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<p>A CLÍNICA EM BION</p><p>AULA 1</p><p>Profª Giseli Cipriano Rodacoski</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Acredito que já seja do seu conhecimento algumas características do</p><p>método psicanalítico e conceitos introdutórios, chamados por Freud de</p><p>metapsicologia. Tradicionalmente a clínica psicanalítica se volta para a</p><p>compreensão do psiquísmo do indivíduo, mais especificamente sobre os</p><p>processos inconsciêntes do aparelho psíquico do indivíduo, ou seja, o principal</p><p>objeto de intervenção da psicanálise é o sujeito do inconsciente.</p><p>Muito do que você já sabe sobre psicanálise deve ser sobre processo</p><p>psíquico individual, que, coim base em sua relação com os outros, se constitui</p><p>como sujeito e estrutura a sua personalidade.</p><p>O que este estudo vai trazer de diferente é uma concepção teórica</p><p>psicanalítica que reconhece os processos psíquicos de um grupo de pessoas e</p><p>considera o grupo como tendo uma identidade única, em que se operam</p><p>processos psíquicos singulares e vai nos dizer que o grupo tem uma mentalidade</p><p>própria, uma mentalidade grupal.</p><p>O psicanalista Wilfred Ruprecht Bion será nossa referência teórica para o</p><p>estudo da dinâmica dos grupos; ele que em sua visita ao Brasil em 1973 foi</p><p>saudado pela imprensa como “o pai da psicoterapia de grupos”.</p><p>A proposta é abordar este tema inicialmente conhecendo um pouco mais</p><p>sobre quem foi Bion em sua época, suas origens, sua formação e contexto de</p><p>vida. A seguir, compreender a relação que teve com outros psicanalistas e</p><p>pensadores que o influenciaram, identificar alinhamentos e distanciamentos nos</p><p>pontos de vista entre eles; apontar de que maneira Bion deixou sua marca na</p><p>histórica da psicanálise e, a partir de então, explorar as suas principais</p><p>contribuições teóricas e metodológicas, especialmente para compreender a</p><p>dinâmica de grupos e os desdobramentos da psicoterapia de grupos com base</p><p>nele.</p><p>TEMA 1 – QUEM FOI WILFRED RUPRECHT BION?</p><p>Bion nasceu na Índia, em 1897. Neste período histórico, Freud estava</p><p>escrevendo seus estudos sobre histeria e primeiras publicações psicanalíticas.</p><p>Podemos dizer que Bion nasceu junto com a psicanálise.</p><p>A família Bion morava na Índia porque seu pai, engenheiro do serviço</p><p>público inglês, estava em uma missão de prestação de serviços de irrigação ao</p><p>3</p><p>governo indiano. Bion morava com os pais, uma irmã mais nova e uma ama</p><p>indiana (a sua querida Ayah), que exerceu bastante influência por ter sido a</p><p>mediadora da cultura indiana e do misticismo na vida e na obra de Bion. Perto</p><p>dos seus 8 (oito) anos de idade Bion foi morar na Inglaterra para estudar, morou</p><p>sozinho no colégio interno e recebia poucas visitas dos pais.</p><p>Quando em sua autobiografia, Bion alude à sua separação da</p><p>mãe, por ocasião do seu internato no colégio, ele relata que não</p><p>chorou, mas observou-a se afastando, com um chapéu que</p><p>parecia uma espécie de bolo flutuando contra a paisagem verde,</p><p>e essa imagem ficou fortemente gravada em sua memória. À</p><p>noite, ao deitar-se, evocou aquela cena, cobriu a cabeça com as</p><p>cobertas e só então chorou. (Zimerman, 2011, p. 23)</p><p>Aos 17 anos, após terminar o colégio, Bion ingressou nas forças armadas,</p><p>participou de ações bélicas durante a 1ª Guerra Mundial (que durou de 1914 a</p><p>1918), depois disso foi professor de História e Literatura, período em que leu um</p><p>livro de Freud e ficou fascinado. Decidiu fazer medicina, formou-se psiquiatra e</p><p>trabalhou na Clínica Tavistock em Londres. Bion fez um primeiro período de</p><p>análise pessoal, entre 1937 e 1939, com J. Rickmann, um ex-analisando de</p><p>Freud. Esse processo foi interrompido pelo contexto da Segunda Guerra</p><p>Mundial, que durou de 1939 a 1945. Em 1945, iniciou um segundo processo de</p><p>análise pessoal com Melanie Klein, que se prolongou por oito anos. Neste</p><p>período, Bion estudava psicanálise no Instituto de Psicanálise de Londres, foi</p><p>aceito como membro da Sociedade Britânica de Psicanálise e foi considerado</p><p>um dos mais brilhantes discípulos de M. Klein (Zimerman, 2011).</p><p>Ao longo dos anos 40 Bion escreveu alguns de seus textos mais</p><p>importantes para o fortalecimento da dinâmica com grupos. Na década de 50 e</p><p>60 dedicou-se ao atendimento de pacientes esquizofrênicos e psicóticos, quando</p><p>escreveu uma teoria sobre o pensamento (teoria do pensar). Na década de 70</p><p>suas publicações passaram a ter importante conteúdo místico, de difícil</p><p>compreensão aos leitores.</p><p>Bion se distanciou dos seus pares na Inglaterra, especialmente com base</p><p>na publicação de textos místicos, que desagradavam o establishment (os</p><p>defensores da psicanálise clássica). Passou a morar nos Estados Unidos, em</p><p>que não foi inserido no grupo de psicanalistas, pois lá a psicanálise era muito</p><p>influenciada pela psicologia do ego, de Anna Freud, de maneira que Bion e Klein</p><p>eram considerados pouco alinhados. Nos primeiros anos da década de 1970</p><p>Bion veio ao Brasil e a outros países da América Latina, onde foi admirado por</p><p>4</p><p>uns, e por outros, criticado. Bion por vezes surpreendia seus pares pelo seu jeito</p><p>pouco convencional, inovador, ousado, algumas vezes deixando claro que falava</p><p>de improviso, espontaneamente e sem a formalidade esperada.</p><p>Após a morte precoce de sua primeira esposa em 1945, Bion se casou</p><p>com Francesca Bion em 1951, que foi sua companheira inseparável ao longo da</p><p>vida e com quem teve outros dois filhos. Aos 82 anos, durante uma viagem à</p><p>Inglaterra, Bion faleceu devido à rápida evolução de uma leucemia.</p><p>Podemos perceber como a questão do alinhamento para obter</p><p>pertencimento, pareceu uma constante na vida de Bion. Ao mesmo tempo em</p><p>que percebemos que para ele essa rigidez de alinhamento não parecia fazer</p><p>muito sentido. Bion tinha mais compromisso com o valor de uma experiência</p><p>significativa do que em repetir padrões. Ele rompeu padrões ao dar as bases</p><p>para a Psicanálise de Grupos e de Instituições, para recomendar como achava</p><p>que deveria ser a postura do analista, para a análise da transferência, dentre</p><p>outras lições.</p><p>A identidade psicanalítica de Bion foi influenciada, especialmente por:</p><p>1. Cultura oriental hinduísta, observada na sua obra pelo uso de paradoxos,</p><p>contradições e atitudes de romper com o pensamento lógico;</p><p>2. Seus próprios traumas emocionais ao longo da vida;</p><p>3. Discípulo de Freud e Klein;</p><p>4. O trabalho com grupos, com pacientes esquizofrênicos e com temas</p><p>relacionados à psicologia social;</p><p>5. Ampla cultura e conhecimento das ciências humanísticas, esportes,</p><p>serviço militar.</p><p>TEMA 2 – O QUE NOS ENSINOU WILFRED BION?</p><p>Quando se lê o autor diretamente pela sua produção bibliográfica original,</p><p>é bastante frequente que o leitor iniciante fique como que perdido, pois se depara</p><p>com algumas contradições, reformulações e falta de respostas claras para</p><p>questões que foram levantadas. Com Bion não é diferente. A leitura de um livro</p><p>escrito a posteriori, ou seja, que já é parte do legado deixado pelo autor, sempre</p><p>parece ser mais didático para os iniciantes.</p><p>5</p><p>Saiba mais</p><p>Para quem quiser acompanhar este estudo fazendo uma leitura com um</p><p>destes livros mais explicativos, a sugestão é: Bion: da teoria à prática (Zimerman,</p><p>2011)</p><p>ZIMERMAN, D. E. Bion: da teoria à prática. Porto Alegre: Grupo A, 2011.</p><p>Ao escrever um livro didático ou dar uma aula sobre um autor tão</p><p>relevante, causa uma sensação desconfortável pelo risco de estar oferecendo</p><p>uma visão reducionista demais ou parcial. Mas se justifica pela intencionalidade</p><p>pedagógica, que é aproximar o estudante de Bion. David Zimerman (ano) relata</p><p>que sempre pensava nisso quando ouvia seus alunos falando “este Bion, o do</p><p>David, eu entendo e gosto”. Mas atenção. Essa sugestão serve apenas para os</p><p>iniciantes. Para qualquer aprofundamento na leitura de Bion, é fundamental que</p><p>se vá à fonte original, ou seja, lendo o que o próprio autor escreveu.</p><p>Obras de Bion:</p><p>• 1948 – Experiências em grupos;</p><p>• 1950 – O gêmeo imaginário;</p><p>• 1952 – Uma revisão da dinâmica de grupo;</p><p>• 1954 – Notas sobre a teoria da esquizofrenia;</p><p>• 1955 – Linguagem e esquizofrenia;</p><p>• 1956 – O desenvolvimento do pensamento esquizofrênico;</p><p>• 1957 – Diferenciação entre personalidades psicóticas e as não psicóticas;</p><p>• 1958 – Sobre a alucinação;</p><p>• 1958 – Sobre a arrogância;</p><p>• 1959 – Ataques ao vínculo;</p><p>• 1962 – Uma teoria do pensamento;</p><p>• 1962 – Aprendendo da experiência;</p><p>• 1963 – Elementos em psicanálise;</p><p>• 1964 – A grade;</p><p>• 1965 – Transformações;</p><p>• 1966 – Mudança catastrófica;</p><p>• 1967 – Estudos psicanalíticos revisados;</p><p>• 1970 – Atenção e interpretação;</p><p>• 1973 – Conferências Brasileiras 1;</p><p>• 1976 – Evidência;</p><p>6</p><p>• 1977 – A Censura;</p><p>• 1977 – Turbulência emocional;</p><p>• 1978 – Quatro discussões com Bion;</p><p>• 1980 – Bion em Nova Iorque e em São Paulo;</p><p>• 1979 – Como tornar proveitoso um mal negócio;</p><p>• 1975 – Uma memória do futuro I. O Sonho;</p><p>• 1977 – Uma memória do futuro II. O passado presente;</p><p>• 1979 – Uma memória do futuro III. A Aurora do Esquecimento.</p><p>Homenagens póstumas:</p><p>• 1985. Bion W. R. (autobiografia póstuma, editado pela sua esposa com</p><p>base em seus esboços);</p><p>• 1990. Cogitations (coleção de apontamentos e frases de Bion, coletados</p><p>e editados pela sua esposa).</p><p>• 1981. Ousarei perturbar o Universo? (editado por James Grodstein, um</p><p>ex-analisando, supervisionando e discípulo de Bion, nos Estados Unidos).</p><p>Bion gostava mais das reflexões geradas pelas perguntas do que das</p><p>respostas. Uma das frases mais utilizadas por Bion era a citação que fazia do</p><p>filófoso Blanchot: “A resposta é a desgraça da pergunta”. Bion também se</p><p>incomodava com as certezas e com o saber do psicanalista. Bion recomendava</p><p>que os psicanalistas se preocupassem mais em ser do que em saber.</p><p>O psicanalista Luiz Alberto Py, ao contar sobre sua experiência pessoal</p><p>com Bion, relata ter sido um divisor de águas na sua prática clínica o momento</p><p>em que passou a ter conhecimento do pensamento de Bion. Uma dessas</p><p>grandes mudanças na forma de clinicar foi em relação à interpretação da</p><p>transferência. Ao longo de sua formação para ser psicanalista Py entendeu que</p><p>os comentários dos pacientes durante a sessão deveriam ser tomados como</p><p>expressão da relação transferencial e interpretados. Dessa forma, Py relata que</p><p>se sentia bastante desconfortável quando, seguindo fielmente a teoria do método</p><p>tal como tinha aprendido em seus estudos teóricos. Algo que o fazia se sentir</p><p>bastante desconfortável e inseguro era a interpretação da transferência negativa,</p><p>como nos exemplos a seguir:</p><p>1. Se o cliente chegar à sessão falando que está irritado com o guardador</p><p>de carros, por achar que tinha sido roubado por ele ter lhe cobrado muito</p><p>caro:</p><p>7</p><p>a. Um psicanalista deveria interpretar a relação transferencial dizendo a</p><p>ele que provavelmente se sentia (o cliente) roubado pelo psicanalista.</p><p>2. Se o cliente falar na sessão que está com raiva da namorada que não o</p><p>compreende:</p><p>a. Um psicanalista deveria interpretar que o cliente está com raiva do</p><p>psicanalista por achar que este não o compreende.</p><p>Essa compreensão, que se baseia unicamente no cumprimento fiel de um</p><p>protocolo, com base no que o método psicanalítico orienta que deve ser feito,</p><p>deixa de lado algo muito importante na relação entre psicanalista e cliente: o aqui</p><p>e agora. Ao entrar em contato com o pensamento de Bion sobre isso, Py passou</p><p>a ouvir mais as motivações do cliente do que simplesmente ficar nesse jogo de</p><p>tênis ou ping-pong, rebatendo uma bola cada vez que o cliente manifestasse</p><p>uma emoção negativa, recuperando os exemplos acima, Py (citado por</p><p>Zimerman, 2011, p. 55) concluiu que:</p><p>Ou seja, em vez de entender que nosso cliente se sentia roubado</p><p>por nós pelo mero fato de chegar no consultório se queixando do</p><p>carro, tentaríamos entender o que o levava a optar por fazer esta</p><p>queixa em vez de qualquer outra coisa que poderia estar</p><p>dizendo. A pergunta que passei a me fazer era: “O que será que</p><p>faz com que essa pessoa saia de sua casa para vir aqui me falar</p><p>de sua irritação com um guardador de carros que ela acha que</p><p>está lhe roubando? Quando passei a prestar atenção nesses</p><p>aspectos, aconteceram coisas surpreendentes no meu trabalho.</p><p>Comecei a perceber que eu e o meu cliente não sabíamos o que</p><p>estávamos fazendo; tentávamos ‘Fazer psicanálise’. Ele ficava</p><p>no papel de analisando e eu no papel de analista”.</p><p>Bion recomendou que os psicanalistas evitassem seus desejos de saber,</p><p>de curar, de entender, de lembrar, ou seja, o psicanalista precisava se libertar</p><p>desses compromissos para que pudesse viver o momento presente com seus</p><p>clientes, sem sacrificar o momento presente para garantir que não fosse</p><p>esquecer nada no futuro e dessa forma, passar a sessão inteira escrevendo o</p><p>que o cliente fala para ter o controle do que precisa ser lembrado, conhecido,</p><p>interpretado. Dessa maneira, podemos entender que a cura é consequência e</p><p>não objetivo de uma análise bem-feita.</p><p>Em cada consultório, deveria mais precisamente haver duas</p><p>pessoas amedrontadas, o paciente e o analista. Se não estão,</p><p>então seria o caso de se perguntar por que estão se</p><p>incomodando em descobrir o que cada um já sabe. É tentador</p><p>se ocupar com algo familiar. (Py, citado por Zimerman, 2011, p.</p><p>58)</p><p>8</p><p>Bion sempre se preocupou em como a psicanálise era na prática. Para</p><p>ele, a teoria psicanalítica é fácil, a aplicação na prática clínica é que é difícil.</p><p>TEMA 3 – PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS DE BION COM GRUPOS</p><p>No contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), os distúrbios</p><p>emocionais eram a causa mais importante da inativação de militares. Havia</p><p>constante necessidade de selecionar mais pessoas para a guerra ao mesmo</p><p>tempo em que, de um modo geral, a sociedade sofria os traumas pela</p><p>desagregação das famílias. A psiquiatria e a psicanálise ascenderam a um plano</p><p>de muita importância e foi nesse contexto que Bion se destacou pelo trabalho</p><p>com grupos, tendo sido reconhecido mundialmente por meio de seus estudos</p><p>sobre dinâmica dos grupos (Zimerman, 2011).</p><p>Dentre os psicanalistas da época, foi especialmente com Wilfred Bion, na</p><p>Inglaterra, que a psicanálise ampliou sua atenção para a psicodinâmica dos</p><p>grupos. Junto com Anzieu e Käes, na França, e Pichón-Rivière, na Argentina, na</p><p>década de 1950, o pensamento psicanalítico avançou do individual para o grupo,</p><p>com bastante resistência da comunidade psicanalítica da época, como era de se</p><p>esperar quando se trata de algo inovador na psicanálise. Psicanálise de grupos</p><p>sempre foi um tema que ainda hoje causa resistência.</p><p>Precisamos considerar os acontecimentos que caracterizavam o contexto</p><p>em que Bion iniciou seu trabalho com grupos. Londres, na Inglaterra, era a sede</p><p>do conflito na guerra declarada pela Inglaterra e França contra a Alemanha</p><p>nazista, que deu origem à Segunda Grande Guerra Mundial.</p><p>Bion criou os primeiros grupos, com membros do exército inglês, para</p><p>seleção de oficiais e também nas atividades de treinamento.</p><p>Em relação à seleção de oficiais, Bion deixou de lado o método</p><p>habitual de priorizar as qualidades militares dos postulantes ao</p><p>oficialato e propôs a técnica de “grupo sem líder”. Tal técnica</p><p>consistia na proposição de uma tarefa coletiva aos candidatos,</p><p>como, por exemplo, a construção de uma ponte, enquanto os</p><p>observadores especializados avaliavam não a capacidade de</p><p>cada um deles para construir uma ponte, mas sim a aptidão do</p><p>homem em estabelecer inter-relacionamentos, em enfrentar as</p><p>tensões geradas nele e nos demais pelo medo do fracasso da</p><p>tarefa do grupo, e o desejo do êxito pessoal. (Zimerman, 2011,</p><p>p. 105)</p><p>A aplicação dessa técnica trouxe quatro vantagens que foram</p><p>reconhecidas por todos:</p><p>9</p><p>• Economia de um tempo que era habitualmente despendido na seleção</p><p>individual;</p><p>• Possibilidade de uma avaliação compartilhada coletivamente com outros</p><p>técnicos selecionadores;</p><p>• Observação de como os candidatos interagiam entre si</p><p>• Facilitação da importante observação dos tipos de lideranças</p><p>Naquele cenário de guerra, eram grandes as demandas por suporte</p><p>biopsicossocial à população em geral e ao exército combatente. Bion também</p><p>trabalhou com grupos em contexto hospitalar, onde estavam internados</p><p>membros do exército em processo de reabilitação.</p><p>Ele (Bion) se reunia diariamente numa sala com 15 pacientes e</p><p>promovia uma discussão grupal, com o objetivo precípuo de</p><p>readaptá-los à vida militar ou de julgar se eram capazes de voltar</p><p>ativamente a essa vida. Um fruto visível desse trabalho grupal</p><p>foi Bion ter conseguido restabelecer a disciplina e manter uma</p><p>ocupação útil dos seus homens; com isso, constituiu-se um</p><p>verdadeiro “espírito de grupo”. Por razões que nunca ficaram</p><p>bem esclarecidas (a mais provável é que a cúpula dos oficiais</p><p>superiores teria ficado alarmada com a mudança do clima do</p><p>hospital), essa experiência durou ape- nas seis semanas. Uma</p><p>das sementes que germinou dessa curta experiência foi o</p><p>hospital Northfield tornar-se o berço da “comunidade</p><p>terapêutica”, cujo modelo, após a guerra, ganhou uma enorme</p><p>expansão, principalmente nos Estados Unidos. (Zimerman,</p><p>2011, p. 105)</p><p>Dar oportunidade para a manifestação do sujeito e para a formação de</p><p>grupo, em uma instituição marcada pela centralização da hierarquia, pela</p><p>autoridade vertical (e não horizontal) entre seus membros pode ter sido</p><p>realmente assustador.</p><p>A sociedade psicanalítica também não se sentia confortável pelo que</p><p>chamava de “pressão de circunstâncias” para que a psicanálise fosse adaptada</p><p>para atender necessidades decorrentes da guerra. Isso também aconteceu com</p><p>a psicoterapia breve, que, mesmo tendo sido desenvolvida por psicanalistas,</p><p>precisou se separar dela, criando um referencial teórico próprio e constituindo-</p><p>se como outra modalidade psicoterapêutica, diferente do método clássico da</p><p>psicanálise. Käes (2000, p. 9) escreve sobre uma recomendação que Melanie</p><p>Klein fez a Bion para que renunciasse ao seu interesse por grupos.</p><p>Logo após a Segunda Guerra Mundial (terminada em 1945) foi muito</p><p>maior a demanda social por tratamentos à saúde mental e, ainda assim, a</p><p>psicoterapia de grupos e a psicoterapia breve eram vistas pela sociedade</p><p>10</p><p>psicanalítica como “uma rendição humilhante às pressões de circunstâncias que</p><p>levam a resultados transitórios, superficiais, pro forma” (Malan, 1981, p. 19).</p><p>Muitos dos princípios usados por Bion nos grupos com os oficiais do</p><p>Exército durante a Segunda Guerra e que causaram insegurança, por exemplo:</p><p>a observação do relacionamento interpessoal entre comandante e seus</p><p>liderados, atualmente configuram como critério de seleção não apenas no</p><p>exército, mas também em todas as instituições que se pautam pelo modelo de</p><p>liderança, governança e gestão participativa.</p><p>No pós-guerra, mesmo nos atendimentos clínicos individuais, a</p><p>psicanálise precisou enfrentar algumas dificuldades que levou a sociedade</p><p>psicanalítica a expandir seu campo de atenção do indivíduo para a família,</p><p>especialmente no tratamento da psicose e para a escuta clínica de famílias.</p><p>Durante longos anos a psicanálise ficou centrada nas teorias sobre o</p><p>sujeito. Só posteriormente é que surgiram as teorias sobre o grupo para, nas</p><p>últimas décadas, passar a existir todo um investimento na construção de teorias</p><p>vinculares, que fazem confluir as teorias de grupo e as do sujeito (Kaës, 2000).</p><p>Paralelamente a este período histórico, se fortalecia a abordagem</p><p>sistêmica especialmente nos Estados Unidos desde a década de 1940. Até a</p><p>década de 1970 já estava bem delimitada a teoria do método para o atendimento</p><p>de grupos. Casais e famílias passaram a ser atendidos clinicamente como</p><p>organizações grupais.</p><p>No pós-guerra, Bion desenvolveu novos conceitos metapsicológicos com</p><p>base em seu trabalho na clínica Tavistok em Londres. Passou a se dedicar ao</p><p>trabalho com grupos terapêuticos que se caracterizavam por não ter um objetivo</p><p>nem regras pré-definidas. Bion fazia poucas intervenções e esperava que a</p><p>organização surgisse do grupo.</p><p>TEMA 4 – GRUPO SEM LÍDER</p><p>Pela sua experiência com a técnica de “grupo sem líder”, segundo</p><p>Zimerman (2011), Bion chegou a algumas conclusões importantes:</p><p>1. Nem sempre uma liderança que é formalmente designada coincide com a</p><p>que surge espontaneamente no grupo;</p><p>2. São muitos os tipos de lideranças espontâneas;</p><p>3. Um grupo sem nenhuma liderança tende à dissolução.</p><p>11</p><p>Podemos compreender que a técnica grupo sem líder não quer dizer que</p><p>o grupo não terá um líder, mas sim que não será necessariamente o psicanalista</p><p>o líder, ou que o líder não será determinado pelo psicanalista. Dependendo da</p><p>intencionalidade, será mais adequado esperar que a liderança surja do grupo ou</p><p>reconhecer a liderança que já existe no grupo.</p><p>Da experiência com a técnica grupo sem líder no hospital se desenvolveu</p><p>a ideia de comunidade terapêutica. Outra situação bastante atual é</p><p>reconhecermos nas nossas comunidades quais são as lideranças que</p><p>emergiram sem que tivessem sido instituídas. Observem na sua comunidade</p><p>quais são os movimentos sociais e a quem se confere autoridade. É possível</p><p>que vocês percebam que a pessoa que tem o cargo de “autoridade sanitária”</p><p>não seja tão reconhecida socialmente como líder, quanto uma benzedeira, por</p><p>exemplo, a quem a população recorre quando precisa de tratamento à saúde.</p><p>Atualmente estamos vivendo uma crise nas autoridades tradicionalmente</p><p>constituídas, tais como pais, padres, juízes, professores, por exemplo. Há um</p><p>movimento social de seguir líderes não por relações verticais, mas sim por</p><p>relações horizontais, de afinidade. As pessoas são gregárias e elas tendem a</p><p>identificar seus líderes e buscar neles um pertencimento, uma filiação, uma</p><p>associação ou qualquer outro nome que se constitua assim como se fosse uma</p><p>família. Alguns exemplos são aqueles em que a pessoa refere a si mesma como</p><p>se o seu sobrenome fosse o grupo ao qual pertence: Carlinhos da Beija-Flor.</p><p>Da mesma maneira com que os agrupamentos acontecem por afinidade,</p><p>também os líderes surgem da psicodinâmica do grupo. Segundo Bion (2017), os</p><p>grupos podem assumir características de:</p><p>1. Dependência em relação a um líder,</p><p>2. Defensivas (luta ou fuga com o líder inimigo) ou</p><p>3. Pareamento, quando acreditam que o líder será o redentor e que fará</p><p>desaparecer todas as dificuldades dos seus seguidores (Messias).</p><p>TEMA 5 – TRABALHO COM GRUPOS</p><p>Conforme sintetizados por Zimerman (2011, p. 106), com base nos</p><p>estudos com grupos, Bion delimitou os seguintes conceitos:</p><p>12</p><p>• Mentalidade grupal: alude ao fato de que um grupo adquire uma</p><p>unanimidade de pensamento e de objetivo, o qual transcende aos</p><p>indivíduos, e se institui como uma entidade à parte;</p><p>• Cultura do grupo: resultado do conflito entre duas forças a necessidade</p><p>do grupo (mentalidade grupal), e as necessidades individuais dos</p><p>membros do grupo;</p><p>• Valência: termo utilizado pela Química para se referir ao número de</p><p>combinações que um átomo tem com os outros. Bion se refere aqui à</p><p>aptidão de cada indivíduo combinar com os demais;</p><p>• Cooperação: se refere à combinação de duas ou mais pessoas que</p><p>interagem de modo racional. É uma designação própria para Grupos de</p><p>Trabalho (GT);</p><p>• Grupo de Trabalho (GT): está voltado para aspectos conscientes e</p><p>racionais que as pessoas combinam para realizar uma tarefa;</p><p>• Grupo de pré-supostos básicos (SB): é o modo de funcionamento de</p><p>grupo mais primitivo, funcionando sob os moldes dos processos primários</p><p>mais inconscientes. Bion observava se a psicodinâmica dos liderados em</p><p>relação ao líder era por: dependência, defensivas ou por pareamento;</p><p>• Dimensão atávica de grupo: o ser humano tem a tendência inata a unir-</p><p>se a outros humanos e formar famílias, tribos ou clãs;</p><p>• Grupo de Trabalho</p><p>Especializado: se refere a Instituições tais como a</p><p>Igreja e o Exército que acabam por estimular na população uma reação</p><p>de dependência, perseguição (luta ou fuga), por exemplo;</p><p>• As lideranças: para Bion, o líder emerge do grupo. Usou como exemplo a</p><p>frase de Churchill na Inglaterra: “se vocês me elegeram como líder, só me</p><p>cabe fazer o que todos esperam de mim”;</p><p>• Grupo sem líder: técnica utilizada para a seleção de oficiais por dinâmica</p><p>de grupos quando o objetivo era avaliar a aptidão para liderança e/ou</p><p>subordinação;</p><p>• Relação do gênio como o Establishment: Gênio seria o inovador,</p><p>contestador, já establishment seria tudo aquilo que já vem sendo</p><p>perpetuado como tradição no lugar. Para explicar, Bion usou o exemplo</p><p>de Jesus, que era o gênio, portador de ideias novas, mas que ameaçava</p><p>o establishment, ou seja, aquilo que já era tradicionalmente aceito</p><p>13</p><p>naquela época e lugar. O establishment reage segregando o gênio (bode</p><p>expiatório) ou tenta absorvê-lo para o próprio establishment.</p><p>• O grupo e os mecanismos psicóticos: Bion estudou os mecanismos</p><p>psicóticos e primitivos, e seu foco não eram os mecanismos neuróticos</p><p>tais como Freud priorizou.</p><p>• A transferência do grupoterapeuta: Bion considerou indispensável que o</p><p>grupoterapeuta funcione como um continente adequado para as</p><p>identificações projetivas do grupo uns nos outros. A transferência do</p><p>grupoterapeuta é chamada de contratransferência e pode ser mais bem</p><p>reconhecida na atividade de supervisão da prática clínica. O esperado é</p><p>que o grupoterapeuta reconheça as sensações que o grupo lhe causa, e</p><p>com base nisso, consiga ser empático.</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Com relação ao modo como Bion recomendava a interpretação da</p><p>transferência na relação psicanalítica, o psicanalista Py, que foi seu paciente,</p><p>conta uma experiência em que relatou a Bion sobre a viagem para chegar ao</p><p>seu consultório, tendo saído do Brasil para encontrá-lo no interior da França,</p><p>local onde seria realizada a sessão. Isso envolveu um trecho de avião, dois</p><p>trechos de trem, outro de ônibus e mais um trajeto caminhando pedindo por</p><p>informações mais precisas aos moradores locais ao longo do caminho.</p><p>Ao relatar essa experiência na primeira sessão (e única) que teria com</p><p>Bion naquela ocasião, Py iniciou o relato de sua odisseia para dizer o quanto foi</p><p>difícil chegar lá. Ao final do relato Bion falou: “Difícil, mas você chegou; o que</p><p>você não está conseguindo mesmo é fazer análise.” (PY, citado por Zimerman,</p><p>2011, p. 266).</p><p>Este é um exemplo que nos mostra o quanto Bion não estava</p><p>comprometido em analisar o discurso em relação à figura do analista, mas sim</p><p>em relação ao momento com o analista, colocando atenção em “o que faz com</p><p>que ele tenha passado por tudo isso para fazer uma sessão e chegar aqui para</p><p>me contar esses detalhes ao invés de falar sobre o que interessa”. Assim Bion</p><p>interpretou a resistência, falando sobre a dificuldade de entrega do conteúdo</p><p>principal na análise, que são emoções, processos subjetivos, e não fatos</p><p>concretos que aconteceram no dia.</p><p>14</p><p>Tempos depois, nos Estados Unidos, Py teve a oportunidade de fazer</p><p>sessões frequentes com Bion e também descreve a maneira como Bion</p><p>interpretava a transferência: Em algumas situações em que manifestou</p><p>insatisfação com o trabalho de Bion, ouviu como resposta que se ele (paciente)</p><p>conseguisse suportá-lo e suportar seus defeitos e ineficiências, talvez pudesse</p><p>tirar algum proveito de sua companhia (PY, citado por Zimerman, 2011, p. 268).</p><p>FINALIZANDO</p><p>Wilfred Bion foi um psiquiatra e psicanalista inglês e se dedicou ao estudo</p><p>das dinâmicas grupais. Iniciou seu trabalho no exército inglês, depois trabalhou</p><p>como psiquiatra e psicanalista na Clínica Tavistock, em Londres. Foi paciente de</p><p>Melanie Klein por oito anos e na sua obra é possível identificar a influência de</p><p>Sigmund Freud e Melanie Klein para a compreensão da personalidade e para</p><p>definir o que ele entendia ser a função do analista.</p><p>Bion tinha preferência por falar sobre a psicanálise tal como era na prática.</p><p>Para Bion, a teoria é simples, mas a prática da psicanálise é muito difícil.</p><p>Enquanto Freud nos ensinou a compreender a psicanálise, Bion nos ensinou a</p><p>aplicar a psicanálise em diferentes contextos. Bion também rompeu com a</p><p>padronização da psicanálise clássica, cujo tratamento era em atendimentos</p><p>clínicos individuais, e inovou aplicando a psicanálise para o trabalho com grupos</p><p>e em contextos institucionais.</p><p>O trabalho com grupos deu visibilidade a Bion, mas sua proposta</p><p>terapêutica não era aceita por todos os psicanalistas. Bion sofreu represálias da</p><p>Sociedade Psicanalítica por seu método pouco convencional, especialmente</p><p>quando passou a dar mais espaço para o místico em seus escritos, e assim como</p><p>Jung, foi acusado de fazer algo fora do que era psicanálise.</p><p>Bion, junto com Anzieu e Kaës, na França, e Pichón-Rivière, na Argentina</p><p>deram as bases para a psicanálise de grupos, para a psicanálise institucional e</p><p>para o que mais recentemente vem sendo desenvolvido, que é a psicanálise das</p><p>configurações vinculares.</p><p>15</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>BION, W. R. Domesticando pensamentos selvagens. Editado por Francesca</p><p>Bion. São Paulo: Blucher, 2017.</p><p>_____. Quatro conversas com WR Bion. São Paulo: Blucher, 2020.</p><p>_____. Bion em Nova York e em São Paulo. São Paulo: Blucher, 2020.</p><p>KÄES, R. O grupo e o sujeito do grupo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.</p><p>LÉVY, F. A psicanálise com Wilfred R. Bion. São Paulo: Blucher, 2021.</p><p>MALAN, D. Fronteiras da psicoterapia breve. Porto Alegre: ArtMed; 1981.</p><p>MARRA, E. S. Psicanálise: Bion – Transformações e desdobramentos. São</p><p>Paulo: Blucher, 2020.</p><p>MATTOS, J. A. J. D. Bion no Brasil. São Paulo: Blucher, 2018.</p><p>ZIMERMAN, D. E. Bion da teoria à prática. Porto Alegre: Grupo A, 2011.</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Acredito que já seja do seu conhecimento algumas características do método psicanalítico e conceitos introdutórios, chamados por Freud de metapsicologia. Tradicionalmente a clínica psicanalítica se volta para a compreensão do psiquísmo do indivíduo, m...</p><p>Muito do que você já sabe sobre psicanálise deve ser sobre processo psíquico individual, que, coim base em sua relação com os outros, se constitui como sujeito e estrutura a sua personalidade.</p><p>O que este estudo vai trazer de diferente é uma concepção teórica psicanalítica que reconhece os processos psíquicos de um grupo de pessoas e considera o grupo como tendo uma identidade única, em que se operam processos psíquicos singulares e vai nos ...</p><p>FINALIZANDO</p><p>REFERÊNCIAS</p>