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<p>Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Cagliari, Luiz Carlos Alfabetização e linguística / Luiz Carlos Cagliari. - 11. ed. - São Paulo: Scipione, 2009. (Coleção Pensamento e ação na sala de aula) 1. Alfabetização - Estudo e ensino 2. Língua portuguesa - Estudo e ensino 3. Linguística - Estudo e ensino 4. Pedagogia 5. Professores - Formação I. Título. II. Série. LINGUISTICA 09-10767 CDD-371.3 Luiz Carlos Cagliari Índice para catálogo sistemático: 1. Professores: Prática de ensino: Educação 371.3</p><p>O QUE É LER ele não entende matemática... Porque de fato ele não entende mesmo é o português que Não foi treinado para ler números, relações quan- titativas, problemas de matemática. O professor de língua portuguesa não ensina isso porque diz que é obrigação do professor de matemática e o professor de matemática ou não desconfia do problema ou, quando muito, acha que ler e compreender um texto é um problema que o pro- fessor de língua portuguesa deve resolver na educação das crianças. E as crianças ficam sem as necessárias explicações. Mas a escola cobra que ela saiba isso e se vire com perfeição e rapidez. Quantos alunos se saem mal, nas provas de qualquer matéria, depois de terem estudado o assunto muito bem, de saberem a matéria como deviam, justamente porque não entendem, ou entendem errado o que lhes é perguntado! Uma coisa é estudar a matéria, outra coisa é saber res- ponder a perguntas que a escola faz a respeito daquele assunto. Não falo de ensino programado, que reduz tudo a um condicionamento pelo texto, mas penso que a escola precisa ensinar os alunos a ler e a entender não só Estudantes lendo em biblioteca. as palavras, as histórias das antologias, mas também os textos específicos de cada matéria, as provas de cada área, as instruções de como fazer algo etc. A leitura não pode ficar restrita à literatura e ao A atividade fundamental desenvolvida pela escola para a formação Ler é uma atividade extremamente complexa e envolve problemas dos alunos é a leitura. É muito mais importante saber ler do que saber não só semânticos, culturais, ideológicos, filosóficos, mas até escrever. O melhor que a escola pode oferecer aos alunos deve estar Podemos ler sequências de números de maneiras diferentes, dependendo voltado para a leitura. Se um aluno não se sair muito bem nas outras ati- daquilo a que eles se referem. Alguns alunos têm dificuldades na mate- vidades, mas for um bom leitor, penso que a escola cumpriu em grande mática porque não sabem ler os números corretamente. Os números não parte sua tarefa. Se, porém, outro aluno tiver notas excelentes em tudo, são feitos só de algarismos. A combinação de algarismos expressa por si, mas não se tornar um bom leitor, sua formação será profundamente no todo, realidades matemáticas que têm propriedades específicas. Por defeituosa e ele terá menos chances no futuro do que aquele que, apesar exemplo, nos números fracionários (dois quintos), o denominador é lido das reprovações, se tornou um bom leitor. com numerais ordinais, mas a ordem característica típica desses nume- A leitura é a extensão da escola na vida das pessoas. A maioria do que rais na linguagem comum não tem nada a ver com a relação se deve aprender na vida terá de ser conseguido através da leitura fora da Não basta ensinar só as relações matemáticas: é preciso ensinar também escola. A leitura é uma herança maior do que qualquer diploma. o português que a matemática usa. A grande maioria dos problemas que os alunos encontram ao Tudo o que se ensina na escola está diretamente ligado à leitura e longo dos anos de estudo, chegando até a pós-graduação, é decorrente depende dela para se manter e se desenvolver. de problemas de leitura. O aluno muitas vezes não resolve problemas de A leitura é a realização do objetivo da escrita. Quem escreve, escre- matemática, não porque não saiba matemática, mas porque não sabe ler ve para ser lido. O objetivo da escrita, como já disse inúmeras vezes, é a o enunciado do problema. Ele sabe somar, dividir etc., mas ao ler um leitura. Como vimos, o mundo da escrita já é complicado e caótico no problema não sabe o que fazer com os números e a relação destes com as seu aspecto gráfico, quanto mais se juntarmos a isso o mundo dos sig- realidades a que se referem. Não adianta dizer que o aluno não sabe nem 130 nificados carregados pela escrita. A leitura vai operar justamente nesse sequer somar ou dividir números que não apresentam dificuldades, que Às vezes, ler é um processo de descoberta, como a busca do 131</p><p>saber científico. Outras vezes requer um trabalho paciente, perseverante, A leitura é, pois, uma decifração e uma decodificação. O leitor desafiador, semelhante à pesquisa laboratorial. A leitura pode também deverá em primeiro lugar decifrar a escrita, depois entender a linguagem ser superficial, sem grandes pretensões, uma atividade lúdica, como um encontrada, em seguida decodificar todas as implicações que o texto jogo de bola em que os participantes jamais se preocupam com a lei da tem e, finalmente, refletir sobre isso e formar o próprio conhecimento gravidade, a cinética e a balística, mas nem por isso deixam de jogar bola e opinião a respeito do que leu. A leitura sem decifração não funciona com gosto e perfeição. adequadamente, assim como sem a decodificação e demais componen- tes referentes à interpretação, se torna estéril e sem grande interesse. A leitura é uma atividade estritamente linguística e a linguagem se monta com a fusão de significados com significantes. É falso dizer que se pode ler só pelo significado ou só pelo significante, porque só um ou outro jamais constituem uma realidade linguística. Acho que até linguistas digam coisas desse tipo, esquecendo-se deste aspecto lógico, elementar, da própria natureza da linguagem humana. Os signos linguísticos atuam pela convencionalidade social. A escri- ta atua pela convencionalidade da representação gráfica dos signos, e a Pessoas lendo jornal. leitura também tem a sua convencionalidade guiada não só pelos ele- mentos linguísticos, mas também pelos elementos culturais, ideológicos, Como se observa, podemos ter várias atitudes perante a leitura. Ela filosóficos etc., do leitor. Para falantes de uma mesma língua, ler um é uma atividade profundamente individual e duas pessoas dificilmente mesmo texto pode gerar interpretações diferentes, baseadas na estrutura fazem uma mesma leitura de um texto, mesmo científico. Ao contrário de conhecimento de cada um. Uma criança não como um adulto. da escrita, que é uma atividade de exteriorizar pensamento, a leitura Sendo de um meio social pobre, não do mesmo jeito que uma criança é uma atividade de assimilação de conhecimento, de interiorização, de de um meio social rico; nenhuma delas provavelmente lerá da mesma reflexão. Por isso, a escola que não muito para os seus alunos e não lhes maneira que a professora. Também aqui não se deve concluir que uma dá a chance de ler muito está fadada ao insucesso, e não sabe aproveitar bem e a outra mal: todas leem de maneiras diferentes. O significado o melhor que tem para oferecer aos seus alunos. Há um dito popular que de um texto para um menino pobre de periferia não precisa ser idêntico diz que a leitura é o alimento da alma. Nada mais verdadeiro. As pessoas ao significado do mesmo texto para um aluno de classe alta da cidade. que não leem são pessoas vazias ou subnutridas de conhecimento. É Lembro-me de uma ocasião em que um órgão do governo estava fazen- claro que a experiência da vida não se reduz à leitura. A vida como tal é a do campanha nas escolas através de leituras para que o povo aprendesse grande mestra. Algumas pessoas analfabetas conseguem, às vezes, se sair a se alimentar melhor. No texto dizia que comer carne é bom porque a bem economicamente, mas nem por isso deixam de ser pessoas vazias. carne contém muita proteína, que comer peixe também é excelente pela Têm a riqueza externa, sabem se virar na sociedade, mas são pobres cul- mesma razão etc. Alguns alunos acharam o texto banal, porque afinal de turalmente, porque só a experiência da vida, por mais rica que possa ser, contas eles sempre comeram essas coisas. Outros alunos acharam um não é suficiente para fornecer uma cultura sólida e geral. ultraje, porque o problema era a falta de dinheiro, de condições para Às vezes se referem à experiência da vida como "leitura do mundo". A obter o próprio alimento. leitura do mundo é obviamente uma metáfora, mas nem por isso deixa de Diante das mesmas histórias, certas A escola deve respeitar a leitura de ser algo tão importante para cada um quanto a própria filosofia de vida. crianças ficam revoltadas, outras apavoradas, cada criança. A leitura a que me refiro de maneira particular é a leitura linguísti- outras, ainda, acham graça e algumas até não ca, baseada na escrita, portanto, reveladora de uma interpretação que o entendem o fantástico. Cada uma a seu modo. E isso não é mal, mas é o 132 leitor faz da interpretação que o escritor fez da sua "leitura do mundo". que deve acontecer, e a escola deve respeitar a leitura de cada um. Embora 133</p><p>a leitura participe de uma certa convencionalidade, como foi dito anterior- Um texto escrito nem sempre é montado sintagmaticamente, ape- mente, é sempre uma obra aberta, jamais fechada. Por mais que um escri- sar da aparência linear das letras e das palavras. Um bom exemplo disso tor se esforce para restringir a leitura de sua obra a limites bem definidos e são os dicionários. Outro exemplo típico é a apresentação de dados. controláveis, jamais isso será possível na sua totalidade. Caberá sempre ao Quando analisados e interpretados em tabelas e gráficos, sua leitura é em leitor interferir na leitura que fará de acordo com seu mundo interior grande parte dirigida, tendo pontos de partida e chegada mais ou menos Portanto, se a leitura é na sua essência uma atividade individual, a bem definidos. Porém, os dados brutos são um conjunto de coisas escri- escola não pode torná-la um mero pretexto para avaliar outros elemen- tas que não podem ser lidas linearmente. O leitor deve ligar as partes tos, como pronúncia, rapidez de decifração etc. que julgar pertinentes como se resolvesse um quebra-cabeça. Tenho Porque a leitura é uma atividade ligada essencialmente à escrita e, como encontrado alunos que diante de uma coletânea de dados não sabem há vários tipos de escrita, assim também haverá os correspondentes tipos de "ler nada", porque o único tipo de leitura cujo conteúdo são capazes de leitura. Um sistema de escrita baseado no significado terá um tipo de leitura entender é a leitura de textos lineares. A leitura de dados não se realiza só diferente da leitura de um sistema de escrita baseado no significante, como linearmente, mas interpretativamente, de maneira um tanto semelhante já se disse antes. Um sistema baseado no significante pode estar mais próxi- à que ocorre com a leitura de sistemas de escrita baseados no significado mo de um sistema de transcrição fonética do que de um sistema ortográfico. e não no significante. Cada um desses tipos de escrita requer um tipo de leitura próprio. Uma Gostaria de fazer agora aqui algumas considerações específicas com transcrição fonética exige uma leitura baseada na representação que os sím- relação ao método de ensino instrumental de línguas estrangeiras basea- bolos fazem das possibilidades articulatórias do homem, de tal modo que do na leitura. Há algumas atividades no próprio ensino de português que permite um único modo de leitura com relação ao significante. Porém, uma muito se assemelham a isso e que julgo bastante problemáticas. escrita ortográfica permite a leitura de um texto com todas as possibilidades O método referido se propõe a dar condições a uma pessoa para que de variação dialetal que a língua oferece. A escola em geral passa aos alunos leia, sobretudo, textos técnicos de sua área de especialização, sem pre- a falsa ideia de que a ortografia só permite a leitura do significante segundo cisar conhecer nada da estrutura da língua, exceto o indispensável para a fonética do dialeto-padrão que ela usa. a leitura desses textos. Como o aprendiz é um especialista no assunto Ao escrever, escolhem-se elementos do Uma leitura sintagmática é aquela do texto que pretende ler, pressupõe-se que ele saiba identificar fatos e em que o leitor acompanha palavra conjunto que constitui o sistema da língua. relações básicas que tornam a leitura em língua estrangeira um simples por palavra, numa certa ordem, ad- Por isso, toda leitura deve ser feita não só identificar desses fatos e relações, com o consequente desenvolvimento quirindo, em geral, apenas um signi- sintagmaticamente, como também paradig- ficado literal de leitura. do conteúdo científico apresentado no texto. Obviamente, o mais impor- Já uma leitura paradigmática faz maticamente. A escolha de uma palavra e tante neste caso é o domínio de um vocabulário técnico básico e de mais com que leitor não só descubra o não de outra é significativa, e um bom leitor algumas outras palavras de natureza gramatical e estruturas sintáticas significado literal das palavras e ex- sabe entender isso. Algumas pessoas fazem pressões, à medida que vai lendo, específicas da língua estrangeira que permitem a leitura desejada. como também traga para esse signi- em geral uma leitura muito sintagmática e Portanto, quando se seguindo esse método, procura-se a ideia ficado os conhecimentos adicionais, pouco paradigmática e outras ao contrário. principal pelo sentido literal e seus desdobramentos. De fato o leitor oriundos de seu modo pessoal de in- Algumas pessoas não percebem que certas terpretar o que leu, tendo em vista assim treinado não faz uma leitura linguística propriamente dita, mas toda sua história como leitor e fa- palavras foram usadas, e não outras, porque procede a uma decifração de enigmas ou à resolução de um quebra- lante de uma língua. se queria conseguir efeitos especiais com a cabeça com elementos que, por acaso, são palavras e estruturas linguís- escolha. Outras pessoas têm uma série de ticas. Se o objetivo fosse decifrar um sistema de escrita desconhecido, dificuldades em entender um texto porque esquecem o óbvio, o literal, tal procedimento de descoberta até que poderia ser interessante. O e se emaranham numa floresta de considerações que tentam ligar com problema e o perigo se colocam quando isso, explícita ou implicita- qualquer pretexto ao texto. Controlar devidamente essas coordenadas é mente, se torna uma explicação linguística da leitura, da escrita, da 134 realmente uma tarefa difícil. linguagem em geral. 135</p><p>A leitura comum, não a decifração arqueológica da escrita, só se realiza Uma leitura pode ser ouvida, vista ou falada. Um texto escrito através dos mesmos mecanismos de produção da fala. Por exemplo, a velo- pode ser decifrado e decodificado por alguém que traduz o escrito numa cidade de leitura com compreensão está diretamente ligada à habilidade do realização de fala. Esse tipo de leitura ocorre mais comumente nos pri- leitor como falante da língua. Quem fala a língua com fluência e rapidez é meiros anos de escola, no trabalho de certos profissionais, e em raras capaz de ler bem e rapidamente, mas quem fala com dificuldade irá ler com situações para a maioria das pessoas. Em geral não lemos em voz alta, dificuldade, porque o funcionamento dos mecanismos de produção da fala fora da escola. E, quando algumas pessoas são solicitadas a ler, envergo- ficará a todo instante comprometido com as dúvidas, as correções etc. Isto nham-se, dão desculpas dizendo que não sabem ler direito etc. Isso por- serve não só para uma leitura em língua estrangeira, como também para que a leitura oral, falada, é vista, em geral, devido aos preconceitos pessoas que falam um dialeto e aprendem a ler em outro. Ensinar as crianças linguísticos da sociedade, como devendo ser a realização plena do a ler no próprio dialeto é fundamental para formar bons leitores. A criança dialeto-padrão no seu nível mais formal. Essa expectativa, associada ao que fala numa variedade do português diferente da que a escola usa e que fato de as pessoas saberem que em sua fala e leitura particular dizem as aprende que a leitura deve necessariamente ser feita no dialeto da escola, palavras com características dialetais que são mal vistas pelo levará esse hábito para a vida e, quando for ler, precisará fazer um esforço dialeto-padrão, as inibe ao lerem, não porque não saibam ler, mas por- muito grande para conciliar velocidade de leitura e compreensão. Algumas que têm vergonha do próprio dialeto, um preconceito que a escola fazem até uma leitura silabada, mesmo lendo silenciosamente, porque nunca desfez, ao contrário, sempre incentivou. foram treinadas pela escola somente nesse tipo de leitura. A leitura oral é feita não somente por O primeiro contato das crianças Uma pessoa que aprende o uso instru- mas pode ser dirigida a outras pessoas, com a leitura se dá através da leitu- A habilidade como falante é decisiva ra auditiva. para ser um bom leitor. mental de uma língua estrangeira através da que também "leem" o texto ouvindo-o. Os leitura aprenderá em tempo curto a decifrar primeiros contatos das crianças com a leitura ocorrem desse modo. Os textos sem problemas de linguagem, mas na vida gastará muito mais adultos leem histórias para elas. Ouvir histórias é uma forma de ler. A tempo "lendo" do que uma pessoa que prefere aprender a língua pro- diferença entre ouvir a fala e ouvir a leitura está em que a fala é produzida priamente dita para depois ser bom leitor. A habilidade como falante espontaneamente, ao passo que a leitura é baseada num texto escrito, que é decisiva para uma boa leitura e indispensável para uma leitura mais tem características próprias diferentes da fala espontânea. Porém, foneti- rápida sem comprometer a compreensão. camente as duas atividades são muito semelhantes, com relação ao proces- Um leitor que não é falante assume estratégias perante a língua dife- samento. Muito do que se ouve na televisão e no rádio são Uma rentes do que faz um falante. Cria de certo modo uma "língua nova", em criança que é muito exposta a essas manifestações tem grandes vantagens grande parte baseada nas regras de sua própria língua, misturando regras na escola sobre aquelas crianças que não têm a mesma chance na que ele inventa como estratégia pessoal ou que erroneamente pensa que Ouvir uma leitura equivale a ler com os olhos, descobriu na língua estrangeira. Tudo isso vai formando o conhecimento a única diferença reside no canal pelo qual a que ele tem dessa língua e, se por acaso, depois de certo tempo, resolver ser leitura é conduzida do texto ao cérebro. Na também um falante ouvinte dessa língua, será um desastre. O trabalho que nossa sociedade há muito preconceito com terá então para se desfazer dos erros e interiorizar as verdadeiras regras da relação a língua será tão grande, que dificilmente conseguirá um bom resultado. A nossa cultura durante muito tempo se constituiu de livros escritos e da leitu- TIPOS DE LEITURA ra silenciosa visual (considerada por alguns a verdadeira leitura), preservando-se através Por leitura se entende toda manifestação linguística que uma pessoa deles. Poucas instituições, como os conventos, realiza para recuperar um pensamento formulado por outra e colocado conservam desde tempos remotos o hábito 136 em forma de escrita. da leitura pública, em que um leitor para a 137</p><p>comunidade. Hoje, até as poesias são lidas na solidão de cada um, e nin- Por outro lado, as imagens em movimento reservam emoções que o guém estranha que uma forma linguística que nasceu para ser ouvida, texto escrito expressa muito mais fracamente. O ideal seria poder man- por suas características rítmicas e melódicas, não seja mais usada em sua ter a experiência da leitura dos textos escritos e a experiência da leitura plenitude. É quase como um músico que uma partitura e imagina a das imagens dos filmes e da televisão. música. Ler uma peça de teatro não é o mesmo que vê-la encenada. São A leitura oral, falada ou ouvida, processa-se foneticamente de dois tipos diferentes de leitura. Nem sempre a leitura visual silenciosa é maneira semelhante à percepção auditiva da fala. A leitura visual, falada a mais adequada para certos textos, que foram feitos com a intenção de ou silenciosa, além de pôr em funcionamento o mesmo mecanismo de serem lidos oralmente ou ouvidos. percepção auditiva da fala para a decodificação do texto, precisa pôr No entanto, não há dúvidas de que a leitura visual silenciosa é em ação os mecanismos de decifração da escrita. Não existe leitura sem muito mais comum entre as pessoas. Sua importância para a vida da decifração da escrita. Se eu escrever com caracteres japoneses, gregos maioria delas é muito maior que a dos outros tipos de leitura. A leitura ou cirílicos, não será possível alguém ler o texto se não for capaz de visual tem grandes vantagens sobre os outros dois tipos de leitura. Não decifrar a Pode ser até um texto que o leitor sabe de cor, como só não inibe o leitor por questões linguísticas, como permite ainda uma uma cantiga de roda, mas, porque não consegue decifrar a escrita, não velocidade de leitura maior, podendo ele parar onde quiser e recuperar é nem sequer capaz de desconfiar de que trata aquela grafia estranha. passagens já lidas, o que a leitura oral de um texto não costuma permitir. Uma criança que começa a ler encontra dificuldade semelhante. Ler Daí a conclusão de algumas pessoas de que a leitura silenciosa favorece é fácil para quem sabe e, nesse primeiro passo da leitura, a facilidade mais a reflexão sobre o texto. Com relação a isso, gostaria de dizer que ou dificuldade do texto se torna irrelevante com relação à dificuldade ouvir uma leitura também favorece muito a reflexão; tanto é que nos específica de decifração propriamente dita da escrita. Casa não é uma conventos até hoje se fazem meditações dessa maneira. Acontece que palavra fácil de ler só porque é de uso comum na fala da pessoa. Depois na escola se ensina mais comumente aos alunos o uso da leitura visual de decifrada, pode ser de fácil compreensão. É de fácil leitura para quem silenciosa, individual para a reflexão, que o da leitura oral pública. sabe ler e avalia a dificuldade de leitura somente pela compreensão do Muitas dessas afirmações que se tornaram proverbiais na educação são texto. Uma criança que vai aprender a ler traz um problema anterior, mais fruto de uma prática e de um treinamento específico do que uma que é dominar as estratégias de decifração. Para ela isso é o difícil. Se ela verdade em si. Lembro-me de que, quando era criança, muitas pessoas conseguir decifrar, compreender o significado de casa é banal porque ela diziam que o cinema iria acabar com a reflexão na leitura, que a televi- é falante nativa dessa língua e a palavra lhe é muito familiar. são iria criar uma geração vazia mentalmente porque não se leria como A escola comete uma injustiça com as crianças não levando em antes. Encarava-se o simples acompanhar das imagens na tela como um conta essa sua dificuldade, muito real e-séria, que é a decifração na leitu- processo de esvaziamento, quando na verdade era um processo muito ra. Está errado dizer que a leitura não é decifração da escrita, exigindo-se mais rico de informações para a criança. da criança que aprenda a ler desempenhando atividades que só leitor A imagem e a letra sempre estiveram em guerra. As letras domina- treinado e habilidoso domina. As crianças precisam de um tempo de ram o mundo durante muitos séculos, mas tenho a impressão de que a decifração, que varia de acordo com cada uma. imagem tem ganho as últimas batalhas e a hegemonia das letras está de O processo de decifração pressupõe não só tudo o que se disse a certa forma comprometida. A imagem e a letra têm características pró- respeito da escrita: o que é, para que serve, como funciona, o que é a prias, com vantagens e desvantagens para os textos que produzem. ortografia etc., como também exige que o leitor, feita a análise da escrita, A escrita, sem a imagem, permite que o leitor imagine e crie um remeta isso para o cérebro, a fim de proceder então à programação neu- mundo fantástico, próprio para si, onde as personagens ganham as for- rolinguística que irá pôr em funcionamento os mecanismos de produção mas que ele deseja e sente. Um outro leitor, a partir da mesma leitura, da fala correspondente; assim, o leitor poderá compreender o texto pro- criará um outro mundo. Certamente haverá muita coisa em comum, gramado em muitos aspectos pelo escritor e completado pelo leitor, e, se 138 mas a criação individual, nesse caso, tem um papel decisivo. for o caso, até reproduzi-lo oralmente. 139</p><p>A leitura de um texto escrito não se processa diretamente da "compre- permite uma de um texto, inclusive no sentido de ensão" da escrita para a "compreensão" do pensamento. A leitura é um ato saber se vale a pena uma leitura mais cuidadosa ou não. linguístico e está essencialmente presa a todo mecanismo de funcionamento Como se disse antes, a escrita deixa de lado diversos aspectos foné- da linguagem, da língua específica que está sendo lida. Há um aspecto bio- ticos, como o ritmo, a entonação e muitos elementos contextuais que lógico que vai desde a função cortical da programação linguística até as numa fala real ajudam a compreensão do que se diz. Um bom leitor deve modificações aerodinâmicas e musculares da produção e recepção da fala. recuperar esses elementos que a escrita não reproduz, não se preocupan- Às vezes tem-se a impressão de que esses aspectos são esquecidos na prática, do apenas com o significado do que A própria compreensão dos sig- e as pessoas passam a agir como se a linguagem fosse apenas um problema nificados de um certo texto depende desses elementos fonéticos. de pensamento. A empatia, a cinestesia (proprio- Em certas ocasiões, quem para outros A empatia é um processo que sin- cepção) são fenômenos tão importantes na pro- croniza as atividades biológicas de ouvirem ou diz de cor um texto escrito, pre- Entre os elementos suprassegmen- produção e percepção da fala. Quan- dução e percepção da fala quanto da leitura. Por cisa de uma leitura expressiva, em que esses tais mais importantes de uma leitu- do ouvimos uma pessoa gaga falan- fala se entende a realidade linguística, a língua na ra estão o ritmo, a entoação, a velo- elementos suprassegmentais e pragmáticos cidade de fala, o volume e a do, somos levados a acompanhá-la sua plenitude de realização, não apenas os sons da reproduzindo visivelmente as arti- sejam realizados interpretativamente e de qualidade de voz (não voz rouca, culações dos sons, porque a empatia linguagem. Afinal de contas, toda linguagem é forma a agradar aos ouvintes. não fanhosa etc.). Entre os elemen- linguística aqui encontra um modo constituída de significado e significante. Esses tos pragmáticos, se colocam todos os Os alunos, desde as primeiras leituras em não usual de funcionamento. modos de leitura adequados aos di- dois aspectos são de fato e sempre indissociáveis voz alta, deveriam ser treinados a fazer uma ferentes tipos de ouvintes e circuns- É a empatia que faz com que uma no uso da linguagem. Só podem ser separados leitura expressiva. Esse exercício deve ser tâncias em que se faz a leitura. pessoa consiga fazer uma análise biológica dos mecanismos de produ- metodologicamente para análise linguística e enfatizado no início porque auxilia a própria ção da fala de seu interlocutor para considerações metalinguísticas. Por isso, toda fala compreensão do texto, sobretudo numa fase em que a criança ainda está a falar. A cinestesia ajuda esse processo trans- e, portanto, toda leitura têm um aspecto de deci- muito amarrada à decifração da escrita, fazendo com que ela dê mais formando essa análise do comporta- fração e de decodificação. Encarar tais atividades valor aos aspectos interpretativos do texto fonética e semanticamente. mento biológico, sobretudo muscu- sem o devido equilíbrio na relação entre esses Possibilita que a criança desde cedo não faça aquele tipo de leitura sila- lar, em comandos sob controle pelo dois aspectos (significado/significante) é destruir bada, truncada por pausas, excessivamente vagarosa, sem ritmo, entoa- a linguagem humana naquilo que tem como ção, enfim, sem expressão. A professora precisa, portanto, distinguir a princípio fundamental de sua própria existência. atividade de decifração de letras em palavras da leitura de texto propria- Algumas pessoas desenvolvem um tipo de leitura que consiste em mente dita. Para a criança ler um texto é preciso deixar, antes, que o "ler por alto". Esse tipo de leitura não acompanha os significantes do estude, decifre-o e treine sua leitura. Ela não pode lê-lo diretamente. Isso texto, mesmo se a escrita é alfabética, mas procura identificar ideias-chave frustra a criança que os colegas que ouvem e a professora, que percebe e o que se diz sobre elas. A compreensão do texto é concluída pelo que o que não sabe ensinar como ler corretamente. autor deduz da concatenação dessas ideias-chave que destacou. Esse tipo Os profissionais da leitura, como locutores e atores de teatro e televi- de leitura é mais próprio dos sistemas de escrita de base ideográfica, não são, antes de ler ou representar ensaiam como vão dizer o texto, estudam- do significante. Mas é possível, embora mais dificultoso e problemático, -no, tentam várias interpretações para obter o melhor resultado. Por que nos sistemas alfabéticos. Esse tipo de leitura num texto cujo conteúdo seja não deixar, na escola, o aluno preparar suas leituras? Por que não ensinar a relativamente previsível não é muito problemático, mas, se o texto não for ele como preparar uma boa leitura? A escola às vezes tem hábitos estranhos de certo modo previsível, esse tipo de leitura poderá conduzir o leitor a de surpreender os alunos, como se eles fossem máquinas sempre prontas uma falsa interpretação. A grande vantagem desse tipo de leitura é a enor- a realizar a própria tarefa. Um aluno não como um gravador reproduz me rapidez com que se podem ler determinados textos, como relatórios, uma A preparação para uma leitura em VOZ alta é indispensável. teses, trabalhos acadêmicos etc. Em certos trabalhos se lê da introdução à 140 conclusão com algum cuidado e do resto se faz uma "leitura por alto". Isso 141</p><p>COMO LER. tonais etc., gerar uma corrente de ar, articular os órgãos do aparelho fonador ao nível da laringe, da cavidade bucal, controlar a posição do véu Em primeiro lugar, deve-se dizer que a leitura não é a fala da escrita, palatino e a configuração dos lábios e a posição da mandíbula. E tudo isso mas um processo próprio que pressupõe um amadurecimento de habi- variando numa média de doze ajustamentos por segundo. Quando se trata lidades linguísticas em parte diferentes das que ocorrem na produção da fala espontânea. Uma leitura em voz alta, além de levar em conta o da fala espontânea, que a criança domina bem, tudo é feito com perfeição e rigorosa cronometragem. Porém, na leitura, todas essas etapas, que eram que se deve fazer para dizer algo em termos de produção sonora da fala, cumpridas inconscientemente, começam a ser, de certo modo, controla- exige ainda que leitor acompanhe um raciocínio sobre um pensamento das mais conscientemente pelo aprendiz de leitor, para poder realizá-las exterior, expresso por outra pessoa, e que ele "declama" como se fosse bem. Essa fase deve passar logo, tornando a leitura um processo tão auto- um ator. A complexidade desse fato é enorme, e muitas vezes a escola não se dá conta disso, porque os adultos já amadureceram para a leitura. mático e inconsciente quanto a fala. Porém, se o aluno for forçado, por si ou pela professora, a permanecer na situação de preocupação, ele poderá O esforço da criança que começa a ler é comparável ao esforço que um desenvolver péssimos hábitos de leitura. Um deles é a soletração ler aprendiz de língua estrangeira faz para ler: é difícil conciliar os elemen- em ritmo silábico predominantemente, quando deveria ler em ritmo tos fônicos com os elementos É fato de conhecimento comum que as crianças têm dificuldades acentual além da deturpação fonética da qualidade dos segmentos. Outro aspecto é a falta de controle sobre o pensamento ao longo da leitura: para realizar uma leitura fluente, além de apresentarem dificuldades o aluno acaba de ler e não sabe dizer que leu! específicas com relação ao entendimento do conteúdo da leitura. É muito comum encontrar adultos que, quando leem, assumem No ato da leitura em alta, leitor deve em primeiro lugar decifrar uma postura linguística muito diferente da que usam normalmente. que está escrito e depois reproduzir oralmente o que foi decifrado. Quando disse que a leitura é diferente da fala, referia-me mais ao pro- Há muitas dificuldades em decifrar a escrita na nossa cultura, e cesso de produção que ao resultado fonético produzido em cada caso. A muitas delas advêm da própria natureza do sistema de escrita leitura deve revelar as características fonéticas da fala portuguesa. Não Um dos embaraços que a criança encontra quando está apren- é porque se está lendo que se deve assumir uma pronúncia especial de dendo a ler reside no ajustamento do processo da fala para a leitura. leitura. A leitura tem muitos usos e modos de se realizar e todos têm um Para falar, começamos com uma organização neurolinguística de um correspondente na fala espontânea. pensamento. No caso da leitura, a pessoa processa uma programação Depois que o leitor decifrou a escrita, ele tem subsídios para pro- neurolinguística para dizer coisas que não pensou, num longo tempo, cessar o que decifrou em termos de produção de fala. Para tal, deverá a partir das referências que a interpretação dos sinais da escrita lhe lançar mão dos recursos que usa quando fala Em pri- proporciona. Essa falta de controle sobre uma extensão relativamente meiro lugar, irá alterar o processo de respiração normal para o padrão grande do pensamento leva facilmente à produção de uma fala mais respiratório e consequente mecanismo aerodinâmico típicos da fala. vagarosa, podendo, se mal controlada, produzir uma realização foné- Essa modificação se caracteriza basicamente por organizar uma cadeia tica silabada, sem o ritmo, a entoação e outras características próprias de pulsações (musculares e aerodinâmicas) com durações e intensidades da fala espontânea. Às vezes, por razões absurdas, certas professoras relativas, que nada mais são do que a própria produção das sílabas, que de alfabetização induzem os alunos a uma pronúncia completamente variam em duração e tonicidade, produzindo dessa maneira os fluxos artificial dos segmentos que compõem as palavras e de fenômenos rítmicos básicos da fala. Em cima dessa estrutura rítmica, organizada suprassegmentais, julgando que assim facilitam o trabalho de leitura segundo as exigências de cada língua, as modificações do aparelho da criança. fonador que produzem as qualidades segmentais e suprassegmentais Além do mais, uma pessoa que lê necessita passar pelas etapas nor- complementares vão ser montadas. Se o falante percebe que o suporte mais de produção de sons da fala, ou seja, mudar a respiração, acertar o silábico ao ser preenchido (ou mesmo no próprio ato de se montar) não 142 ritmo, o acento e a entonação, através da montagem das sílabas, grupos corresponde à expectativa linguística, ele interrompe o processo de pro- 143</p><p>dução de fala e procura corrigir-se, produzindo a gagueira, a hesitação, outra, chegando idealmente ao ponto em que a interpretação visual e e assim por diante. a realização falada sejam feitas num espaço de tempo curto, como se Para conseguir ler, deve-se, pois, decifrar foneticamente a escri- espera de uma leitura fluente. ta, processá-la para a fala e realizar todas as etapas necessárias para a Se nosso sistema de escrita refletisse pelo menos de maneira próxi- produção do que se vai dizer, da maneira como se vai dizer. Os outros ma uma relação unívoca entre letra e som e marcasse os fatos suprasseg- aspectos envolvidos na leitura, como dissemos antes, estão sendo mentais mais importantes, sobretudo a sílaba e a tonicidade, seria bas- deixados de lado nas considerações feitas aqui, não porque são irre- tante razoável ler por sílabas, ou grupos de acentos frasais, por exemplo. levantes, mas por não constituírem objeto de preocupação imediata Nesse caso, leitor seria treinado a produzir uma série de emissões do no processo da produção da fala. Desde ponto de partida até o de tamanho de uma sílaba, por exemplo, e a encadeá-las numa velocidade chegada, há muita coisa que deve ser feita, algumas numa sequência cada vez mais crescente, até produzir uma leitura fluente. de tempo, produzindo latências variadas em função da complexidade Mas, num sistema de escrita como o nosso, treinar alguém a ler enca- dos fatos envolvidos. Alguns aspectos, como os segmentos e suprasseg- deando sílabas (ou mesmo pequenos segmentos da fala...) é obrigar o lei- mentos, além de exigirem tempo para programação, exigem ainda um tor iniciante a uma atividade terrivelmente complicada. A outra maneira complicado processo de sincronização. de se iniciar na leitura, como sugerido acima, parece mais razoável. Apesar de toda a complexidade do problema, as pessoas aprendem Sem dúvida alguma, a maneira artificial, silabada, sem ritmo, sem a ler com facilidade e perfeição. E nisso não há nada de estranho. Na entoação e sem uma realização adequada dos segmentos fonéticos, na verdade, aprenderam a falar de 1 a 3 anos de idade, o que na sua globa- fala de muitos alunos no período de alfabetização (e mesmo depois), lidade é bem mais complexo e fascinante do que ler. Porém, ler envolve advém da maneira inadequada com que foram ensinados e treinados a uma complicação do processo de produção de fala, que normalmente ler. A escola exige que aluno leia num tempo muito curto, dificultando não ocorre na fala espontânea, causada pela necessidade de decifração seu aprendizado e por vezes causando traumas profundos, sobretudo da escrita e programação de produção da fala lida. quando o aluno, além das dificuldades fonéticas de produção da fala lida, É um fato facilmente observável o de que as pessoas aprendem a ler tem de usar uma pronúncia distante de sua fala, como se estivesse lendo com facilidade e perfeição, mas próprio ato de aprender a ler constitui numa língua estrangeira. uma tarefa muito difícil e delicada. A observação aqui feita com relação à leitura não é motivada por, Se uma criança for introduzida ao processo de leitura (em alta) nem pretende envolvimentos com, nenhum método de alfabetização, através de uma técnica que a obrigue a processar a leitura por pequenas nem mesmo com método global, com o qual pode ter alguma seme- partes, acompanhando letras na escrita, fazendo com que cada pedaço lhança, mas se baseia tão somente em considerações a respeito das latên- seja processado e falado como um bloco, o resultado será uma leitura cias na produção da fala e de todo o mecanismo nisso envolvido, que é aos trancos e barrancos, muito diferente da fluência normal de quem estritamente de natureza fonética. fala espontaneamente. Por isso, parece-me muito razoável proceder, À medida que as pesquisas fonéticas dos mecanismos de produção na iniciação à leitura, de tal maneira que a criança tenha apenas duas e percepção da fala progridem, fica cada vez mais claro que a fala se pro- etapas independentes de processamento fonético: a decifração fonética cessa não por segmentos justapostos, mas por etapas de programação, da escrita, que será feita visualmente, e a produção oral da fala lida, indo do mais abrangente para mais particular. Primeiro se programa que será feita depois que a primeira for completamente concluída e de um pensamento; depois ele é segmentado em unidades de informação maneira espontânea, como se o leitor fosse dizer de própria iniciativa que serão montadas sobre os grupos tonais; então se monta o ritmo com o que decifrou. Em outras palavras, a criança precisa de todo o tempo os acentos, os pés e as durações das sílabas; necessário para decifrar e analisar a escrita. Depois que chegou a uma sobrepõe-se a isso tudo o tom entoacional, Pés: unidades rítmicas da fala, deli- conclusão, então diz o que "leu". À medida que se tornar mais hábil e somente depois disso é que começam a mitadas por duas sílabas tônicas nas 144 nessa tarefa, irá necessitar de menos tempo entre uma atividade e aparecer os comandos específicos línguas de ritmo acentual. 145</p><p>micos, fonatórios e articulatórios. É claro que se pode reduzir tudo isso A LEITURA E A ESCOLA a uma única sílaba. Pode-se dizer Sim!, Não! etc. Mas, neste caso, a sílaba é uma unidade de informação completa. O mesmo Escrever e ler são duas atividades da alfabetização conduzidas mais não acontece quando se ensina a criança a ler silabadamente, ou mesmo ou menos paralelamente. Ensina-se a ler e escrever letras, famílias silá- palavra por palavra. É por isso que se disse que é preciso dar tempo ao bicas, palavras, frases e textos. Na prática, ao longo do ano escolar, se leitor para decifrar a escrita, fazer a programação correta, para depois ler dá muito mais ênfase à escrita do que à leitura. Exige-se muito mais do em alta, seguindo seu próprio mecanismo de produção de fala. aluno com relação à escrita do que com relação à leitura. Isso se deve ao É bom notar que a leitura silenciosa também se processa da mesma fato de a escola saber avaliar mais facilmente os acertos e erros de escrita maneira, só que o leitor não cumpre a última etapa, que é dizer em voz e não saber muito bem o que o aluno faz quando sobretudo quando alta o que leu. Mas sem todo processamento descrito antes ninguém ele em silêncio. E a escola tem a mania de querer controlar tudo. O adequadamente. privilégio da escrita sobre a leitura na escola se deve a essa maior facili- A exigência de que aluno, ao ler, precisa acompanhar os sons, dade de avaliação escolar. relacionando-os com as letras que vê escritas, é um absurdo e uma vio- Porém, ler, principalmente nos primeiros anos da escola, me parece lência ao próprio processo natural de Ninguém faz isso, porque uma atividade tão importante quanto a produção espontânea de textos, nem sequer a nossa escrita, que se diz alfabética, espera isso, ou melhor, ou talvez até mais importante. No mundo em que vivemos é muito mais às vezes nem mesmo permite isso. Quem já precisou corrigir textos dati- importante ler do que escrever. Muitas pessoas alfabetizadas vivem pra- lografados sabe muito bem da dificuldade em achar todos os erros sim- ticamente sem escrever, mas não sem ler. Ainda mais: há muitos anal- plesmente lendo o texto. As pessoas leem os textos e não veem muitos fabetos de escrita que não são analfabetos de leitura. Sobretudo pessoas erros de impressão. A escrita, mesmo alfabética, permite a leitura com que vivem nas cidades, precisam saber ler pelo menos placas de ônibus, um razoável limite de redundância. Para identificar uma palavra não é números, nomes, etiquetas, documentos etc. condição indispensável que esta esteja escrita na mais absoluta perfeição gráfica e ortográfica. A grande prova disso é que lemos a escrita cursiva, em que nem coisa outra se realiza plenamente. E ninguém estranha. Mas, apesar de tudo, a escola continua exigindo que o aluno "leia" sem tirar os olhos das "letras que está lendo". Na minha escola primária, o professor exigia que os alunos lessem "com um olho nas letras que estavam pronunciando e com o outro uma meia linha mais para a de tal modo que os alunos eram obriga- dos a fechar o livro antes de acabar de dizer o que estavam lendo no final de cada parágrafo. A interpretação do fato pode não ser verdadeira, mas o é, sem dúvida, interessante. Finalmente, a escola deve dar chance ao aluno de ler segundo sua variedade de língua e não obrigá-lo logo na primeira leitura a ler no Dados os problemas sérios de repetição e evasão escolar, seria bom dialeto da esc Mas, à medida que o aluno vai estendendo seu trei- que a escola se preocupasse menos com a escrita, especialmente com a namento, a leitura pode ser um momento interessante para que ele possa ortografia, e desse maior ênfase à leitura, desde a alfabetização. aprender a realização do dialeto da escola. Será que se pode aprender a ler antes de aprender a escrever? Será A escrita ortográfica se presta a leituras em qualquer variedade da que se pode aprender a ler sem aprender a escrever? Sem dúvida; aliás, língua. Por que, então, não mostrar isso objetivamente, fazendo os alu- 146 aprender a ler é mais fácil do que aprender a escrever. Uma criança pode nos lerem em seus diversos dialetos? começar ouvindo histórias, aprendendo a decifrar os sons das letras (no 147</p><p>seu dialeto e no da escola) em diversos contextos (palavras diferentes), A maneira como a escola costuma introduzir os alunos na leitura, e se pôr a ler pequenos textos de cujo conteúdo já tem conhecimento através do isto é, através das famílias silábicas, pode acarre- (já ouviu) ou que sabe de cor, como canções, provérbios, adivinhações tar problemas sérios para a formação do leitor. O reconhecimento de etc. Se esse tipo de atividade for intensificado, a criança passa a ter um famílias silábicas, como o próprio reconhecimento das letras, faz parte outro tipo de contato com a escrita, que não é simplesmente um jogo de do processo de decifração e não é a leitura propriamente dita. É apenas montar e desmontar sílabas e palavras. Terá a vantagem de adquirir uma um estágio inicial da leitura. Como esse processo apresenta dificuldades visão mais real do que a escrita é e de como funciona, o que lhe facilitará sérias ao leitor iniciante, é preciso dar o tempo suficiente para que ele inclusive o aprendizado da própria forma ortográfica. Aprendidos os prepare a sua leitura vencendo essas dificuldades. Se a escola insistir primeiros segredos da leitura, as crianças ficam ávidas por ler e, na gran- muito nisso, o aluno pode se tornar um leitor que silabando ou, de maioria dos casos, frustram-se pela falta de material de leitura. quando muito, um leitor de palavra por palavra, o que não é correto. É É preciso repensar esses procedimentos em relação à escrita e à lei- preciso que o leitor diga o que (leu) como se ele fosse o autor daquilo tura na escola, dando um lugar de maior prestígio à leitura desde o início que está lendo, quando em alta. do processo de alfabetização. Uma criança que aprende a ler toma velo- Para ler não é preciso que a criança conheça todas as palavras do texto. cidade no aprendizado da primeira série. Um aluno que não aprende- Deixá-la ler, levando-a a refletir sobre as estratégias de leitura e o conteúdo rá o resto com dificuldade, e pode passar a ter uma relação delicada com do texto, é fundamental. Se se resolvem todos os problemas de antemão, não a escrita, não entendendo muito bem o que esta é nem como funciona. se está ensinando a criança, mas exigindo dela apenas que já sabe. O objetivo da escrita é a leitura, mas quem vai escrever só é capaz de Com relação ao aspecto de decifração da escrita, de todos os pro- fazê-lo se souber ler o que escreve. Portanto, a leitura é uma habilidade blemas que sistema de escrita do português apresenta, a maior dificul- que precede a própria escrita. Por que, então, não começar a ensinar a dade estrutural que aparece é saber como se pronuncia que ocorre escrever e a ler, dando mais ênfase à leitura? Vejo, assustado, os progra- entre duas vogais, como em próximo [s], lixo [S], fixo [ks] e exame [z]. mas das aulas de alfabetização, cheios de atividades de escrita e quase Todos os demais casos de escrita não criam problemas reais de leitura, nada de leitura. E, quando se fala em leitura, é para avaliar ou a pro- quer porque são previsíveis por regras, quer porque como falante nativo núncia ou a capacidade de decifração de letras da escrita. Que absurdo! o leitor sabe que, numa frase como: "Pedro jogou o lixo fora", não faz Encontram-se muitas cartilhas que, em vez de oferecer leituras para as sentido dizer [liksu] ou [lisu] para lixo. O aluno talvez pudesse achar que crianças, trazem apenas aquelas estranhas listas de palavras e amontoa- fosse [lizu], ou seja, o mesmo som que o tem em exame. Se ele estiver dos de frases sem pé nem cabeça. lendo frases soltas, tal leitura só pode ser corrigida dizendo-se ao aluno Além de ter um valor técnico para a alfabetização, a leitura é ainda que é [lifu] e não [lizu]. Porém, se estiver lendo uma história, o próprio uma fonte de prazer, de satisfação pessoal, de conquista, de realização, contexto mostrará se o que foi jogado fora foi o [lifu]. que serve de grande estímulo e motivação para que a criança goste da O que foi dito, na verdade, é um problema típico do leitor adulto, escola e de estudar. Mas, se frustramos as crianças não lhes dando essa diante de uma palavra desconhecida que tem entre duas vogais. Para chance ou, pior ainda, se substituímos essa leitura gostosa por textos mal leitor iniciante, a questão é um pouco complexa. Uma criança pode achar escritos, enfadonhos, estranhos, o que vamos esperar delas depois? Que que casa é [kasa] (caça), que sede [sedi] é sede [sedi], que águia é [agúia] graça tem a escola? Para que serve ler e escrever? Para reproduzir essas (agulha) etc. Ao refletir sobre a escrita e a fala, problemas podem idiotices? Será essa a melhor maneira de se introduzir a criança na escrita aparecer. Se o contexto não esclarecer o que se deve ler, a dificuldade do e na leitura? Certamente que não! É de fato a pior maneira. Muito me aluno aumentará nesses casos. Mas, de um modo geral, os alunos não se admira a paciência que as crianças têm com a Será que a escola veem, a não ser raramente, embaraçados por esse tipo de dificuldade. nunca refletiu sobre o que pensa uma criança quando compara as leitu- Com relação ao aspecto semântico, é preciso dizer que as crianças, ras que faz em casa, de revistas e livrinhos infantis, com a leitura que a como falantes nativos, conhecem um número muito grande de palavras 148 escola a obriga a fazer? e conseguem descobrir o significado de outras pelo contexto em que 149</p><p>ocorrem. Quando não sabem alguma palavra e julgam necessário saber, um questionário de interpretação de texto após cada leitura e julgam que elas perguntam, como fazem desde pequenas em relação às histórias que essa é a única maneira de compreenderem que leem. lhes são contadas ou quando ouvem algo na televisão ou rádio e querem A leitura deve variar de acordo com o texto. Não se lê uma poesia saber o que significa. Não é preciso explicar o significado de todas as como se um problema de matemática ou uma narrativa. A reflexão palavras de um texto antes que a criança se ponha a Pelo contrá- que primeiro tipo de leitura exige é diferente da que exigem o segundo rio, deve-se deixar a criança ler primeiro e depois resolver suas dúvidas e o terceiro. É preciso ensinar às crianças como proceder em cada caso, à medida que ela perguntar. É preciso estimular as crianças a perguntar mostrando-lhes como ler provas, exames, questionários, formulários, e a entender os significados das palavras dentro dos contextos em que instruções, jornais, revistas etc. aparecem. Antes de pedir às crianças que usem o dicionário para conhe- Alguns tipos de leitura, como instruções e problemas de matemá- cer esses significados, é preciso ensiná-las a consultá-lo e a interpretar tica, exigem que leitor primeiro tome conhecimento do texto inteiro, suas explicações; do contrário, a consulta pode confundi-las. Depois que depois releia-o por partes e em seguida encadeie essas partes segundo a criança consegue ler com relativa facilidade, é conveniente ir incenti- resultados ou cálculos anteriores, até chegar ao fim. Uma leitura de tex- vando-a a perguntar menos à professora e a se virar com o dicionário. tos desse tipo só se completa quando se conclui que eles pedem que As leituras em voz alta podem de início ser feitas no dialeto da criança se faça ou calcule. Antes disso, a compreensão do texto é parcial ou, se e progressivamente passar para dialeto-padrão. Embora a escola deva se quiserem, apenas "linguístico-literal", o que não faz muito sentido como concentrar futuramente na pronúncia do dialeto-padrão, não pode abando- procedimento matemático mecânico. nar por completo a leitura com pronúncia dialetal. A leitura não pode ser Na escola, a leitura serve não só para se aprender a ler, como para apenas um instrumento para a confirmação do preconceito sociolinguístico aprender outras coisas, lendo. Serve ainda para se ensinar e treinar a da comunidade. Os alunos precisam e devem saber que um texto pode ser pronúncia dos alunos no dialeto-padrão e em outros. A leitura é uma lido de muitas maneiras, com muitas pronúncias e que não se torna mais maneira de se aprender que é escrever e qual a forma ortográfica das rico ou mais artístico ou mais belo só porque foi lido no dialeto-padrão. Mas palavras. Para conseguir esses objetivos da leitura é preciso planejar as a escola deve também mostrar aos alunos que a sociedade tem certas expec- atividades de tal modo que se possa realizar que se pretende. A leitura tativas com relação à fala de seus membros e, consequentemente, uma leitu- não pode ser uma atividade secundária na sala de aula ou na vida, uma ra no dialeto-padrão goza de prestígio na sociedade e uma leitura com uma atividade para a qual a professora e a escola não dedicam mais que uns pronúncia estigmatizada poderá ser objeto de riso, chacota etc. Portanto, míseros minutos, na ânsia de retornar aos problemas de escrita, julgados ensinar claramente ao aluno o que é próprio da linguagem e o que é próprio mais importantes. Há um descaso enorme pela leitura, pelos textos, pela do uso que a sociedade faz da linguagem é fundamental. programação dessa atividade na escola; no entanto, a leitura deveria ser Como já se disse antes, é preciso dar tempo à criança para que possa a maior herança legada pela escola aos alunos, pois ela, e não a escrita, processar todas as etapas da fala ao ler em alta, de tal modo que sua será a fonte perene de educação, com ou sem escola. leitura realize a entoação e o ritmo adequadamente. Ninguém é capaz de processar o ritmo e a entoação lendo por sílabas ou por palavras, porque tais aspectos fonéticos são programados no mínimo ao nível dos grupos tonais. LEITURA E CULTURA Há alguns vícios de leitura que se observam na escola e até mesmo na vida das pessoas. Alguns indivíduos só conseguem entender um texto Este é um tema que permite considerações de pontos de vista variados. se lerem em voz alta; outros, ao contrário, só se lerem em silêncio; alguns Abordarei apenas alguns poucos aspectos, que considero oportunos nesta leem silabando ou palavra por palavra; há os que, quando leem, preci- obra, mesmo que não sejam os pontos mais fundamentais da questão. sam "mastigar os sons" e ficam mimicando à medida que leem. Há ainda Leitura e cultura sofrem um impasse inicial. A leitura leva à aquisi- as pessoas que só conseguem compreender um texto respondendo a per- ção da cultura, mas é a cultura que explica muito do que se não apenas 150 guntas a respeito dele, porque foram treinadas pela escola a responder a o significado literal de cada palavra de um texto. Uma pessoa que não 151</p><p>conhece uma cultura tem dificuldade em ler textos produzidos por ela, por alto" dos próprios artigos e tratados. O tempo e a reflexão na leitura mas, para adquirir os conhecimentos dessa cultura, quando possível, é mudaram. Vejo a dificuldade que certos alunos têm hoje de consultar tra- interessante ler não só o que os outros disseram a respeito dela, mas o tados, o incômodo que isso lhes causa, porque sua experiência de leitura que ela mesma produziu. sempre esteve voltada para outro tipo de atividade. Esse impasse é maior quando se começa a aprender a ler. Alunos A escola deve acompanhar a evolução do mundo, mas ela é também de culturas diferentes, mesmo vivendo numa mesma cidade e colocados uma da tradição. Do equilíbrio entre as duas coisas nasce a ver- numa mesma sala de alfabetização, reagem de maneiras diferentes aos dadeira formação que deve dar a seus alunos. textos que lhes são apresentados. Para conhecer o que a escola pensa, eles Um outro aspecto da questão leitura e cultura diz respeito à verdade precisam ler o que a escola escreve. Para entender O que a escola escreve, dos livros. Algumas pessoas são levadas muito facilmente a acreditar em precisam entender a cultura da escola. Nesse jogo, muitos alunos podem tudo que leem, como se quem publicasse um livro fosse uma espécie se ver num labirinto sem saída ou encurralados pelo dragão da avaliação, de "dono do saber". Infelizmente, não é bem assim. A publicação às que parte do princípio de que todo aluno "normal" deve estar absoluta- vezes é mais um jogo econômico, uma máquina de ganhar dinheiro, do mente bem informado a respeito da cultura que a escola representa. que um depósito de cultura e saber. Por outro lado, restringir as atividades escolares, sobretudo a leitu- Na vida acadêmica, são comuns em todas as áreas obras aceitas ra, ao mundo e à cultura da criança é uma forma de negar a aquisição como cientificamente corretas e as que são rejeitadas por um motivo ou de conhecimentos novos. Não é porque no Brasil não existe elefante outro. Às vezes com razão, às vezes por preconceitos. A dificuldade em solto no mato que não se pode falar em elefante. Aqui há jacaré solto no distinguir as qualidades das fontes de informação leva não raro, sobre- Pantanal, é um animal nativo do Brasil, e eu pessoalmente só vi jacaré tudo os alunos universitários, a um ecletismo estranho, a contradições em zoológico. O regional pode ser um ponto de partida, mas não um ter- apoiadas por citações bem documentadas. Na nossa cultura, os livros ritório fechado onde se confina aluno na falsa suposição de que assim sempre foram muito valorizados, por vezes até exageradamente, a ponto ele se educará melhor, compreenderá melhor seu meio, seu mundo e de muita gente achar que, pelo fato de estar num livro, uma ideia deve viverá mais feliz. Isso é uma forma de enganar, quando não é dado ao pelo menos ser "respeitada", "que tem pelo menos uma parte de verda- aluno conhecer também mundo fora do seu "mundinho". de", e assim por diante. A verdade ou erro não são propriedades da Um outro ponto é: o que se lê e para que se Numa sociedade como escrita em si, mas do que se escreve e de como se escreve. a nossa, vemos "culturas diferentes" distribuídas não só geograficamente, É curioso que se forma uma tradição, em geral preconceituosa, mas mas ainda diacronicamente. Há pessoas que vivem mais os hábitos do com certa razão, segundo a qual certos autores, certos tipos de livros passado, como há os que pretendem viver no presente que imaginam (até editoras!), certos tipos de revistas ou jornais são a priori aceitos ou que será o futuro. Assim, antigamente liam-se livros para se conhecer rejeitados por determinados grupos de pessoas. "Um intelectual que se os fatos, o que ocorria com certo atraso em relação aos acontecimentos. preza" preferirá dizer que leu tal notícia na Istoé ou Veja do que dizer Depois ficou mais comum a leitura de almanaques, revistas e jornais. O que a leu na Manchete ou Fatos & Fotos. Um intelectual voltado para tempo entre os fatos e as notícias ficou muito reduzido. Hoje, com a tele- as ciências humanas citará Le Monde, e um cientista comentará o que visão, pode-se saber que acontece no mundo quase instantaneamente. saiu na Ciência Ilustrada etc. Em São Paulo, por exemplo, a Folha de Porque mudou esse aspecto cultural, mudaram também alguns hábitos de S.Paulo é a fonte dos universitários, o Diário Popular, dos operários, A leitura. Os livros se especializaram em certos assuntos, as revistas também, Gazeta, dos interessados em futebol, e o Diário Comércio & Indústria, a e os jornais abriram novos caminhos, antes próprios de livros e revistas fonte de referência dos patrões. É até bom poder dispor de publicações especializadas. Mesmo no meio científico atual leem-se mais revistas do especializadas, mas é muito curioso o preconceito que nasce daí no seio que livros, procuram-se mais artigos do que tratados científicos. O mundo da sociedade, de tal modo que, com o passar do tempo, a simples menção mudou e os hábitos de leitura mudaram. Hoje se leem muito "abstracts" do periódico já classifica o leitor, suas ideias, e desencadeia as respostas 152 como forma de triagem de leitura, o que se fazia antes com uma "leitura já preparadas de antemão para determinada circunstância. 153</p><p>Ainda uma outra questão com relação à leitura e cultura: uma Alguns diretores transformam as bibliotecas em museus que os pessoa lê um trabalho manuscrito e o julga razoável; se o tivesse lido alunos vão visitar uma vez por ano, quando, ao contrário, a biblioteca datilografado, o acharia melhor; se publicado como artigo numa revista, de uma escola tem que ser o mais dinâmica possível, pois é de fato um o consideraria muito bom, e, se publicado como capítulo num livro, complemento necessário, indispensável à formação dos alunos, tanto excelente. Sem quanto as aulas e os professores. O hábito de ler, ler muito, sempre foi uma forma de preencher O que os alunos devem ler? a solidão do indivíduo. Antigamente talvez se lesse mais porque não Certamente há leituras mais interessantes para as crianças e as havia tantos atrativos quanto hoje, sobretudo nas grandes cidades. próprias para os jovens ou para os adultos. Há bons escritores na nossa vezes, para fugir da agitação, recorre-se a uma boa música acompanha- literatura que produzem textos para todas as faixas etárias. Os alunos da de uma boa leitura. O ser humano precisa conversar consigo, ter seu devem entrar em contato com bons autores desde as primeiras leituras. momento de solidão, e a leitura é um grande auxiliar da reflexão, da Além dos nomes famosos da literatura nacional há os bons autores meditação, do voltar-se para dentro de si. de outras línguas, que são traduzidos. Por que não Finalmente, queria apenas mencionar fato de que formato dos Há ainda que se promover a leitura de revistas de vários tipos, como livros e das publicações e o cuidado editorial e gráfico refletem os valo- revistas semanais ilustradas, fotonovelas, revistas em quadrinhos, fasci- res culturais que uma sociedade atribui à leitura. O modo como certos culos de periódicos. A escola deveria propiciar o acesso a esse tipo de livros são feitos hoje demonstra o pouco caso com que a leitura é tratada material àqueles alunos que não podem tê-las em casa ou na de amigos. na nossa sociedade. Um livro é um livro, não um amontoado de papel Às vezes essas revistas e fascículos motivam fortemente os alunos para a impresso de qualquer maneira. leitura, mostram-lhes que a leitura pode ser muito mais interessante do que aquilo que encontram em grande parte dos livros de português e na totalidade das cartilhas. Às vezes a escola, baseada em preconceitos dos TEXTOS DE LEITURA mais diversos tipos, costuma censurar esse tipo de leitura. Uma coisa é selecionar textos que interessam aos alunos, outra é proibir a priori a Algumas crianças, antes de entrar para o 1° ano, têm contato leitura de qualquer revista em quadrinhos, fotonovelas etc. com muitos textos que lhes são lidos, veem livros, revistas e jornais Quando era professor, para minha surpresa, percebi que grande parte no seu dia a dia. Porém, outras não têm livros, nem revistas, nem dos meus alunos gostava de ler de arte que eu colecionava e que jornais em casa e começam a se familiarizar com livros somente na os deixava ler na sala de aula. Eram alunos de um ginásio industrial e muitos escola, onde se defrontam com alguns, entre eles a cartilha ou o livro deles não tinham nenhum livro em casa, a não ser os recomendados pela de português. Nos anos seguintes, talvez leiam um ou outro livro de escola. Alguns se interessavam por arqueologia, astronomia. Ler esse material histórias pedido pelo professor. Passam nove anos na escola de ensi- nas aulas de português foi sem dúvida uma experiência muito importante no fundamental e a bagagem de leitura é mínima. Sua formação foi para eles, e isso era dado juntamente com outras revistas em quadrinhos, um absoluto fracasso! fotonovelas, revistas semanais, cujos números atrasados eu obtinha em ban- Algumas escolas têm bibliotecas e guardam os livros como se fos- cas especiais por preço baixo. Os alunos adoravam as aulas de leitura, mas sem pedras preciosas, trancados. Para que serve uma biblioteca de escola o seccional da Secretaria de Educação considerava essas leituras se os alunos têm tanta dificuldade em usá-la? As escolas precisam ter absurdas. Por ele, os alunos estariam até hoje lendo Bilac e Rui Barbosa! uma biblioteca com livros de consulta e com livros de livre circulação. As antologias de bons autores são imprescindíveis na escola, desde a Esses últimos são livros de vida relativamente curta. Livro também se alfabetização até a para fins literários e científicos. estraga com o uso e as bibliotecas precisam prever isso: devem ter dois Uma professora pode compor sua antologia na falta de livros desse exemplares de um mesmo livro - um para acervo permanente e outro tipo. Pode fazer uma dúzia de pequenos livros com histórias, trechos de 154 para ser manuseado pelos alunos. obras literárias que podem interessar à criança, poesias, canções, letras 155</p><p>de músicas populares, provérbios, adivinhações, jogos de palavras etc. tão ruim que a compreensão do texto às vezes se torna até impossível. Nos primeiros livros, as letras precisam ser bem impressas e de tama- Depois, não há comparação entre a arte de um e de outro. Considero nho grande. É importante produzir muitos livrinhos, de tal modo que um crime reescrever esses autores, em qualquer hipótese, para passar aos a criança se sinta realizada quando diz que já leu sete, dez livros! Dar alunos como leitura. Como alguém pode aprender a escrever se é privado a uma criança em fase de alfabetização um grosso volume de leituras desde cedo da leitura dos bons escritores? A escola reclama muito de que selecionadas pode não ser uma estratégia tão boa quanto decompor esse os alunos escrevem mal, mas o que eles leem? São alunos subnutridos lite- volume numa série de livrinhos independentes. rariamente e, é claro, em decorrência disso, não vão saber escrever. Lembramos a atividade que já comentamos a elaboração de Uma das piores atitudes da escola atual em relação à leitura é a livros escritos e ilustrados pelos próprios alunos. Estes livrinhos, além maneira como faz interpretação de texto. de serem excelentes no aspecto didático, representam uma memória do Quando uma criança ouve histórias, assiste à televisão, é perfeitamente processo de aprendizagem pelo qual a criança passa a cada ano. Rever capaz de entender o que ouve. É evidente que sua compreensão não é igual velhos livrinhos de classe e compará-los com os novos pode ser uma à de um adulto, mas, quando não entende algo que julga importante saber, maneira de mostrar ao aluno como ele e seus colegas estão realmente a criança pergunta. A escola obriga a criança a agir de outra maneira, pre- aprendendo e progredindo na escola. tensamente ensinando como se deve interpretar um texto. Então, a criança Além dos livros coletivos das classes, podem-se fazer também livros lê um texto e depois responde a um questionário. Os questionários que se individuais, reunindo a produção de textos e desenhos de um mesmo veem nos livros são em geral do tipo: no texto ocorre "Pedro chutou a bola"; aluno e dando a esses trabalhos a forma de um livrinho. o questionário pergunta "Quem chutou a bola?" Ora, perguntar isso a uma O tamanho dos livros (e dos cadernos) e seu peso podem ser um pessoa é uma forma de chamá-la de burra, de aviltá-la como falante nativo. transtorno para as crianças. Alguns livros são imensos, tão grandes que Às vezes tenho a impressão de que esses roteiros de interpretação de texto uma criança nem consegue segurar direito; não cabem abertos na car- servem única e exclusivamente como um meio para a professora dar nota teira juntamente com os demais materiais, além de serem pesados e não para o aluno. O pior nessa história é que é falso dizer que uma criança não caberem nas bolsas, deixando as crianças irritadas com esses problemas. compreendeu a leitura de um texto porque "não foi capaz" de responder às Os cadernos também são pesados e feios. Por que não se fazem livros perguntas sobre ele. São coisas diferentes! Responder a perguntas requer, e cadernos em tamanho conveniente e bonitos para as crianças? Um entre outras coisas, um amadurecimento linguístico específico e o reconhe- absurdo que se vê frequentemente nos primeiros anos é a exigência que cimento da própria capacidade de dar opinião, o que muitas crianças estra- certas escolas fazem de os alunos encaparem com um plástico, as capas nham na alfabetização, porque a autoridade para dar opinião é a professora. dos livros e cadernos. Meu filho ficava revoltado e a escola dizia que A criança ouve e aprende. isso era uma regra (sic!) Sempre considerei essas atitudes Esse procedimento de interpretação de texto através de perguntas da escola de um sadismo incrível. Toda uniformização é uma forma de não só induz o aluno a pensar que interpretar texto é saber o sadismo da autoridade. sujeito de uma oração ou o objeto direto etc., como ainda tira todo o É necessário que exista na classe um dicionário, como já men- sabor da leitura, substituindo-o por um gosto chato de questionário. cionamos. Uma atividade possível com a leitura de textos é a discussão do assunto Voltando aos textos, é preciso dizer mais uma vez que alguns livros com os alunos, não só do conteúdo mas até mesmo da forma. Pode-se pedir não vão além de frases para a leitura, que são cheias de repetições como aos alunos que contem a mesma história com as próprias palavras (sem "A vovó deu a uva a Olavo", "O bebê bebe e baba" etc.; obviamente, isto roteiro!). Isto é fazer uma interpretação criativa, não repetitiva, do texto. é o que há de pior para se dar para uma criança ler. Às vezes uma simples leitura basta. Nem tudo que se precisa ser Existe ainda a questão da adaptação de textos literários com o intui- discutido, comentado, interpretado. Esse é outro erro que se vê eventu- to de facilitar a compreensão dos mesmos pelas crianças. Tenho visto almente em livros didáticos. A leitura às vezes é como uma música que 156 Monteiro Lobato e Cecília Meireles reescritos em certos livros de maneira se quer ouvir e não dançar. 157 152</p><p>Ao concluir este livro, gostaria de apresentar um resumo das prin- os cometeram foi imputada até hoje ausência de discriminação cipais ideias nele tratadas. Há muitas maneiras de perceber os sons da fala e de analisá-los. De tudo o que a escola pode oferecer de bom aos alunos é a leitura, sem Se os métodos não forem rígidos demais, pretendendo dominar a dúvida, melhor, a grande herança da educação. É o prolongamento da maioria das atividades escolares, os alunos não agirão mecanicamente, escola na vida, já que a maioria das pessoas, no seu dia a dia, lê muito mais cometendo, às vezes, erros de distração, mas desenvolverão uma grande do que escreve. Portanto, deveria se dar prioridade absoluta à leitura no (e cansativa) tarefa de reflexão, arriscando hipóteses acerca de tudo o que ensino de língua portuguesa, desde a alfabetização. É fundamental ensinar realizam. As crianças, em geral, mesmo em meio ao barulho, conseguem os alunos a ler não só histórias, mas também outros tipos de textos, incluin- pensar profunda e rapidamente, porém nem sempre tomam as decisões do problemas de matemática, provas e instruções de trabalhos. (Muitos alu- que a professora espera. Deixar as crianças pensarem é fundamental: nos deixam de resolver problemas de matemática não por não conseguirem erro é corrigido com o tempo, mas o processo educativo permanece. efetuar as contas, mas por terem dificuldade em ler seus enunciados.) Da análise de muitos trabalhos escritos por crianças concluímos A escola desconhece a realidade linguística da criança; esquece-se que, se as deixam escrever livremente, seus "erros" revelam hipóteses de que ela foi capaz de aprender a falar e a entender a linguagem oral sobre possíveis usos dos sistemas de escrita e da relação letra e som. mesmo antes dos 3 anos e de que é capaz de usar essa mesma linguagem Contudo, crianças que só escrevem palavras que já dominam erram oral para dizer tudo o que quer, quando não poderia, de forma alguma, pouco na ortografia, mas executam um trabalho mecânico que lhes ignorar ou destruir essa habilidade já adquirida. Não poderia deixar acrescenta pouco e contribui para destruir a capacidade de se expressar de reconhecer também o fato de que as crianças aprendem a falar uma espontaneamente através da linguagem. variedade do português própria de sua comunidade, que pode ser bem As crianças que desde o início têm liberdade para escrever textos ou mal vista pelos outros grupos sociais. Ignorando a variação linguís- espontâneos, da extensão que desejarem, conseguem desenvolver na tica e seu uso na sociedade, a escola faz os alunos que falam dialetos escrita a mesma força de autocorreção que usavam quando aprendiam estigmatizados se sentirem fortemente discriminados, quando deveria a falar. Em ambos os casos, excesso de controle por parte dos pais e ensinar-lhes o dialeto de maior prestígio regional, como forma de pro- professores pode causar danos irreparáveis. Escrever espontaneamente moção social. É por serem falantes desses dialetos marcados pela socie- pode ser uma tarefa fascinante para os alunos quando o que escrevem é dade e por serem mal compreendidos pela escola que os alunos cometem valorizado pela escola e pela família, não constituindo apenas um objeto a maioria dos erros de escrita; portanto, as causas destes não são, como de avaliação escolar. Elaborar livros de redações de classe e individuais é se pensa, deficiências auditivas ou motoras, nem fome muito motivador, mesmo na alfabetização. A escola, apesar de desconhecer as questões mais importantes e Seria bom que não houvesse ditados durante a alfabetização, mas básicas relativas à escrita, faz com que tudo gire em torno desta. Assim, o muitas cópias curtas em seu lugar. O ditado estimula a zombaria entre aluno deve aprender o que é escrever, como funcionam os diversos siste- os colegas, servindo apenas de objeto de avaliação ninguém aprende mas de escrita que usamos ou o que é a ortografia, sem receber a devida a escrever corretamente através dele. explicação, ou, às vezes, recebendo explicações completamente errô- As primeiras leituras deveriam ser feitas sempre individualmente, neas. Costuma-se ensinar, por exemplo, um sistema de escrita silábico e já que ler em alta e em público é outra forma infalível de favorecer espera-se que os alunos usem um sistema alfabético (letras individuais). a zombaria, o ridículo entre os colegas e desestimular a própria leitura. Insiste-se de maneira exagerada na escrita cursiva, desprezando-se o fato Além disso, para ler em voz alta, é preciso uma enorme familiaridade de que é a mais difícil de escrever e ler. Consideram-se os equívocos de com a escrita. Se a professora julgar interessante, pode pedir aos alunos interpretação do material escrito por parte do aluno, muitas vezes, desa- que contem à classe o que leram. Um aluno que sozinho e conta o que tenção ou mesmo falta de discriminação auditiva. No entanto, em aulas leu prova que entendeu o que leu. de pós-graduação, tenho visto erros semelhantes aos das crianças quan- Não se poderia deixar de dizer algo a respeito da avaliação. É neces- 160 do faço treinamentos de transcrição fonética, e a nenhum dos alunos que sário que esta seja feita individualmente, levando-se em conta, antes de 16</p><p>tudo, o processo que cada criança usa para aprender e depois os resul- tados obtidos. Uma criança falante de uma variedade de português que não a de prestígio precisa de mais tempo do que uma criança falante desse dialeto para poder ser avaliada segundo alguma tarefa realizada dentro dos padrões desse dialeto de prestígio. Às vezes, o aluno que mais faz é o que é menos reconhecido, o que lhe causa uma revolta pessoal que pode levá-lo até a odiar a própria escola. A escola tem a mania de avaliar demais, sem propósito definido, sem saber o que faz nem o que fazem os alunos. Avaliar um aluno só pelos erros de ortografia é imperdoável. Exigir desinibição numa socie- dade de medo, exigir o domínio do dialeto de prestígio da noite para o dia, exigir que todos os alunos façam sempre as mesmas coisas e apre- sentem os mesmos resultados, independentemente dos processos usados individualmente, é um desrespeito violento às crianças. Finalmente, gostaria de dizer que é preciso que os cientistas, sobre- tudo os linguistas, se dediquem a um trabalho profundo e extenso de análise do que ocorre na alfabetização. Somente assim poderemos con- tribuir efetivamente com sugestões adequadas e não com hipóteses de gabinete que mais atrapalham do que ajudam. É necessário que os órgãos responsáveis pela educação tenham assessorias técnicas linguísticas para auxiliar de fato o professor, dando-lhe o suporte técnico-científico que as escolas de formação abandonaram ou substituíram por conteúdos vazios. O professor que vai ensinar a ler e a escrever estuda tudo nessas escolas, exceto o português que deverá ensinar. As universidades não formam adequadamente os professores das escolas de formação de alfa- betizadores. Por último, é preciso dizer que não basta "reformar" os professores de alfabetização; é preciso, antes de tudo, reformar os órgãos encarrega- dos da educação neste país. 162</p>

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