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<p>Assistente Técnico Administrativo – MIN FAZENDA</p><p>MINISTÉRIO DA FAZENDA</p><p>ASSISTENTE TÉCNICO - ADMINISTRATIVO</p><p>ATUALIDADES: .................................................................................................................................................... pp 1 a 58</p><p>1. Diversidade cultural, conflitos e vida em sociedade.</p><p>1.1. Movimentos culturais no mundo ocidental e seus impactos na vida política e social.</p><p>1.2 O debate sobre a legalização das drogas e seu impacto sobre as políticas públicas e sobre a sociedade.</p><p>1.3 Tecnologia e educação.</p><p>2. Formas de organização social, movimentos sociais, pensamento político e ação do Estado.</p><p>2.1. Movimentos sociais na era da internet.</p><p>2.2 Conselhos de políticas públicas.</p><p>2.3. Instrumentos de participação e controle social.</p><p>3. Transformações das estruturas produtivas e influência da economia na sociedade global.</p><p>3.1. A globalização e as novas tecnologias de telecomunicação e suas consequências econômicas, políticas e sociais.</p><p>3.2. Poder econômico e responsabilidade social.</p><p>3.2.1 Norma Brasileira de Diretrizes sobre Responsabilidade Social - ABNT NBR ISO 26000: 2010.</p><p>3.3 Educação e trabalho.</p><p>4. Desenvolvimento Sustentável e Administração Pública.</p><p>4.1. Origem e evolução do conceito de Desenvolvimento sustentável.</p><p>4.2. Questões ambientais contemporâneas: mudança climática, efeito estufa, chuva ácida, biodiversidade.</p><p>4.3. A nova ordem ambiental internacional - Rio/92, Agenda 21, Rio+20.</p><p>4.4. O serviço público e os desafios da sustentabilidade: Agenda Ambiental da Administração Pública; Contratações</p><p>Sustentáveis, Plano de Logística Sustentável.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 1</p><p>ATUALIDADES:</p><p>1. Diversidade cultural, conflitos e vida em sociedade.</p><p>1.1. Movimentos culturais no mundo ocidental e seus impactos na</p><p>vida política e social.</p><p>1.2 O debate sobre a legalização das drogas e seu impacto sobre</p><p>as políticas públicas e sobre a sociedade.</p><p>1.3 Tecnologia e educação.</p><p>2. Formas de organização social, movimentos sociais, pensamento</p><p>político e ação do Estado.</p><p>2.1. Movimentos sociais na era da internet.</p><p>2.2 Conselhos de políticas públicas.</p><p>2.3. Instrumentos de participação e controle social.</p><p>3. Transformações das estruturas produtivas e influência da econo-</p><p>mia na sociedade global.</p><p>3.1. A globalização e as novas tecnologias de telecomunicação e</p><p>suas consequências econômicas, políticas e sociais.</p><p>3.2. Poder econômico e responsabilidade social.</p><p>3.2.1 Norma Brasileira de Diretrizes sobre Responsabilidade Social</p><p>- ABNT NBR ISO 26000: 2010.</p><p>3.3 Educação e trabalho.</p><p>4. Desenvolvimento Sustentável e Administração Pública.</p><p>4.1. Origem e evolução do conceito de Desenvolvimento sustentá-</p><p>vel.</p><p>4.2. Questões ambientais contemporâneas: mudança climática,</p><p>efeito estufa, chuva ácida, biodiversidade.</p><p>4.3. A nova ordem ambiental internacional - Rio/92, Agenda 21,</p><p>Rio+20.</p><p>4.4. O serviço público e os desafios da sustentabilidade: Agenda</p><p>Ambiental da Administração Pública; Contratações Sustentáveis,</p><p>Plano de Logística Sustentável.</p><p>1. Diversidade cultural, conflitos e vida em sociedade.</p><p>1.1. Movimentos culturais no mundo ocidental e seus impactos</p><p>na vida política e social.</p><p>1.2 O debate sobre a legalização das drogas e seu impacto</p><p>sobre as políticas públicas e sobre a sociedade.</p><p>1.3 Tecnologia e educação.</p><p>Cultura</p><p>Todos os povos, mesmo os mais primitivos, tiveram e têm uma cultura,</p><p>transmitida no tempo, de geração a geração. Mitos, lendas, costumes,</p><p>crenças religiosas, sistemas jurídicos e valores éticos refletem formas de</p><p>agir, sentir e pensar de um povo e compõem seu patrimônio cultural.</p><p>Em antropologia, a palavra cultura tem muitas definições. Coube ao an-</p><p>tropólogo inglês Edward Burnett Tylor, nos parágrafos iniciais de Primitive</p><p>Culture (1871; A cultura primitiva) oferecer pela primeira vez uma definição</p><p>formal e explícita do conceito: "Cultura ... é o complexo no qual estão incluí-</p><p>dos conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes e quaisquer outras</p><p>aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade."</p><p>Já o antropólogo americano Melville Jean Herskovits descreveu a cultu-</p><p>ra como a parte do ambiente feita pelo homem; Ralph Linton, como a heran-</p><p>ça cultural, e Robert Harry Lowie, como o conjunto da tradição social. No</p><p>século XX, o antropólogo e biólogo social inglês Ashley Montagu a definiu</p><p>como o modo particular como as pessoas se adaptam a seu ambiente.</p><p>Nesse sentido, cultura é o modo de vida de um povo, o ambiente que um</p><p>grupo de seres humanos, ocupando um território comum, criou na forma de</p><p>idéias, instituições, linguagem, instrumentos, serviços e sentimentos.</p><p>Conceituação. A história da utilização antropológica do conceito de cul-</p><p>tura tem origem nessa famosa definição de Tylor, que ensejou a oposição</p><p>clássica entre natureza e cultura, na medida em que ele procurou definir as</p><p>características diferenciadoras entre o homem e o animal a partir dos cos-</p><p>tumes, crenças e instituições, encarados como técnicas que possibilitam a</p><p>vida social. Tal definição também marcou o início do uso inclusivo do termo,</p><p>continuado dentro da tradição dos estudos antropológicos por Franz Boas e</p><p>Bronislaw Malinowski, entre outros. Sobretudo na segunda metade do</p><p>século XX, esse uso caracterizou-se pela ênfase dada à pluralidade de</p><p>culturas locais, enfocadas como conjuntos organizados e em funcionamento,</p><p>e pela perda de interesse na evolução dos costumes e instituições, preocu-</p><p>pação dos antropólogos do século XIX.</p><p>Só o homem é portador de cultura; por isso, só ele a cria, a possui e a</p><p>transmite. As sociedades animais e vegetais a desconhecem. É um comple-</p><p>xo, porque forma um conjunto de elementos, inter-relacionados e interde-</p><p>pendentes, que funcionam em harmonia na sociedade. Os hábitos, idéias,</p><p>técnicas, compõem um conjunto, dentro do qual os diferentes membros de</p><p>uma sociedade convivem e se relacionam. A organização da sociedade,</p><p>como um elemento desse complexo, está relacionada com a organização</p><p>econômica; os dois entre si relacionam-se igualmente com as idéias religio-</p><p>sas. O conjunto dessa inter-relação faz com que os membros de uma socie-</p><p>dade atuem em perfeita harmonia.</p><p>A cultura é uma herança que o homem recebe ao nascer. Desde o mo-</p><p>mento em que é posta no mundo, a criança começa a receber uma série de</p><p>influências do grupo em que nasceu: as maneiras de alimentar-se, o vestuá-</p><p>rio, a cama ou a rede para dormir, a língua falada, a identificação de um pai</p><p>e de uma mãe, e assim por diante. À proporção que vai crescendo, recebe</p><p>novas influências desse mesmo grupo, de modo a integrá-la na sociedade,</p><p>da qual participa como uma personalidade em função do papel que nela</p><p>exerce. Se individualmente o homem age como reflexo de sua sociedade,</p><p>faz aquilo que é normal e constante nessa sociedade. Quanto mais nela se</p><p>integra, mais adquire novos hábitos, capazes de fazer com que se considere</p><p>um membro dessa sociedade, agindo de acordo com padrões estabelecidos.</p><p>Esses padrões são justamente a cultura da sociedade em que vive.</p><p>A herança cultural não se confunde, porém, com a herança biológica. O</p><p>homem ao nascer recebe essas duas heranças: a herança cultural lhe</p><p>transmite hábitos e costumes, ao passo que a herança biológica lhe transmi-</p><p>te as características físicas ou genéticas de seu grupo humano. Se uma</p><p>criança, nascida numa sociedade bororo, é levada para o Rio de Janeiro,</p><p>passando a ser criada por uma família de Copacabana, crescerá com todas</p><p>as características físicas -- cor da pele e do cabelo, forma do rosto, em</p><p>especial os olhos amendoados -- de seu grupo bororo. Todavia, adquirirá</p><p>hábitos, costumes, a língua, as idéias, modos de agir da sociedade carioca,</p><p>em que se cria e vive.</p><p>Além desses hábitos e costumes que recebe de seu grupo, o homem</p><p>vai ampliando seus horizontes, e passa a ter novos contatos: contatos com</p><p>grupos diferentes em hábitos, costumes ou língua, os quais farão com</p><p>é nos dias de hoje.</p><p>Existe também o problema da dose. Quanto deixar as pessoas com-</p><p>prar? Se o objetivo é suprir o dependente químico da sua necessidade para</p><p>eliminar o mercado negro, teríamos que fornecer a quantidade solicitada, o</p><p>que, em muitas situações, é uma grande dose, pois vários dependentes</p><p>desenvolvem tolerância e usam uma quantidade que para outras pessoas</p><p>significaria risco certo de overdose. Mas se devêssemos fornecer a todos</p><p>os adultos qualquer dose, o risco de desvio de boa parte das drogas au-</p><p>mentaria ainda mais. Se fornecêssemos uma dose pequena, não eliminarí-</p><p>amos o mercado negro. A experiência inglesa, que durante muito tempo</p><p>prescreveu a heroína para os dependentes, mostrou que além do uso</p><p>regular, os usuários buscam-na também em fonte ilegal.</p><p>Esses argumentos são distantes de uma perspectiva puramente moral.</p><p>O que argumentamos é que também do ponto de vista da saúde pública é</p><p>errado legalizar as drogas. A solução é promover a prevenção e o trata-</p><p>mento baseados em evidências e não em ideologia. Novas pesquisas com</p><p>suficiente financiamento deveriam buscar o que realmente funciona na área</p><p>de prevenção. Ainda sabemos pouco sobre os reais fatores de risco e</p><p>proteção nesse particular. Na área de tratamento, as pesquisas já avança-</p><p>ram muito nos últimos anos e temos condições de fornecer um sistema</p><p>efetivo e eficaz para a doença chamada dependência química. No entanto,</p><p>o acesso a um tratamento de qualidade para a maioria da população ainda</p><p>é um sonho de consumo distante.</p><p>Existem muitas dificuldades práticas para uma política adequada em</p><p>relação às drogas. A humanidade ingere substâncias psicoativas por mais</p><p>de dez mil anos. E somente nos últimos duzentos anos temos tentado</p><p>controlar a produção, a distribuição e o uso dessas substâncias. Poucas</p><p>ações tiveram sucesso. É bem possível que tenhamos igual número de</p><p>sucessos do que de insucessos. No século XVII, após os europeus levarem</p><p>o tabaco da América Latina, vários países tentaram proibir o seu uso, mas</p><p>em seguida desistiram. Entre 1920 e 1933, o álcool foi proibido nos Estados</p><p>Unidos, mas em seguida também a lei foi revogada.</p><p>Para algumas questões, a ciência tem respostas claras e válidas. Na</p><p>farmacologia, sabemos muito bem os mecanismos de ação da maioria das</p><p>drogas. Para cada droga, podemos prever a ação imediata e de uso crôni-</p><p>co. Os epidemiologistas já são capazes de mostrar o impacto do uso, do</p><p>abuso, da dependência e o custo social de cada uma das drogas.</p><p>No entanto, vários assuntos relacionados à política das drogas perma-</p><p>necem controvertidos. Como controlar as substâncias que afetam a mente?</p><p>A posse e a venda deveriam ser controladas por lei criminal? A qual droga</p><p>o acesso deveria ser permitido? As leis produzem mais danos do que</p><p>benefícios? Como medir uma política em relação às outras? As penalidades</p><p>por uso deveriam ser mais duras ou mais leves? Todo mundo tem a sua</p><p>opinião, muitas vezes simplistas para um problema tão complexo. Somente</p><p>teremos uma boa política quando houver estratégias tão complexas quanto</p><p>o tamanho do problema.</p><p>Teoricamente, é possível criar um tipo de regulação que possa evitar</p><p>os danos da proibição às drogas ilícitas, mas a experiência sugere que</p><p>existem grandes dificuldades em se manter esse tipo de controle. Se não</p><p>somos capazes de evitar a promoção de álcool para menores de idade,</p><p>como seríamos capazes de evitá-la em relação à maconha, por exemplo?</p><p>A experiência holandesa serve para alguma coisa? Houve duas fases</p><p>nesse país na forma de tratar a questão das drogas. Inicialmente, na déca-</p><p>da de setenta, houve uma decisão de tolerar a posse de pequenas quanti-</p><p>dades de maconha, com o argumento de priorizar a repressão às drogas</p><p>mais pesadas. Durante esse período, não ocorreu aumento significativo do</p><p>consumo de maconha. Entretanto, de 1980 a 1988 - numa segunda fase -,</p><p>houve tolerância em relação à venda de maconha nos coffee shops, e um</p><p>aumento de mais de dez vezes no número desses estabelecimentos, com o</p><p>correspondente aumento no consumo da droga. Se, em 1984, 15% dos</p><p>jovens holandeses consumiam maconha, em 1992 esse número dobrou</p><p>para 30% e se mantém nesse nível até os dias de hoje. No entanto, a</p><p>experiência holandesa e de outros lugares como Austrália e do próprio</p><p>Estados Unidos mostra que remover penalidades criminais em relação ao</p><p>uso de maconha não aumenta necessariamente o consumo. Isso porque</p><p>remover somente a penalidade do uso sem a promoção comercial não</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 10</p><p>produz grande estímulo ao consumo. Vale ressaltar, porém, que a descri-</p><p>minalização, ou a despenalização, não oferece grandes vantagens, pois</p><p>deixa intacto o submundo do tráfico e todas as condições para a perma-</p><p>nência dos problemas relacionados ao uso.</p><p>Escolher a melhor política não é tarefa fácil. Com uma eventual legali-</p><p>zação, podemos até ter uma diminuição da violência individual, o que é</p><p>uma coisa boa. No entanto, se houver um aumento geral no consumo, a</p><p>violência global pode aumentar. O dano total à sociedade é o resultado da</p><p>média de dano nos indivíduos pela quantidade de drogas consumida. Com</p><p>uma política que resulte em muito mais usuários e talvez até mesmo de</p><p>usuários mais pesados, o dano total à sociedade deve aumentar.</p><p>Existe uma grande dificuldade em transformar boas intenções em be-</p><p>nefício social. As políticas não deveriam ser consistentes apenas do ponto</p><p>de vista ideológico, mas também do ponto de vista prático; ou seja, diminuir</p><p>o uso global das drogas. Quanto a isso, há uma briga de discursos, ou</p><p>melhor, uma briga de significados que alguns sociólogos chamam de men-</p><p>sagem simbólica. Independente do que possa ocorrer na política de drogas,</p><p>as pessoas, inicialmente, se preocupam em apresentar a mensagem corre-</p><p>ta.</p><p>Uma definição legalista define que algumas drogas são ilícitas. Por e-</p><p>xemplo, no Brasil, a Política Nacional sobre Drogas abrange somente as</p><p>drogas ilícitas, deixando de lado o álcool e o cigarro. Os legalistas aparen-</p><p>temente estão dizendo que o problema das drogas diz respeito à infração</p><p>legal e não a um dano à sociedade. Assim, o uso de drogas proibidas é</p><p>considerado um ato de rebelião à autoridade, o que ameaça à sociedade</p><p>constituída.</p><p>Como disse o pesquisador americano Mark Kleiman, "qualquer política</p><p>de drogas que omita o "álcool" (será que não se deveria incluir 'tabaco'?)</p><p>será como uma estratégia naval que omita o Oceano Atlântico e Pacífico"3.</p><p>Por sua vez, o debate político partidário não oferece mais confiança,</p><p>pois apresenta visões contraditórias. Por exemplo, alguns políticos conser-</p><p>vadores são contra a legalização de drogas. No entanto, conservadores</p><p>extremos, como Milton Friedman, defendem sua total legalização. Erich</p><p>Goode, no seu livro "Between Politics and Reason: The drug legalization</p><p>debate"4, propõe a seguinte classificação dos políticos em relação à política</p><p>de drogas:</p><p>(1) conservadores culturais: acreditam nos valores tradicionais e de-</p><p>nunciam que as pessoas se afastaram dos valores tradicionais, que deverí-</p><p>amos voltar aos valores religiosos e familiares, às práticas sexuais conven-</p><p>cionais, à educação básica, aos laços comunitários, à moderação no con-</p><p>sumo de álcool e à completa abstenção de drogas ilícitas. Esse grupo</p><p>acredita que todos são responsáveis por suas ações que, em última instân-</p><p>cia, são escolhas morais. Traçam clara distinção entre álcool e drogas</p><p>ilícitas. Sob essa ideologia, o abuso de drogas é imoral e degrada a vida</p><p>humana.</p><p>(2) libertários do mercado livre: também estão no lado conservador no</p><p>espectro político, mas discordam completamente em relação à legalização.</p><p>Diferente dos conservadores, esse grupo considera que a distinção entre</p><p>as drogas é artificial e deveria ser abandonada. Defendem que o governo</p><p>deve ficar de fora e permitir o laissez-faire. Ninguém seria obrigado a usar</p><p>drogas e nem forçado a parar de usá-las. As leis</p><p>deveriam proteger apenas</p><p>os menores de idade. Portanto, defendem a descriminalização completa.</p><p>Thomas Szasz, no seu livro: "Our Right to Drugs. The Case for a Free</p><p>Market5, faz a defesa da legalização de drogas, baseada em considerações</p><p>político-filosóficas.</p><p>(3) construcionistas radicais: acreditam que a realidade é socialmente</p><p>construída, que não existe um problema de drogas e sim os governos</p><p>deixam parecer que existe para criar uma causa conveniente e desviar a</p><p>atenção dos cidadãos de questões mais importantes. O pânico moral</p><p>dispersaria o foco de outros problemas. As drogas são tratadas como efeito</p><p>e não causas de problemas sociais. Nessa linha, consideram que só resol-</p><p>veremos o problema com a solução da pobreza e das injustiças sociais.</p><p>(4) legalizadores progressivos: defendem acabar com a distinção entre</p><p>drogas licitas e ilícitas, que o Estado dispense as drogas para os depen-</p><p>dentes e que as leis sobre drogas sejam problemas a serem solucionados</p><p>pelo desaparecimento dessas próprias leis. Vêem o debate sobre drogas</p><p>como problema de Direitos Humanos. Ou seja, a sociedade deveria parar</p><p>de demonizar os usuários e de criminalizar a posse e uso das drogas ilícitas</p><p>por ser injusto, opressivo e desumano, um tipo de caça às bruxas que</p><p>penaliza o desafortunado. Defendem a redução de danos como uma forma</p><p>de cuidado com o usuário. A chave desse pensamento é a crença de que o</p><p>uso de drogas deveria ser regido como qualquer outro comportamento, pois</p><p>os usuários não são nem mais nem menos racionais em suas escolhas do</p><p>que qualquer outra pessoa.</p><p>A chamada "redução de danos" representa uma mala eclética cheia de</p><p>propostas políticas. No nível mais geral, defende a idéia de que, se não</p><p>podemos eliminar as drogas, pelo menos podemos diminuir os danos. A</p><p>reforma legal, portanto, não seria prioridade, mas sim a prática concreta. Os</p><p>que estão a favor ressaltam abertamente a tolerância com os usuários, o</p><p>que se transforma numa descriminalização de fato. Existem dilemas teóri-</p><p>cos e práticos nessa abordagem. Algumas questões permanecem sem</p><p>resposta: como medir a diminuição de um dano em relação a outro? Ao</p><p>diminuirmos o dano para alguns, não facilitamos o uso de muitos, aumen-</p><p>tando o numero de usuários? Nessa perspectiva, teremos menos crime e</p><p>mais usuários? E se essa política melhorar a vida dos usuários dependen-</p><p>tes e piorar a vida de outros, como fica a família dos próprios usuários? Se</p><p>quisermos diminuir os danos, por que não enfatizar a diminuição das dro-</p><p>gas legais, pois isso acarretaria maiores benefícios para a sociedade?</p><p>Ninguém pode ser contra a diminuição de danos provocados pelas</p><p>drogas, pois é exatamente isso que as políticas sobre o assunto buscam.</p><p>Como objetivo geral, a proposta é indiscutível. No entanto, não acreditamos</p><p>que a eventual diminuição do dano a alguns indivíduos possa produzir uma</p><p>diminuição global do dano.</p><p>É preciso tornar muito claro que o objetivo geral de uma política de re-</p><p>dução de danos deveria ser a redução total do uso de drogas. Para isso,</p><p>precisamos distinguir entre os planos micro e macro. De forma esquemáti-</p><p>ca, temos a equação: dano total das drogas = média de dano por usuário x</p><p>uso total. Em relação ao uso total, temos o numero de usuários e a quanti-</p><p>dade que cada um usa. A média de dano por usuário tem dois vetores, o</p><p>dano causado a si próprio e o dano causado a outros.</p><p>O exemplo da Suécia: restrição às drogas como cuidado social</p><p>O sistema de controle de drogas de um país é uma construção com-</p><p>plexa e na maioria das vezes controvertida. Desenvolve-se ao interior da</p><p>própria cultura, em dado momento histórico e é influenciado por políticas</p><p>sociais e legais. Esse controle se faz somente em parte através de leis e</p><p>está mais relacionado a sua aplicação que a sua letra. Além disso, a políti-</p><p>ca de saúde, de segurança social, de formas de manejo do desvio social e</p><p>os aparatos judiciários são todos intimamente conectados ao sistema de</p><p>controle.</p><p>O sistema de controle de drogas sueco é um dos mais debatidos nos</p><p>anos recentes porque difere em muito do que ocorre no mundo e na Euro-</p><p>pa, em particular. Ele é muito mais restritivo e o uso de drogas não é tole-</p><p>rado. Na realidade, em 1977 foi declarado que um dos objetivos do sistema</p><p>seria criar uma sociedade livre das drogas. Para a implementação desse</p><p>objetivo, quantidade substancial de dinheiro foi alocada na prevenção e</p><p>informação, na política de controle e no tratamento, os três pilares do</p><p>sistema. Os indicadores disponíveis mostram que o número de dependen-</p><p>tes químicos nesse país é relativamente muito mais baixo quando compa-</p><p>rado com os da Europa.</p><p>Para entendermos o modelo sueco, é essencial discutir suas bases i-</p><p>deológicas e científicas. Um autor influente nesse sentido foi Nils Bejerot6,</p><p>que fez distinção entre vários tipos de dependência, em especial do que</p><p>denominou "dependência epidêmica". Nesse conceito, ressaltava que</p><p>pessoas psicológica e socialmente instáveis, após influência direta de outro</p><p>dependente, começam a usar drogas que não são aceitas socialmente,</p><p>para obter euforia. Um ponto importante é o significado do termo "epidêmi-</p><p>co", que mostra o caráter de doença com incomum alta incidência no</p><p>tempo, no lugar e no envolvimento de pessoas. Além disso, Berejot7 inclui o</p><p>caráter de contágio, ou seja, o fato de um usuário influenciar o outro. Ele</p><p>considera que a epidemia do uso de substâncias tem alto grau de contágio</p><p>psicossocial em que a disponibilidade da substância é o fator mais impor-</p><p>tante no desenvolvimento das formas de abuso. Uma vez que se organiza</p><p>um grupo de usuários, cria-se uma subcultura da droga, o que contamina a</p><p>sociedade. Isso explica o termo "contágio psicossocial" ou "pressão grupal".</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 11</p><p>Esse contágio pode mesmo ser colocado numa fórmula "C=SxE, ou seja, o</p><p>contágio é função das suscetibilidades individuais e da exposição.</p><p>Para Bejerot7, a suscetibilidade individual é difícil de ser influenciada,</p><p>mas a exposição tem um papel importante nesse sentido. No seu ponto de</p><p>vista, a sociedade deveria restringir o acesso às drogas e isso fará efeito no</p><p>número de pessoas usando substâncias tóxicas. A política, portanto, deve-</p><p>ria olhar para o usuário, que é a parte central da "corrente das drogas", pela</p><p>sua influência direta em outros usuários. Os traficantes sempre serão</p><p>trocados por novos traficantes dispostos a correr os riscos do dinheiro fácil.</p><p>Os usuários, por outro lado, não deveriam ser repostos e sim ser conside-</p><p>rados como o motor do sistema de prevenção: "Nós temos que aceitar o</p><p>fato doloroso de que não faremos avanços decisivos a menos que o abuso</p><p>de substâncias, os usuários e a posse pessoal de drogas sejam colocados</p><p>no centro da nossa estratégia"3. Bejerot7 posicionase contra a repressão</p><p>pelo sistema legal, mas acredita que os usuários deveriam ser responsabili-</p><p>zados por seu comportamento.</p><p>Outro aspecto conceitual importante é o da hipótese de "porta de en-</p><p>trada", significando que a maconha levaria à experimentação de drogas</p><p>mais perigosas. Embora esse conceito seja objeto de grande debate cientí-</p><p>fico, o fato é que o uso da maconha pode ser considerado, no mínimo,</p><p>como fator de risco para a experimentação. Na realidade, um grande foco</p><p>da política sueca é a maconha e em como desestimular o seu consumo.</p><p>Vale a pena olhar historicamente para outro fator que influenciou a polí-</p><p>tica restritiva de drogas na Suécia: o desenvolvimento, por mais de um</p><p>século, de ações relacionadas ao uso de álcool. Desde o século XIX, a</p><p>Suécia adotou uma política repressiva, tendo como base a limitação de</p><p>disponibilidade de bebidas alcoólicas. Esse é um modelo de sucesso,</p><p>levando a que os suecos sejam o povo que menos consome álcool na</p><p>Europa. O modelo baseia-se no fato de que o consumo total do álcool</p><p>influencia o total de dano social causado pela substância. E sugere que,</p><p>quanto mais indivíduos</p><p>bebem numa sociedade, mais haverá bebedores</p><p>pesados. Portanto, do ponto de vista da saúde pública, a melhor opção é</p><p>manter o número menor possível de bebedores.</p><p>Esse modelo que mostra evidências de eficácia em relação ao álcool é</p><p>usado para as drogas. Como resultado, a política de drogas foca em limitar</p><p>o consumo total, começando com qualquer forma de experimentação.</p><p>Portanto, uma grande parte da prevenção nesse país baseia-se em preve-</p><p>nir a experimentação da maconha. Um grande debate nacional criou uma</p><p>percepção de risco bastante alto na população em relação a essa substân-</p><p>cia, tendo como consequência um baixo uso quando comparado com os</p><p>outros países europeus.</p><p>Embora o uso de drogas seja considerado socialmente inaceitável, o</p><p>objetivo da política não é punir os indivíduos. Ao receber cuidado e trata-</p><p>mento, o usuário deveria se tornar livre das drogas e ficar reabilitado e</p><p>reintegrado à sociedade. Por exemplo, se um indivíduo usa drogas em</p><p>público, será encaminhado por uma assistente social para tratamento, se</p><p>necessário, de forma compulsória. O país investe muito no tratamento para</p><p>dependentes.</p><p>Nos anos oitenta, houve uma mudança conceitual importante do siste-</p><p>ma, que passou a buscar reduzir a demanda de drogas na Suécia. O obje-</p><p>tivo não mais seria mais atacar os traficantes, mas os usuários, considera-</p><p>dos como a engrenagem do tráfico. O uso de drogas tornou-se criminaliza-</p><p>do. Essa abordagem potencialmente permitiu identificar novos usuários e</p><p>oferecer tratamento, o que, quando necessário, conta com ações do apara-</p><p>to policial. Na Suécia, existe uma boa relação dos policiais com a popula-</p><p>ção e 12% do tempo deles são gastos com problemas de usuários e uso de</p><p>substâncias. A força policial está focada no objetivo de ter uma sociedade</p><p>sem drogas. Em 1988, o uso de drogas tornou-se crime nesse país, mas a</p><p>penalidade para o uso não é a prisão, e sim, uma multa. Mais recentemen-</p><p>te, a pena aumentou para prisão de até seis meses e a polícia tem vários</p><p>meios a seu dispor para detectar o uso de drogas, mesmo que o indivíduo</p><p>não tenha cometido nenhum delito. Os exames de urina para detecção do</p><p>usuário são muito comuns e não parecem encontrar grande resistência por</p><p>parte da população. Um bom número de usuários, especialmente de ado-</p><p>lescentes, acaba indo para o sistema de tratamento dessa forma, não sem</p><p>antes pagar uma multa.</p><p>O sistema legal sueco tem três categorias de punição à infração em re-</p><p>lação às drogas: menor, normal e maior. Depende da droga e da quantida-</p><p>de apreendida. Quando alguém é identificado pelo teste de urina, recebe</p><p>uma multa. Quando, além do teste, a pessoa tem posse de pequenas</p><p>quantidades, a prisão até de até seis meses é uma opção, mas isso rara-</p><p>mente ocorre, pois a multa é a penalidade mais comum na primeira ou</p><p>segunda vez em que uma pessoa é flagrada. Um usuário apreendido várias</p><p>vezes provavelmente será condenado a um mês de prisão. Quando alguém</p><p>é apanhado vendendo drogas, será preso em todos os casos. Embora a lei</p><p>não faça grande distinção entre usuários e traficantes, na prática a diferen-</p><p>ça existe. As infrações consideradas maiores recebem pelo menos dois</p><p>anos de reclusão. A sentença máxima é de dez anos quando há posse de</p><p>mais de um quilo de heroína ou de dois quilos de cocaína. A quantidade de</p><p>drogas apreendidas por tráfico é relativamente baixa. A geografia do país</p><p>dificulta o acesso, mas, com certeza, a fiscalização também é outro fator</p><p>importante. Vale a pena salientar que existe uma grande pressão por parte</p><p>da opinião pública em reivindicar maior controle social e legal em relação às</p><p>drogas.</p><p>Como já citado, o objetivo da política sueca não é punir os usuários,</p><p>mas oferecer reabilitação. O tratamento é um dos três pilares do sistema.</p><p>Um conceito importante é o de "corrente de cuidado", que significa articula-</p><p>ção dos elementos no sistema de tratamento: atividades</p><p>de outreach (busca ativa de usuários), desintoxicação, cuidados ambulato-</p><p>riais e internação. Os assistentes sociais são muito importantes nesse</p><p>processo, pois são eles que fazem a busca ativa dos usuários e determi-</p><p>nam quem deve se submeter ao tratamento. Dois tipos de assistência são</p><p>disponibilizados: voluntário e involuntário, com grande diversidade de</p><p>técnicas. O sistema de comunidade terapêutica domina e não é incomum</p><p>um usuário ficar dois anos internado. No sistema compulsório, que é rara-</p><p>mente utilizado, a pessoa pode passar até seis meses e o principal objetivo</p><p>é motivá-la a se tornar voluntária no seu tratamento. A maioria do tratamen-</p><p>to involuntário ocorre com adolescentes recalcitrantes.</p><p>Uma grande mudança ocorreu no sistema de tratamento nos anos oi-</p><p>tenta, com o advento da aids. Diferente dos demais países europeus, a</p><p>Suécia não adotou a política de redução de danos. O governo decidiu que,</p><p>com o risco da aids, o melhor seria identificar rapidamente os usuários e</p><p>oferecer desintoxicação e tratamento imediato. Houve uma grande expan-</p><p>são do setor de tratamento. A temida epidemia nessa população de usuá-</p><p>rios não ocorreu.</p><p>Algumas considerações finais</p><p>Um dos aspectos a destacar nesse debate é que a utilização contínua</p><p>de qualquer substância psicoativa produz uma doença cerebral em decor-</p><p>rência do uso inicialmente voluntário. A consequência é que, a partir do</p><p>momento que a pessoa desenvolve uma doença chamada "dependência", o</p><p>uso passa a ser compulsivo e acaba destruindo as melhores qualidades da</p><p>própria pessoa, contribuindo para a desestabilização da sua relação com a</p><p>família e com a sociedade.</p><p>O uso de substancias altera mecanismos cerebrais responsáveis pelo</p><p>humor, pela memória, pela percepção, pelos estados emocionais e pelos</p><p>controles finos de vários comportamentos. O uso de drogas regular modifi-</p><p>ca a estrutura cerebral e pode demorar anos para voltar ao normal. Essas</p><p>modificações de vários circuitos cerebrais são responsáveis pelas distor-</p><p>ções cognitivas e emocionais que caracterizam as pessoas dependentes. É</p><p>como se o uso de drogas modificasse os circuitos de controle da motivação</p><p>natural, tornando esse uso quase como a única prioridade do indivíduo. A</p><p>maioria da comunidade de especialistas considera a dependência de dro-</p><p>gas uma doença cerebral com persistentes mudanças na estrutura e função</p><p>do cérebro.</p><p>A visão da dependência gera controvérsias principalmente entre as</p><p>pessoas com tendência a apresentar uma visão unidimensional para pro-</p><p>blemas complexos. Essas pessoas colocam a biologia como oposição à</p><p>mente do dependente, quando na realidade existe uma grande conexão</p><p>entre o cérebro e o comportamento. Isso não significa que o dependente</p><p>seja uma vítima indefesa e sem responsabilidade por seus atos. Na reali-</p><p>dade, o uso de substâncias começa com um ato voluntário e a pessoa tem</p><p>grande responsabilidade pelo seu comportamento e também pela sua</p><p>recuperação. Portanto, ter uma doença cerebral com essas características</p><p>não exime de responsabilidade o dependente. No entanto, o fato de ter</p><p>uma doença cerebral implica que muitas vezes é necessário tratamento</p><p>médico para se produzir uma mudança sólida de comportamento.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 12</p><p>Há grande dificuldade na análise dos resultados das políticas relacio-</p><p>nadas às drogas. Anos de debate internacional produziram poucas certezas</p><p>sobre a eficácia das políticas. Uma das poucas avaliações mais bem orga-</p><p>nizadas é proposta por MacCoun e Reuter7. Esses autores sustentam que</p><p>precisamos olhar as políticas de forma bem mais analítica e levando em</p><p>consideração a complexidade da situação, pois várias áreas se relacionam</p><p>de forma causal, como é o caso da cultura, da ação dos governos, das</p><p>diretrizes para confrontar o problema, da vontade dos indivíduos e do</p><p>impacto do uso.</p><p>Quatro aspectos precisam ser levados em conta quando analisamos a</p><p>política de drogas de um país: (1) vários fatores externos influenciam a</p><p>política: os tratados internacionais,</p><p>as políticas de saúde e de assistencial</p><p>social, os direitos individuais, a autoridade e a autonomia dos médicos e</p><p>outros; (2) os objetivos estabelecidos influenciam não somente as políticas</p><p>formais, mas também, sua implementação; (3) as políticas recebem influên-</p><p>cia simbólica que transcende à sua implementação -pessoas influentes</p><p>fazem declarações que atingem fortemente a legitimidade e a aderência</p><p>das ações; (4) as políticas formais e sua implementação recebem influência</p><p>direta dos danos percebidos socialmente pelo uso de drogas que podem</p><p>ser independentes do nível real do uso em determinada sociedade.</p><p>Avaliar a extensão do problema das drogas, portanto, vai além de sa-</p><p>ber o número de usuários de cada tipo. As drogas diferem em termos de</p><p>danos ao indivíduo e a sociedade. Também é necessário saber como são</p><p>consumidas; por exemplo, a cocaína cheirada produz um dano diferente do</p><p>que a fumada na forma de crack.</p><p>Existem duas visões claras na forma de lidar com as drogas: uma pro-</p><p>veniente da saúde pública e outra da justiça criminal. Devido ao fenômeno</p><p>da violência relacionado ao tráfico de drogas nos Estados Unidos, o país</p><p>escolheu o lado da justiça criminal para lidar com o problema, com todas as</p><p>implicações que isso acarreta. A Europa escolheu o lado da saúde pública,</p><p>muito embora haja grandes diferenças de abordagem entre os países. Por</p><p>exemplo, a Suíça convive com experimentos sociais alternativos para</p><p>usuários de heroína e uma das maiores taxas de encarceramento da Euro-</p><p>pa. A Suécia tem clara retórica antidrogas e leis consideradas duras, com</p><p>investimento muito maior do que qualquer outro país, inclusive que a Ho-</p><p>landa, na área de prevenção e tratamento. As escolhas são sempre influ-</p><p>enciadas por valores políticos e por definições do que constitui o problema.</p><p>Tecnologia e Educação</p><p>http://superdom.blogs.sapo.pt/</p><p>OsChats -umaferramentadidáctica</p><p>As Tecnologias da Informação e da Comunicação têm vindo a provocar</p><p>uma enorme mudança na Educação, originando novos modos de difusão</p><p>do conhecimento, de aprendizagem, e, particularmente, novas relações</p><p>entre professores e alunos.As pesadas enciclopédias foram substituídas</p><p>pelas enciclopédias digitais, pela consulta de portais acadêmicos e outros</p><p>locais diversificados. Passamos a utilizar sistemas electrónicos e apresen-</p><p>tações coloridas para tornar as aulas mais atrativas e, frequentemente,</p><p>deixamos de lado o tradicional quadro negro e o giz e passamos diretamen-</p><p>te para as superfícies e projeções interactivas.</p><p>A revolução originada pela Internet possibilita que a informação produ-</p><p>zida e disponibilizada em qualquer lugar esteja rapidamente disponível em</p><p>todo o Mundo, originando uma mudança nas práticas de comunicação e,</p><p>consequentemente, educacionais, em vários aspectos tais como na leitura,</p><p>na forma de escrever, na pesquisa e até como instrumento complementar</p><p>na sala de aula ou como estratégia de divulgar a informação, permitindo</p><p>tanto o ensino individualizado como o trabalho cooperativo e em grupo</p><p>entre alunos.</p><p>O computador por seu lado vem-se afirmando também pelo interesse</p><p>que causa nos alunos. Curiosos e entusiasmados para aprenderem a</p><p>mexer, eles ficam atentos a todo tipo de orientação e novidade relacionada</p><p>ao computador e a Internet. A informática tem, assim, o poder de entreter</p><p>mesmo aqueles alunos com dificuldades de comunicação e concentração.</p><p>Deste modo, educar no mundo de hoje é uma tarefa não só das escolas e</p><p>universidades, mas também da rede mundial de computadores.</p><p>Outra questão a ser considerada, é que neste novo sistema do mundo</p><p>tecnológico, o professor deixou definitivamente de ser o detentor de todo o</p><p>saber, para se afirmar como um orientador, um intermediário entre o aluno</p><p>e os conhecimentos que a Internet pode fornecer.</p><p>A passagem do papel do professor de veículo transportador de infor-</p><p>mação para o de condutor desse mesmo veículo reforça-lhe a importância,</p><p>se assumirmos a Internet como uma espécie de “território livre”, onde tudo</p><p>pode ser publicado. O discernimento da qualidade das fontes de informa-</p><p>ção e a análise da sua fidedignidade são deste modo papéis fundamentais</p><p>desempenhados pelo professor. A sua participação é crucial para orientar o</p><p>aluno evitando que ele incorra em erros ou se apoie em informações impre-</p><p>cisas. Para mim, este é um dos mais importantes papéis do professor no</p><p>contexto atual: oferecer aos alunos orientação para consultas e pesquisas,</p><p>aproveitando eficazmente as potencialidades da Internet.</p><p>Por outro lado o aparecimento de formatos comunicacionais mais ape-</p><p>lativos e abrangentes coloca nos pedagogos inquietações constantes no</p><p>sentido de transportarem para o território educativo - as redes sociais, os</p><p>fóruns, os chats e toda a diversidade interactiva hoje existente.</p><p>É neste contexto que experimentei transformar os chats em ferramenta</p><p>educacional. Assumindo o papel de orientador e despoletador das pesqui-</p><p>sas por parte dos alunos, constatei que os mesmos desenvolveram compe-</p><p>tências de pesquisa, tornando-se mais autónomos e colaborativos. O</p><p>procedimento é relativamente simples e disponível a qualquer docente. No</p><p>fundo trata-se de recorrer a um serviço de Chat, o que se consegue gratui-</p><p>tamente na Internet, e fazer com que o mesmo seja acessível a todos os</p><p>alunos de uma dada turma. Depois de todos estarem ligados no chat, o</p><p>docente coloca uma questão temática, os alunos procuram a resposta e</p><p>respondem igualmente por chat. Deste modo e em sequência cada aluno</p><p>vai poder responder ao docente e às questões que os colegas tenham</p><p>sugerido. Pode igualmente comentar as respostas dos colegas, assim</p><p>como pedir ajuda ou partilhar o encanto/estupefação pelo que acabou de</p><p>ler. A possibilidade de “em tempo real” enviar, aos restantes participantes,</p><p>as ligações para os sítios que visitou permite a troca de pontos de vistas</p><p>sobre um mesmo assunto. Depois de uma fase de teste em sala de aula,</p><p>esta metodologia permite que em situações de isolamento, por motivos de</p><p>saúde ou outros, o aluno possa permanecer em “contacto direto” com os</p><p>seus colegas de turma.</p><p>A tecnologia na educação sempre esteve presente como forma de</p><p>auxílio no processo tanto de aprendizagem quanto de ensino; desde em</p><p>aparelhos rudimentares como o ábaco aos computadores pessoais. Essas</p><p>tecnologias estão possibilitando não só novas formas de ensino através de</p><p>novos recursos, como também processos de aprendizagem diferente dos</p><p>tradicionais. A inserção da tecnologia na educação apresenta um evolução</p><p>tão grandiosa que chegou ao ponto da importância da figura física do</p><p>professor ser colocada em questionamento.</p><p>Tecnologia no método de ensino</p><p>O processo de ensino sofre constante mutação e sempre busca novas</p><p>soluções para tornar essa prática mais fácil, interativa e até mesmo diverti-</p><p>da para as pessoas. Muitas formas surgiram ao longo dos tempos, desde o</p><p>giz e o quadro-negro, passando por livros, cursos por correspondências,</p><p>rádio aula, tele aula, aulas através de mídias(videocassete, dvd's), projeto-</p><p>res, entre outras. Muitos desses métodos procuram contudo, também</p><p>atender as várias necessidades do aluno, como falta de tempo, local apro-</p><p>priado, facilidade de obtenção desses meios</p><p>Esses recursos foram bastante utilizados até o fim do século passado,</p><p>porém com a popularização dos computadores a metodologia de ensino,</p><p>principalmente nas escolas, teve uma grande mudança, pois eles auxiliam</p><p>os professores a ministrar suas matérias de forma mais dinâmica e divertida</p><p>e os alunos passaram a possuir novos meios de interação com a matéria.</p><p>Até mesmo a necessidade atual de dominar essa tecnologia levou muitas</p><p>escolas a colocar como obrigatória, aulas de informática.</p><p>Outra invenção de bastante impacto no processo de ensino foi a inter-</p><p>net, que passou a integrar os diversos meios de comunicação fazendo com</p><p>que as informações antes obtidas de diversas fontes possam agora serem</p><p>encontradas em um único</p><p>lugar de fácil acesso. Isso ajudou no processo de</p><p>'disseminação' do ensino, pois qualquer pessoa em qualquer lugar do</p><p>http://superdom.blogs.sapo.pt/</p><p>http://superdom.blogs.sapo.pt/</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 13</p><p>mundo pode obter o conhecimento sem necessitar do tradicional modelo de</p><p>ensino formal, através de instituições físicas como escolas e universidades.</p><p>Tecnologia na aprendizagem</p><p>Existem diversas teorias sobre a forma de aprendizagem, as principais</p><p>são:</p><p>behaviorismo: afirma ser o aprendizado uma troca de estímu-</p><p>los(provenientes do meio) e respostas(comportamento apresentado)1 . O</p><p>conhecimento pode ser adquirido não voluntariamente(condicionamento</p><p>respondente), como um reflexo das mudanças dos estímulos do meio, ou</p><p>voluntariamente(condicionamento operante) exigindo uma maior atividade</p><p>humana. Essa teoria foi proposta por John B. Watson no inicio do século</p><p>XX.</p><p>epistemologia genética: o aprendizado é uma combinação</p><p>de estruturas inerentes da pessoa e uma interação dela com o</p><p>objeto de estudo . Essa teoria foi proposta pelo suíço Jean Pia-</p><p>get em meados do século XX.</p><p>Essas teorias têm um tom mais psicológico e neurológico, porém exis-</p><p>tem teorias mais relacionadas com o lado pedagógico do aprendizado,</p><p>como no caso do educador e filósofo brasileiro Paulo Freire, afirmando que</p><p>o indivíduo aprenderia o objeto de estudo através de uma continua troca de</p><p>questionamentos e respostas com a realidade, trilhando o seu próprio</p><p>caminho e rumo de aprendizado, pois o processo de aprendizagem não</p><p>trata-se apenas de uma repetição, mas também de um processo de cons-</p><p>trução e reconstrução fazendo possível, dessa forma, constatar as mudan-</p><p>ças propostas . Essa teoria levou a constatação de que cada pessoa a-</p><p>prende de forma diferente e da maneira que mais a agrada. Apesar de</p><p>ainda válidas, essas teorias vêm se adaptando aos moldes da sociedade</p><p>atual. Existe uma trabalho atual realizado pelo norte americano Salman</p><p>Khan denominada Khan Academy, um site onde ele posta vários videos</p><p>sobre os mais variados assuntos dando assim a possibilidade da pessoa</p><p>escolher não só o assunto a ser estudado, como a hora e lugar mais apro-</p><p>priados para o seu aprendizado, que se assemelha bastante com a idéia</p><p>proposta por Paulo Freire. A inovação proposta por Khan não foi só a</p><p>disponibilização de vídeos tutoriais, pois essa ideia já existia, mas a junção</p><p>dos vídeos com exercícios propostos que utilizam um técnica chama-</p><p>da gamification. Essa técnica busca trazer elementos de games como uma</p><p>forma de estímulo e para uma melhor compreensão do assunto a ser</p><p>aprendido. No caso da Khan Academy, ela funciona propondo desafios ao</p><p>aluno, chamados módulos, e a medida que os assuntos são dominados,</p><p>são fornecidas recompensas e sugeridos novos desafios com um nível</p><p>maior de dificuldade. O avanço nesses desafios refletem a velocidade de</p><p>aprendizado assim como o estado de maturação em que o aluno se encon-</p><p>tra. Os resultados obtidos nesses desafios são colocados como dados</p><p>gráficos para a visualização não só do aluno mas também do professor ou</p><p>até mesmo os pais do aluno. Essa metodologia proposta pela Khan Aca-</p><p>demy não se limitou apenas a internet e está atualmente sendo realizada</p><p>como teste em uma escola em Los Altos, São Francisco. Técnicas como</p><p>o gamification são cada vez mais estudadas por psicólogos como alternati-</p><p>vas viáveis no processo de aprendizagem.</p><p>2. Formas de organização social, movimentos sociais, pensa-</p><p>mento político e ação do Estado.</p><p>2.1. Movimentos sociais na era da internet.</p><p>2.2 Conselhos de políticas públicas.</p><p>2.3. Instrumentos de participação e controle social.</p><p>Sociologia</p><p>Disciplina que se distingue das demais ciências sociais pela abrangên-</p><p>cia de seu objeto, a sociologia busca conhecer, mediante métodos científi-</p><p>cos, a totalidade da realidade social como tal, sem proposta de transforma-</p><p>ção.</p><p>Sociologia é a ciência que estuda a natureza, causas e efeitos das re-</p><p>lações que se estabelecem entre os indivíduos organizados em sociedade.</p><p>Assim, o objeto da sociologia são as relações sociais, as transformações</p><p>por que passam essas relações, como também as estruturas, instituições e</p><p>costumes que têm origem nelas. A abordagem sociológica das relações</p><p>entre os indivíduos distingue-se da abordagem biológica, psicológica,</p><p>econômica e política dessas relações. Seu interesse focaliza-se no todo</p><p>das interações sociais e não em apenas um de seus aspectos, cada um</p><p>dos quais constitui o domínio de uma ciência social específica. As preocu-</p><p>pações de ordem normativa são estranhas à sociologia e não lhe cabe a</p><p>aplicação de soluções para problemas sociais ou a responsabilidade pelas</p><p>reformas, planejamento ou adoção de medidas que visem à transformação</p><p>das condições sociais.</p><p>Vários obstáculos impediram a constituição da sociologia como ciência,</p><p>desde que ela surgiu, no século XIX. Entre os mais importantes citam-se a</p><p>inexistência de terminologia clara e precisa; a tendência a subjetivar os</p><p>fatos sociais; a multiplicidade de temas de seu interesse e aplicação; as</p><p>afinidades partilhadas com outras ciências sociais; a dificuldade de experi-</p><p>mentação, já que os elementos com que lida são seres humanos; e a</p><p>proliferação de métodos, técnicas e escolas que tentaram elaborar uma</p><p>teoria sociológica unificada como instrumento adequado de análise, descri-</p><p>ção e interpretação dos fenômenos sociais.</p><p>Antecedentes. O interesse pelos fenômenos sociais já existia na Grécia</p><p>antiga, onde foram estudados pelos sofistas. Os filósofos gregos, porém,</p><p>não elaboraram uma ciência sociológica autônoma, já que subordinaram</p><p>os fatos sociais a exigências éticas e didáticas. Assim, a contribuição grega</p><p>à sociologia foi apenas indireta.</p><p>Um pensamento social existiu na Idade Média, mas sob uma forma</p><p>não-sistemática de raciocínio e análise dos fenômenos sociais, pois se</p><p>baseava na especulação e não na investigação objetiva dos fatos. Além</p><p>disso, nesse período anulou-se a distinção entre as leis da natureza e as</p><p>leis humanas e impôs-se a concepção da ordem natural e social como</p><p>decorrência da vontade divina, que não seria passível de transformação.</p><p>Assim, eivado de conotações ideológicas, éticas e religiosas, o pensamento</p><p>social medieval pouco evoluiu.</p><p>As profundas modificações econômicas, sociais e políticas ocorridas na</p><p>sociedade européia nos séculos XVIII e XIX, em decorrência da revolução</p><p>industrial, permitiram o surgimento do capitalismo e libertaram pensamento</p><p>dos dogmas medievais. Assim, as ciências naturais e humanas fizeram</p><p>rápidos progressos.</p><p>Os principais antecedentes da sociologia são a filosofia política, a filo-</p><p>sofia da história, as teorias biológicas da evolução e os movimentos pelas</p><p>reformas sociais e políticas, que ensaiaram um levantamento das condi-</p><p>ções sociais vigentes na época. Nos primórdios da sociologia, foram mais</p><p>influentes a filosofia da história e os movimentos reformistas.</p><p>A história permitiu o acesso ao conhecimento de dados objetivos sobre</p><p>a sociedade, acumulados ao longo do tempo. Além disso, a evolução da</p><p>historiografia contribuiu em parte para o aperfeiçoamento dos métodos</p><p>empíricos de compilação de dados e a análise dos fatos sociais. Em rela-</p><p>ção aos movimentos reformistas, a sociologia partilhou com eles sua preo-</p><p>cupação com os problemas sociais e não mais aceitou como fato natural</p><p>condições como a pobreza, seqüela da industrialização. Incorporou tam-</p><p>bém os procedimentos dos reformistas, que se basearam nos métodos das</p><p>ciências naturais para fazer levantamentos sociais, numa tentativa de</p><p>classificar e quantificar os fenômenos sociais.</p><p>A pré-história da sociologia situa-se, assim, num período aproximado</p><p>de cem anos, de 1750 a 1850, entre a publicação de L'Esprit des lois (O</p><p>espírito das leis), de Montesquieu, e a formulação das teorias de Auguste</p><p>Comte e Herbert Spencer. Sua constituição como</p><p>ciência ocorreu na se-</p><p>gunda metade do século XIX.</p><p>O termo sociologia foi consagrado por Auguste Comte na obra Cours</p><p>de philosophie positive (1839; Curso de filosofia positiva), em que batizou a</p><p>nova "ciência da sociedade" e tentou definir seu objeto. No entanto, a</p><p>palavra sociologia continuou suscetível de inúmeras interpretações e defini-</p><p>ções no que diz respeito à delimitação de seu objeto, pois cada escola</p><p>sociológica criou suas próprias definições, de acordo com as perspectivas</p><p>teóricas, filosóficas e metodológicas adotadas. Todas essas definições, no</p><p>entanto, partilhavam um substrato comum: o estudo das relações e intera-</p><p>ções humanas.</p><p>Abrangência. As ciências sociais se constituem a partir de dois pilares:</p><p>a teoria e o método. A teoria se ocupa dos princípios, conceitos e generali-</p><p>zações; o método proporciona os instrumentos necessários para a pesqui-</p><p>sa científica dos fenômenos sociais.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 14</p><p>A sociologia subdivide-se em disciplinas especializadas: a sociologia</p><p>do conhecimento, da família, dos meios rurais e urbanos, da religião, da</p><p>educação, da cultura etc. A essa lista seria possível acrescentar um sem-</p><p>número de novas especializações, como a sociologia da vida cotidiana, do</p><p>teatro, do esporte etc., já que os interesses do pesquisador se orientam</p><p>para a compreensão e explicação sistemática, mediante a utilização das</p><p>teorias e dos métodos mais adequados, dos aspectos sociais de todos os</p><p>setores e atividades da vida humana.</p><p>Teorias sociológicas. Na sociologia, a teoria é o instrumento de enten-</p><p>dimento da realidade, dentro da qual se enunciam as leis gerais. Difere, por</p><p>isso, da doutrina social, de cunho normativo e ideológico, e a ela se opõe.</p><p>As teorias sociológicas enunciadas ao longo dos séculos XIX e XX cen-</p><p>tralizaram-se em algumas questões básicas. Entre elas distinguem-se a</p><p>determinação do que representam a sociedade e a cultura; a fixação de</p><p>unidades elementares para seu estudo; a especificação dos fatores que</p><p>condicionam sua estabilidade ou sua mudança; a descoberta das relações</p><p>que mantêm entre si e com a personalidade; a delimitação de um campo; e</p><p>a especificação de um objeto e de métodos de estudos próprios à sociolo-</p><p>gia.</p><p>O desenvolvimento da teoria sociológica pode ser analisado de acordo</p><p>com três grandes temas: os tipos de generalização empregados, os concei-</p><p>tos e esquemas de classificação e os tipos de explicação.</p><p>São seis os tipos de generalização geralmente aceitos: (1) correlações</p><p>empíricas entre fenômenos sociais concretos; (2) generalizações das</p><p>condições sob as quais surgem as instituições e outras formas sociais; (3)</p><p>generalizações que afirmam que as mudanças que determinadas institui-</p><p>ções experimentam estão regularmente associadas às mudanças que</p><p>ocorrem em outras instituições; (4) generalizações sobre a existência de</p><p>repetições rítmicas de vários tipos; (5) generalizações que enumeram as</p><p>principais tendências evolutivas da humanidade; e (6) elaboração de leis</p><p>sobre as repercussões e hipóteses relacionadas ao comportamento huma-</p><p>no.</p><p>A sociologia se mostrou mais fecunda no campo da elaboração de</p><p>conceitos e esquemas de classificação. No entanto, e apesar de terem sido</p><p>criados muitos conceitos, as definições existentes continuam ainda insatis-</p><p>fatórias, o que impede a classificação adequada das sociedades, dos</p><p>grupos e das relações sociais, assim como o descobrimento de conceitos</p><p>centrais que permitam a elaboração de uma teoria sistemática. Verifica-se</p><p>que numerosos conceitos foram utilizados com significados distintos por</p><p>diferentes sociólogos. Mais ainda, tentativas recentes de aperfeiçoar a base</p><p>da conceituação atribuíram importância excessiva à definição do conceito e</p><p>relegaram a segundo plano sua finalidade fundamental, a utilização.</p><p>As teorias de explicação dividem-se em dois tipos principais, a causal e</p><p>a teleológica. A primeira, que seria uma ciência natural da sociedade,</p><p>indaga o porquê dos fenômenos sociais, qual a causa de sua ocorrência. A</p><p>segunda indaga a finalidade dos fenômenos sociais, com que objetivo eles</p><p>ocorrem, e tenta interpretar o comportamento humano em termos de propó-</p><p>sitos e significados.</p><p>Métodos sociológicos. Distinguem-se sete métodos na sociologia: his-</p><p>tórico, comparativo, funcional, formal ou sistemático, compreensivo, estatís-</p><p>tico e monográfico. O método histórico ocupa-se do estudo dos aconteci-</p><p>mentos, processos e instituições das civilizações passadas para proceder à</p><p>identificação e explicação das origens da vida social contemporânea.</p><p>O método comparativo, considerado durante muito tempo o método so-</p><p>ciológico por excelência porque permitia a realização de correlações tanto</p><p>restritas como gerais, estabelece comparações entre diversos tipos de</p><p>grupos e fenômenos sociais com o fim de descobrir diferenças e semelhan-</p><p>ças.</p><p>O método funcional estuda os fenômenos sociais do ponto de vista de</p><p>suas funções. O sistema social total de uma comunidade seria integrado</p><p>por diversas partes inter-relacionadas e interdependentes e cada uma delas</p><p>desempenharia uma função necessária à vida do conjunto. Nessa aborda-</p><p>gem são evidentes as analogias entre a sociedade e um organismo, o que</p><p>levou seus partidários a tentativas de diferenciar o funcionamento normal</p><p>das instituições e sistemas sociais de seu funcionamento patológico.</p><p>O método formal, ou sistemático, analisa as relações sociais existentes</p><p>entre os indivíduos, sobretudo no que diz respeito às diversas formas que</p><p>essas relações podem assumir independentemente de seu conteúdo. Em</p><p>completa oposição ao formal, o método compreensivo atribui uma impor-</p><p>tância fundamental ao significado e aos motivos das ações sociais, isto é, a</p><p>seu conteúdo. O método estatístico enfatiza a medição matemática dos</p><p>fenômenos sociais. No entanto, como a maior parte dos dados sociológicos</p><p>é do tipo qualitativo, não se pode adotar tratamento estatístico rígido.</p><p>Por último, o método monográfico centraliza-se no estudo aprofundado</p><p>de casos particulares: um grupo, uma comunidade, uma instituição ou um</p><p>indivíduo. Cada um dos objetos de estudo deve necessariamente represen-</p><p>tar vários outros para que seja possível estabelecer generalizações.</p><p>Técnicas sociológicas. Antes de mais nada, é preciso estabelecer a di-</p><p>ferença entre métodos e técnicas sociológicas. Os métodos representam</p><p>uma opção estratégica e não devem ser confundidos com os objetivos da</p><p>investigação, enquanto as técnicas constituem níveis de etapas práticas de</p><p>operação limitada, ligadas a elementos concretos e adaptadas a uma</p><p>finalidade determinada. O método é, portanto, uma concepção intelectual</p><p>que coordena um conjunto de técnicas.</p><p>Entre as principais técnicas utilizadas na investigação sociológica figu-</p><p>ram as entrevistas, as experiências de grupo, as histórias de vida ou de</p><p>caso e os formulários ou questionários, que podem ser de tipo fechado, que</p><p>oferecem alternativas prévias de resposta, ou aberto, que permitem ao</p><p>entrevistado uma liberdade maior de expressão. Tais técnicas não são</p><p>necessariamente excludentes, pois permitem a utilização simultânea e</p><p>complementar.</p><p>Principais correntes sociológicas. De acordo com as classificações ge-</p><p>ralmente aceitas, são cinco as correntes principais da sociologia: organi-</p><p>cismo positivista, teorias do conflito, formalismo, behaviorismo social e</p><p>funcionalismo.</p><p>Organicismo positivista. Primeira construção teórica importante surgida</p><p>na sociologia, nasceu da hábil síntese que Comte fez do organicismo e do</p><p>positivismo, duas tradições intelectuais contraditórias.</p><p>O organicismo representa uma tendência do pensamento que constrói</p><p>sua visão do mundo sobre um modelo orgânico e tem origem na filosofia</p><p>idealista. O positivismo, que fundamenta a interpretação do mundo exclusi-</p><p>vamente na experiência, adota como ponto de partida a ciência natural e</p><p>tenta aplicar seus métodos no exame dos fenômenos</p><p>sociais. Assim, os</p><p>primeiros conceitos da nova disciplina foram elaborados de acordo com</p><p>analogias orgânicas, três das quais são fundamentais para a compreensão</p><p>dessa corrente sociológica: (1) o conceito teleológico da natureza, que</p><p>implica uma postura fatalista, já que as metas a serem alcançadas estão</p><p>predeterminadas, o que impede qualquer tentativa de alterá-las; (2) a idéia</p><p>segundo a qual a natureza, a sociedade e todos os demais conjuntos</p><p>existentes perdem vida ao serem analisados e por isso não se deve intervir</p><p>em tais conjuntos. Essa noção leva, em conseqüência, à adoção de uma</p><p>atitude de laissez-faire; e (3) a crença de que a relação existente entre as</p><p>diversas partes que compõem a sociedade é semelhante à relação que</p><p>guardam entre si os órgãos de um organismo vivo.</p><p>Os fundadores da nova disciplina adaptaram essa síntese ao ambiente</p><p>social e intelectual de seus países: Auguste Comte, na França, Herbert</p><p>Spencer, no Reino Unido, e Lester Frank Ward, nos Estados Unidos. Os</p><p>três eram partidários da divisão da sociologia em duas grandes partes,</p><p>estática e dinâmica, embora tenham atribuído importância maior à primeira.</p><p>Algumas diferenças profundas, porém, marcaram seus pontos de vista.</p><p>Comte propôs, para o estudo dos fenômenos sociais, o método positi-</p><p>vo, que exige a subordinação dos conceitos aos fatos e a aceitação da</p><p>idéia segundo a qual os fenômenos sociais estão sujeitos a leis gerais,</p><p>embora admita que as leis que governam os fenômenos sociais são menos</p><p>rígidas do que as que regulamentam o biológico e o físico. Comte dividiu a</p><p>sociologia em duas grandes áreas, a estática, que estuda as condições de</p><p>existência da sociedade, e a dinâmica, que estuda seu movimento contí-</p><p>nuo. A principal característica da estática é a ordem harmônica, enquanto a</p><p>da dinâmica é o progresso, ambas intimamente relacionadas. O fator pre-</p><p>ponderante do progresso é o desenvolvimento das idéias, mas o cresci-</p><p>mento da população e sua densidade também são importantes. Para evolu-</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 15</p><p>ir, o indivíduo e a sociedade devem atravessar três etapas: a teológica, a</p><p>metafísica e a positiva.</p><p>Comte não aceitou o método matemático e propôs a utilização da ob-</p><p>servação, da experimentação, da comparação e do método histórico. Para</p><p>Comte, a sociedade era um organismo no qual a ordem não se realiza</p><p>apenas automaticamente; é possível estabelecer uma ordem planejada,</p><p>baseada no conhecimento das leis sociais e de sua aplicação racional a</p><p>problemas e situações concretas.</p><p>Spencer, o segundo grande pioneiro, negou a possibilidade de atingir o</p><p>progresso pela interferência deliberada nas relações entre o indivíduo e a</p><p>sociedade. Para ele, a lei universal do progresso é a passagem da homo-</p><p>geneidade para a heterogeneidade, isto é, a evolução se dá pelo movimen-</p><p>to das sociedades simples (homogêneas), para os diversos níveis das</p><p>sociedades compostas (heterogêneas). Individualista e liberal, partidário do</p><p>laissez-faire, Spencer deu mais ênfase às concepções evolucionistas e</p><p>usou com largueza analogias orgânicas. Distinguiu três sistemas principais:</p><p>de sustentação, de distribuição e regulador. As instituições são as partes</p><p>principais da sociedade, isto é, são os órgãos que compõem os sistemas.</p><p>Seu individualismo expressou-se numa das diferenças que apontou: en-</p><p>quanto no organismo as partes existem em benefício do todo, na sociedade</p><p>o todo existe apenas em benefício do individual.</p><p>Ward compartilhou das idéias de Spencer e Comte mas não incorreu</p><p>em seus extremos -- individualismo e conservadorismo utópico. Deu grande</p><p>ênfase, porém, ao aperfeiçoamento das condições sociais pela aplicação</p><p>de métodos científicos e a elaboração de planos racionais, concebidos</p><p>segundo uma imagem ideal da sociedade.</p><p>Depois da fase dos pioneiros, surgiu o chamado período clássico do</p><p>organicismo positivista, caracterizado por uma primeira etapa, em que a</p><p>biologia exerceu influência muito forte, e uma segunda etapa em que pre-</p><p>dominou a preocupação com o rigor metodológico e com a objetividade da</p><p>nova disciplina.</p><p>O organicismo biológico, inspirado nas teorias de Charles Darwin, con-</p><p>siderava a sociedade como um organismo biológico em sua natureza,</p><p>funções, origem, desenvolvimento e variações. Segundo essa corrente,</p><p>praticamente extinta, o que é válido para os organismos é aplicado aos</p><p>grupos sociais. A segunda etapa clássica do organicismo positivista, tam-</p><p>bém chamada de sociologia analítica, foi marcada por grandes preocupa-</p><p>ções metodológicas e teve em Ferdinand Tönnies, Émile Durkheim e Ro-</p><p>bert Redfield seus expoentes máximos.</p><p>Para Tönnies, a sociedade e as relações humanas são fruto da vonta-</p><p>de humana, manifesta nas interações. O desenvolvimento dos atos indivi-</p><p>duais permite o surgimento de uma vontade coletiva. A Tönnies deve-se a</p><p>distinção fundamental entre "sociedade" e "comunidade", duas formas</p><p>básicas de grupos sociais que surgem de dois tipos de desejo, o natural e o</p><p>racional. Segundo Tönnies, não são apenas tipos de grupos mas também</p><p>etapas genéticas -- a comunidade evolui para a sociedade.</p><p>O núcleo organicista da obra de Durkheim encontra-se na afirmação</p><p>segundo a qual uma sociedade não é a simples soma das partes que a</p><p>compõem, e sim uma totalidade sui generis, que não pode ser diretamente</p><p>afetada pelas modificações que ocorrem em partes isoladas. Surge assim o</p><p>conceito de "consciência coletiva", que se impõe aos indivíduos. Para</p><p>Durkheim, os fatos sociais são "coisas" e como tal devem ser estudados.</p><p>Provavelmente o sociólogo que mais se aproximou de uma teoria sis-</p><p>temática, Durkheim deixou uma obra importante também do ponto de vista</p><p>metodológico, pela ênfase que deu ao método comparativo, segundo ele o</p><p>único capaz de explicar a causa dos fenômenos sociais, e pelo uso do</p><p>método funcional. Afirmou que não basta encontrar a causa de um fato</p><p>social; é preciso também determinar a função que esse fato social vai</p><p>preencher. Sociólogos posteriores, como Marcel Mauss, Claude Lévi-</p><p>Strauss e Mikel Duffrenne, retomaram de forma atenuada o realismo socio-</p><p>lógico de Durkheim.</p><p>Um dos principais teóricos do organicismo positivista, Redfield analisou</p><p>a diferença existente entre as sociedades consideradas em sua totalidade e</p><p>sugeriu a utilização da dicotomia sagrado/secular. Em suas análises utili-</p><p>zou, de forma mais avançada e profunda, a grande tipologia do organicismo</p><p>positivista clássico, basicamente sociedade/comunidade, e suas diversas</p><p>configurações.</p><p>Teorias do conflito. Segunda grande construção do pensamento socio-</p><p>lógico, surgida ainda antes que o organicismo tivesse alcançado sua matu-</p><p>ridade, a teoria do conflito conferiu à sociologia uma nova dimensão da</p><p>realidade. A partir de seus pressupostos, o problema das origens e do</p><p>equilíbrio das sociedades perdeu importância diante dos significados atribu-</p><p>ídos aos mecanismos de conflito e de defesa dos grupos e da função de</p><p>ambos na organização de formas mais complexas de vida social. O grupo</p><p>social passou a ser concebido como um equilíbrio de forças e não mais</p><p>como uma relação harmônica entre órgãos, não-suscetíveis de interferência</p><p>externa.</p><p>Antes mesmo de ser adotada pela sociologia, a teoria do conflito já ha-</p><p>via obtido resultados de grande importância em outras áreas que não as</p><p>especificamente sociológicas. É o caso, por exemplo, da história; da eco-</p><p>nomia clássica, em especial sob a influência de Adam Smith e Robert</p><p>Malthus; e da biologia nascida das idéias de Darwin sobre a origem das</p><p>espécies. Dentro dessas teorias, cabe destacar o socialismo marxista, que</p><p>representava uma ideologia do conflito defendida em nome do proletariado,</p><p>e o darwinismo social, representação da ideologia elaborada em nome das</p><p>classes superiores da sociedade e baseada na defesa de uma política</p><p>seletiva e eugênica. Ambas enriqueceram a sociologia com novas perspec-</p><p>tivas teóricas.</p><p>Os principais teóricos do</p><p>darwinismo social foram o polonês Ludwig</p><p>Gumplowicz, que explicava a evolução sociocultural mediante o conflito</p><p>entre os grupos sociais; o austríaco Gustav Ratzenhofer, que utilizou a</p><p>noção do choque de interesses para explicar a formação dos processos</p><p>sociais; e os americanos William Graham Sumner e Albion Woodbury</p><p>Small, para os quais a base dos processos sociais residia na relação entre</p><p>a natureza, os indivíduos e as instituições.</p><p>O darwinismo social assumiu conotações claramente racistas e sectá-</p><p>rias. Entre suas premissas estão a de que as atividades de assistência e</p><p>bem-estar social não devem ocupar-se dos menos favorecidos socialmente</p><p>porque estariam contribuindo para a destruição do potencial biológico da</p><p>raça. Nesse sentido, a pobreza seria apenas a manifestação de inferiorida-</p><p>de biológica.</p><p>Formalismo. A terceira corrente teórica do pensamento sociológico,</p><p>que definiu a sociologia como o estudo das formas sociais, independente</p><p>de seu conteúdo, legou à sociologia um detalhado estudo sobre os aconte-</p><p>cimentos e as relações sociais. Para o formalismo, as comparações devem</p><p>ser feitas entre as relações que caracterizam qualquer sociedade ou institu-</p><p>ição, como, por exemplo, as relações entre marido e mulher ou entre patrão</p><p>e empregado, e não entre sociedades globais, ou entre instituições de</p><p>diferentes sociedades. O interesse pela comparação entre relações permi-</p><p>tiu à sociologia alcançar um nível mais amplo de generalização e conferiu</p><p>maior importância ao indivíduo do que às sociedades globais. Essa segun-</p><p>da característica abriu caminho para o surgimento da psicologia social.</p><p>Os dois ramos principais dessa corrente são o formalismo neokantiano</p><p>e o fenomenológico. O primeiro, baseado na divisão kantiana do conheci-</p><p>mento dos fenômenos em duas classes -- o estudo das formas, considera-</p><p>das a priori como certas, e dos conteúdos, que seriam apenas contingentes</p><p>-- teve grandes teóricos nos alemães Georg Simmel, interessado em de-</p><p>terminar as condições que tornam possível o surgimento da sociedade, e</p><p>Leopold von Wiese, que renovou a divisão kantiana entre forma e conteúdo</p><p>quando a substituiu pela idéia de relação.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 16</p><p>Em oposição à interpretação positivista e objetiva do formalismo kanti-</p><p>ano, o ramo fenomenológico contribuiu com uma perspectiva subjetivista.</p><p>Concentrou-se não nas formas ou relações que a priori determinam o</p><p>surgimento de uma sociedade e sim nas condições sociopsicológicas que a</p><p>tornam possível. Tem grande importância, portanto, o estudo dos dados</p><p>cognitivos, isto é, das essências que podem ser diretamente intuídas, para</p><p>cuja análise o filósofo alemão Edmund Husserl propôs um método de</p><p>redução a fim de alcançar diversos níveis de profundidade.</p><p>Behaviorismo social. Surgida entre 1890 e 1910, o behaviorismo social</p><p>se dividiu em três grandes ramos -- behaviorismo pluralista, interacionismo</p><p>simbólico e teoria da ação social -- e legou à sociologia preciosas contribui-</p><p>ções metodológicas. O behaviorismo pluralista, formado a partir da escola</p><p>de imitação-sugestão representada pelo francês Gabriel Tarde, centralizou-</p><p>se na análise dos fenômenos de massas e atribuiu grande importância ao</p><p>conceito de imitação para explicar os processos e interações sociais, en-</p><p>tendidos como repetição mecânica de atos.</p><p>Os americanos Charles Horton Cooley, George Herbert Mead e Char-</p><p>les Wright Mills são alguns dos teóricos do interacionismo simbólico que, ao</p><p>contrário do movimento anterior, centralizou-se no estudo do eu e da per-</p><p>sonalidade, assim como nas noções de atitude e significado para explicar</p><p>os processos sociais.</p><p>O alemão Max Weber foi o expoente máximo do terceiro movimento do</p><p>behaviorismo, a teoria da ação social. Com seu original método de "cons-</p><p>trução de tipos sociais", instrumento de análise para estudo de situações e</p><p>acontecimentos históricos concretos, exerceu poderosa influência sobre</p><p>numerosos sociólogos posteriores.</p><p>Funcionalismo. A reformulação do conceito de sistema foi o centro de</p><p>todas as interpretações que constituem a contribuição do funcionalismo,</p><p>última grande corrente do pensamento sociológico e integrada por dois</p><p>importantes ramos: o macrofuncionalismo, derivado do organicismo socio-</p><p>lógico e da antropologia, e o microfuncionalismo, inspirado nas teorias da</p><p>escola psicológica da Gestalt e no positivismo. Entre os adeptos do funcio-</p><p>nalismo estão os antropólogos culturais Bronislaw Malinowski e A. R.</p><p>Radcliffe-Brown.</p><p>O macrofuncionalismo se caracteriza pela unidade orgânica que consi-</p><p>dera fundamental: os esquemas em larga escala. Foi o italiano Vilfredo</p><p>Pareto quem permitiu a transição entre o organicismo e o funcionalismo,</p><p>quando concebeu o conceito de sistema, conferindo-lhe correta formulação</p><p>abstrata. A forma da sociedade, segundo ele, é determinada pela interação</p><p>entre os elementos que a compõem e a interação desses elementos com o</p><p>todo, o que implica a existência de uma determinação recíproca entre</p><p>diversos elementos: a introdução de qualquer mudança provoca uma</p><p>reação cuja finalidade é a recuperação do estado original (noção de equilí-</p><p>brio sistêmico).</p><p>O microfuncionalismo desenvolveu-se na área de análise dos grupos</p><p>em sua dinâmica e não na área do estudo da sociedade como um sistema.</p><p>O americano Kurt Lewin, com a teoria sobre os "campos dinâmicos", con-</p><p>juntos de fatos físicos e sociais que determinam o comportamento de um</p><p>indivíduo na sociedade, abriu novos caminhos para o estudo dos grupos</p><p>humanos. ©Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.</p><p>Organização social.</p><p>Expressão que se refere ao sistema político-social de um povo. Desig-</p><p>na também qualquer associação que obedece a determinada doutrina</p><p>política, social, ética e econômica, com finalidades diversas.</p><p>O que é Organizaçã Social?</p><p>Organização social, segundo Raymond Firth, consiste na ordenação sis-</p><p>temática de relações sociais pelos atos da escolha e da decisão. A partir de</p><p>uma organização social os indivíduos fazem escolhas baseando-se nas</p><p>normas da estrutura social.</p><p>A organização social diz respeito à forma como os homens se relacio-</p><p>nam através de suas ações</p><p>Na compreensão de uma sociedade, para além da análise de sua estru-</p><p>tura social (a qual consiste na forma como esta se estrutura, nas funções</p><p>necessárias para aquele grupo, nas posições sociais e papéis sociais que</p><p>estão dispostos conforme privilégios e deveres), é preciso compreender sua</p><p>organização. Segundo Raymond Firth, em artigo publicado no livro Homem</p><p>e Sociedade, organizado por Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni, a</p><p>"organização social implica algum grau de unificação, ou união de diversos</p><p>elementos numa relação comum” (IANNI, 1973, p. 41). A ideia de organiza-</p><p>ção social está ligada ao processo social, à ideia de mudança, de arranjo do</p><p>comportamento dos indivíduos na construção da vida social.</p><p>Dentro de uma organização social os indivíduos podem tomar decisões</p><p>e fazer escolhas tendo como referência as normas dadas pela estrutura</p><p>social, concordando ou não com os valores grupais, com as convenções.</p><p>Contudo, como se sabe, aqueles que fogem à regra podem sofrer pressões.</p><p>Ao mesmo tempo, quando um comportamento se torna mais frequente,</p><p>deixa de ser exceção para se tornar regra. Como exemplo, basta pensarmos</p><p>nas mudanças do papel social exercido pela mulher em sua posição de</p><p>esposa. Se outrora era apenas alguém do lar, hoje pode assumir funções</p><p>profissionais fora de casa, o que certamente afetou a organização da socie-</p><p>dade (principalmente a ocidental) nas últimas décadas. A organização social</p><p>diz respeito à forma como os homens se relacionam através de suas ações,</p><p>levando em consideração aspectos como: período de tempo, responsabili-</p><p>dade e representatividade com os grupos, riqueza, a camada social na qual</p><p>estão inseridos, enfim, entre uma sorte de outros aspectos que podem</p><p>contribuir</p><p>para marcar a posição social do indivíduo para o desempenho de</p><p>seu papel.</p><p>Mas qual a diferença mais específica entre estrutura e organização so-</p><p>cial? Para Firth, “a continuidade é expressa na estrutura social, na trama de</p><p>relações que é feita através da estabilidade de expectativas, pela validação</p><p>de experiência do passado em termo de experiência similar no futuro. Os</p><p>membros da sociedade procuram um guia seguro para a ação, e a estrutura</p><p>da sociedade lhes dá isso – através da família, do sistema de parentesco,</p><p>das relações de classe, da distribuição ocupacional, e assim por diante. Ao</p><p>mesmo tempo, oferece oportunidade para a variação e para a compreensão</p><p>dessas variações. Isto é encontrado na organização social, a ordenação</p><p>sistemática de relações sociais pelos atos da escolha e decisão” (ibidem, p.</p><p>45).</p><p>Assim, o que se pode compreender dessa afirmação é que se que a es-</p><p>trutura social diz respeito ao sistema de posições sociais que os indivíduos</p><p>podem ocupar, a organização diz respeito ao sistema de papéis sociais que</p><p>esse mesmo indivíduo pode ocupar. Numa comparação ao jogo de xadrez,</p><p>enquanto a estrutura social poderia equivaler às normas e regras do jogo</p><p>(por exemplo, como cada peça deve se movimentar, regra previamente</p><p>definida), a organização social equivale aos lances e estratégias de jogo, à</p><p>combinação de jogadas. Logo, ainda segundo Firth, enquanto na “estrutura</p><p>social se encontra o princípio de continuidade da sociedade; no aspecto da</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 17</p><p>organização se encontra o princípio de variação ou mudança – que permite</p><p>a avaliação da situação e a escolha individual”. (ibidem, p.46). Paulo Silvino</p><p>Ribeiro</p><p>Movimentos sociais: breve definição</p><p>Exemplo de movimentos sociais</p><p>Em linhas gerais, o conceito de movimento social se refere à ação cole-</p><p>tiva de um grupo organizado que objetiva alcançar mudanças sociais por</p><p>meio do embate político, conforme seus valores e ideologias dentro de uma</p><p>determinada sociedade e de um contexto específicos, permeados por ten-</p><p>sões sociais. Podem objetivar a mudança, a transição ou mesmo a revolu-</p><p>ção de uma realidade hostil a certo grupo ou classe social. Seja a luta por</p><p>um algum ideal, seja pelo questionamento de uma determinada realidade</p><p>que se caracterize como algo impeditivo da realização dos anseios deste</p><p>movimento, este último constrói uma identidade para a luta e defesa de seus</p><p>interesses. Torna-se porta-voz de um grupo de pessoas que se encontra</p><p>numa mesma situação, seja social, econômica, política, religiosa, entre</p><p>outras. Gianfranco Pasquino em sua contribuição ao Dicionário de Políti-</p><p>ca (2004) organizado por ele e por Norberto Bobbio e Nicolau Mateucci,</p><p>afirma que os movimentos sociais constituem tentativas – pautadas em</p><p>valores comuns àqueles que compõem o grupo – de definir formas de ação</p><p>social para se alcançar determinados resultados.</p><p>Por outro lado, conforme aponta Alain Touraine, Em defesa da Sociolo-</p><p>gia (1976), para se compreender os movimentos sociais, mais do que pen-</p><p>sar em valores e crenças comuns para a ação social coletiva, seria necessá-</p><p>rio considerar as estruturas sociais nas quais os movimentos se manifestam.</p><p>Cada sociedade ou estrutura social teria como cenário um contexto histórico</p><p>(ou historicidades) no qual, assim como também apontava Karl Marx, estaria</p><p>posto um conflito entre classes, terreno das relações sociais, a depender</p><p>dos modelos culturais, políticos e sociais. Assim, os movimentos sociais</p><p>fariam explodir os conflitos já postos pela estrutura social geradora por si só</p><p>da contradição entre as classes, sendo uma ferramenta fundamental para a</p><p>ação com fins de intervenção e mudança daquela mesma estrutura.</p><p>Dessa forma, para além das instituições democráticas como os partidos,</p><p>as eleições e o parlamento, a existência dos movimentos sociais é de fun-</p><p>damental importância para a sociedade civil enquanto meio de manifestação</p><p>e reivindicação. Podemos citar como alguns exemplos de movimentos o da</p><p>causa operária, o movimento negro (contra racismo e segregação racial), o</p><p>movimento estudantil, o movimento de trabalhadores do campo, movimento</p><p>feminista, movimentos ambientalistas, da luta contra a homofobia, separatis-</p><p>tas, movimentos marxista, socialista, comunista, entre outros. Alguns destes</p><p>movimentos possuem atuação centralizada em algumas regiões (como no</p><p>caso de movimentos separatistas na Europa). Outros, porém, com a expan-</p><p>são do processo de globalização (tanto do ponto de vista econômico como</p><p>cultural) e disseminação de meios de comunicação e veiculação da informa-</p><p>ção, rompem fronteiras geográficas em razão da natureza de suas causas,</p><p>ganhando adeptos por todo o mundo, a exemplo do Greenpeace, movimento</p><p>ambientalista de forte atuação internacional.</p><p>A existência de um movimento social requer uma organização muito</p><p>bem desenvolvida, o que demanda a mobilização de recursos e pessoas</p><p>muito engajadas. Os movimentos sociais não se limitam a manifestações</p><p>públicas esporádicas, mas trata-se de organizações que sistematicamente</p><p>atuam para alcançar seus objetivos políticos, o que significa haver uma luta</p><p>constante e em longo prazo dependendo da natureza da causa. Em outras</p><p>palavras, os movimentos sociais possuem uma ação organizada de caráter</p><p>permanente por uma determinada bandeira. Paulo Silvino Ribeiro</p><p>Autor apresenta análise sobre movimentos sociais na era</p><p>da internet;</p><p>da Livraria da Folha</p><p>Articular mentes, criar significado, contestar o poder</p><p>NINGUÉM ESPERAVA. Num mundo turvado por af lição econômica,</p><p>cinismo político, vazio cultural e desesperança pessoal, aquilo apenas</p><p>aconteceu. Subitamente, ditaduras podiam ser derrubadas pelas mãos</p><p>desarmadas do povo, mesmo que essas mãos estivessem ensanguentadas</p><p>pelo sacrifício dos que tombaram. Os mágicos das finanças passaram de</p><p>objetos de inveja pública a alvos do desprezo universal. Políticos viram-se</p><p>expostos como corruptos e mentirosos. Governos foram denunciados. A</p><p>mídia se tornou suspeita. A confiança desvaneceu-se. E a confiança é o</p><p>que aglutina a sociedade, o mercado e as instituições.</p><p>Sem confiança nada funciona. Sem confiança o contrato social se dis-</p><p>solve, e as pessoas desaparecem, ao se transformarem em indivíduos</p><p>defensivos lutando pela sobrevivência. Entretanto, nas bordas de um mun-</p><p>do que havia chegado ao limite de sua capacidade de propiciar aos seres</p><p>humanos a faculdade de viver juntos e compartilhar sua vida com a nature-</p><p>za, mais uma vez os indivíduos realmente se uniram para encontrar novas</p><p>formas de sermos nós, o povo.</p><p>De início, eram uns poucos, aos quais se juntaram centenas, depois</p><p>formaram-se redes de milhares, depois ganharam o apoio de milhões, com</p><p>suas vozes e sua busca interna de esperança, confusas como eram, ultra-</p><p>passando as ideologias e a publicidade para se conectar com as preocupa-</p><p>ções reais de pessoas reais na experiência humana real que fora reivindi-</p><p>cada. Começou nas redes sociais da internet, já que estas são espaços de</p><p>autonomia, muito além do controle de governos e empresas, que, ao longo</p><p>da história, haviam monopolizado os canais de comunicação como alicer-</p><p>ces de seu poder. Compartilhando dores e esperanças no livre espaço</p><p>público da internet, conectando-se entre si e concebendo projetos a partir</p><p>de múltiplas fontes do ser, indivíduos formaram redes, a despeito de suas</p><p>opiniões pessoais ou filiações organizacionais. Uniram-se. E sua união os</p><p>ajudou a superar o medo, essa emoção paralisante em que os poderes</p><p>constituídos se sustentam para prosperar e se reproduzir, por intimidação</p><p>ou desestímulo - e quando necessário pela violência pura e simples, seja</p><p>ela disfarçada ou institucionalmente aplicada. Da segurança do ciberespa-</p><p>ço, pessoas de todas as idades e condições passaram a ocupar o espaço</p><p>público, num encontro às cegas entre si e com o destino que desejavam</p><p>forjar, ao reivindicar seu direito de fazer história -</p><p>sua história -, numa</p><p>manifestação da autoconsciência que sempre caracterizou os grandes</p><p>movimentos sociais.</p><p>Os movimentos espalharam-se por contágio num mundo ligado pela in-</p><p>ternet sem fio e caracterizado pela difusão rápida, viral, de imagens e</p><p>ideias. Começaram no sul e no norte, na Tunísia e na Islândia, e de lá a</p><p>centelha acendeu o fogo numa paisagem social diversificada e devastada</p><p>pela ambição e manipulação em todos os recantos deste planeta azul. Não</p><p>foram apenas a pobreza, a crise econômica ou a falta de democracia que</p><p>causaram essa rebelião multifacetada. Evidentemente, todas essas doloro-</p><p>sas manifestações de uma sociedade injusta e de uma comunidade política</p><p>não democrática estavam presentes nos protestos. Mas foi basicamente a</p><p>humilhação provocada pelo cinismo e pela arrogância das pessoas no</p><p>poder, seja ele financeiro, político ou cultural, que uniram aqueles que</p><p>transformaram medo em indignação, e indignação em esperança de uma</p><p>humanidade melhor. Uma humanidade que tinha de ser reconstruída a</p><p>partir do zero, escapando das múltiplas armadilhas ideológicas e institucio-</p><p>nais que tinham levado inúmeras vezes a becos sem saída, forjando um</p><p>novo caminho, à medida que o percorria. Era a busca de dignidade em</p><p>meio ao sofrimento da humilhação - temas recorrentes na maioria dos</p><p>movimentos.</p><p>Movimentos sociais conectados em rede espalharam-se primeiro no</p><p>mundo árabe e foram confrontados com violência assassina pelas ditaduras</p><p>locais. Vivenciaram destinos diversos, incluindo vitórias, concessões,</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 18</p><p>massacres repetidos e guerras civis. Outros movimentos ergueram-se</p><p>contra o gerenciamento equivocado da crise econômica na Europa e nos</p><p>Estados Unidos, por governos que se colocavam ao lado das elites finan-</p><p>ceiras responsáveis pela crise à custa de seus cidadãos: Espanha, Grécia,</p><p>Portugal, Itália (onde mobilizações de mulheres contribuíram para pôr fim à</p><p>bufa commedia dell'arte de Berlusconi), Grã-Bretanha (onde a ocupação de</p><p>praças e a defesa do setor público por sindicatos e estudantes se deram as</p><p>mãos) e, com menos intensidade, mas simbolismo semelhante, na maioria</p><p>dos outros países europeus. Em Israel, um movimento espontâneo com</p><p>múltiplas demandas tornou-se a maior mobilização de base da história do</p><p>país, obtendo a satisfação de muitas de suas reivindicações.</p><p>Nos Estados Unidos, o movimento Occupy Wall Street, tão espontâneo</p><p>quanto os outros e igualmente conectado em redes no ciberespaço e no</p><p>espaço urbano, tornou-se o evento do ano e afetou a maior parte do país, a</p><p>ponto de a revista Time atribuir ao "Manifestante" o título de personalidade</p><p>do ano. E o lema dos 99%, cujo bem-estar fora sacrificado em benefício do</p><p>1% que controla 23% das riquezas do país, tornou-se tema regular na vida</p><p>política americana. Em 15 de outubro de 2011, uma rede global de movi-</p><p>mentos Occupy, sob a bandeira "Unidos pela Mudança Global", mobilizou</p><p>centenas de milhares de pessoas em 951 cidades de 82 países, reivindi-</p><p>cando justiça social e democracia verdadeira. Em todos os casos, os movi-</p><p>mentos ignoraram partidos políticos, desconfiaram da mídia, não reconhe-</p><p>ceram nenhuma liderança e rejeitaram toda organização formal, sustentan-</p><p>do-se na internet e em assembleias locais para o debate coletivo e a toma-</p><p>da de decisões.</p><p>Este livro busca analisar esses movimentos: formação, dinâmica, valo-</p><p>res e perspectivas de transformação social. É uma investigação sobre os</p><p>movimentos sociais da sociedade</p><p>em rede, movimentos que, em última instância, farão as sociedades do</p><p>século XXI, ao se engajarem em práticas conflitivas enraizadas nas contra-</p><p>dições fundamentais de nosso mundo. A análise aqui apresentada baseia-</p><p>se na observação dos movimentos, mas não tentará descrevê-los, nem</p><p>será capaz de fornecer provas definitivas dos argumentos expostos no</p><p>texto. Já está disponível uma profusão de informações, artigos, livros,</p><p>reportagens e arquivos de blogs que podem ser facilmente consultados</p><p>navegando-se pela internet. É cedo demais para construir uma interpreta-</p><p>ção sistemática, acadêmica, desses movimentos. Assim, meu propósito é</p><p>mais limitado: sugerir algumas hipóteses, baseadas na observação, sobre a</p><p>natureza e as perspectivas dos movimentos sociais em rede, com a espe-</p><p>rança de identificar os novos rumos da mudança social em nossa época e</p><p>de estimular um debate sobre as implicações práticas (e, em última instân-</p><p>cia, políticas) dessas hipóteses.</p><p>Essa análise tem por base uma teoria fundamentada do poder que a-</p><p>presentei no meu livro Communication Power (2009), teoria que fornece</p><p>substrato para a compreensão dos movimentos aqui estudados.</p><p>Parto da premissa de que as relações de poder são constitutivas da</p><p>sociedade porque os que detêm o poder constroem as instituições segundo</p><p>seus valores e interesses. O poder é exercido por meio da coerção (o</p><p>monopólio da violência, legítima ou não, pelo controle do Estado) e/ou pela</p><p>construção de significado na mente das pessoas, mediante mecanismos de</p><p>manipulação simbólica. As relações de poder estão embutidas nas institui-</p><p>ções da sociedade, particularmente nas do Estado. Entretanto, uma vez</p><p>que as sociedades são contraditórias e conflitivas, onde há poder há tam-</p><p>bém contrapoder, que considero a capacidade de os atores sociais desafia-</p><p>rem o poder embutido nas instituições da sociedade com o objetivo de</p><p>reivindicar a representação de seus próprios valores e interesses. Todos os</p><p>sistemas institucionais refletem as relações de poder e seus limites tal</p><p>como negociados por um interminável processo histórico de conflito e</p><p>barganha. A verdadeira configuração do Estado e de outras instituições que</p><p>regulam a vida das pessoas depende dessa constante interação de poder e</p><p>contrapoder.</p><p>Coerção e intimidação, baseadas no monopólio estatal da capacidade</p><p>de exercer a violência, são mecanismos essenciais de imposição da vonta-</p><p>de dos que controlam as instituições da sociedade. Entretanto, a constru-</p><p>ção de significado na mente das pessoas é uma fonte de poder mais deci-</p><p>siva e estável. A forma como as pessoas pensam determina o destino de</p><p>instituições, normas e valores sobre os quais a sociedade é organizada.</p><p>Poucos sistemas institucionais podem perdurar baseados unicamente na</p><p>coerção. Torturar corpos é menos eficaz que moldar mentalidades. Se a</p><p>maioria das pessoas pensa de forma contraditória em relação aos valores e</p><p>normas institucionalizados em leis e regulamentos aplicados pelo Estado, o</p><p>sistema vai mudar, embora não necessariamente para concretizar as</p><p>esperanças dos agentes da mudança social. É por isso que a luta funda-</p><p>mental pelo poder é a batalha pela construção de significado na mente das</p><p>pessoas.</p><p>Movimentos sociais na era da internet</p><p>por Alexandre Matias</p><p>Ao mesmo tempo em que o sociólogo espanhol Manuel Castells falava</p><p>em mais uma palestra do evento Fronteiras do Pensamento, que aconteceu</p><p>no Teatro Geo na terça-feira desta semana, em São Paulo, a tensão entre</p><p>manifestantes contra o aumento da passagem de ônibus e a polícia militar</p><p>chegava às vias de fato a poucos quilômetros dali, na Avenida Paulista. Não</p><p>estava alheio ao que acontecia na cidade, ao citar o protesto paulistano</p><p>como uma das inúmeras manifestações de uma indignação que, nos últimos</p><p>cinco anos, tem começado em um novo espaço social, a internet, para</p><p>depois chegar às ruas, em massa.</p><p>O sociólogo é um dos principais acadêmicos a compreender esta mu-</p><p>dança, que é o tema de seu novo livro, chamado Redes de Indignação e</p><p>Esperança – Movimentos Sociais na Era da Internet, que deve sair no Brasil</p><p>em setembro, pela editora Zahar. O livro também foi a base para sua confe-</p><p>rência, em que começou explicando que qualquer manifestação política</p><p>começa em nossas mentes para depois materializar-se na prática. “A forma</p><p>como pensamos,</p><p>que</p><p>adquira alguns desses hábitos, ou costumes, ou modos de agir. Trata-se da</p><p>aquisição pelo contato. Foi o que se verificou no Brasil do século XIX com</p><p>hábitos introduzidos pelos imigrantes alemães ou italianos; o mesmo suce-</p><p>deu em séculos anteriores, com costumes introduzidos pelos negros escra-</p><p>vos trazidos da África. Tais costumes vão-se incorporando à sociedade e,</p><p>com o tempo, são transmitidos como herança do próprio grupo.</p><p>É certo que essa transmissão pelo contato não abrange toda a cultura</p><p>do outro grupo. Somente alguns traços se transmitem e se incorporam à</p><p>cultura receptora. Esta, por sua vez, se torna também doadora em relação à</p><p>cultura introduzida, que incorpora a seus padrões hábitos ou costumes que</p><p>até então lhe eram estranhos. É o processo de transculturação, ou seja, a</p><p>troca recíproca de valores culturais, pois em todo contato de cultura as</p><p>sociedades são ao mesmo tempo doadoras e receptoras. Dessa forma, o</p><p>homem adquire novos elementos culturais, e enriquece seu tipo cultural.</p><p>Esses elementos, que compõem o conceito de cultura, permitem mos-</p><p>trar que ela está ligada à vida do homem, de um lado, e, de outro, se encon-</p><p>tra em estado dinâmico, não sendo estática sua permanência no grupo. A</p><p>cultura se aperfeiçoa, se desenvolve, se modifica, continuamente, nem</p><p>sempre de maneira perceptível pelos membros do próprio grupo. É justa-</p><p>mente isso que contribui para seu enriquecimento constante, por meio de</p><p>novas criações da própria sociedade e ainda do que é adquirido de outros</p><p>grupos.</p><p>Graças às pesquisas em jazidas arqueológicas, tem sido possível re-</p><p>compor ou reconstruir as culturas, o que permite conhecer o desenvolvimen-</p><p>to cultural do homem, sobretudo no campo material. É mais difícil, porém,</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 2</p><p>conhecer o desenvolvimento da cultura espiritual, embora muita coisa já se</p><p>tenha podido esclarecer. De qualquer forma o que se sabe é que, nascida</p><p>com o homem, a cultura, sofreu modificações ao longo dos tempos, enrique-</p><p>cendo-se de novos elementos e adquirindo novos valores. A cultura acom-</p><p>panha, pois, a marcha da humanidade; está ligada à vida do homem, desde</p><p>o ser mais antigo. Com a expansão do homem pela Terra, ocupando os</p><p>grupos humanos novos meios ambientes, a cultura se ampliou e se diversifi-</p><p>cou em face das influências impostas pelo meio, cujas relações com o</p><p>homem condicionaram o aparecimento de novos valores culturais ou o</p><p>desaparecimento de outros.</p><p>Sentidos de cultura. Assim, dentro do conceito geral de cultura, é possí-</p><p>vel falar de culturas e, por isso, se identificam sentidos específicos segundo</p><p>os quais a cultura é antropologicamente considerada. São quatro, a saber:</p><p>(1) a cultura entendida como modos de vida comuns a toda a humanidade;</p><p>(2) a cultura entendida como modos de vida peculiares a um grupo de</p><p>sociedades com maior ou menor grau de interação; (3) a cultura entendida</p><p>como padrões de comportamento peculiares a uma dada sociedade; (4) a</p><p>cultura entendida como modos especiais de comportamento de segmentos</p><p>de uma sociedade complexa.</p><p>O primeiro sentido apresenta aqueles elementos de cultura comuns a</p><p>todos os seres humanos, como a linguagem (todos os homens falam, embo-</p><p>ra se diversifiquem os idiomas ou línguas faladas). São aqueles hábitos -- o</p><p>de dormir, o de comer, o de ter uma atividade econômica -- que se tornam</p><p>comuns a toda a humanidade.</p><p>No segundo sentido, encontram-se os elementos comuns a um grupo</p><p>de sociedades, como o vestuário chamado ocidental, que é comum a fran-</p><p>ceses, a portugueses, a ingleses. São diversas sociedades que têm o mes-</p><p>mo elemento cultural; um exemplo é o uso do inglês por habitantes da</p><p>Inglaterra, da Austrália, da África do Sul, dos Estados Unidos, que, entre si,</p><p>entretanto, têm valores culturais diferentes.</p><p>O terceiro sentido é formado pelo conjunto de padrões de determinada</p><p>sociedade, por exemplo, aqueles padrões culturais que caracterizam o</p><p>comportamento da sociedade do Rio de Janeiro; ou as peculiaridades que</p><p>assinalam os habitantes dos Estados Unidos.</p><p>O quarto sentido de cultura refere-se a de modos especiais de compor-</p><p>tamento de um segmento de sociedade mais complexa. Uma dada socieda-</p><p>de possui valores culturais comuns a todos os seus integrantes. Dentro,</p><p>porém, dessa sociedade encontram-se elementos culturais restritos ou</p><p>específicos de determinados grupos que a integram. São certos costumes</p><p>que, dentro da sociedade multíplice do Rio de Janeiro, apresentam os</p><p>habitantes de Copacabana, os de uma favela ou de um subúrbio distante. A</p><p>esses segmentos culturais de uma sociedade complexa, dá-se também o</p><p>nome de subcultura.</p><p>São esses sentidos que permitem verificar a diferenciação de cultura</p><p>entre os diversos grupos humanos. Tal diferenciação resulta de processos</p><p>internos ou externos, uns e outros atuando de maneira diversa sobre o</p><p>fenômeno cultural. Entre os processos internos, encontram-se as inovações,</p><p>traduzidas em descobertas e invenções, que, às vezes, surgem em determi-</p><p>nado grupo e depois se transmitem a outros grupos, não raro sofrendo</p><p>modificações ao serem aceitas pela nova sociedade. Os processos externos</p><p>explicam-se pela difusão: é a transmigração de um elemento cultural de uma</p><p>sociedade a outra. Em alguns casos o elemento cultural mantém a mesma</p><p>forma e função; em outros, modifica-as ou mantém apenas a forma e modifi-</p><p>ca a função.</p><p>A caracterização de Herskovits. Todos esses aspectos relacionados</p><p>com o processo cultural de uma sociedade podem ser analisados à base de</p><p>alguns princípios. De acordo com a caracterização de Melville Herskovits, a</p><p>cultura deriva de componentes da existência humana, é aprendida, estrutu-</p><p>rada, formada de elementos, dinâmica, variável, cumulativa, contínua e um</p><p>instrumento de adaptação do homem ao ambiente.</p><p>A cultura é derivada de componentes da existência humana, ou seja, o-</p><p>rigina-se de fatores ligados ao homem. São fatores ambientais, psicológicos,</p><p>sociológicos e históricos, que contribuem para compor a cultura dentro de</p><p>uma sociedade estudada. Ela é também aprendida, porque se verifica um</p><p>processo de transmissão dos mais velhos -- pessoas ou instituições -- aos</p><p>mais novos, à proporção que estes se vão incorporando a sua sociedade.</p><p>São as chamadas linhas de transmissão, isto é, aqueles meios pelos quais</p><p>se verifica a aprendizagem da cultura. A família, os companheiros de traba-</p><p>lho, os professores, o esporte, a igreja, a escola, são linhas de transmissão,</p><p>ou seja, transmitem a cultura, que se torna assim aprendida pelos que se</p><p>incorporam à sociedade.</p><p>Do mesmo modo, a cultura é estruturada, pois tem uma forma ou estru-</p><p>tura que lhe dá estabilidade no respectivo grupo humano, sem prejuízo das</p><p>possibilidades de mudança, que são imensas. É estruturada no sentido de</p><p>que, compondo-se de diversos valores, mantém entre eles uma estruturação</p><p>orgânica.</p><p>Constituída de diferentes valores, a cultura forma os complexos que, u-</p><p>nidos e inter-relacionados, dão o padrão cultural. A organização social, a</p><p>língua usada, a organização política, a estética, as idéias religiosas, as</p><p>técnicas, o sistema de ensino são alguns dos elementos existentes em uma</p><p>sociedade. Esses elementos dão forma à cultura e a representam, em</p><p>conjunto, de maneira a caracterizar a sociedade em que se manifestam. Não</p><p>são iguais, porém, em todas as sociedades; daí a cultura ser variável. A</p><p>cultura é também cumulativa; vão-se acumulando nela, em face da respecti-</p><p>va sociedade, os elementos vindos de gerações anteriores, sem prejuízo</p><p>das mudanças que se podem verificar no decorrer do tempo.</p><p>Cada geração humana, em determinada sociedade, recebe os elemen-</p><p>tos vindos de seus antepassados, e ao mesmo tempo vai acolhendo novos</p><p>elementos que se juntam àqueles. Por isso mesmo, a cultura é também</p><p>contínua: vai além do indivíduo ou de uma geração, pois continua, mesmo</p><p>modificada, mas sem interromper sua permanência na sociedade a que</p><p>pertence.</p><p>determina a forma como atuamos. Portanto, o que real-</p><p>mente condiona o comportamento da sociedade é o que ocorre em nossas</p><p>mentes”, explicou. Falou sobre o papel da coerção do estado para manter o</p><p>poder (“uma tradição que começa em Maquiavel e que foi formalizada me-</p><p>lhor por Max Weber”, disse) e como apenas o monopólio da violência –</p><p>válido ou não – torna este mesmo estado débil. “Pois ao mesmo tempo há</p><p>outra tradição, que inclui Bertrand Russell, Foucault e também Gramsci, que</p><p>insiste no papel decisivo da persuasão para a manutenção do poder, pela</p><p>maneira implícita e explícita de influenciar nossa maneira de pensar”, expli-</p><p>cou, antes de cravar que “afinal, manipular as mentes é muito mais eficaz do</p><p>que torturar os corpos”.</p><p>Com esta introdução ele explicou que a atuação do poder – de qualquer</p><p>natureza, político, econômico, militar, tecnológico, etc. – não acontece</p><p>sozinha, e sim com a participação da sociedade civil. “Nossas mentes vivem</p><p>imersas em um ambiente de comunicação, onde construímos nossa forma</p><p>de pensar e, portanto, de fazer o que fazemos”, considerou, lembrando que,</p><p>com a chegada das tecnologias digitais, não temos mais como fugir deste</p><p>ambiente – cada vez mais intenso, veloz e, portanto, mais decisivo para</p><p>definirmos nossas posições e preferências, tanto quanto indivíduos como</p><p>sociedade.</p><p>Eis o centro de sua palestra: o impacto que estas novas tecnologias im-</p><p>primiram primeiro à sociedade, depois aos meios de comunicação – ou à</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 19</p><p>“arena da comunicação”, frisando que não mais podemos separar o público</p><p>dos grupos que antes controlavam este debate – e, finalmente, aos poderes</p><p>políticos constituídos. “O poder político é construído no espaço da comuni-</p><p>cação”, frisou, “este é o espaço em que se joga o poder”. Exemplificou o</p><p>impacto da internet na sociedade moderna, primeiro em números, citando</p><p>que há quase o mesmo número de linhas de telefones celulares ativas no</p><p>mundo que de pessoas (“Sem nos esquecer que bebês – ainda – não usam</p><p>celulares”, brincou), e como a evolução do digital e das tecnologias móveis</p><p>aceleram um processo que está mudando a cara da política. “A humanidade</p><p>está conectada”, atestou, “e isso aconteceu num espaço duas décadas,</p><p>sobretudo nos últimos dez anos.”</p><p>Lamentou a crise do jornalismo, agente que funcionaria como mediador</p><p>entre os poderes e as pessoas, mas que tem perdido o contato com o públi-</p><p>co por não saber dialogar com a nova realidade digital e estar obcecado com</p><p>números de audiência – antes fáceis de ser conseguidos e que agora dis-</p><p>persam-se pois os espectadores e leitores não são mais “vegetativos” –</p><p>como explicitou no caso do público da TV – e que consomem muito mais</p><p>informação que antes, por canais diferentes. “O uso da internet se aprofun-</p><p>dou pois novos espaços sociais de interação foram ocupados, cada vez</p><p>mais personalizados”, continuou, listando redes sociais e enfatizando que o</p><p>até o e-mail já perdeu seu espaço. “Há mais de 500 milhões de blogs atuali-</p><p>zados diariamente, a maioria na China, e as redes sociais, hoje onipresen-</p><p>tes, existem há menos de dez anos”, além de salientar que a internet se</p><p>tornou um espaço multicultural, em que o inglês, por exemplo, perdeu a</p><p>dominância: “Menos de 29% da internet é escrita em inglês”, reforçou.</p><p>Este novo cenário resulta na crise total do negócio tradicional da comu-</p><p>nicação, disse Castells. “Ninguém ainda encontrou a resposta para a ques-</p><p>tão da perda do monopólio nas transmissões das mensagens. Todos os</p><p>grandes meios de comunicação em todo o planeta estão em profunda crise</p><p>empresarial, pois tentam se apropriar de um modelo que não entendem. É</p><p>um problema mental – e generalizado no mundo todo. A internet é ativa, os</p><p>outros meios eram passivos”, refletiu.</p><p>Castells também falou sobre como enfraquecimento dos meios tradicio-</p><p>nais de comunicação afetou a política, que hoje busca um rosto para repre-</p><p>sentar o poder, não apenas ideologias ou partidos. Disse que isso acontece</p><p>pois há uma crise de representação de poder que encontra eco nos novos</p><p>espaços sociais e faz que a sociedade se pergunte sobre seu papel nestes</p><p>novos tempos.</p><p>O novo cenário é composto não apenas de veículos de comunicação de</p><p>massa e ambientes digitais que permitem discussões entre as pessoas, mas</p><p>de uma nova forma de comunicação, que chama de “autocomunicação de</p><p>massas”. Ele explica o termo: “É de massas porque pode alcançar, potenci-</p><p>almente, milhões e milhões de pessoas. Não ao mesmo tempo, mas uma</p><p>pequena rede se conecta a muitas redes que se conecta a muitas redes e se</p><p>chega a todo o mundo”, definiu, “e é ‘auto’ porque há autonomia na emissão</p><p>das mensagens, na seleção da recepção das mensagens, na criação de</p><p>redes sociais específicas. Assim, a capacidade de encontrar informação é</p><p>ilimitada, se você tem critérios de busca – que não são tecnológicos e sim</p><p>metais ou intelectuais.”</p><p>E a partir daí começou a conclusão de sua conferência, explicando que</p><p>movimentos como o que propôs a criação coletiva da constituição da Islân-</p><p>dia, os Indignados na Espanha, o Occupy Wall Street nos Estados Unidos, a</p><p>Primavera Árabe e o grupo Anonymous são parte de um mesmo movimento,</p><p>coletivo e global, que não é político e sim social. “São estes movimentos,</p><p>sociais e não políticos, que realmente mudam a história, pois realizam uma</p><p>transformação cultural, que está na base de qualquer transformação de</p><p>poder”, salientou.</p><p>Disse que estes movimentos começam na internet mas não são essen-</p><p>cialmente digitais. “Eles só tornam-se visíveis e passam a existir de fato</p><p>quando tomam as ruas”, explicou, reforçando que estes movimentos aconte-</p><p>cem há apenas cinco anos e que eles não têm lideranças, que repudiam a</p><p>violência e que embora não tenham objetivo definido, encontrem coincidên-</p><p>cias e semelhanças ao indignar-se. “São movimentos emocionais e que se</p><p>unem pela recuperação de uma dignidade que se perdeu. Às vezes eles</p><p>começam pequenos e parecem que se mobilizam por pouca coisa, mas que</p><p>funcionam como apenas uma gota a mais em uma indignação que existe em</p><p>todos os setores sociais, que as pessoas não aguentam mais”, realçando</p><p>que isso pode ser a construção de um shopping para turistas na praça</p><p>Taksim na Turquia ou no aumento de centavos nas passagens de ônibus em</p><p>São Paulo. “Centenas de milhões de pessoas já participaram destes movi-</p><p>mentos”, continua, “e são movimentos que podem ter saído das ruas, mas</p><p>não desapareceram. Eles continuam online. Quando vem a repressão física,</p><p>eles se retiram das ruas, rediscutem online. Não têm líderes nem programa,</p><p>mas têm a capacidade de resistir e de renascer a qualquer momento. Isso</p><p>só acontece porque há a capacidade de autocomunicação de massa que os</p><p>permitiu existir”.</p><p>E conclui: “A palavra ‘dignidade’ aparece em todos os países, em todos</p><p>estes movimentos, em diferentes países e culturas. Eles não têm uma</p><p>reivindicação concreta, mas querem o reconhecimento da própria dignidade,</p><p>pois as pessoas não se vêem reconhecidas como pessoas ou cidadãos”.</p><p>Castells reforçou que as semelhanças entre movimentos que partem de</p><p>causas tão distintas apenas enfatizam seu papel no século 21 – e compara o</p><p>que está acontecendo nos últimos anos com o que aconteceu nos últimos 40</p><p>anos no que diz respeito às mulheres, sem se referir a um autor, ideologia</p><p>ou movimento feminista específico. “Foi um movimento coletivo, em que</p><p>todas as mulheres do mundo decidiram abandonar o papel de sujeitada para</p><p>assumirem o papel de sujeitas da história”, reforçou, lembrando os avanços</p><p>da ascensão do papel da mulher na sociedade na última metade de século,</p><p>principalmente em comparação a milênios de história. E, segundo ele, isso</p><p>está acontecendo de novo, nesta nova forma de manifestação social – que</p><p>demanda mudanças culturais mais do que políticas.</p><p>Conselhos</p><p>de políticas públicas.</p><p>Os conselhos são órgãos colegiados criados pelo Estado, cuja com-</p><p>posição e competência são determinadas pela lei que os instituiu. São</p><p>também conhecido como Conselhos Municipais ou Conselhos Setoriais.</p><p>Os conselhos de políticas públicas têm as seguintes características:</p><p>criação por iniciativa do Estado;</p><p>a sua composição deve ser integrada por representantes do Poder Pú-</p><p>blico e da sociedade;</p><p>tem por finalidade principal servir de instrumento para garantir a partici-</p><p>pação popular, o controle social e a gestão democrática das políticas e dos</p><p>serviços públicos, envolvendo o planejamento e o acompanhamento da</p><p>execução destas políticas e serviços públicos;</p><p>as decisões, naquilo que tange ao acatamento ou não do resultado por</p><p>quem tem a capacidade de execução da decisão, poderão ser de caráter</p><p>deliberativo ou consultivo. As decisões de caráter consultivo não geram</p><p>direitos subjetivos públicos, são meramente opinativas e indicativas da</p><p>vontade do conselho. Já as deliberativas, são aquelas decisões de acata-</p><p>mento obrigatório pela autoridade responsável pela execução da decisão,</p><p>portanto geram direitos públicos subjetivos passíveis de reivindicação</p><p>judicial por qualquer interessado.</p><p>não remuneração dos conselheiros, via de regra;</p><p>raramente os conselheiros exercem esta função com exclusividade,</p><p>tendo em vista que a maioria dos seus membros tem outras atividades no</p><p>setor público ou no privado;</p><p>o Poder Público deve disponibilizar a estrutura necessária para garantir</p><p>a autonomia funcional dos conselhos, como equipamentos, finanças, infor-</p><p>mações, assistência técnica e servidores públicos;</p><p>os representantes do Estado geralmente são técnicos e os represen-</p><p>tantes da sociedade , na sua maioria, são leigos e oriundos de movimentos</p><p>sociais;</p><p>as reuniões devem ser em local de fácil acesso para o público, sendo o</p><p>horário, data, local e pauta divulgados com antecedência;</p><p>os representantes da sociedade não devem ocupar funções de livre</p><p>nomeação e exoneração no Poder Público ao qual o conselho se propõe a</p><p>formular a política e o controle, por determinado período;</p><p>as atividades dos conselhos estão sujeitas a controle institucional e so-</p><p>cial;</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 20</p><p>as decisões dos conselhos, independente de serem consultivas ou de-</p><p>liberativas, são equivalentes aos atos administrativos. Portanto, estão</p><p>sujeitas aos mesmos princípios e regras, dentro da hierarquia normativa,</p><p>em especial as do artigo 37 da Constituição.</p><p>Sociedade, Direito e controle social</p><p>Wanessa Mota Freitas Fortes</p><p>O direito não tem existência por si só. Ele existe no meio social e em</p><p>função da sociedade, não sendo seu único instrumento de organização e</p><p>harmonia, mas, merece lugar de destaque, pois é o que possui maior</p><p>pretensão de efetividade, manifestando-se como um corolário inafastável.</p><p>Resumo</p><p>O homem é um ser social e político, vivendo em grupos, em socieda-</p><p>des. É natural que no seio destes grupos haja conflitos, desentendimentos</p><p>e interesses divergentes. No entanto, o homem sente necessidade de</p><p>segurança e busca a harmonia social. Para que a sociedade subsista é</p><p>necessário que os conflitos sejam resolvidos e para tanto, o homem dispôs</p><p>de vários meios com o intuito de controlar as ações humanas e trazer um</p><p>equilíbrio à sociedade. São os instrumentos de controle social. O Direito,</p><p>criação humana, é um destes instrumentos, cujo principal objetivo é viabili-</p><p>zar a existência em sociedade, trazendo paz, segurança e justiça.</p><p>1.A sociabilidade humana</p><p>O homem é um ser social e precisa estar em contato com seus seme-</p><p>lhantes e formar associações. Ele se completa no outro. Somente da inte-</p><p>ração social é possível o desenvolvimento de suas potencialidades e facul-</p><p>dades. Ele precisa buscar no outro as experiências ou faculdades que não</p><p>possui e, mais, há a necessidade de passar seu conhecimento adiante.</p><p>Dessa interação, há crescimento, desenvolvimento pessoal e social.</p><p>Conforme Battista Mondin (1986, p.154) o homem é um ser sociável,</p><p>pois tem a "propensão para viver junto com os outros e comunicar-se com</p><p>eles, torná-los participantes das próprias experiências e dos próprios dese-</p><p>jos, conviver com eles as mesmas emoções e os mesmos bens." Segundo</p><p>o mesmo autor, ele também é um ser político. A politicidade é "o conjunto</p><p>de relações que o indivíduo mantém com os outros, enquanto faz parte de</p><p>um grupo social."</p><p>Vários estudiosos tentam explicar o impulso associativo do ser huma-</p><p>no. Platão (428-348 a.C.) interpreta a dimensão social do homem como um</p><p>fenômeno contingente. Para ele o homem é um ser etéreo, é essencialmen-</p><p>te alma e se realiza em sua plenitude e perfeição, alcançando a felicidade</p><p>ao contemplar as ideias. Estas se localizam em um mundo denominado</p><p>"topos uranos", ou lugar celeste. Para esta atividade não necessita de</p><p>ninguém, cada alma se basta, existindo e se realizando por conta própria,</p><p>independentemente das outras. Mas, por causa de uma grande culpa, que</p><p>não é explicada em sua teoria, as almas perderam sua condição original de</p><p>espiritualidade absoluta e caíram na Terra, sendo obrigadas a assumir um</p><p>corpo físico para expurgar suas culpas e purificar-se. Esse corpo físico</p><p>funcionaria como um limitador de suas potencialidades e faculdades, impe-</p><p>dindo-as de se sentirem completas por si só. Desse modo, as almas corpo-</p><p>rificadas precisam se associar para suprir suas carências e limitações.</p><p>Segundo Platão, portanto, a sociabilidade é uma consequência da corpo-</p><p>reidade e dura apenas enquanto as almas estiverem ligadas ao corpo</p><p>físico, material.</p><p>Aristóteles (384-322 a.C), de maneira oposta, entende que a sociabili-</p><p>dade é uma propriedade essencial do homem. Na sua visão, o homem é</p><p>constituído de corpo e de alma, essencialmente. E, por esta constituição,</p><p>não pode se autorrealizar, sendo necessário criar vínculos sociais para</p><p>satisfazer suas próprias necessidades e vontades. É a natureza do homem</p><p>que o impulsiona a querer associar-se e interagir com os demais. Por este</p><p>motivo, considerava o homem fora da sociedade um ser superior ou inferior</p><p>à condição humana: "O homem é, por sua natureza, um animal político.</p><p>Aquele que, por natureza, não possui estado, é superior ou mesmo inferior</p><p>ao homem, quer dizer: ou é um deus ou mesmo um animal" (de sua obra: A</p><p>política).</p><p>Santo Tomás de Aquino (1225-1274), como Aristóteles, considerava o</p><p>homem um ser naturalmente sociável: "O homem é, por natureza, ani-</p><p>mal social e político, vivendo em multidão, ainda mais que todos os outros</p><p>animais, o que evidencia pela natural necessidade." (S.Th, I, 96, 4). Afirma</p><p>ainda que a vida fora da sociedade é exceção, se enquadrando em três</p><p>hipóteses: a mala fortuna, quando um indivíduo, acidentalmente, por um</p><p>infortúnio passa a viver em isolamento, como é o caso de um náufrago, por</p><p>exemplo; a corruptio naturae, quando por alienação mental ou anomalia, o</p><p>homem é desprovido de razão e busca viver distanciado dos demais; e</p><p>a excellentia naturae, que é a hipótese do homem isolar-se buscando a</p><p>comunhão com Deus e o seu aperfeiçoamento espiritual.</p><p>Durante a época moderna surgem os contratualistas, destacando os</p><p>nomes de Spinoza, Hobbes, Locke, Leibnitz, Vico e Rousseau. Existe uma</p><p>gama enorme e variada de teorias contratualistas que buscam explicações</p><p>para o impulso associativo do homem, com diferentes explicações e teses.</p><p>Há, no entanto, um ponto em comum entre eles. Todas negam o impulso</p><p>associativo natural, concluindo que somente a vontade humana justifica a</p><p>existência em sociedade. A sociedade, portanto, é uma criação humana e</p><p>se tem sua base firmada em um contrato, que pode ser alterado ou desfei-</p><p>to.</p><p>Hobbes, por exemplo, com suas ideias apresentadas na obra "Leviatã",</p><p>defendia que o homem é um ser mau e antissocial por natureza, enxergan-</p><p>do seus semelhantes como concorrentes a serem dominados ou destruí-</p><p>dos. O constante estado de guerra, de conflitos e brutalidade teria levado</p><p>os homens a firmarem um contrato entre si, transferindo o poder de se</p><p>autogovernar, seus direitos e liberdades ao Estado, que deveria impor</p><p>ordem e segurança a todos.</p><p>Rousseau, por sua vez, em "O contrato social", afirma que o homem,</p><p>ao revés do entendimento de Hobbes, é essencialmente bom e livre. A</p><p>sociedade e o aparecimento da propriedade privada é que o corrompe,</p><p>dando início aos inúmeros conflitos sociais. A solução encontrada por ele</p><p>para extirpar os conflitos seria a organização de um Estado que só se guie</p><p>pela vontade geral, e não pelos interesses particulares. O instrumento pelo</p><p>qual se perfaz essa sociedade é o contrato social, pelo qual cada indivíduo</p><p>transfere ao Estado a sua pessoa, todos os seus direitos e suas coisas.</p><p>Ante o exposto, entendemos que a sociedade é fruto da própria nature-</p><p>za humana, de uma necessidade natural de interação. O homem tem</p><p>necessidade material e espiritual de conviver com seus semelhantes, de se</p><p>desenvolver e de se completar. No entanto, essa interdependência recípro-</p><p>ca não exclui a participação da consciência ou da vontade humana. Cons-</p><p>ciente de que necessita da vida social o indivíduo procura melhorá-la e torná-</p><p>la mais viável. A sociedade, em suma, seria o produto de um impulso</p><p>natural conjugado com a vontade e consciência humana.</p><p>2.Sociedade e interação</p><p>O conceito de sociedade apresenta inúmeras controvérsias devido ao</p><p>seu amplo aspecto. O vocábulo pode ser utilizado de diversas formas e</p><p>com vários sentidos, tais como o de nação e o de grupo social. Em termos</p><p>gerais podemos definir sociedade como um grupo de pessoas que intera-</p><p>gem entre si.</p><p>Deste conceito podemos deduzir três características da sociedade: a</p><p>multiplicidade de pessoas, a interação entre elas e a previsão de compor-</p><p>tamento. Para a formação da sociedade não basta que existam várias</p><p>pessoas reunidas, uma aglomeração de indivíduos, mas que elas interajam,</p><p>que desenvolvam ações conjuntas, que tenham reações aos comportamen-</p><p>tos uns dos outros, que desenvolvam diálogos sociais. Ela se faz por um</p><p>amplo relacionamento humano. Dessa interação é possível prever compor-</p><p>tamentos, situações e condutas que poderão se manifestar no seio do</p><p>grupo, sejam elas lícitas ou ilícitas.</p><p>Conforme ensina Betioli (2008, p.7): "A interação, por seu turno, pres-</p><p>supõe uma previsão de comportamento, ou de reações ao comportamento</p><p>dos outros.(...) Cada um age orientando-se pelo provável comportamento</p><p>do outro e também pela interpretação que faz das expectativas do outro</p><p>com relação a seu comportamento."</p><p>Segundo Paulo Nader, a interação social, basicamente, vai se realizar</p><p>de três formas: a cooperação, a competição e o conflito. Vejamos:</p><p>"Na cooperação, as pessoas estão movidas por um mesmo objetivo e</p><p>valor e por isso conjugam o seu esforço. Na competição há uma disputa,</p><p>uma concorrência, em que as partes procuram obter o que almejam, uma</p><p>visando à exclusão da outra. (...) O conflito se faz presente a partir do</p><p>impasse, quando os interesses em jugo não logram uma solução pelo</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 21</p><p>diálogo e as partes recorrem à luta, moral ou física, ou buscam a mediação</p><p>da justiça." (2007, p.25)</p><p>Vivendo em um mesmo ambiente e possuindo os mesmos instintos e</p><p>necessidades, é natural que surjam diversos conflitos entre as pessoas e</p><p>que necessitam de uma solução. Para que a sociedade subsista é impres-</p><p>cindível que se resolvam estes conflitos de interesses. As pessoas têm a</p><p>necessidade de buscar a segurança, a justiça e a realização do bem co-</p><p>mum. Diante disto surge a necessidade de criar instrumentos que controlem</p><p>ou que regulamentem a vida social.</p><p>3.Instrumentos de controle social</p><p>Existem diversos meios que servem para regular a condutas dos mem-</p><p>bros da sociedade visando à harmonia da vida social. Entre eles podemos</p><p>destacar a religião, a moral, as regras de trato social e, obviamente,</p><p>o Direito.</p><p>Paulo Nader (2007, p.31) afirma que "o mundo primitivo não distinguiu</p><p>as diversas espécies de ordenamentos sociais. O Direito absorvia questões</p><p>afetas ao plano da consciência, própria da moral e da religião, e assuntos</p><p>não pertinentes à disciplina e equilíbrio da sociedade, identificados hoje por</p><p>usos sociais".</p><p>No entanto, é certo que hoje não podemos confundir as diferentes esfe-</p><p>ras normativas. Cada instrumento de controle social possui uma faixa de</p><p>atuação, um objetivo específico.</p><p>A faixa de atuação do Direito é regrar a conduta social, visando à or-</p><p>dem e ao bem comum. Por este motivo, ele irá disciplinar apenas os fatos</p><p>sociais mais relevantes para o convívio social. Ele irá disciplinar, principal-</p><p>mente, as relações de conflitos e, quanto às relações de cooperação e</p><p>competição, somente onde houver situação potencialmente conflituosa.</p><p>Betioli ressalta que:</p><p>"O direito não visa ao aperfeiçoamento interior do homem; essa meta</p><p>pertence à moral. Não pretende preparar o ser humano para uma vida</p><p>supraterrena, ligada a Deus, finalidade buscada pela religião. Nem se</p><p>preocupa em incentivar a cortesia, o cavalheirismo ou as normas de etique-</p><p>ta, campo específico das regras de trato social, que procuram aprimorar o</p><p>nível das relações sociais." (2008, p.8-9)</p><p>Há vários pontos de divergência entre direito e religião. Legaz e La-</p><p>cambra apontam duas diferenças estruturais: a alteridade e a segurança.</p><p>Segundo o autor (1961, p.419), "a alteridade, essencial ao direito, não é</p><p>necessária à religião". O próximo, o semelhante é um elemento circunstan-</p><p>cial e não um elemento essencial na ideia religiosa. O mais importante é a</p><p>prática do bem. A religião é uma relação entre o homem e Deus e não entre</p><p>o homem e os demais. Para o Direito, no entanto, o que importa é o com-</p><p>portamento humano e social.</p><p>A segunda diferença estrutural diz respeito à segurança. Para a religião</p><p>a segurança é algo inatingível e espiritual, porquanto que para o direito, se</p><p>alcança a partir da certeza ordenadora.</p><p>Em relação às diferenças existentes entre o direito e a moral, podemos</p><p>apontar algumas das distinções feitas por Paulo Nader (2007, p.40-44).</p><p>Segundo o autor, "o direito se manifesta mediante um conjunto de regras</p><p>que definem a dimensão da conduta exigida, que especificam a fórmula do</p><p>agir". Ao contrário damoral que possui diretrizes mais gerais.</p><p>As normas jurídicas possuem uma "estrutura imperativo-atributiva, isto</p><p>é, ao mesmo tempo em que impõem um dever jurídico a alguém, atribuem</p><p>um poder ou direito subjetivo a outrem". A moral, por sua vez, com uma</p><p>estrutura mais simples, impõe apenas deveres.</p><p>Enquanto a moral se preocupa com a vida interior das pessoas, como a</p><p>consciência, o direito cuida, em primeiro plano, das ações humanas.</p><p>O animus do agente só será considerado quando necessário.</p><p>Além disso, a moral, bem como todas as demais regras sociais, se dis-</p><p>tingue do direito, pois carece de coercibilidade e de heteronomia. O direito,</p><p>ao revés, é imposto independentemente de vontade de sujeição e possui</p><p>formas de garantir o respeito e obediência a seus preceitos.</p><p>4.O direito como instrumento de controle social</p><p>Como vimos o direito não é o único instrumento responsável pela orga-</p><p>nização e pela harmonia da sociedade, uma vez que as demais normas de</p><p>conduta também contribuem para o sucesso das relações sociais. No</p><p>entanto, merece lugar de destaque, pois é o que possui maior pretensão de</p><p>efetividade, manifestando-se como um corolário inafastável da sociedade.</p><p>Émile Durkheim (1960, p.17) ressalta que "a sociedade sem</p><p>o direito não resistiria, seria anárquica, teria o seu fim. O direito é a grande</p><p>coluna que sustenta a sociedade. Criado pelo homem, para corrigir a sua</p><p>imperfeição, o direito representa um grande esforço para adaptar o mundo</p><p>exterior às suas necessidades de vida."</p><p>A necessidade de uma</p><p>convivência ordenada impõe-se como condição</p><p>para a subsistência da sociedade. O direito corresponde a essa exigência</p><p>ordenando as relações sociais através de normas obrigatórias de organiza-</p><p>ção e comportamento humano.</p><p>Miguel Reale (2006, p.62) define o direito como sendo "a ordenação</p><p>das relações de convivência".</p><p>Telles jr. (2001, p.381), neste mesmo sentido, conceitua-o como "a dis-</p><p>ciplina da convivência".</p><p>Por sua vez, Paulo Nader (2007, p. 76), em sua brilhante definição, as-</p><p>sim considera: "direito é um conjunto de normas de conduta social, imposto</p><p>coercitivamente pelo Estado, para a realização da segurança, segundo os</p><p>critérios de justiça".</p><p>Do conceito de Paulo Nader podemos perceber três grandes distinções</p><p>entre o direito e as demais regras de trato social. A primeira diferença</p><p>repousa no fato do direito ser a única norma que emana do Estado. A</p><p>segunda, pelo fato de ser impositivo, imperativo. Não há margem de liber-</p><p>dade para escolher se irá ou não se adequar aos seus preceitos. Por últi-</p><p>mo, temos a coercitividade, que exerce intimidação sobre os destinatários</p><p>das normas jurídicas. Sendo assim, podemos depreender que o indivíduo</p><p>que não se adequa ou não realiza atos de acordo com o ordenamento</p><p>jurídico vigente poderá ser submetido a uma puni��ão.</p><p>5.Conclusões</p><p>Do exposto, podemos concluir pela mútua dependência entre direito e</p><p>sociedade. Não pode haver sociedade sem direito e não há direito sem</p><p>sociedade. Não poderia existir sociedade sem uma ordem mínima, sem</p><p>guias e direcionamentos. Há a necessidade de se limitar a esfera de condu-</p><p>ta de cada indivíduo de modo que sua liberdade de atuação não gere</p><p>conflitos sociais. Da mesma forma que não se concebe o homem sem o</p><p>convívio social, também não se concebe uma sociedade sem regras, sem</p><p>o direito.</p><p>O direito, por sua vez, não tem existência por si só. Ele existe no mei-</p><p>o social e em função da sociedade. O indivíduo isolado não carece</p><p>de direito.</p><p>Desta forma, ele modifica a sociedade no sentido de impor condutas e</p><p>comportamentos, mas também é influenciado por ela, através da cultura,</p><p>dos usos e costumes e pela evolução temporal.</p><p>Dante Alighieri, em sua obra "Da Monarquia", assim conclui: "o direito é</p><p>uma porção real e pessoal, de homem para homem que, conservada,</p><p>conserva a sociedade, corrompida, corrompe-a".</p><p>FORTES, Wanessa Mota Freitas. Sociedade, Direito e controle social</p><p>. Jus Navigandi, Teresina, ano 16, n. 3100, 27dez.2011 . Disponível</p><p>em: <http://jus.com.br/artigos/20736>. Acesso em: 31 jan. 2014.</p><p>3. Transformações das estruturas produtivas e influência da</p><p>economia na sociedade global.</p><p>3.1. A globalização e as novas tecnologias de telecomunicação</p><p>e suas consequências econômicas, políticas e sociais.</p><p>3.2. Poder econômico e responsabilidade social.</p><p>3.2.1 Norma Brasileira de Diretrizes sobre Responsabilidade</p><p>Social - ABNT NBR ISO 26000: 2010.</p><p>3.3 Educação e trabalho.</p><p>http://jus.com.br/artigos/20736</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 22</p><p>A globalização e as novas tecnologias de telecomunicação e suas</p><p>conseqüências econômicas.</p><p>A globalização veio trazer enormes mudanças, sócias econômicas e</p><p>políticas, que transformaram nosso planeta, de tal forma que se tornou</p><p>praticamente impossível alguém viver de forma isolada. A exemplo disso</p><p>temos Cuba que com a extinção da antiga União Soviética, encontra-se</p><p>praticamente isolada do resto do mundo; sofrendo embargos econômicos ,</p><p>especialmente dos Estados Unidos da América. No âmbito das telecomuni-</p><p>cações temos acompanhado um avanço tecnológico de grandes propor-</p><p>ções; hoje esse avanço nos tem proporcionado; até certo ponto certa</p><p>comodidade; pois como se vê você pode comprar de tudo sem mesmo sair</p><p>de casa. Essa globalização tem trazido grandes transformações, em todas</p><p>as áreas e especialmente na economia global. Ramiro Thamay Yamane</p><p>Dimensões da globalização: comunicações, economia, polí-</p><p>tica e ética.</p><p>José Maria Rodriguez Ramos*</p><p>Resumo: O estudo da globalização desde os anos 80 implica a análise</p><p>de diversas variáveis: a evolução das comunicações, a globalização eco-</p><p>nômica, a integração política e os valores éticos presentes no relaciona-</p><p>mento social e mundial. A ligação entre cada um desses aspectos é clara: a</p><p>revolução nas comunicações favorece e permite a integração econômica. O</p><p>fator econômico, por sua vez, é orientado pelo cenário e relacionamento</p><p>político. E o elemento político, em última instância, está presidido por</p><p>valores e princípios.</p><p>I. Introdução</p><p>Nas duas últimas décadas, o tema da globalização tem ocupado espa-</p><p>ço cada vez maior nas pautas das reuniões de organizações internacionais</p><p>e nos fóruns de debate mundiais. O recente fim de século e de milênio</p><p>propiciou uma oportunidade de reflexão em escala mundial sobre os rumos</p><p>da história ao longo dos últimos cem anos, e estimulou o pensamento sobre</p><p>o futuro da humanidade face aos novos desafios e dilemas do mundo</p><p>moderno.</p><p>Não é possível afirmar que exista qualquer consenso ou diagnóstico defini-</p><p>tivo sobre o passado, presente e futuro do processo de globalização por</p><p>que atravessa o mundo moderno. A tentativa de comparar a atual integra-</p><p>ção mundial com épocas de globalização no passado não está isenta de</p><p>perigos e armadilhas, em função das novas circunstâncias e variáveis em</p><p>que se insere o processo de reestruturação da nova ordem internacional.</p><p>Para procurar compreender um fenômeno é preciso, em primeiro lugar,</p><p>definir os termos e, depois, dividir a questão de modo a separar as possí-</p><p>veis variáveis que contribuem para explicar o conjunto. Dada a complexida-</p><p>de do fenômeno da integração mundial, torna-se especialmente necessária</p><p>essa separação dos fatores que estão contribuindo para a nova conforma-</p><p>ção do cenário internacional.</p><p>Antes, porém de iniciar a análise, é importante comentar que há duas</p><p>visões, contraditórias e irreconciliáveis em relação à globalização. Uma</p><p>delas, em face da complexidade do tema, renuncia a uma tentativa de</p><p>compreensão global do fenômeno e enuncia fatos ocorridos ao redor do</p><p>globo sem procurar uma explicação unitária, impossível de ser alcançada</p><p>sob este ponto de vista. A tentativa de interpretação unitária, como um</p><p>trabalho de Sísifo, estaria condenada ao fracasso. Os eventos mundiais</p><p>seriam apenas flashes que iluminariam o escuro cenário mundial, impossí-</p><p>vel de ser captado de modo unitário.</p><p>O outro enfoque, mais próximo da perspectiva científica, procura um</p><p>método de análise, a partir da observação da realidade e, ao mesmo tem-</p><p>po, divide o estudo das questões, de modo a iluminar cada canto do cená-</p><p>rio. A reconstituição metódica das luzes permitiria uma visão integrada do</p><p>quadro mundial. Esta segunda perspectiva é mais desafiadora e fértil.</p><p>O presente estudo adota a segunda perspectiva e procura focalizar quatro</p><p>importantes fatores que têm contribuído de forma diversa para configurar o</p><p>processo de globalização nos últimos vinte anos, ou seja, desde o início</p><p>dos anos 80: a globalização nas comunicações, a econômica, a política e a</p><p>dos valores presentes no convívio em todos os níveis: pessoal, social,</p><p>nacional e mundial. Cada um desses aspectos será abordado nas quatro</p><p>secções deste texto.</p><p>A ligação entre eles é clara: a revolução nas comunicações favorece e</p><p>permite a integração econômica. O fator econômico, por sua vez, tem</p><p>implicações no cenário e no relacionamento político. E o elemento político,</p><p>em última instância, está presidido por valores e princípios. A presença ou</p><p>ausência de valores éticos e princípios morais nas pessoas que comandam</p><p>a política, a cultura, a economia e as comunicações é fundamental para</p><p>compreender a evolução da humanidade e o processo de globalização em</p><p>curso.</p><p>Outra maneira de enunciar o mesmo processo é dizer que a informação –</p><p>favorecida pela comunicação – é necessária para tomar decisões econômi-</p><p>cas. A economia,</p><p>por sua vez, está a serviço da política e a política deveria</p><p>perseguir o bem da sociedade, norteada por princípios ou valores éticos.</p><p>Este ponto de partida descansa na idéia de que a ação humana é intencio-</p><p>nal e as pessoas se dirigem a determinados fins quando atuam.</p><p>O triste atentado terrorista ao coração de Nova York, no ano passado, é um</p><p>exemplo claro desse ponto de vista. Embora condenável sob todos os</p><p>pontos de vista, a motivação dos terroristas suicidas provinha de valores</p><p>compartilhados. Apesar de os valores que motivaram suas ações serem</p><p>totalmente condenáveis, nem por isso deixam de ser valores.</p><p>Nas entrelinhas da Carta da América, divulgada em fevereiro de 2002 pelo</p><p>Institute for American Values e assinada por 60 intelectuais americanos,</p><p>dentre eles Samuel Huntington e Francis Fukuyama, condenando todos os</p><p>radicalismos e extremismos que matam em nome da fé, suprimem a liber-</p><p>dade das consciências, desrespeitam a liberdade humana e ferem a digni-</p><p>dade da pessoa humana, encontram-se valores que vão muito além dos</p><p>interesses comerciais ou econômicos.</p><p>II. Revolução nas comunicações</p><p>O relacionamento humano, assim como o relacionamento comercial ou</p><p>entre países está baseado na comunicação. É preciso comunicar-se para</p><p>estabelecer elos que permitam a integração. A língua e a linguagem são os</p><p>meios que facilitam essa comunicação. Nas últimas décadas, a integração</p><p>econômica mundial foi impulsionada pela revolução das comunicações que,</p><p>por sua vez, foi favorecida pelos avanços na tecnologia.</p><p>Os avanços tecnológicos na área da informática e das comunicações, tais</p><p>como o microcomputador, os satélites, a fibra ótica, a Internet, multiplicaram</p><p>as possibilidades e oportunidades de negócios a um custo cada vez menor.</p><p>O deus Hermes, na mitologia grega, filho de Zeus e de Maia, é o deus do</p><p>comércio por sua versatilidade, decisão, astúcia e rapidez de comunicação.</p><p>Era o mensageiro de Zeus. As sandálias aladas e asas no chapéu, com</p><p>que é representado, emprestavam ao deus a velocidade e mobilidade</p><p>necessárias ao exercício da atividade comercial.</p><p>Comunicar-se é o primeiro passo no mundo dos negócios. Consideremos,</p><p>por exemplo, o preço das comunicações. Em 1930, o custo de uma chama-</p><p>da telefônica de três minutos entre Nova York e Londres (a preços constan-</p><p>tes) era 245 dólares. Quarenta anos depois, em 1970, o custo era quase</p><p>um décimo, 32 dólares. Decorridos vinte anos, em 1990, o custo foi nova-</p><p>mente dividido por dez, 3 dólares (UNDP, 1999).</p><p>O avanço das comunicações na década de 90 foi surpreendente, como</p><p>mostram os indicadores de comunicação global divulgados pela Internatio-</p><p>nal Telecommunication Unit (ITU). De 1990 a 2000, a receita do mercado</p><p>de telecomunicações mais do que duplicou, passando de 508 bilhões para</p><p>1,16 trilhão de dólares (a preços correntes).</p><p>Os principais responsáveis pelo aumento das receitas no mundo das co-</p><p>municações são os telefones celulares, os microcomputadores e a internet.</p><p>De acordo com o relatório da ITU, o número de usuários de telefones</p><p>celulares passou de 11 milhões, em 1990, para 650 milhões, em 2000, e</p><p>estimava-se que esse número alcançaria 1 bilhão em 2002.</p><p>Na década de 90, de acordo com o mesmo relatório, quadruplicou o uso de</p><p>computadores pessoais e duplicou o número de linhas telefônicas fixas. Em</p><p>1990, a ITU calculava que havia 2,6 milhões de usuários dos serviços de</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 23</p><p>Internet no mundo. No ano de 1999 seriam 230, em 2000, 311 e, para</p><p>2002, a projeção era de 500 milhões, um número próximo a 10% da popu-</p><p>lação mundial.</p><p>Esse crescimento vertiginoso das comunicações, entretanto, não está</p><p>ocorrendo de um modo simétrico no mundo como um todo. O mercado da</p><p>indústria de tecnologia está concentrado nos países industrializados. De</p><p>acordo com o European Information Technology Observatory (1998), Euro-</p><p>pa (30%), Estados Unidos (35%) e Japão (14%), concentram 79% do</p><p>mercado mundial das tecnologias de comunicação e informação. Ao resto</p><p>do mundo correspondem apenas 21% do mercado.</p><p>Os dados estatísticos do World Communication and Information Report de</p><p>2000, divulgados pela Unesco, confirmam essa tendência mundial. Enquan-</p><p>to serviços tradicionais de comunicação, tais como cartas postadas no</p><p>correio, têm declinado nos últimos anos, as novas tecnologias alavancam o</p><p>desenvolvimento das comunicações. O número de cartas per capita posta-</p><p>das nos correios, por exemplo, que em 1985 era 75, declinou para 69 em</p><p>1995, conforme dados da Universal Postal Union (Unesco, 2000, p.150).</p><p>Com relação à imprensa diária, um veículo também tradicional de informa-</p><p>ção, o número de jornais diários publicados entre 1980 e 1995 permaneceu</p><p>constante. De acordo com a Unesco (Statistical Yearbook, 1998), verificou-</p><p>se um pequeno declínio na América do Norte e um pequeno aumento na</p><p>Europa. No resto do mundo não houve nenhuma alteração substancial. A</p><p>circulação diária de jornais por 1.000 habitantes manteve-se constante nos</p><p>anos 90, também em escala mundial.</p><p>O uso da Internet, entretanto, cresceu vertiginosamente nos últimos anos.</p><p>Se consideramos o número de provedores como variável para avaliar a</p><p>expansão da rede mundial de microcomputadores ligados na internet, em</p><p>apenas três anos, de 1995 a 1998, o número de provedores passou de</p><p>cinco para 30 milhões, no mundo inteiro, ou seja, foi multiplicado por seis</p><p>(Unesco, 2000, p.157).</p><p>Essa evolução, entretanto, precisa ser qualificada. O relatório do Desenvol-</p><p>vimento Humano de 1999, publicado pelo Programa das Nações Unidas para</p><p>o Desenvolvimento divulgou dados que mostram que os países que se</p><p>encontram no topo da pirâmide da riqueza mundial – os 20% mais ricos -</p><p>concentram 93,3% dos usuários da internet.</p><p>De acordo com o mesmo relatório: “nos últimos anos da década de 90, o</p><p>quinto da população mundial que vive nos países de renda mais elevada</p><p>tinha (...) 74% das linhas telefônicas mundiais, meios básicos de comunica-</p><p>ção atuais, enquanto que o quinto de menor renda possuía apenas 1,5%</p><p>das linhas. Alguns observadores previram uma tendência convergente. No</p><p>entanto, a década passada mostrou uma crescente concentração de renda,</p><p>recursos e riqueza entre pessoas, empresas e países” (PNUD, 1999, p.5).</p><p>O avanço nas comunicações está relacionado com a globalização econô-</p><p>mica à medida que a revolução na informação está abrindo novos espaços</p><p>e perspectivas econômicas em todos os níveis, tanto para os países, quan-</p><p>to para as empresas e para as pessoas. Representa um avanço real e</p><p>significativo para o futuro mundial, embora não esteja isento de perigos e</p><p>desafios. O ideal de um mercado com informação perfeita e instantânea</p><p>está deixando o status de utopia dos livros-texto de economia para tornar-</p><p>se uma possibilidade real graças ao baixo custo e rapidez da informação,</p><p>principalmente pelo uso da Internet.</p><p>A conclusão é clara: a revolução nas comunicações transformou a atividade</p><p>econômica nos últimos vinte anos e – muito embora a sua distribuição</p><p>tenha sido assimétrica - favoreceu a integração entre países e o processo</p><p>de globalização.</p><p>III. Globalização econômica</p><p>A globalização econômica é uma faca de dois gumes. De um lado, descor-</p><p>tina novos horizontes para a economia mundial, de outro, entretanto, pode</p><p>abrir o fosso que separa pessoas e países, aumentando o abismo entre os</p><p>beneficiados com o processo e os desfavorecidos da fortuna. Há um claro</p><p>divisor de águas entre aqueles que defendem os aspectos positivos da</p><p>integração econômica e aqueles que somente vêem as mazelas do proces-</p><p>so, que são conseqüência, mesmo que por vezes involuntária, da integra-</p><p>ção econômica mundial.</p><p>Um estudo dessas questões, que procure ser objetivo, necessita olhar tanto</p><p>para as vantagens quanto para os inconvenientes da globalização econô-</p><p>mica à luz de dois aspectos: os dados compilados sobre a economia mun-</p><p>dial e, principalmente, os valores e princípios</p><p>que deveriam nortear esse</p><p>processo.</p><p>Para muitos países, a divisão internacional do trabalho e a teoria das van-</p><p>tagens comparativas do comércio internacional estão alterando significati-</p><p>vamente as relações comerciais entre eles. Em 2000, o volume de comér-</p><p>cio mundial cresceu 12%. A taxa média de crescimento do comércio mun-</p><p>dial nos anos 90 foi de 7% ao ano. Em 2001, por causa dos atentados</p><p>terroristas contra os Estados Unidos, o comércio internacional estagnou.</p><p>Essa reversão foi encarada por vários autores como um fim da era da</p><p>globalização, porém ainda é cedo para emitir diagnósticos definitivos.</p><p>Para as empresas, a globalização abriu novas fontes de tecnologia, financi-</p><p>amento, trabalho e difusão dos seus produtos e serviços. Ao mesmo tempo,</p><p>a globalização acelerou o processo de fusão e incorporação de empresas.</p><p>Observa-se uma concentração do capital e uma expansão das empresas</p><p>multinacionais. Novas marcas mundiais, com know-how e tecnologia pró-</p><p>prias avançam na maioria dos países. Tanto na indústria automobilística</p><p>quanto no setor bancário ou nos supermercados, para não citar o caso da</p><p>indústria da informática, verifica-se uma concentração do capital.</p><p>Também para as pessoas a globalização abre novas perspectivas e moda-</p><p>lidades de trabalho. Muitas tarefas podem ser realizadas, graças à internet,</p><p>fora do local habitual de trabalho. A globalização, entretanto, também</p><p>ameaça muitas ocupações que, em função do avanço das comunicações,</p><p>não são mais necessárias. O estudo desses aspectos é extremamente</p><p>vasto e interessante, porém foge ao propósito do presente estudo, que</p><p>pretende concentrar-se na análise econômica.</p><p>Restringindo a globalização ao âmbito da economia durante o século XX, é</p><p>importante distinguir dois períodos: do início do século até 1980 e nas duas</p><p>últimas décadas. É dos anos 80 em diante que ganha força a globalização</p><p>econômica.</p><p>Crescimento econômico do início do século XX até 1980</p><p>O século XX, apesar das duas guerras mundiais e da grande depressão</p><p>dos anos 30, foi um século de crescimento econômico, principalmente após</p><p>a Segunda Guerra. A crise do petróleo de 1973 brecou, porém não inter-</p><p>rompeu o crescimento econômico mundial. De acordo com o relatório do</p><p>Banco Mundial de 1999, de 1975 a 1995 a taxa média de crescimento do</p><p>Produto Nacional Bruto mundial foi 2,8% ao ano. Em termos per capita essa</p><p>taxa foi 1,1%.</p><p>O crescimento econômico favoreceu os pobres, porém não solucionou o</p><p>problema da pobreza no mundo. Com base em dados de 80 países ao</p><p>longo de quatro décadas, um estudo desenvolvido por Dollar e Kraay</p><p>concluiu que “o relacionamento entre o crescimento da renda dos pobres e</p><p>o crescimento da renda geral é um para um” (2000, p. 27). Ou seja, a renda</p><p>dos pobres aumentou na mesma proporção em que a renda em geral .</p><p>Se ao longo do século passado o crescimento econômico foi uma tendência</p><p>generalizada, a riqueza gerada não se distribuiu simetricamente. De acordo</p><p>com o relatório do Desenvolvimento Humano (1999), publicado pelas</p><p>Nações Unidas, 20% dos países mais ricos detêm 86% do PIB mundial,</p><p>enquanto que os 20% mais pobres participam apenas com 1% da produção</p><p>mundial.</p><p>Em relação às diferenças de renda entre países, estudo desenvolvido por</p><p>Nicholas Crafts sobre o crescimento econômico no século XX conclui que</p><p>houve um “generalizado e sem precedentes distanciamento em termos de</p><p>nível de renda e desempenho entre países, e especialmente entre a OCDE</p><p>e muitos países em desenvolvimento, tanto na primeira quanto na segunda</p><p>metade do século XX” (2000, p. 4).</p><p>Independentemente dessa observação, a análise do Índice de Desenvolvi-</p><p>mento Humano (IDH) ao longo do século passado mostra que houve avan-</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 24</p><p>ços significativos, fundamentalmente por causa da redução generalizada da</p><p>mortalidade. O estudo histórico da evolução da renda nacional subestima o</p><p>crescimento nos padrões de vida.</p><p>Globalização econômica de 1980 em diante: crescimento, pobreza e distri-</p><p>buição de renda</p><p>Para avaliar como a globalização afetou o crescimento econômico, a po-</p><p>breza e a distribuição de renda, Dollar e Kraay (2001) reuniram dados de</p><p>um grupo de mais de cem países. Eles foram divididos em três grupos:</p><p>países ricos, países inseridos no processo de globalização (“globalizers”), e</p><p>países não inseridos na globalização (“non-globalizers”). O critério para</p><p>diferenciar os países inseridos na globalização do resto dos países em</p><p>desenvolvimento, de 1980 em diante, foi fixado em função de duas variá-</p><p>veis: cortes de tarifas e aumento do volume de comércio exterior.</p><p>Os países inseridos na globalização tiveram mudanças significativas no</p><p>volume de comércio exterior em relação ao Produto Interno Bruto, passan-</p><p>do de 16% para 32% nos últimos vinte anos. Como elemento de compara-</p><p>ção, nos países ricos esse aumento foi de 29% para 50%. Ao mesmo</p><p>tempo os países inseridos na globalização reduziram as suas tarifas em 22</p><p>pontos percentuais (de 57% para 35%). Os países inseridos na globaliza-</p><p>ção representam metade da população mundial, ou seja, mais de três</p><p>bilhões de pessoas. Dentre eles se encontram China, Índia, Brasil, México e</p><p>Argentina.</p><p>As conclusões do estudo mostram que “enquanto as taxas de crescimento</p><p>dos países ricos declinaram nas décadas passadas, as taxas de crescimen-</p><p>to dos ´globalizers´ tem seguido o caminho inverso, acelerando-se dos</p><p>anos 70 para os 80 e 90. O resto do mundo em desenvolvimento, por outro</p><p>lado, seguiu o mesmo caminho que os países ricos: desaceleração do</p><p>crescimento dos anos 70 para os 80 e 90. Nos anos 90 os países inseridos</p><p>na globalização tiveram um crescimento per capita de 5% ao ano; os paí-</p><p>ses ricos cresceram a 2,2% per capita e os países não inseridos cresceram</p><p>apenas 1,4% (Dollar e Kraay, 2001, p. 27). Ou seja, a distância entre paí-</p><p>ses ricos e em desenvolvimento declinou nas duas últimas décadas em</p><p>relação aos países inseridos na globalização e aumentou para aqueles</p><p>países não inseridos no processo.</p><p>O estudo sugere também que a taxa de inflação dos países com maior</p><p>abertura para o exterior declinou nas últimas décadas.</p><p>Dos anos 80 para os anos 90, a inflação média desses países passou de</p><p>24% ao ano para 12%. A estabilização monetária deverá contribuir para</p><p>que a renda dos pobres cresça em torno de 0,4%. Em função desses</p><p>resultados, os autores do estudo comentam: “podemos esperar que uma</p><p>maior abertura deverá melhorar a vida material dos pobres. Também sa-</p><p>bemos que no curto prazo haverá alguns perdedores entre os pobres e que</p><p>a efetiva proteção social pode facilitar a transição para uma economia mais</p><p>aberta, de tal maneira que todos os pobres se beneficiem com o desenvol-</p><p>vimento” (Dollar e Kraay, 2001, p.6).</p><p>A globalização econômica – aumento de comércio exterior e redução de</p><p>tarifas – favorece o crescimento e a diminuição da pobreza. O grande</p><p>desafio da globalização, entretanto, continua a ser a distribuição de renda</p><p>entre países e entre pessoas: “países que reduziram a inflação e expandi-</p><p>ram o comércio e viram acelerar suas taxas de crescimento nos últimos 20</p><p>anos não tiveram mudanças significativas na distribuição de renda” (Dollar</p><p>e Kraay, 2001, p. 5).</p><p>Analisando o índice de Gini de 23 países em desenvolvimento inseridos no</p><p>processo de globalização, em 11 deles a distribuição de renda melhorou</p><p>enquanto que em 12 esse índice foi pior, dentre eles na China. Assim, em</p><p>função das evidências empíricas disponíveis não é possível concluir que a</p><p>globalização tenha contribuído para uma melhor distribuição de renda.</p><p>O Banco Mundial também tem procurado evidências empíricas do impacto</p><p>da globalização sobre o crescimento econômico e a pobreza, como mostra</p><p>relatório de pesquisa sobre o tema, publicado em 2002. A partir do diagnós-</p><p>tico da aceleração da integração mundial nas últimas décadas, enfatiza a</p><p>divisão econômica do mundo em três esferas: os países ricos, que repre-</p><p>sentam um sexto da população mundial e detém a maior parte da riqueza</p><p>do mundo, os países em desenvolvimento abertos à globalização, com</p><p>metade da população mundial – três bilhões de pessoas – e com elevadas</p><p>taxas de crescimento da renda nos últimos anos e, por último, um grupo de</p><p>países que está à margem da globalização e da riqueza em que vivem dois</p><p>bilhões de pessoas, isto é, um terço da população mundial.</p><p>Este último grupo de países representa um desafio para o futuro econômico</p><p>e político mundial. Na avaliação do Banco Mundial, os países mais pobres,</p><p>assim como os países em desenvolvimento de modo geral, têm enfrentado</p><p>diversas dificuldades para crescer e competir com os países mais ricos. A</p><p>primeira delas é o protecionismo desses países: “as tarifas dos países ricos</p><p>são baixas, mas eles mantêm barreiras exatamente nas áreas em que os</p><p>países em desenvolvimento têm vantagens comparativas: agricultura e</p><p>manufaturas intensivas em trabalho”. (World Bank, 2002, p.9).</p><p>Um segundo desafio são as restrições para o investimento externo: “en-</p><p>quanto fluxos de capital privado para países novos em termos de globaliza-</p><p>ção têm crescido dramaticamente, os países menos globalizados têm</p><p>experimentado com freqüência fugas de capital – desde 1990 perto de 40%</p><p>da riqueza privada da África foi enviada para fora do continente” (idem, p.</p><p>10).</p><p>A migração representa a terceira dificuldade. Se, de um lado, as pressões</p><p>econômicas para a migração aumentam, do outro, a migração legal é</p><p>altamente restritiva: “Em comparação com cem anos atrás, o mundo é</p><p>muito menos globalizado no que se refere a fluxos de mercado de trabalho.</p><p>O número de migrantes residindo em países diferentes da sua nacionalida-</p><p>de representa apenas 2% da população mundial” (idem, p.11).</p><p>Além desses desafios, específicos dos países mais pobres, a abertura</p><p>econômica promovida pela globalização aumentou a competição entre as</p><p>empresas, valorizando o fator educacional, as habilidades técnicas dos</p><p>trabalhadores e a experiência profissional. Ou seja, o fator capital humano,</p><p>adquiriu maior importância com a globalização. Ao mesmo tempo, prejudi-</p><p>cou o trabalhador de mais idade, ao enfrentar maiores dificuldades para</p><p>adaptar-se às novas tecnologias e aprender novos ofícios.</p><p>Em função desse diagnóstico, “a combinação de abertura com uma força</p><p>de trabalho bem treinada e educada, produz especialmente bons resultados</p><p>para a redução da pobreza e o bem-estar humano. Portanto, um bom</p><p>sistema educacional que providencie oportunidades para todos é crítico</p><p>para o sucesso neste mundo globalizado” (idem, p. 14).</p><p>Também a partir dessa avaliação, o Banco Mundial propõe uma agenda</p><p>para ação que permita que os países mais pobres se beneficiem da globali-</p><p>zação nas seguintes áreas-chave:s 1) participação do mercado global em</p><p>expansão, favorecido por uma redução das barreiras comerciais e uma</p><p>nova rodada de negociações comerciais; 2) melhorar o clima de investimen-</p><p>to nos países em desenvolvimento; 3) aperfeiçoar os serviços de educação</p><p>e saúde; 4) providenciar proteção social adequada a um mercado de traba-</p><p>lho dinâmico em uma economia aberta; 5) maior volume de ajuda externa;</p><p>6) perdão das dívidas, especialmente para os países africanos; 7) preocu-</p><p>pação com o meio ambiente: aquecimento global e emissão de gases.</p><p>As propostas do Banco Mundial são importantes e relevantes. Não há</p><p>dúvida de que contribuiriam para elevar a renda e os padrões de vida</p><p>mundiais, principalmente nos países mais pobres, ou seja, para um terço</p><p>da população mundial. A questão, entretanto, é como colocar em prática</p><p>essa agenda para a ação. A componente fundamental é política e não</p><p>econômica.</p><p>Resumindo, a análise comparativa da evolução econômica mundial ao</p><p>longo do século vinte e nas duas últimas décadas mostra resultados inte-</p><p>ressantes. O século XX foi um século de crescimento econômico. Esse</p><p>crescimento, embora não tenha solucionado o problema da pobreza no</p><p>mundo, que continua a desafiar o mundo moderno, favoreceu os pobres. O</p><p>crescimento econômico, por outro lado, não teve uma distribuição eqüitativa</p><p>entre os países e, em muitos casos, a distância entre países ricos e pobres</p><p>aumentou.</p><p>Esta conclusão geral que deriva da evidência empírica observado no século</p><p>XX assume características diferentes com o advento do fenômeno da</p><p>globalização, nos anos 80. O balanço das evidências empíricas sobre como</p><p>a globalização afetou o mundo nas últimas duas décadas torna-se mais</p><p>claro quando se distinguem três grupos de países: países ricos, países em</p><p>desenvolvimento inseridos na globalização e países em desenvolvimento</p><p>não integrados no processo de globalização. Tanto o primeiro – países</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 25</p><p>ricos – quanto o segundo grupo se beneficiou com a maior integração</p><p>econômica, tanto em termos de crescimento quanto de redução da pobre-</p><p>za. O crescimento econômico do segundo grupo foi inclusive superior ao</p><p>primeiro. Entretanto, no último grupo, que corresponde a países pobres não</p><p>integrados na globalização, as suas taxas de crescimento econômico foram</p><p>as menores, o que provocou um aumento da distância entre eles e o resto</p><p>do mundo. Ao considerar que nesses países reside um terço da população</p><p>mundial o desafio econômico é significativo e urgente. A distribuição de</p><p>renda, com base no índice de Gini, não parece ter melhorado com a globa-</p><p>lização em nenhum desses grupos de países.</p><p>As soluções para modificar as sombras desse quadro mundial passam pela</p><p>política. Decisões como perdão da dívida, ajuda e financiamento externo,</p><p>redução de barreiras não tarifárias, e muitas outras, implicam decisões</p><p>políticas. Tal como aponta o relatório do Banco Mundial, “a redução do</p><p>custo das comunicações, informação e transporte que contribuiu para a</p><p>globalização não deverá ser revertida, mas a redução do comércio e as</p><p>barreiras ao investimento podem ser revertidas pelo protecionismo e nacio-</p><p>nalismo, como aconteceu nos anos 30. Protecionismo e nacionalismo</p><p>poderão provocar uma reação profundamente prejudicial para as oportuni-</p><p>dades criadas pela globalização” (World Bank, 2002, p.22).</p><p>Embora a face mais visível da globalização seja econômica, o processo</p><p>como um todo não deve estar subordinado aos interesses exclusivamente</p><p>econômicos, mas, antes de tudo, aos valores humanos. A globalização</p><p>deve estar a serviço da humanidade e não a humanidade a serviço da</p><p>globalização. Os interesses econômicos devem estar subordinados à ética</p><p>e não os valores éticos à globalização.</p><p>É por essa razão que as Nações Unidas dedicaram o Relatório Mundial de</p><p>1999 ao tema: Globalização com uma face humana. O primeiro Relatório do</p><p>Desenvolvimento Humano, de 1990, afirmava: “A verdadeira riqueza de</p><p>uma nação é o seu povo. E o objetivo do desenvolvimento é a criação de</p><p>um ambiente que permita às pessoas desfrutarem de uma vida longa,</p><p>saudável e criativa. Esta simples verdade é muitas vezes esquecida quan-</p><p>do se persegue a riqueza material e financeira” (apud PNUD, 1999, p.4).</p><p>A questão fundamental envolvida na globalização diz respeito, portanto,</p><p>aos valores que presidem o processo. Quando os interesses econômicos</p><p>são privilegiados em detrimento dos valores humanos, éticos, surge a face</p><p>perversa da globalização. É nessa direção que aponta o Relatório das</p><p>Nações Unidas quando afirma que “a crescente interdependência da vida</p><p>das pessoas apela para valores e compromissos compartilhados em prol do</p><p>desenvolvimento humano de todos os povos” (PNUD, 1999, p.4).</p><p>Antes, porém, de analisar os valores, é importante tratar da globalização</p><p>em termos de política internacional.</p><p>IV. Globalização política</p><p>Se a integração nas comunicações impulsionada pelo avanço tecnológico é</p><p>um fato incontestado e a globalização econômica alcançou dois terços da</p><p>população mundial nos últimos vinte anos, a globalização política está</p><p>distante de ser uma realidade concreta e prática na vida dos</p><p>países.</p><p>Com a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, a livre iniciativa e o</p><p>sistema de mercado se espalharam pelos países da antiga Cortina de Ferro</p><p>e pelo Extremo Oriente. A onda de liberalização econômica, entretanto, não</p><p>teve o mesmo impacto na arena política. As fronteiras e a soberania nacio-</p><p>nal não se alteraram e o Estado-nação continua a prevalecer no âmbito das</p><p>relações internacionais.</p><p>A questão de como a globalização está afetando e afetará a soberania</p><p>nacional e a delimitação das fronteiras políticas dos países é polêmica. De</p><p>um lado, há analistas que prevêem uma diminuição e enfraquecimento do</p><p>Estado-nação, enquanto que, do outro lado, há aqueles que olham com</p><p>desconfiança e ceticismo para a globalização política.</p><p>Este tema já estava presente nas primeiras décadas do século XX. E. H.</p><p>Carr (1939), analisando as relações internacionais no período entre guer-</p><p>ras, descrevia a interdependência mundial com base na explicação ofereci-</p><p>da por duas correntes de pensamento opostas: utópica e realista.</p><p>O ponto de vista utópico descrevia um mundo ideal. O paradigma utópico</p><p>privilegiava o direito internacional, o cumprimento das obrigações interna-</p><p>cionais e via a paz como fruto da harmonia e do interesse mútuos dos</p><p>países. A razão humana aplicada às relações internacionais conduziria à</p><p>paz entre os países.</p><p>Do outro lado, o pondo de vista realista estava baseado na idéia de poder.</p><p>O ideal utópico, que ignorava a política de balanço do poder entre Estados,</p><p>não corresponderia a uma percepção correta da realidade internacional. A</p><p>partir de uma visão pessimista da natureza humana, o realismo analisa a</p><p>política como confronto de interesses em função do poder. O conceito-</p><p>chave é o de Estado-nação, que representa o elemento básico das rela-</p><p>ções internacionais e, na luta pelo poder, a moralidade deve estar subordi-</p><p>nada aos interesses políticos.</p><p>Para o ponto de vista neo-realista atual, a globalização política não passa</p><p>de uma utopia. As fronteiras políticas e o poder do Estado-nação dominam</p><p>e devem continuar a dominar o cenário mundial. O debate utópico-realista</p><p>não teve continuidade ao longo das últimas décadas, mas a chama das</p><p>divergências em torno da globalização política continua acesa. David e</p><p>Held e Anthony McGrew (2001), por exemplo, resumem o debate acadêmi-</p><p>co a favor e contra a globalização como a confronto entre duas visões: de</p><p>um lado, a perspectiva dos céticos e, do outro, a dos assim denominados</p><p>pelos autores como globalistas.</p><p>Os céticos olham com desconfiança para a globalização enfatizando o</p><p>predomínio do Estado nacional e do poder: “freqüentemente associado a</p><p>essa postura cética está um sólido apego a uma ontologia essencialmente</p><p>marxista ou realista”. (Held e McGrew, 2002, p. 16). A ordem internacional -</p><p>sob a égide cética -, ao estar associada à atuação das nações econômica e</p><p>militarmente mais poderosas, dependeria das políticas e preferências das</p><p>grandes potências.</p><p>Os globalistas, por sua vez, salientam que, no novo cenário internacional, o</p><p>conceito de soberania, autonomia e legitimidade do Estado está perdendo</p><p>força. O Estado-nação está declinando em áreas do multilateralismo entre</p><p>países: “três aspectos tendem a ser identificados na literatura globalista: a</p><p>transformação dos padrões dominantes da organização sócio-econômica, a</p><p>do principio territorial e a do poder. Ao fazer desaparecer as limitações do</p><p>espaço e do tempo nos padrões de interação social, a globalização cria a</p><p>possibilidade de novas formas de organização social transnacional” (Held e</p><p>McGrew, 2002, p. 21).</p><p>O debate deverá continuar nas próximas décadas. A realidade mundial,</p><p>entretanto, seguirá o seu curso, obrigando a repensar os conceitos teóricos</p><p>e a reformular as teorias das relações internacionais, como de fato está</p><p>ocorrendo desde o tristemente famoso 11 de setembro de 2001.</p><p>O cenário atual, independentemente do que venha a ocorrer em um futuro</p><p>mais ou menos próximo, é de um mundo construído com base em Estados-</p><p>nações. Tal como comentava Fernando Henrique Cardoso, por ocasião da</p><p>sua visita à Rússia em janeiro de 2002, “a economia está globalizada, mas</p><p>a política não” (O Estado de S.Paulo, 16/1/2002, p.A3).</p><p>A mesma opinião manifestou George Kennan, experiente diplomata ameri-</p><p>cano ao ser indagado pela revista Veja (10/12/97) sobre o que significava</p><p>globalização: “Para mim nada. No sentido comercial e financeiro hoje há</p><p>comunicações mais eficientes entre países do que em outros tempos. No</p><p>campo político, ainda estamos longe disso. Graças a Deus! É uma boa</p><p>política temer qualquer tipo de arranjo que se pretenda global. Sou a favor</p><p>dos arranjos regionais, porque são os que realmente funcionam. Portanto,</p><p>não vejo nada de novo que justifique o uso e abuso de palavras pomposas</p><p>para descrever a presente situação internacional”.</p><p>Um último comentário de Joseph Nye, diretor da Kennedy School of Go-</p><p>vernment, de Harvard, escrevendo a respeito do poderio americano no</p><p>novo século, confirma os pontos de vista citados anteriormente: “A revolu-</p><p>ção na informação, a mudança tecnológica e a globalização não deverão</p><p>substituir o Estado-nação, porém deverão contribuir para complicar os</p><p>atores e questões no mundo político” (The Economist, 23/3/2002, p. 25).</p><p>Conclui-se, portanto, que a globalização política, em termos práticos, ainda</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 26</p><p>não passa de um projeto não realizado. O Estado-nação continua a ser o</p><p>elemento-chave do relacionamento internacional.</p><p>V. Globalização e Ética</p><p>A análise da globalização conduz-nos, finalmente, ao tema crucial da</p><p>globalização: os valores que presidem o relacionamento internacional neste</p><p>início de século e de milênio. O atentado ao World Trade Center surpreen-</p><p>deu o mundo. Após a fase inicial de estupor e revolta diante da tragédia, o</p><p>desastre começou a ser esclarecido. Ao compasso das investigações sobre</p><p>a ação terrorista, surgiram as tentativas de explicação e a ética nas rela-</p><p>ções internacionais tornou-se o tema do momento.</p><p>Inicialmente ganhou força a tese do choque das civilizações enunciado por</p><p>Samuel Huntington (1997). O futuro das relações internacionais estaria</p><p>associado ao fator cultural. As culturas que impregnam as diversas civiliza-</p><p>ções entrariam em conflito em uma conjuntura de integração mundial. A</p><p>globalização, de acordo com Huntington, contribuiu para esse cenário e tem</p><p>a sua parte de responsabilidade: “a globalização incentiva e permite que</p><p>gente como Bin Laden trame seus ataques ao centro de Manhattan, en-</p><p>quanto está em uma gruta do Afeganistão pobre”. (O Estado de S.Paulo,</p><p>28/10/2001, p. A23). O ataque terrorista, na opinião de Huntington, restituiu</p><p>ao Ocidente sua identidade comum.</p><p>A interpretação dos ataques aos Estados Unidos levantou a questão de</p><p>quais são os valores que presidem as diversas civilizações como elementos</p><p>subjacentes à explicação dos acontecimentos e da história. É preciso</p><p>esclarecer, entretanto, que o responsável pela tragédia não foi o mundo</p><p>islâmico, mas apenas um grupo radical que não representa adequadamen-</p><p>te o Islã. Como apontou Henry Kissinger, “a América e seus aliados preci-</p><p>sam tomar cuidado para não apresentar esta nova política como choque de</p><p>civilizações entre o Ocidente e o Islã. A batalha é contra uma minoria</p><p>radical que macula os aspectos humanos manifestados pelo islamismo em</p><p>seus períodos grandiosos”. (Folha de S.Paulo, 20/11/2001, Especial, p.6)</p><p>O episódio das Torres Gêmeas, entretanto, alertou o mundo quanto à</p><p>importância dos valores que presidem as culturas e civilizações. Ou seja, a</p><p>ética nas comunicações, na economia, na política e na cultura é o elemen-</p><p>to-chave para o futuro do mundo. Este é o fator fundamental que deve ser</p><p>analisado na globalização.</p><p>Antes de avançar nesse estudo é necessário indagar: há uma única ética</p><p>correta, aplicável a uma determinada situação, ou a ética é passível de</p><p>interpretação</p><p>diversa em função de fatores circunstanciais? Mais: há valo-</p><p>res universais, que se aplicam a todos os povos de todos os tempos, ou os</p><p>valores éticos são relativos?</p><p>O mundo presente vive mergulhado no relativismo ético. Sob a égide do</p><p>relativismo, a ética torna-se subjetiva sendo impossível chegar a qualquer</p><p>conclusão objetiva e permanente. Esse é o grande dilema e limitação do</p><p>mundo moderno: a ética esqueceu as suas origens como estudo filosófico,</p><p>na Grécia clássica, sob a poderosa luz da inteligência de Sócrates.</p><p>Nas relações internacionais, por exemplo, o dualismo ético foi formulado</p><p>por Max Weber ao distinguir entre uma ética da convicção e uma ética da</p><p>responsabilidade: “toda a atividade orientada segundo a ética pode ser</p><p>subordinada a duas máximas inteiramente diversas e irredutivelmente</p><p>opostas. Pode orientar-se segunda a ética da responsabilidade ou segundo</p><p>a ética da convicção” (Weber, 1968, p. 113). O partidário da ética da con-</p><p>vicção deve velar pela doutrina pura. Seus atos “visam apenas àquele fim:</p><p>estimular perpetuamente a chama da própria convicção” (idem, p. 114). A</p><p>ética da responsabilidade, por sua vez, tem como guia as previsíveis con-</p><p>seqüências dos atos: “o partidário da ética da responsabilidade, ao contrá-</p><p>rio, contará com as fraquezas comuns do homem [...] e entenderá que não</p><p>pode lançar a ombros alheios as conseqüências previsíveis da sua própria</p><p>ação” (idem, pp. 113-14).</p><p>Sob este ponto de vista, Weber afirma que os meios podem justificar os</p><p>fins: “para alcançar fins ‘bons’, vemo-nos com freqüência, compelidos a</p><p>recorrer, de uma parte, a meios desonestos ou, pelo menos, perigosos, e</p><p>compelidos, de outra parte, a contar com a possibilidade e mesmo a even-</p><p>tualidade de conseqüências desagradáveis” (idem, p.114). A diferença</p><p>entre essas duas éticas, tal como resume Dahrendorf, consiste em que “a</p><p>primeira abraça valores absolutos; é a moralidade dos santos. A segunda</p><p>reconhece a complexidade das relações meios-fins; é a ética dos políticos”</p><p>(1997, p. 86).</p><p>É possível conviver com as duas éticas? Tanto para Weber, quanto para</p><p>muitos políticos e teóricos das relações internacionais, sim. Para Dahren-</p><p>dorf, não, e explica: “a insistência na qualidade absoluta de determinados</p><p>valores fundamentais foi, creio eu, a razão de ser da tese que apresentei</p><p>em Homo Sociologicus. Nunca confie na autoridade, pois é possível usá-la</p><p>de forma horrivelmente abusiva. É certo que há condições – e as vimos</p><p>prevalecer em tantos países, durante este século – nas quais a ‘ética da</p><p>convicção’ é a única moralidade válida” (1997, p. 87).</p><p>É somente a partir de uma ética da convicção que a análise dos valores</p><p>nas relações internacionais e, portanto, na presente conjuntura de globali-</p><p>zação por que atravessa o mundo, pode ser frutífera. E precisamente a</p><p>ética que presidiu o pensamento de Sócrates, Platão e Aristóteles, na</p><p>Grécia clássica.</p><p>A partir do momento em que há um reconhecimento de que a ética não é</p><p>relativa, é possível analisar quais os valores que devem estar presentes</p><p>nos diversos aspectos da globalização. Estudar os valores presentes na</p><p>globalização é analisar as motivações humanas. Muitas respostas foram</p><p>dadas a esta questão, porém a proposta de Aristóteles na sua obra Ética a</p><p>Nicômaco, permanece atual e importante. Para Aristóteles as pessoas</p><p>atuam procurando um bem, sendo que o bem mais importante é a felicida-</p><p>de.</p><p>É possível estabelecer uma ponte entre os valores da globalização e a obra</p><p>de Aristóteles. Reconhecendo que há diversas opiniões sobre a felicidade,</p><p>Aristóteles afirma que alguns colocam a felicidade no prazer, ou na riqueza,</p><p>ou em outras coisas. A maioria das pessoas coloca a felicidade na riqueza</p><p>e no prazer, porém, de acordo com o filósofo, nesse objetivo não reside a</p><p>felicidade. Espíritos mais refinados põem a felicidade na glória, porém</p><p>também não é nas honras que reside a felicidade. A felicidade se encontra</p><p>na virtude. É na virtude que reside o fim do homem.</p><p>Para quem coloca a felicidade na riqueza, a globalização econômica pode</p><p>ser uma fonte de oportunidades. Para Aristóteles, a riqueza é um bem</p><p>exterior necessário como um meio, pois é impossível fazer o bem quando</p><p>faltam recursos, porém não deixa de ser um meio e não um fim da vida</p><p>humana.</p><p>A glória da vida pública está associada ao poder político. Também não é o</p><p>fim da vida humana, de acordo com Aristóteles. A virtude é o verdadeiro fim</p><p>do homem. É por essa razão que Aristóteles dedica a sua ética ao estudo</p><p>da virtude. Como definir e alcançar as virtudes, como meio para uma vida</p><p>feliz. No processo de globalização, os fatores econômicos e políticos são</p><p>importantes como meios para que as pessoas possam praticar as virtudes.</p><p>A virtude que destaca nesse processo é a justiça. E a esta virtude é que o</p><p>filósofo grego dedica o livro V da sua obra.</p><p>A justiça deveria presidir a evolução da globalização como um valor univer-</p><p>salmente presente no processo. O reconhecimento do valor universal da</p><p>justiça como virtude para todos e a ser praticada por todos seria um bom</p><p>começo para o futuro dos âmbitos econômico e político. Entretanto, a</p><p>prática da justiça pura e simples não conduziria a eliminar o fosso existente</p><p>entre países ou a superar as limitações e dificuldades econômicas de</p><p>países ou pessoas que carecem dos mínimos meios para a própria subsis-</p><p>tência. É nesse ponto que entra um novo valor, não econômico, para ame-</p><p>nizar e corrigir as distorções ou assimetrias promovidas pela globalização: a</p><p>solidariedade.</p><p>A solidariedade não se impõe. É um valor humano que vem de dentro.</p><p>Somente a solidariedade pode ajudar a mudar o que a simples justiça não</p><p>pode alterar. Nas últimas décadas, pari passu com a globalização, tem</p><p>aumentado o número de organizações de voluntários, ONGs, instituições</p><p>religiosas e entidades diversas que têm contribuído para sarar as feridas</p><p>abertas da desigualdade, porém ainda um sexto da população mundial vive</p><p>em países muito pobres. Há muito a ser feito e somente a partir dos valores</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 27</p><p>é possível corrigir aquilo que a política e a economia, no novo mundo a</p><p>caminho de uma maior integração, não conseguem solucionar de um modo</p><p>satisfatório.</p><p>São, portanto, os valores presentes nas civilizações os verdadeiros respon-</p><p>sáveis pelo destino do futuro mundial nas próximas décadas e séculos. Se</p><p>a justiça e a solidariedade prevalecerem sobre a riqueza e o poder, ainda</p><p>há esperança para o nosso futuro comum.</p><p>Referências Bibliográficas</p><p>ARISTÓTELES, (1998) Ética Nicomaquea. Madri: Gredos.</p><p>CARR, E.H. [1939] (2002). Vinte anos de Crise – 1919-1939. Brasília: Editora Univer-</p><p>sidade de Brasília.</p><p>CARTA DA AMÉRICA (2002). O Estado de S.Paulo, 17/2/2002, pp. A14-15.</p><p>CRAFTS, N. (2000) “Globalization and Growth in The Twentieth Century”. IMF</p><p>Working Paper, WP/00/44. Washington DC, International Monetary Fund.</p><p>DAHRENDORF, Ralf (1997) Após 1989. Rio de Janeiro, Paz e Terra.</p><p>DOLLAR, D. (2001). “Globalization, Inequality and Poverty since 1980”. Development</p><p>Research Group. The World Bank.</p><p>DOLLAR, D. e KRAAY, A. (2000). “Growth is Good for the Poor”. Development</p><p>Research Group. The World Bank.</p><p>DOLLAR, D. e KRAAY, A. (2001). “Trade, Growth and Poverty”. Development Re-</p><p>search Group. The World Bank.</p><p>HELD, D. e McGREW, A. Prós e Contras da globalização (2001) Rio de Janeiro,</p><p>Zahar.</p><p>HUNTINGTON, S. (1997) O Choque das Civilizações e a Composição da Ordem</p><p>Mundial. Rio de Janeiro: Objetiva.</p><p>HUNTINGTON, S. (2002) Entrevista a Nathan Gardels (Global Viewpoint). Reprodu-</p><p>zida em O. Estado de S.Paulo, 28/10/2002, p. A23.</p><p>INTERNATIONAL TELECOMMUNICATION UNION (ITU), 2001. Key Global Telecom</p><p>Indicators for the World Telecommunication Service Sector.htm. 26/08/01.</p><p>KISSINGER, H. (2001) “Ataque terrorista exige resposta nova”. Folha de S.Paulo</p><p>20/9/2001, Especial, p.6.</p><p>NYE, J. (2002). “The new Rome meets the new barbarians”. The Economist,</p><p>362</p><p>(8265): pp.23-25. 23/3/2002.</p><p>PNUD (1999). Relatório sobre o Desenvolvimento Humano. Lisboa: Trinova Editora.</p><p>RAMOS, J.M.R. (2000) “Ética e Crescimento Econômico: Pobreza e Distribuição de</p><p>Renda”. Second ISBEE (International Society of Business, Economics and Ethics)</p><p>Congress: The Ethical Challenges of Globalization. Fundação Getúlio Vargas. São</p><p>Paulo, 19 a 23 de julho de 2000.</p><p>UNESCO (1998). Statistical Yearbook.</p><p>UNESCO (2000). 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Pode-se dizer que foi um período de uma maior especializa-</p><p>ção e fragmentação do trabalho, simplificação das operações de produção,</p><p>buscando-se uma maior produtividade e aumentando o controle sobre a</p><p>produção. Nesse período os chamados economistas liberais (James Mill,</p><p>David Ricardo, Adam Smith) iriam sustentar a tese que a atividade econô-</p><p>mica devia se afastar da influência do Estado, tornando a livre concorrência</p><p>o postulado principal do liberalismo econômico que viria prevalecer até os</p><p>dias de hoje.</p><p>Hoje vivemos numa sociedade que apresenta um impasse: a economia</p><p>de mercado não cumpriu sua promessa de garantir um sistema de trocas</p><p>razoável, e nem todos que participam do mercado têm a mesma força</p><p>competitiva. Segundo o sociólogo italiano Domenico de Masi (1999), os</p><p>dois grandes modelos econômicos que se confrontaram no século XX não</p><p>ofereceram soluções para uma sociedade mais justa, isto é, o capitalismo</p><p>demonstrou saber produzir riqueza, mas não como distribuí-la; enquanto o</p><p>comunismo demonstrou saber distribuí-la, mas não produzi-la. O século XX</p><p>não terminou bem, pois há uma enorme concentração de renda, os proble-</p><p>mas sociais são de dimensões extraordinárias, com desigualdades agudas,</p><p>além dos problemas ambientais alarmantes.</p><p>Neste contexto, observa-se uma maior integração das economias de</p><p>mercado, o que vem sendo chamado de “globalização”. Na verdade, não há</p><p>um consenso sobre o que seja de fato a globalização e quais seriam seus</p><p>desdobramentos sócio-políticos.</p><p>Segundo o jornalista Thomas Friedman, autor do Best-Seller O mundo</p><p>é plano, a globalização se apresenta como a esperança de se melhorar as</p><p>oportunidades. Estaríamos vivendo num “mundo plano” onde interligamos</p><p>os centros de conhecimento ao longo do planeta e, tecendo uma rede</p><p>global</p><p>única, criando, assim, a oportunidade para que surja uma era notável</p><p>de prosperidade, inovação e colaboração entre empresas, comunidades e</p><p>indivíduos.</p><p>Contrariamente a esta visão, o sociólogo e cientista político José Luís</p><p>Fiori (1997) acredita que a natureza do processo de globalização é desigual</p><p>e descontínua. A globalização não é uma resultante exclusiva das forças de</p><p>mercado, não é um fenômeno universal, inclusivo e homogenizador. Na</p><p>verdade, o processo de globalização, já em marcha, tem mostrado que não</p><p>foi capaz de distribuir riquezas, mas, ao contrário, concentra benefícios,</p><p>não havendo uma fragmentação eqüitativa destes entre os vários partici-</p><p>pantes deste mercado globalizado. Embora a globalização seja um fato, ela</p><p>é tudo menos global neste sentido de inclusão, ao contrário, ela tem sido</p><p>parceira inseparável de um aumento gigantesco da polarização entre</p><p>países e classes do ponto de vista da distribuição da riqueza.</p><p>Diante do fato do processo desigual e concentrador de renda, as Na-</p><p>ções Unidas tem procurado um modelo alternativo de desenvolvimento que</p><p>vá além do progresso econômico. Apenas discutir o avanço econômico é</p><p>insuficiente diante tantos problemas que este modelo vem trazendo para os</p><p>países e para o meio ambiente. Desde a conferência das Nações Unidas</p><p>sobre meio ambiente e desenvolvimento em 1992, na chamada agenda 21,</p><p>foram estabelecidos os princípios de um desenvolvimento sustentável.</p><p>Hoje, além da economia, os países discutem a interação das dimensões</p><p>sociais, ambientais e institucionais na busca do o desenvolvimento susten-</p><p>tável.</p><p>E o Brasil?</p><p>Em 2005, as Nações Unidas elaboraram um relatório sobre o Brasil</p><p>apontando seus principais desafios frente ao desenvolvimento sustentável</p><p>(Desafios do Brasil, 2005). Entre os países participantes da ONU, somos a</p><p>5a maior população do mundo, temos o 14o maior PIB (Produto Interno</p><p>Bruto) e o 63o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O Brasil não é um</p><p>país pobre, mas injusto e desigual. Neste sentido, continuamos dentro do</p><p>que vem acontecendo no mundo: produção de riqueza sem distribuição, ao</p><p>contrário, com concentração.</p><p>Para monitorar alguns aspectos do desenvolvimento sustentável em</p><p>nosso país, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em</p><p>2002, elaborou um relatório destacando alguns aspectos como: dimensão</p><p>social (população, equidade, saúde, educação, habitação e segurança),</p><p>dimensão ambiental (atmosfera, terra, biodiversidade, saneamento), dimen-</p><p>são econômica (estrutura econômica, padrão de produção e consumo),</p><p>dimensão institucional (estrutura institucional, capacidade institucional).</p><p>Para abordar a relação do tema desenvolvimento sustentável e res-</p><p>ponsabilidade social, alguns pontos da dimensão social devem ser ressal-</p><p>tados, como: educação e renda.</p><p>Com relação à renda familiar per capta (IBGE, 2002), levantamentos do</p><p>IBGE mostram que tem havido uma queda na participação na renda nacio-</p><p>nal de pessoas com renda de até um salário mínimo, mas mos-</p><p>tram, também, um crescimento da participação de pessoas com renda</p><p>acima de cinco salários mínimos, significando uma melhoria na participação</p><p>das classes mais baixas na renda nacional e, por outro lado, uma maior</p><p>concentração de renda nas classes mais altas.</p><p>Com relação à média de anos de estudo da população com mais de 25</p><p>anos de idade (IBGE, 2002), os estudos mostram que também tem havido</p><p>uma melhoria no número médio de anos de estudo para a população brasi-</p><p>leira, mas através da taxa de alfabetização – apesar de apresentar curva</p><p>ascendente – percebe-se como ainda é relevante o analfabetismo entre</p><p>nós. Percebemos uma melhora no tempo de estudo da população e na</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 28</p><p>redução do analfabetismo, mas ainda em índices muito baixos para o</p><p>desenvolvimento de “massa crítica humana”.</p><p>Dimensões sociais da participação cultural, ou cultura e desenvolvi-</p><p>mento sustentável, não fazem parte do relatório de indicadores de desen-</p><p>volvimento sustentável do IBGE. Podemos perguntar qual a importância da</p><p>participação cultural para o desenvolvimento de um país?</p><p>Observa-se que um número significativo de países e organizações in-</p><p>ternacionais vem dedicando crescente atenção à produção de conhecimen-</p><p>to sobre as especificidades e potencialidades das atividades diretas e</p><p>indiretamente ligadas à cultura, em termos de valor adicionado, emprego,</p><p>renda, receitas e demais variáveis socioeconômicas. Desde 1970, a França</p><p>foi um dos primeiros países a incluírem a cultura no plano de metas nacio-</p><p>nal, enquanto Estados Unidos e outros países membros da Unesco vêm</p><p>incorporando a cultura em suas estratégias de desenvolvimento social e</p><p>econômico.</p><p>Embora o Brasil não tenha incluído a cultura nos indicadores de desen-</p><p>volvimento sustentável, em 2003 o IBGE apresentou um “Sistema de Infor-</p><p>É o continuum cultural que liga cada sociedade a suas raízes mais</p><p>antigas. Se alguns valores se alteram, desaparecem e são substituídos por</p><p>novos, outros se mantêm constantes, vivos, geração após geração. Essa</p><p>continuidade cultural dá à sociedade sua estabilidade, pois apesar das</p><p>revoluções, invasões, novos contatos com grupos diferentes, o fato é que a</p><p>cultura permanece, e a sociedade prossegue em sua existência.</p><p>Por fim, a cultura é um instrumento de adaptação do homem ao ambien-</p><p>te. É pelos valores culturais que o homem se integra a seu meio. Primeiro,</p><p>como indivíduo. Ao transformar-se em personalidade que se incorpora a seu</p><p>grupo, vai adquirindo os hábitos, os usos e os costumes da sociedade a que</p><p>pertence, de forma a adaptar-se inteiramente a ela. Aprende a língua que</p><p>deve ser falada; adquire as noções de relações com os companheiros;</p><p>aprende os mesmos jogos infantis e as mesmas atividades juvenis; adquire</p><p>uma profissão que atende aos interesses da sociedade. Em segundo lugar,</p><p>cria instrumentos ou concebe novas idéias, que o capacitam a melhor adap-</p><p>tar-se ao ambiente.</p><p>Classificações da cultura. Apesar de formar uma unidade devidamente</p><p>estruturada, cumulativa e contínua, a cultura pode ser dividida. É o que se</p><p>chama de classificação de cultura, isto é, a divisão dos valores culturais</p><p>exclusivamente por necessidade metodológica, ou para fins pedagógicos ou</p><p>didáticos. Os elementos que integram uma cultura não dominam uns aos</p><p>outros; unem-se e ajudam a compreender a cultura e seu funcionamento. A</p><p>classificação ou divisão da cultura é apenas uma necessidade que têm os</p><p>estudiosos para melhor apreciar os diferentes aspectos dessa cultura. Daí a</p><p>própria variação dessas classificações ou divisões, em geral conforme as</p><p>preferências ou pontos de vista em que se coloca cada autor.</p><p>A mais antiga classificação se deve ao sociólogo americano William Fi-</p><p>elding Ogburn, que em Social Change: With Respect to Culture and Original</p><p>Nature (1922; Mudança social: referida à cultura e natureza original) dividiu a</p><p>cultura em material e não-material ou espiritual. A primeira compreenderia</p><p>todos os elementos capazes de uma representação objetiva, em um objeto</p><p>ou fato. A segunda seria tudo o que é criado pelo homem, como concepção</p><p>ou idéia, nem sempre traduzido em objetos ou fatos.</p><p>Outras classificações podem ainda ser lembradas. Ralph Linton, base-</p><p>ando-se na constatação de que os fatos culturais resultam das necessidades</p><p>humanas, dividiu a cultura em: necessidades biológicas, agrupando todos os</p><p>fatos que correspondem à vida física do homem (alimentação, habitação,</p><p>vestuário etc.); necessidades sociais, em que se reúnem todos os fatos</p><p>relacionados com a vida em sociedade (organização social, organização</p><p>política, ensino etc.); e necessidades psíquicas, que compreendem todos os</p><p>fatos que representam manifestações de pensamento dos seres humanos</p><p>(crenças, estética etc.). Melville Herskovits ofereceu a seguinte distribuição</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 3</p><p>dos elementos culturais: cultura material e suas sanções; instituições soci-</p><p>ais; homem e universo; estética, linguagem.</p><p>Pode-se ainda assinalar a classificação dos elementos culturais, tendo</p><p>em vista os sistemas operacionais de ação do homem: sistema ou nível</p><p>adaptativo, em que se verificam as relações do homem com o meio (ecolo-</p><p>gia, tecnologia, economia); sistema ou nível associativo, em que se estudam</p><p>as relações dos homens entre si (organização social, família, parentesco,</p><p>organização política); e sistema ou nível ideológico, onde se compreendem</p><p>os produtos mentais resultantes de relações entre os homens e as idéias ou</p><p>concepções (saber, crenças, linguagem, arte etc.).</p><p>Uma última observação deve ser feita, em face da aplicação do sentido</p><p>de cultura: é que muitas vezes se tem confundido, na linguagem menos</p><p>científica, o sentido de cultura com o de raça ou de língua. Falar-se, por</p><p>exemplo, de uma raça ariana é um engano, pois o que existe são povos que</p><p>falaram originariamente as línguas indo-européias ou arianas, tronco de</p><p>onde nasceram as modernas línguas faladas na Europa contemporânea. Da</p><p>mesma forma é um engano falar-se de raça judaica, pois o que existe são</p><p>elementos humanos, que se aglutinam pela cultura, em particular pelos</p><p>mesmos ideais ou sentimentos religiosos, e nunca pelas mesmas caracterís-</p><p>ticas físicas.</p><p>Convém salientar que as três variáveis -- cultura, raça e língua -- são in-</p><p>dependentes e não seguem a mesma direção. Encontram-se casos em que</p><p>persistem as características raciais e se modificam as lingüísticas e cultu-</p><p>rais, como se verificou com os negros da África e na América do Norte ou</p><p>com os vedas do Ceilão (hoje Sri Lanka). Em outras ocasiões, persistem as</p><p>características lingüísticas e modificam-se as raciais; foi o que sucedeu com</p><p>os magiares na Europa, vindos de um mesmo tronco lingüístico, mas de</p><p>variada formação racial. Pode também suceder a persistência de caracterís-</p><p>ticas culturais e a modificação das características físicas ou lingüísticas. É o</p><p>exemplo encontrado nos povos chamados latinos. Com tais exemplos,</p><p>conclui-se que cultura não se confunde com raça ou língua.</p><p>Padrão cultural. Em antropologia, a expressão padrão cultural se refere</p><p>à soma total das atividades -- atos, idéias, objetos -- de um grupo; ao ajus-</p><p>tamento dos diversos traços e complexos de uma sociedade. É aquela</p><p>configuração exterior que uma cultura apresenta, traduzindo o conjunto de</p><p>valores que expressa essa mesma cultura.</p><p>A idéia desse conceito começou a formar-se com o antropólogo ameri-</p><p>cano Franz Boas, que em 1910 afirmou a individualidade da cultura em cada</p><p>tribo indígena americana por ele estudada. Essa observação decorreu da</p><p>presença de certos elementos que distinguem determinada cultura. No caso</p><p>dos grupos estudados, Boas mencionou o conservantismo dos esquimós,</p><p>sua capacidade de invenção, sua boa índole, seu conceito peculiar da</p><p>natureza e outros aspectos. Tais elementos não são conseqüência de</p><p>simples difusão: resultam, em grande parte, de seu próprio método de vida;</p><p>e o esquimó mesmo vai remodelando os elementos obtidos de outros gru-</p><p>pos, de acordo com os padrões dominantes em seu meio.</p><p>A idéia de padrão, em seu sentido antropológico, somente se formulou,</p><p>no entanto, com a antropóloga americana Ruth Benedict, em sua obra</p><p>clássica Patterns of culture (1934; Padrões culturais). Estudando as diferen-</p><p>tes características das culturas tribais, ela ressaltou que existe um padrão</p><p>psicológico modelador dos elementos culturais emprestados. Por sua vez,</p><p>esse mesmo padrão afasta aqueles elementos culturais que a ele não se</p><p>conformam. A cultura é como o indivíduo, e tem um padrão mais ou menos</p><p>consistente em seu pensamento e ação. Benedict analisa as culturas dos</p><p>índios zunis, indicando os padrões culturais de cada um desses grupos, para</p><p>mostrar o que os caracteriza. Admite, igualmente, uma influência da psicolo-</p><p>gia gestaltista, que lhe permitiu demonstrar a importância de tratar o todo em</p><p>lugar das partes e provar que nenhuma análise das percepções separadas</p><p>pode explicar a experiência total.</p><p>Por meio dos três grupos tribais estudados na obra, Ruth Benedict pro-</p><p>cura explicar, e não apenas expor, as características que cada um apresenta</p><p>em seu padrão cultural. Apesar da ampla difusão de sua obra e da imensa</p><p>aceitação de seu conceito de padrão cultural, não se podem negar as críti-</p><p>cas feitas a seu método de estudo, traduzidas principalmente nas observa-</p><p>ções de Robert Lowie; a este se afigurava que o desejo de distinguir um</p><p>padrão de outro conduz necessariamente a uma tendência de sobreestimar</p><p>diferenças. Dessa forma podem produzir-se sérias alterações em virtude de</p><p>uma seleção subjetiva dos critérios. Enfim, a Lowie parecia que se deveriam</p><p>esperar investigações ulteriores para chegar a uma definição adequada do</p><p>conceito de padrão.</p><p>Escola histórico-cultural. Corrente etnológica</p><p>mações e Indicadores Culturais” com o objetivo de organizar e sistematizar</p><p>informações relacionadas ao setor cultural, democratizando o acesso e</p><p>contribuindo para a construção de um sistema de informação que possibilite</p><p>a sua análise como setor produtivo. Além do esforço de melhor compreen-</p><p>der as informações do setor cultural, no dia 04 de outubro de 2007, o Minis-</p><p>tério da Cultura lançou o programa “Mais Cultura”, que alguns têm denomi-</p><p>nado de PAC (Plano de Aceleração) da cultura. Com este plano o governo</p><p>pretende investir R$ 2,2 bilhões do orçamento da União e mais R$ 2,2</p><p>bilhões em parcerias. Os principais objetivos serão ampliar o número de</p><p>pontos de cultura de 630 para 20 mil em 2010, como o de leitura (buscando</p><p>zerar municípios sem biblioteca e baratear o custo de produção de li-</p><p>vros, ampliando o acesso a eles), a difusão (através de cineclubes) e o de</p><p>memória. Verifica-se assim, por parte do governo federal, uma intensifica-</p><p>ção na elaboração de planos e projetos culturais, visando aumentar a</p><p>acessibilidade da população aos produtos culturais em regiões metropolita-</p><p>nas com maiores índices de violência e baixos índices educacionais, para</p><p>que parte da população, hoje marginalizada, também tenha acesso aos</p><p>bens e produtos culturais, enfatizando a inclusão social.</p><p>Nesse contexto de desenvolvimento, nosso país tem encontrado difi-</p><p>culdades de coordenar suas ações e muitas vezes acabam faltando recur-</p><p>sos diante de tantos desafios de desenvolvimento da sociedade. Assim, as</p><p>empresas, que participam e se desenvolvem através do mercado, têm sido</p><p>chamadas a se responsabilizar pela sua participação nessa nossa socieda-</p><p>de. Contudo, o que se observa ainda é pouca preocupação por parte des-</p><p>tas com o ambiente externo em que atuam. Verificamos que muitas degra-</p><p>dam o meio ambiente, outras abusam da força de poder explorando o</p><p>trabalho infantil e das mulheres, etc.; elas acabam não se implicando com a</p><p>realidade da sociedade na qual estão inseridas e onde geram seus lucros.</p><p>Na ausência de uma auto-regulação tanto no plano econômico quanto no</p><p>plano social, as empresas que têm poder para agir em prol do desenvolvi-</p><p>mento sustentável, muitas vezes, acabam não o fazendo.</p><p>Mas porque as empresas deveriam se envolver com os problemas</p><p>sociais?</p><p>O crescimento do comércio mundial tem sido cada vez mais dependen-</p><p>te das decisões de uma centena de grandes corporações: 2/3 do comércio</p><p>é internacional, sendo 1/3 diretamente intrafirmas e 1/3, entre mega-</p><p>corporações. Com relação às grandes empresas transacionais, existe algo</p><p>entorno de 39 mil e 270 filiais. Conforme apontado por José Luís Fiori,</p><p>destas, apenas 100 (0,3%) detém 1/3 do estoque mundial de capital e,</p><p>ainda, 39 delas são norte-americanas e 19 japonesas. Além disso, dos 180</p><p>países existentes no mundo, aproximadamente apenas 100 recebem 1%</p><p>do investimento direto estrangeiro, ou seja, os outros 80 recebem 99%, isto</p><p>é, uma distribuição de recursos de investimentos entre os países, extrema-</p><p>mente desigual. Parece-me que podemos dizer que, de fato, as empresas</p><p>possuem um grande poder econômico.</p><p>O Estado brasileiro como muitos outros países latino-americanos vem</p><p>reduzindo o seu papel na economia à função de guardião dos equilíbrios</p><p>macroeconômicos. Nesta economia de mercado o Estado não interfere</p><p>tanto na economia e,não interferindo, acaba reduzindo seu papel na defini-</p><p>ção de prioridades, na implementação de políticas e incentivos, em oferecer</p><p>proteção social às suas populações, em prestar serviços públicos mais</p><p>elementares, ou mesmo em garantir a ordem e o respeito às leis. Abre-se,</p><p>assim, um vácuo para que outros setores participem. Embora o papel do</p><p>Estado seja primordial e muitas vezes insubstituível na gerência das ques-</p><p>tões sociais, ele tem se mostrado insuficiente.</p><p>Quanto aos indivíduos, sem dúvida, poderiam desempenhar papéis im-</p><p>portantes, mas suas ações podem ser de pouca abrangência e seu alcance</p><p>acaba por ser pontual. Na verdade, no Brasil o exercício da cidadania ainda</p><p>é precário. Muitos não sabem quais seus direitos e suas obrigações e,</p><p>neste sentido, a educação se torna a solução e também o problema para</p><p>este ponto. Isto é, ainda temos dificuldade, diante tantos desafios educa-</p><p>cionais, de implementar ações que busquem desenvolver os indivíduos</p><p>como cidadãos.</p><p>Parece-me, então, que neste cenário pode-se pensar que as organiza-</p><p>ções acabam tendo importante função de complementaridade ao Estado.</p><p>Elas agem, por exemplo, no ambiente, têm poder sobre este, sendo assim,</p><p>podem também ser responsabilizadas pelo seu desenvolvimento e não</p><p>apenas pela extração das condições de sua sobrevivência. O setor empre-</p><p>sarial brasileiro acaba tendo condições privilegiadas de intervir na socieda-</p><p>de, uma vez que possui capacidade de mobilização, poder econômico e</p><p>político. Ele passa a poder ser responsabilizado pelos problemas sociais,</p><p>ambientais e acaba tendo potencial para desenvolver ações passíveis de</p><p>serem replicadas por outros atores sociais.</p><p>Hoje sabemos que o homem é capaz de destruir a si próprio e ao pla-</p><p>neta. Para lidar com isso, o filósofo Hans Jonas propõe uma nova ética,</p><p>uma ética que se funda e acontece para além dos limites do ser humano,</p><p>isto é, que afeta a natureza das coisas extra-humanas. Ele acredita que</p><p>temos que agir de tal maneira, que os efeitos de nossa ação sejam compa-</p><p>tíveis com a permanência de uma vida humana autêntica, isto é, não de-</p><p>vemos por em perigo a continuidade indefinida da humanidade na Terra.</p><p>Acrescento que isto valerá tanto para nós, como indivíduos, como para as</p><p>organizações enquanto um conjunto de indivíduos buscando um objetivo</p><p>comum. Produzir ou oferecer serviços é inerente ao próprio negócio, mas</p><p>como fazê-lo e quais os seus desdobramentos no ambiente devem ser</p><p>urgentemente questionados. Penso que este conceito de ética esbarra na</p><p>chamada responsabilidade social das empresas e no que hoje podemos</p><p>chamar de Desenvolvimento Sustentável. Segundo o relatório de Brund-</p><p>fland de 1987, o desenvolvimento sustentável é um processo de transfor-</p><p>mação no qual a exploração dos recursos, a direção dos investimentos, a</p><p>orientação do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional se</p><p>harmonizam e reforçam o potencial presente e futuro, a fim de atender às</p><p>necessidades e aspirações futuras. O desenvolvimento sustentável é</p><p>aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a</p><p>possibilidade das gerações futuras atenderem suas próprias necessidades,</p><p>isto é, não podemos colocar em risco nossa perpetuação conforme aponta-</p><p>do por Hans Jonas.</p><p>Apesar de sabermos que várias empresas acabam tendo um grande</p><p>poder em relação ao ambiente em que atuam, isso não significa necessari-</p><p>amente que seus gestores formulem perguntas acerca do possível impacto</p><p>da sua empresa no ambiente natural e social. Buscar as implicações políti-</p><p>cas e práticas de suas ações, questionar sua responsabilidade social torna-</p><p>se um caminho possível para ações mais éticas dos gestores, impactando</p><p>em ações de responsabilidade social das empresas.</p><p>O que é Responsabilidade Social das Empresas (R.S.R)?</p><p>O conceito de Responsabilidade Social surge de forma mais sistemáti-</p><p>ca, mas ainda muito limitada, nos anos 50 e 60 na França e Estados Uni-</p><p>dos, segundo autores como Ashley (2002) e Melo-Neto e Froes (1999). O</p><p>que se buscava neste momento era a manutenção da legitimidade das</p><p>atividades da empresa, da gestão da sua imagem e sua visibilidade no</p><p>mercado.</p><p>Mas esse conceito de Responsabilidade Social veio sofrendo mudan-</p><p>ças para responder aos desafios que foram se apresentando no ambiente</p><p>interno e externo às organizações. Conforme discutido por John Scherme-</p><p>rhorn (1999), de uma maneira mais ampla, Responsabilidade Social diz do</p><p>grau de comprometimento da empresa com seus váriosStakehol-</p><p>ders (atores com que se relaciona: fornecedores, sociedade, clientes,</p><p>empregados, acionistas,</p><p>concorrentes, etc.). Esse conceito se torna com-</p><p>plexo quando pensamos que não há uma determinação do “grau de com-</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 29</p><p>prometimento” das empresas; há uma liberdade de criação e da flexibilida-</p><p>de dessas ações.</p><p>Para melhor delimitar isto, Aligleri e Borinelli (2001) sistematizam 3</p><p>formas diferentes para pensar os limites do grau de “comprometimento das</p><p>ações” de responsabilidade Social das Empresas</p><p>1a- A R.S.E como uma obrigação social, visa à maximização dos lu-</p><p>cros, busca satisfazer apenas as obrigações legais e as atividades empre-</p><p>sariais são centradas em critérios econômicos; (visão de marketing de</p><p>causas – maximiza lucros). Por exemplo, quando uma empresa registra</p><p>seus funcionários, não contrata mão-de-obra infantil, paga seus funcioná-</p><p>rios em dia. Para alguns, ela já estaria sendo Responsável Socialmente,</p><p>mas podemos dizer que nada além do que é legal.</p><p>2a- A R.S.E como forma de buscar aprovação, envolve basicamente,</p><p>dois grupos de ações: uma que é a satisfação das obrigações legais e outra</p><p>que é a satisfação das obrigações sociais e que afetam diretamente a</p><p>empresa, pensando a empresa como membro da sociedade (visão utilitaris-</p><p>ta). Nesta visão de Responsabilidade Social teríamos a idéia de que a</p><p>empresa deve se envolver apenas com o que é legal e com o que afeta</p><p>diretamente suas ações. Pode-se citar aqui as ações das empresas apenas</p><p>na sua comunidade. Isto é, se a organização vai investir em meio ambiente</p><p>ela o faz buscando atender aspectos legais e ao mesmo tempo reduzir o</p><p>impacto de suas atividades no local onde está situada, mas não há uma</p><p>preocupação em agir além do seu ambiente. Ela acaba focando muito as</p><p>suas questões legais e da estratégia do negócio numa perspectiva espaci-</p><p>al, tornando sua estratégia também limitada, uma vez que, em economias</p><p>globalizadas, o negócio de uma empresa não pode ser tão determinado</p><p>pelo espaço.</p><p>3a- A R.S.E dentro de uma visão sistêmica dos stakeholders, segundo</p><p>Zadek (1998), ocorre quando as empresas buscam satisfazer as obrigações</p><p>legais e sociais, mas também visam desenvolver uma rede de relaciona-</p><p>mentos entre os envolvidos e antecipar questões sociais e ambientais para</p><p>resolvê-las no presente, evitando que se transformem em problemas futu-</p><p>ros para a sociedade. Vejo aqui uma aproximação dessa visão com a idéia</p><p>de Desenvolvimento Sustentável já apresentada. Essa visão, bem mais</p><p>ampla, mostra uma preocupação das organizações em irem além da gestão</p><p>do projeto hoje, mas com sua perpetuação em longo prazo, agregando</p><p>valor a todos os atores sociais envolvidos, como também acreditam Pastron</p><p>(1997), Aktouf (1996), e Chanlat (1999). Outros autores, como Kanaane</p><p>(1999),McWilliams e Siegel (2001), Duarte e Dias (1986), reforçam nessa</p><p>justificativa a importância do poder que a empresa obtém na sociedade,</p><p>devendo exercer seu poder para melhorá-la, tendo, assim, obrigação de</p><p>demonstrar sensibilidade social. Essa abordagem é bem mais difícil de se</p><p>ver na prática, uma vez que muitos gestores tendem a analisar as ações a</p><p>curto prazo, de forma imediatista, tendo dificuldade de desenvolver uma</p><p>visão estratégica e ampla com seu ambiente, ações estas que são bem</p><p>mais duradouras.</p><p>O que se pode pensar é que lucro e ações sociais não são antagôni-</p><p>cos; ao contrário, a competência organizacional é reconhecida também</p><p>pela abrangência e pela complementaridade das ações e dos resultados</p><p>que concretizam sua gestão. Avaliar e pensar os impactos da organização</p><p>na sociedade e suas possíveis contribuições para uma sociedade mais</p><p>justa se tornam fundamentais. Dentre as várias ações de R.S.E. destacam-</p><p>se: cultura, educação, esporte, lazer, meio ambiente, saúde, urbanização e</p><p>as próprias políticas de recursos humanos.</p><p>Na pesquisa que coordenei sobre “Ética no ambiente organizacional:</p><p>avaliando políticas e ações de responsabilidade social em empresas em</p><p>Minas Gerais”, constatamos que educação e cultura são as principais áreas</p><p>de envolvimento das empresas, e hoje eu gostaria de focar mais a cultura e</p><p>seus desdobramentos para o desenvolvimento sustentável de uma socie-</p><p>dade.</p><p>Em 23 de dezembro de 1991 foi criada a Lei No 8.313, a chamada lei</p><p>Rouanet, que se tornou um importante incentivo para as empresas investi-</p><p>rem em cultura através da destinação de imposto de renda. Através desta</p><p>lei constata-se uma importante possibilidade de ação de Responsabilidade</p><p>Social, mas observa-se que muitas empresas desconhecem o alcance das</p><p>ações possíveis a serem realizadas aproveitando o incentivo fiscal. Neste</p><p>sentido, é importante que se conheça a lei e se compreenda a importância</p><p>da cultura para uma sociedade. Essas ações na área cultural dizem respei-</p><p>to ao patrocínio ou apoio a eventos, como: shows musicais, concertos,</p><p>espetáculos teatrais, assim como manutenção do patrimônio público e</p><p>privado, isto é, restauração de igrejas, casas de cultura, museus e acervos,</p><p>e palestras de formação de público.</p><p>A cultura como: Construção da Subjetividade e Democracia.</p><p>Numa perspectiva antropológica e simbólica, Geertz (1978) acredita</p><p>que a cultura é um conjunto de mecanismos simbólicos para o controle do</p><p>comportamento, de informações extra-somáticas, fornecendo o vínculo</p><p>entre o que os homens são intrinsecamente capazes de se tornar e o que</p><p>se tornaram, um a um.</p><p>O conceito de cultura tratado aqui se refere a tudo aquilo que um grupo</p><p>produz que se reflete na sua identidade, na construção de seus valores e</p><p>normas, no que é desenvolvido pelo Homem. Mas, conforme já discutido</p><p>por Walter Benjamim, não se pode tratar a noção de identidade como algo</p><p>homogenizante e padronizante. Algo que se torna padrão, pode muitas</p><p>vezes se tornar banalizado, universal, mas a cultura não se pretende a ser</p><p>isto, a fazer sentido para todos. Isto seria mais da ordem do entretenimen-</p><p>to, da cultura de massa, que muitas vezes enfoca mais a técnica do que o</p><p>conteúdo, tornando-se algo repetido e vazio.</p><p>Walter Benjamim ainda explicita o conceito de entretenimento. Este</p><p>pode ser pensado como algo que pode distrair, desviar nossa atenção.</p><p>Segundo o autor, seria assim, uma “espiritualização forçada de diversão”,</p><p>ou seja, da ordem do espetáculo. Tudo tem um significado e uma eficácia,</p><p>o espetáculo removeria o non-sense (ou sem–sentido), gerando a ilusão de</p><p>um mundo harmônico e perfeito. Divertir e entreter, passam a ter um senti-</p><p>do de esquecer o sofrimento, de esquecer o que pode nos incomodar, pode</p><p>ser pensado como uma fuga, uma liberação do pensamento, ou mesmo</p><p>uma negação do pensamento.</p><p>Já a cultura, diferentemente do entretenimento, deve ser pensada a</p><p>partir de um conjunto de bens culturais: a literatura, a pintura, as diversas</p><p>formas de arte, a filosofia, que têm como elemento a elaboração, o imagi-</p><p>nário, a sensibilidade de uma época, fundamentais para criar laços de</p><p>convivência. Por outro lado, a própria produção cultural pode ser uma forma</p><p>para lidar com nosso “mal-estar na civilização”, conforme pensado por</p><p>Freud. Isto é, ela nos permite elaborar, construir novos sentidos, novas</p><p>“saídas” para nossas angústias. Ela é um elemento importante da constru-</p><p>ção de nosso mundo interno, da nossa subjetividade. Quanto mais questio-</p><p>nadora, quanto mais elaborada simbolicamente, mais rica e complexa,</p><p>quanto mais diversa, maior a possibilidade de sentidos, mais rico será</p><p>nosso suporte para construção da subjetividade dos indivíduos. Uma vez</p><p>que a subjetividade é marcada e influenciada pelo contexto cultural, social e</p><p>político.</p><p>Contrariamente a essa noção de cultura, é o que vemos, por exem-</p><p>plo, na literatura de auto-ajuda. A literatura de auto-ajuda tende a banalizar</p><p>a complexidade humana. Mas, nem todo livro de auto-ajuda é ruim, o</p><p>problema da auto-ajuda é levar o leitor a acreditar que as coisas são muito</p><p>simples, verdadeiras mágicas. Simplificar, metaforizar, desenhar, ilustrar,</p><p>sempre é bom para a gente</p><p>compreender, mas é preciso dialogar com</p><p>estas formas, criar um sentido próprio, individual e subjetivo, e, ainda,</p><p>sustentar o que fica sem sentido. O que se percebe hoje é um exagero na</p><p>exigência de entretenimento e relaxamento. Por isso, muitos dizem “ah</p><p>não… aquele filme a gente tem que pensar!”, “Ah não gosto de ler livro</p><p>pesado”, “Gosto de ler tudo aquilo que entendo! Quero ler coisas simples!”</p><p>E essas coisas, de tão simples, se tornam mágicas e empobrecedoras da</p><p>subjetividade humana.</p><p>Se extrapolarmos isto para a sociedade, podemos dizer que, quanto</p><p>mais rica a cultura de um país, maior a possibilidade de desenvolvermos a</p><p>democracia e a cidadania dos indivíduos. Se entendermos por democracia</p><p>uma forma de convivência entre as pessoas, de maioridade política,</p><p>em que cada um é emancipado porque é capaz de refletir por si mesmo,</p><p>permitindo a livre circulação das opiniões e dos interesses, o enfrentamento</p><p>dos conflitos, a instituir direitos e exercê-los, todos dependendo de uma lei</p><p>comum, então, poderemos pensar assim, que a cultura fortalece os laços</p><p>de inserção na sociedade. Quanto mais frágil, mais banal e homogenizante</p><p>a cultura de uma sociedade, menos suporte simbólico teremos e mais ao</p><p>sabor dos conflitos que se estabelecem dentro dela ficaremos, podendo</p><p>nos tornar assim refém desses conflitos, em vez de criamos formas criati-</p><p>vas de resolvê-los.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 30</p><p>Na sociedade em que vivemos hoje, a chamada Sociedade do Espetá-</p><p>culo, conforme denominada por Debord (1997), ou da Era do Vazio, con-</p><p>forme Lipovetsky (1989), há uma predominância da importância da imagem</p><p>sobre o objeto, da forma sobre o conteúdo. Há uma busca constante por</p><p>prazer, e neste contexto a produção cultural, muitas vezes, acaba ofere-</p><p>cendo produtos e serviços facilitadores para se manter esse prazer. Temos,</p><p>assim, esta situação delicada: uma sociedade “sedutora”, que busca a</p><p>“leveza” do “espetáculo” onde a produção cultural tende a ser uma repeti-</p><p>ção de padrões, idéias e comportamentos. Onde tudo busca ser tão dócil</p><p>que não há surpresas e nem non-sense, havendo pouca possibilidade de</p><p>elaboração simbólica, pouca reflexão e assim, muito da produção cultural</p><p>se apresenta como dada, pronta para ser docilmente consumida.</p><p>A cultura como um dos principais pilares de investimento em a-</p><p>ções de responsabilidade social das empresas.</p><p>Nesta “sociedade do espetáculo” as empresas vêm investindo em cul-</p><p>tura como um de seus principais focos de responsabilidade social. Aí nos</p><p>resta perguntar se elas estão sabendo em que estão investindo. Refletir se</p><p>o investimento em cultura muitas vezes acaba sendo feito como instrumen-</p><p>to apenas de marketing, de divulgação da marca das empresas, sem se</p><p>levar em conta o que se pretende com aquele investimento para a socieda-</p><p>de. Neste sentido, pode-se investir muito mais em entretenimento, que já é</p><p>consagrado e de fácil assimilação pela grande população, ao invés de</p><p>buscar investimentos que resgatem a identidade de um grupo e de um país.</p><p>É o caso, por exemplo, de empresas que investem em peças de teatro que</p><p>tenham atores que estão na televisão. Isto não deveria ser o ponto impor-</p><p>tante para determinar o investimento em cultura, podendo ter pouca chance</p><p>que essas ações se desdobrem em possibilidades de desenvolvimento de</p><p>uma sociedade. Neste sentido, corremos o risco de não estarmos focando</p><p>no desenvolvimento sustentável através da cultura, mas, ao contrário,</p><p>sendo capazes de apenas produzir “do mesmo de uma sociedade”, focando</p><p>mais o entretenimento e o lazer. Como disse antes, não que eles não sejam</p><p>importantes; são importantes enquanto possibilidades de fruição, mas a</p><p>abrangência das ações culturais são mais permanentes e geram possibili-</p><p>dade de construção de identidade cultural forte. Uma vez que as empresas</p><p>são apontadas como parcerias na solução dos investimentos culturais, elas</p><p>se tornam responsáveis pelas conseqüências de seus investimentos e</p><p>deveriam avaliar o desdobramento social de suas ações.</p><p>Nesse sentido, para se investir em cultura é preciso discutir constante-</p><p>mente o que seja cultura, para que se possa ter ações mais amplas e</p><p>duradouras para a sociedade. Além disso, cabe às organizações auxiliarem</p><p>num aspecto também muito difícil de ser gerenciado no que tange à cultu-</p><p>ra, que é a acessibilidade. Neste sentido, deve-se atentar para que não se</p><p>façam apenas ações isoladas, eruditas e para poucas pessoas. Durante a</p><p>análise de investimento em ações culturais, dever-se-ia procurar entender</p><p>como o projeto irá atingir as pessoas em geral, quais as maneiras de facili-</p><p>tar a assimilação, a compreensão e o acesso a vários públicos e aos bens</p><p>culturais.</p><p>Todo nosso esforço, ao montar este projeto da Estação do Saber de</p><p>debate cultural dentro de um shopping, foi o de criar um espaço onde as</p><p>pessoas fossem capazes de refletir sobre alguns conceitos. Estes perpas-</p><p>sam os bens culturais, mas, muitas vezes, não são compreendidos e,</p><p>conseqüentemente, acabam sendo afastados; dificultam, assim, o próprio</p><p>consumo e acesso aos bens culturais. A idéia é resgatar a noção de conte-</p><p>údo e não apenas de forma. Aspecto fundamental para se pensar o que</p><p>seja cultura e sua importância na nossa sociedade. Contudo, nosso desafio</p><p>é grande. Muitas vezes somos cobrados para que nossos palestrantes</p><p>sejam divertidos, que tenham uma dinâmica que agrade ao público. Claro</p><p>que isto facilitaria a comunicação e assimilação do conteúdo, mas não</p><p>podemos nos ater à técnica. Podemos ter ótimos palestrantes, que atraem</p><p>multidões, mas que não conseguem falar de um lugar consistente, de um</p><p>saber. Com pouco conteúdo, eles nos seduzem e nos divertem, mas não</p><p>podemos pensar que isto seja suficiente para se tornar um projeto cultu-</p><p>ral, nem de uma proposta de educação através da cultura. Não vou me</p><p>estender neste ponto, mas penso que a cultura deve ser pensada a partir</p><p>da educação, e que talvez a educação também não devesse ser pensada</p><p>dissociada da cultura. Por isto, nosso maior desafio é auxiliar o público em</p><p>geral a entender o que é cultura e suas mais diversas manifestações,</p><p>mesmo que num primeiro momento tudo possa nos parecer difícil e sem</p><p>sentido.</p><p>Por fim, ainda teríamos que pensar que a avaliação ou financiamento</p><p>de um projeto cultural passa por uma perspectiva ética, já enfocada anteri-</p><p>ormente: será que estou fazendo aquilo em que acredito? Como repercute</p><p>na sociedade este projeto? Quais os seus desdobramentos? Cabe aos</p><p>empresários fazerem essa reflexão no sentido de orientar seus investimen-</p><p>tos para a responsabilidade social cultural, enquanto nós, como agentes de</p><p>projetos culturais, buscamos a construção de novas formas de acesso e</p><p>democratização da cultura e, quem sabe, de educação? Nosso papel tem</p><p>sido o de envolver as pessoas e as empresas para encontrarmos, ou mes-</p><p>mo inventar, novos espaços para a circulação do saber, buscando, além do</p><p>pensar e falar, uma dimensão ético-política, para que possamos ter uma</p><p>sociedade mais humana, com cidadãos mais envolvidos com a realidade e</p><p>com a criação de novas soluções de um bem-estar possível diante das</p><p>nossas desigualdades.</p><p>Responsabilidade social</p><p>No cenário mundial contemporâneo percebe-se o processar de</p><p>inúmeras transformações de ordem econômica, política, social e cultural</p><p>que, por sua vez, se adaptam aos novos modelos de relações entre</p><p>instituições e mercados, organizações e sociedade. No âmbito das actuais</p><p>tendências de relacionamento, verifica-se a aproximação dos interesses</p><p>das organizações e os da sociedade resultar em esforços múltiplos para o</p><p>cumprimento de objetivos compartilhados.</p><p>Os primeiros estudos que tratam da responsabilidade social tiveram</p><p>início nos Estados Unidos, na década de 50, e na Europa, nos anos 60</p><p>(BICALHO, 2003). As primeiras manifestações sobre este tema surgiram,</p><p>no início do século, em trabalhos de Charles Eliot (1906), Arthur Hakley</p><p>(1907)</p><p>e John Clarck (1916). No entanto, tais manifestações não receberam</p><p>apoio, pois foram consideradas de cunho socialista. Foi somente em 1953,</p><p>nos Estados Unidos, com o livro Social Responsabilities of the</p><p>Businessman, de Howard Bowen, que o tema recebeu atenção e ganhou</p><p>espaço. Na década de 70, surgiram associações de profissionais</p><p>interessados em estudar o tema: American Accouting Association e</p><p>American Institute of Certified Public Accountants. É a partir daí que a</p><p>responsabilidade social deixa de ser uma simples curiosidade e se</p><p>transforma num novo campo de estudo. A responsabilidade social revela-se</p><p>então um fator decisivo para o desenvolvimento e crescimento das</p><p>empresas.</p><p>Segundo o Livro Verde da Comissão Europeia (2001),</p><p>a responsabilidade social é um conceito segundo o qual, as empresas</p><p>decidem, numa base voluntária, contribuir para uma sociedade mais justa e</p><p>para um ambiente mais limpo. Com base nesse pressuposto, a gestão das</p><p>empresas não pode, e/ou não deve, ser norteada apenas para o</p><p>cumprimento de interesses dos proprietários das mesmas, mas também</p><p>pelos de outros detentores de interesses como, por exemplo, os</p><p>trabalhadores, as comunidades locais, os clientes, os fornecedores, as</p><p>autoridades públicas, os concorrentes e a sociedade em geral. Afirma</p><p>Carlos Cabral-Cardoso (2002) que o conceito de responsabilidade social</p><p>deve ser entendido a dois níveis. O nível interno relaciona-se com os</p><p>trabalhadores e, mais genericamente, a todas as partes interessadas</p><p>afetadas pela empresa e que, por seu turno, podem influenciar no alcance</p><p>de seus resultados. O nível externo tem em conta as conseqüências das</p><p>ações de uma organização sobre os seus componentes externos,</p><p>nomeadamente, o ambiente, os seus parceiros de negócio e meio</p><p>envolvente. Fatores que originaram o conceito a RSE São diversos os</p><p>fatores que deram origem à necessidade de se observar uma</p><p>responsabilidade acrescida das organizações. Num contexto da</p><p>globalização e de mutação industrial em larga escala, emergiram novas</p><p>preocupações e expectativas dos cidadãos, dos consumidores, das</p><p>autoridades públicas e dos investidores. Os indivíduos e as instituições,</p><p>como consumidores e/ou como investidores, adotam, progressivamente</p><p>critérios sociais nas suas decisões (ex: os consumidores recorrem aos</p><p>rótulos sociais e ecológicos para tomarem decisões de compra de</p><p>produtos). Os danos causados ao ambiente pelas atividades econômicas,</p><p>(ex: marés negras, fugas radioativas) tem gerado preocupações crescentes</p><p>entre os cidadãos e diversas entidades coletivas, pressionando as</p><p>empresas para a observância de requisitos ambientais e exigindo a</p><p>entidades reguladoras, legislativas e governamentais a produção de</p><p>quadros legais apropriados e a vigilância da sua aplicação. Os meios de</p><p>comunicação social e as modernas tecnologias da informação e da</p><p>comunicação têm sujeitado a atividade empresarial e econômica a uma</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 31</p><p>maior transparência. Daqui tem resultado um conhecimento mais rápido e</p><p>mais profundo das ações empresariais – tanto as socialmente</p><p>irresponsáveis (nefastas) como as que representam bons exemplos (e que,</p><p>por isso, são passíveis de imitação) – com consequências notáveis na</p><p>reputação e na imagem das empresas.</p><p>Responsabilidade Social diz respeito ao cumprimento dos deveres e</p><p>obrigações dos indivíduos e empresas para com a sociedade em geral.</p><p>Existem várias outras definições para o termo responsabilidade.</p><p>Podemos citar, entre elas, as seguintes:</p><p>Alguns sociólogos entendem como sendo responsabilidade social a</p><p>forma de retribuir a alguém, por algo alcançado ou permitido, modificando</p><p>hábitos e costumes ou perfil do sujeito ou local que recebe o impacto.</p><p>Podemos citar um exemplo: A implantação de uma fábrica em uma</p><p>determinada localidade, cujo espaço era utilizado pelos moradores como</p><p>pasto para seus animais, ocasionando perda desse acesso, exigindo a</p><p>criação de novas forma de alcançar o que estava posto e estabelecendo</p><p>um novo cenário para o local.</p><p>Como compensar aos nativos e a natureza por essa "invasão"? Aplica-</p><p>se no caso atos contínuos que possam de uma forma adequada</p><p>compatibilizar a perda dos antigos moradores com meios compensatórios</p><p>de forma a evitar o máximo mudanças bruscas.</p><p>Observe-se que há outras interpretações.</p><p>Um outro exemplo:</p><p>Uma empresa que patrocina um time de futebol ou vôlei que</p><p>supostamente tem condições de se manter sozinho é responsabilidade</p><p>social?</p><p>Sim, desde que a relevância do fato de determinada empresa efetuar</p><p>tal patrocínio tenha relevância social e seja de amplo aspecto de aplicação.</p><p>Tornando mais fácil ao acesso da educação, esporte, cultura, entre outros a</p><p>comunidade local envolvida.</p><p>Responsabilidade social corporativa</p><p>É o conjunto amplo de ações que beneficiam a sociedade e as</p><p>corporações que são tomadas pelas empresas, levando em consideração a</p><p>economia, educação, meio ambiente, saúde, transporte, moradia, atividade</p><p>locais e governo, essas ações otimizam ou criam programas</p><p>sociais,trazendo benefício mútuo entre a empresa e a comunidade,</p><p>melhorando a qualidade de vida dos funcionários, quanto da sua atuação</p><p>da empresa e da própria população.</p><p>Responsabilidade Social Empresarial é a forma de gestão ética e</p><p>transparente que tem a organização com suas partes interessadas, de</p><p>modo a minimizar seus impactos negativos no meio ambiente e na</p><p>comunidade. Ser ético e transparente quer dizer conhecer e considerar</p><p>suas partes interessadas objetivando um canal de diálogo.</p><p>Uma organização voltada para o desenvolvimento sustentável ela</p><p>planeia nos seus negócios um horizonte multidimensional, que engloba e</p><p>assegura os direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e</p><p>ambientais, na medida em que todos fazem parte de um sistema de</p><p>obtenção de uma economia solidária.</p><p>Visões de Responsabilidade Social</p><p>De acordo com Melo Neto e Froes (2001), a melhor maneira de</p><p>analisar o conceito de responsabilidade social empresarial é identificando</p><p>as diversas visões existentes, apresentadas a seguir:</p><p>A responsabilidade social como atitude e comportamento empresarial</p><p>ético e responsável: É dever e compromisso da organização assumir uma</p><p>postura transparente, responsável e ética em suas relações com os seus</p><p>diversos públicos (governo, clientes, fornecedores, comunidade, etc.)</p><p>A responsabilidade social como um conjunto de valores: Não incorpora</p><p>apenas conceitos éticos, mas uma série de outros conceitos que lhe</p><p>proporciona sustentabilidade, como por exemplo, autoestima dos</p><p>funcionários, desenvolvimento social e outros.</p><p>A responsabilidade social como postura estratégica empresarial: A</p><p>busca da responsabilidade social é vista como uma ação social estratégica</p><p>que gera retorno positivo aos negócios, ou seja, os resultados são medidos</p><p>através do faturamento, vendas e market share.</p><p>A responsabilidade social como estratégia de relacionamento: Voltado</p><p>na melhoria de qualidade do relacionamento com seus diversos públicos-</p><p>alvo, a responsabilidade social é usada como estratégia de marketing de</p><p>relacionamento, especialmente com clientes, fornecedores e distribuidores.</p><p>A responsabilidade social como estratégia de marketing institucional: O</p><p>foco está na melhoria da imagem institucional da empresa. São os ganhos</p><p>institucionais da condição de empresa-cidadã que justificam os</p><p>investimentos em ações sociais encetadas pela empresa.</p><p>A responsabilidade social como estratégia de valorização das ações da</p><p>empresa (agregação de valor): Para Georgete Pereira, “a reputação de uma</p><p>empresa e o valor de suas ações no mercado andam juntos” (CECATO,</p><p>2000 apud MELO NETO E FROES, 2001, p. 40). Uma pesquisa feita por</p><p>esta organização identificou que 70% do valor de mercado de uma</p><p>empresa dependem de seus resultados financeiros. Os outros 30%</p><p>dependem da sua reputação</p><p>no mercado.</p><p>A responsabilidade social como estratégia de recursos humanos: As</p><p>ações são focadas nos colaboradores e nos seus dependentes, com o</p><p>objetivo de satisfazê-los e conseqüentemente reter seus principais talentos</p><p>e aumentar a produtividade.</p><p>A responsabilidade social como estratégia de valorização de</p><p>produtos/serviços: O objetivo não é apenas comprovar a qualidade dos</p><p>produtos/serviços da empresa, mas também proporciona-lhes o status de</p><p>“socialmente corretos”.</p><p>A responsabilidade social como estratégia de inserção na comunidade:</p><p>A empresa busca aprimorar suas relações com a comunidade e a</p><p>sociedade e também a definição de novas formas de continuar nela</p><p>inserida.</p><p>A responsabilidade social como estratégia social de desenvolvimento</p><p>na comunidade: A responsabilidade social é vista como uma estratégia</p><p>para o desenvolvimento social da comunidade. Dessa forma, a organização</p><p>passa a assumir papel de agente do desenvolvimento local, junto com</p><p>outras entidades comunitárias e o próprio governo.</p><p>A responsabilidade social como promotora da cidadania individual e</p><p>coletiva: A empresa, mediante suas ações, ajuda seus colaboradores a se</p><p>a tornarem verdadeiros cidadãos e contribui para a promoção da cidadania</p><p>na sociedade e na comunidade.</p><p>A responsabilidade social como exercício de consciência ecológica: A</p><p>responsabilidade social é vista como responsabilidade ambiental. A</p><p>empresa investe em programas de educação e preservação do meio</p><p>ambiente, e conseqüentemente, torna-se uma difusora de valores e</p><p>práticas ambientalistas.</p><p>A responsabilidade social como exercício de capacitação profissional:</p><p>Neste caso, o exercício de responsabilidade social se dá com a</p><p>capacitação profissional dos membros da comunidade e empregados da</p><p>empresa.</p><p>A responsabilidade social como estratégia de integração social: Esse</p><p>conceito parte do pressuposto de que o maior desafio histórico da nossa</p><p>sociedade atual é o de criar condições para que se atinja a efetiva inclusão</p><p>social no país.</p><p>Responsabilidade Social tem um conceito amplo, com muitos</p><p>significados e sinónimos, cidadania corporativa, desenvolvimento</p><p>sustentável, crescimento sustentável, sustentabilidade, capitalismo</p><p>sustentável, filantropia empresarial, marketing social e activismo social</p><p>empresarial. Todos estes desfechos referem-se em geral ao conjunto de</p><p>acções estabelecidas por empresas em relação a sociedade que transitam</p><p>a esfera directa da sua actividade econômica ( Joana Garcia,2004).</p><p>A responsabilidade social de uma empresa melhora a sua</p><p>comunicação com a sociedade por uma simples razão: a partir do momento</p><p>em que a empresa está convencida do seu papel social e se orienta para a</p><p>melhoria contínua dessa sociedade, este esforço resulta apenas num</p><p>constante fortalecimento, que aumenta e reforça o seu conceito junto dessa</p><p>mesma sociedade.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 32</p><p>Percebe-se então que inúmeras são as interpretações e definições de</p><p>Responsabilidade Social Empresarial, e que cada empresa acaba atuando</p><p>de uma forma perante si e a sociedade. Em geral, não há um significado</p><p>preciso de responsabilidade social, surgindo assim, conhecimentos teóricos</p><p>com diferentes conceituações – responsabilidade social como obrigação</p><p>social (Friedman, 1970); responsabilidade social como aprovação social</p><p>(Davis e Blomstrom, 1975) e responsabilidade social como abordagem</p><p>sistêmica dos stakeholders (Zadek, 1998).</p><p>Críticas, Debates e Preocupações</p><p>Os críticos da RSE (Responsabilidade Social Empresarial), debatem</p><p>com os seus defensores uma série de preocupações relacionadas com o</p><p>seu âmbito. Inclui entre outras a relação da RSE como propósito</p><p>fundamental e a natureza dos motivos de negócios, bem como a</p><p>questionabilidade dos motivos para a prática de RSE, incluindo as</p><p>preocupações sobre falsidade e hipocrisia.</p><p>Actualmente a temática Responsabilidade Social e as suas implicações</p><p>é muito comentada. Mas o que é Responsabilidade Social em sua</p><p>essência? O que compreende em um todo? O que levou ao seu</p><p>aparecimento? Qual a importância RSE, hoje, para as empresas e a</p><p>sociedade? Qual é o papel da RSE nas empresas ? Qual é a</p><p>responsabilidade das empresas defronte dos problemas sociais e</p><p>ambientais que a sociedade encara?</p><p>Natureza do negócio</p><p>Milton Friedman e outros têm argumentado que objectivo da empresa é</p><p>maximizar o retorno aos seus accionistas, e que já que só as pessoas</p><p>podem ter responsabilidade social, as empresas são responsáveis apenas</p><p>perante os seus accionistas e não para a sociedade como um todo. Apesar</p><p>de aceitar que as empresas devem obedecer às leis dos países em que</p><p>actuam, eles afirmam que as empresas não têm outra obrigação para a</p><p>sociedade. Algumas pessoas percebem que a RSE é incongruente com a</p><p>própria natureza e finalidade do negócio, e de facto um obstáculo ao</p><p>comércio livre. Aqueles que afirmam que a RSE é incompatível com o</p><p>capitalismo, mas em favor do neoliberalismo argumentam que as melhorias</p><p>na saúde, longevidade e / ou de mortalidade infantil foram criadas pelo</p><p>crescimento econômico atribuído à livre iniciativa.1</p><p>Os críticos desse argumento entendem que o neoliberalismo se opõe</p><p>ao bem-estar da sociedade e é um obstáculo à liberdade humana. Eles</p><p>afirmam que o tipo de capitalismo praticado em muitos países em</p><p>desenvolvimento é uma forma de imperialismo econômico e cultural,</p><p>destacando que esses países normalmente têm menos protecção do</p><p>trabalho e, portanto, os seus cidadãos estão em maior risco de exploração</p><p>por empresas multinacionais .2</p><p>Entre estes dois pólos existe uma grande variedade de posições.</p><p>Muitas tradições religiosas e culturais sustentam que a economia existe</p><p>para servir os seres humanos, pelo que todas as entidades econômicas</p><p>têm uma obrigação para a sociedade. Além disso, muitos defensores da</p><p>RSE apontam as potencialidades para melhorar significativamente, a longo</p><p>prazo, a rentabilidade das empresas, pois reduz os riscos e ineficiências,</p><p>oferecendo uma série de vantagens, tais como a reputação da marca e</p><p>maior envolvimento dos colaboradores.</p><p>Estudiosos inferem que as empresas que investem no social e</p><p>acompanham a moda tanto mercadológica quanto legal, estão alterando</p><p>seus próprios conceitos, pois evoluem a qualidade de vida dos seus</p><p>funcionários, da colectividade e, como resultado, tem maior produtividade e</p><p>aceitação social.</p><p>Motivos</p><p>Alguns críticos acreditam que os programas de RSE são realizadas por</p><p>empresas para distrair o público de questões éticas decorrentes de suas</p><p>operações centrais. Eles argumentam que algumas empresas começam</p><p>programas de RSE para o benefício comercial que beneficiam com o</p><p>aumento da sua reputação com o público ou com o governo. Eles sugerem</p><p>que as empresas que existem apenas para maximizar os lucros são</p><p>incapazes de defender os interesses da sociedade como um todo.3</p><p>Críticos preocupados com a hipocrisia e falsidade corporativa</p><p>geralmente sugerem que uma regulação, aplicação e fiscalização</p><p>internacionais, ao invés de medidas voluntárias, é que são necessárias</p><p>para garantir que as empresas se comportem de forma socialmente</p><p>responsável. Outros, como Patricia Werhane, argumentam que a RSE deve</p><p>ser considerado mais como uma responsabilidade corporativa moral, e</p><p>limitar o alcance da RSE, centrando-se mais sobre os impactos directos da</p><p>organização, visto através de uma perspectiva de sistemas para identificar</p><p>as partes interessadas.</p><p>Luiz Ramos, um dos maiores especialistas brasileiros em Segurança,</p><p>Meio Ambiente e Responsabilidade Social, que atualmente vem</p><p>desenvolvendo um amplo trabalho de preparação de empresas visando</p><p>certifica-las em diferentes Normas Auditáveis, atuando em cidades como</p><p>São Paulo, Curitiba, Rio de Janeiro, Porto Alegre e outras, escreveu em</p><p>artigo publicado recentemente que “emparedados, canalizados, esgotados</p><p>(em todos os sentidos que esta palavra permite), ainda assim</p><p>os rios</p><p>resistem”. Busco nesta frase do excelente autor uma forma de mostrar a</p><p>importância de reciclar os conhecimentos, aprimorando os conceitos de</p><p>Cultura Organizacional (resistência; luta; domínio!) para a implementação</p><p>da Responsabilidade Social não como um modismo, mas como uma</p><p>bandeira inquestionável. Como um valor presente e irremovível! No artigo</p><p>“Corporate Social Responsibility” (CARROLL, 1999), demonstrou que na</p><p>literatura, o conceito de responsabilidade social é o mesmo no passado e</p><p>no presente; o que mudou são as questões encaradas pelas empresas e as</p><p>práticas de responsabilidade social, principalmente porque a sociedade</p><p>mudou e as empresas mudaram, e, consequentemente, as relações entre a</p><p>sociedade e as empresas.</p><p>As organizações que implementam a RSE beneficiam da protecção e</p><p>fortalecimento da imagem da marca e da sua reputação, favorecendo a</p><p>imagem da organização, pois a credibilidade passa a ser uma importante</p><p>vantagem, um diferencial competitivo no mundo globalizado.</p><p>A responsabilidade Social Empresarial gera a atração de investidores,</p><p>uma vez que muitos investidores individuais e institucionais percebem que</p><p>o retorno é garantido nas empresas socialmente responsáveis e a dedução</p><p>fiscal, onde as empresas podem abater nos impostos, o valor utilizado em</p><p>actividades sociais.</p><p>O consumo ético</p><p>O aumento da popularidade do consumo ético nas últimas duas</p><p>décadas pode estar ligada à ascensão da RSE. Os consumidores estão</p><p>cada vez mais conscientes das implicações ambientais e sociais das suas</p><p>decisões de consumo do dia-a-dia e, portanto, começam a tomar decisões</p><p>de compra em que é factor decisório as suas preocupações ambientais e</p><p>éticas. No entanto, esta prática está longe de ser coerente ou universal.</p><p>Segundo alguns estudiosos a ética é um factor importante na garantia</p><p>da competitividade das empresas. A Responsabilidade Social é a ética que</p><p>vêm movimentando um grande número de organizações, caso que deve</p><p>servir de reflexão, pois, mostra ser o caminho a percorrer para a</p><p>sustentabilidade, para o êxito empresarial e a edificação de uma sociedade</p><p>mais desenvolvida e justa.</p><p>A globalização e as forças de mercado</p><p>Responsabilidade Social Empresarial é um dos novos fenómenos de</p><p>mercado proveniente da globalização da economia. Ao longo dos ciclos</p><p>históricos, tivemos a empresa orientada sucessivamente para o produto,</p><p>para o mercado e depois para o cliente. Agora a empresa encontra-se</p><p>orientada para o social(Bicalho, 2003)</p><p>Conforme as empresas procuram crescer através da globalização, elas</p><p>têm encontrado novos desafios que impõem limites ao seu crescimento e</p><p>lucros potenciais. As regulamentações dos governos, as tarifas, as</p><p>restrições e normas ambientais diferentes do que constitui a "exploração do</p><p>trabalho" são problemas que podem custar milhões de euros às</p><p>organizações. Algumas questões éticas são vistas simplesmente como um</p><p>estorvo caro, enquanto algumas empresas utilizam metodologias RSE</p><p>como uma táctica estratégica para obter apoio público para a sua presença</p><p>nos mercados globais, ajudando-as a sustentar uma vantagem competitiva</p><p>usando suas contribuições sociais para proporcionar um nível</p><p>subconsciente de publicidade. (Fry, Keim, Meiners 1986,) A concorrência</p><p>global coloca uma grande pressão sobre as empresas multinacionais para</p><p>analisar não só as suas próprias práticas de trabalho, mas os de toda a sua</p><p>cadeia, a partir de uma perspectiva de RSE.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 33</p><p>ISO 26000</p><p>No dia 1º de novembro de 2010, foi publicada a Norma Internacional</p><p>ISO 26000 – Diretrizes sobre Responsabilidade Social, cujo lançamento foi</p><p>em Genebra, Suíça. No Brasil, no dia 8 de dezembro de 2010, a versão em</p><p>português da norma, a ABNT NBR ISO 26000, foi lançada em evento na</p><p>Fiesp, em São Paulo.</p><p>Segundo a ISO 26000, a responsabilidade social se expressa pelo de-</p><p>sejo e pelo propósito das organizações em incorporarem considerações</p><p>socioambientais em seus processos decisórios e a responsabilizar-se pelos</p><p>impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente.</p><p>Isso implica um comportamento ético e transparente que contribua para o</p><p>desenvolvimento sustentável, que esteja em conformidade com as leis</p><p>aplicáveis e seja consistente com as normas internacionais de comporta-</p><p>mento. Também implica que a responsabilidade social esteja integrada em</p><p>toda a organização, seja praticada em suas relações e leve em conta os</p><p>interesses das partes interessadas.</p><p>A norma fornece orientações para todos os tipos de organização, inde-</p><p>pendente de seu porte ou localização, sobre:</p><p>conceitos, termos e definições referentes à responsabilidade social;</p><p>histórico, tendências e características da responsabilidade social;</p><p>princípios e práticas relativas à responsabilidade social;</p><p>os temas centrais e as questões referentes à responsabilidade social;</p><p>integração, implementação e promoção de comportamento socialmente</p><p>responsável em toda a organização e por meio de suas políticas e práticas</p><p>dentro de sua esfera de influência;</p><p>identificação e engajamento de partes interessadas;</p><p>comunicação de compromissos, desempenho e outras informações re-</p><p>ferentes a responsabilidade social.</p><p>A ISO 26000:2010 é uma norma de diretrizes e de uso voluntário; não</p><p>visa nem é apropriada a fins de certificação. Qualquer oferta de certificação</p><p>ou alegação de ser certificado pela ABNT NBR ISO 26000 constitui em</p><p>declaração falsa e incompatível com o propósito da norma.</p><p>O objetivo da ISO 2600 é estabelecer um entendimento comum sobre a</p><p>prática da Responsabilidade Social, visando orientar as organizações de</p><p>todos os tipos e tamanhos sobre os cuidados e princípios que devem ser</p><p>observados por instituições, empresas e demais entidades que desejam ser</p><p>socialmente responsáveis.</p><p>Ao enfocar e praticar a responsabilidade social, o objetivo principal de uma</p><p>organização é maximizar sua contribuição ao desenvolvimento sustentável,</p><p>incluindo a saúde e o bem-estar da sociedade.</p><p>Embora não haja nenhuma lista detalhada dos princípios para a responsabi-</p><p>lidade social, as organizações e empresas deveriam ao menos observar os</p><p>sete princípios da norma que são:</p><p>- Responsabilidade por Ações</p><p>- Transparência</p><p>- Comportamento Ético</p><p>- Respeito pelos Interesses dos Stakholders</p><p>- Respeito pelas Regras da Lei</p><p>- Respeito pelas Normas Internacionais de Comportamento</p><p>- Respeito pelos Direitos Humanos</p><p>São Sete os Temas Centrais e Questões de Responsabilidade Social.</p><p>Explicam os assuntos essenciais e questões associadas envolvidas na</p><p>responsabilidade social, a saber:</p><p>- Governança Organizacional</p><p>- Direitos Humanos</p><p>- Relações de Trabalho</p><p>- Meio Ambiente</p><p>- Práticas Leais de Operação</p><p>- Questões Relativas ao Consumidor</p><p>- Envolvimento e Desenvolvimento da Comunidade</p><p>Esta Norma internacional de responsabilidade social é de diretrizes e não de</p><p>requisitos, por isso não é certificável, tão pouco é sistema de gestão. AISO –</p><p>organização privada sem fins lucrativos, fundada em 1947 – desenvolve</p><p>normas que facilitam o comércio internacional, difundem conhecimento e</p><p>compartilham avanços tecnológicos e as boas práticas de gestão.</p><p>O que é ISO 26000</p><p>O que é?</p><p>A ISO 26000 surge para ser a primeira norma internacional de Responsabi-</p><p>lidade Social Empresarial. Ela começou a ser desenvolvida em 2005 e sua</p><p>versão final será publicada no final 2010. O documento tem como objetivo</p><p>traçar diretrizes para ajudar empresas de diferentes portes, origens e</p><p>localidades na implantação e desenvolvimento de políticas baseadas na</p><p>sustentabilidade.</p><p>A norma foi construída com a participação de diversos setores da socieda-</p><p>de, em todo mundo, e liderada por um brasileiro: o engenheiro Jorge Caja-</p><p>zeira, gerente corporativo de competitividade da Suzano Papel e Celulose,</p><p>responsável pelo Grupo de Trabalho e Responsabilidade Social da ISO</p><p>(International Organization for Standardization).</p><p>Criação</p><p>Foi durante uma reunião do Comitê de Política de Consumidores da ISO</p><p>(Copolco), em 2001, que se cogitou, pela primeira vez, a criação de uma</p><p>norma global de Responsabilidade Social Corporativa. No entanto, o docu-</p><p>mento só passou a ser discutido em 2005. Desde então, uma série de</p><p>encontros do comitê organizador já ocorreram em diversas partes do mun-</p><p>do.</p><p>Diretrizes para uma conduta sustentável</p><p>A norma internacional tem a proposta de servir como um importante norte</p><p>para as corporações e não como uma certificadora. Os sete princípios da</p><p>ISO 26000 são:</p><p>• Responsabilidade;</p><p>• Transparência,</p><p>• Comportamento Ético;</p><p>• Consideração pelas partes interessadas;</p><p>• Legalidade;</p><p>• Normas Internacionais;</p><p>• Direitos Humanos.</p><p>Além dos princípios, os temas centrais do documento envolvem as áreas</p><p>de Direitos Humanos; Práticas de Trabalho; Meio Ambiente; Práticas Leais</p><p>de Operação; Combate à Corrupção e Propina; Consumidores e Desenvol-</p><p>vimento aliado a participação comunitária. As empresas terão de aplicar</p><p>ações de cada área citada em suas gestões.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 34</p><p>Importância</p><p>Faltava um instrumento oficial capaz de integrar a forma como as organiza-</p><p>ções lidam com o mundo à sua volta. Essa é a grande importância da ISO</p><p>26000, que apesar de reconhecer que já existem muitas respostas para tais</p><p>demandas, entende, ao mesmo tempo, que há a necessidade de estruturá-</p><p>las. Vivemos em um tempo de crise nos setores econômico, ambiental e</p><p>social em todo o mundo. Empresas e associações de todos os segmentos</p><p>pecam pela ausência de ética, ao desconsiderarem seus públicos e até</p><p>mesmo os próprios funcionários. Soma-se aí o fato de que o conceito de</p><p>sustentabilidade empresarial ainda é novo, o que provoca ruídos na comu-</p><p>nicação das empresas em relação ao tema. Todos esses fatores favorecem</p><p>a consolidação da ISO 26000 como mecanismo internacional.</p><p>Os stakeholders</p><p>Os stakeholders (partes interessadas) são pessoas ou entidades afetadas</p><p>pelas atividades de uma determinada empresa. Em suma, são todos os</p><p>envolvidos em um processo, que pode ser temporário, como um simples</p><p>projeto, ou duradouro, a exemplo da missão norteadora de cada organiza-</p><p>ção. Os stakeholders são fundamentais para o sucesso de qualquer em-</p><p>preendimento. Por essa razão, pode-se dizer que eles são imprescindíveis</p><p>também para a ISO 26000. A norma oferece orientação a respeito da</p><p>identificação, priorização e engajamento de suas partes interessadas.</p><p>Dificuldades</p><p>A norma ISO 26000 deverá servir pelo menos a 50 países de todo o mun-</p><p>do. Como cada país possui uma particularidade em si, as diferenças cultu-</p><p>rais foram o principal entrave para a aceleração do projeto. Nos Estados</p><p>Unidos, por exemplo, as empresas não têm a cultura das doações e, quan-</p><p>do as praticam, são vistas com maus olhos. Lá, o tradicional é que as</p><p>pessoas públicas tenham o engajamento social. Ou seja, os presidentes ou</p><p>donos das corporações fazem as doações em seus nomes. No Brasil, é</p><p>feito justamente o contrário.</p><p>Apesar das distinções, os líderes internacionais da ISO 26000 sempre</p><p>estiveram otimistas e acreditaram que estas diferenças é o que iria fazer da</p><p>norma algo relevante e verdadeiro. Um exemplo é a Declaração Mundial</p><p>dos Direitos Humanos, da ONU, que abrange dezenas de nações ao explo-</p><p>rar os pontos que elas têm em comum.</p><p>O respeito aos acordos internacionais estabelecidos também é uma pre-</p><p>missa da norma. Esse cuidado evitará, por exemplo, práticas protecionistas</p><p>no comércio internacional, além de um possível desrespeito a autoridade</p><p>de instituições legítimas e representativas</p><p>Dicas para quem não quiser ficar de fora da RSE</p><p>De acordo com Cajazeira, que há 19 anos trabalha na Suzano Papel e</p><p>Celulose e é referência quando o assunto é a sustentabilidade dos negó-</p><p>cios, as empresas que querem ser perenes no mercado precisam implantar</p><p>políticas de Responsabilidade Social Empresarial. “As empresas que opta-</p><p>rem por não aderir às RSE poderão ganhar muito dinheiro fácil, durante</p><p>algum tempo, mas logo depois irão acabar, porque o modelo de gestão</p><p>desses novos tempos é pautado na transparência e na ética das organiza-</p><p>ções”, explicou. O executivo listou dois fatores tidos por ele como essenci-</p><p>ais para quem deseja aplicar uma gestão socialmente responsável:</p><p>1º - Ter comprometimento com todos os públicos em que a empresa causa</p><p>impacto.</p><p>2º - Procurar as instituições competentes para auxiliar na implantação de</p><p>políticas de Responsabilidade Socioempresarial, como, por exemplo,</p><p>o Instituto Ethos.</p><p>http://www.ecodesenvolvimento.org/iso26000/o-que-e-iso26000</p><p>EDUCAÇÃO E TRABALHO: DIREITOS FUNDAMENTAIS COMPLE-</p><p>MENTARES?</p><p>Vanessa Vieira Pessanha</p><p>RESUMO</p><p>O presente trabalho tem como principal objetivo demonstrar a relação</p><p>direta de considerável melhoria na qualidade de vida dos membros da</p><p>sociedade brasileira com a efetivação do direito à educação e sua conse-</p><p>qüente repercussão no direito ao trabalho, fator este de imensa relevância</p><p>dentro do contexto essencialmente capitalista no qual o país está inserido.</p><p>O desenvolvimento sócio-econômico mais igualitário pode ser vislumbrado</p><p>como basilar para uma vida em comunidade digna, situação que ganha</p><p>especial relevo nos países considerados subdesenvolvidos (ou em desen-</p><p>volvimento). Para atingir esse escopo, inicialmente o foco de análise é o</p><p>direito à educação, com as previsões constitucionais pertinentes ao tema e</p><p>alguns tópicos relevantes desse direito fundamental. Em seguida, o direito</p><p>ao trabalho passa a ser o alvo da exposição, tratando-se da diferença</p><p>ontológica em relação ao direito do trabalho, da importância do trabalho na</p><p>história da humanidade e o trabalho enquanto valor assegurado pela Carta</p><p>Magna de 1988. No momento subseqüente (item 4 deste artigo), o enfoque</p><p>propriamente dito do texto é apresentado, imiscuindo-se os direitos sociais</p><p>em tela (direito à educação e direito ao trabalho) de maneira a demonstrar</p><p>a relevância da educação na concretização do direito ao trabalho, finalizan-</p><p>do com algumas considerações acerca do tema abordado.</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Tendo em vista a realidade de descumprimento no que tange à efetiva-</p><p>ção de diversos direitos sociais, destacam-se os direitos à educação e ao</p><p>trabalho no quadro jurídico-social brasileiro. O presente trabalho enfoca o</p><p>entrelaçamento dos direitos elencados, visando à demonstração da influên-</p><p>cia direta que geralmente exerce a educação na concretização do direito ao</p><p>trabalho de maneira digna.</p><p>As questões de acesso à escola (e permanência), bem como o difícil</p><p>ingresso no mercado de trabalho, são constante alvo de protestos, em</p><p>virtude de essas dificuldades perpassarem áreas que deveriam gozar de</p><p>um tratamento privilegiado, justamente por consistirem em aspectos de</p><p>grande interesse em um Estado que se propõe social.</p><p>Alguns autores já enfrentaram o tema da profissionalização do empre-</p><p>gado em produções acadêmicas, entretanto, quando se pontua a educação</p><p>como um todo (desde a educação básica, passando não apenas pelos</p><p>níveis, como também pelas modalidades de ensino), o assunto é pouco</p><p>discutido, em que pese ser considerado de grande relevância dentro do</p><p>contexto das comunidades humanas, especialmente nos países subdesen-</p><p>volvidos – nos quais a efetivação de direitos sociais costuma ser bastante</p><p>precária.</p><p>Inicialmente, será apresentado o direito à educação, com algumas pe-</p><p>culiaridades e informações importantes acerca da sua configuração atual.</p><p>Em seguida, o enfoque é modificado para o direito ao trabalho, com suas</p><p>nuances na contemporaneidade. Logo após, far-se-á uma discussão que</p><p>entrelaça ambos, enquanto direitos fundamentais pouco respeitados e que</p><p>têm implicação direta nas relações de diversas naturezas que são verifica-</p><p>das no convívio social, já que a vida em sociedade é extremamente com-</p><p>plexa e são inúmeros os fatores capazes de modificá-la. Por fim, algumas</p><p>considerações</p><p>finais são oferecidas, com o escopo de sintetizar as discus-</p><p>sões, buscando refletir sobre o que se verifica hodiernamente e a possibili-</p><p>dade de mudança dessa situação não adeqüada à necessidade de uma</p><p>sociedade plenamente desenvolvida e que preserve a dignidade humana.</p><p>Educação e trabalho: direitos fundamentais complementares? Para</p><p>responder a essa pergunta, tratar-se-á, primeiramente, do direito social à</p><p>educação.</p><p>1 DIREITO À EDUCAÇÃO</p><p>A Constituição Federal de 1988 (CF/88) trata da educação na Seção I</p><p>(Da Educação) do Capítulo III (Da Educação, da Cultura e do Desporto) do</p><p>Título VIII (Da Ordem Social).</p><p>Silva (2004, p. 312) pontua que “as normas [...] elevam a educação à</p><p>categoria de serviço público essencial que ao Poder Público impende</p><p>possibilitar a todos”. Tal é a importância da educação na formação do</p><p>http://www.ecodesenvolvimento.org/iso26000/o-que-e-iso26000</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 35</p><p>indivíduo que passa a ser considerada um direito fundamental que deve ser</p><p>provido pelo Estado.</p><p>Na CF/88 (BRASIL, 1988), consta a seguinte redação:</p><p>Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família,</p><p>será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade,</p><p>visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o e-</p><p>xercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.</p><p>O art. 206 da CF/88, por sua vez, apresenta em seus incisos os princí-</p><p>pios acolhidos pelo legislador constituinte acerca da educação, a exemplo</p><p>da gratuidade do ensino público, valorização dos respectivos profissionais e</p><p>liberdade.</p><p>Silva Neto (2006, p. 634) considera os arts. 205 e 206 “exemplos de</p><p>cláusulas programáticas invariavelmente desrespeitadas”, asseverando que</p><p>“o direito social à educação acentua a distância havida entre o projeto</p><p>constitucional e a realidade física, na qual as políticas públicas na área</p><p>educacional estão em franco descompasso às determinações constitucio-</p><p>nais”.</p><p>De fato, o quadro do sistema educacional no Brasil difere – e muito –</p><p>dos parâmetros estabelecidos pela Carta Magna de 1988.</p><p>O direito à educação em sua plenitude, promovendo uma análise crítica</p><p>do assunto, pode ser considerado um direito social historicamente destina-</p><p>do a poucos. As conseqüências dessa afirmação são perceptíveis na</p><p>atualidade por meio de muitos problemas sociais, dentre os quais é possí-</p><p>vel citar a miséria, a violência e o próprio desemprego.</p><p>“A educação como processo de reconstrução da experiência é um atri-</p><p>buto da pessoa humana e, por isso, tem que ser comum a todos. É essa</p><p>concepção que a Constituição agasalha [...] quando declara que ela é um</p><p>direito de todos e dever do Estado” (SILVA, 2004, p. 817, grifo do autor).</p><p>Bezerra (2007, p. 166), por sua vez, oferece sua contribuição a respeito</p><p>do processo educacional:</p><p>[...] a educação [é] um processo que consiste em ajudar o educando a</p><p>atingir a sua plena formação de homem, o seu crescimento, o seu desen-</p><p>volvimento, a sua maturidade, um melhor funcionamento e uma maior</p><p>capacidade de enfrentar a vida, aclarando os seus horizontes nas imagens</p><p>da incerteza e permitindo que ele atinja a maturidade espiritual para se</p><p>auto-dirigir, numa verdadeira e plena liberdade [...].</p><p>O papel da educação no processo de formação do indivíduo é pratica-</p><p>mente incontestado, contudo o respeito a esse direito fundamental não é</p><p>verificado a contento, levando a severas discussões e a uma tentativa dos</p><p>juristas de procurar categorias cada vez mais importantes para envolvê-lo,</p><p>de maneira a preservar seu valor e buscar uma proteção intangível no que</p><p>concerne ao seu núcleo essencial.</p><p>Para Bezerra (2007, p. 185), “a educação [...] é um direito humano, no</p><p>sentido de que é inerente a todo ser humano como tal, e fundamental, da</p><p>espécie, a um tempo social e cultural”.</p><p>É extremamente significativa a contribuição que Covre (1983, p. 195)</p><p>apresenta para a compreensão do assunto em foco, afirmando que, sob</p><p>uma perspectiva da lógica do pensamento dominante, a educação conta</p><p>com duas facetas: direito social do cidadão e propiciadora de um fator do</p><p>capital (melhoria da qualificação da mão-de-obra).</p><p>Para Covre (1983, p. 195), “do primeiro prisma [...], diz respeito ao uni-</p><p>verso do consumo de um ‘bem’, o cultural, e [...], aumentando as oportuni-</p><p>dades de emprego, possibilita maior participação no consumo dos bens</p><p>gerados pela sociedade tecnológica”. Informa, ainda, que a educação pode</p><p>ser pensada como política social, diretamente relacionada à questão do</p><p>pleno emprego, sendo útil, assim, ao processo de legitimação da idéia em</p><p>destaque. Já no que diz respeito à segunda acepção, “está intimamente</p><p>vinculada ao desenvolvimento que se fez com base na tecnologia, na</p><p>criação e implementação dessa tecnologia e sua relação com maior produ-</p><p>tividade” (COVRE, 1983, p. 195).</p><p>Note-se que a autora apresenta uma posição visivelmente crítica desse</p><p>direito social, cada vez mais compatível com a realidade na qual se vive</p><p>atualmente. Além disso, sua abordagem encaminha a educação para a</p><p>perspectiva da discussão acerca do mundo do trabalho.</p><p>O direito à educação consiste em um dos direitos considerados de su-</p><p>ma importância na sociedade moderna. Quando se pensa em prestação</p><p>estatal, ele logo surge como um dos parâmetros para que se considere um</p><p>governo como satisfatório ou não no atendimento às necessidades funda-</p><p>mentais do cidadão. Falar em educação trata-se, destarte, do desenvolvi-</p><p>mento pleno da pessoa humana.</p><p>Reconhecida a relevância da educação para a formação do indivíduo e</p><p>a conseqüente necessidade de proteção desse direito fundamental, passar-</p><p>se-á à explanação sobre o direito ao trabalho.</p><p>2 DIREITO AO TRABALHO</p><p>Vale iniciar destacando a necessidade de uma análise com a devida</p><p>parcimônia acerca de alguns discursos de legitimação do trabalho. Para</p><p>Zerga (2007, p. 43-45), por exemplo, a centralidade do trabalho na vida</p><p>humana e sua direta relação com a dignidade e o desenvolvimento da</p><p>personalidade servem como pilares para a construção do ordenamento. O</p><p>autor defende que o trabalho é um privilégio, pois, enquanto a pessoa</p><p>trabalha, transforma a natureza, a adapta às suas necessidades e pode</p><p>chegar a compreender seu sentido – diferença essencial entre a atividade</p><p>humana e animal. É um direito e um dever expressando, por um lado, a</p><p>obrigação de servir socialmente e, por outro, a dignidade pessoal.</p><p>Como ponto inicial, é essencial ressaltar que não se nega a função</p><p>primordial do trabalho dentro da sociedade; trata-se de algo que conduz, no</p><p>decorrer da história, ao sucesso ou fracasso de muitas sociedades. Ocorre,</p><p>todavia, que um discurso ingênuo, apenas direcionado à exposição do lado</p><p>positivo do trabalho, não pretende ser adotado nesse artigo, haja vista a</p><p>necessidade de reflexão que sempre deve permear a academia.</p><p>O trabalho, a priori associado tão somente àqueles que não contavam</p><p>com a possibilidade de ter pessoas que o fizessem (escravidão), com o</p><p>passar dos anos foi adquirindo outra conotação. É bem verdade que, inici-</p><p>almente, essa mudança de paradigma busca legitimar a idéia de que aque-</p><p>les que não detinham os meios de produção deveriam trabalhar porque</p><p>essa foi a escolha da divindade para as suas vidas.</p><p>Na atualidade, entretanto, não cabe promover grandes elocuções ma-</p><p>niqueístas acerca do tema. Efetivamente, de modo geral, exercer uma</p><p>atividade laboral faz parte do cotidiano do ser humano e essa prática possi-</p><p>bilita seu sustento e o de sua família – o que, por si só, traz a carga de</p><p>dignidade bastante aludida pelos doutrinadores. No entanto, o que ocorre</p><p>muitas vezes é o excesso nessa preleção, fazendo com que o labor ocupe</p><p>tamanho espaço na vida do indivíduo que o impossibilite de desempenhar</p><p>bem outros papéis sociais, a exemplo da cidadania em sua plenitude.</p><p>Apesar da necessidade de uma leitura crítica do quanto apresentado</p><p>acima,</p><p>pode-se afirmar que o direito ao trabalho cumpre uma relevante</p><p>função dentro de uma economia capitalista. É o trabalho que impulsiona a</p><p>economia, que promove a circulação de riquezas por meio da divisão</p><p>(ainda que não igualitária) do capital entre aqueles que detêm os meios de</p><p>produção e os que vendem sua força de trabalho, único bem do qual dis-</p><p>põem.</p><p>O direito ao trabalho é um direito fundamental agasalhado na CF/88</p><p>(art. 6º) e difere do direito do trabalho, ramo do Direito destinado a soluções</p><p>de conflitos oriundos das relações de trabalho – nas palavras de Almeida</p><p>(2005, p. 1), “a relação capital versus trabalho é o objeto central da jurisdi-</p><p>ção trabalhista”.</p><p>Delgado (2007, p. 87) oferece sua explicação para a formação do Direi-</p><p>to do Trabalho:</p><p>O Direito do Trabalho surge da combinação de um conjunto de fatores,</p><p>os quais podem ser classificados em três grupos específicos: fatores eco-</p><p>nômicos, fatores sociais, fatores políticos. Evidentemente que nenhum</p><p>deles atua de modo isolado, já que não se compreendem sem o concurso</p><p>de outros fatores convergentes. Muito menos têm eles caráter estritamente</p><p>singular, já que comportam dimensões e reflexos diferenciados em sua</p><p>própria configuração interna (não há como negar-se a dimensão e reper-</p><p>cussão social e política, por exemplo, de qualquer fato fundamentalmente</p><p>econômico).</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 36</p><p>A gênese do Direito do Trabalho, sem dúvida, é um fato complexo e de</p><p>raízes históricas – como, em verdade, é o Direito como um todo, em virtude</p><p>da sua natureza de regulação de fatos sociais e de ciência notadamente</p><p>social.</p><p>Almeida (2005, p. 7) reforça a importância da existência do Direito do</p><p>Trabalho para a sociedade:</p><p>Direito do Trabalho é um núcleo de resistência ao dito “capitalismo sel-</p><p>vagem”, onde o lucro justifica tudo, inclusive a exploração sem limites da</p><p>força de trabalho. Neste aspecto, o Direito do Trabalho torna-se um alvo</p><p>porque, mitigada a sua aplicação, todo o sistema organizado fica enfraque-</p><p>cido.</p><p>Trazendo mais uma reflexão sobre o assunto, como lembra Palomeque</p><p>(2001, p. 15-16), a razão de ser do Direito do Trabalho precisa ser vista de</p><p>uma outra ótica. São conquistas históricas alcançadas a duras penas pelos</p><p>trabalhadores, contudo precisam ser percebidas também como molduras</p><p>exatas de migalhas que são oferecidas ao trabalhador como forma de</p><p>conter o caos social e permitir, assim, a continuidade do sistema capitalista.</p><p>Almeida (2005, p. 9) afirma ainda que “constitui-se numa relevante a-</p><p>meaça à democracia o momento em que a cidadania do trabalhador e a</p><p>mensuração de seu labor</p><p>é (sic) desrespeitado diuturnamente. Só se pode falar em Estado De-</p><p>mocrático quando se asseguram efetivamente normas protetivas ao traba-</p><p>lhador”. E é justamente esse o papel que cumpre o Direito do Trabalho: o</p><p>de guardião do mínimo de dignidade para o trabalhador.</p><p>Sob a égide do princípio da dignidade da pessoa humana, tão festejado</p><p>e considerado como parâmetro máximo de restrição de direitos fundamen-</p><p>tais (FREITAS, 2007, p. 175), “de fato, faltando as condições materiais</p><p>mínimas, [...] a dignidade da pessoa humana não estará sendo respeitada”</p><p>(MEIRELES, 2005, p. 223).</p><p>O trabalho consiste em uma figura tão intricada que levou à criação de</p><p>um ramo jurídico para promover um tratamento mais individualizado, devido</p><p>à necessidade de uma regulação eficaz por conta da importância que</p><p>exerce em toda a engrenagem social. A tensão capital x trabalho, bastante</p><p>explorada pela doutrina juslaboralista, funciona como um fator decisivo para</p><p>a proteção do trabalho humano. O Estado percebeu empiricamente que a</p><p>não existência de normas disciplinadoras das atividades laborais leva ao</p><p>caos social, em função da sede por mais capital gerada pelo próprio capital.</p><p>Alguns princípios desse ramo jurídico – a exemplo da imperatividade</p><p>das normas trabalhistas, da condição mais benéfica e da indisponibilidade</p><p>dos direitos trabalhistas – evidenciam o valor trabalho no contexto de uma</p><p>sociedade, ajudando a dar o contorno de uma busca pelo equilíbrio da</p><p>relação acima elencada, naturalmente tendente para o lado do capital</p><p>(DELGADO, 2007). De acordo com Almeida (2005, p. 3), “garantir a mínima</p><p>dignidade aos trabalhadores é o que informam todos os princípios peculia-</p><p>res da seara trabalhista”.</p><p>Darcanchy (2001, grifo do autor) manifesta-se acerca da formação do</p><p>direito fundamental ao trabalho:</p><p>O trabalho, concebido na antigüidade clássica como um castigo, algo</p><p>penoso representa em nossos dias um bem de valor imensurável. Assim,</p><p>também, o direito ao trabalho, um dos valores sociais fundamentais trazidos</p><p>pela Revolução Francesa, que sempre esteve axiologicamente associado</p><p>ao dever de trabalhar como uma obrigação exigível à sociedade enquanto</p><p>direito, e ao indivíduo enquanto dever.</p><p>O trabalho como algo exigível para completar a vida humana digna –</p><p>uma das facetas apresentadas pela autora supracitada – configura exata-</p><p>mente a noção de direito ao trabalho, uma vez que tem embutido em si</p><p>toda a carga semântica de</p><p>fundamentalidade não só dessa atividade, como também (e principal-</p><p>mente) da possibilidade de gozo desse direito, por inúmeras vezes não</p><p>observado no que tange a uma quantidade bastante expressiva de indiví-</p><p>duos.</p><p>De grande valor para o que vem sendo discutido até o momento é o</p><p>posicionamento de Assis (2001, p. 4):</p><p>Do ponto de vista jurídico-constitucional, o direito ao trabalho remune-</p><p>rado nas democracias modernas é tão fundamental quanto o direito de</p><p>propriedade. Ambos se relacionam com o próprio direito de sobrevivência,</p><p>assim como ambos partilham a mesma qualidade de valor impessoal asse-</p><p>gurado a todos, indistintamente. Sabemos que nem todos os homens são</p><p>ou serão proprietários, assim como sabemos que nem todos os homens</p><p>terão trabalho dignamente remunerado em todas as situações históricas</p><p>concretas, mas as constituições democráticas modernas se fundam na</p><p>possibilidade abstrata de que isso aconteça. E não poderia ser de outra</p><p>forma: as constituições modernas expressam a vontade da soberania</p><p>ampliada, e a soberania ampliada inclui proprietários e aqueles que só têm</p><p>como meio de sobrevivência a venda da própria força de trabalho.</p><p>O autor acima mencionado destaca o caráter de direito fundamental do</p><p>direito ao trabalho, demonstrando a sua relação de relevância na vida do</p><p>ser humano ao evidenciar a ligação direta com a sobrevivência, uma vez</p><p>que os trabalhadores geralmente dispõem apenas da sua força de trabalho</p><p>e é dela que precisam buscar recursos para a sua subsistência. Como bem</p><p>lembra, a situação ideal de uma sociedade é aquela na qual seja possível</p><p>que todos os cidadãos tenham um trabalho dignamente remunerado.</p><p>Assis (2001, p. 6) vai além em suas afirmações, buscando comprovar a</p><p>fundamentalidade do direito ao trabalho:</p><p>Na realidade, o próprio conceito de igualdade, inerente à democracia,</p><p>contém implícito o princípio do direito ao trabalho, na medida em que o</p><p>processo histórico ampliou a cidadania para nela incluir os não proprietá-</p><p>rios, que dispõem apenas da aplicação e venda do produto de sua força de</p><p>trabalho para sobreviver. Nesse sentido, o direito ao trabalho é uma subca-</p><p>tegoria do direito de sobrevivência, inerente à cidadania, num nível superior</p><p>ao do direito de propriedade, uma vez que este pode ser modificado e</p><p>regulado para atender ao primeiro.</p><p>O direito ao trabalho efetivamente está ligado à igualdade. A isonomia</p><p>material busca valorizar o tratamento diferenciado para aqueles que dele</p><p>necessitam, justamente porque só assim se alcança a igualdade de fato –</p><p>situação que pode ser aplicada àqueles</p><p>que não detêm os meios de produção e, por essa razão, precisam de</p><p>um labor para viver dignamente.</p><p>Ter direito ao trabalho é, em última análise, ter direito à sobrevivência</p><p>digna. Sua importância é tamanha que, ao longo da história da humanidade</p><p>(com a ampliação da idéia de cidadania a todos os indivíduos), ganhou</p><p>maior visibilidade e importância que o direito à propriedade. O direito à</p><p>propriedade era considerado absoluto, contudo esse entendimento foi</p><p>modificado com a evolução da idéia de dignidade da pessoa humana como</p><p>parâmetro fundamental para a vida em sociedade e, atualmente, trata-se de</p><p>um direito bastante relativizado (em comparação à sua disciplina jurídica</p><p>inicial), até mesmo em função do direito ao trabalho – ao qual, hodierna-</p><p>mente, é atribuído um valor social maior que ao primeiro.</p><p>De acordo com a CF/88, o trabalho consiste em um dos fundamentos</p><p>da República Federativa do Brasil (art. 1º). Almeida (2005, p. 4-5) explica</p><p>esse fato:</p><p>A Constituição Federal é um marco instrumental de mudança de para-</p><p>digma social porque adota valores que norteiam toda a interpretação das</p><p>leis e imprime ao aplicador do direito uma nova tônica. Esta tônica é voltada</p><p>para a satisfação dos interesses garantidos nos preceitos constitucionais,</p><p>conferindo-lhes o valor axiológico e pragmático concretos, de modo a</p><p>favorecer que os direitos se efetivem.</p><p>No art. 1º da Constituição de 1988 (CF/88) encontramos a dignidade da</p><p>pessoa humana e o valor social do trabalho como fundamentos de constru-</p><p>ção da sociedade brasileira, concebida inserta no Estado Democrático de</p><p>Direito. O trabalho é compreendido como instrumento de realização e</p><p>efetivação da justiça social, porque age distribuindo renda.</p><p>Além dessa menção tão significativa do trabalho desde o primeiro arti-</p><p>go da Lei maior brasileira, ele aparece também no Título Da ordem econô-</p><p>mica e financeira, in verbis: “art. 170. A ordem econômica, fundada na</p><p>valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a</p><p>todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados</p><p>os seguintes princípios: [...] VIII – busca do pleno emprego [...]” (BRASIL,</p><p>1988, grifo nosso).</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 37</p><p>É interessante observar que a valorização do trabalho é apontada co-</p><p>mo um dos pilares da ordem econômica brasileira. De fato, o trabalho</p><p>estabelece relação direta com a economia, contudo não é apenas essa</p><p>ligação que é pontuada pelo legislador constituinte: a valorização é um forte</p><p>indício de que se quis ir além, demonstrando a</p><p>necessidade de enfocar o ser humano em si, indício que se confirma</p><p>na leitura do artigo acima citado, quando menciona expressamente o impe-</p><p>rativo de assegurar uma existência digna.</p><p>Um dos princípios elencados no art. 170 da CF/88 é a busca do pleno</p><p>emprego, fato que corrobora a tese aqui advogada de que o trabalho digno</p><p>é o foco pretendido pela Constituição para os cidadãos que se encontram</p><p>sob a sua égide.</p><p>Para finalizar esse tópico, faz-se oportuna uma reflexão produzida por</p><p>Almeida (2007, p. 2) acerca do trabalho:</p><p>O princípio constitucional da valorização do trabalho emerge como uma</p><p>forma de proteção humanística ao trabalhador, tão desvalorizado em razão</p><p>dos resultados econômicos de sua exploração. É preciso reestruturar todo</p><p>o pensamento social acerca do trabalho, envolvendo a sociedade numa</p><p>discussão ampla e irrestrita sobre o papel do trabalho no mundo contempo-</p><p>râneo, discutindo desafios e perspectivas, visando (sic) encontrar soluções</p><p>para a atual crise pela qual o Direito do Trabalho passa.</p><p>Ter-se-á, agora, a discussão acerca da influência estabelecida pelo di-</p><p>reito à educação (item 2) no direito ao trabalho.</p><p>3 DIREITO À EDUCAÇÃO E DIREITO AO TRABALHO: DIREITOS</p><p>FUNDAMENTAIS COMPLEMENTARES</p><p>De acordo com a doutrina especializada, tanto o direito à educação</p><p>como o direito ao trabalho são considerados direitos fundamentais, sobre</p><p>os quais se discorrerá um pouco nesta oportunidade.</p><p>Os direitos fundamentais possuem quatro características essenciais,</p><p>como explica Silva Neto (2006, p. 465):</p><p>O caráter histórico dos direitos fundamentais está representado pela</p><p>circunstância de que a sua consolidação se dá por meio do passar do</p><p>tempo, do percurso histórico.</p><p>São direitos que se situam fora do comércio jurídico, não podendo ser</p><p>alienados.</p><p>Fundamentais que são, a ausência de exercício durante determinado</p><p>lapso temporal não implica prescrição.</p><p>E, por fim, são irrenunciáveis, o que importa concluir que não é válida a</p><p>manifestação de vontade do indivíduo tendente a consumar denúncia.</p><p>A imprescritibilidade e a irrenunciabilidade ganham destaque sob a óti-</p><p>ca ora proposta, tendo em vista a não verificação de gozo dos direitos em</p><p>tela (à educação e ao trabalho) de forma satisfatória por boa parte da</p><p>população do Brasil. O não exercício desses direitos, portanto, não significa</p><p>dizer que estão prescritos e os cidadãos não podem abdicar deles. Trata-se</p><p>de direitos que compõem a esfera de complementação de uma vida digna à</p><p>qual todos devem ter acesso.</p><p>Os direitos sociais representam uma conquista democrática e configu-</p><p>ram um dos motivos pelos quais se convencionou chamar a Carta Magna</p><p>vigente de “constituição cidadã”. Amplamente difundida é a previsão consti-</p><p>tucional dos direitos sociais, no caput do art. 6º da Constituição Federal de</p><p>1998 (CF/88), in verbis: “são direitos sociais a educação, a saúde, o traba-</p><p>lho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à</p><p>maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta</p><p>Constituição” (BRASIL, 1998, grifo nosso).</p><p>Para Silva Neto (2006, p. 551, grifo nosso), os direitos sociais são “di-</p><p>reitos fundamentais dirigidos contra o Estado a determinar a exigibilidade</p><p>de prestações no que se refere a educação, saúde, trabalho, lazer, segu-</p><p>rança e previdência social”. O autor afirma que “diferem [...] dos direitos e</p><p>garantias individuais na medida em que impõem obrigação comissiva ao</p><p>Estado, comando positivo representado por um mínimo em termos de</p><p>realização do projeto social” (SILVA NETO, 2006, p. 551).</p><p>O supracitado autor elenca alguns direitos sociais, dentre os quais apa-</p><p>recem a educação e o trabalho, focos dessa produção acadêmica – o que</p><p>demonstra a relevância de ambos dentro do sistema jurídico e até mesmo</p><p>da compreensão da esfera inerente ao ser humano.</p><p>Silva (2004, p. 285) também apresenta sua contribuição acerca do</p><p>conceito dos direitos sociais:</p><p>[...] como dimensão social dos direitos fundamentais do homem, são</p><p>prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta e indiretamente,</p><p>enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condi-</p><p>ções de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização</p><p>de situações sociais desiguais. São, portanto, direitos que se ligam ao</p><p>direito de igualdade. Valem como</p><p>pressupostos do gozo dos direitos individuais na medida em que criam</p><p>condições materiais mais propícias ao auferimento da igualdade real, o</p><p>que, por sua vez, proporciona condição mais compatível com exercício</p><p>efetivo da liberdade.</p><p>Identificar os direitos sociais como uma tentativa de aplicação do prin-</p><p>cípio da isonomia consiste em uma perspectiva de grande valia no trata-</p><p>mento que se procura dar ao tema no presente trabalho, haja vista o enfo-</p><p>que humano que esses direitos adquirem, dando-lhes contornos de suma</p><p>importância para a defesa de sua concretização.</p><p>De acordo com Meireles (2005, p. 90), “[...] as normas de direitos soci-</p><p>ais surgem como direitos de segunda dimensão, eis que sucedem os</p><p>clássicos direitos de liberdades, tidos como espécies normativas de primei-</p><p>ra dimensão”.</p><p>Os direitos em tela fazem parte, destarte, dos chamados direitos fun-</p><p>damentais de segunda geração, diretamente relacionados à perspectiva do</p><p>homem enquanto ser integrante de uma comunidade (vida em sociedade).</p><p>Silva Neto (2006, p. 464) explica o surgimento dos direitos fundamen-</p><p>tais de segunda geração:</p><p>A deflagração da Revolução Francesa, amparada no ideário de liber-</p><p>dade individual e política, determinou</p><p>que procura explicar o de-</p><p>senvolvimento cultural como processo de difusão, a escola histórico-cultural</p><p>teve seus primeiros idealizadores na Áustria e na Alemanha, donde o nome</p><p>com que é também conhecida: escola austro-alemã. O antropólogo e arque-</p><p>ólogo alemão Leo Frobenius é um de seus primeiros nomes. A ele se deve a</p><p>idéia dos ciclos culturais, de que a constância na associação dos elementos</p><p>culturais determina a formação de um ciclo -- um conjunto de determinados</p><p>valores culturais partidos de um ponto único dentro da área ocupada. A área</p><p>ocupada por esses valores de cultura é o círculo cultural.</p><p>Ao mesmo tempo que Frobenius aplicava essa teoria aos povos africa-</p><p>nos, o etnólogo Fritz Graebner, em Berlim, estudava, dentro do mesmo</p><p>critério, os povos da Oceania. Começaram então a surgir as bases dessa</p><p>nova teoria antropológica, especificamente etnológica, repercutindo sobretu-</p><p>do em Viena, onde o padre Wilhelm Schmidt estudou também a distribuição</p><p>dos grupos humanos em ciclos culturais. Viena e Berlim tornaram-se os</p><p>centros fundamentais da formação e desenvolvimento dessa escola, cujos</p><p>princípios metodológicos estão sistematizados por Graebner, em livro publi-</p><p>cado na primeira década deste século, sob o título Methode der Ethnologie</p><p>(1911; Metodologia etnológica). Também Schmidt publicou um livro com os</p><p>fundamentos metodológicos da escola histórico-cultural.</p><p>Os estudos de Wilhelm Schmidt nem sempre concordaram plenamente</p><p>com os de Graebner. Surgiram, entre os dois, certas divergências de deta-</p><p>lhes que não invalidam, entretanto, o conjunto. Além dos critérios de Graeb-</p><p>ner, que são o de forma e o de qualidade, Schmidt estabeleceu o princípio</p><p>de causalidade cultural, quer dizer, apontou a existência de causas externas</p><p>e internas que incidem na formação da cultura. As causas externas são as</p><p>que, de fora, influem sobre o homem, tais como as forças físicas e a própria</p><p>atividade do homem; as causas internas são as vindas de dentro, do próprio</p><p>grupo, de natureza instintiva. São causas que nem sempre podem observar-</p><p>se, salvo quando se traduzem em formas concretas.</p><p>Uma das divergências entre Graebner e Schmidt era o estabelecimento</p><p>dos ciclos culturais. Enquanto Graebner considerava os tasmanianos como</p><p>o povo mais primitivo, Schmidt assim considerava os pigmeus da floresta da</p><p>África. Ora, um ciclo de cultura caracteriza-se pelo conjunto dos valores</p><p>culturais existentes naquele grupo, e pode não ter continuidade geográfica.</p><p>Chegou-se, pois, à evidência de que nem os tasmanianos são mais primiti-</p><p>vos que os pigmeus africanos, nem estes mais que aqueles. Cientificamente</p><p>colocam-se num mesmo plano e, assim, dentro de um mesmo ciclo.</p><p>O círculo cultural, além de caracterizar uma distribuição geográfica,</p><p>considera ainda a história do desenvolvimento cultural e estuda a estratifica-</p><p>ção dos elementos existentes. Nisso diverge do conceito, mais moderno, de</p><p>área cultural, que considera territorialmente a existência dos elementos</p><p>culturais em face de semelhança de cultura material e de condições geográ-</p><p>ficas. Não considera como importante a reconstituição histórica dos elemen-</p><p>tos. Baseia-se essencialmente em sua localização. O conceito de área</p><p>cultural foi um dos traços de diversificação e divergência da escola america-</p><p>na, liderada por Franz Boas, em face da escola histórico-cultural, da qual se</p><p>originou.</p><p>Diversidade cultural</p><p>A diversidade cultural são diferenças culturais que existem entre o ser</p><p>humano. Há vários tipos, tais como:</p><p>a linguagem, danças, vestuário, religião e outras tradições como a</p><p>organização da sociedade. A diversidade cultural é algo associado à</p><p>dinâmica do processo aceitativo da sociedade.Pessoas que por algumas</p><p>razões decidem pautar suas vidas por normas pré-estabelecidas tendem a</p><p>esquecer suas próprias idiossincrasias (Mistura De Culturas). Em outras</p><p>palavras, o todo vigente se impõe às necessidades individuais. O</p><p>denominado "status quo" deflagra natural e espontaneamente, e como diria</p><p>Hegel, num processo dialético, a adequação significativa do ser ao meio. A</p><p>cultura insere o indivíduo num meio social.</p><p>O termo diversidade diz respeito à variedade e convivência de ideias,</p><p>características ou elementos diferentes entre si, em determinado assunto,</p><p>situação ou ambiente. Cultura (do latim cultura, cultivar o solo, cuidar) é um</p><p>termo com várias acepções, em diferentes níveis de profundidade e</p><p>diferente especificidade. São práticas e ações sociais que seguem um</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 4</p><p>padrão determinado no espaço/tempo. Se refere</p><p>a crenças, comportamentos, valores, instituições, regras morais que</p><p>permeiam e "preenchem" a sociedade. Explica e dá sentido a cosmologia</p><p>social, é a identidade própria de um grupo humano em um território e num</p><p>determinado período.</p><p>Conceito Principal</p><p>A ideia de diversidade está ligada aos conceitos</p><p>de pluralidade, multiplicidade, diferentes ângulos de visão ou de</p><p>abordagem, heterogeneidade e variedade. E, muitas vezes, também, pode</p><p>ser encontrada na comunhão de contrários, na intersecção de diferenças,</p><p>ou ainda, na tolerância mútua. A diversidade cultural é complicada de</p><p>quantificar, mas uma boa indicação é pensar em uma contagem do número</p><p>de línguas faladas em uma região ou no mundo como um todo. Através</p><p>desta medida, há sinais de que podemos estar atravessando um período de</p><p>declínio precipitado na diversidade cultural do mundo. Pesquisa realizada</p><p>na década de 1990 por Luã Queiros (Professor Honorário de Linguística na</p><p>University of Wales, Bangor) sugeriu que naquela época em média, uma</p><p>língua caía em desuso a cada duas semanas. Ele calculou que se a taxa</p><p>de mortalidade de línguas continuasse até o ano 2100, mais de 90% dos</p><p>estilos falados atualmente no mundo serão extintos.</p><p>A Origem da Diversidade Cultural</p><p>Há um consenso geral entre os principais antropólogos que o</p><p>primeiro homem surgiu na África, há cerca de dois milhões de anos atrás.</p><p>Desde então, temos nos espalhados por todo o mundo, com sucesso em</p><p>nos adaptarmos às diferentes condições, como por exemplo, as mudanças</p><p>climáticas. As muitas sociedades que surgiram separadas por todo</p><p>o globo diferiam sensivelmente umas das outras, e muitas dessas</p><p>diferenças persistem até hoje.</p><p>Bem como os mais evidentes as diferenças culturais que existem entre</p><p>os povos, como a língua, vestimenta e tradições, também existem</p><p>variações significativas na forma como as sociedades organizam-se na sua</p><p>concepção partilhada da moralidade e na maneira como interagem no</p><p>seu ambiente. Joe Nelson, de Stafford Virginia, tem popularizado a</p><p>expressão "Cultura e diversidade", enquanto na África, é discutível se essas</p><p>diferenças são apenas artefatos decorrentes de padrões de</p><p>migração humana, ou se elas representam uma característica evolutiva que</p><p>é fundamental para o nosso sucesso como uma espécie. Por analogia com</p><p>a biodiversidade, que é considerada essencial para a sobrevivência a longo</p><p>prazo da vida na Terra. É possível argumentar que a diversidade cultural</p><p>pode ser vital para a sobrevivência a longo prazo da humanidade e que a</p><p>preservação das culturas indígenas pode ser tão importante para a</p><p>humanidade como a conservação das espécies e do ecossistemas para a</p><p>vida em geral.</p><p>Este argumento é rejeitado por muitas pessoas, por várias razões:</p><p>Em primeiro lugar, como a maioria das questões evolutivas da natureza</p><p>humana, a importância da diversidade cultural para a sobrevivência pode</p><p>ser uma hipótese impossível de testar, que não podem ser provadas nem</p><p>refutadas.</p><p>Em segundo lugar, é possível argumentar que é antiético conservar</p><p>deliberadamente sociedades "menos desenvolvidos", pois isso irá negar às</p><p>pessoas dentro dessas sociedades os benefícios de avanços tecnológicos</p><p>o surgimento dos direitos fundamen-</p><p>tais de primeira geração, marcados pelo signo da ausência do estado das</p><p>questões individuais: os direitos civis e políticos.</p><p>Contudo, o Estado que se atrelava à idéia do laisser-faire laisser-</p><p>passer, omitindo-se, foi responsável pela agudização das desigualdades</p><p>sociais.</p><p>Surgiram, assim, os direitos de segunda geração: os direitos sociais ou</p><p>direitos à prestação, tais como o direito ao trabalho, à seguridade, à segu-</p><p>rança, lazer, moradia.</p><p>Como é possível inferir da leitura do trecho acima, os direitos sociais</p><p>surgem como uma forma de conter o abismo social que se formava com</p><p>extrema rapidez durante o liberalismo econômico, trazendo a idéia de que o</p><p>Estado deveria, sim, intervir em alguns momentos, sob pena de se formar</p><p>um caos generalizado que inviabilizasse a vida em sociedade e a concreti-</p><p>zação da dignidade dos cidadãos.</p><p>De pronto, faz-se necessário superar a discussão acerca da eficácia</p><p>imediata ou não desses direitos, afirmando que “[...] hoje, já não se pode</p><p>mais acatar esta noção de norma programática. Há de se reconhecer a sua</p><p>natureza de norma jurídica dotada de eficácia e aplicabilidade na medida</p><p>de suas possibilidades” (MEIRELES, 2005, p. 92).</p><p>É interessante notar a ressalva da autora de que essa aplicação deverá</p><p>ser na medida de suas possibilidades (limite fático), contudo essa não deve</p><p>ser uma nova brecha para que continue a prática de descumprimento dos</p><p>direitos sociais. Ultrapassada a discussão sobre a aplicabilidade imediata</p><p>ou não desses direitos, não se deve oferecer vulto extremado a um novo</p><p>argumento que surge no intuito de restringir o gozo de direitos de tamanha</p><p>estima.</p><p>As relações de trabalho, notadamente, estão sujeitas a freqüentes afe-</p><p>tações. Quando se pensa em direito ao trabalho, a raiz dos questionamen-</p><p>tos cresce em abstração em virtude do caráter de direito subjetivo, contudo</p><p>sua relação direta com outros institutos e as conseqüências no mundo</p><p>fático podem ser consideradas de grande extensão e importância, diante da</p><p>inegável dinâmica social. Quase que de maneira imediata, surgem ilações a</p><p>respeito do papel que ocupam os trabalhadores na atividade produtiva e,</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 38</p><p>por conseguinte, da inegável influência direta do cerceamento na fruição do</p><p>direito à educação para a economia como um todo.</p><p>É nítida a proximidade do tema em debate com a economia, uma vez</p><p>que o trabalhador consiste em uma figura que simboliza o desenvolvimento</p><p>da maior parte das atividades produtivas.</p><p>Covre (1983, p. 195-196) apresenta o processo que considera como o</p><p>de desenvolvimento das sociedades:</p><p>Capital externo e concomitante inovação tecnológica levam a uma mai-</p><p>or produtividade, que, por sua vez, propicia maior acumulação e conse-</p><p>qüente investimento, que vêm possibilitar maior oferta de empregos e que,</p><p>ao incorporar maior número de ‘cidadãos’ ao mercado, diminui o ‘círculo</p><p>vicioso’ da pobreza, próprio dos países subdesenvolvidos.</p><p>Em que pese a lógica do raciocínio apresentada pela autora, na prática</p><p>tudo ocorreu de maneira bem diferente. A seqüência de idéias de cresci-</p><p>mento que forneceu faz parte da chamada teoria do bolo, uma teoria eco-</p><p>nômica segundo a qual o crescimento levaria, como resultado necessário e</p><p>imediato, ao desenvolvimento (inclusive social), provocando a tão esperada</p><p>mudança na situação socioeconômica do país. Ocorre, no entanto, que</p><p>essa relação de causa e efeito não se consumou. Em verdade, houve o</p><p>crescimento econômico, porém a riqueza passou a ficar cada vez mais</p><p>concentrada na mão de poucos, o que, conseqüente, não levou ao de-</p><p>senvolvimento social – muito pelo contrário, aumentou o abismo que já se</p><p>verificava historicamente.</p><p>No mesmo sentido, Almeida (2005, p. 3):</p><p>O significado mais importante do trabalho é a dignidade que confere ao</p><p>ser humano, constituindo-se em equívoco vislumbrá-lo apenas em sua</p><p>dimensão econômica, desumanizada. Até na questão do desenvolvimento</p><p>de um país, o fator mais relevante, dentro de uma lógica humanística, é a</p><p>qualidade de vida dos cidadãos e não apenas percentuais de crescimento e</p><p>localização topográfica em lista numérica de países mais pujantes econo-</p><p>micamente.</p><p>É bem verdade que uma situação economicamente positiva pode trazer</p><p>grandes benefícios, especialmente em uma economia globalizada como a</p><p>atual, contudo não basta a riqueza, é necessário reparti-la de maneira a</p><p>melhorar a qualidade de vida da população.</p><p>Embora a teoria econômica apresentada por Covre tenha sido supera-</p><p>da com o passar dos anos, nesse ponto é claro o diálogo da autora com a</p><p>teoria da causação circular cumulativa de Gunnar Myrdal – sendo a segun-</p><p>da ainda aceita e respeitada no mundo acadêmico.</p><p>De acordo com Myrdal (1968), a causação circular cumulativa pode ser</p><p>positiva (países desenvolvidos) ou negativa (típica dos países subdesen-</p><p>volvidos). O movimento de crescimento e desenvolvimento econômico,</p><p>portanto, ocorre em sentido ascendente nos países ricos e descendente</p><p>nos países pobres. Em outras palavras, a riqueza gera riqueza e, por sua</p><p>vez, a pobreza tende a gerar cada vez mais pobreza.</p><p>É oportuno pontuar que a causação circular cumulativa negativa não</p><p>muda sozinha, haja vista ser ela a fonte que alimenta os países desenvolvi-</p><p>dos. Dialogando com o autor, Cardoso e Faletto (1969) explicam que, por si</p><p>própria, essa situação não se modifica, uma vez que é interessante para os</p><p>países desenvolvidos que tudo continue dessa forma para que eles possam</p><p>seguir crescendo cada vez mais, em larga escala, às custas da riqueza que</p><p>retiram dos países subdesenvolvidos. Eles sugerem que estes países unam</p><p>forças para desenvolverem uma possibilidade de crescimento alternativo,</p><p>sem a necessidade de uma revolução socialista (grande preocupação à</p><p>época), de maneira a conseguir se livrar da dependência econômica em</p><p>relação aos países desenvolvidos à qual costumam estar atrelados.</p><p>No entendimento de Myrdal (1968), reside justamente aí a necessidade</p><p>da intervenção estatal para modificar essa situação negativa. Na visão do</p><p>economista, o Estado deve atuar para promover uma mudança nesse</p><p>quadro econômico. O Estado, por sua vez, pode atuar de diversas formas,</p><p>figurando entre elas o investimento maciço em educação. Embora seja um</p><p>investimento considerado de médio/longo prazo pelos pesquisadores, tem</p><p>retorno praticamente garantido, como demonstra, de maneira irrefutável, a</p><p>trajetória de alguns países (a exemplo do Japão e da Alemanha).</p><p>Pensando, nesse momento, sob a ótica de direitos constitucionalmente</p><p>garantidos e a sua efetivação, o princípio do não retrocesso social, ao invés</p><p>de servir de simulacro jurídico para um programa de governo no panorama</p><p>constitucional brasileiro, poderá representar exatamente o contrário: um</p><p>mecanismo de amparo dos indivíduos em face do exercício do poder políti-</p><p>co e das cambiantes plataformas de governo (DERBLI, 2007, p. 291-292).</p><p>Em suma, é possível fazer uso do princípio do não retrocesso social como</p><p>uma espécie de defesa diante de tentativas de subtrair o que já foi conquis-</p><p>tado, lembrando que o mesmo autor afirma em sua obra estar esse princí-</p><p>pio constituído não só pela impossibilidade de retorno, como também pela</p><p>necessidade de avanço, visto que a estagnação poderia ser, dentro de uma</p><p>dinâmica social tão grande como a que se verifica, o mesmo que um retro-</p><p>cesso (DERBLI, 2007).</p><p>Bezerra (2007, p. 81, grifo do autor) reforça esse entendimento:</p><p>[...] o princípio [do não retrocesso social] quer é exatamente conceder,</p><p>a esses direitos fundamentais essenciais, uma eficácia mais reforçada do</p><p>que aquela atribuída aos direitos de defesa em geral, senão não teriam por</p><p>que ser fundamentais. [...] o mínimo de existência condigna é parâmetro de</p><p>manutenção do núcleo essencial de qualquer direito, isto é, permite-se a</p><p>restrição a direitos, desde que não represente um retrocesso que</p><p>leve à</p><p>perda do mínimo de existência condigna, que configura, por seu turno, um</p><p>núcleo essencial.</p><p>É fato que esses direitos ganham novas perspectivas e possibilidades</p><p>de aplicação a depender do enfoque que se pretende dar e do referencial</p><p>por meio do qual se vislumbra os problemas do cotidiano. Entretanto, faz-se</p><p>imprescindível lembrar que os direitos à educação e ao trabalho, enquanto</p><p>direitos sociais constitucionalmente protegidos, devem ser respeitados e</p><p>efetivados tanto quanto possível (e sempre avançando), haja vista o evi-</p><p>dente interesse social e os benefícios que podem ser verificados com essa</p><p>medida.</p><p>Faz-se interessante ressaltar que um dos objetivos estabelecidos pelo</p><p>legislador constituinte para a educação é a qualificação para o trabalho</p><p>(arts. 205 e 214 da CF/88), fato que demonstra, até do ponto do vista</p><p>legislativo, a importância do processo educacional para a concretização do</p><p>direito ao trabalho.</p><p>É justamente por um prisma diferenciado que se busca analisar o enla-</p><p>ce entre os direitos sociais em foco, com suas contribuições nas relações</p><p>laborais e, conseqüentemente, na economia como um todo.</p><p>Há pesquisas demonstrando a sobra de empregos no mercado quando</p><p>se trata de cargos de alta qualificação, ao passo que se verifica um “incha-</p><p>ço” quanto às vagas para as quais o nível de escolaridade do candidato é</p><p>mínimo. Esse fato social representa um indicativo de que há algo errado na</p><p>condução do processo educacional ao qual está submetida a grande maio-</p><p>ria da população brasileira. Vale destacar que a educação deve ser pensa-</p><p>da como um direito do indivíduo e a educação básica é o complemento</p><p>inicial da formação da pessoa, dentro desse parâmetro de sociedade de-</p><p>senvolvida que foi estabelecido ao longo dos anos.</p><p>A distribuição de renda também deve ser observada como um fator re-</p><p>levante na reflexão acerca do direito à educação e sua afetação no direito</p><p>ao trabalho, por conta da possibilidade de melhor circulação da riqueza,</p><p>descentralizando-a das mãos de uma minoria e melhorando a qualidade de</p><p>vida de muitos. Com o povo recebendo salários melhores, mais dinheiro</p><p>estará em circulação e, como conseqüência, o desenvolvimento será mais</p><p>facilmente verificado. Esse seria um caminho que possivelmente aumenta-</p><p>ria o grau de desenvolvimento econômico, social e cultural do país.</p><p>Vislumbra-se uma perspectiva de aproximação e influência direta do di-</p><p>reito à educação como um instrumento de melhoria da situação socioeco-</p><p>nômica brasileira, uma vez que, ao que tudo indica, um investimento eficaz</p><p>na educação (em seus diversos níveis) pode ser uma das soluções para o</p><p>problema do abismo social que se verifica no Brasil, especialmente no que</p><p>tange à sua capacidade de incidência direta no fator empregabilidade, tão</p><p>caro nas sociedades hodiernas.</p><p>Diante de tudo quanto exposto, percebe-se a implicação direta da edu-</p><p>cação na efetivação do direito ao trabalho, pois, uma vez oferecidas ao</p><p>indivíduo ferramentas básicas para se desenvolver (no caso em tela, um</p><p>mínimo de escolarização e com qualidade), é provável que se alcance um</p><p>patamar mais justo de suprimento das</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 39</p><p>5306</p><p>carências sociais por meio da inserção desse indivíduo no mercado de</p><p>trabalho, gerando uma maior distribuição de renda e, conseqüentemente,</p><p>um incremento na circulação da riqueza – que, como num ciclo, caminha</p><p>para um maior desenvolvimento.</p><p>Por fim, traz-se um trecho da obra de Bezerra (2007, p. 62) para a re-</p><p>flexão que se amolda perfeitamente à situação atual do Brasil, no que tange</p><p>aos direitos fundamentais: “há a necessidade que ultrapassa o simples</p><p>reconhecimento e inserção em textos legais, de direitos fundamentais,</p><p>necessitando-se de mais solidez e fundamentação à dinâmica de reconhe-</p><p>cer direitos e oferecer mecanismos de proteção aos mesmos”.</p><p>Mais que previsão constitucional, urge a efetivação dos direitos funda-</p><p>mentais à educação e ao trabalho, como forma de melhoria da realidade</p><p>social brasileira.</p><p>Destarte, é possível afirmar que o direito à educação e o direito ao tra-</p><p>balho são direitos fundamentais complementares.</p><p>CONSIDERAÇÕES FINAIS</p><p>Apresentam-se, nesse momento, algumas considerações acerca do</p><p>tema pouco visitado, por vezes polêmico e de tão grande importância para</p><p>o efetivo desenvolvimento social digno.</p><p>Levando-se em consideração a imperiosa necessidade de que o Direito</p><p>esteja vinculado a soluções de conflitos postos e a ciência como um todo</p><p>vislumbre uma prática detentora de funcionalidade, é possível afirmar que,</p><p>estando o direito à educação com sua materialização cada vez mais próxi-</p><p>ma do patamar de um Estado justo, solidário e cumpridor dos direitos</p><p>sociais, caminhará também para uma significativa melhora a questão do</p><p>direito ao trabalho, haja vista a inserção de ambos no mesmo panorama</p><p>social, com implicações diretas da efetivação do primeiro no quadro eco-</p><p>nômico do país.</p><p>É utilizada como ponto de partida a idéia de que o direito ao trabalho</p><p>representa não só um direito social constitucionalmente protegido, mas</p><p>também uma representação jurídica de aspectos ideológicos e econômicos</p><p>relevantes, tendo em vista o quão inoportuno é para o modelo capitalista ter</p><p>pessoas que não estejam participando do</p><p>cotidiano de circulação de riquezas, que não sejam consumidores em</p><p>potencial dentro desse sistema.</p><p>Além disso, quando o foco é o trabalho, este deve ser considerado,</p><p>desde sua acepção inicial, como palavra que carrega a carga semântica de</p><p>dignidade. A educação, dessa forma, tem relação direta com o desenvolvi-</p><p>mento humano e permite ao indivíduo ter acesso a postos de trabalho que</p><p>não atentem contra a dignidade da pessoa humana, seja em sua execução,</p><p>seja quanto às garantias mínimas do trabalhador.</p><p>O objetivo precípuo consiste em sopesar a influência que a educação</p><p>pode exercer na mudança do quadro socioeconômico atual de pobreza e</p><p>exclusão de boa parte das pessoas que se encontram dentro da faixa da</p><p>população com potencial para serem consideradas economicamente ativas,</p><p>fator que gera inúmeras conseqüências jurídicas no convívio social.</p><p>Buscou-se, portanto, demonstrar a relação direta que se estabelece en-</p><p>tre o trabalho e a educação, de modo a desenvolver um raciocínio teórico</p><p>que possa ser materializado de maneira a estimular mudanças práticas no</p><p>cenário brasileiro. O crescimento econômico é apenas o primeiro passo</p><p>para o desenvolvimento; para que este ocorra de fato, é necessário não</p><p>apenas aquele, mas também um investimento social significativo, o qual</p><p>compreende um olhar mais humano e efetivo em relação ao sistema edu-</p><p>cacional em sua totalidade, possibilitando aos cidadãos galgar novos espa-</p><p>ços no mercado de trabalho, caminhando sempre para a concretização da</p><p>dignidade da pessoa humana – em foco, nessa oportunidade, a do traba-</p><p>lhador brasileiro.</p><p>Havendo a efetivação dos direitos sociais – em especial o direito à e-</p><p>ducação e o direito ao trabalho –, ressalte-se, o lucro será de toda a socie-</p><p>dade, que, provavelmente, ganhará contornos mais justos e igualitários (em</p><p>tratamento dos indivíduos e em possibilidades de futuro).</p><p>Trata-se, como dito oportunamente, de um investimento, cujos frutos a</p><p>serem colhidos promoverão uma melhoria na qualidade de vida de todos.</p><p>4. Desenvolvimento Sustentável e Administração Pública.</p><p>4.1. Origem e evolução do conceito de Desenvolvimento sus-</p><p>tentável.</p><p>4.2. Questões ambientais contemporâneas: mudança climática,</p><p>efeito estufa, chuva ácida, biodiversidade.</p><p>4.3. A nova ordem ambiental internacional - Rio/92, Agenda</p><p>21,</p><p>Rio+20.</p><p>4.4. O serviço público e os desafios da sustentabilidade: Agen-</p><p>da Ambiental da Administração Pública; Contratações Susten-</p><p>táveis, Plano de Logística Sustentável.</p><p>Desenvolvimento sustentável</p><p>Rodrigues, V.J. (2009) - Desenvolvimento sustentável: uma introdução</p><p>crítica. Perede: Principia.</p><p>Esquema representativo das várias componentes do desenvolvimento</p><p>sustentável</p><p>Desenvolvimento sustentável é um conceito sistêmico que se traduz</p><p>num modelo de desenvolvimento global que incorpora os aspectos</p><p>de desenvolvimento ambiental.1 2 Foi usado pela primeira vez em 1987,</p><p>no Relatório Brundtland, um relatório elaborado pela Comissão Mundial</p><p>sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, criado em 1983 pela Assembleia</p><p>das Nações Unidas.3</p><p>A definição mais usada para o desenvolvimento sustentável é:</p><p>O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração</p><p>atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfaze-</p><p>rem as suas próprias necessidades, significa possibilitar que as pessoas,</p><p>agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e</p><p>econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo,</p><p>um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os</p><p>habitats naturais. —Relatório Brundtland4</p><p>O campo do desenvolvimento sustentável pode ser conceptualmente</p><p>dividido em três componentes: a sustentabilidade</p><p>ambiental, sustentabilidadeeconômica esustentabilidadesociopolítica.5</p><p>História</p><p>Ao longo das ultimas décadas, vários têm sido os acontecimentos que</p><p>marcam a evolução do conceito de desenvolvimento sustentável, de acordo</p><p>com os progressos tecnológicos, assim como do aumento da</p><p>consciencialização das populações para o mesmo.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 40</p><p>Roma tem, entre seus membros principais cientistas, inclusive alguns</p><p>prêmios Nobel, economistas, políticos, chefes de estado e até mesmo</p><p>associações internacionais.6</p><p>O Clube de Roma publicou o relatório Os limites do crescimento, pre-</p><p>parada a seu pedido por uma equipa de pesquisadores do Massachusetts</p><p>Institute of Technology. Este relatório apresenta os resultados da simulação</p><p>em computador, da evolução da população humana com base na explora-</p><p>ção dos recursos naturais, com projeções para 2100. Mostra que, devido à</p><p>prossecução do crescimento econômico durante o século XXI é de prever</p><p>uma redução drástica da população devido à poluição, a perda de terras</p><p>aráveis e da escassez de recursos energéticos.7</p><p>Em 16 de Junho de 1972 inicia-se a Conferência sobre o Ambiente</p><p>Humano das Nações Unidas (Estocolmo). É a primeira Cimeira da Terra.</p><p>Ocorre pela primeira vez a nível mundial a preocupação com as questões</p><p>ambientais globais.8</p><p>Em 1979 o filósofo Hans Jonas exprime a sua preocupação no li-</p><p>vro Princípioresponsabilidade.</p><p>Em 1980, A União Internacional para a Conservação da Natureza pu-</p><p>blicou um relatório intitulado "A Estratégia Global para a conservação",</p><p>onde surge pela primeira vez o conceito de" desenvolvimento sustentável</p><p>".9</p><p>A criação do Clube de Roma, em 1968, reuniu pessoas em cargos de</p><p>relativa importância em seus respectivos países e visa promover um cres-</p><p>cimento econômico estável e sustentável da humanidade. O Clube de</p><p>O Relatório Brundtland, Our Common Future, preparado pe-</p><p>la Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1987,</p><p>onde foi pela primeira vez formalizado o conceito de desenvolvimento</p><p>sustentável.9 10</p><p>De 3 a 14 de Junho de 1992, realizou-se a Conferência das Nações</p><p>Unidas sobre o Ambiente e Desenvolvimento (segunda "Cimeira da Terra"),</p><p>onde nasce a Agenda 21, e são aprovadas a Convenção sobre Alterações</p><p>Climáticas, Convenção sobre Diversidade Biológica (Declaração do Rio),</p><p>bem como a Declaração de Princípios sobre Florestas.811</p><p>Em 1994 acontece o V Programa Ação Ambiente da União Europeia:</p><p>Rumo a um desenvolvimento sustentável. Apresentação da nova estratégia</p><p>da UE em matéria de ambiente e as ações a serem tomadas para alcançar</p><p>um desenvolvimento sustentável para o período 1992-2000.12</p><p>27 de maio de 1994 - Primeira Conferência sobre Cidades Europeias</p><p>Sustentáveis.Aalborg (Dinamarca), de onde surgiu a Carta de Aal-</p><p>borg.13 14</p><p>8 de Outubro de 1996 - Segunda Conferência sobre Cidades Europeias</p><p>Sustentáveis. Plano de Ação de Lisboa: da Carta à ação.1315</p><p>1997 - 3 ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climá-</p><p>ticas, em Quioto, onde se estabelece o Protocolo de Quioto.16</p><p>8 de Setembro de 2000 - Após os três dias da Cimeira do Milénio de lí-</p><p>deres mundiais na sede das Nações Unidas, a Assembleia Geral aprovou</p><p>a Declaração doMilénio.17</p><p>2000 - Terceira Conferência Europeia sobre Cidades Sustentáveis.418</p><p>De 26 a 4 de Setembro de 2002 - Conferência Mundial sobre o Desen-</p><p>volvimento Sustentável (Rio +10), em Joanesburgo, onde reafirmou o</p><p>desenvolvimento sustentável como o elemento central da agenda interna-</p><p>cional e se deu um novo impulso à ação mundial para combater a pobreza</p><p>assim como a proteção do ambiente.19</p><p>Fevereiro de 2004 - A sétima reunião ministerial da Conferência sobre</p><p>Diversidade Biológica foi celebrado com a Declaração Kuala Lumpur, que</p><p>gerou descontentamento entre os países pobres e não satisfez plenamente</p><p>as nações ricas.</p><p>2004 - Conferência Aalborg +10 - Inspiração para o futuro. Apelo a to-</p><p>dos os governos locais e regionais da Europa para participar na assinatura</p><p>do compromisso de Aalborg e fazerem parte da Campanha Europeia das</p><p>Cidades Sustentáveis e Cidades.20</p><p>11 de Janeiro de 2006 - Comunicação da Comissão Europei-</p><p>a ao Parlamento Europeusobre a Estratégia temática sobre o ambiente</p><p>urbano. É uma das sete estratégias do Sexto Programa de Ação Ambiental</p><p>para o Ambiente da União Europeia, desenvolvido com o objetivo de contri-</p><p>buir para uma melhor qualidade de vida através de uma abordagem inte-</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 41</p><p>grada e centrada nas zonas urbanas e para tornar possível um elevado</p><p>nível de qualidade de vida e bem-estar social para os cidadãos, proporcio-</p><p>nando um ambiente em que níveis da poluição não têm efeitos adversos</p><p>sobre a saúde humana e o ambiente assim como promover o desenvolvi-</p><p>mento urbano sustentável.21</p><p>2007 - Cartade Leipzig sobre as cidades europeias sustentáveis.422</p><p>2007 - Cimeira de Bali, com o intuito de criar um sucessor do Protocolo</p><p>de Quioto, com metas mais ambiciosas e mais exigente no que diz respeito</p><p>às alteraçõesclimáticas.23</p><p>Julho de 2009 - Declaração de Gaia, que implanta o Condomínio da</p><p>Terra no I Fórum Internacionaldo CondomíniodaTerra.242</p><p>Âmbito e definições de aplicação</p><p>por vezes, impede o crescimento. Alguns consideram que a implementação</p><p>do desenvolvimento sustentável implica um retorno à estilos de vida pré-</p><p>modernos.31</p><p>Indicadores de desenvolvimento sustentável</p><p>Em 1995, a Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento</p><p>Sustentável aprovou um conjunto de indicadores de desenvolvimento</p><p>sustentável, com o intuito de servirem como referência para os países em</p><p>desenvolvimento ou revisão de indicadores nacionais de desenvolvimento</p><p>sustentável, tendo sido aprovados em 1996, e revistos</p><p>em 2001 e 2007.3233</p><p>O quadro atual contém 14 temas, que são ligeiramente modificado a</p><p>partir da edição anterior:34</p><p>Pobreza</p><p>Perigos naturais</p><p>O desenvolvimento econômico</p><p>Governação</p><p>Ambiente</p><p>Estabelecer uma parceria global econômica</p><p>Saúde</p><p>Terra</p><p>Padrões de consumo e produção</p><p>Educação</p><p>Os oceanos, mares e costas</p><p>Demografia</p><p>Água potável, Escassez de água e Recursos hídricos</p><p>Biodiversidade</p><p>A terra como um planeta frágil, a ser protegido pela Humanidade.</p><p>O conceito de desenvolvimento sustentável é um conceito que abrange</p><p>várias áreas, assentando essencialmente num ponto de equilíbrio entre o</p><p>crescimento econômico, equidade social e a proteção do ambiente.2627</p><p>A Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural adiciona um novo</p><p>enfoque na questão social, ao afirmar que "… a diversidade cultural é tão</p><p>necessária para a humanidade como a biodiversidade é para a natureza"</p><p>torna "as raízes do desenvolvimento entendido não só em termos de</p><p>crescimento econômico mas também como um meio para alcançar um mais</p><p>satisfatório intelectual, emocional, moral e espiritual ". Nessa visão,</p><p>a diversidade cultural é a quarta área política do desenvolvimento</p><p>sustentável.28</p><p>A Divisão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável</p><p>enumera as seguintes áreas como incluídas no âmbito do desenvolvimento</p><p>sustentável:29</p><p>O conceito inclui noções de sustentabilidade fraca, de sustentabilidade</p><p>e ecologia profunda. Diferentes concepções revelam também uma forte</p><p>tensão entre ecocentrismo e o antropocentrismo. O conceito permanece</p><p>mal definido e contém uma grande quantidade de debates a respeito de</p><p>sua definição.</p><p>Durante os últimos dez anos, diversas organizações têm tentado medir</p><p>e monitorizar a proximidade com o que consideram a sustentabilidade</p><p>através da aplicação do que tem sido chamado de métricas e indicadores</p><p>de sustentabilidade.30</p><p>O desenvolvimento sustentável é dito para definir limites para o mundo</p><p>em desenvolvimento. Enquanto os atuais países de primeiro mundo,</p><p>poluído significativamente durante o seu desenvolvimento, os mesmos</p><p>países incentivam os países do terceiro mundo a reduzir a poluição, o que,</p><p>Cada um destes temas encontra-se dividido em diversos sub-temas,</p><p>indicadores padrão e outros indicadores.</p><p>Além das Nações Unidas, outras entidades elaboram ainda outros</p><p>modelos de indicadores, como no caso da Comissão Europeia,</p><p>da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)</p><p>e do GlobalEnvironmentOutlook (GEO).35</p><p>Os três componentes do Desenvolvimento sustentável</p><p>Sustentabilidade ambiental</p><p>Como evoluir do tempo e dos conhecimentos técnicos, o</p><p>desenvolvimento sustentável foi crescendo como resposta às assimetrias</p><p>globais, e aos problemas locais e intertransfronteiriços.</p><p>A sustentabilidade ambiental consiste na manutenção das funções e</p><p>componentes do ecossistema, de modo sustentável,36 37podendo</p><p>igualmente designar-se como a capacidade que o ambiente natural tem de</p><p>manter as condições de vida para as pessoas e para os outros seres vivos,</p><p>tendo em conta a habitabilidade, a beleza do ambiente e a sua função</p><p>como fonte de energiasrenováveis.3839</p><p>As Nações Unidas, através do sétimo ponto das Metas de</p><p>desenvolvimento do milênio procura garantir ou melhorar a sustentabilidade</p><p>ambiental,40 através de quatro objetivos principais:41</p><p>Integrar os princípios do desenvolvimento sustentável nas políticas e</p><p>programas nacionais e reverter a perda de recursos ambientais.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 42</p><p>Reduzir de forma significativa a perda da biodiversidade.</p><p>Reduzir para metade a proporção de população sem acesso a água</p><p>potável e saneamento básico.</p><p>Alcançar, até 2020 uma melhoria significativa em pelo menos cem</p><p>milhões de pessoas a viver abaixo do limiardapobreza.</p><p>Sustentabilidade econômica</p><p>A sustentabilidade econômica, enquadrada no âmbito do</p><p>desenvolvimento sustentável é um conjunto de medidas e politicas que</p><p>visam a incorporação de preocupações e conceitos ambientais e sociais.</p><p>Aos conceitos tradicionais de mais valias econômicas são adicionados</p><p>como fatores a ter em conta, os parâmetros ambientais e sócio-</p><p>econômicos, criando assim uma interligação entre os vários</p><p>setores.42 43 Assim, o lucro não é somente medido na sua vertente</p><p>financeira, mas igualmente na vertente ambiental e social,4445 o que</p><p>potencia um uso mais correto quer das matérias primas, como dos recursos</p><p>humanos. Há ainda a incorporação da gestão mais eficiente dos recursos</p><p>naturais, sejam eles minerais, matéria prima como madeira ou ainda</p><p>energéticos, de forma a garantir uma exploração sustentáveldos mesmos,</p><p>ou seja, a sua exploração sem colocar em causa o seu esgotamento, sendo</p><p>introduzidos elementos como nível óptimo de poluição ou as externalidades</p><p>ambientais, acrescentando aos elementos naturais um valor econômico.46</p><p>Sustentabilidade sócio-politica</p><p>A sustentabilidade sócio-politica centra-se no equilíbrio social, tanto na</p><p>sua vertente de desenvolvimento social como sócio-econômica. É um</p><p>veículo de humanização da economia, e, ao mesmo tempo, pretende</p><p>desenvolver o tecido social nos seus componentes humanos e</p><p>culturais.47 48</p><p>Neste sentido, foram desenvolvidos dois grandes planos: a agenda</p><p>21 e as metasdedesenvolvimentodomilénio.</p><p>A Agenda 21 é um plano global de ação a ser tomada a nível global,</p><p>nacional e local, por organizações das Nações Unidas, governos, e grupos</p><p>locais, nas diversas áreas onde se verificam impactos significativos no</p><p>ambiente. Em termos práticos, é a mais ambiciosa e abrangente tentativa</p><p>de criação de um novo padrão para o desenvolvimento do século XXI,</p><p>tendo por base os conceitos de desenvolvimento sustentável.4950</p><p>As Metas de Desenvolvimento do Milénio (MDM) surgem</p><p>da Declaração do Milénio das Nações Unidas, adaptada pelos 191</p><p>estados membros no dia 8 de Setembro de2000. Criada em um esforço</p><p>para sintetizar acordos internacionais alcançados em várias cúpulas</p><p>mundiais ao longo dos anos 1990 relativos ao meio-ambiente e</p><p>desenvolvimento, direitos das mulheres, desenvolvimento social, racismo,</p><p>entre outras, a Declaração traz uma série de compromissos concretos que,</p><p>se cumpridos nos prazos fixados, segundo os indicadores quantitativos que</p><p>os acompanham, deverão melhorar o destino da humanidade neste século.</p><p>Esta declaração menciona que os governos "não economizariam esforços</p><p>para libertar nossos homens, mulheres e crianças das condições abjetas e</p><p>desumanas da pobreza extrema", tentando reduzir os níveis de</p><p>pobreza, iliteracia e promovendo o bem estar social.5152 Estes projetos</p><p>são monitorizados com recurso ao Índice de Desenvolvimento Humano,</p><p>que é uma medida comparativa que engloba três</p><p>dimensões: riqueza, educação e esperança média de vida.53</p><p>Estratégias nacionais de desenvolvimento sustentável</p><p>Lista dos Objectivos do Milénio das Nações Unidas na sua sede em</p><p>Nova Iorque.</p><p>O capítulo 8 da Agenda 21 incentiva os países a adaptarem estratégias</p><p>nacionais de desenvolvimento sustentável (ENDS), estimulando-os a</p><p>desenvolver e harmonizar as diferentes políticas sectoriais,</p><p>econômicas,crimes, sociais e ambientais e de planos que operam no</p><p>país.54 O apelo à elaboração destes documentos estratégicos, que devem</p><p>reforçar e harmonizar as políticas nacionais para a economia, as questões</p><p>sociais e o ambiente, foi reforçado na Sessão Especial da Assembleia das</p><p>Nações Unidas de 1997 (Rio+5), na Cimeira Mundial sobre</p><p>DesenvolvimentoSustentávelde2002 em Joanesburgo (Rio+10).55</p><p>A primeira revisão para estabelecer os elementos básicos de boas</p><p>práticas foi um "Manual para NSDS" preparado por Carew-Reid et al.</p><p>(1994) partindo das experiências compartilhadas por vários países, através</p><p>de relatórios nacionais e regionais, durante um projeto liderado</p><p>pela IUCN e IIED. Este trabalho preparou o terreno para a obra mais</p><p>posteriores. Foi construído em cima pelo CAD da OCDE no seu trabalho</p><p>para produzir orientações para ENDS (CAD 2001), que estabeleceu os</p><p>princípios acordados para a ENDS, mais tarde ecoou na UNDESA</p><p>orientação desenvolvido na sequência de um workshop internacional</p><p>(UNDESA 2002).56</p><p>Na prática, é uma estratégia eficaz para o desenvolvimento sustentável</p><p>reúne as aspirações e capacidades de governo, sociedade civil e do sector</p><p>privado para criar uma visão para o futuro, e para trabalhar taticamente e</p><p>progressivamente para esses objectivos, identificando e construindo sobre</p><p>"o que funciona", melhorando a integração entre as abordagens,</p><p>fornecendo um quadro para fazer as escolhas que a integração não é</p><p>possível. Estas estratégias incidem</p><p>sobre o que é realmente praticável, pois</p><p>com uma estratégia eficaz e abrangente poderá solucionar-se vários</p><p>problemas ao mesmo tempo.5758</p><p>Assim, as ENDS apresentam 7 pontos chave, sendo tratados de forma</p><p>integrada as questões econômicas, ambientais e sociais, a saber:59</p><p>↑WWFBrazil-Oqueédesenvolvimentosustentável?. www.wwf.org.br. Página</p><p>visitada em 17 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ WhatIsSustainableDevelopment?. www.menominee.edu. Página</p><p>visitada em 17 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ Background. www.usda.gov. Página visitada em 17 de Agosto de 2010.</p><p>↑ Ir para:a b c A21-DesenvolvimentoSustentável-C.M.Amadora. www.cm-</p><p>amadora.pt. Página visitada em 17 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ nssd:SustainableDevelopmentConceptsandApproaches.</p><p>www.nssd.net. Página visitada em 17 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ THECLUBOFROME-TheStoryoftheClubofRome.</p><p>www.clubofrome.org. 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Página</p><p>visitada em 17 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ Introduction-AalborgPlus10. www.aalborgplus10.dk. Página visitada</p><p>em 17 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ Sextoprogramadeacçãoemmatériadeambiente.. europa.eu. Página</p><p>visitada em 17 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ Eurocid-ImplementaçãodaCartadeLeipzig. www.eurocid.pt. Página</p><p>visitada em 17 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ UnitedNationsClimateChangeConference,3-14December,Nusa</p><p>Dua,Bali,Indonesia,(COP13andCMP3). unfccc.int. Página visitada em 17 de</p><p>Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ PortalUNEB. www.uneb.br. Página visitada em 17 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ EarthCondominium. Página visitada em 04deNovembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ [3]</p><p>Ir para cima↑ [4]</p><p>Ir para cima↑ [5]</p><p>Ir para cima↑ DSD::Resources-Documents-SustainableDevelopmentTopics.</p><p>www.un.org. Página visitada em 25 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ Sustainabledevelopmentindicators:ascientificchallenge,ademocratic</p><p>issue. sapiens.revues.org. Página visitada em 25 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ WhatIsSustainableDevelopment?. www.menominee.edu. Página</p><p>visitada em 25 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ DSD::Resources-Publications-CorePublications. www.un.org.</p><p>Página visitada em 25 de Agosto de 2009.</p><p>Ir para cima↑ [6]</p><p>Ir para cima↑ [7]</p><p>Ir para cima↑ [8]</p><p>Ir para cima↑ TermsBeginningWith"E". www.epa.gov. Página visitada em 2009-07-</p><p>09.</p><p>Ir para cima↑ Environmentalsustainability. www.acdi-cida.gc.ca. Página visitada em</p><p>2009-07-09.</p><p>Ir para cima↑ WhatisEnvironmentalSustainability. www.ces.vic.gov.au. Página</p><p>visitada em 2009-07-09.</p><p>Ir para cima↑ Sutton, Philip. APerspectiveonenvironmentalsustainability?. Victorian</p><p>Commissioner for Environmental Sustainability. Página visitada em 2009-07-09.</p><p>Ir para cima↑ MDGMONITOR::Goal::EnsureEnvironmentalSustainability.</p><p>www.mdgmonitor.org. Página visitada em 2009-07-09.</p><p>Ir para cima↑ UnitedNationsMillenniumDevelopmentGoals. www.un.org. Página</p><p>visitada em 2009-07-09.</p><p>Ir para cima↑ [9]</p><p>Ir para cima↑ [10]</p><p>Ir para cima↑ FundaçãoInstitutodePesquisasEconômicas-FIPE. www.fipe.org.br.</p><p>Página visitada em 19 de Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ OConceitodeSustentabilidadeeDesenvolvimentoSustentável.</p><p>www.catalisa.org.br. Página visitada em 19 de Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ [11]</p><p>Ir para cima↑ .::InstitutoPercepçõesdeResponsabilidadeSocial::..</p><p>www.percepcoes.org.br. Página visitada em 28 de Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ ADIMENSÃOPOLÍTICADASUSTENTABILIDADENAFORMULA-</p><p>ÇÃODEPOLÍTICASPÚBLICASDEHABITAÇÃO.CASO:. 209.85.229.132. Página</p><p>visitada em 28 de Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ Agenda21. www.agenda21grandeporto.com. Página visitada em 28 de</p><p>Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ Agenda21-textocompleto. www.ecolnews.com.br. Página visitada em</p><p>28 de Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ MinistériodasRelaçõesExteriores-DeclaraçãodoMilênio/Metasdo</p><p>Milenio-RelatórioBrasileiro. www.mre.gov.br. Página visitada em 28 de Novembro</p><p>de 2009.</p><p>Ir para cima↑ Agência Senado - 29/05/2009 - Oito objetivos com</p><p>{{subst:Número2palavra2|18}} metas a serem cumpridas até 2015.</p><p>www.senado.gov.br. Página visitada em 28 de Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ Statistics. hdr.undp.org. Página visitada em 28 de Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ DSD::AreasofWork::NSDS. www.un.org. Página visitada em 11 de</p><p>Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ [12]</p><p>Ir para cima↑ [13]</p><p>Ir para cima↑ [14]</p><p>Ir para cima↑ BCSDPortugal-EstratégiaNacionaldeDesenvolvimentoSustentável.</p><p>www.bcsdportugal.org. Página visitada em 11 de Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ Environment-SustainableDevelopment. ec.europa.eu. Página visitada</p><p>em 11 de Novembro de 2009.</p><p>Ir para cima↑ OqueéaA21L?. www.agenda21local.info. Página visitada em 29-</p><p>Abril-2010.</p><p>Ir para cima↑ OqueéaA21L?. www.agenda21local.info. Página visitada em 18de</p><p>Janeiro de 2011.</p><p>Poluição</p><p>Fenômeno estreitamente vinculado ao progresso industrial, a degrada-</p><p>ção das condições ambientais tem aumentado de maneira considerável e</p><p>preocupante nas regiões mais desenvolvidas do mundo, sobretudo a partir</p><p>de meados do século XX.</p><p>Poluição é o termo empregado para designar a deterioração das condi-</p><p>ções físicas, químicas e biológicas de um ecossistema, que afeta negativa-</p><p>mente a vida humana e de espécies animais e vegetais. A poluição modifica</p><p>o meio ambiente, ou seja, o sistema de relações no qual a existência de uma</p><p>espécie depende do mecanismo de equilíbrio entre processos naturais</p><p>destruidores e regeneradores.</p><p>Do meio ambiente depende a sobrevivência biológica. A atividade cloro-</p><p>filiana produz o oxigênio necessário a animais e vegetais; a ação de ani-</p><p>mais, plantas e microrganismos garante a pureza das águas nos rios, lagos</p><p>e mares; os processos biológicos que ocorrem no solo possibilitam as co-</p><p>lheitas. A vida no planeta está ligada ao conjunto desses fenômenos, cuja</p><p>inter-relação é denominada ecossistema. Processo natural recuperável, a</p><p>poluição resulta da presença de uma quantidade inusitada de matéria ou</p><p>energia (gases, substâncias químicas ou radioativas, rejeitos etc) em deter-</p><p>minado local. É, por isso, principalmente obra do homem em sua atividade</p><p>industrial.</p><p>Mesmo antes da existência do homem, a própria natureza já produzia</p><p>materiais nocivos ao meio ambiente, como os produtos da erupção de</p><p>vulcões e das tempestades de poeira. Na verdade, materiais sólidos no ar,</p><p>como poeira ou partículas de sal, são</p><p>essenciais como núcleos para a</p><p>formação de chuvas. Quando, porém, as emanações das cidades aumentam</p><p>desmedidamente tais núcleos, o excesso pode prejudicar o regime pluvial,</p><p>porque as gotas que se formam são demasiado pequenas para cair como</p><p>chuva. Alguns tipos de poluição, sobretudo a precipitação radioativa e a</p><p>provocada por certas substâncias lançadas ao ar pelas chaminés de fábri-</p><p>cas, podem disseminar-se amplamente, mas em geral a poluição só ocorre</p><p>em limites intoleráveis onde se concentram as atividades humanas.</p><p>Desde a antiguidade há sinais de luta contra a poluição, mas esta só se</p><p>tornou realmente um problema com o advento da revolução industrial. Já no</p><p>início do século XIX registraram-se queixas, no Reino Unido, contra o ruído</p><p>ensurdecedor de máquinas e motores. As chaminés das fábricas lançavam</p><p>no ar quantidades cada vez maiores de cloro, amônia, monóxido de carbono</p><p>e metano, aumentando a incidência de doenças pulmonares. Os rios foram</p><p>http://www.sd-commission.org.uk/</p><p>http://www.aalborgplus10.dk/</p><p>http://www.aalborgplus10.dk/</p><p>http://www.undemocracy.com/</p><p>http://www.4tube.com/</p><p>http://www.aalborgplus10.dk/</p><p>http://www.eurocid.pt/</p><p>http://www.uneb.br/</p><p>http://www.un.org/</p><p>http://www.un.org/</p><p>http://www.menominee.edu/</p><p>http://www.un.org/</p><p>http://www.epa.gov/</p><p>http://www.acdi-cida.gc.ca/</p><p>http://www.ces.vic.gov.au/</p><p>http://www.mdgmonitor.org/</p><p>http://www.mdgmonitor.org/</p><p>http://www.un.org/</p><p>http://www.fipe.org.br/</p><p>http://www.catalisa.org.br/</p><p>http://www.percepcoes.org.br/</p><p>http://www.percepcoes.org.br/</p><p>http://www.agenda21grandeporto.com/</p><p>http://www.ecolnews.com.br/</p><p>http://www.mre.gov.br/</p><p>http://www.senado.gov.br/</p><p>http://www.senado.gov.br/</p><p>http://www.un.org/</p><p>http://www.bcsdportugal.org/</p><p>http://www.bcsdportugal.org/</p><p>http://www.agenda21local.info/</p><p>http://www.agenda21local.info/</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 44</p><p>contaminados com a descarga de grande volume de dejetos, o que provo-</p><p>cou epidemias de cólera e febre tifóide. No século XX surgiram novas fontes</p><p>de poluição, como a radioativa e, sobretudo, a decorrente dos gases lança-</p><p>dos por veículos automotores.</p><p>A poluição e seu controle são em geral tratados em três categorias natu-</p><p>rais: poluição da água, poluição do ar e poluição do solo. Estes três elemen-</p><p>tos também interagem e em conseqüência têm surgido divisões inadequa-</p><p>das de responsabilidades, com resultados negativos para o controle da</p><p>poluição. Os depósitos de lixo poluem a terra, mas sua incineração contribui</p><p>para a poluição do ar. Carregados pela chuva, os poluentes que estão no</p><p>solo ou em suspensão no ar vão poluir a água e substâncias sedimentadas</p><p>na água acabam por poluir a terra.</p><p>Poluição da água</p><p>Considera-se que a água está poluída quando não é adequada ao con-</p><p>sumo humano, quando os animais aquáticos não podem viver nela, quando</p><p>as impurezas nela contidas tornam desagradável ou nocivo seu uso recrea-</p><p>tivo ou quando não pode ser usada em nenhuma aplicação industrial.</p><p>Os rios, os mares, os lagos e os lençóis subterrâneos de água são o</p><p>destino final de todo poluente solúvel lançado no ar ou no solo. O esgoto</p><p>doméstico é o poluente orgânico mais comum da água doce e das águas</p><p>costeiras, quando em alta concentração. A matéria orgânica transportada</p><p>pelos esgotos faz proliferar os microrganismos, entre os quais bactérias e</p><p>protozoários, que utilizam o oxigênio existente na água para oxidar seu</p><p>alimento, e em alguns casos o reduzem a zero. Os detergentes sintéticos,</p><p>nem sempre biodegradáveis, impregnam a água de fosfatos, reduzem ao</p><p>mínimo a taxa de oxigênio e são objeto de proibição em vários países, entre</p><p>eles o Brasil.</p><p>Ao serem carregados pela água da chuva ou pela erosão do solo, os</p><p>fertilizantes químicos usados na agricultura provocam a proliferação dos</p><p>microrganismos e a conseqüente redução da taxa de oxigênio nos rios,</p><p>lagos e oceanos. Os pesticidas empregados na agricultura são produtos</p><p>sintéticos de origem mineral, extremamente recalcitrantes, que se incorpo-</p><p>ram à cadeia alimentar, inclusive a humana. Entre eles, um dos mais conhe-</p><p>cidos é o inseticida DDT. Mercúrio, cádmio e chumbo lançados à água são</p><p>elementos tóxicos, de comprovado perigo para a vida animal.</p><p>Os casos mais dramáticos de poluição marinha têm sido originados por</p><p>derramamentos de petróleo, seja em acidentes com petroleiros ou em va-</p><p>zamentos de poços petrolíferos submarinos. Uma vez no mar, a mancha de</p><p>óleo, às vezes de dezenas de quilômetros, se espalha, levada por ventos e</p><p>marés, e afasta ou mata a fauna marinha e as aves aquáticas. O maior</p><p>perigo do despejo de resíduos industriais no mar reside na incorporação de</p><p>substâncias tóxicas aos peixes, moluscos e crustáceos que servem de</p><p>alimento ao homem. Exemplo desse tipo de intoxicação foi o ocorrido na</p><p>cidade de Minamata, Japão, em 1973, devido ao lançamento de mercúrio no</p><p>mar por uma indústria, fato que causou envenenamento em massa e levou o</p><p>governo japonês a proibir a venda de peixe. A poluição marinha tem sido</p><p>objeto de preocupação dos governos, que tentam, no âmbito da Organiza-</p><p>ção das Nações Unidas, estabelecer controles por meio de organismos</p><p>jurídicos internacionais.</p><p>A poluição da água tem causado sérios problemas ecológicos no Brasil,</p><p>em especial em rios como o Tietê, no estado de São Paulo, e o Paraíba do</p><p>Sul, nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A maior responsabilidade</p><p>pela devastação da fauna e pela deterioração da água nessas vias fluviais</p><p>cabe às indústrias químicas instaladas em suas margens.</p><p>Poluição do ar</p><p>Embora a poluição do ar sempre tenha existido -- como nos casos das</p><p>erupções vulcânicas ou da morte de homens asfixiados por fumaça dentro</p><p>de cavernas -- foi só na era industrial que se tornou problema mais grave.</p><p>Ela ocorre a partir da presença de substâncias estranhas na atmosfera, ou</p><p>de uma alteração importante dos constituintes desta, sendo facilmente</p><p>observável, pois provoca a formação de partículas sólidas de poeira e fuma-</p><p>ça.</p><p>Em 1967, o Conselho da Europa definiu a poluição do ar nos seguintes</p><p>termos: "Existe poluição do ar quando a presença de uma substância estra-</p><p>nha ou a variação importante na proporção de seus constituintes pode</p><p>provocar efeitos prejudiciais ou criar doenças." Essas substâncias estranhas</p><p>são os chamados agentes poluentes, classificados em cinco grupos princi-</p><p>pais: monóxido de carbono, partículas, óxidos de enxofre, hidrocarbonetos e</p><p>óxidos de nitrogênio. Encontram-se suspensos na atmosfera, em estado</p><p>sólido ou gasoso.</p><p>As causas mais comuns de poluição do ar são as atividades industriais,</p><p>combustões de todo tipo, emissão de resíduos de combustíveis por veículos</p><p>automotivos e a emissão de rejeitos químicos, muitas vezes tóxicos, por</p><p>fábricas e laboratórios.</p><p>O principal poluente atmosférico produzido pelo homem (o dióxido de</p><p>carbono e o vapor d'água são elementos constitutivos do ar) é o dióxido</p><p>sulfúrico, formado pela oxidação do enxofre no carvão e no petróleo, como</p><p>ocorre nas fundições e nas refinarias. Lançado no ar, ele dá origem a peri-</p><p>gosas dispersões de ácido sulfúrico. Às vezes, à poluição se acrescenta o</p><p>mau cheiro, produzido por emanações de certas indústrias, como curtumes,</p><p>fábricas de papel, celulose e outras.</p><p>O dióxido de carbono, ou gás carbônico, importante regulador da atmos-</p><p>fera, pode causar modificações climáticas consideráveis se tiver alterada a</p><p>sua concentração. É o que ocorre no chamado efeito estufa, em que a</p><p>concentração excessiva desse gás pode provocar, entre outros danos, o</p><p>degelo das calotas polares, o que resulta na inundação das regiões costei-</p><p>ras de todos os continentes. O monóxido de carbono, por sua vez, é produ-</p><p>zido sobretudo pelos automóveis, pela indústria siderúrgica e pelas refinarias</p><p>de petróleo. Outros poluentes atmosféricos são: hidrocarbonetos, aldeídos,</p><p>óxidos de azoto, óxidos de ferro, chumbo e derivados, silicatos, flúor e</p><p>derivados, entre outros.</p><p>No final da década de 1970,</p><p>descobriu-se nova e perigosa conseqüên-</p><p>cia da poluição: a redução da camada de ozônio que protege a superfície da</p><p>Terra da incidência de raios ultravioleta. Embora não esteja definitivamente</p><p>comprovado, atribuiu-se o fenômeno à emissão de gases industriais conhe-</p><p>cidos pelo nome genérico de clorofluorcarbonos (CFC). Quando atingem a</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 45</p><p>atmosfera e são bombardeados pela radiação ultravioleta, os CFC, muito</p><p>usados em aparelhos de refrigeração e em sprays, liberam cloro, elemento</p><p>que destrói o ozônio. Além de prejudicar a visão e o aparelho respiratório, a</p><p>concentração de poluentes na atmosfera provoca alergias e afeta o sangue</p><p>e os tecidos ósseo, nervoso e muscular.</p><p>Poluição do solo</p><p>A poluição pode afetar também o solo e dificultar seu cultivo. Nas gran-</p><p>des aglomerações urbanas, o principal foco de poluição do solo são os</p><p>resíduos industriais e domésticos. O lixo das cidades brasileiras, por exem-</p><p>plo, contém de setenta e a oitenta por cento de matéria orgânica em decom-</p><p>posição e constitui uma permanente ameaça de surtos epidêmicos. O esgo-</p><p>to tem sido usado em alguns países para mineralizar a matéria orgânica e</p><p>irrigar o solo, mas esse processo apresenta o inconveniente de veicular</p><p>microrganismos patogênicos. Excrementos humanos podem provocar a</p><p>contaminação de poços e mananciais de superfície. Os resíduos radioativos,</p><p>juntamente com nutrientes, são absorvidos pelas plantas. Os fertilizantes e</p><p>pesticidas sintéticos são suscetíveis de incorporar-se à cadeia alimentar.</p><p>Fator principal de poluição do solo é o desmatamento, causa de dese-</p><p>quilíbrios hidrogeológicos, pois em conseqüência de tal prática a terra deixa</p><p>de reter as águas pluviais. Calcula-se que no Brasil sejam abatidos anual-</p><p>mente trinta mil quilômetros quadrados de florestas, com o objetivo de obter</p><p>madeira ou áreas para cultivo.</p><p>Outra grande ameaça à agricultura é o fenômeno conhecido como chu-</p><p>va ácida. Trata-se de gases tóxicos em suspensão na atmosfera que são</p><p>arrastados para a terra pelas precipitações. A chuva ácida afeta regiões com</p><p>elevado índice de industrialização e exerce uma ação nefasta sobre as</p><p>áreas cultivadas e os campos em geral.</p><p>Poluição radioativa, calor e ruído</p><p>Um tipo extremamente grave de poluição, que afeta tanto o meio aéreo</p><p>quanto o aquático e o terrestre, é o nuclear. Trata-se do conjunto de ações</p><p>contaminadoras derivadas do emprego da energia nuclear, e se deve à</p><p>radioatividade dos materiais necessários à obtenção dessa energia. A</p><p>poluição nuclear é causada por explosões atômicas, por despejos radioati-</p><p>vos de hospitais, centros de pesquisa, laboratórios e centrais nucleares, e,</p><p>ocasionalmente, por vazamentos ocorridos nesses locais.</p><p>Também podem ser incluídos no conceito de poluição o calor (poluição</p><p>térmica) e o ruído (poluição sonora), na medida em que têm efeitos nocivos</p><p>sobre o homem e a natureza. O calor que emana das fábricas e residências</p><p>contribui para aquecer o ar das cidades. Grandes usinas utilizam águas dos</p><p>rios para o resfriamento de suas turbinas e as devolvem aquecidas; muitas</p><p>fábricas com máquinas movidas a vapor também lançam água quente nos</p><p>rios, o que chega a provocar o aparecimento de fauna e flora de latitudes</p><p>mais altas, com conseqüências prejudiciais para determinadas espécies de</p><p>peixes.</p><p>O som também se revela poluente, sobretudo no caso do trânsito urba-</p><p>no. O ruído máximo tolerável pelo homem, sem efeitos nocivos, é de noven-</p><p>ta decibéis (dB).Diversos problemas de saúde, inclusive a perda permanente</p><p>da audição, podem ser provocados pela exposição prolongada a barulhos</p><p>acima desse limite, excedido por muitos dos ruídos comumente registrados</p><p>nos centros urbanos, tais como o som das turbinas dos aviões a jato ou de</p><p>música excessivamente alta.</p><p>No Brasil, além dos despejos industriais, o problema da poluição é agra-</p><p>vado pela rápida urbanização (três quartos da população do país vivem nas</p><p>cidades), que pressiona a infra-estrutura urbana com quantidades crescen-</p><p>tes de lixo, esgotos, gases e ruídos de automóveis, entre outros fatores, com</p><p>a conseqüente degradação das águas, do ar e do solo. Já no campo, os dois</p><p>principais agentes poluidores são as queimadas, para fins de cultivo, pecuá-</p><p>ria ou mineração, e o uso indiscriminado de agrotóxicos nas plantações. Tais</p><p>práticas, além de provocarem desequilíbrios ecológicos, acarretam riscos de</p><p>erosão e desertificação.</p><p>Ecologia</p><p>Durante muito tempo desconhecida do grande público e relegada a se-</p><p>gundo plano por muitos cientistas, a ecologia surgiu no século XX como um</p><p>dos mais populares aspectos da biologia. Isto porque tornou-se evidente que</p><p>a maioria dos problemas que o homem vem enfrentando, como crescimento</p><p>populacional, poluição ambiental, fome e todos os problemas sociológicos e</p><p>políticos atuais, são em grande parte ecológicos.</p><p>A palavra ecologia (do grego oikos, "casa") foi cunhada no século XIX</p><p>pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel, para designar a "relação dos animais</p><p>com seu meio ambiente orgânico e inorgânico". A expressão meio ambiente</p><p>inclui tanto outros organismos quanto o meio físico circundante. Envolve</p><p>relações entre indivíduos de uma mesma população e entre indivíduos de</p><p>diferentes populações. Essas interações entre os indivíduos, as populações</p><p>e os organismos e seu ambiente formam sistemas ecológicos, ou ecossis-</p><p>temas. A ecologia também já foi definida como "o estudo das inter-relações</p><p>dos organismos e seu ambiente, e vice-versa", como "a economia da natu-</p><p>reza", e como "a biologia dos ecossistemas".</p><p>Histórico. A ecologia não tem um início muito bem delineado. Encontra</p><p>seus primeiros antecedentes na história natural dos gregos, particularmente</p><p>em um discípulo de Aristóteles, Teofrasto, que foi o primeiro a descrever as</p><p>relações dos organismos entre si e com o meio. As bases posteriores para a</p><p>ecologia moderna foram lançadas nos primeiros trabalhos dos fisiologistas</p><p>sobre plantas e animais.</p><p>O aumento do interesse pela dinâmica das populações recebeu impulso</p><p>especial no início do século XIX e depois que Thomas Malthus chamou</p><p>atenção para o conflito entre as populações em expansão e a capacidade da</p><p>Terra de fornecer alimento. Raymond Pearl (1920), A. J. Lotka (1925), e Vito</p><p>Volterra (1926) desenvolveram as bases matemáticas para o estudo das</p><p>populações, o que levou a experiências sobre a interação de predadores e</p><p>presas, as relações competitivas entre espécies e o controle populacional. O</p><p>estudo da influência do comportamento sobre as populações foi incentivado</p><p>pelo reconhecimento, em 1920, da territorialidade dos pássaros. Os concei-</p><p>tos de comportamento instintivo e agressivo foram lançados por Konrad</p><p>Lorenz e Nikolaas Tinbergen, enquanto V. C. Wynne-Edwards estudava o</p><p>papel do comportamento social no controle das populações.</p><p>No início e em meados do século XX, dois grupos de botânicos, um na</p><p>Europa e outro nos Estados Unidos, estudaram comunidades vegetais de</p><p>dois diferentes pontos de vista. Os botânicos europeus se preocuparam em</p><p>estudar a composição, a estrutura e a distribuição das comunidades vege-</p><p>tais, enquanto os americanos estudaram o desenvolvimento dessas comu-</p><p>nidades, ou sua sucessão. As ecologias animal e vegetal se desenvolveram</p><p>separadamente até que os biólogos americanos deram ênfase à inter-</p><p>relação de comunidades vegetais e animais como um todo biótico.</p><p>Alguns ecologistas se detiveram na dinâmica das comunidades e popu-</p><p>lações, enquanto outros se preocuparam com as reservas de energia. Em</p><p>1920, o biólogo alemão August Thienemann introduziu o conceito de níveis</p><p>tróficos, ou de alimentação, pelos quais a energia dos alimentos é transferi-</p><p>da, por uma série de organismos, das plantas verdes (produtoras) aos vários</p><p>níveis de animais (consumidores). Em 1927, C. S. Elton, ecologista inglês</p><p>especializado em animais, avançou nessa abordagem com o conceito de</p><p>nichos ecológicos e pirâmides de</p><p>números. Dois biólogos americanos, E.</p><p>Birge e C. Juday, na década de 1930, ao medir a reserva energética de</p><p>lagos, desenvolveram a idéia da produção primária, isto é, a proporção na</p><p>qual a energia é gerada, ou fixada, pela fotossíntese.</p><p>A ecologia moderna atingiu a maioridade em 1942 com o desenvolvi-</p><p>mento, pelo americano R. L. Lindeman, do conceito trófico-dinâmico de</p><p>ecologia, que detalha o fluxo da energia através do ecossistema. Esses</p><p>estudos quantitativos foram aprofundados pelos americanos Eugene e</p><p>Howard Odum. Um trabalho semelhante sobre o ciclo dos nutrientes foi</p><p>realizado pelo australiano J. D. Ovington.</p><p>O estudo do fluxo de energia e do ciclo de nutrientes foi estimulado pelo</p><p>desenvolvimento de novas técnicas -- radioisótopos, microcalorimetria,</p><p>computação e matemática aplicada -- que permitiram aos ecologistas rotular,</p><p>rastrear e medir o movimento de nutrientes e energias específicas através</p><p>dos ecossistemas. Esses métodos modernos deram início a um novo está-</p><p>gio no desenvolvimento dessa ciência -- a ecologia dos sistemas, que estu-</p><p>da a estrutura e o funcionamento dos ecossistemas.</p><p>Conceito unificador. Até o fim do século XX, faltava à ecologia uma base</p><p>conceitual. A ecologia moderna, porém, passou a se concentrar no conceito</p><p>de ecossistema, uma unidade funcional composta de organismos integra-</p><p>dos, e em todos os aspectos do meio ambiente em qualquer área específica.</p><p>Envolve tanto os componentes sem vida (abióticos) quanto os vivos (bióti-</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 46</p><p>cos) através dos quais ocorrem o ciclo dos nutrientes e os fluxos de energia.</p><p>Para realizá-los, os ecossistemas precisam conter algumas inter-relações</p><p>estruturadas entre solo, água e nutrientes, de um lado, e entre produtores,</p><p>consumidores e decomponentes, de outro.</p><p>Os ecossistemas funcionam graças à manutenção do fluxo de energia e</p><p>do ciclo de materiais, desdobrado numa série de processos e relações</p><p>energéticas, chamada cadeia alimentar, que agrupa os membros de uma</p><p>comunidade natural. Existem cadeias alimentares em todos os habitats, por</p><p>menores que sejam esses conjuntos específicos de condições físicas que</p><p>cercam um grupo de espécies. As cadeias alimentares costumam ser com-</p><p>plexas, e várias cadeias se entrecruzam de diversas maneiras, formando</p><p>uma teia alimentar que reproduz o equilíbrio natural entre plantas, herbívo-</p><p>ros e carnívoros.</p><p>Os ecossistemas tendem à maturidade, ou estabilidade, e ao atingi-la</p><p>passam de um estado menos complexo para um mais complexo. Essa</p><p>mudança direcional é chamada sucessão. Sempre que um ecossistema é</p><p>utilizado, e que a exploração se mantém, sua maturidade é adiada.</p><p>A principal unidade funcional de um ecossistema é sua população. Ela</p><p>ocupa um certo nicho funcional, relacionado a seu papel no fluxo de energia</p><p>e ciclo de nutrientes. Tanto o meio ambiente quanto a quantidade de energia</p><p>fixada em qualquer ecossistema são limitados. Quando uma população</p><p>atinge os limites impostos pelo ecossistema, seus números precisam estabi-</p><p>lizar-se e, caso isso não ocorra, devem declinar em conseqüência de doen-</p><p>ça, fome, competição, baixa reprodução e outras reações comportamentais</p><p>e psicológicas. Mudanças e flutuações no meio ambiente representam uma</p><p>pressão seletiva sobre a população, que deve se ajustar. O ecossistema tem</p><p>aspectos históricos: o presente está relacionado com o passado, e o futuro</p><p>com o presente. Assim, o ecossistema é o conceito que unifica a ecologia</p><p>vegetal e animal, a dinâmica, o comportamento e a evolução das popula-</p><p>ções.</p><p>Áreas de estudo. A ecologia é uma ciência multidisciplinar, que envolve</p><p>biologia vegetal e animal, taxonomia, fisiologia, genética, comportamento,</p><p>meteorologia, pedologia, geologia, sociologia, antropologia, física, química,</p><p>matemática e eletrônica. Quase sempre se torna difícil delinear a fronteira</p><p>entre a ecologia e qualquer dessas ciências, pois todas têm influência sobre</p><p>ela. A mesma situação existe dentro da própria ecologia. Na compreensão</p><p>das interações entre o organismo e o meio ambiente ou entre organismos, é</p><p>quase sempre difícil separar comportamento de dinâmica populacional,</p><p>comportamento de fisiologia, adaptação de evolução e genética, e ecologia</p><p>animal de ecologia vegetal.</p><p>A ecologia se desenvolveu ao longo de duas vertentes: o estudo das</p><p>plantas e o estudo dos animais. A ecologia vegetal aborda as relações das</p><p>plantas entre si e com seu meio ambiente. A abordagem é altamente descri-</p><p>tiva da composição vegetal e florística de uma área e normalmente ignora a</p><p>influência dos animais sobre as plantas. A ecologia animal envolve o estudo</p><p>da dinâmica, distribuição e comportamento das populações, e das inter-</p><p>relações de animais com seu meio ambiente. Como os animais dependem</p><p>das plantas para sua alimentação e abrigo, a ecologia animal não pode ser</p><p>totalmente compreendida sem um conhecimento considerável de ecologia</p><p>vegetal. Isso é verdade especialmente nas áreas aplicadas da ecologia,</p><p>como manejo da vida selvagem.</p><p>A ecologia vegetal e a animal podem ser vistas como o estudo das inter-</p><p>relações de um organismo individual com seu ambiente (auto-ecologia), ou</p><p>como o estudo de comunidades de organismos (sinecologia).</p><p>A auto-ecologia, ou estudo clássico da ecologia, é experimental e induti-</p><p>va. Por estar normalmente interessada no relacionamento de um organismo</p><p>com uma ou mais variáveis, é facilmente quantificável e útil nas pesquisas</p><p>de campo e de laboratório. Algumas de suas técnicas são tomadas de</p><p>empréstimo da química, da física e da fisiologia. A auto-ecologia contribuiu</p><p>com pelo menos dois importantes conceitos: a constância da interação entre</p><p>um organismo e seu ambiente, e a adaptabilidade genética de populações às</p><p>condições ambientais do local onde vivem.</p><p>A sinecologia é filosófica e dedutiva. Largamente descritiva, não é facil-</p><p>mente quantificável e contém uma terminologia muito vasta. Apenas recen-</p><p>temente, com o advento da era eletrônica e atômica, a sinecologia desen-</p><p>volveu os instrumentos para estudar sistemas complexos e dar início a sua</p><p>fase experimental. Os conceitos importantes desenvolvidos pela sinecologia</p><p>são aqueles ligados ao ciclo de nutrientes, reservas energéticas, e desen-</p><p>volvimento dos ecossistemas. A sinecologia tem ligações estreitas com a</p><p>pedologia, a geologia, a meteorologia e a antropologia cultural.</p><p>A sinecologia pode ser subdividida de acordo com os tipos de ambiente,</p><p>como terrestre ou aquático. A ecologia terrestre, que contém subdivisões</p><p>para o estudo de florestas e desertos, por exemplo, abrange aspectos dos</p><p>ecossistemas terrestres como microclimas, química dos solos, fauna dos</p><p>solos, ciclos hidrológicos, ecogenética e produtividade.</p><p>Os ecossistemas terrestres são mais influenciados por organismos e su-</p><p>jeitos a flutuações ambientais muito mais amplas do que os ecossistemas</p><p>aquáticos. Esses últimos são mais afetados pelas condições da água e</p><p>possuem resistência a variáveis ambientais como temperatura. Por ser o</p><p>ambiente físico tão importante no controle dos ecossistemas aquáticos, dá-</p><p>se muita atenção às características físicas do ecossistema como as corren-</p><p>tes e a composição química da água. Por convenção, a ecologia aquática,</p><p>denominada limnologia, limita-se à ecologia de cursos d'água, que estuda a</p><p>vida em águas correntes, e à ecologia dos lagos, que se detém sobre a vida</p><p>em águas relativamente estáveis. A vida em mar aberto e estuários é objeto</p><p>da ecologia marinha.</p><p>Outras abordagens ecológicas se concentram em áreas especializadas.</p><p>O estudo da distribuição geográfica das plantas e animais denomina-se</p><p>geografia ecológica animal e vegetal. Crescimento populacional, mortalida-</p><p>de, natalidade, competição e relação predador-presa são abordados na</p><p>ecologia populacional. O estudo da genética e a ecologia das raças locais e</p><p>espécies distintas é a ecologia genética. As reações comportamentais dos</p><p>animais a seu ambiente,</p><p>e as interações sociais que afetam a dinâmica das</p><p>populações são estudadas pela ecologia comportamental. As investigações</p><p>de interações entre o meio ambiente físico e o organismo se incluem na</p><p>ecoclimatologia e na ecologia fisiológica.</p><p>A parte da ecologia que analisa e estuda a estrutura e a função dos e-</p><p>cossistemas pelo uso da matemática aplicada, modelos matemáticos e</p><p>análise de sistemas é a ecologia dos sistemas. A análise de dados e resul-</p><p>tados, feita pela ecologia dos sistemas, incentivou o rápido desenvolvimento</p><p>da ecologia aplicada, que se ocupa da aplicação de princípios ecológicos ao</p><p>manejo dos recursos naturais, produção agrícola, e problemas de poluição</p><p>ambiental.</p><p>Movimento ecológico. A intervenção do homem no meio ambiente ao</p><p>longo da história, principalmente após a revolução industrial, foi sempre no</p><p>sentido de agredir e destruir o equilíbrio ecológico, não raro com conse-</p><p>qüências desastrosas. A ação das queimadas, por exemplo, provoca o</p><p>desequilíbrio da fauna e da flora e modifica o clima. Várias espécies de</p><p>animais foram extintas ou se encontram em risco de extinção em decorrên-</p><p>cia das atividades do homem.</p><p>Já no século XIX se podia detectar a existência de graves problemas</p><p>ambientais, como mostram os relatos sobre poluição e insalubridade nas</p><p>fábricas e bairros operários. Encontram-se raciocínios claros da vertente que</p><p>mais tarde se definiria como ecologia social na obra de economistas como</p><p>Thomas Malthus, Karl Marx e John Stuart Mill, e de geógrafos como Friedri-</p><p>ch Ratzel e George P. Marsh. Mesmo entre os socialistas, porém, predomi-</p><p>nava a crença nas possibilidades do industrialismo e a ausência de preocu-</p><p>pação com os limites naturais. Também contribuiu o fato de a economia</p><p>industrial não ter ainda revelado as contradições ecológicas inerentes a seu</p><p>funcionamento, evidenciadas no século XX.</p><p>De fato, a maioria das teorias econômicas recentes traduz essa atitude</p><p>e raciocina como se a economia estivesse acima da natureza. A economia,</p><p>no entanto, pode até mesmo ser considerada apenas um capítulo da ecolo-</p><p>gia, uma vez que se refere somente à ação material e à demanda de uma</p><p>espécie, o homem, enquanto a ecologia examina a ação de todas as espé-</p><p>cies, seus relacionamentos e interdependências.</p><p>A radicalização do impacto destrutivo do homem sobre a natureza, pro-</p><p>vocada pelo desenvolvimento do industrialismo, inspirou, especialmente ao</p><p>longo do século XX, uma série de iniciativas. A mais antiga delas é o con-</p><p>servacionismo, que é a luta pela conservação do ambiente natural ou de</p><p>partes e aspectos dele, contra as pressões destrutivas das sociedades</p><p>humanas. Denúncias feitas em congressos internacionais geraram uma</p><p>campanha em favor da criação de reservas de vida selvagem, que ajudaram</p><p>a garantir a sobrevivência de muitas espécies ameaçadas.</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 47</p><p>Existem basicamente três tipos de recursos naturais: os renováveis,</p><p>como os animais e vegetais; os não-renováveis, como os minerais e fósseis;</p><p>e os recursos livres, como o ar, a água, a luz solar e outros elementos que</p><p>existem em grande abundância. O movimento ecológico reconhece os</p><p>recursos naturais como a base da sobrevivência das espécies e defende</p><p>garantias de reprodução dos recursos renováveis e de preservação das</p><p>reservas de recursos não-renováveis.</p><p>No Brasil, o movimento conservacionista está razoavelmente estabele-</p><p>cido. Em 1934, foi realizada no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, a I</p><p>Conferência Brasileira de Proteção à Natureza. Três anos mais tarde criou-</p><p>se o primeiro parque nacional brasileiro, na região de Itatiaia RJ.</p><p>Além dos grupos conservacionistas, surgiu no movimento ecológico um</p><p>novo tipo de grupo, o dos chamados ecologistas. A linha divisória entre eles</p><p>nem sempre está bem demarcada, pois muitas vezes os dois tipos de gru-</p><p>pos se confundem em alguma luta específica comum. Os ecologistas, po-</p><p>rém, apesar de mais recentes, têm peso político cada vez maior. Vertente do</p><p>movimento ecológico que propõe mudanças globais nas estruturas sociais,</p><p>econômicas e culturais, esse grupo nasceu da percepção de que a atual</p><p>crise ecológica é conseqüência direta de um modelo de civilização insusten-</p><p>tável. Embora seja também conservacionista, o ecologismo caracteriza-se</p><p>por defender não só a sobrevivência da espécie humana, como também a</p><p>construção de formas sociais e culturais que garantam essa sobrevivência.</p><p>Um marco nessa tendência foi a realização, em Estocolmo, da Confe-</p><p>rência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, em 1972, que oficiali-</p><p>zou o surgimento da preocupação ecológica internacional. Seguiram-se</p><p>relatórios sobre esgotamento das reservas minerais, aumento da população</p><p>etc., que tiveram grande impacto na opinião pública, nos meios acadêmicos</p><p>e nas agências governamentais.</p><p>Em 1992, 178 países participaram da Conferência das Nações Unidas</p><p>para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro.</p><p>Embora com resultados muito aquém das expectativas dos ecologistas, foi</p><p>mais um passo para a ampliação da consciência ecológica mundial. Aprovou</p><p>documentos importantes para a conservação da natureza, como a Conven-</p><p>ção da Biodiversidade e a do Clima, a Declaração de Princípios das Flores-</p><p>tas e a Agenda 21.</p><p>A Agenda 21 é talvez o mais polêmico desses documentos. Tenta unir</p><p>ecologia e progresso num ambicioso modelo de desenvolvimento sustentá-</p><p>vel, ou seja, compatível com a capacidade de sustentação do crescimento</p><p>econômico, sem exaustão dos recursos naturais. Prega a união de todos os</p><p>países com vistas à melhoria global da qualidade de vida. ©Encyclopaedia</p><p>Britannica do Brasil Publicações Ltda.</p><p>Questões ambientais</p><p>http://www.universitario.com.br/celo/topicos/subtopicos/ecologia/quest</p><p>oes_ambientais/questoes_ambientais.html</p><p>Termos Básicos</p><p>CADEIA ALIMENTAR</p><p>Os diferentes elementos que compõem um ecossistema cumprem papéis</p><p>específicos dentro da cadeia alimentar. As plantas verdes são organismos</p><p>produtores. Acionadas pela luz do Sol, absorvem os compostos inorgânicos</p><p>presentes na atmosfera e no solo e os transformam em compostos orgâni-</p><p>cos, processo conhecido por fotossíntese. Os animais herbívoros são</p><p>organismos consumidores. Alimentam-se das plantas (os produtores) e, por</p><p>sua vez, servem de alimento para os animais carnívoros, ou predadores.</p><p>Quando os dejetos desses animais são lançados no solo entram em ação</p><p>os chamados organismos decompositores. Eles completam o ciclo vital:</p><p>decompõem a matéria orgânica presente nos dejetos animais e plantas</p><p>mortas, transformando-a novamente nos compostos inorgânicos que ali-</p><p>mentam as plantas. O equilíbrio do ecossistema depende da realização de</p><p>cada uma dessas etapas da cadeia alimentar. A drástica redução dos</p><p>animais predadores, por exemplo, pode resultar na proliferação dos animais</p><p>herbívoros e, com isso, na escassez ou extinção de algumas espécies</p><p>vegetais.</p><p>A BIOSFERA</p><p>A biosfera refere-se a região do planeta ocupada pelos seres vivos. É</p><p>possível encontrar vida em todas as regiões do planeta, por mais quente ou</p><p>frio que elas sejam.</p><p>O conceito de biosfera foi criado por analogia a outros conceitos emprega-</p><p>dos para designar parte de nosso planeta. De modo qual, podemos dizer</p><p>que os limites da biosfera se estendem desde às altas montanhas até as</p><p>profundezas das fossas abissais marinhas.</p><p>O aparecimento da espécie humana na Terra dada uns 100 mil anos, e a</p><p>grande expansão das populações humanas aconteceu durante o último</p><p>milênio. A presença tem interferido profundamente no mundo natural.</p><p>É necessário preservar as harmonias da biosfera, se nós não nos concreti-</p><p>zarmos que as espécies de seres vivos, inclusive a humana mantém várias</p><p>inter-relações e que a influência no mundo pode criar vários desequilíbrios.</p><p>FOTOSSÍNTESE</p><p>É a capacidade que um ser tem (graças a clorofila) de captar a energia</p><p>luminosa do sol e utiliza-la na síntese de moléculas</p><p>orgânicas que serviram</p><p>de alimento.</p><p>A energia luminosa captada e convertida para a energia química e utilizada</p><p>para reunir moléculas de gás carbônico (CO2) e de água (H2O) produzindo</p><p>assim, moléculas de glicose (C6H12O6) e oxigênio (O2).</p><p>Vale lembrar que a fotossíntese realizada pelas plantas é muito importante</p><p>para a sobrevivência do homem e dos animais na terra, pois estes, depen-</p><p>dem diretamente de oxigênio para suas sobrevivências. Portanto, como a</p><p>taxa de natalidade do homem vai cada vez aumentando, temos que tomar</p><p>cuidado com a preservação da natureza e das matas já existentes e até</p><p>mesmo, criar novas áreas florestais, como parques nacionais e reservas</p><p>ecológicas.</p><p>NICHO ECOLÓGICO</p><p>É o conjunto de interações que os membros de uma dada espécie mantêm</p><p>com o meio abiótico e com os outros seres vivos da biosfera.</p><p>RECICLAGEM</p><p>Reaproveitamento de alguma coisa já usada. Ex: papel, plástico, metal.</p><p>A reciclagem é uma importante ação para o equilíbrio do meio ambiente,</p><p>pois com ela, a cada vez mais não temos que retirar coisas da natureza. O</p><p>que já foi usado uma vez, poderá ser usada outra, ao invés de retirar no-</p><p>vamente aquele produto da natureza e dos seres vivos. Assim, com um</p><p>bom investimento na reciclagem, todos lucrariam, pois a natureza estaria</p><p>menos devastada.</p><p>HÚMUS</p><p>É na verdade, um tipo de adubo, aproveitado de algum tipo de animal.</p><p>Quando ele defeca e libera o coliforme, quando ele morre e seu corpo se</p><p>desintegra, as substâncias boas para a terra, só vai fortalece-la mais ainda.</p><p>Desenvolvimento Sustentado</p><p>A degradação do meio ambiente está diretamente vinculada às atividades</p><p>econômicas praticadas no planeta. Para conter a degradação, os analistas</p><p>indicam a necessidade de mudar o atual modelo de desenvolvimento</p><p>econômico, considerado predatório. Especialistas do mundo inteiro elabo-</p><p>ram o conceito de desenvolvimento sustentado: sistemas de exploração</p><p>mais racional dos recursos naturais, que preservem o equilíbrio ecológico,</p><p>reduzindo os danos ao meio ambiente. Esse conceito implica mudanças</p><p>nas relações políticas internacionais: maior cooperação entre as nações</p><p>para a geração de tecnologias não-poluidoras e acordos internacionais</p><p>sobre o uso dos recursos naturais, limitações à produção de substâncias</p><p>tóxicas e emissões de poluentes no meio ambiente.</p><p>1a CONFERENCIA MUNDIAL</p><p>A primeira Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento</p><p>realiza-se em 1972, em Estocolmo, na Suécia, com patrocínio da ONU e</p><p>deflagra vários estudos com o objetivo de traçar uma estratégia para a</p><p>preservação da vida no planeta. Os principais resultados são reunidos no</p><p>livro Nosso futuro comum, publicado em 1987. Os estudos mostram o</p><p>estreito vínculo entre pobreza, desigualdade de renda e deterioração ambi-</p><p>ental, e apontam o desequilíbrio ecológico como um dos resultados das</p><p>http://www.universitario.com.br/celo/topicos/subtopicos/ecologia/quest</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 48</p><p>relações entre países pobres e ricos. Demonstram que os países pobres ou</p><p>em desenvolvimento são os que detêm as maiores reservas de recursos</p><p>naturais e estão destruindo-as rapidamente para pagar suas dívidas exter-</p><p>nas. Mostram que os países ricos são os grandes consumidores desses</p><p>recursos e, portanto, os maiores responsáveis pela manutenção do equilí-</p><p>brio ambiental e preservação das espécies. Aconselham os países pobres</p><p>a construir modelos de desenvolvimento não-predatórios e sugerem que os</p><p>países ricos os ajudem nessa tarefa através de verbas e tecnologias. Após</p><p>a Conferência de Estocolmo, a questão ambiental é assumida oficialmente</p><p>por um grande número de governos e mais de cem países criam organis-</p><p>mos oficiais específicos para tratar do tema.</p><p>ECO-92</p><p>A segunda Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento</p><p>é realizada no Rio de Janeiro, no centro de convenções Riocentro, em</p><p>junho de 1992, com patrocínio da ONU. Participam 114 chefes de Estado e</p><p>170 delegações oficiais, além de equipes do FMI (Fundo Monetário Interna-</p><p>cional) e do Banco Mundial. Para pressionar os organismos oficiais, mais</p><p>de 3.200 ONGs de todo o mundo organizam um encontro paralelo, o Fórum</p><p>Global, que reúne cerca de 40 mil militantes no aterro do Flamengo (RJ) .</p><p>Na mesma época, realiza-se também a Conferência Mundial dos Povos</p><p>Indígenas, no bairro de Jacarepaguá (RJ), numa grande taba construída</p><p>por índios tucanos e do Alto Xingu, a Kari-Oca. As delegações oficiais</p><p>concordam teoricamente com os princípios da preservação ambiental. As</p><p>formas de implantá-los, no entanto, são motivo de controvérsia. Os dois</p><p>documentos mais importantes aprovados na conferência são a Carta da</p><p>Terra, também chamada de Declaração do Rio, e a Agenda 21.</p><p>Carta da Terra – O ponto central da Carta da Terra é a constatação de que</p><p>os países ricos poluem mais o planeta e, portanto, devem ajudar as nações</p><p>pobres com tecnologias não-poluidoras e avanços científicos que as con-</p><p>duzam a um desenvolvimento mais rápido e menos predatório. Reconhece</p><p>que os Estados têm o direito soberano sobre os recursos naturais de seus</p><p>territórios, têm a responsabilidade de garantir que sua exploração não</p><p>cause danos ao meio ambiente de outros países e o dever de indenizar as</p><p>vítimas de poluição e outros danos ambientais. Todos os governos e pes-</p><p>soas devem cooperar na erradicação da pobreza, mas os países desenvol-</p><p>vidos têm responsabilidades maiores: são os que mais consomem e os que</p><p>detêm as tecnologias necessárias para o desenvolvimento dos países</p><p>pobres.</p><p>Agenda 21 – O objetivo da Agenda 21 é traçar estratégias para implantar</p><p>os princípios da Carta da Terra. De seus 40 capítulos, oito tratam de ques-</p><p>tões econômicas e sociais; 14, da conservação e gestão dos recursos</p><p>naturais; sete descrevem o papel dos grupos sociais; e 11 tratam das</p><p>políticas para garantir a qualidade de vida das próximas gerações. São</p><p>inúmeras as divergências entre as delegações oficiais, e a conferência não</p><p>consegue estabelecer a fonte de recursos para financiar a implantação das</p><p>políticas aprovadas. É criada uma Comissão para o Desenvolvimento</p><p>Sustentável (CDS), para fiscalizar o cumprimento da Agenda 21. Em 1993 o</p><p>Brasil passa a integrar a comissão, formada por 53 países.</p><p>Clima e florestas – Três outros documentos tratam do desmatamento, do</p><p>clima e da biodiversidade. A declaração sobre as florestas garante a sobe-</p><p>rania de cada país no uso de suas riquezas florestais. São eliminadas as</p><p>barreiras comerciais para a madeira e a borracha exploradas com técnicas</p><p>de manejo que evitem o esgotamento desses recursos. Os projetos de</p><p>desenvolvimento sustentável ficam na dependência da definição dos meca-</p><p>nismos de financiamento e de transferência de tecnologia, que serão defi-</p><p>nidos em novos fóruns internacionais. Formas de redução do desmatamen-</p><p>to também não são consolidadas em documento.</p><p>A convenção sobre mudanças climáticas limita a emissão dos gases tóxicos</p><p>associados ao efeito estufa e à destruição da camada de ozônio, mas não</p><p>define datas para seu cumprimento. É assinada por 153 países. Os EUA</p><p>não aceitam limites à emissão de poluentes atmosféricos e não assinam o</p><p>documento.</p><p>Biodiversidade – O documento Estratégia global para a biodiversidade,</p><p>elaborado pelo World Resource Institute, dos EUA, e pela União Mundial</p><p>para a Natureza, da Suíça, apresenta 85 propostas para a preservação da</p><p>diversidade biológica no planeta e um plano para o uso sustentado de</p><p>recursos biológicos. Mostra que os desmatamentos podem destruir milha-</p><p>res de espécies vivas ainda desconhecidas, indica a necessidade do aces-</p><p>so igualitário à tecnologia de conservação e à tecnologia baseada em</p><p>recursos biológicos. Reconhece a soberania dos países detentores da</p><p>biodiversidade, como o Brasil, sobre seus recursos e propõe que tenham o</p><p>direito de participar dos lucros resultantes de sua exploração. O documento</p><p>é aprovado pelo Programa de Meio Ambiente</p><p>e médicos desfrutado por aqueles no mundo "desenvolvido".</p><p>Finalmente, há muitas pessoas, especialmente aquelas com fortes</p><p>convicções religiosas, que afirmam que é do interesse dos indivíduos e da</p><p>humanidade como um todo, que todos respeitem o único modelo de</p><p>sociedade que eles considerem correcto. Por exemplo, organizações</p><p>missionárias evangelistas fundamentalistas como a Missão Novas Tribos do</p><p>Brasil trabalham ativamente para reduzir a diversidade cultural, procurando</p><p>remotas sociedades tribais, convertendo-as à sua própria fé, e induzindo-os</p><p>a remodelação de sua sociedade de acordo com os seus princípios.</p><p>Existem várias organizações internacionais que trabalham para</p><p>proteger sociedades e culturas, incluindo a Survival International e a</p><p>UNESCO. A Declaração Universal da UNESCO sobre a Diversidade</p><p>Cultural, aprovada por 185 Estados-Membros em 2001, representa o</p><p>primeiro instrumento de definição de padrão internacional destinado a</p><p>preservar e promover a diversidade cultural e o diálogo intercultural .</p><p>Conflito</p><p>O conflito surge quando há a necessidade de escolha entre situações</p><p>que podem ser consideradas incompatíveis.</p><p>Todas as situações de conflito são antagônicas e perturbam a ação ou</p><p>a tomada de decisão por parte da pessoa ou de grupos.</p><p>Kurt Lewin define o conflito no indivíduo como "a convergência</p><p>de forças de sentidos opostos e igual intensidade, que surge quando existe</p><p>atração por duas valências positivas, mas opostas (desejo de assistir a</p><p>uma peça de teatro e a um filme exibidos no mesmo horário e em locais</p><p>diferentes); ou duas valências negativas (enfrentar uma operação ou ter o</p><p>estado de saúde agravado); ou uma positiva e outra negativa, ambas na</p><p>mesma direção (desejo de pedir aumento salarial e medo de</p><p>ser demitido por isso)".</p><p>Salvatore Maddi classifica as teorias da personalidade segundo três</p><p>modelos, um dos quais o de conflito. Esse modelo supõe que a pessoa</p><p>esteja permanentemente envolvida pelo choque de duas grandes forças</p><p>antagônicas, "que podem ser exteriores ao indivíduo (conflito</p><p>entre indivíduo e sociedade) ou intrapsíquicas (forças conflitantes do</p><p>interior do indivíduo que se dão, por exemplo, entre os impulsos de</p><p>separação, individuação e autonomia e os impulsos de integração,</p><p>comunhão e submissão)".</p><p>O conflito, no entanto, pode ter efeitos negativos como positivos, mas</p><p>em certos casos e circunstâncias, como fator motivacional da atividade</p><p>criadora.</p><p>O conflito em algumas escolas da sociologia é enxergado como o</p><p>desequilíbrio de forças do sistema social que deveria estar em repouso, isto</p><p>é, equilibrado, quanto à forças que o compõe. Segundo esta teoria, não se</p><p>enxerga mais o grupo como uma relação harmônica entre órgãos, não</p><p>suscetíveis de interferência externa.</p><p>Os conflitos, para ter uma solução pacífica, devem ter todos os meios</p><p>possíveis de negociação de controvérsias, estas, precisam ser executadas</p><p>com diplomacia, bons ofícios, arbitragem e conciliação</p><p>Sempre que se deve escolher entre duas situações incompatíveis,</p><p>sejam elas de prazer ou de perigo, instala-se um conflito.</p><p>Conflito é um antagonismo psicológico que perturba a ação ou a</p><p>tomada de decisão por parte da pessoa. Trata-se de um fenômeno</p><p>subjetivo, muitas vezes inconsciente ou de difícil percepção. De modo</p><p>geral, o indivíduo tem consciência apenas do sofrimento ou da perturbação</p><p>de comportamento, originados do conflito reprimido.</p><p>A abordagem condutista dos fenômenos psíquicos entende que a</p><p>situação de conflito é fruto da concorrência de respostas incompatíveis, ou</p><p>seja, um choque de motivos dentro do indivíduo. O prolongamento do</p><p>estado de conflito pode acarretar fadiga, fraqueza, depressão nervosa etc.</p><p>O estudo dos conflitos ajuda a compreender melhor alguns aspectos de</p><p>certos desajustes comportamentais, neuroses, psicopatias e psicoses</p><p>funcionais.</p><p>A teoria psicanalítica de Freud parte da hipótese básica do conflito</p><p>entre os impulsos de prazer e as imposições da realidade, que se</p><p>expressam pelo choque entre as forças do id, que é o substrato instintivo</p><p>da psique, e a repressão exercida pelo superego, que impõe ao</p><p>comportamento as exigências ético-sociais. Desde o início do processo de</p><p>socialização, a criança se depara com situações ambíguas, em que a</p><p>busca do prazer é coibida pelo adulto quando esse prazer é inconveniente</p><p>ou ameaçador. Assim, por exemplo, uma criança que rabisca as paredes</p><p>com a intenção de corresponder ao desejo dos pais de que aprenda a</p><p>escrever, pode ser castigada por isso. A ação do adulto é ao mesmo tempo</p><p>protetora e restritiva, incentivadora e punitiva.</p><p>É inegável a influência dos conflitos interpessoais do âmbito familiar na</p><p>formação da personalidade e na gênese dos conflitos psicológicos. De</p><p>modo geral, a terapia psicanalítica busca mostrar claramente os conflitos ao</p><p>próprio analisando, para que ele possa elaborá-los e resolvê-los.</p><p>Com uma concepção teórica diferente, Kurt Lewin define o conflito</p><p>como a convergência de forças de sentidos opostos e igual intensidade. O</p><p>conflito surge quando o indivíduo é atraído por duas valências, positivas</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 5</p><p>mas opostas (desejo de assistir a uma peça e a um filme exibidos no</p><p>mesmo horário e em locais diferentes) ou duas valências negativas</p><p>(enfrentar uma operação ou ter o estado de saúde agravado) ou uma</p><p>positiva e outra negativa, ambas na mesma direção (desejo de pedir</p><p>aumento e medo de ser despedido por isso).</p><p>A obra de Salvatore Maddi classifica as teorias da personalidade</p><p>segundo três modelos, um dos quais o de conflito. Esse modelo supõe que</p><p>a pessoa esteja permanentemente envolvida pelo choque de duas grandes</p><p>forças antagônicas, que podem ser exteriores ao indivíduo (conflito entre</p><p>indivíduo e sociedade) ou intrapsíquicas (forças conflitantes do interior do</p><p>indivíduo que se dão, por exemplo, entre os impulsos de separação,</p><p>individuação e autonomia e os impulsos de integração, comunhão e</p><p>submissão).</p><p>Apesar das diferentes abordagens do conceito de conflito, todas elas</p><p>reconhecem sua influência na origem dos desajustes psicológicos e até de</p><p>processos perturbadores mais graves, como as neuroses e psicoses. O</p><p>conflito, no entanto, pode ter efeitos positivos, em certos casos e</p><p>circunstâncias, como fator motivacional da atividade criadora.</p><p>Vida em Sociedade</p><p>Todos nós precisamos de alguém.</p><p>Nos desenvolvemos nos integrando com outras pessoas, dependemos</p><p>uns dos outros direta ou indiretamente. Quando somos crianças depende-</p><p>mos totalmente dos nossos pais, ao crescermos aprendemos a fazer coisas</p><p>sozinhos, mas precisamos deles para nos sustentar. Mesmo quando saí-</p><p>mos de casa e temos nossa profissão dependemos do nosso emprego, e</p><p>mesmo se tivermos um negócio próprio dependemos dos clientes, ou seja,</p><p>somos todos dependentes.</p><p>Viver num círculo social não é uma escolha apenas, mas sim uma ne-</p><p>cessidade, mesmo que uma pessoa vá morar sozinha em outro planeta</p><p>com todas as condições de sobrevivência, logo se sentiria solitário, sentiria</p><p>falta de afeto e calor humano e certamente ficaria depressivo. Temos</p><p>necessidade de interação com os outros. Nossa constituição física e psico-</p><p>lógica não permite que vivamos sós.</p><p>A sociedade é uma coisa muito antiga, desde os primórdios, o homens</p><p>das cavernas já se organizavam, com tarefas estabelecidas para cada um.</p><p>Civilizações antiquíssimas tinham seu próprio jeito de organizar sua vida</p><p>em comum, com sua regras e leis. E até mesmo os animais têm hierarquias</p><p>que usam para organizar seu bando. A vida em sociedade é organizada de</p><p>acordo com os valores que construímos e se modifica de acordo com o</p><p>tempo.</p><p>A Comunicação</p><p>Falar é bom, mas ouvir é melhor.</p><p>Se comunicar é fazer-se entender por quem ouve. Há certas pessoas</p><p>que tem muita facilidade com a comunicação, são articuladas,</p><p>da ONU e pelas ONGs que</p><p>participam do Fórum Global. Os EUA, país que detém a maior indústria</p><p>farmacêutica do planeta, recusam-se a assinar o documento, o que só será</p><p>feito em julho de 1993, pelo presidente Clinton.</p><p>Degradação Ambiental</p><p>A superfície da Terra está em constante processo de transformação e, ao</p><p>longo de seus 4,5 bilhões de anos, o planeta registra drásticas alterações</p><p>ambientais . Há milhões de anos, a área do atual deserto do Saara, por</p><p>exemplo, era ocupada por uma grande floresta e os terrenos que hoje</p><p>abrigam a floresta amazônica pertenciam ao fundo do mar. As rupturas na</p><p>crosta terrestre e a deriva dos continentes mudam a posição destes ao</p><p>longo de milênios . Em conseqüência, seus climas passam por grandes</p><p>transformações. As quatro glaciações já registradas – quando as calotas</p><p>polares avançam sobre as regiões temperadas – fazem a temperatura</p><p>média do planeta cair vários graus. Essas mudanças, no entanto, são</p><p>provocadas por fenômenos geológicos e climáticos e podem ser medidas</p><p>em milhões e até centenas de milhões de anos. Com o surgimento do</p><p>homem na face da Terra, o ritmo de mudanças acelera-se.</p><p>AGENTES DO DESEQUILÍBRIO</p><p>A escalada do progresso técnico humano pode ser medida pelo seu</p><p>poder de controlar e transformar a natureza. Quanto mais rápido o desen-</p><p>volvimento tecnológico, maior o ritmo de alterações provocadas no meio</p><p>ambiente. Cada nova fonte de energia dominada pelo homem produz</p><p>determinado tipo de desequilíbrio ecológico e de poluição. A invenção da</p><p>máquina a vapor, por exemplo, aumenta a procura pelo carvão e acelera</p><p>o ritmo de desmatamento. A destilação do petróleo multiplica a emissão</p><p>de gás carbônico e outros gases na atmosfera. Com a petroquímica,</p><p>surgem novas matérias-primas e substâncias não-biodegradáveis, como</p><p>alguns plásticos.</p><p>Crescimento populacional – O aumento da população mundial ao longo</p><p>da história exige áreas cada vez maiores para a produção de alimentos e</p><p>técnicas de cultivo que aumentem a produtividade da terra. Florestas</p><p>cedem lugar a lavouras e criações, espécies animais e vegetais são</p><p>domesticadas, muitas extintas e outras, ao perderem seus predadores</p><p>naturais, multiplicam-se aceleradamente. Produtos químicos não-</p><p>biodegradáveis, usados para aumentar a produtividade e evitar predado-</p><p>res nas lavouras, matam microrganismos decompositores, insetos e aves,</p><p>reduzem a fertilidade da terra, poluem os rios e águas subterrâneas e</p><p>contaminam os alimentos. A urbanização multiplica esses fatores de</p><p>desequilíbrio. A grande cidade usa os recursos naturais em escala con-</p><p>centrada, quebra as cadeias naturais de reprodução desses recursos e</p><p>reduz a capacidade da natureza de construir novas situações de equilí-</p><p>brio.</p><p>Economia do desperdício – O estilo de desenvolvimento econômico atual</p><p>estimula o desperdício. Automóveis, eletrodomésticos, roupas e demais</p><p>utilidades são planejados para durar pouco. O apelo ao consumo multipli-</p><p>ca a extração de recursos naturais: embalagens sofisticadas e produtos</p><p>descartáveis não-recicláveis nem biodegradáveis aumentam a quantidade</p><p>de lixo no meio ambiente. A diferença de riqueza entre as nações contri-</p><p>bui para o desequilíbrio ambiental. Nos países pobres, o ritmo de cresci-</p><p>mento demográfico e de urbanização não é acompanhado pela expansão</p><p>da infra-estrutura, principalmente da rede de saneamento básico. Uma</p><p>boa parcela dos dejetos humanos e do lixo urbano e industrial é lançada</p><p>sem tratamento na atmosfera, nas águas ou no solo. A necessidade de</p><p>aumentar as exportações para sustentar o desenvolvimento interno</p><p>estimula tanto a extração dos recursos minerais como a expansão da</p><p>agricultura sobre novas áreas. Cresce o desmatamento e a superexplora-</p><p>ção da terra.</p><p>Lixo – Acúmulo de detritos domésticos e industriais não-biodegradáveis</p><p>na atmosfera, no solo, subsolo e nas águas continentais e marítimas</p><p>provoca danos ao meio ambiente e doenças nos seres humanos. As</p><p>substâncias não-biodegradáveis estão presentes em plásticos, produtos</p><p>de limpeza, tintas e solventes, pesticidas e componentes de produtos</p><p>eletroeletrônicos. As fraldas descartáveis demoram mais de cinqüenta</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 49</p><p>anos para se decompor, e os plásticos levam de quatro a cinco séculos.</p><p>Ao longo do tempo, os mares, oceanos e manguezais vêm servindo de</p><p>depósito para esses resíduos.</p><p>Resíduos radiativos – Entre todas as formas de lixo, os resíduos radiati-</p><p>vos são os mais perigosos. Substâncias radiativas são usadas como</p><p>combustível em usinas atômicas de geração de energia elétrica, em</p><p>motores de submarinos nucleares e em equipamentos médico-</p><p>hospitalares. Mesmo depois de esgotarem sua capacidade como combus-</p><p>tível, não podem ser destruídas e permanecem em atividade durante</p><p>milhares e até milhões de anos. Despejos no mar e na atmosfera são</p><p>proibidos desde 1983, mas até hoje não existem formas absolutamente</p><p>seguras de armazenar essas substâncias. As mais recomendadas são</p><p>tambores ou recipientes impermeáveis de concreto, à prova de radiação,</p><p>que devem ser enterrados em áreas geologicamente estáveis. Essas</p><p>precauções, no entanto, nem sempre são cumpridas e os vazamentos</p><p>são freqüentes. Em contato com o meio ambiente, as substâncias radiati-</p><p>vas interferem diretamente nos átomos e moléculas que formam os</p><p>tecidos vivos, provocam alterações genéticas e câncer.</p><p>Ameaça nuclear – Atualmente existem mais de quatrocentas usinas</p><p>nucleares em operação no mundo – a maioria no Reino Unido, EUA,</p><p>França e Leste europeu. Vazamentos ou explosões nos reatores por</p><p>falhas em seus sistemas de segurança provocam graves acidentes nu-</p><p>cleares. O primeiro deles, na usina russa de Tcheliabínski, em setembro</p><p>de 1957, contamina cerca de 270 mil pessoas. O mais grave, em Cher-</p><p>nobyl , na Ucrânia, em 1986, deixa mais de trinta mortos, centenas de</p><p>feridos e forma uma nuvem radiativa que se espalha por toda a Europa. O</p><p>número de pessoas contaminadas é incalculável. No Brasil, um vazamen-</p><p>to na Usina de Angra I, no Rio de Janeiro, contamina dois técnicos. Mas o</p><p>pior acidente com substâncias radiativas registrado no país ocorre em</p><p>Goiânia , em 1987: o Instituto Goiano de Radioterapia abandona uma</p><p>cápsula com isótopo de césio-137, usada em equipamento radiológico.</p><p>Encontrada e aberta por sucateiros, em pouco tempo provoca a morte de</p><p>quatro pessoas e a contaminação de duzentas. Submarinos nucleares</p><p>afundados durante a 2a Guerra Mundial também constituem grave amea-</p><p>ça. O mar Báltico é uma das regiões do planeta que mais concentram</p><p>esse tipo de sucata.</p><p>Questões Ambientais no Brasil</p><p>Reflexões</p><p>Ecologia no Brasil</p><p>Com dimensões continentais e 70% da população concentrados em áreas</p><p>urbanas, o Brasil é o país em desenvolvimento que mais tem atraído a</p><p>atenção internacional. A poluição e o desmatamento ameaçam seus diver-</p><p>sificados ecossistemas, inclusive o de maior biodiversidade do planeta, o</p><p>amazônico.</p><p>O agravamento dos problemas ambientais no país está ligado à industriali-</p><p>zação, iniciada na década de 50, ao modelo agrícola monocultor e exporta-</p><p>dor instituído desde os anos 70, à urbanização acelerada e à desigualdade</p><p>socioeconômica. Nas grandes cidades, dejetos humanos e resíduos indus-</p><p>triais saturam a deficiente rede de saneamento básico e envenenam águas</p><p>e solos. Gases liberados por veículos e fábricas, além das queimadas no</p><p>interior, poluem a atmosfera.</p><p>Poluição do ar</p><p>As emissões de dióxido de enxofre, monóxido de carbono, óxido e dióxido</p><p>de nitrogênio e de material particulado, como poeira, fumaça e fuligem,</p><p>crescem em todas as aglomerações urbanas e industriais do país. A situa-</p><p>ção é mais grave em grandes centros, como São Paulo, Rio de Janeiro e</p><p>Belo Horizonte. Dados da Cetesb (Companhia Estadual de Tecnologia e</p><p>Saneamento Básico), de 1991, mostram que as indústrias da Grande São</p><p>Paulo lançam por ano no ar cerca de 305 mil toneladas de material particu-</p><p>lado e 56 mil toneladas</p><p>falam o</p><p>necessário e conseguem manter a atenção para si. Já outras pessoas têm</p><p>mais dificuldade, não conseguem expressar o que pensam ou falam demais</p><p>cansando que o ouve.</p><p>Devemos ponderam a maneira que falamos certos assuntos se qui-</p><p>sermos ser bem compreendidos. Se falamos de um modo grosseiro o</p><p>ouvinte ficará na defensiva e o dialogo não será feito como deveria.</p><p>Há pessoas que não se dão conta que certos assuntos não devem ser</p><p>falados em certos lugares e que não interessam a algumas pessoas. Quem</p><p>fala o que não deve acaba sendo evitado e quem fala de mais acaba sendo</p><p>cansativo e causa a dispersão do ouvinte no meio da conversa. Para saber</p><p>se estamos sendo compreendidos e a conversa está sendo agradável,</p><p>devemos prestar atenção no ouvinte, conforme a sua reação podemos</p><p>dosar o tom da conversa.</p><p>Por outro lado também, é necessário saber ouvir, é muito desagradável</p><p>tentar conversar com uma pessoa que não te deixa falar, acabamos ficando</p><p>desanimados de conversar com ela.</p><p>Para conhecermos as pessoas e aprendermos sobre elas é preciso</p><p>prestar atenção no que elas dizem, pois grande parte do que aprendemos</p><p>vem pela audição. Imagine quanto conhecimento desperdiçados não escu-</p><p>tando. As pessoas têm muito a nos ensinar, não há pessoa tão pequena ou</p><p>insignificante que não possa nos ensinar algo. Até as crianças nos ensinam</p><p>muito. Podemos aprender com a experiência dos outros ouvindo suas</p><p>histórias. O interesse pelo outro ser humano é uma qualidade muito enri-</p><p>quecedora.</p><p>A comunicação é uma troca constante de informação que não é perfei-</p><p>ta, sempre corremos o risco de sermos mal interpretados. Muitas vezes</p><p>tentamos expressar algo, mas não achamos palavras. Os pensamentos</p><p>que temos em forma de voz conseguimos transmitir com facilidade, mas os</p><p>pensamentos abstratos não. Isso acontece porque esses dois tipos de</p><p>pensamentos se encontram em lugares diferentes do cérebro, o pensamen-</p><p>to em forma de voz se chama dialético e o pensamento abstrato se chama</p><p>antidialético. Quando tentamos expressar um pensamento abstrato como</p><p>um sentimento por exemplo, temos dificuldade, pois não conseguimos</p><p>desenhá-lo em nossa mente. É como quando temos um sonho, lembramos</p><p>dele, mas não conseguimos contar com exatidão o que sonhamos.</p><p>A dificuldade de expressão pode ser confundida ainda que injustamen-</p><p>te com incompetência. Imagine-se criando um projeto, se dedicando ao</p><p>máximo a ele, perdendo horas para finalizá-lo, mas no momento de apre-</p><p>sentá-lo em uma reunião não é capaz de dizer como ele funciona. Mesmo</p><p>com todo o seu comprometimento e estudo na construção desse projeto vai</p><p>parecer que você não sabe nada sobre ele. É nesse e em outros casos que</p><p>a má comunicação compromete o desempenho de uma pessoa. O segredo</p><p>nesses casos é manter a calma e confiar em si mesmo. Se você se dedicou</p><p>tanto ao projeto e sabe responder qualquer pergunta sobre ele não há o</p><p>que temer. Se o nervosismo for por conta das pessoas ao redor, saiba que</p><p>elas estarão interessadas pelo que você fez, não há motivos para ficar na</p><p>defensiva, respire e fale pausadamente.</p><p>Quem se comunica bem transmite confiança nas pessoas e essa é</p><p>uma arma poderosa no mundo de hoje, não só no mercado de trabalho,</p><p>mas na vida também, saber se expressar é sem duvida um marketing</p><p>pessoal.</p><p>A Tolerância</p><p>Editora Tradição .</p><p>Atualidades 6</p><p>“</p><p>Precisamos rever nossos conceitos.</p><p>Não existe verdade absoluta, todos nós temos nossos conceitos sobre</p><p>as coisas, mas quantas vezes nos vimos errados sobre um determinado</p><p>assunto pelo qual tínhamos uma opinião formada e dada como certa?</p><p>Quantas vezes fomos obrigados a mudar de opinião pelas circunstâncias?</p><p>Quantas vezes rejeitamos um alimento por achar que fosse ruim e depois</p><p>que experimentamos vimos que era bom? Formamos um conceito sobre as</p><p>coisas sem saber do que realmente se trata. Fechamos a nossa mente</p><p>porque achamos que estamos sempre certos.</p><p>Quando a mente esta fechada para coisas novas ela não evolui, o tem-</p><p>po passa e a pessoa continua do mesmo jeito. A mente que evolui é aquela</p><p>que questiona se aquela opinião está certa ou não. Quando temos uma</p><p>mente fechada envelhecemos, ainda que sejamos jovens. Temos a certeza</p><p>de que o que pensamos é o certo e ponto final, e que qualquer coisa dife-</p><p>rente disso não será bem recebida. Uma pessoa com a mente fechada é</p><p>cheia de pré conceitos e leis próprias. São críticas dos outros e nunca de si</p><p>mesmos.</p><p>A constante reciclagem das idéias faz a mente ficar ativa e pronta para</p><p>aprender mais, para se expandir. Isso não significa que devemos nos</p><p>deixar levar por modismos ou qualquer ideologia que apareça, mas sim</p><p>questionar os nossos próprios conceitos.</p><p>As coisas mudam numa velocidade espantosa, se não tivermos com-</p><p>placência, em alguns anos nos sentiremos como pessoas de séculos atrás</p><p>que vieram parar nessa época por meio de uma máquina do tempo.</p><p>Uma mente complacente se dá muito melhor com as outras pessoas</p><p>que estão em constante aprendizado e constante dúvida. Não há limites</p><p>para a evolução mental e nem idade para parar de aprender.</p><p>http://inteligencia-social.info/</p><p>Movimento cultural</p><p>Um movimento cultural é uma mudança no modo como diferentes</p><p>disciplinas (artísticas, científicas, filosóficas, etc.) encaram o seu trabalho.</p><p>É, em grande medida, uma distinção artificial, uma vez que raramente</p><p>existe uma quebra radical, deliberada e consciente, antes as mudanças se</p><p>processam lentamente e quase de forma inconsciente.</p><p>Legalização de drogas</p><p>A legalização de drogas, no que se refere às substancias recreativas,</p><p>é uma estratégia de reforma da política antidrogas proposta por alguns</p><p>juristas e ativistas políticos. O fundamento é enfraquecer a rede de tráfico e</p><p>seu poder de aliciamento de novos usuários, supondo-se ser mais fácil lidar</p><p>com os danos à saúde, distúrbios psiquiátricos e psicológicos causados</p><p>pelo consumo do que empregar forças policiais em luta armada a quadri-</p><p>lhas de traficantes enriquecidos pelo comércio ilegal e apoiados por funcio-</p><p>nários de delegacias e do sistema prisional ou por representantes políticos</p><p>corruptos. É um tema extremamente complexo e polêmico, inclusive a</p><p>depender do modo como for feito pode-se ser enquadrado na legislação de</p><p>proselitismo e incentivo ao consumo de drogas (Induzir, instigar ou auxiliar</p><p>alguém ao uso indevido de droga) segundo legislação brasileira.</p><p>Na legislação internacional existem iniciativas à tal prática na Holanda,</p><p>Canadá, Argentina, Chile, Inglaterra e Portugal. Observa-se que a política</p><p>de redução de danos nesses países vem acompanhada de um esquema</p><p>para tratar o usuário crônico por meio de um sistema de saúde.</p><p>O termo "legalização" pode confundir, já que legalizar não se trata de</p><p>liberar o uso indiscriminado de drogas, mas sim de regulamentar sua pro-</p><p>dução e/ou distribuição. Nenhum dos países supracitados tem o uso libera-</p><p>do das drogas hoje ilegais no território brasileiro, estando as substâncias</p><p>"legalizadas" sujeitas a um rígido controle que vem muitas vezes acompa-</p><p>nhado de uma política de redução da oferta. As ações de prevenção come-</p><p>çam com o diálogo dentro da família e a decisão sempre será por conta do</p><p>indivíduo.</p><p>O primeiro é que, a legalização das drogas, e, consequentemente, a</p><p>legalização do mercado de drogas, levaria a desmobilização do crime</p><p>organizado e da rede associada ao tráfico. Estima-se que grupos crimino-</p><p>sos perderiam sua fonte de receita e sua capacidade de corromper autori-</p><p>dades e de aliciar jovens e novos usuários. Serguei Duz</p><p>Legalização de drogas cria novos problemas</p><p>Foto: splifr/flickr/com</p><p>A recente legalização da maconha no Uruguai originou novas discus-</p><p>sões sobre a racionalidade dessa decisão que, na opinião de peritos, não</p><p>levará a nada de bom.</p><p>Na realidade, a legalização de drogas leves no Uruguai pode ser quali-</p><p>ficada como acontecimento</p><p>do século. Pela primeira vez, o Estado autoriza</p><p>e sujeita a seu controle todo o setor, das importações para as exportações,</p><p>sem falar da semeadura, cultivo, colheita, transformação, compra, armaze-</p><p>namento, venda e propagação. Mas é evidente que o Uruguai não é o</p><p>primeiro sujeito de direito internacional em que as ideias libertárias encon-</p><p>traram apoio por parte de círculos de poder. Podemos falar com certeza de</p><p>uma nova tendência mundial, destaca o chefe da Seção da Ásia Média e</p><p>Central do Instituto dos Países da CEI, Andrei Grozin:</p><p>Aquilo que</p><p>”</p><p>acontece hoje no mundo pode ser considerado como lega-</p><p>lização de drogas leves, da maconha, em primeiro lugar. Por um lado, este</p><p>é um acontecimento bastante extraordinário, pelo menos para a UE, porque</p><p>os burocratas europeus tentavam até recentemente impedir esta ação</p><p>liberal. Mas agora o pêndulo moveu-se para outra parte. Atualmente, a</p><p>legalização de drogas leves é uma certa tendência. Por enquanto é impos-</p><p>sívelprever quanto tempo durar esta situação. Não diria que a legalização de drogas</p><p>leves é uma tendência de longo prazo. Mas avaliando as deci-</p><p>sões tomadas agora por alguns governos, a maconha equipara-se ao</p><p>tabaco e álcool.</p><p>É só à primeira vista que a tendência definida por peritos seja inofensi-</p><p>va. As drogas leves, tal como as drogas em geral, é o caminho mais curto</p><p>ao inferno de onde não há saída, considera o presidente da Associação de</p><p>Saúde Pública da Rússia, professor e doutor em Medicina, Andrei Demin:</p><p>Uma política absolutamente justa é aplicada pelos países que proíbem</p><p>as drogas e perseguem seus produtores e vendedores. Mas o número de</p><p>consumidores é enorme. Esta é uma doença perpétua: mesmo se uma</p><p>pessoa alcançar uma fase de remissão, ela deverá ser controlada até o fim</p><p>dos seus dias. Isso, infelizmente, não é conhecido por todos. Mesmo as</p><p>drogas legais, como, por exemplo, as bebidas alcoólicas e cigarros, são</p><p>http://inteligencia-social.info/</p><p>http://inteligencia-social.info/</p><p>Atualidades 7</p><p>”</p><p>capazes de alterar a mentalidade humana. No fundo, esta é uma doença</p><p>mental incurável. Infelizmente, a ciência não pode propor-nos algo hoje em</p><p>dia. A eficácia de ações de reabilitação constitui 3%, não ultrapassando os</p><p>limites de erro estatístico.</p><p>Se enfrentarmos o problema da legalização de drogas leves (tal como</p><p>outros problemas discutíveis) a partir da posição cui prodest, os consumido-</p><p>res não são beneficiários. Na opinião de Andrei Grozin:</p><p>A legalização de drogas leves é vantajosa para seus produtores. Atu-</p><p>almente, o mercado de drogas é superlotado devido à situação no Afega-</p><p>nistão. Sua quantidade cresceu em flecha. São tantas que o mercado em</p><p>que se vendiam não é capaz de absorve-las. Mas se o mercado legal ou</p><p>semilegal de maconha ou de haxixe irá crescer, o volume de vendas au-</p><p>mentará também. Tal pode ser vantajoso também para os setores da</p><p>economia mundial, que são auxiliares para a produção, o tráfico e o con-</p><p>sumo de drogas. Em outras palavras, a legalização de drogas leves não</p><p>apenas facilitará a vida a narcobarões, mas também a algumas companhi-</p><p>as e estruturas financeiras que vivem à conta desse negócio, encontrando-</p><p>se ao mesmo tempo na esfera da economia absolutamente legal.</p><p>Especialistas afirmam que os mitos que justificam a liberalização da le-</p><p>gislação, não resistem a quaisquer críticas. Por exemplo, a legalização de</p><p>drogas não reduz o nível da criminalidade ligada ao seu consumo, não</p><p>erradica o mercado paralelo e não enfraquece a atividade do crime organi-</p><p>zado, assim como não impede a propagação da AIDS. Devemos constatar</p><p>que a legalização não acaba com antigos problemas e cria novos. Se no</p><p>governo do Uruguai prevaleceu um ponto de vista diferente, tal aconteceu</p><p>contrariamente aos fatos evidentes.</p><p>Legalização de drogas e a saúde pública</p><p>Drugs legalization and public health -Ronaldo Laranjeira</p><p>RESUMO</p><p>O objetivo deste artigo para debate é: (1) avaliar a racionalidade e a</p><p>oportunidade desse debate; (2) tentar estabelecer pontes com drogas</p><p>lícitas; (3) avaliar os dados disponíveis sobre o efeito da legalização de</p><p>uma droga; (4) propor uma alternativa de política de drogas baseada em</p><p>objetivos claros a serem alcançados; e (5) descrever como a Suécia está</p><p>lidando com o tema de restrição às drogas como cuidado social. Metodolo-</p><p>gicamente, o texto constitui uma síntese das leituras e elaborações do</p><p>próprio autor, colocada de forma a provocar discussão.</p><p>Conclui-se que quatro aspectos precisam ser levados em conta quando</p><p>se analisa a política de drogas de um país: (1) fatores externos influenciam</p><p>a política: tratados internacionais, políticas de saúde e de assistência</p><p>social, direitos individuais, autoridade e autonomia dos médicos e outros</p><p>profissionais; (2) os objetivos estabelecidos influenciam as políticas formais</p><p>e sua implementação; (3) a influência simbólica que transcende à imple-</p><p>mentação - pessoas influentes fazem declarações que atingem fortemente</p><p>a legitimidade e a adesão às ações; (4) as políticas formais e sua imple-</p><p>mentação recebem influência direta dos danos percebidos socialmente pelo</p><p>uso de drogas, o que pode ser independente do nível real do seu uso em</p><p>determinada sociedade.</p><p>Introdução</p><p>A intensidade do debate sobre legalização de drogas no Brasil mostra</p><p>que o assunto "drogas" produz efeitos nas pessoas, que se sentem levadas</p><p>a ter muitas certezas e a ficar de um lado ou de outro da questão. Mostra</p><p>também que o debate é profundamente ideológico e que após ouvirmos o</p><p>lado favorável à legalização e o lado da proibição pura e simples, não</p><p>ficamos mais esclarecidos a respeito da melhor política a ser seguida.</p><p>Quando somente um dos aspectos de uma política de drogas, como a que</p><p>discute apenas o status legal de uma delas, se torna o assunto principal do</p><p>debate, é como se o rabo estivesse abanando o cachorro e não o contrário.</p><p>O objetivo deste artigo para debate é: (1) avaliar a racionalidade e a</p><p>oportunidade desse debate; (2) tentar estabelecer pontes com drogas</p><p>lícitas; (3) avaliar os dados disponíveis sobre o efeito da legalização; (4)</p><p>propor uma alternativa de política de drogas que seja baseada em objetivos</p><p>claros a serem alcançados; (5) descrever o exemplo da Suécia: restrição às</p><p>drogas como cuidado social; e (6) algumas conclusões.</p><p>Racionalidade da legalização de uma droga</p><p>Com a intensidade que o debate sobre as drogas gera, poderíamos</p><p>imaginar que a sociedade sempre tenha reagido de forma eficiente ao</p><p>tema, ao longo do tempo. Entretanto, historicamente, a sociedade não tem</p><p>avaliado muito bem os riscos do uso de uma nova droga ou uma nova</p><p>forma de uso de uma velha droga. Por exemplo, a partir do começo do</p><p>século XX, inovações tecnológicas tornaram a produção de cigarros mais</p><p>fácil, tornando a absorção da nicotina muito mais eficaz do que ocorria</p><p>anteriormente. Além disso, o preço do cigarro caiu dramaticamente. Pro-</p><p>gressivamente, houve aumento no número de fumantes em todo o mundo</p><p>e, por muitos anos, os danos físicos associados ao cigarro não foram</p><p>identificados. Muitos governos chegaram a estimular o consumo, pelos</p><p>ganhos com impostos. Levou-se mais de quarenta anos para que os países</p><p>desenvolvidos identificassem os males causados pelo fumo e outros vinte</p><p>anos para que implementassem políticas de reversão da situação. Essa</p><p>lentidão em reconhecer danos em algumas situações sociais faz que mu-</p><p>danças no status de qualquer droga, e principalmente quando um aumento</p><p>de consumo é uma das possibilidades, sejam encaradas com cuidado.</p><p>Um dos motivos que dificulta a ação da sociedade é o excesso de retó-</p><p>rica sobre o problema: cada droga produz sua própria retórica. Por exem-</p><p>plo, no caso recente da maconha, no Brasil tem sido comum utilizar-se uma</p><p>retórica na qual o uso da substância estaria relacionado com a liberdade e</p><p>os direitos do cidadão. Já o cigarro inspira outro tipo de retórica,</p><p>que busca</p><p>estimular uma ação estatal para controlar o abuso das companhias produ-</p><p>toras. A retórica pode mudar de país para país, de acordo com o momento</p><p>histórico.</p><p>Tanto a intensidade do debate quanto o clima ideológico sobre as dro-</p><p>gas advém do fato de quase não haver informação objetiva para avaliar as</p><p>políticas que tratam da questão. Nesse sentido, é importante ter alguns</p><p>referenciais teóricos que ajudem na tomada de decisões. A Figura 1 mostra</p><p>os três modelos que, de forma explícita ou não, acabam prevalecendo. Os</p><p>que defendem a proibição total do uso de drogas acreditam que a curva a-b</p><p>representa o controle ideal, significando que a proibição total é a melhor</p><p>opção, pois não causa nenhum dano social. Ao contrário, os que estão do</p><p>lado b da curva, ou seja, da legalização das drogas, consideram que, com a</p><p>proibição, o dano social aumenta. O argumento geralmente usado é a</p><p>histórica Lei Seca americana, que produziu aumento considerável da vio-</p><p>lência promovida pelo crime organizado. Muito tem sido escrito sobre este</p><p>período e os autores, em geral, enfatizam seu custo social. No entanto, do</p><p>ponto de vista do consumo de álcool, a lei foi um sucesso, pois diminuiu</p><p>consideravelmente o consumo global. Entretanto, houve aumento do con-</p><p>sumo de álcool de péssima qualidade e um número considerável de pesso-</p><p>as teve problemas sérios de saúde. De qualquer forma, uma simples análi-</p><p>se de custo-benefício mostra que essa foi uma experiência que nenhum</p><p>país ocidental quer repetir, embora os islâmicos ainda adotem tal controle</p><p>rígido.</p><p>Há pessoas que defendem a legalização total das drogas. A curva c-d</p><p>ilustra este modelo, em que a proibição total levaria a elevado nível de</p><p>dano, principalmente pelo crime que estaria associado com seu uso ilegal,</p><p>maior corrupção social, nível mais impuro da substância no mercado negro</p><p>e dificuldade das pessoas buscarem ajuda para se tratar da adicção. O</p><p>argumento é que a proibição total causa mais dano do que a legalização</p><p>total. A grande fraqueza desse tipo de raciocínio é que não leva em consi-</p><p>deração que a legalização produz maior oferta e, portanto, expõe um núme-</p><p>ro maior de pessoas ao consumo e a suas complicações. Esses defensores</p><p>enfatizam em demasia o comportamento individual e não consideram o</p><p>nível agregado do dano. Por exemplo, se legalizássemos completamente a</p><p>maconha, uma das possibilidades seria maior consumo global da droga e,</p><p>possivelmente, maior consumo na população mais jovem, pois é isto que</p><p>ocorre com o álcool e o cigarro. Portanto, com a legalização, teríamos</p><p>talvez menor número de crimes violentos, mas a população mais jovem</p><p>teria maiores complicações na escola e até poderia aumentar um tipo de</p><p>criminalidade menos violenta por parte dos usuários a fim de conseguirem</p><p>dinheiro para consumo.</p><p>O terceiro modelo, intermediário, baseia-se na curva c-e, que tem re-</p><p>cebido grande suporte em termos de pesquisa. Nessa curva, podemos</p><p>perceber que a proibição total de uma droga produz dano e, à medida que</p><p>ela progride na escala de legalidade, aumentam sua disponibilidade social,</p><p>o número de usuários e o nível global do dano. As drogas lícitas oferecem</p><p>Atualidades 8</p><p>Editora Tradição .</p><p>evidências para esse modelo. No caso do álcool, centenas de pesquisas</p><p>mostram que quanto menor o preço e maior a disponibilidade, maior é o</p><p>número de pessoas com problemas relacionados ao uso. A consequência</p><p>de adotar a curva c-e como modelo de política de drogas é, em primeiro</p><p>lugar, diminuir o consumo global de todas as drogas. A estratégia para</p><p>atingir essa diminuição pode variar de droga para droga e depende do</p><p>momento histórico.</p><p>A tendência mundial é, por exemplo, tornar progressivamente o álcool</p><p>e o fumo mais próximos da proibição ou de controles sociais rígidos, atra-</p><p>vés de leis e restrições ao uso. No caso da maconha, não existe uma</p><p>tendência mundial nítida. Alguns países adotam penas leves ou um grau</p><p>maior de tolerância com os usuários, mas em nenhum lugar existe a legali-</p><p>zação aberta. No caso das drogas mais pesadas, como heroína e cocaína,</p><p>a tendência é marcante em relação à proibição. O fato de existir políticas</p><p>diferentes para drogas diferentes é muitas vezes apontado como hipocrisia</p><p>social. Na realidade, essa deveria ser uma atitude pragmática numa socie-</p><p>dade que busque responder ao problema com foco em resultados e não em</p><p>retórica e debate ideológico. Tal proposta deveria ser julgada pelo seu</p><p>efeito na diminuição do custo social de todas as drogas e não somente de</p><p>uma droga específica.</p><p>As drogas lícitas podem nos ensinar algo?</p><p>O álcool é a substância com maior potencial para ensinar como estabe-</p><p>lecer uma verdadeira política de drogas baseada em resultados. Em 2003,</p><p>a Organização Mundial de Saúde produziu um livro1 em que os maiores</p><p>especialistas do mundo propuseram medidas a ser implementadas em</p><p>todos os países, buscando diminuir o custo social relacionado a essa</p><p>substância. A conclusão geral é que todos os países deveriam diminuir o</p><p>consumo global de álcool. A Figura 2 ilustra o modelo a ser seguido. O</p><p>consumo de álcool de qualquer população segue uma curva normal, que</p><p>nesta figura seria a curva X onde, para melhor visualização, foi excluída a</p><p>população que não bebe. Temos, portanto, uma parte da população que</p><p>bebe um pouco, grande parte que bebe dentro da média e uma parte de</p><p>bebedores pesados. Inicialmente, se pensa que o foco seria diminuir o</p><p>número de bebedores pesados, mantendo-se a média de ingestão da</p><p>população. No entanto, essa diretriz poderia, quando muito, produzir um</p><p>pequeno efeito quando implementada, como mostra a curva Y. Quando as</p><p>orientações são no sentido de diminuir o consumo global, como na curva Z,</p><p>decrescendo a média de consumo populacional, existe um impacto muito</p><p>maior, pois um número menor de pessoas beberá, um número menor ficará</p><p>dependente e, portanto, haverá menor custo social global. Esse efeito tem</p><p>sido chamado do "paradoxo preventivo", pois se orienta para diminuir</p><p>substancialmente a quantidade de pessoas dependentes e o consumo</p><p>global de toda a população.</p><p>São várias as diretrizes políticas que visam a diminuir o consumo glo-</p><p>bal de álcool:</p><p>(1) Políticas de preço e taxação são ações com maior impacto social</p><p>imediato. Estudos mostram que o preço do álcool segue o padrão de qual-</p><p>quer mercadoria e, quanto maior, menor o consumo. Existe uma elasticida-</p><p>de no consumo, que no caso do álcool é diferente de outras mercadorias.</p><p>Mas para cada aumento de 100% do preço, existe cerca de 30% de queda</p><p>de consumo global. Mesmo os bebedores pesados diminuem o consumo</p><p>nesse caso. Este tipo de política pode ser muito útil no Brasil, onde o preço</p><p>do álcool é um dos mais baixos do mundo ocidental, cerca de U$ 1,5 por</p><p>um litro de pinga.</p><p>(2) Políticas que diminuam o acesso físico ao álcool. Está demonstrado</p><p>que, quanto menor o número de locais vendendo álcool, maior o respeito</p><p>ao limite de idade. Maior a consistência das leis do beber e dirigir, menor é</p><p>o consumo global de uma população.</p><p>(3) Políticas de proibição da propaganda nos meios de comunicação. O</p><p>objetivo da propaganda do álcool não é só buscar preferência por determi-</p><p>nada bebida, mas criar um clima social de tolerância e estímulo ao álcool,</p><p>visando nitidamente a aumentar o consumo global. A proibição da propa-</p><p>ganda tem sido consistentemente mostrada em pesquisas como fator</p><p>importante na diminuição do consumo.</p><p>(4) Campanhas na mídia e nas escolas visando a informar melhor os</p><p>efeitos de álcool. O efeito das campanhas quando feitas desacompanhadas</p><p>das demais diretrizes é muito pequeno. De nada adianta a professora</p><p>informar ao aluno sobre álcool e outras drogas, se a televisão continua</p><p>mostrando a alegria e a descontração associada à bebida e, sobretudo,</p><p>essa droga transformada em "paixão nacional".</p><p>Em resumo, o álcool apresenta as formas de controles</p><p>sociais mais es-</p><p>tudados e de políticas eficazes para diminuir seu uso global. Os princípios</p><p>citados podem muito bem ser usados em relação às demais drogas, visan-</p><p>do a diminuir o acesso e o consumo.</p><p>As leis influenciam o consumo das drogas?</p><p>Uma pergunta importante é: se os controles sociais são efetivos, por</p><p>que tornar ilegais somente algumas das drogas? Como já salientado,</p><p>estratégias diferentes deveriam ser usadas para o controle dos vários tipos</p><p>de drogas e as evidências mostram que muito pouco benefício traz trans-</p><p>formar drogas ilegais em legais, pois há forte tendência no aumento do</p><p>consumo. Há uma questão que permanece: as leis efetivamente influenci-</p><p>am o comportamento de consumo de drogas?</p><p>No caso do álcool, tem sido demonstrado por inúmeros trabalhos que a</p><p>proibição da venda para menores diminui significantemente o consumo. Em</p><p>vários estados americanos, quando foram colocadas em prática leis proi-</p><p>bindo a venda de bebidas, houve diminuição substancial no número de</p><p>acidentes de carro entre menores. O grande problema, ao responder o</p><p>quanto as leis impedem o consumo é que não existem muitos dados sobre</p><p>as drogas que sempre foram ilegais. Em artigo recente, MacCoun2 analisou</p><p>a escassa literatura baseando-se também no efeito das leis em deter outros</p><p>comportamentos antissociais. Esse autor mostrou que leis e controles</p><p>informais têm o poder de conter o consumo de drogas através de vários</p><p>mecanismos: disponibilidade da substância, estigmatização do uso, medo</p><p>das consequências de praticar atividades ilegais, efeito do fruto proibido e</p><p>efeito simbólico geral da proibição. A abolição das leis proibindo o consumo</p><p>teria um efeito dramático em vários desses citados fatores, diminuindo,</p><p>portanto, uma série de impedimentos para o consumo.</p><p>O mais importante nesse estudo são as evidências de que a abolição</p><p>das leis teria um efeito maior nas pessoas que comumente não consomem</p><p>drogas, potencialmente levando um maior número a experimentar e a se</p><p>tornar usuário regular ou esporádico. Por isso, MacCoun2 ressalta que</p><p>qualquer efeito dramático no status legal de uma droga é desaconselhável,</p><p>pois as consequências são imprevisíveis em relação ao aumento do con-</p><p>sumo, por falta de controles sociais disponíveis e ausência de leis claras.</p><p>Outros estudos mostram que, quanto maior o envolvimento com drogas,</p><p>menor é o impacto das leis em deter o consumo.</p><p>Como construir uma política de resultados em relação às drogas?</p><p>O desafio de formular e por em prática uma política de drogas é buscar</p><p>o balanço para cada uma, sempre visando a uma diminuição global do</p><p>consumo. A melhor atitude social seria de uma tolerância contrariada, sem</p><p>fervor ideológico, mas com pragmatismo afiado e persistente. No Brasil, por</p><p>exemplo, corremos o risco de que o debate sobre a legalização oculte as</p><p>reais questões que devem pautar uma política baseada em exemplos e</p><p>experiências eficazes. O risco é ficar num debate ideológico improdutivo a</p><p>Atualidades 9</p><p>Editora Tradição .</p><p>favor ou contra, com grande paixão e pouca informação, como é o caso do</p><p>debate ideológico sobre drogas injetáveis e a infecção pelo HIV. Passamos</p><p>todos esses anos discutindo se seria válido trocar seringas e agulhas dos</p><p>usuários de drogas injetáveis e se isto seria ou não um estímulo ao consu-</p><p>mo. Chegamos em 1996 com mais de 50% dos usuários de drogas conta-</p><p>minados pelo HIV e milhares de usuários, suas esposas e filhos mortos. A</p><p>Inglaterra, por exemplo, começou a discutir esse assunto em 1984 e im-</p><p>plementou, rapidamente, políticas realistas, apresentando somente 1% dos</p><p>usuários contaminados. Os ingleses buscaram uma política de resultados,</p><p>em que a prioridade fosse manter vivos os usuários.</p><p>O desafio do debate das drogas no Brasil não é se devemos afrouxar</p><p>as leis da maconha, mas apresentar dados e informações e produzir uma</p><p>política passível de ser avaliada constantemente. A implementação dessa</p><p>política não ocorre espontaneamente, mas como uma ação determinada de</p><p>governo. Talvez seja inútil esperar por uma grande política nacional de</p><p>drogas. Os estados e municípios poderiam se envolver nessas ações com</p><p>a ajuda comunitária. A sociedade civil já está bastante mobilizada sobre o</p><p>assunto álcool e drogas. É necessário que os governos democraticamente</p><p>eleitos mostrem a sua capacidade de organizar uma resposta adequada a</p><p>esse problema, que afeta milhões de brasileiros.</p><p>Cada vez mais o custo social, econômico e emocional das drogas au-</p><p>menta e na sua proporção existe a tendência de buscar soluções mágicas e</p><p>simples como a de legalização de todas. Os proponentes dessa solução</p><p>não apresentam uma clara operacionalização de como isso deveria ocorrer,</p><p>mas aportam argumentos a favor. Primeiro, dizem que a quantidade de</p><p>crimes associados ao uso de drogas diminuiria na medida em que fosse</p><p>retirado o lucro dos traficantes. O segundo argumento é que, tornando as</p><p>drogas disponíveis legalmente, haveria uma série de benefícios para a</p><p>saúde pública. A disponibilidade de drogas mais puras e seringas e agulhas</p><p>limpas poderiam prevenir doenças como hepatite e aids, por exemplo. Tais</p><p>argumentos têm apelo somente no nível superficial. Quando olhados em</p><p>detalhes, eles desabam. A ação direta de qualquer droga com potencial de</p><p>criar dependência reforça a chance de que ela venha a ser usada nova-</p><p>mente. As drogas que produzem dependência ativam os circuitos cerebrais</p><p>que são normalmente acionados por reforçadores naturais como fome e</p><p>sexo. A ativação desses circuitos está na raiz do aprendizado, que ocorre</p><p>no começo do processo de dependência química.</p><p>A idéia de que a legalização diminuiria o crime não tem sido discutida</p><p>com o devido rigor, mesmo quando o argumento caminha para os eventu-</p><p>ais benefícios de aumento da arrecadação do governo com a venda das</p><p>drogas e que isso poderia ser revertido para a sociedade na forma de</p><p>tratamento ou prevenção. Essa análise de custo/benefício ignora pelo</p><p>menos dois fatores. Primeiro, subestima o custo da dependência para os</p><p>indivíduos e suas famílias. A menos que as drogas sejam fornecidas de</p><p>graça, os usuários deveriam pagar por ela. Como a maioria dos usuários de</p><p>drogas não tem empregos fixos e estáveis, existe razão para acreditar que</p><p>muitos continuariam roubando para sustentar o consumo. Além disso,</p><p>muitos dos criminosos começaram a sua carreira no crime muito antes de</p><p>usar qualquer droga. Uma suposta fonte legal de suprimento, eventualmen-</p><p>te coordenada pelo governo, é muito improvável que não mude os determi-</p><p>nantes comportamentais e sociais das pessoas envolvidas no crime. Por-</p><p>tanto, qualquer análise de custo/benefício é complexa e exige que muitas</p><p>variáveis sejam levadas em conta.</p><p>Ainda sobre a legalização, mesmo que o custo/benefício pudesse ser</p><p>demonstrado, ninguém até hoje apresentou um plano operacional para</p><p>isso. Um aspecto fundamental dessa operacionalização é: quem receberia</p><p>essas drogas legais? Deveríamos restringir o acesso aos dependentes</p><p>químicos? Assumindo que tivéssemos uma boa definição de quem seja um</p><p>dependente, restringir a essa população o acesso significa que o mercado</p><p>negro das drogas continuaria, pois boa parte dos usuários não preenche os</p><p>critérios de dependência. Na realidade, com a oferta pública de drogas,</p><p>ainda teríamos o risco de que parcela dessas fosse criminalmente desviada</p><p>para o mercado negro.</p><p>Consideremos a venda de drogas apenas para adultos. Como já men-</p><p>cionado, essa facilitação do acesso levaria a um aumento de consumo,</p><p>mesmo entre eles. Mas examinemos um pouco mais fundo essa possibili-</p><p>dade. Se alguém que comprou a droga de uma fonte pública machucar</p><p>outra pessoa sob o efeito dela, quem seria o responsável? Como garantir</p><p>que uma fração das drogas não seja repassada para crianças? Uma parte</p><p>dos adultos não-dependentes poderia ter como motivação comprá-las para</p><p>revender a crianças, tornando o acesso a esse grupo ainda mais fácil do</p><p>que já</p>

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