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<p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 UNIDADE 2 Você viu que antes das Teorias experimentais estudamos as Teorias não experimentais 2 e as Teorias de transição para o século XX, chamadas assim por ainda não serem frutos da Ciência, mas de métodos diferentes do método científico. Teorias de aprendizagem É importante que você perceba que toda área de conhecimento inicia seus estudos com o surgimento de um fenômeno, um fato, algo que se apresenta às pessoas e que, Profa. Marlete Dacoreggio por sua estranheza e incompreensão, nos provoca e nos impulsiona a entendê-lo. E assim começa a aquilo que mais tarde poderá se transformar numa ciência. Para as ciências, é fundamental, não apenas saber. Quem exerce uma prática pedagógica com bases teóricas, decerto, exercerá uma intervenção em situações de ensino e aprendizagem de forma intencional e não apenas intuitiva. Isto, porque quando o professor tem conhecimento teórico, ele consegue compreender os fatos que ocorrem em sua prática. É neste sentido que para os pesquisadores, o saber fazer coisas OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM não é o suficiente; é necessário conhecer e compreender os processos de ensino e de aprendizagem. Os estudos sobre esses e tantos outros tipos de processos nos conduzem à Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: formulação de explicações, surgindo, assim, um dos constituintes das ciências: a Teoria. caracterizar as Teorias de aprendizagem revelando compreensão a respeito No espaço escolar, as práticas pedagógicas sempre estão comprometidas com um ou do tema; outro modo de conceber a forma como os sujeitos envolvidos nos processos aprendem. Para alguns, a aprendizagem se dá na relação entre sujeito e objeto do conhecimento, no identificar conceitos relevantes em cada Teoria; sentido de buscas por equilibrações mentais constantes por quem aprende (fundamentado na filosofia inatista). Para outros, a aprendizagem se dá no uso adequado de reforços relacionar as Teorias aos respectivos autores, situando-as a partir da (repetições) que venham a controlar, intencionalmente, as ações de quem aprende formação de cada um deles; (fundamentado na filosofia empirista). E, ainda, temos Teorias que afirmam que os conhecimentos são elaborados a partir das relações sociais processuais, dinâmicas e que destacar as possíveis contribuições de cada uma das Teorias estudadas, a construção de conceitos se dá a partir de uma prática social dialógica e mediada pelo para os processos de ensino e aprendizagem; outro (fundamentado na filosofia dialética). relacionar Teoria e prática. Diante de tantas mudanças, a Psicologia aparece como uma ciência voltada ao entendimento da mente humana, mais especificamente, o comportamento humano. Levar você a entender como diferentes Teorias estão presentes no contexto escolar e sobre quais bases foram formuladas é o que justifica esta unidade de estudo dos processos de ensino e de aprendizagem. Então, iniciemos nossos estudos!!!! INICIANDO TEMA 2.1 Abordagem Comportamentalista A abordagem pedagógica comportamentalista nos indica que o conhecimento é No início de nossos estudos, anunciamos a você que iríamos sobre as Teorias uma descoberta, sendo nova para o indivíduo, mas que já se encontrava na natureza. experimentais, lembra? Então, estas Teorias são assim chamadas porque são as Teorias o conhecimento é produzido a partir da experiência (do contato com os objetos). A de Aprendizagem do século XX, quando a Psicologia passou a ter o status de Ciência por condição básica para que haja conhecimento então, é a relação objeto sujeito. Nessa comprovar todos os seus experimentos. Muitos estudos científicos a respeito de como concepção de conhecimento, o objeto (tudo o que se encontra no meio ambiente) tem aprendemos surgiram a partir de então. supremacia sobre o sujeito, sendo assim, o meio é que transforma o indivíduo. PEDAGOGIA UNIVALI 2 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Nesta tendência, o mais importante é a transmissão de conteúdos, pois indica que é afirmamos a você que o Behaviorismo foi a primeira e importante Teoria científica que se através desta transmissão que o conhecimento será adquirido pelo aluno. Essa perspectiva consolidou no início do século XX. Nós poderíamos escrever um caderno inteiro a respeito teórica defende a ideia de que é quase impossível ao aluno realizar, sozinho, qualquer dela, entretanto o nosso foco, neste momento, encontra-se em discutir com você o descoberta. Ele precisará da ação planejada do professor, das situações que possam vir a que consideramos mais importante para que você possa, futuramente, compreender e estimulá-lo e levá-lo a dar uma resposta esperada, mudando desta forma o comportamento explicar a sua prática. inicial. É como se o ser humano fosse uma máquina muito bem projetada e engenhosa, e que aprende por memórias acumuladas, em um processo aditivo, um balde a ser o principal expoente do Behaviorismo, aplicado à Educação, é o norte americano cheio, o professor neste processo já foi até chamado de 'engenheiro comportamental' Burrhus Frederic Skinner. Para este pensador, o controle do comportamento através de É fundamental a figura do professor como transmissor de conhecimentos, ou em sua reforços é uma meta a ser atingida no contexto educacional. ausência, de alguma máquina de ensinar. Mas, que é o Behaviorismo? Ensinar, nesta abordagem, significa, portanto, definir e planejar situações de reforço, onde os alunos possam e devam aprender. A aprendizagem será garantida pela Nos EUA, nas décadas de 1920 e 1930, as escolas que formavam professores organização e programação dos conteúdos, ou seja, ensinar é um sistema controlador da abandonaram a supremacia do herbartionismo (adeptos à Teoria de Herbart, lembram?). aprendizagem. (DACOREGGIO, 2001). Mas, isso não impediu que as ideias herbatianas ainda circulassem, até os nossos dias, nas escolas de lá, e de cá. No entanto, no início do século XX, uma nova forma de Como elementos mínimos para um sistema instrucional, são necessários: o aluno, associacionismo foi desenvolvida e tornou-se popular: o associacionismo não mental ou um objetivo de aprendizagem e um plano para alcançar o objetivo proposto, sem fisiológico. (DACOREGGIO, 2001). As pessoas-chave durante o primeiro terço do século muita preocupação com o contexto histórico e cultural de quem aprende. Enfim, nesta XX, foram: Edward Lee Thorndike e John B. Watson. abordagem, a aprendizagem está calcada resumidamente, na ideia do condicionamento. A psicologia de Watson era behaviorista, e a de Thorndike era conexionista, mas no Na tendência comportamentalista, a avaliação da aprendizagem tem uma dimensão sentido mais amplo, não deixava de ser também behaviorista. metodológica, em que prevalece o como avaliar, ou seja, prevalece o conteúdo como instrumento de medida; a descrição de resultados a partir de um determinado padrão; Figura 1: Edward Lee Thorndike. Figura 2: John Broadus Watson. o avaliador (professor) é o técnico; os instrumentos são provas, testes, trabalhos... e, ainda, possui um significado mais punitivo. A educação, ou mais concretamente, o ensino, conforme enfatiza Gómez: "[...] transforma-se numa tecnologia que prepara as contingências, as características do contexto e as peculiaridades de cada situação, e regula a administração de reforços" 2000, p. 31). Isto faz com que a única finalidade da didática seja a eficácia da técnica, através do alcance de objetivos parciais. "Deste modo, pretende- se que os objetivos de cada unidade de ensino possam ser programados com facilidade, reforçados independentemente e avaliados com clareza" (idem, p. 32). São estas ideias pedagógicas que caracterizam a escola tecnicista. Seguindo esta perspectiva, o Behaviorismo surge como a primeira e grande Teoria científica de aprendizagem fundamentada na filosofia empirista. Vamos sobre esta Teoria então? Fonte: <http://pisicosophia. Fonte: 2.1.1 o Behaviorismo Posteriormente, baseado no Behaviorismo, surgiram os chamados neobehavioristas, Você pode estar se perguntando: por que esta Teoria primeiro e por que ou teóricos do condicionamento: N.E. Miller, O.H. Mowrer, K.W. Spence e J.M. Stephens e ela pertence à Abordagem Comportamentalista? Em resposta à primeira pergunta, Burrhus Fredric Skinner, sendo este último o que mais adaptou a Teoria à Educação. PEDAGOGIA UNIVALI 3 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Figura 3: Burrhus Frederic Skinner Neste sentido, a aprendizagem passa a ser vista como condicionamento S-R (por estímulo e resposta), e "Uma vez determinada a conduta que vai se configurar e estabelecidas as contingências de reforços sucessivos das respostas intermediárias, a aprendizagem é inevitável, porque o meio está cientificamente organizado para produzi-la" Org., 2000, p. 30). Este é o significado de uma abordagem mecanicista/tecnicist de aprendizagem; os professores que a adotam decidem, exatamente, quais comportamentos esperam de seus alunos, fazendo da aprendizagem um produto previsto e acabado, e não um processo. Para conseguirem tais resultados, estimulam adequadamente seus alunos, seja para evocar, seja para fixar esses comportamentos. Por conta da sua concepção positivista de ciência, os adeptos a esta Teoria entendem que a mente humana é como uma 'caixa preta', onde não se pode enxergar o que ocorre em seu interior, mas sabe-se que nela entram estímulos e saem respostas. Estas posições teóricas de 'caixa preta' reduzem a análise ao Assim, qualquer conclusão que possam ter, só poderá ser utilizada para Fonte: https://novaescola.org.br [...] aqueles períodos de aprendizagem e para aqueles aspectos dos processos em que a relação input-output (entradas e saídas), estímulos e respostas observáveis, seja o todo da conduta, ou seja, quando a dinâmica É importante que você saiba que o Behaviorismo vem do termo inglês behavior, interna do organismo seja tão simples e linear que possa ser explicada que quer dizer comportamento. É uma corrente da psicologia contemporânea que centra como simples via de transição 2000, p. 31). seu estudo no comportamento humano, deixando para trás, qualquer interesse pela consciência, alma ou espírito. Enfim, a tudo que não possa ser descrito em termos de Estas 'entradas' e que o autor menciona, podem ser exemplificadas assim: observação objetiva e de controle. Isso não quer dizer, no entanto, que o Behaviorismo o professor repassa um conteúdo para seus alunos (entrada) e passa a observar o que seus negue a consciência, pois na realidade, o que ele nega é a introspecção como instrumento alunos 'entenderam' e que pode ser com um teste ou qualquer outra atividade. Desta legítimo de investigação. forma, poderão saber o que eles aprenderam (resposta). Nesta abordagem, a aprendizagem é entendida, primeiramente, pela alteração Ou ainda, imagine um professor que deseja melhorar o resultado da aprendizagem do comportamento verbal ou não verbal. Para os psicólogos neobehavioristas, esses de seus alunos. Ele vai no meio ambiente com estímulos que provoquem este comportamentos são internalizados pela criança, por meio da influência dos adultos, comportamento nos alunos, dando prêmios, por exemplo, quando houver bons resultados. incluindo recompensas ou coações. Sendo assim, ensinar é o estabelecimento de 'condições de comportamento (estímulos) pelos adultos, e a aprendizagem é observada pela mudança de comportamento ocorrida pelo resultado da prática. É a impressão de novas reações sobre um organismo passivo. Com isso, esta Teoria, parte do princípio que: "[...] o homem é o produto das contingências reforçantes do meio" Org., ATENÇÃO 2000, p. 29), ou seja, o meio transforma o ser humano. Ao primar pela ideia que o conhecimento é produzido a partir da estimulação externa intencionada, e por Para os neobehavioristas a aprendizagem resulta de algum modo, da interação entre isso pré-determinada para que o indivíduo mude seu estímulos enquanto excitação oferecida pelo ambiente, e respostas vistas como reações comportamento, o Behaviorismo não poderia deixar de tidas por um organismo, mediante certa estimulação. Sendo assim, o estudo das relações ter como fundamentação filosófica, o empirismo que entre estímulos e respostas, e o que acontece entre eles, passa a ser o centro para prioriza a experiência sensorial como fonte do conheci- mento. identificar os problemas da natureza do processo de aprendizagem. Como o foco é o comportamento, um professor neobehaviorista se esforçará para mudar o comportamento de seus alunos, conduzindo sua ação com estímulos adequados, no tempo apropriado. PEDAGOGIA UNIVALI 5 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 A necessidade de estabelecer padrões comportamentais faz parte do dia a dia [...]. Quando no laboratório era apresentado à criança um rato branco e das escolas. É nesse sentido que o condicionamento respondente e o condicionamento ela o tocava, um ruído forte de barra de aço golpeada com um martelo operante nos mostram como é possível o comportamento. Vejamos estes tipos era produzido. A criança manifestava então reações de medo: estremecia de condicionamentos. e começava a chorar. Após várias repetições desse procedimento, a criança passou a apresentar reações de medo diante do rato branco quando este lhe era apresentado sozinho [...]. Um estímulo que originalmente não provoca a resposta de medo (o rato branco) foi associado a outro que naturalmente a 2.1.1.1 Condicionamento respondente provocava (um ruído forte), tornando-se, um estímulo condicionado [...]. (FONTANA e CRUZ, 1997, p. 29, grifos das autoras). o condicionamento clássico, ou respondente, começou a se destacar com o trabalho de Ivan P. Pavlov (1849-1936), fisiologista russo, que desenvolveu minucioso estudo na Para Watson, a Psicologia devia ser uma ciência que superasse métodos subjetivos, área da reflexologia, extraindo e condicionando as reações de animais. Ele reconheceu devendo estar voltada à observação das questões externas dos organismos, aos estímulos que certos estímulos do ambiente provocam reações reflexas ou não Por e às respostas. o comportamento é, por excelência, o objeto da Psicologia e dá a ela exemplo, qual a reação reflexa que você apresenta quando um frio inesperado o atinge? "[...] a consistência que os psicólogos da época vinham buscando um objeto observável, De certo você se arrepia, não é? E se luzes são acesas quando alguém está no escuro? mensurado, cujos experimentos poderiam ser reproduzidos em diferentes condições e Você poderá responder que as pupilas se contraem. Essas reações reflexas são chamadas sujeitos ao controle" (BOCK, FURTADO e TEIXEIRA 2007, p. 45). de comportamento respondente. No decorrer de nossas vidas, muitas de nossas ações involuntárias podem ser A relação entre o estímulo que causa a mesma resposta em todos os indivíduos de chamadas de reflexos condicionados. Os avanços dos estudos demonstraram, entretanto, uma espécie é incondicionada, pois não depende de qualquer aprendizagem. Se forem que a diversidade dos comportamentos humanos não poderia ser explicada apenas pelo pareados, no entanto, algum estímulo neutro com o estímulo incondicionado, por muitas condicionamento respondente. É nesse sentido que surge o condicionamento operante. vezes, o que acontecerá? o estímulo neutro, em certas condições, poderá gerar a mesma resposta que o estímulo incondicionado. A esse processo dá-se o nome de condicionamento respondente. 2.1.1.2 Condicionamento Operante Vamos exemplificar na Teoria de Pavlov. Em seus experimentos, Pavlov verificou que a apresentação de comida a um o levava a salivar. Temos aqui um reflexo Vimos anteriormente que Burrhus Frederic Skinner foi o teórico que adaptou o incondicionado. Então, ele associou o som de uma sirene à apresentação da comida ao Behaviorismo à nossa área da Educação. Então vamos saber um pouco mais sobre ele: cão. o procedimento foi repetido inúmeras vezes até que a salivação do cão começou a nasceu em Susquehanna, no estado norte-americano da Pensilvânia, formou-se em Língua acontecer com a presença isolada do som da sirene. Nunca o som de uma sirene provocaria Inglesa na Universidade de Nova York, e em Psicologia em Harvard. Foi um dos grandes a salivação de um se ele não tivesse passado pelo processo de condicionamento. responsáveis pela profissionalização da Educação e pela sistematização dos processos educativos. Watson aprofunda sua análise com crianças, na intenção de entender como os comportamentos são aprendidos. Seus estudos se deram na área do condicionamento Skinner distinguiu pela primeira vez a existência de dois tipos de comportamento: clássico, em que um estímulo que, a princípio, não provoca nenhuma reação específica é aquelas ações provocadas automaticamente por um estímulo específico (comportamento propositadamente associado a outro, provocando uma determinada reação. respondente) e aquelas que não são automáticas, nem inevitáveis ou determinadas por um estímulo específico (comportamento operante). Assim, ler esta unidade, caminhar Como explicar o medo de tanta coisa que muitas crianças mais velhas e até mesmo pela sala, cantar uma música são chamados comportamentos operantes, já que não é adultas sentem? Watson afirma que medo de cachorro, de escuridão, de inseto, e outros possível comprovar quais estímulos os causaram. tipos de medo, são sentimentos aprendidos por meio de condicionamento. Ele resolveu verificar se era possível produzir, em laboratório, uma reação de medo. o sujeito da Reconhecendo que a maioria dos comportamentos humanos é operante, Skinner experiência foi uma criança de onze meses que originalmente não demonstrava ter medo procurou que os comportamentos poderiam ser controlados, ou seja, seria de animais peludos. possível realizar um condicionamento operante. Mas, como? Skinner aprofundou seus estudos sobre o condicionamento operante ou modelagem de comportamento, o qual, todas as vezes que a resposta esperada se evidencia, sofre um reforço e assim a resposta se repetirá. Vejamos o exemplo: caso um aluno que realize acertadamente (ação) PEDAGOGIA UNIVALI PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 todos os exercícios dados pelo professor e receba um elogio dele (resposta) passe a 2.1.1.5 A punição repetir esse comportamento para permanecer merecedor de outros elogios, ele estará se condicionando a realizar as tarefas, sempre segundo um padrão aceitável. elogio, Todo mundo sabe o que é punir. Na linguagem do Behaviorismo, ocorre punição nesse caso, foi o reforço para que o aluno continuasse a manter o comportamento, ou quando se apresenta um estímulo aversivo ou se retira um positivo. Embora se considere seja, resolver corretamente as tarefas dadas pelo professor. (SKINNER, 1982). que os reforços positivos e negativos sejam preferíveis à punição, ela existe e o diretor pode adotá-la quando considerar a melhor opção. o afastamento de um professor por agredir fisicamente um aluno, numa instituição, é o modelo clássico de punição. Terá o efeito desejável se for exemplar e servir de advertência aos demais. Contudo, um dos 2.1.1.3 reforço positivo problemas da punição é que ela pode alterar comportamentos, mas não altera as razões que levaram a pessoa a ter determinado comportamento pelo qual foi punido. Em função Para o ser humano, o 'muito bem' do professor ou um olhar de aprovação, como disso, a punição leva a comportamentos de esquiva e fuga. também a avaliação, se constituem em reforçadores para muitos comportamentos. Esses são exemplos de reforço positivo, pois sua apresentação fortalece um comportamento. o professor, contudo, deve estar atento aos estímulos reforçadores. Nem sempre o vínculo entre comportamento e estímulo reforçador é Nesse sentido, é possível ATENÇÃO perceben que tal concepção aceita a premissa de que a aprendizagem se dá de forma mecânica, em que estímulos, respostas e reforços se encontram combinados. É um A punição refere-se ao desprazer (estímulo) que se faz presente após processo determinado apenas por questões externas, no qual se ignoram as relações um determinado comportamento não pretendido por aquele que a intersubjetivas, as trocas existentes entre os vários sujeitos e os contextos. aplica, enquanto que o reforço negativo se caracteriza pela ausência (retirada) do após a ocorrência de um comportamento pre- Alguns teóricos entendem que a Teoria Behaviorista fundamentou um processo tendido por aquele que o promove. meramente tecnológico e programável de Educação, no qual a eficiência do processo está na formulação de objetivos operacionais, nas condutas mensuráveis, numa programação em curto prazo de tarefas simples, condizentes muito mais com uma sociedade individualista e meritocrática, em que o que move a aprendizagem é a premiação, ou seja, os estímulos. Entretanto, o reforço positivo pode ser utilizado em sala de aula como uma das 2.1.1.6 A influência da Teoria Behaviorista na prática pedagógica técnicas mais eficazes para auxiliar o aluno a desenvolver sua aprendizagem. Este Anteriormente você aprendeu que os teóricos behavioristas denominaram os termos conceito pode ser descrito como uma atitude que aumenta a probabilidade de que o 'resposta' e na Teoria behaviorista. Esta denominação foi fundamental para comportamento volte a acontecer. De uma forma bem simples para o que compreendêssemos os processos de ensino e de aprendizagem, pois, eles estavam se conceito, é um estímulo que pode aumentar a frequência de uma resposta. Mas é preciso referindo ao o que o organismo faz e às variáveis ambientais que interagem com quem ter cuidado ao se utilizar um mesmo reforço várias vezes seguidas, pois, este pode aprende. o seu efeito, o professor (a) deve varian o comportamento reforçador para que seu efeito não se torne artificial e ineficiente. (SKINNER, 1982). Nesta perspectiva, a aprendizagem ocorre por meio de estímulos e respostas, ou seja, os elementos ambientais moldam o comportamento do ser humano e o encaminham para uma resposta já predefinida ou desejada por meio de aproximações que possam acontecer. Assim, a prática escolar fundamentada na Teoria Behaviorista apresenta um 2.1.1.4 reforço negativo planejamento escolar rígido, organização e execução pedagógica das atividades sob a responsabilidade do professor que ainda julga e utiliza diversos argumentos para reforçar Os eventos que procuramos eliminar, como o choro de uma criança ou a repreensão positivamente os comportamentos ensinados em sala de aula. de um supervisor escolar, são chamados reforços negativos. Para a criança não chorar, a professora se condiciona a segurá-la no colo enquanto realiza suas atividades com Os alunos são sujeitos passivos nos processos de ensino e de aprendizagem, pois, os demais alunos. A professora segue as normas e rotinas para não ser censurada pela recebem o conhecimento transferido pelo professor. A prática do diálogo entre o sujeito supervisora escolar. Eles apresentam um comportamento de esquiva, impedindo a e o conhecimento é inexistente e o conhecimento é por quem aprende. ocorrência do estímulo aversivo. PEDAGOGIA UNIVALI 10 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Neste contexto teórico, a necessidade de reforços, a importância de aproveitar e A Instrução Programada é a utilização de máquinas de ensinar como forma de resolver assegurar as oportunidades em sala de aula são fundamentais para que o aluno tenha os impasses que surgem em decorrência das dificuldades de atendimento individual. Essa condições de expressar comportamentos esperados pelos objetivos estabelecidos nos instrução pode ser implementada, também, por meio de livros especialmente criados planos de ensino. para este fim. Cabe lembrar que a Instrução Programada pode ser organizada de forma linear ou ramificada e, ainda, em módulos de autoinstrução. Entretanto, é importante que você saiba que quando falamos em estamos nos referindo às mudanças ocorridas a partir do que o aluno aprendeu, ou seja, Importantes contribuições do Behaviorismo à Educação foram a atenção à organização, às mudanças ocorridas pela sua aprendizagem. Assim, ensinar consiste na transmissão a objetividade dos planejamentos de ensino e, ainda, conforme destaca Fontana e Cruz: do conhecimento do professor para o aluno e, aprender significa repetir, memorizar, ou "[...] a atenção para a necessidade de se definirem com clareza e operacionalmente exercitar todos os conteúdos transmitidos até o aluno ser capaz de reproduzi-lo fielmente os objetivos que se pretende atingir, para a organização das sequências das atividades da mesma forma que foi repassado pelo professor. [...]". (FONTANA e CRUZ, 1997, p. 31). Essas questões devem sempre estar presentes na prática do professor, bem como as elaborações e aplicações de distintas tecnologias de Assim, a Teoria Behaviorista sinaliza que o professor ensina por etapas e por meio ensino. de treinamento, estimulando a criança a dar respostas que ele está pedindo, sem indagações ou questionamentos. Assim, o bom professor, de acordo com a Teoria Behaviorista, é aquele que determina bem seus objetivos, a programação sequenciada, os estímulos, os reforços, as escalas Como outro exemplo, um professor behaviorista, ao alfabetizar uma criança, avaliativas dos comportamentos reforçados e observáveis. Nesse contexto, o professor apresentaria a ela uma lista de palavras, e teria como pretensão, que as incorporasse ao deverá saber reforçar rapidamente a conduta desejada e impedir condutas indesejadas, seu vocabulário. Não se preocuparia com as relações entre sons e letras, mas faria com modelando a conduta dos sujeitos a partir de um padrão objetivado. que os alunos lessem as palavras inteiras e expressassem o significado das mesmas. Algumas críticas formuladas à Teoria Behaviorista assinalam que o caráter criador, Portanto, a prática pedagógica está voltada à aquisição de determinados subjetivo, interativo, inacabado e social do sujeito é ignorado. Sua aprendizagem conhecimentos e valores pré-estabelecidos. Por meio de testes avalia-se se a criança é motivada pelas premiações decorrentes do desempenho de tarefas, que não terão absorveu a informação corretamente. consequência em seu aprendizado em longo prazo. Amemorização de algo é o que garante a aprendizagem, a repetição mecânica dos conteúdos já elaborados pela humanidade. A autora Lúcia Moysés (2003), ao defender outras possibilidades de ver o processo de ensino ATENÇÃO e aprendizagem, assinala que A tarefa de ser mediador entre o objeto e o sujeito do conhecimento exige Para (1982), a Educação é uma profissão cujos membros a executam do professor o desenvolvimento de certas atitudes. Destacam-se, dentre em troca de reforçamento econômico, social e ético, liberado por diferentes grupos sociais. A escola, por sua vez, mantém, conserva e, em parte, modifi- essas, a de descobrir o que o aluno já sabe; a de organizar de forma coerente ca os padrões comportamentais aceitos como úteis e desejáveis pela cultura. e articulada o conteúdo a ser transmitido; a de criar condições para que ele Assim como os empiristas, está na experiência o início do conhecimento. E por possa passar do particular para o geral e deste para aquele, de tal forma isso que o Behaviorismo é fundamentado na filosofia empirista. que ele próprio reconstrua o conhecimento. Nisso reside, provavelmente, um dos aspectos mais importantes do processo de aprendizagem escolar. Nessa passagem o particular tem que se articular à realidade vivida pelo aluno [...]. (MOYSÉS, 2003, p. 22-23). Não podemos deixar de dizer a você, que uma das grandes contribuições dessa Pensamos não ser fácil a tarefa de articular os conhecimentos historicamente abordagem à Educação foi a criação da metodologia denominada Instrução Programada, construídos pela sociedade com a vida dos sujeitos cognoscentes. É algo que exige, antes uma forma de ferramenta de ensino que tinha como objetivo facilitar a aprendizagem. de tudo, que os que saibamos dos nossos compromissos e responsabilidades Trata-se de uma espécie de 'máquina de ensinar'. Nela o conteúdo é oferecido de e que busquemos continuamente formas de melhor aperfeiçoar o nosso trabalho. Mas, se forma sequenciada, gradual e lógica, contendo perguntas simples. À medida que vai desejamos realmente desempenhar o nosso papel social de ajudar a instrumentalizá-los, desenvolvendo o estudo, o aluno vai respondendo as perguntas e verificando se acertou de forma técnica e política, para que se constituam sujeitos sociais, devemos enfrentar o as respostas, o que podemos caracterizar como uma autoavaliação constante. desafio posto, como professores competentes, críticos e comprometidos com a cidadania plena. PEDAGOGIA UNIVALI 11 12 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Competente é o professor que, sentindo-se politicamente comprometido A Psicologia, por meio de uma de suas linhas de pesquisa denominada Psicologia com seu aluno, conhece e utiliza adequadamente os recursos capazes de Cognitiva, contribui para o estudo do processo de aprendizagem nas diversas Teorias de lhes uma aprendizagem real e plena de sentido. Competente é aprendizagem. Vejamos algumas delas. o professor que tudo faz para tornar seu aluno um cidadão crítico e bem- informado, em condições de compreender e atuar no mundo em que vive. (MOYSÉS, 2003, p. 15). Por sua vez, a Teoria Behaviorista acredita que o professor ensina por etapas e por meio de treinamento, estimulando a criança a dar respostas somente àquilo que ele 2.2.1 Humanismo: a Teoria de Carl Roger está pedindo, sem indagações ou questionamentos. Portanto, a prática pedagógica está voltada à aquisição de determinados conhecimentos e valores preestabelecidos. Por meio Por que uma criança aprende a andar? Ela tenta erguer-se, cai e machuca de testes, avalia-se se a criança absorveu a informação corretamente. Nessa perspectiva, a cabeça. [...] Não existe grande recompensa enquanto ela não conseguir o erro deve ser visto como um comportamento que deve ser eliminado e o professor "[...] realmente realizar seu intento, e apesar de tudo, a criança está disposta deve se empenhar para não reforçá-lo positivamente, evitando assim que o erro, ou o a suportar a dor [...] Para mim, isso é uma indicação de que existe uma comportamento inadequado, se fixe". (FONTANA e CRUZ, 1997, p. 71). verdadeira força de atração para a possibilidade de crescimento continuar. (ROGERS apud FRICK, 1976, p. 118). Podemos concluir que o Behaviorismo teve muitas preocupações com o bom desenvolvimento dos processos de ensino e aprendizagem embora tenha recebido muitas críticas. Vale destacar o olhar atento para a sequência progressiva, gradual e racional das estratégias para facilitar o ensino, bem como a atenção aos planejamentos e à Carl Ransom Rogers, grande personalidade da Psicologia norte-americana, nasceu organização didático-pedagógica, questões sempre atuais no cenário educacional. em 1902, em Oak Park, nos arredores de Chicago, nos Estados Unidos da América, e morreu aos 85 anos. Para muitos, sua produção teórica é uma grande referência para o campo da Psicologia e da Educação. Historiador, psicólogo terapeuta, educador, dedicou anos de sua vida ao estudo 2.2 A abordagem cognitivista da criança e de práticas terapêuticas centradas no paciente. Em seu primeiro livro, publicado em 1939, o tratamento clínico da criança problema, revela o resultado de suas intervenções, pesquisas e reflexões efetivas como terapeuta no Teachers College Você já identificou, em unidades anteriores, que os filósofos deram suas contribuições nos processos de ensino e aprendizagem, e compreendeu que a aprendizagem pode ser Figura 4: Carl Ransom Rogers. As décadas de 60 e 70 representaram o momento determinada pelo amadurecimento inato do sujeito, como defende a corrente filosófica de maior produtividade científica de Carl Rogers e de do Inatismo e as Teorias a ela relacionadas. Para o Behaviorismo, a aprendizagem se sua maior expressividade no campo educacional. Em origina a partir da experiência e o comportamento deve ser controlado com reforços. 1969, publicou o livro Liberdade para e, em Então, você deve estar se perguntando: afinal, existem outras formas de reconhecer a 1983, Liberdade para aprender nos anos 80. origem do conhecimento? Sim! Então, continuemos nossa caminhada. Grande parte de sua defesa teórica está no Um dos conceitos sobre a aprendizagem vem da chamada ciência cognitiva ou fato de assinalar que as possibilidades e o sucesso da ciência da cognição. As origens intelectuais dessa ciência remontam à segunda metade aprendizagem se dão quando o professor constrói um da década de 1950, quando pesquisadores, reunindo contribuições de diversas ciências, clima de respeito e consideração pelas possibilidades definiram-na como um estudo científico da mente e da inteligência. e curiosidades dos alunos, um clima humanístico, que facilita a autonomia e a busca pelo conhecimento. Para os cognitivistas, a aprendizagem, a aquisição de conhecimento é mais que resultado do ambiente. A Ciência cognitiva é um campo de estudo multidisciplinar que A situação relacional é enfatizada na abordagem engloba ramos específicos da Psicologia, Filosofia, Antropologia, Inteligência Artificial, não diretiva. Na relação com o professor, o aluno Neurologia e Linguística. Fonte: desfruta de liberdade para vivenciar suas experiências de aprendizagem num clima de aceitação incondicional. PEDAGOGIA UNIVALI 13 14 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Sem julgamentos, o indivíduo tem uma boa comunicação consigo mesmo, percebe como para isso, ser autêntico (aberto às suas experiências) e congruente, ou se sente e comunica-se mais livremente. seja, integrado. (MIZUKAMI, 2006, p. 52). Essa abordagem dá ênfase a relações interpessoais e ao crescimento que delas Para Rogers, a maior ênfase nos processos educacionais deve sobre a resulta, centrado no desenvolvimento da personalidade do indivíduo, em seus processos relação professor e aluno, em que a individualidade de cada sujeito, suas experiências de construção e organização pessoal da realidade, e em sua capacidade de atuar, como e subjetividades devem ser preservadas e valorizadas. Nesse sentido, padronizações, pessoa integrada. Dá-se igualmente a ênfase à vida psicológica e emocional do indivíduo e modos únicos de instrução, mensurações das aprendizagens cairão por terra. à preocupação com sua orientação interna, com o autoconceito, com o desenvolvimento de uma visão autêntica de si mesmo, orientada para a realidade individual e grupal Quando reunimos em um esquema elementos tais como currículo (MIZUKAMI, 2006). preestabelecido, deveres idênticos para todos os alunos, preleções como quase único modo de instrução, testes padronizados pelos quais são Ao observarmos a expressão da autora, podemos a aplicabilidade da citada avaliados externamente todos os estudantes, e notas dadas pelo professor, Teoria sobre a atuação terapêutica, já que desenvolveu a ideia da terapia centrada nas como modo de medir a aprendizagem, então quase podemos garantir que pessoas, vista como distinta das questões apontadas pelo Behaviorismo, corrente de a aprendizagem dotada de significação será reduzida à sua expressão mais pensamento muito criticada por Carl Rogers. simples. (ROGERS, 1972, p. 5). Você, acadêmico do curso de licenciatura, deve estar percebendo o quanto é As críticas à proposta pedagógica não diretiva ocorrem justamente pelo fato de importante estudan a Teoria rogeriana, já que ela possibilita entender novos paradigmas centrar-se sobre o aluno e seus interesses, o que acaba restringindo a intencionalidade acerca do que é aprender e ensinar, rompendo com aquele velho modelo em que o pedagógica e a função social e intencional da escola enquanto a instituição responsável professor é o centro do processo e o aluno é visto como um depositário de informações e pela transmissão sistemática dos saberes elaborados pela humanidade. Como uma Teoria conhecimentos sem sentido. Pois bem, é isso mesmo: a Teoria Humanista de Carl Rogers que percebe a interferência do professor como mínima, os sucessos e fracassos escolares impõe um novo entendimento sobre essas questões e aponta esperanças acerca da recairão sobre o aluno. potencialidade de cada um dos envolvidos nos processos de ensino e de aprendizagem, buscando efetiva significação e qualidade. Quanto à epistemologia subjacente a essa posição, a experiência pessoal e subjetiva é fundamento sobre o qual o conhecimento abstrato é construído. 2.2.2 A Epistemologia Genética de Jean Piaget Não existem, portanto, modelos prontos nem regras a seguir, mas um processo de vir a ser. o objetivo último do ser humano é a auto-realização Figura 5: Jean Piaget. ou o uso pleno de suas potencialidades e capacidades. (MIZUKAMI, 2006, Dentro das Teorias psicológicas sobre o p. 38). desenvolvimento cognitivo, a Epistemologia Genética de Piaget pode ser considerada como uma das posições No campo educacional, sua Teoria encontrou adeptos e se fez referência em escolas representativas do cognitivismo interacionista. que entendem ser o conhecimento efetivo construído a partir da relevância e significação do que está sendo aprendido para o sujeito que está aprendendo. Um grande exemplo é Piaget iniciou seus trabalhos em Psicologia a Escola de Summerhill, criada em 1921, na Inglaterra. na década de 1920 e apresenta uma versão e uma concepção do desenvolvimento cognitivo que devem Para Rogers, é preciso in além de operações mentais, que, sem sentido efetivo para ser entendidas no contexto de seus interesses e de sua o aluno, acabam caindo no esquecimento. Nesta perspectiva, o professor é visto como um formação. facilitador da aprendizagem, alguém que oportuniza recursos para despertar e alimentar o interesse e a curiosidade dos sujeitos cognoscentes. Jean Piaget (1896-1980), que de biólogo se transforma em epistemólogo, investiga como se constrói o professor, nessa abordagem, assume a função de facilitador da o conhecimento e quais os processos envolvidos nessa aprendizagem, e nesse clima facilitador, o estudante entrará em contato construção de conhecimento. com problemas vitais que tenham repercussão na sua existência. Daí o Fonte: <https://novaescola.org.br>. professor ser compreendido como um facilitador da aprendizagem, devendo, PEDAGOGIA UNIVALI 15 16 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Piaget rejeitou as concepções comportamentalista e cognitivista, afirmando que o Ao mesmo tempo que, por meio do processo de assimilação/ acomodação, conhecimento não vem somente da experiência nem está formado na mente dos indivíduos, o indivíduo adapta-se ao meio (elaborando seu conhecimento sobre ele), o mas acontece na interação entre o sujeito que aprende e o objeto a ser aprendido. seu próprio funcionamento cognitivo vai se estruturando, se organizando. Segundo Antunes (2004), Piaget jamais falou em Construtivismo ou se preocupou com um Uma das primeiras formas de organização cognitiva é o esquema. (FONTANA método de ensino. Ele desenvolveu uma Teoria conhecida como Epistemologia Genética, e CRUZ, 1997, p. 46). que pretende investigar as formas rudimentares de conhecer o desenvolvimento até as formas mais abstratas e lógicas do pensamento humano. Os processos de assimilação e acomodação formam, então, esquemas que geram processos adaptativos ao organismo que, por sua vez, procura a equilibração para poder De acordo com Piaget (1971), no início, para se conhecer um objeto, é preciso continuar desequilibrando e equilibrando-se novamente, como numa espiral. Isso quer manipulá-lo, senti-lo, tê-lo presente. Por exemplo, não é possível para a criança pequena dizer que o processo de conhecer tem início com o desequilíbrio entre o sujeito e a sua entender quanto são duas maçãs mais três maçãs, se não puder tocar e mexer nas maçãs realidade. Os objetos apresentam um problema ou desafio para o sujeito, gerando um de verdade. desequilíbrio, o qual leva o sujeito a agir sobre o objeto com o propósito de restabelecer o equilíbrio. Mais tarde, ela não precisará mais lidar materialmente com os objetos para concluir relações entre eles, mas conseguirá mentalmente resolver problemas que envolvem essas Na verdade, a estabilização nunca é definitiva, pois o mundo está sempre em relações: a soma, a comparação entre as maçãs, etc., já que ao longo de suas experiências mudança e sempre apresentando novos objetos, novos desafios. Como sugere o desenho, conseguiu construir abstrações. a equilibração constitui um dos alicerces dos estudos piagetianos. Piaget estudou como o ser humano chega a não precisar dos objetos concretos para extrair deles relações, como faz isso mentalmente, pensando sobre os objetos. Ele estudou como nasce o conhecimento abstrato, ou seja, um conhecimento independente da ação do homem sobre os objetos, e como é gerado o conhecimento lógico, mental. Portanto, Figura 6: Processo de equilibração. para o teórico, o desenvolvimento da inteligência é determinado pelas interações entre sujeito e objeto, não estando pronto nem no sujeito (na carga genética), nem no meio (no objeto). Portanto, as estruturas mentais são constituídas nessa interação entre sujeito e objeto por meio dos processos de assimilação e de acomodação. Assimilação Acomodação Da mente à nova Quando a criança usa os saberes e as possibilidades que já tem para tentar superar um Da experiência à mente) experiência) desafio ou enfrentar um problema, ela está realizando o que ele chama de assimilação do objeto Dizendo de outra maneira, no processo de assimilação, o sujeito gera significações ao objeto por meio de experiências anteriores. Por outro lado, quando o sujeito se modifica em função do movimento assimilador, tendo em vista superar o desafio que o novo objeto traz, tem lugar o que se denomina acomodação. Para Piaget, a soma dos processos de assimilação (incorporação dos objetos Equilibração ao Eu) e acomodação (transformações do Eu em função dos objetos) denomina-se Estados de equilíbrio de adaptação. Para exemplificar, quando usa a preensão ao pegar uma bola, a criança está adaptação cada vez mais assimilando-a ao esquema de ação que já possui Quando muda esse esquema estáveis) de ação, abrindo mais a mão, para pegar o objeto novo, a criança está acomodando-se à nova situação. Nesse momento, ela não é mais a mesma que iniciou o processo, pois seu conhecimento agora é outro, maior e mais desenvolvido do que quando Fonte: ainda não tinha agido sobre a bola. Podemos dizer que a criança se adaptou ao novo. PEDAGOGIA UNIVALI 17 18 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 No período sensório-motor, a criança vai aplicando os esquemas de ação já Para entender como o sujeito passa de um modo de conhecer que necessita do conquistados ao universo de objetos que compõem sua realidade, assimilando-a e contato concreto com os objetos, para o conhecimento abstrato (independente da modificando-se nesse contato, ou seja, acomodando-se à realidade física e material à presença dos objetos, imaginando-os ou projetando-os mentalmente), Piaget investigou o sua volta. desenvolvimento intelectual humano (o desenvolvimento da inteligência), dividindo-o em quatro períodos: período sensório-motor, período pré-operatório, período das operações o período pré-operatório, de 2 a 7 anos, caracteriza-se pelo aparecimento das concretas e período das operações abstratas (ou formais). primeiras representações/imagens mentais. Para Piaget, é nesse período que têm início a linguagem e o processo de socialização da criança, antes ausentes. Ocorrem mudanças Cada período estabelece as bases para os períodos seguintes. Assim, um é pré- significativas nos aspectos intelectual, afetivo e social. Os antigos esquemas de ação são condição para alcançar os outros. Para Piaget, todos os humanos passam por todos esses transformados em esquemas representativos, isto é, os objetos sofrem não só a ação física períodos ou etapas no desenvolvimento de sua inteligência. o desenvolvimento segue uma da criança, mas também a ação mental. É comum você observar as crianças da Educação linha pré-definida, apesar de variável de indivíduo para indivíduo, no que diz respeito ao Infantil usando uma caixa para transformá-la num carro ou um cabo de vassoura para ritmo em que ocorre. transformá-lo num cavalo, etc. Segundo Piaget, cada período é caracterizado por aquilo que de o Além disso, em função da linguagem, o desenvolvimento do pensamento progride indivíduo consegue fazer nessas faixas etárias. Todos os indivíduos passam muito, tornando possível empregar expressões socialmente convencionadas e não somente por todas essas fases ou períodos, nessa seqüencia, porém o início e o expressões muito particulares (a criança vai substituindo, por exemplo, a palavra miau, término de cada uma delas dependem das características biológicas do por gato). indivíduo e dos fatores educacionais, sociais. Portanto, a divisão nessas faixas etárias é uma referência, e não uma norma rígida. (BOOK, FURTADO Outro fator importante é a centralização da criança no seu próprio eu, não e TEIXEIRA, 2007, p. 101). conseguindo colocar-se do ponto de vista do outro. A esse movimento, Piaget chamou de 'egocentrismo'. Devemos entender que ele não o fez no sentido de a criança o período sensório-motor, que vai de 0 (zero) a mais ou menos 2 (dois) anos, é o de mas sim por ela ainda não possuir estruturas que lhe permitam colocar-se no período da inteligência prática, anterior à linguagem. Para Piaget, nesse período não há lugar do outro. representações, ou seja, as imagens que a criança elabora na mente. Podemos dizer que ela age sobre aquilo que chega às mãos, o que ouve, o que sua boca alcança, sem É um período marcado por grandes conquistas e extremamente rico em atividades formar imagens mentais. Esse período se divide em seis fases. representativas. Entre elas: a possibilidade de imitar os objetos na sua ausência; o jogo simbólico que permite construir símbolos e utilizar objetos como se fossem outros, A primeira fase vai do nascimento até o final do primeiro mês de idade. Nessa fase, transformando-os de forma representativa no objeto desejado; a fala egocêntrica, falam predomina a assimilação, o que Piaget denomina de uso dos reflexos (sucção, preensão, consigo mesmas. No campo afetivo, aparece o sentimento interindividual, que é o respeito fonação, audição, etc.). o exercício dos reflexos sobre objetos variados permite que eles que a criança nutre pelos indivíduos que julga superiores a ela. possam in se diferenciando. No período operatório concreto, que vai de 7 a 11 anos, os aspectos intelectuais e sociais tornam-se menos egocêntricos, dando início ao período de construção lógica, ou seja, a criança já está pronta para iniciar um processo de aprendizagem sistemática. ATENÇÃO Segundo Piaget, as operações que se constituem nesse período são de duas ordens: operações lógico-matemáticas, como os conceitos de adição, subtração e multiplicação, Em um experimento clássico, Piaget (1971) observou as atitudes de e as operações infralógicas, como as ideias de tempo, espaço e relações interpessoais. As bebês quando um brinquedo caía de suas mãos e desaparecia do campo operações mentais comportam duas características: reversibilidade e associação. visual presente, ou quando um anteparo era colocado entre os bebês e o objeto. Nessas situações, os bebês não procuravam o objeto que sumia, Vejamos um exemplo de tais características. mesmo quando tinham visto seu desaparecimento atrás de uma almofada, por exemplo. Para a criança, o brinquedo deixava de existir quando não era visto, pois ela precisava das impressões sensoriais que recebia para Ao provocar um aluno do ensino fundamental a examinar a mesma quantidade de relacionar-se com ele. líquido em dois copos, um alto fino, largo, ele consegue fazer reversibilidade, raciocinando que, embora o tamanho e a forma sejam diferentes, a quantidade de água é a mesma. Ele utiliza a lógica do raciocínio. A reversibilidade do pensamento possibilita à criança construir noções de conservação de massa, volume, etc. PEDAGOGIA UNIVALI 19 20 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Esta capacidade está relacionada à possibilidade de ela representar Desse modo, mentalmente a operação inversa. por meio das operações inicialmente só aplicáveis a objetos concretos e presentes no ambiente os conhecimentos Há que se considerar as peculiaridades históricas e sociais de cada momento, construídos anteriormente pela criança vão se transformando em conceitos. mais especificamente as condições e oportunidades que se colocam para (FONTANA e CRUZ, 1997, p. 52). cada uma delas, pois, a dos instrumentos de pensamento disponíveis a cada criança, suas mentes terão, por estruturas o caráter associativo do pensamento comporta uma série de elementos cognitivos, diferentes. (PALANGANA, 2001, p. 135). que podem ser interpretados pela criança de forma independente, porque podem ser desmembrados e organizados de outra forma. Nesse sentido, se cada criança apresenta estruturas diferentes, as respostas dadas aos processos experienciais ou educacionais se darão de formas diferentes. Isso torna possível No nível afetivo, a vontade aparece como qualidade e atua quando há conflitos afirmar que o erro é, sim, uma parte do processo de construção de determinado conhecimento. entre o prazer e o dever. A criança, na relação com as outras, estabelece regras e normas de convivência, de valores, de opiniões. o erro, para Piaget, é algo positivo, pois, segundo ele, toda a aprendizagem é acompanhada de erros e acertos. o erro construtivo é aquele que mostra que a criança No período operatório formal, de 11 a 12 anos em diante, ocorre no indivíduo a está elaborando uma hipótese, ou seja, que está seguindo suas concepções a respeito passagem do pensamento concreto para o pensamento formal abstrato, ou seja, ele da realidade e usando seus próprios procedimentos para testar e experimentar suas consegue realizar as operações no mundo das ideias, sem necessitar de referência hipóteses. É o resultado do esforço que a criança faz para aprender. concreta. À medida que o indivíduo vai se desenvolvendo, a reflexão vai se relacionando com a realidade. Ao contrário do pensamento operatório-concreto, o operatório-formal, liberado das limitações impostas pelo mundo concreto, consegue operar com 2.2.3 Aprendizagem Significativa de David Ausubel todos os possíveis, mesmo que isso contrarie o empírico. o adolescente é capaz de em termos abstratos, de formular hipóteses, independente David Paul Ausubel nasceu no ano de 1938, na cidade de Nova York. Pode ser da verdade factual. Nesse período, os esquemas de raciocínio, antes considerado um cognitivista que se preocupou em entender como, a partir da eficiência dedutivos, sofrem importante evolução, manifestada na incorporação do de estratégias didáticas, no plano da cognição, o conhecimento é compreendido, modelo hipotético-dedutivo. (PALANGANA, 2001, p. 28). transformado, armazenado e utilizado (BOCK, FURTADO e TEIXEIRA, 2007, p.117). A partir desse período é possível entender que a estrutura cognitiva se constrói em Figura 7: David Paul Ausubel. Sua preocupação inclui conceitos, princípios e decorrência de ações mentais sobre o espaço físico e social do sujeito. o adolescente é, Teorias, objetivando a prática docente. Seu ponto de então, um questionador do mundo natural e social e tem a necessidade, no nível afetivo, partida está no conceito de aprendizagem significativa, de ser aceito pelo grupo de amigos, desejando libertar-se do domínio dos pais, do adulto. que se expressa a partir da relação de como os novos Ainda assim, é instável no tocante aos seus interesses e só superará essa instabilidade conteúdos se relacionam aos conteúdos existentes na com a chegada da vida adulta. estrutura cognitiva do sujeito. De acordo com Moreira (1999), para que ocorra a aprendizagem significativa, Você já deve ter ouvido que é construindo que se aprende, não é mesmo? os novos conhecimentos que se adquirem relacionam- se com o conhecimento prévio que se possui. Para Piaget formulou uma Teoria do desenvolvimento e não da aprendizagem, por isso, Ausubel, o conhecimento prévio constitui-se em um apresenta, como condição do aprender, o desenvolvimento de estruturas cognitivas que subsunçor, ou seja, uma nova informação que se ancora possibilitem a compreensão do mundo que nos rodeia. Sendo assim, o desenvolvimento em conceitos relevantes (subsunçores) preexistentes antecede a aprendizagem. na estrutura cognitiva do aluno. Os processos de ensino e aprendizagem devem ser capazes de propiciar à criança o surgimento de várias capacidades que assegurem o desenvolvimento cognitivo, partindo de elementos constituintes mais simples para operações mais complexas. Fonte: https://novaescola.org.br>. A ocorrência da aprendizagem significativa implica o crescimento e a modificação do conceito PEDAGOGIA UNIVALI 21 22 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 subsunçor. Ausubel compara os subsunçores com âncoras, pois é com eles que os 2.2.4 reflexo das Teorias Cognitivistas na ação docente conhecimentos novos irão se interligar, fazendo com que 'conceitos aparentemente não sejam apreendidos de forma significativa. As Teorias Cognitivistas nos indicam que o professor tem como função condições e situações que proporcionem reciprocidade intelectual e cooperação moral e racional. Para esse autor, a relação entre os conteúdos não se dá de forma arbitrária, mas de Ele deverá evitar a rotina e a fixação de respostas e hábitos. Ainda assim, deve propor forma pensada, a partir do que o sujeito já sabe, entendendo que a substancialidade está problemas, provocar desequilíbrios, desafios, mas, para tanto, é necessário que conheça na possibilidade de entender a essência de um conceito, já que os conceitos apropriados o aluno. pelo sujeito serão enriquecidos e modificados pelos novos, se neles se ancorarem. o aluno deve ser ativo e observador. Ele deve experimentar, comparar, relacionar [...] para Ausubel os novos significados não são as ideias ou conteúdos e cabe a ele a solução de problemas, a busca de sua autonomia. Os processos de ensino objetivos apresentados e oferecidos à aprendizagem, mas produto e de aprendizagem devem ser capazes de propiciar à criança o surgimento de várias de um intercâmbio, de uma fusão. Os novos significados são criados na capacidades que lhe assegurem o desenvolvimento cognitivo, partindo de elementos interação da nova ideia, ou conceito potencialmente significativo, com constituintes mais simples para operações mais complexas. Desse modo, as ideias pertinentes, que o aluno/a já possui de sua estrutura cognitiva. É evidente. segundo Ausubel, que a bagagem de ideias do indivíduo é Há que se considerar as peculiaridades históricas e sociais de cada momento, enriquecida e modificada sucessivamente com cada nova incorporação. mais especificamente as condições e oportunidades que se colocam para [...] Ausubel considera que a estrutura cognitiva de cada sujeito evidencia cada uma delas, pois, a dos instrumentos de pensamento uma organização hierárquica e lógica, na qual cada conceito ocupa um disponíveis a cada criança, suas mentes terão, por consequência, estruturas lugar determinado em função do nível de abstração, de generalização e diferentes. (PALANGANA, 2001, p. 135). capacidade de incluir outros conceitos. GÓMEZ, 2000, p. 38- 39). As consequências pedagógicas dessa linha teórica também podem ser vistas na relação e na avaliação. Entre professor e aluno passa a existir um diálogo Segundo Pelizzari (et al., 2001), duas condições básicas são necessárias para que mais fecundo e os 'erros' dos alunos são vistos como integrantes do processo de ensino e ocorra a aprendizagem significativa: a) é preciso que o sujeito cognoscente tenha vontade de aprendizagem. Os erros dizem o que os alunos já sabem sobre os conteúdos escolares de aprender; b) é necessário que o material a ser oferecido seja apresentado de forma e indicam pistas para o professor sobre o que ainda deve ser ensinado. Aprender não pode potencial e significativa. ser considerado sinônimo de memorização. Dessa forma, a produção dos alunos passa a fazer parte dos processos de ensino e aprendizagem como os 'erros Para tanto, é preciso que os materiais tenham uma dupla significação potencial: uma significação lógica e uma significação psicológica. Especificamente para Piaget, como vimos anteriormente, o erro é algo positivo, pois, segundo ele, toda a aprendizagem é acompanhada de erros e acertos. De acordo com Significação lógica: coerência na estrutura interna do material, sequência lógica este teórico, o erro construtivo é aquele que mostra que a criança está elaborando uma nos processos e consequência nas relações entre seus elementos componentes. hipótese, ou seja, que está seguindo suas concepções a respeito da realidade e usando seus próprios procedimentos para testar e experimentar suas hipóteses. É o resultado do Significação psicológica: que seus conteúdos sejam compreensíveis desde a esforço que a criança faz para aprender. estrutura cognitiva que o sujeito que aprende possui. GÓMEZ, 2000, p. 38). [...] o erro que a criança comete [...] pode ser resultado de sua própria atividade assimilativa, da aplicação de seus esquemas mentais (ou de Observando a Teoria de Ausubel, é possível que, para além da aula expositiva ação) a determinado objeto ou conteúdo. Quando a atividade assimilativa que está diretamente ligada à aprendizagem por recepção, ele formulou a defesa de uma resulta em erro, e principalmente se de forma repetida, ocorre uma aprendizagem receptiva significativa. Sua Teoria também poderia estar mais voltada para desequilibração das estruturas cognitivas da criança. Isso faz com que ela, um processo didático quando evidencia o Método de Organizadores Prévios. Saber qual o por meio da atividade cognitiva, modifique (acomode) seus esquemas, o conhecimento que o aluno já domina, como esse conhecimento está organizado, é muito que resulta em uma reequilibração e, portanto, no aperfeiçoamento de sua importante para que haja conexão com os novos conceitos. maneira de agir e de pensar e em um nível mais complexo de conhecimento sobre o objeto. (FONTANA e CRUZ, 1997, p. 71). Na avaliação, o professor verifica se o aluno adquiriu noções de conservação, se PEDAGOGIA UNIVALI 23 24 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 realizou operações e relações. rendimento do aluno pode ser avaliado por meio de Observando os fundamentos filosóficos desta abordagem, fica fácil a reproduções livres, de reproduções práticas, explicações causais, expressões, etc. diferença que estabelece com as outras abordagens que fundamentam os processos de ensino e de aprendizagem. Um bom exemplo seria a Teoria piagetiana que afirma que É importante que, a partir desse enfoque, o conhecimento vai sendo o desenvolvimento se dá num processo contínuo de equilibrações. Para a abordagem construído gradativamente, de formas menos complexas para as mais complexas. o Histórico-Cultural, a bagagem sociocultural é responsável pela estrutura mental, por professor deve estar atento à etapa da elaboração em que o aluno está e perceber esse motivo "[...] ressalta o valor da instrução, da transmissão educativa, da atividade avanços consideráveis nesse processo. tutorada, mais do que a atividade experiencial da criança por si GÓMEZ, 2000, p. 41). De acordo com as Teorias Cognitivistas pode-se que: Por como base filosófica a filosofia marxista, considera que o sujeito o ensino e a aprendizagem são processos construtivos; não se constitui isoladamente e nem é uma cópia da cultura. Ele se constitui na relação dialética com outros sujeitos sociais, mediatizado por signos e instrumentos culturais e, o professor expõe conceitos, solicita contextualizações, debate e promove em meio a essa relação, tanto se transforma como também transforma o seu contexto experiências com seus alunos, solicitando o registro pessoal dessas experiências sociocultural. que se referem ao conhecimento adquirido; No Brasil, o teórico Demerval Saviani (2008) tem 'bebido' nessa fonte teórica para o professor favorece a autonomia de seu aluno e o trabalho em grupo estimula o formular sua compreensão acerca do papel social da escola e da prática pedagógica de confronto de ideias que favorece a todos os alunos, sem distinção; forma geral. Para ele, a escola tem um papel imprescindível na transmissão e assimilação do saber. Na fala do autor, compreender a tarefa da educação como facilitador de aprendizagem, o professor propõe desafios, interroga, debate, arquiteta problemas e estimula seus alunos à pesquisa e à descoberta; [...] permite-nos situar a especificidade de educação como referida aos conhecimentos. Ideias, conceitos, valores, atitudes, hábitos, símbolos o professor sabe que é um pesquisador e, como tal, um aprendiz, porém, mais sob o aspecto de elementos necessários à formação da humanidade preparado que seus alunos, organiza projetos para que eles encontrem soluções, em cada indivíduo singular, na forma de uma segunda natureza, que se sempre pessoais, para os desafios apresentados; produz deliberada e intencionalmente, através de relações pedagógicas historicamente determinadas que se travam entre os homens. (SAVIANI, o professor é um especialista em aprendizagem e os conteúdos da disciplina 2008, p. 22). que trabalha são peças essenciais para promover experiências de aprendizagens significativas; psicólogo francês Henri Wallon, também a partir de bases marxistas, assinala que o sujeito se constitui na relação social em que motricidade, emoção e cognição se o professor não aceita a rotina da repetição e estimula a construção de relacionam dialeticamente. Sua perspectiva nos aponta uma nítida superação do dualismo conhecimentos. corpo e alma. Para ele, o sujeito deve ser entendido como alguém que tem uma dinâmica própria, marcada por movimentos evolutivos e involutivos não lineares. Vamos então nos debruçar mais sobre esta aboradagem? 2.3 Abordagem Histórico-Cultural A abordagem Histórico-Cultural fundamenta os princípios psicológicos a partir da perspectiva do materialismo dialético de Marx e Engels. As grandes referências desta abordagem são o psicólogo russo Lev Semenovitch Vygotsky e o francês Henri Wallon. 2.3.1 A Teoria da Psicogênese da Pessoa Completa de Wallon A partir de seus fundamentos marxistas, esta abordagem assinala que "O psiquismo e a conduta intelectual adulta é resultado de uma peculiar e singular impregnação social A Teoria de Wallon também pode ser chamada de 'APsicogênese da Pessoa Completa'. no organismo de cada indivíduo. Essa impregnação não é unilateral, mas evidentemente Wallon argumenta que o sujeito se constitui de múltiplas dimensões, em processos muitas 2000, p. 40). vezes conflitantes e contraditórios. PEDAGOGIA UNIVALI 25 26 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Você já se deu conta de que, nos processos de aprendizagem, são desconsideradas, É provável que, caso tivesse vivido numa época de menor instabilidade muitas vezes, questões como emoção e motricidade? Que muitas de nossas crianças e social, não tivesse tido a necessidade de ser tão claro nas suas posições, adolescentes são submetidos a processos de escolarização que privilegiam a imobilidade nem tampouco lhe tivesse ficado tão evidente a influência fundamental e a intelectualidade? que o meio social exerce sobre o desenvolvimento da pessoa humana. [...]. (GALVÃO, 2001, p. 17). Pois bem, foi pensando em superar essas práticas que Wallon pôde disponibilizar maiores referenciais para uma atuação pedagógica comprometida com sujeitos completos, Wallon também teve grande participação na vida política de seu país. Manteve que vivem diferentes conflitos ao consolidarem ora o entendimento sobre seu próprio ser, uma postura de esquerda, foi simpatizante dos regimes socialistas e também membro do ora o entendimento acerca do mundo em seu entorno, numa relação que é, acima de Partido Socialista. Manteve sempre um posicionamento contrário ao fascismo e sua forma tudo, dialética e mediada pelos diferentes contornos do social. ditatorial. Entre outras questões, participou de movimentos intelectuais ligados ao materialismo dialético, que tinham como objetivo entender e as contribuições oferecidas por essa perspectiva filosófica à ciência. 2.3.1.1 Vida de Henri Wallon É preciso salientar que ele foi um dos principais expoentes da psicologia do desenvolvimento de seu tempo e que ajudou a dar destaque à França como um país que tem discutido a relação entre psicologia e aprendizagem. Wallon foi autor Sobre a sua história, é preciso resgatar que ele viveu na França, entre os anos de 1879 e 1962, desenvolvendo vasta obra científica engajada à ação social e aos debates [...] de um plano de reforma do ensino da França, o qual considerava, educacionais da sua época entre outras medidas, a criação de um serviço de psicologia escolar para as escolas (o Plan Langevin-Wallon, tornado público em 1944). Esse plano serviu posteriormente de modelo a muitos outros países. (SALVADOR, 1999, Figura 8: Henri Wallon. p. 28). Como já assinalado anteriormente, a abordagem Histórico-Cultural fundamenta os princípios psicológicos na perspectiva do materialismo dialético de Marx e Engels e, para Wallon, ela que permite considerar uma mesma unidade o ser e o seu meio, as suas perpétuas interações recíprocas. É ela que lhe explica os conflitos dos quais o indivíduo deve tirar a sua conduta e clarificar a sua personalidade". (WALLON, 1975, p. 67). De início, é importante que você tenha claro que, embora também denominada de Psicologia Genética, a abordagem walloniana faz referência à palavra gênese, que significa origem. Não se está referindo à genética como determinação biológica de hereditariedade ou algo do gênero, mas ressaltamos: genética relativa à gênese, como origem do conhecimento. Vale retomar, para não esquecer, que a base teórica de Wallon foi a filosofia marxista, Fonte: <https://novaescola.org.br> o que leva a considerar que o sujeito não se constitui isoladamente e nem é uma cópia da sua cultura, ele se constitui na relação dialética com outros sujeitos sociais, mediatizado por signos e instrumentos culturais e, em meio a essa relação, tanto se transforma como também transforma o seu contexto sociocultural. Estudou filosofia e medicina antes de se dedicar à psicologia, mas também viveu num de bastante turbulência social como, por exemplo, as duas grandes guerras Sendo assim, podemos destacar que muitas contribuições, para a abordagem mundiais, a ascendência do fascismo e outros conflitos mais, fatos que muito contribuíram Histórico-Cultural, foram dadas pela psicologia do francês Henri Wallon. Para ele, a para a qualidade e reconhecimento de sua obra. relação sujeito e meio não pode ser vista como algo linear, já que o meio nunca é o PEDAGOGIA UNIVALI 27 28 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 mesmo, e o homem, ao adaptar esse meio às suas necessidades, acaba também por se Wallon foi contrário às concepções que estudavam o psiquismo no seu tempo: a modificar. corrente da psicologia idealista intuitiva, que pregava ser o psiquismo absolutamente independente da vida material, e a corrente materialista mecanicista, que, ao contrário, Na opinião de Wallon (1975), a dialética marxista introduziu uma revolução pretendia explicar o psiquismo a partir de bases puramente biológicas. no modo de conhecer da psicologia ao substituir a análise da propriedade pela análise do processo. Isto é, a análise de um dado fenômeno psicológico Ao longo de nossas discussões fica fácil entender que Wallon, resgatando os tal como este se apresenta, pela análise do processo do qual o fenômeno fundamentos do materialismo dialético, vai propor a superação dessas correntes, foi produzido. Assim, a análise das relações entre organismo e meio buscando entender o psiquismo a partir da contradição entre o biológico e o social. ultrapassa em muito a linearidade suposta a partir de um esquema rígido de pensamento ação/reação por duas razões: em primeiro lugar, o meio Dentro de sua perspectiva de análise, é a emoção que estabelece a relação entre o não é constante e transformações em sua natureza modificam o homem; sujeito e o social. em segundo lugar, o homem modifica o meio, ajusta-o às suas necessidades e, ao proceder desse modifica-se também. (TEIXEIRA, 2003, p. 238). Aemoção, num primeiro momento, é uma expressão corporal de um estado interno, mas paulatinamente vai adquirindo o caráter de comunicação, Para o estudioso em questão, o sujeito deve ser entendido como alguém que tem de intercâmbio de mensagens entre indivíduos. [...] desde a origem o uma dinâmica própria, marcada também pela afetividade, por movimentos evolutivos pensamento vincula-se com aspectos emotivos, afetivos, com os quais e involutivos, não lineares, em que o biológico e o social são determinantes na sua estabelecerá um discurso permanente cheio de contradições e [...] construção e a dualidade corpo e alma, A dissociação entre afetividade e pensamento é metodológica, artificial e não pode transformar-se em princípio de procedimento na escola. Toda a atividade cognitiva da criança implica, em sua origem, seu desenvolvimento, ou sua conclusão, inevitáveis componentes afetivos que por si mesmos impulsionam a aprendizagem [...]. PÉREZ GÓMEZ, 2000, p. 43). A Teoria da Psicogênese da Pessoa Completa Logo, a partir desse princípio, emoção e cognição interagirão ao longo da vida. Sua Teoria, conhecida como Psicogênese da Pessoa Completa, deu grandes Os aspectos orgânicos, quando em relação com o meio social, sofrerão inúmeras contribuições à área da educação, tendo em vista que assinala que as expressões das transformações que, de forma alguma poderão ser determinadas a priori. crianças, seu movimento corporal, suas emoções, suas linguagens, devem ser levadas em conta nos processos educacionais. Como você verá mais adiante, assim como Wallon, também Vygotsky buscará na dialética os fundamentos filosóficos para a sua abordagem acerca da aprendizagem e Buscando o psiquismo humano, Wallon volta sua atenção para do desenvolvimento Tanto um como outro dividirão a premissa de que nos a criança, pois através dela é possível ter acesso à gênese dos processos constituímos humanos a partir das interações vividas em sociedade e de que a contradição psíquicos. De uma perspectiva abrangente e global, investiga a criança nos é uma categoria chave para a análise da relação sujeito e conhecimento. vários campos de sua atividade e nos vários momentos de sua evolução psíquica. Enfoca o desenvolvimento em seus domínios afetivo, cognitivo No momento, ainda, é importante salientar que Wallon concebe o desenvolvimento e motor, procurando quais são as diferentes etapas, os vínculos em estágios descontínuos, resultantes de conflitos entre aspectos exógenos e endógenos, entre cada campo e suas implicações com o todo representado pela em que o conhecimento dos princípios da alternância funcional, do predomínio funcional personalidade. (GALVÃO, 2001, p. 11). e da integração funcional é imprescindível. Ao longo de suas produções, muito se preocupou com as questões pedagógicas. Pelo viés da alternância funcional, entendemos que há um predomínio alternado Teceu críticas à escola tradicional controladora e autoritária, voltada apenas para o de questões como emoção, cognição, motricidade no processo de desenvolvimento ou, cognitivo, para a intelectualidade e que nega a emoção, o que não poderia ser diferente, mesmo, alternância entre o íntimo e o meio ou, como bem nos assinala a autora "Na já que sua perspectiva vê o desenvolvimento infantil a partir de um enfoque sucessão dos estágios há uma alternância entre as formas de atividade que assumem a predominância em cada fase. Cada nova fase inverte a orientação da atividade e do interesse da criança: do Eu para o mundo, das pessoas para as coisas. (GALVÃO, 2001, p. 45). PEDAGOGIA UNIVALI 29 30 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Já o princípio ou lei do predomínio funcional remete a pensar que, em cada estágio, em cada fase, uma atividade serve como meio essencial entre a interação criança e o meio. personalidade a dos outros e a destes entre si" (GALVÃO, 2001, p. 52), é uma relação bastante funcional e imprescindível para a elaboração do Eu. Esses recursos são de ordem cognitiva ou afetiva. Quando é o intelecto que predomina, a ênfase da atividade da criança orienta-se para a construção Deriva dessa diferenciação entre o Eu corporal e o outro, a possibilidade de do real e do conhecimento de mundo. Nos momentos em que predomina o constituição do Eu psíquico, já que o outro possibilita, também, as interações sociais e afeto, as atividades da criança voltam-se à construção do Eu. (TEIXEIRA, diferenciações e incorporações progressivas. 2003, p. 241). A relação do sujeito com os outros sujeitos, e, por conseguinte, com seu Por outro lado, através do princípio da integração funcional, princípio este elaborado produto cultural, será sempre uma relação contraditória, por sua própria a partir da análise dos processos de maturação do sistema nervoso, que não deve ser natureza impelida à explosão. As ideias de conflito autógeno, de permanente entendido como combinação ou justaposição, "As funções elementares vão perdendo tensão intra e interpessoal, conferem a esta concepção de sujeito um tom a autonomia conforme são integradas pelas mais aptas para adequan as reações às que é profundamente libertador. (DANTAS apud LA TAILLE, 1992, p. 107). necessidades da situação". (GALVÃO, 2001, p. 46). Não há como negar os conflitos que advêm dessa gênese que vai da indiferenciação Para Wallon, o ser humano, ao nascer, vai tentar estabelecer comunicação com o entre o Eu e o meio até a consolidação da consciência. Esses conflitos são absolutamente mundo que o cerca, muito embora, no início, o sujeito não consiga se distinguir do meio necessários para o desenvolvimento, já que neles a emoção tem um papel preponderante em que vive. A diferenciação e a construção da pessoa só se darão na medida em que vão e uma vez que é ela que regula a relação do sujeito com o seu meio, que mais adiante se estabelecendo interações entre o sujeito e o meio social. apresentará contornos materiais e sociais. Mais adiante, ao realizar análises sobre os diferentes estágios de desenvolvimento Para Wallon, como já salientado anteriormente, os estágios de desenvolvimento apontados por Wallon, você poderá entender esses princípios. Relembramos infantil não são nem lineares, nem marcados por progressões sem retrocessos. Nesses que, para melhor compreensão da Teoria walloniana, é bom não de vista sistemas, questões como motricidade, afetividade e inteligência encontram-se questões centrais, como: o Materialismo Histórico e as premissas de ruptura e alternadamente como centrais em cada movimento de constituição da pessoa. descontinuidade dos estágios, bem como o entendimento de que o desenvolvimento se dá por alternância, predominância e integração funcionais. Só para o que foi afirmado, podemos salientar um contexto em que nos deparamos com um bebê e percebemos que sua inaptidão motora o leva a ter relações Para a sua análise acerca do desenvolvimento da pessoa, Wallon vai centrar suas bastante emocionais com o meio. Nesse momento, a afetividade será central. Por outro análises em teses que são chave para a interpretação de sua Teoria, entre elas a ideia de lado, aos sete, oito ou nove anos, a criança já consegue estabelecer uma relação mais diferenciação entre o Eu e o outro, uma diferenciação que, de início, se dá entre o Eu intelectualizada, na qual parte para explicações e descobertas a respeito do mundo que corporal e o Eu psíquico. a cerca. Há, nesse momento, um predomínio da inteligência sobre os outros sistemas. Você deve ter percebido que a constituição do Eu se dará, então, num movimento o primeiro estágio é denominado de impulsivo-emocional e caracteriza-se por dois que é social. É na consolidação da ideia do Eu e do outro, que serão dados os passos em momentos: o da impulsividade motora e o emocional. Ele vai do nascimento ao primeiro direção à diferenciação, já que, no início, Eu e o mundo somos uma unidade, pois, ano de vida do sujeito e, nesse início, os movimentos viscerais darão início aos processos psicológicos. É-lhes indispensável uma assistência a todos os instantes. É um ser cujas reações têm todas as necessidades a ser completadas, compensadas. Incapaz Um primeiro momento de interação com o meio se dará pelo fato de mostrar-se de efetivar algo por si só, é manipulado por outro, e é nos movimentos do incapaz de resolver, sozinha, suas necessidades e desconfortos. Então, através de suas outro que tomarão forma as primeiras atitudes. (WALLON, 1975, p. 153). reações não contínuas, vai expressar essas necessidades e desconfortos que são ou de origem fisiológica, ou de adversidades do ambiente externo. Sua expressão levará os Já no primeiro ano de vida, a criança inicia, então, a formação do Eu corporal, adultos que a cercam a intermediarem, resolverem e significarem seu meio, já que, ao formação essa que só é possível mediante a interação com o outro, conforme já assinalado nascer, a criança não possui anteriormente. Embora seja uma relação bastante confusa ainda, em que "[...] a criança percebe-se como que fundida nos objetos ou nas situações familiares, mistura a sua PEDAGOGIA UNIVALI 31 32 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 também, a exploração do próprio corpo e da própria imagem, o que [...] meios de ação sobre as coisas circundantes, razão porque a satisfação culminará no estágio seguinte, que é das suas necessidades e desejos tem de ser realizada por intermédio das pessoas adultas que a Por isso, os primeiros sistemas de reação Conhecer-se de fora para dentro, depois de se ter conhecido de dentro que se organizam sob a influência do ambiente, as emoções, tendem a para fora. Agora instrumentada pela função simbólica, a percepção de si realizar, por meio de manifestações consoantes e contagiosas, uma fusão poderá transformar-se em "consciência de si" ampliando-se na direção do de sensibilidade entre indivíduo e o seu entourage. (WALLON, 1975, p. passado e do futuro. A tarefa evolutiva prioritária passa a ser essa, e ela 262). corresponde a trazer para o plano da pessoa uma conquista que é da ordem da inteligência. (DANTAS apud LA TAILLE, 1992, p. 94). Com o passar do tempo, a criança já começa a superar a impulsividade, tendo em vista as consequências sociais de suas manifestações. Então, passa-se do fisiológico o estágio imediatamente ulterior é denominado de personalismo, segue dos três para o plano do afeto, das relações interpessoais; de reações fisiológicas a relações aos seis anos. Nele, a criança vai construir sua identidade, construir seu Eu negando o interacionistas. outro. Nesse momento, a afetividade será mais predominante que no momento anterior. A dimensão afetiva assumirá, então, posição de destaque. Você conseguiu compreender por que esse estágio é denominado de impulsivo emocional? Pois bem, ele se inicia com gestos impulsivos do bebê que, reagindo com A constituição do Eu só se dará pela negação do outro, mas, ao mesmo tempo em espasmos musculares, movimentos bruscos, aos desconfortos de ordem fisiológica, como que o outro precisa ser negado, precisa sê-lo para ser incorporado, tendo em vista que fome, sede, cólicas, frio, calor, acaba por provocar, nos outros, gestos de solidariedade, ele representa uma possibilidade futura. Esse estágio, como já foi possível entender, está no sentido de aliviá-lo dos desconfortos. Nesse processo, o adulto acaba por dar sentido voltado à construção da personalidade. aos movimentos impulsivos e desordenados. E, em meio a essa relação, cria-se um campo emocional. No personalismo, a esfera afetiva subjetiva reassume posição de destaque. Acriança busca a independência e o enriquecimento do seu Eu, baseando suas ações na oposição Continuando, a criança, em seu processo de desenvolvimento, ao final do primeiro sistemática ao outro. ano de vida, canaliza suas energias para os movimentos, para o seu meio físico. Entra, então, no estágio denominado de sensório-motor e projetivo. Este estágio segue É este drama que ocupa dominantemente o quarto, o quinto e sexto ano, mais ou menos até o terceiro ano de idade. numa sucessão de rebeldia e negativismo em estado quase puro, à sedução ao outro e depois à sua imitação. Conquistado na batalha, o eu ainda frágil Nesse momento, ela irá explorar o mundo a sua volta, já que domina a marcha (sabe precisa da admiração alheia para completar a sua construção, e assim, andar), a preensão, certa linguagem e a percepção. Pode explorar os diferentes objetos, oferecer-se em espetáculo. Depois, usa o outro que negou ferozmente há já tem certo domínio das emoções. Aqui, a esfera da cognição se constitui num sistema pouco como modelo para a ampliação das próprias competências. (DANTAS mais central do que na fase anterior. Nesse estágio, podemos que apud La TAILLE, 1992, p. 95). [...] a criança volta-se para o mundo exterior e começa a descobrir as Nesse momento, é favorável à educação oferecer muitas oportunidades para que qualidades das coisas e sua sensibilidade é aguçada com a ajuda da marcha a criança possa se expressar de diferentes formas. É imperativo oportunidades para e da palavra. Com a contribuição da linguagem, começa a identificar que consiga transcender a esse estágio, consolidando a edificação do seu Eu. os objetos que encontra e reencontra em suas 'andanças' o nome dos objetos ajuda a criança a distingui-lo do conjunto perceptivo em que se É denominado de categorial o estágio que vem em seguida ao do personalismo e que encontra. Enfim, trata-se de uma etapa em que a esfera cognitiva é muito pode ser estendido dos seis aos 11 anos. Enquanto no personalismo a afetividade tomava mais evidente que a emocional. (TEIXEIRA, 2003, p. 241, grifos do autor). papel central, no categorial, o principal sistema será a cognição. Com a consolidação da função simbólica, há grandes investidas nos aspectos cognitivos. Nesse estágio, a criança já possui certas competências sensoriais e motoras que lhe serão úteis para o espaço circundante. Tal desbravamento se dará em vários Nesse estágio, a criança pode direcionar a atenção e permanecer concentrada por sentidos, desde o visual até o gestual, simbólico. longo tempo. Pode também desempenhar diferentes papéis e atividades e entender a sua pertença a diferentes grupos. No estágio categorial, há, então, a possibilidade de trabalhar com categorias de pensamento, estabelecimento de operações mentais, identificação, análise e ordenação dos objetos, bem como ordenar o mundo PEDAGOGIA UNIVALI 33 34 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 A criança passa a estabelecer classificações por meio de diferenciações Esse estágio pode ser caracterizado como bastante intenso em conflitos, os quais, sucessivas do real, a estabelecer nexos e relações novas nos diversos no dos processos, são essenciais à constituição do Eu. Nesse momento há um aspectos da realidade, tanto no plano dos objetos concretos como no nível extremo predomínio da afetividade, em vista das questões relacionadas à elaboração do das relações que participa. Toma conhecimento a respeito de si própria Eu. e, cada vez mais, tem condições de se posicionar diante de situações conflituosas que emergem do meio. (MAHONEY, 2005, p. 57). Fica, agora, mais fácil caracterizar o que seria o princípio da predominância funcional. Quando a ênfase está na constituição do mundo e do conhecimento, há um É, então, um dos estágios em que a predominância está nos aspectos da conquista da predomínio do intelecto, do cognitivo. Já, quando a ênfase está nas relações com o outro cognição, enquanto no período anterior o centro estava na individuação do Eu. A partir da e construção do Eu, há o predomínio do afetivo. entrada nesse estágio, a criança se voltará para a conquista, assimilação, manipulação, análise e sistematização do mundo, como bem afirma o próprio teórico o jovem, nesse momento, precisa descobrir as leis que governam o mundo em geral. Há preocupações de ordem metafísica e também científica, o que é "[...] fundamental o gosto que a criança adquire pelas coisas pode ser medido pelo desejo para ele descobrir a razão das coisas, das pessoas, da sua origem e destino". (MAHONEY, e pela capacidade que tem de manejá-las, modificá-las, transformá-las. et al, 2005, p. 69). Destruir ou construir são as tarefas que se atribui o tempo todo. Dessa forma, explora seus detalhes, relações e recursos diversos. (WALLON, Aliado a isso, está o princípio de alternância funcional, onde 2007, p. 197). Cada nova fase inverte a orientação da atividade e do interesse da criança: Não é à toa que essa idade marca o início da entrada no Ensino Fundamental. Nesse do eu para o mundo, das pessoas para as coisas. Apesar de alternarem a momento da vida, a criança já pode direcionar sua atenção para desenvolver atividades dominância, afetividade e cognição não se mantêm como funções exteriores mais organizadas e sistematizadas, levando-se em conta seu interesse no entorno. uma à outra. Cada uma, ao reaparecer como atividade predominante num estágio, incorpora as conquistas realizadas pela outra, no estágio anterior, Cabe, nesse sentido, buscar as atividades que sejam do interesse da criança para construindo-se reciprocamente, num permanente processo de integração e obter seu interesse espontâneo, evitando uma atenção artificial. É preciso que a criança diferenciação. (GALVÃO, 2001, p. 45). também entenda a finalidade da tarefa a ser desenvolvida, tendo em vista a superação de recompensas ou castigos já tão condenados e ultrapassados, não é mesmo? Penso que você, acadêmico, pôde a necessidade do bom entendimento da Teoria walloniana para a promoção de práticas pedagógicas coadunadas com uma Enfim, o último estágio será o estágio da puberdade e da adolescência. Novamente escola que objetiva promover mediações, as quais evidenciem a aprendizagem e o vemos a cognição deixar de ser o sistema central para dar novamente lugar à afetividade. A desenvolvimento de todos os sujeitos envolvidos nesse processo. explosão hormonal desempenhará um grande papel, nesse sentido, diante das modificações fisiológicas, do amadurecimento dos órgãos sexuais e das demais transformações corporais Os estágios de desenvolvimento de Wallon e sua compreensão acerca dos princípios e também psíquicas. da alternância, predominância e integração funcionais podem muito bem nos ajudar a pensar sobre a sua atuação profissional, seja como professor ou pedagogo. É preciso uma nova reorganização corporal, uma reestruturação de sua identidade, de sua vida afetiva, de forma a expressar o novo corpo e os novos, avassaladores e confusos Observe as crianças à sua volta e tente entender como elaboram o conhecimento desejos e sentimentos. Há uma profunda necessidade de formar grupos de semelhantes, acerca do mundo e de si próprias. Onde está seu foco de interesse: na descoberta do ora para se assemelhar, ora para se sentir distinto, ou melhor, ora fazendo identificação mundo ou na consolidação do Eu? que é mais predominante: questões afetivas ou com os demais sujeitos do grupo, ora fazendo oposição a eles. cognitivas? o movimento de identificação e de diferenciação com o outro acaba Entender a criança, o adolescente e o jovem passam também pela possibilidade de possibilitando o surgimento de uma personalidade, diferenciada e vigorosa entender o seu meio e as formas que esse meio tem para responder e potencializar o seu na adolescência, fruto dos sucessivos exercícios de incorporação e expulsão desenvolvimento. Pense acerca dessas questões e nas implicações que decorrem para a do outro que a criança vem realizando ao longo dos diferentes estágios, a sua futura atuação profissional! fim de se libertar da estreita dependência social e tornar-se indivíduo. (MAHONEY, et al, 2005, p. 67). Vamos lá! Mãos à obra! É hora de ser também cientista e produtor de seu conhecimento! PEDAGOGIA UNIVALI 35 36 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Figura 9: Semynovitch Vygotsky. Leia na referência abaixo, os conceitos de: dimensões do movimento; pensamento, linguagem e conhecimento e sobre as emoções na Teoria de Walon. Galvão, Izabel. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Petrópolis, RJ; Vozes, 2001. Este livro está disponibilizado em nosso ambiente virtual. SAIBA MAIS Fonte: <https://novaescola.org.br> Também foi professor de Literatura e Psicologia. Dentre os seus estudos estão aqueles que desenvolveu com pessoas deficientes mentais, que muito contribuíram para 2.3.2 A Teoria Sociointeracionista de Vygotsky o desenvolvimento de suas análises teóricas. Assim, Já vimos que são muitas as análises sobre as práticas desenvolvidas nas instituições Foi em decorrência dessa experiência com educação especial que Vygotsky de ensino e que estudar as concepções que fundamentam as nossas práticas é uma passou a se interessar, mais sistematicamente, pela psicologia. De 1925 necessidade, já que desejamos superar a ingenuidade pedagógica e fazer da instituição a 1934, atuou como professor na área de psicopedagogia em Moscou e educacional um espaço em que as aprendizagens realmente proporcionem a elaboração Leningrado. (PALANGANA, 2001, p. 86). conceitual dos sujeitos. A partir de seus fundamentos marxistas, assinala que "O psiquismo e a conduta Antes de qualquer coisa, é preciso ter claro o que desejamos com o nosso trabalho: intelectual adulta é o resultado de uma peculiar e singular impregnação social do formar cidadão críticos, competentes técnica e politicamente, que percebam espaços organismo de cada indivíduo. Essa impregnação não é um movimento unilateral, mas de ação e transformação dentro dessa sociedade em contínua mobilidade em todos os evidentemente dialético". 2000, p. 40). aspectos da vida social. Para a psicologia soviética, a bagagem cultural também é responsável pela estrutura Como já assinalamos ao longo deste conteúdo, a abordagem Histórico-Cultural se mental, por esse motivo ela salienta o valor da atividade educativa, sistematizada e fundamenta epistemologicamente na perspectiva do materialismo dialético de Marx e intencional. Engels. A grande referência dessa abordagem é o psicólogo russo Vygotsky, mas devemos ressaltar outras personalidades soviéticas, como Lúria, Rubinstein, Galperi, Leontiev, [... ] a aprendizagem está em função da comunicação e do desenvolvimento. Lompscher e outros. Do mesmo modo este último não é um simples desdobramento de caracteres pré-formados na estrutura biológica dos genes, mas o resultado do Você faz alguma ideia de quem foi Vygotsky? Pois então, vamos lá! intercâmbio entre a informação genética e o contato experimental com as circunstâncias reais de um meio historicamente constituído. Semynovitch Vygotsky foi um psicólogo russo que nasceu na Bielo-Rússia, GÓMEZ, 2000, p. 40). em 1896, e morreu aos 38 anos. Isto mesmo, morreu muito jovem, aos 38 anos, com tuberculose. Foi um grande estudioso e, entre os cursos que fez, estão Direito, Filosofia Sendo assim, a atividade psíquica tem sua origem no social, onde a internalização e Medicina. das funções cognitivas se dá a partir de dois níveis: o interpsicológico (no contexto sociocultural) e depois no intrapsicológico (dentro do psicológico do indivíduo). PEDAGOGIA UNIVALI 37 38 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 É a coerência dessa abordagem com as questões do materialismo histórico e dialético que, por sua vez, apresenta ser a contradição à base para a transformação e que o 2.3.2.1 Pensamento e Linguagem sujeito se constitui enquanto tal na relação com o seu contexto social, que a faz ser o fundamento das práticas mais comprometidas com a transformação do social. Segundo Leontiev (1991), a linguagem sintetiza toda a experiência humana ao longo Ao lado de sua preocupação constante com a questão do desenvolvimento, da história, experiência essa que se materializou em diferentes formas, inclusive na Vygotsky enfatiza, em sua obra, a importância dos processos de aprendizado. linguagem em sua forma verbal. desde o nascimento da criança, o aprendizado está relacionado com o desenvolvimento e é um aspecto universal do processo de desenvolvimento Por isso, a aprendizagem da linguagem é de fundamental importância para a criança das funções psicológicas culturalmente organizadas e especificamente e é nessa forma de linguagem que ela acumula o conhecimento e constrói conceitos. humanas. Existe um percurso do desenvolvimento, em parte definido pelo Vamos conhecê-la e tentar visualizar em que sentido esse conhecimento traz implicações processo de maturação do organismo individual, pertencente à espécie para a ação docente. humana, mas é o aprendizado que possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento que, não fosse o contato do indivíduo com São os instrumentos técnicos e os signos, construídos historicamente, que fazem certo ambiente cultural, não ocorreriam. (OLIVEIRA, 1993, p. 56). a mediação dos seres humanos entre si e deles com o mundo. A linguagem é um signo mediador por excelência e um dos sistemas de sinais mais utilizado na mediação é a Sua sistematização, a partir do materialismo histórico e dialético, que, por seu linguagem falada. o sinal, assim, não modifica materialmente o estímulo, mas modifica a turno, salienta que o homem foi se constituindo como homem ao mesmo tempo em que pessoa que utiliza os sinais na mediação e definitivamente atua sobre a interação dessa ia, ao transformar a natureza, produzindo trabalho, é essencial para que entendamos a pessoa com seu meio. mediação como primordial para o desenvolvimento de processos mentais superiores e para a formação da consciência de si e do mundo. É importante que você entenda que, Por meio da mediação simbólica, o sujeito se relaciona com o mundo. Assim, o para essa abordagem, a consciência vai se formando a partir dos desafios colocados pelos pensamento e a linguagem (funções psicológicas) se constroem e se encontram. Somente contextos específicos. São os contextos determinantes e determinados o processo de aprendizagem impulsiona os processos de desenvolvimento e permite a pelos diferentes sujeitos em interações múltiplas. Sendo assim, construção das funções psicológicas superiores tipicamente humanas e históricas. É na relação com o outro que a criança vai se apropriando das significações Antes de a criança dominar a linguagem como sistema (ainda não sabe o socialmente construídas. Desse modo, é o grupo social que, por meio da significado das palavras), já se utiliza de manifestações verbais como o choro e o riso. linguagem e das significações, possibilita o acesso a formas culturais de perceben e a realidade. (FONTANA e CRUZ, 2005, p. 61). Segundo Vygotsky (1995), quando os caminhos da linguagem e do pensamento se encontram, temos o surgimento de uma nova forma de funcionamento psicológico: "A Por considerar como base filosófica o marxismo, considera que o sujeito não se linguagem se intelectualiza, se une ao pensamento e o pensamento se verbaliza, se une constitui isoladamente e nem é uma cópia da sua cultura, ele se constitui na relação à linguagem". (VYGOTSKY, 1995, p. 172). Por isso, a aprendizagem da linguagem é de dialética com outros sujeitos sociais, mediatizado por signos e instrumentos culturais e, fundamental importância para a criança e é nessa forma de linguagem que a criança em meio a essa relação, tanto se transforma como também transforma o seu contexto acumula o conhecimento e constrói conceitos. (LEONTIEV, 1991). sociocultural. Assim, podemos dizer que nossos processos psicológicos superiores (pensamento, É importante ter claro, então, que as estruturas de pensamento não se ampliam linguagem, percepção, lógica e atenção voluntária) começam a se formar nas apenas por meio de atividades e ações coordenadas, "[...] mas também da apropriação da relações sociais pela linguagem. Para Rego (1995), "Pouco a pouco, os indivíduos vão se bagagem cultural, que é produto da evolução histórica da humanidade que se transmite apropriando dos modos de funcionamento psicológico, do comportamento e da cultura, na relação educativa". 2000, p. 41). Você consegue o enfim, do patrimônio histórico da humanidade e de seu próprio grupo cultural". (REGO, quanto é imprescindível o papel do professor a partir dessa Teoria? Percebe também a 1995, p. 87). importância de o professor elaborar atividades didaticamente bem pensadas, desafiantes e significativas para os seus alunos? De acordo com Vygotsky (1993), o desenvolvimento da linguagem ocorre em três estágios: a linguagem externa, a linguagem egocêntrica e a linguagem interna. Vamos Em seguida, vamos estudar alguns conceitos da Teoria Sociointeracionista de Vygotsky conhecê-las. para que você possa compreendê-la melhor e poder aplicá-la em sua prática docente. PEDAGOGIA UNIVAL 39 40 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 A linguagem externa tem a função de comunicação, de estabelecer relações entre a criança e as pessoas que a rodeiam. É também chamada de linguagem social. A linguagem, de acordo com Leontiev (1991), Luria (1988) e Vygotsky (1998, 1995), tem a função de comunicar, regular o comportamento, planejar a ação e generalizar A linguagem egocêntrica é uma fase transitória entre linguagem externa e conceitos e experiências que designam coisas, ações e relações. interna: é um elemento constitutivo da atividade prática da criança, que organiza o pensamento, permitindo planejar sua ação. Paulatinamente, a linguagem Ao internalizar os processos culturais, os sujeitos não precisam mais da mediação, egocêntrica muda de função, convertendo-se em linguagem internalizada. tornam-se independentes, constituindo um modo próprio de ser, de pensar e de sentir, tendo a fala (entendida como signo) como organizadora, preponderante das funções Na linguagem interna, o indivíduo alcança uma nova forma de pensar, que psicológicas superiores e das atividades práticas. é o pensamento verbal. Assim, a fala, geneticamente social, no decorrer do desenvolvimento do indivíduo, passa a ser individual. Conforme a linguagem Nessa perspectiva, o sujeito individualmente os modos de viver, de sentir se desenvolve, modifica-se o pensamento que, uma vez modificado, também e de pensar a humanidade e aprende a organizar seus próprios processos mentais. interfere no desenvolvimento da linguagem. A linguagem dá forma ao pensamento, é a responsável pela elaboração de diferentes Veja a seguir o esquema que construímos para você entender melhor. conceitos! Vejamos o motivo. [...] a palavra não é analisada como uma das nossas funções simbólicas, mas Figura 10: Estágios da linguagem. como nosso sistema simbólico básico, produzido a partir da necessidade de intercâmbio entre os indivíduos durante o trabalho, atividade E especificamente humana. Para agir coletivamente o homem teve de criar S um sistema de signos que permitisse a troca de informações específicas e T Tem como função a ação conjunta sobre o mundo, com base em significados compartilhados LINGUAGEM dominar e comunicar EXTERNA pelos (KOHL apud FONTANA e CRUZ, 1997, p. 91). G a primeira linguagem OU SOCIAL I que surge. A linguagem não é algo que se desenvolve a partir da questão biológica, não é um o dado da natureza inscrito na nossa genética, ela tem origem nas diferentes relações. A S linguagem é o que nos possibilita, então, nos apropriarmos dos conhecimentos produzidos É uma linguagem para a própria pessoa pelas gerações que nos antecederam. não é uma linguagem social com D LINGUAGEM funções de comunicação e interação. A Este é essencial para ajudar a organizar as ideias e a planejar melhor as ações. L ATENÇÃO N G É quando as palavras passam a A linguagem é, antes de tudo, social. LINGUAGEM ser pensadas, sem que, U INTERNA necessariamente, sejam É A um pensamento em palavras. Portanto, sua função inicial é a comunicação, expressão e compreensão. Essa função comunicativa G está estreitamente combinada com o pensamento. A E comunicação é uma espécie de função básica porque M permite a interação social e, ao mesmo tempo, organiza o pensamento. Fonte: Elaboração da autora. PEDAGOGIA UNIVALI 41 42 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Figura 11: Funções da linguagem. Vygotsky e seus colaboradores, a partir de seus estudos, nos apontam que a linguagem apresenta funções básicas. A primeira é de intercâmbio social e a segunda é caracterizada como pensamento generalizante. FUNÇÕES BÁSICAS DA o intercâmbio social é a comunicação entre os seres-humanos e tem sua origem INTERCÂMBIO SOCIAL PENSAMENTO LINGUAGEM no desejo de os sujeitos históricos comunicarem a outros sujeitos tudo o que se possa GENERALIZANTE pensar que seja comunicável, de transmitirem suas diferentes experiências, já que "[...] a palavra é o instrumento mais rico para se transmitir a experiência histórica". Comunicação Ordena o real agrupando todos os elementos em 2000, p. 141). umamesma classe Ex.: choro do bebê Desde que nasce, a criança se vê envolta num amplo conjunto linguístico, possibilitando a ela dar-se conta da realidade e de esse ambiente que é carregado de elementos culturais. Logo, não aprende só o nome das coisas que a cercam, Ex.: cachorro mas também os seus espaços e sentidos dentro da sua cultura. Classifico-o na categoria Agrupo-o com outros elementos de A partir do pensamento generalizante, a criança começa a fazer elaborações sobre os outras categorias Diferencio-o de outras categorias objetos da sua cultura. Pode, além de de saber suas principais características, organizá-los em distintas categorias. Fonte: Elaboração da autora. Por exemplo, as palavras cachorro e cadeira não nomeiam apenas um certo cachorro e uma certa cadeira. Ao contrário, representam todos os cachorros e todas as cadeiras, independente de seu aspecto exterior: 'policiais', Você, acadêmico, consegue perceben a importância da linguagem para o trabalho do 'collies' e 'vira-latas' têm altura, peso, conformação física e tonalidades professor? Percebe o quanto ela significa para o desenvolvimento psicológico dos sujeitos? muito distintas e, não obstante, podem ser todos chamados cachorros. [...]. Que a possibilidade de trabalhar com um sistema simbólico como a linguagem é o que Isto quer dizer que a língua permite distinguir (ou abstrair) as características nos permite imaginar, fantasiar, elaborar, transitar de forma imaginária pelo tempo e por fundamentais dos objetos [...] por meio da linguagem, portanto, que se diferentes espaços, imaginar a causa e os efeitos dos nossos atos? Lembre-se: a palavra passa do nível dos sentidos ao nível do racional, possibilitando a formação é o que dá origem ao pensamento e, por conseguinte, às funções psicológicas superiores, do pensamento abstrato e lógico. (DAVIS e OLIVEIRA, 1994, p. 72, grifos do sendo ela mesma uma dessas funções autor). Mas, que funções psicológicas são estas que mencionamos. Vejamos a seguir. Daí que podemos concluir que o intercâmbio social, somente, não é suficiente para o nosso uso da linguagem, pois precisamos nos comunicar com precisão o nosso pensamento, e o que só podemos fazer por meio de signos. Já o pensamento generalizante é o que torna a linguagem um instrumento importantíssimo do pensamento, responsável por uma mediação mais sofisticada entre sujeito e objeto, sem a qual seria impossível a abstração. É com o pensamento generalizante que conseguimos generalizar os objetos, 2.3.2.2 Funções Psicológicas de ordená-los em conceitos. Podemos resumir as duas funções principais da linguagem assim como a figura a seguir. Em seus estudos Vygotsky afirma que o verdadeiro desenvolvimento do psiquismo humano se identifica com a superação por incorporação das funções psicológicas elementares em direção às funções psicológicas superiores. Estas funções também podem ser chamadas de funções mentais, psíquicas ou funções intelectuais. PEDAGOGIA UNIVALI 43 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Vygotsky define as funções psicológicas elementares como sendo de caráter Veja este desenho para sintetizar este conceito. biológico, marcadas pela reação direta aos problemas ou situações cotidianas, defrontada pelo organismo. São diretamente determinadas pelos estímulos do ambiente, portanto Figura 12: Funções psicológicas. definidas por meio da percepção, "[...] uma vez que surgem como consequência da influência direta dos estímulos externos sobre os seres humanos". (VYGOTSKY, 1998, p. FUNÇÕES PSICOLÓGICAS 52). No que se referem às funções psicológicas superiores, o autor afirma que se caracterizam pela mediação semiótica, ou seja, pela presença de instrumentos e signos. ELEMENTARES SUPERIORES Naturais Culturais ATENÇÃO Tipicamente humanas SIGNO tudo o que é utilizado pela pessoa para São de origem biológica Intencionais representar, evocar ou tornar presente o que está Estão presentes nas crianças e nos animais Voluntárias ausente (palavras, desenhos...). Representa algo São ações involuntárias São reações imediatas diferente de si mesmos. Por exemplo: código de Sofrem influência do meio trânsito vermelho é o signo que indica a necessidade de parar. São instrumentos psicológicos que nos Consciência ajudam nas atividades psíquicas. Imaginação (percepção global) Sensação Cognição INSTRUMENTOS - são ferramentas que servem para Atenção Atenção voluntária transformar o meio ou o objeto. Por exemplo: a Percepção Atividade mediada (uso de instrumentos) utilização de um martelo para quebrar uma pedra se Memória Linguagem social (racional) Linguagem animal (emotiva) Pensamento não consigo quebrá-la sem esta ferramenta. Leitura Audição Escrita Visão Olfato Emoção Fonte: Elaboração da autora. Assim, as funções psicológicas superiores são constituídas por meio das interações sócio culturais dos indivíduos da mesma espécie, principalmente aqueles mais experientes e capazes de sua cultura. Assim, podemos dizer que o nascimento da pessoa garante as funções psicológicas elementares, que correspondem a um todo psicológico natural, determinado Você pode pensar então, que este pensamento redimensiona o papel das interações fundamentalmente pelas peculiaridades biológicas da psique. As funções psicológicas sociais, bem como o papel da escola, entendendo-a como um local privilegiado de superiores, por sua vez, formam-se durante o processo de desenvolvimento cultural. aprendizagens e, por consequência, um local de promoção do desenvolvimento das funções psicológicas superiores. É importante não perder de vista que as funções mentais superiores só se desenvolvem na medida em que vamos nos relacionando e interagindo com os sujeitos da nossa cultura, que darão significado ao contexto físico e social, transformando o 'biológico em É possível assinalar que, para a concepção histórico-cultural, as funções mentais não são imutáveis, muito pelo contrário, advêm do contexto histórico e cultural e se respaldam na plasticidade do PEDAGOGIA UNIVALI 45 46 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Vygotsky rejeitou, portanto, a ideia de funções mentais fixas e imutáveis, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores se dá, então, num primeiro trabalhando com a noção do cérebro como um sistema aberto, de grande momento, sob influência das relações dialéticas estabelecidas com o real físico e social plasticidade, cuja estrutura e modos de funcionamento são moldados ao e, nesse sentido, os instrumentos e signos terão um papel decisivo, já que mobilizam longo da história da espécie e do desenvolvimento individual. Dadas as as tarefas desenvolvidas num contexto. É preciso entender que signos e instrumentos imensas possibilidades de realização humana, essa plasticidade é essencial: são ferramentas mediadoras entre o sujeito e o real, e que os signos são ferramentas o cérebro pode servir a novas funções criadas na história do homem, internalizadas a partir da ação do sujeito com seu grupo cultural. sem que sejam necessárias transformações morfológicas no órgão físico. (OLIVEIRA, 1993, p. 24). Vejamos agora um outro conceito já citado e que vem nos a importância do desenvolvimento das funções psicológicas superiores: o processo de internalização. o conhecimento se dá do social para o individual: antes de chegar ao sujeito cognoscente, o objeto a ser conhecido já possui uma configuração social, um espaço e significado dentro da cultura. Retomamos aí a importância da cultura, já que As conquistas históricas da humanidade que se comunicam de geração em geração não só implicam conteúdos, conhecimentos da realidade espaço 2.3.2.3 o processo de internalização temporal ou cultural, mas também supõe formas, estratégias, modelos de conhecimento, de investigação, de que o indivíduo capta, conceito de internalização é um processo gradual, em que há a passagem entre compreende, assimila e pratica. GÓMEZ, 2000, p. 41). o que se dá no plano externo e sua reconstrução no plano interno, ou melhor, no plano intramental. A internalização é definida por Vygotsky como Com base nisso, podemos concluir que as funções mentais superiores são internalizadas, primeiro, a partir das relações entre os sujeitos -interpessoal (lembre-se [...] um processo de reconstrução interna de uma atividade externa; do papel da linguagem), das relações que se dão num espaço culturalmente elaborado, portanto a internalização não representa uma transferência a partir do depois, vão se configurando no sujeito em nível intrapsicológico. plano externo até um plano interno preexistente, tampouco um processo passivo de cópia e imitação ou a partir da atuação das pessoas mais Qualquer função presente no desenvolvimento cultural da criança aparece especializadas que participam na interação. Em vez disso, devemos duas vezes e em dois planos diferentes. Em primeiro lugar, aparece no entendê-la como um processo mais ou menos lento, parcial, gradual e plano social e depois no plano psicológico. Em princípio, emerge entre progressivo, no qual criamos e modificamos o funcionamento intramental, as pessoas e como uma categoria interpsicológica. Isso também é válido graças à reconstrução que a pessoa faz das formas de mediação e dos para a atenção voluntária, para a memória lógica, para a formação de processos utilizados na atividade conjunta ou intermental. (SALVADOR, conceitos e para o desenvolvimento da vontade. Podemos essa 1999, p. 107). argumentação como uma lei no sentido estrito do termo. [...]. As relações sociais ou as relações entre as pessoas são geneticamente subjacentes a todas as funções superiores. (VYGOTSKY apud SALVADOR, 1999, p. 106). Já vimos que quando o sujeito nasce, inicia um processo de apropriação de instrumentos e signos culturais. Essa apropriação é um processo de reelaboração ativa Você percebe, então, a necessidade de se atividades que serão desenvolvidas dentro da cultura, em que a linguagem, compartilhamento dos símbolos sociais, é fator pelos sujeitos, com significados, de forma coletiva, envolvendo a cooperação de todos? essencial para formar os conceitos acerca do mundo. É, então, a elaboração conceitual Você consegue ver a importância de serem os espaços educativos também pensados um fator de extrema importância na Teoria de Vygotsky. com este propósito: provocar internalização das funções mentais superiores que se dão, primeiro, nesse contexto exterior, em que estão os sujeitos envolvidos? [...] um conceito não se forma pela interação de associações, mas mediante uma operação intelectual em que todas as funções mentais elementares É necessário entender que esse espaço tem um papel muito importante e que deve participam de uma conciliação específica. Essa operação é dirigida pelo garantir que se explicite como se chegou a um determinado conhecimento ou, mesmo, uso de palavras como meio para centrar ativamente a atenção, abstrain que se está tendo dificuldades para se apropriar ou operar com ele, ou seja, um espaço determinados traços, sistematizá-los por meio de um signo. (VYGOTSKY, que garanta a todos o direito de dizer: não entendi! Não estou compreendendo! 1998, p. 70). PEDAGOGIA UNIVALI 47 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 o desenvolvimento é dinamizado pelos processos de aprendizagem que se dão na A propositura é: ampliar os conhecimentos, oportunizar reelaborações, sistematizar relação com a cultura e, por sua vez, com os códigos sociais. Será a intensificação das conceitos e conhecimentos que possibilitem aos diferentes sujeitos uma ampla atuação interações dos ambientes sociais a responsável pelas diferentes aprendizagens e, por seu no mundo, em diferentes contextos. É imprescindível formular questões que sejam turno, pelos novos desenvolvimentos, já que a aprendizagem provoca o desenvolvimento interessantes e inteligentes. A educação escolar tem esse caráter social e socializador, e altera os mecanismos biológicos individuais. Como bem afirma Vygotsky: "Essa estrutura não esqueça! humana complexa é o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social. (VYGOTSKY, 1998, p. A zona de desenvolvimento proximal é uma metáfora criada para explicar como 33). ocorre a aprendizagem. É a distância entre o nível real e nível potencial da criança (MAGALHÃES, 2007). Veja a representação gráfica desta metáfora. Para entender melhor como se dá esse processo de aprendizagem, o autor formulou uma proposta de níveis de desenvolvimento, entendidos da seguinte forma: Figura 13: Zona de desenvolvimento Proximal ZDP. a. Nível de Desenvolvimento Real: é aquele nível psicológico já estabelecido a ZDP Saber a ser partir de aprendizagens anteriores; é o nível que revela o que o sujeito já sabe, que já realiza, de forma autônoma, aprendizagens consolidadas. Mediação (ZDP) Zona de Saber Atual b. Nível de Desenvolvimento Potencial: é aquele a que o sujeito só poderá chegar Desenvolvimento com a ajuda de um sujeito mais experiente, já que certas funções se encontram Proximal em estágio embrionário; é o nível em que precisa ainda da mediação e intervenção do outro para realizar as elaborações. C. Zona de desenvolvimento Proximal: distância entre o nível real e o potencial, espaço de grande dinamismo, onde há o compartilhamento das atividades a serem aprendidas, ou seja, espaço entre o interpsicológico e o intrapsicológico. Zona de Zona de Desenvolvimento Real Zona de Dito pelo próprio autor, Desenvolvimento Desenvolvimento Proximal Potencial Ela é a distância entre o nível de desenvolvimento real, que se costuma determinar através da solução independente de problemas, e o nível de vygotsky-e-o-sociointeracionismo>. desenvolvimento potencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com os companheiros mais capazes. [...] A zona de desenvolvimento proximal define aquelas funções que ainda não amadureceram, mas que estão em processo de o professor deverá, então, provocar situações em que os sujeitos possam dar saltos, maturação, funções que amadurecerão, mas que estão presentes em nos seus processos de aprendizagem, de forma diferenciada, pois, já que somos todos estado embrionário. (VYGOTSKY, 1998, p. 112-113). diferentes, estamos em Níveis de Desenvolvimentos Potenciais diferenciados. Essa propositura se reflete diretamente na atitude do professor, já que ele deve trabalhar não mais com aquelas formulações mentais que já estão estabelecidas, mas, sim, com aquelas que estão em processo de formulação, entendendo que o que é proximal ATENÇÃO no presente, será real no futuro. É preciso insistir que, segundo Vygotsky, o nível de desenvolvimento Você deve estar elaborando que, a partir dessa propositura, repensar o papel da potencial e a ZDP possuem um caráter interativo e social; não são escola e do professor é essencial, mas o papel de uma escola que se preocupe com o fato propriedades intrínsecas da criança ou da pessoa em desenvolvimento, de os alunos poderem operar com os conhecimentos trabalhados, que saibam pensar, que nem de algo preexistente à interação com outras pessoas, mas também consigam formular argumentos e contra-argumentos. se criam e ocorrem no transcurso dessa interação. (SALVADOR, 1999, p. 108). PEDAGOGIA UNIVALI 49 50 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Se for o aprendizado que provoca o desenvolvimento, há um papel essencial da Segundo Nébias (2008), uma prática pedagógica que leve em conta a formação de instituição educativa, comprometida com os processos dos sujeitos: criar 'zona de conceitos deve atentar para certas questões, entre elas: desenvolvimento proximal', promovendo as funções mentais superiores nas interações entre os sujeitos, e, nesse sentido, o professor "[...] tem papel explícito de na sempre os conceitos que os alunos trazem para o espaço escolar; zona de desenvolvimento proximal dos alunos, provocando avanços que não ocorreriam (OLIVEIRA, 1993, p. 62). Este que a autora se refere nos saber que o conceito científico a ser trabalhado deve fazer sentido, ser dotado remete a outro conhecimento importante de Vygotsky que são os dois tipos de conceitos de significado para o sujeito; que veremos a seguir. a prática pedagógica como uma prática dialógica, fundada sobre o diálogo, com interações e observações constantes; fazer uso de contraexemplos, pois exemplos conflitantes são essenciais para que o aluno venha a testar suas ideias; 2.3.2.4 Conceitos espontâneos e conceitos científicos criar situações que propiciem aos alunos explicar, verbalizar, representar de É importante saber, também, que a abordagem Histórico-Cultural assinala a existência diferentes formas seu raciocínio, bem como elaborar diferentes sínteses; de dois tipos de conceitos, conceitos espontâneos e conceitos científicos, referendando que a função principal da instituição educativa é trabalhar com o conhecimento científico, entender que a aprendizagem gera desenvolvimento e que ele se dá pela tendo em vista a sua caracterização sistematizada, consciente, formal e intencional e internalização dos diferentes significados culturais; seu comprometimento com o desenvolvimento humano e com a democratização do saber. utilizar-se de diferentes instrumentos culturais para trabalhar os diferentes Os conceitos espontâneos são elaborados nas relações cotidianas e não formais da conceitos, como textos fílmicos, obras de arte, representações teatrais, etc. vida diária de cada um, não obedecem a uma sistematização pré-determinada. Embora assim o seja, os conceitos científicos e espontâneos estão em permanente relação Dominar um conceito não é algo tão simples como decorar ou repetir o explanado, ou dialética, como bem explica Vygotsky. mesmo responder aos moldes de estímulo e reforço. Exige que esse conceito possa se ligar a outros já reelaborados e se ampliar para referenciais mais amplos; que possa, também, É preciso que o desenvolvimento de um conceito espontâneo tenha ter um sentido para as questões da vida que estão colocadas, ter um sentido prático, alcançado um certo nível para que a criança possa absorver um conceito capaz de desencadear uma nova postura frente às coisas do mundo. Aliado a tudo isso, científico correlato. Por exemplo, os conceitos históricos só podem começar ainda está a vontade do aluno de querer aprender, de queren elaborar conscientemente a se desenvolver quando o conceito cotidiano que a criança tem do passado esse saber. estiver suficientemente diferenciado quando a sua própria vida e a vida dos que a cercam puder adaptar-se à generalização elementar 'no passado Nesse ínterim, é preciso reconhecer a ação do professor como alguém que pode e agora'; os seus conceitos geográficos e sociológicos devem se desenvolver mostrar para o aluno a necessidade de certos conceitos e sua aplicabilidade para as a partir de esquemas simples 'aqui e em outro lugar'. (VYGOTSKY, 1998, p. questões práticas, sua relação com os conceitos anteriores, para que possa inferir 93, grifos do autor). na autorregulação da aprendizagem dos sujeitos, dando sentido aos conteúdos e possibilitando, assim, uma aprendizagem mais consciente. De acordo com Moysés (2003), podemos, então, inferir que a aprendizagem acerca desses conceitos só se dará se os sujeitos souberem utilizá-los em outros contextos. Vale lembrar que Vygotsky muito se preocupou com a aprendizagem escolar e a viu Se realmente o fazem de forma mecânica, se só respondem ao que foi repassado, de forma prospectiva, no sentido de tentar entender não o que o sujeito já desenvolveu sem reelaborações, acompanhando modelos, as ditas memorizações estéreis, isso não ou como já consolidou determinados processos de desenvolvimento, mas aquilo que ele se configura como processos que impulsionam desenvolvimento, pois não provocam a tem como aprender com a ajuda de outro, mais experiente. reestruturação dos sistemas mentais, não alteram a estrutura cognitiva. PEDAGOGIA UNIVALI 51 52 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 A princípio, a percepção ocorre mediante nossas sensações sensoriais (tato, audição, visão, paladar e olfato), não atribuindo significados às coisas, ao mundo, constituindo-se ATENÇÃO apenas em atributos físicos isolados. Lembre-se sempre de que, a partir dessa Com a apropriação da linguagem e do pensamento, dos conceitos produzidos "A aprendizagem é, portanto, um processo essencialmente social, que ocorre na interação com os historicamente e dos significados atribuídos a eles, o sujeito modifica seu processo de adultos e os colegas. o desenvolvimento é resultado percepção. desse processo, e a escola, o lugar privilegiado para essa estimulação. A Educação passa, então, a ser vista Agora você entendeu por que a percepção deixa de ser uma relação direta entre o como processo social sistemático de construção da humanidade". (BOCK, FURTADO e TEIXEIRA, 2007, p. sujeito e o meio e passa a ser mediada por elementos históricos e culturais? Muito bem! 126). Então reflita: por que dizemos que a escola tem por compromisso possibilitar ao aluno o acesso e a construção do conhecimento e dos conceitos científicos? A qualquer conceito você terá de agregar sentido, significado e introduzir aspectos históricos e culturais, para que sejam compreendidos. Portanto, é necessário que o professor, em sua prática, procure sempre ampliar o campo de percepção de seu aluno. o professor também é o responsável por possibilitar ou não que os diferentes Somente o acesso ao conhecimento, à cultura e às informações minimiza os sujeitos envolvidos nos processos possam realizar mediações entre si, visto que todos frente à percepção do mundo. se encontram em diversificados níveis de aprendizado, podendo um funcionar como mediador do processo do outro. Você já deve ter ouvido queixas de professores e pais sobre a falta de atenção de alunos e filhos, tanto crianças como adolescentes, nos diferentes contextos, não é? Assim Ser professor é sempre muito desafiante e mobilizante quando se tem compromisso como no processo da percepção, a atenção também se apresenta para o sujeito em sua político e desejo de ver a escola cumprir seu papel de democratizar os conhecimentos forma biológica e, sucessivamente, vai adquirindo novas formas. que foram elaborados historicamente, rompendo com fracassos centenários, que só promoveram a exclusão social, déficit de escolaridade, alienação e imobilidade da A atenção, como processo psicológico, tem como função básica selecionar os hierarquia social. estímulos ou informações fornecidas pelo meio que serão apropriadas pelo sujeito, ou seja, com as quais ele irá interagir. Apostar nos fundamentos da abordagem Histórico-Cultural é acreditar, tanto nas possibilidades dos sujeitos com os quais trabalhamos como nas nossas próprias o processo de atenção está dividido em duas modalidades: a atenção espontânea possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento. É acreditar nas possibilidades ou involuntária e a atenção voluntária. A passagem de uma para outra acontece através que temos de promover mediações sistematizadas para atuar nas diferentes Zonas de da mediação simbólica, sendo que uma atenção não inviabiliza o aparecimento da outra. Desenvolvimento Proximal dos sujeitos, possibilitando-lhes atuações em seus diferentes contextos. A atenção espontânea, como o próprio nome diz, resulta da tendência natural da atividade psíquica em orientar-se espontaneamente para as solicitações sensoriais Não basta mais instrumentalizar os alunos para que atuem de forma mecânica, e sensitivas necessárias à adaptação à realidade, sem que, para tal, haja necessidade acrítica, de maneira simplesmente técnica e rotineira; é preciso o desenvolvimento imperiosa da consciência. A atenção aos ruídos fortes, às mudanças do ambiente, aos das funções cognitivas superiores, da metacognição, da mediação sistematizada e objetos em movimento, ao andar, ao mastigar antes de engolir, são exemplos de atenção intencional, fundada em objetivos e estratégias coadunados com as diferentes Zonas de involuntária, ou seja, não há controle sobre essa atenção. Segundo Luria (1988), atenção Desenvolvimento Proximal. É preciso não esforços para que possam operar involuntária tende a ser passiva e emocional, pois a pessoa não se esforça, nem orienta competentemente com diferentes saberes, conceitos e conhecimentos. sua atividade face ao objeto ou situação, nem tampouco está relacionada com suas necessidades, interesses e motivos imediatos. A percepção, uma das funções psicológicas superiores, não pode ser entendida somente como um fenômeno de origem e função biológica, mas sim como um fenômeno A atenção natural ou espontânea não atende às necessidades do comportamento cultural. organizado a partir das exigências sociais, coletivas e do trabalho. Nessas condições, são necessárias formas diferentes de atenção, as quais necessitam de mecanismos adquiridos, artificialmente, pela mediação da cultura. PEDAGOGIA UNIVALI 53 54 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 A mediação é considerada fator determinante (estímulo) no desenvolvimento da memória se refere ao seu desenvolvimento, uma vez que a própria memória já existe atenção como função psicológica superior. Esses estímulos ocorrem a partir das relações desde a idade mais precoce. culturais que, pelo uso de signos, possibilitam a transformação de formas primitivas e naturais da atenção em formas culturais, portanto, essencialmente humanas. Adiversidade dos resultados e as considerações acerca das manifestações da memória nas diferentes idades possibilitam a dedução de que o desenvolvimento da memória é um Na atenção voluntária, o sujeito já consegue direcionar sua atenção voluntariamente processo complexo e não linear. para os elementos que considera importantes para sua atividade. Luria comenta os resultados de pesquisas realizadas com crianças em idade pré- Você já passou pela experiência de estar concentrado, fazendo uma atividade, escolar e escolar sobre as diferentes formas de usar a memória e afirma que enquanto outras pessoas a sua volta realizam outras atividades, diferentes da sua, na presença de ruídos ou barulhos? Pois bem, várias crianças e/ou adolescentes já passaram [...] uma como outra dessas crianças possuem, em geral, memória por essa experiência. E você sabe como conseguiram a concentração da atenção? semelhante, mas a utilizam de modos diferentes: ambas possuem memória, mas a mais velha sabe como utilizá-la. É essa transição de formas naturais o que propicia a concentração da atenção é a mediação simbólica, ou seja, de memória para formas culturais que constitui o desenvolvimento da o significado que o sujeito atribui à atividade desenvolvida. Para que o sujeito possa memória da criança para o adulto. (VYGOTSKY; LURIA, 1996, p. 186). escolher elementos que possuem relevância para o seu desenvolvimento, é necessário que ele se aproprie dos significados através da interação com o meio e com a cultura. Essa diferença pontuada por Luria sobre o uso da memória relaciona-se ao tipo de atividade principal em que a criança está inserida. A atividade principal da criança em Certamente, toda vez que a escola organizar saberes contextualizados estabelecendo idade pré-escolar é a atividade lúdica e para a criança em idade escolar, a atividade relação com o meio social e cultural do aluno, o processo de atenção se realiza. Cabe principal é a atividade de estudo. Na criança, a atividade lúdica pode ser considerada a aos educadores planejar suas ações de forma organizada e intencional, de modo que forma pela qual ela relaciona os aspectos da realidade com a atribuição de signos que desenvolvam e aumentem o interesse do aluno sobre o mundo, caracterizando-se, assim, identificam o objeto. Trata-se da relação entre a e a linguagem com a função como aprendizagem. nominativa, em que atribui um termo linguístico ao objeto. Você se lembra do nome de sua primeira professora? Você se lembra do nome de A preponderância do uso da memória natural ou imediata na idade pré-escolar algum livro didático? E de seu primeiro professor de Matemática do Ensino Fundamental? relaciona-se também ao fato de que, para a criança, pensar é recordar, ao passo que, E do primeiro professor de Língua Portuguesa do Ensino Médio? para o adolescente, recordar é pensar, conforme afirma Vygotsky (1999). Você pode notar que, embora vivenciemos muitas situações, nem todas fazem parte Na criança, a relação entre o pensamento e a memória é imediata, ou seja, o de nossa memória durante nossa existência. conceito de um objeto não se estrutura de forma lógica, correspondente à estruturação lógico-histórica do próprio conceito. Vygotsky (1999), ao atribuir à memorização o papel Assim como a percepção e a atenção, a memória também recebe influência da decisivo em todas as construções mentais, afirma que linguagem e dos significados. [...] em particular, as crianças desenvolvem o conceito visual, sua ideia Para Vygotsky, ao longo da história humana, há dois tipos de memória: a natural geral se depreende da esfera concreta dos conceitos, de forma que e a mediada. primeiro tipo de memória é caracterizado pela "[...] impressão não mediante determinadas combinações surge um conceito geral, que está mediada de materiais, pela retenção das experiências reais como base dos traços integralmente relacionado com a memória e pode ainda não ter caráter de mnemônicos". (VYGOTSKY 1998, p. 52). o segundo tipo diz respeito a processos psíquicos abstração. (VYGOTSKY, 1999, p. 45). mais elaborados, que fazem uso de recursos (os mais diversos) para irem além dos limites das funções psicológicas impostas pela natureza. o movimento de transformação da memória não pode ser entendido, segundo os pressupostos do enfoque histórico-cultural, como simples maturação estrutural, mas sim Nesse sentido, esses recursos modificam a estrutura psicológica do processo de como transformação cultural, decorrente do processo de reequipamento das relações memória, pois estendem a operação da memória para além das dimensões biológicas do interpessoais. A transformação da memória ao longo do desenvolvimento infantil deve ser sistema nervoso humano. Amemória, no desenvolvimento psicológico infantil, semelhante entendida em relação ao desenvolvimento de outras funções psíquicas, como pensamento, ao estudo da percepção, assume características particulares nas investigações realizadas por exemplo. No movimento de transformação do pensamento, transformam-se também por Vygotsky, Luria e Leontiev. Para Vygotsky (1999), o problema central no estudo da as relações vinculadas à memória, assumindo dimensão cultural e não apenas natural. PEDAGOGIA UNIVALI 55 56 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Nesse momento, você, acadêmico, já consegue que podemos nos utilizar Como professores, é preciso considerar, na prática pedagógica, que os signos e os de elementos (signos) como mediadores para resgatar nossas lembranças. Os exemplos instrumentos são mediadores das relações que devem ser compreendidas pelos educadores, mais comuns são: o uso de agendas, o calendário, e a famosa lista de compras. possibilitando algumas intervenções no processo de aprendizagem do sujeito. Ao longo do processo de aprendizagem, o sujeito vai deixando de usar os signos e passa a construir Com base em Vygotsky (1995), as funções psicológicas superiores aqui apresentadas, signos internos ou representações internas que servirão de mediadores de sua ação. a atenção, a percepção e a memória, construídas através da mediação são de origem social, isto é, relações sociais interiorizadas que serão a base para o Cabe ao educador ser o mediador entre o conhecimento e os estudantes, ao valorizar a desenvolvimento da personalidade do indivíduo e para o trabalho do professor. importância das trocas sociais, ou seja, da interação entre sujeitos. Num espaço histórico e socialmente determinado, o processo de construção é deslocado do conhecimento da Vale ressaltar que esse processo de internalização não é simples transposição ação individual para uma ação coletiva conjunta, cujo valor formativo dependerá da interpsíquica para a esfera mas é um processo que ocorre ao longo da internalização das normas culturalmente valorizadas que regem tais situações. história do indivíduo, numa sucessão de eventos, permeado sempre por aspectos cognitivos, motores e afetivos. Dominar um conceito não é algo tão simples como decorar ou repetir o explanado, ou, mesmo, responder aos moldes de estímulo e reforço. Exige que esse conceito Melhorou a compreensão a respeito das características do processo de internalização? possa se ligar a outros já reelaborados e se ampliar para referenciais mais amplos; que Pois bem, processo de internalização diz respeito aos processos segundo os quais os possa, também, ter um sentido para as questões da vida que estão colocadas, ter um sujeitos, tendo vivenciado, interagido com certos conceitos no seu universo social, são sentido prático, capaz de desencadear uma nova postura frente às coisas do mundo. capazes de reelaborar esses conceitos em nível intrapsíquico. Logo, a atividade do sujeito Aliado a tudo isso, ainda está a vontade do aluno de querer aprender, de elaborar e sua interação com os instrumentos sociais são imprescindíveis para a elevação dos conscientemente esse saber. processos psicológicos mais elaborados. Nesse ínterim, é preciso reconhecer a ação do professor como alguém que pode Além de todos os apontamentos feitos sobre o desenvolvimento das funções mostrar para o aluno a necessidade de certos conceitos e sua aplicabilidade para as psicológicas superiores, Vygotsky (1995) postula uma característica inerente às funções questões práticas, sua relação com os conceitos anteriores, para que possa inferir superiores: o domínio da própria conduta. na autorregulação da aprendizagem dos sujeitos, dando sentido aos conteúdos e possibilitando, assim, uma aprendizagem mais consciente. "Todos estes processos [das funções psicológicas superiores] são processos de domínio de nossas próprias reações com ajuda de diversos meios". (VYGOTSKY, 1995, p. É também o professor o responsável por (ou não) que os diferentes 285, grifos do autor). sujeitos envolvidos nos processos possam realizar mediações entre si, visto que todos se encontram em diversificados níveis de aprendizado, podendo um funcionar como mediador A história do desenvolvimento do indivíduo nasce, de acordo com Vygotsky, do do processo do outro. Lembre-se sempre de que, a partir do sociointeracionismo, entrelaçamento das linhas das funções psicológicas elementares, de origem biológica, e das funções psicológicas superiores, que são geneticamente sócio-históricas. A aprendizagem Aaprendizagem é, portanto, um processo essencialmente social, que ocorre tem a função de impulsionar os "[...] vários processos internos de desenvolvimento, que na interação com os adultos e os colegas. o desenvolvimento é resultado são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente desse processo, e a escola, o lugar privilegiado para essa estimulação. A e quando em cooperação com seus companheiros". (VYGOTSKY, 1998, p. 101). Educação passa, então, a ser vista como processo social sistemático de construção da humanidade. (BOCK, FURTADO e TEIXEIRA, 2007, p.126). Na perspectiva de Vygotsky, somente o processo de aprendizagem impulsiona os processos de desenvolvimento e permitem a construção das funções psicológicas superiores, tipicamente humanas e históricas. Neste sentido, o desenvolvimento humano é visto como realização coletiva e não individual, pois é na interação contínua com outros seres de sua espécie que a criança desenvolve todo um repertório de habilidades consideradas 2.3.3 sociointeracionismo e a ação docente humanas. Ela passa a participar do mundo simbólico do adulto, compartilhando da história. É possível ensinar um animal a pegar um jornal e levar ao seu dono? É possível, sim. A aprendizagem somente poderá ser efetivada a partir da interação entre sujeitos, Mas o mesmo animal não seria capaz de, voluntariamente, deixar de levar o jornal por ver num espaço histórico e social determinados. A partir daí reconhecemos a importância seu dono lendo outro jornal. Esse comportamento, de tomada de decisão a partir de uma da atividade pedagógica e o desenvolvimento das funções psicológicas superiores no nova informação, é um comportamento humano e se trata de um processo superior. Nesse contexto educacional. PEDAGOGIA UNIVALI 57 58 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 processo reside a importância do conceito de mediação, a qual nos permite compreender Por exemplo, quando uma criança aprende o significado da palavra 'gato', esse como atuam as funções psicológicas superiores. Vamos refletir mais um pouco? conceito é partilhado com e por outros sujeitos. Assim, quando o professor contar uma história sobre os gatos, ela não precisará do contato direto com o animal para A grande diferença entre os animais e o homem, e que caracteriza a consciência compreender a história dos gatos. A ideia de gato fará a mediação entre o gato (que pode humana, é a capacidade de in além da experiência imediata, podendo refletir sobre a estar ausente) e a atividade psicológica do sujeito sobre o gato, imaginá-lo na realidade por meio da experiência abstrata. De acordo com Luria (1988, p. 13), "[...] o história descrita pelo professor). homem, diferentemente dos animais, pode operar não somente em um plano imediato, mas também em um plano abstrato, penetrando assim profundamente na essência das Você deve ter percebido que as funções psicológicas superiores têm origem nas coisas e suas relações". relações sociais e históricas, não é? Portanto, quanto maior for a intervenção do contexto educacional na mediação do conhecimento entre o aluno e o mundo, maior serão as Além dos apontamentos feitos sobre o desenvolvimento das funções psicológicas possibilidades do sujeito na construção de seu conhecimento e na transformação social. superiores, Vygotsky postula uma característica inerente a todas as funções superiores: o domínio da própria conduta. o pensador afirma que "Todos estes processos [das funções Vygotsky, Lúria e Leontiev (1988) enfatizam o caráter mediador do trabalho do psicológicas superiores] são processos de domínio de nossas próprias reações com ajuda educador no processo de apropriação dos produtos culturais. Portanto, cabe ao educador de diversos meios". (VYGOTSKY, 1995, p. 285). Para que o homem dominasse a natureza, ser o mediador entre o conhecimento e os alunos, entre os produtos culturais e os seres era necessário que dominasse a si mesmo, conhecendo a situação em que se encontrava humanos. e os motivos relacionados a essa situação e à sua ação. Até aqui foi possível você compreender que a história do desenvolvimento do sujeito Sabemos que a criança, desde o nascimento, possui uma inteligência que orienta nasce do cruzamento das funções psicológicas elementares, que são funções psicológicas suas ações no mundo. Essa inteligência tem características próprias no recém-nascido e de origem biológica, e das funções psicológicas superiores, que são geneticamente sócio- vai se modificando ao longo da experiência de vida, principalmente nas interações com históricas. Assim, é possível concluir que, quanto maiores forem as oportunidades de adultos ou parceiros mais experientes que interpretam e atribuem significados às suas envolvimento com os elementos culturais produzidos pela humanidade, mais o sujeito expressões, posturas, gestos, sons, tornando-as participantes ativas do mundo simbólico apropriar-se-á desses instrumentos e desenvolverá suas funções psicológicas superiores e da cultura. maiores serão as possibilidades de intervenção em seu contexto social. No que diz respeito a Wallon, também é referência da abordagem Histórico- ATENÇÃO Cultural, bastante se preocupou com a educação, recusando-se a entender a criança de forma fragmentada, a construção do conhecimento como algo linear e rígido e a escola como um espaço imobilizante, anódino e desinteressante. Para o autor, nesse espaço a Em um dia de sol, uma turma de crianças de 5 (cinco) anos tinha criança também não pode ser vista de forma fragmentada, desenvolvendo-se em estágios brincado no pátio, onde havia um pouco de água. Como consequência, estanques e lineares, pois, muitas crianças se molharam. Ao regressarem para a sala, a educadora falou a uma das crianças, um garoto que estava mais molhado que os demais: 'se eu fosse você, eu sairia e ficaria lá fora' (para tomar sol e É contrário à natureza tratar a criança fragmentariamente. Em cada idade, secar a roupa), ao que o garoto respondeu: 'se você fosse eu, você ela é um todo indissociável e original. Na sucessão de suas idades, é um só não saía porque você não (ou seja, se você-professora fosse e mesmo ser sujeito a metamorfoses. Feita de contrastes e de conflitos, sua eu-aluno, você-aluno não sairia porque você professora não deixaria!). unidade é por isso mesmo suscetível a ampliações e novidades. (WALLON, (OLIVEIRA, 1992). 2007, p. 198). Uma de suas maiores contribuições para os processos educacionais está na consideração acerca das emoções no processo de conhecimento: conhecimento do mundo A criança, a partir de sua interação num determinado contexto cultural, da inter- e conhecimento do Eu. relação com elementos de seu grupo e de sua própria participação em práticas sociais, vai incorporando as formas de agir e de pensar já consolidadas na experiência do ser humano. PEDAGOGIA UNIVALI 59 60 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 Se a escola deseja realmente desempenhar a sua função social e provocar e intensificar A partir da perspectiva Histórico-Cultural, não basta instrumentalizar os alunos para a aprendizagem dos alunos, não há como ignorar o seu corpo e a sua afetividade, nem que atuem de forma mecânica, acrítica, de maneira simplesmente técnica e rotineira; mesmo os conflitos e contradições que, de forma dialética, serão desencadeados a partir é preciso o desenvolvimento das funções cognitivas superiores, da metacognição, da da relação entre a emoção, as condições orgânicas, como o ato motor, e a participação mediação sistematizada e intencional, fundada em objetivos e estratégias coadunados no espaço social. com as diferentes Zonas de Desenvolvimento Proximal. Faz-se necessário reconhecer as diferentes dimensões do sujeito nos diferentes processos de ensino e aprendizagem. A partir de seu olhar atento às questões que constituem o sujeito na sua totalidade, É preciso não economizar esforços para que possam competentemente com como cognição, afetividade, postura e musculatura, somos levados a superar o diferentes saberes, conceitos e conhecimentos. enquadramento imobilizante de muitas de nossas propostas pedagógicas, já que A ótica walloniana constrói uma criança concreta, cuja eficiência postural, tonicidade muscular, qualidade expressiva e plástica dos gestos informam sobre os seus estados íntimos. o olhar se dirige demoradamente para a sua exterioridade postural, aproveitando todos os indícios. Supõe-se que a sua instabilidade postural se reflete nas suas disposições mentais, que a sua tonicidade muscular dá importantes informações sobre seus estados efetivos. (DANTAS, 1992, p. 29). É preciso olhar, observar atentamente os alunos em seus diferentes processos de aprendizagem e desenvolvimento e interpretar ações e reações, considerando não só as REFERÊNCIAS perspectivas cognitivas, intelectuais, mas a pessoa como um todo, com seus conflitos, diferentes processos e suas múltiplas possibilidades de expressão. Nesse sentido, é imprescindível entender qual é o papel do adulto diante do desenvolvimento da criança, um desenvolvimento que, segundo o pensador, é 'geneticamente social'. Não há como aceitar reducionismos, é preciso que você, ANTUNES, Celso. Educação infantil: prioridade imprescindível. 4. ed. Petrópolis: Vozes, acadêmico, tenha claro que nossa concepção acerca do estudo do desenvolvimento da 2004. criança, do adolescente ou do jovem não é uma eventualidade. É, sim, uma marca da nossa visão acerca do sujeito social, do mundo, do processo de ensino e aprendizagem. BOCK, A. M.; FURTADO, TEIXEIRA, M. L. Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2007. Como bem nos expressa o autor, DACOREGGIO, M. dos S. Ação docente: uma ação comunicativa um olhar para o ensino Para a criança, só é possível viver a infância. Conhecê-la compete ao adulto superior presencial e a distância. Blumenau: Cromograf, 2001. [...]. Se o homem sempre começou colocando-se a si mesmo em seus objetos de conhecimento, atribuindo a este a essência e uma atividade conformes DANTAS, Heloysa. A infância da razão: uma introdução à psicologia da inteligência de à imagem que tem das suas, o quanto essa tentação não deve ser forte Henri Wallon. São Paulo: Manole, 1992. quando se trata de um ser que vem dele e deve tornar-se semelhante [...]. Comparando-se à criança, ele a vê relativa ou totalmente inapta em DAVIS, Cláudia; OLIVEIRA, Zilma de Moraes Ramos de. Psicologia na educação. São Paulo: presença das ações ou das tarefas que ele consegue executar. (WALLON, Cortez, 2007, p.10-11). FONTANA, Roseli; CRUZ, Nazaré. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual, As crianças, adolescentes e jovens não podem ser vistos como incompletos e 1997. incapazes. É preciso observá-los, estudá-los atentamente, tendo a certeza de que nossa forma de olhar é, por si só, bastante subjetiva. Entretanto, é preciso que essa observação FRICK, Willard B. Psicologia humanista: entrevistas com Maslow, Murphy e Rogers. Rio de tenha a clareza de não ter como definição a lógica do mundo adulto, para realmente Janeiro: Zahar, 1976. poder compreender o seu desenvolvimento. PEDAGOGIA UNIVALI 61 62 PEDAGOGIA UNIVALI</p><p>PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 PROCESSOS DE ENSINO E APRENDIZAGEM UNIDADE 2 GALVÃO, Izabel. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. Rio ROGERS, Carl. Liberdade para aprender. Belo Horizonte: Interlivros, 1972. de Janeiro: Vozes, 2001. SACRISTÁN GIMENO, José; GÓMEZ, Angell José Perez. Compreender e transformar o LA TAILLE, Ives de. 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