também criou o�cinas para quali�cação de</p><p>pro�ssionais e combateu veementemente a vadiagem. Dessa forma, a ética</p><p>calvinista teria abrigado as sementes do capitalismo (LIMA, 2020).</p><p>O segundo fator foi a “doutrina econômica liberal” proposta pelo �lósofo inglês</p><p>Adam Smith (1723-1790). Em sua principal obra, A riqueza das nações, publicada</p><p>em 1776, o �lósofo elaborou as bases conceituais para o modo de organização de</p><p>forças produtivas (ANDRADE; ROSSETTI, 2006, p. 34), ou seja, as bases teóricas para</p><p>a criação de estados mercantilistas.</p><p>Nesse modelo conceitual, o Estado não deveria interferir no funcionamento do</p><p>mercado, que, por sua vez, possuiria um mecanismo de autorregulação, chamado</p><p>por Adam Smith de “mão invisível” (SMITH, 1996, p. 438). Dessa forma, através dos</p><p>mecanismos da concorrência, o mercado se autorregularia, sobrevivendo os</p><p>prestadores de serviços que oferecessem seu produto ao menor custo e com</p><p>melhor qualidade.</p><p>O terceiro fator foi a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX, que estabeleceu</p><p>as bases tecnológicas do desenvolvimento capitalista. O novo modelo estrutural,</p><p>criado inicialmente na Inglaterra, alastrou-se por toda Europa e, chegando aos EUA</p><p>“levou não apenas a mudanças substanciais nos modos de produção, como a</p><p>novas relações entre os agentes econômicos – empreendedores, trabalhadores e</p><p>governos” (ANDRADE; ROSSETTI, 2006, p. 35).</p><p>O quarto fator está ligado à tecnologia e às novas escalas de produção em série,</p><p>que proporcionaram o rápido acúmulo do capital. Isso ocorreu porque, nos séculos</p><p>XVIII e XIX, surgiram diversas invenções industriais que geraram impactos</p><p>crescentes na escala de produção. O casamento entre o vapor e esses novos</p><p>inventos levou à acumulação do capital como nunca visto antes (ANDRADE;</p><p>ROSSETTI, 2006, p. 35-36).</p><p>O quinto fator foi a ascensão do capital como fator de produção, pois, com os</p><p>alicerces do feudalismo abalados e destruídos pela Revolução Francesa (1789-</p><p>1799), a renda capitalizada da terra deu lugar ao capital como fator de produção.</p><p>Em outras palavras, o investimento na produção industrial tornou-se mais atrativo</p><p>do que a aplicação �nanceira no campo (ANDRADE; ROSSETTI, 2006, p. 38-40).</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>O sexto fator foi o sistema de sociedade anônima, que seguiu de forma paralela o</p><p>curso histórico da ascensão do capital. Esse sistema institucionalizou-se com fortes</p><p>ligações com o mundo corporativo, de tal ordem que as expressões corporação e</p><p>sociedade anônima são consideradas quase sinônimas (ANDRADE; ROSSETTI, 2006,</p><p>p. 40,41).</p><p>O sétimo fator foi a Grande Depressão ou Crise de 1929, que colocou em xeque as</p><p>teorias de autorregulação do mercado (mão invisível), propondo nova modelagem</p><p>à economia capitalista e reestruturando os meios de produção (ANDRADE;</p><p>ROSSETTI, 2006, p. 45-49).</p><p>E, por último, a ciência da administração, que propôs novos métodos e novas</p><p>técnicas para a reestruturação dos meios de produção.</p><p>O MODELO SOCIALISTA COMO CRÍTICA AO CAPITALISMO DO SÉCULO</p><p>XIX</p><p>Isto posto, é importante ressaltar que, juntamente com a evolução do sistema</p><p>capitalista, também surgiram diversos problemas sociais. Na Inglaterra, com a</p><p>Revolução Industrial, muitas pessoas migraram do campo para a cidade em busca</p><p>de melhores condições de vida. O trabalho artesanal havia perdido o mercado para</p><p>a produção fabril.</p><p>Com as novas formas de energia aplicadas à produção industrial, homens,</p><p>mulheres e crianças foram submetidos a condições de trabalhos insalubres, visto</p><p>que as fábricas eram muito quentes, úmidas, sujas e escuras, o que gerava o</p><p>adoecimento dos trabalhadores devido a diversas doenças respiratórias.</p><p>As jornadas de trabalho eram extensas, chegando a 16 horas diárias, e com</p><p>refeições precárias. O trabalho infantil e feminino era mal remunerado, o</p><p>pagamento era cerca de um terço do valor daquele realizado por um homem. Tais</p><p>situações foram o estopim para o surgimento de movimentos sindicais e greves</p><p>por parte do operariado (HOBSBAWM, 2012, p. 120).</p><p>Em 1848, Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) escreveram, em</p><p>Londres, a obra O Manifesto Comunista com o objetivo de conscientizar o</p><p>“proletariado” (como Marx chamava o trabalhador) da sua condição de classe, de</p><p>expor os problemas oriundos do sistema capitalista, de evidenciar a ine�cácia dos</p><p>mecanismos de autorregulação do mercado e de propor uma nova ordem social: o</p><p>socialismo.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>ASSIMILE</p><p>Para Marx e Engels, a palavra “proletariado” era a</p><p>que melhor representava</p><p>o trabalhador fabril do século XIX, pois o pre�xo “prole” signi�ca</p><p>“descendentes”, “�lhos”. Logo, o “proletariado” era aquele que nada possuía</p><p>além dos seus �lhos ou descendência.</p><p>Marx e Engels construíram a sua teoria a partir da chamada “luta de classes”, que</p><p>ocorrera em toda história da humanidade nos binômios: homem livre e escravo,</p><p>patrício e plebeu, senhor e servo, chefe de corporação e assalariado, opressor e</p><p>oprimido (MARX; ENGELS, 1998, p. 9).</p><p>O socialismo, como nova ordem social, deveria ser estabelecido por vias</p><p>revolucionárias, pois encontraria resistência ao tentar destruir o direito da</p><p>propriedade privada e ao propor a estatização de todos os meios de produção a</p><p>�m de repartir seus lucros entre os trabalhadores (MARX; ENGELS, 1998).</p><p>Publicado de forma anônima, o Manifesto Comunista foi rapidamente traduzido</p><p>para outras línguas e veiculado em toda Europa, Ásia e América. A sua</p><p>disseminação produziu diversos impactos na história mundial, abarcando tanto o</p><p>Ocidente quanto o Oriente (HOBSBAWM, 2012, p. 31).</p><p>Em 1867, Marx escreveu a sua principal obra: O capital, que somada ao Manifesto</p><p>Comunista, constituiu-se em base teórica para as mais sangrentas revoluções: na</p><p>Rússia (1917), no Vietnã (1945), na Albânia (1946), na Coréia do Norte (1948), na</p><p>Alemanha (1949), na China (1949), em Cuba (1959), no Laos (1975), entre outros</p><p>países.</p><p>O SÉCULO XX: ATROCIDADES E MISÉRIA HUMANA</p><p>A Rússia, que no início do século XX possuía grande massa de operários</p><p>camponeses trabalhando sob condições precárias, foi o cenário da primeira</p><p>revolução socialista. No dia 15 de março de 1917, o czar Nicolau II (1868-1918) foi</p><p>forçado a renunciar, o que abriu espaço para um governo provisório e,</p><p>consequentemente, deu início à Revolução Russa (ZHEBIT, 2009, posição 11928).</p><p>O socialismo na Rússia possui diversos capítulos: passou por Vladimir Ilyich Ulianov</p><p>(1870-1924), conhecido como Lenin – articulador da revolução; por Leon Trótski</p><p>(1879-1940) – intelectual marxista e criador do Exército Vermelho; e por Josef Stalin</p><p>(1878-1953) – marxista-leninista. Estima-se que mais de 23 milhões de pessoas</p><p>tenham morrido sob o socialismo soviético.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Como visto na seção anterior, na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e na</p><p>Segunda Guerra Mundial (1939-1945), morreram cerca de 90 milhões de pessoas</p><p>(HOBSBAWM, 1995, posição 1109 ). Contudo, um capítulo tenebroso marcou a</p><p>Segunda Guerra Mundial: a ascensão do nazismo na Alemanha (1919-1945) e o</p><p>antissemitismo (ódio aos judeus).</p><p>O antissemitismo, o imperialismo (poder das grandes nações) e o totalitarismo</p><p>(regime ditatorial), ocorrentes principalmente durante a Segunda Guerra Mundial,</p><p>demonstraram que a dignidade humana precisava de novas leis e de novos</p><p>princípios políticos cuja extensão alcançasse toda a humanidade (ARENDT, 2013).</p><p>A morte de 6 milhões de judeus nos campos de concentração, durante o período</p><p>nazista, tornou-se uma das maiores atrocidades cometidas contra o ser humano. O</p><p>genocídio dos judeus foi considerado um crime contra a humanidade. A frieza e as</p><p>técnicas de extermínio adotadas pelos nazistas foram chamadas por Hannah</p><p>Arendt (1906-1975) de “banalidade do mal” (ARENDT, 1999).</p><p>O antigo campo de concentração de Auschwitz, localizado ao sul da Polônia, onde</p><p>homens, mulheres e crianças foram mortos nas câmaras de gás e depois</p><p>incinerados (extermínio em massa), tornou-se um memorial das atrocidades que</p><p>ocorreram na Segunda Guerra Mundial (Figura 1.1).</p><p>Figura 1.1 | Campo de concentração em Auschwitz</p><p>Fonte: Pixabay.</p><p>A DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA: RESPOSTA DA IGREJA CATÓLICA AOS</p><p>DESAFIOS DA MODERNIDADE</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Diante das transformações sociais oriundas da Revolução Industrial, a saber, as</p><p>péssimas condições de trabalho, a exploração do trabalho feminino e infantil, a</p><p>pobreza e o surgimento do socialismo como via revolucionária para a instauração</p><p>de nova ordem social, o papa Leão XIII (1810-1903) escreveu a Encíclica Rerum</p><p>Novarum em 1891.</p><p>Na Encíclica, o pontí�ce reconheceu a difícil situação dos operários no contexto</p><p>industrial em alguns países da Europa e propôs a adoção de medidas e�cazes</p><p>contra a exploração das classes sociais inferiores em função da cobiça desenfreada</p><p>(auri sacra fames). Contudo, discordou explicitamente das doutrinas socialistas:</p><p>Como visto, Leão XIII refutou as ideias socialistas de supressão da propriedade</p><p>privada (um dos pilares do capitalismo) para a sua administração pelo Estado e</p><p>pelos municípios.</p><p>Em 1961, com a mesma preocupação social, o papa João XXIII escreveu a Encíclica</p><p>Mater et Magistra, atribuindo ao Estado a responsabilidade de proteger todos os</p><p>cidadãos, inclusive os mais fracos:</p><p>O pontí�ce também se opôs ao chamado “socialismo moderado”, que, embora não</p><p>adotasse as vias revolucionárias, estava contrário aos ensinamentos cristãos.</p><p>Diversas outras encíclicas foram escritas a �m de minorar os problemas sociais</p><p>oriundos da sociedade capitalista e de dar respostas aos desa�os impostos pela</p><p>modernidade. Listamos algumas na tabela a seguir (Tabela 1.1).</p><p>Os Socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem</p><p>que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens dum indivíduo qualquer devem</p><p>ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para - os Municípios ou para o Estado. Mediante esta</p><p>transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas</p><p>proporcionavam aos cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio e�caz aos males presentes. Mas</p><p>semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao con�ito, prejudicaria o operário se fosse posta em</p><p>prática. Pelo contrário, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções</p><p>do Estado e tender para a subversão completa do edifício social.</p><p>— (LEÃO XIII, 2004, p. 11)</p><p>“</p><p>O Estado, cuja razão de ser é a realização do bem comum na ordem temporal, não pode manter-se ausente do</p><p>mundo econômico; deve intervir com o �m de promover a produção de uma abundância su�ciente de bens</p><p>materiais, "cujo uso é necessário para o exercício da virtude"; [3] e também para proteger os direitos de todos</p><p>os cidadãos, sobretudo dos mais fracos, como são os operários, as mulheres e as crianças. De igual modo, é</p><p>dever seu indeclinável contribuir ativamente para melhorar as condições de vida dos operários.</p><p>— (JOÃO XXIII, 1961, p. 19,20)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Tabela 1.1 | Encíclicas sociais</p><p>ENCÍCLICAS SOCIAIS</p><p>Ano Nome Pontí�ce</p><p>1891 Rerum Novarum Leão XIII</p><p>1931 Quadragesimo Anno João XXIII</p><p>1961 Mater et Magistra João XXIII</p><p>1963 Pacem in Terris João XXIII</p><p>1965 Populorum Progressio Paulo VI</p><p>1971 Octagesimo Advenis Paulo VI</p><p>1981 Laboren Exercens João Paulo II</p><p>Fonte: Silva (2015).</p><p>Esse corpo de encíclicas, somado a outros ensinamentos da Igreja Católica</p><p>Apostólica Romana, �cou conhecido como “Doutrina Social da Igreja”.</p><p>Coube, então, à Doutrina Social da Igreja identi�car os problemas sociais, o mundo</p><p>dos necessitados, a mortalidade infantil, a moradia e a concentração populacional,</p><p>propondo soluções para as necessidades humanas (SCUDELER, 2014, posição</p><p>1438).</p><p>Caro aluno, é importante que você não confunda Doutrina Social da Igreja com a</p><p>Teologia do Cativeiro e da Libertação, pois são coisas distintas.</p><p>A Teologia da Libertação também foi gestada no seio da Igreja Católica Apostólica</p><p>Romana diante dos problemas socioeconômicos da primeira metade do século XX.</p><p>O seu nascimento, pós-vaticano II, ocorreu na Conferência de Medellín, na</p><p>Colômbia, no período de 24 de agosto a 6 de setembro de 1968.</p><p>Tendo como o seu precursor o teólogo peruano Gustavo Gutiérrez (1928 -), a</p><p>Teologia da Libertação propôs a adoção de uma nova hermenêutica bíblica,</p><p>colocando como sujeito “os pobres”.</p><p>No Brasil, o principal expoente da Teologia da Libertação foi o teólogo Leonardo</p><p>Bo� (1938- ), que publicou a obra</p><p>Teologia do Cativeiro e da Libertação em 1975.</p><p>Na esteira de Paulo Freire (1921-1997), a obra de Bo� tomou como sujeito principal</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>“o oprimido” (FREIRE, 2013). Conforme o teólogo, “só podemos falar em libertação</p><p>quando seu sujeito principal é o próprio oprimido” (BOFF, 2014, p. 13).</p><p>Embora Bo� tenha tentado distanciar-se do socialismo revolucionário, ao a�rmar</p><p>que a Teologia da Libertação não pretendia ser uma teologia da revolução (BOFF,</p><p>2014, p. 60), o enviesamento freiriano e marxista da obra custou-lhe diversas</p><p>críticas e oposições.</p><p>No último quartil do século XX, a Igreja Católica Apostólica Romana publicou dois</p><p>documentos a �m de orientar os �éis sobre a compreensão correta da teologia da</p><p>libertação: em 1984, Libertatis nuntius ("Instrução sobre alguns aspectos da</p><p>Teologia da Libertação"); e em 1986, Libertatis Conscientia.</p><p>ASSIMILE</p><p>Dessa forma, �ca claro que a Igreja Católica Apostólica Romana não</p><p>endossou a Teologia da Libertação como doutrina o�cial da igreja.</p><p>O CRESCIMENTO DOS EVANGÉLICOS FRENTE AO CATOLICISMO</p><p>Enquanto a Igreja Católica Apostólica Romana ocupava-se com as questões sociais</p><p>no século XX, seja por intermédio da Doutrina Social da Igreja ou da Teologia da</p><p>Libertação, o ramo protestante fez emergir das classes operárias um novo</p><p>movimento.</p><p>Iniciado na rua Azuza, em Los Angeles, Califórnia, em 1906, o pentecostalismo</p><p>espalhou-se rapidamente pelos EUA. E, apesar de várias críticas nos periódicos da</p><p>cidade, como “Esquisita babel de línguas”, “Nova seita de fanáticos à solta” e</p><p>“Gorgolejos ininteligíveis falados por uma irmã” (OWENS, 2009, p. 84), o movimento</p><p>pentecostal espalhou-se para a América do Norte (Toronto, Canadá), Europa</p><p>Ocidental (Reino Unido), Europa Oriental (Alemanha, Letônia, Bulgária e Ucrânia),</p><p>Rússia, Austrália, Ásia Meridional (Índia Britânica), Ásia Oriental (Hong Kong), África</p><p>e América Latina (Brasil e Chile) (McGEE, 2009, p. 97-134).</p><p>O pentecostalismo americano chegou ao Brasil em 1910 com o imigrante italiano</p><p>Luigi Francescon, que fundou a Congregação Cristã no Brasil, no distrito Platina do</p><p>município de Santo Antônio da Platina, no Paraná. No ano seguinte, a Missão</p><p>Pentecostal Sueca introduziu no estado do Pará a igreja evangélica Assembleia de</p><p>Deus (ALMEIDA, 2009, p. 25-26). Contudo, foi somente a partir da segunda metade</p><p>do século XX (MENDONÇA, 2008, p. 128), com os intensos �uxos migratórios do</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>campo para as cidades nos processos de industrialização, que o pentecostalismo</p><p>cresceu e se rami�cou em diversas denominações, acelerando o crescimento do</p><p>número de evangélicos no Brasil (Tabela 1.2).</p><p>O crescimento dos evangélicos coincidiu com as transformações políticas do</p><p>período Vargas (1930-1935), marcadas pelo populismo e pelo autoritarismo, com o</p><p>período desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek (1902-1976) e com o período</p><p>do Regime Militar (1964-1985) (CAMPOS, 2008, p. 11).</p><p>Tabela 1.2 | Religiões no Brasil – 1940-2000</p><p>ANO Católicos Evangélicos Outras religiões Sem religião</p><p>1940 95,2% 2,6% 1,9% 0,2%</p><p>1950 93,7% 3,4% 2,4% 0,3%</p><p>1960 93,1% 4,3% 2,4% ---</p><p>1970 91,8% 5,2% 2,3% 0,8%</p><p>1980 89% 6,6% 2,5% 1,6%</p><p>1990 83,3% 9% 2,9% 4,7%</p><p>2000 73,9% 15,6% 3,5% 7,4%</p><p>Fonte: CAMPOS (2008, p. 14).</p><p>Como pode ser percebido na Tabela 1.2, o número de evangélicos no Brasil teve</p><p>uma rápida ascensão a partir da década de 1970 devido ao movimento</p><p>neopentecostal. Chamado pelos estudiosos de “terceira onda” do movimento</p><p>pentecostal, o neopentecostalismo se expandiu no território brasileiro por</p><p>intermédio da Igreja Universal do Reino de Deus (1977), da Igreja Internacional da</p><p>Graça de Deus (1980), da Igreja Renascer em Cristo (1986), da Comunidade</p><p>Evangélica, entre outras.</p><p>REFLITA</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>Você sabe por que o movimento neopentecostal foi chamado de “terceira</p><p>onda”? E quem utilizou o termo pela primeira vez?</p><p>Caro aluno, ao �nalizarmos esta seção, esperamos que você tenha compreendido</p><p>como o capitalismo e a religião se articularam no século XX, no contexto de duas</p><p>grandes guerras; saiba quais pensamentos teológicos foram produzidos por essas</p><p>articulações; e, por �m, compreenda o crescimento do grupo evangélico no Brasil</p><p>do século XX.</p><p>Aprofunde-se nas obras citadas na bibliogra�a, pois certamente elas irão ajudá-lo a</p><p>compor esse magní�co período da teologia.</p><p>FAÇA VALER A PENA</p><p>Questão 1</p><p>Na história da economia, o capitalismo não nasceu pronto e acabado, mas foi um</p><p>sistema que se aprimorou com o passar dos anos. De acordo com Andrade e</p><p>Rossetti (2006, p. 31-32), o sistema capitalista passou, pelo menos, por oito fatores</p><p>determinantes em sua consolidação no século XX. A obra, A riqueza das Nações</p><p>forneceu as bases conceituais para o modo de organização de forças produtivas.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta o autor desse clássico da economia.</p><p>a. Karl Marx (1818-1883).</p><p>b. Friedrich Engels (1820-1895).</p><p>c. Adam Smith (1723-1790).</p><p>d. Hannah Arendt (1906-1975).</p><p>e. Max Weber (1864-1920).</p><p>Questão 2</p><p>De acordo com a historiogra�a atual, a Teologia da Libertação surgiu na</p><p>Conferência de Medellín, na Colômbia, ocorrida no período de 24 de agosto a 6 de</p><p>setembro de 1968. Ela teve como precursor o teólogo peruano Gustavo Gutiérrez</p><p>(1928- ), que propôs uma nova hermenêutica bíblica (BOFF, 2014, p. 35).</p><p>A respeito do contexto apresentado, essa hermenêutica constituía-se em colocar</p><p>como sujeito:</p><p>a. Os pobres, que estavam numa situação de opressão.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ALMEIDA, R. A igreja universal e seus demônios: um estudo etnográ�co. São</p><p>Paulo: FAPESP, 2009.</p><p>ALVES, R. Por uma Teologia da Libertação. Juiz de Fora: Editora Siano, 2019.</p><p>ANDRADE, A.; ROSSETTI, J. P. Governança Corporativa: fundamentos,</p><p>desenvolvimento e tendências. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2006.</p><p>ARENDT, H. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São</p><p>Paulo: Companhia das Letras, 1999.</p><p>ARENDT, H. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.</p><p>b. Os humildes de coração, conforme o evangelho de Mateus.</p><p>c. Os perseguidos pelo Regime Militar (1964-1985).</p><p>d. Os analfabetos, que seriam alfabetizados pelas técnicas freirianas.</p><p>e. Os intelectuais, que precisavam da orientação da igreja.</p><p>Questão 3</p><p>O crescimento dos evangélicos no Brasil foi um fenômeno observado a partir da</p><p>segunda metade do século XX. Década a década, o percentual de crescimento de</p><p>evangélicos foi registrando índices maiores que na anterior.</p><p>Considerando o contexto apresentado, analise as a�rmativas a seguir:</p><p>I. Somente os protestantes tradicionais foram os responsáveis por esse</p><p>crescimento.</p><p>II. Foram responsáveis por esse crescimento os pentecostais.</p><p>III. O movimento neopentecostal foi responsável por esse crescimento.</p><p>Diante do contexto apresentado, é correto o que se a�rma em:</p><p>a. I, II e III.</p><p>b. I e III, apenas.</p><p>c. I e II, apenas.</p><p>d. II e III, apenas.</p><p>e. I, apenas.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>BETTO, F. O que é Comunidade Eclesial de Base. 2 ed. São Paulo: Editora</p><p>Brasiliense, 1981. Disponível em: https://bit.ly/3edaPeU. Acesso em: 27 fev. 2021.</p><p>BOBBIO, N. Dicionário de Política. 11. ed. Brasília: Editora Universidade de</p><p>Brasília, 1998.</p><p>BOFF, L. Teologia do cativeiro e da libertação. 7. ed. Rio de Janeiro: Editora</p><p>Vozes, 2014.</p><p>CAMPOS, L. S. Os mapas, atores e números da diversidade religiosa cristã</p><p>brasileira: católicos e evangélicos entre 1940 e 2007. Revista de Estudos da</p><p>Religião, São Paulo, ano 8, p. 9-47, dez., 2008. Disponível em: https://bit.ly/3kg0uTi.</p><p>Acesso em: 19 fev. 2020.</p><p>FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.</p><p>HOBSBAWM, E. A era do capital: 1848-1875. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2012.</p><p>JOÃO XXIII, Papa. Carta Encíclica Mater et Magistra (Sobre a evolução da questão</p><p>social à luz da doutrina cristã). São Paulo: Paulinas, 1961.</p><p>LEÃO XIII, Papa. Carta Encíclica Rerum Novarum (Sobre a condição dos</p><p>operários). São Paulo: Edições Paulinas, 2004.</p><p>LIMA, C. R. A</p><p>reforma genebrina e as sementes do capitalismo. Revista Cientí�ca</p><p>Gamaliel, Santo André, v. 1, n. 2, p. 34-47, 2020. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3wxnY9a. Acesso em :18 fev. 2020.</p><p>MARX, K.; ENGELS, F. O manifesto comunista. São Paulo: Editora Paz e Terra,</p><p>1998.</p><p>McGEE, G. B. Além das vossas fronteiras: a expansão global do pentecostalismo. In:</p><p>SYNAN, V. O século do Espírito Santo: 100 anos do avivamento pentecostal e</p><p>carismático. São Paulo: Editora Vida, 2009. p. 97-134.</p><p>MENDONÇA, A. G. Protestantes, pentecostais & ecumênicos: o campo religioso e</p><p>seus personagens. 2. ed. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São</p><p>Paulo, 2008.</p><p>OWENS, R. O avivamento da rua Azuza: o movimento pentecostal começa nos</p><p>Estados Unidos. In: SYNAN, V. O século do Espírito Santo: 100 anos do</p><p>avivamento pentecostal e carismático. São Paulo: Editora Vida, 2009. p. 59-96.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/freibetto/livro_betto_o_que_e_cebs.pdf</p><p>https://www.pucsp.br/rever/rv4_2008/t_campos.pdf</p><p>http://fatej.edu.br/wp-content/uploads/2020/01/Revista-2020-OK-Vers%C3%A3o-final.pdf</p><p>PAULA, M. G. de. Os antecedentes da Teologia da Libertação entre os protestantes</p><p>brasileiros: a presença de Richard Shaull no Brasil. Interações Cultura e</p><p>Comunidade, Uberlândia, v. 8, n. 13, p. 77-84, jan./jun. 2013. Disponível em:</p><p>https://bit.ly/3kgKZL8. Acesso em: 20 fev. 2021.</p><p>SCUDELER, L. G. Doutrina Social da Igreja e o Vaticano II. São Paulo: Paulus,</p><p>2014.</p><p>SHAULL, R. Surpreendido pela graça: memórias de um teólogo – Estados Unidos,</p><p>América Latina, Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2003.</p><p>SILVA, P. C. da. O que é a Doutrina Social da Igreja? Lorena: Editora Cleófas, 2015.</p><p>SMITH, A. A riqueza das nações: investigação sobre a sua natureza e causas. São</p><p>Paulo: Editora Nova Cultural Ltda, 1996.</p><p>WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 4. ed. São Paulo:</p><p>Editora Martin Claret Ltda, 2001.</p><p>ZHEBIT, A. Império soviético: grandeza e colapso. In: SILVA, F. C. T. da; CABRAL, R.</p><p>P.; MUNHOZ, S. J. Impérios na história. Rio de Janeiro: Editora Campus: Elsevier,</p><p>2009. Ebook.</p><p>0</p><p>V</p><p>er</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>es</p><p>http://periodicos.pucminas.br/index.php/interacoes/article/view/P.2316-9451.2013v8n13p77/5687</p><p>NÃO PODE FALTAR</p><p>VISÃO PANORÂMICA DE ALGUMAS TEOLOGIAS DO SÉCULO XX</p><p>NO ÂMBITO CRISTÃO</p><p>César Rocha Lima</p><p>Imprimir</p><p>PRATICAR PARA APRENDER</p><p>Caro aluno, a Teologia não é uma área do conhecimento autônoma e</p><p>desconectada dos demais saberes. Ela possui conexões com a Filoso�a, a</p><p>Sociologia, a Antropologia e outras diversas áreas. A partir dessa premissa, �ca</p><p>claro que construir teologia signi�ca estar atento às diversas conexões dessas</p><p>áreas, procurando as relações causais entre umas e outras.</p><p>Na presente seção, retomaremos o pensamento de alguns �lósofos como Roger</p><p>Bacon (1212-1294), David Hume (1711-1776), Immanuel Kant (1724-1804), Auguste</p><p>Comte (1798-1857) e Karl Marx (1919-1883) e demonstraremos como eles</p><p>in�uenciaram o pensamento teológico dos séculos XIX e XX. A Teologia da</p><p>Libertação e a busca pelo Jesus histórico constituem-se em dois exemplos que</p><p>exploraremos a �m de evidenciar os desdobramentos entre a �loso�a e teologia.</p><p>Fonte: Shutterstock.</p><p>Deseja ouvir este material?</p><p>Áudio disponível no material digital.</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Apresentaremos também os principais expoentes da Teologia da Libertação: o</p><p>teólogo e padre peruano Gustavo Gutiérrez Merino (1928- ), o teólogo protestante</p><p>americano Richard Shaull (1919-2002), o teólogo e padre brasileiro Leonardo Bo�</p><p>(1938- ) e o teólogo e pastor brasileiro Rubem Alves (1933-2014).</p><p>É importante ressaltar que alguns assuntos abordados nesta seção são bastante</p><p>sensíveis, pois tratam implicitamente da condição do pobre e do oprimido, e que,</p><p>muitas vezes, o que sabemos sobre isso foi construído pelo senso comum.</p><p>Contudo, nosso foco consiste em descrever as relações causais de forma cientí�ca,</p><p>procurando nos afastar das valorações. E, caso você possua algum texto cientí�co</p><p>que traga luz para os assuntos tratados, não hesite em trazê-lo para a sala de aula.</p><p>Segundo Paulo Freire, o conhecimento se constrói a partir da interação entre</p><p>professores e alunos e entre alunos e alunos. Então �que à vontade para</p><p>compartilhar a sua bagagem cultural, mas não se esqueça de que estamos no</p><p>ambiente acadêmico, logo é preciso se valer de fontes cientí�cas.</p><p>O texto anterior, parte da obra de Stanley Gundry, apresenta a ressigni�cação do</p><p>termo “libertação” a partir da Conferência de Medellín, na Colômbia, em 1965. Até</p><p>então, a palavra possuía um signi�cado pontual, expropriada de sentidos</p><p>múltiplos.</p><p>Contudo, a partir daquela conferência, a palavra “libertação” foi alargada em sua</p><p>semântica, pois passou a carregar em si não apenas o seu signi�cado primário,</p><p>tácito, usual, mas tornou-se portadora de amplos signi�cados, concretos e</p><p>abstratos. Em toda a América Latina, o termo libertação, falado ou ouvido num</p><p>ambiente eclesiástico, ou até mesmo fora dele, apontava para uma nova leitura da</p><p>Bíblia, que dialogasse com a condição dos menos favorecidos (pobres).</p><p>Dessa forma, os termos “pedagogia da libertação”, “voz da liberação”, “mensagem</p><p>de libertação”, “salmos da libertação”, etc. trouxeram consigo o contexto da</p><p>“opressão social”, da “luta de classes”, requerendo o ajuntamento e a mobilização</p><p>em torno de uma causa.</p><p>A partir de 1965 a palavra libertação avançou em uso geral na terminologia técnica da descrição teológica, mas</p><p>até a Segunda Conferência Geral Episcopal dos bispos católicos romanos (CELAM) em Medellín seu signi�cado</p><p>permaneceu vago. Nesse encontro o conceito de libertação ganhou sua formação, sendo que o criticismo</p><p>Latino-Americano se aprofundava cada vez mais contra o (desenvolvimentalismo). Nos anos que se seguiram a</p><p>palavra se tornou cada vez mais comum no meio católico [...] e a obra de Gustavo Gutierrez, assim como a</p><p>palavra libertação chamaram a atenção para uma nova forma de se fazer teologia.</p><p>— (GUNDRY, 1983, p. 267-268)</p><p>“</p><p>0</p><p>V</p><p>e</p><p>r</p><p>a</p><p>n</p><p>o</p><p>ta</p><p>çõ</p><p>e</p><p>s</p><p>Caro aluno, a Teologia da Libertação elencou como principal sujeito a pessoa do</p><p>oprimido, do pobre e do necessitado. E, embora tenha sido rechaçada por muitos,</p><p>de tempos em tempos, ela emerge como possível resposta para as questões</p><p>atuais.</p><p>Não podemos esquecer que, com o avanço da agenda neoliberal e com o</p><p>crescimento dos processos de globalização no �nal do século XX, houve uma</p><p>escalada sem precedentes no âmbito da desigualdade social. De acordo com a</p><p>pesquisadora Marta Arretche, esta desigualdade não se justi�ca apenas pelo baixo</p><p>nível do desenvolvimento econômico de alguns países nem se resume apenas à</p><p>renda pessoal, mas também se relaciona às políticas por eles adotadas (ARRETCHE,</p><p>2015, p. 425,426).</p><p>Como visto, as questões ligadas ao desemprego, à pobreza e à fome são muito</p><p>comuns e requerem a análise não apenas do momento presente, mas também das</p><p>antigas propostas que podem ser remodeladas diante das novas situações-</p><p>problema.</p><p>Considerando-se que você é um pro�ssional de formação em Teologia e que, na</p><p>condição de teólogo, muitas vezes será requerido que você expresse a sua opinião</p><p>a respeito dos mais variados assuntos que surgem diante das fricções sociais</p><p>ocorridas no dia a dia, suponha que tenha sido convidado a escrever um artigo</p><p>para uma revista teológica de grande circulação e que a temática semestral da</p><p>revista seja “Ditadura, Igreja e Teologia da Libertação no Brasil do século XX”.</p><p>De que forma você organizaria as ideias?</p><p>Levando em consideração o material das Seções 1.1, 1.2 e 1.3, elabore um</p><p>rascunho no qual você se baseará para escrever seu artigo.</p><p>Isso posto, prepare o seu bloco de anotações, traga sua contribuição e prepare-se</p><p>para aprimorar seu conhecimento. Bons estudos!</p><p>CONCEITO-CHAVE</p><p>O MODERNISMO E SEUS IMPACTOS NA TEOLOGIA</p><p>Caro aluno, na Seção 1.1, você aprendeu como a �loso�a in�uenciou o</p><p>pensamento teológico do século XX. Você se lembra? A �m de avançarmos em</p><p>nosso conhecimento,</p>