Prévia do material em texto
<p>1 Louis-Jean Calvet As políticas LINGÜISTICAS Tradução: ISABEL DE OLIVEIRA DUARTE JONAS TENFEN BAGNO Prefácio: GILVAN DE OLIVEIRA fipol TT</p><p>Título original: Les politiques linguistiques Louis-Jean Calvet IPOL Instituto de Políticas Florianópolis, SC EDITOR: Marcos Marcionilo CAPA E PROJETO GRÁFICO: Andréia Custódio REVISÃO: Telma Pereira CONSELHO EDITORIAL: Stahl Zilles [Unisinos] Carlos Alberto Faraco [UFPR] Egon de Oliveira Rangel [PUCSP] Gilvan de Oliveira [UFSC, Henrique Monteagudo [Univ. de Santiago de José Carlos Kanavillil Rajagopalan [Unicamp] Marcos Bagno [UnB] Maria Marta Pereira Scherre [UFRJ, UnB) Rachel Gazolla de Andrade [PUC-SP] Salma Tannus Muchail [PUC-SP] Stella Maris Bortoni-Ricardo [UnB] CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C168a 2281 Calvet, Louis-Jean, 1942- As políticas / Louis-Jean Calvet prefácio Gilvan de tradução Isabel de Oliveira Jonas Tenfen, Marcos São Paulo Parábola Editorial IPOL, 2007. ponta da língua; 17) 400 Tradução de: Les politiques linguistiques C 168 Inclui bibliografia ISBN978-85-88456-60-0 Ex 1. Linguagem e línguas Aspectos 2. Linguagem e linguas Política governamental. 3. Planejamento linguístico. Instituto de III. CDD:306.449 CDU Direitos reservados à PARÁBOLA EDITORIAL Rua Clemente Pereira, 327 04216-060 São Paulo, SP Fone: I Fax: [11] 6215-2636 home page: e-mail: Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou forma meios in duindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualq er sistema ou banco dedados sem permissão por escrito da Editorial ISBN: 978-85-88456-60-0 desta edição: Parábola Editorial, São Paulo, julho de 2007</p><p>CAPÍTULO I NAS ORIGENS DA POLÍTICA A intervenção humana na língua ou nas situa- ções não é novidade: sempre houve indiví- duos tentando legislar, ditar o uso correto ou intervir na forma da língua. De igual modo, o poder político sempre privilegiou essa ou aquela língua, escolhendo governar o Estado numa língua ou mesmo impor à maioria a língua de uma minoria. No entanto, a ca (determinação das grandes decisões re- ferentes às relações entre as línguas e a sociedade) e o planejamento (sua implementação) são con- ceitos recentes que englobam apenas em parte essas práticas antigas. Se observarmos, por exemplo, que a escolha de um alfabeto para uma língua se origina da política isso não significa que Cirilo e Me- tódio, ao criarem o alfabeto glagolítico (ancestral do cirílico), ou que Thonmi Sambhota, ao definir o alfa- Traduzimos o planification por "planejamento", termo muito mais empregado no brasileiro do que "planificação" (é o por exemplo, do Ministério do Planejamento) (n. do E.).</p><p>12 AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA LINGÜISTICA 13 beto tibetano, tenham escrito um capítulo da história Califórnia, evento que marca o surgimento da socio- da política Da mesma maneira, se em cer- Na mesma obra, encontra-se também um tos países, como a Turquia ou a Indonésia, a língua do texto de Ferguson sobre as national profile formulas, Estado foi forjada pela intervenção sobre uma língua já que discutiremos no capítulo seguinte e, observando a existente, para modernizá-la, adaptá-la às necessida- lista dos participantes (Bright, Haugen, Labov, Gumperz, des do país, não colocaremos no mesmo plano os inven- Hymes, Samarin, Ferguson...), podemos dizer que fal- tores de línguas artificiais (ido, esperanto, volapuque tava apenas Fishman para completar o "time" que etc.), cujas criações, na maioria das vezes, nunca saí- representaria, nos anos 1970 e 1980, a ram do papel. A política é inseparável de ca e/ou a sociologia da linguagem nos Estados Uni- sua aplicação e é a esse binômio (política e dos. Desse modo, o "planejamento recebe planejamento que é dedicado este livro. seu batismo na mesma época que a e Neste primeiro capítulo, acompanharemos o apa- pouco mais tarde será definida por J. Fishman como recimento desse binômio, que se deu na segunda me- tade do século XX, e mostraremos as relações que ele Em seguida, Fishman, Ferguson e Das Gupta estabelece com as questões políticas dessa época. publicam em 1968 uma obra dedicada aos problemas dos países em via de desenvol- I Nascimento do conceito e seu campo vimento, e durante o ano universitário de 1968-1969, de aplicação quatro pesquisadores (Jyotirindra Das Gupta, Joshua Fishman, Björn Jernudd e Joan Rubin) reúnem-se no sintagma language planning, traduzido para o East-West Center do para refletir sobre a natu- português por planejamento apareceu em reza do planejamento Eles organizam, en- 1959 num trabalho de Einar sobre os proble- tre os dias 7 e 10 de março de 1969, uma reunião so- mas da Noruega. autor procurava mos- bre o mesmo tema, para a qual foi convidado um gru- trar nesse trabalho a intervenção normativa do Esta- po de pessoas (antropólogos, linguistas, sociólogos, do (por meio de regras ortográficas, por exemplo) para economistas...) que já haviam trabalhado no campo construir uma identidade nacional depois de séculos de dominação dinamarquesa. Haugen retoma esse 2. E. Haugen, "Linguistics and Language Planning", in William mesmo tema em 1964, durante uma reunião organi- Bright Sociolinguistics. La Haye: Mouton, 1966. zada por William Bright, na Universidade da 3. J. Fishman, Rowley, Mass.: Newbury House Publishers, 1970. 4. Joshua A. Fishman, Charles A. Ferguson, Jyotirindra Das 1. E. Haugen, "Planning in Modern Norway", in Anthropo- Gupta, "Language Problems of Developing Nations", in American logical Linguistics, 1/3, 1959. Anthropologist, New Series, vol. 73, 2 (Apr., 1971), pp. 404-405.</p><p>AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA 15 da política ou do planejamento Esse en- Language Planning Processes, editado por J. contro deu origem a uma obra, Can Language be Rubin, B. Jernudd, J. das Gupta, J. Fishman, Planned? ("a língua pode ser planejada?"), que faz uma C. Ferguson, 1977; análise do estado da questão na época5. Advances in the Creation and Revision of Writing J. Rubin, J. Das Gupta, B. Jernudd, J. Fishman e Systems, editado por J. Fishman, 1977; C. Ferguson: temos aqui o "bando dos cinco" anglófonos Colonialism and Language Policy in Vietnam, que permaneceriam, durante anos, no centro da refle- de John DeFrancis, 1977 etc. xão sobre esse novo campo (veremos mais adiante que Por esses títulos, é possível perceber uma espécie os mesmos temas serão igualmente abordados por pes- de resumo da história do conceito, e a presença de uma quisadores francófonos, germanófonos e hispanófonos). alternância entre uma abordagem mais geral e estudos É possível acompanhar os progressos do planejamento de caso (a Albânia, a Indonésia, a Malásia, o sobretudo através das publicações de uma Paralelamente, a noção de política apa- coleção (Contributions to the Sociology of Language) rece em inglês (Fishman, Sociolinguistics, 1970), em es- dirigida por Joshua Fishman na editora Mouton. De panhol (Rafael Ninyoles, Estructura social politica linguistica, Valencia, 1975), em alemão (Helmut Glück, fato, em poucos anos, essas publicações reuniram uma "Sprachtheorie und Sprach(en)politik", OBST, 18, 1981) impressionante concentração de trabalhos: e em francês. Em todos os casos e em todas as defini- Advances in Language Planning, editado por ções, as relações entre a política e o planeja- J. Fishman, 1974; mento são relações de subordinação: assim, Language and Politics, editado por William para Fishman, o planejamento é a aplicação de uma O'Barr e Jean O'Barr, 1976; política e as definições posteriores, em sua Selection among Alternates in Language variedade, não ficarão muito longe dessa visão. Em Standardization, the Case of Albanian, de Janet 1994, por exemplo, Pierre-Etienne Laporte apresenta- Byron, 1976; ria a política como um quadro jurídico e a Language Planning for Modernization, the Case reorganização como um conjunto de ações of Indonesian and Malaysian, de S. Takdir "que tem por objetivo esclarecer e assegurar determi- Alisjabana, 1976; nado status a uma ou mais De fato, no inter- Advances in the Study of Societal Multilin- valo, à margem da corrente predominante, aparecem gualism, editado por J. Fishman, 1977; 6. Pierre-Etienne Laporte, "Les mots clés du discours politique en 5. Joan Rubin, Björn Jernudd (orgs.). Can Language be Planned? aménagement linguistique au Québec et au Canada", in Claude Truchot Honolulu: The University Press of Hawai, 1971. (org.), Le plurilinguisme européen. Paris: Champion, 1994, p. 97-98.</p><p>AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA 17 outras denominações: aménagement linguistique no de idéia, o termo aparecerá em Québec, normalização na Catalunha; cada uma delas criado por Marcellesi e Guespin, com definições im- com efeitos de sentido particulares e importância precisas, sem que essa inovação terminológica cause desigual. Os por exemplo (primeiramente uma alteração no campo conceitual considerado. Lluis Aracil, depois o conjunto de pesquisadores agru- Nesse conjunto de textos e de análises, é preciso pados sob a classificação de "sociolingüística observar uma importante diferença de ponto de vista procuraram distinguir a normalização da substitui- entre os pesquisadores americanos e os pesquisadores ção ou da assimilação. Num conflito no europeus. Os primeiros têm tendência a acentuar sobre- qual espanhol era a língua dominante e o catalão, a tudo os aspectos técnicos da intervenção sobre as situa- língua dominada, eles julgaram mais conveniente ções constituída pelo planejamento, questio- "normalizar" uma situação "anormal". Na realidade, nando-se muito pouco a respeito do poder que há por trata-se mais de um programa político do que de um trás dos decisores. planejamento lhes parece muito conceito: em face do espanhol imposto pelo poder mais importante do que a política e tem-se, às vezes, a franquista, os militavam para que impressão de que eles fantasiam a possibilidade de um sua língua fosse promovida às funções até então ocu- planejamento sem política. sintagma language planning padas pela língua do Estado. Os quebequenses, por pôde assim cobrir sozinho, durante muitos anos, um sua vez, preferem linguistique a pla- domínio que teve origem visivelmente nessas duas ações, nejamento (planification) para evitar fazer referên- complementares decerto, mas que é preciso distinguir cia à intervenção planejadora do Estado. Neste caso, com cuidado: as decisões do poder (a política) e a passa- não se trata em absoluto de uma diferença teórica, gem à ação (o planejamento). Em contrapartida, os pes- mas, sim, de uma questão de embalagem: apresenta- quisadores europeus (franceses, alemães) pa- se o mesmo produto com outro nome; e Rainer Enri- recem mais preocupados com a questão do poder, embo- ra os se situem num sistema de que Hamel tem razão ao salientar que "os três ter- substituição de um poder por um outro. mos planejamento, normalização e aménagement Por outro lado, o período durante o qual apare- se referem ao mesmo núcleo conceitual, mas se dis- cem na literatura científica essas noções e as tentati- tinguem pelas suas Na mesma ordem 8. A glotopolítica é essencialmente problema da minoria termo aménagement deriva do verbo aménager, "arranjar, (Marcellesi, "De la crise de la linguistique à la linguistique de la crise: dispor, arrumar", e não tem equivalente exato em português no senti- la sociolinguistique", in La Pensée, n° 209, 1980) ou ela ainda "desig- do usado no para tratar da política (n. do E.). na os diversos enfoques que uma sociedade tem da ação sobre a língua, 7. Rainer Enrique Hamel, "Politicas y planificación del lenguaje", seja ela consciente ou não" (Guespin e Marcellesi, "Pour la gloto- in Iztapalapa. Mexico: n° 20, 1993, p. 11. politique", in: Langages, n° 83, 1986).</p><p>18 AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA 19 vas de equacionar as situações de plurilingüismo do como resposta aos problemas dos países em "via (diglossia, fórmulas tipológicas...), que discutiremos de desenvolvimento" ou das minorias no capítulo seguinte, têm a ver com as questões da épo- Mais tarde, os problemas do Québec, ca. Os primeiros textos de Haugen (sobre o planeja- bem como aqueles suscitados nos Estados Unidos pela mento na Noruega) e de Ferguson (sobre a imigração de hispanofalantes e, posteriormente, os que diglossia) datam do mesmo ano, 1959, e durante as aparecem na Europa com a construção da Comunida- décadas de 1960 e 1970 as publicações nesses dois de Econômica Européia, mostrarão que política e pla- campos se multiplicam. Ora, trata-se do período que vem nejamento linguísticos não estão vinculados somente ao imediatamente após a descolonização de inúmeros desenvolvimento ou às situações pós-coloniais. texto países africanos e asiáticos, e o título de uma das pri- fundador de Haugen sobre a Noruega bastaria para com- meiras obras publicadas nesse domínio, Language provar que as relações entre língua(s) e vida social são Problems of Developing Nations (New York, 1968), é ao mesmo tempo problemas de identidades, de cultura, característico do campo conceitual no qual nasce essa de economia, de desenvolvimento, problemas dos quais disciplina. Paralelamente, observa-se o aparecimento nenhum país escapa. E perceberemos que há também de reflexões sobre as relações entre língua e naciona- uma política da francofonia, da anglofonia lismo (Joshua Fishman, Language and Nationalism. etc. Desse ponto de vista, a emergência de novas nações Rowley, Mass.: Newbury House Publishers, 1972), terá simplesmente servido como um revelador. sobre a situação das antigas colônias (Louis- Reiteremos: tratamos aqui da emergência de um con- Jean Calvet, Linguistique et colonialisme Petit traité ceito, o de politica/planejamento que implica de glotophagie. Paris: Payot, 1974), sobre a situação da ao mesmo tempo uma abordagem científica das situações língua na Espanha (Aracil, Ninyoles). Em Can a elaboração de um tipo de intervenção Language be Planned? (1971), os estudos de caso re- sobre essas situações e os meios para se fazer essa inter- metem à Irlanda, Israel, Filipinas, África Oriental, venção. Podemos encontrar prefigurações de caráter in- Turquia, Indonésia, Paquistão: em todos esses traba- contestavelmente científico entre os linguistas do Círculo lhos, temos a impressão de que a ênfase é dada aos de Praga, por exemplo, que intervieram no campo da pa- países novos, recém-independentes e em vias de de- dronização do tcheco9, ou em Antoine Meillet, que expri- senvolvimento, como se a política não dis- miu seu ponto de vista sobre a Europa Mas sesse respeito aos países europeus. E, no início dos anos 1990, uma coleção de obras publicada na Fran- 9. Ver D. de Robillard, L'aménagement linguistique: problémati- ça, sob a direção de Robert Chaudenson, aludirá pelo ques et perspectives. Provença: Universidade de Provença, 1989, pp. seu título ("Langues et développement") à obra de 1968 53-71, tese. referida acima: a política parece ter nasci- 10. Louis-Jean Calvet, A. Meillet, "La politique linguistique et l'Europe: les mains sales", in Plurilinguismes. Paris: CERPL, n° 5, 1993.</p><p>AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA trata-se, nesses casos, apenas de prefigurações, que prefe- po minoritário do interior de um Estado (os bretões rimos não abordar nesta breve apresentação histórica. na França, por exemplo, ou os indígenas quíchuas no Equador) pode fazer o mesmo. Mas apenas o Estado II o primeiro modelo de Haugen tem o poder e os meios de passar ao estágio do plane- jamento, de pôr em prática suas escolhas políticas. É Quando o termo planning, "planejamento", sur- por isso que, sem excluir a possibilidade de políticas ge na literatura ele é tomado em seu senti- que transcendam as fronteiras (é por exem- do econômico e estatal: determinação de objetivos (um plo o caso da francofonia, mas trata-se de uma reu- plano) e a aplicação dos meios necessários para atin- nião de Estados), nem a política pertinente gir esses objetivos. Desse modo, pode-se falar do pla- às entidades menores que o Estado (as línguas regio- nejamento da natalidade, do planejamento da econo- nais, por exemplo), devemos admitir que, na maior mia etc. Nos anos 1920 e 1930, só a União Soviética parte dos casos, as políticas são iniciativa dispunha de um plano, e é essencialmente na segunda do Estado ou de uma entidade que disponha no seio do metade do século XX que essa prática se generalizou. Estado de certa autonomia política (como a Catalunha, Mas essa generalização se constituiu sobre princípios a Galiza ou o País Basco na Espanha). diferentes. De fato, é preciso distinguir o planejamen- o modo como Haugen, em sua comunicação na to indicativo ou incitativo, baseado no acordo entre as reunião de Los Angeles em 1964, definira a noção de diferentes forças sociais, do planejamento imperativo, planejamento mostra que ele se situava nesse campo que implica a socialização dos meios de produção. primeiro é aquele praticado nos países ocidentais, o ideológico: segundo caracterizaria os países do Leste. Nesses dois planejamento é uma atividade humana decorrente da necessida- casos, entretanto, esse planejamento tem pontos em de de se encontrar uma solução para um problema. Ele pode ser comum: é nacional, repousa sobre a análise de pers- completamente informal e ad hoc, mas pode também ser organiza- pectivas a médio e longo prazo, passa pela elaboração do e deliberado. Pode ser executado por indivíduos particulares ou e depois pela execução de um plano, por fim é (...) Se o planejamento for bem feito, ele compreenderá etapas tais como a pesquisa extensa de a escolha de planos de vel de avaliação. ações alternativos, a tomada de decisão e sua aspecto "nacional" ou "estatal" da política lin- que aparece aqui, é um traço importante de De fato, Haugen partiu essencialmente do pro- sua definição. Efetivamente, qualquer grupo pode ela- blema da norma e da padronização. Ele ci- borar uma política uma diáspora (os sur- tava, por exemplo, o gramático indiano Panini (que dos, os ciganos, os falantes de pode se reu- nir em congresso para decidir uma política, e um gru- 11. Op. cit., pp. 51-52.</p><p>22 AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA 23 viveu no século IV antes de Cristo), ou ainda os Haugen constata inicialmente que a aparição das pri- gramáticos gregos e latinos, definindo o planejamento meiras gramáticas e dos primeiros dicionários das lín- como "a avaliação da mudança guas modernas coincide nos séculos XV e XVI com a ca". Consciente das contradições entre essa aborda- emergência de países ricos e poderosos. É, por exem- gem e as posições decididamente descritivas e não plo, o caso da gramática de Nebrija elaborada para o normativas da ele afirmava que o planeja- espanhol (1492), da fundação da Academia Francesa mento devia ser uma tentativa de influen- por Richelieu (1635) etc. Em seguida, a partir do sécu- ciar as escolhas em matéria de língua, situando-se as- lo XIX, os progressos do ensino e a difusão da literatu- sim, implicitamente, ao lado daquilo que defini acima ra tornam necessária uma padronização das línguas e como planejamento indicativo. Além disso, suas refe- observa-se o aparecimento de indivíduos empenhados rências passavam pela teoria da decisão, essencialmen- em normatizar sua língua: Fréderic Mistral em relação te utilizada no campo da "administração" ou, se pre- ao provençal, Aasen em relação ao Korais ferirmos, da gestão econômica. Nesse domínio, utili- em relação ao grego etc. Esses homens, esses primeiros za-se geralmente o modelo de Herbert Simon, que dis- "planejadores considerados por Haugen tingue quatro fases: como meio lingüistas e meio patriotas, eram indivíduos diagnóstico de um problema; isolados, e a obra deles tem a ver com iniciativa indivi- concepção das soluções possíveis; dual. Ao contrário, a intervenção sobre a língua turca escolha de uma das soluções; decidida por se vincula à ditadura, e podemos avaliação da solução tomada. encontrar entre esses dois extremos toda uma varieda- E o plano escolhido por Haugen para apresentar de de organizações que intervieram na língua: igrejas, o planejamento inspirava-se diretamente sociedades literárias ou científicas etc. nesse modelo, uma vez que ele analisava os diferentes As alternativas. Haugen destaca primeiramen- estágios de um planejamento como um "pro- te que, mesmo havendo grupos menores que a "nação" cedimento de os problemas, os decisores, as (como os galeses) ou maiores que a "nação" (como os alternativas, a avaliação e a aplicação. judeus, que têm problemas é no seio da Para ele, todos os problemas se reduzem ao caso "nação" que se encontram os meios oficiais para se de- geral da não-comunicação: pode haver um fracasso senvolver um planejamento Em seguida, relativo, quando os interlocutores falam formas dife- fazendo referência às funções da língua propostas por rentes da mesma língua, ou fracasso total, quando os Jakobson, Haugen explica que a língua não serve ape- interlocutores não falam a mesma língua. nas para transmitir informação, ela também diz coisas Os decisores. Quem dispõe de autoridade sufi- sobre o falante, sobre o grupo. A função de comunica- ciente para dirigir e controlar a mudança ção leva à uniformidade do código, já a função da ex-</p><p>24 AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA 25 pressão, ao contrário, leva à sua diversificação. Isso se dá porque o objetivo do planejamento não é necessariamen- ca aos conceitos adotados. Mais precisamente, Haugen quase não questiona o problema do poder, das relações de te gerar um código uniforme: ele pode visar à diversida- de ou à uniformidade, à mudança ou à força de que dão testemunho as relações Isso pode ser em parte explicado pelo fato de ele não ter levado A avaliação das diferentes soluções passa pela identificação das formas envolvidas para que em conta o os problemas de relações entre sejam fixados os limites nos quais é possível intervir. as línguas, mas também pelo fato de estar vinculado a Convém saber se existe uma ou mais normas, se existe uma concepção liberal americana do planejamento. Ele também não levantou problema do controle democráti- uma ortografia, ou mais de uma. Enfim, é preciso dotar- se de critérios objetivos que, em relação com as finalida- sobre as decisões dos planejadores, considerando que o des visadas, permitirão a escolha da solução. De manei- Estado deve escolher e aplicar a solução que lhe pareça ra geral, segundo Haugen, uma forma é eficaz melhor para resolver um problema. Há de fato, em tudo se for fácil de aprender e fácil de utilizar. isso, a exportação e a aplicação mecanicista de modelos utilizados na economia liberal e na administração de em- A aplicação. Haugen destaca que os decisores são, no final das contas, os usuários da língua, e que são por- presas, sem nenhuma análise sociológica das relações de tanto eles que precisam ser convencidos a aceitar a solu- força que se encontram em jogo. Nessa época, planeja- ção escolhida. Desse ponto de vista, o indivíduo quase mento se limitava essencialmente à proposição não tem relevância, a não ser aquela que lhe é dada por de soluções concernentes à padronização das línguas, sem que os vínculos entre línguas e sociedades fossem verda- sua autoridade pessoal ou científica. Em contrapartida, deiramente levados em conta. o governo controla o sistema escolar, as mídias; e para ele a melhor estratégia consiste em introduzir a reforma escolhida por meio da escola. III A abordagem possível que o leitor deste texto fique surpreso com Ray e V. Tauli o fato de que Haugen, àquela época, não estivesse criando nada de novo. Conhecendo bem a história da Não faltam definições que apresentam a língua Noruega, ele adotou alguns conceitos da economia (plane- como um "instrumento de comunicação", sendo fácil jamento), da administração (teoria da decisão) e os apli- observar o caráter restritivo de tais definições, que ig- cou nos exemplos de intervenção do Estado sobre as lín- noram aquilo que é essencial na língua, isto é, seus guas (Noruega, Grécia, Turquia etc). Assim, ao propor vínculos com a sociedade. As abordagens estruturalis- um novo sintagma, o planejamento Haugen não tas da língua foram criadas com base nessa restrição, chegou a criar um conceito novo, mas delimitou sobretudo e foi contra ela que se desenvolveu uma nova maneira um domínio de atividade, sem desenvolver qualquer de abordar os fatos das línguas, que foi batizada de "sociolingüística", mas que constitui de fato a</p><p>26 AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA LINGÜISTICA 27 tica no sentido amplo, indo a fundo nas implicações imaginável no início dos anos 1960, diante da ausên- da definição da língua como "fato social". cia de formalização da sociolingüística nascente. Encontramos esse enfoque instrumentalista em Valter Tauli se situa na mesma linha ao propor, em alguns trabalhos que marcam a emergência da política 1968, uma "introdução a uma teoria do planejamento Assim, Punya S. Ray, numa obra publicada Certamente ele faz, aqui e ali, algumas re- em insistia no caráter instrumental da língua, ferências à natureza social da língua, como que por obri- considerando que seu funcionamento podia ser aperfei- gação, mas para ele a língua é essencialmente um instru- çoado pela intervenção na escrita, na gramática ou no mento, no sentido mais banal do termo, um instrumento léxico. Sua abordagem era relativamente simplista: por que pode ter seu funcionamento aperfeiçoado, sendo esta um lado, pode-se avaliar a eficácia de uma língua, sua a tarefa do planejamento Em 1962, ele já racionalidade, sua normalização e por outro, aperfeiço- apresentava essa posição com veemência: ar a língua a partir desses diferentes pontos de vista, como se troca uma peça defeituosa de uma máquina. Uma vez que a língua é um instrumento, isso significa que uma Essa maneira de considerar a língua como um língua pode ser avaliada, alterada, corrigida, regulada, melhora- da e novas línguas podem ser criadas à instrumento que pode ter o funcionamento aperfeiçoa- do é passível de crítica, mas acontece que o problema Mas como avaliar uma língua? Tauli imagina essa da avaliação (neste caso das línguas, mas também das avaliação baseado no modelo do decatlo, competição situações estará no centro das reflexões esportiva em que os atletas concorrentes recebem certo prévias a uma intervenção planejadora. Como medir número de pontos segundo seu desempenho em dez o grau de eficácia de uma língua? Essa questão, que modalidades diferentes. Mas essa metáfora não lhe for- está no centro da intervenção de Ray, está evidente- nece os meios para avaliar globalmente uma língua, e mente mal formulada e, portanto, fica sem resposta. ele a reduz a uma abordagem selecionando Uma língua não é, em si mesma, racional ou eficaz; alguns domínios, demonstrando um dogmatismo sur- ela responde ou não a necessidades sociais, ela segue preendente. Assim, para ele, a ordem "normal" das ou não a progressão da demanda social. problema é palavras na frase é a ordem sujeito-verbo, a distinção saber em que medida a organização de uma entre masculino, feminino ou neutro é inútil e absur- sociedade (as línguas em contato, seus domínios de uso etc.) responde às necessidades de comunicação 13. Valter Tauli, Introduction to a Theory of Language dessa sociedade, mas essa abordagem era dificilmente Uppsala: Almqvist & Wiksells 1968. o livro vinha sendo redigido desde 1962. 14. Valter Tauli, "Practical Linguistics: the Theory of Language 12. Punya S. Ray, Language Standartization: Studies in Planning", in Horace Ed. Lunt (org.), Proceedings of the Ninth Congress Prescriptive Linguistics. Haya: Mouton, 1963. of Linguistics 1962. Haia: Mouton, 1964, p. 605.</p><p>28 AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA 29 da, a escrita deve ser alfabética e fundamentada numa mento") e "línguas Ausbau" (em alemão: "desenvolvi- análise fonológica etc., e o papel do planejador será mento"): de um lado, as línguas percebidas como isola- modificar o instrumento língua para aproximá-lo dessa das, independentes, e, do outro, aquelas que são perce- normalidade. "O planejamento afirma bidas como línguas próximas, de uma mesma Tauli, "é uma atividade cujo objetivo é aperfeiçoa- Tal diferenciação não deixou de repercutir nas ques- mento e a criação de tões de planejamento linguístico. Assim, o grego por Se as posições de Ray e Tauli, às vezes no limite do exemplo, língua "Abstand", como o basco ou o absurdo, aproximam-se de um impasse, elas também não era considerado como integrante de um continuum demonstram os laços entre o grau de conceitualização de variações, ao contrário das línguas "Ausbau" como ao qual chegou a e o modo de teorização do o italiano, o espanhol, o português ou o ou planejamento Esse instrumentalismo se tor- ainda como o alemão, o o inglês, ho- nou possível graças a uma que analisava a landês; e essa diferença de status tem incidências cla- língua de um ponto de vista interno, fazendo abstração ras nos problemas linguísticos da Europa. De fato, de seu aspecto social, e suas às vezes caricatu- pode-se imaginar a divisão dos países da Comunidade rais, assinalavam ao mesmo tempo os defeitos e as li- Econômica Européia em dois grupos: um de línguas mitações dessa lingüística. leitor terá percebido que, até aqui, os teóricos germânicas e outro de línguas românicas; mas o grego e do planejamento pareciam se interessar o basco ficam fora dessa classificação. Dois anos de- apenas pela língua, por sua padronização, por sua pois, Kloss introduziu uma distinção entre o planeja- "melhoria", e isso ocorreu também por conta da lin- mento do corpus e o planejamento do que teria estrutural, de sua abordagem interna. Mas o repercussões importantes. O planejamento do corpus planejamento logo vai se interessar por se relacionava às intervenções na forma da língua (cri- outras questões, passar dos problemas de forma aos ação de uma escrita, neologia, padronização...), en- problemas de estatuto, evolução paralela à da quanto o planejamento do status se relacionava às in- tica, que lentamente ia se tornando tervenções nas funções da língua, seu status social e suas relações com as outras línguas. Assim, é possível que se queira mudar o vocabulário de uma língua, criar IV - o segundo modelo de Haugen novas palavras, lutar contra os empréstimos: tudo isso Em 1967, Heinz Kloss propôs a distinção entre "línguas Abstand" (em alemão: "distância", "afasta- 16. Heinz Kloss, "Abstand Languages and Ausbau Languages", in Anthropological Languages, n° 9, 1967. 17. Heinz Kloss, Research Possibilities on Group Bilingualism: A 15. Op. cit, p. 608. Report. CIRB, 1969.</p><p>30 AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA 31 pertence à esfera do corpus; mas é possível também que se queira modificar o status de uma língua, promovê-la b) sintaxe terminologia à função de língua oficial, introduzi-la na escola etc., e c) léxico b) desenvolvimento estilístico isso se relaciona ao status. Essa distinção ampliou con- sideravelmente o campo da política e se dis- Para ilustrar esse esquema, vejamos o exemplo tanciou notavelmente da abordagem instrumentalista que acabamos de evocar. concreto da Indonésia. o primeiro estágio é constituí- Observamos desde então, na literatura relativa ao do pela escolha de uma norma: identifica-se o proble- planejamento uma tendência a apresentar as ma (estágio 1a), a questão aqui era saber qual língua diversas operações em termos dicotômicos; começando seria a língua do Estado e, neste caso, o malaio foi por Haugen que, em 1983, retomou essa distinção e a escolhido para substituir a língua colonial, o holandês integrou a seu Sua apresentação pode ser re- (estágio 1b). Essa decisão foi tomada em 1928, du- sumida no esquema seguinte, que cruza as noções de status rante uma reunião do Partido Nacional Indonésio, ou e corpus com as noções de forma e função da língua: seja, bem antes de a Indonésia proclamar sua inde- pendência. Temos, neste momento preciso da histó- Forma Função ria, um exemplo de política que não pôde (planejamento (cultura da língua) ser posta em prática, pois, como afirmamos, plane- jamento precisa do Estado. Sociedade Num segundo momento, essa língua seria padro- 1. Escolha 3. Aplicação (processo (planeja- (processo de educacional) nizada nos níveis gráfico, sintático e lexical (estágios 2 mento do decisão) a) correção a, b e c). o malaio era, de fato, uma língua veicular de status) a) identificação b) avaliação formas flutuantes e convinha fixar-lhe uma norma. do problema Uma vez resolvidos os problemas formais, passou-se b)escolha de uma aos problemas funcionais: difusão da forma estabelecida, norma correção, avaliação (3a, Mas é claro que isso só poderia Língua 2. Codificação 4. ser feito depois da independência, em 1946. (planeja- (padronização) (desenvolvimento Finalmente, essa implementação exigia que a lín- mento do a) transcrição funcional) gua fosse "modernizada", ou seja, que fossem criados o corpus) gráfica a) modernização da vocabulário e a estilística necessários às novas funções que ela iria preencher. Desse modo, inspirando-se pre- 18. Einar Haugen, "The Implementation of Corpus Planning: ferencialmente em palavras malaias, ou em palavras Theory and Practice", in Juan Cobarrubias; Joshua Fishman (orgs.), Progress de outras línguas locais ou de outras línguas asiáticas, in Language Planning. International Perspectives. Haia: Mouton, 1983. o Komisi Bahasa Indonesia (Comitê da Língua</p><p>32 AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA Indonésia) elaborou vocabulário funcional da língua, zando uma metáfora médica, eles agiam como um ci- rebatizada como bahasa indonesia (língua indonésia). rurgião que abre um corpo, constata o mal e opera. A Vê-se que, nesse esquema, o percurso do planeja- originalidade da contribuição dos cata- mento por Haugen (do estágio 1, es- lães, occitanos e crioulófonos se deve ao fato de que, colha de uma norma, ao estágio 4, modernização da lín- nesses casos, o cirurgião era também paciente, e de gua) se apresenta, aos mesmo tempo, como técnico e que teoria e prática estavam estreitamente ligadas. burocrático: há um decisor (geralmente o Estado) que A situação da Catalunha, sob o franquismo, po- escolhe uma língua para preencher determinada função deria ter servido de exemplo a Ferguson, quando ele (a função oficial, por exemplo), que confia a especialis- apresentou seu conceito de diglossia: o espanhol era tas a tarefa de codificar essa língua e que depois operacio- ali a variedade alta, a língua do Estado, da escola, da naliza sua escolha (a língua passa a ser utilizada em dife- justiça etc., enquanto o catalão, variedade baixa, esta- rentes níveis do aparelho do Estado: ensino, meios de va reservado à comunicação familiar, íntima. Mas comunicação etc.), fazendo eventuais correções na esco- Ferguson tinha uma visão estática da diglossia, que lha etc. Mas não ocorre em nenhuma parte desse esque- nele aparecia como uma repartição funcional harmo- ma a menor crítica em relação aos processos de decisão, niosa dos usos, e é precisamente essa visão que será nenhuma sugestão de uma possível consulta democráti- questionada pelos linguistas "nativos", ou seja, aque- ca junto às populações envolvidas ou ainda de um con- les oriundos de situações diglóssicas, particularmente trole democrático dos estágios 1 (escolha) e 2 Robert Lafont, no lado dos Lambert-Félix (codificação): se a língua pertence àqueles que a falam, o Prudent, no lado dos e Lluis Aracil, no problema da língua aparece aqui como uma questão de lado dos Eles afirmavam que a diglossia Estado, e isso gera em algumas situações, como na Fran- não era uma coexistência harmoniosa entre duas va- ça, conflitos entre esse Estado, os falantes da língua nacio- riedades mas uma situação conflituosa nal e as minorias do entre uma língua dominante e uma língua dominada. Ora, de acordo com Lluis Aracil, esse conflito só po- V A contribuição da sociolingüística "nativa" deria levar a duas situações: ou a língua dominada desaparece em favor da língua dominante (o que ele Pelo que vimos até agora, os teóricos e, às vezes, os técnicos do planejamento não estavam 19. Robert Lafont, "Un problème de culpabilité sociologique: pessoalmente implicados nas situações nas quais in- la diglossie in Langue 9, 1971. tervinham: seu status era o do especialista que obser- 20. Lambert-Félix Prudent, "Diglossie et intelecte", in Langages, va uma situação, a avalia, faz propostas de mudança 61, 1981. 21. Lluis Aracil, Conflicte lingüistic i normalitzacio lingüistica a ou de reorganização e, eventualmente, as aplica. Utili- l'Europa nova, 1965 (versão francesa, mimeo) e 1982 (versão</p><p>34 AS POLÍTICAS NAS ORIGENS DA POLÍTICA 35 chama de substituição), ou ela recupera suas funções e militante leve ao mesmo resultado ao atuar sobre a de- seus direitos (o que ele chama de normalização). manda social para justificar uma proposta Essa abordagem deve ser situada numa análise Por exemplo, pode-se considerar que a difícil situação de tipo eletromecânico das situações que das línguas regionais como o bretão, o occitano, o basco considera o binômio línguas/sociedade como um etc., seja o resultado de uma ausência de demanda so- homeostato, ou seja, como um sistema que funciona no cial: essas línguas existem, mas não têm utilidade so- modo da auto-regulação. Aracil propunha a distinção cial e estão, por conta disso, condenadas a desaparecer. entre as "funções sociais da língua" e as "funções lin- Mas é possível que a intervenção humana (e não mais a guísticas da sociedade", podendo as relações entre es- auto-regulação homeostática) aja sobre a demanda so- ses dois grupos desembocar na substituição ou na nor- cial para justificar a oferta se dois grupos malização. No primeiro caso, quando as funções lin- reivindicam, digamos que por razões identitárias, o di- da sociedade não encontram resposta adequa- reito a suas línguas, essas línguas têm então, ipso facto, da nas funções sociais da língua, esse déficit num dos um papel e um lugar na sociedade. conjuntos cria, por "feedback positivo", um déficit das Esse deslocamento progressivo do teórico rumo funções recíprocas no outro conjunto, e essa ampliação ao militante era seguramente facilitado pela situação resulta, pela multiplicação do déficit inicial, na substi- da Catalunha que, após o retorno da democracia na tuição. No segundo caso, ao contrário, o déficit provo- Espanha, recuperava sua autonomia e dispunha de ca, por "feedback negativo", uma regulação, uma possibilidades de intervenção políticas ou legislativas. autocorreção ou um esforço compensatório entre as Assim, quando uma lei de normalização funções da sociedade e as funções sociais foi promulgada na Catalunha (Llei de Normalitzacio da língua, o que leva à normalização. Nesses aspectos, a Catalunya, 23 de abril de 1983), a pró- a forneceu à política pria noção de normalização se modificou: ela não é vinda da América do Norte um quadro teórico que lhe mais o produto da auto-regulação, mas o produto da faltava, fazendo a ligação entre as situações vontade humana, da intervenção do poder público. cas (a diglossia, por exemplo) e as situações sociais. Indiquei acima que os primeiros teóricos norte- Esse modelo eletromecânico é originalmente des- americanos da política e do planejamento critivo, explicativo. Mas a noção de normalização lin- pecavam pela falta de visão teórica; eles tendiam a ne- vai adquirir, paulatinamente, na Catalunha gligenciar o aspecto social da intervenção planejadora um sentido mais Com efeito, o feedback ne- sobre as línguas. Diante deles, os linguistas europeus, gativo que reorganiza as funções da socie- em particular os linguistas falantes de línguas domi- dade é, no plano teórico, o produto de uma auto- nadas, insistiram na existência de conflitos regulação. Mas pode-se imaginar também que a ação ticos, contribuindo notavelmente para enriquecer a</p><p>36 AS POLÍTICAS teoria. Mas sua situação os levou a misturar os assun- tos e a passar, lentamente, do teórico ao militante. Esse deslocamento tem, ao menos, o mérito de nos lembrar que na política há também política e que as intervenções na língua ou nas línguas têm um caráter CAPÍTULO 11 eminentemente social e político. Mas isso nos lembra igualmente que se as ciências raramente estão ao abri- AS TIPOLOGIAS go de contaminações ideológicas, a política e o plane- DAS SITUAÇÕES jamento não escapam à regra. No capítulo anterior, acompanhamos o nascimen- to das noções de planejamento linguístico e de política linguística. Mas o procedimento presente naqueles di- ferentes textos, tomando como ponto de partida o dia- gnóstico de um déficit de comunicação, de um "pro- blema", para chegar à concepção das soluções veis e à escolha de uma delas e, por fim, à sua aplica- ção, implicava que se dispusesse, por um lado, de meios científicos de avaliação das situações, e por outro, de meios de intervenção sobre essas situações. Como as- sinalamos, podemos entender por que essas primei- ras abordagens se preocupavam apenas com a inter- venção na língua: na época, a linguística só possuía meios para descrever a língua em si mesma, sendo incapaz de apreender seu objeto de estudo em suas relações com a sociedade e sua história. De fato, para- lelamente às primeiras preocupações de política lin- desenvolveu-se o que atualmente se chama que dará à política os meios científicos de que ela necessitava. São esses instrumen- tos que apresentaremos neste capítulo.</p><p>38 AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 39 I Ferguson e Stewart cesso na literatura científica: entre 1960 e 1990, esti- mam-se cerca de 3.000 artigos ou obras dedicadas à Paralelamente aos primeiros textos sobre o planeja- mento que, como vimos, se interessavam es- Em seguida, serão lançadas, com diferentes sencialmente pela ação sobre a língua e, por isso, não graus de sucesso, as noções de de o texto de Ferguson fizera escola, e aqui não havia por levavam em conta as situações plurilíngües (apesar de elas serem amplamente majoritárias no mundo), no iní- que interromper o paradigma. Com efeito, por que não cio dos anos 1960 apareceram tentativas de equacionar falar de "decaglossia", de "ecossiglossia" para designar as situações e a primeira delas foi, sem as situações nas quais coexistem dez ou vinte línguas? da, o artigo de Charles Ferguson sobre a De fato, tudo isso procedia de uma total incompreensão autor apresentava modelos de situações nas quais coe- daquilo que Charles Ferguson quisera fazer. Na realida- xistem duas variedades de uma mesma língua (ele deu de, sua intenção era iniciar uma série de descrições de quatro exemplos: árabe clássico / árabe dialetal, alemão- situações-tipo e esperava que outros lingüistas descre- padrão alemão grego grego demótico, vessem outras situações, a fim de elaborar uma taxonomia francês / crioulo haitiano), variedades que são utilizadas a partir da qual seriam construídos princípios descriti- em situações precisas: o que ele chamava de "variedade vos e uma teoria. alta" era utilizada nos discursos políticos, nos Ferguson apresentou uma longa explicação sobre nas mídias etc., e o que de "variedade baixa" se essa questão em um artigo posterior: "Diglossia empregava nas conversações familiares, na vida cotidia- Revisited" (South West Journal of Linguistics, vol. 10, na, na literatura popular etc. Posteriormente, Joshua n° 1, 1991). E escreveu mais precisamente: "Meus Fishman ampliou esse modelo, abandonando a idéia de objetivos eram, em ordem crescente: situações claras, relação genética entre essas duas a partir taxonomia, princípios, teorias." de então, considera-se que há diglossia cada vez que se Compreende-se melhor o que ele queria fazer manifesta uma repartição funcional de usos entre duas quando se examinam suas intervenções posteriores no línguas ou entre duas formas de uma mesma língua; as- domínio da tipologia das situações De sim há diglossia tanto entre o árabe clássico e o árabe fato, outra preocupação vem à tona: uma tentativa de dialetal como entre uma língua européia e várias línguas africanas. Esse conceito vai conquistar um enorme su- 3. Mauro Fernandez, Diglossia: a Comprehensive Bibliography 1960-1990. Amsterdam/Philadelphia: John Benjamins Publishing Co., 1993. 1. Charles Ferguson, "Diglossia", in Word, 15, 4. Abderrahmin Youssi, "La Triglossie dans la typologie 2. Joshua Fishman, "Bilingualism with and without Diglossia, in La linguistique, 19, 2, 1983. Diglossia with and without Bilingualism", in Journal of Social Issues, 5. Henri Gobbard, L'Alienation analyse tétraglossique. n° 32, 1967. Paris: Flammarion, 1976.</p><p>40 AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 41 equacionar, ou de formular, as situações inestimável material epistemológico. Aqui, a situação de diferentes países6. é particularmente interessante. De 1962 a 1964, na E o texto de Ferguson dedicado a esse problema Universidade de Washington e depois na Universida- é, quanto a isso, muito claro. Desde sua primeira fase, de de Georgetown, Charles Ferguson pediu a seus alu- autor definia seu objetivo: comparar diferentes situa- nos que descrevessem a situação sociolingüística de ções. Em seguida, propunha a distinção entre três ca- diferentes países. Cada descrição deveria ser apresen- tegorias de línguas (major languages, minor languages e tada e discutida em seminário. Depois o trabalho evo- languages of special status), cinco tipos de línguas luiu para a elaboração de um formato-tipo: as descri- (vernácula, padrão, clássica, pidgin, crioula) e sete ções deveriam ser apresentadas sob a forma de um funções (gregária, oficial, veicular, língua de ensino, resumo de uma página em inglês corrente (ou seja, religião, língua internacional, língua objeto de ensino). evitando o vocabulário Mas como o ponto de Isso lhe permitia determinada situação "em equa- partida era a vontade de comparar situações, esses ção". Ele apresentou, por exemplo, a situação do resumos eram pouco manejáveis. Assim nasceu a idéia Paraguai da seguinte maneira: das profile formulas. Restava, obviamente, elaborá-las. E, antes de tudo, que línguas considerar? A resposta 3 L = 2 Lmaj (So, Vg) + min + 1 Lspec (Cr). foi, primeiramente, intuitiva: Esta fórmula deve ser lida da seguinte maneira: Entre as línguas que deveriam ser incluídas nas algumas no Paraguai, há 3 línguas (3 L), duas línguas majori- pareciam ter uma importância claramente maior no processo de tárias (2 Lmaj), uma padronizada, oficial: o castelhano comunicação nacional, outras, uma importância menor, outras ter (So); outra vernácula, gregária: o guarani (Vg), nenhu- ainda pouca importância comunicativa direta, mas desfrutando de ma língua minoritária (0 Lmin) e uma língua especial, um status especial que lhes concedia importância suficiente para clássica, religiosa: latim (1 Lspec Cr). ser incluídas. Esses três tipos de línguas podem, de maneira cômoda Geralmente não se dá atenção suficiente à ma- e transparente, ser chamadas de major language, língua majoritária neira como emergem as proposições científicas (ou (Lmaj), minor language, língua minoritária (Lmin) e languages of mesmo as descobertas), onde se pode encontrar um special status, línguas de status especial Passou-se em seguida à formalização dos critérios 6. William Stewart, "An Outline of Linguistic Typology for que permitiam situar cada língua em uma das catego- Describing Multilingualism", in Study on the Role of Second Languages rias. Por exemplo: uma língua podia ser considerada in Asia, Africa and Latin 1962; idem, "A major language em determinado país se ela reunisse Sociolinguistic Typology for Describing National in Reading in the Sociology of Language. Haia: Mouton, 1968; Charles uma das seguintes condições: Ferguson, "National Sociolinguistic Profile Formula", in W. Bright (org.), Sociolinguistics. Haia: Mouton, 1966. 7. Charles Ferguson, 1966, p. 310.</p><p>42 AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 43 ser falada por mais de 25% da população ou Foi um vaivém entre descrições empíricas e por mais de um milhão de pessoas (o quíchua formalização que pautou a emergência do modelo de na Bolívia, por exemplo, falado por um terço da Ferguson. Esse procedimento, que vai da coleta de da- população, mas sem nenhum status oficial); dos à tentativa de estabelecer um quadro teórico é, sem ser língua oficial (o por exemplo, lín- dúvida, completamente coerente, mas nesse caso apre- gua oficial da Irlanda, mas falado apenas por senta uma séria desvantagem: até que todas as situa- 3% da população); ções tenham sido analisadas exaustivamen- ser língua de ensino em 50% das escolas se- te, o quadro será submetido a constantes revisões que, a cundárias do país (por exemplo, o inglês na depender do caso, poderão se traduzir num aprimora- Etiópia, país cuja língua oficial é o amárico e mento do modelo (a versão otimista), ou em seu onde, embora poucas pessoas falem esta questionamento (a versão pessimista). Aliás, o próprio é a língua de ensino da maioria das escolas Ferguson estava consciente das limitações do trabalho, secundárias e superiores). assinalando que ele apresentava "uma solução pouco mesmo ocorria em relação às minor languages satisfatória para um problema com o qual alguns dos e às languages of special status: o procedimento consis- meus estudantes e eu mesmo temos nos confrontado tia em definir as categorias para que as línguas já consi- há anos: como comparar nações, de uma maneira útil, deradas em diferentes situações nacionais pudessem en- de um ponto de vista e ele destacava contrar seu lugar. Em outros termos, era o saber dos também que certas informações estavam ausentes de informantes (neste caso, os estudantes que participa- suas fórmulas (diferença entre línguas indígenas e lín- ram do seminário) sobre sua comunidade guas de migrantes, sistemas gráficos utilizados, taxas que pautava a criação das categorias de línguas e os de analfabetismo etc.). critérios de classificação nessas categorias. Na Etiópia, Em 1968, Stewart retomou o problema, que já abor- por exemplo, muito provavelmente por considerarem o inglês como uma "língua majoritária", é que a ter- dara em 1962, de uma maneira ligeiramente diferente: ceira condição da definição foi a escolhida. propunha doravante levar em conta quatro atributos (pa- Mas esse tipo de informações (número de línguas dronização, autonomia, historicidade e vitalidade), cuja majoritárias, minoritárias etc.) era bastante limitado. combinação (ausência: representada pelo sinal de e a Para acrescentar dados sobre os tipos e funções das lín- presença pelo sinal de +, em relação ao atributo em ques- guas em contato, Ferguson adotou uma tipologia pro- tão) permitia definir sete tipos de línguas, segundo o es- posta por Stewart em 1962, reduzindo o número de quema explicitado no seguinte quadro: tipos de sete para cinco (ele abandonou os tipos "artifi- cial" e "marginal") e conservando as sete funções. 8. Op. cit., p. 315.</p><p>44 AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 45 Atributos Classe 6: hebraico Cr Tipos de (leia-se: um clássico religioso) Padronização Autonomia Historicidade Vitalidade língua latim Crs + (leia-se: um clássico, religioso, ensinado) + + + padrão + + + + - clássica + artifIcial Essas tentativas de equacionar as situações pluri- - + + + vernácula abrem o flanco a um certo número de críticas: + + dialeto A escolha dos atributos de Stewart nem sem- + crioula pidgin pre é evidente. Dessa maneira, dizer que o crioulo não possui o atributo "autonomia" E acrescenta mais três funções às sete propostas (porque se deve esclarecer "crioulo de base por Ferguson (provincial, capital, literária) e divide as lexical francesa, inglesa, portuguesa" etc.) línguas de um país em seis classes, de acordo com a provém, em parte, da ideologia: por que se- porcentagem da população falante da língua: ria necessário especificar crioulo francês para Classe 1: língua falada por mais de 75% da população uma língua falada nas ilhas Seychelles, por Classe 2: língua falada por mais de 50% da população exemplo, e não língua para o fran- Classe 3: língua falada por mais de 25% da população cês ou língua para o Não Classe 4: língua falada por mais de 10% da população haveria por trás dessa apresentação a recusa Classe 5: língua falada por mais de 5% da população em considerar os crioulos como línguas ple- Classe 6: língua falada por menos de 5% da população nas e uma maneira de abordar as línguas do Isto lhe permite apresentar a situação das ilhas ponto de vista do senso comum em detrimen- Curaçao (Antilhas Holandesas) da seguinte maneira: to da perspectiva científica? Certas classificações envelhecem rapidamen- Classe 1: papiamento K(d:A = espanhol) te (o crioulo haitiano seria, por exemplo, con- (leia-se: um crioulo em situação com espa- siderado atualmente como padronizado e nhol, variedade alta) muitas línguas africanas teriam, em vinte Classe 4: holandês So (leia-se: um padrão oficial) anos, mudado de classificação), o que suscita Sigs o problema da dimensão histórica dessas fór- (leia-se: um padrão internacional, gregário, língua ensinada) mulas unicamente sincrônicas. Classe 5: espanhol Sisl (d:L = papiamento) Certas funções não são avaliadas de maneira (leia-se: um padrão internacional, ensinado, literário, em precisa. Assim, existem línguas "oficialmente diglossia com o papiamento) oficiais", como o gaélico na Irlanda, cujo status</p><p>AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 47 real é nulo, e línguas sem funções oficiais que 4 - sem alternativa maior no país para a podem desempenhar entretanto um papel im- mesma função portante, como o francês na Ilha Maurício.. 5 aceitável como símbolo de autentici- dade 6 - ligada a um passado glorioso II As propostas de Fasold de grupo 1 utilizada por todos na conversação cotidiana Essa abordagem ilustrada pelos trabalhos de 2 considerada pelos falantes como Ferguson e Stewart foi deixada de lado durante muito unificando-os e distinguindo-os dos demais tempo até que Ralph Fasold a retomasse, em 19849. veicular 1 considerada como "adquirível" por, Primeiro, ele resumiu os textos de Ferguson e de Stewart pelo menos, uma minoria do país que acabamos de citar; em seguida, retomou o proble- internacional 1 presente na lista das "línguas ma de um ponto de vista ligeiramente diferente: internacionais potenciais" por um lado, ele destaca uma certa previsibilida- escolar 1 padronização igual ou maior do que a língua dos alunos de das funções assumidas pelas línguas, não é qual- 1 clássica quer língua que pode assumir qualquer função; religiosa por outro lado, ele raciocina unicamente em Esses atributos, cuja presença garante que deter- termos de atributos e de funções, de modo que minada língua possa preencher determinada função, uma língua deve possuir certos atributos para criam, no entanto, alguns problemas; particularmen- preencher determinada função. Seu ponto de te os dois seguintes: vista é resumido no seguinte quadro: atributo "clássico" necessário para que uma língua possa preencher a função religiosa provém de Atributos requeridos uma certa concepção de o que dizer, por exem- oficial 1 padronização plo, da língua do vodu? Ou das línguas africanas de 2 utilizada corretamente por certo iniciação? É pouco provável que o autor as considere número de cidadãos escolarizados como línguas clássicas, o que demonstra uma concep- nacionalista 1 símbolo de identidade nacional para ção limitativa da uma parte importante da população 2 amplamente utilizada na comunica- A lista das "línguas internacionais poten- ção cotidiana ciais" de Fasold é instrutiva: ele cita, de fato, o in- 3 - ampla e falada no país glês, o espanhol, o russo, o alemão, "perhaps Mandarin Chinese and maybe one or two 9. Ralph Fasold, The Sociolinguistics of Society. London: Blackwell, 1984. 10. Op. cit., p. 76.</p><p>48 AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 49 ("talvez mandarim e quiçá mais uma ou duas lín- (+/- significa que o atributo é possuído unica- guas mais"), demonstrando assim grande cegueira mente por uma parte da população: + para os falan- quanto a línguas como o árabe, o suaíli, o quíchua, o tes do híndi, para os outros). bambara, malaio etc., faladas em vários países e, Essa apresentação nos levaria a concluir que o híndi portanto, no sentido próprio do termo internacionais. tem poucas chances de chegar a preencher a função nacio- Tem-se aqui a impressão de que Fasold considera como nalista na Índia... Percebe-se o interesse, se essa aborda- internacionais apenas as línguas admitidas como lín- gem fosse mais bem trabalhada, de estabelecer fichas guas de trabalho na ONU ou na em vez de para todas as línguas de um país e para todas as funções dar uma definição unívoca da noção de língua inter- potenciais dessas línguas. Mas temos a impressão de que, nacional, que lhe permitiria classificar sem ambi- após as intervenções de Fasold no debate, essa vertente essa ou aquela língua nessa categoria, ele de pesquisa foi mais uma vez abandonada. sanciona o resultado de uma relação de forças, de um momento da história. No entanto, a idéia de cruzamento entre atributo III A grade de Chaudenson e função era interessante, e a previsibilidade, assim Na década de 1990, Robert Chaudenson tentou postulada, poderia ter encontrado uma solução no elaborar um instrumento de medida e de comparação domínio do planejamento Vejamos, por do status e do corpus da língua francesa nos países da exemplo, a apresentação de Fasold da situação do Sua abordagem consistia em situar os híndi, ao questionar-se sobre a possibilidade de esta diferentes países analisados a partir das funções (ou língua vir a ocupar a função "nacionalista" na Índia: status) e dos usos (ou corpus) de uma língua (no caso, o mas pode-se, como destaca o autor, seguir o Unidade sociopolítica: Índia mesmo procedimento para qualquer língua: Função: nacionalista espanhol etc.); esses países aparecem representados Língua: híndi por pontos em um gráfico bidimensional. Atributos requeridos Atributos possuídos É claro que o problema aqui é saber como medir o status (considerado por Chaudenson num sentido 1. símbolo de identidade nacional +/- 2. largamente utilizada no cotidiano clássico) e o corpus (definido por ele como o volume de +/- 3. ampla e falada no país produção realizado na língua e a natureza +/- 4. sem alternativa maior no país 5. aceitável como símbolo de autenticidade 11. Robert Chaudenson, La représentations, réalités, + 6. ligada a um passado glorioso perspectives. Aix-en-Provence: Institut d'études créoles et +/- francophones, 1991.</p><p>50 AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 51 da competência dos falantes). O autor pro- interesse dessa abordagem consiste, evidente- pôs um modo de cotação complexo, levando em conta mente, no fato de que ela permite refletir sobre a situa- as seguintes entradas (nos reportaremos a seu texto ção respectiva dos diferentes países no espaço para os valores numéricos atribuídos a cada entrada): francófono, sobre os reagrupamentos que ela revela- A. Status ria no gráfico etc. Mas o valor de um gráfico assim é, 1. Oficialidade sobretudo, didático, porque ele visualiza os resulta- 2. Usos "institucionalizados" dos de uma análise, permite apresentar o conhecimento 3. Educação e não adquiri-lo: conhecimento que temos na parte 4. Meios de comunicação de massa superior da grade se encontra na parte inferior, mani- 5. Setor secundário e terciário privado festado de maneira diferente... B. Corpus Outra utilização possível dessa grade consiste em a) apropriação considerar as línguas em relação a um país e não mais b) vernacularidade / vernacularização versus um país em relação a uma língua, como no trabalho de veicularidade / veicularização Fasold. Para ilustrar isso, considerarei cada língua sob c) os tipos de competências três pontos de vista: d) produção e exposição lingüísticas seu grau de uso, isto é, a porcentagem de falan- Vejamos o resultado dessa avaliação aplicada em tes no país considerado corpus de Chaudenson); três países: Ruanda, Madagascar e Ilha Maurício: seu grau de reconhecimento, isto é, o grau de ofi- 100 cialidade da língua (o status de Chaudenson); 90 seu grau de funcionalidade, isto é, as possibili- 80 dades que a língua tem de preencher as fun- 70 Ruanda ções destinadas a ela (que pode se aproximar 60 Madagascar da relação atributos/funções de Fasold). 50 Apenas os dois primeiros termos (grau de uso e grau 40 Maurício de reconhecimento) serão levados em consideração no grá- 30 fico. Só depois, ao nos questionarmos, a partir do gráfico, 20 sobre estratégias de planejamento linguístico é que o pro- 10 blema do grau de funcionalidade será levado em conta. 0 Por enquanto, o mais simples é ilustrar este ponto de vista 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 com dois exemplos: o do Marrocos e o do Mali. Acompa- Corpus nhei por alto o modo de cálculo de Chaudenson no que diz Situação em relação ao francês respeito ao "status" (o grau do reconhecimento), mas sim-</p><p>52 AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 53 plifiquei o procedimento no que diz respeito ao "corpus" (o tamasheq (estou citando apenas as quatro principais grau de uso), levando simplesmente em conta uma avalia- guas do país, mas todas as outras poderiam constar neste ção (que me é própria, pois não dispomos de nenhum gráfico) têm um status e um corpus de igual valor, porém número oficial sobre esse assunto) da porcentagem da fraco; o bambara tem um corpus muito mais importante população falante das diferentes línguas em contato. que seu status e o francês conhece a situação inversa: Consideremos o gráfico do Marrocos: três línguas coexistem no país com status diferentes o árabe, o 90 francês berbere e o e podemos ver que elas aparecem 80 em posições extremamente contrastantes no quadro. 70 60 árabe tem um status e um corpus de valor sensivelmen- 50 te igual (ele é falado por cerca de da população e 40 tem o status de língua oficial), o francês tem um status 30 songhai mais importante que seu corpus, e berbere está em 20 peul bambara situação inversa (falado por aproximadamente 10 tamasheq 0 da população, ele não possui nenhum status oficial). 0 10 20 30 40 50 60 70 100 As línguas do Mali 90 80 árabe Qual pode ser a utilidade destes gráficos? Eles 70 nos permitem fazer uma leitura imediata da relação 60 entre status e corpus para cada uma das línguas e as- 50 sim avaliar a situação lingüística do país. Se conside- 40 30 rarmos, de fato, que de maneira geral é desejável que 20 uma língua possua um status correspondente a seu 10 berbere corpus, temos três situações teóricas: 0 1. a das línguas que se encontram na diagonal (ou 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 seja, as línguas para as quais status = corpus). É Corpus claro que elas podem se situar mais no alto ou As línguas do Marrocos menos no alto nessa diagonal, dependendo de sua condição de língua de unificação nacional (corpus Quanto ao Mali, a situação é igualmente contras- próximo do valor máximo: o árabe no Marrocos) tante, mas de maneira diferente: songhai, o peul e o ou regional (o peul e o songhai no Mali);</p><p>54 AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 55 2. a das línguas que se encontram acima da dia- gonal (como o francês no Mali e, de maneira uso que pode ser estimado em torno de 10% de falantes, enquanto o sango (sango 1960) menos clara, no Marrocos) e que possuem um tinha um grau de reconhecimento nulo e um status superestimado; grau de uso que pode ser estimado em aproxi- 3. a das línguas que se encontram abaixo da madamente 80% dos falantes. diagonal (como o berbere no Marrocos) e que No ano 2000, se a política pretendida tiver têm, portanto, um status insuficiente. efeito, pode-se estimar o francês com um grau Tal visualização da situação de um país de uso em ascendência devido ao progresso pode assim: da escolarização (hipoteticamente em 20%, 1. servir de base para a reflexão sobre o planeja- pela necessidade da demonstração), o sango mento percebem-se de imediato as con- igualmente em progresso (90%), com as duas tradições ou coerência entre os graus de uso e de línguas dividindo entre si o status (50/50); o reconhecimento das línguas em contato; que possibilitaria o seguinte gráfico: 2. permitir representar, no plano diacrônico, a evolução esperada de uma situação após a in- 100 90 tervenção planejadora. 1960 80 Em outros termos, temos aqui um instrumento que permite apresentar um diagnóstico e formular objetivos. 70 60 Utilizando um exemplo extremamente teórico, o 50 40 2000 sango 2000 da República Centro-Africana, que adotou uma "lei 30 fixando a política de reorganização da Re- 20 pública", segundo a qual o francês e o sango passaram 10 sango 1960 0 a ser as duas línguas oficiais do país. É possível avaliar 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 a situação dessas línguas, em termos de grau de uso e Corpus de grau de reconhecimento, no momento da indepen- dência do país e após a intervenção dessa nova República Centro-africana ca No momento da independência, o francês (no Percebe-se que, nesta hipótese, o francês desceria gráfico: 1960) tinha um grau de reco- e o sango subiria para a linha diagonal, mas que, ain- nhecimento máximo, única língua de admi- da assim, a situação não corresponderia ao desejável nistração, de escolarização etc. e um grau de (corpus = status). Se o corpus do francês aumentasse, o lugar da língua se aproximaria da diagonal, mas para</p><p>56 AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 57 que o sango fizesse o mesmo deslocamento seria ne- ção da situação inúmeras possibilidades cessário aumentar o seu status (em detrimento do de política linguística (aumentar grau de reconheci- A avaliação termina aqui e mento de uma, duas, inúmeras línguas, por exemplo), entramos no domínio das escolhas da República Cen- um dos critérios de escolha a ser levado em conta po- tro-Africana: dar, por exemplo, ao sango um status deria ser a relação entre custo da operação e o benefí- semelhante a seu corpus implicaria tirar do francês cio social decorrente. seu status de língua oficial e isso levanta outros pro- Nos exemplos mencionados acima, fiz referên- blemas que não são da alçada do cia, para ilustrar a utilização desse gráfico no Contudo, e isto conduz agora ao grau de funcio- mínio da política a uma ação sobre o nalidade, se diante de tal gráfico um país decidisse intervir sobre o grau de reconhecimento de uma lín- grau de reconhecimento das línguas. Mas evidente- mente o contrário também é possível, e pode-se as- gua, para tentar aproximá-la de seu grau de uso, sur- sim tomar a decisão de intervir no grau de uso das ge a questão de saber se tal língua está equipada para preencher essa função. Como delimitar essa noção de línguas. Os grupos minoritários que lutam pela so- grau de funcionalidade? Nesse caso, o melhor é partir brevivência da sua língua, criando, por exemplo, da idéia de Fasold de que certas funções implicam cer- escolas privadas nas quais ela seja ensinada, empe- tos atributos. Mas Fasold expunha o problema em ter- nhando-se em transmiti-la às crianças etc., não fa- mos tal língua possui ou não esse ou aquele zem nada além de tentar agir sobre grau de uso atributo e portanto pode ou não preencher determina- dessa língua. Isso significa que temos dois estágios da função. Meu ponto de vista é muito mais dinâmico sucessivos de reflexão: a escolha de um tipo de ação e pode ser formulado da seguinte maneira: se quere- (sobre o reconhecimento ou sobre uso) e a deter- mos que tal língua preencha tal função, o que é preci- minação do equipamento necessário à língua no fazer então para equipá-la? Utilizando um exemplo domínio da funcionalidade. Entretanto, mais uma simplista: é evidente que para introduzir uma língua vez, isso já não está no âmbito da análise sociolin- no sistema de ensino (ou seja, transformá-la em lín- mas no das decisões políticas. gua de é necessário primeiramente dar- Percebe-se que essas proposições são largamente lhe uma transcrição, alfabética ou outra, dar-lhe uma programáticas e que convém agora seguir a reflexão e norma, forjar uma terminologia gramatical etc. E isso a experimentação com base nestes dois pontos: nos conduz a reflexões eminentemente práticas sobre Como medir, de maneira unívoca, o grau de uso a relação qualidade/preço desse equipamento ou so- e o grau de reconhecimento de uma língua? bre a relação custo/benefício. Se temos, por exemplo, Como determinar, de maneira precisa, o que diante do que eu chamaria de um "gráfico de avalia- constitui a funcionalidade de uma língua?</p><p>58 AS POLÍTICAS AS TIPOLOGIAS DAS SITUAÇÕES 59 Conclusão construídos, corremos o risco de sacrificar a precisão De modo mais geral, os modelos tipológicos que em prol da elegância. A grade de Chaudenson, por apresentamos neste capítulo estão longe de esgotar o exemplo, integra com facilidade os fatores quantitati- que conviria saber sobre uma situação para pensar vos e jurídicos, mas não deixa nenhum espaço aos fa- uma eventual política De fato, para elabo- tores simbólicos ou conflituais. As propostas de Fasold rar um modelo capaz de elucidar a complexidade das integram os dados funcionais e, em certa medida, sim- situações, seria conveniente considerarmos diferentes bólicos, mas não dão conta do fator diacrônico. De fatores, dos quais a lista seguinte nos dá uma idéia: fato, todas as propostas de Ferguson, Stewart e Fasold 1. Dados quantitativos: quantas línguas e quantos apresentam uma visão estática das situações que, no falantes para cada uma delas. entanto, estão em evolução perpétua, tanto no plano 2. Dados jurídicos: status das línguas em conta- estatístico (número de falantes, índice de transmissão to, reconhecidas ou não pela Constituição, etc.) quanto no plano simbólico. Ora, a avaliação prévia utilizadas ou não na mídia, no ensino etc. à determinação da política deve necessaria- 3. Dados funcionais: línguas veiculares (e sua mente levar em consideração as evoluções em curso. taxa de veicularidade), línguas transnacionais Por isso é bem provável que surjam novos modelos, mais (faladas em diferentes países fronteiriços); lín- completos, mais eficazes, passando, talvez, por outra guas gregárias, línguas de uso religioso etc. abordagem. Pode-se, por exemplo, imaginar um modelo 4. Dados diacrônicos: expansão das línguas, taxa informatizado que, alimentado regularmente com no- de transmissão de uma geração a outra etc. vos dados, forneceria "on line" uma avaliação dinâmi- 5. Dados prestígio das línguas em ca das situações. contato, sentimentos linguísticos, estratégias Vê-se que a reflexão sobre as situações de plurilin- de comunicação etc. güismo nos remete à língua de maneira muito mais 6. Dados conflituais: tipos de relações entre as rica. Não se trata mais, nesse caso, de agir sobre o línguas, complementaridade funcional ou con- "corpus" para lutar contra empréstimos ou para mo- corrência etc. dernizar a língua, por exemplo, mas para torná-la Podemos perceber que se é fácil, por um lado, me- funcional, a fim de que possa desempenhar o papel dir ou delimitar os quatro primeiros tipos de fatores que se espera que ela desempenhe do ponto de vista desde que, evidentemente, sejam feitas as pesquisas ne- do status. E essa passagem do ponto de vista do corpus cessárias, por outro, os dois últimos são mais comple- ao do status, mesmo que essa dicotomia seja muitas XOS e, sobretudo, difíceis de introduzir em um modelo vezes difícil de ser mantida (corpus e status estão Mas, pelo de apresentar esquemas bem muito imbricados, grau de equipa- mento de uma língua, por exemplo, estando em rela-</p><p>60 AS POLÍTICAS ção direta com sua função social), é um da evolução paralela da ciência linguística: a política e o planejamento são tributários da teoria na qual foram concebidos. Mas qualquer que seja o modelo utilizado, ainda subsiste o problema de saber de quais meios dispomos para intervir sobre a língua e sobre as línguas. São esses meios que apresentaremos no capítulo seguinte.</p>