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<p>SEQUÊNCIA DIDÁTICA</p><p>PROFESSOR(A):</p><p>MARNIZIA SOUZA</p><p>COMPONENTE CURRICULAR:</p><p>Língua Portuguesa</p><p>ANO/SÉRIE:</p><p>8º ano</p><p>TURMAS:</p><p>COORDENADOR(A):</p><p>AULAS PREVISTAS: 08</p><p>PERÍODO DE EXECUÇÃO:</p><p>OBJETIVOS/CAPACIDADES (Competências amplas do Componente)</p><p>Ler, de modo autônomo e voluntário, textos correspondentes aos diversos gêneros previstos para o ano e desenvolver procedimentos adequados de estudo, considerando as especificidades de cada gênero.</p><p>Utilizar, com propriedade, os conheci mentos sobre padrões da escrita sistematizados em situações de análise linguística.</p><p>CONTEÚDOS</p><p>(O que é preciso ensinar explicitamente ou criar condições para que os alunos aprendam e desenvolvam as capacidades que são objetivos)</p><p>HABILIDADES</p><p>OBJETOS DE CONHECIMENTO</p><p>· Valorização e uso da leitura como fonte de aprendizagem e informação, divertimento e sensibilização, identificando o propósito do estudo a ser feito; estabelecendo relações entre informações novas e conhecimentos prévios; articulando índices textuais e contextuais para validação ou reformulação de hipóteses levantadas, antes e ao longo da leitura, quanto ao conteúdo do texto; estabelecendo relação entre acepção da palavra e contexto. *</p><p>· Identificação de múltiplas possibilidades de pontuação: os efeitos de sentido e observação de usos característicos em diferentes gêneros (com ajuda).</p><p>· A importância da leitura, estratégias de leitura e procedimentos de estudo.</p><p>· Efeito de sentido da pontuação.</p><p>DESENVOLVIMENTO DAS ATIVIDADES</p><p>(Descrição de situações de ensino e aprendizagem para desenvolver as habilidades)</p><p>ATIVIDADES ADAPTADAS</p><p>(Descrição de situações de aprendizagens adaptadas para desenvolver as habilidades dos alunos com necessidades educacionais especiais.)</p><p>Descritores</p><p>Língua Portuguesa</p><p>D12 - Identificar a finalidade de textos de diferentes gêneros.</p><p>D3 - Inferir o sentido de uma palavra ou expressão.</p><p>D17 - Reconhecer o efeito de sentido decorrente do uso da pontuação e de outras notações.</p><p>D2 - Estabelecer relações entre partes de um texto, identificando repetições ou substituições que contribuem para a continuidade de um texto.</p><p>D6 - Identificar o tema de um texto.</p><p>D18 - Reconhecer o efeito de sentido decorrente da escolha de uma determinada palavra ou expressão.</p><p>D15 - Estabelecer relações lógico-discursivas presentes no texto, marcadas por conjunções, advérbios, etc.</p><p>Situação de aprendizagem 1: Acolhida “Cápsula do tempo”</p><p>Objetivo: Criar um espaço acolhedor para os alunos expressarem seus sentimentos e expectativas, bem como refletir sobre o futuro, traçando metas e sonhos.</p><p>Material: Papel A4, caneta e garrafa pet.</p><p>Instruções</p><p>· Professor, inicie a dinâmica explicando aos alunos que uma cápsula do tempo é um recipiente utilizado para armazenar objetos ou informações comuns a uma sociedade numa determinada época, para que seu conteúdo seja preservado e acessado por gerações futuras.</p><p>· Em seguida, oriente que os alunos anotem seus desejos e expectativas para esse ano letivo. O que eles querem aprender? O que gostariam de ver nas aulas?</p><p>· Após todos concluírem, coloque tudo na cápsula do tempo e depois guarde em algum lugar seguro. É legal também colocar uma foto divertida da turma dentro da cápsula.</p><p>· No final do ano letivo, o professor leva a cápsula do tempo para a sala de aula e permite que seus alunos reflitam sobre o que aprenderam e se os desejos manifestados no início do ano letivo se tornaram realidade. Também pode-se fazer a mesma imagem da turma. É divertido ver quem mudou em um ano e quem não mudou.</p><p>Situação de aprendizagem 2: Problematização</p><p>Professor, inicie a problematização lançando o questionamento abaixo para que os alunos reflitam e respondam oralmente. Você acredita que a leitura é importante para a sua evolução?</p><p>Espera-se que os alunos respondam que sim.</p><p>Reforce que a leitura representa um enorme passo rumo à aquisição do conhecimento. É através dela que chegamos a uma percepção do mundo e desenvolvemos a capacidade de pensamento, raciocínio e visão crítica. Ler amplia os horizontes e nos desperta para um mundo de palavras e com elas construímos o que gostamos, queremos e sonhamos.</p><p>Entregue a cada aluno uma cópia do card abaixo. Peça que colem em seus cadernos, e em seguida conversem sobre os 10 benefícios da leitura.</p><p>Pergunte aos alunos se eles já sabiam de todos esses benefícios.</p><p>Por fim, mostre a eles que o ato de ler deve ser sobretudo prezeroso, e para provar isso diga a eles que a partir de agora vamos fazer a leitura de alguns textos que certamente irão gostar.</p><p>Questione os alunos sobre que tipo de filmes eles gostam de ver. A expectativa é que alguém fale que goste de filmes de mistério; se ninguém falar, pergunte se alguém se interessa por esse gênero.</p><p>Apresente o gênero textual conto de mistério.</p><p>GÊNERO TEXTUAL CONTO DE MISTÉRIO</p><p>O conto de mistério tem como característica uma história que pode ser sobrenatural ou somente um suspense, com uma situação mal resolvida onde as peças vão se encaixando no decorrer da narrativa, sem tantas pistas para o leitor, atingindo o clímax em que há a explicação da história. Em sua maioria, são repletas de crimes e conflitos. A partir disso, se desenrola por trás dos personagens, com segredos e intrigas. Como resultado, a trama final é revelada aos poucos e o leitor consegue perceber pistas e suspeitos ao longo da trama.</p><p>Situação de aprendizagem 3: Leitura “Conto de mistério”</p><p>Antes da leitura</p><p>Professor projete a cruzadinha abaixo no quadro ou ainda disponibilize cópias para que os alunos preencham os espaços em branco com as palavras que serão solicitadas. Caso opte em projetar a cruzadinha, o professor poderá convidar um aluno por vez para fazer o preenchimento das lacunas, até que todo o quadro de palavras esteja completo. A medida que as lacunas forem sendo preenchidas com as palavras contidas no texto, pergunte ao aluno se ele conhece o significado ou se sabe alguma informação sobre a mesma.</p><p>PALAVRAS: MISTÉRIO, BAFORADAS, CAVERNOSA, SEPULCRAL, TOCAIA, TRIUNFAL, PALETÓ, DOBRADIÇA, ENFUMAÇADA, DISCRETAMENTE.</p><p>Professor, a finalidade desse momento é despertar a atenção do aluno para o texto que será lido, dessa forma, as palavras contidas na cruzadinha foram retiradas do texto. Caso o aluno não conheça o significado de alguma delas, não se preocupe, as dúvidas serão, em parte, esclarecidas quando o aluno tiver o contato direto com o texto.</p><p>Antes do contato com o texto pergunte aos alunos:</p><p>AS PALAVRAS DA CRUZADINHA REMETEM A QUE AMBIENTE/CONTEXTO DE HISTÓRIA? UMA HISTÓRIA MAIS ROMÂNTICA, ENGRAÇADA OU MISTERIOSA?</p><p>Durante a leitura</p><p>Entregue uma cópia do texto para os alunos e oriente-os a fazerem uma leitura silenciosa, destacando as palavras encontradas na cruzadinha, bem como produzindo marginálias ao lado do texto, sobre o sentido que entenderam sobre elas. Caso ainda tenham dúvida sobre alguma, oriente que consultem um dicionário.</p><p>Em seguida, realize uma leitura colaborativa com os alunos. A leitura será conduzida pelo professor, que fará pausas estratégicas, propondo perguntas que ajudem na compreensão e interpretação do texto. Os momentos de pausa para os questionamentos durante a leitura estarão indicadas no corpo do texto.</p><p>Conto de mistério</p><p>Stanislaw Ponte Preta</p><p>Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, caminhando pelos cantos escuros, era quase impossível qualquer pessoa que cruzasse com ele ver seu rosto. No local combinado, parou e fez o sinal que tinham já estipulado à maneira de senha. (Pausa)</p><p>Pergunta 1</p><p>Após a leitura do 1º parágrafo, é possível saber a que gênero pertence esse texto? Como você chegou a essa conclusão? (D12) Acredita-se que os alunos respondam que o texto se trata de um conto de mistério. A forma misteriosa como o narrador descreve o personagem sem revelar a sua identidade.</p><p>Parou debaixo do poste, acendeu o cigarro e soltou a fumaça em três baforadas compassadas. Imediatamente</p><p>um sujeito mal-encarado, que se encontrava no café em frente, ajeitou a gravata e cuspiu de banda. (Pausa)</p><p>Pergunta 2 e 3</p><p>Observe que nesse segundo parágrafo, o autor utiliza a expressão baforadas. Qual o significado dessa expressão no texto? (D3) Espera-se que os alunos respondam que a palavra baforadas significa expelir, golfar a fumaça de cigarro pela boca.</p><p>No trecho “... ajeitou a gravata e cuspiu de banda.” Qual sentido o termo destacado estabelece no texto? (D18) Espera-se que os alunos respondam que o termo em destaque evidencia que o personagem cuspiu de lado.</p><p>Era aquele. Atravessou cautelosamente a rua, entrou no café e pediu um guaraná. O outro sorriu e se aproximou: “Siga-me!” – foi a ordem dada com voz cavernosa. Deu apenas um gole no guaraná e saiu. O outro entrou num beco úmido e mal iluminado e ele – a uma distância de uns dez a doze passos – entrou também. (Pausa)</p><p>Pergunta 4 e 5</p><p>Nesse parágrafo, o autor faz o uso de aspas na expressão “Siga-me!”. Por que você acha que o autor utilizou essa pontuação no texto? (D17) Espera-se que os alunos respondam que as aspas foram utilizadas para intensificar ou destacar a fala do personagem.</p><p>Em “... foi a ordem dada com voz cavernosa.” Qual o significado da palavra grifada no texto? (D3) Acredita-se que os alunos respondam que a palavra grifada refere-se a voz rouca, profunda.</p><p>Ali parecia não haver ninguém. O silêncio era sepulcral. Mas o homem que ia na frente olhou em volta, certificou-se de que não havia ninguém de tocaia e bateu numa janela. Logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente. (Pausa)</p><p>Pergunta 6</p><p>“Ali parecia não haver ninguém.” O termo em destaque dá ideia de quê? (D15) Supõe-se que os alunos respondam que o termo em destaque dá ideia de lugar.</p><p>Entraram os dois e deram numa sala pequena e enfumaçada onde, no centro, via-se uma mesa cheia de pequenos pacotes. Por trás dela um sujeito de barba crescida, roupas humildes e ar de pobre trabalhador parecia ter medo do que ia fazer. Não hesitou -porém – quando o homem que entrara na frente apontou para o que entrara em seguida e disse: “É este.” (Pausa)</p><p>Pergunta 7 e 8</p><p>Na expressão “Entraram os dois e deram numa sala pequena e enfumaçada...” A palavra grifada refere-se a quê? (D2) Espera-se que os alunos respondam que a palavra grifada refere-se aos homens.</p><p>Observe que nesse último parágrafo aparece o termo “É este”, (professor, peça que os alunos grifem essa expressão no texto). A que palavra citada o termo em destaque está se referindo? (D2) Supõe-se que os alunos respondam que o termo em destaque está se referindo ao pacote.</p><p>O que estava por trás da mesa pegou um dos pacotes e entregou ao que falara. Este passou o pacote para o outro e perguntou se trouxera o dinheiro [...]</p><p>Saiu então sozinho, caminhando rente as paredes do beco. Quando alcançou uma rua mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para determinado endereço. O motorista obedeceu e, meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher:</p><p>- Julieta! Ó Julieta... consegui.</p><p>A mulher veio lá de dentro enxugando as mãos em um avental, a sorrir de felicidade. O marido colocou o pacote sobre a mesa, num ar triunfal. Ela abriu o pacote e verificou que o marido conseguira mesmo, depois de tanto esforço e economia, comprar aquilo que eles não viam há tanto tempo naquele barraco. Ali estava: um quilo de feijão. (Pausa)</p><p>FONTE: Disponível em https://saladeleituraencantada.blogspot.com/2012/03/conto-de-misterio-sergio-porto.html. Acesso em 18/12/2023.</p><p>Pergunta 9 e 10</p><p>No fragmento “- Julieta! Ó Julieta... consegui.” Qual a intenção do autor ao utilizar o travessão? (D17) Acredita-se que os alunos respondam que o travessão foi utilizado para indicar a fala do personagem.</p><p>Após a leitura do texto, é possível identificar o assunto principal. Em que momento isso ocorre? (D6) Acredita-se que os alunos respondam que o assunto principal está no último parágrafo, momento que o marido chega em casa e coloca sobre a mesa um pacote de feijão.</p><p>Depois da leitura</p><p>Esse é o momento de sistematizar o que foi estudado. Dessa forma, após a leitura colaborativa, leve os alunos a confirmar se o texto lido é realmente um conto de mistério. Solicite que os alunos confirmem as características do gênero com trechos do texto.</p><p>Características do gênero</p><p>Trecho do texto</p><p>É UMA HISTÓRIA DE SUSPENSE</p><p>Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, caminhando pelos cantos escuros, era quase impossível qualquer pessoa que cruzasse com ele ver seu rosto.</p><p>PERSONAGENS COM SEGREDOS</p><p>Imediatamente um sujeito mal-encarado, que se encontrava no café em frente, ajeitou a gravata e cuspiu de banda.</p><p>AMBIENTES NOTURNOS</p><p>Quando alcançou uma rua mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para determinado endereço.</p><p>A TRAMA FINAL É REVELADA AOS POUCOS</p><p>Ali estava: um quilo de feijão.</p><p>Situação de aprendizagem 4: Leitura “ As formigas”</p><p>Antes da leitura</p><p>Atividade: “batata quente”</p><p>Professor, após a sistematização do conhecimento proponha a leitura do conto “As formigas.”</p><p>Antes da leitura, coloque os fragmentos retirados do texto dentro de uma caixa. Com os alunos sentados em círculo e ao som de uma música, solicite que eles passem a caixa para o colega que está ao seu lado até a música parar. Quando a música parar, o aluno retira um fragmento do texto e passa novamente a caixa para o colega. A dinâmica deve continuar até não sobrar nenhum fragmento dentro da caixa.</p><p>Fragmentos do texto:</p><p>Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada.</p><p>A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados.</p><p>No ângulo onde o teto quase se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada.</p><p>— De onde vem esse cheiro? — perguntei farejando. Você não está sentindo um cheiro meio ardido?</p><p>— Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de deitar você juntou tudo... Mas então, quem?!</p><p>— Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral que já está quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando o seu lugar... Venha ver!</p><p>Em seguida, os alunos fazem a leitura em voz alta do fragmento retirado da caixa. Peça para que os alunos fiquem atentos na leitura dos colegas, pois em seguida, na leitura individual do texto, eles deverão localizar todos os trechos no texto. O objetivo desse momento é despertar a atenção dos alunos para o texto que será lido.</p><p>Durante a leitura</p><p>Logo após, entregue uma cópia do texto para os alunos e solicite que façam uma leitura silenciosa, grifando os fragmentos lidos anteriormente. Durante a leitura, o aluno poderá produzir marginálias ao lado do texto.</p><p>Depois, realize com a turma uma leitura compartilhada do texto.</p><p>As Formigas</p><p>Quando minha prima e eu descemos do táxi já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.</p><p>— É sinistro.</p><p>Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes. Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.</p><p>— Pelo menos não vi sinal de barata — disse minha prima. A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro. Acendeu um charutinho.</p><p>— É você que estuda medicina? — perguntou soprando a fumaça na minha direção.</p><p>— Estudo direito. Medicina é ela.</p><p>A mulher nos examinou com indiferença. A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados.</p><p>— Vou mostrar o quarto, fica no sótão — disse ela em meio</p><p>a um acesso de tosse.</p><p>— O inquilino antes de vocês também estudava medicina, tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui, estava sempre mexendo neles.</p><p>Minha prima voltou-se:</p><p>— Um caixote de ossos?</p><p>A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir a estreita escada que ia dar no quarto. Acendeu a luz. O quarto não podia ser menor. Duas camas, dois armários e uma cadeira de palhinha pintada de dourado. No ângulo onde o teto quase se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada.</p><p>— Mas que ossos tão miudinhos! São de criança?</p><p>— Ele disse que eram de adulto. De um anão.</p><p>— De um anão? Mas que maravilha, é raro à beça esqueleto de anão.</p><p>— Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês é que vão usar, tenho o meu lá embaixo. Não deixem a porta aberta senão meu gato foge.</p><p>Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide e sentei meu urso de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima que pendia de um fio solitário no meio do teto e no lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. O quarto ficou mais alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho.</p><p>— Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho.</p><p>Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão. Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria.</p><p>— De onde vem esse cheiro? — perguntei farejando. Você não está sentindo um cheiro meio ardido?</p><p>— É de bolor. A casa inteira cheira assim — ela disse. E puxou o caixotinho para debaixo da cama.</p><p>No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no meio entrou no quarto fumando charuto. Eu quis gritar, Tem um anão no quarto!, mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no chão, minha prima olhava fixamente algum ponto do assoalho.</p><p>— Que é que você está fazendo aí? — perguntei.</p><p>— Essas formigas. Apareceram de repente. Tão decididas, está vendo?</p><p>— São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem trilha de volta, só de ida — estranhei.</p><p>Contei-lhe meu pesadelo com o anão.</p><p>— Está debaixo dela — disse minha prima e puxou para fora o caixotinho. Levantou o plástico. — Preto de formiga!</p><p>— Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas descobriram.</p><p>— Mas os ossos estão completamente limpos. Não ficou nem um fiapo de cartilagem. Queria saber o que essas bandidas vêm fuçar aqui.</p><p>Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida, calçou os sapatos e, como uma equilibrista andando no fio de arame, foi pisando firme, um pé diante do outro na trilha de formigas.</p><p>— Esquisito. Muito esquisito.</p><p>— O quê?</p><p>— Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me lembro que até calcei ele com as omoplatas para não rolar. E agora ele está aí no chão do caixote, com uma omoplata de cada lado. Por acaso você mexeu aqui?</p><p>— Deus me livre, tenho nojo de osso! Ainda mais de anão.</p><p>Ela cobriu o caixotinho com o plástico, empurrou-o com o pé e levou o fogareiro para a mesa. No chão, a trilha de formigas mortas era agora uma fita escura que encolheu. Uma formiguinha que escapou da matança passou perto do meu pé, já ia esmagá-la quando vi que levava as mãos à cabeça, como uma pessoa desesperada. Deixei-a sumir numa fresta do assoalho.</p><p>Voltei a sonhar aflitivamente, mas dessa vez foi o antigo pesadelo com os exames, o professor fazendo uma pergunta atrás da outra e eu muda diante do único ponto que não tinha estudado. Às seis horas o despertador disparou veementemente. Minha prima dormia com a cabeça coberta. No banheiro, olhei com atenção para as paredes, para o chão de cimento, à procura delas. Não vi nenhuma. Olhei para o chão: desaparecera também a trilha do exército massacrado. Espiei debaixo da cama e não vi o menor movimento de formigas no caixotinho coberto.</p><p>Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima já estava no quarto. Achei-a tão abatida que carreguei no sal da omelete, tinha a pressão baixa. Então me lembrei.</p><p>— E as formigas?</p><p>— Até agora, nenhuma.</p><p>— Você varreu as mortas? Ela ficou me olhando.</p><p>— Não varri nada, estava exausta. Não foi você que varreu?</p><p>— Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de deitar você juntou tudo... Mas então, quem?!</p><p>Ela apertou os olhos estrábicos, ficava estrábica quando se preocupava.</p><p>Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti de novo o cheiro, mas seria bolor? Espargi água-de-colônia Flor de Maçã por todo o quarto e fui deitar cedo. Tive o segundo tipo de sonho, nele eu marcava encontro com dois namorados ao mesmo tempo. E no mesmo lugar. Chegava o primeiro e minha aflição era levá-lo embora dali antes que chegasse o segundo. O segundo, desta vez, era o anão. Abri os olhos com esforço. Ela estava sentada na beira da minha cama, de pijama e completamente estrábica.</p><p>— Elas voltaram.</p><p>— Quem?</p><p>— As formigas. Só atacam de noite, antes da madrugada.</p><p>A trilha da véspera, intensa, fechada, seguia o antigo percurso da porta até o caixotinho de ossos por onde subia na mesma formação até desformigar lá dentro.</p><p>— E os ossos?</p><p>— Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo mais nada! Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três horas. Olhei pro chão e vi a fila dura de formigas, você se lembra? Não tinha nenhuma quando chegamos. Fui ver o caixotinho, todas se trançando lá dentro, lógico, mas não foi isso o que quase me fez cair pra trás, tem uma coisa mais grave: é que os ossos estão mesmo mudando de posição, eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco a pouco eles estão... Estão se organizando.</p><p>— Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral que já está quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando o seu lugar... Venha ver!</p><p>— Credo, não quero ver nada. Estão colando o anão, é isso?</p><p>Ficamos olhando a trilha rapidíssima, tão apertada que nela não caberia sequer um grão de poeira. Uma formiguinha desgarrada sacudia a cabeça entre as mãos. Comecei a rir e tanto que se o chão não estivesse ocupado, rolaria por ali de tanto rir. Dormimos juntas na minha cama. Ela dormia ainda quando saí para a primeira aula.</p><p>Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve festa. Vim animada, com vontade de cantar, passei da conta. Só na escada é que me lembrei: o anão.</p><p>— Hoje não vou dormir, quero ficar de vigia — ela avisou.</p><p>— Estou com medo.</p><p>Ela foi buscar uma pílula para atenuar minha ressaca, me fez engolir a pílula com um gole de chá e ajudou a me despir.</p><p>— Fico vigiando, pode dormir sossegada.</p><p>— Voltaram — ela disse.</p><p>— Estão aí?</p><p>— Acabei dormindo em cima da mesa, estava exausta. Quando acordei, a trilha já estava em plena movimentação. Então fui ver o caixotinho, aconteceu o que eu esperava...</p><p>— O que foi? Fala depressa, o que foi?</p><p>— Estão mesmo montando ele. E rapidamente, entende? O esqueleto já está inteiro, só falta o fêmur. E os ossinhos da mão esquerda, fazem isso num instante. Vamos embora daqui.</p><p>— Mas sair assim, de madrugada? Podemos sair assim?</p><p>— E para onde a gente vai?</p><p>— Não interessa, depois a gente vê. Vamos, vista isto, temos que sair antes que o anão fique pronto.</p><p>Olhei de longe a trilha: nunca elas me pareceram tão rápidas. Foi o gato que miou comprido ou foi um grito?</p><p>No céu, as últimas estrelas já empalideciam. Quando encarei a casa, só a janela vazada nos via, o outro olho era penumbra.</p><p>Disponível em: https://encurtador.com.br/kBCQ1. Adaptado. Acesso: 10/01/2024.</p><p>Após a leitura</p><p>Após a leitura compartilhada do texto, divida a turma em quatro grupos e peça que cada equipe elabore um final para o conto. Em seguida, socializem o desfecho da sua história com os demais colegas da sala.</p><p>Situação de aprendizagem 5: Uso da pontuação.</p><p>Com os grupos ainda formados, distribua os fragmentos abaixo, para que os alunos</p><p>observem e identifiquem a pontuação utilizada pelo autor no texto.</p><p>Grupo 1: — De onde vem esse cheiro? — perguntei farejando. Você não está sentindo um cheiro meio ardido?</p><p>Grupo 2: — Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de deitar você juntou tudo... Mas então, quem?!</p><p>Grupo 3: — Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral que já está quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando o seu lugar... Venha ver!</p><p>Grupo 4: — Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo mais nada! Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três horas. Olhei pro chão e vi a fila dura de formigas, você se lembra? Não tinha nenhuma quando chegamos.</p><p>Professor,</p><p>1º Peça que cada equipe identifique e circule todos os sinais de pontuação contidos no fragmento.</p><p>2º Logo após, solicite que cada grupo faça a leitura em voz alta do fragmento recebido, respeitando os sinais de pontuação.</p><p>3º Mostre aos alunos a presença do travessão nos fragmentos e a sua função neles. Caso seja necessário, faça uma breve retomada sobre o uso do travessão.</p><p>4º Em seguida, peça que os alunos modifiquem a pontuação presente no fragmento. Exemplo: Onde existe um ponto de interrogação, os alunos substituam por um ponto de exclamação. Ao final, solicite que cada grupo faça a leitura do trecho com as alterações realizadas. O objetivo desse momento é mostrar que, ao fazer as alterações, o sentido da frase também se modificou.</p><p>Situação de Aprendizagem 1</p><p>Situação de Aprendizagem 2</p><p>Situação de aprendizagem 3</p><p>VALORES ATITUDINAIS ENVOLVIDOS NAS ATIVIDADES/ SITUAÇÕES</p><p>(O que se espera que o aluno desenvolva a partir das situações de aprendizagens)</p><p>INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO</p><p>(Mecanismos mais adequados para avaliar a evolução da aprendizagem)</p><p>RECURSOS</p><p>(Meios necessários para o desenvolvimento das atividades/situações de aprendizagens)</p><p>· Capacidade de concentração.</p><p>· Cooperação e trabalho coletivo.</p><p>· Interação com o professor e com os colegas de sala.</p><p>· Observação da participação dos alunos durante as aulas.</p><p>· Observação da participação nas leituras.</p><p>· Registro das produções de atividades escritas.</p><p>· Data show.</p><p>· Ferramentas digitais.</p><p>· Quadro branco e pincel.</p><p>· Slides.</p><p>· Garrafa pet.</p><p>· Caixa de papel.</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ACRE. Secretaria de Estado de Educação Cultura e Esporte. Proposta de Plano de Curso do Ensino Fundamental Anos Finais, 2023.</p><p>STANISLAW, Ponte Preta. Conto de mistério. In: Dois amigos e um chato. Ed. São Paulo, Moderna, 1986. p. 65-6 Gilles Massardier. Contos e lendas da Europa Medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.</p><p>TELLES, Lygia Fagundes. As Formigas. Editora Schwarcz LTDA. Disponível em: https://encurtador.com.br/kBCQ1/. Acesso em: 10/01/2024. Adaptado.</p><p>DEVOLUTIVA DO COORDENADOR PEDAGÓGICO</p><p>____________________________________ ____________________________________</p><p>Assinatura do (a) Coordenador (a) Assinatura do (a) Professor (a)</p><p>Conto de mistério</p><p>Stanislaw Ponte Preta</p><p>Com a gola do paletó levantada e a aba do chapéu abaixada, caminhando pelos cantos escuros, era quase impossível qualquer pessoa que cruzasse com ele ver seu rosto. No local combinado, parou e fez o sinal que tinham já estipulado à maneira de senha. Parou debaixo do poste, acendeu o cigarro e soltou a fumaça em três baforadas compassadas. Imediatamente um sujeito mal-encarado, que se encontrava no café em frente, ajeitou a gravata e cuspiu de banda.</p><p>Era aquele. Atravessou cautelosamente a rua, entrou no café e pediu um guaraná. O outro sorriu e se aproximou: “Siga-me!” – foi a ordem dada com voz cavernosa. Deu apenas um gole no guaraná e saiu. O outro entrou num beco úmido e mal iluminado e ele – a uma distância de uns dez a doze passos – entrou também.</p><p>Ali parecia não haver ninguém. O silêncio era sepulcral. Mas o homem que ia na frente olhou em volta, certificou-se de que não havia ninguém de tocaia e bateu numa janela. Logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente.</p><p>Entraram os dois e deram numa sala pequena e enfumaçada onde, no centro, via-se uma mesa cheia de pequenos pacotes. Por trás dela um sujeito de barba crescida, roupas humildes e ar de pobre trabalhador parecia ter medo do que ia fazer. Não hesitou -porém – quando o homem que entrara na frente apontou para o que entrara em seguida e disse: “É este.”</p><p>O que estava por trás da mesa pegou um dos pacotes e entregou ao que falara. Este passou o pacote para o outro e perguntou se trouxera o dinheiro [...]</p><p>Saiu então sozinho, caminhando rente as paredes do beco. Quando alcançou uma rua mais clara, assoviou para um táxi que passava e mandou tocar a toda pressa para determinado endereço. O motorista obedeceu e, meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher:</p><p>- Julieta! Ó Julieta... consegui.</p><p>A mulher veio lá de dentro enxugando as mãos em um avental, a sorrir de felicidade. O marido colocou o pacote sobre a mesa, num ar triunfal. Ela abriu o pacote e verificou que o marido conseguira mesmo, depois de tanto esforço e economia, comprar aquilo que eles não viam há tanto tempo naquele barraco. Ali estava: um quilo de feijão.</p><p>Disponível em https://saladeleituraencantada.blogspot.com/2012/03/conto-de-misterio-sergio-porto.html. Acesso em 18/12/2023.</p><p>Palavras cruzadas</p><p>Características do gênero</p><p>Trecho do texto</p><p>É UMA HISTÓRIA DE SUSPENSE</p><p>PERSONAGENS COM SEGREDOS</p><p>AMBIENTES NOTURNOS</p><p>A TRAMA FINAL É REVELADA AOS POUCOS</p><p>Características do gênero</p><p>Trecho do texto</p><p>É UMA HISTÓRIA DE SUSPENSE</p><p>PERSONAGENS COM SEGREDOS</p><p>AMBIENTES NOTURNOS</p><p>A TRAMA FINAL É REVELADA AOS POUCOS</p><p>As Formigas</p><p>Quando minha prima e eu descemos do táxi já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço da prima.</p><p>— É sinistro.</p><p>Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes. Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.</p><p>— Pelo menos não vi sinal de barata — disse minha prima. A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro. Acendeu um charutinho.</p><p>— É você que estuda medicina? — perguntou soprando a fumaça na minha direção.</p><p>— Estudo direito. Medicina é ela.</p><p>A mulher nos examinou com indiferença. A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados.</p><p>— Vou mostrar o quarto, fica no sótão — disse ela em meio a um acesso de tosse.</p><p>— O inquilino antes de vocês também estudava medicina, tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui, estava sempre mexendo neles.</p><p>Minha prima voltou-se:</p><p>— Um caixote de ossos?</p><p>A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir a estreita escada que ia dar no quarto. Acendeu a luz. O quarto não podia ser menor. Duas camas, dois armários e uma cadeira de palhinha pintada de dourado. No ângulo onde o teto quase se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada.</p><p>— Mas que ossos tão miudinhos! São de criança?</p><p>— Ele disse que eram de adulto. De um anão.</p><p>— De um anão? Mas que maravilha, é raro à beça esqueleto de anão.</p><p>— Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês é que vão usar, tenho o meu lá embaixo. Não deixem a porta aberta senão meu gato foge.</p><p>Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide e sentei meu urso de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima</p><p>que pendia de um fio solitário no meio do teto e no lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. O quarto ficou mais alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro do caixotinho.</p><p>— Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho.</p><p>Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão. Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria.</p><p>— De onde vem esse cheiro? — perguntei farejando. Você não está sentindo um cheiro meio ardido?</p><p>— É de bolor. A casa inteira cheira assim — ela disse. E puxou o caixotinho para debaixo da cama.</p><p>No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no meio entrou no quarto fumando charuto. Eu quis gritar, Tem um anão no quarto!, mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no chão, minha prima olhava fixamente algum ponto do assoalho.</p><p>— Que é que você está fazendo aí? — perguntei.</p><p>— Essas formigas. Apareceram de repente. Tão decididas, está vendo?</p><p>— São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem trilha de volta, só de ida — estranhei.</p><p>Contei-lhe meu pesadelo com o anão.</p><p>— Está debaixo dela — disse minha prima e puxou para fora o caixotinho. Levantou o plástico. — Preto de formiga!</p><p>— Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas descobriram.</p><p>— Mas os ossos estão completamente limpos. Não ficou nem um fiapo de cartilagem. Queria saber o que essas bandidas vêm fuçar aqui.</p><p>Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida, calçou os sapatos e, como uma equilibrista andando no fio de arame, foi pisando firme, um pé diante do outro na trilha de formigas.</p><p>— Esquisito. Muito esquisito.</p><p>— O quê?</p><p>— Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me lembro que até calcei ele com as omoplatas para não rolar. E agora ele está aí no chão do caixote, com uma omoplata de cada lado. Por acaso você mexeu aqui?</p><p>— Deus me livre, tenho nojo de osso! Ainda mais de anão.</p><p>Ela cobriu o caixotinho com o plástico, empurrou-o com o pé e levou o fogareiro para a mesa. No chão, a trilha de formigas mortas era agora uma fita escura que encolheu. Uma formiguinha que escapou da matança passou perto do meu pé, já ia esmagá-la quando vi que levava as mãos à cabeça, como uma pessoa desesperada. Deixei-a sumir numa fresta do assoalho.</p><p>Voltei a sonhar aflitivamente, mas dessa vez foi o antigo pesadelo com os exames, o professor fazendo uma pergunta atrás da outra e eu muda diante do único ponto que não tinha estudado. Às seis horas o despertador disparou veementemente. Minha prima dormia com a cabeça coberta. No banheiro, olhei com atenção para as paredes, para o chão de cimento, à procura delas. Não vi nenhuma. Olhei para o chão: desaparecera também a trilha do exército massacrado. Espiei debaixo da cama e não vi o menor movimento de formigas no caixotinho coberto.</p><p>Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima já estava no quarto. Achei-a tão abatida que carreguei no sal da omelete, tinha a pressão baixa. Então me lembrei.</p><p>— E as formigas?</p><p>— Até agora, nenhuma.</p><p>— Você varreu as mortas? Ela ficou me olhando.</p><p>— Não varri nada, estava exausta. Não foi você que varreu?</p><p>— Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de deitar você juntou tudo... Mas então, quem?!</p><p>Ela apertou os olhos estrábicos, ficava estrábica quando se preocupava.</p><p>Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti de novo o cheiro, mas seria bolor? Espargi água-de-colônia Flor de Maçã por todo o quarto e fui deitar cedo. Tive o segundo tipo de sonho, nele eu marcava encontro com dois namorados ao mesmo tempo. E no mesmo lugar. Chegava o primeiro e minha aflição era levá-lo embora dali antes que chegasse o segundo. O segundo, desta vez, era o anão. Abri os olhos com esforço. Ela estava sentada na beira da minha cama, de pijama e completamente estrábica.</p><p>— Elas voltaram.</p><p>— Quem?</p><p>— As formigas. Só atacam de noite, antes da madrugada.</p><p>A trilha da véspera, intensa, fechada, seguia o antigo percurso da porta até o caixotinho de ossos por onde subia na mesma formação até desformigar lá dentro.</p><p>— E os ossos?</p><p>— Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo mais nada! Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três horas. Olhei pro chão e vi a fila dura de formigas, você se lembra? Não tinha nenhuma quando chegamos. Fui ver o caixotinho, todas se trançando lá dentro, lógico, mas não foi isso o que quase me fez cair pra trás, tem uma coisa mais grave: é que os ossos estão mesmo mudando de posição, eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco a pouco eles estão... Estão se organizando.</p><p>— Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral que já está quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando o seu lugar... Venha ver!</p><p>— Credo, não quero ver nada. Estão colando o anão, é isso?</p><p>Ficamos olhando a trilha rapidíssima, tão apertada que nela não caberia sequer um grão de poeira. Uma formiguinha desgarrada sacudia a cabeça entre as mãos. Comecei a rir e tanto que se o chão não estivesse ocupado, rolaria por ali de tanto rir. Dormimos juntas na minha cama. Ela dormia ainda quando saí para a primeira aula.</p><p>Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve festa. Vim animada, com vontade de cantar, passei da conta. Só na escada é que me lembrei: o anão.</p><p>— Hoje não vou dormir, quero ficar de vigia — ela avisou.</p><p>— Estou com medo.</p><p>Ela foi buscar uma pílula para atenuar minha ressaca, me fez engolir a pílula com um gole de chá e ajudou a me despir.</p><p>— Fico vigiando, pode dormir sossegada.</p><p>— Voltaram — ela disse.</p><p>— Estão aí?</p><p>— Acabei dormindo em cima da mesa, estava exausta. Quando acordei, a trilha já estava em plena movimentação. Então fui ver o caixotinho, aconteceu o que eu esperava...</p><p>— O que foi? Fala depressa, o que foi?</p><p>— Estão mesmo montando ele. E rapidamente, entende? O esqueleto já está inteiro, só falta o fêmur. E os ossinhos da mão esquerda, fazem isso num instante. Vamos embora daqui.</p><p>— Mas sair assim, de madrugada? Podemos sair assim?</p><p>— E para onde a gente vai?</p><p>— Não interessa, depois a gente vê. Vamos, vista isto, temos que sair antes que o anão fique pronto.</p><p>Olhei de longe a trilha: nunca elas me pareceram tão rápidas. Foi o gato que miou comprido ou foi um grito?</p><p>No céu, as últimas estrelas já empalideciam. Quando encarei a casa, só a janela vazada nos via, o outro olho era penumbra.</p><p>Disponível em: https://encurtador.com.br/kBCQ1. Adaptado. Acesso: 10/01/2024.</p><p>Fragmentos do texto: Ficamos imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada.</p><p>A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados.</p><p>No ângulo onde o teto quase se encontrava com o assoalho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada.</p><p>— De onde vem esse cheiro? — perguntei farejando. Você não está sentindo um cheiro meio ardido?</p><p>— Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de deitar você juntou tudo... Mas então, quem?!</p><p>— Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral que já está quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando o seu lugar... Venha ver!</p><p>image3.png</p><p>image4.png</p><p>image5.png</p><p>image6.png</p><p>image1.png</p><p>image2.png</p><p>image7.png</p>