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José Henrique de Faria - Introdução à epistemologia - Dimensões do ato epistemológico

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<p>Copyright © 2022 by Paco Editorial</p><p>Direitos desta edição reservados à Paco Editorial. Nenhuma parte desta obra pode ser</p><p>apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer</p><p>forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação, etc., sem a permissão da</p><p>editora e/ou autor.</p><p>Revisão: Márcia Santos</p><p>Capa: Vinícius Torquato</p><p>Diagramação: Larissa Codogno</p><p>Edição em Versão Impressa: 2022</p><p>Edição em Versão Digital: 2022</p><p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)</p><p>F234i</p><p>Introdução à epistemologia: dimensões do ato epistemológico / José Henrique de Faria. - 1. ed. -</p><p>Jundiaí [SP] : Paco, 2022.</p><p>Recurso digital</p><p>Formato: ePub</p><p>Requisitos do sistema: Multiplataforma</p><p>ISBN 000-00-0000-000-0</p><p>1. Epistemologia - Teoria do conhecimento. 2. Ontologia. I. Título.</p><p>22-78789 CDD: 121</p><p>CDU: 165</p><p>Gabriela Faray Ferreira Lopes - Bibliotecária - CRB-7/6643</p><p>Conselho Editorial</p><p>Profa. Dra. Andrea Domingues (UNIVAS/MG) (Lattes)</p><p>Prof. Dr. Antonio Cesar Galhardi (FATEC-SP) (Lattes)</p><p>Profa. Dra. Benedita Cássia Sant’anna (UNESP/ASSIS/SP) (Lattes)</p><p>Prof. Dr. Carlos Bauer (UNINOVE/SP) (Lattes)</p><p>Profa. Dra. Cristianne Famer Rocha (UFRGS/RS) (Lattes)</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4771296D1</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=S219507</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=N133032</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4784829U9</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4703614A6</p><p>Prof. Dr. José Ricardo Caetano Costa (FURG/RS) (Lattes)</p><p>Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes (UNISO/SP) (Lattes)</p><p>Profa. Dra. Milena Fernandes Oliveira (UNICAMP/SP) (Lattes)</p><p>Prof. Dr. Ricardo André Ferreira Martins (UNICENTRO-PR) (Lattes)</p><p>Prof. Dr. Romualdo Dias (UNESP/RIO CLARO/SP) (Lattes)</p><p>Profa. Dra. Thelma Lessa (UFSCAR/SP) (Lattes)</p><p>Prof. Dr. Victor Hugo Veppo Burgardt (UNIPAMPA/RS) (Lattes)</p><p>Prof. Dr. Eraldo Leme Batista (UNIOESTE-PR) (Lattes)</p><p>Prof. Dr. Antonio Carlos Giuliani (UNIMEP-Piracicaba-SP) (Lattes)</p><p>Paco Editorial</p><p>Av. Carlos Salles Bloch, 658</p><p>Ed. Altos do Anhangabaú, 2º Andar, Salas 11, 12 e 21</p><p>Anhangabaú - Jundiaí-SP - 13208-100</p><p>Telefones: 55 11 4521.6315</p><p>atendimento@editorialpaco.com.br</p><p>www.pacoeditorial.com.br</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4700965H9</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=P468677</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4707925D1</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4704828P6</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4780765Z3</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4763549E2</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4737948P1</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4759425A1</p><p>http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4730996E0</p><p>mailto:atendimento@editorialpaco.com.br%0D?subject=Livro%20Teoria%20da%20Hist%C3%B3ria%20-%20Paco%20Editorial</p><p>http://www.editorialpaco.com.br/</p><p>Para Carol, pelo seu amor e carinho,</p><p>pelo permanente incentivo,</p><p>por não me deixar esmorecer,</p><p>especialmente quando o desafio a que me impus</p><p>parecia insuperável.</p><p>Para meus amores incondicionais</p><p>e que dão sentido concreto à minha vida,</p><p>objetiva e subjetivamente:</p><p>Ricardo e Dani; Alexandre, Josi e Estela;</p><p>Anna Carolina, Alexandre, Gustavo e Cauane;</p><p>Marianna e Bruno.</p><p>Para todos os que, direta ou indiretamente,</p><p>Instigaram-me a cometer ousadias epistemológicas</p><p>em um campo tão cheio de definições.</p><p>O ideal não é mais que o material</p><p>transposto para a cabeça do ser humano</p><p>e por ela representado.</p><p>(Karl Marx. Crítica à Filosofia do Direito de Hegel)</p><p>A crítica onto-prática é condição elementar constitutiva de todo Ato</p><p>Epistemológico transformador socialmente referenciado.</p><p>AGRADECIMENTOS</p><p>São tantos os agradecimentos quanto os riscos de não ser capaz de dar</p><p>conta deles. De todo modo, agradeço todas e todos que ao longo dos anos,</p><p>direta e indiretamente, estudaram, debateram, questionaram, discordaram,</p><p>criticaram, sugeriram e que me permitiram cumprir com rigor aquela</p><p>etapa epistemológica que chamo, de maneira um tanto irônica, de Urca</p><p>(Última Revisão Crítica do Autor). Irônica porque é uma última revisão</p><p>que está longe de ser última. É última antes de submeter à publicação.</p><p>Tampouco é a última crítica, porque também a crítica é como uma</p><p>sombra: cada vez que há alguma luz ela aparece. E publicar significa</p><p>colocar luz sobre o texto.</p><p>Ao Celso Luiz Ludwig (UFPR) sou grato pela leitura rigorosa e</p><p>paciente e pelos comentários e sugestões; ao Ariston Azevedo (UFRGS)</p><p>pelos debates provocativos durante as aulas de Epistemologia; à Deise</p><p>Luiza Ferraz (UFMG) não apenas pela leitura crítica da versão final,</p><p>como pelas diversas conversas nas quais me fez questionamentos</p><p>fundamentais sobre os argumentos desenvolvidos no texto; ao Fábio</p><p>Vizeu (UP) pelas críticas e sugestões, especialmente sobre a</p><p>hermenêutica; ao Ricardo Pimentel (Isae-PR) pela leitura cuidadosa,</p><p>crítica e propositiva e pela inserção da fenomenologia de Schutz; ao José</p><p>Ricardo Vargas de Faria (UFPR), pelos debates e pela sugestão do</p><p>destaque aos desdobramentos e variantes das Dimensões</p><p>Epistemológicas; à Natalia Rese (UFPR), pelas muitas observações e</p><p>discussões ao longo de anos de trabalho conjunto; à Carolina Walger</p><p>(UFPR) sou grato pela análise do texto em uma perspectiva de empatia</p><p>com possíveis leitores, enfatizando o processo didático e a exposição do</p><p>conteúdo; ao Francis Kanashiro Meneghetti (UTFPR) agradeço pelas</p><p>diversas discussões e reflexões e pelas parcerias na produção acadêmica;</p><p>sou grato aos pesquisadores e professores do Grupo de Pesquisa Eppeo</p><p>(Camila, Elaine, Raquel e Anderson), às minhas orientandas e</p><p>orientandos e às minhas alunas e alunos de mestrado e doutorado, que</p><p>durante os últimos vinte anos estudaram, debateram e questionaram os</p><p>temas propostos, apresentaram problemas pertinentes e originais,</p><p>obrigando-me a estudar novos autores, elaborar e reelaborar concepções,</p><p>estabelecer relações entre proposições epistêmicas e organizar a</p><p>exposição didática: todos estes momentos, que são muito valiosos, mas</p><p>nem sempre devidamente valorizados, me instigaram a elaborar reflexões</p><p>e demandaram a proposição de conceitos como os de Epistemologia, Ato</p><p>Epistemológico, Tempo Epistemológico, Ontologia e Epistemologia</p><p>Crítica do Concreto, Dimensões Epistemológicas, entre outros. Todas</p><p>essas pessoas foram fundamentais no desenvolvimento deste estudo, mas</p><p>nenhuma delas é responsável pelos problemas que o texto tem.</p><p>Também desejo expressar meus agradecimentos ao CNPq através dos</p><p>programas de Bolsa Produtividade Pesquisa e do Edital Universal, a</p><p>Capes pelo apoio ao programa de Pós-Doutoramento na Michigan</p><p>University, à UFPR pelo apoio viabilizado pelo programa de Professor</p><p>Sênior e à UTFPR pelo apoio realizado no programa de Professor</p><p>Visitante. A política pública de fomento ao ensino, à pesquisa e à</p><p>extensão é fundamental para a produção do conhecimento científico,</p><p>filosófico, tecnológico, artístico e cultural original, sem amarras utilitárias</p><p>e sem vínculos institucionais e convencionais.</p><p>Todas as sugestões, indicações e reparos que foram possíveis, foram</p><p>contemplados. Não tenho nenhuma dúvida de que o texto final ficou</p><p>muito melhor com as críticas. Mas não há crítica que tenha solução</p><p>definitiva. Cada crítica elaborada põe outras críticas e cada resposta a</p><p>uma crítica põe outras críticas: esse é o movimento epistemológico.</p><p>Ainda assim, algumas críticas não foram incorporadas porque, embora</p><p>adequadas e fundamentadas, estavam além do meu conhecimento e da</p><p>minha capacidade de elaboração. Dizendo claramente: não tive fôlego</p><p>acadêmico para elaborar estas críticas, mas as reservei para outro</p><p>momento, pois elas exigem muitos e rigorosos estudos. Não sou</p><p>exatamente um epistemólogo e tampouco um filósofo, mas me motivam</p><p>estes desafios, pois como pesquisador tenho me defrontado com o</p><p>problema da produção do conhecimento,</p><p>e afastamento crítico do objeto.</p><p>Coincidência dos opostos. Princípio de que tudo está em tudo.</p><p>Nível ontológico geral (toda coisa é microcosmo) e especial (o</p><p>homem é a implicação de todas as coisas).</p><p>Maquiavel e o realismo. A fuga do pensamento especulativo.</p><p>Princípio da especificidade do próprio objeto, de modo autônomo e</p><p>sem condicionamentos. A verdade efetiva das coisas (o ser) e a</p><p>recusa às aparências (dever ser).</p><p>Thomas More e a utopia. A representação relativamente imaginária</p><p>do que não existe e do que deveria ser.</p><p>Da Vinci e a ordem mecânica da natureza. Nenhuma investigação é</p><p>verdadeiramente científica se não puder ser demonstrada</p><p>matematicamente: não basta a observação. É a razão que</p><p>demonstra a condição da experiência, a confirmação da teoria e as</p><p>realizações tecnológicas.</p><p>Quadro 4. O Humanismo e o Renascimento</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>Processo</p><p>Histórico-Social Principais Proposições Epistemológicas</p><p>A Revolução</p><p>Científica</p><p>A união da ciência e da técnica na investigação da natureza.</p><p>O método científico como meio de conferir autonomia à ciência</p><p>em relação às proposições da fé e da filosofia. A ciência é a</p><p>ciência experimental, que exige uma linguagem específica e</p><p>rigorosa que ultrapassa a simples rejeição de teorias anteriores</p><p>para substituí-las por teorias mais amplas, logicamente fortes e</p><p>com maior conteúdo controlável.</p><p>Abertura para a definição de categorias. A ciência moderna tem</p><p>por fundamento o método publicamente controlável, que lhe</p><p>confere a autonomia. O que importa é a qualidade das coisas e</p><p>dos fatos de forma objetiva e comprovável. Emerge o</p><p>questionamento do Que e da Substância pelo Como e pela</p><p>Função (propriedade).</p><p>Valorização dos instrumentos de pesquisa e das técnicas de</p><p>comprovação. Os instrumentos passam a fazer parte do saber</p><p>científico, colocados dentro da teoria com objetivos</p><p>cognoscitivos, como auxílio e potencialização dos sentidos,</p><p>garantindo maior objetividade contra a percepção imediata.</p><p>O realismo de Galileu e a crítica ao instrumentalismo. A ciência</p><p>como descrição verdadeira das qualidades objetivas da</p><p>realidade. Nem as qualidades subjetivas, nem a essência das</p><p>coisas são objeto da ciência.</p><p>Processo</p><p>Histórico-Social Principais Proposições Epistemológicas</p><p>A Filosofia</p><p>Moderna</p><p>Bacon e o Novum Organum. O saber, ainda que estreitamente</p><p>ligado à experiência, é saber de formas, de substâncias e não de</p><p>funções ou leis quantificadas. A partir dos sentidos e dos</p><p>particulares, extrai-se os axiomas ascendendo gradual e</p><p>ininterruptamente a escada da generalização até alcançar os</p><p>axiomas gerais, que são princípios bem determinados.</p><p>Compreender a forma é compreender a estrutura de um</p><p>fenômeno e a lei que regula seu processo.</p><p>Descartes e a identidade entre matéria e espaço. A metafísica diz</p><p>de que e como é feito o mundo. Todo método consiste na ordem e</p><p>na disposição das coisas. O método consiste em reduzir</p><p>gradualmente as proposições complexas e obscuras a</p><p>proposições mais simples e, partindo das mais simples elevar-se</p><p>pelos mesmos degraus ao conhecimento de todas as outras</p><p>proposições. As quatro regras do método: evidência, divisão</p><p>analítica, ordem (do mais simples ao mais complexo),</p><p>enumeração e revisão.</p><p>As Construções</p><p>Metafísicas do</p><p>Racionalismo</p><p>Spinoza e o tratado sobre o intelecto. A verdade é o que dá</p><p>sentido à existência humana. Só é necessário conhecer o que é</p><p>indispensável ao fim proposto. A concepção de substância como</p><p>determinante do sentido da vida: uma questão relacionada ao</p><p>ser. Nada é dado na natureza além da substância e suas</p><p>sensações. Os três graus do conhecimento: opinião e</p><p>imaginação, conhecimento racional, conhecimento intuitivo.</p><p>Leibniz e a metafísica do pluralismo. Todo efeito deve</p><p>corresponder à sua causa. O efeito é mais bem conhecido a</p><p>partir do conhecimento da causa. Apenas as propriedades da</p><p>matéria podem explicar os fenômenos. Só a condição finalista</p><p>pode dar a visão global das coisas.</p><p>O</p><p>Desenvolvimento</p><p>do Empirismo</p><p>Hobbes e a representação a partir dos sentidos. O conhecimento</p><p>é uma representação ou aparência de alguma qualidade do</p><p>objeto, o qual atua sobre os sentidos. Não há nenhum conceito</p><p>desenvolvido pela mente que não tenha sido produzido antes,</p><p>total ou parcialmente, pelo sentido: tudo mais deriva desta raiz.</p><p>Processo</p><p>Histórico-Social Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Locke e a fundação do empirismo crítico, cuja tese é: não há</p><p>ideias e nem princípios inatos; nenhum pensamento é capaz de</p><p>inventar (a partir do nada) ideias e nem destruir as que existem;</p><p>a experiência é a fonte e o limite (horizonte) ao qual o</p><p>pensamento se vincula. A experiência é a origem e o limite</p><p>intransponível de todo conhecimento possível.</p><p>Berkeley, a gnosiologia nominalista e a apologética. Os objetos</p><p>do conhecimento são as ideias e não os fatos e estas ideias são</p><p>sensações, ou seja, provêm dos sentidos. Toda sensação é</p><p>singular: ideias abstratas são ilusões. A negação da matéria</p><p>independente do espírito é a apologética.</p><p>Hume e a ciência da natureza humana. A observação e o método</p><p>experimental devem ser aplicados também ao sujeito e não</p><p>somente ao objeto. A impressão é originária, a ideia é</p><p>dependente. As impressões precedem as ideias correspondentes.</p><p>Todas as ideias provêm, mediata ou imediatamente, de suas</p><p>correspondentes impressões, sejam elas simples ou complexas. A</p><p>associação entre ideias simples e complexas decorrem da</p><p>semelhança, da contiguidade e da relação causa-efeito.</p><p>A Fundação da</p><p>Filosofia</p><p>Transcendental</p><p>Kant e a crítica ao pensamento ocidental. O conhecimento</p><p>científico (conhecimento verdadeiro) é uma síntese a priori.</p><p>Trata-se, portanto, de descobrir os fundamentos que tornam</p><p>possível a síntese a priori: o juízo analítico e o juízo sintético.</p><p>Não é o sujeito que deve girar em torno do objeto, mas este que</p><p>deve se adaptar ao sujeito (é o sujeito que sente e pensa). Assim,</p><p>é transcendental todo conhecimento que não se relaciona com</p><p>objetos, mas com o modo de conhecê-los enquanto for possível a</p><p>priori.</p><p>Quadro 5. O Renascentismo e a Virada Científica e Epistemológica da</p><p>Modernidade*</p><p>* As concepções de alguns dos autores aqui mencionados serão mais bem detalhadas adiante.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Fundação do Fichte e o idealismo ético. A doutrina da ciência: o Eu põe-se a si</p><p>Idealismo mesmo; o Eu opõe a si um Não-eu; a limitação recíproca e a</p><p>oposição, no Eu, do Eu limitado ao Não-eu limitado; o idealismo e a</p><p>atividade cognoscitiva e moral.</p><p>Schelling e a filosofia da natureza. Idealismo transcendental e</p><p>estético. A filosofia “positiva” ou da revelação.</p><p>A</p><p>Absolutização</p><p>do Idealismo:</p><p>Hegel*</p><p>Hegel e o idealismo absoluto. O sistema hegeliano (a realidade</p><p>como espírito. A dialética como lei suprema da realidade e como</p><p>procedimento do pensamento. A proposição especulativa).</p><p>A fenomenologia do espírito: as etapas do itinerário</p><p>fenomenológico; a consciência (certeza sensível, percepção e</p><p>intelecto); autoconsciência (dialética do senhor-escravo); a Razão e</p><p>o Espírito; a lógica (do ser, da essência, do conceito); a filosofia do</p><p>espírito (o espírito e seus três momentos: subjetivo, objetivo e</p><p>absoluto)</p><p>A Esquerda</p><p>Hegeliana</p><p>David Strauss e a humanidade como união entre finito e infinito.</p><p>Bruno Bauer e a religião como desventura do mundo.</p><p>Max Stirner. São os indivíduos singulares, em sua unicidade, os</p><p>criadores de sua esfera existencial. O indivíduo é o princípio de seu</p><p>próprio mundo e juiz de sua existência.</p><p>Feuerbach e a redução da teologia à antropologia.</p><p>O socialismo utópico de Saint-Simon (a ciência e a técnica como</p><p>base da nova sociedade), Fourier (o novo mundo societário) e</p><p>Proudhon (a autogestão operária da produção).</p><p>Quadro 6. A Formação do Idealismo</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>* Adiante se encontra um Capítulo sobre a Hegel.</p><p>Processo</p><p>Histórico-Social Principais Proposições Epistemológicas</p><p>O Materialismo</p><p>Histórico e</p><p>Dialético: Marx</p><p>e Engels*</p><p>A crítica a Hegel, à</p><p>esquerda hegeliana e ao socialismo utópico.</p><p>Crítica à Ideologia Alemã. Os manuscritos econômicos e</p><p>filosóficos. O manifesto comunista. O materialismo histórico e</p><p>dialético como método.</p><p>A crítica aos economistas clássicos (à economia política). Teoria</p><p>da mais-valia. A alienação do trabalho. A luta de classes.</p><p>Grundrisse. O Capital.</p><p>Os Grandes</p><p>Contestadores</p><p>do Sistema</p><p>Hegeliano</p><p>Schopenhauer e o mundo como vontade e representação. O</p><p>mundo é a representação do ser. A categoria da causalidade.</p><p>Kierkegaard: o indivíduo e a causa cristã. A ciência e o</p><p>cientificismo. A teologia Científica.</p><p>Quadro 7. A Crítica ao Sistema Hegeliano</p><p>* Adiante se encontra um Capítulo sobre o Materialismo Histórico.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Auguste</p><p>Comte*</p><p>A lei dos três estágios (teológico, metafísico e positivo). A doutrina</p><p>positivista da ciência e a concepção do progresso irrefreável. A</p><p>sociologia como física social. A classificação das ciências.</p><p>Diversamente do idealismo, o positivismo reivindica o primado da</p><p>ciência como o único método de conhecimento; as leis causais e seu</p><p>domínio sobre os fatos devem ser aplicadas ao estudo da sociedade (a</p><p>divindade do fato); a ciência dos fatos naturais refere-se às relações</p><p>humanas e sociais; a ciência é o único meio para resolver todos os</p><p>problemas humanos e sociais; o progresso, fruto do trabalho, da</p><p>engenhosidade ou do automatismo, é incontível; os fatos empíricos</p><p>constituem a base do verdadeiro conhecimento racional.</p><p>Stuart</p><p>Mill</p><p>O positivismo utilitarista. O princípio da indução na produção do</p><p>conhecimento (a uniformidade da natureza).</p><p>Quadro 8. O Positivismo</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>* Adiante se encontra um Capítulo sobre o Positivismo.</p><p>Processo</p><p>Histórico-Social Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Empiriocriticismo</p><p>Tanto o sujeito como o ambiente não são distintos e opostos,</p><p>mas semelhantes de si mesmos. A distinção entre o fenômeno</p><p>físico e o psíquico é puramente formal e prática. A base do</p><p>conhecimento científico é a experiência indiferenciada de</p><p>condição física e mental que surge da relação do organismo</p><p>com o ambiente e das conexões de adaptação, em que tudo deve</p><p>prosseguir pela percepção, que contém os elementos definitivos,</p><p>os primeiros dados de conhecimento, nem externos nem</p><p>internos, nem subjetiva nem objetivamente.</p><p>Convencionalismo</p><p>Os princípios fundamentais de certo tipo são baseados em</p><p>acordos na sociedade e não na realidade externa. Regras e</p><p>concepções, ainda que não ditas, desempenham lugar</p><p>fundamental na estrutura do pensamento. Para Poincaré, a</p><p>origem do conhecimento encontra-se no fato (empírico), a</p><p>partir do qual se constroem hipóteses, leis e teorias. Assim, as</p><p>ditas “verdades científicas” são meras convenções.</p><p>Neocriticismo</p><p>A filosofia deve analisar as condições de validade da ciência e</p><p>de outros produtos humanos (moral, arte). Ênfase na</p><p>gnosiologia e não nos problemas empíricos e factuais ou nos</p><p>enigmas metafísicos. A ciência não se constitui pela</p><p>acumulação dos fatos, mas por sua unificação através de</p><p>hipóteses, leis e teorias. O conhecimento não busca a</p><p>substância e sim a lei, a relação, a função. O desenvolvimento</p><p>do conhecimento científico é a passagem do conceito de</p><p>substância ao de função. As formas fundamentais de</p><p>compreensão do mundo são formações simbólicas, que</p><p>estruturam a apreensão da realidade, criam significados e</p><p>organizam a experiência.</p><p>Quadro 9. O Empiriocriticismo, Convencionalismo e Neocriticismo</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Princípios</p><p>do</p><p>Historicismo</p><p>Substituir a consideração generalizante e abstrata das forças</p><p>históricas pelo seu caráter individual; a história dos homens e de</p><p>suas relações recíprocas é condicionada pela sua pertença a um</p><p>processo temporal; exigência de pesquisa concreta dos fatos</p><p>empíricos; a filosofia tem uma função crítica voltada para a</p><p>determinação das condições de possibilidades do conhecimento e das</p><p>atividades humanas; os objetos do conhecimento histórico são</p><p>específicos e diferem dos objetos do conhecimento natural; o objeto</p><p>do conhecimento histórico está na individualidade dos produtos da</p><p>cultura humana; o instrumento do conhecimento humano é a</p><p>compreensão; as ações humanas tendem a um fim e os</p><p>acontecimentos são julgados na perspectiva de valores precisos; o</p><p>sujeito do conhecimento é o homem concreto, histórico, condicionado</p><p>pelo contexto em que vive e atua.</p><p>Dilthey</p><p>As ciências da natureza e do espírito se diferenciam por seu objeto.</p><p>Nas ciências da natureza o objeto é externo, nas do espírito o objeto é</p><p>o mundo das relações entre indivíduos do qual estes têm consciência</p><p>imediata. As diferenças entre os objetos implicam na diferença</p><p>gnosiológica: a observação externa (ciências da natureza) e a</p><p>observação interna (ciências do espírito), experiência vivida. A</p><p>sociedade é o mundo humano que tem em seu centro o indivíduo em</p><p>seus sistemas de cultura e organização social. A estrutura do mundo</p><p>humano é histórica.</p><p>Weber</p><p>O objetivo da ciência é descrever e explicar a configuração real da</p><p>vida social encontradas na ação social. O agir social se distingue em</p><p>quatro tipos: comportamento racional em relação a um fim; ação</p><p>racional em relação a um valor; ação efetiva; ação tradicional. Para</p><p>compreender o agir social é preciso considerar que a intuição não é</p><p>campo da ciência e que a experiência não pode substituir os</p><p>conceitos. O pesquisador deve adotar o princípio da escolha</p><p>(referência a valores), sem o qual não há como definir a matéria de</p><p>pesquisa e nem como produzir um conhecimento significativo. Para</p><p>dar rigor aos conceitos nas investigações histórico-sociais deve-se</p><p>lançar mão do tipo ideal como instrumento metodológico ou</p><p>expediente heurístico.</p><p>Quadro 10. O Historicismo Alemão</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>* Adiante se encontra um Capítulo sobre Dilthey e Weber.</p><p>Processo</p><p>Histórico-Social Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Pragmatismo*</p><p>Derivado do empirismo tradicional baseado na experiência, o</p><p>pragmatismo tem na experiência uma norma de ação. Para</p><p>Charles Peirce (que concebeu o termo pragmatismo e depois</p><p>pragmaticismo) e seu pragmatismo lógico, o conhecimento é</p><p>pesquisa, que se inicia com a dúvida até obter um estado de</p><p>crença. A crença não faz agir imediatamente, mas coloca as</p><p>pessoas em condições de ação diante da oportunidade. O</p><p>método científico correto fundamente-se na dedução (que não</p><p>permite conclusões falsas de premissas verdadeiras), na indução</p><p>(argumentação que partindo de certas propriedades conhecidas</p><p>permite conclusões generalizadas) e na abdução (para</p><p>encontrar a explicação de um fato problemático é necessário</p><p>criar uma hipótese da qual se deduz consequências</p><p>experimentalmente verificáveis).</p><p>No empirismo radical de William James, o pragmatismo é</p><p>apenas um método, uma atitude de pesquisa que se afasta dos à</p><p>priori para se concentrar nas coisas últimas, nos resultados, nas</p><p>consequências, nos efeitos práticos. O conhecimento verdadeiro</p><p>não se encontra em sua propriedade, mas em sua condição de</p><p>operar (de sua utilidade prática), de se tornar verdadeiro pelos</p><p>acontecimentos.</p><p>Instrumentalismo</p><p>Para John Dewey a experiência não se reduz à consciência e</p><p>nem ao conhecimento. A experiência é história preenchida de</p><p>futuro. O conhecimento é um processo de investigação, uma</p><p>prática que soluciona problemas, que transforma uma situação</p><p>indeterminada em determinada. As ideias estão sempre em</p><p>função de problemas reais, por isso são instrumentos para</p><p>resolver problemas, nem falsas ou verdadeiras, mas eficazes,</p><p>relevantes ou não. A verdade não é a adequação do pensamento</p><p>ao ser, mas o corpo crescente de afirmações garantidas,</p><p>corrigíveis e aperfeiçoáveis em relação à história.</p><p>Quadro 11. O Pragmatismo e o Instrumentalismo</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>* Adiante se encontra um Capítulo sobre o Pragmatismo.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Fenomenologia</p><p>Husserl é o principal representante do movimento</p><p>fenomenológico, que se apresenta criticamente contra o</p><p>apriorismo idealista em direção ao concreto, aos dados imediatos</p><p>e inegáveis, sobre os quais se erguem teorias. Trata-se de um</p><p>método que visa o retorno às coisas, em contraposição aos</p><p>conceitos e sistemas de pensamento. A fenomenologia de Husserl</p><p>procura as evidências estáveis, pois “sem evidências, não há</p><p>ciência”. Através da descrição dos fenômenos que se apresentam</p><p>à consciência se faz a epoché, ou seja, a suspensão de juízo de</p><p>tudo o que não é apodítico (necessariamente lógico), a redução</p><p>fenomenológica. A partir da evidência se chega aos modos típicos</p><p>como os fenômenos se apresentam, ou seja, às essências eidéticas</p><p>(essências abstratas das coisas). A fenomenologia não é a ciência</p><p>dos fatos, mas a ciência das essências. A fenomenologia de</p><p>Husserl (ao contrário do realismo de Scheler) tomou o caminho</p><p>do idealismo, encontrando-se com a única realidade: a</p><p>consciência. Sua fenomenologia é a da intencionalidade da</p><p>consciência.</p><p>O movimento fenomenológico tornou-se uma dimensão</p><p>epistemológica que se desdobrou em diversas concepções</p><p>(Hartmann, Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty, Marcel, Jaspers,</p><p>Schutz, entre outros) com influência na psicologia, antropologia,</p><p>psiquiatria, sociologia, etc.</p><p>Existencialismo</p><p>Heidegger é o principal expoente da filosofia da existência</p><p>(existencialismo), cujo objetivo é uma ontologia capaz de</p><p>determinar o sentido do ser e sua autorrevelação. O modo de ser</p><p>do Ser-aí é a existência. A essência da existência é a possibilidade</p><p>de atuar, de escolher, de poder-ser, de projetar. A existência é</p><p>essencialmente transcendência, que é a constituição fundamental</p><p>do homem, ou seja, a condição de ser-no-mundo. Os pontos</p><p>básicos do existencialismo são: a não identificação da realidade</p><p>com a racionalidade; a centralidade da existência como modo de</p><p>ser; a transcendência do ser com o qual a existência se relaciona;</p><p>a possibilidade como modo de ser constitutivo da existência.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Hermenêutica</p><p>A hermenêutica significa interpretação, ou seja, teoria da</p><p>interpretação correta de textos. Na analítica contemporânea a</p><p>hermenêutica trata também da linguagem, do significado e da</p><p>compreensão. Schleiermacher (1868-1834) foi o primeiro a</p><p>unificar as teorias hermenêuticas de disciplinas específicas em</p><p>uma hermenêutica universal. Dilthey incorpora em sua análise da</p><p>compreensão vários elementos da hermenêutica de</p><p>Schleiermacher para formular uma metodologia única para as</p><p>ciências humanas. Heidegger combina o método fenomenológico</p><p>de Husserl com a teoria da compreensão de Dilthey. Mas são</p><p>Gadamer e Ricoeur os principais responsáveis pela hermenêutica</p><p>contemporânea, que concebem que a compreensão é</p><p>necessariamente compreensão hermenêutica. O círculo</p><p>hermenêutico significa que as partes somente são compreendidas</p><p>com a compreensão do todo, mas o todo só é compreendido com a</p><p>compreensão das partes. Para Gadamer, quem se propõe a</p><p>compreender um texto deve estar preparado para deixar que ele</p><p>diga alguma coisa.</p><p>Quadro 12. A Fenomenologia, o Existencialismo e a Hermenêutica</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>* Adiante se encontra um Capítulo sobre Fenomenologia de Husserl e outro sobre a Hermenêutica.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Russell</p><p>Russell critica o idealismo para se voltar ao tradicional empirismo e</p><p>realismo inglês. A filosofia não é fecunda quando se afasta da</p><p>ciência. Seu atomismo lógico (análise rigorosa e precisa em que a</p><p>linguagem pode partida em partes menores até que restem seus</p><p>“átomos lógicos”, de cuja análise pode-se julgar melhor sua verdade</p><p>ou validade) pretendia se colocar entre o empirismo radical e o</p><p>idealismo. O que torna uma proposição verdadeira ou falsa é o fato</p><p>atômico. Assim, classes, relações, números, existem</p><p>independentemente do sujeito e da experiência. Russell distingue</p><p>descrições indefinidas (ambíguas) das definidas para eliminar os</p><p>paradoxos metafísicos da existência e do não-existente. Com isso,</p><p>critica a filosofia analítica por se ocupar mais dos sentidos do que da</p><p>veracidade dos discursos.</p><p>Whitehead</p><p>A história é uma processualidade no espaço e no tempo. Assim, o</p><p>acontecimento é um conjunto de relações que emergem da</p><p>intencionalidade com o universo. O universo é um organismo que</p><p>condiciona a criação de sínteses sempre novas e que tornam os</p><p>objetos eternos. Desta forma, a substância não é o instrumento eficaz</p><p>para compreender o mundo, mas a ideia de acontecimento, pois o</p><p>universo inteiro é um processo.</p><p>Wittgenstein</p><p>Em seu Tractatus Logico-philosophicus Wittgenstein apresenta suas</p><p>teses ou proposições: o mundo é tudo o que acontece; o que acontece</p><p>(o fato) é a existência dos fatos atômicos; a representação lógica dos</p><p>fatos é o pensamento; o pensamento é a proposição exata; a</p><p>proposição é uma função de verdade das proposições elementares; a</p><p>fórmula geral da função de verdade (principal resultado da análise</p><p>em lógica pura)11 é a fórmula geral da proposição; aquilo que não se</p><p>pode falar deve-se calar. A linguagem é a representação projetada da</p><p>realidade, dos fatos: a representação é um modelo de realidade.</p><p>Assim o pensamento ou a proposição representa (espelha)</p><p>projetivamente a realidade, de maneira que cada elemento</p><p>constitutivo do real corresponde a outro elemento no pensamento. O</p><p>nome significa o objeto e o objeto é seu significado.</p><p>Quadro 13. A Filosofia da Linguagem</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>O Marxismo</p><p>Ocidental</p><p>Lukács: o método correto para compreender a história humana é o</p><p>método marxista, o método dialético. A ortodoxia marxista é a</p><p>ortodoxia do método. Somente operando uma vinculação na qual os</p><p>fatos individuais da vida social são integrados em uma totalidade</p><p>como momentos do desenvolvimento histórico torna-se possível</p><p>alcançar o conhecimento dos fatos como conhecimento da realidade.</p><p>É a perspectiva da totalidade que determina a forma objetiva de</p><p>cada objeto do conhecimento. Lukács realiza uma inversão no</p><p>processo de conhecimento, que se encontra tanto na lógica fundante</p><p>do objeto quanto na gênese do ser social: a ontologia.</p><p>O Marxismo</p><p>Ocidental</p><p>Korsch critica a teoria gnosiológica do reflexo (de Lenin) que para</p><p>ele é uma concepção primitiva, pré-dialética e pré-transcendental</p><p>da relação entre consciência e ser. O núcleo da produção do</p><p>conhecimento é a dialética e a essência da dialética materialista</p><p>consiste em resolver concretamente a contradição material existente</p><p>entre a riqueza do capital e a miséria proletária. A dialética não</p><p>pode ser ensinada, mas praticada concretamente na práxis</p><p>revolucionária.</p><p>O Marxismo</p><p>Estruturalista</p><p>Althusser e a ruptura epistemológica. Com base no estruturalismo e</p><p>na epistemologia da Bachelard, a interpretação de Marx por</p><p>Althusser é a-histórica e idealista, ou seja, é um teorismo a-</p><p>histórico, que de saída se revela idealista e que carrega, por vezes,</p><p>atributos de uma teologia desenvolvida nas tribunas acadêmicas,</p><p>longe, portanto, da real “matéria-prima” da produção do</p><p>conhecimento: a realidade empírica. Althusser considera que os</p><p>escritos do jovem Marx pertencem à pré-história do marxismo e que</p><p>Marx, na maturidade, operou uma “ruptura epistemológica” (no</p><p>sentido de Bachelard). Para Althusser o sujeito não é nada além do</p><p>que um suporte das relações de produção, ou seja, não são sujeitos</p><p>concretos, mas sujeitos que exercem funções determinadas na</p><p>estrutura como portadores de força de trabalho: os indivíduos são</p><p>somente os efeitos da estrutura. A especificidade da contradição</p><p>marxista não está na dialética, mas na sobredeterminação.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>A Filosofia</p><p>da Práxis</p><p>Gramsci e a filosofia da práxis: as referências aos problemas</p><p>sociais, culturais e políticos concretos. A filosofia da práxis baseia-</p><p>se inteiramente na ação concreta do homem que, por suas</p><p>necessidades históricas, opera e transforma a realidade e não deve</p><p>ser confundida com o materialismo vulgar e com a metafísica da</p><p>matéria. A matéria, não é um dado ontológico e uma totalidade</p><p>existente, mas social e historicamente organizada pela produção e a</p><p>própria ciência natural deve ser considerada essencialmente como</p><p>uma categoria histórica, uma relação humana. A compreensão da</p><p>história exige um método próprio, o método dialético, que permite</p><p>apreender a realidade como consciência das contradições sociais</p><p>em que vivem os homens reais e que, em situações concretas, devem</p><p>ser enfrentadas por homens reais. O marxismo não é, assim, uma</p><p>doutrina, mas práxis e consciência revolucionária.</p><p>A Escola de</p><p>Frankfurt e a</p><p>Teoria Crítica</p><p>da Sociedade</p><p>A Teoria Crítica não é uma unidade na Escola: o grupo que se</p><p>organiza em torno do Instituto de Pesquisa Social (Horkheimer,</p><p>Adorno, Marcuse, Benjamin, Fromm, Pollock), conhecido como a</p><p>primeira geração da escola, adota fundamentos diferentes dos</p><p>seguidos por Habermas, que representa segunda geração, cujos</p><p>textos no início seguem as linhas definidas pelo grupo, mas</p><p>reformula a noção de Teoria Crítica tomando outro rumo e</p><p>abandonando os fundamentos marxistas que caracterizam a Escola</p><p>de Frankfurt em favor de uma concepção neokantiana. A Teoria</p><p>Crítica oferece não apenas um modo de interpretação de como a</p><p>produção humana relaciona-se com os desejos, conflitos e</p><p>potenciais, mas também uma forma de desenvolver habilidades para</p><p>pensar lógica e criativamente, afastando-se do pensamento</p><p>canonizado. No entanto, a Teoria Crítica também reinstaura o</p><p>idealismo e a especulação no interior do marxismo, empobrecendo</p><p>sua concepção ontológica, obstinadamente defendida por Lukács.</p><p>Para Adorno, a investigação social crítica deve mostrar como nas</p><p>relações subjetivas cintilam determinantes sociais objetivos. A</p><p>subjetividade, portanto, não deve ser descartada de uma análise</p><p>epistemológica crítica como se a mesma pertencesse apenas ao</p><p>terreno da pura especulação.</p><p>Quadro 14. Marxismos Pós Marx*</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>* Aqui estão destacadas apenas as proposições que possuem maior relevância nas CHSSA-EOR.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>A Estrutura</p><p>Como Ciência</p><p>e Filosofia</p><p>A estrutura é o simulacro, a integridade do real. A atividade</p><p>humana e tudo o que dela decorre é construída e carregada de</p><p>sentidos e significados como consequência do sistema de relações</p><p>sincrônicas (que se realiza ao mesmo tempo, de forma simultânea,</p><p>concomitante, coexistente) e diacrônicas (desenvolvimento em</p><p>certo período de tempo). O método estruturalista analisa a</p><p>realidade social baseado na construção de modelos que pretendem</p><p>explicar como se dão as relações a partir das estruturas que as</p><p>contêm e condicionam. A estrutura é um sistema abstrato que</p><p>resulta da análise de como os fatos e seus elementos constituintes</p><p>mantêm entre si relações observáveis para se chegar a um modelo</p><p>teórico do objeto, que é sempre um conjunto de elementos que se</p><p>inter-relacionam, de forma que em uma estrutura o todo é sempre</p><p>maior que a soma das partes. Em toda estrutura se distinguem três</p><p>características básicas: (i) sistema ou totalidade; (ii) leis de</p><p>transformação que conservam ou enriquecem o sistema; (iii) auto-</p><p>regulação, pois as transformações se efetuam sem que na estrutura</p><p>intervenham elementos exteriores. Uma vez descoberta a estrutura,</p><p>deve ser possível sua “formalização”, que é uma criação teórica: a</p><p>estrutura é anterior ao modelo teórico e independe dele. O</p><p>estruturalismo tem inspirado a proposição de modelos e</p><p>paradigmas na análise das questões sociais.</p><p>A Estrutura</p><p>Como Ciência</p><p>e Filosofia</p><p>Para Lévi-Strauss o estruturalismo não é uma doutrina, mas uma</p><p>oposição ao subjetivismo, humanismo, historicismo e empirismo.</p><p>As estruturas informam o pensamento, as práticas e as instituições.</p><p>Assim, a categoria central do estruturalismo não é o ser, mas as</p><p>relações entre os elementos constitutivos do fenômeno: no lugar do</p><p>sujeito subjetivo está a estrutura. O sujeito (suas relações e</p><p>práticas) é, portanto, efeito das estruturas. Os sujeitos não existem</p><p>fora das relações que os instituem: eles são formas e não</p><p>substâncias.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>As descobertas da linguística em relação às estruturas universais</p><p>das diferentes línguas colocaram em perspectiva uma questão</p><p>crucial para o entendimento da sociedade: se há uma estrutura</p><p>básica nas línguas, porque não se pensar uma estrutura básica</p><p>para a sociedade, tendo em vista o papel da linguagem nela? Lévi-</p><p>Strauss e o estruturalismo trouxeram contribuições</p><p>epistemológicas fundamentais para o entendimento estrutural da</p><p>sociedade, sendo influenciados pelas Ciências Humanas, Sociais e</p><p>Sociais Aplicadas e as influenciando de forma contundente.</p><p>Funcionalismo</p><p>As consequências de um dado conjunto de fenômenos empíricos,</p><p>em lugar de suas causas, constituem o centro da análise. A análise</p><p>de determinados padrões de um conjunto de fenômenos pode ser</p><p>explicada a partir da noção de propósitos. Estes propósitos são</p><p>funções manifestas ou latentes (inconscientes). No primeiro caso, a</p><p>análise funcional não está interessada no desenvolvimento</p><p>histórico das regras que regem uma sociedade, mas no impacto</p><p>societal diferencial dos sistemas herdados socialmente. Os</p><p>diferentes sistemas herdados socialmente têm consequências</p><p>estruturais nas relações sociais. No caso da função latente, a</p><p>análise deve se concentrar para além de saber se o comportamento</p><p>dos agentes atinge seus propósitos, dirigindo-se para as</p><p>consequências do comportamento dos quais os agentes nem têm</p><p>consciência e nem haviam previsto. Na análise funcional, o que</p><p>parece irracional e sem sentido pode ter importantes</p><p>consequências. A análise funcional tem se concentrado, também,</p><p>nas consequências de um fato social particular para a estrutura</p><p>mais ampla em que ele está embutido. Outra abordagem da análise</p><p>funcional encontra-se na noção de pré-requisitos funcionais, que</p><p>sugere que qualquer sistema social precisa atender a certas</p><p>funções indispensáveis para sobreviver. A atenção, neste caso, se</p><p>concentra nas pré-condições funcionais para a constituição de uma</p><p>sociedade.</p><p>É preciso distinguir, na concepção funcionalista no campo das</p><p>CHSSA-EOR, as contribuições de Durkheim, Parsons e Merton,</p><p>entre outros.</p><p>Quadro 15. O Estruturalismo e o Funcionalismo</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>* Adiante se encontram Capítulos sobre Funcionalismo e Estruturalismo.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Karl Popper e</p><p>o</p><p>Racionalismo</p><p>Crítico</p><p>O erro é um componente inevitável da teoria científica, o motor</p><p>pelo qual a ciência se move. Popper defende o princípio de que a</p><p>ciência é uma permanente construção de hipóteses e de seu</p><p>cotejamento com a realidade. O progresso cientifico, portanto,</p><p>consiste na superação de teorias menos satisfatórias e em sua</p><p>substituição por teorias de maior conteúdo. Assim, toda proposição</p><p>que possa ser refutada pela experiência empiricamente observável</p><p>é científica. Para Popper, as investigações científicas partem de um</p><p>problema que se espera poder solucionar. A solução, que tem o</p><p>caráter de tentativa, consiste numa teoria, numa hipótese, numa</p><p>conjectura. As teorias rivais são comparadas e discutidas</p><p>criticamente, a fim de se identificar suas deficiências. Os resultados</p><p>são sempre inconcludentes e formam a ciência do momento. Desta</p><p>forma, toda teoria que não for, por princípio, falsificável, não é</p><p>teoria, mas dogma (a qualidade da teoria é sua condição de</p><p>falseabilidade). Uma teoria é tanto melhor quanto mais refutável</p><p>ela for: quanto mais uma teoria afirma,</p><p>tanto mais ela exclui,</p><p>fazendo crescer as condições de seu falseamento. Quanto maior o</p><p>conteúdo de uma teoria, mais severas são as provas de sua</p><p>validade.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Bachelard e o</p><p>Materialismo</p><p>Racional</p><p>Os elementos constitutivos da Epistemologia de Gaston Bachelard</p><p>são: a ruptura epistemológica (rompimento com o conhecimento</p><p>científico a priori e com o conhecimento vulgar) e o obstáculo</p><p>epistemológico (rompimento com as teorias científicas</p><p>cristalizadas, com os dogmas, com a opinião). Bachelard propõe o</p><p>materialismo racional (racionalismo aplicado e materialismo</p><p>técnico) no debate entre o idealismo e o realismo, defendendo a</p><p>concepção de que a obrigação filosófica é buscar, por meio do</p><p>diálogo, uma síntese da teoria e da experimentação, evitando a</p><p>racionalidade vazia ou o empirismo desconexo. Para tanto,</p><p>argumenta que: (i) o materialismo racional está ligado ao</p><p>conhecimento formal, mas não deve ser proposto a priori para</p><p>experiências presentes e futuras, pois corre o risco de reduzir o</p><p>conhecimento; (ii) o materialismo técnico deve ser dialético e</p><p>aplicado a posteriori; (iii) o conhecimento tem uma história,</p><p>havendo ligação entre o conhecimento passado e o atual; (iv) a</p><p>busca do conhecimento tem início na curiosidade e na estimulação,</p><p>ou seja, não parte do objeto de forma racional apriorística; (v) a</p><p>investigação parte de um problema ou da constituição de uma</p><p>problemática a ser pesquisada; (vi) a investigação pauta-se em um</p><p>método científico.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Pós-</p><p>estruturalismo</p><p>Movimento que se inicia na década de 1960 e que tem como</p><p>expoentes principais Derrida, Deleuze, Lyotard, Foucault e</p><p>Kristeva. A questão central do pós-estruturalismo é que os limites</p><p>do conhecimento possuem um lugar inevitável em seu cerne (em sua</p><p>essência). O pós-estruturalismo projeta o limite sobre o interior do</p><p>conhecimento e sobre a compreensão estabelecida de verdade, ou</p><p>seja, o limite é a essência. Assim, qualquer forma de conhecimento</p><p>é produzida a partir de seus limites e não pode ser definida</p><p>independentemente deles. O limite não é cognoscível, mas algo que</p><p>desafia a identificação. O limite é inapreensível e só pode ser</p><p>abordado pela sua função de irrupção, ou seja, o limite é</p><p>identificável embora seus efeitos sejam rastreáveis. Assim, o pós-</p><p>estruturalismo investe contra verdades e oposições estabelecidas,</p><p>especialmente nas lutas contra a discriminação, exclusões sociais,</p><p>violência. O pós-estruturalismo não pretende se colocar contra ou a</p><p>favor de algo, mas como subversão das posições e das oposições</p><p>estabelecidas.</p><p>Pós-</p><p>modernismo</p><p>O pós-modernismo é caracterizado pela ruptura com os ideais</p><p>iluministas de uma sociedade perfeita com base em princípios tidos</p><p>como verdadeiros e únicos. Neste sentido, o pós-modernismo</p><p>enfatiza a substituição do pensamento coletivo pelo individualismo,</p><p>a valorização do “aqui e agora” (Carpe Diem), a hiper-realidade</p><p>(mistura entre o real e o imaginário), a subjetividade (nada é</p><p>concreto e fixo. A ideia antes tida como verdadeira passa a ser</p><p>interpretada apenas como mais uma no conjunto das hipóteses), o</p><p>multiculturalismo e pluralidade (fruto da globalização e mistura</p><p>entre características típicas de cada cultura), a fragmentação</p><p>(mistura e união de vários fragmentos diferentes), a</p><p>descentralização e a banalização ou ausência de valores. Para</p><p>Bauman, o pós-modernismo inaugura a “modernidade líquida”, em</p><p>que as relações sociais são muito efêmeras (assim como se</p><p>constroem facilmente, tendem a ser destruídas com a mesma</p><p>facilidade).</p><p>Quadro 16. As Variações Epistemológicas Contemporâneas</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>* Adiante se encontram algumas considerações sobre as Epistemologias Contemporâneas.</p><p>Esses dezesseis Quadros mostram, de forma sintética e resumida, as</p><p>diversas fases da evolução do processo histórico das proposições</p><p>epistemológicas que constituem o que aqui se define como Dimensões</p><p>Epistemológicas, em que se destacam as questões das relações entre o ser e</p><p>a matéria ou entre o ser e o mundo concreto ou espiritual na produção do</p><p>conhecimento. Estas fases não podem ser reduzidamente datadas (ainda que</p><p>pertençam a determinadas épocas), pois se sobrepõem. O objetivo desta</p><p>exposição sumarizada é apresentar o quadro geral das concepções. Adiante,</p><p>algumas destas proposições serão retomadas com maior profundidade. O</p><p>importante, neste momento, é indicar: (i) que aqui se encontram as questões</p><p>que apontam as relações entre a ontologia, a epistemologia (a produção do</p><p>conhecimento) e o método (como o conhecimento é produzido), que se</p><p>explicitam efetivamente com o advento da Virada Científica e</p><p>Epistemológica da Modernidade no final do Iluminismo e do</p><p>Renascentismo; (ii) como a evolução histórica das principais proposições</p><p>epistemológicas se materializa nas Dimensões Epistemológicas</p><p>Contemporâneas Básicas e em seus desdobramentos e variantes no campo</p><p>das CHSSA-EOR.</p><p>Uma análise deste processo histórico, de fato, aponta para o fato de que</p><p>alguns questionamentos são recorrentes: (i) o que é e como se produz o</p><p>conhecimento; (ii) como a realidade aparece à consciência, ou seja, qual a</p><p>representação imediata que o sujeito tem do objeto; (iii) como a realidade</p><p>social condiciona ou não a produção do conhecimento; (iv) de que forma o</p><p>mundo exterior pode ser conhecido pelo sujeito; (v) como o conceito é</p><p>produzido e qual a relação entre o conceito (abstrato) e a matéria; (vi) qual</p><p>o processo utilizado para produzir conhecimento sobre o objeto (indutivo;</p><p>dedutivo; ambos/nenhum) e para analisá-lo; (vii) como se estabelecem as</p><p>relações entre a realidade e o pensamento; (viii) como se dá a representação</p><p>pela consciência da realidade concreta, objetiva e subjetiva (qual a primazia</p><p>na relação entre o sujeito e o objeto); (ix) como o conjunto de qualidades e</p><p>atributos que caracterizam um fenômeno se defronta com suas condições</p><p>efetivas, históricas, circunstanciais ou aparentes; (x) como a relação entre</p><p>sujeito e objeto pode suprimir a diferença epistêmica (mas não física) entre</p><p>eles mantendo a identidade de ambos; (xi) como se pode manter a distinção</p><p>sujeito↔objeto como garantia da imparcialidade; (xii) como se pode formar</p><p>uma unidade sujeito↔objeto no Ato Epistemológico como garantia da</p><p>validade intrínseca do conhecimento; (xiii) como a realidade exterior</p><p>capturada pela consciência se relaciona com a condição subjetiva (social,</p><p>cognitiva e psíquica) do sujeito, sem comprometer a apropriação do real</p><p>pelo pensamento.</p><p>Estas questões que emergem da história do desenvolvimento</p><p>epistemológico permitem identificar pelo menos doze elementos comuns</p><p>que percorrem as reflexões e proposições e que podem ser assim descritos:</p><p>(i) Conhecimento e sua Produção; (ii) Percepção da Realidade; (iii)</p><p>Relações entre Fatos que Constituem a Realidade; (iv) Cognoscibilidade do</p><p>Mundo; (v) Propriedade do Conceito e da Teoria; (vi) Critérios de</p><p>Demarcação do Campo Empírico; (vii) Método de Produção do</p><p>Conhecimento; (viii) Relação entre Pensamento e Realidade; (ix) Relação</p><p>entre Essência e Aparência dos Fenômenos (x) Relação entre</p><p>Sujeito/Consciência e Objeto/Matéria; (xi) Relação entre Objetividade e</p><p>Subjetividade no trato do Fenômeno; (xii) Forma de Exposição.</p><p>Estes Elementos Constitutivos do processo epistemológico,</p><p>historicamente produzidos, serão retomados mais adiante quando da</p><p>exposição das Dimensões Epistemológicas. As Dimensões Epistemológicas</p><p>não são, portanto, resultado de conjecturas classificatórias, mas formas</p><p>concretas de produção do conhecimento organizadas segundo estes</p><p>Elementos Constitutivos historicamente produzidos. As particularidades</p><p>epistemológicas em que estes Elementos Constitutivos se apresentam no</p><p>Ato Epistemológico é que permitem sua exposição em diferentes</p><p>Dimensões.</p><p>É igualmente importante considerar que um estudo sistemático e mais</p><p>dedicado sobre este processo histórico da evolução da epistemologia,</p><p>especialmente das relações</p><p>entre as diversas proposições ontológicas e</p><p>metodológicas e seus desdobramentos na constituição da epistemologia</p><p>moderna, permitiria aprofundar a avaliação das práticas da produção do</p><p>conhecimento científico, filosófico e tecnológico contemporâneo12.</p><p>Contudo, para os propósitos deste estudo, estas doze questões relacionadas</p><p>anteriormente são suficientes para sistematizar a análise do processo</p><p>epistemológico no que se refere à definição das Dimensões Epistemológicas</p><p>Contemporâneas Básicas que efetivamente têm influência direta na</p><p>produção do conhecimento em CHSSA-EOR. Estas Dimensões, é</p><p>importante enfatizar desde logo, estão na base das CHSSA-EOR, ou seja,</p><p>não se referem às dimensões das ciências em geral.</p><p>No decorrer desse estudo essas questões serão retomadas no interior das</p><p>argumentações conceituais e na análise das diferentes Dimensões.</p><p>Entretanto, antes de avançar na questão das Dimensões, é necessária certa</p><p>dedicação ao esclarecimento de outros conceitos. Em linhas gerais, como já</p><p>indicado anteriormente, a epistemologia ocupa-se desde Platão da produção</p><p>do conhecimento, mais especificamente, do conhecimento verdadeiro. O</p><p>que é, então, o conhecimento verdadeiro? É aquele que corresponde à</p><p>realidade? É aquele expresso pela teoria? O conhecimento verdadeiro, para</p><p>ser considerado teoricamente elaborado, depende de uma metodologia</p><p>aceita e legitimada? Tomando por base o processo histórico do</p><p>desenvolvimento epistemológico é necessário avançar mais um pouco na</p><p>discussão dos conceitos de conhecimento e epistemologia.</p><p>1.2 Conhecimento e Epistemologia: uma primeira aproximação</p><p>A concepção de que “na prática a teoria é outra” habita a crença popular</p><p>sem reflexão, sendo às vezes pronunciada como um mantra para diferenciar</p><p>a ideia da realidade. Tornou-se uma forma de lugar comum a concepção de</p><p>que: (i) a teoria se diferencia ou se distancia completamente da prática de</p><p>maneira que uma e outra se referem a problemas diversos ou a diferentes</p><p>abordagens da realidade; (ii) a teoria é uma suposição (ou hipótese) sobre</p><p>algo; (iii) a teoria tem lugar na imaginação humana, enquanto a prática se</p><p>dá na realidade; (iv) a teoria é uma proposição lógico-abstrata que deve ser</p><p>comprovada em confronto com a realidade a que ela se refere.</p><p>Rigorosamente, se a realidade que a teoria pretende traduzir não está</p><p>contemplada adequadamente nessa teoria, então, na prática, a teoria deve</p><p>dar lugar a outra teoria. A teoria é a forma de representação do real segundo</p><p>determinados condicionantes. Se uma prática não se encontra representada</p><p>na teoria é por que: (i) a teoria original teve sua inscrição no plano</p><p>puramente idealista formal (uma lógica); (ii) a teoria é, de fato, uma</p><p>hipótese sobre a estrutura e o movimento do concreto (procedimento</p><p>comum na física clássica, quântica, moderna, nuclear, etc.); (iii) o</p><p>movimento dinâmico e contraditório de ambas (prática e teoria) exigiu uma</p><p>reelaboração do conhecimento teórico originalmente elaborado; (iv) as</p><p>condições de produção do conhecimento (teóricas, metodológicas,</p><p>tecnológicas e instrumentais) evoluíram de forma a superar o conhecimento</p><p>possível sobre o objeto nas condições originais13.</p><p>A teoria não se reduz ao exame sistemático das formas dadas de um objeto, com</p><p>o pesquisador descrevendo-o detalhadamente e construindo modelos explicativos</p><p>para dar conta - à base de hipóteses que apontam para relações de causa/efeito -</p><p>de seu movimento visível, tal como ocorre nos procedimentos da tradição</p><p>empirista e/ou positivista. E não é, também, a construção de enunciados</p><p>discursivos sobre os quais a chamada comunidade científica pode ou não</p><p>estabelecer consensos intersubjetivos (...). A teoria é uma modalidade peculiar de</p><p>conhecimento, entre outras (como, por exemplo, a arte, o conhecimento prático</p><p>da vida cotidiana, o conhecimento mágico-religioso) (...). A teoria se distingue</p><p>de todas essas modalidades e tem especificidades: o conhecimento teórico é o</p><p>conhecimento do objeto - de sua estrutura e dinâmica - tal como ele é em si</p><p>mesmo, na sua existência real e efetiva, independentemente dos desejos, das</p><p>aspirações e das representações do pesquisador (...). A teoria é (...) a reprodução</p><p>ideal do movimento real do objeto pelo sujeito que pesquisa: pela teoria, o</p><p>sujeito reproduz em seu pensamento a estrutura e a dinâmica do objeto que</p><p>pesquisa. E esta reprodução (que constitui propriamente o conhecimento teórico)</p><p>será tanto mais correta e verdadeira quanto mais fiel o sujeito for ao objeto.</p><p>(Paulo Netto, 2011, p. 20-21)</p><p>Diferentemente da física, em que a teoria é em geral uma proposição a</p><p>ser empiricamente comprovada, nas CHSSA-EOR a teoria deve ser a</p><p>representação metodologicamente elaborada da realidade. A relação entre</p><p>teoria e epistemologia é que a teoria é a forma de representação da realidade</p><p>epistemologicamente produzida. Neste sentido, a epistemologia que aqui</p><p>será tratada exige que se esclareçam os conceitos com os quais dialoga. No</p><p>entanto, a própria Epistemologia tem sido vítima da variedade e da</p><p>imprecisão conceitual ao ser referida, alhures, como ciência do</p><p>conhecimento, filosofia do conhecimento, teoria do conhecimento, ciência</p><p>da ciência, entre outras concepções que, mais adiante, serão devidamente</p><p>discutidas. Por ora, convém esclarecer estas diferenças antes de prosseguir.</p><p>O conceito de Epistemologia, embora pareça relativamente simples,</p><p>possui pelo menos três vertentes e, por isso mesmo, três formas diferentes</p><p>geralmente aceitas de abordagem. Em uma delas chama-se epistemologia</p><p>de teoria do conhecimento. Em outra, a epistemologia é conceituada como</p><p>filosofia do conhecimento. Em sua versão etimológica, é entendida como</p><p>teoria da ciência. Ainda que pareçam apenas diferenças semânticas, estas</p><p>concepções encerram posições bastante distintas.</p><p>Estas três concepções tradicionais de epistemologia, expostas a seguir,</p><p>oferecem indicativos importantes para a discussão do processo de produção</p><p>do conhecimento e da própria concepção de sua relatividade metodológica.</p><p>i. Epistemologia como teoria do conhecimento: como argumenta Santos</p><p>(1976, p. 11-12), a epistemologia, enquanto teoria do conhecimento</p><p>organiza-se: (i) Primeiramente sobre os pressupostos oriundos de uma</p><p>abordagem anglo-saxônica, baseada nos empiristas ingleses do século XVII</p><p>(David Hume, principalmente) em sua crítica ao racionalismo, que submete</p><p>a liberdade da construção do conhecimento a regras externas e imutáveis,</p><p>paralisando o desenvolvimento científico; (ii) Posteriormente, partindo da</p><p>investigação do entendimento humano, organiza-se paradoxalmente sobre o</p><p>idealismo alemão do Século XVIII, assumindo a forma de autocrítica,</p><p>embora não tenha ultrapassado os esquemas vindos de fora (externos)</p><p>formulados por uma filosofia especulativa. Nem mesmo no idealismo a</p><p>epistemologia, enquanto teoria do conhecimento, foi além de uma teoria</p><p>redundante. Na realidade, a Teoria do Conhecimento refere-se mais</p><p>propriamente à Gnosiologia e, portanto, à relação entre sujeito e objeto no</p><p>ato de conhecer e não na produção do conhecimento. A noção de</p><p>epistemologia que a crítica dos empiristas carregava, continha uma</p><p>limitação proveniente do fato de que o epistemológico era apenas uma</p><p>parcela complementar do saber, de tal modo que o empirismo que dá o</p><p>suporte para fundamentar a crítica, embora pudesse transpor a filosofia, não</p><p>a ultrapassou. Para os idealistas alemães, a noção de epistemologia como</p><p>teoria do conhecimento repousa sobre a ideia de investigação do</p><p>entendimento humano acerca dos fatos e fenômenos e é assim que foi</p><p>compreendida no Século XVIII.</p><p>ii. Epistemologia como Filosofia da Ciência: como filosofia da ciência a</p><p>epistemologia é um campo de pesquisa da filosofia que estuda os</p><p>fundamentos, pressupostos e implicações filosóficas da ciência, estando</p><p>também diretamente relacionada à ontologia ao tentar explicar a natureza</p><p>das afirmações e conceitos científicos e a forma como são produzidos: (i) os</p><p>meios para determinar a validade da informação; (ii) a formulação e uso do</p><p>método científico; (iii) os tipos de argumentos</p><p>usados para chegar a</p><p>conclusões; (iv) as implicações dos métodos e modelos científicos para as</p><p>ciências. Esta concepção de epistemologia parte do princípio de que todas</p><p>as ciências possuem uma filosofia subjacente. Esta concepção se concentra</p><p>não no ato da produção do conhecimento, mas em seu resultado e em seus</p><p>modos operativos e de validação. Há, aqui, uma concepção importante que</p><p>atribui à filosofia um lugar de vigilância da ciência, ou seja, designa um</p><p>campo próprio da pesquisa filosófica.</p><p>iii. Epistemologia como Teoria da Ciência: por seu turno, ainda de</p><p>acordo com Santos (1976, p. 12), como teoria da ciência a epistemologia</p><p>remete geralmente à uma abordagem preferida na França. Continua com as</p><p>limitações e a falta de autonomia relativamente à filosofia. No entanto, esta</p><p>concepção admite uma subdivisão: (i) Epistemologia como filosofia</p><p>aplicada: considera a ciência dependente de categorias filosóficas; (ii)</p><p>Epistemologia como ciência da ciência: postulado partenogenético, em que</p><p>a ciência se reproduz sem a fertilização da filosofia, ou seja, trata-se de uma</p><p>concepção que tem a pretensão de um “positivismo liberador de</p><p>filosofismos” (Santos, 1976, p. 12). No primeiro caso (filosofia aplicada),</p><p>trata-se de uma concepção que precede à da história da ciência, uma</p><p>concepção “pré-histórica” que subordina a liberdade e a imaginação</p><p>científica a normas exteriores e eternas. Esta noção submete não apenas a</p><p>liberdade do conhecimento e a imaginação científica a um conjunto de</p><p>normas tão exteriores quanto imutáveis e eternas, mas igualmente a</p><p>construção do conhecimento a estas regras, provocando, se fosse realizável,</p><p>uma paralisação histórica contraproducente para o desenvolvimento</p><p>científico. Esta concepção logrou êxito durante o tempo em que a evolução</p><p>científica era tão lenta que sequer parecia existir. No segundo caso (ciência</p><p>da ciência), a concepção surge como uma resposta aos rápidos avanços</p><p>científicos. Dito de outro modo, o acelerado avanço da ciência conduziu ao</p><p>postulado deste conceito em que a ciência se reproduziria pela própria</p><p>ciência sobrepondo-se às usurpações da filosofia.</p><p>Estas concepções sugerem que os epistemólogos da ciência tiveram que</p><p>aceitar, para usar uma expressão de Engels (1979), que a filosofia que foi</p><p>expulsa da casa da ciência pela janela, entrasse pela porta. Ora, se a ciência</p><p>não necessitava da filosofia para evoluir (já que o que possuía eram</p><p>técnicas, experimentos e testes), era porque ela admitia uma teleologia, ou</p><p>seja, admitia que fosse uma teoria das causas finais. Dito de outro modo,</p><p>admitia que a ciência fosse um conjunto de especulações cujo objetivo era</p><p>alcançar o conhecimento da finalidade dos fenômenos de maneira abstrata.</p><p>Deste modo, a ciência da ciência pretendia ser uma unidade do saber.</p><p>Dizer que uma ciência da ciência é possível significa, além disso, afirmar que a</p><p>“ciência” pode revelar, pela simples reflexão sobre si própria, as leis de sua</p><p>constituição, isto é, de seu funcionamento e formação. Consiste em afirmar que o</p><p>discurso científico tem a virtude intrínseca – e excepcional – de sua própria</p><p>teoria. Noutros termos, o “discurso científico”, soberanamente autônomo, não</p><p>teria de dar contas a ninguém e construir-se-ia sem choques nem obstáculos, no</p><p>espaço da pura cientificidade por si próprio instituído, arranjado e delimitado.</p><p>(Lecourt, 1980, p. 11)</p><p>A inexistência de obstáculos, na concepção de Lecourt (1980, p. 11-12),</p><p>se dá porquanto qualquer obstáculo seria, desde logo, localizado, enunciado</p><p>e, por direito, superado pelo próprio discurso científico implícito, mantido</p><p>consigo mesmo, em seu foro íntimo e que só ele pode esclarecer, como e</p><p>quando desejar. A consequência imediata deste processo autorregulador é</p><p>que se são as leis do próprio discurso científico que determinam o seu</p><p>desenvolvimento e se ele não tem obstáculos, a conclusão do saber é</p><p>sempre possível, bastando apenas remover algumas dificuldades meramente</p><p>formais que, momentaneamente, constituem um entrave. Tudo não passa de</p><p>uma questão puramente técnica, em que a história da ciência é apenas um</p><p>desenvolvimento, uma evolução que “conduz o conhecimento do erro à</p><p>verdade” e em que “todas as verdades se medem pela última que aparece”</p><p>(Lecourt, 1980, p. 12).</p><p>Como já indicado, nenhuma destas concepções será adotada neste</p><p>estudo. Aqui, epistemologia é conceituada enquanto estudo sobre como o</p><p>conhecimento é produzido, ou seja, sobre o Ato Epistemológico. A questão</p><p>“como o conhecimento é produzido?”, no campo das CHSSA-EOR, não se</p><p>trata de uma simples retórica. Obviamente, o “como” poderia ser decorrente</p><p>da experiência, da observação simples, da percepção, da tradição, dos</p><p>sentidos, da informação, etc. Entretanto, o “como”, aqui, trata do método,</p><p>da relação elaborada entre o pensamento e a matéria, do procedimento</p><p>científico, filosófico, tecnológico. Assim, considerando esses conceitos e</p><p>apenas para orientar estas primeiras reflexões, adota-se a concepção, neste</p><p>ponto exposta ainda de maneira simples (que será retomada adiante), de que</p><p>Epistemologia é o estudo que se ocupa da produção do conhecimento, ou</p><p>seja, estudo sobre como o conhecimento (científico, filosófico, cultural,</p><p>artístico, tecnológico, etc.) é produzido. A análise de um texto, de um</p><p>enunciado, de entrevistas, de documentos, de observações, de resultados de</p><p>testes/simulações e experimentos, de dados estatísticos, entre outros,</p><p>constitui um Ato Epistemológico, um ato de produção do conhecimento14.</p><p>Isto não implica valorizar a epistemologia em si mesma e decretar a</p><p>inutilidade ou a subordinação da metodologia, da teoria e das técnicas de</p><p>pesquisa. A epistemologia está relacionada constitutivamente ao</p><p>procedimento de produção do conhecimento e quanto mais elaborado tal</p><p>procedimento epistêmico, mais exigente a metodologia, a coerência teórica,</p><p>a qualidade e a propriedade das tecnologias (ou técnicas) de investigação,</p><p>sejam qualitativas, sejam quantitativas.</p><p>Sendo epistemologia o estudo sobre como o conhecimento é produzido,</p><p>resta óbvio que a forma adequada de iniciar a discussão é exatamente a de</p><p>procurar esclarecer o que é conhecimento e como o mesmo é produzido,</p><p>especialmente no que se refere ao núcleo desta discussão, que é a questão</p><p>socrática e platônica sobre o que é conhecimento verdadeiro. Para efeitos</p><p>destas reflexões, contudo, a proposta é mais restrita, ou seja, não se tratará</p><p>do conhecimento em geral, mas do conhecimento no campo das CHSSA-</p><p>EOR: científico, filosófico e tecnológico. Neste sentido, também não se</p><p>tratará de ir à busca de uma lógica universal ou de um padrão geral de</p><p>produção do conhecimento, mas da produção de uma categoria específica</p><p>de conhecimento.</p><p>O conceito de conhecimento é, portanto, fundamental para o</p><p>entendimento do que é epistemologia. Em outras palavras, à pergunta</p><p>“como o conhecimento é produzido?”, de imediato se coloca outra: “o que é</p><p>conhecimento?”. Adiante será necessário esclarecer que a epistemologia,</p><p>enquanto estudo da produção do conhecimento, não pode ser pensada de</p><p>apenas uma perspectiva. O estudo de como o conhecimento é produzido</p><p>implica considerar que esta produção não é uniforme e padrão: ao contrário,</p><p>a produção se dá a partir de diferentes dimensões. Em vista disto, o tema</p><p>“conhecimento” precisa ser estudado com mais profundidade, pois seu</p><p>conceito revela, igualmente, a Dimensão Epistemológica que o produziu.</p><p>A discussão, metafísica, sobre se é conhecimento a crença verdadeira e</p><p>justificada foi retomada por Gettier (1963), para quem não basta acreditar</p><p>em uma proposição verdadeira e justificada para ter conhecimento. Tal</p><p>discussão tornou-se conhecida pelos epistemólogos como o “Problema de</p><p>Gettier”. Segundo a crítica de Gettier à concepção tradicional, o</p><p>conhecimento, sendo uma crença que, verdadeira, recebe justificação, não</p><p>contempla as crenças falsas e nem aquelas que sendo verdadeiras não</p><p>possuem justificação. Proposições verdadeiras que expressam uma crença</p><p>com a qual o sujeito não compartilha também não seria conhecimento.</p><p>Assim, o conhecimento dependeria</p><p>unicamente do sujeito, quando este</p><p>possui uma crença justificada de que algo é verdadeiro. O conhecimento</p><p>dependeria, ainda, do fato de ser verdadeira a justificação sustentada pelo</p><p>sujeito, a qual não decorre de sua crença, mas de um pacto entre a</p><p>proposição e a correspondente realidade (Dutra, 2010).</p><p>Greco (2008), ao discutir epistemologia sugerindo ser esta uma teoria do</p><p>conhecimento, questiona: “o que se pode conhecer?”. Esta é, entretanto,</p><p>uma questão especulativa própria dos céticos: primeiro, porque é</p><p>inespecífica; segundo, porque se já é possível definir de antemão o que se</p><p>pode conhecer é porque, obviamente, já se conhece o que se quer conhecer</p><p>(o que indica uma seletividade do objeto). Greco (2008, p. 17) insiste: como</p><p>se conhece o que se conhece? Colocada desta forma, “o que se conhece”</p><p>antecede ao “como se conhece”. Esta questão não se refere ao processo, ao</p><p>Ato Epistêmico, mas a um já dado para o qual se busca uma explicação</p><p>mental. A questão epistêmica, ao contrário, é de outra condição: como se</p><p>conhece o que ainda não é conhecido ou como se conheceu o que agora se</p><p>conhece? Estas condições não são excludentes entre si. A forma de</p><p>produção do conhecimento sobre um objeto condiciona (mas não</p><p>determina) as formas de produção de novos conhecimentos sobre o mesmo</p><p>objeto ou de conhecimento sobre novos objetos.</p><p>Toda a discussão parece decorrer de uma metafísica e de uma</p><p>generalização do conceito de conhecimento. Para os objetivos deste estudo,</p><p>é necessário que se faça uma distinção simples, que neste momento é</p><p>formal e arbitrária. O conhecimento comum, que depende de uma crença,</p><p>difere do conhecimento científico, que depende de prova, de argumentos, de</p><p>métodos e de teorias; difere também do conhecimento filosófico, que</p><p>depende de um desenvolvimento lógico (formal e/ou dialético); difere do</p><p>conhecimento tecnológico, que depende de uma aplicabilidade prática</p><p>social. Estas diferenças formais permitem, neste momento, afirmar que os</p><p>conhecimentos científicos, filosóficos e tecnológicos dependem de uma</p><p>validação coletivamente aceita por uma comunidade específica, ou seja,</p><p>fundamentalmente, não se trata em nenhum caso de conhecimento</p><p>individualmente validado e reconhecido, ainda que socialmente aceito e</p><p>aplicado.</p><p>Ao discorrer sobre o que é conhecimento, Linda Zagzebski, sugere:</p><p>O conhecimento é um estado altamente valorizado no qual se encontra uma</p><p>pessoa em contato cognitivo com a realidade. Trata-se, portanto de uma relação.</p><p>De um lado da relação está o sujeito consciente, do outro lado está uma porção</p><p>da realidade com a qual o conhecedor está direta ou indiretamente relacionado.</p><p>Partindo do pressuposto de que a relação direta é uma questão de grau, torna-se</p><p>conveniente pensar no conhecimento de coisas como uma forma direta de</p><p>conhecimento, em comparação ao conhecimento sobre coisas, que é indireto.</p><p>(Zagzebski, 2008, p. 153)</p><p>Há, nesta exposição, pontos que merecem destaque. É correto considerar</p><p>que o conhecimento decorre da relação entre o sujeito e a realidade. Porém,</p><p>é preciso ponderar: (i) não é uma simples relação, mas uma interação, na</p><p>qual não cabem um lado e outro lado, embora sujeito e objeto sejam</p><p>distintos em si mesmos. Algo em que de um lado está o sujeito e de outro</p><p>lado o objeto traduz uma separação formal entre o sujeito e o objeto em que</p><p>ambos se encontram separados da relação social natural que os constitui;</p><p>(ii) a relação sujeito↔objeto não é uma oposição, mas uma dialética, em</p><p>que os opostos formam uma unidade, sendo o conhecimento uma síntese</p><p>dessa relação; (iii) tal relação não se reduz a um ato individual, senão que é</p><p>um ato necessariamente social, ainda que o processo cognitivo possa ser</p><p>subjetivamente individualizado e expresso; (iv) se for uma relação cognitiva</p><p>consciente, é também uma relação em processo e não uma refutação</p><p>primordial que se supera em gradação; (v) é inadequado tratar o</p><p>conhecimento acerca do objeto como sendo de duas formas: direto se é</p><p>decorrente do próprio objeto (empirismo puro) e indireto se decorre de um</p><p>tensionamento sobre o objeto (elaboração); o conhecimento só pode ser</p><p>conhecimento se é igualmente conhecimento do e sobre o objeto.</p><p>“O conhecimento é um fato”, diz Lefebvre (1995, p. 49). O sujeito</p><p>conhece objetos (coisas, animais, pessoas) “desde a vida prática mais</p><p>imediata e mais simples”. O sujeito e o objeto “agem e reagem</p><p>continuamente um sobre outro”. O sujeito age, explora, experimenta; o</p><p>objeto resiste, cede, revela-se. “Sujeito e objeto estão em perpétua interação</p><p>(...), uma interação dialética”. Esta concepção de Lefebvre sugere algumas</p><p>questões iniciais sobre o que é conhecimento.</p><p>O sujeito, ao se defrontar com o objeto, já o conhece de imediato?</p><p>Voltando à questão formulada nas Considerações Iniciais: é possível afirmar</p><p>que um sujeito que sabe diferenciar dois tipos de aves comuns em espaços</p><p>urbanos efetivamente as conhece? Pode-se dizer que um antropólogo, um</p><p>biólogo e um veterinário que se ocupam do estudo de um determinado tipo</p><p>de ave conhecem-na do mesmo modo ou cada um a conhece de acordo com</p><p>sua área de interesse (movimentos migratórios, reprodução, hábitos</p><p>alimentares, por exemplo)? O quanto um sujeito conhece realmente um</p><p>objeto a ponto de ter certeza sobre ele, sobre sua constituição, forma,</p><p>conteúdo, etc.? O quanto se pode afirmar que o que se conhece sobre um</p><p>objeto é ou não verdadeiro, é ou não suficientemente profundo? Como se</p><p>pode falar em conhecimento de um objeto, de uma coisa, quando este</p><p>objeto/coisa não é físico, como, por exemplo, “processo decisório”? O</p><p>conhecimento é absoluto? É relativo? É permanente? É passageiro? É</p><p>universal? É particular? O quanto o conhecimento não é limitado, entre</p><p>outros fenômenos, pela própria segmentação disciplinar da ciência? São</p><p>questões que, epistemologicamente, necessitam ser enfrentadas.</p><p>Esquematicamente, o conhecimento pode ser (i) produzido, avançando</p><p>e/ou rompendo com o conhecimento social e historicamente acumulado, ou</p><p>(ii) reproduzido, ou seja, obtido do que se encontra social e historicamente</p><p>acumulado. O conhecimento produzido, elaborado, não é sempre e</p><p>necessariamente um conhecimento científico, seja este simples ou</p><p>complexo (segundo métodos rigorosos): pode ser um conhecimento social</p><p>ou coletivamente útil ou aplicado15. O conhecimento reproduzido não é</p><p>necessariamente irrelevante ou sem utilidade, apenas não apresenta nenhum</p><p>acréscimo ao conhecimento acumulado, ainda que possa inovar a forma</p><p>expositiva. No âmbito das CHSSA-EOR, poder-se-ia indicar,</p><p>sinteticamente, alguns exemplos típicos, conforme exposto no Quadro 17.</p><p>Produção</p><p>Elaboração Conhecimento Reproduzido Conhecimento Produzido</p><p>(Original)</p><p>Simples Revisões Bibliográficas; Resumos</p><p>ou Resenhas; Apostilas; Roteiros;</p><p>Relatórios Técnicos com</p><p>Referência Empírica; Análises</p><p>Comentários. Descritivas Originais.</p><p>Complexa</p><p>Textos Teóricos Expositivos;</p><p>Análises Descritivas Determinadas</p><p>por Modelos Preexistentes;</p><p>Manuais.</p><p>Pesquisas Singulares (Criativas);</p><p>Produção de Conceitos e Teorias;</p><p>Ensaios Teóricos em Profundidade.</p><p>Quadro 17. Exemplos Típicos de Conhecimento em CHSSA-EOR</p><p>Fonte: JHFaria.</p><p>Todo conhecimento epistêmico expresso em enunciados (palavras,</p><p>símbolos, registros, etc.), diferentemente da doxa ou da sensação, é</p><p>resultado de uma elaboração pelo pensamento que supera a “simples</p><p>revelação subjetiva de uma qualidade sensível” (Huisman; Vergez, 1968),</p><p>na medida em que coloca o objeto em relevo. Todo conhecimento</p><p>produzido, portanto, é elaborado (e não, sentido) a partir da mediação entre</p><p>o sujeito (consciência) e o objeto (matéria).</p><p>Ainda que o presente estudo trate do conhecimento científico (filosófico</p><p>e tecnológico) em CHSSA-EOR, é preciso considerar que existem questões</p><p>e fenômenos relacionados ao conhecimento que não pertencem ao campo</p><p>científico, ainda que a ciência possa vir a se interessar por elas (eles). A</p><p>racionalidade científica não preenche a totalidade do questionamento</p><p>humano, de suas dúvidas e explicações. A incognoscibilidade científica</p><p>acerca de um fenômeno não é e nem pode</p><p>ser um limite determinante ou</p><p>uma impossibilidade epistemológica. A cognoscibilidade tampouco é uma</p><p>condição absoluta e definitiva. O definitivo, inquestionável, infalsificável, é</p><p>dogma. A reflexão sobre um fenômeno e o conhecimento dele decorrente</p><p>não necessariamente depende das qualificações exigidas pelo magistério</p><p>científico, que está também em constante movimento inobstante a</p><p>resistência dos cientistas ortodoxos e dos vigilantes e guardiões do templo</p><p>da razão. Em outras palavras, o conhecimento absoluto e definitivo sobre</p><p>um objeto ou fenômeno em sua totalidade é apenas convenientemente</p><p>formal16.</p><p>É possível canalizar para o âmbito da razão científica as dúvidas e os</p><p>questionamentos que habitam o espírito (no sentido hegeliano) curioso e</p><p>sua subjetividade. Mas não há como reduzir todas as dúvidas e</p><p>questionamentos ao campo da ciência, como se esta fosse, nas ilusões</p><p>empirista e idealista, a única e definitiva forma verdadeira de conhecer o</p><p>mundo: é preciso recusar toda concepção que atribui à ciência uma</p><p>condição deificada, religiosa, dogmática e fundamentalista, ou seja, toda</p><p>concepção segundo a qual tudo o que a ciência não (re)conhece, ou é algo</p><p>que não existe ou é algo que não é verdadeiro (é não-científico).</p><p>Conhecimentos não científicos podem ser socialmente relevantes para as</p><p>condições e as necessidades humanas de existência. A validação</p><p>metodológica do conhecimento científico, filosófico e tecnológico, não é</p><p>exigência do conhecimento de senso comum.</p><p>Feitas essas ressalvas primeiras sobre o conhecimento científico e seus</p><p>limites, pode-se dizer que na perspectiva usual, conhecer pode ser entender,</p><p>perceber ou saber algo sobre alguma coisa. Um sujeito pode conhecer um</p><p>pássaro, pode reconhecê-lo, pode saber a diferença entre dois tipos de</p><p>pássaros. Pode entender as cores dos semáforos e saber o significado de</p><p>cada uma delas17. Porém, na perspectiva da filosofia, da ciência ou da</p><p>tecnologia, que é objeto desse estudo, conhecer exige mais do que a simples</p><p>sensação ou percepção imediata da coisa. Exige um domínio gnosiológico,</p><p>um método, uma condição lógica e abstrata e, precisamente, uma forma de</p><p>representação e exposição. Conhecimento não compartilhado não tem</p><p>alcance social, ainda que tenha sido socialmente produzido.</p><p>A pergunta sobre o conceito de conhecimento não é um produto da</p><p>modernidade. Conhecimento e produção do conhecimento são temas</p><p>fundamentais na história do pensamento, como exposto anteriormente. Já</p><p>nos Diálogos, inicialmente denominados “diálogos socráticos”, Platão</p><p>(2008) faz uma pergunta contundente (de Sócrates) que se impõe a Teeteto:</p><p>“O que é conhecimento?” A ela pode-se acrescentar, além das já formuladas</p><p>precedentemente, outras: Qual o significado de conhecimento? Quais os</p><p>limites? De onde o conhecimento provém? Qual o processo de conhecer?</p><p>Do ponto de vista científico, como o conhecimento pode ser aceito ou</p><p>validado?</p><p>O conhecimento não é, definitivamente, algo que se pode obter saindo</p><p>da ignorância para, finalmente, chegar ao saber (Najmanovich; Lucano,</p><p>2008). Trata-se de um processo complexo. Agostinho (1973) argumentou a</p><p>respeito do que era conhecimento afirmando que se ninguém lhe</p><p>perguntasse, ele saberia perfeitamente a resposta, mas se alguém lhe</p><p>perguntasse o que é conhecimento ele não saberia o suficiente para</p><p>responder.</p><p>A concepção sobre o que é conhecimento não é uma espécie de</p><p>problema universal, baseado no princípio de que a humanidade sempre se</p><p>fez as mesmas indagações sobre sua existência e sobre as coisas que a</p><p>constituem. Dito de outro modo, não é por ser um tema histórico e</p><p>propriamente humano, ou seja, relativo à ontologia mesma do ser social,</p><p>que o conhecimento alcançou um nível conceptual e conceitual com status</p><p>de universalidade. Tampouco é um atributo generalizado que exige de todas</p><p>as pessoas o mesmo “grau de saber”, a mesma necessidade de conhecer, a</p><p>mesma curiosidade com o mundo real, como se fosse uma formação seriada</p><p>do tipo escolástico ou disciplinar. Trata-se de uma concepção que deve</p><p>levar em conta as diferenças individuais, sejam estas físicas, mentais (por</p><p>exemplo, dislexia, discalculia, etc.) ou psicológicas, bem como a evolução</p><p>histórica da humanidade e suas particularidades e singularidades; os</p><p>processos de produção das condições materiais de existência; as</p><p>perspectivas de cada lugar ou espaço físico específico e de cada contexto</p><p>socioeconômico e suas relações; as necessidades e condições particulares de</p><p>cada povo ou civilização, entre outras questões que recobrem o campo das</p><p>relações sociais.</p><p>Portanto, a concepção segundo a qual o conhecimento seria uma</p><p>capacidade humana natural e indiferenciada a que todos os sujeitos têm</p><p>igual acesso, é a base do argumento da meritocracia (Faria; Ramos, 2015) e</p><p>da discriminação daqueles que são “diferentes do normal” (uma</p><p>normalidade arbitrária e socialmente construída pelo imaginário). Tal</p><p>concepção, portanto, não leva em conta nem as condições constitutivas dos</p><p>sujeitos individuais e nem o desenvolvimento histórico-social, a realidade</p><p>econômica, jurídica, política, ideológica e cultural.</p><p>Seria, então, por outro lado, conhecimento algo que busca respostas para</p><p>aquilo que é necessário e fundamental para a vida? Em outras palavras: o</p><p>conhecimento é um processo centrado em sua utilidade prática ou o</p><p>conhecimento é uma prática? “Antes de elevar-se ao nível teórico, todo</p><p>conhecimento começa pela experiência, pela prática. Tão somente a prática</p><p>[coloca os sujeitos] em contato com as realidades objetivas” (Lefebvre,</p><p>1995, p. 49). Mas ser uma prática não faz do conhecimento um instrumento</p><p>cuja validade repousa apenas em sua utilidade aplicada. Aqui se expressa o</p><p>caráter subjetivo da utilidade, preenchido de interesses específicos. O que é</p><p>um conhecimento útil, de uma perspectiva econômica, política, social,</p><p>jurídica, artística, cultural?</p><p>O argumento de que o conhecimento deve ser pragmático acaba, por</p><p>vezes, caindo na armadilha de que o conhecimento supérfluo é inútil. No</p><p>entanto, o próprio julgamento do que venha a ser supérfluo não é</p><p>pragmático; além disso, o que é pragmático pode ser inteiramente subjetivo.</p><p>Os fenômenos dados ao conhecimento são vários e provêm de diferentes</p><p>fontes. Estes fenômenos constituem a base da reflexão, ainda que</p><p>momentânea, do sujeito e de sua condição de conhecer. A ideia de utilidade</p><p>prática do conhecimento desconsidera a constituição do sujeito e de suas</p><p>relações, desconsidera a elaboração processada pelo pensamento, a relação</p><p>entre a subjetividade e a objetividade, desconsidera aquilo que a psicanálise</p><p>freudiana chama de realidade material (externa ao sujeito) e realidade</p><p>psíquica (construída de maneira fantasmática pelo desejo).</p><p>Nesta linha de argumentação utilitária, o conhecimento poderia ser</p><p>considerado segundo determinados níveis de profundidade com que o</p><p>sujeito se relaciona com a matéria. Propedeuticamente, supondo ser</p><p>possível construir uma escala epistêmica, o primeiro nível, o mais</p><p>elementar, estaria localizado no ponto do conhecimento sem elaboração, do</p><p>empirismo puro (todo conhecimento está no imediato do objeto) ao puro</p><p>idealismo (o objeto não tem existência, tudo o que existe somente existe a</p><p>partir do pensamento); já o nível máximo, o de maior profundidade, estaria</p><p>localizado no conhecimento elaborado, que recusa a aparência fenomênica</p><p>da matéria para alcançar sua estrutura constitutiva, seja tensionando a</p><p>matéria em seu estágio mais desenvolvido procurando sua historicidade,</p><p>seja alcançando a essência irredutível do objeto, seu núcleo invariável e</p><p>permanente e que constitui sua natureza. Por detrás desta escala epistêmica</p><p>estaria a permanente pretensão à universalidade do conhecimento, a busca</p><p>de um saber absoluto sobre a matéria. Para compreender melhor esta</p><p>concepção de universalidade é oportuno retornar à questão formulada por</p><p>Sócrates e a resposta de Teeteto (Theaetetus).</p><p>1.2.1 A discussão socrático-platônica e aristotélica</p><p>Sócrates buscava encontrar uma entidade universal, uma ideia, um saber</p><p>que pudesse oferecer uma resposta</p><p>universal, independente das situações</p><p>particulares (Platão, 2008)18. Para tanto, Sócrates partia da suposição de</p><p>que havia um elemento comum, uma unidade definidora, em todas as</p><p>diversidades aparentes. Ao valorizar o pensamento pitagórico de abstração,</p><p>Sócrates avaliava o saber das pessoas pelo seu, um saber filosófico, que</p><p>sabia mais que os outros que tinham apenas um “saber prático”. Esta</p><p>“metodologia pitagórica” foi usada por Sócrates no estudo da moral e por</p><p>Platão no estudo do conhecimento.</p><p>Quando Sócrates interroga Teeteto (Platão, 2008) sobre o que é</p><p>conhecimento, este responde não com um conceito, mas com exemplos.</p><p>Sócrates retruca dizendo que esta pergunta somente pode ser respondida</p><p>com uma definição que permitisse identificar a essência que caracteriza a</p><p>física, a matemática e a filosofia como conhecimento. Teeteto, então, define</p><p>que conhecimento (Episteme) é sensação (Aisthesis), ou seja, a fonte do</p><p>conhecimento é o sensível. Tal concepção remete à ideia de que o que se</p><p>conhece é dado imediatamente aos sentidos, que caracteriza a posição</p><p>empirista pura. Entretanto, já ao final dos Diálogos, o conceito de</p><p>conhecimento é apresentado como sendo “uma crença verdadeira e</p><p>justificada” (alethe doxa meta logou). Platão afirma sua posição de que o</p><p>conhecimento decorre de uma ideia, de uma crença em uma verdade que</p><p>seja passível de justificação, remetendo ao mundo ideal, que é o que</p><p>caracteriza a posição idealista19.</p><p>De fato, Platão (2008) critica o legado de Homero (a poesia e o drama)</p><p>na educação da Grécia que valoriza a contemplação (a prosa e a geometria),</p><p>o saber retórico, o argumento fundamentado em oposição ao saber poético</p><p>como expressão do saber social. Platão buscava a análise contemplativa e</p><p>distanciada e a classificação dos fenômenos em “longas sequências de</p><p>causa-efeito” (Najmanovich; Lucano, 2008. p. 20), ou seja, a concepção de</p><p>Platão privilegia a posição teórica20, a problematização. Platão e Aristóteles</p><p>(2010) apresentam os fundamentos que possibilitariam, posteriormente, a</p><p>concepção do mundo dividida em mundo aparente e mundo real ao separar</p><p>a sensibilidade da inteligência. Estas posições originais, o puro Idealismo e</p><p>o puro Realismo, como anteriormente mencionado, são chamados por</p><p>Bachelard (2006) de polos pré-epistêmicos, como se verá adiante. Enquanto</p><p>Platão desvalorizava a experiência sensorial, depreciando a transformação</p><p>e a diversidade, exaltando a atividade intelectual, as formas definidas e</p><p>regulares, a estabilidade e a unidade, Aristóteles preferiu a filosofia</p><p>diversificada, com base na sensibilidade e no processo de conhecimento</p><p>(Najmanovich; Lucano, 2008. p. 23). A abstração que decorre destas</p><p>posições permite a concepção de um conhecimento garantido e verdadeiro,</p><p>uma Episteme, que se opõe à simples opinião, Doxa. Tal separação entre</p><p>conhecimento comum (opinião) e conhecimento científico, filosófico,</p><p>cultural, artístico e tecnológico, prevalece enraizada na ciência até os dias</p><p>atuais, ainda que não da mesma forma.</p><p>A Razão e a Episteme, conhecimento garantido e verdadeiro, pretende</p><p>superar as superstições. Todavia, é justamente O Mito da Caverna (Platão,</p><p>2008. Volume VII) que se tornou o mito fundador da captura do</p><p>conhecimento e da verdade. Platão deu à expressão “verdade” um atributo</p><p>dogmático que correspondia ao saber definitivo, seguro e absoluto. O</p><p>conhecimento verdadeiro somente pode ser alcançado no plano da Episteme</p><p>uma vez que se faça a distinção entre o real e o aparente. Neste sentido, fica</p><p>evidenciado que o acesso à realidade depende de um método. O mundo</p><p>percebido era, para Platão, uma aparência, sombras projetadas na parede da</p><p>caverna, uma versão degradada do mundo real, enfim, o mundo do sensível</p><p>imediato.</p><p>Existem autores que defendem a tese de que Platão foi o fundador do</p><p>idealismo. A história da filosofia indica que Platão é um dos mais</p><p>importantes, se não o mais importante filósofo da antiguidade a defender o</p><p>idealismo como filosofia, especialmente quando trata das questões da ética,</p><p>da política, da metafísica e do conhecimento. Mas não há certeza de que</p><p>tenha ele sido o pioneiro. Por outro lado, há quem, citando o Mito da</p><p>Caverna, reivindique a origem de uma teoria crítica ao pensamento</p><p>platônico, negligenciando que para Platão a verdadeira realidade está no</p><p>mundo das idéias, das formas inteligíveis, acessíveis apenas à razão (a</p><p>realidade é aquela que o sujeito constroi a partir das imagens ou sombras e</p><p>o esclarecimento é o que se pode ver na luz do pensamento novo). Para</p><p>Platão, o esforço para compreender a realidade deveria ser buscado nas</p><p>memórias da alma (Padovani; Castagnola, 1974).</p><p>O verdadeiro conhecimento, para Platão, demanda um procedimento,</p><p>uma recordação, uma anamnesis. Platão acreditava que o espírito habitava</p><p>um mundo ideal antes de nascer e que ao vir ao mundo esquece tudo o que</p><p>sabia. É necessário, então, através da contemplação, recordar o que o</p><p>espírito conheceu no mundo das ideias em um processo em que o indivíduo</p><p>deve, através da rememoração, redescobrir, dentro de si mesmo, as verdades</p><p>essenciais e latentes que habitavam tal espírito anteriormente à sua</p><p>existência real. Para Platão os “estudos empíricos” não determinam</p><p>exatamente qual das observações dos fenômenos é verdadeira. Ao contrário,</p><p>várias teorias podem explicar qualquer observação. Esta é uma concepção</p><p>instrumentalista do conhecimento, pois as teorias servem como ferramentas</p><p>úteis na descrição da verdadeira realidade (Najmanovich; Lucano, 2008, p.</p><p>32). Com Platão consolida-se uma vertente do pensamento ocidental</p><p>chamado de Idealismo ou Racionalismo, ou seja, o mundo é conhecido a</p><p>partir da ideia: o mundo sensível não produz conhecimento, o que só é</p><p>possível no mundo inteligível.</p><p>Aristóteles (2010), entretanto, ainda que concordasse com Platão sobre o</p><p>fato de que a ciência é um saber universal, eterno e necessário, valorizava a</p><p>observação e a experimentação. A concepção aristotélica, criticada por</p><p>alguns positivistas, é retomada nos trabalhos de Koyré (1982) e Kuhn</p><p>(1997), que argumentam que Aristóteles não procedia a uma especulação</p><p>separada completamente do campo empírico, pois estava interessado em</p><p>conhecer os mecanismos de produção dos fenômenos sem depreciar a</p><p>lógica e a dedução. Assim, embora Aristóteles seja algumas vezes</p><p>considerado um empirista, é mais apropriado considerar que com ele</p><p>consolida-se a vertente do realismo21.</p><p>Para Aristóteles (2010), especialmente em Metafísica (que Aristóteles</p><p>denominava Filosofia Primeira), o conhecimento pode começar no mundo</p><p>sensível, na experiência sensorial, mas vai se elevando até chegar ao</p><p>conhecimento verdadeiro. A máxima aristotélica é: o que chega ao intelecto</p><p>passa antes pelo sentido. O sentido percebe o real e o encaminha ao</p><p>intelecto. O conhecimento, então, deve ser compreendido a partir de uma</p><p>escala que parte da forma mais elementar, a Sensação, até alcançar a Teoria:</p><p>Sensação → Memória → Experiência → Arte → Teoria. Em “Sobre a</p><p>Alma”, Aristóteles aborda o problema da relação matéria-forma (corpo-</p><p>alma), sendo a alma a forma ou o ato perfeito (perfeição do corpo). Assim,</p><p>Aristóteles distingue o conhecimento sensível do conhecimento racional,</p><p>mas procura argumentar que eles dependem um do outro.</p><p>Aristóteles (2010), portanto, apresenta a concepção de acordo com a</p><p>qual a primeira fonte de conhecimento é a Sensação (o sentido, a percepção</p><p>imediata), criticando a chamada “teoria da reminiscência” de Platão, pois a</p><p>origem da ideia está na abstração do real, ou seja, o intelecto parte do objeto</p><p>sensível e particular para, passando pelas escalas, elaborar conceitos que</p><p>alcancem a universalidade. Este princípio Aristotélico tem sido denominado</p><p>pelos metodólogos da pesquisa científica, de maneira um tanto simplista, de</p><p>indutivo, na medida em que sai do particular imediato para alcançar o</p><p>universal, e dedutivo, porquanto alcança novamente o particular vindo do</p><p>universal por meio de um raciocínio conclusivo. Trata-se, contudo, de uma</p><p>proposição dialética que procura alcançar a conclusão do particular (do</p><p>seja em pesquisas que conduzo,</p><p>seja em orientações de pesquisadores em seus processos de formação,</p><p>seja em avaliações em bancas, artigos e congressos. Estes desafios se</p><p>renovam de forma constante e muito mais rápida e intensamente do que</p><p>as condições de enfrentamento.</p><p>Não foi possível neste momento tratar das contribuições importantes</p><p>como, por exemplo, as de Habermas, Gadamer, Ricoeur, Sartre,</p><p>Heidegger, Merleau-Ponty, Deleuze, entre outros. Pretendo enfrentá-los</p><p>em outra jornada. Aliás, vou enfrentá-los se o tempo epistemológico me</p><p>for favorável.</p><p>Entre as sugestões que me foram dadas uma merece um esclarecimento</p><p>específico. Por qual motivo não considerei a concepção Pós-Moderna</p><p>como uma dimensão. Não o fiz porque, por mais que tenha buscado, tive</p><p>dificuldades em encontrar nela uma unidade conceptual e conceitual que</p><p>a caracterizasse realmente como uma Dimensão Epistemológica, embora</p><p>tenha certa lógica epistêmica. Ao tentar encontrar seu nexo interno,</p><p>ficaram evidentes as contradições e incoerências de proposições entre</p><p>seus principais autores, o que me levou à conclusão de que se trata de</p><p>uma concepção em processo, de forma que não entendi ser pertinente</p><p>abordá-la neste estágio já como uma Dimensão, sob o risco de ser</p><p>imprudente. De todo modo, a razão iluminista não foi superada senão em</p><p>algumas intenções.</p><p>Historicamente, todos os livros, desde o primeiro publicado, têm suas</p><p>virtudes e seus limites, têm suas abrangências e suas restrições,</p><p>aprofundamentos e sínteses simplificadoras, profundidades e</p><p>incompletudes. Isso porque a produção humana do conhecimento é</p><p>condicionada pelas condições históricas concretas de sua realização.</p><p>Criticar um livro com zelo intelectual e profundidade é um ato humano</p><p>necessário. Porém, há que se convir que julgar o conteúdo do livro</p><p>buscando defeitos a partir das dificuldades de alcançar esse conteúdo, ou</p><p>a partir de diferentes perspectivas e preferências que escapam do debate</p><p>para caírem no campo doxológico, é muito mais fácil, rápido e</p><p>descomprometido do que produzi-lo. Toda crítica elaborada e</p><p>fundamentada é essencial no campo acadêmico.</p><p>Este livro, por sua inovação e originalidade, causa polêmica. Mas se</p><p>não fosse para causar polêmica com o estado da arte e o mainstream</p><p>dominante, especialmente em um tema em si mesmo polêmico, todo meu</p><p>empenho em produzi-lo não teria validade crítica e epistemológica. Uma</p><p>produção polêmica não se encerra em si mesma. Em síntese, no momento</p><p>em que um autor coloca seu ponto final formal no livro, exatamente aí</p><p>tem início a autonomia do livro e as relações dialógicas que constituem os</p><p>enunciados delas decorrentes (as unidades da interação social), dos quais</p><p>o autor não tem como participar ativa e plenamente. Neste sentido,</p><p>mesmo que os leitores e comentadores não se identifiquem com a</p><p>proposta, com o desenvolvimento do conteúdo, com a hermenêutica,</p><p>espero que reconheçam que aqui está uma contribuição original para o</p><p>bom debate.</p><p>O que me conforta, sem qualquer pretensão comparativa, é que entre os</p><p>cientistas que mais admiro ou que apenas estudei, nenhum deles produziu</p><p>um estudo definitivo. Eles mesmos foram reelaborando aquilo que</p><p>escreveram e, portanto, não serei eu, que estou há anos-luz deles, que</p><p>alcançaria tal feito. Reconheço os limites e as imperfeições desse estudo,</p><p>mas é o que foi possível produzir nas condições concretas deste</p><p>momento. Ainda assim, alimento a expectativa de que seja uma</p><p>contribuição que possa ajudar os que se interessam por este tema.</p><p>SUMÁRIO</p><p>FOLHA DE ROSTO</p><p>DEDICATÓRIA</p><p>AGRADECIMENTOS</p><p>CONSIDERAÇÕES INICIAIS</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Primeira Parte</p><p>CONCEITOS FUNDAMENTAIS</p><p>1. FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E CONCEITUAIS DO ATO</p><p>EPISTEMOLÓGICO</p><p>1.1 O Desenvolvimento Histórico do Processo Epistemológico</p><p>1.2 Conhecimento e Epistemologia: uma primeira aproximação</p><p>1.2.1 A discussão socrático-platônica e aristotélica</p><p>1.2.2 As concepções de conhecimento na modernidade</p><p>1.2.3 O Ato Epistemológico: a produção do conhecimento</p><p>1.3 O Problema do Ato Epistemológico nas Ciências Humanas, Sociais e</p><p>Sociais Aplicadas e nos Estudos Organizacionais</p><p>2. EPISTEMOLOGIA, TEORIA E METODOLOGIA</p><p>2.1 Concepções Epistemológicas Destacadas</p><p>2.2 Conhecimento Verdadeiro: empirismo versus idealismo</p><p>2.3 Os Modos de Produção e Exposição do Conhecimento e sua</p><p>Relatividade</p><p>2.4 Lógica Formal e Lógica Dialética: a concepção de Henri Lefebvre</p><p>2.5 O Paradigma Emergente, a Condição Humana e os Limites do</p><p>Conhecimento</p><p>2.6 Conhecimento Verdadeiro: a polêmica filosófica e científica</p><p>2.7 Filosofia e Ciência</p><p>2.8 Teoria e Ideologia</p><p>2.9 Metodologia</p><p>2.10 Epistemologia: da investigação à exposição</p><p>2.11 Epistemologia em Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas e</p><p>em Estudos Organizacionais</p><p>2.12 Epistemologia: conceito</p><p>3. EPISTEMOLOGIA E DIALÉTICA: ENTRE O IDEALISMO E O</p><p>MATERIALISMO</p><p>4. EPISTEMOLOGIA E INTERDISCIPLINARIDADE EM</p><p>CIÊNCIAS HUMANAS, SOCIAIS E SOCIAIS APLICADAS E EM</p><p>ESTUDOS ORGANIZACIONAIS</p><p>5. HEGEL E A INVERSÃO EPISTEMOLÓGICA: A</p><p>FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO E A CIÊNCIA DA LÓGICA</p><p>5.1 O Projeto Metodológico Hegeliano</p><p>5.2 A Supremacia da Razão</p><p>5.3 As Doutrinas do Ser, da Essência e do Conceito</p><p>Segunda Parte</p><p>AS DIMENSÕES EPISTEMOLÓGICAS CONTEMPORÂNEAS</p><p>BÁSICAS</p><p>6. DIMENSÕES EPISTEMOLÓGICAS</p><p>6.1 Abordagens sobre Modelos e Matrizes Epistemológicas</p><p>6.2 Dos Modelos às Dimensões Epistemológicas</p><p>7. A MATRIZ EPISTEMOLÓGICA HISTÓRICA GERAL E AS</p><p>DIMENSÕES EPISTEMOLÓGICAS CONTEMPORÂNEAS</p><p>BÁSICAS</p><p>8. A DIMENSÃO POSITIVISTA</p><p>8.1 A Filosofia Positiva de Auguste Comte</p><p>8.2 As Regras do Método Sociológico de Émile Durkheim</p><p>8.3 Variantes, Desdobramentos e Quadro Resumo</p><p>9. A DIMENSÃO MATERIALISTA-HISTÓRICA</p><p>9.1 As Críticas ao Idealismo e os Fundamentos do Materialismo Histórico</p><p>9.2 O Método e a Crítica da Economia Política</p><p>9.3 Variantes, Desdobramentos e Quadro Resumo</p><p>10. A DIMENSÃO PRAGMATISTA</p><p>10.1 O Pragmatismo de Charles Peirce</p><p>10.2 O Empirismo Radical de William James</p><p>10.3 O Instrumentalismo de John Dewey</p><p>10.4 Variantes, Desdobramentos e Quadro Resumo</p><p>11. A DIMENSÃO FENOMENOLÓGICA</p><p>11.1 A Fenomenologia Transcendental como Ciência da Essência: Edmund</p><p>Husserl</p><p>11.2 Variantes, Desdobramentos e Quadro resumo</p><p>12. DIMENSÃO FUNCIONALISTA</p><p>12.1 A teoria geral da ação: Talcott Parsons</p><p>12.2 A Reciprocidade entre Teoria e Pesquisa Social: Robert King Merton</p><p>12.3 Variantes, Desdobramentos e Quadro Resumo</p><p>13. A DIMENSÃO ESTRUTURALISTA</p><p>13.1 O Estruturalismo como Sistema de Relações Sociais: Claude Lévi-</p><p>Strauss</p><p>13.3 Variantes, Desdobramentos e Quadro Resumo</p><p>Terceira Parte</p><p>PRINCIPAIS DESDOBRAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS</p><p>CONTEMPORÂNEAS</p><p>14. DA HERMENÊUTICA À COMPREENSÃO</p><p>14.1 A Hermenêutica</p><p>14.2 A Construção do Mundo Histórico: Wilhelm Dilthey</p><p>14.3 Tipo Ideal, Interpretação e Análise Compreensiva: Max Weber</p><p>15. O MATERIALISMO RACIONAL: GASTON BACHELARD</p><p>15.1 A Ruptura com o Senso Comum</p><p>15.2 As Regiões da Epistemologia</p><p>15.3 As Principais Categorias Epistemológicas</p><p>15.4 A História da Ciência e a Análise Racional</p><p>Considerações Complementares</p><p>16. RACIONALISMO E LÓGICA DA PESQUISA: KARL POPPER</p><p>16.1 O Problema da Indução</p><p>16.2 O Observacionismo, a Gênese e Comprovação das Ideias e o Critério</p><p>da Falsificabilidade</p><p>16.3 Verossimilhança e Probabilidade</p><p>16.4 Falsificabilidade Lógica e Metodológica: metafísica, dialética e</p><p>historicismo</p><p>17. A DIALÉTICA DO CONCRETO: KAREL KOSIK</p><p>17.1 Pseudoconcreticidade</p><p>17.2 Reprodução da Realidade</p><p>17.3 Totalidade Concreta</p><p>17.4 Relação Sujeito ↔ Objeto</p><p>17.5 Práxis</p><p>18. ONTOLOGIA E EPISTEMOLOGIA CRÍTICA DO CONCRETO</p><p>E OS MOMENTOS DA PESQUISA</p><p>18.1 Primazia do Real ou da Ideia?</p><p>18.2 Possibilidades do Ato Epistemológico</p><p>18.3 Ontologia e Epistemologia do Concreto: anunciando o problema</p><p>18.4 Fases do Ato Epistemológico</p><p>18.5 Ontologia, Epistemologia Crítica e Conhecimento do Concreto:</p><p>expondo o problema</p><p>18.6 Elementos Constitutivos, Categorias de Análise e Conhecimento</p><p>Coletivo</p><p>18.7 Momentos da Produção do Conhecimento</p><p>18.7.1 Momento da aproximação precária</p><p>18.7.2 Momento da aproximação deliberadamente construída e do</p><p>conhecimento valorizado</p><p>18.7.3 Momento da apropriação</p><p>objeto) saindo dele (Sensação ou sensível imediato) até alcançar a</p><p>universalidade (Teoria), para então retornar ao objeto apreendido.</p><p>Para Aristóteles (2010), o conhecimento verdadeiro, que é o desafio</p><p>socrático-platônico, é a adequação do conceito ao objeto (ao real) partindo</p><p>do objeto. No entanto, o conhecimento é, de saída, conhecimento sensível e</p><p>não conhecimento verdadeiro. Desta forma, o lugar do pensamento, ou da</p><p>“filosofia primeira”, não é o lugar do sensível imediato, mas o da procura</p><p>pelas causas universais que se encontram distantes da sensação (do sentido</p><p>primeiro). A proposição Aristotélica é exatamente uma ontologia, que busca</p><p>encontrar o objeto enquanto tal (ser enquanto ser), em sua essência</p><p>universal, inobstante suas determinações particulares. Aristóteles concebe</p><p>este processo em termos de uma Metafísica. A concepção de Aristóteles</p><p>sobre “o ser enquanto ser” visava à compreensão sobre o que faz com que a</p><p>coisa seja o que é, ou de outro modo, a aparência da coisa, suas</p><p>características externas, indica como é o estado da coisa (como a coisa se</p><p>apresenta) e não a coisa mesma (como a coisa é).</p><p>Para chegar à coisa, Aristóteles (2010) apresenta os “primeiros</p><p>princípios” lógicos: identidade, não contradição e terceiro excluído. O</p><p>princípio de identidade indica que uma proposição é sempre igual a ela</p><p>mesma. O princípio da não contradição indica que uma proposição não</p><p>pode, ao mesmo tempo, ser falsa e verdadeira. O princípio do terceiro</p><p>excluído afirma que ou uma proposição é verdadeira ou é falsa, ou seja, não</p><p>há uma terceira opção viável22. Estes princípios indicam as condições de</p><p>asseguramento da realidade da coisa. Para Aristóteles, se A é A, não pode</p><p>ser B ou qualquer coisa que seja Não-A, isto é, se uma coisa é ao mesmo</p><p>tempo idêntica a si mesma e diferente de si mesma, esta é uma indicação de</p><p>falsidade. Tal lógica formal (lógica da identidade) influenciou a grande</p><p>maioria das proposições epistêmicas e das correntes do conhecimento,</p><p>apenas confrontada na inversão hegeliana (Sader, 2007).</p><p>Aristóteles (2010) propõe, ainda, a existência de quatro “causas</p><p>fundamentais”, ou seja, causas necessárias para que a coisa exista: (i) causa</p><p>material: matéria da qual é feita a essência da coisa; (ii) causa formal: forma</p><p>da essência; (iii) causa eficiente: como a matéria adquiriu determinada</p><p>forma; (iv) causa final: determina a finalidade da coisa existir e ser como é.</p><p>Ao contrário de Platão, para quem a essência da coisa está no plano</p><p>inteligível, Aristóteles considera que a essência da coisa está na coisa</p><p>mesma e não nas formas ou nas ideias. Mas é a ideia que vai permitir a</p><p>inteligibilidade da essência. Dito de outro modo: a essência da coisa está na</p><p>substância (fusão da matéria com a forma) da própria coisa e é esta essência</p><p>que o intelecto deve conhecer. O problema que daí decorre refere-se ao</p><p>movimento, pois enquanto a matéria está em transformação a forma</p><p>permanece imóvel. Aristóteles resolve este dilema com os conceitos de</p><p>potência (condição potencial da – ou inerente à – matéria) e ato (condição</p><p>de ação sobre a matéria para que esta se torne o que é). Neste sentido, o</p><p>algodão, por exemplo, é uma matéria com potência para, a partir de um ato,</p><p>tornar-se fio para tecelagem.</p><p>1.2.2 As concepções de conhecimento na modernidade</p><p>É a partir de Sócrates, Platão e Aristóteles que a filosofia e a ciência</p><p>ocidental se desenvolveram. Assim também a epistemologia e seus polos:</p><p>idealismo (Sócrates, Platão) e realismo (Aristóteles). Pode-se considerar,</p><p>contudo, que da perspectiva iluminista, caracterizada pela centralidade da</p><p>ciência e da racionalidade crítica no questionamento à filosofia e na recusa</p><p>ao dogmatismo e às doutrinas políticas e religiosas, o debate entre</p><p>empirismo e racionalismo e entre sujeito e objeto encontra seus expoentes</p><p>em Francis Bacon (1561-1626) e René Descartes (1596-1650). Bacon</p><p>(1979), em seu Novum Organum, que é uma crítica à metodologia exposta</p><p>por Aristóteles em Organum, apresenta as bases do método experimental e</p><p>do empirismo, cujo argumento é o de que a ciência deve ser sustentada pela</p><p>observação e pela experimentação, formulando indutivamente suas leis, ou</p><p>seja, partindo de casos particulares para chegar às generalizações. Descartes</p><p>(1979), em o Discurso do Método, inaugura o racionalismo moderno, em</p><p>que a evidência do cogito (Cogito, ergo sum) supera toda dúvida, definindo</p><p>que a certeza científica está na razão, para o que propõe preceitos</p><p>metodológicos (da evidência, da análise, da síntese e da enumeração). Esta</p><p>discussão sobre a produção do conhecimento e da relação sujeito↔objeto</p><p>repousa, até a contemporaneidade, na disputa sobre sua origem: se decorre</p><p>da primazia da ideia (racionalismo), da primazia do objeto (realismo) ou da</p><p>interação entre pensamento e realidade.</p><p>Assim, embora, como já mencionado, alguns epistemólogos datem o</p><p>nascimento da epistemologia no início dos anos 1900 (Araújo, 2012), ela</p><p>tem sua origem conceptual na filosofia grega socrática, dada a definição de</p><p>que conhecimento é uma crença verdadeira e justificada. A partir daí se</p><p>estabeleceu certa aceitação generalizada entre os epistemólogos sobre a</p><p>propriedade de tal concepção tradicional: idealismo x realismo. Na era</p><p>moderna, a partir do século XVII em diante, como resultado do trabalho de</p><p>Bacon, Locke e Descartes, em associação com a emergência da ciência</p><p>moderna, a epistemologia tem ocupado um plano central na filosofia</p><p>(Grayling, 1996).</p><p>Castañon (2007, p. 15), por exemplo, argumenta que</p><p>todo conhecimento sobre algo é uma crença de que algo é assim ou assado. É</p><p>também uma alegação de verdade, pois se soubéssemos que uma crença</p><p>particular sobre algo é falsa, jamais a consideraríamos conhecimento.</p><p>Contudo, este argumento de Castañon é paradoxal: se todo o</p><p>conhecimento é uma crença de que algo é assim ou assado, é também</p><p>conhecimento a crença de que algo é falso, ou seja, nem assim, nem assado.</p><p>Neste sentido, se um sujeito (re)conhece que uma crença qualquer é falsa,</p><p>este é também um conhecimento importante (que no limite é verdadeiro) na</p><p>medida em que permite saber distinguir o falso do verdadeiro, não tomando</p><p>o falso como se verdadeiro fosse23.</p><p>As discussões sobre o conhecimento falso e o verdadeiro conhecimento</p><p>são recorrentes na filosofia. Espinosa (1979), por exemplo, em seu Tratado</p><p>da Correção do Intelecto, afirma que o pensamento verdadeiro se distingue</p><p>do falso por uma condição intrínseca e não apenas extrínseca. Assim, se um</p><p>sujeito afirmar que um objeto existe, mas ignora sua existência, seu</p><p>pensamento é falso não obstante o objeto de fato exista. Este é outro</p><p>paradoxo. Considere-se, por exemplo: cientistas afirmam que a existência</p><p>de vida extraterreste depende de algumas condições fundamentais, mas</p><p>ignoram a existência de planetas que contenham estas condições essenciais.</p><p>Neste caso, o pensamento destes cientistas seria falso, embora tais planetas</p><p>possam de fato existir? Ou se trata apenas de condicionamentos</p><p>pressupostos (as tais condições essenciais generalizadas a partir das</p><p>condições particulares do planeta Terra)?</p><p>Toda a discussão, entretanto, parece decorrer não apenas de uma</p><p>metafísica como de uma generalização do conceito de conhecimento. De</p><p>início, é necessário que se faça uma distinção, ainda que neste primeiro</p><p>momento seja bem simples e arbitrária, sobre as variedades específicas de</p><p>conhecimento: (i) o conhecimento comum, que depende de uma crença</p><p>individual de que algo é o que imediatamente parece ser; (ii) o</p><p>conhecimento científico, que depende de prova, métodos e teorias; (iii) o</p><p>conhecimento filosófico, que depende do desenvolvimento da lógica</p><p>argumentativa; (iv) o conhecimento tecnológico, que depende da</p><p>propriedade de sua aplicabilidade prática; (v) o conhecimento artístico, que</p><p>depende da condição estética e comunicativa de representação ou expressão</p><p>de fatos, emoções, imaginários, etc.; (vi) o conhecimento cultural, que</p><p>depende da tradição, dos valores, das crenças, dos costumes, dos hábitos,</p><p>dos saberes partilhados por uma sociedade particular.</p><p>Em</p><p>direção diversa caminha Penna (2000, p. 20-21), para quem o ato de</p><p>conhecer apresenta sete características:</p><p>i. No ato do conhecimento, sujeito e objeto encontram-se face a face. A</p><p>relação que se estabelece é o que se chama de conhecimento;</p><p>ii. Sujeito e objeto não podem ser separados sem que se encerre a</p><p>condição de serem sujeito e objeto. O sujeito só é sujeito em face do objeto</p><p>e este só se revela se confrontado com o sujeito;</p><p>iii. A relação constitutiva é dupla, mas sujeito e objeto desempenham</p><p>funções distintas;</p><p>iv. A função do sujeito é apreender o objeto e a deste é ser assimilado</p><p>pelo sujeito;</p><p>v. Do ponto de vista do sujeito a apreensão é uma extravasão da esfera</p><p>de si e uma incursão na esfera do objeto;</p><p>vi. O sujeito não pode apreender o objeto sem se transcender (sair de si),</p><p>enquanto o objeto permanece em sua condição de exterior. O conhecimento</p><p>processa-se, assim, em três tempos: o sujeito sai de si; o sujeito está fora de</p><p>si; o sujeito reentra em si mesmo24;</p><p>vii. Ao sair de si o sujeito não necessariamente altera o objeto, o qual</p><p>não se converte em uma dimensão concreta. Mas o sujeito é modificado</p><p>pelo objeto e é esta determinação do sujeito pelo objeto o ato do</p><p>conhecimento, da ação de conhecer. O que se determina no sujeito é a</p><p>imagem do objeto.</p><p>Tal concepção, apoiada em parte na filosofia hegeliana, encerra um</p><p>aspecto funcional problemático. Na perspectiva de Penna (2000), sujeito e</p><p>objeto cumprem papeis interdependentes em uma estrutura funcional e é na</p><p>relação funcional que se estabelece o conhecimento. O sujeito é, assim,</p><p>funcionalmente ativo e o objeto é funcionalmente passivo em uma relação</p><p>que se dá sem a mediação elaborada do pensamento. O objeto existe</p><p>funcionalmente para o sujeito sem o sujeito, até que se dá uma relação</p><p>direta, face a face, entre o sujeito e o objeto, cada qual com “funções”</p><p>previamente definidas, que são a de apreender (função do sujeito) e de ser</p><p>assimilado (função do objeto). Nesta concepção, a função do objeto</p><p>somente existe no exercício da função do sujeito. Como já exposto</p><p>anteriormente, não há dúvida que há uma atividade no processo de</p><p>conhecer, mas na concepção defendida por Penna (2000) esta se desenrola</p><p>em um ato circular do conhecer, em que o sujeito sai funcionalmente de si,</p><p>fica fora de si e retorna funcionalmente a si. O conhecer é função do sujeito</p><p>e o ser conhecido é função do objeto, que, contudo, paradoxalmente, não</p><p>podem exercer tais funções um sem o outro. Trata-se de uma tentativa de</p><p>reinterpretação da fenomenologia do espírito, um passeio pretensamente</p><p>hegeliano para o qual o próprio Hegel não foi convidado. Esta concepção,</p><p>de fato, sugere que o ato de conhecer é uma atividade que se desenrola em</p><p>uma espécie de feedback loop, (sair de si, ficar fora de si e retornar a si), em</p><p>uma simplificação esquemática da fenomenologia do espírito. O que seria</p><p>uma relação entre o ser-em-si e a coisa-fora-de-si do espírito</p><p>fenomenológico é reduzido a um passeio funcional do espírito fluídico para</p><p>o objeto e de volta para o sujeito. A negação do sujeito em si, na</p><p>perspectiva hegeliana, não é a negação do ser-em-si, mas da pressuposição</p><p>frente ao objeto. Já nessa concepção de Penna, o sujeito mesmo, que pensa</p><p>e que em sua relação com o objeto sai de si, transcende ao si-mesmo, deixa</p><p>de ser sujeito para si, sujeito capaz da ação. O sujeito fora de si não é mais</p><p>sujeito, mas uma abstração fantasmagórica deste, que exerce a função do</p><p>conhecer. O paradoxo do lugar funcional do sujeito e do objeto está</p><p>exposto: o sujeito que retorna ao corpo não pode ser o sujeito que saiu e,</p><p>exatamente por isso, o objeto que o sujeito foi conhecer não é o mesmo que</p><p>aquele que o sujeito foi buscar ao sair de si.</p><p>Mas é preciso indicar que essa concepção funcional-idealista</p><p>contemporânea não é a mesma defendida pelos idealistas clássicos para</p><p>quem o conhecimento é um conhecimento em si mesmo, concepção esta</p><p>que é uma versão tautológica da fórmula segundo a qual sujeito e</p><p>conhecimento possuem uma identidade, porquanto o sujeito não é sujeito</p><p>sem conhecimento. Este tipo de argumento permite afirmar que o</p><p>conhecimento da realidade é a representação que dela faz o sujeito</p><p>(Schopenhauer, 2009), ou seja, não há, desta forma, como questionar o</p><p>conhecimento, pois isto seria questionar a representação feita pelo sujeito.</p><p>De acordo com Penna (2000, p. 24-29), existem pelo menos cinco</p><p>formas de conhecimento:</p><p>i. Conhecimento Sensível: realiza-se através dos sentidos, atingindo o</p><p>objeto em sua especificidade e concreticidade. Comporta dois momentos: o</p><p>sensorial e o perceptivo. Para os gestaltistas o processo sensorial integra-se</p><p>na percepção, pois a sensação é apenas uma abstração;</p><p>ii. Conhecimento Racional ou Intelectual: atinge o geral e o abstrato,</p><p>mas não o individual e o concreto. A realidade é aquela possível e o modo</p><p>de processar o conhecimento inteligível é a abstração. O que se produz é o</p><p>conceito, o qual não se identifica com a imagem;</p><p>iii. Conhecimento Vulgar: obtido sem o recurso do controle</p><p>metodológico. Exprime-se sob a forma de opinião. Para Bachelard (1996)</p><p>este tipo de conhecimento é um dos obstáculos a ser superado;</p><p>iv. Conhecimento Transcendental ou Metafísico: é uma classe de</p><p>conhecimento que é possível a priori, como no caso em que se aceita que</p><p>“todo efeito tem uma causa”. O conhecimento é certo e não depende dos</p><p>sentidos.</p><p>v. Conhecimento Científico: caracteriza-se pelo rigor com que se reveste</p><p>sua aquisição. Não se trata do conhecimento que produz a verdade, mas</p><p>daquele que pode assegurar sua condição pelo método com que foi obtido e</p><p>pela sua consistência e robustez. Conhecimento científico é o que decorre</p><p>da busca metodologicamente orientada pelo que se encontra oculto sob a</p><p>capa do visível imediato.</p><p>O conceito de conhecimento, então, depende da epistemologia que o</p><p>constitui (produz), o que cria um problema lógico e teórico. Se o</p><p>conhecimento é a questão central da epistemologia e se sua definição</p><p>decorre da posição ou da Dimensão Epistemológica em que o mesmo é</p><p>produzido, o problema evidenciado é o da circularidade, da</p><p>autojustificação. Tome-se, como exemplo, a análise de Hessen (1978, p. 26-</p><p>7), que se assemelha à de Penna (2000). Seu conceito de conhecimento</p><p>parte da representação geral que o sujeito tem, ou seja, a representação</p><p>intelectual do objeto é o próprio objeto representado. O conhecimento,</p><p>então, é um processo em que sujeito e objeto encontram-se frente a frente:</p><p>novamente, a função do sujeito é a de apreender o objeto e do objeto a de</p><p>ser apreendido pelo sujeito. Neste caso, a função do objeto é a de ser</p><p>determinante e a do sujeito é a de ser determinado. Analisando esta</p><p>proposição mais atentamente, nota-se que o determinado não é o sujeito</p><p>senão a imagem do objeto nele, a representação que o sujeito faz dele. Ou</p><p>seja, a representação é a imagem do objeto elaborada pela consciência, de</p><p>maneira que um conhecimento é verdadeiro quando seu conteúdo concorda</p><p>com o objeto designado. Ora, é de se questionar onde se encontra o sujeito</p><p>da validação do conhecimento verdadeiro, aquele que, não sendo o próprio</p><p>sujeito cognoscente, pode confirmar que o conteúdo do objeto está em</p><p>concordância com a representação dele elaborada. A resposta a esta questão</p><p>somente pode ser dada no pressuposto funcional.</p><p>Esta posição funcional-fenomenológica de Hessen (1978, p. 163) é</p><p>admitida por ele mesmo como decisiva na concepção das categorias de</p><p>análise. Se o conhecimento é, na fórmula aristotélica, uma reprodução dos</p><p>objetos, o conhecimento destes representa suas propriedades gerais e</p><p>objetivas. Se o conhecimento é, na fórmula kantiana, a produção do objeto,</p><p>as categorias de sua apreensão são determinações do pensamento, são</p><p>formulações a priori do pensamento.</p><p>Para os realistas, o conhecimento acerca do objeto não é uma crença, um</p><p>reflexo ou uma imagem. O conhecimento é um processo que se desenvolve</p><p>na relação entre o sujeito e o objeto de tal maneira que o sujeito se apropria</p><p>do real, de seu conteúdo e de sua forma, como um real pensado. O real</p><p>pensado</p><p>não é o objeto real tal como ele aparece aos sentidos, mas um</p><p>objeto que, pela mediação do pensamento, é apropriado pela consciência,</p><p>não como é em uma primeira observação, um objeto em si mesmo, mas</p><p>como ele se torna para o sujeito pela elaboração abstrata, ou seja, um objeto</p><p>para si (para o sujeito). Em síntese, conhecimento pode ser considerado</p><p>uma atividade do pensamento que apreende o objeto como objeto pensado.</p><p>O pensamento realiza a mediação entre o objeto e a consciência. Trata-se da</p><p>primazia do real na produção do conhecimento.</p><p>No entanto, é preciso considerar que o objeto do conhecimento não se</p><p>desvela em uma observação imediata. É necessário tensioná-lo,</p><p>ultrapassando as aparências com que ele se revela de pronto ao sujeito até</p><p>que este possa configurar uma concepção (um conceito ou mesmo uma</p><p>teoria) que confira, a este objeto, inteligibilidade. Ao mesmo tempo, um</p><p>fato ou um objeto não age ou atua externamente sobre o sujeito. Há uma</p><p>relação que desencadeia movimentos dialéticos entre a matéria e o sujeito</p><p>do conhecimento. Do ponto de vista ontológico, trata-se da construção do</p><p>conhecimento como um processo devido à relação entre o ser (o</p><p>pensamento, em sua condição subjetiva), a consciência (em sua</p><p>objetivação) e a matéria (em sua concretude).</p><p>É oportuno insistir na precisão da condição do sujeito na produção do</p><p>conhecimento. Sujeito não é uma expressão utilizada para identificar os</p><p>homens, os espíritos ou os seres genéricos, os quais são produtores de suas</p><p>ideias ainda que condicionados pelo grau de desenvolvimento das forças</p><p>produtivas e pelas relações sociais, de produção e de troca. O ser do homem</p><p>não pode ser outro que não o sujeito social, o ser dos impulsos, da</p><p>racionalidade, da objetividade e da subjetividade referido por Hegel (2011;</p><p>2014). Já a consciência é o ser consciente e o ser (no caso, ser do humano) é</p><p>seu processo histórico e social. Contudo, ao examinar e criticar as</p><p>categorias e noções da filosofia, Marx (2010) afirma que a consciência tem</p><p>sido concebida como o espírito humano metafisicamente disfarçado na sua</p><p>separação da natureza. Esta afirmação introduz um complicador nas</p><p>certezas sobre a relação consciência e matéria a qual, para ser esclarecida,</p><p>precisa ser pontuada. A consciência separada da natureza é metafísica: a</p><p>consciência do ser do humano como processo histórico e social é o ser</p><p>consciente ou ser realmente existente. Marx (1978) critica o materialismo</p><p>de sua época por considerar que o mesmo apreende o objeto, a realidade, a</p><p>sensibilidade, apenas sob a forma de objeto, de intuição e não de atividade</p><p>humana sensível, de práxis, subjetivamente.</p><p>Primeiramente, é correto o argumento de que sujeito e consciência não</p><p>são condições idênticas, ou seja, “sujeito do pensamento”, o sujeito que</p><p>pensa a (ou sobre a) matéria não tem a mesma estatura ontológica e</p><p>epistemológica que o “sujeito da consciência”. O pensamento se encontra,</p><p>relativamente à matéria, em uma relação de mediação. A consciência da</p><p>matéria decorre de uma complexa ação do pensamento, ação necessária à</p><p>apropriação da matéria pela consciência, embora não seja uma garantia</p><p>dessa apropriação. Assim, a relação não expressa exatamente a relação</p><p>matéria↔consciência↔matéria, embora esteja nela contida.</p><p>Em segundo lugar, se a relação concreta é matéria ↔ consciência ↔</p><p>matéria, poder-se-ia questionar se há consciência sem pensamento e se há</p><p>pensamento sem sujeito. O argumento da recusa da relação objeto ↔ sujeito</p><p>↔ objeto seria o de que o sujeito social não é precisamente sua consciência</p><p>social. Acrescente-se a isso o argumento de que nem todo o objeto é matéria</p><p>do conhecimento, ou seja, o argumento segundo o qual objeto e matéria</p><p>podem ter não apenas distintas dimensões, como serem incompatíveis.</p><p>Assim, este argumento, tal como formulado, de que sujeito e objeto seriam</p><p>conceitos abstratos arbitrários ou idealistas, é impreciso por três motivos</p><p>paradoxais: (i) desmaterializa o objeto, como coisa material percebida pelos</p><p>sentidos, sob um argumento metafísico de sua essência25; (ii) parte do</p><p>pressuposto da não concretude do sujeito (em sua condição pensamento-</p><p>consciência), ao mesmo tempo em que paradoxalmente afirma a concretude</p><p>do que lhe é próprio: a consciência. Nesta perspectiva, sujeito seria um</p><p>conceito idealista, enquanto consciência seria um conceito material, ainda</p><p>que não exista consciência sem sujeito do pensamento. Desta forma, o</p><p>concreto (a matéria) seria uma atribuição conferida pela consciência</p><p>material do não-concreto (do sujeito); (iii) se o objeto não é matéria do</p><p>conhecimento, o próprio conhecimento do objeto não pode existir para o</p><p>sujeito como objeto pensado.</p><p>Sujeito, tal como aqui se emprega, recobre a condição humana de</p><p>integração pensamento-consciência. Trata-se, de pronto, de romper com o</p><p>conceito de sujeito tal como este foi apropriado pela metafísica e, ao mesmo</p><p>tempo, de recusar a generalização segundo a qual sujeito é uma construção</p><p>ideológica. Ao mesmo tempo, o objeto não é exatamente a coisa em si, mas</p><p>a coisa particular da matéria a ser cognoscível. Sem pretender resgatar a</p><p>concepção kantiana, o conhecimento se constitui a partir da relação entre a</p><p>consciência do sujeito (cognoscente) e a matéria que contém o objeto</p><p>(cognoscível).</p><p>Em síntese, de uma perspectiva ontológica, considera-se, em uma</p><p>primeira aproximação (já que se voltará a esse tema adiante), que:</p><p>i. Matéria: é tudo o que pode ser objetiva e concretamente cognoscível,</p><p>seja essa física ou “espiritual” (abstrata, impalpável, psíquica, etc.). A</p><p>materialidade é uma condição do Ato Epistêmico e se refere à totalidade</p><p>histórica e social do mundo cognoscível. A matéria não é um fenômeno</p><p>passivo à espera do pensamento para poder existir como matéria. Ainda que</p><p>a matéria seja fisicamente exterior ao sujeito (desde que o sujeito não seja,</p><p>ele mesmo, objeto do conhecimento, como, por exemplo, na autorreflexão),</p><p>a apreensão da matéria pelo sujeito decorre de uma necessária interação</p><p>entre ambos, conforme se verá mais adiante;</p><p>ii. Objeto: é uma particularidade da matéria. Para ser acessado como tal,</p><p>o objeto demanda a definição específica do campo empírico em que não</p><p>apenas se encontra, mas no qual será pesquisado;</p><p>iii. Sujeito: é, ontologicamente, o ser social. Ainda que possa se</p><p>expressar individualmente, é sempre coletivo, social e historicamente</p><p>localizado. Sujeito (ser social) é o lugar de exercício da consciência;</p><p>iv. Consciência: é uma condição fundamental do sujeito, alcançada pela</p><p>elaboração dedicada do pensamento em relação com a realidade. Não há</p><p>consciência com ausência de sujeito, mas o “nível” de consciência</p><p>epistêmica (também social e política) não é e não segue um padrão</p><p>universal, pois está relacionada às condições objetivas;</p><p>v. Relação sujeito ↔ objeto: o sujeito pode ser ao mesmo tempo o ser</p><p>social da ação, no que se refere ao Ato Epistêmico, e objeto da reflexão.</p><p>Esta é uma questão filosoficamente complexa. No Ato Epistêmico, o sujeito</p><p>interage com o objeto do conhecimento, ou seja, embora o objeto seja</p><p>externo ao sujeito em sua condição ontológica de objeto, sua apropriação</p><p>como objeto pensado, pelo sujeito, implica uma unidade ontológica social</p><p>entre ambos. Sem a relação entre a matéria e a consciência ou entre o objeto</p><p>e o sujeito, não há Ato Epistêmico, inobstante as diferentes primazias (do</p><p>real e da ideia). Além disso, o sujeito também pode, nas CHSSA</p><p>especialmente, ser também objeto do conhecimento por outros sujeitos ou</p><p>por si-mesmo, como si-mesmo, como Outro e como Outro do Outro.</p><p>Tendo em vista essas relações complexas (sujeito ↔ objeto; consciência</p><p>↔ matéria), pode-se considerar que o conceito de conhecimento é</p><p>polissêmico, ou seja, possui vários sentidos e significados, dependendo da</p><p>epistemologia de que se reveste o processo de conhecer ou o Ato</p><p>Epistêmico. Desta maneira, a apreensão do objeto pelo sujeito pode se dar</p><p>segundo diversas formas que podem ser intercambiáveis: da intuição à</p><p>contemplação, da classificação à analogia, da experimentação à dedução, do</p><p>objetivo ao subjetivo,</p><p>do racional ao empírico, das categorias abstraídas do</p><p>real às categorias apriorísticas, etc. Assim, conhecer é apropriar-se do real</p><p>e/ou de uma lógica segundo pressupostos determinados no ato mesmo de</p><p>conhecer, os quais correspondem a diferentes posições ou Dimensões</p><p>Epistemológicas.</p><p>1.2.3 O Ato Epistemológico: a produção do conhecimento</p><p>Ato Epistemológico é a práxis da produção do conhecimento que não se</p><p>esgota na sua formalidade (estudar, investigar, analisar). Há um processo de</p><p>reflexão e elaboração que não se concentra nas atividades cerimoniais</p><p>explícitas. O Ato Epistemológico tem como suporte a condição ontológica</p><p>do sujeito e do objeto. O problema ontológico se encontra posto na própria</p><p>concepção de ontologia, em que o Ato Epistemológico pode (i) decorrer da</p><p>produção do conhecimento enquanto conhecimento abstrato (e por vezes</p><p>especulativo), em que a produção do conhecimento esgota-se no próprio ato</p><p>de conhecer, na lógica do pensamento que se move por si mesmo, ou (ii)</p><p>decorrer da relação entre o ser social e o objeto real, concreto e</p><p>determinado, de forma que a produção do conhecimento consiste em</p><p>reproduzir teoricamente e em profundidade a estrutura e a dinâmica do</p><p>objeto, pelo sujeito.</p><p>O conhecimento elaborado não se encontra exatamente na relação</p><p>imediata sujeito ↔ objeto, à disposição do Ato Epistemológico soberano.</p><p>Portanto, o ato de conhecer não se encontra apartado de sua condição</p><p>histórica.</p><p>Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a</p><p>fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam</p><p>diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações</p><p>mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. (Marx, 1978, p. 329)</p><p>Por produção do conhecimento se entende: (i) a produção mesma,</p><p>original e inovadora, (ii) a obtenção por meios formais, educacionais e/ou</p><p>sociais, ou não formais, tácitos, vivenciais, (iii) a transmissão pela cultura,</p><p>(iv) o desenvolvimento do conhecimento acumulado pela pesquisa</p><p>científica, pela tecnologia ou pela filosofia, (v) a construção de novos</p><p>saberes pela prática social que renovam ou superam os saberes constituídos</p><p>e (vi) a organização, sistematização e disseminação do conhecimento pelos</p><p>mais diferentes meios26.</p><p>A investigação empírica, a análise de um texto (teórico ou não), a</p><p>realização de entrevistas, a pesquisa e análise de documentos, de símbolos,</p><p>discursos, objetos ou dado estatístico constitui, portanto, um Ato</p><p>Epistemológico, mas não todo Ato Epistemológico, pois este se encontra</p><p>para além da investigação operacional. O Ato Epistemológico trata da</p><p>superação da simples doxa, como já argumentava Platão. O conceito de</p><p>verdadeiro é polêmico, daí que do ponto de vista platônico a Episteme está</p><p>em oposição ao que é irrefletido e infundado e não ao conhecimento</p><p>comum, que pode ser refletido.</p><p>Um Ato Epistemológico, assim, difere da simples elaboração de uma</p><p>opinião ou doxa, na medida em que este ato se refere à produção de um</p><p>conhecimento. Isto não implica decretar a inutilidade do conhecimento</p><p>comum, mas de diferenciar os procedimentos epistêmicos. O Ato</p><p>Epistemológico científico, filosófico ou técnico/tecnológico difere da</p><p>condição epistemológica comum. Enquanto o conhecimento comum se</p><p>desenvolve sem uma vigilância social organizada, a produção dos</p><p>conhecimentos científicos, filosóficos e tecnológicos, para garantirem sua</p><p>validade, exigem métodos e lógicas. Ambos se desenvolvem no interior das</p><p>relações econômicas, sociais, políticas e culturais, porém a partir de</p><p>requerimentos diferenciados. O Ato Epistemológico está relacionado ao</p><p>Tempo Epistemológico (Tempo do Ato Epistemológico) e ao Êxito</p><p>Epistemológico (ou Malogro/Insucesso Epistemológico).</p><p>Tempo Epistemológico é o tempo necessário para a realização em</p><p>profundidade do Ato Epistemológico, em que o objeto é tensionado e o</p><p>conhecimento sobre ele é cognitivamente saturado, analisado e</p><p>adequadamente exposto. O Tempo Epistemológico, historicamente, apenas</p><p>muito raramente se esgota no tempo de uma investigação sobre um objeto</p><p>ou tema; ao contrário, este tempo abarca várias etapas parciais, que se vão</p><p>acumulando e sendo organizadas até que sejam representadas de forma</p><p>profundamente elaborada. Em outras palavras, o Tempo Epistemológico</p><p>não apenas não depende das Dimensões Epistemológicas como tampouco é</p><p>o mesmo do tempo formal da produção acadêmica produtivista,</p><p>estabelecida em ciclos de publicação, ainda que eventualmente esses</p><p>tempos possam coincidir. O Tempo Epistemológico decorre de</p><p>determinadas condições materiais, objetivas e subjetivas, necessárias para a</p><p>produção dedicada do conhecimento sobre um objeto ou fenômeno até o</p><p>limite social e historicamente acessível e representável. A produção</p><p>aligeirada, formalista e rasa do conhecimento, que atende critérios</p><p>temporais de realização e exposição, não corresponde em geral ao tempo</p><p>que o pesquisador (ou grupo de pesquisa) necessita para poder representar o</p><p>fenômeno em toda sua inteireza e complexidade.</p><p>Tendo em vista que o Tempo Epistemológico não é, apenas, aquele em</p><p>que o pesquisador se dedica à investigação direta e à exposição e nem,</p><p>tampouco, aquele se esgota em uma investigação singular, pode-se afirmar</p><p>que o Tempo Epistemológico é todo o tempo de produção do conhecimento</p><p>sobre um fenômeno, em todo seu percurso, para além dos registros</p><p>específicos; é o conjunto dos estudos teóricos, das reflexões, das</p><p>investigações empíricas, das análises e suas elaborações, exposições e</p><p>revisões. Nesse sentido, o Tempo Epistemológico se refere a todo o tempo</p><p>material, objetiva e subjetivamente empreendido no desvendamento de um</p><p>fenômeno ou objeto em sua totalidade complexa, que pode ser (e apenas</p><p>excepcionalmente não é) composto por tempos parciais necessários que se</p><p>expressam de formas específicas em registros também específicos. Em</p><p>outras palavras, um pesquisador pode produzir e divulgar vários estudos</p><p>parciais e específicos sobre um fenômeno ou objeto antes de poder</p><p>representá-lo de forma exitosa em sua totalidade cognoscível (não</p><p>necessariamente final). O Êxito Epistemológico é, portanto, a condição de</p><p>conclusão bem sucedida do Ato Epistemológico, o que não significa a</p><p>produção de um conhecimento absoluto, definitivo ou inquestionável, mas</p><p>de um conhecimento elaborado nas condições materiais e sociais dadas.</p><p>É necessário chamar a atenção para uma prática que tem influenciado de</p><p>maneira perniciosa a produção do conhecimento elaborado, que são os</p><p>procedimentos avaliativos, com ênfase em métricas e formalidades. As</p><p>exigências formais (prazos de qualificação e de defesa de dissertação e tese,</p><p>pontuação de artigos em congressos e revistas, por exemplo) valorizam</p><p>antes as métricas do que a qualidade, a profundidade e o processo</p><p>epistemológico. Muitas pesquisas não têm continuidade por parte dos</p><p>pesquisadores e grupos de pesquisa, pois apenas cumprem exigências</p><p>formais. São estudos de caso sem continuidade, artigos que cumprem</p><p>requisitos avaliativos de disciplinas, cujo objetivo é pontuar e não</p><p>investigar. Portanto, quando o Tempo Epistemológico, mesmo aquele</p><p>parcialmente necessário à produção do conhecimento, é submetido ao</p><p>tempo e às exigências de divulgação impostos pela lógica produtivista,</p><p>ocorre uma interrupção ou encerramento antecipado do Ato</p><p>Epistemológico, do processo adequado de produção diligente do</p><p>conhecimento, cujo resultado pode ser não apenas a produção de um</p><p>conhecimento parcial, mas inclusive de um Malogro ou Fracasso</p><p>Epistemológico.</p><p>Ao contrário do Êxito Epistemológico, o Fracasso Epistemológico é o</p><p>resultado da incompletude ou não realização efetiva da produção do</p><p>conhecimento sobre um fenômeno. Isto se dá em decorrência de vários</p><p>fatores, entre os quais se pode destacar: (i) a interrupção definitiva, imposta</p><p>ou em consequência de dificuldades no processo; (ii) a desorientação</p><p>metodológica; (iii) a incoerência do desenvolvimento teórico; (iv) a</p><p>impropriedade no uso de técnicas de pesquisa; (v) a imprecisão na definição</p><p>do campo empírico e do objeto; (vi) a</p><p>inadequação do problema e o</p><p>cerceamento mesmo do Tempo Epistemológico necessário por exigência</p><p>normativa ou prática. O Êxito e o Fracasso Epistemológico, portanto, não</p><p>são expressões da verdade e do erro na produção do conhecimento, mas da</p><p>condição de possibilidade de completude ou incompletude do Ato</p><p>Epistemológico nas condições materiais e sociais dadas. O Ato</p><p>Epistemológico pode ser considerado bem sucedido quando o objeto é</p><p>representado em sua totalidade concreta, na perspectiva definida por Kosik</p><p>(1976).</p><p>Como indica Engels (1979, p. 76-77),</p><p>a verdade e o erro, como todos os conceitos que se movem dentro de antíteses</p><p>polares, só têm aplicação absoluta dentro de uma zona muito limitada (...). Tão</p><p>logo a antítese de verdade e erro se afasta daquela zona circunscrita em que se</p><p>deve mover, ela se converte de absoluta em relativa e perde, assim, todo e</p><p>qualquer valor, como meio estritamente científico de expressão.</p><p>Aplicar esta antítese como valor absoluto, fora da órbita circunscrita</p><p>pelo Ato Epistemológico, resulta não em uma incompletude temporária,</p><p>mas em um Fracasso Epistemológico definitivo, pois “os dois polos da</p><p>antítese se tocam no inverso do que são, a verdade em erro e o erro em</p><p>verdade”.</p><p>Neste sentido, Tempo Epistemológico (tempo necessário para a</p><p>produção rigorosa e dedicada do conhecimento) e Êxito Epistemológico</p><p>(condições objetivas e subjetivas de completude da produção do</p><p>conhecimento em profundidade), constituem elementos imprescindíveis do</p><p>Ato Epistemológico na produção do conhecimento científico, filosófico e</p><p>tecnológico. Entretanto, não sendo as formas de produção do conhecimento</p><p>uma unidade, pois elas remetem a diversas práticas epistemológicas, o</p><p>problema das Dimensões Epistemológicas emerge exatamente na relação</p><p>sujeito ↔ objeto no Ato Epistemológico. De fato, a relação sujeito ↔</p><p>objeto está, sem dúvida, na origem do chamado conhecimento verdadeiro</p><p>no âmbito da filosofia, de onde resultam as perspectivas idealistas e</p><p>racionalistas, empiristas e realistas, materialistas e metafísicas. No centro</p><p>desta discussão, repousa também, consequentemente, a relação realidade ↔</p><p>pensamento.</p><p>Do ponto de vista do processo ontológico e epistemológico pode-se</p><p>argumentar em extremos abstratos pela primazia do real ou da ideia. Em</p><p>extremo porque o sujeito, em sua interação com o objeto, ou estaria diante</p><p>de uma condição em que o conhecimento decorreria de a realidade ser</p><p>externa e anterior a ele (impondo-se ao pensamento como uma</p><p>externalidade), ou seria um produto da própria consciência, em que o não</p><p>conhecido equivale ao inexistente. Estes extremos são superados não pela</p><p>afirmação de um ou de outro, mas pela demonstração de que a realidade</p><p>existe independente da consciência que o sujeito tem dela (sendo esta a</p><p>primazia do real), e porque sua existência é a efetivação da subjetividade</p><p>humana. O objeto humanizado é a natureza humanizada (Ferraz, 2021).</p><p>É necessário superar a questão sobre se a realidade é objetiva ela mesma</p><p>ou se é produto de um processo de cognição do sujeito, resultado do</p><p>pensamento, ou seja, se o objeto é um já dado externo ou um produto do</p><p>pensamento. A primazia do pensamento também não é a ausência do objeto,</p><p>mas sua subsunção à ideia. Este debate, a rigor, separa o sujeito da realidade</p><p>e os coloca em oposição. Inobstante esta questão já estar na origem</p><p>histórica da discussão ontológica e epistêmica, sua complexidade parece</p><p>levar o Ato Epistemológico para polos opostos e inconciliáveis (pré-</p><p>epistemológicos): empirismo puro versus puro idealismo. Daí a insistência</p><p>na urgência da definição de ontologia e epistemologia. Ontologia e</p><p>epistemologia têm sido tratadas como campos distintos e por vezes</p><p>excludentes. Neste estudo, ontologia e epistemologia, embora sejam,</p><p>precisamente, aspectos distintos de uma unidade, não são campos opostos e</p><p>excludentes.</p><p>O pesquisador, ao interagir com o objeto, ao estabelecer uma relação</p><p>tensionada com o objeto, ao desenvolver o Ato Epistemológico, pode</p><p>proceder de modo a (i) buscar uma regularidade na manifestação deste; (ii)</p><p>encontrar elementos essenciais de um fenômeno para colocá-los em</p><p>suspenso, para realizar uma redução eidética do mesmo a fim de</p><p>compreendê-lo: (iii) buscar nas condições de reprodução material da</p><p>existência o desenvolvimento da história humana; (iv) compreender que</p><p>tudo o que se encontra nas relações sociais não está lá por acaso, mas</p><p>porque há uma razão arquitetônica que permite que estas relações se</p><p>constituam da melhor maneira possível, pois tudo tem um papel social</p><p>externo ao fato em si e orientador de sua ação; (v) assumir que o</p><p>conhecimento precisa ser validado não na simples descoberta, mas em sua</p><p>condição de experiência prática, de sua aplicabilidade e utilidade; (vi)</p><p>proceder de maneira a encontrar elementos de uma realidade em suas</p><p>configurações relacionais a partir do que podem ser construídos modelos</p><p>explicativos, simulacros do real que ocupam a posição do real. Estes modos</p><p>distintos do Ato Epistemológico se referem às distintas Dimensões</p><p>Epistemológicas.</p><p>É, então, concreta e logicamente inconsistente tanto a existência de</p><p>apenas dois modelos ou de paradigmas originais, como de uma matriz</p><p>fundadora, uma categoria de saber deificado que estaria na origem de um</p><p>círculo epistêmico, uma espécie de teoria da grande expansão gnosiológica,</p><p>geradora de todo conhecimento e protagonista do desenvolvimento do saber</p><p>universal.27 O conhecimento (e sua produção), na história da humanidade,</p><p>não surgiu de uma gênese determinada, de um arbitrário ponto zero28, mas</p><p>de um processo evolutivo real de diferentes fontes simultâneas. A</p><p>exposição, as reflexões, representações e interpretações sobre este processo</p><p>é que apontam, desde Sócrates-Platão e Aristóteles, para a polarização entre</p><p>o idealismo puro e o realismo puro. Epistemologicamente, se trata do</p><p>debate entre a primazia do real e a primazia da ideia. É no sentido</p><p>epistemológico que as diferentes origens históricas e sociais constituíram os</p><p>distintos modos de produção do conhecimento e de suas bases filosóficas,</p><p>teóricas e metodológicas. Por este motivo é que a evolução dos debates</p><p>sobre como o conhecimento se produz coloca os pesquisadores diante de</p><p>múltiplas condições e possibilidades.</p><p>É preciso, contudo, chamar a atenção para alguns paradoxos. Em todas</p><p>as proposições epistemológicas, independentemente de suas concepções</p><p>fundantes, há uma questão comum: tudo tem um início, uma causa e uma</p><p>finalidade. Este não é um problema apenas das proposições</p><p>epistemológicas. Rigorosamente, a ciência, a filosofia e as crenças em geral</p><p>consideram que todas as coisas possuem uma gênese, uma realidade</p><p>observável e um destino, o que pode ser esquematicamente representado</p><p>pela relação Origem → Ser → Vir-a-Ser. O desafio da ciência e da filosofia</p><p>(que as crenças superam com os dogmas) se encontra não apenas em</p><p>desvendar o processo dinâmico que constitui ontologicamente o Ser, mas</p><p>principalmente em determinar a origem primeira (o ponto zero) e o fim</p><p>último das coisas sem ancorá-las em suposições, pressupostos e premissas.</p><p>Trata-se de um desafio dificilmente superado pela ciência e pela filosofia</p><p>fora dos modelos hipotéticos ou probabilísticos.</p><p>De fato, os modelos que procuram explicar este processo (as equações</p><p>em geral) são baseados em premissas lógico-dedutivas e em dados de</p><p>entrada que especificam cada elemento constitutivo do modelo e suas</p><p>relações. Paradoxalmente, todo modelo tende a ser duradouro e flexível e,</p><p>ao mesmo tempo, inútil, temporário e frágil, de modo que: (i) da primeira</p><p>perspectiva (durabilidade e flexibilidade) sua pretendida vantagem é a</p><p>condição de maleabilidade constitutiva dos seus elementos, em que se</p><p>alterando os dados de entrada pode-se aperfeiçoar o modelo sem</p><p>comprometer sua estrutura constitutiva (podem-se alterar as referências dos</p><p>elementos, seus valores, as relações, as posições, etc.); (ii) de outra</p><p>perspectiva (utilidade, temporalidade e fragilidade), em se alterando</p><p>qualquer premissa que serviu para construir o modelo, também se altera o</p><p>próprio modelo, inutilizando-o29.</p><p>A relação Origem → Ser → Vir-a-Ser, que se encontra normalizada nas</p><p>ciências em geral, encerra ela mesma um paradoxo: se tudo tem uma causa,</p><p>por que a Origem (o início, o ponto zero), que é causa de tudo, é uma</p><p>exceção? Por que a Origem não tem causa? A solução desta questão se</p><p>encontra na definição de uma pressuposição abstrata, ela mesma</p><p>contraditória e incoerente: antes do nada, havia algo. Este algo passou a</p><p>ocupar um lugar que inevitavelmente existia antes de ser ocupado. Neste</p><p>caso, ou este algo é indefinido, inalcançável e absolutamente pressuposto</p><p>misticamente, ou a relação é falsa devido à inexistência da Origem</p><p>Primordial (ou seja, tudo sempre existiu). A solução conveniente deste</p><p>paradoxo científico e filosófico tem sido considerar não a Origem</p><p>Primordial de tudo, mas a Origem Cognoscível no Ato Epistemológico,</p><p>origem esta que se estabelece de diferentes formas segundo as diferentes</p><p>Dimensões.</p><p>Dado este limite concreto, pode-se considerar que a questão nuclear de</p><p>toda concepção epistemológica é relativa à produção do conhecimento</p><p>verdadeiro material e socialmente possível e ao método de sua produção.</p><p>As diferentes concepções do que seja o conhecimento possível verdadeiro e</p><p>de quais são os métodos de sua produção definem as diferentes Dimensões</p><p>Epistemológicas. Neste sentido, já é possível avançar um pouco mais na</p><p>proposição de um conceito geral de epistemologia, em termos ainda</p><p>abstratos e simples: Epistemologia é o estudo sistemático sobre como o</p><p>conhecimento (verdadeiro) é produzido, seja ele científico, filosófico,</p><p>tecnológico, artístico ou cultural (inclusive o de senso comum, o</p><p>transmitido pela sabedoria popular, etc.), tenha ele uma determinação</p><p>ontológica social material ou abstrata. Para os propósitos deste estudo,</p><p>contudo, as abordagens se concentrarão nos conhecimentos científicos,</p><p>filosóficos e técnico-tecnológicos. Este conceito está explicitado aqui</p><p>apenas para se diferenciar de outros conceitos e para dar início à discussão,</p><p>pois ele necessita de maior profundidade, precisão e objetividade. Isto será</p><p>feito mais adiante.</p><p>Já neste ponto, todavia, é preciso, desde logo, chamar a atenção para</p><p>uma diferença fundamental deste conceito para com os conceitos</p><p>tradicionais. Enquanto os conceitos tradicionais se ocupam da teoria do</p><p>conhecimento, da filosofia do conhecimento, da ciência do conhecimento,</p><p>entre outras concepções, o conceito proposto se ocupa do ato de produção</p><p>do conhecimento, do Ato Epistemológico concreto, da materialidade da</p><p>investigação e da exposição. Neste sentido, a epistemologia não se encontra</p><p>separada e distinta da ontologia e dos métodos de produção do</p><p>conhecimento.</p><p>Desta forma, uma questão recorrente, especialmente na área das</p><p>CHSSA-EOR, tem sido assim formulada: se o pesquisador tem o domínio</p><p>das técnicas de pesquisa, qual a importância de um posicionamento</p><p>ontológico-epistêmico? De outro modo: por que é importante compreender</p><p>o que é um Ato Epistemológico?</p><p>De saída, reafirmando a proposição aqui formulada, pode-se assegurar</p><p>que: (i) toda produção efetiva de conhecimento (que não seja dogmática ou</p><p>opinativa) é um Ato Epistemológico, ou seja, insere-se em uma ontologia-</p><p>epistemologia. Mesmo as crenças são fundamentadas em uma relação onto-</p><p>prática e neste caso podem ser objeto de pesquisa como prática social; (ii)</p><p>não há uma única resposta à forma como o conhecimento é produzido, o</p><p>que é o mesmo que dizer que não há uma única resposta cientificamente</p><p>aceita e legitimada sobre um fenômeno pela “comunidade dos</p><p>pesquisadores”, que não há uma única interpretação, uma verdade</p><p>inquestionável, mas procedimentos diferentes para o estudo de um mesmo</p><p>fenômeno. O problema decorrente da presunção de que todo Ato</p><p>Epistemológico oferece uma resposta verdadeira a uma questão, como bem</p><p>aponta Ferraz (2021), é que já se parte da subjetividade para produzir o</p><p>objeto, de forma que a eficácia inquestionável e efetiva de uma dada</p><p>Dimensão Epistemológica só pode ser um juízo de valor, pois em última</p><p>instância não há outro elemento determinante se não as próprias regras</p><p>impostas pela subjetividade.</p><p>Se o ponto de partida já é um julgamento do que é o objeto, o resultado</p><p>final só pode ter como parâmetro esse julgamento. Aí se encontra a disputa</p><p>hercúlea entre os propositores de paradigmas ou modelos para que estes</p><p>ocupem o lugar da única ou da mais bem elaborada verdade sobre a</p><p>realidade. Esta luta paradigmática pretende invalidar a constituição de</p><p>Dimensões Epistemológicas ao se colocar os paradigmas como modelos</p><p>explicativos definitivos e eficazes. As Dimensões Epistemológicas</p><p>constituem modos de produção do conhecimento, ou seja, modos de</p><p>realização do Ato Epistemológico, nem “melhores” ou “piores”, nem mais</p><p>ou menos exatos ou inexatos, mais ou menos completos ou incompletos, ou</p><p>que produzem um conhecimento mais ou menos verdadeiro: estas</p><p>considerações são meros juízos de valor. As Dimensões indicam que há</p><p>diferentes procedimentos, métodos e bases ontológicas e não distintos e</p><p>completos modelos em que a produção do conhecimento pode ser reduzida.</p><p>A discussão requerida é, portanto, necessariamente epistemológica e não</p><p>decorrente da funcionalidade, da eficácia ou da utilidade dos</p><p>procedimentos. Trata-se, então, de conhecer esses diferentes modos de</p><p>proceder (metodologias), com suas possibilidades (alcance) e restrições</p><p>(limites).</p><p>É neste sentido que se argumenta que Epistemologia é o estudo sobre (o</p><p>processo de) produção do conhecimento, ou seja, é o estudo sobre um ato</p><p>do pensamento em sua interação material social e histórica com um</p><p>fenômeno humanamente cognoscível (ato gerador de conhecimento</p><p>humanizado) que repercute socialmente de diferentes formas30. De fato, se</p><p>o conhecimento é necessariamente verdadeiro (crença verdadeira e</p><p>justificada) e se distingue da opinião (doxa), como argumenta Platão, ou se</p><p>o conhecimento é qualquer ato gnosiológico sobre qualquer Coisa, ele é</p><p>social e historicamente uma relação ou uma interação entre o sujeito (a</p><p>consciência) e o objeto (a matéria), mediada pelo pensamento, ou seja, é um</p><p>ato humano. Do mais remoto Estado da Natureza do Ser Humano (das mais</p><p>primitivas relações sociais do Estado Humano, do Estado de Natureza do</p><p>humano)31, à expressão contemporânea das mais complexas da natureza</p><p>humana, o conhecimento elaborado é também ele mesmo um fato</p><p>propriamente humano e social, mas as formas de produzi-lo e o</p><p>entendimento sobre estas formas não é e nunca foi pacífico.</p><p>1.3 O Problema do Ato Epistemológico nas Ciências Humanas,</p><p>Sociais e Sociais Aplicadas e nos Estudos Organizacionais</p><p>A questão que precisa ser esclarecida, neste ponto da exposição, é</p><p>exatamente: por que é necessário considerar o problema epistemológico em</p><p>Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas e nos Estudos</p><p>Organizacionais como campo de pesquisa e especialmente por que definir</p><p>as Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas nas CHSSA-EOR?</p><p>Para sustentar a perspectiva de que a escolha de uma Dimensão</p><p>Epistemológica pode ser fundamental para as CHSSA-EOR, é oportuno,</p><p>ainda que de forma sumária, esclarecer o que se considera como</p><p>organização. O conceito de organização remete à duas formas gerais</p><p>concretas de práticas de relações sociais: aquelas que resultam em unidades</p><p>produtivas ou associativas formais (que se constituem segundo uma</p><p>estrutura formal) e aquelas que resultam em formas de ação como modo de</p><p>pertença. Estas práticas constituem o que se chama, abstratamente, de</p><p>organização. Isto significa que não se trata de partir do conceito abstrato de</p><p>organização, como substância ideal, para fazer deste conceito o sujeito das</p><p>formas práticas. Em outras palavras, as organizações não se dividem em</p><p>formais e de pertença, não se dividem em unidades produtivas (empresas,</p><p>associações, órgãos, etc.) e em movimentos. As unidades e modos concretos</p><p>de relações sociais é que são os Elementos Constitutivos que permitem</p><p>designar ou expressar o que se chama de organização.</p><p>Como já exaustivamente exposto em outro texto (Faria, 2017,</p><p>Cap. 1), o</p><p>conceito de organização pode, portanto, para fins propedêuticos, ser</p><p>empregado em dois sentidos:</p><p>i. Estrutura formal: refere-se, em uma perspectiva sociológica simples, à</p><p>estrutura regular de elementos que constituem uma entidade, a qual serve à</p><p>realização de ações de interesse econômico, jurídico-político, social,</p><p>cultural e ideológico. Neste conceito encontram-se as empresas, os clubes e</p><p>associações, os órgãos públicos e o próprio aparelho estatal. Motta (1981),</p><p>por exemplo, refere-se ao Estado como uma organização. Em alguns casos,</p><p>o conceito sociológico de organização tem sido relacionado ao de</p><p>Instituição (Lapassade, 1977), quando diz respeito: (a) à uma forma de</p><p>organização que corresponde aos costumes (ou habitus, segundo a</p><p>concepção de Bourdieu, 1983) ou estruturas sociais, sejam estas</p><p>estabelecidas por leis que vigoram em um determinado Estado e que</p><p>estabelecem seu ordenamento (tal como a da propriedade privada), sejam</p><p>por procedimentos (tais como casamento, família, etc.); (b) à estrutura</p><p>material que serve à realização de ações de interesse social ou coletivo (tais</p><p>como as instituições públicas de ensino);</p><p>ii. Modo de pertença: corresponde às suas finalidades políticas práticas,</p><p>podendo ser de luta, de movimentos sociais, de resistência, sejam as</p><p>mesmas planejadas ou, em outro extremo, passageiras/transitórias.</p><p>Ontologicamente, em A Guerra Civil na França, por exemplo (Marx,</p><p>1986), esta forma de organização não mereceu destaque enquanto</p><p>organização, mas enquanto prática política. Desta maneira, tal tipo de</p><p>organização pode ser identificada pela prática política que encerra. Neste</p><p>caso, a definição da Dimensão Epistemológica que orienta estudos neste</p><p>campo específico deve considerar as possibilidades metodológicas atinentes</p><p>à flexibilidade do “modo organizacional” específico.</p><p>Assim, epistemologicamente, podem-se considerar estes dois tipos</p><p>básicos de organização social dos sujeitos como campos empíricos</p><p>diferenciados. No primeiro caso, as organizações são predominantemente</p><p>estruturadas por normas, regulamentos, estrutura orgânica, sistema de</p><p>responsabilidade e divisão do trabalho, os quais circunscrevem a garantia da</p><p>unidade formal ou estável. No segundo caso, são predominantemente</p><p>estruturadas por códigos, símbolos, valores, disposição subjetiva de</p><p>julgamentos (também chamados de crenças), vínculos e projetos comuns, os</p><p>quais circunscrevem a garantia da unidade de pertença.</p><p>Mas é necessário enfatizar que ainda que epistemologicamente estes</p><p>possam até mesmo se constituir em dois tipos relativamente autônomos de</p><p>organização, eles efetivamente não se excluem. Isto significa que nas</p><p>pesquisas em CHSSA-EOR deve-se observar que os primeiros tipos podem</p><p>ser atravessados por elementos do segundo (códigos, símbolos), que não o</p><p>componham ou identifiquem, pois não são estes os que fundamentalmente o</p><p>definem. Também os segundos podem ser atravessados por elementos do</p><p>primeiro (acordos, regras, contratos). A realidade concreta indica que as</p><p>organizações de segundo tipo podem existir de forma independente das de</p><p>primeiro tipo (e vice-versa), mas é no âmbito das práticas das organizações</p><p>formais que se podem encontrar mais amiúde organizações reguladas por</p><p>códigos, projetos sociais comuns, etc.</p><p>O primeiro tipo representa todas as organizações formais ou estáveis,</p><p>baseadas na lógica da dominação ou da solidariedade, das estruturas mais</p><p>simples às mais complexas e com diferentes sistemas de relações de poder e</p><p>de trabalho, os quais comportam diferentes formas de gestão (Faria, 1985;</p><p>1987; 2009) e de estrutura: empresas públicas e privadas, clubes, sindicatos,</p><p>associações, empreendimentos, partidos políticos, órgãos de governo, entre</p><p>outras. O segundo tipo representa as organizações de pertença (como os</p><p>movimentos sociais, por exemplo), constituídas de grupos e classes sociais,</p><p>com suas naturezas e subdivisões. Estas formas, além de não excludentes,</p><p>não eliminam as mobilidades entre elas, em que, por exemplo, um</p><p>movimento social possa se formalizar (se tornar um partido, uma</p><p>associação, um sindicato) ou uma organização formal (sindicato, partido,</p><p>associação) possa ingressar na clandestinidade em decorrência de processos</p><p>políticos.</p><p>As organizações do primeiro tipo são chamadas de organizações</p><p>formais, de acordo com a clássica definição de Blau e Scott (1979), ou</p><p>estáveis, de acordo com a definição de Enriquez (1997), e são vistas como</p><p>espaços políticos nos quais se desenvolvem práticas sociais regulamentadas</p><p>ou normatizadas. As do segundo tipo, chamadas de organizações de</p><p>pertença, definem-se pela existência de um projeto partilhado ou comum e</p><p>por vínculos não normativos formais. Estas, porém, não possuem o mesmo</p><p>significado e o mesmo estatuto teórico e analítico que o de organizações</p><p>informais e organizações sociais, embora se aproximem mais desta última.</p><p>As organizações de pertença são baseadas em relações interativas, nas quais</p><p>os objetivos ou os projetos são compartilhados, consciente ou</p><p>inconscientemente, pelos seus membros, constituindo assim o núcleo do</p><p>vínculo ou da pertença.</p><p>É preciso, antes de prosseguir, esclarecer uma questão conceitual.</p><p>Organização tem sido concebida aristotelicamente, como substância, ou</p><p>seja, como aquilo que é permanente nas coisas, como o suporte pelo qual a</p><p>matéria se constitui em algo de acordo com uma forma. Organização se</p><p>refere, assim, ao universal abstraído que, a partir exatamente desta</p><p>abstração é classificada em tipos, formas e espécies. Com isso, o concreto</p><p>deixa de ser matéria constitutiva, de maneira que a substância Organização</p><p>ocupa o lugar sujeito e suas formas ocupam o lugar do predicado. Para se</p><p>chegar à substância tomam-se os elementos reais, em suas formas</p><p>singulares, para idealmente unir tais elementos em uma substância</p><p>universal. A substância é uma abstração. Sendo ela o resultado do</p><p>pensamento, não pode ser a origem concreta das suas formas reais.</p><p>A concepção exposta aqui considera a organização como uma</p><p>representação abstrata de diferentes singularidades e não como a origem</p><p>destas singularidades (tipos, modelos, estruturas, etc.). O problema que está</p><p>colocado é que várias concepções em uso na literatura, depois de criar a</p><p>substância Organização voltam à sua origem concreta como sendo esta</p><p>origem o resultado da substância. Passa-se das partes ao todo, dando ao</p><p>todo o caráter de substância para depois conferir a este todo abstrato a</p><p>origem das partes. Como se sabe, a metafísica idealista parte das maçãs, das</p><p>peras, uvas, abacates, para criar a ideia abstrata de fruta e depois pretende</p><p>explicar as frutas reais a partir da ideia da fruta em si, da substância, da</p><p>essência eterna, do arquétipo da fruta. É neste sentido que a Organização</p><p>tem sido tratada a partir da ideia da Organização em si em suas formas ou</p><p>classificações. A concepção de Organização como substância tem</p><p>alcançado um estatuto de entidade (A Organização), ou seja, é concebida</p><p>não como unidade produtiva de mercadorias e serviços, como expressão</p><p>objetivada da produção material de existência social, mas como um ente</p><p>que se encontra acima das dimensões do espaço e do tempo. A Organização</p><p>como uma entidade mística, cuja constituição é a-histórica e não humana. A</p><p>organização é classificada como modelo estruturado por regras</p><p>(organização formal) ou por relações de convivência (organização</p><p>informal), como organismo, como empresa, como associação, etc., partir da</p><p>substância conceitual e não como forma social coletiva produzida</p><p>materialmente, ou seja, a organização não é uma forma de expressão da</p><p>materialidade histórica, mas uma dada estrutura ou sistema que existe</p><p>independentemente dos modos de produção social. A crítica ao conceito de</p><p>Organização como substância considera que, primeiro se toma as diversas</p><p>formas de unidades produtivas como elas são em suas singularidades e</p><p>particularidades reais. A partir destas formas concretas se cria uma coisa</p><p>abstrata universal (Organização). Em seguida, atribui-se a esta coisa</p><p>universal a origem das coisas concretas (tipos, formas,</p><p>atividades, funções,</p><p>etc.).</p><p>Esta é a concepção é dominante no campo das CHSSA-EOR, que</p><p>partem da coisa abstrata (a Organização) em busca de um objeto concreto</p><p>que idealmente lhe corresponda: um caso, uma empresa, uma fábrica, uma</p><p>situação, um fenômeno, uma atividade. A partir do estudo dos casos</p><p>particulares, se pretende voltar à abstração inicial para reassegurar seu</p><p>caráter místico. A Organização, quando tomada como uma abstração, ou</p><p>seja, como coisa em si esvaziada de materialidade, coloca o pesquisador</p><p>não em confronto com o concreto, mas com as ideias, de maneira que esse</p><p>pesquisador acredita que ao confrontar as ideias ele confrontará a realidade</p><p>que elas mascaram.</p><p>Quando o pesquisador opera de maneira idealista sobre realidades</p><p>(fábricas, associações, partidos, órgãos públicos), ele forma, nele mesmo,</p><p>uma ideia geral de “Organização”. Seguindo adiante, esse pesquisador</p><p>imagina que a ideia abstrata “Organização”, deduzida dos tipos formais</p><p>(fábricas, associações, etc.) é algo que existe fora dele e que constitui a</p><p>essência verdadeira das fábricas, dos partidos, dos órgãos públicos, etc. Ao</p><p>fazer isso ele declara que a “Organização” é a substância das fábricas, dos</p><p>partidos, das associações, etc. O que era predicado se torna sujeito. Para</p><p>esse pesquisador, o que há de essencial na fábrica, no partido, não é o ser</p><p>fábrica ou ser partido, não é seu valor real, perceptível aos sentidos, mas a</p><p>essência de sua representação: a “Organização”. Fábrica, órgão público,</p><p>partido, etc., acabam sendo, para estes pesquisadores, formas de existência</p><p>da Organização, ou seja, Tipos ou Modos de Organização.</p><p>Uma vez concluído esse entendimento, o pesquisador distingue a fábrica</p><p>do órgão público, o partido da associação, a loja da cooperativa. Para as</p><p>pesquisas em CHSSA-EOR idealistas, cada um desses modos (ou tipos) é</p><p>uma forma diferente de uma mesma coisa: que é a “Organização”. Assim, a</p><p>“Organização” se torna uma entidade. A Organização planeja, a</p><p>Organização produz, a Organização define estratégia, a Organização atua,</p><p>fala, pensa, programa, contrata, demite, etc. Quando o pesquisador</p><p>considera que os tipos particulares, apesar de suas singularidades reais, são</p><p>formas aparentes, cuja essência verdadeira é a substância “Organização”,</p><p>ele não alcança a riqueza das determinações. Ele não investiga o processo</p><p>histórico real, mas sua forma conceito. O pesquisador idealista separa a</p><p>unidade produtiva das atividades que a constituem, separa os diferentes</p><p>modos de trabalho e de trabalhadores (operários, supervisores, gestores,</p><p>técnicos, etc.) e separa, também, a Organização como unidade produtiva</p><p>social da sua gestão como atividade prática social, com suas contradições,</p><p>seus movimentos, sua dialética.</p><p>Após ter feito das diferentes formas reais uma abstração, chamada de</p><p>Organização, o que faz a especulação? A especulação retorna às formas</p><p>particulares e suas singularidades (hospital público, escola particular,</p><p>fábrica recuperada, empreendimento de economia solidária, cooperativa de</p><p>crédito, etc.). Ou seja, a especulação retorna aos tipos profanos reais de</p><p>diferentes espécies. Depois de, a partir do mundo real, ter engendrado a</p><p>categoria Organização, o pesquisador cria o mundo real a partir dessa</p><p>categoria. A realidade é substituída pelo conceito, pelas classificações,</p><p>pelos tipos puros. Entretanto, não há como passar de uma abstração para</p><p>seu contrário real a menos que se renuncie à abstração. O que ocorre é que</p><p>sobra para o pesquisador idealista renunciar à abstração para que ele possa</p><p>se dedicar a uma sua forma singular (fábrica recuperada, hospital, gestão</p><p>participativa, gestão cooperada, gestão autoritária, etc.). Mas tal renúncia é</p><p>especulativa, porque apenas em aparência ela ocorre. Se a fábrica, o partido,</p><p>o hospital, etc., constituem a substância “Organização”, como esse</p><p>pesquisador enfrenta o fato de tal “Organização” ser definida ora como</p><p>fábrica, ora como cooperativa, ora como banco, ora como escola, ora como</p><p>órgão público? Qual a origem da diversidade dessa unidade chamada</p><p>Organização? A resposta é que a origem dessas diversidades é a razão</p><p>especulativa, em que as diferentes formas de organização são cristalizações</p><p>da própria “Organização” como substância, como abstração universal. A</p><p>“Organização” adquire uma existência própria mística, ensejando a</p><p>existência de tipos, formas e manifestações que acabam por servir para o</p><p>pesquisador como modo de entendimento da própria substância que ele</p><p>abstratamente criou.</p><p>A pesquisa sobre cada tipo cria uma totalidade abstrata, uma substância</p><p>que existe apenas na imaginação. Assim, cada forma de organização é uma</p><p>encarnação da substância “Organização”, é um modo de ser da substância</p><p>que se apresenta como abstração. Com isto, da substância abstrata</p><p>“Organização” são extraídas apenas formas abstratas de organização32. A</p><p>especulação põe o pesquisador diante de esquemas, modelos e paradigmas</p><p>que dividem abstratamente a realidade em partes, classificam a matéria em</p><p>escalas e quadrantes, em formas e hierarquias, para depois questionar como</p><p>estas partes arbitrariamente separadas se relacionam entre si no mundo</p><p>concreto.</p><p>Quando se separa o objeto para fins propedêuticos, para representar suas</p><p>conexões internas; quando se faz uso de categorias de análise para explicar</p><p>a forma constitutiva deste objeto, não é cabível, depois, partir da</p><p>classificação ou das categorias abstratas criadas para questionar a existência</p><p>ou não de relações concretas entre elas. Em outras palavras, primeiro, se</p><p>juntam as formas concretas em uma substância universal. Em seguida, se</p><p>fragmenta a substância em pedaços correspondentes ao real para representá-</p><p>la; depois, se questiona se estes pedaços separados abstratamente se</p><p>relacionam ou não e como se relacionam. Por obra da atividade do</p><p>pensamento se junta os objetos reais em uma substância universal, se divide</p><p>o objeto em partes a partir da substância e posteriormente se questiona as</p><p>partes divididas idealmente perguntando a elas se elas se relacionam.</p><p>Pergunta-se para realidade que foi separada idealmente não só se ela existe</p><p>como separação, mas como ela estabelece relações entre os elementos que</p><p>foram abstratamente separados.</p><p>Neste sentido, o conceito de organização (e, por isto mesmo o de</p><p>estudos Organizacionais) aqui exposto parte de suas formas reais e não se</p><p>esgota em sua forma de unidade (fábrica, clube, associação, sindicato,</p><p>empresa, cooperativa, etc.) nuclear, como comumente se considera.</p><p>Tampouco a existência de organizações de primeiro e segundo tipos é</p><p>determinada pelo Estado, como se o Estado fosse o sujeito e as unidades</p><p>fossem seus predicados. Ao contrário, as organizações de primeiro e</p><p>segundo tipos, como formas de práticas de classe em presença, são partes</p><p>constitutivas do Estado. O Estado é, portanto, uma organização (que não se</p><p>deve confundir com Governo e Poder Público), ou seja, é uma forma</p><p>organizada de sociedade, com sua condição particular histórica, ele mesmo</p><p>predicado das práticas das relações sociais, mais precisamente da luta de</p><p>classes.</p><p>A organização, se compreendida como construção e realização social,</p><p>como empreendimento em seu sentido histórico, é a forma de representação</p><p>conceitual de unidade produtiva (oficina, fábrica, manufatura, indústria); se</p><p>entendida em seu sentido social, é a forma de representação conceitual de</p><p>modo de produção das condições materiais de existência; se compreendida</p><p>em seu sentido institucional, é a forma de representação do conceito de</p><p>superestrutura; se compreendida em termos de ordem social, é a forma de</p><p>representação conceitual de Estado. Deste modo, para tratar da questão</p><p>epistêmica em CHSSA-EOR é preciso considerar que as organizações</p><p>devem ser compreendidas não em seu caráter abstrato como substância (A</p><p>Organização), mas a partir de sua materialidade objetiva e histórica, na</p><p>medida em que as formas concretas de organização são unidades que</p><p>compõem e constituem a estrutura social. Deste modo, ainda que possam</p><p>ser classificadas propedeuticamente a partir diferentes de tipologias,</p><p>é a</p><p>concretude da organização que deve ser epistemologicamente investigada.</p><p>Por quê?</p><p>Há um evidente problema epistêmico quando se considera a organização</p><p>segundo um conceito inespecífico, universal e especulativo. A ausência de</p><p>uma referência concreta implica tratar a organização como pura abstração,</p><p>de onde se torna difícil um Ato Epistemológico consequente. Quando se</p><p>trata da organização como, por exemplo, uma unidade produtiva, chega-se a</p><p>uma particularidade, a uma forma particular de organização, objetivada,</p><p>materializada. Quando se trata de uma unidade produtiva mais específica,</p><p>por exemplo, uma fábrica de veículos, chega-se a uma singularidade. As</p><p>pesquisas nestas organizações singulares (chamadas de estudos de caso)</p><p>podem fornecer contribuições teóricas e conceituais importantes para</p><p>compreender as organizações em sua particularidade. Quando se trata de</p><p>um modo de luta social (por exemplo, um movimento social organizado),</p><p>chega-se a uma particularidade definida pelos vínculos e pelo projeto social</p><p>comum que estrutura este vínculo. Quando se trata de uma concepção</p><p>inespecífica e abstrata (a organização), sem referência concreta (“a</p><p>organização determina os procedimentos”; “a organização possui um</p><p>sistema de avaliação”, “a organização pensa estrategicamente”, etc.), todo</p><p>esforço epistemológico se perde no plano arbitrário e imaginário.</p><p>Nos dois primeiros casos, a organização se apresenta em sua</p><p>objetividade. Assim, a definição da Dimensão Epistemológica que orienta</p><p>os estudos neste campo de CHSSA-EOR é de fundamental importância,</p><p>pois as concepções particulares/singulares e concretas da organização são</p><p>entendidas em sua materialidade, tanto histórica como contextual, seja</p><p>enquanto uma determinação histórica, seja como um “sistema social” ao</p><p>mesmo tempo objetivo e subjetivo, cujos contornos somente são possíveis</p><p>de precisar em sua atividade prática no interior das relações de produção ou</p><p>das “formações sociais”.</p><p>Nesta linha, é necessário esclarecer qual a fonte do conhecimento</p><p>produzido nos CHSSA-EOR. Onde se encontra o concreto que a</p><p>epistemologia quer problematizar? Trata-se apenas e necessariamente de</p><p>uma referência primária (o concreto em si mesmo)? Trata-se de recorrer aos</p><p>registros (secundários), pois não se pode conhecer tudo ao mesmo tempo e</p><p>o tempo todo? É resultado dos discursos, das imagens e/ou dos dados</p><p>estatísticos?</p><p>Não raro, pesquisadores da área de CHSSA-EOR consideram que, do</p><p>ponto de vista da ciência, a produção do conhecimento pode se dar através</p><p>de textos escritos impressos e/ou digitais (documentos, registros, relatórios,</p><p>etc.), depoimentos e/ou exposições orais (também acessíveis por meios</p><p>eletrônicos), vídeos e/ou imagens, observação direta (participante e/ou não),</p><p>dados secundários (brutos e/ou processados), dados primários (quantitativos</p><p>e/ou qualitativos), processos de ensino-aprendizagem (sob suas diversas</p><p>formas), experimentos, debates (planejados previamente e/ou não),</p><p>narrativas, histórias de vida, entre outros meios de acesso ao campo</p><p>concreto. O conhecimento, deste modo, esgota-se na fonte. A fonte é</p><p>fundamental para acessar a realidade, mas ela não é já a realidade, pois se</p><p>trata desde logo de uma mediação.</p><p>Em regra, não se discute a produção do conhecimento e tampouco a</p><p>Dimensão Epistemológica que desencadeia o Ato Epistemológico em</p><p>CHSSA-EOR. Considera-se que encontrar a fonte dos dados (o caso</p><p>empírico) deve ser a principal motivação daqueles que se aventuram nesta</p><p>selva complexa e dinâmica que é a prática da pesquisa nesta área e que para</p><p>acessar a realidade basta o uso correto de técnicas de investigação.</p><p>A prática científica não é redutível a uma sequência de operações, de</p><p>procedimentos necessários e imutáveis, de protocolos codificados. Tal</p><p>concepção, que converte a metodologia numa tecnologia, repousa sobre a visão</p><p>rigorista e burocrática do design, fixado no início da pesquisa e, de uma vez por</p><p>todas, concretizando-se na (...) “mania do projeto”. (Bruyne et al., 1977, p. 30)</p><p>As fontes dos dados e a motivação do pesquisador, embora sejam</p><p>requisitos importantes e necessários, não são suficientes para dar conta do</p><p>problema epistemológico. É preciso conhecer as condições epistemológicas</p><p>da investigação científica, ou seja, as condições que permitem e que</p><p>viabilizam o Ato Epistemológico. É neste sentido que Bruyne et al. (1977,</p><p>pp. 34-35) observam que “o campo epistêmico é o campo do conhecimento</p><p>científico que chegou a um grau de objetividade reconhecido” e que se</p><p>encontra no estágio de desenvolvimento teórico, da reflexão, da</p><p>metodologia e das técnicas de investigação. À Epistemologia cumpre uma</p><p>vigilância metodológica crítica sobre todo o processo de pesquisa, pois ela</p><p>“é a garantia de objetivação – isto é, da produção – do objeto científico”.</p><p>De fato, quando se faz um atrelamento de uma área do conhecimento a</p><p>uma Dimensão Epistemológica, subverte-se a condição crítica das análises.</p><p>Quando, por exemplo, adotam-se pressupostos gerencialistas no estudo de</p><p>organizações como sendo os que contêm a única “explicação possível” (ou,</p><p>o que é pior, a única correta) nas CHSSA-EOR, acaba-se por negar não</p><p>apenas a existência de diferentes possibilidades oriundas de outros modos</p><p>de interpretação, como de revelar o uso ideológico das epistemologias</p><p>subjacentes às teorias gerencialistas e a incapacidade de superar seus</p><p>próprios obstáculos epistemológicos. A forma de produção do</p><p>conhecimento que se baseia, por exemplo, exclusivamente nas funções</p><p>gerenciais necessárias ao desempenho de certos procedimentos que estão na</p><p>origem da explicação de um fenômeno organizacional, deixa de ser apenas</p><p>uma escolha epistemológica para se tornar uma ideologia. No exemplo da</p><p>teoria gerencialista, como demonstrado em outro estudo (Faria, 2004,</p><p>Volume II), a mesma considera a concepção firmada segundo a qual em</p><p>qualquer tipo de organização existem funções pré-determinadas</p><p>desempenhadas por sujeitos abstratamente determinados, bastando,</p><p>portanto, descobrir o formato das funções exercidas e das práticas dos</p><p>sujeitos para explicá-lo. Neste caso, não é apenas o problema da adoção de</p><p>um imperativo categórico (moral, no sentido kantiano), mas de uma</p><p>pressuposição que se impõe por um determinado sistema de ideias</p><p>arbitrariamente consolidado e naturalizado. Não se trata de invalidar</p><p>perspectivas teóricas e analíticas, mas de indicar que as mesmas nem são</p><p>únicas e tampouco as mais corretas e inquestionáveis.</p><p>É neste sentido que o pesquisador deve compreender o lugar da</p><p>epistemologia em seus estudos, conhecendo suas dimensões, suas</p><p>metodologias e teorias pertinentes, de forma a identificar aquela que lhe</p><p>permitirá aprofundar os fundamentos orientadores de seu trabalho. É disto</p><p>que se tratará adiante.</p><p>Notas</p><p>10. Os textos que descrevem as principais proposições epistemológicas se encontram em itálico para</p><p>indicar que são transcrições originárias dos autores e das fontes citadas, adaptadas aos propósitos</p><p>didáticos da exposição.</p><p>11. Ver, sobre esta questão, Lopes (2016).</p><p>12. É especialmente frustrante, dadas as condições concretas, não poder dar conta de um estudo desta</p><p>magnitude quando se tem clareza de sua importância.</p><p>13. Por exemplo: durante muito tempo acreditava-se que o átomo era a menor partícula existente na</p><p>natureza. Seu significado original se referia a uma partícula que não pode ser dividida. As pesquisas</p><p>realizadas pela chamada “física da partícula”, no entanto, descobriram que o átomo é constituído por</p><p>várias partículas subatômicas, que têm dimensões menores que as dos átomos (tais como elétrons,</p><p>prótons, nêutrons, etc.). A realidade em si não se alterou, ou seja, objeto continua o mesmo (o átomo</p><p>continua sendo unidade básica de matéria), porém, o conhecimento sobre ele se alterou. A teoria</p><p>sobre o átomo exigiu outra teoria: na prática, a teoria deu lugar a outra teoria.</p><p>14. O conceito de Ato Epistemológico será exposto mais adiante. Por ora, basta apenas indicar que o</p><p>Ato Epistemológico trata da relação reflexiva do sujeito com a matéria e pode ser relativo a um</p><p>conhecimento</p><p>simples, útil, técnico, complexo (lógico-formal), científico ou filosófico. Em outras</p><p>palavras, o Ato Epistemológico não é unicamente científico. O ato de produzir conhecimento é um</p><p>Ato Epistemológico ainda que este conhecimento possa ser simples, imediato, descritivo ou mesmo</p><p>em um nível acentuadamente tosco (sem ter sido “lapidado”). Todo Ato Epistemológico é um</p><p>processo complexo e dialético.</p><p>15. Por exemplo: época adequada de plantio na agricultura familiar; local e tempo de pesca por</p><p>pescadores amadores, artesanais, cooperados.</p><p>16. A teoria da relatividade, formulada por Einstein, não pode ser cientificamente considerada</p><p>definitiva e absoluta, embora sua consistência, precisão e profundidade possam ser de difícil</p><p>superação.</p><p>17. O vermelho era usado como um sinal de perigo por legiões romanas há mais de 2 mil anos. Seu</p><p>uso como sinal luminoso começou em meados de 1830 no sistema ferroviário inglês. Foi apenas no</p><p>Século XIX que o engenheiro ferroviário John Peake Knight sugeriu adaptar o sistema das ferrovias</p><p>para as ruas para organizar o trânsito de carroças e pedestres.</p><p>18. É em “A República” que Platão apresenta os Diálogos com Sócrates, pois este não deixou textos</p><p>que registrassem seu pensamento. Como discípulo de Sócrates, Platão resgata estes ensinamentos</p><p>através dos Diálogos.</p><p>19. Para se contrapor a esta concepção idealista os socioconstrutivistas defendem a tese de que a</p><p>realidade é construída socialmente (Berger; Luckmann, 1987). Contudo, a construção social da</p><p>realidade é igualmente idealista. Por exemplo: a construção da diferenciação de gênero não é</p><p>decorrente de condições reais natural e socialmente distintas, mas de extrapolações ideológicas,</p><p>políticas e culturais. Voltar-se-á a este tema adiante.</p><p>20. Teóricos eram os que assistiam aos Jogos Olímpicos em contraposição aos participantes, ou seja,</p><p>os que possuíam uma atitude de distanciamento. Nenhum dos contendores destes jogos “teorizava”,</p><p>pois sua atuação era prática.</p><p>21. É conhecido, nos tempos de Aristóteles, o “argumento da torre” contra a concepção de</p><p>mobilidade da Terra. Havia quem acreditasse que a Terra se movia a uma velocidade extraordinária,</p><p>impensável para a época. Para aqueles que discordavam desta concepção, a prova “empírica”</p><p>apresentada era bem simples: se um objeto for jogado do alto de uma torre e se a Terra estiver em</p><p>movimento realmente, este objeto deve cair não no pé da torre, mas distante dela. Como o objeto</p><p>“cai” exatamente no pé da torre, esta é a prova de que a Terra não se move. Este “dilema” é</p><p>solucionado na Mecânica Clássica por Newton com sua lei da gravitação universal (terceira Lei de</p><p>Newton) publicada em 1687 em Principia Mathematica.</p><p>22. É interessante observar como esta lógica binária se encontra embutida na informática. Softwares</p><p>de jogos reduzem as opções a uma lógica binária (certo x errado). Estes jogos, praticados por</p><p>crianças e jovens, induzem a formação epistêmica binária, com consequências problemáticas na</p><p>formação intelectual. Voltar-se-á a esta observação adiante.</p><p>23. Este tema tem alcançado certo realce nas chamadas “Fake News”.</p><p>24. É inevitável que esta apologia simplificada ao espírito hegeliano também remeta à concepção de</p><p>“corpo fluídico” de Leibniz (1980) ou à ideia kardecista do perispírito (envoltório fluídico). Porém,</p><p>tanto para Hegel como para Leibniz o problema é muito mais complexo.</p><p>25. Há uma diferença entre objeto enquanto coisa material e objeto enquanto área de conhecimento</p><p>ou de domínio de uma disciplina. Aqui se trata de discutir a primeira concepção.</p><p>26. Para os objetivos deste ensaio, contudo, ater-se-á ao conhecimento científico, filosófico e</p><p>tecnológico em CHSSA.</p><p>27. A referência, aqui, é a Teoria da Grande Expansão. Com base nos trabalhos de Vesto Slipher,</p><p>Georges Lemaître propôs, em 1927, o que denominou de “hipótese do átomo primordial”, precursora</p><p>da conhecida Teoria da Grande Expansão (Teoria do Big Bang) sobre a origem do universo. Sua</p><p>proposição foi mais tarde desenvolvida por George Gamow (final dos anos 1930), e posteriormente</p><p>confirmada por Edwin Hubble.</p><p>28. Exceto se for crível o relato da criação de Adão e Eva. Neste caso, tudo começou com um ser do</p><p>nada, ainda que Ser do barro, que por uma sua parte deu vida ao Ser Outro, que ainda hoje habita o</p><p>imaginário da prevalência masculina. Tal Adão veio ao mundo já detendo não todos, mas vários</p><p>conhecimentos, incluindo o da linguagem, ou seja, era desde logo portador da origem epistêmica</p><p>seletiva de seu criador e das suas interdições.</p><p>29. Um exemplo é a chamada Equação de Drake. N = R* x fp x ne x fl x fi x fc x L. Onde: N =</p><p>número de civilizações extraterrestres na Via Láctea com as quais há chances de estabelecer</p><p>comunicação; R* = taxa de formação de estrelas na Via Láctea; fp = fração de estrelas que possuem</p><p>planetas em órbita; ne = número médio de planetas que potencialmente permitem o desenvolvimento</p><p>de vida por estrela que tem planetas; fl = fração dos planetas com potencial para vida que realmente</p><p>desenvolvem vida; fi = fração dos planetas que desenvolvem vida inteligente; fc = fração dos</p><p>planetas que desenvolvem vida inteligente e que têm desejo e meios necessários para estabelecer</p><p>comunicação; L = tempo esperado de vida de tal civilização. Este modelo pretendia estimar o número</p><p>de civilizações extraterrestres ativas na Via Láctea com as quais poderiam haver chances de</p><p>estabelecer comunicação. Embora se tratem de suposições, cada um dos elementos do modelo pode</p><p>ter sua medida estimada e atualizada sem interferir no modelo, mudando apenas o resultado de N.</p><p>Mas a ausência, por exemplo, das premissas de existência de vida inteligente e de existência de</p><p>sistema de comunicação, torna o modelo inútil, de maneira que o modelo (assim como vários outros)</p><p>somente possui validade teórica se as premissas forem consideradas válidas.</p><p>30. O que não é conhecido não significa que é inexistente. O inexistente é incognoscível.</p><p>Cognoscível é todo fato ou fenômeno que, seja ou não conhecido, pode vir a sê-lo por ato humano</p><p>em outras condições concretas.</p><p>31. Como já exposto em outro estudo (Faria, 2009), o conceito de Estado da Natureza formulado</p><p>pelos filósofos antigos e ainda em uso por pensadores modernos, foi objeto de discussão de Marx,</p><p>especialmente em sua crítica a Hegel, como se verá adiante.</p><p>32. “Depois de ter engendrado a categoria do ‘mistério’ a partir do mundo real, cria o mundo real a</p><p>partir dessa categoria” (Marx; Engels, 1975, p. 89). A realidade é substituída pelo saber, pelo</p><p>conhecimento, pelo pensamento puro.</p><p>2. EPISTEMOLOGIA, TEORIA E</p><p>METODOLOGIA</p><p>No Capítulo anterior se procurou, a partir do processo histórico-social</p><p>do desenvolvimento epistemológico, ou seja, das reflexões sobre a</p><p>produção do conhecimento, fazer uma primeira aproximação entre</p><p>conhecimento, epistemologia, Ato Epistemológico e dimensão</p><p>epistemológica em CHSSA-EOR. Este capítulo inicia destacando as</p><p>concepções epistemológicas de alguns pensadores, de forma a pontuar o</p><p>problema do idealismo e do realismo, que é a base de toda discussão</p><p>epistêmica. Em seguida, serão mencionados conceitos básicos de referência</p><p>para o adequado desenvolvimento do tema proposto neste estudo. Tais</p><p>conceitos, que são expostos de forma simples e cujos comentários não têm</p><p>qualquer pretensão de se constituírem em uma análise dedicada de seus</p><p>termos, servem para “calibrar” a exposição.</p><p>O problema do método, no sentido do pensamento filosófico em relação</p><p>à pesquisa científica, que tem ocupado importantes debates nas ciências e</p><p>na filosofia, alcança seus polos opostos com (i) o empirismo realista ou</p><p>experimental de Francis Bacon em seu Novum Organum (1979); (ii) com o</p><p>racionalismo idealista de René Descartes em seu Discurso do Método</p><p>(1979; 2018) (ambos derivados, em certa medida criticamente, das</p><p>concepções idealistas socrático-platônicas e realistas aristotélicas); (iii) com</p><p>as construções metafísicas de Baruch Espinosa em Pensamentos</p><p>Metafísicos e Tratado da Correção do Intelecto (1979), Gottfried Wilhelm</p><p>Leibniz em Discurso da Metafísica, Da origem Primeira</p><p>do objeto pelo pensamento</p><p>18.8 Momentos da Produção do Conhecimento Científico: síntese</p><p>necessária</p><p>BIBLIOGRAFIA REFERIDA E CONSULTADA</p><p>PÁGINA FINAL</p><p>CONSIDERAÇÕES INICIAIS</p><p>Há muitos anos me incomoda a questão sobre se aquilo que sei sobre</p><p>aquilo que é corresponde de fato àquilo que é. Não existe qualquer</p><p>originalidade nesta dúvida e tampouco nas dúvidas consequentes: como eu</p><p>sei o que sei? Como sei se a forma que como sei é a forma correta de saber?</p><p>Estas dúvidas certamente perseguem todos os que se dedicam de maneira</p><p>responsável a ensinar, aprender, pesquisar, orientar, escrever (publicar). Não</p><p>são questões individuais, mas sociais e históricas. Entretanto, são dúvidas</p><p>paradoxais e as respostas a elas são objetos de debates milenares e</p><p>infindáveis.</p><p>Portanto, este, como todo livro, mesmo sendo um registro autoral</p><p>individual, é coletivo. Ingressei, em 1978, no Programa de Pós-Graduação</p><p>em Administração da UFRGS, no curso de Mestrado em Administração.</p><p>Uma das primeiras disciplinas, ministrada pelo Professor Antônio Fernando</p><p>Cornélio, versava sobre metodologia da pesquisa. O Professor Cornélio</p><p>indicou, como leitura obrigatória, o livro Dinâmica da Pesquisa em</p><p>Ciências Sociais, de Paul de Bruyne, J. Herman e M. de Schoutheete</p><p>(1977). A primeira aula, correspondente ao Capítulo 1, tratava do Polo</p><p>Epistemológico. O Professor Cornélio perguntou, à turma, quem poderia</p><p>explicar o texto. Após algum silêncio, eu disse que poderia tentar. Este foi</p><p>meu primeiro contato com o tema da Epistemologia e também meu</p><p>primeiro desafio, que era expor um conteúdo que então me era totalmente</p><p>desconhecido. Havia lido este capítulo uma, duas, três vezes. Tentei fazer</p><p>um “esquema” de leitura para entendê-lo e foi este o “esquema” que utilizei</p><p>para explicá-lo.</p><p>Tempos depois, ainda em 1978, em uma “atividade lúdica”, em que</p><p>estavam presentes alunos e professores de diferentes programas de</p><p>mestrado, surgiu o tema do método. Os debates se seguiram e a certa altura</p><p>emerge o tema do método em Marx. Um dos presentes (que infelizmente</p><p>não recordo o nome) proferiu com autoridade que se eu queria entender o</p><p>método em Marx, teria que estudar Hegel. Para entender Hegel, deveria</p><p>entender Kant. Para entender Kant, deveria entender Hume e depois</p><p>Descartes, Aristóteles, Platão, Sócrates em assim por diante. À época esta</p><p>recomendação parecia mera formalidade, mas de fato não há produção do</p><p>conhecimento sem diálogo com a realidade e com outros conhecimentos.</p><p>Já em novembro de 1984, Maurício Tragtenberg me enviou</p><p>correspondência fazendo uma orientação sobre procedimentos de minha</p><p>tese. A certa altura escreveu: “há muita discrepância entre a letra e o real,</p><p>daí ser arriscado refletir sobre a realidade sem acessar diretamente a ela”.</p><p>Com o tempo consegui compreender que se tratava de uma orientação</p><p>epistemológica e metodológica que em sua forma simples era realmente</p><p>complexa. O que poderia ser entendido como mero conselho, foi para mim</p><p>uma questão essencial.</p><p>Parece trivial, mas estas questões foram capazes de me provocar uma</p><p>curiosidade e ao mesmo tempo representar um desafio. O problema</p><p>epistemológico sempre me instigou, mas parece ter sido cada vez mais</p><p>exigido, mais amplo e complexo no programa de mestrado, depois no de</p><p>doutorado e nas pesquisas posteriores. De alguma forma, a concepção de</p><p>epistemologia que representava meus desafios não era exatamente a de uma</p><p>teoria do conhecimento, mas a de sua produção. Por que o estudo sobre o</p><p>conhecimento seria o estudo sobre as teorias do conhecimento? Por que se</p><p>deveria estudar a teoria do conhecimento e não a forma como o</p><p>conhecimento é produzido? Algo não fazia sentido. Ou, de outra maneira,</p><p>havia certo sentido circular, uma espécie de pirueta em que o estudo do</p><p>conhecimento seria circunscrito ao estudo de uma teoria que era resultado</p><p>do próprio estudo da teoria. Essa circularidade (single loop, doble ou multi</p><p>loop) foi cada vez mais adquirindo uma forma mística.</p><p>No ano 2000, como Professor Titular do Programa de Pós-Graduação</p><p>em Administração da UFPR desde 1989, ofereci um Seminário sobre</p><p>Fundamentos da Teoria Social em Estudos Organizacionais, cujo escopo era</p><p>a epistemologia das ciências sociais. Aquele desafio havia, então, se</p><p>transformado em uma responsabilidade. Após o encerramento deste</p><p>seminário sobre teoria social, epistemologia e metodologia dado no</p><p>PPGADM/UFPR, no primeiro semestre de 2000, um dos alunos manifestou</p><p>sua condição paradoxal diante do tema:</p><p>eu era muito mais confiante quando não sabia nada sobre coerência</p><p>epistemológica e sobre as diferentes Epistemologias, porque nada do que eu</p><p>fazia parecia ter problemas. Será que eu troquei o conforto pela angústia?</p><p>Obviamente, a resposta a esta pergunta deve ser a de que o conforto não</p><p>se encontra na ignorância, mas é preciso aceitar que esta questão coloca em</p><p>discussão justamente uma antiga concepção de senso comum de que quanto</p><p>menos o sujeito1 entende sobre algo, menos angústia ele terá. Esta</p><p>concepção de senso comum esconde outra dupla questão de igual termo: (i)</p><p>quanto mais o sujeito encontra-se distanciado do conhecimento e quanto</p><p>mais estranha é para ele a realidade, menos crítico e exigente ele é? (ii)</p><p>quanto mais crítico e exigente o sujeito é mais ele se aproxima da realidade</p><p>e menos estranha esta é para ele? Nenhuma destas perguntas trata do</p><p>“como” conhecer, do ato de conhecer, mas apenas de algo que está</p><p>imediatamente dado e de uma posição centrada no sujeito.</p><p>Qual a vantagem de se saber mais ou de se saber menos sobre algo?</p><p>Parafraseando Marx (A Miséria da Filosofia), este dilema sugere que há</p><p>pesquisadores e professores2 que têm, sobre outros, uma vantagem: a de</p><p>nada entenderem sobre o que escrevem e ensinam. O problema, em síntese,</p><p>remete à discussão sobre a produção do conhecimento, em termos de sua</p><p>superficialidade ou profundidade, aparência e/ou essência, forma e/ou</p><p>conteúdo, singularidade ou universalidade, primazia do real ou da ideia.</p><p>Esse é um problema formulado a partir de uma concepção ainda pouco</p><p>elaborada de epistemologia.</p><p>Desde o ano 2000 tenho cada vez mais me dedicado a estudar o tema da</p><p>Epistemologia, particularmente voltado aos estudos e pesquisas que têm por</p><p>lócus concreto as relações sociais e as práticas destas relações nas</p><p>organizações formais (unidades produtivas, associações, Estado, etc.) ou de</p><p>pertença (movimentos sociais), que têm sido denominados de Estudos</p><p>Organizacionais – EOR, pois se referem a estudos que consideram a</p><p>organização formal ou de pertença como campo material objetivo das</p><p>práticas. No Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq, quando registrei o</p><p>Grupo Economia Política do Poder e Estudos Organizacionais, em 2002, a</p><p>primeira linha de pesquisa era (e continua sendo) justamente Ontologia e</p><p>Epistemologia Crítica do Concreto. À época, eram poucos os pesquisadores</p><p>que se dedicavam, de alguma forma, a este tema. Já ministrei palestras,</p><p>aulas, escrevi artigos e também me propus, em 2001, a produzir um ensaio</p><p>sobre Epistemologia. Em 2012 apresentei, no XXXVI Enanpad, um artigo</p><p>denominado Dimensões da Matriz Epistemológica em Estudos em</p><p>Administração: uma proposição. Desde então, tenho observado que com o</p><p>tempo Epistemologia voltou a ser objeto de estudo nas Ciências Humanas,</p><p>Sociais e Sociais Aplicadas (administração, antropologia, economia,</p><p>engenharias, direito, filosofia, geografia humana, sociologia, política,</p><p>pedagogia, psicologia, serviço social, turismo, etc.) indicando a relevância</p><p>do tema. O conceito de Epistemologia, contudo, não é pacífico. E não o será</p><p>aqui. Ao contrário.</p><p>No início dos anos 2000, como Professor de Epistemologia para</p><p>Programas de Pós-Graduação stricto sensu, iniciei o projeto de publicar os</p><p>resultados dos estudos sobre esse tema na forma de um ensaio. Nestes anos</p><p>todos, o presente estudo já teve pelo menos oito versões estruturais e</p><p>conceituais que minha autocrítica não autorizou publicar. Então, por que</p><p>agora? Porque há várias publicações mais recentes que insistem em tratar a</p><p>epistemologia como uma substância conceitual e não como um processo</p><p>das Coisas (1979)</p><p>e Novos Ensaios do Entendimento Humano (1980) e John Locke, em</p><p>Ensaio Acerca do Entendimento Humano (1978); (iv) com o</p><p>desenvolvimento do empirismo de Thomas Hobbes em Leviatã (1979),</p><p>David Hume, em Investigação sobre o Conhecimento Humano (1980) e (v)</p><p>com o idealismo de Immanuel Kant, em Crítica da Razão Pura (2008b),</p><p>Crítica da Razão Prática (2008) e Introdução à Crítica do Juízo (1980).</p><p>Toda discussão epistemológica das ciências e da filosofia moderna</p><p>(iluminista e pós-iluminista), assenta-se nesta polarização e nas proposições</p><p>de suas superações. Convém, portanto, avançar uma rápida e simples</p><p>exposição, sem qualquer propósito analítico (que extrapolaria o alcance</p><p>deste estudo introdutório), lembrando que o que interessa neste estudo não é</p><p>o problema filosófico enfrentado por estes pensadores, mas o problema</p><p>epistemológico, ou seja, o método da produção do conhecimento.</p><p>2.1 Concepções Epistemológicas Destacadas</p><p>Os pensadores a seguir expostos foram selecionados e destacados, entre</p><p>vários, pela influência que têm na constituição das Dimensões</p><p>Epistemológicas Contemporâneas Básicas em CHSSA-EOR.</p><p>i. Francis Bacon.</p><p>Bacon (1979) argumenta que o saber, ainda que ligado às experiências, é</p><p>um saber de forma, de substâncias, não privado e nem obscuro, mas</p><p>público, que deve ser exposto de forma clara e intersubjetiva. Trata-se,</p><p>assim, de substituir a filosofia das palavras pela filosofia das obras, ou seja,</p><p>de superar a lógica tradicional, inútil e danosa para a pesquisa científica, na</p><p>medida em que consolida e transmite erros consolidados pela tradição. Para</p><p>tanto, propões dois caminhos para a pesquisa e a descoberta da verdade: (i)</p><p>partir dos sentidos e do particular para alcançar os axiomas gerais; (ii) partir</p><p>dos sentidos e do particular para extrair, gradual e ininterruptamente,</p><p>axiomas até alcançar axiomas gerais. O segundo é, para Bacon, o</p><p>verdadeiro caminho, que exige um método diferente daquele de Aristóteles</p><p>e da Escolástica, que supere o saber das causas finais e das causas</p><p>eficientes. Em lugar destas, Bacon propõe o saber da causa formal.</p><p>Compreender a causa formal é “compreender a estrutura de um fenômeno e</p><p>a lei que regula seu processo” (Reale; Antisere, 1980. Vol. II, p. 343).</p><p>Assim, para Bacon (1979), a pesquisa deve considerar um procedimento</p><p>composto de duas formas: (i) extrair e fazer surgir os axiomas das</p><p>experiências; (ii) deduzir e derivar novos experimentos dos axiomas. Para</p><p>tanto, o caminho é o da indução legítima e verdadeira, que é a chave da</p><p>interpretação, diferente da indução aristotélica. Bacon (1979) já anunciava</p><p>que a pesquisa das formas precede sua descrição (exposição). A pesquisa</p><p>sobre um fenômeno exige a compilação da tábua das presenças (registro em</p><p>que se encontram todos os casos pertinentes ao fenômeno), para, em</p><p>seguida, proceder à compilação da tábua das ausências, em que se registram</p><p>casos próximos ou afins em que o fenômeno não se apresenta. Concluídas</p><p>estas etapas, compila-se a tábua dos graus, em que se registram os casos ou</p><p>níveis (instâncias) em que o fenômeno se apresenta em maior ou menor</p><p>intensidade. A partir destas tábuas procedem-se às operações da indução</p><p>propriamente dita, fazendo inclusões e/ou eliminações das falsas hipóteses.</p><p>Com isso, chega-se a uma primeira hipótese, que servirá como guia para a</p><p>pesquisa posterior, que consiste na dedução e no experimento, ou seja, da</p><p>hipótese devem-se deduzir os fatos nela implicados e previstos e</p><p>experimentar em diversas condições se eles se verificam. Como</p><p>argumentam Reale e Antiseri (1980, Vol. II, p. 346). “deste modo, se</p><p>constrói uma espécie de rede de investigação, da qual parte toda uma série</p><p>de ‘interrogações’ a que a natureza é forçada a responder”.</p><p>ii. Renè Descartes.</p><p>A se acreditar em Russel (1978), Descartes é o fundador da filosofia</p><p>moderna, ao construir um novo edifício filosófico completo, o que não</p><p>ocorria desde Aristóteles. De fato, o fundamento da metafísica cartesiana</p><p>está na identidade entre matéria e espaço. A metafísica, portanto, informa</p><p>do que e como é feito o mundo, de maneira que para Descartes (1979) a</p><p>ciência deve se ocupar somente dos objetos que sejam capazes de fornecer</p><p>uma cognição certa e indubitável. Para tal, é necessário um método, que</p><p>consiste na ordem e na disposição das coisas, para buscar a verdade,</p><p>reduzindo gradualmente as proposições mais complexas às mais simples e</p><p>partindo das intuições mais simples para se elevar ao conhecimento de</p><p>todas as demais proposições. Para Descartes, a lógica tradicional nada mais</p><p>fez do que permitir expor a verdade, mas sem a conquistá-la. Descartes se</p><p>propõe, assim, a apresentar regras certas e fáceis que, se observadas, tornam</p><p>possível não tomar o falso pelo verdadeiro sem qualquer esforço mental</p><p>inútil. No Discurso sobre o Método, Descartes (1979) formula quatro</p><p>regras.</p><p>A primeira regra, que ao mesmo tempo é a última, na medida em que é o</p><p>ponto de chegada além de ser o ponto de partida, é a da evidência, ou seja,</p><p>jamais acolher alguma coisa como verdadeira que não se conheça</p><p>evidentemente como tal, evitando cuidadosamente a precipitação e a</p><p>prevenção, não incluindo nos juízos nada que não se apresente tão clara e</p><p>tão distintamente e que não tenha nenhuma ocasião de colocá-la em dúvida</p><p>(Descartes, 1979, p. 37). Para Reale e Antiseri (1980, Vol. II, p. 361), esta</p><p>regra é, de fato, um princípio normativo fundamental, pois o ato se auto-</p><p>justifica e se auto-fundamenta porque “sua garantia não está na</p><p>argumentação, mas na relação entre razão e conteúdo do ato intuitivo”: é a</p><p>ideia presente na mente sem mediação.</p><p>A segunda regra é dividir cada uma das dificuldades para que se as</p><p>examine em tantas parcelas quanto possíveis e necessárias para melhor</p><p>resolvê-las. (Descartes, 1979, pp. 37-38). Trata-se, aqui, segundo Reale e</p><p>Antiseri (1980, Vol. II, p. 362), de uma regra analítica que leva à evidência</p><p>ao decompor o complexo no simples permitindo ao pensamento dissipar as</p><p>ambiguidades. É um momento essencial do método na medida em que se a</p><p>evidência é necessária para que se tenha certeza e se a intuição é necessária</p><p>para a evidência, para a intuição é necessária à simplicidade, que é</p><p>alcançada pela decomposição do todo em partes elementares até o limite do</p><p>possível.</p><p>A terceira regra consiste em conduzir, por meio do pensamento,</p><p>começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para</p><p>subir, pouco a pouco, como que por degraus, até o conhecimento dos mais</p><p>compostos, supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem</p><p>naturalmente uns aos outros (Descartes, 1979, p. 38). A decomposição, que</p><p>se opera na segunda regra, pode resultar em um conjunto desarticulado de</p><p>elementos sem a coesão necessária que caracteriza a totalidade do real.</p><p>Assim, como argumentam Reale e Antiseri (1980, Vol. II, p. 363), a terceira</p><p>regra indica que é preciso recompor os elementos em que a realidade</p><p>complexa foi decomposta para fins de análise, como uma síntese que parte</p><p>de elementos absolutos (não dependente de outros elementos) em direção</p><p>aos elementos relativos ou dependentes, promovendo o necessário</p><p>encadeamento que permite iluminar os nexos do conjunto.</p><p>A quarta regra consiste em fazer, em toda parte, enumerações tão</p><p>completas e revisões tão gerais para que haja a certeza de nada omitir</p><p>(Descartes, 1979, p. 38). Esta regra, que se propõe a verificar cada uma das</p><p>passagens, é uma garantia que impede qualquer precipitação e induza ao</p><p>erro. Para Reale e Antiseri (1980, Vol. II, p. 363), a enumeração verifica se</p><p>a análise é completa e a revisão verifica se a síntese é correta.</p><p>Descartes (1979, pp. 38-38) argumenta que essas longas cadeias de</p><p>razões, todas simples e fáceis para se chegar às mais difíceis</p><p>demonstrações, indicam que todas as coisas possíveis de serem conhecidas</p><p>seguem-se umas às outras da mesma maneira, desde que, abstendo-se de</p><p>aceitar como verdadeiras as que não o são, guardem sempre a ordem</p><p>necessária para deduzi-las umas das outras. Não há, assim, qualquer</p><p>proposição tão afastada que não a que não</p><p>se chegue por fim e nem tão</p><p>ocultas que não se descubram. Estas regras simples, a que se refere</p><p>Descartes, devem articular toda e qualquer pesquisa rigorosa, em que se</p><p>parte de problemas complexos e de fenômenos confusos até se chegar a</p><p>elementos simples que não podem mais ser decompostos pela razão.</p><p>iii. Baruch Espinosa.</p><p>Espinosa (1979, pp. 3-15) procura explicar os pontos obscuros da</p><p>metafísica com algumas proposições: (i) Ente é tudo o que, através da</p><p>percepção clara e distinta necessariamente existe ou pode existir; (ii)</p><p>Quimera é um ente fictício ou um ente de Razão que, por sua natureza, não</p><p>pode existir; (iii) Para reter e imprimir na memória um conhecimento novo</p><p>os filósofos recorrem a outros conhecimentos familiares, tais como gênero,</p><p>espécie, reduzindo as coisas naturais a estas classificações; (iv) Para que</p><p>as coisas sejam explicadas também se recorre à comparação (tempo,</p><p>número, medida); (v) O ente da Razão, não sendo ideia das coisas, é</p><p>considerado como tal porque se origina imediatamente das coisas reais,</p><p>sendo confundida com estas; (vi) A divisão entre o ente real e o Ente da</p><p>Razão é inepta, pois divide a coisa com o modo de pensá-la. Presos ao</p><p>verbalismo e à gramática os metafísicos julgam as coisas pelo nome e não</p><p>o nome pelas coisas; (vii) No processo de investigação das coisas, os entes</p><p>reais não podem ser confundidos com os entes da Razão (a coisa não é o</p><p>conceito da coisa), de modo que investigar a natureza das coisas é diferente</p><p>de investigar os modos pelos quais a coisa é percebida; (viii) O ente da</p><p>Razão não deve ser confundido com o ente fictício. O ente fictício depende</p><p>da vontade, ao contrário do ente da Razão; (ix) O ente se divide em</p><p>substância e modo e não em substância e acidente, pois o acidente é um</p><p>modo de pensar e denota apenas um aspecto do ente; (x) O ser da essência</p><p>é a maneira pelas quais existem; o ser da ideia é a maneira como as coisas</p><p>são objetivamente contidas no pensamento; o ser da potência é a condição</p><p>da coisa vir a ser o que ainda não é. Assim, o ser da existência é a própria</p><p>essência da Coisa considerada em si mesma depois de sua existência; (xii)</p><p>Uma coisa é possível quando se conhece sua causa eficiente, mas se ignora</p><p>se a causa é determinada. Uma coisa é contingente se considerada em sua</p><p>essência sem interrogar a causa. O possível e o contingente são atribuições</p><p>defeituosas do pensamento; (xii) A ideia verdadeira é aquela que mostra</p><p>uma coisa tal como ela é. A ideia falsa é a que mostra uma coisa</p><p>diversamente do que ela é. O verdadeiro e o falso não são a adequação da</p><p>ideia ao ideado, mas o encadeamento necessário das ideias engendrado</p><p>pelo processo que as engendra. A verdade não pode ser retirada ou</p><p>acrescida à coisa, pois não é uma qualidade desta e sim da ideia. A verdade</p><p>é intrínseca à ideia. A certeza, portanto, não está na coisa, mas na ideia</p><p>clara, distinta, que suprime toda dúvida.</p><p>Ao propor que a ideia verdadeira é diversa do ideado, Espinosa (1979, p.</p><p>51) exemplifica: “uma coisa é o círculo, outra, a ideia do círculo”. Da</p><p>perspectiva epistemológica, ou seja, da produção do conhecimento, a coisa-</p><p>em-si, a matéria mesma, não obstante seus movimentos, sua condição</p><p>histórica e suas atividades concretas, é epistemologicamente inerte, ou seja,</p><p>é desprovida de condição gnosiológica própria. O real somente se torna</p><p>epistemologicamente ativo no Ato Epistemológico. Considerar que o</p><p>conceito do objeto não é o objeto ele mesmo, é admitir um assentimento</p><p>óbvio e banal, um truísmo epistemológico, mas que suscita um</p><p>complemento: nenhum conhecimento produzido sobre o objeto é a mesma</p><p>coisa que o objeto, ou seja, o conceito da coisa não é a coisa, mas sem a</p><p>coisa não há conceito da coisa. Em outras palavras, sem o objeto não há</p><p>conhecimento sobre ele, senão na pura lógica formal que dispensa o objeto</p><p>e se esgota no pensamento. Embora pareça uma redundância (e, de fato, é),</p><p>há uma questão epistêmica importante encerrada aqui: o conceito objetivo</p><p>da coisa (o conhecimento verdadeiro, para ficar na questão aqui discutida),</p><p>que somente pode ser proposto pelo sujeito no Ato Epistemológico (e</p><p>jamais pela coisa), depende da existência material da coisa, mesmo nos</p><p>casos do conhecimento lógico e formal.</p><p>Existem, para Espinosa (1979), três gêneros de conhecimento ou três</p><p>graus de conhecimento: opinião e imaginação; racional; intuitivo. Para</p><p>Espinosa: (i) o primeiro gênero (opinião e imaginação) trata da forma</p><p>empírica, ligada às percepções, sempre vagas e confusas. Tal forma de</p><p>conhecimento é teoricamente inadequada em relação às demais, mas é, na</p><p>prática, insubstituível tendo em vista sua utilidade; (ii) o segundo gênero</p><p>(racional) é o conhecimento lógico-formal (da matemática, física,</p><p>geometria), que tem por base ideias adequadas comuns a todas as pessoas</p><p>(ou acessíveis a elas) e que representam características gerais das coisas.</p><p>Diferente do conhecimento do primeiro gênero, este não apenas capta de</p><p>forma clara e distinta as ideias, mas seus nexos necessários (que ligam as</p><p>ideias entre si), as causas das coisas e seu encadeamento para alcançar a</p><p>compreensão de suas necessidades. Trata-se do conhecimento adequado,</p><p>ainda que não seja a forma mais adequada de conhecimento; (iii) o terceiro</p><p>gênero (intuitivo) decorre da ciência intuitiva, que é a visão das coisas que</p><p>procedem de sua origem. Este gênero de conhecimento procede da ideia</p><p>adequada dos atributos originais para a ideia adequada da essência das</p><p>coisas.</p><p>Os três gêneros de conhecimento referem-se ao conhecimento das</p><p>mesmas coisas e o que os diferencia é o nível de clareza e distinção. A</p><p>epistemologia de Espinosa pode ser considerada como um racionalismo</p><p>formal que expressa uma visão de que o conhecimento verdadeiro deve ser</p><p>alcançado no plano da intuição.</p><p>iv. Wilhelm Leibniz.</p><p>Em Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano, Leibniz (1980)</p><p>critica o empirismo de Locke para reintroduzir a discussão sobre o</p><p>inatismo. Procurando teorizar sobre a diferença estrutural entre investigação</p><p>científica e investigação filosófica ou metafísica, Leibniz procura conciliar</p><p>os conceitos de fim ou de causa final, que é a visão teleológica geral ou</p><p>finalista da realidade, com o conceito de substância, entendida como forma</p><p>substancial ou a visão ontológica da realidade. Como o efeito de algo é</p><p>mais bem conhecido a partir do conhecimento da causa, não é racional</p><p>introduzir uma inteligência como ordenadora das coisas para depois servir-</p><p>se apenas das propriedades da matéria para explicar os fenômenos. Nesse</p><p>sentido, Leibniz afirma que muitos efeitos naturais podem ser demonstrados</p><p>por um duplo caminho, ou seja, conservando as causas eficientes e as</p><p>causas finais. A chave para o conhecimento, portanto, consiste na rigorosa</p><p>distinção entre o âmbito propriamente filosófico e o âmbito especificamente</p><p>científico.</p><p>O saber filosófico indaga os princípios mais universais, mas não</p><p>apresenta nenhum conhecimento específico dos fenômenos naturais; o saber</p><p>científico capta a natureza pelo seu aspecto mais cognoscível, mas renuncia</p><p>a determinar os princípios últimos. Assim, extensão e movimento, figura e</p><p>número, são apenas determinações extrínsecas da realidade, que não</p><p>ultrapassa o plano das aparências, ou seja, do próprio fenômeno. Para</p><p>Leibniz (1980) é impossível encontrar os princípios da verdadeira unidade</p><p>da matéria tomada em si mesma. Portanto, é preciso resgatar o conceito de</p><p>substância. A substância tem em si mesma sua própria determinação e</p><p>perfeição essencial, ou seja, a sua própria finalidade interior.</p><p>A síntese entre o racionalismo e o finalismo depende de alguns</p><p>princípios. O primeiro e o principal deles é o princípio da razão, que</p><p>consiste em submeter toda explicação ou demonstração a duas exigências.</p><p>A primeira é o caráter não contraditório daquilo que é explicado ou</p><p>demonstrado; a segunda é de que a coisa existe realmente, ou seja, a razão</p><p>suficiente. O princípio da razão, portanto, assegura aqui que uma coisa só</p><p>pode existir necessariamente se além de não ser contraditória houver uma</p><p>causa que a faça existir.</p><p>Sobre a relação espaço-tempo, Leibniz (1980) argumenta que o espaço</p><p>não coincide com a natureza dos corpos. O espaço torna-se um fenômeno,</p><p>ou seja, um modo em que a realidade aparece para o sujeito. Espaço não é</p><p>outra coisa senão a ordem das coisas que coexistem ao mesmo tempo, algo</p><p>que nasce da relação das coisas entre si. O espaço não é a realidade</p><p>ontológica das coisas, mas o resultado da relação que os sujeitos captam</p><p>entre as coisas. Assim, como o tempo não é realidade existente, mas uma</p><p>resultante fenomênica que nasce da relação de coexistência das coisas,</p><p>também o tempo é a resultante fenomênica que deriva da sucessão das</p><p>coisas. Espaço e tempo não são realidades em si mesmas, mas fenômenos</p><p>consequentes à existência de outras realidades.</p><p>A partir da concepção de que a matéria é essencialmente atividade,</p><p>Leibniz desenvolve a noção de que o universo é composto por unidades de</p><p>força, ou seja, mônadas, que é a noção fundamental de sua metafísica. De</p><p>fato, em Os Princípios da Filosofia – Monadologia (Leibniz, 1979), em que</p><p>se encontram suas noventa questões, Leibniz introduz o conceito de</p><p>mônadas, que significa que a realidade é constituída de centros de força,</p><p>centros de atividade. “A Mônada (...) é apenas uma substância simples que</p><p>entra nos compostos. Simples, quer dizer: sem partes” (Leibniz, 1979, p.</p><p>105). Esses centros, que são substâncias simples (mônadas), são os</p><p>elementos de todas as coisas, de forma que se o sujeito conhece a natureza</p><p>da mônadas, também conhece a natureza de toda a realidade existente. A</p><p>mônada é princípio de força e atividade, mas essa atividade só é atividade</p><p>pura e absoluta na divindade, ou seja, no além da condição humana. Em</p><p>todas as outras mônadas, portanto, a atividade é limitada, ou seja,</p><p>imperfeita. E é nessa imperfeição que reside precisamente sua</p><p>materialidade. A matéria primeira da mônada consiste nas percepções</p><p>confusas que ela tem e esse é exatamente o aspecto passivo da própria</p><p>mônada.</p><p>As atividades fundamentais de toda mônada são: atividade da percepção</p><p>ou representação; atividade da apetição, ou seja, a tendência a sucessivas</p><p>percepções. Portanto, há uma diferença entre o simples perceber e o</p><p>perceber consciente. Toda mônada é a expressão de todas as outras, isto é,</p><p>do universo inteiro. Assim, em cada mônada há uma concorrência de todas</p><p>as coisas. Cada mônada representa todo universo, mas com diferentes</p><p>distinções das percepções: representa o mundo em perspectiva diferente e é</p><p>precisamente essa perspectiva que faz com que cada mônada seja diversa de</p><p>todas as outras. Nota-se aqui o conceito que depois será trabalhado em outra</p><p>perspectiva: o da unidade da diversidade. Em sua metafísica do pluralismo</p><p>monadológico, Leibniz (1979) considera que não há nada no intelecto que</p><p>não seja derivado dos sentidos (assim como havia dito Aristóteles), a</p><p>exceção do próprio intelecto. Porém, o intelecto e sua atividade existem a</p><p>priori, precedendo a experiência. Trata-se aqui de uma antecipação do que</p><p>viria ser a concepção kantiana do transcendental.</p><p>v. Thomas Hobbes.</p><p>Em Sobre o Corpo, escrito após Leviatã, Hobbes (2005) desenvolve seu</p><p>empirismo racionalista, que consiste em partir da natureza e voltar a ela</p><p>percorrendo o trajeto em que o real é reduzido a elementos simples para que</p><p>se possa proceder a uma dedução capaz de recompor as realidades</p><p>concretas. De início atomizado, o real é encontrado no plano da ideia. Para</p><p>Hobbes (2005), a filosofia tem por objeto os corpos, suas causas e suas</p><p>propriedades. Os corpos são aqueles (i) naturais inanimados, (ii) naturais</p><p>animados, como o homem, ou (iii) artificiais, como o Estado. Portanto, a</p><p>filosofia, que é a ciência dos corpos, divide-se em ciência dos corpos</p><p>naturais, físicos e humanos (filosofia da natureza) e ciência dos corpos</p><p>artificiais (filosofia política). Assim, tudo que é essência espiritual e o que</p><p>não é corpóreo deve ser excluído da filosofia. Em sua polêmica com</p><p>Descartes, Hobbes aceita a proposição “penso, logo existo”, mas a</p><p>questiona, colocando a questão: como não se pode conceber qualquer ato</p><p>sem seu sujeito, assim também não se pode conceber o pensamento sem</p><p>uma coisa que pense. Uma coisa que pensa é alguma coisa corporal.</p><p>Para Hobbes (2005), a lógica elabora as regras do modo correto de</p><p>pensar. Sendo os pensamentos fluídos, esses devem ser fixados com sinais</p><p>sensíveis que sejam capazes de reconduzir para o âmbito da mente os</p><p>pensamentos passados, bem como de registrar esses pensamentos e</p><p>sistematizá-los para posteriormente transmiti-los as outras pessoas. Desta</p><p>forma, os nomes das coisas são forjados pelo arbítrio.</p><p>Continuando sua polêmica com Descartes, Hobbes argumenta que o</p><p>raciocínio não é outra coisa senão uma reunião e encadeamento de nomes,</p><p>razão pela qual nada se pode concluir a respeito da natureza das coisas, mas</p><p>apenas no tocante a suas denominações. Deste modo, pela razão</p><p>simplesmente se reúnem os nomes das coisas segundo as convenções que,</p><p>de acordo com o pensamento, tem efeito no que se refere a suas</p><p>significações. Assim, o raciocínio depende do nome, o nome depende da</p><p>imaginação e a imaginação depende do movimento dos órgãos corporais:</p><p>dessa forma, o espírito não será outra coisa senão o movimento em certas</p><p>partes do corpo orgânico.</p><p>A razão não nasce (...) como a sensação e a memória, nem é adquirido</p><p>apenas pela experiência (...), mas obtida com esforço primeiro através de</p><p>uma adequada imposição de nomes e em segundo lugar através de um</p><p>método bom e ordenado de passar dos elementos, que são nome, a</p><p>asserções feitas por conexão de um deles com outro, e daí para os</p><p>silogismos, que são as conexões de uma asserção como outra até [que se</p><p>chegue] ao conhecimento de todas as consequências de nomes referentes ao</p><p>assunto em questão: é a isto que chamam ciência. E enquanto a sensação e</p><p>a memória apenas são conhecimento de fato, o que é uma coisa passada e</p><p>irrevogável, a ciência é o conhecimento das consequências e a dependência</p><p>de um fato em relação a outro (Hobbes, 1979, p. 30).</p><p>O nome, portanto, é apenas um sinal com o qual se pode suscitar na</p><p>mente os pensamentos que a ele remete. Os nomes não indicam conceitos</p><p>universais e não têm referência na realidade e nem significam a natureza</p><p>das coisas. Os nomes são apenas aquilo que se pensa da realidade.</p><p>A definição não expressa, dessa maneira, a essência da coisa, mas</p><p>apenas o significado dos vocábulos. Uma definição não é nada mais do que</p><p>o fornecimento do significado do termo usado e, portanto, as definições,</p><p>assim com os vocábulos, são arbitrárias. No entanto, da conexão dos nomes</p><p>nasce uma proposição, que é construída normalmente por um nome</p><p>concreto, que tem função de sujeito, e por um nome abstrato, que tem</p><p>função de predicado. As proposições primeiras e os axiomas, que</p><p>constituem proposições fundamentais, são fruto do árbitro daqueles que</p><p>foram os primeiros a estabelecer os nomes. As proposições primeiras nada</p><p>mais são do que definições ou parte de definições, e somente elas são</p><p>princípios de demonstração. Desta forma, raciocinar é conectar nomes,</p><p>definições e proposições em conformidade com as regras fixadas por</p><p>convenção.</p><p>Resumindo: a proposição é constituída pela adição de dois nomes; o</p><p>silogismo pela adição de duas proposições; a demonstração pela adição de</p><p>vários silogismos. Essa somatória conduz à ciência, que se define, portanto,</p><p>como conhecimento das consequências de uma palavra a outra. Os</p><p>conceitos, que no pensamento correspondem aos nomes comuns, são</p><p>imagens de objetos singulares, de forma que o conhecimento humano é</p><p>explicado a partir do entrechoque de corpos (de movimentos exteriores),</p><p>que, por meio dos sentidos, atinge o espírito associando-se para finalmente</p><p>organizar a arquitetônica científica.</p><p>Para Hobbes (2005), os pensamentos são representações ou aparências</p><p>dos objetos que estão fora dos sujeitos, sendo neles produzidos através da</p><p>experiência dos sentidos. A origem de todos os pensamentos é o que se</p><p>chama sentido, pois não há nenhuma concepção que não tenha sido</p><p>inicialmente gerada pelos sentidos. O resto</p><p>é derivado dessa origem. A</p><p>causa do sentido é o corpo externo ou objeto. A definição, desta forma, não</p><p>expressa a essência da coisa, mas aquilo que os sujeitos concebem da</p><p>essência da coisa, ou seja, a definição é uma redução lógica do fenômeno.</p><p>Considerando as propriedades daquilo que é dado pelos sentidos, a partir do</p><p>objeto, pode-se demonstrar suas causas. Assim, Hobbes procura explicar</p><p>toda realidade com base em dois elementos: primeiro, o corpo, entendido</p><p>como aquilo que não depende do pensamento; segundo, o movimento,</p><p>entendido pelo modo como é indicado. Este é o seu materialismo, ou seja,</p><p>seu corporeísmo mecanicista. Os fenômenos estão na origem do</p><p>conhecimento de todas as outras coisas, ou seja, a sensação provocada pela</p><p>relação com o fenômeno é o princípio do conhecimento daqueles mesmos</p><p>princípios de que toda ciência deriva: para a pesquisa das causas não se</p><p>pode começar por outro momento que não seja ela mesma. Hobbes trata,</p><p>então, de explicar a própria sensação com base no movimento, mais</p><p>precisamente com base no movimento gerado pelo sujeito sensível, que por</p><p>se turno reage com outro movimento, do qual surge a imagem ou</p><p>representação. Torna-se claro, portanto, que ao se estabelecer dado</p><p>movimento como causa antecedente, daí deve necessariamente surgir o</p><p>movimento consequente.</p><p>vi. John Locke.</p><p>O principal texto de Locke que trata da produção do conhecimento é o</p><p>Ensaio Acerca do Intelecto Humano (1978), em que ele propõe examinar o</p><p>próprio sujeito e não os objetos. Seu objetivo é conseguir estabelecer a</p><p>gênese, a natureza e o valor do conhecimento humano, especialmente</p><p>definindo os limites nos quais o intelecto pode e deve se mover e quais são</p><p>as fronteiras que ele pode ou não ultrapassar, ou seja, os âmbitos que estão</p><p>estruturalmente fechados para o intelecto humano. Seu argumento é de que</p><p>quando se está examinando os poderes do espírito e realizando uma</p><p>avaliação do que se pode esperar dele, deve-se lançar o pensamento ao</p><p>exercício de sua atividade. Nesse sentido, a questão central não é conhecer</p><p>todas as coisas, mas somente aquelas que dizem respeito à conduta. Em</p><p>outras palavras, para satisfazer as investigações da capacidade do espírito é</p><p>preciso fazer uma inspeção do intelecto e examinar o que ele pode ou não</p><p>fazer, ou seja, verificar para quais coisas o intelecto está apto. Tendo</p><p>descoberto a capacidade do intelecto, a condição da descoberta da extensão</p><p>do conhecimento e tendo também identificado o limite entre aquilo que é e</p><p>aquilo que não é compreensível, as pessoas podem aceitar melhor sua</p><p>ignorância sobre a realidade. O Ensaio Acerca do Intelecto Humano é,</p><p>portanto, uma análise dos limites das condições das possibilidades do</p><p>conhecimento humano.</p><p>O único objeto do pensamento humano é a ideia.</p><p>Desde que a mente em todos os seus pensamentos e raciocínios não tem outros</p><p>objetos imediatos exceto suas próprias ideias, e apenas isto é ou pode ser</p><p>contemplado, torna-se evidente que o conhecimento se relaciona apenas a elas.</p><p>(Locke, 1978, p. 267)</p><p>As ideias derivam da experiência e por isso a experiência é o limite</p><p>intransponível de todo conhecimento possível. Para Locke, a ideia</p><p>representa qualquer coisa que seja objeto do intelecto quando o sujeito</p><p>pensa, e que pode expressar tudo o que deve ser entendido por imagem,</p><p>noção, espécie e tudo o mais em torno do qual o espírito é utilizado para</p><p>pensar.</p><p>O conhecimento nada mais é que a percepção da conexão e acordo, ou desacordo</p><p>e rejeição, de quaisquer de nossas ideias. (...) onde se manifesta esta percepção</p><p>há conhecimento, e onde ela não se manifesta [os sujeitos se encontram]</p><p>distantes do conhecimento. (Locke, 1978, p. 267)</p><p>Três pontos indicam a tese de Locke: (i) não existem ideias nem</p><p>princípios inatos; (ii) nenhum intelecto humano é capaz de inventar ou criar</p><p>ideias, bem como não é capaz de destruir as ideias que existem; (iii) a</p><p>experiência constitui a fonte e ao mesmo tempo o limite ao qual o intelecto</p><p>permanece vinculado.</p><p>O intelecto pode combinar de vários modos as ideias que recebe, mas</p><p>não pode de forma alguma dar-se a si próprio as ideias simples nem</p><p>tampouco destruí-las. Qualquer pessoa que tente forjar em seu intelecto</p><p>uma ideia simples que não seja recebida de objetos externos através dos</p><p>sentidos ou da reflexão sobre as operações do seu espírito, encontrará nele</p><p>mesmo essa incapacidade. O intelecto, nesse sentido, recebe o material do</p><p>conhecimento unicamente da experiência. O espírito só pensa depois de ter</p><p>recebido esse material. Locke não encontra nenhuma razão para que o</p><p>espírito pense antes que os sentidos lhe tenham fornecido as ideias nas</p><p>quais pensar. Assim Locke faz a pergunta: de onde vem todo material da</p><p>razão e do conhecimento? E ele responde: da experiência. É nela que o</p><p>conhecimento se baseia e é dela que em última análise ele deriva.</p><p>Para Locke (1978) a experiência é de dois tipos. A que decorre de se</p><p>experimentar objetos sensíveis (do experimento dos objetos sensíveis) e</p><p>aquela que decorre das operações internas do espírito e das reflexões. Da</p><p>primeira forma deriva a ideia de sensação, dados por um único sentido ou</p><p>por vários sentidos. Da segunda, deriva a ideia de reflexão. No entanto, para</p><p>Locke, as ideias já se encontram na mente; contudo, fora da mente há algo</p><p>que tem o poder de iluminá-las, que tem esse poder de produzi-las. Ideia,</p><p>assim, é tudo que o espírito percebe em si mesmo ou, de outra forma, o que</p><p>é objeto imediato da percepção. Já o poder de produzir uma ideia é a</p><p>“qualidade” do sujeito no qual reside tal poder. Locke usa essa distinção</p><p>para poder resolver o problema das concepções de qualidades primárias e</p><p>secundárias. As qualidades primárias são reais, pertencem ao objeto e</p><p>sempre se encontram no objeto. As secundárias decorrem da condição do</p><p>sujeito de pensá-las. As qualidades primárias são objetivas, no sentido de</p><p>que as ideias correspondentes produzidas são cópias exatas destas</p><p>qualidades; já as secundárias são subjetivas, no sentido de que não se</p><p>assemelham às qualidades que estão nos objetos, embora sejam produzidos</p><p>por esses objetos. As qualidades primárias são aquelas do próprio objeto ao</p><p>passo que as secundárias derivam do encontro dos objetos com o sujeito,</p><p>mas tendo sempre a suas raízes no objeto.</p><p>Para Locke (1978), da mesma forma que as ideias das qualidades</p><p>originárias são produzidas pela mente, pode-se conceber também que sejam</p><p>produzidas as ideias das qualidades secundárias, isto é, através da ação de</p><p>partículas imperceptíveis sobre os sentidos. O espírito é passivo ao receber</p><p>as ideias simples, mas uma vez que tais ideias sejam recebidas, o espírito</p><p>tem o poder de operar de vários modos sobre elas, particularmente</p><p>combinando-as entre si e formando ideias complexas, bem como separando</p><p>algumas ideias de outras a que estão ligadas, formando ideias gerais.</p><p>As ideias complexas se distinguem em três grandes grupos. As ideias de</p><p>modo, que são aquelas que não contenham suposição de existir por si</p><p>mesmas; a ideia de substância, que decorre do fato destas ideias estarem</p><p>sempre juntas e existirem em um substrato do qual elas surgem; as ideias de</p><p>relações, que nascem do confronto das ideias em crise e da comparação que</p><p>o intelecto institui entre elas.</p><p>Sobre a concepção de ideia geral, Locke indica que a ideia a que se dá o</p><p>nome geral de substância não é outra coisa senão o sustentáculo suposto,</p><p>porém desconhecido, daquelas qualidades que se descobre que existem e</p><p>que não se pode imaginar que existam sem algo que as sustentem. Locke</p><p>não nega que existem substâncias, mas que é possível ter ideias claras e</p><p>distintas das substâncias considerando que o seu conhecimento está fora da</p><p>compreensão. Assim, a essência real é o próprio ser de uma coisa, ou seja, é</p><p>aquilo pelo qual a coisa é o que é (a estrutura ou constituição da coisa), de</p><p>que dependem suas qualidades sensíveis: “o que é, é, e é impossível para a</p><p>mesma coisa ser e não ser” (Locke, 1978, p. 267). Mas tal essência real</p><p>permanece desconhecida para os sujeitos. Aquilo que o sujeito conhece é,</p><p>ao contrário, a essência</p><p>nominal.</p><p>Para a metafísica que Locke critica, abstração é o processo pelo qual se</p><p>consegue captar a essência da coisa, extraindo-a através da progressiva</p><p>desmaterialização dos objetos pela mente. Como Locke nega essência real</p><p>ou a sua condição de cognoscibilidade, ele considera abstração como</p><p>separação de algumas partes de ideias complexas de outras partes.</p><p>Abstração é, portanto, uma parcialização de outras ideias mais complexas.</p><p>Para Locke (1978), as ideias constituem o material do conhecimento,</p><p>mas não são ainda conhecimento propriamente dito, no sentido de que as</p><p>ideias em si mesmas estão aquém do verdadeiro e falso. Não há</p><p>conhecimento sem a percepção de concordância entre ideias ou grupo de</p><p>ideias, pois só a percepção da concordância vai indicar o verdadeiro e o</p><p>falso.</p><p>O conhecimento nada mais é do que a percepção da conexão e da</p><p>concordância ou da discordância do contraste entre as ideias. A</p><p>concordância-discordância é reduzida, por Locke (1978, p. 267-268), a</p><p>quatro tipos ou espécies: identidade ou diversidade; relação; coexistência ou</p><p>conexão necessária; existência real: (i) identidade ou diversidade “é o</p><p>primeiro ato da mente (...) para perceber suas ideias”; (ii) “o tipo de acordo</p><p>ou desacordo que a mente percebe em quaisquer de suas ideias pode ser</p><p>dominado relativo, e nada é exceto a percepção da relação entre duas ideias</p><p>quaisquer, de qualquer tipo que sejam, sejam substâncias, modos, sejam</p><p>outras quaisquer”; (iii) “o terceiro tipo de acordo ou desacordo a ser</p><p>encontrado nas ideias, à qual a percepção da mente é concernente, constitui</p><p>a coexistência ou não coexistência no mesmo objeto, e isso pertence</p><p>particularmente às substâncias”; (iv) “o quarto tipo consiste na existência</p><p>real atual concordando com qualquer ideia”. Nas primeiras três espécies, o</p><p>problema se coloca entre a evidência imediata e as passagens</p><p>intermediárias, ou seja, a intervenção de outras ideias, que significa</p><p>precisamente o procedimento de raciocinar ou a razão. No caso da</p><p>existência real, não está em questão a concordância entre ideias, mas a</p><p>concordância entre a ideia e a realidade externa. E aqui volta a ser debatido</p><p>o conceito de verdade como a adequação ou a concordância entre a ideia e a</p><p>coisa, além da simples concordância entre as ideias. Nesse caso, não se trata</p><p>da simples correspondência das ideias com a existência das coisas, mas do</p><p>problema da conformidade das ideias em relação às coisas. Para tanto,</p><p>Locke considera três acepções de conhecimento (atual ou habitual, habitual</p><p>desdobrado), que se constituem em graus (intuitivo, demonstrativo ou</p><p>dependente de provas, sensitivo), sendo que o que não “corresponder a um</p><p>destes, por mais que seja dotado de segurança, é apenas fé ou opinião”</p><p>(Locke, 1978, p. 274).</p><p>Além dessas questões, Locke propõe ainda a questão do julgamento,</p><p>“que consiste em presumir que as coisas são assim, sem percebê-las”</p><p>(Locke, 1978, p. 322) e do juízo de probabilidade, em que a concordância</p><p>entre as ideias não é percebida de forma imediata ou mediatamente, mas</p><p>somente suposta. “As bases da probabilidade são duas: conformidade com a</p><p>própria experiência, ou o testemunho da experiência de outrem” (Locke,</p><p>1978, p. 324). Assim a probabilidade é apenas a aparência da concordância</p><p>ou discordância através da intervenção de provas em que a conexão das</p><p>ideias não é constante e nem imutável, ou ainda, não é percebida como tal,</p><p>mas aparece como tal, na maioria das vezes, para induzir o espírito a julgar</p><p>uma proposição verdadeira ou falsa.</p><p>A concepção de Locke tem sido referida como a que considera a mente</p><p>uma tábula rasa, uma folha de papel em branco em que são impressos</p><p>caracteres através dos mecanismos da experiência sensível. De fato, Locke</p><p>utiliza esta imagem para expressar sua tese sobre a origem empírica dos</p><p>conhecimentos e a negação do inatismo. Entretanto, esta concepção já se</p><p>encontrava em Ésquilo (dramaturgo da Grécia Antiga a quem se atribui a</p><p>paternidade da tragédia), Platão (a alma é um bloco de cera em que se</p><p>gravam as sensações e os pensamentos dos quais os sujeitos se lembram),</p><p>Aristóteles (o intelecto é uma pequena taboa em que nada está escrito),</p><p>sendo reproduzida entre os estóicos, entre outros.</p><p>vii. David Hume.</p><p>A teoria do conhecimento de Hume foi apresentada pela primeira vez</p><p>em Tratado da Natureza Humana. Hume retoma sua teoria em Investigação</p><p>sobre o Entendimento Humano (1980), pois considera que o primeiro texto</p><p>é muito juvenil. Hume considera que a base da observação do método do</p><p>raciocínio experimental, que foi importante para o conhecimento da</p><p>natureza física, precisa ser aplicada também como método de conhecimento</p><p>sobre a natureza humana, ou seja, também sobre o sujeito e não apenas</p><p>sobre o objeto. Para Hume, a ciência da natureza humana é mais importante</p><p>do que a física e as outras ciências. A única maneira de obter a investigação</p><p>filosófica é abandonar os métodos até então existentes e partir para o centro</p><p>da questão da ciência, que é a própria natureza humana. Hume divide os</p><p>conteúdos da mente humana em impressões e ideias: as impressões dizem</p><p>respeito à força com que as percepções se apresentam à mente; as ideias</p><p>dizem respeito à ordem e à sucessão temporal com que elas se apresentam.</p><p>Assim, toda percepção é sentida como impressão e pensada como ideia.</p><p>Desta maneira, a impressão é para Hume (1980) originária e a ideia é</p><p>dependente. As impressões simples precedem sempre às ideias</p><p>correspondentes ao passo que as ideias jamais correspondem às impressões</p><p>simples. Dessa forma, para Hume todas as ideias simples provêm de forma</p><p>mediata ou imediatamente das suas correspondentes impressões. Existem</p><p>impressões simples como, por exemplo, cor e temperatura, e impressões</p><p>complexas, como o sabor de uma fruta. As impressões complexas são dadas</p><p>imediatamente como tais, já as ideias complexas podem ser cópias das</p><p>impressões complexas, mas também podem ser fruto de combinações</p><p>múltiplas que ocorrem de vários modos ao intelecto. A consequência da</p><p>divisão das ideias em simples e complexas é que quando a imaginação</p><p>percebe uma diferença entre as ideias, ela pode realizar uma separação entre</p><p>elas e depois operar um conjunto de outras combinações.</p><p>Para Hume (1980), o intelecto humano só distingue aquilo que é</p><p>separado. Como a ideia é uma cópia de uma impressão e essa impressão</p><p>pode ser particular, também as ideias devem ser determinadas do mesmo</p><p>modo. Como, então, uma ideia particular pode ser transformada ou ser</p><p>usada com uma ideia geral? Para Hume, a semelhança entre as ideias das</p><p>coisas permite dar a elas o mesmo nome, prescindindo das diferenças de</p><p>grau de qualidade ou de quantidade que elas podem apresentar. Assim, o</p><p>sujeito adquire um hábito através do qual ao ouvir um nome de uma palavra</p><p>dada tem despertado na memória as ideias particulares que designam aquele</p><p>nome ou aquela palavra. Nesta concepção nominalista, a palavra desperta</p><p>uma ideia individual e juntamente com ela certo hábito: este hábito produz</p><p>todas as outras ideias individuais.</p><p>Todos os materiais do pensamento derivam da sensação interna ou externa; só a</p><p>mistura da composição destas depende da mente e da vontade (...); todas as</p><p>ideias ou percepções mais fracas são cópias de impressões ou de percepções</p><p>mais vivas. (Hume, 1980, p. 141)</p><p>Iluminando as ideias há “boas razões para remover todas as disputas que</p><p>possam surgir a respeito de sua natureza e realidade”. “A imaginação não</p><p>procede inteiramente ao acaso, mas há sempre uma conexão entre as</p><p>diferentes ideias que sucedem umas as outras” (Hume, 1980, p. 142).</p><p>“Todos os objetos da razão ou investigação humana podem ser divididos</p><p>naturalmente em duas espécies, a saber, relações de ideias e questões de</p><p>fato”. A primeira espécie pertence à toda “afirmação que seja</p><p>intuitivamente ou demonstrativamente certa”. As questões de fato são</p><p>conforme a realidade (Hume, 1980, p. 145). Assim, todos os raciocínios que</p><p>dizem respeito à realidade dos fatos parecem fundados na relação de causa</p><p>e efeito. E é apenas graças a essa relação que se pode ultrapassar a</p><p>evidência</p><p>da memória e dos sentidos. Todo efeito é uma ocorrência distinta</p><p>da sua causa. Não pode, por isso, ser descoberto na causa, e sua primeira</p><p>invenção ou concepção a priori deve ser inteiramente arbitrária. E mesmo</p><p>depois que ele foi sugerido, sua conjunção com a causa não parecerá menos</p><p>arbitrária, visto existirem sempre muitos outros efeitos que devem parecer,</p><p>à razão, tão coerentes e naturais quanto esse. Seria em vão, pois, que se</p><p>pretenda determinar “qualquer ocorrência particular ou inferir qualquer</p><p>causa ou efeito sem o auxílio da observação e da experiência” (Hume,</p><p>1980, p. 145).</p><p>Hume argumenta que quando o sujeito raciocina a priori e considera</p><p>apenas um objeto ou causa tal como ela se apresenta ao intelecto, fora de</p><p>qualquer observação, ele jamais pode sugerir a ideia de um objeto diferente</p><p>de como esse objeto seria a partir do seu efeito, e muito menos o sujeito</p><p>pode mostrar a conexão inseparável e inviolável entre a causa e o efeito.</p><p>Entretanto, Hume (1980, p. 147) argumenta que o conhecimento não está</p><p>apenas no estabelecimento da relação entre causa e efeito, sendo preciso</p><p>admitir que o objeto oculta muito bem os seus segredos, concedendo ao</p><p>sujeito apenas o conhecimento de algumas de suas qualidades superficiais,</p><p>enquanto, ao mesmo tempo, “nega a visão dos poderes e princípios de que</p><p>dependem inteiramente esses objetos”.</p><p>Para Hume (1980), todos os raciocínios podem ser divididos em duas</p><p>espécies: o demonstrativo ou aquele que se ocupa com as relações entre as</p><p>ideias e a moral, que diz respeito a questões de fato ou de existência. Os</p><p>argumentos relativos à existência se baseiam na relação de causa-efeito. O</p><p>conhecimento dessa relação deriva inteiramente da experiência e todas as</p><p>conclusões experimentais partem da suposição de que devir será conforme</p><p>o que foi. Nesse sentido, tentar demonstrar essa última suposição por meio</p><p>de argumentos prováveis, ou seja, argumentos relativos à existência, gera</p><p>um círculo vicioso, de forma que a tomar como assente (fundamentado) o</p><p>próprio ponto que está em debate.</p><p>A súmula das conclusões experimentais indica que de causas que</p><p>parecem semelhantes se esperam efeitos semelhantes. Entretanto, para</p><p>Hume (1980) parece evidente que se essa conclusão fosse deduzida apenas</p><p>por via racional, ela seria perfeita à vista do primeiro exemplo tanto quanto</p><p>depois de uma longa série de experiências. Porém, apenas depois de uma</p><p>longa sucessão de experiências uniformes de qualquer espécie é que se</p><p>adquire a firme confiança e certeza com respeito ao fato particular. O</p><p>princípio que permite ao sujeito inferir imediatamente a existência de um</p><p>objeto ou de um fato a partir da sua experiência Hume (1980, p. 151) chama</p><p>de “costume ou hábito”.</p><p>Para Hume (1980), embora as conclusões derivadas da experiência</p><p>transportem um pesquisador para além da sua memória e seus sentidos e</p><p>das certezas sobre os fatos ocorridos nos mais distantes lugares e nas mais</p><p>remotas épocas, é sempre necessário que algum fato esteja necessariamente</p><p>presente aos sentidos para daí o pesquisador começar a tirar suas</p><p>conclusões. Toda crença em uma questão de fato ou de existência real</p><p>“deriva de algum objeto presente à memória ou aos sentidos e de uma</p><p>conjunção habitual entre este objeto e algum outro” (Hume, 1980, p. 153).</p><p>Entretanto, é preciso conduzir as pesquisas de forma examinar com</p><p>exatidão a natureza das crenças e da conjunção habitual de que ela deriva</p><p>para poder encontrar finalmente objeto que se pretende conhecer.</p><p>viii. Imannuel Kant.</p><p>A grande questão kantiana era dar à metafísica um fundamento</p><p>científico, ou seja, a metafísica deveria ser reestruturada</p><p>metodologicamente para alcançar o rigor e a completude de resultados que</p><p>a física havia alcançado. Kant (1974; 1980) aceita a tese de que os</p><p>princípios metafísicos basilares são os da identidade, ao qual está</p><p>subordinado o da não contradição, e o da razão suficiente. No caso da razão</p><p>suficiente, Kant argumenta que todo ente contingente supõe uma razão</p><p>antecedente ou causa, porque se não houvesse esta razão seria necessário</p><p>concluir que tal ente é causado por sua própria existência, o que seria</p><p>impossível, porque, então, não seria mais contingente, mas um ser</p><p>necessário.</p><p>A esses dois princípios, Kant acrescenta outros dois: o princípio da</p><p>sucessão, segundo o qual só pode ocorrer mudança nas coisas admitindo-se</p><p>sua conexão recíproca; e o princípio da coexistência, segundo o qual toda</p><p>coisa só pode ter relações e conexões com as outras se admite uma</p><p>dependência comum de um princípio primeiro. Kant, então, argumenta que</p><p>a lógica formal tradicional não é uma lógica do real, porque fica restrita a</p><p>um jogo sutil formal e, portanto, não capta o ser: assim, o princípio de</p><p>identidade não está em condições de explicar o fundamento real das coisas.</p><p>Em um primeiro momento, Kant (2005; 2010) argumenta que o possível</p><p>não é apenas aquilo que não é contraditório, pois isso não é nada mais do</p><p>que a condição formal da possibilidade. O possível supõe que existem</p><p>elementos não contraditórios, que em certo sentido são como a matéria da</p><p>possibilidade. O necessário não é somente aquilo cujo contraditório é</p><p>formalmente impossível, mas também aquilo cujo contraditório é realmente</p><p>impossível. Para Kant é impossível que nada seja possível.</p><p>Kant pretende estabelecer a diferença entre conhecimento sensível e</p><p>conhecimento inteligível. O conhecimento sensível é constituído pela</p><p>receptividade do sujeito que sofre certa impressão pela presença do objeto.</p><p>Já conhecimento inteligível é a condição de representar aqueles aspectos</p><p>das coisas que por sua própria natureza não podem ser captados com os</p><p>sentidos. O conhecimento sensível é intuição, enquanto é conhecimento</p><p>imediato. Mas todo conhecimento sensível ocorre no espaço e no tempo,</p><p>porque não é possível se dar alguma representação sensível senão de forma</p><p>espacial e temporalmente determinada. Nesta concepção, ao invés de modo</p><p>de ser das coisas, espaço e tempo se configuram como modos como os</p><p>sujeitos captam sensivelmente as coisas. Para Kant, não é o sujeito que se</p><p>adequa ao objeto no conhecimento, mas ao contrário, é o objeto que se</p><p>adequa ao sujeito. Esta é a questão que está na sua Crítica da Razão Pura</p><p>(Kant, 1980b).</p><p>Na Crítica à Razão Pura, Kant argumenta que a natureza do</p><p>conhecimento científico, ou seja, a natureza do verdadeiro conhecimento,</p><p>consiste em ser uma síntese a priori e que, por isso, tudo está no processo de</p><p>descobrir qual é o fundamento que torna possível a síntese a priori.</p><p>O conhecimento científico, ou seja, o verdadeiro conhecimento, consta</p><p>fundamentalmente de proposições ou de juízos universais e necessários e,</p><p>além disso, incrementa continuamente o conhecer. Nesse sentido, dois</p><p>juízos indicam aquilo que vale à ciência. Um juízo consiste na conexão de</p><p>dois conceitos, dos quais um cumpre a função do sujeito (A) e outro a do</p><p>predicado (B). O conceito que atua com o predicado (B) pode estar contido</p><p>no conceito que atua como sujeito (A) e, portanto, pode ser extraído a partir</p><p>da análise do sujeito. Nesse sentido, o juízo é analítico (Kant, 1980b).</p><p>Porém, o conceito que funciona como predicado também pode não se</p><p>encontrar implícito no conceito que atua como sujeito e, no entanto, pode</p><p>lhe ser conveniente. Com esse sentido, o juízo é sintético, pois o predicado</p><p>acrescenta ao sujeito algo que não é extraído dele mesmo a partir da análise</p><p>pura. O juiz analítico é formulado a priori sem necessidade de recorrer a</p><p>experiência, porque expressa de modo diferente o mesmo conceito que se</p><p>expressa do sujeito. Trata-se assim de um juízo universal e necessário,</p><p>porém não é amplificador do ato de conhecer. A ciência se vale desses</p><p>juízos para esclarecer e explicar muitas coisas, mas não se baseia neles</p><p>quando pretende ampliar o conhecimento. Dessa forma, o juízo típico da</p><p>ciência não pode ser o juízo analítico a priori. Já o juízo sintético, amplia</p><p>sempre o conhecimento, visto que confere sempre algo novo do sujeito que</p><p>não estava contido implicitamente nele. Os juízos sintéticos mais comuns</p><p>são os formulados</p><p>com base na experiência, ou seja, são juízos</p><p>experimentais e, portanto, “ampliadores do conhecer”. Contudo, a ciência</p><p>não pode se basear nesses juízos, porque eles dependem da experiência e</p><p>são, assim, todos a posteriori e, como tais, não universais e necessárias. Do</p><p>juízo da experiência podem ser extraídas algumas generalizações, mas</p><p>nunca a universalidade e necessidade.</p><p>Kant (1980b) argumenta, então, que a ciência deve se basear em um</p><p>terceiro tipo de juízo que seja capaz de unir, ao mesmo tempo, o a priori</p><p>(universal e necessário) com o fecundo (sintético). Kant conclui, desta</p><p>forma, que os juízos constitutivos da ciência são os “sintéticos a priori”.</p><p>Posto isso, trata-se de descobrir qual é o “fundamento da síntese a priori”</p><p>para resolver os problemas relativos ao conhecimento humano, ou seja, para</p><p>estabelecer em geral o valor e os limites do conhecimento humano.</p><p>O juízo sintético a priori não toma por base o princípio da identidade e</p><p>também não se baseia na experiência. Já o juízo que deriva da experiência é</p><p>a posteriori e, portanto, nunca é universal nem necessário. A incógnita</p><p>postulada por Kant (1980) é: em que se apoia o intelecto quando acredita</p><p>encontrar fora do conceito um predicado estranho a ele, mas que, apesar</p><p>disso, acredita-se estar ele conjugado? A descoberta dessa incógnita é a</p><p>essência do criticismo. Esta consiste no método segundo o qual a razão</p><p>deve buscar na realidade, conforme o que ela mesma coloca, o que dela</p><p>deve aprender e da qual nada poderia saber por si mesma. O resultado é que</p><p>não é o sujeito que desvenda as leis do objeto, mas é este que, sendo</p><p>conhecido, se adapta às leis do sujeito que recepciona cognoscitivamente o</p><p>objeto. A intuição sensível não se regula pela natureza dos objetos: são os</p><p>objetos que se regulam pela natureza da condição intuitiva. Não é o</p><p>intelecto que deve se regular pelos objetos para extrair deles os conceitos,</p><p>mas são os objetos, enquanto objetos pensados, que se regulam pelo</p><p>conceito do intelecto e se coadunam com eles. Para Kant (1980b), o sujeito</p><p>só conhece das coisas a priori aquilo que ele próprio nela coloca. Portanto,</p><p>o fundamento do juízo sintético a priori é o próprio sujeito que sente e</p><p>pensa, ou seja, é o sujeito com as leis de sua sensibilidade e de seu</p><p>intelecto.</p><p>Assim, Kant chama de “transcendental” todo conhecimento que não se</p><p>relaciona diretamente com objeto, mas com o modo de conhecer o objeto</p><p>enquanto for possível a priori. São transcendentais, portanto, os “modos” ou</p><p>as “estruturas da sensibilidade e do intelecto”, estruturas estas apriorísticas,</p><p>já que pertencem ao sujeito e não ao objeto, mas sem as quais é impossível</p><p>qualquer experiência com os objetos. O transcendental é a condição de</p><p>cognoscibilidade dos objetos, pois estes são dados pelos sentidos, mas</p><p>pensados pelo intelecto: tal é a “estética transcendental”.</p><p>Kant expõe de forma detalhada a Tábua dos Juízos (Kant, 1980b, p. 69)</p><p>e a Tábua das Categorias (Kant, 1980b, p. 74) em que as categorias não são</p><p>conteúdos, mas formas sintetizadoras ou dedução transcendental: o</p><p>fundamento do objeto está no sujeito, ou seja, a relação necessária que</p><p>constitui a unidade do sujeito de experiência é a unidade sintética do</p><p>sujeito. As doze categorias kantianas são formas de sínteses do pensamento</p><p>que supõem uma unidade originária, a Consciência.</p><p>Em sua nova crítica, Kant (2002) argumenta que a razão humana não é</p><p>apenas razão teórica, isto é, razão capaz de conhecer, mas também razão</p><p>prática, ou seja, razão capaz de determinar a vontade e a ação moral,</p><p>possuindo, portanto, uma realidade objetiva. A razão prática pura indica que</p><p>o sujeito tem obrigação de se afastar da razão empiricamente condicionada</p><p>acreditando que essa forneça a ele, por si mesma, o fundamento exclusivo</p><p>de determinação da vontade. A razão prática pura é suficiente por si mesma</p><p>para mover a vontade e somente nesse caso podem existir princípios morais</p><p>válidos que têm um valor universal.</p><p>Os princípios práticos são divididos por Kant em dois grupos</p><p>“máximas” e “imperativos”. As máximas são princípios práticos que valem</p><p>apenas para aqueles que a propõe, mas não para todos os sujeitos, sendo,</p><p>portanto, subjetivos. Os imperativos são princípios práticos objetivos, ou</p><p>seja, válidos para todos os sujeitos. Os imperativos são mandamentais e</p><p>expressam a necessidade objetiva da ação. Kant (2002) divide os princípios</p><p>imperativos, por sua vez, em dois tipos: (i) imperativos hipotéticos, que</p><p>determinam a vontade sob a condição de que ela pretende alcançar</p><p>determinados objetivos; (ii) imperativos categóricos, que determinam a</p><p>vontade não com o fim de obter um efeito, mas como vontade que</p><p>prescinde dos efeitos que possa vir a obter. Os imperativos categóricos são</p><p>leis práticas que valem de forma incondicional para o ser racional. Os</p><p>imperativos categóricos são, portanto, leis morais universais e necessárias,</p><p>mas não como se fossem leis naturais. Como leis morais, elas não</p><p>dependem do conteúdo, pois ao se subordinarem ao conteúdo se reduzem</p><p>ao empirismo e ao utilitarismo. Em resumo, a essência do imperativo</p><p>categórico não está em ordenar o que se deve querer, mas sim como se deve</p><p>querer aquilo que se quer. A moralidade não é o que se faz, mas como se</p><p>faz aquilo que se faz (Kant, 2002). O imperativo categórico é, assim, uma</p><p>proposição na qual a vontade é determinada a priori objetivamente. Desta</p><p>forma os postulados não podem ser considerados como dogmas teóricos,</p><p>mas como pressupostos de um ponto de vista necessariamente prático.</p><p>Na terceira crítica, que é a crítica do juízo, Kant (1980c) se propõe a</p><p>tarefa de mediar os dois mundos, o da razão pura e o da prática, tentando</p><p>captar sua unidade, ainda que reafirmando que tal mediação não pode ser de</p><p>caráter cognoscitivo e nem teórico.</p><p>2.2 Conhecimento Verdadeiro: empirismo versus idealismo</p><p>Nos itens anteriores foram apresentadas algumas das mais importantes</p><p>concepções sobre o problema epistemológico, ou seja, sobre o problema da</p><p>produção do conhecimento, de Bacon a Kant, que permitiram reassegurar o</p><p>argumento anteriormente mencionado de que as concepções do empirismo</p><p>puro e idealismo puro se encontram em polos epistêmicos opostos. Várias</p><p>discussões mostradas aqui voltam ao debate pelos filósofos e cientistas.</p><p>Entretanto, a virada epistemológica histórica da superação da oposição</p><p>epistêmica tradicional se dá com Hegel e o idealismo fenomenológico da</p><p>lógica da ciência. É Hegel quem vai colocar a filosofia no caminho da</p><p>ciência da lógica, como se verá mais adiante. No momento, a questão da</p><p>produção do conhecimento pelos autores expostos indica que todo debate se</p><p>concentra na discussão entre empirismo (materialismo, realismo) e</p><p>idealismo (racionalismo), porém para além das concepções puras. Não se</p><p>trata, portanto, apenas de considerar se o real é criação da mente ou se a</p><p>mente é resultado do real, mas de colocar a ênfase epistemológica no</p><p>primado do objeto ou no primado do pensamento. Esta discussão (primazia</p><p>do real ou da ideia), como indicado no Capítulo 01 e exposto em mais</p><p>detalhes nos itens anteriores, está na origem de toda concepção</p><p>epistemológica, inclusive nas distintas Dimensões Epistemológicas</p><p>Contemporâneas Básicas que orientam as CHSSA-EOR.</p><p>Em outras palavras, toda concepção epistemológica contemporânea,</p><p>inclusive aquela que se apresenta nas Dimensões Epistemológicas Básicas,</p><p>deriva da história da filosofia sobre a produção do conhecimento</p><p>verdadeiro, ou seja, é a materialização histórica deste processo. Assim,</p><p>antes de prosseguir nessa discussão, uma vez exposta, de maneira simples, a</p><p>questão do método nesses filósofos, é necessário retomar o debate do</p><p>conceito de conhecimento verdadeiro, que é, ainda hoje, não apenas</p><p>polêmico como polissêmico, na medida em que comporta diferentes e</p><p>diversos significados. Mesmo a concepção de que o conhecimento</p><p>verdadeiro é o científico, em oposição ao de senso comum, cultural e</p><p>artístico, tem sido questionada, no sentido de que os conhecimentos de</p><p>senso comum, cultural e artístico são historicamente produzidos e, portanto,</p><p>têm relevância científica e filosófica. Este debate exclui o conhecimento</p><p>religioso, que ou é considerado como resultado de relações e experiências</p><p>sociais ou, como sugere Jung, arquétipos33, ou ainda como crenças, valores,</p><p>hábitos e, em extremo, imaginações fantásticas34.</p><p>Enquanto a disputa epistemológica se desenvolve no terreno empírico-</p><p>racional, também esta faz emergir outra disputa: fato social versus processo</p><p>constitutivo, ou seja, o fato-em-si como contendo ele mesmo a realidade (o</p><p>fato como resultado dado) versus o fato como forma em movimento</p><p>(desenvolvimento) de um processo. Em ambos os casos a questão do</p><p>processo social e histórico é objeto de considerações, ainda que de</p><p>diferentes perspectivas. No primeiro caso, o objeto é um resultado dado e o</p><p>pesquisador não tem como estabelecer outras relações além daquelas dadas</p><p>pelo objeto. No segundo caso, o objeto é a forma atual de um processo em</p><p>movimento e o pesquisador deve buscar encontrar as relações causais que o</p><p>constituíram e que nele permanecem. Nestes dois campos se encontram</p><p>realistas e idealistas com suas diferentes concepções. A concepção genérica</p><p>de que todo o fenômeno tem uma origem “social e histórica” é comum a</p><p>todas as dimensões epistemológicas, mas as concepções do que é “social e</p><p>histórico” e o modo de produção do conhecimento a partir daí são</p><p>essencialmente diferentes, como se verá na segunda parte desse estudo. Este</p><p>pode ser considerado, portanto, e apenas de forma bastante superficial, o</p><p>quadro primeiro no interior do qual se organizam as Dimensões</p><p>Epistemológicas. Em outras palavras, as Dimensões Epistemológicas, cada</p><p>uma a seu tempo e de acordo com seus propósitos, buscariam superar os</p><p>limites desta matriz fundante. Todavia, não é assim tão simples. Toda a</p><p>discussão sobre a produção do conhecimento está além de qualquer</p><p>simplificação. Portanto, apenas para efeito de argumentação considerar-se-á</p><p>esta redução explicativa.</p><p>Os polos extremos Empirismo e Idealismo constituem o que Bachelard</p><p>denomina de Polos Pré-Epistêmicos, aos quais se acrescentam os polos</p><p>Objeto Imediatamente Dado e Objeto Resultante de um Processo</p><p>Constitutivo. Este esquema, que toma por base o exposto anteriormente,</p><p>sugere que as Dimensões Epistemológicas Gerais35 movem-se no interior</p><p>destes polos de um modo não uniforme, ou seja, os polos constituem a</p><p>fronteira em torno da qual se organizam as Dimensões Epistemológicas</p><p>Gerais de um modo não linear e não circular. Da perspectiva da ciência e da</p><p>filosofia, para além dos limites fronteiriços há conhecimento válido e</p><p>socialmente aceito, mas não uma Epistéme stricto sensu. Nenhuma</p><p>Dimensão Epistemológica Geral pode ser diretamente ancorada no interior</p><p>destes polos ou em seus quadrantes, tal como esquematicamente exposto</p><p>adiante.</p><p>Figura 1. Esquema Simplificado</p><p>Fonte: JHFaria.</p><p>Neste momento, este esquema não tem qualquer outra pretensão senão,</p><p>como recurso expositivo meramente propedêutico, propor uma síntese</p><p>decorrente das derivações lógico-abstratas dos polos oferecidos pela</p><p>filosofia em seu histórico debate sobre como o “conhecimento verdadeiro”</p><p>é alcançado. Para este fim, também se considera, aqui, a concepção simples</p><p>de epistemologia enquanto estudo sobre como o conhecimento verdadeiro é</p><p>produzido.</p><p>2.3 Os Modos de Produção e Exposição do Conhecimento e sua</p><p>Relatividade</p><p>Considerando as concepções expostas, pode-se dizer que o</p><p>conhecimento considerado verdadeiro é relativo ao modo de produzi-lo e à</p><p>forma como é exposto. A relatividade, é importante destacar, não se refere</p><p>ao conhecimento em si (pode ser ou pode não ser), ao conhecimento</p><p>verdadeiro ou ao objeto ele mesmo, mas ao sistema de referência (método,</p><p>dimensão epistemológica) em que está ancorado. A observância do método</p><p>e dos procedimentos epistemológicos pretende ser a configuração da</p><p>garantia da produção epistêmica de conhecimento. Esse conhecimento</p><p>produzido, portanto, é relativo ao sistema de referência orientador.</p><p>Por exemplo, sabe-se, desde Einstein, que para se determinar o</p><p>momento exato da ocorrência de um fenômeno, como o nascimento de uma</p><p>estrela, é preciso conhecer a velocidade em que viaja a informação até</p><p>chegar ao observador. Contudo, para se determinar a velocidade, seria</p><p>necessário que o observador conhecesse a distância percorrida pela</p><p>informação desde o momento exato da ocorrência do evento. As condições</p><p>dadas revelam que a solução observável deste dilema é impossível. Einstein</p><p>considera, então, que não existe nenhuma velocidade superior à da luz</p><p>viajando no vácuo. Uma vez definida a velocidade da luz, ou seja, a</p><p>velocidade com que a informação viaja no tempo e no espaço, seria possível</p><p>conhecer o momento exato de ocorrência do fenômeno? Ainda não. Para</p><p>solucionar este dilema deve-se admitir que não há como verificar o</p><p>momento exato de ocorrência do evento, mas apenas defini-lo. Por quê?</p><p>Porque a verificação real depende de uma suposição, qual seja, a de que a</p><p>velocidade da luz é superior a todas as demais. Se não há como verificar,</p><p>mas apenas como definir, tal definição não tem como não ser considerada</p><p>arbitrária, pois decorre de uma lógica da física teórica. O que isto significa?</p><p>Significa que, na perspectiva da física teórica, quando se faz uma medição</p><p>supondo o elemento de medida não há como ocorrer contradições nos</p><p>resultados, pois estes apresentarão a arbitrariedade introduzida pelo próprio</p><p>pesquisador no sistema de medição (Reichenbach, 1970, p. 60). Das as</p><p>condições do objeto, dos instrumentos de observação e do conhecimento</p><p>disponível, contudo, este é o recurso mais adequado que está ao alcance do</p><p>pesquisador.</p><p>Para melhor ilustrar o argumento acerca da precisão ou da imprecisão no</p><p>uso de técnicas de pesquisas consideradas exatas e infalíveis, considere-se</p><p>que fosse possível, com a tecnologia existente, acompanhar os momentos</p><p>de manifestação real de eventos ocorridos a distância estelares. Estes</p><p>eventos são explosões que se dão em uma concentração de elementos que</p><p>em um instante de tensionamento extremo se expandem pela queima dos</p><p>componentes (como uma supernova, por exemplo). A explosão gera luz,</p><p>que viaja no espaço-tempo a uma velocidade constante (aproximadamente</p><p>300 milhões de metros por segundo). Trata-se de um evento eminentemente</p><p>físico em que de três variáveis duas estão supostas (velocidade e tempo), o</p><p>que permite calcular a terceira (distância). Esta condição é útil para expor o</p><p>argumento da relatividade epistemológica na produção do conhecimento,</p><p>qual seja, o conhecimento sobre um fenômeno é relativo à dimensão</p><p>epistemológica em que é produzido.</p><p>Apenas a título de ilustração, portanto, considere-se que duas explosões</p><p>(E1 e E2) ocorram simultaneamente (no mesmo tempo físico), em lugares</p><p>distantes uma da outra. A luminosidade por elas produzida viaja no espaço-</p><p>tempo (no vácuo) na velocidade da luz. Considere-se que dois observadores</p><p>O1 e O2 encontram-se em um mesmo momento temporal em diferentes</p><p>lugares entre si e entre os eventos E1 e E2. A Figura 2, adiante, procura</p><p>indicar didaticamente esta ilustração.</p><p>Figura 2. Observação de um Fenômeno em Diferentes Sistemas de</p><p>Referência</p><p>Fonte: JHFaria.</p><p>Legenda: O = Observador; E = Explosão ou Evento.</p><p>Para o Observador O1 a Explosão E2 parecerá anterior à E1, pois a</p><p>distância entre ele e E2 é menor do que entre ele e E1 (O1E2O2E1). Embora informações produzidas por E1 e E2 viajem no</p><p>espaço-tempo de forma constante, elas são percebidas em diferentes lugares</p><p>e em diferentes momentos por diferentes Observadores. O que se pode</p><p>considerar, aqui, é que “dois acontecimentos simultâneos num sistema de</p><p>referência não são simultâneos em outro sistema de referência” (Santos,</p><p>2009, p. 43).</p><p>Esta simples ilustração aponta para um paradoxo quântico ou uma</p><p>relatividade quântica, em que diferentes pontos (ou lugares) de observação</p><p>de um fenômeno imediato indicam diferentes percepções do real. Este</p><p>paradoxo é produzido no plano empírico imediato, na percepção reflexa.</p><p>Para enfrentar</p><p>este paradoxo, é necessária uma mediação, uma abstração.</p><p>De fato, quando é feita uma análise imediata de eventos iguais e</p><p>simultâneos, como no caso ilustrado, poder-se-ia supor que o resultado</p><p>observado devesse ser um evento real e único no mundo para qualquer</p><p>observador: esta é a crença metafísica de que somente pode existir uma</p><p>única, verdadeira e definitiva forma de conhecer a realidade por todo e</p><p>qualquer observador. Porém, cada observador tem uma leitura própria,</p><p>relativa a seu lugar de observação (não apenas físico, mas histórico e</p><p>social), de forma que a representação da realidade imediata (percepção</p><p>empírica) será de acordo com o lugar da observação. Um mesmo fenômeno</p><p>não é necessariamente representado de uma mesma forma por diferentes</p><p>observadores. Esta não é uma simples questão individual, mas histórica e</p><p>social.</p><p>De fato, na ilustração está exposto o argumento segundo o qual um</p><p>mesmo e simultâneo fenômeno observável pode ser percebido de formas</p><p>diferentes por distintos Observadores. Como se pode assegurar para os</p><p>Observadores que os fenômenos foram de fato simultâneos? Para este</p><p>fenômeno ser analisado para além de sua aparência imediata, é necessário</p><p>operar com abstrações. Este caso, a abstração adotada é a de que a</p><p>velocidade da luz, quando viaja no vácuo, é considerada constante no</p><p>espaço-tempo. Supondo-se a medida da velocidade e do tempo (300</p><p>milhões de metros por segundo no vácuo), pode-se determinar a distância</p><p>percorrida pelas informações e o momento em que ocorreram ambos os</p><p>eventos. Portanto, as informações provocadas pelos eventos (Explosões E1</p><p>e E2) chegam aos Observadores (O1 e O2) em momentos distintos não</p><p>porque ocorreram em momentos distintos, mas porque os Observadores se</p><p>encontram a distâncias diferentes entre si e em relação aos eventos</p><p>originais. Sem operar esta abstração do imediato não se pode superar a</p><p>relatividade do conhecimento sobre um fenômeno.</p><p>A origem do fenômeno e a velocidade que percorre a informação é a</p><p>mesma para cada observador, mas as diferenças de lugares da observação</p><p>resultam em diferentes representações do mesmo fenômeno. O</p><p>conhecimento sobre um objeto, portanto, é relativo ao sistema de referência</p><p>epistemológica, em sua expressão ontológica e metodológica, ou seja, ao</p><p>sistema propriamente humano e social. O paradoxo é exatamente o de que</p><p>se o fenômeno é único ou é o mesmo para todos os observadores, sua</p><p>análise ou representação independeria do lugar (social) do observador e do</p><p>próprio observador (da condição humana): qualquer fenômeno seria igual</p><p>para qualquer observador, em qualquer lugar e em qualquer condição</p><p>histórica e social. Em outras palavras, o conhecimento seria</p><p>epistemologicamente produzido abstraindo a condição ontológica do sujeito</p><p>e do objeto e padronizando o método segundo um procedimento ou uma</p><p>operação formal universalmente aceita. Esta condição somente seria correta</p><p>se o sujeito fosse passivo na relação com o objeto; se o conhecimento sobre</p><p>o objeto pudesse ser produzido sem o objeto; se o sujeito não fosse um ser</p><p>social (se fosse um indivíduo isolado em sua existência no mundo); se todo</p><p>conhecimento (realista ou idealista) não exigisse qualquer mediação, pela</p><p>consciência, sobre a relação com o objeto. O conhecimento não é relativo</p><p>em si mesmo (como postula a concepção relativista e a que assegura que</p><p>tudo pode ser ou pode não ser), mas em relação ao sistema de referência em</p><p>que é produzido e se expressa, ou seja, o conhecimento é concernente a um</p><p>fato, um fenômeno, uma ideia, que expressa uma relação segundo uma</p><p>referência ontológica, epistemológica e metodológica.</p><p>A relatividade do conhecimento, tendo em vista o sistema de referência,</p><p>pode ser explicada, por exemplo, pelo uso do GPS (Global Positioning</p><p>System, ou Sistema de Posicionamento Global). O GPS é um sistema que</p><p>se utiliza de satélites para orientar a localização e navegação. Quando um</p><p>satélite é encontrado, o GPS recebe as informações sobre onde estão</p><p>localizados outros satélites de maneira a “triangular” as informações, ou</p><p>seja, o GPS utiliza mecanismos da relatividade para determinar com a</p><p>precisão exigida as posições na Terra. Este sistema, disponível em aparelhos</p><p>celulares, “consulta” pelo menos 24 satélites ao redor da Terra para</p><p>determinar corretamente uma determinada posição. Consulta pelo menos 24</p><p>“observadores”. É a relatividade das diferentes posições dos satélites que</p><p>garante a precisão alcançada. Todos os cálculos e correções para gerar as</p><p>informações são relativos às posições e velocidades dos satélites, que se</p><p>deslocam a aproximadamente 14 mil km/h cada um. Se o sistema utilizasse</p><p>apenas uma referência (um satélite) as informações fornecidas seriam</p><p>imprecisas, já que dependeriam da posição relativa de um único</p><p>“observador”. É neste sentido que se pode argumentar que o mesmo ocorre</p><p>quando o pesquisador considera o conteúdo de uma entrevista como sendo</p><p>correspondente a um fato, isto é, quando afirma a concretude de um fato</p><p>com base em um observador (entrevista, documento, relatório, teoria,</p><p>observação, etc.). É também por conta da relatividade das informações</p><p>manifestas por uma fonte que (i) as técnicas quantitativas de pesquisa</p><p>exigem o cumprimento de procedimentos estatísticos que garantam a</p><p>representatividade da amostra segundo um dado nível de confiança e</p><p>margem de erro e que (ii) as técnicas qualitativas exigem a adoção de</p><p>procedimentos que garantam o esgotamento possível de (diferentes) fontes</p><p>de informação de vários observadores.</p><p>Estas ilustrações formal-abstratas apenas indicam que o fato de que o</p><p>uso de técnicas de pesquisa aplicadas a fenômenos sociais, na medida em</p><p>que não consideram o conjunto de fatores implicados em sua ocorrência e</p><p>tampouco o lugar (econômico, social, político, ideológico, cultural,</p><p>psicológico e emocional) em que se encontram os Observadores (os</p><p>próprios pesquisadores, os sujeitos da pesquisa, os entrevistados, os</p><p>formuladores de enunciados), não permitem avaliar com a exatidão</p><p>pretendida pela técnica o evento que pretende medir. As medidas são</p><p>relativas não apenas às técnicas como ao lugar dos observadores e, portanto,</p><p>apontam a média das objetividades e subjetividades e indicam apenas a</p><p>probabilidade fenomênica da certeza sobre a realidade do evento36. Nesse</p><p>sentido, é oportuno refletir sobre a relatividade do conhecimento produzido</p><p>a partir das técnicas quantitativas e/ou qualitativas.</p><p>Sobre as técnicas quantitativas. Ao criticar os chamados métodos</p><p>empíricos37, mais precisamente as técnicas estatísticas, Adorno (2001, p.</p><p>22-23) sustenta que esses métodos, cuja força de atração procede da</p><p>pretensão à objetividade, privilegiam a subjetividade, as atitudes, as formas</p><p>de comportamento dos sujeitos, cuja abstração se transforma em dados</p><p>estatísticos ou quantificáveis. Somente neste âmbito reduzido é que se</p><p>preserva sua especificidade. A objetividade da investigação empírica é uma</p><p>objetividade do método e não do objeto ou fato investigado. A partir do</p><p>tratamento estatístico se inferem enunciados que, de acordo com as leis da</p><p>probabilidade, são generalizados e independentes das variações</p><p>individuais. Os valores médios obtidos, por mais objetiva que seja sua</p><p>validade, não passam, na maioria das vezes, de enunciados objetivos sobre</p><p>os sujeitos, sobre como estes sujeitos percebem a realidade e a si mesmos.</p><p>Assim, a objetividade social, a totalidade das relações em cujo âmbito os</p><p>sujeitos atuam é algo que os métodos simplesmente empíricos</p><p>(questionários, entrevistas, etc.) ignoram ou consideram meramente</p><p>acidental: o peso das opiniões, atitudes e reações subjetivas é secundário.</p><p>Assim, todas as opiniões dos sujeitos entrevistados têm, virtualmente, o</p><p>mesmo valor e as diferenças individuais somente são captadas a partir de</p><p>estratificações genéricas (sexo, idade, formação, etc.). Em síntese, o</p><p>primário se converte em secundário, porém este deslocamento no interior</p><p>da técnica de investigação não é insignificante em relação ao investigado.</p><p>Desta forma, a coisidade da técnica e sua tendência em assegurar a</p><p>realidade dos</p><p>fatos são transferidas ao objeto, aos fatos estabelecidos</p><p>precisamente de forma subjetiva, como se estes fatos fossem, eles mesmos,</p><p>coisas em si e não coisificações. Esta técnica acaba por fetichizar o objeto</p><p>degenerando o mesmo em um objeto com poder sobrenatural de</p><p>representar a realidade pesquisada.</p><p>Dito de outra forma, os dados estatísticos obtidos empiricamente podem</p><p>transformar aquilo que pretendem expor em um fetiche do concreto,</p><p>fazendo desaparecer os sujeitos históricos reais e reduzindo-os a métricas</p><p>(medidas, probabilidades, margem, média, mediana, etc.) puramente</p><p>abstratas. Há procedimentos no processo de pesquisa que não têm como ser</p><p>definidos a priori e que são apenas identificados concretamente durante o</p><p>Ato Epistemológico. Isto não significa que as técnicas estatísticas sejam</p><p>inúteis ou inadequadas. Tampouco significa ausência de rigor na definição</p><p>de seus procedimentos. Significa a recusa à imposição de procedimentos</p><p>apriorísticos aos processos de investigação e, portanto, a busca da garantia</p><p>da observância da condição fundamental de não tornar tais procedimentos</p><p>um obstáculo ao Ato Epistemológico criativo, crítico, capaz de romper</p><p>teorias, conceitos e concepções existentes.</p><p>As medidas quantificáveis ou ordenáveis dependem essencialmente do</p><p>lugar do proponente, dos termos da medida, do lugar do analista (do</p><p>intérprete), da forma como se pretende coletar a informação (questionário,</p><p>questões, escalas, etc.) e do lugar da origem da informação (qual população,</p><p>tamanho da amostra, etc.). Estes são procedimentos de escolha subjetiva. É,</p><p>portanto, falsa a concepção de objetividade absoluta e infalível de métodos</p><p>quantitativos ou quantificáveis. Há apenas uma objetivação relativa e</p><p>parcial do fenômeno estudado através do recurso do método quantitativo</p><p>que se apresenta no resultado da medida. Tal objetivação, contudo, não se</p><p>encontra nem na proposição do modelo e nem na análise dos resultados. Se</p><p>nem nas chamadas ciências da natureza e ciências exatas existem medidas</p><p>de exatidão real, mas apenas formal ou definida arbitrariamente no sistema</p><p>de medição, por que se exige que as ciências humanas e sociais tenham este</p><p>atributo de exatidão e infalibilidade quantitativamente objetivada para</p><p>poderem ser reconhecidas como ciências? Não estaria esta exigência</p><p>sustentada na separação das ciências em naturais e humanas, como se o</p><p>natural não fosse humano e o humano não fosse natural? Tal questão não</p><p>seria solucionada se a ênfase recaísse sobre o objeto e não sobre a tipologia</p><p>abstrata de ciência?</p><p>Ao acusarem os métodos qualitativos de imprecisos, carregados de</p><p>subjetividade e manipuláveis, os defensores da exclusividade dos métodos</p><p>quantitativos como efetivamente científicos, negam que suas práticas</p><p>padeçam de uma mesma condição. Entretanto, os critérios de medida, as</p><p>variáveis escolhidas, as condições propostas para as medições, entre outros</p><p>fatores, não constituem pressupostos arbitrários e, em consequência,</p><p>predefinições subjetivas?</p><p>Nenhum instrumento de medida estatística tem magnitude independente.</p><p>Em quaisquer circunstâncias é necessário estabelecer os valores ou</p><p>parâmetros de referência. Ao definir parâmetros para medir a realidade, a</p><p>medida somente se realizará de acordo com os parâmetros previamente</p><p>escolhidos. Ao fazer esta operação, o pesquisador atribui ao objeto</p><p>propriedades que este não necessariamente possui, pois lhes foram</p><p>formalmente impostas pelo sistema de avaliação no qual devem se</p><p>expressar. Desta forma, o objeto que entra no sistema de medição não é o</p><p>mesmo que dele sai, pois as expressões de suas propriedades ou qualidades</p><p>são reduzidas aos parâmetros externamente introduzidos para medi-lo. Este</p><p>procedimento pode sugerir que o que se vai encontrar no conteúdo do</p><p>objeto não pertence ao objeto em si, mas ao sistema de medida. Em outras</p><p>palavras, o sujeito pesquisador impõe ao objeto a forma de conhecê-lo,</p><p>submetendo tal objeto a uma avaliação na qual este não pode se manifestar</p><p>tal como é, mas apenas tal como deve ser analisado segundo uma definição</p><p>apriorística.</p><p>O método quantitativo, defendido pelo rigor formal de suas medições,</p><p>introduz no processo de pesquisa um problema fundamental: se a forma de</p><p>conhecer o real depende de uma intervenção arbitrária do pesquisador em</p><p>dado sistema de referência, como garantir que a realidade expressa não seja</p><p>apenas o resultado previamente contido nas possibilidades ou</p><p>probabilidades já oferecidas pelo tal sistema de referência? Esta questão</p><p>não é tão simples como possa parecer. A simples medição de um objeto</p><p>pode ser expressa de formas diversas dependendo o sistema de referência.</p><p>Por exemplo: um objeto que mede 01 metro em um sistema de referência,</p><p>mede 39,370113 polegadas em outro sistema, 3,28084 pés em um terceiro</p><p>sistema e 1,093614 jardas em um quarto sistema. O objeto é o mesmo, mas</p><p>as avaliações sobre sua propriedade e tamanho são expressas de formas</p><p>diversas. Se o sujeito define de antemão qual o sistema de referência usará,</p><p>o objeto somente poderá se expressar naquele sistema. Mesmo que as</p><p>medidas possam ser convertidas, o problema central continua o mesmo. Isto</p><p>significa que ao avaliar um objeto quantitativamente o sujeito pesquisador</p><p>deve admitir que a expressão de sua medida é abstrata e não se refere ao</p><p>objeto em si, mas à técnica utilizada e que sua expressão somente pode ser</p><p>tal como foi apropriada através do sistema de referência arbitrariamente</p><p>escolhido.</p><p>Sobre as técnicas qualitativas. Problema semelhante ocorre igualmente</p><p>na produção do conhecimento a partir das técnicas ditas qualitativas, como</p><p>entrevistas, documentos, depoimentos, observação, relatórios, recursos</p><p>midiáticos, entre outras formas de enunciados. Os enunciados referem-se à</p><p>perspectiva não do sujeito pesquisador sobre o fenômeno em análise, mas</p><p>do enunciador. Há, portanto, um intermediário entre o fenômeno e o sujeito</p><p>que pretende compreendê-lo, que é o sujeito enunciador: o entrevistado, o</p><p>depoente, o autor do documento, o observador, etc. O sujeito enunciador</p><p>opera uma mediação entre o fenômeno relatado e sua exposição, como a</p><p>linguística tem demonstrado (Volóchinov, 2018; Brait, 2005; Faraco, Tezza.</p><p>Castro, 1996). Como a apreensão do real pelo sujeito é constituída pela</p><p>mediação do pensamento, os enunciados podem representar uma dupla</p><p>mediação: a do enunciador sobre o fenômeno real e a do pesquisador sobre</p><p>a interpretação feita pelo enunciador acerca do fenômeno real. Vários são</p><p>os procedimentos utilizados para que esta dupla mediação seja reduzida,</p><p>mas em todas elas há um sistema de referência que serve de pressuposto da</p><p>validação. Contudo, este procedimento desencadeia o argumento de que as</p><p>técnicas qualitativas, por serem subjetivas e, em vista disto, não exatas, não</p><p>são científicas, pois não têm como passar por um teste seguro de validação.</p><p>Tal argumento, originário dos tecnólogos quantitativistas, é tão abstrato</p><p>quanto os argumentos que estes defendem sobre a objetividade das técnicas</p><p>quantitativas.</p><p>As pesquisas realizadas a partir de técnicas qualitativas têm limites</p><p>semelhantes àquelas realizadas a partir de técnicas quantitativas. Questões</p><p>de entrevistas pré-definidas pelo pesquisador, por exemplo, tendem a dirigir</p><p>o conteúdo das respostas. Análises de conteúdos que, através de softwares,</p><p>contam a incidência de palavras visando quantificar as respostas, tendem a</p><p>retirá-las do contexto do significante e do sentido, ao atribuir às palavras</p><p>significados idealizados. Do mesmo modo, interpretações sobre o que o</p><p>texto diz ou quer dizer, podem ignorar a condição dialógica dos falantes</p><p>bem como os sujeitos da fala não presentes diretamente no texto.</p><p>Sempre que o sistema de referência se impõe como uma condição da</p><p>análise e não como meio de acesso ao fenômeno, sempre que a primazia for</p><p>das técnicas sobre o objeto, quem determina a avaliação, a interpretação, a</p><p>análise e as conclusões, é o sistema de referência e não o objeto. Todavia, a</p><p>intervenção do sujeito sobre o objeto tendo por conduta o sistema de</p><p>referência previamente definido, afeta</p><p>histórico. Porque, também, há um momento em que é necessário tomar a</p><p>atitude de publicar o resultado das pesquisas, embora se reconheça que</p><p>existem limitações de conteúdo. Publicar, neste caso, é apenas uma forma</p><p>de contribuir para com a curiosidade, o interesse e a demanda dos alunos e</p><p>professores. Um texto jamais está definitivamente pronto. Há um momento</p><p>em que ele está em condições de publicação e depois de materializada a</p><p>exposição, o texto adquire sua própria e infindável realização.</p><p>Não sendo epistemólogo, não me sinto autorizado a publicar um texto</p><p>de epistemologia. Mas, ao mesmo tempo, tenho dedicado muitos anos ao</p><p>estudo da Epistemologia e considero que tenho alguma obrigação</p><p>intelectual para tratar deste tema, haja vista a carência deste conhecimento</p><p>no campo das Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas – CHSSA,</p><p>com ênfase nos Estudos Organizacionais - EOR. Neste sentido, o que agora</p><p>despretensiosamente publico não é um texto “de epistemologia”, mas</p><p>“sobre epistemologia”. Mais que isto, por uma questão de honestidade</p><p>intelectual, este é um estudo introdutório ao tema da ontologia,</p><p>epistemologia e metodologia, dirigido a um campo específico e circunscrito</p><p>de pesquisa: CHSSA-EOR (administração, antropologia, comunicação,</p><p>economia, engenharia, direito, filosofia, geografia humana, sociologia,</p><p>política, pedagogia, psicologia, serviço social, turismo, e todas as pesquisas</p><p>das áreas de saúde, biologia, ciências exatas e naturais que têm em seu</p><p>campo de investigação as relações sociais e humanas). Mas é preciso</p><p>reconhecer que inobstante este estudo pretenda ser uma introdução, ele trata</p><p>de um tema bastante complexo, propondo-se a uma tarefa igualmente</p><p>difícil, que é a de torná-lo acessível para a maioria dos pesquisadores.</p><p>Alguns leitores poderão dizer que existe muito mais a ser discutido do</p><p>que o que aqui está exposto. Que, por exemplo, o Capítulo sobre Hegel</p><p>(Bachelard, Weber, Popper, Kosik) não tem profundidade suficiente para</p><p>discutir Hegel (Bachelard, Weber, etc.). Outros poderão dizer que os</p><p>capítulos sobre fenomenologia, materialismo histórico, positivismo,</p><p>pragmatismo, estruturalismo, funcionalismo, etc., não abordam em</p><p>profundidade todas as questões importantes. São observações relativamente</p><p>corretas. Todavia, sendo um livro introdutório sobre Epistemologia em</p><p>CHSSA-EOR, dirigido a quem está sendo apresentado ao tema e não tem</p><p>ainda intimidade com os problemas inerentes à Epistemologia, não pode</p><p>pretender ser um livro para epistemólogos ou para hegelianos, para</p><p>popperianos, para fenomenólogos, positivistas, materialistas históricos,</p><p>estruturalistas, etc. Há uma vasta literatura sobre cada um destes tópicos.</p><p>Este é apenas um livro para apresentar aos iniciantes as questões centrais da</p><p>Epistemologia. Assim, ao tratar de autores fundamentais para cada</p><p>Dimensão ou suas variantes, a pretensão é apenas organizar a superfície de</p><p>concepções complexas e profundas que estes autores desenvolveram. A</p><p>rigor, cada autor mereceria estudos especificamente dedicados (alguns estão</p><p>indicados neste estudo).</p><p>Todos os temas e autores são aqui expostos para estabelecer as bases de</p><p>partida para estudos mais bem elaborados. Esta é, em síntese, a finalidade</p><p>de um estudo introdutório. Mas esta base de partida, que aqui se apresenta,</p><p>não é um manual ou um texto simples e fácil que não contém qualquer</p><p>profundidade e que não tem nada de original a oferecer. Ao contrário. Este</p><p>estudo pretende entregar uma proposta original, conceitos originais,</p><p>abordagens originais, lógica expositiva original. O que isto quer dizer? Que</p><p>não é pelo fato de ser um estudo introdutório que este livro foge das</p><p>polêmicas que lança, que deixa de fazer proposições inovadoras e de</p><p>provocar divergências. Tampouco se acomoda na exposição de modelos,</p><p>que mais parecem horóscopos epistêmicos com seus signos fixos e seus</p><p>ascendentes. Também não dá espaço ao relativismo, que transforma a</p><p>epistemologia em uma rosca sem fim, que todos conseguem imaginar onde</p><p>começa, mas jamais saberão por que vai e para onde vai.</p><p>Este estudo não é um prontuário, um vade-mécum sobre “como</p><p>escolher” uma dada epistemologia, sobre “como adotar” uma epistemologia</p><p>na pesquisa, sobre quais são os procedimentos ou caminhos para usar ou</p><p>aplicar roteiros epistemológicos práticos. Este estudo não é a produção de</p><p>uma substância abstrata que depois deve ser a origem das coisas concretas.</p><p>Este é um estudo que pretende discutir epistemologia (i) propondo um novo</p><p>conceito e uma nova teoria sobre Epistemologia tomando por referência seu</p><p>desenvolvimento histórico; (ii) propondo o conceito de Ato Epistemológico</p><p>(que contempla as concepções de Tempo Epistemológico ou Tempo do Ato</p><p>Epistemológico e de Malogro/Sucesso Epistemológico); (iii) propondo o</p><p>conceito de Matriz Epistemológica Histórica e de Dimensões</p><p>Epistemológicas Contemporâneas Básicas que estão na origem dos estudos</p><p>nas CHSSA-EOR; (iv) propondo uma Ontologia e Epistemologia Crítica do</p><p>Concreto. Os dois primeiros conceitos fundamentam os argumentos</p><p>analíticos, o terceiro constitui a proposta analítica desse estudo e o quarto a</p><p>proposta de uma Ontologia e Epistemologia Crítica do Concreto em</p><p>CHSSA-EOR. E isso, objetivamente, não é uma tarefa simples e tranquila.</p><p>Exatamente por ser uma proposição que se contrapõe ao mainstream, é que</p><p>esta é também uma proposta polêmica desde sua gênese. Mas, se não for</p><p>para polemizar, também não vale a pena ser escrito e publicado.</p><p>Este estudo tratará da epistemologia como o estudo sobre como o</p><p>conhecimento é produzido, sobre sua prática objetiva, sobre o Ato</p><p>Epistemológico. Não dará uma resposta às dúvidas angustiantes dos</p><p>pesquisadores de primeira ou segunda viagens, mas encaminhará uma</p><p>reflexão crítica sobre elas. Esta reflexão crítica difere das tradicionais</p><p>exatamente por se afastar da lógica abstrata do pensamento em si para</p><p>abordar o terreno da práxis, da produção do conhecimento que se</p><p>materializa no que conceituo como Ato Epistemológico. Este texto não vai</p><p>dar ênfase a modelos e paradigmas, a circularidades, a abstrações</p><p>substantivas, a sistemas ou a mandamentos. Neste sentido, a forma</p><p>adequada de iniciar a discussão sobre epistemologia é exatamente partir de</p><p>uma perspectiva histórica para esclarecer o que é conhecimento e como é</p><p>produzido. Para efeitos destas reflexões, contudo, não será tratado o</p><p>conhecimento em geral, tema mais apropriado aos epistemólogos, mas o</p><p>conhecimento científico, filosófico e tecnológico no campo das CHSSA-</p><p>EOR. Trata-se, portanto, de esclarecer os nexos causais que constituem as</p><p>Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas em CHSSA-EOR.</p><p>A discussão sobre o que é conhecimento é tão antiga quanto a própria</p><p>filosofia. Existe uma única forma de conhecimento? Pode-se conhecer um</p><p>objeto em sua totalidade? O “quanto” e “como” conhecer uma coisa é, de</p><p>fato, conhecer esta coisa? Pode-se, por exemplo, perguntar a alguém se</p><p>conhece uma determinada espécie de pássaro comum nas cidades. Esta</p><p>pessoa responde afirmativamente. Mas, como ela conhece? Por distinguir</p><p>este de outros pássaros? Por vê-lo com frequência nas ruas? Por ser um</p><p>biólogo, um veterinário ou um zoólogo? E quando a questão tem por objeto</p><p>de estudo uma realidade não física, como, por exemplo, “competência”,</p><p>“comprometimento”, “reconhecimento social”, “relações de poder”? E</p><p>quando o objeto é precisamente o que é conhecimento? Neste caso, não</p><p>basta estudar apenas o que é conhecimento, mas como o conhecimento é</p><p>produzido. O desafio epistemológico histórico é estudar o “como” não em</p><p>seus aspectos formais, mas enquanto método, enquanto procedimento</p><p>ontológico e epistemológico. Em outras palavras, é um desafio que não é</p><p>dado apenas pela necessidade de se definir o que é conhecimento, mas para</p><p>compreender o processo ontológico que envolve ao mesmo tempo o ser</p><p>social e o objeto material do conhecimento e, portanto, os métodos de</p><p>acesso a este objeto, a produção dos conceitos e das teorias. Não é difícil</p><p>perceber, mesmo no simples exemplo do pássaro, que existem diferentes</p><p>perspectivas ontológicas,</p><p>a estrutura deste e coloca ambos,</p><p>sujeito e objeto, em um campo de conflito, pois se o objeto resiste a se</p><p>revelar ao sujeito na forma que este lhe impõe, o sujeito tende a não traduzir</p><p>a resistência como propriedade do objeto, mas como necessidade de ajuste</p><p>do modelo de medida e/ou de interpretação.</p><p>Sobre a relatividade do conhecimento produzido e das técnicas de</p><p>produção desse conhecimento, Sousa Santos (2009, p. 27-28) critica a</p><p>concepção segundo a qual conhecer significa quantificar, ou seja, para ele o</p><p>rigor científico não pode ser aferido pelo rigor das medições, pois este</p><p>procedimento faz com que as qualidades intrínsecas do objeto sejam</p><p>desqualificadas, sendo colocadas em seu lugar as quantidades que podem</p><p>traduzir. Entretanto, é preciso observar, em contraposição, que conhecer</p><p>tampouco significa qualificar. A questão não pode ser reduzida ao confronto</p><p>quantificar-qualificar, mas ao método e, a partir deste, às técnicas em seus</p><p>sistemas de referência.</p><p>Rigorosamente, com a ênfase sendo colocada nas técnicas, o objeto real</p><p>desaparece e deixa em seu lugar um objeto criado, abstrato, fazendo com</p><p>que a relação do sujeito com o objeto se transforme em uma relação do</p><p>sujeito com seu sistema de referência ou, dito de outra forma, do sujeito da</p><p>interpretação com o sujeito da proposição. A consistência que daí resulta é a</p><p>da funcionalidade da técnica e não a da apropriação do concreto pelo</p><p>sujeito. Deste modo, toda a discussão sobre os resultados da pesquisa se</p><p>concentra nos debates sobre os sistemas de referência e não nos debates</p><p>metodológicos, epistemológicos e ontológicos. Com isto, valoriza-se mais o</p><p>procedimento da elaboração formal do que a produção do conhecimento</p><p>propriamente dita. Como sugere Ladrière (1978), se os resultados da</p><p>pesquisa se apoiam no rigor das medições em que se expressam, o rigor da</p><p>medição carece, ele mesmo, de fundamento.</p><p>Este problema não invalida o uso de sistemas de referência, apenas</p><p>explicita que qualquer que seja a técnica, qualitativa ou quantitativa, o</p><p>conhecimento sobre o objeto é relativo ao sistema escolhido. Não há</p><p>nenhuma medição infalível, inquestionável, objetiva, isenta de valores e</p><p>neutra. Neste sentido, é que se pode argumentar que o uso de determinadas</p><p>técnicas de avaliação ou medição não pode indicar a que tipo de ciência se</p><p>refere, pois estas respondem ao tipo do objeto pesquisado e não da arbitrária</p><p>classificação da ciência em natural e humana. Em síntese, não é o tipo de</p><p>ciência, natural ou humana, que reclama a técnica (o sistema de referência),</p><p>o método e a epistemologia. Como já ensinava Hegel (2017), o método não</p><p>é distinto de seu objeto e conteúdo, pois o próprio método é o conteúdo em</p><p>si. É, portanto, o objeto, com suas propriedades, elementos constitutivos e</p><p>qualidades, que indica a definição da melhor técnica (sistema de referência)</p><p>a ser utilizada para analisá-lo de maneira mais efetiva em dada Dimensão</p><p>Epistemológica. Assim, a utilização de múltiplas técnicas de pesquisa, se</p><p>não elimina a falibilidade, ao menos oferece a possibilidade de maior</p><p>aproximação do pesquisador com o objeto empírico de sua pesquisa de uma</p><p>perspectiva epistemológica e ontológica.</p><p>Este argumento não se detém no primarismo empirista. O que se</p><p>questiona, aqui, é a exortação à perfeição da técnica de pesquisa que, pelo</p><p>“ritualismo dos procedimentos” que configuram uma caricatura de rigor e</p><p>do determinismo metodológico, acaba por promover um “deslocamento da</p><p>vigilância epistemológica” (Bourdieu et al., 1999, p. 19), apostando na</p><p>infalibilidade e na exatidão das técnicas de pesquisa com as quais o</p><p>pesquisador comparece diante do tribunal acadêmico dos avaliadores. Com</p><p>isto, a produção concreta do conhecimento é subsumida ao determinismo</p><p>técnico ou metodológico (em sua acepção comum, enquanto um conjunto</p><p>de técnicas ou tecnologias de investigação acadêmica). Desta forma, é</p><p>oportuno considerar o problema do conhecimento e da lógica formal e</p><p>dialética de uma perspectiva mais elaborada, para o que se recorrerá,</p><p>adiante, à concepção de Lefebvre.</p><p>2.4 Lógica Formal e Lógica Dialética: a concepção de Henri</p><p>Lefebvre</p><p>Conforme Carlos Nelson Coutinho (1995), uma das questões mais</p><p>importantes da filosofia e da ciência é a relação entre a lógica e a realidade.</p><p>Esta questão, como já indicado, emerge com mais intensidade na história da</p><p>epistemologia na discussão levada a efeito por Aristóteles em sua análise da</p><p>filosofia, especialmente em sua discussão com Sócrates e Platão. O</p><p>argumento, desde então, é o de que a lógica formal é exata (como na</p><p>matemática ou na física). Com isto, parecia que todo debate ontológico,</p><p>epistemológico e metodológico estava afastado da lógica formal por conta</p><p>de esta lógica se apresentar como essencialmente coerente,</p><p>independentemente do conteúdo do objeto. Para a lógica formal clássica</p><p>todo enunciado apoia-se em um conjunto de regras dotadas de validade</p><p>universal. A questão ontológica e epistemológica passa a ser: em que</p><p>medida as regras formais abstratas são aplicadas à realidade? Em outras</p><p>palavras: em que medida os princípios que são válidos para a lógica formal</p><p>podem ser aplicados aos movimentos internos do objeto?</p><p>Da perspectiva da lógica aristotélica, uma igualdade é definitiva e não</p><p>admite controvérsia, ou seja, não admite que o objeto contenha em si uma</p><p>contradição. Esta lógica predominou na história da filosofia e da</p><p>epistemologia até que Hegel elaborou, em Ciência da Lógica, sua crítica à</p><p>confusão entre lógica formal e ontologia, argumentando que as regras</p><p>formais (da lógica stricto sensu e da matemática) não apreendem o</p><p>movimento dialético do real em sua riqueza, em suas determinações</p><p>complexas e contraditórias. A ciência da lógica de Hegel, afirma Coutinho</p><p>(1995), é “um sistema de leis ontológicas, um conjunto articulado de</p><p>categorias que expressam os modos de ser da própria realidade”. As regras</p><p>formais, para o idealismo hegeliano, são pontos de partida abstratos, de</p><p>modo que não se trata de negar estas regras, mas de integrá-las no sistema</p><p>de pensamento visando captar o real como totalidade concreta e não como</p><p>lógica formal.</p><p>Em Lógica Formal/Lógica Dialética, Lefebvre (1995), inspirado na</p><p>concepção de Lênin, toma por referência a leitura “materialista” de Hegel,</p><p>seu idealismo objetivo, para apresentar tanto as leis da lógica formal e os</p><p>limites de sua aplicação, como as principais categorias da lógica dialética38.</p><p>Lefebvre não nega a validade relativa da lógica formal tendo em vista a</p><p>lógica concreta (dialética), mas critica o formalismo da ciência e da</p><p>filosofia que tenta aplicar princípios da lógica formal para representar o</p><p>movimento que é próprio da realidade. O formalismo com que Lefebvre se</p><p>defronta é aquele do funcionalismo, do estruturalismo, de certa</p><p>fenomenologia, sem poupar críticas ao positivismo, ao neopositivismo, ao</p><p>historicismo, ao empiriocriticismo e ao racionalismo hipotético-dedutivo.</p><p>Retomando a concepção rapidamente exposta no item 1.2., o</p><p>conhecimento, diz Lefebvre (1995, p. 49), não é um problema (“o problema</p><p>do conhecimento”). “O conhecimento é um fato: desde a vida prática mais</p><p>imediata e mais simples”, o sujeito conhece objetos, coisas, seres humanos,</p><p>seres vivos, etc. “O sujeito (o pensamento, o homem que conhece) e o</p><p>objeto (os seres conhecidos) agem e reagem continuamente um sobre o</p><p>outro”. O sujeito age sobre as coisas, explora, experimenta, tensiona,</p><p>questiona. As coisas resistem, se retraem, se opõem, cedem à ação, se</p><p>revelam total ou parcialmente. “Sujeito e objeto estão em perpétua</p><p>interação”, em uma relação entre dois elementos opostos que constituem</p><p>um todo, ou seja, em uma interação dialética. Assim, o conhecimento</p><p>humano é um fato porque:</p><p>i. É prático. Antes de se elevar ao nível teórico todo o conhecimento</p><p>inicia pela experiência prática, pois apenas a prática coloca o sujeito em</p><p>“contato com realidades objetivas”;</p><p>ii. É social. Na vida social o sujeito se relaciona com outros sujeitos,</p><p>estabelecendo cada vez mais ricas e complexas relações, necessárias para</p><p>o desenvolvimento da vida</p><p>individual e para a apreensão do imenso saber</p><p>histórica e socialmente disponível;</p><p>iii. É histórico. “Todo conhecimento foi adquirido e conquistado”. A</p><p>verdade não está previamente dada e disponível para a humanidade e nem</p><p>é revelada em um dado momento predestinado.</p><p>Neste sentido, continua Lefebvre (1995), pode-se considerar que o</p><p>sujeito, o objeto e os elementos do conhecimento, embora sejam distintos,</p><p>são efetivamente ligados de forma indissolúvel. Portanto, ainda que o</p><p>conhecimento ponha certos problemas aos sujeitos, ele não é um problema,</p><p>mas um fato social e histórico. O conhecimento só é um problema quando o</p><p>seu processo de produção e a análise da matéria separa e isola o que é</p><p>indissolúvel, ou seja, separa os elementos do conhecimento do sujeito e do</p><p>objeto. A separação do sujeito e do objeto como realidades exteriores é uma</p><p>solução metafísica, que coloca os seres e os objetos fora de suas relações e</p><p>de suas interações. O pesquisador metafísico se coloca fora e distante do</p><p>objeto como se não fizesse parte do processo de sua apreensão, como se</p><p>estivesse pairando sobre ele como um mero observador, como um ser não</p><p>social, como um sujeito neutro. A pretendida neutralidade, contudo, seria</p><p>um estado de consciência puramente subjetivo, em que as coisas não são o</p><p>que elas são, mas o que o sujeito coloca dele mesmo no objeto a partir de</p><p>categorias universais, de projeções e sensações. Não há neutralidade</p><p>possível na relação entre o sujeito e o objeto.</p><p>A metafísica, portanto, é uma “teoria desligada da prática, sem unidade</p><p>com a prática, sem ligação direta e consciente com a mesma”. A “pretensa</p><p>verdade da metafísica” ao postular a “separação entre a prática e a teoria,</p><p>entre a vida e o pensamento”, encontra o raciocínio individual, o dogma, a</p><p>revelação que o indivíduo generosamente emprestaria à humanidade e ao</p><p>conhecimento. A metafísica põe o conhecimento como algo acabado antes</p><p>mesmo de ter começado, põe o conhecimento antes do próprio</p><p>conhecimento, o espírito antes da natureza, o pensamento absoluto antes do</p><p>pensamento e da experiência humana. Assim, o produto do idealismo</p><p>metafísico é uma doutrina que eleva uma parte do conhecimento adquirido</p><p>ao estado absoluto, fazendo dele um mistério que existe antes das relações</p><p>reais.</p><p>Lefebvre (1995, p. 56) é enfático: “não existe conhecimento sem objeto</p><p>a conhecer; não existe ciência da natureza sem natureza”. A concepção</p><p>realista, materialista (não vulgar), se opõe à concepção idealista e é</p><p>incompatível com ela. Isto não significa negar ao idealismo suas</p><p>contribuições para a história das ideias, mas não o tomar como ponto de</p><p>partida. Com isto, Lefebvre reafirma a clássica questão de que existem duas</p><p>concepções fundamentais em luta perpétua: uma que considera a natureza</p><p>como fator primário (realismo, materialismo) e outra que considera o</p><p>pensamento como fator primário (racionalismo, idealismo)39. Toda a</p><p>produção do conhecimento poderia ser colocada nestes dois polos extremos:</p><p>o do primado do real e o da primazia da ideia. No entanto, da perspectiva</p><p>epistemológica histórica, idealismo e realismo não se mantiveram</p><p>totalmente distantes e não constituíram modelos excludentes. A</p><p>classificação destes polos como opostos tem uma finalidade propedêutica.</p><p>Na história do conhecimento os debates entre estas correntes</p><p>epistemológicas fortaleceram a própria epistemologia e suas dimensões,</p><p>especialmente no desenvolvimento de métodos, teorias, proposições,</p><p>instrumentos e técnicas de pesquisas.</p><p>Para Lefebvre (1995), o alcance e o valor dos meios de produção do</p><p>conhecimento, dos métodos e técnicas de pesquisa, contudo, exige</p><p>distinguir, entre os idealistas, aqueles subjetivos (para quem todo</p><p>conhecimento não é senão uma construção artificial) daqueles idealistas</p><p>objetivos (para quem o conhecimento se encontra relacionado aos</p><p>instrumentos de sua produção). Para Hegel, o mais importante dos</p><p>idealistas, os métodos humanos têm alcance objetivo. O idealismo</p><p>hegeliano é, portanto, um “idealismo objetivo”, em que a verdadeira</p><p>consciência sobre o objeto é uma conquista do espírito humano.</p><p>É neste sentido histórico que se deve considerar que não há como dividir</p><p>toda produção do saber em dois polos excludentes (idealismo e realismo).</p><p>Como se verá adiante, as Dimensões Epistemológicas, ainda que distintas,</p><p>não se compões e nem se exprimem a partir apenas de elementos</p><p>constitutivos exclusivos e únicos. Os sistemas idealistas (as dimensões</p><p>idealistas) foram, historicamente, muito mais complexos, ricos e repletos de</p><p>conteúdo vivo do que os sistemas realistas empiristas, desenvolvendo</p><p>instrumentos e modos de pesquisa mais penetrantes e questionadores. A</p><p>discussão abstrata entre idealismo e realismo abandona a riqueza do debate</p><p>sobre as bases e fundamentos materiais destes dois sistemas, ou seja, nega a</p><p>história social das ideias e da produção do conhecimento (ontológica e</p><p>epistemologicamente).</p><p>O reconhecimento das contribuições das proposições oriundas das</p><p>dimensões realistas e idealistas entre si permite compreender o lugar da</p><p>lógica formal e da concreta (dialética). Em síntese, a teoria do</p><p>conhecimento segundo Lefebvre (1995, p. 70-71), considera que:</p><p>i. O conhecimento supõe um objeto real exterior ao sujeito humano</p><p>ativo, que é alcançado progressivamente (no curso da história, das</p><p>investigações, das práticas sociais, da ciência, da filosofia, das tecnologias),</p><p>cujas representações correspondem à objetividade;</p><p>ii. O ser humano é um sujeito-objeto, pois ao mesmo tempo em que é</p><p>sujeito (do pensamento) e que sua consciência não se separa da existência</p><p>objetiva (das atividades vitais, da ação, das práticas), sua condição de</p><p>sujeito o faz socialmente objeto para outros sujeitos;</p><p>iii. Sujeito e objeto, pensamento e matéria, espírito e natureza, são ao</p><p>mesmo tempo distintos e ligados, em interação, em luta dialética constante</p><p>no interior desta unidade (sujeito-objeto);</p><p>Com isto, afirma Lefebvre (1995, p. 75), “a objetividade deve ser</p><p>definida pela correspondência entre as ideias do sujeito e o objeto e</p><p>relacionada à prática”. Neste sentido, nada se ganha transformando o sujeito</p><p>individual em sujeito coletivo, em ser social, sem por estes sujeitos em uma</p><p>sociedade humana real: a história do conhecimento não é a história abstrata</p><p>do ser social, “mas a história concreta da prática social”40.</p><p>É nesta perspectiva que a lógica formal tradicional se funda na</p><p>separação e na distinção entre forma e conteúdo, entre pensamento e</p><p>prática. A lógica formal inspirada em Aristóteles distingue os termos</p><p>(proposições, conceitos), deixando de lado todo conteúdo, todo sentido que</p><p>estes termos possuem, todo objeto que eles designam e toda prática que a</p><p>eles se relacionam. A lógica formal determina, através do pensamento puro,</p><p>das regras de seu emprego correto (procedimentos, rituais, ordenamentos) e</p><p>das regras gerais da coerência, o acordo do pensamento com ele mesmo a</p><p>partir do próprio pensamento. Isto não significa que toda lógica é inútil.</p><p>Lógica é, necessariamente, uma atividade do pensamento na representação,</p><p>na compreensão, na interpretação e análise dos objetos e dos fenômenos. A</p><p>discussão que se deve fazer não é sobre a existência da lógica e nem sobre</p><p>sua utilidade, mas sobre sua forma, seu método.</p><p>A lógica formal tem alcance relativo e aplicação limitada porque</p><p>negligencia grande parte do conteúdo e se concentra na forma, não como</p><p>um aspecto ou momento necessário da abstração, mas como o próprio</p><p>conteúdo. A lógica formal, lógica da forma, da abstração, é uma etapa,</p><p>transitória, da elaboração do pensamento sobre a matéria e não sua forma</p><p>final. No processo de produção do conhecimento, o pensamento faz</p><p>reduções provisórias do conteúdo, produz esboços formalmente válidos</p><p>para se apropriar de forma elaborada do objeto. Estes esboços são</p><p>aproximações do sujeito com o objeto, pois o conteúdo é feito de interações</p><p>permanentes entre elementos opostos, entre sujeito e objeto. Estas</p><p>interações constituem a dialética. Assim, para “voltar ao conteúdo real” e</p><p>apreendê-lo como realidade, como concreto</p><p>pensado, a lógica formal, ainda</p><p>que necessária nas aproximações, é insuficiente, sendo necessário substituí-</p><p>la pela lógica concreta, pela lógica do conteúdo. É neste sentido que a</p><p>lógica concreta, lógica do conteúdo, é a lógica dialética.</p><p>A lógica formal em sua concepção metafísica, continua Lefebvre</p><p>(1995), separa a forma do conteúdo. Entretanto, o conteúdo se apresenta em</p><p>processos de mudanças e transições, de modo que apenas raramente ele se</p><p>deixa encerrar em uma fórmula do tipo verdadeira ou falsa. Aquilo que</p><p>pode ser verdade ou erro no domínio abstrato pode ser seu contrário no</p><p>mundo real, pois este se modifica e se movimenta. Do mesmo modo que a</p><p>metafísica idealista, a solução empirista clássica tampouco encontrou</p><p>solução para este problema entre “falso x verdadeiro” posto pela lógica</p><p>formal. O empirismo afirma que a origem do conhecimento se encontra na</p><p>experiência, nas sensações, no sensível. De acordo com os empiristas, o</p><p>concreto se mantém fora do abstrato. Isto significa negar a ciência através</p><p>da negação do conceito, da negação de toda ideia e de qualquer experiência</p><p>objetiva além das sensações. O que é necessário considerar é que o</p><p>verdadeiro, o concreto, não se encontra no imediato, no sensível. O sensível</p><p>é de certa forma a primeira abstração, é um aspecto do processo do</p><p>pensamento. O sensível, de certa forma, é o primeiro concreto e ao mesmo</p><p>tempo o primeiro grau de abstração. Concreto e abstrato não podem,</p><p>portanto, ser separados. São dois aspectos solidários, duas características</p><p>inseparáveis do conhecimento que se convertem incessantemente um no</p><p>outro. O concreto determinado torna-se abstrato e o abstrato aparece como</p><p>concreto já conhecido. Adentrar no real significa superar o imediato a fim</p><p>de atingir conhecimentos mediatos através do pensamento. Estes</p><p>conhecimentos mediatos são, então, abstrações, representações, teorias,</p><p>ideias.</p><p>Para Lefebvre (1995), o empirismo está correto ao considerar que se</p><p>deve partir do sensível, mas está equivocado quanto nega que é necessário</p><p>superar o sensível. O racionalismo, por seu turno, está correto em crer na</p><p>primazia das ideias, mas se equivoca ao substancializar as ideias</p><p>metafisicamente situando-as fora do real que elas representam. Adentrar no</p><p>real é atingir, pelo pensamento, um conjunto cada vez mais amplo de</p><p>relações, de detalhes, de elementos e particularidades captadas em uma</p><p>totalidade. Esse conjunto, essa totalidade, jamais pode coincidir com a</p><p>totalidade absoluta do real, pois é uma totalidade elaborada pelo</p><p>pensamento a partir do real. O ato do pensamento destaca a totalidade do</p><p>real mediante um recorte real ou ideal, produzindo aquilo que é chamado de</p><p>objeto do pensamento. O objeto do pensamento permite ao sujeito ir mais</p><p>longe do que a experiência sensível imediata e, nesse sentido, o objeto do</p><p>pensamento, propriamente dito, é um instrumento de conhecimento e ao</p><p>mesmo tempo um conhecimento, não um instrumento prático e nem uma</p><p>construção. O objeto do pensamento pode ser simultaneamente mais</p><p>abstrato e mais concreto que a experiência sensível. Mais abstrato por ter</p><p>perdido o caráter imediato do sensível; mais concreto na medida em que</p><p>penetra mais fundo no real de forma que o pensamento tenha condição de</p><p>poder abstrair e de reduzir em sua expressão mais simples o conteúdo</p><p>concreto.</p><p>O argumento de Lefebvre (1995) é de que se o imediato do objeto é</p><p>considerado não como um resultado definitivo, mas, graças seu ao seu</p><p>conteúdo objetivo, como um meio, uma etapa intermediária para adentrar</p><p>no real, então o pensamento pode se desenvolver progressivamente para</p><p>reencontrar o concreto analisado e compreendido. O conhecimento</p><p>mediato, elaborado, é uma abstração. Mas o conteúdo concreto do abstrato</p><p>só aparece estabelecido numa etapa subsequente da investigação e não em</p><p>sua forma abstrata imediata. A verdade do abstrato reside no concreto e</p><p>não em sua aparência. Para a razão dialética o verdadeiro é o concreto e o</p><p>abstrato imediato não pode ser mais do que uma primeira etapa na</p><p>apreensão desse concreto, um momento do movimento para captar, analisar</p><p>e determinar o concreto. O objetivo do conhecimento é o conhecimento do</p><p>real do concreto, mas apesar disso não se deve pretender evitar a abstração,</p><p>não se deve querer que o concreto seja dado imediatamente.</p><p>Para apreender o concreto é preciso passar pela abstração, enfatiza</p><p>Lefebvre (1995). A riqueza concreta que um pensamento apreende pode ser</p><p>avaliada pelas etapas pelas quais ele passa, pelos graus de abstração</p><p>atravessados e superados no curso da investigação. É neste sentido que o</p><p>conteúdo da abstração aparentemente mais abstrato pode se revelar como</p><p>sendo mais profundo do que se pode ver. Determinadas categorias, apesar</p><p>da extrema abstração aparente, revelam-se profundamente concretas. Por</p><p>exemplo, o conceito ou a categoria econômica do valor. Por isso, o</p><p>pesquisador que deseja captar imediatamente o mundo físico sem passar</p><p>pela abstração está condenado a não captar nada de essencial, nada de</p><p>verdadeiramente concreto, mantendo-se no aparente, no superficial e no</p><p>contingente. Para atingir o verdadeiro é preciso ir além do imediato.</p><p>Com Hegel, afirma Lefebvre (1995), pode-se dizer que o método da</p><p>lógica concreta não é exterior ao real e não difere do objeto, de seu</p><p>conteúdo, pois o próprio conteúdo é a dialética que existe no objeto. O</p><p>método é a lógica concreta e, portanto, a consciência do conteúdo, é o</p><p>conteúdo que se reflete na forma e se reflexiona no pensamento. Dessa</p><p>maneira, o importante em uma pesquisa é encontrar as relações, as</p><p>transições, as ligações internas e necessárias de todos os elementos, de</p><p>todas as partes do pensamento, bem como da realidade em desenvolvimento</p><p>que está sendo analisada em toda essa totalidade. Existe uma ligação</p><p>objetiva de todos os aspectos, ou seja, uma origem externa concreta e ao</p><p>mesmo tempo uma origem interna imanente dessas diferenças, desses</p><p>aspectos e, portanto, uma razão concreta da sua diversidade.</p><p>A análise que reencontra o concreto através da abstração segue um</p><p>duplo movimento: que vai das partes, dos elementos, dos aspectos, ao todo,</p><p>mediante a determinação das ligações objetivas dessas partes entre si; que</p><p>vai do todo às partes mediante a captação da origem interna dessas</p><p>diferenças. Esse duplo movimento, afirma Lefebvre (1995), significa que a</p><p>produção do conhecimento precisa encontrar racionalmente o concreto, o</p><p>real, em seu movimento e seu desenvolvimento. De certa forma, o abstrato</p><p>nega o concreto, mas para reencontrá-lo em um nível superior. O</p><p>conhecimento racional supera a negação do concreto reencontrando a vida</p><p>do objeto. Por esse motivo, toda análise deve se esforçar por adentrar no</p><p>objeto colocando-o em sua condição de objeto, ou seja, não deve respeitar o</p><p>objeto em sua imediatidade, em sua aparência, porque a análise deve</p><p>desmontar, quebrar as aparências imediatas do objeto. Toda analise,</p><p>portanto, funda-se sobre ação prática do pesquisador na produção do</p><p>conhecimento.</p><p>É nesta perspectiva que Lefebvre (1995) considera que a lógica formal</p><p>se situa em seus limites como lógica do entendimento, da separação. Mas</p><p>ela é antes de qualquer coisa uma separação momentânea entre a forma e o</p><p>conteúdo. A lógica formal é, na fronteira do pensamento, uma verdade</p><p>limitada, insuficiente, abstrata, relativa, mas ela contém certa verdade.</p><p>Quando o pensamento aborda o conteúdo para captá-lo, superando assim a</p><p>forma vazia, ele implica essa forma e a conserva, emprestando a ela seu</p><p>conteúdo. O conteúdo não deve se opor à forma lógica como algo exterior e</p><p>irredutível. A forma não se separa do conteúdo. O conteúdo, todavia, pode</p><p>se manter sem a forma. A forma pensada é certamente a forma do conteúdo</p><p>no pensamento. Sua importância enquanto forma revela-se, deste modo,</p><p>como algo fundamental. A razão não pode avançar sem o entendimento e</p><p>sem a análise da forma e do conteúdo.</p><p>A lógica formal e a lógica geral encontram-se no início do</p><p>conhecimento, afirma Lefebvre (1995). Não na ordem concreta real, mas na</p><p>ordem metodológica, enquanto começo</p><p>do pensamento racional. Quando a</p><p>lógica formal se transforma em metafísica, quando separa o entendimento</p><p>da razão (do pensamento) elaborado, quando destaca a verdade em si do</p><p>trabalho efetivo do pesquisador na produção do conhecimento, então seu</p><p>resultado não é senão uma construção mística. Em síntese, a lógica formal</p><p>deve superar a separação do objeto com o pensamento, deve compreender</p><p>que o pensamento que conhece opera sobre um conteúdo e deve assimilar</p><p>esse conteúdo progressivamente, pois apenas quando o objeto é analisado e,</p><p>por conseguinte, determinado pelo trabalho de investigação, que ele se</p><p>torna objeto do pensamento. A lógica formal é um dos momentos da razão e</p><p>não a razão definitiva.</p><p>A lógica concreta, a lógica do objeto (lógica do movimento) em sua</p><p>materialidade real, que é captada pelo pensamento como abstração, portanto</p><p>como lógica da dialética, é a lógica do método e do movimento do real e é</p><p>somente no grau de objetividade no nível da concepção que o método se</p><p>legitima, que encontra seu fundamento para Lefebvre (1995). As leis do</p><p>método devem ser concretas, no sentido de que permitem ao pesquisador</p><p>adentrar em todo objeto, em toda realidade, mas o método não pode se</p><p>tornar um procedimento formal, uma operação que substitui a prática da</p><p>investigação e nem o contato real com o conteúdo.</p><p>É exatamente a partir da concepção de Lefebvre que se pode colocar</p><p>igualmente outro problema de impacto semelhante. Se a Dimensão</p><p>Epistemológica que orienta o estudo de um objeto deve ser definida a priori,</p><p>também este procedimento não limita a análise do objeto aos elementos</p><p>constitutivos segundo a Dimensão escolhida? Ao se considerar as questões</p><p>postas por Lefebvre, não há dúvida. Porém, este é o pressuposto de toda</p><p>ciência, qual seja, a necessária definição de um ponto de partida ontológico</p><p>e epistemológico não arbitrário (embora seja, para o pesquisador, por vezes</p><p>ainda especulativo) e a superação da ilusão da neutralidade no Ato</p><p>Epistemológico. O pesquisador está sempre e necessariamente em posição</p><p>ontológica, como um ser social, diante de um objeto concreto, também</p><p>social e histórico, em busca da apreensão da realidade objetivada em um</p><p>“sistema de relações objetivas” (Bourdieu et al., 1999, p. 29), marcado pela</p><p>subjetividade socialmente determinada. Neste sentido, a solução para esta</p><p>dinâmica que se encontra propriamente na relação do sujeito pesquisador</p><p>com a realidade pesquisada não tem como ser encontrada nem na ideia de</p><p>um novo paradigma, nem na construção de uma dada metaepistemologia</p><p>capaz de inaugurar um novo e universal olhar sobre a ciência: tais soluções</p><p>constituem, antes de qualquer coisa, uma presunção idealista.</p><p>2.5 O Paradigma Emergente, a Condição Humana e os Limites</p><p>do Conhecimento</p><p>Ao elaborar Um Discurso sobre as Ciências, Souza Santos (2009, p. 9)</p><p>pretende defender a concepção de que “todo o conhecimento científico é</p><p>socialmente construído, que seu rigor tem limites inultrapassáveis e que sua</p><p>objetividade não implica na sua neutralidade”. A concepção</p><p>socioconstrutivista segundo a qual o conhecimento da realidade é</p><p>socialmente construído reduz o processo de construção do conhecimento a</p><p>apenas uma de suas categorias. Embora esta concepção venha sendo aceita</p><p>quase sem crítica na atualidade, não se pode deixar de observar que o</p><p>conhecimento científico socialmente construído elimina o sujeito enquanto</p><p>ser social em sua relação com o objeto e abstrai a realidade histórica em que</p><p>se fundamenta, bem como a condição crítica de enfrentamento com sua</p><p>própria (da realidade) representação científica, colocando ênfase na</p><p>narrativa social. O conhecimento científico não pode ser reduzido a uma</p><p>construção social que tem a narrativa como suporte. O conhecimento</p><p>científico é uma produção social em condições históricas objetivas, pois</p><p>depende das condições materiais nas quais é elaborado, ainda que este</p><p>conhecimento seja impreciso, transitório, parcial e atravessado por</p><p>ideologias e subjetividades. Em outras palavras, a produção do</p><p>conhecimento científico é condicionada pelo estágio de desenvolvimento</p><p>das forças produtivas (a ciência aí inclusa) e pelas relações sociais e de</p><p>produção das condições materiais de existência. O julgamento ou a</p><p>avaliação do conhecimento também é assim condicionado.</p><p>A defesa desta concepção por Souza Santos funda-se na crítica ao</p><p>paradigma dominante e na proposição de um “paradigma emergente”.</p><p>Sousa Santos (2009, p. 17) denuncia a perplexidade que toma conta da</p><p>ciência atualmente, sugerindo que “a confiança epistemológica” foi perdida.</p><p>A proposta deste paradigma, contudo, é o resultado de uma especulação,</p><p>que Souza Santos (2009, p. 59) mesmo reconhece41. Tal paradigma</p><p>emergente está baseado nas seguintes teses: (i) todo conhecimento</p><p>científico-natural é conhecimento científico-social; (ii) todo conhecimento é</p><p>local e total; (iii) todo conhecimento é autoconhecimento e; (iv) todo</p><p>conhecimento científico visa constituir-se em senso comum. Esta seria,</p><p>portanto, a tendência da ciência e da epistemologia contemporânea. Esta</p><p>proposição de Boaventura de Souza Santos está mais próxima da concepção</p><p>transdisciplinar do que a defendida pelos adeptos da proposição da teoria da</p><p>complexidade, de Edgar Morin (2009).</p><p>Nesta mesma linha construcionista, sugere-se que cada sujeito possui</p><p>uma herança genética que dá forma ao seu sistema neural, a qual é</p><p>resultado de uma combinatória de fatores que formam a base primeira em</p><p>que se assenta o processo de construção e assimilação do conhecimento. Tal</p><p>combinatória, ainda que resultante de fatores próprios da condição humana,</p><p>é única, de modo que se tem aqui um sujeito epistêmico individual. A</p><p>herança biológica em si mesma seria uma condição universal, ou seja, para</p><p>o sujeito, seria uma condição particular que envolve características físicas</p><p>que se desenvolvem de modos específicos no plano social.</p><p>Contudo, é necessário questionar esta concepção centrada no indivíduo</p><p>(na unidade diferenciada e exclusiva). Primeiramente, questionar a</p><p>concepção de que biologicamente todo sujeito possui as mesmas condições</p><p>originais, de forma que as diferenças seriam apenas sociais, ou seja, que a</p><p>base de partida é suficiente para estabelecer o potencial cognitivo de todos</p><p>os sujeitos na produção do conhecimento42. Em segundo lugar, questionar a</p><p>concepção oposta que sugere que as diferenças são biologicamente</p><p>individuais e podem ser abstraídas das diferenças sociais, históricas e</p><p>culturais43. Estas duas concepções, ainda que conflitantes, estão na base dos</p><p>fundamentos do individualismo.</p><p>Em direção divergente estão as concepções que sustentam que as</p><p>relações sociais que o sujeito estabelece desde a família até os grupos</p><p>sociais, mediadas materialmente pelo trabalho e conscientemente pelo</p><p>pensamento (através da educação formal ou não, das práticas sociais, do</p><p>processo de trabalho, do conjunto de regras, símbolos, configurações</p><p>imaginárias, ideologias, etc.) constituem o fundamento da sociedade.</p><p>Assim, as relações sociais irão conferir à base de partida os registros do</p><p>desenvolvimento do sujeito individual em sua condição de sujeito coletivo,</p><p>sujeito histórico e social. Já desde a base de partida o sujeito é coletivo em</p><p>sua individualidade. Algumas destas concepções do sujeito coletivo,</p><p>contudo, desconsideram que a constituição biológica pode também estar</p><p>relacionada às condições sociais.</p><p>A combinação entre a base de partida biológica e as relações sociais</p><p>marca as diferenças singulares na construção coletiva, em termos de</p><p>atitudes, habilidades, capacidades e de desenvolvimento e manifestações</p><p>afetivas, mas não retira do sujeito sua condição de Ser Social. Estas</p><p>diferenças são importantes nos processos de produção, assimilação,</p><p>sistematização e transmissão do conhecimento, especialmente quando tais</p><p>processos são objetos de padronização (modelos de ensino e aprendizagem,</p><p>modelos de avaliação, etc.). Esta interação complexa e dinâmica entre a</p><p>base de partida e as relações sociais históricas, com suas diferenças</p><p>específicas, desenvolve as formas de produção</p><p>do conhecimento e de</p><p>construção da lógica formal e abstrata com as quais o sujeito se relaciona</p><p>com o mundo. Como indica Marx (1977, p. 119), “a essência humana não é</p><p>algo abstrato, interior a cada indivíduo isolado. É, em sua realidade, o</p><p>conjunto das relações sociais”.</p><p>Além das diferenças individuais, existem limites no desenvolvimento e</p><p>construção do conhecimento coletivo. O limite primário do conhecimento</p><p>individual é o conhecimento social-histórico, mas este não é um limite</p><p>intransponível e definitivo. Trata-se de um limite primário porquanto se</p><p>constitui em uma condição coletivamente condicionada, ainda que nem</p><p>todo conhecimento social-histórico seja acessível a todos os sujeitos. O</p><p>conhecimento científico, filosófico e tecnológico se expandiu e se</p><p>transformou em um processo histórico de renovação, de recusa à sua</p><p>reprodução, de resistência à forma dominante de sua divulgação, de</p><p>superação dos obstáculos epistemológicos, de oposição ao dogmatismo e à</p><p>sacralização.</p><p>Desta interação do sujeito com a realidade, nos limites dados em que se</p><p>encontra o sujeito e o conhecimento humano acumulado e acessível, vão se</p><p>desenvolvendo modos de apreensão do real, de produção do conhecimento.</p><p>Neste sentido, a produção do conhecimento científico, tecnológico e</p><p>filosófico é também um processo dinâmico e contraditório, que possui</p><p>igualmente um limite primário que é o reconhecimento e a validação pela</p><p>comunidade acadêmica, de acordo com regras, procedimentos, critérios de</p><p>avaliação, segundo normas definidas pela própria comunidade levando-se</p><p>em conta que tal conhecimento tem efeitos nas práticas da vida coletiva.</p><p>Estas regras, contudo, não necessariamente consideram que do ponto de</p><p>vista prático, a produção do conhecimento científico possui quatro limites</p><p>sociais e históricos, não excludentes, materialmente definidos:</p><p>i. O sujeito pesquisador: refere-se à questão da sensibilidade ou de</p><p>condições internas do sujeito em sua relação com o objeto investigado, de</p><p>maneira que o sujeito nem sempre percebe o que o objeto fala. A</p><p>experiência pode conferir melhores condições de análise, maior capacidade</p><p>de leitura do real e de estabelecimento de relações, mas não existe uma</p><p>correlação exata entre experiência, percepção imediata e elaboração</p><p>mediada. Este é um limite próprio da condição humana;</p><p>ii. A realidade investigada: refere-se ao fato de que a realidade não se</p><p>revela totalmente ao pesquisador. A aparência dos fenômenos não é igual à</p><p>sua essência. As inúmeras relações que constituem o real não são visíveis</p><p>todo o tempo, de forma que por mais profunda e exaustiva que seja uma</p><p>análise, ainda assim existirão elementos que a constituem que não são</p><p>acessados. Tal limite pode ser acentuado ou reduzido pela superação dos</p><p>demais limites referidos;</p><p>iii. A base teórica e metodológica: refere-se às restrições do acúmulo</p><p>teórico disponível e das metodologias para a apreensão do real. Toda a</p><p>teoria é uma redução da realidade investigada ao plano abstrato, ao</p><p>processo de pensamento. A realidade não pode ser inteiramente transposta</p><p>para o plano do pensamento, de modo que a teoria é mesmo uma redução</p><p>interpretada ou uma representação do real. Para favorecer teorias e</p><p>metodologias que mais se aproximem da realidade investigada é que se</p><p>sugere que o objeto da investigação possa falar e não simplesmente ser</p><p>falado: não um falar na voz do pesquisador, mas em sua própria voz (do</p><p>objeto);</p><p>iv. O instrumental44: refere-se à interposição entre o sujeito pesquisador</p><p>e o objeto investigado, particularmente aos instrumentos que permitem ao</p><p>pesquisador observar o que naturalmente não conseguiria (telescópio,</p><p>microscópio, aparelhos de medição, simuladores, entrevistas, estatísticas,</p><p>documentos, etc.). O desenvolvimento tecnológico tem facilitado de forma</p><p>extraordinária a produção de conhecimento científico que depende de</p><p>instrumentos, mas ainda não consegue dar conta de todas as necessidades.</p><p>Como se pode observar, o problema central do conhecimento (seja</p><p>científico, filosófico, tecnológico, cultural ou de senso comum) é clássico: é</p><p>verdadeiro ou falso? A afirmação de cada concepção avocando para si a</p><p>única e insofismável verdade coloca em discussão exatamente o conceito de</p><p>verdade. Como a verdade depende do Ato Epistemológico, a questão que</p><p>está posta é: como fazer um confronto entre o que é verdadeiro diante do</p><p>resultado de uma produção do conhecimento em relação a outros resultados,</p><p>quando as conclusões são diferentes? Trata-se, este, de um debate por vezes</p><p>estéril ou dogmático, por outras vezes rígido ou ortodoxo, em que ao final</p><p>cada qual exibe um protocolo de princípios que caracterizam as dimensões</p><p>em confronto. Desta maneira, assim como ocorre com o conceito de</p><p>conhecimento, o conceito de verdade não tem uma única acepção, não é</p><p>concebido de uma única forma, não possui um entendimento universal,</p><p>como se verá adiante.</p><p>2.6 Conhecimento Verdadeiro: a polêmica filosófica e científica</p><p>Como ocorre com a concepção de conhecimento, também não existe um</p><p>único conceito de verdade ou de conhecimento verdadeiro. Na filosofia essa</p><p>discussão é parte de sua própria história. Na ciência, talvez essa seja a</p><p>expressão mais controversa, porque o conhecimento verdadeiro é</p><p>considerado aquele que obedece rigorosamente ao método científico: qual</p><p>método? Sob que perspectiva? Em qual Dimensão Epistemológica? Assim,</p><p>podem-se encontrar algumas concepções de verdade, conforme Abbagnano</p><p>(1999), Reale e Antiseri (1991) e Lalande (s/d).</p><p>i. Verdade como Correspondência: é a concepção mais antiga. É o</p><p>pressuposto dos pré-socráticos que influencia Sócrates, Platão e Aristóteles.</p><p>Para Platão verdade é o discurso que diz as coisas como elas são. Para</p><p>Aristóteles, a verdade parte da realidade, mas está no pensamento ou na</p><p>linguagem e não na coisa mesma ou no ser em que estas se baseiam. Qual</p><p>seria a medida da verdade: o ser, a coisa, o pensamento, o discurso? Para</p><p>esta concepção, uma coisa não é azul porque se diz simplesmente que é</p><p>verdade que ela é azul. A coisa não é azul em si mesma. É o pensamento</p><p>que atribui à coisa esta qualidade, ou seja, se diz que é verdade que a coisa</p><p>é azul porque é azul para o pensamento. A medida do ser azul, grande,</p><p>quadrada ou pesada está no pensamento ou na linguagem e não na própria</p><p>coisa, ainda que se refira à coisa;</p><p>ii. Verdade como Revelação ou Manifestação: é a concepção dos</p><p>estóicos e epicuristas, adotada posteriormente por S. Agostinho e S. Tomás</p><p>de Aquino. A verdade é a correspondência entre a coisa e o conhecimento</p><p>da coisa, seja na forma como a coisa se manifesta ao intelecto (sensação,</p><p>intuição, fenômeno), seja na forma como o intelecto a representa</p><p>(evidência). A verdade é a adequação entre o intelecto e a coisa;</p><p>iii. Verdade como certeza da qualidade da ideia: é a concepção de</p><p>Espinosa (1979, p. 13-14), para quem “a verdade é o encadeamento</p><p>necessário das ideias, encadeamento determinado pelo processo que as</p><p>engendra. A verdade não pode ser acrescentada ou retirada às coisas, pois é</p><p>uma qualidade das ideias e não das coisas”. Assim “as propriedades da</p><p>verdade ou da ideia verdadeira são: 1ª. é clara e distinta; 2ª. suprime toda</p><p>dúvida, isto é, é certa”;</p><p>iv. Verdade como Conformidade: é a concepção que considera como</p><p>verdade a conformidade da coisa a um conceito ou uma regra. Havendo um</p><p>conceito sólido, tudo o que se conformar a este conceito será verdadeiro;</p><p>v. Verdade como Coerência: concepção que aparece no movimento</p><p>idealista inglês. Recusa a contradição como verdade ou como contendo uma</p><p>verdade. A verdade é uma coerência perfeita, atribuída à realidade última,</p><p>ou seja, à Consciência. Somente a ideia absoluta pode alcançar a coerência</p><p>perfeita e, logo, a verdade. Existem “graus de verdade” de acordo com</p><p>“graus de coerência”;</p><p>vi. A Verdade como Formalidade ou Lógica: concepção proposta por</p><p>Kant segundo a qual a verdade consiste exclusivamente na condição de</p><p>acordo do conhecimento consigo mesmo, abstraindo-se os objetos e as</p><p>diferenças entre eles;</p><p>vii. A Verdade como Utilidade: essa concepção, formulada</p><p>primeiramente por Nietzsche segundo a qual verdadeiro é apenas o que é</p><p>apropriado à conservação da humanidade, foi difundida pelo pragmatismo.</p><p>Neste caso, uma proposição só é verdadeira se for útil para estender o</p><p>conhecimento, o domínio sobre a natureza ou à solidariedade e à ordem;</p><p>viii. A Verdade como Convenção: concepção que adota o pressuposto</p><p>que a verdade é o que é convencionado ou aceito, social e culturalmente,</p><p>como verdadeiro, sem que se precise demonstrar;</p><p>ix. A Verdade como Experiência: concepção defendida por Poincaré</p><p>segundo a qual a experiência é a única fonte da verdade, sendo a teoria</p><p>aquilo que institui o fato;</p><p>x. Verdade como Vontade: concepção que parte do pressuposto segundo</p><p>o qual não existe uma verdade, mas uma vontade de verdade. A verdade é o</p><p>que o sujeito deseja que seja verdade. A verdade para A não é</p><p>necessariamente verdade para B. É a vontade do sujeito de que um</p><p>fenômeno seja verdadeiro que fará com que ele seja verdadeiro para ele.</p><p>Vontade, nesse caso, não é apenas uma aspiração espontânea. Vontade pode</p><p>ser a condição (desejo) de demonstrar que algo é verdadeiro, seja pelos</p><p>argumentos, pela lógica, pela ciência, pela ideologia, etc.;</p><p>xi. Verdade como Práxis: concepção segundo a qual a verdade está na</p><p>práxis (conjunção reflexiva crítica entre teoria e prática) e não só na ideia</p><p>ou só no objeto. A verdade decorre de uma mediação entre o objeto e o</p><p>pensamento, de forma que sem a práxis não há pensamento elaborado e</p><p>crítico que permita se chegar ao real concreto pela via do real pensado.</p><p>Estas não são as únicas concepções, mas servem para ilustrar o quanto</p><p>este conceito é polêmico e polissêmico45. Em linhas gerais, entende-se que</p><p>a verdade deve ser a conformidade do discurso ou do pensamento com os</p><p>fatos ou realidade. Entretanto, o discurso da conformidade com o real não é</p><p>único sequer na ciência. Teorias diversas explicitam discursos diferentes</p><p>sobre uma mesma realidade e garantem que tais discursos são conformes ao</p><p>real. Como podem ser verdadeiros discursos ou proposições que expressam</p><p>conformidades diferentes com uma mesma realidade? Há os que acreditam</p><p>que a conformidade depende da fidelidade da representação que o sujeito</p><p>faz em relação ao modelo real ou original. Contudo, o conceito de</p><p>fidelidade é, ele mesmo, arbitrário ou, dito de outra maneira, fidelidade é</p><p>uma concepção subjetiva já que decorre da apreciação do próprio sujeito</p><p>que a valida.</p><p>As diferentes concepções de verdade têm dado lastro à concepção de</p><p>que a verdade é relativa. Contudo, assim exposta, tal concepção genérica e</p><p>abstrata é em si mesma problemática, pois sendo a verdade relativa, a</p><p>própria concepção de verdade também o é. Neste sentido, o conceito de</p><p>conhecimento verdadeiro é arbitrário e inespecífico, sendo necessário</p><p>objetivá-lo.</p><p>Desta forma, considera-se, aqui, que, epistemologicamente, o</p><p>conhecimento verdadeiro é relativo ao método de sua produção e, portanto,</p><p>à sua observância rigorosa no Ato Epistemológico. Dito de outra forma, não</p><p>há uma verdade absoluta, total, eterna, definitiva, incontestável e</p><p>inquestionável: estes são atributos do dogma. Todo conhecimento científico,</p><p>filosófico e tecnológico é relativo não a ele mesmo ou ao objeto em-si, mas</p><p>ao Ato Epistemológico, à ontologia do ser e do objeto, ao método e às</p><p>técnicas de sua produção, à forma de exposição e às teorias de referência. A</p><p>questão que se coloca, nesse momento, é se, de uma perspectiva</p><p>epistemológica, o conhecimento científico ou tecnológico (enquanto</p><p>produto material da ciência) e o filosófico constituem uma mesma forma de</p><p>conhecimento e seguem o mesmo procedimento em sua produção.</p><p>2.7 Filosofia e Ciência</p><p>A epistemologia tem sido considerada uma área de estudos que atua nas</p><p>fronteiras da ciência e da filosofia. Como se verá adiante, a discussão sobre</p><p>se a epistemologia é um problema da ciência, da filosofia, ou de ambas, tem</p><p>consequências práticas quanto à observação de seus pressupostos em</p><p>CHSSA-EOR.</p><p>Do ponto de vista da concepção moderna, ciência é o conhecimento que</p><p>inclui, em qualquer forma ou medida, garantia de validade.</p><p>Tradicionalmente, pretendia-se que a ciência garantisse grau absoluto de</p><p>validade, ou seja, o máximo de certeza. A garantia de validade seria</p><p>inteiramente conferida pelo método científico, isto é, a ciência definiria o</p><p>seu próprio método de validação e, logo, de seu funcionamento e formação.</p><p>Essa concepção é um paradoxo, na medida em que a ciência pretende ter a</p><p>virtude intrínseca e excepcional de poder enunciar por si mesma o critério</p><p>de verdade que ela contém, sem, contudo, sair de dentro de si, sem ter</p><p>questionamento sobre seus princípios e métodos de sua validade. Nessa</p><p>concepção, a ciência estabeleceria suas regras de forma soberanamente</p><p>autônoma, de maneira que não precisaria prestar contas a nenhuma</p><p>diligência (não apenas com relação à sua eficácia e conteúdo, mas</p><p>igualmente ética) além das suas próprias. Dessa forma, a ciência não</p><p>possuiria obstáculos, constituindo-se no espaço puro do cientificismo</p><p>instituído, limitado e instalado por ela mesma.</p><p>Por esse motivo, a ciência necessita de uma vigilância. Esta vigilância é</p><p>realizada pela filosofia, especialmente do ponto de vista da sua</p><p>epistemologia: sua no sentido de que a epistemologia se origina na filosofia,</p><p>mas não é seu atributo exclusivo. Isto porque a epistemologia situa-se tanto</p><p>na lógica da descoberta quanto da apropriação, da prova e da exposição. É</p><p>preciso esclarecer, contudo, que se a filosofia faz uma vigilância à ciência</p><p>para garantir sua validade e estimular sua renovação e criatividade, a</p><p>ciência igualmente cobra da filosofia sua atualização, aprofundamento e</p><p>renovação, para dar conta daquilo que a ciência já pode explicar, mas que</p><p>não encontra amparo no pensamento filosófico.</p><p>A que filosofia a ciência deve prestar contas? Existem diversos</p><p>conceitos de Filosofia: (i) saber racional que repousa na experiência; (ii)</p><p>conhecimento completamente unificado, pois o conhecimento de espécie</p><p>mais inferior é o não unificado e o da Ciência é o conhecimento</p><p>parcialmente unificado; (iii) conjunto de estudos ou de considerações que</p><p>apresentam alto grau de generalidade e tendem a reduzir ou uma ordem de</p><p>conhecimento ou todo o saber humano a um pequeno número de princípios</p><p>diretivos;(iv) disposição moral que consiste em ver as coisas do alto, em</p><p>elevar-se acima dos interesses individuais; (v) posse ou aquisição de um</p><p>conhecimento que seja ao mesmo tempo o mais amplo possível e o mais</p><p>válido, sendo que o uso deste conhecimento deve ser direcionado em</p><p>benefício do ser humano; (vi) estudo da sabedoria, ou seja, de um perfeito</p><p>conhecimento de todas as coisas que o ser humano possa conhecer, tanto</p><p>para a conduta da sua vida quanto para a conservação de sua saúde e a</p><p>invenção de todas as coisas e todas as artes; (vii) ciência da relação do</p><p>conhecimento à finalidade da razão humana. Hessen (1978. p. 15) apresenta</p><p>uma definição fenomenológica a partir de uma relação entre Platão e Kant.</p><p>Para ele “a filosofia é uma tentativa do espírito humano para chegar a uma</p><p>concepção do universo por meio da autorreflexão sobre as suas funções de</p><p>valor teóricas e práticas”.</p><p>Nesse estudo, sem nenhuma pretensão de oferecer uma solução sobre a</p><p>relação entre filosofia e ciência, considera-se que Filosofia é todo estudo</p><p>crítico, lógico, reflexivo, daquilo que as ciências propriamente ditas visam</p><p>diretamente. A filosofia distingue-se da ciência porque enquanto esta é</p><p>relativamente progressiva e admite soluções que podem ser aceitas como</p><p>verdadeiras, aquela se dedica a problemas que não podem ser sempre</p><p>submetidos ao controle da experiência. O papel da filosofia é manter a</p><p>discussão e seu progresso é aprofundar os termos de que trata, pois esta é a</p><p>maneira eficaz que serve com propriedade para o desenvolvimento da</p><p>ciência.</p><p>Do mesmo modo, pode-se perguntar: que ciência a filosofia deve vigiar?</p><p>Muitos são os conceitos de ciência: (i) conhecimento que inclua, em</p><p>qualquer forma ou medida, uma garantia da própria validade. Difere de</p><p>conhecimento de senso</p><p>comum e de opinião; (ii) uma vez ligados em um</p><p>organismo unitário, a partir de um raciocínio causal, as opiniões e os</p><p>conhecimentos tornam-se ciência e permanecem fixos; (iii) unidade</p><p>sistemática e o que, antes de tudo, faz de um conhecimento comum uma</p><p>ciência, que faz de um simples agregado um sistema, ou seja, uma unidade</p><p>de conhecimentos múltiplos reunidos sob uma única ideia; (iv) condição de</p><p>condução dos indivíduos diante dos fatos e das ordens das coisas,</p><p>interpretando-os a partir de suas causas (entendidas como princípios dos</p><p>fatos) e considerando-as (enquanto princípios) como prova da explicação;</p><p>(v) procedimento que considera todos os fenômenos como sujeitos às leis</p><p>naturais invariáveis, cuja descoberta precisa (exata) e cuja redução ao</p><p>menor número possível de eventos constituem o objetivo dos esforços do</p><p>conhecimento científico; (vi) sistema autocorretivo baseado no fato de que</p><p>nenhuma proposição é em si mesma absolutamente certa e assim o processo</p><p>de correção pode atuar quando se encontram provas adequadas. As dúvidas</p><p>e as correções devem ser compatíveis com os cânones do método científico.</p><p>Nesse estudo, considera-se que Ciência é um conjunto de procedimentos</p><p>que visa, de forma sistematizada, produzir, organizar e divulgar</p><p>conhecimentos (classificando fatos e fenômenos, estabelecendo relações</p><p>entre fenômenos, formulando leis que regem determinados fatos, etc.), com</p><p>garantia de sua validação, a partir de métodos rigorosos reconhecidos,</p><p>constituindo parte do desenvolvimento objetivo das forças produtivas</p><p>(econômicas, políticas, técnicas/tecnológicas, jurídicas, culturais,</p><p>artísticas) da sociedade.</p><p>Uma vez definida a relação entre filosofia e ciência de uma perspectiva</p><p>epistemológica, ou seja, da produção do conhecimento, cabe questionar</p><p>qual a forma de que a ciência se vale para representar o conhecimento</p><p>produzido? O que a ciência produz, de forma organizada segundo</p><p>concepções e conceitos, é teoria. O senso comum costuma questionar se a</p><p>teoria, na prática, é outra, ou se a teoria não é também uma ideologia.</p><p>2.8 Teoria e Ideologia</p><p>Da mesma forma que os conceitos anteriores, existem diversos</p><p>conceitos sobre teoria: (i) condição hipotética ideal na qual se tenham</p><p>observado pleno cumprimento de normas e regras; (ii) ciência pura, que não</p><p>considera as aplicações da ciência às técnicas de produção. Consiste em</p><p>elaboração conceitual ou lógica. As aplicações técnicas ou científicas</p><p>decorrem das teorias; (iii) esqueleto ou ossatura do corpo da ciência que</p><p>condiciona as observações dos fenômenos e o uso de instrumentos de</p><p>observação e coleta de dados; (iv) aparato conceitual que permite a</p><p>verificação ou confirmação científica; (v) conjunto de conceitos e</p><p>argumentações lógicas e coerentes que decorrem de representações ou</p><p>interpretações da realidade a partir de uma transposição do real para o</p><p>pensamento.</p><p>Essas várias concepções sobre o que é teoria e os questionamentos sobre</p><p>sua validade e prática a colocam na fronteira da especulação, da hipótese</p><p>ideal, da ciência pura, etc. Quando se refere à teoria científica, enquanto</p><p>estrutura do corpo da ciência, pode-se considerar que, de uma forma geral, a</p><p>Teoria é um conjunto coerente e sistematizado de conceitos e de</p><p>concepções, baseado em regras metodológicas aceitas cientificamente</p><p>(validação, hipótese, coleta e tratamento de dados, abrangência, etc.)</p><p>formando proposições que permitam dialogar com a realidade, seja</p><p>reproduzindo-a, de forma a construir um entendimento acerca dos</p><p>fenômenos investigados para oferecer meios de representação do real pela</p><p>via do pensamento, seja contribuindo ou criando condições reflexivas para</p><p>descobrir, desvendar, revelar ou hipotetizar sobre a realidade cognoscível.</p><p>Neste sentido, a teoria é uma representação abstrata da realidade e, ao</p><p>mesmo tempo, uma materialidade. Para a produção do conhecimento, ou</p><p>seja, para o Ato Epistemológico, a teoria pode ser tanto (i) uma referência,</p><p>quando é convocada para dar sustentação à análise, (ii) como um objeto,</p><p>quando é ela mesma ou o produto da representação ou uma matéria a ser</p><p>submetida à análise.</p><p>A teoria é, nesse sentido, o conjunto de conhecimentos que, para que</p><p>seja validado, deve possuir três qualidades: (i) grau de abrangência:</p><p>constituir um esquema de unificação sistemática de conteúdos diversos: (ii)</p><p>simplicidade lógica: oferecer um conjunto de meios de representação</p><p>conceitual e simbólica dos dados de observação; (iii) capacidade</p><p>processual: constituir um conjunto de regras de inferências que permitam</p><p>indicar o processo de desenvolvimento dos fenômenos em seu curso</p><p>histórico. Esta capacidade de indicar a antecipação do curso fenomênico,</p><p>obviamente, não é uma previsão construída pelo Oráculo do Templo, mas a</p><p>simples indicação de tendências de um movimento, de um processo</p><p>histórico em curso, sem oferecer quaisquer garantias precisas de sua</p><p>realização.</p><p>A teoria, considerada de maneira simplificada, pode ser, então, um</p><p>conjunto de conceitos produzidos a partir da relação do sujeito com o real</p><p>cuja finalidade é resolver problemas científicos e/ou práticos/tecnológicos,</p><p>dar respostas a outros problemas teóricos e científicos e/ou esclarecer,</p><p>dentro dos limites possíveis, fenômenos e fatos de interesse da humanidade.</p><p>Contudo, na física, por exemplo, a concepção de teoria tem equivalência à</p><p>de hipótese científica. A Teoria da Relatividade, de Einstein, somente foi</p><p>“provada” muitos anos depois de formulada. Assim, é fundamental</p><p>esclarecer que o próprio conceito de teoria decorre de uma opção</p><p>epistemológica e do campo científico em que é proposta. Aqui, o conceito</p><p>de teoria está relacionado ao campo das ciências sociais e aplicadas.</p><p>Uma teoria pode ser robusta, forte, resistente e duradoura, ou pode ser</p><p>fraca, frágil e passageira. Porém, toda teoria deve ser passível de ser</p><p>verificável e refutável, como sugere Popper (1980), não obstante sua crítica</p><p>às teorias empíricas. Isto não significa que necessariamente a teoria será</p><p>refutada, embora necessite ser verificada. Uma teoria que não pode ser</p><p>contestada, superada ou refutada é considerada, pelos popperianos, um</p><p>dogma, uma elaboração metafísica ou uma falsa teoria. Contudo, a</p><p>contestação de uma teoria é inadequada se a ela se opõe outra que se</p><p>sustenta em diferentes dimensões epistemológicas, diferentes métodos e</p><p>propósitos específicos, pois neste caso o que se conseguiria nada mais</p><p>poderia ser que um debate de referências metodológicas e/ou epistêmicas.</p><p>Esse debate sobre a inadequação ou não de uma teoria tendo em vista a</p><p>realidade que ela pretende representar, faz emergir outra questão: a</p><p>ideologia. Em geral, o senso comum considera que a ideologia é o projeto, a</p><p>concepção, a proposta ou a visão de mundo de um grupo social, de uma</p><p>facção ou partido político. Nesse sentido, a ideologia se apresenta como</p><p>uma verdadeira sombra que age de maneira a seduzir, adulando e</p><p>lisonjeando, pois pretende ocupar o lugar da teoria como sendo a explicação</p><p>correta da realidade. A ideologia se apresenta, então, como saber que possui</p><p>todas as respostas, sendo que as ações que exige são demasiadamente</p><p>urgentes para esperar uma investigação científica crítica. A ideologia é uma</p><p>totalização produzida pela ideia que quer dirigir a ação, atuando como se</p><p>tivesse o conteúdo da ciência (Santos, 1976, p. 65). Nessa concepção, a</p><p>ideologia é uma metáfora sedutora que: (i) permite agir sem vacilar pois,</p><p>para ela, não existe ignorância e nem dúvidas; (ii) pretende substituir a</p><p>ciência, que geralmente é muito complexa para conquistar apoios; (iii) se</p><p>apresenta como uma profecia, uma narrativa de uma divindade capaz de</p><p>responder a consultas e orientar os crentes; (iv) tem a palavra ou a decisão</p><p>inspirada e infalível, promovendo absoluta confiança (Santos, 1976, p. 66).</p><p>Assim, a ideologia pretende se apresentar como teoria, de onde decorre que</p><p>é necessário não apenas fazer a separação entre ambas, mas que se possa</p><p>identificá-las.</p><p>Como já exposto em outro lugar (Faria, 2017), o conceito de ideologia</p><p>possui muitas vertentes (Centre, 1980). Uma</p><p>das maneiras pela qual se pode</p><p>conceber a ideologia é que ela seria um reflexo invertido, mutilado,</p><p>deformado do real, na medida em que significaria um conjunto abstrato de</p><p>ideias, representações e valores de determinada sociedade. No entanto, esta</p><p>é ela mesma uma concepção abstrata, no sentido de que designa que todo e</p><p>qualquer conjunto de ideias pretende explicar fatos observáveis sem</p><p>vincular essa explicação às condições sociais, históricas e concretas em que</p><p>tais fatos foram produzidos. Apesar da desvinculação, essas ideias seriam</p><p>transmitidas e absorvidas como se fossem reais.</p><p>Ao criticarem a ideologia alemã, Marx e Engels (2007) expressam de</p><p>início a concepção de ideologia como uma abstração deformada do real. À</p><p>medida que desenvolvem suas argumentações, a concepção de ideologia</p><p>passa a ser definida como uma forma de consciência social. De fato, para</p><p>Mészáros (2004),</p><p>A ideologia não é ilusão nem superstição religiosa de indivíduos mal orientados,</p><p>mas uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e</p><p>sustentada. Como tal não pode ser superada nas sociedades de classe. Sua</p><p>persistência se deve ao fato de ela ser constituída objetivamente (e</p><p>constantemente reconstituída) como consciência prática inevitável das</p><p>sociedades de classe, relacionada com a articulação de conjuntos de valores e</p><p>estratégias rivais que tentam controlar o metabolismo social em todos os seus</p><p>principais aspectos. (Mészáros, 2004, p. 65)</p><p>Neste sentido, não se pode reduzir o conceito de ideologia como</p><p>simplesmente uma “falsa consciência”. O que define a ideologia como</p><p>ideologia não é seu suposto desafio à “razão” ou seu afastamento das regras</p><p>preconcebidas de um “discurso científico” imaginário, mas sim sua situação</p><p>real (materialmente fundamentada) em um determinado tipo de sociedade.</p><p>As funções complexas precisam focalizar a atenção nas exigências práticas</p><p>vitais do sistema de reprodução (Mészáros, 2004, p. 472-473).</p><p>É importante observar, nesse sentido, que a ideologia produz seu próprio</p><p>esquema de interpretação, de dissimulação, de justificação, de divulgação e</p><p>de renovação. Assim, para se conferir um sentido aceitável ao par ciência-</p><p>ideologia, é necessário observar, na perspectiva hermenêutica de Ricoeur</p><p>(1990, p. 92-5), que: (i) “todo o saber objetivante” sobre a “posição na</p><p>sociedade, numa classe social, numa tradição cultural, numa história, é</p><p>precedido por uma relação de pertença que jamais [se pode] refletir</p><p>inteiramente”; (ii) se o “saber objetivante é sempre segundo relativamente</p><p>à relação de pertença, não obstante pode constituir-se numa relativa</p><p>autonomia”, pois o “momento crítico que o constitui é fundamentalmente</p><p>possível, em virtude do fator de distanciamento que pertence à relação de</p><p>historicidade”; (iii) a crítica das ideologias, fundadas por interesses</p><p>específicos, “jamais rompe com seus vínculos com o fundo de pertença que</p><p>a funda. Esquecer esse vínculo inicial é cair na ilusão de uma teoria crítica</p><p>elevada ao nível do saber absoluto”; (iv) se o saber pode se distanciar da</p><p>ideologia, esta é sempre um código de interpretação, pois não existem</p><p>“intelectuais sem amarras e sem ponto de apoio”.</p><p>Há uma diferença que também necessita ser posta: a concepção de</p><p>ideologia e a de ciência ou filosofia idealista. A ciência ou a filosofia</p><p>idealista é aquela que se baseia na primazia da ideia na produção do</p><p>conhecimento. As diferenças entre teoria e ideologia (no sentido exposto</p><p>acima), devem ser observadas especialmente tendo em vista as formas</p><p>manifestas destas. Teorias e ideologias possuem importantes semelhanças</p><p>em sua exposição. O que as diferenciam não é a lógica expositiva ou</p><p>manifesta, mas sua produção. Assim, é necessário dar um passo em frente e</p><p>examinar o que efetivamente difere de maneira significativa a produção</p><p>teórica da produção ideológica: a metodologia.</p><p>2.9 Metodologia</p><p>Por metodologia pode-se entender (i) a lógica que estuda os métodos</p><p>(visão cartesiana e pós-cartesiana); (ii) a lógica transcendental aplicada ou</p><p>prática (Kant); (iii) a disciplina filosófica relativamente autônoma voltada à</p><p>análise das técnicas de investigação empregadas nas ciências (visão</p><p>metafísica); (iv) o conjunto de procedimentos técnicos de averiguação ou</p><p>verificação que visam garantir o uso eficaz de procedimentos de</p><p>investigação científica (conceito moderno); (v) a orientação de</p><p>procedimentos rigorosos no processo de investigação científica sobre</p><p>fenômenos a partir da utilização de técnicas adequadas de pesquisa</p><p>(concepção epistêmica). Em todas estas concepções a metodologia é</p><p>considerada como uma condição da produção científica desenvolvida no</p><p>interior de diferentes Dimensões Epistemológicas.</p><p>O que se evidencia na atualidade é que o conceito de metodologia foi</p><p>deturpado, ou seja, foi reduzido ao de procedimento técnico ou ao de uso de</p><p>instrumentos técnicos de investigação. Contudo, Metodologia é mais do que</p><p>o conjunto de técnicas ou de tecnologias de coleta, tratamento e análise de</p><p>dados. Metodologia é mais do que um sistema de referência com que se</p><p>avalia e analisa a realidade. Resumidamente, pode-se dizer que</p><p>Metodologia é o procedimento científico que tem por objetivo conduzir os</p><p>modos de investigação de uma dada realidade, considerando desde a</p><p>percepção ontológica do objeto até a sua reprodução como objeto pensado,</p><p>passando pela definição: (i) da Dimensão Epistemológica que guiará a</p><p>investigação, (ii) das opções teóricas e (iii) das técnicas de levantamento,</p><p>coleta, tratamento, interpretação, análise de dados e exposição dos</p><p>resultados, segundo seus sistemas de referência.</p><p>A metodologia é, assim, um procedimento de investigação que recorre a</p><p>técnicas de coleta, tratamento e análise da realidade e não pode ser</p><p>confundida com estas técnicas. A literatura sobre Metodologia da Pesquisa</p><p>alterou o sentido epistêmico do método para transformá-lo em técnicas e</p><p>estruturas formais de apresentação de trabalhos acadêmicos. Esta redução</p><p>da metodologia a técnicas de pesquisa e estruturação de trabalhos</p><p>acadêmicos invadiu os programas das disciplinas nas instituições de ensino,</p><p>com sua proposição geralmente positivista (formulação e teste de hipóteses,</p><p>quadro teórico apriorístico, resultados esperados antes mesmo da realização</p><p>da pesquisa, pressupostos, etc.), distorcendo o próprio conceito de</p><p>metodologia.</p><p>Método e metodologia da pesquisa passaram, então, a tratar dos</p><p>instrumentos de acesso aos dados e da estrutura dos trabalhos acadêmicos e</p><p>não da relação do sujeito pesquisador com o objeto de sua pesquisa. Com</p><p>raras exceções, a literatura fixa-se na organização e no design do projeto de</p><p>pesquisa, nas técnicas de coleta, nos modos de operação e nas distinções</p><p>formais (pesquisa exploratória, pesquisa quantitativa ou qualitativa, história</p><p>oral, ensaio teórico, pesquisa empírica, etc.). Esta concepção invade</p><p>igualmente os critérios de avaliação (de teses, dissertações, monografias,</p><p>artigos em revistas, projetos financiados por agências de fomento, trabalhos</p><p>em congressos acadêmicos), como se toda a pesquisa tivesse a mesma</p><p>orientação epistemológica: a padronização estabelece uma ciência única e</p><p>uma única epistemologia, tornando-se assim, uma ideologia do formalismo</p><p>técnico e operacional.</p><p>O método da pesquisa, fundamento de todo Ato Epistemológico, tem</p><p>sido reduzido na prática da ciência atual às técnicas de investigação. A</p><p>supremacia das técnicas sobre o objeto (a matéria), sua imposição</p><p>apriorística ao processo epistêmico, sua valorização diante da dinâmica e da</p><p>complexidade da realidade, reduziram a produção do conhecimento a</p><p>procedimentos operacionais e formalistas, em que a realidade é apenas uma</p><p>coisa sem vida que precisa ser esquadrinhada cronologicamente de acordo</p><p>com um ritual estandardizado46.</p><p>Embora o método de investigação seja essencial para a efetiva</p><p>representação da realidade e ainda que o método não se desvincule do</p><p>objeto, o Ato Epistemológico não se esgota no método, no processo de</p><p>investigação e produção do conhecimento. A exposição da pesquisa é tão</p><p>importante quanto sua realização.</p><p>Neste sentido, não seria incorreto</p><p>considerar que o método está presente tanto na investigação quanto na</p><p>exposição, embora de modos diferentes e segundo propósitos objetivos</p><p>específicos. Entretanto, a subordinação do Ato Epistemológico a um</p><p>organograma formal e burocrático, que favorece a magia dos atos</p><p>subalternos, tem imposto esquemas rotineiros ao processo de produção do</p><p>conhecimento nos quais a pesquisa é aprisionada em uma “sucessão de</p><p>etapas distintas e predeterminadas” (Bruyne, et al., 1977, p. 30), as quais</p><p>valorizam antes a aparência do fazer científico, a forma de</p><p>operacionalização da investigação e os meios de exposição, do que a</p><p>realidade e a produção do conhecimento sobre ela.</p><p>2.10 Epistemologia: da investigação à exposição</p><p>Em geral, a exposição da pesquisa segue certa ordem formal:</p><p>introdução; revisão teórica (o estado da arte); exposição da metodologia</p><p>(design, técnicas e procedimentos); apresentação do objeto investigado (o</p><p>campo empírico, o caso estudado); análise do objeto investigado;</p><p>conclusão. Mas a lógica da exposição não é a mesma da investigação, ou</p><p>seja, a pesquisa da forma é anterior à sua descrição (Bacon, 1979). Neste</p><p>sentido, não é incomum encontrar nas exposições (especialmente em</p><p>dissertações e teses), particularmente nos capítulos dedicados à análise do</p><p>campo empírico, o aparecimento de conceitos e teorias que o pesquisador</p><p>encontrou exatamente ao elaborar sua análise da realidade: são conceitos e</p><p>teorias que não estavam previstas nos protocolos previamente codificados.</p><p>Estes relatórios (dissertações e teses) sugerem (revelam) que a exposição</p><p>foi construída na mesma lógica da investigação e que toda a descoberta</p><p>surge, no texto expositivo, como se fossem mágicas restaurações da</p><p>condição analítica. Também não é incomum que estas descobertas teóricas e</p><p>conceituais entrem em contradição com o exposto no capítulo da revisão</p><p>teórica. Para evitá-las, observa-se, em algumas exposições, que o</p><p>pesquisador, no momento da análise, tenta, em nome da coerência,</p><p>introduzir, a fórceps, no meio do texto analítico, excertos de referências</p><p>teóricas previamente expostas (seja para afirmá-las ou para contestá-las),</p><p>como se este procedimento fosse, por si só, capaz de garantir a legitimidade</p><p>da descoberta47. Neste sentido,</p><p>Sem dúvida, deve-se distinguir o modo de exposição segundo sua forma, do</p><p>modo de investigação. A investigação deve se apropriar da matéria em seus</p><p>detalhes, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e rastrear seu nexo</p><p>interno. Somente depois de consumado tal trabalho é que se pode expor</p><p>adequadamente o movimento real. Se isso é realizado com sucesso. E se a vida</p><p>da matéria é agora refletida idealmente, o observador pode ter a impressão de se</p><p>encontrar diante de uma construção a priori. (Marx, 2013, p. 90)</p><p>A exposição deve ser realizada de forma metódica, com estilos</p><p>apropriados, com uma adequada configuração arquitetônica e estética, com</p><p>coerência lógica e significativa, com objetividade e inteligibilidade. A</p><p>exposição é o momento do Ato Epistemológico em que se apresentam,</p><p>didaticamente, as articulações de sentido, a estruturação da teoria, a</p><p>problemática da pesquisa, as análises e conclusões. A lógica expositiva é</p><p>tão relevante quanto a da investigação, pois é a forma mediada, pelo</p><p>pesquisador, entre a realidade pesquisada e seus “destinatários” (estudantes,</p><p>professores, pesquisadores, leitores interessados ou casuais, enfim, aqueles</p><p>a quem se destinam os resultados da investigação). Uma pesquisa bem</p><p>conduzida pode se desfazer em uma exposição mal feita. A exposição, para</p><p>os que não estão diretamente envolvidos na pesquisa, é a única forma de</p><p>acesso aos seus resultados e, portanto, exigente no que se refere à relação</p><p>entre a abstração e a formalização.</p><p>A valorização da exposição não deve corresponder à sua centralidade no</p><p>Ato Epistemológico. Quando o esquema de exposição se organiza</p><p>anteriormente ao processo de investigação, a pesquisa pode se encontrar</p><p>desde antes de seu início concreto já condicionada pela lógica expositiva,</p><p>que servirá como guia de conduta das descobertas e, portanto, de restrição</p><p>formal das originalidades, críticas, inovações, particularidades e</p><p>rompimentos.</p><p>2.11 Epistemologia em Ciências Humanas, Sociais e Sociais</p><p>Aplicadas e em Estudos Organizacionais</p><p>Na primeira aproximação, epistemologia foi conceituada como o estudo</p><p>sobre a produção do conhecimento científico, filosófico e tecnológico que</p><p>têm por objetivo explicar os saberes atuais e os armazenados pela sociedade</p><p>(técnicos, históricos, sociais, lógicos, matemáticos ou linguísticos),</p><p>organizar e sistematizar as suas relações, esclarecer os seus vínculos e</p><p>avaliar os seus resultados e aplicações. Do ponto de vista do conhecimento</p><p>científico, filosófico e tecnológico48, o conceito de epistemologia exige</p><p>uma concepção mais precisa, pois não é todo o conhecimento que é seu</p><p>objeto. Por este motivo, a epistemologia está sendo considerada, aqui, em</p><p>sua forma reduzida, como o estudo sistemático sobre o processo de</p><p>produção do conhecimento científico, filosófico e tecnológico e não como o</p><p>estudo do conhecimento propriamente dito. Além disso, a epistemologia de</p><p>que se trata neste estudo não se refere a quaisquer conhecimentos, mas</p><p>àqueles que têm por objeto o saber científico, filosófico e tecnológico no</p><p>campo das CHSSA-EOR. Não se trata, nem de longe, de desvalorizar os</p><p>conhecimentos culturais, artísticos, populares, de senso comum, etc. Trata-</p><p>se de delimitar o campo deste estudo. Portanto, é preciso deixar claro que a</p><p>produção de conhecimento em geral (cultural, popular, prático, artístico,</p><p>etc.) é um Ato Epistemológico, de forma que a epistemologia, enquanto</p><p>estudo sobre como o conhecimento se produz, não se restringe a</p><p>determinados tipos de conhecimento. A delimitação aqui proposta apenas</p><p>pretende concentrar-se naqueles Atos Epistemológicos que atendem ao</p><p>propósito exposto49.</p><p>Já foi indicado no início o que se entende, aqui, por produção do</p><p>conhecimento, mas convém repetir: por produção do conhecimento se</p><p>entende a produção mesmo, original e inovadora do conhecimento, bem</p><p>como sua obtenção, seja por meios formais (educacionais e/ou sociais) ou</p><p>não formais (tácitos, vivenciais), ou pela transmissão pela cultura; pelo</p><p>desenvolvimento do conhecimento acumulado na pesquisa científica, na</p><p>tecnologia ou na filosofia; pela construção de novos saberes pela prática</p><p>social que renovam ou superam os saberes constituídos e pela organização,</p><p>sistematização e disseminação do conhecimento pelos mais diferentes</p><p>meios.</p><p>A epistemologia de que trata este estudo, deste modo, estuda a produção</p><p>do conhecimento em CHSSA-EOR baseada na vigilância recíproca que</p><p>ciência e filosofia fazem, cada uma, sobre a construção e produção da outra</p><p>e do saber tecnológico. Quebra-se, aqui, a fórmula da partenogênese, pois</p><p>em ambos os casos há uma crítica externa. Deste modo, portanto, ou seja,</p><p>do ponto de vista do conhecimento científico, filosófico e tecnológico, a</p><p>epistemologia deve ser reconhecida e referida como o estudo sistemático da</p><p>produção do conhecimento, que se vale tanto da ciência quanto da filosofia.</p><p>Epistemologia deve ser considerada como o estudo sistemático da</p><p>produção do conhecimento científico, filosófico e tecnológico que tem por</p><p>objeto a apreensão da realidade (através da ciência, da tecnologia e da</p><p>filosofia) dos fenômenos, práticas (ações) e saberes armazenados pela</p><p>sociedade. O estudo sistemático da produção do conhecimento, nestas</p><p>condições, é baseado em instâncias integradas de mediação (objeto ↔</p><p>sujeito) que devem ser:</p><p>i. Não dogmáticas ou absolutas, mas flexíveis e coletivas, em que todo o</p><p>objeto do conhecimento pode ser matéria (princípio), instrumento (meio) e</p><p>produto ou forma (fim);</p><p>ii. Sem conteúdos prévios, mas construídas através da sistematização</p><p>das suas relações, do esclarecimento dos seus vínculos, da avaliação dos</p><p>seus resultados e aplicações;</p><p>iii. Não hierarquizadas, de forma que o objeto e o sujeito do</p><p>conhecimento se encontram em um processo de interação (a representação</p><p>do objeto decorre de uma mediação pelo sujeito), e que a alternância e a</p><p>polivalência do objeto e do sujeito (no que se refere à mediação) é uma</p><p>regra e não uma exceção.</p><p>iv. Baseadas em uma análise crítica dos procedimentos metodológicos</p><p>utilizados como fundamentos da produção do conhecimento.</p><p>Esta concepção, portanto, remete ao método de produção do</p><p>conhecimento, ou seja, ao estudar como o conhecimento se produz, a</p><p>epistemologia não pode abstrair-se do método de produção deste</p><p>conhecimento, dos procedimentos, da relação ontológica entre o sujeito e o</p><p>objeto no ato da produção. É neste sentido que se insiste no fato, já indicado</p><p>e ao qual se retornará, de que toda Dimensão Epistemológica tem uma</p><p>Metodologia que lhe é pertinente, ou seja, que representa sua estrutura</p><p>constitutiva.</p><p>Neste estudo, a questão central, no sentido mencionado, é: como o</p><p>conhecimento Científico, filosófico e tecnológico em CHSSA-EOR é</p><p>produzido? Como já exposto, existem dois condicionantes principais da</p><p>produção do conhecimento que se encontram em um nível pré-</p><p>epistemológico. Nesta linha de raciocínio, pode-se afirmar, com Bachelard</p><p>(2006), a partir de seu conceito de vetor epistemológico, que os dois polos</p><p>extremos que constituem os paradigmas iniciais pré-epistemológicos a</p><p>partir dos quais se move a epistemologia são:</p><p>i. Empirismo puro ou experimentação: a origem do conhecimento</p><p>provém unicamente da experiência. O conhecimento decorre da redução do</p><p>ser ou do objeto ao pensamento.</p><p>ii. Racionalismo puro ou idealismo: o real é plenamente cognoscível</p><p>pela razão ou pela inteligência e não pela intuição, pela vontade, pela</p><p>sensibilidade, etc. A origem do conhecimento é determinada por princípios</p><p>racionais, inatos ou a priori, ainda que se possa condicionar a validade do</p><p>seu uso à disponibilidade de dados empíricos.</p><p>Entre estes dois polos encontram-se as diferentes Dimensões</p><p>Epistemológicas Básicas nas CHSSA-EOR contemporâneos, conforme</p><p>indicado na Figura 3 a seguir. Estas Dimensões não se encontram dispostas</p><p>em um continuum, mas organizadas segundo o pressuposto fundamental da</p><p>primazia do real ou do pensamento na produção do conhecimento50.</p><p>Figura 3. Os Polos Pré-Epistemológicos e as Dimensões</p><p>Epistemológicas Contemporâneas Básicas</p><p>Fonte: JHFaria.</p><p>Estes vetores sugeridos por Bachelard (2006) e dos quais se podem</p><p>deduzir as Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas em</p><p>CHSSA-EOR, estão na origem das concepções epistemológicas de</p><p>Sócrates, Platão e Aristóteles. Como já exposto, as proposições</p><p>epistemológicas históricas apontam para o fato de que o Ato</p><p>Epistemológico (o ato de produção do conhecimento científico, filosófico e</p><p>tecnológico), que encerra uma relação ontológica “ser social«objeto</p><p>material” recorre a um método, ou seja, a um procedimento orientador da</p><p>apreensão do objeto pelo pensamento (da forma como o conhecimento é</p><p>produzido).</p><p>Japiassu (1975, p. 16) defende a concepção de que a epistemologia é o</p><p>“estudo metódico e reflexivo do saber, de sua organização, de sua</p><p>formulação, de seu desenvolvimento, de seu funcionamento e de seus</p><p>produtos intelectuais”. Para Japiassu (1975, p. 16) existem três tipos básicos</p><p>de epistemologia aos quais acrescenta mais dois tipos:</p><p>i. Epistemologia Global: saber globalmente considerado;</p><p>ii. Epistemologia Particular: leva em consideração um campo particular</p><p>do saber;</p><p>iii. Epistemologia Específica: leva em conta uma disciplina</p><p>intelectualmente constituída em unidade bem definida do saber;</p><p>iv. Epistemologia Interna: consiste na análise crítica que se faz dos</p><p>procedimentos de conhecimentos que utiliza para estabelecer os</p><p>fundamentos disciplinares;</p><p>v. Epistemologia Derivada: analisa da natureza dos procedimentos de</p><p>conhecimento de uma ciência para saber como esta forma de conhecimento</p><p>é possível e para determinar a parte que cabe ao Sujeito e a parte que cabe</p><p>ao Objeto no modo particular de conhecimento que caracteriza uma ciência.</p><p>À epistemologia derivada Japiassu dá o nome de epistemologia geral.</p><p>A epistemologia, neste sentido, não pertence à filosofia e a qualquer</p><p>ramo da ciência, mas a todos, pois os interroga permanentemente. Cabe à</p><p>epistemologia questionar o conhecimento produzido pela ciência, pela</p><p>filosofia e pela tecnologia. Japiassu (1975) classifica a epistemologia em</p><p>modelos, porém sua proposta é problemática. Por exemplo: (i) a diferença</p><p>entre epistemologia lógica e racional acaba sendo apenas terminológica,</p><p>pois em termos de produção do conhecimento, toda racionalidade</p><p>epistemológica obedece a uma lógica; (ii) o Pós-modernismo, ainda que</p><p>possa ser considerado, no limite, crítico, enquanto crítica da chamada</p><p>epistemologia tradicional, não é histórico; (iii) o materialismo histórico, que</p><p>deveria compor a perspectiva de uma epistemologia histórica-crítica, sequer</p><p>é mencionado.</p><p>Considerando o exposto e as análises históricas, o conceito de</p><p>epistemologia como teoria do conhecimento, que passou a ser adotado a</p><p>partir do início dos anos 1900, é metafísico. Para evitar esta indeterminação</p><p>conceitual, é necessário fixar uma proposição que tenha por fundamento sua</p><p>própria história.</p><p>2.12 Epistemologia: conceito</p><p>Tendo em vista as aproximações conceituais previamente expostas, bem</p><p>como toda a análise histórica e conceitual precedente, já se está em</p><p>condições de propor aqui o conceito de Epistemologia.</p><p>Epistemologia é o estudo crítico e ordenado sobre o Ato</p><p>Epistemológico, ou seja, é o estudo crítico sobre como, metodologicamente,</p><p>o conhecimento rigoroso (científico, filosófico e tecnológico) é social e</p><p>historicamente produzido (a partir da relação ontológica objetiva e</p><p>subjetiva sujeito ↔ objeto, consciência ↔ matéria), sistematizado e</p><p>exposto (publicizado) segundo princípios socialmente condicionados e</p><p>validados.</p><p>Este conceito, aqui originalmente proposto, difere dos conceitos</p><p>tradicionais, o que, portanto, introduz uma diferença fundamental na análise</p><p>e na proposição das Dimensões Epistemológicas Básicas. Epistemologia</p><p>não é tratada, aqui, como estudo do conhecimento em si ou do saber, como</p><p>sendo uma espécie de sociologia ou filosofia do conhecimento, como uma</p><p>trajetória da gnosiologia, como uma teoria do conhecimento ou como uma</p><p>ciência do saber. O conceito proposto trata da materialidade da produção do</p><p>conhecimento científico, filosófico e tecnológico, especialmente dedicado</p><p>às CHSSA-EOR, ou seja, do que aqui se denomina de Ato Epistemológico.</p><p>A ênfase não está no conhecimento em si mesmo, mas no processo de sua</p><p>produção material. Todo Ato Epistemológico que visa êxito na</p><p>representação da totalidade cognoscível do fenômeno ou objeto demanda</p><p>um necessário Tempo Epistemológico, que não se reduz às exigências</p><p>formais e normativas. O Tempo Epistemológico é o tempo necessário de</p><p>investigação e exposição do objeto ou fenômeno em sua inteireza e</p><p>complexidade.</p><p>Este não é e tampouco pretende ser um metaconceito que supera</p><p>definitivamente todos os demais, mas que ao se diferenciar, marca seu</p><p>território na disputa conceitual para alicerçar os argumentos expostos. As</p><p>diferenças, que se consideram fundamentais, são:</p><p>i. O Ato Epistemológico é um ato propriamente humano, da natureza</p><p>(ou condição) humana. O conhecimento sobre um objeto representa a</p><p>humanização do objeto, ou seja, sua apropriação como objeto pensado;</p><p>ii. Não é o objeto que é produzido pelo pensamento, mas o</p><p>conhecimento sobre ele. O objeto-em-si existe em si externamente ao</p><p>sujeito e independentemente de ele acessá-lo ou representá-lo. O fato de o</p><p>objeto não ser conhecido não é equivalente à sua inexistência. Considerar</p><p>que a existência do objeto-em-si passa a ser concreta apenas quando ele é</p><p>conhecido, é um paradoxo, já que ele não poderia ser conhecido se não</p><p>existisse. Neste sentido é que se argumenta que a representação do objeto</p><p>não ocorre sem que ele seja cognoscível. A cognoscibilidade é condição</p><p>essencial de todo objeto cognoscível. O que não pode ser conhecido não</p><p>tem como ser representado;</p><p>iii. Sendo o objeto ele próprio (e ao mesmo tempo) matéria-prima e</p><p>resultado do Ato Epistemológico,</p><p>metodológicas e teóricas, ou seja, existem</p><p>diferentes dimensões epistemológicas. E estas diferentes dimensões nem</p><p>sempre são claras para os pesquisadores, o que significa que há, aí, um</p><p>campo a ser discutido.</p><p>A epistemologia, enquanto estudo da produção do conhecimento,</p><p>também não pode ser pensada de apenas uma perspectiva. O estudo sobre</p><p>como o conhecimento é produzido implica considerar que esta produção</p><p>não é uniforme e padrão. Ao contrário, se dá a partir de uma dada</p><p>Dimensão. Em vista disto, este tema precisa ser estudado com mais</p><p>profundidade, pois seu conceito revela, igualmente, a própria Dimensão</p><p>Epistemológica que o produziu. Em outras palavras e para deixar posto</p><p>desde o início, estudar a produção do conhecimento estabelecendo</p><p>diferentes Dimensões, implica desde logo seguir uma dada Dimensão. No</p><p>caso, trata-se de um estudo em que as dimensões são formas históricas da</p><p>produção do conhecimento e não resultados de elaboração de modelos</p><p>(lineares ou circulares), de paradigmas matriciais, de sistemas de</p><p>pensamento, etc.</p><p>Ao discutir o texto original com alguns professores, inevitavelmente</p><p>emergiram apropriados questionamentos sobre a não inclusão de autores e</p><p>temas e sobre o não posicionamento analítico em alguns casos. O que posso</p><p>dizer é que ao me defrontar com a magnitude do projeto fui obrigado a</p><p>definir limites, muitas vezes a contragosto. As escolhas dos autores, por</p><p>mais que eu tenha procurado observar sua coerência, têm uma dose</p><p>inevitável de arbitrariedade. Foi necessário fazer uma seleção. Já os temas,</p><p>tais como complexidade, interacionismo simbólico, institucionalismo e neo-</p><p>institucionalismo, Escola de Frankfurt, ação comunicativa (e todo o</p><p>importante trabalho de Habermas), virada linguística, por exemplo, por</p><p>mais relevantes que sejam (como de fato o são), os considero antes teorias</p><p>do que propriamente epistemologias. Estes temas demandam outro espaço e</p><p>outra forma de análise e exposição. Entendo, contudo, que os fundamentos</p><p>genéticos das questões epistemológicas às quais esses temas se vinculam</p><p>estão aqui expostos.</p><p>A diversidade das concepções sobre o mesmo tema ou autor se</p><p>apresenta desde o início. Todos os temas (verdade, conhecimento,</p><p>epistemologia, ontologia, teoria, metodologia, interdisciplinaridade, etc.) e</p><p>todos os autores tratados aqui, sem exceção, bem como seus comentadores</p><p>e estudiosos, são polêmicos. Não há concepções definitivas nem mesmo</p><p>entre intérpretes de um mesmo autor, ao contrário. Há diversas e diferentes</p><p>concepções sobre estes temas e autores e, paradoxalmente, cada uma</p><p>advoga para si a única, a verdadeira e a definitiva interpretação. Isto</p><p>significa que qualquer uma das concepções aqui expostas necessariamente</p><p>se defronta com outras que com ela divergem. Para marcar posição e sem</p><p>pretensão de oferecer a “melhor” interpretação, do mesmo modo como</p><p>outros pesquisadores definiram suas concepções, aqui também as defino.</p><p>Todo o pesquisador necessita, honestamente, definir seu lugar com</p><p>independência e autonomia intelectual. Neste terreno de disputas</p><p>interpretativas a garantia da independência e da autonomia é exatamente a</p><p>polêmica. Quanto mais discordância elaborada se pode provocar, mais se</p><p>consegue investir contra o que é fossilizado pelos dogmas explícitos e</p><p>disfarçados.</p><p>A proporção física editorial que este estudo tomou, obrigou a retirar</p><p>análises críticas que estavam nas considerações originais dos capítulos 08 a</p><p>17, que aqui aparecem apenas em seu formato expositivo, deixando ao</p><p>leitor a tarefa de análise. De alguma forma, a análise crítica está presente</p><p>quando se estabelece o confronto entre as dimensões e as propostas, mas</p><p>elas não foram explicitamente incluídas no texto deste estudo. Estas</p><p>análises críticas e dedicadas de cada um destes capítulos é parte de um</p><p>projeto que pretendo retomar e executar mais adiante. Embora idealmente</p><p>frustrante, é uma decisão decorrente das condições concretas.</p><p>O final da pesquisa e de sua exposição revela uma contradição, como</p><p>ensina a dialética: ao mesmo tempo em que provoca alguma satisfação pela</p><p>superação do desafio inicialmente proposto, também faz emergir um</p><p>incômodo, no caso, o de não ter dado conta de expor em profundidade</p><p>adequada todas as proposições dos autores estudados, de não ter realizado</p><p>uma discussão crítica dedicada a vários autores e a suas concepções, de não</p><p>ter conseguido discutir todos os autores consultados que têm contribuições</p><p>importantes para o tema e de não ter dado conta de algumas questões</p><p>epistemológicas e ontológicas relevantes. Acredito, contudo, que todo o</p><p>trabalho de pesquisa é sempre parte de algo necessariamente inacabado e</p><p>inacabável.</p><p>É preciso reconhecer, neste sentido, que o Tempo Epistemológico tem</p><p>este péssimo hábito de exceder o tempo da exposição parcial das</p><p>formulações produzidas, de forma que estas se revelam necessariamente em</p><p>suas incompletudes. Resta a condição, não necessariamente confortável, de</p><p>considerar que, dependendo de condições concretas, o que não foi realizado</p><p>agora pode se constituir, talvez, em um projeto a ser realizado em outra</p><p>oportunidade. Afinal, como ensina a prática do próprio Ato Epistemológico,</p><p>o fato de os incômodos se tornarem desafios para o pesquisador, desde logo</p><p>o coloca na estrada.</p><p>Notas</p><p>1. Como esclarecido logo adiante, a expressão sujeito é utilizada no sentido do Ser Social, sem</p><p>distinção de qualquer tipo.</p><p>2. Sempre que se utilizar a expressão pesquisador ou pesquisadores, professor ou professores, trata-se</p><p>necessariamente de uma convenção gramatical. De fato, trata-se da pesquisadora, da professora, do</p><p>pesquisador, do professor, de professores(as) e pesquisadores(as) independentemente de qualquer</p><p>condição. Esta é apenas uma comodidade da escrita segundo a regra gramatical.</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Epistemologia tem sido concebida, tradicionalmente, como teoria do</p><p>conhecimento, filosofia do conhecimento, filosofia da ciência ou ciência do</p><p>conhecimento3. Neste estudo, epistemologia é conceituada como estudo</p><p>sobre como o conhecimento (científico, filosófico e tecnológico) é</p><p>produzido. Este conceito remete ao método de produção e exposição do</p><p>conhecimento e não a uma teoria do conhecimento. O método de produção</p><p>do conhecimento trata da práxis da investigação, que aqui se conceitua de</p><p>Ato Epistemológico propriamente dito e, portanto, da relação ontológica</p><p>entre o sujeito pesquisador (ser social individual e coletivo) e o objeto ou</p><p>fenômeno de sua pesquisa. Em outras palavras, a epistemologia trata da</p><p>relação ontológica entre o sujeito pesquisador, como ser social, e o objeto-</p><p>fenômeno, como realidade concreta social e historicamente condicionada.</p><p>Esta é, pretensiosamente, a originalidade deste estudo.</p><p>O que se encontra aqui é uma concepção que relaciona epistemologia,</p><p>ontologia e metodologia na produção teórica, filosófica ou tecnológica do</p><p>conhecimento, rompendo com a abordagem tradicional de epistemologia</p><p>que se dedica ao conhecimento em si mesmo ou à sua teoria e propondo</p><p>outra conceituação. Rompendo também com a concepção dos modelos e</p><p>paradigmas que produzem a substância conceitual para, a partir dela,</p><p>explicarem a realidade que lhe deu origem. Dada a abrangência do tema,</p><p>contudo, este estudo se concentrará na produção do conhecimento nos</p><p>estudos que têm por campo concreto as relações e práticas sociais e que</p><p>serão genericamente chamados, aqui, de Estudos em Ciências Humanas,</p><p>Sociais e Sociais Aplicadas – CHSSA, com ênfase no campo dos Estudos</p><p>Organizacionais, segundo a convenção classificatória das pesquisas. Em</p><p>outras palavras, será dada ênfase às relações e práticas sociais que se</p><p>desenvolvem um unidades produtivas organizadas (empresas, escolas,</p><p>órgãos públicos, cooperativas, indústrias, clubes, associações, sindicatos,</p><p>partidos, governos) ou em movimentos sociais organizados (que atuam no</p><p>campo do Estado, inclusive para superá-lo). Por relações e práticas sociais</p><p>entenda-se a forma concreta das relações históricas de produção de</p><p>condições materiais de existência (objetivadas em mercadorias e serviços) e</p><p>não sua forma abstrata</p><p>o objeto-em-si não pode ser apropriado</p><p>como objeto-em-si, senão como objeto-para-si que decorre do Ato</p><p>Epistemológico. A representação (a apreensão do objeto pelo pensamento)</p><p>é necessariamente a forma do objeto-para-si, do objeto abstraído no Ato</p><p>Epistemológico. Insistindo: como sugere Espinosa, o conceito do cão não</p><p>late (a representação da coisa não é a coisa, mas sem a coisa não há</p><p>representação da coisa);</p><p>iv. O conhecimento se apresenta necessariamente como uma abstração</p><p>do objeto, ou seja, a consciência representa (reproduz) o objeto (a matéria</p><p>do conhecimento) como objeto pensado (matéria pensada) e não como</p><p>objeto em-si;</p><p>v. O Ato Epistemológico não se esgota na produção investigativa do</p><p>conhecimento. As condições em que se dá a investigação, suas exigências</p><p>prévias, a exposição e tudo que esta pode suscitar, também constituem este</p><p>Ato;</p><p>vi. A produção do conhecimento rigoroso exige um método adequado.</p><p>O “como” produzir não é um modo qualquer no qual se encontra qualquer</p><p>resultado;</p><p>vii. A produção deste conhecimento ocorre na relação objetivamente</p><p>determinada sujeito-objeto, o que significa que se considera superada a</p><p>distinção entre objetividade e subjetividade inerente a esta relação;</p><p>viii. Os determinantes sociais e históricos não são equivalentes</p><p>coercitivos de uma submissão da epistemologia às pré-condições de sua</p><p>produção;</p><p>ix. O processo de pensamento que forma a consciência sobre o real é</p><p>socialmente subjetivo. Este processo subjetivo objetiva-se na consciência</p><p>concreta sobre o real na forma de real pensado;</p><p>x. Conhecimento objetivamente determinado significa a condição</p><p>objetiva de representar o objeto de um modo não casual, mas previamente</p><p>disposto (planejado, definido) em que descobertas originais podem ser</p><p>(geralmente são) indeterminadas;</p><p>xi. Mesmo o conhecimento inovador, transformador e revolucionário se</p><p>encontra social e historicamente condicionado;</p><p>xii. O problema ontológico é essencial ao enfatizar, ao mesmo tempo, o</p><p>sujeito pesquisador como ser social e o objeto da pesquisa como</p><p>historicamente determinado pelas condições concretas em que se encontra e</p><p>se desenvolve;</p><p>xiii. A exposição do conceito e da teoria, assim como sua produção, é</p><p>socialmente validada de forma objetiva em seu tempo histórico, afastando-</p><p>se, portanto, do dogmatismo e dos modelos/paradigmas definitivos. Se tudo</p><p>já estivesse dado, nada mais haveria a ser descoberto e proposto;</p><p>Há riscos e fragilidades nesta definição? Certamente, como sempre</p><p>ocorre na ciência, na filosofia e no conhecimento tecnológico, mas sem</p><p>riscos tampouco há avanços. É exigência epistemológica superar obstáculos</p><p>epistemológicos, inclusive seus próprios.</p><p>Este Capítulo tratou de apresentar alguns dos conceitos básicos que</p><p>fundamentam o estudo da epistemologia em CHSSA-EOR para, ao final,</p><p>formular o conceito que orienta esse estudo. Os conceitos, inclusive o de</p><p>epistemologia aqui proposto, inobstante sejam polêmicos, foram</p><p>apresentados com a finalidade de esclarecimento e posicionamento. Em</p><p>linhas gerais, epistemologia poderia significar apenas reflexões que se</p><p>expressam teoricamente e que se encontram expostas nos textos, ou seja,</p><p>procedimentos efetivamente utilizados quando o texto foi concebido.</p><p>Porém, como exposto, esta concepção é bastante simples e remete aos</p><p>primeiros conceitos de interpretação, porquanto ao não dispor de categorias</p><p>de mediação e de elementos constitutivos destas categorias, faz da</p><p>epistemologia um ato formal destituído de qualquer dinâmica. Trata-se,</p><p>agora, de entrar em um terreno também pantanoso: a dialética.</p><p>Notas</p><p>33. Conjunto de imagens psíquicas presentes no inconsciente coletivo (a parte mais profunda do</p><p>inconsciente) herdado geneticamente e que pode se manifestar nas crenças religiosas, mitológicas.</p><p>34. A religião, contudo, pode ser objeto de estudo, como, por exemplo, em Durkheim (1978b), para</p><p>quem a religião é um fato social.</p><p>35. Dimensões Epistemológicas Gerais referem-se a qualquer ramo das ciências.</p><p>36. Considere-se o quão precária pode ser uma pesquisa sobre uma determinada política pública na</p><p>qual o pesquisador entrevista dois “observadores”: o diretor de uma agência, que representaria o</p><p>poder público, e o diretor de uma organização, que representaria a sociedade que utiliza o serviço</p><p>público. A partir destas duas entrevistas (realizadas, cada qual, em uma única ocasião), o pesquisador</p><p>tira conclusões gerais sobre o tema. Não há nenhuma cientificidade neste processo, apenas uma</p><p>especulação ornamentada por referências teóricas oportunistas.</p><p>37. Este trecho em itálico é livre tradução do ensaio de Adorno (2001) sem, entretanto, obedecer à</p><p>sequência exata do texto original, ou seja, não é uma transcrição literal. Trata-se, antes, de uma</p><p>construção textual cuja referência se encontra no referido ensaio.</p><p>38. “Lógica Formal/Lógica Dialética” foi escrito por Henri Lefebvre em 1946-1947 e publicado em</p><p>1947 como o primeiro de oito tomos do que seria o “Tratado de Materialismo Dialético”. Os demais</p><p>sete tomos, contudo, não foram publicados. Lefebvre afirma que o projeto foi abandonado por</p><p>motivos políticos, especificamente o stalinismo e sua exegese que se apresentava, então, como sendo</p><p>a interpretação suficiente para a formação ideológica da classe operária e como a verdadeira</p><p>interpretação neo-hegeliana do materialismo histórico. Lefebvre se encontrava, portanto, em um</p><p>terreno espinhoso, em que enfrentava ao mesmo tempo os não-marxistas, os antimarxistas e certo</p><p>tipo de marxismo no campo da filosofia e da luta política. Tendo publicado mais de 70 livros (apenas</p><p>1/3 deles traduzidos para o português), Lefebvre se destacou não apenas no campo da filosofia, como</p><p>nas áreas da geografia (inspirando David Harvey), do direito, da sociologia, da economia, da política.</p><p>Sua teoria dobre o Direito à Cidade é uma referência marcante nos estudos sobre a questão urbana.</p><p>39. Esta discussão sobre os polos ou concepções, por sua importância teórica, já foi anteriormente</p><p>mencionada e voltará a aparecer adiante em diversos momentos, porém de maneira cada vez mais</p><p>elaborada.</p><p>40. Há, aqui, uma referência à certa interpretação sobre a ontologia do ser social proposta por</p><p>Lukács.</p><p>41. A proposta de Boaventura de Sousa Santos apresenta diversos problemas que merecem ser</p><p>debatidos e criticados. Entretanto, esta é uma tarefa para outra oportunidade.</p><p>42. Um sujeito que possui um déficit de aprendizagem, como a dislexia, por exemplo, pode</p><p>apresentar dificuldades no aprendizado que não decorrem de fatores sociais. A dislexia tem uma base</p><p>neurológica. É uma dificuldade primária do aprendizado, mas não resultado de má alfabetização,</p><p>desatenção, desmotivação, condição socioeconômica ou baixa inteligência. Os pesquisadores destas</p><p>condições cognitivas sugerem que, materialmente, a condição genética interfere nas relações sociais,</p><p>nas habilidades e capacidades, mas não significam que os sujeitos (pessoas com deficiência) sejam</p><p>anormais ou menos inteligentes. Einstein, por exemplo, era disléxico. O chamado padrão de</p><p>normalidade é arbitrário. Portanto, o julgamento, a avaliação e a concepção com que se tratam</p><p>pessoas com deficiência podem estar carregados de preconceito.</p><p>43. A condição de produção do conhecimento por um membro de uma tribo distante da civilização</p><p>moderna não tem como ser comparada com a mesma condição de um sujeito que tem acesso ao</p><p>conhecimento científico, filosófico e tecnológico da modernidade se o parâmetro da comparação for</p><p>o estágio de conhecimento acumulado e disponível na modernidade.</p><p>44. Nas ciências humanas e sociais, os instrumentos de investigação são comumente tratados como</p><p>metodologias. Como já exposto, são de fato técnicas ou tecnologias de coleta, processamento,</p><p>tratamento e interpretação, ou seja, são técnicas às quais o método recorre.</p><p>45. Segundo o Novo Testamento, ao ser questionado sobre o que era a verdade, Jesus teria</p><p>respondido: “a verdade sou eu!”. Tal resposta permite ir além do caráter religioso em que se</p><p>inscreveu. Trata-se de uma concepção que indica que o sujeito somente pode falar</p><p>enquanto substância (a Sociedade) e tampouco os</p><p>modos (tipos, modelos, etc.) dela derivados que se apresentam como sendo</p><p>sua encarnação.</p><p>A proposição geral que orienta este estudo é a de que o desenvolvimento</p><p>histórico do processo epistemológico (produção do conhecimento</p><p>científico, filosófico e tecnológico) nos genericamente chamados estudos</p><p>em CHSSA-EOR, materializa-se, na atualidade, em seis Dimensões</p><p>Epistemológicas Contemporâneas Básicas (positivismo, materialismo</p><p>histórico, pragmatismo, fenomenologia, funcionalismo e estruturalismo),</p><p>com seus desdobramentos e variantes. Dimensão (do latim dimensĭo) refere-</p><p>se ao que caracteriza um dado procedimento epistemológico em sua</p><p>constituição objetiva, ou seja, a relação ontológica e metodológica na</p><p>produção do conhecimento entre o ser social (sujeito pesquisador) e o</p><p>fenômeno (objeto histórica e socialmente condicionado). As Dimensões</p><p>Epistemológicas, portanto, não se constituem em modelos ou paradigmas</p><p>abstratos, mas na objetivação de um processo histórico concreto que busca</p><p>responder à questão fundamental da epistemologia: como o conhecimento</p><p>(científico, filosófico e tecnológico) é produzido, especialmente no campo</p><p>dos estudos em CHSSA-EOR?</p><p>De fato, toda investigação empírica que orientou este estudo permitiu</p><p>identificar seis Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas ou</p><p>originais nas pesquisas em CHSSA-EOR e suas variantes, sobre as quais se</p><p>desenvolveram determinados desdobramentos ou vertentes epistemológicas,</p><p>que ora procuram avançar sobre os limites das Dimensões Básicas, ora</p><p>articulam elementos constitutivos de duas ou mais dimensões na proposição</p><p>de diferentes perspectivas epistemológicas. Estas Dimensões</p><p>Epistemológicas Contemporâneas Básicas, que se constituíram desde a</p><p>modernidade, orientam a prática epistemológica em CHSSA-EOR. Para o</p><p>pesquisador, portanto, o desafio mais importante é poder identificar as</p><p>características próprias de cada Dimensão Básica a partir de seus autores</p><p>originais, suas variantes e desdobramentos, nas proposições</p><p>epistemológicas delas decorrentes (dadas pela articulação entre seus</p><p>Elementos Constitutivos) de forma a melhor compreender a lógica interna</p><p>da pesquisa e sua coerência ontológica e metodológica. O hábito pouco</p><p>rigoroso de juntar teorias de várias origens epistemológicas na definição e</p><p>na exposição conceitual de uma pesquisa, tendo como indicativo apenas o</p><p>tema pesquisado, resulta na construção de um edifício teórico incoerente e</p><p>repleto de contradições.</p><p>É neste sentido que convém insistir: este não é um estudo de</p><p>epistemologia, mas sobre epistemologia. Mais precisamente, sobre as</p><p>Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas que estão na origem</p><p>dos estudos em Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas, com ênfase</p><p>nos chamados Estudos Organizacionais – CHSSA-EOR. Contudo, é preciso</p><p>esclarecer que nem todas as orientações das pesquisas podem ser abrigadas</p><p>sob as concepções das Dimensões Epistemológicas Contemporâneas</p><p>Básicas, pois elas possuem variantes epistemológicas e delas decorrem</p><p>desdobramentos, como se verá adiante.</p><p>A definição das Dimensões Epistemológicas não resulta de uma escolha</p><p>classificatória arbitrária e tampouco se constitui em uma substância abstrata</p><p>de onde derivam exatamente as dimensões. Antes, é o resultado de uma</p><p>extensa pesquisa que teve por base o desenvolvimento histórico do processo</p><p>de produção do conhecimento, bem como estudos de artigos publicados em</p><p>periódicos e em anais de congressos, análise de projetos e relatórios de</p><p>pesquisa, avaliação e orientação de dissertações e teses, práticas de</p><p>pesquisa, além de estudos sobre métodos na filosofia e na ciência. O</p><p>material empírico é, aqui, a produção teórica levada ao seu extremo.</p><p>Mais exatamente, o que aqui se conceitua como Dimensões</p><p>Epistemológicas Contemporâneas Básicas em CHSSA-EOR trata destas</p><p>diferentes orientações epistêmicas que predominam nessa área de pesquisa.</p><p>Ainda que seja um estudo sobre epistemologia, o ponto de partida e</p><p>igualmente de referência analítica para o que se pretende desenvolver</p><p>repousa na questão ontológica que subjaz a qualquer processo de produção</p><p>do conhecimento. Enquanto a epistemologia é o estudo sobre a produção do</p><p>conhecimento, ou seja, do processo como se desenvolve o ato gnosiológico</p><p>(como o conhecimento se produz), a ontologia trata da substância do ser</p><p>(social) e da matéria (da coisa ela mesma que transcende as aparências e os</p><p>atributos formais), isto é, como metodologicamente se produz</p><p>conhecimento acerca de um objeto concreto, real e determinado. Não há</p><p>como estudar a produção do conhecimento (epistemologia) sem estudar ao</p><p>mesmo tempo a substância do ser e da matéria (ontologia) historicamente</p><p>determinados.</p><p>Aqui já emerge uma questão importante que merece definição: o ser</p><p>social, referido genericamente como sujeito, indivíduo ou pessoa. As</p><p>expressões não são necessariamente usadas de forma unânime ou</p><p>equivalente. Para Tomás de Aquino, por exemplo, pessoa significa que o</p><p>que é distinto, enquanto indivíduo, é o que é indistinto. Locke, Kant e</p><p>Scheler, por seus turnos, também concebem que há diferença entre pessoa e</p><p>indivíduo. Conquanto haja pensadores que considerem que a expressão</p><p>sujeito é depreciativa, pois sugere uma despersonalização da pessoa (o que</p><p>poderia ser equivalente a indivíduo indistinto), correntes da psicologia</p><p>social e da psicanálise usam a expressão Sujeito enquanto forma de se</p><p>referir ao Ser Consciente ou Ser Social. Estas três denominações e seus</p><p>significados não são pacíficos na filosofia e nas ciências, especialmente nas</p><p>sociais e humanas. Não obstante se considere que pessoa, indivíduo e</p><p>sujeito pertencem necessariamente, de uma perspectiva ontológica, à</p><p>categoria genérica do Ser Social, neste estudo as expressões indivíduo e</p><p>sujeito serão empregadas de formas relativamente dispares sempre que for</p><p>necessário garantir a fidelidade às diferentes concepções de seus</p><p>propositores. Isto será feito somente com o objetivo de marcar a diferença</p><p>conceitual (tanto de concepções filosóficas quanto científicas) entre a</p><p>concepção de ser social e a concepção de unidade distinta e única4. A</p><p>expressão sujeito ou ser social prevalecem nesta exposição como condição</p><p>ontológica histórica e prática do Ser.</p><p>Antes de prosseguir, é preciso ainda insistir que a questão</p><p>epistemológica, especialmente na ciência, na filosofia e na tecnologia, não é</p><p>simplesmente um genérico “como o conhecimento é produzido”. O “como”,</p><p>aqui, refere-se sempre e necessariamente ao método (modo como o</p><p>pensamento elabora e produz conhecimento), e não a um abstrato modo de</p><p>conhecer. Sobre isso e no mesmo sentido, por exemplo, a orientação</p><p>essencial não incide “sobre um abstrato ‘como conhecer’, mas sobre ‘como</p><p>conhecer um objeto real e determinado’” (Lukács, 1979; Paulo Netto, 2011,</p><p>p. 27). Não se trata, portanto, de discutir a epistemologia em si mesma, em</p><p>suas diferentes dimensões, mas de discutir as relações entre o ser social, o</p><p>objeto material e os métodos de produção do conhecimento. São estes</p><p>nexos entre ser social, objeto material (objeto natural de natureza</p><p>humanizada, pois o objeto já é efetivação da humanidade) e método que</p><p>definem e caracterizam as dimensões.</p><p>Assim, a cada dimensão epistemológica corresponde um método</p><p>próprio. Método não deve ser confundido com técnica. Ainda que a</p><p>literatura se refira, por exemplo, a Métodos Quantitativos e Métodos</p><p>Qualitativos, da perspectiva epistêmica tratam-se, ambos, de técnicas de</p><p>pesquisa. A produção do conhecimento no campo das CHSSA-EOR em</p><p>suas seis Dimensões Básicas e em suas variantes e desdobramentos estão</p><p>sustentadas em métodos correspondentes, ou seja, o método positivista, o</p><p>método fenomenológico, o método estruturalista e assim por diante5. As</p><p>técnicas utilizadas em cada método podem ser as mesmas e múltiplas, mas</p><p>são sempre submetidas aos fundamentos destes métodos.</p><p>Ainda que toda epistemologia contenha uma ontologia, nem todas as</p><p>dimensões epistemológicas, que serão expostas mais adiante, consideram</p><p>plenamente e da mesma forma</p><p>o problema ontológico em sua definição</p><p>epistêmica. O positivismo se debruça sobre o objeto ele mesmo e suas</p><p>relações causais separando ontologicamente o ser do objeto; o</p><p>estruturalismo trata dos modelos explicativos que adquirem certa autonomia</p><p>ontológica em relação ao sujeito e aos fatos; o pragmatismo trata da</p><p>utilidade prática do conhecimento, colocando o sujeito e o objeto em uma</p><p>relação instrumental; o funcionalismo trata da relação ontológica como</p><p>resultado das funcionalidades dos fatos e das ações na relação sujeito-</p><p>matéria. Em todos estes casos o problema ontológico se encontra no Ser ou</p><p>no objeto. A fenomenologia, ao proceder à redução eidética (suspensão</p><p>fenomenológica), coloca o problema ontológico no Ser em si mesmo e na</p><p>essência abstrata que atribui ao objeto a partir da experiência do Ser no</p><p>mundo. O materialismo histórico considera ao mesmo tempo a substância</p><p>do Ser e da matéria, mas não trata do Ser em si (que outras dimensões</p><p>tratam como ser individual) e sim do Ser social e histórico, e nem da</p><p>matéria em si mesma (que é tratada como objeto dado), mas da matéria</p><p>histórica que transcende as aparências e os atributos formais. Em ambos</p><p>estes casos (fenomenologia e materialismo histórico) há uma ênfase na</p><p>relação epistemológica e ontológica6. Estas diferenças entre as Dimensões</p><p>não significam que se está diante do par completude-incompletude (o</p><p>quanto uma Dimensão pode ser mais ou menos completa em relação às</p><p>demais), mas que se está diante de diferentes concepções epistemológicas e</p><p>ontológicas.</p><p>A finalidade deste estudo é, portanto, traduzir a complexidade inerente</p><p>ao asseguramento do correto e coerente entendimento das Dimensões</p><p>Epistemológicas Contemporâneas Básicas no campo dos estudos que têm</p><p>por lócus as relações e práticas sociais, especialmente as que se</p><p>desenvolvem em organizações (unidades produtivas, Estado, associações,</p><p>movimentos sociais, etc.) em termos mais acessíveis, indicando seus limites,</p><p>possibilidades, variantes e desdobramentos, a partir da relação ontológica</p><p>entre consciência e matéria. Isto implica, de pronto, assumir uma condição</p><p>crítica às formas tradicionais como a epistemologia tem sido conceituada e</p><p>referenciada. Secundariamente, mas não menos importante, este estudo</p><p>busca oferecer uma contribuição, embora modesta, ao entendimento do</p><p>processo que resulta na elaboração de projetos de pesquisa, artigos</p><p>acadêmicos, dissertações e teses, especificamente no que tange à definição</p><p>da coerência epistêmica, do rigor teórico, da orientação metodológica e dos</p><p>seus limites.</p><p>Neste ponto é necessário voltar a alertar. Este não é um manual que</p><p>ensina os caminhos para se “adotar” uma Dimensão Epistemológica.</p><p>Também não é um estudo destinado a recomendar ou propor a adoção de</p><p>uma ou outra Dimensão que apareceria ao pesquisador como substância</p><p>abstrata da matéria (tal qual os paradigmas, as matrizes, os modelos, etc.).</p><p>Trata-se de um estudo que busca expor os elementos constitutivos de seis</p><p>Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas nas pesquisas em</p><p>CHSSA-EOR e indicar suas variantes e desdobramentos. Portanto, o que se</p><p>está afirmando é que não existem seis epistemologias, mas seis Dimensões</p><p>Básicas e suas variantes em que se distinguem os Atos Epistemológicos em</p><p>CHSSA-EOR e que estão na origem de diversos desdobramentos. Assim,</p><p>quando um pesquisador define suas teorias e métodos de referência, é</p><p>fundamental que reconheça quais (ou qual) as dimensões que estão em sua</p><p>origem. Aqui repousa a questão da coerência que deve estar presente no Ato</p><p>Epistemológico.</p><p>É oportuno ilustrar. O pesquisador define que sua pesquisa terá por</p><p>suporte a Teoria da Prática e a Etnometodologia. Esta escolha é</p><p>principalmente uma derivação do pragmatismo e do interpretacionismo</p><p>comunicativo de matriz fenomenológica. Coerente a esta escolha, é preciso</p><p>considerar que a pesquisa se desenvolve sobre um já dado contexto, ou seja,</p><p>a realidade pesquisada se concentra nas manifestações textuais e</p><p>politextuais imediatas. As relações sociais que condicionam a produção de</p><p>sentido estão abstraidamente dadas. Não é coerente, neste tipo de pesquisa,</p><p>que se estabeleça uma relação entre o texto e as relações histórico-sociais</p><p>que o condicionam e tampouco que se substitua o indivíduo ou o coletivo</p><p>imediato pela concepção de classe ou fração de classe social: para tal, seria</p><p>necessário partir de outro método e de outra dimensão.</p><p>É neste sentido que se procurará neste estudo não apenas identificar</p><p>epistemologias ou resumir o estado da arte, mas propor um modo de tratar</p><p>do tema relacionando à epistemologia e dos métodos de análise no processo</p><p>de produção de conhecimento científico, filosófico e tecnológico em</p><p>CHSSA-EOR. Isto quer dizer que não se tratará aqui de qualquer</p><p>procedimento epistemológico (conhecimento de senso comum, decorrente</p><p>da tradição, hábitos, crenças, religião, tradição cultural, práticas cotidianas,</p><p>etc.), ainda que se considere sua importância nas relações sociais. Em</p><p>outras palavras: a questão nuclear da epistemologia que aqui será</p><p>considerada é como metodologicamente o conhecimento científico,</p><p>filosófico e tecnológico em CHSSA-EOR é produzido pelo pesquisador</p><p>enquanto ser social. Não é demais repetir, tendo em vista a literatura:</p><p>ontologia e epistemologia são condições do pesquisador diante do campo</p><p>empírico ou do objeto de pesquisa e não o uso de uma técnica de pesquisa,</p><p>ainda que esta esteja compreendida no processo ontológico e epistêmico.</p><p>Portanto, ontologia e epistemologia remetem, cada uma com diferentes</p><p>concepções, aos métodos de produção do conhecimento, às orientações</p><p>procedimentais na relação objeto-sujeito-objeto. Métodos estes que, no Ato</p><p>Epistemológico, devem ser submetidos à condição ontológica da relação</p><p>matéria↔consciência no processo gnosiológico.</p><p>A importância deste tema é reconhecida amiúde por avaliadores em</p><p>bancas de dissertações e teses, em pareceres sobre artigos submetidos a</p><p>revistas e congressos e em projetos de pesquisa enviados a órgãos de</p><p>fomento. Tanto mais que mesmo um autor contemporâneo como Sousa</p><p>Santos (2009) pretende dividir a ciência em “paradigma dominante” versus</p><p>“paradigma emergente”, quando sua constituição ontológica e</p><p>epistemológica é mais ampla que esta concepção dualista e não pode ser</p><p>contida em paradigmas excludentes.</p><p>Neste estudo, as Dimensões serão abordadas de forma restrita, a partir</p><p>de suas propostas originais. Estas Dimensões possuem variantes e</p><p>desdobramentos, que serão indicados ao final da exposição de cada uma</p><p>delas. Também serão dedicados capítulos sobre epistemologias específicas</p><p>(que se desdobram das Dimensões) que possuem impactos nas pesquisas</p><p>em CHSSA-EOR (Bachelard, Weber, Popper e Kosik). O objetivo deste</p><p>estudo não é o de analisar criticamente os principais propositores das</p><p>dimensões epistemológicas e das concepções derivadas destas, mas apenas</p><p>o de apresentá-los. Também um estudo mais dedicado deve ser capaz de</p><p>abordar cada uma destas variantes e desdobramentos, o que foge ao</p><p>propósito de um texto introdutório, tal como este. Entretanto, reconhecer a</p><p>existência destas Dimensões nas CHSSA-EOR não apenas é necessário para</p><p>explicitar de que forma tais Dimensões condicionam estes estudos, como</p><p>para indicar seu eixo coerente.</p><p>Neste sentido é que este estudo não pretende promover discussões que</p><p>interessariam exclusivamente aos epistemólogos, ainda que delas se</p><p>aproprie para conduzir suas próprias reflexões. A partir dos resultados dos</p><p>estudos sobre este tema realizados de forma mais dedicada nas últimas duas</p><p>décadas e das discussões em sala de aula em programas de mestrado e</p><p>doutorado e em fóruns específicos, o que se aspira aqui é apenas apresentar</p><p>algumas indicações que se destinem a subsidiar pesquisadores que</p><p>necessitam tanto entender ontologia e epistemologia, mesmo que tenham</p><p>pouca intimidade com o estudo da filosofia, da ciência e do conhecimento</p><p>técnico-tecnológico7, quanto reconhecer os elementos que constituem e</p><p>diferenciam cada uma das dimensões. Este é um estudo sobre epistemologia</p><p>em que se pretende apresentar</p><p>os temas com a máxima atenção didática e</p><p>pedagógica possível, procurando elucidar as diferentes abordagens e</p><p>cuidando de preservar suas características.</p><p>Inobstante ser um estudo introdutório, procura-se desenvolver uma</p><p>abordagem distinta das tradicionais. Neste sentido, procura-se superar os</p><p>limites das abordagens que tratam deste tema segundo uma redução</p><p>paradigmática (em caixas distintas ou em relações) ou segundo uma</p><p>construção temática adjetivada (por exemplo, “epistemologia</p><p>interpretacionista”, “epistemologia didática”, “epistemologia do Sul”, etc.).</p><p>Ao final, arrisca-se também uma proposta original sobre este tema: a de</p><p>uma Ontologia e Epistemologia Crítica do Concreto, em que se explicitam</p><p>as fases e os momentos da pesquisa.</p><p>Tendo em vista o objetivo de apresentar o problema epistemológico nos</p><p>estudos e pesquisas no campo das CHSSA-EOR, procurar-se-á, no presente</p><p>estudo:</p><p>i. Estabelecer as relações entre ontologia, epistemologia, metodologia e</p><p>teoria;</p><p>ii. Apresentar os conceitos básicos que subsidiam todo o tema:</p><p>conhecimento, verdade, filosofia, ciência, teoria e método;</p><p>iii. Discutir os conceitos de Epistemologia e apresentar um conceito</p><p>original;</p><p>iv. Indicar as limitações da concepção de paradigmas científicos e de</p><p>modelos de estudos sociais largamente referenciados nas pesquisas em</p><p>CHSSA-EOR;</p><p>v. Apresentar as concepções históricas que dão origem às dimensões;</p><p>vi. Definir, a partir da Matriz Epistemológica Histórica, as seis</p><p>Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas que predominam nas</p><p>CHSSA-EOR;</p><p>vii. Apresentar alguns desdobramentos das principais variantes</p><p>epistemológicas das Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas</p><p>que guiam os Estudos em CHSSA-EOR;</p><p>viii. Propor uma Ontologia e Epistemologia Crítica do Concreto como</p><p>um procedimento, de conteúdo metodológico, que permita o enfrentamento</p><p>dos momentos da pesquisa (do Ato Epistemológico) segundo uma condição</p><p>ontológica da relação matéria↔consciência↔matéria em que se enfatiza o</p><p>conhecimento a partir do objeto concreto.</p><p>Este estudo está dividido didaticamente em três partes. Na primeira são</p><p>apresentados e discutidos os conceitos fundamentais que orientam a</p><p>exposição (epistemologia, Ato Epistemológico, conhecimento, verdade,</p><p>teoria, metodologia, etc.). Na segunda parte é exposta a proposição das</p><p>Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas em CHSSA-EOR. Na</p><p>terceira parte são apresentados alguns dos mais relevantes desdobramentos</p><p>das Dimensões epistemológicas que têm implicações no campo das</p><p>CHSSA-EOR.</p><p>A exposição cumpre um procedimento: inicia com um conceito simples</p><p>de epistemologia e dos termos ou concepções que a ela se referem, para</p><p>desenvolvê-lo como uma proposição que subsidiará as abordagens das</p><p>Dimensões e das análises que se seguirão. Embora muitas vezes este</p><p>recurso expositivo possa parecer repetitivo, ele é necessário do ponto de</p><p>vista da pedagogia do texto.</p><p>Este estudo parte de uma investigação básica que tem como questão</p><p>central: “como, metodologicamente, o conhecimento científico, filosófico e</p><p>tecnológico contemporâneo em CHSSA-EOR se produz (qual o processo</p><p>que constitui o Ato Epistemológico) e como seu resultado é exposto?”.</p><p>Pode parecer que são duas questões (produzir e expor), mas é uma mesma</p><p>questão com momentos interdependentes. Desde logo, deve ficar claro que</p><p>o conhecimento científico, filosófico e tecnológico é uma produção social e</p><p>histórica e, portanto, nem é uma condição inata, nem tampouco um estoque</p><p>universal exterior ao sujeito e que está à sua disposição para ser apreendido</p><p>sem que haja nenhuma ação dedicada além da simples vontade de aprender.</p><p>Isto não significa que o conhecimento socialmente acumulado seja</p><p>desnecessário ou secundário, mas que o acesso a ele exige do sujeito</p><p>pesquisador o desenvolvimento de condições ontológicas para sua</p><p>elaboração.</p><p>A crítica do conhecimento acumulado consiste em trazer ao exame racional,</p><p>tornando-os conscientes, os seus fundamentos, os seus condicionamentos e os</p><p>seus limites - ao mesmo tempo em que se faz a verificação dos conteúdos desse</p><p>conhecimento a partir dos processos históricos reais. (Paulo Netto, 2011, p. 18)</p><p>Neste sentido, este estudo não tem a pretensão de esgotar o tema e de</p><p>analisar cada uma das dimensões em profundidade maior do que a</p><p>necessária a uma introdução à epistemologia em Ciências Humanas, Sociais</p><p>e Sociais Aplicadas – Estudos Organizacionais. O objetivo, no que se refere</p><p>às Dimensões Epistemológicas, é apresentar, de forma sistematizada, as</p><p>principais perspectivas epistêmicas em suas versões contemporâneas</p><p>básicas, indicando, ao final destas apresentações, suas variantes mais</p><p>conhecidas.</p><p>As Dimensões Epistemológicas não são territórios determinados</p><p>aprioristicamente, mas produzidos historicamente. Não são substâncias,</p><p>mas representações abstratas da realidade histórica que as produziram. Em</p><p>outras palavras, são “modalidades” de produção de conhecimento que se</p><p>constituíram crítica e diferentemente na história da filosofia e da ciência,</p><p>cada uma delas buscando reivindicar para si a condição de ser a modalidade</p><p>(mais) correta. Todas possuem seus limites, que as variantes tentam</p><p>reduzir8.</p><p>As principais contribuições que este estudo pretende trazer são,</p><p>portanto:</p><p>i. Auxiliar quem está realizando trabalhos de conclusão de curso, como</p><p>elaboração de monografias, dissertações de mestrado, teses de doutorado,</p><p>em seu processo de problematização, investigação e exposição;</p><p>ii. Subsidiar a elaboração e condução de pesquisas, bem como a</p><p>produção de trabalhos acadêmicos;</p><p>iii. Facilitar a atuação dos professores no exercício da docência de</p><p>disciplinas de metodologia e epistemologia da pesquisa, na orientação de</p><p>trabalhos e em sua publicação (artigos, livros, capítulos de livros, relatórios,</p><p>etc.) a partir da compreensão das Dimensões Epistemológicas</p><p>Contemporâneas Básicas;</p><p>iv. Contribuir para com a discussão dos conceitos de ontologia e</p><p>epistemologia na busca de uma definição que se aplique ao campo das</p><p>CHSSA-EOR;</p><p>v. Apresentar, a partir da questão central “como o conhecimento</p><p>científico, filosófico e tecnológico em CHSSA-EOR é produzido</p><p>(investigado e exposto)?”, as diversas respostas que constituem, enfim, as</p><p>Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas e suas variantes;</p><p>vi. Discorrer sobre as principais Dimensões Epistemológicas</p><p>Contemporâneas Básicas, em CHSSA-EOR, mostrando seus fundamentos,</p><p>pressupostos, características, limitações, bem como indicando suas</p><p>variantes e desdobramentos mais conhecidos;</p><p>vii. Propor uma concepção inovadora denominada Ontologia e</p><p>Epistemologia Crítica do Concreto - OECC9.</p><p>De uma perspectiva ontológica, este estudo é apenas, embora</p><p>pretensiosamente, uma introdução ao estudo sobre o Ato Epistemológico</p><p>em Ciências Humanas, Sociais e Sociais Aplicadas com ênfase nos Estudos</p><p>Organizacionais.</p><p>Notas</p><p>3. Filosofia da ciência, filosofia do conhecimento e ciência do conhecimento, são áreas de estudo</p><p>autônomas, que se valem da epistemologia, mas não podem ser tomadas como equivalentes à</p><p>epistemologia. Do mesmo modo ocorre com a concepção de teoria do conhecimento, que se apoia na</p><p>epistemologia, mas não pode ser confundida com ela.</p><p>4. Com finalidade meramente propedêutica, sempre que neste ensaio a expressão Indivíduo estiver se</p><p>referindo à concepção de unidade distinta e única (de unidade de espécie), a mesma será destacada.</p><p>5. No caso específico do materialismo histórico o método não se refere a como o pensamento</p><p>processa o objeto para determinar o que ele é, mas a uma representação do objeto em sua</p><p>materialidade efetiva e em sua realidade ideal (concretamente pensada). A realidade ideal do objeto é</p><p>possível porque o pensamento tem sua origem na prática, que é o critério da verdade epistêmica.</p><p>6. Para Deise Ferraz (2021), “não há ser em si que não seja ser histórico. Os homens fazem a história.</p><p>A matéria é o que é dado pela natureza e também só é em si se considerada em suas determinantes</p><p>constituintes, mas também na relação com a história da humanidade. A história natural só existe</p><p>enquanto</p><p>história da natureza para a humanidade. Assim, é preciso mencionar que transcender as</p><p>aparências e os atributos formais imputados pelo pensamento (razão) à matéria é justamente o</p><p>conhecer a matéria”.</p><p>7. O conhecimento técnico-tecnológico refere-se ao emprego de tecnologias físicas (equipamentos,</p><p>instrumentos, aparelhos, peças, componentes, etc.), de processo (softwares, programas, comunicação</p><p>em tempo real através de redes de relacionamento e de informação, sites, links, etc.), de gestão de</p><p>organizações e das relações e processos de trabalho (técnicas instrumentais e comportamentais) no</p><p>acesso, produção, organização, sistematização e divulgação do conhecimento histórico e social</p><p>(Faria, 1992, 2004, 2017).</p><p>8. Entende-se, aqui, que a superação dos limites da produção do conhecimento é uma idealização</p><p>dogmática da ciência.</p><p>9. Por se tratar de uma proposição original, é também, por isso, polêmica, como devem ser as</p><p>propostas inovadoras.</p><p>PRIMEIRA PARTE</p><p>CONCEITOS FUNDAMENTAIS</p><p>1. FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E</p><p>CONCEITUAIS DO ATO EPISTEMOLÓGICO</p><p>Reflexões teóricas acumuladas, análises e avaliações de trabalhos,</p><p>orientações e atividades de pesquisa, desenvolvidas mais dedicadamente há</p><p>cerca de quatro décadas, na área de CHSSA-EOR, permitem assegurar que</p><p>a epistemologia não é uma unidade (A Epistemologia) ou uma disciplina</p><p>(uma teoria da epistemologia, uma filosofia do saber), mas a prática de</p><p>produção do conhecimento que pode ser representada em diferentes</p><p>dimensões, aqui denominadas de Dimensões Epistemológicas</p><p>Contemporâneas Básicas.</p><p>A epistemologia não tem, como se argumenta alhures, uma única forma</p><p>de expressão: tal concepção sugere que existiria apenas uma explicação</p><p>aceitável sobre como o conhecimento se produz. Também não é submetida</p><p>a modelos, que se apresentam, ao final, como receitas e nem a matrizes</p><p>abstratas (classificações ideais). Embora seja um tema recorrente na</p><p>filosofia e nas ciências e ainda que tenha várias abordagens na literatura,</p><p>neste estudo procurar-se-á expô-lo de um modo relativamente original e</p><p>voltado às CHSSA-EOR.</p><p>Para melhor desenvolver os argumentos sobre os fundamentos do Ato</p><p>Epistemológico é oportuno iniciar, ainda que de forma resumida, pelo</p><p>desenvolvimento histórico do processo epistemológico.</p><p>1.1 O Desenvolvimento Histórico do Processo Epistemológico</p><p>O objetivo deste item é apresentar os elementos constitutivos do</p><p>desenvolvimento histórico do processo epistemológico, ou seja, os</p><p>elementos comuns que constituem o problema epistemológico na história da</p><p>filosofia ocidental, de forma a poder organizar a representação das</p><p>Dimensões Epistemológicas Contemporâneas Básicas que orientam as</p><p>pesquisas nas CHSSA-EOR na modernidade. Para tanto, procedeu-se a uma</p><p>análise deste processo em seus termos fundamentais. Contudo, para cumprir</p><p>uma finalidade meramente didática, a exposição toma por referência, além</p><p>dos textos dos autores mencionados, a ordem sugerida principalmente por</p><p>Realle e Antisseri (1990), confrontada com as análises de Chauí (2014),</p><p>Gould (1971) e Marías (1963). Os Quadros, a seguir, apresentam, a partir da</p><p>proposição de Realle e Antisseri, um resumo deste processo histórico do</p><p>desenvolvimento epistemológico, cuja finalidade não é outra senão o de</p><p>apresentar a evolução do problema epistemológico na filosofia e na</p><p>ciência10.</p><p>Processo</p><p>Histórico-Social Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Natureza e</p><p>Desenvolvimento</p><p>da Filosofia</p><p>Antiga</p><p>Helenismo: gênese da filosofia grega.</p><p>Os poemas homéricos e o nascimento da filosofia como</p><p>necessidade do espírito.</p><p>Naturalismo</p><p>Pré-Socrático</p><p>Os Jônicos e o princípio de todas as coisas: expressão filosófica</p><p>ao problema da existência de uma causa suprema.</p><p>Os pitagóricos e os números como princípio: a concepção</p><p>“matemática” como um sistema de pensamento baseado em</p><p>provas dedutivas.</p><p>Heráclito: separação entre a natureza visível múltipla e variável</p><p>e a realidade racional. A realidade do Logos (conjunto</p><p>harmônico de leis que comandam o universo) não é o Absoluto</p><p>imutável, mas também a mudança.</p><p>Quadro 1. As Origens e a Fundação do Pensamento Ocidental</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Os Sofistas e o</p><p>Deslocamento</p><p>da pesquisa</p><p>Filosófica: do</p><p>cosmos para o</p><p>homem</p><p>Protágoras e a antologia (coleção de textos agrupados por</p><p>temática, autoria ou período).</p><p>O naturalismo sofístico. A racionalidade como pressuposto da</p><p>compreensão dos processos. A realidade é compreendida a partir</p><p>de seus aspectos fenomenais.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Sócrates</p><p>A filosofia moral e a essência do homem. A virtude e o quadro de</p><p>valores. A dialética socrática: a refutação, a maiêutica e a função</p><p>da lógica (trata-se de destruir as certezas sobre determinado</p><p>conceito, porquanto a essência do conceito não se restringe ao</p><p>modo como ele aparece). A aparência é o ponto de partida e não de</p><p>chegada.</p><p>Platão e a</p><p>Metafísica</p><p>O mito da caverna: metáfora que apresenta o argumento de que</p><p>para superar a condição de ignorância/ilusão em que vivem, os</p><p>humanos precisam alcançar o verdadeiro mundo real colocando a</p><p>razão acima dos sentidos.</p><p>A fundação da metafísica: o mundo das ideias; gênese e estrutura</p><p>do cosmos sensível.</p><p>O conhecimento a dialética e a retórica: anamnese como raiz do</p><p>conhecimento; os graus do conhecimento: doxa e Epistéme; a arte</p><p>e o distanciamento da verdade; a retórica como mistificação do</p><p>conhecimento verdadeiro.</p><p>Aristóteles e a</p><p>Sistematização</p><p>do</p><p>Conhecimento</p><p>A metafísica e a lei das quatro causas. Causa formal: é a forma da</p><p>coisa (um objeto define sua essência pela sua forma); Causa</p><p>material: é a matéria de que uma coisa é feita (a matéria na qual</p><p>consiste o objeto); Causa eficiente: é a origem da coisa (aquilo ou</p><p>aquele que tornou possível o objeto); Causa final: é a razão de algo</p><p>existir (a finalidade do objeto).</p><p>O ser e seus significados; O problema da substância; A substância</p><p>suprassensível; Substância, ato e potência; A física aristotélica;</p><p>Teoria do movimento; Espaço, tempo e infinito; O éter ou a quinta</p><p>essência; A matemática e a natureza dos objetos; A psicologia: a</p><p>alma e sua tripartição; o conhecimento sensível; a alma intelectiva</p><p>e o conhecimento racional; As ciências práticas: a ética e a</p><p>política; A lógica e a retórica; A analítica; As categorias (os</p><p>predicamentos); Definição, juízos e proposições; Silogismo</p><p>científico (demonstração); Conhecimento imediato (inferência e</p><p>intuição); Princípio da demonstração e da não-contradição.</p><p>Quadro 2. A Descoberta do Sujeito (do Homem)</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>A Passagem</p><p>do</p><p>Pensamento</p><p>Clássico ao</p><p>Helenístico</p><p>A descoberta do indivíduo. O Képos (Jardim) de Epicuro e sua</p><p>filosofia do não determinismo: nada está além dos sentidos; não</p><p>existe nenhuma realidade que não pode ser entendida pelos</p><p>sentidos (princípio do naturalismo radical).</p><p>O florescimento das ciências particulares: matemática (Euclides e</p><p>Apolônio), mecânica (Arquimedes e Héron), astronomia</p><p>(geocentrismo, heliocentrismo), geografia (Eratóstenes).</p><p>A patrística: doutrina e filosofia bíblica. Santo Agostinho.</p><p>Teorias da Ratio (Razão) em relação à Fide (Fé). As grandes</p><p>sistematizações da relação Razão e Fé. Tomas de Aquino.</p><p>A ruptura do equilíbrio entre Razão e Fé. Ockham e o empirismo, o</p><p>primado do indivíduo, o conhecimento intuitivo e abstrato, o</p><p>universalismo e o nominalismo.</p><p>Quadro 3. As Escolas Helenísticas</p><p>Fonte: Realle e Antisseri (1990). Elaboração de JHFaria.</p><p>Processo</p><p>Histórico-</p><p>Social</p><p>Principais Proposições Epistemológicas</p><p>Humanismo e</p><p>Renascentismo</p><p>Pesquisas predominantemente analíticas e setoriais. Fuga das</p><p>grandes sínteses e das hipóteses globais.</p><p>Resgate da tradição aristotélica. Filosofia é substituída por</p><p>pesquisas concretas, definidas e precisas sobre as ciências morais e</p><p>da natureza. Filosofar é o sentido histórico (dimensão histórica):</p><p>objetivação</p>