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<p>1 Técnicas de entrevista e suas aplicações em avaliação psicológica clínica Sérgio Eduardo Silva de Oliveira No trabalho de avaliação psicológica, o profissional pode lançar mão de uma ampla gama de técnicas para a coleta de informações, a sa- ber: entrevistas, observação direta do comportamento, testes psicológicos, tarefas experimentais, técnicas projetivas e expressivas, role- -playing, entre outras. recomendado é que o profissional utilize dife- rentes técnicas para a coleta e validação de informações para que o estu- do psicológico da pessoa em avaliação resulte em um quadro que repre- sente fidedignamente seu real e atual A abordagem multimétodo de coleta de dados possibilita a triangulação de informa- ções, de modo que o psicólogo tenha disponível uma variedade de da- dos que suas decisões ao final do processo. Na avaliação psicológica, tanto os aspectos verbais quanto os não verbais são de igual importância para o entendimento do funcionamen- to psicológico da pessoa que está sendo avaliada. O conteúdo das narra- tivas possibilita que o psicólogo levante diferentes tipos de informações, tais quais: autopercepções, valências afetivas atribuídas às experiências, formas de representações dos outros, memórias de fatos e eventos de vida, entre outras. Para além do conteúdo narrativo, as expressões com- portamentais, as atitudes e as condutas das pessoas são também fontes ricas de informações. psicólogo pode identificar entre</p><p>20 de entrevista e suas aplicações em o conteúdo narrado e o comportamento expresso acerca de uma per- cepção, assim como observar reações comportamentais durante pro- cesso avaliativo que indicam estados emocionais (p. ex.: constante ção das mãos, balançar das pernas e respiração ofegante como indicati- vos de ansiedade; tom de fala monotonal, empobrecida expressão emo- cional e olhar baixo como sinais de humor disfórico, etc.). Para fins deste capítulo, serão abordadas algumas técnicas de con- dução de entrevista que podem ser empregadas na avaliação psicológica no contexto clínico. O objetivo aqui é instrumentalizar tecnicamente o psicólogo para a condução de entrevistas no psicodiagnóstico, aumen- tando a qualidade de sua prática profissional. Sabe-se que diferentes contextos de atuação, como o escolar, hospitalar, forense, organizacio- nal, entre outros, demandam posturas e condutas diferenciadas. do, reconhece-se que existem aspectos e técnicas de entrevista que são compartilhados entre os diferentes contextos de atuação. TIPOS DE ENTREVISTAS A entrevista é a principal ferramenta do psicólogo para a prática da avaliação psicológica no contexto clínico (Tavares, 2007a). Por meio dela, o profissional pode acessar o mundo interno do suas representações, crenças, de si, do outro e de mundo, suas experiências, etc. Para tanto, é importante que o conheça e domine técnicas de condução de entrevistas. A literatura psicológica é rica em materiais que auxiliam nisso. Os dois principais manuais de avaliação psicológica do país, Psicodiagnóstico - V (Cunha, 2007) e Psicodiagnóstico, da coleção Avaliação Psicológica (Hutz, Bandeira, Trentini, & Krug, 2016), possuem capítulos voltados especificamente Diferentes abordagens psicológicas denominam as pessoas que estão em avaliação psicológica no contexto clínico como pacientes. Existem abordagens que preferem essas pessoas como clientes, examinandos, avaliandos, entre Neste capítulo, a palavra paciente 2 No contexto de atuação clínica, o profissional da Psicologia também é usualmente denomi- refere-se à pessoa que está sendo atendida em um processo de avaliação psicológica. nado como clínico. Dessa forma, esse termo (clínico) refere-se, neste capítulo, ao psicólogo que atua com avaliação psicológica no contexto clínico.</p><p>Avaliação psicológica: contextos de atuaçao, e modos de fazer 21 para a prática de entrevistas. Dessa forma, não se pretende aqui, neste rever o que a literatura brasileira já apresenta sobre o tema, mas sim apresentar algumas técnicas de comunicação verbal. antes de apresentar as técnicas comunicativas pro- priamente ditas, faz-se importante delimitar os tipos de entrevistas que o psicólogo pode conduzir em um psicodiagnóstico. Os tipos de podem ser classificados de acordo com seus aspectos formais (Tavares, 2007b): de livre estruturação, semiestruturada e estruturada. A principal diferença entre essas formas de entrevista encontra-se no protagonismo dos agentes: a forma de livre estruturação implica maior protagonismo do entrevistado, a semiestruturada compreende uma diretividade compartilhada e, na estruturada, o entrevistador assume um papel mais O tipo de livre estruturação permite que o paciente protagonize a entrevista falando dos temas e assuntos que lhe vier à mente. Esse tipo de entrevista é melhor representado pela técnica psicanalítica de associação livre (para mais detalhes recomenda-se a leitura de Celes, 2005; Macedo & Falcão, 2005; Priszkulnik, 1998). Contudo, obvia- mente, outras abordagens psicológicas podem valer-se dessa modali- dade de entrevista, variando a técnica de condução e análise. No psi- esse tipo de entrevista não é comumente usado devido ao limite de tempo que o processo tem. Contudo, também não há nenhuma contraindicação do uso dessa técnica no psicodiagnóstico. A entrevista semiestruturada, por sua vez, permite essa troca de protagonismo entre o profissional e o paciente. O clínico geralmente tem um roteiro com pontos previamente estabelecidos para serem es- clarecidos, mas sua sequência não é fixa e permite que o paciente in- clua novos assuntos e produza em seu ritmo. O tipo de entrevista se- miestruturada mais comum na prática da avaliação psicológica é a en- trevista de anamnese (para detalhes recomenda-se a leitura de Silva & Bandeira, 2016). Nesta modalidade, o psicólogo busca investigar as- pectos desenvolvimentais, de saúde, de contexto, intra e interpessoais 3 termo no psicodiagnóstico é historicamente colocado como sinônimo de avaliação psicológi- contexto clínico (Krug, Trentini, & Bandeira, 2016).</p><p>22 Técnicas de entrevista e suas aplicações em avaliação psicológica clinica que são relevantes para explicar ou para relacionar com o estado psi- cológico atual da pessoa em Finalmente, as entrevistas estruturadas se caracterizam pelo pro- tagonismo do profissional, o qual possui um roteiro fixo a ser seguido e geralmente deve ter critérios claros e objetivos de codificação das respostas dos pacientes. As principais representantes dessa modalidade de entrevista as Entrevistas clínicas estruturadas para o Manual diagnóstico e estatístico dos transtornos mentais - DSM (Tavares, 2007a). Neste caso específico é recomendado que o psicólogo tenha um pro- fundo conhecimento de psicopatologia, de acordo com o sistema de classificação do DSM (American Psychiatric Association, 2014). Du- rante esse tipo de entrevista, o psicólogo verifica, por meio de pergun- tas e provas (perguntas complementares que comprovem o sintoma), se um determinado sintoma está presente ou não, assim como o nível de atenção clínica do sintoma presente. Esse tipo de entrevista au- menta a fidedignidade das conclusões, uma vez que a forma estrutura- da e os critérios objetivos uniformizam a entrevista, aumentando a concordância entre avaliadores. Todos esses três tipos de entrevistas podem ser aplicados com pessoas de qualquer fase do ciclo vital, desde que tenham condições cognitivas para isso. Além disso, elas também podem ser aplicadas com outros informantes com o intuito de validar informações ou co- letar novos dados (para entrevista com outros informantes, recomen- da-se a leitura de Giacomoni & Bandeira, 2016). Note-se, aqui, que a entrevista de livre estruturação não é proveitosa nesses casos, uma vez que o foco dessas entrevistas é a própria pessoa e, na entrevista com outros informantes, o foco é a pessoa a ser avaliada e não o entrevista- do. Finalmente, quando se trata de entrevista com crianças, técnicas específicas usando brinquedos ou outros materiais lúdicos são reco- mendadas (para detalhes, recomenda-se a leitura de Krug, Bandeira, & Trentini, 2016; Werlang, 2007).</p><p>Avaliação psicológica: contextos de atuação, teoria e modos de fazer 23 TÉCNICAS COMUNICATIVAS Feitas as devidas delimitações acerca dos tipos de entrevistas, vale agora apresentar algumas técnicas de comunicação verbal que podem auxiliar na condução das entrevistas. Garcia-Soriano e Roncero (2012) sumarizaram uma de técnicas de comunicação verbal, as quais fo- ram agrupadas em dois blocos: (1) não diretivas (com as técnicas de pa- ráfrases, reflexo das emoções, clarificação, resumo, autorrevelação e ur- gência); e (2) diretivas (com as técnicas de indagação, interpretação, en- quadre, confrontação, afirmação de capacidade, informações e instru- Entretanto, para o presente capítulo, foi feita uma atualização dos agrupamentos em: (1) técnicas não diretivas; (2) técnicas semidiretivas; e (3) técnicas diretivas. As técnicas não diretivas, ou de escuta, compreendem inter- venções verbais que sinalizam uma escuta ativa. A utilização dessas técnicas favorece o estabelecimento de uma relação positiva entre o entrevistado e o avaliador e clas são consideradas não diretivas por serem apenas um feedback do avaliador para o entrevistado acerca do entendimento da mensagem & Ronce- ro, 2012). Esse grupo de técnicas serve para fortalecer o vínculo entre o entrevistador e o entrevistando e para encorajar o paciente a seguir com sua produção narrativa. Neste momento, recomendo que o leitor observe as informações referentes às quatro técnicas de comunicação verbal não diretivas, na Tabela 1.1, antes de retomar a leitura do próximo parágrafo. Após a leitura das técnicas descritas na Tabela 1.1 o leitor é ca- paz de perceber que essas quatro técnicas têm em comum o objetivo de mostrar para a pessoa que está sendo entrevistada que ela é ouvida e compreendida. Essa postura pode favorecer a produção verbal do paciente de forma colateral. Uma vez que a pessoa percebe que ela está de fato sendo ouvida e que há um interesse no que ela está dizen- do, espera-se que ela melhore a sua produção narrativa. Além disso, essas técnicas têm um caráter organizador, isto é, elas buscam devolver ao paciente suas falas de forma resumida e organizada.</p><p>Tabela 1.1 Síntese das técnicas não diretivas de comunicação verbal Técnica Descrição Objetivos Recomendações Paráfrases com suas Transmitir ao E o significado central da Introduza algumas palavras-chave do palavras, o "Foi quando fui transferido para Eu entrevistado moderação para cognitivo Facilitar a organização e expressão do estava acostumado com o ritmo da menha não parecer um da mensagem que o E cidade e agora estou tendo que me virar com pensamento do E. Seja breve e o frenesi dessa acabou de Focar no conteúdo cognitivo da Nunca modifique ou adicione A: "Parece que essa mudança forçou você a se de informações. adaptar um novo ritmo de Facilitar a compreensão do A e possibilitar a comprovação do E sobre o que foi entendido. Reflexo Enfatizar as emoções Comunicar ao E que as emoções foram Não use demasiadamente técnica de "Desde então eu tenho tido dificuldades e explicitamente entendidas reflexo para não induzir o para me Parece que não expressadas na Facilitar o entendimento e expressão - Conheça adjetivos emocionais para usar consigo me desligar e mensagem que o E emocional do E. o mais adequado. A "Essa adaptação tem você um acabou de tanto ansioso". Resumo Sintetizar os principais Demonstrar ao E que ele tem sido - o resumo pode ser feito no A. "Em nosso último encontro me contou aspectos cognitivos e entendido. da entrevista (resumindo a sessão de sua transferência para essa cidade e que emocionais de uma Ligar e organizar os aspectos tratados na anterior), durante a entrevista (para todas essas mudanças estavam the deixando comunicação. entrevista. fechar uma ou no um pouco Estou certo?" Relacionar os temas-chave da entrevista. Inclua o E para incrementar a exatidão. em Identificar temas comuns nas diferentes mensagens. Facilitar a transição entre temas. Diminuir a intensidade emocional do E. Valorizar o progresso. Clarificação Pedir que o E esclareça Esclarecer as características precisas da Empregue a técnica somente se A: "Eu não consegui ouvir direito, você aspectos os quais o mensagem. informação confusa for importante. poderia A não esta seguro de Identificar o problema impreciso. Avalie se é esclarecer A: "Se direito, a transferência ter compreendido a informação no momento ou somente ocorreu por causa da troca da se ela poderá ser esclarecida coordenação do setor, estou adequadamente. espontaneamente no decorrer da A: "A transferência for devida da coordenação ou por causa da queda na entrevista. produção? Nota: E A = avaliador. As informações desta tabela são baseadas (adaptações e traduções na obra de Garcia-Soriano e Roncero (2012) 111-115)</p><p>Avaliação psicológica: contextos de atuação, teoria e modos de fazer 25 As duas primeiras técnicas descritas, a saber, a paráfrase e do o re- formas de organizar os aspectos ideacionais e afetivos pa- respectivamente. Enquanto a primeira uma organiza- ciente, das ideias e das narrativas, a segunda busca significar as cias ção emocionais. Essas técnicas podem favorecer o insight e a organiza- ção interna do paciente. A técnica do resumo tem uma função de continuidade. Por meio dela, o profissional mostra à pessoa o que foi compreendido até um dado momento, sinalizando que ela pode continuar de onde pa- rou. Essa técnica pode também ser aplicada solicitando que a própria pessoa faça um resumo do que aconteceu (Garcia-Soriano & Ronce- ro, 2012). Nesse caso, o psicólogo pode dizer algo como: "Como você resumiria os aspectos mais importantes que conversamos até agora?" A aplicação dessa técnica permite, além de outras coisas, que o clínico observe quais aspectos do assunto são mais relevantes para o paciente. Além disso, o psicólogo pode avaliar a capacidade de síntese e de or- ganização do pensamento da pessoa que está em avaliação. Finalmente, a técnica de clarificação é bastante útil na avaliação psicológica e ela busca sanar e Essa técnica pode ser aplicada de diferentes formas, como, por exemplo, quando o psicólogo não entende uma informação que foi dita ou quando deseja comprovar que entendeu uma informação corretamente (García-So- riano & Roncero, 2012). Neste caso, o psicólogo pode pedir ao pa- ciente que clarifique essas incertezas. Na avaliação psicológica, é im- portante que o clínico esteja certo de que compreendeu corretamente a mensagem de seu paciente. Contudo, a técnica de clarificação deve ser empregada somente nos casos em que o tema em questão tem re- levância para o caso. De outra maneira, o uso constante de clarifica- ções pode alongar a entrevista. Como salientam e Roncero (2012), não há um consenso quanto à classificação das técnicas de autorrevelação e urgên- cia; há quem as considere como não diretivas e há quem as considere diretivas. As autoras as classificaram como não diretivas, entretanto, para este capítulo, elas foram classificadas como semidiretivas. Esta é</p><p>26 Técnicas de entrevista e suas aplicações em avaliação psicológica clinica uma nova categoria, a qual foi formulada haja vista que essas duas téc. nicas tendem a exercer certo efeito de direcionamento no ainda que não de forma Esse potencial de diretividade foi razão para a elaboração dessa nova categoria. Note que essas duas a cas implicam na introdução da figura e experiências do avaliador e atuam na relação profissional-paciente. A Tabela 1.2 apresenta tais nicas. Recomenda-se que o leitor faça a leitura dessa tabela e depois téc. torne a leitura para o próximo parágrafo. leitor deve ter observado que as duas técnicas semidiretivas. a sa- ber, a autorrevelação e a urgência, têm em comum a emergência de referentes à ques- relação entre o clínico e o paciente. A primeira (autorre- velação) deve ser usada com muita cautela e com pouca Algu- mas pessoas precisam, e às vezes demandam abertamente, que o psicólogo conte algo de si para se sentirem mais confiantes e confortáveis para con- tarem suas experiências íntimas. Não existe uma receita de quando o psi- cólogo deve usar essa técnica. Não é porque o paciente demanda, implíci- ta ou explicitamente, que o psicólogo conte algo de si, que o mesmo deve assim o fazer. O psicólogo deve estar atento ao ritmo de produção da pes- soa na avaliação, ao grau de cooperação dela, aos afetos manifestados, às condutas e atitudes expressas e à qualidade do vínculo estabelecido. A ideia do uso dessa técnica é fortalecer a relação para que o paciente se sin- ta mais confortável para continuar produzindo, isto é, relatando suas ex- periências, medos, vergonhas, ansiedades, sintomas, etc. Chama-se a aten- ção para que o psicólogo não use essa técnica para sanar necessidades pes- soais (como, por exemplo, um desabafo). A segunda técnica (urgência) refere-se à exposição de problemáticas da relação no momento em que ocorrem. A ideia é des- velar o que não foi dito, mas foi percebido; é trazer às claras atuações ou situações subentendidas que podem interferir na produção e no usada processo psicodiagnóstico. Essa é uma técnica que também deve ser com cautela, devido ao risco de respostas indesejáveis dos cientes. Contudo, a abstenção de seu uso também pode ser bastante evitados prejudicial, pois pode dar a impressão de que temas importantes são (García-Soriano & Roncero, 2012).</p><p>Técnica Descrição Objetivos Recomendações Autorrevelação informações - Promover o com - Use somente se pois esta "A área onde fica a empresa aqui pessoais ou Aumentar a empatia para que o técnica é pouco recomendada é extremamente confusa e sempre experiências pessoais. E se sinta compreendido. - Esteja certo de que seu uso está um estresse chegar Vou parar - Facilitar a autorrevelação do E. ajudando na relação com o E e de falar porque vai ficar Compartilhar informação. não servindo às suas próprias pensando que eu sou um Sugerir que há algo comum A: "Diversas vezes que eu entre A E. fazer algo naquela eu tive dificuldades de me locomover, pois a circulação de pessoas nessa área é contents realmente alta" Urgência Descrever o que está - Discutir explicitamente algo - Limite-se descrever o que ocorre A. "Sinto muito, estou tendo de acontecendo em um dado que o A sente sobre si mesmo, no exato momento (aqui e agora) dificuldades de momento a respeito da sobre o E ou sobre a relação - Proporcione uma decisão sem julgar podemos voltar sobre essa de relação entre A e E. que não tenha sido expressado situação novo?" (foco no A) de forma direta. Assuma a responsabilidade ambiente parece tenso hoje, - um feedback sobre do enunciado ("eu me sinto parece que hoje está mais dificil um momento concreto da incomodado com isso", ao invés de trabalhar" (foco na relação) entrevista. "você está me incomodado - Auxiliar a autoexpressão do E. com isso"). Avalie se o E está preparado para enfrentar a intervenção e se é o momento adequado de Nota: E - examinando; A avaliador. As informações desta tabela são baseadas (adaptações traduções livres) na obra de Garcia-Soriano e Roncero 115-117) fazer 27</p><p>28 Técnicas de entrevista e suas aplicações em avaliação psicológica clinica Vale notar que o uso dessa técnica deve desvelar questões no momento em que elas ocorrem. Isto é, não deve se esperar mento passar, não a empregue ao final da sessão, como, por plo, dizendo: "eu fiquei incomodado com seu tom de voz naquela hora em que você se queixou da nossa última sessão". Ou mesmo dizendo: "eu tenho ficado incomodado com sua postura de reclama- ção das O recomendado é utilizar essa técnica no momento em que a questão problema ocorre e sempre identificando o sável pelo enunciado. No exemplo, isso poderia ser: "eu me sinto um pouco incomodado frente a essa sua queixa". Note que, nesse exemplo, o psicólogo assume a responsabilidade pelo afeto negativo que está experimentando. Ele diz: "eu me sinto um pouco incomo- dado a essa sua queixa" ao invés de "você está me deixando incomodado com essa sua queixa". O clínico deve ter em mente que essa técnica serve para que o paciente reflita e tenha insights sobre forma como a relação está acontecendo no aqui e agora, e não so- a mente para expressar as próprias insatisfações. Por fim, as técnicas ou de influência são caracterizadas por intervenções verbais que o avaliador faz para influenciar direta- mente o comportamento do entrevistado. Elas são mais complexas que as técnicas de escuta, uma vez que seu emprego pode gerar, por exemplo, respostas de resistência. O uso dessas técnicas é indicado quando um rapport está bem estabelecido e quando o entrevistado oferece sinais de receptividade a estes tipos de intervenções verbais & Roncero, 2012). As sete técnicas diretivas têm em comum o objetivo de influenciar o comportamento e/ou do paciente. Note que algumas técnicas, tais quais a interpretação percepção e o elas enquadre, mais comuns em entrevistas de psicoterapia, contudo, valores podem ser perfeitamente aplicadas à avaliação psicológica. Seus do no psicodiagnóstico em possibilitar a avaliação da e grau Leia de adaptação e insight dos pacientes após administra- reação à leitura do na próximo Tabela 1. parágrafo. 3 os tipos de técnicas diretivas suas e depois retorne</p><p>Tabela 1.3 Síntese das técnicas diretivas de comunicação verbal Técnica Descrição Objetivos Recomendações Indagação - Indagar sobre o 1) Perguntas Evite converter perguntas abertas em 1) Perguntas abertas entrevistado. a Duas A "Qual o motivo que te trouxe aqui Convidar o E Use perguntas abertas para entender 1) Perguntas abertas: - Incentivar o E a gerar o funcionamento do E Formular perguntas A "Qual sua experiência com esse tipo informações. Use perguntas fechadas para obter de cujas respostas reflitam - Incentivar o E a descrever informações A: "Em quais situações as ideias do E. seus Cuide para que a pergunta não geralmente se sente dessa 2) Perguntas fechadas: sentimentos e pensamentos. resulte em resposta longa A: "O que você normalmente faz Formular perguntas 2) Perguntas fechadas Não pergunte por quando isso cujas respostas Estreitar a área de discussão. Não faça perguntas cujos objetivos 2) Perguntas fechadas algo - Obter informações não estejam claros para aconteceu?" - Evite perguntas que comecem A: tem com esse tipo - Esclarecer aspectos com pois podem gerar de respostas defensivas ("Por que A: você estava durante esse tempo para o E pensar. Evite fazer perguntas de uma vez "Com quem você discutiu?" de Não formule perguntas em sentido negativo tem bebido muito Não faça perguntas duplas ("Você tem alterações no sono ou apetite?") Faça pergunias curtas para evitar confundir o E. Interpretação Proporcionar uma Melhorar a relação positiva, Não faça interpretações E. "Tem sido bastante lidar com explicação alternativa reforçando a autorrevelação mas incluindo uma tudo Nova nova equipe de ao problema ou do E e a credibilidade do A clarificação no para se novas atividades nova preocupação do E com Identificar padrões entre as assegurar que ela esta e hoje não consigo acreditar que base nas observações mensagens e condutas do E. evitar reações de fur Minha vida antes era de do A acerca das - Tornar explicitas as uma maravilha. Agora estou tendo que padrões, mensagens implicitas do E. começar tudo de novo e aprender tudo novamente" desejos e sentimentos implicitos do E</p><p>Tabela 1.3 Síntese das técnicas diretivas de comunicação verbal (continuação) Técnica Descrição 30 Objetivos Recomendações Exemplos Entender o problema à luz de Faça a interpretação somente quando A tenho a impressão de que um marco o E está a chegar a essa a principal questão que pode estar Promover o mesma interpretação, podendo incomodando mais do que a autoconhecimento do assumir o novo significado e quando mudança e as coisas novas que entrevistado. houver tempo suficiente na sessão você tem que uma sensação de para o manejo da ansiedade ou de impotência que você parece estar resistência que podem advir dessa experimentando frente à decisão da técnica nova coordenação em transferi-lo Estou Enquadre Oferecer uma nova Auxiliar o E a considerar Aplique técnica quando o E E toda hora tem uma pessoa perspectiva para o E a possibilidade de que estiver vendo o mundo de forma ao meu lado me dizendo o que fazer, interpretar o mundo de existem modos diferentes disfuncional. me falando das regras locais da forma mais adaptativa, de ver a levá-lo a me perguntando se tudo mas sem fazer explorar essas alternativas e está indo bem Não aguento mais explicitos processos aproximá-lo da ser vigiado Todos ficam em cima, implicitos ou não Motivar o E a permanecer esperando que eu cometa um conscientes. na entrevista ou a iniciar um comportamentos de tratamento. seus colegas não podenam ser de - Ajudar o E a compreender os auxilio? Ao de eles estarem em objetivos do tratamento. eles podem na Ajudar o E a entender a verdade, interessados em seu bem- conduta de outra pessoa e estar e na sua adaptação Pode ser que responder de modo diferente. o foco não seja o seu mau passo* Confrontação Apresentar contradições - Ajudar a explorar modos - Utilize somente quando houver E estou bem mais tranquilo e no discurso e/ou diferentes de perceber algum evidências suficientes para aceitando melhor a conduta do E aspecto. demonstrar a incongruência A "Você me diz que esta se sentindo - a pessoa mais Fundamente com exemplos mas expirou profundamente consciente das discrepâncias especificos da conduta do E evitando enquanto falava e suas entre ou incongruências em seus generalizações sentimentos ou - Adicione uma clarificação ao final o conteudo do discurso e as manifestações corporais</p><p>Tabela 1.3 Síntese das técnicas diretivas de comunicação verbal (continuação) Descrição Objetivos Recomendações Exemplos Confrontação Empregue um lom de voz e uma E: me esforçando para me postura que preocupação e adaptar a essa nova etapa de minha apoio e não enfrentamento vida agora não me peça para ter Utilize expressões como "por um que ficar de com esse povo lado. e por outro ao invés de "por na hora do um lado mas dai A: está me dizendo que está - Somente essa técnica se uma se esforçando para se adaptar a relação de confiança for estabelecida. nova mas se recusa a - Utilize quando o E estiver preparado se relacionar com seus colegas de para mudar ou dar-se conta da - incongruência entre o incongruência conteúdo do discurso e a conduta. - Utilize somente se há tempo suficiente na sessão para trabalhar a reação do E. de Afirmação de Comunicar ao E sua - Incentivar o E a realizar uma Utilize somente quando o E A: realmente gostaria de me Capacidade capacidade para determinada atividade manifestar seu desejo de levar a cabo adaptar a esse novo e seguir realizar uma Ajudar o E a tomar a atividade e quando estiver seguro minha vida aqui nessa consciência de sua própria de que o E tenha as habilidades E "Antes de se mudar para você capacidade. para tinha uma adequada produtividade Enfatizar os beneficios para Não utilize quando o E tem uma na empresa, o entrevistado se implicar na imagem de si mesmo muito negativa. relacionamentos com seus colegas de e atividade. trabalho e tinha seus Estou certo de que pode desenvolver boas relações aqui também comunicativo e sociável tem capacidade de aprender novas tarefas e de se esforça para ser bem-sucedido fazer 31</p><p>Tabela 1.3 Síntese das técnicas diretivas de comunicação verbal (continuação) 32 Técnica Descrição Objetivos Recomendações Exemplos Informação Comunicar fatos e Ajudar o E a identificar Seja objetivo na transmissão da "Você sabia que nessa existe alternativas ante uma informação (não oculte efeitos um programa de expenmentação que determinada negativos, não de opinião pessoal sobre os podem se candidatar? Avaliar as consequências ou qual opção é mais recomendável) Os funcionários experimentam em três implicações de cada alternativa Não sobrecarregue o E com de meses postos de trabalho ou decisões. informações dentro da e ao final desse periodo Corrigir informações não somente informações que pode optar por uma das áreas exatas ou dissipar você esteja seguro delas informação especifica. Motivar o E a examinar Avalie o momento adequado para "Suas dificuldades em dormir, de aspectos que ele pode estar dar as informações, quando o E as se concentrar, de se alimentar sua e necessite e possa aceitá-las. excessiva preocupação são sintomas Proporcionar uma estrutura à de informação de entrevista ou à avaliação ou ao conceitos ou tratamento. A: "Os resultados de sua avaliação Psicoeducar por meio de que você apresenta informações importantes ao um Transtorno de caso. informação de Instruções Oferecer um conjunto de Ensinar o E a realizar (ou Use linguagem adaptada às A. eu dar a você algumas em pautas sobre como fazer deixar de realizar) uma habilidades do entrevistado. instruções e preciso de sua atenção. algo. determinada tarefa ou instruções explique os Eu gostaria que. para nossa próxima comportamento. passos você listasse os aspectos que Verifique se o E entendeu. você julga positivos e negativos em Solicite explicitamente a do E estar Gostaria que você listasse De as instruções mais como os aspectos positivos e negativos de sugestões do que como morar nessa cidade Gostaria também Instrua claramente o E quando ele que você listasse os aspectos positivos tiver que realizar uma tarefa que de trabalhar nessa e os aspectos envolva outra contando-lhe o negativos Você entendeu? o que você que será pedido por o e o acha dessa ideia? Para que claro, você por repetir a que eu pedi para você fazer nessa Nota: E examinando; A As informações desta tabele são baseadas (adaptações e traduções livres) na obra de Roncero (2012) e</p><p>Avaliação psicológica: contextos de teoria e modos de fazer 33 técnica de indagação é a mais comumente usada no psicodiag- como A e visa a coleta de dados das mais diferentes naturezas, As técni- nóstico afetivas, comportamentais. históricas, entre outras. são mui- cognitivas. interpretação e como dito anteriormente, não isso são cas de na prática da avaliação psicológica, mas nem por valorizadas contraindicadas. to comuns Pelo contrário, essas técnicas são bastante 2016). modelo de psicodiagnóstico interventivo (Heck & Barbieri, no técnica de confrontação é bastante útil para verificar o nível de cons- ciência, A insight e intencionalidade do paciente sobre os seus relatos e/ou suas percepções. As últimas técnicas listadas na Tabela 1.3, a saber, afirmação de capacidade, informação e instrução, demandam um pro- tagonismo mais ativo do clínico. A administração dessas técnicas requer do clínico habilidades e conhecimentos específicos. Por exemplo, o psi- cólogo somente pode fazer a afirmação de capacidade quando ele pos- suir diferentes fontes de evidências de que o paciente realmente apre- senta capacidade para a realização da tarefa. Qualquer incentivo irrealis- ta poderá trazer prejuízos importantes para o processo de avaliação como um todo. Para aplicar a técnica de informação, é importante que o psicólogo esteja seguro das informações que vai oferecer. Não é ad- missível que o clínico transmita ideias ou crenças sem embasamento e conhecimento adequados. A informação deve ser clara, pre- cisa e sincera. Essa técnica é muito útil na entrevista de devolutiva. Fi- nalmente, a técnica de instruções é bastante usada no psicodiagnóstico. o psicólogo deve usar linguagem apropriada para instruir o paciente nas atividades que ele precisa desempenhar ao longo das sessões. APLICAÇÕES PRÁTICAS DE ENTREVISTAS EM PSICODIAGNÓSTICO As reflexões e categorizações discutidas neste capítulo servem para fins didáticos e formativos. Na prática, entende-se que tanto os diferentes tipos de entrevista quanto as distintas técnicas comu- nicativas podem ocorrer concomitantemente dentro de um sistema</p><p>34 Técnicas de entrevista e suas aplicações em avaliação clinica dinâmico e complexo de interação clínico-paciente. Para no aprendizado da aplicabilidade dessas técnicas auxiliar guir, trechos entrevistas com diferentes momentos variados psicodiagnóstico. alguns do de pacientes e a em se. Caso A: entrevista de triagem Diferentes serviços de saúde e serviços-escolas empregam a tica da entrevista de triagem para uma avaliação inicial da demanda Essa prática tem como objetivo encaminhar o paciente para o serviço que melhor atenda a demanda apresentada. Essas entrevistas de gem geralmente, semiestruturadas, e visam levantar informações básicas da demanda e motivo do Certa vez, uma criança de família de baixo nível mico foi encaminhada para avaliação psicológica. Vieram para entrevista de triagem os pais da menina de 12 anos de idade. No a começo da entrevista, o entrevistador se apresentou e informou aos pais sobre os propósitos do encontro. Logo depois, foi iniciada a entrevista com a pergunta: Entrevistador (E): Por que vocês vieram procurar o serviço de avalia- ção psicológica para a filha de vocês? Mãe (M): médico pediu. Olha aqui (mostrou o encaminhamento de um neurologista que tinha escrito: "Solicito avaliação neuropsicológica"). (E): Por que o médico pediu essa avaliação? (M): Eu não sei! Ele pediu um monte de exames e esse também. (E): E por que a sua filha está indo no médico? (M): Porque a professora da escola mandou. Ela disse que ela não está conseguindo aprender. (E): E o que o médico falou? (M): Ele fez um monte de exames e não deu nada. ele mandou para a psicóloga. (E): Entendi. E ela está fazendo algum tratamento médico ou com psicólogo ou com qualquer outro profissional? (M): Ainda Foi por isso que eu vim aqui.</p><p>Avaliação psicológica: contextos de teoria e modos de fazer 35 (M): (E): A professora disse que cla não está aprendendo. Disse que ela E qual a dificuldade que ela tem tido na escola? não está conseguindo ler e nem escrever. momento, apliquei a técnica de resumo para me certificar de que entendido cudo corretamente e para verificar se após esse resumo alguma informação nova poderia emergir.) (E): se cu entendi correto, a filha de vocês está rendo dificul- dades na escola, pois ela não está conseguindo aprender a ler e a es- crever. e a professora sugeriu que vocês procurassem um médico por causa disso. médico fez alguns exames que deram resultados nor- mais então ele pediu uma avaliação neuropsicológica. É isso? (M): Isso mesmo. [A entrevista continuou, o entrevistador tentou levantar breves infor- mações de histórica clínica, escolar e familiar. Os pais pouco instruídos (tinham apenas o Ensino Fundamental completo) ti- nham um restrito de comunicação interação. As respostas curtas e pouco informativas. As perguntas eram feitas ao casal, mas era a mãe quem sempre as respondia. Foram feitas perguntas di- retas ao pai, o qual mostrou reticente e, também, pouco informati- Ao final, concluiu-se pela inclusão da menina para a avaliação psi- cológica, tendo agendado para a próxima sessão uma nova entrevista de anamnese com os pais para coleta de dados mais completos sobre o desenvolvimento e a história de vida da paciente]. Caso B: entrevista de anamnese A entrevista de anamnese é uma entrevista semiestruturada que busca investigar aspectos do desenvolvimento e da história de vida do paciente que possam estar relacionados à queixa atual. Esse relato re- fere-se ao caso de uma senhora de 52 anos de idade que buscou a ava- liação psicológica por queixas de problemas de memória. Ao investi- gar eventos na a senhora informou que ela sempre teve mui- tas dificuldades escolares e de relacionamento, descrevendo-se como impulsiva, briguenta e Ela contou alguns exemplos e o entre- vistador continuou a entrevista com a intenção de verificar um possí- vel familiar ou genético.</p><p>36 Técnicas de entrevista e suas aplicações em avaliação psicológica clinica (E): Os filhos da senhora também apresentaram alguma dificuldade escolar? Paciente (P): Mas por que você quer saber disso? O que isso tem a ver com meu caso? que te importa saber se meus filhos tiveram dificul- dades na escola? [Neste momento, o entrevistador percebeu certo descontentamento e sentimento hostil por parte da paciente. Então, foram aplicadas as de urgência, reflexo e (E): Parece que você se aborreceu com essa pergunta, mas a ideia aqui é saber se, além de outras pessoas da sua família apresentam ou apresentaram dificuldades similares às suas. Isso porque várias condi- ções clínicas possuem componentes hereditários e quanto mais soas da família apresentarem essas dificuldades, mais informações eu ter para entender o que se passa com você. (P): Ah! Sim, entendi. Na verdade, os meus filhos também tiveram dificuldades na escola. A minha filha mais nova... [Após a aplicação dessas técnicas, a paciente mudou o tom de voz e se mostrou mais pacífica. Ela de fato relatou que todos os filhos apresen- taram dificuldades escolares, tendo inclusive inscrito, posteriormente, o filho do meio para avaliação psicológica. Para além das informações que esse evento (aborrecimento) foi trazido para a compreensão do caso dela o emprego das técnicas fortaleceu a relação e resultou na co- laboração da paciente para o processo de coleta de dados.] Caso C: entrevista diagnóstica As entrevistas diagnósticas geralmente, estruturadas e visam à rificação da presença de sintomas de diferentes quadros nosológicos. Na ve- ocasião, o entrevistador estava avaliando uma mulher de 25 anos de idade ocorreu com suspeita de transtorno de personalidade borderline. O trecho (Amorim, 2000), enquanto era aplicado o módulo de durante a aplicação da MINI (Entrevista Internacional Neuropsi- que segue (E): Durante o último você tentou paciente ficou parada, com os olhos fixos numa da sem qualquer reação corporal ou emocional. Ela permaneceu parte mesa, assim</p><p>Avaliação psicológica: contextos de atuação, teoria e modos de fazer 37 por quase minutos, até que olhou para mim e serenamente per- guntou]: (P): Correr até a janela, mas não pular é uma tentativa? morava no quinto andar de um (Ficou claro que aquela pergunta mobilizou pensamentos e afetos im- portantes. Considerando que estávamos ainda no início da sessão (cerca de 15 minutos) e que a paciente demandava elaborar todo aquele afeto eliciado pela pergunta, o entrevistador, então, decidiu mudar a técnica da entrevista estruturada para a de livre estruturação, permitindo que a paciente falasse daquilo que ela quisesse. Essa mu- dança foi com fins tanto avaliativos quanto interventivos. Buscou-se, com isso, avaliar a forma como a paciente lida com situações estres- santes e angustiantes, assim como possibilitar que ela elaborasse e buscasse significar esse evento.) Caso D: entrevista lúdica A da entrevista lúdica é direcionada à avaliação de crian- ças e adolescentes (Krug et al., 2016). Busca-se, por meio da brinca- deira, identificar habilidades, potencialidades, características pessoais, limitações e sintomas das crianças. Esse tipo de entrevista foi aplicado em um menino de 11 anos que estava apresentando dificuldades esco- lares e que sofria bullying na escola por causa de seu elevado peso. En- quanto brincava, ele pegou um carrinho e começou a atropelar todos os personagens da história (bonecos, animais e objetos - como uma casinha). Enquanto ele "matava" os personagens, dizia: "toma, seus malvados". Com base nos dados coletados e nas manifestações com- portamentais e afetivas do menino naquela brincadeira, foi utilizado técnicas de interpretação e enquadre. (E): Olha só! Esse carrinho está bastante bravo. Ele atropelou todo Você não acha que de vez em quando a gente fica bravo igual e fica com vontade de bater em todo mundo que nos machuca? Mas, se o carrinho matar todo mundo, com quem ele vai brincar depois? Será que não tem ninguém que é bom? Todo mundo é mau?</p><p>38 Técnicas de entrevista e suas aplicações em avaliação psicologica clinica (P): É sim. Todo mundo vai morrer e o carrinho vai brincar sozinho os brinquedos dele. com [O entrevistador confessa que a sua expectativa era de que a e dissesse que nem todo mundo era mau. foi isso o que aconteceu. Apesar disso, o emprego dessas técnicas não forneceu indícios sobre o nível de generalização da perspectiva gativa que o menino tinha sobre seus pares, bem como o grau ne- de sofrimento que ele estava experimentando por causa das agressões que estava CONSIDERAÇÕES FINAIS Espera-se que o presente capítulo tenha ajudado leitor a am- pliar seu repertório de técnicas e profissionais. Como costuma dizer a Profa. Dra. Denise Ruschel Bandeira: "não adianta testes válidos se não se tem psicólogos válidos". Dessa forma, é impor- tante que o psicólogo, na prática da avaliação psicológica, saiba perfei- tamente o que está fazendo, de modo a validar todas as informações coletadas por meio de métodos válidos. O presente capítulo teve objetivo instrumentalizar tecnicamente o psicólogo para a condução por de entrevistas no psicodiagnóstico, aumentando a validade de suas ati- vidades profissionais. REFERÊNCIAS American Psychiatric (2014). Manual diagnóstico e estatístico de transtor- Celes, L. A. Psicanálise é craba- nos mentais DSM-5 (5 ed.). Porto Alegre: lho de fazer falar e fazer 9(16), 25-48. P. Mini International A. V., Zimmermann, Neuropsychiatric Interview va- & Kessler, F. (2004). Rotina de avaliação lidação de entrevista breve para diagnós- do estado Fonte: http://www. tico de transtornos Revista Bra- sileira de Psiquiatria, 22(3),</p><p>Avaliação psicológica: contextos de atuação, teoria e modos de fazer 39 tica. In C. S. D. R. Bandeira, C. Cunha. J. A. (2007). M. Trentini, & J. S. Krug, Porto Alegre: Artmed. 73-98). Porto Alegre: Artmed. Garcia-Soriano, G. & Roncero, M. Krug, J. S., Trentini. C. M., & Bandei- (2012). Técnicas de comunicación ver- ra, D. R. (2016). 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