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<p>Timothy Keller Autor best-seller do The New York Times PROFETA Jonas e mistério da misericórdia de Deus VIDA NOVA</p><p>O PROFETA PRÓDIGO</p><p>ABDR ASSOCIAÇÃO DE DIREITOS Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica Ilacqua CRB-8/7057 Keller, Timothy profeta pródigo: Jonas e o mistério da misericórdia de Deus / Timothy Keller; tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. - São Paulo: Vida Nova, 2019. 208 p. ISBN 978-85-275-0989-3 Título original: The prodigal prophet: Jonah and the mystery of God's mercy I. Bíblia. Jonas, Profeta - Crítica, inter- pretação etc. 2. Deus (Cristianismo) - Misericórdia 3. Bíblia - Estudo e ensino I. Título II. Lopes, Marisa K. A. de</p><p>Siqueira CDD 224.9206 Índices para catálogo sistemático: I. Bíblia. Jonas, Profeta - Crítica, interpretação etc.</p><p>Timothy Keller Autor best-seller do The New York Times O PROFETA PRÓDIGO Jonas e o mistério da misericórdia de Deus Tradução Marisa K.A. de Siqueira Lopes VIDA NOVA</p><p>2018, de Timothy Keller Título do original: The prodigal prophet: Jonah and the mystery of God's mercy, edição publicada pela PENGUIN RANDOM HOUSE LLC (New York, New York, EUA). Todos os direitos em língua portuguesa reservados por SOCIEDADE RELIGIOSA EDI- VIDA NOVA Rua Antônio Carlos Tacconi, 63, São Paulo, SP, 04810-020 vidanova.com.br vidanova@vi- danova.com.br edição: 2019 Proibida a reprodução por quaisquer meios, salvo em citações breves, com indicação de fonte. Impresso no Brasil / Printed in Brazil Todas as citações bíblicas sem indicação de versão foram traduzidas diretamente pelo autor. As citações com indicação de versão in loco foram traduzidas diretamente da New International Version (NIV), da English</p><p>Standard Version (ESV), da New Century Version (NCV) e da King James Version (KJV). DIREÇÃO EXECUTIVA Kenneth Lee Davis GERENCIA EDITORIAL Fabiano Silveira Medeiros EDIÇÃO DE TEXTO Danny Charão Ubevaldo G. Sampaio PREPARAÇÃO DE TEXTO Rafael Caldas Marcia B. Medeiros REVISAO DE PROVAS Gustavo N. Bonifácio COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO Sérgio Siqueira Moura DIAGRAMAÇÃO Sandra Reis Oliveira CAPA OM Designers Gráficos</p><p>Em gratidão a Deus pela vida e pelo ministério de JOHN NEWTON (1725-1807), que também se voltou para Deus durante uma tempestade e se tornou um pastor que ensinou a nós, e a inúmeras outras pessoas, as belezas da maravilhosa graça.</p><p>SUMARIO Agradecimentos INTRODUÇÃO O profeta pródigo UM Fugindo de Deus DOIS As tempestades do mundo TRÊS Quem é meu próximo? QUATRO Aceitando o outro CINCO padrão do amor SEIS Fugindo da graça (1.17-2.10) SETE pregando a ira OITO Tempestades do coração (4.1-4)</p><p>NOVE O caráter da compaixão DEZ Nosso relacionamento com a Palavra de Deus ONZE Nosso relacionamento com o mundo de Deus DOZE Nosso de Deus EPÍLOGO Quem contou a história?</p><p>AGRADECIMENTOS Embora minha esposa Kathy não seja coau- tora desta obra, ela foi a principal força por trás de sua publicação. Preguei sobre o livro de Jonas em três séries de sermões: uma vez em 1981, outra em e uma terceira vez em Apenas Kathy ouviu as três séries, e por anos ela quis que fossem transformadas em livro. É difícil pegar um conjunto de apresentações orais, cada qual especificamente direcionada para os ouvin- tes originais reunidos naqueles domingos, e transformá-las em uma narrativa escrita contínua que, não obstante, trace nume- rosas e variadas linhas de aplicação para questões e problemas contemporâneos. Ela fez com que eu voltasse aos esboços mais de uma vez, e trabalhou cuidadosamente com o manuscrito em todas as fases de edi- ção. Este é o primeiro de meus livros dedi- cado a uma figura "histórica" - o reve- rendo John Newton. Ele foi criado em um lar cristão, mas abandonou a religião e tor- nou-se comerciante de escravos, fugindo de Deus. Contudo, durante uma tempestade dramática no Atlântico, ele orou e começou</p><p>uma jornada em direção a uma fé vibrante. Como Jonas, ele foi pregar na grande ci- dade. Mais tarde, veio a se tornar um pro- eminente sacerdote anglicano evangélico na cidade de Londres. Kathy e eu achamos suas cartas pastorais algo sem igual. Sua sabedoria prática, profundidade teológica e sua centralidade na graça nos ajudaram incessantemente ao longo de anos a fio, e às vezes nos momentos mais sombrios. Quero, como de costume, agradecer àqueles que me propiciaram ótimos lugares e espaços para trabalhar e escrever, in- cluindo Ray e Gill Lane, do The Fisherbeck Hotel, em Ambleside, Cúmbria, no Reino Unido, e Janice Worth, de Palm Beach Gar- dens, Flórida, onde vários anos atrás escrevi os primeiros esboços deste livro. E, mais uma vez, agradeço a David McCormick e Brian Tart, cuja orientação editorial e lite- rária tem sido fundamental para todas as minhas obras.</p><p>o PROFETA PRODIGO Como a maioria das pessoas criadas em lares cuja família frequenta uma igreja, co- nheço a história de Jonas desde a infância. Como ministro que ensina a Bíblia, no en- tanto, já passei por vários estágios de per- plexidade e admiração diante desse pe- queno livro. Sua diversidade de temas é um desafio para o intérprete. Ele parece tratar de uma infinidade de coisas. Será que o livro trata de raça e nacio- nalismo, uma vez que Jonas parece estar mais preocupado com a segurança militar de sua nação do que com uma cidade de pessoas espiritualmente perdidas? Ou trata do chamado de Deus para a missão, uma vez que Jonas, a princípio, foge do cha- mado e depois volta atrás, mas se lamenta por isso? Gira em torno das lutas que os crentes enfrentam para obedecer e confiar em Deus? A resposta é sim, para todos esses temas - e para outros mais. Existem montanhas de estudos acadêmicos sobre o livro de Jonas que revelam a riqueza da his- tória, as muitas camadas de sentido e sua variada aplicabilidade a uma parcela bem</p><p>grande da vida e do pensamento humanos.1 Descobri essa "variada aplicabilidade" à medida que preguei sobre o livro de Jonas, versículo por versículo, em três ocasiões diferentes de meu ministério. A primeira vez foi na primeira igreja que pastoreei, em uma pequena cidade operária do Sul dos Estados Unidos. Dez anos depois, preguei novamente sobre o livro de Jonas para cen- tenas de jovens profissionais solteiros em Manhattan. E então, dez anos mais tarde, preguei sobre esse mesmo livro nos domin- gos que se seguiram à tragédia do II de setembro, na cidade de Nova York. Em cada caso, o contexto cultural e as necessidades pessoais dos ouvintes eram radicalmente diferentes, mas, ainda assim, o texto de Jonas estava mais do que à altura de poder abordá-los com vigor. Ao longo dos anos, muitos amigos me disseram que os ser- que ouviram sobre o livro de Jonas mudaram suas vidas. A narrativa de Jonas induz o leitor a pensar nela como uma simples fábula que tem o relato do grande peixe como ponto dramático mais alto, senão</p><p>Leitores mais atentos, no entanto, veem o livro como uma obra literária criativa e ar- tisticamente trabalhada. Seus quatro capí- tulos relatam dois episódios. Nos capítulos I e 2, Jonas recebe uma ordem de Deus, mas não a obedece; nos capítulos 3 e 4, ele recebe novamente a mesma ordem e dessa vez a obedece. Os dois relatos estão dis- postos em padrões quase que comple- tamente paralelos. CENA I CENA 2 Jonas, os pagãos e o Jonas, os pagãos e a mar cidade JONAS E A PALAVRA DE DEUS I.I A Palavra de 3.I A palavra de Deus chega a Jonas Deus chega a Jonas I.2 A mensagem a 3.2 A mensagem a ser transmitida ser transmitida A resposta de 3.3 A resposta de Jonas Jonas JONAS E MUNDO DE DEUS I.4 A palavra de 3.4 A palavra de advertência advertência</p><p>A resposta dos 3.5 A resposta dos pagãos pagãos 1.6 A resposta do 3.6 A resposta do líder pagão líder pagão I. Como a 3.7SS Como a resposta dos pagãos resposta dos pagãos foi, em última foi,em última análise, melhor do análise, melhor do que a de Jonas que a de Jonas JONAS E A GRAÇA DE DEUS 2.I-IO Como Deus 4.I-IO Como Deus ensinou graça a ensinou graça a Jonas por meio do Jonas por meio da peixe planta Apesar da sofisticação literária do texto, muitos leitores dos nossos dias ainda rejei- tam a obra porque o texto nos diz que Jonas foi salvo da tempestade ao ser engolido por um "grande peixe" (Jn 1.17). Como se reage a isso depende de como se o restante da Bíblia. Se você aceita a existência de Deus e a ressurreição de Cristo (um milagre muito maior), então não há nada particularmente difícil sobre a leitura literal de Jonas. Mui- tas pessoas hoje, certamente, acreditam que</p><p>todo e qualquer milagre seja impossível, embora esse ceticismo não passe disto: é, em si, uma crença que não pode ser E não apenas isso, mas o texto não revela evidências de que o autor tenha inventado o relato milagroso. Quem escreve ficção normalmente adiciona ele- mentos sobrenaturais para gerar empol- gação ou deslumbramento e, com isso, cap- tar a atenção do leitor; o autor do livro de Jonas, porém, não tira proveito do episódio dessa maneira. O peixe é mencionado ape- nas em dois breves versículos e sem deta- lhes descritivos. O episódio é relatado mais como um simples fato que De modo que ninguém se deixa distrair pelo peixe. A estrutura meticulosa do livro revela nuances da mensagem do autor. Ambos os episódios mostram o modo pelo qual Jonas, um crente fiel e religioso, considera e se relaciona com pessoas de raça e religião diferentes das dele. livro de Jonas trans- mite muitas percepções sobre o amor de Deus por sociedades e pessoas não perten- centes à comunidade de crentes; sobre sua oposição ao nacionalismo tóxico e ao</p><p>desprezo por outras raças; e sobre como estar "em missão" no mundo, a despeito do poder sutil e inevitável da idolatria que tra- zemos em nosso coração e vida. Compre- ender essas percepções pode nos trans- formar em pessoas que constroem pontes, que são pacificadoras e agentes de reconci- liação no mundo. É dessas pessoas que o mundo precisa hoje. No entanto, com o objetivo de entender todas essas lições para aplicá-las em nossos relacionamentos sociais, temos de ver que o principal ensinamento do livro não é socio- lógico, mas, sim, teológico. Jonas quer um Deus de acordo com sua própria prefe- rência, um Deus que simplesmente destrói os maus como, por exemplo, os e abençoa os bons como, por exemplo, Jonas e seus compatriotas. Quando o verdadeiro Deus - não esse deus falsificado de Jonas - continua a se manifestar, o profeta é lan- çado em fúria e desespero. Jonas vê o Deus real como um enigma, pois não consegue conciliar a misericórdia e a justiça de Deus. Jonas se pergunta: "Como Deus pode ser misericordioso e perdoar pessoas que prati- caram tamanha violência e mal? Como</p><p>Deus pode ser as duas coisas, miseri- cordioso e justo?". Essa pergunta não é respondida no livro de Jonas. No entanto, como parte da Bíblia como um todo, o livro de Jonas é seme- lhante a um capítulo que impulsiona o en- redo geral das Escrituras. Ele nos ensina a olhar para o futuro e ver como Deus salvou o mundo por meio daquele que se dizia maior que Jonas (Mt a fim de que pudesse ser justo e também justificador daqueles que creem (Rm 3.26). Somente quando nós, leitores, compreendermos inteiramente esse evangelho é que não seremos nem exploradores cruéis como os nem crentes farisaicos como Jonas, mas, sim, homens e mulheres à ima- gem de Cristo, transformados pelo Espírito. Muitos dos que estudaram o livro nota- ram que, na primeira metade, Jonas inter- preta o "filho pródigo" da famosa parábola de Jesus (Lc o qual fugiu de seu pai. Na segunda metade do livro, no en- tanto, Jonas é como o "irmão mais velho" (Lc 15.25-32), o qual obedece ao pai, mas o censura por ser gracioso para com peca- dores arrependidos. Assim como a parábola</p><p>termina com uma pergunta do pai ao filho farisaico, o livro de Jonas termina com uma pergunta ao profeta farisaico. paralelo entre as duas histórias, algo que o próprio Jesus pode ter tido em mente, é a razão do título deste livro, O profeta pródigo. 1Um dos mais extensos estudos já feitos sobre todas as interpretações de Jonas ao longo dos anos encontra-se em Yvonne Sherwood, A biblical text and its afterlives: the survival of Jonah in Western culture (Cambridge: Cambridge University Press, 2000). Sherwood argumenta que os co- mentaristas tendem a usar o livro de Jonas para reforçar suas próprias crenças e pontos de vista. Isso certamente é ver- dade, mas é uma tese irônica para Sherwood, pois ela mesma usa o livro para promover uma agenda do final da era moderna, ou seja, a de que uma inter- pretação vale tanto quanto qualquer outra. Os primeiros comentaristas cristãos, como Jerônimo e Agostinho, viam Jonas como um tipo de Cristo. Muitos refor- madores, entre eles Lutero, viam Jonas como um judeu nada disposto a alcançar os gentios, o que evidencia uma falha de</p><p>Israel em compreender o evangelho e em ser testemunha dele para as nações. Do Iluminismo em diante, uma abordagem importante ao livro de Jonas era criticar ou defender a plausibilidade da história, particularmente o incidente com o peixe. Uma via mais recente de interpretação é a análise literária, segundo a qual o livro de Jonas muitas vezes é classificado como sá- tira ou comédia. Cada uma dessas linhas interpretativas traz pontos importantes e fornece insights fundamentais para a com- preensão do texto. 2Para um estudo exaustivo a favor dos milagres bíblicos, veja a obra em dois volumes de Craig S. Keener, Miracles : the credibility of the New Testament accounts (Grand Rapids: Baker Academic, 20II). 3David W. Baker; T. Desmond Alexander; Bruce K. Waltke, Obadiah, Jonah, and Micah: an introduction and commentary , Tyndale Old Testament Commentaries (Downers Grove: InterVarsity Press, 1988), vol. 26, p. I23.</p><p>UM FUGINDO DE DEUS Ora, a palavra do SENHOR veio a Jonas, filho de Amitai, dizendo: "Le- vante-se, vai a Nínive, aquela grande ci- dade, e proclama contra ela, porque a sua maldade subiu perante minha face". Jonas levantou-se, porém, para ir para Társis, fugir da face do SENHOR (Jn I.I-3a).1 o EMISSÁRIO IMPROVÁVEL Nossa história começa quando "a palavra do Senhor veio" a Jonas. Essa é a maneira habitual de começar um relato sobre um dos profetas bíblicos. Deus os usava para transmitir suas palavras e mensagens a Is- rael, especialmente em tempos de crise. Não obstante, já no versículo 2, os leitores originais devem ter percebido que essa era uma narrativa profética diferente de qual- quer outra que já tinham ouvido antes. Deus chamara Jonas e dissera para ele: "vai a Nínive, aquela grande cidade, e pro- clama...". Isso era algo impressionante sob vários aspectos. Primeiro, era chocante por ser um</p><p>chamado para um profeta hebreu deixar Is- rael e sair em busca de uma cidade gentia. Até então, os profetas haviam sido enviados apenas para o povo de Deus. Embora Jere- mias, Isaías e Amós tenham proferido uns poucos oráculos proféticos dirigidos a na- ções pagãs, foram todos breves, e nenhum desses profetas foi enviado para pregar de fato às nações. A missão de Jonas era algo sem precedentes. Ainda mais chocante era o fato de que o Deus de Israel quisesse avisar Nínive, capi- tal do Império Assírio, da desgraça imi- nente. A Assíria foi um dos impérios mais cruéis e violentos dos tempos antigos. Os reis assírios frequentemente registravam os resultados de suas vitórias militares, regozi- jando-se com satisfação maligna diante de planícies inteiras forradas de cadáveres e de cidades totalmente incendiadas até o chão. imperador Salmaneser III é notório por retratar, nos mais horrendos detalhes, atos de tortura, desmembramento e decapi- tações de inimigos em grandes painéis de pedra esculpidos em alto-relevo. A história da Assíria é "tão sangrenta e sanguinária quanto ouvimos".2 Depois de capturar</p><p>inimigos, os assírios normalmente cor- tavam-lhes as pernas e um braço, e dei- xavam o outro braço para poderem cumpri- mentar a vítima, apertando-lhe a mão com escárnio, enquanto ela morria. Forçavam os familiares das vítimas a desfilar carregando a cabeça de seus entes queridos espetadas no alto de estacas de madeira. Arrancavam a língua dos prisioneiros e esticavam seus corpos com cordas para poderem ser esfo- lados vivos e ter a pele exposta nas mura- lhas da cidade. Queimavam adolescentes vivos.3 Aqueles que sobreviviam à des- truição de sua cidade estavam fadados a suportar formas cruéis e violentas de escra- vidão. Os assírios foram chamados de "es- tado terrorista".4 Império Assírio começou a cobrar pesados tributos de Israel durante o rei- nado de Jeú (842-815 a.C.) e continuou a ameaçar o Reino do Norte durante toda a vida de Jonas. Em 722 a.C., finalmente os assírios invadiram e destruíram o Reino do Norte de Israel e sua capital, Samaria. E, apesar disso tudo, essa nação foi alvo da obra missionária de Deus. Embora Deus tenha dito a Jonas para "proclamar contra"</p><p>a cidade por causa de sua iniquidade, não haveria razão para lhes enviar um aviso, a não ser que houvesse uma chance de evi- tarem o juízo, como bem sabia Jonas (4.1,2). Entretanto, como um Deus bom podia dar a uma nação como essa a mais mísera das chances que fosse de experi- mentar sua misericórdia? Por que cargas d'água Deus estava ajudando os inimigos de seu povo? Talvez o elemento mais surpreendente dessa narrativa tenha sido quem Deus esco- lhera enviar. Foi "Jonas, filho de Amitai". Nenhuma informação antecedente nos é dada indicando que ele dispensava apresen- tações. texto de 2Reis 14.25 nos diz que Jonas ministrou durante o reinado de Jero- boão II (786-746 a.C.), rei de Israel. Nesse mesmo texto, aprendemos que, ao contrário dos profetas Amós e Oseias, os quais criti- cavam a administração real por sua injus- tiça e infidelidade, Jonas havia apoiado a política militar agressiva de para ampliar o poder e a influência da nação. Os leitores originais do livro de Jonas deviam se lembrar dele como alguém intensamente patriota, um nacionalista altamente</p><p>combativo.5 E devem ter ficado surpresos com o fato de Deus enviar um homem assim para pregar às pessoas a quem ele mais temia e odiava. Nada relacionado a essa missão fazia o menor sentido. De fato, parecia quase uma trama maligna. Se algum israelita tivesse tido essa ideia, ele teria sido no mínimo marginalizado, e, na pior das hipóteses, executado. Como Deus podia ter pedido a alguém para trair os interesses de seu país dessa maneira? REJEITANDO CHAMADO DE DEUS Em uma paródia deliberada do chamado: "Levante-se, vai a Nínive", que Deus fizera a Jonas, ele "levantou-se" e partiu na dire- ção oposta Acredita-se que Társis fi- cava no ponto mais afastado da margem ocidental do mundo então conhecido pelos israelitas.6 Em resumo, Jonas fez exata- mente o oposto do que Deus lhe dissera para fazer. Chamado a ir para o leste, ele foi para o oeste. Orientado a viajar por terra, ele foi por mar. Enviado para uma cidade grande, ele comprou uma passagem só de ida para o fim do mundo. Por que ele rejeitou o chamado de</p><p>Deus? Devemos aguardar as próprias pala- vras de Jonas, no final do livro, para uma explicação completa das razões e dos moti- vos dele. Nesse momento, porém, o texto nos convida a fazer algumas suposições. Podemos perfeitamente imaginar que Jonas pensou que a missão não fazia sen- tido, nem em termos práticos, nem teoló- gicos. Deus descreve Nínive, tanto aqui quan- to mais a adiante, como aquela "grande" ci- dade, o que de fato era. A cidade era uma potência militar e cultural. Por que a popu- lação ouviria alguém como Jonas? Quanto tempo, por exemplo, um rabino judeu duraria, em se saísse pelas ruas de Berlim e pedisse aos nazistas da Alemanha que se arrependessem? Falando em termos bem práticos, suas perspectivas de sucesso eram nulas, e as chances de ser morto, altís- simas. Jonas também não teria sido capaz de enxergar qualquer justificativa de caráter teológico para essa missão. Anos antes, Naum havia profetizado que Deus des- truiria Nínive por sua maldade.7 Jonas e Is- rael teriam aceitado essa profecia de Naum</p><p>como algo que fazia todo sentido. Afinal, não era Israel o povo amado e escolhido por Deus, por meio de quem estava cumprindo seus propósitos no mundo? E Nínive não era um povo iníquo que vivia em rota de colisão com o Senhor? A Assíria, por sua vez, não era uma nação extraordi- nariamente violenta e opressora, mesmo para o seu tempo? É claro que Deus a des- truiria - isso era óbvio e (conforme Jonas teria pensado) já estava decidido. Por que, então, esse chamado para Jonas? Uma mis- são bem-sucedida em Nínive não iria ape- nas destruir as promessas do próprio Deus para Israel e provar que Naum era um falso profeta? Que justificativa possível, então, poderia haver para essa missão? DUVIDANDO DE DEUS Jonas, portanto, tinha problemas com a missão que recebera. Contudo, tinha um problema maior ainda com aquele que lhe dera a missão.8 E como não conseguia enxergar uma boa razão para a ordem que recebera de Deus, Jonas concluiu que não poderia haver nenhuma. Ele duvidou da bondade, da sabedoria e da justiça de Deus. Todos já tivemos essa experiência. Nós</p><p>nos sentamos no consultório médico ator- doados com o resultado da biópsia. Nós nos desesperamos e tememos jamais encontrar um emprego decente, depois que a última tentativa foi frustrada. Nós nos pergun- tamos por que o relacionamento romântico aparentemente perfeito - aquele que sem- pre quisemos e que nunca pensamos ser possível - ruiu e se esgotou. E, então, pen- samos: se Deus existe, ele não sabe o que está fazendo! Mesmo quando passamos das circunstâncias de nossa vida para o ensino da própria Bíblia, ela parece, sobretudo na ótica das pessoas desses tempos modernos, estar repleta de afirmações que não fazem muito sentido. Quando isso acontece, temos de decidir: Deus sabe o que é melhor ou somos nós que sabemos? Um aspecto comum do cora- ção humano sem Deus é sempre decidir que somos nós que sabemos. Duvidamos de que Deus é bom, ou de que ele esteja comprometido em nos fazer felizes, e, por- tanto, se não conseguimos ver nenhuma boa razão para algo que Deus diz ou faz, presumimos que não haja nenhuma. Foi exatamente isso que Adão e Eva</p><p>fizeram no Éden. primeiro mandamento divino foi: "E o SENHOR Deus ordenou ao homem: 'Você é livre para comer de qual- quer árvore no jardim, mas não deve comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque quando comer dela certamente (Gn 2.16,17, NIV). Lá estava o fruto, e parecia muito "bom [...] agra- dável[...] e desejável" (Gn 3.6, NIV), e Deus, no entanto, não dera nenhuma razão para explicar por que seria errado comê-lo. Adão e Eva, assim como Jonas muitos anos de- pois, decidiram que, se não conseguiam pensar em um bom motivo para uma ordem de Deus, é porque não havia ne- nhum. Não puderam confiar que Deus es- tava pensando no que era melhor para eles. E, então, comeram. DUAS MANEIRAS DE FUGIR DE DEUS Jonas foge de Deus. Contudo, se por um momento nos afastarmos e olharmos o livro como um todo, Jonas nos ensinará que existem duas estratégias diferentes para fugir de Deus. Paulo descreve isso em Romanos I a 3. Primeiro Paulo fala daqueles que, de modo claro, rejeitaram abertamente a Deus</p><p>e "se encheram de todo tipo de maldade, ganância e depravação" (Rm NIV). No capítulo 2, no entanto, ele fala daqueles que procuram seguir a Bíblia. "Você confia na lei e se vangloria [...] em Deus [...]. Você co- nhece a sua vontade e aprova o que é supe- rior, porque é instruído pela lei" (Rm 2.17,18, NIV). Então, depois de ter olhado para gentios pagãos e imorais, bem como para judeus virtuosos que acreditam na Bí- blia, Paulo chega à notável conclusão de que "não há nenhum justo, nem um se- quer [...] Todos se desviaram" (Rm NIV). Um grupo está tentando diligen- temente seguir a lei de Deus, enquanto o outro a ignora; no entanto, Paulo diz que ambos se "desviaram". Ambos estão, de maneiras diferentes, fugindo de Deus. Todos sabemos da nossa capacidade de fugir de Deus nos tornando imorais e irreli- giosos. Entretanto, Paulo está dizendo que também é possível evitar a Deus tornando- se uma pessoa muito religiosa e virtuosa. exemplo clássico nos evangelhos des- ses dois modos de fugir de Deus está em Lucas a Parábola do Filho Pródigo.9 O filho mais novo tentou escapar do controle</p><p>do pai tomando sua herança, deixando o lar, rejeitando todos os valores morais do pai e vivendo como desejava. O filho mais velho ficou em casa e obedeceu intei- ramente ao pai, todavia, quando o pai fez algo com a riqueza restante de que o mais velho não gostou, ele explodiu de raiva con- tra o pai. Nesse ponto, tornou-se óbvio que ele também não amava seu pai. irmão mais velho não estava obede- cendo por amor, mas apenas como uma maneira, segundo ele pensava, de colocar o pai em dívida e obter controle sobre ele, de modo que, então, o pai tivesse de fazer o que o filho mais velho pedisse. Nenhum dos filhos confiava no amor do pai. Ambos estavam tentando encontrar maneiras de escapar de seu controle. Um fazia isso obedecendo todas as regras do pai; o outro, desobedecendo a todas elas. Flannery O'Connor descreve um de seus personagens fictícios, Hazel Motes, como alguém que sabe que "a maneira de evitar Jesus era evitando o pecado".10 Pen- samos que, se formos religiosamente aten- tos às regras, virtuosos e bons, então cum- primos com nossas obrigações, por assim</p><p>dizer. Agora Deus simplesmente não pode nos pedir nada - é ele que está em dívida conosco. Ele é obrigado a responder nossas orações e nos abençoar. Essa não é a pos- tura de alguém que se move em direção a Deus em grata alegria, feliz submissão e em amor; pelo contrário, é um modo de controlar Deus e, como resultado, mantê-lo ao nosso alcance. Esses dois modos de fugir de Deus par- tem da mentira de que não podemos con- fiar que ele está comprometido com nosso bem. Acreditamos que temos de forçar Deus a nos dar o que precisamos. Mesmo se estivermos obedecendo a Deus exter- namente, estamos fazendo isso não por ele, mas por nós mesmos. Se, ao procurarmos cumprir suas regras, Deus não parecer estar nos tratando como achamos que merecemos, então o verniz de moralidade e retidão pode entrar em colapso da noite para o dia. distanciamento interior de Deus, que já vinha ocorrendo por um longo tempo, torna-se uma rejeição óbvia e ex- terna. Ficamos furiosos com Deus e sim- plesmente nos afastamos. No Antigo Testamento, o clássico</p><p>exemplo dessas duas maneiras de fugir de Deus encontra-se bem aqui, no livro de Jonas. Este se revezou nos papéis, ora atu- ando como "filho mais novo", ora como "filho mais velho". Nos dois primeiros capí- tulos do livro, Jonas desobedece e foge do Senhor; contudo, arrepende-se e busca a graça de Deus, justamente como o filho mais novo, que sai de casa, mas retorna arrependido. Nos dois últimos capítulos, no entanto, Jonas obedece ao mandamento de Deus para que fosse pregar a Nínive. Em ambos os casos, porém, ele está tentando obter o controle de tudo.11 Quando Deus aceita o arrependimento dos Jonas ex- plode em farisaica irritação exatamente como fez o filho mais velho em Lucas I5 pela manifestação de graça e misericórdia por parte de Deus para com os pecadores.12 E é esse o problema que Jonas enfrenta, a saber, o mistério da misericórdia de Deus. É um problema teológico, mas, ao mesmo tempo, é um problema do coração. A menos que Jonas consiga enxergar o pró- prio pecado e veja a si mesmo como al- guém que vive inteiramente pela</p><p>misericórdia de Deus, ele nunca entenderá como Deus pode ser misericordioso para com pessoas más e ainda continuar sendo justo e fiel. A história de Jonas, com todas as suas reviravoltas, nos fala de como Deus conduz Jonas, às vezes pela mão, outras vezes pela nuca, para mostrar-lhe essas coi- sas. Jonas foge e foge. Mas, apesar de ele usar várias estratégias, o Senhor está sem- pre um passo à frente. Deus também varia suas estratégias, e continuamente nos es- tende misericórdia de novas maneiras, mesmo que não entendamos nem mere- çamos isso. 1A tradução do livro de Jonas que uso ao longo de toda obra é derivada do meu pró- prio trabalho exegético e daqueles estu- diosos com maior habilidade em hebraico do que eu. Mas é fortemente influenciada pelas ideias de Jack M. Sasson, Jonah: a new translation with introduction, commen- tary, and interpretation , The Anchor Bible (New York: Doubleday, 1990); e Phyllis Trible, Rhetorical criticism: context, method, and the book of Jonah (Philadelphia: For- tress, 1994). Todas as citações do livro de</p><p>Jonas, portanto, são traduzidas por mim. Todas as demais citações do restante da Bíblia são indicadas in loco . 2Erika Bleibtreu, "Grisly Assyrian record of torture and death", Biblical archaeology Review January/February p. 52-61, citado em James Bruckner, The NIV appli- cation commentary: Jonah, Nahum, Habak- kuk, Zephaniah (Grand Rapids: Zon- dervan, 2004), p. 28. The NIV application commen- tary, , p. 28-9. 4Bruckner reúne três páginas de registros históricos do que ele denomina "negoci- ações do terror" do Império Assírio, The NIV application commentary, , p. 28-30. C. Allen, The books of Joel, Obadiah, Jonah, and Micah (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, 1976), p. 202; Rosemary Nixon, The message of Jonah (Downers Grove: InterVarsity Press, 2003,) p. 56-8. 6Veja Allen, The books of Joel, Obadiah, Jonah, and , p. 204-5. 7A maioria dos estudiosos da Bíblia data a profecia de Naum antes de Jonas. Veja T. F. Glasson, "The final question in Nahum and Jonah," Expository Times 8I (1969):</p><p>54-5. Leslie Allen acrescenta que a hosti- lidade de Jonas para com Nínive é perfei- tamente compreensível se nos lem- brarmos "do impacto religioso e psico- lógico da antiga capital assíria sobre uma comunidade que recebeu o livro de Naum como parte de sua herança religiosa" 190). 8"[Como] em Jó, a lição relevante [do livro de Jonas] é sobre a incapacidade de os mortais entenderem, quanto mais de jul- gar, seu Deus". Jack M. Sasson, Jonah: a new translation, with introduction, commen- tary, and The Anchor Bible (New York: Doubleday, 1990), p. 9Para uma exposição dessa parábola, veja Timothy Keller, The prodigal God: reco- vering the heart of the Christian faith (New York: Dutton, 2008) [edição em portu- guês: Deus pródigo: recuperando a essên- cia da fé crista (São Paulo: Vida Nova, 2018)]. Eu uso a palavra "pródigo" em seu sentido mais original de ser "impruden- temente extravagante". Enquanto o irmão mais novo é assim esbanjador com di- nheiro, o pai mostra-se extravagante com sua graça.</p><p>10 Flannery O'Connor, Wise blood: a novel (New York: Farrar, Straus and Giroux, 1990), p. 22. Trato com mais profun- didade do uso da religião para evitar Deus no capítulo 3, "Redifining sin" [Redefi- nindo o pecado], em The prodigal God , p. 11 "Jonas efetivamente vê a si mesmo como Deus, e transforma o verdadeiro Deus em um elemento dentro de uma equação maior que o próprio Jonas deseja controlar". Daniel C. Timmer, A gracious and compassionate God: mission, salvation and spirituality in the book of Jonah (Dow- ners Grove: InterVarsity Press, 20II), p. 12 Timmer ressalta que, como Jonas já tinha sido o "irmão mais novo" e pedido perdão, essa recaída para o papel do irmão mais velho é ainda mais chocante. "Jonas quer receber a graça de Deus sem ser transformado por ela e, ao mesmo tempo, quer sonegá-la àqueles cujas vidas são de fato transformadas por ela". Timmer, Gra- cious and compassionate p. I33.</p><p>DOIS AS TEMPESTADES DO MUNDO Ele desceu a Jope e, achando um navio que ia para Társis, pagou a passagem e entrou, para seguir nele até Társis, para longe da face do SENHOR. Mas o SENHOR lançou sobre o mar um grande vento, e houve uma tempestade tão grande que acharam que o navio se par- tiria (Jn 1.3b,4). Jonas foge de Deus, este, porém, não o deixa escapar. O Senhor "lançou sobre o mar um grande vento" (v. 4). verbo "lançou" é frequentemente usado para descrever a ação de atirar uma arma como uma lança (ISm A imagem de Deus lançando uma poderosa tempestade sobre o mar, ao redor do barco de Jonas, é bem vívida. Era um vento "grande" (gedola) - a mesma palavra usada para descrever a cidade de Nínive. Se Jonas se recusa a ir para a gran- de cidade, ele se verá dentro de uma grande tempestade. A partir daí, notícias desani- madoras e reconfortantes chegam até nós. AS TEMPESTADES VINCULADAS AO</p><p>PECADO A notícia desanimadora é que todo ato de desobediência a Deus tem uma tempestade vinculada a si. Esse é um dos grandes temas da literatura sapiencial do Antigo Testamento, especialmente no livro de Pro- vérbios. Temos de ser cautelosos aqui. Isso não quer dizer que toda dificuldade que aconteça em nossa vida é a punição por algum pecado específico. livro inteiro de Jó contradiz a crença comum de que pes- soas boas terão uma vida em que tudo corre bem e de que, se a sua vida está indo mal, a culpa deve ser sua. A Bíblia não diz que toda dificuldade é consequência do pecado em contrapartida, ela de fato ensina que todo pecado lhe trará dificuldades. Não podemos tratar nosso corpo com pouco caso e ainda esperar ter boa saúde. Não podemos tratar as pessoas com indife- rença e esperar manter a amizade delas. Não podemos todos colocar nossos inte- resses egoístas à frente do bem comum e ainda ter uma sociedade funcional. Se vio- larmos o desígnio e o propósito das coisas se pecarmos contra nosso corpo, nossos relacionamentos ou a sociedade -, eles nos</p><p>atacarão de volta. Há consequências. Se vio- lamos as leis de Deus, estamos violando nosso próprio desígnio, visto que Deus nos criou para conhecê-lo, servi-lo e amá-lo. A Bíblia fala algumas vezes sobre o fato de Deus punir o pecado ("O Senhor detesta todos os orgulhosos de coração [...] Eles não ficarão impunes" [Pv 16.5, NIV]), mas tam- bém fala algumas outras vezes do próprio pecado nos punindo ("A violência dos ímpios os arrastará, porque se recusam a fazer o que é certo" [Pv 21.7, NIV]). As duas coisas são verdadeiras, ao mesmo tempo. Todo pecado tem uma tempestade vincu- lada a si mesmo. Derek Kidner, um estudioso do Antigo Testamento, escreve: "O pecado [...] gera tensões na estrutura da vida que só podem terminar em colapso".1 Falando de forma mais abrangente, mentirosos também ouvem mentiras, quem ataca também sofre ataques e aquele que vive pela espada tam- bém morre por meio dela. Deus nos criou para vivermos para ele mais do que para qualquer outra coisa, de modo que existe uma "predisposição" espiritual vinculada à nossa vida. Se edificarmos nossa vida e seu</p><p>sentido em algo além de Deus, estaremos agindo contra a natureza do universo, de nosso próprio design e, portanto, de nosso próprio ser. Vemos no texto que os resultados da de- sobediência de Jonas são imediatos e dramáticos. Há uma grande tempestade dirigida diretamente a Jonas. A maneira sú- bita como ela surge e sua fúria são aspectos que até mesmo os marinheiros pagãos conseguem discernir como algo de origem sobrenatural. No entanto, isso não é comum. As consequências do pecado são geralmente mais parecidas com a reação fí- sica que alguém sente diante de uma dose debilitante de radiação. A pessoa não sente dor de imediato, no exato momento que é exposta à radiação. Não é como se estivesse sendo atravessada por uma bala de revólver ou uma espada. A pessoa se sente absolu- tamente normal. Só mais tarde apresentará sintomas, mas aí já será tarde demais. pecado é um ato suicida que a von- tade comete sobre si mesma. É como tomar uma droga viciante. No começo, pode pare- cer maravilhoso, todavia, a cada vez que se toma, fica mais difícil não tomar</p><p>novamente. Eis aqui um simples exemplo. Quando você se entrega a pensamentos amargos, é muito gratificante fantasiar sobre uma vingança. Contudo, de modo vagaroso e certo, isso ampliará sua capa- cidade de sentir pena de si mesmo, cor- roerá sua capacidade de confiar nos outros e de desfrutar de relacionamentos e, em geral, drenará toda a felicidade de sua vida cotidiana. pecado sempre endurece a consciência, aprisiona a pessoa em sua pró- pria masmorra de defensivas e raciona- lizações e a consome lentamente por den- tro. Todo pecado tem uma tremenda tem- pestade vinculada a si. É uma metáfora poderosa porque, mesmo vivendo em uma sociedade tecnologicamente avançada, não podemos controlar o clima. Não se pode subornar uma tempestade ou confundi-la com lógica e retórica. A Bíblia diz: "... esta- rão pecando contra o Senhor, e podem ter certeza de que não escaparão de seu pe- cado" (Nm 32.23, NIV). TEMPESTADES VINCULADAS A PECADORES A notícia desanimadora é que o pecado</p><p>sempre tem uma tempestade vinculada a si; todavia, também há notícias reconfortantes. Para Jonas, a tempestade foi consequência de seu pecado; contudo, os marinheiros também foram pegos por ela. Na maioria das vezes, as tempestades da vida surgem não em consequência de um pecado espe- cífico, mas por consequência inevitável de vivermos em um mundo caído e contur- bado. Tem sido dito que "o homem nasce para as dificuldades tão certamente quanto as fagulhas voam para cima" (Jó 5.7, NIV); portanto, o mundo está cheio de tempes- tades destrutivas. No entanto, como vere- mos, essa tempestade leva os marinheiros a uma fé genuína no Deus verdadeiro, mesmo não tendo sido causada por culpa deles. próprio Jonas começa sua jornada para entender a graça de Deus sob uma nova ótica. Quando tempestades entram em nossa vida, quer em consequência de nossos erros, quer não, os cristãos têm a promessa de que Deus as usará para o bem deles (Rm 8.28). Quando Deus quis transformar em um homem de fé que pudesse ser o pai de todos os fiéis na terra, ele o fez passar</p><p>anos vagando, tendo apenas promessas aparentemente não cumpridas. Quando Deus quis transformar José de um adoles- cente arrogante e profundamente mimado em um homem de caráter, ele o fez passar por anos de rude trato. Ele teve de experi- mentar a escravidão e a prisão, antes de poder salvar seu povo. Moisés teve de se tornar um fugitivo e passar quarenta anos na solidão do deserto, antes de poder lide- rar seu povo. A Bíblia não diz que toda dificuldade é consequência de nosso pecado - no en- tanto, de fato ensina que toda dificuldade, para nós, cristãos, pode ajudar a reduzir o poder do pecado sobre nosso coração. As tempestades podem nos acordar para ver- dades que, de outra forma, jamais enxerga- ríamos. Podem desenvolver em nós fé, esperança, amor, paciência, humildade e autocontrole como nada mais pode. E inú- meras pessoas já testemunharam ter encontrado a fé em Cristo e a vida eterna apenas porque alguma grande tempestade as levou até Deus. Mais uma vez, porém, devemos trilhar o caminho com cuidado. Os primeiros</p><p>capítulos de Gênesis ensinam que Deus não criou o mundo nem a raça humana para o sofrimento, a doença, os desastres naturais, o envelhecimento e a morte. O mal entrou no mundo quando nos afas- tamos de Deus. Deus atou de tal maneira seu coração a nós que, quando ele vê o pe- cado e o sofrimento no mundo, seu coração se enche de dor (Gn 6.6, NCV), e "em toda [nossa] aflição ele também se afligiu" (Is 63.9, ESV) Deus não pode ser comparado a um jogador de xadrez que nos move casual- mente como peças em um tabuleiro. Não é claro para nós, senão anos mais tarde, se é que fica claro nesta vida, o bem que Deus estava realizando em meio às dificuldades que sofremos. COMO DEUS TRABALHA POR MEIO DE TEMPESTADES No entanto, por mais difícil que seja dis- cernir os propósitos amorosos e sábios de Deus por trás de muitas de nossas tribu- lações e dificuldades, seria ainda mais difí- cil imaginar que ele não tivesse controle sobre elas ou que nossos sofrimentos fos- sem aleatórios e sem sentido. Jonas não conseguia enxergar que, bem</p><p>no fundo do terror da tempestade, a miseri- córdia de Deus estava em ação, atraindo-o de volta para transformar seu coração. Não é surpreendente que Jonas não tenha percebido isso inicialmente. Ele não sabia como Deus viria ao mundo para nos salvar. Nós, porém, que vivemos deste outro lado da cruz, sabemos que Deus pode salvar por meio de fraqueza, sofrimento e aparente derrota. Aqueles que presenciaram Jesus morrendo não viram nada além de perda e tragédia. Entretanto, nas entranhas daquela escuridão, a misericórdia divina operava poderosamente, trazendo-nos perdão e remissão. A salvação de Deus veio ao mundo por meio do sofrimento, portanto, sua graça e seu poder salvador podem ope- rar em nossa vida cada vez mais, à medida que passamos por dificuldades e tristezas. Há misericórdia nas profundezas de nossas tempestades. 1Derek Kidner, Proverbs: an introduction and commentary (Downers Grove: Inter- Varsity Press, 1964), p. 80 [edição em português: Provérbios, introdução e comen- tário , tradução de Gordon Chown (São Paulo: Vida Nova, 1980)].</p><p>TRES QUEM E MEU PROXIMO? Então, os marinheiros ficaram aterro- rizados e clamaram cada um a seus deuses. E lançaram no mar o equipa- mento que estava no navio para deixá- lo mais leve. Mas Jonas desceu ao porão do navio, deitou-se e caiu num sono profundo. O capitão dos marinheiros aproximou-se dele e disse: "Como tu podes ficar dormindo? Levante-se, clame ao teu deus! Talvez ele nos seja favo- rável, para que não pereçamos" (Jn 1.5,6). livro de Jonas é dividido em duas meta- des simétricas - o relato de quando Jonas foge de Deus e, depois, o relato de sua mis- são em Nínive. Cada metade é dividida em três seções: a palavra de Deus para Jonas; depois, seu encontro com os gentios pa- gãos; e, finalmente, o diálogo de Jonas com Deus. Por duas vezes, então, Jonas se vê em um encontro bem próximo com pessoas que são diferentes dele no que diz respeito a raça e Em ambas as ocasiões, seu comportamento é de desdém e nada útil,</p><p>enquanto todos os pagãos têm sistema- ticamente uma atitude mais admirável do que a dele. Essa é uma das principais mensagens do livro, a saber, que Deus se importa com o modo que nós, crentes, nos relacionamos e tratamos pessoas que são profundamente diferentes de nós. Em geral, aqueles que pregam e ensi- nam sobre o livro de Jonas negligenciam essas exceto, talvez, para observar que devemos nos dispor a levar o evangelho a terras estrangeiras. Isso certamente é ver- dade, mas deixa escapar o sentido mais pro- fundo das interações de Jonas com os pa- gãos. Deus quer que tratemos pessoas de diferentes raças e de outras crenças de forma respeitosa, amorosa, generosa e justa. JONAS E MARINHEIROS Jonas rejeitou o chamado de Deus para pre- gar a Nínive. Ele não queria falar com os pagãos sobre Deus nem os levar a crer nele. Então, Jonas fugiu - apenas para se depa- rar falando de Deus justamente para o mesmo tipo de pessoas de quem estava fu- gindo! Quando a violenta tempestade</p><p>começou, "os marinheiros ficaram aterro- rizados" Eles eram marinheiros ex- perientes, acostumados a enfrentar o mau tempo; portanto, essa deve ter sido uma tempestade excepcionalmente aterrorizante. Ainda assim, Jonas encontra-se no porão do navio, dormindo profundamente. Hugh Martin, ministro escocês do século diz que Jonas estava dormindo "o sono da afli- ção". Muitos sabem exatamente o que é isso: o desejo de escapar da realidade por meio do sono, ainda que por pouco tempo.1 Ele estava profundamente extenuado e exausto, esgotado por intensos sentimentos de raiva, culpa, ansiedade e tristeza. Esse é um dos vários contrastes cui- dadosamente mostrados entre os despre- zíveis marinheiros pagãos e o moralmente respeitável profeta de Israel. Enquanto Jonas está totalmente alheio ao perigo, os marinheiros estão extremamente alertas. Enquanto Jonas está completamente absor- vido por seus próprios problemas, os mari- nheiros estão buscando o bem de todos que estão no barco. Eles oram, cada um para seu próprio deus, embora Jonas não ore para seu Deus. Eles também estão</p>

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