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<p>Título do original THE WEALTH OF NATIONS. Copyright 2003, Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, para a presente edição. edição 2003 edição 2012 Tradução ALEXANDRE AMARAL RODRIGUES EUNICE OSTRENSKY Revisão da tradução Eunice Ostrensky Acompanhamento editorial Luzia Aparecida dos Santos Revisão gráfica Renato da Rocha Carlos Maysa Monção Sandra Garcia Cortes Produção gráfica Geraldo Alves Paginação/Fotolitos Studio 3 Desenvolvimento Editorial Dados de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Adam. 1723-1790. A riqueza das volume Adam Smith : tradução Ale- xandre Amaral Rodrigues, Eunice ed São Paulo : Editora WMF Martins Fontes, 2012. Título original: The wealth of nations ISBN 978-85-7827-573-0 1. Economia 2. Smith, II. Série. CDD-330 12-05427 para sistemático: 1. Economia 330 Todos os direitos desta edição reservados à Editora WMF Martins Fontes Ltda. Rua Prof. Laerte Ramos de Carvalho, 133 01325.030 São Paulo SP Brasil Tel. (11) 3293.8150 Fax (11) 3101.1042 e-mail:</p><p>CAPÍTULO 1 Da divisão do trabalho O maior aperfeiçoamento das forças produtivas do tra- balho e grande parte da habilidade, destreza e discernimen- to com que ele é em todos os lugares dirigido ou aplicado parecem ter sido os efeitos da divisão do É possível compreender mais facilmente os efeitos da divisão do trabalho sobre a atividade geral da sociedade considerando a maneira pela qual ela opera em algumas manufaturas específicas. Em geral, admite-se que ela seja levada mais longe em algumas manufaturas muito triviais, não porque realmente seja mais nestas do que em outras de maior importância, mas porque nessas manufaturas tri- viais, número que é necessariamente destinam pequenas carências de traba- de se a suprir as um reduzido de pessoas, número total pequeno: não é reunir na mesma oficina todos os que se ferentes que ocupam raro, possível se dos colo- di- ramos do trabalho, de modo todos quem ao mesmo tempo à vista do Pelo contrá- rio, des ramo carências distinto suprir pessoas, as gran- cada nas grandes manufaturas destinadas a de um elevado número de do trabalho emprega um número tão de mesma mais de do trabalhadores, uma todos só gran- vez, na que é impossível reuni-los Raramente conseguimos ver, de que os trabalhadores que se ocupam de uma úni- ca Portanto, embora nessas manufaturas traba-</p><p>8 A RIQUEZA DAS NAÇÕES LIVRO 9 lho possa realmente ser dividido num número muito maior fabricar mais de 48 mil alfinetes num dia. Desse modo, de tarefas do que nas de natureza mais trivial, a divisão como cada pessoa produzia uma décima parte de 48 mil al- aqui não é tão evidente e por isso mesmo tem sido menos finetes, cada uma fabricava cerca de 4.800 alfinetes num observada. dia. Mas, se cada uma trabalhasse separada e independen- Tomemos, pois, como exemplo uma manufatura muito temente das outras, e sem que nenhuma delas tivesse sido trivial, mas na qual a divisão do trabalho tem sido frequen- treinada para essa atividade específica, por certo nenhuma temente notada, a forja de alfinetes; um trabalhador não delas conseguiria produzir vinte alfinetes por dia, talvez treinado para essa atividade (que a divisão do trabalho tor- nem mesmo um único alfinete num dia; ou seja, certamen- nou uma ocupação distinta) e que não estivesse familiari- te não conseguiria produzir nem a parte, e talvez nem zado com as máquinas nela utilizadas (para cuja invenção a a parte do que hoje é capaz de produzir, graças à di- divisão do trabalho provavelmente contribuiu) dificilmente visão e combinação adequadas de suas diferentes tarefas. poderia, ainda que com a máxima diligência, produzir um Em todos os ofícios e manufaturas, os efeitos da divi- alfinete por dia, e com certeza não seria capaz de produ- do trabalho são semelhantes aos que se verificam nes- zir vinte. Mas, da maneira como essa atividade é atualmen- manufatura tão trivial, embora em muitas delas O traba- te realizada, não só conjunto do trabalho constitui uma lho não possa ser tão subdividido, nem reduzido a uma ocupação específica, como a maior parte das tarefas em que simplicidade tão grande de operações. Entretanto, a divi- trabalho está subdividido consiste, igualmente, em ocupa- são do trabalho gera em todos os ofícios, na medida em ções especializadas. Um homem desenrola arame, outro que é possível introduzi-la, um aumento proporcional das estica, um terceiro corta, um quarto O aponta e um forças produtivas do trabalho. A distinção entre as diversas quinto afia a outra extremidade para receber a cabeça; a atividades e empregos parece ter-se realizado em conse- fabricação da cabeça exige duas ou três operações distin- dessa vantagem. Aliás, verifica-se que essa distin- tas; encaixe da cabeça é uma ocupação específica, assim é geralmente levada mais longe nos países que desfru- como é alvejar os alfinetes; mesmo a embalagem dos al- um nível mais elevado de atividade e aperfeiçoamen- finetes é uma tarefa distinta; e a importante atividade de for- to: O que constitui trabalho de um homem num estágio primitivo da sociedade corresponde comumente ao de vá- jar alfinetes é, dessa maneira, dividida em cerca de dezoi- rios homens numa sociedade mais desenvolvida. Em todas to operações distintas, as quais, em algumas manufaturas, as sociedades desenvolvidas, agricultor é geralmente ape- são todas executadas por diferentes operários, embora em nas agricultor*; operário, tão-somente um operário. Além outras mesmo homem às vezes execute duas ou três de- disso, trabalho necessário para produzir um artigo com- las. Conheci uma pequena manufatura desse tipo, que em- pleto quase sempre se divide entre um grande número de pregava apenas dez homens e onde, por conseguinte, vá- rios deles executavam duas ou três operações distintas. Mas, embora fossem muito pobres e por isso estivessem muito No original, farmer. Ao longo do livro, Smith empregará esse termo mal providos das máquinas necessárias, tinham condições para designar tanto indivíduo que cultiva campo como, mais das vezes, de fabricar, quando se esforçavam, cerca de doze libras de que arrenda uma propriedade rural. No primeiro sentido, termo se traduz como "agricultor", contrapondo-se a como acima; no segundo, tra- alfinetes por dia. Numa libra há mais de quatro mil alfinetes duz-se por "arrendatário" ou contrapondo-se então a "proprietário". de tamanho médio. Assim, aquelas dez pessoas conseguiam Não há, porém, diferença substancial entre os dois sentidos. (N. T.)</p><p>10 A RIQUEZA DAS NAÇÕES LIVRO 11 operários. Quantas atividades distintas existem em cada barato como O da França, não obstante a maior riqueza e um dos ramos das manufaturas de linho e de desde os aprimoramento da França. O trigo da França, nas produtores das matérias-primas até os branqueadores e cias produtoras, tem a mesma qualidade e, na maior par- fiandeiros do linho, ou dos tintureiros e costureiros do te- dos anos, aproximadamente mesmo preço que O tri- cido! É verdade que a natureza da agricultura não admite tan- go da Inglaterra, embora, levando em conta a riqueza e O tas subdivisões do trabalho como as manufaturas, nem uma desenvolvimento, a França talvez seja inferior à Inglaterra. separação tão completa entre as diferentes tarefas. É im- As terras destinadas ao cultivo de trigo na Inglaterra são possível separar, com a mesma facilidade com que geral- todavia mais bem cultivadas do que as da França e, segun- mente se separa a atividade do carpinteiro da atividade do se afirma, as da França são mais bem cultivadas do que do ferreiro, a atividade do criador de gado da atividade do as da Polônia. Mas, embora país pobre possa, apesar da cultivador de trigo. O fiandeiro é quase sempre uma pes- inferioridade do cultivo, rivalizar em certa medida com os soa distinta do tecelão; mas lavrador, gradador, se- ricos no preço e na qualidade do trigo, ele não poderá ter meador e que faz a colheita dos cereais são, pretensão de concorrer com suas manufaturas, pelo me- te, a mesma pessoa. Como a ocasião para esses diversos ti- nos se as manufaturas forem adequadas ao solo, ao clima pos de trabalho só retorna com as diferentes estações do e à situação do país rico. As sedas da França são melhores ano, é impossível empregar constantemente um único ho- e mais baratas do que as inglesas porque a produção de mem em cada uma delas. Talvez seja por causa dessa im- seda, pelo menos enquanto se conservarem os elevados possibilidade de estabelecer uma separação tão completa impostos que atualmente incidem sobre a importação de e absoluta entre as diferentes tarefas de que se compõe a seda bruta, não é tão apropriada ao clima da Inglaterra agricultura que aprimoramento das forças produtivas do como ao da França. Por outro lado, as ferragens e os tecidos trabalho nessa atividade nem sempre acompanhe apri- de la crua da Inglaterra são incomparavelmente superiores moramento que experimentam as manufaturas. É verdade da França, e também muito mais baratos, se a qualida- que as nações mais ricas em geral superam todas as suas de for idêntica. Afirma-se que na praticamente não vizinhas na agricultura e nas manufaturas; mas comumen- existe nenhum tipo de manufatura, com exceção das manu- te se distinguem mais por sua superioridade nestas do que faturas domésticas, mais rudimentares, sem as quais nenhum naquela. Suas terras são em geral mais bem cultivadas e, país consegue razoavelmente subsistir. como se investem mais trabalho e dinheiro nelas, produ- O grande aumento da quantidade de trabalho que, em zem mais em relação à extensão e à fertilidade natural do da divisão do trabalho, O mesmo número de solo. Mas essa superioridade da produção raramente é mui- pessoas é capaz de executar deve-se a três diferentes cir- to mais do que proporcional à superioridade de trabalho cunstâncias: em primeiro lugar, ao aumento da destreza de e gastos. Na agricultura, trabalho de um país rico nem cada trabalhador; em segundo lugar, à economia do tempo sempre é muito mais produtivo do que de um país pobre, que normalmente se perdia ao passar de uma tarefa a ou- ou pelo menos a diferença nunca é tão grande como é tra; e, finalmente, à invenção de um grande número de má- mumente nas manufaturas. Por conseguinte, trigo dos paí- quinas que facilitam e abreviam O trabalho, permitindo que ses ricos nem sempre chegará ao mercado mais barato do um homem faça O trabalho de muitos. que dos países pobres, se a qualidade for a mesma. O tri- Em primeiro lugar, aprimoramento da destreza do go da Polônia, para padrão de qualidade, é tão trabalhador faz necessariamente aumentar a quantidade</p><p>12 A RIQUEZA DAS NAÇÕES 13 de trabalho que ele pode executar; e a divisão do traba- Um tecelão do campo, que também cultiva uma pe- lho, ao reduzir a atividade de cada homem a uma simples quena propriedade, deve perder bastante tempo ao passar tarefa, e ao tornar essa tarefa O único trabalho de sua vida, do tear para O campo de cultivo, ou do campo para O tear. necessariamente aumenta muito a destreza do trabalhador. Quando as duas atividades podem ser executadas no mes- Se um ferreiro qualquer, acostumado a manusear marte- mo local, a perda de tempo é, sem dúvida, muito menor. lo, mas que nunca tenha feito pregos, for obrigado, numa Mesmo nesse caso, entretanto, ela é bastante considerável. dada ocasião, a tentar fazê-los, mal conseguirá, estou certo Geralmente, todo homem divaga um pouco ao passar de disso, fazer mais do que duas ou três centenas de pregos um tipo a outro de trabalho. Ao iniciar O novo trabalho, ra- por dia, aliás de péssima qualidade. Um ferreiro acostuma- está muito ativo e vigoroso; sua cabeça, como se do a fazer pregos, mas cuja única ou principal ocupação está em outro lugar, e ele passa algum tempo mais pro- não tenha sido a de forjar pregos, raramente conseguirá, priamente vadiando do que se entretendo com algo mais mesmo que use sua máxima diligência, fabricar mais de 800 hábito de divagar e de se aplicar ao trabalho de ma- ou mil pregos num dia. Tive a oportunidade de ver vários neira indolente e descuidada, que é naturalmente, ou antes rapazes com menos de vinte anos de idade, que nunca necessariamente, adquirido por todo trabalhador do cam- exerceram nenhuma outra atividade a não ser a forja de po obrigado a mudar de atividade e de ferramentas a cada pregos, e que, quando se esforçavam, conseguiam fabri- meia hora e que todos os dias de sua vida tem de realizar car, cada um deles, mais de 2.300 pregos num dia. A for- vinte diferentes trabalhos, torna-o quase sempre desleixado ja de um prego, entretanto, não é de maneira nenhuma e preguiçoso, incapaz de se aplicar com vigor, por mais uma das tarefas mais simples. A mesma pessoa sopra O fole, urgente que seja a situação. Assim, independentemente de atiça ou corrige a chama, conforme O necessário, funde sua deficiência em relação à destreza, essa causa por si só ferro e forja as diferentes partes do prego; para forjar a ca- será suficiente para reduzir consideravelmente a quantida- beça, ele também é obrigado a mudar de ferramentas. As de de trabalho que ele consegue realizar. diferentes tarefas em que se subdivide a fabricação de um Em terceiro e último lugar, todos devem estar cientes alfinete ou de um botão de metal são muito mais simples, de quanto O trabalho é facilitado e abreviado graças à utili- e a destreza das pessoas cuja única atividade, durante toda zação de máquinas apropriadas. É desnecessário dar exem- a vida, tenha sido executar essas tarefas é, usualmente, plos. Limito-me, pois, a observar que a invenção de todas muito maior. A rapidez com a qual são executadas algumas essas máquinas que tanto facilitam e abreviam trabalho das operações dessas manufaturas excede O que alguém parece dever-se originalmente à divisão do trabalho. Os que nunca as tivesse presenciado acreditaria possível ser homens têm muito mais probabilidade de descobrir méto- conseguido por mãos humanas. dos mais fáceis e rápidos de alcançar certo objetivo quan- Em segundo lugar, a vantagem obtida pela economia do toda a atenção de seu espírito está voltada para esse do tempo normalmente perdido ao passar de uma tarefa a único objetivo, do que quando O espírito se dispersa entre outra é muito maior do que, à primeira vista, se poderia uma grande variedade de coisas. Ora, em da imaginar. É impossível passar muito rapidamente de um divisão do trabalho, toda a atenção de cada homem natu- tipo de trabalho a outro, na medida em que cada um é rea- ralmente vem a se concentrar num objetivo muito simples. lizado num local diferente e com ferramentas muito dis- E natural que se espere, portanto, que um ou outro dos</p><p>14 A RIQUEZA DAS NAÇÕES LIVRO 15 que se dedicam a cada tarefa específica logo descubra mé- pal atividade ou ocupação de uma determinada classe de todos mais fáceis e rápidos de realizar trabalho específi- cidadãos. Além disso, como qualquer outra atividade, tam- CO que lhe cabe, sempre que a natureza deste permita tal esta se subdivide num grande número de ramos dis- melhoria. Em sua maioria, as máquinas utilizadas nas ma- tintos, cada um dos quais proporciona ocupação a um gru- nufaturas em que trabalho está mais subdividido foram po ou classe particular de filósofos; e essa subdivisão do originalmente invenções de trabalhadores comuns que, trabalho na filosofia, bem como em qualquer outra ativida- ocupando-se cada um deles numa tarefa muito simples, de, permite aumentar a destreza e economizar tempo. Cada esforçaram-se em descobrir métodos mais fáceis e rápidos indivíduo torna-se mais versado no ramo particular a que de as realizar. Qualquer pessoa bastante acostumada a vi- se dedica, cresce volume de trabalho realizado, e a exten- sitar manufaturas desses tipos deve ter visto muitas vezes são da ciência amplia-se consideravelmente graças a isso. máquinas excelentes, que foram fruto das invenções de tais É a grande multiplicação das produções de todas as operários, com a finalidade de tornar mais simples e rápi- diferentes artes*, da divisão do trabalho, que da a parte do trabalho que lhes cabe. Nas primeiras má- dá origem, numa sociedade bem administrada, à opulência quinas a vapor, era necessário que um rapaz se dedicasse generalizada que se estende às mais baixas camadas do constantemente a abrir e fechar alternadamente a comu- povo. Cada trabalhador dispõe de uma grande quantidade nicação entre a caldeira e cilindro, conforme pistão su- de trabalho próprio, além da que ele mesmo necessita uti- bia ou descia. Um desses rapazes, que gostava de brincar lizar; e, como todos os outros trabalhadores se encontram com seus companheiros, observou que, amarrando uma na mesma situação, ele têm condições de trocar uma gran- corda à válvula que abria essa comunicação e prenden- de quantidade dos próprios produtos por uma grande quan- do-a a outra parte da máquina, a válvula se abria e fechava tidade, ou, que vem a ser mesmo, pelo preço de uma sem seu auxílio, deixando-o livre para divertir-se com grande quantidade dos deles. Fornece-lhes em abundân- seus companheiros. Assim, um dos grandes aperfeiçoamen- cia aquilo de que precisam, e eles fornecem-lhe com igual tos introduzidos nessa máquina, desde a sua invenção, foi profusão tudo que necessitam, de modo que a fartura de fruto da descoberta de um rapaz que queria esquivar-se bens se difunde pelas diferentes classes da sociedade. ao trabalho. Observe-se a moradia do mais comum artífice ou jor- No entanto, nem todos os aperfeiçoamentos introdu- naleiro num país civilizado e próspero, e se perceberá que zidos nas máquinas foram fruto da invenção dos que ti- O número de pessoas cuja atividade, ainda que só numa nham a ocasião de utilizá-las. Muitos deles foram fruto do pequena parte, foi necessário empregar para lhe propor- engenho dos fabricantes das máquinas, desde que esse cionar essa moradia supera todas as possibilidades de cál- trabalho se tornou uma atividade específica; e alguns foram culo. Por exemplo, casaco de là que cobre jornaleiro, criados pelos chamados filósofos ou homens de especula- por mais grosseiro e rudimentar que possa parecer, é pro- ção, cujo ofício é nada fazer, mas tudo observar; e que, por duto do trabalho conjunto de um grande número de traba- isso mesmo, são muitas vezes capazes de combinar as fa- culdades dos objetos mais distantes e diferentes. Na medi- da em que a sociedade avança, a filosofia ou especulação Arts, no original. Deve-se entender termo como um sinônimo para se torna, como qualquer outra atividade, a única ou princi- "técnicas". (N. T.)</p><p>16 A RIQUEZA DAS NAÇÕES LIVRO I 17 lhadores. O pastor, O separador da cardador, tinturei- da cerveja, as janelas de vidro que deixam passar O calor e a ro, fiandeiro, tecelão, O pisoeiro, curtidor e muitos ou- luz e os mantêm ao abrigo do vento e da chuva, com todo O tros têm de unir suas diferentes artes para que seja possível engenho e a arte exigidos para preparar essa bela e feliz in- obter até mesmo esse produto simples. Quantos comercian- venção sem a qual dificilmente se poderiam proporcionar tes e carregadores, além disso, devem ter-se empregado habitações confortáveis nestas regiões setentrionais, e ainda para transportar as matérias-primas de alguns desses tra- todas as ferramentas utilizadas pelos diferentes operários balhadores para outros, que vivem em re- empregados na produção de todos esses bens úteis; se exa- giões muito distantes do país! Sobretudo, quanto comércio e minarmos todas essas coisas e considerarmos a variedade quanta navegação, quantos construtores navais, marinhei- de trabalhos empregados em cada um desses bens, perce- ros, fabricantes de velas e cordas foi necessário empregar beremos que, sem O auxílio e a cooperação de muitos mi- para reunir as diferentes drogas utilizadas pelo tintureiro, não seria possível atender às necessidades da mais que muitas vezes provêm dos mais remotos cantos do infima pessoa de um país civilizado, mesmo de acordo com mundo! E que variedade de trabalho é ainda necessária que nós erroneamente imaginamos ser a maneira sim- para produzir as ferramentas do mais desses tra- ples e fácil como elas são usualmente satisfeitas. É verdade balhadores! Para não falar de máquinas tão complicadas que, se comparadas ao mais extravagante luxo dos grandes, como navio do marinheiro, a prensa do pisoeiro, ou mes- suas necessidades parecem, sem dúvida, extremamente sim- mo tear do tecelão, consideremos apenas a variedade de plórias e modestas; e no entanto talvez seja verdade que a trabalho necessária para constituir esta máquina tão sim- diferença entre as necessidades de um príncipe europeu e ples, a tesoura com que pastoreador tosquia os carnei- as de um camponês frugal e industrioso nem sempre é mui- ros. mineiro, fabricante da fornalha para fundir mi- to maior do que a diferença que existe entre conforto nério, lenhador, O carvoeiro que produziu carvão a ser deste último e de muitos reis africanos, senhores absolu- utilizado na fundição, oleiro que fabrica os tijolos, pe- tos da vida e da liberdade de dez mil selvagens nus. dreiro, os trabalhadores que operam a fornalha, forjador, O ferreiro, todos eles precisam reunir suas diferentes artes para produzir a tesoura. Se da mesma ma- neira as diferentes peças que compõem seu vestuário e a mobília de sua casa, a camisa de linho cru que trazem sobre a pele, os sapatos que lhes protegem os pés, a cama em que se deitam, e as várias partes que a O fogão de cozinha em que preparam seus alimentos, carvão que utilizam para esse fim, arrancado às entranhas da terra, e tal- vez levado até eles depois de uma longa viagem por terra e mar, todos os demais utensílios de sua cozinha, tudo O que utilizam em sua mesa, as facas e os garfos, os pratos de bar- ro ou estanho, nos quais servem e dividem seus alimentos, os diferentes operários na preparação do pão e</p>