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<p>Tipos de amostras:coleta e material</p><p>biológico</p><p>Apresentação</p><p>Nesta Unidade de Aprendizagem vamos aprender informações sobre a coleta e o manuseio do</p><p>material biológico. Você verá a importância da manipulação correta das amostras biológicas para</p><p>resultados confiáveis. Além disso, vamos conhecer um pouco mais sobre os tipos e a preparação de</p><p>amostras utilizadas para análises bioquímicas.</p><p>Bons estudos.</p><p>Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:</p><p>Identificar os principais fluidos utilizados no setor de Bioquímica Clínica.•</p><p>Reconhecer a importância da manipulação correta das amostras e as precauções que devem</p><p>ser tomadas quanto à segurança.</p><p>•</p><p>Diferenciar os processos envolvidos na coleta e manuseio de amostras no setor Bioquímica</p><p>Clínica.</p><p>•</p><p>Desafio</p><p>Caso clínico - Determinação de glicose</p><p>A dosagem de glicose necessita de alguns cuidados quanto à manipulação da amostras. O resultado</p><p>da determinação de glicose em um paciente no laboratório de Análises Clínicas obteve 62 mg/dL,</p><p>entretanto, o paciente alega estar em um jejum de 8 horas e não apresentava nenhuma</p><p>característica de hipoglicemia. A coleta foi feita com atenção e o técnico fez todos os</p><p>procedimentos de obtenção do sangue de forma correta.</p><p>Diante deste caso, responda as seguintes questões:</p><p>a) Sugira por que a determinação de glicose apresentou resultado falsamente reduzido? O que</p><p>pode estar errado na etapa pré-analítica?</p><p>b) Qual é o aditivo utilizado para a determinação da glicose? E qual a cor da tampa do tubo?</p><p>c) Qual é o mecanismo de ação do aditivo “padrão ouro para permitir resultados maior acurácia?</p><p>Outros tubos podem ser usados?</p><p>Infográfico</p><p>Na ilustração a seguir, está representada uma visão geral do preparo e manuseio das amostras no</p><p>setor de Bioquímica Clínica.</p><p>Conteúdo do livro</p><p>Exames bioquímicos apresentam grande importância no tratamento e na segurança do melhor</p><p>diagnóstico. Para que os exames sejam de fato confiáveis. É necessário que o profissional</p><p>identifique e conheça da forma adequada o material utilizado. Fluidos biológicos como sangue e</p><p>suas frações, urina, sêmen dentre outros requer conhecimento na coleta, manuseio, transporte e</p><p>armazenamento. Uma das maiores preocupações está no correto manuseio e preparo. Identificar e</p><p>executar os procedimentos necessários a se obter os melhores resultados fazem parte da conduta</p><p>básica no manuseio de amostras.</p><p>Nessa Unidade de Aprendizagem você aprenderá as peculiaridades a respeito desses fluidos e o</p><p>ideal manuseio para assegurar resultados corretos e a melhor conduta na terapia do paciente.</p><p>Boa leitura.</p><p>BIOQUIMICA</p><p>CLÍNICA</p><p>Tipos de amostras:</p><p>coleta e material</p><p>biológico</p><p>Ana Daniela Coutinho Vieira</p><p>OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM</p><p>> Identificar os principais fluidos utilizados no setor de bioquímica clínica.</p><p>> Reconhecer a importância da manipulação correta das amostras e as pre-</p><p>cauções que devem ser tomadas quanto à segurança.</p><p>> Diferenciar os processos envolvidos na coleta e no manuseio de amostras</p><p>no setor bioquímica clínica.</p><p>Introdução</p><p>A qualidade de um exame bioquímico está diretamente ligada à qualidade da</p><p>amostra biológica recebida. Quanto mais adequada e bem preservada for a amos-</p><p>tra, maior será a chance de o resultado representar, com fidelidade e segurança,</p><p>o estado metabólico do paciente, seja em condições fisiológicas ou patológicas.</p><p>Neste capítulo você conhecerá quais são as principais amostras biológicas</p><p>utilizadas em análises do setor de bioquímica. Também verá de que forma essas</p><p>amostras podem ser obtidas e a que critérios a sua coleta e o seu manuseio devem</p><p>obedecer para manter a integridade dos analitos de interesse.</p><p>Amostras biológicas utilizadas</p><p>em bioquímica clínica</p><p>A maioria dos exames bioquímicos utiliza amostras de sangue ou de urina,</p><p>devido à facilidade de obtenção desses espécimes. Entretanto, em caso de</p><p>necessidade, outras amostras podem ser utilizadas, tais como: fezes, líquido</p><p>cefalorraquidiano (LCR), saliva, líquido pleural, líquido ascítico, líquido sino-</p><p>vial e aspirados, além de, mais raramente, fragmentos de cálculos e tecidos.</p><p>As amostras de sangue destacam-se, pois além de serem facilmente</p><p>colhidas, podem ser utilizadas de diferentes formas, como o soro, plasma,</p><p>sangue total venoso ou arterial e de sangue capilar. O soro é a forma mais</p><p>utilizada em bioquímica e é obtido a partir da centrifugação do sangue total.</p><p>Neste caso, o sangue deve ser coletado sem anticoagulantes e, após a coa-</p><p>gulação, é centrifugado para que as células se depositem na porção inferior</p><p>do tubo de amostra, gerando um sobrenadante, o soro. Para este tipo de</p><p>amostra, deve-se levar em consideração o tempo decorrente entre a coleta</p><p>sanguínea e a obtenção do soro, pois analitos mais instáveis podem perder</p><p>suas características. Já as amostras de plasma são obtidas a partir da coleta</p><p>com o uso de tubos com anticoagulantes, para evitar que ocorra a coagulação</p><p>e, também, para conservação de determinados analitos. São centrifugadas,</p><p>posteriormente, da mesma forma que as amostras de soro, diferindo apenas</p><p>no fato de que o sobrenadante será chamado de plasma, pois ainda mantém</p><p>intactos os fatores de coagulação e o fibrinogênio (Figura 1) (MCPHERSON;</p><p>PINCUS, 2012; MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>Figura 1. Após o procedimento de centrifugação do sangue total, obtém-se sobrenadantes</p><p>de soro (sem anticoagulante) ou plasma (com anticoagulante).</p><p>Fonte: Adaptada de Soleil Nordic/Shutterstock.com.</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico2</p><p>Por sua vez, as amostras de urina são ainda mais fáceis de serem obtidas,</p><p>não necessitando de dispositivos invasivos de coleta, na maioria dos casos. Em</p><p>geral, a colheita é feita pelo próprio paciente e pode apresentar especificidades</p><p>de acordo com o exame a ser realizado. Em bioquímica, as amostras urinárias</p><p>mais utilizadas são a urina de 24 horas e a urina aleatória. A urina de 24 horas</p><p>é obtida a partir da segunda micção da manhã (a primeira deve ser descartada)</p><p>e deve compreender todas as micções subsequentes no período de 24 horas</p><p>(esvazia-se a bexiga, marca-se o horário e, a partir daí, coleta-se toda a urina</p><p>produzida, armazenando-a em um frasco; quando se completam as 24 horas,</p><p>esvazia-se a bexiga, armazenando a última urina produzida). Para isso, frascos</p><p>com capacidade de, pelo menos, 1 litro são fornecidos pelo laboratório para</p><p>acondicionamento da amostra. Dependendo do caso podem ser adicionados con-</p><p>servantes para evitar contaminação microbiana ou alterações nos metabólitos.</p><p>As urinas aleatórias, por sua vez, são coletadas uma única vez, em recipien-</p><p>tes conhecidos como coletores universais. Este tipo de amostra é utilizada</p><p>também nos setores de urinálise e microbiologia. Quando é destinada para</p><p>análises bioquímicas, porém, deve preferencialmente ser coletada pela ma-</p><p>nhã, pois é o momento em que os seus elementos constituintes estão mais</p><p>concentrados, devido ao tempo prolongado sem micção durante a noite, e o</p><p>seu pH está reduzido, em decorrência da diminuição da frequência respiratória</p><p>durante o sono (MCPHERSON; PINCUS, 2012; MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>Em alguns casos especiais, a amostra de urina pode ser obtida por outros</p><p>procedimentos. Para pacientes com comprometimento do controle de micção,</p><p>como em crianças, a coleta pode ser realizada utilizando-se um saco coletor</p><p>específico. Em alguns casos, entretanto, procedimentos mais invasivos são</p><p>necessários para que se obtenha amostras de urina diretamente da bexiga</p><p>ou dos ureteres. Para isso, são utilizados os seguintes procedimentos: ca-</p><p>teterismo vesical, no qual um cateter é introduzido na uretra e segue até</p><p>os ureteres, passando pela bexiga; e punção suprapúbica, na qual a urina é</p><p>coletada a partir da introdução de uma agulha na região do abdômen para a</p><p>obtenção de amostra diretamente da bexiga. O cateterismo pode ser utilizado</p><p>para obter amostras para avaliações da função renal individual de cada rim,</p><p>e a punção suprapúbica</p><p>é mais utilizada para investigações microbiológicas.</p><p>Estes tipos de coletas são menos frequentes e devem ser realizadas por</p><p>profissionais capacitados para tal (RECOMENDAÇÕES..., 2017).</p><p>A obtenção de amostras de outros líquidos corporais como aspirados, LCR,</p><p>líquido sinovial, ascítico ou pleural, são procedimentos médicos e, portanto, a</p><p>amostra não é coletada nem pelo paciente e nem pelo laboratório. As amos-</p><p>tras de LCR são obtidas através de uma punção lombar e, geralmente, são</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico 3</p><p>utilizadas para investigação de meningites, hemorragias e doenças malignas</p><p>ou neurodegenerativas. No setor de bioquímica, as principais dosagens em</p><p>LCR são glicose, proteínas e lactato (MCPHERSON; PINCUS, 2012; BARCELOS;</p><p>AQUINO, 2018).</p><p>Os demais líquidos corporais também são obtidos por procedimentos</p><p>específicos. O líquido ascético, por paracentese e utilizado para avaliação</p><p>de derrames peritoneais e distúrbios no transporte de líquidos e eletrólitos;</p><p>o líquido pleural, por toracentese para a avaliação de derrames pleurais; o</p><p>líquido sinovial, por artrocentese e utilizado para o diagnóstico de doenças</p><p>articulares, como artrites infecciosas ou induzidas por cristais; o líquido</p><p>amniótico, por amniocentese e utilizado para avaliação do estado de saúde</p><p>do feto em diagnósticos pré-natais e avaliações de maturidade e sofrimento</p><p>fetal; e também o líquido seminal, que pode ser utilizado em análises bio-</p><p>químicas, principalmente para investigações de infertilidade. De preferência,</p><p>estas coletas devem ser realizadas pelo paciente no laboratório, pois a aná-</p><p>lise deve ser realizada o mais brevemente possível após a coleta. Em casos</p><p>de impossibilidade, as amostras coletas em casa devem ser entregues ao</p><p>laboratório em, no máximo, 30 minutos (BARCELOS; AQUINO, 2018).</p><p>Obtenção e manipulação de amostras</p><p>biológicas</p><p>A coleta de materiais biológicos é uma das primeiras etapas do diagnóstico,</p><p>e acontece efetivamente no laboratório de análises clínicas, dentro da fase</p><p>pré-analítica. Para que uma amostra biológica seja representativa na real</p><p>situação do paciente, é necessário que haja uma correlação entre a indicação</p><p>clínica da solicitação, a amostra obtida e os exames realizados. Ou seja, qual</p><p>foi a amostra solicitada? Há alguma especificação em relação ao momento</p><p>da coleta? Esta é a amostra mais adequada para esta suspeita clínica? Nesse</p><p>momento, uma boa comunicação entre laboratório, paciente e médico é fun-</p><p>damental (XAVIER; DORA; BARROS, 2016; MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>O cadastro e a identificação das amostras são etapas críticas e devem ser</p><p>focados no máximo de segurança de informações possível. Recomenda-se,</p><p>pela Resolução de Diretoria Colegiada 302/2005 da Anvisa, que o cadastro do</p><p>paciente inclua: número de identificação do paciente no sistema do laborató-</p><p>rio, nome completo, idade, sexo e local de procedência do paciente, telefone</p><p>e endereço (em coletas ambulatoriais, principalmente), nome e contato do</p><p>responsável em caso de menores de idade ou incapacitados, data e horário</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico4</p><p>da coleta, nome do solicitante, exames requisitados e tipo de amostra. Além</p><p>destes dados obrigatórios, recomenda-se que no momento do cadastro do</p><p>paciente e de seus exames, logo antes da coleta, sejam disponibilizadas e</p><p>conferidas as informações referentes a jejum, dieta, uso de medicamentos,</p><p>etilismo, tabagismo, atividades físicas e quaisquer outras informações que</p><p>possam auxiliar na interpretação posterior dos resultados.</p><p>Nas coletas que são realizadas no laboratório, sempre que possível, o</p><p>paciente deve ficar em repouso de 15 a 20 minutos antes do procedimento</p><p>de coleta, para minimização de interferentes. Em alguns casos o repouso</p><p>requisitado pode ser maior, como nas dosagens de prolactina, catecolaminas</p><p>plasmáticas e testes funcionais, em que o ideal é um repouso de 30 minutos.</p><p>Após esse descanso o paciente deve ser acomodado em uma cadeira própria,</p><p>preferencialmente com um apoio para o braço. Em ambientes hospitalares</p><p>a coleta também é realizada no leito. Nesse momento, é importante que</p><p>haja uma conferência da identificação do paciente, com apresentação de</p><p>documento com foto, e uma confirmação das identificações dos tubos e</p><p>recipientes de coleta pelo paciente e pelo coletador, a fim de evitar possíveis</p><p>trocas de amostra e erros pré-analíticos. É nesta etapa também que o pro-</p><p>fissional responsável pela coleta deve conferir se possui todos os materiais</p><p>necessários para o procedimento à disposição e com fácil acesso. Atualmente,</p><p>todos os materiais utilizados na coleta sanguínea são descartáveis, para</p><p>evitar possíveis contaminações e garantir uma maior biossegurança para o</p><p>paciente e para os profissionais (MCPHERSON; PINCUS, 2012; XAVIER; DORA;</p><p>BARROS, 2016, FLEURY, 2019).</p><p>A venopunção, ou flebotomia, é a técnica pela qual o sangue venoso é</p><p>coletado, e exige uma série de cuidados que serão abordados de forma mais</p><p>detalhada a seguir (XAVIER; DORA; BARROS, 2016; FLEURY, 2019).</p><p>Escolha do local de punção — Tradicionalmente a coleta é realizada na fossa</p><p>antecubital, na área anterior do antebraço. As veias preferenciais são a cubital</p><p>mediana e a cefálica. Outras opções também podem ser utilizadas para a</p><p>venopunção, como as veias do dorso da mão (arco venoso dorsal tem maior</p><p>calibre). Outras veias localizadas no membro superior podem ser utilizadas,</p><p>em últimos casos, mas não são as mais recomendadas pois causam maior</p><p>desconforto e dor ao paciente, com maior probabilidade de desenvolvimento</p><p>de hematomas.</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico 5</p><p>Visualização da veia — As veias nem sempre são visualmente identificáveis,</p><p>por isso a palpação é um recurso útil na sua localização. A aplicação do</p><p>torniquete também facilita consideravelmente a visualização das veias. Mais</p><p>recentemente, foram desenvolvidos sistemas de visualização transdérmica</p><p>para uma localização mais precisa das veias, e a cada dia esses dispositivos</p><p>são mais utilizados.</p><p>Torniquete — O torniquete deve ser posicionado a, aproximadamente, 7 cm</p><p>acima do local de punção, e não deve exceder o tempo de 1 minuto, pois pode</p><p>gerar erros analíticos, o que será abordado mais adiante neste capítulo. Caso</p><p>seja necessário utilizar o torniquete novamente, deve ser respeitado um tempo</p><p>de 2 minutos de intervalo. Recomenda-se também que as amostras para</p><p>dosagens de lactato e cálcio sejam colhidas sem a utilização de torniquete.</p><p>Assepsia — Após a determinação de local da coleta e a visualização da veia,</p><p>deve ser realizada uma assepsia local com gaze ou algodão umedecido com</p><p>solução asséptica (ex.: álcool 70%, álcool isopropílico), em movimentos rota-</p><p>tórios de dentro para fora. Deve-se aguardar que a solução asséptica seque</p><p>completamente antes de iniciar a punção, e tomar cuidado para não tocar</p><p>mais no local higienizado.</p><p>Coleta de amostra — Existem duas técnicas principais para a coleta de amos-</p><p>tras de sangue: com seringa e agulha e a vácuo. Entretanto, a coleta a vácuo é</p><p>extensivamente mais recomendada, pois é mais segura e eficaz. Mais segura,</p><p>por tratar-se de um sistema de coleta fechado, e portanto, com uma tendência</p><p>menor de acidentes perfurocortantes e de manipulação da amostra. E mais</p><p>eficaz pois gera amostras de maior qualidade, uma vez que respeita a relação</p><p>entre os níveis de amostra e aditivo pela aspiração do volume adequado</p><p>de sangue, evitando a formação de microcoágulos e a diluição da amostra.</p><p>Um passo a passo detalhado sobre as técnicas de coleta a vácuo e</p><p>com seringa estão disponíveis no “Manual de Coleta em Laboratório</p><p>Clínico”, de Fleury, do Programa Nacional de Controle de Qualidade.</p><p>Os principais tubos de coleta utilizados em bioquímica estão discriminados</p><p>no Quadro 1, juntamente com os mecanismos de ação pelos quais obtém-se</p><p>amostras de soro ou plasma. Mas além da escolha do aditivo correto, a ordem</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico6</p><p>dos tubos também é um possível</p><p>interferente importante. Por isso, há uma</p><p>ordem predefinida para os tubos de coleta, que ocorre da seguinte forma:</p><p>1. frascos de hemocultura (Microbiologia);</p><p>2. tubo sem aditivo</p><p>3. tubo de sódio-citrato (Hematologia);</p><p>4. tubos de soro com ativador de coágulo ou gel separador (Bioquímica</p><p>e Imunologia);</p><p>5. tubos com EDTA (Hematologia)</p><p>6. tubos com heparina (Bioquímica);</p><p>7. tubos com fluoreto (Bioquímica).</p><p>Esse protocolo existe para evitar que o aditivo de um tubo exerça in-</p><p>fluência em amostras de outro tubo, como será abordado mais adiante na</p><p>seção de interferentes analíticos. Ainda na etapa de coleta de sangue, outro</p><p>ponto importante é a escolha da agulha, uma vez que agulhas com calibres</p><p>inferiores ao necessário para o volume de sangue a ser coletado também</p><p>podem causar hemólise (MCPHERSON; PINCUS, 2012; XAVIER; DORA; BARROS,</p><p>2016; FLEURY, 2019).</p><p>Quadro 1. Principais tubos de coleta utilizados em bioquímica e seus me-</p><p>canismos de ação</p><p>Cor da tampa</p><p>do tubo Aditivo Amostra Aplicação</p><p>Mecanismo</p><p>de ação</p><p>Vermelha Sem aditivo</p><p>ou ativador de</p><p>coagulação.</p><p>Soro Bioquímica e</p><p>Imunologia</p><p>Ativação da</p><p>coagulação com</p><p>sílica.</p><p>Verde Heparina lítica</p><p>ou sódica.</p><p>Plasma Bioquímica Inibição da</p><p>coagulação</p><p>pela ação da</p><p>antitrombina III,</p><p>neutralizando</p><p>a trombina</p><p>e evitando a</p><p>formação de</p><p>fibrina. (Continua)</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico 7</p><p>Cor da tampa</p><p>do tubo Aditivo Amostra Aplicação</p><p>Mecanismo</p><p>de ação</p><p>Azul royal Heparina</p><p>sódica +</p><p>Na2EDTA</p><p>Plasma Bioquímica e</p><p>Toxicologia</p><p>Inibição da</p><p>coagulação</p><p>pela inibição</p><p>da formação</p><p>de trombina</p><p>pela heparina e</p><p>quelação do cálcio</p><p>pelo Na2EDTA.</p><p>Cinza Fluoreto</p><p>de sódio +</p><p>Iodoacetato de</p><p>lítio</p><p>Plasma Bioquímica</p><p>(glicemia)</p><p>Inibição da via</p><p>glicolítica.</p><p>Fonte: Adaptado de McPherson e Pincus (2012).</p><p>Após a coleta, as amostras sanguíneas devem ser encaminhadas para o</p><p>setor analítico o mais brevemente possível, tanto pela estabilidade dos ana-</p><p>litos quanto pela necessidade de centrifugação e separação das amostras. A</p><p>menos que haja recomendação específica, as amostras recém coletadas devem</p><p>ser mantidas em temperatura ambiente. Entretanto, o soro e o plasma não</p><p>devem ser mantidos à temperatura ambiente por mais de 8 horas, por isso,</p><p>caso não seja possível realizar a coleta dentro deste período, as amostras</p><p>devem ser refrigeradas em temperatura entre 2 e 8°C (FLEURY, 2019).</p><p>A coleta de sangue arterial, utilizada principalmente em dosagens de</p><p>gases sanguíneos, é mais incomum e pode ser mais complexa que a coleta</p><p>venosa. Primeiramente, pelo cuidado necessário para a localização das arté-</p><p>rias e pela dificuldade de estancamento do fluxo sanguíneo, pois as artérias</p><p>exercem uma maior pressão do que as veias. Em segundo, essas coletas são</p><p>mais dolorosas para o paciente. Mas o ponto mais crítico neste tipo de coleta</p><p>é a atenção para a ocorrência de espasmo arterial, que é uma constrição</p><p>reflexiva da artéria, com potencial para causar danos e comprometimento</p><p>à circulação local. Para as análises de gasometria, utilizam-se seringas com</p><p>o anticoagulante heparina, e, após a obtenção da amostra, o material deve</p><p>ser corretamente vedado para evitar evaporação de gases e alterações de</p><p>pH, e deve ser enviado ao laboratório o mais rápido possível, para que sua</p><p>análise ocorra, preferencialmente, em até 15 minutos (MCPHERSON; PINCUS,</p><p>2012; XAVIER; DORA; BARROS, 2016).</p><p>(Continuação)</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico8</p><p>Já a coleta de sangue capilar é bastante simples e é realizada, principal-</p><p>mente, em pacientes pediátricos. Em geral, essas punções são realizadas com</p><p>uma lanceta na superfície lateral ou medial do calcanhar, para lactentes, ou na</p><p>superfície palmar dos dedos das mãos para crianças maiores e adultos. Devido</p><p>ao pequeno volume obtido por essa técnica, seu uso é mais limitado em relação</p><p>às amostras obtidas por flebotomia (MCPHERSON; PINCUS, 2012; FLEURY, 2019).</p><p>Quanto às amostras de urina, por serem coletadas pelo próprio paciente,</p><p>é imprescindível que o laboratório forneça orientações claras quanto ao</p><p>procedimento de coleta e acondicionamento da amostra, preferencialmente</p><p>de forma verbal e escrita. O paciente deve ser orientado quanto ao melhor</p><p>horário para a coleta: primeira da manhã ou após, pelo menos, 2 horas da</p><p>última micção, para amostras aleatórias; ou, ainda, a coleta durante 24 horas.</p><p>Também deverá ser orientado quanto à necessidade de uma rigorosa higiene</p><p>dos órgãos genitais previamente à coleta, a fim de evitar contaminações e</p><p>comprometimento da amostra (deve-se iniciar com a higienização das mãos,</p><p>e posteriormente realizar uma cuidadosa higienização dos órgãos genitais,</p><p>ambos com água e sabão). Para a coleta propriamente dita, o paciente deve</p><p>desprezar o primeiro jato de urina e coletar o restante no recipiente ade-</p><p>quado. Estes recipientes deverão ser os fornecidos pelo laboratório, limpos,</p><p>de boca larga, com tampa rosqueável, à prova de vazamentos e corretamente</p><p>identificados. Preferencialmente, a amostra deve ser mantida em tempera-</p><p>tura ambiente, mas caso a entrega ao laboratório não possa ser feita em</p><p>até 2 horas, a amostra deve ser refrigerada e protegida da luz, e enviada ao</p><p>laboratório o quanto antes (RECOMENDAÇÕES..., 2017).</p><p>Interferentes analíticos</p><p>Para que os exames gerem resultados fidedignos e correlacionados com</p><p>a situação clínica do paciente, é imprescindível que as amostras que che-</p><p>gam ao setor analítico sejam as melhores possíveis. Para isso, as etapas</p><p>de requisição, preparo, cadastro, coleta e acondicionamento das amostras</p><p>devem ser realizadas com o máximo de cuidado e atenção às recomendações.</p><p>Entretanto, é justamente na etapa pré-analítica que ocorrem a maioria dos</p><p>erros e interferentes laboratoriais.</p><p>Por isso, nesta seção abordaremos as principais causas de erros pré-analíticos,</p><p>com que alterações elas se correlacionam e de que forma podem ser evitadas.</p><p>Para uma melhor didática, essas causas serão divididas em fatores relacionados</p><p>ao paciente e fatores relacionados ao procedimento de coleta propriamente dito.</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico 9</p><p>Fatores inerentes ao paciente</p><p>Antes de um aprofundamento em relação a estes fatores, é importante salien-</p><p>tar que, apesar de serem relacionados ao paciente, a prevenção e o manejo de</p><p>tais erros é de responsabilidade do laboratório, que deve informar e orientar</p><p>corretamente o paciente e também conferir e questionar as informações no</p><p>momento do cadastro dos exames.</p><p>As recomendações pré-coleta iniciam geralmente com a determinação</p><p>do tempo de jejum necessário, que costuma ser de 8 horas sem a ingestão</p><p>de qualquer tipo de alimento, mas podem ser adequadas para até 4 horas</p><p>dependendo da especificidade de cada caso. Em crianças e lactantes, por</p><p>exemplo, há uma dificuldade maior em manter um jejum prolongado, por</p><p>isso, nestes casos geralmente a duração do jejum pode ser reduzida. Vale</p><p>lembrar que a ingestão de água e de medicamentos de uso contínuo deve</p><p>ser mantida, a não ser que haja solicitação médica para a sua suspensão.</p><p>Por outro lado, em casos de jejum prolongado (acima de 12 horas) pode</p><p>ocorrer uma indução ao estresse fisiológico no corpo, causando alterações</p><p>hormonais como elevação de cortisol e redução de TSH (hormônio esti-</p><p>mulador da tireoide), LH (hormônio luteinizante) e FSH (hormônio folículo</p><p>estimulante). Dosagens bioquímicas de bilirrubina, triglicerídeos, glicerol</p><p>ácidos graxos, ureia e ácido úrico também podem sofrer alterações devido</p><p>ao jejum excessivo (XAVIER; DORA; BARROS, 2016; BARCELOS; AQUINO, 2018;</p><p>MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>Em 2016, um conjunto de sociedades brasileiras relacionadas aos setores</p><p>de análises clínicas e de medicina uniram-se na elaboração e publicação do</p><p>“Consenso Brasileiro para a Normatização da Determinação Laboratorial do</p><p>Perfil Lipídico”. Este documento faz uma atualização em relação à possibilidade</p><p>de flexibilização do jejum para os testes de perfil lipídico, tais como coles-</p><p>terol total, colesterol LDL,</p><p>colesterol HDL, colesterol não HDL e triglicérides</p><p>(CONSENSO..., [2016]). Segundo esta nova recomendação, mediante solicitação,</p><p>poderá ser realizada a dosagem destes analitos sem a necessidade de jejum,</p><p>desde que esta condição esteja especificada no laudo e que não sejam dosados</p><p>outros analitos que requisitem jejum. Essa decisão levou em consideração</p><p>o fato de que é o estado alimentado que perdura durante a maior parte do</p><p>dia, e não o jejum, podendo, assim, o exame (neste formato) fornecer uma</p><p>representação mais realista do risco cardiovascular do paciente. Além disso,</p><p>considerou a modernização das técnicas analíticas, que atualmente sofrem</p><p>menor interferência pela turbidez das amostras e a praticidade de uma maior</p><p>amplitude de horários para a realização de exames.</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico10</p><p>A dieta adotada pelo paciente também pode influenciar nos resultados la-</p><p>boratoriais, mesmo que o jejum seja efetuado. Pessoas com hábitos alimentares</p><p>vegetarianos, por exemplo, podem apresentar redução das lipoproteínas LDL</p><p>e VLDL, além de colesterol total e triglicérides. Já pessoas com dietas ricas em</p><p>carnes vermelhas e outras fontes proteicas podem apresentar elevações nos</p><p>níveis séricos de ureia e amônia, e se a dieta rica em proteínas for acompanhada</p><p>de quantidades diminutas de carboidratos, há um aumento na concentração</p><p>urinária de cetonas.</p><p>Já dietas ricas em lipídios e carboidratos podem gerar amostras com</p><p>lipemia, que também é um interferente bastante frequente nas amostras</p><p>sanguíneas. A lipemia pode ser descrita como a presença de lipídios em</p><p>excesso no sangue, e pode ocorrer em amostras de coleta pós-prandial, ou</p><p>seja, logo após uma refeição. Esses níveis elevados de lipídios consistem em</p><p>um interferente laboratorial pelo fato de causarem turbidez na amostra, em</p><p>decorrência das numerosas partículas lipídicas, e interferirem em metodolo-</p><p>gias turbidimétricas, como em dosagens de colesterol, bilirrubinas, colesterol,</p><p>albumina, enzimas hepáticas, cálcio, creatinina, entre outras. Esse aspecto</p><p>turvo ou leitoso geralmente ocorre a partir de níveis de triglicérides acima de</p><p>400 mg/dL e pode ser devido a distúrbios metabólicos ou a jejum inadequado</p><p>(MCPHERSON; PINCUS, 2012; XAVIER; DORA; BARROS, 2016).</p><p>Outra alteração relacionada ao aspecto do soro é a hiperbilirrubinemia.</p><p>Ela ocorre quando a concentração sérica de bilirrubinas totais se encontra</p><p>acima de 2,5 mg/dL, fazendo com que o plasma e o soro adquiram colorações</p><p>alaranjadas (ictéricas). Também pode interferir em dosagens colorimétricas</p><p>(XAVIER; DORA; BARROS, 2016).</p><p>O consumo de álcool e cigarro também interfere nas análises laborato-</p><p>riais. A ingestão de bebidas alcoólicas pode causar alterações nos níveis de</p><p>glicose, lactato e triglicérides, quando a ingestão é esporádica, mas próxima</p><p>do momento da coleta. Já a ingestão crônica costuma elevar os níveis séricos</p><p>de GGT (enzima gama glutamiltransferase). Enquanto o tabagismo relaciona-</p><p>-se com o aumento dos níveis de cortisol, adrenalina, GH, lactato, insulina e</p><p>com a redução do colesterol HDL.</p><p>O exercício físico, apesar de ser altamente recomendado para a manuten-</p><p>ção da saúde, é contraindicado na véspera da colheita de material biológico.</p><p>Dependendo da intensidade e do condicionamento do paciente, o exercício</p><p>pode causar alterações bioquímicas consideráveis, como a elevação do lactato</p><p>e de enzimas relacionadas ao metabolismo muscular como creatina quinase</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico 11</p><p>(CK), aldolase e aspartato aminotransferase (AST). Também pode haver redu-</p><p>ção dos níveis séricos de glicose (MCPHERSON; PINCUS, 2012; XAVIER; DORA;</p><p>BARROS, 2016; MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>Para alguns analitos, a posição corporal também exerce grande influência</p><p>nos resultados dos exames. Quando um paciente muda a posição, de decúbito</p><p>para uma posição ereta, por exemplo, pode ocorrer extravasamento de líquido</p><p>(água e substâncias filtráveis) do espaço intravascular para o intersticial,</p><p>elevando a concentração do sangue. Com essa falsa concentração, podem</p><p>ocorrer dosagens erroneamente elevadas de proteínas, especialmente albu-</p><p>mina, e lipoproteínas como HDL, LDL e VLDL.</p><p>Alguns analitos podem apresentar variações em suas dosagens devido a va-</p><p>riações cronobiológicas, ou seja, que são relacionadas com os ciclos circadiano,</p><p>ultradiano e infradiano. O ciclo circadiano pode ser descrito como um ciclo de</p><p>variabilidade que ocorre em um período de um dia - 24 horas, e determina as</p><p>recomendações para uma série de exames bioquímicos. Como exemplos, tem-se</p><p>as dosagens séricas de ferro, creatinina e ACTH (hormônio adrenocorticotrófico),</p><p>que devem ser realizadas no período da manhã, pois é quando apresentam</p><p>seus níveis mais elevados, proporcionando condições ótimas de resultados. De</p><p>forma semelhante, a maioria dos eletrólitos, como sódio, potássio e fosfato,</p><p>apresenta maiores concentrações em urinas coletadas pela manhã.</p><p>O ciclo ultradiano, por sua vez, engloba alterações que ocorrem em um</p><p>período inferior a 24 horas, como é o caso dos picos hormonais de testosterona.</p><p>Já o ciclo infradiano envolve variações mais espaçadas, acima de 24 horas, como</p><p>a variação hormonal durante o ciclo menstrual, por exemplo (XAVIER; DORA;</p><p>BARROS, 2016; BARCELOS; AQUINO, 2018; MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>O conhecimento sobre o horário de coleta é crítico, principalmente em exames</p><p>hormonais, e por isso sempre que possível deve ser realizado um agendamento</p><p>para data e horários de coleta. Porém, quando não for possível realizar a coleta</p><p>nos parâmetros recomendados, sugere-se que o horário da coleta seja liberado</p><p>juntamente com o resultado no laudo, para uma melhor interpretação clínica.</p><p>Os medicamentos utilizados pelo paciente também podem causar alterações</p><p>in vivo e in vitro nos exames laboratoriais. Um exemplo de interferência in vivo,</p><p>ou seja, que afeta o metabolismo do paciente, é a administração de glicocor-</p><p>ticoesteroide, que pode causar uma elevação na concentração de glicose no</p><p>sangue, por ser um medicamento diabetogênico. Porém, com a suspensão da</p><p>medicação, os níveis provavelmente retornariam ao normal, pois não se trata de</p><p>um quadro diabético verdadeiro, apesar de o resultado de um exame realizado</p><p>durante esta terapia possivelmente indicar isso. Outras formas de alterações</p><p>medicamentosas in vivo podem ocorrer pela lesão tecidual e por alterações</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico12</p><p>de funções dos órgãos, como acontece com uma série de medicamentos que</p><p>sobrecarregam o fígado e geram alterações nos marcadores hepáticos (XAVIER;</p><p>DORA; BARROS, 2016; MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>Já as alterações in vitro são relacionadas à interferência pela interação</p><p>entre um determinado medicamento e a técnica analítica usada na amostra já</p><p>coletada. Por exemplo, doses elevadas de ácido ascórbico (vitamina C) podem</p><p>interferir em metodologias de dosagem de glicose que sejam baseadas em</p><p>reações redutoras, causando resultados falsamente elevados. A presença</p><p>de paracetamol em doses elevadas na corrente sanguínea também é um</p><p>bom exemplo, pois pode causar valores reduzidos nas dosagens de analitos</p><p>quando a metodologia é baseada na reação de Trinder, como pode ser o caso</p><p>de testes de creatinina, glicose, LDH (lactato desidrogenase) e alguns lipídios</p><p>(XAVIER; DORA; BARROS, 2016; MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>Ainda neste tópico, para a monitorização dos níveis de medicamentos</p><p>terapêuticos, o planejamento da coleta de material biológico deve adequar-</p><p>-se à farmacocinética do medicamento e, também, informar no laudo a data</p><p>e o horário da última administração.</p><p>Existem, também, variações biológicas devido ao sexo do paciente. Homens</p><p>e mulheres apresentam principalmente condições hormonais distintas, mas</p><p>também existem características metabólicas e bioquímicas diferentes. Por</p><p>exemplo, os níveis médios de hemoglobina, fosfatase alcalina, ácido úrico,</p><p>creatinina quinase, AST (aspartato aminotransferase)</p><p>e ALT (alanina amino-</p><p>transferase), costumam ser mais baixos em mulheres do que em homens.</p><p>Da mesma forma, a faixa etária do paciente altera os parâmetros espe-</p><p>rados para diversos exames, especialmente em neonatos, crianças e idosos.</p><p>Novamente, ocorrem variações hormonais esperadas com o passar da idade,</p><p>como a diminuição dos níveis do hormônio do crescimento (GH) após a pu-</p><p>berdade e de T3 (tri-iodotironina) e ACTH em idosos. Mas além das variações</p><p>hormonais, alguns analitos bioquímicos também variam com a idade, pois</p><p>dependem de maturidade e capacidade funcional de órgãos e sistemas, e</p><p>massa corporal. Neste sentido, as dosagens de ureia são um bom exemplo,</p><p>visto que a função renal costuma sofrer um decréscimo nos idosos, causando</p><p>um aumento nos níveis séricos de ureia (BARCELOS; AQUINO, 2018; MURPHY;</p><p>SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>Gestantes também passam por transformações metabólicas que causam</p><p>mudanças nos exames bioquímicos. Devido à retenção hídrica, por exemplo,</p><p>pode ocorrer diluição do sangue (hemodiluição) e consequente falsa redução</p><p>nos níveis séricos de proteínas.</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico 13</p><p>Fatores inerentes ao procedimento de coleta</p><p>Coletas difíceis ou demoradas podem causar hemólise, ou seja, destrui-</p><p>ção das hemácias com liberação do seu conteúdo intracelular para o meio</p><p>externo. Esse é um dos principais interferentes laboratoriais, pois além da</p><p>liberação de componentes intracelulares, a coloração avermelhada que as</p><p>amostras de soro e plasma adquirem após a hemólise pode comprometer</p><p>análises colorimétricas, dependendo da metodologia e do grau de hemólise.</p><p>Os exemplos de analitos bioquímicos que podem ser comprometidos pela</p><p>ocorrência de hemólise são variados, destacando-se o falso aumento de</p><p>glicose, bilirrubinas, albumina, potássio, sódio, cálcio, ferro e LDH, e a redução</p><p>errônea de insulina (MCPHERSON; PINCUS, 2012; XAVIER; DORA; BARROS, 2016;</p><p>MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>O torniquete, ou garroteamento prolongado pode gerar extravasamento</p><p>de líquido intravascular (do plasma) para o espaço intersticial, pela estease</p><p>sanguínea. Isso faz com que a amostra de sangue obtida na coleta seja mais</p><p>concentrada (hemoconcentração), pela perda de água, especialmente no que</p><p>diz respeito à dosagem de proteínas e substâncias ligadas a proteínas, que</p><p>estarão falsamente elevadas.</p><p>Outro interferente no momento da coleta são as amostras com volume</p><p>reduzido, que frequentemente são obtidas em pacientes neonatos, mas podem</p><p>não ser suficientes para a realização de todos os exames solicitados. Além</p><p>disso, deve-se atentar à proporção entre amostra e aditivos.</p><p>No momento da coleta, deve-se atentar também para o local onde será</p><p>realizada a punção. Membros em que houver infusão de terapias intraveno-</p><p>sas (soro, por exemplo) devem ser evitados, assim como locais próximos a</p><p>hematomas preexistentes, queimaduras e membros com possível linfostase</p><p>— remoção de linfonodos em decorrência de mastectomia, pois a resposta</p><p>imunológica local pode ser deficitária (XAVIER; DORA; BARROS, 2016; MURPHY;</p><p>SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>A utilização de anticoagulantes e aditivos, além de exigir atenção quanto</p><p>às proporções, requer um cuidado na escolha do produto para o adequado</p><p>fim. Existe uma variedade de produtos que podem ser utilizados como</p><p>anticoagulantes, e cada um possui uma especificidade que será mais ou</p><p>menos adequada à dosagem de um analito. Por exemplo, para as dosagens</p><p>de glicose, recomenda-se a utilização de fluoreto de sódio + iodoacetato</p><p>de lítio, que inibem a ocorrência da glicólise, preservando os níveis do</p><p>analito para a dosagem. Já o EDTA, um anticoagulante muito utilizado em</p><p>hematologia para a preservação da morfologia celular, pode gerar níveis</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico14</p><p>falsamente elevados de potássio e falsamente reduzidos de cálcio, caso</p><p>seja erroneamente utilizado em bioquímica. A heparina, por sua vez, é</p><p>bastante útil para as análises de íons, porém deve haver um cuidado na</p><p>escolha do tipo de heparina: a heparina sódica não pode ser utilizada em</p><p>dosagens de sódio, e a heparina lítica não pode ser utilizada em dosagens</p><p>de lítio; pois estas substâncias estarão falsamente elevadas por serem</p><p>constituintes da substância anticoagulante (MCPHERSON; PINCUS, 2012;</p><p>MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019). Mais exemplos de interferências em</p><p>dosagens bioquímicas pelo uso de anticoagulantes podem ser observadas</p><p>no Quadro 2.</p><p>Quadro 2. Interferências pelo uso de anticoagulantes em dosagens</p><p>bioquímicas</p><p>Aditivo/</p><p>Anticoagulante Dosagem Efeito</p><p>EDTA � Fosfatase alcalina</p><p>� Creatina quinase (CK)</p><p>� Cálcio</p><p>� Ferro</p><p>� Sódio</p><p>� Potássio</p><p>� Inibição</p><p>� Inibição</p><p>� Diminuição</p><p>� Diminuição</p><p>� Aumento</p><p>� Aumento</p><p>Citrato � Alanina aminotransferase (ALT)</p><p>� Aspartato aminotransferase (AST)</p><p>� Fosfatase alcalina</p><p>� Fosfatase ácida</p><p>� Amilase</p><p>� Cálcio</p><p>� Sódio</p><p>� Potássio</p><p>� Inibição</p><p>� Inibição</p><p>� Inibição</p><p>� Estimulação</p><p>� Diminuição</p><p>� Diminuição</p><p>� Aumento</p><p>� Aumento</p><p>Heparina � Tri-iodotironina (T3)</p><p>� Tiroxina (T4)</p><p>� Aumento</p><p>� Aumento</p><p>Fluoreto � Fosfatase ácida</p><p>� Fosfatase alcalina</p><p>� Amilase</p><p>� Creatina quinase (CK)</p><p>� Alanina aminotransferase (ALT)</p><p>� Aspartato aminotransferase (AST)</p><p>� Diminuição</p><p>� Diminuição</p><p>� Diminuição</p><p>� Diminuição</p><p>� Diminuição</p><p>� Diminuição</p><p>Fonte: Adaptado de McPherson e Pincus (2012).</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico 15</p><p>Mesmo após o procedimento de coleta, alguns interferentes podem causar</p><p>alterações nas amostras clínicas. A temperatura de armazenamento da amostra</p><p>até o seu processamento deve seguir as recomendações de cada caso. A refri-</p><p>geração de amostras de sangue total, por exemplo, pode gerar extravasamento</p><p>do líquido intracelular para o meio extracelular (no plasma), gerando falsas</p><p>elevações nas dosagens de potássio, fosfato e lactato desidrogenase, pois são</p><p>compostos originalmente em maior concentração intracelular. Temperaturas</p><p>de refrigeração (entre 2 e 8˚C) inibem o metabolismo celular e auxiliam na</p><p>preservação de diversos analitos (MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>Substâncias fotossensíveis, como bilirrubina e algumas vitaminas, devem</p><p>ser protegidas do contato com a luz, do momento da coleta até a realização da</p><p>análise. Caso essa medida não seja realizada, podem ocorrer falsas reduções</p><p>em suas dosagens.</p><p>Nos casos de urina, também podem ocorrer interferentes. Na urina de 24</p><p>horas pode haver falha na precisão da duração do período de coleta (tempo</p><p>prolongado ou reduzido). Em relação à temperatura de armazenamento,</p><p>se as amostras urinárias não puderem ser analisadas rapidamente após a</p><p>coleta, devem ser mantidas sob refrigeração e entregues ao laboratório o</p><p>mais brevemente possível (MURPHY; SRIVASTAVA; DEANS, 2019).</p><p>O conhecimento destes interferentes permite que padronizações e proto-</p><p>colos de manuseio e rejeição de amostras sejam mais assertivos, e favorece</p><p>a escolha de técnicas mais adequadas para o diagnóstico, uma vez que um</p><p>determinado interferente pode causar alterações mais significativas em uma</p><p>metodologia, mas ser indiferente em outra.</p><p>Referências</p><p>BARCELOS, L. F.; AQUINO, J. L. (ed.). Tratado de análises clínicas. Rio de Janeiro: Atheneu, 2018.</p><p>CONSENSO brasileiro para a normatização da determinação laboratorial do perfil</p><p>lipídico. [2016]. Disponível em: http://www.sbpc.org.br/upload/conteudo/consenso_je-</p><p>jum_dez2016_final.pdf. Acesso em: 26 ago. 2020.</p><p>FLEURY, M. K. Manual de coleta em laboratório clínico. 3. ed. [Rio de Janeiro]: Programa</p><p>Nacional de Controle de Qualidade, 2019.</p><p>MCPHERSON, R. A.; PINCUS, R. M. Diagnósticos clínicos e tratamento por métodos</p><p>laboratoriais de Henry. 21. ed. Barueri: Manole, 2012.</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico16</p><p>MURPHY, M.; SRIVASTAVA, R.; DEANS, K. Bioquímica clínica. 6. ed. Rio de Janeiro: Gua-</p><p>nabara Koogan: 2019.</p><p>RECOMENDAÇÕES da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial</p><p>(SBPC/ML): realização de exames em urina. Barueri: Manole, 2017.</p><p>XAVIER, R. M.; DORA, J. M.; BARROS, E. (org.). Laboratório na prática clínica. 3. ed. Porto</p><p>Alegre: Artmed, 2016. (Consulta Rápida).</p><p>Leitura recomendada</p><p>BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução de Dire-</p><p>toria Colegiada – RDC nº 302, de 13 de outubro de 2005. Dispõe sobre Regulamento Técnico</p><p>para funcionamento de Laboratórios Clínicos. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2005. Dis-</p><p>ponível em: http://portal.anvisa.gov.br/documents/10181/2718376/RDC_302_2005_COMP.</p><p>pdf/7038e853-afae-4729-948b-ef6eb3931b19. Acesso em: 2 set. 2020.</p><p>Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos</p><p>testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da</p><p>publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas</p><p>páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores</p><p>declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou</p><p>integralidade das informações referidas em tais links.</p><p>Tipos de amostras: coleta e material biológico 17</p><p>Dica do professor</p><p>O vídeo apresenta os principais cuidados sobre a coleta e manuseio das amostras nas análises</p><p>bioquímicas.</p><p>Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.</p><p>https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/1216a2fec818c6a7644e2fd018a4609f</p><p>Exercícios</p><p>1)</p><p>Assinale a alternativa correta sobre o soro obtido da amostra do paciente.</p><p>A) É obtido sempre a partir da punção arterial.</p><p>B) É a porção líquida do sangue venoso que não coagulou.</p><p>C) Constitui a parte celular do sangue.</p><p>D) É a porção líquida do sangue obtido a partir de tubos de heparina.</p><p>E) É a porção líquida do sangue venoso que coagulou.</p><p>2) A preservação e o armazenamento das amostras é crucial para resultados com acurácia</p><p>elevada. Assinale a alternativa incorreta em relação a este conteúdo.</p><p>A) As amostras devem ser colocadas no tubo mais indicado para o teste bioquímico.</p><p>B) Deve-se tomar cuidado especial no teste de enzimas para evitar perda da atividade.</p><p>C) A bilirrubina deve ser sempre mantida longe da luz durante o transporte.</p><p>D) As amostras devem ser armazenadas em temperatura ambiente caso a análise demore</p><p>algumas horas.</p><p>E) A contaminação deve ser evitada, principalmente a microbiológica e a anticoagulante.</p><p>3) Em quais das alternativas a coleta por sangue venoso não é normalmente utilizada na rotina</p><p>das análises bioquímicas?</p><p>A) Glicose.</p><p>B) Triacilgliceróis.</p><p>C) Gasometria.</p><p>D) Ureia.</p><p>E) Creatinina.</p><p>4) Assinale a alternativa correta em relação à hemoconcentração:</p><p>A) A demora excessiva do torniquete durante a coleta pode levar a concentração de alguns</p><p>componentes do sangue.</p><p>B) Uma coleta muito rápida pode levar a diluição de alguns componentes do sangue.</p><p>C) As hemácias lisadas liberam componentes intracelulares.</p><p>D) A evaporação é a principal razão de diluição dos componentes do sangue.</p><p>E) É causado por contaminação de anticoagulantes.</p><p>5) As tampas dos tubos devem ser tampadas para evitar a evaporação. Assinale a alternativa</p><p>em que o parâmetro abaixo pode estar alterado devido a amostras destampadas.</p><p>A) Glicose.</p><p>B) Ácido úrico.</p><p>C) Lactato desidrogenase.</p><p>D) pH e concentração de bicarbonato.</p><p>E) Colesterol total.</p><p>Na prática</p><p>Manipulação errônea do material biológico.</p><p>Alguns erros que podem acontecer no setor de bioquímica clínica são os referentes à manipulação</p><p>da amostra. Primeiramente, é necessário identificar corretamente a amostra dos pacientes</p><p>contendo: nome, data e hora da coleta e também o nome ou iniciais do flebotomista. Os problemas</p><p>mais comuns no laboratório são: hemólise, hemoconcentração, centrifugação em excesso,</p><p>evaporação e contaminação.</p><p>Na hemólise, por exemplo, o rompimento das membranas das hemácias permite a saída de</p><p>componentes intracelulares como enzimas (lactato desidrogenase-LDH e aspartato</p><p>aminotransferase-AST) e íons como sódio e magnésio. Além disso, a hemólise pode ser causada por</p><p>uma centrifugação inadequada, congelamento, agitação excessiva e também por uma punção</p><p>venosa realizada de forma incorreta.</p><p>As formas de evitar a hemólise são:</p><p>- não coletar sangue em área com hematoma ou equimose;</p><p>- não transportar a amostra biológica em gelo seco;</p><p>- evitar agulhas de pequeno calibre; homogeneizar suavemente o tubo;</p><p>- evitar formação de espuma na amostra;</p><p>- não puxar o êmbolo com muita força.</p><p>Saiba +</p><p>Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor:</p><p>Coleta de Sangue Venoso</p><p>Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.</p><p>BD Vacutainer Tubo de Plástico sem reagente para coleta de</p><p>sangue</p><p>Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.</p><p>MURRAY ROBERT K; BENDER DAVID A; BOTHAM KM;</p><p>KENNELY PETER J; RODWELL VICTOR W; WEIL P.</p><p>ANTHONY. Bioquímica Ilustrada de Harper (Lange). 29. ed.</p><p>MacGraw Hill, 2013.</p><p>Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino!</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=T5oqEUOVYhk</p><p>https://antigo.anvisa.gov.br/documents/33868/4265940/Carta+ao+cliente+-+Alerta+2540/fda722e9-f66f-454e-add7-e036a0e57b50</p>