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<p>TEMA 1- CONCURSO DE CRIMES</p><p>AULA 1´-CONCURSO MATERIAL</p><p>RESUMO Concurso de Crimes - Introdução</p><p>O concurso de crimes é o instituto que se verifica quando o agente, mediante uma ou mais condutas, produz dois ou mais resultados. São possíveis unidade e pluralidade de condutas, mas necessariamente haverá pluralidade de resultados.</p><p>Pode ocorrer de várias pessoas, unidas pelo mesmo liame subjetivo, se reúnam com a intenção de cometer determinada infração penal, situação em que se terá o instituto do concurso de pessoas, disciplinado pelo artigo 29, do Código Penal, com o qual não se confunde o concurso de crimes.</p><p>Uma única pessoa pode praticar várias infrações penais, assim como várias pessoas, unidas pela mesma identidade de propósito (semelhante vínculo psicológico), possam praticar pluralidade de crimes, ocorrendo, nesta última hipótese, tanto o concurso de pessoas quanto o concurso de crimes.</p><p>Conforme os ensinamentos de Guilherme de Souza Nucci, denomina-se concurso de crimes a situação em que o agente comete duas ou mais ações, causando dois ou mais resultados e, para saber se houve unidade ou pluralidade delitiva, é preciso consultar a norma penal, tendo em vista que adotamos, no Brasil, a concepção normativa de concurso de crimes. Para tanto, cuida o Código Penal do concurso material, concurso formal e crime continuado1 .</p><p>O legislador penal regulou o tema nos artigos 69, 70 e 71, que preveem, respectivamente, o concurso material, o concurso formal e o crime continuado, constituindo, assim, as três espécies da temática em estudo, cada qual com suas características e regras próprias.</p><p>Inevitavelmente, o concurso de crimes enseja o concurso de penas e, como frisou Maggiore, o problema do concurso de delitos é também um problema de concurso de penas. Assim como no concurso de várias pessoas num mesmo delito se pergunta: Que pena deve aplicar-se a cada um dos co-participantes? Assim, no concurso de vários delitos cometidos por uma só pessoa se perguntará: Que pena deverá aplicar-se a esta por todos os delitos que por ela foram praticados? É necessário determinar, pois, qual é o regime penal a que deve ser submetido o que incorre em diversos delitos2 .</p><p>Quatro sistemas foram preconizados pela doutrina para a aplicação da pena nas diversas modalidades de concurso de crimes.</p><p>Sistemas de Aplicação da Pena no Concurso de Crimes</p><p>1) Sistema Cúmulo Material ou da Acumulação Material: aplica-se ao réu a somatória das penas referentes às infrações penais praticadas. Ou seja, tantos quantos forem as ações e os resultados causados, as penas devem ser somadas. Esse sistema, além de ser utilizado no concurso material de crimes e no concurso formal impróprio, também está presente em outras hipóteses, quando expressamente determinada pela lei.</p><p>É o que ocorre nos casos em que, além da pena prevista para uma infração penal, estipula-se outra pena advinda da violência praticada em conjunto. Vide o crime de resistência, em que a pena é aplicada sem prejuízo da correspondente à violência (art. 329, § 2º, CP). Outros tantos exemplos podem ser extraídos da Parte Especial do Código Penal, como o crime de coação no curso do processo, artigo 344, o delito de impedimento, perturbação ou fraude de concorrência, artigo 335, exercício arbitrário das próprias razões, artigo 345, injúria real, artigo 140, § 2º, etc. Frise- que, nesses casos, a regra do cúmulo material é aplicado ainda que tenha havido uma única conduta.</p><p>2) Sistema da Acumulação Jurídica:</p><p>Embora não utilizado no Brasil, há outro modo de fixação da pena para o caso de concurso de crimes, levando-se em conta não a soma das penas dos delitos cometidos (como ocorre no concurso material), tampouco acarretando a aplicação da pena do mais grave deles acrescida de uma cota-parte previamente estabelecida em lei (como acontece no concurso formal e no crime continuado), mas, sim, fazendo com que exista uma média ponderada entre as várias penas previstas para os diversos crimes, impedindo que haja um excesso punitivo mediante a fixação de um teto. Assim, o montante de pena que ultrapassar esse teto será automaticamente extinto. É o sistema adotado na Espanha4 .</p><p>3) Sistema da Absorção:</p><p>Sistema adotado por Portugal, disciplinando o artigo 79: “O crime continuado é punível com a pena aplicável à conduta mais grave que integra a continuação”. No caso de concurso de crimes, determina-se a pena mais grave, restando as demais absorvidas.</p><p>No tocante ao concurso de crimes, malgrado não ser esse sistema adotado expressamente pelo ordenamento brasileiro, Guilherme de Souza Nucci adverte que há casos em que a jurisprudência, considerando o critério da consunção, no conflito aparente de normas, termina por determinar que o crime mais grave, normalmente o crime-fim, absorve o menor grave, o denominado crime-meio. Evita-se, com isso, a soma das penas, valendo-se de política criminal, objetivando uma pena menor .</p><p>4) Sistema da Exasperação da Pena:</p><p>É o sistema adotado para o concurso formal próprio e o crime continuado. Aplica-se a pena mais grave, aumentada de determinada quantidade em decorrência dos demais crimes. Concurso Material:Artigo 69, do Código Penal.</p><p>Caracteriza-se quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes, idênticos (concurso material homogêneo) ou não (concurso material heterogêneo), devendo ser punido pela soma das penas privativas de liberdade em que haja incorrido, adotando-se o sistema da acumulação material.</p><p>Verifica-se, no concurso material, portanto, a existência de pluralidade de condutas e pluralidade de resultados, não importando, para sua caracterização, se os fatos ocorreram ou não no mesmo contexto fático.</p><p>O momento adequado para a soma das penas, seguindo o sistema de acumulação material, é depois de individualizada a reprimenda de cada uma das infrações penais. Somente após o cálculo individualizado é que o juiz da condenação poderá proceder à soma de todas as penas.</p><p>Na hipótese de não existir conexão entre as várias infrações penais, tramitando em ações diversas, caberá ao juízo da execução aplicar as regras atinentes ao concurso material no que diz respeito à soma de cada uma das reprimendas. Advindo o trânsito em julgado das diversas condenações, elas serão reunidas na mesma execução, momento em que se procederá à soma das penas, na forma do artigo 66, inciso III, “a”, da Lei de Execução Penal.</p><p>Ademais, não obstante a soma, o juízo das execuções também procederá à unificação, nos moldes previstos no artigo 111, da LEP, para fins de verificação do limite máximo de 30 anos estabelecido pelo artigo 75, do CP.</p><p>Na esteira de entendimento sumular número 81, do STJ, não cabe fiança ao réu se, em concurso material, as penas mínimas para os vários crimes que praticou, somadas, forem maiores do que dois anos de reclusão.</p><p>A parte final do artigo 69, do Código Penal, estabelece que, no caso de imposição cumulativa de penas de reclusão e detenção, executa-se inicialmente a pena de reclusão. Na prática, muitos autores observam a inutilidade dessa previsão porque não há praticamente diferença entre essas espécies de penas privativas de liberdade quando cumpridas sob o mesmo regime.</p><p>No entanto, o que importa para o condenado, na realidade, é o regime de cumprimento de pena privativa de liberdade a ser determinado, não sendo possível o resgate no fechado para os crimes punidos com detenção, nos termos do artigo 33, do Código Penal. Assim, quando o julgador aplicar o concurso material entre crimes com espécies distintas de pena, não poderá fazer o somatório: primeiro, deve-se fixar o regime compatível para reclusão e, depois, o compatível para a detenção. Quando o sentenciado estiver cumprindo a reclusão no semiaberto, por progressão, ali começará a cumprir a detenção, na sequência.</p><p>O § 1º, do mencionado artigo, traz a possibilidade de cumulação de pena privativa de liberdade com restritiva de direitos desde que a pena privativa de liberdade imposta a um dos delitos for suspensa (sursis) ou seja determinado o regime aberto</p><p>o crime for culposo, a pena é de seis meses a um ano de detenção, sem prejuízo da multa.</p><p>É preciso atenção para essa situação, pois foge da solução tradicional das obras doutrinárias, que abordam, quase que exclusivamente, a hipótese de dano previsto no Código Penal, que não admite o dano culposo. Contudo, na lei ambiental, o dano prevê modalidade culposa, em razão da maior relevância do patrimônio cultural.</p><p>Em tal situação, segundo o preconizado por Nucci, haverá concurso formal de tentativa de homicídio e dano ao patrimônio cultural culposo.</p><p>3ª hipótese</p><p>Situação possível é a que se pretende cometer o crime contra a pessoa, homicídio ou lesão corporal, o agente consegue o objetivo pretendido, mas também causa dano à coisa.</p><p>Trata-se também de hipótese de fácil solução, no qual o agente responde por crime doloso contra a pessoa e não responde por dano, já que inexiste crime de dano culposo (art. 163, CP). No entanto, vale a ressalva feita anteriormente, caso o dano seja contra patrimônio cultural (art. 62, parágrafo único, da Lei 9.605/1998), que admite modalidade culposa, haverá concurso formal (art. 70, CP), entre o crime doloso contra a pessoa e o crime culposo contra o patrimônio cultural. A pena nesse caso será a maior, aumentada de 1/6 até ½.</p><p>É o que diz Nucci:</p><p>“... se ao atirar contra B, o disparo atingir bem protegido por lei, resguardando-se o patrimônio histórico (art. 62 da Lei 9.605/98), torna-se possível o concurso formal, uma vez eu há a forma culposa (art. 62, parágrafo único, da referida Lei)”. (Nucci, 2017, p. 871).</p><p>4ª hipótese</p><p>Caso ocorra resultado duplo, e o crime pretendido era contra a coisa, mas foi além da coisa atingida pessoa, o agente responderá por dano doloso, que pode ser o previsto no art. 163, CP, ou o previsto no art. 62, parágrafo único, da Lei 9.605/1998, em concurso formal com o crime culposo contra a pessoa, que pode ser lesão corporal culposa (art. 129, § 6º, CP) ou homicídio culposo (art. 121, § 3º, CP). Aplica-se a regra do art. 70, CP, com a pena mais grave sendo aumentada de 1/6 até ½.</p><p>Culpa</p><p>É importante ressaltar que o resultado não desejado, será atribuído a título de culpa, razão pela é preciso verificar se houve culpa no resultado. Como se sabe, um dos elementos do crime culposo é a previsibilidade, de modo que é imprescindível que o resultado não desejado seja previsível. Se não houver culpa, o autor não responde pelo resultado derivado do desvio, ainda que exista previsão legal.</p><p>Assim, se o agente pretendia causar dano, mas atingiu pessoa, em situação em que era imprevisível que se pudesse causar aquele resultado, porque era imprevisível que existisse uma pessoa ali, o agente não responderá por lesão corporal culposa. Em outras palavras, ao dizer, no art. 74, CP, que “o agente responde por culpa”, isso tem como decorrência a necessidade de verificar a presença dos elementos constitutivos do crime culposo.</p><p>Dolo no resultado duplo.</p><p>É factível que o agente, ao agir tivesse com dolo nos dois resultados — contra a coisa e contra a pessoa — principalmente se houver dolo direto em relação a um resultado e dolo eventual, ou até dolo direto de segundo grau, em relação a outro.</p><p>Imagine-se o exemplo de quem decide matar uma pessoa, que sabe estar em uma loja de cristais, com o uso de uma metralhadora. Ao metralhar a vítima que se encontra na loja de cristais, causando a morte e dano patrimonial, não há dúvida de que ele responderá por dois crimes, já que tinha dolo direto de primeiro grau no homicídio e dolo direto de segundo grau no dano.</p><p>QUESTÃO 1-Leia o seguinte texto e responda:</p><p>Após viver o rompimento de um relacionamento amoroso, uma pessoa pretende matar seu excompanheiro. Sabendo que a vítima está trabalhando em um andaime, na restauração de uma capela, considerada por lei como patrimônio cultural por sua importância histórica, o agente dirige um caminhão até o local e desce a ladeira atingindo violentamente a parede da capela, causando grande dano patrimonial, além de atingir o restaurador, seu ex-companheiro.</p><p>Socorrida, a vítima não morreu, apesar de ter se ferido bastante. Por qual crime responde o agente?</p><p>RESPOSTA 1-No caso concreto, não houve o aberratio delicti, pois verifica-se a presença de dolo direto de primeiro grau, em relação ao homicídio e dolo direto de segundo grau em relação ao dano de patrimônio cultural, já que o agente sabia que como consequência certa de sua ação de arremessar o veículo contra o andaime em que estava seu ex-companheiro, ocorreria o dano ao patrimônio cultural. Desse modo, se há dolo nos dois resultados, não se configura o aberratio delicti. Dessa forma, o agente responderá por tentativa de homicídio, já que o resultado morte não ocorreu por razões alheias a sua vontade e dano doloso contra o patrimônio cultural (art. 62, da Lei 9.605/1998).</p><p>QUESTÃO 2-César pretendia destruir um carro e ao jogar um paralelepípedo contra o vidro do veículo, não viu que o passageiro estava lá. Isso, além do dano no carro, causou a morte da pessoa. A responsabilidade de César será:</p><p>RESPOSTA 2-por dano doloso e homicídio culposo.</p><p>Fundamentação: trata-se da regra da segunda parte do art. 74. O agente responde pelo crime doloso, que pretendia cometer e, se houver previsão legal, pelo crime culposo, que é o resultado diverso do pretendido. Como há previsão de homicídio culposo, o agente responderá pelos dois crimes, em concurso formal (art. 70, CP).</p><p>TEMA 3- LIMITES DA PENA E DA UNIFICAÇÃO</p><p>AULA 01: LIMITE DE PENAS</p><p>Importante iniciarmos esta temática com o disposto no artigo 5º, XLVII, da Constituição Federal:</p><p>não haverá penas: a) de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, XIX; b) de caráter perpétuo; c) de trabalhos forçados; d) de banimento; e) cruéis.</p><p>Desta forma, tendo em vista a proibição de pena de caráter perpétuo prevista constitucionalmente, o Código Penal preceitua em seu artigo 75, caput:</p><p>O tempo de cumprimento das penas privativas de liberdade não pode ser superior a 40 (quarenta) anos.</p><p>Assim, o artigo evidencia a impossibilidade de um indivíduo passar a vida toda no cárcere, mesmo se praticasse, por exemplo, 10 latrocínios seguidos.</p><p>Sob outro prisma, a limitação prevista no artigo 75 do Código Penal também atende ao princípio da humanidade, vez que não haveria razão para se encarcerar alguém pelo resto de sua vida, sem qualquer esperança de um dia ser colocado em liberdade. Por mais grave que seja o delito, o condenado tem direito ao arrependimento. Deverá, portanto, durante o cumprimento de sua pena, lutar para retornar a sociedade, buscando tornar-se um cidadão útil.</p><p>Ressalte-se que a identidade e integridade moral do condenado garantida constitucionalmente somente será preservada se houver a possibilidade de este vislumbrar a liberdade.</p><p>Se a pena deve exercer funções preventivas, principalmente no que diz respeito à prevenção especial, ou seja, à ressocialização do condenado, seria um enorme contrassenso admitir-se a pena de prisão perpétua, pois seria de total inutilidade buscar a ressocialização daquele que jamais retornaria ao convívio social.</p><p>Em contrapartida, denota-se que, embora possa parecer desumano encarcerar um indivíduo por mais de 40 (quarenta) anos, não se pode olvidar que há agentes merecedores de penas elevadíssimas - incapazes de receber os benefícios da execução penal antes dos 40 anos - que certamente violaram vidas humanas e, bem assim, não tiveram o menor cuidado em preservar os direitos e valores da sociedade em que vivem, nem sequer respeitar as regras impostas.</p><p>Desta forma, manter tais agentes no cárcere por mais de 40 (quarenta) anos não seria uma questão de vingança, mas sim um fator de segurança para a sociedade.</p><p>Assim, se por um lado apregoa-se o princípio da humanidade para soltura do delinquente persistente quando atingir 40 anos de cumprimento de pena; por outro, não se considera o número de vítimas ou crueldade com que tenha praticado o delito, nem mesmo se o condenado possui perfil perigoso e está capacitado à volta ao convívio social.</p><p>Para Guilherme de</p><p>Souza Nucci, a solução adequada seria, nesses casos extremos, a adoção de uma medida permitindo que o condenado saia da cadeia ao atingir tal limite (ou até mesmo antes), mas sem extinguir a sua elevada pena; ao contrário, mereceria receber, por exemplo, um livramento condicional especial, continuando em observação e podendo retornar ao cárcere caso demonstre sua inaptidão para a vida livre.</p><p>Cumpre observar que o artigo 183 da Lei de Execução Penal prevê que:</p><p>Quando, no curso da execução da pena privativa de liberdade, sobrevier doença mental ou perturbação da saúde mental, o juiz, de ofício, a requerimento do Ministério Público, da Defensoria Pública ou da autoridade administrativa, poderá determinar a substituição da pena por medida de segurança.</p><p>Todavia, a conversão deve obedecer ao limite da pena fixada ou, no máximo, ao limite de 40 anos, que é o teto para o cumprimento de qualquer pena no Brasil.</p><p>Outra questão que deve ser ponderada é ser inconteste existirem pessoas consideradas psicopatas e, portanto, completamente inadaptadas para vida em sociedade, podendo representar elevado risco, quando do retorno em convívio sem a devida supervisão médica.</p><p>Assim, os casos de transtornos de personalidade, sobretudo o tipo antissocial, representam verdadeiros desafios para psiquiatria forense, seja pela dificuldade em identificá-los, mas também no que diz respeito ao tratamento adequado para esses indivíduos e estabelecimento de local mais apropriado para cumprimento de pena, principalmente, devido a maior probabilidade de reincidência criminal, sendo recomendável aos órgãos governamentais a construção de estabelecimentos com estrutura e equipe especializada para custódia desses sujeitos.</p><p>QUESTÃO 1-Juvenal foi condenado a 110 anos, ficou preso durante 20 anos e, no curso da execução da penal, sobreveio uma doença mental. Com base no art. 183 da LEP, foi instaurado incidente de insanidade e detectou-se que o condenado era portador de esquizofrenia, convertendo-se a pena privativa de liberdade em medida de segurança. Cumpridos 40 anos e feito o pedido de liberdade, o juiz da execução decidiu pela manutenção da internação do condenado em razão da não cessação de sua periculosidade. Como advogado de defesa, indique a providência cabível.</p><p>RESPOSTA 1-O advogado de defesa deverá interpor "Agravo em Execução" perante o Juiz da Vara de Execução Penal, com base no art. 197 da LEP, ou ainda e sem prejuízo poderá impetrar “Habeas Corpus” uma vez que o limite de 40 anos para cumprimento de pena determinado no art. 75 do CP também se aplica à execução de medida de segurança, consoante precedentes do STF (RHC 100383/AP, HC 107432/RS e HC 97621/RS) em casos de coação ilegal a sua liberdade de locomoção.</p><p>QUESTÃO 2-Consoante a Lei de Execução Penal, é correto afirmar:</p><p>RESPOSTA 2-Quando, no curso da execução da pena privativa de liberdade, sobrevier doença mental ou perturbação da saúde mental, o juiz, de ofício, a requerimento do Ministério Público, da Defensoria Pública ou da autoridade administrativa, poderá determinar a substituição da pena por medida de segurança.”</p><p>FUNDAMENTAÇÃO- Conforme disposição do artigo 183, da Lei de Execução Penal.</p><p>AULA 02: FUNDAMENTOS E VISÃO CRÍTICA</p><p>O Código Penal estabelece, como limite máximo para o cumprimento das penas no Brasil, o patamar de 40 (quarenta) anos (art. 75). Por outro lado, afora a agravante da reincidência, vislumbra-se que não há uma política criminal voltada à punição dos delinquentes habituais, profissionais ou mesmo perigosos.</p><p>No que tange a esses delinquentes habituais, convém observar que, em sistemas normativos alienígenas, ainda é adotado o sistema do duplo binário, ou seja, aplica-se a medida de segurança além da pena, até que possa ser devidamente certificada a cessação de periculosidade (Alemanha e Itália); havendo também previsão de aplicação de prisão perpétua (França e EUA) ou pena de morte (EUA).</p><p>Um exemplo a ser observado é Portugal que, hodiernamente, reconheceu que um dos problemas mais importantes no domínio da moderna política criminal, verdadeira pedra de toque da eficácia dos sistemas punitivos é, sem dúvida, o que diz respeito aos chamados delinquentes perigosos, criou-se a denominada pena relativamente indeterminada. Observou-se, no final do século passado, pelo aumento da reincidência que, desta feita, demonstrou o insucesso da chamada escola clássica, um direito penal construído essencialmente sobre o fato era insuficiente para lutar contra a criminalidade, tornando claro que a especial periculosidade de certos delinquentes imputáveis não poderia ser prevenida por uma punição que limitasse a medida da reação criminal pela culpa essencialmente referida ao fato ilícito cometido.</p><p>Sendo assim, os próprios representantes da escola clássica na Europa viram-se obrigados a transigir, por razões de ordem prática, com novas ideias de reação criminal, relacionadas diretamente com a personalidade do delinquente, vez que a perigosidade criminal de alguns destes não pode ser prevenida nos quadros da prisão normal (devem existir formas de internamento mais dilatado onde a segurança seja mais efetiva) e, bem assim, a readaptação social de determinados delinquentes não pode acontecer com um prazo certo tendo em vista os tipos de criminalidade ou de gravidade das formas de vida a que a perigosidade nesses casos se refere. Desta forma, a pena relativamente indeterminada é fixada na sentença condenatória com um mínimo e um máximo de duração, transferindo para a fase de execução a determinação do quantum exato de privação de liberdade que o delinquente deverá cumprir.</p><p>E imprescindível debater a existência da criminalidade brutalizada, profissional, organizada e insistente, tomando medidas mais eficazes para o isolamento desses tipos de delinquentes.</p><p>Deve-se almejar um equilíbrio no sistema de penalização, ao invés de uma padronização, conforme a época, ora por meio de uma política de tolerância zero (edição de leis inadequadas à realidade) ou, diametralmente oposto, pela liberação exagerada permitindo a aplicação de penas excessivamente brandas, praticamente despenalizadoras, a crimes graves, o que gera descrédito e desconfiança da sociedade sobre a capacidade do Estado de combater, com eficiência, a criminalidade crescente.</p><p>Assim, para não se punir o criminoso eventual ou autor de delitos de pouca gravidade com pena privativa de liberdade (cárcere não lhe será útil, nem tampouco valiosa será a sua detenção para sociedade) e, outrossim, para que não se aplique penas brandas ao criminoso por tendência, habitual ou profissional, deve-se repensar o sistema buscando soluções intermediárias, por exemplo, no que tange à extinção do duplo binário, vez que tal sistema possibilitava um acompanhamento especial dos delinquentes perigosos.</p><p>O direito penal deve ser rigoroso com aquele que demonstra total desapego aos valores fundamentais, atacando e ferindo desmedidamente bens jurídicos protegidos, não devendo se contentar em simplesmente admitir um limite de 40 anos, acarretando, ao ser atingido, a libertação do condenado.</p><p>É verdade que a Constituição veda a prisão de caráter perpétuo; entretanto, a aplicação de medida de segurança, por exemplo, poderia ser um instrumento para acompanhar o efetivo progresso do delinquente e, se inexistente, mantê-lo em regime de isolamento. Ou, no mínimo, ao atingir os 40 (quarenta) anos de cumprimento de pena, deveria ser adotada um tipo de liberdade condicional, mas nunca a definitiva extinção de punibilidade.</p><p>Em suma, a limitação dos 40 (quarenta) anos é uma padronização inadequada, principalmente se não houver providências no sentido de um acompanhamento especial dos delinquentes perigosos de forma a capacitar o Estado com instrumentos para conter, no isolamento, pessoas inaptas ao convívio social.</p><p>QUESTÃO 1-Caetano, condenado a penas que somam 56 anos de reclusão, já cumpriu 30 anos. Feito pedido de liberdade pelo advogado, o juiz da execução negou sob argumento de que o réu é psicopata. Como advogado de defesa, indique a providência cabível.</p><p>RESPOSTA 1-O advogado de defesa deverá interpor “Habeas Corpus” indicando que a argumentação do juízo da execução sobre eventual diagnóstico de psicopatia não é motivo idôneo para negar a liberação do condenado após o cumprimento de 30 anos de reclusão.</p><p>QUESTÃO 2-No que tange à análise crítica da determinação do art. 75 do Código Penal, estabelecendo o limite máximo de 40 (quarenta) anos para o cumprimento das penas privativas de liberdade no Brasil, é correto afirmar que:</p><p>RESPOSTA 2-Essa limitação configura-se uma padronização que, apesar de atender ao corolário do princípio da humanidade e à vedação constitucional da prisão perpétua, não atende aos anseios da sociedade na medida em que não há uma política criminal voltada aos criminosos perigosos e habituais.”</p><p>FUNDAMENTAÇÃO- A análise crítica da limitação do art. 75 do CP indica que a padronização é inadequada, principalmente por restar desacompanhada de providências para acompanhamento especial dos delinquentes perigosos e habituais, de forma a capacitar o Estado com instrumentos para lidar com esses criminosos.</p><p>AULA 03: 3. ED. SÃO PAULO: REVISTA DOS TRIBUNAIS, 2009, PÁGS. 323-329.</p><p>Aduz o artigo 75, § 1º, que:</p><p>quando o agente for condenado a penas privativas de liberdade cuja soma seja superior a 40 (quarenta) anos, devem elas ser unificadas para atender ao limite máximo deste artigo.</p><p>Antes de adentrarmos ao tema, temos que distinguir "soma" de "unificação" como encontramos no artigo 66, III, "a", da Lei da Execução Penal que determina a competência do juiz da execução para decidir sobre a soma ou a unificação das penas.</p><p>Soma é a simples operação matemática que tem por finalidade reunir, adicionar, a fim de se chegar a um resultado final de todas as penas aplicadas ao condenado.</p><p>Já a unificação, embora não deixe de ser uma soma, destina-se a afastar do total das penas aplicadas ao condenado o tempo que supere o limite de trinta anos para limitar o cumprimento de pena consoante determinado pelo artigo 75 do Código Penal.</p><p>Conforme já estudado, o artigo 75 do Código Penal determina que "o tempo de cumprimento das penas privativas de liberdade não pode ser superior a 40 (quarenta) anos". Contudo, vale esclarecer que esse limite refere-se ao tempo de cumprimento da pena privativa de liberdade; entretanto, nada impede que o agente, autor de vários crimes, receba condenação superior àquele limite.</p><p>Quando, no entanto, as condenações de um mesmo agente atingirem soma superior a 40 (quarenta) anos devem elas ser unificadas para atingir o limite máximo estabelecido (art. 75, § 1º, do CP).</p><p>A limitação do cumprimento da pena de prisão tem por finalidade alimentar no condenado a esperança de liberdade e aceitação da disciplina importa por ela, conforme previsto no item 61 da Exposição de Motivos da Lei de Execução Penal, além de adequar-se à proscrição da prisão perpétua prevista na Constituição Federal.</p><p>Antes da unificação, seguia-se a regra prevista no artigo 76 do Código Penal, segundo a qual, diante da existência de dois ou mais títulos executivos, executava-se a pena mais grave e as demais ficavam aguardando.</p><p>Já com a unificação, abandona-se a execução singular e passa-se a execução coletiva, observando, quando necessário, a regra do art. 76 do Código Penal, uma vez que nem sempre é possível firmar a unidade.</p><p>Observe-se que, em algumas situações, não é possível realizar a unificação como, por exemplo, nos crimes hediondos e assemelhados cuja pena deve ser cumprida inicialmente em regime fechado e a prisão simples não poderá ser fixada em regime fechado (LCP, art. 6º, caput); para crimes apenados com detenção cujo regime inicial deve ser fixado em regime semiaberto e aberto, admitindo-se o fechado apenas pela regressão (art. 33, caput, CP); e, ainda, os condenados por crimes decorrentes de organização criminosa, os quais iniciarão o cumprimento da pena em regime fechado independentemente se apenados com detenção ou reclusão (art. 10 da Lei nº 9.034/95). Trata-se, portanto, de restrições naturais nas quais eventual unidade perseguida será artificial.</p><p>Na unificação das penas há determinação do quantum da pena privativa de liberdade e também do regime de cumprimento, sendo assim, haverá uma decisão interlocutória de conteúdo executivo; haverá uma formação de título executivo sucessivo às condenações individuais e, por isso, o termo inicial para contagem do prazo para concessão do benefício da progressão do regime prisional não pode ser anterior à formação deste título.</p><p>Deve-se proceder à unificação logo no início do cumprimento da pena, incluindo todas as condenações anteriores, inclusive as decorrentes de crimes praticados após o encarceramento. Todavia, se a condenação é posterior à sentença de unificação, aplica-se o disposto no artigo 75, § 2º, do Código Penal.</p><p>Assim, quando o condenado praticar novo crime durante a execução, farar-se-á nova unificação de penas, abatendo-se o tempo já cumprido (art. 75, § 2º, do CP). Ressalte-se que a unificação pode gerar certa sensação de impunidade ao sujeito que condenado a 40 anos de prisão pratique novos delitos no início de seu cumprimento.</p><p>Cumpre destacar que esse limite de 40 anos imposto pelo Código Penal, aplica-se tão somente ao cumprimento de pena, não sendo aplicável para concessão de outros benefícios, como progressão, indulto, livramento condicional etc.</p><p>Esse entendimento foi coroado pelo STF na Súmula nº 715: "A pena unificada para atender ao limite de trinta anos de cumprimento, determinado pelo art. 75 do Código Penal, não é considerada para a concessão de outros benefícios, como o livramento condicional ou regime mais favorável de execução.".</p><p>No tocante à pena de multa, temos seu limite máximo em 360 dias-multa, no valor de cinco salários mínimos (art. 49, § 1º, do CP), podendo ser triplicada se o juiz considerar que, em virtude da situação econômica do réu, é ineficaz, embora aplicada no máximo. Poderá atingir, assim, 5.400 salários-mínimos (o vigente no país na época do crime), atualizado pelos índices de correção monetária (art. 49, § 2º, do CP).</p><p>QUESTÃO 1-Gilmar, condenado a penas que somam 154 anos de reclusão, continua preso após o cumprimento de 30 anos e 6 meses de prisão. Como advogado de defesa, indique a providência cabível.</p><p>RESPOSTA 1-O advogado de defesa deverá interpor “Habeas Corpus” com fundamento na necessária observância do limite de cumprimento de pena determinado pelo art. 75 do CP (máximo de 30 anos).</p><p>QUESTÃO 2-Considerando as limitações relativas ao cumprimento de penas privativas de liberdade no Brasil, estabelecidas pelo artigo 75 do Código Penal, e o entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre a questão, analise as seguintes afirmativas.</p><p>I. O limite estabelecido pelo art. 75 do Código Penal determina que, no Brasil, nenhum réu pode ser condenado a pena superior a 40 anos.</p><p>II. A pena unificada para atender ao limite de 40 anos de cumprimento, determinado pelo art. 75 do Código Penal, não é considerada unicamente para a concessão de livramento condicional.</p><p>III. O limite estabelecido pelo art. 75 do Código Penal não deve ser considerado porque este artigo foi declarado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal e não há limite para o cumprimento de pena privativa de liberdade no Brasil, podendo os réus serem condenados a centenas de anos de prisão.</p><p>IV. A pena unificada para atender ao limite de 40 anos de cumprimento, determinado pelo art. 75 do Código penal, não é considerada para a concessão de progressão ao regime mais favorável na execução da pena.</p><p>V. Quando o agente for condenado a penas privativas de liberdade cuja soma seja superior a 40 anos, devem elas ser unificadas para atender ao limite máximo deste artigo; sobrevindo condenação por fato posterior ao início do cumprimento da pena, far-se-á nova unificação, desprezando-se, para esse fim, o período de pena já cumprido.</p><p>Está correto apenas o que se afirma em:</p><p>RESPOSTA 2-IV e V.</p><p>Fundamentação- Nos termos do artigo 75 do Código Penal e Súmula nº 715 do Supremo Tribunal Federal.</p><p>AULA 04: UNIFICAÇÃO DAS PENAS IV</p><p>O artigo 82 do Código de Processo Penal determina que:</p><p>Art. 82. Se, não obstante a conexão ou continência, forem instaurados processos diferentes, a autoridade de jurisdição prevalente deverá avocar os processos que corram perante os outros juízes, salvo se já estiverem com sentença definitiva. Neste caso, a unidade dos processos só se dará, ulteriormente, para o efeito de soma ou de unificação das penas.</p><p>Sendo assim, quando a regra do artigo 82 do Código de Processo Penal não for aplicada por qualquer motivo ou for impossível de ser aplicada pelo juízo de conhecimento, a soma ou unificação das penas será realizada pelo juízo da execução (Lei de Execução Penal, art. 66, III, "a"):</p><p>Art. 66. Compete ao Juiz da execução: (...) III - decidir sobre: soma ou unificação de penas; (...)</p><p>Sendo assim, cabe ao juiz que controla todas as condenações promover a necessária somatória das penas e verificar a adequação do regime imposto, bem como dos benefícios auferidos.</p><p>A soma das penas ocorrerá no concurso material e no concurso formal imperfeito; ao passo que a unificação das penas se verifica no concurso formal perfeito e no crime continuado.</p><p>Por exemplo: em caso de concurso material quando as penas são somadas, é possível que o réu tenha três penas de dois anos em regime aberto, cada uma delas, pois todas provenientes de juízos criminais diferentes. É natural que, concentrando-se todas elas na Vara de Execução Penal, o montante atingirá seis anos e o regime aberto torna-se incompatível (art. 33, § 2º, "b", do CP). Deverá, então, o magistrado adaptá-lo ao semiaberto, no mínimo.</p><p>Outro exemplo: poderá haver unificação de pena quando um réu possui dez condenações por crime de furto simples, atingindo a pena de dez anos de reclusão, motivo pelo qual foi inserido com fulcro no art. 33, § 2º, "a", CP no regime inicial fechado. Todavia, se o juízo da execução constata existência de crime continuado (art. 71, CP), faz a unificação de todas as penas em um ano e seis meses de reclusão, devendo, logicamente, afastar o regime fechado e aplicar o aberto.</p><p>Observe-se, ainda que, nas operações de soma e unificação, o tempo de pena já remido ou de detração deve ser deduzido conforme dispõe o artigo 111 da Lei de Execução Penal:</p><p>Quando houver condenação por mais de um crime, no mesmo processo ou em processos distintos, a determinação do regime de cumprimento será feita pelo resultado da soma ou unificação das penas, observada, quando for o caso, a detração ou remição.</p><p>Em outras palavras, determina o artigo 111 da Lei de Execução Penal que, para o cálculo da unificação ou somatória, sejam considerados os benefícios da detração (art. 42 do CP) e da remição (art. 126 da LEP).</p><p>Deve-se observar que o termo a quo para aquisição de progressão de regime de cumprimento de pena é a data da sentença que termina a unificação ou soma das penas embora não haja qualquer previsão expressa na Lei de Execução Penal ou Código Penal.</p><p>QUESTÃO 1-Giuliano foi condenado em três processos distintos, em comarcas contíguas, por delitos da mesma espécie, cometidos em condições semelhantes de tempo, lugar e maneira de execução. Por ocasião do início da execução, o juiz não procedeu à unificação das penas. Como advogado de defesa, indique a providência cabível.</p><p>RESPOSTA 1-O advogado de defesa deverá interpor “Habeas Corpus” para requerer a unificação com reconhecimento de crime continuado.</p><p>QUESTÃO 2-Julgue os itens subsequentes, com relação às disposições da Lei de Execução Penal, e indique a alternativa correta.</p><p>RESPOSTA 2-Quando houver condenação por mais de um crime, no mesmo processo ou em processos distintos, a determinação do regime de cumprimento será feita pelo resultado da soma ou unificação das penas, observada, quando for o caso, a detração ou remição.</p><p>Fundamentação- Nos termos do art. 111 da LEP.</p><p>AULA 01: SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA - I</p><p>1. Conceito:</p><p>A suspensão condicional da pena, segundo a conceituação do professor Guilherme de Souza Nucci é a "medida de política criminal, cuja finalidade é evitar o encarceramento do condenado, quando apenado a montantes diminutos de pena (até dois anos, como regra), além de preenchidos outros requisitos legais. Para tanto, suspende-se o cumprimento da pena, sob certas condições" (Guilherme de Souza Nucci, Curso de Direito Penal - Vol. 1 - Parte Geral. Forense, 11/2016). Por seu turno, ALVES concebe a suspensão condicional da pena (sursis) como "o sobrestamento da execução da pena privativa de liberdade, mediante determinadas condições a serem obedecidas pelo condenado durante um período de prova". (ALVES, Manual de direito penal: parte geral e especial)</p><p>2. Natureza jurídica:</p><p>A natureza jurídica da suspensão condicional da pena encontra posições diversas na doutrina, das quais se destacam aquela (i) defendida por Bitencourt, segundo a qual a natureza jurídica da suspensão condicional da pena seria de pena; (ii) sustentada por Noronha, de condição resolutória do direito de punir; (iii) a posição de que consistiria em direito público subjetivo do condenado; e, por fim, (iv) a posição de Nucci, segundo a qual a natureza jurídica da suspensão condicional da pena é de medida de política criminal para evitar a aplicação da pena privativa de liberdade, consubstanciada numa outra forma de cumprimento de pena.</p><p>3. Espécies:</p><p>No que toca a espécie, a suspensão condicional da pena pode ser dividida em simples e especial:</p><p>- Simples (art. 78, §1º): cabível quando a pena privativa de liberdade aplicada não for superior a 2 anos, caso em que o período de prova é de 2 a 4 anos. Trata-se de medida de política criminal mais severa, pois traz como condição para a concessão a prestação de serviços à comunidade ou limitação de fim de semana.</p><p>- Especial (art. 78, §2º): cabível quando a pena privativa de liberdade não for superior a 2 anos, sendo o período de prova de 2 a 4 anos. Exige-se a reparação do dano pelo condenado (ou impossibilidade de fazê-lo) e circunstâncias do art. 59 inteiramente favoráveis. Trata-se de medida política criminal mais branda, pois traz como condições para a concessão a proibição de frequentar determinados lugares; a proibição de ausentar-se da comarca, sem autorização do juiz; o comparecimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente, para informar e justificar suas atividades.</p><p>- Etário ou humanitário (art. 77, §2º): parte da doutrina ainda sustenta a existência da suspensão condicional da pena etária ou humanitária como uma espécie de sursis, uma vez que o art. 77, §2º do Código Penal estabelece que a execução da pena privativa de liberdade, não superior a quatro anos, poderá ser suspensa, por quatro a seis anos, desde que o condenado seja maior de setenta anos de idade, ou razões de saúde justifiquem a suspensão.</p><p>4. O sursis é faculdade do juiz ou direito subjetivo do sentenciado?</p><p>Tem prevalecido a posição de que a suspensão condicional da pena é um direito subjetivo do réu, uma vez que o art. 77 do Código Penal fixa requisitos objetivos e subjetivos a serem cumpridos, ocasião em que não poderia o magistrado, preenchidos os requisitos legais, recusar a concessão. Nesse sentido, é o voto do Ministro do STJ, Jorge Mussi:</p><p>Da leitura do artigo 77 do Código Penal, observa-se que preenchidos os requisitos objetivos e subjetivos nele previstos, é direito do réu obter a suspensão condicional da pena. 2. Ainda que o magistrado singular não tenha apreciado a possibilidade de aplicação da benesse quando proferiu sentença nos autos, e a defesa não tenha pleiteado a sua concessão ao apelar do édito repressivo, não há falar em reformatio in pejus quando a Corte de Apelação examina o tema, já que a própria legislação processual penal o obriga a analisá-la quando a condenação à pena privativa de liberdade não superar 2 (dois) anos. (STJ, HC 298162 SP, Rel. Min. Jorge Mussi, 5ª.T., j. 04/11/2014, v.u.).</p><p>Em sendo um direito do subjetivo do réu, temos, ainda, que do ponto de vista do sentenciado, o sursis é facultativo, pois a aceitação não é obrigatória.</p><p>5. Requisitos para a concessão do sursis simples:</p><p>O</p><p>artigo 77, caput, do Código Penal estabelece que a execução da pena privativa de liberdade, não superior a 2 anos, poderá ser suspensa, por 2 a 4 anos, desde que:</p><p>I - o condenado não seja reincidente em crime doloso;</p><p>II - a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias autorizem a concessão do benefício;</p><p>III - Não seja indicada ou cabível a substituição prevista no art. 44 deste Código.</p><p>Nesse sentido, temos por requisitos objetivos (i) a pena privativa de liberdade, não superior a 2 anos e (ii) a impossibilidade de substituição da pena, nos termos da previsão do art. 44 Código Penal. Por requisitos subjetivos, por seu turno, temos (i) não ser o condenado reincidente em crime doloso; (ii) a culpabilidade, antecedentes, conduta social e personalidade do agente, bem como motivos e circunstâncias autorizem a concessão do benefício.</p><p>Há de se notar que, nos termos do art. 80 da CP/40, a suspensão não se estende às penas restritivas de direitos nem à multa.</p><p>5.1 Situações não impeditivas da concessão:</p><p>a) Condenação anterior a pena de multa. A respeito, o art. 77, §1º, CP/40, estabelece que a condenação anterior a pena de multa não impede a concessão do benefício. No mesmo sentido é a súmula 499 do STF, in verbis: não obsta à concessão do "sursis" a condenação anterior à pena de multa.</p><p>b) Réu reincidente em crime culposo.</p><p>c) Prescrição da pretensão punitiva do crime anterior.</p><p>d) Condenação anterior por contravenção.</p><p>e) Perdão judicial anteriormente concedido.</p><p>f) Réu foragido ou revel.</p><p>6. Requisitos para a concessão do sursis especial:</p><p>Art. 77, §2º, CP/40: será concedida a suspensão condicional da penal se o condenado houver reparado o dano, salvo impossibilidade de fazê-lo, e se as circunstâncias do art. 59 deste Código lhe forem inteiramente favoráveis.</p><p>Ou seja, o sursis especial é mais benéfico, pois além de todas as condições do simples, exige como requisito objetivo a reparação do dano sempre que possível e, como requisito subjetivo, que as circunstâncias do art. 59 deste Código sejam inteiramente favoráveis.</p><p>7. Requisitos para a concessão dos sursis etário e humanitário (art. 77, §2º)</p><p>Requer-se que a execução da pena privativa de liberdade não seja superior a 4 anos e que o condenado seja maior de setenta anos de idade, ou razões de saúde justifiquem a suspensão.</p><p>8. Crimes Ambientais (art. 16, Lei 9.605/98)</p><p>Por fim, cumpre salientar que nos casos de crimes ambientais, a suspensão condicional da pena pode ser aplicada nos casos de condenação a pena privativa de liberdade não superior a três anos.</p><p>Devemos, entretanto, observar as seguintes situações impeditivas:</p><p>a) prescrição da pretensão executória da condenação anterior;</p><p>b) condenação anterior irrecorrível, no exterior, que é capaz de gerar a reincidência (art. 63, CP);</p><p>c) aplicação de medida de segurança;</p><p>QUESTÃO 1-Ednaldo foi absolvido impropriamente, pois subtraiu uma jaqueta, um frasco de perfume e uma caixa de chocolates, bens avaliados em R$ 325,00, do estabelecimento comercial denominado Lojas Litorâneas, conforme reconhecido mediante a prova testemunhal coligida através dos depoimentos de dois funcionários, que ali trabalham como seguranças de loja, e disseram ter acompanhado toda a ação delitiva, inclusive com uma breve troca de tiros durante a passagem do mesmo pelos caixas, sem pagar pelas mercadorias, detendo-o ainda na porta da referida loja. Considerando que a decisão que a decisão foi proferida ontem, como deve proceder e o que deve argumentar o advogado de Ednaldo?</p><p>RESPOSTA 1-Não é cabível a substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, vez que o roubo envolve a prática de violência ou grave ameaça contra pessoa. Conforme o art. 44 do Código Penal, "as penas restritivas de direitos são autônomas e substituem as privativas de liberdade, quando: I – aplicada pena privativa de liberdade não superior a quatro anos e o crime não for cometido com violência ou grave ameaça à pessoa ou, qualquer que seja a pena aplicada, se o crime for culposo” (grifo nosso). Porém, em tese é possível a suspensão condicional da pena, pois preenchidos os requisitos do art. 77 do Código Penal.</p><p>QUESTÃO 2-A execução da pena privativa de liberdade, não superior a 2 anos, poderá ser suspensa, por 2 a 4 anos, desde que:</p><p>RESPOSTA 2-o condenado não seja reincidente em crime doloso; a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias autorizem a concessão do benefício; não seja indicada ou cabível a substituição da pena privativa por restritiva de direitos.</p><p>FUNDAMENTAÇÃO- Nos termos do art. 77 do Código Penal, “a execução da pena privativa de liberdade, não superior a 2 anos, poderá ser suspensa, por 2 a 4 anos, desde que: I - o condenado não seja reincidente em crime doloso; II - a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias autorizem a concessão do benefício; III - não seja indicada ou cabível a substituição prevista no art. 44 deste Código”.</p><p>AULA 02: SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA - II</p><p>Estudados os requisitos para a concessão da suspensão condicional da pena, na presente aula, abordaremos o período de suspensão, as condições impostas ao condenação, a suspensão de seus direitos políticos, a realização da audiência admonitória, as hipóteses de revogação do sursis, a possibilidade de prorrogação do período de prova e a consequência do cumprimento das obrigações impostas.</p><p>1. Período de suspensão:</p><p>A pena poderá ficar suspensa, sob condições, pelo período de:</p><p>a) 2 a 4 anos, para penas que não ultrapassem 2 anos.</p><p>b) 4 a 6 anos, para penas superiores a 2 anos, que não ultrapassem 4 (sursis etário ou para enfermo).</p><p>c) 1 a 3 anos, para penas provenientes de contravenções penais (art. 11 do Decreto-lei 3.688/1941)</p><p>2. Condições:</p><p>Sursis simples: para a suspensão condicional da pena simples (art. 78, §1º), cujo tratamento jurídico-penal é mais severo, no primeiro ano do prazo, deverá o condenado submeter-se a prestação de serviços à comunidade ou limitação de fim de semana.</p><p>Sursis especial: para a suspensão condicional da pena especial (art. 78, §2º), cujo tratamento jurídico-penal é mais brando, deverá o condenado observar as seguintes condições: proibição de frequentar determinados lugares; proibição de ausentar-se da comarca, sem autorização do juiz; comparecimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente, para informar e justificar suas atividades.</p><p>É de se ressaltar que a sentença poderá especificar outras condições a que fica subordinada a suspensão, desde que adequadas ao fato e à situação pessoal do condenado, nos termos do artigo 79 do Código Penal.</p><p>Outro ponto a ser ressaltar é o fato de que o juiz deve fixar o regime de cumprimento de pena (regime penitenciário), mesmo concedendo a suspensão condicional da pena.</p><p>3. Suspensão dos direitos políticos:</p><p>O artigo 15, inciso III, da Constituição Federal de 1988, estabelece que "é vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos casos de condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos".</p><p>Nesse sentido, enquanto estiver no prazo do período de prova, o beneficiário da suspensão condicional da pena estará com seus direitos políticos suspensos.</p><p>4. Audiência admonitória:</p><p>A Lei de Execução Penal estabelece, em seu artigo 158, que concedida a suspensão, o Juiz especificará as condições a que fica sujeito o condenado, pelo prazo fixado, começando este a correr da audiência admonitória, prevista no artigo 160 da LEP.</p><p>A luz do referido artigo, temos que transitada em julgado a sentença condenatória, o Juiz a lerá ao condenado, em audiência, advertindo-o das consequências de nova infração penal e do descumprimento das condições impostas.</p><p>Se, intimado pessoalmente ou por edital com prazo de 20 (vinte) dias, o réu não comparecer injustificadamente à audiência admonitória, a suspensão ficará sem efeito e será executada imediatamente a pena</p><p>(artigo 161, LEP).</p><p>5. Revogação:</p><p>No que diz respeito à revogação da suspensão condicional da pena, o Código Penal estabelece que esta poderá ser obrigatória ou facultativa.</p><p>Será obrigatória, a teor do artigo 81, caput, do Código Penal, sempre que, no curso do prazo, o beneficiário da suspensão condicional da pena:</p><p>(a) é condenado, em sentença irrecorrível, por crime doloso;</p><p>(b) frustra, embora solvente, a execução de pena de multa ou não efetua, sem motivo justificado, a reparação do dano; e</p><p>(c) descumpre a condição do §1º do art. 78 do Código Penal, que determina a prestação de serviços à comunidade ou a limitação de fim de semana.</p><p>Por seu turno, será facultativa a revogação da sursis, nos termos do artigo 81, §1º, do Código Penal, sempre que o beneficiário:</p><p>(a) descumpre qualquer outra condição imposta, como a proibição de frequentar determinados lugares, a proibição de ausentar-se da comarca sem autorização do juiz e o comparecimento mensal em juízo, dispostas no art. 78, §2º do Código Penal, bem como as outras condições compatíveis estabelecidas pelo juiz. (art. 79 do Código Penal).</p><p>(b) é irrecorrivelmente condenado, por crime culposo ou por contravenção, a pena privativa de liberdade ou restritiva de direitos.</p><p>6. Prorrogação do período de prova:</p><p>O artigo 81, §2º do Código Penal estabelece que se o beneficiário está sendo processado por outro crime ou contravenção, deve ser considerado prorrogado o prazo da suspensão até o julgamento definitivo.</p><p>O §3º do mesmo artigo estabelece, ainda, que quando facultativa a revogação, o juiz pode, ao invés de decretá-la, prorrogar o período de prova até o máximo, se este não foi o fixado.</p><p>7. Cumprimento das condições:</p><p>O artigo 82, caput, do Código Penal, por seu turno, estabelece que expirado o prazo sem que tenha havido revogação, considera-se extinta a pena privativa de liberdade.</p><p>Entretanto, se descoberta hipótese de revogação após o período de prova, tem-se entendido que é cabível a revogação do sursis. O STJ firmou entendido que o limite para revogação da suspensão condicional da pena é o trânsito em julgado da sentença que julga extinta a pena privativa de liberdade.</p><p>Por fim, é importante trazer a luz algumas especificidades sobre a sursis, conforme:</p><p>a) Os casos de violência doméstica admitem a suspensão condicional da pena, se presentes os requisitos legais.</p><p>b) No caso de concurso de crimes, será admitida a suspensão condicional da pena, se a somatória das penas não extrapolar o limite legal.</p><p>c) No caso de indulto, tem prevalecido o entendimento que atinge os beneficiários em gozo de suspensão condicional da pena.</p><p>d) Os processos em andamento, em tese, não impedem a suspensão condicional da pena, em função da necessária observância ao princípio constitucional da presunção de inocência.</p><p>e) Nos crimes hediondos, tem prevalecido que estes não impedem, absolutamente, o sursis, devendo-se verificar o caso concreto.</p><p>f) Os estrangeiros de passagem pelo país podem receber suspensão condicional da pena, segundo entendimento majoritário.</p><p>g) A suspensão condicional da pena simultânea é possível.</p><p>QUESTÃO 1-Elenilton foi absolvido impropriamente, em razão da prática de lesão corporal leve, sendo fixada sua internação por prazo mínimo de 1 ano, cujo início se deu em dezembro de 2014. De acordo com exames de cessão de periculosidade, realizados anualmente, Elenilton é portador de oligofrenia em grau intermediário e ostenta periculosidade persistente. Considerando que, ao avaliar o último exame (realizado em dezembro do ano passado), o magistrado das execuções entendeu, por bem, prorrogar a internação de Elenilton e sendo a decisão que a decisão foi proferida ontem, como deve proceder o seu advogado?</p><p>RESPOSTA 1-De acordo com os Tribunais Superiores, constatado o descumprimento de condição imposta durante o período de prova da suspensão condicional da pena, é cabível a revogação do benefício, ainda que a decisão venha a ser proferida após o término do período de prova. Porém, é possível alegar que, uma vez julgada extinta a pena privativa de liberdade por sentença transitada em julgado, não é mais possível a revogação do sursis. Nesse sentido: “Inexiste constrangimento ilegal quanto à revogação do benefício da suspensão condicional da pena em razão de condenação pelo cometimento de outro crime durante o período de prova, desde que não tenha sido extinta a punibilidade do agente mediante sentença transitada em julgado, nos termos do inciso I do art. 81 do Código Penal” (grifo nosso)(STJ, Rel. Min. Laurita Vaz, 5ª T., j. 04/10/11,v.u.).</p><p>QUESTÃO 2-Assinale a alternativa CORRETA:</p><p>RESPOSTA 2-O descumprimento de condição prevista no § 1º do art. 78 do Código Penal (prestação de serviços à comunidade ou a limitação de fim de semana enseja revogação obrigatória da suspensão condicional da pena.</p><p>FUNDAMENTAÇÃO- Artigo 81 do Código Penal.</p><p>AULA 03: NOME</p><p>1. Conceito de Livramento Condicional:</p><p>O livramento condicional é "um instituto de política criminal, destinado a permitir a redução do tempo de prisão com a concessão antecipada e provisória da liberdade do condenado, quando é cumprida pena privativa de liberdade, mediante o preenchimento de determinados requisitos e a aceitação de certas condições" (Guilherme de Souza Nucci, Curso de Direito Penal - Vol. 1 - Parte Geral. Forense, 11/2016)</p><p>2. Natureza jurídica do Livramento Condicional:</p><p>Benefício ao acusado, fazendo parte de seu direito subjetivo (Nucci).</p><p>Segundo Damásio, o instituto, na reforma penal de 1984, não constitui mais um direito público subjetivo de liberdade do condenado, nem incidente da execução. É medida penal de natureza restritiva da liberdade. Não é um benefício. É forma de execução da pena privativa da liberdade.</p><p>3. Requisitos do Livramento Condicional:</p><p>3.1 Requisitos objetivos:</p><p>a) Pena privativa de liberdade for igual ou superior a 2 anos, observada a prescrição do art. 84 do Código Penal que estabelece que as penas que correspondem a infrações diversas devem somar-se para efeito do livramento condicional.</p><p>b) O lapso temporal deve observar as características do caso, no sentido de que:</p><p>Para crime não hediondo, deve cumprir mais de 1/3 da pena, se não for reincidente em crime doloso e tiver bons antecedentes. Se reincidente, o lapso para a ser de mais de 1/2 da pena.</p><p>No caso de o condenado tiver maus antecedentes, mas não for reincidente, a doutrina e a jurisprudência tem que se posicionado da seguinte forma:</p><p>Posição mais favorável ao condenado: 1/3 (STJ, HC 102278 / RJ, Rel. Min. Jane Silva, 6ª T., j. 03/04/2008)</p><p>Adequação por exclusão: 1/2 (Nucci)</p><p>Nos casos de crime hediondo, tortura, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, tráfico de pessoas e terrorismo, deve ser cumprido mais de 2/3 da pena, se o apenado não for reincidente específico em crime dessa natureza.</p><p>A Lei de Execução Penal, em seu art. 112, estabelece que a pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada pelo juiz, quando o preso tiver cumprido ao menos:</p><p>I - 16% (dezesseis por cento) da pena, se o apenado for primário e o crime tiver sido cometido sem violência à pessoa ou grave ameaça;</p><p>II - 20% (vinte por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime cometido sem violência à pessoa ou grave ameaça;</p><p>III - 25% (vinte e cinco por cento) da pena, se o apenado for primário e o crime tiver sido cometido com violência à pessoa ou grave ameaça;</p><p>IV - 30% (trinta por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime cometido com violência à pessoa ou grave ameaça;</p><p>V - 40% (quarenta por cento) da pena, se o apenado for condenado pela prática de crime hediondo ou equiparado, se for primário;</p><p>VI - 50% (cinquenta por cento) da pena, se o apenado for:</p><p>a) condenado pela prática de crime hediondo ou equiparado, com resultado morte, se for primário, vedado o livramento condicional;</p><p>b) condenado por exercer o comando, individual ou coletivo, de organização criminosa estruturada para a prática de crime hediondo ou equiparado; ou</p><p>c) condenado</p><p>pela prática do crime de constituição de milícia privada;</p><p>VII - 60% (sessenta por cento) da pena, se o apenado for reincidente na prática de crime hediondo ou equiparado;</p><p>VIII - 70% (setenta por cento) da pena, se o apenado for reincidente em crime hediondo ou equiparado com resultado morte, vedado o livramento condicional.</p><p>Em todos os casos, a teor do §1º do mesmo artigo, o apenado só terá direito à progressão de regime se ostentar boa conduta carcerária, comprovada pelo diretor do estabelecimento, respeitadas as normas que vedam a progressão. Sendo certo que a decisão do juiz que determinar a progressão de regime será sempre motivada e precedida de manifestação do Ministério Público e do defensor, procedimento que também será adotado na concessão de livramento condicional, indulto e comutação de penas, respeitados os prazos previstos nas normas vigentes (§2º, art. 112 da LEP).</p><p>Falta Grave:</p><p>No que toca a falta grave, é importante a visitação dos entendimentos sumulados pelo Superior Tribunal de Justiça, conforme:</p><p>- Súmula 441: Prática de falta grave NÃO INTERROMPE o prazo para a obtenção de LIVRAMENTO CONDICIONAL.</p><p>- Súmula 534: Prática de falta grave INTERROMPE o prazo para a PROGRESSÃO DE REGIME, o qual se reinicia a partir do cometimento dessa infração.</p><p>- Súmula 535: A prática de falta grave NÃO INTERROMPE o prazo para fim de COMUTAÇÃO DE PENA OU INDULTO</p><p>c) Reparação do dano, salvo impossibilidade efetiva</p><p>3.2 Requisitos subjetivos:</p><p>Por seu turno, são requisitos subjetivos para a concessão do livramento condicional:</p><p>a) bom comportamento durante a execução da pena; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>b) não cometimento de falta grave nos últimos 12 (doze) meses; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>c) bom desempenho no trabalho que lhe foi atribuído; e (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>d) aptidão para prover a própria subsistência mediante trabalho honesto; (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>e) Para o condenado por crime doloso, cometido com violência ou grave ameaça à pessoa, a concessão do livramento ficará também subordinada à constatação de condições pessoais que façam presumir que o liberado não voltará a delinquir.</p><p>4. Hipótese de não cabimento:</p><p>A Lei 13.964/2019 alterou o artigo 112 da LEP, conforme visualizamos acima, para, entre outras coisas, vedar a possibilidade de livramento condicional ao condenado pela prática de crime hediondo ou equiparado, com resultado morte, ainda que for primário. Além disso, a Lei anticrime também acrescentou, ao art. 2º da Lei 12.850/2013, o §9º para prescrever que o condenado expressamente em sentença por integrar organização criminosa ou por crime praticado por meio de organização criminosa não poderá progredir de regime de cumprimento de pena ou obter livramento condicional ou outros benefícios prisionais se houver elementos probatórios que indiquem a manutenção do vínculo associativo.</p><p>5. Conselho Penitenciário:</p><p>O artigo 61 da Lei de Execução Penal coloca entre os órgãos da execução penal o Conselho Penitenciário, definido como órgão consultivo e fiscalizador da execução da pena (art. 69, LEP).</p><p>Nesse sentido, a teor do artigo 70, da LEP, podemos dizer que são atribuições do Conselho Penitenciário:</p><p>a) emitir parecer sobre livramento condicional, indulto e comutação de pena;</p><p>b) emitir parecer sobre indulto e comutação de pena, excetuada a hipótese de pedido de indulto com base no estado de saúde do preso.</p><p>Para nosso estudo, é importante ressaltar que após o advento da Lei 10.792/2003, o Conselho Penitenciário não mais emite parecer sobre livramento condicional, conforme é o entendimento jurisprudencial:</p><p>EXECUÇÃO PENAL. HABEAS CORPUS IMPETRADO EM SUBSTITUIÇÃO A RECURSO PRÓPRIO. INADEQUAÇÃO. LIVRAMENTO CONDICIONAL. PRÉVIA OITIVA DO CONSELHO PENITENCIÁRIO. DESNECESSIDADE. ART. 112 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL, COM NOVA REDAÇÃO DADA PELA LEI N. 10.792/2003. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. WRIT NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. (...) 2. O Superior Tribunal de Justiça tem entendimento reiterado de que não se exige a prévia oitiva do Conselho Penitenciário para fins de concessão do livramento condicional, segundo a nova redação do art. 112 da LEP dada pela Lei n. 10.792/2003. Precedentes. 3. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida de ofício para cassar o acórdão impugnado, restabelecendo a decisão de primeiro grau que deferiu ao paciente o benefício do livramento condicional. (STJ, HC 350902 / SP, Rel. Min. Ribeiro Dantas, 5ª T., j. 21/06/2016, v.u.).</p><p>6. Condições para concessão do livramento</p><p>O art. 132 da LEP estabelece que deferido o pedido de livramento condicional, o juiz especificará as condições a que fica subordinado o livramento. Sendo certo que serão sempre impostas ao liberado condicional as obrigações seguintes:</p><p>a) obter ocupação lícita, dentro de prazo razoável se for apto para o trabalho;</p><p>b) comunicar periodicamente ao Juiz sua ocupação;</p><p>c) não mudar do território da comarca do Juízo da execução, sem prévia autorização deste.</p><p>Mas ainda, a teor do §2 do mesmo artigo, poderão ainda ser impostas ao liberado condicional, entre outras obrigações, as seguintes:</p><p>a) não mudar de residência sem comunicação ao Juiz e à autoridade incumbida da observação cautelar e de proteção;</p><p>b) recolher-se à habitação em hora fixada;</p><p>c) não frequentar determinados lugares.</p><p>7. Revogação do livramento condicional:</p><p>Revogação obrigatória: o artigo 86 do CP estabelece que o livramento condicional será revogado, se o liberado vem a ser condenado a pena privativa de liberdade, em sentença irrecorrível:</p><p>a) por crime cometido durante a vigência do benefício;</p><p>b) por crime anterior, observado o disposto no art. 84 do Código Penal, que estabelece que as penas que correspondem a infrações diversas devem somar-se para efeito do livramento.</p><p>Revogação facultativa: o artigo 87 do CP, por seu turno, dispõe que o juiz poderá, também, revogar o livramento, se o liberado deixar de cumprir qualquer das obrigações constantes da sentença, ou for irrecorrivelmente condenado, por crime ou contravenção, a pena que não seja privativa de liberdade.</p><p>8. Efeitos da revogação do livramento condicional:</p><p>Revogado o livramento, não poderá ser novamente concedido, e, salvo quando a revogação resulta de condenação por outro crime anterior àquele benefício, não se desconta na pena o tempo em que esteve solto o condenado (art. 88, CP).</p><p>9. Extinção do livramento condicional:</p><p>O juiz não poderá declarar extinta a pena, enquanto não passar em julgado a sentença em processo a que responde o liberado, por crime cometido na vigência do livramento (art. 89, CP), sendo certo que se até o seu término o livramento não é revogado, considera-se extinta a pena privativa de liberdade (art. 90, CP).</p><p>QUESTÃO 1-Ricardo, cumprindo pena em regime semiaberto, pratica falta grave. Essa falta grave, à luz da jurisprudência das Cortes Superiores, provocará reflexos nos lapsos temporais para progressão de regime e/ou para livramento condicional?</p><p>RESPOSTA 1-De acordo com entendimento sumulado do STJ, a prática de falta grave não interrompe o prazo para a obtenção de livramento condicional (súmula 441). Porém, interrompe o prazo para a progressão de regime, o qual se reinicia a partir do cometimento dessa infração (súmula 534).</p><p>QUESTÃO 2-De acordo com o Superior Tribunal de Justiça:</p><p>RESPOSTA 2-“A prática de falta grave não interrompe o prazo para livramento condicional, mas interrompe o prazo para progressão de regime”.</p><p>Fundamentação- Nesse sentido: Súmula 441 do STJ “Prática de falta grave não interrompe o prazo para a obtenção de livramento condicional”; Súmula 534 do STJ “Prática de falta grave interrompe o prazo para a progressão de regime, o qual se reinicia a partir do cometimento dessa infração”.</p><p>AULA 04: LIVRAMENTO CONDICIONAL - II</p><p>De início, cumpre salientar que a concessão do livramento condicional é independente da progressão de regime. Isso que dizer que o executado que ingressa no regime fechado não tem por obrigação ou requisito o ingresso no regime semiaberto para poder pleitear o livramento</p><p>condicional.</p><p>1. Condições para a concessão do livramento condicional:</p><p>A Lei de Execução Penal, em seu artigo 123, estabelece as condições obrigatórias e facultativas que podem ser impostas ao executado quando da obtenção de seu livramento.</p><p>São condições obrigatórias, conforme o caput do art. 132, LEP:</p><p>a) Obter ocupação lícita, dentro de prazo razoável, se for apto para o trabalho;</p><p>b) Comunicar, periodicamente, ao juiz da execução a sua ocupação;</p><p>c) Não mudar do território da comarca do Juízo da execução, sem prévia autorização deste.</p><p>Por seu turno, o juiz ainda poderá, facultativamente, conforme o §2º do art. 132 da LEP, impor ao liberado, entre outras condições, as seguintes:</p><p>a) Não mudar de residência sem comunicação ao Juiz e à autoridade incumbida da observação cautelar e de proteção;</p><p>b) Recolher-se à habitação em hora fixada;</p><p>c) Não frequentar determinados lugares</p><p>2. Revogação do Livramento Condicional</p><p>Assim como no caso da suspensão condicional da penal, o Código Penal, em seus artigos 86 e 87, estabelece hipóteses de revogação obrigatória e facultativa do livramento condicional.</p><p>O artigo 86 do Código Penal determina que o juiz revogará o livramento condicional nos casos de:</p><p>a) Condenação irrecorrível a pena privativa de liberdade por crime cometido durante a vigência do benefício (art. 86, I, do CP).</p><p>b) Condenação irrecorrível a pena privativa de liberdade por crime anterior à vigência do benefício (art. 86, II, do CP).</p><p>Por seu turno, será facultativa a revogação do livramento condicional, a teor do art. 87 do Código Penal, nas hipóteses de que:</p><p>a) Descumprimento de qualquer das obrigações constantes da sentença.</p><p>b) Condenação irrecorrível a pena não privativa de liberdade, por crime ou contravenção cometido durante a vigência do benefício (art. 87).</p><p>c) Condenação irrecorrível a pena não privativa de liberdade, por crime ou contravenção anterior à vigência do benefício (art. 87).</p><p>É importante pontuar que a revogação do livramento condicional depende da prévia oitiva do liberado, conforme entendimento sedimentado da jurisprudência:</p><p>PENAL E PROCESSUAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. VIA INADEQUADA. EXECUÇÃO PENAL. LIVRAMENTO CONDICIONAL. DESCUMPRIMENTO DAS CONDIÇÕES ESTABELECIDAS. APENADO NÃO LOCALIZADO PARA APRESENTAR JUSTIFICATIVA. REVOGAÇÃO. POSSIBILIDADE. (...) 2. Esta Corte Superior tem entendido que, diferentemente da suspensão cautelar, a revogação do livramento condicional depende da prévia oitiva do apenado, sob pena de ofensa às garantias constitucionais da ampla defesa e do contraditório. Porém, quando o reeducando não é localizado no endereço por ele fornecido, em descumprimento ao estabelecido para gozo do benefício (LEP, art. 132, §§1º e 2º), o livramento condicional deve ser revogado, ex vi do disposto no art. 87 do Código Penal. Precedentes. 3. No caso, após a suspensão do benefício, determinou-se a intimação do paciente para que apresentasse justificativa, diligência que foi infrutífera, haja vista não ter sido o apenado localizado no endereço declinado nos autos, constatação que ensejou a revogação da benesse, em consonância com o entendimento deste Tribunal. 4. Habeas corpus não conhecido. (STJ, HC 216725 / RJ, Rel. Min. Gurgel de Faria, 5ª T., j. 13/10/2015, v.u.)</p><p>3. Efeitos da revogação do Livramento Condicional</p><p>Tanto a Lei de Execução Penal quanto o Código Penal estabelecem disposições quanto à revogação do livramento condicional.</p><p>O artigo 141 da LEP dispõe que se a revogação for motivada por infração penal anterior à vigência do livramento, computar-se-á como tempo de cumprimento da pena o período de prova, sendo permitida, para a concessão de novo livramento, a soma do tempo das 2 (duas) penas. Entretanto, a teor do art. 142 da LEP, no caso de revogação por outro motivo, não se computará na pena o tempo em que esteve solto o liberado, e tampouco se concederá, em relação à mesma pena, novo livramento.</p><p>Por seu turno, o Código Penal, em seu art. 88, prescreve que revogado o livramento, não poderá ser novamente concedido, e, salvo quando a revogação resulta de condenação por outro crime anterior àquele benefício, não se desconta na pena o tempo em que esteve solto o condenado.</p><p>No que atine às hipóteses e consequências jurídicas, temos que:</p><p>a) Condenação irrecorrível por infração praticada antes do livramento: nessa hipótese, o executado poderá receber novo livramento condicional, inclusive quanto à mesma pena. As penas podem ser somadas para obtenção de novo livramento e o tempo de liberdade condicional é computado como pena cumprida.</p><p>b) Condenação irrecorrível por infração praticada durante o livramento condicional: nesse caso, há a inadmissibilidade de novo livramento em relação à mesma pena (em tese, poderá obter livramento condicional na segunda condenação) e o tempo de liberdade condicional não será computado como pena cumprida.</p><p>c) Descumprimento das condições: nessa hipótese, também há a inadmissibilidade de novo livramento em relação à mesma pena (em tese, poderá obter livramento condicional na segunda condenação) e o tempo de liberdade condicional não é computado como pena cumprida.</p><p>4. Suspensão do Livramento Condicional</p><p>No mesmo sentido, a suspensão do livramento condicional também encontra regramento tanto na Lei de Execução Penal quanto no Código Penal.</p><p>A LEP, em seu art. 145, estabelece que praticada pelo liberado outra infração penal, o Juiz poderá ordenar a sua prisão, ouvidos o Conselho Penitenciário e o Ministério Público, suspendendo o curso do livramento condicional, cuja revogação, entretanto, ficará dependendo da decisão final.</p><p>Já o Código Penal, a teor do art. 89, dispõe que o juiz não poderá declarar extinta a pena, enquanto não passar em julgado a sentença em processo a que responde o liberado, por crime cometido na vigência do livramento.</p><p>No que toca a suspensão cautelar, a jurisprudência tem estabelecido, que diferentemente da revogação definitiva, sua determinação não depende de oitiva prévia do apenado.</p><p>5. Prorrogação</p><p>O juiz não poderá declarar extinta a pena, enquanto não passar em julgado a sentença em processo a que responde o liberado, por crime cometido na vigência do livramento (art. 89).</p><p>Mas a prorrogação do período de prova é automática ou exige decisão judicial?</p><p>Para responder a indagação, adotemos como exemplo o seguinte caso: João é condenado a 6 anos de reclusão por roubo. Cumpre mais de 2 anos e obtém livramento condicional. Após 1 ano do período de prova (portanto, quando restavam 3 anos a cumprir), pratica um furto. O trânsito em julgado da condenação por esta nova infração ocorre 4 anos depois. Se entendermos que a prorrogação do período de prova é automática, o juiz da execução pode revogar o livramento condicional (João terá de cumprir os 4 anos restantes do roubo - pois não se computa o período de prova -, além da pena do furto). Porém, se considerarmos que não é automática, o livramento condicional somente pode ser revogado se o juiz da execução tiver expressamente prorrogado o período de prova (se não teve esse cuidado, extinguiu-se a pena de João em relação ao roubo quando escoado o período de prova).</p><p>Sobre o tema, existem 2 posições:</p><p>- A prorrogação é automática, ocorrendo com o mero recebimento de denúncia ou queixa. Esse entendimento predomina na doutrina e, a meu ver, harmoniza-se com a redação do 89 do Código Penal.</p><p>- A prorrogação não é automática, exigindo decisão judicial. É a corrente adotada pelos Tribunais Superiores. Nesse sentido, estabelece a súmula 617 do Superior Tribunal de Justiça: a ausência de suspensão ou revogação do livramento condicional antes do término do período de prova enseja a extinção da punibilidade pelo integral cumprimento da pena.</p><p>Cumpre ainda salientar que durante a prorrogação do período de prova, não se aplicam as condições do livramento condicional (ou seja, aplicam-se as condições apenas durante o período de prova, não durante a prorrogação).</p><p>6. Extinção</p><p>Conforme o art. 90 do Código Penal, se até o seu término o livramento não é revogado, considera-se</p><p>extinta a pena privativa de liberdade.</p><p>A Lei de Execução Penal, por sua vez, estabelece no art. 146 que o Juiz, de ofício, a requerimento do interessado, do Ministério Público ou mediante representação do Conselho Penitenciário, julgará extinta a pena privativa de liberdade, se expirar o prazo do livramento sem revogação.</p><p>Qual o lapso temporal para livramento condicional no crime de associação para o tráfico?</p><p>Art. 44 da Lei 11.343/2006: os crimes previstos nos arts. 33, caput e §1º, e 34 a 37 desta Lei são inafiançáveis e insuscetíveis de sursis, graça, indulto, anistia e liberdade provisória, vedada a conversão de suas penas em restritivas de direitos. Parágrafo único. Nos crimes previstos no caput deste artigo, dar-se-á o livramento condicional após o cumprimento de dois terços da pena, vedada sua concessão ao reincidente específico.</p><p>Conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça:</p><p>O crime de associação para o tráfico não é considerado hediondo ou equiparado, contudo o art. 44, parágrafo único, da Lei 11.343/2006 estabelece prazo mais rigoroso para a concessão de livramento condicional, qual seja, 2/3 do cumprimento da pena, vedando a sua concessão ao reincidente específico. Agravo regimental improvido" (STJ, AgInt no AREsp 532666 / MS, Rel. Min. Nefi Cordeiro, 6a T., j. 27/06/2017, v.u.)</p><p>Havendo várias condenações e tendo sido reconhecida a reincidência apenas em relação a uma delas, como deve ser calculado o lapso temporal para os benefícios?</p><p>Sobre a questão:</p><p>RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO PENAL. LIVRAMENTO CONDICIONAL. REINCIDÊNCIA EM CRIME DOLOSO. VÁRIAS CONDENAÇÕES. FRAÇÃO DE ½ APLICÁVEL AO SOMATÓRIO DAS PENAS. ART. 83, II, DO CP. RECURSO PROVIDO. 1. As penas relacionadas a condenações diversas devem somar-se para efeito do livramento condicional, a teor do art. 84 do CP. 2. Esta Corte possui a orientação de que sendo o apenado reincidente em crime doloso comum e havendo pluralidade de condenações, é aplicável a fração de 1/2 sobre a soma de todas as penas sob execução, ainda que primário ao tempo de algumas sentenças, pois a condição de reincidente passa a reger todo o cálculo de benefícios, impondo o atendimento de fração mais elevada para o alcance do livramento condicional. 3. Não se aplica, de forma separada, o patamar de 1/3 para a execução de penas referentes ao tempo em que o paciente era primário e de 1/2 para as demais execuções. 4. Recurso especial provido. (STJ, REsp 1596738 / RS, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, 6ª T., j. 30/06/2016, v.u.)</p><p>7. Livramento condicional para estrangeiro</p><p>É admissível o livramento condicional para estrangeiro, a teor do art. 5º da CF/88, que estabelece que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.</p><p>Nesse sentido, a Lei 13.445/2017, em seu art. 54, §3º, dispõe que:</p><p>A expulsão consiste em medida administrativa de retirada compulsória de migrante ou visitante do território nacional, conjugada com o impedimento de reingresso por prazo determinado. (...) §3o O processamento da expulsão em caso de crime comum não prejudicará a progressão de regime, o cumprimento da pena, a suspensão condicional do processo, a comutação da pena ou a concessão de pena alternativa, de indulto coletivo ou individual, de anistia ou de quaisquer benefícios concedidos em igualdade de condições ao nacional brasileiro.</p><p>Na jurisprudência:</p><p>PENAL E PROCESSO PENAL. EXECUÇÃO. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO. PROGRESSÃO DE REGIME. ESTRANGEIRO EM SITUAÇÃO IRREGULAR. PROCESSO DE EXPULSÃO EM ANDAMENTO. IMPEDIMENTO AO BENEFÍCIO NÃO CONFIGURADO. AGRAVO IMPROVIDO. 1. "Esta Corte Superior consolidou entendimento no sentido de que a situação irregular do estrangeiro no País não é circunstância, por si só, capaz de afastar o princípio da igualdade entre nacionais e estrangeiros, razão pela qual a existência de processo ou mesmo decreto de expulsão em desfavor do estrangeiro não impede a concessão dos benefícios da progressão de regime ou do livramento condicional, tendo em vista que a expulsão poderá ocorrer, conforme o interesse nacional, após o cumprimento da pena, ou mesmo antes disto." (STJ, AgRg no HC 321157 / SP, Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. 05/04/2016; HC 389.794, 6ª T., Rel. Min. Maria Thereza, j. 01/03/2017)</p><p>QUESTÃO 1-Pedro, em gozo de livramento condicional, vem a ser condenado por crime praticado anteriormente ao livramento, o que provoca a revogação do benefício. O tempo de liberdade condicional será computado como pena cumprida? Há diferença se o crime tiver sido praticado por Pedro durante o livramento?</p><p>RESPOSTA 1-"Tratando-se de condenação irrecorrível por infração praticada antes do livramento, Pedro poderá receber novo livramento condicional, inclusive quanto à mesma pena; as penas podem ser somadas para obtenção de novo livramento; e o tempo de liberdade condicional é computado como pena cumprida.</p><p>Porém, tratando-se de condenação irrecorrível por infração praticada durante o livramento condicional, será inadmissível novo livramento em relação à mesma pena (em tese, poderá obter livramento condicional na segunda condenação); e o tempo de liberdade condicional não é computado como pena cumprida.</p><p>Dispositivos aplicáveis:</p><p>LEP, Art. 141. Se a revogação for motivada por infração penal anterior à vigência do livramento, computar-se-á como tempo de cumprimento da pena o período de prova, sendo permitida, para a concessão de novo livramento, a soma do tempo das 2 (duas) penas.</p><p>LEP, art. 142. No caso de revogação por outro motivo, não se computará na pena o tempo em que esteve solto o liberado, e tampouco se concederá, em relação à mesma pena, novo livramento.</p><p>CP, art. 88 - Revogado o livramento, não poderá ser novamente concedido, e, salvo quando a revogação resulta de condenação por outro crime anterior àquele benefício, não se desconta na pena o tempo em que esteve solto o condenado.</p><p>QUESTÃO 2-No tocante ao livramento condicional, marque a assertiva CORRETA:</p><p>RESPOSTA 2-No caso de condenação irrecorrível por infração praticada antes do livramento, o sentenciado poderá receber novo livramento condicional, inclusive quanto à mesma pena, e o tempo de liberdade condicional é computado como pena cumprida.</p><p>Fundamentação: Nos termos do art. 141 da Lei de Execução Penal, “se a revogação for motivada por infração penal anterior à vigência do livramento, computar-se-á como tempo de cumprimento da pena o período de prova, sendo permitida, para a concessão de novo livramento, a soma do tempo das 2 (duas) penas”. Outrossim, prevê o art. 88 do Código Penal: “Revogado o livramento, não poderá ser novamente concedido, e, salvo quando a revogação resulta de condenação por outro crime anterior àquele benefício, não se desconta na pena o tempo em que esteve solto o condenado”.</p><p>AULA 01: CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA</p><p>No que diz que diz respeito à condenação, podemos afirmar que é um exercício exclusivo do poder judiciário, proferido em ação penal, após o exercício do devido processo legal através do qual um de seus representantes impõe sanção penal ao agente responsável por um fato caracterizado típico ou ilícito. Essa condenação tem outros efeitos, tanto de natureza penal como de caráter extrapenal.</p><p>Os efeitos da condenação são todas as consequências que atingem, de forma direta ou indireta, a pessoa do condenado pela prática criminosa, depois da sentença penal transitada em julgado.</p><p>O pressuposto para o efeito da condenação é a sentença penal transitada em julgado, não importando qual será a sanção penal aplicada pela sentença penal condenatória, como penas de reclusão, detenção, prisão simples, restritivas de direitos e multa.</p><p>Importante lembrar que nos casos em que for aplicada uma medida de segurança para o inimputável, a sentença é absolutória, operando uma absolvição imprópria, nesse caso não há o que se falar em efeitos da condenação.</p><p>Mas caso a sentença seja aplicada a um semi imputável, a sentença será condenatória e ele poderá ter a redução da pena em até dois terços ou, caso recomendável, a substituição por medida de segurança.</p><p>Importante</p><p>lembrar que a decisão judicial que homologa a transação penal ofertada pelo Ministério público e aceita pelo acusado não tem efeito condenatório.</p><p>Principais efeitos da condenação:</p><p>Quando falamos em efeitos principais, estamo-nos referindo à própria consequência jurídico-penal primordial e imediata da sentença condenatória: a aplicação da pena.</p><p>Ao condenar alguém pela prática de um ilícito penal, o juiz impõe a sanção penal que a lei prevê, no entanto, é necessário que haja uma sentença condenatória transitada em julgado, como já mencionado. A imposição da sanção penal ao condenado é o principal efeito da condenação, seja ela qual for: penas de reclusão, detenção, prisão simples, restritivas de direitos e multa.</p><p>Os efeitos secundários da condenação:</p><p>Os efeitos secundários da condenação podem ser classificados em penais e extrapenais. Estes, elencados nos arts. 91, 91-A e 92 do Código Penal.</p><p>Os efeitos da sentença condenatória secundários denominados de efeitos secundários penais, estão elencadas em rol taxativo:</p><p>- A reincidência; caso em que o agente pratica posteriormente um novo crime, conforme dispõe o artigo 63 do Código Penal: verifica-se a reincidência quando o agente comete novo crime, depois de transitar em julgado a sentença que, no País ou no estrangeiro, o tenha condenado por crime anterior.</p><p>- Fixação de regime fechado: para cumprimento de pena privativa de liberdade, caso em que o agente pratique um novo crime.</p><p>- A revogação de reabilitação, conforme dispõe o artigo 95 do Código Penal: a reabilitação será revogada, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, se o reabilitado for condenado, como reincidente, por decisão definitiva, a pena que não seja de multa.</p><p>- Configuração de maus antecedentes, a teor do artigo 59 do Código Penal: o juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta social, à personalidade do agente, aos motivos, às circunstâncias e consequências do crime, bem como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e suficiente para reprovação e prevenção do crime.</p><p>- Impossibilidade da concessão da transição penal e da condição condicional do processo, caso em que o agente pratique posteriormente novo crime, conforme estabelecem os artigos 76, §2º, inciso I e art. 89, caput da Lei 9099 de 1995.</p><p>Art. 76. Havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multas, a ser especificada na proposta. §2º Não se admitirá a proposta se ficar comprovado: I - ter sido o autor da infração condenado, pela prática de crime, à pena privativa de liberdade, por sentença definitiva;</p><p>Art. 89. Nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano, abrangidas ou não por esta Lei, o Ministério Público, ao oferecer a denúncia, poderá propor a suspensão do processo, por dois a quatro anos, desde que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime, presentes os demais requisitos que autorizariam a suspensão condicional da pena (art. 77 do Código Penal).</p><p>Efeitos secundários extrapenais da condenação:</p><p>Os efeitos secundários extrapenais são designados dessa forma, pois eles atingem outras áreas do direito, como a esfera cível e administrativa. No âmbito cível, temos por exemplos os casos em que a sentença penal condenatória se transforma em um título executivo, o qual possui um valor mínimo arbitrado pelo juiz para indenizar a vítima ou seus familiares.</p><p>Esses efeitos secundários extrapenais podem ser divididos em duas espécies: os efeitos genéricos e efeitos específicos ou, ainda, automáticos e não automáticos e estão elencados nos artigos 91, 91-A e 92 do Código Penal brasileiro. Conforme:</p><p>Art. 91 - São efeitos da condenação:</p><p>I - Tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime;</p><p>II - A perda em favor da União, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa-fé:</p><p>a) dos instrumentos do crime, desde que consistam em coisas cujo fabrico, alienação, uso, porte ou detenção constitua fato ilícito;</p><p>b) do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso.</p><p>Art. 91-A. Na hipótese de condenação por infrações às quais a lei comine pena máxima superior a 6 (seis) anos de reclusão, poderá ser decretada a perda, como produto ou proveito do crime, dos bens correspondentes à diferença entre o valor do patrimônio do condenado e aquele que seja compatível com o seu rendimento lícito. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>§1º Para efeito da perda prevista no caput deste artigo, entende-se por patrimônio do condenado todos os bens: (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>I - de sua titularidade, ou em relação aos quais ele tenha o domínio e o benefício direto ou indireto, na data da infração penal ou recebidos posteriormente; e (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>II - transferidos a terceiros a título gratuito ou mediante contraprestação irrisória, a partir do início da atividade criminal. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>§2º O condenado poderá demonstrar a inexistência da incompatibilidade ou a procedência lícita do patrimônio. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>§3º A perda prevista neste artigo deverá ser requerida expressamente pelo Ministério Público, por ocasião do oferecimento da denúncia, com indicação da diferença apurada. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>§4º Na sentença condenatória, o juiz deve declarar o valor da diferença apurada e especificar os bens cuja perda for decretada. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>§5º Os instrumentos utilizados para a prática de crimes por organizações criminosas e milícias deverão ser declarados perdidos em favor da União ou do Estado, dependendo da Justiça onde tramita a ação penal, ainda que não ponham em perigo a segurança das pessoas, a moral ou a ordem pública, nem ofereçam sério risco de ser utilizados para o cometimento de novos crimes. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019)</p><p>Art. 92 - São também efeitos da condenação:</p><p>I - a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo:</p><p>a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública;</p><p>b) quando for aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4 (quatro) anos nos demais casos.</p><p>II - a incapacidade para o exercício do poder familiar, da tutela ou da curatela nos crimes dolosos sujeitos à pena de reclusão cometidos contra outrem igualmente titular do mesmo poder familiar, contra filho, filha ou outro descendente ou contra tutelado ou curatelado;</p><p>III - a inabilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a prática de crime doloso.</p><p>Parágrafo único - Os efeitos de que trata este artigo não são automáticos, devendo ser motivadamente declarados na sentença.</p><p>Nesse sentido, é possível perceber que a Lei anticrime operou significativas alterações no que tange aos efeitos da perda, como produto ou proveito do crime, dos bens do condenado, conforme melhor veremos na aula a seguir.</p><p>QUESTÃO 1-João, réu inimputável, está sendo processado por fato típico e antijurídico. Finalizada a instrução processual, a magistrada decidiu por aplicar medida de segurança. Nesse caso, quais serão os efeitos da condenação aplicados a ele?</p><p>RESPOSTA 1-Deve-se ter em mente que em situações em que for aplicada uma medida de segurança para o réu inimputável, a sentença será absolutória, por absolvição imprópria, conforme estabelece o artigo 386, parágrafo único, inciso III do Código de processo penal: na sentença absolutória, o juiz aplicará medida de segurança, se cabível. Nesse caso, portanto, não há o que se falar em efeitos da condenação.</p><p>QUESTÃO 2-Analise as afirmativas a seguir, relacionadas aos efeitos da condenação penal, e assinale a alternativa CORRETA:</p><p>I. Além de seus efeitos penais, a sentença proferida em processo criminal pode gerar outros efeitos,</p><p>para início de cumprimento, abrindo-se a oportunidade para as demais serem substituídas.</p><p>Na lição de Guilherme de Souza Nucci, é perfeitamente possível cumprir as condições de um sursis (suspensão condicional da pena), ao mesmo tempo em que o condenado efetua o pagamento da prestação pecuniária. Não é cabível, por outro lado, a fixação de uma pena em regime fechado, ao mesmo tempo em que se estabelece outra, na mesma sentença, de prestação de serviços à comunidade.</p><p>Por uma questão de lógica, não obstante o § 1º, do artigo 69, mencione “suspensa”, o mesmo raciocínio se aplica no caso de determinação de regime aberto a uma das infrações. Assim, é viável a cumulação de uma pena privativa de liberdade, com suspensão condicional da pena ou regime aberto, com uma restritiva de direito, quando o concurso material for reconhecido.</p><p>Exemplificando, reconhecido o concurso material de crimes, se na aplicação do critério trifásico se verificar a impossibilidade de suspensão condicional da pena referente a uma das infrações, ou, até mesmo, a não possibilidade de se determinar o regime aberto, as penas privativas de liberdade conferidas aos demais delitos não poderão ser substituídas por penas alternativas.</p><p>A finalidade dessa previsão é permitir a execução simultânea das penas.</p><p>Tanto que o § 2º, do artigo 69, estabelece regras de cumprimento no caso de imposição de penas alternativas ao estipular que as restritivas de direitos compatíveis entre si serão cumpridas simultaneamente (ex: prestação de serviços à comunidade e prestação pecuniária); se incompatíveis, devem ser cumpridas sucessivamente (ex: duas penas de limitação de fim de semana).</p><p>A aplicação da suspensão condicional do processo somente é possível se, após o somatório das penas mínimas abstratamente cominadas, resultar em montante igual ou inferior a 1 ano, nos termos do artigo 89, da Lei 9.0999/95. O mesmo raciocínio se aplica quanto ao instituto da transação penal (artigo 61, c.c. o artigo 72, da Lei 9099/95), exigindo-se, contudo, a soma das penas máximas cominadas para cada infração penal, devendo atingir até 2 anos.</p><p>Por fim, atenção quanto ao cômputo dos prazos prescricionais. Malgrado sejam as penas somadas para fins de verificação da maioria dos benefícios (transação, suspensão condicional do processo, substituição da pena privativa de liberdade e suspensão condicional da pena), o cálculo prescricional, por força do artigo 119, do Código Penal, é feito sobre a pena de cada uma das infrações penais, ou seja, isoladamente.</p><p>QUESTÃO 1-Imagine um sujeito condenado à pena de 1 ano e 2 meses de reclusão, em regime aberto, e 6 meses de detenção, em regime aberto, em concurso material. O juiz, ao analisar os requisitos constantes do artigo 44, do Código Penal, concluiu pela possibilidade de substituição da pena privativa de liberdade.</p><p>Proceda à substituição.</p><p>RESPOSTA 1-Conforme previsão constante da parte final do artigo 69, do Código Penal, a substituição deve ser feita separadamente, não obstante resultar em situação desfavorável ao acusado.</p><p>Assim, a pena referente à reclusão, por se tratar de pena superior a 1 ano, deverá ser substituída por uma restritiva de direito e multa ou duas restritivas de direitos.</p><p>A pena referente à detenção, por ser inferior a 1 ano, deverá ser substituída por multa ou uma restritiva de direito.</p><p>Ao final, ter-se-ão três restritivas de direitos, ao passo que, se somadas fossem, resultariam em apenas duas restritivas.</p><p>QUESTÃO 2-No concurso de crimes, como devem ser aplicadas as penas?</p><p>RESPOSTA 2-Aplica-se as penas segundo a espécie de concurso de crimes.</p><p>Fundamentação: O Brasil adota a concepção normativa de concurso de crimes e, portanto, é preciso verificar a espécie cabível (material, forma ou continuado) e, assim, proceder ao cálculo de pena."</p><p>AULA 2- CONCURSO FORMAL II</p><p>RESUMO Fundada em razões de política criminal, o concurso formal de crimes, também chamado de concurso ideal de crimes, foi criado para beneficiar o agente que, com a prática de uma única conduta, viesse a produzir dois ou mais resultados criminosos.</p><p>Nos dizeres de Nucci, dá-se o concurso formal quando o agente, mediante uma única ação ou omissão, provoca dois ou mais resultados típicos, devendo ser punido pela pena mais grave, ou uma delas, se idênticas, aumentada de 1/6 (um sexto) até ½ (metade), por meio do sistema da exasperação.</p><p>A respeito da unidade de conduta, Zaffaroni e Pierangeli tecem relevantes observações ao lecionarem que é preciso levar em conta que o decisivo para que haja um concurso formal é a existência de uma unidade de conduta com uma pluralidade de tipos, mas o concurso formal não requer uma simultaneidade nem ela é decisiva para a sua determinação. Aquele que no curso de um roubo, decide matar a vítima sem qualquer relação com o roubo, simplesmente porque naquele momento descobriu que era um antigo inimigo, não incorre em qualquer concurso formal, por faltar a unidade de conduta. O concurso formal pressupõe a unidade da conduta, que viola as normas antepostas a diferentes tipos penais.</p><p>Nessa espécie de concurso de crimes, diferentemente do que ocorre no concurso material e no crime continuado, há unidade de conduta (ação ou omissão) e pluralidade de resultados típicos. Nas lições de Bitencourt, para que haja concurso formal é necessário que exista uma só conduta, embora possa desdobrar-se em vários atos, que são os segmentos em que ela se divide.</p><p>Por isso a importância de se diferenciar ato e ação, sendo esta última a prevista pela lei penal. A ação pode ser desdobrada em vários atos. Ilustrando, tem-se um agente que, em posse de uma metralhadora, dispara uma rajada, atingindo diversas pessoas. Uma rajada de metralhadora, embora consistente em uma única ação, desdobra-se em vários atos . Aplica-se a regra do concurso formal.</p><p>Assim como no concurso material de infrações, o concurso formal pode ser homogêneo, quando os resultados típicos (crimes) forem idênticos, e heterogêneo, quando os delitos não forem idênticos, resultando, assim, na possibilidade de concurso formal entre infrações de espécies distintas (o que não é permitido no crime continuado).</p><p>Se idênticas as tipificações (ex: agente arremessa um granada, causando a morte de duas pessoas), o concurso formal será homogêneo, cabendo ao magistrado eleger uma das penas, que serão iguais em virtude da prática de uma mesma infração penal, e aumentá-la de um sexto até metade.</p><p>Se diversas as tipificações (ex: agente que, mediante um disparo de arma de fogo, causa a morte da vítima pretendida e, por erro na execução, atinge também pessoa diversa – homicídio doloso e homicídio culposo), o concurso formal será heterogêneo, cabendo ao magistrado selecionar a pena mais grave e, sobre ela, na terceira fase da dosimetria da pena, aplicar o percentual de aumento de um sexto até metade.</p><p>O artigo 70, do Código Penal, ainda prevê outra distinção, contemplando, em sua primeira parte, o concurso formal perfeito (próprio) e, na segunda, o concurso formal imperfeito (impróprio).</p><p>A distinção varia de acordo com o elemento subjetivo do agente ao iniciar a conduta.</p><p>Nos casos em que a conduta do agente for culposa na origem, sendo todos os resultados atribuídos a esse título, ou na hipótese em que a conduta, na origem, era dolosa, mas um dos resultados é imputado a título culposo, o concurso será reconhecido como perfeito. Situação diversa é quando o agente atua com desígnios autônomos, querendo, dolosamente, a produção de ambos os resultados , configurando, assim, a segunda parte do artigo 70, do diploma penal.</p><p>O que difere, na essência, o concurso formal perfeito do imperfeito é a existência, ou não, de desígnios autônomos.</p><p>No concurso formal perfeito, o agente, apesar de provocar dois ou mais resultados típicos, não tem a intenção independente em relação a cada crime (não há desígnios autônomos). A exemplo do agente que culposamente capota o veículo, matando um passageiro e lesionando o outro; ou o agente que efetua um disparo de arma de fogo em direção à vítima pretendida, ocasionando</p><p>a exemplo de tornar certa a obrigação de reparar o dano causado pelo crime, ou mesmo fazer com que o condenado venha a perder eventual função pública.</p><p>II. A sentença penal condenatória com trânsito em julgado evidencia, quando possível, o dano causado pelo agente mediante a prática de sua conduta típica e gera para a vítima um título executivo judicial.</p><p>III. Um dos efeitos da condenação penal é a perda, em favor da União, do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso.</p><p>IV. Se alguém, dolosamente, utilizar seu automóvel para causar lesão na vítima, um dos efeitos da condenação penal será a perda do veículo em favor da União.</p><p>RESPOSTA 2- I, II e III</p><p>Fundamentação- Conforme o Código Penal temos que: art. 91 - São efeitos da condenação: I - tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime; art. 92 - São também efeitos da condenação: I - a perda de cargo, função pública ou mandato eletivo, II - correto. Art. 91 - São efeitos da condenação: II - a perda em favor da União, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa-fé.</p><p>AULA 02: EFEITOS GENÉRICOS E AUTOMÁTICOS</p><p>Em relação aos efeitos secundários extrapenais podemos dizer que eles são divididos em duas espécies: genéricos e específicos.</p><p>Efeitos secundários extrapenais genéricos:</p><p>Os efeitos secundários extrapenais genéricos são automáticos e aplicáveis a todos os delitos cometidos, ainda que não haja previsão expressa na sentença. Tais efeitos estão previstos nos artigos 91 e 91-A do Código Penal, nos seguintes termos:</p><p>Art. 91 - São efeitos da condenação:</p><p>I - tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime;</p><p>II - a perda em favor da União, ressalvado o direito do lesado ou de terceiro de boa-fé:</p><p>a) dos instrumentos do crime, desde que consistam em coisas cujo fabrico, alienação, uso, porte ou detenção constitua fato ilícito;</p><p>b) do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso.</p><p>O referido efeito é automático, ou seja, não se faz necessário sua expressa menção pelo juiz na sentença condenatória imposta, o juiz poderá fixar valor para reparação do dano, no entanto não é necessário mencionar a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime.</p><p>Conforme disposto no artigo 63 do Código de Processo Penal: transitada em julgado a sentença condenatória, poderão promover-lhe a execução, no juízo cível, para o efeito da reparação do dano, o ofendido, seu representante legal ou seus herdeiros.</p><p>Ou seja, a sentença penal condenatória irá se transformar em um título executivo com uma reparação mínima arbitrada pelo juiz com a intenção de indenizar a vítima ou seus familiares, na esfera cível. Caso haja o falecimento do condenado, poderá a execução civil ser promovida em face dos seus herdeiros, obedecendo-se o limite da herança, conforme o art. 5º XLV da Constituição Federal de 1998 e o art. 943 do Código Civil.</p><p>A eficácia executiva do título poderá ser cessada se o réu for absolvido por meio da revisão criminal, nesse caso, será cessada a força executiva do título, ainda que já tenha sido iniciada a execução.</p><p>Importante ressaltar que nos demais casos de absolvição previstas no Código de Processo Penal, permanece a viabilidade de se pleitear na seara civil a reparação do dano.</p><p>Os efeitos genéricos da condenação listados no artigo 91 e o recentemente incluído, pelo pacote anticrime, no artigo 91-A do Código Penal dispõem acerca dos efeitos da condenação.</p><p>A doutrina e a jurisprudência são pacíficas no sentido de que, nos casos em que haja o trânsito em julgado da sentença condenatória, os instrumentos do crime que se constituam em coisas cujo fabrico, alienação, uso, porte ou detenção, sejam objeto de crime, incluindo armamento cuja posse pode ser legal ou ilegal poderão ser confiscados pela União, ressalvando, é claro, os direitos da vítima e do terceiro de boa-fé. Vale destacar que a lei não se refere a instrumentos de contravenção, não se podendo, assim, serem incluídas na alínea a do referido art. 91 do Código Penal.</p><p>Conforme mencionado, o pacote anticrime introduziu um novo regulamento acerca dos efeitos da condenação, por meio do artigo 91-A, que estabelece:</p><p>Na hipótese de condenação por infrações às quais a lei comine pena máxima superior a 6 (seis) anos de reclusão, poderá ser decretada a perda, como produto ou proveito do crime, dos bens correspondentes à diferença entre o valor do patrimônio do condenado e aquele que seja compatível com o seu rendimento lícito.</p><p>§1º Para efeito da perda prevista no caput deste artigo, entende-se por patrimônio do condenado todos os bens:</p><p>I - de sua titularidade, ou em relação aos quais ele tenha o domínio e o benefício direto ou indireto, na data da infração penal ou recebidos posteriormente; e</p><p>II - transferidos a terceiros a título gratuito ou mediante contraprestação irrisória, a partir do início da atividade criminal.</p><p>§2º O condenado poderá demonstrar a inexistência da incompatibilidade ou a procedência lícita do patrimônio.</p><p>§3º A perda prevista neste artigo deverá ser requerida expressamente pelo Ministério Público, por ocasião do oferecimento da denúncia, com indicação da diferença apurada.</p><p>§4º Na sentença condenatória, o juiz deve declarar o valor da diferença apurada e especificar os bens cuja perda for decretada.</p><p>§5º Os instrumentos utilizados para a prática de crimes por organizações criminosas e milícias deverão ser declarados perdidos em favor da União ou do Estado, dependendo da Justiça onde tramita a ação penal, ainda que não ponham em perigo a segurança das pessoas, a moral ou a ordem pública, nem ofereçam sério risco de ser utilizados para o cometimento de novos crimes.</p><p>Nestes casos, crimes com um potencial criminal menos lesivo não foram alcançados pela reforma trazida pela Lei 13.964/2019, uma vez que se limita à condenação devido à prática de delitos que tenham pena máxima superior a 6 (seis) anos de reclusão. A autorização do artigo 91-A do CP/40 permite que que o Juiz que prolatou a sentença, sempre de forma fundamentada, decrete a perda de bens do condenado, que sejam produto ou proveito do crime, correspondentes à diferença entre o valor do patrimônio do condenado e aquele que seja compatível com o seu rendimento lícito.</p><p>No que diz respeito a instrumentos empregados para a prática de crimes por Organizações Criminosas (ORCRIM), os bens que são instrumentos do crime serão declarados perdidos em favor da União ou do Estado, dependendo da Justiça onde tramita a ação penal, ainda que não ponham em perigo a segurança das pessoas, a moral ou à ordem pública, nem ofereçam sério risco de ser utilizados para o cometimento de novos crimes. Dessa forma, a lei proporciona o desmantelamento logístico das organizações criminosas e das milícias, não permitindo assim que eventuais membros destas "sociedades", que não tenham sido alcançados pela persecução criminal, lancem mão de bens instrumentalizados em prol da prática de crimes.</p><p>QUESTÃO 1-Carlos Botelho Cereda, renomado empresário, foi condenado com trânsito em julgado, por violação de sigilo profissional (art. 169, LFR), razão pela qual seu advogado o informou que, diante da impossibilidade de recorrer da decisão, deveria cumprir a pena. Irresignado, por ter certeza de que não cometeu qualquer ilícito, Carlos questiona se existe alguma hipótese em que poderá perder a eficácia executiva o título oriundo de sentença penal condenatória transitada em julgado. Qual resposta deveria ser dada a Carlos?</p><p>RESPOSTA 1-Deve ser ventilado a Carlos, que após o trânsito em julgado, para que seja afastada a eficácia executiva do título, será necessário absolvição do réu por meio da revisão criminal, nesse caso será cessada a força executiva do título, ainda que já tenha sido iniciada a execução.</p><p>QUESTÃO 2-É efeito da condenação criminal, de acordo com o art. 91 do CP:</p><p>RESPOSTA 2-Tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime.</p><p>Fundamentação: “A perda, em favor do Município em que a infração</p><p>foi cometida, do produto do crime ou de qualquer bem ou valor que constitua proveito auferido pelo agente com a prática do fato criminoso”. Artigo 91 do Código Penal: são efeitos da condenação: I – tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime.</p><p>AULA 03: EFEITOS ESPECÍFICOS E NÃO AUTOMÁTICOS</p><p>Nessa aula, trataremos dos efeitos específicos da condenação, cuja incidência não é automática, sendo certo que sua aplicação se limita a determinados crimes. Esses efeitos, diferentemente dos genéricos, possuem, portanto, sua incidência dependente da expressa disposição na sentença para que sejam concretizados. São listados no artigo 92, do Código Penal, que dispõe:</p><p>Art. 92 - São também efeitos da condenação:</p><p>I - perda de cargo, função pública ou mandato eletivo:</p><p>a) quando aplicada pena privativa de liberdade por tempo igual ou superior a um ano, nos crimes praticados com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública;</p><p>b) quando for aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4 (quatro) anos nos demais casos.</p><p>Importante lembrar que para aplicação é necessária a verificação dos seguintes pressupostos:</p><p>I - Tenha o crime sido praticado com abuso de poder ou violação de dever para com a Administração Pública, nas hipóteses em que a pena privativa de liberdade aplicada for igual ou superior a um ano.</p><p>II - Para os demais casos (condenação por qualquer crime), quando a pena privativa de liberdade for superior a quatro anos.</p><p>No que se refere ao mandato eletivo, o artigo 15, inciso III, da Constituição Federal de 1988 estabelece que é vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos casos de condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos. No mesmo sentido, dispõe o artigo 55, incisos IV e VI, da CF/88: perderá o mandato o Deputado ou Senador que perder ou tiver suspensos os direitos políticos ou que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado.</p><p>O §2º do art. 55 da CF/88, por seu turno, reza que a perda do mandato, condenação criminal em sentença transitada em julgado, será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa.</p><p>Diante do exposto, podemos entender que a perda do mandato será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa.</p><p>É, outrossim, necessário ressaltar que eventuais benefícios penais aplicados, resultando penas alternativas à prisão, não elidem a possibilidade de perda do cargo, função ou mandato público. Isso porque a legislação nacional impõe como requisito para a perda do cargo, função ou mandato público a condenação a pena privativa de liberdade igual ou superior a um ano, por crime funcional, sendo indiferente a concessão de qualquer benefício que afaste o cumprimento da reprimenda em tal regime prisional.</p><p>Na esfera cível, mister ainda lançar luz sobre o que dispõe o Código Civil de 2002, em seu art. 1.637, parágrafo único, sobre a suspensão do poder familiar em caso de condenação, conforme:</p><p>Art. 1.637. Parágrafo único. Suspende-se igualmente o exercício do poder familiar ao pai ou à mãe condenados por sentença irrecorrível, em virtude de crime cuja pena exceda a dois anos de prisão.</p><p>Sendo assim, basta que sejam os pais condenados por sentença transitada em julgado, por crime cuja pena não exceda a dois anos de prisão, sendo indiferente se o crime é apenado com detenção ou reclusão, ou se tem o filho como vítima.</p><p>Porquanto, ainda prescreve o inciso II do art. 92 do Código Penal:</p><p>Art. 92 - São também efeitos da condenação: [...]</p><p>II - A incapacidade para o exercício do poder familiar, da tutela ou da curatela nos crimes dolosos sujeitos à pena de reclusão cometidos contra outrem igualmente titular do mesmo poder familiar, contra filho, filha ou outro descendente ou contra tutelado ou curatelado;</p><p>A referida hipótese também se trata de efeito específico da condenação, não automático e permanente, necessitando ser declarado na sentença condenatório e para sua imposição, se fez necessário o preenchimento dos seguintes requisitos:</p><p>I) Crime doloso sujeito à pena de reclusão;</p><p>II) figurar com vítima do crime o filho, tutelado ou curatelado.</p><p>A pertinência de sua aplicação ficará a cargo do magistrado, vez que sua imposição não é obrigatória. Pode-se observar que não importa a quantidade de pena ou o regime prisional, sendo certo que, para sua aplicação, basta a existência dos citados requisitos.</p><p>Seguindo os demais efeitos específicos da condenação, podemos ainda visualizar, o que dispõe o inciso III, do art. 92, do Código Penal, sobre a inabilitação para dirigir:</p><p>Art. 92 - São também efeitos da condenação:</p><p>III - a inabilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a prática de crime doloso.</p><p>A inabilitação para dirigir veículo é efeito específico e não automático da condenação, devendo ser declarado na sentença condenatória quando o veículo for utilizado como meio para prática de crime doloso. Conforme o disposto na redação do artigo 92, inciso III, do Código Penal, é necessário a presença de dois requisitos:</p><p>I) crime doloso;</p><p>II) utilização do veículo como meio para prática do crime.</p><p>O referido efeito da condenação não se confunde com a previsão disposta no art. 47, inciso III, do Código Penal, onde é imposta a suspensão da autorização ou da habilitação como pena restritiva de direitos aos agentes que praticarem crimes culposos de trânsito.</p><p>QUESTÃO 1-O funcionário público municipal Tício foi condenado a uma pena de 5 (cinco) anos de reclusão pelo crime de peculato, depois de se apropriar de certa quantia pública de que tinha posse em razão do cargo que ocupava. Na sentença condenatória, poderá o juiz declarar algum efeito específico da condenação?</p><p>RESPOSTA 1-Sim. No caso de Tício, poderá o juiz, expressa e motivadamente, declarar, nos termos do art. 92, I do Código Penal, a perda do cargo como efeito específico da condenação, uma vez que a Tício foi aplicada pena privativa de liberdade por tempo superior a 4 (quatro) anos.</p><p>QUESTÃO 2-O juiz criminal, após analisar os elementos produzidos no processo e convencer-se de que o acusado cometeu um crime, prolatará sua decisão, condenando o acusado a cumprir a pena estabelecida. A respeito dos efeitos da condenação, é correto afirmar que são também efeitos específicos da condenação:</p><p>RESPOSTA 2-A inabilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a prática de crime doloso, se declarado na sentença.</p><p>Fundamentação: Levando em conta o que ordena o art. 92, CP: São também efeitos da condenação: (…) III – a inabilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a prática de crime doloso.</p><p>AULA 04: REABILITAÇÃO</p><p>A reabilitação é o instituto que objetiva a reinserção do condenado, atestando que as penas impostas foram devidamente cumpridas ou por qualquer razão extintas, restituindo a condição jurídica que este possuía anteriormente.</p><p>O intuito do instituto da reabilitação é facilitar a readaptação do condenado, concedendo-se (ou decretando o sigilo) certidões dos livros do juízo ou folha de antecedentes sem menção da condenação e permitindo-se o desempenho de certas atividades administrativas, políticas e civis das quais o condenado foi privado em decorrência da condenação.</p><p>O instituto busca assegurar ao condenado o sigilo dos registros sobre o seu processo e condenação (art. 93, caput, do Código Penal) e suspender condicionalmente os efeitos da condenação dispostos no art. 92, do Código Penal. Conforme de extraí do artigo 93 do diploma legal:</p><p>Art. 93 - A reabilitação alcança quaisquer penas aplicadas em sentença definitiva, assegurando ao condenado o sigilo dos registros sobre o seu processo e condenação. Parágrafo único - A reabilitação poderá, também, atingir os efeitos da condenação, previstos no art.</p><p>92 deste Código, vedada reintegração na situação anterior, nos casos dos incisos I e II do mesmo artigo.</p><p>Dentro do ordenamento brasileiro a aparição do instituto ocorreu com o Código Penal de 1890, que tratava a reabilitação como causa de extinção da condenação, promovida por meio da revisão criminal, que julgada procedente, restabelecia integralmente os direitos do réu, estipulando-se ainda indenização pelos prejuízos oriundos da condenação.</p><p>Em nossa atual legislação, assume o instituto roupagem diversa, sendo tido como medida assecuratória do sigilo dos registros sobre seu processo e sua condenação, operando, ainda, como causa suspensiva condicional de determinados efeitos da condenação.</p><p>Aponta bem a referida distinção o item 82, da Exposição de Motivos do Código Penal:</p><p>Item 82. A reabilitação não é causa extintiva da punibilidade e, por isso, ao invés de estar disciplinada naquele Título, como no Código vigente, ganhou Capítulo próprio, no Título V. Trata-se de instituto que não extingue, mas tão-somente suspende alguns efeitos penais da sentença condenatória, visto que a qualquer tempo, revogada a reabilitação, se restabelece o status quo ante. Diferentemente, as causas extintivas da punibilidade operam efeitos irrevogáveis, fazendo cessar definitivamente a pretensão punitiva ou a executória.</p><p>No que diz respeito a aplicabilidade do instituto dentro do cotidiano forense, o efeito é reduzido, vez que as informações por ele protegidas são rotineiramente obtidas pelos órgãos do Estado, que, nos termos da lei, seguem a requisitar e acessar certidões de inteiro teor dos antecedentes do agente.</p><p>Nesse caso, segue mitigado o instituto pela previsão imposta pelo art. 93, parágrafo único, do Código Penal, o qual reduz a recuperação de direitos perdidos pelos efeitos da condenação a hipótese da inabilitação para dirigir veículo art. 92, inciso III, do mesmo diploma legal:</p><p>Art. 92, III - A inabilitação para dirigir veículo, quando utilizado como meio para a prática de crime doloso.</p><p>Pressupostos:</p><p>Para pleitear o instituto da reabilitação é necessário conter a existência de uma sentença condenatória transitada em julgado. Ainda, determina a lei o preenchimento de requisitos de ordem objetiva e subjetiva.</p><p>Ordem objetiva:</p><p>I) Tempo de cumprimento da pena: a reabilitação está condicionada ao transcurso do lapso temporal de dois anos após a extinção ou do término da pena, computando-se neste período o prazo do sursis ou do livramento condicional, desde que não haja revogação.</p><p>II) Ter, o acusado, ressarcido o dano pelo crime ou demonstrado a absoluta impossibilidade de o fazer, até o dia do pedido, ou exibido documento que comprove a renúncia da vítima ou novação da dívida.</p><p>Ordem subjetiva:</p><p>I) Domicílio no país: ter o condenado residido no país nos dois anos após a extinção ou cumprimento da pena;</p><p>II) Bom comportamento público e privado: apresentar o condenado bom comportamento público e privado nos dois anos posteriores à extinção da pena (ex. Comprovação de frequência a cursos profissionalizantes, apresentação de ocupação lícita etc.).</p><p>Para requerer a certidão será necessário, necessária a observância dos artigos 744, do Código de Processo Penal, 94, do Código Penal:</p><p>I - Certidões comprobatórias de não ter o requerente respondido, nem estar respondendo a processo penal, em qualquer das comarcas em que houver residido durante o prazo a que se refere o artigo anterior;</p><p>II - Atestados de autoridades policiais ou outros documentos que comprovem ter residido nas comarcas indicadas e mantido, efetivamente, bom comportamento;</p><p>III - atestados de bom comportamento fornecidos por pessoas a cujo serviço tenha estado;</p><p>IV - Quaisquer outros documentos que sirvam como prova de sua regeneração;</p><p>V - Prova de haver ressarcido o dano causado pelo crime ou persistir a impossibilidade de fazê-lo.</p><p>Vale ressaltar que a legitimidade para pleitear a reabilitação é privativa do condenado, não se estendendo aos seus herdeiros ou sucessores em caso de seu falecimento e poderá a reabilitação ser revogada, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, se o reabilitado for condenado, como reincidente, por decisão definitiva, a pena que não seja de multa.</p><p>QUESTÃO 1-Juca foi condenado à pena privativa de liberdade de três anos de reclusão pela prática do crime de tráfico ilícito de entorpecentes (art. 12 da Lei n.º 6.368/1976). Após o cumprimento de dois anos de reprimenda, Juca obteve a concessão do livramento condicional. Cumprido o período de prova, sem revogação, o juiz das execuções declarou extinta a pena.</p><p>Nessa situação, Juca poderá computar o período de prova do livramento condicional (um ano) para fins de preenchimento do requisito temporal da reabilitação?</p><p>RESPOSTA 1-Sim, pois o caput do art. 94 do Código Penal estabelece que a reabilitação poderá ser requerida, decorridos 2 (dois) anos do dia em que for extinta, de qualquer modo, a pena ou terminar sua execução, computando-se o período de prova da suspensão e o do livramento condicional, se não sobrevier revogação.</p><p>QUESTÃO 2-Acerca da concessão da reabilitação, considere:</p><p>I. Ter domicílio no país pelo prazo de quatro anos.</p><p>II. No cômputo do prazo de sursis não ter havido revogação.</p><p>III. Ter demonstrado efetiva e constantemente bom comportamento público e privado.</p><p>IV. Condenação a pena superior a dois anos, no caso de pena privativa de liberdade.</p><p>V. Ter ressarcido o dano causado ou demonstrado a impossibilidade absoluta de fazê-lo.</p><p>São requisito para concessão apenas o que se afirma APENAS em:</p><p>RESPOSTA 2-II, III e V,</p><p>FUNDAMENTAÇÃO- nos seguintes termos: art. 93 - (...) I - Tempo de cumprimento da pena – Está a reabilitação condicionada ao transcurso do lapso temporal de dois anos após a extinção ou do término da pena, computando-se neste período o prazo do sursis ou do livramento condicional, desde que não haja revogação. II) Reparação do dano – Deverá o condenado ter ressarcido a vítima ou demonstrar sua absoluta incapacidade de reparar o dano. III - Bom comportamento público e privado – Apresentar o condenado bom comportamento público e privado nos dois anos posteriores à extinção da pena (Ex. Comprovação de frequência a cursos profissionalizantes, apresentação de ocupação lícita etc.).</p><p>TEMA 06- MEDIDAS DE SEGURANÇA</p><p>Aula 1- conceito e espécies</p><p>RESUMO</p><p>Conceito</p><p>Partindo da relação de gênero e espécies, assim como as contravenções e os crimes/delitos são categorias de infrações penais, as penas e medidas de segurança são espécies pertencentes ao gênero sanção penal que, como tal, igualmente não se confundem.</p><p>Como cediço, nas penas temos, ao lado da função retributiva, as funções negativas e positivas, gerais e especiais, consistentes em intimidar/desmotivar a prática de infrações pela população em geral e reforçar a efetividade do Direito Penal, bem como inocuizar e ressocializar o infrator, respectivamente. Por outro lado, no que tange as medidas de segurança, despontam-se apenas duas funções, dentre as quais não há que se falar em punição, visto ter como destinatários os sujeitos inimputáveis, desprovidos de culpabilidade que, portanto, fogem ao caráter retributivo, restrito aos imputáveis.</p><p>Sob esse aspecto, faz-se mister ressaltar que, nos moldes do art. 26 do Código Penal, o inimputável é isento de pena, visto padecer de perturbação a saúde mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, justificando, pois, a forma diferenciada de tratamento, no que diz respeito a sanção conferida na seara penal.</p><p>Funções</p><p>As medidas de segurança possuem como função primordial conferir tratamento à enfermidade suportada pelo inimputável, visando a propiciar o reestabelecimento da saúde mental do sujeito, dispondo, para tanto, de mecanismos clínicos a serem empregados em processo terapêutico. Assim define o art. 99 do CP, in verbis: O internado será recolhido a estabelecimento dotado de características hospitalares e será submetido a tratamento</p><p>No mesmo prisma segue a disposição do art. 101 da LEP ao disciplinar que o tratamento ambulatorial, previsto no artigo 97, segunda</p><p>parte, do Código Penal, será realizado no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico ou em outro local com dependência médica adequada. Aula I – Conceito e Espécies</p><p>Com efeito, resta evidente a finalidade terapêutica objetivada pelo legislador, ao descrever as condições hospitalares dos estabelecimentos voltados ao cumprimento das medidas de segurança.</p><p>Ademais, nos casos de internação, as medidas de segurança ainda visam a impedir a reiteração de infrações penais, mediante a constrição da liberdade do inimputável, tratando-se, portanto, de função preventiva.</p><p>Tal finalidade resta evidenciada pelo art. 97, §1º, do CP, ao determinar que a medida deve ser desenvolvida durante todo o tempo pelo qual o inimputável ostentar risco de cometer novas práticas delitivas, senão vejamos:</p><p>A internação, ou tratamento ambulatorial, será por tempo indeterminado, perdurando enquanto não for averiguada, mediante perícia médica, a cessação de periculosidade.</p><p>Espécies</p><p>Estão elencadas no art. 96 do CP, nos seguintes moldes:</p><p>As medidas de segurança são:</p><p>I - Internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico ou, à falta, em outro estabelecimento adequado;</p><p>II - sujeição a tratamento ambulatorial.</p><p>● Internação = é espécie de medida a ser executada de forma privativa de liberdade, ante o recolhimento do inimputável em hospital de custódia e tratamento, local onde recebe tratamento medicamentoso e realiza atividades laborterápicas, sempre sob o acompanhamento de junta médica, conforme disciplinado pelo art. 99 do CP:</p><p>O internado será recolhido a estabelecimento dotado de características hospitalares e será submetido a tratamento</p><p>Conforme se denota, guarda relação com as penas privativas de liberdade, visto mante o sujeito isolado e, nos casos mais graves, até mesmo dos demais internados.</p><p>Sendo espécie mormente rigorosa, deve ser aplicada as situações de comprometimento mental mais severo, cuja internação seja indispensável, uma vez distantes de tratamento por outros meios.</p><p>● Tratamento Ambulatorial = é espécie de medida a ser executada mediante comparecimento período do inimputável a hospitais de custódia e tratamento ou unidade de saúde como os denominados hospitais dia (em São Paulo são desenvolvidas nos Centros de Atenção Psicoterápicos - CAPs), onde passa por avaliação de junta médica, recebe a medicação necessária, realiza atividades laborterápicas e, em seguida, retorna à sua residência.</p><p>Assim disciplina o art. 101 da LEP:</p><p>O tratamento ambulatorial, previsto no artigo 97, segunda parte, do Código Penal, será realizado no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico ou em outro local com dependência médica adequada.</p><p>Como tal, guarda relação com as penas restritivas de direito, pois o sujeito não fica privado de sua liberdade e, a depender da situação, deve contar com o suporte de terceiros, em especial os familiares, inclusive, civilmente responsáveis.</p><p>Fixação da Modalidade</p><p>A fixação de uma das modalidades de medidas de segurança segue critério meramente objetivo, estipulado pelo art. 97 do CP, segundo o qual:</p><p>Se o agente for inimputável, o juiz determinará sua internação (art. 26). Se, todavia, o fato previsto como crime for punível com detenção, poderá o juiz submetê-lo a tratamento ambulatorial.</p><p>Destarte, a opção entre as espécies de medida de segurança é pautada unicamente na espécie de pena cominada ao tipo penal violado pelo sujeito, onde a reclusão corresponde ao internamento e a detenção permite o tratamento ambulatorial.</p><p>Obviamente, há sério equívoco pelo legislador ao estabelecer esta forma de fixação, posto se escorar no caráter retributivo presente nas penas, em evidente confronto aos ideais curativos perseguidos pelas medidas de segurança.</p><p>Note que, ao condicionar a escolha da medida ao tipo de pena, em última análise, o legislador está equiparando essas distintas espécies de sanção penal, assim desincumbindo o magistrado de maiores preocupações quanto a enfermidade ostentada pelo inimputável e meio mais adequado ao seu tratamento clínico.</p><p>Por fim, vale lembrar que aos semi-imputáveis a situação possui como diferencial a prévia imposição de uma pena - pois a presença de capacidade mental permite o reprovabilidade, embora reduzida de 1/3 a 2/3, de acordo com o grau de comprometimento das faculdades mentais – que, em seguida, poderá ser substituída, seguindo-se o mesmo critério objetivo de fixação, por uma das modalidades medida de segurança – de acordo com a periculosidade real (já estudada em aula anterior).</p><p>1 Art. 1.775. O cônjuge ou companheiro, não separado judicialmente ou de fato, é, de direito, curador do outro, quando interdito. §1o Na falta do cônjuge ou companheiro, é curador legítimo o pai ou a mãe; na falta destes, o descendente que se demonstrar mais apto. § 2 o Entre os descendentes, os mais próximos precedem aos mais remoto</p><p>QUESTÃO 1-Ednaldo foi absolvido impropriamente, pois subtraiu uma jaqueta, um frasco de perfume e uma caixa de chocolates, bens avaliados em R$ 325,00, do estabelecimento comercial denominado Lojas Litorâneas, conforme reconhecido mediante a prova testemunhal coligida através dos depoimentos de dois funcionários, que ali trabalham como seguranças de loja, e disseram ter acompanhado ostensivamente toda a ação delitiva, desde o momento do ingresso, até a passagem do mesmo pelos caixas, sem pagar pelas mercadorias, detendo-o ainda na porta da referida loja. Considerando que a decisão que a decisão foi proferida ontem, como deve proceder e o que deve argumentar o advogado de Ednaldo?</p><p>RESPOSTA 1-O advogado de Ednaldo deve ingressar com recurso de apelação, alegando, em suas razões, a absolvição do mesmo ante o reconhecimento de crime impossível, posto tratar de tentativa de furto sob vigilância ostensiva, a qual não teria como se consumar, revelando a absoluta ineficácia do meio, nos moldes do art. 17 do CP.</p><p>QUESTÃO 2-Pode-se dizer acerca da fixação das medidas de segurança que:</p><p>RESPOSTA 2-o autor de crime apenado com detenção pode sujeitar-se ao tratamento ambulatorial;</p><p>Fundamentação: art. 97, caput, do CP.</p><p>AULA 2- Execução, Prorrogação e Desinternação Progressiva</p><p>RESUMO</p><p>Conceito</p><p>A execução das medidas de segurança tem como principal ponto distintivo a presença de lapso mínimo para seu desenvolvimento – de 1 a 3 anos, conforme art. 97, §1º do CP, em detrimento de prazo certo pelo qual deverá perdurar.</p><p>Não obstante, de acordo com o art. 173 da LEP, a guia de execução de ambas as modalidades de medidas de segurança deverá conter, além da qualificação do sentenciado e cópias das principais peças do processo (denúncia, sentença e certidão do trânsito da decisão), a data em que terminará o prazo mínimo de internação, ou do tratamento ambulatorial.</p><p>A importância da fixação de lapso mínimo se deve ao fato de que tal prazo se destina à realização do denominado exame de cassação de periculosidade, o qual trata de laudo de avaliação das condições de saúde do sentenciado, com fito de se apurar o efeito do tratamento até então empregado, inclusive orientando providências necessárias à eventuais adaptações dos mecanismos adotados.</p><p>Conforme estabelece o at. 175 da LEP, a autoridade administrativa, até 1 (um) mês antes de expirar o prazo de duração mínima da medida, remeterá ao Juiz minucioso relatório (inclusive instruído com laudo psiquiátrico), cuja conclusão pode apontar:</p><p>● periculosidade persistente = a qual é indicativa de necessidade de prorrogação da medida</p><p>● periculosidade amainada = a qual sinaliza a possibilidade de desinternação progressiva</p><p>● periculosidade cessada = a qual permite a desinternação condicional.</p><p>Após manifestação sucessiva das partes, o magistrado decidirá por uma das 3 situações, cada qual com desdobramentos/implicações próprias.</p><p>Prorrogação</p><p>É providência escorada na conclusão de persistência de periculosidade, visto demandar a continuidade do tratamento imposto, fixando-se prazo mínimo anual para novas reavaliações, via exame criminológico. Assim estabelece o art. 97, §2º do CP, in litteris: Aula II – Execução e</p><p>Prazo Máximo</p><p>A perícia médica realizar-se-á ao termo do prazo mínimo fixado e deverá ser repetida de ano em ano, ou a qualquer tempo, se o determinar o juiz da execução.</p><p>Note que, nesses casos, enquanto não certificada a cessação de periculosidade, deve-se prorrogar a medida indefinidamente, sendo a ausência de prazo máximo, objeto de intenso debate, inclusive jurisprudencial, acerca da inconstitucionalidade da presença de sanções penais de caráter perpétuo (por analogia ao art. 5º, XLVII, “b”, da Constituição Federal) em nosso sistema jurídico. Sob tal aspecto, os Tribunais Superiores firmaram os seguintes posicionamentos:</p><p>- STF = entende que o prazo máximo das medidas de segurança deve ser semelhante ao limite de 30 anos, previsto no art. 75 do CP, para a execução das penas (vide julgados em leitura complementar).</p><p>- STJ = entende que o prazo máximo das medidas de segurança não deve ultrapassar a pena máxima cominada ao tipo penal violado (Súmula 527).</p><p>Ademais, tais entendimentos também se aplicam aos prazos prescricionais da pretensão executória. Nesse ponto, vale ressaltar a existência de 2 correntes principais, acerca da prescrição das medidas de segurança:</p><p>a) Somente se reconhece a prescrição punitiva = posto ser calculada pela pena em abstrato, nos moldes do art. 109 do CP, não sendo possível, contudo reconhecer a prescrição executória, visto inexistir a fixação de pena, conforme exigido pelo art. 110 do CP.</p><p>b) Aplicam-se ambas as prescrições = tanto a punitiva, quanto a executória, escoradas na pena abstrata cominada pelo tipo penal violado.</p><p>Não obstante, especificamente no que tange às medidas de segurança impostas aos semiimputáveis, decorrentes de substituição, o cálculo da prescrição executória levará em consideração o montante da pena fixada em concreto, enquanto a prescrição punitiva, continua a considerar a pena abstratamente cominada ao delito.</p><p>Desinternação progressiva</p><p>É prática supralegal conferida aos casos de reconhecimento de periculosidade amainada que, como tal, embora não cessada, indica melhorias no estado evolutivo do paciente, sendo possível o emprego de mecanismos menos constritivos, visando a transição harmônica quanto ao processo de reinserção gradativa do sujeito em sociedade.</p><p>O Estado de São Paulo foi um dos pioneiros na adoção dessa prática, a qual se executa na Colônia de Desinternação Progressiva do Hospital de Custódia e Tratamento de Franco da Rocha II, unidade da Secretaria da Administração Penitenciária, com capacidade para 248 usuários (60 mulheres e 188 homens), abrigando, atualmente, 272 pacientes (71 mulheres e 201 homens).</p><p>Tal unidade é situada em região arborizada, desprovida de grades e com acomodações, dispostas em alas masculina e feminina separadas, que se assemelham às de alojamentos comunitários, contando com aparelhos de televisão, cozinha e banheiros coletivos. Sua estrutura ainda conta com biblioteca, enfermaria, salas para estudo, atividades laborterápicas e oficinas de aprendizagem (como culinária e trabalhos artesanais).</p><p>Os pacientes recebem visitas e, periodicamente, podem passar curtas temporadas na residência de familiares - inclusive munidos de medicação, quando necessária -, com o fito de experimentar os níveis de adaptação e orientação, dentro do processo de reintegração social.</p><p>QUESTÃO 1-Elenilton foi absolvido impropriamente, em razão da prática de lesão corporal leve, sendo fixada sua internação por prazo mínimo de 1 ano, cujo início se deu em dezembro de 2014. De acordo com exames de cessão de periculosidade, realizados anualmente, Elenilton é portador de oligofrenia em grau intermediário e ostenta periculosidade persistente. Considerando que, ao avaliar o último exame (realizado em dezembro do ano passado), o magistrado das execuções entendeu, por bem, prorrogar a internação de Elenilton e sendo a decisão que a decisão foi proferida ontem, como deve proceder o seu advogado?</p><p>RESPOSTA 1-O advogado de Elenilton deve ingressar com agravo em execução e pleitear a extinção da medida de segurança, nos moldes da súmula 527 do STJ, uma vez já extrapolado o prazo da pena máxima abstrata (1 ano), requerendo a imediata transferência de seu cliente à rede pública de saúde.</p><p>QUESTÃO 2-Acerca das conclusões do exame de cessação de periculosidade é correto dizer que:</p><p>RESPOSTA 2- a periculosidade amainada permite a desinternação progressiva.</p><p>Fundamentação: sendo a providência supralegal adotada pela jurisprudência, remetendo o paciente a colônia de desinternação progressiva."</p><p>Aula III – Desinternação Condicional, Internação Provisória e Conversão de Pena</p><p>RESUMO</p><p>Desinternação Condicional</p><p>É a providência adotada aos casos em que restar certificada a cessação da periculosidade, ensejando a desinternação ou a liberação – para os casos de internação e tratamento ambulatorial, respectivamente – conforme o art. 97, §3º, in verbis:</p><p>A desinternação, ou a liberação, será sempre condicional devendo ser restabelecida a situação anterior se o agente, antes do decurso de 1 (um) ano, pratica fato indicativo de persistência de sua periculosidade.</p><p>Conforme se denota, malgrado cessada a periculosidade, deverá o sujeito vivenciar período de prova, durante o qual, caso apresente qualquer indício de periculosidade, tornará a cumprir a medida, nos moldes anteriores, por prazo máximo novamente indeterminado.</p><p>Como cediço, em nível terapêutico, os processos clínicos de cura de enfermidades passam por readaptações, a depender do quadro evolutivo ostentado pelo paciente. Não raras vezes, embora inicialmente apresente melhora, pode o sujeito sofrer novas crises ou mesmo se tornar imune aos efeitos de determinados medicamentos, assim desencadeando retrocesso na superação do mal que o aflige. Para tais situações, revela-se providencial a adoção de mecanismos aptos à recondução do processo de cura, tornando-se necessário o reestabelecimento da medida.</p><p>Internação Provisória:</p><p>Outro diferencial no que tange ao tratamento dispensado aos inimputáveis e semi-imputáveis é a possibilidade de internação provisória que, trata de medida de natureza cautelar, distinta da prisão, desde que atendidos os requisitos, cumulativos, da seguinte forma:</p><p>319, VII, CPP - internação provisória do acusado nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou semiimputável (art. 26 do Código Penal) e houver risco de reiteração.</p><p>Com efeito, depreende-se que a internação provisória tem como requisitos: i) ser o sujeito autor de crime (não abarcando contravenção penal), ii) ser a prática provida de violência ou grave Aula III – Desinternação Condicional, Internação Provisória e Conversão de Pena ameaça, iii) estar comprovada a inimputabilidade ou a semi-imputabilidade mediante perícia e iv) ter demonstrada a presença de periculosidade (risco de reiteração).</p><p>Tal providencia, além de oportuna, mostra-se acertada, visto que, em determinados casos, não pode o enfermo permanecer custodiado em prisão comum, com os demais presos provisórios, distante de tratamento e cuidados médicos adequados, sob pena de agravar ainda mais seu estado de saúde, inclusive seguindo em sentido oposto a finalidade terapêutica objetivada pelas medidas de segurança e, última análise, em franca ofensa ao preceituado pelos princípios da Humanidade e da Dignidade da Pessoa Humana.</p><p>Ademais, oportuno consignar a inexistência de modalidade preventiva de tratamento ambulatorial, inclusive em perfeita sintonia com a previsão que veda, também, a execução provisória das penas restritivas de direito, ambas modalidades não privativas que, como tal, não se coadunam com a natureza cautelar.</p><p>Por derradeiro, nem se pode olvidar a detração do prazo em que o sujeito permaneceu preso ou internado provisoriamente que, nos casos de imposição definitiva de medidas de segurança, deve ser descontado do lapso mínimo estabelecido para a realização do exame criminológico. Assim estabelece o art. 42 do Código Penal:</p><p>Computam-se, na pena privativa de liberdade e na medida de segurança,</p><p>o tempo de prisão provisória, no Brasil ou no estrangeiro, o de prisão administrativa e o de internação em qualquer dos estabelecimentos referidos no artigo anterior.</p><p>Conversão da Pena em Medida de Segurança</p><p>Trata de hipótese conferida nas situações em que, durante o resgate da pena pelo condenado imputável, o sujeito é acometido por enfermidade mental, sendo sua reprimenda convertida em medida de segurança, com o fito de conferir o emprego dos mecanismos indispensáveis ao seu restabelecimento, de acordo o definido pelo art. 183 da LEP:</p><p>Quando, no curso da execução da pena privativa de liberdade, sobrevier doença mental ou perturbação da saúde mental, o Juiz, de ofício, a requerimento do Ministério Público, da Defensoria Pública ou da autoridade administrativa, poderá determinar a substituição da pena por medida de segurança.</p><p>A redação do mencionado dispositivo foi infeliz ao empregar a expressão “substituição”, a qual é destinada aos casos de semi-inimputáveis, cuja pena é substituída por medida de segurança, em razão da periculosidade ostentada. A adoção do mesmo termo conduz à falsa impressão de que ambas as providências ensejam semelhante desdobramento, desenvolvendo-se a medida por prazo indeterminado, de acordo com os trâmites previstos no art. 175 e ss. da LEP.</p><p>Em verdade, a situação da conversão é distinta, pois a medida, frise-se, aqui imposta em permuta à pena sob execução, não pode ultrapassar o prazo máximo estipulado para o cumprimento pelo sentenciado. Nesse sentido segue a pacífica jurisprudência de nossos tribunais (conferir julgados em leitura complementar).</p><p>Como tal, tratando de situação nitidamente diversa, depreende-se que o emprego da expressão “conversão”, no lugar de “substituição”, sanearia eventuais conflitos de interpretação, espancando quaisquer dúvidas acerca da inviabilidade de extensão indeterminada da medida conferida ao sentenciado.</p><p>Vale ressaltar que, mesmo não sobrevindo melhora, findo o limite máximo da pena aplicada, restará extinta a punibilidade e o sujeito deverá ser removido para unidade hospitalar psiquiátrica comum, passando a ser questão de saúde pública, portanto, distante da tutela penal.</p><p>Por outro lado, havendo reestabelecimento da condição mental durante o cumprimento da medida, deverá ocorrer a reconversão em pena, cabendo a transferência do sentenciado para a unidade prisional, onde tornará a resgatar a sua reprimenda, até o término inicialmente estabelecido.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>1 - “Considera-se superveniência de doença mental o aparecimento de sintomas psiquiátricos em um determinado indivíduo em qualquer período após a prática de um fato criminoso. A ausência de avaliação psiquiátrica dos presos, quando o início do cumprimento da pena, dificulta a detecção de doenças mentais importantes, seu adequado tratamento e recuperação.".</p><p>A ausência de avaliação psiquiátrica dos presos, quando o início do cumprimento da pena, dificulta a detecção de doenças mentais importantes, seu adequado tratamento e recuperação.</p><p>Deve-se superar a dificuldade em identificar as patologias desses indivíduos o mais precocemente possível e criar programas de atenção dirigidos à população prisional e às suas enfermidades mais frequentes: transtornos relacionados ao uso e abuso de álcool e drogas, transtornos do humor, transtornos psicóticos, transtornos de personalidade e retardo mental. (...)”</p><p>2 - “Segundo o § 3º do art. 97 do CP, “a desinternação, ou a liberação, será sempre condicional, devendo ser restabelecida a situação anterior se o agente, antes do decurso de 1 (um) ano, pratica fato indicativo de persistência de sua periculosidade”. Tal fato, no entender de Cláudio Brandão, “somente pode ser uma nova conduta que se encaixe na tipicidade de uma infração penal, já que a periculosidade – ou perigosidade – somente se verifica em face da probabilidade de violação de bens jurídicos, que são objeto de tutela dos tipos penais.</p><p>Com efeito, deve-se ter em mente que, com a desinternação, o paciente deixa o tratamento realizado em regime de internação em Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico e dá início ao tratamento em regime ambulatorial. Ainda está em tratamento, contudo não há mais necessidade de continuar internado. Entretanto, pode acontecer que, pelo exame de cessação de periculosidade, verifique-se que o paciente já se encontra cabalmente restabelecido da patologia que o solapava, sendo que, neste caso, o juiz determinará sua liberação. Ou seja, não mais estará obrigado a prosseguir o tratamento, seja em regime de internação ou por tratamento ambulatorial. (...)”.</p><p>Questão 1-Dogival foi absolvido impropriamente, pois, ante a ausência de distribuição de seu medicamento pela rede pública de saúde, vivenciou momento de surto psicótico e acabou praticando lesão corporal grave contra Alfredo. O prazo mínimo de internação foi fixado em 2 anos, cujo início se deu em julho de 2017. Atualmente, após receber tratamento medicamentoso, Dogival apresentou nítida melhora e reestabelecimento de suas faculdades mentais, razão pela qual foi requerida a antecipação do exame de cessação de periculosidade, cujo pleito foi indeferido pelo juízo das execuções, sob o fundamento de que deve aguardar o escoamento do prazo mínimo fixado em sentença. Considerando que a decisão que a decisão foi proferida ontem, como deve proceder e o que deve argumentar o advogado de Dogival?</p><p>Resposta 1-O advogado de Dogival deve interpor agravo em execução, juntando cópia do pleito formulado e da decisão de indeferimento, alegando desnecessidade em aguardar o prazo mínimo e reiterando, com fulcro no art. 176 da LEP, a possibilidade de antecipação do exame de cessação de periculosidade, visto que, após receber tratamento medicamentoso, houve nítida melhora e reestabelecimento das faculdades mentais de seu cliente.</p><p>Questão 2-São requisitos cumulativos para a internação provisória, exceto:</p><p>Resposta 2- nenhuma das anteriores.</p><p>Fundamentação: pois todas as alternativas anteriores estão corretas e devidamente elencadas no art. 319, VII do CPP."</p><p>Aula IV – Lei Antimanicomial e Novos Contornos</p><p>RESUMO</p><p>Histórico</p><p>O movimento denominado Luta Antimanicomial, iniciado no Brasil em meados de 1987, tem como inspiração os estudos desenvolvidos pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia que, nos anos 60, promoveu importante processo de reestruturação do hospital psiquiátrico eu dirigia, em Gorizia.</p><p>Os pontos de maior destaque das reformas empreendidas por Basaglia, perante o sistema de saúde italiano, são escorados no redirecionamento da forma de tratamento dos portadores de transtornos mentais, visando a desistintucionalização dos pacientes, bem como a extirpação de instituições manicomiais de caráter asilar. Tais ideais foram, posteriormente, objeto da Lei nº. 180/1978 – Também conhecida como Lei Basaglia – ainda vigente na Itália, impondo a extinção gradativa dos manicômios, até a abolição definitiva.</p><p>Vale registrar que, em 1979, Basaglia esteve no Brasil, onde visitou o hospital colônia, situado na cidade de Barbacena, tecendo severas críticas acerca dos mecanismos ali empregados, dentre as quais, comparou a instituição a campos de concentração nazista.</p><p>Lei 10.216/2001</p><p>O intenso debate travado pela Luta Antimanicomial resultou no projeto nº 3.657/1989, o qual serviu de base para a edição da Lei nº 10.216 (também denominada Lei Antimanicomial ou Lei Paulo Delgado), promulgada em 6 de abril de 2001, no governo Fernando Henrique, disciplinando acerca do redirecionamento da forma de assistência e proteção aos enfermos mentais.</p><p>Nesse passo, nem se olvide que, em respeito ao critério da especialidade, os dispositivos da Lei Antimanicomial devem prevalecer em detrimento das regras gerais, previstas no Código Penal, Código de Processo Penal e Lei de Execução Penal, embora para Nucci 1 , todas sejam compatíveis entre si.</p><p>De plano, o referido diploma, já em seu art. 1º, disciplina que:</p><p>Os direitos e a proteção das pessoas acometidas de transtorno mental, de que trata esta Lei, são assegurados sem qualquer forma</p><p>de discriminação quanto à raça, cor, sexo, orientação sexual, religião, opção política, nacionalidade, idade, família, recursos econômicos e ao grau de gravidade ou tempo de evolução de seu transtorno, ou qualquer outra.</p><p>Destarte, resta patente o dever de respeito e observância aos ditames impostos pela Lei Antimanicomial, no que tange ao tratamento de todas as pessoas portadoras de transtornos mentais, repelindo-se qualquer distinção, inclusive, pouco importando se o enfermo é autor de infração penal ou não.</p><p>Não fosse isso, o art. 6º ainda menciona expressamente, dentre as espécies de internação, III. internação compulsória: aquela determinada pela Justiça, espancando quaisquer dúvidas acerca de sua incidência, também, no âmbito penal.</p><p>Em síntese, mesmo em relação aos inimputáveis sujeitos às medidas de segurança, não se pode afastar a aplicação dos dispositivos da Lei Antimanicomial, a qual têm preferência, inclusive pela sucessividade, em relação ao Código Penal.</p><p>Destaques</p><p>A Lei Antimanicomial determina, como pressuposto para que seja decretada a internação, a elaboração de perícia circunstanciada que aponte os motivos para tanto, em todos os casos, nos seguintes termos:</p><p>Art. 6o . A internação psiquiátrica somente será realizada mediante laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos.</p><p>Com efeito, diante da expressa previsão, não há como se sustentar a internação de qualquer enfermo, desprovida de respectivo respaldo em perícia médica, que fundamente a adoção dessa providência.</p><p>Como tal, a presente determinação não se coaduna com a manutenção da periculosidade presumida (estudada em aula anterior), a qual, atualmente, resta rechaçada nos casos de absolvição imprópria de sentenciados inimputáveis.</p><p>Outro aspecto deveras relevante concebido pela Lei Antimanicomial é a caracterização da internação como forma subsidiária de tratamento, para todos os casos, senão vejamos:</p><p>Art. 4o . A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes.</p><p>Note que, ao restringir a indicação da internação somente ante a ineficácia de outros meios, a Lei Antimanicomial igualmente refuta a aplicação do critério objetivo previsto no Código Penal, para a eleição da modalidade de medida, tornando o tratamento ambulatorial preferencial, mesmo quando o dispositivo violado seja apenado com reclusão.</p><p>Portanto, embora muitas vezes esquecida, a Lei Antimanicomial é diploma de suma importância e observância na seara da aplicação e execução das medidas de segurança, posto conferir redirecionamento geral ao formato de tratamento dispensado aos inimputáveis, inclusive em detrimento das regras gerais estabelecidas pelo Código Penal.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR 1 -</p><p>“A reforma psiquiátrica no Brasil, se deu, por volta no final da década de 70, devido as excessivas internações involuntária, junto as antigas clínicas psiquiátrica. Então surge um movimento, que lutava pelos direitos dos pacientes, por melhores condições superando o antigo modelo.</p><p>Esta reforma seu deu em duas fases:</p><p>a primeira de 1978 a 1991, como modelo de internação do paciente nos estabelecimento psiquiátrico exclusivos;</p><p>a segunda vai de 1992 aos dias atuais, com o tratamento aos portadores de transtornos psíquicos pela implantação do serviço público de saúde a serviços extra hospitalares.</p><p>A origem dessa revolução se deu na Europa e o modelo insular aplicado vai até final dos anos 50. (...)”</p><p>Para a íntegra do texto, segue link abaixo: A Lei Antimanicomial e as Medidas de Segurança 2 -</p><p>“O presente trabalho procura debater as medidas de segurança, nos termos do Código Penal, Código de Processo Penal e Lei de Reforma Psiquiátrica. É um tema que ocasiona polêmica no mundo jurídico, principalmente quando as analisam na prática e na teoria, verificando o tratamento dispensado aos portadores de transtornos mentais. A presente monografia ainda debate sobre a revogação da Lei de Reforma Penal, quando é confrontada com os termos lançados no Código Penal.</p><p>Analisa-se também quanto aos prazos das medidas de segurança, sob a ótica da legalidade, bem como traz as inovações jurídicas sobre o caso. (...)”</p><p>Para a íntegra do texto, segue link abaixo: Das Medidas de Segurança e da Lei da Reforma Psiquiátrica</p><p>3 – Assista ao vídeo a seguir: Protagonistas - Tratamento Antimanicomial / Vídeo Documentário</p><p>4 – Assista ao vídeo a seguir: Antes & Depois da Lei #50 - Lei Antimanicomial</p><p>QUESTÃO 1-Claudino foi absolvido impropriamente, posto ter perpetrado o furto da bicicleta de seu vizinho, mediante o rompimento de obstáculo, consistente no arrombamento de um pequeno portão de acesso ao quintal da residência deste. Ao fixar a medida de segurança, o magistrado sentenciante descartou o reduzido grau de periculosidade apontado no exame de insanidade mental de Claudino e estabeleceu sua internação por prazo mínimo de 2 anos, nos moldes do art. 97 do Código Penal. Considerando que a sentença será publicada no próximo dia útil, como deve proceder o advogado de Claudino?</p><p>RESPOSTA 1-O advogado de Claudino deve ingressar com recurso de apelação e requerer a fixação do tratamento ambulatorial, nos moldes do disciplinado pelo art. 4 da Lei 10.216/01, visto que a internação é modalidade subsidiária e não está minimamente respaldada nas conclusões do exame de insanidade mental, que apontam reduzido grau de periculosidade de seu cliente.</p><p>QUESTÃO 2-Quanto a denominada Lei Antimanicomial, assinale a alternativa incorreta:</p><p>RESPOSTA 2-repele a desinstitucionalização dos pacientes, priorizando o tratamento adequado.</p><p>Fundamentação: a lei não repele, impõe a desinstitucionalização.</p><p>TEMA 07- EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE</p><p>Aula I – Conceito e Natureza Jurídica</p><p>RESUMO</p><p>Conceito de extinção da punibilidade</p><p>É o desaparecimento da pretensão punitiva ou executória do Estado, por razões de política criminal, em decorrência de situações expressas na lei penal.</p><p>Natureza jurídica</p><p>Quanto à natureza jurídica das causas extintivas da punibilidade, deve-se ter muita atenção.</p><p>Não se pode confundir extinção da punibilidade com condição objetiva de punibilidade, ou com condição negativa de punibilidade (escusas absolutórias) e ainda com condição de procedibilidade.</p><p>Para evitar uma interpretação equivocada quanto à sua natureza jurídica, urge sejam explicadas cada um dos institutos acima apontados.</p><p>Condição objetiva de punibilidade</p><p>São causas extrínsecas ao fato delituoso, não cobertas pelo dolo do agente.</p><p>Ex.: sentença declaratória de falência em relação a alguns casos de crimes falimentares (art.180, Lei 11.101/2005).</p><p>Condições negativas de punibilidade (escusas absolutórias)</p><p>São as escusas especiais e pessoais, fundadas em razões de ordem utilitária ou sentimental, que não afetam o crime, mas somente a punibilidade.</p><p>Condições negativas de punibilidade (escusas absolutórias)</p><p>Têm efeito idêntico ao das condições objetivas de punibilidade, mas natureza jurídica diversa.</p><p>Ex.: art. 181, I e II, ou art. 348, par. 2o do Código Penal (crimes contra o patrimônio e favorecimento pessoal).</p><p>Após essas informações, pergunta-se:</p><p>Qual é a diferença entre as condições objetivas de punibilidade e as condições negativas de punibilidade?</p><p>Ocorrendo a condição objetiva, impõe-se a pena para o agente delitivo.</p><p>Ocorrendo a condição negativa, exclui-se a punibilidade do agente pelo fato praticado, não podendo mais o Estado investigar, processar e punir o agente delitivo.</p><p>Condições de procedibilidade</p><p>São as condições ligadas ao processo, que, uma vez presentes, autorizam a propositura da ação.</p><p>Ex.: representação do ofendido nos crimes de ação pública condicionada.</p><p>Sem essa condição de procedibilidade, não se pode sequer instaurar o inquérito policial. Também está vedado ao representante do Ministério Público oferecer a inicial acusatória.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“A possibilidade de extinção da punibilidade do crime pela ocorrência da prescrição superveniente, ou seja, quando há sentença condenatória, mas ainda não transitada em julgado, é motivo</p><p>para conceder efeito suspensivo a recurso especial pendente de julgamento e barrar a execução antecipada da pena de prisão.</p><p>O entendimento foi utilizado pelo ministro Jorge Mussi, do Superior Tribunal de Justiça, para conceder liminar em favor de dois homens condenados pelo juiz da 7ª Vara Federal da Seção Judiciária de Mato Grosso pelos crimes de associação criminosa, fraude processual e violação de sepultura. (...)”.</p><p>QUESTÃO 1- Armando matou seu colega de quarto dolosamente.</p><p>Diante da negligência do Estado, 21 anos separam a morte da vítima do recebimento da denúncia.</p><p>Armando, conhecedor do direito penal, em especial das causas extintivas da punibilidade, não mais teme ser responsabilizado pela morte dolosa de seu colega. Assim, em um programa ao vivo de televisão, confessa a morte dolosa de seu colega e desafia a polícia a prendê-lo publicamente.</p><p>Valendo-se apenas do conhecimento a respeito das causas extintivas da punibilidade, responda: Pode o Estado dar seguimento ao processo recém instaurado? Pode a polícia prendê-lo pela morte, após a confissão?</p><p>RESPOSTA 1-Mesmo com a confissão de Armando e sua petulância diante das câmeras no programa de televisão, o Estado perdeu o seu direito de investigar, prender, processar e punir o assassino confesso. Tal indiferença estatal de 21 anos deu causa à prescrição da pretensão punitiva, cujo patamar, para o crime de homicídio, é de 20 anos.</p><p>QUESTÃO 2-Acerca das causas excludentes de ilicitude e extintivas de punibilidade, assinale a afirmativa incorreta.</p><p>RESPOSTA 2-Em um bar, Caio, por notar que Tício olhava maliciosamente para sua namorada, desfere contra este um soco no rosto. Aturdido, Tício vai ao chão, levantando- se em seguida, e vai atrás de Caio e o interpela quando este já estava saindo do bar. Ao voltar-se para trás, atendendo ao chamado, Caio é surpreendido com um soco no ventre. Tício praticou conduta típica, mas amparada por uma causa excludente de ilicitude.</p><p>Fundamentação: Não se pode falar em legítima defesa (causa que excluiria a ilicitude no presente caso) porque a resposta física se deu após o fim dos atos de agressão de Caio. Dentre os requisitos cumulativos da legítima defesa está a resposta contra uma agressão injusta atual ou iminente. Se a resposta se der posteriormente, será um ato de vingança, que não exclui a ilicitude. (artigo 25 CP).</p><p>Aula II – Causas Gerais e Específicas</p><p>RESUMO</p><p>Causas gerais e específicas</p><p>São causas gerais (ou comuns) são aquelas aplicadas a todos os delitos (ex.: morte do agente, prescrição (quando a prescritibilidade é juridicamente viável), etc.).</p><p>São causas específicas (ou particulares) as que somente se aplicam a alguns tipos de delitos (ex.: retratação do agente nos crimes contra a honra). Aqui nós temos hipóteses peculiares que poderão beneficiar os agentes delitivos que praticaram os crimes que possuem regras próprias.</p><p>CAUSAS GERAIS</p><p>TÍTULO VIII - DA EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE</p><p>Extinção da punibilidade</p><p>Art. 107 - Extingue-se a punibilidade: (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) I - pela morte do agente;</p><p>II - pela anistia, graça ou indulto</p><p>III - pela retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso;</p><p>IV - pela prescrição, decadência ou perempção;</p><p>V - pela renúncia do direito de queixa ou pelo perdão aceito, nos crimes de ação privada;</p><p>VI - pela retratação do agente, nos casos em que a lei a admite; (...)</p><p>IX - pelo perdão judicial, nos casos previstos em lei.</p><p>CAUSAS ESPECÍFICAS</p><p>Crimes contra a honra – Arts. 138, 139 e 140 do CP.</p><p>Retratação</p><p>Art. 143 - O querelado que, antes da sentença, se retrata cabalmente da calúnia ou da difamação, fica isento de pena.</p><p>Lei das organizações criminosas – Lei 12.850/2013</p><p>Seção I - Da Colaboração Premiada</p><p>Art. 4ª. O juiz poderá, a requerimento das partes, conceder o perdão judicial, reduzir em até 2/3 (dois terços) a pena privativa de liberdade ou substituí-la por restritiva de direitos daquele que tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e com o processo criminal, desde que dessa colaboração advenha um ou mais dos seguintes resultados (...).</p><p>Importante</p><p>Apesar da classificação básica e da divisão apresentada entre causas gerais e específicas, é possível que uma causa geral (por exemplo o perdão judicial) receba tratamento peculiar em situações normativas específicas.</p><p>É o caso do perdão judicial para o agente colaborador, na Lei das Organizações Criminosas. LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“No Direito Penal, a punibilidade não constitui requisito do crime, mas sua consequência jurídica. Os requisitos do crime, sob o aspecto formal, são o fato típico e a antijuridicidade. A culpabilidade constitui o pressuposto da pena. Assim, a prática de um fato típico e ilícito, sendo culpável o sujeito, faz surgir a punibilidade.</p><p>Conforme leciona Damásio de Jesus,</p><p>“Quando o sujeito pratica um crime, surge a relação jurídico-punitiva: de um lado, aparece o Estado com o jus puniendi; de outro, o réu, com a obrigação de não obstaculizar o direito de o Estado impor a sanção penal. Com a prática do crime, o direito de punir do Estado, que era abstrato, torna-se concreto, surgindo a punibilidade, que é a possibilidade jurídica de o Estado impor a sanção”.</p><p>Nessa perspectiva, a sanção criminal corresponde à medida com que o Estado reage em face da violação da norma punitiva. É a resposta dada pelo Estado ao infrator da norma incriminadora. (...)”</p><p>QUESTÃO 1-Shirley, jornalista sensacionalista, publica em sua coluna semanal que Moisés, padeira da cidade, colocara veneno no pão, tendo sido responsável pela morte de 16 crianças do bairro. Ocorre que Shirley tem plena ciência de que essa imputação criminosa é mentirosa, tendo publicado isso apenas para conseguir mais audiência e faturar mais com publicidade.</p><p>Moisés, indignado com essa publicação, obviamente processa criminalmente a péssima jornalista por calúnia. Shirley, assustada com o fato de ser presa, retrata-se do que havia escrito, afirmando que mentiu e voltando atrás em seu comentário, nos mesmos moldes da publicação anterior.</p><p>Diante dessa retratação, pode Moisés não aceitá-la e continuar com o processo crime? Justifique a sua resposta.</p><p>RESPOSTA 1-Moisés não poderá continuar com a ação penal privada. A retratação da agente, nos crimes contra a honra, extingue a punibilidade. Assim, após a retratação, deverá o juiz reconhecer extinta a punibilidade da jornalista e enviar o processo ao arquivo.</p><p>QUESTÃO 2-Com relação às causas de extinção da punibilidade previstas no artigo 107 do Código Penal, assinale a alternativa correta.</p><p>RESPOSTA 2-A perempção é causa de extinção de punibilidade exclusiva da ação penal privada.</p><p>Fundamentação: Artigo 107, inciso IV, sendo que o artigo 60 do CPP apresenta os casos de perempção que extinguem a punibilidade do agente. A alternativa “a” está errada porque o perdão é ato bilateral; A letra “b” contraria artigo 108 CP; E a letra “d” está errada porque contraria o fato de a morte do agente extinguir a punibilidade.</p><p>Aula III – Comunicabilidade</p><p>RESUMO</p><p>Comunicabilidade das causas extintivas da punibilidade</p><p>Sempre que estudamos o tema comunicabilidade no Direito, estamos tratando de aproveitamento de uma causa ou circunstância por mais de um agente em situação similar.</p><p>Com as causas extintivas da punibilidade, também é possível adentrar ao estudo da comunicabilidade.</p><p>Dentre todas as causas que retiram do Estado o ius puniendi, algumas delas se comunicam, outras não.</p><p>Para diferenciar esse estudo, em primeiro lugar iremos apresentar as causas que extinguem a punibilidade do agente e se comunicam.</p><p>São causas que se comunicam:</p><p>a) O perdão para quem o aceitar</p><p>Nas ações penais privadas, após o recebimento da denúncia, é possível que a vítima decida perdoar o criminoso. Nesses casos, havendo mais de um querelado, o aceite de um deles a respeito do perdão se comunica ao outro.</p><p>b) A abolitio criminis</p><p>Se lei posterior ao fato deixar de considerá-lo criminoso, tal novidade legislativa deverá ser aproveitada por todos os réus, havendo a comunicabilidade imediata.</p><p>c) A decadência</p><p>O não oferecimento da queixa-crime ou a não formalização do termo de representação em 6 meses contados da data da ciência do autor da infração a todos aproveita.</p><p>d) A perempção</p><p>Considera-se perempta a ação penal:</p><p>Art. 60. Nos casos em que somente se procede mediante queixa, considerar-se-á perempta a ação penal:</p><p>I - quando, iniciada esta, o querelante deixar de promover o andamento do processo durante 30 dias seguidos;</p><p>II - quando, falecendo o querelante, ou sobrevindo sua incapacidade, não comparecer em juízo, para prosseguir no processo, dentro do prazo de 60 (sessenta) dias, qualquer das pessoas a quem couber fazê-lo, ressalvado o disposto no art. 36;</p><p>III - quando o querelante deixar de comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do processo a que deva estar presente, ou deixar de formular o pedido de condenação nas alegações finais;</p><p>IV - quando, sendo o querelante pessoa jurídica, esta se extinguir sem deixar sucessor. Em todos esses casos, haverá a comunicabilidade entre os querelados.</p><p>e) A renúncia ao direito de queixa</p><p>Não importa se a renúncia é expressa (por escrito) ou tácita (comportamento incompatível com o desejo de processar o agressor), sempre haverá a comunicabilidade entre os querelados quando houver a renúncia ao direito de oferecer a queixa-crime.</p><p>f) A retratação no crime de falso testemunho</p><p>Hipótese muito importante de ser estudada, pois é um crime de mão própria que não admite a coautoria, porém, admite a participação entre, por exemplo, a testemunha mentirosa e o advogado que a instruiu a mentir. Havendo a retratação da testemunha antes da sentença final do processo em que a mentira foi apresentada, o partícipe será beneficiado porque existe a comunicabilidade.</p><p>Incomunicabilidade das causas extintivas da punibilidade</p><p>São causas que NÃO se comunicam:</p><p>a) a morte de um dos coautores;</p><p>b) o perdão judicial;</p><p>c) a graça, o indulto e a anistia (esta última pode incluir ou excluir coautores, conforme o caso);</p><p>d) a retratação do querelado na calúnia ou difamação (art. 143, CP);</p><p>e) a prescrição (conforme o caso; ex.: um agente é menor de 21 anos e o outro não é).</p><p>Outras causas extintivas da punibilidade</p><p>a) o ressarcimento do dano no peculato culposo (art. 312, par. 3o do CP):</p><p>b) no decurso de prazo do sursis, sem revogação (art. 82, CP);</p><p>c) o término do livramento condicional (art. 90, CP);</p><p>d) o cumprimento de pena no exterior por crime lá cometido (art. 7o , par. 2o , d, CP):</p><p>e) a morte do ofendido no caso do art. 236 do CP (“contrair casamento, induzindo em erro essencial o outro contraente, ou ocultando-lhe impedimento que não seja casamento anterior”), pois a ação só pode ser intentada pelo contraente enganado;</p><p>f) o pagamento do tributo antes do oferecimento da denúncia, nos crimes de sonegação fiscal (art. 34, Lei 9.249/95), ou, ainda,</p><p>g) a não representação do ofendido na Lei 9.099/95.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“Punibilidade</p><p>Punibilidade é a possibilidade jurídica de o Estado impor uma sanção ao responsável (autor, coautor ou partícipe) pela infração (MASSON, op, cit., p. 829).</p><p>Causas de extinção da punibilidade</p><p>As causas de extinção da punibilidade são hipóteses que fazem desaparecer do mundo jurídico o poder punitivo estatal. Segundo Greco (2007, p. 708), “mesmo que, em tese, tenha ocorrido uma infração penal, por questões de política criminal, o Estado pode, em algumas situações por ele previstas expressamente, entender por bem em não fazer valer o seu ius puniendi”. Essas causas encontram-se elencadas no art. 107 do Código Penal, a saber:</p><p>Art. 107 - Extingue-se a punibilidade:</p><p>I - pela morte do agente;</p><p>II - pela anistia, graça ou indulto;</p><p>III - pela retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso;</p><p>IV - pela prescrição, decadência ou perempção;</p><p>V - pela renúncia do direito de queixa ou pelo perdão aceito, nos crimes de ação privada;</p><p>VI - pela retratação do agente, nos casos em que a lei a admite;</p><p>IX - pelo perdão judicial, nos casos previstos em lei. (....)”</p><p>LEGISLAÇÃO</p><p>Art. 7º - Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro:</p><p>§ 2º - Nos casos do inciso II, a aplicação da lei brasileira depende do concurso das seguintes condições: (Incluído pela Lei nº 7.209, de 1984)</p><p>a) entrar o agente no território nacional;</p><p>b) ser o fato punível também no país em que foi praticado;</p><p>c) estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradição;</p><p>d) não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena;</p><p>Art. 82 - Expirado o prazo sem que tenha havido revogação, considera-se extinta a pena privativa de liberdade.</p><p>Art. 90 - Se até o seu término o livramento não é revogado, considera-se extinta a pena privativa de liberdade.</p><p>Art. 107 - Extingue-se a punibilidade:</p><p>I - pela morte do agente;</p><p>II - pela anistia, graça ou indulto;</p><p>III - pela retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso;</p><p>IV - pela prescrição, decadência ou perempção;</p><p>V - pela renúncia do direito de queixa ou pelo perdão aceito, nos crimes de ação privada;</p><p>VI - pela retratação do agente, nos casos em que a lei a admite;</p><p>IX - pelo perdão judicial, nos casos previstos em lei.</p><p>Art. 236 - Contrair casamento, induzindo em erro essencial o outro contraente, ou ocultando-lhe impedimento que não seja casamento anterior:</p><p>Art. 312 - Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio:</p><p>§ 3º - No caso do parágrafo anterior, a reparação do dano, se precede à sentença irrecorrível, extingue a punibilidade; se lhe é posterior, reduz de metade a pena imposta.</p><p>Lei 9.249/95 - Art. 34. Extingue-se a punibilidade dos crimes definidos na Lei nº 8.137, de 27 de dezembro de 1990, e na Lei nº 4.729, de 14 de julho de 1965, quando o agente promover o pagamento do tributo ou contribuição social, inclusive acessórios, antes do recebimento da denúncia</p><p>Lei 9.099/95</p><p>QUESTÃO 1-Dois amigos, Pedro e Henrique decidem ofender a honra subjetiva de Epifânea, ofendendo a sua postura social com palavras como biscate, limpa trilho, meretriz etc.</p><p>Profundamente abalada, Epifânea contrata um advogado para oferecer queixa-crime contra seus dois agressores.</p><p>Ocorre que, após o recebimento da queixa-crime, Epifânea perdoa Pedro, que aceita imediatamente, e ambos começam a namorar. Para a surpresa de todos, Epifânea não perdoa Henrique que continua sendo processado criminalmente pela injúria.</p><p>Como advogado de Henrique, adote a medida cabível.</p><p>RESPOSTA 1-O advogado de Henrique deverá fazer um pedido simples ao juiz do processo pedindo a extinção da punibilidade pelo perdão da ofendida, já que é uma hipótese em que a causa extintiva se comunica a todos os querelados. Se o magistrado continuar ignorando essa regra, o advogado de Henrique deverá impetrar uma ordem de habeas corpus, com liminar, pedindo a declaração da extinção da punibilidade do agente.</p><p>QUESTÃO 2-"Silva foi vítima de um crime de ameaça por meio de uma ligação telefônica realizada em 02 de janeiro de 2016. Buscando identificar o autor, já que nenhum membro de sua família tinha tal informação, requereu, de imediato, junto à companhia telefônica, o número de origem da ligação, vindo a descobrir, no dia 03 de julho de 2016, que a linha utilizada era de propriedade do ex-namorado de sua filha, Carlos, razão pela qual foi até a residência deste, onde houve a confissão da prática do crime.</p><p>Quando ia ao Ministério Público, na companhia de Marta, sua esposa, para oferecer representação, Silva sofreu um infarto e veio a falecer. Marta, no dia seguinte, afirmou oralmente, perante o Promotor de Justiça, que tinha interesse em representar em face do autor do fato, assim como seu falecido marido.</p><p>Diante do apelo de sua filha, Marta retorna ao Ministério Público no dia 06 de julho de 2016 e diz que não mais tem interesse na representação. Ainda assim, considerando que a ação penal é pública condicionada, o Promotor</p><p>de Justiça ofereceu denúncia, no dia 07 de julho de 2016, em face de Carlos, pela prática do crime de ameaça.</p><p>Considerando a situação narrada, o(a) advogado(a) de Carlos, em resposta à acusação, deverá alegar que</p><p>RESPOSTA 2-ocorreu retratação válida do direito de representação.</p><p>Fundamentação: Nos termos do artigo 25 do CPP: “A representação será irretratável, depois de oferecida a denúncia”.</p><p>Aula IV – Morte do Agente</p><p>RESUMO</p><p>Morte do agente</p><p>Aplica-se a essa causa extintiva da punibilidade o princípio geral de que a morte tudo resolve (mors omnia solvit).</p><p>Entretanto, qual é o conceito de morte para o direito brasileiro?</p><p>Utiliza-se a chamada morte encefálica. Não se usa mais a morte cardíaca ou pulmonar. Somente quando houver a cessação das atividades cerebrais é que uma pessoa é considerada juridicamente morte no Brasil.</p><p>Esse conceito é derivado da Lei dos Transplantes que usa o conceito de morte encefálica para viabilizar, em conjunto com todos os demais requisitos da lei, a doação dos órgãos da pessoa considerada morta.</p><p>A Constituição Federal reza no art. 5o , XLV, que a pena não deve passar da pessoa do condenado, embora o perdimento de bens possa atingir os sucessores nos casos legalmente previstos.</p><p>Tal preocupação pode parecer infantil, porém já houve regramento para punir os descendentes, na Idade Média, quando o criminoso falecia antes de cumprir a sua pena.</p><p>Quanto a pena de multa, morrendo o sentenciado antes do pagamento, deve ser extinta, jamais transmitindo-se aos herdeiros a obrigação de quitá-la. Tal premissa é importante para diferenciar eventual crédito civil de uma pena de multa criminal.</p><p>Durante o trâmite do inquérito ou do processo, sendo apresentada a certidão de óbito do suspeito/indiciado ou réu, deve o magistrado julgar extinta a punibilidade pela morte do agente, afetada a pretensão punitiva do Estado, arquivando-se o feito.</p><p>Se o réu morrer depois de ter sido condenado, durante o trâmite de seu recurso, pode haver interesse no seu processamento, manifestado por parente ou representante legal, dado que a condenação pode produzir reflexos em outras áreas, como na esfera cível.</p><p>PONTOS POLÊMICOS SOBRE A MORTE DO AGENTE</p><p>A ação de revisão criminal</p><p>A revisão criminal é cabível mesmo após a morte do condenado. Isso porque há interesse do Estado em ter apenas decisões justas transitadas em julgado. Não se deve perpetuar o erro judiciário em detrimento de formalidades contra o réu.</p><p>Morte presumida</p><p>A morte presumida é aquela decorrente do desaparecimento da pessoa. Não há certeza absoluta sobre a morte da pessoa. Para casos como esse, deve-se aguardar a certidão de óbito emitida após determinação de juiz de Direito para decidir pela extinção da punibilidade.</p><p>Certidão de óbito falsa</p><p>Como fica a situação da juntada de certidão de óbito falsa para buscar a extinção da punibilidade pela morte?</p><p>Decidiu o STF que a certidão de óbito falsa é documento absolutamente nulo e, portanto, não produz efeitos jurídicos. Dessa forma, a decisão que decretou extinta a punibilidade do agente poderá ser revista em decorrência da nulidade da decisão e de todos os atos subsequentes, inclusive o trânsito em julgado (STF – HC 104.998/SP – rel. Min. Dias Toffoli – 2010).</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“Sabe‐se que a prática de um fato definido na lei como crime traz consigo a punibil idade, aplicando‐se uma pena que lhe é cominada em abstrato na norma penal.</p><p>Sendo assim a punibilidade não é considerada, e nem pode ser, elemento do crime, massa sua consequência jurídica, devendo ser aplicada a sanção quando se verificar que houve o crime e a conduta do agente foi culpável.</p><p>Já que com a prática do crime, o direito de punir do Estado torna‐se concreto, surge a punibilidade, que é a possibilidade jurídica de imposição de uma sanção, como ensinava Francesco Antolisei. (...)”</p><p>QUESTÃO 1-Existe tentativa de extinção da punibilidade por força da tentativa de suicídio do réu? Justifique a sua resposta.</p><p>RESPOSTA 1-Não. Ou o réu morre efetivamente ou a sua punibilidade não será extinta. Não existe tentativa de extinção da punibilidade. Caso o réu consiga eliminar a sua própria vida com um suicídio, a punibilidade será extinta. Tal consequência jurídica seria idêntica caso o réu fosse assassinado ou viesse a falecer por morte natural.</p><p>QUESTÃO 2-Acerca do instituto da prescrição penal e seus efeitos, assinale a opção correta.</p><p>RESPOSTA 2-Ocorrendo a prescrição da pretensão executória, o título executório é formado com o trânsito em julgado; entretanto, o Estado perde o direito de executar a sentença penal condenatória. Fundamentação: A prescrição executória só pode acontecer após o trânsito em julgado para a acusação. O Estado passa a ter o prazo prescricional para executar o título executivo, sob pena de perder o direito de executá-lo.</p><p>TEMA 8- EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE II</p><p>Aula I – Indulto Coletivo e Individual</p><p>RESUMO</p><p>A questão do indulto possui tratamento de dois artigos da Constituição Federal:</p><p>Art. 5º: XLIII - a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;</p><p>Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República: XII - conceder indulto e comutar penas, com audiência, se necessário, dos órgãos instituídos em lei;</p><p>A anistia é a clemência conferida pelo Poder Legislativo, através de Lei. A mais famosa anistia já conferida no Brasil é aquela relativa às condutas praticadas durante a ditadura militar pela Lei 6.683/1979:</p><p>Art. 1º - É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexo com estes, crimes eleitorais, aos que tiveram seus direitos políticos suspensos e aos servidores da Administração Direta e Indireta, de fundações vinculadas ao poder público, aos Servidores dos Poderes Legislativo e Judiciário, aos Militares e aos dirigentes e representantes sindicais, punidos com fundamento em Atos Institucionais e Complementares.</p><p>A principal característica da anistia é que ela se refere a fatos, e não a pessoas.</p><p>A expressão graça é entendida pela doutrina como gênero do qual existem as espécies: graça propriamente, também chamada de indulto individual e o indulto coletivo.</p><p>Nas palavras de Nucci:</p><p>Graça ou indulto individual: é a clemência destinada a uma pessoa determinada, não dizendo respeito a fatos criminosos. A Lei de Execução Penal passou a chamá-la, corretamente, de indulto individual (arts. 188 a 193), embora a Constituição Federal tenha entrado em contradição a esse respeito. No art. 5.º, XLIII, utiliza o termo graça e no art. 84, XII, refere-se tão somente a indulto. Portanto, diante dessa flagrante indefinição, o melhor a fazer é aceitar as duas denominações: graça ou indulto individual. Tratando-se de um perdão concedido pelo Presidente da República, dentro da sua avaliação discricionária, não sujeita a qualquer recurso, deve ser usada com parcimônia. Pode ser total ou parcial, conforme alcance todas as sanções impostas ao condenado (total) ou apenas alguns aspectos da condenação, quer reduzindo, quer substituindo a sanção originalmente aplicada (parcial). Neste último caso, não extingue a punibilidade, chamando-se comutação. Pode ser provocada por petição do condenado, por iniciativa do Ministério Público, do Conselho Penitenciário ou da autoridade administrativa. Exige-se o parecer do Conselho Penitenciário, seguindo ao Ministério da Justiça. Após, delibera sobre o pedido o Presidente da República, que pode, no entanto, delegar a apreciação aos Ministros de Estado, ao Procurador-Geral da República ou ao Advogado Geral da União (art. 84, parágrafo único, da Constituição). Assim como o indulto coletivo, pressupõe sentença condenatória com trânsito em julgado, servindo para apagar somente os efeitos executórios da condenação, mas não os secundários (reincidência,</p><p>a sua morte, mas acaba atingindo, culposamente, outra pessoa, não visada.</p><p>No concurso formal imperfeito, o agente atua com desígnios autônomos, vale dizer, mediante uma única conduta, almeja a produção de todos os resultados típicos. Nas lições de Nucci, tradicional exemplo nos fornece Basileu Garcia: se o agente enfileira várias pessoas e com um único tiro, de arma potente, consegue matá-las ao mesmo tempo, não merece o concurso formal, pois agiu com desígnios autônomos. Por isso, são somadas as penas.</p><p>A intenção do legislador ao criar o concurso formal imperfeito é retirar o benefício daquele que, tendo por fim deliberado e direto atingir dois ou mais bens jurídicos, cometer os crimes com uma só ação ou omissão, justificando-se, para esses casos, a somatória das penas e não a aplicação do sistema de exasperação.</p><p>Em suma, ao concurso formal perfeito, seja ele homogêneo ou heterogêneo, aplica-se o percentual de aumento de um sexto até metade (sistema da exasperação). Quanto ao concurso formal imperfeito, pelo fato de ter o agente atuado com desígnios autônomos, almejando dolosamente a produção de todos os resultados, revestindo sua conduta, portanto, de maior gravidade, a regra será a do cúmulo material.</p><p>Discussão relevante é o alcance da expressão “desígnios autônomos” para fins de aplicação da regra do concurso formal imperfeito, se abrange, ou não, o dolo eventual, ou se somente delineado pelo dolo direto.</p><p>O Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento de que os desígnios autônomos que caracterizam o concurso formal imperfeito referem-se a qualquer forma de dolo, direto ou eventual (Inf. nº 0505; HC 191.490-RJ).</p><p>Guilherme de Souza Nucci traz o exemplo de o agente colocar uma bomba no interior de um veículo, desejando matar um dos ocupantes, mas tendo certeza de que, pela potência do artefato, os demais ocupantes não sobreviverão. É caso típico de ter agido com dolo direto no tocante à vítima visada e também quanto aos demais passageiros (há dolo direto em relação aos efeitos colaterais), merecendo ser punido nos moldes do artigo 70, 2ª parte, do CP.</p><p>Na prática, como bem acentua Nucci, nem sempre é fácil distinguir quando o agente atua com desígnios autônomos quanto aos resultados concretizados. Assim sendo, o caminho correto é manter o concurso formal perfeito ou próprio, valendo-se do princípio geral da prevalência do interesse do acusado (in dubio pro reo).</p><p>Concurso entre roubo (artigo 157) e corrupção de menor (art. 244-B, da Lei 8.069/90): situação que espelha a formação de concurso formal entre as mencionadas infrações, pois, mediante uma única ação, o agente gera dois resultados distintos: perda patrimonial e menor corrompido. Não se deve utilizar o concurso material, pois não há uma conduta direta no tocante ao menor de 18 anos. Igualmente, não se trata de crime continuado, pois são delitos de espécies diferentes e a conduta é uma só.</p><p>Concurso formal e pluralidade de vítimas:</p><p>muito comum é a prática de crime de roubo contra diversas vítimas, a exemplo do agente que ingressa em um ônibus, anuncia o assalto e exige que todos passem os seus pertences. Como regra, a ação desencadeada pelo agente envolve uma única grave ameaça (conduta única), voltada a determinados ofendidos, confinados num local. Caracteriza-se a figura do concurso formal na modalidade perfeita, pois o agente não possui desígnios autônomos, ou seja, dolo direto em relação a cada uma das vítimas, que nem mesmo conhece.</p><p>Eventualmente, é possível vislumbrar a formação do concurso formal em sua modalidade imperfeita, ensejando o somatório das penas, sendo imprescindível, para tanto, a demonstração de que o agente atuou com dolo direto em relação a cada uma das vítimas por ele escolhidas .</p><p>Ilustrando, tem-se o caso do agente que, mediante uma única conduta, subtrai um veículo e efetua disparos contra duas vítimas, provocando suas mortes. Configurado o crime de latrocínio, não obstante a subtração de um único bem, o agente alcançou mais de um resultado morte, caracterizando desígnios autônomos. Nesse sentido, reiteradas são as decisões proferidas pelo Superior Tribunal de Justiça.</p><p>Concurso material benéfico:</p><p>previsto no parágrafo único, do artigo 70, do Código Penal, segundo o qual aplica-se a regra do concurso material (sistema do cúmulo material) caso seja mais favorável do que a aplicação do concurso formal.</p><p>Por se tratar o concurso formal de benefício legal, nada mais lógico do que afastar a sua incidência quando a pena exceder a que seria cabível pela regra do artigo 69. Isso quer dizer que, no caso concreto, deverá o julgador, ao aplicar o aumento de pena correspondente ao concurso formal de crimes, aferir se, efetivamente, está beneficiando ou se, pelo contrário, está prejudicando o réu.</p><p>Imagine o agente que, desejando a morte da vítima, efetua um disparo de arma de fogo contra ela, causando-lhe a morte. Contudo, em razão da potência da arma, o projétil atravessou o corpo da vítima e atingiu, de raspão, terceira pessoa, ocasionando lesões corporais de natureza leve.</p><p>Tem-se, nesse exemplo, o concurso formal perfeito heterogêneo, ensejando o aumento da pena mais grave de um sexto até metade. Aplicando o menor percentual sobre a pena do homicídio simples (6 anos), alcança-se a pena de 7 anos de reclusão. Se a pena fosse aplicada pelo sistema do cúmulo material, adotado para o concurso material de crimes, a reprimenda final seria de 6 anos de reclusão e 2 meses de detenção.</p><p>No exemplo acima citado, o concurso continua sendo formal perfeito heterogêneo, embora a aplicação da pena siga a regra do concurso material.</p><p>QUESTÃO 1-Réu foi condenado por homicídio doloso e lesão corporal culposa porque, desejando a morte de João, efetuou um disparo de arma de fogo contra ele, causando-lhe a morte, mas, em razão da potência da arma, o projétil atravessou o corpo da vítima, atingindo, de raspão, terceira pessoa.</p><p>Suponha que, após a individualização da pena de cada crime, atingiu-se 6 anos para o homicídio e 2 meses para a lesão.</p><p>Analisar qual a espécie de concurso de crimes e o sistema de aplicação de pena cabíveis.</p><p>RESPOSTA 1-O caso em apreço retrata a formação do concurso formal heterogêneo perfeito, pois o agente, mediante uma única ação, atingiu dois resultados, um a título doloso e, o outro, a título culposo.</p><p>Porém, o caso em apreço reclama a incidência do cúmulo material.</p><p>Senão, vejamos: pena de 6 anos de reclusão; aplicando o sistema da exasperação no percentual mínimo de um sexto, por força do concurso formal com o delito de lesão, teríamos uma pena de 7 anos. Caso fosse aplicado o cúmulo material, a pena seria menor: 6 anos e 2 meses de reclusão.</p><p>QUESTÃO 2-Um suposto integrante de facção criminosa, ocupando a garupa de uma motocicleta, passa defronte a um Fórum da Capital e dispara contra pessoas que estão em seu interior. Duas delas são feridas gravemente. Em face de sua conduta criminosa, o agente responderá por tentativa de homicídio em concurso:</p><p>RESPOSTA 2-Formal por dolo indireto ou eventual.</p><p>Fundamentação: O agente, mediante uma única conduta, consistente em disparos de arma de fogo, pratica dois crimes de homicídio, na modalidade tentada. Importante não confundir ação com ato. Uma única ação pode ser desmembrada em vários atos.</p><p>AULA 3- CRIME CONTINUADO I</p><p>RESUMO</p><p>Origem Histórica:</p><p>O crime continuado é a espécie mais polêmica de concurso de crimes, desde a sua natureza jurídica até o alcance de cada um de seus requisitos.</p><p>Previsto no artigo 71, do Código Penal, quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie, com condições de tempo, lugar e maneira de execução semelhantes, cria-se uma suposição de que os subsequentes são uma continuação do primeiro, formando a continuidade delitiva.</p><p>Sua origem histórica remonta ao século XIV, idealizado pelos glosadores italianos Bartolo de Sassoferrato e Baldo de Ubaldi como forma de reação às leis penais excessivamente severas, impondo a aplicação de pena de morte ao agente que pela terceira vez praticasse o furto.</p><p>nome no rol dos culpados, obrigação de indenizar a vítima etc.). Torna possível, uma vez concedida, extinguir a medida de segurança. (Código Penal Comentado, Forense, 2017).</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“Anistia é a declaração de que determinados fatos se tornam impuníveis ou insuscetíveis de medida de segurança. A declaração de anistia depende de Lei e a competência para sua concessão é do Congresso Nacional pois que, compete, privativamente à União, legislar sobre Direito Penal, ex vi do art. 22, inciso I, da CRFB/1988, in verbis:</p><p>Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre:</p><p>I - Direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrário, marítimo, aeronáutico, espacial e do trabalho;</p><p>Trata-se de declaração realizada pelo Poder Público, por meio de lei ordinária editada pelo Congresso Nacional, conforme ditames dos arts. 21, inciso XVII e 48, inciso VIII, da Constituição Federal, no sentido de que determinados fatos tornem-se impuníveis ou insuscetíveis de medida de segurança em razão de clemência política ou social. Exclui-se o fato criminoso da incidência da lei penal. (...). “</p><p>QUESTÃO 1-Na qualidade de advogado de reeducando que apresenta comportamento extremamente positivo, muito acima da média, inclusive ajudando outros condenados e agentes penitenciários, qual procedimento deve ser utilizado para requerer a concessão da graça propriamente dita?</p><p>Aula I – Indulto Coletivo e Individual</p><p>RESPOSTA 1-Deverá ser utilizado o procedimento previsto no art. 188 e seguintes da LEP, através de petição, acompanhada de documentos comprobatórios do alegado, devendo receber parecer favorável do Conselho Penitenciário.</p><p>QUESTÃO 2-Sobre a anistia é correto afirmar:</p><p>RESPOSTA 2-refere-se a fatos.</p><p>Fundamentação: “D”, pois a anistia sempre se refere a fatos, e não a pessoas determinadas ou determináveis, possuindo abrangência a qualquer indivíduo que tenha praticado o fato previsto na lei de anistia. Lei 6.683/1979: Art. 1º.</p><p>Aula II – Indulto Coletivo</p><p>RESUMO</p><p>Na presente aula trataremos apenas das peculiaridades do indulto coletivo.</p><p>É comumente utilizado pelo Poder Executivo no final de ano, editando-se os chamados Decretos Natalinos, pelos quais o Presidente concede clemência, total ou parcial, aos condenados que cumprem determinados requisitos. Em dezembro de 2016 tivemos o Decreto 8.940 e em dezembro de 2015 o Decreto 8.615:</p><p>Decreto 8.940/16</p><p>Art. 3º - Nos crimes praticados sem grave ameaça ou violência à pessoa, o indulto será concedido quando a pena privativa de liberdade não for superior a doze anos, desde que, tenha sido cumprido: I - um quarto da pena, se não reincidentes, ou um terço, se reincidentes; ou</p><p>Decreto 8.615/15</p><p>Art. 2º - Concede-se a comutação da pena remanescente, aferida em 25 de dezembro de 2015, de um quarto, se não reincidentes, e de um quinto, se reincidentes, às pessoas condenadas a pena privativa de liberdade, não beneficiadas com a suspensão condicional da pena que, até a referida data, tenham cumprido um quarto da pena, se não reincidentes, ou um terço, se reincidentes, e não preencham os requisitos deste Decreto para receber o indulto.</p><p>Nucci nos traz o conceito de indulto coletivo:</p><p>Indulto coletivo: é a clemência destinada a um grupo de sentenciados, tendo em vista a duração das penas aplicadas, podendo exigir requisitos subjetivos (tais como primariedade, comportamento carcerário, antecedentes) e objetivos (v. g., cumprimento de certo montante da pena, exclusão de certos tipos de crimes). O indulto pode ser total, quando extingue todas as condenações do beneficiário, ou parcial, quando apenas diminui ou substitui a pena por outra mais branda. Neste último caso, não se extingue a punibilidade, chamando-se comutação. Controversa é a possibilidade de concessão do indulto a réu condenado, com recurso em andamento. Defende Frederico Marques a impossibilidade, pois é pressuposto do indulto a sentença condenatória definitiva, mas essa, atualmente, é uma questão superada. Predomina o entendimento de ser possível a concessão do indulto se já houve trânsito em julgado para a acusação. (Código Penal Comentado, Forense, 2017).</p><p>Na jurisprudência há duas importantes questões a serem discutidas sobre o indulto.</p><p>A primeira se refere à interrupção do prazo para a obtenção do benefício, estando tal questão superada pela súmula 535 do STJ:</p><p>A prática de falta grave não interrompe o prazo para fim de comutação de pena ou indulto.</p><p>A outra questão se refere ao chamado requisito subjetivo para o indulto, ou seja, se existe margem de discricionariedade para o juiz negar o benefício por entender que o reeducando não o merece, por vezes, inclusive determinando a realização de exame criminológico:</p><p>HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. DESCABIMENTO. EXECUÇÃO. COMUTAÇÃO. DECRETO N. 8.380/2014. FALTA GRAVE. INTERRUPÇÃO DO LAPSO PARA CONCESSÃO DO BENEFÍCIO. ART. 4º. PARÁGRAFO ÚNICO. SÚMULA N. 535/STJ. REQUISITO SUBJETIVO. EXAME CRIMINOLÓGICO. REQUISITOS NÃO PREVISTOS NA NORMA DE REGÊNCIA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. WRIT NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO.</p><p>1. Em consonância com a orientação jurisprudencial da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal - STF, esta Corte não admite habeas corpus substitutivo de recurso próprio, sem prejuízo da concessão da ordem, de ofício, se existir flagrante ilegalidade na liberdade de locomoção do paciente.</p><p>2. O acórdão recorrido está em desacordo com o entendimento pacificado por essa Corte no sentido de que a prática de falta grave, não tem o condão de interromper o prazo exigido para a concessão de livramento condicional, comutação de pena e indulto.</p><p>3. O art. 4º, parágrafo único, do Decreto n. 8.380/2014 prevê que a aplicação de sanção por falta disciplinar de natureza grave, previstas na Lei n. 7.210/84, não interrompe o lapso temporal para fins de indulto e comutação de penas.</p><p>4. Quanto ao tema a Terceira Seção desta Corte editou a Súmula n. 535, fixando o entendimento de que a falta disciplinar de natureza grave, mesmo que decorrente da prática de novo delito, não acarreta a alteração da data-base para a concessão de indulto ou comutação da pena.</p><p>5. No tocante ao requisito subjetivo, o Decreto presidencial concessivo exige apenas, para obtenção do benefício, que o condenado não tenha registro de falta grave nos últimos doze meses, contados da data da publicação do mencionado ato normativo. 6. Assim, não há previsão para se condicionar a comutação da pena a requisitos não previstos no decreto presidencial, inclusive a realização de exame criminológico, tendo em vista ser competência privativa do Presidente da República definir quais os critérios para concessão da benesse, sob pena de afronta aos princípios da legalidade e da separação dos poderes. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida, de ofício, para determinar que o Juízo das Execuções Criminais examine o pedido do paciente, com fundamento apenas nos requisitos previsto no Decreto n. 8.380/2014. (STJ, HC 400.176/SP, 5ª T., Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, j. em 08/08/2017).</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“O Indulto corresponde à um ato de favor exercido de maneira discricionária pelo Presidente da República, que promove a exclusão da punibilidade do sujeito condenado pelo cumprimento de infração penal.</p><p>Corresponde à um ato de vontade do Poder Executivo, um favor rei. Isso não exclui a necessidade de se observar critérios de equidade quando da promulgação do mesmo, assim como princípios constitucionais positivados na Constituição do Brasil de 1988. Nesse sentido, preciosa a lição de Daniel Gerber.</p><p>“O indulto decorre de ato de favor, discricionário do Presidente, que não só pode deixar de concedê-lo a seu livre critério de conveniência e oportunidade, como também lhe é lícito impor-lhe restrições e condições”</p><p>A imperiosidade de se observar princípios constitucionais como o da proporcionalidade evita, por exemplo, que o indulto seja concedido para uma pessoa punida por pena privativa de liberdade, enquanto outra que tenha praticado o mesmo crime em situações menos reprováveis,</p><p>e condenada por restritiva de direitos, não possa usufruir do mesmo benefício. Sobre a questão, pensa no mesmo sentido Salo de Carvalho. (...). “</p><p>QUESTÃO 1-Victor foi condenado pela prática de tráfico privilegiado, tendo requerido a juiz da VEC o indulto da pena. O pedido foi indeferido sob o argumento de ser o tráfico crime equiparado a hediondo e, portanto, insuscetível de indulto.</p><p>Na qualidade de advogado de Victor, qual tese deve ser abordada em eventual recurso?</p><p>RESPOSTA 1-Deverá ser alegado que o STF já entendeu que o tráfico privilegiado não se caracteriza como crime hediondo. Portanto, pode-se requerer o indulto ou comutação para tal delito.</p><p>QUESTÃO 2-Assinale a alternativa falsa:</p><p>RESPOSTA 2-a concessão do indulto não pode ser delegada;</p><p>Fundamentação: “B”, pois pode ser delegada aos Ministros de Estado, ao Procurador-Geral da República ou ao Advogado-Geral da União, nos termos do art. 84, parágrafo único da Constituição Federal.</p><p>Aula III – Decadência</p><p>RESUMO</p><p>Decadência é a perda do direito de queixa ou de representação ante a inércia de seu titular. Embora seja instituto de natureza penal, possui tratamento tanto no Código Penal quanto no Código de Processo Penal.</p><p>Código Penal</p><p>Art. 103 - Salvo disposição expressa em contrário, o ofendido decai do direito de queixa ou de representação se não o exerce dentro do prazo de 6 (seis) meses, contado do dia em que veio a saber quem é o autor do crime, ou, no caso do § 3º do art. 100 deste Código, do dia em que se esgota o prazo para oferecimento da denúncia.</p><p>Código de Processo Penal</p><p>Art. 38. Salvo disposição em contrário, o ofendido, ou seu representante legal, decairá no direito de queixa ou de representação, se não o exercer dentro do prazo de seis meses, contado do dia em que vier a saber quem é o autor do crime, ou, no caso do art. 29, do dia em que se esgotar o prazo para o oferecimento da denúncia. Parágrafo único. Verificar-se-á a decadência do direito de queixa ou representação, dentro do mesmo prazo, nos casos dos arts. 24, parágrafo único, e 31.</p><p>Art. 39. O direito de representação poderá ser exercido, pessoalmente ou por procurador com poderes especiais, mediante declaração, escrita ou oral, feita ao juiz, ao órgão do Ministério Público, ou à autoridade policial.</p><p>§ 1º A representação feita oralmente ou por escrito, sem assinatura devidamente autenticada do ofendido, de seu representante legal ou procurador, será reduzida a termo, perante o juiz ou autoridade policial, presente o órgão do Ministério Público, quando a este houver sido dirigida.</p><p>§ 2º A representação conterá todas as informações que possam servir à apuração do fato e da autoria.</p><p>§ 3º Oferecida ou reduzida a termo a representação, a autoridade policial procederá a inquérito, ou, não sendo competente, remetê-lo-á à autoridade que o for.</p><p>§ 4º A representação, quando feita ao juiz ou perante este reduzida a termo, será remetida à autoridade policial para que esta proceda a inquérito.</p><p>§ 5º O órgão do Ministério Público dispensará o inquérito, se com a representação forem oferecidos elementos que o habilitem a promover a ação penal, e, neste caso, oferecerá a denúncia no prazo de quinze dias.</p><p>Sobre o tema leciona Bitencourt:</p><p>“Decadência é a perda do direito de ação a ser exercido pelo ofendido, em razão do decurso de tempo. A decadência pode atingir tanto a ação de exclusiva iniciativa privada como também a pública condicionada à representação. Constitui uma limitação temporal ao ius persequendi que não pode eternizar-se. Qualquer das duas, tanto a queixa quanto a representação, deve ser realizada dentro do prazo decadencial, isto é, antes que este se esgote.</p><p>O prazo decadencial é peremptório, não se interrompe, nem se suspende. O direito de queixa ou de representação, ao contrário do que afirmava Celso Delmanto, não se interrompe “pelo seu exercício”. Ora, seguindo a tradição do nosso Direito, após a causa interruptiva, esse prazo deveria reiniciar a sua contagem, o que, evidentemente, não ocorre na hipótese referida. Na verdade, o direito de queixa ou de representação exaure-se pelo seu exercício.</p><p>Esse prazo tampouco se interrompe com o pedido de explicações em juízo, também conhecido como interpelação judicial, previsto no art. 144 do CP. Igualmente o pedido de instauração de inquérito policial ou mesmo a popular “queixa” apresentada na polícia não têm o condão de interromper o curso do prazo decadencial. A própria queixa inepta ou nula oferecida em juízo não interrompe a decadência, pois é tida como se não tivesse ocorrido. (Tratado de Direito Penal, vol. 1, Saraiva)”.</p><p>O prazo decadencial possui natureza penal, de forma que deve ser contado nos termos do art. 10 do Código Penal.</p><p>Na jurisprudência, sobre o termo inicial do prazo decadencial:</p><p>PENAL. PROCESSUAL PENAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS. QUEIXA-CRIME. CALÚNIA E DIFAMAÇÃO QUALIFICADAS. ALEGADA DECADÊNCIA. NÃO COMPROVAÇÃO. ART. 156 DO CPP. AFRONTA AO PRINCÍPIO DA INDIVISIBILIDADE. COAUTORIA NÃO COMPROVADA. MATÉRIA QUE EXIGE APROFUNDADO EXAME DO ACERVO FÁTICO PROBATÓRIO. INVIABILIDADE NO WRIT. CERCEAMENTO DE DEFESA. NÃO CONFIGURADO. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO. RECURSO NÃO PROVIDO.</p><p>I - Ao oferecer a queixa-crime o querelante comprovou que somente tomou conhecimento do conteúdo da publicação na data em que a adquiriu em uma livraria, o que é suficiente para o exame do dies a quo do prazo decadencial.</p><p>II - Nos termos do art. 156 do CPP, a prova da alegação incumbe a quem a fizer, notadamente, a prova de fato extintivo da punibilidade que aproveita a Defesa, como é o caso dos autos, no que concerne à alegação de decadência. Não há que se falar, portanto, em inversão do ônus da prova.</p><p>III - As instâncias ordinárias concluíram que não ficou configurada afronta ao princípio da indivisibilidade, porquanto não restou comprovada a alegada coautoria. Assentaram que o nome que consta da capa dos autos é de jornalista que somente colheu as informações do querelado para a confecção do livro. Modificar o entendimento das instâncias ordinárias nesse sentido demandaria aprofundado exame do acervo fático-probatório, providência inviável na estreita via do habeas corpus e do seu recurso ordinário. (STJ, RHC 69.913/SP, 5ª T., Rel. Min. Felix Fischer, j. em 19/09/2017).</p><p>Cabe importante ressaltar que, tratando-se de ofendido menor 18 anos, aplica-se a súmula 594 do STF, in verbis:</p><p>Os direitos de queixa e de representação podem ser exercidos, independentemente, pelo ofendido ou por seu representante legal.</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“A decadência, em se tratando de direito criminal, consiste na perda do direito de ação, pelo ofendido, ante sua inércia, em razão do decurso de certo tempo fixado em lei. A consequência do reconhecimento da decadência é a extinção da punibilidade, nos termos do artigo 107, inciso IV, segunda figura, do Código Penal.</p><p>Neste sentido, Cezar Roberto BITENCOURT ensina que</p><p>“Decadência é a perda do direito de ação a ser exercido pelo ofendido, em razão do decurso de tempo. A decadência pode atingir tanto a ação de exclusiva iniciativa privada como também a pública condicionada à representação. Constitui uma limitação temporal ao ius persequendi que não pode eternizar-se”. (p. 702/703).</p><p>A decadência, portanto,</p><p>“pode atingir tanto o direito de oferecer queixa (na ação penal de iniciativa privada) como o de representar (na ação penal pública condicionada), ou, ainda, o de suprir a omissão do Ministério Público (dando lugar à ação penal privada subsidiária)” (DELMANTO, p. 382).</p><p>QUESTÃO 1-Um cliente lhe procura após ter recebido citação de um processo criminal no qual é acusado do crime de difamação. Após ler o processo, você verifica que o prazo decadencial se esgotou no dia 20 de agosto de 2017 (domingo), porém a queixa-crime apenas foi ajuizada no dia 21 de agosto (segunda-feira).</p><p>Qual tese deve ser apresentada em favor de seu cliente?</p><p>RESPOSTA 1-Deverá ser alegado que o prazo decadencial é de natureza penal, portanto, ainda que o último dia caída em final de semana ou feriado, não poderá ser prorrogado até o próximo</p><p>dia útil. O correto, portanto, seria ajuizar a queixa na sexta-feira.</p><p>QUESTÃO 2-Sobre a decadência, assinale a alternativa correta:</p><p>RESPOSTA 2-é contada a partir do conhecimento da autoria;</p><p>Fundamentação: “C”, conforme expressa previsão do art. 103 do CP.</p><p>AULA IV- Perempção</p><p>RESUMO</p><p>Perempção é a perda do direito de ação provocada pela inércia processual do querelante. Aplicável apenas à ação penal privada, não se aplicando à subsidiária da pública.</p><p>Embora seja causa extintiva da punibilidade, possuindo natureza penal, é tratamento é observado no Código de Processo Penal:</p><p>Art. 60. Nos casos em que somente se procede mediante queixa, considerar-se-á perempta a ação penal:</p><p>I - quando, iniciada esta, o querelante deixar de promover o andamento do processo durante 30 dias seguidos;</p><p>II - quando, falecendo o querelante, ou sobrevindo sua incapacidade, não comparecer em juízo, para prosseguir no processo, dentro do prazo de 60 (sessenta) dias, qualquer das pessoas a quem couber fazê-lo, ressalvado o disposto no art. 36;</p><p>III - quando o querelante deixar de comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do processo a que deva estar presente, ou deixar de formular o pedido de condenação nas alegações finais;</p><p>IV - quando, sendo o querelante pessoa jurídica, esta se extinguir sem deixar sucessor.</p><p>Eugênio Pacelli explica o conceito de perempção:</p><p>“Do mesmo modo que ocorre em relação à renúncia, o querelante pode também recusar ou abdicar do direito à ação penal já instaurada, manifestando, por diversas maneiras, o desinteresse em seu prosseguimento, independentemente de qualquer justificativa. A perempção é, pois, a perda do direito de prosseguir na ação penal já instaurada, cujo efeito é a extinção da punibilidade, consoante o disposto no ar!. 107, IV, do CP.</p><p>Na verdade, pode até ocorrer que o querelante, autor da ação penal, não esteja, efetivamente, disposto a abandonar a ação penal. Entretanto, a própria lei exige dele um comportamento permanentemente ativo, dado que a imputação penal em juízo é suficiente para atingir o estado de dignidade do cidadão. Por isso, espera-se do autor a maior celeridade possível, com observância rigorosa dos prazos e procedimentos legais, para a obtenção do provimento judicial final.</p><p>Considera-se, então, perempta a ação penal quando, iniciada, o querelante deixar de promover o andamento do processo durante 30 dias seguidos (art. 60, I, CPP). Obviamente, como a razão da lei é a celeridade e a exigência de demonstração, pelo ofendido, da efetiva lesão causada pelo fato, somente se reconhecerá a perempção em tal hipótese desde que seja regularmente intimado o querelante (ele e seu procurador) para a adoção de providências necessárias ao impulso do processo.</p><p>Configura também causa de perempção o fato de deixar o autor (querelante) de comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do processo a que deva estar presente, ou, ainda, deixar de formular o pedido de condenação nas alegações finais (art. 60, IlI, CPP).</p><p>Observe-se que a primeira hipótese diz respeito à desídia do ofendido ou legitimado, com prejuízo para o andamento da ação, enquanto a segunda refere-se à possibilidade de eventual alteração do convencimento do querelante acerca da delituosidade ou autoria do fato, bem como de desinteresse, por qualquer motivo, na solução da questão. É importante registrar que a presença do querelante aos atos do processo somente pode ser exigida em relação aos, atos de natureza instrutória, ou seja, naqueles em que a sua participação é relevante para a apuração dos fatos. Não é causa de perempção, por exemplo, o não comparecimento a audiências conciliatórias, podendo o querelante se fazer representar pelo advogado. Ver, nesse sentido, STF – HC nº 71.219/PA e HC nº 81.264/RJ. É causa de perempção, ainda, a morte do querelante sem sucessores, ou quando, havendo sucessores, estes não se habilitarem a prosseguir na ação no prazo de 60 dias, ou quando, tratando-se de pessoa jurídica, esta se extinguir sem deixar sucessor (art. 60, II e IV, CPP). (Curso de Processo Penal, Lumen Juris).”.</p><p>Sobre a perempção tem-se interessante julgado sobre a apresentação intempestiva de contrarrazões de apelação:</p><p>INJÚRIA E DIFAMAÇÃO. QUERELANTE QUE APRESENTOU CONTRARRAZÕES À APELAÇÃO FORA DO PRAZO LEGAL. PEÇA DESNECESSÁRIA AO JULGAMENTO DO RECURSO. INEXISTÊNCIA DE DESÍDIA OU NEGLIGÊNCIA DA AUTORA. PROCESSO QUE TEVE REGULAR SEGUIMENTO. IMPOSSIBILIDADE DE RECONHECIMENTO DA PEREMPÇÃO. COAÇÃO ILEGAL INEXISTENTE. 1. De acordo com o artigo 60, inciso I, do Código de Processo Penal, "nos casos em que somente se procede mediante queixa, considerar-se-á perempta a ação penal" quando, "iniciada esta, o querelante deixar de promover o andamento do processo por 30 dias seguidos". 2. No caso dos autos, a querelante deu regular andamento ao processo, que culminou com a condenação do paciente pela prática dos crimes de injúria e difamação, sendo certo que o só fato de haver apresentado contrarrazões à apelação da defesa fora do prazo legal não tem o condão de caracterizar a perempção, pois tal peça processual sequer é obrigatória, sendo plenamente possível o julgamento do recurso sem a sua presença nos autos, desde que a parte tenha sido intimada para ofertá-la, exatamente como ocorreu na espécie. Precedentes do STJ e do STF. 3. Habeas corpus não conhecido. (STJ, HC 355.205/DF, 5ª T., Rel. Min. Jorge Mussi, j. em 28/06/2016).</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“Todos são institutos da Ação Penal Privada. Trata-se de tema correlato ao Princípio da Disponibilidade (princípio que, a propósito, é exclusivo da Ação Penal Privada).</p><p>A Renúncia materializa a ideia de oportunidade, ao passo que o Perdão e a Perempção materializam a ideia de disponibilidade. De todo modo, todos estes três institutos resultam na extinção da punibilidade do querelado.</p><p>1) RENÚNCIA</p><p>Renúncia é apenas “não processar”, ou seja, é somente deixar de processar o ofensor pelo fato. Assim, a renúncia ocorre antes da propositura da Ação Penal Privada. (...).”</p><p>QUESTÃO 1-José, seu cliente, está processando a ex-esposa pelo crime previsto no art. 236 do CP.</p><p>Porém, no curso do processo José vem a falecer. Você, então, é procurado pelo filho do querelante para dar prosseguimento à ação penal.</p><p>Qual orientação jurídica deve dar ao filho de José?</p><p>RESPOSTA 1-Você deve explicar ao filho de José que o art. 236 exige ação penal personalíssima, que apenas pode ser promovida pelo cônjuge enganado.</p><p>Assim, com o falecimento do querelante, dá-se a perempção da ação, não podendo ser substituído pelo cônjuge, ascendente, descendente ou irmão.</p><p>QUESTÃO 2-É correta a afirmação:</p><p>RESPOSTA 2-nenhuma das anteriores.</p><p>Fundamentação: “E”, pois todas alternativas estão erradas. Alternativa “A” está errada pois só se aplica à ação privada. Alternativa “B” está errada pois o conceito é de decadência. A alternativa “C” está errada pois na ação subsidiária o MP pode dar continuidade. A alternativa “D” está errada pois só pode ocorrer após a queixa."</p><p>TEMA 09- EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE III</p><p>Aula 1- Renúncia e Perdão</p><p>RESUMO</p><p>Entende-se por renúncia a desistência de exercer o direito de queixa, sendo ato unilateral, ou seja, não exige aceitação do ofendido). É regulada no art. 104 do CP:</p><p>Art. 104 - O direito de queixa não pode ser exercido quando renunciado expressa ou tacitamente. Parágrafo único - Importa renúncia tácita ao direito de queixa a prática de ato incompatível com a vontade de exercê-lo; não a implica, todavia, o fato de receber o ofendido a indenização do dano causado pelo crime.</p><p>Bem como no CPP:</p><p>Art. 49. A renúncia ao exercício do direito de queixa, em relação a um dos autores do crime, a todos se estenderá.</p><p>Art. 50. A renúncia expressa constará de declaração assinada pelo ofendido, por seu representante legal ou procurador com poderes especiais. Parágrafo único. A renúncia do representante legal do menor que houver completado 18 (dezoito) anos não privará este do direito de queixa, nem a renúncia do último excluirá o direito do primeiro.</p><p>Conforme expõe Bitencourt:</p><p>“Renúncia</p><p>é a manifestação de desinteresse de exercer o direito de queixa, que só pode ocorrer em crimes de ação penal de exclusiva iniciativa privada e antes desta ser iniciada. Após iniciada a ação penal privada, que se caracteriza pelo recebimento da queixa, é impossível renunciar ao direito de queixa, que, aliás, já foi exercido, admitindo-se somente o perdão do ofendido (art. 105), que é um instituto afim. Por isso, embora ambos, renúncia e perdão, sejam causas extintivas da punibilidade, nos crimes de ação privada (art. 107, V, do CP), após iniciada a ação penal, somente através do perdão ou da perempção o querelante poderá dar causa à extinção da punibilidade.</p><p>A renúncia pode ser expressa, tácita ou presumida. A expressa constará de declaração assinada pelo ofendido, seu representante legal ou procurador com poderes especiais (art. 50 do CPP). A tácita caracteriza-se pela prática de ato incompatível com a vontade de exercer o direito de queixa, não a configurando o recebimento de indenização do dano causado pelo crime (art. 104, parágrafo único, do CP). A presumida ocorre na nova hipótese criada pelo art. 75, parágrafo único, da Lei n. 9.099/95. (...) Havendo concurso de pessoas, a renúncia em relação a um dos autores do crime estende-se aos demais (art. 49, como consequência do princípio da indivisibilidade da ação penal privada. Porém, havendo mais de um ofendido, a renúncia de um deles não prejudica o direito dos demais.”. (Tratado de Direito Penal, vol. 1, Saraiva).</p><p>O perdão, por outro lado, é a indulgência do ofendido para o agente, exigindo, porém, aceite, caracterizando-se como ato unilateral. Neste ponto, porém, levanta-se relevante crítica uma vez que, caso o agente não aceite o perdão, o ofendido poderá forçar a extinção da punibilidade pela perempção.</p><p>É regulado pelos arts. 105 e 106 do CP:</p><p>Art. 105 - O perdão do ofendido, nos crimes em que somente se procede mediante queixa, obsta ao prosseguimento da ação.</p><p>Art. 106 - O perdão, no processo ou fora dele, expresso ou tácito:</p><p>I - se concedido a qualquer dos querelados, a todos aproveita;</p><p>II - se concedido por um dos ofendidos, não prejudica o direito dos outros;</p><p>III - se o querelado o recusa, não produz efeito.</p><p>§ 1º - Perdão tácito é o que resulta da prática de ato incompatível com a vontade de prosseguir na ação.</p><p>§ 2º - Não é admissível o perdão depois que passa em julgado a sentença condenatória.</p><p>Também encontra específica regulamentação no CPP:</p><p>Art. 51. O perdão concedido a um dos querelados aproveitará a todos, sem que produza, todavia, efeito em relação ao que o recusar.</p><p>Art. 52. Se o querelante for menor de 21 e maior de 18 anos, o direito de perdão poderá ser exercido por ele ou por seu representante legal, mas o perdão concedido por um, havendo oposição do outro, não produzirá efeito.</p><p>Art. 53. Se o querelado for mentalmente enfermo ou retardado mental e não tiver representante legal, ou colidirem os interesses deste com os do querelado, a aceitação do perdão caberá ao curador que o juiz Ihe nomear.</p><p>Art. 54. Se o querelado for menor de 21 anos, observar-se-á, quanto à aceitação do perdão, o disposto no art. 52.</p><p>Art. 55. O perdão poderá ser aceito por procurador com poderes especiais.</p><p>Art. 56. Aplicar-se-á ao perdão extraprocessual expresso o disposto no art. 50.</p><p>Art. 57. A renúncia tácita e o perdão tácito admitirão todos os meios de prova.</p><p>Art. 58. Concedido o perdão, mediante declaração expressa nos autos, o querelado será intimado a dizer, dentro de três dias, se o aceita, devendo, ao mesmo tempo, ser cientificado de que o seu silêncio importará aceitação. Parágrafo único. Aceito o perdão, o juiz julgará extinta a punibilidade.</p><p>Art. 59. A aceitação do perdão fora do processo constará de declaração assinada pelo querelado, por seu representante legal ou procurador com poderes especiais.</p><p>Nas palavras de Rogério Greco:</p><p>“O perdão do ofendido, que poderá ser concedido somente nas hipóteses em que se procede mediante queixa, pode ser: a) processual; b) extraprocessual; c) expresso; e d) tácito. Diz-se processual o perdão do ofendido quando levado a efeito intra-autos, após ter sido iniciada a ação penal de iniciativa privada; extraprocessual quando procedido fora dos autos da ação penal de iniciativa privada; expresso, quando constar de declaração assinada pelo ofendido, por seu representante legal ou procurador com poderes especiais (art. 56 do CPP); tácito, quando o ofendido pratica ato incompatível com a vontade de prosseguir na ação penal por ele iniciada (art. 106, § 1", do CP).</p><p>Assim, de acordo com o inciso I do art. 106 do Código Penal, o perdão do ofendido deverá ser dirigido a todos aqueles que, em tese, praticaram a infração penal, não podendo o querelante, portanto, escolher contra quem deverá prosseguir a ação penal por ele intentada. Caso seja da vontade dos demais querelados, o perdão do ofendido, concedido a um deles, deverá ser estendido a todos.</p><p>A segunda hipótese prevista pelo inciso II do art. 106 do Código Penal diz que se o perdão for concedido por um dos ofendidos isso não prejudica o direito dos outros. Isso quer dizer que, sendo a ação penal proposta por vários querelantes, pode cada um deles, individualmente, se for da sua vontade, conceder o perdão sem que, com isso, os demais se vejam também obrigados a perdoar.”. (Curso de Direito Penal, vol 1, Impetus)</p><p>Sobre a inaplicabilidade do perdão à ação penal:</p><p>PERDÃO DA OFENDIDA. IMPOSSIBILIDADE NA AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA À REPRESENTAÇÃO. ART. 105 DO CP. INSTITUTO EXCLUSIVO DE AÇÃO PENAL PRIVADA. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE.</p><p>1. Nos termos do art. 105 do Código Penal, "o perdão do ofendido, nos crimes em que somente se procede mediante queixa, obsta ao prosseguimento da ação", logo, é de se concluir que a referida causa extintiva de punibilidade somente tem efetiva aplicabilidade nas ações penais exclusivamente privadas, já que na ação penal pública condicionada à representação, ao ser proposta, a titularidade é de imediato transferida ao órgão ministerial, não mais dela dispondo a parte.</p><p>2. Na hipótese, em se tratando de ação penal pública condicionada à representação - de acordo com o disposto no art. 225, § 1º, inciso I e § 2º do Código Penal -, não há que se falar no reconhecimento do perdão concedido pela vítima a ensejar a extinção da punibilidade do paciente, porquanto trata-se de instituto exclusivo dos crimes que são apurados por ação penal privada - a qual não foi a exercida no presente caso. (STJ, HC 111.326/MT, 5ª T., Rel. Min. Jorge Mussi, j. em 26/10/2010).</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“O perdão do ofendido aceito é causa extintiva da punibilidade, prevista no artigo 107, V, 2ª parte do CP, que apenas incidirá após o oferecimento da ação penal privada e antes do trânsito em julgado da sentença penal condenatória.</p><p>Na verdade, o perdão opera como uma desistência do prosseguimento do feito ou o desinteresse que haja uma condenação irrecorrível contra o querelado.</p><p>Contudo, o perdão em pauta é ato bilateral, ou seja, só terá efeito de extinguir a punibilidade se for aceito pelo querelado. Desta forma, não basta o querelante conceder o perdão ao querelado, devendo este aceitá-lo para que produza seus jurídicos efeitos. (...)</p><p>QUESTÃO 1-Você é advogado em Alberto, o qual ajuizou queixa-crime pelo delito de injúria contra Ambrózio. Alberto, então, optou por perdoar o crime cometido por Ambrózio, porém este, expressamente, não aceitou o perdão.</p><p>Não tendo mais interesse na ação privada, como deve proceder para pôr fim ao processo?</p><p>RESPOSTA 1-Embora o perdão seja ato bilateral, exigindo aceite, é possível ao querelante extinguir a punibilidade do querelado através da perempção, basta deixar de dar andamento ao processo por mais de 30 dias.</p><p>QUESTÃO 2-Assinale a alternativa incorreta:</p><p>RESPOSTA 2-a renúncia em relação a um não aproveita ao demais;</p><p>Fundamentação: “B”, conforme dispõe o art. 49 do CPP."</p><p>AULA 2- Retratação</p><p>RESUMO</p><p>Define-se a retratação como a hipótese na qual o agente reconhece ter cometido um erro e o corrige de forma cabal e</p><p>completa, apenas sendo admissível quando houver expressa previsão legal.</p><p>Sua aplicação é prevista em apenas duas hipóteses no Código Penal, a saber:</p><p>Art. 143 - O querelado que, antes da sentença, se retrata cabalmente da calúnia ou da difamação, fica isento de pena. Parágrafo único. Nos casos em que o querelado tenha praticado a calúnia ou a difamação utilizando-se de meios de comunicação, a retratação dar-se-á, se assim desejar o ofendido, pelos mesmos meios em que se praticou a ofensa.</p><p>Art. 342 § 2º O fato deixa de ser punível se, antes da sentença no processo em que ocorreu o ilícito, o agente se retrata ou declara a verdade.</p><p>Conforme explica Nucci:</p><p>“Retratação: é o ato pelo qual o agente reconhece o erro que cometeu e o denúncia à autoridade, retirando o que anteriormente havia dito. Pode ocorrer: 1.º) nos crimes de calúnia e difamação (art. 143, CP); 2.º) nos crimes de falso testemunho e falsa perícia (art. 342, § 2.º, CP). Somente pode se dar até a sentença de 1.º grau, embora existam opiniões defendendo a possibilidade de retratação até o trânsito em julgado da decisão condenatória. E mais: apenas tem valor quando ingressa nos autos, não dependendo de aceitação da parte contrária. No processo do júri, discute-se até que ponto pode o falso ser retratado: a) até a sentença de pronúncia; b) até a decisão do Tribunal do Júri; c) até o trânsito em julgado da sentença condenatória. A melhor posição é a segunda. Não se deve acolher como momento-limite a sentença de pronúncia, pois é esta apenas uma decisão interlocutória, julgando a admissibilidade da acusação. A sentença proferida no plenário é a que julga o mérito da causa. Entretanto, se houver impronúncia ou absolvição sumária, o prazo para retratação tem por limite tais decisões. Para quem admite participação nos crimes de falso testemunho e falsa perícia (delitos de mão própria), a retratação de um dos coautores pode beneficiar os demais? Há duas posições: a) não se comunica, pois vale a mesma regra dos crimes contra a honra: somente quem volta atrás não merece ser punido; b) comunica-se, pois a lei fala que o fato se torna “não punível”. Ora, se o fato não é mais digno de punição, natural que os concorrentes não possam ser condenados caso um deles Aula II – Retratação declare a verdade, retratando-se. Esta última, no caso do falso testemunho, parece ser a melhor posição. A retratação, em qualquer situação, deve ser cabal e completa.”. (Código Penal Comentado, Forense)</p><p>O STJ admite a análise da retratação através do habeas corpus:</p><p>RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. FALSO TESTEMUNHO. ART. 342 DO CÓDIGO PENAL. RETRATAÇÃO EM JUÍZO ANTES DA PROLAÇÃO DA SENTENÇA. CAUSA DE EXTINÇÃO DA PUNIBILIDADE. § 2º DO ART. 342 DO CÓDIGO PENAL.</p><p>1. O trancamento do processo no âmbito de habeas corpus é medida excepcional, somente cabível quando demonstrada a absoluta ausência de provas da materialidade do crime e de indícios de autoria, a atipicidade da conduta ou a existência de causa extintiva da punibilidade.</p><p>2. Nos crimes de falso testemunho ou falsa perícia, o legislador entendeu configurar causa extintiva da punibilidade do agente o fato de ele retratar-se (ou dizer a verdade) em juízo, antes de proferida a sentença.</p><p>3. O acusado retratou-se nos autos da ação criminal que investiga crime de homicídio, ao afirmar - antes de qualquer decisão proferida pelo Tribunal do Júri - que seu advogado o havia orientado para afirmar que trabalhou para o réu no dia dos fatos, enquanto que, na verdade, encontrava-se em casa.</p><p>4. Recurso provido para ratificar a liminar anteriormente deferida, com o fim de determinar o trancamento do processo n. 0010156-49.2014.8.13.0671, em trâmite na Vara Única da Comarca de Serro/MG, em virtude da extinção da punibilidade. (STJ, RHC 52.539/MG, 6ª T., Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, j. em 24/03/2015)</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“Declara o art. 107, inc. VI, do Código Penal que se extingue a punibilidade “pela retratação do agente, nos casos em que a lei a admite”. A retratação do agente só é cabível nos casos em que a lei prevê. Realizando-se uma análise desses casos percebe-se que só se admite a retratação até a sentença de primeiro grau, ou seja, na fase da pretensão punitiva[1] que se estende até a decisão de primeiro grau de jurisdição.</p><p>Advertência, portanto, deve ser feita à nomenclatura “retratação do agente”, que é imprópria, devendo-se encará-la como “retratação do suposto agente”, pois antes de decisão condenatória transitada em julgado não se deve dizer que a retratação foi do agente do fato material ou do crime (incidência do princípio da presunção de inocência).</p><p>Desta maneira, não se deve dizer que quem se retratou cometeu o delito, até mesmo porque acontecem casos em que a pessoa se retrata de um fato típico que realizou licitamente ou não culpavelmente, com o intuito apenas de encerrar a discussão no juízo penal, evitando, assim, o desgaste de ter que provar a excludente e as intempéries processuais estigmatizantes. (...)”.</p><p>QUESTÃO 1-Seu cliente, Juvenal, foi vítima de calúnia praticada por Jorge, seu vizinho, através da rede social facebook. Após ser citado, Jorge retratou-se com Juvenal, enviando-lhe um longo e-mail de desculpas, o qual, inclusive, afixou no mural do condomínio no qual residem.</p><p>Como advogado de Juvenal, responda: deve ser extinta a punibilidade de Jorge?</p><p>RESPOSTA 1-Não.</p><p>A retratação de Jorge não teve a mesma abrangência da calúnia praticada. Para que possa ser extinta a punibilidade, sendo essa a vontade de Juvenal, deve-se exigir que a retratação seja feita através do mesmo meio de comunicação, conforme dispõe o art. 143, parágrafo único, do CP.</p><p>QUESTÃO 2-São características da retratação:</p><p>RESPOSTA 2-exige previsão legal, não depende de aceite, deve ser completa;</p><p>Fundamentação: A retratação do agente apenas pode ocorrer quando houver expressão previsão legal para determinado crime. Além disso, não é ato bilateral. Deve ser cabal e completa, a retratação parcial não extingue a punibilidade.</p><p>Aula III – Perdão Judicial</p><p>RESUMO</p><p>Perdão judicial é a clemência conferida pelo Poder Judiciário quando houver expressa previsão legal para tanto, não exigindo aceite por parte do agente.</p><p>No Código Penal, além de previsões na parte especial, consta com parca regulamentação no art. 120:</p><p>Art. 120 - A sentença que conceder perdão judicial não será considerada para efeitos de reincidência.</p><p>Veja-se a explicação conferida por Rogério Greco:</p><p>“Inicialmente, é preciso destacar que o perdão judicial não se dirige a toda e qualquer infração penal, mas, sim, àquelas previamente determinadas pela lei. Assim, não cabe ao julgador aplicar o perdão judicial nas hipóteses em que bem entender, mas tão somente nos casos predeterminados pela lei penal.</p><p>Com esse raciocínio, pelo menos ab initio, torna-se impossível a aplicação da analogia in bonam partem quando se tratar de ampliação das hipóteses de perdão judicial. Isso porque a lei penal afirmou categoricamente que o perdão judicial somente seria concedido nos casos por ela previstos, afastando-se, portanto, qualquer outra interpretação.</p><p>Muito se discutiu sobre a natureza jurídica da sentença que concede o perdão judicial, sendo que as opiniões se dividiam no sentido de que seria absolutória, condenatória ou meramente declaratória de extinção da punibilidade. O STJ, por intermédio da Súmula n"- 18, posicionou-se neste último sentido, afirmando que a sentença concessiva do perdão judicial é declaratória da extinção da punibilidade, não subsistindo qualquer efeito condenatório, devendo ser realizada uma releitura do art. 120 do Código Penal.</p><p>A forma como o perdão judicial normalmente vem previsto a fim de ser aplicado a determinada infração penal nos deixa a dúvida se ele é uma faculdade do juiz ou um direito subjetivo do agente. A título de exemplo, o § 5º do art. 121 do Código Penal diz que, na hipótese de homicídio culposo, o juiz poderá deixar de aplicar a pena, se as consequências da infração atingirem o próprio agente de forma tão grave que a sanção penal se torne</p><p>desnecessária. Suponhamos que um pai, que possua porte legal para andar armado, chegue em casa apressado e, negligentemente, retire a arma da cintura e a coloque em cima da mesa da sala, indo, logo em seguida, ao banheiro. Seu filho menor, ao avistar a arma, começa a com ela brincar, ocasião em que esta dispara, atingindo mortalmente a criança. O pai ainda se encontrava no banheiro quando escuta o estampido. Desesperado, lembra-se de que havia deixado a arma ao alcance do seu filho, e, ao sair do banheiro, já o encontra morto. Pergunta-se: Será que esse pai, que em razão de ter deixado de observar o seu dever objetivo de cuidado culposamente causou a morte de seu próprio filho, necessita de mais alguma sanção? Acreditamos que não, devendo, pois, ser-lhe concedido o perdão judicial.”. (Curso de Direito Penal, vol. 1, Impetus)</p><p>Em nosso ordenamento encontramos diversas hipóteses de aplicação do perdão judicial, a saber, dentre outras:</p><p>Homicídio culposo – art. 121, § 5º</p><p>Lesão corporal culposa – art. 129, § 8º</p><p>Injúria – art. 140, § 1º</p><p>Outras fraudes – art. 176, parágrafo único</p><p>Receptação culposa – art. 180, § 5º</p><p>Parto suposto – art. 242, parágrafo único</p><p>Subtração de incapaz – art. 249, § 2º</p><p>Crimes ambientais, art. 29, § 2º</p><p>Injúria em propaganda eleitoral – art. 326, § 1º</p><p>Lavagem de dinheiro – art. 1º, § 5º</p><p>Lei de proteção à testemunha – art. 13</p><p>Lei de organização criminosa – art. 4º</p><p>Na doutrina e jurisprudência discutiu-se sobre a possibilidade, ou não, de aplicação do perdão judicial ao homicídio culposo praticado na direção de veículo automotor, posto não haver previsão específica no Código de Trânsito Brasileiro. A discussão, porém, encontra-se hoje pacificada na jurisprudência do STJ:</p><p>HABEAS CORPUS. SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. NÃO CABIMENTO. EMBRIAGUEZ AO VOLANTE. PERDÃO JUDICIAL. IMPOSSIBILIDADE. INEXISTÊNCIA DE PREVISÃO LEGAL. AUSÊNCIA DE FLAGRANTE ILEGALIDADE. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO</p><p>1. Diante da hipótese de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, a impetração não deve ser conhecida, segundo orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal e deste Superior Tribunal de Justiça. Contudo, ante as alegações expostas na inicial, afigura-se razoável a análise do feito para verificar a existência de eventual constrangimento ilegal.</p><p>2. Estipula o Código Penal, em seu art. 107, inciso IX, que se extingue a punibilidade "pelo perdão judicial, nos casos previstos em lei". Desse modo, somente será possível a aplicação do instituto se houver expressa previsão legal para a hipótese em comento. In casu, o voto minoritário do colegiado a quo foi proferido no sentido da aplicabilidade do instituto do perdão judicial à espécie, "nos termos do art. 129, § 8º, combinado com o art. 121, § 5º, do Código Penal".</p><p>De fato, ainda que o Código de Trânsito não preveja expressamente hipóteses de perdão judicial, entende-se que o diploma admite a aplicação analógica do instituto aos delitos de homicídio e lesão corporal, ambos na modalidade culposa, por inteligência das razões de veto apostas ao diploma. Na espécie, todavia, o delito de trânsito imputado ao paciente é o de condução de veículo automotor sob influência de álcool, para o qual não se encontra previsão legal de aplicação do perdão judicial Habeas corpus não conhecido.</p><p>(STJ, HC 359.018/RS, 5ª T., Rel. Min. Joel Ilan Paciornik, j. em 27/09/2016)</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“O perdão judicial é um instituto jurídico que carece de sistematização em nosso conjunto legislativo. Não é difícil identificar divergências doutrinarias e jurisprudenciais fundadas acerca dele em nosso ordenamento. É uma hipótese de extinção da punibilidade e está prevista no Art. 107, IX e 120 do Código Penal.</p><p>O instituto foi introduzido em 1940, mas tratado com pouca importância até 1977, justificado pela falta de previsão na legislação anterior. Arnaldo Sampaio, em 1955 escrevia que:</p><p>(...) muito poucas vezes a controvérsia, aqui, tem chegado aos tribunais. Justifica- se este fato porque, raramente, entre nós, ocorre ao juiz, valer- se da faculdade que lhe confere a lei, preferindo utilizar- se da suspensão condicional da pena para beneficiar o réu, quase sempre, na suposição de que, por esse ultimo caminho, atinge o mesmo desiderato (...). Haverá, por certo, uma razão para que o juiz se abstenha de lançar mão do instituto, quando se lhe apresente a hipótese. Dele não cuidava a legislação anterior. E a inovação, introduzida na lei atual (...) não parece encorajar o magistrado que, de ordinário, passa a encara- la como faculdade mais ou menos supérflua, já que a suspensão condicional da pena parece, à primeira vista, supri- la inteiramente, na sua finalidade, assim mal interpretada. (Apud ALMEIDA AGUIAR, 2004, p. 1).</p><p>Com a reforma do Código Penal em 1984, o perdão judicial passa a tratar das hipóteses de homicídio culposo e lesão corporal culposa, e não mais apenas dos casos de crimes de pequeno potencial ofensivo, como era até então, reacendendo assim as discuções sobre o assunto. (...)”.</p><p>QUESTÃO 1-Amanda foi denunciada como incursa no art. 29, § 1º, III, da Lei dos Crimes Ambientais por manter em sua residência um Periquito sem a licença do órgão competente.</p><p>No decorrer da instrução apurou-se que o animal era mantido em ótimas condições, com alimentação, espaço e higiene adequada.</p><p>Como advogado de Amanda, o que pode ser requerido em seu favor?</p><p>RESPOSTA 1-Deve-se requerer a aplicação do perdão judicial previsto no § 2º do art. 29, pois o periquito não é espécie ameaça de extinção, e não há indícios de que Amanda mau trate o animal.</p><p>QUESTÃO 2-Sobre o perdão judicial é incorreto afirmar:</p><p>RESPOSTA 2-nenhuma das anteriores.</p><p>Fundamentação: A alternativa a ser indicada é a “E” visto que todas estão corretas. a) O perdão judicial apenas pode ser aplicável quando expressamente previsto para determinado crime. b) O perdoado não precisa aceitar o perdão, sendo ato unilateral do juiz. c) A delação premiada pode acarretar o perdão judicial em algumas hipóteses. d) A sentença concessiva do perdão não possui natureza condenatória e, portanto, não gera reincidência."</p><p>Aula IV – Abolitio Criminis</p><p>RESUMO</p><p>Abolitio criminis é a situação na qual a lei posterior deixa de considerar um fato como crime. Trata-se, em verdade, de consequência do próprio princípio da retroatividade da lei benéfica, prevista no art. 2º, parágrafo único, do Código Penal:</p><p>A lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado.</p><p>Conforme expõe Bitencourt:</p><p>“Ocorre abolitio criminis quando a lei nova deixa de considerar crime fato anteriormente tipificado como ilícito penal. A lei nova retira a característica de ilicitude penal de uma conduta precedentemente incriminada. Nessa hipótese, partindo da presunção de que a lei nova é a mais adequada, e de que o Estado não tem mais interesse na punição dos autores de tais condutas, aquela retroage para afastar as consequências jurídico-penais a que estariam sujeitos os autores (art. 2º do CP). A abolitio criminis configura uma situação de lei penal posterior mais benigna, que deve atingir, inclusive, fatos definitivamente julgados, mesmo em fase de execução.</p><p>A abolitio criminis faz desaparecer todos os efeitos penais, permanecendo os civis. Bonfim e Capez elencam os efeitos práticos da abolitio criminis; por sua pertinência, pedimos venia para transcrever: “O inquérito policial ou o processo são imediatamente trancados e extintos, uma vez que não há mais razão de existir; se já houve sentença condenatória, cessam imediatamente sua execução e todos os seus efeitos penais, principais e secundários; os efeitos extrapenais (sic), no entanto, subsistem, em face do disposto no art. 2º, caput, do Código Penal, segundo o qual cessam apenas os efeitos penais da condenação”. Na hipótese de abolitio criminis não subsiste, na verdade, nem a execução da pena, que é seu efeito principal, mesmo transitada em julgado. Aliás, se o condenado já tiver cumprido a pena,</p><p>inclusive, terá sua folha de antecedentes inteiramente corrigida, para dela afastar a condenação que existiu, por fato que não é mais crime.” (Tratado de Direito Penal, vol. 1, Saraiva)</p><p>Sobre a competência para aplicar a lei benéfica, explica Nucci:</p><p>Competência para aplicação da lei penal benéfica: a competência para a aplicação da lei nova favorável divide-se da seguinte forma: a) com o processo em andamento até a sentença, cabe ao juiz de 1.º grau a aplicação da lei; b) em grau de recurso, aplicará a norma favorável o Tribunal; c) havendo o trânsito em julgado da decisão, existem duas posições: c.1) cabe ao juiz da execução criminal; c.2) cabe ao Tribunal, pela via da revisão criminal. A primeira orientação leva em consideração a Súmula 611 do Supremo Tribunal Federal (“Transitada em julgado a sentença condenatória, compete ao juízo das execuções a aplicação de lei mais benigna”), o art. 13 da Lei de Introdução ao Código de Processo Penal (“A aplicação da lei nova a fato julgado por sentença condenatória irrecorrível, nos casos previstos no art. 2.º e seu parágrafo, do Código Penal, far-se-á mediante despacho do juiz, de ofício, ou a requerimento do condenado ou do Ministério Público”) e o art. 66, I, da Lei de Execução Penal (“Compete ao juiz da execução: aplicar aos casos julgados lei posterior que de qualquer modo favorecer o condenado”) (Código Penal Comentado, Forense)</p><p>Questão importante a ser analisada no contexto da abolitio criminis é a chamada continuidade normativo-típica, situação na qual, embora o artigo de lei seja revogado, a conduta permanece proibida pelo ordenamento jurídico, sem qualquer rompimento temporal.</p><p>Eis exemplo na jurisprudência:</p><p>PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. FAVORECIMENTO DA PROSTITUIÇÃO INFANTIL. ABOLITIO CRIMINIS. INOCORRÊNCIA. PRINCÍPIO DA CONTINUIDADE NORMATIVO-TÍPICA. DESLOCAMENTO TOPOGRÁFICO DO CONTEÚDO CRIMINOSO DENTRO DO MESMO DIPLOMA LEGAL. PENA-BASE EXASPERADA EM DECORRÊNCIA DE ELEMENTOS CONCRETOS. DECISÃO MONOCRÁTICA. OFENSA AO PRINCÍPIO DA COLEGIALIDADE. AUSÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL IMPROVIDO.</p><p>1. A abolitio criminis pressupõe a revogação expressa do tipo penal incriminador, o que não ocorreu com o delito de favorecimento da prostituição infantil, tendo em vista que, com a edição da Lei n. 12.015/09, o caráter proibido da conduta foi apenas deslocado do § 1º do art. 218 para o art. 218-B do Código Penal.</p><p>2. Sequer se cogita em ilegalidade na fixação da pena-base se fundamentadamente estabelecida com esteio nas peculiaridades do caso concreto que desbordam do ordinário ao tipo penal.</p><p>3. Não viola o princípio da colegialidade a decisão monocrática do relator, tendo em vista a possibilidade de submissão do julgado ao exame do órgão colegiado, mediante a interposição de agravo regimental.</p><p>4. Agravo regimental improvido. (STJ, AgRg no HC 376.098/RJ, 6ª T., Rel. Min. Nefi Cordeiro, j. em 04/04/2017)</p><p>2. A tipificação realizada na denúncia, imputando ao recorrente o crime do art. 334, caput, do Código Penal, remete à redação originária do referido diploma legal, que reunia, concomitantemente, a conduta de descaminho e contrabando, pois anterior à vigência da Lei 13.008/2014. Após a referida lei, o art. 334 do Código Penal passou a disciplinar exclusivamente o crime de descaminho, enquanto o art. 334-A, passou a tipificar o crime de contrabando, em continuidade normativo-típica. (STJ, RHC 63.310/RS, 5ª T., Rel. Min. Ribeiro Dantas, j. em 02/06/2016)</p><p>LEITURA COMPLEMENTAR</p><p>“Como se sabe, o delito de evasão de divisas na modalidade de manter depósito no exterior sem declaração à repartição federal competente se trata de norma penal em branco, ou seja, carece de complemento normativo para a perfectibilização da norma abstrata do tipo penal.</p><p>Desde o ano de 2001, a partir da circular 3.07/2001, criadora da Declaração de Capitais Brasileiros no Exterior, o Banco Central passou a editar normas, anualmente, regulamentando a maneira pela qual os brasileiros possuidores de capital no exterior deveriam realizar a declaração deste montante, estipulando prazos e valor mínimo para esta declaração. (...)”.</p><p>QUESTÃO 1-Heráclito, seu cliente, foi condenado pelos crimes de estupro e atentado violento ao pudor, por fatos praticados em 2008, tendo recebido as penas de 7 anos para cada crime.</p><p>Durante a execução da pena, sobreveio a Lei 12.015/09, sendo requerido ao juiz a aplicação da lei nova benéfica. O magistrado, porém, manteve a pena em 14 anos, sob o argumento de a nova redação do art. 213 ser tipo misto cumulativo.</p><p>Você foi contratado para defender os interesses de Heráclito. Como deve atuar?</p><p>RESPOSTA 1-Deve-se alegar que o STJ já firmou entendimento de ser o estupro tipo misto alternativo. Por esta razão, se faz necessário recalcular a pena de Heráclito, aplicando-se a pena de apenas um crime, ainda que possa ser elevada acima de 7 anos pela pluralidade de condutas.</p><p>QUESTÃO 2-A quem compete aplicar a abolitio criminis:</p><p>RESPOSTA 2-ao juiz da execução após transitar em julgado a sentença;</p><p>Fundamentação: “C”, conforme súmula 611 do STF."</p><p>TEMA 10- PRESCRIÇÃO</p><p>AULA 01: CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA</p><p>Hoje vamos tratar de prescrição penal, um tema que se relaciona direto com o tempo, com a perda do que se chama de ius puniendi, do direito de punir ou do dever-poder, dever de punir do Estado, um direito mas é, antes disso, um dever que o Estado tem.</p><p>Nesse sentido, ensina-nos Coelho:</p><p>Por decorrência, o Estado não possui direito de punir no que tange à simples possibilidade de fazê-lo, mas sim um poder-dever de atuação frente à exclusividade de fazer incidir o Direito Penal diante dos conflitos sociais.</p><p>Trata-se de um poder no sentido de que somente ao Estado é dado exercer a punição penal. Trata-se de um dever no sentido de que sua atuação é necessária para evitar a anomia penal, que estimularia as atuações/reações privadas diante de violações graves a direito (COELHO, 2020, p. 348).</p><p>A prescrição do Direito Civil pode ser a mais antiga, mais clássica, mas a do Direito Penal é completamente diferente. Se no Direito Civil a prescrição e a decadência tem as suas próprias consequências, como a perda do direito de ação ou a perda do próprio direito, e a prescrição fica mais relacionada, então, ao âmbito processual, aqui, no âmbito Penal, temos a prescrição junto com a decadência como institutos diferentes dependendo de quem é o titular da ação, pública ou privada.</p><p>Decadência, então, é a perda do direito de ação ou o direito de representação por parte do interessado, daquele que pode oferecer queixa-crime, iniciar a ação penal privada, ou fazer, então, a representação para possibilitar a ação penal pública condicionada à representação. Normalmente a decadência tem um prazo de 6 meses.</p><p>Mas quando estamos falando da prescrição, estamos falando, como a doutrina fala de modo geral, da perda do direito de punir do Estado, perda do ius puniendi do Estado. Então estamos falando aqui de ação penal pública, tendo o Ministério Público como o titular da ação penal quando falamos de prescrição.</p><p>Essa, então, vai ser a diferença entre prescrição e decadência no âmbito Penal. Ambos os institutos estão situados no âmbito do direito material, do Direito Penal, estamos falando de perda de direito de punir, ou seja, não se trata de questão processual, mas sim de questão material. E isso vai ter reflexos, como na contagem de prazos, etc., que veremos oportunamente.</p><p>Para Nucci, prescrição "é a perda do direito de punir do Estado pelo não exercício em determinado lapso de tempo. Não há mais interesse estatal na repressão do crime, tendo em vista o decurso do tempo e porque o infrator não reincide, readaptando-se à vida social".</p><p>Imaginemos que há um decurso muito grande, está tudo certo, tudo resolvido, não há por que mexer de novo nisso, o Estado, inclusive, demorou tanto que perdeu o seu interesse, o seu direito.</p><p>Também Bitencourt vai na mesma linha para definir prescrição: "A perda do direito de punir do Estado, pelo decurso de tempo, em razão do seu não exercício, dentro</p><p>do prazo previamente fixado". Vemos, portanto, de acordo com esse doutrinador, que o prazo prescricional deve estar previsto em lei.</p><p>Após analisado o conceito de prescrição, fica mais fácil detectarmos a sua natureza jurídica, que é a de causa de extinção ou causa extintiva da punibilidade, inclusive prevista especificamente no artigo 107, inciso IV, do Código Penal. Ou seja, quando falamos de prescrição, não estamos falando propriamente do crime em si: tipicidade, antijuridicidade, culpabilidade são elementos do crime. Aqui, o crime já ocorreu, isso é um fato, ou seja, não se está falando em teoria do crime, se o crime ocorreu ou não, insignificância, legítima defesa, hipóteses de afastamento de culpabilidade, imputabilidade.</p><p>Aqui, a questão é se vamos punir o crime ou não, ou seja, estamos, então, na punibilidade, consequência do cometimento do crime. Há várias hipóteses de extinção da punibilidade, tais como a morte do agente (já que, com isso, a pena não passa aos seus herdeiros, conceito esse amplamente aplicado há muitas décadas no Brasil, de acordo com os princípios basilares e com o Direito Penal moderno de matriz constitucional).</p><p>Outra é justamente a prescrição, até mais importante, que vai ocasionar a extinção da punibilidade, pois o Estado, que tinha o direito de punir por ter alguém cometido um crime não vai mais poder, então o próprio Estado, por meio do juiz, vai ser obrigado a extinguir a punibilidade do agente, não podendo mais punir o mesmo.</p><p>Segundo Cunha:</p><p>A prescrição é a perda, em face do decurso do tempo, do direito de o Estado punir (prescrição da pretensão punitiva) ou executar uma punição já imposta (prescrição da pretensão executória).</p><p>Trata-se de um limite temporal ao direito de punir do Estado. Sendo matéria de ordem pública, deve ser conhecida, ainda que de ofício, pelo juiz. (CUNHA, 2018, p. 362).</p><p>Sendo um instituto do direito material, a consequência mais importante, como diz o Código Penal em seu artigo 10o, conta-se o dia de início (então vai ser sempre um dia a menos em comparação ao Direito processual e a contagem de prazos processuais).</p><p>Ainda no âmbito da natureza jurídica, é muito importante ressaltar que é matéria de ordem pública, ou seja, a qualquer momento, como beneficia o réu, no processo penal, que já tem interesse público ao mexer com a liberdade humana e direitos fundamentais basilares.</p><p>A consequência disso é que a qualquer momento no processo ela pode ser valorada, reconhecida pelo juiz, inclusive de ofício, em qualquer instância recursal, até o Supremo Tribunal Federal.</p><p>Há 5 teorias que fundamentam a existência do instituto da prescrição (na verdade, os doutrinadores costumam ficar com as 4 primeiras, e a 5a foi um acréscimo feito pelo professor):</p><p>1) Teoria do esquecimento: decorreu tanto tempo 15 anos, por exemplo - que a pessoa até já esqueceu do fato, inclusive a testemunha, ou o próprio réu. A própria finalidade da pena, de prevenção, repressão e reprovação, também se perde com a essa demora;</p><p>2) Teoria da expiação moral: o agente fica tanto tempo esperando ser punido que a aplicação da pena se torna desnecessária, afinal, a aflição e a expectativa de o que pode acontecer já é a própria punição dele;</p><p>3) Teoria da emenda do delinquente: tanto tempo se passou e o agente não cometeu outro crime, porque punir pelo outro, se já houve a emenda do agente? A punição, para ter maior eficácia de terapêutica penal, deve ser o mais próxima possível do fato;</p><p>4) Teoria de dispersão das provas: está intimamente ligada com a primeira teoria: o decurso do tempo enfraquece o conjunto probatório, dificultando que haja um julgamento realmente justo. Esse é, ao contrário dos outros, um fundamento de ordem processual; e</p><p>5) Teoria do estímulo: para o professor, essa teoria é a mais importante, cujo nomen iuris foi criado por ele mesmo. Para ele, o principal motivo da prescrição é provocar, incentivar o Estado a o quanto antes, por meio do Ministério Público, exercer a punição, realizar a persecução penal, em tempo hábil, para evitar a prescrição. Seria uma atitude pedagógica do legislador incentivando o próprio Estado a exercer o seu direito de punir.</p><p>Por fim, embora se fale em "direito de punir", quando falamos em ofício público, em Estado, estamos sempre falando de deveres. Há poderes, mas antes do poder, há o dever, porque os representantes estatais, os agentes públicos só fazem o que está previsto em lei.</p><p>Para o professor, é o dever que está previsto em lei de a acusação, por meio do Ministério Público, realizar a punição do sujeito. É um dever de punir, não um direito de punir. O direito, na verdade, é da sociedade, que o Estado nos represente e que nós possamos ver as pessoas sejam punidas pelos crimes cometidos.</p><p>QUESTÃO 1-Depois de pronunciado por homicídio consumado e tentativa de homicídio conexos, Tício é condenado a dois anos de detenção (artigo 121, parágrafo 3o, do Código Penal), porque foi reconhecido excesso na legítima defesa, e a um ano de detenção, já que foi desclassificada a tentativa para o crime de lesões corporais (artigo 129 do Código Penal).</p><p>O co-réu Mévio apela da decisão alegando a extinção da punibilidade do crime de lesões corporais, já que, ao contrário do que se verificou com Tício, somente foi pronunciado em grau de recurso imediatamente após o decurso de quatro anos do recebimento da denúncia.</p><p>Considerando o acima exposto, discorra e justifique se, quanto a Tício, ocorreu ou não a prescrição do crime de lesões corporais.</p><p>RESPOSTA 1-De acordo com os incisos do artigo 117 do Código Penal e, ainda, com o parágrafo 1o do mesmo dispositivo legal, apenas nos casos de prescrição da pretensão executória é que não haverá extensão aos demais participantes em concurso de crimes ou em crimes conexos, pois, nesse caso, as penas já estarão completamente individualizadas.</p><p>Em todos os demais casos, ou seja, quanto à prescrição da pretensão punitiva, a interrupção relativa a qualquer dos incisos do artigo 117 do Código Penal estende-se aos demais.</p><p>Portanto, no caso em comento, como houve a extinção da punibilidade do crime de lesões corporais quanto a Mévio por ter decorrido mais de quatro anos entre o recebimento da denúncia e a pronúncia, ocorreu a prescrição do crime de lesões corporais para ambos os agentes, ou seja, para Tício também.</p><p>QUESTÃO 2-É causa impeditiva da prescrição:</p><p>RESPOSTA 2-O cumprimento da pena, pelo agente, no estrangeiro.</p><p>Fundamentação: está correta a alternativa “O cumprimento da pena, pelo agente, no estrangeiro”, segundo o artigo 116, inciso II, do Código Penal, antes de passar em julgado a sentença final, a prescrição não corre enquanto o agente cumpre pena no estrangeiro.</p><p>AULA 02: PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA</p><p>Já estudamos na aula anterior o conceito, a natureza jurídica e a terminologia da prescrição. Portanto, nessa aula, estudaremos especificamente a prescrição da pretensão punitiva.</p><p>Lembrando, de início, que prescrição de fato é um tema um pouco difícil, pois a prescrição se divide em prescrição da pretensão executória e prescrição da pretensão punitiva, enquanto que essa última também possui subdivisões em prescrição retroativa, prescrição em concreto, prescrição intercorrente, o que gera muita desinteligência em relação a cada um desses institutos específicos.</p><p>Nesse sentido, ensina-nos COELHO:</p><p>O poder-dever de punir se configura em três momentos de atuação estatal: a elaboração das leis penais, sujeita às demandas políticas circunstanciais sentidas pelo legislador; a investigação e acusação processual, sujeita aos condicionamentos culturais, inclusive morais, que influenciam os atores do sistema (policiais, acusadores, julgadores); e a execução penal, sujeita às deficiências crônicas (materiais e humanas) do sistema punitivo.</p><p>Todos esses momentos dessa atuação traduzem, com as referidas limitações intrínsecas, uma pretensão para o Estado: a pretensão de atuar penalmente. Divide-se a possível atuação penal, no âmbito pragmático (excluída aqui a elaboração das leis, que traduz o âmbito normativo abstrato), em pretensão</p><p>punitiva e em pretensão executória. A pretensão punitiva envolve a atuação do Estado para investigar e julgar; a pretensão executória envolve a pretensão do Estado para executar as penas decorrentes das condenações (COELHO, 2020, p. 348).</p><p>Vamos, portanto, tentar estudar esses conceitos da maneira mais didática e fácil possível, afinal de contas, há uma lógica por trás, e torna-se necessário compreendê-la.</p><p>Com relação as chamadas espécies de prescrição penal, temos primeiramente, duas espécies de prescrição: prescrição da pretensão punitiva, que nada mais é do que a perda do direito/dever estatal de punir, ius puniendi, e a prescrição da pretensão executória, consignada na perda do direito/dever estatal de executar a penal, ius punitionis, a qual surge após o trânsito em julgado da condenação penal.</p><p>De tal sorte, a todo momento antes do trânsito em julgado, está correndo apenas a prescrição da pretensão punitiva, não da pretensão executória.</p><p>Para Cunha:</p><p>Existem duas principais espécies de prescrição:</p><p>A) da pretensão punitiva, que ocorre antes do trânsito em julgado da sentença, extinguindo o direito de punir do Estado, quer impedindo-o de acionar o Poder Judiciário na busca da aplicação da lei penal ao fato cometido pelo agente, ou, caso exercido o direito de ação, é impedido de ver julgado, definitivamente, o processo em curso e,</p><p>B) da pretensão executória (art. 110, caput, do CP), esta posterior ao trânsito em julgado, impedindo o Estado de executar a punição (pena ou medida de segurança) imposta na sentença definitiva, subsistindo, porém, os efeitos secundários da condenação.</p><p>A prescrição da pretensão punitiva, por sua vez, apresenta quatro formas:</p><p>1) propriamente dita (em abstrato), tratada no art. 109 do CP;</p><p>2) superveniente, disposta no art. 100, parágrafo 1o;</p><p>3) retroativa, prevista no art. 110, parágrafo 1o;</p><p>4) e virtual ou antecipada (criada pela jurisprudência). (CUNHA, 2018, p. 364).</p><p>Importante lembrar que, quanto mais se demora para punir, mais fracas ficam as finalidades primordiais da pena na prática, especialmente a de prevenção e a de reprovação do crime.</p><p>Elementos da prescrição da pretensão punitiva</p><p>Há 3 elementos principais que devemos saber acerca da prescrição da pretensão punitiva, quais sejam:</p><p>1) acontece antes do trânsito em julgado da condenação penal (podendo ser sentença ou condenação em grau recursal);</p><p>2) tem como consequência a eliminação de todos os efeitos do crime, como se nunca tivesse ocorrido - é a chamada extinção da punibilidade;</p><p>3) existem três espécies da prescrição da pretensão punitiva: prescrição abstrata, prescrição retroativa e prescrição intercorrente/subsequente.</p><p>Prazos</p><p>Os prazos estão previstos no artigo 109 do Código Penal, enquanto as causas de interrupção estão no artigo 117 do mesmo diploma normativo, este último, que estudaremos oportunamente.</p><p>O conceito é: a depender da gravidade do crime, o prazo prescricional é um ou outro. Se o crime for mais grave e a pena for mais grave, a prescrição vai ser sempre proporcional.</p><p>Há uma tabela criada pelo legislador para os prazos prescricionais, sempre levando-se em consideração a pena do crime:</p><p>Um crime gravíssimo com pena máxima, prevista em abstrato, superior a 12 anos irá prescrever em 20 anos. É o que acontece, por exemplo, no caso de homicídio qualificado.</p><p>A prescrição ocorrerá em 16 anos se o máximo da pena em abstrato for superior a 8 e não exceder 12 anos; em 12 anos de prescrição, se o máximo da pena em abstrato for superior a 4 e não exceder a 8; em 8 anos, se o máximo da pena for superior a 2 e não exceder a 4 anos; 4 anos, se o máximo da pena for igual a 1 ano ou, sendo superior, não exceder a 2; e em 3 anos, se o máximo da pena for inferior a 1 ano.</p><p>O professor aproveita para pontuar que muitos crimes de colarinho branco, por exemplo, os crimes econômicos, acabam se enquadrando nessas prescrições em 8 ou em 4 anos, e que o legislador deveria ter tomado um pouco mais de cuidado para evitar impunidade e revolta do povo.</p><p>Essa última prescrição, de 3 anos, mudou em 2010, pois, antes disso, eram 2, e o legislador aumentou um pouco, pois, sem isso, estava sendo difícil até se alcançar a fase da sentença, muitas vezes, considerando a data do crime.</p><p>Frise-se, também, que se a pena máxima for 1 ano, já se aplica a prescrição de 4 anos, pois o inciso V do artigo 109 do Código Penal fala em "máximo da pena igual a um ano", enquanto se for menos de 1 ano, aí sim será aplicado o prazo prescricional de 3 anos previsto no inciso VI do mesmo diploma normativo.</p><p>Ou seja, nesse momento, leva-se em consideração a pena máxima em abstrato, ou seja, se o agente estiver respondendo por furto, que tem pena de 1 a 4 anos, vamos verificar em quanto tempo prescreve a pena de 4 anos, que é a pena máxima, segundo o artigo 109 do CP: 8 anos.</p><p>Causas de interrupção da prescrição punitiva</p><p>As causas de interrupção da prescrição punitiva possuem a mesma lógica de prazos processuais e de prazos no Direito Civil ou no Processo Civil. Ou seja, quando se interrompe um prazo, ele começa do zero.</p><p>No Direito, como regra geral, se interrompeu, parou. Se suspendeu, aí sim, para e quando voltar a correr, continua de onde havia parado.</p><p>O legislador criou algumas causas de interrupção da prescrição, por exemplo, que demonstram que o processo está andando, tais como o recebimento da denúncia ou a sentença, que aí passam a zerar a contagem da prescrição, até porque alguns crimes tem prazos prescricionais bastante exíguos.</p><p>Segundo o artigo 117 do Código Penal, são elas: recebimento da denúncia ou da queixa; pronúncia (para casos de tribunal de júri); pela decisão confirmatória da pronúncia (também questão de júri); pela publicação da sentença ou acórdão condenatórios recorríveis; pelo início ou continuação do cumprimento da pena; e pela reincidência.</p><p>Acerca do inciso IV do artigo 117 do Código Penal, veja-se que a lei fala em publicação, que é importante, especialmente nos casos em que, pela dificuldade, o juiz abre prazo para alegações finais escritas, então a sentença sairá depois e ainda será publicada posteriormente, no cartório, registrando e tornando pública a mesma.</p><p>Ainda neste inciso, quando se fala em "acórdão condenatório", havia enorme discussão sobre se abrangeria apenas aqueles acórdãos que teriam revertido a sentença absolutória de primeira instância ou se também incluiria os acórdãos confirmatórios da sentença condenatória de primeira instância.</p><p>Essa questão hoje foi sedimentada pela jurisprudência do STF, segundo a qual se entende, de modo majoritário, que o acórdão que confirma a condenação, mantendo-a, serve para interromper a prescrição, embora haja posições divergentes na doutrina.</p><p>No tocante à prescrição da pretensão punitiva abstrata, temos que essa é a regra. É chamada de abstrata pois ainda não há pena prevista na sentença (pena em concreto) para servir de parâmetro para verificação do lapso temporal.</p><p>Ou seja, o prazo regula-se pelo máximo da pena cominada em abstrato ao delito, segundo a tabela do art. 109 do CP.</p><p>Ainda, as causas de aumento e de diminuição no caso concreto devem ser consideradas. Por exemplo, se o crime em questão foi um furto tentado, deve ser considerada a causa de diminuição pela tentativa para se verificar a pena máxima em concreto.</p><p>Portanto, deve-se considerar, quando houver causa de diminuição, a mínima diminuição possível, por motivos de interesse público e, quando houver causa de aumento, o máximo aumento possível.</p><p>QUESTÃO 1-Funcionário público de 30 anos é denunciado pela suposta prática do crime de falsidade ideológica de documento particular (artigo 299 do Código Penal, Pena de 1 a 3 anos de reclusão e multa) por fatos que teriam ocorrido em 02 de janeiro de 2011.</p><p>A denúncia foi recebida em 03 de março de 2015, e, após regular instrução, foi o agente condenado em sentença publicada em 03 de março de 2018, sendo aplicada pena mínima de 01 ano de reclusão e 10 dias-multa. O Ministério Público não apresentou recurso, enquanto a defesa buscou, em recurso, a absolvição.</p><p>Considerando as informações</p><p>narradas, no dia 20 de setembro de 2018, data marcada para sessão de julgamento do recurso, em caso de não ser dado provimento, poderá ou não haver o reconhecimento da prescrição? Justifique.</p><p>RESPOSTA 1-O delito em questão (falsidade ideológica - artigo 299 do Código Penal), ocorrido em 02 de janeiro de 2011, tem pena máxima cominada em 3 anos de reclusão e, conforme o artigo 109, IV, do CP, o prazo de prescrição da pretensão punitiva (propriamente dita) é de 8 anos, cujo termo inicial será a data do fato (consumação).</p><p>Com o recebimento da denúncia em 03 de maio de 2015, ocorre a interrupção do prazo de prescrição, na forma do artigo 117, inciso I, do Código Penal.</p><p>Com a publicação da sentença condenatória recorrível em 03 de maio de 2018, novamente interrompe-se a prescrição da pretensão punitiva, dessa vez, segundo o artigo 117, inciso IV, do Código Penal.</p><p>Nesse caso, já é possível rechaçar a ocorrência da prescrição da pretensão punitiva propriamente dita (pela pena em abstrato), posto que entre a data do fato e o recebimento da denúncia (02/01/2011 a 03/05/2015) e entre esta data e a publicação da sentença condenatório recorrível (03/05/2015 a 03/05/2018) não consumou-se o lapso temporal de 8 anos da prescrição.</p><p>Com a publicação da sentença condenatória recorrível (03/05/18), havendo o trânsito em julgado para a acusação, a prescrição da pretensão punitiva deve ser analisada pela pena fixada na sentença, no caso, 1 ano de reclusão. Portanto, o prazo de prescrição da pretensão punitiva pela pena em concreto será de 4 anos (art. 109, V, CP).</p><p>Em 20/09/2018, desprovido o recurso da defesa, ocorrendo, portanto, o trânsito em julgado para ambas as partes, não se terá configurado a prescrição da pretensão punitiva intercorrente (pela pena em concreto) que tem como termo inicial a data da publicação da sentença condenatória recorrível até o trânsito em julgado para ambas as partes (03/05/18 a 03/09/2018).</p><p>Também não houve a prescrição da pretensão punitiva dita retroativa que, com base na pena em concreto, vai da publicação da sentença condenatória recorrível (03/05/18) para trás e, neste caso específico irá até a data do recebimento da denúncia (03/05/15) quando ocorre a interrupção da prescrição.</p><p>No caso, também não há que se falar em prescrição da pretensão executória, que depende do trânsito em julgado para ambas as partes, o que somente ocorre na data do desprovimento do recurso da defesa.</p><p>Portanto, não deverá haver o reconhecimento da prescrição em nenhuma de suas modalidades.</p><p>QUESTÃO 2-Assinale a alternativa correta:</p><p>RESPOSTA 2-A prescrição retroativa e a intercorrente têm como pressuposto a pena concreta, ocorrendo esta entre a publicação da sentença condenatória e o trânsito em julgado para a defesa, enquanto aquela é apurada da sentença condenatória para trás</p><p>Fundamentação- vez que ambas tem como pressuposto a pena concreta, entretanto, a prescrição retroativa é contada da publicação da sentença condenatória para trás, enquanto a prescrição intercorrente é contada desse mesmo marco para frente.</p><p>AULA 03: PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA (II) E DA PRETENSÃO EXECUTÓRIA</p><p>Conforme já vimos nas aulas antecedentes, o artigo 109 do Código Penal contém uma tabela na qual se considera sempre a pena máxima em abstrato para se descobrir o prazo de prescrição, considerando-se majorantes e minorantes.</p><p>Além disso, já vimos algumas causas de interrupção, por exemplo: a prescrição começa a correr a partir do cometimento do crime, houve o oferecimento da denúncia ou da queixa-crime e, tendo ela sido recebida, há a interrupção da prescrição, ainda considerando-se a pena máxima em abstrato, até porque (ainda) não houve condenação.</p><p>Entre o recebimento da denúncia ou da queixa e a sentença, como não se trata do procedimento especial do júri, não há as causas de interrupção acerca da pronúncia, então a prescrição continua correndo.</p><p>Ao se chegar na sentença, já há uma pena em concreto, não apenas aquela em abstrato. Por exemplo, no caso de um agente primário, a pena mínima no caso de um furto simples é de 1 ano. Portanto, o prazo prescricional vai ser muito menor do que aquele quando ainda não havia pena em concreto.</p><p>Em outras palavras, de um prazo prescricional de 8 anos, considerando-se a pena máxima em abstrato do furto, que era de 4 anos, passou-se para um prazo prescricional de 4 anos, levando-se em consideração uma pena em concreto de 1 ano.</p><p>Nesse caso há, portanto, a pretensão da pretensão punitiva retroativa. Essa está prevista no Código Penal, mas também é uma construção doutrinária antiga segundo a qual seria o justo que, aplicando-se retroativamente a prescrição de acordo com a pena em concreto aplicada, se teria ou não havido a prescrição (de prazo menor) entre aqueles marcos interruptivos.</p><p>Por exemplo, se for verificado que entre o recebimento da denúncia até a sentença demorou, por exemplo, 4 anos, agora, considerando-se a prescrição retroativa de acordo com a pena em concreto, a extinção da punibilidade do agente deverá ser reconhecida, não havendo mais condenação.</p><p>Entretanto, ressalte-se que só pode haver a prescrição da pretensão retroativa desde que haja o trânsito em julgado para a acusação.</p><p>A ideia aqui é, portanto, que a pena não possa mais aumentar, até porque se o juiz sentencia o agente à pena mínima e o Ministério Público recorre, a pena pode ser aumentada, o que também iria aumentar o prazo prescricional.</p><p>Por outro lado, se o Ministério Público não recorre, mas apenas a defesa, não há como aumentar a pena já fixada, então pode-se considerar, para todos os fins de lapso prescricional, a pena mínima.</p><p>Portanto, frise-se: para a aplicação da prescrição da pretensão punitiva retroativa, não pode haver recurso da acusação ou, se houver, este não pode ter sido conhecido.</p><p>Passemos a analisar a chamada Prescrição retroativa. Denomina-se prescrição "retroativa" porque é utilizada a pena cominada na sentença (pena em concreto), quando não há recurso da acusação (ou improvido este), retroagindo tal montante aos marcos interruptivos anteriores previstos no art. 117 do CP (recebimento da denúncia ou queixa até a publicação da sentença). Ensina-nos Cunha:</p><p>Tal qual a prescrição intercorrente ou superveniente, a prescrição retroativa tem por base a pena concreta. Apesar de reconhecida após o trânsito em julgado para a acusação, a prescrição retroativa tem por termo data anterior à da publicação da sentença, do que advém o adjetivo "retroativa".</p><p>Com efeito, a peculiaridade da prescrição da pretensão punitiva retroativa é que se deve contar o prazo prescricional retroativamente, ou seja, da data do recebimento da denúncia ou da queixa até a publicação da sentença condenatória. (CUNHA, 2018, p. 377)</p><p>Uma regra muito importante que não deve ser esquecida e que foi incorporada entre os anos de 2008 e 2010 é aquela segundo a qual o primeiro termo inicial retroativo deve ser o recebimento da denúncia ou queixa. Ou seja, conforme o artigo 110, parágrafo 1o, do Código Penal, não se pode ter como termo inicial retroativo a data do crime (ao contrário da prescrição abstrata).</p><p>Segundo Coelho,</p><p>prescrição retroativa da pretensão punitiva - pode ocorrer quando há sentença penal condenatória definitiva, ou ao menos não contestada na pena pela acusação, ainda que não tenha transitado em julgado em definitivo (pendente recurso da defesa, ou da própria acusação desde que não verse sobre a quantidade da pena). O lapso prescricional regula-se pela pena concretizada na sentença, contando-se retroativamente da publicação da sentença até o recebimento da inicial (novamente se ressalvam os casos de competência do Tribunal do Júri), e, para os crimes cometidos antes da vigência da Lei 12.234/2010, do recebimento da inicial até a consumação do fato (vide incisos II a V do artigo 111, Código Penal brasileiro)(COELHO, 2020, p. 355).</p><p>De outro lado, denomina-se prescrição intercorrente, subsequente ou superveniente porque é utilizada a pena cominada na sentença (pena em concreto), quando não há recurso da acusação (ou improvido este),</p><p>O tratamento era, sem dúvida, cruel, mormente numa época de tanta fome e desolação na Europa.</p><p>A ideia por esses glosadores foi posteriormente desenvolvida, entre os anos de 1500 e 1600, pelos práticos italianos Prospero Farinacio e Julio Claro, a fim de se evitar a pena de morte em situações acima descritas. Da Idade Média, o crime continuado foi abraçado por todas as futuras legislações. Guilherme de Souza Nucci, fazendo referência a Pisapia, ensina que a primeira disposição legislativa a respeito do crime continuado é encontrada na Toscana pela Lei de 30 de agosto de 1795 e pela Circular de 20 de fevereiro de 1821. Essas normas previam que se reconhece o furto continuado, mesmo tratando-se de furtos cometidos em tempo e lugar diversos, com vítimas diferentes, desde que compreendidos no prazo de 20 horas. Nucci acentua que o melhor tratamento normativo para o instituto, no entanto, foi obtido no Código Toscano de 1853, no qual se estabelece, no artigo 80, a seguinte redação: “Várias violações da mesma norma penal cometidas num mesmo contexto de ações ou, mesmo que em momentos diversos, com atos executórios frutos da mesma resolução criminosa, consideram-se um só delito continuado; mas a continuidade do delito acresce a pena dentro dos seus limites legais”2 .</p><p>Natureza Jurídica: A discussão gira em torno em se definir se as várias condutas formadoras do crime continuado realizam um único crime ou se constituem em diversos delitos. Duas são as teorias que buscam explicar os fundamentos dessa modalidade de concurso de infrações.</p><p>1) Teoria da Ficção Jurídica: desenvolvida por Francesco Carrara, o crime continuado é uma ficção criada pela lei ao considerar a unidade delitiva, para fins de aplicação da pena, quando, na realidade, existem vários delitos. Os diversos crimes parcelares formam uma unidade exclusivamente para fins de aplicação da pena.</p><p>2) Teoria da Realidade: considera a continuidade delitiva como crime único. Os vários comportamentos lesivos do agente constituem efetivamente um crime único, uma vez que são elos de uma mesma corrente e traduzem uma unidade de intenção que se reflete na unidade de lesão</p><p>A teoria da ficção jurídica foi a escolhida pelo artigo 71, do Código Penal, à medida que não se ignora a pluralidade de crimes, mas se considera como crime único somente para fins de aplicação da pena, sofrendo o agente uma exasperação.</p><p>Tanto que para as demais finalidades, os diversos crimes serão considerados de maneira isolada, a exemplo da prescrição (artigo 119, CP), que se opera em relação a cada delito, e a Súmula 497 do Superior Tribunal de Justiça, segundo a qual “quando se tratar de crime continuado, a prescrição regula-se pela pena imposta na sentença, não se computando o acréscimo decorrente da continuação”.</p><p>Requisitos:</p><p>São três os requisitos exigidos pelo artigo 71, do Código Penal, para a caracterização da continuidade delitiva.</p><p>a) Pluralidade de condutas (mais de uma ação ou omissão).</p><p>b) Pluralidade de crimes da mesma espécie.</p><p>c) Condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes.</p><p>A respeito da pluralidade de condutas, à semelhança do que ocorre com o concurso material, exige-se mais de uma ação ou omissão, valendo lembrar que uma única conduta pode ser desmembrada em diversos atos.</p><p>A doutrina e a jurisprudência são dissentes no tocante à conceituação de crimes da mesma espécie.</p><p>A primeira posição, amplamente consolidada na jurisprudência, em especial no Superior Tribunal de Justiça, entende que crimes da mesma espécie são aqueles contemplados no mesmo dispositivo legal, sejam consumados ou tentados, na forma simples ou qualificada.</p><p>Mas isso não basta, a exemplo dos crimes de roubo e latrocínio, os quais, embora presentes no mesmo tipo penal, não são considerados, pela maioria, como crimes de mesma espécie. Conclui-se, portanto, que, mais do que estarem presentes no mesmo dispositivo legal, é necessário que possuam a mesma estruturação típica, tutelando idêntico bem jurídico.</p><p>O mesmo raciocínio se aplica aos crimes de roubo e furto, tendo a continuidade delitiva entre ambos afastada pelo Superior Tribunal de Justiça.</p><p>Nas lições de Guilherme de Souza Nucci , filiado na primeira corrente, entende como crime da mesma espécie o conjunto dos delitos previstos no mesmo tipo penal. Furtos são da mesma espécie. Os crimes que tutelam o mesmo bem jurídico são de idêntico gênero. Furto e roubos estão no universo dos crimes contra o patrimônio. O jurista faz uma analogia com a divisão da própria natureza das coisas: um felino é o gênero do qual se podem extrair várias espécies. Um leão e uma onça não são da mesma espécie.</p><p>Para uma segunda corrente, mais abrangente, considera-se crimes da mesma espécie os que protegem o mesmo bem jurídico, pouco importando se se encontram ou não no mesmo tipo penal. Nessa ótica, seria possível a formação de crime continuado entre roubo e furto, pois ambos tutelam o patrimônio. Assim como a continuidade delitiva entre furto mediante fraude e estelionato.</p><p>Condições de tempo: é imprescindível a existência de um certo ritmo entre as ações sucessivas, já que os demais crimes serão, fictamente, considerados como continuação do primeiro. Precisa existir uma conexão temporal, não se admitindo intervalos excessivos entre as práticas criminosas.</p><p>A jurisprudência majoritária adotou como norte o interregno de 30 dias entre as infrações. Ou seja, entre um delito parcelar e o outro não poderia transcorrer tempo superior a 1 mês. O Supremo Tribunal Federal, contudo, já admitiu a continuidade delitiva com intervalo temporal de até 3 anos entre as condutas em crimes contra a ordem tributária.</p><p>Malgrado o necessário critério objetivo estabelecido pelas Cortes Superiores, diante da omissão da lei, é certo que a casuística reclama a razoabilidade, não devendo o julgador se ater ao estrito prazo de 30 dias, sendo este apenas um parâmetro a ser adotado, em prol da segurança jurídica e da legalidade.</p><p>Nesse sentido, preleciona Nucci que o juiz não deve ficar limitado a este posicionamento, embora possa tomá-lo como parâmetro. Cita o exemplo de um agente que comete vários delitos com intervalos regulares de dois meses entre eles. O caso concreto reclama o benefício do crime continuado, mesmo havendo mais de um mês entre os delitos, pois foi observado um ritmo preciso entre todos.</p><p>Condições de espaço: a conexão espacial é exigida também, pois, assim como ocorre na conexão temporal, a continuidade delitiva funda-se na manutenção de certo ritmo entre as ações delitivas.</p><p>A jurisprudência firmou como parâmetro o critério de localidades próximas, compreendendo como tais a mesma cidade ou, no máximo, cidades limítrofes ou contíguas.</p><p>As diversidades encontradas na doutrina e nos julgados são imensas, envolvendo “mesma rua”, “mesmo bairro”, “mesma cidade”, “mesma região”, “cidades vizinhas”, “mesmo Estado da federação” etc. Por isso, chegou-se a uma maioria efêmera de se cuidarem de “cidades próximas”. No entanto, adverte Nucci que essa ampla variação não pode ser admitida, merecendo a disposição legal uma reforma para melhor estabelecer os critérios, sob pena de se comprometer a legalidade.</p><p>Formas de execução: é o modus operandi utilizado pelo agente para a prática de crimes, exigindo, para a caracterização da continuidade, uma semelhança entre os métodos utilizados na satisfação do intento criminoso. Não há necessidade de identidade absoluta, sendo perfeitamente possível a configuração do crime continuado entre um furto praticado mediante escalada e outro, mediante arrombamento, desde que se demonstre que o agente ora age da primeira forma, ora por outra.</p><p>O mesmo raciocínio se aplica no caso de variação de comparsas ou variação entre autoria e participação, não influindo, esses fatores, para a caracterização da continuidade delitiva, pois retratam aspectos não substanciais para tais fins, à medida que o importante é a existência de uniformidade de pessoas conluiadas para cometer crime. O agente, embora possa ter um padrão de comportamento, nem sempre</p><p>contando o tempo decorrido entre a publicação da sentença até o trânsito em julgado final (lapso transcorrido em grau recursal, etc.), ou seja, também na Prescrição da Prescrição Punitiva Intercorrente se considera a pena em concreto e não pode haver recurso da acusação ou este deve ter sido improvido, tal qual na Prescrição da Pretensão Punitiva Retroativa.</p><p>Entretanto, aqui na PPPI, será considerada a publicação da sentença em diante, ou seja, em vez de se retroagir, se irá projetar para a frente o prazo prescricional.</p><p>Segundo Cunha:</p><p>Antes da sentença recorrível, não se sabe qual o quantum ou tipo de pena a ser fixada pelo Magistrado, razão pela qual o lapso prescricional regula-se pela pena máxima prevista em lei, atendendo à já referida "teoria da pior das hipóteses".</p><p>Contudo, fixada a reprimenda, ainda que provisoriamente, transitando em julgado para a acusação (ou sendo o seu recurso improvido), não mais existe razão para se levar em conta a pena máxima, já que, mesmo diante do recurso da defesa, é proibida a reformatio in pejus. Surge, então, um novo norte, qual seja, a pena recorrível efetivamente aplicada. Portanto, a pena concreta, aplicada na sentença, é o parâmetro para o cálculo da prescrição superveniente. (Cunha, 2018, p. 375).</p><p>Há, portanto, uma ordem de aplicação da prescrição: primeiro se aplica a pena máxima em abstrato; depois a prescrição da pretensão punitiva retroativa, voltando-se desde a sentença até o recebimento da denúncia ou queixa-crime; e, depois, a prescrição da pretensão punitiva intercorrente, considerada após a prolação da sentença condenatória.</p><p>(Apenas a título de mais um esclarecimento, é importante reconhecer, portanto, que depois que houver uma pena em concreto, não mais iremos trabalhar com a pena em abstrato).</p><p>A ocorrência da prescrição da pretensão punitiva intercorrente é um pouco mais rara na prática pois a sentença condenatória interrompe a sua contagem, bem como o acórdão condenatório (seja o que reverte sentença absolutória, seja o que mantém sentença condenatória, como já vimos anteriormente), ou seja, normalmente não há um lapso temporal muito extenso entre tais marcos.</p><p>Pretensão Executória</p><p>Além do direito (chamado pelo professor de dever) de punir do Estado, há ainda o direito/dever de fazer com que a pena seja cumprida após a condenação, seja ela corporal, de prestação de serviços comunitários, multa, dentre outras.</p><p>Nesse caso, também corre a prescrição, mas não se aplica o artigo 109 do Código Penal tal qual estávamos fazendo anteriormente.</p><p>Para Bitencourt: "O decurso do tempo sem o exercício da pretensão executória faz com que o Estado perca o direito de executar a sanção imposta na condenação". Ou seja, é a perda do direito de executar a sanção imposta na condenação, já transitada em julgado. A principal diferença em relação à PPP é que, na PPE, os efeitos desta prescrição limitam-se à extinção da pena, permanecendo intactos os efeitos da condenação penal (reincidência, rol dos culpados, etc.), ou seja, no caso do reconhecimento da Prescrição da Pretensão Executória, a pessoa vai continuar sendo considerada condenada, e apenas para os fins de execução da pena é que haverá a prescrição. (Em contrapartida, na Prescrição da Pretensão Punitiva, na verdade, não havia condenação, pois há a extinção da punibilidade antes disso).</p><p>Para Cunha:</p><p>A segunda espécie de prescrição é a da pretensão executória, prevista no artigo 110, caput, do Código Penal.</p><p>Trata-se de prescrição da pena "in concreto" (pena efetivamente imposta), que tem como pressuposto sentença condenatória com trânsito em julgado para ambas as partes (decisão definitiva, irrecorrível) e que se verifica dentro dos prazos estabelecidos pelo artigo 109 do Código Penal, os quais são aumentados de 1/3, se o condenado é reincidente. (CUNHA, 2018, 380).</p><p>A PPE pressupõe, por óbvio, a não ocorrência da Prescrição da Pretensão Punitiva (PPP), até porque esta última é mais benéfica ao réu, por isso deve ser verificada primeiro, ainda que após o trânsito em julgado, na execução de pena, caso não tenha sido detectada por engano anteriormente.</p><p>O artigo 110, caput, do Código Penal traz prazos muito mais simples (em comparação com a PPP) para a Prescrição da Pretensão Executória: é a pena cominada na sentença, ou seja, é sempre a pena em concreto prevista, havendo o aumento de 1/3 se o agente for reincidente.</p><p>Importante frisar que aqui não há bis in idem, pois a reincidência foi considerada anteriormente para fins de cálculo de pena, sendo aqui uma outra questão, referente à prescrição, ou seja, o mesmo argumento pode ser utilizado em ambos os casos, por se tratarem de matérias distintas.</p><p>Segundo o artigo 112 do Código Penal, inciso I, a prescrição começa a correr do dia em que transita em julgado a sentença condenatória para a acusação ou a que revoga a suspensão condicional da pena ou o livramento condicional.</p><p>Ainda segundo o mesmo, inciso II, a prescrição começa a correr do dia em que se interrompe a execução, salvo quando o tempo da interrupção deva computar-se na pena. Nesse segundo caso, há a ideia de fuga, pois quando a pessoa é recapturada, há uma interrupção da contagem da prescrição.</p><p>De acordo com o professor, o artigo 112, I, do CP traz um erro legislativo que beneficia o réu, pois se houve sentença condenatória, já estaria correndo a Prescrição da Pretensão Punitiva Intercorrente e, ao mesmo tempo, antes de haver o trânsito em julgado para a defesa, já está também contando a Prescrição da Pretensão Executória - embora, ressalta o professor, haja uma impossibilidade lógica de o Ministério Público executar uma pena antes do trânsito em julgado final, sobretudo agora que não há mais possibilidade de antecipação de execução provisória de pena.</p><p>O professor crítica, portanto, a possibilidade de, segundo a expressão "para a acusação" no inciso I do artigo 112 do Código Penal, poder ocorrer a prescrição da pretensão executória antes mesmo do trânsito em julgado final (para a defesa e para a acusação), embora isso seja pacífica e com unanimidade interpretada pela doutrina e pela jurisprudência de maneira favorável ao réu, por motivos de política criminal.</p><p>QUESTÃO 1-Em 30/09/2016, com menos de vinte e um anos de idade, Daniel praticou o crime de resistência, cuja pena máxima em abstrato é de dois anos. Daniel recusou a transação penal e o Ministério Público, então, ofereceu denúncia em 09/04/2018, a qual foi recebida pelo Juízo em 30/04/2018.</p><p>A sentença que condenou Daniel à pena de seis meses de detenção foi publicada em 31/10/2019. Até a data da condenação, Daniel era primário e não possuía qualquer outro incidente criminal. Nenhuma das partes recorreu e o trânsito em julgado ocorreu em 18/11/2019.</p><p>A respeito dessa situação, analise se houve ou não a prescrição e, se sim, em qual modalidade, explicando e justificando.</p><p>RESPOSTA 1-De início, cumpre ressaltar que como a prescrição da pretensão executória é contada entre o trânsito em julgado da sentença e o início da execução da pena, e o caso acima descrito não traz nenhuma informação sobre este último, já podemos descartar a ocorrência da PPE.</p><p>Ademais, considerando-se o recebimento da denúncia em 30/04/2018 e a sentença condenatória recorrível publicada em 31/10/2019 como marcos interruptivos da prescrição (artigo 117 do Código Penal), a uma pena de seis meses de detenção, temos, de acordo com o artigo 109, inciso VI, do Código Penal, uma prescrição em 3 anos, já que a pena aplicada foi de 6 meses, ou seja, inferior a 1 ano.</p><p>Entre a data do recebimento da denúncia, 30/04/2018, e a data da sentença condenatória recorrível em 31/10/19, não se passaram nem 2 anos, portanto, em tese, não deverá ter havido a prescrição.</p><p>Ocorre que, como o caso menciona de início, Daniel tinha, à época dos fatos, menos de 21 anos, motivo pelo qual, segundo o artigo 115 do Código Penal, o prazo prescricional deverá ser reduzido da metade, o que, no caso, resulta em 1 ano e 6 meses.</p><p>Portanto, tendo transcorrido 1 ano, 6 meses e 1 dia entre ambos os marcos interruptivos, no caso</p><p>em concreto deverá, sim, haver o reconhecimento da extinção da punibilidade pela ocorrência da prescrição da pretensão punitiva.</p><p>QUESTÃO 2-A prescrição da pretensão punitiva é regulada:</p><p>RESPOSTA 2-Pela pena máxima prevista para o tipo penal</p><p>Fundamentação- pois segundo o artigo 109 do Código Penal, a prescrição da pretensão punitiva, ou seja, aquela antes de transitar em julgado a sentença final, regula-se pelo máximo da pena privativa de liberdade cominada ao crime.</p><p>AULA 04: REGRAS GERAIS DE PRESCRIÇÃO PENAL</p><p>Uma vez já abordadas as questões sobre conceito, natureza jurídica, Prescrição da Pretensão Punitiva abstrata, retroativa e intercorrente e Prescrição da Pretensão Executória, agora nós iremos encerrar esse tema com regras gerais previstas tanto no Código Penal quanto em outros diplomas.</p><p>De início, recordemos que o prazo da Prescrição da Pretensão Executória começa a contar a partir do trânsito em julgado para a acusação, ou seja, antes mesmo de ter havido o trânsito em julgado para a defesa, já há o início da contagem de tal prazo prescricional. Embora para o professor isso tenha sido um erro legislativo, não houve alteração com o Pacote Anticrime e, portanto, a regra segue aplicável.</p><p>Exatamente nessa esteira discorre Coelho:</p><p>A prescrição da pretensão executória, por sua vez, é aquela que se verifica depois de existir sentença penal condenatória transitada em julgado contra o autor do crime. O que prescreve aqui é a pretensão estatal de aplicar ao condenado a pena fixada na sentença. Rege-se pela quantidade de pena fixada na sentença.</p><p>Há uma peculiaridade prevista no inciso I do artigo 112 do Código Penal brasileiro: mesmo para a pretensão executória, o lapso prescricional começa a correr a partir do trânsito em julgado para a acusação. Trata-se de uma situação problemática, pois estando o réu a responder solto à ação penal, mas recorrendo da sentença condenatória, a pena fixada não poderia em regra ainda ser objeto de execução. Paradoxalmente, o lapso temporal da prescrição executória já estaria correndo, bastando que o recurso fosse exclusivo da defesa. (COELHO, 2020, p. 356).</p><p>Segundo o artigo 111 do Código Penal, há diversas regras específicas nesse tocante, a depender do tipo de crime: antes de transitar em julgado a sentença final (ou seja, trata-se de PPP), começa a correr a prescrição: inciso I: do dia em que o crime se consumou, que é a regra geral, aplicável à maioria dos casos.</p><p>Apenas a título de observação, devemos recordar que não é a partir da execução, mas sim da consumação, a qual pode, dependendo do tipo de crime, se protrair no tempo.</p><p>Quando não for um crime consumado, mas sim uma tentativa, segundo o inciso II, começa a correr do dia em que cessou a atividade criminosa, ou seja, os atos executórios (até porque na tentativa não há consumação, não podendo, portanto, o marco do inciso anterior ser mantido nesse caso).</p><p>Para os crimes permanentes, de acordo com o inciso III, há uma regra específica, sendo contada a partir do dia em que cessou a permanência.</p><p>Especificamente quanto aos crimes de bigamia e nos de falsificação ou alteração de assentamento do registro civil, a prescrição começa a contar da data em que o fato se tornou conhecido (inciso IV). (Apenas a título de parêntesis, ao contrário da decadência, que muitas vezes toma como prazo inicial o conhecimento do ocorrido, na prescrição normalmente a contagem se dá a partir da própria ocorrência - com ou sem ciência do titular da ação penal, da autoridade policial, etc. -, sendo o inciso acima uma exceção em que se considera o conhecimento do fato como termo inicial para contagem da prescrição apenas nos crimes supracitados).</p><p>Por fim, segundo o inciso V do mesmo artigo, nos crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes, previstos no Código Penal ou em legislação especial, a prescrição da pretensão punitiva começa a correr da data em que a vítima completar 18 anos, salvo se a esse tempo já houver sido proposta a ação penal.</p><p>A pena de multa tem uma regra de prescrição totalmente diferente daquela da pena corporal sobre a qual estávamos estudando até o momento.</p><p>Segundo o artigo 114 do Código Penal, inciso I, reformado em 1984, o prazo prescricional para a pena de multa será sempre o mesmo, de 2 anos, quando a multa for a única cominada ou aplicada. Entretanto, a prescrição da pena de multa ocorrerá, segundo o inciso II do mesmo dispositivo legal, no mesmo prazo estabelecido para a prescrição da pena privativa de liberdade, quando a multa for alternativa ou cumulativamente cominada ou cumulativamente aplicada,</p><p>Ou seja, se houver uma Pena Privativa de Liberdade (PPL) somada a uma Pena de Multa (PM), será considerado o prazo prescricional da pena corporal e não o prazo do artigo 114, inciso I, do Código Penal, o qual é aplicável somente quando a multa for a única pena aplicada.</p><p>O artigo 115 do Código Penal traz um benefício tanto em relação ao prazo da prescrição da pretensão punitiva quanto à da executória: redução dos prazos prescricionais, por motivos de Política Criminal, para beneficiar menores de 21 anos e também os maiores de 70 anos, devendo haver, quanto a eles, maior diligência e urgência.</p><p>Se, na data do crime, o agente tiver menos de 21 anos, o prazo prescricional corre pela metade (se eram 4, cai para 2 anos, e daí por diante). O mesmo também ocorre se, na data da sentença, o agente tiver mais de 70 anos de idade.</p><p>Neste tocante, discorre Cunha:</p><p>De fundo nitidamente humanitário, baseia-se o dispositivo na possibilidade de modificação da personalidade do agente que, no caso do menor de 21 (vinte e um) anos, ainda não atingiu a maturidade mental (e talvez por isso tenha delinquido), e, no caso do maior de 70 (setenta) anos, se aproxima da caducidade.</p><p>Ambos os benefícios permanecem vigentes, sem alteração, mesmo com o advento do Código Civil de 2002 (que alterou a maioridade civil para 18 anos) e do Estatuto do Idoso (assim considerando todo aquele com idade igual ou superior a 60 anos). (Cunha, 2018, p. 386).</p><p>Segundo o artigo 116 do Código Penal, a prescrição da pretensão punitiva (já que o diploma fala em "antes de passar em julgado a sentença final, só pode ser a PPP), a prescrição não corre (ou seja, nem se inicia): enquanto não resolvida em outro processo (não necessariamente criminal, ou seja, pode ser um processo cível, por exemplo) questão prejudicial (aquela necessária para o deslinde regular desse feito criminal), segundo o inciso I.</p><p>Também o mesmo ocorre enquanto o agente cumpre pena no exterior (inciso II), já que, por óbvio, nesse caso, não há como se exercer aqui o jus puniendi, não podendo, também, correr a prescrição. Ainda, na pendência de embargos de declaração ou de recursos aos Tribunais Superiores, quando inadmissíveis (inciso III). Apenas a título de observação, o professor observa que a causa impeditiva nada mais é do que causa suspensiva de prescrição, já que ela apenas deixa de correr, tal como ocorre nessa última.</p><p>Por fim, enquanto não cumprido ou não rescindido o acordo de não persecução penal, a prescrição da pretensão punitiva também não corre (inciso IV).</p><p>Essa última hipótese é uma inovação trazida pelo Pacote Anticrime, que criou o acordo de não persecução penal, praticamente uma hipótese ou contrato de plea bargain, importada do direito americano, a ser estudada oportunamente.</p><p>Nesse caso, o investigado ou indiciado (não é réu pois ainda nem há o recebimento da denúncia) e o Ministério Público podem, portanto, fazer um acordo para não se entrar com a ação mas, por outro lado, enquanto tal acordo estiver vigente, sem a contagem do prazo prescricional (embora, nesses casos, também se exija uma confissão formal).</p><p>Ainda, segundo o parágrafo único do mesmo artigo, depois de passada em julgado a sentença condenatória, a prescrição não corre durante o tempo em que o condenado está preso por outro motivo. Aqui, tratamos da PPE e, por óbvio, se o agente está preso por outro processo, não há como prendê-lo por este, ou seja, deve haver o encerramento da pena pelo outro para que se inicie</p><p>a prescrição desse.</p><p>Segundo o artigo 118 do Código Penal, as penas mais leves prescrevem com as mais graves. A lógica, então, é Pena Restritiva de Direito e Pena de Multa, quando cominadas cumulativamente, se a Pena Privativa de Liberdade prescreveu, aquelas duas também prescreverão, por serem mais leves e estarem juntas com essa.</p><p>Por fim, segundo o artigo 119 do Código Penal, no caso de concurso de crimes, a extinção da punibilidade incidirá sobre a pena de cada um, isoladamente.</p><p>Aqui, a ideia é a seguinte: quando tiver havido vários crimes em continuidade delitiva, crime continuado, para a pena ser cominada, se pega apenas um deles e aumenta-se a pena (ex.: pena final de 3 anos). Entretanto, para se calcular o prazo prescricional nesses casos, tratando-se a continuidade delitiva de uma ficção jurídica, deve-se considerar os crimes individualmente, então cada um terá prescrição de acordo com a pena específica aplicada separadamente.</p><p>Segundo o artigo 366 do Código de Processo Penal, se o acusado não puder ser citado, e ele o for por edital, não só o processo fica suspenso, como também o curso do prazo prescricional.</p><p>Por fim, segundo o artigo 89, parágrafo 6o, da Lei n. 9.099/95, não correrá a prescrição durante o prazo de suspensão do processo (suspensão condicional do processo).</p><p>QUESTÃO 1-No dia 11/01/2010, Jean, nascido em 11/01/1992, praticou um crime de furto simples, razão pela qual foi denunciado como incurso nas sanções do artigo 155, caput, do Código Penal.</p><p>Em 25/01/2010, foi a inicial acusatória recebida, não sendo cabível a suspensão condicional do processo. Após o regular processamento do feito, diante da confissão de Jean, foi o mesmo condenado à pena mínima de um ano de reclusão, sendo a sentença condenatória publicada em 01/03/2012 e transitando em julgado. Jean dá início ao cumprimento da pena em 02/01/2014.</p><p>Julgue, explique e justifique se houve ou não a ocorrência de prescrição e, em caso positivo, identifique qual teria sido a data dela.</p><p>RESPOSTA 1-Considerando-se que Jean foi condenado definitivamente à pena mínima de 1 ano em 01/03/2012 e que a denúncia foi recebida em 25/01/2010, passaram-se dois anos e um mês do recebimento da denúncia até a condenação definitiva.</p><p>Após a sentença definitiva, a prescrição passa a ser regulada pela pena aplicada (01 ano), portanto, aplica-se o prazo do artigo 109, V, em que a prescrição ocorre em 4 (quatro) anos, se o máximo da pena é igual a um ano ou, sendo superior, não excede a dois.</p><p>Todavia, como o réu era ao tempo do crime menor de 21 anos, aplica-se o artigo 115 do CP, reduzindo pela metade o prazo prescricional (de 04 anos para 02 anos).</p><p>Diante de todo o exposto, houve sim a prescrição da pretensão punitiva, na data de 25/01/2012.</p><p>QUESTÃO 2-Com relação a aspectos diversos pertinentes aos prazos prescricionais previstos no Código Penal, assinale a opção correta:</p><p>RESPOSTA 2-A prescrição da pena de multa ocorrerá em dois anos, quando for a única pena cominada, ou no mesmo prazo de prescrição da pena privativa de liberdade, se tiver sido cominada alternativamente.</p><p>Fundamentação: Segundo o artigo 114, incisos I e II, do Código Pena, a prescrição da pena de multa ocorrerá em dois anos, quando for a única pena cominada, ou no mesmo prazo de prescrição da pena privativa de liberdade, se tiver sido cominada alternativamente.</p><p>agirá de idêntica forma, tanto que a lei traz a expressão “semelhança”.</p><p>Não obstante esse posicionamento, o Superior Tribunal de Justiça entende de forma diferente, conferindo uma aplicação mais restrita ao crime continuado.</p><p>Por fim, o Código Penal, valendo-se de interpretação analógica, permite a aferição de outras condições objetivas para a caracterização da continuidade, também denominada de conexão ocasional, como o exemplo do sujeito sempre obter do mesmo informante os dados necessários para praticar crimes de estelionato.</p><p>Delinquência habitual (profissional): o crime continuado não se aplica ao criminoso habitual, entendido como aquele que faz do crime um autêntico meio de ganhar a vida, justamente por ter sido criado para beneficiar o delinquente eventual. Caso contrário, se desvirtuaria a finalidade do instituto.</p><p>Situação diversa, contudo, é do crime habitual, em que é perfeitamente possível ser praticado em continuidade delitiva. Afasta-se, portanto, o benefício do criminoso que, habitualmente, pratica vários delitos instantâneos ou permanentes, ao passo que se considera a continuidade ao agente que pratica um crime habitual (manter casa de prostituição), havendo uma interrupção qualquer, seguida de outro delito habitual idêntico.</p><p>A propósito, salutar a diferenciação entre delito habitual e crime continuado, que, conforme as lições de Nucci, no crime habitual, cada um dos episódios agrupados não é punível em si mesmo, pois pertence a uma pluralidade de atos requeridos no tipo para configurar um fato punível. No delito continuado, cada uma das condutas agrupadas reúne, por si mesma, todas as características do fato punível. Enquanto no crime habitual a pluralidade de atos é um elemento do tipo, tal como o exercício ilegal de medicina, que deve cumprir-se habitualmente, na continuidade, ao invés, cada ato é punível e o conjunto constitui um delito por obra da dependência de todos eles.</p><p>QUESTÃO 1-João abusava sexualmente de sua enteada, sem haver conjunção carnal, desde os seus 8 anos de idade, incorrendo na tipificação constante do artigo 217-A, do Código Penal (estupro de vulnerável). Os abusos continuaram, com pequenos intervalos entre cada conduta. Quando a vítima já possuía 14 anos de idade, mais precisamente em 25 de setembro de 2011, mediante violência, João submeteu a vítima à prática de relação sexual, infringindo o disposto no artigo 213, do Código Penal.</p><p>Os fatos foram comprovados judicialmente sobrevindo a condenação pelos delitos acima mencionados.</p><p>Indaga-se: qual a espécie de concurso de crimes amoldável ao caso?</p><p>RESPOSTA 1-Assim como ocorria com o estupro e o atentado violento ao pudor, os delitos de estupro (artigo 213, CP) e de estupro de vulnerável (artigo 217-A, CP) não são considerados crimes da mesma espécie, não se enquadrando nos requisitos exigidos pelo artigo 71, do diploma penal. Dessa forma, não há continuidade delitiva entre as condutas, devendo ser considerado o concurso material.</p><p>QUESTÃO 2-Acerca dos institutos do direito penal, assinale a opção correta:</p><p>RESPOSTA 2-A reiteração criminosa indicadora de delinquência habitual ou profissional é suficiente para descaracterizar o crime continuado</p><p>Fundamentação: O crime continuado, por ser uma ficção jurídica com o fito de beneficiar o réu, não incide nos casos de indivíduos que fazem do crime seu meio de vida.</p><p>AULA 4- CRIME CONTINUADO II</p><p>RESUMO</p><p>A unidade de desígnios no crime continuado:</p><p>Três são as teorias que disputam o tratamento do crime continuado, mormente no tocante à necessidade, ou não, de unidade de desígnio. Isto é, seria imprescindível, além dos requisitos objetivos trazidos pelo artigo 71, do Código Penal, a presença de unidade de propósito na prática dos diversos delitos?</p><p>1. Teoria Subjetiva: essa posição, quase ignorada pela doutrina, revelando-se tese isolada, seguida pela jurisprudência suíça, exige apenas unidade de desígnios para a caracterização do crime continuado, independentemente da presença dos requisitos de natureza objetiva (condições de tempo, lugar maneira de execução ou outras semelhantes).</p><p>2. Teoria Objetiva: preconiza que para o reconhecimento da continuidade delitiva basta a presença dos requisitos objetivos dispostos no artigo 71, do Código Penal, quais sejam, crimes da mesma espécie, praticados mediante semelhantes condições de lugar, tempo, modo de execução, entre outras. Essa tese dispensa qualquer elemento subjetivo, sendo prescindível a unidade de desígnio. Filiam-se a essa teoria Fragoso, Frederico Marques, Hungria, Delmanto, Paulo José da Costa Jr., Costa e Silva.</p><p>3. Teoria Objetivo-Subjetiva ou Mista: exige-se, para a prova do crime continuado, não somente a demonstração dos requisitos objetivos, mas, ainda, a prova da unidade de desígnio. Para essa teoria é imprescindível, também, que o agente tenha o objetivo de atingir todos resultados típicos. É a posição adotada pelo Superior Tribunal de Justiça e defendida pelos juristas nacionais Roberto Lyra, Basileu Garcia, Noronha, Silva Franco e Damásio.</p><p>Guilherme de Souza Nucci tece uma ponderação ao lecionar que, apesar da teoria mista ser a ideal, fato é que o legislador penal adotou a teoria objetiva, posto não ter previsto expressamente nenhum requisito subjetivo, cuja introdução é forçada, ferindo-se a reserva legal.</p><p>A teoria mista, nos dizeres de Nucci, é a ideal por trazer uma autêntica diferença entre o concurso material e o crime continuado, exigindo-se, para o último, a unidade de desígnio.</p><p>Somente deveria ter direito ao reconhecimento desse benefício legal (crime continuado) o agente criminoso que demonstrasse ao juiz o seu intento único, o seu propósito global, vale dizer, evidenciasse que, desde o princípio, ou pelo menos durante o iter criminis, tinha o propósito de cometer um crime único, embora por partes.</p><p>O mencionado jurista traz o exemplo da balconista de uma loja que, pretendendo subtrair R$ 1.000,00 do seu patrão, comete vários e contínuos pequenos furtos até atingir a almejada quantia. Completamente diferente seria a situação daquele ladrão que comete furtos variados, sem qualquer rumo ou planejamento, tampouco objetivo único.</p><p>Entretanto, apesar disso, a lei penal adotou claramente a teoria objetiva pura.</p><p>O item 59 da Exposição de Motivos da Nova Parte Geral do Código Penal traz em seu bojo: “O critério da teoria puramente objetiva não revelou na prática maiores inconvenientes, a despeito das objeções formuladas pelos partidários da teoria objetivo-subjetiva”.</p><p>Espécies de crime continuado e dosimetria da pena:</p><p>O crime continuado pode ser simples, previsto no artigo 71, caput, do Código Penal, ou qualificado, também chamado de específico, contemplado no artigo 71, parágrafo único, do diploma penal.</p><p>Caracterizado o crime continuado simples, sendo os delitos idênticos, aplica-se a pena de um só dos crimes, aumentada de 1/6 (um sexto) a 2/3 (dois terços); tratando-se de delitos distintos, aplica-se a pena do crime mais grave, aumentada do mesmo percentual (1/6 a 2/3).</p><p>O legislador, no parágrafo único, do artigo 71, do CP, na intenção de empregar maior rigorismo às condutas dolosas, contra vítimas diferentes, praticadas com violência ou grave ameaça à pessoa, possibilitou ao julgador, considerando as circunstâncias judiciais (culpabilidade, antecedentes, conduta social, personalidade do agente, motivos e circunstâncias) aumentar a reprimenda até o triplo, seguindo a mesma lógica quando os delitos forem idênticos – pena de qualquer dos crimes -, ou diversas – pena do crime mais grave.</p><p>Assim, o agente que pratica vários roubos contra a mesma pessoa receberá o aumento de um sexto até dois terços; ao passo que o outro agente que, atuando contra vítimas diferentes, poderá receber uma pena triplicada, embora cometendo o mesmo tipo de delito.</p><p>Importante notar que, antes da reforma da Parte Geral do Código Penal, introduzida pela Lei 7.209/1984, não se permitia o reconhecimento da continuidade delitiva para os delitos contra a vida, ofendendo bens personalíssimos, tanto que tal posicionamento era previsto</p><p>na súmula 605, do Superior Tribunal Federal (“Não se admite continuidade delitiva nos crimes contra a vida”).</p><p>Após a introdução do parágrafo único, ao artigo 71, do Código Penal, essa discussão não mais subsiste, tendo o próprio Pretório Excelso afastado a incidência da súmula, proferindo decisões positivas quanto à caracterização da continuidade quando se tratar de bens jurídicos personalíssimos.</p><p>No tocante à prescrição, a regra é a mesma para qualquer modalidade de concurso de crimes, ou seja, o cálculo incide sobre a pena de cada um dos crimes, isoladamente. Nesse sentido, a súmula 497, do Supremo Tribunal Federal, especificamente em relação ao crime continuado: “Quando se tratar de crime continuado, a prescrição regula-se pela pena imposta na sentença, não se computando o acréscimo decorrente da continuação.”</p><p>Multa no concurso de crimes:</p><p>Uma primeira corrente posiciona-se pelo somatório das penas de multa, independentemente da modalidade de concurso de crimes, nos estritos termos do artigo 72, do Código Penal.</p><p>A segunda corrente, filiando-se parcialmente ao entendimento anterior, excetua apenas o crime continuado, estipulando que a pena de multa deve seguir a mesma exasperação empregada para a pena privativa de liberdade. Isto porque, tratando-se de ficção jurídica, em que o legislador considerou a formação de crime único, inviável seria desconsiderar isso para as penas de multa, somando-as.</p><p>QUESTÃO 1-João foi condenado porque, em 1º de dezembro de 2016, ingressou em um ônibus e, após anunciar o assalto, subtraiu bens de três passageiros. Dois dias após esses fatos, em 3 de dezembro de 2016, João, novamente, ingressou em um ônibus e, após anunciar o assalto, subtraiu bens de dois passageiros. Por fim, na data de 24 de dezembro de 2016, João ingressou em um ônibus, anunciou o assalto, logrando subtrair bens de cinco passageiros.</p><p>Na fixação da pena, o magistrado deve considerar as condutas como praticadas em qual(is) espécie(s) de concurso de crimes?</p><p>RESPOSTA 1-O caso em apreço retrata a formação de três roubos simples em concurso formal, todos ligados pelo crime continuado. Na tipificação, teremos uma condenação pelo artigo 157, caput, por 3 vezes, na forma do artigo 70, do Código Penal, c.c. o artigo 157, caput, por 2 vezes, na forma do artigo 70, do Código Penal, c.c. o artigo 157, caput, por 5 vezes, na forma do artigo 70, do Código Penal, todos na forma do artigo 71, do Código Penal.</p><p>QUESTÃO 2-Mário ingressou em um Shopping Center, tarde da noite, burlando a vigilância do local. Invadiu cinco lojas de proprietários diversos, valendo-se, para tanto, de chaves falsas. De cada uma das lojas, subtraiu inúmeras peças de roupas. Após a ação, deixou o local e foi preso passada meia hora, abordado por policiais militares que estranharam o volume de pacotes que carregava. Mário foi denunciado e condenado por cinco furtos qualificados. Na fixação da pena, o Juiz deve considerar as condutas como praticadas:</p><p>RESPOSTA 2-Como crime continuado</p><p>Fundamentação: Clássico exemplo de crime continuado, em que o agente em condições semelhantes de tempo, lugar e maneira de execução pratica dois ou mais crimes.</p><p>TEMA 02- ERRO NA EXECUÇÃO E RESULTADO DIVERSO DO PRETENDIDO</p><p>AULA 1- ERRO NA EXECUÇÃO</p><p>RESUMO</p><p>Introdução</p><p>O erro na execução, também conhecido pela expressão latina aberratio ictus vem disciplinado no art. 73, CP.</p><p>Erro na execução</p><p>Art. 73 - Quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente, ao invés de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, responde como se tivesse praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no § 3º do art. 20 deste Código. No caso de ser também atingida a pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se a regra do art. 70 deste Código.</p><p>Trata-se de uma gritante discordância entre o desejado e o realizado pelo autor. Nos crimes contra a pessoa, em razão de um desvio de ataque, que pode ser decorrente de um acidente ou de erro nos meios de execução, o autor, ao tentar atingir determinada pessoa, acaba por acertar vítima diversa. Vale dizer, o agente visa uma pessoa e atinge outra. O “desvio recai sobre pessoa-objeto do crime, que é diversa daquela desejada.” (Costa Jr., 1926, p. 26) “Em vez de atingir a pessoa visada, alcança pessoa diversa, porque a agressão esquivou-se do alvo original.” (Nucci, 2017, p. 868). Consequências</p><p>Na medida em que não se tutela a vida ou a integridade física de determinada pessoa, o erro quanto à pessoa contra a qual se pretendia cometer o crime, não altera a configuração. Protegese o bem jurídico, independentemente do titular. Em outras palavras, tutela-se a vida humana e não a vida dessa ou daquela pessoa.</p><p>Contudo, do ponto de vista do dolo, não há dúvida de que a intenção era de cometer o crime contra a pessoa visada, razão pela qual o autor responderá pelo crime, como se tivesse cometido o crime contra a pessoa visada. Assim, se pretendia, com disparo de arma de fogo, matar Fulano e, por erro, matou Beltrano, o autor responderá como se tivesse acertado Fulano.</p><p>O art. 73 estabelece que deve ser aplicada a consequência disciplinada no art. 20, § 3º, CP, que cuida do erro sobre a pessoa.</p><p>Art. 20. (...) Erro sobre a pessoa</p><p>§ 3º - O erro quanto à pessoa contra a qual o crime é praticado não isenta de pena. Não se consideram, neste caso, as condições ou qualidades da vítima, senão as da pessoa contra quem o agente queria praticar o crime.</p><p>Leva-se em consideração as condições da pessoa visada.</p><p>Ilustre-se com a situação em que uma determinada pessoa pretendia matar o próprio pai e, ao disparar o revólver, erra o tiro e acerta uma pessoa desconhecida que caminhava próximo do local do disparo. Como a pessoa visada era o pai do agente — são as condições do pai que devem ser consideradas —, embora tenha atingido pessoa desconhecida, será aplicável a agravante do art. 61, II, e, CP: crime cometido contra ascendente. Do mesmo modo, se era visada uma criança, aplica-se a agravante do art. 61, II, h, CP. Ao contrário, se a pessoa visada era o seu vizinho, mas por erro a pessoa atingida foi o pai do autor do disparo, não há que se cogitar da aplicação da agravante por crime cometido contra ascendente. “... se a vítima atingida e morta for o pai do agente, não responderá este por parricídio” (Nucci, 2017, p. 868)</p><p>Confira-se o seguinte julgado:</p><p>“É de todo em todo irrelevante a circunstância de o recorrente não ter querido o resultado morte da vítima, pois queria a morte de outrem, contra quem disparou sua arma de fogo, por ato voluntário, visando o resultado delituoso. Houve erro de alvo, ocorrendo a aberratio ictus que não exclui a criminalidade nem a penalidade” (TJES – AC – Rel. Correia Lima – EJES 5.145).</p><p>É possível, também, é a de legítima defesa com aberratio ictus, na hipótese em que o agente na iminência de ser roubado com arma de fogo, repele a agressão, efetuando disparo que vem a atingir pessoa que passava pelo local. Como se deve levar em consideração a pessoa contra a qual se pretendia cometer o crime, deve-se levar em consideração a pessoa que estava cometendo o crime de roubo e, caso estejam presentes os requisitos da legítima defesa, há que se reconhecer a excludente de ilicitude.</p><p>Há precedentes jurisprudenciais nesse sentido:</p><p>“Se um terceiro vem a ser atingido, em aberratio ictus, pelo projétil disparado pelo acusado, tal circunstância não desfigura a excludente da legítima defesa reconhecida em favor do mesmo” (TACRIM-SP – AC – Rel. Hoeppner Dutra – RT 370/189).</p><p>“Se o agente estava procedendo em legítima defesa e houve erro na execução, nem por isso deixa a justificativa invocada de ser admissível, se comprovada. Em relação ao terceiro atingido terá havido mero acidente ou erronia no uso dos meios de execução. E quem diz acidentalidade diz causa independente da vontade do agente” (TJSP – Rec. – Rel. Adriano Marrey – RT 393/129).</p><p>Distinção</p><p>Embora os efeitos sejam os mesmos, o aberratio ictus não se confunde com o erro sobre a pessoa. O erro sobre a pessoa, previsto no art. 20, § 3º,</p><p>é um erro mental (confusão), no qual o agente supõe cometer o crime contra outra pessoa, enquanto no aberratio ictus não existe a confusão mental e o erro é apenas de execução. A palavra latina ictus significa golpe e no erro de execução não há falsa suposição da realidade, pois o erro não é mental.</p><p>Ilustre-se com dois exemplos. Um pai procura o estuprador de sua filha e encontra um primo do estuprador, que é parecido com ele. O pai mata o primo, supondo que está matando o autor do estupro. Trata-se de erro sobre a pessoa, porque o erro é mental. Em uma segunda situação, o pai encontra o estuprador de sua filha e desfere dois tiros contra ele, mas por erro de execução, o tiro acerta uma pessoa que caminhava na calçada. Trata-se de aberratio ictus, erro na execução, porque não existiu confusão mental, e sim um erro ao executar o disparo.</p><p>Abaixo, dois julgados que ilustram a distinção:</p><p>“Réu que, divorciado dos demais elementos de convicção, afirma haver matado a vítima imaginando tratar-se de seu desafeto. Irrelevância, contudo, se tal fato é verdadeiro ou não. Error in persona que não afasta o dolo (art. 20, § 3.º, do CP).” (TJMG – AC – Rel. Sérgio Resende – j. 07.02.2002 – JM 160/521).</p><p>“Configura a aberratio ictus (erro na execução) quando o agente, atirando um copo contra o desafeto com animuslaedendi, atinge e fere terceiro, respondendo, assim, como se tivesse praticado o delito contra o primeiro” (TACRIM-SP – AC – Rel. Hélio de Freitas – BMJ 65/17, RJD 1/123 e JUTACRIM 97/249).</p><p>Por fim, vale a transcrição de Paulo José da Costa Jr, em obra clássica sobre o tema:</p><p>“No error in persona, o agente vem a atingir pessoa diversa daquela que tinha intenção de ofender, por se haver equivocado a respeito da identidade do objeto, trocando uma pessoa por outra. Na aberratio, por sua vez, o agente individualiza de modo preciso o sujeito que tencionava ofender e contra ele desenvolve sua conduta, sem obter o resultado que tinha em mira pela aparição de uma causa desviadora.” (Costa Jr., 1998, p. 21).</p><p>Dolo</p><p>No aberratio ictus se dá o que é chamado de “aproveitamento do dolo”, na doutrina. Porque o agente tem dolo de matar ou lesionar uma pessoa, mas mata ou lesiona outro. Nesse caso, o dolo, que era dirigido à pessoa visada, é aproveitado para puni-lo pelo crime contra a vítima atingida. Porém, como visto, subjetivamente, são levadas em conta as circunstâncias da pessoa visada.</p><p>Sobre o dolo, ilustre-se com o seguinte julgado:</p><p>“É de todo em todo irrelevante a circunstância de o recorrente não ter querido o resultado morte da vítima, pois queria a morte de outrem, contra quem disparou sua arma de fogo, por ato voluntário, visando o resultado delituoso. Houve erro de alvo, ocorrendo a aberratio ictus que não exclui a criminalidade nem a penalidade” (TJES – AC – Rel. Correia Lima – EJES 5.145).</p><p>Espécies</p><p>Existem duas espécies de aberratio ictus a com resultado único e aberratio ictus com resultado duplo.</p><p>Também chamado de aberratio ictus de unidade simples, ao erro na execução com resultado único, se aplica a regra do art. 20, § 3º, CP.</p><p>Já no aberratio ictus com resultado duplo, ou unidade complexa, aplica-se a regra do concurso formal, previsto no art. 70, CP, que prevê o aumento de uma pena, de 1/6 até 1/2.</p><p>QUESTÃO 1-Leia o seguinte texto e responda:</p><p>Celanor depois de anos, soube que voltou para a cidade seu ex-sócio, que lhe havia causado um grande prejuízo financeiro, ao se apropriar de todo o dinheiro da empresa de que eram sócios. Em razão disso, ele passou por imensas dificuldades financeiras e grande sofrimento emocional.</p><p>Assim que soube da volta de seu sócio, ele decidiu matá-lo. Quando o encontrou, Celanor disparou cinco tiros contra o ex-sócio, mas não acertou nenhum. Todavia, um dos disparos acertou uma criança, que estava em seu quarto, em uma casa que se localizava cerca de 70 metros do local dos disparos. A criança morreu. Como se dará a punição de Celanor?</p><p>RESPOSTA 1-A situação é de aberratio ictus com resultado simples. Celanor responderá por homicídio, como se tivesse praticado contra seu ex-sócio, a pessoa visada (art. 73, CP). Assim, serão consideradas as condições de seu ex-sócio, de modo que não se aplica a agravante de crime cometido contra criança (art. 61, II, h, CP) e poderá ser reconhecido o privilégio do § 1º, do art. 121, CP, por ter sido o crime cometido por motivo de relevante valor moral.</p><p>QUESTÃO 2-Marcos pretendia matar seu pai, para receber a herança e o seguro de vida. Ao disparar o tiro, Marcos acertou uma criança que estava próxima, que morreu na hora. Marcos responderá da seguinte forma:</p><p>RESPOSTA 2-por homicídio consumado, como se tivesse cometido o crime contra o pai, com agravante por ser contra ascendente e por motivo torpe.]</p><p>Fundamentação: a regra se encontra no art. 73, primeira parte, CP, é punido por homicídio doloso, mas são levadas em consideração as condições da pessoa contra a qual pretendia cometer o crime.</p><p>AULA 2- MODALIDADES DO ERRO</p><p>RESUMO</p><p>Introdução</p><p>Estudada a estrutura do aberratio ictus, é importante a análise das diversas situações possíveis no que se refere ao aberratio ictus com resultado simples ou complexo.</p><p>Sabe-se que a casuística possibilita uma infinidade de situações, que nem sempre são antecipadas pela doutrina.</p><p>Guilherme Nucci expõe essas situações possíveis e solução jurídica para cada uma delas, conforme abaixo transcrito.</p><p>1ª hipótese</p><p>A primeira hipótese é simples, na qual Mévio atira em Fulano e mata Beltrano. Neste caso, terá ocorrido homicídio consumado, mas Mévio responderá como se tivesse atingido a pessoa visada, que é Fulano. Trata-se de hipótese de aberratio ictus com resultado único. É o que diz Nucci: “homicídio doloso consumado como se fosse contra” a pessoa visada (Nucci, 2017, p. 868).</p><p>Exemplifique-se com o a situação em que o agente que acaba de receber um tapa no rosto e, sob domínio de violenta emoção, dispara um tiro no autor do tapa, acertando pessoa diversa. Nesse caso, terá direito à diminuição da pena de 1/6 até 1/3, prevista no § 1º, do art. 121, CP, porque agiu sob domínio de violenta emoção, logo após a injusta provocação da vítima, que neste caso é a pessoa visada, não a atingida.</p><p>Na jurisprudência, confira-se:</p><p>Erro na execução – “Quem, com ânimo hostil, investe contra outrem mas atinge terceiro responde como se tivesse praticado o crime contra aquele, não se cogitando de uma infração dolosa e outra culposa” (TACRIM-SP – AC 315.361 – Rel. Jarbas Mazzoni).</p><p>Caso interessante julgado pelo Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, no qual foi abordada alegação de que a pessoa atingida teria agido com imprudência ao tentar apartar a contenda. A eventual imprudência da vítima não exclui a existência do aberratio ictus: Aula II – Modalidades do Erro;</p><p>“Disparo de arma visando desafeto que vem a atingir terceiro. Alegação de ausência de dolo. Materialização do crime tida como concretizada na vítima virtual. Culpa configurada. A espécie apresenta a conhecida aberratio ictus, onde o agente acaba atingindo pessoa diversa daquela verdadeiramente visada. É claro que nessa hipótese diferente na aberratiocriminis, o agente responde como se tivesse praticado a ação contra aquela, considerando suas condições ou qualidades, desprezadas a da vítima propriamente dita. A eventual imprudência da vítima em se colocar no meio dos contendores, objetivando impedir o acontecido, nenhum efeito produz. Porque o elemento subjetivo do infrator é retirado do nexo entre a ação perpetrada contra o visado e não o terceiro. Vale dizer, a conduta do atingido não influi na tipicidade procurada, salvo na materialização do crime (das lesões no caso), tida como concretizada na vítima virtual” (TACRIM-SP – AC – Rel. Ribeiro dos Santos – JUTACRIM 99/182).</p><p>“Tinha o peticionário plena percepção da situação. Seu propósito era atingir o porteiro do hotel, o qual, justamente, lutava contra o seu comparsa. Um fator inesperado, contudo, interveio e frustrou o resultado querido pelo réu, levando-o a praticar um fato que integra o mesmo tipo penal, mas</p><p>sobre outra pessoa. E nosso Direito, em casos tais, reconhece a ocorrência de um resultado único, vale dizer, um só crime. Aliás, conhecida jurisprudência desta Corte vem se orientando, em plena consonância com a doutrina sobre aberratio ictus, no sentido de que o agente responde pelo que quis fazer e não pelo que realmente fez. O erro do peticionário foi acidental e pertine, apenas, quanto à execução” (TJSP – Rev. 137.014 – Rel. Camargo Sampaio).</p><p>Caso interessante é o do agente que, no contexto de um roubo, dispara a arma de fogo e, ao invés de atingir a vítima do roubo, atinge um de seus comparsas. Trata-se de latrocínio consumado:</p><p>“O ora paciente atirou para atingir a vítima que foi ferida e, por erro de execução, acabou por matar um de seus comparsas. Em casos que tais, em que o alvo dos tiros foi a virtual vítima, e por aberratio ictus o morto foi um dos participantes do crime, tem-se a configuração do latrocínio consumado, em conformidade com o disposto no artigo 73 (erro na execução) e em face da jurisprudência desta Corte que, quando há homicídio consumado e subtração patrimonial tentada (como ocorreu no caso) se cristalizou na Súmula 610: ‘Há crime de latrocínio quando o homicídio se consuma, ainda que não realize o agente a subtração de bens da vítima’” (STF – HC 695/79-5 – Rel. Moreira Alves – DJU 11.12.92, p. 23.663).</p><p>2ª hipótese</p><p>Nesta segunda situação, o autor atira em Fulano e mata Fulano e Beltrano. Há dois homicídios consumados. Serão levadas em consideração as condições de Fulano, que era a pessoa contra quem se pretendia cometer o crime. A situação é simples, ocorreu um aberratio ictus com resultado duplo. Vale aqui a regra da segunda parte do art. 73, que impõe a aplicação do concurso formal (art. 70, CP), a pena será a de um crime, com aumento de 1/6 até 1/2. É o que diz Nucci: “homicídio doloso em concurso formal” (Nucci, 2017, p. 868).</p><p>É da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal:</p><p>“Hipótese em que se atingiu não só a pessoa visada como também terceiro, por erro de execução. Regência da espécie pela disciplina do concurso formal. Pena que não pode ser agravada pelas condições pessoais da vítima acidental” (STF – HC – Rel. Francisco Rezek – RT 598/420 e RTJ 115/151).</p><p>3ª hipótese</p><p>Este terceiro caso, também é simples. Mévio atira em Fulano e fere Beltrano. Não conseguiu o autor causar o resultado morte; nem mesmo conseguiu atingir a pessoa pretendida. Portanto, houve aberratio ictus com resultado único, razão pela qual se configura apenas uma tentativa de homicídio. Serão levadas em consideração as condições de Fulano, que era a pessoa visada. É o que diz Nucci: “tentativa de homicídio”, como se fosse “contra a vítima desejada.”. (Nucci, 2017, p. 868).</p><p>4ª hipótese</p><p>Na quarta situação, Mévio atira em Fulano e acaba ferindo Fulano e Beltrano, ou seja, fere duas pessoas, a que pretendia e outra por engano. Como não houve resultado morte, apesar do dolo, se configura tentativa de homicídio e como duas pessoas foram atingidas, ocorreram duas tentativas de homicídio. Serão levadas em consideração, as condições de Fulano. Como aconteceu um aberratio ictus com resultado duplo, será aplicada a pena de um dos crimes e aumentada de 1/6 até 1/2, em razão da regra do concurso formal (art. 70, CP). É o que diz Nucci: “tentativa de homicídio contra” a pessoa visada, “em concurso formal” (Nucci, 2017, p. 868).</p><p>5ª hipótese</p><p>Mévio atira contra Fulano, fere Fulano e mata Beltrano. Nesta situação também há resultado duplo, mas apenas uma das pessoas morreu, que foi a pessoa atingida acidentalmente. Se deu homicídio consumado como se fosse contra Fulano. As características de Fulano que serão usadas para a fixação da pena. Ocorreu um aberratio ictus com resultado duplo, aplicando-se a 03431846050 regra do concurso formal (art. 70, CP), que estabelece que será aplicada a pena de um dos crimes, aumentada de 1/6 até 1/2. Nucci assevera: “homicídio consumado contra” a pessoa pretendida “em concurso formal”. (Nucci, 2017, p. 868).</p><p>6ª hipótese</p><p>Por fim, há a hipótese em que Mévio atira em Fulano, mata Fulano e fere Beltrano. Em tal situação, a vítima pretendida foi atingida e o resultado desejado ocorreu. Contudo, uma outra pessoa, por erro, também foi atingida. Não há dúvida de que o agente responderá por homicídio consumado, em concurso formal de delitos (art. 70, CP), pois se deu um aberratio ictus com resultado duplo. A pena será a de um crime aumentada de 1/6 até 1/2. É o que afirma Nucci: “homicídio consumado contra B [pessoa visada] em concurso formal” (Nucci, 2017, p. 869).</p><p>Há na jurisprudência, decisão com solução diversa da exposta:</p><p>“Ocorre aberratio ictus com unidade complexa, com resultado duplo, quando o agente, por desvio de trajetória do projétil, além de atingir a pessoa a quem não visava, atinge também a pessoa a quem realmente pretendia ofender. Se o agente fere pessoa diversa e mata aquela realmente visada, consideram-se existentes dois delitos: um, de lesão corporal em relação à primeira, e outro, de homicídio doloso em relação à segunda, devendo ser aplicada, no caso, a regra do art. 70 do CP, por se tratar de concurso formal de delitos, consoante preceitua a última parte do art. 73 do mesmo Diploma Penal” (TJMG – Rec. – Rel. Odilon Ferreira – RTJE 111/266, RT 696/378).</p><p>QUESTÃO 1-Leia o seguinte texto e responda:</p><p>João foi com uma faca em punho para matar Pedro. Diante da iminência da agressão, Pedro disparou um tiro, que acertou Abelardo, que caminhava perto da briga. Abelardo morreu e João fugiu do tiro, sem ser ferido. Como se soluciona a responsabilidade de Pedro?</p><p>RESPOSTA 1-Aberratio ictus com resultado único, Pedro responderá como se tivesse atingido João, que foi a pessoa visada. Como em relação a este havia legítima defesa, pois ele estava na iminência de sofrer agressão mortal, Pedro será absolvido por legítima defesa.</p><p>QUESTÃO 2-Mévio atira contra Fulano, pretendendo matá-lo. O tiro disparado transfixa Fulano e acerta o pai de Mévio. Ambos morrem. Neste caso a responsabilidade de Mévio será:</p><p>RESPOSTA 2-Reponde por dois homicídios consumados, em concurso formal, levando em consideração as condições de Fulano, sem a agravante do crime cometido contra ascendente.</p><p>Fundamentação: é o que dispõe a segunda parte do art. 73, CP. Houve aberratio ictus com resultado duplo.</p><p>AULA 3- RESULTADO DIVERSO DO PRETENDIDO</p><p>RESUMO</p><p>Introdução</p><p>No tema dos crimes aberrantes, para usar a expressão de Paulo José da Costa Jr, após tratar do aberratio ictus, o Código cuida do aberratio delicti ou aberratio criminis, que é o resultado diverso do pretendido, disciplinado no art. 74, CP.</p><p>Resultado diverso do pretendido</p><p>Art. 74 - Fora dos casos do artigo anterior, quando, por acidente ou erro na execução do crime, sobrevém resultado diverso do pretendido, o agente responde por culpa, se o fato é previsto como crime culposo; se ocorre também o resultado pretendido, aplica-se a regra do art. 70 deste Código.</p><p>É uma espécie de erro acidental, mas no qual não há mudança da pessoa, e sim mudança do crime, ou seja, do nomen juris.</p><p>Em exemplo simples, uma pessoa pretendia destruir o vidro de um carro, mas acaba por atingir o condutor do veículo.</p><p>Há em tal caso uma mudança no resultado, e a conduta afeta um bem jurídico diverso do que se pretendia afetar.</p><p>Distinção</p><p>Enquanto no aberratio ictus o erro se refere a pessoa contra quem se pretendia cometer o crime, na aberratio delicti o erro recai no crime, pois o agente pretendia cometer um crime e comete outro delito.</p><p>Nas palavras de Paulo José da Costa Jr., a distinção é a seguinte:</p><p>“Do que se infere da aberratio ictus, a ofensa, mesmo recaindo sobre o sujeito passivo diverso do visado, permanece idêntica na espécie, embora possa haver uma mudança de gravidade, havendo identidade normativa entre o evento idealizado e o produzido, não muda sequer o nomen juris do crime. E isto porque, como a Aula III – Resultado Diverso do Pretendido identidade pessoal da vítima é um daqueles dados fungíveis, não dispondo de qualquer relevo na estrutura do delito,</p><p>a não ser como accidens, o agente responde pela ofensa causada a pessoa diversa como se houvesse praticado o crime em detrimento da pessoa que tencionava ofender. Na aberratio delicti, ao revés, tem-se um evento de natureza divers da do idealizado, e, portanto, uma lesão heterogênea com respeito àquela desejada. Uma vez que resultado diverso significa crime diverso, porque no evento está a essência do crime, ter-se-á uma mudança no título do crime. Poder-se-ia talvez concluir que, não obstante os pontos de contato entre ambas as hipóteses de aberratio, põe-se entre elas uma distância insuperável. ”</p><p>Baseado na lição de Costa Jr., podemos representar a distinção no seguinte esquema:</p><p>Aberratio ictus Erro recai na pessoa objeto material do crime Não muda o nomen juris (a identidade da vítima é um dado fungível)</p><p>Aberratio delicti Erro recai no bem jurídico ofendido e Muda o nomen juris</p><p>Solução adotada</p><p>Ocorrendo o aberratio delicti, o agente responde pelo resultado produzido “por culpa, se o fato é previsto como crime culposo”.</p><p>Importante notar que a maioria dos crimes não possuem modalidade culposa. Desse modo, se o agente pretendia cometer um crime e, ao errar causa resultado diverso e se esse resultado produzido não é contemplado em tipo culposo, ele não responderá pelo resultado produzido. É o que ocorre quando o resultado produzido é crime de dano (art. 163, CP), que não tem modalidade culposa.</p><p>Resultado duplo</p><p>Assim, como no aberratio ictus, é possível no aberratio delicti que sejam produzidos os dois resultados. Se houver a produção dos dois resultados — o pretendido e o acidental — aplica-se a regra do art. 70, CP, que impõe que seja aplicada a pena de um crime, aumentada de 1/6 até 1/2. Contudo, deve ser observado que na hipótese de dois resultados, o pretendido é atribuído dolosamente ao agente e o resultado acidental, a título de culpa, se houver previsão legal.</p><p>Assim, se o agente pretendia cometer crime de lesão corporal e, ao arremessar um objeto contra a vítima, vem a produzir a desejada lesão corporal e o dano em uma janela, é de se notar que o resultado não pretendido deve ser atribuído a título de culpa, mas neste caso, por falta de previsão de dano culposo, o agente só responderá por lesão corporal dolosa.</p><p>Se a intenção é praticar dano e além do dano, o arremesso causa lesão em uma pessoa, o agente será punido por dano doloso e por lesão corporal culposa, na forma do concurso formal.</p><p>Hipótese 1</p><p>O agente pretendia cometer crime contra a pessoa, qual seja lesão corporal, mas ao executar, por erro, vem a produzir dano. Neste caso ele não é punido, pois não há previsão legal de dano culposo. Embora seja factível o fenômeno do dano culposo, ele não foi tipificado como crime, razão pela qual o agente não será punido pelo resultado produzido. Dano – Resultado diverso do pretendido – “Se o agente, pretendendo agredir seu opositor, desfere soco que atinge vidro existente entre ambos, quebrando-o, vidro esse que não fora visado, não responde pelo delito de dano por não ser punido a título de culpa” (TJMS – AC – Rel. Nildo de Carvalho – RT 675/398).</p><p>Hipótese 2</p><p>Em situação diversa, se o crime que pretendia cometer era o de dano, mas o agente acaba por causar lesão corporal, como há previsão de dano culposo, o agente responderá por lesão corporal culposa (art. 129, § 6º, CP).</p><p>“Se alguém, atirando uma pedra contra uma vitrina, rompe está e fere involuntariamente uma pessoa que está perto, responde, em concurso formal, pelo delito de dano e o de lesões corporais culposas e não dolosas” (TACRIM-SP – AC – Rel. Isnard dos Reis – RT 290/285).</p><p>Guilherme Nucci resume bem a situação:</p><p>“... Tício, tendo por fim atingir Caio, vendedor de uma loja, atira uma pedra contra sua pessoa. Em lugar de alcançar a vítima, termina despedaçando a vitrine do estabelecimento comercial. Portanto, em vez de uma lesão corporal, acaba praticando um dano. O agente responde pelo resultado diverso do pretendido somente por culpa, se for previsto como delito culposo (art. 74, 1ª parte, CP). No exemplo supracitado, Tício não responderia por crime de dano, por inexistir a figura culposa. Entretanto, se, tentando quebrar a vitrine da loja, contra a qual atira uma pedra, termina atingindo uma pessoa, responderá o agente pela lesão culposa causada.” (Nucci, 2017, p. 869).</p><p>Aberratio causae</p><p>É preciso distinguir, ainda, o aberratio ictus e o aberratio deliciti, do chamado aberratio causae, no qual o agente consegue produzir o resultado pretendido, mas por uma causa diversa da desejada.</p><p>É o exemplo do autor que lança a vítima no mar para morrer afogada, mas esta morre porque bate a cabeça na rocha.</p><p>Neste caso, o erro não tem relevância porque há total identidade entre o dolo e o resultado, sendo indiferente constatar se foi pelo motivo desejado ou não.</p><p>É o que leciona Paulo José da Costa Jr.:</p><p>“Não tem relevância alguma a diversificação do processo causal. Pouco importa que o agente, que pretendia a obtenção de determinado evento, tenha conseguido alcança-lo com uma mudança do nexo causal. ” (Costa Jr., 1996, p. 78).</p><p>QUESTÃO 1-Célio pretendia, em um protesto em uma avenida da cidade, destruir a vitrine da loja de uma multinacional. Contudo, ao arremessar a pedra, ele atingiu a cabeça, causando um corte profundo, de um companheiro de manifestação. A vitrine não foi atingida.</p><p>Com base na situação narrada, indique por qual crime responderá o agente, informando se estamos diante de uma situação de aberratio delicti ou aberratio ictus.</p><p>RESPOSTA 1-Situação de fácil solução, houve aberratio delicti, o agente pretendia cometer crime de dano e causou resultado diverso do pretendido, lesão corporal. Responderá por lesão corporal culposa (art. 129, § 6º, CP), de acordo com o que estabelece o art. 74, CP.</p><p>QUESTÃO 2-Pretendendo matar uma pessoa, Carlos dispara um tiro de cartucheira em sua direção, contudo, por não saber manejar a arma, ele não acerta na pessoa, mas o tiro danifica um veículo estacionado. A responsabilidade de Carlos será:</p><p>RESPOSTA 2-por tentativa de homicídio apenas, não se pune o dano culposo, por falta de previsão legal.</p><p>Fundamentação:a regra do art. 74, CP, estabelece que só na hipótese de existência do resultado produzido como crime culposo, haverá a punição. Contudo, a doutrina afirma configurar-se a tentativa de homicídio."</p><p>AULA 4- MODALIDADES DO RESULTADO DIVERSO</p><p>RESUMO</p><p>Introdução</p><p>Nas várias modalidades de aberratio delicti, tem-se a diferença entre o pretendido e o realizado. O agente pretendia cometer o crime contra coisa ou animal e atinge pessoa; ou pretendia cometer crime contra pessoa e atinge coisa ou animal. Vejamos as várias possibilidades de aberratio delicti.</p><p>1ª hipótese</p><p>Na primeira hipótese, o agente pretendia cometer um crime contra a coisa, mas produz um resultado contra a pessoa. Em tal situação, a solução é bastante simples, ele responderá por crime culposo, que tanto pode ser a lesão corporal culposa (art. 129, § 6º, CP), como homicídio culposo (art. 121, § 3º, CP), dependendo do resultado produzido, lesão ou morte.</p><p>2ª hipótese</p><p>O inverso se dá quando é pretendido cometer um crime contra a pessoa, como uma lesão corporal e o resultado causado é contra a coisa. Nesse caso, é preciso distinguir qual foi o dano causado. Se o dano causado foi o previsto no art. 163, CP, inexiste crime de dano culposo. Nesse caso, o agente não será punido por crime de dano, mas responderá por tentativa do crime contra a pessoa, como no exemplo de Nucci, em que o autor atira para matar e atinge o carro (Nucci, 2017, p. 871).</p><p>Porém é preciso distinguir da situação em que o dano é contra a patrimônio cultural, previsto na Lei 9.615/1998, que prevê modalidade culposa.</p><p>Art. 62. Destruir, inutilizar ou deteriorar:</p><p>· I - bem especialmente protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial;</p><p>· II - arquivo, registro, museu, biblioteca, pinacoteca, instalação científica ou similar protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial:</p><p>· Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.</p><p>· Parágrafo único. Se</p>