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<p>TEMAS BASICOS DE PSICOLOGIA CLARA REGINA RAPPAPORT (Coordenadora Helmuth Krüger INTRODUÇÃO À SOCIAL</p><p>Introdução à Psicologia Social</p><p>Temas Básicos de Psicologia Helmuth Krüger Coordenadora: Clara Regina Rappaport Introdução à Psicologia Social Dados de Catalogação na Publicação (CIP) Internacional (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Krüger, Helmuth. K95i Introdução à psicologia social / Helmuth - São Paulo: EPU. 1986. (Temas básicos de psicologia; 12) 302 K94i Bibliografia. 1. Psicologia social I. Título. II. Série. 2006 86-0141 19. CDD-302 E.P.U. EDITORA Índice para catálogo E UNIVERSITARIA LTDA. 1. Psicologia social 302</p><p>Sobre autor Helmuth Krüger concluiu sua licenciatura em Filosofia na UERJ em 1964. É licenciado e formado em Psicologia por essa mesma Universidade em 1969 e 1970, respectivamente. Os títulos de mestre em Psicologia Aplicada ao Trabalho (1975) e doutor em Psicologia (1984) foram-lhe conferidos pelo É atualmente professor adjunto do Depar- tamento de Psicologia Social e do Trabalho da UFRJ e do Departamento de Psicologia Geral da UERJ. Integra também o corpo docente da Coordenação da Pós-Graduação em Psicologia da UGF. 129484 SOCIEDADE DE ENSINO SUPERIOR ESTÁCIO DE BIBLIOTECAS N 575610 5 Em: 17/08/06 Aquisição Capa: Paulo Hiss Este 2006 Ne ISBN 85-12-62220-2 E.P.U. - Editora Pedagógica e Universitária Ltda., São Paulo, 1986. Todos os direitos reservados. A reprodução desta obra, no todo ou em parte, por qualquer meio, sem autorização expressa da Editora, sujeitará o infrator, nos termos da Lei 6.895, de 17.12.1980 à penalidade prevista nos artigos 184 e 186 do Código Penal, a saber: reclusão de um a quatro anos e multa E.P.U. Praça Dom José Gaspar, 106 - 30 andar - Caixa Postal 7509 - 01051 São Paulo - Brasil Tel.: (011) 259.9222 Impresso no Brasil Printed in Brazil</p><p>Sumário Prefácio geral da coleção IX Prefácio do autor XI 1. Caracterização da Psicologia Social 1 1.1. o objeto da Psicologia Social 2 1.2. Características da Psicologia Social contemporânea 4 1.3. Psicologia Social e ciências sociais 8 1.4. Breve histórico da Psicologia Social 10 1.5. Resumo 14 Leituras recomendadas 15 2. Métodos em Psicologia Social 16 2.1. Elementos da metodologia psicossociológica 18 2.2. Métodos experimentais 20 2.3. Métodos alternativos 24 2.4. Problemas éticos da pesquisa psicológica 27 2.5. Resumo 29 Leituras recomendadas 30 3. Atitudes, preconceitos, valores e crenças 31 3.1. Crenças e sistemas de crenças 32 3.2. Atitudes e preconceitos 34 3.3. Formação, mudança e medida de atitudes 36 3.4. A questão dos valores na Psicologia Social contemporânea 38 3.5. Resumo 40 Leituras recomendadas 41 VII</p><p>4. A formação do ser social 42 4.1. Socialização e aprendizagem social 43 4.2. Desenvolvimento da moralidade 45 4.3. Desenvolvimento da necessidade de realização 47 4.4. Influências da sociedade e da cultura no comportamento humano 49 4.5. Resumo 52 Prefácio geral da Coleção Leituras recomendadas 53 5. Comportamento social interpessoal 54 5.1. Percepção de pessoa 55 5.2. Comportamento altruísta 57 5.3. Comportamento agresssivo 60 5.4. Poder social 63 5.5. Resumo 64 Leituras recomendadas 65 6. Processos grupais 66 6.1. Afiliação 68 A Coleção Temas Básicos de Psicologia tem por finalidade apresen- 6.2. Conformismo, conformidade e obediência 70 tar de forma didática e despretensiosa tópicos que são ministrados em 6.3. Coesão grupal 72 várias disciplinas dos cursos superiores de Psicologia ou outros em 6.4. Liderança e desempenho de grupo 74 cujo curriculum constem disciplinas psicológicas. 6.5. Resumo 76 o objetivo fundamental é o de oferecer leituras introdutórias que Leituras recomendadas 78 sirvam como roteiro básico para o aluno e que ajudem ao professor na elaboração e desenvolvimento do conteúdo programático. 7. Teorias cognitivas na Psicologia Social contemporânea 79 Neste sentido, selecionamos autores com vasta experiência didática 7.1. Teoria da dissonância cognitiva 80 em nosso meio, os quais, em virtude da profundidade de seus conheci- 7.2. Teoria da atribuição 82 mentos e do contato prolongado com alunos, cientes da dificuldade de 7.3. Teoria da autopercepção 84 adaptação da literatura importada para o nosso estudante, se dispuse- 7.4. Teoria da 85 ram a colaborar conosco. 7.5. Conclusões 86 Esperamos, assim, contribuir para a formação de profissionais, Leituras recomendadas 87 psicólogos ou não, sistematizando e transmitindo, de forma simples, o conhecimento acadêmico e prático adquirido por nossos colaboradores 8. Psicologia Social e problemas sociais 88 ao longo dos anos, e também tornando a leitura um evento produtivo e 9. Aplicações da Psicologia Social 91 agradável. 10. o futuro da Psicologia Social 94 Clara Regina Rappaport Coordenadora 11. Bibliografia 97 IX VIII</p><p>Prefácio do autor Na preparação deste livro encontrei-me diante de um dilema: escre- ver um texto de Psicologia Social, dispondo de um espaço limitado, que não viesse a ser inteiramente banal e pudesse esclarecer, nortear e instigar ao menos alguns dos que, por este ou aquele motivo, inclusive de natureza profissional, estejam interessados em obter informações básicas e atualizadas sobre este setor da Psicologia contemporânea. Infelizmente, não me foi possível aproveitar a sugestão do professor Dallenbach, lembrada por McDonnel (1978), de que na elaboração de obras introdutórias ao estudo da Psicologia não se deva deixar de mencionar fatos biográficos dos autores das teorias que vierem a ser focalizadas. A justificar tal iniciativa encontra-se a suposição de que além da contribuição oferecida na retenção do conhecimento, pode-se conquistar o leitor para a Psicologia. Não agi assim, pois tiraria o lugar - tão escasso - de argumentos especializados. Optei pela tentativa de apresentação sistemática da Psicologia Social, principiando por dois elementos que, ao lado da matriz conceitual, constituem qualquer disciplina científica: o objeto e a metodologia de pesquisa. Em seguida, passei a examinar diversos tópicos da investigação psicossociológica concedendo-lhes uma ordenação que presumo ser lógica, para concluir, no décimo capítulo, com algumas considerações a respeito da importância e provável destino desta disciplina. Na confecção dos dois primeiros capítulos vali-me de algumas páginas da minha tese de doutoramento - Fundamentos da Psicologia Social (ISOP/FGV, 1984). Procurei, entretanto, atenuar um pouco, aqui e ali, a concisão do texto original, com a intenção de torná-lo mais XI</p><p>acessível a estudantes. A propósito da metodologia, vale ainda regis- trar que ao invés de limitar-me à descrição das principais estratégias de 1 pesquisa psicossociológica, procurei oferecer informações mais atuais a respeito de problemas técnicos relativos ao assunto. Cabe ainda esclarecer embora o leitor atento o viesse a perceber de qualquer maneira que foi dedicada muita atenção à análise de conceitos básicos como os de crença, atitude, preconceito, socialização, confor- midade e dissonância cognitiva. A razão para isto é que a atividade Caracterização da Psicologia Social teórica tende a ser mais produtiva e conseqüente quando a matriz conceitual for cognitivamente dominada, possibilitando visualizar o objeto de estudo com maior clareza. De resto, se acolhermos a idéia de que a ciência é mais um processo do que um produto (conhecimento) acabado, haveremos de atentar principalmente para os mecanismos de obtenção deste último, pois, por mais melancólico que seja, o saber científico é revisável e, em regra, perecível. Tal situação sugere a conveniência em se adotar uma posição de permanente vigilância crítica em relação aos métodos, conceitos e teorias já disponíveis, confrontando argumentos, procurando avaliar suas limitações, defi- ciências e erros mas, também, atributos positivos. É por esta razão que ao final de cada capítulo são apresentadas algumas sugestões de Podemos partir do entendimento de que psicólogos sociais estudam leitura, as quais referem textos que nem sempre entram em consonân- condutas humanas enquanto influenciadas por outras pessoas. Tenta- cia com os argumentos aqui apresentados. remos esclarecer isto um pouco melhor ao longo das próximas páginas, Desde logo manifesto interesse e agradecimento por qualquer crítica mas convém, desde já, acolher a idéia de que na Psicologia Social o estudo somos nós mesmos enquanto participantes de intera- ou sugestão que este livro venha a receber. Gostaria, finalmente, de ções sociais. Em outras palavras, o principal ponto de partida das expressar o meu reconhecimento à Direção do Instituto de Psicologia da UFRJ e à Coordenação de Pós-Graduação em Psicologia da UGF, cogitações teóricas neste setor da Psicologia contemporânea é o mais familiar de todos: são os seres humanos entregues às suas múltiplas instituições nas quais conduzo a parte mais significativa de minhas atividades e afazeres, desde que de alguma forma seja esta direta e atividades de docência e pesquisa, pelas condições de trabalho que me foram proporcionadas, fornecendo-me tempo para a realização deste imediata ou o contrário haja como referência uma outra pessoa ou trabalho. grupo de pessoas. Helmuth Krüger Sendo classificada e metodologicamente desenvolvida em termos de uma ciência empírica, assentando-se portanto sobre o estudo de um objeto os comportamentos sociais de cuja existência não se duvida, constata-se que psicólogos não se satisfazem com descrições, ainda que detalhadas, de condutas sociais humanas, intentando a busca de explicações. Assim. concluir que na Psicologia Social há a da em condutas, de relações entre fatores ou variáveis. dotadas de alguma A esta altura o leitor atento deverá estar pensando que a presunção da ocorrência de inva- riantes comportamentais possa levar à rejeição da idéia de que sejamos capazes de agir livremente. No fundo, essa questão é filosófica, não cabendo examiná-la neste livro, mas deve-se esclarecer que as explica- ções psicológicas têm um caráter probabilístico, sendo o seu acolhimen- to mais uma decorrência dos fatos do que de decisões estabelecidas XII 1</p><p>teoricamente. Assim, não é indispensável que na Psicologia Social instintos e do da consciência de grupo, desapareceram. Trata-se, como deva ser elidida a concepção de que sejamos dotados de liberdade, estamos percebendo, de uma questão bastante complexa, tão resisten- sendo esta possivelmente manifestada em condutas mais conscientes e te a generalizações que alguns autores, como o psicólogo social alemão deliberadas, mas é necessário admitir que uma disciplina científica só é Irle (1978), tendem a negligenciá-la, sugerindo que a Psicologia Social viável quando houver o pressuposto da regularidade na estrutura e na deva ser definida pragmaticamente a partir de pesquisas e dinâmica do que se deseja pesquisar. contribuições teóricas de psicólogos sociais. Neste ponto é conveniente declarar que a Psicologia Social, visuali- Além disso, se dirigirmos as nossas vistas para o cenário atual, zada a partir de critérios quantitativos, é fundamentalmente uma área constataremos que a Psicologia Social vem sendo desenvolvida por científica Os dados depõem veementemente neste psicólogos e sociólogos, embora esses especialistas não concedam uns sentido: em 1979 e 1980 foram atribuídos, nos Estados Unidos da aos outros muita atenção. É oportuno registrar que as diferenças mais America do Norte, 139 e 115 títulos de doutorado em Psicologia Social, significativas entre esses dois grupos de especialistas situam-se nota- respectivamente (Stapp e Fulcher, 1982). Cabe, ainda, adicionar mais damente no nível de análise e na orientação metodológica (Boutilier et uma informação: a Psicologia Social, em que pesem as críticas e os al, 1980, p. 51). Agora, quanto à participação relativa no desenvolvi- debates em torno de sua relevância, tende a ser interpretada como mento teórico desta área científica, há índices que sugerem ser a ciência básica. Depreender-se-á a validade do que afirmamos se forem contribuição de psicólogos sociais de formação psicológica mais deci- levadas em consideração as conclusões da pesquisa de Lipsey (1974), siva do que a de seus colegas de origem sociológica. Graumann (1975, pois os dados por ele colhidos indicam que psicólogos sociais afetados p. 4), por exemplo, estima que a dos últimos pode atingir apenas um por preocupações sociais orientar-se-iam antes para a tecnologia social terço de todas as hipóteses e teorias que concorrem para a maturação do que para posições antiexperimentais e de engajamento social. científica da Psicologia Social. Nas quatro unidades deste capítulo examinaremos as seguintes Caracteristicamente psicólogos de formação psicológica questões: objeto da Psicologia Social; caracterização da Psicologia vêm se ocupando com o estudo de processos individuais Social Psicologia Social e Ciências sociais; e breve relacionados com estímulos e situações sociais. Recensear autores que história da Psicologia Social. depuseram a favor desta perspectiva não parece ser tarefa cientifica- mente produtiva; assim, as referências aos textos de Jones e Gerard 1.1. o objeto da Psicologia Social (1967, p. 1) e Bornewasser et al. (1979, p. 12) devem ser tomadas apenas como tentativas de exemplificação do individualismo da Psico- o desenvolvimento de qualquer área científica depende da integra- logia Social de matriz psicológica. A rigor, nesta área, apesar da ção de três elementos: objeto de estudo, métodos e técnicas de pesquisa acentuada variação temática verificada entre o seu início e os nossos e sistema de conceitos básicos. Quanto ao objeto da Psicologia Social, dias, manteve-se a orientação individualista ressaltada por Allport pode-se perguntar: que se pretende estudar e sob que perspectiva? (1924, p. 4). Por ser esta uma orientação dominante, vamos procurar Tentaremos encontrar uma resposta satisfatória para esta pergunta, conhecê-la melhor. mas temos que convir não ser possível elaborar, no atual estágio Um dos procedimentos mais utilizados, quando se deseja saber da histórico da Psicologia Social, uma definição que possa se beneficiar evolução de uma disciplina científica ou dos temas com os quais se de uma aprovação unânime. A rigor, considerando o presente estado ocupam os seus mais destacados especialistas, é o exame comparativo de coisas neste setor da Psicologia, constatamos a existência de do conteúdo dos mais importantes manuais e textos didáticos elabora- diversas soluções para a pergunta relativa ao objeto de estudo. Aron- dos em épocas diferentes. Essa técnica foi empregada por Goldstein son (1979, p. 22) expressou nitidamente este ponto de vista ao declarar (1983, na introdução), que, em relação à Psicologia Social. concluiu que há quase tantas definições de Psicologia Social quanto o número terem sido enfatizados, na década de 1970, os seguintes tópicos de de psicólogos sociais. De outro lado, se examinarmos a história da pesquisa: agressão, altruísmo, atração interpessoal, atribuição, confor- Psicologia Social, do início deste século aos nossos dias, verificaremos midade, desempenho de papéis, obediência à autoridade, poder social, o aparecimento de sucessivos tópicos de pesquisa. Alguns, como é o Psicologia Ambiental e questões na pesquisa. E razoavel supor caso do das atitudes, permanecem e percorrem o itinerário de uma que a de semeinante ao que foi encetado por progressiva maturidade teórica; outros, foi o destino do dos Goldstein, porém baseado em outras obras, conduza a resultados um 2 3</p><p>pouco diferentes, mas esses, seguramente, não serão de molde a preensão global do que nela se realiza, incluindo tanto os esforços de impedir a conclusão de que o núcleo central dos temas da pesquisa teorização quanto os procedimentos de pesquisa e seus resultados psicossociológica seja o comportamento social. Existem, o que é técnicos. A melhor de tais sumários admitindo que natural, temas e métodos de pesquisa alternativos, menos sejam epistemologicamente confiáveis é a possibilidade de se alcan- propostos e desenvolvidos por autores mais originais e, talvez, mais çar uma base de entendimento que enseje uma orientação lúcida e ciosos da sua independência intelectual em relação aos pontos de vista no estudo e na pesquisa da ciência descrita dessa manei- perfilhados pela comunidade científica, mas tais posições são minoritá- ra. Assim compreendidas as coisas e considerando a vasta extensão de rias. A grande maioria dos autores, por diversas razões, tais como o hipóteses e teorias que constituem a Psicologia Social, poderemos treinamento em pesquisa, critérios de avaliação da produção científica destacar os seguintes aspectos que lhes são mais característicos: e influência de pesquisadores mais fecundos, professores e associa- individualismo, experimentalismo, microteorização, etnocentrismo, ções científicas, tende a aderir à orientação mais prestigiada. Na utilitarismo, cognitivismo e a-historicismo. quarta unidade deste capítulo encontraremos outras referências e infor- mações a respeito desse assunto, convindo neste momento apenas Em páginas anteriores deste capítulo, já foi referido o individualis- declarar que inovações capazes de gerar mudanças teóricas e metodo- mo da Psicologia Social Essa característica, implícita lógicas substantivas ocorrem com maior probabilidade quando são em diversas definições dessa área científica, advém da origem e das relações temáticas, conceituais e metodológicas existentes entre a propostas por especialistas de status acadêmico superior. Psicologia Social e a Psicologia Geral. Com o termo individualismo Tentemos uma síntese: o que mais importa aos psicólogos sociais quer-se designar a adotada por psicólogos sociais na deter- explicar são as condutas humanas modificadas pela minação do objeto de suas pesquisas; tendem, preferencialmente, para presenca atual ou implicada de outras pessoas. Admitem que a expres- o estudo do comportamento social e de processos cognitivos e afetivos são "condutas humanas" abranja tanto os fatos observáveis quanto as experiências subietivas nos planos da cognição e dos aretos. Em enquanto influenciam ou, ao contrário, são influenciados pela presen- benefício da clareza, convém acrescentar ainda que com ``presença ca real ou imaginada de outras o individualismo na Psicologia implicada" querem referir dados da consciência de pessoas que imagi- Social foi destacado por Allport (1968, p. 3), na sua síntese da história desta disciplina. nam ou evocam experiências de interação social. Deduz-se desta última assertiva que há, nesta área da o de que Outra característica é o experimentalismo. Este atributo sobreviveu os comportamentos humanos são influenciados por e repre- às intensas críticas aos métodos experimentais empregados nas pesqui- sentações por nós mesmos obtidas ou De resto, sob o ângulo sas psicológicas formuladas na década de 1960. E bastante antiga a do enquadramento, podemos afirmar ser enfatizada, na Psicologia idéia de que experimentos de laboratório geram e aos que Social do nosso tempo, segundo Moscovici (1972), a orientação taxio- deles tomam parte experimentadores, participantes e demais nômica, caracterizada pela busca de relações funcionais entre variá- dores situações planejadas e controladas e que, por veis individuais e estímulos externos. As outras duas, menos cotadas, isso mesmo, tendem a provocar nestes a emissão de respostas diferen- são a diferencial e a sistemática. A primeira destas últimas refere tes das que apresentam em situações mais naturais. Os argumentos pesquisas psicossociológicas em que as condutas sociais são estudadas criticos e dúvidas em à dos experimentos psicossocio- a partir de processos e atributos de personalidade e a segunda, por sua lógicos suscitaram iniciativas que visaram ao aperfeiçoamento da vez, aplica-se à investigação dos processos de dependência e interde- metodologia experimental. Assim, há maiores cuidados, atualmente, pendência verificados em interações sociais. em neutralizar variáveis de estímulo apresentadas pelo próprio experi- Nas páginas subseqüentes o leitor encontrará uma descrição da mentador, bem como variáveis estranhas que participantes trazem Psicologia Social baseada em seus aspectos mais notáveis. para situações experimentais. A na Psicologia Social, tomou maior impulso nas décadas de 40 e 50, sob o influxo da 1.2. Características da Psicologia Social contemporânea participação de Lewin (1890 1947) e de outros sociais por ele atualmente, essa metodologia continua a ser aplica- Ao nos entregarmos à tarefa de elaboração de sínteses de alguma da e rotineiramente neste setor da Experimentos área científica, e encontramo-nos determinados a buscar uma com- têm ocorrido com maior do que estudos campo e 4 5</p><p>levantamentos, mesmo na década de 60 (Fried et al. 1973), quando esse houvesse uma orientação que contemplasse o interes- tema era discutido. se científico pela obtenção de hipóteses e teorias psicossociológicas de A microteorização é um outro aspecto a identificar a Psicologia aplicação transcultural, ao mesmo tempo que os recursos intelectuais e Social É verdade que na Psicologia, de um modo técnicos de que os psicólogos sociais são dotados viessem a ser geral, não são encontradas teorias abrangentes, mas talvez seja na colocados à disposição de projetos de desenvolvimento social. Psicologia Social que esta questão, por ser mais observável do que em De certo modo, argumentos e informações do parágrafo anterior outros setores da Psicologia, venha provocando maiores preocupações propiciam o entendimento de que a Psicologia Social é também orienta- entre especialistas. A é provavelmente, uma conse- da no sentido de atender a expectativas sociais; quer dizer, esta qüência dos seguintes fatores: falta de consenso, entre especialistas, disciplina científica é pragmática ou utilitariamente conduzida. Pode- no que se refere à imagem básica do acentuada dispersão se acrescentar: tanto no Ocidente quanto em países socialistas do falta de continuidade de programas de pesquisa; e o abando- Leste europeu. Esse fato é inequivocamente constatado, sobretudo em no prematuro de programas de pesquisa promissores (Backman, 1980, períodos ou épocas de conflito social e de graves ameaças à sobrevi- referiu-se a este último fator). vência ou progresso de alguma sociedade, quando se imprime um o termo etnocentrismo, neste livro, designa um dos aspectos mar- direcionamento mais utilitarista no fomento da pesquisa em todos os cantes da Psicologia Social. Impõe-se, entretanto, uma explicação campos científicos. Na história da Psicologia Social, por exemplo, cuja preliminar: com esta palavra pretende-se designar a orientação predo- maturidade teórica e metodológica começou a ser conquistada a partir minantemente norte-americana imprimida a esta ciência, caracterizan- da década de 30, especialmente nos seus últimos anos, ocorreu uma do-a como realização ocidental estadunidense, em particular. Con- aplicação mais sistemática de esforços e uma alocação mais generosa tudo, o etnocentrismo assim descrito não autoriza a conclusão de que de recursos quando os temas a pesquisar eram de interesse militar. É o se esteja diante de uma espécie de ciência nacional o que seria um caso dos tópicos referentes à propaganda, liderança, boatos, estrutura anacronismo mas conduz apenas à idéia de que a Psicologia Social familiar e desenvolvimento da personalidade, comportamento político está sendo desenvolvida por especialistas que extraem seus conceitos e processos grupais. Em outras palavras, pode-se declarar, secundan- de uma determinada tradição cultural e pesquisam temas de sua do Pepitone (1981), que a grave crise instaurada pela Segunda Guerra própria sociedade. Assim interpretada, e por este a Psicologia Mundial valorizou a pesquisa aplicada na Psicologia Social. Social apresenta duas dificuldades: a da validade externa de hipóteses o cognitivismo encontra seus alicerces em uma dentre diversas e teorias psicológicas e a falta de entendimento, em outras sociedades imagens básicas do Homem. Sendo a influência desse movimento na fora dos EUA, do ponto de vista teórico e prático, necessidades de Psicologia Social atualmente superior aos vinculados às tradições da esclarecimento e de problemas relacionados com processos Psicanálise e do Behaviorismo, infere-se que por aqui deve predominar psicossociais. A primeira dessas duas restrições é considerada grave a interpretação de que nós sejamos ativos na busca do conhecimento, por psicólogos sociais que tenham em vista obter proposições de prospectivamente orientados e capazes de controlar nossas condutas validade geral, isto é, hipóteses e teorias generalizáveis ao menos no de modo racional. oportuno lembrar que a Psicologia Cognitiva se plano transcultural. Replicações de pesquisas originais e o desenvolvi- constitui numa perspectiva triunfante na Psicologia deste fim-de- mento de projetos de investigação intercultural constituem duas estra- século, podendo, segundo Penna (1984, cap. 1), ser considerada tanto tégias que podem ser mobilizadas para enfrentar a primeira dificulda- como movimento doutrinário quanto área de pesquisa. Na Psicologia de. Agora, quanto à segunda, só há um caminho capaz de permitir a Social, o cognitivismo insere-se na esteira deixada pela de psicólogos sociais atender às expectativas de membros de sua socieda- Campo de Kurt Lewin, bastando uma simples inspeção de manuais de: pesquisar temas de interesse social, temas que, submetidos a introdutórios para se alcancar uma idéia da sua marcante presenca neste pesquisas básicas ou aplicadas, produzam o duplo resultado do escla- domínio científico. São cognitivas importantes teorias psicossociológi- recimento e da tecnologia, de modo a facultar intervenções comunitá- cas, dentre as quais se podem citar as seguintes: teorias da dissonancia rias, grupais e individuais eficientes e controladas. Claro está que uma cognitiva. da da atribuição, da social, da rea- inclinação exclusiva a favor deste último rumo provocará um aumento tância psicológica e da autopercepção. de etnocentrismo teórico na Psicologia Social. Melhor seria que, A pesquisa do comportamento social realizada por psicólogos so- levando em conta as possibilidades e limites da Psicologia Social ciais de formação psicológica tende a negligenciar a dimensão histórica 6 7</p><p>da conduta humana. Daí o a-historicismo como termo e conceito, designa esse modo de realizar nesquisas focalizan- no presente caso, um reconhecimento e uma discriminação dos do a influência de estímulos e situações estimuladoras mais imediatas, problemas científicos que sociólogos, antropólogos, psicólogos e histo- situacionais. diretamente relacionadas com manifestações eliciadas e riadores, restringindo a enumeração àqueles grupos que maiores afini- emitidas do Uma posição desta ordem, por conflitar dades de interesses apresentam, almejam esclarecer. Partiremos para o com pressupostos do materialismo histórico, é rejeitada por todos exame desta entendendo que psicólogos sociais avocam a aqueles que entendem ser a nossa conduta determinada, fundamental- estudo de mais relacionados com fenômenos mente, pelo modo de produção econômica. Além desta perspectiva, sociais, especialmente os derivados da interação social. aceita por muitos e rejeitada por outros, há que considerar uma outra Qualquer objeto pode ser submetido a diferentes níveis de análise possibilidade de relacionamento entre processos históricos a conduta científica: permanece o objeto, mas alteram-se os métodos e técnicas humana. Esta alternativa é baseada na constatação de que qualquer de de investigação, sistemas conceituais e conjeturas quanto a possíveis nossos comportamentos aprendidos uma expressão concreta da conexões entre variáveis nele (objeto) existentes ou com ele relaciona- permanência de um acervo cultural que não resultou inteiramente de das. estudo do comportamento agressivo pode ilustrar o argumento nossos esforços; e que é pela rota da socialização e do controle social que acaba de ser lido. A pesquisa da influência de fatores genéticos, que agimos no sentido da ainda que de aquisições glandulares, sócio-culturais e históricos, assim como culturais de nossos antepassados, ao mesmo tempo que transferimos os de aprendizagem, personalidade e frustrações, cabe- para o futuro. através de que nos sucederao, um legado rá, conforme o nível de analise a biologos, cientistas sociais cultural que trará as marcas do nosso tempo. Insistindo, as condutas ou psicólogos. Uma inevitavel dessa diversidade de que aprendemos são, de certo modo, manifestações históricas, pois planos e estratégias de investigação científica é a pluralidade teórica. não somos nós, os vivos, os criadores da linguagem, dos valores, dos Sugerimos a expressão "abordagem pluralista do para desig- costumes e de muitas outras condutas significativas. Segundo este nar o conjunto dos diversos escrutínios científicos aplicados a um ângulo de apreciação, o livro de Câmara Cascudo (1976) a respeito da mesmo objeto. origem de gestos e expressões verbais que empregamos no nosso No exame das relações metodológicas, conceituais e teóricas entre cotidiano fornece um entendimento muito claro. Enfim, o a- as ciências surge o problema do reducionismo ontoló- historicismo é uma característica da Psicologia Social, convindo aten- gico. Esse tipo de reducionismo assenta na suposição de que existem tar desde logo para possíveis distorções teóricas a que psicólogos níveis de organização da realidade tão imbricados que a pesquisa sociais estão sujeitos desde que deixem de considerar, em suas pesqui- teoricamente mais fecunda dos fenômenos que acontecem nesses sas, aspectos sócio-culturais do comportamento humano. diversos níveis só pode ocorrer na medida em que as possíveis causas Ficando aqui concluída a nossa tentativa de descrição (crítica) da de tais fenômenos sejam procuradas em planos da realidade objetiva Psicologia Social, passaremos a examinar esse ramo da Psicologia em admitidos como básicos ou fundamentais. A explicação dos fatos suas relações com as ciências sociais. históricos através de leis psicológicas, por exemplo, envolve exata- mente uma psicologização da História e se baseia (filosoficamente) 1.3. Psicologia Social e ciências sociais numa redução ontológica. Se tal redução for empregada na Psicologia, então haverá a procura de explicações baseadas em antecedentes dos Qualquer tentativa de situar a Psicologia Social entre as ciências fatos do comportamento, quer dizer, precisamente as que se encon- sociais e humanas esbarra na dificuldade, apontada por Piaget (1973), tram alojadas no organismo. Como os de natureza fisiológica, por de que é impraticável estabelecer limites rigorosos entre essas ciên- exemplo. cias. De fato, é uma tarefa de difícil execução tentar separar fenôme- Para Bergmann (1971, cap. III), não se pode excluir, em princípio, a nos como os sociais e os psicológicos que se encontram inter- possibilidade de redução de alguma ciência a outra. Entretanto, a fim relacionados. Contudo, existe e pode-se utilizar um critério geral de de que possa vencer teóricas, esta posição terá de ser diferenciação das ciências empíricas, distinguindo-as entre si. Esse fundamentada num sólido conhecimento do objeto de estudo. No caso procedimento é baseado na ênfase aplicada pelos especialistas ao das ciências ora focalizadas, este grau de informação ainda não se conjunto de processos que pretendem explicar. Desse modo, obter-se-á, encontra disponível. Assim, ao menos por ora, modelo reducionista nas ciências sociais e humanas não ultrapassa o plano das conjeturas. 8 9</p><p>Finalmente, relações entre as ciências sociais e humanas e a Psicolo- de vista da implementação de métodos e técnicas de pesquisa e da gia Social também podem ocorrer no terreno concreto das pesquisas construção conceitual, indispensáveis a empreitadas científicas, não multi e interdisciplinares. Trata-se de pesquisas caracterizadas pela há como deixar de reconhecer que essa área da Psicologia presença de equipes de especialistas procedentes de distintas áreas nea encontrou o seu início através dos trabalhos pioneiros de W. científicas no estudo de um objeto de interesse comum. Nas da McDougall (1871-1938) e de E. A. Ross (1866-1951). primeira espécie (multidisciplinares) os pesquisadores conservam os Segundo McDougall (1926, p. 17), a pesquisa dos instintos seria instrumentos conceituais e metodológicos apropriados às suas respec- fundamental para a compreensão das ações individuais e coletivas, tivas áreas de competência, procurando, no entanto, uma mútua merecendo, portanto, um destaque especial na Psicologia Social; Ross colaboração no sentido de que o objeto venha a ser iluminado de (1908), por sua vez, baseou-se nas leis da imitação social de G. Tarde diversos ângulos. Em programas de pesquisas interdisciplinar, porém, (1843-1904) e ressaltou a importância dos processos de imitação e tenta-se obter, no âmbito da equipe de especialistas, uma uniformidade sugestão na investigação psicossociológica. Cabe registrar que nenhum conceitual e metedológica, o que torna essa modalidade de pesquisa dos dois programas, delineados por McDougall e Ross, foi mantido. mais complexa do que a multidisciplinar. Sob uma avaliação global, Outros temas, como o das atitudes, da aprendizagem social, da sociali- verifica-se que as duas formas de pesquisa acima descritas, a despeito zação e da percepção social, foram sendo acrescentados ao rol dos da baixa com que ocorrem nas demarches científicas con- tópicos de pesquisa dos psicólogos sociais, promovendo a inclusão de temporâneas, são viáveis e necessárias ao desenvolvimento teórico. novos conceitos, métodos e técnicas de pesquisa, desfazendo e estabe- Na Psicologia Social, de modo particular, pode-se entrever o benefício lecendo relações com outras áreas científicas. que pesquisas multi e interdisciplinares poderiam carrear para esse Outro autor cujos estudos também foram muito influentes na Psico- campo científico, quando nos encontramos diante das contribuições de Riesman (1971) e de McClelland (1972), que, seguramente, teriam sido logia Social foi G.H. Mead (1863-1931), um dos representantes do pragmatismo filosófico norte-americano. Escreveu pouco, foi mais um enriquecidas caso houvesse ocorrido, na sua elaboração, a participa- influente professor de vasta cultura, mas psicólogos sociais, notada- ção de cientistas sociais competentes. Sim, tanto na de Riesman, mente os de formação sociológica, apontam para o seu behaviorismo relacionada com o caráter social, quanto na de McClelland, que sugere social, que acolhem como relevante. De fato, em Mead (1953) encon- uma reinterpretação do desenvolvimento sócio-econômico a partir do tramos conceitos muito férteis para a pesquisa do comportamento pressuposto da influência, decisiva na promoção do bem-estar social e social. São, sobretudo, os conceitos do outro generalizado (idem, op. econômico, da necessidade de realização (nAch need for achieve- ment), o concurso de historiadores e sociólogos teria sido útil e cit., p. 184), eu e mim (idem, op. cit., p. 224) e o de internalização de gestos significantes (idem, op. cit., p. 217). A expressão interacionismo proveitoso. simbólico é derivada da ênfase concedida por Mead ao estudo dos Passemos, agora, à história da Psicologia Social. símbolos utilizados nos processos de interação social. A Escola de Chicago fundamentou-se no interacionismo mas é oportuno 1.4. Breve histórico da Psicologia Social observar que faltou à teoria de Mead uma maior consistência (ou integração teórica) e clareza na definição dos termos básicos. Diz-se, e com toda a razão, que a Psicologia Social tem uma longa Na década de 30 foram decisivos para a orientação metodológica história, pois sendo, como já vimos, a sua temática a mais familiar de (que prevalece até hoje) os trabalhos experimentais realizados por todas, não nos surpreende o fato de que o início das especulações, psicólogos sociais norte-americanos e por Lewin, que se encontrava interpretações e doutrinas a respeito do Homem e do seu comporta- nos EUA desde 1932. Lewin foi responsável pela Teoria de Campo, mento social remonte a filósofos das civilizações clássicas, helênica e baseada em conceitos extraídos de topologia e das ciências romana, que alimentam as raízes das culturas ocidentais até hoje. De cujas aplicações deveriam ocorrer nas ciências sociais, especialmente modo algum seria um exagero ou asseverar que é na Psicologia Social. Infelizmente, um juigamento mais acurado da mente na República de Platão (428-347 e na Política de Aristóte- Teoria de Campo não se torna possível, pois ela permanece inconclusa. les (384-322 a.C.) que iremos encontrar os primeiros argumentos e Poucas foram as alterações por ela sofrida depois do desaparecimento observações a respeito da natureza do Homem e de suas de Lewin, em 1947. o fulcro do lewiniano é o de que o necessidades Mas, considerando a Social do ponto nosso comportamento é influenciado cognições que temos da 10 11</p><p>realidade em que nos situamos. Cabe acrescentar que Lewin também A. Ramos (1936) observaram uma orientação mais psicológica na atuou pioneiramente na aplicaçao do ao estudo Psicologia Social; com F. J. de Oliveira Viana (1942) não aconteceu a de grupos sociais humanos, gerando uma area de pesquisas, teorização mesma coisa, pois foi um autor mais vinculado à tradição ensaística, e aplicações práticas, por ele denominada Dinamica de Grupo. A fundamentada nas ciências sociais e que tentou realizar um programa influência desse teórico na Psicologia Social pode ser de trabalho traçado a si próprio (F. J. de Oliveira Viana, 1933) constatada direta ou indiretamente; sob esta última forma, a sua que incluía a pesquisa de processos psicossociais. presença poderá ser verificada através de seus discipulos e colabora- A Psicologia Social, através dos textos já citados e pelo magistério dores. como F Heider. A. Zander, L. J. French, D. de Briquet e A. Ramos, despertou um grande interesse e expectativa Cartwright. R. Barker. A. Bavelas e R Ou dos de desenvolvimento teórico e aplicação prática. Mas é em Ramos que destes da portanto. vamos encontrar uma obra rigorosamente em dia com a Psicologia na É de se reconhecer que esta nossa síntese da história da Psicologia época em que foi lançada. Ela resultou de aulas do Curso de Psicologia Social é bastante limitada e seletiva. Mas a verdade é que não poderia Social programado e conduzido por A. Ramos em 1935 na extinta ser de outro modo, uma vez que um estudo mais extenso e sistemático Universidade do Distrito Federal. o livro de R. Briquet já não pode ser da história desta disciplina (como a de qualquer outra) só se corporifica incluído na mesma categoria; trata-se, no entanto, de um texto origina- quando o objetivo for primordialmente o da pesquisa histórica, e não o do do primeiro Curso de Psicologia Social realizado neste país, na da apresentação como no nosso caso de um esboço do passado da Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, em 1933, organiza- Psicologia Social. Há que aduzir, ainda, a informação de que já do pelo próprio autor. Briquet admitiu, equivocadamente, que a men- dispomos de alguns textos de história da ciência, nos quais é analisado talidade coletiva constituiria o núcleo da Psicologia Social o percurso histórico da Psicologia Social. Dessas obras, podemos p.235). Oliveira Viana, adotando uma posição elitista e conservadora. destacar as de Sahakian (1974) e Schellenberg (1978). Ambas muito enveredou por uma Psicologia Social de orientação mais sociológica. boas, sendo que na segunda são descritas, clara e sucintamente, as Assim, os temas examinados por esse autor (Oliveira Viana, 1942) contribuições de quatro mestres, cujos trabalhos fecundaram a Psico- apresentam contornos mais amplos, refratários à análise experimental: logia Social: S. Freud, G. H. Mead, B. F. Skinner e K. Lewin. Agora, aspectos psicológicos do Homem rural; o exercício de funções públi- quanto à Psicologia Social no Brasil, pode-se desde logo declarar que cas no Império e na República: e a relação entre as bandeiras e o se trata de uma área de implantação e desenvolvimento recente, sendo banditismo. São exemplos muito expressivos de problemas que inte- a sua história um campo praticamente inexplorado. Tentaremos um ressaram a esse sociólogo, jurista e historiador brasileiro. esboço desta história nas próximas linhas. Examinando bem os fatos que se desenrolaram a partir da introdu- o surgimento da Psicologia Social no Brasil foi um processo direta- ção da Psicologia Social no meio universitário brasileiro, pode-se mente relacionado com a formação do sistema universitário brasileiro, afirmar que essa disciplina, no seu curso histórico por aqui, veio a que, como é largamente sabido, só veio a se consolidar neste século. apresentar afinidades cada vez mais acentuadas com a Psicologia Bem, a rigor, de questões que poderiam ser acolhidas como Social desenvolvida por autores Programas de pes- temas de Psicologia Social foi iniciado, ainda que de maneira descritiva quisa e teorização, como o de F.J. de Oliveira Viana, não vingaram; e metodologicamente precaria, por intelectuais do final do deixaram de existir quando os seus proponentes encerraram, século XIX. O produto de seus expressava-se atraves de algum motivo, os seus esforços. ensaios que também revelavam uma preocupação quanto ao futuro Uma nova e importante etapa para a Psicologia Social no Brasil foi político. social, econômico e cultural deste Entretanto, não há inaugurada com a regulamentação da profissão de psicólogo (em 1962) como recusar a idéia de que a Psicologia Social, tomada como discipli- e a implantação de cursos de graduação para a formação desses na psicológica dotada de características próprias, nos moldes em que profissionais, notadamente a partir de 1964, pois o curso de Psicologia vinha sendo desenvolvida nos EUA, foi apresentada ao meio universi- da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, criado em 1953, tário brasileiro por intermédio de R. Briquet (1887-1953) e A. Ramos foi a única e solitária exceção no período anterior data. A (1903-1949). A esses dois acrescentar o nome de de Psicologia Social figura nos currículos de tais cursos como disciplina Oliveira Viana Há. porém, pronunciadas diferenças entre obrigatória. Resta acrescentar que a formação especializada em Psico- as contribuições teóricas dos autores aqui citados: R. Briquet (1935) e logia Social, no Brasil, ocorreu em seguida, à medida que os cursos de 12 13</p><p>pós-graduação foram sendo organizados. Dados complementares aos breve se houver a restrição de só serem consideradas as contribuições que aqui se encontram registrados podem ser colhidos na dissertação que hajam passado pelo crivo da metodologia científica. de mestrado de Fabro (1983). Leituras recomendadas 1.5. Resumo Evans (1979, seção 6); Goldstein (1983, cap. 1); McDavid & Harari (1980, cap. 1); A Psicologia Social é uma disciplina desenvolvida em todos os Rodrigues (1979, parte I); Schneider (1978, cap. 1); Zajonc (1969, cap. 1). quadrantes do mundo, mas é correto declarar que as principais contri- buições teóricas, ao menos do ponto de vista quantitativo, são da lavra de autores Mais precisamente: de psicólogos sociais estadunidenses cuja graduação foi realizada na Psicologia. Ainda que numerosos e variados, é de se constatar que os tópicos de pesquisa na Psicologia Social contemporânea mantêm-se relacionados com a perspectiva psicossociológica básica, ou seja, a de que por aqui importa investigar os comportamentos sociais humanos enquanto re- sultarem de estímulos sociais ou, ao contrário, se eles mesmos se constituírem em estímulos dessa espécie. Sendo a sua unidade básica de análise a conduta social humana, é teoricamente lícito afirmar que o individualismo é uma das característi- cas da Psicologia Social do nosso tempo. o método experimental é a estratégia mais utilizada nesta área científica, onde ainda não foi possível romper a barreira da microteorização. Há, também, um grande emprego de pressupostos e conceitos retirados da cultura que circunda os especialistas (sendo estes, na sua maioria, norte- americanos), e está-se autorizado a concluir que a Psicologia Social tende a oferecer um caráter etnocêntrico. Os tópicos de pesquisa que geram maior interesse são os relacionados a questões sociais. A posição teórica dominante é o cognitivismo, sendo, entretanto, conce- dida pouca atenção às possíveis influências de variáveis macrossociais no estudo do comportamento humano. Embora não sejam encetadas com há a opinião generali- zada de que pesquisas multi e interdisciplinares, que envolvam a participação de psicólogos sociais, podem produzir reais benefícios teóricos, ensejando explicações mais completas e plausíveis para os processos psicossociais. Nas relações interteóricas mantidas entre as ciências sociais e a Psicologia Social, porém, há que considerar ponderar as que podem advir da adoção de um reducionismo ontológico, já que sob esta orientação a busca de expli- cações psicológicas baseadas em determinantes biológicos seria segu- ramente fomentada. É longa a história da Psicologia Social, desde que sejam acolhidas como válidas todas as conjeturas e doutrinas a respeito da natureza social do Homem; mas o percurso temporal dessa disciplina será muito 14 15</p><p>maneiras, devendo ser escolhida a estratégia mais apropriada ao obje- to, tempo e recursos materiais disponíveis, além de outras circunstân- 2 cias que igualmente concorrem em situações de pesquisa. Esta infor- mação é correta, convindo apenas acrescentar que há indícios veemen- tes (bastando compulsar revistas especializadas para obtê-los) de que uma considerável fração dos atuais psicólogos sociais nutre uma grande confiança na metodologia experimental, admitindo ser a mais adequada aos seus objetivos científicos. Assim o entendem porque Métodos em Psicologia Social pressupõem alguma invariância nas relações entre específicas variá- veis de estímulo (independentes) e de resposta (dependentes). Um bom exemplo desta concepção é a teoria da frustração-agressão, cuja formulação inicial devemos a Dollard et al. (1939). De acordo com essa teoria, experiências de frustração. ou seia. de impedimento na satisfa- ção de estados motivacionais tendem a liberar comportamentos agres- sivos. Se o alvo primário (fonte de frustração) de tais condutas não puder ser alcançado, por oferecer algum risco de revide ou ser inalcançável, então ocorrerá ainda de acordo com a teoria uma inibição (provisória) da disposição agressiva e um deslocamento poste- rior a um alvo secundario. Como vemos, conjetura-se (e neste caso A mais importante da inserção da Psicologia Social no com razoavel apoio empirico, inclusive transcultural) que haja uma rol das ciências empíricas é a de que hipóteses e teorias, além de serem conexão entre as variáveis que acabamos de descrever. Mas, sendo a examinadas sob critérios lógicos, também devem ser consideradas à dúvida e a conduta inquisitiva indispensáveis à investigação científica luz de fatos. Os instrumentos que nos permitem estabelecer essas e à atividade intelectual (amplamente considerada), sugerimos ao leitor pontes, digamos entre as nossas (ou e a que leia e reflita sobre o assunto, a fim de atinar com os fundamentos realidade são os métodos de pesquisa. Não é outra a função básica da filosóficos do pressuposto da invariância que estamos referindo e suas metodologia científica, senão a de fornecer elementos factuais e, se implicações na elaboração do modelo antropológico (imagem do Ho- possível, em sua versão quantificada, ou até mais do que isto, matema- mem) subjacente a esta orientação de pesquisa, procurando reconhe- tizados, de modo a permitir uma judiciosa avaliação de conjeturas cer tanto os possíveis limites desse pressuposto quanto as suas contra- científicas. Este é o tratamento que define o destino de hipóteses nas dições com as (nossas) cotidianas experiências humanas. Um bom ciências empíricas. Se lograrem uma compatibilização com os dados livro a ler, fundamentado em M. Weber (1864-1920), em que se tenta extraídos mediante a aplicação de métodos científicos, sobreviverão revigorar a orientação compreensivista nas ciências sociais, valorizan- ao menos provisoriamente pois sujeitar-se-ão a novas pesquisas. Se do, portanto, o significado de fatos e ações sociais, é o de Schütz (1972). fracassarem, isto é, se vierem a ser infirmadas pelos dados de proce- Essa perspectiva é radicalmente distinta da que está sendo apresentada dência factual (desde que estes tenham resultado de pesquisas tecnica- neste texto, muito mais fiel mantendo-se a linguagem dos neokantia- mente corretas), ficarão diminuídas em sua credibilidade. Certamente nos do Círculo de Baden ao explicativismo, que, como se sabe, não serão abandonadas de todo, mas, tendo-se revelado refratárias aos triunfa nas ciências naturais. Seria possível uma conciliação entre dados da realidade, autorizam a suspeita de que hajam sido mal estas duas posições? Talvez, mas infelizmente não poderemos tratar concebidas. Podem, em razão do desacordo constatado entre elas e as deste assunto aqui. informações resultantes da prática de pesquisa, suscitar novas inter- pretações para os fatos ou processos cujos mecanismos e relações Neste capítulo limitar-nos-emos a considerar os elementos funda- aspiramos conhecer, mas, mantida a sua formulação inicial, essas mentais da metodologia psicossociológica, a diferenciação entre méto- hipóteses, provavelmente, serão de pouca serventia. dos empíricos e experimentais, os métodos alternativos e, finalmente, Outra e importante questão é a da variedade de métodos e técnicas focalizaremos alguns problemas éticos que, com elevada de pesquisa. o com elevada informado manifestam-se em pesquisas psicológicas. de que a investigação psicológica pode ser realizada de diferentes 17 16</p><p>2.1. Elementos da metodologia psicossociológica variáveis significativas do objeto de estudo aos desígnios dos pesquisa- dores. Os métodos experimentais avizinham-se desta última posição, ao passo que os denominados métodos empíricos, como o levantamen- a) Métodos e técnicas de pesquisa to e o estudo de campo, situam-se nas cercanias do pólo de baixo É lícito afirmar que qualquer pesquisa científica requer tanto o controle. Essa disposição dos métodos psicossociológicos é paralela ao emprego de métodos quanto de técnicas; mas em que se distinguem da sua partilha em função do critério da submissão a hipóteses uns dos outros, nem sempre fica esclarecido. Afora isto, cumpre notar científicas. De fato, métodos experimentais têm sua razão de ser que o problema ora aventado não integra o conjunto de questões quando houver hipóteses isoladas ou deduzidas de uma teoria a substantivas da investigação psicológica; é mais um aspecto relativa- testar; a ausência de tais conjeturas tende a inibir planejamentos de mente secundário, taxionômico e, provavelmente, por ser assim consi- pesquisa experimental e reduz a taxa de controle a observar na derado, incapaz de provocar maior interesse de pesquisadores. condução da pesquisa. É nessa região que ficam situados os métodos De que idéias básicas partiremos? Da que a palavra método refere empíricos, cujo emprego usualmente sobrevém nos casos em que as uma forma geral de conduzir pesquisas científicas; e da que técnicas presunções a respeito de características e propriedades dinâmicas do são maneiras de atuar, baseadas em recursos especiais, como são os fenômeno em estudo não lograrem alcançar uma formalização mais argumentos matemáticos, aparelhos e instrumentos, mediante os quais precisa e consistente. A fim de prevenir erros de avaliação, cumpre se pretende alcançar resultados, presumivelmente úteis, na investiga- registrar que o mérito social de pesquisas científicas não é diretamente ção científica. Ao que foi declarado podemos aduzir o seguinte: o proporcional an de controle que estas venham a patentear. planejamento geral da pesquisa que se intenta concretizar depende do Estudos de levantamento podem oferecer embora seja reduzida a método a ser implementado. Detalhadamente: a seleção de recursos sua importância teórica elementos de informação que permitem humanos, materiais e técnicos, necessariamente mobilizados na conse- fundamentar iniciativas educacionais, políticas, econômicas, sanitárias cução de pretendidos objetivos epistemológicos e, por conseguinte, e culturais de grande significado social; assim como há pesquisas reclamados para a efetivação do projeto científico, é orientada pela experimentais cujos resultados inscrevem-se (aparentemente) no cír- metodologia que será levada à prática. Técnicas de pesquisa inserem- culo da trivialidade. se nesse quadro. Outra observação a fazer é a de que esses meios mais específicos, que são as técnicas de um modo geral, podem ser b) Participantes e sujeitos aplicados ao lado de métodos diferentes. Cálculos estatísticos, siste- mas de registro de dados. instrumentos (psicométricos) de medida. os A participação de seres humanos em pesquisas psicossociológicas é vários de entrevistas e as salas de visão unilateral são exemplos mais frequente do que a de animais de outras espécies. Neste sentido, de técnicas de pesquisa empregadas por psicólogos sociais. justificar-se-ia a enfase que se poderia emprestar a expressao ciencia Os diversos métodos em uso na Psicologia Social podem ser aprecia- humana quando a referencia viesse a ser a Psicologia Social. Em dos em função de duas idéias: controle e subordinação a hipóteses qualquer pesquisa observa-se desempenno de aiferentes científicas. A rigor, e isso não nos passará despercebido, há uma papéis sociais: há o do pesquisador (ou experimentador, se for o caso), natural vinculação entre esses dois conceitos. Do controle diremos que o dos auxiliares de pesquisa (confederados, se durante as situações ele ser aplicado em distintos planos de pesquisa científica: do experimentais vierem a proceder como se fossem pessoas comuns, tratamento à conduta dos que dela participam; da medida sem revelar a sua condição de auxiliares) e o das pessoas que, de estímulos, às variáveis intervenientes. Contudo, todos os casos de remuneradamente ou não, seguem as instruções do pesquisador, auto- controle em pesquisas psicossociológicas enquadram-se em uma de rizando a observação e avaliação de seu próprio desempenho para fins duas possibilidades gerais: na da influência sobre variáveis que in- de obtenção de dados necessários à realização da pesquisa. Tradicio- fluenciam ou defluem de fenômenos em estudo ou na do processamen- nalmente, a designação para os últimos é a de sujeitos. Mas, pergunta- to estatístico de informações quantificadas colhidas no desenrolar da se, é correto designá-los assim? Não haveria uma outra expressão ou investigação. Agora, os métodos de pesquisa psicossociologica podem palavra que nos possibilitasse referir o papel desempenhado por aque- ser distribuídos ao longo de uma linha de continuidade que registra, em les que atendem ao convite e à solicitação de pesquisadores, assim um de seus pólos, um baixo grau de controle, e no outro lado, como o de outros tantos que, ignorando o fato de que estão incluídos simetricamente oposto a este, um elevado índice de submissão de em projetos de pesquisa, colaboram no desenvolvimento de investiga- 18 19</p><p>ções psicológicas? É exatamente para discutir essa questão que vamos nos deter um pouco nesta página. ra a contrastar e o controle (tanto o do planejamento quanto o A palavra sujeito sugere ou desperta a idéia de uma interação estatístico) especificado. Historicamente, porém, esta é uma concep- baseada na dominação. Será necessário esclarecer que processos ção muito nova, pois, ainda nos séculos XVII e XVIII, por experimento interativos baseados na sobretudo arbitrária, de umas entendia-se, muito freqüentemente, a provocação artificial do fenôme- pessoas sobre outras colidem com idéias-força predominantes em no a ser Por outro lado, em nossos dias o método experimen- nossos dias, tornando-se, por esta razão, repudiáveis? Aceita-se, pro- tal assumiu diversas formas. sendo que na Psicologia Social as mais vavelmente, a autoridade baseada na competência profissional, no conhecidas são as seguintes: experimento de laboratório, experimento saber e em principios mas, seguramente, não a que descansa natural, experimento em situações sociais comuns, experimento de sobre as precárias bases do privilégio econômico e da nos quais condições da realidade são recriadas. política e social. tos nos quais algumas pessoas desconhecem seu papel de participan- A pesquisa psicológica não chega a se caracterizar desta maneira, tes e experimentos mentais. Nesta seção procuraremos esclarecer esta mas ao termo sujeito tendem a se incorporar tais conotações negativas. última de experimentação psicológica, porque é menos Daí a resistência ao emprego dessa palavra e a explicação para a conhecida, e as sugestões de Campbell (1969) a propósito de reformas iniciativa tomada pela American Psychological Association (APA), sociais como situações propícias à pesquisa experimental. que, em 1973, concluindo pela inconveniencia ética e prática do termo Experimentos mentais são de há muito conhecidos na Astronomia e sugeriu o seu abandono e a para da na Física. A sua principal característica - indicada pela palavra participante. Observe-se a data dessa resolução da APA: 1973; nação é que esse tino de estratégia se resume a processos cognitivos coincidentemente, um dos anos do período da crise da Psicologia que podem ser acompanhados de instrumentos e regras de cálculo. Social, quando a questão do tratamento dispensado aos participantes, Tenta-se obter mentais de possíveis mudanças que bem como a dos aspectos éticos de empreendimentos algum fenômeno poderia apresentar se viesse a ficar a encontravam-se submetidos à discussão. A propósito do assunto, determinadas influências. Essas representações subjetivas seriam houve, também levantamentos empíricos. Gillis (1976), por exemplo, mentalmente desdobradas numa que partiria do estado constatou que estudantes dos cursos de graduação em Psicologia inicial do fenômeno em pesquisa até as condições finais de que ele estavam de acordo quanto ao emprego do termo participante em substituição à palavra sujeito. presumivelmente exibiria se fosse submetido às variáveis previstas no experimento mental. o que justificaria a realização de experimentos Naturalmente problema dos participantes de pesquisas experi- dessa natureza? Há diversos fatores a considerar: limitações de tempo; mentais ultrapassa o aspecto aqui focalizado. Vai além, englobando insuficiência de instrumentos e recursos técnicos; e, entre outros, fatos tão variados como crenças, motivações, características de per- inacessibilidade do objeto em virtude de sua grandeza (é o caso dos sonalidade, nível educacional, experiência e classe social, fenômenos astronômicos). No entanto, é indispensável acrescentar focalizando-se a provável influencia dessas na realização de projetos de pesquisa. Não cuidaremos de temas, mas também não que essa forma de experimentação não pode substituir o tradicional ignoramos que a sua análise se impõe mas isso num plano mais experimento de laboratório, pois só este último propicia condições técnico do que epistemológico pela simples razão de que se aspira, mais adequadas para o julgamento de conjeturas teóricas. Assim, em qualquer pesquisa a alargar o quanto possível o número excetuando-se os casos em que a experimentação seja o de suas virtudes sintáticas e experimento mental apenas preludia o do laboratório. Ao que disse- mos, cabe adicionar a informação de Bunge (1972b, p. 835) de que experimentos mentais são de maior utilidade nas ciências aplicadas do 2.2. Métodos experimentais que na pesquisa básica. Agora, qual é a situação deste método na Psicologia Social? Bem, a) Modalidades de metodologia experimental ele de fato não é tão utilizado quanto os outros; na verdade, psicólogos sociais, em suas pesquisas, continuam a dar preferência ao experimen- Nas ciências a experimentação tende a ocorrer to de laboratório. Entretanto, há registros de tentativas de aplicação do quando duas condições estiverem presentes: uma hipótese ou conjetu- experimento mental em investigações psicossociológicas. Semin & Manstead (1979) referem, às páginas 198, 199 e 200, a utilidade do 20 21</p><p>experimento mental em pesquisas do comportamento social humano. vel argumento de que a realidade do laboratório, naturalmente distinta A opinião desses autores, à qual não temos qualquer restrição a fazer, da vida ordinária, tem por meta pôr à prova hipóteses científicas. Vale é a de que na Psicologia experimentos mentais. assim como os de lembrar que a crença subjacente à conduta experimental é a de que laboratório. envolvem condutas nômicas, quer dizer, comportamentos talvez existam vínculos relativamente estáveis entre variáveis antece- enquadrados por normas e costumes sociais compartilhados por mem- dentes e variáveis conseqüentes do objeto em estudo, cujo conhecimen- bros da sociedade submetidos a processos de socializacao semelhan- to nos habilitaria a atender tanto a objetivos científicos quanto a tes. Tais condutas se manifestam em situações interativas mais forma- interesses práticos. Quanto às críticas à experimentação na Psicologia lizadas, sendo de elevada previsibilidade. Na Psicologia Social, como Social, admitimos que elas possam ser classificadas em três categorias nas ciências naturais, o experimento mental não é o sucedâneo perfeito distintas: as de natureza técnica, as de fundo ideológico e as de origem do experimento de laboratório, mas de qualquer modo apresenta duas filosófica. vantagens: faculta prever resultados de pesquisa ao mesmo tempo que Críticas de natureza técnica pressupõem a ao menos permite avaliar oportunidades de aplicação de padrões nômicos de da crença da validade da experimentação psicossociológica. comportamento. Complementando: condutas nômicas são Os efeitos dessas materializam-se na de aperteicoa- mente eliciadas e emitidas em pesquisas experimentais. Parece não ter havido muita receptividade às idéias de Campbell mentos na metodologia de pesquisa e refletem, indiretamente. a pre- (1969) segundo as quais sociedades modernas poderiam adotar progra- sença da suposição que reterimos na frase anterior. Por outro lado, é extensa a literatura técnica constituída de contribuições dessa classe. mas sociais em caráter experimental. Os frutos teóricos desses progra- No momento não importa referir os muitos títulos dessa bibliografia; mas ao contrário do que acontece tradicionalmente na experimenta- ção científica seriam auferidos posteriormente à execução do proje- assim, ao considerarmos a tese de doutoramento de Friedman (1971), to de reforma social, se este for acompanhado por pesquisadores. É só temos em vista com ela exemplificar trabalhos do gênero. Em sua claro que em tais situações multiplicam-se problemas relativos ao pesquisa, Friedman (op. cit.) procurou esquadrinhar a influência de planejamento e controle, que são, como vimos, fatores básicos em múltiplas variáveis insubmissas ao controle pesquisas experimentais. Além disso, podem ser feitas outras obje- apresentadas por pesquisadores e participantes ao longo de situações ções, como as baseadas na questão do financiamento, nas eventuais experimentais. Na realidade, Friedman chamou a atenção para a resistências de comunidades científicas, na natureza conservadora de influência de variáveis como: as paracinésicas, as paralingüísticas, as projetos de reforma social e na forma de relacionamento com agentes das formas de cumprimento social, as da natureza e modo de apresen- governamentais incumbidos de promover mudanças sociais. Não po- tação de instruções, as produzidas pela comunicação visual e gestual, demos analisar tais problemas neste lugar, mas é pertinente observar as da idade e do sexo, entre outras. Os resultados práticos apresentam três sugestões visando o aperfeiçoamento da metodologia experimental que as propostas de Campbell talvez devessem ser examinadas com maior cuidado e atenção, pois parecem viáveis e permitem supor que, psicossociológica: a filmagem de sessões experimentais, a seleção sendo implementadas, produziriam benefícios teóricos e práticos. aleatória de pesquisadores (experimentadores) e a sofisticação de técnicas de controle estatístico. de cunho ideológico também apresentam alguma va- b) Críticas à experimentação psicossociológica riação. Nesta classe ficariam incluídos argumentos de condenação do método experimental na Psicologia. assentados em criticas sociais. Em aos métodos experimentais empregados na Psicologia não tais argumentos, a suposição mais geral é a de que a pesquisa psicológi- constituem qualquer novidade. Críticas a essas estratégias surgiram ca de ordem experimental estaria subordinada a uma orientação social- desde o início da Psicologia Científica, e, de lá para cá, continuam a mente conservadora. Neste sentido, e em síntese, teorias psicológicas existir. Diversos fatores foram e são considerados em argumentos coonestadas através de métodos experimentais tenderiam a contribuir restritivos à experimentação psicológica. Uma impugnação das mais para o aperfeiçoamento de técnicas de ajustamento de seres humanos a é a que se na idéia da artificialidade da experimenta- situações educacionais, de trabalho, políticas e sociais previamente É uma crítica ainda persistente, embora se saiba que em todos os determinadas. Em etapa mais adiantada desse argumento crítico en- experimentos, incluindo os das ciências naturais, produzem-se situa- contra-se a conclusão de que a pesquisa psicológica de natureza ções artificiais; é uma objeção ainda lembrada, a despeito do ponderá- experimental admitam-no ou não os pesquisadores - encontrar-se- 22 23</p><p>ia a serviço da manutenção do status quo. A Psicologia Crítica de três: a a análise da linguagem ordinária e os compara- Holzkamp (1977), com a valorização da relevância emancipatória, tivos. ilustra a espécie de considerada neste momento. A pesquisa-ação foi desenvolvida e introduzida na Psicologia Social Finalmente, há as de base filosófica. Aqui, o ponto de por Lewin (1948). Uma importante caracteristica deste método é a convergência e o de que a validade de experimentos psicológicos possibilidade, por ele ensejada, de promover um consórcio entre confina-se a faixas mais elementares do comportamento humano. objetivos cientificos e propositos sociais praticos. De certo modo, as Quando for a vez de atos humanos livres e, res- em torno de uma Psicologia Social Aplicada tiveram ponsáveis. talece a utilidade da Como se depara- como prelúdio a pesquisa-ação. Atualmente, ressurge o interesse por mo-nos mais uma vez com o problema dos pressupostos antropológi- esse método, cujo emprego foi rareando depois do falecimento de cos da Psicologia. Lewin. Uma indicação muito clara neste sentido é o livro de Moser As críticas ora referidas vêm sendo examinadas por filósofos, (1978), no qual o autor ressalta o fato de a pesquisa-ação encontrar-se metodólogos e pesquisadores, produzindo efeitos, alguns dos quais já novamente no plano das cogitações e das práticas de especialistas permitiram aperfeiçoamentos da metodologia de pesquisa. Mas há tam- alemães nos domínios da Psicologia, da Educação e da Sociologia. bém, em dessas críticas (que, no fundo, encobrem um Supomos que a atração exercida por essa metodologia advenha do fato ceticismo quanto às propriedades epistemológicas dos métodos natura- de que a sua implementação mais eficiente, em comunidades e organi- listas aplicados às ciências sociais), uma progressiva diminuição da zações formais, depende da efetiva participação daqueles que as ingenuidade teórica nos que se dedicam à investigação científica. E integram. Em outras palavras: sendo a pesquisa-ação compatível com isto é de se festejar o ideário de correntes políticas e sociais de cunho democrático e, até Deixamos para o final a interessante contribuição de Henshel mesmo libertário, em processo de difusão em sociedades (1980). Esse autor sugere que se reverta a perspectiva tradicional e se neas, é de se supor que esse método seja mais valorizado por faça a pergunta: a experimentação psicológica não poderia revelar a dores mais dispostos a se engaiar ativamente em de mudança ocorrência de relações funcionais inexistentes na vida real? A opinião do Homem e da sociedade do que pelos interessados em contribuir de Henshel é que, de fato, isso seja possível. o exemplo apresentado a para o desenvolvimento da pesquisa básica. No caso particular de favor de seu ponto de vista são os experimentos baseados no biofeed- paises latino-americanos, as dificuldades e problemas neles existentes back, nos quais os participantes aprenderam a controlar as suas ondas criam uma atmosfera propícia à apresentação de sugestões e à concre- alfa, coisa que presumivelmente não poderiam alcançar na vida tização de iniciativas práticas que, entre psicólogos sociais, podem se comum. o argumento de Henshel fornece-nos um ângulo de análise da realizar pelo conduto da pesquisa-ação; neste sentido, o artigo de experimentação que deve ser explorado mais aprofundamente, sobre- Vargas (1981) é bastante revelador dessa tendência. Contudo, há que tudo na Psicologia Social. reconhecer que, no seu exercício, a pesquisa-ação envolve um dilema que, sendo solucionado na direção de metas científicas, poderá deixar 2.3. Métodos alternativos insatisfeitos os que aguardam resultados sociais mais imediatos; e, por outro lado, se no seu processamento, interesses sociais vierem a o volume de críticas endereçadas à metodologia experimental e a ocupar uma posição de realce, então poderá ocorrer uma diminuição compreensão de que psicólogos sociais deveriam considerar mais dos lucros teóricos. direta e sistematicamente, em suas pesquisas, a influência de variáveis A análise da linguagem como método de pesquisa psicos- culturais, históricas e sociais no comportamento humano, incentiva- sociológica, surge no contexto da Etogenia de Harre & Secord (1976). ram a busca de métodos alternativos. À vista da bibliografia mais Sob esta perspectiva, presume-se que os atos numanos mais relevantes recente, está-se autorizado a concluir que esses encaminhamentos no os dotados de significado, sendo este conterido pelas peculiari- campo da metodologia psicossociológica continuam a ocorrer. As dades sócio-culturais do meio em que nos Assim, cabe- múltiplas tentativas de valorização e aperfeiçoamento de métodos e ria a cientistas sociais a tarefa de interpretar o sentido de específicas técnicas empíricas de investigação explicam-se exatamente pelo fato manifestações da conduta humana. Os resultados dessa atividade de que se pretende encontrar substitutos válidos para a metodologia hermenêutica só são generalizáveis virtualmente, pois não se pode experimental. Desses métodos alternativos vamos considerar apenas definir exatamente o seu conjunto de aplicação, nem excluir a eventual 24 25</p><p>desfiguração de interpretações iniciais, pela intervenção de novos ro lugar, porque se deseja poder contar com métodos que não produ- fatores pessoais e ambientais. Segundo Harré & Secord (op. cit., cap. zam ou se apliquem a situações tão artificiais quanto as dos experimen- 14), a metodologia mais adequada para a captação do sentido de tos de laboratório; e, em segundo lugar, porque se presume que comportamentos humanos em processos interativos é a análise da métodos empíricos, comparativos e outros, possam ser de maior linguagem ordinária. o aspecto básico desse método, baseado no utilidade na exploração científica do comportamento social humano, pressuposto de que pode haver uma clivagem semântica entre a submetido a complexos sistemas de estimulação sócio-cultural. Resta linguagem científica e a linguagem comum, é justamente a valorização, observar que, sem embargo de recentes conquistas no plano da meto- para fins de pesquisa, do comportamento verbal ordinário, que se dologia psicossociológica de tipo alternativo, não se está autorizado a manifesta no cotidiano das pessoas. Na aplicação psicossociológica do concluir que ela provenha de estratégias muito confiáveis na pesquisa método da análise da linguagem ordinária, caberia, por exemplo, de relações nômicas. indagar do sentido de termos como justiça, democracia, personalida- de, inteligência, costume e atitude, na suposição de que o conhecimen- 2.4. Problemas éticos da pesquisa psicológica to da interpretação a eles atribuída pelas pessoas cuja conduta preten- demos compreender seja a chave para o nosso desiderato. Numa Vem aumentando o número de análises a respeito de dilemas éticos avaliação das possibilidades deste método, diríamos que até certo na pesquisa científica. Na Psicologia, nos últimos tempos, a crítica de ponto ele constitui uma novidade na Psicologia Social; que cunho moral e ético incide tanto sobre a situação de participantes de do por uma concepção antropológica que tem como cerne a idéia da pesquisas básicas quanto sobre a conduta de profissionais nos vários liberdade humana; que sua aplicação em pesquisas psicossociológicas campos da Psicologia Aplicada. Pressentimos que estamos diante de guarda uma relação com o tópico dos sistemas de crenças; e que, problemas intrincados, cuja solução demanda vigorosos estudos e enquanto método de pesquisa, necessita encontrar um melhor desen- reflexões. Acrescente-se, como mais um fator a ampliar a dificuldade volvimento técnico. da análise moral, a idéia irrefutável de que ela se baseia numa Estudos comparativos inserem-se, de acordo com a classificação de linguagem prescritiva. Assim, o Bem e o mal categorias éticas Cronbach (1957), na categoria dos métodos correlacionais, quer dizer, fundamentais não constituem entidades que se ofereçam ao trata- quando não se tiver por objetivo a pesquisa de relações nômicas. Mas mento usualmente proporcionado pelos cientistas aos objetos de suas que pode ser comparado que seja de interesse psicossociológico? Por perquirições. Na Ética, a linguagem é a do dever ser (e não a do que é exemplo, podem-se comparar informações relativas a processos inte- ou supomos que seja), e o seu principal problema é o dos fundamentos rativos em grupos que difiram sob os mais diversos aspectos (dinâmi- de suas teorias e doutrinas. Não sendo o ajustamento em relação aos cos e estruturais); formas de comportamento pró-social em sociedades e fatos o critério de validade dos preceitos éticos, compreender-se-á que épocas diversas; e padrões comportamentais infantis e adultos de uma o nosso assentimento a essas proposições deva depender dos argumen- mesma pessoa, entre outras possibilidades. Algumas das mais notáveis tos que lhes sirvam de sustentação. A principal justificativa para a contribuições da Psicologia Social contemporânea foram obtidas me- preocupação em torno das bases da linguagem ética é a de que a diante a aplicação de métodos comparativos: os diversos estudos de homens lúcidos repugna Nesta restringir-nos-emos a McClelland a respeito da necessidade de realização, que envolvem apontar alguns dos problemas éticos relacionados com a pesquisa paralelos entre sociedades historicamente distanciadas entre si, e a psicossociológica nutrir a intenção de deixá-los resolvidos. Os bem-sucedida pesquisa de Bronfenbrenner (1976), na qual foram con- objetivos deste trabalho e a necessidade que teríamos de mobilizar frontados os sistemas educacionais russo e norte-americano, são dois informações e procedimentos especiais de análise, que não nos estão bons exemplos a considerar neste sentido. McGuire (1976) pode ser disponíveis no momento, são os principais fatores responsáveis pela também tomado como representante de psicólogos sociais interessados brevidade destas páginas. em promover o alargamento do leque de métodos alternativos de Enquanto pesquisadores, os psicólogos sociais se deparam com pesquisa psicossociológica, sobretudo no que tange aos métodos com- problemas éticos em três planos diferenciados de suas atividades parativos. profissionais: no domínio de seus valores básicos enquanto cientistas; Por que que se insiste na formulação de métodos alternativos (em no terreno de suas relações com colegas e instituições sociais; e no relação aos experimentais)? Há duas razões para explicá-lo: em primei- de suas interações e deveres para com participantes e auxiliares 26 27</p><p>de pesquisa. Certamente haverá uma grande variedade de interesses, a decepção produzida em participantes que são informados de que motivos, atitudes, hábitos e valores que se organizam segundo uma receberão tais ou quais benefícios, mas na realidade deixam de obtê- constelação peculiar a cada pesquisador, mas é lícito dizer que no los; e as psicológicas e sociais negativas que prejudicam comportamento dos cientistas um valor sobrepuja os demais: a hones- os participantes em algumas investigações experimentais. o primeiro tidade intelectual. É sobre este valor que repousa a legítima pesquisa desses é o mais geral, e admitindo que tais procedimen- científica; a partir do momento em que a honestidade intelectual for tos devam ser abolidos entrevemos apenas duas possíveis alternati- negligenciada, ou, pior do que isto, desprezada, degrada-se a conduta vas de encaminhamento: a que se nos afigura eticamente mais adequa- do pesquisador e anula-se o mérito de esforços por ele despendidos. da seria a de modificar aspectos da metodologia experimental em uso, De um modo geral, entretanto, na Psicologia os problemas éticos de modo a ensejar participações conscientes e voluntárias; a segunda mais sao os que dizem respeito a aspectos da pesquisa firmada na convicção de que os objetivos de pesquisa são frustrados experimental que envolvam participantes humanos. A alimentar tais na medida em que, de antemão, os participantes daqueles ganharem análises encontra-se a preocupação, muito louvável, de resguardar e conhecimento envolve a necessidade de se edificar justificativas respeitar os direitos de todos aqueles que, remuneradamente ou não, éticas mais consistentes. Quanto às decepções eventualmente infligi- colaboram na promoção do conhecimento, participando de pesquisas das a participantes, o mais aconselhável seria obviá-las por completo, científicas. Aqui, a reflexão ética é, na maioria das vezes, realizada por pois não nos parecem essenciais à concretização de planos de pesqui- psicólogos, como, por exemplo, Johansson (1979) e West & Gunn sas experimentais. Finalmente, no que concerne aos prejuízos psicoló- (1978). Esse fato explica o caráter específico das situações submetidas gicos e sociais involuntariamente causados a participantes, existe a à consideração filosófica e a falta de conexão entre os argumentos dificuldade de se caracterizar com nitidez e avaliar com precisão, em apresentados com a dimensão axiológica da ciência como processo. cada caso, a natureza e o montante de tais malefícios. Entretanto, há Julgando esse estado das coisas com alguma severidade, diríamos que contribuições psicossociológicas que, em virtude do tratamento dis- normas éticas preconizadas por psicólogos que se debruçaram sobre pensado aos participantes, tendem a causar alguma indignação aos que problemas morais da pesquisa científica são compatíveis com valores delas são informados. Uma das realizações da Psicologia Social con- da civilização ocidental, cujas origens se encontram nas antigas civili- temporânea de orientação experimental, que fica situada nesta classe, zações grega e romana e na tradição religiosa mas é a pesquisa de Milgram (1974) a respeito da obediência à autoridade. carecem de fundamentos (metafísicos ou teológicos) mais seguros e Esse psicólogo social, recentemente falecido (1984), não ignorou as explícitos. Aliás, se examinarmos atentamente os códigos de ética de críticas de que foi alvo e chegou mesmo a tentar refutá-las (Milgram, psicólogos que incluem normas apiicaveis a situações de pesquisa op. cit., apêndice I). como o da American Psychological Association ou o dos psicólogos Análises relativas a problemas éticos só têm sentido se admitirmos brasileiros, constataremos que as prescriçoes neies contidas sao funda- que sejamos entes morais; que sejamos pessoas capazes de escolher mentadas em costumes e valores que vieram até nós pela via da livremente valores e princípios em função dos quais possamos ordenar tradição, mas não são preceitos firmemente ancorados em axiomas a nossa conduta. É também sob esse prisma que se justificam os eticos. Dai a conclusão da necessidade de maior empenho na análise de debates em torno dos temas que referimos ao longo destas páginas e problemas morais da pesquisa científica, a fim de que nos venham a ser que, por sua gravidade, exigem um exame mais extenso e profundo do alvitradas regras de conduta que possamos reconhecer como aceitá- que o realizado até agora. A rigor, há muito que fazer no plano da veis. A nós parece que esta demanda é justificada pela simples razão deontologia da pesquisa psicossociológica. de que não podemos nos desvencilhar dentro e fora das ciências de problemas éticos. Eles estão presentes até no nosso agir cotidiano, 2.5. Resumo que envolve escolhas, momentos de decisão, formas e métodos de conduta, em cuja realização não dependemos exclusivamente de expe- Métodos e técnicas de pesquisa são indispensáveis à Psicologia riências passadas e de interesses pessoais e coletivos imediatos. Social, desde que ela seja classificada entre as ciências empíricas. Podemos identificar três questões éticas em experimentos psicosso- Cabe a esses instrumentos a importante função de permitir a avaliação ciólogicos: a apresentação de informações parciais ou distorcidas com do grau de congruência entre hipóteses científicas e os fatos que, com o propósito de ocultar os reais objetivos da pesquisa aos participantes; elas, se deseja explicar. 28 29</p><p>Dentre a ampla variedade de métodos de pesquisa existentes que, grosso modo, podem ser distribuídos em duas grandes categorias a 3 dos empíricos e a dos experimentais verifica-se, entre os psicólogos sociais, uma pronunciada preferência pela metodologia experimental. A principal justificativa para essa inclinação é a presunção de que, sendo métodos aplicados a situações de pesquisa mais controladas, deverão proporcionar dados de maior confiabilidade do que os obtidos através de métodos empíricos (como o levantamento e o estudo de Atitudes, preconceitos, campo). A investigação experimental apóia-se no pressuposto da existência valores e crenças de relações invariantes (estáveis) entre variáveis de estímulo e de resposta. Essa premissa, se generalizada para todas as condutas huma- nas, colide com a interpretação de que sejamos dotados de liberdade imanente. Para esse problema não dispomos de uma solução que usufrua de aceitação consensual. Os problemas éticos da pesquisa psicossociológica são relevantes, e o número de contribuições visando solucioná-los ou contorná-los vem aumentando nos últimos anos. o grande obstáculo, nesse caso, é que conflitos e impasses éticos só podem ser resolvidos mediante a aplica- ção de princípios vazados em linguagem prescritiva, necessitando de o mais persistente dos tópicos de pesquisa na Psicologia Social é o uma fundamentação metafísica, já que sem esse embasamento eles das atitudes. De certo modo, isto explica o acentuado desenvolvimento tenderão resultar do arbítrio. teórico e técnico deste tema, quando comparado a outros, igualmente submetidos à investigação psicossociológica. o conceito de atitude ganha relevo teórico quando se intenta descre- Leituras recomendadas ver, explicar e até mesmo compreender os comportamentos sociais Campbell & Stanley (1979); Goldstein (1983, cap. 2); Kerlinger (1980); McDavid & humanos, como, por exemplo, as opções políticas e religiosas, a Harari (1980; cap. 2); Nunes (1978). amizade e o conflito, a cooperação e o desajustamento. É oportuno acrescentar, a bem da verdade, que esse conceito, tomado isoladamen- te, não é a chave mestra do esclarecimento dos comportamentos acima destacados, mas uma das mais importantes das idéias empregadas por psicólogos no estudo da conduta social. Atitudes, enquanto categoria conceitual, guardam uma estreita rela- ção com as noções de crença, valor e preconceito, na medida em que, teoricamente, apresentam, em sua organização, elementos semelhan- tes. Resulta daí a conveniência de examinar tais conceitos e os comportamentos por eles referidos num mesmo capítulo. Crenças, por exemplo, quaisquer que sejam, pessoais ou não, ideológicas ou científicas, encontram-se na estrutura de atitudes, preconceitos e valores, os quais, convém declarar desde logo, se destacam pela função avaliativa, tonalizando afetivamete o mundo que nos circunda e, conseqüentemente, orientando o nosso comportamento em relação a ele. Neste capítulo examinaremos, portanto, os seguintes assuntos: crenças e sistemas de crenças; atitudes e preconceitos; formação, 30 31</p><p>mudança e medida de atitudes; e a questão dos valores na Psicologia interesses aqui focalizados, a História das Idéias, a História das Menta- Social A orientação geral que observaremos é a do lidades, a Antropologia e a Sociologia. Entretanto, na Psicologia cognitivismo, que, como vimos no primeiro capítulo, é a que, nesta Social, ao contrário destas últimas, observa-se uma orientação predo- área da Psicologia desfruta da melhor acolhida. minantemente individualista, acentuando-se, portanto, a investigação de processos e estados psicológicos particulares, enquanto nas discipli- nas sociais os interesses científicos se deslocam da esfera individual 3.1. Crenças e sistemas de crenças para aplicar-se ao estudo das origens, percursos e influências exercidas Crenças são proposições que, na sua formulação mais simples, por crenças e sistemas de crenças nos circuitos histórico, social, afirmam ou negam uma relação entre dois objetos concretos ou abstra- político e cultural. tos, ou entre um objeto e algum possível atributo deste. Assim, De um modo geral, Bem (1973), Rokeach (1981) e de lado, por limitada, a interpretação de que crenças são conjeturas ou (1972) oferecem contribuições teóricas, empíricas e experimentais que declarações baseadas na fé. Além disso, e a rigor, no estudo psicosso- possibilitam um reconhecimento e talvez uma avaliação do estágio ciológico das crenças, não importa considerá-las sob a perspectiva atualmente alcançado na pesquisa de crenças e sistemas de crenças na epistemológica da verdade. Ao menos em primeira linha. Aos psicólo- Psicologia Social. São, porém, autores que perfilham posições psicoló- gos sociais interessa considerá-las na sua origem, na formação e gicas distintas. Rokeach e (este, certamente, o mais estrutura de sistemas de crenças e, sobretudo, quanto ao grau de produtivo dos psicólogos mexicanos da atualidade) definem-se por aceitação subjetiva de tais além da influência que exer- uma orientação cognitivista, ao passo que Bem adota o Behaviorismo cem sobre o comportamento. Exemplificando: quando alguém declara radical de Skinner. Uma das é que, se os primeiros que é inteligente ou que está qualificado para atuar no campo da situam as crenças na classse das variáveis intervenientes, Bem as Psicologia Clínica, interessa antes saber, em termos de pesquisa psico- interpreta como manifestações do comportamento verbal, tornando lógica, as circunstâncias que geraram tais crenças, como elas se indispensável a análise do comportamento social a partir das lingua- constituem em argumentos, passando a integrar o vasto conjunto das gens de mando e de tato. crenças individuais, e o papel que desempenham na dinâmica do Das três contribuições acima mencionadas, a mais bem-sucedida do comportamento social, do que procurar averiguar o seu valor de ponto de vista teórico é a de Rokeach (op. cit.), especialmente no que verdade. Os psicólogos que partem desse ponto para orientar suas se refere à heriarquização das crenças em cinco níveis a partir da pesquisas estão convencidos de que psicologicamente o que mais noção de centralidade. Quanto mais centrais, quer dizer, mais relevan- importa a uma pessoa, influenciando decisivamente o seu comporta- tes forem as crenças para a pessoa (é o caso das que se referem à nossa mento, não é a realidade como tal, mas como ela supõe ou imagina que identidade), maior será a resistência oferecida para sua mudança e esta seja. mais significativas serão as repercussões em toda a estrutura do Preservando-se a diferenciação entre processos e produtos psicoló- sistema de crenças, na ocorrência de tal alteração. Contudo, Díaz- gicos, formulada inicialmente por F. Brentano (1838-1917), poderemos Guerrero (1961, 1977), embora não chegando a alcançar uma formali- situar as crenças no âmbito dos últimos, sendo cognitivos (perceber, zação teórica tão consistente quanto a de Rokeach, realizou pesquisas pensar e raciocinar) os processos que lhes dão origem. o material as de conteúdo heurístico que ensejam idéias suscetíveis de aplicação crenças assim obtido, e sob o prisma que especificamos no parágra- prática. Nesta esfera podem ficar alocados seus estudos sobre crenças fo anterior, passa a ser um objeto de estudo na Psicologia Social, que, (premissas sócio-culturais, de acordo com a terminologia por ele por sua vez, representa apenas uma dentre várias possibilidades proposta) de mexicanos a respeito do processo político e dos papéis ficas. Ainda no plano da Psicologia, há setores, como os da Psicologia sociais femininos e masculinos. Intercultural, Psicologia Cognitiva e Psiconeurofisiologia, que, não A pesquisa psicossociológica das crenças possibilita obter esclareci- obstante a diversidade de objetivos teóricos e métodos de pesquisa mento sobre a grande variedade de estilos interpretativos da realidade empregados, também abrigam ou podem dar acolhimento a pesquisas sócio-cultural e das correspondentes condutas sociais, tão assinalada- relacionadas com o objeto que nesta página estamos mente distintas em sociedades que, como a brasileira, exibem pronun- Quanto às ciências sociais, que igualmente podem ser dirigidas para o ciada heterogeneidade nos campos étnico, econômico e político- mesmo objeto, há que registrar, como estando mais próximas dos ideológico. o conhecimento de tais diferenças, enquanto refletidas no 32 33</p><p>plano das crenças e sistemas de crenças, possibilitaria atender simulta- especificado, aplica-se a qualquer pessoa, grupo, animal, objeto inani- neamente tanto a desideratos da pesquisa básica quanto a objetivos da mado ou entidade abstrata, posicionado como objeto de afeição ou Psicologia e das ciências sociais aplicadas. Convém ilustrar este último interesse social. aspecto. Algumas idéias relativas a pesquisas e técnicas de intervenção de cunho psicossociológico podem ser cogitadas a partir da profissio- A esse componente afetivo agregam-se dois outros, que, em conjun- to, constituem a estrutura atitudinal. Trata-se dos elementos cognitivos nalmente bem-fundamentada observação de Laplantine (1978, p. 108) de que a psicoterapia pode ter os seus resultados comprometidos se o e da tendência comportamental. Vejamos como eles se articulam: se paciente não acreditar no tratamento. Diante disso, pode-se estabele- houver um sentimento por algum objeto social, é porque dele já se cer a conjetura de que qualquer relacionamento humano pode ficar dispõe de uma representação cognitiva, ambos contribuindo para que prejudicado, em seus objetivos e qualidades, por fatores semelhantes se estabeleça uma orientação preferencial da conduta em relação ao aos já considerados. Crenças instaladas em participantes de processos objeto por eles visado. Não parece razoável supor que se possa nutrir interativos podem gerar dúvidas, receios, desconfianças, expectativas afetos por algo que se ignore completamente. Pode suceder que as excessivas ou atitudes negativas que, certamente, exercerão alguma representações cognitivas não hajam alcançado o nível simbólico (seria influência sobre a conduta das pessoas engajadas em tais situações. caso das crenças, por exemplo), baseando-se, como ocorre em crianças, em conteúdos motores e icônicos (imagens do objeto), Finalizaremos esta unidade apresentando duas observações. As segundo a acepção atribuída a esses termos por Bruner (1973, p. 21), crenças podem ser qualificadas como opiniões, boatos, dogmas, con- mas a sua presença é lógica e psicologicamente indispensável. Aliás, se vicções e estereótipos (crenças amplamente generalizadas para um insistirmos na vertente lógica desta interpretação, concluíremos que conjunto de pessoas), entre outras possibilidades de classificação, e emoções e sentimentos são necessariamente precedidos por cognições. participam, quando houver uma relação afetiva entre uma pessoa e Em poucas palavras: os componente afetivos, cognitivos e comporta- algum objeto social, da atitude que aquela manifesta em relação a este. mentais das atitudes associam-se de tal maneira que, se o sentimento A segunda observação prende-se ao fato de que não encontramos, na for negativo, as representações e a conduta também tenderão a sê-lo. E Psicologia Social em que pese a importância (teórica e vice-versa. prática) deste tópico, qualquer teoria abrangente sobre crenças e sistemas de crenças. Predominam estudos isolados, particularizados. A principal função das atitudes sociais, como já vimos na introdu- Neste plano localiza-se também a dissertação de mestrado de Lanzil- ção deste capítulo, é a avaliativa. A segunda, que se pode depreender lotti (1982), que concluiu haver um número menor de crenças alimenta- da idéia da estrutura atitudinal, é que através dela se possibilita a res negativas do que se pode supor, não tendo sido os dados de sua organização do comportamento nos planos da cognição, dos afetos e pesquisa influenciados pelo sexo, nível de escolaridade e faixa etária da conação. Em seguida, cabe supor que atitudes também contri- dos participantes. buem na orientação da conduta, na medida em que ensejam uma discriminação afetiva de tudo e de todos aqueles que se dispõem no campo do nosso ambiente psicológico. Em quarto lugar, por favorece- 3.2. Atitudes e preconceitos rem a elaboração de argumentos, militam em defesa do eu, protegendo- de objetos e situações desagradáveis ou ameaçadoras. A última Há muita divergência na Psicologia quanto à definição de atitudes dessas funções é a de que as atitudes autorizam inferências a respeito sociais. Contudo, entre os psicólogos sociais de orientação cognitivista, dos valores que a elas se encontram subjacentes, ou seja, desempe- manifesta-se algum acordo no sentido de definir atitude a partir da nham um papel expressivo em relação aos valores. Tentaremos esclare- idéia de que se trata de uma disposição afetiva, favorável (positiva) ou cer conceito de valor na quarta unidade deste capítulo, mas desde já desfavorável (negativa), a um objeto social. Teoricamente, essa dire- convém asseverar que os valores podem ser interpretados como atitu- ção afetiva pode ocorrer em torno de um dos pólos de uma linha de des geradas em relação a objetos de grande extensão e complexidade. continuidade que vai do ponto mais baixo de rejeição à extremidade Resta a consideração de que, tecnicamente, as atitudes sociais são oposta da maior aceitação possível. Desse modo, torna-se incoerente variáveis intervenientes dotadas de relevância teórica, pois ensejam falar em atitude neutra ou em atitude quando não houver um mínimo previsões comportamentais. Pode haver diversas fontes de interesse de mobilização afetiva. Agora, a expressão objeto social, como vimos em procurar saber como se dispõe as pessoas em face de temas tão no capítulo anterior, não está vinculada a um referente bem- candentes como o modo de produção, o sistema de governo, a poluição 34 35</p><p>ambiental e o controle da natalidade. A esta altura, não há como tendiam a uma estabilização que se prolongava, em muitos casos, na resistir à apresentação do seguinte ponto de vista: conhecer, poder vida pós-acadêmica. explicar e produzir previsões acertadas são acontecimentos que têm lugar na esfera beneficiando-se de uma boa acolhida Na formação de atitudes, assim como na de preconceitos e valores, agora, desde que se saiba que na utilização do saber incidem variáveis são de significativa importância as influências que sofremos nos diver- ideológicas, políticas e morais, impõe-se, inclusive a psicólogos so- grupos dos quais fazemos parte: da família aos grupos instituciona- ciais, a adoção de uma postura de vigilância crítica. Ela resulta de um lizados; dos grupos informais aos partidos políticos. Ao longo dessas imperativo ético. experiências de interação social, multiplicadas à medida que novos E que vêm a ser preconceitos? Em que diferem (ou se assemelham) papéis passam a ser desempenhados, crescem as oportunidades de de atitudes sociais? Escolhamos a resposta mais sucinta. Teoricamen- reforço e cujo resultado mais palpável é a relativa homoge- neidade de atitude exibida pelos membros dos diversos e numerosos te, os preconceitos podem ficar incluídos na classe das atitudes, exibindo, em dessa inserção, os três elementos acima grupos humanos. Em última análise, é no jogo da interação que iremos apresentam, porém, em adição e em contraste com elas, encontrar a origem de nossas atitudes. Ao que tudo indica, é inata a duas características que lhes são específicas: a de que se formam nossa capacidade para emoções e sentimentos, mas é aprendida a relação que estabelecemos entre eles e as coisas, pessoas e eventos da sempre em torno de um núcleo afetivamente negativo e a de que são dirigidos contra grupos de pessoas. Focalizados por este lado, os realidade em que nos situamos. preconceitos étnicos, religiosos, políticos, culturais, ideológicos e pro- Pesquisas psicológicas (Triandis, 1971, cap. VI) permitem concluir fissionais passam a ser, efetivamente, atitudes contra grupos, comuni- que o melhor caminho a seguir para a mudança de atitudes é o da dades, classes e sociedades de pessoas consideradas segundo um ou instalação de uma desarmonia lógica entre os seus componentes que, mais critérios de diferenciação. No setor dos seguramen- como declaramos na unidade anterior, alinham-se uniformemente a te mais do que no das atitudes, existem sobejas razões para acreditar favor ou contra algum objeto social. Aliás, melhor seria dizer "tendem ser de interesse social investigar suas causas, assim como construir a dispor-se de modo pois há casos em que a situação social técnicas psicológicas que, aplicadas, permitem preveni-los, controlá- na qual as pessoas se encontram (ou precisamente: a interpretação que los ou Havendo tais intenções, torna-se conveniente fornecem a ela) as forçam, ou ao menos levam, por conveniência, recorrer a Allport (1971), cujo texto, atualmente, pode ser considerado receio ou medo, a ocultar, inibir ou negar sentimentos reais, produzin- um dos clássicos da literatura psicológica. do condutas que com eles entram em desacordo. Vale aduzir que as Finalmente, cumpre esclarecer ao leitor que as interpretações das atitudes não se modificarão sob a pressão de tais experiências, a não quais acabou de tomar conhecimento não devem ser encaradas como ser que venham a se repetir com Qualquer um dos três sendo de aceitação consensual e definitiva. Não, elas têm a sua componentes pode ser tomado como base em projetos de mudança emergência e limites condicionados pelo Cognitivismo, podendo se atitudinal; contudo, tanto em situações tecnicamente controladas constituir como o autor deste texto também acredita num ponto quanto em circunstâncias comuns da vida social, é mais freqüente de partida bastante promissor para a pesquisa psicológica. partir-se do componente cognitivo. A persuasão, a doutrinação e a sugestão, a par de outros processos que também são verificados em interações sociais, podem gerar alterações no quadro das crenças e, se 3.3. Formação, mudança e medida de atitudes estas vierem a ser substanciais, abre-se caminho pela incoerência que passa a ocorrer entre elas, os sentimentos e a conduta para a mudança Atitudes, preconceitos e valores são estruturas relativamente está- de sentido dos últimos. Provas experimentais depõem a favor deste veis, resultantes de experiências individuais, sendo a aprendizagem argumento, que também se encontra admiravelmente apresentado, na uma delas. A estabilidade das atitudes fica mais assegurada quando sua forma literária, no Júlio César, de Shakespeare (1564-1616), exata- houver, segundo Newcomb (1943), uma base de sustentação social. mente no momento em que Marco Antonio, após o assassinato de Newcomb (op. cit.) teve a oportunidade de constatar no Bennington César, se dirige ao povo e modifica o seu ânimo, tornando-se senhor da College, onde atuou como professor de moças ali que as situação. É a versão teatral de uma experiência familiar aos que, em atitudes politicamente mais liberais por elas formadas quando submeti- razão do ofício ou perspicácia, têm alguma compreensão dos mecanis- das a estímulos de professores e colegas mais antigas da escola mos psicossociológicos. Nesse ramo da Psicologia, porém, há a preo- 36 37</p><p>cupação de se estudar sistematicamente o peso relativo de fatores De interesse para os psicólogos é o livro de Spranger (1976), que é como competência e confiabilidade do natureza e carac- antes uma obra de Psicologia filosófica do que Filosofia. Spranger terísticas de comunicação e reações do alvo (depreciação da fonte e seguiu o filão aberto pelo Círculo de Baden e, aplicando o método da refutação, rejeição, assimilação e contraste de argumentos, entre compreensão, depreendeu a existência de seis tipos básicos de perso- outros), em processos de mudança atitudinal. Tais pesquisas permiti- nalidade, cada qual vinculado a um valor específico: teórico, econômi- ram a elaboração do esquema proposto por Hovland & Janis (1959). o co, estético, social, político e religioso. o valor ético não constituiria mecanismo de mudança de atitudes que acabamos de examinar pode uma forma especial de personalidade, encontrando-se na composição dos ser analisado à luz da teoria da dissonância cognitiva de Festinger seis tipos acima especificados. A análise de Spranger leva-nos a (1957), cujo principal postulado é o de que tendemos a preservar, em concluir que o rumo geral da existência humana, examinada na sua etapas uma harmonia entre nossas cognições (cren- individualidade e inevitável solidão, é conferido por tal ou qual valor ças) mais relevantes. Essa teoria é focalizada no sétimo capítulo deste predominante, ou ainda por alguma composição peculiar de alguns livro, de modo que seria conveniente ao leitor retomar o tema aqui deles. São os valores que nos orientam e fornecem parâmetros para o focalizado depois de se inteirar melhor do conteúdo dessa teoria. julgamento, avaliação e adoção de condutas, doutrinas, crenças, ideo- o interesse e a aplicação dos psicólogos sociais na elaboração de logias e culturas. Esta é a razão pela qual o tema dos valores desfruta técnicas de mensuração de atitudes e da teoria pertinente fizeram com de uma particular atenção junto aos psicológos. que esse tópico atingisse um desenvolvimento Das diver- Uma das alternativas psicológicas disponíveis para o entendimento sas técnicas atualmente disponíveis (observe-se, neste particular, o dos valores é a que se alicerça no Cognitivismo. Sob esse prisma, os quadro fornecido por McDavid & Harari, 1980, p. 49), a mais emprega- valores são dotados de uma estrutura atitudinal, mas com a caracterís- da é a das escolas, particularmente a de Lickert. Não é complexa a tica, que já assinalamos, de não se aplicarem a objetos particulariza- tarefa de preparação de tais instrumentos, mas há que cuidar de dos. A rigor, sob este ângulo de apreciação, as atitudes denotam aspectos técnicos. Para esse fim, o livro de Dawes (1972) é uma obra de consulta muito útil. valores, pois, manifestando-se em relação a objetos mais claramente delineados, extraídos (ao menos logicamente) do campo de aplicação do valor correspondente, ensejam ilações quanto àqueles. Convém ilustrar: a reprovação ou condenação da má qualidade do ensino 3.4. A questão dos valores na Psicologia Social contemporânea oferecido a pessoas de poder aquisitivo mais limitado, eventualmente manifestada por alguém, permite a conclusão de que, provavelmente, Os valores estão incluídos no rol dos problemas mais significativos nessa pessoa deve haver uma inclinação favorável à justiça social ou, o do nosso tempo, mas o que queremos dizer com esta palavra é alvo de que talvez seja mais pertinente afirmar, à crença na igualdade de muita discussão. Na Psicologia Social também. oportunidades a todos. A atitude, como se está a perceber, é congruen- Alguns filósofos, notadamente os que se localizam no terreno da te com o valor. Quer dizer, neste caso tem-se acesso à atitude, mas, a Axiologia, avocam a si a análise dos valores, sendo o estatuto ontológico partir dela, pode-se chegar, pela inferência, ao valor. destes considerado o primeiro e o mais importante dos problemas. Que são valores? Seriam entidades exteriores à nossa consciência ou teriam Um ativo psicólogo social dedicado à investigação empírica dos valores é Rokeach (1981), que, entretanto, de modo diverso ao que sido gerados por nós mesmos? A verdade é que os valores não se acabamos de expor, interpreta-os como crenças duradouras a respeito rendem facilmente ao escrutínio dos filósofos; basta ler o texto (exce- de condutas e estados finais da existência classificados como desejá- lente) de Frondizi (1981, já na quarta reimpressão da terceira edição) veis (Rokeach, op. cit., p. 132). Há aqui um papel mais destacado para Contudo, ao menos num momento, a interpretação filosófica encontra-se de acordo com a de psicológos: os valores previsto para os componentes cognitivos (crenças) na formação de valores. Esta é uma diferença em relação ao argumento baseado no pressupõem uma orientação preferencial, afetivamente positiva em conceito de atitude. Ambos têm a sua sobrevivência teórica assegurada relação a um conjunto de objetos, pessoas, situações, condutas e estados finais. Valores são o Belo, a Verdade, o Bem, a Virtude e a enquanto não ocorrerem pesquisas que coloquem à prova hipóteses Justiça. Não os seus opostos. deduzidas das duas posições, oferecendo dados que deponham nitida- mente em favor de uma delas. Como se trata de uma tarefa ainda por 38 39</p><p>realizar, não se torna possível no momento formular um juízo mais completo sobre o assunto. As técnicas mais empregadas na medida de atitudes, valores e preconceitos são as escalas. Em seus estudos, Rokeach (op. cit., cap. 7) preservou a diferença entre valores instrumentais (que se referem a formas de ação admitidas como desejáveis) e valores terminais, concernentes a estados futuros Leituras recomendadas imaginados como preferíveis a outros. Um mundo de paz, por exemplo. Bem (1973); (1961, 1972); Freedman et al (1973, cap. 8 e 9); Goldstein A escala de medida de valores, elaborada por Rokeach e adaptada à (1983, cap. 5); McDavid & Harari (1980, cap. 5); Rodrigues (1981, cap. 12, 13 e 14); realidade brasileira por Günther (1981), tem sido utilizada em pesqui- Rokeach (1981, cap. 1, 5 e 7). sas psicológicas, sendo estas, em sua maioria, de cunho empírico (levantamentos). 3.5. Resumo As atitudes, como tema de pesquisa, vêm permanecendo na pauta de interesses da Psicologia Social, dos anos de formação dessa área científica aos nossos dias. Consideradas sob o prisma cognitivista, passam a integrar um tópico de investigação do qual também fazem parte as crenças, os valores e os preconceitos. Mais ainda: sob este ângulo, as atitudes são interpretadas como estruturas constituídas por elementos cognitivos (crenças), afetivos e comportamentais. A sua principal função é a de avaliação. Fundamentalmente, as crenças, quaisquer que sejam dogmas, ideologias, opiniões, conjeturas, princípios, leis e são assertivas a respeito de uma relação entre dois objetos (concretos ou abstratos), ou entre um objeto e algum atributo deste, aceitas ao menos por uma pessoa. Aos psicólogos, notadamente os da Psicologia Social, importa considerar a origem, a organização e a relação de influência de tais crenças sobre o comportamento. As atitudes e os preconceitos, compartilhando de uma mesma estrutura básica, podem ficar incluídos numa só classe, cabendo, no entanto, assinalar que, teoricamente, os preconceitos são sempre negativos e referidos a grupos humanos. Presume-se que a origem das crenças, atitudes, valores e preconcei- tos resida em nossas experiências sociais, no bojo das quais o reforço e a imitação têm lugar. Tal conjetura - não infirmada pelos fatos é a base de programas de controle e mudança dessas estruturas e disposi- ções. Dado o peso da sua importância (teórica e prática), conviria apro- fundar ainda mais a pesquisa psicossociológica dos valores, a fim de se poder aquilatar melhor a função que desempenham na dinâmica da personalidade e do comportamento. Seria também conveniente conti- nuar respeitando a classificação (de procedência filosófica) dos valores em instrumentais e finais. 40 41</p><p>condutas, inibir qualquer precipitação em proceder ao seu julgamento 4 moral, pois é possível admitir que, sob outro ângulo de apreciação (histórico, cultural ou ideológico), venham a ser esses os normais, e desviados os que anteriormente, daqui e dali, tenham sido recompen- sados. A socialização tem sido incriminada como processo de controle social de caráter conservador, baseado no reforçamento de comporta- A formação do ser social mentos social e culturalmente apropriados. De fato, esta é uma observa- ção emitida com muita Entretanto, ela focaliza apenas um lado da questão, já que mudanças sociais mais estáveis tendem a ocorrer, como destacou Bronfenbrenner (1970) no seu estudo (especu- lativo) dos papéis masculinos e femininos na sociedade norte- americana, através da socialização. Certamente não se incorrerá no erro ingênuo de considerar que uma política comprometida com trans- formações sociais fique assegurada fazendo apenas com que o proces- so de socialização tome o rumo por ela desejado, mas é de se convir que esse processo não poderá ser negligenciado. É o que nos assegura mesmo Bronfenbrenner (1976a), na pesquisa já referida, a respeito É mediante a socialização que se opera a progressiva transformação dos sistemas educacionais norte-americano e soviético. de um recém-nascido cujas condutas são determinadas, inicialmen- Concluídas estas considerações preliminares, passamos a examinar te, por reflexos e respostas não-condicionadas em um ser social os seguintes temas: socialização e aprendizagem social; desenvolvi- capaz de haver-se em complexas situações estimuladoras, interpretan- mento da moralidade; desenvolvimento da necessidade de realização; do-as, selecionando e exibindo condutas que considera adequadas. A e influências da sociedade e da cultura no comportamento humano. socialização é, por conseguinte, um processo que nos torna aptos à convivência, intercâmbio e ajustamento psicológico, qualquer que seja o sistema sócio-cultural tomado como referência. 4.1. Socialização e aprendizagem social Depreende-se, das considerações anteriores, que não há aspectos do comportamento humano que fiquem poupados no processo de sociali- Pode-se definir a socialização como um processo de preparação das zação. Há, o que não precisa ser enfatizado, uma grande variação, que pessoas para o desempenho de papéis sociais. Por este lado, portanto, depende de características da família, da sociedade e da cultura, no entende-se que a promoção de habilidades psicológicas e físicas visa desenvolvimento de atributos e processos psicológicos mais requeri- preencher expectativas comportamentais. É o que acontece, por exem- dos nesta ou naquela história de socialização, mas pode-se declarar plo, em crianças que a escola, mas, também, em adultos que, em qualquer caso, são influenciados processos e conteúdos dispostos a se dedicar à causa pública. cognitivos e emocionais, motivos, habilidades motoras e comporta- Os conceitos de papel social, assim como o de status, procedem das mento social. Cabe ainda acrescentar o seguinte: na análise psicosso- ciências sociais, onde a sua aplicação é fundamental na pesquisa das ciológica da socialização, parte-se do pressuposto da neutralidade relações sociais (no estudo desse assunto, o livro de Banton 1965 moral desse conceito. Desse modo, a socialização tanto ocorre nas pode servir como obra introdutória). Uma boa descrição da história do situações em que são produzidas condutas consideradas socialmente conceito de papel social e de suas características básicas, acompanha- adequadas e, portanto, dignas de aprovação, quanto naquelas que da de uma instigante conjetura sobre os limites da liberdade (social) fornecem comportamentos desviados das normas, convenções, leis e humana, gravemente ameaçada pelas exigências dos múltiplos papéis costumes. Teoricamente, como se vê, é vasto o campo de incidência da sociais aos quais nos subordinamos, encontra-se em Dahrendorf socialização, mas, ainda a propósito de comportamentos desviados, (1969). Baseados nesse texto, assinalaremos as seguintes característi- convém lembrar serem muito discutíveis os critérios de normalidade cas dos papéis sociais: trata-se de sistemas de prescrições comporta- adotados na Psicologia, de modo que seria prudente, no estudo de tais mentais quase-objetivos (no sentido de que nem sempre são codifica- 42 43</p><p>dos ou regulamentados, podendo situar-se no plano das normas sociais à experimentação de laboratório vêm sendo empregados implícitas), em princípio independentes do indivíduo; o conteúdo de conceitos complementares, como os de dessocialização, ressocializa- tais sistemas tende a ser socialmente definido; e, em terceiro lugar, ção, socialização parcial, socialização paradoxal e socialização ante- admite-se que o cumprimento dessas prescrições gera recompensas, ao cipada. passo que o seu desatendimento pode provocar sanções sociais. Os dois primeiros interligam-se, já que a dessocialização se caracte- Se, agora, nos interessássemos pelas características da socialização, riza pela eliminação (que pode ser planejada) de padrões comporta- não poderíamos deixar de apontar as seguintes: em primeiro lugar, mentais anteriormente adquiridos e avaliados como socialmente incon- trata-se de um processo contínuo, quer dizer, sua ocorrência não se venientes; e a ressocialização, por seu turno, é praticada quando se esgota na infância e na adolescência, estendendo-se, dado que há colima, a partir da situação anterior, a preparação de pessoas para a sempre novos papéis a desempenhar (sendo alguns deles tardios, como assunção de papéis sociais interpretados como sendo mais positivos. o de avô e o de aposentado) ao longo da nossa e, em Isso ocorre em casos de conversão religiosa e ideológica, e em peniten- segundo lugar, trata-se de um processo dotado de universalidade, pois ciárias, centros de recuperação (social) de menores e instituições é levado a efeito em todos os sistemas sócio-culturais, uma vez que congêneres. É evidente que aqui afloram, considerando-se a questão inexiste sociedade humana onde não haja ao menos uma diferenciação sob o prisma do investimento profissional de psicólogos, graves pro- de papéis sociais baseada no sexo, na idade, no parentesco, nas blemas éticos, mas estes só podem ser examinados com lucidez diante atividades de subsistência e nas relações de poder. Além disso, não nos de fatos concretos. Voltemos nossa atenção para os demais conceitos. esqueçamos que, mesmo em sociedades culturalmente menos comple- Na socialização parcial sucede uma preparação insatisfatória, aquém xas, há uma dinâmica de transição de um papel social a outro, como das prescrições comportamentais inerentes ao papel social considera- meticulosamente o registrou Van Gennep (1978) no seu conhecido do; na socialização paradoxal (contra-socialização) apresenta-se um estudo sobre os ritos de passagem. resultado antagônico ao que se pretendia alcançar, explicado pela Os principais responsáveis pelo processo de socialização são as oposição e reação manifestadas pelo socializando; e da socialização seguintes pessoas: pais, companheiros e adultos de um modo geral. antecipada pode-se dizer que ela se verifica com precocidade. São os agentes de socialização, mas a sua participação não ocorre sempre no sentido unilateral, ou seja, incumbindo-se estes da influên- 4.2. Desenvolvimento da moralidade cia social sobre um socializando passivo. Pode suceder, o que com certa se observa em adolescentes, notadamente nos das o julgamento moral e, sobretudo, a questão do desenvolvimento da classes média e superior, uma relação de influência recíproca, em que consciência moral passaram a interessar os psicólogos a partir de J.M. estes chegam a influenciar os adultos no desempenho de seus papéis de Baldwin (1861-1934) Se nos ativermos ao depoimento de Broughton agentes de socialização. Não obstante, há dados suficientes para (1981), admitimos que Baldwin, bastante fiel aos princípios evolucio- justificar a afirmativa de que os adultos desempenham uma função nistas, foi o primeiro psicólogo a propor a idéia de de decisiva no processo de socialização das crianças e adolescentes. o estágios no desenvolvimento da consciência lógica, científica, social, papel dos pais, por exemplo, foi ressaltado por Bronfenbrenner religiosa, estética e moral. Precedeu, portanto, a J. Piaget (1896-1980), (1976b), que, a propósito, encontra-se empenhado em estabelecer uma mesmo em relação aos estudos do mestre suíço quanto ao julgamento ponte entre a pesquisa psicológica e uma política social responsável. moral, que só vieram a ser publicados em 1932 (vale notar que, em De acordo com Bronfenbrenner (op. cit.), o constante aumento do português, a publicação de o Julgamento Moral na Criança só aconte- número de famílias norte-americanas desfeitas pela separação dos ceu em 1977). cônjuges envolve consideráveis emocionais, cognitivas Contudo, essa temática passou a se constituir em objeto de signifi- e sociais para o nicho ecológico (família) em que se realizam decisivas cativas pesquisas teóricas a partir de Kohlberg (1958), que se apoiou experiências de socialização. Essa perspectiva de Bronfenbrenner é consideravelmente em Piaget. É muito fácil verificar, recorrendo-se a listas de artigos técnicos e científicos que vêm sendo publicados desde congruente com a idéia de modelo social e de sua função norteadora na emergência do ser social desenvolvida por Bandura (1965). aquela data, como são numerosas as contribuições nesse perfeitamente adequado a uma Psicologia Social centralizada na idéia Este é o lugar apropriado para esclarecer que na pesquisa do do desenvolvimento. É, por outro lado, evidente que o problema ora processo de socialização que, aliás, é pouco acessível, por razões focalizado também importa aos filósofos ocupados com questões 44 45</p><p>éticas e morais, acicatados, tanto quanto os psicólogos, pelas gritantes injustiças e afrontas à dignidade humana que parecem florescer em estágios mais adiantados de moralidade podem ser atingidos em idades nosso tempo. avançadas. Há abundantes informações, oriundas de pesquisas empíricas, que Não são poucas as semelhanças entre as posições teóricas de Piaget favorecem análises comparativas (como a de Eckensberger & Reinsha- e Kohlberg. Elas chamam a atenção e não passam despercebidas gen 1980, p. 102 e 103) e autorizam assertivas gerais do seguinte quem as analisar É o caso, por exemplo, de Eckens- a teor: estágios mais elevados de moralidade são alcançados, nos EUA, berger & Reinshagen (1980, p. 68-69), que destacaram doze aspectos por indivíduos de classes sociais superiores; em grupos culturalmente da teoria de Kohlberg nitidamente congruentes com o modelo piagetea- fechados e em sociedades significativamente centradas na família, o no de desenvolvimento; e outros quatro, que com este entram em estágio modal é o 3; e as mulheres tendem (o que se supõe decorrer da contradição. importância por elas conferida à afetividade nas relações interpes- Dentre as semelhanças, encontram-se as seguintes: tanto no desen- soais) a se estabilizar no terceiro estágio (Eckensberger & Reinshagen, volvimento moral quanto no cognitivo, trata-se da produção de estrutu- op. cit. p. 104). ras que dependem da atividade interativa do sujeito com elementos Aplicações de testes baseados em Kohlberg (1976b) têm propiciado, físicos, humanos e sociais, do meio em que se encontra; tal atividade ainda, as conclusões de que são raros os casos em que se atingem os resulta da busca de um equilíbrio entre o organismo e o meio ambiente, estágios 5 e 6; que o fato de se haver alcançado estágios superiores não vindo a fornecer condições para uma progressiva diferenciação funcio- impede retornos (eventuais e transitórios) a estágios inferiores; e que nal e uma maior integração de informações; as estruturas (avaliadas há diferenças nacionais entre os estágios médios alcançados (ao menos sob um critério qualitativo) dispõem-se sendo que as pelos integrantes das amostras das populações consideradas nas pes- superiores absorvem as de menor complexidade; no indivíduo, os quisas). desenvolvimentos afetivo e cognitivo ocorrem há ainda o tópico de pesquisa do desenvolvimento da moralidade interessa à o que na teoria de Kohlberg constitui um aspecto mais polêmico do Educação, à Filosofia, às ciências sociais, e encontra-se relacionado que na de Piaget a suposição de que os estágios sejam universais, com estudos psicossociológicos relativos a comportamentos pró- quer dizer, dotados de validade No que concerne às sociais e diferenças, podem-se lembrar aqui duas que, segundo Eckensberger & Reinshagen (op. cit., p. 69), são relevantes: a de que, se para Piaget a ação precede o pensamento, o oposto se constata em Kohlberg; e, em 4.3. Desenvolvimento da necessidade de realização segundo lugar, Kohlberg admite, o que Piaget não chegou a considerar em suas proposições sobre o desenvolvimento moral, A introdução do motivo como variável básica da Psicologia foi que neste particular são decisivas as experiências na família e em concomitante, segundo O'Kelley (1968), à substituição da interpreta- grandes sistemas sociais, assim como as que se verificam nos contatos ção estrutural dos processos mentais por uma concepção mais funcio- decurso da socialização. com princípios abstratos de justiça. Tais encontros são ensejados no nal. Neste sentido, as contribuições de W. McDougall (1871-1938), bem como as de S. Freud (1856-1939) e as dos funcionalistas norte- o esquema de desenvolvimento da moralidade proposto por Kohl- americanos, foram decisivas. Em rápida síntese, pode-se dizer que as berg (1976a) compreende três níveis (pré-convencional, convencional e noções relacionadas com a motivação resultaram de estudos e análises pós-convencional) e seis estágios, sendo dois para cada nível. Esses que se encontram no bojo do Evolucionismo, Psicologia Comparada, estágios, em sua progressiva, são os seguintes: 1) punição e Psicologia da Aprendizagem, Psicanálise e Psicologia Social. É preci- obediência; 2) realismo instrumental; 3) orientação segundo expectati- so, todavia, aduzir que, se na Psicologia contemporânea há um consen- vas dos outros; 4) lei e ordem; 5) contrato social e direito; e 6) ética so quanto à pesquisa psicológica, impondo-se até pela observação do universal. Convém informar, em benefício da clareza, que Kohlberg se comportamento e insinuando-se através da tradição filosófica e literá- fundamenta na interpretação cognitivista, distanciando-se da posição ria, o mesmo não se poderá dizer das interpretações a que esse psicanalítica. De fato, a explicação psicanalítica (baseada na formação conceito vem sendo submetido. Neste ponto, cabe observar, há ques- tões de acentuada complexidade. Elas se apresentam, desde logo, na do Superego) é incompatível com a conjetura de Kohlberg de que diferenciação entre motivos fisiológicos e adquiridos (sociais), que 46 47</p><p>constitui, no fundo, uma das faces do problema nature X nurture. negligenciáveis. Este é precisamente o ponto de vista de McClelland Resta, ainda, a informação de que o estudo sistemático dos motivos (1972), que, baseando-se em correlações entre índices de desenvolvi- adquiridos foi iniciado em torno de 1940. A propósito desse assunto, mento econômico e inferências quantificadas (através da avaliação de Cofer & Appley (1970, cap. 15) registram que as contribuições anterio- epitáfios, discursos, textos escolares, leis, regulamentos e obras literá- res àquela década apresentam duas características básicas: ênfase no rias) da nAch em sociedades mais antigas, como a da Espanha na Baixa estudo dos incentivos e ausência de sofisticação teórica e metodoló- Idade Média e a da Inglaterra na Revolução Industrial, chegou à gica. conclusão de que a motivação de realização contribuiu para o sucesso sócio-cultural daquelas sociedades. Dentre as atuais pesquisas psicossociológicas acerca da motivação, destacaremos a da necessidade de realização. Trata-se de uma motiva- Considerando, portanto, que as circunstâncias históricas, os estímu- ção desenvolvida ao longo do processo de socialização e que pode ser los e os reforços sociais são importantes no desenvolvimento da nAch, qualificada como proativa, em contraposição às de natureza reativa podemos admitir que essa motivação deva variar, ao menos na fre- (de acordo com as definições propostas por Allport, 1955). Aqui, não ou na proporção do número de pessoas que a tenham desen- há um déficit a ser corrigido, mas sim um fator de dinamização e volvido, de uma sociedade para outra. Naturalmente, esta conclusão orientação do comportamento para alvos ou metas situadas em planos se ajusta à posição de McClelland (1972), referida logo acima, de que fatores históricos e culturais podem militar decisivamente na promo- mais adiantados em relação aos já atingidos pela pessoa. Na verdade, ção da nAch. Desta perspectiva, porém, resultaram projetos de desen- como estamos a perceber, a necessidade de realização (need for volvimento sócio-econômico, já testados em algumas comunidades achievement ou, simplesmente, nAch) prende-se à busca de padrões de excelência em desempenhos individuais, qualquer que seja o terreno (como as da que podem ser considerados polêmicos. E segura- mente o serão, enquanto focalizados sob um prisma crítico, pois eles em que aqueles ocorram (econômico, político, profissional, artístico, acadêmico ou doméstico). sugerem, ainda que implicitamente, uma coonestação da civilização ocidental, especialmente do que nesta se verifica em termos de valori- o primeiro texto mais abrangente sobre esse assunto, compendian- zação do desempenho econômico. do os resultados da teorização e da pesquisa empírica obtidos até o Um problema técnico muito importante é o da medida da motivação, início da década de 50, é de McClelland et al. (1953). De lá para cá, pois se trata, como já o frisamos, de uma variável interveniente. No manteve-se a continuidade no desenvolvimento desse tópico, cuja caso da necessidade de realização, o procedimento mais perfilhado é o relevância dadas as inevitáveis (e evidentes) repercussões da nAch do emprego de pranchas do TAT (Teste de Apercepção Temática), sobre o comportamento social humano não precisa ser enfatizada. partindo-se da tese, de origem psicanalítica, de que o conhecimento de Um relevante item de pesquisa nesse tópico é o das origens da desejos e motivações individuais pode ser obtido através das interpre- motivação de realização. Quanto a esta questão, constata-se que, tações de narrativas que as pessoas construam livremente em torno de desde as etapas inicias das investigações sobre o assunto (McClelland gravuras que lhes sejam apresentadas. Ao leitor interessado por este et al., op. cit., cap. IX), mantém-se (Atkinson, 1958) a conclusão de assunto, sugerimos a leitura do livro de Angelini (1973), que apresenta que as principais fontes da nAch são encontradas no ambiente familiar, duas características importantes: é baseado em estudos realizados no quando este se caracteriza por uma atmosfera que, em primeiro lugar, Brasil e, em segundo lugar, contém sugestões (originais) para a elabo- valorize (e reforce) elevados padrões de qualidade na execução de ração de uma técnica de medida da nAch. tarefas; em segundo lugar, faculte o desenvolvimento de habilidades (cognitivas, motoras, sociais e afetivas) necessárias a situações estimu- ladoras mais complexas (e desafiantes); e, em terceiro lugar, promova 4.4. Influências da sociedade e da cultura no comportamento humano a independência no atendimento às diversas situações de vida. Um outro ponto de partida de análise da necessidade de realização é o de suas De fato, se partirmos da Uma visão mais geral do que as já consideradas neste texto é a de conclusão de que pessoas com elevada nAch tendem a ser orientadas que integramos sistemas sócio-culturais submetidos a um curso que descrevemos em escala histórica. A essa assertiva cabe acrescentar o para o trabalho de forma competitiva, sendo autoconfiantes e seguras, estaremos também autorizados a admitir que uma incidência mais seguinte: a idéia de sistema sócio-cultural baseia-se na suposição de de tal motivação deva produzir efeitos macrossociais nada que nele ocorram interdependências e inter-relações entre as suas 49 48</p><p>partes (a economia, a política, as ciências, a Filosofia, a religião, as orientação adotada é a do Cognitivismo. Mas importa ir um pouco além artes e as instituições sociais), de modo que o sistema tenda para desta conclusão e verificar que a perspectiva aqui sugerida, a par de situações de equilíbrio. Os seres humanos deles participam ativamente plausível e metodologicamente factível, é congruente com a posição de e, em desenvolvem características comportamentais e que pesquisas multi e interdisciplinares devam ser incrementadas, um estilo de interpretação da realidade coadunáveis com o sistema pois, por aqui, percebe-se novamente a possibilidade de articulação de tomado como referência. Por serem, digamos assim, adequados, tais pesquisas psicossociológicas com as da História das Idéias, História atributos podem ser considerados funcionais. das Mentalidades e Antropologia Cognitiva. Claro está que não se negará a possibilidade de que processos As influências sociais e culturais sobre o indivíduo podem ser cognitivos possam vir a operar criticamente sobre as experiências analisadas sob ângulos diferentes, sendo as que já consideramos auferidas, podendo até mobilizar comportamentos individuais e coleti- apenas algumas dessas possibilidades. Mas vamos tentar, antes de vos capazes de modificar aspectos da realidade sócio-cultural, mas há concluirmos esta unidade, focalizar dois outros caminhos de pesquisa também a tendência que apontamos logo acima. Examinando-se a que conduzem igualmente à temática ora submetida às nossas conside- questão a partir de interesses científicos (de pesquisadores das ciências rações. Trata-se da Psicologia do Desenvolvimento (nesta, especial- sociais e humanas), deparamo-nos com o problema da elaboração do mente a teorização relativa à formação da identidade psicossocial) e da modelo teórico e do fator de vinculação entre o meio sócio-cultural e o Psicologia Intercultural. indivíduo, a fim de se produzirem explicações para as contínuas experiências e intercâmbios que realizamos ao longo da nossa existên- Na Psicologia contemporânea distingue-se a identidade pessoal da cia como seres sociais. identidade psicossocial, considerando-se que a primeira envolve a consciência de uma permanência do eu, a despeito das sucessivas Da Psicologia têm surgido teorias baseadas sobretudo na aprendiza- alterações sofridas pela pessoa desde a sua infância. A identidade gem (reforço e imitação) e na socialização, ao tempo em que as da psicossocial, por sua vez, é mais ampla do que a anterior, sendo Sociologia têm sido fundamentadas mais nos conceitos de ação social formada pelas influências que a sociedade vai exercendo sobre nós, e papel social. No caso desta última alternativa, apresentada com tornando-nos conscientes de seus valores, objetivos e problemas, clareza por Dahrendorf (1969), em obra referida no início deste capítu- construindo as lealdades que permitem aos grupos sociais transitar lo, presume-se a possibilidade de esclarecer as relações entre o indiví- pela história. Nesta linha de pesquisa, são importantes as contribui- duo e a sociedade pelo estudo das influências exercidas por outros ções de Erikson (1971, especialmente as que se apresentam nos capítu- sobre nós (e vice-versa) sob a forma de expectativas comportamentais. los 8, 9 e 10), psicanaliticamente fundamentadas. o interesse pelo Vale observar, entretanto, que a pesquisa sociológica tem encontrado, estudo da identidade psicossocial, como salienta Erikson (1972), não se além destes, outros encaminhamentos, como, por exemplo, o que nos restringe aos psicólogos, pois há questões que podem ser mais bem apresentou Weber (1967) em sua discutida tese a respeito da decisiva consideradas na Psiquiatria, na Antropologia, na Sociologia ou na participação da ética protestante na produção de crenças, atitudes e Filosofia. Um problema muito específico em relação a esse tópico é o valores que favoreceram a gestação do capitalismo moderno. da crise histórica produzida quando houver, em um número elevado de Desse modo, como estamos a reconhecer, a questão do elo de jovens de uma sociedade, prejuízos no processo de formação da ligação entre nós e a sociedade adquire especial relevo na pesquisa identidade psicossocial, manifestados pela falta de perspectiva históri- psicossociológica. A propósito desse assunto, podemos acrescentar a ca, pelo desconhecimento ou rejeição do passado e dos valores social- idéia de que esse elemento talvez seja constituído basicamente por mente sustentados e pela carência de sentimento de pertinência à crenças que tanto podem ser transmitidas por intermédio da socializa- sociedade. Pode-se deduzir que a crise histórica gerada pelas circuns- ção quanto auferidas diretamente pelo indivíduo a partir de suas tâncias que detalhamos é de um fenômeno coletivo, mas experiências e vivências pessoais. Assim, não seriam as variáveis este tem a sua contrapartida individual caracterizada pela crise de históricas, o costume, o padrão cultural, a norma social, a paisagem ou identidade e pela identidade marginal. a ideologia que nos estariam imediatamente afetando, mas sim as Teorias e hipóteses sobre possíveis influências de fatores sociais e representações cognitivas (crenças, neste caso), que delas formamos. culturais no comportamento e na personalidade podem ser formuladas Ou seja: através das crenças vinculamo-nos à história, à cultura e à e testadas na Psicologia Intercultural, apesar de, como ressalta Ec- sociedade. Neste momento, já não devem subsistir dúvidas de que a kensberger (1970 e 1979), esta disciplina ser mais uma metodologia do 50 51</p><p>que uma ciência desenvolvida em função de uma temática própria. A estágios mais elevados são encontrados (nos EUA) apenas em homens rigor, o objeto de estudo da Psicologia Intercultural é o de qualquer de classes sociais superiores. outra área da Psicologia, cumprindo aos psicólogos interculturais A socialização também está relacionada com o surgimento de moti- elaborar ou selecionar métodos e técnicas mais apropriados para a vos sociais. Um exemplo seria o da necessidade de realização (nAch), verificação da validade externa, quer dizer, aplicação a distintas cujas podem ser examinadas tanto no plano individual culturas de generalizações a respeito do comportamento humano. quanto no das sociedades. No primeiro, vem-se constatando que as Dessa maneira, para dizê-lo com brevidade, da Psicologia Intercultural pessoas com uma nAch mais incrementada buscam alcançar elevados podem emergir informações válidas (testadas empírica e experimental- padrões de desempenho, tendem a escolher como colegas de trabalho mente) sobre a contribuição do meio sócio-cultural no desenvolvimen- pessoas mais hábeis ou competentes, preferem tarefas de dificuldade to psicológico dos seres humanos. média, são mais competitivas e autoconfiantes. No plano macrosso- cial, por seu turno, há pesquisas, como as de McClelland (1972), que ressaltam o fato de que, ao lado de fatores históricos e 4.5. Resumo naturais, a nAch pode ser considerada uma importante variável psico- lógica a influir no desenvolvimento sócio-econômico. Uma interpretação da socialização é a de que se trata de um Através da socialização verifica-se a influência de fatores sociais e processo em que se visa preparar pessoas para o desempenho de culturais em nosso comportamento e personalidade. De maneira mais papéis sociais, sendo estes padrões de conduta relativamente duradou- detalhada, essa influência pode ser explicada pelas crenças que produ- ros e socialmente sustentados, envolvendo expectativas comporta- zimos ou que nos são transmitidas nas múltiplas e contínuas interações mentais de umas pessoas em relação a outras. Importa lembrar que o sociais de que participamos. Este seria também o ponto de partida desatendimento dessas exigências comportamentais tende a provocar a ocorrência de sanções. Submetidos à socialização, vemos alteradas (teórico) para o esclarecimento da formação da identidade pessoal e nossas características psicológicas. psicossocial. Examinada em termos gerais, a socialização apresenta duas caracte- rísticas importantes: a continuidade e a universalidade. Ela é contínua Leituras recomendadas porque, não se restringindo à infância ou às primeiras etapas da nossa vida, estende-se ao longo da nossa existência, manifestando-se sempre Angelini (1973, cap. 4 e 5); Biaggio (1981, cap. 9 e 10); Erikson (1971, cap. 8, 9 e 10); que houver novos papéis a aprender. E é também universal, pois é Goldstein (1983, cap. 3); McDavid & Harari (1980, cap. 6). realizada em todos os grupos humanos. Complementando, pode-se admitir que os principais responsáveis pela socialização são os paren- tes, os companheiros e os adultos de um modo geral (professores, por exemplo). Há vários temas e tópicos de pesquisa relacionados com a socializa- ção ou formação do indivíduo social. o do desenvolvimento da morali- dade é um deles. Nesse tópico, as pesquisas mais recentes e heurísticas são as de Kohlberg ou as que se baseiam na contribuição desse psicólogo norte-americano. Há um paralelismo entre a posição teórica de Kohlberg e a de Piaget quanto ao desenvolvimento da moralidade, o que é explicável, pois Kohlberg inspirou-se na obra do mestre suíço. Um aspecto importante da teoria de Kohlberg (1958, 1976a e 1976b) é a especificação de um esquema que prevê três.níveis e seis estágios (dois para cada nível) no desenvolvimento da moralidade. Pesquisas empíricas têm revelado resultados interessantes, tais como: as mulhe- res tendem a permanecer no terceiro estágio de moralidade e os 52 53</p><p>5 atividade, status e ambiente físico. Presume-se que as pessoas tendem a preservar distâncias médias, estabelecidas pelo grupo social do qual façam parte, nas diversas situações interativas de que venham a participar. Desse modo, é de se supor que haja a tendência à manuten- de espaços considerados (social e culturalmente) convenientes entre leitores de bibliotecas, doentes hospitalizados, passageiros de Comportamento social interpessoal elevadores e professores e alunos em salas de aula. Evidentemente, tais distâncias podem variar de um sistema sócio-cultural para outro e, no interior de qualquer um deles, espaços diversos são definidos por diferentes grupos humanos. Ficamos por aqui; aos leitores desejosos de obter maiores informações sobre esse assunto (metodologia de pesquisa, hipóteses já submetidas a testes experimentais, achados empíricos e aplicações de resultados de investigação) sugerimos a leitura da obra de Sommer (1973). Neste capítulo examinaremos tão-somente alguns aspectos básicos dos seguintes tópicos: percepção de pessoa, comportamento altruísta, comportamento agressivo e poder social. De resto, se já não houvesse- No primeiro capítulo deste livro se encontra a observação ora mos referido o problema (no início deste livro), deixaríamos ao leitor a reiterada de que psicólogos sociais não se ocupam diretamente do tarefa de concluir que o domínio de pesquisa psicossociológica da estudo da interação social humana, mas sim de comportamentos interação social é destituído de teorias gerais. manifestados pelos interatores. Na Psicologia Social deste fim de as referências a estruturas e dinâmica de processos interativos 5.1. Percepção de pessoa são pouco ocorrendo apenas quando houver interesse (teórico) em pesquisar condutas no contexto da interação, focalizando, Na Psicologia, perceber é ter consciência de um objeto que se fez por exemplo, suas variações ao longo de relações sociais assimétricas presente através de sensações. Enfatizando: entende-se que os estímu- (do ponto de vista das diferenças hierárquicas dos papéis sociais dos los sejam indispensáveis à ocorrência da percepção. Entretanto, o participantes). processo perceptivo não transcorre de uma maneira linear, ou seja, do Não apesar dessa restrição, a que psicólogos sociais de estímulo à consciência, através dos sentidos físicos. Há indicações formação psicológica se pode-se verificar que é ampla (teóricas e empíricas) de que os percebedores, longe de serem passi- temática de pesquisa na área do comportamento interpessoal. Aqui, a deixando-se controlar completamente pelo objeto, participam levando em conta os nossos objetivos, seria muito positivo fornecer ativamente na produção de percepções. É a subjetividade do processo informações a respeito de todos esses itens de pesquisa, mas isso só perceptivo. seria viável se dispuséssemos de espaço para Não dispondo dele problema da nossa contribuição pessoal na obtenção de somos levados a proceder deixando de lado tópicos ções do objeto é examinado, na Psicologia Social, sob o ângulo da como os da proxêmica, da comunicação não-verbal e da personalidade percepção de pessoa, em que variáveis como estereótipos, atitudes, e interação social. valores, motivos, características de personalidade, estados emocionais o sentido da palavra proxêmica é desconhecido por muitos, daí a e primeiras impressões influem no percebedor. Há muitos dados de pertinência de se prestar um breve esclarecimento específico a respeito pesquisa sobre essa matéria, sendo que alguns se encontram registra- dela. o termo, o conceito e a área de pesquisa da proxêmica foram dos mais adiante. Mas, antes de considerá-los, conviria destacar que a propostos, por Hall (1959). Nesse setor, o que há de interpretação do processo perceptivo nos termos em que foi apresenta- importante é o estudo das distâncias físicas que mantemos em relação do gera teóricas em três áreas distintas: na Fisiologia, a outras pessoas e grupos, considerando-se a variabilidade de tais na Psicologia e na Epistemologia. Quanto à última, basta lembrar que, espaçamentos a partir da influência de fatores como sexo, papel social, uma vez admitida a subjetividade a que aludimos, avulta a questão do 54 55</p><p>conhecimento verdadeiro e, o que também é importante, o problema logia Intercultural, havendo interesse em verificar se o vocabulário das teorias científicas válidas. Aos fisiólogos importa explicar o fato de influiria em tal situação. Se essa hipótese pudesse ser validada, ter-se-ia que, estabilizando-se o estímulo (um exemplo oportuno seria o das uma explicação para as diferenças de percepção das cores em sistemas imagens reversíveis), pode-se, no entanto, provocar variações na sócio-culturais distintos e que igualmente desenvolveram linguagens percepção de diferentes pessoas ou na de um mesmo percebedor diversas para a designação desses atributos de objetos. Os psicólogos se apresente em condições psicológicas diversas. Finalmente, que aos sociais, por sua vez, preocupam-se com o estudo da categorização psicólogos, em especial aos filiados à Psicologia Social, interessa enquanto relacionada com estereótipos. Neste sentido, têm-se empe- examinar o que apreciamos no início deste parágrafo, quer dizer, nhado em estudar a influência de termos generalizadamente aplicados problema da exatidão na percepção de outras pessoas e a influência o aos grupos sociais na percepção de seus membros. Não se dispõe (ao desse estado de coisas nas relações interpessoais. menos por enquanto) de uma teoria psicossociológica que explique Um aspecto particular da subjetividade é o caráter seletivo da satisfatoriamente tais ocorrências, mas alguns estudos têm revelado percepção. Vale dizer: ao percebedor não se apresentam em igualdade que a aceitação de rótulos gerais (que, por essa razão, não podem ser de condição os diversos elementos que compõem a realidade objetiva considerados verdadeiros) aplicados a pessoas incluídas em grupos em que ele se insere; não porque haja (necessariamente) diferenças étnicos, profissionais, etários, sexuais e ideológicos têm produzido quanto à intensidade dos estímulos, mas porque aos itens do mundo distorções perceptivas, cujas são concretizadas (por sujeitos à percepção humana se aplicam valorizações diferentes. Cu- vezes de modo altamente prejudicial) no sistema de relações interpes- rioso, porém, é que, a despeito da seletividade, verifica-se uma cons- soais. Outro tema de pesquisa no âmbito da percepção de pessoa é o da tância que, na Psicologia Social, fica ilustrada pela estabilidade na interpretação de uma pessoa, apesar dela ter sido percebida em mo- formação de impressões, inaugurado pelas investigações de Asch mentos, situações e épocas diferentes. (1946). Os trabalhos experimentais desse antigo colaborador de Lewin tornaram plausível a hipótese de que os traços centrais de personalida- A realidade sujeita à nossa percepção é também organizada de (a dimensão por ele investigada foi a frieza-afetuosidade) influem significativa. Claro está que, sob o crivo filosófico, poderemos indagar e consideravelmente na impressão global que se tem de outras pes- se a ordem da percepção acaso não refletiria a organização do universo soas. Assim, Asch constatou que os participantes de seus experimen- submetido a leis invariantes e imanentes. Esta questão é bem antiga, tos, informados (por escrito) de uma lista de atributos (inteligente, mas o fato é que, do ponto de vista psicológico, não há como derrogar habilidosa, trabalhadora, decidida, prática e cuidadosa) de uma pessoa a conclusão de que percebemos o objeto (e por extensão o mundo desconhecida (na verdade era um personagem fictício) descreviam-na objetivo) de forma ordenada. Vale ainda acrescentar que buscamos como generosa, feliz, afável e digna de confiança se, complementar- interpretar o que foi percebido ou estamos a perceber em busca do mente à lista inicialmente referida, era acrescentada a característica significado do objeto. Concorrem nesse processo determinações sócio- afetuosidade. Entretanto, se em vez desta última era aduzida a infor- culturais que, sendo conhecidas e assimiladas pelo percebedor, influem mação de que se tratava de uma pessoa fria os participantes a descre- nele quando da captação do sentido do que se lhe oferece na esfera viam como importante e digna de confiança. Teoricamente, Asch sensorial. Não se dispõe, todavia, na Psicologia atual, de uma teoria adotou a perspectiva gestaltista de que uma constelação de traços da abrangente dos significados que pudesse ser referida a fim de elucidar personalidade não deve ser interpretada aditivamente, pois essas o problema examinado nesta parte, embora haja um certo acordo veis se interinfluenciam, determinando uma resultante que decorre da quanto à idéia de que um mesmo fato, como o acenar, terá seu articulação peculiar das características arroladas, não sendo, por con- significado imposto pela motivação daquele que assim proceder e pela seguinte, redutível à sua mera adição. Importa informar que as pesqui- situação em que essa ocorrência tiver lugar. Assim, o aceno poderá ser sas de Asch aqui lembradas encontram o seu prolongamento teórico interpretado como gesto amistoso, pedido de ajuda, meio de transmis- em outros estudos, como os de Kelley (1970), que verificou serem os são de informações ou sinal de ameaça. relacionamentos dos estudantes participantes de sua pesquisa experi- Um outro fator muito influente no processo perceptivo é a categori- mental (embora desconhecessem essa condição) influenciados por in- zação, isto é, a aplicação de rótulos verbais ao que se nos apresenta formações previamente fornecidas a respeito de um auxiliar de pesqui- mundo circundante. Pesquisas sobre a categorização têm sido realiza- no sa, que na experimentação atuava com instrutor, supostamente substi- das principalmente no tópico referente à percepção de cores na Psico- tuindo um professor que teria tido a necessidade de se ausentar 56 57</p><p>naquele dia. Os resultados da investigação de Kelley (op. cit.) são da conduta altruísta e permitem asseverar que a ajuda prestada a congruentes com os de Asch, havendo apenas o acréscimo de que os outros indivíduos que dela carecem, sobretudo no plano intra- estudantes informados da afetuosidade do "instrutor" interagiam mais com ele do que os seus colegas advertidos de que se tratava de uma específico (da mesma espécie), é desencadeada espontaneamente. Para pessoa fria. Hebb (1971, cap. 11), autor dos mais significativos no contexto do neobehaviorismo, o comportamento altruísta é intrinsecamente moti- As contribuições ora consideradas ensejaram também o desenvolvi- vado, independendo, portanto, de reforços externos; e, mais importan- mento de pesquisas em torno das chamadas teorias ingênuas ou não resultaria da aprendizagem social, mas sim da história natural implícitas da personalidade (Bruner & Tagiuri, 1954). Com muita da espécie, por seu intrínseco valor de sobrevivência. Na Sociobiolo- brevidade, pode-se declarar que essas teorias são constituídas de gia, setor científico de recente desenvolvimento, a explicação do sistemas de crenças que temos a respeito de outras pessoas. A conse- altruísmo baseia-se na suposição da existência, no código genético, de qüência prática é que a percepção de ser uma pessoa dotada de tais ou componentes que determinam respostas de ajuda de caráter automáti- quais características determina, por relacionamento lógico, que outros face a situações que as demandam. É o que nos informa Wilson atributos também venham a ser aplicados a ela, pois estes (tal é a (1981), num texto que merece ser lido com toda a atenção. Mas, antes integram (logicamente) o mesmo conjunto de traços. de prosseguir, tentemos uma conclusão parcial: se o comportamento Finalmente, cabe observar que o processo de percepção de altruísta de fato resultar como os autores que acabamos de citar nô- incluindo a formação de teorias implícitas de personalidade, é pessoa, muito lo afirmam mais de variáveis biológicas que da intencionalidade, sensível à influência de variáveis sócio-culturais, mas também o é em então ter-se-ia de abandonar (ou submeter a profundas retificações), relação a características pessoais, de modo que faz muito sentido por estar alicerçada em falsas premissas ontológicas, a linha psicosso- declarar ser possível alcançar o conhecimento do percebedor a partir ciológica de pesquisa desse tema. No plano filosófico, por sua vez, os de suas percepções. comportamentos assim interpretados nem sequer mereciam uma valo- ração ética. Entretanto, cumpre assinalar que, não tendo sido essa 5.2. Comportamento altruísta questão (ainda) plenamente decidida, fica justificada a continuidade das investigações sobre as origens da conduta altruísta, em todas as suas possibilidades científicas. o termo altruísmo foi cunhado por A. Comte (1798-1857) e se encontra no bojo do seu Sistema de Política Positiva, referindo uma Agora, quais são as contribuições de psicólogos sociais para o forma de benevolência que se oporia ao egoísmo. Constituir-se-ia estudo do altruísmo? Pesquisas mais recentes, via de regra conduzidas no principal fundamento de uma moral sistemática. Atualmente, na em termos experimentais, permitem destacar variáveis que, no caso de Psicologia Social, a expressão comportamento altruísta designa condu- comportamentos pró-sociais (e a conduta altruísta é uma de suas tas que se caracterizam pela intenção de ajudar ou beneficiar outra formas), exercem assinaladas influências. Eis a síntese de algumas pessoa (ou pessoas), sem expectativa de recompensa. Os psicólogos dessas pesquisas: Geranson & Berkowitz (1966) concluíram que a sociais não deixam de acentuar o fato de que em relação ao altruísmo responsabilidade social e a reciprocidade (no sentido de que os benefí- há situações e momentos os mais diferentes, exigindo condutas especí- cios recebidos devam ser retribuídos) podem ser consideradas fatores ficas, de maior ou menor envolvimento e risco pessoal, não apenas responsáveis pelo desencadeamento de manifestações altruístas; Dar- determinando modos de atuação mais compatíveis com as circunstân- lington & Macker (1966), entretanto, apoiando-se numa hipótese de cias, mas também alterando a probabilidade de sua ocorrência. De origem psicanalítica, verificaram que os comportamentos altruístas resto, e enfatizando, os comportamentos altruístas se caracterizam também ocorrem quando houver uma necessidade de expiação de pela intencionalidade, e não por eventuais êxitos das ações assim culpa; Lerner (1970), por seu turno, partindo da interpretação (por orientadas; de outro lado, também não se podem considerar altruístas sinal muito acertada) de que no Ocidente vivemos sob a influência de atos que, embora gerem benefícios a outras pessoas, são destituídos, uma ética de origem sendo uma de suas crenças a do para o seu agente, de uma finalidade pró-social. mundo justo (isto é, a de que os faltosos são, de alguma maneira, Pesquisas recentes, realizadas no âmbito da Psicologia e no da punidos em vida), sugere que as condutas altruístas podem ser inibidas Sociobiologia, destacam as influências biológicas no desenvolvimento sob a alegação de que a pessoa mereceu a dificuldade que exibe, quando a ajuda solicitada ou requerida estiver acima de nossas possibi- 58 59</p><p>lidades de atuação; finalmente, ainda há espaço para citar a contribui- Embora não haja definições de aceitação consensual ou unânime na ção de Latané & Darley (1970), que, na verdade, se aplicaram ao Psicologia, o que de per se já acarreta graves dificuldades terminológi- estudo de testemunhas ou participantes que relutam em intervir em cas e semânticas aos especialistas, verifica-se, entretanto, um pronun- situações de emergência (isso ocorre, por exemplo, quando outra ciado acordo entre os psicólogos sociais, no sentido de que a intencio- pessoa for ameaçada ou encontrar-se em perigo), mas que também nalidade do agente deva ser admitida como fator indispensável à podem ser lembrados nesse ponto, pois concluíram ser menos provável caracterização da conduta agressiva. Encontramo-nos aqui diante de que ajamos altruisticamente quando estamos cercados de pessoas um problema similar ao do comportamento altruísta, igualmente defini- do a partir da intenção de quem o pratica. Por esse motivo, e em Em futuros desenvolvimentos deste tópico, talvez se devessem princípio, salvo uma acurada interpretação psicanalítica, não se poderá considerar as relações entre a conduta altruísta e o desenvolvimento da descrever como agressiva a conduta daquele que involuntariamente moralidade; a influência das circunstâncias sócio-culturais na gênese causar danos ou prejuízos, qualquer que seja a sua natureza, a outras de comportamentos pró-sociais; a correlação entre o altruísmo e o pessoas. A interpretação do comportamento agressivo nos termos em sistema (pessoal) de valores; além da ampliação e aprofundamento dos que apresentamos faz com que as teorias etológicas sejam de difícil estudos interculturais de manifestações altruístas, pois os dados dispo- assimilação, exatamente por serem baseadas no conceito de instinto. níveis são pouco consistentes. A este rol podemos acrescentar o Um exemplo e dos mais conspícuos dessas contribuições é o de estudo de procedimentos que, implementados no processo de sociali- Lorenz (1973), que ressalta a importância do instinto-de agressão na zação, viessem a tornar mais difundidas e prováveis as condutas conservação da espécie, o que seria dedutível da avaliação de algumas altruístas em todos os grupos de que se constituem as sociedades de suas funções básicas: a da distribuição de organismos da mesma humanas, favorecendo-as no sentido do incremento dos índices de espécie no ambiente geográfico disponível; a da seleção do melhor Sabemos que os atos altruístas deixam de ser praticados rival em combates de acasalamento; e a da proteção da prole. não apenas por desinteresse ou sentimentos malsãos cevados por Querem os etologistas que a sua explicação não se restrinja às sofrimentos alheios (Schadenfreude), mas simplesmente porque muitas espécies estudadas, mas que também abranja o Homem. Essa aplica- vezes as pessoas não sabem que fazer e como proceder em situações à nossa espécie, de teorias formuladas a partir do estudo de emergenciais, fato que nos leva concluir, novamente e em relação ao organismos infra-humanos, tem sido vivamente criticada por filósofos altruísmo, da importância dos modelos sociais. e cientistas sociais, como se poderá verificar consultando a coletânea de textos organizada por Montagu (1978), ainda que restrita ao com- portamento agressivo. Tudo indica, portanto, que se trata de uma 5.3. Comportamento agressivo questão muito polêmica. E o será enquanto não puderem ser realizados os indispensáveis experimentos cruciais. Por ora, não se podendo Se no estudo do altruísmo encontramos um campo teórico rarefeito, decidir definitivamente sobre o assunto e concluir pela presença (ou o mesmo não se poderá dizer da pesquisa da conduta agressiva, sem não) de elementos instintivos na base do comportamento agressivo embargo da inexistência de uma teoria geral e amplamente confirmada que, sob essa influência, se manifestaria espontaneamente (tornando- da agressividade humana. Especulando, pode-se admitir que o grande por esta razão, temível), talvez pudéssemos admitir uma variação da interesse pela pesquisa do comportamento agressivo, contrastando intencionalidade em tais ocorrências, de modo que num extremo de com o tópico da conduta pró-social, se deve ao fato de os psicólogos uma linha imaginária de continuidade tivéssemos reações agressivas de sociais, assim como seus colegas de outras áreas das ciências huma- rápida deflagração (que, portanto, comportariam um baixo nível de nas, estarem sujeitos a pressões externas, levando-os a tentar produzir consciência e deliberação) e, no extremo oposto, comportamentos teorias e hipóteses que lhes pareçam socialmente relevantes. No caso agressivos (evidentemente intencionais) resultantes de um esmerado dos comportamentos agressivos, então, notadamente dos dirigidos planejamento. Variáveis biológicas não seriam elididas o que pode- contra outras pessoas (manifestações heteroagressivas), associados a ria levar a uma lamentável e cientificamente injustificável rejeição da conflitos sociais e interpessoais de origem e natureza as mais diversas, Etologia mas teriam que ser teoricamente articuladas com proces- justifica-se mais facilmente a prioridade concedida à sua pesquisa em psicológicos. Na verdade, essa é uma tarefa por realizar. detrimento da análise de pacíficas demonstrações de altruísmo hu- Uma antiga e bem-sucedida teoria psicológica do comportamento mano. agressivo é a da frustração-agressão de Dollard et al. (1939), que vem 61 60</p><p>sendo, contudo, desbastada na generalização de que todos os compor- de, formas nada sutis da agressividade humana, mas também dos que tamentos agressivos seriam acarretados por estados de frustração. transmitem mensagens alienantes, cuja principal é a Preservam-se, ainda assim, os seus quatro conceitos fundamentais: redução da capacidade de reflexão crítica dos que por eles se deixam frustração, agressão, inibição e deslocamento. Uma forma resumida arrebatar. dessa teoria é a seguinte: as experiências de frustração resultam de A segunda referência ficará para os estudos psicanalíticos mais impedimentos na satisfação de motivos e acarretam reações agressi- recentes. Desses, se podem considerar os da lavra de Fromm (1975), vas, sendo estas preferencialmente dirigidas contra o obstáculo prima- expressivo teórico da Psicanálise de orientação culturalista. Em breves cial; contudo, se este, por alguma circunstância (por ser fisicamente palavras, pode-se declarar que a ótica de Fromm permite visualizar inatingível), for de natureza abstrata ou, sendo um obstáculo humano, duas formas básicas do comportamento agressivo: a benigna, que, no oferecer a probabilidade de reações enérgicas, então ocorrerá uma fundo, está a serviço da sobrevivência do indivíduo e da espécie; e a suspensão provisória (inibição) da resposta agressiva e uma posterior maligna, que se revela através da tortura e da violência inútil, inconse- aplicação desta a um alvo sucedâneo ou secundário (deslocamento). A e sádica. Segundo Fromm (op. cit.), apenas a agressividade da propósito, é este último aspecto da teoria que a favorece no sentido de segunda espécie é que constituiria, por ser disgênica, um problema e uma aplicação macrossocial, ensejando a análise psicossociológica dos grave merecendo cuidados, sobretudo na sua prevenção e controle. bodes expiatórios. à teoria da frustração-agressão têm Lamentavelmente, porém, a agressividade maligna, associada ao cará- destacado, dentre diversos fatores, a possibilidade de que outras ter necrófilo (caracterizado por sua atração pela morte, pelo mecânico reações, social e psicologicamente mais produtivas, como, por exem- e por tudo o mais que se oponha à vida), encontrar-se-ia em expansão plo, o reexame de estratégias comportamentais e a seleção de metas nas sociedades alternativas, sucedam à frustração; a influência do nível de motivação e do número de reveses já sofridos na determinação da probabilidade e 5.4. Poder social da veemência da frustração a ser manifestada; e a percepção do grau de arbitrariedade da fonte (se externa) na obstaculização e seu efeito conceito de poder aplica-se ao estudo da influência social, poden- na experiência de frustração. Não será ocioso lembrar ainda que, do, portanto, fincar raízes no campo da pesquisa das relações interpes- apesar das restrições feitas à ela, a teoria da frustração-agressão é uma soais. o assunto, porém, é cercado de pois há autores das poucas contribuições da Psicologia contemporânea que vêm en- Poulantzas (1971) é um deles que admitem o poder apenas como contrando uma validação transcultural. categoria de análise nas ciências sociais, devendo ficar na companhia Arremataremos este nosso breve estudo fazendo mais duas referên- dos conceitos de classe social, partido político, casta e governo, entre cias. Em primeiro lugar, aos estudos que vêm sendo realizados sob a outros, e não na de noções psicológicas. perspectiva de que o comportamento agressivo também pode resultar No entanto, a despeito do julgamento desfavorável dos cientistas da aprendizagem social. Esta é a conclusão de Sears et al. (1957), em sociais, constata-se algum interesse, entre os psicólogos, pela utiliza- pesquisa empírica cujo mérito é o de apontar para a responsabilidade sistemática do conceito de poder social, principalmente em análi- dos pais, que, por leniência ou reforço positivo de condutas agressivas ses teóricas de natureza psicossociológica. Tal interesse fica bem evi- de seus filhos, favorecem o aumento da probabilidade de sua ocorrên- denciado em duas distintas linhas de pesquisa: a de McClelland (1971), cia. No plano experimental, Bandura et (1963) demonstraram ser em que se busca investigar a motivação ou necessidade de poder possível às crianças, através da imitação de condutas de adultos, o (nPow), e a de Raven (1965), assentada no estudo da influência de aprendizado de comportamentos agressivos. É provável que as pesqui- percepções e interpretações dos interatores no exercício do poder. sas de Bandura et al. (op. cit.) se refiram a Em seu artigo, McClelland (op. cit.) destaca a existência de duas pois a imitação deve influir mais no aprendizado de modalidades de formas de motivação de poder: uma socializada, quer dizer, voltada ação agressiva do que na motivação; como quer que seja, as contribui- para os interesses e necessidades do grupo social, em que este seria ções desses autores permitem destacar, novamente, a relevância dos assessorado pelo líder em sua busca de alternativas para a solução de modelos sociais tanto no desenvolvimento psicológico individual quan- dificuldades e problemas, assim como na elaboração de projetos de to no da sociedade. Sob esse mesmo enquadramento se podem investi- desenvolvimento; a outra seria não-socializada, uma vez que o titular gar e analisar os efeitos de conteúdos veiculados por meios de comuni- da nPow visaria tão-somente a dominação, o prestígio e o poder por si cação de massa baseados na exploração da truculência e da brutalida- mesmos. A conclusão final é que a necessidade de poder constitui um 62 63</p><p>ingrediente indispensável à sociedade humana, que com a sua ausência poderia se ressentir de um vazio de liderança. Urge, por conseguinte, à pesquisa da conduta humana, teremos que admiti-la sob uma preservar (ou reabilitar, se for o caso) a face positiva do poder social. grande variação sincrônica (geográfica) e diacrônica (histórica). Isso A ênfase de Raven (1965), entretanto, incide sobre as cognições que de um lado, já que de outro, mais vinculado a juízos de valor, impõe-se temos do nosso parceiro quando da ocorrência de interações sociais. acolhimento e a tolerância em relação a comportamentos que, por Fundamentalmente, presume-se que a raiz do poder social esteja na este ou aquele motivo, nos possam parecer extravagantes ou inaceitá- interpretação que fazemos de outras pessoas. Assim, desde que admi- veis, mas que, no âmbito do sistema sócio-cultural em que se realizem, tamos que a pessoa com a qual estejamos interagindo disponha da sejam funcionais e significativos. o estudo da proxêmica, quer dizer, possibilidade de controlar um sistema de punições (poder coercitivo) e das distâncias físicas que mantemos em relação a outras pessoas em de benefícios (poder de recompensa), que esteja autorizada a influir em situações sociais diversas, permite-nos visualizar melhor o tema que comportamentos alheios (poder legítimo), que seja uma pessoa tecnica- estamos focalizando. mente habilitada (poder especializado), que se constitua no objeto de A percepção é um importante processo psicológico a influir nos nossa afeição (poder referente) ou ainda que seja capaz de emitir relacionamentos humanos. Ela participa significativamente do conhe- informações e argumentos suscetíveis de provocar mudanças em nós cimento que vamos alcançando da realidade objetiva. Entretanto, (poder de tornar-nos-emos mais sensíveis às influências apesar de baseada em processos sensoriais, a percepção se caracteriza sociais que dela dimanam. Claro está que a análise de Raven (op. cit.), pela subjetividade, pois sobre ela incidem variáveis psicológicas, como circunscrita à situação diádica, pode encontrar outros desenvolvimen- crenças, características de personalidade e estados emocionais. Os tos teóricos e de pesquisa. Poderiam figurar na lista de iniciativas dessa estereótipos, por exemplo, por nós definidos como crenças generaliza- ordem questões como as seguintes: relações bi e multilaterais de damente aplicadas a membros de grupos sociais, conduzem a uma influência social; motivações de detentores e alvos de poder; distor- categorização peculiar do grupo assim considerado, afetando os rela- ções perceptivas em relações interpessoais e sua no cionamentos que possamos manter com pessoas a ele pertencentes. processo de influenciação social; presença simultânea de diferentes À distância, pode-se declarar que o estudo do comportamento bases de poder em situações e, para concluir esta relação, agressivo apresenta um nível teórico mais avançado do que o do altruísmo. Para ambos os casos, porém, tem-se admitido que a inten- o grau relativo de importância das diversas bases de poder social. Sob este último aspecto, tem-se constatado que o poder referente é o de cionalidade seja o principal ingrediente a considerar na definição de maior extensão e profundidade dentre todos os acima citados. tais comportamentos. Há um assinalável empenho no sentido de Estamos agora habilitados a declarar que há fatos concretos (e o investigar as causas tanto de condutas anti-sociais (e o comportamento precário nível de teorização é um deles) que nos permitem conjeturar agressivo pode, em muitos casos, situar-se em tal categoria) quanto das se o tema do poder social, talvez por não ser congruente com idéias- de natureza pró-social, como o altruísmo, mas os psicológos têm força do nosso tempo, como a da da justiça social e da procurado explicações não fundamentadas no conceito de instinto, que liberdade, não seja como tópico de pesquisa entre os tendem a repelir. psicólogos sociais. Mas, qualquer que venha a ser a razão, parece conceito de poder tem aplicação, a despeito das dos justificável supor que mudanças de formas ou padrões de relaciona- cientistas sociais, à pesquisa dos relacionamentos humanos. Apoiando- mento interpessoal, qualificados como inaceitáveis ética e politicamen- nos em French & Raven (1969), podemos dizer que a origem do poder te, possam ser planejadas e venham a ocorrer com maior probabilidade social reside nas crenças que temos acerca da outra pessoa ou grupo de sucesso quando dispusermos de crenças bem-fundamentadas a de pessoas, levando-nos a supor que disponham de recursos e condi- respeito do assunto. ções que os favorecem no exercício da influência social. Outra pers- pectiva de investigação é a de McClelland (1971), baseada na motiva- ção ou necessidade de poder. 5.5. Resumo É nas relações interpessoais que se pode verificar a influência das Leituras recomendadas circunstâncias sociais e culturais, historicamente localizadas, sobre o nosso comportamento. Deduz-se dessa declaração que, ao nos abalan- Argyle (1976); Fromm (1975); Goldstein (1983, cap. 4, 6, 7 e 8); Hastorf et al. (1973); McDavid & Harari (1980, cap. 8 e 9). 64 65</p><p>6 temperamentais; C. H. Cooley (1867-1929), pioneiro da Sociologia nos Estados Unidos e autor da classificação (muito difundida) dos grupos humanos em primários e secundários, baseada no critério do tipo de contato, direto ou não, que se pode realizar entre as pessoas de um mesmo grupo; G. Le Bon (1841-1931), especialmente por seus estudos sobre a Psicologia Coletiva; e F. Tönnies (1855-1936), que procurou Processos grupais investigar a natureza das comunidades e sociedades, concluindo que as primeiras, em virtude do desenvolvimento sócio-cultural, tenderiam a se transformar em sociedades. Há muito interesse em torno de possíveis ganhos teóricos e práticos decorrentes da pesquisa dos processos grupais. Supõe-se que as dili- gências científicas empreendidas neste território sejam potencialmente úteis. Alimenta-se a expectativa de que de um conhecimento mais confiável a respeito dos pequenos grupos possam advir benefícios para as atividades profissionais que se desenrolam em todas as instituições sociais. Tal estado de coisas permite-nos asseverar que o fomento da pesquisa psicossociológica dos microgrupos, sensível a circunstâncias Embora seja tão indiscutível quanto antiga a observação de os apresenta-se de uma maneira contingente. Trata-se, grupos humanos são necessários e onipresentes, constata-se que a portanto, de uma área científica em que a demanda de racionalidade na pesquisa psicossociológica experimental dos processos grupais só que veio construção teórica talvez seja menos importante do que os interesses a ser incrementada a partir do final da década de 30, sob a direta sociais na determinação das prioridades de pesquisa e da aplicação de decisiva influência de K. Lewin (1890-1947). A expressão dinâmica de e recursos para esse fim. Outro ângulo a explorar, e que também permite grupo foi cunhada exatamente por Lewin, que com ela pretendia convergir para a conjetura de que os estudo de microgrupos seja sócio- designar o campo dominado pelas investigações em torno da estrutura culturalmente condicionado, é o da grande variação da necessidade e dos processos que têm lugar nos grupos humanos, tais como: afiliativa em sociedades e em épocas diferentes. É sob esta perspectiva liderança, coesão, produtividade, cooperação, conflito e comunicação. que se podem acolher os resultados da pesquisa de Hofstätter (1971) As contribuições ocorridas no contexto da dinâmica de grupo apresen- junto a estudantes alemães e estadunidenses. Às amostras de ambos os taram um notável desenvolvimento teórico até o final da II Guerra grupos esse conhecido psicólogo social alemão dirigiu a solicitação de Mundial (1945), quando começou a se registrar um na qualida- que fizessem associações livres em torno da palavra solidão, consta- de das novas contribuições A essa altura, e a bem da verdade, tando que os norte-americanos lhe associaram termos como medo, convém esclarecer que Lewin demonstrou a viabilidade da pesquisa pequeno, fraco, doente e marginalizado, ao passo que entre os alemães experimental dos pequenos grupos, mas o interesse de psicólogos, as palavras mais lembradas foram trágico, grande, forte, profundo e século. psiquiatras e psicanalistas por esse assunto remonta ao início deste heróico. Daí a conclusão de Hofstätter de que, entre os diversos fatores que contribuem para que a pesquisa dos microgrupos seja Claro está que, se não nos restringirmos aos microgrupos, podere- muito mais desenvolvida nos EUA do que na Alemanha, encontra-se o mos descortinar um cenário da história em que se localizam estudos fato de que os alemães suportam melhor a solidão do que os norte- mais antigos do que os já mencionados. Trata-se das contribuições de americanos. Vale observar que os dados da pesquisa de Hofstätter são cientistas sociais que viveram a passagem do século, deixando-se tocar congruentes com a análise do tipo dirigido-pelos-outros, que Riesman por distintas posições Dentre eles, e a título de ilustração, (1971) julga ser muito na sociedade norte-americana. As podem ser lembrados: G. Tarde (1843-1904), que destacou a observações que nos trouxeram até aqui não nos permitem formular como processo social S. Sighele (1868-1913), cuja perspectiva grandes generalizações, mas também não promovem uma paralisia conservadora o levou a repudiar os processos multitudinários, pois teórica de tal ordem que nos impeça declarar que a pesquisa de julgava que neles só pudessem sobrevir paixões e manifestações processos grupais andará melhor à medida que vier a ser considerada a 66 67</p><p>influência das variáveis históricas, sociais e culturais em nossos com- momentos e sob as mais variadas condições, necessitamos avaliar portamentos associativos. nossas crenças, estados emocionais, traços de personalidade e habili- Neste capítulo examinaremos, ainda que com brevidade, conceitos, dades cognitivas, sociais e motoras, a fim de concluirmos a respeito da hipóteses e teorias relativas aos seguintes tópicos: afiliação, confor- normalidade ou acerto de nossos atributos, experiências e decisões. mismo, liderança e coesão grupal. Seria didaticamente muito vantajoso Essa conjetura é complementada por outra: havendo dificuldades em para o leitor pouco familiarizado com a Psicologia Social a leitura aplicar critérios objetivos para a avaliação de características pessoais, adicional de alguns dos textos indicados mais adiante. procuramos nos associar a outras pessoas, na expectativa de que, através da interação que com elas possamos realizar, nos seja possível obter as informações que almejamos. 6.1. Afiliação Outra variável capaz de intensificar a necessidade de afiliação seria a ansiedade. Essa é a conclusão de Schachter (1966), baseada num Uma necessidade humana das mais importantes é a de estar com experimento que teve mulheres como participantes. Verificou-se que outros para conversar, trabalhar, debater, amar e buscar apoio, apro- as mulheres, informadas de que ao longo da pesquisa seriam submeti- vação, conforto e prestígio. Entretanto, a despeito de sua relevância, o das a dolorosas descargas elétricas (grupo experimental), preferiram, nosso conhecimento dessa motivação chega a ser rudimentar. Natural- entre as alternativas que lhes foram oferecidas aguardarem sozinhas mente, não nos estamos referindo às crenças do senso comum, que, de ou junto às demais o início do procedimento experimental a última um modo geral, ressaltam o caráter instrumental (para a satisfação de condição. Ao passo que suas colegas, informadas de que os choques necessidades psicológicas) do comportamento afiliativo. A propósito, elétricos seriam muito brandos, praticamente manifes- convém não esquecer que o conhecimento ingênuo pode ser uma boa taram sua indiferença em relação a ambas as condições. Schachter (op. fonte de inspiração para pesquisadores dotados de talento, mas a cit.) destacou diversas razões para a conduta afiliativa: busca de uma ciência se faz, segundo Bachelard (1972, cap. 2), em oposição ao saber saída da situação ameaçadora; tentativa de redução direta (ou indireta) vulgar. Assim, procurando descartar-se das crenças comuns, os psicó- da ansiedade; e necessidade de maior clareza cognitiva e de auto- logos sociais porfiam na busca de explicações mais específicas que avaliação. Posteriormente, Sarnoff & Zimbardo (1961) lograram con- destaquem, com nitidez, possíveis influências de variáveis psicológi- duzir outros experimentos que possibilitaram concluir que, na verda- cas e sociais na afiliação humana. de, não seriam os estados ansiosos que promoveriam a tendência Nos primeiros momentos da história desse tópico da Psicologia afiliativa, mas sim o medo. É de se observar que a interpretação destes Social, nenhum conceito foi mais importante do que o de instinto. últimos autores se mostra conceitualmente mais satisfatória, pois a Tratava-se do que McDougall (1926) qualificou como gregarismo ou ansiedade não está relacionada, ao contrário do que acontece com o instinto gregário, apontado como fator de propulsão da conduta asso- medo, com objetos e circunstâncias manifestamente ameaçadoras. Ou ciativa e, conseqüentemente, responsável pela formação de grupos. seja: o experimento de Schachter deve ter provocado medo nas Contudo, embora pareça razoável supor que a afiliação decorra de um participantes; se houvesse deflagrado experiências ansiosas, ter-se-ia fator inato, invariante, geneticamente transmitido e comum a todos os observado, de acordo com Sarnoff & Zimbardo, uma tendência ao membros da espécie, não conseguimos, baseados no conceito de isolamento social, já que os indivíduos ansiosos, para não serem vistos instinto gregário, explicar as variações comportamentais que sentimos como psicologicamente perturbados, evitariam contatos com outras em nós mesmos, que vão desde uma intensa necessidade de associação pessoas. até a procura de isolamento social. É evidente que uma explicação A afiliação é importante para o atendimento das necessidades instintivista de caráter tão amplo não fornece elementos teóricos aptos individuais, mas também o é para a formação da identidade psicosso- ao esclarecimento das variações acima consignadas. Em outras pala- cial e para a concretização de ideais e valores de justiça e bem-estar coletivamente compartilhados. Sob esta perspectiva, resta concluir vras, as explicações generalizantes da conduta afiliativa são precárias, embora ofereçam pistas que podem ser aproveitadas na produção que é precário o conhecimento disponível sobre a afiliação, sendo teórica. desejável o alargamento do campo de pesquisa do tema, de modo a Uma explicação mais limitada, aplicável a algumas ocorrências favorecer uma visualização mais completa dos comportamentos asso- afiliativas, é fornecida pela teoria da comparação social de Festinger ciativos humanos, que têm lugar em momentos e sob as mais distintas (1954). A principal conjetura dessa teoria é a de que nós, em diversos circunstâncias históricas, sócio-culturais e psicológicas. 69 68</p><p>6.2. Conformismo, conformidade e obediência se venha a ser alvo de represálias. A mudança profunda, por seu turno, ao contrário da superficial, que facultaria o retorno às condutas Não devemos confundir condutas e mudanças comportamentais originais assim que a pressão social viesse a ser suspensa, teria um sugestivas de submissão a outras pessoas com a observância coletiva a caráter mais estável, levando a supor a adesão pessoal, daquele que normas e padrões o atendimento aos últimos fora pressionado, aos padrões de conduta que inicialmente lhe tinham uma relativa homogeneidade de comportamentos e é um fato observa- provoca sido impingidos. Entre as tentativas de solucionar a questão técnica do em todas as comunidades e sociedades humanas. Em todas elas dos níveis de mudança, tão precariamente considerada no esquema de encontramos alguma uniformidade no uso da língua, no cumprimento dicotômico que acabamos de ver, situa-se a de Kelman (1958), que cias costumes, na aceitação de valores, no preenchimento das exigên- prevê três graus distintos: a aquiescência, a identificação e a internali- de papéis sociais e na observância de normas de convivência zação. Aplicam-se à aquiescência as observações precedentes sobre A a humana. A esta descrição, porém, deve-se juntar o registro de que, obediência, que é o nível mais superficial da escala de Kelman. que pode ser prejudicada ou impedida em seu desen- termos práticos, se enfrenta o problema do possível naufrágio em da identificação corresponde a uma mudança comportamental de grau intermediário, manifestando-se quando houver uma aceitação afetiva, volvimento por uma excessiva carga de compromissos e obrigações por parte da pessoa pressionada, de um modelo social que ostente padrões comportamentais que aquela esteja sendo obrigada a adotar. Em benefício da análise psicológica, convém distinguir entre confor- Finalmente, a internalização tem lugar quando o sujeito de fato vier havia a mismo e conformidade. o primeiro alude a um traço ou característica incorporar, tornando suas, formas de agir que inicialmente de personalidade relativamente Referimo-nos, com a palavra relutado em aceitar, por estarem em desacordo com suas crenças e conformismo, a uma inclinação amplamente reiterada de subordinação valores. Este nível é mais profundo do que o anterior, pois transcende nível a normas e padrões extrínsecos; à tendência a acompanhar a maioria, período da pressão social e não depende, como ocorre no em seus gostos, preferências e maneiras de agir; à submissão, muitas anterior, da continuidade da relação afetiva da identificação. vezes gratuita e inútil, ao socialmente estabelecido, em detrimento da originalidade pessoal. A entretanto, é uma manifesta- Uma antiga e conhecida série de experimentos sobre conformidade ção de natureza episódica. Caracteriza-se por uma mudança de com- foi iniciada por Asch (1951). Os participantes de sua pesquisa, instala- portamento oriunda de uma pressão social real ou (neste dos solitariamente num grupo de auxiliares (confederados) do experi- caso, baseada em fantasias e distorções perceptivas). Importa acres- mentador, responderam oralmente a problemas de avaliação do com- centar que a mudança ora considerada é a que corresponde (segundo primento de segmentos de reta que lhes eram apresentados, concor- erradas crenças do sujeito) à expectativa dos que a exigiram, tendo, além as dando, em 30% dos casos, com respostas deliberadamente disso, acarretado previamente um conflito pois fornecidas pelos auxiliares. Importa registrar que essa taxa decrescia transitou, quando da vigência da pressão social, pelo impasse entre se consideravelmente quando ao menos um dos confederados apresenta- a permanecer fiel ao padrão pessoal ou aderir à pressão externa. Os va a resposta correta. A constatação de Asch foi surpreendente, pois psicólogos sociais contemporâneos exibem um grande interesse pelo situação estimuladora não poderia ser considerada ambígua. Contudo, estudo de fatos desta última espécie. os estudos nesse tópico despertaram maior atenção após a divulgação de dos resultados das pesquisas de Milgram (1974). Os experimentos Aceitando-se o conceito de conformidade nos termos em foi definido, perguntar pela extensão da mudança comporta- que Milgram foram desdobrados em dezoito diferentes projetos, cada qual destinado à pesquisa da influência de variáveis específicas, mas todos mental. Neste particular, admite-se que deva haver diferentes níveis de profundidade de mudança de comportamentos supervenientes de eles planejados em torno de uma situação experimental básica. Esse sociais, sendo estas apresentadas sob as mais diferentes formas pres- e planejamento básico previa a participação de um confederado e de um em circunstâncias que, para o indivíduo, também são muito variadas. participante experimental, cabendo ao último a aplicação de choques elétricos ao auxiliar de pesquisa todas as vezes que este cometesse A princípio, admitiam-se apenas dois níveis de mudança comporta- mental: o superficial e o profundo. o primeiro, de caráter algum erro na aprendizagem, por memorização, de uma lista de pala- vras. Na verdade, os erros eram programados e as descargas elétricas seria manifestado pela obediência e visaria salvaguardar interesses nunca chegaram a ser aplicadas, pois o circuito era desligado assim que pessoais, eliminando, ou ao menos reduzindo, a probabilidade de que se iniciavam os trabalhos experimentais, mas Milgram procurou asse- 70 71</p><p>Para gurar-se de que seus participantes interpretassem a situação tanto, o confederado deveria reagir de acordo com como real. possibilita, através das respostas apresentadas por pessoas de um intensidade dos choques, que variavam de 15V a 450V, a (suposta) grupo solicitadas a indicar duas ou três outras de sua preferência, uma descargas progressivamente ampliadas, com a diferença de sendo 15V de as efetuar um levantamento da rede constituída pelas relações interpes- Sob aplicação a outra, à medida que os erros viessem a ser cometidos. soais mantidas por membros do grupo em questão. Convém acrescen- instruções. esta condição, cerca de 60% dos participantes seguiram à risca tar que a realidade psicossocial assim detectada não é definitiva. sendo a última reação devida especialmente ao modelo Essas contribuições de Milgram causaram perplexidade as e Mudanças operadas em nossas condutas, especialmente no plano das motivações, interesses, crenças e atitudes, que ocorrem a todo mo- de experimental empregado. A perplexidade ficou por conta da suposição mento e de forma tão imprognosticável, produzem alterações no aos que, sendo possível admitir que a tendência a obedecer seja natural quadro das nossas interações que chegam a ser profundas. Assim, as seres humanos, então seria indispensável rever os julgamentos informações que se podem obter através do teste sociométrico são o daqueles que foram condenados por práticas criminosas graves, necessariamente limitadas e de valor provisório. Entretanto, a condu- cumprir ordens. genocídio, por exemplo, que, em sua defesa, se alegou estarem como a ção de um programa de aplicações sistemáticas desse instrumento pode oferecer elementos preciosos e úteis a respeito da dinâmica das Tudo isso, porém, é muito discutível, sendo desejável relações interpessoais processadas na intimidade do grupo que se reflita sobre a matéria, levando em conta as crenças que os que participan- o leitor esteja a estudar. tes apresentam quando recrutados para pesquisas Os grupos coesos distinguem-se dos de baixo índice de solidariedade rânea; questões concernentes à imagem do Homem na Psicologia contempo- as uma maior semelhança de valores, atitudes, crenças, motivações, e as limitações históricas e sócio-culturais (vale dizer, diacrôni- por objetivos e metas apresentados por seus participantes. Os contatos em cas e sincrônicas) das pesquisas do gênero. Um bom texto de entre as pessoas dos grupos assim caracterizados tendem a ser mais português, para o estudo desse tópico é o elaborado por Kiesler apoio, & e revestem-se de afetividade. Esse conjunto de aspectos Kiesler (1973). distintivos fortalece o grupo e torna mais tangível o em empreita- das coletivas; robustece-o, qualificando-o melhor para os embates que 6.3. Coesão grupal têm lugar quando os conflitos de interesses assomam à realidade Os grupos humanos diferem entre si do ponto de vista do de social, política e institucional. Os dados de pesquisa depõem neste sentido: Pepitone & Reichling (1967), em pesquisa experimental, con- consistência das relações interpessoais de seus membros. Entre grau cluíram que os grupos de grande coesão, quando provocados, oferece- grupos de existência episódica, cujos relacionamentos internos são os ram reações hostis mais prontas e diretas do que os de baixa coesão. carentes de e os mais estáveis, talvez permanentes, Mas é também no sentido de uma maior eficiência no concertar que os vínculos mantidos por seus membros, uns em relação aos em outros, são afetivamente tonalizados, distribuem-se as diferentes for- projetos e promover ações coletivas de natureza socialmente construti- va, que os grupos coesos se destacam: Schachter et al. (1967) concluí- mas de agrupamento social. De certa maneira, o conceito de coesão grupal corresponde à idéia de muito explorada ram que a coesão grupal está relacionada com a produtividade; quais- é contribuições sociológicas de E. Durkheim e F. autores nas que sejam os critérios para a determinação do último conceito, lembrados na introdução deste capítulo. É de se admitir também a quer de se esperar que os grupos coesos reúnam condições superiores para em relação ao grupo. ocorrência de coesão esteja vinculada ao estabelecimento de lealdades que superar os obstáculos que lhes sejam antepostos. A pesquisa da coesão grupal é dotada de relevância social e mantém Na Psicologia Social, a interpretação mais difundida de coesão é de imbricações com outros temas psicossociológicos, como os de comuni- origem lewiniana, podendo receber a seguinte a coesão cação, conformidade, afiliação, liderança e poder social. Certamente, resulta da atratividade que o grupo exerce sobre os seus membros, há que se levar em conta que a coesão tanto pode ocorrer em agrupa- dele desejam continuar a participar, resistindo à idéia de que mentos sociais nos quais é possível identificar fatores e processos Com muita tenta-se avaliar a coesão através do de psicologicamente desejáveis, porquanto militam a favor do desenvolvi- instrumentos objetivos de coleta de dados, como é o caso emprego do teste mento individual e coletivo, como também em grupos que brutalidade ostentam, e sociométrico de L. Moreno. Esse instrumento, de fácil utilização, como marcas mais visíveis, o fanatismo, a intolerância, a social- dogmatismo, que, sem dúvida, não aceitaríamos como fatores 72 73</p><p>mente positivos. De resto, cabe lembrar que aqui, como em qualquer Se ainda pudermos acolher a contribuição de Weber (1957, sendo a outro tópico de investigação, urge apresentar os conceitos centrais primeira edição de 1922), que distinguiu a autoridade legal da tradicio- com a maior transparência possível, a fim de facilitar a sua compreen- nal e da carismática, poderemos declarar que a chefia se alimenta são e tornar provável uma utilização mais conseqüente de tais idéias. sobretudo da primeira, um tanto da segunda e nada da terceira, mas a liderança, de todas elas. 6.4. Liderança e desempenho de grupo Nesse tópico, a influência de Lewin é também facilmente constata- A liderança é um processo de influenciação social que ocorre em da. Suas idéias fundamentaram a pesquisa de White e Lippitt (1969, circunstâncias, momentos e níveis os mais diversos. São tão variados mas texto original é de 1943), que teve o mérito de alterar o rumo dos os fenômenos de liderança que se torna lícito indagar se de fato se trata estudos da liderança, até então conduzidos sob a perspectiva da de um só tipo de ocorrência. Eles se manifestam em microgrupos, personalidade dos líderes, fazendo com que eles se voltassem para É a como no caso de famílias, equipes de trabalho e grupos de amigos, mas análise da interação entre líderes, seguidores, situação e tarefa. também no âmbito dos processos societários e no das complexas importante registrar que a avenida inaugurada pela dinâmica de grupo relações internacionais. Por tais razões, o tópico da liderança interessa para os estudos psicossociológicos de processos grupais, trazendo à tanto aos psicólogos quanto aos cientistas sociais, embora venhamos a tona tanto variáveis psicológicas quanto fatores sociais, constitui uma encontrar, se passarmos de uma área a outra, diferenças marcantes na inequívoca inovação nessa área científica. As contribuições que lhe temática, teorização e metodologia de pesquisa. Os psicólogos sociais, são historicamente anteriores, atreladas ao filão aberto pelas crenças em particular, empenham-se no estudo das relações entre variáveis que em torno do líder nato e do grande homem (na história, nas ciências, podem ser alocadas em quatro grupos distintos: no das características nas artes e na política), foram marcadas pela suposição de que as de personalidade e comportamento dos líderes; no dos atributos psico- variáveis mais importantes a considerar na pesquisa da liderança são as lógicos dos seguidores; no das situações em que se desenrola o proces- da personalidade, sendo estas, por sua vez, fornecidas pela heredita- so de liderança; e no das tarefas cometidas ou assumidas pelos grupos. riedade. Daí o grande interesse manifestado por psicólogos e cientistas Muito importa teoricamente, fazer duas distinções conceituais. A sociais do início deste século, mas também do final do século passado, primeira delas se aplica às idéias de liderança e dominação. Esta em proceder a inventários da personalidade, admitindo que se tratasse última é um processo baseado na força física, sexo e idade em que os de indicadores aptos ao prognóstico de desempenhos individuais no animais de espécies infra-humanas exibem seu poderio e subjugam terreno da influência social. Neste ponto, pode-se estabelecer a con- outros do mesmo grupo, mantendo-os unidos e dilatando sua probabili- jectura de que a valorização da hereditariedade na Psicologia européia dade de sobrevivência. A liderança, porém, é um conceito mais da tão visível na obra de F. Galton (1822-1911) e de vasta adequado à nossa espécie, aplicando-se às relações interpessoais. influência em todas as disciplinas psicológicas incluindo, portanto, a Basicamente, entende-se que ocorra liderança quando alguma pessoa Psicologia Social, onde a teorização sobre o comportamento social humano se baseia no conceito de instinto, como se verifica em McDou- se torna capaz de modificar as crenças, atitudes e comportamentos de outros indivíduos, organizando-os e orientando suas ações para objeti- gall (1926) talvez tivesse sido o contraponto científico de uma realidade histórica em cujo palco avultaram os impérios europeus em vos que passam a desejar atingir. Assim interpretada, compreende-se seu esforço de expansão, gerando múltiplas estratégi- que, como processo de influenciação, a liderança guarde diferenças em relação à chefia. Este é o segundo paralelo a fazer. A chefia, a rigor, econômicas, sociais, políticas e culturais, em que não devem ser sucede apenas em sistemas constituídos por papéis sociais de tal tomadas como negligenciáveis as referentes às relações entre coloniza- maneira hierarquizados que, sendo diferente a quota de autoridade dos e colonizadores, cabendo aos últimos demonstrar (como se isso atribuída a eles, tornam-se, sob este ângulo, assimétricos, cabendo aos fosse possível) a sua superioridade racial e étnica. titulares de alguns o direito de influenciar o comportamento daqueles Pode-se resumir a investigação experimental de White & Lippitt que lhes fiquem Não há, evidentemente, qualquer ga- (op. cit.), sublinhando os seguintes fatos: os participantes (crianças), rantia de que tal poder, usufruído em contextos institucionais, possa divididos em grupos e sob a coordenação de auxiliares adultos, dedica- subsistir fora dos limites estabelecidos por parâmetros aceitos como ram-se a trabalhos manuais em todas as sessões experimentais, tendo legais. No fundo, a chefia é um poder nominal, ao passo que a sido submetidos, ao longo delas e sucessivamente, às atmosferas (ou liderança se manifesta num circuito sócio-cultural muito mais formas de liderança) democrática, autocrática e de laissez-faire (esta 75 74</p><p>última seria mais bem qualificada como anárquica). Os resultados, comportamento humano de indivíduos participantes de interações afiliação, obtidos da avaliação de quatro variáveis sociais. Não obstante, a investigação de processos como democrática a melhor das três modalidades de liderança, sugerem pois, ser a conformidade, coesão grupal e liderança, sistemática e experimental- algum tuando-se a produtividade (mais elevada em atmosferas autoritárias), exce- iniciada na década de 30, sob a inspiração de Lewin, tem aduzir os grupos, quando democraticamente conduzidos, apresentaram índi- desenvolvimento, mente especialmente nos Estados Unidos. É preciso ces mais positivos em termos de coesão, (em relação ainda tais pesquisas incidem sobre microgrupos que, segundo a aos dirigentes adultos) e baixa de comportamentos agressi- Shaw (1980), que dispõem de um número de participantes não superior vos. Como acontece em todos os casos de pesquisa essas conclusões não podem ser simplesmente generalizadas e aplica- vinte. fato, a teoria de campo de Lewin é muito importante na desenvolvi- dinâmica das a situações mas possibilitam conjeturar e estabele- De mas há outras perspectivas que também foram cer hipóteses para fatos que, sendo refratários a rigorosos tratamentos de grupo, área. Por exemplo: a orientação sociométrica de Moreno; in- a rem mais bem conhecidos. experimentais, exigem planejamentos empíricos de pesquisa para se- das nessa psicanalítica, destacando a influência de motivações conscientes manifestam em situações grupais; a orientação dimanada da motiva- orientação e mecanismos de defesa em comportamentos Psicolo- que se Atualmente, nos estudos teóricos têm-se examinado as relações entre liderança, poder social, autoridade e influência social, enquanto cionais e cognitivos; e a orientação de Bales (1970), centrada num Geral, baseada na análise da aprendizagem, dos processos nas pesquisas empíricas e por vezes psicometricamente conduzidas, há muito interesse em se estudar a influência de variáveis modelo tridimensional dos grupos humanos. como sensibilidade interpessoal, inteligência, dominância, autoritaris- temática de pesquisa na dinâmica de grupo é dotada de relevância da mo, e maquiavelismo em processos de in- A havendo, portanto, o entendimento de que os resultados aplicá- fluenciação social. No quadro geral desses estudos avultam as contri- social, investigação em tais tópicos sejam (ao menos potencialmente) úteis, buições de Fiedler (1964), que, tendo adotado como ponto de partida veis situações profissionais de ordem prática. Podem ser estudos por conhecida diferenciação entre os líderes mais favoráveis à consecução a exemplo, a na Educação e na psicoterapia. Além disso, esclarecerem esses a de metas (estrutura de iniciação) e os que concedem relevo aos podem ser considerados importantes pelo fato de nos interesses e necessidads de seus seguidores (estrutura de considera- respeito da formação de nossa identidade psicossocial. ção), verificou que os do primeiro tipo distinguem mais nitidamente A procura da companhia de outras pessoas, ou seja, o conceitual- comporta- seus classificando-os em função de suas preferências afiliativo, vem sendo explicado, embora de forma sociais muito afetivas, do que os líderes que denotam maior cuidado, atenção mento restrita e limitada a situações psicológicas e teoria da disposição de ajudar seus auxiliares, conseguindo sempre encontrar e específicas, comparação social de Festinger (1954), mas também encontram-se da mente por teorias de pequeno alcance. o caso da teoria da características positivas em colaboradores menos desejados. Não é ocioso acrescentar que alguns estudos psicossociológicos foram e afiliação de Schachter (1966). De qualquer maneira, baseadas estão sendo realizados com a intenção de esclarecer melhor a natureza desprestigiadas, na Psicologia Social, as explicações gerais dos processos de influenciação social que têm lugar em organizações formais (exemplificando: órgãos da administração pública e empresas na aprendizagem e convém no instinto. distinguir entre conformismo e conformida- mático) final é o de desenvolver técnicas psicossociológicas sendo comerciais, industriais e de prestação de serviços). o objetivo (prag- Tecnicamente, o primeiro termo refere uma característica de personalidade que que de. pode ter sido desenvolvida ao longo da socialização, oriunda ao passo de uma implementadas, incrementariam a eficiência de tais organizações. que, Os conformidade é uma mudança comportamental passou fatos atinentes às últimas observações decorrem (e, se assim vierem a social (real ou imaginária) e que gerou, na pessoa que que lhe ser interpretados, o serão justamente) da orientação utilitarista da a pressão tal experiência, um conflito entre o padrão comportamental contribuições livro. Psicologia Social referida no primeiro capítulo deste por e o da sua preferência anterior. Entre as a de Mil- foi experimentais imposto mais recentes sobre a conformidade situa-se metade 6.5. Resumo gram de 60), uma intensa polêmica quanto aos problemas (1974), que produziu, após a sua divulgação (na segunda éticos Na Psicologia Social os estudos sobre processos da suscitados década pelo planejamento experimental e às políti- grupais não têm despertado tanto interesse quanto a pesquisa do cas e ideológicas dos resultados da pesquisa. 77 76</p><p>Tem-se verificado que a coesão grupal, levinianamente definida a função na na autodefesa e na expressão da hostilidade partir da idéia da atratividade do grupo, desempenha uma importante 7 psicológicas individuais. dos grupos humanos, mas igualmente na satisfação de necessidades o tópico da liderança, assim como o do poder social, não despertam tanto interesse entre os pesquisadores quanto a sua importância tiria Essa situação talvez se possa explicar ainda que parcial- permi- Teorias cognitivas mente, pela existência de idéias-força de caráter libertário, tão na Psicologia Social contemporânea voga nas sociedades e que atuam como freios sobre em interpretados como fatos sociais e psicossociais negativos. as pesquisas de que, à luz de tais idéias, passam a ser A liderança é um processo de influenciação social, e atualmente seguidores, tarefas e situações. sua pesquisa se encontra centrada no exame das relações entre líderes, a Leituras recomendadas Os produtos mais desejados na pesquisa científica são teoria as teorias, não é McDavid & Harari (1980, cap. 9, 10, 11 e 12); e Zajonc (1969, cap. IV). Crano Freedman et al. (1973, cap. 1, 5, 6 e 7); Goldstein (1983, cap. 6 e 9); desde logo convém observar que o conceito de então, mas uniformemente interpretado. Nas ciências sociais e humanas mais mais do que nas ciências formais e da natureza, prosperam as diversas noções sobre o termo teoria. Conceitos isolados, hipóteses que singulares, sistemas de conjeturas logicamente pouco integradas acordo convergem para o mesmo objeto (contexto aberto, de embasados com têm recebido qualificação de teoria. Naturalmente, seria Bunge, 1980, p. 41) e argumentos metaforicamente descabida e talvez negativa para o desenvolvimento científico a imposição básicos, mas, de de vista intransigentes na definição de conceitos de da pontos lado, também seria difícil aceitar a suposição que surjam de ausência outro de qualquer resquício de uniformidade semântica lógico e contribuições que possam ser submetidas ao tratamento empírico que os pesquisadores costumam impor a conjeturas qualifica- das como científicas. objetivos que temos em vista, podemos partir da sentenças, suposição de Para que os uma teoria científica seja um conglomerado relacionadas de entre si, variadas em seu vizinhas grau de abstração aos fenômenos e logicamente deduzidas de outras, menos sendo as mais a fatos empíricos. Tais construções são avaliadas respeito sob dois à próximas gerais: o sintático e o semântico. o primeiro diz consti- critérios interna, ou seja, à inter-relação entre as assertivas que ordem teoria, que deve ser consistente; ao passo que, sob a empíricas, perspecti- tuem semântica, a tais artefatos, se incorporados às ciências aos quais va devem ser apreciados em sua relação com os fatos se 79 78</p><p>referem. construímos teorias científicas de pesquisas que têm sua origem em Lewin, com apoio mais propósito de classificar e, sobretudo, explicar o com o próximo na teoria do equilíbrio de Heider (1970, na edição brasileira). exigentes pesquisa que encetamos. Uma observação adicional: embora objeto sejam da As conjeturas mais importantes da teoria da dissonância cognitiva dos há que aceitar o que deve exigir muito desprendimento teorias as normas de aferição do grau de credibilidade das entre são crenças importantes para uma pessoa; essa situação, subjetiva- as seguintes: podem suceder relações dissonantes (contraditórias) teóricos a idéia de que não reunimos condições ção de teorias de caráter definitivo. o saber científico para é necessaria- a elabora- mente vivenciada, gera pressões no sentido da redução da dissonância; mente Mas ao menos terá cumprido, quando dele havendo um encaminhamento objetivo para a redução ou eliminação rea- aberta. despedimos, a tarefa de nos indicar a inviabilidade da trilha por nos ele da dissonância, podem-se produzir mudanças de comportamento, A valiação de crenças e exposição seletiva a novas informações. Pode-se facilmente apurar que na Psicologia Social não dispomos de necessidade de eleger uma alternativa entre duas possibilidades, con- experiência da dissonância cognitiva principia quando a do primeiro capítulo, esta área da Psicologia é marcada pela parte teorias de grande alcance: na verdade, como já vimos na segunda cretizando-se assim que nos decidimos (de uma maneira que posterior- entre mente nos pareça insatisfatória) por uma delas. Por exemplo: intensificados os esforços no sentido da elaboração de teorias de Desejável seria, entretanto, que por aqui presença fossem ajudar testemunhar a favor de um amigo que conhecemos e sabemos sociais alguém que esteja solicitando a nossa intervenção ou ignorá-lo; ser alcance médio, que Merton (1970, cap. II) também admitiu como mais de entre isento de culpa ou calar, a fim de nos pouparmos de prejuízos insistir na adequadas à Sociologia. Para ampliar a nossa visão do ou profissionais; entre submeter-nos a normas sociais ou exação vamos adicionar à análise que estamos realizando o registro de manutenção de nossa autonomia; entre orientar um aluno com qualquer teoria das ciências sociais e humanas assenta em pressupos- que deixá-lo desinformado; entre os candidatos de um partido político sobreve- e tos antropológicos específicos. Há, em outras palavras, em sua base, ou os de outro; e assim por diante. A idéia de que a dissonância Festinger (op. uma imagem do Homem definida. Agora, trazendo essas observações nha de decisões encontra-se implícita nos argumentos de A conclusão para o nosso campo, podemos declarar que as teorias mais em voga na cit.), mas foram Brehm & Cohen (1962) que a ressaltaram. cognitiva Psicologia Social são as cognitivas, em cuja edificação, segundo Penna destes últimos psicólogos sociais é a de que a dissonância de liberda- (1984, p. 8), são observados quatro critérios muito específicos: valori- constitui uma experiência pós-decisional e depende da contingência taxa de zação do conceito de regra (crenças orientadoras do de usufruída pela pessoa quando se encontrou na aceitação da idéia de que o desenvolvimento dos processos cognitivos decidir entre alternativas antagônicas. ocorre de forma construtiva (pela reelaboração e rearticulação de Na análise do fenômeno da dissonância cognitiva avulta a questão de estruturas cognitivas já formadas); admissão do pressuposto de dessas experiências. Admite-se que ela dependa nós nos orientamos empós metas que pretendemos que da magnitude (cognitivos e afetivos) particulares, que devem variar de uma que atingir; e interpretação do ser humano como ente ativo, capaz de critérios outra. Uma segunda fonte de variação da intensidade com Obser- estímulos que o atinjam. transcender os limites de condutas meramente reativas, produzidas por pessoa vive a a experiência da dissonância é o contexto simultânea de duas Nas páginas que formam este capítulo, o leitor encontrará à sua se ve-se: aceitando opostas produza a conjetura uma de experiência que a presença intelectualmente interpretan- (e emocio- disposição dados essenciais sobre as seguintes teorias crenças desagradável e geradora de tensão, estamos nos de racionalida- cas: teoria da dissonância cognitiva; teoria da atribuição; teoria da do nalmente) seres racionais, mas é possível que a exigência e teoria da como nos impomos não seja compartilhada tão extensivamente das socieda- por de a que influenciadas por padrões culturais diferentes culturas dos européias. pessoas des desenvolveram sob a inspiração de por exem- 7.1. Teoria da dissonânica cognitiva Mesmo o fato de que se os pesquisadores se impõem outros que nestas se últimas encontramos diferenças. Atente-se, rigorosas Pode-se asseverar que a teoria psicossociológica mais importante da plo, para lógicas, com larga influência comportamental, nos opondo grupos ao década de 50 foi a da dissonância cognitiva de Festinger (1957). Trata- normas serão infensos a tal disciplina. Não estaremos sociais culturais se de uma contribuição que se encontra perfeitamente alinhada na sociais conhecimento antropológico ao admitir que fatores e 81 80</p><p>influem na determinação do nível de tolerância para a desarmonia, interpretar e encontrar explicações para o comportamento humano, contradição e conflito entre crenças subjetivamente alojadas. tornando-o prognosticável. A propósito, essa visualização do homem Para a redução da dissonância, várias alternativas se encontram comum, despreparado metodológica e instrumentalmente, mas em nossa disposição: mudar (subjetivamente) nossas avaliações iniciais, à todo caso orientado para a pesquisa (ingênua), foi desenvolvida recen- acentuando os aspectos positivos da opção que escolhemos; e negati- temente por Bannister & Fransella (1984). rando reduzir as diferenças entre as alternativas iniciais, de modo vamente, da que preterimos; rever as avaliações que fizemos, procu- Elementos importantes dessa psicologia ingênua são as noções de torná-las mais próximas em termos de atratividade; e voltar atrás, a causalidade pessoal e impessoal, assim interpretadas: declara-se que revogando a nossa houve (ou há) uma causalidade pessoal quando ocorrer a percepção (e Em exaustivo levantamento de pesquisas sobre a dissonância cogni- interpretação) de que a conduta foi predominantemente determinada tiva, realizadas entre 1957 e 1967, Greenwald & Ronis (1978) concluí- pela pessoa mesma; ao passo que, quando atribuímos a fatores exter- ram que estudos mais recentes nesse tópico deixaram de incluir nos (ambientais ou humanos) a responsabilidade de haverem provoca- exemplos, dados e hipóteses que integram a contribuição teórica de do comportamentos em alguém, diremos que se trata de uma causalida- Festinger. E mais: constataram a progressiva aceitação da idéia de de impessoal. A conclusão, portanto, é a de que a teoria da atribuição a motivação para o restabelecimento da consistência ocorra principal- que de causalidade se refere a presumidos antecedentes de condutas que mente em virtude da necessidade de preservação da auto-estima. No manifestamos. Aplica-se a situações do tipo: "Que fatores determina- fundo, as pesquisas mais recentes, ao enfatizarem uma interpretação ram o fracasso acadêmico daquele "O que provocou o ego-defensiva, não apenas reduzem a importância que vinha sendo acidente sofrido por este trabalhador?" e "O que explicaria a produti- atribuída a fatores lógicos na redução da dissonância mas também vidade desse Cabe acrescentar que a teoria, em seu desdo- retomam o modelo bidimensional do ser humano (processos cognitivos bramento, prevê a incidência de quatro variáveis, sendo duas da e pessoa e duas outras externas a ela. A habilidade (aptidão ou capacida- Pesquisas em torno da teoria da dissonância cognitiva encontram-se de) e o esforço (motivação ou pertinácia) são variáveis pessoais; o em andamento, o que nos autoriza a supor que novas informações acaso e a dificuldade (ou facilidade) da tarefa são fatores contingentes venham a ser brevemente divulgadas, permitindo-nos um melhor en- e externos a nós. tendimento da influência de variáveis pessoais (inclusive as da perso- o ângulo focalizado pelos teóricos que se aplicam à pesquisa dos nalidade) e sócio-culturais na produção de dissonâncias cognitivas. processos de atribuição é basicamente psicológico, não podendo ser Entretanto, um tema que talvez pudesse ser qualificado como interes- confundido com a análise filosófica da causalidade. Em outras pala- sante seria o das dissonâncias vivenciadas por pesquisadores vras: o que importa é investigar a percepção não-informada da existên- depois de haverem se dedicado com afinco ao seu trabalho, deparam que, cia de intrincados problemas (filosóficos e científicos) atinentes às com evidências contrárias às suas É possível que aqui causas e razões de comportamentos humanos. Assim, é de se conjetu- estejamos diante de uma das fontes das fraudes rar, admitindo grandes diferenças individuais no plano da sofisticação cognitiva, se não seria esta uma significativa variável a influir em processos de atribuição. Além disso, dado que tanto no desenvolvi- 7.2. Teoria da atribuição mento quanto no conteúdo (crenças, por exemplo) de processos cogni- tivos ocorre uma influência nada negligenciável de condições sociais e A formulação mais detalhada da teoria da atribuição ocorreu culturais, historicamente delimitadas, talvez conviesse examinar o 1958, quando da publicação do livro de Heider (1970, na edição em da perfil transcultural das hipóteses da teoria da atribuição de causalida- Editora Pioneira), mas pesquisas de hipóteses derivadas dessa teoria de. Em processos de atribuição, fatores como religiosidade, misticis- só vieram a ser intensificadas na década de 70. É possível, como bem mo, desenvolvimento científico (e tecnológico) e ideologia devem assinalou Frey (1980, p.97), que uma das razões desse descompasso desempenhar funções muito relevantes. Tentando-se formular uma temporal seja o fato de Heider não ter se dedicado mais intensivamente conclusão, poderemos declarar que a teoria da atribuição de causalida- à pesquisa empírica. de é heurística, mas no desenvolvimento das pesquisas será muito fundamento dessa perspectiva teórica é a psicologia isto importante considerar a influência de variáveis macrossociais em tais é, a elaborada naturalmente pelo homem comum em suas tentativas de ocorrências. 82 83</p><p>Ao leitor interessado em obter informações mais completas sobre e assunto, sugere-se a leitura (e consulta) dos textos de Rodrigues (1984) o cognitiva, especialmente nos casos de aquiescência forçada. São mais Dela Coleta (1982), que contêm contribuições de psicólogos sociais dois fatores adicionais a justificar o interesse despertado pela teoria da brasileiros para o estudo da atribuição de autopercepção. 7.3. Teoria da autopercepção 7.4. Teoria da É interessante notar que neste capítulo, ostensivamente dedicado às A teoria da cumprindo o destino geral das teorias científi- teorias cognitivas da Psicologia Social, está sendo apresentada uma cas, vem sofrendo sucessivos reparos e transformações. Contudo, o seu desenvolvimento não se realiza em prejuízo da conjetura básica: a contribuição de um psicólogo que se classifica como behaviorista radical. De fato, Bem filia-se à orientação metodológica de Skinner, o de que nós buscaríamos, nas interações sociais, equilibrar, compatibili- que o obriga a arcar com as das restrições (positivistas) zar ou tornar justas as relações entre os nossos investimentos e os à elaboração teórica. Mas tudo indica que seja algo ambígua a posição ganhos auferidos em tais situações. Formulando essa idéia de outra desse autor, pois alguns de seus trabalhos, notadamente os referentes à maneira, pode-se asseverar que nas relações interpessoais buscamos manter em equilíbrio a equação constituída por perdas e ganhos. Essa autopercepção, podem ser tomados como cognitivistas. Como quer que seja, a teoria proposta por Bem (1972) é uma influente concepção suposição encontra seu complemento na idéia de que, ocorrendo psicossociológica. assimetrias no quadro interacional, que podem se expressar tanto Basicamente, a teoria da autopercepção se apóia apenas numa através de ganhos excessivos quanto de prejuízos intoleráveis, verifi- conjetura de caráter geral: a de que, na obtenção de conhecimento a cam-se reações emocionais (de descontentamento ou sentimento de respeito de nossos processos e estados internos (subjetivos), valemo- culpa, conforme o caso) e, conseqüentemente, condutas que visam restabelecer o equilíbrio da interação, tornando-a justa. Colhe-se, nos, ao menos parcialmente, de informações que outras pessoas nos proporcionam, com base na percepção de alguns indícios externos que portanto, a conclusão de que a teoria da permite explicar e prever (probabilisticamente, assim como qualquer outra teoria psicoló- apresentamos. A rigor, Bem (op. cit.) sugere a idéia de que haja uma relação entre manifestações internas (aceitemos, para ilustrar, que se gica) comportamentos humanos que sejam produzidos em circunstân- trate de processos e estados emocionais e fisiológicos) e o aspecto cias que apresentem as características aqui especificadas. exterior do indivíduo, de modo que, conhecendo-se tais vínculos, nos A primeira formulação da teoria da foi realizada por seja possível, ao perceber uma pessoa, especialmente se esta for uma Homans (1961), que concedeu posição de destaque ao conceito de criança ou alguém inexperiente quanto ao que esteja vivenciando, justiça distributiva. Homans supôs que, enquanto partícipes de intera- orientá-la no sentido de que venha a saber designar tais experiências e ções sociais, estejamos a alimentar expectativas de obtenção de resul- identificá-las quando vierem a ocorrer. Assim apresentada, deve-se tados justos e compensadores para nós, mas também (daí a idéia de poder concluir que a teoria da autopercepção interliga quatro proces- distributividade) para a pessoa com a qual estejamos interagindo. cognitivos: o da formação de crenças, a partir de experiências Posteriormente, ainda sob a brida de Homans (1968), a teoria da pessoais; o da obtenção de crenças, transmitidas por outras pessoas; o equidade passou a girar em torno da noção da relatividade dos ganhos, da percepção de pessoa; e o da categorização (atribuição de palavras reduzindo o peso da influência do conceito de distributividade. Isto é: ou expressões a objetos, fatos, processos e situações). os parceiros seriam compensados de acordo com os investimentos de Hipóteses relacionadas com essa concepção teórica têm logrado cada qual, mas não segundo um mesmo critério; manter-se-ia a alcançar resultados positivos no plano experimental. Uma delas é a de de da interação, mas na determinação (subjetiva) do montante dos Schachter & Gross (1968), que concluíram serem as pessoas obesas ganhos (ou compensações) individuais influiriam variáveis como ida- mais inclinadas do que as magras a se orientar no estabelecimento da de, sexo, experiências passadas, qualificação profissional, status so- rotina alimentar por indicações externas (horário) do que por estímu- cial, empenho e origem étnica. los internos denotativos de fome. o momento da história da teoria da foi De um lado, a teoria da autopercepção afina-se com a da atribuição ocupado pela contribuição de Adams (1965), que, em seus estudos, de causalidade, e de outro, rivaliza com a teoria da dissonância realçou as interações desequilibradas, examinando-as (mais aprofun- dadamente do que Homans) do ponto de vista das 84 85</p>