Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

details

Libere esse material sem enrolação!

Craque NetoCraque Neto

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

<p>Norberto BOBBIO Capítulo 3 Política e moral Organizado por Michelangelo Bovero I. CONCEITO DE POLÍTICA Teoria Geral significado clássico e moderno de política Derivado do adjetivo de pólis significando tudo aquilo se refere à cidade, e portanto ao cidadão, civil, público e também da que e social, o termo "política" foi transmitido por influência da grande obra de intitulada Política, que deve ser considera- primeiro tratado sobre a natureza, as funções, as divisões do Esta- da o e sobre as várias formas de governo, predominantemente no signifi- cado do, de arte ou ciência do governo, isto é, de reflexão, não importa se intenções meramente descritivas ou também prescritivas (mas os dois com aspectos são de difícil distinção), sobre as coisas da cidade. Ocor- assim, desde a origem, uma transposição de significado do conjunto re, de coisas qualificadas em um certo modo (ou seja, com um adjetivo qualificativo como "político") para a forma de saber mais ou menos não organizado sobre esse mesmo conjunto de coisas: uma transposição A Filosofia Política e diferente daquela que deu origem a termos tais como física, estética, economia, ética e, por último, cibernética. Durante séculos, o termo obras as Lições dos dedicadas ao estudo daquela esfera de atividade humana que de algum "política" foi empregado predominantemente para indicar modo faz referência às coisas do Estado: Politica methodice digesta, só Clássicos dar um célebre exemplo, é o título da obra através da qual Johannes Estado Althusius para (1603) expôs uma teoria da "consociation publica" (o várias no sentido moderno da palavra), compreendendo em seu seio 159 formas de "consociationes" menores. Digitalizada com CamScanner Digitalizada com CamScanner</p><p>Na era moderna, o termo perdeu o seu significado tendo meios que permitem conseguir os efeitos sido cia do Estado", "doutrina do Estado", "ciência política", indicar "filosofia poli- paulatinamente substituído por outras expressões tais como dos desses meios domínio sobre outros homens (além do do um a natureza), poder é definido ora como uma relação entre domínio dois tica" etc., para enfim ser habitualmente empregado modo, para como a sujeitos, sobre na qual um ao outro a própria dade conjunto de atividades que têm de algum termo malgrado mas como domínio sobre de referência, ou o a pólis, isto é, o Estado, Dessa atividade a pólis ora é o mens não geralmente fim em si mesmo, mas meio para se obter os "al- ho- donde pertencem à esfera da política atos como de comandar guma ou, mais exatamente, "os efeitos desejados" de modo sujeito, algo, com efeitos vinculantes para todos os membros de distinto do domínio sobre a natureza, a de poder um (ou determinado proibir) grupo social, o exercício de um domínio exclusivo não de relação entre sujeitos deve ser integrada à definição como sobre determinado território, o de legislar com normas válidas erga um de extrair e distribuir recursos de um setor para outro da sobre como os outros homens e domínio sobre a natureza) que tipo a posse dos meios (dos quais os dois principais são do domínio poder sociedade omnes, e assim por diante; ora objeto, donde pertencem à esfera da obter, exatamente, "alguma vantagem" ou os "efeitos desejados" politica ações tais como conquistar, manter, defender, ampliar, refor- poder político pertence à categoria do poder de um homem sobre abater, o poder estatal etc. Prova disso é que obras que homem (não do poder do homem sobre a Esta continuam çar, tradição do tratado aristotélico recebem por título, no poder tro é expressa de mil maneiras, nas quais se reconhecem expressões relação de XIX, a Filosofia do direito (Hegel, da ciência do típicas da linguagem política: como relação entre governantes e Estado século von Stein, 1852-56),elementos de ciência política (Mos- nados, entre soberano e súditos, entre Estado e cidadãos, entre coman- gover- 1896), (Lorenz Doutrina geral do Estado(Georg Jellinek, 1900). Conserva do e obediência etc. ca, o significado tradicional a pequena obra de Croce, Elementi Há várias formas de poder do homem sobre O poder di em politica parte (Elementos de política) [1925], na qual "política" conserva o político é apenas uma Na tradição clássica, que remonta especi- significado de reflexão sobre a atividade política, e, portanto, está no ficamente a Aristóteles, eram consideradas sobretudo três formas de lugar de "elementos de filosofia política". Prova ulterior é aquela que poder: poder despótico o/poder político Os se pode inferir do costume, que se impôs em todas as línguas mais rios de diferenciação foram, nos diferentes Em difundidas, de de história das doutrinas, ou das idéias políticas, vislumbra-se uma distinção com base no interesse daquele ou também, de modo mais geral, do pensamento político, a história em favor do qual é exercido poder: poder paterno é exercido no que, se houvesse permanecido invariado o significado que nos chegou interesse dos filhos, no interesse do senhor, político, no dos clássicos, deveria ser denominada história da política, por analogia interesse de quem governa e de quem é governado somente com outras expressões tais como história da física, ou da estética, ou da nas formas corretas de governo, uma vez que as formas corruptas são ética: costume também acatado por Croce, o qual, na obra citada, intitula diferenciadas por sua vez exatamente por ser poder exercido no inte- Per la storia della filosofia della politica [Pela história da filosofia da resse do governante). Mas critério que acabou afinal prevalecendo política] o capítulo dedicado a um breve excurso histórico das doutri- tratadística dos jusnaturalistas foi aquele do fundamento ou do na nas políticas modernas. pio de legitimação (que se encontra formulado com clareza no capítulo XV do Segundo tratado sobre governo civil, de fundamento do poder paterno é a natureza, do poder despótico, castigo por um A tipologia clássica das formas de poder delito cometido (a única hipótese neste caso é aquela do prisioneiro de guerra que perdeu uma guerra injusta), do poder civil, A O conceito de política, entendida como forma de atividade ou práxis esses três motivos de justificação do poder correspondem as três ex- humana, está estreitamente ligado ao conceito de poder. O poder foi pressões clássicas do fundamento da obrigação: ex ex delicto, definido tradicionalmente como "consistente nos meios para se obter alguma vantagem" ou, de modo análogo, como conjunto analisi RUSSELL A New Social Analysis Allen & Londres 1938 polere Una nuova Milão, 1976/4) 161 160 1. Cf. TH. HOBBES, cap. Digitalizada com CamScanner Digitalizada com CamScanner</p><p>o ex caráter específico do poder político. De fato, que o poder político contractu. Nenhum dos dois critérios, contudo, permite individuar sociedades evoluídas, porque através deles, e dos valores que eles ou dos conhecimentos que eles emanam, cumpre-se proces- di- caracterize, em comparação com paterno e por se de socialização necessário à coesão e integração do grupo./C poder sobre para o consenso, é um caráter distintivo não de qualquer governo os interesses dos governantes e dos governados ou por se fundar voltar funda-se sobre a posse dos instrumentos através dos quais no sentido mais estrito da Todas as três formas de po- se exerce a força física (armas de todo tipo e grau): é poder do bom governo: não é uma conotação da relação política mas apenas tal, mas da relação política correspondente ao governo como en- instituem e mantêm uma sociedade de desiguais, isto é, dividida deveria quanto ser. Na verdade, os escritores políticos sempre reconheceram der ricos e pobres, com base no primeiro, entre sapientes e ignoran- paternalistas quanto governos despóticos, ou vernos tanto governos nos quais a relação entre soberano e súditos é aproximada ora go- da entre com base no segundo, entre fortes e fracos, com base ao terceiro: relação entre pai e filhos, ora da relação entre senhor e escravos, genericamente, ies, entre superiores e Enquanto poder cujo meio específico é a força entenda-se, como quais não são de fato menos governos do que aqueles que agem pelo bem público e se fundam sobre o consenso. veremos adiante, uso exclusivo da força que é meio desde sem- mais eficaz para condicionar os comportamentos, poder político pre em qualquer sociedade de desiguais poder supremo, isto é, po- A tipologia moderna das formas de poder e der ao qual todos os outros estão de algum modo subordinados: poder Ao objetivo de encontrar o elemento específico do poder coativo de fato é aquele ao qual recorre qualquer grupo social (a classe mais conveniente o critério de classificação das várias formas de dominante de qualquer grupo social), em última instância, ou como parece poder se funda sobre os meios dos quais se serve o sujeito ativo da extrema ratio, para se defender dos ataques externos ou para impedir, relação que para condicionar o comportamento do sujeito passivo. Com com a desagregação do grupo, a própria eliminação. Nas relações entre membros de um mesmo grupo social, não obstante o estado de su- base neste critério, podem-se distinguir três grandes tipos no âmbito do conceito latíssimo de poder. Esses tipos são: poder econômico, bordinação que a expropriação dos meios de produção cria nos expro- priados em relação aos expropriadores, não obstante a adesão passiva poder de certos bens necessários, ou assim considerados em uma situa- e o poder político. O aquele que se vale da aos valores de grupo por parte da maioria dos destinatários das mensa- gens ideológicas emitidas pela classe dominante, apenas emprego da ção posse de escassez, para induzir aqueles que não os possuem a ter uma força física serve, ainda que apenas em casos extremos, para impedir a certa conduta, consistente principalmente na execução de um certo insubordinação e a desobediência dos submetidos, como a experiência de trabalho. Na posse dos meios de produção reside uma enorme histórica prova com abundantes exemplos. Nas relações entre grupos fonte tipo de poder por parte daqueles que os possuem em relação àqueles sociais distintos, não obstante a importância que possam ter a ameaça não os possuem: o poder do chefe de uma empresa deriva da pos- ou a execução de sanções econômicas para induzir grupo adversário a sibilidade que que a posse ou a disponibilidade dos meios de produção lhe desistir de um certo comportamento (nas relações intergrupo tem menos dá de obter a venda da força-trabalho em troca de um salário. Em geral, relevância condicionamento de natureza ideológica), instrumento qualquer um que possua abundânca de bens é capaz de condicionar o decisivo para impor a própria vontade é uso da força, a guerra. comportamento de quem se encontra em condições de penúria, atra- Essa distinção entre os principais tipos de poder social pode ser vés da promessa e atribuição de compensações. O poder ideológico novamente encontrada, embora expressa de diferentes maneiras, na maioria das teorias sociais contemporâneas, nas quais sistema social funda-se sobre a influência que as idéias formuladas de um determina- em seu todo aparece direta ou indiretamente articulado em três do modo, emitidas em determinadas circunstâncias, por uma pessoa subsistemas principais, que são a organização das forças produtivas, a investida de uma determinada autoridade, difundidas através de deter- organização do consenso, a organização da coação. Também a teoria minados procedimentos, têm sobre a conduta dos consociados: desse marxiana pode ser interpretada do seguinte modo: a base real, ou es- tipo de condicionamento nasce a importância social em cada grupo or- trutura, compreende sistema econômico; a superestrutura, cindindo- ganizado daqueles que sabem, dos sapientes, sejam eles os sacerdotes das se em dois momentos distintos, compreende sistema ideológico e o 163 162 das sociedades arcaicas, sejam eles os intelectuais ou os cientistas Digitalizada com CamScanner Digitalizada com CamScanner</p><p>sistema mais propriamente jurídico-político. Gramsci distingue mente, na esfera superestrutural, momento do consenso ocorre quando os indivíduos renunciam ao direito de chama de sociedade civil) e o momento do domínio (ao qual (que ele força de uma que os torna iguais no estado de natureza usar cada qual a sociedade política ou Estado). Durante séculos os escritores nas mãos único única pessoa ou de um único para depositá-lo distinguiram o poder espiritual (aquele que hoje de diante será abstrata o autorizado a usar a força corpo interesse que de agora em lógico) do poder temporal, e sempre interpretaram poder temporal de adquire profundidade histórica no na Esta como constituído da união do dominium (que hoje chamariamos de Marx e Engels, segundo a qual as instituições teoria do Estado poder econômico) e do imperium (ao que hoje poder de sociedade dividida classe em classes antagônicas têm por políticas em uma propriamente político). Tanto na dicotomia tradicional (poder mais permitir que a dominante mantenha próprio principal função tual e poder temporal) quanto na dicotomia marxiana (estrutura espiri. que não pode ser dado antagonismo de domínio, classe, objetivo perestrutura) encontramos as três formas de poder, sempre que se e diante a organização cada e eficaz da força monopolizada senão me- é terprete corretamente o segundo termo, em ambos os casos, como por isso que Estado é, e não pode deixar de ditadura). (e do composto de dois momentos. A diferença está no fato de que Neste sentido, tornou-se já clássica a definição de Max uma Weber: "Por teoria tradicional o momento principal é ideológico, no sentido de na Estado deve-se entender uma empresa institucional de caráter político que o poder econômico-político é concebido como dependente direta na qual e na medida em que o aparato administrativo leva adiante ou indiretamente do poder espiritual, enquanto na teoria marxiana o com sucesso uma a pretensão de monopólio da coerção física legítima, momento principal é o poder econômico, no sentido de que o poder tendo em vista aplicação das Esta definição já se tor- ideológico e o poder político refletem mais ou menos imediatamente a nou quase lugar-comum na ciência política Em dos estrutura das relações de produção. dois manuais de ciência política mais G. A. Almond um e G. B. Powell escrevem: "Concordamos com Max Weber quanto ao fato de que a força física legítima é fio condutor da ação do sistema político, O poder político aquilo que lhe confere a sua particular qualidade e importância e a sua Que a possibilidade de recorrer à força seja elemento que distin- coerência como sistema. As autoridades políticas, e apenas elas, têm o gue o poder político das outras formas de poder não significa que o direito predominantemente aceito de usar a coerção e de exigir obe- poder político se resuma ao uso da força: o uso da força é uma condição diência com base nela (...). Quando falamos de sistema político, incluí- necessária, mas não suficiente para a existência do poder político. Nem mos todas as interações relativas ao uso ou à ameaça do uso da coerção todo grupo social com condições de usar, até mesmo com certa conti- física legítima". A supremacia da força física como instrumento de po- nuidade, a força (uma associação de delinqüentes, um bando de pira- der sobre todas as outras formas de poder (entre as quais as duas princi- tas, um grupo subversivo etc.) exerce um poder político. O que carac- pais, além da força física, são o domínio sobre os bens, que dá lugar ao teriza o poder político é a exclusividade do uso da força em relação a poder e domínio sobre as idéias, que dá lugar ao poder todos os grupos que agem em um determinado contexto social, ex- ideológico) pode ser demonstrada se considerarmos que, por mais que clusividade que é o resultado de um processo que se em na maioria dos Estados históricos monopólio do poder coativo tenha toda sociedade organizada, na direção da monopolização da posse e buscado e encontrado a própria sustentação na imposição das idéias ("as do uso dos meios com os quais é possível exercer a coação física. Esse idéias dominantes". segundo conhecida frase de Marx "são as idéias da processo de monopolização caminha pari passu com o processo de classe dominante"), dos deuses pátrios à religião civil, do Estado con- criminalização e penalização de todos os atos de violência que não fo- rem cumpridos por pessoas autorizadas pelos detentores e beneficiários 3. Wirtschaft und Gesellschaft, organizado por J. vol. desse monopólio. 29 (ed. it. Economia e organizado por Edizioni di 2 vols. nova ed. Na hipótese hobbesiana, que está no fundamento da teoria moder- em 5 vol. 53) G. G. B. POWELL Comparative Politics A Developmental Approach Little Brown na do Estado, a passagem do estado de natureza para o Estado civil ou 1966 (ed. Politica il Mulino, p. 55. uma nova modificada Comparative System Process and Policy, Brown & Boston 1978 (ed. Politica comparata 164 da anarquia para a arquia, do estado apolítico para Estado político processi e politiche, il Mulino, 1988. A passagem corresponde citada, em Diversa encontra-se na p. 165 Digitalizada com CamScanner Digitalizada com CamScanner</p><p>atividades econômicas principais, há contudo grupos políticos organiza das fessional à religião de Estado, e na concentração e direcionamento fim da política consentir na desmonopolização do poder dos que puderam econômico (disso é exemplo o Estado qual Uma se serve, definir vez individuado perdem a política força elemento as tradicionais específico definições da política no meio do do racterizado poder pela liberdade do dissenso, embora dentro de certos limites tentam mediante o fim que relação ao fim da política. ou os fins se poder político é, exatamente em razão coisa do que se pode dizer é que, Com a única que ela persegue. e pela pluralidade dos centros tenha até de poder agora econômico). podido consentir Mas não na há grupo social nopolização organizado do poder que coativo, evento que significaria nada menos que poder supremo em um determinado monopólio da força, o fim do Estado, e que, enquanto tal, constituiria um verdadeiro salto qua- ser perseguidos por obra dos políticos grupo são os fins considerados os fins que vierem a litativo para fora da história, no reino sem tempo da utopia. as circunstâncias preeminentes para um dado grupo social segundo Algumas características habitualmente atribuídas ao poder político classe dominante daquele grupo social): para dar alguns (ou para a e que o diferenciam de qualquer outra forma de poder são conse- tempos de lutas sociais e civis, a unidade do Estado, a exemplos, em direta da monopolização da força no âmbito de um a ordem pública etc.; em tempos de paz interna e externa, a paz, a prosperidade ou até mesmo a potência; em tempos de opressão do território em universalidade relação a um determinado grupo Por social. exclusividade São elas: a parte de um governo a conquista dos direitos civis e por a tende-se tendência que os detentores do poder político manifestam cos; em tempos de dependência de uma potência estrangeira, políti- inde- de não permitir, a no seu âmbito de domínio, a formação de grupos ar- pendência nacional. Isso significa que não há fins da política a sem- pre estabelecidos, e muito menos um fim que compreenda para todos mados independentes, e de subjugar, ou desbaratar, aqueles que outros e possa ser considerado fim da política: os fins da política são os se formando, além de manter sob vigilância as infiltrações, as tantos quantas forem as metas a que um grupo organizado se cias ou as agressões de grupos políticos externos. Esta característica segundo os tempos e as circunstâncias Esta insistência no meio mais distingue o grupo político organizado da "societas" de "latrones" (o do que no fim corresponde de resto à communis opinio dos teóricos do "latrocinium" do qual falava santo Agostinho). Por universalidade en- Estado, os quais excluem fim dos chamados elementos constitutivos tende-se a capacidade que têm os detentores do poder político, e ape- do Estado. Recorramos uma vez mais a Max Weber: "Não é possível nas eles, de tomar decisões legítimas e efetivamente operantes para definir um grupo político e tampouco Estado indicando o obje- toda a comunidade com relação à distribuição e destinação dos recur- tivo do seu agir de Não há objetivo que grupos políticos não (não apenas Por inclusividade entende-se a possibili- tenham alguma vez proposto (...) Pode-se, portanto, definir caráter dade de intervir imperativamente em cada possível esfera de atividade político de um grupo social somente mediante meio (...), que não é dos membros do grupo, encaminhando-os para um fim desejado ou próprio exclusivamente mas é em cada caso específico, e indis- distraindo-os de um fim não-desejado através do instrumento da pensável para a sua essência: uso da força". dem jurídica, isto é, de um conjunto de normas primárias voltadas para Essa remoção do juízo teleológico não impede contudo que se possa os membros do grupo e de normas secundárias voltadas para os funcio- falar, com correção, pelo menos de um fim mínimo da política: a or- dem pública nas relações internas e a defesa da integridade nacional nas nários especializados, autorizados a intervir no caso de violação das pri- relações de um Estado com os outros Estados. Esse fim é mínimo, por- meiras. Isto não significa que o poder político não imponha limites a si que é a conditio sine qua non para a realização de todos os outros fins, mesmo. Mas são limites que variam de uma formação política para sendo portanto com eles compatível. Mesmo partido que deseja a outra: um Estado teocrático estende o próprio poder à esfera desordem, deseja a desordem não como objetivo final, mas como mo- enquanto um Estado laico se rende diante dela; assim também, um mento obrigatório para transformar a ordem existente e criar uma nova Estado coletivista estende o próprio poder à esfera econômica, enquan- ordem. Além do mais, é lícito falar da ordem como fim mínimo da to o Estado liberal clássico dela se afasta. O Estado oniinclusivo, isto é, o Estado para o qual nenhuma esfera de atividade humana permanece 167 estranha, é Estado totalitário, e é, em sua natureza de caso-limite, a 5. Wirtschaft und Gesellschaft cit., pp. 29-30 (ed. 1974 e 53-54) 166 sublimação da política, a politização integral das relações sociais. Digitalizada com CamScanner Digitalizada com CamScanner</p><p>política porque ela é, ou deveria outras ser, o palavras, resultado esse direto fim da (a ordem) organização dade bom como que cada um todo um faça aquilo que dele se espera no âmbito da socie- do poder porque, em coativo, monopólio da força): em uma coisa. Outras noções de 433a) justiça e todo com o meio (o como ordem ma um do a são a mesma divisão trabalho, sobre demasiado controversas, e também liberdade fundada sobre a sobre elas igualdade, são complexa, alguns casos também a de e classes, em segmentos distintas, somente o recurso em última instância dispares fim específico para que da delas se possam extrair indicações úteis das para maneiras individuar mais à de força populações impede e a raças desagregação do grupo, o retorno, como diriam estado de natureza. Tanto é verdade que o dia em que fosse de política Outro modo é definindo-a de escapar às dificuldades de uma definição como antigos, possível ao uma ordem espontânea, como imaginaram várias escolas tem além do aquela forma teleológica não próprio poder de (donde poder que outro fim nômicas políticas, dos fisiocratas aos anarquistas, ou aos próprios Marx fim, ou, como se costuma poder é dizer, ao e fim mesmo tempo meio e Engels, e na fase do comunismo plenamente realizado, não mais constitui objeto de uma atividade por si mesmo, poder se um é buscado em certo sentido emerge quando CO da ação torna humana fim, escreve Mario em Albertini si mesmo). "O caráter ria, propriamente falando, política. Quem considerar as tradicionais definições teleológicas de política e não tardará a que algumas delas não são definições com do o rapaz médico que que exerce próprio poder sobre diferente doente do que ocorre vas, mas sim prescritivas, no sentido de que não definem o que é ou impõe o seu jogo aos colegas não para cretamente e normalmente a política, mas indicam como deveria ser a definir cer um política poder, mas dizendo pelo prazer de jogar. Pode-se objetar pelo prazer de exer- política para ser uma boa política; outras diferem apenas em palavras (as palavras da linguagem filosófica são com de mas bem um modo específico de uma e específica poder, que ele não define tanto forma a esse modo de mente obscuras) da definição aqui oferecida. Toda a história da filoso- igualmente ou o a qualquer forma de poder (seja ele portanto econômi- se aplica fia política transborda de definições prescritivas, a começar por aquela de Aristóteles: como é sabido, afirma que o fim da política forma degenerada do exercício de qualquer forma de pelo poder é a poder e assim por O poder poder não é o viver, mas o viver bem (Política, 1278b). Mas em que consiste ter por é o sujeito poder tanto quem exerce aquele poder de amplas poder, dimensões que pode a vida boa? da má? E se uma classe política tiraniza os que político quanto quem exerce um seus súditos condenando-os a uma vida desgraçada e infeliz, não está pode ser poder de um pai de família ou de um pequeno chefe de poder, como por acaso fazendo política, e o poder que exerce por acaso não é um que supervisiona poder uma dúzia de A razão pela qual pode seção que poder político? O mesmo Aristóteles distingue as formas puras de go- seria exato dizer de um certo homem homem o mais como fim em si mesmo seja característico da política parecer (mas verno das formas corruptas (e antes dele Platão, e depois dele muitos outros escritores políticos ao longo de vinte embora aquilo maquiavélico) está no fato de não existir um fim tão específico político que diferencia as formas corruptas das puras seja que naquelas a vida lítica médico tal como, ao contrário, existe um fim específico do poder da po- não é boa, nem Aristóteles nem todos os escritores que depois dele exerce sobre doente, ou do rapaz que impõe um que vieram jamais lhes negaram caráter de constituições políticas. Não fosse colegas. Se o fim da política (e não do homem político jogo aos seus nos iludam outras teorias tradicionais que atribuem à política outros realmente poder pelo poder, a política não serviria maquiavélico) fins além da ordem, como o bem comum (o próprio e de- Provavelmente a definição da política como poder pelo poder para deriva nada. da pois dele aristotelismo medieval) ou a justiça um conceito dúvida confusão entre o conceito de poder e o conceito de potência: não há como de bem comum, caso queiramos libertá-lo da sua extrema do de que entre os fins da política também esteja aquele da através da qual pode significar tudo e nada, e queiramos ge- cia Estado Estado (quando se leva em consideração a relação do potên- indicar-lhe um significado plausível, não pode designar senão outra com outros Estados). Mas uma coisa é uma política de potência, próprio bem que todos os membros de um grupo têm em comum, bem aquele este coisa é poder pelo poder. E, além a potência nada mais é dem; que outro não é senão a convivência ordenada, em uma palavra, 168 quanto à justiça em sentido se a entendemos, a or- dissipadas todas as névoas retóricas, como o princípio com base uma no qual vez 6. "La in La politica ed altri saggi, 9. 169 Digitalizada com CamScanner Digitalizada com CamScanner</p><p>um dos fins possíveis da política, um fim que apenas alguns Esta- vem conflitos conflitos a política Que cobre campo em que se desenvol- que dos podem razoavelmente perseguir. seja qual se posicionam "A oposição os autores parece a perspectiva não haver dúvida. a partir da esta Schmitt: política é Para a mais intensa A política como relação amigo-inimigo qualquer outra oposição concreta é tanto mais política e extrema de todas, e Entre as mais conhecidas e discutidas definições e ampliada de política por Julien deve- aproxima do ponto extremo, 10 aquele do agrupamento quanto mais se aquela de Carl Schmitt (retomada coincide com a esfera ceitos (...) pode a qualquer Para "Qualquer divergência com base nos de inte- con- mos Freund), segundo a qual a esfera da política definição, campo de origem da resses momento transformar-se Com base a nessa em conflito, e esse conflito, a partir do momento em rivalidade ou o relação de aplicação amigo-inimigo. da política seria o antagonismo, e de a sua desagregar função consistiria e comba- aspecto de vale uma prova de força entre os grupos que em que assume e na atividade de agregar e defender os amigos fundada e sobre uma oposi- interesses, dizer, a partir do momento que se afirma representam como luta esses de ter os Para a sua definição, definições potência, torna-se Como podemos verificar inimigos. Schmitt compara-a às de (amigo-inimigo), citadas, ao definir a política com base na dicotomia amigo-inimigo, nas passagens es- ção fundamental de etc. fundadas, também elas, sobre oposições fundamen- ses autores têm em mente que existem conflitos entre os homens moral, tais como arte bom-mau, belo-feio etc. "A específica distinção política, entre os grupos sociais, e que entre estes conflitos há alguns distintos e tais, à é possível reconduzir as ações e os motivos políticos, é a distin- de todos os outros devido à sua particular intensidade; a estes dão o qual entre amigo e inimigo (...). Uma vez que não é derivável de outros nome de conflitos políticos. tão logo se compreende no que ção critérios, ela corresponde, para a política, aos critérios relativamente belo feio consiste essa particular e portanto no que a relação amigo- autônomos das outras oposições: bom e mau para a moral, Freund e inimigo se distingue de todas as outras relações conflitantes de não a estética, e assim por diante". Drasticamente, expressa- equivalente intensidade, percebe-se que o elemento distintivo está no para nos seguintes termos: "enquanto houver política, ela dividirá a cole- fato de que são conflitos que não podem ser resolvidos em última ins- se tividade em amigos e inimigos"8 E comenta: "Quanto mais uma oposi- tância senão com a força, ou pelo menos, que justificam, por parte dos ção se desenvolve em direção à distinção mais se torna contendentes, o uso da força para pôr fim à contenda. O conflito por política. A característica do Estado é suprimir no interior do seu âmbi- excelência a partir do qual tanto Schmitt quanto Freund extrapolaram to de competência a divisão dos seus membros ou grupos internos em suas respectivas definições de política é a guerra, cujo conceito com- amigos e inimigos, com o objetivo de não toleran senão as simples riva- preende tanto a guerra externa quanto a guerra interna: ora, se uma lidades agonísticas ou as lutas dos partidos, e reservar ao governo o coisa é certa, é que a guerra é aquela espécie de conflito que se caracte- direito de designar o inimigo externo. (...) Fica portanto claro que a riza eminentemente pelo uso da força. Mas se isso é verdade, a defini- oposição amigo-inimigo é politicamente fundamental". ção de política em termos de amigo-inimigo não é em absoluto incom- Não obstante a pretensão de valer como definição global do patível com aquela, dada anteriormente, que faz referência ao mono- meno político, a definição de Schmitt considera a política segundo uma pólio da força. Não apenas não é incompatível, como dela é uma perspectiva unilateral, ainda que importante, que é aquela do particu- especificação, e portanto, em última análise, uma confirmação. Exata- lar tipo de conflito que por sua vez distinguiria a esfera das ações polí- mente porque poder político é distinto do instrumento do qual se ticas. Em outras palavras, Schmitt e Freund parecem estar de acordo serve para alcançar os próprios fins, e esse instrumento é a força física, quanto aos seguintes pontos: a política tem a ver com a conflituosidade ele é aquele poder ao qual se apela para solucionar os conflitos cuja humana; há vários tipos de conflitos, sobretudo conflitos agonísticos e não-solução teria como efeito a desagregação do Estado ou da ordem internacional, sendo estes exatamente os conflitos nos quais, postando- se os contendentes um diante do outro, a vita mea é a mors tua. 7. C. Der Begriff des Duncker und Humblot, 1932 it. concetto di "politico", in ID., Le categorie del organizado por G. Miglio e Schiera, il 1972, reimp. 1998, p. 108) 170 L'essence du politique, Sirey, Paris, p. SCHMITT, Der Begriff des Politischen cit., p. 171 9. J. L'essence du politique cit., 445 L'essence du 479 Digitalizada com CamScanner Digitalizada com CamScanner</p><p>são assim denominadas: libertas, religio O problema funda- mental do Estado, e portanto da política, é para Hobbes problema O político e social das relações entre a simbolizada pelo grande de um Contrariamente à tradição clássica segundo a qual a esfera da políti- e a libertas e a religio, de outro: a libertas indica espaço das ca, entendida como esfera de tudo aquilo que concerne à vida da pólis relações naturais, no qual se desenvolve a atividade econômica dos in- inclui todo tipo de relações sociais, de modo que "político" passa a estimulada pela incessante disputa pela posse dos bens mate- coincidir com o o tratamento que aqui se fez da categoria da riais, estado de natureza (interpretado recentemente como a pre- política é certamente redutor: resumir, como se afirmou, a categoria da da sociedade de mercado); a religio indica o espaço reservado política à atividade que tem direta ou indiretamente relação com a formação e expansão da vida espiritual, cuja concretização histórica organização do poder coativo significa restringir o âmbito do "político" se dá com a instituição da Igreja, isto é, de uma sociedade que por sua em relação ao "social", recusar a plena coincidência do primeiro com o natureza é distinta da sociedade política e não pode ser com ela con- segundo. Essa redução tem uma razão histórica bem precisa. De um fundida. Com relação a essa dupla delimitação de fronteiras do territó- lado, o cristianismo subtraiu da esfera da política o domínio sobre a rio da política, emergem na filosofia política tipos ideais vida religiosa, dando origem à oposição entre poder espiritual e poder de Estado: Estado absolutista e Estado liberal o primeiro tende a temporal, que era ignorada no mundo antigo. De outro, nascimento ampliar, segundo a restringir a própria ingerência no que concerne à da economia mercantil burguesa subtraiu da esfera da política sociedade econômica e à sociedade religiosa. Na filosofia política do nio sobre as relações econômicas, dando origem à oposição (para nos século XIX, processo de emancipação da sociedade em relação ao expressar com a terminologia hegeliana, herdada por Marx, e transfor- Estado está tão adiantado que pela primeira vez, a partir de inúmeros mada, por fim, em uso comum) entre sociedade civil e sociedade pontos de vista, é imaginado o completo desaparecimento, em um fu- tica, entre esfera privada, ou do burguês, e esfera pública, ou do cida- turo mais ou menos distante, do Estado, e a absor- dão, que era, também ela, ignorada no mundo antigo. Enquanto a filo- ção do político no social, ou fim da política. De acordo com o que foi sofia política clássica está alicerçada sobre o estudo da estrutura da dito até aqui sobre significado restritivo de política (restritivo com pólis e das suas várias formas históricas ou ideais, a filosofia política relação ao conceito mais de "social"), fim da política significa pós-clássica caracteriza-se pela contínua tentativa de uma delimitação exatamente fim de uma sociedade para cuja coesão sejam necessárias daquilo que é político (o reino de César) em relação àquilo que não é relações de poder político, isto é, relações de domínio fundadas em político (seja ele o reino de Deus ou o reino das por uma última instância no uso da força. Fim da política não significa, bem contínua reflexão sobre aquilo que diferencia a esfera da política da entendido, fim de qualquer forma de organização social. Significa pura esfera da não-política, Estado do não-Estado, onde por esfera da não- e simplesmente fim daquela forma de organização social que se susten- política ou do não-Estado entende-se, dependendo das ta no uso exclusivo do poder coativo. ora a sociedade religiosa (a ecclesia contraposta à civitas), ora a socieda- de natural (o mercado como lugar em que os indivíduos se encontram, independentemente de qualquer imposição, em oposição à ordem coativa Política e moral do Estado). O tema fundamental da filosofia política moderna é o tema Ao problema da relação entre política e não-política associa-se um das fronteiras, ora mais recuadas, ora mais avançadas, segundo os vários dos problemas fundamentais da filosofia o problema da rela- autores e as várias escolas, do Estado como organização da esfera política, ção entre política e moral. A política e a moral têm em comum o domí- seja em relação à sociedade religiosa, seja em relação à sociedade civil (no nio sobre qual se estendem, que é o domínio da ação ou da práxis sentido de sociedade burguesa ou dos privados). Exemplar também sob esse aspecto é a teoria política de Hobbes, humana. Considera-se que diferem entre si com base no diferente prin- que se articula em torno de três conceitos fundamentais, constituindo cípio ou critério de justificação e de avaliação das respectivas ações, as três partes nas quais se divide a matéria do De cive. Essas três partes tendo por que aquilo que é obrigatório em moral nem sempre é obrigatório na política, e aquilo que é lícito na política nem 172 sempre é lícito na moral; ou que podem existir ações morais que são 173 No "sia questo il regno di quello di Digitalizada com CamScanner Digitalizada com CamScanner</p><p>impolíticas (ou apolíticas) e ações políticas que são imorais (ou descoberta da distinção, que é atribuída, correta ou da moral e o universo da política movem-se dentro do âmbito de A a Maquiavel, daí nome de maquiavelismo a toda teoria da política verso sistemas éticos distintos, aliás, opostos. Mais que de imoralidade sustente e defenda a separação entre política e moral, é com frequencia que dois política ou de impoliticidade da moral, mais correta- tratada como problema da autonomia da política. O problema da Falar de dois universos éticos que se movem segundo princípios pari passu com a formação do Estado moderno e com a sua gradual mente distintos de acordo com as distintas situações nas quais os homens se emancipação da Igreja, chegando, nos casos extremos, inclusive à encontram ao agir. Desses dois universos éticos são representantes dois bordinação da Igreja ao Estado e, conseqüentemente, à supremacia personagens distintos que agem no mundo em caminhos quase sempre soluta da política. Na verdade, aquilo que chamamos de autonomia da destinados a não se encontrar: de um lado, homem de fé, profeta, o política nada mais é que o reconhecimento de que critério com base pedagogo, o sábio que olha a cidade celeste; de outro lado, o homem de no qual se considera boa ou má uma ação política (e não nos Estado, o condottiero dos homens, criador da cidade terrena. O que mos de que por ação política se entende, de acordo com que foi dito conta para primeiro é a pureza das intenções e a coerência entre ação até aqui, uma ação que tenha por sujeito ou objeto a pólis) é distinto do e intenção; para segundo, a certeza e a fecundidade do resultado. A critério com base no qual se considera boa ou má uma ação chamada imoralidade da política resume-se, olhando bem, a uma moral Enquanto o critério com base no qual se julga uma ação moralmente distinta daquela do dever pelo dever: é a moral pela qual se deve fazer boa ou má é o respeito a uma norma cujo comando é considerado catego- tudo aquilo que está em nosso poder para realizar o objetivo ao qual nos rico, independente do resultado da ação ("faça que deve ser feito propusemos, porque sabemos desde o início que seremos julgados com aconteça o que tiver de acontecer"), o critério com base no qual se julga base no sucesso. A ela correspondem dois conceitos de virtude, aquela em que "virtude" significa disposição para bem moral (em uma ação politicamente boa ou má é pura e simplesmente resultado oposição ao útil), e aquela maquiavélica, em que virtude é a capacidade ("faça que deve ser feito para que aconteça aquilo que quer que do príncipe forte e prudente que, usando ao mesmo tempo da "raposa" aconteça"). Os dois critérios são incomparáveis. Essa incomparabilidade e do "leão", é bem-sucedido em seu intento de manter e reforçar expressa-se mediante a afirmação de que em política vale a máxima próprio domínio. fim justifica os meios": máxima que encontrou em Maquiavel uma das suas mais fortes expressões: "(...) e nas ações de todos os homens, e máxime dos onde não há juízo ao qual reclamar, olha-se o fim. A política como ética do grupo Faça portanto um príncipe de modo a vencer e manter o Estado: e os Quem não quiser se render à constatação da incomensurabilidade meios serão sempre julgados honrosos, e por todos louvados" (O dessas duas éticas e quiser tentar entender a razão pela qual aquilo que pe, XVIII). Ao contrário, na moral, a máxima maquiavélica não vale, já se justifica em um certo contexto não se justifica em outro, deve se que uma ação para ser julgada moralmente boa deve ser cumprida com perguntar então onde reside diferença entre esses dois contextos, A nenhum outro fim além daquele de cumprir o próprio dever. resposta é a seguinte: o critério da ética da convicção é comumente Uma das mais convincentes interpretações desta oposição é a dis- empregado para julgar ações individuais, enquanto critério da ética da tinção weberiana entre a ética da convicção e a ética da responsabilida- responsabilidade é comumente empregado para julgar ações de grupo, de: "(...) há uma diferença incomensurável entre agir segundo a má- ou ao menos cumpridas por um indivíduo em nome ou por conta do xima da ética da convicção, a qual em termos religiosos soa: 'O cristão próprio grupo, seja ele o povo, ou a nação, ou a Igreja, ou a classe, ou o partido etc. Em outros termos, pode-se dizer que à diferença entre age como um justo e remete êxito às mãos de Deus', e agir segundo moral e política, ou entre ética da convicção e ética da responsabilida- a máxima da ética da responsabilidade, segundo a qual é preciso res- de, corresponde também a diferença entre ética individual e ética de ponder pelas (previsíveis) das próprias ações". uni- grupo. A proposição inicial, segundo a qual aquilo que é obrigatório na moral nem sempre é considerado obrigatório na política, pode ser traduzida nesta outra fórmula: aquilo que é obrigatório para indiví- 12. M. WEBER, Politik als Beruf, in Gesammelte Politische Schriften, organizado por J. Winckelmann, Mohr, duo nem sempre é obrigatório para grupo ao qual esse indivíduo per- 175 174 Tübingen, 1971/3 (ed. de A. Giolitti, in Il lavoro intellectuale come "Nue", Einaudi, Turim, 1966, nova ed. 1977, p. Digitalizada com CamScanner Digitalizada com CamScanner</p><p>tence. Pensemos na profunda diferença no juízo que gos, moralistas apresentam em relação à violência um ato de violência cumprido por um indivíduo isolado, ou pelo social ao qual o mesmo indivíduo pertence; em outras palavras, do se trate de violência pessoal, geralmente, salvo casos condenada, ou de violência das instituições, geralmente, salvo casos excepcionais, justificada. Essa diferença encontra sua explicação consideração de que no caso da violência individual, quase nunca pode recorrer ao critério de justificação da extrema ratio (exceto caso da legítima defesa), enquanto nas relações entre grupos o recurso à justificação da violência como extrema ratio é habitual, Ora, a razão pela qual a violência individual não é justificada está precisamente no fato de que ela é, por assim dizer, protegida pela violência tanto que é cada vez mais raro, no limite do impossível, um caso em que o indivíduo isolado encontre-se na situação de precisar recorrer violência como extrema ratio. Se isto é verdade, disso decorre uma importante a injustificação da violência individual re- pousa em última instância no fato de que é aceita, porque justificada, violência coletiva. Em outras a violência individual não é ne- cessária porque basta a violência coletiva: a moral pode assim se permi- tir ser severa com a violência individual porque repousa sobre a aceita- ção de uma convivência que se sustenta sobre a prática contínua da violência coletiva. A oposição entre moral e política desse modo entendida, como opo- sição entre ética individual e ética de grupo, serve também para forne- cer uma ilustração e uma explicação da secular disputa em torno da "razão de Estado". Por "razão de Estado" entende-se aquele conjunto de princípios e máximas com base nas quais ações que não seriam justificadas se cumpridas por um indivíduo isolado não são apenas justificadas mas em alguns casos de fato exaltadas e glorificadas se pridas pelo ou por qualquer pessoa que exerça o poder cum- nome do Estado. Que o Estado tenha razões que o indivíduo não tem em ou não pode fazer valer é um outro modo de colocar em evidência ao distinto critério com base no qual são julgadas como boas ou más diferença entre política e moral, uma vez que essa diferença refere-se a ações nos dois diferentes âmbitos. A afirmação de que a política as razão de do Estado encontra uma perfeita correspondência na é a coincidem: que a moral é a razão do São duas razões que afirmação flito antes, da sua oposição alimenta-se a secular historia quase do nunca 176 tar é entre moral e política. O que talvez seja necessário ainda acrescen- con- que a razão de Estado nada mais é que um aspecto da ética de Digitalizada com CamScanner</p>

Mais conteúdos dessa disciplina