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<p>UNISC UNIVERSIDADE DE BANTA CRUZ DO BUL Reitor ESCRITORAS BRASILEIRAS Luiz Augusto Costa a Campis Vice-Reitora Helga Haas DO SÉCULO XIX Pró-Reitora de Graduação Luci Elaine Krämer Pró-Reitor de Pós-Graduação, Antologia Pesquisa e Extensão Wilson Kniphoff da Cruz Pró-Reitor de Administração Vilmar Pró-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento Institucional Marcos Moura Baptista dos Santos EDITORA DA UNISC Editora Helga Haas COMISSÃO EDITORIAL Helga Haas - Presidente Wilson Kniphoff da Cruz Eduardo Alexis Lobo Alcayaga Eltor Breunig Eunice T. Piazza Gai Míria Suzana Burgos Sabino Porto Júnior Sérgio Schaefer Apresentação Nara Araújo Organização Zahidé Lupinacci Muzart editoramulheres Caixa Postal 5031 EDUNISC 88040-970 Florianópolis, SC - Brasil Avenida Independência, 2293 Tel & fax 048 233 2164 Fone 051 717 7462 Fax 051 717 1855 editoramulheres@floripa.com.br 96815-900 - Santa Cruz do Sul - RS http://www.editoramulheres.com.br ditoramulheres EDUNISC</p><p>C 1999, Editora Mulheres Organização Zahidé Lupinacci Muzart Prefácio Nara Araújo Agradecimentos Editoria de originais Marco Antônio de Toledo Neder Capa, editoração e projeto gráfico Patrick Muzart patrickm@floripa.com.br Ilustração da Capa Beatriz Liechti Siedler Carla Cristina Garcia Carlos Alexandre Baumgarten Study of Woman's Head de Edward Burne-Jones, 1871 Cecília Maria Cunha Celestino Sachet Companheiras do GT "A mulher na literatura" (ANPOLL) Daniela L. Villanova Djénane L. Luce Eduardo Carva- lho Monteiro Elvira dos Santos Sponholz Erich Gemeinder Gessi Serra Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP) Henrique Espada Hilda Agnes Hübner Flores Iaponan Soares Ieda Maria Leny Helena Brunel CRB 14/540 Souza de Oliveira Jaime Marcelino Gomes Jomar Moraes José Luís Paranhos José Mindlin Julio H. Petersen Leonel de Barros Luna Alkalay Luísa Cristina dos Santos Marco Antônio Toledo Neder Maria Angélica Guimarães Lopes Maria Stella Orsini Maria Thereza Caiuby Crescenti Bernardes Maria E74 Tereza L. Villanova Miguel Sanches Neto Nádia Battella Gotlib Nelly Novaes Coelho Norberto Ungaretti Paschoal Apóstolo Pítsica Peggy Sharpe Plínio Escritoras brasileiras do século XIX: antologia / organizado por Zahidé Doyle Sebastião Moreira Duarte Sânzio de Azevedo Susana Bornéo Funck Tania Regina Oliveira Ramos Terezinha Amorim, Biblioteca Pública de São Lupinacci Muzart. - Florianópolis: Editora Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1999. Verônica de Almeida Siqueira Cristina Marquardt Elisana de Carli Eliane Cristin Lewis Elmar Ricardo Gonçalves de Oliveira Kézia L'Engles de Figueiredo 960 p. Heye Maristela Della Rocca Medeiros Patrícia Helena Fuentes Lima Ricardo Araújo Barberena Valeria Cardoso da Silva Olimpio José Garcia Matos (in memoriam) ISBN 85-86501-09-3 Zilma Gesser Nunes Academia Catarinense de Letras Academia Brasileira de Letras (RJ) Casa Juvenal Galeno, Fortaleza, CE Biblioteca Pública de Florianópolis 1. Literatura brasileira Antologia. 2. Literatura brasileira - 3. Biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina Biblioteca Pública de Porto Alegre Biblioteca da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Biblioteca de Rio Escritoras brasileiras. I. Lupinacci, Zahidé Muzart. II. Grande Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq Museu da Biblioteca Pública de Pelotas Fundação Biblioteca Nacional Fundação Casa de Rui Barbosa - Laboratório de Microfilmagem Gabinete Português de CDU 869.0(81)-82 Leitura Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro</p><p>Sumário Nota Prévia 11 Apresentação 13 Introdução 17 Antologia 51 Anônima 30 Rita Joana de Sousa 45 Ângela do Amaral Rangel 50 Bárbara Heliodora 60 Maria Josefa Barreto 75 Beatriz Francisca de Assis Brandão 82 Maria Clemencia Silveira Sampaio 110 Delfina Benigna da Cunha 119 Ildefonsa Laura César 145 Ana Eurídice Eufrosina de Barandas 162 Nísia Floresta Brasileira Augusta 175 Violante de Bivar e Velasco 194 Clarinda da Costa Siqueira 208 Joana Paula Manso de Noronha 228 Ana Luísa de Azevedo Castro 250 Maria Firmina dos Reis 264 Adélia Fonseca 285 Maria Benedita de Oliveira Barbosa (Zaira Americana) 300 Maria Angélica Ribeiro 315 Gondim 332 Maria do Carmo de Melo Rego 349 Rita Barém de Melo 358 Joaquina Meneses de Lacerda 376 Ana Ribeiro 384</p><p>Júlia da Costa 401 Amália dos Passos Figueiroa 424 Luciana de Abreu 440 Serafina Rosa Pontes 455 Adelina Lopes Vieira 469 Josefina Álvares de Azevedo Nota Prévia 484 Carmem Dolores 500 Narcisa Amália 534 Gabriela de Andrada 553 Maria Benedita Câmara Bormann (Délia) 567 Inês Sabino 591 O presente livro resulta de projeto de pesquisa integrado pelas instituições de Anália Franco origem de suas pesquisadoras: Universidade Federal de Santa Catarina 616 Delminda Silveira Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS e Fundação Casa de Rui 634 Adelaide de Castro Alves Barbosa FCRB, com o apoio fundamental e permanente do Conselho Nacional 650 de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq. Honorata Minelvina Carneiro de Mendonça 668 O grupo inicial de pesquisadoras foi composto pelas professoras doutoras Carmem Freire 700 Rita Terezinha Schmidt, UFRGS, Eliane Vasconcellos, Chefe do Arquivo-Museu Emília Freitas 723 de Literatura Brasileira da FCRB e Zahidé L. Muzart, da UFSC, coordenadora, Vitalina Pompeu de Camargo de Sousa Queirós 735 todas responsáveis pela condução constante e integrada deste projeto. Ana Facó Dada, porém, a amplitude da tarefa, que se estendeu a todos os cantos do País, 745 Francisca Izidora Gonçalves da Rocha não faltaram outras pesquisadoras que, a convite do grupo inicial, aceitassem em- 758 Maria Carolina Corcoroca de Sousa prestar ao projeto sua experiência e, principalmente, seu talento, não só reunindo, 768 com benevolência, informações arduamente recuperadas sobre as escritoras das re- Ana Autran 786 giões a que pertencem, mas ainda dividindo os resultados de pesquisas análogas em Corina Coaraci 801 que se vêm empenhando. Luísa Leonardo 843 Assim, enriqueceram com novos textos a feição final do primeiro volume desta Alexandrina da Silva Couto dos Santos 859 Coletânea: de São Paulo, uma das pioneiras dos estudos sobre a contribuição das Ana Aurora do Amaral Lisboa mulheres para as Letras no Brasil, Maria Thereza Caiuby Crescenti Bernardes, da 873 Revocata Heloisa de Melo Universidade de São Paulo USP, com sua impressionante escritora "Anônima"; 892 Anna Alexandrina Cavalcanti de Albuquerque Norma Telles, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, cuja 903 tese, inédita até hoje, tem alicerçado nossas pesquisas e Ana Helena Belline, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas PUC-Campinas, em cujas pes- As Protestos por uma mãe. 909 quisas busca especificamente o resgate de suas conterrâneas. Do Rio de Janeiro, Índice alfabético Sylvia Perlingeiro Paixão, da Universidade da Cidade, cujo apoio sempre estimulan- As autoras te e amigo e cujas pesquisas sobre "o olhar condescendente da crítica" tem-nos inspirado em muitos casos, foi assídua presença em reuniões e discussões sobre o 11</p><p>andamento do projeto. Do nordeste, a estudiosa Constância Lima Duarte, da Uni- versidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN, agora na Universidade Federal de Minas Gerais UFMG, dividiu conosco caminhos, bibliografia e interrogações e trouxe-nos a sua grande experiência em pesquisa de textos perdidos, além de sugestões importantes. Da Bahia, Ivia Duarte Alves da Universidade Fede- Do vazio e do silêncio ral da Bahia UFBA, trouxe aportes bibliográficos importantes para todas nós. De Pernambuco, outra pioneira no resgate das nordestinas: Luzilá Gonçalves Ferreira da Universidade Federal de Pernambuco UFPE, que se tem especializado na Nara Araújo difícil investigação sobre as mulheres do século XIX. Do pantaneiro Mato Grosso, Universidad de La Habana a suave Yasmin Jamil Nadaf, da Universidade Federal de Mato Grosso UFMT, cujo levantamento de dados na revista A Violeta constituiu subsídio indispensável para algumas das escritoras pesquisadas. Da Paraíba, a mineira Valeria Andrade Souto-Maior da Universidade Federal da Paraíba UFPB, que sugeriu a inser- ção das dramaturgas na história do teatro no Brasil. Do Rio de Janeiro, Há vários anos, em um encontro da ANPOLL, realizado em Caxambu, Mi- Cardoso da Silva, bolsista de pesquisa do CNPq, uma preciosa presença nos arqui- nas Gerais, conheci um grupo singular. De inteligência apaixonada, estava formado vos da Biblioteca Nacional. Gostaria também de destacar um importante colabora- por professoras e pesquisadoras dedicadas ao estudo das relações entre mulher e dor deste livro, Prof. Marco Antônio Toledo Neder, cujos profundos conhecimentos literatura. Eu era a única estrangeira entre as brasileiras, uma cubana que chegava ao na arte da editoração permitiram-nos levar a cabo este trabalho. E, devemos registrar vasto mundo do Brasil, uma ilhoa que se assombrava ante o que lhe parecia um a presença constante dos bolsistas de Iniciação à Pesquisa do CNPq. Dentre estes, continente. não poderíamos deixar de assinalar o nome de Olímpio José Garcia Matos cuja A empatia foi imediata. Começamos a compartilhar, tendo apenas nos conheci- presença no início deste trabalho com seus conhecimentos de preciosas "velharias" do, projetos, sonhos e utopias. Depois das sessões, nós nos no refei- da Biblioteca Nacional e da FCRB foram muito importantes e cujo falecimento veio, tório, diante de pantagruélicas mesas, repletas de manjares incitantes com nomes e seguramente, deixar insubstituível lacuna entre nós. componentes exóticos dendê, maracujá e adornadas pelas sensuais cores das E, por último, participou também deste trabalho a Profa. Dra. Nara Araújo, frutas em calda: o vermelho das polpas de goiaba, o amarelo das talhadas de manga, da Universidade de Havana, Cuba, que esteve por duas vezes conosco e cujos o laranja dos Em seguida, passeávamos pelo parque de famosas águas brilhantes seminários no GT A Mulher na Literatura são uma grata e motivadora medicinais, em torno de seu caramanchão de ferro trançado, de um verde intenso; lembrança. A sua presença foi breve mas o contacto, cálido, profundo e duradouro. entrávamos no mercado onde se ofereciam rendas con de marfim, bordadas por mãos Provam-no as palavras de incentivo e amizade que abrem este volume. femininas; incursionávamos nos foyers de antigos e pretensiosos hotéis testemu- nhas de uma passada grandeza onde outrora pernoitavam abastadas famílias que buscavam, em Caxambu, cura para seus males digestivos. Momentos de bio e expansão serviram para tecer relações que têm resistido ao passar do tempo. Recordo que naquelas frias colinas, em uma das mais cálidas sessões, Susana Bornéo Funck apresentou o volume Trocando idéias sobre a mulher e a literatura, do qual era a organizadora. Esta obra, fruto de trabalho coletivo, forma parte da bibli- ografia acumulada por esse grupo de trabalho (GT), e por outras pesquisadoras, cujos artigos, ensaios, estudos biográficos, antologias, dicionários e compilações, junto às memórias de seus constantes encontros, em diferentes lugares do país, 12 13</p><p>constituem um acervo substancial. Esse continuum antecede a obra que hoje tenho a Membro incansável do GT Mulher e Literatura, Muzart é ela própria uma honra, a alegria e compromisso de apresentar. De novo uma cubana assombrada pesquisadora atenta e sensível, além de uma promotora cultural entusiasta. Desde as ante a magnitude brasileira. páginas de Travessia, à organização de colóquios e finalmente ao seu atual empenho Volume de mais de 800 páginas, a obra se inscreve no trabalho de arqueologia na Editora Mulheres (junto à não menos incansável Susana Funck), Muzart fez do literária, tão própria da crítica feminista. Porém, não se limita à acumulação cronoló- estudo do século XIX no Brasil mais que uma tarefa, uma devoção. A ela corresponde gica e numérica dos textos de 52 autoras, olvidados ou mal lidos, mas chega à etapa impulso para esta obra ambiciosa e abrangente. superior, a da multiplicação e frutificação, na qual documento perde a pátina, se Tanto ela quanto seu grupo assimilaram as experiências de uma práxis teórica livra da poeira e se vivifica ao ser situado e contextualizado. A obra pertence igual- que no Brasil conta já com resultados concretos. Os estudos de Rita Schmidt sobre mente à tendência de uma crítica feminista interessada no estabelecimento de uma Clarice Lispector, os de Constância Lima Duarte sobre Nísia Floresta, entre outros tradição literária escrita por mulheres: uma literatura própria. Porém vai mais além não menos significativos, permitem falar hoje de uma sólida crítica literária feminista desse propósito, pois, ao mesmo tempo em que contribui para a história da escritura no Brasil, a qual junto aos estudos de literatura comparada, está entre os mais desta- feminina no Brasil, participa da (re)escritura de sua história cultural. cados da América Latina. A organização do corpus é sábia. Os textos resgatados se acompanham por Essa práxis é cimento sobre o qual se levanta Escritoras brasileiras do século uma introdução atualizada e uma minuciosa bibliografia. Desta maneira, texto Dela se derivou o aprendizado que permitiu compreender que não basta, como recebe uma nova luz, pois a escritora brasileira que o apresenta pertence ao século dizia Jean Franco, construir genealogias de textos por mulheres, com uma visão que XX já no início de seu último ano - e de uma perspectiva múltipla: do se limita ao nível temático, pois a teoria feminista não é "simplesmente o estudo de da história das mentalidades e da história cultural. A informação bibliográ- textos escritos por mulheres ou estudo de estereótipos de mulheres", mas que sua fica dá dimensão ao texto, situa-o no conjunto da produção da escritora oitocentista meta deve contemplar uma mudança do estudo da literatura de modo substancial, e da crítica que dela tratou. Labor múltiplo então, de análise e de arquivo, de reflexão "uma leitura da cultura que altere substancialmente os marcos do sistema literário e e investigação, de história da literatura e de história da Labor que preenche nos dê, ao mesmo tempo, novos instrumentos de vazio e elimina silêncio. Desde o momento em que Virgina Woolf, de seu quarto próprio, alertou sobre O eixo do livro é a produção feminina no Brasil do século XIX, porém seu as condições necessárias para que o talento criativo da mulher pudesse surgir, de sua espectro é amplo. A seleção inclui autoras de distintas regiões do país (da Bahia ao reflexão sobre os tópicos típicos aos romances escritos pelas mulheres - como Rio Grande do Sul, por exemplo), com amostras representativas de prosa periodística, resultado do horizonte de visão que podiam então alcançar-, até esta última década ensaio, memórias, narrativa e poesia de autoria feminina; de mulheres que, sobretu- do século XX, a crítica literária feminista trilhou um longo caminho. Do feminismo do ilustradas, buscavam uma via para expressar suas opiniões, visão de mundo ou da igualdade ao feminismo diferença, ao feminismo cultural e até ao pós-feminis- estados de ânimo. Ainda a partir da perspectiva do domus, do espaço privado onde as mo; da ginocrítica a féminine, das escritoras de língua inglesa e européias às virtudes de esposa e mãe eram prioritárias, avulta a inquietude pela superação da afroamericanas, latinoamericanas e caribenhas, do cânone ocidental a sua inseminação mulher, pela necessidade, revelando suas reticências com a autoridade, suas vacila- pela periferia. ções, seus aborrecimentos ou, dito em poucas palavras: sua discussão com poder. A crítica literária feminista no Brasil forma parte dessa história, por direito Tópicos tão importantes como sujeito da enunciação e seu lugar, caráter dialógico próprio. Sua visão e (re)visão do lugar da escritora na história cultural do Brasil, de do texto, sua convenção ou sua transgressão, sua ironia, aparecem como aspectos de sua luta por ter acesso à voz, a partir de suas estratégias discursivas e seu diálogo com uma análise formal que não afasta texto do(a) novo(a) leitor(a), mas antes aproxi- a autoridade e o poder, são uma contribuição ao desenvolvimento da teoria e da práxis ma-o, porque descobre, descodifica e desmumifica. Somente assim pode e deve literária feminista em geral. Por fazer parte da história ocidental e da história da emprender-se trabalho de arqueologia e assim têm compreendido aqueles que, América Latina, no Brasil submetem-se a certas regras em relação aos paradigmas com instrumento idôneo, a pedra, e aquela que os convocou para esta expedi- ção, Zahidé Muzart. 1. FRANCO, Jean. Apuntes sobre la crítica feminista y la literatura hispanoamericana. Hispamérica, a. XV, n.45, p. 33, 1986. 14 15</p><p>expectativas de papéis de e relações com a autoridade. Porém a eratura do país tem sua especificidade e, dentro dela, a escritura da(s) mulher(es), ua. Para a fundação deste universo surge esta obra, que preenche o vazio e faz falar ilêncio. Pedantes e bas-bleus: história de uma pesquisa [Original em espanhol. Trad. Z. L. Muzart] Lupinacci Muzart Mira, Montserrat, si no hablamos nosotras de lo va a hacer? Antonina Rodrigo, 1996 No começo dos anos 80, no intuito de ministrar um curso sobre a presença da mulher na literatura brasileira, desejando incluir escritoras do século XIX, tive a grande surpresa de descobrir a quase total ausência da mulher nas histórias da literatura brasileira. Seria crível que as senhoras brasileiras não tivessem deixado uma linha escrita? Nem um conto, um pequeno poema, um soneto, um acróstico? E do que tivessem, porventura, escrito, nada guardaria algum interesse que merecesse O registro? Esta, a origem da pesquisa da qual só a primeira parte colocamos à disposição dos leitores. Como em todas as pesquisas, uma interrogação gerou a procura por essa parcela esquecida da literatura brasileira e tenta cobrir este vazio. A presente Antologia não é a primeira de mulheres a ser realizada no Brasil, nem poderia ser. No entanto, no século XIX não há antologias de escritoras, mas de escritores homens e mulheres, embora estas, raríssimas. O importante livro de Inês Sabino, Mulheres ilustres do Brasil, traz estudos sobre escritoras, resgata algu- mas, mas não lhes reproduz os No século XX, na mesma linha de Inês Sabino, temos A mulher rio-grandense de Andradina de Oliveira, e a coleção justificadamente importante, Mulheres do Brasil,2 em quatro volumes, organizada por Henriqueta Galeno, livros que estudam muitas mulheres do passado, mas não resgatam seus textos. Como antologias, encontram-se a de Cândida de Brito, Anto- logia feminina;3 a de Alzira Freitas Tacques, Perfis de musas, poetas e prosadoras brasilei- 1. OLIVEIRA, Andradina. A mulher riograndense. série Escriptoras mortas. Porto Alegre: Livraria Americana, 1907. 2. V.V.A.A. Mulheres do Brasil (Pensamento e ação). Fortaleza: Henriqueta Galeno, 1971-1993. 4 volumes. 3. BRITO, Cândida de. Antologia feminina: escritoras e poetisas contemporâneas. 2. ed. Rio de Janeiro: A Dona de Casa, 1929. 16 17</p><p>a de Domingos Carvalho da Silva, Vozes femininas da poesia brasileira, e a de As razões do esquecimento da obra de escritoras como Ildefonsa Laura César, Luzilá Gonçalves que coordenou pesquisa publicada em dois volumes Nísia Floresta, Maria Firmina dos Reis, e tantas outras, passam também pela violen- sobre a poesia de mulheres pernambucanas da segunda metade do século XIX. Para ta mudança nos padrões do gosto na época do Modernismo. Mas não só. Lendo-as, o estudo das escritoras baianas, o livro importante de Afonso Costa, Poetas de outro sem contextualizá-las convenientemente no período da História em que viveram e embora não possa ser classificado de antologia, traz muitos textos de escritoras no estilo dominante que lhes influenciaram a produção e, sobretudo, sem se procu- do século XIX. Há, ainda, muitas antologias individualizadas de escritoras, geral- rar compreender as injunções sociais e políticas que sofreram como mulheres, mente, de poetisas, além de levantamentos vários, listagens e arriscamo-nos a cometer muitas injustiças. Essas pioneiras foram por demais pru- Apesar de desnecessário, é sempre bom lembrar que, no Brasil, a literatura dentes na abordagem e na crítica dos costumes. E, em sua época, isso poderia ter sido feminina somente começa a ser visível e até festejada no primeiro quartel do diferente? No entanto, apesar da distância, ainda se podem ler com outros olhos e século XX. Ainda que singulares e produtivas, nossas escritoras de antes, sobretudo outra compreensão as escritoras do século XIX. Narradoras como Corina Coaraci, as do século XIX, foram sistematicamente excluídas do cânone literário, que, é claro, Carmem Dolores, Maria Benedita Bormann ou Inês Sabino, poetas como a gaúcha era forjado unicamente pela crítica e pela historiografia masculinas. Embora à mar- Rita Barém de Melo, ou a baiana Adélia Fonseca em meio a tantas outras, que agora gem, a literatura feminina foi presença constante, principalmente nos periódicos do O leitor poderá conferir na presente Antologia, podem ser lidas com prazer, nos dias século XIX, tanto nos dirigidos por homens quanto nos inúmeros criados e manti- de hoje. dos por elas próprias. Algumas dessas escritoras foram bem acolhidas por seus O objetivo maior da presente pesquisa foi o de resgatar parte da obra dessas contemporâneos, como a baiana Adélia Fonseca, que, em 1866, mereceu crítica elogiosa esquecidas e, principalmente, mostrar que, apesar da ausência desses nomes nas de Machado de Assis. Temos de reconhecer uma característica da literatura femini- histórias literárias do século XX, elas existiram e foram atuantes, a seu modo, em sua na: ficou muito tempo temerosa da opinião dos cavalheiros. E, assim sendo, compor- epoca. O nosso propósito é exatamente este: o de mostrar que elas existiram, que se tou-se bem, merecendo, em sua época, todos os rapapés devidos às senhoras rebelaram contra o papel "natural" que lhes foi sempre assinalado o do burguesas, sempre permeados pelo "olhar condescendente", tão bem pela confinamento à vida doméstica e desejaram ter suas vozes ouvidas. pesquisadora Sylvia Este livro liga-se com os chamados Estudos da Mulher e com a criação, na A produção de livros de mulheres, ainda que hoje desaparecidos, não foi nada Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Estranhamente, tudo isso foi sendo paulatinamente esquecido a partir ANPOLL, do Grupo de Trabalho (GT) "A Mulher na Literatura", em que apre- do século XX melhor dizer do Modernismo- e, somente com algumas pionei- sentamos vários trabalhos, resultantes da pesquisa sobre as escritoras do século ras como Josefina Álvares de Azevedo, Carmem Dolores e, principalmente, já no XIX, alguns aqui integrados. século XX, com a precursora obra de Gilka Machado, ou a de feministas como Em outros países, já existem, há muito tempo, antologias de escritoras dos Maria Lacerda de Moura, é que a mulher vai partindo não mais cristais mas gri- séculos passados. Cite-se, por exemplo, a Antologia excelente mapeamento das escritoras de língua inglesa. Mas no Brasil, somente agora, estamos descobrindo a literatura feminina do século XIX. Nesses países de maior tradição não é necessário 4. TACQUES, Alzira Perfis de musas, poetas e prosadores brasileiros: Antologia de escritores caminhar muito para encontrar as obras de escritoras do passado. Estão nas livrarias brasileiros e estrangeiros. Porto Alegre: [s. n.], 1956, V. 1. Somente este volume é inteiramente em edições de luxo ou, mais comumente, em pocket book. Não acontece o mesmo entre dedicado às escritoras. 5. SILVA, Domingos Carvalho da. Vozes femininas da poesia Ensaio histórico-literário seguido nós. Daí a razão de a linha de pesquisa, genericamente denominada "Resgate" ou de uma breve antologia. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1959. se ter desenvolvido com muita força, nos últimos quinze anos, e ter 6. Luzilá Gonçalves. Em busca de Poesia escrita por mulheres em Pernambuco no segundo Oitocentismo (1870-1920). Recife: FUNDARPE, 1991 e 1996. V. 1 e 2. desencadeado uma série de dissertações de mestrado, teses de doutorado, e, mais 7. COSTA, Affonso. Poetas de outro Rio de Janeiro: [s. n.], 1930. importante, as publicações das obras das escritoras. 8. PAIXÃO, Sylvia. A fala-a-menos: a repressão do desejo na poesia feminina. Rio de Janeiro: Numen, 1991. Neste livro, a autora chama de "olhar condescendente" a maneira como os críticos literários 9. GILBERT, Sandra M. e GUBAR, Susan. The Norton anthology of literature by women. The tradition encaravam a literatura das mulheres. in New York: W. W. Norton, 1985. 18 19</p><p>O resgate de textos do século XIX obedece a uma dinâmica que exige acima de This palavras que poderiam parecer "jurássicas" têm sua ressonância ainda nos tudo paciência e tenacidade. Às vezes, no início da pesquisa, nem sempre se tem uma dias de No livro de Michèle Le Doeuff, Le sexe du editado em idéia muito clara do que se vai encontrar ou sequer se encontraremos alguma coisa. setembro de 1998, encontram-se muitos exemplos desse tipo de mentalidade sexista. Tudo, em nosso país, para o pesquisador de "velharias", é mais difícil. As bibliotecas Ali comparecem Kant, "Uma mulher que sabe grego é tão pouco uma mulher que não dispõem de pessoal em número suficiente à demanda. As respostas a cartas e ela poderia muito portar uma barba", Spinoza e muitos outros famosos pensadores, telefonemas são demoradas. Em muitos casos, os documentos procurados não se escritores, filósofos. De Platão a Jacques Derrida, de Merleau-Ponty a Luce Irigaray encontram mais nos acervos. A grande colaboração nos vêm dos bibliófilos, essas ("la femme qui s'approchera du théorique perdra sa jouissance"), de Rousseau à criaturas especiais, amáveis, entusiastas e doces que nos têm ajudado constante e psicanalista Helen Deutsch, até teóricas da epistemologia feminista, são muitos a eficientemente. Daí que quem quer que se interesse pela história literária das mulhe- serem citados e duramente criticados. Mas seu livro não é um "livro de mulher", res brasileiras no século XIX, começa por enfrentar os problemas acima apontados, "um livro para mulheres". É um livro que advoga, com veemência, mas sem perder primeiro, e mais importante é o desaparecimento dos textos que escreveram. Tal bom humor, a inserção das mulheres nos "estudos sérios". Se se classificam os ocorrência, para o nosso trabalho foi, sem dúvida, o maior empecilho. livros de Mary Wollstonecraft ou mesmo recente de Le Doeuff nas obras de mulhe- A idéia dominante e muito repetida é a de que as mulheres só entraram para a res, isso é mesmo que não inseri-las nas bibliografias filosóficas e então abalizar a literatura no século XX e, por os séculos anteriores não produziram idéia que deseja uma certa divisão sexual do saber. E é compactuar com uma crítica já escritoras. Tal crença é significativa do estado a que chegou a questão. superada. Hoje, por alto, dos sábios são sábias". O fato de que as mulheres No ensaio "A mulher brasileira na evolução intelectual do Brasil", de 1895, o entraram em massa "no universo das experiências em laboratórios e das simulações escritor Viveiros de discute a ausência da mulher como "inspiradora" das numéricas" não impede que continue a circular a idéia de que as Ciências convêm obras literárias dos escritores. Além de comentar a inexistência de mulheres na vida antes aos rapazes e as Letras às moças (e que rigor e a objetividade seriam mascu- de vários deles, denigre as eventualmente decantadas, como Maria Joaquina Dorotéia linas e O afeto, a subjetividade ou a empatia, femininas). O livro de Le Doeuff, de Seixas, a Marília das liras de Gonzaga, por não ter acompanhado o poeta em seu embora ajude a dissipar tais não é, como possa parecer, um libelo feminis- exílio ("E ela continuou a viver alegre, indiferente, até sucumbir de velhice, desden- ta. O livro nasceu, segundo ela "da perplexidade e do espanto suscitados pelas tada, idiota e feia."), e ainda não se furta de acrescentar, referindo-se ao apreço em leituras e por miúdos incidentes da vida diária ao final do século XX e a extraordiná- que era tida a mulher intelectual na sua época: ria resistência daquilo que vê como um falso problema." Para discuti-lo, a autora faz um mergulho arqueológico e puxa do passado mulheres resistentes que publicaram É completamente nula a influência da mulher no desenvolvimento literário; livros importantes como Christine de Pisan, autora de La cité des dames, no século talvez nem saiba dizer o nome dos nossos romancistas mais distintos, dos nossos poetas e artistas mais inspirados. XV, um livro de incrível modernidade ainda hoje. Da mesma forma, também, procedemos para, do nosso passado literário, ex- Mas, ao lado de tais comentários de um machismo tão explícito, encontram-se trair as esquecidas. A idéia de coletar os escritos das mulheres do século XIX, no reflexões muito verossímeis, demonstrando uma certa compreensão, quando co- início da pesquisa, encontrou sorrisos condescendentes. Para quê, perguntam-se os menta as razões dessa ausência da mulher como escritora e não como inspiradora: partidários da repetição das mesmas idéias recebidas e perpetuadas, "Escreviam tão Aquelas que, rompendo com um meio tão hostil, atrevem-se a cultivar as letras, mal que seria melhor deixá-las enterradas" e outras apreciações de "incentivo". Não fazendo-se escritoras, devem logo resignar-se aos sarcasmos mais pungentes e às desanimamos. Por que estudar sempre os mesmos? Por que trilhar os mesmos chufas mais grosseiras. Contestam-lhes o talento e babam as mais vis calúnias sobre caminhos? Como saber se elas não eram boas se ninguém as leu? E como saber se sua honra de mulher. Raramente recebem uma palavra de animação e, se alguém as existiram se ninguém as cita nas histórias da literatura? saúda, é logo suspeito de ser seu amante. 11. Pesquisadora do CNRS, França, trabalhando em Oxford, professora de estudos feministas na Universidade de Genebra, especialista de Bacon, Michèle Le participou de lutas feministas. 10. Ideias e phantasias. Rio de Janeiro: Cunha & Irmão, 1895, p.85-104. Este livro me foi enviado por Valeria Souto-Maior a quem agradeço a boa lembrança. 12. LE DOEUFF, Michèle. Le sexe du Paris: Aubier, 1998. 20 21</p><p>Em importante estudo, Lúcia em 1954, se espanta com a por códigos burgueses de moralidade e de boas maneiras. ausência das mulheres na Literatura Brasileira. Passando "a limpo" alguns histori- Não pois, estranho que, durante esta pesquisa, fôssemos nos surpreenden- adores, constata que Sílvio Romero, "de seu natural antes derramado e prolixo", em do a cada novo encontro, a cada descoberta, pois, são bastante numerosas as escrito- sua História da literatura brasileira inclui somente sete escritoras e por "nenhuma brasileiras no século XIX, escreveram muito e abordaram todos os gêneros: das demonstra qualquer apreço." Em Sacramento Blake, cuja obra "não teve menor cartas diários, dos álbuns e cadernos aos romances, poemas, crônicas e contos, critério seletivo, abrigando ao contrário toda a gente que houvesse publicado fosse o dramas e comédias, teatro de revista, operetas, ensaios e crítica literária. que fosse, ou até que possuísse apenas escritos inéditos", encontra apenas O nosso projeto teve, pois, uma finalidade, ao recuperar parte da produção da e seis escritoras e conclui: mulher brasileira no século XIX: procurar fazer circular novamente tais escritos, contribuindo para retificar velhas idéias e preconceitos arraigados sobre a pretensa Convenhamos que é pouco, muito pouco mesmo, em quatro séculos, pois o ausência da mulher nas letras nacionais no século XIX. dicionário é de 1899. Ainda descontada a centúria inicial, quando se compunha predominantemente de índias a população feminina do Brasil, a proporção de cin- Andradina de Oliveira, em A mulher riograndense, de 1907, também já assinala qüenta e seis mesquinhas escritoras, de cuja maioria quando muito os nomes chega- as dificuldades de trabalhos, como o do presente livro, pela inexistência de textos e de ram até nós, para trezentos anos, ou seja dezoito ou dezenove por século, é quase informações. ridícula e sintomática. Em nosso país, muito pouco se tem escrito sobre as mulheres que e não são Em 1928, em conferência proferida no Instituto Histórico e Geográfico Bra- poucas! têm saído da linha vulgar. Além do belo livro de Norberto da Silva e do sileiro, no Rio de Janeiro, Ana Amélia de Queirós Carneiro de Mendonça fez um formoso volume de Inês Sabino Mulheres Ilustres do Brasil, nenhum outro retrospecto da literatura feminina desde período colonial. Nesse trabalho de resga- conheço. [...] Sei que este que ora trago ao público, e os outros que surgirão em breve, longe estarão de ser trabalhos perfeitos, mas poderá somente criminar-me te, encontram-se muitas das escritoras que ora apresentamos e também outras. Mas quem, nunca tendo intentado empresa desta natureza, desconheça as dificuldades e não é raro que Ana Amélia também afirme a sua impossibilidade de qualquer comen- os embaraços de que é prenhe. Não ignoro as lacunas que existem nesta obra. tário sobre essas escritoras de nosso passado pela impossibilidade de encontrar a obra publicada. Porém, mesmo assim, essa conferência é um ótimo e criterioso levan- Recuperamos somente as mulheres de letras, deixando de lado quaisquer he- tamento de nomes: roínas, tais como, por exemplo, Dona Maria Úrsula de Alencastro, Clara Camarão, Ana Aurora de Jesus, Anita Garibaldi e muitas outras. Entre os vários textos que Assim foram passando essas Brasileiras sonhadoras, quase sempre incompreendidas, estudaram mulheres do século passado, destacam-se livros escritos por homens, tais quase sempre isoladas em si mesmas, fazendo dessa febre de escrever desabafo dos como Joaquim Norberto, Brasileiras célebres, editado em 1862, Joaquim Manuel de seus impulsos mais íntimos, das suas aspirações mais ardentes. E aos poucos a Macedo, Mulheres célebres, de 1878, Henrique Capitolino Pereira de Melo, sociedade foi compreendendo a missão que cabia às mãos femininas, que podem, além da carícia e da esmola, deixar no mundo a centelha do espírito e da inspira- Pernambucanas Ilustres, publicado em Pernambuco em 1879. Porém, em geral, tais livros dão mais ênfase à mulher guerreira, engajada em lutas e revoluções. No presente trabalho, apesar das lacunas, recupera-se parte da produção lite- A educação patriarcal cerceou de maneira bárbara a vida das mulheres e estiolou rária das brasileiras dessa época. E é tão-somente uma primeira etapa da pesquisa. muitas vocações literárias. Ainda no final do século, a menina Júlia Lopes de Almeida Este volume contempla escritoras nascidas até 1860 e traz 52 nomes. O projeto inicial escondia cuidadosamente seus escritos com medo de que o pai pudesse conhecer sua só visava às do século XIX; no entanto, por sugestão de Eliane Vasconcellos, inclu- atividade aparentemente proibida e, pior, pudesse ler seus No também algumas do século XVIII, cabendo-lhe, por isso, tal pesquisa. mundo masculino de então, as mulheres sempre foram intrusas e a aceitação passava Nos artigos, tivemos a preocupação de fornecer todas as informações 13. As mulheres na Literatura Brasileira. Anhembi, São Paulo, a 5, V. 17, n. 49, dez. 1954, p.17-25. conseguidas, inclusive onde podem ser encontrados os textos das escritoras, publi- 14. MENDONÇA, Ana Amélia Carneiro de. Prosadoras e poetisas brasileiras. Revista do Instituto cados ou inéditos. Aliás, a grande dificuldade deste projeto, e talvez seu maior valor, Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, v.107, n.161, 1930, p.79-104. 15. V. RIO, João do. momento Rio de Janeiro: Garnier, s.d. está, em primeiro lugar, na localização dos textos das escritoras. Para isso, os contatos 22 23</p><p>se fizeram com grande número de bibliotecas, arquivos públicos e particulares, tentes, nos salões e teatros. Mas O outro lado, O de quem produz literatura, que já bibliófilos, institutos de pesquisa e outros. À medida que a pesquisa avançava, en- beirava O profissionalismo, deste a mulher esteve excluída por preconceito, pela contrávamos novos nomes, novos livros, o que a tornou quase interminável. O ritmo religião, pelos limites do papel que deveria desempenhar na sociedade burguesa. foi lento. Fato até paradoxal numa época em que não se pode perder tempo, marcada por Apesar desses impedimentos, no entanto, sabemos que a Inglaterra, por exemplo, mudanças tecnológicas bruscas e constantes, quando as informações via internet são deve mulher O nascimento do romance, no século XVIII. No Brasil, esse percurso abundantes e estão na ordem do dia. Cedo, porém, verificamos que uma pesquisa para as mulheres foi mais difícil. A literatura serviu de válvula de escape do assim, preocupada em revolver escombros e garimpar entulhos, só poderia ser leva- confinamento em que viviam. Algumas tiveram consciência já da literatura como da a cabo com paciência e boa dose de paixão. Os caminhos são tortuosos e o verbo profissão, tal como Nísia Floresta, que escreveu romances, diários, cartas, poemas mais conjugado é esperar: esperar por uma informação bibliográfica, esperar o sempre com objetivo de publicação; como Maria Benedita Bormann, que tematizou resultado de pedidos por carta a sebos e antiquários, esperar por microfilmes de mulher escritora no romance e ainda, no mesmo rastro, Inês Sabino que bibliotecas. Refletindo sobre o desaparecimento dos livros, periódicos, plaquetes das mostrou alta consciência de suas possibilidades literárias e da importância de preser- escritoras e, sobretudo, sobre o estado sempre precário da cultura no Brasil (atual- nomes das outras escritoras, em Mulheres illustres do Mas foram poucas mente mais que nunca!), concluímos sobre a importância primordial da preservação as que puderam buscar essa realização profissional. dos textos dessas mulheres e firmamo-nos, definitivamente, neste primeiro momen- A questão do cânone é estudada por vários autores e pela crítica e teoria con- to, como pesquisa de resgate. Em disso, os textos introdutórios são Na verdade, muito além de um tema recorrente da crítica de hoje é um mais limitados em número de páginas, mas se configuram como artigos e não como tópico feminista dominante e uma questão crucial para nosso trabalho. Nesta pes- simples verbetes. quisa, procuramos discutir as razões da marginalização das mulheres e sua ausência O sistema de pesquisa teve algumas constantes, que destaco. O tempo maior no literário brasileiro. Ao mesmo tempo em que gostaríamos de vê-las inseridas foi dedicado à busca em dicionários, histórias da literatura, periódicos femininos e nas histórias da literatura, não nos agrada vê-las separadas num espaço exclusivo, tal livros de crítica, todos do século XIX, pertencentes a instituições de porte maior: como se encontram na História da Literatura Brasileira, de Luciana Stegagno-Picchio, Biblioteca Nacional, Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, a Funda- recentemente editado no Brasil pela Nova em que temos um capítulo ção Casa de Rui Barbosa, bem como, no âmbito dos estados e das cidades de que intitulado "A escrita das mulheres" e outro, "Poetas mulheres". Também no livro de eram oriundas as escritoras localizadas, a institutos histórico-geográficos, caso hou- Dominique Rincé e Bernard Lecherbonnier, Littérature Textes et as vesse, a academias de letras, bibliotecas e arquivos públicos e igrejas. Quando possí- mulheres estão segregadas num capítulo dedicado somente a elas. Parece-nos que, vel, foram realizadas entrevistas com remanescentes das famílias das escritoras, com embora fique evidente o esforço para incluí-las, para que sejam aceitos os seus no- intuito de resgatar, sobretudo, acervos ainda preservados. Destes, destaco o de mes, há ao mesmo tempo uma divisão que as coloca no limbo. Por isso, a questão do Delminda Silveira, depositado na Academia Catarinense de Letras, por nós organi- linha de força do GT "A mulher na literatura", da ANPOLL é ainda zado; o de Anália Franco, conseguido com o pesquisador Eduardo Carvalho muito pertinente, visto que lutar pela inserção das mulheres no cânone literário é Monteiro; de Corina Coaraci, na Casa de Rui Barbosa, organizado por Eliane uma questão feminista: a inclusão das marginalizadas. Vasconcellos; de Amélia Rodrigues, na Bahia, estudado por Ivia Duarte Alves. A partir deste resgate, há questões instigantes para reflexão como a de analisar Procuramos sempre não apenas reunir as obras obtidas, mas ainda fazer seu estudo as razões de algumas escritoras serem canonizadas e outras, apesar da excelência de crítico e discutir sobre sua inserção no cânone. sua obra, permanecerem no rol das "esquecidas". É curioso e suscita muitas interro- O século XIX é o século da literatura no mundo, e no Brasil não foi diferente. gações. No presente livro, podemos constatar esse fato no estudo da pernambucana A literatura exercia como nunca sua função social: os escritores eram respeitados, as conferências literárias, um acontecimento social. A da literatura privilé- 16 STEGAGNO-PICCHIO História da Literatura brasileira. Trad. Pérola de Carvalho e Alice Revisão e atualização bibliográfica de Paulo Roberto Dias Pereira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, gio das classes mais altas constituía uma importante vertente de lazer e cultura da A primeira edição italiana deste livro é de 1972. A presente edição foi revisada e atualizada. a primeira edição em português. qual as mulheres não estavam excluídas, como leitoras, como ouvintes, como assis- Litterature: textes et documents. XIXe Paris: Nathan, 1986, p. 277-98. 24 25</p><p>Rita Joana de Sousa (1696-1718), sobre quem Eliane Vasconcellos levantou uma a emergência desses nomes tem desencadeado uma verdadeira desarticulação da enorme bibliografia de 21 títulos e de quem não se obteve uma linha sequer... Outro visão canônica de nosso passado literário, especialmente no que se refere aos pressu- exemplo é o da gaúcha Maria Josefa Barreto, nascida por volta de 1786. Esta poetisa postos holísticos de verdade, significado e valor que a tradição dominante elevou à é citada em 14 artigos ou verbetes; dela, porém, só um poema foi encontrado. Por que categoria de universais atemporais e que sustentaram, até hoje, a sua algumas entram no gosto dos críticos, mesmo sem nenhuma prova de sua atuação literária e outras com vários livros desaparecem? A pergunta intriga, sobretudo O resgate de nossas primeiras escritoras deverá mudar a historiografia oficial quando, lendo os textos de algumas canônicas e os de algumas esquecidas, não que só levou em conta o corpus de textos canônicos e, mais importante, deverá podemos atinar muito bem com as razões dessa preferência. mudar nossa maneira de encarar a própria História. É claro que uma concepção Perto da produção masculina, podemos dizer que as mulheres pouco publica- muito estreita da literatura nos levaria a deixar de lado práticas escriturais que não ram, contudo não escreveram pouco. Entre as várias razões para a não canonização concordassem com concepções mais restritas do literário. Perguntar-se das razões das escritoras do século XIX, tem sido muito importante gênero literário. Na do resgate de certos textos tão fraquinhos configura uma atitude preconceituosa, pois, aceitação de uma mulher escritora, essa questão não foi nada Verifica-se é preciso e analisá-los levando-se em conta todas as razões segregacionistas de que as poetisas foram, em geral, aceitas, mesmo que apenas com benevolência, e isolamento e silêncio. Sobre isso, nada melhor do que deixar falar uma batalhadora, algumas até respeitadas, como Narcisa Amália, não só citada e criticada em sua época, a dramaturga Maria Angélica Ribeiro, que, em 1866, no prólogo à peça abolicionista mas até hoje mencionadas pelos nossos historiadores, mesmo que incluída entre Cancros diz o seguinte: os menores. O mesmo se pode dizer de Francisca Júlia. Dos gêneros escolhidos pelas Sei que uma mulher, especialmente, pobre, não pode elevar-se a certas regiões. O mulheres, são as dramaturgas e as narradoras as mais esquecidas. Mulheres com despeito de uns, a intolerância de outros, a injustiça de muitos, e sobretudo, a calúnia importante bagagem como Maria Benedita Carmem Dolores e outras sempre ávida de vitimar a fraqueza feminina, cedo ou tarde, com aleives e injúrias, foram omitidas da historiografia literária por razões que se misturam com o código lá a despenham dessas alturas, se porventura soube atingi-las. da moral burguesa. Cumpre-nos obedecer aos homens! Verificou-se, pois, em levantamento da crítica da época, que as poetisas, desde A mulher brasileira, se não quer sujeitar-se ao escárnio dos espirituosos e às censuras mordazes dos sensatos, não tem licença para cultivar seu espírito fora das que dentro dos limites impostos pela sociedade, obtiveram um certo apoio da crítica raias da música ao piano, e das de algumas frases, mais ou menos estropeadas, de e algum espaço para sua produção, principalmente nos periódicos. E isso é facilmen- línguas estrangeiras! As européias, sim, essas inteligentes e talentosas podem estu- te explicável pela temática nobre utilizada, sempre dentro do âmbito dos sentimentos dar e escrever; poetar ou compor dramas e romances; podem satisfazer às ambições familiares. Ao questionar-se cânone, descobre-se que corpus da literatura, tal da sua alma, ter culto e conquistar renome... como para o período colonial em sua relação com a está ainda se constitu- Entre nós, não, que nada disso se pode dar! O que sai de lavra feminina, ou não indo devido às descobertas de vozes silenciadas de mulheres, no século XIX ou em presta, ou é trabalho de homem. E nesta última suposição, vai uma idéia oculta e séculos anteriores. Nos últimos anos, sob o influxo da linha de pesquisa Literatura e Mulher, Maria Angélica Ribeiro, inteligentemente, vislumbrou a questão: a de que ser tem-se efetuado resgate de muitos livros de muitas que a historiografia ou não respeitada é sobretudo uma questão ideológica. oficial havia ignorado. Segundo Rita T. Schmidt, 18. CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira momentos 5.ed. Belo Horizonte: 22. V. Repensando a cultura, a literatura e o espaço da autoria feminina. NAVARRO, Márcia Hoppe Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975, 2 p.254. V., também Alfredo Bosi. História concisa da Literatura (org.). Rompendo gênero e literatura na Latina. Porto Alegre: UFRGS, 1995. São Paulo: Cultrix, 1975, p.137. 23. Esta peça foi encontrada por Andrade Souto-Maior, a quem agradecemos envio de cópia. 19. Sobre essa escritora, V. a tese de doutorado de Norma Telles. Encantações. Escritoras e imaginação 24. Cancros Sociaes. Drama original em cinco atos. Representado pela primeira vez em 13 1865. Rio literária no Brasil, século XIX. São Paulo: PUC/SP, 1987. Mimeo. de Janeiro, Eduardo e Henrique Laemmert, 1886. A nota introdutória não traz título. apenas encimada 20. PIZARRO, Ana. Palavra, literatura y cultura en las formaciones discursivas coloniales. In: Ana por uma dedicatória "A Exma. Senhora Da. Violante de Bivar". Aproveito para assinalar que Maria Pizarro (org.). Palavra, Literatura e Cultura, Campinas: UNICAMP, 1993, 1, p.19-37. Angélica Ribeiro não é citada no Dicionário Literário Brasileiro de Raimundo de Meneses, 2a edição de E, quando foi, em outros estudos e/ou dicionários, não deixamos de ler a nota "importante": seu 21. MUZART, Zahidé L. Pesquisa: Mulher século XIX. Brasil/Brazil, Porto Alegre, n. 9, p.124-27, 1993. casamento com o cenógrafo João Caetano Ribeiro. 26 27</p><p>ALGUNS CRITÉRIOS: 4. Optamos por não dar significado de vocábulos dicionarizados, por mais desusados e desconhecidos. os significados prováveis dos não dicionarizados Na escolha das escritoras, procuramos contemplar a todos os estados brasilei- figuram em nota de ros, mas nem sempre isso foi possível pela falta de material. Incluímos escritoras não brasileiras, como Joana Paula Manso de Noronha e Maria Benedita de Oliveira 5. Há divergências no uso do feminino "poetisa" no lugar de "poeta", usual Barbosa (Zaira Americana) ambas nascidas na Argentina, bem como Adelina Lopes nos dias de hoje. A maioria das colaboradoras optou pelo feminino gramaticalmente Vieira, nascida em Portugal, porque viveram quase toda a vida no Brasil e aqui correto, sobretudo porque no século XIX era aquela a palavra costumeira e não publicaram. Excluímos, no entanto, a escritora Teresa Margarida da Silva Horta, "poeta". autora de Aventuras de Diófanes, pois, embora nascida no Brasil, viveu sempre em Portugal e lá publicou toda a sua obra não tendo uma obra "representativa da mentalidade feminina de seu A dos artigos segue a ordem cronológica de No entan- to, há algumas escritoras de quem desconhecemos a data exata em que nasceram. Mas sabemos as datas de publicação de livros. Na organização do índice, preferimos incluir essas escritoras em data aproximada, calculando um tempo entre a data de publicação de obras e a provável data de nascimento. Preferimos privilegiar no nome do livro o século XIX e, aparentemente, es- quecer as três escritoras de séculos anteriores - Rita Joana de Sousa, Ângela do Amaral Rangel e Bárbara Heliodora. E isso porque todas as outras 50 escritoras ou são nascidas no século XIX ou, mesmo que no século XVIII, como Maria Josefa Barreto, Maria Clemencia da Silveira Sampaio, Beatriz Brandão, Delfina Benigna da Cunha e Ildefonsa Laura César, somente publicaram suas obras no século XIX. Não há uniformidade no tamanho dos artigos. Isso se deve à quantidade de material obtido. Algumas escritoras, apesar de uma fortuna crítica até importante, não apresentam obra publicada, ou melhor, não são mais encontráveis os seus textos. A transcrição dos excertos das obras realizou-se de acordo com os seguintes critérios: 1. Atualizamos, de acordo com as normas ortográficas vigentes, todos os tex- tos, bem como os nomes e sobrenomes das escritoras. Neste caso, por exemplo, Luísa, Ana em vez de Luiza, Anna. As exceções ocorrentes se devem a preferências das articulistas, que respeitamos; 2. Mantivemos os estrangeirismos em itálico tal como na edição consultada; 3. Respeitamos a pontuação da autora mesmo em casos que, hoje, nos pareçam contrários à norma, mas corrigimos alguns erros óbvios; 25. As mulheres na Literatura brasileira. Anhembi, a 5, n. 49, V. 17, dez. 1954, p.24. 28 29</p><p>E que para ter uso só precisam De conhecidos ser, de ser provados; Têm as Montanhas diversos minerais, Abundância de gemas, e metais, Que para ter uso querem ser buscados: Delfina Benigna da Cunha Os grandes Rios, que o País dividem, Por quem gira o Comércio, e a abundância, Carecendo de pontes, e de Barcas Rita Terezinha Schmidt Se tornam quase sempre É só minha ventura, e meu desejo Se quisésseis, Senhora, Protegê-la Com o nome de vossa; oh quão ditosa! Então me chamaria, oh quão ditosa! Se a Pátria, que amo tanto, adquirisse Delfina Benigna da Cunha nasceu a 17 de junho de 1791, na Estância do Eficaz Proteção, esplendor tanto! Pontal, município de São José do Norte, Rio Grande do Sul, filha do capitão-mor de Se não me é dado que beijar-vos possa origem portuguesa Joaquim Francisco da Cunha Sá e Meneses. Muito embora A Benfazeja Mão, como desejo, tenha sido privada da visão aos 20 meses de idade, durante uma epidemia de varíola Mesmo por fé distante vos adoro, que assolou a região, e, por isto, mais tarde, cognominada a cega, dedicou-se aos Vos Saúdo, vos louvo, e bem vos digo estudos, revelando uma inteligência e um estro poético surpreendentes ao começar a Esperando de vós seguro abrigo. compor versos aos 12 anos. Ah! praza o Céu, que a face da discórdia, Com a morte de seus pais, vendo-se desamparada, Delfina se apresentou na Banida para sempre destes Climas, Corte em 1826, tendo obtido de D. Pedro I uma pensão anual que lhe assegurou a Nunca perturbe os dias venturosos sobrevivência. Durante a eclosão do movimento farroupilha (1835-1845), Delfina, Dos Nossos Imperantes sempre amados, que era monarquista e acusara os revolucionários de "anarquistas", em poemas Que em paz a nossa dita só promovam, publicados na sua primeira obra, Poesias oferecidas às senhoras rio-grandenses, refu- a par da Excelsa Prole Americana, giou-se no Rio de Janeiro. Como auxílio da Coroa se mostrava insuficiente, vários Que é do Brasil ventura, esperança. e glória espetáculos em seu benefício foram realizados. Em muitos de seus sonetos laudató- Irão seus Nomes ao Templo da memória, rios, Delfina registrou a sua gratidão aos caridosos membros do círculo imperial, E, criando um Império sem segundo, bem como à sociedade que possibilitara a publicação, em duas edições, de sua segun- Novo Mundo farão do novo mundo. da obra: Poesias oferecidas às senhoras brasileiras por sua patrícia, Rio de Janeiro; a terceira, Coleção de várias poesias dedicadas à imperatriz foi viabilizada graças à contribuição de 130 assinaturas colhidas em suas viagens pelas cidades de Parati, Lorena e Campos. Delfina faleceu na cidade do Rio de Janeiro a 13 de abril de 1857, com 66 anos de idade. É considerada a primeira mulher brasileira a editar um livro de poesias, sendo este o primeiro publicado em prelos sul-rio-grandenses. Muitos de seus poemas foram reproduzidos na publicação Parnaso brasileiro, do cônego Januário da Cunha Barbosa, editado no Rio em 1830. 118 119</p><p>Segundo Guilhermino César, sua poesia registra a "fisionomia moral da mu- Vinte vezes a lua prateada lher afetuosa e infeliz, flor bizarra de um acampamento de guerra" digna de admi- Inteiro rosto seu mostrado havia, ração, ternura e compaixão "em face da tenacidade com que ela, vencendo preconceitos, Quando um mal, que eu sofria, o ambiente, a cegueira, a pobreza, se criou uma reputação Me tornou para sempre desgraçada: Num período em que os ideais políticos agitavam os pampas sulistas, onde a literatura era, então, tida como um meio para expressar sentimentos, ou legalistas ou Da luz de Febo sendo então privada, surge a poesia de Delfina Benigna da Cunha, cuja primeira obra Cresceu a par comigo a mágoa impia; Desde a infância a mortal melancolia inaugura a poesia culta no Rio Grande do A par desse fato importante para a Se viu em meu semblante debuxada. historiografia literária, cabe registrar o papel de Delfina Benigna da Cunha como precursora das mulheres letradas sul-rio-grandenses, pois, ao escrever "em pleno Sensível coração deu-me a Natura, fastídio do patriarcado imperial", nas palavras de Guilhermino César, "quando os E a fortuna cruel sempre comigo, homens reservavam outro sexo exclusivamente para as delícias do gineceu", Me negou toda a sorte de ventura: o seu fazer às leis das convenções sociais e seu lirismo aos gritos de guerra. Nem sequer um prazer jamais consinto, Muito embora cega desde a infância, Delfina adquiriu, com provável apoio e E para terminar minha amargura, auxílio dos pais, uma sólida formação intelectual enraizada na tradição da cultura Me aguarda o triste, o sepulcral jazigo clássica, cuja influência se traduz na presença de elementos árcades que perpassam sua obra. É essa mesma condição físico-existencial, em sua inexorabilidade, Em um outro soneto, ao dirigir-se humildemente aos leitores, que responde por um outro traço característico de sua poesia que é a exploração de vessa as estrofes lamenta a sua sorte em uma linguagem despretensiosa temas românticos onde a subjetividade transborda em estados de alma impregnados subserviência a ideários estéticos. A palavra, nascida da falta, pela tristeza e melancolia. consolo, o destino em poesia: Do ponto de vista formal, Delfina Benigna cultivou o soneto, a epístola, as quadras, as oitavas e as A sua poesia situa-se em um momento de transição Em versos não cadentes, leitores, em que os ingredientes do Arcadismo, tais como a simplicidade e o equilíbrio Vereis os males meus, vereis meus danos: expressional e o apreço pela convenção pastoral, que coloca em relevo a natureza Da Primavera as galas e os verdores como base da harmonia e da sabedoria, vão, aos poucos, cedendo terreno para uma Nem foram para os meus primeiros anos expressão carregada de um individualismo mais confidencial e sentimental que con- figura, nitidamente, o que veio a ser lirismo Mesmo infância expr'rimentei rigores De meus fados cruéis sempre inumanos, Por lhe ser vedada a visão do mundo exterior, Delfina explora a paisagem Que só me destinaram dissabores interior matizada pela dor da perda, como nos versos deste soneto antológico onde as Mil males revolvendo em seus arcanos. polarizações natureza/subjetividade, exterior/interior se diluem em uma intensidade suave, doída e definitiva: Sem auxílio da luz, qu' Apolo envia, Versos dignos de vós tecer não posso; 1. da literatura do Rio Grande do Sul (1737-1902). Porto Alegre: Globo, 1955, p. 102. Desculpai minha ousada fantasia. 2. João Pinto da Silva em sua Historia do Rio Grande do Sul (Porto Alegre: Globo, 1924, p.41) escreve: "cronologicamente primeiro livro rio-grandense que se publicou, foi, talvez, o da poetisa Delfina B. da Cunha, a cega, datado de 1834." Walter Spalding, em do Rio Grande, II, (Porto Com estes cantos meus, mortais, adoço Alegre: Globo, 1933) corrobora a afirmação. A mágoa que o meu estro só resfria: p.71. 3. CÉSAR, da literatura do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1955, Se mérito lhe dás, é todo vosso. 120 121</p><p>Das muitas opiniões críticas emitidas sobre a obra de Delfina, convém destacar repúdio a seus poemas "engajados" ou anti-farroupilhas, e o demérito dado aos passos e que deixava à mostra as limitações inerentes a esse processo. Exigir de uma poemas de ocasião, isto é, poemas elaborados com a finalidade de cantar virtudes de obra que ela, em função de sua inserção em determinadas coordenadas histórico- estéticas, não pode oferecer, é uma questão no mínimo polêmica, que deve ser coloca- pessoas ou acontecimentos tais como bodas, morte e nascimento, enfim, a poesia da em pauta no quadro do revisionismo crítico da literatura produzida por mulheres como instrumento Sem que se queiram desmerecer tais juízos críticos, faz-se, todavia, necessário contextualizar a prática poética de Delfina para entendê- da própria história literária. Em defesa de Delfina Benigna da Cunha, cabe citar Sabino: "No tempo em que ela existiu, a poesia era a expressão do sentimento; la, não somente em suas imperfeições, mas também em sua singular arte não via-se julgada severamente como agora, que o império da forma subjuga a Conquanto período da Revolução Farroupilha fosse de forte agitação intelec- tual, o atraso cultural da província se tornava patente na imaturidade literária dos Por outro lado, os poemas de ocasião, com seus temas laudatórios, podem ser primeiros (e inúmeros) poetas que "raramente ousaram ultrapassar o considerados sob o prisma de Domingos Carvalho da Silva: deve ter sido camoniano ou a redondilha mais de gosto popular" e que apareceram em cena vida dessa criatura, agarrada à lembrança deformada das vagas imagens que pôde justamente nesse momento histórico, integrando chamado ciclo farroupilha. Deste fixar apenas nos dias mais tenros de sua existência [...] Talvez tenha sido esta a razão ciclo faziam parte o grupo farroupilha, significativamente numeroso, e o grupo imperial, pequeno mas ilustre, ao qual o crítico Guilhermino César associa o nome de de sua fuga para os temas laudatórios: isolada pela cegueira, procurava ser amável Delfina B. da Monarquista e leal à Coroa, por força de suas circunstâncias que pressentia ao São dignos de nota seus poemas de gratidão familiares e pessoais, era natural que não visse com simpatia a insurreição dos "repu- dirigidos a D. Pedro I e que aparecem já em sua primeira obra, publicada em 1834. blicanos". Em 1826 e 1833, Delfina sofre a dura perda do pai e da mãe, respectivamente. Desamparada, foi à corte imperial implorar a D. Pedro I um auxílio que lhe permi- Os anátemas contra Bento Gonçalves e seus companheiros, acusados de anar- tisse sobreviver. Encantado com soneto que lhe foi dirigido, o monarca mandou quistas em um soneto, que, segundo crítico Donaldo Schüler, "não mostra mais do dar a Delfina uma pensão vitalícia, em recompensa aos serviços prestados por seu que os sentimentos de uma mulher marcam um posicionamento que, ante os horrores da "sanguinosa guerra", se quer claro, firme e Se a ideo- pai, capitão-mor da guarda portuguesa. Os versos do soneto-apelo desvelam a força de sua necessidade: logia que o sustenta não convém ou é contrária aos interesses de quem o ou, se tratamento do tema evidencia indicativos de que a poeta não soube avaliar a comple- Quem te fala, senhor, quem te saúda, xidade histórica do conflito, essas não são razões suficientes para reduzir poema à Não vê raiar de Febo a luz brilhante, expressão de uma mulher enfurecida. Dá-lhe pio agasalho um breve instante, Na verdade, em sua poesia politicamente comprometida, Delfina constrói um Seu fado imigo, em brando fado muda: texto combativo ao estilo épico em um momento fundacional da literatura sul-rio- grandense e esse fato, importante por si só, não pode ser neutralizado em função de Com a irrupção da revolução de 1835, Delfina deixou Rio Grande do Sul uma ideologia partidária ou ideologia de gênero. O crítico acima referido, em sua para fixar residência no Rio de Janeiro onde granjeou muitas amizades, entre as análise de alguns sonetos de Delfina, aponta para a falta de reelaboração de uma quais a da poeta Beatriz de Assis Brandão, passando a conviver com um seleto linguagem que acaba submetida "ao boleio registra "a fraseologia círculo intelectual. A Musa Cega, como a chamavam, teve sua descrição feita por declamatória" e a presença de "idéias vulgares e adjetivação retumbante". Tal juízo Andradina de Oliveira: crítico, por procedente que seja, ignora o fato de que se a arte de Delfina foi uma arte Tinha um porte elegante a bela rio-grandense, realçado pelo negro vestido de menor, ela foi no contexto geral de uma literatura que ensaiava seus primeiros longa cauda, que lhe emoldurava o corpo plástico. A cabeça formosíssima, sempre envolta numa mantilha de rendas pretas, dava-lhe um quê de casta e sedutora graça, 4. CÉSAR, Guilhermino, op. cit., p.71. 5. In: A poesia no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987, p.61. 6. Donaldo, op. cit., p.60. 7. In: Mulheres illustres do Brazil. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1899, p.222. 8. Vozes femininas da poesia brasileira. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1959, p.10. 122 123</p><p>ESCRITORAS BRASILEIRAS DO SÉCULO XIX DELFINA BENIGNA DA CUNHA quando jovem, e um ar senhoril, grave, respeitoso, quando no jogo formal, seu lirismo alcança a mais alta expressão: Segundo Andradina de Oliveira, Delfina após a publicação de sua segunda Quem como tu, Elmano, agradar pode obra em realizou várias viagens, inclusive à Bahia, durante as quais colecio- Ao terno sentir meu tão delicado; nou assinaturas que viabilizassem suas publicações. Apresentou-se também em es- Teu trato melindroso, teu agrado petáculos em seu benefício, pois, como o auxílio pecuniário da coroa não era suficiente, Faz com que tudo hoje m'incomode: via-se constrangida a apelar para a caridade da sociedade carioca. Como bem obser- Se teu gênio sensível não me acode Pedro Maia Soares, "apesar da situação peculiar, não se pode negar que Delfina Em tão penoso, e miserando estado, tentava sobreviver à custa de seu trabalho É nesse contexto que a Meu débil ser verás aniquilado retórica dos poemas laudatórios devem ser julgados, inclusive os de sua tercei- Por esse mal, que a sorte quer que rode. ra obra, de 1846. Os poemas desta, em sua maioria, são cantos de lamento pela morte de seu protetor, D. Pedro I: E pode ser mortal quem era numen? Outras, são as oitavas Do mundo resto me magoa, e cansa, dedicadas ao triunfo constitucional em Portugal e aos membros da casa real. Com Só tu me dás prazer, gentil Elmano, Fazendo renascer minha esperança. relação a estes, a própria Delfina prepara seus leitores: são versos de gratidão, contra a vil adoração. Mas ai de mim! se acaso por meu dano Os versos mais marcantes de Delfina são os que tematizam amor: amor Em teu sensível peito houve mudança, impossível, ditame da natureza que combate toda a razão. A sua desenvoltura Extingue com a vida mal tirano. expressional, liberta dos artificialismos, prenuncia advento do Romantismo, como na décima: A obra de Delfina B. da Cunha foi referida em termos en importantes intelectuais brasileiros tais como Barros Vidal, Inês Sab Até Júpiter senhor de Oliveira, e Sacramento Blake. João Pinto da Silva, por exemplo, De tudo quanto há criado Estreitamente é ligado à poeta francesa Marceline Desbordes-Valmore, nestes termos: À natureza, e amor: Por uma curiosa disposição de acústica psicológica, Delfina ] assim, no Rio Grande bárbaro, no começo do século XIX, sem o Se este Deus tão sup'rior mente, o eco dos maravilhosos acordes da grande lira de Desboro Viveu sujeito à paixão, Paul Verlaine, em página fulgurante e justa colocou entre Safo e Como há de meu coração Libertar-se deste mal, Se o amor com arma fatal interessante, ainda, citar as palavras do crítico e historiador Combate a minha razão? Nenhuma outra também soube manter fogo sagrado da poe Dentro de sua amargura, desponta um amor platônico, silencioso, a sua paixão tão castos fulgores [...] o exemplo materno, a educação religiosa e secreta por Manuel Marques de Sousa, depois Conde de Porto Alegre, referido nos de pudor afastaram esses delicados pés das urzes do caminho sonetos como Elmano. É nesses momentos que, ao feitio dos árcades, mas sem recair das poetisas, desde Safo, que deu nome à efemeridades das da atualidade, que, se não dizem coisas tão nuas e cruas como 9. In: A mulher sul rio-grandense. 1. serie, Escriptoras mortas. Porto Alegre: Livraria Americana, 1907, volume, mal disfarçam a nudez impura de seus desejos sobre o vé p.19-20. um simbolismo 10. Trata-se de Poesias oferecidas às senhoras brasileiras, que teve duas edições. Esta obra não é citada pelo crítico Guilhermino César. 11. Feminismo no Rio Grande do Sul. In: São Paulo: Brasiliense; Fundação Carlos Chagas, 12. SILVA, João Pinto da, op. cit., p. 43. 1980, p. 13. TEIXEIRA, In: Os Rio de Janeiro: Leite Ribeiro e</p><p>Com exceção de Guilhermino César, é curioso O fato de que os críticos contem- biográfico de Delfina Benigna da Revista porâneos não se inclinem a considerar a obra de Delfina Benigna da Cunha como série, tendo mérito literário. Domingos Carvalho da. Vozes femininas da poesia brasileira. São Paul p. OBRAS João Pinto da. do Rio Grande do Sul. Porto Alegre Pedro Feminismo no Rio Grande do Sul. In: BRUSC Poesigs oferecidas às senhoras rio-grandenses. Porto Alegre: Typographia de Fonse- Fúlvia (Orgs.). Vivência. São Paulo: Brasiliense; Funda ca,1984. Localização: Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Walter. Construtores do Rio Grande. Porto Alegre: Sulina, 19 do Rio Grande. Porto Alegre: Globo, 1933, V. 2. Poesias oferecidas às senhoras brasileiras por sua patrícia. Rio de Janeiro: Typographia Os Rio de Janeiro: Leite Ribeiro & Maurill Austral, 1838. Precursoras brasileiras. Rio de Janeiro: A Noite, [s.d.], Collecção de várias poesias dedicadas à imperatriz Rio de Janeiro: Typographia Universal de Laemmert, 1846. Localização: Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, RJ. BIBLIOGRAFIA BARBOSA, Januário da Cunha, Côn. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1831. BECKER, Marília Beatriz Delfina Benigna da Cunha.In: 50 anos de literatura. 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Do livro Poesias oferecidas às senhoras rio-grandenses: Em versos não cadentes, ó leitores, Vereis os males meus, vereis meus Soneto Da Primavera as galas e os verdore Nem foram para os meus primeiro Vinte vezes a lua prateada Inteiro rosto seu mostrado havia, Quando um terrível mal, que eu sofria, Mesmo n'infância exp'rimentei rig Me tornou para sempre desgraçada: De meus fados cruéis sempre inur Que só me destinaram dissabores Da luz de Febo sendo então privada, Mil males revolvendo em seus Cresceu a par comigo a mágoa impia; Desde a infância a mortal melancolia Se viu em meu semblante debuxada. Sem auxílio da luz, qu'Apolo envi Versos dignos de vós tecer não po Sensível coração deu-me a Natura, Desculpai minha ousada fantasia. E a fortuna cruel sempre comigo, Me negou toda a sorte de ventura: Com estes cantos meus, mortais, a Nem sequer um prazer jamais consinto, A mágoa que o meu estro só resfr E para terminar minha amargura, Se mérito lhe dás, é todo vosso. Me aguarda o triste, o sepulcral jazigo. 128 129</p><p>Glosa Se o amor De que me serve a existência, De dia em dia Vivendo em contínuo pranto, Se a ausência o não Sem gozar o doce encanto Se com ele em pra De um puro amor por essência: Sem encontrar len Se encontro a morte na ausência, Suspiros aos Tu, vida, não me convéns, Sempre, e não de Amor, se só te entreténs Eu maldigo o Em me fazer desditosa, Pois por lei do inj Findar-me a vida penosa Ausente vivo penan morte, por que não vens? morte, monstre Vibra a foice assacalhada Seva em mim tua Descarrega o golpe fero E do Letes, na pa Neste peito que, não quero Eu esqueça meu A minha alma apaixonada Suspiros de cento Se nutre de pranto, e ais, Que de meu peit Não consintas qu'eu jamais Ide ao melhor do Da vida as prisões suporte, Dizei-lhe o que e Vem depressa, vem, ó morte, Que intento mor Findar meus dias fatais. Morrendo não pen 130 131</p><p>Soneto Soneto Ao senhor Antônio José de Araújo, despedindo-se a Autora do Rio de Janeiro para a sua província Quem como tu, Elmano, agradar pod Ao terno sentir meu tão delicado; A Deus, adeus, é pois forçoso Teu trato melindroso, o teu agrado Separar-me de ti, ó que agonia! Eu encaro tremendo a ausência ímpia, Faz com que tudo hoje m'incomode: Que ralar vai meu peito Se teu gênio sensível não me acode, Teu terno coração sempre extremoso; Em tão penoso, e miserando estado, Sensível à amorosa simpatia, Meu débil ser verás aniquilado Quando meu coração pranto vertia, Por esse mal, que a sorte quer que ro Também vertia pranto amarguroso: Do mundo resto me magoa, e cansa Mas deste bem privar-me quer a sorte: Só tu me dás prazer, gentil Elmano, Cumpra-se a dura lei do Fado imigo, Fazendo renascer minha esperança. Que a seu despeito espero a fera morte. Mas, ai de mim, se acaso por meu da Tu, ó filha da ausência, sê comigo, Em teu sensível peito houve mudanç Saudade insaciável, triste, e forte, Extingue com a vida mal tirano. Que eu só desejo agora estar contigo. 132 133</p><p>Soneto Soneto Por ocasião da morte da mãe da Autora. Ao Augusto Senhor D. Pedro I, agradecendo um b Hórridas sombras, copioso pranto! Sede minha constante Abrasa por Ti num fogo intenso, Perdi materno amor, oh! mágoa impia, Minha alma exulta, e de prazer, se inflama; Que era dos dias meus suave encanto. E o gozo que as vozes se derrama A todos conta Teu favor extenso: Envolta em triste, em lutuoso manto, Melpômene baixai à terra fria, A Ti da gratidão voa o incenso, Onde repousa a virtuosa Armia, Por mim lançado na mais pura chama: E ajuda-me a soltar funéreo canto. Esmalte do Brasil, honra da fama, Maravilha no céu, Numen imenso. Quem era já não sou, mortal tristeza Enche meus dias de sombrio luto, Se eu do Trácio Cantor tivera a lira Deserta sinto toda a Natureza. Cantara os feitos Teus em Délio verso; Porém meu estro em vão a tanto aspira. Minha dor, minha mágoa só escuto E da magra saudade infausta presa Foi vencido por Ti meu fado adverso Meus ais, meu pranto à cara mãe tributo. Completa paz minha alma hoje respira, E Tu, Senhor, sem par és no Universo. 134 135</p><p>Se a minha am Por se ver de Quadra Contente you O ar que ela r Mas se enfada Gosto de amar, amando, De meu amor Confesso minha fraqueza; Sinto em mim crime não é só meu, Que não poss É também da natureza. Chego de má Confesso minha Quando em la Amor aos Com Glosa Da vida os m Mil instantes Muito embora contra amor Já amor me Clamem mortais desvairados; Vi, 6! bela, o Esses entes desgraçados Senti de amo Vivem sempre em, dissabor. Se como réu Uma flor, e outra flor crime não é Num vergel ameno, e brando Docemente propagando Eu não fiz Nos dão lições amorosas; Da natureza Bem como as flores ditosas E se um De Gosto de amar, amando De amar me Eu sei que o Provém de is Mas se do De amar um Não é só me É também 136 1</p><p>Quadra Maldição te seja dada 2. Do livro Coleção de várias poesias dedicadas à imperatriz Bento infeliz, desvairado, No Brasil, e em toda a parte Soneto Será teu nome odiado. Feito por ocasião da revolução da Província do Rio Grande de São Pedro do Sul, quando Partido Legal pretendeu sufocá-la em fevereiro de 1836. Glosa Nos antros infernais raivoso expira O monstro da feroz democracia, A ti qu'um punhal violento Exulta triunfante a Monarquia Gravaste na pátria aflita, Enquanto a torva fúria a cauda estira. A ti a quem sempre irrita Da virtude o luzimento, a ti que dás o tormento Ao pé da sacra, da fumante Pira Dessas infernais moradas, Se desfazem os raios d'anarquia, Que tens feito desgraçadas E do traidor enorme, a rebeldia A mil famílias de bem, Nos peitos dos mortais só o ódio inspira. Do alto Céu como a ninguém te sejam dadas. O que é vão por si mesmo aniquila, Floresce a causa da Legalidade Chovam sobre ti os raios E se arroja no abismo o novo Cila Da Divina Providência E seja tua existência Existirá sem quebra a majestade Passada em frios desmaios; Todos sabem, ninguém jamais vacila Nos mais cruentos ensaios Que não há entre os homens igualdade. Sempre estejas engolfado, Por querer do fado Todos os males te assaltem Té que os alentos te faltem Bento infeliz, desvairado. 138 139</p><p>Tributo de Gratidão Que ao generoso Público desta Capital, por ocasião do seu benefício no Teatro de S. Januário, Recuse a terra ensopada a 26 de maio de 1840, oferece a desditosa Em sangue, por ti, perjuro, Dar a esse corpo impuro Uma obscura morada; Eis-me outra vez, Congresso benfazejo, Toda a gente horrorizada Trazida pela mão da desventura Nem ousará nomear-te, Ante vós, suplicando, e consternada Ficando infeliz destarte Procurando o sustento, a paz, a vida! Teu nome sem fama, e glória Ah! se a todos pudesse, transportara E de execrável memória Aos seios de minh'alma sempre aflita! No Brasil, e em toda a Eu quisera, que vissem minhas dores, E os sofrimentos meus, e meus martírios! Até mesmo os filhos teus Muito a custo se estende a mão, que pede, O seu opróbrio chorando, Quando a luz da razão na mente brilha. Te irão amaldiçoando Mas, que posso eu fazer? Fraca, nas trevas, Entre ais e os prantos seus; Sem gozar desse dom, que é quase a vida? Verás contra ti um Deus Sim, a vida o que é? É força, é gozo, Por teus crimes irritado; É a luz que ilumina o espaço imenso.... Como seguiste, malvado, Quem não goza a brilhante primavera, Dos ímpios todos os trilhos Aquele a quem diante de seus olhos Até por teus próprios filhos Todas as flores têm a cor da noite, Será teu nome Para quem tintos são todos os frutos Nessa cor tenebrosa, que me cerca, Que não distingue as cores dessas aves Que os ares cruzam, que nos ramos pousam; Que as estrelas não vê, que não avista Do Sempiterno esse cortejo imenso, Milhões de mundos, que o espaço habitam Oh! quem isso não vê, nada avalia; Tem só da vida a parte que não presta... Mas, o que disse! Eu vivo: pois não sinto Tão vivas impressões dentro em minh'alma? 140 141</p><p>E na mente não tenho essa centelha, Esse fogo divino que me aquece? Soneto Dentro em meu coração não sinto sempre Esse foco de amor, que ao Céu me eleva? Não envio a meu Deus os puros hinos Tenho um só coração e pouco achava, Que por um mesmo impulso se originam! É por ele, congresso caridoso, Para amar um mortal que eu julguei Nume E abrasada em voraz, cruel ciúme Que hoje aqui sobre mim com mão bem larga Minha alma loucamente o adorava: Derramais valiosos benefícios. Sois a imagem do Ser Onipotente, Que jamais abandona o desgraçado. Meu peito de gemer cansado estava Tal como o desditoso, que nas ondas Sem contra Amor soltar um só queixume; Luta debalde com o furor do tempo, Quem ama como eu, tarde presume E quando nos abismos vai sumir-se, Que amar não deve, que seu mal agrava. Mão salvadora rápido E na próxima praia o arremessa; Quando curvada ao peso da desgraça Vem a razão com o tempo tardo e lento, A penúria, a indigência me combatem; E então em nossa alma iluminada Quando angústias cruéis me dilaceram, Extingue-se de amor o ardor violento. E a necessidade... (horror...) me abate; O vosso braço forte me levanta, E com esse ouro, cuja cor não vejo, Agora pois de ingrata sou chamada, Me comprais muitos dias de ventura. Mas diga Elmano sem constrangimento, Sem vossa proteção já não vivera; Quem jamais tanto amou não sendo amada Vós sois a mão de Deus, eu, pois, a beijo: A vossa caridade é meu abrigo, A minha gratidão é todo o prêmio. 142 143</p><p>Mote Ildefonsa Laura César Gozo fácil ao nascer Lupinacci Muzart Perde na essência valor. Laura César nasceu na Bahia em 1794. Era filha de Antônio César Glosa Não se conhecem muitos detalhes sobre o meio familiar, mas, pela educa- e ilustração de Ildefonsa, supõe-se que nasceu de família ilustre. Órfa, na Elmano, não há prazer foi criada por sua irmã Angélica Rosa César com quem viveu até seu Aonde amor não impera, legal e a quem dedicou seus livros. Desconhece-se a data de sua morte. E n'alma gosto não gera Segundo Pedro Calmon, Ildefonsa Laura César é a primeira baiana a publicar Gozo fácil ao nascer, seus versos em livro. Ensaios Poéticos, em 1844 e Lição a meus filhos, um opúsculo de Deixa com o tempo crescer páginas, na Bahia, em De parte a parte amor, Ildefonsa Laura César está bem esquecida e para tal esquecimento decerto Mimo, recato, e pudor concorreram causas externas, como o preconceito para com a mulher cuja vida amo- Fará nossa glória justa, ficou fora dos cânones da época. Efetivamente, a vida de Ildefonsa Laura César Um bem pouco nos custa transcorreu à margem das regras sociais. Viveu com o então estudante de medicina Perde na essência valor. José Lino de quem teve uma filha, de nome Cora. Não se conhecem as causas da separação do casal, nem as razões de não se terem consorciado oficialmente. Lino Coutinho foi médico respeitado, conselheiro, escritor. Deixou inédi- to Cartas sobre a educação de Cora,3 que foi publicado por João Gualberto de Passos, em 1849. livro, conforme destaca Pedro Calmon,4 "coordena as primeiras normas da pedagogia aplicada ao caráter e à reabilitação social da mulher, numa sábia anteci- CALMON, Pedro. História da literatura baiana. Salvador: Prefeitura Municipal de Salvador, IV Centenário da cidade, 1949, p.187, nota 16. José Lino Coutinho: Nasceu na Bahia em 1784 e faleceu em 1836. Formado em medicina pela universidade de Coimbra, lente de Patologia da Faculdade de Medicina, médico honorário da imperial e outros títulos. Publicou vários livros sobre sua especialidade e, além deles poesias na imprensa. O livro que à frente se menciona, Cartas sobre a educação de Cora, é de publicação póstuma, em Pode ser consultado na Biblioteca Nacional. Pedro Calmon, op. cit., p.121, nota 5. 144 145</p><p>Diálogos Criando-nos Deus destinadas só a gozarmos, achou que era supér- fluo em nós aquela força física que prodigalizou ao homem e a uma boa parte dos brutos. Porém, como da mesma flor que a abelha colhe o mel, tira Nísia Floresta Brasileira Augusta o áspide veneno, assim esse mesmo homem prevaleceu-se da nossa fra- queza para sobre ela edificar o seu intruso Enfim, eu não preten- dia levar a questão a tão longe: a minha tenção era só mostrar-vos que o Constância Lima Duarte belo sexo não era tão digno das vossas censuras, e nem tão como dizeis, em mostrar-se interessado por qualquer partido. E demais, Srs., prescindindo das razões já expostas, concluo:- Tendo nós os mesmos atributos, os mesmos sentidos (sim, não podeis negar-nos tato, olfato, vista, etc.), e igualmente uma alma espiritual, uma voz, por que autoridade Nisia Floresta Brasileira Augusta pseudônimo da haveis de pensar, amar, aborrecer, desejar, temer, e seguir a vossa vontade, Gonçalves Pinto - nasceu em Papari (hoje Nísia Floresta), no Rio Grande como bem vos parece, e não haveis de querer que nós outras façamos uso do Norte, em 12 de outubro de 1810 e faleceu em Rouen, na França, em 24 de abril desse admirável presente que recebemos da mão do Criador?! Não: tam- de 1885. Nísia Floresta teve uma atuação política, social e literária significativa em sua bém temos um alvedrio, bem a pesar vosso, pois que tendes querido fazer época. Publicou diversos livros em português, francês e italiano, pois residiu cerca de mais que o Onipotente... Sujeitá-lo ao vosso poder e às vossas fantasias! 28 anos de sua vida em países europeus. Porém, a vossa mesma injustiça nos sugere armas para combater-vos. Em 1838 fundou um colégio para meninas no Rio de Janeiro o Colégio Insensatos! Em vão forcejais fascinar-nos; em vão pretendeis despojar- Augusto-, que competiu em qualidade com os melhores da Corte, dirigidos, em nos desse dom!... Eis os nossos pulsos, agrilhoai-nos, arrastai-nos, matai- sua maioria, por educadoras estrangeiras. O currículo do Colégio Augusto continha nos: é o poder do mais forte, mas nunca levareis a palma de dominar as propostas inovadoras como o ensino de línguas (Latim, Francês, Inglês e Italiano), ações e movimentos interiores da nossa alma. Ela é independente de vosso de Geografia, de História do Brasil e de Educação Física, além da limitação do orgulhoso império. Vingai-vos em ridicularizar-nos, em menoscabar-nos. número de alunas por turma, como forma de garantir a qualidade de seu ensino. Nos quando vos dá na vista o livre exercício de nossa Melhor fora jornais da época, ao lado de matérias com elogios ao excelente nível das alunas, à que dessa pretensão para não dardes a conhecer vossa impo- seriedade do trabalho nele realizado e à capacidade administrativa de Nísia Floresta, tência, e não terdes tantas ocasiões de experimentar esta verdade. [...] encontram-se também críticas anônimas contrárias às "audácias" da diretora e à ao ensino de línguas em detrimento dos trabalhos manuais. Ainda assim, o colégio resistiu durante 17 anos e muito contribuiu para o aprimoramento intelectual das meninas que o Nísia deve ter sido uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a publicar contos, poesias, novelas e ensaios em jornais da chamada grande imprensa, como O Diário do Rio de Janeiro, Liberal, O Brasil Ilustrado. Aliás, esse é um traço da modernidade de Nísia Floresta: sua constante presença na imprensa nacional (desde 1830, em O Espelho das Brasileiras, de Recife), sempre comentando as questões mais polêmicas da época. Se lembrarmos que ape- 174 175</p><p>nas em 1816 a imprensa chegou ao país, mais se destaca a importância desta brasileira ciência nos é inútil? Porque somos excluídas dos cargos públicos; e por que somos no cenário nacional. excluídas dos cargos públicos? Porque não temos ciência." Por tudo isso (até como não podia deixar de ser, devido ao forte preconceito Ao justificar a necessidade imperiosa de as mulheres terem acesso ao estudo, a contra a mulher), Nísia foi vítima da difamação e do esquecimento, principalmente autora denuncia círculo vicioso que as impossibilitava de romperem sua dependên- da parte de seus conterrâneos. Sua figura foi envolvida por um manto de mistério em e acusa O "sórdido interesse" dos homens pela permanência de tal situação, sua terra natal e durante algumas dezenas de anos não se ouviu falar dela. O pouco movidos que são pelo temor de se verem superados no desempenho dos cargos que se ouvia estava marcado pelo preconceito, ou impregnado da surpresa de encon- públicos. trar, em tempos passados, uma história de vida como a sua e uma obra de reflexões Tais reflexões não encontraram eco entre os contemporâneos e são o testemu- tão avançadas para a época. O fato de estar à frente de seu tempo custou-lhe, com nho do quanto Nísia Floresta representava de exceção em meio à massa de mulheres certeza, o não-reconhecimento de seu talento. Seu nome até hoje não costuma ser submissas, analfabetas e anônimas de seu tempo. Foi esse livro que deu à autora o citado na Literatura Brasileira como escritora romântica e muito menos na história título de precursora do feminismo no Brasil e, talvez, até mesmo da América Latina, da educação feminina, como educadora. pois não existem registros de textos anteriores realizados com estas intenções. Daí a Apenas recentemente começa a se tornar um pouco mais conhecida, graças, surpresa de Gilberto Freire: principalmente, ao trabalho de resgate e de recuperação de autoras e obras do passa- do que vem sendo Alguns de seus livros estão sendo reeditados e suas Nísia Floresta surgiu repita-se-, como uma exceção escandalosa. Verdadeira idéias voltam para nos lembrar um pouco da penosa trajetória das mulheres pelo machona entre as sinhazinhas dengosas do meado do século XIX. No meio de reconhecimento de seus direitos e de sua capacidade intelectual. homens a dominarem sozinhos todas as atividades extradomésticas, as próprias Uma leitura da obra de Nísia Floresta permite-nos observar como os textos baronesas e viscondessas mal sabendo escrever, as senhoras mais finas soletrando dialogam entre si, um iluminando o outro como peças complementares de um mes- apenas livros devotos e novelas que eram quase histórias de Trancoso, causa pasmo mo plano de ação prática, qual seja, formar e modificar Tal plano tinha ver uma figura como a de principalmente um propósito: alterar o quadro ideológico vigente no que diz respei- to ao comportamento das mulheres e, naturalmente, ao dos homens seus contempo- Em outros livros ela continuará destacando a importância da educação femini- râneos. na para a mulher e a sociedade. São eles: Conselhos à minha filha, de 1842; Opúsculo O primeiro livro escrito por Nísia Floresta é também o primeiro de que se tem humanitário, de 1853; mulher, de 1859; além de algumas novelas dedicadas às jovens notícia no Brasil que trata do direito das mulheres à instrução e ao trabalho, e que estudantes de seu colégio, como Fanny ou A jovem completa e Daciz ou modelo das exige que elas sejam consideradas como seres inteligentes e merecedores de respeito donzelas, ambas publicadas em 1847. Nesses escritos encontramos desde conselhos pela Este livro foi publicado em 1832 em Recife (PE) e tem o sugestivo de como as meninas deviam se comportar, os deveres esperados de uma filha, título de Direitos das mulheres e injustiça dos homens. No ano seguinte 1833 teve rias de cunho didático-moralista, até minuciosas e ricas explanações acerca da história uma segunda edição e, em 1839, ainda uma terceira, no Rio de Janeiro. da condição feminina em diversas civilizações e em diferentes épocas. O Direitos das Mulheres de Nísia Floresta foi inspirado no livro de Mary Em Opúsculo humanitário, por exemplo, que reúne sessenta e dois artigos Wollstonecraft, a primeira feminista inglesa: Vindications of the rights of woman. Mas sobre a educação já publicados nos principais jornais da corte, Nísia Floresta tece não se trata aqui simplesmente de uma tradução. A autora brasileira aponta os prin- comentários sobre a Ásia, a África, a Oceania, a Europa e a América do Norte antes cipais preconceitos existentes no país contra seu sexo, identifica as causas desse de tratar do Brasil e da mulher brasileira, sempre observando a relação existente preconceito, ao mesmo tempo em que desmistifica a idéia dominante da superiorida- entre o desenvolvimento intelectual e material do país (ou o seu atraso), com o lugar de masculina. Segundo ela, os homens estariam tão acostumados a verem as mulhe- res submissas e recolhidas em sua ignorância, ocupadas exclusivamente em agradá-los, 1. Cf. Augusta, Nísia Floresta Brasileira. Direitos das mulheres e dos homens. notas e estudo de Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez, 1989, p. 52. que não eram capazes nem mesmo de imaginá-las numa situação diferente: "Por que 2. FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos. 7. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio; INL, 1985, p. 109. 176 177</p><p>ocupado pela mulher. Em consonância com intelectuais da Nísia defende a Manzoni, Azeglio e Auguste Comte, viajando durante anos seguidos pela Itália, tese de que o progresso de uma sociedade depende da educação oferecida à mulher e Portugal, Alemanha, Bélgica, Grécia, França e Inglaterra. que só a instrução, aliada à educação moral, lhe dariam maior dignidade e fariam dela Das muitas viagens que realizou pela Europa resultaram alguns livros que, melhor esposa e melhor mãe. Esses, aliás, eram precisamente os objetivos da educa- bem ao gosto da época, contêm suas impressões dos lugares que ia conhecendo. Só ção das meninas: torná-las conscientes de seus deveres e papéis sociais. que Nísia Floresta não realiza simples relatos de viagem. Ela descreve com riqueza Hoje, preocupações como estas de Nísia Floresta podem soar, a ouvidos me- de detalhes as cidades, as igrejas, os museus, os parques, as bibliotecas e monumen- nos atentos, algo ultrapassado e conservador. Apenas é preciso não perder de vista a detendo-se nos tipos humanos e comentando tudo que observava sempre com repentina valorização da mulher ocorrida em meados do século XIX, a partir mesmo muita sensibilidade e erudição. Itineraire d'un voyage en Allemagne, de 1857, e Trois ans do redimensionamento da maternidade enquanto papel social. Se num momento a Italie, suivis d'un voyage en (em dois volumes, de 1864 e 1872) são os títulos presença da mulher era inexpressiva em da rígida estratificação social desses livros escritos e publicados em língua francesa. Apenas o primeiro foi tradu- que privilegiava o masculino, em outro a figura feminina transformava-se em centro zido para português, em 1982, depois de mais de cem anos em língua estrangeira; das atenções, devido à valorização de sua função biológica exclusiva: a maternidade. outro, apesar de considerado por mais de um crítico uma obra-prima, onde ela teria Tais alterações tiveram, naturalmente, uma grande repercussão em meio às intelectu- alcançado a culminância de seu esplendor intelectual, continua inédito em língua ais que vislumbraram, aí, a possibilidade de as mulheres adquirirem status e poder diante da opinião pública. portuguesa. E Trois ans en Italie é interessante, porque contém anotações do ano anterior à unificação italiana, a descrição da luta, dos sentimentos populares, do clima Também na abordagem de outras questões, como quando trata do índio bra- revolucionário e ainda nos revela a admiração da autora pelos líderes Garibaldi e sileiro, Nísia Floresta foi precursora. Em um longo poema de 712 versos A Azeglio, com quem se correspondeu durante algum tempo. lágrima de um de 1849, encontramos interessantes posicionamentos da auto- Um outro trabalho, dos mais importantes, é Scintille d' un' anima brasiliana, ra a respeito do indígena. Uma rápida leitura do texto permite a identificação de publicado em Florença, no ano de 1859. Este livro contém cinco ensaios que tratam inúmeros elementos marcantes do Romantismo como a lusofobia, elogio da natu- da educação de jovens, da mulher européia, da pátria distante e das saudades que ela reza e a exaltação de valores indígenas. A novidade é que o poema nos traz não a visão sentia de seu país, após tantos anos ausente. Um dos textos, intitulado A mulher, trata do que luta, presente na maioria dos textos indianistas conhecidos, mas da mulher francesa de meados do século XIX, que a autora critica pelo comporta- sim ponto de vista dos derrotados, do índio vencido consciente e inconformado mento superficial e mundano. Nísia se antecipa aos governantes e pensadores fran- com a opressão de sua raça pelo branco invasor. ceses e condena nesse ensaio o costume de as mulheres abandonarem os filhos Não cabem, pois, em seu índio, os epítetos de inocente, de puro e de portador recém-nascidos para serem amamentados e criados distantes, no interior do país, por daquela "bondade natural", idealizados nas teorias filosóficas européias e adotadas mulheres camponesas. Em outro ensaio, O Brasil, também publicado em Paris em pelos demais escritores brasileiros. O contato com o homem branco revelou-se per- 1871, ela resume a história da nação brasileira, fala dos recursos econômicos, das nicioso demais para ele e com A dor do indígena vem riquezas conhecidas e latentes, dos sábios e escritores mais conhecidos. Sua intenção precisamente da consciência dessa irreversibilidade e do meio-lugar (ou lugar ne- era, além de fazer propaganda da pátria no estrangeiro, desfazer os preconceitos e nhum) em que se encontra. O discurso da narradora, absolutamente preso ao do mentiras que predominavam na Europa, acerca do Brasil. índio e às vezes até se confundindo com o dele, acrescenta um dado o Nísia Floresta deixou, ainda, inúmeras colaborações em jornais de Recife, Por- da perda de identidade por parte do silvícola, que os escritores românticos do perí- odo tentavam escamotear. to Alegre, Rio de Janeiro, Lisboa, Florença e Paris. No mesmo ano da publicação de A lágrima de um caeté, Nísia Floresta viajou Pseudônimos: para a Europa, onde permaneceu vinte e oito anos de sua vida. E, nessa época, no auge da maturidade intelectual, relacionou-se com grandes escritores como Alexan- Nísia Floresta Brasileira Augusta; Telesila; Une brésilienne; B.A.; dre Herculano, Dumas (pai), Lamartine, Duvernoy, Victor Hugo, George Sand, 178 179</p><p>OBRAS de uma alma Trad. Michele Estudo e notas de Constância Lima Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1997. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Ensaio. Recife: Tipografia Fidedigma, 1832; 2. ed. Porto Alegre: Tipografia de de Andrade, 1833; 3. ed. Rio de Janeiro: [s.n.], 1839; BIBLIOGRAFIA Conselhos à minha filha. Prosa Rio de Janeiro: Tipografia de J.E.S. Cabral, 1842; 2. ed. Rio de Janeiro: Tipografia Imparcial de F. de Paula Brito, 1845; ALVES, "Nísia Floresta Brasileira Augusta". Almanaque Brasileiro Rio de Janeiro: Anno IX, Fany ou O modelo das donzelas. Novela. Rio de Janeiro: Colégio Augusto, 1847; Daciz ou A jovem completa. Novela. Rio de Janeiro: Colégio Augusto, 1847; Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario bibliographico brazileiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, Discurso que às suas educandas dirigiu Nisia Rio de Janeiro: Tipografia Imparcial de F. 1900, vol. 6, p. 315-17. de Paula Brito, 1847; Adauto. História de Nisia Floresta. Rio de Janeiro: Irmãos Pongetti, 1941. (Biblioteca de História Norte- V). Poemas. Rio de Janeiro: [s.n.], 1950; da Câmara. "O Sítio Floresta" Acta Diurna. Natal, A República, 17 jan. 1940. Reeditado em A lágrima de um caete. Poema. Rio de Janeiro: Tipografia de L. A Menezes, 1849; das velhas figuras. Natal: Instituto Histórico e do RN, 1978. Dedicação de uma amiga. Romance. Tipografia Fluminense de Lopes, 1850, 2 vol.; CASTRICIANO, Henrique. "Nísia Floresta". Almanaque brasileiro Rio de Janeiro, 18 dez. 1930. Opúsculo humanitário. Ensaio sobre educação. Rio de Janeiro: Tipografia de M. A da Silva Uma figura literária do Nordeste. Livro de Nordeste. Edição fac-similada. Introdução de Mauro Mota; Prefácio Lima, 1853; de Gilberto Freyre. Recife: Arquivo Público Estadual; Secretaria da Justiça, 1979. DUARTE, Constância L. Floresta: vida e obra. Natal: UFRN, 1995. Páginas de uma vida obscura; Um passeio ao aqueduto da Carioca; O pranto filial. Crônicas. Rio de Direitos das mulheres e dos homens, de Nísia Floresta Brasileira Augusta Introdução, Estudoe Notas. São Janeiro: Tipografia de N. Lobo Viana, 1854. Cortez 1989. Itineraire d' un voyage en Allemagne. Narrativa de viagem. Paris: Firmin Didot Frères, 1857; Nísia Floresta Brasileira Augusta: estudo de vida e obra. A mulher na literatura. GOTLIB, Nádia Battella Consigli a mia figlia. Firenze: Stamperia Sulle Logge del Grano, 1858; 2. ed. Mandovi: [s.n.], Belo Horizonte: UFMG, 1990, V. 2, p. 113-17. 1859; Nos primórdios do feminismo brasileiro: Direitos das mulheres e injustiça dos homens A mulher na literatura. GOTLIB, Nádia Battella (Org.). Belo Horizonte: UFMG, 1990, vol. 3, p. 38-41. Scintille d' un anima Ensaios. Firenze: Barbera, Bianchi & C., 1859; FREYRE, Gilberto. Vida social no Brasil nos meados do século XIX. 3. ed. revista. Do original inglês Social life in Brazil in Conseils à ma fille. Traduit de l'italien par B.D.B. Florence: Du Monnier, 1859; the middle of the nineteenth (1922). Trad. Waldemar Valente. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Editora Le lagrime d'un caete. Tradotto da Ettore Marcucci. Firenze: Le Monnier, 1860; Massangana, 1985. A mulher e homem. Sobrados e 7. ed., Rio de Janeiro: J. Olympio; INL; Fundação Nacional, 1985. 2 vol.; Trois ans en Italie, suivis d'un voyage en Narrativa de viagem. Paris: E. Dentu, 1864; 1867, LXXIV, XCIV. p. 108-109. LEITE, Luiz Filippe. Opúsculo humanitário por B. Lisboa: Archivo Universal. 2. 1860. p. 19-21 e 67-71. Woman. Ensaio. Translated from the italian, by Livia a de Faria. London: G. Parker, 1865; LIMA, Oliveira. Nísia Floresta. Rio de Janeiro, Revista do Brasil, dez. 1919. Roman. Paris: [s.n], 1867. LINS, Ivan. Nísia Floresta. História do Positivismo no Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964. Le Ensaio. Paris: André Sagnier, 1871; MARTINS, Wilson. História da brasileira. (1794-1855). São Paulo: Cultrix; EDUSP, 1977-1978. V.2, p. 263, 306, 307, 375, 399, 407, 431, 461, 500, 506. Fragments d'un ouvrage inédit - Notes Biographiques. Paris: A Chérié, 1878. São Paulo: Cultrix; EDUSP, 1977. p. 94, 126, 204, 344, 316-7. MELO, de. Nísia Floresta. Patronos e acadêmicos. Rio de Janeiro: Pongetti, 1972. V. 1. PUBLICAÇÕES PÓSTUMAS NEPOTE, Didimo. Rassegna bibliografica. Consigli a mia figlia, di F. Augusta Brasileira. Presente. Venezia, a. 1, n.7., 14 ago. 1858. Itinerário de uma viagem à Trad. Francisco das Chagas Pereira. Natal: Editora da OSORIO, Fernando. Mulheres farroupilhas. Porto Alegre: Globo, 1935. Universidade, 1982; reedição Florianópolis: Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 1998. QUEIROZ, Rachel de. Nísia Floresta Brasileira Augusta. Rio de Janeiro, Diário de Notícias, 11 dez. 1949. Nisia Floresta. Rio de Janeiro, Cruzeiro, 15 maio 1954. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Atualização do texto, posfácio e notas de Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez, 1989. Nisia Floresta. Rio de Janeiro, Jornal do 11 jan. 1976. SABINO, Ignez. Mulheres illustres do Brazil. Pref. de Arthur Orlando. Rio de Janeiro; Paris: H. Garnier, 1899, p. 171- Opúsculo humanitário. Ensaio sobre educação. Introdução de Peggy Sharppe. Posfácio de 77. Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez, 1989. SEIDL, Roberto. Nísia Floresta. 1810-1885. A vida e a obra de uma grande educadora, precursora do da A lágrima de um Poema. Atualização do texto, estudo crítico e notas de Constância Lima e da emancipação da mulher no Brasil. Rio de Janeiro: [s.n. ], 1938. Duarte. Natal: Fundação José Augusto, 1997. TRINDADE, Socorro. Feminino feminino. Natal: Editora Universitária, 1981. 180 181</p><p>EXCERTOS Em seu rosto expansivo não se viam Os gestos, as momices, que contrai A composta infiel fisionomia A lágrima de um caeté Desses seres do mundo social, Que devorados uns de feras, No vício mergulhados falam outros Lá quando no Ocidente o sol havia Altivos da virtude, que postergam Seus raios mergulhado, e a noite triste De Deus os sãos preceitos quebrantando! Denso ebânico véu já começava Orgulhosos depois... ostentar ousam Vagarosa a estender por sobre a terra; De homem civilizado o nome, a honra!.. Pelas margens do fresco Beberibe, [....] Em seus mais melancólicos lugares, Azados para a dor de quem se apraz Era um homem sem máscara, enriquecido Sobre a dor meditar que a Pátria enluta! Não do ouro roubado aos iguais seus, Vagava solitário um vulto de homem, Nem de africanos d' De quando em quando ao céu levando os olhos Às plagas brasileiras arrastados Sobre a terra depois triste os volvendo... Por sedenta ambição, por crime atroz! Nem de empregos que impudentes vendem, A honra traficando! o mesmo amor!! Não lhe cingia a fronte um diadema, Mas uma alma, de vícios não manchada, Insígnia de opressor da humanidade... Enriquecida tinha das virtudes Armas não empunhava, que os tiranos Que valem muito mais que esses tesouros. Inventaram e sob as quais Sucumbe o rijo peito, vence o inerte, Era da natureza o filho altivo, Mata do fraco a bala o corajoso, Tão simples como ela, nela achando Mas deste ao pulso forte aquele foge... Toda a sua riqueza, seu bem todo... Caia-lhe dos ombros sombreados O bravo, o destemido, o grão-selvagem, Por negra espessa nuvem de cabelos, O Brasileiro era... era um Arco e cheio de simples flechas: Adornavam-lhe o corpo lindas penas Era um que vagava Pendentes da cintura, as pontas suas Na terra que Deus lhe deu, Seus joelhos beijavam musculosos Onde Pátria, esposa e filhos Ele embalde defendeu!... [....] 182 183</p><p>Onde as estão, simples asilo, Santuário feliz de nosso amor? ó terra de meus pais, ó Pátria minha! Onde as frondosas árvores, cujos ramos Que seus restos guardando, viste de outros Fagueiros balouçavam inclinados Longo tempo a bravura disputar Sobre as águas dos nossos prediletos Ao feroz estrangeiro a Pátria nossa, Melancólico-amoroso Beberibe, A nossa liberdade, os frutos seus!... Capibaribe undoso, que abraçando Recolhe o pranto meu, quando dispersos Se vão em sua foz, já não sorrindo, Pelas vastas florestas tristes vagam Como outrora faziam, mas do pranto Os poucos filhos teus à morte escapos, Engrossado dos filhos seus extintos, Ao jugo de tiranos opressores, Gemendo confundir-se nos bramidos Que em nome do piedoso céu vieram Do Atlântico?! Tirar-nos estes bens que o céu nos dera! [....] As esposas, a filha, a paz roubar-nos!... Onde estão, fero Luso ambicioso, Trazendo d'além-mar as leis, os vícios, Estes bens, que eram nossos? Nossas leis e costumes postergaram! Porangaba perdi, perdi os filhos; Ai de mim! inda vivo!! Com a Pátria lá foram esses tesouros! Por nossos costumes singelos e simples O pranto só me Em troco nos deram a fraude, a mentira. [....] De bárbaros nos dando o nome, que deles Na antiga e moderna História se tira. Opúsculo [....] I. Indígenas do Brasil, o que sois vós? Enquanto pelo velho e novo mundo vai ressoando o brado emancipação da Selvagens? os seus bens já não gozais... mulher nossa débil se levanta na capital do Império de Santa Cruz, claman- Civilizados? não... tiranos do: educai as mulheres! Cuidosos vos conservam bem distantes Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal! Dessas armas com que ferido tem-vos Onde está a doação mais importante dessa civilização, desse liberalismo? De sua ilustração, pobres Caboclos! Em todos os tempos, e em todas as nações do mundo, a educação da mulher foi Nenhum grau Perdestes tudo, sempre um dos mais salientes característicos da civilização dos povos. Na Ásia, esse Exceto de covarde o nome infame... berço maravilhoso do gênero humano e da filosofia, a mulher sempre foi considerada [....] como um instrumento do prazer material do homem, ou como sua mais submissa escrava; assim, os seus povos, mesmo aqueles que atingiram ao mais alto grau de AUGUSTA, Nísia Floresta Brasileira (Dionísia Gonçalves Pinto). Opúsculo humanitário. São Cortez, 1989. 184 185</p><p>glória, tais como os babilônios, ostentando aos olhos das antigas gerações suas admi- seus escritos à narração, por vezes alterada, do caráter e costumes das brasileiras, ráveis muralhas, seus suspensos e soberbos jardins, suas colunatas de pórfiro, seus para tratarmos delas nas em que não temos nós mesmo viajado e sido templos e jaspe, com zimbórios de pedras preciosas elevando-se às nuvens, obras testemunhas oculares da maneira por que é dirigida ali a sua educação. [....] que até hoje não têm podido ser esses povos tão poderosos, dizemos, permaneceram sempre em profunda ignorância dessa civilização que só podia ser transmitida ao mundo pela emancipação da mulher, não conforme filosofismo das Direitos das mulheres e injustiça dos homens4 socialistas, mas como a compreendeu a sabedoria divina, elevando até a si a mulher, quando encarnou em seu seio o Redentor do mundo. Capítulo I As Déboras, as as Judites se mostraram embalde, atestando, aque- la, a graça de que a tocara deus, permitindo-lhe revelar aos homens alguns de seus "Que caso os homens fazem das mulheres, e se é com justiça" mistérios; estas, uma razão esclarecida, uma coragem rara, que provavam já então não ser a mulher somente destinada a guardar os rebanhos, a preparar a comida, e a Se cada homem, em particular, fosse obrigado a declarar o que sente a respeito dar à luz a sua prosperidade. de nosso sexo, encontraríamos todos de acordo em dizer que nós nascemos para seu uso, que não somos próprias, senão para procriar e nutrir nossos filhos na infância, XIX reger uma casa, servir, obedecer e aprazer aos nossos amos, isto é, a eles homens. Tudo isto é admirável e mesmo um muçulmano não poderá mais no meio de Mais de um moralista tem estabelecido o princípio que julgamos ter já de- um serralho de escravas. monstrado, isto é, que a educação da mulher muita influência tem sobre a moralidade Entretanto eu não posso considerar este raciocínio senão como grandes pala- dos povos e que é ela característico mais saliente de sua civilização. vras, expressões ridículas e empoladas, que é mais fácil dizer do que provar. Os Isto posto, indaguemos, à vista do estado atual da educação das nossas brasi- homens parecem concluir que todas as outras criaturas foram formadas para eles, ao leiras, quais os meios que se tem empregado, há mais de três séculos, para promover mesmo tempo em que eles não foram criados senão quando tudo isto se achava o seu desenvolvimento, em ordem a conseguir os resultados felizes que dela se deve disposto para seu uso. Eu não me proporia a fazer ver a futilidade deste raciocínio; esperar, quando dirigida por instituições sábias e mas concedendo que ele tenha alguma ponderação, estou certa que antes provará Retiremos por agora os olhos das tristes páginas de nossa História, concernentes que os homens foram criados para o nosso uso, do que nós para o deles. à situação da mulher indígena, depois que farol do cristianismo veio esclarecer esta É verdade que o emprego de nutrir as crianças nos pertence, assim como a eles mais deliciosa porção do novo mundo. Nós a analisaremos em lugar competente e unicamente pertence o de gerá-los; se este último lhes dá algum direito à estima e com coração profundamente compenetrado da sua sorte. respeito públicos, o primeiro nos deve merecer uma porção igual, pois que concur- Tratemos primeiramente das mulheres a quem os homens da civilização, entre imediato dos dois sexos é tão essencialmente necessário à propagação da espécie nós, denominam brasileiras, isto é, as mulheres não indígenas que nascem de famílias humana, que um será absolutamente inútil sem o outro. livres, ou aquelas que a bondade dos pais resgata, na pia batismal, do triste selo da Que direito, pois, têm eles de nos desprezar e pretender uma superioridade sobre nós, por um exercício que eles partilham igualmente conosco? Todos sabem, Não é na história de nossa terra que iremos estudar a situação de nossas nem se pode negar, que os homens olham com desprezo para o emprego de criar mulheres, porque infelizmente os poucos homens que têm escrito apenas esboço filhos e que é isto, às suas vistas, uma função baixa e desprezível; mas se consultas- dela não as acharam dignas de ocupar algumas páginas de seus livros. sem a Natureza nesta parte, sentiriam sem que fosse preciso dizer-lhes, que não há Assim, recorreremos aos viajantes estrangeiros que consagraram alguns de no Estado Social um emprego que mereça mais honra, confiança e recompensa. Basta atender às vantagens que resultam ao gênero humano para convir-se nisto; eu 4. AUGUSTA, Dionísia Gonçalves Pinto. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. não sei se até por esta razão, unicamente, as mulheres não mereciam o primeiro lugar 186 187</p><p>na sociedade civil. Entretanto, seja qual for a recompensa, O prazer que a generosidade de nosso sexo Qual foi fim para que os homens se reuniram em sociedade, senão para terem acha preencher este ofício, basta para que nós O desempenhemos com toda ternu- suas vidas mais seguras e pacificamente gozarem tudo que lhes apraz? sem vistas de interesse. Eu não pretendo queixar-me de não recebermos recom- Todos aqueles, pois, que mais contribuem a esta vantagem pública, devem por pensa: seja-me somente permitido dizer, que por sermos mais capazes que os homens isso obter maior porção de estima pública. Ora, as mulheres, encarregando-se gene- em desempenhar este cargo, não se segue que não possamos também desempenhar rosamente e sem interesse, do cuidado de educar os homens na sua infância, são as outro qualquer. que mais contribuem para esta vantagem, logo são elas que merecem um maior grau Na verdade, os homens parecem aprovar isto tacitamente; mas com seu de estima e respeito públicos. Partindo deste princípio é que se olham os príncipes desinteresse ordinário, pretendem restringir todos os outros talentos nossos na como as primeiras pessoas do Estado. Nesta qualidade, ou grau de elevação, se lhes órbita singular da obediência, da servidão e da ocupação de satisfazer a nossos amos. conferem as principais honras; porque supõe-se ao menos que eles se sobrecarre- Eles têm como uma razão geralmente aprovada serem nossos amos; mas por que gam de grandes cuidados, vigílias e inquietações, que exige a prosperidade do bem títulos? Eis uma pergunta a que não podem responder. Entretanto, este sentimento público. Da mesma sorte tributamos mais ou menos respeito pessoas que tão comum entre eles, que todos desde príncipe até o súdito, se acham possuídos estão abaixo deles e que mais se lhes aproximam, porque as olhamos como pessoas dele. [....] mais úteis à sociedade, segundo partilham mais ou menos as fadigas do serviço Que personagens singulares! [...] Exigir uma servidão a que eles mesmos não público. têm coragem de se submeter, de um sexo, que sua vaidade qualifica com o título de É pela mesma razão que preferimos os militares aos literatos; porque os olha- vasos e querer que lhes sirvamos de ludíbrio, nós, a quem eles são obriga- mos como um baluarte entre nós e nossos inimigos. Todos concordam em respeitar dos a fazer a corte e atrair em seus laços com as submissões as mais humilhantes! as pessoas à proporção de sua utilidade; eis, pois, a medida de seu Ora, por ventura eles alguns títulos para justificar direito com que reclamam os sendo esta regra aplicável a todas as circunstâncias da vida, por que não devem ter as nossos serviços, que nós igualmente não tenhamos contra eles? ...]Entretanto, a mulheres, mais que todos, direito à estima pública, contribuindo mais, sem compa- maior parte de nosso sexo, assaz frágil para se deixar vencer pela piedade, por suas ração, a seu bem-estar? carícias e por seu desespero afetado, não tem encontrado despojo de sua dissimu- Os homens podem absolutamente passar sem príncipes, generais, soldados, lação, engano de sua inocência e de seu bom coração? [....] jurisconsultos, como antigamente e ainda hoje passam os selvagens; mas podem Certamente Céu criou as mulheres para um melhor fim, que para trabalhar passar sem amas na sua infância? E se por si são incapazes de exercer este importante em vão toda sua vida. Talvez se me objetará que não é trabalhar inutilmente, uma vez emprego, não precisam indispensavelmente das mulheres? Em um Estado que com isto não fazem mais que preencher o seu tempo; que não tendo sido criadas lo e bem regido, a maior parte dos homens são inúteis em seus ofícios e inútil toda sua senão para escravas dos homens, a nossa única obrigação é lhes ser submissas e lhes autoridade, mas as mulheres não deixarão jamais de ser necessárias enquanto existi- aprazer; que quando desprezamos outra qualquer coisa, não somos nisso responsá- rem homens e estes tiverem filhos. [....] veis, pois que Deus não nos outorgou outros talentos. Mas como tenho dito, e farei Sem dúvida é preciso que os homens tenham a imaginação bem corrompida ver mais adiante, isto reduz-se a ter como certeza que ainda está em questão e supor para olharem um exercício tão importante, como baixo e desprezível e para lhe recu- que deveria, porém que não pode ser provado. [....] sar toda estima que na realidade merece. Com que liberalidade não se recompensa Vejamos, pois, sobre que fundamentos eles baseiam as idéias extravagantes aquele que consegue domesticar um tigre, um elefante e outros semelhantes ani- que fazem do nosso sexo e em que fazem consistir a verdade e a razão, para que mais? E as mulheres, que passam seus belos anos ocupadas em amansar o homem, possamos abraçar ou rejeitar sua opinião, com conhecimento de causa. este animal ainda feroz, não serão pagas senão com desprezo? Se nos remontarmos à origem desta injusta parcialidade, encontraremos que a única e verdadeira causa do pouco reconhecimento, que se tem aos importantes serviços que as mulheres prestam aos homens, é que eles são comuns e ordinários. 188 189</p><p>Itinerário de uma viagem à Alemanha que me envaidecia tanto, quando te contemplava desembaraçado, sério e ativo Bruxelas, 26 de agosto de 1856. como um jovem do Norte. Desta tua atividade eu esperava sempre melhores dias para tua mãe... sinal de partida arrancou-me de meus pensamentos. Apresso-me em tomar Caro filho e irmãos do meu coração, nossos lugares e, um instante depois, trem voava sobre os trilhos, deixando apenas tempo suficiente para contemplar as paisagens que se sucediam, ainda sem interes- O mês de agosto, que (sabem vocês) é tão funesto à minha felicidade, pela sob nossos olhos. tríplice perda que imprimiu em minha existência, começou este ano mais triste e Já haviam desaparecido atrás de nós Amiens, depois Arras, com suas reminis- doloroso do que nunca. O coração confrangido, espírito sempre abatido pela cências históricas; a primeira exibe seus canais, fábricas e a linda catedral; a segunda dilacerante recordação da morte da melhor das mães, eu via aproximar-se primeiro evoca O fantasma ainda bem vivo de Robespierre. Em Valenciennes, paramos mais aniversário do dia que a roubou à minha ternura. demoradamente para jantar e ver melhor a velha cidade em que Clóvis III e Carlos Vocês haviam pensado que Paris exerceria em mim sua costumeira magia. Pois Magno realizaram, em 603 e 771, assembléias gerais. bem, revi-a com indiferença; tornou-se-me monótona e quase insuportável, à medi- O percurso de Paris a Valenciennes pareceu-me monótono e triste, certamente da que o triste aniversário se avizinhava. O abalo cruel que sacudiu todo o meu ser por causa da disposição de espírito em que me encontrava. A imagem adorada de moral mantém-me ainda incapaz de apreciar, como outrora, a vida intelectual de que minha mãe seguia-me na mesma velocidade em que eu rapidamente percorria novos se frui nesta Atenas moderna. países, em qualquer parte do mundo, ou no silêncio de meu apartamento. Em Paris, Era-me necessário percorrer novos países, neles haurir novas impressões, sob ajoelhada diante do seu retrato, rezara durante alguns instantes, e meus últimos um horizonte mais amplo, em atmosfera mais livre e, conseqüentemente, mais pensamentos haviam sido dirigidos a ela e a vocês. A prece foi íntima e ardorosa. consentâneas com minhas preferências. Importava-me, enfim, ver uma terra-tipo, Senti no coração que minha mãe aprovava a viagem. Quando desci em Valenciennes, cujo aspecto sério e respeitável se impusesse a meu espírito pela riqueza de sua sua sombra me indicou a catedral e me precedeu lá. natureza, pelo passado grandioso e pelos costumes ainda patriarcais de seu povo. Depois de ter rezado por ela, fomos ver de ville, as fortificações e a cidade Vocês vêem naturalmente que me decidi pela velha e poética a digna pátria construída por Vauban. A cidade é muito triste, e mau tempo contribuiu ainda mais de Leibniz e Kant. para torná-la assim a meus olhos. Propondo-me realizar uma peregrinação ao túmulo de venerável amigo, o Na direção da fronteira belga, campo mudou um pouco de aspecto e come- sábio e bom Duvernoy, preferi entrar na Alemanha pela Bélgica e sair por Kehl, para a me agradar mais. A pouca distância de Blanc-Misseron, última estação france- ir de Estrasburgo a Montbéliard, onde ele quis ser enterrado e onde sua virtuosa sa, e setenta e duas léguas de Paris, atravessamos limite que separa do solo francês viúva me espera para, após minha viagem à Alemanha, retornar comigo a Paris. Sinto O território belga. que as emoções dessa visita lutuosa, misturadas às que este triste mês me fez experi- Chegando a Quiévrain, primeira estação belga, submetemo-nos às corriquei- mentar, me teriam incapacitado de ir além. ras formalidades aduaneiras. A fisionomia do interior das casas começa aqui a mos- Pelas oito horas da manhã, anteontem, 24 de agosto, fechei minha correspon- trar-se diversa: poêle substitui, geralmente, a cheminée da França, e um ar de limpeza dência do Havre para vocês e, entregando a casa à criada, tomei, com minha filha, reina em toda parte. uma carruagem que nos conduziu à estrada de ferro do Norte, verdadeira Babilônia Como na Inglaterra e em Portugal, experimentei emoções novas, tocando o de viajantes indo e vindo de todas as direções da França e do exterior. solo de outro país que não a França; vocês sabem, eu sempre preferi esta nação a Enquanto eu pagava os bilhetes e cuidava da bagagem, estavas lá, diante de qualquer outra depois da nossa. mim, ó meu filho dileto, tu que te encarregavas outrora dessas tarefas, quando eu Mudamos de viatura para tomar um trem belga, cujos lugares de primeira tinha a felicidade de viajar com meus dois filhos. Agora, minha diligência substituía classe são tão bonitos e cômodos como os da França. As cidades, burgos, aldeias, paisagens, toda essa natureza mais ou menos bela, desdobrando-se rapidamente 190 191</p><p>ante meus olhos, lembrava-me os rápidos momentos de minha felicidade, que infe- res, ornadas de ricas lojas, lindas casas e belos As praças públicas e os passeios lizmente se esvaíram, pobre de mim! apenas eu começava a cheios de gente, algumas pessoas exibindo muito luxo e elegância, compõem a Contemplando essas cenas variadas das paisagens que percorria, esforçava-me fisionomia de uma verdadeira capital da Europa. por mergulhar o espírito no seu passado histórico, a fim de desviar a tristeza que me Empregamos uma parte do dia visitando os museus de Pintura e História roía mais vivamente o coração, nesse 25 de agosto. Natural, bem como o Palácio da Justiça. Os primeiros encontram-se no Palácio das Ali está Boussu, vila louçã, com o castelo que serviu de estada ao jovem Belas-Artes, mais geralmente conhecido pelo nome de "Museu". Está situado ao XIV, em 1655, quando comandou o cerco de Saint-Ghislain, que caiu em seu poder; lado de um Palácio utilizado nas exposições dos produtos da indústria nacional. aqui, Jemmapes, vaidosa de suas ricas hulheiras, a lembrar a célebre batalha os Nesse momento, há uma muito importante. franceses, comandados pelo General Dumouriez, ganharam contra o exército que aus- O por onde se entra no Palácio das Belas-Artes tem a forma de tríaco; por toda parte, à minha direita e à esquerda, sucedem-se paisagens interes- rotunda. Notável estátua de Hércules acha-se colocada ao pé da grande escada. Os santes, desenrolando-me uma página dos tempos passados. [....] gabinetes de Física e as ricas coleções de História Natural são de grande importân- Hoje, caros amigos, escrevo-lhes de Bruxelas, onde desembarquei com minha cia, assim como os quadros e as esculturas. [....] filha, pelas cinco horas, no cais do Sul. Uma pequena viatura, denominada aqui O Palácio da indústria engloba rica coleção de modelos de toda espécie, máqui- "vigilante", levou-nos ao Hotel da Rússia, onde nos encontramos instaladas em belo nas e instrumentos. Um dos lados é ocupado pela biblioteca real que possui (disse- e confortável quarto. ram-me) 200.000 volumes impressos e quase outro tanto de manuscritos; estes Passou, portanto, o vinte e cinco de agosto! Sinto agora que, deixando-nos últimos sofreram, como todas as coisas da Europa, as mudanças dos vencedores, atordoar pelo silvo gritante do vapor em grande rapidez e pelos pequenos embaraços desde o Marechal de Saxe e Dumouriez, até Napoleão I, que restituiu uma parte. de bagagem, descendo aqui e ali, nas diversas estações, para percorrer às pressas uma [....] cidade ou uma aldeia diferente, podemos desafiar melhor esta legião de tristes lem- O Palácio da Justiça tem um aspecto sombrio, mas sua fachada interessa quan- branças, fundeadas mais cruelmente em nosso coração, no aniversário da morte de do se relembra que foi calcada no antigo templo romano de Agripa. um ente adorado! Hôtel de Ville atraiu bem mais nossa atenção. É um velho edifício que oferece, Sinto-me fatigada, e muito! Mas essa lassidão me é salutar. É às custas do físico ainda, apesar das devastações sofridas, uma parte de sua antiga magnificência. Entre que o moral talvez O corpo ficou inerte muito tempo, durante os comba- as salas suntuosas, a graciosa mulher que no-las mostrava destacou aquela onde os tes do espírito e os paroxismos do coração! Agora é preciso que ele se agite, e muito, antigos estados de Brabante tinham suas assembléias. Distingue-se pela riqueza e para ver se poderá restaurar esses dois poderes tão profundamente abalados em lembranças históricas. Mostraram-nos as chaves douradas, apresentadas a Napoleão mim. Terá sucesso? Pelo menos vocês tomarão conhecimento dos esfor- quando de sua entrada em Bruxelas, cuja visão suscitará em todo viajante filósofo de minha vontade, para conservar uma existência que lhes é [....] idéias sérias sobre o nada da grandeza humana. [....] Mas é a propósito de Bruxelas que agora quero entreter vocês. Não pudemos julgar esta cidade, com base na parte que percorremos do embarcadouro até aqui: esse trecho é pouco limpo, ocupado pelo comércio da cidade baixa. Assim, se mos continuado nossa caminhada passando de um cais a outro, não teríamos conhe- cido o que há de mais belo e notável em esta cidade, galantemente ataviada em torno de graciosos bulevares e belos edifícios, é edificada, em parte, sobre uma colina elevada e, em parte, em uma rica campina, atravessada pelos vários braços do Sena, rio pequeno em comparação com os [....] A limpeza das ruas e do exterior das casas logo me deu uma imagem positiva, principalmente logo que percorremos uma parte da cidade alta: as ruas são regula- 192 193</p><p>gundo Raimundo de Meneses, essa aula mista "escandalizou os círculos locais, em [....] e por isso foi a professora obrigada a suspendê-la depois de dois anos Segundo Nascimento Morais Filho, a escola mista de Maria Firmina dos Reis era "uma revolução social pela educação e uma revolução educacional pelo ensi- Maria Firmina dos Reis seu pioneirismo subversivo de 1880." O fato de ter fundado a primeira escola mista do país mostra as idéias avançadas de Maria Firmina para a época. Pense-se no tipo de educação que recebiam as meninas no século XIX: leitura, com objetivo Lupinacci Muzart religioso, bordado, piano e para algumas o ensino do francês, língua da sociedade! Em 1880, conquistou o primeiro lugar em História da Educação Brasileira, o que lhe valeu título de Mestra Régia, segundo informa a pesquisadora Maria de Barros Mott.4 Em 1881, mesmo aposentada do ensino público oficial, Maria Firmina dos Reis nasceu na Ilha de São Luís, MA, em 11 de continuou ensinando no povoado de Maçaricó a filhos de lavradores e de fazendei- demonstrando sua vocação primeira: a de mestra. outubro de 1825. Foi registrada como filha de João Pedro Esteves e Leonor Felipe Maria Firmina dos Reis faleceu em 1917, em cega e pobre, segun- dos Reis. Mulata, bastarda, é prima do escritor maranhense Sotero dos por do seu biógrafo, José Nascimento Morais Filho, cuja pesquisa foi a base do presente parte da mãe. Em 1830, mudou-se com a família para a Vila de São José de Guima- trabalho. É ao seu entusiasmo pela obra da escritora maranhense e à sua paixão pela rães, no continente, município de Viamão. Viveu parte de sua vida na casa de uma tia pesquisa que devemos a possibilidade de podermos, hoje, conhecê-la. Sem esse materna "melhor situada Em 1847, concorreu à cadeira de Ins- competente resgate, talvez a presente antologia não trouxesse o nome dessa escritora, trução Primária nessa localidade e, sendo aprovada, ali mesmo exerceu a profissão, que seria uma perda muito grande. como professora de primeiras letras de 1847 a 1881. Maria Firmina dos Reis é considerada, no Maranhão, a primeira escritora não Em 1859, publicou o romance primeiro romance abolicionista e um só maranhense como também a primeira do Brasil. Essa tese pode ser contestada, dos primeiros escritos por mulher brasileira. Desde então, Maria Firmina dos Reis porque seu romance é publicado no mesmo ano em que a catarinense Ana Luísa de colaborou assiduamente com vários jornais literários, tais como A Verdadeira Marmota, Azevedo Castro publica o seu, no Rio de Janeiro. E, como as pesquisas sobre esse Semanário Maranhense, Domingo, País, Pacotilha, Federalista e outros. No jornal período estão longe de estarem esgotadas, não se pode afirmar a prioridade de ne- Jardim dos Maranhenses, publica romance indianista Gupeva, em 1861. Entre as nhuma dessas mulheres, ainda. narrativas, temos também o registro do conto "A escrava", em 1887. Além da obra Maria Firmina dos Reis foi homenageada por seu estado natal no ano de seu em prosa, foram divulgados, igualmente, muitos poemas nos vários jornais em que centenário, 1975. Além da republicação de seu principal romance, Úrsula, o governo colaborou, nos quais ainda se destaca como charadista. Em 1871, editou seu livro de maranhense publicou, em 1976, o livro de poesias Cantos à beira-mar. Além disso, foi poesias, Cantos à beira-mar, reproduzido em fac-símile pelo pesquisador Nascimen- atribuído o seu nome a uma rua de São a um colégio e inaugurado um busto da to Morais Filho, em 1976, com o apoio do Governo do Além da ativida- romancista com placa de na Praça do Pantheon. O dia 11 de outubro, dia do de literária, Maria Firmina foi também musicista e, entre suas composições musicais, nascimento da escritora, passou a ser o "Dia da Mulher Maranhense". destacam-se o Hino da libertação dos escravos e o à Em 1880, fundou uma escola gratuita para crianças de ambos os sexos. Se- 3. MENESES. Raimundo de. Dicionário brasileiro. 2. ed. rev., aum., e atualizada. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978, p.570. 1. Francisco Sotero dos Reis. S. Luís, Maranhão, 1800-1871. Distinguiu-se como gramático e filólogo. 4. Id. ibid., p.62. Lente de Latim e primeiro diretor do Liceu Fundou jornais. Autor do Curso de Literatura 5. A inscrição da placa traz os seguintes dizeres: "A Maria Firmina dos Reis 11.10.1825 -11.11.1917- Portuguesa e Brasileira, 1867-873, muito citado e consultado à época. Mas é claro que sua obscura prima Literata e mestra Romancista da Literatura Brasileira. Fundou a primeira escola mista do Maranhão, aí não teve entrada! homenagem do povo 1975 Ano internacional da mulher. Escultura de Flory Gomes." 2. MOTT, Maria Lúcia de Barros. Submissão e resistência. A mulher na luta contra a São 6. Informações da pesquisadora Luiza Lobo, Biobibliografia Maria Firmina dos Reis (1825-1917). Paulo: Contexto, 1988, p.61. REIS, Maria Firmina dos. Rio de Janeiro: Presença; Brasília: INL, 1988, p. 15-17. 264 265</p><p>Ainda no ano de 1975, Nascimento Morais Filho reúne dispersos de Maria A luta psicológica dos personagens pela própria identidade supera as simples Firmina que incluíram o romance Gupeva, o conto "Uma escrava", muitos poemas e descrições de navios negreiros. A visão de Maria Firmina é bem mais ampla e charadas, algumas opiniões críticas, e o que restou do diário intitulado refinada que em geral. Neste romance, ela escapa ao estereótipo da "mulata sensual" (como a Rita Baiana, de Aluísio Azevedo) como o principal ponto de interesse nos enfeixando-os com o título de Maria Firmina Fragmentos de uma vida. enredos sobre a raça negra. A questão da Abolição vai ser quase um leit-motiv da pena feminina, mas somente com o romance Úrsula, teremos uma visão diferente do problema. O livro, Esse lado da narrativa é dos mais interessantes porque traz à literatura brasi- por ter sido editado na periferia, longe da Corte, e por ser de uma mulher e negra, leira uma visão diferente do passado do negro africano, sendo, por isso, na minha lastimavelmente, não teve maior repercussão. Foi publicado sob pseudônimo Uma superior ao romance A escrava Isaura, de Bernardo de coloração Maranhense, em 1859. Publicar sob pseudônimo era quase de praxe entre as mulhe- racista, visto que o conceito de beleza do autor só pode estar na mulher branca e res, que assim se escondiam e se resguardavam de possíveis ataques e maledicências. rosada! Este romance foi descoberto, em 1962, por Horácio de Almeida, em um sebo, O enredo é muito romântico, ligando-se ao veio que buscou inspiração num no Rio de Janeiro. Depois de pesquisa, ele identificou o pseudônimo da romancista passado inexistente, medieval à moda européia. Os temas são os do amor e morte, Depois da edição fac-similar do romance, Horácio de Almeida doou- incesto, castigo e loucura e, segundo a estudiosa Norma Telles, "permeado por ao Governador do Maranhão, na época, Nunes Freire. No prólogo à edição fac- elementos do romance gótico, que floresceu desde o século XVIII, similar de 1975, ele salienta a ausência da escritora nos estudos críticos dedicados à é romance dos espectros em castelos arruinados, de mocinhas presas em cárceres literatura maranhense. O único autor a mencioná-la foi Sacramento Blake. subterrâneos por criminosos, de monges desenfreadamente debochados, uma cari- O romance foi construído com a técnica de encaixes de narrativas, as persona- catura do mundo feudal, com fortes tendências anticlericais, como convém ao gens contando suas vidas. O tom lembra velhas narrativas de tempos medievais, Século das Luzes, e tudo isso colocado num país pitorescamente exótico, as mais cavaleiros e damas em perigo, promessas, conflitos entre amor, honra e dever. Na das vezes na Itália, não importa, pois para o gosto oficial da época, que continua o primeira narrativa, básica, Túlio, um jovem escravo negro, salva a vida do cavaleiro Classicismo, tudo aquilo que não é Antiguidade greco-romana ou França, é exóti- Tancredo e leva-o, ferido, até a jovem Úrsula, que irá cuidar de seus ferimentos. Na segunda, cavaleiro conta sua triste vida cheia de decepções, amores e traições. Na No romance de Maria Firmina, os elementos góticos estão presentes na perse- terceira, a mãe de Úrsula conta sua também triste vida, entrevada e pobre, abando- guição do tio, no assassinato do herói, à porta da igreja, logo depois do casamento, no nada pela família, em virtude de seu casamento contra os interesses da família. Mas rapto da heroína e na loucura desta. Ainda, como elementos góticos, a é na quarta narrativa, a da velha africana Mãe Susana, onde encontraremos a diferen- obsessão do vilão, agora monge, perseguido até a morte pelo remorso. ça desse romance abolicionista, comparando com outros da mesma época. Mãe Susana Comparando-se várias narrativas de mulheres do século XIX, registro um vai contar como era sua vida na África, entre sua gente, de como se deu a prisão pelos uso acentuado, quase uma preferência, desse estilo. No romance da catarinense Ana caçadores de escravos e de como sobreviveu à viagem nos porões do navio. É Luísa de Azevedo Castro, publicado no mesmo ano de encontram-se vários Mãe Susana quem vai explicar a Túlio, alforriado pelo Cavaleiro, o sentido da verda- elementos do gótico, tais como a perseguição da heroína, o assassinato do par amoro- deira liberdade, que essa não seria nunca a de um alforriado num país racista. so, a loucura dos assassinos com a decorrente conversão e reclusão em convento. Ao lado do amor entre os jovens protagonistas, Úrsula e Tancredo, a trama Gupeva é o tipo de narrativa desastrada tais os erros de enredo que apresenta. traz, como personagens importantes, dois escravos que vão dar a nota diferente ao O par amoroso é composto por um jovem oficial francês, Gastão, apaixonado por romance, pois pela primeira vez o escravo negro tem e, pela memória, vai trazen- uma jovem índia, dotada do esquisito nome de Épica. do para o leitor uma África outra, um país de liberdade. Repetindo palavras de Charles Martin, na análise introdutória à reedição do romance, na Coleção Resgate: 8. TELLES. Norma. Encantações, escritoras e imaginação no Brasil. Século XIX. São Paulo, Pontifícia Universidade Católica, 1987, p.164. Mimeo. 7. Apud Raimundo de Meneses, op. cit. 9. CARPEAUX, Otto Maria. Prosa e ficção do Romantismo.In: GUINSBURG, J. (org.). Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 160. 266 267</p><p>Gupeva é O orgulhoso e valente, padrasto de O seu nome sai do publicação contempla só uma parte dos manuscritos de Maria Firmina, os quais poema Caramuru, de Santa Rita Durão. Com leve inspiração em Atala, de tendo sido deixados com um filho adotivo, foram dele roubados. Informou o Sr. Chateaubriand, O enredo mistura elementos já explorados em Ursula, tais como O Leude Guimarães ao pesquisador Nascimento Morais Filho o seguinte: incesto (aqui, O par amoroso se revela irmão e irmã ao final da novela) e os ingredien- tes do gótico, a noite, terror, a loucura, os assassinatos, também estão presentes. O Quando vim para São depois de sua morte, trouxe muitos manuscritos francês se apaixona pela jovem índia, mas o padrasto, que passa por pai de Épica, seus. Eram cadernos com romances e poesias e um álbum onde havia muita coisa de sua vida e da nossa família. Mas os ladrões, um dia, entraram no quarto do hotel para vingar-se da traição da esposa com um assassina o oficial, que se deixa onde estava hospedado, arrombaram o baú, e levaram tudo que nele havia. Só me matar por saber que é meio-irmão de Épica, filha do pai de Gastão! Complicações de deixaram, de recordação, os restos desse álbum, que encontrei pelo folhetim. Até o resumir se torna complicado! De quebra, também aparece, em rápido close, a índia Paraguaçu! Um romance esquecido e que, parece-me, assim ficará. é composto de pequenos textos, a maioria versando sobre a dor da No entanto, o romance teve bastante êxito popular, no seu tempo, consideran- partida: seja pela morte, seja pela mudança de Guimarães para outra cidade. De do-se as três edições realizadas. E, pensando-se em termos de ligações intertextuais, qualquer modo, os textos expressam a tristeza da separação. Pensando-se nas dis- vemos que, apesar de mal realizado, romance Gupeva traz alguns elementos novos e nos meios de transporte da época, pode-se perceber que uma mudança de para a literatura da época e realiza algo hoje muito comum. Numa homenagem a cidade equivalia muitas vezes a uma despedida para sempre. Santa Rita Durão, Maria Firmina dos Reis incorpora e modifica temas deste autor, O tom que domina o é o elegíaco e, dentre as lamentações, encon- como os fatos básicos da narrativa. Gupeva é o nome do índio a quem estava destina- tram-se dados que nos permitem concluir que a vida de Maria Firmina foi árdua e da Paraguaçu que se apaixona por Diogo Álvares Correia, com quem se casou. Na solitária. O tem também teor de diário íntimo com anotações não só dos versão de Maria Firmina, Gupeva se considera traído por sua prometida que, tendo seus estados d' alma, mas ainda de pequenos fatos como, por exemplo, em 11 de ido para a Corte juntamente com Paraguaçu (agora batizada de Catarina), lá se janeiro de 1860, a mudança de casa, em 1862, a adoção de um órfão recém-nascido tornou amante de um nobre, que a deixou, depois de engravidá-la. Gupeva casa-se que faleceu um ano depois e, assim por diante. com ela, mas nunca a perdoa, pois só fica sabendo da gravidez depois do casamento. Mas texto mais interessante, para conhecimento da escritora, é intitulado A Escrava é um conto bastante longo e visa a mostrar o calvário dos negros "Resumo da minha vida" que, em tom evidentemente romântico e por demais me- escravos, no Brasil. Uma senhora, que é a narradora e de quem não ficamos sabendo lancólico, fala de sua infância e de sua solidão. Sobre a educação recebida, é muito muita coisa, salvo que é rica e respeitada, encontra uma negra escrava e seu filho, curioso o trecho abaixo, que demonstra, com clareza, a plena consciência da escritora perseguidos por um feitor, protege-os, dá-lhes abrigo e ouve-lhes a história de dores sobre os problemas da educação patriarcal: e martírios. A escrava morre e a narradora alforria-lhe o filho, libertando-o do feroz senhor de escravos. Mais bem construído do que Gupeva, ainda assim não apresenta De um compleição débil e acanhada, eu não podia deixar de ser uma criatura mesmo interesse do romance Úrsula, de longe a melhor narrativa escrita por Maria frágil, tímida, e por melancólica: uma espécie de educação freirática Firmina. [grifo meu], veio dar remate a estas disposições naturais. Encerrada na casa mater- na, eu só conhecia céu, as estrelas e as flores, que minha avó cultivava com esmero; Como vemos em textos onde tema principal é a escravidão, deixou Maria talvez por isso eu tanto amei as flores; foram elas meu primeiro amor. Minha Firmina páginas belas e convincentes. Mas, quando, para seguir a corrente domi- minha terna irmã, e uma prima querida, foram as minhas únicas amigas de nante de sua época, a personagem era O índio, "uma das pedras de toque do orgulho infância; e nos seus seios eu derramava meus melancólicos e infantis queixumes; por conforme assinala Antonio Candido, ela esbarra na insinceridade, no ventura sem causa, mas já bem profundos. [....] Vida!... Vida, bem penosa me tens artificialismo de construção, no fracasso, em suma. sido tu! Há um desejo, há muito alimentado em minha alma, após qual minha alma tem voado infinitos espaços, e este desejo insondável, e jamais satisfeito, Maria Firmina deixou um álbum de recordações publicado por Nascimento afagado, e jamais saciado, indefinível, quase que misterioso, é, pois, sem dúvida, o Filho, na reunião de textos que fez em 1975, que foi escrito, aparentemente, a partir de 1853, visto ser essa a data do primeiro texto. Digo, aparentemente, porque a 10. MORAIS FILHO, Nascimento. Maria Firmina. Fragmentos de uma vida, p.211. 268 269</p><p>objeto único de meus pesares infantis e de minhas Eu não aborreço os amor e da amizade, ternas dedicatórias a amigas e amigos, a poetas e poetisas. É homens, nem O mundo, mas há horas e dias inteiros, que aborreço a mim própria. preciso dizer que, em sua poesia, O tema do negro aparece várias vezes, mas não é um tema dominante, nem tão importante como na poesia de Castro Alves. O que é curioso observar, no texto acima, é, em primeiro lugar, a consciência Das ligações intertextuais de sua poesia, destaca-se a influência de Casimiro de dos limites da educação recebida. A escritora não afirma, aqui, que existam desigual- Abreu, poeta lido por todas as mulheres de sua época, e também a de Gonçalves dades entre meninos e meninas, mas fica bem claro que a "educação freirática" não foi Dias, como se pode ver no poema transcrito Sonho ou vida, em que é notável o uso do bem aceita por ela. O que seria esse tipo de educação senão a educação da mulher metro e do ritmo gonçalvinos! Ao renomado poeta, dedica Maria Firmina uma voltada para os afazeres domésticos? Recebeu uma educação segregada e, por essa reproduzida a seguir, e que foi publicada em Cantos à beira-mar. Para Luiza razão, quis ministrar uma educação diferente, dirigida a ambos os sexos, educados a poesia de Maria Firmina, além de ter ligação forte com Castro Alves, em juntos. Outra questão que me parece importante nesse pequeno texto é o núcleo seus poemas condoreiros, tem como modelos literários Gonçalves Dias e Álvares de matriarcal em que viveu Maria Firmina. A casa não é paterna mas materna, ela não Azevedo. fala de nenhum homem, nem pai, nem avô nem irmãos, mas da que cultiva flores É muito estranho, na poesia de mulheres do século XIX, a incorporação do e da irmã e da prima, amigas de eu lembro esses dias de infância que masculino pelo eu lírico. Não ousando falar sobre os encantos do amor pelo outro passei no regaço de minha mãe, e entre folguedos tecidos por mim, e por minhas sexo, elas tecem loas à beleza das mulheres e fazem verdadeiros cantos homossexuais. duas amigas.... Mas gostaria de assinalar que, apesar do isolamento, Maria Firmina Como não poderiam, à época, cantar seus verdadeiros desejos eróticos, o que sobrou deve ter recebido conhecimentos bem sólidos de parte do núcleo familiar, pois sabe- foi um ingênuo e pobre cantar, um travestimento lírico. Daí, talvez, e é uma hipótese se que ensino público e particular no Maranhão eram muito precários e quase de trabalho, decorra a pobreza dessas poesias e seu esquecimento! inexistente o ensino voltado às Pelo que pudemos ver pelos seus textos e depoimento, para Maria Firmina Há outro texto, intitulado "Minha vida que me fez associar essa escritora do dos Reis escrever foi a própria vida. Escreveu sempre e abundantemente. É provável Maranhão a outra, da mesma época, de Santa Catarina, Júlia da Costa. Vidas muito que não tenhamos nem a metade dos textos que essa mulher confiou às páginas de diferentes, mas sensibilidades irmãs, à flor da pele, no auge do Romantismo! Como cadernos e blocos. Foi uma mulher sozinha, amou e não foi Gene- Júlia da Costa, também Maria Firmina dos Reis se pergunta o que é a vida. As duas rosa, adotou várias crianças e deixou também muitos filhos espirituais, entre seus poetisas estão de acordo sobre as dificuldades da vida cotidiana. A vida é curta e incontáveis alunos. Foi mestra e escritora, tal como a gaúcha Ana Aurora do Amaral por natureza, /sem luz, sem ar, sem verdura!, canta Júlia da Costa; e Lisboa, Ana Luísa de Azevedo e Castro e outras (V. nesta Antologia). Começamos, ecoa o texto de Maria Firmina: A vida para mim está nas lágrimas. Mas, nos textos de agora a estabelecer elos entre as escritoras do século XIX que, sem saberem umas das Maria Firmina correm outras inquietações e, dentre essas, destaco a importância outras, ainda assim foram irmãs nos desejos, nas vocações, no fazer literário. dada à educação, a preocupação com a instrução da mulher e com a superficialidade das relações sociais. Em tudo traindo sua vocação fundamental: a de mestra Pseudônimo: Uma Maranhense Publicou muitos poemas na imprensa, uma via mais ou menos livre para as Apelido familiar: Diliquinha mulheres naquela época. Em 1871, publicou o livro Cantos à beira-mar encontrado e republicado por Nascimento Morais Filho, em 1976. A poesia de Maria Firmina OBRAS não foi nem mais nem menos original que a de suas contemporâneas. Poesia do ultra- romantismo, poesia da dor: usa e abusa dos temas do amor e da morte. Entre os Ursula, Romance original brasileiro, por Uma Maranhense. São Typographia temas mais ressalta amor à pátria e a sua terra. Assim, multiplicam-se Progresso, 1859, fac-similar. Maranhão: Governo do Estado; 2. ed., 1975, poemas dedicados ao Maranhão, à natureza tropical. Mas a grande maioria fala do 12. In: Critica sem juízo, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993, p.229-30 11. Maria Lúcia de Barros. Op. cit., p. 61. 13. LOBO, Luiza, op. cit., p.222-35. 270 271</p><p>com prefácio de Horácio de Almeida; Rio de Janeiro: Presença; INL, 1988, Augusto Victorino Diccionário bibliographico brazileiro. Edição Brasília: Conselho Federal de Cultura, 1970, 6, p.232. com Introdução de Charles Martin e atualização e notas por Luiza Lobo, Coleção BRANDÃO, Maria de Lourdes Ribeiro. Maria Firmina dos Reis. In: V.V.A.A. Mulheres do Brasil. Resgate. Secretaria de Cultura e Desporto, 1986, p. 367-85. Gupeva, romance brasileiro indianista, publicado em O jardim dos Maranhenses, FUNDAÇÃO CARLOS CHAGAS. Mulher Brasileira. Bibliografia anotada-2. São Paulo: Brasiliense, 1861/62. Esse romance é republicado em 1863 no jornal Porto Livre e no jornal p. 345. literário Eco da Juventude, e transcrito em José Nascimento Morais Filho. Maria LOBO, Luiza. Auto-retrato de uma pioneira abolicionista. sem juízo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993, p.222-38. Firmina Fragmentos de uma vida, Imprensa do Governo do Maranhão, 1975. MENESES, Raimundo de. Dicionário literário brasileiro. 2. ed. rev., aum. e atualizada, Rio de Janeiro: A Conto. A Revista Maranhense, 3, 1887. Republicado em José Nasci- Livros Técnicos e 1978, p.570-71. mento Filho. Maria Firmina Fragmentos de uma vida. Maranhão: Imprensa do MONTELLO, A primeira romancista brasileira, Jornal do Brasil, 11 nov. 1975. Governo do Maranhão, 1975. MORAIS FILHO, Nascimento. Maria Firmina dos Reis, fragmentos de uma Maranhão: [s. n.], Cantos à Poesias. S. do Maranhão: Typ. do Paiz, Imp. por MOTT, Maria Lúcia de Barros. Submissão e resistência - a mulher na luta contra a São Paulo: Pires, 1871; 2. Ed. por José Nascimento Morais Filho, fac-similar, Rio de Janeiro, Contexto, 1988, p. 61-63. Granada, 1976. Escritoras negras: buscando sua história. GOTLIB, Nádia Battella (org.). A mulher na literatura. Belo Horizonte: ANPOLL, VITAE, UFMG, 1990, p.42-55. da libertação dos escravos, 1888. OLIVEIRA, Américo Lopes de e VIANA, Mário Gonçalves. Dicionário mundial de mulheres Participou da antologia poética maranhense e publicou poemas nos seguintes Porto: Lello & Irmão, 1967, p.1114. jornais literários: PEREIRA, Lúcia Miguel. As mulheres na literatura brasileira. Anhembi, São Paulo, n. 49, vol. XVII, A Imprensa; Publicador Maranhense; A Verdadeira Marmota; Almanaque de Lembran- dez 1954. ROMERO, Silvio. da literatura brasileira. 5. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1954, p.1211 cas Brasileiras; Eco da Juventude; Semanário Maranhense; OJardim dos (nota 1). Porto Livre; Domingo; O País; A Revista Maranhense; Diário do Maranhão; TELLES, Norma. Encantações escritoras e imaginação literária no Brasil no século XIX. Tese de doutoramento, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1987. Mimeo. Composições Musicais: As mulheres da literatura. Escrita. Revista de Literatura, a. 13, n. 39, 1988. Auto de (Letra e música); Valsa (letra de Gonçalves Dias e música de Maria Firmina dos Reis); Hino à Mocidade (letra e música); Hino à liberdade dos escravos (letra e música); Rosinha, valsa (letra e música); Pastor estrela do oriente (letra e música); Canto de recordação (à Praia de letra e música. LOCALIZAÇÃO DOS TEXTOS 1. Biblioteca Pública Benedito Leite, São Luís, Maranhão: livros editados por Nascimento Morais Filho. 2. Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro: onde se encontram alguns dos periódicos em que Maria Firmina publicou. BIBLIOGRAFIA ALMEIDA, Horácio de. Prólogo. Maranhão: Governo do Maranhão, 1975, p. I-VIII. Edição fac-simile. 272 273</p><p>EXCERTOS esperança e sem gozos! Oh! esperança! Só a têm os desgraçados no refúgio que a todos oferece a Úrsula Gozos!... só na eternidade os antevêem eles! Coitado do escravo! nem o direito de arrancar do imo peito um queixume de [O cavaleiro Tancredo, herói do romance, sofre um acidente e é salvo pelo escravo Túlio.] amargurada dor!!... Senhor Deus! quando calará no peito do homem a tua sublime máxima Nesse comenos alguém despontou longe, e como se fora um ponto negro no ama a teu próximo como a ti mesmo e deixará de oprimir com tão repreensível extremo Esse alguém, que pouco e pouco avultava, era um homem, e mais injustiça ao seu àquele que também era livre no seu país que é tarde suas formas já melhor se distinguiam. Trazia ele um quer que era que de longe seu irmão?! mal se conhecia, e que descansando sobre um dos ombros, obrigava-o a reclinar a E mísero sofria; porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a cabeça para o lado oposto. Todavia essa carga era bastantemente leve - um cântaro ou alma; porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantou no coração perma- uma bilha; o homem ia sem dúvida em demanda de alguma fonte. neciam intactos e puros como a sua alma. Era infeliz; mas era virtuoso; e por isso seu Caminhava com cuidado, e parecia bastante familiarizado com lugar cheio de coração enterneceu-se em presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista. [....] barrocais. E ainda mais com calor do dia em pino, porque caminhava tranqüilo. E mais e mais se aproximava ele do cavaleiro desmaiado; porque seus passos [O escravo Túlio é alforriado pelo Cavaleiro Tancredo de e vai embora com ele. O para ali se dirigiam como se mais a Providência os guiasse! Ao endireitar-se para um cavaleiro já pediu a mão de Úrsula à sua mãe e deverá retornar para casamento. Nesse bosque à cata sem dúvida da fonte que procurava, seus olhos se fixaram sobre aquele capítulo, Túlio se despede da escrava Mãe Susana.] triste espetáculo. Deus meu! - exclamou, correndo para Túlio, - continuou - não sabes quanto sofro quando recordo-me de que a E ao coração tocou-lhe piedoso interesse, vendo esse homem lançado por terra, nossa querida menina vai tão breve ficar só no mundo! Só, Túlio! Quem a acompa- tinto em seu próprio sangue, e ainda oprimido pelo animal já E ao aproximar- nhará? Quem poderá Eu? Não. Pouco poderei demorar-me neste mun- se contemplou em silêncio rosto desfigurado do mancebo; curvou-se e pos-lhe a Meu filho, acho bom que não te vás. Que adianta trocares um cativeiro por outro mão sobre o peito, e sentiu lá no fundo frouxas e espaçadas pulsações, e assomou lhe E sabes tu se aí O encontrarás melhor? Olha, chamar-te-ão, talvez, ingrato, e eu não ao rosto riso fagueiro de completo enlevo, da mais intima satisfação. O mancebo terei uma palavra para defender-te. respirava ainda. Oh! Quanto a isso não, mãe Susana tornou Túlio. - A senhora Luísa B... Que ventura! - então disse ele, erguendo as mãos ao céu - que ventura, foi para mim boa e carinhosa, céu lhe pague o bem que me fez, que eu nunca me podê-lo salvar! esquecerei de que poupou-me os mais acerbos desgostos da escravidão, mas quanto O homem que assim falava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar jovem cavaleiro, é bem diverso meu sentir, sim, bem diverso. Não troco cativeiro vinte e cinco anos, e que na franca expressão de sua fisionomia deixava adivinhar toda por cativeiro, oh não! troco escravidão por liberdade, por ampla liberdade! Veja, mãe a nobreza de um coração bem formado. O sangue africano refervia-lhe nas veias; Susana, se devo ter limites à minha gratidão: veja se devo, ou não, acompanhá-lo, se mísero ligava-se à odiosa cadeia da escravidão; e embalde o sangue ardente que devo, ou não provar-lhe até a morte o meu reconhecimento herdara de seus, pais, e que nosso clima e a servidão não puderam resfriar, embalde Tu! tu livre? Ah não me iludas! - exclamou a velha africana abrindo uns dissemos se revoltava; porque se lhe erguia como barreira - o poder do forte grandes olhos, Meu filho, tu és já livre?.. contra o Iludi-la! respondeu ele, rindo-se de felicidade - e para quê? Mãe Susana, Ele entanto resignava-se; e se uma lágrima a desesperação lhe arrancava, es- graças à generosa alma desse mancebo sou hoje livre, livre como pássaro, como as condia-a no fundo da sua miséria. águas; livre como o éreis na vossa pátria. Assim é que triste escravo arrasta a vida de desgostos e de martírios, sem Estas últimas palavras despertaram no coração da velha escrava uma recorda- 274 275</p><p>ção dolorosa; soltou um gemido magoado, curvou a fronte para terra, e com ambas vel. a sorte me reservava ainda longos combates. Quando me arrancaram daqueles as mãos cobriu os olhos. lugares, onde tudo me ficava esposo, mãe e filha, e liberdade! Meu Deus! Túlio olhou-a com interesse; começava a compreender-lhe os que se passou no fundo de minha alma, só vós o pudestes avaliar!.. Não se aflija disse. - Para que essas lágrimas? Ah! Perdoe-me, eu Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cati- despertei-lhe uma idéia bem triste! veiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos, e de A africana limpou rosto com as mãos, e um momento depois exclamou: falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até Sim, para que estas lágrimas?! Dizes bem! Elas são inúteis, meu Deus; que abordamos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão fomos mas é um tributo de saudade que não posso deixar de render a tudo quanto me foi amarrados em pé e para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como os caro! Liberdade! Ah! eu a gozei na minha mocidade! - continuou animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Susana com amargura. - Túlio, meu filho, ninguém a gozou mais ampla. Não Europa. Davam-nos a água imunda, podre e dada com mesquinhez, a comida má e houve mulher alguma mais ditosa do que eu. no seio da felicidade, via ainda mais porca: vimos morrer ao nosso lado muitos companheiros à falta de ar, de despontar sol rutilante e ardente do meu país, e louca de prazer a essa hora matinal, alimento e de água. É horrível lembrar que criaturas humanas tratem a seus seme- em que tudo aí respira amor, eu corria às descarnadas e arenosas praias, e aí com assim e que não lhes doa a consciência de levá-los à sepultura asfixiados e minhas jovens companheiras, brincando alegres, com sorriso nos lábios, a paz no famintos! coração, divagávamos em busca das mil conchinhas, que bordam as brancas areias Muitos não se deixavam chegar esse último extremo - davam-se à morte. daquelas vastas praias. Ah! Meu filho! mais tarde deram-me em matrimônio a um Nos dois últimos dias não houve mais alimento. Os mais insofridos entraram homem, que amei como a luz dos meus olhos, e como penhor dessa união veio uma vozear. Grande Deus! Da escotilha lançaram sobre nós água e breu fervendo, que filha querida, em quem me revia, em quem tinha depositado todo amor da minha escaldou-nos e veio dar a morte às cabeças do motim. alma: - uma filha, que era a minha vida, as minhas ambições, a minha suprema A dor da perda da pátria, dos entes caros, da liberdade foram sufocadas nessa ventura, veio selar a nossa tão santa união. E esse país de minhas afeições, e esse viagem pelo horror constante de tamanhas atrocidades. esposo querido, essa filha tão extremamente amada, ah Túlio! tudo me obrigaram os Não sei ainda como resisti - é que Deus quis poupar-me para provar a bárbaros a deixar! Oh! tudo, tudo até a própria liberdade! [....] paciência de sua serva com novos tormentos que aqui me aguardavam. Vou contar-te meu cativeiro. O comendador P foi senhor que me escolheu; coração de tigre é seu! Tinha chegado tempo da colheita e o milho e inhame e O mendubim eram Gelei de horror ao aspecto dos meus irmãos... os tratos por que passaram doeram- em abundância nas nossas Era um destes dias em que a natureza parece me até o fundo do coração! O comendador P derramava sem se horrorizar o entregar-se toda a brandos folgares, era uma manhã risonha, e bela, como rosto de sangue dos desgraçados negros por uma leve negligência, e por uma obrigação mais um infante, entretanto eu tinha um peso enorme no coração. Sim, eu estava triste, e tibiamente cumprida, por falta de inteligência! E eu sofri com resignação todos os não sabia a que atribuir minha tristeza, era a primeira vez que me afligia tão incom- tratos que se dava aos meus irmãos, e tão rigorosos como os que eles sentiam. E eu preensível pesar. Minha filha sorria-se para mim, era ela gentilzinha, e em sua ino- também os sofri, como eles, e muitas vezes com a mais cruel injustiça. cência semelhava um anjo. Desgraçada de mim! Deixei-a nos braços de minha mãe, Pouco depois casou-se a senhora Luísa B..., e ainda a mesma sorte: seu marido e fui-me à roça colher milho. Ah! Nunca mais devia eu vê-la. era um homem mau, e eu suportei em silêncio O peso do seu rigor. Ainda não tinha vencido cem braças de caminho, quando um assobio, que E ela chorava, porque doía-lhe na alma a dureza de seu esposo para com os repercutiu nas matas, me veio orientar acerca do perigo iminente, que aí me aguarda- míseros escravos, mas ele via-os expirar debaixo dos açoites os mais cruéis, das va. E logo dois homens apareceram, e amarraram-me com cordas. Era uma prisio- torturas do anjinho, do cepo e outros instrumentos de sua malvadeza, ou então nas neira - era uma escrava! Foi embalde que supliquei em nome de minha filha, que prisões onde os sepultava vivos, onde, carregados de ferros, como assassi- me restituíssem a liberdade: os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olha- nos acabavam a existência, amaldiçoando a escravidão; e quantas vezes aos mesmos vam-me sem compaixão. Julguei enlouquecer, julguei morrer, mas não me foi 276 277</p><p>O senhor Paulo B... morreu, e sua esposa e sua filha procuraram em sua Elas nos seguem amargas e pungentes no caminhar da vida ao túmulo: extrema bondade fazer-nos esquecer nossas passadas desditas! Túlio, meu filho, ainda na derradeira agonia nem uma lágrima silenciosa como um adeus à vida as amo de todo o coração, e lhes agradeço: mas a dor que tenho no coração, só a morte serena a ardência das faces requeimadas pela febre da gangrena. poderá apagar! - meu marido minha filha, minha terra minha liberdade Eu amo as lágrimas Elas têm sido as companheiras da minha árdua e penosa existência: é nelas que tenho achado meu conforto. Nelas é que me hei estribado para chegar ao breve termo Álbum da minha longa peregrinação.. Amei-as na infância, porque elas embalavam-me (trechos) docemente em ilusório sentir; eu as invocava por simpatia. Depois amor amor não pode vigorar sem lágrimas. O que é a vida ? Elas me sorriram nessa quadra poética da existência que para mim passou tão breve! Elas vinham dos olhos do seio, como a gota filtrada na rocha, doces e volup- O que é a vida ? Será acaso a vida respirar, sorrir, no trocar de cumprimen- banhar-me o coração com sua inefável fresquidão. tos banais e quantas vezes frívolos o banquetear com aparatosa regularidade, com E quando a mão de Deus mandou que esse amor tão belo cedesse ao sopro suntuoso luxo dos amigos, algumas vezes tão indiferentes, e alheios aos sentimentos álgido da morte, oh! essas antigas companheiras colocaram-se constantes a meu de afeto, e de amizade que lhes votamos e até estranhos à gratidão; por que depois de lado: e como orvalho sagrado, ela de então para cá jamais cessaram de umedecer a termos colhido os nossos sincero afagos vão cuspir sobre eles, seu sorriso de escár- estéril, e poeirenta senda que tenho vagamente percorrido. nio? Será isto vida? Não. Ou será então deslumbrante, e sedutor aspecto de um É então que fiz das lágrimas um sacerdócio, - é quando conheci então que a salão dourado, cujo ambiente perfumoso pode encher o coração de mágicos trans- vida está nas lágrimas Triste do homem que não as tem... será aí onde as flores de um buquê furta-se um beijo de leve, voluptuoso.. será os sons de orquestra afinada, que arrebatando os sentidos enleados vai de Guimarães 15 de junho de 1873 envolta com um bruxulear de magníficos candelabros excitar desejo, despertar idéi- as, acender no coração um fogo que logo abrasando-o rapidamente se esmorece, e A escrava morre ao último som da derradeira polca - ao último luzir da reverberante ilumina- ção da [Uma senhora de idéias abolicionistas salva uma escrava e liberta também seu filho.] Ou será a vaidade satisfeita pela posse de um rosto que a natureza adornou com a perfeita formosura dos anjos - uns olhos onde se retrata toda a beleza da Em um salão onde se achavam reunidas muitas pessoas distintas bem coloca- alma, uns olhos que falam de amores, desses que mundo procura em vão conhecer das na sociedade e depois de versar a conversação sobre diversos assuntos mais ou e que parece que só devem existir em Deus: porque o mundo é assaz pequeno para menos interessantes, recaiu sobre o elemento servil. contê-los uns olhos que são um orgulho de quem os tem e a inveja viva de quantos O assunto era por sem dúvida de alta importância. A conversação era geral; as a rodeiam? Será talvez tudo isso: - mas eu O nunca vivi; ou se vivi, compreendi a opiniões porém divergiam. Começou a discussão. vida por outros desvios, por outras sendas, por onde nem todos passam. Penso e Admira-me, disse uma senhora de sentimentos sinceramente abolicionista: sinto: meu sentir e meu pensar não os compreende ninguém; porque também a faz-me até pasmar como se possa sentir, e expressar sentimentos escravocratas, no ninguém os revelo. presente século, no século dezenove! A moral religiosa, e a moral cívica aí se erguem, A vida para mim está nas lágrimas. Amo as que verto na amargura pungente falam bem alto esmagando a hidra que envenena a família no mais sagrado santu- de minhas ternas desventuras: com elas alimenta-se minha alma, elas acalmam o ário seu, e desmoraliza, e avilta a nação inteira! rigor do meu destino. Levantai os olhos ao Gólgota, ou percorrei-os em torno da sociedade, e dizei-me: Lágrimas! Lágrimas Elas despontam cristalinas e brancas no berço do Para que se deu em sacrifício, o Homem Deus que ali exalou seu derradeiro 278 279</p><p>alento? Ah! então não é verdade que seu sangue era resgate do homem! é então uma Ela muda e imóvel ali mentira abominável ter esse sangue comprado a liberdade!? E depois olhai a Eu então a mim mesma interroguei: de... não vedes abutre que constantemente! não sentis a desmoralização que Quem será a desditosa? a enerva, cancro que a destrói? la procurá-la coitada! Uma palavra de animação, um socorro, algum serviço Por qualquer modo que encaremos a escravidão, ela é, e será sempre um gran- lembrei-me, poderia prestar-lhe. Ergui-me. de mal. Dela a decadência do comércio; porque comércio, e a lavoura caminham de Mas no momento mesmo em que este pensamento, que acode a todo homem mãos dadas, e o escravo não pode fazer florescer a lavoura; porque o seu trabalho é em idênticas circunstâncias se me despertava, um homem apareceu no extremo oposto forçado. Ele não tem futuro: seu trabalho não é indenizado; ainda dela nos vem O do caminho. opróbrio, a vergonha; porque de fronte altiva e desassombrada não podemos enca- Era ele de cor parda, de estatura elevada, largas espáduas, cabelos negros e rar as nações livres: por isso que estigma da escravidão, pelo cruzamento das raças, anelados. estampa-se na fronte de todos nós. Embalde procurará um dentre nós, convencer ao Fisionomia sinistra era a desse homem que brandia, brutalmente, na mão estrangeiro que em suas veias não gira uma só gota de sangue escravo... direita um azorrague repugnante; e da esquerda deixava pender uma delgada corda E depois caráter que nos imprime, e nos envergonha! de linho. O escravo é olhado por todos como uma Inferno! Maldição! bradara ele com VOZ rouca. Onde estará ela? E perscru- O senhor que papel representa na opinião social? com a vista por entre os arvoredos desiguais que desfilavam à margem da O senhor é verdugo e esta qualificação é hedionda. estrada. Eu narrar- vos, se me quiserdes prestar atenção, um fato que ultimamente Tu me pagarás - resmungava ele. E aproximando-se de mim: e deu. Poderia citar-vos uma infinidade deles; mas este basta, para provar o que Não viu, minha senhora, interrogou com acento, cuja dureza procurava repri- cabo de dizer entre algoz e a vítima. mir, não viu por aqui passar uma negra, que me fugiu das mãos ainda há pouco? Era uma tarde de agosto, bela como um ideal de mulher, poética como um Uma negra que se finge douda tenho as calças rotas de correr atrás dela por estas uspiro de virgem, melancólica e suave como sons longínquos de um alaúde miste- Já não tenho fôlego. ioso. Aquele homem de aspecto feroz era algoz daquela pobre vítima, compreendi Eu cismava embevecida na beleza natural das alterosas palmeiras que se curva- com horror. am gemebundas, ao sopro do vento, que gemia na costa. De pronto, houve um expediente. Vi-a, tornei-lhe com a naturalidade que o E o sol dardejando seus raios multicores pendia para ocaso em rápida carrei- caso exigia:-vi-a e ela também me viu, corria em direção a este lugar; mas parecen- a. do intimidar-se com minha presença, tomou direção oposta, volvendo-se repentina- Não sei que sensações desconhecidas me agitavam, não mas sentia-me mente sobre seus passos. Por fim a vi desaparecer, internando-se na espessura, om disposições para pranto. muito além da senda que ali se abre. De repente uns gritos lastimosos, uns soluços angustiados feriram-me os E dizendo isto indiquei-lhe com um aceno a senda que ficava a mais de cem uvidos, e uma mulher correndo, e em completo desalinho passou por diante de passos de distância, aquém do morro em que me achava. him, e como uma sombra desapareceu. Minhas palavras inexatas, ardil de que me servi, visavam a fazê-lo retroce- Segui-a com a vista. Ela espavorida e trêmula deu volta em torno de uma logrei o meu intento. rande moita de murta, e colando-se no chão nela se ocultou. Franziu sobrolho, e sua fisionomia traiu a cólera que o assaltou. Mordeu os Surpresa com a aparição daquela mulher, que parecia foragida, daquela mu- beiços e rugiu: er que um minuto antes quebrara a solidão com seus ais lamentosos, com gemidos Maldita negra! Esbaforido, consumido, a meter-me por estes caminhos, com gritos de suprema angústia, permaneci com a vista alongada e olhar pelos matos em procura da preguiçosa. Ora! Hei de encontrar-te; mas deixa estar, xo, no lugar que a vi ocultar-se. eu juro, será esta a derradeira vez que me incomodas. No tronco no tronco: e de 280 281</p><p>lá foge! Sonho ou visão? Então, perguntei-lhe, aparentando O mais profundo indiferentismo, pela te da desgraçada, - foge sempre? Sempre, minha senhora. Ao menor descuido, foge. Quer fazer acreditar que é douda. Tu vens rebuçado Nas sombras da noite Douda! exclamei involuntariamente, e com acento que traía os meus senti- Sentar te em meu leito; mentos. Mas o homem do azorrague não pareceu reparar nisso, e continuous Eu sinto teus lábios Douda douda fingida, caro te há de custar. Roçar minhas faces Acreditei-o o senhor daquela mísera; mas empenhada em vê-lo desaparecer Roçar no meu peito. daquele lugar, disse-lhe: A noite se avizinha, e se a deixa ir mais longe, difícil lhe será encontrá-la. Não sei bem se durmo, Tem razão, minha senhora; eu parto imediatamente e cumprimentando-me rudemente, retrocedeu correndo a mesma estrada que lhe tinha maliciosamente indi- Se velo se é sonho, cado Se é grata visão: Exalei um suspiro de alívio ao vê-lo desaparecer na dobra do caminho. Só sei que arroubada Deleita a minha' alma O sol de todo sumia-se na orla cinzenta do horizonte, vento paralisado não agitava as franças dos nossos arvoredos, só mar gemia ao longe da costa, semelhan- Tão doce ilusão. do o arquejar monótono de um agonizante. Ergui ao céu um voto de gratidão; e lembrei-me que era tempo de procurar minha desditosa protegida. Depois, um suspiro Que cala mais fundo Ergui-me cônscia de que ninguém me observava, e acercava-me já da moita de murta, quando um homem rompendo a espessura, apareceu ofegante, trêmulo e que prantos de dor; Que fala mais alto Confesso que semelhante aparição causou-me um terror Lembro-me que juras ardentes, dos criados que eu tinha convocado a essa hora naquele lugar e que ainda não Que votos de amor, chegavam. Tive medo. Vem lento pausado Do imo do peito Nos lábios morrer Eu amo de ouvi-lo, Pois desses suspiros Se anima meu ser. Mas, ah ! não me falas Teus lábios, teu rosto 282 283</p><p>Só tem um Depois vaporoso Vai todo fugindo Adélia Fonseca Teu corpo teu riso. Então eu desperto Do sonho ou visão, Zahidé Lupinacci Muzart Começo a cismar; E ainda acordada Invoco em delírio. Josefina de Castro Rebelo, mais tarde Fonseca pelo casamento, nasceu na Bahia em 24 de novembro de 1827, e faleceu no Rio de Janeiro em 9 de Oh ! Vem no meu sono dezembro de 1920. Era filha de Justiniano de Castro Rebelo e de Adriana Maria de Imagem querida Carvalho e Castro. Foi casada com seu primo, oficial da Marinha Brasileira Inácio Pousar no meu leito Com lábios macios Joaquim da Fonseca, e mãe do engenheiro civil Joaquim de Castro Fonseca, também Roçar minhas faces, poeta, e de Maria José de Castro Fonseca e Abreu, pianista, casada com historiador Pousar no meu peito. Capistrano de Abreu. Foi seu sobrinho poeta baiano Castro Rebelo Júnior. Rece- educação esmerada e bem de acordo com sua falava tocava piano, declamava, pintava. Para completar, viveu sua infância em um ambiente literário. Cedo revelou pendor acentuado para a poesia. Com menos de sete anos, glosava qualquer mote: Francisco Moniz Barreto, célebre repentista baiano, duvidou de tanta preco- cidade, supondo que algum assistente soprasse as glosas à criança. Por isso, num leilão de prendas na Barra, pô-la Moniz Barreto no colo e, para verificar a exatidão do que ouvia a seu respeito, deu-lhe ele mesmo por mote "Das uvas o belo cacho" que era lote que leiloeiro apregoava na ocasião. [...] A jovem poetisa, no colo de Moniz, preparou a glosa e, depois, segundo costumava, bateu palmas e recitou: "Senhor Franco, não cochile, Que cai da cadeira abaixo: / É melhor que vá comer/ Das uvas belo cacho". Abraçou-a Moniz que lhe dedicou desde então grande Adélia Fonseca foi muito considerada, e chegou mesmo a ser julgada a melhor poetisa baiana da época um período de grande efervescência cultural na Para presente artigo, foram importantes as sugestões bibliográficas da pesquisadora bajana Profa. Dra. Ivia Iracema Duarte Alves, a quem agradecemos. Apud A. A. "Adelia Fonseca." Autores e Livros, Suplemento Literário de A Manhã, Rio de Janeiro, V. 6 dez. 1944, p.73. 284 285</p><p>Além de jornalista, atuou na ficção: foi romancista, contista e dramaturga, tendo se dedicado também à crítica e à poesia. Iniciou sua carreira literária escrevendo contos e fantasias, como ela mesmo relata em crônica de 3 de outubro de 1909.6 Mas sempre se interessou por literatura. Carmem Dolores Noutra crônica, a de 5 de maio de 1907, diz que, certa vez, perguntou a Artur Azevedo como ele produzia, interessada em melhor compreender processo de criação antes de se lançar profissionalmente. Na que dedica à morte de Machado de Eliane Vasconcellos Assis percebe-se claramente a sua mágoa em relação ao autor de Dom Casmurro, pelo fato de este não lhe haver incentivado a se dedicar à carreira literária. Foi pela mão de Alcindo Guanabara que ingressou no mundo jornalístico profissional. Suas crônicas podem ser vistas como documentos de uma época, pois ela fixa imagens do cotidiano, expõe suas idéias e defende opiniões, marcando presença em ome literário de Emília Moncorvo Bandeira de Melo, nasceu no Rio de um espaço quase exclusivamente masculino, ficando, porém, à margem da Janeiro, em 11 de março de 1852 e faleceu em 16 de agosto de 1910.2 Era filha do Dr. historiografia literária. Fez parte entretanto das escritoras pioneiras que lutaram pela Carlos Honório de Figueiredo e D. Emília Dulce Moncorvo de Figueiredo. Casou educação da mulher, para a colocação desta dentro da força de trabalho. Não teve se com Jerônimo Bandeira de Melo. Deste enlace nasceu a escritora Cecília Bandeira medo de ir a favor do divórcio; curiosamente, no entanto, não lutou pelo sufrágio de Melo, que ficou conhecida com pseudônimo de Mme. Chrysanthème. feminino, como se em algumas de suas crônicas. Entre seus temas prediletos, Colaborou no Correio da Manhã. Com pseudônimo de Júlio de Castro, destacamos a defesa do feminismo e da lei do divórcio. publicou uma série de contos em País. Na Tribuna assinou artigos de crítica Quanto à educação feminina, faz algumas reivindicações, mas não menciona a ria como Leonel Usou ainda pseudônimo de Mário Vilar e como Célia educação secundária ou superior, a habilitação profissional, nem mesmo cita a escola Márcia escreveu no jornal Étoile du Sud.4 Entretanto ficou conhecida por Carmem normal ou direito de a mulher concorrer igualmente com O homem no mercado de Dolores, nome com que assinou suas crônicas de 1905 até 14 de agosto de 1910, na trabalho. Trabalhar, só quando necessário para subsistência. Sua proposta de educa- coluna dominical "A Semana", na primeira página de País, jornal de maior tiragem ção para a mulher nada mais é que uma extensão das atividades domésticas. Chega a da América da Sul, na época. afirmar que elas devem aprender música, português castiço, línguas, e a arte de coser, Segundo Armando Erse, Carmem Dolores trabalhou até os últimos dias de bordar, cozinhar e fazer doces. Não lutou por novos padrões comportamentais, nem sua vida. Nem mesmo a doença que a prendia ao leito fez com que ela parasse de mesmo ao se referir à atuação dinâmica da advogada Mirtes de Campos, a primeira escrever. Certamente tal atitude se explicasse pela sua consciência de que, para mulher brasileira a subir em uma tribuna. homens, as mulheres são e, assim, obrigara-se a tornar-se um exemplo O seu feminismo era de meias-medidas. A figura da boa mãe de família ainda contrário. Era uma lutadora, como bem observou Gilberto Amado, que a substituiu é forte em seus escritos, chegando mesmo a dizer "que não se considera feminista, em Em 21 de agosto de 1910, dedica sua primeira crônica à sua antecessora, livre-pensadora ou coisa que valha". Tinha, pelo contrário, a "consciência de ser dizendo tratar-se de uma mulher "fulgurante que irrompia [...] com uma prosa uma boa mãe de família". Acusou os crimes de uxoricídio, denunciou a relação amor indisciplinada e belicosa". casamento, trabalho mal remunerado para as mulheres e se interessou pelas reivindicações da classe média. 1. Segundo Correia de Melo, ela teria nascido em São Paulo. 2. Brito Broca e Raimundo de Meneses registram 13 de agosto de 1911. Em enquete publicada no Almanaque de País, em resposta à pergunta 3. País, Rio de Janeiro, 8 set. 1907. "Como trabalha?", revela seu processo de criação: 4. Alguns números são encontrados na Divisão de Obras Raras, da Biblioteca Nacional, mas não estão disponíveis para consulta. 5. AMADO, Gilberto. Mocidade no Rio e primeira viagem à Europa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956, p. 46. 6 As crônicas aqui citadas foram publicadas em País. 500 501</p><p>Ideando vagamente O assunto e só lhe dando a fórmula num jato, à hora de impondo-se dia-a-dia, foi afixado em várias personalidades do nosso mundo literá- escrever. As idéias me vêm com a pena na mão, e só trabalho de dia, um pouco pela rio até que, improvisamente [sic], desfez-se o mistério como desabrocha uma flor manhã, um pouco de tarde, de uma hora às quatro da tarde. Fora desse tempo, e soube-se verdadeiro nome da artista: D. Emília Bandeira de Melo. [...] conversando, saindo, fazendo visitas, o meu cérebro está sempre agitando e E hoje é, sem contestação, um dos escritores de mais brilho, exímia analista de ando qualquer idéia, que depois aproveito. almas, lavrante caprichosa de casos comuns da vida que ela, com a arte sutil de Ariadne, transforma em teia rútila, tão fina, tão delicada, tão graciosa que o espírito Ao lhe perguntarem sobre o amor, o casamento, a maternidade e nela se prende e fica, como em um halo de luz, gozando, embevecido, encanto. respondeu: "O amor é a luz da existência. O casamento representa uma experiência, Artista, tem a preocupação da forma. Com assunto procede como a verdade: faz da observação espelho e, reproduzindo episódios reais, não se preocupa com o bem ou mal sucedida. A maternidade é uma aliança de e amarguras e que esse possa dizer da sua audácia. Há cruezas na página? que culpa tem espelho divórcio uma necessidade." E a respeito do feminismo revelou: da imagem que reflete? Não responsabilizem a escritora, responsabilizem a vida. Só compreendo o feminismo como meio de garantir à mulher o direito de con Ao contrário de seu outro livro, este é mais diversificado, aborda vários temas correr ao trabalho, igual ao homem, quando precisa lutar pela vida; mas acho inútil é menos intimista. Há 26 contos que versam sobre os sentimentos femininos, a sua incorporação à política, forma grotesca de um exibicionismo sem necessidade, que fere preconceitos sem vantagem senão para a vaidade feminina. adultério, sedução, desejo, amor, paixão, solidão, sexo, ciúme, velhice, nos quais a personagem feminina ocupa quase sempre o primeiro plano. Como em Gradações, o Publicou em vida Gradações (contos), em 1897: tinha como objetivo reunir aspecto psicológico é mais importante. E sob influência realista faz suas mulheres "algumas impressões", "bagos de um só colar", como informa no "Oferecimento" seguirem destino previsto pela sociedade: namoro, noivado, casamento, materni- que faz a Alberto de Oliveira. Nesse livro ela reuniu sete contos em torno de um dade e, se for necessário, viuvez. A dependência feminina ao homem continua pre- mesmo assunto. São narradas relações amorosas, nas quais a mulher sempre sai em sente. desvantagem. Ela não tem coragem de ir contra os padrões morais vigentes: suas Seu outro livro de contos Almas complexas foi publicado postumamente mulheres são submissas aos homens; apesar de algumas "ousarem" em suas rela (1934).7 Deixou ainda livro Ao da idéia (1910), onde reuniu sete crônicas ções, que varia é apenas ambiente. Os contos são escritos em uma linguagem sobre o divórcio: "Conversando...", "O "Um absurdo", "É irritante!", intimista. Ela sabe retratar com sensibilidade estado de alma das mulheres da classe "Coisas da atualidade", "O triunfo" e "Ainda". burguesa. O único conto escrito do ponto de vista masculino é "Duelo". Um drama Escreveu também A luta, que considera seu trabalho mais completo. Este na em 1907 foi saudado com grandes elogios pela crítica da época. Esse livro romance foi publicado primeiramente em forma de folhetim noJornal do Commercio mereceu prefácio de Coelho Neto, por quem Carmem Dolores tinha grande admi e apareceu em livro no ano de 1911. O enredo se passa em uma pensão do Rio de ração. O autor de A pastoral, assim fala da escritora: Janeiro. Nele acompanhamos desafio de Celina, filha de D. Adozinda, mulher simples, que luta por sua sobrevivência e pela de suas filhas alugando quartos. Celina A autora deste livro é uma das mais robustas organizações artísticas do nosso apaixona-se por Gilberto, mas sua mãe é contra romance, por tratar-se de rapaz meio e continuaria ainda desconhecida ou circulando nas letras sob um rebuço pobre. A jovem casa-se, então, com Alfredo de situação mais estável. Após cinco anos masculino se a não animassem a sair com seu talento a público. Gilberto retorna rico. Celina se separa do marido e volta a residir na casa da mãe, O nome de Carmem Dolores apareceu um dia, n'O País, firmando uma crônica magistral. Era uma página forte, de soberbo estilo, tersa e vibrante, na qual onde se vê cobiçada como uma mercadoria, tanto pelo antigo namorado, quanto por conceitos vinham aboiando sobre as ondas sonoras dos períodos, como floridos um dos hóspedes. A luta se desencadeia. Alfredo tenta reconquistar a mulher. Celina camalotes descendo ao som das águas de uma ribeira límpida. percebe então que o Gilberto que voltara não é o mesmo que ela conhecera, ele Logo começaram as conjecturas: citavam-se nomes atribuindo a este, desejava apenas desfrutá-la. A luta termina quando Celina decide retornar para sua escritor o trecho admirável. vida familiar. Não querendo se arriscar, opta pela vida segura da mulher casada. Veio depois um conto de igual requinte, em seguida outra crônica do mesmo capricho e, durante um ano, discreto e de ardente curiosidade, apelido da escritora 7. Carmem Dolores faz referência ao livro em crônica (O País, 7 fev. 1909). 502 503</p>