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<p>See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/320585894</p><p>Ética no Serviço Público: Uma Introdução</p><p>Working Paper · October 2017</p><p>CITATIONS</p><p>0</p><p>READS</p><p>1,084</p><p>1 author:</p><p>Some of the authors of this publication are also working on these related projects:</p><p>The Ethics In Practice Is Something Else – Understanding The Moral Dilemmas Experienced In Public Management View project</p><p>Marcello Beckert Zappellini</p><p>Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianopolis</p><p>16 PUBLICATIONS   44 CITATIONS</p><p>SEE PROFILE</p><p>All content following this page was uploaded by Marcello Beckert Zappellini on 24 October 2017.</p><p>The user has requested enhancement of the downloaded file.</p><p>https://www.researchgate.net/publication/320585894_Etica_no_Servico_Publico_Uma_Introducao?enrichId=rgreq-7bca14c409101f02d5af64e1f93e680c-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyMDU4NTg5NDtBUzo1NTI5NTMzMDkzMzk2NTVAMTUwODg0NTc1MDk4NQ%3D%3D&el=1_x_2&_esc=publicationCoverPdf</p><p>https://www.researchgate.net/publication/320585894_Etica_no_Servico_Publico_Uma_Introducao?enrichId=rgreq-7bca14c409101f02d5af64e1f93e680c-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyMDU4NTg5NDtBUzo1NTI5NTMzMDkzMzk2NTVAMTUwODg0NTc1MDk4NQ%3D%3D&el=1_x_3&_esc=publicationCoverPdf</p><p>https://www.researchgate.net/project/The-Ethics-In-Practice-Is-Something-Else-Understanding-The-Moral-Dilemmas-Experienced-In-Public-Management?enrichId=rgreq-7bca14c409101f02d5af64e1f93e680c-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyMDU4NTg5NDtBUzo1NTI5NTMzMDkzMzk2NTVAMTUwODg0NTc1MDk4NQ%3D%3D&el=1_x_9&_esc=publicationCoverPdf</p><p>https://www.researchgate.net/?enrichId=rgreq-7bca14c409101f02d5af64e1f93e680c-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyMDU4NTg5NDtBUzo1NTI5NTMzMDkzMzk2NTVAMTUwODg0NTc1MDk4NQ%3D%3D&el=1_x_1&_esc=publicationCoverPdf</p><p>https://www.researchgate.net/profile/Marcello_Zappellini?enrichId=rgreq-7bca14c409101f02d5af64e1f93e680c-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyMDU4NTg5NDtBUzo1NTI5NTMzMDkzMzk2NTVAMTUwODg0NTc1MDk4NQ%3D%3D&el=1_x_4&_esc=publicationCoverPdf</p><p>https://www.researchgate.net/profile/Marcello_Zappellini?enrichId=rgreq-7bca14c409101f02d5af64e1f93e680c-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyMDU4NTg5NDtBUzo1NTI5NTMzMDkzMzk2NTVAMTUwODg0NTc1MDk4NQ%3D%3D&el=1_x_5&_esc=publicationCoverPdf</p><p>https://www.researchgate.net/profile/Marcello_Zappellini?enrichId=rgreq-7bca14c409101f02d5af64e1f93e680c-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyMDU4NTg5NDtBUzo1NTI5NTMzMDkzMzk2NTVAMTUwODg0NTc1MDk4NQ%3D%3D&el=1_x_7&_esc=publicationCoverPdf</p><p>https://www.researchgate.net/profile/Marcello_Zappellini?enrichId=rgreq-7bca14c409101f02d5af64e1f93e680c-XXX&enrichSource=Y292ZXJQYWdlOzMyMDU4NTg5NDtBUzo1NTI5NTMzMDkzMzk2NTVAMTUwODg0NTc1MDk4NQ%3D%3D&el=1_x_10&_esc=publicationCoverPdf</p><p>1</p><p>ÉTICA NO SERVIÇO</p><p>PÚBLICO: Uma</p><p>introdução</p><p>Marcello B. Zappellini</p><p>Chapecó, outubro de 2017</p><p>2</p><p>Apostila preparada para uso dos servidores técnico-administrativos da Udesc – Campus</p><p>Chapecó</p><p>Autor:</p><p>Marcello B. Zappellini é graduado em Administração (Esag/Udesc, 1993) e Ciências</p><p>Econômicas (UFSC, 1992). Mestre (UFSC, 1996) e doutor (UFBA, 2012) em Administração.</p><p>É professor dos cursos de graduação em Administração Pública e Ciências Econômicas e do</p><p>Mestrado Acadêmico em Administração da Esag/Udesc. Diretor Acadêmico e Coordenador</p><p>do curso de Administração da Faculdade Energia de Administração e Negócios – Fean. Líder</p><p>do grupo de pesquisa Callipolis – Políticas Públicas e Desenvolvimento da Esag/Udesc. Autor</p><p>de artigos publicados em revistas acadêmicas brasileiras e anais de eventos nacionais e do</p><p>livro Gestão Pública por Resultados na Administração Pública (e-book publicado pela Editora</p><p>Imaginar o Brasil em 2015).</p><p>3</p><p>CONTEÚDO</p><p>Introdução</p><p>Ética e moral</p><p>Teorias éticas</p><p>Ética e Administração Pública</p><p>Considerações finais</p><p>Referências</p><p>4</p><p>Introdução</p><p>Atualmente, a ética na Administração Pública é um assunto que surge amiúde nas</p><p>discussões, mas ainda se mostra razoavelmente obscuro. Embora a maioria das pessoas tenha</p><p>uma definição e possa explicar o que entende por ética, não há</p><p>Este trabalho visa oferecer uma breve introdução a respeito dos problemas e desafios</p><p>da ética na Administração Pública. Como tal, sua perspectiva é basicamente descritiva,</p><p>embora naturalmente não deixe de abordar aspectos normativos referentes à problemática,</p><p>tampouco se exima de introduzir juízos de valor em diversos momentos. Considerando-se o</p><p>relativismo com que a ética e a moral têm sido tratadas, a simples escolha de autores já</p><p>representa uma tomada de posição e impede quaisquer pretensões à neutralidade.</p><p>O texto está organizado nas seguintes seções:</p><p>1. Conceitos de ética e moral;</p><p>2. Teorias éticas: o consequencialismo, a deontologia e a virtude;</p><p>3. Desafios e problemas da ética na Administração Pública;</p><p>4. Considerações finais: o que se conclui do debate?</p><p>As referências bibliográficas não devem ser consideradas como a listagem das obras</p><p>citadas neste trabalho, mas como uma listagem de indicações de leituras para aqueles que se</p><p>interessarem pelo assunto e desejarem se aprofundar.</p><p>5</p><p>Seção 1: Ética e moral</p><p>No Ocidente, a reflexão filosófica tem sua origem na civilização grega, inicialmente</p><p>preocupando-se com o mundo, a natureza e o universo, passando a tratar de problemas</p><p>humanos a partir do século V a.C., quando Sócrates se voltou para questões como a virtude, o</p><p>viver bem e o saber. Boutroux (2015) demonstra que Sócrates nunca se preocupou com a</p><p>física, que condenava como “vã”, “estéril” e “sacrílega”, dedicando-se mais à sofística,</p><p>distinguindo (diferentemente dos sofistas) entre os fins (o bem falar, o bem agir, o bem</p><p>administrar a casa e a polis) e os meios (o exercício rotineiro daquela ação que se tentava</p><p>dominar e se tornar hábil). Sócrates, então, questionava os sofistas, que ensinavam os jovens</p><p>atenienses sobre a piedade, a virtude, a justiça e a coragem, mas não sabiam definir essas</p><p>palavras sem se contradizerem (BOUTROUX, 2015).</p><p>Ao longo dos séculos, essas questões foram se tornando cada vez mais complexas e</p><p>mais variadas, embora existe um consenso em torno das respostas sobre o problema. Ainda</p><p>assim, é possível afirmar que esses questionamentos são parte da natureza humana, pois suas</p><p>respostas definem o que é certo e o que é errado, bem como as formas pelas quais devemos</p><p>nos conduzir em relação aos nossos pares (FURROW, 2007): existem diferentes concepções</p><p>sobre o que o certo e o errado e quais regras de conduta devemos seguir.</p><p>David McNaughton (1988) considera que a experiência dos valores é uma constante</p><p>nas nossas vidas, e que todo entendimento de nós mesmos e do mundo (isto é, o entendimento</p><p>filosófico) demanda uma consideração dessa experiência. Os valores, afirma o autor, estão</p><p>presentes na natureza, na arte, nas nossas vidas e nas de outras pessoas – e justamente neste</p><p>caso encontra-se o objeto da ética, quando consideramos uma pessoa como boa ou má, e suas</p><p>ações como justas ou injustas, certas ou erradas (McNAUGHTON, 1988). Quanto aos valores</p><p>da natureza e da arte, a estética toma conta deles.</p><p>É importante destacar um aspecto: a ética diz respeito à conduta do indivíduo dentro</p><p>de um ambiente e em relação a outras pessoas. O filósofo britânico Simon Blackburn (2001)</p><p>considera que vivemos em um ambiente ético tanto quanto no físico, ambiente este que</p><p>envolve respostas a algumas perguntas:</p><p>a) O que achamos aceitável e inaceitável?</p><p>b) O que consideramos admirável? O que não se pode admirar?</p><p>6</p><p>c) Nas relações com os outros, o que nos é devido, e o que as pessoas podem esperar de</p><p>nós?</p><p>d) O que significa dizer que as coisas vão bem, e o que é dizer que vão mal?</p><p>e) O que nos causa orgulho? O que nos traz vergonha?</p><p>f) O que nos causa raiva? O que nos traz gratidão?</p><p>g) O que podemos perdoar, e o que é imperdoável?</p><p>Assim sendo, nossos padrões de conduta são definidos e compartilhados. Os seres</p><p>humanos,</p><p>ao viverem em uma coletividade, por menor que seja, precisam compartilhar</p><p>respostas em comum, precisam viver de acordo com padrões de comportamento e ação</p><p>aceitáveis uns aos outros, pois isso é o que lhes traz o bem. Há mais de 2.300 anos atrás,</p><p>Aristóteles afirmava: a finalidade de todas as coisas é o bem, e o bem é desejável por si só, é</p><p>algo final, nunca um meio para outras coisas, como a riqueza e a honra, é o fim para o qual</p><p>todas as coisas tendem (ARISTÓTELES, 2014).</p><p>O maior bem que podemos almejar, afirma Aristóteles, é a felicidade. Este é o bem</p><p>soberano, pois é desejado por si só, jamais como uma forma para alcançar outros objetivos; a</p><p>felicidade é um fim perfeito, pois autossuficiente, e deve ser buscada no seio de uma</p><p>comunidade, pois o homem é um animal político e só pode alcançá-la no convívio com outras</p><p>pessoas (LABARRÉRE, in CANTO-SPERBER, 2003).</p><p>Dito isto, é possível entender a ética como a reflexão sobre a ação empreendida pelo</p><p>ser humano na busca do bem, na busca da felicidade; acrescente-se a isso o fato de que a</p><p>felicidade demanda outros seres humanos, cujos projetos de vida, ações e interesses devem ser</p><p>considerados.</p><p>A ética, observam Cortina e Martínez (2005), possui três funções:</p><p>a) Em primeiro lugar, ela deve esclarecer o que se entende por moral;</p><p>b) Em seguida, ela deve fundamentar racionalmente a moral;</p><p>c) Por fim, deve aplicar na vida social os resultados obtidos com o desempenho das duas</p><p>funções acima.</p><p>A ética possui duas dimensões, uma prática, outra reflexiva. No caso da prática, tem-</p><p>se em mente as ações efetivamente desempenhadas pelo ser humano na busca da felicidade e</p><p>do bem viver, e no da reflexão, o pensamento rigoroso e sistemático a respeito de como se</p><p>pode definir e justificar essas ações; essa reflexão faz parte da Filosofia, é uma de suas</p><p>subdivisões, e permite não apenas compreender as ações empreendidas, mas também defendê-</p><p>las perante os críticos e os céticos. Assim, os filósofos espanhóis Cortina e Martínez (2005)</p><p>7</p><p>compreendem a ética como uma parte da Filosofia que constrói racional e rigorosamente um</p><p>saber normativo, ou seja, aquele que orienta as ações humanas por meio de conceitos e</p><p>argumentos sobre a dimensão moral da vida – e “moral” é outro conceito que precisa ser</p><p>explicitado; mas, antes disso, vejamos algumas considerações do filósofo norte-americano</p><p>Robert C. Solomon (1942 – 2007) a respeito da ética.</p><p>Isto posto, é preciso investigar o que se entende por moral. Em primeiro lugar, convém</p><p>ter em mente que o termo “ética” deriva do grego ethos, cujo significado é caráter, e “moral”,</p><p>do latim mores, que se refere aos costumes, hábitos e ao caráter. Julia Annas (in BECKER;</p><p>BECKER, 2001) afirma que os dois termos foram usados de maneira intercambiável, mas</p><p>recentemente começaram a ser distinguidos, ao menos no plano teórico, em que a ética é vista</p><p>como mais ampla do que a moralidade. O filósofo norte-americano James Rachels (1941 –</p><p>2002) considera a filosofia da moral como sendo uma tentativa de entender sistematicamente</p><p>a natureza da moralidade e o que ela exige de nós – no entanto, é impossível definir de modo</p><p>simples e incontestável o que se entende por moralidade.</p><p>Embora seja difícil entender o que seja a moralidade, alguns elementos são comuns, e</p><p>o próprio Rachels (2006) apresenta os que considera mais importantes:</p><p>a) Julgamentos morais não são simples questões de “gosto” ou “não gosto”, eles se</p><p>sustentam em razões válidas. A moralidade envolve consultar a razão, e as coisas</p><p>certas a serem feitas envolvem as melhores razões morais;</p><p>b) É preciso considerar imparcialmente os interesses de cada indivíduo. Isso quer dizer</p><p>que, do ponto de vista moral, os interesses e o bem-estar dos outros envolvidos são tão</p><p>importantes quanto o meu próprio.</p><p>Com tudo isso em mente, Rachels apresenta um conceito mínimo de moralidade (ver</p><p>Box 2).</p><p>BOX 1: Definindo a ética</p><p>Para Robert Solomon, a ética é a parte da filosofia interessada no viver bem, em ser uma boa pessoa, em</p><p>fazer a coisa certa, em conviver com outras pessoas e em desejar as coisas certas na vida. Ela é essencial</p><p>para a vida em sociedade, cujas instituições, tradições e práticas devem ser avaliadas eticamente. A ética</p><p>possui tanto uma dimensão pessoal quanto uma social, mas, na prática, é muito difícil separá-las, pois os</p><p>valores que possuímos são aprendidos e compartilhados com outras pessoas.</p><p>Ética se refere tanto a uma disciplina (o estudo dos valores e suas justificativas) quanto ao assunto por ela</p><p>estudado (os valores e regras de conduta realmente adotados em nossas vidas).</p><p>(SOLOMON, 2006)</p><p>8</p><p>Rachels (2006) também definiu o agente moral de forma admirável ao afirmar que é</p><p>alguém preocupado imparcialmente com os interesses de cada pessoa que seja afetada por</p><p>suas ações; que separa os fatos e examina suas implicações; só aceita os princípios de conduta</p><p>após rigorosa análise de sua consistência; ouve as razões de outras pessoas mesmo quando</p><p>isso implica em revisar convicções básicas; age com base nos resultados de todas essas</p><p>deliberações. O pensamento moral dá conta do justo e do injusto, do certo e do errado, do</p><p>bom e do mau, e consiste no objeto da ética (McNAUGHTON, 1988).</p><p>O tratamento dado acima ao assunto pode induzir uma pessoa a considerar que a moral</p><p>diz respeito simplesmente ao indivíduo. No entanto, essa ideia seria incorreta. O intelectual</p><p>brasileiro Antonio Paim (1925 - ) trata de dirimir essa questão ao mencionar que a moral pode</p><p>ser vista como o conjunto de regras de conduta aceitas em determinadas épocas, embora</p><p>possam ser consideradas como universalmente válidas (PAIM, 1992). O autor ainda aponta:</p><p>as ações humanas individuais podem ser consideradas racionais ou irracionais, mas no plano</p><p>coletivo são irracionais, pois atrapalham-se mutuamente, contradizem-se, seus fins não são</p><p>alcançados (PAIM, 1992).</p><p>Dessa maneira, a moral e a ética convergem no sentido de que esta representa a</p><p>reflexão sobre aquela. O indivíduo age moralmente, reflete eticamente; em ambos os casos,</p><p>ele considera os outros, não somente em termos dos seus interesses, mas também do que</p><p>fariam. O agente moral sabe que sua opinião pessoal não basta para conferir caráter ético à</p><p>sua ação, é preciso considerar as normas que os demais aceitam. E aqui reside uma</p><p>divergência: a reflexão ética pode considerar imoral ou amoral determinada conduta que a</p><p>prática consagrou em uma comunidade ou aceitar como moral uma prática que um grupo</p><p>social condena. Dito de outra maneira, é possível a um filósofo leigo justificar eticamente o</p><p>aborto, mesmo sabendo que cristãos o condenam tanto quanto um filósofo cristão poderia</p><p>condenar a mesma prática, ainda que esteja dentro do que é legal e aceitável dentro de uma</p><p>dada sociedade.</p><p>Isso ilustra alguns dos problemas que a ética enfrenta. O fato de ser racional não a</p><p>torna obrigatória para todos nem perfeitamente aceitável – apenas justifica as suas</p><p>BOX 2: Definindo a moralidade:</p><p>“Moralidade é, minimamente, o esforço em guiar a conduta do indivíduo por meio da razão – ou seja,</p><p>fazer algo para o qual haja as melhores razões para fazê-lo – enquanto ao mesmo tempo se dá um peso</p><p>igual aos interesses de cada indivíduo que será afetado pelo que alguém faça.”</p><p>(RACHELS, 2006, p. 15)</p><p>9</p><p>proposições, nada diz sobre sua verdade. Este pode parecer muito grave, mas existem outros</p><p>problemas importantes (ver Box 3).</p><p>Diante do que foi exposto até o momento, é possível considerar que a ética seria capaz</p><p>de guiar a ação do ser humano em qualquer contexto em que seja aplicada. No entanto, a</p><p>realidade não confirma essa proposição. O indivíduo, o agir moralmente, se defronta com</p><p>múltiplas complicações, dentre elas, as obrigações morais que assume. Tentando compreender</p><p>essas obrigações, estabelece-se, aqui, um modelo em diferentes níveis:</p><p>a) O indivíduo é o nível mais básico de análise. Cada pessoa</p><p>busca sua própria</p><p>felicidade, a realização de seus projetos pessoais, a preservação da própria vida, a</p><p>satisfação de suas necessidades;</p><p>b) O nível familiar abrange as relações e obrigações que estabelecemos com a nossa</p><p>família, como a proteção dos filhos, a ajuda a irmãos, primos, tios que atravessem</p><p>dificuldades pessoais, etc.;</p><p>c) O nível das relações de amizade consiste nas obrigações que assumimos em relação</p><p>aos nossos amigos, como ajudá-los em seus projetos, socorrê-los quando atravessam</p><p>dificuldades, entre outras;</p><p>d) O quarto círculo envolve as obrigações éticas para com a sociedade. Neste caso, as</p><p>questões são muito mais complexas e envolvem considerações de justiça, de igualdade</p><p>de tratamento, de distribuição de privilégios e vantagens na vida social, na definição e</p><p>proteção de padrões de vida, ética e padrões de desempenho profissional, dentre</p><p>BOX 3: Problemas enfrentados pela ética</p><p>1) A morte de Deus: uma forma de fundamentar ações éticas é de acordo com os preceitos</p><p>revelados por um Deus. Surge, então, uma pergunta: se Deus não existe, o que se pode afirmar</p><p>sobre essa ética?</p><p>2) Relativismo: algumas comunidades aceitam padrões rejeitados por outras, e o que foi</p><p>considerado moral em determinado momento pode ser rejeitado em outro, e vice-versa. Assim,</p><p>conclui-se que a moral não pode aspirar a uma verdade absoluta. Entretanto, deve-se ter em</p><p>mente que, embora o conteúdo mude, as regras morais permanecem;</p><p>3) Egoísmo: mesmo que uma pessoa seja altruísta e procure apenas fazer o bem aos outros, é</p><p>possível argumentar que ela o faz porque isso lhe agrada e atende aos seus interesses pessoais;</p><p>4) Teoria da evolução: biólogos argumentam que o ser humano age de acordo com</p><p>“programações” genéticas, e por isso não possui liberdade de ação (suas ações morais não são</p><p>escolhidas, mas determinadas pela evolução biológica);</p><p>5) Determinismo e futilidade: a ética se torna um simples exercício de futilidade em um contexto</p><p>no qual o comportamento moral é determinado e programado geneticamente. A ética se torna</p><p>um exercício intelectual inútil.</p><p>(BLACKBURN, 2001)</p><p>10</p><p>outras. É importante observar que, neste nível de análise, a pessoa já não se encontra</p><p>mais na esfera de suas relações de intimidade;</p><p>e) O nível ambiental se refere a questões que dizem respeito à preservação dos</p><p>ecossistemas e dos seres vivos, definição dos direitos de uso de recursos naturais, o</p><p>reconhecimento dos direitos dos animais, a preocupação com a manutenção da</p><p>qualidade de vida das gerações futuras, etc. Neste nível, a pessoa está se preocupando</p><p>não somente com o presente, mas também com o futuro;</p><p>f) O nível da história é o mais amplo, e pode transportar a pessoa tanto para o passado</p><p>quanto para o futuro. Aqui, as preocupações morais envolvem questões como a</p><p>reparação de danos causados pelos nossos ancestrais no passado, a construção de</p><p>condições sociais, políticas e econômicas para a vida dos nossos descendentes, entre</p><p>outras.</p><p>A figura 1 apresenta esquematicamente o modelo:</p><p>FIGURA 1: Um modelo de níveis para as obrigações éticas</p><p>Fonte: Elaboração do autor, 2016.</p><p>O modelo proposto se refere à consideração de questões éticas por parte da pessoa, e</p><p>deve ser considerado flexível: nada impede que alguém coloque as relações de amizade como</p><p>Nível 6: Relações históricas</p><p>Nível 5: Relações com o</p><p>ambiente</p><p>Nível 4: Relações sociais</p><p>Nível 3: Relações de</p><p>amizade</p><p>Nível 2: Relações</p><p>familiares</p><p>Nível 1: O</p><p>indivíduo</p><p>11</p><p>mais importantes do que as familiares, por exemplo, e também não significa que uma pessoa</p><p>vá cumprir suas obrigações para com a sociedade antes de cumprir as familiares. O que o</p><p>modelo propõe é uma escala de pensamento para analisar decisões éticas, principiando pelos</p><p>efeitos sobre a vida pessoal e chegando a uma escala global.</p><p>Independentemente do que se propôs acima, muitas teorias diferentes já foram</p><p>propostas para auxiliar a tomar decisões éticas, mas, independentemente delas, há situações</p><p>em que as dúvidas sobre como agir são maiores do que imaginamos – e há situações em que,</p><p>diante de uma escolha, mais de uma opção se mostra possível. Nesse momento, configura-se</p><p>um dilema.</p><p>Existem muitas discussões sobre o que é um dilema moral ou ético, Christine Tappolet</p><p>(in CANTO-SPERBER, 2003) considera que estamos sempre diante de escolhas morais</p><p>difíceis, e no caso da moralidade, diante de situações em que é impossível realizar duas ações</p><p>ao mesmo tempo e não temos bases para escolher o que seria nosso dever; isso pode ocorrer</p><p>tanto porque não sabemos qual seria nosso dever, quanto porque duas obrigações podem</p><p>estar ocorrendo ao mesmo tempo, e não podemos cumprir ambas simultaneamente.</p><p>Citando o filósofo britânico Bernard Williams (1929 – 2003), que se dedicou ao assunto, a</p><p>autora distingue dois tipos de conflitos morais:</p><p>a) Solúveis: são aqueles em que é possível definir qual seria a principal obrigação moral</p><p>em jogo, e agir conforme sua primazia. Por exemplo, uma pessoa que se dirige para</p><p>um encontro com outra tem a obrigação da pontualidade, mas tem uma obrigação</p><p>moral mais forte de auxiliar e socorrer uma vítima de um acidente que ela venha a</p><p>encontrar no meio do caminho;</p><p>b) Insolúveis: neste caso, não é possível estabelecer a obrigação moral mais importante.</p><p>O dilema clássico enunciado por Jean-Paul Sartre (1905 – 80), filósofo existencialista</p><p>francês, é um bom exemplo: um estudante francês cujo pai foi morto pelos nazistas</p><p>durante a invasão alemã na Segunda Guerra Mundial não sabe se deve se juntar à</p><p>Resistência e, com isso, vingar a morte do pai, ou se permanece em casa e ajuda a mãe</p><p>a sobreviver.</p><p>12</p><p>A formulação de Rushworth M. Kidder (1944 – 2012), escritor norte-americano que</p><p>fundou em 1990 o Institute for Global Ethics, mostra-se muito interessante. Em linhas gerais,</p><p>para Kidder (2006), um dilema ético ocorre quando uma pessoa tem que decidir entre dois</p><p>rumos de ação que lhe parecem corretos. Há, para a pessoa envolvida, um conflito entre</p><p>valores morais que ela defende.</p><p>Os dilemas morais propostos por Kidder (2006) podem ser trabalhados a partir de um</p><p>método relativamente simples, que começa com a coleta das informações relevantes para</p><p>entender a situação e seu contexto, continua com a busca de alternativas que permitam</p><p>contornar o dilema, e chega a uma busca por soluções baseadas em princípios. O autor, então,</p><p>propõe alguns princípios aplicáveis:</p><p>a) Faça aquilo que for melhor para o maior número de pessoas;</p><p>b) Siga os mais elevados juízos ou princípios;</p><p>c) Faça o que você quer que façam a você (KIDDER, 2006).</p><p>O primeiro princípio conduz a uma ética dos fins, uma ética consequencialista. O</p><p>segundo, por sua vez, a uma ética deontológica, porque baseada em princípios gerais que</p><p>todos deveriam obedecer. O terceiro, a uma ética do cuidado, voltada para a ideia de que nós,</p><p>seres humanos, temos obrigações morais referente ao cuidado com outras pessoas. Esses três</p><p>princípios formam a base para algumas das teorias morais mais difundidas atualmente, e</p><p>podem ser complementados por um quarto, que diz respeito a agir conforme a razão justa e</p><p>esclarecida recomenda – um princípio de ética das virtudes, a mais antiga de todas as teorias</p><p>éticas, e uma das mais influentes. A seção 2 vai introduzir às éticas consequencialista,</p><p>deontológica e das virtudes; a ética do cuidado, a formulação mais recente de todas, ainda não</p><p>se encontra suficientemente desenvolvida.</p><p>BOX 4: Um dilema moral</p><p>Um professor tem um aluno excelente, que sempre se destaca nas atividades discentes. No entanto, em</p><p>uma prova dissertativa, o aluno tem um desempenho muito ruim. Investigando o caso, o professor</p><p>descobre que, nas últimas semanas, a mãe do aluno esteve internada em um hospital, e ele a</p><p>acompanhou durante o período, o que lhe impediu de estudar. O professor pode ser leniente na</p><p>correção da prova, conferindo notas mais altas do</p><p>que aos colegas com respostas similares – mas isso</p><p>seria injusto para com os outros. Por outro lado, ele pode manter a nota – mas se o fizer, o desempenho</p><p>do aluno sofrerá e ele perderá uma bolsa que lhe garante os estudos.</p><p>13</p><p>Adendo à seção 1</p><p>Não sendo possível apresentar, dentro dos limites deste trabalho, uma história da ética</p><p>ocidental, e reconhecendo (como faz MacIntyre, 1976) que o entendimento do pensamento</p><p>ético não pode ser desassociado da sua história, acreditamos ser interessante listar alguns dos</p><p>filósofos mais relevantes para a compreensão da evolução do pensamento moral ao longo da</p><p>história da humanidade:</p><p>QUADRO 1: Alguns filósofos relevantes para a evolução histórica da ética e da moral</p><p>IDADE ANTIGA IDADE MÉDIA IDADE MODERNA</p><p>IDADE</p><p>CONTEMPORÂNEA</p><p>SÉCULO XX</p><p>Sócrates (469 a.C.</p><p>– 399 a.C.)</p><p>Platão (427 a. C. –</p><p>347 a.C.)</p><p>Aristóteles (384</p><p>a.C. – 322 a.C.)</p><p>Epicuro (341 a.C.</p><p>– 271 a.C.)</p><p>Zenão de Cítio</p><p>(333 a.C. – 263</p><p>a.C.)</p><p>Cícero (106 a.C. –</p><p>43 a.C.)</p><p>Sêneca (4 a.C. –</p><p>65 d.C.)</p><p>Marco Aurélio</p><p>(121 – 180)</p><p>Santo Agostinho</p><p>(354 – 430)</p><p>Pedro Abelardo</p><p>(1079 – 1142)</p><p>São Tomás de</p><p>Aquino (1225 –</p><p>1274)</p><p>John Duns Scotus</p><p>(1266 – 1308)</p><p>Nicolau Maquiavel</p><p>(1469 – 1527)</p><p>Thomas Hobbes</p><p>(1588 – 1679)</p><p>René Descartes</p><p>(1596 – 1650)</p><p>Baruch de Spinoza</p><p>(1632 – 1677)</p><p>John Locke (1632 –</p><p>1704)</p><p>Francis Hutcheson</p><p>(1694 – 1746)</p><p>David Hume (1711</p><p>– 1776)</p><p>Jean-Jacques</p><p>Rousseau (1712 –</p><p>1778)</p><p>Adam Smith (1723</p><p>– 1790)</p><p>Immanuel Kant</p><p>(1724 – 1804)</p><p>Jeremy Bentham</p><p>(1748 – 1832)</p><p>Georg W. F. Hegel</p><p>(1770 – 1831)</p><p>John Stuart Mill</p><p>(1806 – 1873)</p><p>Karl Marx (1818 –</p><p>1883)</p><p>Herbert Spencer</p><p>(1820 – 1903)</p><p>Henry Sidgwick</p><p>(1838 – 1900)</p><p>Friedrich Nietzsche</p><p>(1844 – 1900)</p><p>G. E. Moore (1873 –</p><p>1958)</p><p>Jean-Paul Sartre</p><p>(1905 – 1980)</p><p>R. M. Hare (1919 –</p><p>2002)</p><p>G. Elizabeth M.</p><p>Anscombe (1919 –</p><p>2001)</p><p>Philippa Foot (1920)</p><p>John Rawls (1921 –</p><p>2002)</p><p>Lawrence Kohlberg</p><p>(1927 – 1987)</p><p>Alasdair MacIntyre</p><p>(1929)</p><p>Amartya Sen (1933)</p><p>Carol Gilligan (1936)</p><p>Michael Slote</p><p>(1941)</p><p>Peter Singer (1946)</p><p>Michael Sandel</p><p>(1953)</p><p>Kwame Anthony</p><p>Appiah (1954)</p><p>14</p><p>Seção 2: Teorias éticas</p><p>Como o Adendo à seção 1 demonstra, é praticamente impossível resumir todas as</p><p>concepções diferentes que, ao longo do tempo, buscavam produzir respostas aos problemas</p><p>levantados pela ética. Ainda assim, algumas vertentes importantes podem ser identificadas, e</p><p>se materializam em diferentes teorias ao longo do tempo.</p><p>2.1) Ética das Virtudes</p><p>A filósofa britânica Julia Annas (1946 – ) afirma que a ética das virtudes, cuja</p><p>formulação inicial se deve a Aristóteles, foi o principal padrão adotado pelos filósofos morais</p><p>até o século XVIII, quando as formulações consequencialista (a partir de Jeremy Bentham) e</p><p>deontológica (de Immanuel Kant) se tornam conhecidas (ANNAS, 2006). Ela apresenta uma</p><p>bela definição da virtude, afirmando tratar-se de uma disposição para agir de uma</p><p>determinada maneira; essa disposição é informada ou guiada pela razão e é construída pelas</p><p>escolhas feitas pelo agente. Em outras palavras, a virtude consiste numa disposição de fazer as</p><p>coisas certas pela razão certa e da maneira apropriada, tornando-se aquilo que um agente</p><p>moral consciente sabe ser o que é certo fazer (ANNAS, 2006).</p><p>As virtudes, afirma Sousa (2009), definem a vontade do agente e fazem com que ele</p><p>atinja o bem; elas são, dessa forma, essenciais para uma vida bem-sucedida, uma vez que</p><p>fazem parte do caráter (o qual de acordo com Paviani e Sangalli, 2014, tem como ponto de</p><p>partida na sua formação a virtude) e ajudam a pessoa a alcançar a excelência. É preciso ter em</p><p>mente que o bem só será alcançado se as ações forem praticadas de acordo com a razão</p><p>informada pela virtude em praticar atos baseados na virtude (SOLOMON, 2006): Paviani e</p><p>Sangalli (2014) afirmam categoricamente que a pergunta central da ética da virtude é como</p><p>BOX 5: Virtude é razão e ação</p><p>Uma pessoa está passeando na praia e vê uma criança se afogando. Sendo uma boa nadadora, essa</p><p>pessoa pula no mar, nada até a criança, acalma-a e consegue trazê-la em segurança para a areia, salvando</p><p>sua vida. É possível afirmar que essa pessoa agiu virtuosamente? Sim, a partir do momento que a razão</p><p>por trás de sua ação tenha sido o impulso de salvar uma vida. Mas se essa pessoa fosse uma péssima</p><p>nadadora, e pusesse em risco sua própria vida, além da criança, ela seria virtuosa? E se essa pessoa fosse</p><p>motivada apenas pelo desejo de ser aplaudida pelos outros?</p><p>15</p><p>devo agir. A resposta a essa pergunta consiste em agir bem, agir de acordo com uma lei moral</p><p>fundamentada em obrigações ou no maior bem possível, tendo sempre em mente que esse</p><p>bem é próprio do ser humano (PAVIANI; SANGALLI, 2014). Solomon (2006) defende a</p><p>ética das virtudes com base na ideia de que ela não apenas define o que é certo, mas também</p><p>o que é bom.</p><p>A virtude integra e harmoniza diferentes aspectos da vida humana; possuí-la, afirma</p><p>Dent (in CANTO-SPERBER, 2003), significa reconhecer razoavelmente a importância de um</p><p>bem que possa ser alcançado ou preservado pela ação humana e dar a esse bem um lugar</p><p>condizente com ele nos nossos pensamentos, atividades, desejos, sentimentos e ambições – ou</p><p>seja, conferimos algum tipo de importância a esse bem.</p><p>Essas visões modernas da virtude possuem fundamento em Aristóteles. Para Simon</p><p>Blackburn (2001), na visão de Aristóteles o telos ou finalidade da vida humana é o bem, que o</p><p>filósofo grego afirmava ser viver de acordo com a razão e praticar a virtude. Isso leva o ser</p><p>humano à felicidade (eudaimonia), que é algo bom em si mesmo, não bom para alguma coisa;</p><p>é uma finalidade suprema do ser humano, e podemos alcançá-la por meio de ações excelentes</p><p>e virtuosas. Assim, a noção aristotélica de virtude, conforme Sangalli e Stefani (2012), é a de</p><p>uma disposição humana em realizar coisas boas, atualizada pela prática constante e capaz de</p><p>formar o caráter e controlar as paixões humanas.</p><p>No entanto, a prática da virtude não é exatamente simples: ela se equilibra entre dois</p><p>tipos de vícios, um deles causado pelo excesso e outro pela falta, e, embora Aristóteles use a</p><p>expressão justo meio para designar essa posição de equilíbrio, ela não é equidistante do</p><p>excesso e da escassez; assim, o homem virtuoso precisa da razão, pois precisa calcular o que é</p><p>a virtude em cada situação, e a razão é auxiliada pelo hábito (é preciso praticar a virtude para</p><p>solucionar os problemas de como agir, bem como desenvolver a capacidade de ação)m</p><p>BOX 6: Características da ética da virtude</p><p>1) Uma ação é correta se está de acordo com o que o agente virtuoso faria naquelas circunstâncias;</p><p>2) A ideia de bondade necessariamente precede a de correção moral, pois a bondade do caráter é o</p><p>elemento mais importante;</p><p>3) As virtudes são bens intrínsecos, isto é, são boas em si mesmas. Elas não são mero instrumento</p><p>para alcançar o bem, elas são o bem;</p><p>4) Tudo o que é bom em si é bom para o agente que pratica a ação;</p><p>5) A ação correta não necessariamente pressupõe a maximização do bem, como uma ética</p><p>consequencialista defende.</p><p>(HOBUSS, 2011)</p><p>16</p><p>fazendo com que uma ação virtuosa em determinado contexto não o seja em outro – mas o</p><p>homem virtuoso sabe como agir (SANGALLI; STEFANI, 2012).</p><p>Solomon (2006) apresenta, então, a lista de virtudes que um ser humano deve possuir:</p><p>a coragem, a temperança, a liberalidade, a magnificência, o orgulho, o bom temperamento, a</p><p>amizade, o amor à verdade, a sabedoria, a vergonha e a justiça. Essa lista, de acordo com</p><p>Solomon (2006), é muito calcada no modelo do bom cidadão ateniense contemporâneo de</p><p>Aristóteles, e precisa de atualização. Além disso, ela desconsidera as virtudes cardeais cristãs,</p><p>como a fé, a esperança e a caridade (SOLOMON, 2006).</p><p>Não sendo possível, aqui, resumir as tentativas de modernizar a lista de Aristóteles,</p><p>cabe-nos apenas mencionar uma formulação muito interessante,</p><p>feita pelo filósofo francês</p><p>André Comte-Sponville (1952 – ). Ele considera as virtudes como forças ou disposições para</p><p>agir, que, em seu uso moral, conduzem o ser humano à excelência, e afirma que, embora seja</p><p>necessária a reflexão para o verdadeiro uso da virtude, o aspecto fundamental reside na</p><p>prática: para aprender o que é a virtude, é preciso materializá-la em atos (COMTE-</p><p>SPONVILLE, 2001).</p><p>QUADRO 2: As virtudes, de acordo com Comte-Sponville</p><p>VIRTUDES</p><p>Polidez Prudência Tolerância</p><p>Fidelidade Compaixão Pureza</p><p>Temperança Misericórdia Doçura</p><p>Coragem Gratidão Boa fé</p><p>Justiça Humildade Humor</p><p>Generosidade Simplicidade Amor</p><p>Fonte: elaboração do autor, a partir de Comte-Sponville (2001).</p><p>2.2) Ética consequencialista</p><p>E se as ações fossem moralmente julgadas pelos resultados que alcançam? O problema</p><p>central seria qual critério seria necessário para esses resultados; como Aristóteles ensinou, o</p><p>que cada pessoa busca em sua vida é a felicidade, e essa felicidade, embora varie de pessoa</p><p>17</p><p>para pessoa, é efetivamente o objetivo que buscamos. Um indivíduo isolado poderia</p><p>perfeitamente buscar sua felicidade sem se importar com os outros, mas somos seres sociais;</p><p>surge, então, a pergunta: é possível justificar que uma pessoa seja feliz às custas da dor e do</p><p>desespero dos outros?</p><p>Nahra (2014) considera que o consequencialismo se distingue pelo fato de que as</p><p>propriedades normativas de uma ação dependem de suas consequências. O valor moral da</p><p>ação é extrínseco, pois os seus resultados a tornam boas ou más (NAHRA, 2014). Brink</p><p>(2006) acrescenta que, no consequencialismo, as ações são julgadas moralmente em termos de</p><p>promoção do bem; o dever é julgado por meio de práticas de ações que promovam o bem, e a</p><p>virtude, por meio da disposição de agir de modo a provocar boas consequências.</p><p>O exemplo mais conhecido de ética consequencialista é dado pela filosofia utilitarista.</p><p>Esta começou a se desenvolver no final do século XVIII a partir do pensamento do filósofo</p><p>britânico Jeremy Bentham (1748 – 1832), ganhando corpo no século XIX a partir das</p><p>formulações de John Stuart Mill (1806 – 1873) e Henry Sidgwick (1838 – 1900). Portanto, há</p><p>diferentes espécies de utilitarismo, com uma preocupação comum: trata-se da doutrina moral</p><p>que determina que a correção de uma ação moral é dada pela bondade de suas consequências</p><p>(SMART, 1972), ou que confere às consequências da ação o papel mais importante na</p><p>reflexão moral (CARVALHO, 2007a); da mesma maneira, um ato incorreto produz o mal.</p><p>Bentham afirmou que o ser humano se sujeita ao governo de dois princípios, o prazer e</p><p>a dor; assim, considerando que as pessoas desejam o prazer e evitam a dor, é possível</p><p>formular um princípio da utilidade, que aprova ou desaprova a ação com a tendência que ela</p><p>parece ter de aumentar ou diminuir a felicidade da parte envolvida, sendo a utilidade, por sua</p><p>vez, devinida como a propriedade de um objeto de produzir vantagens, benefícios, prazer,</p><p>bem, felicidade, ou de evitar que ocorram danos, o mal, a dor ou a infelicidade para a parte</p><p>envolvida (BENTHAM, in BONJOUR; BAKER, 2010).</p><p>Para Bentham, a parte pode ser tanto o indivíduo quanto a comunidade, pois o</p><p>interesse de uma comunidade é definido simplesmente pela soma dos interesses dos</p><p>indivíduos que a formam; o interesse, por sua vez, é o aumento da soma total dos prazeres, ou</p><p>a redução da soma total de dores (BENTHAM, in BONJOUR;BAKER, 2010). Uma ação é</p><p>moralmente boa quando está adequada ao princípio da utilidade. Bentham afirmava que é</p><p>possível medir os prazeres, pois eles são qualitativamente iguais (embora se sujeitem a</p><p>diferentes critérios, como se vê no box a seguir), e que as pessoas são capazes de comparar os</p><p>diferentes prazeres entre si para que possam conseguir o máximo possível (CORTINA;</p><p>18</p><p>MARTÍNEZ, 2005). Dito de maneira bem simples, a filosofia utilitarista transforma o</p><p>problema moral em um cálculo simples: uma ação capaz de trazer o dobro de prazer que outra</p><p>é moralmente preferível; da mesma maneira, uma ação que evite a dor é preferível</p><p>moralmente a outra que porventura venha a aumentá-la. Da mesma maneira, uma ação que</p><p>pudesse simultaneamente aumentar o prazer e reduzir a dor seria a melhor em termos morais.</p><p>O utilitarismo é uma filosofia moral fácil de compreender, intuitivamente simples, mas</p><p>cheia de críticas. Stuart Mill, pensador britânico que se destacou não somente no campo da</p><p>moral, mas também nos da Lógica, da Política e da Economia, tomou para si a função de</p><p>reabilitar o utilitarismo, refutando as críticas feitas. Ele definiu o Princípio da Máxima</p><p>Felicidade como o critério para a ação moral: uma ação é correta quando promove a</p><p>felicidade, esta simplesmente definida como a ausência da dor (STUART MILL, in</p><p>MARCONDES, 2007). Stuart Mill considerava que as ações são morais quando promovem o</p><p>prazer e diminuem a dor, e afirmou que essa proposição se aplica não apenas aos seres</p><p>humanos, mas a qualquer criatura sensível; além disso, ele estabeleceu que a pessoa deve ser</p><p>imparcial, e só pode fazer aos outros o que gostaria que fizessem a ele (STUART MILL, in</p><p>MARCONDES, 2007).</p><p>Diferentemente de Bentham, que só admitia diferenças quantitativas, Stuart Mill</p><p>considerava que os prazeres podem ser diferenciados qualitativamente; existem prazeres</p><p>superiores, que são mais desejáveis e valiosos que os demais, tidos como inferiores, e</p><p>qualquer pessoa que os experimente é capaz de distingui-los e estabelecer suas preferências</p><p>(CORTINA; MARTÍNEZ, 2005). Stuart Mill afirmava que preferia ser um Sócrates</p><p>insatisfeito a um porco satisfeito, pois um ser humano pode ser capaz de experimentar os</p><p>prazeres de uma conversação, das artes, da amizade, da música e das descobertas, e</p><p>considerava que qualquer pessoa racional iria preferi-los (BLACKBURN, 2011). Sandel</p><p>BOX 7: Critérios para medição da utilidade</p><p>Para saber quais ações são moralmente preferíveis, alguns critérios ajudam o agente a decidir:</p><p>a) Intensidade;</p><p>b) Duração;</p><p>c) Certeza da ocorrência do prazer ou da dor;</p><p>d) Proximidade (distância no tempo);</p><p>e) Fecundidade (capacidade de a ação gerar mais prazer ou dor posteriormente);</p><p>f) Pureza (possibilidade de uma ação que gera prazer não trazer uma dor posterior, e vice-versa);</p><p>g) No caso de a parte envolvida ser a comunidade, agrega-se um critério adicional, a extensão, que</p><p>se refere ao número de pessoas afetadas pelo prazer ou pela dor produzidos pela ação.</p><p>(CORTINA; MARTÍNEZ, 2005)</p><p>19</p><p>(2011) discorda da ordenação de prazeres feita por Stuart Mill: para justificar prazeres</p><p>qualitativamente superiores, este teria que recorrer a ideais de dignidade humana que nada</p><p>têm a ver com o utilitarismo em si.</p><p>Além desses aspectos, Stuart Mill pretende que o utilitarismo também tenha um</p><p>componente indireto: segundo Carvalho (2007b), ele reconhece que se deve dedicar atenção</p><p>aos resultados de longo prazo das ações, não somente às consequências imediatas. Em síntese,</p><p>para Borges, Dall’Agnol e Dutra (2002), Stuart Mill foi responsável por algumas mudanças</p><p>importantes no utilitarismo: procurou demonstrar a importância do caráter e da virtude para a</p><p>felicidade, introduziu a distinção qualitativa dos prazeres e demonstrou que a justiça e os</p><p>direitos humanos seriam compatíveis com a utilidade. Neste caso específico, Stuart Mill</p><p>procurou provar que alguns direitos humanos são inalienáveis – e mesmo que maior felicidade</p><p>pudesse ser produzida a partir da violação desses direitos de alguns, não se poderia fazê-lo e</p><p>justificá-lo utilitariamente (BORGES; DALL’AGNOL; DUTRA, 2002).</p><p>A simplicidade do utilitarismo depõe contra sua aplicabilidade. Ao exigir que as</p><p>pessoas sejam capazes de reconhecer e diferenciar o prazer que podem obter com suas ações,</p><p>o utilitarismo leva as pessoas a se transformar em máquinas de calcular; basta um pequeno</p><p>erro e as decisões morais perdem fundamento. Além disso, boas</p><p>consequências podem derivar</p><p>de ações inadequadas de um ponto de vista moral.</p><p>2.3) Ética Deontológica</p><p>As éticas deontológicas são normativas, pois definem o que é bom em si e o que é</p><p>moralmente certo fazer em todas as circunstâncias; deontologia é o termo grego que designa</p><p>como o estudo dos deveres morais, termo cunhado por Bentham e hoje bastante associado aos</p><p>deveres profissionais (SIROUX, in CANTO-SPERBER, 2003). No entanto, embora tenha</p><p>cunhado o termo, Bentham não é um autor associado à deontologia; o filósofo alemão</p><p>Immanuel Kant (1724 – 1804) é considerado o primeiro autor a ter defendido uma ética</p><p>deontológica ao afirmar que um ato é moralmente bom se é executado pelo dever ou pelo</p><p>respeito à lei (BERTEN, in CANTO-SPERBER, 2003).</p><p>20</p><p>Conforme J. B. Schneewind (2009), a ética kantiana é basicamente a obediência a</p><p>normas universais; a principal preocupação de Kant seria definir a norma que orientaria</p><p>qualquer ação humana na direção da moral e da ética. Para o filósofo alemão, a moral é</p><p>autônoma, independe da vontade, e o homem é verdadeiramente livre quando obedece às suas</p><p>normas (SCHNEEWIND, 2009).</p><p>A proposição acima soa paradoxal: a liberdade é, então, a obediência à moral? Kant</p><p>soluciona esse aparente paradoxo afirmando que as pessoas normais são autônomas (portanto,</p><p>livres) quando são capazes de se autogovernar em assuntos morais, ou seja, são capazes de</p><p>seguir sua própria razão, que lhes dita o que é certo fazer, sem seguirem os ditames externos</p><p>de alguma autoridade que definiria, fora deles, o que é moral. Ademais, a autonomia permite</p><p>ao ser humano controlar a si mesmo (SCHNEEWIND, 2009).</p><p>Assim, Kant buscou, em sua principal obra sobre a filosofia moral, a “Crítica da Razão</p><p>Prática” (1788), definir a forma pela qual os preceitos morais devem ser elaborados; para ele,</p><p>os preceitos morais não podem ter nenhum conteúdo específico e devem ser universalizáveis,</p><p>ou seja, devem ter aplicação a todas as situações que envolvem um ser humano dotado de</p><p>razão (MARQUES, 2000). O ideal moral kantiano pode ser descrito como uma forma de</p><p>pensamento totalmente isolada de seu contexto, em que as circunstâncias específicas são</p><p>desconsideradas (MARQUES, 2000) – ou seja, as ações humanas são morais se elas seguem</p><p>uma regra universal, fazendo com que a coisa certa a fazer seja a mesma independentemente</p><p>dos seus resultados e independentemente da situação em que esteja ocorrendo: basta que</p><p>sigam a regra moral correta.</p><p>O problema moral de “o que fazer” se torna, então, “qual regra seguir”. Kant afirmou</p><p>que a vontade governada pela razão é o elemento mais importante da moral; essa vontade é a</p><p>priori, porque independe de experiências, e boa em si mesma (SCHNEEWIND, 2009). A</p><p>vontade racional é governada por regras obrigatórias, fazendo com que ela escolha somente o</p><p>que a razão reconhece como bom; Kant (in MARCONDES, 2000) chama de imperativo a</p><p>BOX 8: O que é a deontologia?</p><p>“[...] Ao refletirmos sobre o que devemos fazer, entram em linha de conta considerações distintas sobre</p><p>características ou qualidades da ação em si mesma, independentemente do que se possa esperar dela. E</p><p>uma ação pode ser correta e boa em si mesma, por exemplo, por ser o cumprimento de uma promessa</p><p>feita, por ser justa, por ser exigida por Deus (para alguém religioso) etc., independentemente das suas</p><p>consequências.”</p><p>(ESTEVES, 2014, p. 249, grifos do autor)</p><p>21</p><p>regra de razão que se aplica obrigatoriamente à vontade, regra que assume a forma de um</p><p>“deve ser” e expressa a relação entre a vontade de uma pessoa qualquer e o que a humanidade</p><p>como um todo quer. Essa regra de razão é o imperativo categórico, que representa uma ação</p><p>objetivamente necessária por si mesmo e sem relação com outras finalidades: expressa uma</p><p>ação boa em si, que deve ser necessariamente realizada por um ser racional (SCHNEEWIND,</p><p>2009). Isso faz com que a lei moral não possua um conteúdo específico: ela é a conformidade</p><p>a si mesma, é a máxima universal que leva a pessoa a agir de acordo com sua vontade</p><p>racional, e essa ação é a mesma em qualquer circunstância (SCHNEEWIND, 2009).</p><p>Sandel (2011) apresenta uma série de proposições importantes para a compreensão da</p><p>ética kantiana. Em primeiro lugar, ele afirma que todos os seres humanos, por serem</p><p>racionais, são merecedores de dignidade e respeito; isso se torna o fundamento da moral, pois</p><p>ela não deve ser pensada como o aumento da felicidade ou a busca por outras finalidades</p><p>quaisquer, e sim como o respeito às pessoas como fins em si mesmas. Além disso, o fato de</p><p>termos essa característica torna a ética kantiana uma base para os direitos humanos universais.</p><p>Por fim, minha autonomia é dada por uma lei que imponho a mim mesmo, e a minha</p><p>liberdade se materializa em escolher o fim supremo em si mesmo.</p><p>Kant (in BONJOUR; BAKER, 2010) elaborou três proposições básicas para a</p><p>moralidade:</p><p>I. Para ter valor moral, uma ação deve ser praticada a partir do dever;</p><p>II. O valor moral não é dado pelo fim a que se destina a ação, e sim pelo imperativo que a</p><p>determina;</p><p>III. O dever se define como a necessidade de uma ação por respeito à lei.</p><p>Assim, uma ação moralmente boa não apenas se ajusta à lei moral, ela é praticada em</p><p>prol da lei moral (KANT, apud SANDEL, 2011). Essa lei moral é expressada pelo imperativo</p><p>categórico. Mas qual seria o imperativo? Kant forneceu diferentes formulações:</p><p>a) Age somente de acordo com aquela máxima pela qual possas ao mesmo tempo querer</p><p>que ela se torne uma lei universal;</p><p>b) Age como se por meio de tuas máximas fosses sempre um legislador no reino</p><p>universal de fins;</p><p>c) Age como se a máxima da tua ação devesse se tornar a lei universal da natureza</p><p>mediante tua vontade;</p><p>d) Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua própria pessoa, quanto na</p><p>pessoa de outro, sempre como um fim, nunca como um meio;</p><p>22</p><p>e) Age de tal modo que a tua vontade possa considerar-se a si mesma como constituindo</p><p>a lei universal por meio de sua máxima.</p><p>Kant preocupava-se com o caráter universal de suas máximas morais. Ao fornecer</p><p>uma regra de razão para a ação humana, ele pensava ter criado uma moral universal e</p><p>independente de contextos e circunstâncias particulares, uma fórmula que encerraria de vez</p><p>com o debate sobre como as pessoas deveriam agir se desejasse ser morais. Além disso,</p><p>porque racional, o imperativo categórico se torna independente de qualquer legislador, divino</p><p>ou terrestre, de religiões ou ordenamentos jurídicos. O grande problema reside no fato de que</p><p>a norma de ação, para ser universal, não pode ter conteúdo particular – e isso significa que o</p><p>agente moral poderia dificuldade de compreendê-la em situações específicas.</p><p>23</p><p>Seção 3: Ética e Administração Pública</p><p>A primeira constatação a ser feita nesta seção é bastante simples: os problemas éticos</p><p>envolvidos na Administração Pública são bastante amplos e variados, e demandam diferentes</p><p>abordagens para que se possa pelo menos discutir uma solução; não basta trabalhá-los sob um</p><p>ponto de vista meramente instrumental, como os códigos de ética dos servidores públicos,</p><p>nem tampouco axiológico, como o princípio da moralidade administrativa: é preciso</p><p>transformá-los em reflexão e ação, em ponto de partida e linha de chegada das atividades do</p><p>administrador público.</p><p>Terry L. Cooper, em ensaio sobre a história da ética na Administração como campo de</p><p>estudo publicado em livro editado por ele próprio (1994), afirma que o livro publicado em</p><p>1936, “The Frontiers of Public Administration” (editado por John M. Gaus, Leonard D. White</p><p>e Marshall Dimock), apresenta questionamentos a respeito da responsabilidade e</p><p>discricionariedade do administrador público, bem como questiona a eficiência como o valor</p><p>central na Administração Pública. Posteriormente, afirma Cooper (1994), Tugwell publicou</p><p>artigo na Public Administration Review em que defendia</p><p>que o “interesse geral” seja o valor</p><p>central para uma organização pública e, em 1952, os primeiros dois livros sobre a ética na</p><p>Administração Pública são lançados nos EUA. O campo se expandiu significativamente ao</p><p>longo dos anos, abrangendo questões referentes à cidadania e democracia, às virtudes e</p><p>responsabilidades, o contexto legal e as tradições constitucionais, as possibilidades de uma</p><p>educação ética, teorias filosóficas, entre outras.</p><p>Dito isto, é preciso ter em mente que a relação entre a Administração Pública e a ética</p><p>envolve um questionamento do que efetivamente aquela é, bem como sobre o que tem a</p><p>oferecer na sociedade. Jiménez Serrano (2010) observa que a Administração se identifica com</p><p>a execução de atividades não em benefício próprio, mas de outras pessoas, com a realização</p><p>de atividades que atinjam atividades descritas como o atingimento de objetivos concretos em</p><p>termos de resultados material ou espiritualmente para os cidadãos, as pessoas jurídicas e a</p><p>sociedade. O servidor público recebe um encargo público: ele deve cumprir os preceitos do</p><p>Direito e da moral administrativa para bem servir a comunidade, entendendo-se este bem</p><p>como:</p><p>a) Identificar o que é conveniente para todos;</p><p>b) Usar adequadamente recursos;</p><p>24</p><p>c) Promover desenvolvimento cultural e econômico na busca de fins superiores aos</p><p>interesses individuais (JIMÉNEZ SERRANO, 2010).</p><p>Um cargo público, conforme o filósofo e cientista político norte-americano Michael</p><p>Walzer (1935 – ), é essencial para a construção de uma sociedade justa e plural; um cargo, na</p><p>definição desse autor, é um posto no qual a sociedade demonstra interesse; originalmente</p><p>reservado às classes mais elevadas, à elite da sociedade, o cargo hoje está aberto a pessoas</p><p>qualificadas para tanto, que devem ser escolhidas conforme normas e regulamentos</p><p>defendidos pela sociedade (WALZER, 2007). Além disso, o cargo público se exerce no</p><p>interesse do usuário dos serviços públicos. Esse interesse, para Walzer (2007), diz respeito a</p><p>cada um dos clientes, pacientes, consumidores de bens e serviços, que dependam de alguma</p><p>forma da competência dos detentores dos cargos. Percebe-se, na argumentação do autor, um</p><p>viés que pode conduzir claramente ao consequencialismo: o bom exercício do cargo público</p><p>pode ser descrito como a maximização dos interesses da população a quem o servidor presta</p><p>suas atividades.</p><p>O utilitarismo, em especial, tem sido identificado como uma importante vertente de</p><p>discussão da ética na Administração Pública. Mulgan (2012) considera que um código moral</p><p>é central para uma boa sociedade, e defende que ele apresente regras direcionadas à</p><p>maximização do bem-estar das pessoas. Goodin (1997) é um defensor da aplicação do</p><p>utilitarismo no julgamento da ação pública, pois esta, mesmo que tenha sido empreendida por</p><p>cidadãos particulares, tem um impacto significativo sobre o bem-estar de outras pessoas. Este</p><p>autor defende que critérios como o bem-estar e a satisfação de preferências sejam usados no</p><p>lugar do da felicidade para analisar as consequências das ações públicas, e observa que muitas</p><p>situações desta ação são comuns e padronizadas, fazendo com que os critérios de satisfação</p><p>do maior número de pessoas possam se perfilar ao lado dos mandamentos deontológicos.</p><p>Neste sentido, pode-se adotar a perspectiva de um utilitarismo de regras: a melhor ação é</p><p>aquela que segue uma regra que maximize o bem para o maior número de pessoas</p><p>(SOLOMON, 2006).</p><p>Mesmo que se respeite a posição de Walzer, deve-se ter em mente que o exercício dos</p><p>cargos públicos enseja questionamentos sobre o que o seu ocupante pode ou não fazer, e não</p><p>somente com os resultados da ação; muitas vezes, a resposta a esses questionamentos passa</p><p>pela criação e disseminação de códigos de ética baseado em valores mais amplos. Plant (in</p><p>COOPER, 1994) afirma que um código pode significar um conjunto de normas legais; um</p><p>conjunto de regras que, embora não sejam leis, podem ser consideradas moralmente</p><p>25</p><p>obrigatórias; um sistema de símbolos para documentação escrita. Um código de ética para a</p><p>Administração Pública passa por todos os significados, pois abrangem uma declaração de</p><p>ideais, padrões de ação consoantes ao ideal, mecanismos para forçar o seu cumprimento, e sua</p><p>retórica simboliza a adesão a padrões e questões de interesse público, identidade profissional</p><p>e de conduta (PLANT, in COOPER, 1994).</p><p>A preocupação com os códigos de ética parece indicar um direcionamento</p><p>deontológico. Chandler (in COOPER, 1994) afirma que os códigos prescrevem direitos</p><p>profissionais para um administrador público cujo mundo se constrói sobre princípios,</p><p>preceitos e regulamentos que não são automaticamente cumpridos; daí a importância de</p><p>materializá-los em um código que permita a análise das situações específicas com base em</p><p>princípios. Outro argumento em favor dessa posição é dado por Chandler, ao observar que o</p><p>relativismo moral dificulta a formação de um senso moral comum e da capacidade de</p><p>discernir entre o certo e o errado (in COOPER, 1994).</p><p>Dois estudiosos norte-americanos da Administração Pública, Robert K. e Janet V.</p><p>Denhardt (2006) afirmam que todas as organizações são permeadas por questões éticas,</p><p>fazendo com que as ações das pessoas que nelas trabalham tenham implicações valorativas.</p><p>Ademais, no que tange especificamente à Administração Pública, a ação é a dimensão mais</p><p>relevante para a ética, e uma ação ética, muitas vezes, impõe ter que escolher entre valores</p><p>distintos que muitas vezes conflitam entre si, de modo a fundamentá-la (DENHARDT;</p><p>DENHARDT, 2006).</p><p>Sabe-se das dificuldades inerentes aos processos decisórios; quando a ética entra em</p><p>questão, é fundamental determinar o que pode afetar e modificar o comportamento do</p><p>administrador público. Wittmer (in COOPER, 1994) recorda que esse administrador não</p><p>apenas se responsabiliza por tomar decisões individuais, mas também por construir um</p><p>ambiente e um conjunto de políticas que promovam essa tomada de decisão ética, o que</p><p>demanda não apenas conhecimentos descritivos sobre o que é feito, mas também normativos</p><p>sobre o que se deve fazer.</p><p>BOX 9: Como deliberar eticamente</p><p>1) Antes de tudo o mais, esclareça os fatos;</p><p>2) Em seguida, procure princípios éticos básicos que possam ser devidamente aceitos pelos</p><p>indivíduos e possam justificar a ação;</p><p>3) Por fim, analise os argumentos apresentados em defesa dos diferentes pontos de vista.</p><p>(DENHARDT; DENHARDT, 2006; grifos meus)</p><p>26</p><p>Uma deliberação ética é dificultada pela existência de diferentes conjuntos de</p><p>variáveis que influenciam a conduta do administrador. Jiménez Serrano (2010) distinguem</p><p>entre variáveis internas e externas (Figura 3):</p><p>Figura 3: Variáveis que afetam a conduta ética</p><p>INTERNAS EXTERNAS</p><p>Autoestima</p><p>Autocontrole</p><p>Desenvolvimento dos valores na pessoa</p><p>Cultura</p><p>Costumes</p><p>Normas morais e jurídicas históricas e em vigor</p><p>Códigos de ética profissional</p><p>Fonte: Elaboração do autor, com base em Jiménez Serrano (2010).</p><p>Tudo isso envolve uma discussão do que é justo ou injusto fazer, de acordo com</p><p>Jiménez Serrano (2010). Esse autor propõe que se considere uma série de elementos: a</p><p>situação (deve ser corretamente definida – como propuseram Denhardt e Denhardt, supra); os</p><p>fins (devem ser honestos); os meios (devem ser razoáveis). Para Jiménez Serrano (2010), se</p><p>não se pode apresentar respostas positivas às perguntas sobre esses elementos, não se</p><p>consegue justificar para a sociedade a existência de um bem.</p><p>Percebe-se, tanto na questão da deliberação ética de Denhardt e Denhardt quanto na</p><p>das variáveis e dos elementos de Jiménez Serrano a preocupação em fazer com que as ações</p><p>derivem de uma reflexão prévia sobre a ética. Essa reflexão nos remete aos princípios</p><p>aristotélicos da virtude, pois a pessoa virtuosa não é simplesmente uma seguidora de regras de</p><p>ação previamente definidas que conduzam ao melhor</p><p>resultado; ainda que se admita que o</p><p>serviço público esteja fortemente normatizado por regras de conduta, há espaço para deliberar</p><p>e decidir o que é a melhor coisa a ser feita.</p><p>Organizações públicas poderão favorecer a ética se forem gerenciadas com</p><p>preocupações éticas. Patrus-Pena e Castro (2010) consideram fundamental que empresas (e,</p><p>por extensão, podemos incluir as organizações públicas) devem criar espaços de discussão e</p><p>diálogo sobre questões éticas, bem como articular um código de ética que se relacione com a</p><p>missão organizacional; para que isso funcione, os autores consideram fundamental o</p><p>envolvimento da alta direção da organização, que deve mostrar comprometimento com essas</p><p>práticas. Denhardt e Denhardt (2006) sugerem que, em primeiro lugar, os mecanismos de</p><p>controle já existentes, como as leis e estatutos ou regimentos dos servidores públicos,</p><p>canalizem preocupações para tanto. Além disso, os gestores devem criar e manter um clima</p><p>ético na organização, verificando os valores, crenças e atitudes do pessoal, desenvolvendo</p><p>27</p><p>uma declaração de valores a partir dessa verificação. Em seguida, deve-se criar programas de</p><p>treinamento e comunicação que fomentem a compreensão e a disseminação de valores junto</p><p>ao pessoal. Por fim, os administradores públicos em posição de liderança devem ter em mente</p><p>o fato de que são modelos de comportamento para os demais (DENHARDT; DENHARDT,</p><p>2006) – ou seja, por que não esperar que esses líderes sejam pessoas virtuosas?</p><p>Neste sentido, Hart (in COOPER, 1994) considera que a democracia será melhor</p><p>servida por pessoas virtuosas, que considerem o cuidado com o bem-estar de seus pares numa</p><p>comunidade uma de suas atribuições. Ele sugere que postos de comando em organizações</p><p>públicas sejam selecionados não apenas pela expertise, mas também pelo caráter (HART, in</p><p>COOPER, 1994). Naturalmente, não se trata de algo fácil; se mesmo os testes de</p><p>conhecimento não dão uma visão totalmente adequada do ocupante do cargo, o que se poderia</p><p>dizer dos morais? De todo modo, embora Hart considere a virtude um fundamento para as</p><p>finalidades políticas e práticas do governo, ele admite não ser suficiente: um bom governo</p><p>demanda boas instituições (in COOPER, 1994).</p><p>Frederickson (in FREDERICKSON; GHERE, 2015) considera que o entendimento da</p><p>virtude na vida pública será encontrado não na discussão e compreensão do que seja a virtude,</p><p>mas no esclarecimento do que é de fato a vida pública. Ele observa que o “público” é um</p><p>conceito mais amplo do que o governo, pois as organizações governamentais “flutuam” num</p><p>oceano público junto com as ONG, as igrejas, os clubes e outras coletividades humanas, e,</p><p>portanto, as atividades humanas nessa esfera são muito mais complexas e variadas do que as</p><p>que seriam encontradas somente em organizações governamentais. Frederickson afirma que</p><p>muitos elementos que se encontram em códigos e declarações de ética e nos procedimentos</p><p>governamentais refletem virtudes, e conclui que é preciso posicioná-las num sentido coletivo</p><p>em vez de individual, bem como levar em consideração as diferentes organizações que</p><p>conjuntamente formam o público (in FREDERICKSON; GHERE, 2015).</p><p>Frederickson afirma que, nos Estados Unidos, a aplicação de diferentes elementos e</p><p>normativas de fundo ético fizeram com que a Administração Pública se tornasse eticamente</p><p>muito mais sólida do que era no princípio do século XX. É uma visão otimista, e, mesmo que</p><p>bem fundamentada pelo autor, não reduz os problemas e dificuldades enfrentados. Neste</p><p>sentido, é interessante também observar alguns dos problemas éticos que mais comumente</p><p>afetam o administrador público (box 10), mesmo que se compartilhe do ponto de vista de</p><p>Frederickson.</p><p>28</p><p>BOX 10: Problemas éticos para o indivíduo na Administração Pública</p><p>1) Interação: os administradores públicos precisam interagir com cargos políticos no Executivo e no</p><p>Legislativo, o que, por um lado, aumenta a accountability do órgão público para com os poderes,</p><p>mas, por outro, nem sempre atende aos interesses públicos;</p><p>2) Obedecer ordens: as organizações possuem autoridade suficiente para indicar os caminhos que</p><p>devem ser seguidos, mas é preciso cuidar para não ferir os valores morais básicos;</p><p>3) Conflitos de interesse: pode existir um conflito entre os interesses do indivíduo e os da</p><p>organização, ou mesmo os da sociedade, como se observa na legislação a respeito das</p><p>quarentenas legais, aos presentes e doações, entre outras;</p><p>4) “Dedos-duros” (whistleblowers): a boa relação com os colegas e um bom ambiente de trabalho</p><p>exigem lealdade e coleguismo. Isso é suficiente para justificar que um administrador público</p><p>mantenha silêncio sobre desvios éticos, fraudes, mau uso dos recursos?</p><p>(DENHARDT; DENHARDT, 2006)</p><p>29</p><p>Considerações finais</p><p>O principal propósito deste pequeno trabalho é chamar a atenção para a vasta riqueza</p><p>do assunto. Questões éticas perpassam todas as esferas da nossa vida, e para quem exerce sua</p><p>profissão lidando com o interesse público, discutir e tentar responder essas questões é</p><p>essencial. Assim sendo, como deve agir o administrador público que enfrenta dilemas éticos</p><p>em sua função?</p><p>Não é possível, aqui, discutir todas as respostas possíveis; em vez disso, propõe-se</p><p>uma análise própria. Em primeiro lugar, é essencial seguir o que os autores ligados à ética da</p><p>virtude demandam: deve-se refletir cuidadosamente sobre a situação e os problemas</p><p>envolvidos. Essa reflexão é essencial para que se possa tomar uma decisão bem informada. Os</p><p>valores subjacentes à decisão precisam ser analisados, discutidos e questionados, e as</p><p>possibilidades de ação devem ser consideradas tendo-se em mente que é preciso evitar tanto o</p><p>excesso quanto a falha. A virtude é uma característica individual: uma sociedade virtuosa é</p><p>um conjunto de pessoas virtuosas antes de tudo o mais. No entanto, isso não é um obstáculo</p><p>para que se discuta e delibere coletivamente, como Frederickson (in FREDERICKSON;</p><p>GHERE, 2015) defende.</p><p>Em segundo lugar, não se pode perder de vista as consequências das ações. O bem-</p><p>estar da coletividade e o interesse público são conceitos um pouco nebulosos, mas precisam</p><p>ser considerados na análise da situação. Como aumentar o bem-estar, como maximizar o</p><p>interesse público? As respostas a essas questões derivam de um comprometimento do servidor</p><p>público com valores muito mais amplos que os individuais, e por isso precisam ser muito bem</p><p>discutidas antes de uma resposta definitiva.</p><p>Finalmente, não se pode desprezar o papel dos princípios. Os deontologistas defendem</p><p>a existência de princípios universais que, no final das contas, nunca foram encontrados. No</p><p>entanto, princípios de ampla aceitação, em muitos casos, podem ser seguidos. Ninguém</p><p>defenderá abertamente a desonestidade, a fraude e a mentira no tratamento das questões</p><p>públicas. Se isso é aceito em outras sociedades ou foi aceito na nossa própria no passado, mas</p><p>hoje é condenável, a força normativa do princípio, evidentemente, é menor do que seria no</p><p>caso de um princípio universal. Mas isso não impede de aplicá-lo em muitas situações</p><p>específicas. Os objetivos da ação em termos de bem-estar e interesse público podem ser</p><p>transformados em princípios de amplo espectro de aplicação nos problemas públicos.</p><p>30</p><p>Evidentemente, não se pode pretender que a aplicação das ideias descritas nos três</p><p>parágrafos anteriores solucionem todos os problemas éticos enfrentados pelo administrador</p><p>público no exercício das suas funções, mas se ajudarem na solução de alguns problemas</p><p>específicos, já terão cumprido ao menos parcialmente sua função. A Administração Pública</p><p>envolve o uso de poderes e capacidades que o indivíduo comum não dispõe, portanto, não se</p><p>pode dissociá-la de uma discussão de fundo moral. Cabe ao administrador público exercê-los</p><p>com virtude, com valores, e com o foco na produção do maior bem possível para os</p><p>administrados que a ele voltam seus olhos na busca pela solução de problemas coletivos.</p><p>31</p><p>Referências</p><p>ANNAS, J. Virtue ethics. In: COPP, D. (ed.). 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