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<p>Indaial – 2020</p><p>FilosóFica</p><p>Prof. Kelvin Custódio Maciel</p><p>Prof.a Luciane da Luz</p><p>Prof. Pedro Fernandes Leite da Luz</p><p>2a Edição</p><p>antropologia</p><p>Elaboração:</p><p>Prof. Kelvin Custódio Maciel</p><p>Prof.a Luciane da Luz</p><p>Prof. Pedro Fernandes Leite da Luz</p><p>Copyright © UNIASSELVI 2020</p><p>Revisão, Diagramação e Produção:</p><p>Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI</p><p>Impresso por:</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>M152a</p><p>Maciel, Kelvin Custódio</p><p>Antropologia filosófica. / Kelvin Custódio Maciel; Luciane da Luz;</p><p>Pedro Fernandes Leite da Luz. – Indaial: UNIASSELVI, 2020.</p><p>192 p.; il.</p><p>ISBN 978-65-5663-215-5</p><p>ISBN Digital 978-65-5663-216-2</p><p>1. Antropologia filosófica. - Brasil. I. Maciel, Kelvin Custódio. II.</p><p>Luz, Luciane da. III. Luz, Pedro Fernandes Leite da. IV. Centro Universitário</p><p>Leonardo Da Vinci.</p><p>CDD 128</p><p>Prezado acadêmico! Bem-vindo ao estudo de Antropologia Filosófica, que vai</p><p>lhe auxiliar em uma melhor compreensão do que consiste a Ciência Antropológica,</p><p>como se situa no campo das Ciências Sociais, quais são seus objetos de estudo e</p><p>quais os métodos de que se vale para o entendimento dos fenômenos relativos aos</p><p>seres humanos.</p><p>Também é nosso objetivo familiarizá-lo com as teorias antropológicas, as</p><p>principais discussões nesta área de conhecimento e como se enfocam e refletem</p><p>acerca da dimensão religiosa da vida humana.</p><p>Na Unidade 1 nós definiremos o que é Antropologia, explicitaremos as etapas</p><p>do fazer antropológico, os principais conceitos da área e o método específico desta</p><p>disciplina.</p><p>Na Unidade 2, nós travaremos contato com as principais teorias antropológicas e</p><p>veremos como elas se relacionam com o desenvolvimento histórico da disciplina, também</p><p>veremos alguns dos principais temas relacionados à investigação da Antropologia.</p><p>Na unidade 3, será abordado as principais discussões acerca da antropologia</p><p>filosófica, desde os gregos antigos até as formulações modernas. Serão privilegiados,</p><p>nesta unidade, autores e textos considerados “clássicos” no percurso da história da</p><p>filosofia, embora não exista uma lista universal que forneça quais seriam os “clássicos”.</p><p>Com certeza, os autores, aqui apresentados, contribuem muito para o objetivo desta</p><p>unidade: discutir uma visão geral sobre a perspectiva histórica da antropologia filosófica</p><p>no ocidente.</p><p>A terminologia antropologia é um conceito recente na história da filosofia, mas</p><p>que abarca uma amplitude de pensamento que se inicia na Grécia Antiga, há mais de</p><p>dois mil anos, nas primeiras civilizações do ocidente. A consolidação do termo se deu</p><p>graças ao filósofo alemão Immanuel Kant, que intitulou uma de suas obras Anthropologie</p><p>in Hinsicht (Antropologia de Um Ponto de Vista Pragmático), de 1798. Kant define a</p><p>antropologia como a doutrina do conhecimento do homem ordenada sistematicamente.</p><p>Portanto, quando nos referimos à antropologia filosófica, temos que ter em</p><p>mente que se trata de uma ciência que tem, por objeto, o homem, em seus fundamentos</p><p>últimos. Há dois usos clássicos do termo antropologia que fazem parte de outros</p><p>campos do conhecimento. Por exemplo, as Unidades 1 e 2 tratam da antropologia</p><p>sob a perspectiva etnológica, cultural, ou seja, quando olhamos para o homem sob o</p><p>ponto de vista da sua origem histórica, e a antropologia física ou empírica, que tem, por</p><p>prerrogativa, o estudo do homem sob o ponto de vista físico-somático. Evidente que</p><p>existem muitas teorizações sobre a antropologia, haja vista a polissemia do termo, além</p><p>do seu emprego nas ciências humanas.</p><p>APRESENTAÇÃO</p><p>GIO</p><p>Olá, eu sou a Gio!</p><p>No livro didático, você encontrará blocos com informações</p><p>adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento</p><p>acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender</p><p>melhor o que são essas informações adicionais e por que você</p><p>poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações</p><p>durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais</p><p>e outras fontes de conhecimento que complementam o</p><p>assunto estudado em questão.</p><p>Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos</p><p>os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina.</p><p>A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um</p><p>novo visual – com um formato mais prático, que cabe na</p><p>bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada</p><p>também digital, em que você pode acompanhar os recursos</p><p>adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo</p><p>deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura</p><p>interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no</p><p>texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que</p><p>também contribui para diminuir a extração de árvores para</p><p>produção de folhas de papel, por exemplo.</p><p>Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente,</p><p>apresentamos também este livro no formato digital. Portanto,</p><p>acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com</p><p>versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.</p><p>Preparamos também um novo layout. Diante disso, você</p><p>verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses</p><p>ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos</p><p>nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos,</p><p>para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os</p><p>seus estudos com um material atualizado e de qualidade.</p><p>Nesta última unidade, iremos nos orientar sob o sentido filosófico do termo</p><p>antropologia, cuja tarefa primordial é responder à pergunta: O que é o homem? Propomos</p><p>a você, acadêmico, um convite a embarcar nessa aventura antropológica, que se inicia</p><p>a partir do seu esforço em estranhar, pôr em questão o mundo que se apresenta como</p><p>“natural”, ou seja, produto do processo de socialização dos homens em um tempo e</p><p>espaço específicos. Nesse sentido, além de apresentar diferentes visões de homem sob</p><p>a perspectiva da antropologia filosófica, você terá a liberdade de pensar e compreender</p><p>sobre si mesmo, uma experiência verdadeiramente filosófica.</p><p>Prof. Kelvin Custódio Maciel</p><p>Prof.a Luciane da Luz</p><p>Prof. Pedro Fernandes Leite da Luz</p><p>Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e</p><p>dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes</p><p>completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você</p><p>acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar</p><p>essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só</p><p>aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos.</p><p>QR CODE</p><p>ENADE</p><p>LEMBRETE</p><p>Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma</p><p>disciplina e com ela um novo conhecimento.</p><p>Com o objetivo de enriquecer seu conheci-</p><p>mento, construímos, além do livro que está em</p><p>suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem,</p><p>por meio dela você terá contato com o vídeo</p><p>da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa-</p><p>res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de</p><p>auxiliar seu crescimento.</p><p>Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que</p><p>preparamos para seu estudo.</p><p>Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!</p><p>Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um</p><p>dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de</p><p>educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar</p><p>do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem</p><p>avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo</p><p>para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira,</p><p>acessando o QR Code a seguir. Boa leitura!</p><p>SUMÁRIO</p><p>SUMÁRIO</p><p>UNIDADE 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA, OBJETO E MÉTODO ........................................................1</p><p>TÓPICO 1 — O QUE É ANTROPOLOGIA ...................................................................................3</p><p>1 INTRODUÇÃO .......................................................................................................................3</p><p>2 A ANTROPOLOGIA ENQUANTO CIÊNCIA ........................................................................... 7</p><p>3 A ANTROPOLOGIA NA PRÁTICA .........................................................................................9</p><p>fim os artefatos que produzimos (MARCONI; PRESOTTO, 2001).</p><p>A cultura determina nossos comportamentos e crenças.</p><p>FIGURA 31 – RITO RELIGIOSO DOS POVOS XINGUANOS</p><p>Fonte: <http://www.thecities.com.br/miniaturas/Brasil/Cultura/A_Cultura_</p><p>Brasileira/4_1258980357.8385.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2015.</p><p>38</p><p>Aqui, prezado acadêmico, é preciso ter em mente que a cultura é algo que</p><p>nos distingue enquanto espécie e que ela mesma é fruto das pressões evolutivas que</p><p>nos forjaram. Ou seja, a cultura é algo próprio do ser humano, foi no processo de nos</p><p>tornarmos humanos, através das mutações genéticas que levaram ao surgimento de</p><p>nossa espécie, que nós desenvolvemos este extraordinário mecanismo adaptativo</p><p>que é a cultura. Entretanto, foi esta mesma cultura que nos permitiu escapar dos</p><p>determinismos biológicos.</p><p>Assim o ser humano voa sem ter asas, cruza os oceanos sem ter escamas nem</p><p>barbatanas, nada embaixo d´água sem ter guelras, mora no ártico sem ter pelagem</p><p>espessa e realiza uma série de atividades para as quais sua natureza biológica não o</p><p>preparou, mas cuja possibilidade se abriu a partir da cultura.</p><p>Para Hoebel e Frost (2006) a cultura consistiria em um sistema integrado</p><p>de padrões comportamentais aprendidos na vida social e que são típicos de uma</p><p>determinada formação social, não sendo, portanto, fruto de uma herança biológica. Isto</p><p>coloca a questão de a cultura ser, em sua essência, não instintiva, ou seja, as diferentes</p><p>expressões culturais não são inatas, mas totalmente arbitrárias, isto é, fruto do engenho</p><p>e do desejo humano. Muito embora a cultura seja comportamento apreendido, ela é</p><p>também, como dissemos antes, parte de nossa natureza, tanto quanto o andar bípede</p><p>e a postura ereta que nos distingue.</p><p>Entre nós seres humanos a cultura sobrepuja inteiramente os instintos, é</p><p>através do processo de socialização, no convívio com outros seres humanos, que nós</p><p>aprendemos como satisfazer nossas necessidades básicas e é a cultura que determina</p><p>a forma pela qual nós o faremos. Somente vivendo em sociedade que podemos</p><p>desenvolver as habilidades necessárias à nossa sobrevivência, através do aprendizado</p><p>de uma determinada cultura.</p><p>Vamos dar um exemplo para tentar clarificar este ponto para você acadêmico</p><p>da UNIASSELVI.</p><p>Todos os seres vivos têm que se alimentar, esta é uma necessidade básica</p><p>inescapável, procurar alimento é instintivo em todas as espécies. Mas e entre nós?</p><p>Embora seja um imperativo da natureza ingerir alimentos, aquilo que nós consideramos</p><p>como um alimento próprio, as maneiras pelas quais nós os ingerimos, quando, na</p><p>companhia de quem, de que forma e outras tantas variáveis, são aprendidas em</p><p>sociedade pelo processo de endoculturação, isto é, através da introjeção no indivíduo</p><p>da cultura da qual ele faz parte.</p><p>Desta forma enquanto que em certos países asiáticos é perfeitamente lícito</p><p>e desejável comer carne de cachorro, nos países do ocidente este fato é fortemente</p><p>condenado pela cultura dos membros destas sociedades. Se em nosso país jamais</p><p>ingeriríamos carne de caracol, na França esta é uma iguaria apreciada. Em determinados</p><p>países africanos come-se com as mãos, enquanto que entre nós faz-se o uso de talheres,</p><p>39</p><p>já na China come-se com o auxílio de duas varetas. Se entre nós comer sozinho é um</p><p>ato normal, entre os Hüpda (povo indígena da Amazônia) ingerir algum alimento sem a</p><p>companhia, ou o oferecimento a outrem, é uma ofensa grave. Nas grandes cidades é</p><p>costume almoçar ao meio dia, já nos seringais do Acre o almoço é uma refeição tomada</p><p>por volta das 10 h da manhã. Nenhum destes comportamentos é instintivo, mas antes</p><p>determinado pela cultura dos diferentes povos que os apresentam.</p><p>A cultura determina nossa alimentação, não os instintos.</p><p>FIGURA 33 – BANCA DE INSETOS VENDIDOS COMO ALIMENTO NA TAILÂNDIA</p><p>FONTE: <http://img.estadao.com.br/thumbs/910/resources/jpg/8/8/1415931593288.jpg>.</p><p>Acesso em: 28 abr. 2015.</p><p>Esperamos que sua compreensão de cultura por agora seja suficiente para nós</p><p>aprofundarmos alguns assuntos relacionados com este tema.</p><p>Um importante aspecto da cultura está em seu caráter simbólico, que se</p><p>transmite preferencialmente através da linguagem, o método propriamente humano,</p><p>não instintivo de transmitir ideias, emoções e desejos (HOEBEL; FROST, 2006, p. 19).</p><p>Desta forma a cultura se expressa por meio de um conjunto de símbolos significantes</p><p>que dão conteúdo a cultura da qual fazemos parte e que são aprendidos no processo de</p><p>se adquirir a cultura de nosso grupo.</p><p>Nós seres humanos adquirimos a cultura da sociedade em que vivemos e a</p><p>compreensão dos símbolos que dão expressão a ela, através de um processo, já mencionado</p><p>aqui anteriormente, denominado de endoculturação. Mas no que ela consiste?</p><p>40</p><p>FIGURA 34 – A CULTURA ADQUIRE-SE DURANTE A VIDA SOCIAL DO INDIVÍDUO. EM NOSSA</p><p>SOCIEDADE A ESCOLA É UM DOS ESPAÇOS PRIVILEGIADOS NESTE PROCESSO</p><p>FONTE: <http://www.pco.org.br/banco_arquivos/conoticias/imagens/19547.jpg>.</p><p>Acesso em: 28 abr. 2015.</p><p>Endoculturação consiste no processo que se dá desde a infância e por toda a</p><p>vida, nunca cessando, de aprendizado da cultura que fazemos parte e que estrutura o</p><p>condicionamento de nossa conduta, conferindo assim estabilidade aquela cultura a qual</p><p>pertencemos (MARCONI; PRESOTTO, 2001). É através do processo de endoculturação</p><p>que a sociedade controla os atos, atitudes e comportamentos de seus membros,</p><p>impedindo que ajamos de forma diferenciada em relação à nossa cultura, mas antes de</p><p>acordo com ela.</p><p>Todos nós adquirimos as crenças, o modo de vida, os valores e comportamentos</p><p>da cultura a qual pertencemos, mas não dominamos todos os aspectos dela, uma vez</p><p>que participamos diferentemente de nossa cultura, conforme nossa faixa etária, classe</p><p>social, educação recebida, grupos sociais dos quais fazemos parte e trajetória de vida,</p><p>entre outros condicionantes.</p><p>Desta forma embora faça parte de nossa cultura tocar violão, jogar futebol ou</p><p>fazer cálculos matemáticos, nem todos temos estas habilidades ou as desenvolvemos</p><p>plenamente. Entretanto, todos nós adquirimos ao longo da vida certos conhecimentos</p><p>básicos de nossa cultura que nos permite socializar com seus diferentes membros.</p><p>Consistindo a cultura em normas comportamentais ou de costumes, conforme</p><p>Marconi e Presotto (2001), poderíamos classificar as normas em três classes distintas,</p><p>condicionadas pelo nível de participação dos indivíduos nestas. Desta forma teríamos</p><p>normas universais, especializadas, alternativas e aquelas sujeitas à variabilidade</p><p>individual.</p><p>Variando de uma sociedade a outra os padrões de conduta de uma determinada</p><p>cultura apresentam coerência e coesão para todos os membros da sociedade no nível</p><p>das normas universais desta cultura. Seriam aquelas normas determinantes de ideias,</p><p>costumes, reações emocionais e comportamentos que se apresentam em comum</p><p>41</p><p>para todos os membros daquela cultura. Nas sociedades simples estas normas são</p><p>predominantes e se expressam através da língua, dos padrões morais dominantes e dos</p><p>valores que orientam a vida social naquele grupo. As normas culturais universais, isto é,</p><p>comum a todos os membros de uma determinada cultura, abarcam assim as tradições, os</p><p>usos, as ideias, os costumes e as práticas que são compartilhados igualmente por todos.</p><p>FIGURA 35 – O CUMPRIMENTO, UMA NORMA COMPARTILHADA POR TODOS EM NOSSA CULTURA</p><p>FONTE: <https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSZtfJEdMkB0oiLxINrh3_00zO</p><p>Yoash-pL0ntshAgjc05VRbaGW>. Acesso em: 28 abr. 2015.</p><p>Já as normas especializadas consistiriam naquelas que são praticadas e</p><p>seguidas por um determinado grupo que compõe aquela sociedade. Estas normas podem</p><p>até ser aceitas e de conhecimento dos outros membros daquela cultura, mas não são</p><p>praticadas, em função deles não pertencerem a grupos específicos que formam o tecido</p><p>social. Estas normas condicionam padrões de comportamento de um determinado</p><p>segmento especializado daquela</p><p>cultura, consistindo em capacidades e conhecimentos</p><p>interdependentes, de forma recíproca, associados a partes distintas da sociedade.</p><p>Seriam os conhecimentos técnicos diversos e as diferentes habilidades necessárias ao</p><p>funcionamento da sociedade apresentadas por segmentos especializados desta, como</p><p>o xamã, ou curandeiro, a liderança política, ou, nas sociedades complexas, o médico, o</p><p>engenheiro, ou o músico, por exemplo. Este conjunto de conhecimentos e habilidades,</p><p>embora não sejam compartilhados por todos, são aceitos e conhecidos por toda a</p><p>sociedade e possibilita a esta desenvolver as atividades necessárias à sua manutenção.</p><p>Assim vemos que um indivíduo jamais poderá adquirir todos os elementos que fazem</p><p>parte de sua cultura, participando diferentemente destes conforme sua faixa etária,</p><p>gênero, profissão etc. (MARCONI; PRESOTTO, 2001).</p><p>42</p><p>FIGURA 36 – O SACERDOTE, UM PAPEL SOCIAL ESPECIALIZADO NAS DIFERENTES CULTURAS</p><p>FONTE: <http://i.ytimg.com/vi/4a86ZcQ3fhk/hqdefault.jpg>. Acesso em: 28 abr. 2015.</p><p>Existem igualmente certas normas ou padrões de cultura que não são</p><p>universais, nem restritos a grupos especializados, mas que antes se apresentam como</p><p>alternativas a todos os membros daquela sociedade em determinadas situações onde</p><p>elas se admitem. Estas alternativas variam e são sujeitas à livre escolha do indivíduo</p><p>consistindo naquele espaço de manobra dentro de uma determinada cultura à expressão</p><p>do indivíduo que dela faz parte. A cultura fornece várias alternativas de conduta diante</p><p>de certas situações, fica a critério do indivíduo sua adesão a elas ou não. Quanto maior</p><p>e mais complexa a sociedade, maior as possiblidades alternativas que apresenta a seus</p><p>membros. Poderíamos exemplificar com a possibilidade, em nossa cultura, de aderirmos</p><p>a uma dieta vegetariana ou não.</p><p>Por fim todos nós apresentamos condutas e comportamentos que são frutos</p><p>de nossa vivência própria de nossa cultura e que são condicionados por nossa</p><p>trajetória individual, consistindo nas diferentes peculiaridades do indivíduo, em nossas</p><p>características pessoais, não sendo compartilhadas por outras pessoas de nosso grupo.</p><p>Em uma determinada cultura os universais e as especialidades apresentam</p><p>maior estabilidade e constituem no núcleo da cultura (MARCONI; PRESOTTO, 2001)</p><p>determinando a coesão e coerência desta através do equilíbrio entre estes dois</p><p>aspectos. Notamos, entretanto, que as alternativas comportamentais são de grande</p><p>importância para uma dada cultura, possibilitando sua renovação e transformação,</p><p>fazendo parte assim de sua dinâmica de maneira definitiva e determinante.</p><p>Um dos aspectos da cultura é no que consiste e que tem uma existência espaço-</p><p>temporal, localizando-se conforme sua qualidade. Vamos tentar tornar isto mais claro</p><p>para você, nosso leitor.</p><p>43</p><p>Aqueles aspectos da cultura que consistem em conceitos, crenças, atitudes,</p><p>emoções, no imaginário, e semelhantes, têm uma localização intraorgânica, ou seja,</p><p>estão dentro do organismo humano.</p><p>Já os aspectos relacionais da cultura, as diferentes formas de interação que</p><p>apresentamos entre nós na vida social, localizam-se interorganicamente, ou seja, entre</p><p>os organismos humanos.</p><p>Por fim, as expressões materiais da cultura, os diferentes aparatos tecnológicos</p><p>que compõem esta, como machados, computadores etc., situam-se fora dos organismos</p><p>humanos, são localizados extraorganicamente, portanto.</p><p>Vimos até aqui que a cultura essencialmente consiste em ideias, abstrações</p><p>e comportamento. Vamos clarificar um pouco mais o que são estes do ponto de vista</p><p>antropológico.</p><p>Para Marconi e Presotto (2001, p. 46) as ideias que apresentamos seriam as</p><p>“... concepções mentais de coisas concretas ou abstratas, ou seja, toda a variedade de</p><p>conhecimentos e crenças teológicas, filosóficas, científicas, tecnológicas, históricas etc.”</p><p>Estas autoras dão como exemplo do campo de ideias as diferentes línguas humanas, a</p><p>arte as mitologias que são próprias de nossa espécie.</p><p>FIGURA 37 – NOSSAS IDEIAS, ASPECTO DESTACADO DE NOSSAS CULTURAS</p><p>FONTE: <http://www.labsdesign.com.br/images/slider/slide01.jpg>. Acesso em: 28 abr. 2015.</p><p>Já as abstrações que consistem na cultura seriam aqueles aspectos não</p><p>materiais, não observáveis e não palpáveis do domínio de nossa mente, lembrando</p><p>que a capacidade de abstrair é exclusiva de nossa espécie e componente distintivo da</p><p>cultura, que se expressa por meio de diferentes abstrações, que adquirem significado e</p><p>lhe dão sentido.</p><p>44</p><p>FIGURA 38 – ALGUNS DOS ARTEFATOS CULTURAIS REPRESENTANTES DA CULTURA NEOLÍTICA</p><p>FONTE: <http://www.zun.com.br/fotos/2012/05/machado-e-pedra..jpg>. Acesso em: 28 abr. 2015.</p><p>Já a cultura imaterial abarca todos os elementos intangíveis da cultura, ou</p><p>seja, aqueles que não têm substância material, a saber: as crenças, os conhecimentos,</p><p>hábitos, aptidões, normas, valores e significados apresentados por uma determinada</p><p>cultura e que são compartilhados por seus membros e tidos como verdadeiros e reais</p><p>(embora sejam de fato arbitrários).</p><p>Por fim, um dos aspectos essenciais da cultura está nos comportamentos que</p><p>ela determina, entendidos aqui enquanto maneiras de agir, ou conjunto de reações e</p><p>atitudes comuns aos indivíduos em função de sua pertença a uma determinada cultura,</p><p>sendo, portanto, não instintivos, mas antes resultado da invenção social e transmitidos</p><p>e aprendidos através da linguagem e do aprendizado (MARCONI; PRESOTTO, 2001).</p><p>Toda cultura pode ser classificada em diferentes aspectos, uma classificação</p><p>amplamente aceita desta seria aquela que a divide entre material, imaterial, real e ideal.</p><p>A cultura material consiste em coisas materiais propriamente, ou seja, em</p><p>bens tangíveis (MARCONI; PRESOTTO, 2001), o que incluiria artefatos, instrumentos</p><p>e todos os demais objetos que têm em comum o fato de serem produto do engenho</p><p>humano, da criação humana e que refletem a tecnologia de uma dada sociedade.</p><p>A cultura material abrangeria igualmente as técnicas e realizações humanas que</p><p>decorrem das normas e costumes de uma determinada cultura.</p><p>45</p><p>FIGURA 39 – ALGUNS DOS VALORES PREGADOS PELAS GRANDES RELIGIÕES</p><p>FONTE: <http://www.webquestfacil.com.br/pastas/1362/Valores_humanos,_tesouro_da_</p><p>humanidade.gif>. Acesso em: 28 abr. 2015.</p><p>A cultura classifica-se ainda como real e ideal, onde a cultura real seria aquela</p><p>efetivamente vivenciada por seus membros no cotidiano. A cultura real seria a expressão</p><p>na prática de uma determinada cultura, como ela se efetiva no mundo, através das</p><p>ações de seus membros, é a cultura no plano concreto.</p><p>Já a cultura ideal é a cultura tal como a mesma se apresenta no discurso de seus</p><p>membros, consistindo no conjunto de ações idealizadas por aqueles que compõem uma</p><p>dada cultura, revelando aqueles comportamentos tidos como bons, desejáveis e perfeitos</p><p>pelo grupo, mas que podem ou não serem efetivamente praticados.</p><p>Embora o altruísmo seja valorizado por nossa cultura, muitas vezes nos</p><p>comportamos de maneira egoísta. Na foto uma mulher indiana compartilha o pão com</p><p>um morador de rua.</p><p>FIGURA 40 – CULTURA IDEAL</p><p>FONTE: <https://encrypted-tbn2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTpomYhie-UF0_</p><p>L078Num5MFd5f-CP36PWF-FlouLH7pXyHjLOl7A>. Acesso em: 28 abr. 2015.</p><p>46</p><p>Prezado acadêmico, já dissemos aqui anteriormente que para os membros de</p><p>uma determinada cultura seus preceitos são tidos como reais e verdadeiros e que a sua</p><p>cultura parece ser superior às demais. Esta atitude é universal, sendo uma característica</p><p>própria de todos os grupos humanos. Tal fato chamou a atenção da Antropologia que</p><p>cunhou um termo para designar este tipo de postura. Está na hora de nos aprofundarmos</p><p>no que consiste o etnocentrismo.</p><p>3 ETNOCENTRISMO</p><p>Hoebel e Frost (2006, p. 446) definem etnocentrismo como: “Visão das coisas</p><p>segundo a qual os valores e o modo de ser do próprio grupo são o centro de tudo, e</p><p>todas as outras são avaliadas e julgadas com referência a ela”.</p><p>Para Marconi</p><p>e Presotto (2001) o etnocentrismo consistiria na atitude do</p><p>indivíduo de supervalorizar sua própria cultura contra todas as outras. Estas autoras</p><p>prosseguem dizendo que a atitude etnocêntrica tem como característica o julgamento</p><p>das outras culturas a partir da perspectiva da cultura da qual o indivíduo faz parte. Em</p><p>situações extremas o etnocentrismo pode levar ao sentimento de superioridade e a</p><p>hostilidade, e algumas vezes a agressão, àqueles que são diferentes por pertencerem a</p><p>outra cultura.</p><p>Entretanto, o etnocentrismo teria um papel positivo para o próprio grupo,</p><p>favorecendo o ajuste individual à cultura e a coesão social, por levar os membros de</p><p>uma determinada cultura a “considerar e aceitar o seu modo de vida como o melhor, o</p><p>mais saudável...” (MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 52-53).</p><p>Toda cultura tende a considerar seus valores, crenças, hábitos, práticas e</p><p>comportamentos como bons, justos e verdadeiros, e até mesmo naturais. Para os</p><p>membros de uma determinada cultura aquilo que eles acreditam e praticam é, não só</p><p>o que é certo, mas o que é natural. Desta forma as maneiras e jeitos dos outros grupos</p><p>são inferiores, imperfeitos e até antinaturais.</p><p>Etnocentrismo.</p><p>47</p><p>FIGURA 41 – PARA OS MEMBROS DE UMA RELIGIÃO AS OUTRAS PARECEM ABSURDAS</p><p>FONTE: <http://image.slidesharecdn.com/eletnocentrismoparapresentar-140506110155-</p><p>phpapp01/95/el-etnocentrismo-para-presentar-5-638.jpg?cb=1399392170>. Acesso em: 29 abr. 2015.</p><p>Ora, mas como tem se posicionado a Antropologia face ao etnocentrismo? Já</p><p>vimos aqui que para os antropólogos não existe nenhuma cultura superior ou melhor</p><p>que outra. Esta perspectiva antropológica levou a disciplina a desenvolver um conceito</p><p>e uma postura metodológica que foi denominada de relativismo cultural. Vamos ver o</p><p>que é isto?</p><p>4 RELATIVISMO CULTURAL</p><p>Para Hoebel e Frost (2006) embora as culturas possam ter certas características</p><p>gerais em comum, elas sempre variarão em determinados pontos de seus postulados</p><p>básicos. De fato, as culturas diferem umas das outras em muitos aspectos, e algumas</p><p>vezes muito significativamente.</p><p>Sabemos que a humanidade é uma só, mas a variabilidade cultural é</p><p>imensa. Povos ocupando o mesmo habitat ecológico podem apresentar crenças e</p><p>comportamentos tão diversos entre si como aqueles de povos habitando regiões muito</p><p>distantes uma da outra.</p><p>Todas as culturas, entretanto, mostram-se suficientes para dar conta de</p><p>orientar seus membros em suas relações com o meio ambiente e com os outros</p><p>membros de sua e de outras sociedades, fornecendo um sistema coerente que</p><p>modela seu comportamento e as crenças, valores e ideologias que lhes dão</p><p>sustentação.</p><p>Sob este aspecto todas as culturas são iguais e devem ser igualmente</p><p>respeitadas e admiradas. Não que a cultura seja sempre coerente, funcional e</p><p>harmônica, mas sempre serve como normatizadora e mediadora dos conflitos que por</p><p>acaso apresente.</p><p>48</p><p>A Antropologia não discrimina entre as diferentes culturas, entendendo</p><p>todas como fundamentalmente iguais em seu papel adaptativo para nossa espécie.</p><p>A compreensão antropológica deste fato levou ao desenvolvimento do conceito de</p><p>relativismo cultural.</p><p>Segundo Hoebel e Frost (2006, p. 22), o relativismo cultural é consequência direta</p><p>do método comparativo em Antropologia. De acordo com estes autores: “O conceito</p><p>de relatividade cultural afirma que os padrões do certo e do errado (valores) e dos usos e</p><p>atividades (costumes) são relativos à cultura da qual fazem parte”.</p><p>Uma consequência disto é que cada prática ou costume cultural é correto e</p><p>válido nos termos de sua própria cultura.</p><p>Para o antropólogo isto tem implicações tremendas, determinando neste profissional</p><p>uma postura firme no sentido de não exercer um juízo sobre a cultura que estuda, mas antes</p><p>que procure entender e ver o mundo de acordo com o povo pesquisado, tendo empatia por ele</p><p>(como decorrência da visão humanística inerente ao relativismo), sem perder o rigor científico,</p><p>entretanto (HOEBEL; FROST, 2006).</p><p>Hoebel e Frost (2006, p. 22) chegam a afirmar que sem renunciar ao</p><p>etnocentrismo e adotar o relativismo cultural ninguém pode vir a ser um antropólogo,</p><p>ou seja, alguém capaz de “... assumir o papel de observadores objetivos e não de</p><p>apologistas, condenadores ou convertedores”.</p><p>Para estes autores o relativismo cultural confere determinadas características</p><p>aos antropólogos: “sabem rir com o povo, não rir dele”, sendo necessário para a prática</p><p>da Antropologia um respeito real e profundo pelo ser humano, seja ele quem for.</p><p>Para Marconi e Presotto (2001) o relativismo cultural fundamenta-se no princípio</p><p>de que os indivíduos são fruto dos condicionamentos culturais (que determinam seu</p><p>modo de vida próprio), apresentando estes assim valores e identidades relativos à</p><p>cultura a qual pertencem.</p><p>Desta forma suas crenças, costumes e práticas devem ser vistas sempre em</p><p>relação à cultura da qual fazem parte, como partes integradas de um sistema que</p><p>fornece o mapa para a ação e reflexão dos indivíduos ali endoculturados.</p><p>A postura relativista implica em considerar os padrões e os valores do que seja</p><p>certo ou errado, dos usos e costumes, das crenças e discursos, sempre em relação à</p><p>cultura na qual estão inseridas, e não a partir da cultura do observador.</p><p>Para Laraia (2004) toda cultura tem uma lógica própria e cada hábito cultural</p><p>apresenta coerência em relação ao sistema do qual faz parte. Devemos, portanto,</p><p>compreender cada cultura a partir de sua lógica interna.</p><p>49</p><p>FIGURA 42 – RELATIVISMO CULTURAL</p><p>FONTE: <http://www.smh.com.au/content/dam/images/1/5/h/t/5/image.related.</p><p>articleLeadwide.620x349.15hy0.png/1284915601000.jpg>. Acesso em: 30 abr. 2015.</p><p>Prezado acadêmico, para tentar facilitar sua compreensão dos conceitos de</p><p>etnocentrismo e relativismo cultural, vamos dar um exemplo que ilustra bem estes dois</p><p>conceitos e que é fruto de nossa experiência como antropólogo em campo.</p><p>Estivemos durante um ano e quatro meses vivendo entre um grupo nômade coletor-</p><p>caçador do noroeste amazônico, conhecidos na literatura antropológica como Hüpda.</p><p>Neste período de nosso trabalho de campo tivemos a oportunidade de</p><p>presenciar inúmeros deslocamentos que os Hüpda realizaram dentro de seu território,</p><p>por motivos diversos.</p><p>Nestas ocasiões os homens Hüpda levavam consigo apenas seus arcos e</p><p>flechas, zarabatanas e demais armas de que dispunham, enquanto que as mulheres</p><p>carregavam todo o peso, os pertences, víveres, utensílios e demais bens “carregáveis”</p><p>do grupo, em cestos que portavam as costas.</p><p>Ao observar tal costume um desavisado poderia, a partir de uma atitude</p><p>etnocêntrica, julgar os homens Hüpda preguiçosos, por não carregarem peso, e</p><p>machistas, por fazerem suas mulheres carregarem o mesmo.</p><p>Mas um antropólogo treinado é capaz de observar este mesmo costume com</p><p>uma posição relativista, isto é, contextualizando o mesmo na cultura Hüpda, para</p><p>entendê-lo de acordo com a lógica desta.</p><p>Assim vai perceber que durante os deslocamentos na floresta equatorial úmida,</p><p>onde habitam, os Hüpda ficam expostos ao ataque de seus inimigos e de predadores</p><p>deste ambiente, fazendo todo sentido, de acordo com a cultura Hüpda, que os homens</p><p>viagem com as mãos livres, para que assim possam dispor rapidamente de suas armas.</p><p>Devemos compreender cada costume a partir da lógica da cultura onde se</p><p>apresenta. Para as muçulmanas usar o véu é um valor positivo de sua religião e cultura.</p><p>50</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>FIGURA 43 – ÍNDIO HÜPDA PREPARA O IPADÚ DE ACORDO COM OS COSTUMES DE SUA CULTURA</p><p>FONTE: <http://img.socioambiental.org/d/281930-4/maku_4.jpg?g2_GALLERYSID=TMP_SESSION_</p><p>ID_DI_NOISSES_PMT>. Acesso em: 4 maio 2015.</p><p>Desta forma um ato aparentemente machista em relação às mulheres, de</p><p>acordo com nossa cultura, revela-se um ato de cuidado e altruísmo em relação a elas,</p><p>de acordo com a cultura Hüpda.</p><p>51</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>• Neste tópico</p><p>nós estudamos o conceito de cultura, vendo como ele é central na</p><p>Antropologia e como tem se modificado ao longo da história. Vimos também como</p><p>a cultura é um mecanismo adaptativo próprio de nossa espécie, como determina</p><p>nossas crenças, discursos, práticas, hábitos e comportamentos, nos orientando em</p><p>nossa vida social e em nossa relação com o meio ambiente.</p><p>• Também discutimos o que é o etnocentrismo, vendo-o tanto pelo seu aspecto</p><p>positivo, de conferir coesão à sociedade e adesão do indivíduo, bem como pelo seu</p><p>lado negativo, a saber: de gerador de preconceito e hostilidade em relação àqueles</p><p>que apresentam uma cultura diferente. Capacitamo-nos ainda na compreensão de</p><p>que etnocentrismo consiste fundamentalmente em julgar as outras culturas a partir</p><p>dos valores e crenças de nossa própria cultura.</p><p>• Igualmente foi alvo de nossa reflexão a questão do relativismo cultural, que</p><p>compreendemos aqui como a atitude metodológica própria da Antropologia, fruto</p><p>de seu método comparativo, de levar em conta as diferentes culturas a partir de</p><p>sua lógica interna, despindo o olhar antropológico dos preconceitos e valores do</p><p>observador, mas tornando-o capaz de iluminar a compreensão dos componentes de</p><p>uma cultura.</p><p>52</p><p>Responda às seguintes perguntas:</p><p>1 É correto afirmar que o determinismo biológico é inescapável?</p><p>2 Como chamamos a atitude de julgar as outras culturas a partir das crenças e valores</p><p>de nossa própria cultura?</p><p>3 Qual o conceito desenvolvido pela Antropologia, decorrência de seu método comparativo,</p><p>que permite ao antropólogo estudar um traço cultural a partir da lógica interna da cultura</p><p>do qual faz parte?</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>53</p><p>TÓPICO 4 -</p><p>O TRABALHO DE CAMPO E A</p><p>OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>UNIDADE 1</p><p>Prezado acadêmico, já vimos anteriormente como a Antropologia se inscreve</p><p>entre as Ciências Sociais, destacando-se em razão de sua abordagem própria do</p><p>fenômeno humano.</p><p>Se outros ramos do conhecimento apresentam o mesmo objeto da Antropologia,</p><p>a saber: o ser humano, é o saber antropológico que vai primar por uma aproximação</p><p>empírica deste.</p><p>De fato, a Antropologia adquire sua especificidade face às outras ciências que</p><p>tratam do ser humano, não só pelo recorte total que lhe dá, mas principalmente por se</p><p>valer da investigação empírica em seus estudos.</p><p>Se em seus primórdios a Antropologia lançava mão do relato de terceiros, com</p><p>sua evolução histórica enquanto disciplina científica a Antropologia passa a fazer do</p><p>trabalho de campo sua marca distintiva e verdadeira “prova de fogo” para o exercício</p><p>da profissão.</p><p>Atualmente o trabalho de campo não diminuiu de importância no estudo e na</p><p>prática da Antropologia, mas adquiriu novas dimensões, com o espaço virtual e outras</p><p>inovações tecnológicas no relacionamento humano.</p><p>O espaço virtual apresenta-se hoje como um novo espaço de interação social,</p><p>onde as pessoas podem interagir através de seus avatares.</p><p>FIGURA 44 – ESPAÇO VIRTUAL</p><p>FONTE: <https://encrypted-tbn1.gstatic.com/</p><p>images?q=tbn:ANd9GcQCjh0d0LCaxEzYNNJPUXGNGj6q1QUC9UvXK-_SxaQhH8Sr-qyrMw>.</p><p>Acesso em: 4 maio 2015.</p><p>54</p><p>Mas no que consiste, afinal, o trabalho de campo? Vamos descobrir juntos,</p><p>prezado aluno?</p><p>2 TRABALHO DE CAMPO</p><p>Para Gomes (2013) a pesquisa, ou trabalho, de campo consiste no deslocamento</p><p>até onde se encontra o objeto da pesquisa, para lá aplicarem-se as diferentes técnicas</p><p>e métodos de pesquisa próprias da Antropologia.</p><p>De acordo com Espina Barrio (2005, p. 37), o trabalho de campo implica o contato</p><p>prolongado e pessoal do antropólogo com o povo que estuda e deve se orientar pela</p><p>investigação das inter-relações sociais, com o mínimo de interferência possível por parte</p><p>do antropólogo, concentrando os esforços empíricos deste numa parcela da humanidade e</p><p>representando um verdadeiro rito de iniciação do pesquisador.</p><p>Segundo este autor ainda o trabalho de campo ultrapassa a dimensão de</p><p>ser uma observação despida de preconceitos de uma comunidade estranha à do</p><p>observador, mas constitui-se igualmente em uma imersão essencial na maneira de ser</p><p>do grupo estudado.</p><p>Hoebel e Frost (2006, p. 5) chamam a atenção para o fato de o trabalho de</p><p>campo ser uma característica distintiva da Antropologia, sendo ocasião da obtenção</p><p>dos dados e teste das hipóteses desta disciplina. As Ciências Sociais assim têm a</p><p>oportunidade de, através do trabalho de campo realizado pelos antropólogos, coletar</p><p>informações por observação de situações existentes na prática, e não aquelas</p><p>idealizadas experimentalmente, como em outros ramos do conhecimento, notadamente</p><p>nas ciências exatas.</p><p>O trabalho de campo confere assim cientificidade à investigação antropológica,</p><p>através da observação empírica de seu objeto.</p><p>FIGURA 45 – O ANTROPÓLOGO BRASILEIRO DARCY RIBEIRO FAZENDO TRABALHO DE CAMPO</p><p>ENTRE UM GRUPO INDÍGENA DO BRASIL</p><p>FONTE: <http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/abril2007/fotosju354-on-line/12b.jpg>.</p><p>Acesso em: 4 maio 2015.</p><p>55</p><p>Trabalho de campo consiste assim em uma etapa importante do fazer</p><p>antropológico, sendo uma verdadeira iniciação do profissional desta área na prática</p><p>característica de sua profissão, representando o momento de coleta empírica dos</p><p>dados com os quais o antropólogo irá trabalhar e implicando necessariamente o contato</p><p>profícuo com o povo alvo de sua investigação.</p><p>O trabalho de campo antropológico destaca-se, outrossim, pelo emprego de uma</p><p>técnica da disciplina igualmente importante no conferimento de especificidade face a</p><p>outras ciências humanas e que se convencionou chamar de “observação participante”.</p><p>Mas no que ela consistiria exatamente, você saberia dizer, Prezado acadêmico?</p><p>O antropólogo deve procurar viver o maior número de aspectos possíveis da</p><p>cultura estudada. Aqui um antropólogo participa de rito religioso do povo que investiga.</p><p>FIGURA 46 – OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE</p><p>FONTE: <http://cec.vcn.bc.ca/rdi/images/elder03c.jpg>. Acesso em: 4 maio 2015.</p><p>3 OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE</p><p>Para Marconi e Presotto (2001) seria através da observação participante que o</p><p>antropólogo teria a chance de viver entre o grupo estudado, podendo assim tomar parte</p><p>de suas conversas, ritos e atividades e observar o conjunto de manifestações de caráter</p><p>ideológico e material deste povo, bem como as maneiras pelas quais os indivíduos da</p><p>sociedade pesquisada reagem aos estímulos psicológicos e ainda os mecanismos</p><p>adaptativos e o sistema de valores de sua cultura.</p><p>Segundo estas autoras (MARCONI; PRESOTTO, 2001), a observação participante</p><p>implica na disponibilidade do antropólogo em permanecer em campo durante largos</p><p>períodos, ou o suficiente, pelo menos, para a compreensão da cultura estudada.</p><p>56</p><p>Esta prática demandaria do pesquisador argúcia, objetividade e uma atitude</p><p>relativista quanto à cultura pesquisada. As técnicas associadas à observação</p><p>participante seriam o registro sistemático das atividades e práticas observadas, tanto</p><p>por meio do diário de campo do pesquisador, quanto de fichas, fotografias, gravações,</p><p>filmes e demais meios disponíveis.</p><p>Para Gomes (2013) a observação participante seria o método mais associado</p><p>à Antropologia e distinção desta entre as ciências humanas. Para este autor malgrado</p><p>o método de observação participante ser difícil de aplicar, seria de grande importância</p><p>para nossa disciplina e representaria a própria diferença entre ser ou não antropólogo.</p><p>Segundo Gomes (2013, p. 53), observação participante consiste em “o</p><p>pesquisador buscar compreender a cultura pela vivência concreta nela, ou seja, morar</p><p>com os ‘nativos’, participar de seus cotidianos, comer suas comidas, se alegrar em suas</p><p>festas e sentir o drama de ser de outra cultura - tudo isso na medida do possível.”</p><p>A ideia por detrás deste método, tão característico da Antropologia, está em</p><p>considerar que o estudo de uma determinada cultura é privilegiado (ou em última análise,</p><p>somente possível) através da imersão nesta mesma</p><p>cultura. Assim, não seria suficiente</p><p>observar os fenômenos sociais e anotar os comentários dos que deles participam,</p><p>tampouco basta conhecer a produção documental e ideológica da cultura pesquisada,</p><p>é preciso, antes de tudo, vivenciá-la!</p><p>Fundamental para a vivência profícua e empática junto a outro povo é o</p><p>relativismo cultural, somente através dele pode o antropólogo pretender se despir de</p><p>seus preconceitos e adotar uma atitude objetiva que resulte em dados proveitosos para</p><p>a reflexão antropológica.</p><p>A observação participante demanda a contínua presença do antropólogo junto a</p><p>seus informantes, num contato próximo que exige confiança, reciprocidade e compromisso</p><p>por parte do pesquisador e que tem o potencial de gerar compreensão solidariedade e</p><p>expectativas entre ele e o povo estudado (GOMES, 2013).</p><p>Para a apreensão do sentido de uma cultura para seus membros é necessária a</p><p>interação da subjetividade do antropólogo com a de seus informantes, este momento se</p><p>dá na observação participante. Esta exige autoconhecimento por parte do antropólogo e</p><p>renova o mesmo através da pressão de viver em outra cultura.</p><p>Num primeiro momento a observação participante pode implicar um desconforto</p><p>em face da cultura observada que é chamado de “choque cultural”, resultado das</p><p>diferenças entre a cultura do antropólogo e àquela que ele estuda. Parte da vivência do</p><p>campo, esta fase é superada pelo treinamento antropológico e pela postura relativista.</p><p>57</p><p>Para Gomes (2013) é imprescindível na observação participante o registro dos</p><p>fatos observados no cotidiano em um diário de campo, bem como a anotação neste dos</p><p>sentimentos suscitados no pesquisador por suas diversas interações sociais junto ao</p><p>grupo pesquisado. Junto com esta técnica deve-se também lançar mão da fotografia,</p><p>filmagens, gravações etc.</p><p>Podemos dizer que a observação participante forja o antropólogo, iniciando-o</p><p>em uma prática fundamental da disciplina e capacitando-o para seu exercício, estando</p><p>implicada nesta o fazer etnográfico e o olhar próprio da Antropologia.</p><p>Para o antropólogo a observação participante fornece a convicção de que não</p><p>basta viver com um povo para compreendê-lo, mas é preciso viver como este povo vive.</p><p>É preciso estar entregue ao maior número de práticas culturais da população estudada</p><p>para poder-se chegar a uma compreensão desta cultura que seja próxima à daqueles</p><p>que dela fazem parte.</p><p>Através da observação participante que, mais do que se adquirir dados de valor</p><p>científico (por estarem livres do etnocentrismo), se estabelecem laços humanos com a</p><p>população estudada, laços estes que se mostrarão fundamentais para a compreensão</p><p>de sua cultura.</p><p>É preciso que o antropólogo esteja consciente de algumas implicações da</p><p>observação participante (VALLADARES, 2007), uma delas é o longo período de tempo</p><p>que a mesma demanda, uma vez que para se travar conhecimento e ter-se compreensão</p><p>do comportamento dos indivíduos e grupos é preciso observá-los por um período</p><p>considerável de tempo.</p><p>Outro aspecto a ser levado em conta é que geralmente chega-se no grupo sem</p><p>um conhecimento prévio deste e de suas relações internas, então parte da observação</p><p>participante é gasta somente em mapear-se o território social do grupo pesquisado.</p><p>Como a observação participante implica a interação pesquisador/pesquisados</p><p>a qualidade da informação recolhida pelo primeiro dependerá de seu comportamento</p><p>em relação aos segundos.</p><p>Em nenhum momento o antropólogo deve procurar negar sua identidade de</p><p>pesquisador durante a observação participante, mas antes assumi-la numa postura</p><p>honesta e sincera em face de seus pesquisados, ainda que procurando participar de</p><p>todas as formas na sua cultura.</p><p>Para facilitar a observação participante é preciso travar relações privilegiadas</p><p>com um membro do grupo estudado que tenha um bom trânsito entre este e demonstre</p><p>entendimento do trabalho do antropólogo, é o que se chama no jargão da profissão de</p><p>“informante-chave”.</p><p>58</p><p>Para realizar uma observação participante eficaz é preciso estar com os sentidos</p><p>aguçados e saber ouvir e escutar o povo pesquisado, aprendendo tanto com os silêncios,</p><p>quanto com suas falas.</p><p>Manter uma rotina de atividades cotidianas relacionadas com a pesquisa e a</p><p>investigação da cultura estudada é fundamental para uma observação participante bem-</p><p>sucedida, devendo a mesma estar conciliada com as ações diárias da população observada.</p><p>As gafes, enganos e erros cometidos em relação à cultura estudada são</p><p>momentos importantes do aprendizado. A reprovação social é extremamente</p><p>representativa da cultura que a exerce, desta forma a observação participante deve</p><p>também se dar nestes momentos.</p><p>As amizades e laços feitos durante a observação participante acompanham o</p><p>antropólogo por toda a sua vida e acontecem concomitantemente à cobrança do povo</p><p>estudado dos resultados e benefícios resultantes da pesquisa realizada.</p><p>Na figura abaixo, o antropólogo Darcy Ribeiro vivendo entre os índios Kadiwéu.</p><p>FIGURA 47 – O ANTROPÓLOGO FAZENDO OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE</p><p>FONTE: <http://og.infg.com.br/in/2922952-f5b-e64/FT1500A/550/Darcy-Ribeiro-com-indios-</p><p>Kadiweu-Mato-Grosso-do-Sul-1947.-Foto-Berta-Ribeiro.jpg>. Acesso em: 6 maio 2015.</p><p>59</p><p>O QUE É ANTROPOLOGIA?</p><p>Antropologia é muitas vezes considerada uma coleção de fatos curiosos, que</p><p>fala sobre a aparência peculiar de povos exóticos e descreve seus estranhos costumes</p><p>e crenças. É encarada como uma divertida aventura, aparentemente sem nenhuma</p><p>preocupação com a conduta de vida das comunidades civilizadas.</p><p>Esta opinião é falsa. Mais do que isso, espero demonstrar que uma compreensão</p><p>clara dos princípios de antropologia ilumina os processos sociais do nosso próprio tempo</p><p>e podem mostrar-nos, se estivermos prontos para ouvir seus ensinamentos, o que fazer</p><p>e o que evitar.</p><p>Para provar minha tese devo explicar resumidamente o que os antropólogos</p><p>estão tentando fazer.</p><p>Pode parecer que o domínio da antropologia, a "ciência do homem", está preocupada</p><p>com uma série de ciências. O antropólogo que estuda a forma corporal é confrontado</p><p>pelo anatomista que passou séculos em pesquisas sobre a forma bruta e minuciosa da</p><p>estrutura do corpo humano. O fisiologista e o psicólogo dedicam-se a investigações sobre</p><p>o funcionamento do corpo e da mente. Existe, portanto, alguma justificativa para que o</p><p>antropólogo afirme que ele pode acrescentar algo ao nosso conhecimento?</p><p>Existe uma diferença entre o trabalho do antropólogo e aquele do anatomista,</p><p>fisiologista e psicólogo. Eles lidam principalmente com a forma e função típica do corpo</p><p>humano e da mente. As pequenas diferenças, como aparecem em qualquer conjunto</p><p>de indivíduos são negligenciadas ou consideradas como peculiaridades sem significado</p><p>particular, embora por vezes sugestivas de sua ascensão a partir de formas inferiores. O</p><p>interesse centra-se sempre no indivíduo como um tipo, e no significado de sua aparência</p><p>em funções de um ponto de vista morfológico, fisiológico ou psicológico.</p><p>Para o antropólogo, ao contrário, o indivíduo aparece apenas como um importante</p><p>membro de um grupo racial ou social. A distribuição e a escala das diferenças entre</p><p>indivíduos, e as características determinadas pelo grupo a que cada indivíduo pertence</p><p>são os fenômenos a serem investigados. A distribuição das características anatômicas,</p><p>das funções fisiológicas e das reações mentais são o objeto dos estudos antropológicos.</p><p>LEITURA</p><p>COMPLEMENTAR</p><p>60</p><p>Pode-se dizer que antropologia não é uma única ciência, pois o antropólogo</p><p>pressupõe um conhecimento da anatomia, da fisiologia e da psicologia do indivíduo, e</p><p>aplica esse conhecimento aos grupos. Cada uma dessas ciências pode ser e está sendo</p><p>estudada a partir de um ponto de vista antropológico.</p><p>O grupo, e não o indivíduo, é sempre a principal preocupação do antropólogo.</p><p>Podemos investigar uma raça ou grupo social no que diz respeito</p><p>à distribuição do</p><p>tamanho do corpo, medido pelo peso e estatura. O indivíduo é importante apenas como</p><p>um membro do grupo, pois nós estamos interessados nos fatores que determinam</p><p>a distribuição de formas ou funções no grupo. O fisiologista pode estudar o efeito do</p><p>exercício extenuante sobre a função do coração. O antropólogo aceita esses dados</p><p>e investiga um grupo em que as condições gerais de vida provocam um exercício</p><p>extenuante. Ele está interessado no seu efeito sobre a distribuição da forma, função</p><p>e comportamento entre os indivíduos que compõem o grupo ou em relação ao grupo</p><p>como um todo.</p><p>O indivíduo se desenvolve e atua como um membro de uma raça ou um grupo</p><p>social. Sua forma física é determinada pela sua ancestralidade e pelas condições em</p><p>que ele vive. As funções do corpo, quando controladas pela configuração corporal,</p><p>dependem das circunstâncias externas. Se as pessoas vivem por opção ou necessidade,</p><p>em uma dieta exclusiva de carne, as suas funções corporais serão diferentes das de</p><p>outros grupos com a mesma constituição que vivem com uma dieta puramente vegetal;</p><p>ou, inversamente, diferentes grupos raciais que se alimentam da mesma forma pode</p><p>mostrar um certo paralelismo no comportamento fisiológico. Muitos exemplos podem</p><p>ser dados para demonstrar que as pessoas essencialmente com a mesma descendência</p><p>se comportam diferentemente em diferentes tipos de configuração social. As reações</p><p>mentais dos indígenas do planalto ocidental, um povo de cultura simples, difere das dos</p><p>antigos mexicanos, um povo da mesma raça, mas de organização mais complexa.</p><p>Os camponeses europeus diferem dos habitantes de grandes cidades; os norte-</p><p>americanos descendentes dos imigrantes diferem de seus antepassados europeus;</p><p>os Noruegueses Vikings diferem dos fazendeiros dos estados noruegueses; o romano</p><p>republicano de seus degenerados descendentes do período imperial; o camponês russo</p><p>antes da revolução do mesmo camponês após a atual revolução.</p><p>Os fenômenos da anatomia, da fisiologia e da psicologia são favoráveis a um</p><p>tratamento individual não antropológico, pois parece teoricamente possível isolar o</p><p>indivíduo e formular os problemas de variação de forma e função, de tal maneira que</p><p>o fator social ou racial é aparentemente excluído. Isto é absolutamente impossível</p><p>em fenômenos basicamente sociais em seu conjunto, tais como a vida econômica, a</p><p>organização social de um grupo, ideias religiosas e artísticas.</p><p>61</p><p>O psicólogo pode tentar investigar os processos mentais da criação artística.</p><p>Embora os processos possam ser fundamentalmente o mesmo em toda a parte, o próprio</p><p>ato de criação implica que não estamos a lidar apenas com o artista como um criador,</p><p>mas também com a sua reação à cultura na qual ele vive, e de seus companheiros para</p><p>os quais o seu trabalho foi criado.</p><p>O economista que tenta desvendar os processos econômicos deve analisar o</p><p>grupo social, e não os indivíduos. O mesmo se pode dizer do pesquisador da organização</p><p>social. É possível tratar a organização social a partir de um ponto de vista puramente</p><p>formal, para demonstrar, através de uma análise cuidadosa, os conceitos fundamentais</p><p>que lhe são subjacentes. Para o antropólogo é este o ponto de partida para uma reflexão</p><p>dos efeitos dinâmicos da organização tal como se manifestam na vida do indivíduo e</p><p>do grupo.</p><p>O pesquisador em linguística pode investigar a "norma" de expressão linguística</p><p>num determinado momento e os processos mecânicos que dão origem a alterações</p><p>fonéticas; a atitude psicológica expressada na língua; e as circunstâncias que causam</p><p>mudanças de significado. O antropólogo é mais profundamente interessado no aspecto</p><p>social do fenômeno linguístico, na linguagem como um meio de comunicação e na</p><p>inter-relação entre linguagem e cultura.</p><p>Em suma, quando se discutem as reações do indivíduo aos seus companheiros</p><p>somos obrigados a concentrar a nossa atenção sobre a sociedade em que vive. Não</p><p>podemos tratar o indivíduo como uma unidade isolada. Ele deve ser estudado em seu</p><p>ajuste social, e a questão é relevante se as generalizações possíveis através de uma</p><p>relação funcional entre dados sociais gerais e os padrões e expressão de vida individual</p><p>podem ser descobertas; ou seja, se alguma lei existente geralmente válida governa a</p><p>vida da sociedade.</p><p>Uma investigação científica deste tipo está preocupada apenas com as inter-</p><p>relações entre os fenômenos observados, da mesma forma que a física e a química</p><p>estão interessados nas formas de equilíbrio e movimento da matéria, tal como aparecem</p><p>aos nossos sentidos. A questão da utilidade do conhecimento adquirido é totalmente</p><p>irrelevante. O interesse do físico e do químico centra-se no desenvolvimento de uma</p><p>completa compreensão da complexidade do mundo exterior. A descoberta tem valor só</p><p>do ponto de vista do lançamento de nova luz sobre os problemas gerais destas ciências.</p><p>A aplicabilidade da experiência de problemas técnicos não diz respeito ao físico. O que</p><p>pode ser de grande valor em nossa vida prática, não necessita ser interessante para ele,</p><p>e o que não tem qualquer valor em nossas ocupações diárias lhe pode ser de grande</p><p>valor. A única avaliação das descobertas que podem ser admitidas pela ciência pura é o</p><p>seu significado na solução de problemas abstratos gerais.</p><p>62</p><p>RESUMO DO TÓPICO 4Embora este ponto de vista da ciência pura seja igualmente aplicado aos</p><p>fenômenos sociais, é facilmente reconhecido que estes se referem a nós mesmos, pois</p><p>quase todos os problemas antropológicos tocam na maioria de nossas intimidades.</p><p>O curso do desenvolvimento de um grupo de crianças depende de sua</p><p>ascendência racial, da condição econômica dos seus pais e de seu bem-estar geral.</p><p>O conhecimento da interação desses fatores pode dar-nos o poder de controlar o</p><p>crescimento e garantir as melhores condições de vida para o grupo. Todas as estatísticas</p><p>vitais e sociais estão tão intimamente ligadas às políticas a serem adotadas ou a serem</p><p>descartados que não é muito difícil perceber por que o interesse em nossos problemas,</p><p>quando considerados apenas a partir de um ponto de vista científico, está relacionado</p><p>com a prática valores que atribuímos aos resultados.</p><p>É objeto de as páginas seguintes discutir problemas da vida moderna à</p><p>vista dos resultados dos estudos antropológicos a partir de um mero ponto de vista</p><p>puramente analítico. Para isso, será necessário adquirir clareza em relação a dois</p><p>conceitos fundamentais: raça e estabilidade da cultura. Estes serão discutidos nos</p><p>seus devidos lugares.</p><p>FONTE: BOAS, Franz. O que é antropologia? Revista Ensaios: “Extensões”, n. 5, v. 1, 2º semestre</p><p>de 2011. Disponível em: <http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/ensaios/article/</p><p>download/318/562>. Acesso em: 28 maio 2015. Texto traduzido por Breno Rodrigo de Oliveira</p><p>Alencar e extraído do livro Anthropology and Modern Life de Franz Boas, editado em 1962 pela</p><p>W. W. Norton & Company, Inc., Nova York.</p><p>63</p><p>RESUMO DO TÓPICO 4</p><p>• Neste tópico nós aprendemos que o trabalho de campo é um importante aspecto</p><p>do ofício do antropólogo, verdadeiro rito de iniciação da profissão, e consiste em</p><p>recolher dados empíricos acerca da cultura estudada in loco, isto é, em seu local</p><p>de ocorrência.</p><p>• Também vimos que uma prática distintiva do fazer antropológico é a observação</p><p>participante, que consiste em viver como o povo, e não somente com o povo,</p><p>estudado, procurando o antropólogo vivenciar o maior número possível de aspectos</p><p>da cultura que estuda, participando junto com a população pesquisada das atividades</p><p>desempenhadas por ela.</p><p>64</p><p>Responda às seguintes perguntas:</p><p>1 O trabalho de campo é o momento daquilo que acontece na pesquisa</p><p>antropológica?</p><p>2 Qual a atitude necessária por parte do antropólogo em relação à cultura que pesquisa</p><p>que se mostra fundamental para um bom exercício da observação participante?</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>65</p><p>AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS</p><p>E OS GRANDES TEMAS</p><p>DA DISCIPLINA</p><p>UNIDADE 2 —</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• apresentar as diferentes escolas antropológicas e suas múltiplas abordagens, por</p><p>meio de uma perspectiva cronológica;</p><p>• destacar os principais representantes das escolas antropológicas e suas principais</p><p>contribuições ao caampo de estudo;</p><p>• apresentar as principais questões da Antropologia e como elas contribuem para a</p><p>compreensão do fenômeno da vida em sociedade.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará</p><p>autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO E ESCOLA</p><p>DA CULTURA E PERSONALIDADE</p><p>TÓPICO 2 – ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO, ESTRUTURAL-</p><p>FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO</p><p>TÓPICO 3 – GRANDES TEMAS DA ANTROPOLOGIA: UNIÃO, CASAMENTO</p><p>E PARENTESCO</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure</p><p>um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>66</p><p>CONFIRA</p><p>A TRILHA DA</p><p>UNIDADE 2!</p><p>Acesse o</p><p>QR Code abaixo:</p><p>67</p><p>TÓPICO 1 —</p><p>ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO,</p><p>DIFUSIONISMO, E ESCOLA DA CULTURA</p><p>E PERSONALIDADE</p><p>UNIDADE 2</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>Como pudemos verificar na Unidade 1 deste caderno de estudos, a Antropologia</p><p>é uma ciência social que estuda o comportamento humano e seu desenvolvimento,</p><p>tanto do ponto de vista cultural quanto social e biológico. Ela é uma ciência relativamente</p><p>nova, que se institucionalizou somente no século XIX, mas que possui raízes que datam</p><p>das primeiras grandes navegações.</p><p>Desde as primeiras incursões para as novas terras conquistadas, os viajantes</p><p>realizaram registros de seus achados, tanto do ponto de vista dos aspectos físicos e</p><p>ambientais, quanto da cultura dos povos. Elementos como a língua, a religião, a cor da</p><p>pele, os hábitos alimentares, foram sendo descritos, pelos colonizadores, a partir de um</p><p>olhar de estranhamento e comparação com a sua cultura própria, ou seja, a partir de um</p><p>olhar etnocêntrico. Esse período é conhecido como Literatura Etnográfica e durou entre</p><p>os séculos XVI e XIX.</p><p>NOTA</p><p>Literatura Etnográfica: Trata-se de relatos de viagens (cartas, diários, relatórios</p><p>etc.) feitos por missionários, viajantes, comerciantes, exploradores, militares,</p><p>administradores coloniais etc. Descrições das terras (fauna, flora, topografia)</p><p>e dos povos “descobertos” (hábitos e crenças). Primeiros relatos sobre a</p><p>alteridade. Fonte: Texto adaptado de: Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/</p><p>da/vagner/antropo.html>. Acesso em: 20 jul. 2015.</p><p>Para compreender o desenvolvimento da Antropologia como disciplina e como</p><p>campo de conhecimento, é necessário conhecer a origem histórica destes estudos e</p><p>suas diferentes matrizes teóricas. Assim como outras ciências sociais, a Antropologia</p><p>possui objetos e métodos próprios que foram sendo construídos ao longo de sua</p><p>trajetória. Por este motivo, neste tópico vamos nos concentrar nas principais correntes</p><p>teóricas, iniciando pelo Evolucionismo.</p><p>68</p><p>2 A ESCOLA EVOLUCIONISTA</p><p>Você já ouviu falar sobre a Teoria da Evolução das Espécies do naturalista</p><p>Charles Darwin? Esta foi uma das teorias que mais influenciou o campo das Ciências</p><p>Sociais, no século XIX. Vejamos a seguir:</p><p>A Escola Evolucionista é fortemente influenciada pelas descobertas das outras</p><p>ciências, como o caso da biologia. As teses de Charles Darwin (1809-1882), por exemplo,</p><p>sobre a Evolução das Espécies, a partir de pesquisas efetuadas nas ilhas Galápagos –</p><p>Oceano Pacífico –, influenciaram profundamente as ciências sociais no século XIX,</p><p>entre elas a antropologia. Darwin concluiu que para sobreviverem as espécies animais</p><p>se adaptavam ao meio em que viviam e que os mais fortes seriam aqueles que melhor</p><p>se adaptassem, e os mais fracos estariam condenados a se extinguirem. Pesquisando</p><p>os animais dessas ilhas, chegou à conclusão de que geneticamente poderiam todos</p><p>os seres vivos descender de uma única existência microbiana primária e que na luta</p><p>pela sobrevivência se transformariam biologicamente de forma que se passaria essa</p><p>herança genética às próximas gerações. Portanto, essas teses agradavam ao homem</p><p>europeu, que se enxergava como mais desenvolvido e civilizado, no topo da escala de</p><p>uma linha de evolução única que selecionava o mais forte. As comunidades diferentes</p><p>dos territórios colonizados eram, nesta escala, inferiores e, portanto, passíveis de serem</p><p>dominados e explorados. Na melhor das hipóteses, essas comunidades inferiores nos</p><p>mostravam como havíamos evoluído e como poderíamos, se assim desejássemos,</p><p>auxiliá-los a se desenvolverem para se equipararem a nosso estágio de evolução.</p><p>Evidentemente, desde cedo os antropólogos mais isentos e comprometidos</p><p>com o estudo empírico desses povos perceberam que o “diferente” não evidenciava</p><p>exatamente “inferioridade”, mas mais uma forma específica de se adaptar ao meio</p><p>natural circundante. Ainda assim, por muito tempo, ficou a ideia de que, se tivessem</p><p>condições ambientais propícias, esses grupos humanos avançariam na escala de</p><p>desenvolvimento técnico e cultural até chegarem ao status dos povos europeus</p><p>“mais desenvolvidos”. A Escola Evolucionista está profundamente envolvida com</p><p>esta ideia de que, em certas condições de convívio com a natureza, os grupos</p><p>humanos se desenvolvem mais ou menos rapidamente em uma mesma direção,</p><p>do mais simples para o mais complexo, do inferior para o superior, do atrasado para</p><p>o desenvolvido, sendo esta direção sempre determinada pelas tecnologias que se</p><p>conseguem desenvolver na inexorável luta pela sobrevivência material.</p><p>Fonte: Disponível em: <http://www.geocities.ws/unigalera1/AntropologiaEscolasV.html>.</p><p>Acesso em: 30 jul. 2015.</p><p>69</p><p>Na Antropologia, o pensamento evolucionista é inaugurado no final do século XIX,</p><p>mas antes disso, alguns estudiosos já discutiam elementos relativos ao desenvolvimento</p><p>das culturas, como Platão, Lucrécio, Vico, Hegel e outros. Eles acreditavam que as</p><p>culturas se desenvolviam por meio de um processo evolutivo. Essa informação indica</p><p>que a semente do pensamento evolucionista é ainda anterior à teoria da evolução das</p><p>espécies de Darwin.</p><p>Desta maneira, todas as sociedades estariam inseridas em uma única narrativa</p><p>histórica e em um único processo de desenvolvimento social. Lembrando que este</p><p>desenvolvimento estava baseado no padrão de sociedade europeia. Dessa maneira,</p><p>os estágios se dariam sempre de culturas mais atrasadas, consideradas selvagens/</p><p>primitivas, para culturas intermediárias e, na sequência, para as sociedades mais</p><p>desenvolvidas, como a europeia. Ou seja, esses estágios eram diferenciados a partir da</p><p>comparação da sociedade europeia com as “outras”, nas mais diferentes instituições</p><p>sociais, como a religiosidade, os sistemas políticos, a economia, a tecnologia e outras.</p><p>As instituições sociais e os costumes diferentes do modelo europeu eram</p><p>considerados como “sobrevivência” do passado, como atraso na escala evolutiva.</p><p>Como exemplo de desenvolvimento evolutivo, podemos pensar a alteração</p><p>gradativa de sociedades caçadoras e coletoras para sociedades agricultoras, ou</p><p>podemos imaginar o processo de mudanças ocorridas desde os primeiros instrumentos</p><p>utilizados para a agricultura, em relação aos instrumentos atuais.</p><p>GIO</p><p>De maneira geral, o conceito de Evolucionismo se refere a uma corrente</p><p>de pensamento que compreende a reprodução das sociedades humanas</p><p>como resultado de um processo evolutivo, que tem como base mudanças</p><p>progressivas que ocorrem lentamente e que são influenciadas pelo meio</p><p>ambiente no qual habitam.</p><p>70</p><p>FIGURA 1 - REPRESENTAÇÃO DO EVOLUCIONISMO SOCIAL</p><p>FONTE: <http://www.materiaincognita.com.br/cooperacao-em-redes-sociais-acelerou-a-</p><p>evolucao-humana/#axzz3hIiNGK6Y>. Acesso em: 20 jul. 2015.</p><p>3 PRINCIPAIS ANTROPÓLOGOS EVOLUCIONISTAS E</p><p>SUAS TEORIAS SOCIAIS</p><p>3.1 LEWIS HENRY MORGAN</p><p>Um dos mais conhecidos antropólogos evolucionistas era norte-americano</p><p>e</p><p>chamava-se Lewis Henry Morgan. Ele nasceu em uma fazenda no Estado de Nova York</p><p>no ano de 1818. Ele se formou em Direito e teve papel ativo na política local. Foi um dos</p><p>primeiros defensores dos índios americanos, especialmente os iroqueses, com os quais</p><p>conviveu durante algum tempo.</p><p>Por conhecer a realidade dos índios e também do fluxo de imigração de europeus</p><p>para o país, compreendeu que logo a cultura dos nativos poderia ser extinta. Por este</p><p>motivo, realizou estudos e registros de boa parte da cultura iroquesa. Atualmente é</p><p>considerado um dos fundadores da Antropologia Moderna.</p><p>GIO</p><p>Os iroqueses foram um grupo nativo da América do Norte que viveu na</p><p>região dos Grandes Lagos, ao sul de Ontário, no Canadá, onde hoje é o</p><p>Estado de Nova York, nos Estados Unidos. Eram cinco nações — caiugas,</p><p>mohawks, oneidas, onondagas e sênecas — que constituíam a Confederação</p><p>Iroquesa. Disponível em: <http://escola.britannica.com.br/article/487811/</p><p>iroqu%C3%AAs>. Acesso em: 21 jul. 2015.</p><p>71</p><p>FIGURA 2 - LEWIS HENRY MORGAN</p><p>FONTE: <http://aventar.eu/2010/06/25/o-comeco-dos-comecos-lewis-morgan/>.</p><p>Acesso em: 25 jul. 2015.</p><p>A obra que destaca sua tendência evolucionista e também a mais importante se</p><p>chama Ancient Society – A Sociedade Primitiva, de 1877. Neste livro, Morgan descreve</p><p>detalhadamente a história da humanidade e a evolução da sociedade. A partir da</p><p>descoberta de restos humanos junto com ossos de animais extintos, em meados do</p><p>século XIX, ele mostrou que a existência da espécie humana era muito anterior ao que</p><p>se pensava até então. Nesse livro, Morgan se dispôs a reconstruir a pré-história.</p><p>Para levar a cabo a reconstrução da história da humanidade, Morgan partiu de</p><p>dois pressupostos:</p><p>1- A história poderia ser reconstruída por deduções teóricas, obedecendo a um padrão</p><p>lógico de transformação das instituições. Por exemplo, a promiscuidade tinha sido</p><p>necessária na história da humanidade para que houvesse o surgimento da família</p><p>nuclear e monogâmica, como o resultado de um processo evolutivo.</p><p>2- O conhecimento disponível sobre os selvagens contemporâneos representa</p><p>evidências do passado das nações civilizadas.</p><p>Seu livro organiza o passado cultural da humanidade em três grandes etapas</p><p>evolutivas: Selvageria, barbárie e civilização. A estas etapas Morgan acrescenta</p><p>subetapas, que utiliza para compreender o processo evolutivo das sociedades, tomando</p><p>por base as técnicas de subsistência que eram utilizadas de forma progressiva nas</p><p>diferentes culturas. Vejamos a seguir o quadro adaptado do Manual de Antropologia</p><p>Cultural, de Barrio (2005).</p><p>72</p><p>QUADRO 1 - ETAPAS EVOLUTIVAS DE LEWIS HENRY MORGAN.</p><p>Fonte: Adaptado de Barrio (2005, p. 74).</p><p>Morgan ainda divide as duas primeiras fases de desenvolvimento em três, sendo</p><p>configurado seu esquema evolutivo da humanidade em sete períodos:</p><p>Selvageria</p><p>I- Etapa inferior de selvageria: desde a infância da humanidade até o início do próximo</p><p>período.</p><p>II- Estágio intermediário de selvageria: Refere-se à aquisição de uma base de</p><p>subsistência (pesca) e conhecimento do uso do fogo.</p><p>III- Estágio superior de selvageria: Refere-se ao período em que ocorre a invenção de</p><p>artefatos de caça e pesca, como o arco e a flecha.</p><p>Barbárie</p><p>IV- Estágio da barbárie, que se refere à invenção da arte da cerâmica.</p><p>V- Estágio intermediário da barbárie, que se refere à domesticação de animais no</p><p>hemisfério oriental e ocidental, a partir de cultivo de milho e plantas para irrigação,</p><p>com o uso de adobe e pedra.</p><p>VI- Estágio superior da barbárie, que se refere ao período a partir da invenção de</p><p>fundição de minérios de ferro e do uso de instrumentos de ferro.</p><p>Civilização</p><p>VII- Estágio que ocorre desde a invenção do alfabeto fonético e do uso da escrita, até o</p><p>presente momento.</p><p>Nesse sentido, Morgan vai demarcando os processos pelos quais as sociedades</p><p>menos evoluídas realizam a passagem para estágios mais desenvolvidos.</p><p>Além disso, Morgan parte da hipótese de que os seres humanos seriam</p><p>inicialmente promíscuos sexualmente e que essa conduta foi sendo alterada</p><p>de acordo com o processo evolutivo. Vejamos o que diz Barrio (2005) sobre a</p><p>interpretação de Morgan:</p><p>Flechas</p><p>73</p><p>Se os primatas em grande parte são promíscuos, e o homem civilizado</p><p>é estritamente monogâmico, a evolução não pôde ser mais que uma</p><p>progressiva limitação das possibilidades de escolha sexual humana.</p><p>O tabu do incesto é crucial neste desenvolvimento e se irá opondo</p><p>e ampliando devido a que, segundo Morgan, as sociedades se foram</p><p>dando conta das vantagens genéticas de não realizar matrimônios</p><p>consanguíneos e por isso foram desprezando e proibindo. (BARRIO,</p><p>2005, p. 75).</p><p>Morgan compreende que houve alteração nas relações de matrimônio, passando</p><p>de relações poligâmicas para relações monogâmicas. Nesse sentido, a interpretação dos</p><p>sociólogos clássicos, Karl Marx e Friedrich Engels, nos ajuda a compreender o fenômeno,</p><p>quando eles afirmam que a introdução do pastoreio e da propriedade privada contribuiu</p><p>para a afirmação das relações monogâmicas, uma vez que a poligamia geraria divisão</p><p>de propriedades, com as demais famílias.</p><p>Morgan exerceu influência considerável sobre a antropologia posterior,</p><p>especialmente sobre os estudos relacionados com o parentesco,</p><p>mas também sobre os materialistas culturais americanos e outros</p><p>antropólogos evolucionistas no século XX. Sociólogos também o liam,</p><p>porém, quando Marx, quase no fim de sua vida, descobriu Morgan,</p><p>ele e seu companheiro Friedrich Engels tentaram integrar as ideias</p><p>de Morgan em sua própria teoria revolucionária, pós-hegeliana. Os</p><p>resultados incompletos desta tentativa foram publicados por Engels</p><p>em The Origin of the Family, Private Property, and the State, em 1884,</p><p>o ano seguinte à morte de Marx. (ERIKSEN, 2012, p. 31).</p><p>Ao mesmo tempo em que Morgan realizava seus estudos em antropologia, outros</p><p>autores também estavam concentrados em compreender as diferentes sociedades</p><p>humanas e seu desenvolvimento. Alguns trabalhos eram muito similares ao que Morgan</p><p>desenvolvia e outros eram completamente diferentes. Na Europa, os países que se</p><p>destacaram nos estudos antropológicos neste período foram Alemanha e Inglaterra.</p><p>Vejamos a seguir os estudos de Tylor, um dos grandes teóricos do evolucionismo inglês.</p><p>3.2 EDWARD BURNET TYLOR</p><p>Um dos grandes antropólogos deste período foi Edward Burnet Tylor. Ele era</p><p>britânico, nascido em Londres, em uma família abastada de comerciantes. Tylor não</p><p>concluiu os estudos devido às suas convicções religiosas (Educação Quaker). Trabalhou</p><p>no comércio com seu pai e irmão durante algum tempo, mas logo, acometido de uma</p><p>doença, viajou para recuperação em Cuba. Lá conheceu o etnólogo Henry Christy e com</p><p>ele viajou por Cuba e México por alguns anos, realizando observações e estudos.</p><p>Mais tarde, quando retornou à Inglaterra, em 1896, foi nomeado o primeiro</p><p>professor britânico de Antropologia na Universidade de Oxford.</p><p>74</p><p>FIGURA 3 - EDWARD BURNET TYLOR</p><p>FONTE: <http://www.biografiasyvidas.com/biografia/t/tylor.htm>. Acesso em: 26 jul. 2015.</p><p>Tylor definiu a antropologia como a ciência da cultura e desenvolveu uma</p><p>teoria para compreender como ocorre o processo de desenvolvimento dela. Para o</p><p>autor, a cultura evolui num processo linear e uniforme, sendo que algumas culturas</p><p>não conseguem acompanhar esse processo e permanecem paradas. Enquanto outras</p><p>estariam em pleno auge do progresso, como a sociedade europeia.</p><p>A partir da ideia de linearidade e uniformidade, de acordo com Barrio (2005),</p><p>Tylor procura explicar o desenvolvimento cultural religioso, analisando o processo de</p><p>crença e religiosidade dos povos.</p><p>Tylor acreditava que todas as religiões ou crenças, das sociedades ditas</p><p>civilizadas (fossem do passado ou do presente), possuíam seu equivalente nos grupos</p><p>humanos considerados primitivos ou arcaicos. Para Tylor, na prática, isso significava</p><p>que as sociedades civilizadas não haviam inventado nada novo nas religiões, mas sim</p><p>apenas realizado pequenas adaptações</p><p>em crenças já existentes de seus antepassados,</p><p>de tempos remotos.</p><p>Um exemplo disso diz respeito à ideia de reencarnação da alma. Para Tylor,</p><p>de acordo com Rosa (2010), “a metempsicose, ou seja, a transmigração da alma,</p><p>era uma crença que se encontrava tanto em povos selvagens, da África, como em</p><p>populações civilizadas da Ásia meridional, por exemplo”. Tylor reconhecia e enfatizava</p><p>esses fundamentos como a pré-história da fé. O que se pode perceber é que não havia</p><p>a alteração/substituição de uma crença por outra, mas a permanência de mesmas</p><p>crenças, com pequenas adaptações, éticas, morais etc.</p><p>Para compreender a gênese da religião, ou seja, a ideia que fundamentou a</p><p>religião primitiva, Tylor se baseou em um conceito chamado animismo.</p><p>75</p><p>Para Tylor, o animismo nasceu como culto aos antepassados mortos</p><p>para passar depois a ser culto a todo o tipo de alma ou espírito</p><p>abstrato. Da experiência do sonho em que o corpo permanece imóvel</p><p>e inerte, mas em que se dão experiências às vezes muito vívidas,</p><p>o primitivo “devia” inferir que depois da morte, embora o corpo</p><p>fosse destruído, poderia continuar a existir sob alguma forma. Esta</p><p>crença na existência de espíritos imateriais é a base do animismo</p><p>que, segundo Taylor, foi se generalizando cada vez mais até que se</p><p>foram associando os espíritos a algum fenômeno da natureza. O</p><p>culto à natureza, rios, fontes, raios, vento, fogo, etc., é outro estágio</p><p>dentro da evolução das crenças que deu origem, por progressiva</p><p>antropomorfização, ao politeísmo característico de sociedades</p><p>como a egípcia, grega e romana. Do politeísmo passa, finalmente, ao</p><p>monoteísmo por depuração e progressiva racionalização da ideia de</p><p>divindade. (BARRIO, 2005, p. 79).</p><p>O termo animismo vem da palavra latina “ânima”, que significa “alma”. Esse</p><p>termo remete à ideia de que todas as crenças, religiões e demais expressões espirituais</p><p>possuem uma característica fundamental comum, que é a presença da “alma”. Dito de</p><p>outra forma, Rosa (2010) relata que Tylor acreditava que, entre todos os artigos de fé, o</p><p>elemento “alma” tinha constituído na pré-história uma espécie de protótipo a partir do</p><p>qual tinham sido forjadas todas as outras crenças.</p><p>Por meio de suas inúmeras pesquisas etnográficas, Tylor fez o levantamento</p><p>das ideias relativas ao termo alma, entre as variadas tribos e grupos sociais com os</p><p>quais teve contato, conforme descreve Rosa (2010, p. 300):</p><p>Alma é uma imagem humana, imaterial, uma espécie de vapor, uma</p><p>nuvem, uma sombra. É a causa da vida e do pensamento no indivíduo</p><p>que ela anima. É dona da consciência e da vontade do seu possuidor</p><p>corporal, presente ou passado. Pode deixar o corpo junto de si e</p><p>viajar rapidamente. É geralmente impalpável e invisível, mas também</p><p>suscetível de manifestar alguma propriedade física. Aparece aos</p><p>homens durante o sono, como um fantasma separado do corpo, mas</p><p>conservando a sua aparência. Após a morte do corpo, ela continua</p><p>a existir e a aparecer e tem a faculdade de entrar, dominar e agir no</p><p>corpo de outros homens, animais e mesmo em objetos inanimados.</p><p>Havia duas concepções básicas para a construção da ideia de alma, na visão de Tylor:</p><p>1- A personificação da natureza, na medida em que se atribui alma aos elementos</p><p>externos, como animais, plantas, montanhas, terra etc.</p><p>2- Noção de espírito/alma separado do corpo.</p><p>De maneira geral, em sua obra mais importante, Primitive Culture – Cultura</p><p>Primitiva (1871), ele propôs uma síntese da sua teoria evolucionista, que em muitos</p><p>pontos se aproximava dos pensamentos de Morgan, uma vez que os dois se apoiavam</p><p>na explicação material para compreender o processo evolutivo das diferentes culturas.</p><p>Uma das contribuições mais importantes de Taylor para os antropólogos atuais é o</p><p>conceito de cultura, que permanece coerente ainda hoje.</p><p>76</p><p>CULTURA, ou civilização, tomada em seu sentido amplo, etnográfico,</p><p>é aquele todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte,</p><p>moral, lei, costume e quaisquer outras capacidades e hábitos</p><p>adquiridos pelo homem como membro da sociedade. (ERIKSEN;</p><p>NIELSEN, 2012, p. 35).</p><p>Outros autores evolucionistas poderiam ser discutidos neste tópico,</p><p>mas acreditamos que as perspectivas de Morgan e Tylor foram suficientes para</p><p>compreender o sentido e as principais características da Antropologia Evolucionista</p><p>ou Evolucionismo Social.</p><p>4 A ESCOLA DIFUSIONISTA</p><p>O Difusionismo teve início no início do século XIX e refere-se a um conjunto</p><p>de teorias que criticou a teoria evolucionista e opôs-se ao entendimento de que as</p><p>culturas se desenvolvem de forma linear para todas as sociedades. Os antropólogos</p><p>difusionistas acreditavam que a cultura se constrói de forma multidimensional e provém</p><p>de outras culturas.</p><p>Difusão é um processo, na dinâmica cultural, em que os elementos</p><p>ou complexos culturais se difundem de uma sociedade para outra.</p><p>As culturas, quando vigorosas, tendem a se estender a outras, sob a</p><p>forma de empréstimo mais ou menos consistente. A difusão de um</p><p>elemento da cultura pode realizar-se por imitação ou por estímulo,</p><p>dependendo das condições sociais, favoráveis ou não, à difusão. O</p><p>tipo mais significativo de difusão é o das relações pacíficas entre os</p><p>povos, numa troca contínua de pensamentos e invenções. (MARCONI,</p><p>2001, p. 64).</p><p>Para reconhecer a escola difusionista é necessário levar em conta três</p><p>postulados básicos. São eles:</p><p>a) Método Histórico: A antropologia difusionista trabalha com o método de reconstituição</p><p>histórica, que observa o passado e o presente.</p><p>b) Pesquisa de Campo: Ocorre de forma extensiva e é altamente aplicada, por meio de</p><p>coleta de dados, principalmente de dados primários.</p><p>c) Formulação de Conceitos: Enriquecimento da teoria e surgimento de vários termos/</p><p>conceitos, utilizados ainda hoje na antropologia.</p><p>O difusionismo predominou entre os anos 1900 a 1930, sendo que na década de</p><p>20 teve expressivo reconhecimento. Essa escola antropológica pode ser dividida em três</p><p>correntes de pesquisa: A escola hiperdifusionista inglesa, que possui como expoentes</p><p>os autores G. E Smith e W. J. Perry; a escola histórico-cultural alemã-austríaca, que tem</p><p>como defensores os autores F. Grabner e W. Schmidt; e a escola histórico-cultural norte-</p><p>americana, que possui como referência o importantíssimo antropólogo Franz Boas.</p><p>77</p><p>4.1 O DIFUSIONISMO INGLÊS: A ESCOLA HIPERDIFUSIONISTA</p><p>Os primeiros a criticar a corrente evolucionista e também os mais importantes</p><p>autores da escola hiperdifusionista, ou heliocêntrica, foram: J. Perry e Elliot Smith. Esta</p><p>escola é considerada hiperdifusionista, porque muitos de seus integrantes defendiam</p><p>que havia um só foco cultural para todas as culturas avançadas da Terra, a egípcia.</p><p>Essa premissa baseava a atividade de pesquisa de J. Perry, pois, de acordo com</p><p>Barrio (2005), “ele concebeu uma teoria segundo a qual há 4000 mil anos todas as</p><p>culturas do planeta possuíam uma mesma cultura, pouco desenvolvida”. Para o autor, à</p><p>beira do rio Nilo, devido a condições climáticas propícias, a agricultura, foi possível uma</p><p>revolução cultural, que aos poucos se espalhou para outras culturas, por meio de um</p><p>processo de difusão.</p><p>Esses autores foram influenciados pelas descobertas arqueológicas no Egito,</p><p>que demonstravam uma cultura bastante desenvolvida. Além disso, por compreender</p><p>que os egípcios viajavam grandes distâncias à procura de ouro e pedras preciosas,</p><p>presumiram que os egípcios também difundiam aspectos de sua cultura e suas</p><p>invenções a outros locais do planeta, alcançando lugares como a América Central e</p><p>ilhas do Oceano Pacífico. Por fim, sem um critério rigoroso de avaliação, concluíram que</p><p>os costumes egípcios foram amplamente difundidos por todo o mundo.</p><p>Muito embora os autores tenham aprofundado seus estudos da difusão cultural,</p><p>o mesmo não fizeram com relação ao contexto histórico, do ponto de vista da cronologia</p><p>dos eventos ocorridos. Por este motivo, talvez, não tiveram tantos adeptos.</p><p>Vejamos a seguir os dogmas que fundamentam a teoria de</p><p>Elliot Smith, de</p><p>acordo com Barrio (2005):</p><p>1- A cultura surge só sob circunstâncias exepcionalmente favoráveis, já que o</p><p>homem é pouco criativo. É quase impossível que haja culturas distintas de</p><p>modo independente.</p><p>2- As circunstâncias descritas se deram no antigo Egito, por isso a cultura de outras</p><p>regiões, excetuando aspectos singelos, deve-se ao resultado da difusão desta</p><p>superior civilização.</p><p>3- A civilização se vai diluindo ao propagar-se a zonas marginais. A decadência é</p><p>uma fase importante na história humana.</p><p>78</p><p>A teoria difusinista da cultura, de Elliot Smith, foi criticada principalmente pelo</p><p>dogmatismo de seus pressupostos e também por ser pouco empírica. Por outro lado,</p><p>pode-se depreender que o hiperdifusionismo foi uma teoria alternativa importante ao</p><p>modelo evolucionista de interpretar a constituição das diferentes sociedades. Para o</p><p>hiperdifusionismo, a cultura era interpretada como o resultado da difusão de elementos</p><p>culturais provenientes de um centro único, o Egito.</p><p>4.2 DIFUSIONISMO ALEMÃO-AUSTRÍACO</p><p>A escola difusionista alemã-austríaca também pode ser chamada de histórico-</p><p>cultural, histórico-geográfica e alemã. Seus principais representantes são: Friedrich</p><p>Ratzel, Willi Foy, Fritz Graebner e Pe. Wilhelm Schmidt. Para este estudo vamos nos ater</p><p>às contribuições de Grabner e Schmidt.</p><p>A principal caracterítica desta escola é a compreensão de que a difusão da</p><p>cultura ocorre partindo de diversos focos culturais e não apenas de um foco, como</p><p>preconizou a escola hiperdifusionista. Conforme destacam Marconi e Presotto (2001), a</p><p>característica principal do difusionismo alemão-austríaco é a visão pluralista da origem</p><p>da cultura, aceitando vários locais de evolução, que deram origem à sua totalidade.</p><p>Vejamos o que diz Fritz Graebner, importante representante desta escola, sobre</p><p>a difusão da cultura: “Nesses limitados centros primários, isolados uns dos outros, e</p><p>desenvolvendo-se independentemente, aparece uma série de complexos culturais que</p><p>denomina “círculos”. Por difusão estes “círculos” começam a expandir-se, sobrepor-se</p><p>e, inclusive, destruir-se”. (BARRIO, 2005, p. 88).</p><p>Graebner defendia que a cultura humana se desenvolveu por meio das</p><p>determinações históricas e geográficas das combinações de elementos básicos chamados</p><p>Kulturkreise (círculos culturais). Para ele, a cultura se desenvolveu em alguma parte do</p><p>interior da Ásia, o que chamou de Urkultur (centro da cultura). Esse desenvolvimento</p><p>ocorreu por um processo de difusão do centro, para as sociedades mais distantes, por</p><p>meio de círculos, cada vez mais amplos, através do processo de imigração.</p><p>Schmitdt, em seus estudos, também descreveu a cultura atual como o resultado</p><p>de uma difusão bastante complexa, que, em sentido contrário, poderia reconstruir os</p><p>círculos originais primários. O esquema de Schmidt apresenta três fases distintas,</p><p>subdivididas em nove. Este esquema apresenta certa semelhança com o esquema</p><p>trazido pelo evolucionista Lewis Henry Morgan. Vejamos o quadro a seguir, adaptado de</p><p>Marconi e Presotto (2001, p. 260).</p><p>79</p><p>QUADRO 2 – TEORIA SOBRE A DIFUSÃO DA CULTURA DE SCHMIDT</p><p>Fases Representantes</p><p>Três fases primitivas ou arcaicas Povos pigmeus, esquimós e aborígenes australianos</p><p>Três fases primeiras Povos coletores e nômades pastoris</p><p>Três fases secundárias Povos agricultores</p><p>FONTE: Adaptado de Marconi e Presotto (2001, p. 260)</p><p>A principal contribuição desta corrente de pensamento difusionista foi o</p><p>desenvolvimento da noção de “circulos culturais”, compreendidos como “um conjunto</p><p>de traços associados com um sentido”, podendo ser isolados e identificados na história</p><p>cultural, difundidos por meio das trocas.</p><p>Por outro lado, houve muitas críticas em relação a essa perspectiva teórica.</p><p>Alguns autores enfatizam que os “círculos de cultura” tratavam-se de generalizações</p><p>e que, na maioria das vezes, não foram devidamente comprovados. De acordo com os</p><p>críticos, os autores difusionistas não demonstraram qual a origem dos círculos culturais,</p><p>quando e onde existiram e como puderam ser difundidos por áreas tão distantes.</p><p>4.3 DIFUSIONISMO NORTE-AMERICANO: FRANZ BOAS E O</p><p>HISTORICISMO OU PARTICULARISMO HISTÓRICO</p><p>O Difusionismo norte-americano também recebeu o nome de historicismo</p><p>ou Particularismo Histórico. Essa corrente difusionista concentrou seus estudos</p><p>antropológicos na história da cultura e defendeu a história da cultura como elemento</p><p>de compreensão dela mesma. Dito de outra forma, Particularismo Histórico refere-se</p><p>ao entendimento de que toda a cultura possui sua própria história, que é única, e que</p><p>somente pode ser compreendida a partir do estudo de sua própria organização.</p><p>Alguns conceitos importantes, como traço cultural, complexo cultural, padrão</p><p>cultural e área cultural, que são utilizados até hoje pela antropologia, foram formulados</p><p>pelo difusionismo norte-americano.</p><p>Os principais representantes desta corrente científica são Franz Boas, Clark</p><p>Wissler e Alfred L. Kroeber. Neste caderno de estudos vamos tratar especialmente de</p><p>Franz Boas, que foi, sem dúvida, o principal representante dessa escola.</p><p>Franz Boas ainda é considerado um antropólogo muito importante na escola</p><p>da Antropologia Cultural nos Estados Unidos e na Antropologia de modo geral. Filho de</p><p>comerciantes abastados, ele nasceu na Alemanha, de onde saiu para passar anos em</p><p>expedições pelo norte e oeste do Canadá. Após suas incursões por estes países, ao</p><p>invés de voltar à Alemanha, Boas decidiu permancer na América, provavelmente porque</p><p>ficaria mais perto das comunidades estudadas por ele.</p><p>80</p><p>FIGURA 4 - FRANZ URI BOAS</p><p>FONTE: <http://www.biografiasyvidas.com/biografia/b/boas.htm> . Acesso em: 4 jul. 2015.</p><p>Em 1899, depois de ter trabalhado como editor de uma revista e, na sequência, em</p><p>uma pequena universidade, Franz Boas tornou-se professor de antropologia na importante</p><p>Universidade de Colúmbia, em Nova York. Boas, assim como muitos antropólogos de sua</p><p>época, via com desconfiança as teorias evolucionistas, e, como havia trabalhado com</p><p>professores alemães, tinha certa simpatia pelo difusionismo alemão.</p><p>Assim como outros estudiosos alemães, Boas defendia que para compreender</p><p>o processo de desenvolvimento cultural era necessário parar de fazer suposições</p><p>e generalizações, como no modelo evolucionista, mas observar empiricamente</p><p>a realidade. Para ele, a tarefa do antropólogo era observar, coletar e sistematizar</p><p>detalhadamente as culturas de forma individual. Somente após este extensivo</p><p>trabalho de campo e análise seria possível fazer alguma generalização teórica.</p><p>Ao contrário da Antropologia inglesa, que substituiu o conceito de cultura pelo</p><p>de sociedade, Franz Boas permanceu com a ideia de cultura desenvolvida por Tylor.</p><p>Para Boas, cultura é um conceito muito mais amplo do que o de sociedade. Vejamos o</p><p>que diz Eriksen (2012) sobre a opinião de Boas.</p><p>Se a sociedade é constituída de normas sociais, instituições e relações,</p><p>a cultura consiste em tudo o que os seres humanos criaram,</p><p>inclusive a sociedade – fenômenos materiais (um campo, um</p><p>arado, uma pintura...) condições sociais (casamento, famílias, o</p><p>Estado...) e significado simbólico (lingua, ritual, crença...). (grifo da</p><p>autora) A antropologia – a ciência da humanidade – dizia respeito, bem</p><p>literalmente, a tudo o que fosse humano (ERIKSEN, 2012, p. 53)</p><p>Por este motivo, Boas dividia a abordagem antropológica em quatro campos</p><p>distintos, sendo eles:</p><p>Linguística, antropologia física, arqueologia e antropologia cultural. Seus alunos</p><p>estudavam os quatro campos da antropologia e depois podiam escolher a área na</p><p>qual aprofundariam seus estudos. Obviamente que os estudos do próprio Boas eram</p><p>proeminentes, principalmente na área da antropologia cultural.</p><p>81</p><p>Franz Boas era um professor atento e generoso. Ao contrário da maioria</p><p>dos antropólogos, não realizava suas pesquisas de campo de modo individual, mas</p><p>coletivamente com seus alunos e parceiros. Normalmente não permaneciam muito</p><p>tempo no campo, como</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1 ......................................................................................................... 12</p><p>AUTOATIVIDADE .................................................................................................................. 13</p><p>TÓPICO 2 — ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA CULTURAL E</p><p>ANTROPOLOGIA SOCIAL ..................................................................................................... 15</p><p>1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 15</p><p>2 ETNOGRAFIA ..................................................................................................................... 15</p><p>3 ETNOLOGIA .......................................................................................................................18</p><p>4 ANTROPOLOGIA CULTURAL ............................................................................................ 21</p><p>5 ANTROPOLOGIA SOCIAL ................................................................................................. 25</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................................ 28</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 29</p><p>TÓPICO 3 — CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL ........................... 31</p><p>1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................... 31</p><p>2 CULTURA .......................................................................................................................... 32</p><p>3 ETNOCENTRISMO ............................................................................................................ 46</p><p>4 RELATIVISMO CULTURAL ................................................................................................47</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3 ......................................................................................................... 51</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 52</p><p>TÓPICO 4 — O TRABALHO DE CAMPO E A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE ...................... 53</p><p>1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 53</p><p>2 TRABALHO DE CAMPO .................................................................................................... 54</p><p>3 OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE ........................................................................................ 55</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR .................................................................................................59</p><p>RESUMO DO TÓPICO 4 ........................................................................................................ 63</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 64</p><p>UNIDADE 2 — AS ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS E OS GRANDES TEMAS</p><p>DA DISCIPLINA .................................................................................................................... 65</p><p>TÓPICO 1 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: EVOLUCIONISMO, DIFUSIONISMO,</p><p>E ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE .....................................................................67</p><p>1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................67</p><p>2 A ESCOLA EVOLUCIONISTA ............................................................................................ 68</p><p>3 PRINCIPAIS ANTROPÓLOGOS EVOLUCIONISTAS E SUAS TEORIAS SOCIAIS .............70</p><p>3.1 LEWIS HENRY MORGAN .....................................................................................................................70</p><p>3.2 EDWARD BURNET TYLOR ................................................................................................................ 73</p><p>4 A ESCOLA DIFUSIONISTA ................................................................................................76</p><p>4.1 O DIFUSIONISMO INGLÊS: A ESCOLA HIPERDIFUSIONISTA ...................................................... 77</p><p>4.2 DIFUSIONISMO ALEMÃO-AUSTRÍACO ...........................................................................................78</p><p>4.3 DIFUSIONISMO NORTE-AMERICANO: FRANZ BOAS E O HISTORICISMO OU</p><p>PARTICULARISMO HISTÓRICO ............................................................................................................ 79</p><p>4.3.1 As duas principais comunidades estudadas por Franz Boas ....................................... 81</p><p>5 A ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE OU CONFIGURACIONISMO CULTURAL ........ 84</p><p>5.1 PRINCIPAIS REPRESENTANTES DA ESCOLA DE CULTURA E PERSONALIDADE ......................85</p><p>5.1.1 Edward Sapir (1884-1939) ........................................................................................................85</p><p>5.1.2 Ruth Benedict (1887-1948) .....................................................................................................86</p><p>5.1.3 Margaret Mead (1901-1978) .....................................................................................................87</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................................ 89</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1 ......................................................................................................... 91</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................. 92</p><p>TÓPICO 2 — ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO,</p><p>ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO, NEOEVOLUCIONISMO</p><p>E PÓS-MODERNISMO .......................................................................................................... 93</p><p>1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 93</p><p>2 AS ESCOLAS FUNCIONALISTA E ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA ............................. 93</p><p>2.1 A ESCOLA SOCIOLÓGICA FRANCESA – OS PRECURSORES DO</p><p>FUNCIONALISMO E ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO ................................................................94</p><p>2.2 A ESCOLA FUNCIONALISTA E SEU PRINCIPAL REPRESENTANTE:</p><p>BRONISLAW MALINOWSKI .................................................................................................................95</p><p>2.2.1 Mas o que é Kula? .....................................................................................................................96</p><p>2.3 TEORIA DAS NECESSIDADES HUMANAS DE MALINOWSKI .....................................................98</p><p>2.4 A ESCOLA ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA: RADCLIFFE-BROWN ..........................................99</p><p>2.5 CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE A ESCOLA FUNCIONISTA</p><p>E ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA .................................................................................................102</p><p>3 A ESCOLA ESTRUTURALISTA: CLAUDE LÉVI-STRAUSS .............................................103</p><p>3.1 PRINCIPAL REPRESENTANTE DA ESCOLA ESTRUTURALISTA: CLAUDE</p><p>LÉVI-STRAUSS ..................................................................................................................................104</p><p>3.2 RELAÇÕES SOCIAIS, ESTRUTURA E MODELOS ........................................................................105</p><p>3.2.1 Natureza e história ..................................................................................................................106</p><p>3.2.2 Culturas simples e complexas .......................................................................................... 107</p><p>3.2.3 O que seriam os modelos consciente e inconsciente que Lévi-Strauss utiliza? ...........107</p><p>4 A ESCOLA NEOEVOLUCIONISTA ....................................................................................108</p><p>4.1 LESLIE A. WHITE ................................................................................................................................108</p><p>alguns antropólogos faziam, uma “imersão” prolongada na</p><p>cultura de alguma sociedade. Franz Boas preferia retornar muitas vezes ao longo dos</p><p>anos, nas comunidades estudadas. Trabalhou por muitos anos com pesquisas de campo</p><p>com os inuítes e os kwakiutls da costa noroeste americana.</p><p>4.3.1 As duas principais comunidades estudadas</p><p>por Franz Boas</p><p>a) SOCIEDADE INUÍTE</p><p>Os inuítes, também chamados pelos visitantes de esquimós, são povos que</p><p>habitam a Ilha Baffin, localizada em território canadense, no Ártico. A origem deste grupo</p><p>data de 4.000 anos. As relações que desenvolveram com o ambiente inóspito resultaram</p><p>em uma cultura enraizada, que os fez desenvolver conhecimentos, habilidades e</p><p>tecnologias próprias, adaptadas ao ambiente em que vivem. No período em que foram</p><p>pesquisados por Boas, ainda viviam exclusivamente da caça, da pesca e do comércio</p><p>de peles com alguns europeus. Até 1940 ainda tinham pouco contato com o restante</p><p>do Canadá, mas atualmente recebem apoio em todas as esferas institucionais, como</p><p>escolas, saúde e governo. Sua atividade econômica está mais variada, trabalham em</p><p>vários setores, incluindo o setor de construção, as mineradoras, as empresas de extração</p><p>de petróleo e gás. Além disso, possuem atividades administrativas e no governo. No</p><p>entanto, muitos inuítes continuam a realizar a caça e pesca como incremento na renda.</p><p>GIO</p><p>Antropologia cultural: Abrange o estudo dos homens/mulheres como</p><p>seres culturais. Investiga a cultura dos povos, considerando tempo, espaço,</p><p>origem e desenvolvimento. Compara e analisa suas diferenças e semelhanças.</p><p>Se preocupa com a maneira como o comportamento humano é reproduzido</p><p>e os processos de aprendizagem.</p><p>82</p><p>FIGURA 5 - SOCIEDADE INUÍTE</p><p>FONTE: <http://www.nunatsiaqonline.ca/pub/photos/Qaernermiut_Inuit_on_Era_570.jpg>.</p><p>Acesso em: 20 jul. 2015.</p><p>b) SOCIEDADE KWAKIUTL OU KWAKWAKA'WAKW</p><p>Os kwakiutl são índios norte-americanos, que vivem no Canadá, ao longo das</p><p>margens dos cursos de água entre a Ilha de Vancouver e o continente. O nome kwakiutl</p><p>foi difundido por Franz Boas, e é normalmente utilizado por pessoas de fora da sociedade.</p><p>As 15 tribos que a compõem se denominam Kwakwaka'wakw (aqueles que falam a língua</p><p>Kwak’wala) - Tradicionalmente os Kwakiutls subsistiram principalmente pela pesca, caça</p><p>e coleta. Além disso, eles possuem uma tecnologia baseada em madeira, como o entalhe</p><p>de canoas, de totens e das fachadas das casas, ornadas com elementos de sua cultura.</p><p>Sua sociedade foi estratificada por categoria, que foi determinada, principalmente, pela</p><p>herança de nomes e privilégios. Os indivíduos hierarquicamente superiores possuem o</p><p>direito de cantar certas canções, usar determinadas cristas e máscaras cerimoniais. Em</p><p>2014, as 15 nações e faixas que compõem o Kwakwaka'wakw contavam com cerca de</p><p>7.700 pessoas.</p><p>FIGURA 6 - TRIBO KWAKIUTLS</p><p>FONTE: <https://www.ago.net/screening-in-the-land-of-the-head-hunters>. Acesso em: 4 ago. 2015.</p><p>83</p><p>Franz Boas via valor intrínseco na pluralidade das práticas culturais no mundo</p><p>e era profundamente cético com relação a qualquer tentativa política ou acadêmica de</p><p>interferir nessa diversidade. Ao escrever sobre a dança kwakiutl, por exemplo, ele diz que:</p><p>A dança é um exemplo da relação da cultura com o ritmo, e por isso</p><p>ela não deve ser reduzida a uma mera “função” da sociedade (como</p><p>pareciam preferir os antropólogos sociais ingleses). Em vez disso, é</p><p>preciso perguntar o que esse ritmo é para a pessoa que dança, e a</p><p>resposta só pode ser encontrada examinando os estados emocionais</p><p>que geram a são gerados pelo ritmo. (ERIKSEN, 2012, p. 54).</p><p>Por compreender as culturas como fenômenos autônomos, Franz Boas</p><p>abandonou as perspectivas deterministas sobre as influências biológicas na</p><p>composição da cultura. Nesse sentido, o autor contribuiu de forma significativa à</p><p>causa multiculturalista, uma vez que escreveu artigos sobre a questão do negro nos</p><p>EUA. Além disso, em suas pesquisas influenciou estudiosos de boa parte do mundo a</p><p>desenvolverem trabalhos com a perspectiva relativista, na perspectiva de que o que</p><p>diferencia os grupos humanos são os determinantes culturais e não biológicos.</p><p>Franz Boas deixou um legado muito importante para os acadêmicos que</p><p>trabalharam com ele. Muitos continuaram seus estudos e outros fundaram novas</p><p>escolas de pensamentos. Ruth Benedict, por exemplo, foi sua sucessora na Universidade</p><p>de Colúmbia e organizadora da “Escola da Cultura e Personalidade”. Além dela, uma</p><p>importante antropóloga, conhecida como Margaret Mead, continuou a obra de Benedict</p><p>e se tornou a figura pública mais influente da história da antropologia americana.</p><p>Vejamos a seguir um pouco mais sobre a Escola de Cultura e Personalidade.</p><p>DICAS</p><p>Para aprofundamento desta temática,</p><p>sugerimos o documentário “Estranhos</p><p>no Exterior: as correntes da tradição”,</p><p>que trata sobre a vida e o trabalho de</p><p>Franz Boas com a sociedade inuíte.</p><p>Disponível em: <https://www.youtube.</p><p>com/watch?v=zK5lYPeAbDM>. Acesso</p><p>em: 20 jun. 2015.</p><p>84</p><p>5 A ESCOLA DA CULTURA E PERSONALIDADE OU</p><p>CONFIGURACIONISMO CULTURAL</p><p>A Escola da Cultura e Personalidade, ou Configuracionismo Cultural, é a quarta</p><p>escola de orientação antropológica em sequência histórica. Ela recebe forte influência</p><p>do Particularismo Histórico de Franz Boas, sendo considerada um prolongamento</p><p>do difusionismo norte-americano, porque também representa uma abordagem de</p><p>culturas particulares, conforme Boas defendia (uma unidade singular e individual de</p><p>estudos). Seus principais representantes foram alunos de Franz Boas. São eles Edward</p><p>Sapir, Ruth Benedict e Margareth Mead. Além da influência de Boas, essa corrente</p><p>antropológica também sofreu influências de Sigmund Freud (considerado o pai da</p><p>psicanálise) e do filósofo Friedrich Nietzsche.</p><p>A corrente historicista, sobre a qual foi fundada a Escola da Cultura e Sociedade,</p><p>se diferencia das escolas funcionalista e estruturalista, como poderemos verificar ao</p><p>longo deste tópico, porque ela julga importante reconstruir a história das culturas, para</p><p>poder analisá-la e compreendê-la, o que não ocorre nas escolas citadas, que acreditam</p><p>que observando o presente em uma sociedade é possível compreendê-la. Já a Escola</p><p>da Cultura e Personalidade procurou explicações para a individualidade das culturas</p><p>particulares. Chamou a atenção para os autores desta corrente antropológica o fato de</p><p>que, mesmo que duas culturas diferentes tomem de empréstimo um padrão cultural,</p><p>em cada uma delas ele sofrerá transformações, ou seja, o padrão cultural adquirirá</p><p>traços específicos de cada cultura, o que pode ser compreendido como um processo de</p><p>personalização do padrão cultural. Vejamos o que diz Mello (2013, p. 237):</p><p>De certo modo, os configuracionistas não desprezam a cultura.</p><p>Apenas reconhecem os indivíduos como sujeitos e objetos da</p><p>cultura. Dessa forma, as características dos indivíduos deveriam</p><p>ser idênticas às características da cultura a que pertencem. Assim</p><p>como, no indivíduo, não existem separadamente princípios religiosos,</p><p>econômicos, políticos, jurídicos, etc., mas uma resultante, uma</p><p>configuração, um “gênio”, um estilo de ser que dirige e conforma o</p><p>comportamento de todos os membros desta cultura.</p><p>A Escola da Cultura e Personalidade busca a integração e a singularidade do</p><p>todo, tendo como tema básico a INTEGRAÇÃO DA CULTURA.</p><p>Para a Escola da Cultura e Personalidade, a CULTURA seria um conjunto</p><p>integrado de elementos culturais encontrados em determinado tempo e espaço,</p><p>cujas partes devem estar de tal modo entrelaçadas que formem um todo coeso e</p><p>uniforme, pois se uma das partes for afetada, automaticamente afetará as demais.</p><p>85</p><p>Seus principais representantes desta escola tentaram interpretar as culturas</p><p>em termos psicológicos de personalidade básica. O seu paradigma central é que uma</p><p>personalidade básica é partilhada por todos os membros de uma cultura. Os autores</p><p>estabelecem uma tipologia cultural, na qual haveria culturas com padrões diferenciados.</p><p>Ruth Benedict</p><p>compreende que haveria dois padrões típicos de culturas: dionisíacas</p><p>(centradas no êxtase) e apolíneas (estruturadas no desejo de moderação). Já a antropóloga</p><p>Margaret Mead identifica três tipos de cultura. São elas: pré-figurativas, pós-figurativas e</p><p>cofigurativas. Sobre essas diferentes noções de cultura, veremos a seguir.</p><p>5.1 PRINCIPAIS REPRESENTANTES DA ESCOLA DE</p><p>CULTURA E PERSONALIDADE</p><p>5.1.1 Edward Sapir (1884-1939)</p><p>Este autor foi o primeiro representante desta Escola a defender a ideia</p><p>de que todo comportamento cultural tem uma configuração inconsciente, que</p><p>nem sempre é comunicada à mente, mas que dá à cultura um feitio próprio.</p><p>Acrescentou, também, que todo comportamento é simbólico, ou seja, tem como</p><p>base os sentidos, que são compreendidos e comunicados entre os diferentes</p><p>elementos de uma sociedade.</p><p>Para Sapir, as culturas não são entidades verdadeiramente objetivas,</p><p>mas configurações abstratas de ideias e padrões de ação, que têm significados</p><p>infinitamente diferentes para os vários indivíduos do grupo em questão. Os</p><p>comportamentos culturais são simbólicos; a cultura, como a linguagem, baseia-se</p><p>em significações partilhadas por todos os membros de uma determinada sociedade.</p><p>O autor leva em consideração a linguagem dos povos, propondo, em 1921,</p><p>uma nova perspectiva para a linguagem, ao sugerir que ela influencia a forma como</p><p>os indivíduos pensam. Essa ideia foi adotada e desenvolvida durante a década de</p><p>1940 por seu ex-aluno Benjamin Lee Whorf (1897-1941), dando origem à hipótese de</p><p>Sapir-Whorf.</p><p>Para Sapir, a percepção de um observador sobre o mundo ao seu redor é</p><p>controlada de alguma forma fundamental pela linguagem que ele usa. Por exemplo,</p><p>o conceito de tempo nos tempos verbais (presente, passado, futuro). Na língua</p><p>hopi não há tempos verbais, mas marcas de diferenciação sobre relato de fatos,</p><p>86</p><p>expectativas e verdades gerais. Também para Benjamin Lee Whorf, a linguagem pode</p><p>restringir o pensamento, ou seja, a linguagem funda a realidade. Nomes de cores, por</p><p>exemplo, podem variar enormemente. Em navajo, cinza e azul têm uma só palavra;</p><p>em hebraico, há uma palavra para azul do céu e outra para azul do mar.</p><p>Texto adaptado da fonte: <home.utad.pt/...sociocultural.../TEMA%204%20%20</p><p>ANTROPOLOGIA...>. Acesso em: 10 ago. 2015.</p><p>5.1.2 Ruth Benedict (1887-1948)</p><p>A estadunidense nascida em Nova York, Ruth Benedict, foi a principal</p><p>representante da Escola da Cultura e Personalidade. Inicialmente formou-se em</p><p>Literatura Inglesa e chegou a escrever alguns livros de poemas. No entanto, ao se</p><p>dedicar aos estudos antropológicos, conheceu Franz Boas e interessou-se pelos seus</p><p>estudos. Desta forma, começou a trabalhar também com os índios norte-americanos.</p><p>A obra que melhor representa suas convicções acadêmicas chama-se “Esquemas de</p><p>Cultura”, publicada em 1934. Além dessa, outras obras podem ser destacadas, incluindo</p><p>“O Crisântemo e a Espada”, que será tratada na leitura complementar sugerida ao final</p><p>deste tópico.</p><p>FIGURA 7 – RUTH BENEDICT</p><p>FONTE: <http://www.colegioweb.com.br/biografias/ruth-benedict.html>. Acesso em: 24 jul. 2015.</p><p>Para Benedict, o todo não é apenas a soma das partes. Cada cultura possui</p><p>propósitos próprios ou molas mestras emocionais e intelectuais que entranham o</p><p>comportamento e as instituições de uma sociedade. Uma região, por exemplo, deve</p><p>ser observada como uma configuração cultural de instituições, costumes, tradições,</p><p>meios de transporte etc., dentro de certa área geográfica, com caráter próprio.</p><p>87</p><p>Benedict consagrou a expressão padrão cultural (cultural pattern),</p><p>empregando-a num sentido muito mais global do que Sapir. Para a autora, a unidade</p><p>significativa que a Antropologia deve estudar é a configuração cultural. Cada</p><p>cultura é caracterizada por configurações particulares, que se infiltram em todas</p><p>as instituições, toda a vida social, todos os comportamentos individuais. Mas um</p><p>indivíduo numa cultura domina somente o que lhe é necessário para desempenhar</p><p>papéis definidos, ocupar posições determinadas.</p><p>Em seu estudo com os índios norte-americanos Kwakiutl (o mesmo grupo</p><p>estudado por Franz Boas), Ruth Benedict (1971; 1977), seguindo ao filósofo Nietszche,</p><p>distinguiu dois tipos de culturas:</p><p>CULTURAS DE TIPO “APOLÍNEO” CULTURAS DE TIPO “DIONISÍACO”</p><p>• Ex.: Índios “pueblo” os zuni.</p><p>• Conformistas.</p><p>• Pacíficos.</p><p>• Solidários.</p><p>• Respeitadores de outrem.</p><p>• Comedidos na expressão dos seus</p><p>sentimentos.</p><p>• Símbolo da lógica, a razão e a ordem.</p><p>• Destacam-se pelo seu equilíbrio.</p><p>• Ex.: Índios das planícies, os kwakiutl.</p><p>• Ambiciosos.</p><p>• Individualistas.</p><p>• Agressivos e violentos em ocasiões.</p><p>• Desmesura em termos afetivos.</p><p>• Símbolos da emoção, a apreciação dos</p><p>excessos e o prazer.</p><p>• Destacam o êxtase.</p><p>5.1.3 Margaret Mead (1901-1978)</p><p>A antropóloga Margaret Mead graduou-se (1923-1929) na Universidade</p><p>de Colúmbia, em Nova York, onde estudou com o antropólogo Franz Boas (1858-</p><p>1942) e trabalhou no Museu Americano de História Natural (1926-1969). Além de</p><p>uma pesquisa de campo (1925) sobre a adolescência em Samoa, estudou os povos</p><p>ágrafos da Oceania e complexas sociedades contemporâneas e foi pioneira na</p><p>utilização da fotografia para documentação de pesquisa etnográfica.</p><p>Seu interesse concentrou-se em vários aspectos da psicologia e da cultura,</p><p>inclusive a infância e a adolescência, o condicionamento cultural do comportamento</p><p>sexual, o caráter nacional e a mudança cultural. Publicou importantes obras,</p><p>tais como O caráter balinês (Balinese Character, 1940), um marco na história da</p><p>antropologia, da antropologia visual em especial, Adolescência, sexo e cultura em</p><p>Samoa (1928), Crescendo na Nova Guiné (1930), Sexo e temperamento em três</p><p>sociedades primitivas (1935), e Masculino e feminino (1949). Em seus estudos,</p><p>Margaret Mead identificou três tipos de culturas:</p><p>88</p><p>a) Culturas pós-figurativas: onde os filhos aprendem, em primeiro lugar, com os pais.</p><p>O novo é uma continuação e repetição do velho, negando-se a mudança. Os velhos</p><p>e os avôs têm muita importância. A mobilidade social é reduzida e o passado forma</p><p>um continuum com o presente e o futuro. Cultura da família extensa.</p><p>b) Culturas cofigurativas: quebram o sistema pós-figurativo. Os jovens rejeitam o</p><p>modelo dos adultos e aprendem formas culturais inovadoras. Os adultos acabam</p><p>por verificar que os seus métodos são insuficientes ou pouco adequados à</p><p>formação do jovem e à sua integração na vida adulta. Os jovens conseguem a</p><p>mobilidade social por si desejada; ignoram os padrões dos adultos ou são-lhes</p><p>indiferentes. Cultura da família nuclear. Os velhos e os seus conhecimentos</p><p>deixam de ser pensados como necessários.</p><p>c) Culturas pré-figurativas: os adultos aprendem com os seus filhos. Nesta nova</p><p>sociedade, só os jovens estão à vontade, pois dominam os progressos científicos.</p><p>Em extremo, os adultos não têm descendentes e os filhos não têm antepassados.</p><p>O futuro é agora e produz-se uma quebra entre uns e outros. O que interessava</p><p>aos adultos já não interessa aos jovens.</p><p>Texto adaptado da fonte: <home.utad.pt/...sociocultural.../TEMA%204%20%20</p><p>ANTROPOLOGIA...>. Acesso em: 10 ago. 2015.</p><p>89</p><p>CONTRIBUIÇÕES DE RUTH BENEDICT EM SEU ESTUDO:</p><p>"O CRISÂNTEMO E A ESPADA"</p><p>Neste livro, Ruth Benedict realiza um estudo antropológico sobre o Japão e</p><p>seus costumes. Alguns autores acreditam que este estudo foi encomendado pelo</p><p>governo dos Estados Unidos no período da II Guerra Mundial, para que fosse possível</p><p>compreender o povo contra o qual estavam combatendo.</p><p>Além disso, o livro explora o trabalho do antropólogo cultural e suas pesquisas.</p><p>Sabe-se que, por conta da guerra, Ruth Benedict ficou impossibilitada de trabalhar</p><p>diretamente no Japão, por isso a autora desenvolveu um método de trabalho à</p><p>distância. Ao escrever sobre ele ela defende que existem outras opções eficazes para</p><p>fazer a pesquisa antropológica, além do trabalho de campo. Esta obra, publicada em</p><p>1946, descreve como compreender uma cultura diferente, por meio de sua</p><p>literatura,</p><p>recortes de jornais, filmes e arquivos, entrevistas com imigrantes etc.</p><p>Num momento em que a II Guerra Mundial estava ocorrendo, muitos antropólogos</p><p>impossibilitados de visitar países como a Alemanha nazista ou o Japão de Hirohito,</p><p>valeram-se de tais materiais culturais e puderam produzir estudos à distância. Eles</p><p>tentavam entender os padrões culturais que deveriam orientar seu ataque e esperavam</p><p>encontrar pontos fracos ou maneiras de persuadi-los de que haviam perdido.</p><p>O Japão, assim como outros países, tem as suas particularidades, e Benedict</p><p>explica que para entendê-los é preciso caminhar por todas as áreas, e ela completa</p><p>que “teria que observar a maneira como conduziam a guerra, e considerá-la, por ora,</p><p>não como um problema militar, e sim como um problema cultural” (BENEDICT, p. 12),</p><p>a partir desse ponto se poderia encontrar as respostas procuradas. Sobre o trabalho</p><p>do antropólogo nesse caso, ela explica que “o antropólogo cultural dispõe de certas</p><p>habilitações, resultantes de sua formação, que o motivam a acrescentar a sua própria</p><p>contribuição num campo rico em estudiosos e observadores”. São abordadas as</p><p>diferenças e como o antropólogo vai se acostumando com essas diferenças entre sua</p><p>cultura e a do outro, para que se use essa diferença como base do estudo.</p><p>A princípio, os americanos consideravam muito natural os prisioneiros de</p><p>guerra quererem que suas famílias soubessem que estavam vivos, e ficarem calados</p><p>quando inquiridos sobre o movimento das tropas etc. Enquanto isso, prisioneiros de</p><p>guerra japoneses, aparentemente, davam informações desse tipo facilmente e não</p><p>tentavam contatar suas famílias. Por que isso? Por que, além disso, os asiáticos não</p><p>tratavam os japoneses como libertadores do colonialismo ocidental, nem aceitavam seu</p><p>suposto óbvio lugar numa hierarquia na qual o Japão ocupava o topo?</p><p>LEITURA</p><p>COMPLEMENTAR</p><p>90</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1Benedict desempenhou um papel fundamental na compreensão do lugar</p><p>do Imperador do Japão na cultura popular japonesa, e formulou ao presidente Franklin</p><p>D. Roosevelt uma recomendação segundo a qual, “permitir a perpetuação do governo</p><p>imperial seria imprescindível para uma eventual rendição”.</p><p>Desse texto pode-se ver uma nova maneira de se fazer a pesquisa antropológica</p><p>com eficácia, mesmo sem conseguir ir a campo buscar informações. Benedict nos</p><p>mostra como às vezes entrevistas com pessoas que já tiveram a experiência ou leituras</p><p>de outros autores podem ser suficientes para o estudo. Outro ponto refere-se a saber</p><p>o que faz do outro diferente e saber como lidar com essas diferenças. Quais são as</p><p>características (sejam elas culturais, físicas) que nos fazem distintos de outros e o que</p><p>faz um país realmente pertencer a aquele povo. “Sua finalidade é um mundo assegurado</p><p>para as diferenças, onde os Estados Unidos possam ser inteiramente americanos sem</p><p>ameaçar a paz do mundo, a França possa ser França e o Japão possa ser Japão nessas</p><p>mesmas condições”. (BENEDICT, p. 20).</p><p>Quando o livro foi publicado, um crítico escreveu que “O Crisântemo e a Espada”</p><p>“não tem credenciais, já que Benedict não teve qualquer experiência direta no Japão”, e</p><p>descreveu o livro como “considerado superficial e claramente racista". No entanto, o</p><p>embaixador japonês fez a seguinte declaração em público: "Em 1946, Ruth Benedict,</p><p>reconhecida antropóloga cultural americana, publicou um livro sobre o Japão intitulado</p><p>“O Crisântemo e a Espada”, que tem sido leitura obrigatória para muitos estudiosos de</p><p>temas japoneses."</p><p>Esse livro nos faz pensar as possibilidades do trabalho antropológico,</p><p>especialmente diferentes perspectivas do trabalho de campo.</p><p>Texto adaptado - Fonte: <http://cafedefita.blogspot.com.br/2012/02/literatura-ruth-benedict-e-o-</p><p>crisantemo_22.html>. Acesso: 9 ago. 2015.</p><p>91</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• Quatro das principais escolas de pensamento que fundamentam a Antropologia. São</p><p>elas: a escola Evolucionista, Difusionista, o Particularismo Histórico e a Escola da</p><p>Cultura e Personalidade.</p><p>• A escola Evolucionista teve início no final do século XIX e se refere a uma corrente</p><p>de pensamento que compreende a reprodução das sociedades humanas como</p><p>resultado de um processo evolutivo. Seus principais expoentes foram: Lewis Henry</p><p>Morgan e Edward Burnet Tylor.</p><p>• O Difusionismo teve início do início do século XIX e refere-se a um processo, na</p><p>dinâmica cultural, em que os elementos ou complexos culturais se difundem de uma</p><p>sociedade para outra.</p><p>• O Difusionismo pode ser dividido em três escolas: O Difusionismo Inglês, ou escola</p><p>hiperdifusionista/heliocêntrica; a Escola alemã-austríaca ou histórico-cultural ou</p><p>histórico-geográfica; e a Escola Norte-americana, também chamada de historicismo</p><p>ou Particularismo Histórico.</p><p>• O principal representante da Escola Norte-americana foi Franz Boas, que trabalhou</p><p>por muitos anos com os inuítes e os kwakiutls.</p><p>• A Escola da Cultura e Personalidade, ou Configuracionismo Cultural, recebe influência</p><p>de Franz Boas, pois seus principais representantes (Edward Sapir, Ruth Benedict e</p><p>Margaret Mead) foram seus alunos. Além disso, também sofreram influências de</p><p>Sigmund Freud e do filósofo Friedrich Nietzsche.</p><p>• Esta escola concebe a cultura como detentora de uma “Personalidade de base”,</p><p>partilhada por todos os membros. Os autores estabelecem uma tipologia cultural, na</p><p>qual haveria culturas com padrões diferenciados.</p><p>92</p><p>1 Do ponto de vista das escolas antropológicas, o Evolucionismo foi a primeira corrente</p><p>de pensamento a teorizar sobre o desenvolvimento das sociedades humanas,</p><p>enfatizando a cultura como um elemento impulsionador das mudanças dos padrões</p><p>culturais. Nesse sentido, Morgan foi um importante colaborador ao desenvolver a</p><p>teoria do processo evolutivo das sociedades, que consiste em organizar as fases</p><p>do desenvolvimento da cultura em três períodos: Selvageria, Barbárie e Civilização.</p><p>Com base nessas informações, analise as sentenças a seguir e classifique V para as</p><p>sentenças verdadeiras e F para as falsas.</p><p>( ) O estágio da civilização ocorre desde a invenção do alfabeto fonético e do uso da</p><p>escrita, até o presente momento.</p><p>( ) A selvageria é uma etapa que ocorre desde a infância da humanidade até a</p><p>invenção de artefatos de caça e pesca, como o arco e a flecha.</p><p>( ) O estágio da barbárie ocorre a partir do surgimento da linguagem, dos símbolos e</p><p>da escrita até a idade moderna.</p><p>( ) A selvageria se refere ao período que vai da invenção da arte da cerâmica até a</p><p>fundição de minérios e instrumentos de ferro.</p><p>Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA.</p><p>a) ( ) V – F – V – F.</p><p>b) ( ) V – V – F – V.</p><p>c) ( ) F – V – V – F.</p><p>d) ( ) V – F – F – F.</p><p>2 O difusionismo é uma escola de pensamento antropológico que surgiu no século</p><p>XIX e que se refere a um conjunto de teorias críticas ao evolucionismo, corrente</p><p>antropológica anterior a ela. De maneira geral, pode-se afirmar que os estudiosos da</p><p>escola difusionista opõem-se à ideia de que as culturas se desenvolvem de forma</p><p>linear para todas as sociedades, e defendem a noção de difusão das características</p><p>culturais. Com base nesses argumentos e de sua interpretação nesta unidade,</p><p>conceitue o termo Difusão.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>93</p><p>ESCOLAS ANTROPOLÓGICAS: FUNCIONALISMO,</p><p>ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO, ESTRUTURALISMO,</p><p>NEOEVOLUCIONISMO E PÓS-MODERNISMO</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>UNIDADE 2 TÓPICO 2 -</p><p>Neste segundo tópico daremos continuidade à apresentação das diferentes</p><p>escolas antropológicas que ajudaram a construir o campo de estudos da disciplina de</p><p>Antropologia. Devemos lembrar que o desenvolvimento das ciências, de maneira geral,</p><p>sofreu alterações ao longo da história e os estudos antropológicos também refletem</p><p>estas mudanças, conforme poderemos verificar ao longo deste tópico.</p><p>2 AS ESCOLAS FUNCIONALISTA E</p><p>ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA</p><p>O desenvolvimento da perspectiva Funcionalista e Estrutural-Funcionalista</p><p>na Antropologia foi</p><p>profundamente marcado pela influência dos sociólogos franceses</p><p>Émile Durkheim e Marcel Mauss, que adotavam uma postura sincronicista em seus</p><p>estudos. Logo, esta postura também foi se impondo nos estudos de vários antropólogos,</p><p>principalmente de Malinowski e Radcliffe-Brown, os principais representantes das</p><p>Escolas Funcionalista e Estrutural-Funcionalista. Esses autores compreendiam a cultura</p><p>como sistemas sociais inter-relacionados, compondo um todo funcional.</p><p>Para os autores, o estudo da sociedade deveria ser pensado como um</p><p>organismo, observando como ocorrem os processos de interação e interdependência,</p><p>como suas partes desempenham suas funções e mantêm o organismo (sociedade)</p><p>em contínua existência.</p><p>Para o funcionalismo, a permanência de hábitos culturais ao longo do tempo</p><p>só ocorre, e só pode ser explicada, pela função que eles realizam na sociedade como</p><p>um todo. Ou seja, diferentemente do evolucionismo, o funcionalismo não acredita que</p><p>alguns traços sociais resistam por conta de um atraso na “escala social evolutiva”, mas</p><p>que essa resistência é resultado da importância da sua função para a organização social.</p><p>94</p><p>Para os seguidores da Escola Funcionalista e Estrutural-Funcionalista,</p><p>cada costume é socialmente significativo, uma vez que integra uma ESTRUTURA,</p><p>participando de um sistema organizado de atividades. Uma cultura não é</p><p>simplesmente um organismo, mas um SISTEMA. Suas partes não podem ser</p><p>plenamente compreendidas separadamente do todo, e o todo deve ser compreendido</p><p>em termos de suas partes, suas relações umas com as outras e com o sistema</p><p>sociocultural em conjunto. Qualquer traço cultural ou costume, qualquer objeto</p><p>material ou qualquer ideia, como o fogo, uma peça de cerâmica, a noção de deus</p><p>ou deuses etc., que existem no interior das sociedades, têm funções específicas e</p><p>mantêm relações com cada um dos outros aspectos da cultura para a manutenção</p><p>do seu modo de vida total. Cada costume é socialmente significativo, já que integra</p><p>uma estrutura, participando de um sistema organizado de atividades.</p><p>Fonte: <http://twixar.me/FShm>. Acesso em: 20 jul. 2015.</p><p>2.1 A ESCOLA SOCIOLÓGICA FRANCESA –</p><p>OS PRECURSORES DO FUNCIONALISMO E</p><p>ESTRUTURAL-FUNCIONALISMO</p><p>Émile Durkheim não possui trabalhos de cunho etnográfico, exceto sua</p><p>monografia sobre o totemismo australiano, mas influenciou muitos antropólogos de</p><p>sua época. Ele entendia a cultura como um organismo coletivo, cujos órgãos seriam as</p><p>instituições sociais.</p><p>Na sua área acadêmica, Durkheim escreveu, entre outros, os textos “Da</p><p>divisão do Trabalho Social” (1983) e “As regras do método sociológico” (1895). Estas</p><p>obras representaram um verdadeiro choque teórico para a comunidade das Ciências</p><p>Sociais, pois Durkheim compreendia que os fatos sociais deviam ser explicados</p><p>em termos de variáveis sociais e não por meio da psicologia ou da biologia. Para</p><p>ele, o fato social expressa um interesse verdadeiramente social, mesmo que esteja</p><p>relacionado a elementos afetivos, fisiológicos ou comportamentais.</p><p>Marcel Mauss, que era sobrinho e parceiro de trabalho de Durkheim, também</p><p>partilhava desta mesma concepção teórica. Marcel Mauss compreendia o fato social</p><p>como um fato total, que só pode ter significado a partir de outros. Este autor refere-</p><p>se à sociologia como uma ciência que estuda os comportamentos das sociedades</p><p>humanas. Em seu artigo “Ensaio sobre o dom” (1924), ele escreve sobre o que seria um</p><p>“princípio-chave” para compreender as relações sociais, que ele chama de princípio da</p><p>reciprocidade. Esse conceito será retomado mais tarde por outro antropólogo bastante</p><p>conhecido: Lévi-Strauss.</p><p>95</p><p>2.2 A ESCOLA FUNCIONALISTA E SEU PRINCIPAL</p><p>REPRESENTANTE: BRONISLAW MALINOWSKI</p><p>O antropólogo Bronislaw Malinowski era natural de Cracóvia, uma cidade</p><p>polonesa, com cerca de 853 mil habitantes. Seu pai era filólogo, motivo pelo qual se</p><p>interessou pela literatura desde cedo. Doutorou-se em Física e ficou por algum tempo</p><p>no famoso laboratório de Leipzig, na Alemanha. Mais tarde, Malinowski se apaixonou</p><p>pela antropologia, principalmente devido ao seu contato com a temática do parentesco.</p><p>Logo ele começa a realizar expedições às ilhas Trobriand, na Nova Guiné, e</p><p>de lá extrai importantes dados etnográficos. Em 1916 ele publicou, pela primeira vez,</p><p>um estudo intitulado: “Baloma, os espíritos da morte nas ilhas Trobriand”. Neste livro</p><p>ele descreve as relações existentes entre os espíritos dos defuntos (Baloma) e a vida</p><p>simbólica e festiva do povo trobriandês.</p><p>FIGURA 8 - BRONISLAW MALINOWSKI NAS ILHAS TROBRIAND, NA MELANÉSIA</p><p>Fonte: <http://twixar.me/4Shm>. Acesso em: 20 jul. 2015.</p><p>Na definição de Malinowski, conforme destaca BARRIO (2005, p. 115), “cultura</p><p>refere-se ao conjunto de tradições e objetos materiais a partir dos quais o grupo social</p><p>se mantém coeso e organizado e a partir do qual o indivíduo é moldado”. De acordo</p><p>com o autor, a cultura possui uma série de princípios organizativos que ele compreende</p><p>como conceito de “função”. De acordo com Barrio (2005, p. 116), este conceito atua em</p><p>três âmbitos principais: “a) No âmbito das relações dos costumes e instituições entre</p><p>si; b) No âmbito dos efeitos teleológicos de um costume ou prática e c) No âmbito da</p><p>conjunção de todas as práticas em favor da preservação do sistema social”.</p><p>Malinowski definiu o conceito de Função em dois níveis fundamentais: por um</p><p>lado, o conceito de função refere-se às respostas que a cultura oferece para solucionar</p><p>as necessidades básicas das pessoas, e por outro lado, as respostas que fornece para as</p><p>necessidades sociais do grupo, como, por exemplo, as relações maritais, a maternidade e</p><p>a paternidade e todas as outras relações sociais que ocorrem no grupo. Para Malinowski,</p><p>a cultura humana é o alicerce das sociedades.</p><p>96</p><p>Outra de suas importantes obras foi escrita em Londres em 1922, com o título</p><p>“Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. Nessa obra, o autor explica o funcionamento da</p><p>economia das ilhas melanésias por meio do estudo de uma instituição fundamental,</p><p>chamada o anel “Kula”.</p><p>2.2.1 Mas o que é Kula?</p><p>De acordo com Barrio (2005), o Kula consiste em um intercâmbio circular de</p><p>objetos simbolicamente valiosos que propicia contatos entre as tribos das ilhas da</p><p>Nova Guiné. No sentido horário circulam os colares de conchas vermelhas, que os</p><p>nativos chamam de soulava, e no sentido anti-horário circulam braceletes de conchas</p><p>brancas chamados de mwali. As canoas nas quais navegam esses objetos valiosos são</p><p>delicadamente decoradas, assim como os tripulantes que levam os presentes.</p><p>FIGURA 9 – A CERIMÔNIA KULA</p><p>FONTE: <https://www.flickr.com/photos/pedro-saura/5121692352>. Acesso em: 20 ago. 2015.</p><p>Malinowski entendia que por meio deste intercâmbio estaria organizada uma rede</p><p>de relações e rituais complicados que conformariam a cultura dos povos novaguineanos.</p><p>Para Malinowski, a cultura destas sociedades compunha um mosaico, que, por qualquer</p><p>parte que se iniciasse a compreender, se chegava à compreensão do todo.</p><p>Malinowski representou para a Antropologia um marco de passagem na</p><p>qualificação e rigor da pesquisa de campo, pois até o momento a etnografia não estava</p><p>completamente consolidada. Foram vários os caminhos propostos para a pesquisa</p><p>etnográfica, desenvolvidos por Malinowski.</p><p>97</p><p>O primeiro refere-se à busca pela organização da tribo e pela anatomia de sua</p><p>cultura, que devem ser delineadas através do método da documentação concreta e</p><p>estatística, já que o objetivo fundamental da pesquisa de campo é delinear o esquema</p><p>básico da vida tribal. Por isso, torna-se importante observar todos os aspectos da</p><p>cultura nativa e anotar o maior número possível de manifestações concretas do que</p><p>é observado em um diário de campo.</p><p>O segundo caminho completa o primeiro, ao tratar dos imponderáveis da</p><p>vida real, referido aos fenômenos cotidianos que devem ser observados por meio do</p><p>acompanhamento contínuo da tribo. Assim, os diversos tipos de comportamentos</p><p>podem ser coletados através</p><p>de observações detalhadas e minuciosas, possibilitadas</p><p>apenas pelo contato íntimo com a vida nativa.</p><p>O terceiro passo é denominado de corpus inscriptionum, referido à coleta de</p><p>narrativas típicas, palavras e expressões características da mentalidade nativa que</p><p>contribuem para a compreensão da sua visão de mundo. Assim, para além do esqueleto</p><p>da vida nativa, composto pelo corpo e sangue da tribo, ou melhor, pelas descrições das</p><p>manifestações, comportamentos e costumes habituais, o antropólogo deve ser capaz de</p><p>apreender o seu espírito, ou seja, o ponto de vista nativo. Procurando descobrir os modos</p><p>de pensar e sentir típicos à cultura estudada.</p><p>A partir da aplicação prática destes princípios, Malinowski rompe com uma</p><p>“antropologia de gabinete” e inaugura um novo estilo de pesquisa, pautado em um</p><p>constante diálogo entre a observação participante e as descrições etnográficas. O</p><p>método proposto por Malinowski compreende uma investigação aprofundada da</p><p>vida nativa, de modo que o etnógrafo possa compreender a organização social da</p><p>vida tribal, sintetizada através da compreensão do ponto de vista nativo.</p><p>Disponível em: <http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/</p><p>view/7104/4134>. Acesso em: 15 ago. 2015.</p><p>Malinowski passou anos com as comunidades pesquisadas e realizou suas</p><p>observações de forma a interferir minimamente em suas atividades. Ele não se</p><p>preocupou tanto com a compreensão dos fenômenos observados, quanto com a</p><p>própria observação, sistematizada e descritiva. Mesmo sem compreender as atividades</p><p>do grupo, seu objetivo foi realizar o registro, para somente depois interpretá-las.</p><p>98</p><p>2.3 TEORIA DAS NECESSIDADES HUMANAS DE MALINOWSKI</p><p>Na concepção de Malinowski, os seres humanos fazem parte de uma mesma</p><p>espécie animal, e, portanto, somente sobrevivem porque suas necessidades biológicas</p><p>são satisfeitas por meio da cultura em que vivem. Nesse sentido, as ideias de cultura</p><p>e natureza humana estão imbricadas, na medida em que, por meio das culturas, se</p><p>desenvolvem instrumentos e estratégias em busca da sobrevivência humana e social.</p><p>Por isso Malinowski elaborou uma teoria universal das necessidades humanas, segundo</p><p>a qual teríamos três categorias de necessidades fundamentais. São elas:</p><p>QUADRO 3 – NECESSIDADES HUMANAS - MALINOWSKI</p><p>Categorias de Necessidades Humanas Tipos de Necessidades Humanas</p><p>Primárias ou biológicas Nutrição, defesa, excreção etc.</p><p>Derivadas ou instrumentais Organização Econômica, educação etc.</p><p>Integrativas ou sintéticas Magia, religião, arte e outras</p><p>FONTE: Adaptado de Marconi e Presotto (2001, p. 264)</p><p>Para Malinowski, a cultura se desenvolve por meio das instituições sociais para</p><p>dar resposta às diferentes necessidades psicológicas das pessoas. Por este motivo</p><p>é que as instituições emergem na cultura, como elementos coletivos voltados às</p><p>necessidades individuais (Necessidades Humanas).</p><p>Para Malinowski, são as instituições, precisamente, os elementos reais da</p><p>cultura, e não apenas as relações ou os traços culturais, porque eles só ocorrem devido</p><p>à sua relação com as instituições à qual pertencem.</p><p>Por fim, com Malinowski, a Antropologia se torna uma ciência que adquire um</p><p>caráter de respeito aos diferentes. As perspectivas etnocêntricas tão presentes na</p><p>teoria antropológica evolucionista chegam ao fim com a introdução do pensamento de</p><p>Malinowski, que considera toda a cultura como um sistema perfeitamente organizado</p><p>em si mesmo. Para ele, as diferentes sociedades possuíam o mesmo status, descartando</p><p>a ideia de sociedades atrasadas ou primitivas, mas enfatizando as diferenças como</p><p>elementos importantes para a constituição da organização social de cada grupo.</p><p>99</p><p>FIGURA 10 - BRONISLAW MALINOWSKI NAS ILHAS TROBRIAND, NA MELANÉSIA</p><p>FONTE: <http://www.robertarnold.co.uk/seb-and-lucy/Seb%20and%20Lucy.html>.</p><p>Acesso em: 20 ago. 2015.</p><p>2.4 A ESCOLA ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA:</p><p>RADCLIFFE-BROWN</p><p>O antropólogo Alfred Reginald Radcliffe-Brown nasceu em Birmingham, na</p><p>Inglaterra (1881-1955). Filho de família operária, com esforço formou-se antropólogo na</p><p>Universidade de Oxford, e teve como referência os antropólogos da época, especialmente</p><p>Rivers, importante antropólogo difusionista. Realizou seu primeiro estudo nas Ilhas</p><p>Andaman, no Golfo de Bengala, Índia, com forte influência da escola difusionista. No</p><p>entanto, com o passar do tempo, a influência dos trabalhos de Durkheim, como veremos</p><p>adiante, fez com que Radcliffe-Brown abandonasse o difusionismo, fundando no</p><p>decorrer de sua vida acadêmica a Escola Estrutural-Funcionalista.</p><p>DICAS</p><p>Para aprofundamento desta temática, sugerimos o documentário “Estranhos</p><p>no exterior: fora da varanda”, que trata sobre a vida e o trabalho de</p><p>Bronislaw Malinowski com os habitantes de uma ilha ao leste da Nova Guiné,</p><p>chamados trobriandeses. Fonte: Disponível em: <https://www.youtube.com/</p><p>watch?v=Qn_gLroH3bQ>. Acesso em: 19 ago. 2015.</p><p>100</p><p>FIGURA 11 – ALFRED REGINALD RADCLIFFE-BROWN</p><p>FONTE: <https://hantuem2011.wordpress.com/2013/07/25/5-aula/>. Acesso em: 3 set. 2015.</p><p>Da mesma forma como Malinowski, Radcliffe-Brown compreende a sociedade</p><p>como um sistema, no qual as relações sociais ocorrem de forma interdependente.</p><p>No entanto, a posição deste antropólogo pode ser entendida como intermediária</p><p>entre o funcionalismo e o estruturalismo. A perspectiva teórica de Radcliffe-Brown se</p><p>diferencia parcialmente da perspectiva de Malinowski porque ele considera, além da</p><p>função, a estrutura social como elemento fundamental para a manutenção do equilíbrio</p><p>social. Além disso, de acordo com Mello (2015, p. 254), “o pensamento de Radcliffe-</p><p>Brown oferece uma perspectiva mais sociológica, enquanto Malinowski apresenta uma</p><p>perspectiva mais eclética, considerando especialmente os aspectos psicológicos (teoria</p><p>das necessidades) na compreensão da realidade social”.</p><p>Os conceitos básicos da teoria de Radcliffe-Brown são “estrutura” e “função”</p><p>e sua perspectiva teórica é muito semelhante à de Émile Durkheim, especialmente</p><p>quando se refere a estes dois conceitos. Na sua compreensão sobre estrutura e função,</p><p>o autor realiza uma analogia com organismos vivos. Vejamos a seguir o que diz Mello</p><p>(2013, p. 255).</p><p>Para maior elucidação do conceito (função) é conveniente</p><p>empregarmos a analogia entre vida social e vida orgânica. Como todas</p><p>as analogias, isto deve ser feito com cautela. O organismo animal é</p><p>uma aglomeração de células e fluidos intersticiais dispostos uns em</p><p>relação com os outros, não como um todo integrado [...]. O sistema</p><p>de relações pelo qual essas unidades se relacionam é a estrutura</p><p>orgânica. Tal como os termos são empregados aqui, o organismo não</p><p>é em si a estrutura; é um acúmulo de unidades (células e moléculas)</p><p>dispostas numa estrutura, isto é, numa série de relações; o organismo</p><p>tem uma estrutura [...]. A estrutura deve, pois, ser definida como uma</p><p>série de relações entre entidades. (A estrutura de uma célula é, no</p><p>mesmo sentido, uma série de relações entre elétrons e prótons).</p><p>Na medida em que vive, o organismo mantém certa identidade de</p><p>101</p><p>suas partes constituintes. Perde algumas moléculas, ganha outras,</p><p>mas a disposição estrutural das unidades continua a mesma [...].</p><p>O conceito de “função” tal como é aqui definido implica, pois, a</p><p>noção de uma estrutura constituída de uma série de relações entre</p><p>entidades unidades, sendo mantida a continuidade da estrutura por</p><p>um processo vital constituído das atividades integrantes [...].</p><p>De acordo com Mello (2013), portanto, o que se pode depreender a respeito do</p><p>conceito de “função” é que se refere às contribuições que uma atividade do sistema</p><p>proporciona à atividade total da qual faz parte.</p><p>Dito de outra forma, a estrutura social representa as maneiras como os grupos</p><p>e indivíduos estão organizados e relacionados entre si na entidade funcional, que é a</p><p>sociedade. No centro da teoria sistêmica de Radcliffe-Brown está o conceito de sociedade,</p><p>por meio do qual, segundo Marconi e Presotto (2001),</p><p>“a função de um elemento é o papel</p><p>que ele representa em toda a vida social, razão mesma da manutenção da estrutura e da</p><p>integração social. Sobre o conceito de Estrutura Social, vejamos a seguir o que nos informa</p><p>Cassiano (2012, p. 1):</p><p>Brown define Estrutura social como sendo a rede de relações</p><p>complexa que cria laços entre os seres humanos. Essas relações se</p><p>dão em um todo integrado, o qual ele chamou de organismo social,</p><p>fazendo uma analogia ao organismo dos seres vivos, estudado</p><p>nas ciências naturais. Em outras palavras, a estrutura social é</p><p>estabelecida por uma série de relações sociais entre os indivíduos,</p><p>em um todo integrado de maneira organizada, com a finalidade de</p><p>garantir a estabilidade e a sobrevivência de um determinado grupo</p><p>ou de uma determinada sociedade. Ele considera dois aspectos</p><p>relevantes para se caracterizar o termo “estrutura social”. São eles:</p><p>(a) As relações sociais de pessoa a pessoa, como, por exemplo, a</p><p>relação de parentesco, estudada pelo próprio Radcliffe-Brown’; (b)</p><p>A diferenciação de indivíduos e de classes e seu papel social. Na</p><p>concepção browniana nos estudos de estrutura social, a realidade</p><p>concreta que se deve apreender é o conjunto de relações existentes</p><p>sincronicamente que cria laços entre os seres humanos, formando</p><p>assim uma rede complexa de relacionamento integrado dentro de</p><p>um organismo social.</p><p>Para demonstrar suas análises sobre função e estrutura social, Radcliffe-Brown</p><p>escreveu um dos seus mais importantes estudos, intitulado: “Estrutura e Função na</p><p>Sociedade Primitiva”. Nesse estudo a tendência sincronicista se acentua, assim como</p><p>a perspectiva sociológica baseada em Durkheim. Radcliffe-Brown procurou verificar</p><p>as relações básicas entre as sociedades, procurando interpretar o significado dos</p><p>mitos, religiões, rituais, e suas influências na manutenção da sociedade.</p><p>Para compreender o objetivo de um determinado ritual, é importante buscar seu</p><p>significado, ou seja, verificar com o grupo pesquisado os motivos pelos quais revivem</p><p>os rituais, quais suas motivações e sentimentos, para posteriormente identificar sua</p><p>função social.</p><p>102</p><p>As concepções de Radcliffe-Brown sobre os sistemas de sentimento, em</p><p>seu trabalho “Estrutura e Função na Sociedade Primitiva”, assemelham-se à ideia de</p><p>“representações coletivas” de Émile Durkheim, conforme destacado no texto a seguir.</p><p>Para Radcliffe-Brown, os sistemas de sentimentos regulam a atuação dos</p><p>indivíduos de acordo com as necessidades da sociedade; tais sentimentos, que</p><p>não são inatos, são desenvolvidos e expressos no indivíduo pela ação da sociedade</p><p>sobre eles. A sociedade mantém-se coesa por força de uma estrutura de normas</p><p>morais e regras civis regulatórias do comportamento que são independentes dos</p><p>indivíduos que as reproduzem. Estas normas e regras atuam então como uma</p><p>espécie de ‘consciência coletiva’. Desse modo, o indivíduo submete-se aos desígnios</p><p>da sociedade e é o seu produto.</p><p>Assim, para Radcliffe-Brown, os indivíduos são apenas a expressão da</p><p>estrutura social. Aí reside a grande diferença que o separa de Malinowski, apesar</p><p>de comungarem princípios funcionalistas (ou pelo menos compartilharem a rubrica</p><p>de ‘funcionalista’). Enquanto considera de mais relevante os princípios da estrutura</p><p>social e os mecanismos de integração social, Malinowski detém-se nas motivações</p><p>humanas e define a função dos elementos culturais segundo as necessidades</p><p>biológicas do indivíduo.</p><p>FONTE: <http://ant1mcc.blogspot.com.br/2009/05/o-funcionalismo-de-radcliffe-brown.html>.</p><p>Acesso em: 15 ago. 2015.</p><p>2.5 CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE A ESCOLA</p><p>FUNCIONISTA E ESTRUTURAL-FUNCIONALISTA</p><p>Como forma de demonstrar sinteticamente a contribuição das Escolas</p><p>Funcionalista e Estrutural-Funcionalista, podemos levantar algumas características</p><p>principais, a partir da adaptação da leitura de Marconi e Presotto (2001, p. 266). São elas:</p><p>a) O entendimento de que a cultura é um todo sistêmico e que deve ser</p><p>observado no tempo presente.</p><p>b) Compreensão de que a cultura se constitui de partes interdependentes</p><p>que se integram, formando um sistema sociocultural.</p><p>c) Criação de uma teoria das necessidades humanas.</p><p>d) Reconhecimento e valorização da função dos elementos da cultura</p><p>como mantenedores da estrutura social.</p><p>e) Para Malinowski, a unidade de análise são as instituições sociais, e</p><p>para Radcliffe-Brown, é a estrutura-funcional.</p><p>103</p><p>3 A ESCOLA ESTRUTURALISTA: CLAUDE LÉVI-STRAUSS</p><p>Na segunda metade do século XX inicia-se uma nova corrente científica, o</p><p>“Estruturalismo”, que acabou influenciando muito fortemente as Ciências Sociais, e,</p><p>portanto, também a Antropologia. Esta é a Escola Antropológica mais recente, que se</p><p>desenvolveu paralelamente ao funcionalismo, tendo seu apogeu entre as décadas de</p><p>1940 e 1950. O estruturalismo adotou uma posição teórica própria, levando em conta</p><p>principalmente os elementos subjetivos do estudo das culturas. Mesmo tendo adquirido</p><p>uma postura autêntica em relação à compreensão do fenômeno cultural, não deixou</p><p>de dialogar com as outras perspectivas antropológicas, especialmente com a corrente</p><p>funcionalista. Na compreensão de alguns autores, conforme destacam Marconi e</p><p>Presotto (2001), o estruturalismo chegaria a ser uma “espécie de refinamento do</p><p>funcionalismo”.</p><p>Que pontos poderiam ser considerados convergentes entre o Estruturalismo e o</p><p>Funcionalismo? Vejamos a seguir:</p><p>1- A ideia de que a cultura se desenvolve de forma sincrônica.</p><p>2- A ideia de que o fenômeno cultural possuiu propriedades sincrônicas.</p><p>3- A dimensão globalizante do fenômeno da cultura.</p><p>4- A adoção do termo estrutura (ainda que tenha sido utilizado com perspectivas</p><p>distintas).</p><p>5- Influência da Escola Antropológica Francesa.</p><p>De maneira geral, pode-se dizer que o Estruturalismo possui duas dimensões</p><p>distintas quanto ao seu conceito. Ele pode ser compreendido como um conjunto de</p><p>teorias sobre a cultura, mas também pode ser tomado como um método de análise,</p><p>conforme poderemos verificar mais adiante.</p><p>De maneira geral, pode-se dizer que as Escolas Funcionalista e Estrutural-</p><p>Funcionalista foram importantes para a Antropologia, principalmente porque valorizaram a</p><p>pesquisa de campo, como um elemento fundamental do fazer antropológico, valorizando</p><p>a aproximação entre pesquisador e pesquisado. Estas escolas descontruíram a ideia</p><p>de culturas superiores e inferiores e, por meio do relativismo cultural, interpretaram as</p><p>culturas estudadas a partir dos parâmetros desenvolvidos por elas próprias, sem os</p><p>valores e pré-noções dos observadores.</p><p>Neste tópico foram trabalhadas juntas, porque, apesar de terem alguns embates</p><p>acadêmicos, os pensamentos de Radcliffe-Brown e Malinowski são similares.</p><p>104</p><p>3.1 PRINCIPAL REPRESENTANTE DA ESCOLA</p><p>ESTRUTURALISTA: CLAUDE LÉVI-STRAUSS</p><p>O antropólogo Claude Lévi-Strauss foi o mais importante representante da</p><p>escola estruturalista do século XX e ainda é muito respeitado no meio acadêmico.</p><p>Este antropólogo nasceu na Bélgica e mais tarde mudou-se para a França,</p><p>formando-se em Filosofia e Direito. Depois de ter realizado trabalhos em muitos países,</p><p>incluindo EUA e Brasil, foi condecorado com a medalha de ouro do “Centre National de</p><p>la Recherche Scientifique”, na França.</p><p>O autor recebeu influências de pelo menos quatro áreas de conhecimento</p><p>distintas, como a corrente antropossociológica (inglesa e francesa), o campo linguístico, a</p><p>corrente sociológica marxista e a psicanálise de Freud.</p><p>Com relação aos autores antropossociológicos, podemos identificar o</p><p>pensamento de Morgan, Malinowski e Radcliffe-Brown. No entanto, para Lévi-Strauss é</p><p>a sociologia francesa com a qual melhor se conecta o desenvolvimento de seu trabalho,</p><p>tendo Marcel Mauss e Émile Durkheim como suas principais referências. É, inclusive,</p><p>a partir da concepção de Marcel Mauss sobre o “inconsciente social e a regra do dom”</p><p>que Lévi-Strauss vai desenvolver uma de suas principais obras, chamada “As estruturas</p><p>Elementares do Parentesco”. Além das influências</p><p>sociológicas e antropológicas, a</p><p>linguística, especialmente o trabalho do linguista Saussure, foi importante para o</p><p>desenvolvimento do pensamento de Lévi-Strauss. Outras referências ainda podem ser</p><p>identificadas como a psicanálise, o marxismo e o existencialismo de Sartre.</p><p>De maneira geral, Lévi-Strauss é considerado um antropólogo brilhante. Sua</p><p>extensa obra é considerada bastante complexa e de difícil interpretação para aqueles</p><p>que não estão envolvidos com as suas posições conceituais.</p><p>“Estruturas Elementares do Parentesco”, de 1949, é considerada uma das suas</p><p>mais importantes obras. Este título refere-se aos sistemas de parentesco, que ele</p><p>estuda profundamente durante suas atividades de pesquisa, como uma organização</p><p>social que ocorre a partir do casamento.</p><p>Outras obras também foram importantes em sua carreira de pesquisador, uma</p><p>delas, bem conhecida e considerada uma de suas obras-primas, é a chamada “Tristes</p><p>Trópicos”, escrita a partir de seus estudos realizados no Brasil, no período em que</p><p>Lévi-Strauss lecionou na Universidade de São Paulo (USP), a convite de uma missão</p><p>universitária francesa.</p><p>No Brasil, ele ficou de 1935 até 1939 e nesse período estudou algumas</p><p>comunidades indígenas do interior do país. Os registros apreendidos a partir dos</p><p>encontros resultaram no seu livro “Tristes Trópicos”.</p><p>105</p><p>FIGURA 12 – CLAUDE LÉVI-STRAUSS E A CAPA DE SEU LIVRO “TRISTES TRÓPICOS”</p><p>FONTE: Disponível em: <http://www.sociologia.seed.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.</p><p>php?conteudo=1276>. Acesso em: 19 jul. 2015.</p><p>Em seus escritos, Lévi-Strauss demonstrava claramente o repúdio à ideia de</p><p>que haveria uma superioridade inata de algumas sociedades em relação a outras. Na sua</p><p>concepção de humanidade, ele defendia que a mente dos “selvagens” era equivalente à</p><p>mente de qualquer pessoa de sociedades mais complexas.</p><p>3.2 RELAÇÕES SOCIAIS, ESTRUTURA E MODELOS</p><p>A partir do modelo estrutural desenvolvido por Ferdinand de Saussure, para a</p><p>área de linguística, Lévi-Strauss adaptou para a área de antropologia e passou a utilizá-</p><p>lo. Ele utilizou as ideias de Saussure para desenvolver o sentido do termo “estrutura”.</p><p>Para Lévi-Strauss, a estrutura social não se confunde com a realidade empírica. A</p><p>estrutura seria um modelo de análise construído a partir da observação da realidade</p><p>social. Ou seja, não se pode confundir estrutura social com relações sociais, porque,</p><p>conforme destacam Marconi e Presotto (2001), “as relações sociais são a matéria-prima</p><p>empregada para a construção dos modelos que tornam manifesta a própria estrutura</p><p>social”. Nesse sentido, compreende-se que o objeto de estudo do estruturalismo são</p><p>as relações sociais. Vejamos a seguir o conceito de estrutura, descrito por Marconi e</p><p>Presotto (2001, p. 271):</p><p>O conceito de estrutura se refere a um sistema que reflete a realidade</p><p>social ou cultural, seu funcionamento, as alterações regulares a que</p><p>está sujeita, o rumo das transformações provocadas por fatores</p><p>externos à cultura e as previsões de reação quando alguma de suas</p><p>partes for afetada.</p><p>106</p><p>Para receber a denominação de estrutura, na concepção de Lévi-Strauss, os</p><p>modelos estruturais devem satisfazer a quatro condições básicas. São elas:</p><p>1- A ideia de estrutura deve estar vinculada à ideia de sistema. A estrutura de caráter</p><p>sistêmico indica que qualquer elemento que eventualmente for modificado implicará</p><p>a modificação de todos os outros (aqui se sobressai a noção de interdependência).</p><p>2- Todo modelo pertence a um grupo de transformações, cada uma das quais</p><p>corresponde a um modelo da mesma família, de modo que o conjunto destas</p><p>transformações constitui um grupo de modelos.</p><p>3- As propriedades indicadas acima permitem prever de que modo reagirá o modelo, em</p><p>caso de modificação de um de seus elementos.</p><p>4- O modelo deve ser construído de tal modo que seu funcionamento possa explicar</p><p>todos os fatos observados.</p><p>O pensamento de Lévi-Strauss é bastante complexo, no entanto, Lévi-Strauss</p><p>consegue adaptar as diferentes perspectivas teóricas para a compreensão do fenômeno</p><p>cultural, procurando compreender uma realidade mais profunda no comportamento e</p><p>nos condicionantes culturais. Conforme destacam Marconi e Presotto (2001), “o que</p><p>importa não é a maneira como os homens veem a realidade, mas sim o modo como</p><p>podemos explicar a sua maneira de ver e agir”.</p><p>Nesse sentido, Lévi-Strauss nos permite conhecer uma realidade muito mais</p><p>profunda, que diz respeito mesmo aos condicionamentos inconscientes dos grupos/</p><p>indivíduos pesquisados.</p><p>3.2.1 Natureza e história</p><p>Com relação a este tema, as contribuições de Marx foram, sem dúvida, muito</p><p>importantes. De toda forma, deve-se deixar claro a distinção entre os pensamentos</p><p>de Lévi-Strauss e Marx. Embora ambos considerassem a estrutura consciente de</p><p>uma cultura, ou seja, considerassem que na cultura ocorrem regras e padrões como</p><p>elementos de reprodução da vida social, ou seja, de preservação da sua realidade</p><p>objetiva, Lévi-Strauss privilegia a natureza e a ordem natural ao avaliar as culturas.</p><p>Para ele, a história é produto da natureza. Marx, por sua vez, considera a história como</p><p>elemento de construção e aperfeiçoamento das condições humanas.</p><p>107</p><p>3.2.2 Culturas simples e complexas</p><p>Para melhor compreender e apresentar as estruturas mentais inconscientes</p><p>básicas de uma sociedade/cultura humana, Lévi-Strauss organizou as culturas em dois</p><p>tipos, que ele chamou de culturas quentes e culturas frias.</p><p>a) Culturas frias: Por sociedades frias, Lévi-Strauss convencionou chamar as sociedades</p><p>que estão mais próximas do estado de natureza, ou seja, aquelas que apresentam</p><p>estruturas simples, que são pequenas, que aparentemente vivem em harmonia e que</p><p>dificilmente se abrem a novos elementos culturais. Estas sociedades, de acordo com</p><p>o autor, oferecem melhores condições de observação das suas estruturas mentais</p><p>inconscientes.</p><p>b) Culturas quentes: Por sociedades quentes o autor convencionou chamar as</p><p>sociedades mais complexas, mais antigas e industrializadas. São sociedades que</p><p>estão em transformação constante e que aparentam um estado de desorganização</p><p>e falta de harmonia. Para Lévi-Strauss, as sociedades quentes apresentam maior</p><p>desafio para a compreensão de suas estruturas mentais inconscientes.</p><p>3.2.3 O que seriam os modelos consciente e inconsciente</p><p>que Lévi-Strauss utiliza?</p><p>A partir de modelos anteriores, Lévi-Strauss procura desenvolver um</p><p>método capaz de captar os modelos inconscientes que condicionam e explicam os</p><p>modelos conscientes.</p><p>a) Por modelo consciente ele denomina as normas/padrões de comportamento que</p><p>existem em uma determinada sociedade/cultura. De acordo com Lévi-Strauss,</p><p>o modelo consciente é um dos mais simples que existe, porque sua função é</p><p>perpetuar as crenças, os usos e os costumes, mas não explicar os motivos de sua</p><p>existência. Por este motivo ele afirma que o modelo consciente é a parte da cultura</p><p>facilmente observada.</p><p>b) Já o modelo inconsciente é o que Lévi-Strauss chama de “Estrutura Profunda”, ou</p><p>seja, é precisamente aquilo que explica as causas das representações conscientes,</p><p>concretas de um grupo humano. Dito de outra maneira, o modelo inconsciente é</p><p>aquilo que não se pode verificar de forma objetiva, mas sim o que é possível verificar</p><p>por trás de uma atitude/comportamento/norma social, aquilo que está camuflado.</p><p>Para interpretar a realidade objetiva, podemos dizer que, enquanto método de</p><p>análise, o estruturalismo possui alguns elementos básicos fundamentais para a sua</p><p>caracterização. São eles:</p><p>108</p><p>1- Visão sincrônica e sistêmica da cultura.</p><p>2- Visão globalizante do fenômeno cultural, ou seja, o conhecimento do todo leva à</p><p>compreensão das partes.</p><p>3- Adoção dos conceitos de Estrutura Social e Relações Sociais.</p><p>4- Utilização de modelos na análise cultural.</p><p>5- Unidades de análise: estruturas mentais inconscientes.</p><p>6- Compreensão ampla da realidade cultural.</p><p>Por fim, para concluir a discussão sobre estruturalismo, destacamos que a</p><p>fragilidade</p><p>do estruturalismo de Lévi-Strauss está justamente na preocupação de que,</p><p>ao querer observar as características subjetivas dos padrões culturais de um grupo</p><p>social, o pesquisador faça uso de sua subjetividade.</p><p>4 A ESCOLA NEOEVOLUCIONISTA</p><p>Após a Segunda Guerra Mundial e a descolonização de muitos países do</p><p>Terceiro Mundo, a antropologia tomou um novo rumo, procurando interessar-se pelas</p><p>próprias culturas e não somente pelas sociedades tribais, distantes e pouco conhecidas.</p><p>Nesse bojo, assim como outras escolas, o neoevolucionismo vai em busca de rever as</p><p>interpretações clássicas do evolucionismo.</p><p>Para os teóricos neoevolucionistas, a evolução social está relacionada ao</p><p>processo de evolução tecnológica. Seus teóricos descrevem o desenvolvimento da</p><p>cultura por meio de estágios, muito semelhantes aos estágios evolutivos de Morgan,</p><p>como vimos no Tópico 1 desta unidade.</p><p>Os principais representantes desta escola são Lesli A. White, V. Gordon Childe e</p><p>Julian Steward. Trataremos brevemente dos trabalhos de White.</p><p>4.1 LESLIE A. WHITE</p><p>O antropólogo Lesli A. White retornou nos métodos da antropologia desenvolvida</p><p>por Morgan, na qual consistia em elaborar generalizações relativas à evolução cultural.</p><p>Ele seguiu o esquema de Morgan, mas estabeleceu outros critérios para a compreensão</p><p>da evolução cultural.</p><p>Para White, o nível de desenvolvimento cultural deve ser medido pela</p><p>quantidade de energia de que uma sociedade dispõe. Desse modo, os que obtêm</p><p>progresso seriam definidos levando em consideração o domínio sempre maior de</p><p>fontes de energia cada vez mais abundantes e diversificadas. Dito de outra forma,</p><p>conforme Barrio (2005, p. 146):</p><p>109</p><p>Para White, o nível de uma cultura e sua complexidade dependem</p><p>basicamente do poder mecânico de que ela dispõe para controlar o</p><p>mundo e para produzir meios de vida mediante técnicas particulares</p><p>(força animal, aproveitamento das correntes fluviais, máquinas a</p><p>vapor etc.). Por isso, “concentrações maiores de energia e formas</p><p>elevadas de organização produzem níveis mais altos de cultura”. A</p><p>quantidade de energia de que se dispõe per capita nos dá o nível de</p><p>desenvolvimento de uma cultura, que se concretiza em: quantidade</p><p>de alimento, moradia, transportes, comunicações, meios de defesa e</p><p>domínio sobre as enfermidades.</p><p>Depreende-se, portanto, que para perpetuar sua espécie e satisfazer</p><p>suas necessidades básicas, os humanos, por meio da utilização de ferramentas e</p><p>tecnologias, produzem/reproduzem sua própria cultura (organização social, sistemas</p><p>de parentesco, instituições sociais, crenças, e outras). Conclui-se, portanto, que quanto</p><p>mais desenvolvimento/tecnologias, maior a evolução das sociedades humanas.</p><p>A exemplo de Morgan, vejamos a seguir o esquema de White, das três principais</p><p>etapas da evolução, no qual ele levou em conta a energia dos homens como elemento</p><p>de delimitação dos estágios evolutivos.</p><p>QUADRO 4 – ESQUEMA DE WHITE</p><p>Períodos Estágios</p><p>Selvageria (Baixo)</p><p>Energia do próprio corpo, salvo exceções no emprego do</p><p>fogo, do vento e da água.</p><p>Barbárie (Médio)</p><p>Energia na domesticação dos animais e cultivo das plantas; na</p><p>fabricação e uso de instrumentos e de ferramentas; na invenção do</p><p>calendário e da escrita.</p><p>Civilizado (Alto)</p><p>Energia na descoberta e aplicação da máquina a vapor (Revolução</p><p>Industrial).</p><p>FONTE: Adaptado de Marconi e Presotto (2001, p. 257)</p><p>Observando este quadro de White, pode-se perceber grande semelhança com</p><p>o quadro evolutivo de Morgan. Portanto, é correto interpretar que ambos pretenderam</p><p>estabelecer os mecanismos evolutivos para compreender o desenvolvimento das</p><p>sociedades de forma geral. Por este motivo é que muitos autores destacam que White</p><p>representa a permanência dos estudos de Morgan em nossa época.</p><p>No entanto, White sabe que as culturas/sociedades não de desenvolvem de</p><p>maneira idêntica, como pensavam os primeiros evolucionistas. White defende que</p><p>existe uma série de tendências gerais na sucessão das formas culturais.</p><p>110</p><p>5 ANTROPOLOGIA PÓS-MODERNA</p><p>De maneira geral, o pensamento pós-moderno é um movimento que ocorre em</p><p>todas as ciências, especialmente nas ciências sociais. Na antropologia, este movimento</p><p>manifesta-se por meio de uma postura crítica em relação aos discursos etnográficos</p><p>clássicos. Ou seja, coloca-se em xeque os discursos antropológicos produzidos sobre</p><p>os “outros”. Mas, para compreender melhor o debate da antropologia pós-moderna, é</p><p>necessário compreender o conceito de pós-modernidade. Vejamos a seguir o que diz</p><p>Eriksen (2012, p. 169) sobre o conceito de Pós-modernidade:</p><p>O termo pós-moderno foi definido primeiramente na filosofia</p><p>pelo filósofo francês Jean-François Lyotard em sua La Condition</p><p>postmoderne (1979; The Post-modern Condition, 1984). Para Lyotard,</p><p>a condição pós-moderna era uma situação em que não havia mais</p><p>nenhuma “grande narrativa” abrangente que pudesse ser invocada</p><p>para dar sentido ao mundo como um todo. Diferentes vozes</p><p>competiriam por atenção, mas nunca se integrariam... Ele descrevia</p><p>uma situação histórica específica no Ocidente (a que outros se</p><p>referiram de formas variadas como “sociedade da informação”,</p><p>“sociedade de consumo” ou mesmo “sociedade pós-industrial”), em</p><p>que o domínio era exercido por novas tecnologias, por novas relações</p><p>de poder e por ideologias. Mas o pós-modernismo era ele próprio uma</p><p>ideologia, uma perspectiva analítica e uma estética que descrevia o</p><p>mundo como descontínuo e fragmentado.</p><p>Essa noção de mundo, enquanto um ambiente de fragmentação, de</p><p>descontinuidade e fluidez, vai assumir na antropologia, especialmente na antropologia</p><p>norte-americana, uma posição de relativismo cultural, levada ao extremo. Os antropólogos</p><p>desta escola defendem que todas as culturas/sociedades são iguais, desde que não</p><p>tentem dominar umas às outras. Essa postura fez com que muitos autores colocassem</p><p>em questão o próprio fazer antropológico até o momento, e muitos estudos passaram a</p><p>ser realizados sobre os clássicos anteriores, como os trabalhos de Franz Boas e outros.</p><p>Além das influências dos autores pós-modernos, a antropologia sofreu outras</p><p>influências. Uma delas foi o movimento pós-colonial, nas artes e nas ciências humanas,</p><p>que questionou o direito dos intelectuais da metrópole de definir quem eram e como</p><p>eram “os nativos”, questionando os discursos e julgamentos metropolitanos. Alguns</p><p>autores questionaram as pesquisas desenvolvidas sobre os negros, outros autores</p><p>desqualificaram as narrativas sobre a vida dos indígenas norte-americanos, outros</p><p>ainda denunciaram os estereótipos das culturas orientais. Muitos desses autores</p><p>eram provenientes destes grupos minoritários, que finalmente tinham espaço nas</p><p>academias para falar em primeira pessoa sobre a própria cultura. Vejamos um exemplo</p><p>destacado por Eriksen e Nielsen (2012, p. 173):</p><p>Vine Deloria, um nativo Sioux dacota, é professor de Estudos Nativos</p><p>Americanos, teólogo, advogado e ativista. Seu livro Custer Died for</p><p>Your Sins (1970), muito debatido, foi um ataque apaixonado a todos</p><p>os tipos de autoridades que falavam sobre os norte-americanos</p><p>111</p><p>nativos e em nome deles, impedindo-os assim de efetivamente</p><p>falarem por si mesmos. Deloria estava especialmente furioso com</p><p>os antropólogos boasianos, cujo relativismo condenava os nativos</p><p>americanos ao eterno exotismo e os impedia de chegar à igualdade</p><p>com os brancos.</p><p>Esses e outros argumentos instigaram ainda mais a perspectiva pós-moderna</p><p>da antropologia e a autocrítica em relação ao campo de estudos. A antropologia se</p><p>voltou para o conhecimento e interpretação de sua prática até então. Tanto que muitos</p><p>dos artigos e monografias desenvolvidos nesta época (década de 1980) tratavam</p><p>exclusivamente da revisão crítica de estudos clássicos.</p><p>5.1 PRINCIPAIS AUTORES</p><p>A safra de autores que enveredaram para o movimento pós-moderno não era</p><p>tão grande e nem todos eram antropólogos. Os principais foram James Clifford, que era</p><p>historiador, Stephen Tyler, George Marcus, Michael Fischer, Renato Rosaldo</p><p>e Paul Rabinow.</p><p>Apesar das diferenças, eles possuíam algumas características comuns,</p><p>em relação à antropologia. A principal delas era o sentimento de vergonha frente</p><p>ao posicionamento da antropologia em relação às culturas pesquisadas, que</p><p>desconsiderava a “voz do outro”. Por este motivo, alguns autores, como Clifford e</p><p>Marcus, desta escola, desenvolveram estudos experimentais procurando envolver as</p><p>comunidades pesquisadas como agentes da pesquisa, na qual alguns informantes</p><p>participavam, contribuindo na construção do conhecimento.</p><p>Além disso, os autores pós-modernos criticavam a antropologia boasiana,</p><p>construída por um conceito de cultura integrada, com raízes antigas e profundas. Ao invés</p><p>disso, chamavam-lhes a atenção os estudos de Foucault, Marx e Gramsci e as possibilidades</p><p>de interpretação das representações e de poder nos diferentes textos etnográficos.</p><p>Em 1986 foram publicados dois livros fundamentais para o movimento. O</p><p>primeiro foi Anthropology as Cultural Critique, de George Marcus e Michael Fischer.</p><p>Esse livro destacou que a antropologia sofria uma grave crise de representação, por</p><p>todos os motivos já citados acima. Por conta disso, o livro propunha um processo</p><p>de reflexão sobre os fundamentos do trabalho do antropólogo. O livro recomendava</p><p>que os trabalhos etnográficos deveriam possuir uma perspectiva crítica em relação</p><p>à própria “casa”, isso é, as pesquisas deveriam ser realizadas no ambiente cultural</p><p>do próprio pesquisador, focando as questões históricas e econômicas da sociedade.</p><p>Para que este objetivo fosse alcançado, os autores sugeriam que os pesquisadores</p><p>passassem por um processo de “desfamiliarização” de sua cultura. Por outro lado,</p><p>pediam que na comparação da cultura dos outros com a sua houvesse uma ação de</p><p>estranhamento de seus próprios parâmetros culturais.</p><p>112</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2No mesmo ano foi editado o volume Writing Culture, dos autores Clifford e</p><p>Marcus, um livro com 12 capítulos, desenvolvidos por autores de diferentes posições da</p><p>escola pós-moderna, mas que de forma unânime desconstruiu o conceito de cultura</p><p>como um todo integrado, visão predominante na antropologia até então. Dois anos</p><p>após, Clifford publicou The Predicament of Culture, que pode ser resumido como ”um</p><p>longo argumento contra o essencialismo”.</p><p>Todas estas posturas críticas frente ao trabalho do antropólogo contribuíram</p><p>para o aprofundamento do relativismo cultural, que só foi possível compreender levando</p><p>em conta o contexto social dos norte-americanos naquele momento histórico. Um país</p><p>que acabava de sair de um processo de escravidão, que tinha passado por uma história</p><p>de genocídio das suas comunidades indígenas e que foi construído por imigrantes de</p><p>vários países. Isso tudo somado à desestruturação da estabilidade mundial na década</p><p>de 80, da perda do sentido das grandes teorias sociais explicativas, do movimento</p><p>pós-colonial, representou um caldeirão de mudanças sociais que a antropologia tentou</p><p>explicar por meio das etnografias experimentais.</p><p>113</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• A Escola Funcionalista teve como principal representante o antropólogo Bronislaw</p><p>Malinowski. Esta escola compreende a sociedade como um organismo, como um</p><p>todo complexo e interdependente, que desempenha suas funções e mantém vivo o</p><p>organismo (sociedade).</p><p>• O Estrutural-Funcionalismo tem como principal representante o antropólogo</p><p>Radcliffe-Brown. O pensamento deste autor é bastante semelhante ao de Malinowski,</p><p>no entanto, ele é um dos primeiros pesquisadores a trazer à discussão o conceito de</p><p>estrutura social.</p><p>• A Escola Estruturalista é uma das mais importantes do nosso tempo. Ela tem como</p><p>principal representante o antropólogo Claude Lévi-Strauss. Esse autor ampliou o</p><p>campo de discussão na antropologia, construindo ao mesmo tempo um conjunto de</p><p>teorias sobre a cultura e também um método de análise utilizado até os dias atuais.</p><p>• A Escola Neoevolucionista buscou fazer uma revisão dos estudos clássicos</p><p>evolucionistas. Para os neoevolucionistas, o desenvolvimento das sociedades ocorre</p><p>por meio da evolução das tecnologias. Seus teóricos procuram explicar esse processo</p><p>por meio de estágios evolutivos, semelhante à teoria de Morgan.</p><p>• A Escola Antropológica Pós-moderna refere-se a uma postura crítica dos antropólogos</p><p>atuais em relação ao fazer antropológico dos antropólogos clássicos. A principal crítica</p><p>refere-se ao excesso de “autoridade” que tiveram alguns antropólogos clássicos, ao</p><p>falar sobre a cultura dos “outros”, idealizando e essencializando essas culturas, sem</p><p>permitir que seus representantes (os nativos) falassem por si mesmos.</p><p>114</p><p>1 Ao estudarmos as Escolas Antropológicas, verificamos que cada uma delas possui</p><p>seus principais expoentes, ou seja, aquelas que melhor representaram sua perspectiva</p><p>teórica. Diante disso, levando em conta as escolas descritas a seguir: Funcionalista,</p><p>Estrutural-Funcionalista e Estruturalista, assinale a alternativa que apresenta os</p><p>principais representantes de cada uma delas, respectivamente.</p><p>a) ( ) Radcliffe-Brown – Bronislaw Malinowski – Claude Lévi-Strauss.</p><p>b) ( ) Bronislaw Malinowski – Radcliffe-Brown – Claude Lévi-Strauss.</p><p>c) ( ) Claude Lévi-Strauss – Radcliffe-Brown – Bronislaw Malinowski.</p><p>2 Na leitura realizada até o momento, podemos verificar que a Antropologia, assim</p><p>como a ciência em geral, passou por mudanças e adaptações com o objetivo de</p><p>compreender as transformações históricas e sociais. São as chamadas Escolas</p><p>Antropológicas. Caracterize duas delas, a Neoevolucionista e Pós-Moderna.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>115</p><p>TÓPICO 3 -</p><p>GRANDES TEMAS DA ANTROPOLOGIA:</p><p>UNIÃO, CASAMENTO E PARENTESCO</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>UNIDADE 2</p><p>A antropologia é um campo de pesquisa que se ocupa da organização e do</p><p>desenvolvimento das sociedades humanas. Por este motivo, ao longo do tempo tem</p><p>discutido várias dimensões da vida humana, como as instituições sociais, os modelos</p><p>políticos e de governo, a economia, a religião, enfim, a cultura de uma forma geral.</p><p>Mas para compreender essas dimensões, as escolas antropológicas, por meio de seus</p><p>estudos, ao longo do tempo foram construindo conceitos que utilizam instrumentos</p><p>analíticos para interpretar as sociedades pesquisadas.</p><p>Neste tópico, por necessidade de limitar os conhecimentos trabalhados,</p><p>optamos por apresentar os temas: União, Casamento e Parentesco.</p><p>2 UNIÃO</p><p>Todas as sociedades humanas, em menor ou maior grau, sofrem cerceamento</p><p>de seus impulsos sexuais. Por meio da cultura se estabelecem limitações na conduta</p><p>das relações sexuais, no sentido de direcioná-la para um caminho preestabelecido, que</p><p>demarca como, quando e com quem o sexo é permitido. Por esse motivo, o fato de ser</p><p>humano, ou seja, viver em sociedade e pertencer a uma cultura, é estar sujeito a algum</p><p>tipo de inibição sexual.</p><p>De acordo com Hoebel e Frost (2006), “a união é o ajuntamento de indivíduos</p><p>de sexo oposto sob a influência do impulso sexual”.</p><p>Pode-se dizer que atualmente o conceito de união inclui outras possibilidades</p><p>de relacionamento, que não apenas de indivíduos de sexo oposto. Mas vamos tomar,</p><p>por enquanto, o conceito de união dos autores citados. E complementam afirmando</p><p>que a união sexual é um fenômeno de natureza basicamente instintiva, mas que é</p><p>profundamente marcado pelos padrões e normas sociais.</p><p>116</p><p>A união dos seres humanos pode ocorrer apenas no plano biológico, como</p><p>ocorre com os animais, sem implicar em casamento. Mas, na maioria das vezes, a</p><p>união (relação sexual) acaba implicando um certo grau de permanência do par. O que</p><p>não quer dizer que pode ser confundido com o casamento, pois pode haver casamento</p><p>sem união.</p><p>3 CASAMENTO</p><p>O casamento é uma instituição social que serve para organizar a relação de um</p><p>par, em uma determinada sociedade. Vejamos o que dizem Hoebel e Frost (2006, p. 176):</p><p>O casamento é o complexo das normas sociais que definem e</p><p>controlam as relações de um par unido um com o outro, com seus</p><p>parentes, com sua prole e com a sociedade em geral. Ele define</p><p>todos os direitos institucionais, deveres, privilégios e imunidades do</p><p>par como marido e mulher. Ele determina a forma e atividades da</p><p>associação conhecida como a família.</p><p>Para seguirmos com as discussões sobre o casamento, é necessário conhecer</p><p>alguns termos importantes que utilizaremos como ferramentas analíticas para</p><p>compreender como ocorrem as diferentes modalidades de casamento. São eles:</p><p>Exogamia e Endogamia.</p><p>3.1 EXOGAMIA</p><p>O Termo exogamia refere-se à regra social que determina que os casamentos</p><p>ocorram fora da família, ou seja, com pessoas de outros grupos familiares. Existem dois</p><p>tipos distintos de exogamia, a simples e a restrita. Vejamos como podem ser definidas:</p><p>a- Exogamia Simples: Ocorre quando a proibição do casamento se dá para todos os</p><p>membros genéticos da família, sem exceção.</p><p>b- Exogamia Restrita: Ocorre quando o casamento é restrito a certas categorias de</p><p>parentes e a outras categorias é permitido e até mesmo incentivado. Na maioria</p><p>das vezes, mesmo possuindo laços consanguíneos, culturalmente, o parente não é</p><p>definido como parente. Podendo ocorrer o casamento com o filho do irmão da mãe,</p><p>ou com o filho da irmã do pai.</p><p>117</p><p>3.2 Endogamia</p><p>Ocorre de maneira contrária à exogamia. A endogamia refere-se a uma regra</p><p>social que determina que os casamentos ocorram dentro da própria organização familiar,</p><p>ou grupo social, considerado de pertencimento.</p><p>A endogamia ocorre muito menos frequente do que a exogamia, mas muitos</p><p>países do Oriente Médio e África orientam os matrimônios por meio dessa regra social.</p><p>Além disso, algumas sociedades indígenas da América do Sul e América do Norte</p><p>também têm suas relações definidas pela endogamia. Um sistema bem conhecido é</p><p>o que ocorre na Índia. Uma organização antiquíssima, com mais de duas mil castas e</p><p>subcastas, que não permite que casem entre si, com a justificativa de que a união com</p><p>castas inferiores denigre os membros das castas superiores.</p><p>De maneira geral, os casamentos que ocorrem dentro de grupos fechados, ou</p><p>dentro das famílias, possuem o objetivo de nivelar seus membros dentro de uma mesma</p><p>cultura, protegendo suas características e regras sociais, incluindo o sentido de raça.</p><p>Normalmente isso ocorre quando um determinado grupo considera que o seu modo de</p><p>vida, seus valores e sua raça são importantes demais para expô-los a outras culturas.</p><p>4 MODALIDADES DE CASAMENTOS</p><p>Neste subtópico vamos focar nas modalidades de casamento, levantadas pelos</p><p>antropólogos com base nas diferentes sociedades pesquisadas. Ainda que atualmente,</p><p>nas sociedades ocidentais, muitos casamentos ocorram de forma que os pares</p><p>escolhem por si próprios seus cônjuges, isso não funciona desta maneira em muitas</p><p>sociedades, nas quais os casamentos são arranjados ou dependem de prévio exame e</p><p>consentimento das famílias.</p><p>Por este motivo, para entender como funciona essa instituição social,</p><p>especialmente os casamentos primitivos, é necessário entender o seu conceito. Vejamos</p><p>o que dizem Hoebel e Frost (2006, p. 193) sobre os princípios básicos de um casamento:</p><p>GIO</p><p>Castas são sistemas tradicionais, hereditários ou sociais de estratificação, ao</p><p>abrigo da lei ou da prática comum, com base em classificações tais como</p><p>a raça, a cultura, a ocupação profissional etc. Disponível em: <http://www.</p><p>dicionarioinformal.com.br/castas/ >. Acesso em: 10 set. 2015.</p><p>118</p><p>O casamento constitui uma aliança entre dois grupos de parentesco,</p><p>nos quais o casal interessado é meramente o vínculo mais</p><p>importante. Todo homem aprende, mais cedo ou mais tarde, que</p><p>quando ele se casa com uma “única pessoa”, casa-se não somente</p><p>com ela, mas com seus parentes. As noivas, naturalmente, têm a</p><p>mesma experiência.</p><p>Por este motivo, quando nos referimos ao casamento, estamos nos referindo</p><p>não só aos interesses do casal, mas também aos interesses sociais relativos ao evento.</p><p>A sociedade em geral e os parentes, em particular, têm uma participação bastante direta</p><p>no matrimônio. Por este motivo, veremos a seguir algumas modalidades formalizadas</p><p>do processo de casamento.</p><p>Das sete modalidades para se “conseguir” uma mulher, apenas duas delas não</p><p>possuem participação direta da família. São elas: o casamento por captura e o casamento</p><p>por fuga, as demais envolvem participação direta da família. De acordo com Hoebel e</p><p>Frost (2006), as sete modalidades são: preço por progênie, ou riqueza da noiva; pelo</p><p>serviço do pretendente; por troca de presentes; por captura; por afinidade, substituição</p><p>ou continuação; por fuga; por adoção.</p><p>4.1 PREÇO POR PROGÊNIE OU RIQUEZA DA NOIVA</p><p>A troca de bens/presentes por esposas é uma prática comum nas sociedades</p><p>primitivas, especialmente em grande parte do território africano. Os presentes são</p><p>sempre oferecidos pela família do noivo, à família da noiva e normalmente o pagamento</p><p>é feito em cabeças de gado.</p><p>Não se pode pensar que a noiva é mero objeto de negociação entre as famílias, mas,</p><p>ao contrário, pagar pela mulher significa que a posição da mulher em termos de prestígio e</p><p>poder é valorizada, além do que, e principalmente, a mulher, como progenitora, tem muito</p><p>valor como um membro de um grupo de parentesco.</p><p>Significa dizer que a mulher casada, dependendo do valor pago, suponhamos, 20</p><p>vacas, possui mais poder que uma mulher a quem se tenha pago 10 vacas. Na sociedade</p><p>indígena Yurok, na Califórnia, essa regra era tão comum que o valor social de um homem era</p><p>determinado pelo preço da progênie pago à sua mãe.</p><p>Vejamos o que dizem Hoebel e Frost (2006, p. 194) sobre os nativos Vezos Sakalavas,</p><p>de Madagascar, onde o preço da progênie é regulado na dimensão das leis.</p><p>Em caso de divórcio não é socialmente permissível nem a devolução do</p><p>gado pago, nem a substituição por outra mulher. A mulher divorciada</p><p>pode casar-se novamente, mas só com a permissão de seu antigo</p><p>marido. Esta permissão era concedida sob juramento, por parte da</p><p>mulher e seu futuro marido, que os primeiros filhos deles (até o limite</p><p>de três) seriam transferidos por escritura ao primeiro marido, que foi</p><p>119</p><p>quem pagou o preço da progênie à sua família. A mulher cria e toma</p><p>conta das crianças até a desmama, quando eles serão entregues ao</p><p>seu primeiro marido e se tornam seus legítimos herdeiros, sem as</p><p>formalidades de adoção... entre os primitivos, a paternidade legal é,</p><p>geralmente, de maior significado do que a paternidade biológica.</p><p>Além da sociedade Vezos Sakalavas, existem outras que desenvolvem</p><p>estratégias de organização e controle sobre os preços e pagamentos de progênie,</p><p>como os bavendas da África do Sul: entre eles, se os preços da progênie são pagos em</p><p>prestações, as crianças não passam para o grupo de parentesco do marido enquanto a</p><p>dívida não for quitada.</p><p>4.2 PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DO PRETENDENTE À FAMÍLIA</p><p>Refere-se à possibilidade de casamento na qual o noivo coloca-se à disposição</p><p>para trabalhar para a família da noiva. Pode ser considerada uma forma mais barata</p><p>de conseguir uma esposa, sem pagar de uma vez só o preço da progênie. Essa prática</p><p>foi encontrada em diversas tribos espalhadas pelo mundo todo. Para ter direito a uma</p><p>esposa e ter filhos com ela, o noivo se submete a trabalhar para os familiares da noiva,</p><p>sendo que muitas vezes esse trabalho pode ocorrer por um longo tempo, até que se</p><p>tenha considerado quitado o débito.</p><p>4.3 TROCA DE PRESENTES</p><p>Em algumas sociedades, ao invés do pagamento da progênie, o que se faz é</p><p>a troca equivalente entre as famílias dos noivos. Essa não é prática tão comum nas</p><p>sociedades pesquisadas, mas é uma possibilidade de negociação para o casamento.</p><p>Uma comunidade em que esse tipo de matrimônio pode ser identificado é na</p><p>sociedade dos índios Cheyennes, da grande região de Minnesota. Conforme destacam</p><p>Hoebel e Frost (2006, p. 195):</p><p>Um menino que se apaixonava por uma determinada menina</p><p>conversava sobre o assunto com a sua família. Se a família achava</p><p>que a escolha era boa, depois de levar em consideração não</p><p>5 ANTROPOLOGIA PÓS-MODERNA ................................................................................... 110</p><p>5.1 PRINCIPAIS AUTORES ..................................................................................................111</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................... 113</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................ 114</p><p>TÓPICO 3 — GRANDES TEMAS DA ANTROPOLOGIA: UNIÃO, CASAMENTO</p><p>E PARENTESCO .................................................................................................................. 115</p><p>1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 115</p><p>2 UNIÃO .............................................................................................................................. 115</p><p>3 CASAMENTO ................................................................................................................... 116</p><p>3.1 EXOGAMIA ............................................................................................................................................116</p><p>3.2 ENDOGAMIA ........................................................................................................................................ 117</p><p>4 MODALIDADES DE CASAMENTOS ..................................................................................117</p><p>4.1 PREÇO POR PROGÊNIE OU RIQUEZA DA NOIVA .........................................................................118</p><p>4.2 PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS DO PRETENDENTE À FAMÍLIA .....................................................119</p><p>4.3 TROCA DE PRESENTES ...................................................................................................................119</p><p>4.4 CAPTURA ...........................................................................................................................................120</p><p>4.5 MATRIMÔNIO POR AFINIDADE, SUBSTITUIÇÃO OU CONTINUAÇÃO:</p><p>O LEVIRATO E O SORORATO ..........................................................................................................120</p><p>4.6 FUGA COM O AMADO ........................................................................................................................121</p><p>4.7 ADOÇÃO ...............................................................................................................................................121</p><p>5 SISTEMA DE PARENTESCO ............................................................................................122</p><p>5.1 CONCEITUANDO SISTEMA DE PARENTESCO ............................................................................. 122</p><p>5.2 ELEMENTOS QUE COMPÕEM O PARENTESCO .......................................................................... 123</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................125</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................... 131</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................132</p><p>UNIDADE 3 — FUNDAMENTOS DA ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA ...................................133</p><p>TÓPICO 1 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA CULTURA GREGA ........................................135</p><p>1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................135</p><p>2 O HOMEM NA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA ..................................................................136</p><p>3 OS SOFISTAS E A ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA ..........................................................138</p><p>4 A ANTROPOLOGIA SOCRÁTICA-PLATÔNICA ................................................................ 141</p><p>5 A ANTROPOLOGIA ARISTOTÉLICA ............................................................................... 144</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1 .......................................................................................................148</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................150</p><p>TÓPICO 2 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NO PERÍODO CRISTÃO-MEDIEVAL ..................153</p><p>1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................................153</p><p>2 A CULTURA MEDIEVAL: O HOMEM SEGUNDO A TRADIÇÃO BÍBLICA ..........................153</p><p>3 ANTROPOLOGIA PATRÍSTICA .......................................................................................156</p><p>4 ESCOLÁSTICA E A CONCEPÇÃO TOMISTA DE PESSOA ...............................................159</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................................164</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................165</p><p>TÓPICO 3 — A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA MODERNIDADE ........................................... 167</p><p>1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 167</p><p>2 O HOMEM NO RACIONALISMO DE DESCARTES ............................................................168</p><p>3 A ANTROPOLOGIA NA IDADE CARTESIANA ...................................................................171</p><p>4 A ÉPOCA DA ILUSTRAÇÃO: KANT E A ANTROPOLOGIA PRAGMÁTICA ....................... 176</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR ...............................................................................................180</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3 .......................................................................................................186</p><p>AUTOATIVIDADE ................................................................................................................189</p><p>REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 191</p><p>1</p><p>UNIDADE 1 -</p><p>O QUE É ANTROPOLOGIA,</p><p>OBJETO E MÉTODO</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• levar o(a) acadêmico(a) a compreender o que é Antropologia, Etnologia e Etnografia;</p><p>• proporcionar ao(à) aluno(a) elementos para que distinga Antropologia Social e</p><p>Antropologia Cultural;</p><p>• instrumentalizar o(a) acadêmico(a) com os conceitos fundamentais da disciplina,</p><p>notadamente o de cultura;</p><p>• tornar o(a) aluno(a) capaz de caracterizar e utilizar o método antropológico.</p><p>Esta unidade está dividida em quatro tópicos. No decorrer dela, você encontrará</p><p>autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – O QUE É ANTROPOLOGIA</p><p>TÓPICO 2 – ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA, ANTROPOLOGIA CULTURAL E</p><p>ANTROPOLOGIA SOCIAL</p><p>TÓPICO 3 – CULTURA, ETNOCENTRISMO E RELATIVISMO CULTURAL</p><p>TÓPICO 4 – O TRABALHO DE CAMPO E A OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure</p><p>um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>2</p><p>CONFIRA</p><p>A TRILHA DA</p><p>UNIDADE 1!</p><p>Acesse o</p><p>QR Code abaixo:</p><p>3</p><p>O QUE É ANTROPOLOGIA</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>TÓPICO 1 - UNIDADE 1</p><p>Prezado acadêmico, bem-vindo ao estudo da disciplina Antropologia Geral</p><p>e da Religião. Nesta primeira unidade nós veremos o que é Antropologia, seu objeto</p><p>e método.</p><p>Inscrita na tradição do conhecimento científico, embora tendo se constituído</p><p>enquanto ciência somente no final do século XIX, a Antropologia, ramo tardio das Ciências</p><p>Sociais, irá nos servir em nossa caminhada na compreensão dos fenômenos humanos,</p><p>notadamente, no caso deste Caderno de Estudos, no que diz respeito à Religião.</p><p>Para utilizarmos a Antropologia como ferramenta para nossa prática profissional</p><p>e crescimento pessoal, é preciso saber no que consiste exatamente, quais as pretensões</p><p>e alcance deste saber e como o mesmo</p><p>somente</p><p>as qualidades da menina, mas também o caráter de sua família, exibia</p><p>os seus bens mais valiosos transferíveis para colocá-los à disposição</p><p>da jovem namorada. Eles eram cuidadosamente carregados num</p><p>lindo cavalo. Em seguida, chamavam uma respeitada mulher de</p><p>idade para levar o cavalo ao tipi do irmão mais velho da moça. Ali</p><p>ela ficava parada para que todo o acampamento visse, enquanto</p><p>entrava na cabana para expor a pretensão do seu afilhado. O irmão</p><p>mais velho convocava seus primos para uma reunião de família. Se</p><p>decidissem que a proposta era aceitável, descarregavam o cavalo e</p><p>distribuíam os presentes entre si, ficando o cavalo com o irmão. Então</p><p>todos se dispersavam para suas cabanas para discutir o que cada</p><p>120</p><p>um ia oferecer em troca. Esperava-se que cada um deles levasse no</p><p>dia seguinte, ou, no máximo, dentro de dois dias, alguma coisa de</p><p>valor igual ao que tinham recebido.... Assim, com referência ao valor</p><p>econômico, os presentes eram exatamente iguais.</p><p>O objetivo das trocas para os Cheyennes não era o valor das coisas, mas</p><p>sim a possibilidade de reafirmar e reforçar os laços de amizade e, principalmente, de</p><p>demonstrar o apreço pelo compromisso entre os noivos confirmado.</p><p>4.4 CAPTURA</p><p>A ideia de capturar uma noiva parece ser um pouco duvidosa e nos lembra algumas</p><p>histórias em quadrinhos ou desenhos animados sobre os casamentos dos “homens das</p><p>cavernas”, nos quais o homem captura a mulher com uma paulada na cabeça e a arrasta</p><p>para a sua casa. Na verdade, o casamento por captura foi uma das primeiras maneiras de</p><p>compreender o princípio da evolução social, pelos antropólogos clássicos, mas hoje ganhou</p><p>nova interpretação, o que não quer dizer que não tenha existido. Além disso, não se pode</p><p>dizer que foi uma técnica dominante, em tempos mais remotos.</p><p>O fato é que o casamento por captura, do ponto de vista da sobrevivência social,</p><p>possui muitas desvantagens, sem contar o risco de ser morto por membros da família da</p><p>moça. Além disso, como o casamento é uma instituição social que promove a aliança entre</p><p>grupos, capturar uma esposa não traz vantagem alguma para o noivo, que não terá o apoio</p><p>da família da noiva, sob nenhum aspecto. Não compartilhará a propriedade da família, seus</p><p>filhos não terão o status da família, porque não serão reconhecidos por ela.</p><p>Por esse motivo, o casamento por captura só ocorria em ocasiões em que não</p><p>se podia recorrer a outros meios. De maneira geral, mesmo sem recursos, um homem</p><p>procurava casar primeiro pelos meios tradicionais de sua sociedade.</p><p>4.5 MATRIMÔNIO POR AFINIDADE, SUBSTITUIÇÃO OU</p><p>CONTINUAÇÃO: O LEVIRATO E O SORORATO</p><p>Em algumas sociedades é comum encontrarmos matrimônios que ocorrem</p><p>devido à morte de um dos cônjuges. Esse tipo de casamento é chamado de matrimônio</p><p>por afinidade, substituição ou continuação e pode ocorrer em duas modalidades, o</p><p>Levirato e o Sororato. A função deste tipo de casamento é proporcionar a continuação</p><p>dos laços de parentesco entre as famílias dos cônjuges originais, e garantir que os filhos</p><p>do matrimônio original permaneçam na família.</p><p>a) Levirato: Esse termo é utilizado para identificar os casamentos que ocorrem entre uma</p><p>mulher e seu cunhado. É o casamento por afinidade mais conhecido no mundo. No caso</p><p>do levirato simples, ocorre quando o irmão do marido falecido se casa com a mulher</p><p>viúva. No caso do levirato júnior, somente o irmão mais novo do falecido pode herdar sua</p><p>esposa. Essa prática ocorre em todas as partes do mundo, em diferentes sociedades.</p><p>121</p><p>b) Sororato: Da mesma forma que o levirato, o sororato serve para dar continuidade aos</p><p>laços familiares, mas neste caso, ao invés do irmão tomar o lugar do irmão falecido, é</p><p>a mulher que assume o posto da irmã falecida, ou seja, casa-se com o cunhado.</p><p>De igual forma, tanto o sororato quanto o levirato possuem um objetivo comum,</p><p>que é o de perpetuar o casamento realizado entre o par, mas essencialmente dar</p><p>continuidade ao vínculo de parentesco entre as duas famílias que se aproximaram por</p><p>meio do casamento original. O compromisso da esposa, ou do esposo, que assumiram o</p><p>casamento, não é somente com os viúvos, mas sim com todos os parentes deles.</p><p>4.6 FUGA COM O AMADO</p><p>Como vimos, a maior parte dos casamentos das sociedades primitivas é</p><p>mediada, em maior ou menor grau, pelas regras sociais e pelas famílias dos noivos. No</p><p>entanto, pode-se verificar, em quase todas as sociedades conhecidas, que muitos pares</p><p>escapam às regras e fogem para ficarem juntos.</p><p>Com o advento do amor romântico isso aconteceu com as sociedades</p><p>ocidentais, mas, mesmo quando não estão sob o efeito do amor romântico, a fuga para</p><p>casar ocorre em várias sociedades. Isso porque, embora muitas sociedades primitivas</p><p>não se orientem pelo ideal de amor romântico, o fato é que todos os primitivos têm suas</p><p>preferências amorosas e as suas aversões.</p><p>Nesse sentido, a fuga ocorre quando há uma reprovação familiar em relação</p><p>ao pretendente que se deseja muito, restando a fuga como elemento de salvação.</p><p>4.7 ADOÇÃO</p><p>A adoção é uma estratégia de casamento utilizada por países como a Indonésia</p><p>e o Japão. O homem pode obter uma esposa, sendo adotado pela família dela,</p><p>especialmente quando o sogro não possui filhos homens. Neste caso, o genro adotado</p><p>passa a ser filho.</p><p>Essa medida é tomada porque possui uma necessidade social importante para</p><p>justificá-la. Uma família patrilinear que adota o genro pode manter sua linhagem, mesmo</p><p>quando não há filhos homens biológicos.</p><p>Tornando-se filho na família de sua esposa, os filhos de sua relação com ela</p><p>pertencerão automaticamente à família dela. Um aspecto que chama a atenção é que,</p><p>tornando-se filho de seu sogro, sua esposa será ao mesmo tempo sua irmã.</p><p>122</p><p>5 SISTEMA DE PARENTESCO</p><p>Apesar do sistema de parentesco ter adquirido maior destaque no final do século</p><p>XX, como um dos elementos centrais das análises antropológicas, ele tem sua origem</p><p>na história da antropologia. Os primeiros antropólogos já percebiam que as relações</p><p>biológicas tinham um papel importante na compreensão da organização social, porque</p><p>permitiam distinguir as relações entre uma pessoa e o seu grupo de origem. Podemos</p><p>tomar como exemplo a relação entre mãe e filho, pai e mãe, irmão e irmão, entre outras.</p><p>Essas relações biológicas são transferidas para o plano cultural e adquirem significados</p><p>diferentes para cada cultura, o que para os antropólogos possibilita compreender a</p><p>posição social de cada um em relação ao coletivo, e também lhes permite compreender/</p><p>demonstrar o que denominam o “sistema de parentesco” de cada grupo social.</p><p>Os primeiros estudos sobre o parentesco surgiram no início do século passado,</p><p>quando os antropólogos, ao estudar as sociedades tribais, perceberam diferentes</p><p>maneiras de classificar os parentes. Essas diferenças na classificação também indicavam</p><p>o estabelecimento de um complexo de relações entre eles.</p><p>Para os antropólogos, desenvolver um sistema de parentesco seria a</p><p>possibilidade de efetuar comparações, verificar diferenças e semelhanças entre as</p><p>diversas tribos/comunidades pesquisadas. O parentesco foi uma ferramenta de análise</p><p>antropológica fundamental para o desenvolvimento da antropologia.</p><p>Edward Tylor foi um dos primeiros a perceber as relações de parentesco como</p><p>um elemento importante para os estudos antropológicos. Ele chamou estas relações de</p><p>“adesões”. Morgan também influenciou na concepção do termo. Ele estudou o processo</p><p>evolutivo das diferentes configurações de parentesco, compreendendo que os tipos</p><p>de casamento é que os determinam. Rivers também foi um nome importante para a</p><p>ampliação desta discussão, ele aperfeiçoou a metodologia etnográfica, coletou arranjos</p><p>de parentesco e elaborou os sistemas ideais, que Morgan havia iniciado. Além desses,</p><p>outros antropólogos, como Lowie, Lévi-Strauss, Malinowski, Radcliffe-Brown e outros</p><p>contribuíram com estas discussões.</p><p>5.1 CONCEITUANDO SISTEMA DE PARENTESCO</p><p>Como o Sistema de Parentesco é um dos temas mais complexos</p><p>trabalhados</p><p>pela antropologia, também sobre ele foram descritos vários conceitos explicativos, que</p><p>vamos tentar explicitar aqui. No entanto, o que é mais importante dizer é que, de forma</p><p>geral, os diferentes conceitos convergem para um sentido mais ou menos homogêneo,</p><p>como se pode perceber nas palavras de Marconi e Presotto (2001, p. 116):</p><p>123</p><p>5.2 ELEMENTOS QUE COMPÕEM O PARENTESCO</p><p>Os diferentes tipos de sistema de parentesco, assim como sua composição,</p><p>são variados e complexos, o que impossibilita uma ampla exposição neste caderno de</p><p>estudos. Por este motivo, nosso objetivo, ao trabalhar o parentesco, é aproximá-los</p><p>desta temática de forma introdutória, procurando familiarizá-los com o assunto.</p><p>De toda maneira, podemos dizer que o elemento que dá origem à análise do</p><p>parentesco é a família nuclear, composta por pai, mãe e filhos. Ela pode ser constituída</p><p>de três maneiras:</p><p>1- Famílias por afinidade (Marital ou Legal) – Laço criado pelo casamento. Por meio</p><p>dele o homem contrai laços de afinidade com a esposa e seus familiares: pai,</p><p>irmãos, irmãs etc.</p><p>2- Consanguinidade (Biológico) – Relação entre pais e filhos.</p><p>3- Fictício ou Pseudoparentes (Adotivos) – Muitas sociedades aceitam uma terceira</p><p>categoria de relações, denominada fictícia, incluindo-se crianças adotadas,</p><p>escravos, compadrio e parentesco ritual (irmãos de sangue).</p><p>Nas diferentes sociedades é possível verificar que cada familiar assume um</p><p>papel diferente em tempos distintos. Por exemplo, a mulher desempenha o papel de</p><p>filha, mãe e esposa, assim como o homem assume papéis masculinos equivalentes.</p><p>Para cada papel também são estabelecidos diferentes tipos de relações familiares, ou</p><p>seja, de parentesco.</p><p>O sistema de parentesco, segundo Murdock, refere-se a um sistema</p><p>estrutural de relações, no qual os indivíduos encontram-se unidos</p><p>entre si por um complexo interligado de laços ramificados. Para</p><p>Rivers, sistema de parentesco consiste no “reconhecimento social de</p><p>laços biológicos”. As relações de parentesco consistem em “funções</p><p>interagentes, atribuídas, segundo o costume, por um povo, aos</p><p>diferentes status de relacionamento”, afirmam Hoebel e Frost.</p><p>A partir da citação anterior, podemos compreender que o sistema de parentesco,</p><p>de maneira geral, é compreendido como a organização social das relações familiares</p><p>nas sociedades estudadas pelos antropólogos.</p><p>124</p><p>Quadro 5 – Representação de Parentesco</p><p>FONTE: <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.</p><p>html?pagina=espaco%2Fvisualizar_aula&aula=56012&secao=espaco&request_locale=es>.</p><p>Acesso em: 10 set. 2015.</p><p>A origem do sistema de parentesco refere-se ao fato de que um sujeito, por</p><p>meio do matrimônio, faz parte de duas famílias nucleares ao mesmo tempo. De acordo</p><p>com Marconi e Presotto (2001), ele participa da família de Orientação e de Procriação.</p><p>A família de Orientação é aquela na qual ele nasceu e a família de Procriação é aquela</p><p>que ele adquire, por meio do casamento. Ao fazer parte de dois núcleos familiares</p><p>distintos, o sujeito promove a interação entre eles. Ao fazer isso, a ramificação desses</p><p>elos familiares vai unindo uma família à outra, por meio dos laços de parentesco.</p><p>125</p><p>AS ESTRUTURAS ELEMENTARES DO PARENTESCO, DE CLAUDE</p><p>LÉVI-STRAUSS, POR SIMONE DE BEAUVOIR</p><p>Há bastante tempo estava a sociologia francesa adormecida. É necessário</p><p>saudar o livro de Lévi-Strauss como um evento que marca um brilhante despertar. Os</p><p>esforços da escola durkheimiana para organizar de uma maneira inteligível os fatos</p><p>sociais revelaram-se decepcionantes, pois se baseavam em hipóteses metafísicas</p><p>contestáveis e em postulados históricos não menos duvidosos; como reação, a escola</p><p>americana pretendeu abster-se de toda especulação: ela se limitou a acumular fatos,</p><p>sem elucidá-los. Herdeiro da tradição francesa, porém formado de acordo com os</p><p>métodos americanos, Lévi-Strauss desejou retomar a tentativa de seus mestres,</p><p>evitando seus defeitos; ele também supôs que as instituições humanas são dotadas de</p><p>significação; mas procurará a chave desta na humanidade própria daquelas; ele conjura</p><p>os espectros da metafísica, mas não aceita, por outro lado, que este mundo seja apenas</p><p>contingência, desordem, absurdo; seu segredo será tentar pensar o dado sem a</p><p>intervenção de um pensamento que seja estrangeiro a este: no coração da realidade ele</p><p>descobrirá o espírito que a habita. Assim ele nos reconstitui a imagem de um universo</p><p>que não tem a necessidade de refletir o céu para ser um universo humano. Não me</p><p>pertence a tarefa de criticar – e sim a de apreciar – esta obra especializada: mas não é</p><p>somente aos especialistas que ela se dirige. Que o leitor que abra o volume por acaso</p><p>não se deixe intimidar pela misteriosa complexidade dos diagramas e gráficos; na</p><p>verdade, quando o autor discute minuciosamente o sistema matrimonial dos Murngin</p><p>ou dos Katchin, é o mistério da sociedade como um todo, o mistério do homem, que ele</p><p>se esforça por descobrir. O problema ao qual ele se dedica é o mais fascinante e o mais</p><p>desconcertante de todos os que têm mobilizado etnógrafos e sociólogos: trata-se do</p><p>enigma colocado pela proibição do incesto. A importância deste fato e sua obscuridade</p><p>resultam da situação única que ele ocupa no conjunto dos fatos humanos. Estes se</p><p>dividem em duas categorias: os fatos da natureza e os fatos da cultura; certamente</p><p>nenhuma análise permite descobrir entre eles o ponto de passagem. Mas eles se</p><p>distinguem sob um critério seguro: os primeiros são universais; os segundos obedecem</p><p>a normas. A proibição do incesto é o único fenômeno que escapa dessa classificação:</p><p>pois ela aparece em todas as sociedades, sem exceção, e ao mesmo tempo é uma regra.</p><p>As diferentes interpretações tentadas até então se esforçaram todas para mascarar</p><p>essa ambiguidade. Alguns pensadores evocaram os dois aspectos – natural e cultural</p><p>– da lei; mas eles apenas estabeleceram entre eles uma relação intrínseca; supuseram</p><p>que um interesse biológico teria engendrado a interdição social; outros viram na</p><p>exogamia um fato puramente natural: ela seria ditada por um instinto; outros, enfim,</p><p>dentre os quais Durkheim, consideraram-na exclusivamente um fenômeno cultural.</p><p>LEITURA</p><p>COMPLEMENTAR</p><p>126</p><p>Esses três tipos de explicação têm conduzido a impossibilidades e contradições. Na</p><p>verdade, se a proibição do incesto é de tão grande interesse, é porque ela representa o</p><p>momento mesmo da passagem da natureza para a cultura. “É o processo pelo qual a</p><p>natureza ultrapassa a ela mesma”. Essa singularidade decorre do caráter particular da</p><p>sexualidade mesma: é normal que a dobradiça entre natureza e cultura se encontre no</p><p>terreno da vida sexual, pois esta, extraída da biologia, coloca imediatamente outrem em</p><p>jogo; no fenômeno da aliança se desenvolve essa dualidade: pois enquanto o parentesco</p><p>é dado, a natureza impõe a aliança, mas não a determina. Podemos extrair daqui a</p><p>maneira pela qual o homem, assumindo sua condição natural, define sua humanidade.</p><p>Pela proibição do incesto se expressam e se realizam as estruturas fundamentais sobre</p><p>as quais se funda a sociedade humana como tal. Primeiramente a exogamia manifesta</p><p>que não haveria sociedade sem o reconhecimento de uma Regra. Contrariamente aos</p><p>mitos e às inverdades liberais, a intervenção não está somente relacionada a alguns</p><p>regimes econômicos: ela é tão original quanto a humanidade mesma. A distribuição dos</p><p>valores entre os membros da coletividade sempre foi e será um fenômeno cultural;</p><p>porém – como o alimento ao qual ela é estreitamente associada –, a mulher é um</p><p>produto escasso e essencial à vida do grupo: em muitas civilizações primitivas, o solteiro</p><p>é econômica e socialmente um pária; o primeiro cuidado da coletividade será assim</p><p>impedir que se estabeleça um monopólio de mulheres. Este é o sentido profundo da</p><p>proibição do incesto; afirma-se que não é sobre a base de sua repartição natural que as</p><p>mulheres devem receber um uso social; se ao homem se impede escolher seus aliados</p><p>entre os</p><p>seus parentes, se “congelamos” as mulheres no seio da família, é porque a</p><p>distribuição se faz sobre o controle do grupo e não em regime privado. A despeito de seu</p><p>aspecto negativo, a Regra tem na verdade um sentido positivo; a interdição implica</p><p>imediatamente uma organização: pois para renunciar a seus parentes, é necessário que</p><p>o indivíduo seja assegurado de que a renúncia simétrica de outro lhe conceda aliados;</p><p>ou seja, a regra é a afirmação de uma reciprocidade; a reciprocidade é a maneira imediata</p><p>de integrar a oposição entre mim e outrem: sem uma tal integração, a sociedade não</p><p>existiria. Porém, tal relação não existiria se permanecesse abstrata; sua tradução</p><p>concreta é a troca: a transferência de valores de um indivíduo a outro os transforma em</p><p>parceiros; somente sob essa condição pode se estabelecer um “mitsein” humano. A</p><p>característica fundamental destas estruturas se revela claramente no estudo da</p><p>psicologia infantil: a criança faz o aprendizado de si mesma e do mundo aprendendo a</p><p>aceitar a arbitragem de um outro, quer dizer, a Regra, que a faz descobrir a reciprocidade,</p><p>descoberta à qual ela reage imediatamente pelo dom e pela exigência. Essa noção de</p><p>troca – cuja importância Mauss já havia estabelecido no seu ensaio sobre o dom, e que</p><p>envolve as noções de regra e de reciprocidade – nos fornece a chave do mistério da</p><p>exogamia: proibir uma mulher aos membros de um dado grupo é colocá-la imediatamente</p><p>à disposição de outro homem; a proibição se duplica em obrigação: aquela de dar sua</p><p>filha, sua mulher, a outro homem; a parenta que se rejeita, se oferece; o fato sexual, ao</p><p>invés de fechar-se sobre si, abre um vasto sistema de comunicação. A proibição do</p><p>incesto se confunde com a instauração da ordem humana. Os homens em toda parte</p><p>procuraram estabelecer um regime matrimonial tal que a mulher faça parte dos dons</p><p>pelos quais se expressa a relação de cada um ao outro e se afirma a existência social.</p><p>127</p><p>Uma observação extremamente importante impõe-se aqui: não é entre os homens e as</p><p>mulheres que aparecem as relações de reciprocidade e de troca; elas se estabelecem</p><p>por meio das mulheres, entre os homens; existe e sempre existiu entre os sexos uma</p><p>profunda assimetria e o “Reino das mulheres” é um mito superado; qualquer que seja o</p><p>modo de descendência, quer os filhos sejam incluídos no grupo do pai ou naquele da</p><p>mãe, as mulheres pertencem aos machos e fazem parte do conjunto de prestações que</p><p>eles se consentem. Todos os sistemas matrimoniais implicam que as mulheres sejam</p><p>dadas por certos machos a outros machos. Há um caso onde a relação entre o casamento</p><p>e a troca aparece claramente: é o das organizações dualistas; estas apresentam</p><p>analogias tão fortes entre si que se tentou às vezes lhes dar uma origem única: segundo</p><p>Lévi-Strauss, sua convergência se explica pela identidade de seu caráter funcional. Não</p><p>é o sistema dualista que faz nascer a reciprocidade: ele antes a exprime de uma forma</p><p>concreta. É esta mesma perspectiva que permitirá explicar as formas de sociedade mais</p><p>complexas: elas não são o resultado de acasos históricos e geográficos; todas elas</p><p>manifestam uma mesma e profunda intenção: a de impedir o grupo de se fechar em si</p><p>mesmo e de mantê-lo diante de outros grupos com os quais a troca seja possível. O</p><p>autor buscará a confirmação dessas ideias em uma minuciosa análise de realidades</p><p>sociais dadas; é esse estudo que constitui a parte mais importante de seu trabalho. Não</p><p>seria questão aqui de repassar os complicados meandros; tentarei somente indicar o</p><p>método, já que é na sua aplicação metódica que uma hipótese manifesta sua</p><p>fecundidade. A forma do casamento que fornece o verdadeiro experimentum crucis do</p><p>estudo das proibições matrimoniais é o casamento entre primos cruzados. Em um</p><p>grande número de sociedades primitivas o casamento é proibido entre primos paralelos</p><p>– aqueles provenientes de dois irmãos ou duas irmãs – e recomendado entre primos</p><p>cruzados – isto é, advindos de um irmão e uma irmã; o extremo interesse desse costume</p><p>provém do fato de que graus de parentesco biologicamente equivalentes são</p><p>considerados de um ponto de vista social como radicalmente dessemelhantes: torna-se</p><p>patente que não é a natureza quem dita suas leis à sociedade; compreendendo-se a</p><p>origem dessa assimetria tem-se a explicação da proibição do incesto. O casamento</p><p>entre primos cruzados implica uma organização dualista da coletividade: eles distribuem-</p><p>se de fato como se pertencessem a duas metades diferentes; mas não se deve crer que</p><p>seja esta a divisão que define as regras de exogamia; os primitivos não começam</p><p>estabelecendo classes: a classe é um elemento analítico, como o conceito; o homem</p><p>pensa antes que o lógico apreenda o pensamento enquanto forma; assim a sociedade</p><p>se organiza antes de definir os elementos separados que essa organização trará à tona;</p><p>lá onde são encontradas as classes – e isso não é por toda parte –, elas são menos um</p><p>grupo de indivíduos concebidos em extensão que um sistema de posição, no qual</p><p>somente a estrutura é constante e onde os indivíduos podem se deslocar, desde que as</p><p>relações sejam respeitadas. O princípio da reciprocidade age de duas maneiras</p><p>complementares: constituindo classes que delimitam em extensão os cônjuges ou</p><p>determinando uma relação que permita dizer se um indivíduo é ou não um cônjuge</p><p>possível: no caso dos primos cruzados, esses dois aspectos do princípio se recobrem;</p><p>mas não é seu pertencimento a dois grupos diferentes que os destina a se aliar entre si;</p><p>ao contrário, a razão de ser do sistema que os opõe é a possibilidade de uma troca. As</p><p>128</p><p>mulheres aparecem imediatamente como destinadas a serem trocadas e esta</p><p>perspectiva cria imediatamente uma oposição entre dois tipos de mulheres: a irmã e a</p><p>filha que devem ser cedidas e a esposa que é adquirida, ou seja, a parente e a aliada. Não</p><p>se trata aqui, como pensava Frazer, da solução de um problema econômico: os processos</p><p>econômicos não são isoláveis; é um ato de consciência primitivo e indivisível que faz</p><p>apreender a filha e a irmã como um valor ofertável e a filha e a irmã de outrem como um</p><p>valor exigível. Antes mesmo que a coisa a trocar se apresente, a relação de troca já está</p><p>dada: antes do nascimento de sua filha, o pai sabe que deverá entregá-la ao homem –</p><p>ou ao filho do homem – de quem recebeu a irmã em casamento. Os primos cruzados são</p><p>provenientes de famílias que se encontram em posições antagônicas, em um</p><p>desequilíbrio dinâmico que somente a aliança pode resolver; ao contrário, duas irmãs ou</p><p>dois irmãos, pertencentes ao mesmo grupo, têm entre eles uma relação estática e seus</p><p>filhos serão considerados como fazendo parte de um mesmo conjunto; eles não portam</p><p>um em relação ao outro o sinal da alteridade, necessário ao estabelecimento das</p><p>alianças. Porém, se nos limitarmos a considerar a troca sob essa forma restrita – ou seja,</p><p>na medida em que ela estabelece uma reciprocidade entre um certo número de pares</p><p>de unidades trocadoras, classes, seções ou subseções –, percebemos que ela não</p><p>permite dar conta da integralidade dos fatos. É o que se evidencia, por exemplo, na</p><p>análise dos fatos australianos. É sob sua forma generalizada que a ideia de troca pode</p><p>servir de chave para o estudo de todas as sociedades. A troca generalizada é aquela que</p><p>estabelece relações de reciprocidade entre um número qualquer de parceiros: assim, se</p><p>um homem do grupo A esposa necessariamente uma mulher B, ao passo que um</p><p>homem B esposa uma mulher C, o homem C uma mulher D, e o homem D uma mulher</p><p>A, está-se diante de um sistema de troca generalizada; é o que se produz, entre outros,</p><p>no caso em que o casamento é matrilateral, ou seja, o homem deve desposar a filha de</p><p>seu tio materno. Essa regra estabelece o desenvolvimento de um ciclo aberto no qual</p><p>cada indivíduo deve ter confiança: quando o grupo A cede uma mulher ao B, trata-se de</p><p>uma especulação de longo prazo, pois ele deve contar que B cederá uma mulher a C, e</p><p>deste a D,</p><p>e este a A; tal cálculo comporta riscos e é por isso que à troca generalizada</p><p>frequentemente se superpõem novas fórmulas de aliança, como o matrimônio por</p><p>compra, que permite integrar fatores irracionais, sem destruir o sistema. A aplicação</p><p>desses princípios diretores permite a Lévi-Strauss depreender a significação de regimes</p><p>matrimoniais que pareciam até então contingentes e ininteligíveis. A conclusão destas</p><p>análises que nos transportam à Austrália, à China, às Índias e às Américas é que existem</p><p>dois tipos essenciais de exogamia. À troca direta corresponde o casamento bilateral, o</p><p>indivíduo podendo desposar a filha de seu tio materno ou de sua tia paterna; à troca</p><p>indireta (ou generalizada) corresponde o casamento matrilateral que autoriza a aliança</p><p>exclusivamente com a filha do tio materno [a autora não considera que Lévi-Strauss</p><p>também toma o casamento com a prima cruzada patrilateral como um modo de troca</p><p>generalizada]. O primeiro sistema só é possível nos regimes desarmônicos, ou seja, onde</p><p>a residência e a filiação seguem uma linha paterna e o outro a linha materna; o segundo</p><p>aparece nos regimes harmônicos, onde residência e filiação seguem a mesma linha; o</p><p>primeiro possui uma grande fecundidade em relação ao número de sistemas que é</p><p>capaz de fundar, mas sua fecundidade funcional é relativamente fraca; o segundo é, ao</p><p>129</p><p>contrário, um princípio regulador fecundo que conduz a uma maior solidariedade</p><p>orgânica no seio do grupo; no caso da troca restrita, é a inclusão ou a exclusão dentro</p><p>ou fora da classe que faz o papel principal; no caso da troca indireta, o grau de parentesco,</p><p>ou seja, a natureza da relação, tem uma importância preponderante; os sistemas</p><p>desarmônicos têm assim evoluído na direção de organizações de classes matrimoniais,</p><p>enquanto o contrário é produzido nos sistemas harmônicos. Estes constituem um ciclo</p><p>aberto, longo, aqueles um ciclo curto; o casamento bilateral é uma operação mais</p><p>segura; mas o casamento matrilateral oferece virtualidades inesgotáveis, a extensão do</p><p>ciclo estando na razão inversa de sua segurança. É por isso que um fator alógeno se</p><p>sobrepõe quase sempre às formas simples da troca generalizada; entre grupos que se</p><p>lançam nessa grande aventura sociológica, nenhum é liberado inteiramente da</p><p>inquietude engendrada pelos riscos do sistema, e eles mantêm um certo coeficiente ou</p><p>mesmo um símbolo de patrilateralidade. Nenhum sistema é puro: ele é simultaneamente</p><p>simples e coerente, porém cercado por outros sistemas. Resta acrescentar que a</p><p>estrutura de troca não é solidária da prescrição de um cônjuge preferencial; entre outras,</p><p>a substituição do direito sobre a prima pela compra da mulher permite à troca se</p><p>desembaraçar de suas formas elementares. Mas quer seja indireta ou direta, global ou</p><p>específica, concreta ou simbólica, é sempre a troca que nós encontramos na base das</p><p>instituições matrimoniais. Vê-se então se confirmar a ideia de que a exogamia visa</p><p>assegurar a circulação total e contínua das mulheres e das filhas; seu valor não é</p><p>negativo, mas positivo: não é que haja um perigo biológico no casamento consanguíneo,</p><p>mas um benefício social resulta do casamento exogâmico. A proibição do incesto é por</p><p>excelência a lei do dom: é a instauração da cultura no seio da natureza. “Todo casamento</p><p>é um encontro dramático entre a natureza e a cultura, entre a aliança e o parentesco...</p><p>Já que se deve ceder à natureza para que a espécie se perpetue e com ela a aliança</p><p>social, é necessário ao menos negá-la ao mesmo tempo em que acedemos a ela”. Em</p><p>um sentido, todo casamento é um incesto social, já que o marido absorve em si algum</p><p>bem ao invés de desviá-lo na direção de outrem [no original, s’échapper vers autrui]; ao</p><p>menos a sociedade exige que no centro desse ato egoísta a comunicação com o grupo</p><p>seja mantida: é por isso que, ainda que mulher seja outra coisa além de um signo, ela é,</p><p>todavia, como a palavra, uma coisa que se troca. A relação do homem com a mulher é</p><p>também fundamentalmente uma relação com outros homens – com outras mulheres.</p><p>Os enamorados nunca estão sozinhos no mundo. O evento mais íntimo para cada um, o</p><p>ato sexual é também um evento público: ele coloca em questão, ao mesmo tempo, o</p><p>indivíduo e a sociedade inteira; é daí que vem seu caráter dramático; aqueles que se</p><p>escandalizam com o ardente interesse que lhe dão os homens hoje em dia demonstram</p><p>grande ignorância: a extrema importância conferida aos tabus sexuais nos mostra que</p><p>esta preocupação é velha como o mundo; e ela está longe de ser supérflua, já que, pela</p><p>maneira como assume sua sexualidade, o homem define sua humanidade. Certamente</p><p>essa escolha que ele faz não é fruto de uma deliberação refletida. Mas o primeiro mérito</p><p>do estudo de Lévi-Strauss é precisamente o de recusar o velho dilema: ou os fatos</p><p>humanos são intencionais ou não possuem significação. O autor os define como</p><p>estruturas nas quais o todo precede as partes e cujo princípio regulador possui um valor</p><p>racional mesmo quando não seja racionalmente concebido. De onde provêm estrutura</p><p>130</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3e princípio? Lévi-Strauss não se permite aventurar sobre o terreno filosófico, não se</p><p>separa jamais de uma rigorosa objetividade científica; mas seu pensamento se inscreve</p><p>evidentemente na grande corrente humanista que considera a existência humana</p><p>como contendo em si sua própria razão. Não se poderia ler suas conclusões sem se</p><p>lembrar das palavras do jovem Marx: “A relação do homem com a mulher...” Entretanto o</p><p>livro não desperta apenas ressonâncias marxistas; ele me pareceu muitas vezes</p><p>reconciliar de modo feliz Engels e Hegel: pois o homem nos aparece originalmente como</p><p>uma antiphysis; e o que realiza sua intervenção é a posição concreta de um eu face a</p><p>um outro eu, sem o qual o primeiro não saberia se definir. Também fui singularmente</p><p>surpreendida pela concordância de algumas descrições com as teses sustentadas pelo</p><p>existencialismo: a existência, ao se colocar, coloca suas leis, em um único movimento;</p><p>ela não obedece a nenhuma necessidade interior, entretanto escapa à contingência por</p><p>assumir as condições de seu brotar. Se a proibição do incesto é universal e normativa ao</p><p>mesmo tempo, é porque ela traduz uma atitude original do existente: ser homem é se</p><p>escolher como homem, definindo suas possibilidades sobre a base de uma relação</p><p>recíproca com o outro; a presença do outro nada tem de acidental: a exogamia, bem</p><p>longe de se limitar a registrá- la, ao contrário, a constitui; através dela se expressa e se</p><p>realiza a transcendência do homem; ela é a recusa da imanência, a exigência de</p><p>ultrapassá-la; aquilo que os regimes matrimoniais asseguram ao homem, pela</p><p>comunicação e pela troca, é um horizonte em direção ao qual ele possa se projetar; sob</p><p>sua aparência barroca, eles lhe asseguram um além-humano. Mas seria trair um livro</p><p>tão imparcial pretender fechá-lo dentro de um sistema de interpretação: sua fecundidade</p><p>está precisamente em convidar cada um a repensá-lo à sua maneira. É por isso também</p><p>que nenhuma resenha lhe faria justiça; uma obra que nos apresenta os fatos, que</p><p>instaura um método, e que sugere especulações, merece que cada um renove a</p><p>descoberta: é preciso lê-la.</p><p>Tradução: Marcos P. D. Lanna (UFSCar) e Aline Fonseca Iubel (PPGAS/UFPR). As Estruturas</p><p>Elementares do Parentesco, de Claude Lévi-Strauss. Texto original: Simone de Beauvoir. 1949. “Les</p><p>Structures Élémentaires de la Parenté, par Claude Lévi-Strauss”. Les Temps Modernes 7(49): 943-9</p><p>(October). Disponível em: <http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/campos/article/view/9547/6621>.</p><p>131</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• Vários são os temas estudados pela Antropologia, mas para o terceiro tópico foram</p><p>selecionados: união, casamento e parentesco.</p><p>• O conceito de união refere-se às possibilidades de relacionamento sexual entre</p><p>pessoas do sexo oposto, que tem como base o instinto, mas que normalmente é</p><p>cerceado por normas e padrões</p><p>culturais. É comum seguir para o casamento.</p><p>• O casamento é um dos mais antigos complexos de normas sociais, que tem por</p><p>objetivo organizar a relação de um par. É o que possibilita e normatiza a constituição</p><p>da família.</p><p>• A exogamia refere-se à regra que determina que os casamentos ocorram fora da</p><p>família. Pode ser dividida em exogamia simples e restrita. É uma regra encontrada em</p><p>muitas sociedades.</p><p>• A endogamia é uma regra social encontrada em poucas sociedades e refere-se a</p><p>uma regra social que obriga que os casamentos ocorram dentro do círculo familiar,</p><p>ou do grupo a que se considera de pertencimento.</p><p>• Existem sete tipos de modalidades de casamento. São eles: preço por progênie, ou</p><p>riqueza da noiva; pelo serviço do pretendente; por troca de presentes; por captura;</p><p>por afinidade, substituição ou continuação; por fuga e por adoção.</p><p>• Por Sistema de Parentesco podemos denominar a organização social das relações</p><p>familiares em uma determinada cultura.</p><p>• O que dá origem ao sistema de parentesco é a família nuclear, que pode ser constituída</p><p>de três maneiras: por afinidade, consanguinidade e por pseudoparentes (adotivos).</p><p>132</p><p>1 A antropologia discute vários temas relacionados à existência humana em sociedade.</p><p>Um dos elementos é a união. Caracterize este termo.</p><p>2 Conforme pudemos verificar neste Caderno de Estudos, para compreendermos</p><p>como ocorrem as diferentes modalidades de casamento é necessário conhecer os</p><p>conceitos de exogamia e endogamia. Conceitue-os:</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>133</p><p>FUNDAMENTOS DA</p><p>ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA</p><p>UNIDADE 3 —</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>PLANO DE ESTUDOS</p><p>A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:</p><p>• compreender as principais concepções de homem na história da filosofia;</p><p>• refletir sobre a perspectiva histórica da antropologia filosófica no ocidente;</p><p>• compreender os diferentes conceitos formulados pelos filósofos ao longo da história,</p><p>desde os gregos antigos até os pensadores modernos;</p><p>• analisar criticamente as diferentes concepções sobre o homem no decorrer da</p><p>história da filosofia;</p><p>• ampliar a visão sobre o homem, sobre o mundo e o transcendente.</p><p>Esta unidade está dividida em três tópicos. No decorrer dela, você encontrará</p><p>autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.</p><p>TÓPICO 1 – A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA CULTURA GREGA</p><p>TÓPICO 2 – A CONCEPÇÃO DE HOMEM NO PERÍODO CRISTÃO-MEDIEVAL</p><p>TÓPICO 3 – A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA MODERNIDADE</p><p>Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure</p><p>um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.</p><p>CHAMADA</p><p>134</p><p>CONFIRA</p><p>A TRILHA DA</p><p>UNIDADE 3!</p><p>Acesse o</p><p>QR Code abaixo:</p><p>135</p><p>TÓPICO 1 —</p><p>A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA</p><p>CULTURA GREGA</p><p>UNIDADE 3</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>A história da nossa civilização se inicia com a história da civilização dos gregos.</p><p>Os filósofos gregos foram os primeiros seres humanos a indagar sobre si e Sobre o mundo</p><p>(cosmos) de maneira lógica-racional. Desde os pré-socráticos até a modernidade,</p><p>a pergunta: o que é o homem? Não se exauriu. Ao contrário, ela tomou força na</p><p>modernidade, e continua fazendo parte das discussões filosóficas contemporâneas. A</p><p>antropologia filosófica é o ramo da filosofia que busca investigar a estrutura essencial</p><p>do homem, isto é, o que faz do homem, homem. Quais são as propriedades essenciais</p><p>que permitem diferenciar o homem de outros animais? A sua razão? A alma (psyché)? A</p><p>linguagem? O corpo? Ao longo da história da filosofia, diversos filósofos formularam sua</p><p>compreensão do que é o homem. Isso nos mostra que a nossa compreensão de homem</p><p>ocidental nasce na civilização Grega Antiga, há mais de 2 mil anos.</p><p>A civilização grega é o berço do humanismo. Os filósofos gregos tinham, por</p><p>obsessão, caracterizar, definir uma ideia de homem. Para Jaeger (1994), esse ímpeto</p><p>não se deu a partir do eu subjetivo, mas de uma ideia universal e normativa. O homem</p><p>é o centro do pensamento grego. Isso pode ser evidenciado nas produções artísticas,</p><p>nas esculturas antigas e nas reflexões filosóficas. Desde o problema do cosmo, da</p><p>busca da arché (princípio primeiro), até a constituição do Estado grego, os antigos se</p><p>preocupavam com a ideia de homem.</p><p>Apresentaremos, neste tópico, as principais ideias sobre a concepção clássica</p><p>de homem, dada pelos primeiros filósofos do ocidente, há mais de 2 mil anos. Trataremos,</p><p>num primeiro momento, da cultura grega arcaica, na qual se situam os filósofos pré-</p><p>socráticos (antes de Sócrates) do século VIII e VII a.C. Atravessando pelo período de</p><p>ouro da antiguidade grega, denominado de clássico, encontramos Sócrates, Platão e</p><p>Aristóteles, a partir do século V e IV a.C.</p><p>Bons estudos!</p><p>136</p><p>2 O HOMEM NA FILOSOFIA PRÉ-SOCRÁTICA</p><p>Inicialmente, os primeiros filósofos gregos, conhecidos como “cosmólogos”,</p><p>“naturalistas” ou “físicos”, se ocupavam com o problema filosófico de ordem do cosmos</p><p>(universo, astros). A totalidade do real era compreendida como physis (natureza) e cosmos.</p><p>Os filósofos pré-socráticos se questionavam: como surgiu o cosmos? Quais são as forças que</p><p>geram e movem o cosmos? Portanto, para pensar a individualidade do homem, segundo os</p><p>primeiros filósofos, era necessário primeiro compreender a physis e a ordem do mundo.</p><p>O primeiro filósofo a abordar um pensamento antropológico definido é Diógenes</p><p>de Apolônia (440 a.C.). Influenciado diretamente pela escola jônica, o filósofo grego</p><p>propõe uma visão finalista do mundo. Para Diógenes, o homem é superior aos outros</p><p>animais. Isso se verifica na própria constituição física do homem, pois segundo o</p><p>filósofo, a condição vertical, a sua marcha e o seu olhar para o alto, corresponde à</p><p>aptidão humana para a contemplação dos astros. Portanto, ao contemplar os astros, a</p><p>ordem cósmica, há uma profunda correspondência, e, desta correspondência, nasce o</p><p>sentimento religioso diante do cosmos.</p><p>Nesse sentido, para Diógenes, as mãos também ocupam um papel fundamental</p><p>na constituição humana, pois as habilidades das mãos produzem, são dotadas de téchne¸</p><p>são obreiras, e, por sua vez, são manifestação da linguagem e do pensamento (logos).</p><p>Desse modo, o filósofo pré-socrático constrói, pela primeira vez, uma ideia de homem como</p><p>estrutura corporal-espiritual, na qual a sua natureza se manifesta na cultura por meio das</p><p>suas obras, seus feitos. Assim, o homem é visto como ordenado finalisticamente em si</p><p>mesmo e para o qual se ordena a própria ordem do cosmos (VAZ, 1991).</p><p>DICA</p><p>Você sabia que um dos primeiros filósofos jônicos independentes foi Heráclito</p><p>de Éfeso (500 a.C.). Heráclito foi um dos principais filósofos da Antiguidade</p><p>pré-socrática. A obra do filósofo caracterizou-se por iniciar um movimento de</p><p>ruptura na filosofia pré-socrática que, com as ideias dos eleatas, desembocaria</p><p>nas filosofias socrática, platônica e aristotélica. Heráclito defende que não há</p><p>unidade natural no mundo, mas duelos e dualidade constante. “O mundo</p><p>é um eterno devir”, afirma o filósofo, querendo dizer que há uma constante</p><p>mudança, imprevisível, que caracteriza a natureza. O pensador despreza a</p><p>noção de essência e defende que existe uma mutabilidade, surgida de vários</p><p>processos contínuos, que resulta no que é o mundo. Essa relação é composta</p><p>pelo duelo entre os contrários, o qual gera novas características. Por pensar</p><p>assim, Heráclito é considerado o “pai” da dialética. Disponível em: https://</p><p>brasilescola.uol.com.br/filosofia/heraclito.htm.</p><p>137</p><p>FIGURA 1 – DIÓGENES DE APOLÔNIA (440-423 A.C.)</p><p>FONTE: <http://3.bp.blogspot.com/-RC25OE10-xI/UWs_TkixJ5I/AAAAAAAAnE4/DJ-i0ku_MoM/s320/</p><p>Diogenes.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>Diógenes é considerado o filósofo que marca uma linha de transição com a</p><p>primeira filosofia pré-socrática do século VI, a.C., conhecida pelo problema da physis e</p><p>pela busca do princípio primeiro (arché). Sua teorização gira em torno da necessidade</p><p>de resgatar o monismo do princípio, pois, para o filósofo, os princípios da natureza não</p><p>poderiam ser diferentes entre si,</p><p>e agir uns sobre os outros. Nesse sentido, o filósofo</p><p>naturalista constata que o ar infinito é o primeiro princípio, cuja todas as coisas derivam</p><p>e se transformam. Com isso, Diógenes sustenta que a nossa alma é ar-pensamento,</p><p>pois é dotada de inteligência. A inteligência como princípio-ar move todas as coisas, e,</p><p>portanto, exala-se com o último suspiro, quando não há mais vida.</p><p>Diógenes influenciou diretamente o pensamento de Sócrates com sua visão</p><p>finalística de mundo e homem como estrutura corporal-espiritual. A noção de homem</p><p>indissociável do cosmo se prolongou na teoria do conhecimento de Empédocles e de</p><p>Demócrito, e mais tarde, na filosofia de Aristóteles.</p><p>No desenrolar do século V a.C., o problema antropológico aparece com maior</p><p>evidência, sobrepondo-se ao problema do cosmos. O período em que o interesse</p><p>filosófico grego se volta para o problema do homem, é chamado de humanismo. Esse</p><p>novo horizonte de pensamento coincide com a última fase da filosofia naturalista</p><p>e sua consequente dissolução. Os responsáveis por essa virada de pensamento são</p><p>os sofistas e, sobretudo Sócrates, que, pela primeira vez na história do pensamento</p><p>ocidental, busca determinar a essência do homem.</p><p>138</p><p>3 OS SOFISTAS E A ANTROPOLOGIA FILOSÓFICA</p><p>Os sofistas aparecem na história da filosofia ocidental, como um grupo de</p><p>intelectuais itinerantes, considerados “sábios”, especialistas do saber. A acepção do</p><p>termo sofista (sophistês), engloba o saber teórico e as habilidades práticas, revelando</p><p>um deslocamento, um novo campo de problematização, que tem como perspectiva</p><p>o homem e suas capacidades. As práticas utilizadas pelos sofistas se baseavam nas</p><p>sutilezas da retórica, com objetivos de obter lucro e vantagens. Sem o interesse pela</p><p>verdade (alethéia), os sofistas ensinavam aos seus estudantes a arte da persuasão,</p><p>técnicas de discurso que explorava o sentimentalismo, essencial para quem aspirasse o</p><p>campinho da vida pública (política).</p><p>FIGURA 2 – OS SOFISTAS</p><p>FONTE: <https://3.bp.blogspot.com/-UYJjNKryftE/WYDyx1e8xZI/AAAAAAAAFUg/</p><p>xZEURjMvKqcnMctow0SD311-B5nakZXqQCLcBGAs/s1600/sofistas.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>O método e o objetivos das técnicas dos sofistas foram duramente criticados</p><p>por filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles. Contudo, historiadores como Werner</p><p>Jaeger, Reale e Antiseri consideram que os sofistas são tão necessários quanto Sócrates</p><p>e Platão. Segundo Reale e Antiseri (1990, p. 73), “os sofistas operaram uma verdadeira</p><p>revolução espiritual, deslocando o eixo da reflexão filosófica da physis e do cosmos para</p><p>o homem e aquilo que concerne a vida do homem como membro de uma sociedade”.</p><p>Nesse sentido, é correto afirmar que, com os sofistas, inicia-se uma discussão sobre</p><p>temas fundamentais, como a ética, a política, a arte, a retórica, a educação, cuja</p><p>preocupação central é a cultura do homem.</p><p>Para Vaz (1991), algumas ideias que constituíram o arcabouço na concepção</p><p>do homem ocidental são formuladas pela primeira vez no contexto do pensamento</p><p>dos sofistas em Atenas. Algumas ideias-chave para se pensar essa revolução cultural</p><p>protagonizada pelos sofistas, segundo Vaz (1991, p. 33), são:</p><p>139</p><p>a) o conceito de uma natureza humana (anthropinê physis) com seus</p><p>predicados próprios e com as exigências que lhe são essenciais;</p><p>b) o conceito de narração histórica pela investigação, seriação</p><p>e julgamento dos fatos, na qual emergem a consciência do</p><p>pluralismo das culturas (Heródoto) e se revelam as constantes</p><p>e fins que sustentam e movem o agir humano em situações</p><p>consideradas típicas (Tucídides);</p><p>c) a oposição entre a convenção (nómos) e a natureza (physis) na</p><p>organização da cidade e nas normas do agir individual, dando</p><p>origem às primeiras teorias do convencionalismo jurídico;</p><p>d) individualismo relativistas, acompanhado das primeiras</p><p>formulações céticas do conceito de verdade;</p><p>e) a concepção de um desenvolvimento progressivo da cultura,</p><p>exposta, sobretudo, no famoso mito de Protágoras que Platão nos</p><p>transmitiu no diálogo homônimo (Prot. 320 c-322d);</p><p>f) a análise do homem como ser de necessidade e carência, ao qual</p><p>compete suprir com a cultura o que lhe é negado pela natureza,</p><p>tema esse que alimentará o pensamento antropológico ao longo</p><p>de toda a sua história;</p><p>g) finalmente, a ideia fundamental do homem como ser dotado de</p><p>logos (zôon logikón), ou seja, da palavra e do discurso capaz de</p><p>demonstrar e persuadir.</p><p>Com a dissolução do pensamento “físico” sobre a physis e as intensas</p><p>manifestações sociais, econômicas e culturais na Grécia Antiga, os sofistas encontram</p><p>um terreno fértil para o exercício de suas atividades. Podemos destacar como elementos</p><p>de mudanças na Grécia, no século V a.C., a crise da aristocracia e o consequente</p><p>crescimento do poder do demos (povo); a entrada de estrangeiros às cidades, sobretudo</p><p>em Atenas, ampliando as zonas de comércio e de navegação; a difusão de conhecimentos</p><p>e experiências dos viajantes que compartilhavam saberes de outras culturas, costumes</p><p>e leis helênicos. Todos esses elementos contribuíram de modo efetivo para o emergir da</p><p>problemática sofística.</p><p>A crise da aristocracia implicou também na crise da antiga areté, os</p><p>valores tradicionais, que eram precisamente os valores apreciados</p><p>pela aristocracia. A crescente afirmação do poder do demos e a</p><p>ampliação da possibilidade de aceder ao poder, a círculos mais</p><p>vastos, fizeram cair a convicção de que a areté estivesse ligada à</p><p>nascença, isto é, que se nascia virtuoso e não se tornava, colocando</p><p>em primeiro plano a questão de como se adquire a “virtude política”</p><p>(REALE; ANTISERI, 1990, p. 74).</p><p>Os sofistas se destacaram no mundo grego, sobretudo porque souberam</p><p>compreender as mudanças nas pólis gregas. Os valores tradicionais transmitidos pela</p><p>velha geração de pensadores não satisfaziam mais os interesses da juventude. Os</p><p>sofistas aparecem como guias, como pensadores esclarecidos, conhecidos também</p><p>como os “iluministas gregos”. Dentre os sofistas, podemos destacar alguns, como</p><p>Protágoras, Górgias, Pródico, Hípias, Élida e Antifonte.</p><p>140</p><p>O sofista mais destacado e que teve maior visibilidade no mundo grego</p><p>foi Protágoras. Nascido em Abdera (491 a.C.), o pensador viajou por toda a Grécia,</p><p>alcançando um enorme sucesso. Era bem visto por políticos, como Péricles que lhe</p><p>deu a missão de fazer a legislação para a nova colônia de Turi, em 444 a.C. Sua principal</p><p>obra, As Antilogias, foi conhecida apenas por testemunhos (REALE; ANTISERI, 1990).</p><p>FIGURA 3 – PROTÁGORAS</p><p>FONTE: <https://revjorgeaquino.files.wordpress.com/2016/07/protagoras.jpg?w=640>.</p><p>Acesso em: 25 jun. 2020.</p><p>Segundo o pensamento de Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas,</p><p>daquelas que são por aquilo que são e daquelas que não são por aquilo que não são”</p><p>(REALE; ANTISERI, 1990, p. 76). Para o filósofo, “medida”, diz respeito à “norma de juízo”,</p><p>enquanto “todas as coisas” refere-se a todos os fatos e experiências em geral.</p><p>Protágoras é considerado o fundador do relativismo ocidental. Haja vista que</p><p>com sua teoria, ele busca negar a existência de um critério absoluto que discrimine ser</p><p>e não ser, verdadeiro e falso, sendo apenas o homem individual, o critério que deve ser</p><p>seguido. Assim, segundo a teoria de Protágoras: para quem está com frio, é frio; para</p><p>quem não está, não é; não existe uma verdade absoluta a respeito do frio, mas cada</p><p>homem possui a sua verdade, logo, ninguém está errado (REALE; ANTISSERI, 1990).</p><p>Deste modo, podemos dizer que com os sofistas aparecem as raízes da</p><p>concepção de homem como animal racional, que será desenvolvida com maior</p><p>profundidade no período clássico da filosofia ocidental.</p><p>141</p><p>4 A ANTROPOLOGIA SOCRÁTICA-PLATÔNICA</p><p>A figura de Sócrates representa a inflexão decisiva que orienta até hoje</p><p>o pensamento antropológico. A sua contribuição no campo da filosofia, da ética,</p><p>da política, da moral, do direito, é sentida até hoje. O filósofo nasceu em Atenas em</p><p>470/469 a.C. e morreu em 399 a.C., em decorrência de uma condenação</p><p>de “impiedade”,</p><p>coordenada por membros políticos de Atenas. Acusado de corromper os jovens e de</p><p>não crer nos deuses da cidade, havia também por trás das acusações, ressentimentos e</p><p>manobras políticas. Sócrates tinha origem humilde, filho de um escultor e uma obstetriz</p><p>(parteira). Seu legado é conhecido por outros filósofos, pois não deixou nada escrito,</p><p>e, também, não fundou nenhuma escola filosófica como fizeram seus sucessores. Os</p><p>seus ensinamentos se deram em espaços públicos, como ginásios e praças, no qual</p><p>chamava a atenção e causava fascínio de jovens até pessoas de mais idade, o que lhe</p><p>custou muitas inimizades (REALE; ANTISSERI, 1990).</p><p>FIGURA 4 – SÓCRATES</p><p>FONTE: <https://www.mundociencia.com.br/wp-content/uploads/2016/07/socrates.jpg>.</p><p>Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>Sócrates é considerado o fundador da Antropologia Filosófica, bem como da</p><p>filosofia moral. A visão de homem, segundo o pensamento de Sócrates, só tem sentido</p><p>ou explicação se olharmos para o seu interior, ou seja, a sua dimensão de interioridade</p><p>presente em cada homem, pois é nessa dimensão que encontramos a “alma” (psyché).</p><p>Para o filósofo ateniense, a alma é uma espécie de lugar, de morada para a areté</p><p>(excelência ou virtude), que possibilita medir o homem, segundo a dimensão interior na</p><p>qual reside a verdadeira grandeza humana. Nesse sentido, é na alma que se encontra a</p><p>opção profunda que orienta a vida humana, que faz do homem justo ou injusto, bom ou</p><p>mau, honesto ou desonesto, virtuoso ou corrompido pelos vícios. É na alma, portanto,</p><p>que se “constitui a verdadeira essência do homem, sede de sua verdadeira areté” (VAZ,</p><p>1991, p. 34).</p><p>142</p><p>Segundo Vaz (1991 p. 34-35), as ideias centrais da antropologia filosófica de</p><p>Sócrates são:</p><p>a) A teologia do bem e do melhor como via de acesso para a</p><p>compreensão do mundo e do homem, e sobre a qual se funda</p><p>a natureza ética da psyqué. As páginas célebres da suposta</p><p>autobiografia de Sócrates transmitida por Platão são o melhor</p><p>testemunho, não obstante os elementos propriamente</p><p>platônicos da narração, dessa transposição socrática do</p><p>finalismo de Anaxágoras.</p><p>b) A valorização ética do indivíduo que encontrou sua expressão mais</p><p>conhecida na interpretação socrática do preceito délfico “conhece-</p><p>te a ti mesmo” (gnôthi soutón) do qual resulta da necessidade da</p><p>Cura e do cuidado com a “vida interior”, noção que faz sua primeira</p><p>aparição na história da antropologia e da espiritualidade. Segundo</p><p>a interpretação socrática, o preceito délfico ordena a investigação</p><p>(zêtesis) conduzida metodicamente (donde os três momentos</p><p>do método socrático, a ironia, a indução e a maiêutica), que deve</p><p>levar a sabedoria e com ela, necessariamente, à verdadeira areté</p><p>(teoria da virtude-ciência).</p><p>c) A primazia da faculdade intelectual no homem donde procede</p><p>o chamado intelectualismo socrático inspirando a doutrina da</p><p>virtude-ciência: ao exaltar o homem como portador do logos e ao</p><p>fazer da relação dialógica a relação humana fundamental, Sócrates</p><p>é provavelmente a fonte principal da definição do homem como</p><p>zôon logikón; enfim, os traços do homem socrático se completam</p><p>com a transposição do utilitarismo sofístico ao plano do finalismo</p><p>moral, quando a noção de bem, inerente à nova concepção de</p><p>areté, é apresentada sob a luz da utilidade que resulta da prática</p><p>do bem (é mais útil e melhor ser justo que injusto).</p><p>Enquanto para Sócrates o homem teria como missão moral suprema o cuidado</p><p>com a alma, ou seja, o sujeito deveria realizar essa arte do cuidado sobre si, buscando</p><p>sempre a verdadeira areté, Platão insere um elemento místico, o cuidado da alma,</p><p>segundo ele, significa “purificação da alma”. Nesse sentido o filósofo grego, discípulo</p><p>de Sócrates, estabeleceu uma síntese entre a “tradição pré-socrática da relação do</p><p>homem com o cosmos, a tradição sofística do homem como ser de cultura (paideía)</p><p>destinado à vida política e à herança dominante de Sócrates do “homem interior” e da</p><p>“alma” (psyqué)” (VAZ, 1991, p. 36).</p><p>Platão, considerado o fundador da metafísica ocidental, nasceu em Atenas por</p><p>volta de 428/427 a.C., cujo nome verdadeiro era Aristócles. Alguns estudiosos suspeitam</p><p>que o seu apelido derivou do seu vigor físico ou a amplitude de seu estilo ou, ainda, o</p><p>tamanho da sua testa (em grego, platos refere-se a amplitude, largueza ou extensão).</p><p>Não há dúvidas que desde a juventude, Platão era dotado de muita inteligência e</p><p>aptidões pessoais, o que o levou a se interessar desde cedo pela política. Algumas obras</p><p>importantes deixadas por Platão foram: Apologia a Sócrates, Fédon, Teeteto, A Política,</p><p>O Banquete, Fedro, Menon, Criton, A República etc.</p><p>143</p><p>FIGURA 5 – PLATÃO</p><p>FONTE: <https://s.ebiografia.com/assets/img/authors/pl/at/platao-l.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>O pensamento antropológico de Platão deriva de sua teoria do mundo das</p><p>ideias, no qual concebe uma separação radical entre corpo e alma (psyché). Segundo</p><p>a perspectiva metafísica de Platão, essa oposição entre alma e corpo existe porque o</p><p>corpo é entendido como uma “tumba” da alma, uma espécie de “cárcere", no qual o</p><p>homem está condenado a pagar as suas penas. Essa visão negativa do corpo é derivada</p><p>do elemento religioso presente do Orfismo, que tem grande influência no pensamento</p><p>de Platão.</p><p>Segundo o dualismo antropológico de Platão, o corpo pertence ao mundo sensível,</p><p>marcado pela materialidade, corruptibilidade, relações efêmeras, paixões desordenadas,</p><p>ignorância, discórdias, inimizades, loucuras, ou seja, o corpo não é visto como parte da</p><p>essência humana, mas como raiz de todo o mal. Já a alma (psyché) pertence ao mundo a</p><p>ser buscado constantemente, o mundo suprassensível ou inteligível, no qual se encontra as</p><p>ideias perfeitas, caracterizado pela imutabilidade e eternidade.</p><p>DICA</p><p>Segundo Abbagnano (2007), o Orfismo consistiu numa seita filosófico-religiosa</p><p>difundida na Grécia, a partir do século VI a.C., e que se julgava fundada por</p><p>Orfeu. Segundo a crença fundamental dessa seita, a vida terrena era uma</p><p>simples preparação para uma vida mais elevada, que podia ser merecida por</p><p>meio de cerimônias e de ritos purificadores, que constituíam o arcabouço</p><p>secreto da seita. Essa crença passou para várias escolas filosóficas da Grécia</p><p>Antiga (Pitágoras, Empédocles, Platão), mas a importância que alguns filólogos e</p><p>filósofos dos primeiros decênios do século XX atribuíram ao O., na determinação</p><p>das características da filosofia grega, já não é reconhecida por ninguém.</p><p>144</p><p>Reale e Antiseri (1990) apresentam dois paradoxos presentes no pensamento</p><p>antropológico de Platão.</p><p>O primeiro refere-se ao paradoxo do corpo – encontrado especialmente na</p><p>obra Fédon de Platão –, no qual a alma deve procurar fugir do corpo sempre que</p><p>possível. Nesse sentido, o verdadeiro filósofo é aquele que deseja a morte, e a</p><p>verdadeira filosofia é o exercício de morte. A morte está ligada ontologicamente ao</p><p>corpo, isso quer dizer que apenas o corpo é afetado pela morte, a alma (psyché), por</p><p>outro lado, é imortal e incorruptível. Segundo esse paradoxo, a morte não representa</p><p>dano à alma, mas é fonte de benefícios, pois permite ao homem (filósofo) viver uma</p><p>vida voltada para si mesmo, uma vida unida ao inteligível, sem os limites do corpo.</p><p>Em outras palavras, “isso significa que a morte do corpo representa a abertura para a</p><p>verdadeira vida da alma” (REALE; ANTISERI, 1990, p. 155).</p><p>O segundo paradoxo, diz respeito à fuga do mundo, ou seja, o homem deve tornar-</p><p>se virtuoso e se assemelhar a Deus. Para isso, deve-se buscar sempre fugir das ilusões e</p><p>malefícios que o mundo sensível produz, pois o mal é o oposto e contrário do bem, e sempre</p><p>estará presente na terra junto a natureza mortal do homem. Já no mundo inteligível o mal</p><p>não existe, pois não habita entre os deuses. Logo, fugir do mundo representa fugir de todo</p><p>o mal que o mundo representa, realizando essa fuga através da virtude e do conhecimento</p><p>para cada vez mais se assemelhar a Deus (REALE; ANTISERI, 1990).</p><p>Assim, a antropologia platônica</p><p>baseia-se no seu dualismo metafísico, no qual</p><p>a alma é apresentada como movendo-se a si mesma (autokínêton) e como princípio de</p><p>movimento (arché kinêseôs), provocando uma ruptura da noção da antropologia como</p><p>“alma mundo” e princípio do movimento cósmico (VAZ, 1991). O pensamento platônico é,</p><p>sem dúvidas, a mais poderosa influência na concepção clássica de homem, inspirando</p><p>uma geração de filósofos e pensadores que se apoiaram nas formulações metafísicas</p><p>do seu pensamento. Até hoje os traços de suas ideias estão presentes, sobretudo</p><p>no pensamento religioso, do qual serve-se da inspiração do neoplatonismo de Santo</p><p>Agostinho de Hipona (354 d.C.) para embasar sua doutrina.</p><p>5 A ANTROPOLOGIA ARISTOTÉLICA</p><p>O filósofo grego Aristóteles, discípulo de Platão, nasceu em 384/383 a.C.</p><p>em Estagira, na fronteira da macedônica. Com 18 anos, o jovem que já havia ficado</p><p>órfão, viajou para Atenas e ingressou na Academia de Platão. Na Academia, Aristóteles</p><p>consolidou sua visão filosófica de mundo, conheceu grandes cientistas da época, como</p><p>o célebre Eudóxio, permanecendo durante vinte anos, até a morte de Platão em 347 a.C.</p><p>Após a morte de Platão, Aristóteles não ficou satisfeito com os rumos que a Academia</p><p>145</p><p>platônica tinha tomado sob a direção de Espêusipo e decidiu viajar para Ásia Menor. Na</p><p>companhia de seu célebre colega Xenócrates, o filósofo fundou uma escola em conjunto</p><p>com os platônicos Erasto e Corisco. Por volta de 342 a.C. Aristóteles passou a integrar a</p><p>corte de Felipe da Macedônia, com o objetivo de cuidar da educação do filho do rei, cujo</p><p>nome era Alexandre (REALE; ANTISERI, 1990).</p><p>FIGURA 6 – ARISTÓTELES</p><p>FONTE: <https://static.todamateria.com.br/upload/ar/is/aristoteles-cke.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>INTERESSANTE</p><p>Você sabia que o filósofo Aristóteles foi contratado para cuidar da educação de</p><p>Alexandre, o Grande? Recentemente, a escritora Annabel Lyon lançou um livro</p><p>que recria a relação entre O Filósofo e o Imperador, colocando o foco na vida</p><p>de Aristóteles, reconhecido como um dos fundadores da filosofia ocidental. A</p><p>narrativa tem início quando Aristóteles se vê forçado a adiar o sonho de suceder</p><p>Platão como o líder da Academia em Atenas, para atender ao pedido de Filipe,</p><p>da Macedônia, tornando-se tutor de seu filho, Alexandre. No início, o filósofo fica</p><p>horrorizado com a perspectiva de ficar preso naquele lugar distante e atrasado</p><p>de sua infância, mas logo se sente atraído pelo potencial intelectual do menino</p><p>e por sua capacidade de surpreender. O que não sabe é se suas ideias seriam</p><p>páreo para a cultura guerreira incutida em Alexandre desde menino. O Filósofo</p><p>e o Imperador investiga como o gênio de Aristóteles afetou o garoto que iria</p><p>conquistar o mundo conhecido. Que tal aprofundar sua leitura nesse romance?</p><p>Acesse o site: https://www.bonde.com.br/entretenimento/literatura/livro-recria-</p><p>relacao-entre-aristoteles-e-alexandre-158061.html.</p><p>146</p><p>Aristóteles é considerado um dos fundadores da antropologia como ciência,</p><p>sendo o primeiro a realizar uma síntese científico-filosófica em sua concepção de</p><p>homem. Em termos gerais, pode-se dizer que a concepção de homem em Aristóteles,</p><p>caminhou desde um platonismo da psyché até um monismo hilemórfico (alma como</p><p>forma do corpo).</p><p>Embora o termo “antropologia” seja cunhado somente na modernidade,</p><p>Aristóteles também é o responsável por uma antropologia no sentido estrito, ou seja,</p><p>uma filosofia das coisas humanas. Portanto, o objeto de estudo de Aristóteles também é</p><p>o homem, que só pode ser compreendido no horizonte da physis. Deste modo, a noção</p><p>antropológica Aristóteles considera que o homem tem o seu lugar definido na hierarquia</p><p>da natureza (physis), ao contrário da concepção finalista de seu mestre Platão, que</p><p>situara o homem no plano do inteligível (mundo ideal).</p><p>Entretanto, Aristóteles não deixa de lado sua inspiração platônica, no que diz</p><p>respeito à capacidade do homem de se elevar, através da theoría, à contemplação</p><p>das realidades transcendentes e eternas (VAZ, 1991). Segundo Vaz (1991), Aristóteles</p><p>define sua antropologia filosófica a partir de quatro aspectos fundamentais: a estrutura</p><p>biopsíquica do homem ou teoria da psyché; homem como zôon logikón; homem como</p><p>ser ético-político; e, por fim, homem como ser de paixão e de desejo.</p><p>No que diz respeito ao homem, pensado a partir de sua estrutura biopsíquica, o</p><p>homem é um ser composto de psyché e de sôma, sendo a psyché o princípio vital, o ato</p><p>ou a perfeição do corpo organizado. Nesse sentido, Aristóteles compreende que há uma</p><p>hierarquia na natureza (physis), que é gradativa, e caminha de acordo com a função</p><p>comum a todos os seres vivos. A nutrição é a função primária e comum a todos os seres</p><p>vivos; a sensação é uma função próprias dos seres superiores; e a função intelectiva é</p><p>a função exclusiva do homem (VAZ, 1991).</p><p>NOTA</p><p>Você sabia que o termo "teoria" provém do verbo grego theorein? O substantivo</p><p>correspondente é theoria. Essas palavras têm, de próprio, uma significação</p><p>superior e misteriosa. Os gregos pensavam, isto é, recebiam da própria língua</p><p>grega e, de uma maneira única, seu modo de estar e ser no ser. Por isso,</p><p>junto ao lugar mais alto atribuído à theoria pelo ser vivente (bios) grego, eles</p><p>costumavam escutar ainda uma outra coisa na palavra. É que os dois étimos</p><p>thea e horaw podem ter outra acentuação: theá e ora. Theá é a deusa. Foi como</p><p>deusa que a aletheia apareceu ao pensador originário Parmênides. Traduzimos</p><p>aletheia pelo latim veritas, verdade, e pelo alemão wahrheit. A palavra grega</p><p>ora significa o respeito que temos, diz a honra e a consideração que damos.</p><p>Se pensarmos na palavra theoria a partir das últimas significações, a theoria se</p><p>torna a consideração respeitosa da revelação do vigente. Em sentido antigo,</p><p>originário, mas de forma alguma antiquado, a teoria é a visão protetora da</p><p>verdade (HEIDEGGER, 2002).</p><p>147</p><p>O segundo aspecto da antropologia aristotélica, refere-se ao homem como zôon</p><p>logikón, ou seja, o homem é um animal racional. A racionalidade distingue o homem</p><p>de todos os seres encontrados na natureza. Esse é o aspecto específico e peculiar do</p><p>homem, ser racional. Portanto, segundo Vaz (1991, p. 40), “enquanto ser dotado de logos</p><p>(da fala e do discurso), o homem transcende de alguma maneira a natureza e não pode</p><p>ser considerado um simples ser natural”. Aristóteles estuda intensamente o aspecto</p><p>racional do homem, especialmente nos tratados: De Anima, De Sensu et Sensibili, De</p><p>Memoria et Reminiscentia, De Vita et Morte, em seus livros sob o título de Órganon.</p><p>O terceiro ponto constitutivo da antropologia aristotélica, o homem é pensado</p><p>como ser ético-político. Aristóteles é o primeiro filósofo a realizar uma sistematização da</p><p>Ética e da Política como dimensões fundamentais do saber do homem sobre si mesmo.</p><p>Essa unidade revela-se, segundo Aristóteles, no fato de que o homem, na sua expressão</p><p>acabada, ou seja, o homem helênico, é essencialmente destinado à vida em comum na</p><p>pólis. Somente na pólis o homem se realiza enquanto ser racional. Pode-se dizer então,</p><p>que o homem é um zôon politikón (animal político) porque é, também, zôon logikón,</p><p>sendo a vida ética e a vida política artes de viver segundo a razão (VAZ, 1991).</p><p>O último aspecto da antropologia aristotélica, o homem é compreendido como</p><p>ser de paixão e de desejo. Essa dimensão está presente na estrutura da psyché, que</p><p>é a sede, da paixão (pathê) e do desejo (órexis) e, faz parte da vertente irracional da</p><p>psyché, na qual interfere diretamente no agir ético, como também, no agir político do</p><p>homem. Portanto, a dimensão do desejo e da paixão também são partes constitutiva</p><p>da atividade humana, sendo um tema muito discutido entre os gregos, especialmente</p><p>nas escolas filosóficas que se desenvolveram na idade helênica, como a do epicurismo</p><p>e do hedonismo.</p><p>A antropologia de Aristóteles influenciou diretamente a concepção de homem</p><p>ocidental, contribuindo diretamente para a fundação e o desenvolvimento de diversas</p><p>áreas</p><p>do conhecimento, por exemplo, a lógica formal e a zoologia. Segundo Russell (1957,</p><p>p. 185), “desde o princípio do século XVII, quase todo o progresso intelectual importante</p><p>tinha de começar com um ataque a alguma doutrina de Aristóteles; na lógica, isso ocorre</p><p>ainda em nossos dias”. Embora a maioria dos escritos do filósofo tenham se perdido, os</p><p>seus tratados filosóficos técnicos ficaram conservados e foram compilados no Corpus</p><p>Aristotelicum. As aporias levantadas por Aristóteles entorno da pergunta sobre o que é</p><p>o homem e as categorias utilizadas para resolvê-las são objeto de estudo até hoje.</p><p>148</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• Inicialmente, os primeiros filósofos gregos, conhecidos como “cosmólogos”,</p><p>“naturalistas” ou “físicos”, ocupavam-se com o problema filosófico de ordem do</p><p>cosmos (universo, astros).</p><p>• Para os primeiros filósofos, a totalidade do real era compreendida como physis</p><p>(natureza) e cosmos.</p><p>• O primeiro filósofo a abordar um pensamento antropológico definido foi Diógenes de</p><p>Apolônia (440 a.C.).</p><p>• Para Diógenes, o homem é superior aos outros animais. Isso se verifica na própria</p><p>constituição física do homem.</p><p>• Diógenes constrói, pela primeira vez, uma ideia de homem como estrutura corporal-</p><p>espiritual, na qual a sua natureza se manifesta na cultura por meio das suas obras,</p><p>seus feitos.</p><p>• Diógenes é considerado o filósofo que marca uma linha de transição com a primeira</p><p>filosofia pré-socrática do século VI, a.C., conhecida pelo problema da physis e pela</p><p>busca do princípio primeiro (arché).</p><p>• Os sofistas aparecem na história da filosofia ocidental, como um grupo de intelectuais</p><p>itinerantes, considerados “sábios”, especialistas do saber.</p><p>• As práticas utilizadas pelos sofistas se baseavam nas sutilezas da retórica, com</p><p>objetivos de obter lucro e vantagens.</p><p>• Os sofistas não tinham interesse pela verdade (alethéia), eles ensinavam aos seus</p><p>estudantes a arte da persuasão, técnicas de discurso que explorava o sentimentalismo.</p><p>• Para Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas, daquelas que são por</p><p>aquilo que são e daquelas de não são por aquilo que não são”.</p><p>• Sócrates é considerado o fundador da Antropologia Filosófica, bem como da</p><p>filosofia moral.</p><p>• Para Sócrates, a alma é uma espécie de lugar, de morada para a areté (excelência ou</p><p>virtude), que possibilita medir o homem, segundo a dimensão interior na qual reside</p><p>a verdadeira grandeza humana.</p><p>149</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1 • O pensamento antropológico de Platão deriva de sua teoria do mundo das ideias, no</p><p>qual concebe uma separação radical entre corpo e alma (psyché).</p><p>• Na perspectiva metafísica de Platão, a oposição entre alma e corpo existe porque o</p><p>corpo é entendido como uma “tumba” da alma, uma espécie de “cárcere", no qual o</p><p>homem está condenado a pagar as suas penas.</p><p>• No dualismo antropológico de Platão, o corpo pertence ao mundo sensível, marcado</p><p>pela materialidade, corruptibilidade, relações efêmeras, paixões desordenadas,</p><p>ignorância, discórdias etc.</p><p>• A alma (psyché), no dualismo antropológico de Platão, pertence ao mundo a ser</p><p>buscado constantemente, o mundo suprassensível ou inteligível, no qual se encontra</p><p>as ideias perfeitas, caracterizado pela imutabilidade e eternidade.</p><p>• Aristóteles é considerado um dos fundadores da antropologia como ciência, sendo o</p><p>primeiro a realizar uma síntese científico-filosófica em sua concepção de homem.</p><p>• A concepção antropológica Aristóteles considera que o homem tem o seu lugar</p><p>definido na hierarquia da natureza (physis), ao contrário da concepção finalista de</p><p>seu mestre Platão, que situara o homem no plano do inteligível (mundo ideal).</p><p>• Na visão de Aristóteles, o homem é um ser composto de psyché e de sôma, sendo a</p><p>psyché o princípio vital, o ato ou a perfeição do corpo organizado.</p><p>• Para Aristóteles, o homem é zôon logikón, ou seja, o homem é um animal racional.</p><p>150</p><p>1 A civilização grega é o berço do humanismo. Nesse sentido, os filósofos gregos</p><p>buscavam definir e caracterizar uma ideia de Homem. O Homem era o centro do</p><p>pensamento grego. Isso se evidenciava nas produções artísticas, nas esculturas</p><p>antigas e nas reflexões filosóficas. Sobre o primeiro filósofo a abordar um pensamento</p><p>antropológico, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) O primeiro filósofo pré-socrático a elaborar um pensamento antropológico foi</p><p>Protágoras. Para ele, “o homem é a medida de todas as coisas, daquelas que são</p><p>por aquilo que são e daquelas que não são por aquilo que não são”.</p><p>b) ( ) O primeiro filósofo a abordar um pensamento antropológico definido foi</p><p>Aristóteles.</p><p>c) ( ) O primeiro filósofo pré-socrático a abordar um pensamento antropológico</p><p>definido foi Diógenes de Apolônia (440 a.C.). Para o filósofo, o homem é visto</p><p>como estrutura corporal-espiritual, na qual a sua natureza se manifesta na</p><p>cultura por meio das suas obras e seus feitos.</p><p>d) ( ) O primeiro filósofo a abordar um pensamento antropológico definido foi Platão.</p><p>2 Os sofistas foram um grupo de intelectuais itinerantes, considerados “sábios”,</p><p>especialistas do saber. As práticas utilizadas pelos sofistas se baseavam nas sutilezas</p><p>da retórica, com objetivos de obter lucro e vantagens. Os sofistas não demonstravam</p><p>interesse pela busca da verdade (alethéia), mas ensinavam aos seus alunos a arte da</p><p>persuasão, técnicas de discurso que explorava o sentimentalismo. Sobre os sofistas,</p><p>analise as seguintes sentenças:</p><p>I- Dentre os sofistas podemos destacar alguns como: Protágoras, Górgias, Pródico,</p><p>Hípias, Élida e Antifonte.</p><p>II- O sofista mais destacado e que teve maior visibilidade no mundo grego foi Protágoras.</p><p>III- O método e o objetivos das técnicas dos sofistas foram duramente criticados por</p><p>filósofos como: Sócrates, Platão e Aristóteles.</p><p>IV- Com os sofistas inicia-se uma discussão sobre temas fundamentais, como a ética, a</p><p>política, a arte, a retórica, a educação, cuja preocupação central é a cultura do homem.</p><p>Agora, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.</p><p>c) ( ) As afirmativas II e IV estão corretas.</p><p>d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>151</p><p>3 Sócrates foi um filósofo nascido em Atenas, em 469/470 a.C. e morreu em 399 a.C., em</p><p>decorrência de uma condenação de “impiedade” coordenada por membros políticos de</p><p>Atenas. Além disso, Sócrates sofreu acusações de corromper os jovens e de não crer nos</p><p>deuses da cidade, havia também por trás das acusações, ressentimentos e manobras</p><p>políticas. O filósofo grego não deixou nada escrito e não fundou nenhuma escola filosófica.</p><p>Sobre a antropologia filosófica socrática, analise as sentenças a seguir:</p><p>I- Na visão de Sócrates o homem teria como missão moral suprema a busca pelos</p><p>prazeres e a ausência da dor.</p><p>II- Sócrates é considerado o fundador da antropologia filosófica, bem como da filosofia</p><p>moral.</p><p>III- Para Sócrates, a alma é uma espécie de lugar, de morada para a areté (excelência ou</p><p>virtude), que possibilita medir o homem segundo a dimensão interior na qual reside</p><p>a verdadeira grandeza humana.</p><p>IV- Segundo a antropologia filosófica de Sócrates, é na alma que se constitui a verdadeira</p><p>essência do homem, sede de sua verdadeira areté.</p><p>Agora, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas.</p><p>c) ( ) As afirmativas II e IV estão corretas.</p><p>d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas.</p><p>4 O filósofo grego Aristóteles, discípulo de Platão, nasceu em 384/383 a.C. em Estagira.</p><p>Aristóteles é considerado um dos fundadores da antropologia como ciência, sendo</p><p>o primeiro filósofo a realizar uma síntese científico-filosófica em sua concepção de</p><p>homem. Sobre a antropologia aristotélica, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) A antropologia platônica se fundamenta no dualismo metafísico, no qual a alma</p><p>é apresentada como movendo-se a si mesma (autokínêton)</p><p>e como princípio de</p><p>movimento (arché kinêseôs).</p><p>b) ( ) A noção antropológica de Aristóteles considera que a alma (psyché) pertence ao</p><p>mundo a ser buscado constantemente, o mundo suprassensível ou inteligível, no</p><p>qual se encontra as Ideias perfeitas.</p><p>c) ( ) A noção antropológica de Aristóteles considera que o homem tem o seu lugar</p><p>definido na hierarquia da natureza (physis), ao contrário da concepção finalista</p><p>de seu mestre Platão, que situara o homem no plano do inteligível (mundo ideal).</p><p>d) ( ) A noção antropológica de Aristóteles deriva de sua teoria do mundo das ideias,</p><p>no qual concebe uma separação radical entre corpo e alma (psyché).</p><p>152</p><p>153</p><p>A CONCEPÇÃO DE HOMEM NO PERÍODO</p><p>CRISTÃO-MEDIEVAL</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>UNIDADE 3 TÓPICO 2 -</p><p>A concepção de homem no período cristão-medieval se situa no século VI ao</p><p>século XV, desdobrando-se em duas principais vertentes: a tradição bíblica e a tradição</p><p>filosófica grega. Nesse período, a noção de homem está estritamente vinculada ao</p><p>pensamento teológico cristão. O pensamento teológico cristão é aprofundado por dois</p><p>principais filósofos-teólogos da igreja, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.</p><p>Para compreender a concepção de homem no período medieval, é necessário</p><p>entender que, nesse período, o homem é olhado como criatura de Deus, como um ser</p><p>definido na relação com o transcendente. O homem é pensando sob a perspectiva</p><p>teológica-cristã, e, portanto, toda a cultura se estrutura em torno de uma racionalidade</p><p>bíblica, no qual a atividade filosófica deveria estar submetida aos desígnios da fé.</p><p>Nesse contexto, veremos as principais correntes teológicas que influenciaram</p><p>a visão de homem neste período e os principais desdobramentos que contribuíram</p><p>para a dissolução desse pensamento até o emergir da renascença. Vamos embarcar</p><p>nessa jornada?</p><p>2 A CULTURA MEDIEVAL: O HOMEM SEGUNDO A</p><p>TRADIÇÃO BÍBLICA</p><p>O sistema social vigente das sociedades medievais era o feudalismo, ou seja,</p><p>um sistema baseado na servidão e na obediência aos senhores feudais (grandes</p><p>proprietários de terras, donos dos feudos). Nesse sentido, o Estado medieval era</p><p>constituído por uma rede hierárquica, representado pela seguinte estrutura: os nobres</p><p>(senhores feudais), o clero (religiosos) e os servos (mão de obra, camponeses). Esse</p><p>sistema social, político e econômico perdurou até o fim da Idade Média, atingindo o seu</p><p>apogeu no século XIII. No final do século XIII, o feudalismo começa a desaparecer em</p><p>alguns países da Europa, como na França, nos Países Baixos e na Itália. Com a expansão</p><p>dos mercadores, contribuindo para o surgimento de uma nova atividade econômica, o</p><p>comércio, ascende uma nova classe política, a burguesia, que será determinante para a</p><p>desintegração do feudalismo no século XV.</p><p>154</p><p>Nas sociedades medievais o feudalismo estava integrado ao cristianismo, sendo</p><p>que a Europa inteira se considerava cristã e se organizava entorno de dois chefes: o</p><p>chefe espiritual – o papa –, e o chefe temporal – o imperador. Na Idade Média, o papa</p><p>não apenas ocupava um cargo religioso importante, mas era também uma autoridade</p><p>política suprema na Europa. A busca pela unidade cristã europeia, através do imperador</p><p>e o papado não se consolidou efetivamente ao longo da Idade Média, havendo inúmeras</p><p>disputas e divergências políticas entre essas duas figuras importantes na dinâmica das</p><p>sociedades medievais.</p><p>A influência da Igreja medieval na cultura europeia era incontestável. A Igreja</p><p>detinha o monopólio da cultura, através das atividades intelectuais e da imposição</p><p>dos seus dogmas, não havia abertura para um pensamento que contestasse a visão</p><p>de mundo construída através da narrativa bíblica. Nas universidades do século XIII,</p><p>estudava-se: filosofia, teologia, direito, medicina e letras. Não havia ainda as ciências</p><p>empíricas, ou seja, as ciências que necessitam de um método científico para comprovar</p><p>uma determinada teoria. Todos os conhecimentos estudados, eram guiados pelo</p><p>método filosófico. A filosofia servia para explicar as causas, os princípios das coisas, mas</p><p>esbarrava nas verdades supremas, nas quais era impossível conhecer através da razão,</p><p>somente pela revelação divina.</p><p>Nesse sentido, a noção de homem no mundo medieval estava associada à</p><p>revelação divina. A cultura medieval aceitava a supremacia da revelação e da fé sobre</p><p>a razão. A verdade, portanto, era Deus, e o homem deveria se voltar para Ele para melhor</p><p>viver em sociedade. A religião cristã, e somente esta, era o norte da moralidade e da</p><p>cultura medieval. A cultura na Idade Média era, por excelência, teocêntrica, ou seja,</p><p>Deus era a centralidade de todas as ações, o valor supremo e o motor da história.</p><p>Deste modo, constituiu-se, na cultura da Idade Média, um discurso sobre o homem</p><p>cuja origem se situa numa fonte transcendente. Pode-se dizer que na Idade Média há uma</p><p>teologia bíblica do homem que busca delinear os traços fundamentais da antropologia bíblica.</p><p>Vaz (1991) apresenta alguns traços fundamentais da antropologia bíblica:</p><p>• A unidade radical do ser do homem numa perspectiva soteriológica. Portanto, essa</p><p>unidade do homem se desdobra em três momentos que se articulam como um</p><p>itinerário salvífico. O primeiro momento refere-se à unidade de origem, representada</p><p>pelos temas da criação, da queda e da promessa, que se encontram no livro de Gênesis;</p><p>o segundo momento, diz respeito à unidade de vocação, representada pelo tema da</p><p>Aliança que atravessa todo o Antigo Testamento e se consuma no acontecimento do</p><p>Verbo feito carne no Novo Testamento; o último momento é a unidade de fim, que se</p><p>expressa no tema da vida na presença de Deus (AT) e da vida em Deus (NT). Portanto,</p><p>na concepção bíblica, o homem é “carne”, na medida em que se revela a fragilidade e</p><p>a transitoriedade da existência humana; o homem é “alma”, na medida em que essa</p><p>155</p><p>fragilidade inerente é recompensada nele pelo vigor de sua vitalidade; é “espírito”,</p><p>isto é, manifestação superior da vida e do conhecimento que permite estabelecer a</p><p>relação com Deus; é “coração”, ou seja, o interior do homem, sede dos afetos e das</p><p>paixões, em que se enraízam inteligência e vontade, sendo o lugar do pecado, mas</p><p>também da conversão a Deus.</p><p>NOTA</p><p>Afinal, o que é Soteriologia? Soteriologia é basicamente a doutrina da salvação.</p><p>Isto significa que a soteriologia é a área da teologia que estuda a salvação</p><p>em todos os seus aspectos. A palavra “soteriologia” vem dos termos gregos</p><p>soteria, “salvação” ou “livramento”; e logos, “palavra”. Há subdivisões dentro</p><p>da soteriologia que abordam a salvação em seus diferentes aspectos, tais</p><p>como: um plano eterno e obra remidora de Deus; a expiação no sangue de</p><p>Cristo; a operação da graça divina; o estado do homem em relação ao pecado;</p><p>a obra do Espírito Santo; e o destino final do homem. Disponível em: https://</p><p>estiloadoracao.com/o-que-e-soteriologia-a-doutrina-da-salvacao/.</p><p>• A manifestação progressiva do ser e do destino do homem através do próprio</p><p>desenrolar da história da salvação. Nesse sentido, a concepção bíblica de homem</p><p>não é uma teoria que se expressa num discurso organizado conceitualmente,</p><p>como acontece na filosofia. A concepção bíblica de homem acontece por meio da</p><p>narração de uma história da revelação e dos sinais salvíficos de Deus, que revela</p><p>progressivamente a unidade profunda do seu ser-para-Deus. A antropologia do Novo</p><p>Testamento apresenta uma visão das situações existenciais elementares do homem,</p><p>resgatando os temas da carne, da alma, do espírito e do coração presentes no Antigo</p><p>Testamento, mas sob uma perspectiva cristológica. Os livros do Novo Testamento</p><p>recebem a influência direta da cultura grega, seja através da koiné filosófica grega,</p><p>como da presença de termos e sistemas da filosofia platônica, como é o caso da</p><p>tricotomia: sôma, psiqué, pneûma. O Novo Testamento é a fonte primeira da</p><p>compreensão bíblico-cristã do homem que influenciará o pensamento cristão sobre</p><p>o homem durante longos séculos.</p><p>INTERESSANTE</p><p>Você sabia</p><p>pode nos ajudar a entender o fenômeno religioso.</p><p>Como toda ciência, a Antropologia apresenta um objeto que lhe é próprio e uma</p><p>abordagem metodológica característica. Também se constrói por etapas e apresenta</p><p>diversos campos de investigação, como veremos nesta unidade.</p><p>Aqui apresentaremos a você, nosso(a) atento(a) leitor(a), não só as definições</p><p>mais aceitas desta disciplina, explicitando do que ela se ocupa (qual o objeto de sua</p><p>investigação), mas também as maneiras pelas quais a Antropologia se aproxima da</p><p>realidade que ela pretende elucidar, como se constrói o edifício do saber antropológico</p><p>(com suas diversas etapas), quais seus campos de pesquisa e ainda alguns de seus</p><p>conceitos mais importantes e a maneira própria deste conhecimento científico proceder</p><p>na elucidação dos problemas de que trata (seu método característico).</p><p>Assim, no Tópico 1 definiremos Antropologia, a partir de sua fundação enquanto</p><p>ciência, na visão dos praticantes e teóricos deste saber, para levar você, acadêmico(a),</p><p>a ser capaz de refletir criticamente acerca do fazer antropológico.</p><p>No Tópico 2 veremos as diferentes etapas e áreas deste conhecimento, para</p><p>que você, estudante da UNIASSELVI, seja familiarizado com o campo semântico da</p><p>disciplina e o alcance deste saber, a partir da análise de como este se forja e do que</p><p>se ocupa.</p><p>4</p><p>No Tópico 3 trataremos de alguns dos conceitos mais importantes da Antropologia,</p><p>conceitos estes que são fundamentais para a compreensão da especificidade do olhar</p><p>antropológico e de seu objeto, para que você aprofunde seu entendimento do que trata</p><p>a Antropologia.</p><p>Por fim, no Tópico 4 nós veremos a Antropologia na prática, o método próprio</p><p>desta ciência, que a distingue das demais Ciências Sociais, para que você, nosso(a)</p><p>aluno(a), possa saber como se faz, afinal, o conhecimento antropológico.</p><p>Esperamos que esta primeira unidade vá despertar sua curiosidade e interesse</p><p>em saber mais a respeito da Antropologia e de como ela pode nos ajudar a compreender</p><p>este fenômeno complexo que é o ser humano.</p><p>NOTA</p><p>Aqui utilizaremos ser humano em vez de “homem” para nos referirmos</p><p>ao “anthropos” (o objeto da Antropologia) por entendermos, dentro da</p><p>visão antropológica do fenômeno humano, que nossa espécie apresenta</p><p>uma enorme diversidade de gêneros (às vezes dentro de uma mesma</p><p>sociedade) o que torna o termo “homem” inapropriado para definir o</p><p>conjunto dos seres humanos.</p><p>FIGURA 1 – REPRESENTAÇÃO DE POPULAÇÃO PRÉ-HISTÓRICA DO NORDESTE BRASILEIRO</p><p>FONTE: <http://msalx.viajeaqui.abril.com.br/2013/08/29/1431/5tY2z/ilustra-final-jubran.</p><p>jpeg?1377804486>. Acesso em: 31 mar. 2015.</p><p>A partir de seu próprio nome, Antropologia, podemos inferir do que se ocupa</p><p>esta disciplina, que, de agora em diante, será alvo de seus estudos, Prezado acadêmico</p><p>da UNIASSELVI. De fato, este nome de origem grega é revelador do foco desta ciência.</p><p>5</p><p>Vejamos: o mesmo compõem-se de dois substantivos daquela língua clássica,</p><p>a saber, anthropos, o ser humano, e logos, estudo (ou ainda razão e lógica).</p><p>Antropologia trata-se assim do “Estudo do Ser Humano”, definição que a põe</p><p>inserida na tradição científica, no campo das Ciências Humanas, próxima, portanto,</p><p>da Sociologia e da Economia, por exemplo. Nesta perspectiva, a mesma investiga a</p><p>constituição e a dinâmica da experiência humana, tanto em suas relações internas,</p><p>quanto aquelas com o meio circundante.</p><p>De acordo com Gomes (2013, p. 11), outra tradução possível para Antropologia</p><p>seria “Lógica do Ser Humano”, o que colocaria alguns dos focos e análises desta matéria</p><p>em sintonia com determinadas áreas da Filosofia, como a Lógica, a Metafísica e a</p><p>Hermenêutica, na busca do sentido da experiência humana em sua especificidade.</p><p>FIGURA 2 – REPRODUÇÃO DA LINHAGEM QUE CONSTITUIU NOSSA ESPÉCIE</p><p>FONTE: <http://www.ahistoria.com.br/wp-content/uploads/historia-da-evolucao-humana.jpg>.</p><p>Acesso em: 8 abr. 2015.</p><p>Gomes (2013) chama a atenção para o fato de que, embora a origem do nome</p><p>seja grega, não foram os gregos que inventaram a Antropologia, ainda que eles não se</p><p>furtassem a especular sobre a condição humana. Isto devido ao etnocentrismo deste</p><p>povo, que se julgava superior às demais nações de seu tempo.</p><p>NOTA</p><p>Etnocentrismo: conceito fundamental da Antropologia, no qual nos</p><p>aprofundaremos mais adiante, mas que aqui adiantamos tratar-se da tendência</p><p>natural de toda cultura humana de considerar-se superior as demais.</p><p>6</p><p>Ora, para o fazer antropológico é preciso a superação do entrave colocado pelo</p><p>etnocentrismo e se admitir a unidade da espécie humana. É necessário reconhecer que,</p><p>apesar de nossas imensas diferenças culturais, somos uma só humanidade.</p><p>Esta perspectiva, que possibilita a reflexão antropológica, só se coloca</p><p>numa época mais recente da humanidade, a partir do Iluminismo, quando começa a</p><p>especulação filosófica, a princípio, acerca das possibilidades da existência e da ação</p><p>humana (GOMES, 2013).</p><p>FIGURA 3 – FILÓSOFOS ILUMINISTAS REUNIDOS EM DEBATE</p><p>FONTE: <http://files.seculodasluzes.webnode.com.br/200000006-67d3168ccf/50000000.jpg>.</p><p>Acesso em: 8 abr. 2015.</p><p>Desta maneira, de um ângulo filosófico, a Antropologia seria uma forma de se</p><p>pensar a diversidade da experiência humana, que se reflete nas diferentes culturas.</p><p>Posteriormente, com a introdução da teoria da evolução, a Antropologia aproxima-se</p><p>mais do campo científico, procurando integrar a especificidade do ser humano em um</p><p>contínuo com a natureza.</p><p>Assim, a Antropologia comporta dois aspectos, tanto como Filosofia da cultura,</p><p>quanto ciência do ser humano, procurando ora interpretar, ora explicar as características</p><p>próprias da humanidade.</p><p>Mais recentemente, com o desconstrucionismo pós-moderno do fazer</p><p>antropológico, a Antropologia tem sido considerada como uma forma particular de</p><p>literatura, sendo, portanto, tida como uma arte. Um dos autores que advoga este ponto</p><p>de vista é James Clifford, que junto com George E. Marcus foi responsável por um livro</p><p>emblemático da visão pós-moderna em Antropologia (Writing Culture: The Poetics and</p><p>Politics of Ethnography, University of California Press, 1986), sendo os dois os principais</p><p>autores a realizar a desconstrução das etnografias clássicas em Antropologia.</p><p>7</p><p>Dentro da perspectiva destes autores a Antropologia seria a arte da crítica</p><p>cultural, onde a cultura reveste-se de um caráter polissêmico, sendo que a interpretação</p><p>do antropólogo é apenas uma das possíveis, junto com aquelas de seus interlocutores,</p><p>membros das culturas estudadas.</p><p>FIGURA 4 – OS DOIS PRINCIPAIS AUTORES DA CORRENTE PÓS-MODERNA EM ANTROPOLOGIA,</p><p>JAMES CLIFFORD (À ESQUERDA DA FOTO) E GEORGE E. MARCUS EM UMA PRAÇA PARISIENSE</p><p>FONTE: Disponível em: <https://typhoon-production.s3.amazonaws.com/uploads/image_</p><p>attachment/image_attachment/543/inline_clifford___marcus_resized.jpeg>. Acesso: 9 abr. 2015.</p><p>2 A ANTROPOLOGIA ENQUANTO CIÊNCIA</p><p>Arte, Filosofia ou Ciência? Você deve estar se perguntando, querido(a)</p><p>acadêmico(a). Bom, você já deve ter percebido que a Antropologia comporta diferentes</p><p>aspectos da realidade dos grupos sociais. Neste Caderno de Estudos nos concentraremos</p><p>na dimensão científica da Antropologia.</p><p>Neste sentido, a exemplo de Marconi e Presotto (2001), consideramos que a</p><p>Antropologia, dentro do campo científico, comporta três aspectos, em virtude de sua</p><p>abordagem própria (que procura ver o fenômeno humano com um todo), a saber:</p><p>a) Enquanto Ciência Social, procurando conhecer o ser humano em sua dimensão</p><p>de participante de grupos sociais organizados diversos, como uma determinada</p><p>sociedade, por exemplo.</p><p>b) Enquanto Ciência Humana, voltando-se para a totalidade da experiência humana,</p><p>como sua história, usos e costumes, linguagem e demais fenômenos relacionados ao</p><p>ser humano.</p><p>c) Enquanto Ciência Natural, a Antropologia investiga as características psicossomáticas</p><p>do ser humano e sua evolução no mundo natural.</p><p>8</p><p>Vemos</p><p>que o Novo Testamento foi escrito orinariamente em grego? Todos os livros</p><p>do Novo Testamento (Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Epístolas, e Apocalipse), à exceção</p><p>do Evangelho de S. Mateus, foram redigidos primeiramente em grego. O grego bíblico,</p><p>porém, difere em muitas particularidades do grego clássico. Com a expansão da civilização</p><p>helênica pelo mundo oriental, a língua grega se difundiu tão universalmente, através dos</p><p>povos conquistados, que veio a se chamar língua comum ou koiné (dialeto). A koiné era</p><p>um idioma eclético (vinda de várias fontes), proveniente da fusão dos vários dialetos.</p><p>156</p><p>Predominava, contudo, o dialeto Ático. Os livros do</p><p>Novo Testamento foram escritos não na koiné erudita</p><p>usada pelos escritores aticistas, como Plutarco e</p><p>Luciano, mas na koiné popular, diferente da primeira.</p><p>Distingue-se, no uso e seleção das palavras, S. Lucas</p><p>e S. Paulo. As obras de maior perfeição estilística são</p><p>a “Epístola aos Hebreus” e a “Epístola de S. Tiago;</p><p>as que mais se afastam da pureza de linguagem</p><p>são o Evangelho de S. Marcos e as obras de S. João,</p><p>sobretudo, o Apocalipse.</p><p>FONTE: <https://www.abiblia.org/ver.php?id=4323>.</p><p>Acesso em: 25 jun. 2020.</p><p>3 ANTROPOLOGIA PATRÍSTICA</p><p>A antropologia patrística desenvolve-se nos dois primeiros séculos da civilização</p><p>ocidental em oposição a algumas correntes filosóficas que tinham como base o</p><p>Gnosticismo. O Gnosticismo representava um desafio para a antropologia patrística, pois</p><p>pregava um dualismo que implicava na condenação da matéria, como um princípio do</p><p>mal. Além disso, colocava em xeque a tradicional visão cristã do mistério da Encarnação,</p><p>que tinha como fundamento o tema da “imagem e semelhança”. Nesse sentido, o</p><p>primeiro teólogo a combater as heresias preconizadas pelas correntes gnósticas, foi</p><p>Santo Irineu de Lião (século II), no qual expõe em sua obra Adversus Haereses (Contra</p><p>Heresias) o tema do homem como reflexo da glória de Deus (VAZ, 1991).</p><p>IMPORTANTE</p><p>O termo Gnosticismo consistiu em algumas correntes filosóficas que</p><p>se difundiram nos primeiros séculos depois de Cristo no Oriente e</p><p>no Ocidente. O G. é uma primeira tentativa de filosofia cristã, feita</p><p>sem rigor sistemático, com a mistura de elementos cristãos míticos,</p><p>neoplatônicos e orientais. Em geral, para os gnósticos, o conhecimento</p><p>era condição para a salvação. Esse nome foi adotado pela primeira vez</p><p>pelos Ofitas ou Sociedade da Serpente, que, mais tarde, dividiram-se</p><p>em numerosas seitas. Os principais gnósticos dos quais temos notícia</p><p>são: Basílides, Carpócrates, Valentim e Bardesane, cujas doutrinas</p><p>são conhecidas pelas refutações feitas por Clemente de Alexandria,</p><p>Irineu e Hipólito. Uma das teorias mais típicas do G. é o dualismo dos</p><p>princípios supremos (admitido, por exemplo, por Basílides), ligado a</p><p>concepções orientais. A tentativa de união entre os dois princípios,</p><p>bem e mal, tem como resultado o mundo, no qual as trevas e a luz se</p><p>unem, mas com predomínio das trevas (ABBAGNANO, 2007).</p><p>157</p><p>O pensamento patrístico se desdobra em duas principais vertentes: a patrística</p><p>grega e a patrística latina. Trataremos em especial da patrística latina, na qual se situa</p><p>a obra de Santo Agostinho (354-430), cuja concepção cristã do homem tornou-se</p><p>um marco decisivo na história da cultura ocidental. Agostinho foi o maior filósofo da</p><p>época patrística, sua contribuição se estendeu para o campo da filosofia, teologia,</p><p>dogmática, teologia moral e mística, do direito político e da política eclesiástica. Mas</p><p>quem foi Santo Agostinho?</p><p>Aurélio Agostinho, nasceu em 354 em Tagaste (hoje Argélia), cidade de</p><p>Numídia, norte da África. Seu pai, Patrício, era um pequeno proprietário de terras ligado</p><p>ao paganismo. Já sua mãe, Mônica, era uma cristã fervorosa. A formação cultural de</p><p>Agostinho se deu inteiramente na língua e autores latinos, nos quais Cícero era uma</p><p>referência. Agostinho ocupou o ofício de professor, lecionando em Tagaste (374),</p><p>Cartago, Roma e em Milão, assumindo o cargo de professor oficial de retórica da cidade.</p><p>Nos anos de 384 e 386 em Milão, o jovem professor amadureceu a sua conversão ao</p><p>cristianismo e abandonou o ofício de professor para se dedicar a fé cristã. Em 387,</p><p>Agostinho foi batizado pelo bispo Ambrósio, sendo que no ano seguinte, voltou para</p><p>Tagaste para fundar uma comunidade religiosa (REALE; ANTISERI, 1990).</p><p>Rapidamente Agostinho adquiriu notoriedade pela santidade de sua vida,</p><p>sendo ordenado sacerdote em Hipona, na África, no ano de 391. Em 395, Agostinho</p><p>foi consagrado bispo da cidade de Hipona. Neste período, ele desenvolveu suas mais</p><p>importantes obras, travando batalhas importantes contra heréticos e cismáticos.</p><p>Com sua produção intensa e sua atuação à frente da Igreja, Agostinho provocou uma</p><p>reviravolta decisiva na história da Igreja e da filosofia ocidental. Suas principais obras</p><p>foram: Contra os acadêmicos, A vida feliz, A ordem, A imortalidade da alma, A Trindade,</p><p>Confissões, A Cidade de Deus, O Mestre, Sobre o Livre Arbítrio, A verdadeira religião,</p><p>entre outras. O filósofo, teólogo e bispo da Igreja morreu em 430.</p><p>FIGURA 7 – SANTO AGOSTINHO DE HIPONA</p><p>FONTE: <https://img.cancaonova.com/cnimages/canais/uploads/sites/6/2006/08/formacao_</p><p>confira-algumas-frases-marcantes-de-santo-agostinho-768x576.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>158</p><p>A antropologia, ou seja, a visão de homem formulada por Santo Agostinho pode</p><p>ser sintetizada em três fontes principais: o neoplatonismo, a antropologia paulina e a</p><p>antropologia da narração bíblica da criação. Essas três fontes constituem a antropologia</p><p>agostiniana. O neoplatonismo, Agostinho teve acesso especialmente através de textos</p><p>de Plotino, Porfírio e do neoplatônico latino Mário Vitorino. A influência neoplatônica,</p><p>encontra-se em especial no livro VII das Confissões, e constitui a elaboração do tema da</p><p>estrutura do homem interior, no qual Deus está presente no “interior do homem”, mas,</p><p>também, como ser superior (interior intimo et superior summo, Conf. III, 6) (VAZ, 1991).</p><p>A antropologia paulina, ou seja, a visão de homem do Apóstolo Paulo, fornece</p><p>a Agostinho a perspectiva de homem soteriológica, a partir do qual o teólogo elabora</p><p>a doutrina do pecado original, da graça e o problema da liberdade e do livre arbítrio. A</p><p>antropologia da narração bíblica da criação, constitui um dos temas mais querido das</p><p>meditações de Agostinho. Na fonte, Agostinho aborda o tema do homem enquanto</p><p>imagem de Deus, que servirá de base para a antropologia patrística sobre o homem.</p><p>Também, é a partir do tema da imagem que o teólogo fará as análises psicológicas a</p><p>respeito do mistério trinitário (VAZ, 1991).</p><p>O que destaca Agostinho de todos os outros pensadores antigos, é que para</p><p>ele, a busca da verdade nasce no íntimo de uma experiência pessoal que aparece</p><p>atrelada à própria expressão teórica da verdade, ou seja, é o primeiro pensador a afirmar</p><p>que o pensamento do ser é inseparável da descoberta do Eu. Segundo Vaz (1991), a</p><p>antropologia de Agostinho, entende o homem como ser uno; na criação do homem</p><p>e de todo o universo segundo a narração do Gêneses, implica a superação radical do</p><p>dualismo maniqueísta; a encarnação do Verbo, a partir do qual todas as coisas foram</p><p>criadas, resultando na assunção do corpo na unidade da natureza humana na qual</p><p>o Verbo se encarnou; e por fim, a ressureição de Cristo, que implica a restituição</p><p>escatológica da unidade do homem.</p><p>NOTA</p><p>Você já ouviu falar em Maniqueísmo? O Maniqueísmo consistiu em uma</p><p>doutrina do sacerdote persa Mani, que viveu no século III e proclamou-se</p><p>o Paracleto, aquele que devia conduzir a doutrina cristã a perfeição. O M. é</p><p>uma mistura imaginosa de elementos gnósticos, cristãos e orientais, sobre</p><p>as bases do dualismo da religião de Zoroastro. Admite dois princípios: um do</p><p>bem, ou princípio da luz, e outro do mal, ou princípio das trevas. No homem,</p><p>esses dois princípios são representados por duas almas: a corpórea, que é</p><p>a do mal, e a luminosa, que é a do bem. Pode-se chegar ao predomínio da</p><p>alma</p><p>luminosa através de uma ascese particular, que consiste em três selos:</p><p>abstenção de alimentar-se de carne e de manter conversas impuras; abstenção</p><p>da propriedade e do trabalho; abster-se do casamento e do concubinato. O M.</p><p>foi muito difundido no Oriente e no Ocidente; aqui durou até o século VII. O</p><p>grande adversário do M. foi S. Agostinho, que dedicou grande número de obras</p><p>a sua refutação (ABBAGNANO, 2007).</p><p>159</p><p>A antropologia agostiniana compreende o homem como ser itinerante,</p><p>cuja visão está associada à concepção de tempo como caminho para a eternidade. A</p><p>concepção de homem como ser itinerante é essencial na antropologia de Agostinho,</p><p>pois é a representação do itinerário da humanidade simbolizado na figura das duas</p><p>cidades, da obra A Cidade de Deus (De Civitate Dei). Para Vaz (1991, p. 66), “a leitura</p><p>teológica da história humana apoia-se aí numa visão linear do tempo, não como mera</p><p>sucessão cronológica, mas segundo o modelo da vida humana, como crescimento</p><p>para a consumação final da segunda e definitiva manifestação do Cristo”. Logo, para</p><p>Agostinho, a concepção de história está orientada radicalmente para Deus.</p><p>O terceiro tópico essencial da antropologia de Agostinho, concebe o homem</p><p>enquanto ser-para-Deus, ou seja, o homem é pensado como ser-para-Deus em</p><p>razão do caráter dinâmico de sua estrutura de imagem, em que a ordenação para</p><p>Deus aparece como linha fundamental da atividade do homem interior, segundo o</p><p>ritmo triádico de sua vida (memória, inteligência, vontade). Deste modo, a antropologia</p><p>de Agostinho representa uma transposição da tradição platônica para a tradição</p><p>bíblica e a tradição cristã da patrística primitiva. O pensamento acerca do homem de</p><p>Agostinho impactou fortemente a cultura medieval, sua influência se estende até os</p><p>dias de hoje, constituindo uma referência fundamental no pensamento antropológico</p><p>ocidental (VAZ, 1991).</p><p>4 ESCOLÁSTICA E A CONCEPÇÃO TOMISTA DE PESSOA</p><p>A antropologia medieval se alicerça em três fontes principais: as Sagradas</p><p>Escrituras; os Padres da Igreja, nos quais se destaca Sto. Agostinho de Hipona; e os</p><p>filósofos e escritores gregos e latinos. A filosofia de Aristóteles teve forte influência na</p><p>concepção de homem da civilização medieval, sobretudo no século XIII, com os escritos</p><p>do filósofo e teólogo Sto. Tomás de Aquino. Para Vaz (1991), em Aquino, encontra-se</p><p>a síntese mais bem-sucedida da antropologia medieval. Quem foi? Quais são suas</p><p>contribuições para a concepção de homem no período medieval?</p><p>160</p><p>FIGURA 8 – SÃO TOMÁS DE AQUINO</p><p>FONTE: <https://www.a12.com/source/files/originals/tomas_de_aquino.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>São Tomás de Aquino, conhecido como ‘O Doutor da Igreja’, ou simplesmente ‘O</p><p>Aquinate’, foi um expoente da escolástica, considerado gênio dos metafísicos, sua obra</p><p>ainda hoje é muito estudada, sendo referência para os candidatos ao sacerdócio que</p><p>aspiram as ordens sagradas. Tomás nasceu em 1221 em Roccasecca, no sul de Lácio,</p><p>na Itália. Era discípulo do frade dominicano alemão Alberto Magno, que, desde cedo,</p><p>enxergava em Aquino um grande talento especulativo. Em uma ocasião, convidado</p><p>por Alberto para expor sua opinião sobre uma questão, Aquino, que era chamado de</p><p>“boi mudo”, pois era muito reservado, expôs o problema com tanta maestria, que levou</p><p>Alberto a exclamar: “este moço, que nós chamamos de ‘boi mudo’, mugirá tão forte que</p><p>se fará ouvir no mundo inteiro!” (REALE; ANTISERI, 1990, p. 553).</p><p>Em 1252, sob a indicação de Alberto Magno, Tomás de Aquino inicia sua carreira</p><p>acadêmica na Universidade de Paris. Após a sua experiência em Paris, Aquino passou</p><p>por diversas universidades da Europa (Colônia, Bolonha, Roma, Nápoles). Foi em Roma</p><p>que o Doutor da Igreja começou o seu maior empreendimento, a Summa Theologiae</p><p>(Suma Teológica). A maior obra de Aquino, que não foi terminada devido ao seu estado</p><p>de saúde. Tomás de Aquino morreu aos cinquenta e três anos, em 7 de março de 1274,</p><p>num mosteiro em Fossanova, quando viajava para Lião, para participar do Concílio de</p><p>Lião (REALE; ANTISSERI, 1990).</p><p>161</p><p>Vale ressaltar que a filosofia tomista, no início de sua elaboração, teve forte</p><p>oposição da Igreja e das Universidades medievais, justamente porque se apresentava</p><p>como novidade em se opor à tradição agostiniana (filosofia de Sto. Agostinho), que era</p><p>marcada pelo platonismo. O maior aspecto da rejeição e, também, do espanto referente</p><p>à filosofia de Tomás de Aquino deriva do fato da dificuldade de conciliar as conclusões</p><p>da filosofia aristotélica com os dogmas revelados da tradição bíblica cristã. Entretanto,</p><p>isso não impediu que a filosofia tomista se tornasse, mais tarde, a filosofia oficial da</p><p>Igreja Católica, e a Suma Teológica fosse considerada a expressão máxima e acabada</p><p>da possível conciliação entre Fé e Razão (REZENDE, 1986).</p><p>Duas correntes de ideais influenciaram radicalmente a antropologia tomista: o</p><p>agostianismo (doutrina da Sto. Agostinho) e o aristotelismo. Nesse sentido, a antropologia</p><p>apresentada por Tomás de Aquino pode ser situada em três aspectos importantes:</p><p>1- a concepção clássica de homem como animal rationale (animal racional);</p><p>2- a concepção neoplatônica do homem na hierarquia dos seres, como ser fronteiriço</p><p>entre o espiritual e o corporal;</p><p>3- a concepção bíblica do homem como criatura, imagem e semelhança de Deus.</p><p>Sobre a perspectiva clássica de homem (animal racional), Tomás de Aquino se</p><p>defronta com o problema da unidade do homem ou da relação da alma racional com</p><p>o corpo, que por conseguinte é um dos temas mais polêmicos da filosofia medieval. A</p><p>tese mais adequada, defendida na época, era a da pluralidade das formas substanciais</p><p>hierarquizadas no mesmo composto. Contudo, Tomás de Aquino discorda dessa tese,</p><p>concordando com Aristóteles, quando afirma a unidade da forma substancial e, portanto,</p><p>a unidade hilemórfica do homem.</p><p>IMPORTANTE</p><p>O que é a Suma Teológica? Suma Teológica é o título da obra básica</p><p>de São Tomás de Aquino, frade, teólogo e santo da Igreja Católica,</p><p>um corpo de doutrina que se constitui numa das bases da dogmática</p><p>do catolicismo e considerada uma das principais obras filosóficas da</p><p>escolástica. Foi escrita entre os anos de 1265 a 1273. Na obra, Aquino</p><p>trata da natureza de Deus, das questões morais e da natureza de</p><p>Jesus. Disponível em: https://pt.aleteia.org/2017/04/17/sim-a-suma-</p><p>teologica-inteira-de-graca/.</p><p>162</p><p>NOTA</p><p>O hilemorfismo é a doutrina que Aristóteles concebeu para opor-se,</p><p>simultaneamente, ao idealismo platônico (notadamente em sua doutrina</p><p>das Ideias) e ao materialismo adotado por filósofos pré-socráticos, entre</p><p>os quais figuram, de modo proeminente, Demócrito e Leucipo, fundadores</p><p>do Atomismo, Empédocles e Anaxágoras.</p><p>Na perspectiva hilemorfista, a forma é um dos constituintes metafísicos</p><p>primários de toda substância individual (ou composto de matéria e forma:</p><p>τὸ σύνολον ou τὸ ἐξ ἀμφοῖν), que governa e determina o outro constituinte</p><p>metafísico básico, a matéria (em grego: ὕλη). Aristóteles se distingue do</p><p>platonismo, que postulava, ao contrário, a existência separada das ideias</p><p>relativamente aos objetos sensíveis que delas participam. O hilemorfismo</p><p>aristotélico se demarca de todas as tentativas de explicação puramente</p><p>material dos objetos que nos circunda. Disponível em: http://filosofia.fflch.</p><p>usp.br/node/1070.</p><p>Além disso, Tomás de Aquino defende a espiritualidade da alma. Nesse</p><p>sentido, ele concebe a essência transcendente da alma sobre a matéria e sua criação</p><p>imediata por Deus. Sendo que a anima (alma) intelectiva é a única forma substancial do</p><p>composto humano, “a diferença específica rationale da definição clássica determina</p><p>todo o homem, assegurando a unidade antropológica exigida pela tradição bíblico-</p><p>cristã” (VAZ, 1991, p. 69).</p><p>Na antropologia tomista, a alma intelectiva é o ato que integra o corpo na perfeição</p><p>essencial do ser-homem. Nesse sentido, ela é a plena realização da perfeição humana.</p><p>Da sua unicidade deriva a unidade do agir e do fazer do homem.</p><p>Esse aspecto é muito</p><p>importante para ética de Tomás de Aquino. Da unidade profunda do homem, brota suas</p><p>faculdades de agir e fazer, que para Aquino são distintas da alma, sendo a alma sempre</p><p>o princípio primeiro da unidade e da perfeição do homem, o ato puro. “O rationale, como</p><p>diferença específica do homem, designa primeiramente a razão discursiva (ratio), forma</p><p>do conhecimento intelectual inferior à inteligência propriamente dita (intellectus) que é</p><p>própria dos espíritos puros, mas da qual também o homem participa” (VAZ, 1991, p. 69).</p><p>Pode-se dizer que na antropologia de Tomás de Aquino o homem se situa na</p><p>hierarquia dos seres, justamente por sua característica específica que é a sua natureza</p><p>racional. É por possuir essa natureza racional, que o homem se diferencia dos outros</p><p>seres e ocupa uma posição privilegiada na hierarquia de todos os seres. Deste modo, é</p><p>através da racionalidade que o homem encontra seu espaço na natureza e se propõe</p><p>a buscar sua finalidade. A conclusão de Tomás de que a Eudaimonia do homem deve</p><p>ser proporcionada a sua razão, entra em conflito com a revelação cristã da finalidade</p><p>sobrenatural do homem.</p><p>163</p><p>NOTA</p><p>Você sabia que a palavra Eudaimonia se refere a uma doutrina que prega</p><p>a felicidade como a finalidade da vida humana? Segundo Aristóteles, a</p><p>felicidade é uma finalidade (telos) maior e comum a todos os seres racionais.</p><p>Nessa concepção teleológica (que busca apontar finalidades para as</p><p>ações práticas), todas as ações humanas ocorrem visando alcançar</p><p>algum estágio de felicidade. Essa busca, porém, não dá, ao ser humano,</p><p>a plena liberdade de ação, pois essa deve estar em conformidade com a</p><p>felicidade dos outros. Disponível em: https://mundoeducacao.bol.uol.com.</p><p>br/filosofia/eudaimonia.htm.</p><p>NOTA</p><p>Você sabia que Duns Escoto foi beatificado, em 1993, pelo Papa João Paulo</p><p>II? Foi um filósofo e teólogo escocês, membro da Ordem Franciscana e</p><p>professor da Universidade de Paris. Formou-se na Universidade de Oxford</p><p>e, no desenvolvimento da sua obra, ergueu importantes contrapontos</p><p>ao pensamento de Santo Tomás de Aquino. É um dos mais importantes</p><p>pensadores de toda a escolástica, tendo sido mentor de Guilherme de</p><p>Ockham e precursor de uma longeva tradição filosófica chamada</p><p>de escotismo. Disponível em: https://ecclesiae.com.br/index.</p><p>php?route=product/author&author_id=1483.</p><p>Na visão de Vaz (1991), na perspectiva da antropologia tomista, o homem</p><p>está situado na fronteira do espiritual e do corporal, do tempo e da eternidade. Nesse</p><p>sentido, o homem é horizon et confinium (horizonte e fronteira), sendo que essa sua</p><p>posição mediadora permite definir sua relação com a ordem do cosmos, com o tempo</p><p>e com a história.</p><p>Assim, pode-se dizer que Tomás de Aquino realizou uma importante e profunda</p><p>síntese da tradição clássica e da tradição cristã no campo da antropologia. Os séculos</p><p>que se seguiram até o fim da Idade Média, foram marcados por novas tendências</p><p>do pensamento filosófico e teológico. Essas tendências se colocaram em oposição à</p><p>síntese antropológica de Tomás de Aquino, como o voluntarismo de Duns Escoto no</p><p>século XIV, o nominalismo que perdurou no século XV que buscou dissolver a síntese</p><p>medieval entre filosofia e teologia, preparando o terreno para a chegada da filosofia</p><p>moderna que irá elaborar uma nova concepção de homem.</p><p>164</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• Nas sociedades medievais, o feudalismo estava integrado ao cristianismo, sendo que</p><p>a Europa inteira se considerava cristã e se organizava entorno de dois chefes: o chefe</p><p>espiritual – o papa –, e o chefe temporal – o imperador.</p><p>• Na Idade Média, o papa não apenas ocupava um cargo religioso importante, mas era</p><p>uma autoridade política suprema na Europa.</p><p>• A noção de homem no mundo medieval estava associada à revelação divina.</p><p>• A cultura medieval aceitava a supremacia da revelação e da fé sobre a razão.</p><p>• A cultura, na Idade Média, era, por excelência, teocêntrica, ou seja, Deus era a</p><p>centralidade de todas as ações, o valor supremo e o motor da história.</p><p>• A antropologia patrística se desenvolve nos dois primeiros séculos da civilização ocidental</p><p>em oposição a algumas correntes filosóficas que tinham como base o Gnosticismo.</p><p>• A visão de homem formulada por Santo Agostinho pode ser sintetizada em três fontes</p><p>principais: o neoplatonismo, a antropologia paulina e a antropologia da narração</p><p>bíblica da criação.</p><p>• A antropologia de Agostinho entende o homem como ser uno e como ser itinerante.</p><p>• A antropologia de Agostinho concebe o homem enquanto ser-para-Deus.</p><p>• A antropologia de Agostinho representa uma transposição da tradição platônica para</p><p>a tradição bíblica e a tradição cristã da patrística primitiva.</p><p>• Em Tomás de Aquino, encontra-se a síntese mais bem-sucedida da antropologia medieval.</p><p>• São Tomás de Aquino, conhecido como ‘O Doutor da Igreja’ ou simplesmente ‘O</p><p>Aquinate’, foi um expoente da escolástica, considerado gênio dos metafísicos.</p><p>• Tomás de Aquino defende a espiritualidade da alma. Ele concebe a essência</p><p>transcendente da alma sobre a matéria e sua criação imediata por Deus.</p><p>• Na antropologia de Tomás de Aquino, o homem se situa na hierarquia dos seres</p><p>justamente por sua característica específica que é a sua natureza racional.</p><p>• Na perspectiva da antropologia tomista, o homem está situado na fronteira do</p><p>espiritual e do corporal, do tempo e da eternidade.</p><p>• Tomás de Aquino realizou uma importante e profunda síntese da tradição clássica e</p><p>da tradição cristã no campo da antropologia.</p><p>165</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>1 A concepção de homem no período cristão-medieval se situa no século VI ao século</p><p>XV, desdobrando-se em duas principais vertentes: a tradição bíblica e a tradição</p><p>filosófica grega. Nesta época, a concepção de homem está ligada ao pensamento</p><p>teológico cristão. Diante do exposto, assinale a alternativa que apresenta os dois</p><p>principais filósofos-teólogos da igreja deste período:</p><p>a) ( ) Aristóteles e São Tomás de Aquino.</p><p>b) ( ) Platão e Agostinho.</p><p>c) ( ) Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.</p><p>d) ( ) Agostinho e Duns Escoto.</p><p>2 O pensamento patrístico desdobra-se em duas principais vertentes: a patrística</p><p>grega e a patrística latina. Dentro da patrística latina, encontramos o pensamento</p><p>de Santo Agostinho (354–430). Sobre a vida e obra de Santo Agostinho, analise as</p><p>sentenças a seguir:</p><p>I- A antropologia de Santo Agostinho pode ser sintetizada em três fontes principais:</p><p>o neoplatonismo, a antropologia paulina e a antropologia da narração bíblica da</p><p>criação.</p><p>II- Agostinho nasceu em 354 em Tagaste (hoje Argélia), cidade de Numídia, norte da</p><p>África.</p><p>III- A antropologia agostiniana compreende o homem como ser itinerante.</p><p>IV- A antropologia de Agostinho representa uma transposição da tradição platônica</p><p>para a tradição bíblica e a tradição cristã da patrística primitiva.</p><p>Agora, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.</p><p>c) ( ) As afirmativas II e IV estão corretas.</p><p>d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>166</p><p>3 São Tomás de Aquino (1221–1274), conhecido como ‘O Doutor da Igreja’ ou</p><p>simplesmente ‘O Aquinate’, foi um expoente da escolástica, considerado gênio</p><p>dos metafísicos, sua obra ainda hoje é muito estudada, sendo referência para os</p><p>candidatos ao sacerdócio que aspiram às ordens sagradas. Sobre a duas correntes de</p><p>pensamento que influenciou significativamente a antropologia tomista, assinale a</p><p>alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Duas correntes de ideias influenciaram a antropologia tomista: o neoplatonismo</p><p>e o agostianismo.</p><p>b) ( ) Duas correntes de ideais influenciaram radicalmente a antropologia tomista: o</p><p>agostianismo (doutrina da Sto. Agostinho) e o aristotelismo.</p><p>c) ( ) As correntes de pensamento que influenciaram significativamente a antropologia</p><p>de Tomás de Aquino foram: o epicurismo e o aristotelismo.</p><p>d) ( ) A antropologia tomista é</p><p>influenciada apenas pelas Escrituras sagradas, e sua</p><p>produção está associada à inspiração divina.</p><p>167</p><p>TÓPICO 3 -</p><p>A CONCEPÇÃO DE HOMEM NA</p><p>MODERNIDADE</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>UNIDADE 3</p><p>No fim do século XVII, vemos duas correntes moderna de pensamento</p><p>consolidadas: o racionalismo e o empirismo. Também, evidencia-se a superação da</p><p>cultura medieval, ainda que muitos filósofos modernos cultivam interesses em questões</p><p>da Idade Média. O mais evidente dessa ruptura com a cultura medieval, refere-se à</p><p>secularização da cultura, isto é, os filósofos racionalistas, como Descartes, Leibniz,</p><p>Malebranche não falam mais do Deus da revelação judaico-cristã, mas do Deus da</p><p>Razão. No caso dos filósofos empiristas, como em Locke ou em Hume, a distância</p><p>cultural com relação ao período medieval é ainda mais evidente.</p><p>O racionalismo e o empirismo estabeleceram as bases para o desenvolvimento</p><p>do pensamento idealista de Immanuel Kant e de outros pensadores alemães. A partir</p><p>desses pressupostos iniciais, pode-se situar aspectos do pensamento de Kant (1724-</p><p>1804), que como Copérnico (1473–1543) instaurou uma perspectiva revolucionária</p><p>no que concerne as concepções de universo, advindas do sistema ptolomaico do</p><p>mundo antigo, associado à perspectiva criacionista judaico-cristã medieval. Assim,</p><p>como Copérnico propõe o heliocentrismo, Kant instaura a revolução no campo do</p><p>conhecimento, modificando os rumos da filosofia ocidental.</p><p>Nesse contexto, o homem é visto como sujeito e objeto do conhecimento.</p><p>O homem moderno ocupa o centro da cena da história e passa a ser a matriz das</p><p>concepções contemporâneas que se formularão nos séculos XIX e XX. Veremos as</p><p>principais concepções de homem na sua expressão filosófica que predominaram o</p><p>discurso filosófico moderno.</p><p>Bons estudos!</p><p>168</p><p>2 O HOMEM NO RACIONALISMO DE DESCARTES</p><p>A Renascença foi o período que se estendeu do século XIV ao século XVI,</p><p>caracterizando-se como uma época do Humanismo. A valorização do homem através da</p><p>literatura clássica, sobretudo latina, e a defesa do valor da razão humana para descobrir</p><p>a verdade, bem como a exaltação da natureza física e a vida terrena. A antropologia na</p><p>Renascença também se caracteriza como uma antropologia de ruptura e de transição.</p><p>Ruptura com a imagem de homem judaico-cristã do período medieval e transição para</p><p>a imagem racionalista que predominará os séculos XVII e XVIII.</p><p>A partir do século XVI, tem-se o fim da Renascença e o início de uma nova forma</p><p>de pensar e sentir que será expressado em diversas formas de criação cultural. Segundo</p><p>Vaz (1991), esse novo modo de pensar e sentir é herdeiro e devedor do humanismo</p><p>renascentista e dele receberá influência direta através de importantes pensadores</p><p>moralistas da França do século XVI, por exemplo, o filósofo e humanista Michel de</p><p>Montaigne (1553–1592).</p><p>Com o filósofo René Descartes (1596–1650), a antropologia racionalista</p><p>moderna encontrará sua expressão paradigmática, de modo que poderá falar do</p><p>homem racionalista ou do homem cartesiano. O filósofo descendia de família nobre</p><p>e, aos oito anos de idade, órfão de mãe, é enviado para o Colégio Real da la Flèche na</p><p>cidade de Pais, onde se revela um excelente aluno. Foi nessa escola que Descartes</p><p>recebeu uma sólida formação filosófica e científica, de acordo com a Ratio Studiorum</p><p>da época, que pedagogicamente orientava para o estudo matemático e humanístico,</p><p>inspirado nos princípios da filosofia escolástica.</p><p>NOTA</p><p>Michel de Montaigne (1553–1592) era humanista e defendia um certo</p><p>número de teses sobre as quais sempre retoma em seus Ensaios. Tendo</p><p>uma vida dividida entre uma carreira jurídica e administrativa (foi prefeito</p><p>de Bordeaux, França), aproveitava-se dos retiros em seu castelo para se</p><p>isolar e escrever. O tema: a sabedoria. Ensaios é sua obra-prima, que</p><p>floresceu após 20 anos de reflexão. Consiste em um modo de pensar</p><p>crítico à sociedade do século XVI, embora aborde temas variados. Algumas</p><p>de suas teses são: 1- Toda ideia nova é perigosa; 2- Todos os homens</p><p>devem ser respeitados (humanismo); 3- No domínio da educação, deve-se</p><p>respeitar a personalidade da criança. Montaigne adotou o princípio grego</p><p>“conhece-te a ti mesmo”. Portanto, segundo ele, a escrita é um meio de</p><p>chegar a esse conhecimento de si. Disponível em: https://brasilescola.uol.</p><p>com.br/filosofia/as-ideias-michel-montaigne.htm.</p><p>169</p><p>Esse ambiente formativo, de orientação jesuítica e de abertura para as ciências</p><p>e a matemática, causou insatisfação e confusão em Descartes. Em pouco tempo, o</p><p>estudante francês já visualizava o abismo que existia entre aquela orientação cultural</p><p>da época e as novidades científicas e filosóficas que estavam brotando em toda Europa.</p><p>Descartes, logo percebeu “a ausência de uma séria metodologia, capaz de instituir,</p><p>controlar e ordenar as ideias existentes e guiar a buscar da verdade” (REALE; ANTESERI,</p><p>1990, p. 354).</p><p>FIGURA 9 – RENÉ DESCARTES</p><p>FONTE: <https://cdn.universoracionalista.org/wp-content/uploads/2017/07/renc3a9_descartes-</p><p>filc3b3sofo-francc3aas-696x517.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>O filósofo, matemático e físico francês, propôs através da sua filosofia uma</p><p>fundamentação para uma ordem racional, sócio-política que não desembocasse no</p><p>ateísmo ou no materialismo. Essa fundamentação, portanto, não se encontrava a luz</p><p>da fé, mas através da razão. Deste modo, Descartes, tentou provar racionalmente a</p><p>existência de Deus e a existência da alma enquanto princípio diverso do corpo. Com</p><p>sua obra intitulada, Discurso do Método, publicada em 1637, Descartes provocou uma</p><p>revolução no pensamento ocidental. Além disso, Descartes escreveu outras duas obras</p><p>muito importantes, Meditações sobre a Filosofia Primeira (1641), e Regras para a direção</p><p>do Espírito, publicada após a sua morte, em 1701.</p><p>A principal preocupação de Descartes é encontrar uma maneira do homem</p><p>chegar à verdade. Por isso, o filósofo francês sugere que o primeiro passo é fazer</p><p>um trabalho prévio de limpeza do terreno, ou seja, duvidar de tudo aquilo em que</p><p>acreditamos. Somente após essa limpeza, o homem começará a procurar, através do</p><p>método da dúvida (dúvida metódica), a verdade primeira ou as verdades primeiras, que</p><p>são evidentes por si e das quais não se pode duvidar. Elas serão o fundamento pelo qual</p><p>se pode construir todo o edifício do conhecimento.</p><p>170</p><p>Segundo o método de Descartes, é por meio da busca pelo conhecimento</p><p>verdadeiro, que o homem se voltar para si mesmo. Para ele, a única maneira clara</p><p>e distinta do eu pensar a alma é como princípio de pensamento, ou seja, como res</p><p>cogitans; e a única maneira de se pensar o corpo é concebê-lo como extensão, isto é,</p><p>como res extensa. Assim, procedendo, Descartes concebe a realidade como dualista:</p><p>pois de um lado há a substância pensante (res cogitans) – mente ou espírito –, e de</p><p>outro há a substância – corpo ou matéria.</p><p>Esse dualismo característico da ideia racionalista do homem se apresenta de</p><p>maneira diversa do dualismo clássico, pensado por Platão (mundo das ideias versus</p><p>mundo sensível). No dualismo de Descartes, o espírito (res cogitans) separa-se do corpo</p><p>como res extensa, não para elevar-se à contemplação do mundo das ideais (como na</p><p>teoria platônica), mas melhor conhecer e dominar o mundo. Deste modo, a antropologia</p><p>de Descartes se apresenta como uma metafísica do espírito e uma física do corpo: a</p><p>ideia adequada, isto é, clara e distinta das duas substâncias, mostra-se como “naturezas</p><p>completas” que podem subsistir uma sem a outra. Segundo Vaz (1991, p. 83):</p><p>A formação da antropologia cartesiana parece acompanhar, assim,</p><p>os estágios da formação de uma nova ideia de razão que presidirá</p><p>ao desenvolvimento da filosofia moderna até Kant e mostrará sua</p><p>fecundidade na construção da ciência de Galileu Galilei. O núcleo</p><p>gerador dessa nova ideia de razão é justamente a ideia de método</p><p>sobre o qual Descartes fundará toda a sua filosofia.</p><p>NOTA</p><p>Galileu Galilei (1564–1642) foi um físico, matemático, astrônomo e</p><p>filósofo italiano. Foi uma</p><p>personalidade fundamental na revolução</p><p>científica. Desenvolveu os primeiros estudos sistemáticos do movimento</p><p>uniformemente acelerado e do movimento do pêndulo. Descobriu a lei</p><p>dos corpos e enunciou o princípio da inércia e o conceito de referencial</p><p>inercial, ideias precursoras da mecânica newtoniana. Galileu melhorou</p><p>significativamente o telescópio refrator e, com ele, descobriu as manchas</p><p>solares, as montanhas da Lua, as fases de Vénus, quatro dos satélites de</p><p>Júpiter, os anéis de Saturno, as estrelas da Via Láctea. Essas descobertas</p><p>contribuíram decisivamente na defesa do heliocentrismo. Contudo, a</p><p>principal contribuição de Galileu foi para o método científico, pois a ciência</p><p>assentava numa metodologia aristotélica. O método empírico, defendido</p><p>por Galileu, constitui um corte com o método aristotélico mais abstrato</p><p>utilizado nessa época, devido a ele, Galileu é considerado como o "pai</p><p>da ciência moderna". Disponível em: http://www.filosofia.seed.pr.gov.br/</p><p>modules/galeria/detalhe.php?foto=532&evento=6.</p><p>171</p><p>Na obra Discurso do método (1637), Descartes explicita a estrutura fundamental</p><p>da antropologia racionalista. Nela, segundo o filósofo, há de um lado o “espírito”, cujo</p><p>existir se manifesta na existência do Cogito, e de outro, tem-se o corpo obedecendo</p><p>aos movimentos e às leis que impelem à máquina no mundo. Na ideia do Cogito,</p><p>está implicado uma nova relação do “espírito” com o mundo que define uma nova</p><p>concepção de homem: a concepção moderna de homem. Deste modo, o mundo não é</p><p>mais identificado com a physis (natureza) antiga dotada de um princípio imanente de</p><p>movimento, mas é (na modernidade) uma grande máquina capaz de ser analisada pela</p><p>razão e por ela reproduzida na forma de um modelo matemático. Na visão de Vaz (1991,</p><p>p. 84-85), “uma consequência importante da antropologia racionalista é o progressivo</p><p>atenuar-se da distinção entre “natural” e “artificial (entre physis e a téchne) que era um</p><p>dos fundamentos da visão aristotélica do mundo”.</p><p>No âmbito da antropologia racionalista, o corpo humano passa a ser integrado no</p><p>conjunto dos artefatos e das máquinas, sendo que a presença do espírito, manifestado,</p><p>sobretudo através da linguagem, constitui o elemento essencial que separa o homem</p><p>do “animal-máquina”. Além disso, no tratado: As paixões da alma (1649), Descartes</p><p>evidencia de modo profundo e original, uma ruptura com a concepção clássica de</p><p>homem, sistematizada por Tomás de Aquino.</p><p>3 A ANTROPOLOGIA NA IDADE CARTESIANA</p><p>A revolução cartesiana no campo da filosofia e a revolução promovida pelos</p><p>estudos de Galileu Galilei no campo da ciência dão origem a uma nova ideia de razão</p><p>que transforma radicalmente a autocompreensão do homem, abrindo o espaço</p><p>epistemológico no qual irão se constituir as ciências do homem. Nesse sentido, o</p><p>século XVII é o palco do Classicismo, definido segundo os cânones da razão cartesiana,</p><p>dando forma a um verdadeiro estilo de civilização. Segundo Vaz (1991), o homem da</p><p>idade cartesiana será marcado por dois traços fundamentais: o moralismo, advindo da</p><p>tradição do filósofo e humanista Montaigne, continuada pelos importantes moralistas</p><p>do século XVII como: La Bruyère e La Rochefoucauld; e, o humanismo devoto, que</p><p>expressará uma nova sensibilidade religiosa em virtude da razão cartesiana e da divisão</p><p>religiosa da Europa.</p><p>Uma das obras que melhor representa as transformações na maneira de</p><p>conceber o homem no limiar da idade moderna é a de Blaise Pascal (1623–1662). A obra</p><p>de Pascal é atravessada pela tensão entre o estudo da matemática e da ciência física</p><p>consagrada em sua juventude, e o “estudo do homem”, no qual passa a se ocupar após</p><p>sua “conversão”, dentro do seu importante projeto de redigir uma apologia da religião</p><p>cristã. Em suas obras, entre elas Pensées (1670), Pascal coloca em oposição o estudo</p><p>das “ciências abstratas” e o estudo do homem. “A dramática experiência de Pascal</p><p>torna-se, assim, uma antecipação e como que um paradigma da experiência do homem</p><p>moderno” (VAZ, 1991, p. 84).</p><p>172</p><p>FIGURA 10 – BLAISE PASCAL “O CORAÇÃO TEM RAZÕES QUE A PRÓPRIA RAZÃO DESCONHECE"</p><p>FONTE: <https://s.ebiografia.com/assets/img/authors/bl/ai/blaise-pascal-l.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>Na concepção antropologia de Pascal, o homem tem diante de si a ordem eterna</p><p>da natureza e contempla os dois abismos do infinitamente grande e do infinitamente</p><p>pequeno. Por outro lado, o homem é chamado a conhecer a sua miséria que se</p><p>manifesta através da corrupção da sua natureza e na operação, fonte de engano das</p><p>suas faculdades. Nesta dialética existencial, Pascal demonstra a situação dramática do</p><p>homem da idade cartesiana no limiar dos tempos modernos: “recolhida à intimidade do</p><p>Cogito, sua subjetividade deve enfrentar um universo despojado de suas qualidades</p><p>sensíveis e reduzido a um modelo matemático de figuras, movimentos e forças” (VAZ,</p><p>1991, p. 85).</p><p>Nesse sentido, o Cogito na concepção de Pascal é a marca da “grandeza do</p><p>homem”. Assim, tanto para Pascal como para Descartes, a dignidade do homem reside no</p><p>pensamento. Entretanto, o Cogito pascaliano não se volta para a dominação do mundo,</p><p>DICA</p><p>Em 1654, depois de quase morrer em um acidente de carruagem e</p><p>passar por uma experiência mística, Pascal decidiu se consagrar a Deus</p><p>e à religião. Elegeu, como seu guia espiritual, o padre jansenista Singlin</p><p>e, em 1665, recolheu-se à abadia de Port-Royal des Champs, centro</p><p>do jansenismo. Nesse período, elaborou os princípios de sua doutrina</p><p>filosófica, centrada na contraposição dos dois elementos básicos e não</p><p>excludentes do conhecimento: de um lado, a razão com suas mediações</p><p>que tendem ao exato, ao lógico e discursivo (espírito geométrico). Do outro</p><p>lado, a emoção ou o coração, que transcende o mundo exterior, intuitiva,</p><p>capaz de aprender o inefável, o religioso e o moral (espírito de finura).</p><p>Pascal resumiu sua doutrina filosófica na frase que a humanidade repete</p><p>há séculos, na qual nomeia os dois elementos do conhecimento – a razão</p><p>e a emoção. Disponível em: https://www.ebiografia.com/blaise_pascal/>.</p><p>173</p><p>mas sim na busca pelas descobertas das regras do bien peser (bem pensar): descobrindo</p><p>sua dimensão moral. Diferentemente de Descartes, a proposta antropológica de Pascal,</p><p>constrói-se tendo em vista a situação do homem e não a verdade na ciência.</p><p>“Entre os dois infinitos espaciais, o lugar do homem na natureza é ínfimo e</p><p>quase imperceptível; mas, pelo pensamento ele se eleva sobre os abismos espaciais da</p><p>grandeza e da pequenez, e compreende esse mesmo universo que o engole como um</p><p>ponto” (VAZ, 1991, p. 85).</p><p>Com isso, Pascal anuncia a grande aporia que acompanhará à antropologia</p><p>racionalista: a oposição entre a Natureza e o Espírito. A antropologia racionalista</p><p>cartesiana é guiada por um otimismo com relação ao respeito à natureza humana,</p><p>bem como pela capacidade humana de conhecer e agir. Neste âmbito, a concepção</p><p>de homem de Pascal, insere-se numa situação à luz do trágico, isto é, o homem não</p><p>está mais subordinado à ordem cósmico-teológica da visão judaico-cristã medieval do</p><p>mundo, nem voltado, como o homem cartesiano, para o senhorio e posse da natureza</p><p>(VAZ, 1991).</p><p>Outro filósofo importante, contemporâneo de Pascal, cujo pensamento se situa</p><p>na esteira do racionalismo é Thomas Hobbes (1588–1679). Hobbes postula a aplicação</p><p>do racionalismo mecanicista à compreensão do homem e da sociedade. A obra de</p><p>Hobbes gira em torno do problema de se encontrar uma expressão racional rigorosa e</p><p>obediente aos cânones do mecanismo para a ideia de corpo, que se apresenta como</p><p>uma categoria essencial para pensar a natureza, o homem e a sociedade. Assim, em seu</p><p>projeto filosófico, Hobbes propõe desenvolver as aplicações da noção de corpo para as</p><p>grandes ordens da realidade.</p><p>DICA</p><p>A filosofia de Hobbes foi muito influenciada pelas ideias de Francis</p><p>Bacon (1561–1626), de quem foi secretário pessoal durante alguns</p><p>anos, e Galileu Galilei (1564–1642). Como estes, abandonou as grandes</p><p>pretensões</p><p>metafísicas (a busca pela essência do ser) e buscou investigar</p><p>as causas e propriedades das coisas. A filosofia, para ele, seria a “ciência</p><p>dos corpos”, isto é, tudo aquilo que tem existência material. Os corpos se</p><p>dividem em “corpos naturais” (filosofia da natureza) e “corpo artificial” ou</p><p>“Estado” (filosofia política). Assim, tudo o que não é corpóreo seria excluído</p><p>da filosofia como não filosofia. Hobbes é considerado como o primeiro</p><p>materialista moderno. Para o filósofo inglês, toda a realidade poderia ser</p><p>explicada a partir de dois elementos: do “corpo”, entendido como elemento</p><p>material que existe, independentemente do nosso pensamento, e do</p><p>“movimento”, que pode ser determinado matemática e geometricamente.</p><p>Assim, a qualidade das coisas seriam “fantasmas do sensível”, ou seja,</p><p>efeitos dos corpos e de seus movimentos. As principais características do</p><p>empirismo hobbesiano são, portanto, o “materialismo” e o “mecanicismo”.</p><p>Disponível em: https://conhecerepensar.wordpress.com/2016/11/07/</p><p>thomas-hobbes-materialismo-natureza-humana-e-politica/.</p><p>174</p><p>FIGURA 11 – THOMAS HOBBES</p><p>FONTE: <https://lapiedradesisifo.com/wp-content/uploads/2017/09/Thomas-Hobbes-300x194.</p><p>jpg>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>O racionalismo de Hobbes é tão rigoroso quanto o racionalismo de Descartes,</p><p>entretanto uma diferença fundamental separa os dois projetos filosóficos, uma vez</p><p>que Hobbes não atribui ao Cogito a dignidade ontológica primordial. Nesse sentido, o</p><p>materialismo de Hobbes é radical e integral. Para ele apenas o corpo, ocupando o lugar</p><p>no espaço existe como tal. Deste modo, Hobbes não admite qualquer prova da existência</p><p>de Deus, além de recusar-se a atribuir-lhe qualquer função política ou epistemológica.</p><p>Na filosofia hobbesiana, Deus é objeto de crença e não de ciência.</p><p>Assim, Hobbes se recusa a aceitar os predicados que a tradição filosófica</p><p>reconhece no homem, por exemplo, a imortalidade da alma, o livre arbítrio, a reta razão</p><p>etc. Com isso, o filósofo inglês busca a peculiaridade do homem na própria imposição</p><p>de sua natureza, isto é, a tarefa de ser o artífice da sua própria humanidade. Tal tarefa</p><p>exige que, num primeiro momento, o homem saia do seu “estado de natureza” para</p><p>encaminhar-se para o “estado civil”, fazendo da sociedade e do Estado o terreno e o</p><p>horizonte da sua realização humana (VAZ, 1991).</p><p>A partir da obra de Hobbes, desenvolver-se-á uma importante versão do</p><p>racionalismo, sobretudo na Inglaterra, exercendo uma forte influência na ética e na política</p><p>moderna. Trata-se do empirismo inglês, que influenciado pela ênfase antropológica de</p><p>Hobbes, caracterizou-se como uma filosofia do homem em sua capacidade cognoscitiva,</p><p>em seu agir moral e em sua vida política. Nesse sentido, a concepção empirista do</p><p>pensamento antropológico que se desenvolveu na Inglaterra no século XVII, contrapõe-</p><p>se fortemente à metafísica racionalista dominante no continente.</p><p>A obra que expõe os fundamentos do empirismo racionalista inglês é a do</p><p>filósofo John Locke (1632–1704). Locke foi o teórico da Revolução Inglesa, tornando-</p><p>se o pensador que traçou com maior exatidão a imagem do homem que prevaleceria</p><p>na cultura europeia durante os séculos XVIII e XIX: a imagem do “homem liberal” ou</p><p>do “burguês”. Sua tese, sustentava-se em seu otimismo naturalista (que postulava a</p><p>bondade natural do homem) e na afirmação da sociedade natural (contrário a tese de</p><p>Hobbes), isto é, a tendência da convivência harmônica e pacífica dos indivíduos no</p><p>“estado de natureza”.</p><p>175</p><p>FIGURA 12 – JOHN LOCKE</p><p>FONTE: <https://s.ebiografia.com/assets/img/authors/jo/hn/john-locke-l.jpg>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>John Locke tece sua crítica a teoria cartesiana das ideias inatas que afirma</p><p>existirem no homem todas as disposições naturais para, usando de suas próprias</p><p>capacidades, chegar ao conhecimento de Deus, da natureza e de si mesmo como</p><p>ser moral. Entretanto, o naturalismo de Locke não se manifesta em confronto ao</p><p>cristianismo. Ao contrário, Locke se mostra um propagador da tolerância religiosa e se</p><p>esforçará para evidenciar o caráter razoável do cristianismo, preparando o caminho</p><p>para o desenvolvimento do deísmo no século XVIII. A antropologia de John Locke se</p><p>fundamenta, portanto, através de sua teoria empirista do conhecimento. Segundo Vaz</p><p>(1991), a rejeição das ideias inatas tem como consequência direta a crítica do Cogito</p><p>cartesiano e uma concepção de consciência de si como manifestação da identidade</p><p>pessoal que põe em destaque a sua estrutura psicológica em âmbitos muito mais</p><p>amplos do que os limites apodíticos do Eu penso.</p><p>DICA</p><p>John Locke (1632–1704) foi um dos principais empiristas britânicos com</p><p>Thomas Hobbes, George Berkeley e David Hume. Sua filosofia reconhece</p><p>a experiência como a única fonte válida de conhecimento. Segundo ele, a</p><p>sensação ou a experiência externa, e a reflexão ou a experiência interna,</p><p>constituem duas fontes de conhecimento, originando-se ideias simples,</p><p>produtos da sensação, e ideias complexas, provenientes da reflexão. John</p><p>Locke negava radicalmente que existiam ideias inatas, tese defendida por</p><p>Descartes. Argumentava ele, que quando se nasce, a mente é uma página</p><p>em branco que a experiência vai preenchendo. Sua teoria do conhecimento</p><p>foi exposta em sua obra fundamental: Ensaio Sobre o Conhecimento</p><p>Humano. Disponível em: https://www.ebiografia.com/john_locke/.</p><p>176</p><p>Desse modo, o empirismo de Locke, com a primazia conferida ao indivíduo,</p><p>também é o fundamento de sua teoria política, na qual influenciará fortemente o</p><p>pensamento liberal moderno. Há um paradoxo presente no pensamento político de</p><p>Locke: por um lado, há o indivíduo que na sua condição de soberano deve renunciar a</p><p>sua absoluta soberania, pois alguns de seus direitos serão transferidos para o Estado</p><p>ou serão limitados pela soberania da lei. Nesse sentido, para Locke, a sociedade política</p><p>que garante o bem de todos, aparece como um liame nocivo para cada indivíduo, em</p><p>contraste à sociedade harmônica e pacífica do “estado de natureza”. Nessas condições,</p><p>não restará ao indivíduo outra opção para reencontrar sua autonomia, senão recolher-</p><p>se ao isolamento de sua vida privada (VAZ, 1991).</p><p>4 A ÉPOCA DA ILUSTRAÇÃO: KANT E A</p><p>ANTROPOLOGIA PRAGMÁTICA</p><p>A Ilustração ou Iluminismo compreende o movimento de ideias que predominou</p><p>na Europa do século XVIII e que se estendeu ao campo político, religioso, filosófico,</p><p>científico, literário e artístico, definindo um espírito (Geist) que marcou toda uma época</p><p>e conferiu uma identidade própria a toda uma civilização, designada de civilização da</p><p>Ilustração. Nesse sentido, a Ilustração abarca vários aspetos, mas o centro que unifica</p><p>todos esses aspectos é uma concepção do homem, como da história humana e de seu</p><p>sentido, que se afasta radicalmente da concepção dominante nos séculos cristãos.</p><p>A época da Ilustração (Iluminismo) se caracterizou não como um consistente</p><p>sistema doutrinário, mas como um movimento, cujo fundamento era a confiança na</p><p>razão humana, em que o desenvolvimento representava o progresso da humanidade</p><p>e, por consequência, a libertação dos vínculos da tradição judaico-cristã medieval,</p><p>que na visão dos iluministas, caracterizava-se pela ignorância, pela manifestação de</p><p>superstições, de visões míticas e opressivas em relação a novas ideias e concepções de</p><p>mundo e do ser humano (REALE; ANTISERI, 1990).</p><p>Portanto, a Razão para os pensadores iluministas representava a defesa do</p><p>conhecimento científico, da técnica, enquanto instrumentos de transformação do</p><p>mundo e de melhoria progressiva das condições espirituais e materiais da humanidade.</p><p>Sob tais pressupostos, o iluminismo pode ser considerado uma aposta na potência da</p><p>Razão humana, com o objetivo de superar os problemas sociais, pedagógicos e políticos</p><p>da sociedade. Assim, os iluministas situam na base desse projeto de progresso espiritual,</p><p>material e político, o uso crítico e construtivo da razão.</p><p>Na visão do filósofo alemão Immanuel Kant, o uso da razão iluminista é</p><p>o uso</p><p>público. Segundo ele, o uso público da razão deve ser livre em qualquer tempo e só ele</p><p>pode concretizar o iluminismo entre os homens. Deste modo, a razão na perspectiva</p><p>iluminista não desconsidera nenhum campo de investigação, ela é uma razão que diz</p><p>177</p><p>FIGURA 13 – IMMANUEL KANT</p><p>FONTE: <http://twixar.me/QFhm>. Acesso em: 24 jun. 2020.</p><p>Immanuel Kant nasceu em Königsberg, na Prússia Oriental, (hoje, a cidade se</p><p>chama Kaliningrado e pertence a um território que se encontra sob a soberania russa)</p><p>no ano de 1724 e morreu na mesma cidade, em 1804. O filósofo prussiano jamais saiu dos</p><p>limites de sua cidade. Descendia de uma família humilde de artesões, provavelmente</p><p>de origem escocesa. O seu pai era seleiro e sua mãe dona de casa. Era de uma família</p><p>numerosa, que foi duramente provada, pois seis filhos morreram em tenra idade. Kant</p><p>menciona que seus pais lhe deram uma excelente educação e eram exemplo de</p><p>honestidade e probidade.</p><p>Kant estudou na Universidade de sua cidade natal, foi professor particular,</p><p>participando de atividades universitárias; mas somente no ano de 1770 foi nomeado</p><p>professor ordinário de Lógica e Metafísica. Até 1797, permaneceu na condição de</p><p>professor em sua cátedra, que abandonou por debilidade seis anos antes de morrer.</p><p>O filósofo sempre teve saúde delicada, e apesar disso, era muito metódico, tranquilo e</p><p>extremamente bondoso. A sua vida inteira constitui-se por uma paixão pela verdade.</p><p>A obra de Kant representa uma das importantes correntes da Ilustração</p><p>(Iluminismo). É também na obra de Kant que se encontra os prenúncios de uma</p><p>nova época que será dominada pelo Romantismo, do qual o Idealismo alemão será a</p><p>vertente filosófica. Lima Vaz (1991), traça duas linhas de pensamento da concepção</p><p>kantiana de homem:</p><p>respeito à natureza e, ao mesmo tempo, ao homem. “[...] O homem não se reduz à razão,</p><p>mas tudo aquilo que lhe diz respeito pode ser indagado através da razão: princípios</p><p>do conhecimento, comportamentos éticos, estruturas e instituições políticas, sistemas</p><p>filosóficos e crenças religiosas” (REALE; ANTISERI, 1990, p. 674).</p><p>178</p><p>1- A linha propriamente antropológica, que está inserida no curso de Metafísica</p><p>professado por Kant. Nesta linha, Kant introduz, a partir de 1762, uma modificação</p><p>decisiva no melhor estilo da Ilustração, colocando no início o estudo empírico do</p><p>homem do qual fornece o título de Antropologia.</p><p>2- A linha crítica que segue o desenvolvimento da reflexão crítica a partir da Dissertação</p><p>de 1770; essa tarefa crítica abrange três atividades superiores do homem: a razão</p><p>teórica, a razão prática e a faculdade de julga. Essas três atividades constituem uma</p><p>nova imagem do homem transmitida pelo racionalismo clássico.</p><p>Desse modo, a relação entre essas duas linhas de pensamento, expõe a</p><p>subordinação da Antropologia, cuja base é empírica, à Metafísica dos Costumes, que</p><p>procede a priori e permite definir a essência verdadeira do homem. Nesse sentido,</p><p>na visão de Vaz (1991), os dois planos epistemológicos sobre os quais se constrói a</p><p>concepção kantiana de homem são: o plano de uma ciência de observação que utiliza</p><p>o procedimento analítico para unificar os dados da observação por meio de uma teoria</p><p>das faculdades, cujo núcleo conceitual é a representação do Eu exprimindo-se em</p><p>consciência de si; e o plano de uma ciência a priori que se encontra no campo da Ética</p><p>ou da Metafísica dos Costumes a possibilidade de determinação da essência do homem.</p><p>No último texto antropológico de Kant: Antropologia desde o ponto de vista</p><p>pragmático (1798), delineia-se melhor a ideia kantiana de antropologia. Para Kant, a</p><p>antropologia é a ciência cuja finalidade é preparar o homem para o conhecimento do</p><p>“mundo”. Nesse sentido, o conhecimento do homem se funda no senso comum e tem</p><p>em vista as relações que se estabelecem entre os homens. Desse modo, a Antropologia</p><p>se insere no âmbito da “filosofia popular” no sentido dado a essa expressão no século</p><p>XVIII: é destinada ao uso das pessoas do mundo, sendo sua característica fundamental</p><p>é ser pragmática.</p><p>Em Kant, o conceito de Antropologia ganha uma amplitude e tende a ocupar</p><p>o centro do sistema filosófico. Desta forma, a Antropologia desde do ponto de vista</p><p>pragmático refere-se a uma intenção típica da Ilustração alemã: tornar a filosofia útil</p><p>para a vida, e ela constitui um dos aspectos fundamentais da concepção kantiana do</p><p>homem, aquele pelo qual ele participa do movimento pedagógico Iluminista.</p><p>Nesse sentido, no que se refere à concepção do homem, o pensamento crítico</p><p>de Kant se sustenta na tradição dualista própria da antropologia racionalista. Vaz (1991)</p><p>estabelece os principais traços da ideia de homem kantiano:</p><p>1- Linha da estrutura sensitivo-racional, que acompanha o homem com ser cognoscente.</p><p>2- Linha da estrutura físico-pragmática, que acompanha o homem como ser natural ou</p><p>mundano, físico designando o que a Natureza opera no homem e pragmático o que</p><p>o homem faz de si mesmo e da estrutura prática que acompanha o homem como ser</p><p>livre e capaz de responder.</p><p>179</p><p>3- Linha da estrutura histórica ou do destino do homem, que o acompanha em duas</p><p>direções fundamentais: religiosa, que aponta para o fim último do homem; e a</p><p>pedagógica-política que Kant desenvolveu em seus numerosos opúsculos sobre</p><p>Filosofia da história, política e pedagogia.</p><p>Assim, para o filósofo alemão, o homem, que na Razão pura revela-se</p><p>fenomênico (objeto do conhecimento), finito, mas dotado (como razão) de estrutural</p><p>abertura para o infinito (as ideias) e de uma necessidade incontrolável de infinito, na</p><p>Razão prática, o homem revela-se também destinado ao infinito. Portanto, o destino</p><p>do homem é o infinito. Essas posições, constituíram o horizonte da época da Ilustração</p><p>(iluminismo), desembocando no Romantismo, que em sua poesia e filosofia, estará</p><p>voltado precisamente para o infinito.</p><p>180</p><p>RESPOSTA À PERGUNTA: “O QUE É O ILUMINISMO?”</p><p>Apresentação</p><p>O opúsculo de I. Kant Resposta à pergunta: Que é o iluminismo? (1784) é, como</p><p>se sabe, um texto clássico. Por razões várias.</p><p>É um dos manifestos mais ‘interessantes’ da Ilustração europeia. Como tal,</p><p>figura não só como um dos mais contundentes apelos ao exercício autônomo da razão,</p><p>à liberdade de pensamento, mas constitui, ainda, uma expressão sintomática de um</p><p>momento fundamental na estruturação da consciência moderna, com o seu afã de</p><p>novidade, de expansão e conquista do mundo e da natureza, de destruição da ordem</p><p>estática das sociedades, mas também com o seu desprezo da tradição, com a vertigem</p><p>do solipsismo.</p><p>É, por outro lado, um texto-alvo no recente debate sobre o projeto da</p><p>modernidade e a reação pós-moderna (assim na obra de M. Foucault e de J. Habermas,</p><p>entre outros).</p><p>Propõe, ainda, de certo modo, um ideal imperativo e inatingível – precisamente</p><p>a consecução da genuína e plena ilustração intelectual – e disso Kant parece dar-se</p><p>conta no final do ensaio, embora permaneça, contra o que promove, enredado nos</p><p>preconceitos da sua época, a saber, uma versão algo abstrata da razão arrancada ao</p><p>húmus da história, encarada sem os nexos relacionais que ligam os seres humanos no</p><p>seu destino; a inatenção ao papel quase transcendental da linguagem na estruturação</p><p>do pensamento; a falta de consideração do vínculo entre razão e autoridade (nas suas</p><p>múltiplas formas), além da pedante convicção de que as idades anteriores aos tempos</p><p>modernos mergulhavam na ‘menoridade culpada’.</p><p>Estas observações, e muitas outras que se poderiam aduzir, não serão um</p><p>obstáculo para apreciar a luminosidade deste opúsculo, merecidamente famoso;</p><p>mesmo apesar dos seus limites, encerra ainda uma exigência moral de autoiluminação,</p><p>que nunca é bastante.</p><p>RESPOSTA À PERGUNTA: “QUE É O ILUMINISMO?” (1784)</p><p>(3 dez., 1783, p. 516)</p><p>Immanuel Kant</p><p>lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é</p><p>culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação</p><p>de outrem. Tal menoridade é por culpa</p><p>própria, se a sua causa não residir na carência de</p><p>entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo, sem a</p><p>guia de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento!</p><p>Eis a palavra de ordem do Iluminismo.</p><p>LEITURA</p><p>COMPLEMENTAR</p><p>181</p><p>A preguiça e a cobardia são as causas de os homens em tão grande parte, após</p><p>a natureza os ter há muito libertado do controlo alheio (naturaliter maiorennes), [482]</p><p>continuarem, todavia, de bom grado menores durante toda a vida; e também de a outros</p><p>se tornar tão fácil assumir-se como seus tutores. É tão cômodo ser menor. Se eu tiver</p><p>um livro que tem entendimento por mim, um diretor espiritual que, em vez de mim, tem</p><p>consciência moral, um médico que, por mim, decide da dieta etc., então, não preciso de</p><p>eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar;</p><p>outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida. Porque a imensa maioria dos</p><p>homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também</p><p>muito perigosa, é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência</p><p>deles. Depois de terem, primeiro, embrutecido os seus animais domésticos e evitado</p><p>cuidadosamente que estas criaturas pacíficas ousassem dar um passo para fora da</p><p>carroça em que as encerraram, mostram-lhes, em seguida, o perigo que as ameaça se</p><p>tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo não é assim tão grande, pois acabariam por</p><p>aprender muito bem a andar. Só que um tal exemplo intimida e, em geral, gera pavor</p><p>perante todas as tentativas ulteriores.</p><p>É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele</p><p>se tomou [483] quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente</p><p>incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer</p><p>semelhante tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional ou</p><p>antes do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua.</p><p>Mesmo quem deles se soltasse só daria um salto inseguro sobre o mais pequeno fosso,</p><p>porque não está habituado ao movimento livre. São, pois, muito poucos, apenas os que</p><p>conseguiram mediante a transformação do seu espírito, arrancar-se a menoridade e</p><p>encetar então um andamento seguro.</p><p>É perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais ainda,</p><p>é quase inevitável, se para tal lhe for concedida a liberdade. Sempre haverá, de fato,</p><p>alguns que pensam por si, mesmo entre os tutores estabelecidos da grande massa que,</p><p>após terem arrojado de si o jugo da menoridade, espalharão a sua volta o espírito de</p><p>uma estimativa racional do próprio valor e da vocação de cada homem para pensar por</p><p>si mesmo. Importante aqui é que o público, antes por eles sujeito a este jugo, os obriga</p><p>doravante a permanecer sob ele quando por alguns dos seus tutores, pessoalmente</p><p>incapazes de qualquer ilustração, é a isso [484] incitado. Semear preconceitos é muito</p><p>danoso, porque acabam por se vingar dos que pessoalmente ou os seus predecessores,</p><p>foram os seus autores. Por conseguinte, um público só muito lentamente consegue</p><p>chegar à ilustração. Por meio de uma revolução talvez se possa levar a cabo a queda</p><p>do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora, mas nunca uma</p><p>verdadeira reforma do modo de pensar. Novos preconceitos, justamente como os</p><p>antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento.</p><p>182</p><p>Para essa ilustração, nada mais se exige do que a liberdade; e, claro está, a</p><p>mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade, a saber, a de fazer um uso</p><p>público da sua razão em todos os elementos. Agora, porém, de todos os lados ouço</p><p>gritar: não raciocines! Diz o oficial: não raciocines, mas faz exercícios! Diz o funcionário</p><p>de Finanças: não raciocines, paga! E o clérigo: não raciocines, acredita! (apenas um único</p><p>senhor no mundo diz: raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre o que quiserdes, mas</p><p>obedecei!). Por toda a parte se depara com a restrição da liberdade. Qual é a restrição</p><p>que se opõe ao Iluminismo? Qual a restrição que o não impede, antes o fomenta?</p><p>Respondo: — o uso público da própria razão deve sempre ser livre e só ele pode, entre</p><p>os homens, levar a cabo a ilustração [485]; mas o uso privado da razão pode, muitas</p><p>vezes, coarctar-se fortemente sem que, no entanto, se entrave assim notavelmente o</p><p>progresso da ilustração. Por uso público da própria razão entendo aquele que qualquer</p><p>um, enquanto erudito, dela faz perante o grande público do mundo letrado. Chamo uso</p><p>privado aquele que alguém pode fazer da sua razão num certo cargo público ou função</p><p>a ele confiado. Ora, em muitos assuntos que têm a ver com o interesse da comunidade,</p><p>é necessário um certo mecanismo em virtude do qual alguns membros da comunidade</p><p>se comportarão de um modo puramente passivo com o propósito de, mediante uma</p><p>unanimidade artificial, serem orientados pelo governo para fins públicos ou de, pelo</p><p>menos, serem impedidos de destruir tais fins.</p><p>No caso, não é decerto permitido raciocinar, mas tem de se obedecer. Na</p><p>medida, porém, em que esta parte da máquina se considera também como elemento</p><p>de uma comunidade total, e até da sociedade civil mundial, portanto, na qualidade de</p><p>um erudito que se dirige por escrito a um público em entendimento genuíno, pode,</p><p>certamente, raciocinar sem que assim sofram qualquer dano os negócios a que, em</p><p>parte, como membro passivo, encontra-se sujeito. Seria, pois, muito pernicioso se um</p><p>oficial, a quem o seu superior ordenou algo, quisesse em serviço sofismar em voz alta</p><p>[486] acerca da inconveniência ou utilidade dessa ordem; tem de obedecer, mas não se</p><p>lhe pode impedir de um modo justo, enquanto perito, fazer observações sobre os erros</p><p>do serviço militar e expô-las ao seu público para que as julgue.</p><p>O cidadão não pode recusar-se a pagar os impostos que lhe são exigidos; e</p><p>uma censura impertinente de tais obrigações, se por ele devem ser cumpridas, pode</p><p>mesmo punir-se como um escândalo (que poderia causar uma insubordinação geral).</p><p>Apesar disso, não age contra o dever de um cidadão se, como erudito, ele expuser</p><p>as suas ideias contra a inconveniência ou também a injustiça de tais prescrições. Do</p><p>mesmo modo, um clérigo está obrigado a ensinar os instruindo de catecismo e a sua</p><p>comunidade em conformidade com o símbolo da Igreja, a cujo serviço se encontra, pois</p><p>ele foi admitido com esta condição. Como erudito, tem plena liberdade e até a missão</p><p>de participar ao público todos os seus pensamentos cuidadosamente examinados e</p><p>bem-intencionados sobre o que de errôneo há naquele símbolo, e as propostas para</p><p>uma melhor regulamentação das matérias que respeitam à religião e à igreja. Nada aqui</p><p>existe que possa constituir um peso na consciência. Com efeito, o que ele ensina em</p><p>183</p><p>virtude da sua função, como ministro da Igreja, expõe-no como algo em relação [487] ao</p><p>qual não tem o livre poder de ensinar segundo a sua opinião própria, mas está obrigado</p><p>a expor segundo a prescrição e em nome de outrem. Dirá: a nossa Igreja ensina isto ou</p><p>aquilo; são estes os argumentos comprovativos de que ela se serve.</p><p>Em seguida, ele extrai toda a utilidade prática para a sua comunidade de</p><p>preceitos que ele próprio não subscreveria com plena convicção, mas a cuja exposição</p><p>se pode, no entanto, comprometer, porque não é de todo impossível que neles resida</p><p>alguma verdade oculta. De qualquer modo, porém, não deve neles haver coisa alguma</p><p>que se oponha à religião interior, pois se julgasse encontrar aí semelhante contradição,</p><p>então não poderia em consciência desempenhar o seu ministério; teria de renunciar.</p><p>Por conseguinte, o uso que um professor contratado faz da sua razão perante a sua</p><p>comunidade é apenas um uso privado, porque ela, por maior que seja, é sempre apenas</p><p>uma assembleia doméstica; e no tocante a tal uso, ele como sacerdote não é livre e</p><p>também o não pode ser, porque exerce uma incumbência alheia. Em contrapartida,</p><p>como erudito</p><p>que, mediante escritos, fala a um público genuíno, a saber, ao mundo, por</p><p>conseguinte, o clérigo, no uso público da sua razão, goza de uma liberdade ilimitada de</p><p>se servir da própria razão e de falar em seu nome próprio. É, de facto, um absurdo, que</p><p>leva à perpetuação dos absurdos, que os tutores do povo [488] (em coisas espirituais)</p><p>tenham de ser, por sua vez, menores.</p><p>Não deveria uma sociedade de clérigos, por exemplo, uma assembleia</p><p>eclesiástica ou uma venerável classis (como a si mesma se denomina entre os</p><p>Holandeses) estar autorizada sob juramento a comprometer-se entre si com um certo</p><p>símbolo imutável para assim se instituir uma interminável supertutela sobre cada um</p><p>dos seus membros e, por meio deles, sobre o povo, e deste modo a eternizar? Digo:</p><p>isso é de todo impossível. Semelhante contrato, que decidiria excluir para sempre toda</p><p>a ulterior ilustração do gênero humano, é absolutamente nulo e sem validade, mesmo</p><p>que fosse confirmado pela autoridade suprema por parlamentos e pelos mais solenes</p><p>tratados de paz. Uma época não se pode coligar e conjurar para colocar a seguinte num</p><p>estado em que se tornará impossível a ampliação dos seus conhecimentos (sobretudo</p><p>os mais urgentes), a purificação dos erros e, em geral, o avanço progressivo na ilustração.</p><p>Isso seria um crime contra a natureza humana, cuja determinação original consiste</p><p>justamente neste avanço. E os vindouros têm toda a legitimidade para recusar essas</p><p>resoluções decretadas de um modo incompetente e criminoso. A pedra de toque [489]</p><p>de tudo o que se pode decretar como lei sobre um povo reside na pergunta: poderia um</p><p>povo impor a si próprio essa lei?</p><p>Seria decerto possível, na expectativa, por assim dizer, de uma lei melhor, por</p><p>um determinado e curto prazo, para introduzir uma certa ordem. Ao mesmo tempo,</p><p>facultar-se-ia a cada cidadão, em especial ao clérigo, na qualidade de erudito, fazer</p><p>publicamente, isto é, por escritos, as suas observações sobre o que há de errôneo nas</p><p>instituições anteriores; entretanto, a ordem introduzida continuaria em vigência até que</p><p>o discernimento da natureza de tais coisas se tivesse de tal modo difundido e testado</p><p>184</p><p>publicamente que os cidadãos, unindo as suas vozes (embora não todas), poderiam</p><p>apresentar a sua proposta diante do trono a fim de protegerem as comunidades que,</p><p>de acordo com o seu conceito do melhor discernimento, se teriam coadunado numa</p><p>organização religiosa modificada, sem todavia impedir os que quisessem ater-se à</p><p>antiga. É de todo interdito coadunar-se numa constituição religiosa pertinaz, por</p><p>ninguém posta publicamente em dúvida, mesmo só durante o tempo de vida de um</p><p>homem e deste modo aniquilar, por assim dizer, um período de tempo no progresso da</p><p>humanidade para o melhor e torná-lo infecundo e prejudicial para a posteridade. Um</p><p>homem, para a sua pessoa, [490] e mesmo então só por algum tempo, pode, no que lhe</p><p>incumbe saber, adiar a ilustração, mas renunciar a ela, quer seja para si, quer ainda mais</p><p>para a descendência, significa lesar e calcar aos pés o sagrado direito da humanidade.</p><p>O que não é lícito a um povo decidir em relação a si mesmo menos o pode ainda</p><p>um monarca decidir sobre o povo, pois a sua autoridade legislativa assenta precisamente</p><p>no fato de a sua vontade unificar a vontade conjunta do povo. Quando ele vê que toda</p><p>a melhoria verdadeira ou presumida coincide com a ordem civil, pode então permitir</p><p>que em tudo o mais os seus súbditos façam por si mesmos o que julguem necessário</p><p>fazer para a salvação da sua alma. Não é isso que lhe importa, mas compete-lhe obstar</p><p>a que alguém impeça à força outrem de trabalhar segundo toda a sua capacidade</p><p>na determinação e fomento da mesma. Constitui até um dano para a sua majestade</p><p>imiscuir-se em tais assuntos, ao honrar com a inspeção do seu governo os escritos em</p><p>os seus súbditos procuram clarificar as suas ideias, quer quando ele faz isso a partir</p><p>do seu discernimento superior, pelo que se sujeita à censura ‘Caesar non est supra</p><p>grammaticos’ quer também, e ainda mais, quando rebaixa o seu poder supremo a ponto</p><p>de, no seu Estado, apoiar o despotismo espiritual de alguns tiranos [491] contra os</p><p>demais súbditos.</p><p>Se, pois, se fizer a pergunta – Vivemos nós agora numa época esclarecida? – a</p><p>resposta é: não, mas vivemos numa época do Iluminismo. Falta ainda muito para que os</p><p>homens tomados em conjunto, da maneira como as coisas agora estão, se encontrem</p><p>já numa situação ou nela se possam apenas vir a pôr de, em matéria de religião, se</p><p>servirem bem e com segurança do seu próprio entendimento, sem a orientação de</p><p>outrem. Temos apenas claros indícios de que se lhes abre agora o campo em que podem</p><p>atuar livremente, e diminuem pouco a pouco os obstáculos à ilustração geral ou à saída</p><p>dos homens da menoridade de que são culpados. Assim considerada, esta época é a</p><p>época do Iluminismo, ou o século de Frederico.</p><p>Um príncipe que não acha indigno de si dizer que tem por dever nada prescrever</p><p>aos homens em matéria de religião, mas deixar-lhes aí a plena liberdade, que, por</p><p>conseguinte, recusa o arrogante nome de tolerância, é efetivamente esclarecido e</p><p>merece ser encomiado pelo mundo grato e pela posteridade como aquele que, pela</p><p>primeira vez, libertou o género humano da menoridade, pelo menos por parte do governo,</p><p>e concedeu a cada qual a liberdade de se [492] servir da própria razão em tudo o que é</p><p>assunto da consciência. Sob o seu auspício, clérigos veneráveis podem, sem prejuízo do</p><p>185</p><p>seu dever ministerial e na qualidade de eruditos, expor livre e publicamente ao mundo</p><p>para que este examine os seus juízos e as suas ideias que, aqui ou além, afastam-se do</p><p>símbolo admitido; mas, mais permitido é ainda a quem não está limitado por nenhum</p><p>dever de ofício. Este espírito de liberdade difunde-se também no exterior, mesmo</p><p>onde entra em conflito com obstáculos externos de um governo que a si mesmo se</p><p>compreende mal. Com efeito, perante tal governo brilha um exemplo de que, no seio da</p><p>liberdade, não há o mínimo a recear pela ordem pública e pela unidade da comunidade.</p><p>Os homens libertam-se pouco a pouco da brutalidade, quando de nenhum modo se</p><p>procura, de propósito, conservá-los nela.</p><p>Apresentei o ponto central do Iluminismo, a saída do homem da sua menoridade</p><p>culpada, sobretudo nas coisas de religião, porque em relação às artes e às ciências</p><p>os nossos governantes não têm interesse algum em exercer a tutela sobre os seus</p><p>súbditos; por outro lado, a tutela religiosa, além de ser mais prejudicial, é também a</p><p>mais desonrosa de todas. O modo de pensar de um chefe de Estado, que favorece a</p><p>primeira, vai ainda mais além e discerne que mesmo no tocante a sua legislação [493]</p><p>não há perigo em permitir aos seus súbditos fazer uso público da sua própria razão e</p><p>expor publicamente ao mundo as suas ideias sobre a sua melhor formulação, inclusive</p><p>por meio de uma ousada crítica da legislação que já existe; um exemplo brilhante que</p><p>temos é que nenhum monarca superou aquele que admiramos.</p><p>Também só aquele que, já esclarecido, não receia as sombras e que, ao mesmo</p><p>tempo, dispõe de um exército bem disciplinado e numeroso para garantir a ordem pública</p><p>– pode dizer o que a um Estado livre não é permitido ousar: raciocinai tanto quanto</p><p>quiserdes e sobre o que quiserdes; mas obedecei! Revela-se aqui um estranho e não</p><p>esperado curso das coisas humanas; como, aliás, quando ele se considera em conjunto,</p><p>quase tudo nele é paradoxal. Um grau maior da liberdade civil afigura-se vantajosa para</p><p>a liberdade do espírito do povo e, no entanto, estabelece-lhe limites intransponíveis;</p><p>um grau menor cria-lhe, pelo contrário, o espaço para ela se alargar segundo toda a</p><p>sua capacidade. Se a natureza, sob este duro invólucro, desenvolveu o germe de que</p><p>delicadamente cuida, a saber, a tendência e a vocação para o pensamento livre, então</p><p>ela atua também gradualmente sobre o modo do sentir do povo (pelo que este se tornará</p><p>cada vez mais [494] capaz de agir segundo a liberdade)</p><p>e, por fim, até mesmo sobre os</p><p>princípios do governo que acha salutar para si próprio tratar o homem, que agora é mais</p><p>do que uma máquina, segundo a sua dignidade.</p><p>FONTE: Adaptado de KANT, I. Resposta à pergunta: “O que é o Iluminismo?”. Tradução de</p><p>Artur Morão. 2020. Disponível em: http://www.lusosofia.net/textos/kant_o_iluminismo_1784.pdf.</p><p>Acesso em: 15 abr. 2020.</p><p>186</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3</p><p>Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:</p><p>• A Renascença foi o período que se estendeu do século XIV ao século XVI,</p><p>caracterizando-se como uma época do humanismo.</p><p>• Com o filósofo René Descartes (1596–1650), a antropologia racionalista moderna</p><p>encontrará sua expressão paradigmática, de modo que poderá falar do homem</p><p>racionalista ou do homem cartesiano.</p><p>• A principal preocupação de Descartes é encontrar uma maneira do homem chegar</p><p>à verdade.</p><p>• A única maneira clara e distinta do eu pensar a alma é como princípio de pensamento</p><p>(res cogitans) e a única maneira de se pensar o corpo é concebê-lo como extensão</p><p>(res extensa).</p><p>• A realidade para Descartes é dualista: de um lado tem-se a substância pensante</p><p>(res cogitans) – mente ou espírito –, e de outro lato tem-se a substância – corpo ou</p><p>matéria. Desta forma, se constitui o dualismo cartesiano.</p><p>• A antropologia de Descartes se apresenta como uma metafísica do espírito e uma</p><p>física do corpo: a ideia adequada, isto é, clara e distinta das duas substâncias, mostra-</p><p>se como “naturezas completas” que podem subsistir uma sem a outra.</p><p>• Segundo Descartes, há, de um lado, o “espírito”, cujo existir se manifesta na existência</p><p>do Cogito, e de outro, tem-se o corpo obedecendo aos movimentos e às leis que</p><p>impelem à máquina no mundo.</p><p>• Para Descartes, na ideia do Cogito, está implicada uma nova relação do “espírito”</p><p>com o mundo, que define uma nova concepção de homem: a concepção moderna</p><p>de homem.</p><p>• Na antropologia racionalista, o corpo humano passa a ser integrado no conjunto</p><p>dos artefatos e das máquinas, sendo que a presença do espírito, manifestado</p><p>sobretudo através da linguagem constitui o elemento essencial que separa o</p><p>homem do “animal-máquina”.</p><p>• O homem da idade cartesiana será marcado por dois traços fundamentais: o</p><p>moralismo e o humanismo devoto.</p><p>187</p><p>RESUMO DO TÓPICO 3 • Uma das obras que representa fortemente o espírito da transformação da ideia do homem</p><p>ocidental no limiar da idade moderna é a de Blaise Pascal (1623–1662).</p><p>• Na concepção de Pascal, o Cogito é a marca da “grandeza do homem”.</p><p>• Tanto para Pascal como para Descartes, a dignidade do homem reside no pensamento.</p><p>• O Cogito, na visão de Pascal, não se volta para a dominação do mundo, mas sim na</p><p>busca pelas descobertas das regras do bien peser (bem pensar): descobrindo sua</p><p>dimensão moral.</p><p>• Na antropologia de Pascal, o homem não está mais subordinado a ordem cósmico-</p><p>teológica da visão judaico-cristã medieval do mundo, nem voltado, como o homem</p><p>cartesiano, para o senhorio e posse da natureza.</p><p>• Hobbes postula a aplicação do racionalismo mecanicista à compreensão do homem</p><p>e da sociedade.</p><p>• Para Hobbes, a filosofia seria a “ciência dos corpos”, isto é, tudo aquilo que tem</p><p>existência material. Os corpos se dividem em “corpos naturais” (filosofia da natureza)</p><p>e “corpo artificial” ou “Estado” (filosofia política).</p><p>• Hobbes não atribui, ao Cogito, a dignidade ontológica primordial. O materialismo de</p><p>Hobbes é radical e integral.</p><p>• A obra que expõe os fundamentos do empirismo racionalista inglês é a do filósofo</p><p>John Locke (1632–1704).</p><p>• John Locke tece sua crítica diante da teoria cartesiana das ideias inatas, que afirma</p><p>existirem no homem todas as disposições naturais para, usando de suas próprias</p><p>capacidades, chegar ao conhecimento de Deus, da natureza, e de si mesmo como</p><p>ser moral.</p><p>• A antropologia de John Locke se fundamenta através de sua teoria empirista do</p><p>conhecimento.</p><p>• A razão, para os pensadores iluministas, representava a defesa do conhecimento</p><p>científico, da técnica, enquanto instrumentos de transformação do mundo e de</p><p>melhoria progressiva das condições espirituais e materiais da humanidade.</p><p>• Na visão do filósofo alemão Immanuel Kant, o uso da razão iluminista é o uso público.</p><p>• A razão, na perspectiva iluminista, não desconsidera nenhum campo de investigação,</p><p>ela é uma razão que diz respeito à natureza, e ao mesmo tempo, ao homem.</p><p>188</p><p>• Os dois planos epistemológicos sobre os quais se constrói a concepção kantiana de</p><p>homem são: o plano de uma ciência de observação e o plano de uma ciência a priori.</p><p>• Para Kant, a Antropologia é a ciência cuja finalidade é preparar o homem para o</p><p>conhecimento do “mundo”.</p><p>• Para Kant, a característica fundamental da Antropologia é ser pragmática.</p><p>• Em Kant, o conceito de Antropologia ganha uma amplitude e tende a ocupar o centro</p><p>do sistema filosófico.</p><p>189</p><p>1 O racionalismo e o empirismo estabeleceram as bases para o desenvolvimento do</p><p>pensamento idealista de Immanuel Kant. A filosofia kantiana instaura a revolução no</p><p>campo do conhecimento, modificando os rumos da filosofia ocidental. Nesse sentido,</p><p>a obra de Kant representa uma das importantes correntes da Ilustração (Iluminismo).</p><p>Sobre a ideia kantiana de antropologia, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Para Kant, a Antropologia é a ciência que estuda as propriedades do ser.</p><p>b) ( ) Para Kant, a Antropologia é a ciência cuja finalidade é preparar o homem para o</p><p>conhecimento do “mundo”.</p><p>c) ( ) Na visão de Kant, a Antropologia se insere no âmbito da filosofia erudita, sendo</p><p>destinada apenas aos homens privilegiados.</p><p>d) ( ) Para Kant a Antropologia não é útil para filosofia.</p><p>2 A filosofia de Thomas Hobbes (1588-1679) foi muito influenciada pelas ideias de</p><p>Francis Bacon (1561–1626) e de Galileu Galilei (1564–1642). Hobbes postula a aplicação</p><p>do racionalismo mecanicista à compreensão do homem e da sociedade. Sobre a</p><p>concepção do homem em Hobbes, analise as seguintes sentenças:</p><p>I- O racionalismo de Hobbes é semelhante ao de Descartes, pois ambos atribuem ao</p><p>Cogito a dignidade ontológica primordial.</p><p>II- Hobbes abandonou as grandes pretensões metafísicas (a busca pela essência do</p><p>ser) e buscou investigar as causas e propriedades das coisas.</p><p>III- Para Hobbes a filosofia seria a “ciência dos corpos”, isto é, tudo aquilo que tem</p><p>existência material.</p><p>IV- Hobbes se recusa a aceitar os predicados que a tradição filosófica reconhece no</p><p>homem, como por exemplo, a imortalidade da alma, o livre arbítrio, a reta razão etc.</p><p>Agora, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) As afirmativas I, II e III estão corretas.</p><p>b) ( ) As afirmativas I e III estão corretas.</p><p>c) ( ) As afirmativas II, III e IV estão corretas.</p><p>d) ( ) Todas as afirmativas estão corretas.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>190</p><p>3 Com o filósofo René Descartes (1596–1650), a antropologia racionalista moderna</p><p>encontrará sua expressão paradigmática, de modo que poderá falar do homem</p><p>racionalista ou do homem cartesiano. Na obra Discurso do método (1637), Descartes</p><p>explicita a estrutura fundamental da antropologia racionalista. Sobre a antropologia</p><p>racionalista de Descartes, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Na visão de Descartes, o mundo é como a physis (natureza) antiga dotada de um</p><p>princípio imanente de movimento.</p><p>b) ( ) Segundo Descartes, o homem é apenas “animal-máquina”.</p><p>c) ( ) A antropologia de Descartes se apresenta como uma metafísica do espírito e uma</p><p>física do corpo: a ideia adequada, isto é, clara e distinta das duas substâncias,</p><p>mostra-se como “naturezas completas” que podem subsistir uma sem a outra.</p><p>d) ( ) Segundo Descartes, o corpo humano é integrado no conjunto mente-espírito.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>191</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ANDRADE, Claudionor C. Dicionário teológico. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das</p><p>Assembleias de Deus, 1998.</p><p>BARRIO, Angel-B Espina. Manual de antropologia cultural. Recife: Editora</p><p>Massangana, 2005.</p><p>BEZERRA, Felte. Problemas e perspectivas em antropologia. Rio de Janeiro: Artes</p><p>Gráficas S. A., 1980.</p><p>CASSIANO,</p><p>assim que a abordagem antropológica do ser humano pretende ser</p><p>total, contemplando sua dimensão física, sociocultural e ainda filosófica. Em suas</p><p>investigações procura a Antropologia captar e transmitir o modo de vida dos povos que</p><p>estuda em todos os aspectos possíveis.</p><p>Desta maneira a Antropologia tem como objetivo conhecer o ser humano</p><p>em sua totalidade, tanto em seu aspecto biológico (através dos estudos da evolução</p><p>de nossa espécie), quanto cultural (investigando seu comportamento, vida social</p><p>e produção cultural). De acordo com Marconi e Presotto (2001) em nenhuma outra</p><p>disciplina científica encontraríamos uma investigação tão sistemática e unificada das</p><p>manifestações e atividades humanas.</p><p>Enquanto Ciência da Humanidade e da Cultura, a Antropologia apresenta um</p><p>enorme campo de investigação, abrangendo todo o planeta habitado e na dimensão</p><p>temporal, pelo menos há dois milhões de anos (quando surgiram os primatas que</p><p>acabaram evoluindo no ser humano moderno), procurando cobrir ainda todas as</p><p>sociedades de que se tem registro (MARCONI; PRESOTTO, 2001).</p><p>A distribuição da humanidade através do tempo.</p><p>FIGURA 5 – MAPA MOSTRANDO A DISTRIBUIÇÃO ESPAÇO-TEMPORAL DO SER HUMANO</p><p>FONTE: <http://www.conevyt.org.mx/cursos/cursos/cnaturales_v2/interface/main/recursos/</p><p>antologia/imagenes/cnant_1_1_1.jpg>. Acesso em: 9 abr. 2015.</p><p>Prezado acadêmico, certamente, pelo que dissemos até agora, você já deve</p><p>intuir que a Antropologia é um discurso humano (literário, científico e filosófico,</p><p>simultaneamente) acerca de tudo o que diz respeito à experiência humana, e sua</p><p>singularidade. Contribui assim a Antropologia para a compreensão teórica do que é ser</p><p>humano, em todos os sentidos e dimensões que dizem respeito à humanidade, em si e</p><p>para si, a partir de si mesma, de seu logos, sua razão autorreflexiva.</p><p>9</p><p>E a Antropologia faz isso à sua própria maneira, com seus métodos e teorias</p><p>produzidas e utilizadas neste campo da ciência, que lhe dão uma exclusividade</p><p>legitimadora diante do conhecimento humano. Procuraremos esclarecer neste caderno,</p><p>ao máximo a você aluno(a) da UNIASSELVI, com o intuito de ajudá-lo(a) a refletir</p><p>criticamente a respeito da experiência humana, notadamente a experiência religiosa.</p><p>O êxtase religioso, experiência humana do divino.</p><p>FIGURA 6 – XAMÃ, VESTINDO MÁSCARA, EM TRANSE DURANTE RITO DE SUA CULTURA</p><p>FONTE: <http://www.xamanismo.com.br/twiki/pub/Universo/SubUniverso1191191114It010/te.jpg>.</p><p>Acesso em: 10 abr. 2015.</p><p>3 A ANTROPOLOGIA NA PRÁTICA</p><p>Mas seria só isso? A Antropologia limitar-se-ia a ser mais uma teoria (com</p><p>sua especificidade, bem verdade) em meio a outras que procuram dar conta do que</p><p>somos nós?</p><p>Sendo a Ciência do ser humano e da cultura por excelência (MARCONI;</p><p>PRESOTTO, 2001), a Antropologia conjuga ao aspecto teórico, também a dimensão</p><p>prática. Ela nos ajuda não só a pensarmos acerca de nós mesmos, mas igualmente nos</p><p>auxilia em efetivarmos mudanças para melhor em nossa vivência no mundo e darmos</p><p>conta, de maneira mais eficaz, das questões que nos são próprias.</p><p>Se os teóricos puros em Antropologia buscam atingir aquele conhecimento total</p><p>(ou idealmente total) do ser humano, que resulte em uma compreensão mais apurada da</p><p>humanidade, o fazem com o intuito de levar este saber a aplicações práticas que tragam</p><p>benefícios efetivos para as diferentes populações humanas com as quais trabalham.</p><p>10</p><p>Os antropólogos estão conscientes e zelam para que a aplicabilidade do</p><p>conhecimento que produzem seja pautada por determinados princípios que são</p><p>imprescindíveis e indissociáveis de um exercício ético da profissão. É importante que</p><p>você, nosso(a) aluno(a), conheça que princípios são estes.</p><p>O mais importante é o respeito à diversidade cultural e aos diferentes valores que</p><p>cada cultura apresenta. Dentro desta perspectiva, a ação do antropólogo e a aplicação</p><p>de seu saber deve conduzir-se pelo reconhecimento da autonomia dos grupos humanos</p><p>e o direito destes à autodeterminação.</p><p>Todos os povos têm de ter reconhecido e garantido o direito de produzirem</p><p>sua própria cultura, tê-la para si e mudá-la a partir de sua própria dinâmica e lógica</p><p>interna. Os membros das diferentes culturas têm o direito de ter suas crenças, hábitos,</p><p>costumes e ideologias próprios, que lhes conferem suas identidades.</p><p>A partir desta perspectiva os conhecimentos antropológicos podem e devem</p><p>ser aplicados de maneira prática, visando o bem-estar das populações. Desta forma, a</p><p>Antropologia aplicada teria os seguintes papéis (MARCONI; PRESOTTO, 2001):</p><p>a) Contribuir para a solução de problemas causados em função da diversidade cultural,</p><p>minimizando conflitos resultantes de desequilíbrios e tensões que se originam nas</p><p>diferenças culturais, procurando garantir o respeito às especificidades culturais.</p><p>b) Colocar o conhecimento antropológico a serviço da solução de problemas de fundo</p><p>social, político e econômico dos diferentes povos.</p><p>FIGURA 7 – REPRESENTAÇÃO DA DIVERSIDADE CULTURAL DO BRASIL POR REGIÕES</p><p>FONTE: Disponível em: <http://www.infojovem.org.br/wp-content/uploads/2009/06/Diversidade-</p><p>Brasileira1.bmp>. Acesso em: 10 abr. 2015.</p><p>11</p><p>Efetivamente a Antropologia tem contribuído para a solução de problemas e</p><p>desafios colocados pelo colonialismo, advogando pelos direitos dos povos nativos e</p><p>zelando pela preservação cultural destas populações.</p><p>O conhecimento antropológico tem ajudado na implantação de projetos de</p><p>desenvolvimento em diversas áreas (colonização de terras, reforma agrária, fortalecimento</p><p>comunitário e da economia local etc.) e ainda na promoção da coexistência pacífica em</p><p>nações multiculturais e na garantia de territórios de povos indígenas e quilombolas.</p><p>A Antropologia igualmente tem dado sua contribuição às sociedades complexas</p><p>e industrializadas, não só ajudando-as a conviver de maneira justa e equânime com</p><p>outros povos, mas também procurando apresentar soluções à crise colocada pelas</p><p>relações sociais próprias das nações capitalistas.</p><p>FIGURA 8 – VISTA AÉREA DA COMUNIDADE DA ROCINHA, UMA DAS MAIORES FAVELAS DA</p><p>AMÉRICA LATINA, TENDO AO FUNDO O BAIRRO DE SÃO CONRADO, DE ALTO PODER AQUISITIVO</p><p>FONTE: Disponível em: <http://static.todamateria.com.br/upload/54/21/5421c7a093384-</p><p>desigualdade-social-no-brasil.jpg>. Acesso em: 10 abr. 2015.</p><p>Prezado acadêmico, a esta altura de nosso Caderno de Estudos nós esperamos</p><p>que você já seja capaz de definir, a partir do que expusemos, o que seja Antropologia.</p><p>Vejamos agora, em nosso próximo tópico, as etapas do fazer antropológico e as principais</p><p>áreas deste saber.</p><p>12</p><p>• Neste Tópico nós vimos o escopo da Antropologia, no que consiste e do que se</p><p>ocupa, caracterizando-a enquanto um discurso racional e sistemático acerca de</p><p>nós mesmos, na nossa especificidade enquanto seres vivos.</p><p>• Também contemplamos a Antropologia sob a ótica científica, localizando-a neste</p><p>campo do conhecimento e caracterizando-a enquanto Ciência Humana, na área</p><p>das Ciências Sociais.</p><p>• Igualmente nos ocupamos em especificar as atividades desenvolvidas pelos</p><p>antropólogos, explanando a utilidade prática do conhecimento antropológico e</p><p>como vem sendo empregado em nosso país.</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>13</p><p>RESUMO DO TÓPICO 1</p><p>Responda às seguintes perguntas:</p><p>1 O que é Antropologia?</p><p>2 O que foi preciso superar, e quando isto se deu, para que a Antropologia tivesse gênese?</p><p>3 Como a Antropologia se coloca enquanto Ciência Social?</p><p>4 Cite uma das aplicações práticas do conhecimento antropológico.</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>14</p><p>15</p><p>ETNOGRAFIA, ETNOLOGIA,</p><p>ANTROPOLOGIA CULTURAL E</p><p>ANTROPOLOGIA SOCIAL</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>UNIDADE 1 TÓPICO 2 -</p><p>Prezado acadêmico, neste segundo tópico de nosso Caderno de Estudos</p><p>veremos as diferentes etapas do fazer antropológico, a saber, a etnografia e a etnologia, e</p><p>os dois principais campos da Antropologia, ou seja, aqueles que investigam os domínios</p><p>cultural e social de nossa espécie.</p><p>Aqui cabe um esclarecimento: a exemplo de Lévi-Strauss</p><p>Aurélio. Estrutura Social: Radcliffe-Brown. Antropologia I. Universidade</p><p>Estadual do Ceará, 2012. Disponível em: <http://antropologiauecegrupo1.blogspot.com.</p><p>br/2012/05/estrutura-social-radcliffe-brown.html>. Acesso em: 20 ago.2015.</p><p>CHAMPLIN, RUSSEL N. Enciclopédia de bíblia de teologia e filosofia. 6.ed. v.5, São</p><p>Paulo: Hagnos, 2002.</p><p>CHAMPLIN, Russel N. Enciclopédia de bíblia, teologia e filosofia. 7. ed. São Paulo:</p><p>Hagnos, 2004.</p><p>DIAS, Renato H. G. Sincretismo religioso e suas origens no Brasil. Disponível em:</p><p><https://estudodaumbanda.wordpress.com/2009/02/20/4-sncretismo-religioso-e-</p><p>suas-origens-no-brasil-parte-1/>. Acesso em: 17 out. 2015.</p><p>ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992. Disponível</p><p>em: <http://gepai.yolasite.com/resources/O%20Sagrado%20E%20O%20Profano%20</p><p>-%20Mircea%20Eliade.pdf>. Acesso em: 10 set. 2015.</p><p>ERIKSEN, Thomas Hylland & NIELSEN, Finn Sivert. História da Antropologia.</p><p>Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.</p><p>ESPINA BARRIO, Angel-B. Manual de antropologia cultural. Recife: Editora</p><p>Massangana, 2005.</p><p>GOMES, Mércio P. Antropologia: ciência do homem, filosofia da cultura. 2. ed. São</p><p>Paulo: Contexto, 2013.</p><p>HIEBERT, Paul G. O evangelho e a diversidade das culturas: um guia de</p><p>antropologia missionária. São Paulo: Vida Nova, 2005.</p><p>HOEBEL, E. Adamson & FROST, Everest L. Antropologia cultural e social. São Paulo:</p><p>Cultrix, 2006.</p><p>LARAIA, R.B. Cultura, um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.</p><p>192</p><p>MALINOWSKI, Bronislaw. A arte da magia e o poder da fé. In: ______. Magia, ciência</p><p>e religião. Lisboa: Edições 70, 1984.</p><p>MARCONI, Marina de Andrade & PRESOTTO, Zelia Maria Neves. Antropologia: uma</p><p>introdução. São Paulo: Atlas, 2001.</p><p>MELLO, Luís Gonzaga de. Antropologia cultural: iniciação, teorias e temas.</p><p>Petrópolis, Vozes, 2015.</p><p>MELLO, Luiz G. Antropologia cultural: iniciação, teoria e temas. 19. ed. Petrópolis:</p><p>Vozes, 2013.</p><p>ROSA, Frederico Delgado. Edward Tylor e a extraordinária evolução religiosa da</p><p>humanidade. Cadernos de Campo. São Paulo, n. 19, Ano 2010.</p><p>SZTUTMAN, Renato. Rituais. Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-</p><p>brasil-atual/modos-de-vida/rituais>. Acesso em: 23 out. 2015.</p><p>SZTUTMAN, Renato. Ritual. Disponível em: <http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-</p><p>brasil-atual/modos-de-vida/rituais>. Acesso em: 11 out. 2015.</p><p>TERRIN, Aldo Natale. Antropologia e horizontes do sagrado: culturas e religiões.</p><p>São Paulo: Paulus, 2004.</p><p>VALLADARES, Lícia. Os dez mandamentos da observação participante. Rev. bras.</p><p>Ci. Soc.[online]. 2007, vol.22, n.63, pp. 153-155. ISSN 0102-6909.</p><p>VILLELA, Fabio R. Spinoza e o panteísmo – Parte IX – Deus e a natureza.</p><p>Disponível em: <http://www.fabiorenatovillela.com/visualizar.php?idt=4920925>.</p><p>Acesso em: 18 out. 2015.</p><p>ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.</p><p>HEIDEGGER, M. Ciência e pensamento do sentido. In: HEIDEGGER, M. Ensaios e</p><p>conferências. Petrópolis: Vozes, 2002.</p><p>JAEGER, W. Paideia: a formação do homem grego. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1994.</p><p>REALE, G.; ANTISERI, D. História da filosofia: antiguidade e Idade Média. 3. ed. São</p><p>Paulo: Paulos, 1990.</p><p>REZENDE, A. Curso de filosofia: para professores dos cursos de segundo grau e de</p><p>graduação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1986.</p><p>RUSSELL, B. História da Filosofia Ocidental. São Paulo: Companhia Editora</p><p>Nacional, 1957.</p><p>VAZ, H. C. de L. Antropologia filosófica I. 4. ed. São Paulo: Loyola, 1991.</p><p>(1967 apud MARCONI;</p><p>PRESOTTO, 2001), consideraremos a etnografia e a etnologia como etapas distintas da</p><p>construção da Antropologia enquanto ciência.</p><p>Dizemos isso por que outros autores (ver GOMES, 2013, p. 63) consideram a etnografia</p><p>e a etnologia como ramos da ciência da cultura, enquanto que alguns antropólogos têm a</p><p>etnografia e a etnologia como métodos procedimentais da disciplina Antropologia.</p><p>2 ETNOGRAFIA</p><p>Afinal, o que seria Etnografia? Vejamos a origem etimológica da palavra para tentar</p><p>entendê-la. Etnografia vem do grego έθνος, ethno - nação, povo e γράφειν, graphein –</p><p>escrever. Literalmente “etnografia” tem o sentido de “escrever sobre os povos” (HOEBEL;</p><p>FROST, 2006, p. 8).</p><p>FIGURA 9 – O ETNÓGRAFO E ANTROPÓLOGO BRASILEIRO ROQUETTE-PINTO EM CAMPO</p><p>FONTE: <http://www.fm94.rj.gov.br/application/assets/img/img_historico_02.jpg>.</p><p>Acesso em: 10 abr. 2015.</p><p>16</p><p>Assim, etnografia seria a maneira pela qual a Antropologia coletaria os dados de</p><p>que lança mão em suas especulações, sendo resultado do contato entre a subjetividade</p><p>do antropólogo e aquela dos membros das culturas que estuda. Podemos, desta</p><p>maneira, afirmar que a etnografia consiste em um “estudo descritivo das sociedades</p><p>humanas” (HOEBEL; FROST, 2006, p. 8-9).</p><p>Aqui cabe destacar que as primeiras etnografias não foram feitas por</p><p>antropólogos, de fato, muito antes da constituição da Antropologia enquanto Ciência</p><p>já tínhamos descrições de outros povos feitas por pensadores de diferentes culturas.</p><p>Em seus primórdios, mesmo a Antropologia trabalhava com relatos acerca de</p><p>populações nativas feitos por exploradores, missionários, funcionários administrativos,</p><p>viajantes, comerciantes, soldados e demais indivíduos que tiveram contato com povos</p><p>distintos e os descreveram. Somente a partir do final do século XIX que os antropólogos</p><p>passaram a ir a campo e realizarem as descrições dos povos por eles investigados.</p><p>FIGURA 10 – O ANTROPÓLOGO MALINOWSKI RECOLHENDO INFORMAÇÃO ACERCA DOS</p><p>TROBIANDESES ENTRE ESTES</p><p>FONTE: <http://conceito.de/wp-content/uploads/2011/11/etnografia-238x171.jpg>.</p><p>Acesso em: 10 abr. 2015.</p><p>Presentemente grande parte das etnografias são realizadas por antropólogos</p><p>que passaram por treinamento nas diferentes técnicas antropológicas contemporâneas</p><p>de coleta de dados e registro de culturas distintas, técnicas que implicam o convívio</p><p>empático e participativo junto aos povos por eles estudados (HOEBEL; FROST, 2006).</p><p>De fato, uma das grandes “provas iniciáticas” da Antropologia está em realizar</p><p>a etnografia da cultura acerca da qual o antropólogo pretende refletir. Idealmente</p><p>todo antropólogo deveria iniciar sua carreira produzindo uma descrição etnográfica</p><p>de algum povo, cultura, ou grupo social, alvo de suas pesquisas.</p><p>17</p><p>Embora tenha um caráter prático, a etnografia não é livre da influência das</p><p>teorias produzidas em Antropologia, uma vez que toda etnografia é informada por</p><p>certo referencial teórico que lhe dá uma estrutura e enfoque próprio, muito embora</p><p>as descrições etnográficas não se ocupem de problemas teóricos, nem formulem</p><p>hipóteses ou teses acerca dos fenômenos sociais e culturais que descreve.</p><p>FIGURA 11 – O ETNÓGRAFO DE ORIGEM ALEMÃ CURT NIMUENDAJÚ (AO CENTRO DA IMAGEM,</p><p>SENTADO) RECOLHENDO DADOS EM CAMPO</p><p>FONTE: <https://encrypted-tbn3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSiKdqwjr7QXaPzwkTE2-</p><p>4WQRBL0BrX4Xd3fM4TjzV6Q4-eCYD5>. Acesso em: 10 abr. 2015.</p><p>Vemos assim que etnografia originalmente designa a descrição e o estudo de</p><p>uma determinada cultura ou povo, sendo, de preferência, sistemática e abrangente,</p><p>contemplando todos os aspectos, da religião à economia, dos povos que investiga</p><p>(GOMES, 2013), sendo um documento que é a base empírica da legitimação da</p><p>Antropologia enquanto ciência.</p><p>Lévi-Strauss (1967, p. 14 apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 27) diz que a etnografia:</p><p>consiste na observação e análise de grupos humanos considerados</p><p>em sua particularidade (frequentemente escolhidos, por razões</p><p>teóricas e práticas, mas que não se prendem de modo algum à</p><p>natureza da pesquisa, entre aqueles que mais diferem do nosso),</p><p>e visando à reconstituição, tão fiel quanto possível, da vida de cada</p><p>um deles.</p><p>Assim o etnógrafo seria aquele especialista no conhecimento “exaustivo” da</p><p>cultura dos povos que investiga, realizando a observação, descrição, reconstituição</p><p>e análise de diferentes populações nativas, coletando material de forma abrangente</p><p>acerca de todos os aspectos culturais possíveis de serem observados e descritos por ele</p><p>para a compreensão dos povos pesquisados (MARCONI; PRESOTTO, 2001).</p><p>18</p><p>FIGURA 12 – O ANTROPÓLOGO FRANCÊS LÉVI-STRAUSS FAZENDO ETNOGRAFIA ENTRE OS</p><p>NAMBIKWARA, GRUPO INDÍGENA BRASILEIRO DO MATO GROSSO E RONDÔNIA</p><p>FONTE: <http://www.cella.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/11/claudep.jpg>.</p><p>Acesso em: 10 abr. 2015.</p><p>3 ETNOLOGIA</p><p>Prezado acadêmico, agora você já deve estar ciente de que a etnografia, isto é, a</p><p>descrição científica de um determinado povo, grupo social ou cultura, é a primeira etapa</p><p>do fazer antropológico. Mas qual seria a etapa seguinte? Esta, querido(a) estudante,</p><p>seria a Etnologia. Mas o que ela vem a ser?</p><p>FIGURA 13 – CAPAS DE ALGUNS DOS PRIMEIROS ESTUDOS EM ETNOLOGIA PRODUZIDOS NO BRASIL</p><p>FONTE: Capa 1: <http://twixar.me/FWhm>. Acesso em 10 abr. 2015.</p><p>Capa 2: <http://twixar.me/LWhm>. Acesso em: 10 abr. 2015.</p><p>Capa 3: <http://twixar.me/WWhm>. Acesso em: 10 abr. 2015.</p><p>19</p><p>Dentro do ponto de vista que adotamos aqui podemos dizer que a etnologia é</p><p>a etapa seguinte da edificação do saber antropológico, após o levantamento de dados</p><p>e informações feitas na fase da etnografia. Seria, assim, a etnologia a reflexão, ou</p><p>estudo baseado nos fatos documentados no registro de uma cultura, tendo em vista</p><p>a apreciação analítica e sua comparação com dados semelhantes de outras culturas.</p><p>Etnologia define-se também por seu método próprio, denominado por Espina</p><p>Barrio (2005, p. 37) como “método comparativo transcultural”, tendo por base os dados</p><p>empíricos levantados na etnografia, comparam-se as informações particulares de cada</p><p>povo com o intuito de inferir algo a respeito da humanidade.</p><p>Trata-se de, a partir de estudos aprofundados em uma determinada população</p><p>humana, de caráter empírico, revelar algo da humanidade em geral, pela comparação</p><p>entre os diferentes povos, remetendo então ao campo da teoria acerca do ser humano.</p><p>Espina Barrio (2005, p. 21) chama a atenção para o fato de a etnologia ir além</p><p>das descrições das diferentes culturas, feitas pela etnografia, com o intuito de, pela</p><p>comparação entre as diversas etnografias, “analisar as constantes variáveis que se</p><p>dão entre as sociedades humanas, e estabelecer generalizações e reconstruções da</p><p>história cultural”.</p><p>Etnologia, desta forma, apresenta-se como o estudo dos diferentes povos, como</p><p>a palavra, de origem grega, revela: éthnos, povo; logos, estudo. Mas, como já dissemos em</p><p>relação à etnografia, foi somente a partir do Iluminismo que se estabeleceu um estudo</p><p>de cunho verdadeiramente científico da humanidade, a partir da comparação entre os</p><p>povos. Embora já na antiguidade clássica alguns autores comparassem os costumes</p><p>das diferentes populações humanas de seu tempo, somente com a ideia de unidade da</p><p>espécie humana constitui-se a ciência da Antropologia.</p><p>De fato, a primeiro emprego moderno do termo etnologia é do final do século</p><p>XVIII, o chamado século das luzes, e foi de Kóllar, jurista e etnólogo na corte do império</p><p>Austro-Húngaro. Este autor definia etnologia como: "a ciência das nações e povos, ou,</p><p>o estudo dos eruditos no qual investigam nas origens, línguas, costumes e instituições</p><p>das várias nações, e finalmente, na pátria e antigas sedes para poder julgar melhor as</p><p>nações e povos de seus próprios tempos". (FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.</p><p>org/wiki/Etnologia>. Acesso em: 14 abr. 2015).</p><p>Definição que deixa claro as bases científicas da prática etnológica, fundada</p><p>em</p><p>dados empíricos, na comparação e na concepção de uma humanidade única.</p><p>Na figura abaixo, o autor Adam František Kollár de Keresztén.</p><p>20</p><p>FIGURA 14 – KÓLLAR AUTOR QUE CUNHOU E DEFINIU O TERMO “ETNOLOGIA”</p><p>FONTE: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/9/93/AFKollar_1779.jpg/220px-</p><p>AFKollar_1779.jpg>. Acesso em: 14 abr. 2015.</p><p>Enquanto etapa do fazer antropológico, a etnologia insere-se no campo da</p><p>ciência da cultura, consistindo em, a partir de dados coletados e registrados em uma</p><p>etnografia, comparar as informações concernentes a diversas culturas e analisá-los e</p><p>interpretá-los, tendo em vista as semelhanças e diferenças apresentadas, na tentativa</p><p>de compreender o ser humano em suas inter-relações e relações com o meio ambiente.</p><p>Procura igualmente o etnólogo ver e analisar o ser humano, tanto enquanto indivíduo,</p><p>quanto como membro de uma determinada sociedade ou cultura, ao mesmo tempo em</p><p>que tenta revelar como operam e se modificam. (MARCONI; PRESOTTO, 2001).</p><p>Para Gomes (2013) a etnologia teria um estatuto científico superior à</p><p>etnografia, consistindo em um “estudo comparativo de etnografias” estudo este</p><p>que facilitaria a reflexão mais aprofundada dos temas e traços comuns aos povos</p><p>comparados, lançando bases, desta maneira, a produção de teorias mais amplas, de</p><p>caráter antropológico. Este autor vê assim uma hierarquia entre os termos etnografia-</p><p>etnologia-antropologia, que ele diz ser amplamente aceita pelos antropólogos.</p><p>A etnologia, análise científica dos povos, suas culturas e suas trajetórias,</p><p>enquanto tal, ao longo do tempo, supera a preocupação etnográfica buscando, dentro da</p><p>perspectiva da ciência, revelar e compreender as relações que as diferentes populações</p><p>estabelecem com o ambiente, natural e social, onde vivem, bem como a relação dos</p><p>seres humanos com os grupos dos quais fazem parte e das culturas entre si e suas</p><p>diferenças (HOEBEL; FROST, 2006).</p><p>As diferenças culturais e a unidade da espécie humana.</p><p>21</p><p>FIGURA 15 – REPRESENTAÇÃO DA DIVERSIDADE CULTURAL E APELO À CONSCIENTIZAÇÃO DA</p><p>UNIDADE DA HUMANIDADE</p><p>FONTE: <http://www.numeroreal.com.br/cerp/wp-content/uploads/2014/08/mafalda.jpg>.</p><p>Acesso em: 14 abr. 2015.</p><p>Esperamos ter deixado claro a você, Prezado acadêmico, o que é etnologia.</p><p>A partir de agora veremos dois dos campos principais da Antropologia, dois enfoques</p><p>distintos desta ciência, que representam duas tradições diferentes da mesma, a saber:</p><p>a Antropologia Cultural e a Antropologia Social.</p><p>4 ANTROPOLOGIA CULTURAL</p><p>A princípio, dentro da tradição norte-americana, a Antropologia divide-se em</p><p>quatro grandes áreas de investigação, a saber:</p><p>a) A Antropologia Física ou Biológica, que estuda o ser humano em suas características</p><p>biológicas, procurando determinar a origem e evolução de nossa espécie (a partir</p><p>do achado de fósseis de hominídeos e pré-hominídeos), sua anatomia, fisiologia e</p><p>características fenológicas, tanto em populações humanas atuais, quanto nas antigas.</p><p>FIGURA 16 – ANTROPÓLOGO FÍSICO EXAMINA RESTOS DE OSSADAS HUMANAS NA ESPANHA</p><p>FONTE: <http://twixar.me/JZhm>. Acesso em: 14 abr. 2015.</p><p>22</p><p>b) A Arqueologia, que investiga a evolução das sociedades humanas ao longo da</p><p>história, focando exclusivamente naquelas extintas e sem escrita, e tendo por</p><p>base os vestígios arqueológicos, isto é, os objetos, utensílios, pinturas, restos de</p><p>habitações e demais sinais da ocupação humana de um determinado local, revelados</p><p>por escavações sistemáticas e de acordo com a metodologia desta ciência, tentando</p><p>reconstruir nosso passado.</p><p>FIGURA 17 – ARQUEÓLOGOS ESCAVANDO ANTIGO SÍTIO DE OCUPAÇÃO HUMANA</p><p>FONTE: <http://www.abrhestagios.com.br/img/noticia/0959415001411151811arqueologia-a.jpg>.</p><p>Acesso em: 22 maio 2015.</p><p>c) A Linguística, que se ocupa das línguas humanas, no que diz respeito à sua estrutura</p><p>interna, suas conexões, história, dinâmica de mudança e, notadamente, o significado</p><p>que estas conferem à cultura e à expressão do ser humano em uma dada sociedade,</p><p>dentro da perspectiva que é a língua o meio privilegiado pelo qual nossa espécie</p><p>apreende o mundo e lhe dá sentido.</p><p>FIGURA 18 – CHARGE DEMONSTRANDO A VARIEDADE LINGUÍSTICA E CULTURAL BRASILEIRA</p><p>FONTE: Disponível em: <https://encrypted-tbn0.gstatic.com/</p><p>images?q=tbn:ANd9GcSXDNEDRYWWPBQ52l8_B6280yzRR0lB5DMM74epL-HyISz-XcyRBg>.</p><p>Acesso em: 14 abr. 2015.</p><p>d) Por fim a Antropologia Cultural, na qual nos aprofundaremos a seguir.</p><p>23</p><p>É possível, Prezado acadêmico, que você tenha visto em outros livros de</p><p>Antropologia uma divisão diferente da que aqui apresentamos. Isto é natural, uma vez</p><p>que estas divisões refletem visões e tradições diferentes da disciplina. Nenhuma está</p><p>mais correta que a outra, mas todas ajudam a sistematizar o campo e ilustrar o imenso</p><p>escopo da Antropologia, que, como você já deve ter percebido, procura dar conta da</p><p>totalidade da experiência humana.</p><p>A Antropologia Cultural igualmente pode ser definida de diversas maneiras e,</p><p>conforme a tradição na qual se insere o autor que dela trata, pode abarcar diferentes</p><p>aspectos da realidade que procura elucidar.</p><p>Espina Barrio (2005, p. 19) define Antropologia Cultural como “... o estudo e</p><p>descrição dos comportamentos aprendidos que caracterizam os diferentes grupos</p><p>humanos”. Este autor prossegue informando que o ofício do antropólogo cultural</p><p>consiste em investigar os feitos e obras materiais e sociais criados por nossa espécie</p><p>ao longo de sua história e que nos possibilitou nos relacionarmos entre nós nas</p><p>diversas sociedades e a se apropriar e transformar o meio ambiente de maneira a</p><p>garantir nossa sobrevivência.</p><p>Para Marconi e Presotto (2001) a Antropologia Cultural apresentaria o maior</p><p>e mais abrangente campo da ciência antropológica. Comportaria, na visão das</p><p>autoras, o estudo do ser humano enquanto ser cultural, isto é, produtor de cultura.</p><p>O antropólogo cultural investigaria as diferentes culturas humanas, ao longo</p><p>do tempo e em todo o espaço ocupado por nossa espécie, levantando a origem e</p><p>desenvolvimento destas, suas semelhanças e diferenças. Seu interesse primordial está</p><p>em conhecer o comportamento humano em sua dimensão cultural, ou seja, as formas</p><p>pelas quais nós agimos em função da cultura da qual fazemos parte.</p><p>Este aspecto da pesquisa das maneiras pelas quais se apresenta o</p><p>comportamento humano também é destacado por Hoebel e Frost (2006, p. 7) em relação</p><p>à Antropologia Cultural: “... trata das características do comportamento civilizado nas</p><p>sociedades humanas passadas, presentes e futuras.”</p><p>NOTA</p><p>Mais adiante nos deteremos mais aprofundadamente no conceito de cultura</p><p>dentro da perspectiva antropológica.</p><p>24</p><p>Podemos ver que a Antropologia Cultural foca preferencialmente na pesquisa</p><p>acerca do desenvolvimento das sociedades humanas no mundo, ao longo de</p><p>toda sua história. Ela investiga os comportamentos apresentados pelos diferentes</p><p>grupos humanos, pesquisando, entre outros temas, os costumes, hábitos, práticas</p><p>e convenções de origens sociais e culturais, o surgimento e desenvolvimento das</p><p>diferentes instituições que apresentamos, como a família, a religião e outros, bem como</p><p>a evolução das diferentes técnicas que nossa espécie desenvolveu para lidar com o</p><p>mundo natural e prover nossas necessidades.</p><p>A cultura determina nosso comportamento.</p><p>FIGURA 19 – MULHERES GANESAS PARTICIPANDO DE RITO DE SUA CULTURA</p><p>FONTE: <http://cdn5.yorokobu.es/wp-content/uploads/1ghana.jpeg>. Acesso em: 17 abr. 2015.</p><p>De uma maneira geral a Antropologia Cultural está mais ligada à tradição norte-</p><p>americana da ciência antropológica. Mais adiante neste caderno iremos ver como a</p><p>gênese e o desenvolvimento da Antropologia nos E. U. A. ficou marcada pelo conceito</p><p>de cultura, cujo papel fundamental na reflexão antropológica norte-americana pode ser</p><p>visto ao longo da história da antropologia neste país nas diversas escolas da disciplina</p><p>que lá floresceram.</p><p>Na imagem a seguir, Franz Boas, fundador da Antropologia norte-americana.</p><p>25</p><p>FIGURA 20 – O ANTROPÓLOGO FRANZ BOAS DEMONSTRA UM RITO DO POVO QUE ESTUDOU</p><p>FONTE: <https://encrypted-tbn1.gstatic.com/</p><p>images?q=tbn:ANd9GcT21zYLNgQ0v0_3K9eGBUwOpwmXm_11gZv_tN-65bv9JsopZ2PH>.</p><p>Acesso em: 18 abr. 2015</p><p>Já a Antropologia Social está indelevelmente ligada à tradição britânica da</p><p>Antropologia, mas no que consiste esta última?</p><p>5 ANTROPOLOGIA SOCIAL</p><p>Para Espina Barrio (2005) a Antropologia Social se ocuparia de problemas</p><p>relativos à estrutura social, a saber: aqueles referentes às relações que os membros</p><p>de uma determinada sociedade estabelecem entre si, e com os de fora, e as diferentes</p><p>instituições sociais humanas, como a família, o parentesco, os diferentes grupos sociais</p><p>de caráter político e semelhantes, que determinam a forma e o conteúdo destas relações.</p><p>Marconi e Presotto (2001) chamam a atenção para o fato de a Antropologia</p><p>Social focar seus estudos naqueles processos culturais e da estrutura social manifestos</p><p>na sociedade e nas instituições sociais.</p><p>Segundo estas autoras o ofício do antropólogo social centra-se na análise das</p><p>diferenças e semelhanças observáveis entre os diversos grupos humanos, no que tange</p><p>às maneiras pelas quais estes inculcam, regulam e normatizam as relações sociais que</p><p>os indivíduos estabelecem entre si, enquanto membros de uma dada sociedade.</p><p>Neste sentido a Antropologia Social privilegia aqueles aspectos da vida social</p><p>que são relativos à família e ao parentesco e ainda ao domínio do econômico, do político,</p><p>do religioso e do jurídico, entendendo-os enquanto partes de um todo articulado que os</p><p>determina, a saber: a sociedade.</p><p>26</p><p>Desta forma (MAIR, 1972 apud MARCONI; PRESOTTO, 2001), caberia ao</p><p>antropólogo social fazer a observação das relações sociais entre os membros de uma</p><p>sociedade, em sua totalidade. Observando e estudando a sociedade como um todo,</p><p>a partir de suas diferentes instituições, o antropólogo social seria capaz de chegar a</p><p>determinar a estrutura e organização de dada sociedade.</p><p>Para Hoebel e Frost (2006) a principal característica da Antropologia Social</p><p>está em seu enfoque sincrônico e sua recusa à diacronia, isto é, a Antropologia Social</p><p>não se preocupa com a reconstituição histórica das instituições que observa em uma</p><p>dada sociedade, mas antes privilegia a comparação com outras observáveis em outras</p><p>sociedades. Para estes autores os antropólogos sociais são especialistas nas relações</p><p>sociais manifestas na família e no parentesco, bem como nos diferentes grupos</p><p>etários, na organização política e jurídica e nas atividades econômicas, aquilo que eles</p><p>denominam como estrutura social.</p><p>Religião, uma instituição social que estrutura a sociedade.</p><p>FIGURA 21 – RITO RELIGIOSO DOS INDÍGENAS DO NOROESTE AMAZÔNICO</p><p>FONTE: <http://img.socioambiental.org/d/260823-1/noroeste_43.jpg>. Acesso em: 18 abr. 2015.</p><p>Prezado acadêmico, esperamos que você já seja capaz de diferenciar a</p><p>Antropologia Cultural da Antropologia Social. Já deu para perceber que uma privilegia</p><p>a cultura e a outra a sociedade em seus estudos. Mas isto coloca um problema, pois as</p><p>diferenças entre “social” e “cultural”, como coloca Marconi e Presotto (2001), não seriam</p><p>tão substanciais assim. As diferenças estariam, não tanto no conteúdo, mas antes nas</p><p>tendências e enfoques teóricos, onde a Antropologia Cultural se vincula à tradição</p><p>norte-americana, enquanto que a Antropologia Social à britânica da Antropologia.</p><p>Para Espina Barrio (2005) enquanto que a Antropologia norte-americana foi mais</p><p>influenciada pelo conceito de cultura, na Antropologia britânica teve mais peso o conceito de</p><p>sociedade. Se os antropólogos norte-americanos estavam mais preocupados com os valores</p><p>dos povos que estudavam, seus colegas britânicos privilegiavam as “vinculações concretas”,</p><p>isto é, as relações sociais, que os constituíam.</p><p>Radcliffe-Brown, antropólogo britânico seminal que influenciou todas as</p><p>gerações seguintes de antropólogos na Grã-Bretanha.</p><p>27</p><p>FIGURA 22 – CHARGE DE RADCLIFFE-BROWN OBSERVANDO NATIVOS AFRICANOS</p><p>FONTE: <http://www.visindavefur.is/myndir/radcliffe_brown2_210203.jpg>. Acesso em: 18 abr. 2015.</p><p>Prezado acadêmico, esperamos que esta leitura do segundo tópico de</p><p>nosso Caderno de Estudos tenha-lhe sido proveitosa, proporcionando-lhe aquele</p><p>conhecimento básico que o(a) guiará daqui para frente na busca do conhecimento</p><p>antropológico e despertando sua curiosidade.</p><p>Chegou a hora de nos aprofundarmos na investigação daqueles conceitos</p><p>fundamentais da disciplina que orientam o olhar e o interesse, a saber: os conceitos de cultura,</p><p>etnocentrismo e relativismo cultural, que faremos em nosso próximo tópico.</p><p>FIGURA 23 – CHARGE REPRESENTANDO AS DIFERENTES RELIGIÕES PRESENTES EM NOSSO PAÍS</p><p>E O ARTIGO DA CONSTITUIÇÃO QUE GARANTE A LIBERDADE RELIGIOSA NO BRASIL</p><p>FONTE: <http://tocantinsembrasilia.com.br/wp-content/uploads/2014/01/diversidade-religiosa-740x600.jpg>.</p><p>Acesso em: 18 abr. 2015.</p><p>28</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>• Neste tópico vimos o que é etnografia, caracterizando-a enquanto registro total e</p><p>pormenorizado de um determinado povo, procurando descrever todos os aspectos</p><p>da vida social e da sua cultura.</p><p>• Também contemplamos neste tópico o que é etnologia, definindo-a enquanto estudo</p><p>comparativo dos diferentes povos, a partir das etnografias disponíveis, procurando</p><p>destacar as semelhanças e diferenças, de maneira a esclarecer a especificidade da</p><p>experiência humana no mundo.</p><p>• Igualmente nos ocupamos em discorrer acerca da Antropologia Cultural e da</p><p>Antropologia Social, associando a primeira aos estudos acerca das diferentes</p><p>culturas, em suas expressões próprias e em sua influência nos diferentes domínios</p><p>da ação e reflexão humanas, e a segunda as investigações que dizem respeito às</p><p>instituições sociais e a estrutura da sociedade, a partir das relações sociais presentes</p><p>nos diversos grupos humanos organizados.</p><p>29</p><p>RESUMO DO TÓPICO 2</p><p>Responda às seguintes perguntas:</p><p>1 Quais são as características que fazem de um relato acerca de um determinado povo</p><p>uma etnografia?</p><p>2 Qual a base sobre a qual se dá a reflexão etnológica e no que consiste?</p><p>3 Qual o foco privilegiado do olhar do antropólogo cultural?</p><p>4 O que procura determinar a Antropologia Social e a partir do que ela constrói sua reflexão?</p><p>AUTOATIVIDADE</p><p>30</p><p>31</p><p>TÓPICO 3 -</p><p>CULTURA, ETNOCENTRISMO E</p><p>RELATIVISMO CULTURAL</p><p>1 INTRODUÇÃO</p><p>UNIDADE 1</p><p>Prezado acadêmico, já falamos anteriormente em cultura aqui neste Caderno</p><p>de Estudos, você certamente já ouviu esta palavra e deve ter uma ideia do que seria isto.</p><p>Mas será que o conceito antropológico de cultura corresponde ao que o senso comum</p><p>diz a respeito dela?</p><p>Todos nós já ouvimos falar de alguém que este seria “culto”, ou que determinada</p><p>pessoa não teria nenhuma cultura, ou ainda que a população de um determinado bairro</p><p>não tem acesso à cultura.</p><p>Será que o uso desta palavra nestes casos tem alguma correspondência com a</p><p>aplicação que o antropólogo faz dela?</p><p>FIGURA 24 – O SENSO COMUM TENDE A CONFUNDIR CULTURA COM AS MANIFESTAÇÕES</p><p>ARTÍSTICAS, QUE, PARA O ANTROPÓLOGO, SERIAM APENAS EXPRESSÕES DESTA</p><p>FONTE: <http://chrisgar.com.br/blog/wp-content/uploads/2014/10/mais-cultura-logo.jpg>.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2015.</p><p>Bom, será disto que trataremos aqui neste tópico, procurando esclarecer a você,</p><p>nosso atento e curioso acadêmico, no que consiste a Cultura, de acordo com o emprego</p><p>científico deste léxico sob o ponto de vista da Antropologia.</p><p>Assim nós conceituaremos a palavra cultura de acordo com a visão antropológica,</p><p>caracterizando e vendo o alcance deste conceito para a compreensão do ser humano</p><p>sob a ótica desta ciência.</p><p>32</p><p>Igualmente trabalharemos outros conceitos correlatos que ajudam e</p><p>complementam o entendimento do que seja cultura para a Antropologia e que a</p><p>distinguem em sua compreensão própria do ser humano.</p><p>Dentro desta perspectiva analisaremos no que consiste o etnocentrismo, uma</p><p>característica universal</p><p>de nossa espécie, e como a Antropologia desenvolveu, e com</p><p>que fim emprega, o conceito de relativismo cultural.</p><p>Desta forma nós travaremos contato com o campo semântico relacionado ao</p><p>conceito antropológico de cultura e o alcance teórico que tem para a disciplina, bem</p><p>como as limitações que ele lhe impôs ao longo de sua história.</p><p>2 CULTURA</p><p>Se nós antropólogos tivéssemos que nomear aquele que seria nosso “conceito</p><p>básico e central”, conforme afirmou Leslie A. White (In: KAHN, 1975, p. 129 apud MARCONI;</p><p>PRESOTTO, 2001, p. 42), este seria, sem dúvida alguma, o conceito de cultura.</p><p>Como já mencionamos anteriormente, o senso comum difere da visão científica</p><p>da Antropologia em sua compreensão do que seja cultura. De um modo geral as pessoas</p><p>tendem a identificar cultura com o domínio do conhecimento acerca dos diferentes</p><p>campos artístico e intelectual que se adquire pela instrução, desta forma alguém pode</p><p>ser “culto” ou “inculto” na visão popular.</p><p>Isto é algo que não se coaduna com a visão antropológica, que não emprega o</p><p>termo com este sentido e nem faz juízo de valor em relação às diferentes culturas. Para</p><p>a Antropologia todo o povo possui cultura, nenhuma cultura é qualitativamente superior</p><p>à outra, nem pode alguém ser destituído de cultura. De fato, é a cultura que nos faz</p><p>humanos, sendo ela uma característica distintiva de nossa espécie.</p><p>No sentido antropológico, cultura (ver MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 42) tem</p><p>um significado mais amplo, designando o termo as maneiras pelas quais as pessoas</p><p>orientam seu comportamento e suas crenças e que são aprendidos e transmitidos</p><p>através da vida social no seio de um determinado grupo humano ou sociedade.</p><p>Ora, você, querido acadêmico, já deve, pelo exposto, ter intuído a importância</p><p>que o conceito antropológico de cultura tem para a Antropologia e que, portanto, se</p><p>desenvolveu junto com ela.</p><p>De fato, isto se deu, ao longo de sua história a Antropologia vem elaborando e</p><p>reelaborando o conceito de cultura, a partir das diferentes perspectivas teóricas que a</p><p>disciplina desenvolveu para a compreensão do fenômeno humano.</p><p>33</p><p>O relativamente longo período em que a Antropologia floresceu e se desenvolveu</p><p>a possibilitou refinar, aprimorar e adaptar o conceito de cultura às necessidades</p><p>explicativas da disciplina, conforme as teorias que nasceram neste campo de reflexão e</p><p>aos problemas relativos ao ser humano sobre os quais ela se deteve.</p><p>Então, conforme o período histórico e a orientação teórica do antropólogo, o</p><p>conceito de cultura adquire diferentes feições, sem deixar, entretanto, sua centralidade</p><p>e certas características que acompanham sua evolução.</p><p>De uma maneira geral têm os antropólogos compreendido cultura enquanto</p><p>comportamento adquirido, enquanto abstração do comportamento, enquanto ideias,</p><p>enquanto objetos imateriais, materiais ou ambos (MARCONI; PRESOTTO, 2001).</p><p>Inicialmente a definição de cultura foi aquela dada pelo antropólogo britânico</p><p>Edward B. Tylor, que assim se referia: “Cultura... é aquele todo complexo que inclui o</p><p>conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos</p><p>e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade.”</p><p>FIGURA 25 – O ANTROPÓLOGO EDWARD B. TYLOR, O PRIMEIRO A CONCEITUAR DE MANEIRA</p><p>CIENTÍFICA CULTURA</p><p>FONTE: <https://encrypted-tbn1.gstatic.com/</p><p>images?q=tbn:ANd9GcQirq3YE0KRRgeYBfY4Ezu0o264iDh34j5gRy02S2IFFfPPZUIu8A>.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2015.</p><p>Seguindo Marconi e Presotto (2001) daremos aqui algumas definições de cultura</p><p>aventadas por diferentes antropólogos ao longo da história da Antropologia que servem</p><p>para ilustrar as mudanças que houve neste conceito e os diferentes vieses teóricos que</p><p>orientavam os pesquisadores.</p><p>34</p><p>FIGURA 26 – O ANTROPÓLOGO AMERICANO RALPH LINTON</p><p>FONTE: <http://d.gr-assets.com/authors/1358767843p5/69487.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2015.</p><p>Segundo Franz Boas (apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 43), cultura seria “a</p><p>totalidade das reações e atividades mentais e físicas que caracterizam o comportamento</p><p>dos indivíduos que compõem um grupo social”.</p><p>FIGURA 27 – O ANTROPÓLOGO DE ORIGEM ALEMÃ FRANZ BOAS EM CAMPO ENTRE OS INUIT,</p><p>VESTINDO ROUPA TÍPICA DESTE POVO</p><p>FONTE: <http://www.newstalk.com/content/000/images/000035/37889_60_news_hub_</p><p>multi_630x0.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2015.</p><p>Para Ralph Linton (apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 43) a cultura consistiria “...</p><p>na soma total de ideias, reações emocionais condicionadas a padrões de comportamento</p><p>habitual que seus membros adquirem por meio da instrução ou imitação e de que todos,</p><p>em maior ou menor grau, participam”. Desta forma, em um sentido geral, para este autor</p><p>a cultura representa “a herança social total da humanidade”.</p><p>35</p><p>De acordo com Malinowski (apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 43) poderíamos</p><p>conceituar cultura como “o todo global consistente de implementos e bens de consumo,</p><p>de cartas constitucionais para os vários agrupamentos sociais, de ideias e ofícios</p><p>humanos, de crenças e costumes”.</p><p>FIGURA 28 – O ANTROPÓLOGO DE ORIGEM POLONESA MALINOWSKI ENTRE OS</p><p>NATIVOS TROBIANDESES</p><p>FONTE: Disponível em: <http://www.tribalartbrokers.net/praisetribal/wp-content/</p><p>uploads/2013/05/804d19d75d6d31dca3c3f25430623a68.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2015.</p><p>Na visão de Kroeber e Kluckhohn (apud MARCONI; PRESOTTO, 2001, p. 43)</p><p>cultura se considera como “uma abstração do comportamento concreto, mas em si</p><p>própria não é comportamento”.</p><p>FIGURA 29 – O ANTROPÓLOGO AMERICANO KROEBER, À ESQUERDA DA FOTO, COM UM DE</p><p>SEUS PRINCIPAIS INFORMANTES, O INDÍGENA ISHI</p><p>FONTE: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/4/47/Ishi.jpg/250px-Ishi.jpg>.</p><p>Acesso em: 24 abr. 2015.</p><p>36</p><p>Definida por Leslie White cultura seria “quando coisas e acontecimentos</p><p>dependentes de simbolização são considerados e interpretados num contexto</p><p>extrassomático, isto é, face a relação que têm entre si, ao invés de com organismos</p><p>humanos”.</p><p>FIGURA 30 – O ANTROPÓLOGO NORTE-AMERICANO LESLIE WHITE</p><p>FONTE: <http://www.nndb.com/people/327/000099030/leslie-a-white-1.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2015.</p><p>Uma definição mais recente seria aquela proposta por Clifford Geertz, onde</p><p>“cultura deve ser vista como um conjunto de mecanismos de controle – planos, receitas,</p><p>regras, instituições – para governar o comportamento”.</p><p>FIGURA 31 – O ANTROPÓLOGO ESTADUNIDENSE CLIFFORD GEERTZ</p><p>FONTE: <http://graphics8.nytimes.com/images/2006/11/01/arts/01geertz.jpg>. Acesso em: 24 abr. 2015.</p><p>37</p><p>Podemos ver, através destas definições dadas como exemplo, a variabilidade</p><p>do conceito antropológico de cultura ao longo da evolução da disciplina, variabilidade</p><p>esta que revela as transformações que se deram nos paradigmas da Antropologia e que</p><p>são sintomáticas das diversas escolas teóricas forjadas neste campo de conhecimento.</p><p>Assim cultura é vista ora como ideias, ora como abstrações do comportamento,</p><p>ora como comportamento, ora como algo extra somático, ora como os elementos</p><p>materiais e imateriais do conhecimento humano e ainda como um mecanismo de</p><p>controle do comportamento (MARCONI; PRESOTTO, 2001).</p><p>Desta forma podemos ver que as definições de cultura refletem as diversas</p><p>abordagens da disciplina ao problema colocado pela existência humana. Esta pode ser</p><p>analisada a partir de diferentes enfoques, considerando-se a cultura como o conjunto</p><p>de ideias que apresentamos, relativa, portanto ao domínio do conhecimento e da</p><p>filosofia; as crenças que professamos, ligadas aos sistemas religiosos e as superstições;</p><p>os valores que nos guiam, dizendo respeito ao campo da ideologia e da moral; as normas</p><p>que seguimos, relacionadas aos costumes e as leis; nossas atitudes, reveladoras dos</p><p>nossos preconceitos e postura diante do outro; os padrões de conduta usuais de nossa</p><p>sociedade; a abstração do comportamento, isto é, os símbolos expressivos para nós; as</p><p>instituições sociais, como família e sistema econômico; as técnicas, referente a nossa</p><p>habilidade e arte e por</p>