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<p>Educação como prioridade</p><p>Darcy Ribeiro</p><p>***</p><p>1ª edição digital</p><p>São Paulo</p><p>2018</p><p>Apresentação</p><p>Este livro foi organizado com o objetivo de reunir textos de Darcy Ribeiro</p><p>relacionados à educação, publicados em suportes diversos, entre livros,</p><p>revistas e jornais. Além de A universidade necessária e Nossa escola é uma</p><p>calamidade, o autor não publicou de forma sistemática sobre educação,</p><p>como fez sobre antropologia. Sua relação com o tema é bastante diferente</p><p>daquela que encontramos na antropologia, em que há uma discussão teórica</p><p>de fôlego. Acerca da educação, Darcy Ribeiro foi instado a escrever, ao</p><p>longo dos seus “fazimentos”, configurando o texto como um instrumento de</p><p>luta política, seja para argumentar em defesa dos Centros Integrados de</p><p>Educação Pública (CIEP), para angariar adesão ao projeto de LDB, para</p><p>reconstituir o sentido da UnB, desmontada pela ditadura militar, enfim, para</p><p>enfrentar desafios em busca de uma educação pública adequada e</p><p>necessária à nação brasileira.</p><p>Por outro lado, a seleção de textos teve em vista que na base da proposta</p><p>de educação de Darcy Ribeiro estava sua riquíssima experiência vivida</p><p>entre os índios e uma inserção profunda na área das ciências sociais, com</p><p>um compromisso de intervenção política, que caracterizou os intelectuais de</p><p>sua geração, como registra Helena Bomeny (2009) a seu respeito. Assim</p><p>temos textos específicos sobre educação, sobre universidade, sobre</p><p>legislação, mas também somos convidados a perceber a relação entre suas</p><p>propostas e o tributo que faz aos seus mestres brasileiros – Marechal</p><p>Rondon e Anísio Teixeira. E o modo como cultivava seus pupilos, entre eles</p><p>esta organizadora.</p><p>1</p><p>O livro está distribuído em seis seções. A primeira, introdutória, com</p><p>textos gerais sobre as preocupações do autor, como em “Fala aos moços”,</p><p>em que convoca os jovens brasileiros a assumirem a responsabilidade pelo</p><p>Brasil que a geração dele deixou como herança. Apresenta o diagnóstico</p><p>sobre a educação no Brasil, em dois momentos – no início do I Programa</p><p>Especial de Educação (I PEE), no princípio dos anos 1980, e no final do II</p><p>PEE, em meados dos anos 1990. Lembremos que a década de 1980 foi um</p><p>período de reconstrução nacional, pós-ditadura cívico-militar, que deixou as</p><p>escolas brasileiras à míngua, tendo dobrado a obrigatoriedade escolar sem</p><p>os recursos necessários. Já a década de 1990, com uma nova constituição,</p><p>se desdobra na promulgação da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação</p><p>(LDBEN 9.394/96), conhecida como Lei Darcy Ribeiro.</p><p>A segunda e a terceira seções são compostas por textos orientadores do</p><p>próprio programa de implantação dos CIEPs, seja de sua concepção ou da</p><p>preocupação com a formação dos professores. São textos em formato</p><p>institucional, tirados de publicações dirigidas ao corpo docente que viria a</p><p>trabalhar nos CIEPs. O teor destes textos foi publicado em Nossa escola é</p><p>uma calamidade. Os textos selecionados, intencionalmente textos</p><p>institucionais de dificílimo acesso, partiram de originais de Darcy Ribeiro,</p><p>desmembrados em partes e adaptados para um formato mais pedagógico e</p><p>mais acessível aos professores a quem eram dirigidos. A segunda seção</p><p>começa e termina por dois textos analíticos, além de apresentar dois textos</p><p>institucionais históricos, que são “Teses aprovadas no Encontro de Mendes”</p><p>e “IPEE – I Programa Especial de Educação: nosso problema”.</p><p>A terceira seção é composta por quatro textos institucionais, todos do I</p><p>PEE, dirigidos aos professores, entre os cinco textos selecionados. Não foi</p><p>nossa opção escrever sobre as experiências empreendidas por Darcy</p><p>Ribeiro. Nosso objetivo era uma coletânea com textos originais do autor,</p><p>mesmo que predominassem alguns escritos prescritivos. Nessa seção não</p><p>são argumentos, e sim propostas. Incluí um texto de minha autoria, sobre</p><p>Escola de Demonstração, tema sobre o qual Darcy Ribeiro se referia</p><p>reiteradamente, mas não escreveu a respeito. Respaldei-me na proposta</p><p>inspiradora de Darcy Ribeiro e nas palavras de Anísio Teixeira.</p><p>A quarta seção, dedicada à universidade, reúne três textos em torno da</p><p>Universidade de Brasília. O primeiro, “Universidade, para quê?”, discute a</p><p>função da universidade. O segundo relata a oportunidade da criação da</p><p>Universidade de Brasília. E o terceiro transborda toda a emoção de Darcy</p><p>Ribeiro, já no final da vida, ao receber o título de Doutor Honoris Causa da</p><p>UnB.</p><p>A quinta seção, voltada para a elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da</p><p>Educação Nacional (LDBEN), conta com três textos. O primeiro, mais</p><p>longo, é composto pelo discurso que proferiu ao apresentar o projeto de lei</p><p>ao Senado Federal. O segundo sintetiza os argumentos que o autor</p><p>considerava indispensáveis para uma Lei da Educação para a modernidade.</p><p>O último, no ano de promulgação da lei, em 1996, traz indícios da luta</p><p>política para aprovação da lei no Congresso Nacional.</p><p>A última seção é composta de textos bem diversos. Tanto apresenta</p><p>escritos, às vezes objetivos, às vezes comovidos, sobre as influências que</p><p>marcaram o pensamento do autor, aqueles que reconhecia como sendo seus</p><p>formadores, como textos sobre seus possíveis seguidores, como é o meu</p><p>caso. Darcy Ribeiro não se esquivava de se expor. Dizia exatamente o que</p><p>queria dizer. Fica seu aviso:</p><p>Mas não se equivoque comigo. Nenhum escritor é inocente, eu também não... Confesso que</p><p>quero mesmo é fazer sua cabeça. Os brasileiros vêm sendo tão massacrados pela</p><p>indoutrinação direitista, difundida por toda a mídia, que já não há onde alguém possa</p><p>informar-se realmente sobre como viemos a ser o que somos, sobre como se implantou a</p><p>crise em que estamos afundados e sobre as alternativas políticas que se abrem para nós. [...]</p><p>Nada é mais necessário hoje que um novo discurso de esquerda (1995c, p. 7).</p><p>Ao final do livro, há uma seção com as referências bibliográficas. Chamo</p><p>atenção para a raridade dessas referências. Os textos institucionais</p><p>utilizados, hoje, são preciosidades escassas, em particular as publicações do</p><p>Programa Especial de Educação. Recorri propositalmente a textos de Darcy</p><p>Ribeiro publicados na revista Carta, que era um informe de distribuição</p><p>restrita do gabinete do senador Darcy Ribeiro. Em cinco anos foram</p><p>publicadas dezesseis revistas temáticas, sendo as três últimas indispensáveis</p><p>para esta publicação: a de número 14, sobre a UnB; a 15, sobre os CIEPs; e</p><p>a 16, sobre a LDB. São preciosas e ainda garimpáveis em sebos. Merecem</p><p>uma publicação.</p><p>Por fim, quero agradecer a leitura do original e as considerações feitas por</p><p>Ana Maria Cavaliere, Gisele Moreira Jacon, Haydée Ribeiro Coelho, José</p><p>Ronaldo Alves da Cunha, Letícia Coutada e Maria Elizabeth Brêa</p><p>Monteiro, que muito contribuíram para o aprimoramento do texto final.</p><p>Lúcia Velloso Maurício</p><p>Professora Associada da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio</p><p>de Janeiro (UERJ). É doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e</p><p>cursou pós-doutorado na Universidade Estadual do Ceará (UECE) e na Universidade Complutense de</p><p>Madrid (UCM), na Espanha. Foi diretora de capacitação do magistério durante a implantação dos</p><p>Centros Integrados de Educação Pública, os CIEPs, no estado do Rio de Janeiro (1992-1994). Entre</p><p>outros livros, organizou Tempos e espaços escolares: experiências, políticas e debates no Brasil e no</p><p>mundo (Rio de Janeiro: Ponteio/FAPERJ, 2014).</p><p>1 Carta escrita por Darcy Ribeiro a mim, em retorno ao projeto de doutorado que lhe enviei: “Desde</p><p>que nos vimos, há uns quantos anos, nos apegamos. Você a mim numa atitude de colaboradora e</p><p>aprendiz. Eu a você com a alegria enorme de ver uma educadora nascente. Sábia e bela. Você é para</p><p>mim, Lúcia, o que eu fui para Anísio. O discípulo questionador, mas fiel, o sucessor que levanta as</p><p>bandeiras das ideias dele como suas próprias, na guerra contra tantos deseducadores vadios de que</p><p>esse país sofre. Vejo você, Lúcia, como minha sucessora, defendendo as mesmas ideias e lutando</p><p>pelas mesmas causas. Lerei com todo carinho e enorme respeito e admiração o texto que mandou.</p><p>Queria muito vê-lo</p><p>várias</p><p>modalidades. Tais como a engenharia do petróleo e do gás, a engenharia</p><p>ferroviária, a engenharia portuária, a engenharia agrícola, a engenharia</p><p>florestal, a engenharia sanitária e ambiental, a engenharia genética e as</p><p>várias engenharias biotecnológicas.</p><p>O professorado constituído, essencialmente, por chefes de laboratório,</p><p>responsáveis por programas específicos de pesquisa e pela condução de</p><p>cursos de pós-graduação. Serão preferencialmente os mestrandos e</p><p>doutorandos que se ocuparão do ensino de graduação. Isso significa que ao</p><p>fim dos respectivos períodos de formação, eles devolverão seus cargos e</p><p>bolsas de estudo a outros mestrandos e doutorandos, assegurando, assim, a</p><p>indispensável renovação do pessoal docente e de pesquisa.</p><p>Especial atenção será dada pela Universidade à Faculdade de Educação e</p><p>Comunicação, destinada à formação e aperfeiçoamento do magistério,</p><p>através do estudo e da prática das artes da educação. Conta para isso com</p><p>um CIEP, que dará treinamento em serviço ao professorado de primeiro</p><p>grau, e com um Ginásio Público, que será um centro experimental de</p><p>formação de professores de segundo grau e das diversas categorias de</p><p>trabalhadores da educação. Conta ainda com um centro de aprendizado</p><p>industrial, criado em associação com o Senai, de formação e</p><p>aperfeiçoamento do professorado das escolas técnicas. Conta, finalmente,</p><p>com a Escola Brasileira de Cinema e Televisão, para a formação de pessoal</p><p>capacitado a operar no vasto terreno comum da pedagogia e da</p><p>comunicação. Esta última instalada no Solar do Colégio dos Jesuítas, que</p><p>para isto está sendo restaurado.</p><p>São também ambiciosos os programas de educação a distância da UENF,</p><p>que deverão oferecer progressivamente a milhares de estudantes de todo o</p><p>país a oportunidade de fazer cursos superiores em diversos campos do</p><p>saber. Nos países mais avançados, a educação a distância constitui a</p><p>principal inovação do Ensino Superior das últimas décadas. Graças às</p><p>técnicas didáticas para ela desenvolvidas, de preparação de material de</p><p>estudos, de autoavaliação, combinados com estágios práticos e controlados</p><p>por sistemas rigorosos de exame, ela proporciona, hoje, a milhões de</p><p>pessoas, cursos superiores de qualidade igual ou superior aos cursos</p><p>presenciais.</p><p>A educação a distância mobilizará pessoas maduras que interromperam</p><p>seus cursos superiores e as que não tiveram oportunidade e meios para a</p><p>eles ascender, chamando-as a estudar nas horas vagas, guiadas por material</p><p>didático que compete e supera a docência dos cursos comuns. No caso</p><p>brasileiro, ela ainda substituirá com imensa vantagem a miríade de escolas</p><p>particulares e pagas que funcionam principalmente à noite, onde o ensino é</p><p>uma vasta simulação, grandemente responsável pela quebra de qualidade da</p><p>formação profissional.</p><p>A Universidade Estadual do Norte Fluminense funciona em instalações</p><p>próprias, projetadas por Oscar Niemeyer, que começam a configurar-se</p><p>como um dos mais belos campus universitários brasileiros. Isto é o que</p><p>ficou demonstrado, para surpresa de todos, quando o governador Brizola a</p><p>inaugurou em março último.</p><p>A implantação da Universidade Estadual do Norte Fluminense está se</p><p>fazendo sob orientação superior do chanceler, que é o professor Darcy</p><p>Ribeiro; sob a direção do reitor, que é o eminente cientista Wanderley de</p><p>Souza; e sob a gestão administrativa da presidente da Fundação</p><p>Mantenedora, que é a doutora Gilca Alves Wainstein.</p><p>Os laboratórios da UENF também estão sendo instalados a um custo</p><p>previsto de 20 milhões de dólares para equipamentos e instalações, metade</p><p>dos quais cobertos por créditos cedidos pelo CNPq. Estão ainda previstos</p><p>gastos adicionais com programas específicos de pesquisa e experimentação,</p><p>que serão custeados com recursos próprios e com subsídios de instituições</p><p>nacionais e estrangeiras devotadas ao desenvolvimento científico.</p><p>Aí estão as características distintivas da nova universidade. Primeiro, a</p><p>combinação da pesquisa e do ensino, que permite explorar até o limite as</p><p>potencialidades educativas de cada programa de pesquisa na formação de</p><p>cientistas e profissionais com o pleno domínio da metodologia científica.</p><p>Segundo, uma viva preocupação prática que se volta para a pesquisa</p><p>aplicada a soluções de problemas concretos, e que remete os alunos a</p><p>centros experimentais e a empresas conveniadas para aprenderem suas</p><p>profissões, praticando-as concretamente. Terceiro, a exploração das imensas</p><p>potencialidades da educação a distância, associada a períodos de prática na</p><p>universidade.</p><p>2 Este texto foi publicado pela primeira vez em agosto de 1994, no prólogo da revista Carta, nº 12,</p><p>sob o título “Fala aos moços”. Teve publicação posterior em 1995, com o título “Indignação”, no</p><p>livro O Brasil como problema.</p><p>3 Este é o texto introdutório do Livro dos CIEPs, conhecido como Livro preto, publicado por Bloch</p><p>Editores em 1986, como um registro do que foi o I Programa Especial de Educação no Estado do Rio</p><p>de Janeiro. De fato o artigo configura uma fusão de três ensaios publicados pelo autor, em 1984, no</p><p>livro Nossa escola é uma calamidade, pela Salamandra Editorial. O texto foi republicado em 1993,</p><p>com dados atualizados, numa coletânea de textos preparatórios para o concurso para professores de</p><p>CIEP, no II PEE, pela Degrau Cultural.</p><p>4 Texto publicado na revista Carta nº 12, em agosto de 1994.</p><p>5 Para aprofundamento sobre o tema, ler Maurício (2012b); Monteiro (2009).</p><p>2. As diretrizes do Programa</p><p>Especial de Educação</p><p>A educação e a política</p><p>6</p><p>A rica direita brasileira, desde sempre no poder, sempre soube dar, aqui ou</p><p>lá fora, a melhor educação a seus filhos. Aos pobres dava a caridade</p><p>educativa mais barata que pudesse, indiferente à sua qualidade. De fato,</p><p>nunca quis dedicar ao povo aquela atenção escolar minimamente necessária</p><p>para a alfabetização generalizada. Não tinha para isso a inspiração luterana</p><p>de ensinar a ler para rezar nem a napoleônica de formar a cidadania. A</p><p>educação das crianças e a fartura das casas de fato nunca foram</p><p>preocupação das classes dirigentes brasileiras.</p><p>Isso era compreensível num império de povo negro, escravo, mulato ou</p><p>mestiço pobre, confundidos todos numa massa desprezível. As únicas obras</p><p>assinaláveis de Pedro II nos seus 45 anos de governo foram a criação do</p><p>Instituto dos Cegos e do de Surdos-Mudos, aos quais, aliás, deu excelentes</p><p>edificações. Na ótica imperial, educação era caridade para os carentes</p><p>físicos.</p><p>Inaugurada a República, Rui Barbosa fez grandes planos de educação</p><p>popular aos quais ninguém deu atenção. A Revolução de 30 entrou</p><p>corajosamente em ação criando o Ministério da Educação e a primeira</p><p>universidade brasileira por parte da ordem oficial e lançando pelos</p><p>educadores um Manifesto dos Pioneiros da Educação (1932) que é ainda</p><p>hoje nossa melhor proposição programática.</p><p>Seus ideais começaram a ser postos em prática por Anísio Teixeira, no</p><p>governo do Pedro Ernesto, que ergueu dezenas de grandes escolas primárias</p><p>de dia completo, ampliou o Colégio Pedro II e criou a Universidade do</p><p>Distrito Federal, a melhor que tivemos.</p><p>A onda fascista, que se abateu então sobre o mundo, estimulada pela louca</p><p>Intentona de 1935, acabou com esse primeiro esforço admirável de dar</p><p>educação aos brasileiros. Gustavo Capanema, ministro da Educação, cuidou</p><p>admiravelmente da cultura, mas entregou a educação a Alceu do Amoroso</p><p>Lima e a Santiago Dantas, que se regiam, nessa matéria, pela cartilha</p><p>fascista. Acabaram com tudo que Anísio começara.</p><p>Nos anos e décadas seguintes, as cidades brasileiras explodiram</p><p>demograficamente pela expulsão da população rural de suas terras pelos</p><p>fazendeiros, amedrontados pela ameaça de aplicação da legislação</p><p>trabalhista ao campo. Frente a essa avalanche populacional, em lugar de</p><p>multiplicar as escolas para atender à nova clientela urbana, simplesmente as</p><p>desdobraram em turnos: dois, três e até quatro. Abandonou-se assim o</p><p>modelo mundial de escola de tempo integral para professores e alunos que</p><p>alfabetizou a população de todas as nações que deram certo, realizando suas</p><p>potencialidades.</p><p>Na nova</p><p>escola de turnos, a criança popular fracassa, fatalmente, porque é</p><p>oriunda de famílias que, não tendo tido educação prévia, são incapazes de</p><p>orientá-la nos estudos. A verdade é que menos da metade das nossas</p><p>crianças completa a 4ª série da escola primária, que é quando alcançam a</p><p>capacidade de ler, escrever e contar para operar numa civilização letrada,</p><p>progredindo nos estudos, seja individualmente, seja em cursos mais</p><p>avançados. Isso significa que vimos produzindo muito mais analfabetos que</p><p>alfabetizados, o que representa uma condenação ao atraso, porque nenhum</p><p>país alcançou o desenvolvimento e a integração autônoma na civilização do</p><p>seu tempo, com tão grande massa de iletrados.</p><p>A primeira Lei de Diretrizes e Bases, que fui obrigado a pôr em prática</p><p>como ministro da Educação que era então, 1961, cumpriu o triste papel de</p><p>piorar a educação brasileira. Isso ocorreu em razão da vitória da direita,</p><p>encarnada por Carlos Lacerda e Dom Hélder Câmara, contra a esquerda</p><p>liderada por Anísio Teixeira. Com efeito, a nova lei, em nome da</p><p>democratização, liquidou com o sistema de formação do magistério</p><p>primário com que contavam todos os estados brasileiros na forma de</p><p>institutos públicos capazes de dar formação teórica e prática a seu</p><p>magistério. A nova lei abriu a quem quisesse a liberdade de criar escolas</p><p>normais, quase sempre com propósito puramente mercantil, convertendo-as</p><p>em meros negócios. O êxito numérico foi grande, as escolas multiplicaram-</p><p>se aos milhares, mas o efeito educacional foi o mais grave, porque elas</p><p>degradaram o ensino normal ao mais baixo nível. Hoje, nosso professorado</p><p>é formado numa das disciplinas falsamente profissionalizadoras,</p><p>ministradas no nível médio, quase sempre em cursos noturnos, de onde sai</p><p>praticamente analfabeto e incapaz de ensinar.</p><p>A mesma lei, e a legislação educacional que se seguiu, orientou-se por</p><p>critério idêntico e teve igual efeito no nível superior. Em lugar de forçar a</p><p>ampliação das matrículas nas Faculdades Públicas que contavam com bons</p><p>professores, laboratórios e bibliotecas, concedeu liberdade total para</p><p>converter o Ensino Superior em negócio. Assim é que as matrículas</p><p>saltaram de menos de 100 mil a mais de 1 milhão e 500 mil, mas</p><p>concentrou 70% delas em escolas privadas, a maioria das quais incapazes</p><p>de ministrar qualquer ensino eficaz. Em consequência, precisamente o</p><p>alunado mais pobre e mais necessitado de ajuda paga caro por cursos ruins,</p><p>degradando-se cada vez mais a qualidade dos corpos profissionais com que</p><p>conta o país. Nunca coisa tão grave ocorreu em qualquer país do mundo.</p><p>Mas esta foi a solução que a direita todo-poderosa, sobretudo quando</p><p>estruturada como ditadura militar, impôs ao Brasil.</p><p>Assim, chegamos à situação calamitosa de uma Educação Primária que</p><p>produz mais analfabetos que alfabetizados; de uma Escola Média que não</p><p>prepara ninguém para prosseguir os estudos na universidade, nem para o</p><p>trabalho especializado; e de uma Escola Superior igualmente ruim em que,</p><p>na maior parte dos casos, o professor faz de conta que ensina e o aluno faz</p><p>de conta que aprende.</p><p>Nenhum desses problemas terá solução se continuarmos trotando pelos</p><p>mesmos caminhos direitistas, indiferentes à educação popular e ao</p><p>progresso do país. É indispensável para o Brasil, como o foi para todos os</p><p>povos que deram certo realizando suas potencialidades, empreender um</p><p>grande esforço nacional no sentido de alcançar algumas metas mínimas no</p><p>campo da educação popular.</p><p>Primeiro:</p><p>Criar escolas de dia completo para alunos e professores, sobretudo nas</p><p>áreas metropolitanas, onde se concentra a maior massa de crianças</p><p>condenadas à marginalidade porque sua escola efetiva é o lixo e o crime. O</p><p>que chamamos de menor abandonado e delinquente é tão somente uma</p><p>criança desescolarizada, ou que só conta com uma escola de turnos.</p><p>Segundo:</p><p>Instituir progressivamente Escolas Normais Superiores e Institutos</p><p>Superiores de Educação que formem um novo professorado devidamente</p><p>qualificado pelo estudo e treinamento em serviço para o exercício eficaz do</p><p>magistério.</p><p>Terceiro:</p><p>Dar ao novo professorado primário e médio, devidamente preparados,</p><p>condições aceitáveis de trabalho em tempo completo, com salário dobrado e</p><p>mais um suplemento de 20%.</p><p>Quarto:</p><p>Ampliar o acesso aos Cursos Técnicos para que neles tenha ingresso</p><p>qualquer pessoa que possa cursá-los com proveito, sem quaisquer</p><p>exigências acadêmicas.</p><p>Quinto:</p><p>Instituir nas universidades cursos que formem a base de estudos</p><p>pedagógicos, e sobretudo da prática educativa, tanto professores de turma</p><p>para ensinar de 1ª a 5ª série primária, como professores de matéria para as</p><p>séries seguintes. Necessitaremos, pelo menos, de um milhão de novos</p><p>professores na próxima década para repor os aposentados e para ampliar o</p><p>sistema, e se eles forem formados como agora, a educação brasileira</p><p>continuará fracassando.</p><p>Sexto:</p><p>Criar universidades especializadas em Ciências da Saúde, nas Tecnologias</p><p>ou nas Ciências Agrárias e em outros ramos do saber, dotando-as de</p><p>recursos para pesquisar e procurar solução para os problemas brasileiros.</p><p>Sétimo:</p><p>Passar a contratar nas faculdades públicas professores por matéria e não</p><p>por disciplina, com obrigação de ministrar o mínimo de dez horas de ação</p><p>docente semanal junto aos alunos e de ensinar diversas disciplinas.</p><p>Oitavo:</p><p>Desobrigar o professor de nível superior a simular a realização de</p><p>pesquisas para ter o salário aumentado (vinte a quarenta horas nominais) e</p><p>apoiar, substancialmente, a pesquisa autêntica, seja científica, seja</p><p>tecnológica. Simultaneamente se deve valorizar e remunerar o magistério</p><p>em si, independentemente de qualquer programa de pesquisas, como</p><p>atividade indispensável à Nação e altamente meritória.</p><p>Nono:</p><p>Criar Cursos de Sequência que deem direito a Certificado de Estudos</p><p>Superiores a quem cursar mais de cinco matérias correlacionadas. Só assim</p><p>se poderá superar o sistema tubular de nossas universidades, preparadas</p><p>para formar apenas algumas dezenas de profissões à base de um currículo</p><p>mínimo prescrito, quando uma sociedade moderna necessita de mais de 2</p><p>mil modalidades de formação superior para funcionar eficazmente na nova</p><p>civilização.</p><p>Outras:</p><p>Muitíssimas outras providências e inovações são indispensáveis para que</p><p>os brasileiros ingressem definitivamente na civilização letrada, com</p><p>capacidade de alcançar um desenvolvimento autossustentado. Para tanto é</p><p>indispensável jugular a formação de novos analfabetos. Esse esforço</p><p>poderia ter início pondo em marcha a Década da Educação, instituída pela</p><p>Constituição Federal,</p><p>• fazendo os prefeitos recensear todas as crianças que vão completar 7</p><p>anos de idade para entregá-las aos cuidados de boas professoras</p><p>devidamente ajudadas pelo Estado e pela União;</p><p>• recensear também os jovens que completam 14 e 16 anos,</p><p>insuficientemente escolarizados, para inscrevê-los em cursos de educação a</p><p>distância, ministrados através de textos escritos para estudar em casa e da</p><p>ajuda de programas de televisão educativa, proporcionados pelo Ministério</p><p>da Educação.</p><p>Somente a esquerda poderá enfrentar esse desafio. Para isso, entretanto, é</p><p>indispensável que ela se arme da mais viva indignação contra o atraso e a</p><p>fome desnecessários a que é submetido o povo brasileiro, sobretudo na</p><p>infância. É indispensável também que essa nova esquerda alcance a</p><p>necessária lucidez para desmascarar e enfrentar a trama direitista de</p><p>interesses setoriais, corporativos e privatistas, que condena nosso povo à</p><p>fome e ao analfabetismo.</p><p>O substitutivo que ofereci ao Projeto de Lei de Diretrizes e Bases</p><p>elaborado na Câmara dos Deputados, uma vez aprovado, criará condições</p><p>para que se efetive essa mobilização nacional contra o atraso. Trata-se de</p><p>um projeto-síntese que aproveita as melhores contribuições dos anos de</p><p>discussão no Congresso e das centenas de sugestões dadas por toda sorte de</p><p>instituições nacionais para evitar que a nova Lei Geral da Educação venha a</p><p>congelar o péssimo sistema educacional que temos e com ele condene nosso</p><p>povo ao fracasso na história.</p><p>Quem não luta seriamente</p><p>por essas reivindicações mínimas de uma</p><p>educação popular democrática ajuda a direita a manter nosso povo</p><p>condenado a viver à margem da civilização letrada, sofrendo as</p><p>consequências do desemprego e de uma fome e ignorância crescentes.</p><p>Comprova esse pendor das elites brasileiras a descurar da educação</p><p>popular a destruição perversa da reforma educacional de Anísio Teixeira;</p><p>experiência estudada até hoje como o melhor esforço que se fez no Brasil</p><p>para criar a escola primária, média e superior de que necessitamos.</p><p>Outra comprovação se teve com a eleição de Moreira Franco, que</p><p>abandonou o sistema de escola de tempo integral que estávamos</p><p>implantando através dos Centros Integrados de Educação Pública, dando</p><p>aos seus edifícios as mais absurdas utilizações para negá-los às crianças</p><p>como escola de tempo integral.</p><p>O mesmo ocorre mais feiamente, agora, com a equipe a que Marcelo</p><p>Alencar entregou a educação no Rio de Janeiro. Ela se ocupa</p><p>devotadamente a reverter à rede comum de escolas de turno os quatrocentos</p><p>CIEPs que deixamos funcionando e que absorviam um quarto do alunado</p><p>do estado, ou seja, 340 mil crianças em cursos de dia completo que vinham</p><p>alcançando enorme êxito. Comprovavam que efetivamente com escolas</p><p>adequadas o alunado oriundo das camadas mais pobres, mesmo que tenha</p><p>sofrido anos de subnutrição e violência, pode ser recuperado e completar os</p><p>estudos de primeiro grau.</p><p>Nós educadores precisamos estar atentos também para as nossas culpas.</p><p>Sempre que um governo elitista abocanha o poder encontra falsos</p><p>educadores prontos a reimplantar a escola pública corrente que não</p><p>alfabetiza nem educa as crianças pobres. Isto é feito por ignorância, por</p><p>adulação aos poderosos do dia e, sobretudo, pelo pendor direitista da</p><p>pedagogia vadia que se pratica entre nós. Ela sustenta que o sistema escolar</p><p>de turnos é autocorretivo e através de seu próprio funcionamento superará</p><p>suas deficiências.</p><p>Não é verdade! Só uma escola nova, concebida com o compromisso de</p><p>atender as condições objetivas em que se apresenta o alunado oriundo das</p><p>classes menos favorecidas, educará o Brasil. Só uma escolarização de dia</p><p>completo, com professores especialmente preparados e de rotina educativa</p><p>competentemente planejada, acabará com o menor abandonado, que só</p><p>existe no Brasil. Assim é porque só aqui se nega à infância pobre a escola</p><p>que integrou na civilização letrada a infância de todas as nações civilizadas.</p><p>I PEE – I Programa Especial de</p><p>Educação: nosso problema</p><p>7</p><p>Quem não sabe ler hoje em dia é quase um cego. Nas cidades, nem pode</p><p>andar pelas ruas sem perguntar a toda hora onde está e como pode ir de um</p><p>lugar a outro. No trabalho, então, o analfabetismo é um atraso de vida. Não</p><p>saber contar é igualmente uma desgraça, seja para fazer contas nas compras</p><p>e vendas, seja para conferir o salário e para mil coisas mais.</p><p>Assim é porque nossa civilização funciona supondo que todos sabem ler,</p><p>escrever e contar, o que converte o analfabeto num marginal. Ocorre,</p><p>entretanto, que, em nosso país, quase metade da população é praticamente</p><p>analfabeta; no máximo desenha o nome, sendo incapaz de ler uma notícia</p><p>ou de escrever um bilhete. Mais grave, ainda, é o fato de que estamos</p><p>formando novas massas de analfabetos adultos, dada a ineficiência</p><p>espantosa de nossas escolas. É inegável que, com nossa conduta</p><p>educacional irresponsável de hoje, estamos condenando imensas multidões</p><p>a viverem marginalmente amanhã, sem participar da civilização muito mais</p><p>complexa, a que deverá pertencer.</p><p>Esse é não só o sintoma maior de nosso atraso cultural, mas também a</p><p>expressão mais dolorosa da desigualdade social de nosso país. Um índio,</p><p>apesar de iletrado, é um homem completo. Sabe perfeitamente falar, prover</p><p>a subsistência de sua família, contar e inventar histórias e fazer muita coisa</p><p>mais, como casas, adornos etc. Aprende tudo isto de oitiva, porque é de</p><p>uma civilização oral, cujo saber se transmite pela fala e pelo exemplo. Um</p><p>lavrador analfabeto pode – ou podia – exercer seu ofício e viver sua vida,</p><p>fazendo-se respeitar como um trabalhador competente e até como um</p><p>homem inteligente, sem saber ler nem escrever. Hoje, mesmo na roça, a</p><p>vida do analfabeto é difícil. Até os índios, agora, querem e precisam</p><p>aprender a ler e a contar, para coexistir conosco numa sociedade de cultura</p><p>letrada.</p><p>É de assinalar que muitos países menos desenvolvidos econômica e</p><p>socialmente que o nosso têm taxas muito mais altas de alfabetização. Por</p><p>quê? Com efeito, é de indagar por que razão, nós, que fomos capazes de</p><p>construir a beleza do teatro de Manaus, por exemplo, ou a indústria de São</p><p>Paulo, ou a arquitetura de Brasília, fracassamos na tarefa muito mais</p><p>simples de ensinar toda criança a ler, escrever e contar? Na verdade, a quase</p><p>totalidade das nossas crianças vai à escola e lá fica estudando três até quatro</p><p>anos. Mas metade delas saem analfabetas. Como não vão viver vida de</p><p>índio, nem de lavrador antigo, nosso sistema educacional os está formando,</p><p>de fato, para uma existência miserável e penosa, sem possibilidade de</p><p>progresso pessoal. E arrastando, em consequência, todo o nosso povo ao</p><p>atraso, como é inevitável em um país com grande massa de analfabetos.</p><p>Há muitas explicações para esse fracasso brasileiro. Algumas, ingênuas</p><p>ou românticas, dos que esperam o socialismo para nos dar a alfabetização.</p><p>É de lembrar que, sem socialismo nenhum, a maioria dos países conseguiu</p><p>resolver muito bem o problema de criar uma escola pública honesta e</p><p>eficiente.</p><p>A raiz desse fracasso está, de fato, é numa perversão da nossa sociedade,</p><p>enferma de desigualdade. Perversão provavelmente oriunda do fato de que</p><p>fomos o último país do mundo a acabar com a escravidão. Uma classe</p><p>dominante feita de descendentes de senhores de escravos – afeitos a gastar</p><p>gente como se fosse um carvão humano, com total descaso pelos que</p><p>trabalhavam para eles – tende a continuar olhando o povo com o mesmo</p><p>desprezo.</p><p>A única solução possível para esse gravíssimo problema social e nacional</p><p>é melhorar a qualidade das escolas que temos; é ajudar o professorado a</p><p>realizar com mais eficácia a sua tarefa educativa; é socorrer as crianças para</p><p>que frequentem as escolas, mas lá aprendam; é, ainda, chamar de volta às</p><p>aulas os jovens insuficientemente instruídos para lhes dar, pelo menos, um</p><p>domínio da leitura, da escrita e do cálculo que os salve da marginalidade.</p><p>O primeiro passo do governador Leonel Brizola para enfrentar esse</p><p>problema complexo e desafiante foi a organização de uma Comissão</p><p>Coordenadora da Educação, integrada pelas Secretárias de Educação do</p><p>Estado e do Município do Rio de Janeiro, pelo reitor da UERJ e pelo vice-</p><p>governador, sob a presidência deste último. A Comissão tem por objetivo</p><p>formular nossa política educacional e colocá-la em execução nas órbitas</p><p>estadual e municipal. Começou seus trabalhos dedicando-se a elaborar o</p><p>capítulo referente à educação no Plano de Desenvolvimento Econômico e</p><p>Social do Estado do Rio de Janeiro, submetido à Assembleia Legislativa e</p><p>ao Conselho Estadual de Educação. Fixou, ali, algumas das diretrizes de</p><p>ação, principalmente a de promover o vasto esforço de renovação</p><p>pedagógica e educativa, que corresponde à prioridade atribuída pelo</p><p>governador às tarefas da educação popular.</p><p>O passo seguinte consistiu em lançar o movimento ESCOLA VIVA –</p><p>VIVA A ESCOLA, que convocou todo o professorado do primeiro grau do</p><p>estado e do município para uma vasta consulta, centrada no exame de um</p><p>corpo de teses que a Comissão elaborou, propôs e fez chegar, previamente,</p><p>a cada professor. Realizaram-se, para isso, centenas de reuniões locais que</p><p>envolveram praticamente todo o professorado. Nelas, depois de debaterem</p><p>as teses, os professores elegeram mil delegados para, em reuniões regionais,</p><p>discutirem as opiniões prevalecentes e, por sua vez, elegerem seus</p><p>representantes ao Encontro de Mendes. Ali, quase duas centenas de</p><p>professores, administradores da educação e líderes sindicais trabalharam</p><p>com a Comissão Coordenadora da Educação para a aprovação das teses</p><p>que orientam, hoje, a ação educativa</p><p>no estado e na cidade do Rio de</p><p>Janeiro.</p><p>Teses aprovadas no Encontro de</p><p>Mendes</p><p>8</p><p>Sociedade alguma pode ser feliz, pessoa alguma pode se sentir</p><p>confortada e feliz enquanto perambulam pelas ruas crianças</p><p>abandonadas, já muitas à margem de tudo, sem futuro,</p><p>sem amanhã e sem destino.</p><p>Leonel Brizola</p><p>INTRODUÇÃO</p><p>Um dos grandes fracassos do Brasil, como povo e como civilização, tem</p><p>sido nossa incapacidade de criarmos uma escola pública honesta e eficiente.</p><p>Essa tarefa que temos que enfrentar para podermos existir no mundo de</p><p>hoje cabe tanto ao governo quanto a vocês. Uma escola que não consegue</p><p>reconhecer como seu alunado verdadeiro a maioria das crianças brasileiras,</p><p>porque está organizada para servir a uma minoria privilegiada, é uma escola</p><p>injusta. Uma escola que não consegue ensinar a ler, escrever e contar à</p><p>imensa maioria de seus alunos e que, portanto, não os prepara para viver</p><p>numa sociedade em que essas habilidades são indispensáveis é uma escola</p><p>que fracassou. Esse fracasso não é de ninguém em particular. Esse fracasso</p><p>é nosso – meu, seu, do governo, de todos nós, mais especialmente dos</p><p>trabalhadores da educação.</p><p>Mas também é nossa, em primeiro lugar, a tarefa de construir uma nova</p><p>escola, melhor, mais justa e eficiente. Para isto, temos que aprofundar, entre</p><p>nós, a discussão sobre o que vai mal na escola, para podermos encontrar,</p><p>juntos, os caminhos de saída.</p><p>Nenhum governo tem o direito de exigir excelentes resultados de um</p><p>professorado que não recebe materiais didáticos nem recursos profissionais,</p><p>que não se sente estimulado nem respeitado. Mas o governo tem o direito</p><p>de pedir ao professor que ele faça, aqui e agora, aquele esforço que</p><p>corresponde à nobreza e à importância crucial do seu papel como educador</p><p>da nação. Ou o Brasil entra no mundo letrado, que é o mundo de todos os</p><p>povos do nosso tempo, ou fracassa como nação.</p><p>Esta tarefa e este desafio estão nas suas mãos. Toda criança tem condições</p><p>de aprender. Cabe à escola assegurar-lhe o melhor ensino possível.</p><p>Estamos conscientes de que as teses e metas que apresentamos para</p><p>debate não esgotam a problemática da educação e estão longe de serem</p><p>verdades acabadas. Deliberadamente, escolhemos ideias e adotamos uma</p><p>linguagem provocativa. O que queremos é que vocês discutam, entre</p><p>professores, estas ideias, a partir da vivência e da experiência de cada um e</p><p>de cada uma em sua sala de aula, e nos façam chegar seus comentários e</p><p>propostas.</p><p>Nosso objetivo é dar a palavra aos professores e ouvir o que eles têm a</p><p>dizer. As reações de vocês chegarão até nós pelas cartas que nos escreverem</p><p>diretamente e através de porta-vozes que escolherem para levar as propostas</p><p>que surgirem no nível local às etapas seguintes do encontro.</p><p>Por todas essas razões é que não quisemos promover apenas um</p><p>congresso a mais, ou seja, um certame em que especialistas competentes</p><p>trocam ideias uns com os outros, com base em pronunciamentos e</p><p>recomendações que depois se publicam e que ninguém lê. Em lugar disso,</p><p>este é um anticongresso para ouvir a voz das pessoas que levam adiante a</p><p>educação, que são fundamentalmente os professores em regência de classe.</p><p>Nossos técnicos e especialistas estarão presentes no encontro para escutar e</p><p>aprender e não para ditar e ensinar. Vamos repensar e refazer juntos a nossa</p><p>escola. Nossa tarefa é passar a limpo a escola de primeiro grau.</p><p>I – ANÁLISE CRÍTICA</p><p>Apresentamos a seguir as teses postas em discussão no Encontro de</p><p>Mendes, que foi um verdadeiro anticongresso de que participaram 52 mil</p><p>professores do sistema público de ensino de primeiro grau em todo o</p><p>estado. Na primeira fase, esses professores elegeram mil representantes, que</p><p>se reuniram regionalmente. A partir daí, cem representantes foram eleitos</p><p>para a fase final, que se realizou em Mendes, durante os dias 25 e 26 de</p><p>novembro. Naquela ocasião, as teses foram debatidas com o Presidente da</p><p>Comissão Coordenadora de Educação e Cultura, professor Darcy Ribeiro;</p><p>com a secretária de Educação do estado do Rio de Janeiro, professora Yara</p><p>Vargas, e com a secretária de Educação e Cultura do município do Rio de</p><p>Janeiro, professora Maria Yeda Linhares.</p><p>Além disso, mais de 30 mil professores escreveram cartas à Comissão</p><p>Coordenadora, comentando as teses e discutindo todo o diagnóstico da</p><p>educação no estado. O magistério foi convocado e a educação saiu de seus</p><p>círculos restritos de decisão para ser ampla e livremente debatida. Desta</p><p>vez, finalmente, o magistério teve a palavra. Eis sua voz:</p><p>1. Nossa escola pública é antipopular porque está organizada de modo a</p><p>beneficiar a minoria de alunos provenientes dos setores mais afortunados.</p><p>Ela é uma escola injusta porque prejudica os alunos que mais precisam dela,</p><p>que são oriundos das camadas populares.</p><p>2. É falsa a explicação de que a expansão da rede escolar, provocada pelo</p><p>crescimento vertiginoso da população, teria tornado impossível à escola</p><p>manter padrões mínimos de qualidade de ensino. O problema não reside nas</p><p>dimensões da máquina educacional, mas no caráter deformado de seu</p><p>crescimento. Nossa escola não cresceu onde devia, nem como devia.</p><p>Substituiu-se uma educação razoável para poucos por uma péssima</p><p>educação para muitos porque não se realizou o esforço indispensável para</p><p>adaptar a escola a seu novo alunado.</p><p>3. Como negar que nosso sistema escolar seja uma calamidade, quando</p><p>mais da metade das nossas crianças não conseguem se matricular na 2ª</p><p>série? Apenas 30% alcançam a 4ª série, que corresponde àquele mínimo de</p><p>domínio da escrita e da leitura que habilita uma pessoa a conviver, trabalhar</p><p>e progredir dentro de uma sociedade letrada.</p><p>4. As duas primeiras séries das nossas escolas são a grande peneira que</p><p>seleciona quem vai ser educado e quem vai ser rejeitado. São sobretudo as</p><p>crianças pobres que fracassam porque a escola as trata como se estivessem</p><p>em pé de igualdade com as crianças provenientes de meios mais</p><p>favorecidos, tornando seu sucesso escolar uma façanha quase impossível.</p><p>5. Saindo da escola depois de três a quatro anos de estudos, sem aprender</p><p>quase nada, as crianças pobres levam consigo pela vida afora a humilhação</p><p>de seu fracasso. Saem convencidas de que não aprenderam porque são</p><p>menos inteligentes do que aquelas que, aparentemente nas mesmas</p><p>condições, tiveram sucesso. Nossa escola tenta provar ao aluno pobre que</p><p>ele é pobre porque é burro, quando, verdade, ela é que não lhe dá condições</p><p>de superar suas dificuldades. Nossa escola atribui o fracasso das crianças</p><p>pobres a deficiências que elas trazem de casa. “Carente de carinho</p><p>familiar”, “carente de comida”, “carente de inteligência”, toda feita de</p><p>“carências”, a criança popular seria um caso perdido que nenhuma didática,</p><p>dedicação ou boa vontade conseguiria superar. Atribuir a culpa do fracasso</p><p>à própria criança, à sua família ou à situação de pobreza em que vivem,</p><p>significa culpar a própria vítima e absolver a escola de qualquer</p><p>responsabilidade pelo desastre que representa para a nação um sistema</p><p>educacional incapaz de educar o seu povo.</p><p>6. Nossa escola pública está voltada para uma criança ideal, uma criança</p><p>que não tem que lutar cada dia para sobreviver, uma criança bem-</p><p>alimentada, que fala a língua da escola, é hábil no uso do lápis e na</p><p>interpretação dos símbolos gráficos e é, em casa, estimulada pelos pais</p><p>através de toda espécie de prêmios e gratificações. Como esta não é a</p><p>realidade da imensa maioria das famílias brasileiras, a escola não tem o</p><p>direito de impor esses critérios, válidos para a classe média, ao conjunto de</p><p>seus alunos. Sua tarefa é educar as crianças brasileiras tal qual elas são, a</p><p>partir da situação em que se encontram. Isto significa que nossa escola deve</p><p>se adaptar à criança pobre com o sentimento de que é a própria escola que</p><p>fracassa quando não consegue educar a maioria de seus alunos.</p><p>7. A Lei 5.692, de 1971, foi demagógica ao instituir um ensino básico e</p><p>obrigatório de oito séries, a partir de um sistema precaríssimo, que era</p><p>incapaz de levar à 4ª série metade das crianças a que servia. Foi também</p><p>desastrosa ao cumular</p><p>a escola de exigências novas, descuidando de sua</p><p>tarefa básica que é ensinar a ler, escrever e contar. Foi também</p><p>irresponsável ao juntar nas escolas de primeiro grau crianças de idades que</p><p>exigem tratamento diferenciado.</p><p>8. O fator crucial de nosso baixo rendimento escolar reside também na</p><p>exiguidade do tempo de atendimento que damos às crianças. Não</p><p>conseguimos nem cumprir nosso ano letivo de 180 dias, que é dos mais</p><p>curtos do mundo, porque se apela para toda sorte de pretextos a fim de</p><p>abonar faltas e dispensar aulas.</p><p>9. O absurdo maior, porém, é a jornada de duas e meia ou três horas de</p><p>aula, que efetivamente se dá às crianças, desde que se adotou o terceiro</p><p>turno diário. Isto é o que ocorre na maioria das nossas escolas e, de forma</p><p>especialmente grave, nas favelas e nas cidades da Baixada Fluminense. Em</p><p>todo mundo se considera que cinco a seis horas de atenção direta e</p><p>continuada ao aluno por seu professor é a jornada mínima indispensável.</p><p>Como as crianças das classes mais favorecidas têm em casa quem estude</p><p>com elas algumas horas extras, enfrentam sem problemas esse regime. Ele</p><p>só prejudica, de fato, a criança pobre que só conta com a escola para lhe</p><p>ensinar.</p><p>10. A ilusão principal de nossa escola é a ideia de que ela seleciona e</p><p>promove os melhores alunos, através de procedimentos pedagógicos</p><p>objetivos. De fato, ela apenas peneira e separa o que recebe da sociedade já</p><p>devidamente diferenciado. Ao tratar da mesma maneira crianças</p><p>socialmente desiguais, a escola privilegia o aluno já privilegiado e</p><p>discrimina crianças que renderiam muito mais se fossem tratadas a partir de</p><p>suas próprias características.</p><p>11. As crianças populares só não têm talentos e méritos reconhecíveis pela</p><p>escola. Elas aprendem desde cedo a se virar sozinhas, a cuidar dos irmãos</p><p>menores e mesmo a trabalhar para ganhar algum dinheiro para a família. No</p><p>entanto, essas mesmas crianças que, na rua, são espertas e faladoras, que</p><p>improvisam jogos e brinquedos, na escola não entendem o que a professora</p><p>diz, fecham-se em si mesmas, tornam-se caladas e passivas ou então</p><p>rebeldes e agressivas. Na escola, elas são vistas em geral como desprovidas</p><p>de inteligência, de criatividade, de afetividade, de coordenação motora e</p><p>muitas vezes classificadas como “débeis mentais”, “especiais” etc.</p><p>12. É preciso olhar a escola por dentro, analisar a situação do professor na</p><p>sala de aula para descobrir as causas propriamente escolares de seu mau</p><p>funcionamento. Ou seja, as causas ligadas a uma pedagogia autoritária e</p><p>conformista que só os próprios professores podem solucionar. Veja se se</p><p>aplicam a você ou a algum colega nosso estes juízos:</p><p>a) toda algazarra é inadmissível. Na escola cabe ao professor falar e ditar,</p><p>e aos alunos escutar e copiar, porque é falando que se ensina e é escutando e</p><p>escrevendo que se aprende;</p><p>b) o trabalho do professor consiste em meter informações na cabeça dos</p><p>alunos. O importante é fazê-los memorizar um máximo de dados e fatos,</p><p>mesmo que sejam inúteis e condenados a serem esquecidos logo depois da</p><p>prova;</p><p>c) o mais importante na escola é manter a ordem na sala de aula. Estudar</p><p>não é brincar, nem se divertir, mas sofrer e aturar;</p><p>d) o professor que se preza não dá folga a malandros e bagunceiros. Julgar</p><p>e punir toda a desordem com pitos, castigos, deveres de casa e suspensões</p><p>de aula é seu dever;</p><p>e) não reconheço a ninguém o direito de avaliar meu trabalho como</p><p>professor. Mas eu tenho competência para medir até o centésimo o</p><p>aproveitamento de meus alunos;</p><p>f) o professor faz o que pode para a turma marchar junta. Os alunos que</p><p>não aprendem e se atrasam, além de serem os únicos culpados de seu baixo</p><p>rendimento, não devem prejudicar os colegas capazes e estudiosos.</p><p>13. Nada seria mais injusto do que responsabilizar somente o magistério</p><p>pelas falhas da escola pública. O professorado é antes a vítima do que o</p><p>culpado pelo descalabro da educação, resultante de uma política</p><p>educacional antipopular que nunca deu aos professores e aos alunos os</p><p>recursos mínimos indispensáveis para o bom exercício de suas funções.</p><p>14. Por ser uma profissão majoritariamente feminina, o magistério se</p><p>beneficia do ilusório respeito que nossa sociedade concede à mulher. São</p><p>concedidos às professoras privilégios como o direito a três faltas mensais,</p><p>bem como a aposentadoria precoce aos 25 anos. Mas lhes é negada a</p><p>dignidade que vem do trabalho corretamente remunerado e executado com</p><p>competência. Delas se tem pedido desvelo, amor e carinho muito mais do</p><p>que competência técnica e vontade política. O desvelo, elas têm</p><p>improvisado; o amor e o carinho ajudam, mas não bastam. Competência</p><p>técnica se aprende, vontade política se forja.</p><p>15. Nada há de mais simples, nem de mais econômico, nem de mais eficaz</p><p>e acessível do que a educação com um bom professor devidamente</p><p>capacitado e motivado. Ele é a única e insubstituível força educativa com</p><p>que se pode contar. As facilidades audiovisuais, o rádio e a televisão podem</p><p>ajudar, mas não substituir o professor.</p><p>II – METAS DA PROGRAMAÇÃO</p><p>EDUCACIONAL DO GOVERNO</p><p>O programa do governo no campo da educação tem como diretriz básica a</p><p>salvação da escola pública, colocando-a ao alcance de todas as crianças e</p><p>jovens do estado. Nosso objetivo é chegar a ter, em quatro anos, uma escola</p><p>pública moderna, aparelhada e efetivamente democrática, capaz de ensinar</p><p>todas as crianças a ler, escrever e contar no tempo devido e com a correção</p><p>desejada.</p><p>1. A primeira meta do governo é acabar com o terceiro turno, garantindo a</p><p>cada criança cinco horas diárias de permanência na escola. O cumprimento</p><p>desta meta se fará progressivamente, dada a impossibilidade de adotá-la de</p><p>uma só vez para todas as séries da rede pública. Neste sentido, em 1984 a</p><p>maioria das escolas funcionará em regime de dois turnos para as crianças de</p><p>1ª a 5ª série no município do Rio de Janeiro e de 1ª e 2ª séries e 5ª série no</p><p>estado. Em 1985 o sistema será estendido à 2ª e 6ª séries; em 1986, à 3ª e</p><p>7ª; em 1987, à 4ª e 8ª. Deste modo, ao final de quatro anos, todo o sistema</p><p>educacional terá passado a funcionar em dois turnos, assegurando a cada</p><p>criança cinco horas de atenção direta. A concretização desta meta deverá</p><p>ser planejada de modo a evitar a superlotação de alunos por turma e o</p><p>aumento da carga horária do professor regente. Para tanto, a escola contará</p><p>com especialistas que ocupem as crianças com atividades extracurriculares</p><p>por uma hora diária.</p><p>2. A segunda meta é dar ao professorado, através de cursos de reciclagem,</p><p>a ajuda que ele requer para o pleno cumprimento de suas funções. Para</p><p>tanto, se buscará oferecer cursos de reciclagem por correspondência,</p><p>observação dirigida ou seminários temáticos para professores.</p><p>3. A terceira meta é a revisão de todo o material didático proporcionado</p><p>aos alunos. Neste sentido, se realizará no curso do próximo ano um esforço</p><p>para rever e enriquecer os materiais didáticos destinados à alfabetização e à</p><p>5ª série. Em função dos resultados dessa revisão, as Secretarias de</p><p>Educação do estado e do município poderão produzir experimentalmente o</p><p>material a ser testado nas escolas.</p><p>4. A quarta meta, já posta em execução, é garantir uma refeição completa</p><p>a cada criança na escola pública. A descentralização da merenda escolar,</p><p>que já foi realizada com grande êxito, deverá ser aperfeiçoada mediante a</p><p>contratação de pessoal necessário à sua confecção e distribuição.</p><p>5. A quinta meta é garantir a todas as crianças da rede pública que o</p><p>necessitem, o material didático indispensável ao seu bom desempenho</p><p>escolar, em especial atenção para as áreas da favela, da Baixada Fluminense</p><p>e do interior do estado, e com prioridade em 1984 para os alunos da 1ª à 5ª</p><p>série.</p><p>6. A sexta meta consiste em prover as caixas escolares com os recursos</p><p>necessários para que toda criança pobre tenha garantidos uniforme e</p><p>calçado. Desde agora, nenhuma criança será impedida de frequentar as</p><p>aulas por não estar devidamente uniformizada. A contribuição dos pais para</p><p>a caixa escolar é voluntária e não deve onerar as famílias pobres. Serão</p><p>também</p><p>assegurados fundos e autonomia financeira às escolas para a</p><p>realização de pequenos consertos e recuperação dos equipamentos</p><p>escolares.</p><p>7. A sétima meta é recuperar as escolas públicas, atualmente em estado</p><p>precaríssimo, colocando-as em condições adequadas de funcionamento.</p><p>Para tanto, será ativado e reorientado o programa Mãos à Obra nas Escolas,</p><p>já em andamento, cabendo ao estado fornecer os materiais necessários e à</p><p>comunidade a mão de obra, onde isto for praticável. A escola deve ser uma</p><p>casa da comunidade, aberta a seus moradores e associações, que poderão</p><p>utilizá-la, nos dias e horas livres, para atividades recreativas e culturais.</p><p>8. O cumprimento do conjunto de metas da programação educacional do</p><p>governo exige milhares de novas salas de aula. A oitava meta é recuperar e</p><p>renovar o mobiliário das escolas, provendo o que seja indispensável para</p><p>seu correto funcionamento.</p><p>9. A nona meta é fazer com que as escolas públicas forneçam assistência</p><p>médica e odontológica e funcionem como centros de uma ação preventiva</p><p>de defesa da saúde de seus alunos e das crianças das redondezas. Essa</p><p>assistência deverá ser planejada em conjunto pelas Secretarias de Educação</p><p>e de Saúde, assegurando-se um atendimento volante nas áreas rurais e de</p><p>periferia.</p><p>10. A décima meta é a implantação de Casas da Criança destinadas a</p><p>abrigar, durante cinco horas diárias, as centenas de milhares de crianças de</p><p>5 a 6 anos que vivem nas ruas, ao desamparo, assegurando-lhes banho,</p><p>merenda, assistência médica e atividades educativas pré-escolares, de modo</p><p>a habilitá-las a alcançar êxito nos cursos de alfabetização.</p><p>11. A 11ª meta é a construção do maior número possível de Centros</p><p>Integrados de Educação Pública nas áreas em que a população é mais</p><p>pobre. Tais centros serão de duas modalidades: para alunos de 1ª a 4ª série,</p><p>mais numerosos, e para alunos de 5ª a 8ª série, de modo a separar crianças</p><p>de condições etárias e requisitos educacionais diferenciados. À noite, os</p><p>Centros funcionarão com cursos de recuperação escolar intensiva para</p><p>jovens de 15 a 20 anos e também para atender a crianças que trabalham.</p><p>Eles estarão equipados com serviços médicos e dentários para servir à</p><p>população da região e com áreas de desporto que, nos feriados escolares,</p><p>serão abertos à população.</p><p>III – PAPEL E PARTICIPAÇÃO DOS</p><p>PROFESSORES</p><p>1. A melhoria da qualidade de ensino nas classes de alfabetização é o</p><p>primeiro e principal desafio para a construção de uma escola que atenda às</p><p>necessidades da clientela popular. Do sucesso da alfabetização depende a</p><p>continuidade de todo o processo educativo. Alfabetizar é uma tarefa difícil</p><p>e complexa que não se esgota na aplicação mecânica de um ou outro</p><p>método ou cartilha.</p><p>2. O grande número de fracassos na alfabetização deve-se,</p><p>fundamentalmente, à maneira como a escola trata a criança pobre, mas se</p><p>deve, também, à falta de materiais escolares que são tão necessários como a</p><p>merenda. Deve-se, igualmente, à falta de apoio sentida pelos professores</p><p>que enfrentam o trabalho de alfabetização sem terem recebido para isso</p><p>formação adequada. O atendimento da criança popular, nos seus primeiros</p><p>passos na escola, exige um programa especial de apoio ao professor das</p><p>classes de alfabetização, que tem de ser particularmente privilegiada como a</p><p>peça fundamental de todo o sistema educacional.</p><p>3. O professor que ensina melhor não é o que tem mais cursos ou</p><p>diplomas. É preciso reconhecer e valorizar o talento e a sensibilidade</p><p>daqueles professores que, apesar de todas as dificuldades, conseguem na</p><p>prática alfabetizar, para que se possa aprender com eles, vendo-os trabalhar</p><p>e analisar seu modo de atuar. Ensinar é uma arte. Pedagogia e didática são</p><p>instrumentos que facilitam o exercício dessa arte, mas não substituem. A</p><p>arte de educar, que só se aprende ensinando, jamais pode ser dominada</p><p>mediante explanações teóricas ou acadêmicas.</p><p>4. Uma das deficiências fundamentais do sistema educacional brasileiro é</p><p>que ele está muito mais voltado para o cultivo da erudição acadêmica, para</p><p>os discursos sobre a didática e a pedagogia, do que para a prática de ensinar.</p><p>É muito mais importante e urgente podermos contar com centros de</p><p>experimentação de material didático e de metodologias de ensino, bem</p><p>como com núcleos de demonstração dos processos de ensino, voltados para</p><p>a prática da arte de ensinar, e nos quais esta arte possa ser dominada, do que</p><p>nos preocuparmos com a multiplicação de especialistas em tecnologias</p><p>pedagógicas.</p><p>5. As crianças pobres nascem e crescem num ambiente que não lhes</p><p>proporciona os estímulos e condições necessários para que possam ter</p><p>sucesso na escola. A grande maioria chega à 1ª série sem dominar a</p><p>bagagem cultural e o “currículo oculto” exigidos pela escola que a criança</p><p>de classe média adquiriu em casa e na família. A escola deve, portanto, dar</p><p>à criança pobre, nos primeiros semestres, aquilo que ela não trouxe consigo,</p><p>para que possa aprender, ao invés de puni-la com a reprovação.</p><p>6. As crianças pobres sabem e fazem muitas coisas através das quais</p><p>garantem sua subsistência, mas, por si sós, não têm condições de aprender o</p><p>que é necessário para se conduzirem numa sociedade letrada. A tarefa da</p><p>escola é introduzir a criança na cultura da cidade. Reconhecendo e</p><p>valorizando a vivência e a experiência da criança pobre, a escola deve servir</p><p>de ponte entre o reconhecimento prático que ela já adquiriu e o</p><p>conhecimento formal que é exigido pela sociedade letrada.</p><p>7. Inteligência é capacidade de resolver problemas. Ao invés de transmitir</p><p>conteúdos desligados da realidade e dos interesses de seus alunos, a</p><p>principal tarefa do professor é ajudá-los a desenvolver seu raciocínio, para</p><p>que aprendam a se colocar problemas e se sintam capazes de resolvê-los.</p><p>Isto se faz tanto através do ensino da leitura e do cálculo quanto através de</p><p>jogos, brincadeiras, música, teatro etc.</p><p>8. Pensamento, linguagem e comunicação estão sempre interligados. A</p><p>criança pobre que, num meio hostil como é o seu, consegue se comunicar e</p><p>se relacionar com facilidade não se sente à vontade na escola. O professor</p><p>que tem respostas prontas para tudo, que obriga os alunos a ouvirem</p><p>calados suas lições, que corta o raciocínio da criança cada vez que ela fala</p><p>“errado”, contribui para inibir e bloquear sua capacidade de pensar.</p><p>9. É essencial que a criança tenha confiança em si e sinta vontade e</p><p>motivação para aprender cada vez mais. Isto se alcança estimulando-a a</p><p>falar e a participar, contando suas experiências e comunicando seu</p><p>pensamento. Mas é também muito importante que, ao fazê-lo, ela se sinta</p><p>valorizada e apoiada pelo professor.</p><p>10. O número de anos que as crianças devem passar na escola não se</p><p>explica apenas pela quantidade de conteúdos e matérias que devem</p><p>aprender. A faixa dos 7 aos 14 anos corresponde a um período decisivo de</p><p>seu amadurecimento. Não é o ensino que permite o desenvolvimento físico</p><p>e mental da criança; é este desenvolvimento que permite a aprendizagem.</p><p>Brincar é uma atividade essencial nesse processo. O recreio não é um favor</p><p>que se faz ao aluno e a escola não é prisão. A escola é um lugar de vida e</p><p>alegria; o recreio é tão importante quanto a sala de aula.</p><p>11. A escola pertence a sua comunidade e deve tratá-la com respeito.</p><p>Lamentavelmente, a maioria dos pais das crianças pobres se sente</p><p>humilhada e intimidada pela escola. Os pais não devem ser chamados à</p><p>escola para serem repreendidos pelos professores, mas sim para discutir</p><p>com estes sobre a educação de seus filhos. O professor deve ir à</p><p>comunidade para aprender com os pais a conhecer a realidade de seus</p><p>alunos a fim de poder ensinar melhor.</p><p>12. A 12ª meta é a implantação de uma série de Centros Culturais</p><p>Comunitários, cuja finalidade será receber as crianças para cinco horas</p><p>adicionais, antes ou depois das aulas, para dar-lhes uma refeição, estudo</p><p>dirigido e atividades culturais e recreativas.</p><p>13. Onde não seja possível contar com Centros Comunitários se</p><p>estimulará um programa extraescolar voltado para o atendimento dos alunos</p><p>de rendimento escolar lento ou</p><p>deficiente, assegurando-lhes algumas horas</p><p>diárias adicionais de atenção para estudo dirigido e recreação.</p><p>14. A 14ª meta do governo é o Programa de Educação Juvenil, que trará</p><p>de volta às escolas os jovens de 15 a 20 anos que não a frequentaram ou que</p><p>delas se afastaram sem o domínio da leitura, da escrita e do cálculo. Ao</p><p>lado de um programa de estudo intensivo e não seriado, serão</p><p>desenvolvidas, como motivação, atividades esportivas e socioculturais.</p><p>15. A alfabetização se desenvolverá ao longo de quatro semestres</p><p>sucessivos no curso dos quais cada criança será ajudada a alcançar o melhor</p><p>domínio que lhe for possível da leitura e do cálculo. Serão estruturados</p><p>cursos especiais para as crianças que, ao fim do quarto semestre, não se</p><p>tenham alfabetizado.</p><p>16. Outra meta fundamental é a criação, na cidade do Rio de Janeiro e no</p><p>estado, de diversas Escolas de Demonstração, a serem implantadas nos</p><p>locais onde já existam boas escolas pré-primárias, primárias e médias que,</p><p>reorganizadas, possam servir para cursos de reciclagem do magistério em</p><p>exercício.</p><p>17. É também meta do governo dar especial atenção aos Cursos de</p><p>Formação de Professores do primeiro segmento do primeiro grau,</p><p>particularmente os da rede pública, melhorando a qualidade de seu ensino e,</p><p>sobretudo, instituindo uma 4ª série de estágio com duração de cinco horas</p><p>diárias a serem prestadas em escolas credenciadas. O estagiário será</p><p>supervisionado por pessoal competente e substituirá o professor regente</p><p>como profissional.</p><p>18. Os Institutos de Educação deverão ser totalmente reestruturados para</p><p>funcionar como Escolas de Demonstração. Pelo menos um deles deverá ser</p><p>planejado para funcionar experimentalmente como nossa primeira Escola</p><p>Normal Superior, de modo a admitir para a carreira do magistério pessoas</p><p>que tenham o segundo ciclo completo. Isso será feito mediante convênio</p><p>com a UERJ ou com a FAPERJ.</p><p>19. Dentro da política de revalorização dos profissionais da educação, o</p><p>governo conduzirá um processo de discussão, através do jornal Escola Viva</p><p>– Viva a Escola, com a participação dos professores e de suas entidades</p><p>representativas, visando à reformulação das diretivas do atual Plano de</p><p>Enquadramento, da regulamentação da Carreira do Magistério, do Estatuto</p><p>do Professor e do Regulamento das Escolas.</p><p>20. É meta do governo estabelecer os requisitos de formação pedagógica e</p><p>experiência docente exigíveis para o desempenho do cargo de direção das</p><p>escolas. Essa meta deverá ser posta em prática com atenção para a</p><p>reivindicação do professorado de que os candidatos devidamente</p><p>credenciados sejam eleitos pelos profissionais da educação em exercício em</p><p>cada unidade escolar.</p><p>21. A fim de dar cumprimento à exigência legal e à necessidade</p><p>imperativa de garantir às crianças um ano letivo mínimo de 180 dias, o</p><p>governo do estado decretará o calendário escolar respeitando os direitos</p><p>consagrados do magistério.</p><p>22. A fim de elevar o rendimento do magistério e alcançar aproveitamento</p><p>mais eficiente do corpo docente organizar-se-á o ensino de maneira que a</p><p>dupla matrícula se faça na mesma unidade escolar.</p><p>23. Dado que a Educação é uma arte que exige aptidões específicas, os</p><p>concursos de admissão ao magistério devem ser feitos para um contrato</p><p>probatório de um ano devidamente orientado, antes do ingresso efetivo na</p><p>carreira.</p><p>O Programa Especial de Educação incorpora e se propõe a tornar</p><p>realidade a grande maioria dessas metas. Em alguns aspectos importantes,</p><p>porém, a prática recomendou a superação necessária das proposições</p><p>iniciais. Este foi o caso da verificação da inconveniência de multiplicarem-</p><p>se os Centros Culturais Comunitários ou as Escolas-Parque, previstos para</p><p>atender as crianças por mais cinco horas, antes ou depois das aulas. Isto</p><p>porque só se contava com escolas de eficácia comprovada nas áreas mais</p><p>antigas e mais ricas, no estado e na cidade, o que conduzirá a mais</p><p>privilegiar os já privilegiados, caso se lhes acrescentasse tal atendimento.</p><p>Em lugar disso, optou-se pela multiplicação do que é o modelo comum de</p><p>ensino público em quase toda parte, que é uma escola de dia completo.</p><p>Assim é que adotamos o plano de edificação e implantação experimental</p><p>dos CIEPs, devidamente ajustados ao regime de tempo integral para</p><p>professores e alunos.</p><p>Com base nessas teses, amplamente divulgadas, é que se fixaram,</p><p>democraticamente, as diretrizes do Plano Especial de Educação – PEE, do</p><p>governo Leonel Brizola, que estamos pondo em execução.</p><p>Centro Integrado de Educação</p><p>Pública: a Educação como prioridade</p><p>9</p><p>Criar no Brasil a escola que todo o mundo desenvolvido oferece às suas</p><p>crianças deixou de ser um sonho para se tornar esperança e expectativa de</p><p>todo o povo brasileiro. A criação no Rio de Janeiro dos Centros Integrados</p><p>de Educação Pública – os CIEPs – do governador Leonel Brizola, e,</p><p>recentemente, dos Centros Integrados de Apoio à Criança – os CIACs – do</p><p>presidente Fernando Collor de Mello, é o acontecimento mais importante da</p><p>história da Educação, da Cultura e da Saúde no Brasil.</p><p>Os CIACs retomam e ampliam o projeto dos CIEPs, capitalizando assim</p><p>uma rica experiência pedagógica na criação de escolas onde a criança</p><p>brasileira seja plenamente assistida em períodos de oito horas diárias.</p><p>Fazendo da educação meta prioritária, os governos do estado e da União</p><p>assumem responsabilidade concreta com respeito ao ensino básico,</p><p>concentrando esforços numa ação social transformadora da maior</p><p>importância econômica, cultural e política.</p><p>A magnitude dessa iniciativa pode ser avaliada numericamente pelas 5 mil</p><p>grandes escolas que serão edificadas e equipadas em todo o país. Nelas</p><p>serão matriculadas 5 milhões de crianças e adolescentes em cursos diários,</p><p>de tempo integral, para crianças de 7 a 13 anos e cursos noturnos de</p><p>recuperação educativa para jovens de 14 a 20 anos.</p><p>Seu significado maior é o de oferecer, pela primeira vez, uma solução real</p><p>ao problema da criança das classes populares, cuja família – não</p><p>escolarizada ou inserida no mercado de trabalho periférico e incerto – é</p><p>obrigada a deixar os filhos em situação de precário atendimento familiar ou</p><p>mesmo de abandono.</p><p>Sobretudo nas áreas adjacentes aos grandes centros metropolitanos, é</p><p>absolutamente necessária a construção de grandes escolas ou de escolas-</p><p>parque, onde os alunos tenham uma convivência educativa que inclua, além</p><p>das aulas normais, o acompanhamento de atividades pedagógicas nas Salas</p><p>de Estudo Dirigido, práticas higiênicas formativas, como o banho diário e</p><p>outras, atendimento médico e odontológico preventivo e curativo, material</p><p>didático que favoreça um desenvolvimento intelectual nas mesmas</p><p>condições das crianças de outras classes sociais e também quatro</p><p>alimentações diárias. Condições, enfim, que atendam aos direitos básicos</p><p>primordiais de toda criança, cuidando assim para que cada uma delas não</p><p>seja mais uma criança brasileira a se tornar um menor abandonado.</p><p>No estado do Rio de Janeiro, a implantação do Programa Especial de</p><p>Educação, em 1983, retomado com o segundo governo de Leonel Brizola,</p><p>significa a compreensão de que a escola pública diz respeito à maior parte</p><p>da população e é o elemento imprescindível para integrar as populações</p><p>carentes e marginalizadas na civilização urbana contemporânea,</p><p>habilitando-as ao exercício da cidadania.</p><p>Nos CIEPs e nos CIACs que estão sendo implantados no estado do Rio,</p><p>promove-se uma educação integral, incorporando em sua prática</p><p>pedagógica a consciência de que saúde é um direito de todos e de que a</p><p>cultura é inerente à condição do ser humano.</p><p>A transição da cultura arcaica à cultura letrada faz-se sem qualquer</p><p>elitismo, valorizando a herança cultural popular brasileira, mas</p><p>instrumentalizando as novas gerações a expressar-se também através do</p><p>domínio das formas eruditas. Para isso, os CIEPs e CIACs contam com dois</p><p>elementos de importância crucial. Por um lado, a ação dos animadores</p><p>culturais, como elos de comunicação da escola com a comunidade; e, por</p><p>outro, o acesso da comunidade à biblioteca escolar, alcançando assim a</p><p>formação intelectual</p><p>mais ampla que a leitura e a consequente reflexão</p><p>ensejam.</p><p>No campo da saúde, Os CIEPs e CIACs oferecem serviços médicos</p><p>modernos de atendimento a seus alunos e professores e também às famílias</p><p>da redondeza, através de pessoal médico e paramédico de tempo integral e</p><p>dedicação exclusiva. Esta malha de contato direto com a população, além</p><p>da assistência médica preventiva e curativa, faz a intermediação de suas</p><p>relações com os serviços ambulatoriais dos hospitais e maternidades da</p><p>região, potenciando sua eficácia assistencial.</p><p>A operação do sistema de saúde está exigindo a preparação de uma nova</p><p>geração de pessoal médico e paramédico especializado em saúde infantil e</p><p>maternal, o que está sendo realizado pela UERJ, aprofundando a</p><p>oportunidade para elevar o nível de qualificação de toda a classe médica</p><p>brasileira. Vale salientar ainda a importância do programa de higiene</p><p>educativa, que procura fazer de cada aluno um agente disseminador de</p><p>noções de limpeza e prevenção de doenças em seu lar e em sua</p><p>comunidade.</p><p>Fazendo do tripé Educação – Cultura – Saúde a base de sua atuação,</p><p>CIEPs e CIACs assumem-se enquanto escola integrada à vida da</p><p>comunidade, trabalhando pela conquista de melhores condições de vida e</p><p>desenvolvimento para a infância brasileira.</p><p>Na busca de um cotidiano escolar que preserve o tempo de ser criança,</p><p>impedindo que se produza forçadamente o adulto precoce, nos CIEPs e</p><p>CIACs, são oferecidos às crianças:</p><p>• programas de Estudo Dirigido em salas providas de todo material</p><p>didático – livros de literatura infantil, publicações para pesquisa e jogos</p><p>educativos – em condições ideais para o estudo sob orientação de</p><p>professores;</p><p>• frequência bissemanal ao Laboratório de Informática Educativa, onde se</p><p>familiarizam com os computadores e aprendem a manejá-los para estudar</p><p>Linguagem, Matemática, História e Ciências;</p><p>• programas diários de informação e recreação adequados a cada idade,</p><p>através da teledifusão educativa e atividades de ordem cultural, criativas e</p><p>lúdicas, sob orientação dos Animadores Culturais;</p><p>• quatro alimentações diárias, balanceadas, sob supervisão de</p><p>nutricionistas;</p><p>• práticas diárias de Educação Física e recreação, bem como o estímulo e</p><p>a possibilidade de recrutamento de milhares delas para a competitividade</p><p>desportiva;</p><p>• assistência médica, preventiva e curativa, atendimento odontológico, e</p><p>práticas diárias, orientadas, tais como o banho, higiene bucal e outras;</p><p>• regime escolar de progressão contínua, assegurando a cada aluno o</p><p>acesso anual à serie seguinte, dentro do principio de que a aprendizagem é</p><p>um processo ininterrupto e permanente;</p><p>• sistema conjunto de avaliação das escolas, dos professores e demais</p><p>elementos envolvidos no processo, de forma democrática e coletiva.</p><p>A implantação desse programa, que consubstancia ideias definidas há</p><p>décadas pelos maiores educadores brasileiros, representa a grande</p><p>revolução educacional de que o Brasil necessita vitalmente para integrar</p><p>todo o seu povo na civilização letrada e capacitá-lo para a realização plena</p><p>de suas potencialidades.</p><p>COTIDIANO</p><p>O CIEP inaugurou uma nova etapa na história da educação de base em</p><p>nosso país: aquela em que os direitos das crianças começaram a ser</p><p>efetivamente respeitados, mediante a oferta de um programa educacional</p><p>integrado, capaz de realmente mobilizar para a aprendizagem o potencial</p><p>dos alunos. Em contraste com as escolas superlotadas, o CIEP, e agora</p><p>também o CIAC, são verdadeiras escolas, proporcionando a seus alunos</p><p>múltiplas atividades, complementando o trabalho nas salas de aula com</p><p>recreações, esportes e atividades culturais. Como uma escola com essas</p><p>características é fato de implantação recente, é preciso estabelecer um</p><p>processo de formação coletiva de todas as pessoas envolvidas no processo</p><p>(alunos, professores, diretores, funcionários e a própria comunidade) para</p><p>que percebam as perspectivas mais amplas da nova proposta educacional.</p><p>Ao invés de escamotear a dura realidade em que vive a maioria de seus</p><p>alunos, provenientes dos segmentos sociais mais pobres, o CIEP</p><p>compromete-se com ela, para poder transformá-la. Acreditando ser inviável</p><p>educar crianças desnutridas, o CIEP e o CIAC suprem as necessidades</p><p>alimentares dos seus alunos.</p><p>Considerando que a maioria dos pais de alunos não tem recursos</p><p>financeiros, são fornecidos gratuitamente os uniformes e o material escolar</p><p>necessário. Reconhecendo que grande parte dos alunos está exposta a</p><p>doenças infecciosas, com problemas dentários ou deficiência visual ou</p><p>auditiva, proporcionam a todos eles assistência médica e odontológica.</p><p>Paternalismo? Não: política realista, exercida por quem não deseja ver a</p><p>educação das classes populares reduzida à mera falácia ou, o que é pior, a</p><p>educação nenhuma.</p><p>As ações pedagógicas desenvolvidas no CIEP e no CIAC emanam de uma</p><p>visão interdisciplinar, de modo que o trabalho de cada professor integre,</p><p>complemente e reforce o trabalho dos demais.</p><p>Nesta perspectiva, os funcionários são convocados a participar do</p><p>processo educativo. Na escola pública atual, a educação não compete mais</p><p>somente aos profissionais da área. O fenômeno educacional transcende a</p><p>escola, deve ganhar as ruas. Quanto mais a proposta educacional for</p><p>includente e reivindicar participação até do pessoal não especializado, mais</p><p>se favorecerá a conscientização de todos quanto ao sentido da educação.</p><p>O atual momento histórico aumenta a participação comunitária nas</p><p>principais instituições da sociedade, o que vai ao encontro dessa proposta</p><p>democratizadora. Assim, é ambicioso, mas não desarrazoado pretender-se</p><p>que o diretor do CIEP/CIAC seja o líder de um processo vivo e participante</p><p>de trabalho na escola e na comunidade.</p><p>Que o professor de classe passe a atuar de forma comprometida e</p><p>entusiasmada. Que o professor orientador não seja um simples técnico, mas</p><p>uma força estimuladora da melhoria do ensino. Que a cozinheira não seja</p><p>apenas a pessoa que prepara comida, ou que inspetores e funcionários não</p><p>sejam aqueles que reprimam e vigiem, varram ou espanem seguindo rotinas</p><p>inteiramente desvinculadas da ação educacional, mas se tornem</p><p>colaboradores do processo educativo.</p><p>Todos participam de um treinamento que, começando intensivo,</p><p>complementa-se a seguir por um treinamento em serviço e por reuniões que</p><p>estimulam a constante troca de ideias e vivências.</p><p>Um elemento fundamental da proposta pedagógica do CIEP e do CIAC é</p><p>o respeito ao universo cultural dos alunos. As crianças pobres sabem e</p><p>fazem muitas coisas que garantem a sua sobrevivência, mas, por si sós, não</p><p>têm condições de aprender o que necessitam para participar da sociedade</p><p>letrada. A tarefa primordial, portanto, é introduzir a criança no domínio do</p><p>código culto, mas valorizando a vivência e a bagagem de cada uma delas. A</p><p>escola deve servir de ponte entre os conhecimentos práticos já adquiridos</p><p>pelo aluno e o conhecimento formal exigido pela civilização</p><p>contemporânea.</p><p>Partindo da realidade concreta dos alunos, os professores motivam todos a</p><p>falar e a participar, a contar suas experiências pessoais e comunicar seu</p><p>pensamento. É essencial que todos se sintam prestigiados. Normalmente a</p><p>criança pobre consegue se comunicar e se relacionar com facilidade em seu</p><p>próprio meio social, mas, na escola, não se sente muito à vontade. O</p><p>professor que tem respostas prontas para tudo, que obriga os alunos a ouvir</p><p>calados suas lições, que corta o raciocínio da criança cada vez que ela “fala</p><p>errado”, só pode contribuir para inibir e bloquear sua capacidade de pensar.</p><p>Conscientes desses fatores, os professores dos CIEPs/CIACs empenham-</p><p>se em promover a autoconfiança dos alunos, para que eles sintam vontade</p><p>real de aprender cada vez mais. Respeitando as linguagens regionais e a fala</p><p>coloquial, estimulando as crianças a compreender e a questionar a realidade</p><p>que as cerca, os professores, num projeto integrado, podem desenvolver</p><p>uma ação educativa que ultrapasse os muros da escola.</p><p>Um adendo importante: na dinâmica dessa escola de tempo integral, o</p><p>recreio e as brincadeiras são considerados</p><p>essenciais ao processo de</p><p>ensino/aprendizagem. E existe sempre uma hora em que cada aluno se torna</p><p>dono absoluto de seu tempo, para fazer o que achar melhor dentro do</p><p>espaço escolar.</p><p>ALFABETIZAÇÃO: CONQUISTA DA PALAVRA</p><p>E DA CIDADANIA</p><p>O II Programa Especial de Educação incorpora o reconhecimento, por</p><p>parte dos educadores brasileiros, de que a função essencial da escola</p><p>pública de primeiro grau é proporcionar condições às crianças para que</p><p>alcancem o pleno domínio da leitura, da escrita e das operações básicas da</p><p>Matemática. Oferecendo a elas o convívio com variadas linguagens e</p><p>representações simbólicas, a proposta de alfabetização, nos CIEPs e agora</p><p>nos CIACs, assume-se enquanto ato político, uma vez que a conquista da</p><p>palavra oral e escrita é requisito indispensável para o exercício da cidadania</p><p>e condição insubstituível para o ingresso do povo brasileiro na civilização</p><p>emergente, cuja linguagem é a da ciência e da tecnologia.</p><p>Reconhecendo que a criança de hoje vive num mundo permeado de signos</p><p>verbais, que no seu dia a dia tem inúmeras oportunidades para formular</p><p>hipóteses sobre a língua escrita, na medida em que vê milhares de vezes</p><p>nomes de lojas, de empresas e produtos, por exemplo, associados à sua</p><p>respectiva leitura, nos CIEPs/ CIACs o processo de alfabetização incorpora</p><p>a escrita social presente no cotidiano dos alunos. Dessa forma, respeitando</p><p>o saber da criança, reavalia a questão do erro, considerando-o etapa</p><p>necessária à construção do conhecimento.</p><p>Neste sentido, a nova escola que estamos construindo não recebe essa</p><p>adjetivação apenas porque tem um projeto arquitetônico próprio, nem</p><p>tampouco porque funciona em horário integral. É nova porque dá ênfase à</p><p>expressão, respeitando o ritmo de aprendizagem, o pensamento e a fala do</p><p>aluno, priorizando uma concepção de linguagem que seja meio de interação</p><p>entre os indivíduos, tornando-os participativos e conscientes; nova, porque</p><p>concebe a apreensão do conhecimento como uma decorrência das relações</p><p>que se estabelecem entre adultos e crianças e entre as próprias crianças;</p><p>nova, porque rejeitando todo o artificialismo de conteúdos estanques e</p><p>desvinculados da realidade, tem no aspecto funcional da escrita o</p><p>pressuposto básico do ato de ler e escrever; nova, porque oferecendo à</p><p>criança das classes populares o ambiente alfabetizador de que tanto</p><p>necessita, proporciona a ela ricas e variadas oportunidades para que possa</p><p>apropriar-se da leitura e da escrita, de forma prazerosa e estimulante.</p><p>AVALIAÇÃO PERMANENTE</p><p>A concepção de avaliação da proposta pedagógica do CIEP/CIAC está</p><p>calcada na convicção de que todas as crianças precisam e são capazes de</p><p>aprender os saberes socialmente necessários. A avaliação quantitativa e</p><p>autoritária – cujo objeto é apenas o aluno – é substituída por uma avaliação</p><p>permanente, democrática e coletiva, que assume função diagnóstica.</p><p>Assim, no CIEP/CIAC, a avaliação deixa de ser forma de controle do</p><p>professor sobre os alunos, para ser uma realização conjunta e permanente,</p><p>em que todos os elementos envolvidos no processo sejam avaliados.</p><p>Recolhendo dados no decorrer do trabalho e comparando-os com os</p><p>objetivos propostos, professor e alunos analisam, cada um, sua própria</p><p>atuação e o desempenho do grupo. Desta forma, o resultado obtido passa a</p><p>ser um dado efetivo para que se avaliem todos os componentes do processo</p><p>pedagógico e a proposta de trabalho possa ser, então, reelaborada. Tornam-</p><p>se alvo de observação a relevância dos conteúdos, a eficácia da</p><p>metodologia, o desempenho do aluno e a atuação do professor, bem como</p><p>as condições de interação entre os mesmos.</p><p>Esta proposta desvincula a avaliação da reprovação, na medida em que</p><p>substitui as verificações pelo avaliar permanente e continuado.</p><p>Além desse trabalho permanente ao nível da sala de aula e diante da</p><p>extrema gravidade da questão da avaliação, uma vez que se trata de um</p><p>instrumento capaz de inviabilizar a democratização do ensino, quando</p><p>usado de forma inadequada, o II Programa Especial de Educação instituiu o</p><p>regime de progressão contínua. Através dele o aluno terá assegurado o</p><p>acesso anual ao nível seguinte, em turma especialmente atendida segundo</p><p>sua necessidade, acabando-se assim com reprovações indiscriminadas.</p><p>Substituindo a avaliação classificatória tradicional, que impingia</p><p>unicamente ao aluno a responsabilidade pelo seu fracasso, está sendo</p><p>implantado um sistema de avaliação de cada escola e de seus professores,</p><p>através de prova de aferição do rendimento dos alunos.</p><p>NOVOS PROFESSORES</p><p>A população do estado do Rio de Janeiro, que já vem convivendo com a</p><p>realidade dos Centros Integrados de Educação Pública, sabe que neles se</p><p>promove uma educação integral, incorporando em sua prática pedagógica a</p><p>consciência de que saúde é um direito de todos e de que a cultura é inerente</p><p>à condição de ser humano. Sabe, mais que isso, que para se construir essa</p><p>educação, os CIEPs – e agora CIACs – formam um novo profissional: um</p><p>professor que, enfrentando o desafio de educar crianças social e</p><p>culturalmente heterogêneas, seja capaz de lhes proporcionar condições para</p><p>que, ao final de um curso de primeiro grau, façam pleno uso da leitura e da</p><p>escrita no trabalho e no exercício consciente de sua cidadania.</p><p>Considerando inegável a importância do professor das séries iniciais e</p><p>reconhecendo o quanto tem decaído em qualidade a sua formação, bem</p><p>como a escassez de oportunidades que a ele têm sido oferecidas para que</p><p>recicle, atualize e aprimore seu conhecimento, a proposta pedagógica dos</p><p>CIEPs/CIACs dá ênfase especial à formação continuada de seus</p><p>professores. Revalorizando a figura daquele que é a base de qualquer</p><p>mudança educacional, oferece ao professor que se inicia na carreira do</p><p>magistério condições de aperfeiçoamento profissional, num Programa de</p><p>Treinamento em Serviço inédito na história da educação brasileira.</p><p>Através da UERJ, estão sendo oferecidas bolsas de estudo e trabalho a</p><p>professores recém-saídos dos Cursos de Formação Pedagógica, de modo</p><p>que se exercitem na prática do magistério, ao mesmo tempo que estudam e</p><p>participam de atividades culturais. Durante dois anos, cada grupo de cinco</p><p>jovens professores tem para orientá-los e acompanhar sua atuação um</p><p>professor-orientador competente e devidamente preparado. Este, da mesma</p><p>forma que os orientandos, tem a sua classe, ministra as suas aulas, aberta</p><p>igualmente a observação das professorandas. Sendo uma escola de dia</p><p>inteiro, a grade curricular deve atender a essa compatibilidade de horários.</p><p>Orientandos e orientador, pelo menos uma vez por semana, reúnem-se para</p><p>discutir e avaliar, de forma conjunta e consciente, o que foi realizado. Ao</p><p>final de dois anos, os professores-orientandos aprovados recebem um</p><p>certificado emitido pela UERJ, que valerá como título em concursos de</p><p>ingresso no magistério público do estado do Rio de Janeiro.</p><p>Assim, não apenas os alunos recebem acompanhamento em tempo</p><p>integral. Nos CIEPs, os professores se dedicam integralmente ao educar:</p><p>não apenas educando, mas também se educando. Trabalham em regime de</p><p>quarenta horas semanais, vinte em sala de aula com alunos e outras vinte</p><p>em práticas educativas, na participação em grupos de estudo, oficinas de</p><p>experiências pedagógicas, cursos, palestras, encontros e mesas-redondas.</p><p>Fazem uso de programas educativos por computador, preparados pelo</p><p>Centro de Informática especialmente para este fim; acompanham um curso</p><p>formal de conteúdos programáticos, tipo Madureza, e outros programas</p><p>pedagógicos veiculados pelo Sistema de Teledifusão, durante uma hora</p><p>diária; participam de diversas atividades de ordem cultural, promovidas</p><p>pela Biblioteca e dispõem de tempo livre para que façam uso, de forma</p><p>espontânea e autônoma, de todos os recursos disponíveis e pertinentes ao</p><p>seu aprimoramento.</p><p>Desse modo, atento à sua prática pedagógica, questionando-a e</p><p>reavaliando-a cada dia, ao mesmo tempo que desenvolve atividades de</p><p>embasamento teórico-metodológico, um novo professor se constrói. Um</p><p>professor cujo perfil se harmoniza com a educação democrática</p><p>e</p><p>transformadora dos CIEPs e dos CIACs: um professor afinado com a</p><p>realidade de seus alunos, com olhos isentos de preconceitos, capaz de</p><p>situar-se na sociedade como um produtor de conhecimentos, mantendo vivo</p><p>o germe da curiosidade e da investigação.</p><p>TREINAMENTO DE TREINADORES</p><p>O Programa Especial de Educação propõe que os CIEPs/CIACs sejam</p><p>mais que uma escola, isto é, que cada Unidade do Programa Especial seja</p><p>um Centro de Treinamento, extrapolando a concepção tradicional de escola</p><p>de um único fazer, o fazer pedagógico. Baseado no tripé Cultura –</p><p>Educação – Saúde, foram concebidos para atender e atuar não só junto aos</p><p>alunos, como também aos profissionais que neles trabalham e às suas</p><p>respectivas comunidades.</p><p>Evidentemente, um treinamento que se propõe a realizar transformações</p><p>profundas não pode ser feito em encontros efêmeros. Pressupõe a</p><p>construção de uma proposta de treinamento que vise superar o</p><p>espontaneísmo estéril, construindo canais que assegurem esta participação.</p><p>Para tal, é preciso garantir um canal de circulação de ideias, uma via de</p><p>mão dupla.</p><p>Como o contingente de pessoas envolvidas nesse fazer é grande, cria-se</p><p>um fato que deve ser alvo não só de preocupação, mas, também, de ação: a</p><p>heterogeneidade do contingente de treinadores. Para tanto, é preciso que</p><p>haja uma unidade do trabalho desenvolvido no interior dos diferentes</p><p>CIEPs/CIACs.</p><p>Faz-se necessária, portanto, a criação de momentos coletivos específicos</p><p>para debates, reflexão e informação com o contingente de treinadores, para</p><p>que não só conheçam em profundidade a Proposta do Programa Especial de</p><p>Educação, como também tenham a clareza da expectativa que cerca o seu</p><p>trabalho e a melhor forma de executá-lo.</p><p>O Treinamento de Treinadores tem como objetivo elevar o nível de</p><p>qualificação geral dos CIEPs/CIACs, bem como construir um projeto</p><p>pedagógico que tenha a pesquisa como princípio educativo. Esse</p><p>treinamento se realiza através de dois programas: Intensivo e de</p><p>Atualização.</p><p>O Programa Intensivo tem o objetivo de divulgar a proposta político-</p><p>pedagógica do II PEE e as diretrizes básicas dos conteúdos curriculares,</p><p>discutindo as questões gerais que envolvam o cotidiano dos CIEPs/CIACs.</p><p>Por esse motivo, diretores, professores, professores-orientadores, animador</p><p>cultural, pessoal de apoio e demais profissionais que atuarão nos</p><p>CIEPs/CIACs participam desse programa, que ocorre na fase inicial do</p><p>processo de implantação de cada Unidade.</p><p>O Programa de Atualização e Aperfeiçoamento é desenvolvido no</p><p>decorrer do ano letivo, tendo como objetivo a discussão do processo ensino-</p><p>aprendizagem no horizonte da construção de uma nova prática educativa</p><p>que torne realidade:</p><p>• a utilização de uma metodologia embasada na concepção de educação</p><p>transformadora, principalmente pelo entendimento da avaliação como um</p><p>processo continuado, que permite diagnosticar os possíveis desvios, com</p><p>vistas às reformulações numa postura dialética de ação/reflexão/ação no</p><p>processo de eliminação da evasão e da repetência;</p><p>• a articulação teoria/prática, evidenciando a pesquisa como o elemento</p><p>essencial e detonador de uma ação renovada que resgate a qualidade do</p><p>trabalho pedagógico do professor;</p><p>• a criação das condições necessárias para promover o processo de gestão</p><p>democrática, uma experiência a ser coletivamente construída no cotidiano</p><p>de cada CIEP/CIAC, responsabilidade de todos e de cada um.</p><p>A obtenção do êxito na implantação do II PEE exige profissionais</p><p>qualificados e comprometidos com a sua proposta politico-pedagógica. Para</p><p>isso, há que se articular e integrar afazeres que possibilitem o surgimento da</p><p>prática educativa que ela anuncia.</p><p>ESTUDO DIRIGIDO</p><p>Numa escola como os CIEPs/CIACs, de tempo integral, com uma</p><p>proposta pedagógica revolucionária e transformadora, é importante que as</p><p>crianças das classes populares encontrem o ambiente alfabetizador que, em</p><p>sua grande maioria, não possuem em casa. Assim, está previsto no</p><p>cotidiano dos CIEPs/CIACs um horário específico para que, em sistema de</p><p>rodízio, todas as turmas frequentem as Salas de Estudo Dirigido, onde</p><p>desenvolvam atividades que representam um constante desafio para que</p><p>busquem, de forma autônoma e independente, o conhecimento de que</p><p>necessitam para uma vida participante.</p><p>A proposta dos CIEPs/CIACs prevê que a criança tenha acesso,</p><p>diariamente, a atividades de informática, vídeo e teledifusão, bem como a</p><p>trabalhos desenvolvidos na Sala de Estudo Dirigido. As possibilidades de</p><p>trabalho nessa sala são múltiplas, pois ela contém livros clássicos da</p><p>literatura infantil brasileira e mundial, além de jornais e revistas. Possui</p><p>também dicionários, mapas, globo terrestre e centenas de livros</p><p>paradidáticos que atendem ao objetivo da pesquisa em geral.</p><p>Na área dos jogos educativos, a Sala de Estudo Dirigido conta ainda com</p><p>inúmeros jogos que variam das experiências numéricas às de alfabetização,</p><p>ciências e geografia, passando por aqueles cujo interesse recai em aspectos</p><p>de aguçamento dos sentidos e habilidades.</p><p>A questão das experimentações científicas, ainda tênues nas séries</p><p>iniciais, ganha fôlego com o material básico encontrado: lupa, bússola,</p><p>termômetro, aquário, terrário e outros itens fazem parte deste acervo,</p><p>mínimo, mas indispensável ao desenvolvimento da observação científica</p><p>pelas crianças.</p><p>A Sala de Estudo Dirigido conta também com uma infraestrutura de</p><p>apoio, sendo provida com lápis de cor, hidrocor, cartolina e papéis em geral,</p><p>cola, tesoura, sucata etc. Assim preparada, constitui um espaço da maior</p><p>importância, pois oferece os recursos necessários para que o aluno construa,</p><p>de modo dinâmico, seu conhecimento.</p><p>Como orientação básica de trabalho com esse material, quatro linhas de</p><p>ação se destacam: o prazer de ler, o desafio de pesquisar, jogar para</p><p>aprender e estudar e refletir.</p><p>Para as crianças maiores e já alfabetizadas, o Estudo Dirigido é também o</p><p>momento de estudar e refletir. Ali elas estudam, individual ou</p><p>coletivamente, com ou sem auxílio do professor executam tarefas, trabalhos</p><p>em grupo, ou simplesmente organizam e reveem atividades didáticas. Tudo</p><p>visando, por um lado, a autonomia e, por outro, a capacidade de</p><p>organização e participação.</p><p>A progressão contínua encontra, assim, um grande colaborador, pois as</p><p>atividades do Estudo Dirigido são motivantes e diversas o suficiente para</p><p>auxiliar o aluno com dificuldades específicas no sentido de vencê-las, por si</p><p>só, ou com o auxílio do professor. É esse o momento privilegiado do</p><p>“reforço” e da “apreensão” orientadas, que não se confundem com atividade</p><p>“extracurricular” ou “complementar”, na medida em que assume a tarefa de</p><p>sistematizar conceitos mais complexos e possibilitar ao aluno a sua</p><p>captação. É, portanto, tarefa curricular do Estudo Dirigido oferecer</p><p>condições para o aluno equiparar-se à sua turma, alçando voo e não se</p><p>aprisionando em uma série anterior.</p><p>A grade curricular dos CIEPs/CIACs contempla cada turma com um</p><p>tempo diário na Sala de Estudo Dirigido, a qual, dependendo do número de</p><p>turmas da escola, pode ser desmembrada em dois ou mais espaços, a fim de</p><p>viabilizar a montagem do horário.</p><p>É importante ressaltar que o Estudo Dirigido é planejado e realizado por</p><p>todo o corpo docente da escola e não por apenas um grupo restrito. Além da</p><p>participação de todos, os professores fazem um revezamento de maneira</p><p>que o regente da turma A faça o Estudo Dirigido com a turma B e vice-</p><p>versa. Isto é fundamental para que a proposta seja assumida coletivamente e</p><p>para que os erros e acertos sejam compartilhados.</p><p>Em relação à atualização profissional, o Estudo Dirigido também é</p><p>treinamento, entendido este termo como possibilidade de aperfeiçoamento</p><p>baseado na experiência discutida coletivamente.</p><p>O Estudo Dirigido funciona como polo irradiador de novas ideias e</p><p>posturas nas relações aluno/professor/conhecimento. Par isso, busca</p><p>integrar as modernas tecnologias (vídeo, informática e teledifusão) ao</p><p>trabalho de construção de uma “nova sala de aula”, na qual a leitura, o</p><p>estudo e os jogos adquirem dimensões ainda não exploradas</p><p>pronto e impresso como livro. Quero. Darcy Ribeiro. Brasília, 31 de agosto de</p><p>1995.”</p><p>1. Educação no Brasil</p><p>Fala aos moços</p><p>2</p><p>Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando e lutando, como um</p><p>cruzado, pelas causas que me comovem. Elas são muitas, demais: a</p><p>salvação dos índios, a escolarização das crianças, a reforma agrária, o</p><p>socialismo em liberdade, a universidade necessária. Na verdade, somei mais</p><p>fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isto não importa. Horrível seria</p><p>ter ficado ao lado dos que nos venceram nessas batalhas.</p><p>Tudo que diz respeito ao humano, suas vidas, suas criações, me importam</p><p>supremamente. Dentro do humano, o povo brasileiro, seu destino é o que</p><p>mais me mobiliza. Nele, a ínvia indianidade brasileira, que consegue</p><p>milagrosamente sobreviver. Mas, sobretudo, a massa de gente nossa, ainda</p><p>em fusão, esforçando-se para florescer numa nova civilização tropical,</p><p>mestiça e alegre.</p><p>Acho que aprendi isso, ainda muito jovem, com os antigos comunistas.</p><p>Imbatíveis em sua predisposição generosa de se oferecerem à luta, por</p><p>qualquer causa justa, sem mais querer que o bem geral. Estou certo de que a</p><p>dignidade, e até o gozo de viver que tenho, me vêm dessa atitude básica de</p><p>combatente de causas impessoais. Tanto que me atrevo a recomendar duas</p><p>coisas aos jovens de hoje. Primeiro, que não respeitem seus pais, porque</p><p>estão recebendo, como herança, um Brasil muito feio e injusto, por culpa</p><p>deles. Minha também, é claro. Segundo, que não se deixem subornar por</p><p>pequenas vantagens em carreirinhas burocráticas ou empresariais, pelo</p><p>dinheirinho ou dinheirão que poderiam render. Mais vale ser um militante</p><p>cruzado, acho eu.</p><p>Vejo os jovens de hoje esvaziados de juventude, enquanto flama,</p><p>combatividade e indignação. Deserdados do sentimento juvenil de</p><p>solidariedade humana e de patriotismo e de orgulho por nosso povo.</p><p>Incapacitados para assumir as carências dos brasileiros como defeitos</p><p>próprios e sanáveis de todos nós. Ignorantes de que o atraso, a fome e a</p><p>pobreza só existem e persistem, entre nós, porque são lucrativos para uma</p><p>elite infecunda e cobiçosa de patrões medíocres e de políticos corruptos.</p><p>Afortunadamente, podemos nos orgulhar de muitos jovens brasileiros que</p><p>são o sêmen de nosso povo sofredor. Sem eles, nossa pátria estaria perdida.</p><p>É indispensável, porém, ganhar a totalidade da juventude brasileira para si</p><p>mesma e para o Brasil. O dano maior que nos fez a ditadura militar,</p><p>perseguindo, torturando e assassinando os jovens mais ardentemente</p><p>combativos da última geração, foi difundir o medo, promover a indiferença</p><p>e a apatia. Aquilo de que o Brasil mais necessita, hoje, é de uma juventude</p><p>iracunda, que se encha de indignação contra tanta dor e tanta miséria. Uma</p><p>juventude que não abdique de sua missão política de cidadãos responsáveis</p><p>pelo destino do Brasil, porque sua ausência é imediatamente ocupada pela</p><p>canalha.</p><p>Talvez eu veja tanto desencantamento onde o que há é apenas o normal</p><p>das coisas ou o sentimento do mundo que corresponde às novas gerações.</p><p>Talvez seja assim, mas isso me desgosta muito. Desgosta, principalmente,</p><p>porque sinto no fundo do peito que é obra da ditadura militar tamanha</p><p>juventude abúlica, despolitizada e desinteressada de qualquer coisa que não</p><p>corresponda ao imediatismo de seus interesses pessoais. É por isso que não</p><p>me canso de praguejar e xingar, exaltado, dizendo e repetindo obviedades.</p><p>Sobretudo, quando falo à gente jovem em pregações sobre valores que</p><p>considero fundamentais e que não ressoam neles como eu quisera.</p><p>Primeiro de tudo, o sentimento profundo de que esse nosso paisão</p><p>descomunal e esse povão multitudinário, que temos e somos, não nos caiu</p><p>ao acaso nem nos veio de graça. É fruto e produto de séculos de lutas e</p><p>sacrifícios de incontáveis gerações. O território brasileiro é do tamanho que</p><p>é graças à obsessão portuguesa de fronteira, impressa neles por um milênio</p><p>de resistência, para não serem absorvidos pela Espanha, como ocorreu com</p><p>todos os outros povos ibéricos. Desde os primeiros dias de nosso fazimento</p><p>estava o lusitano preocupadíssimo em marcar posses, gastando nesse</p><p>esforço gerações de índios e caboclos que nem podiam compreender que</p><p>nos faziam.</p><p>Meu apego apaixonado pela unidade nacional começa pela preservação</p><p>desse território como a base física em que nosso povo viverá seu destino.</p><p>Encho-me da mais furiosa indignação contra quem quer que manifeste</p><p>qualquer tendência separatista. Acho até que não poderia nunca ser um</p><p>ditador, porque mandaria fuzilar quem revelasse tais pendores.</p><p>Outro valor supremo, e até sagrado, que quero comunicar à juventude, é o</p><p>sentimento de responsabilidade pelo atroz processo de fazimento de nosso</p><p>povo, que custou a vida e a felicidade de tantos milhões de índios caçados</p><p>nas matas e de negros trazidos de África, para serem desgastados no</p><p>moinho brasileiro de gastar gente. Nós viemos dos zés-ninguém gerados</p><p>pela índia prenhada pelo invasor ou pela negra coberta pelo amo ou pelo</p><p>feitor. Aqueles caboclos e mulatos, já não sendo índios nem africanos e não</p><p>sendo também admitidos como europeus, caíram na ninguendade. A partir</p><p>desta carência de identificação étnica é que plasmaram nossa identidade de</p><p>brasileiros. Fizeram-no um século depois, quando, através dos insurgentes</p><p>mineiros, tomamos consciência de nós brasileiros como um povo em si,</p><p>aspirando existir para si.</p><p>Surgimos, portanto, como um produto inesperado e indesejado do</p><p>empreendimento colonial que só pretendia ser uma feitoria. A empresa</p><p>Brasil se destinava era a prover o açúcar de adoçar boca de europeu, o ouro</p><p>de enricá-los e, depois, minerais e quantidades de gêneros de exportação.</p><p>Éramos, ainda somos, um proletariado externo aqui posto para servir ao</p><p>mercado mundial. Criá-lo foi a façanha e a glória das classes dominantes</p><p>brasileiras, cujo empenho maior consistia, e ainda consiste, em nos manter</p><p>nessa condição.</p><p>Foi sobre esse Povo-Nação, já constituído e levado à independência com</p><p>milhões de caboclos e mulatos, que se derramou a avalancha europeia</p><p>quando seus trabalhadores se tornaram descartáveis e disponíveis para a</p><p>exportação como imigrantes. Os melhores deles se identificaram com o</p><p>povo antigo da terra e até se tornaram indistinguíveis de nós, por sua</p><p>mentalidade, língua, cultura e identificação nacional. Ajudaram</p><p>substancialmente a modernizar o país e a fazê-lo progredir, gerando uma</p><p>prosperidade ampliada, ainda que muito restrita, e que beneficiou</p><p>principalmente os recém-vindos.</p><p>É de lamentar, porém, que vez por outra surja, entre eles, uns idiotinhas</p><p>alegando orgulhos de estrangeiridade. O fazem como se isso fosse um valor,</p><p>mas principalmente porque estão predispostos seja a quebrar a unidade</p><p>nacional em razão de eventuais vantagens regionais, seja a retornarem eles</p><p>mesmos para outras terras, como fizeram seus avós. Afortunadamente, são</p><p>uns poucos. Com um pito se acomodam e se comportam. Compreendem,</p><p>afinal, que não há nesse mundo glória maior que participar da criação, aqui,</p><p>da civilização bela e justa que havemos de ser.</p><p>Tal como ocorreu com nossos antepassados, hoje, o Brasil é nossa tarefa,</p><p>essencialmente de vocês, meus jovens. A história está a exigir de nós que</p><p>enfrentemos alguns desafios cruciais que, em vão, tentamos superar há</p><p>décadas. Primeiro que tudo, reformar nossa institucionalidade para criar</p><p>aqui uma sociedade de economia nacional e socialmente responsável, a fim</p><p>de alcançarmos uma prosperidade generalizada a todos os brasileiros. O</p><p>caminho para isso é desmonopolizar a propriedade da terra, tirando-a das</p><p>mãos de uma minoria estéril de latifundiários que não plantam nem deixam</p><p>plantar. Eles são responsáveis pelo êxodo rural e o crescimento caótico de</p><p>nossas cidades e, consequentemente, pela fome do povo brasileiro. Fome</p><p>absolutamente desnecessária, que só existe e só se amplia porque se</p><p>mantêm uma ordem social e um modelo econômico compostos para</p><p>enriquecer os ricos, com total desprezo pelos direitos e necessidades do</p><p>povo.</p><p>Simultaneamente, teremos de derrubar o corpo de interesses que nos quer</p><p>manter atados, servilmente,</p><p>pela maioria</p><p>das escolas de nosso país.</p><p>Enfim, o Estudo Dirigido é atividade dinâmica que concretiza a</p><p>interdisciplinaridade, constituindo-se em um polo de atuação do conjunto</p><p>da escola, criando pontos de contato entre as inovações tecnológicas e as</p><p>práticas escolares estabelecidas.</p><p>Acima de tudo, contribui – e esta é a essência de sua proposta – na</p><p>formação de futuros cidadãos participantes, ativos, críticos e criativos.</p><p>BIBLIOTECA</p><p>A Biblioteca é um valioso e indispensável instrumento pedagógico numa</p><p>escola de tempo integral. Além de constituir um fator importante no</p><p>processo de formação, por colocar os alunos em contato com um</p><p>estimulante patrimônio cultural, reforça os laços de integração da escola</p><p>pública com a comunidade, que pode utilizá-la como uma biblioteca</p><p>convencional, tomando livros por empréstimo.</p><p>Na proposta do CIEP/CIAC, a biblioteca trabalha de forma sistemática,</p><p>interligada às bibliotecas de outros CIEPs e diretamente ligada à Biblioteca</p><p>Central do estado. A esta compete a atribuição de organizar a infraestrutura</p><p>necessária ao perfeito funcionamento das demais, implementando projetos</p><p>de ordem cultural e disseminando informações que contribuam para o</p><p>enriquecimento do homem.</p><p>Dentro de uma proposta pedagógica de incentivo à leitura, a biblioteca</p><p>possui mais de mil títulos, abrangendo desde os clássicos universais,</p><p>enciclopédias e dicionários, até a literatura mais moderna e atual. Inclui a</p><p>literatura infantojuvenil e até mesmo uma gibiteca, buscando, na</p><p>versatilidade de seu acervo, constituir-se enquanto recurso complementar às</p><p>atividades curriculares, introduzindo as crianças no universo da escrita.</p><p>Cumpre ressaltar ainda, na constituição de seu acervo, a preocupação em</p><p>oferecer material de apoio pedagógico, prestando dessa forma grande</p><p>auxílio ao Programa de Treinamento em Serviço.</p><p>Assim, a biblioteca dos CIEPs/CIACs oferece o contato com o livro, não</p><p>apenas aos alunos, mas também aos professores e funcionários e à</p><p>comunidade em geral. Aberta de domingo a domingo, é um espaço claro,</p><p>atraente e estimulante, onde as atividades culturais e pedagógicas</p><p>acontecem. Dessa forma, busca-se atenuar as diferenças culturais tão</p><p>acentuadas em nossa sociedade, objetivando a democratização do</p><p>conhecimento.</p><p>CULTURA: FATOR DE INTEGRAÇÃO</p><p>ESCOLA/COMUNIDADE</p><p>O programa de Animação Cultural nos CIEPs/CIACs constitui um elo de</p><p>comunicação da escola com a comunidade, transformando os amplos</p><p>espaços livres dos pilotis e o ginásio coberto em local propício a</p><p>festividades e eventos de expressão cultural comunitária. Promove o resgate</p><p>da herança cultural brasileira, tendo como ponto de partida o fazer da</p><p>comunidade, suas manifestações, seus artistas e seu cotidiano, que são</p><p>progressivamente inseridos no dia a dia da escola.</p><p>Para viabilizar o trabalho de Animação Cultural propriamente dito, os</p><p>CIEPs, desde sua implantação, incorporaram em seu cotidiano uma função</p><p>profissional até ali inexistente: a do animador cultural. Seu perfil é o de</p><p>uma pessoa inquieta e instigadora, comprometida com a questão da cultura.</p><p>Geralmente egressa de grupos de teatro, de música, de poesia, de circo, de</p><p>artes visuais, de TV, de associações comunitárias, traz para o interior da</p><p>escola uma formação e uma experiência diferente: a vivência da</p><p>manifestação do real, do imaginário, da emoção, enquanto expressões</p><p>culturais vivas da comunidade.</p><p>Levando para o interior da escola produções das diferentes linguagens da</p><p>cultura popular, os animadores criam uma escola de mão dupla que</p><p>favorece a erradicação de preconceitos e possibilita, a alunos e seus</p><p>familiares, a identificação dos valores regionais do produto cultural que</p><p>receberam, ao mesmo tempo que promove o acesso à cultura universal, bem</p><p>como o diálogo com a mesma.</p><p>Os CIEPs/CIACs tornam-se, assim, um espaço gerador, aglutinador e</p><p>difusor da cultura; espaço de memória, de prática das linguagens artísticas,</p><p>de manipulação de novas tecnologias, de aprofundamento de experiências</p><p>em arte, de produção de materiais; de exposições, encontros e seminários.</p><p>Produzindo e divulgando eventos, os animadores fornecem a parcelas</p><p>consideráveis da população o instrumental necessário para o acesso ao</p><p>universo letrado (preenchendo a lacuna criada por uma prática pedagógica</p><p>desvinculada da realidade do nosso país) e contribuindo para a construção</p><p>de um novo Brasil, onde a cultura seja parte integrante do cotidiano da</p><p>população.</p><p>ALUNOS-RESIDENTES</p><p>O abrigo provisório construído no complexo arquitetônico do CIEP tem</p><p>contribuído para a democratização da escola, atendendo crianças e jovens</p><p>em situação de carência ou abandono, gerada pela impossibilidade de</p><p>assistência por parte dos pais. É um recurso que busca reter no sistema</p><p>escolar alunos que estejam em processo de evasão ou aqueles que, em razão</p><p>de dificuldades sociais sanáveis, não estejam matriculados.</p><p>O atendimento tem um caráter emergencial e temporário, preservando os</p><p>vínculos de solidariedade e afeto da criança com o seu universo familiar. Os</p><p>alunos-residentes situam-se na faixa de 6 a 14 anos, geralmente</p><p>provenientes da própria comunidade e com referencial familiar. A critério</p><p>da Coordenação do Projeto, são também assistidos menores vítimas de</p><p>negligência e/ou violência, perambulantes e/ou envolvidos em infrações</p><p>leves.</p><p>Cada CIEP/CIAC prevê o atendimento a 24 crianças, que nele</p><p>permanecem de segunda a sexta-feira, participando de todas as atividades</p><p>pedagógicas, sendo retiradas pelos responsáveis nos fins de semana,</p><p>feriados e férias escolares. Essa assistência constitui recurso extremo que,</p><p>uma vez adotado, implica necessariamente um trabalho junto aos</p><p>responsáveis pela criança, visando seu retorno ao núcleo familiar tão logo</p><p>seja viável.</p><p>Durante sua permanência, cada grupo de doze crianças é assistido por um</p><p>casal-residente, que atua à semelhança de pais, responsabilizando-se por</p><p>elas. A inserção desses profissionais não especialistas em educação no</p><p>cotidiano escolar promove uma integração maior da escola com a</p><p>comunidade, pela vertente da questão social.</p><p>Assim, a presença no CIEP de educadores não profissionais vem criando</p><p>condições concretas para que o processo educacional se efetive em</p><p>consonância com a própria vida comunitária. Desta forma, se inaugura uma</p><p>educação socializadora, que procura fazer uso de todos os canais de</p><p>comunicação entre a escola e a família.</p><p>ESPAÇO COMUNITÁRIO</p><p>A creche é uma veemente reivindicação das mulheres que trabalham fora</p><p>de casa no mundo inteiro. Uma reivindicação justa, mas lamentavelmente</p><p>irrealizável pelo Estado, porque ela custa, no Brasil, um salário mínimo por</p><p>criança. Somos pobres demais para enfrentar tais gastos. Eles são altos</p><p>porque para cuidar de crianças de 0 a 3 anos, dando-lhes a assistência</p><p>indispensável, sem submetê-las a riscos, é necessário um atendente para</p><p>cada quatro crianças. Acresce que este atendente deve ser especialmente</p><p>capacitado.</p><p>Cuba, que tem um admirável sistema escolar e, por igual, um também</p><p>admirável sistema de assistência social, não assegura creches às crianças</p><p>com menos de 3 anos. E já existem no Brasil algumas estatais que possuem</p><p>o reembolso acompanhante (babá), pois o reembolso creche é uma prática</p><p>comum em várias empresas.</p><p>Outra reivindicação justa, mas difícil de ser atendida, é a de dar pré-escola</p><p>para as crianças de 4 a 6 anos de idade. Claro que ela também é desejável e</p><p>deve ser generalizada onde o sistema escolar já tenha matriculado todas as</p><p>crianças de 6 anos em escolas eficazes, que permitam o seu progresso nos</p><p>estudos. Só por este caminho nossa população alcançará um dia a condição</p><p>de gente letrada, indispensável para operar na civilização em que estamos</p><p>imersos, mas da qual a maior parte dos brasileiros se vê marginalizada.</p><p>No Rio de Janeiro, depois de construir e pôr em funcionamento inúmeras</p><p>Casas da Criança, que de fato são pré-escolas para sessenta a cem crianças,</p><p>mudamos de orientação, abandonando este projeto. Foi constatada a</p><p>impossibilidade de generalizar, em qualquer tempo previsível, este tipo de</p><p>atendimento. Para</p><p>substituir as creches e as pré-escolas, criou-se o Espaço</p><p>Comunitário – Núcleo de Atenção à Família e à Criança, destinado a</p><p>atender as crianças desde o ventre da mãe até que entrem nos</p><p>CIEPs/CIACs.</p><p>Em lugar de assumir a responsabilidade total pelas crianças durante o dia</p><p>inteiro, este Espaço Comunitário dá aquele atendimento parcial,</p><p>indispensável e praticável. Vale dizer, uma suplementação alimentar,</p><p>entregue mensalmente às famílias inscritas; assistência médica periódica de</p><p>controle da saúde das crianças e atendimento curativo, quando necessário,</p><p>para as crianças e suas mães. Reduz-se, assim, o atendimento, mas</p><p>generaliza-se a assistência, aumentando para 1.200 crianças. Além disso, foi</p><p>criado um espaço pedagógico-recreativo para um determinado número de</p><p>crianças, na faixa de 3 a 5 anos.</p><p>As Casas Comunitárias postas em funcionamento no Rio de Janeiro</p><p>comprovaram que esta forma de atendimento de massa é altamente eficaz.</p><p>Melhora em curto espaço – seis meses, por exemplo – a condição sanitária e</p><p>alimentar de todas as famílias de sua comunidade, que passam a ter por ela</p><p>o mais alto apreço. Além daqueles atendimentos essenciais, o atual Espaço</p><p>Comunitário proporciona às mães reuniões periódicas, em que se discutem</p><p>as condições gerais da comunidade, tendo em vista a melhoria de qualidade</p><p>de vida. Tem sempre aberta, também, uma sala de convivência, para acolher</p><p>as mães e estimular, entre elas, o diálogo e a troca de saberes que possam</p><p>contribuir para aumentar a renda familiar.</p><p>É sempre possível acrescentar ao Espaço Comunitário outras funções, tais</p><p>como: salas de costura, lavanderias, transporte casa-maternidade, mas é</p><p>preciso ter sempre em mente que cada acréscimo deve ser feito sem</p><p>prejuízo do atendimento de massa.</p><p>Trata-se, como se vê, de um atendimento modesto, mas adequado às</p><p>condições em que vive a infância brasileira, acumulada nas favelas e nas</p><p>periferias das metrópoles. Milhões delas lá estão, carentes de tudo,</p><p>necessitando de um atendimento imediato que lhes dê, ali e agora, melhores</p><p>condições de sobrevivência e de um crescimento normal.</p><p>Este programa, como vimos, acrescentaria, à revolução educacional, a</p><p>cultura e a saúde, que irão revolucionar ainda mais as formas de assistência</p><p>social, possibilitando às populações carentes facilidades mínimas de</p><p>nutrição, de saúde e de educação, preparando suas crianças para o ingresso</p><p>no curso escolar e, sem a menor dúvida, com maiores possibilidades de</p><p>êxito.</p><p>EDUCAÇÃO JUVENIL</p><p>O Programa de Educação Juvenil está estruturado para recuperar a parcela</p><p>da juventude que já ultrapassou a idade de escolarização obrigatória, mas</p><p>que, por permanecer analfabeta, está marginalizada num meio social em que</p><p>o domínio do código letrado é indispensável.</p><p>O que se pretende não é apenas deflagrar um processo de alfabetização</p><p>que leva a uma utilização consciente do código gráfico, mas formar, entre</p><p>os jovens, uma consciência crítica do mundo e da sociedade. Na filosofia do</p><p>CIEP/CIAC, procura-se criar uma nova relação de troca entre o saber</p><p>universal e científico da escola e o saber das camadas populares, produzido</p><p>na luta pela sobrevivência.</p><p>O currículo abrange diversas áreas do conhecimento: Linguagem,</p><p>Matemática, Realidade Social e Cidadania, Saúde, Educação Física e</p><p>Cultura – todas interligadas na dinâmica de alfabetização, que aplica uma</p><p>metodologia que tem como eixo central o próprio universo de vida dos</p><p>alunos. Essa postura tem seus antecedentes históricos mais recentes no</p><p>início da década de 60, quando Paulo Freire criou no Nordeste um</p><p>programa de alfabetização em que o domínio da leitura e da escrita não</p><p>estava desvinculado da aprendizagem de uma leitura crítica do mundo. A</p><p>proposta de Paulo Freire, ampliada para todo o país através do Programa</p><p>Nacional de Alfabetização (PNA), representou um salto qualitativo na</p><p>medida em que norteava-se por um constante diálogo entre o educador e o</p><p>educando, possibilitando trazer para a sala de aula as situações de vida dos</p><p>alunos para promover o debate político sobre as condições socioeconômicas</p><p>enfrentadas no cotidiano.</p><p>A pedagogia do Programa de Educação Juvenil parte do próprio trabalho</p><p>e da vida dos alunos, procurando não deixar de fora nada que pertença,</p><p>efetivamente, ao seu cotidiano. O que se propõe é uma ruptura:</p><p>normalmente o aluno das camadas populares, pela sua condição social, é</p><p>impedido de explicitar suas vivências diárias; no CIEP, levando-se em conta</p><p>a amplitude do ato de viver, que inclui não só problemas e dificuldades,</p><p>como também alegrias, esperanças e prazeres.</p><p>Assim, o espaço escolar é recriado, devolvendo-se ao aluno o lado</p><p>prazeroso do aprender, ao mesmo tempo que se coloca à sua disposição</p><p>todo o atendimento que as unidades de horário integral oferecem durante o</p><p>dia: Biblioteca, Sala de Leitura e Estudo Dirigido; Educação Física;</p><p>atendimento médico-odontológico no seu horário de funcionamento; e uma</p><p>refeição diária, o jantar. Aponta, assim, para um redimensionamento da</p><p>relação aluno de horário noturno/escola, uma vez que este aluno,</p><p>considerado inferior ao aluno diurno, tem sido encarado, ao longo dos anos,</p><p>de forma preconceituosa e discriminatória.</p><p>DIREITO À SAÚDE</p><p>No campo da saúde, os CIEPs – e agora os CIACs – oferecem serviços</p><p>médicos e atendimento às crianças e suas famílias e também a famílias da</p><p>redondeza, através de pessoal médico e paramédico de tempo integral e</p><p>dedicação exclusiva. Esta malha de contatos com a população, além da</p><p>assistência médica direta, principalmente preventiva, fará a intermediação</p><p>de suas relações com os serviços ambulatoriais dos hospitais e maternidades</p><p>da região, potenciando a eficácia assistencial. A operação deste sistema</p><p>exigirá a preparação de uma nova geração de pessoal médico e paramédico</p><p>especializado na saúde infantil e maternal. Vale assinalar, também, a</p><p>importância do serviço de higiene, que procura fazer de cada aluno um</p><p>agente disseminador de noções de limpeza e prevenção de doenças, em seu</p><p>lar e em sua comunidade.</p><p>Não se restringindo porém ao atendimento médico-odontológico, o</p><p>Programa de Saúde dos CIEPs/CIACs concebe um conjunto integrado de</p><p>ações de educação-saúde, que se realizam tanto no espaço físico da escola</p><p>quanto nas dependências das instituições adjacentes, onde se desenvolve a</p><p>vida social e comunitária: clubes, associações, igrejas, sindicatos, grupos</p><p>informais etc. Neste sentido, supõe um novo personagem que, a partir de</p><p>sua especialização profissional – professor, médico, enfermeiro etc. –, atue</p><p>como educador, de forma integrada com os demais profissionais da</p><p>educação, tendo como objetivo a construção da cidadania. É a inserção da</p><p>concepção saúde-doença no processo educacional e cultural, sem desprezar,</p><p>entretanto, os conteúdos técnicos indispensáveis de prevenção, diagnóstico</p><p>e tratamento.</p><p>A unidade básica de saúde dos CIEPs/CIACs está integrada ao SUS, e é</p><p>uma unidade da escola dentro de uma rede heterogênea, que envolve outros</p><p>CIEPs e outras escolas convencionais.</p><p>EDUCAÇÃO FÍSICA</p><p>Um fato básico do processo educativo de primeiro grau é que ele se dá</p><p>enquanto a criança cresce, dos 7 aos 13 anos. É por isso indispensável que a</p><p>escola proporcione aos alunos múltiplas oportunidades de exercícios físicos,</p><p>que concorrerão para um crescimento saudável.</p><p>No programa dos CIEPs/CIACs, as atividades de Educação Física</p><p>avançam para um projeto esportivo nacional, no qual o corpo-movimento,</p><p>real objeto de estudo da Educação Física, carrega em si mesmo as marcas</p><p>culturais da sociedade em que se encontra inserido. Dessa forma, torna-se</p><p>pertinente o resgate dos jogos e brinquedos populares, priorizando a</p><p>ludicidade como suporte da aquisição de habilidades motoras nos esportes.</p><p>O perfil da Educação Física será caracterizado pelas três manifestações</p><p>esportivas: esporte-educação, esporte-participação e esporte-performance.</p><p>Considerando a Educação Física curricular, determinada pelas</p><p>manifestações de esporte, surge a necessidade dos Centros Olímpicos, para</p><p>atender a programas específicos de iniciação esportiva, buscando e</p><p>estimulando</p><p>a descoberta de novos talentos.</p><p>Na criação dos Centros Olímpicos (polos esportivos – CIEP/escola)</p><p>aparece a participação comunitária nas escolinhas de iniciação esportiva e</p><p>demais atividades que atendem às preferências da comunidade local.</p><p>A especialização, ao nível da execução dos programas a serem</p><p>desenvolvidos nos Centros Olímpicos, ocorrerá, no âmbito municipal,</p><p>através da articulação com a Fundação Rio Esporte e, no âmbito estadual,</p><p>através da Secretaria Estadual de Esporte e Lazer.</p><p>MATERIAL DIDÁTICO</p><p>Uma escola que pretende socializar o saber não se constrói sem que se</p><p>crie, paralelamente, um amplo espaço de diálogo, troca e permanente</p><p>interação. Nesse sentido, uma das preocupações do II Programa Especial de</p><p>Educação é oferecer aos educadores e principalmente ao Programa de</p><p>Treinamento em Serviço recursos e materiais que se prestam tanto à</p><p>educação da criança como à promoção do crescimento profissional de todos</p><p>os envolvidos no processo educativo. Tão ou mais importante que um</p><p>material didático para uso do aluno, é a elaboração de alternativas de apoio</p><p>pedagógico que não apenas desafiem o professor à reflexão, mas também</p><p>contribuam para a construção de uma consciência crítica isenta dos</p><p>preconceitos ideológicos de raça e cor, tão presentes em muitas escolas</p><p>brasileiras.</p><p>Com tal objetivo, o II Programa Especial de Educação está elaborando um</p><p>boletim mensal que dê conta de uma malha de informações entre os CIEPs</p><p>e CIACs e entre eles e as demais escolas. Está produzindo a série</p><p>denominada Informação Pedagógica, composta de vinte fascículos,</p><p>contendo um acervo de informações mais atuais e pertinentes à prática do</p><p>magistério. Seu objetivo é levar os educadores a repensar e aprofundar</p><p>questões relevantes da educação, bem como temas mais estreitamente</p><p>vinculados à proposta pedagógica dos CIEPs e CIACs.</p><p>Considerando o processo de alfabetização um ponto nevrálgico do sistema</p><p>educacional brasileiro, está sendo elaborado material de apoio para uso da</p><p>classe, no sentido de criação de um ambiente alfabetizador. A série de</p><p>material didático denominada Ler, escrever, contar atende à necessidade de</p><p>se oferecer, às crianças de nossas escolas públicas, recursos que as</p><p>coloquem em situações de igualdade em relação às crianças das classes</p><p>mais desfavorecidas.</p><p>Compõem a série seis cadernos contendo textos de literatura infantil para</p><p>que sejam lidos enquanto unidades portadoras de sentido, e não palavras ou</p><p>frases descontextualizadas, com o objetivo de apenas ensinar a ler. Dessa</p><p>forma o material didático dos CIEPs e CIACs foge ao caráter puramente</p><p>escolar, artificial e didático das cartilhas, ao mesmo tempo que proporciona</p><p>ao professor a infraestrutura necessária para que ele possa construir, no dia</p><p>a dia da sala de aula, situações reais de aprendizagem, a partir da vivência,</p><p>experiência, das expectativas e necessidades das crianças. Nesse sentido,</p><p>acompanham fichas que podem ser usadas como crachás, preenchidas com</p><p>palavras sugeridas pelos alunos etc., letras móveis, jogos com alfabetário e</p><p>algarismos, com possibilidade de usos diversos em variadas situações</p><p>diárias. Considerando prioritário na aprendizagem da leitura e da escrita o</p><p>permanente contato da criança com o livro e textos lúdicos e criativos, a</p><p>Coordenação de Material Didático produziu, para uso individual pelos</p><p>alunos, uma pequena coleção de dez livrinhos de literatura infantil, em</p><p>formato de sanfona, tamanho 12 × 13 cm dobrado, com vinte páginas,</p><p>acondicionados numa caixeta. Dessa forma, o aluno dos CIEPs/CIACs</p><p>vivencia na escola um enriquecedor relacionamento com o texto escrito</p><p>desde o início do processo escolar. Tem múltiplas oportunidades de</p><p>percepção da funcionalidade da leitura e da escrita, experimentando o</p><p>desejo de saber ler e escrever.</p><p>Acompanham os cadernos, em tamanho para serem fixados nas paredes</p><p>da sala, cartazes ilustrados com alfabetário, numa forma lúdica e</p><p>visualmente agradável de se proporcionar o convívio das crianças com as</p><p>letras do alfabeto; material semipronto: cartaz contendo apenas as letras</p><p>iniciais para que as crianças – de forma conjunta – construam o Dicionário</p><p>da turma (escolhendo as palavras a partir de suas experiências reais e os</p><p>significados aceitos pela turma, num enriquecedor processo de interação);</p><p>folhas devidamente preparadas, para que se facilite ao professor a</p><p>realização, a cada mês, do Jornal da Turma, considerando-se a importância</p><p>de que os alunos sejam expostos a situações reais de escrita, produzindo</p><p>seus próprios textos, desde o início do processo de alfabetização – mesmo</p><p>que nessa fase haja a necessidade de o professor atuar como o “escriba” da</p><p>turma.</p><p>Todo esse material é acompanhado de uma Carta ao professor –</p><p>publicação pedagógica de oitenta páginas, contendo sugestões das diversas</p><p>atividades em que ele pode fazer uso do material recebido, sugestões de</p><p>como esse material pode ser complementado pelo grupo professor/alunos,</p><p>bem como orientação teórico-metodológica quanto ao desempenho do</p><p>professor enquanto dinamizador do processo, assim como a importância de</p><p>sua atuação no acompanhamento, nas soluções de dúvidas e na</p><p>observação/avaliação da aprendizagem.</p><p>Elemento de primordial importância para que a construção do</p><p>conhecimento pela criança seja bem-sucedida, o professor é estimulado a</p><p>assumir o seu saber, tanto quanto reconhecer e aproveitar a vivência que os</p><p>alunos trazem para a sala de aula. Partindo do pressuposto de que seus</p><p>alunos são oriundos de uma cultura popular altamente criativa, através da</p><p>qual são capazes de dar expressão aos seus sentimentos e emoções, a tarefa</p><p>do educador não é erradicar essa cultura. Sua tarefa é instrumentá-los pelo</p><p>acesso à leitura, para que sua criatividade possa exercer-se de forma</p><p>consciente e segura. Assim, explorando ao máximo a interação social</p><p>estabelecida entre os elementos do grupo professor/alunos, o cotidiano</p><p>escolar se constitui num espaço onde o exercício da linguagem e da</p><p>comunicação promove uma relação democrática e dialógica.</p><p>6 Este texto foi publicado como prólogo, com este mesmo título – “A educação e a política” –, na</p><p>revista Carta nº 15, que recebeu o nome de O novo livro dos CIEPs, por referência ao Livro preto,</p><p>que registrou a implantação dos CIEPs no I Programa Especial de Educação. A Carta nº 15, dedicada</p><p>à avaliação do II PEE, foi publicada em setembro de 1995, quando o programa já havia sido</p><p>aniquilado pelo governo de Marcelo Alencar.</p><p>7 Este é o texto introdutório (Fala 1) de Falas ao professor – Escola viva, viva a escola, fascículo</p><p>distribuído a todos os professores dos CIEPs, desde sua publicação em 1985, durante o I PEE.</p><p>Segundo a apresentação de Darcy Ribeiro, “busca dar uma orientação geral sobre as bases</p><p>pedagógicas de nosso trabalho”.</p><p>8 As teses de Mendes compunham a versão educacional do plano de educação do governo Brizola.</p><p>Foram publicadas em novembro de 1983 no Jornal Escola Viva 1, enviado para a residência de cada</p><p>professor de todas as escolas públicas do estado e do município do Rio de Janeiro. Todas as escolas</p><p>pararam um dia para discuti-las e elegeram dois representantes por escola para a fase regional do</p><p>encontro. Após nova discussão, cada região elegeu representantes, compondo um fórum de cem</p><p>professores para o encontro final, ocorrido em Mendes, com a presença de Darcy Ribeiro e das</p><p>secretárias de Educação do município – Maria Yeda Linhares – e do estado do Rio de Janeiro – Yara</p><p>Vargas. As teses reformuladas após o evento foram publicadas em dezembro de 1983 no Jornal</p><p>Escola Viva 2 e posteriormente no Falas ao Professor, em 1985, com o título “Nosso programa”</p><p>(Fala 2). As teses eram organizadas em três blocos: Análise crítica; Metas da programação</p><p>educacional do governo; Papel e participação dos professores.</p><p>9 Texto publicado na Carta nº 5, dezembro de 1992, momento em que se retomava o programa dos</p><p>CIEPs, através do II PEE, e se articulava o programa federal dos Centros Integrados de Apoio a</p><p>Criança (CIAC).</p><p>3. A valorização do magistério</p><p>Nosso desafio: a formação do</p><p>professor</p><p>10</p><p>Toda experimentação</p><p>comporta um elemento de desafio e de risco; toda</p><p>tarefa implica determinação e competência.</p><p>É com grande alegria que o convidamos a participar da aventura</p><p>pedagógica que consiste em reinventarmos, juntos, uma escola pública</p><p>honesta e eficiente. Vamos, unidos, enfrentar o desafio de educar a criança</p><p>brasileira tal qual ela é, a partir da situação concreta em que se encontra.</p><p>As duas primeiras séries de nossas escolas são a grande peneira que</p><p>seleciona quem vai ser educado e quem vai ser rejeitado. São sobretudo as</p><p>crianças pobres que fracassam porque a escola as trata como se estivessem</p><p>em pé de igualdade com as crianças provenientes dos meios mais</p><p>favorecidos, tornando seu sucesso escolar uma façanha quase impossível.</p><p>Uma criança que, desde pequena, é solicitada a conversar, é uma criança</p><p>privilegiada diante das exigências da escola. Ela conversa com os pais, com</p><p>os parentes e, de certo modo, também com a televisão, com o livro, com o</p><p>jornal, com o teatro. Ganha livros de presente, folheia revistas, vê pessoas</p><p>lendo jornal e escrevendo cartas. Conta o que fez e o que quer fazer. Tem</p><p>alguém que a escuta e fala mais ainda do que ela. Lápis, papel, borracha,</p><p>máquina de escrever, estante de livros são coisas que existem desde que ela</p><p>se entende por gente. Quando entra para a escola, mesmo que lá lhe</p><p>escondam “o mapa da mina”, ela tem como descobri-lo.</p><p>E se a escola contar tudo, tim-tim por tim-tim?</p><p>Talvez, aí, também a criança pobre possa participar da história. Talvez</p><p>possa até inventar outras. Histórias que falem do que ela sabe fazer: subir,</p><p>descer, correr e atravessar ruas; andar de noite, enxergar no escuro e pular</p><p>muro; dançar, falar, cantar; arrumar a casa, cozinhar, cuidar dos irmãos;</p><p>soltar pipa, pular elástico...</p><p>E o que ela precisa para aprender a ler e escrever?</p><p>Em primeiro lugar, descobrir o que escrever tem a ver com falar. E para</p><p>isso, precisa falar. Sentir que sua fala é eficaz: serve para que os outros a</p><p>entendam, para contar sua vida, para saber da vida dos outros. É falando</p><p>que ela afirma seu jeito próprio de ser, na relação com aqueles que são</p><p>diferentes dela.</p><p>Na escola, a criança vai aprender como é que se fala do jeito do professor.</p><p>Mas para isso, não será necessário que ela seja corrigida o tempo todo, até</p><p>acabar se convencendo de que não sabe falar. Ela precisará aprender as</p><p>regras do que a escola considera certo e bonito, como convenções</p><p>importantes na nossa sociedade, mas não como verdades e valores</p><p>absolutos.</p><p>Também vai precisar aprender como é possível a linguagem reinventar o</p><p>mundo, contando uma história, por exemplo. Vai descobrir que pode falar</p><p>desenhando, escrevendo, dançando, fazendo teatro e que essas várias</p><p>possibilidades de linguagem têm, cada uma, a sua riqueza. E que</p><p>escrevendo, ela pode guardar o que diz e passá-lo adiante.</p><p>É com tudo isso que ela poderá ter contato com a escrita como alguma</p><p>coisa que ela entende e pode usar criativamente em favor dela e de sua</p><p>comunidade.</p><p>Disso trata o período preparatório: prepará-la para que o processo de</p><p>alfabetização seja algo que a enriqueça.</p><p>Para isso, outras áreas de conhecimento precisam ser trabalhadas: o</p><p>raciocínio lógico, espacial e temporal. A criança chega à escola com um</p><p>raciocínio desenvolvido de acordo com as referências de sua comunidade.</p><p>Para dominar a cultura da cidade e dos livros, ela precisará aprender a</p><p>pensar na linguagem própria dessa cultura.</p><p>É necessário que se ofereça à criança situações em que ela, partindo de</p><p>seus recursos de raciocínio, desenvolva o pensamento lógico, tornando-se</p><p>capaz de descobrir relações que trabalham com diferenças e semelhanças,</p><p>para avaliar grandezas e quantidades e para construir conceitos.</p><p>O pensamento lógico, além de ser útil ao uso da linguagem vai permitir o</p><p>conhecimento da Matemática, das ciências etc. Esse conhecimento, muitas</p><p>vezes, é passado pela escola ignorando suas relações lógicas e só restando à</p><p>criança memorizá-lo, usando recursos como a visualização, por exemplo, e</p><p>não o seu raciocínio. É o caso, por exemplo, do conceito de número. Se,</p><p>num primeiro momento, isto pode ser útil para dar uma resposta certa, não</p><p>ajuda muito a criança quando tem que enfrentar situações novas.</p><p>A Pedagogia fala muito da “capacidade de transferir ou generalizar</p><p>conhecimentos”. Na verdade, trata-se de permitir que o aluno descubra</p><p>aquelas relações que são como uma espécie de chave produtora de</p><p>conhecimentos. Ao contrário do que se costuma pensar, não é pela repetição</p><p>e pela fixação que o aluno ganha autonomia de conhecimento.</p><p>O espaço e o tempo constituem outras áreas em que será necessário</p><p>calcular quantidades e usar medidas. A criança precisará construir relações</p><p>que lhe permitam calcular o tempo em anos, meses e dias ou que avaliem a</p><p>distância entre um ponto e outro no espaço.</p><p>No que se refere especificamente ao aprendizado da linguagem escrita, há</p><p>algumas relações espaciais e temporais que precisam também ser</p><p>descobertas pela criança. Por exemplo, ela precisa saber se localizar no</p><p>espaço do papel, de acordo com as convenções da nossa linguagem: da</p><p>esquerda para a direita, de cima para baixo etc. Outro exemplo de relação</p><p>espacial-temporal que é imprescindível para a alfabetização é a ordenação</p><p>ou sucessão, para que se estabeleça uma correspondência lógica entre a</p><p>sequência temporal da fala e a sequência espacial da escrita.</p><p>Quando uma frase é dita oralmente, as palavras se sucedem no tempo;</p><p>quando é escrita, as palavras se sucedem no espaço (da folha de papel ou do</p><p>quadro-negro, por exemplo). Mas para chegar a tudo isso, a criança</p><p>precisará aprender a usar na linguagem as indicações de tempo e espaço,</p><p>localizando situações vividas próxima e concretamente por ela. A</p><p>localização se faz, de início, a partir da própria capacidade de controlar e</p><p>administrar suas ações corporais. Ir e vir, ocupando diferentes posições,</p><p>adiar e antecipar ações são a base desse conhecimento. Falar do que fez</p><p>antes ou depois de sair da escola, por exemplo, será pensar suas</p><p>experiências, organizadas num tempo. Do mesmo modo, para se localizar</p><p>no espaço, com as referências da nossa cultura – em cima/embaixo, à</p><p>esquerda/à direita etc. – terá que fazê-lo, primeiramente, com o corpo. O</p><p>embaixo e o em cima serão vividos inicialmente, por exemplo, como uma</p><p>posição de ficar agachado embaixo da mesa ou ficar em pé em cima da</p><p>cadeira.</p><p>Nessa etapa da infância, que vai mais ou menos até os 8/9 anos de idade,</p><p>o conhecimento se faz de corpo inteiro. Quanto mais a criança possa usar</p><p>esse corpo, mais ricas serão suas descobertas. Para isso, será importante</p><p>explorar as razões que o corpo tem: o que ele permite fazer, o que ele pode</p><p>dizer. Inventar movimentos e aprender outros. Aprender, por exemplo, os</p><p>movimentos da escrita.</p><p>Finalmente, uma área que estará presente em todo o trabalho: a da</p><p>socioafetividade, ou seja, o trabalho que se volta para os aspectos afetivos</p><p>da experiência de frequentar uma escola. Essa experiência pode ser rica se</p><p>for favorecida por você.</p><p>Em cada instante é fundamental que sua autoridade não se coloque em</p><p>desrespeito ao saber do aluno e da sua comunidade. Nas atividades</p><p>propostas, ele precisa ser solicitado a partir do que sabe e do que tem a</p><p>contribuir para a turma. Também é importante que ele possa trazer para a</p><p>escola aquilo que seus parentes ou amigos lhe ensinaram fora da escola,</p><p>para que confie que saber e ensinar é uma coisa de todos, que todo mundo</p><p>pode ser professor de alguma coisa.</p><p>Outro aspecto importante se refere às relações grupais na sala de aula. Se</p><p>você solicitar seus alunos apenas como indivíduos e só permitir atividades</p><p>individuais, sua turma não poderá se tornar um grupo.</p><p>Não basta que estejam sentados juntos ou em forma de círculo para que o</p><p>grupo se crie. É importante que tenham oportunidade de realizar criações</p><p>onde a interdependência entre eles seja necessária. Que trabalhem em</p><p>propostas estimulantes e abertas, para que possam chegar a um resultado</p><p>construído no processo de trocas entre eles. Ou seja, um grupo só se</p><p>constrói como tal se houver</p><p>condições favoráveis.</p><p>Por outro lado, é nesse mundo de experiências conhecidas e</p><p>desconhecidas que você e as crianças poderão se relacionar como numa</p><p>espécie de aliança. Porque também para você a experiência com essa turma</p><p>será, de início, um contato com o desconhecido.</p><p>Cada turma é uma turma, e toda experiência é singular e nova.</p><p>Principalmente em se tratando de crianças. Você e elas têm muito o que</p><p>aprender juntas. E nós junto com vocês.</p><p>O Programa Especial de Educação, de que você agora participa, foi</p><p>idealizado para tornar possível a escola pública honesta e eficiente de que</p><p>falamos no início de nossa conversa. Tem, como um de seus mais fortes</p><p>pressupostos, a crença de que a melhoria da qualidade de ensino nas classes</p><p>de alfabetização é o primeiro e principal desafio para a construção de uma</p><p>escola que atenda às necessidades da clientela popular. Do sucesso da</p><p>alfabetização depende a continuidade de todo o processo educativo.</p><p>Acreditamos que o grande número de fracassos na alfabetização deve-se,</p><p>fundamentalmente, à maneira inadequada como a escola pública trata a</p><p>maioria das crianças, mas se deve, também, à falta de materiais didáticos</p><p>que são tão necessários como a merenda. Deve-se, igualmente, à falta de</p><p>apoio sentida pelos professores que enfrentam o trabalho de alfabetização</p><p>sem terem recebido para isso formação adequada. É esse apoio que</p><p>pretendemos dar a você, professor alfabetizador, sob a forma de materiais</p><p>didáticos que poderão ajudá-lo em seu dia a dia na sala de aula e abrindo</p><p>espaços para seu treinamento em serviço.</p><p>O material que lhe estamos apresentando não pretende substituir você,</p><p>mas estar com você na sala de aula. Você verá que ele não é apenas um</p><p>material com sugestões de atividades e exercícios para as crianças; ele está</p><p>dirigido tanto para a criança quanto para você. Assim como o material das</p><p>crianças deverá ajudá-las na sua tarefa de aprender, o seu material está</p><p>concebido para ajudá-lo na tarefa de ensinar.</p><p>Para facilitar seu trabalho em sala de aula o material chegará às suas mãos</p><p>em entregas sucessivas, que serão feitas ao longo do ano. Esta é a primeira.</p><p>Com as outras você receberá também uma carta em que procuraremos dar</p><p>sugestões sobre modos de utilização do material para o aluno e, ainda,</p><p>deixar claros os objetivos implícitos nas atividades ou exercícios propostos</p><p>e sua relevância para o processo de alfabetização.</p><p>E lembre-se: toda criança tem condições de aprender. Cabe à escola</p><p>assegurar-lhe as condições de ter sucesso e não puni-la por ainda não saber</p><p>o que ninguém lhe ensinou.</p><p>Nossa tarefa: formação em serviço</p><p>11</p><p>Muitas tarefas concretas devem ser cumpridas por nós, urgentemente, para</p><p>dar solução aos problemas do analfabetismo acumulado na população</p><p>adulta, e sobretudo, para não produzir novos analfabetos, como está</p><p>acontecendo.</p><p>A primeira destas tarefas é reconhecer que nossas escolas só são eficientes</p><p>para dar educação a crianças que já vêm preparadas de casa, ou que têm</p><p>famílias capacitadas a ajudá-las. A criança de origem popular, cujos pais,</p><p>além de pobres, não têm instrução, encontram imensas dificuldades para</p><p>progredir nos estudos. Entretanto, elas são a imensa maioria do alunado,</p><p>constituindo, por conseguinte, sua clientela principal. Fracassando na</p><p>educação desta maioria, nós estamos condenando o Brasil a continuar</p><p>atolado numa ignorância e num atraso que não correspondem aos níveis de</p><p>desenvolvimento do país em muitos outros campos.</p><p>Dentro das escolas, porém, quem é que instrui? É o professor! O principal</p><p>desafio que temos de enfrentar, por conseguinte, é o de dar aos professores</p><p>meios materiais, estímulos e ajuda para que eles possam cumprir bem sua</p><p>missão. Essa é a tarefa fundamental de responsabilidade do governo em</p><p>matéria de educação, uma vez que só o poder público pode reunir os</p><p>recursos indispensáveis para enfrentar esse imenso problema em toda a sua</p><p>magnitude.</p><p>Temos de começar pela construção de toda a vasta rede escolar</p><p>indispensável para atender às populações onde elas mais se concentram e</p><p>onde são mais pobres, que é precisamente onde mais faltam escolas.</p><p>Simultaneamente, será necessário dar ao professorado a ajuda que lhe</p><p>permita alcançar níveis cada vez mais altos de eficácia profissional; seja</p><p>melhorando os cursos de formação do magistério – sabidamente</p><p>precaríssimos –, seja treinando o professorado que ingressa agora na</p><p>carreira, seja aperfeiçoando o magistério em exercício, que continuará por</p><p>longos anos educando nossas crianças e jovens.</p><p>Ao mesmo tempo, se deverá enfrentar o problema, igualmente grave, de</p><p>dar aos alunos o atendimento de suas necessidades fundamentais que, no</p><p>nosso caso, dada a pobreza da população, começa pela necessidade de uma</p><p>merenda que represente uma refeição completa, e se complementa pelo</p><p>fornecimento de uniformes e, sobretudo, de material didático para que</p><p>possa estudar.</p><p>Tão grande é o atraso em que estamos no cumprimento dessas tarefas –</p><p>mesmo num estado desenvolvido e orgulhoso de sua cultura como o Rio de</p><p>Janeiro – que elas têm que ser enfrentadas programadamente durante anos</p><p>de esforços planejados e bem articulados, a fim de dar a melhor aplicação</p><p>possível aos recursos disponíveis.</p><p>Esses, embora várias vezes superiores ao que se gastava no passado com a</p><p>educação, ainda são escassos frente ao vulto da tarefa que nos desafia.</p><p>Para fazer face a este problema é que o governador Leonel Brizola pôs em</p><p>execução o Programa Especial de Educação – PEE, cujos objetivos básicos</p><p>são:</p><p>I. Edificar uma nova rede escolar urbana projetada por Oscar Niemeyer,</p><p>na forma de Centros Integrados da Educação Pública – CIEPs. Cada um</p><p>deles receberá mil crianças e lhes dará um dia completo de atenção escolar,</p><p>das 8 horas da manhã às 4 ou 5 da tarde. Isto incluindo, além das aulas, três</p><p>refeições, oportunidades amplas de esporte e recreação, assistência médica</p><p>e dentária. O governador Leonel Brizola pretende edificar, durante o seu</p><p>governo, trezentos CIEPs, que atenderão a 300 mil crianças de 7 a 14 anos e</p><p>150 mil jovens de 15 a 20 anos em cursos noturnos de educação juvenil.</p><p>Esta grande oferta de matrículas vai permitir que, pelo menos cem das</p><p>escolas já existentes, entre as maiores, passem a funcionar também em dia</p><p>completo, elevando substancialmente o número de crianças e jovens</p><p>adequadamente atendidos.</p><p>II. Com o objetivo de construir unidades escolares médias e pequenas, o</p><p>governo inaugurou na avenida Presidente Vargas uma Fábrica de Escolas</p><p>que, apelando para a tecnologia mais avançada, está começando a construir:</p><p>a) Mil Casas da Criança, destinadas a acolher, alimentar e preparar para</p><p>os estudos as crianças de 4 a 6 anos das áreas mais pobres e de maior</p><p>concentração demográfica;</p><p>b) Cerca de quinhentas escolas novas, de cinco salas, para atender as</p><p>populações assentadas nos bairros novos que não contam com prédios</p><p>escolares para todas as crianças.</p><p>III. Não seria admissível, porém, que se implantasse nas escolas novas os</p><p>métodos das escolas velhas. Ao contrário, é preciso aproveitar essa</p><p>extraordinária oportunidade de renovação do ensino, a fim de conquistar um</p><p>alto nível de eficácia no novo sistema escolar.</p><p>Para tanto se elaborou o nosso Programa de Capacitação, que envolve</p><p>quatro ordens de atividades que devem ser atendidas prioritariamente.</p><p>Primeiro, o planejamento e a implantação de Cursos de Treinamento em</p><p>Serviço que habilitem os professores recém-ingressados na carreira ao bom</p><p>cumprimento de sua missão educativa.</p><p>Segundo, a estruturação de um Programa de Aperfeiçoamento do</p><p>Magistério em Exercício. Este, não podendo reduzir-se a ciclos e palestras</p><p>verbais ou às práticas que Anísio Teixeira chamava “neblina pedagógica” –</p><p>quanto mais se condensa, mais escurece o ambiente, dizia ele – deve ser</p><p>realizado em Escolas de Demonstração, que possibilitem aos professores</p><p>ver a prática da arte de ensinar linguagem, desenho, matemática ou</p><p>ciências, com diferentes métodos, para efeito de avaliação, de comparação e</p><p>de treinamento. Não tendo experiência nesse campo, uma vez que o nosso</p><p>equivalente são as</p><p>velhas Escolas de Aplicação, estamos desafiados a</p><p>planejar cuidadosamente esses novos centros de treinamento. É evidente</p><p>que eles não devem reproduzir o objetivo da Escola de Aplicação que era</p><p>alcançar altos níveis de excelência no atendimento ao alunado proveniente</p><p>de classes privilegiadas.</p><p>Prevemos a instalação de pelo menos cinco desses Centros de</p><p>Demonstração para o aperfeiçoamento e reciclagem do pessoal docente.</p><p>Em terceiro lugar, a possibilidade do uso dos CIEPs no exercício destas</p><p>funções. Para tanto, os professores alfabetizadores e os professores regentes</p><p>de Língua Portuguesa de 5ª série receberão apoio permanente de</p><p>professores-orientadores, em curso de treinamento em serviço. Quanto aos</p><p>demais professores, se organizarão em Seminários de Ativação Pedagógica,</p><p>realizados periodicamente, para análise crítica de seu próprio trabalho e</p><p>para o intercâmbio de experiências. Admitindo nestes seminários certo</p><p>número de professores da rede e compendiando, anualmente, seus</p><p>resultados, se poderá ir difundindo experiências pedagógicas positivas, a</p><p>fim de aprimorar, progressivamente, todo o ensino de primeiro grau.</p><p>Em quarto lugar, elaboração e produção de Materiais de Apoio que</p><p>ajudem professores e alunos a vencerem as dificuldades naturais de um</p><p>processo educativo de massa. Como este programa surge com o</p><p>compromisso expresso de atender ao alunado oriundo de famílias pobres,</p><p>que não conta com nenhuma ajuda que não seja a da escola pública e do seu</p><p>professorado, que precisa ser atendido com especial cuidado e desvelo,</p><p>nossos Materiais de Apoio serão intencionalizados para atingir este</p><p>objetivo.</p><p>Nossos Cursos de Treinamento em Serviço e os respectivos Materiais de</p><p>Apoio serão desenvolvidos com a preocupação de oferecer elementos</p><p>fundamentais de ajuda, que o professor completará com a sua experiência e</p><p>com seus próprios experimentos. Rechaçamos, energicamente, todo o</p><p>espontaneísmo irresponsável dos que levam a supor que os egressos de</p><p>nossos cursos normais estejam capacitados e prontos para exercerem o</p><p>magistério, sem nenhuma ajuda. Rechaçamos com igual vigor o dirigismo</p><p>que tornaria os professores irresponsáveis pelo seu trabalho. Esta afirmação</p><p>seria perfeitamente dispensável se não prevalecesse entre nós uma atitude</p><p>frequente de desmazelo para com as tarefas educacionais. Desmazelo e</p><p>hipocrisia.</p><p>Ninguém duvida de que o médico, por exemplo, precisa de uma</p><p>residência hospitalar para dominar o tirocínio de sua carreira vendo os</p><p>doentes serem diagnosticados e tratados por doutores experimentados. É</p><p>também óbvio que o engenheiro necessita de estágios em obras, onde veja e</p><p>ajude a execução de projetos semelhantes aos que estudou nos livros ou</p><p>ouviu nas aulas.</p><p>O professor necessita também de um estágio de treinamento em serviço.</p><p>Ainda mais que os médicos e os engenheiros, dada a deficiência e a</p><p>precariedade dos três anos de curso médio, profissionalizante, a que se</p><p>reduziu a formação oficial do normalista. A receptividade dos próprios</p><p>professores recém-ingressados no magistério a um programa de treinamento</p><p>é a mais aberta possível. Eles próprios sentem a necessidade imperativa</p><p>dessa ajuda para que possam ter um desempenho profissional responsável.</p><p>Acresce ainda que, notoriamente, os desafios de um bom tirocínio</p><p>educacional – muito mais complexo que qualquer outro – exigem, de fato,</p><p>uma formação mais cuidadosa e longa do que se dá. É nossa convicção de</p><p>que o ensino normal deve passar ao terceiro nível, ou seja, deve ser</p><p>realizado depois do ensino médio, em quatro anos de estudo universitário</p><p>para a formação tanto do professor alfabetizador como de todos os outros</p><p>especialistas de educação. Dizemos isto com base na convicção de que é tão</p><p>difícil alfabetizar crianças como realizar as tarefas do médico e de outros</p><p>profissionais em longos anos de estudos preparados para a utilização de</p><p>métodos científicos e práticas profissionais bem-prescritas. O professor</p><p>enfrenta uma tarefa ainda mais desafiante. Recebe da família uma criança</p><p>ainda em formação, mas que já é gente, para fazer dela uma pessoa</p><p>capacitada para viver sua existência como um ser inteligente, livre e</p><p>solidário numa sociedade letrada. Haverá missão mais desafiante?</p><p>Não podemos esperar, porém, a formação desse novo professorado de</p><p>nível universitário, embora ele já tarde em chegar. Temos é de oferecer, aqui</p><p>e agora, àqueles com que contamos e que nos próximos anos educarão</p><p>milhões de crianças, uma ajuda substancial que os capacite para dominar</p><p>melhor o tirocínio da profissão. Temos, ainda, que desenvolver práticas de</p><p>educação continuada que lhes permitam prosseguir aprimorando-se ao</p><p>longo de sua carreira.</p><p>Um programa tão ambicioso no plano construtivo como no de renovação</p><p>pedagógica, constitui um esforço pioneiro e revolucionário na história da</p><p>educação pública brasileira. Sua meta é nada menos do que ajustar a escola</p><p>pública à sua clientela maciça que é o alunado popular. Esperemos, por tudo</p><p>isso, que ele venha a despertar a atenção dos educadores lúcidos e</p><p>responsáveis, principalmente do magistério fluminense e carioca, que</p><p>deverá levá-lo à prática e, neste esforço, transformá-lo e melhorá-lo.</p><p>Escola de Demonstração</p><p>12</p><p>Lúcia Velloso Maurício</p><p>As diretrizes educacionais do governo Brizola, conhecidas como as Teses</p><p>de Mendes, foram discutidas no Primeiro Encontro de Professores da Rede</p><p>Pública do Estado do Rio de Janeiro. Sua versão final, publicada no Plano</p><p>de Desenvolvimento Econômico e Social do Estado do Rio de Janeiro,</p><p>1984-1987, incorporou os resultados dos debates ocorridos no Encontro de</p><p>Mendes. As teses eram divididas em três blocos: 1. Análise crítica da</p><p>situação da escola pública; 2. Metas da programação educacional do</p><p>governo; 3. Papel e participação dos professores na nova programação</p><p>educacional. Dessa terceira parte constava a meta 18:</p><p>Os Institutos de Educação deverão ser totalmente reestruturados para funcionar como</p><p>Escolas de Demonstração. Pelo menos um deles deverá ser planejado para funcionar</p><p>experimentalmente como nossa primeira Escola Normal Superior, de modo a admitir para a</p><p>carreira do magistério pessoas que tenham o segundo ciclo completo. Isso será feito</p><p>mediante convênio com a UERJ ou com a FAPERJ (PEE, 1985, p. 14).</p><p>Essa proposta de Darcy Ribeiro estava apoiada em concepção herdada de</p><p>seu mestre, Anísio Teixeira. Logo após a publicação do Plano Nacional de</p><p>Educação que se seguiu à homologação da LDB de 1961, Anísio Teixeira</p><p>(1994) ofereceu, em 1962, quando era diretor do Instituto Nacional de</p><p>Estudos Pedagógicos (INEP), sugestões para viabilizá-lo. Em seu projeto de</p><p>implantação do plano, discriminava o aparato escolar com o qual cada</p><p>localidade deveria contar, variando de acordo com as condições de cada</p><p>localidade. Afirmava que a eficácia do plano dependia da preparação dos</p><p>professores, que as leis são necessárias para tornar reformas possíveis, mas</p><p>que as leis não fazem reformas. “Estas se fazem pela mudança de estrutura</p><p>da sociedade e pelo preparo e aperfeiçoamento do professor” (TEIXEIRA,</p><p>1994, p. 153). Propunha, para tanto, Centros de Treinamento que</p><p>viabilizariam novas modalidades de formação de magistério para aqueles</p><p>que tivessem concluído o ginásio ou o colégio. Descrevia estes centros</p><p>como escolas de demonstração:</p><p>Tais centros serão substancialmente centros de demonstração de ensino, desde o nível de</p><p>jardim de infância até a última série do ensino do segundo nível, com jardins de infância,</p><p>escolas primárias e escolas de segundo nível, nos quais grupos de estagiários entre duzentos</p><p>e trezentos virão residir, como internos, para praticar e estudar as artes do magistério</p><p>infantil, primário e médio.</p><p>Os estudos serão rigorosamente articulados com essa prática direta do ensino. As escolas –</p><p>funcionando como hospitais de clínicas nas escolas de medicina – organizadas sob a forma</p><p>de escolas de demonstração, escolas experimentais e escolas de prática, devem ter a</p><p>amplitude necessária para permitir o treino individual. Ao lado das escolas de demonstração</p><p>e experimentais, haverá escolas de prática,</p><p>com classes com número suficiente para o</p><p>treinamento individual, aproveitando-se as próprias escolas do sistema escolar próximo</p><p>(Idem, ibid, p. 154).</p><p>Anísio Teixeira propôs a criação de quarenta centros nos 22 estados do</p><p>Brasil. Considerava que a preparação do professor deveria levar em</p><p>consideração que, com a massa de informações disponíveis através dos</p><p>meios de comunicação, o professor deixava de ser um informante</p><p>privilegiado e de autoridade indiscutível para se tornar um integrador de</p><p>conhecimentos e formador do juízo crítico do aluno. Segundo o autor, o</p><p>novo mestre não pode ser a jovem adolescente recém-saída da escola de</p><p>Ensino Médio e que optou pelo magistério por considerar uma profissão</p><p>adequada ao sexo feminino. O novo professor deve ser amadurecido e ter</p><p>escolhido o magistério por vontade própria. Os candidatos ao magistério</p><p>seriam recrutados entre jovens maiores de 18 anos e teriam formação</p><p>durante um, dois ou três anos de acordo com os alunos que fossem ficar sob</p><p>sua responsabilidade. Os professores do colegial continuariam a ser</p><p>formados em faculdades de Filosofia.</p><p>Darcy Ribeiro (1986) incorporou a compreensão de que a escola para</p><p>povo com acentuada estratificação social torna-se mais complexa e difícil</p><p>de operacionalizar. Difícil pela diversidade de condições e alunos que deve</p><p>atender, pela precária formação e desvalorização do professor, pela pouca</p><p>compreensão das autoridades das repercussões sociais da falta de</p><p>investimento em educação. O I Programa Especial de Educação tinha esse</p><p>entendimento como eixo e foi com vistas a enfrentar essas carências que foi</p><p>projetada, entre outras propostas de formação do professor, inicial ou em</p><p>serviço, a escola de demonstração. Fica evidente, nas palavras de Darcy</p><p>Ribeiro, a influência das concepções de Anísio Teixeira, visível tanto na</p><p>terminologia como nos argumentos.</p><p>[...] a estruturação de um Programa de Aperfeiçoamento do Magistério em Exercício. Este,</p><p>não podendo reduzir-se a ciclos e palestras verbais [...] deve ser realizado em Escolas de</p><p>Demonstração, que possibilitem aos professores ver a prática da arte de ensinar Linguagem,</p><p>Desenho, Matemática ou Ciências, com diferentes métodos, para efeito de avaliação, de</p><p>comparação e de treinamento. Não tendo experiência nesse campo, uma vez que nosso</p><p>equivalente são as velhas Escolas de Aplicação, estamos desafiados a planejar</p><p>cuidadosamente esses novos centros de treinamento. É evidente que eles não devem</p><p>reproduzir o objetivo da Escola de Aplicação que era alcançar altos níveis de excelência no</p><p>atendimento ao alunado proveniente de classes privilegiadas. Prevemos a instalação de pelo</p><p>menos cinco desses Centros de Demonstração para o aperfeiçoamento e reciclagem do</p><p>pessoal docente.</p><p>[...] Ninguém duvida de que o médico, por exemplo, precisa de uma residência hospitalar</p><p>para dominar o tirocínio de sua carreira vendo os doentes serem diagnosticados e tratados</p><p>por doutores experimentados. É também óbvio que o engenheiro necessita de estágios em</p><p>obras, onde veja e ajude a execução de projetos semelhantes aos que estudou nos livros ou</p><p>ouviu nas aulas. O professor necessita também de um estágio de treinamento em serviço.</p><p>Ainda mais que os médicos e engenheiros, dada a deficiência e a precariedade dos três anos</p><p>de curso médio, profissionalizante, a que se reduziu a formação oficial do normalista. A</p><p>receptividade dos próprios professores, recém-ingressados no magistério, a um programa de</p><p>treinamento é a mais aberta possível. Eles próprios sentem a necessidade imperativa dessa</p><p>ajuda para que possam ter um desempenho profissional responsável (PEE, 1985, p. 20).</p><p>Darcy Ribeiro terminava sua exposição de motivos afirmando que, devido</p><p>à complexidade da tarefa do professor – de receber uma criança ainda em</p><p>formação, mas já dotada de humanidade para capacitá-la a ser cidadã de sua</p><p>cultura –, tinha convicção de que o ensino normal deveria passar para nível</p><p>superior, com curso de quatro anos em universidade, tanto para o professor</p><p>alfabetizador como para qualquer outro especialista em educação. Para ele,</p><p>a tarefa do professor era mais desafiante e difícil que a do médico. Por outro</p><p>lado, reconhecia que não poderíamos esperar esse professor universitário</p><p>ficar pronto. Era indispensável oferecer aos professores atuais, que</p><p>ensinariam milhões de crianças nos anos seguintes, formação continuada</p><p>para que prosseguissem aprimorando-se em suas carreiras, daí a</p><p>necessidade da Escola de Demonstração (Idem, Ibid, p. 21).</p><p>Nossa proposta pedagógica</p><p>13</p><p>A arte de ler e de escrever consiste na habilidade de analisar a fala,</p><p>desdobrando-a em frases, palavras, sílabas e letras, e de sintetizar esses</p><p>elementos para compor palavras e frases que todos escrevam e leiam da</p><p>mesma forma. Para dominar essa arte – tal como se faz para aprender a falar</p><p>– é indispensável proporcionar ao aluno uma enorme quantidade de</p><p>oportunidades de tratar com letras, sílabas, palavras e frases, até que surja</p><p>nele as habilidades práticas de ler e escrever.</p><p>Uma coisa é a compreensão e explicação científica dos processos, outra é</p><p>seu domínio prático. Ninguém sabia que todas as línguas tinham gramáticas</p><p>até que um sábio descobriu isso. E não faz falta a ninguém saber linguística</p><p>ou gramática para falar. Do mesmo modo, a arte de ensinar a ler e escrever,</p><p>embora fundada nas teorias psicopedagógicas da aprendizagem, não exige</p><p>que o aluno se inteire dessas teorias, ele próprio. A leitura e o cálculo se</p><p>dominam é pela prática, através de um treinamento cuidadoso e reiterado. É</p><p>preciso que este se oriente, porém, criteriosamente, com base no saber</p><p>pedagógico. O professor será tanto ou mais eficiente quanto melhor for sua</p><p>formação, sua compreensão cientificamente fundada do processo de</p><p>aprendizagem.</p><p>A alfabetização, às vezes, é rápida, fulminante. Mas isto raramente</p><p>acontece e só se dá com alunos que vêm tão treinados para a escola como os</p><p>cavalos de corrida vão para os páreos. Habitualmente, a alfabetização é</p><p>lenta e pode levar, facilmente, três ou quatro semestres. Via de regra, um</p><p>aluno de origem popular que deve fazer na escola a preparação para o</p><p>aprendizado que poderia ter tido num curso pré-escolar ou em casa, precisa</p><p>destes três semestres. Em alguns casos, a alfabetização é lentíssima, e se</p><p>estende por vários anos, o que não importa muito, porque isso só ocorre</p><p>com um número reduzidíssimo de alunos.</p><p>O importante é que você não se deforme, nem se impaciente. Deformado</p><p>é o professor que só admite o aluno que já venha preparado para ele,</p><p>achando que essa minoria é que constitui o alunado “normal”, e, em</p><p>consequência, marginaliza os demais que constituem maioria. Impaciente é</p><p>o professor que quer forçar todos os seus alunos a progredirem ao mesmo</p><p>passo. Assim como eles não poderiam ter um desempenho igual disputando</p><p>corridas ou assoviando, não se pode, evidentemente, exigir deles o mesmo</p><p>passo na alfabetização. É importante, porém, que o professor se esforce</p><p>para que a classe toda acompanhe as atividades, participando delas ainda</p><p>que alguns alunos possam alcançar desempenhos melhores ou piores. É</p><p>bom saber que essas situações muitas vezes se invertem, os lentos ficam</p><p>espertos e vice-versa.</p><p>Para fazer face à variedade de problemas com que se defronta o professor</p><p>no esforço da alfabetização e do ensino das contas e dos cálculos,</p><p>elaboramos e pusemos em execução o movimento Escola Viva – Viva a</p><p>Escola, que, entre outras atividades, promoverá os Cursos de Treinamento</p><p>em Serviço nos Centros Integrados de Educação Pública – CIEPs. Para isso</p><p>estamos mobilizando dezenas de diretores, bem como centenas de</p><p>orientadores escolhidos entre professores experimentados da cidade e do</p><p>estado do Rio de Janeiro que, em colaboração com nossa equipe central,</p><p>levarão à prática este grande empreendimento educacional.</p><p>Nosso objetivo é lutar para sair dessa situação vexatória de uma rede</p><p>pública de ensino que não consegue alfabetizar a metade de seus alunos. O</p><p>que desejamos é dar condições ao professor e a todos os seus alunos de</p><p>vencer a barreira da alfabetização</p><p>para prosseguir nos estudos.</p><p>Sabidamente, a criança que alcança a terceira série, em sua enorme maioria,</p><p>completa os estudos. Esperamos que com o Programa Especial de</p><p>Educação, em lugar de desistirem e evadirem – ou se verem expulsos,</p><p>expelidos, que é o que ocorre, efetivamente – a maioria dos alunos de</p><p>origem popular tenha a possibilidade de completar os estudos de primeiro</p><p>grau. A rigor, toda criança pode se alfabetizar. Há, é certo, uma</p><p>porcentagem de inaptos, mas ela é ínfima. Há, também, alguns casos um</p><p>pouco mais numerosos de deficientes de audição ou de visão que podem ser</p><p>facilmente recuperados.</p><p>O Curso de Treinamento em Serviço dará ao jovem professor um curso</p><p>intensivo de capacitação para o ensino da leitura, da escrita e do cálculo,</p><p>que se desenvolverá progressivamente com as práticas que se vão</p><p>oferecendo aos alunos, passo a passo. Obviamente nosso material de apoio</p><p>poderá ser utilizado também por professores experimentados, que talvez</p><p>encontrem nele algumas vantagens. Nestes casos, muitas de nossas</p><p>explanações parecerão dispensáveis e até óbvias demais. Esta foi uma</p><p>opção lúcida e correspondente ao juízo que fazemos, todos, da decadência</p><p>do ensino normal no Brasil e da necessidade imperativa de dar ao professor</p><p>iniciante possibilidades de um desempenho de que possa orgulhar-se.</p><p>Os professores regentes de Língua Portuguesa de 5ª série serão também</p><p>incluídos, com prioridade, em nosso programa de treinamento. Neste caso,</p><p>o Curso de Treinamento em Serviço visa criar oportunidades de</p><p>aperfeiçoamento aos professores que assumirão a responsabilidade da</p><p>coordenação de todo o trabalho desenvolvido pelas turmas de 5ª série,</p><p>atuando junto aos docentes das outras disciplinas e regendo as “oficinas de</p><p>redação”. Estas devem assegurar aos alunos um período diário de</p><p>aprendizado intensivo da leitura e da escrita que lhes garanta o domínio</p><p>indispensável destes instrumentos, indispensáveis ao exercício de qualquer</p><p>atividade numa sociedade letrada.</p><p>Os aprovados nos Cursos de Treinamento em Serviço receberão um</p><p>certificado, emitido pela Faculdade de Formação de Professores do estado</p><p>do Rio de Janeiro. Este certificado é que dará direito à integração efetiva ao</p><p>corpo de professores dos CIEPs, em regime de tempo integral. O Curso</p><p>compreende um período introdutório em que se debaterão estas Falas e</p><p>outros materiais e se ouvirão diversos educadores com larga experiência e</p><p>bom tirocínio. Segue-se o treinamento propriamente dito, que se dará em</p><p>um CIEP, já com as responsabilidades do trabalho de classe, e que será</p><p>efetuado sob a orientação de um professor-orientador para cada dez</p><p>professores alfabetizadores.</p><p>Desse treinamento serão abolidas as “exposições magistrais”, substituídas</p><p>por Seminários de Ativação Pedagógica onde serão debatidos métodos e</p><p>problemas de aprendizagem e confrontadas as experiências dos professores.</p><p>O que se pretende é que os grupos de estudos sejam conduzidos por</p><p>verdadeiros “animadores pedagógicos”, dispostos a aventurar-se na</p><p>pesquisa de soluções de problemas, capacitando-se, desta maneira, para</p><p>transmitir o gosto dessa aventura aos outros professores que, no futuro,</p><p>“animarão” os profissionais não reciclados.</p><p>Os grupos de estudo poderão tratar de temas de interesse de uma ou várias</p><p>séries, de problemas específicos das várias matérias e, ainda, da avaliação,</p><p>reformulação e elaboração de materiais didáticos.</p><p>Nesse espírito, o material de apoio que será colocado nas mãos dos</p><p>professores irá se transformando num produto resultante do trabalho</p><p>coletivo dos professores e demais especialistas dos CIEPs, das equipes</p><p>regionais e da equipe central de coordenação do Programa Especial de</p><p>Educação.</p><p>A seguir, quando você já estiver diante de seus alunos, nosso Material de</p><p>Apoio se desdobrará para orientá-lo e ajudá-lo. Para tanto, ele se divide em</p><p>entregas, que você deve receber periodicamente. Cada entrega vem</p><p>encabeçada por uma explicação cujo propósito é explicitar para o professor,</p><p>com a maior clareza possível, os pressupostos teóricos e os objetivos</p><p>práticos que se procura alcançar com aquele conjunto de materiais. As</p><p>entregas contêm vinte maços de material de suporte, destinado ao uso em</p><p>cerca de vinte dias de aula, cada maço, por sua vez, contém os seguintes</p><p>elementos:</p><p>• um esquema que orienta a professora sobre a utilização didática</p><p>adequada do material destinado aos alunos;</p><p>• o material didático, a ser distribuído aos alunos, que compreende, além</p><p>de folhas de papel liso, pautado e quadriculado para uso em classe, diversos</p><p>Exercícios programados como uma série reiterativa de materiais instrutivos</p><p>que facilitem a intercomunicação dos professores com os alunos e dos</p><p>alunos entre si, bem como o desempenho de tipos de atividades que</p><p>permitam perceber, compreender, criar e reter conhecimentos. Os</p><p>Exercícios cobrem os seguintes campos:</p><p>1. Descobrindo. Destinado a propor jogos e brincadeiras, desafios e</p><p>problemas que motivem os alunos, despertem seu entendimento e lhes deem</p><p>tanto informação como sentimento de que estão aprendendo coisas novas.</p><p>2. Falando. Destinado a fazer a criança falar sobre suas experiências de</p><p>vida, seus sentimentos e emoções, sua maneira de ver o mundo e de</p><p>conviver com as pessoas, começando do jeito que sabe para, aos poucos, ir</p><p>assimilando os padrões da norma culta da língua. Pela sua importância para</p><p>o desenvolvimento do pensamento e do raciocínio e para a aprendizagem da</p><p>leitura e da escrita, estará presente em todas as atividades do dia.</p><p>3. Olhando e Vendo. Destinado a desenvolver a percepção visual do aluno</p><p>para capacitá-lo a diferenciações delicadas como as das letras nas sílabas e</p><p>das sílabas dentro das palavras.</p><p>4. Ouvindo. Destinado a desenvolver a percepção auditiva, indispensável</p><p>para a leitura expressiva e o entendimento correto.</p><p>5. Sucedendo. Destinado a despertar e orientar a percepção da sequência</p><p>temporal dos fatos ou das sílabas dentro da palavra, ou das palavras dentro</p><p>da frase.</p><p>6. Concatenando. Destinado a orientar a percepção da ordem e da</p><p>articulação espacial de elementos.</p><p>7. Usando a Mão. Destinado a exercitar, passo a passo, o aluno no</p><p>domínio das habilidades manuais indispensáveis para a escrita.</p><p>8. Convivendo. Destinado a orientar o professor na condução de jogos e</p><p>brincadeiras na classe, bem como na integração da sua turma nas diversas</p><p>atividades especializadas que se dão na escola, tais como a ginástica e os</p><p>desportos, a atenção médica e dentária, a sala de leitura, o trabalho dos</p><p>ativadores culturais etc., que ocuparão seus alunos durante várias horas do</p><p>dia.</p><p>Na elaboração desse material evitamos, cuidadosamente, o uso do jargão</p><p>pseudocientífico. Referimo-nos à quantidade de expressões técnico-</p><p>científicas que, por vezes, correspondem a uma simples moda, volúvel</p><p>como as outras, temendo que elas compliquem mais do que expliquem.</p><p>Procuramos chamar as coisas pelos nomes com que são designadas na fala</p><p>habitual. Muita preocupação formalista esconde, às vezes, uma real</p><p>incapacidade prática na arte de educar ou substitui a compreensão profunda</p><p>dos problemas educacionais, já tão complexos, por exibicionismos</p><p>acadêmicos.</p><p>Esta orientação não implicou, naturalmente, nenhuma redução da</p><p>qualidade didática do material oferecido e confiamos em que ele possa</p><p>cumprir uma função importante: ajudar professores e alunos na grande</p><p>aventura da conquista do conhecimento e habilitá-los a enfrentar situações</p><p>novas e resolver situações práticas.</p><p>Este Material de Apoio cobrirá áreas do saber que, indiferenciáveis nos</p><p>primeiros passos, irão, aos poucos, se delineando, tais como:</p><p>• Linguagem, que é a preparação para a escrita e a leitura pelo</p><p>aprendizado de letras e sílabas e suas combinações mais singelas.</p><p>• Matemática, nome ambicioso, para o aprendizado inicial de números e</p><p>cálculos simples, bem como das habilidades analíticas, sintéticas,</p><p>avaliativas e comparativas em que se funda o raciocínio quantitativo.</p><p>• Noções de Coisas, que é a informação básica sobre o mundo e a vida,</p><p>sobre o nosso país e a nossa cidade, sobre a saúde e sobre</p><p>a doença e sobre</p><p>quanta coisa mais se possa ir ensinando aos alunos, para situá-los e orientá-</p><p>los na luta por uma existência melhor.</p><p>Nossos alunos</p><p>14</p><p>O processo educativo que estamos implantando apresenta uma série de</p><p>novidades como é natural por seu caráter francamente experimental. Uma</p><p>destas novidades, reclamada há muito por diversos educadores, consiste em</p><p>dividir em três grupos o vastíssimo alunado de alfabetização. Ele</p><p>compreende, na cidade do Rio de Janeiro, todos os alunos da 1ª e, no</p><p>estado, os de 1ª e 2ª séries, já que aí há promoção automática.</p><p>Almejamos, deste modo, superar a prática até agora utilizada, mas</p><p>visivelmente ineficaz – como se vê pelo baixíssimo rendimento escolar que</p><p>alcançamos – de juntá-los todos, tratando-os indiferenciadamente. Assim, é</p><p>que tomamos a decisão de dividir os alfabetizandos em três grupos: os</p><p>novos, os repetentes e os renitentes.</p><p>Os novos correspondem ao alunado que acaba de ingressar nas escolas,</p><p>tenha ou não experiência de pré-escolar. Apesar de uniforme quanto ao</p><p>ingresso, este grupo é heterogêneo. A filha da professora e a do comerciante</p><p>estarão provavelmente mais preparadas para a alfabetização – prontas,</p><p>como se diz – por suas vivências e pelos estímulos domésticos que</p><p>receberam, do que a filha da empregada doméstica ou do operário.</p><p>Os alunos novos, provenientes de classes populares, chegam à escola</p><p>totalmente ignorantes de todas as inúmeras regras que ali se adotam. Alguns</p><p>deles não sabem nem mesmo que se passa de ano e que isso é desejável. E,</p><p>menos ainda, através de que esforços se consegue passar, porque em sua</p><p>família nunca ninguém estudou e, se estudou, não alcançou êxito. Não</p><p>sabem nem sequer pegar no lápis ou desenhar.</p><p>Repetentes são os que estão frequentando pela segunda vez a classe de</p><p>alfabetização e têm, portanto, uma experiência prévia, que não se pode</p><p>renegar. Já entendem melhor a fala do professor e estão mais familiarizados</p><p>com o lápis, por exemplo. O indispensável, no seu caso, é não obrigá-los à</p><p>experiência que tiveram no ano anterior, com o risco de humilhá-los e</p><p>frustrá-los, o que ocorreria se fossem atendidos juntamente com os novos.</p><p>Designamos como renitentes os alunos que têm três ou mais anos de</p><p>repetência nos cursos de alfabetização. Sua situação é mais grave que a dos</p><p>repetentes. Merecem, por conseguinte, uma atenção especializada e um zelo</p><p>ainda maior. Estarão frustrados, talvez até bloqueados psicologicamente,</p><p>por alguma razão que é muito difícil apurar. O aluno, uma vez bloqueado,</p><p>isola-se, como mecanismo de defesa, numa escola que o agride e humilha</p><p>de diversos modos. Os renitentes precisarão, por isso, de uma motivação</p><p>mais forte para que entrem a se comunicar confiantemente com o professor</p><p>e com os colegas e para que se sintam estimulados ao esforço de</p><p>autossuperação que devem fazer. Obviamente, nossos materiais de suporte</p><p>didático se diferenciam para esses três grupos. É certo, contudo, que uma</p><p>boa parte deles, constituindo para o aluno uma novidade e sendo de uso</p><p>educativo recomendável, pode ser livremente oferecido aos três grupos.</p><p>A inovação não consistirá tão só na separação das turmas e no material de</p><p>apoio adequado a cada uma delas. Deve fazer-se, também, através da</p><p>realização de um esforço muito particular para criar na sala de aula e em</p><p>toda a escola um ambiente receptivo, alegre, descontraído para todos esses</p><p>tipos de alunos. Só ocorrendo em um meio gratificante, que dê gosto tanto</p><p>aos alunos como aos professores, o trabalho educativo pode progredir bem.</p><p>Particularmente importantes são os dois casos extremos. Numa ponta os</p><p>novos, que precisam ser defendidos da agressão escolar inibidora. No outro</p><p>extremo, os renitentes, que frequentemente se dividem em duas categorias.</p><p>A dos humilhados e ofendidos e a dos que assumem uma conduta agressiva,</p><p>procurando tumultuar o trabalho de classe, alcançando, por vezes, extremos</p><p>de destrutividade.</p><p>No desencontro entre a nossa escola pública no que ela é efetivamente – e</p><p>não no que professa ser – e seu alunado majoritário – que normalmente vem</p><p>despreparado – é que estão as condições objetivas que conduzem ao</p><p>desânimo e à apatia ou à rebeldia agressiva do renitente.</p><p>Seu retraimento e desestímulo decorrem da perda do autoapreço, o que</p><p>anula nele qualquer esforço para a superação de dificuldades.</p><p>A verdade é que só progride bem uma criança que se sente segura na sala</p><p>de aula, com pleno direito de estar ali, de merecer a atenção do professor,</p><p>bem como de expressar-se livremente, sem vexames. A criança que tem</p><p>medo de ser destratada, ainda que protegida “maternalmente” pela “titia”</p><p>professora, está fadada ao fracasso. Cumpre, pois, fazer todas as crianças</p><p>sentirem-se à vontade tal qual são, para falarem na linguagem que dominam</p><p>plenamente. Só lentamente, pelo convívio e pela comunicação, elas</p><p>alcançarão o domínio de outras formas de expressão com base na fala do</p><p>professor e na linguagem dos textos que ouvem e que começam a escrever.</p><p>Acima de todas as considerações que recomendam diferenciar as crianças</p><p>em grupos, sobreleva um fato essencial: cada criança é um ser único. Assim</p><p>deve ser vista e tratada. Merecerá elogios que o professor não deve poupar</p><p>sempre que faça o esforço de que é capaz para superar suas dificuldades ou</p><p>sempre que se alegre de alcançar uma solução procurada para as questões</p><p>que se propõe. Ela não só merece, mas tem o direito de ser respeitada como</p><p>alguém que se esforça para progredir embora a partir de condições</p><p>adversas. Esse fato faz jus não a menor atenção, mas a uma atenção</p><p>redobrada por parte dos educadores. Sem professor e sem escola, o filho de</p><p>uma família letrada irá adiante, o filho do povo é que não. Esse depende</p><p>total e exclusivamente da escola pública e do professor que nela serve para</p><p>alcançar a conquista fundamental de sua vida que é a capacidade de ler,</p><p>escrever e contar.</p><p>A exigência fundamental que deve fazer a si mesmo cada professor é</p><p>assumir uma atitude socialmente responsável no exercício de sua missão</p><p>profissional importantíssima de mestre de crianças brasileiras, tal como elas</p><p>são na sua imensa maioria. Um professor se mede pelo número de crianças</p><p>carentes que ele alça, recupera e leva adiante, não pelo desempenho de</p><p>alunos brilhantes que, com ele ou sem ele, progrediriam igualmente.</p><p>Para atender adequadamente ao alunado de origem popular, a primeira</p><p>habilidade que se deve desenvolver é o domínio da linguagem oral. Ele</p><p>precisa aprender a ouvir com mais discernimento do que fazia antes de</p><p>chegar à escola. Em primeiro lugar, para familiarizar-se com a linguagem</p><p>do professor, às vezes muito diferente da que ele ouve e fala em casa, e</p><p>muito mais próxima da que ele vai encontrar na escrita. Precisa, também,</p><p>ser cuidadosamente treinado para discernir, no que ouve, minúcias</p><p>indispensáveis à escrita e à leitura, as quais não têm, entretanto, nenhuma</p><p>importância para a fala comum. Seu aluno precisa, sobretudo, falar. Falar</p><p>espontaneamente dizendo coisas, contando casos, comentando</p><p>acontecimentos, porque sua capacidade de comunicar-se fluentemente é a</p><p>base do poder de raciocinar que deve desenvolver.</p><p>No campo da linguagem o primeiro cuidado a tomar é o de não frustrar os</p><p>alunos. Muito professor inibe e às vezes liquida para a vida inteira a pré-</p><p>disposição do seu aluno para aprender, por excesso de zelo. É preciso</p><p>recordar que a linguagem do professor, embora corresponda mais de perto à</p><p>norma erudita, é a fala da minoria. As crianças populares não sabem essa</p><p>fala. Sabem é a que se fala em sua casa e na vizinhança que é o modo de</p><p>falar da maioria dos brasileiros.</p><p>Por isto é que só podemos introduzir o aluno progressiva e lentamente na</p><p>norma erudita, chamada linguagem culta. O modo de fazê-lo, porém, não é</p><p>corrigindo sem parar a pronúncia, a concordância, o gênero, o número, o</p><p>grau. Vale dizer, castigando a criança de origem popular por ser tal qual é,</p><p>ao mesmo tempo que exalta o garotinho que, vindo do mesmo círculo social</p><p>do professor, fala uma linguagem parecida com a dele.</p><p>A forma de levar a criança a dominar a linguagem</p><p>escolar é familiarizá-la</p><p>com a fala correta e pausada, explicada e paciente do professor, que cada</p><p>aluno acabará por imitar. É por essa via que ele se habilita, paulatinamente,</p><p>a dominar os elementos necessários a ler e escrever, introduzindo-se em</p><p>outro tipo de discurso e em outros níveis de compreensão.</p><p>O requisito indispensável para que tudo isso ocorra é que o aluno</p><p>desenvolva um certo grau de confiança e de apreço por si mesmo. Isto só é</p><p>praticável num ambiente onde haja respeito por gente de seu tipo, por sua</p><p>família, por sua classe social. Só onde o aluno popular se sinta livre para</p><p>falar, indagar, questionar, reivindicar, ele pode aprender.</p><p>Frustrado neste primeiro plano da comunicação, ele se refugiará no</p><p>silêncio ou no medo. Lá fora, faz misérias; é o rei da rua, mas na escola é</p><p>um tímido que fracassa na vida escolar embora exiba as mais altas</p><p>qualificações para a vida prática. Em alguns casos, chega ao caminho da</p><p>delinquência, pela impossibilidade de ingressar no mundo da gente que fala</p><p>bonito, come bonito, veste bonito. O professor não pode ignorar nem</p><p>esquecer que representa um papel capital na conformação emocional da</p><p>criança. Ele é que poderá fazê-la crescer pela aceitação e reconhecimento da</p><p>própria identidade, com orgulho de si mesma.</p><p>É importante dividir o tempo disponível na escola em períodos de</p><p>trabalho e descanso, não exigindo mais nem menos do que cada aluno pode</p><p>dar. É preciso evitar o esforço inútil. Não adianta insistir em atividades que</p><p>o aluno já dominou bem, convertendo a repetição em rotina dificilmente</p><p>suportável. Finalmente, é indispensável ir avaliando sempre o rendimento</p><p>de cada aluno, principalmente através de observação atenta.</p><p>A formação de cada professor deve incluir um conhecimento detalhado</p><p>sobre o desenvolvimento biológico e mental dos alunos e sobre sua</p><p>integração progressiva na vida social, através da aprendizagem que, nas</p><p>sociedades complexas, se faz pela educação escolar.</p><p>É com base nesse conhecimento, acumulado por séculos, mas sobretudo</p><p>nas últimas décadas, que os pensadores e cientistas elaboraram o que hoje</p><p>chamamos Pedagogia, ciência e arte do trabalho docente.</p><p>Mas, nem todo o conhecimento do mundo basta para fazer de você um</p><p>professor eficiente, se você não desenvolve, simultaneamente, uma real</p><p>simpatia por seus alunos. Para tanto é indispensável que brote em você uma</p><p>alta sensibilidade para perceber os problemas e as necessidades de cada um</p><p>deles. Só esta simpatia e sensibilidade permitirão que você consiga motivá-</p><p>los para fazer os grandes esforços necessários para progredirem na</p><p>educação. É por isso que se diz que educação se faz tanto com competência</p><p>como com amor. É importantíssimo que você se capacite bem, mas, por</p><p>mais sábio que seja, precisará manter mente e coração abertos, para</p><p>aprender sempre mais e melhor expressar simpatia. Sempre há o que</p><p>aprender ouvindo, vivendo e, sobretudo, trabalhando. Mas só aprende quem</p><p>se dispõe a rever suas certezas. Anísio Teixeira repetia sempre que não</p><p>tinha compromisso com suas ideias, querendo dizer com isso que seu</p><p>compromisso era com a busca da verdade e da compreensão. Sempre há o</p><p>que aprender. Sempre há, também, mais amor a dar e receber, se a gente</p><p>está de mente e de coração abertos.</p><p>10 Este texto compôs a Fala 3, da publicação Falas ao Professor. No original, chama-se apenas</p><p>“Nosso desafio”. Aqui acrescentamos a especificação – a formação do professor.</p><p>11 Este texto correspondia à Fala 4 – “Nossa tarefa” – na publicação Falas ao Professor. Aqui</p><p>também acrescentamos a especificidade da tarefa: a formação em serviço.</p><p>12 Este texto, escrito por mim, atendeu ao pedido do presidente da Fundação Darcy Ribeiro (Fundar)</p><p>– Paulo Ribeiro – para que não deixasse de constar um relato do que Darcy Ribeiro chamava de</p><p>Escola de Demonstração. Como dito na apresentação, o autor falou diversas vezes sobre o tema, mas</p><p>não escreveu a respeito. Assim, conhecedora da proposta de Darcy Ribeiro para as escolas de</p><p>demonstração (dirigi uma escola que estava inserida nesse projeto), lancei mão de texto já publicado</p><p>em que me referia ao tema (MAURÍCIO, 2012a) e, consultando textos de Anísio Teixeira,</p><p>idealizador da proposta, apresentei esta breve descrição.</p><p>13 Este texto compunha a Fala 5 do fascículo Falas ao Professor com o título “Nossa proposta”.</p><p>Acrescentamos o adjetivo pedagógica.</p><p>14 Este texto correspondia à Fala 6 e seu título era exatamente este – “Nossos alunos”. Como será</p><p>possível constatar, a categorização dos alunos em três grupos está ultrapassada. Foi mantido esse</p><p>registro para mostrar como um programa educacional preocupado em melhor atender o aluno popular</p><p>desenvolveu propostas que podiam estigmatizar os alunos.</p><p>4. Universidade</p><p>Universidade, para quê?</p><p>15</p><p>Discurso pronunciado pelo primeiro reitor da UnB, Darcy Ribeiro,</p><p>durante a cerimônia de posse do reitor Cristovam Buarque, em 16 de</p><p>agosto de 1985.</p><p>Meu caro Reitor Cristovam Buarque</p><p>Não lhe dou o título de Magnífico Reitor porque jamais o quis para mim.</p><p>A propósito, recordo o dia em que, estando em Goiânia, na inauguração de</p><p>uma escola, o diretor, no seu discurso, saudou o governador como</p><p>Excelentíssimo Senhor; saudou, depois, o bispo como Vossa</p><p>Reverendíssima. Devia, então, me saudar como Magnífico Reitor, mas a</p><p>palavra lhe faltou. Ele titubeou e, afinal, disse: Esplêndido Reitor.</p><p>Esplêndido Reitor Cristovam Buarque,</p><p>Todos os que falaram até agora falaram sentidamente num diapasão que</p><p>nos emocionou. Eu os ouvi de coração arfante. Cheguei a pensar que devia</p><p>ter tomado algum tranquilizante para falar mais calmo, para não me deixar</p><p>empolgar demais ou para não ficar trêmulo de voz. Para mim, perdoem que</p><p>o diga, este dia, esta hora de renascimento da UnB, é mais dia, é mais hora</p><p>do que para qualquer de vocês. Este Auditório dos Dois Candangos... Há 22</p><p>anos eu lhe dei esse nome. E dei no dia em que esta parede aqui de trás</p><p>desabou, enterrou, soterrou dois jovens candangos, bem onde estamos</p><p>sentados. Eram dois obreiros humildes, de tantos que vieram de toda a parte</p><p>edificar Brasília e aqui não puderam ficar. Naquele dia, senti que, para</p><p>recordá-los, devíamos chamar esta sala do Auditório dos Dois Candangos,</p><p>[...] os verdadeiros fundadores da Universidade de Brasília. A velha equipe</p><p>da SBPC,</p><p>16</p><p>sem a qual não haveria nossa universidade, tal qual ela foi, tal</p><p>qual ela é e há de ser. Era preciso que o Brasil tivesse gerado e formado</p><p>previamente, formado muito bem, algumas centenas de cientistas e</p><p>pensadores, cobrindo todos os campos do saber e das artes, para que o</p><p>Brasil ousasse, como nós ousamos, repensar a universidade desde a raiz.</p><p>Nós sabíamos que nossa tarefa-desafio não era fazer outra universidade-</p><p>fruto, resultante de um desenvolvimento já cumprido, como será a</p><p>Sorbonne, por exemplo. Precisávamos de uma universidade-semente, capaz</p><p>de gerar um desenvolvimento que o país não tem. Para tanto, é evidente que</p><p>as Sorbonnes, por mais vetustas que sejam, não nos serviam. Tanto mais</p><p>porque elas já então se criticavam, descontentes consigo mesmas.</p><p>A velha universidade estava em crise. Não tinha padrões estruturais ou</p><p>modelos operativos a nos oferecer. Éramos, pois, livres e estávamos</p><p>desafiados a repensar. A repensar a universidade como instituição.</p><p>Inumeráveis foram os encontros informais, muitíssimas as reuniões formais</p><p>daquela equipe da SBPC. Presentes quase sempre estavam Leite Lopes,</p><p>Tiomno, Herón, Nachbin, Haiti, Cordeiro, Moojen, Danon, Gottlieb,</p><p>Carolina, José Reis</p><p>17</p><p>e tantos, tantíssimos mais. Que calorosas discussões</p><p>tivemos, que polêmicas profundas travamos, que discussões de ideias as</p><p>mais díspares, que coragem de pensar, que predisposição a não copiar, que</p><p>temeridade, sobretudo, de recusar-se à bobice, de ficar contente com</p><p>pequenas façanhas: uma odontologia boazinha, um cursinho bem bom de</p><p>bioquímica numa universidade que não tinha biologia nem química.</p><p>Nós nos recusávamos a aceitar a universidade de mentira que se cultivava</p><p>no país, tão insciente de si como contente consigo mesma. O que ela</p><p>gostava era de fazer cerimônias</p><p>ao mercado mundial, exigindo privilégios aos</p><p>estrangeiros e a privatização das empresas que dão ser e substância à</p><p>economia nacional, para manter o Brasil como o paraíso dos banqueiros.</p><p>Não se trata de criar aqui nenhuma economia autárquica, mesmo porque</p><p>nascemos no mercado mundial e só nele sobreviveremos. Trata-se é de</p><p>deixar de ser um reles proletariado externo para ser um povo que exista para</p><p>si mesmo, ocupado primacialmente em promover sua própria felicidade.</p><p>Essas lutas só podem ser travadas com chance de vitória desmontando a</p><p>ordem política e o sistema econômico vigentes. Seu objetivo expresso é</p><p>preservar o latifúndio improdutivo e aprofundar a dependência externa para</p><p>manter uma elite rural esfomeadora e enriquecer um empresariado urbano</p><p>servil a interesses alheios. Todos eles estão contentes com o Brasil tal qual</p><p>é. Se não anularmos seu poderio, eles farão do Brasil do futuro o país que</p><p>corresponda aos interesses dos países que nos exploram.</p><p>Nestas singelas proposições se condensa para mim o que é substancial da</p><p>ideologia política que faz dos brasileiros, brasileiros dignos. Tais são o zelo</p><p>pela unidade nacional; o orgulho de nossa identidade de povo que se fez a si</p><p>mesmo pela mestiçagem da carne e do espírito; a implantação de uma</p><p>sociedade democrática onde imperem o direito e a justiça para todos; a</p><p>democratização do acesso à terra para quem nela queira morar ou cultivar; a</p><p>criação de uma economia industrial autônoma como o são todas as nações</p><p>desenvolvidas.</p><p>Eis o que peço a cada jovem brasileiro: repense estas ideias, reavalie estes</p><p>sentimentos e assuma, afinal, uma posição clara e agressiva no quadro</p><p>político brasileiro.</p><p>Educação no Brasil</p><p>3</p><p>Dois fatos impressionam na educação brasileira: a magnitude da rede</p><p>escolar pública e sua precariedade. Ela tem, hoje em dia, na condição de</p><p>alunos, cerca de 30 milhões de pessoas. Se acrescentarmos os professores e</p><p>administradores da educação, esse número será ainda maior. É de se</p><p>perguntar, porém, o que produz essa máquina tão prodigiosamente grande.</p><p>O produto principal da máquina educacional brasileira são 500 mil</p><p>analfabetos adultos por ano, uma vez que não será menor que meio milhão</p><p>o número de jovens brasileiros que chegam, anualmente, aos 18 anos,</p><p>analfabetos. Só no Rio de Janeiro avaliamos em pelo menos 50 mil a</p><p>produção anual de analfabetos, a maioria deles com três ou quatro anos de</p><p>escolaridade.</p><p>Se estendermos a condição de analfabeto à do iletrado ou do analfabeto</p><p>funcional – aquele que desenha o nome e se declara alfabetizado, mas é</p><p>incapaz de obter ou de transmitir uma informação escrita – veremos que</p><p>dobrará, no Brasil e no Rio, o número de brasileiros que ingressam</p><p>anualmente na vida adulta marginalizados da cultura do seu povo e do seu</p><p>tempo por não estarem incorporados à civilização letrada.</p><p>Para atendermos a 140 milhões de brasileiros – quase metade dos quais</p><p>com menos de 18 anos – com índices de educação satisfatórios, deveríamos</p><p>ter muito mais do que esse número aparentemente espantoso de 30 milhões</p><p>de pessoas movimentando a máquina do ensino público.</p><p>Embora nosso sistema educacional tenha saltado de 6 milhões de pessoas</p><p>em 1950 para 10 milhões em 1960, para 19 milhões em 1970 e para 30</p><p>milhões hoje, a verdade é que a escola pública brasileira não cresceu onde</p><p>devia, nem como devia.</p><p>O que se obteve com esse crescimento meramente quantitativo foi uma</p><p>escola de mentira, incapaz até mesmo de cumprir a tarefa elementar de</p><p>alfabetizar a população. Nas últimas décadas em que o Brasil “progrediu”</p><p>tão assinalavelmente em tantos campos, só viu crescer o número de</p><p>analfabetos adultos.</p><p>Examinando o resultado do censo de 1970, para o conjunto do Brasil,</p><p>veremos que do total de 65,8 milhões de brasileiros com mais de 10 anos de</p><p>idade, 24 milhões nunca tinham ido à escola (8,7 deles nas cidades e 15,3</p><p>nas zonas rurais). Cinco milhões tinham tido apenas um ano de escola e 7</p><p>milhões, só dois. Tínhamos, conforme se verifica, 32 milhões de habitantes,</p><p>que eram analfabetos funcionais. O Censo Nacional de 1980 reproduzia</p><p>quase os mesmos números absolutos de analfabetos funcionais, que</p><p>aumentaram de 32 para 36,3 milhões, demonstrando assim que os</p><p>problemas educacionais só têm se agravado.</p><p>Para precisar melhor o nosso fracasso educacional, vejamos alguns</p><p>números expressivos. Com respeito aos analfabetos de 15 anos e mais,</p><p>registrados nos recenseamentos, por exemplo, as porcentagens, décadas</p><p>após décadas, vêm diminuindo, mas o número absoluto vem aumentando.</p><p>Eram 56,2% os analfabetos maiores de 15 anos em 1940, somando 13</p><p>milhões. Os analfabetos de 1950 eram 50,5% e montavam a 15 milhões.</p><p>Caíram para 39,3% em 1960, mas seu número elevou-se para 16 milhões.</p><p>Em 1970, a porcentagem desceu para 33%, mas o número absoluto de</p><p>analfabetos alçou-se a 18 milhões.</p><p>O mesmo censo de 1970 nos revela que entre os jovens de 14 anos de</p><p>idade, 24,3%, o que equivale a uma quarta parte, não sabia ler e escrever.</p><p>Esta juventude analfabeta era de 42% nas zonas rurais e de 10% na cidade.</p><p>Finalmente, no último censo, em 1980, a porcentagem subiu para 25,9% e o</p><p>número absoluto elevou-se para 19 milhões. São esses os números</p><p>censitários dos analfabetos adultos do Brasil. Eles nos estão a dizer que toda</p><p>a zuaba do Mobral sobre a extinção do analfabetismo era outro milagre</p><p>estatístico.</p><p>Esses números e proporções tornam-se mais significativos quando</p><p>comparados com outros desempenhos educacionais. Enquanto o Brasil de</p><p>1980 conta com 19 milhões de analfabetos adultos e com a porcentagem de</p><p>26%, na Argentina essa porcentagem é de 6% em 1976 e, em Cuba, já em</p><p>1961, era de 3%. No caso de Cuba, pode-se explicar o êxito educacional</p><p>pelo empenho que o socialismo põe na educação popular; mas no caso da</p><p>Argentina e de tantos outros países da América Latina, a nossa inferioridade</p><p>estatística reflete uma inferioridade efetiva no esforço por alfabetizar e na</p><p>capacidade de alcançar esta meta elementar.</p><p>Mais expressivos ainda do que a medida censitária desse resíduo de</p><p>letrados na população pelo funcionamento da escola são os dados abaixo</p><p>referentes ao fluxo de alunos da 1ª à 4ª série. A escolaridade, como</p><p>expressão da capacidade que o sistema tem de absorver, é incrivelmente</p><p>baixa. Metade das nossas crianças não consegue nem saltar a barreira da 1ª</p><p>série para se matricular na 2ª, e apenas 40% das crianças alcançam a 4ª</p><p>série, que corresponde àquele mínimo de domínio da escrita e da leitura</p><p>com o qual uma pessoa está habilitada a operar, com eficácia, dentro de</p><p>uma sociedade letrada.</p><p>Examinando esses dados com mais atenção, podemos tirar outras</p><p>conclusões. A principal delas é desvendar o engodo que se esconde atrás</p><p>desses números. Ele começa a revelar-se quando se observa que quem passa</p><p>da 2ª para a 3ª série progride mais ou menos bem daí por diante: 486 – 464</p><p>– 417. Com efeito, quem salta as duas primeiras séries – principais barreiras</p><p>e verdadeiros depósitos de crianças condenadas à evasão – tem grandes</p><p>possibilidades de concluir o primeiro grau. Isso significa que as primeiras</p><p>duas séries são as grandes peneiras que selecionam quem vai ser educado</p><p>(48,6%) e quem vai ser rejeitado (51,4%), quem é escolarizável e quem não</p><p>é.</p><p>Para alcançarmos a necessária objetividade na apreciação da realidade</p><p>educacional do Brasil, é conveniente fazer algumas comparações. Para isso</p><p>se prestam bem os dados referentes ao fluxo da escolaridade em países</p><p>latino-americanos. O México, que tem maior homogeneidade cultural e um</p><p>grau semelhante ao nosso desenvolvimento econômico, alcança um</p><p>desempenho educacional muito melhor, uma vez que promove à 2ª série</p><p>cerca de 70% dos alunos e leva à 4ª série mais da metade. O Paraguai e a</p><p>Bolívia, nações irmãs tanto ou mais pobres do que nós, vivem uma situação</p><p>ainda mais difícil no que concerne à educação, porque lá a população não</p><p>fala a língua da escola. No Paraguai se fala guarani; na Bolívia, o quíchua e</p><p>o aimará; nos dois países, a escola ensina em espanhol. Apesar disso, a</p><p>porcentagem de crianças que lá concluem as seis séries primárias é</p><p>solenes, em que meu amigo, o reitor Pedro</p><p>Calmon, dizia aplaudidíssimos discursos de contentamento pleno com a</p><p>bobaginha que tinha e que chamavam “universidade brasileira”.</p><p>Por que extraordinário milagre o preclaro presidente Juscelino Kubitschek</p><p>deu a nossos descontentes a tarefa de conceber a universidade nova na nova</p><p>capital? Nós éramos, então, a consciência clara, profunda – a que você, meu</p><p>caro reitor e sua equipe, têm que encarnar hoje – de que o desafio maior que</p><p>se impõe à inteligência brasileira é o de capacitar-se de que esse país não</p><p>pode passar sem uma universidade séria. Esta nação exige pelo menos uma</p><p>universidade de verdade, uma universidade em que possamos dominar todo</p><p>o saber humano e dominá-lo conjuntamente como um todo, para que o</p><p>efeito interfecundante do convívio do matemático com o antropólogo, do</p><p>veterinário com o economista, do geógrafo com o astrônomo gere um</p><p>centro nacional de criatividade científica e cultural. Só havíamos</p><p>conseguido as façanhazinhas de criar ancilas, transplantes postos aqui e ali</p><p>de universidades estrangeiras, onde um pesquisador solitário tentava criar</p><p>equipes nadando contra a corrente. Esta é uma questão fundamental.</p><p>Repito: o Brasil não pode passar sem uma universidade que tenha o</p><p>inteiro domínio do saber humano e que o cultive não como um ato de</p><p>fruição erudita ou de vaidade acadêmica, mas com o objetivo de, montada</p><p>nesse saber, pensar o Brasil como problema. Esta é a tarefa da Universidade</p><p>de Brasília. Para isso ela foi concebida e criada. Este é o desafio que hoje,</p><p>agora e sempre ela enfrentará. Para isso é que, tantas vezes, nos reunimos</p><p>na SBPC, no CBPF,</p><p>18</p><p>em Manguinhos, e sobretudo, no velho INEP</p><p>19</p><p>e no</p><p>novo CBPE</p><p>20</p><p>de Anísio, ele sempre presente discutindo, polemizando.</p><p>Dizia uma coisa hoje e amanhã o contrário, e era aquela beleza, porque nos</p><p>obrigava a pensar, a repensar, nos forçava a justificar, a fundamentar. Nos</p><p>fazia suar a camisa da mente, para questionar, vezes sem conta, cada</p><p>proposição. Esta postura indagativa de autoquestionamento livre e ardente</p><p>que foi implantada aqui tem de ser reimplantada, para que nossa UnB se</p><p>reencontre consigo mesma e realize seu destino.</p><p>Entre os companheiros queridíssimos da hora seguinte do fazimento da</p><p>universidade, se destaca essa figura fantástica que é Oscar Niemeyer.</p><p>Fisicamente a universidade nasceu nas suas mãos, com seu carinho, o seu</p><p>talento e o de sua equipe: Rocha Miranda, Lelé, Ítalo</p><p>21</p><p>e tantos mais.</p><p>Logo veio Roberto Salmeron, que sai do Cern</p><p>22</p><p>em Genebra e se translada</p><p>com a família para cá, querendo passar aqui o resto de sua vida. Ele é até</p><p>hoje um viúvo da Universidade de Brasília; chorando a dor de vê-la morrer</p><p>naquilo que era seu espírito, sua flama: o desejo e a liberdade de pensar, de</p><p>pesquisar, de ensinar. Encontrei pelo mundo afora – vocês também os terão</p><p>visto – esses viúvos ou viúvas da Universidade de Brasília. Isto temos sido</p><p>todos nós, chorando pelo que foi a frustração de nosso sonho maior.</p><p>Não se equivoquem, porém, pensando que a Universidade de Brasília já</p><p>foi ou só foi. Ela é e sempre será nossa maior ambição. A UnB é a ambição</p><p>mais alta da inteligência brasileira, este é o nosso sonho maior, esta é a</p><p>utopia de quem entre nós tem cabeça para pensar este país e senti-lo com o</p><p>coração. Todos os intelectuais brasileiros estão de olhos postos aqui, senhor</p><p>reitor. Todos sabíamos que a UnB hibernava, mas ia reviver. Esta Nação</p><p>não pode passar sem ela, eu já disse. Agora ela renasce e renasce porque o</p><p>Brasil renasceu em liberdade.</p><p>Deixem-me trazer outra presença que vocês não veem. É a presença da</p><p>Comunidade Científica Mundial. Sim, amigos queridos, companheiros, isto</p><p>existe. Existe uma comunidade secreta, profunda, dando-se as mãos por</p><p>debaixo da Rússia, dos Estados Unidos, da China. São cientistas que se</p><p>comunicam, que se procuram, que se adivinham, que se compreendem,</p><p>buscando soluções por cima das doiduras, da irresponsabilidade das</p><p>potências mundiais. Estas potestades da guerra, mais predispostas a</p><p>corromperem a própria vida no planeta do que a se entenderem. Pois bem, a</p><p>Comunidade Científica olhava de longe, com carinho, esta universidade do</p><p>Terceiro Mundo, que nascia com vontade de ser a melhor do mundo. Digo a</p><p>vocês, recordo, que quando discutíamos os estatutos da UnB, eu recebi –</p><p>estará aí nos arquivos – um telegrama de Oppenheimer. Sim, nada menos</p><p>que de Oppenheimer, o Pai da Bomba, se quiserem pensar assim. Mas, para</p><p>nós, o grande humanista. Um telegrama em que ele dava seu palpite sobre</p><p>um artigo do nosso estatuto. Esta Universidade de Brasília é coisa muito</p><p>séria, companheiros. Ela é a carne do espírito brasileiro. Ela é a filha da</p><p>comunidade científica brasileira e mundial que aqui, nos descampados do</p><p>Brasil central, quer se plantar como a Casa do Espírito, da Inteligência, do</p><p>Saber.</p><p>Este legado, Cristovam Buarque, é o que você tem em mãos. Você e seus</p><p>companheiros, desafiados, hoje, como nós, ontem, a fazer das tripas coração</p><p>para, a partir das fraquezas decorrentes desses anos de ditadura e opressão,</p><p>ir adiante, recriando a universidade necessária. De suas palavras ditas aqui,</p><p>Reitor, só não concordo com uma assertiva. Não concordo que você não</p><p>possa errar. Erre, companheiro, erre e erre mais, Cristovam. Só não erra</p><p>quem não tenta acertar. Limpe a mente, abra o coração, tome partido e ouse.</p><p>Vá adiante, aceite errar para acertar. Eu errei muito, nós todos erramos</p><p>demais, tanto que este nosso país ainda não deu certo. Concordo, porém,</p><p>com você, em que é preciso estar contente com o que se tem em mãos para,</p><p>a partir do concreto, esgotar as possibilidades de fomento que se oferecem</p><p>aqui e agora no cumprimento do honroso mandato reitoral e presidir o</p><p>renascimento da nossa UnB. Ela o conclama e o condena a refletir e agir</p><p>diante de cada situação concreta, a optar e a lutar, a fim de que se realize a</p><p>alternativa melhor. Havemos de ser o que houvéramos sido se a hecatombe</p><p>não tivesse caído sobre o nosso povo, tudo arrasando, tudo enlameando.</p><p>Neste dia de sua posse, eu o saúdo, Cristovam Buarque, com a emoção</p><p>que vocês percebem. Hoje, para mim, é o dia do renascimento no rito de</p><p>passagem. Uma universidade morre – a que era indigna desse nome –,</p><p>morre como íbis, a ave que se queima. Uma universidade nasce para ser o</p><p>que houvera sido: a nossa Universidade de Brasília.</p><p>É, entretanto, meu dever, neste dia de alegrias, lembrar tristezas. Começo</p><p>pedindo a vocês que ponham em fogo nas suas mentes a lembrança do dia</p><p>do avassalamento. Dia que jamais deve repetir-se. Recordemos hoje e</p><p>sempre o terrível Dia da Vergonha para todos os que humilharam a</p><p>Universidade de Brasília. Para todos os que ficaram aqui coniventes com o</p><p>opressor. Falo do dia e da hora em que 210 professores daqui saíram,</p><p>compelidos pela mão possessa dos que avassalaram nossa pátria e aqui</p><p>vieram apossar-se da UnB.</p><p>Eu tinha trazido cada um desses mestres para cá: 210. Vieram com suas</p><p>famílias, tinham aqui moradias mobiliadas e não tinham nada mais em lugar</p><p>nenhum do mundo. Mas eles tudo largaram para ficarem leais à</p><p>Universidade de Brasília. Para não serem coniventes com a humilhação,</p><p>com a deformação, com a destruição da UnB, no que ela tem de ser: a Casa,</p><p>o Centro, o Coração da consciência e da cultura brasileira. No momento em</p><p>que ficou evidente que o reitor era um pau-mandado, que a universidade</p><p>não era mais nossa universidade sonhada, porque isso aqui se tinha</p><p>convertido na casa da intolerância e do despotismo, eles se foram em</p><p>diáspora pelo Brasil e pelo mundo afora. É preciso que um dia um</p><p>monumento se levante nessa universidade como o monumento dos</p><p>burgueses de Callais, para recordar e exorcizar aquele horror. Eu o vejo</p><p>como um monumento duplo que retratará dois momentos cruciais. O da</p><p>prisão e humilhação de dezenas de professores que em 1964 foram</p><p>desnudados numa delegacia de Brasília e lá passaram a noite sendo</p><p>atormentados. E, o da saída, em 1965, daqueles 210 professores fundadores</p><p>da universidade, que daqui se foram para ficarem fiéis ao espírito da UnB,</p><p>que há de</p><p>ser.</p><p>Trouxe todas essas presenças aqui, hoje, porque achei indispensável este</p><p>rito. Era meu papel falar disto e eu só podia fazê-lo, ao menos com a</p><p>emoção com que o faço. Cumprida esta obrigação de honra, cabe, agora,</p><p>enfrentar outra, mais gratificante, que é homenagear os que aqui ficaram em</p><p>dignidade. Aqueles que aqui, anos depois, se juntaram, guardando</p><p>fidelidade à universidade e ao seu espírito. Os que aqui vieram lutar para</p><p>refazer a universidade, aceitando a dura tarefa de realizar o possível aqui e</p><p>agora, debaixo do despotismo, até que viesse o amanhecer.</p><p>Assim é que homenageio os professores e alunos que aqui trabalharam,</p><p>estudaram e lutaram nesses duros anos. Aos que foram humilhados, aos que</p><p>foram torturados, aos que foram assassinados, aos que foram destruídos.</p><p>Homenageio todos os que, de qualquer forma, resistiram ao capitão de mar</p><p>e guerra, ao milico sabe-tudo, nomeado interventor que assumiu o poder</p><p>reitoral da forma mais despótica para, ao longo das décadas, espargir</p><p>sanções e prêmios.</p><p>Meu querido reitor, sua tarefa é não mais e não menos do que reintegrar a</p><p>Universidade de Brasília no comando de si mesma, para que, com</p><p>autonomia e em liberdade, ela se repense. Na minha hora, ajudei a pensar</p><p>uma utopia de universidade para Brasília. Ajudei, também, várias</p><p>universidades de outros países a repensar-se. Enquanto exilado, vivi como</p><p>um sapateiro remendão, a pôr meias-solas em universidades de toda a parte.</p><p>Não importa que minhas meias-solas não tenham pegado. Nenhuma delas</p><p>pegou, nunca. De fato, não importa nem mesmo que nenhuma utopia se</p><p>realize. Não é preciso. Só é preciso haver utopia.</p><p>A primeira obrigação da comunidade de professores e alunos da UnB,</p><p>meu querido Cristovam, é olhar para frente para prefigurar, aqui e agora,</p><p>utopicamente, o que dentro de dez, de vinte anos, a UnB há de ser. Fixar</p><p>metas e lutar por elas, com clareza sobre os objetivos a serem alcançados,</p><p>sobre a utopia a ser cumprida.</p><p>Esta é a função da utopia: ordenar, concatenar as ações, para fazer frente</p><p>ao espontaneísmo fatalista e, sobretudo, para impedir que os oportunistas</p><p>façam prevalecer propósitos mesquinhos. Impedir que o professor tal, muito</p><p>competente às vezes em seu campo, porém, com mais talento ainda para</p><p>puxar o saco do ministro tal, para adular o senador tal, a fim de que o seu</p><p>pequeno reino da universidade cresça mais que a universidade como um</p><p>todo. Esta eficácia daninha destrói a universidade, tal como o câncer destrói</p><p>um corpo. É um parasita que vive da carne da instituição que habita.</p><p>Uma universidade que não tem um plano de si mesma, carente de sua</p><p>própria ideia utópica de como quer crescer, sem a liberdade e a coragem de</p><p>se discutir amplamente, sem um ideal mais alto, uma destinação que busque</p><p>com clareza, só por isto está debilitada e se torna incapaz de viver o seu</p><p>destino.</p><p>A esta altura, o desafio que se coloca diante de vocês, meus queridos</p><p>colegas, meus queridos estudantes da Universidade de Brasília, é perguntar:</p><p>Universidade de Brasília, para quê? Universidade de Brasília, para quem? O</p><p>Brasil precisará de mais uma universidade conivente?</p><p>Pode-se dizer da cultura erudita brasileira, que ela serviu e serve mais às</p><p>classes dominantes, para a opressão do povo, que a outra coisa. Muitas</p><p>vezes foi como um enfeite, um adorno, quando não foi a legitimação do</p><p>poder dos poderosos, a consagração da riqueza dos ricos e a consolação dos</p><p>aflitos com as realidades desse mundo.</p><p>Mesmo quando dominou os saberes técnicos, os dominou muito mais para</p><p>produzir, acumular e exportar lucros do que para construir um país</p><p>habitável, para implantar uma sociedade solidária. O saber ou a técnica, por</p><p>competentes que sejam, nada significam, se não se perguntam para que e</p><p>para quem existem e operam, se não se perguntam a quem servem, se não se</p><p>perguntam se há conivência do sábio com o cobiçoso.</p><p>A dura verdade é que nós, universitários, temos sido e somos, também</p><p>nós, coniventes com o atraso do povo brasileiro. Somos coniventes com o</p><p>projeto que fez de nós um povo de segunda classe, dentro da civilização a</p><p>que pertencemos. Como negar que tivemos, como nação, um desempenho</p><p>medíocre? É evidente que sim, mas cabe perguntar quais são os fatores</p><p>causais desta frustração.</p><p>Nesta tarefa de desvendamento das causas ocultas e ocultadas de nosso</p><p>atraso nacional é que temos sido mais coniventes. É gritante o descaso</p><p>acadêmico pela elaboração e difusão de um discurso através do qual o</p><p>nosso povo se explique e se aceite. As classes dominantes dizem, com toda</p><p>altivez, que a culpa do atraso não é delas. Estaria no clima, na mistura de</p><p>raças: tanto calor, tantos mulatos. Nada valem todos os saberes científicos</p><p>que aí estão a dizerem há tantas décadas que nenhum fator natural,</p><p>climático ou racial é explicativo do desempenho de um povo. Dentro da</p><p>pupila de nossas classes patronais e patriciais, continua persistente este</p><p>olhar racista, raivoso, azedando a convivência entre os brasileiros.</p><p>Alguns idiotas acham que o atraso se deve, talvez, a sermos católicos e</p><p>não protestantes. A França e Itália estão muito bem, obrigado, apesar de não</p><p>serem protestantes. Também se costuma dizer que foi uma pena que aqui se</p><p>fixassem justamente os lusitanos, em lugar dos holandeses ou dos franceses.</p><p>Se não fosse assim, todos falaríamos francês, teríamos olhos azuis, seria</p><p>uma maravilha. Esses tolos que rejeitam o português como colonizador</p><p>nunca foram ao Suriname ou a Caiena. Nunca viram. Nunca viram outras</p><p>colonizações.</p><p>Há quem diga que a culpa real do nosso atraso está em ser o Brasil um</p><p>país penosamente pobre. Ora, foi demonstrado, irretorquivelmente, que</p><p>éramos muito mais ricos que qualquer país do século XVI ou do século</p><p>XVII, pela nossa produção. O que o Brasil exportou de açúcar e de ouro</p><p>enriqueceu o mundo. Aqui, deixou buraco e sepultura. Onde no mundo se</p><p>haverá gastado tanta gente como aqui se gastou?</p><p>Outro falso fator causal do nosso atraso residiria supostamente em que</p><p>somos um país jovem; qualquer dia alcançaremos a maioridade e iremos</p><p>adiante. Fala-se de nós como se fôssemos menores de idade, como os</p><p>índios. O fato incontestável, porém, é que o Brasil é cento e tantos anos</p><p>mais velho que os Estados Unidos. Somos, portanto, um país maduro,</p><p>ameaçado até de apodrecer de tão maduro pelas condições de existência que</p><p>impõe a seu povo.</p><p>Há ainda quem diga que a raiz do nosso atraso estaria no plano cultural.</p><p>Não há tolice maior. Os Estados Unidos nunca tiveram uma Ouro Preto,</p><p>uma Bahia, um Recife. Nunca tiveram cidades dessa dignidade, dessa</p><p>beleza. É certo, porém, que nas suas igrejinhas de tábuas, no seu mundo de</p><p>granjeiros livres, eles encontraram base para construir uma sociedade muito</p><p>mais capaz de progresso generalizável, nós não. Às vezes penso que somos,</p><p>de certa forma, o que os Estados Unidos teriam sido se, na Guerra de</p><p>Secessão, vencesse o Sul. Aqui, o Sul venceu. Nem houve guerra, tanta foi</p><p>a conivência. Nossos “sulinos”, que eram toda a classe dominante, criaram</p><p>aqui essa sociedade hedionda, repelente, doente: enferma de desigualdade.</p><p>É preciso entender bem, sem deixar-se iludir, que o discurso explicativo</p><p>das classes dominantes, que ressoa por toda a parte, apesar de tão absurdo é</p><p>da mais extraordinária atualidade e funcionalidade. Nele, se assentam</p><p>políticas governamentais muito presentes. Por exemplo, a justificativa de</p><p>que precisamos produzir para exportar é dada como uma compensação da</p><p>nossa pobreza. A afirmação de que necessitamos de capital estrangeiro,</p><p>quando é evidente que ele nos sangra e que somos, de fato, um país</p><p>exportador de capital, também se funda na ideia esdrúxula de que somos,</p><p>ainda, um país por fazer, uma área por colonizar, que estaria até hoje por</p><p>civilizar.</p><p>A verdade verdadeira é que este discurso das classes dominantes constitui</p><p>um dos mecanismos de manutenção do Brasil na miséria e no atraso. Ele é</p><p>uma das causas, um dos fatores intelectuais, desse nosso país não ter dado</p><p>certo ou ainda não ter dado certo. Coactado que foi desde sempre nas</p><p>realizações de sua potencialidade, dentro das</p><p>várias civilizações em que</p><p>esteve integrado, o Brasil cresceu deformado, aleijado, enfermo.</p><p>Um exemplo luminoso de que somos um país enfermo de desigualdade</p><p>nos é dado pela educação primária – matéria em que estou metido de mãos</p><p>e pés com Brizola, no Rio de Janeiro. Neste campo, somos um caso</p><p>teratológico de atraso calamitoso. Nossos maiores centros culturais, como o</p><p>Rio e São Paulo, não conseguem nem dar a 2ª série da educação elementar à</p><p>metade da criançada. E assinale-se que a aprovação na 2ª série é que</p><p>comprova a alfabetização.</p><p>Na educação pública somos piores do que o Paraguai e a Bolívia. Falo</p><p>desses países-irmãos não só porque são pobres, mas porque em ambos a</p><p>língua da população é uma e a língua da escola é outra. Como é que eles</p><p>conseguem levar mais crianças à 4ª série primária do que nós? Alguma</p><p>coisa há de errado, alguma coisa há de podre nessa Dinamarca nossa. Por</p><p>que nós, que fomos capazes de fazer indústrias e cidades e algumas</p><p>façanhas mais como essa Brasília, não fomos e nem somos capazes de fazer</p><p>essa coisa elementar: ensinar todos a ler, escrever e contar?</p><p>Nosso objetivo, hoje, no Rio de Janeiro, é criar a escola pública que o</p><p>Uruguai tem desde 1850. Ali, como na Argentina e no Chile, como no</p><p>mundo inteiro, a escola pública é uma escola de dia completo. A criança</p><p>entra às 8 da manhã e sai às 4 da tarde. Pela primeira vez se faz isso no</p><p>Brasil: no Rio de Janeiro. Brizola faz uma revolução educacional?</p><p>Revolução nenhuma! Ou apenas uma revolução arcaica. Fazemos</p><p>simplesmente o que o mundo faz há muito tempo. Ora, a criançada</p><p>brasileira não é feita de gênios, devíamos saber. As nossas, como todas as</p><p>demais, não podem aprender em escolas de três turnos que dão de fato duas</p><p>e meia, três horas de aula. Até escola de quatro turnos eu encontrei no Rio</p><p>de Janeiro. A questão que estou colocando, exemplificativamente, não é de</p><p>educação. Quero é demonstrar o quanto essa sociedade nossa é perversa</p><p>com o seu povo.</p><p>No plano alimentar, sabidamente, a situação é ainda pior. A fome aí está,</p><p>crônica, esfomeando metade dos brasileiros. A propósito, a primeira coisa</p><p>que tivemos de fazer no Rio de Janeiro, ao assumir o governo, foi dar uma</p><p>boa merenda nas escolas: um pratão de comida, arroz, feijão e carne a todo</p><p>aluno da escola pública. A escola não é lugar de dar comida, isto é</p><p>assistencialismo, diria algum alienado. Deveríamos dar emprego. Talvez</p><p>seja verdade. Ocorre, porém, que enquanto não se consiga atingir essa meta</p><p>do pleno emprego – só alcançável no plano federal – não poderemos deixar</p><p>a criançada do Rio morrer de fome ou de prostração.</p><p>Com efeito, a economia brasileira não está organizada para ocupar o povo,</p><p>como ocorria no período colonial ou nas primeiras décadas de nossa vida</p><p>independente. Então, o que mais se importava era gente, era mão de obra.</p><p>Mão de obra negra, escrava, da África através de séculos. Mão de obra</p><p>branca, imigrante, mais tarde. Hoje, o que sobra aqui é gente, é mão de obra</p><p>querendo ser explorada por algum patrão que não aparece. Se pudéssemos</p><p>exportar os mineiros, os cearenses, os goianos, talvez se desse jeito,</p><p>viabilizando até o capitalismo dependente. A Europa exportou no último</p><p>século uns 60 milhões de europeus para as Américas e outras partes.</p><p>Sobrava, então, branco para exportar. Somados aos que matou em guerras,</p><p>eles perfazem uns 100 milhões. Com sua erradicação do quadro</p><p>demográfico europeu, se evitou a revolução inevitável que Marx vaticinava.</p><p>Nossa classe dominante não tem essa saída singela para nossa crise de</p><p>superpopulação. De fato, uma crise de subemprego e de subutilização de</p><p>nossos recursos; crise, na verdade, programada como um projeto próprio</p><p>das classes dominantes, que querem continuar enricando, indiferentes ao</p><p>povo que cresce na fome, na ignorância.</p><p>Não tendo como exportar nossa gente – ninguém os requer – temos é que</p><p>reorganizar a vida aqui em outras bases, a fim de que o povo possa</p><p>trabalhar, comer e viver. Isto nunca foi feito. Nosso povo sempre viveu</p><p>famélico, por maior que fosse o PIB ou o produto per capita de que falam</p><p>esses economistas desvairados. A renda per capita dos negros produtores de</p><p>açúcar de Pernambuco ou da Bahia era a mais alta do mundo do seu tempo.</p><p>Maior, ainda, era a dos negros tiradores de ouro de Minas Gerais, que</p><p>multiplicavam a existência de ouro neste mundo. Mas uns e outros duravam</p><p>em média sete anos no eito.</p><p>Não se estranhe que eu fale hoje disto, aqui. Esta Universidade de Brasília</p><p>existe para tomar estes problemas em sua carnalidade, a fim de equacioná-</p><p>los. Existe para entender o Brasil com toda profundidade, e a primeira</p><p>tarefa que se impõe no exercício dessa missão é ter a coragem de lavar os</p><p>olhos para ver nossa realidade, é perscrutá-la, é examiná-la, é analisá-la. O</p><p>Brasil, entendido como seu povo e seu destino, é nosso tema e nosso</p><p>problema.</p><p>Assinalei até aqui as falsas causas de nosso atraso histórico, os fatores</p><p>responsáveis, os supostamente responsáveis, por andarmos na rabeira de</p><p>tantos povos, nossos contemporâneos. Cumpre perguntar agora: se aquelas</p><p>causas e fatores eram infundados e falsos, quais são os verdadeiros? Não</p><p>pretendo aprofundar-me na resposta a esta questão. O que se cumpre</p><p>perguntar aqui e agora é que culpas cabem a nós, universitários, neste</p><p>campo. Uma primeira resposta a essa questão não é difícil. Que</p><p>universidade nossa discute as causas do atraso em suas cátedras, como uma</p><p>questão fundamental? Que universidade toma esses temas como sua causa?</p><p>Todo o saber acumulado nelas é fiel ao povo que as subsidia para formar e</p><p>manter as cabeças mais brilhantes?</p><p>Temo muito que nossos acadêmicos não tenham sido fiéis ao povo</p><p>brasileiro. Temo até que a maioria de nós serviu mais a sua opressão que a</p><p>sua liberação. Por exemplo, no curso da longa ditadura que acaba de</p><p>eclipsar-se, vimos florescer extraordinariamente as Ciências Sociais em</p><p>nosso país. A politicologia esgalhou-se em dezenas e dezenas de</p><p>doutorados. Não é espantoso que isto ocorra precisamente quando mais se</p><p>torturava no Brasil? Não é de perguntar como e por que, quando havia</p><p>menos política, quando os militantes políticos eram despedaçados na</p><p>tortura, assassinados e tinham seus corpos escondidos, mais doutores em</p><p>ciência politica se multiplicavam pelo país afora?</p><p>Por tudo isto é que precisamos ser claros no debate permanente das</p><p>funções e dos deveres da universidade para com o povo. De todas e de cada</p><p>uma das universidades brasileiras, mas muito especialmente desta nossa</p><p>Universidade de Brasília. A UnB não é uma universidade qualquer. Muito</p><p>lutamos para criá-la. Havia demasiadamente gente contra. Israel Pinheiro,</p><p>engenheiro admirável, dizia que duas coisas não deviam existir em Brasília:</p><p>operários e estudantes. É evidente que Juscelino não se guiava por este</p><p>critério, mas ele também duvidou da conveniência de se criar aqui uma livre</p><p>universidade pública ou uma universidade privada. Nós que lutamos para</p><p>ver surgir a Universidade de Brasília, tal como foi concebida e afinal</p><p>consagrada na lei, sempre a pensamos como a Casa da Consciência Crítica</p><p>em que o Brasil se explicaria e encontraria saída para seus descaminhos.</p><p>Cabe assinalar agora que, dentro do Brasil, Brasília, em particular, é tema,</p><p>causa e problema dessa nossa UnB. Brasília foi feita para transposição da</p><p>burocracia do Rio de Janeiro para cá. Ela trouxe consigo, é certo, grande</p><p>quantidade de gente que dominava vários campos do saber, mas eles eram</p><p>os poucos, dentre os numerosos servidores que lá assessoravam desde</p><p>sempre o poder público. Felizmente Brasília foi feita por Juscelino, aquela</p><p>beleza de pessoa. Imagino o que seria essa nossa Brasília se ela fosse feita</p><p>por Dutra. Dutra que fez o Ministério da Guerra, o do Rio de Janeiro,</p><p>aquele despautério. O nosso orgulho de termos a cidade do milênio, o</p><p>devemos a JK, à sua coragem de chamar Oscar Niemeyer e Lúcio Costa</p><p>para aqui reinventarem a cidade.</p><p>Voltemos, porém, à questão que colocávamos: às funções da universidade,</p><p>à necessidade de se repensar seu papel, especialmente o que devemos à</p><p>cidade de Brasília e</p><p>aos órgãos de poder aqui instalados. Há quem diga que</p><p>em Brasília o que sobra são assessorias. Só a Câmara dos Deputados teria</p><p>mais assessores do que todos os Parlamentos do mundo. São as más</p><p>línguas. Não deve ser verdade.</p><p>Não falo desse tipo de assessores. Falo de uma assessoria cultural,</p><p>científica e técnica, que seja independente e insubornável, composta por</p><p>sábios, que não sejam servidores de ninguém, que não dependam de partido</p><p>nenhum. Essa assessoria autônoma, só a universidade pode dar. No Rio de</p><p>Janeiro contava-se com uma cultura erudita arraigada que lá podia dar</p><p>esclarecimento, antes que qualquer decisão fosse tomada, por qualquer</p><p>potestade. Aqui no pasto goiano, onde e com quem os poderes vão se</p><p>informar? Com as vacas magras e chifrudas que pastam no cerrado? Aqui</p><p>não haveria com quem se assessorar, se não se realizasse um transplante</p><p>cultural prodigioso. Essa é a façanha que tentamos realizar.</p><p>A Universidade de Brasília veio cumprir essa função. Para tanto o</p><p>requisito indispensável é que ela surgisse como universidade autônoma, a</p><p>fim de que tivesse condições de tratar com os representantes dos Poderes</p><p>com a independência da Casa dos Saberes, como o Centro de Cultura em</p><p>que o professor independente possa pensar de forma diferente do governo.</p><p>Assim foi sonhada essa universidade. Ela foi pensada, também, como</p><p>indispensável para que Brasília pudesse conviver com os outros centros</p><p>culturais do país, como Rio, São Paulo, Belo Horizonte; e com os</p><p>estrangeiros, como Paris, Roma e tantos outros. Só atendendo a esses</p><p>requisitos a UnB poderia tornar Brasília capaz de, um dia, multiplicar-se</p><p>com grandeza e sabedoria. Brasília é arquitetônica e urbanisticamente o</p><p>fruto mais maduro da cultura-Rio. Foram precisos séculos para produzirmos</p><p>Lúcio e Oscar. Brasília disso se beneficiou. Ela surgiu quando o Rio se</p><p>tornou um centro autônomo de civilização. Brasília precisa ser, ela também,</p><p>um centro assim. Essa é a nossa tarefa.</p><p>Assim pensamos ontem, quando planejamos a Universidade de Brasília,</p><p>tal como ela era. Hoje são vocês que a têm nas mãos, como um desafio,</p><p>desafio tremendamente difícil. Querem um exemplo? Eu sei fazer</p><p>odontólogos e matemáticos, por exemplo, em qualquer quantidade. Quantos</p><p>advogados ou psicólogos vocês querem: 14 mil? 17 mil? Médicos, vocês</p><p>querem 20 ou 40 mil? Engenheiros, 30 ou 100 mil? Eu os formo todos.</p><p>Deem-me uns poucos anos e os formo bem-formados. Agora me peçam um</p><p>Oscar Niemeyer e eu não formo nenhum. Peçam um Aleijadinho, e eu não</p><p>formo nenhum. Peçam um Villa-Lobos e eu não formo nenhum. Essa é,</p><p>entretanto, a nossa responsabilidade, a que somo outra, ainda maior: a de</p><p>criar aqui uma cidade autêntica, singular e criativa como Ouro Preto, Bahia,</p><p>Rio. Isto é o que Brasília há de ser. Como? Como negar, porém, que essa é a</p><p>missão da UnB? Mas como ajudar a florescer aqui um centro cultural</p><p>autônomo e criativo? Tentamos contribuir para isso, criando no nosso</p><p>campus um ambiente propício. Foi com esse objetivo que demos casas a</p><p>artistas que aqui vieram viver, para pintar ou ensinar a pintar, se quisessem;</p><p>para fazer gravuras ou ensinar gravuras, se quisessem; para fazer música e</p><p>ensinar a apreciar música, se lhes aprouvesse; mas, essencialmente, para</p><p>conviver conosco, para ajudar a compor uma comunidade universitária,</p><p>enriquecida por gente criativa em todos os planos.</p><p>O reitor Cristovam Buarque nos dizia em seu discurso que não é com</p><p>carta doutoral que se comprova competência. Assim é. Aqui na UnB,</p><p>quando se fez a lei – fui eu que a redigi –, nela se inscreveu que esta é uma</p><p>universidade experimental, livre para tentar novos caminhos na pesquisa e</p><p>no ensino. Formamos e doutoramos, por exemplo, em quatro anos, um</p><p>rapaz de alto talento matemático que não tinha nem diploma primário. A</p><p>família, superprotegendo-o, não havia lhe dado escola, mas ele tinha uma</p><p>cabeça ótima. Aqui chegou, começou a frequentar aulas de matemática,</p><p>como aluno livre, logo saltou para o mestrado. Os matemáticos me disseram</p><p>que ele era ótimo, mas não podia estudar oficialmente, porque não tinha</p><p>nem o ginasial. Isso eu resolvo – respondi – e dei-lhe o ginasial. Em quatro</p><p>anos o rapaz Fausto Alvim era doutor, não doutor feito por mim, ele fez seu</p><p>doutorado na Inglaterra, brilhantemente. Esse caso exemplifica a</p><p>responsabilidade que tomamos às vezes no livre exercício das regalias de</p><p>uma universidade experimental e livre. Outro exemplo nos dá Zanini, que</p><p>também não tinha curso superior e foi feito professor da Universidade de</p><p>Brasília, por sua competência específica e admirável, excelente professor.</p><p>Não sei como andará aquela lei que redigimos e fizemos aprovar. Ela dava</p><p>à Universidade de Brasília regalias especiais. Por exemplo, o usufruto das</p><p>rendas líquidas da Companhia Siderúrgica Nacional. Outorga que se</p><p>perdeu, ao que sei. Que mais se perdeu nas transformações legais que se</p><p>fizeram nestes anos todos? Ignoro. O importante é que não se perca a</p><p>liberdade de tentar acertar por diversos caminhos. A responsabilidade de</p><p>ousar. O direito de errar.</p><p>Peço a vocês a paciência de me ouvirem uns minutos mais. Tenho</p><p>algumas coisas a dizer, hoje, que não quero calar. Nosso amigo Pompeu</p><p>referiu-se às duas lealdades a que a universidade se deve. Ele está sempre</p><p>falando delas e o faz com toda razão e propriedade. Quero comentá-las e</p><p>acrescentar a terceira lealdade, inscrita também nos nossos estatutos</p><p>originais. Refiro-me à lealdade aos padrões internacionais do saber,</p><p>mestrado ou doutorado de mentira, como moeda falsa, é crime contra a</p><p>cultura, mais do que isto, é crime contra a pátria. Isto é muito importante.</p><p>Vi recentemente uma lista de instituições acadêmicas, com o mais alto grau</p><p>de excelência de nosso país. Ignoro quais foram os critérios e creio até que</p><p>eles poderiam ser discutíveis. Mas com comparativos e a posição da</p><p>Universidade de Brasília em cada campo, se não era desprezível, era muito</p><p>baixa.</p><p>Nosso prestígio minguou demais. A ditadura que avassalou, humilhou</p><p>nossa UnB não teve nem mesmo a competência meramente técnica que é</p><p>compatível com o despotismo. Ela rebaixou essa universidade.</p><p>É preciso estar atento para isto, uma universidade se faz é com gente, é</p><p>com gente competente, é com gente muito competente. É preciso evitar,</p><p>impedir, todo compadrismo. É preciso exterminar todo filhotismo. É preciso</p><p>vedar todo protecionismo. Esse espírito paternalista de achar que quem</p><p>entrou, por medíocre que seja, pode ir ficando; que um professor-auleiro</p><p>deve ser deixado por aí cumprindo seu papel, ainda que o faça muito</p><p>mediocremente, mata uma universidade.</p><p>Uma universidade se faz é com multiplicadores. O primeiro gesto nosso,</p><p>quando começamos a implantar a Universidade de Brasília, foi abrir,</p><p>simultaneamente, a primeira série da graduação e os cursos de mestrado.</p><p>Como conseguimos isto? Escolhemos oitenta jovens de talento e os</p><p>trouxemos como instrutores juntamente com seus futuros mestres. Pertence,</p><p>que está sentado ali, o procurador-geral da República, veio para cá como</p><p>um desses instrutores. Era um dos jovens que selecionamos informalmente</p><p>entre os melhores da sua geração. Nós o encontramos perguntando a seus</p><p>professores: qual o menino mais inteligente que apareceu por aqui</p><p>ultimamente?</p><p>Um instrutor de então era um estudante de mestrado, com prazo de três</p><p>anos para conseguir seu grau e prosseguir no doutorado, ou não conseguir e</p><p>sair da universidade. Enquanto frequentava os cursos de pós-graduação, ele</p><p>dava aulas aos alunos de graduação. Os professores sem doutorado tinham</p><p>também um prazo máximo de cinco anos para alcançá-lo e só permaneciam</p><p>na UnB se classificados entre os melhores que se ofereciam. A função de</p><p>professor titular não pertencia à carreira docente; era o posto de um mestre</p><p>chamado a conduzir programas de pós-graduação por sua competência</p><p>reconhecida por seus pares e demonstrada numa obra copiosa e profunda.</p><p>O nosso reitor tem que sair por aí, ele também, com a lâmpada na mão,</p><p>procurando talentos, roubando talentos, onde puder, mas trazendo para cá,</p><p>além dos talentos jovens, também todos</p><p>os talentos maduros que puder</p><p>atrair. Celso Furtado, que está aqui a meu lado, vai para Bruxelas, como</p><p>embaixador, é uma pena. Não sei o que ele vai fazer Iá. Suponho, porém,</p><p>que se lhe fosse dada pela UnB oportunidade de criar um Centro de Estudos</p><p>Econômicos da América Latina, ele até que poderia aceitar. Exemplifico</p><p>com Celso um raciocínio que é válido para muitos dos poucos intelectuais</p><p>maduros que o Brasil tem. Se lhes forem dados uns poucos recursos, um</p><p>milésimo do que nossa universidade gasta para trazer meia dúzia de colegas</p><p>seus dos melhores, eles formarão aqui um novo núcleo multiplicador.</p><p>No caso da economia, clama aos céus a necessidade urgente de criar</p><p>núcleos capazes de repensar a problemática nossa e da América Latina. Os</p><p>economistas oficiais estão todos doidos. A economia, desvairada. Ninguém</p><p>trabalha na busca das alternativas válidas que se abram a nós para sair desse</p><p>atraso autoperpetuante. É preciso repensar outra vez tudo, é preciso juntar</p><p>gente nova, de cabeça fresca e lhes dar meios, desafiando-os para, com toda</p><p>a liberdade, criar uma nova economia. Criá-la, como só uma universidade</p><p>pode fazer, sem que ninguém dê ordens e palpites em cima do trabalho</p><p>deles, só com o objetivo de – reconhecendo que esse país nosso não deu</p><p>certo – buscar o modo de criar uma economia de prosperidade generalizável</p><p>a toda a população, para que o Brasil dê certo. É com gente assim, é com</p><p>pensadores maduros que para cá venham repensar todos os problemas da</p><p>civilização, do mundo, da América Latina, que sairemos um dia do atraso.</p><p>Para tanto, é preciso abrir a universidade aos talentos mais promissores que</p><p>surjam no Brasil. É preciso acabar com o paternalismo. Essa ideia daninha</p><p>de que uns tantos anos de serviço dão direito à ascensão aos postos mais</p><p>altos, e até à função de professor titular, é pura loucura no caso da</p><p>universidade. Isso aqui não é carreira militar que pode ser gerontocrática e</p><p>hierárquica, porque de fato eles não precisam fazer guerra nenhuma. Nós</p><p>sim, nós temos que travar nossa guerra contra o atraso, e nela só se vence</p><p>com competência.</p><p>Esse é o sentido preciso da lealdade aos padrões internacionais do plano</p><p>do saber a que eu aludia. Para fazê-lo sentir mais carnalmente,</p><p>figadalmente, permitam que eu reconte aqui um episódio histórico</p><p>conhecido de todos, mas demonstrativo como nenhum, de</p><p>insubstituibilidade do saber científico. Reporto-me a um dos momentos</p><p>mais trágicos da vida humana. Aquele em que os norte-americanos</p><p>lançaram suas bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki, deixando o</p><p>mundo perplexo. Sabe-se, agora, que elas não eram necessárias para vencer</p><p>a guerra, a guerra estava ganha.</p><p>Elas foram as bombas da Terceira Guerra Mundial, destinadas tão só a</p><p>coagir a União Soviética e o mundo para tudo se submeter à hegemonia</p><p>norte-americana. Os russos tinham perdido 17 milhões de habitantes. A</p><p>nação debilitada sentiu que as bombas eram lançadas contra ela. Stalin</p><p>encolheu-se, indagando o que fazer diante da bomba. Frente à nova</p><p>hegemonia romana, a pax americana, fundada no monopólio da bomba do</p><p>fim do mundo, o mundo todo, apavorado, se perguntava: que fazer contra</p><p>quem tinha a bomba? Quem tudo podia. Stalin simplesmente chamou os</p><p>universitários, os físicos, os matemáticos, os químicos e lhes disse: a URSS</p><p>precisa da bomba. Os russos, com sacrifícios inenarráveis, haviam acabado</p><p>de evitar o milênio hitlerista: agora viam um novo despotismo se levantar</p><p>em nome da liberdade e do lucro.</p><p>Outro milênio hegemônico contra o mundo inteiro se implantaria se não</p><p>tivessem a bomba. Só os cientistas podiam dá-la. Em três anos, Stalin teve a</p><p>bomba atômica: dois anos depois teve a bomba de hidrogênio. Manteve,</p><p>assim, o equilíbrio do poder, terrífico equilíbrio do terror recíproco. Melhor,</p><p>é verdade, que a pax ditada por Wall Street.</p><p>Meus queridos amigos, saber é isto: uma força, uma arma. Naquela</p><p>conjuntura de guerra ou aqui na nossa conjuntura do subdesenvolvimento,</p><p>da dependência, da guerra contra a pobreza, contra a ignorância, o</p><p>acelerador da história é o saber. Ao menos é esse o acelerador que a nós,</p><p>universitários, cumpre dominar e manejar. Este é o sentido profundo do</p><p>nosso princípio de fidelidade aos padrões internacionais do saber. Ciência</p><p>falsa e mediocridade nada são, nada podem.</p><p>No caso da universidade, este desafio científico aponta para o dever de</p><p>evitar que se cultive um saber fútil, inútil. Que seja esse saber de</p><p>brincadeira de tantos acadêmicos universitários, em que um escreve para o</p><p>outro.</p><p>Às vezes acho que a imensa maioria dos cientistas vive do prestígio da</p><p>ciência sem jamais contribuir mensuravelmente para ela. Tem que ser</p><p>assim, concordo eu; mas não pode ser só assim. O último reino da</p><p>irracionalidade é a ciência que, embora sendo a província mais racional do</p><p>mundo, é também insusceptível de ser “racionalizada”. Seus precários</p><p>êxitos se baseiam exatamente no fato de que milhares de pessoas têm que</p><p>estar procurando, às cegas, as mesmas coisas por caminhos diferentes,</p><p>porque não sabem onde vai estalar a descoberta. Só um racionalizador</p><p>doido, gerindo as pesquisas do câncer, por exemplo, tiraria 200 mil</p><p>pesquisadores, por serem demasiados, reduzindo-os a 20 mil, para fazer</p><p>cada qual trabalhar no seu eito, sem ninguém repetir o que o outro está</p><p>fazendo. Isto seria a loucura desvairada. Se 200 mil nada descobrem,</p><p>quanto mais 20 mil...</p><p>Como se vê, a ciência é por sua natureza uma procura, uma busca, uma</p><p>inquietação anárquica, aleatória, que tem que ser livre e até arbitrária. Mas</p><p>essa liberdade tem que ser exercida dentro da pasta de dois sentidos de</p><p>responsabilidade. A responsabilidade de que o saber não seja inútil, mas</p><p>sirva ao seu povo e ao seu tempo, ponderado com a responsabilidade de que</p><p>ele seja livre, vale dizer, sem nenhuma ideia utilitarista, pragmática de que a</p><p>ciência deva se dedicar a tarefas práticas. Aprendemos a duras penas que</p><p>nada há de mais frutífero do que a pesquisa pura, nominalmente infrutífera.</p><p>Dentre as questões postas ao saber que utilizamos, cumpre enfrentar</p><p>primeirissimamente esta pergunta: por que esse país nosso não deu certo?</p><p>País que deu certo, para mim, é aquele em que cada pessoa tem um</p><p>emprego, em que todos comem todo dia, em que toda criança vai à escola,</p><p>em que todos têm moradia, em que todo velho e doente é amparado. Isso é</p><p>um país que deu certo. Há muitos que deram certo. Um país que deu certo</p><p>pode não dar bola para o que se faz na universidade, pode despreocupar-se</p><p>com o saber que nela se curte; mas um país que não deu certo como o</p><p>nosso, não. Estamos desafiados a perguntar ao nosso filósofo: filósofo, qual</p><p>a sua utilidade?</p><p>Não estou querendo que ninguém diga ao filósofo o que ele vai fazer.</p><p>Quero é dizer ao filósofo que participe do debate com o matemático, com o</p><p>economista, com o geólogo: o Brasil é nossa causa. A luta contra o atraso é</p><p>nossa guerra e nessa guerra a universidade toda está envolvida, a filosofia</p><p>também, esta é a segunda lealdade.</p><p>A terceira lealdade – trágica lealdade, cujo descumprimento vocês</p><p>sofreram na carne – está inscrita, ela também, nos estatutos da UnB, mais</p><p>ou menos com os seguintes termos: nesta Universidade ninguém, professor</p><p>ou aluno, será punido ou premiado, jamais, por sua ideologia. É o princípio</p><p>do respeito recíproco, da tolerância, da liberdade docente. É preciso que a</p><p>esquerda, reintegrada agora em seus direitos, não faça o que fazia a direita;</p><p>não comece a ser intolerante. A tolerância é condição essencial da vida</p><p>universitária; a provação mais dura, mais humilhante que vocês sofreram,</p><p>foi aquele reitor sabe-tudo que aqui estava. Ele sabia perfeitamente qual</p><p>professor pensava bem e qual pensava mal, era subversivo. Ao primeiro</p><p>dava premiozinhos, ao outro punia. Onde isso ocorre numa universidade, o</p><p>espírito humano fenece e a criatividade morre.</p><p>Como se vê, essa lealdade, tal como as outras duas, é fundamental, e a</p><p>UnB deve ter orgulho dela. Vocês precisam tomar aquele velho estatuto</p><p>para ler e pensar. É até provável que não sirva mais para a UnB de hoje,</p><p>mas nele se incorporam valores</p><p>permanentes que se tem de recuperar.</p><p>Valores oriundos do amplo debate com base no qual se estruturou a UnB.</p><p>Aqueles debates tiveram uma importância crucial na história da inteligência</p><p>brasileira. Foi a partir deles que se elaboraram os documentos basilares da</p><p>Universidade de Brasília, documentos relevantíssimos em dois planos: pela</p><p>crítica das instituições universitárias que tínhamos e que pela primeira vez</p><p>em nossa história eram examinadas com objetividade e descritas na</p><p>mediocridade que encarnavam e pela proposição de uma universidade de</p><p>utopia. Até então, todos estavam muito contentes com a universidade que</p><p>tínhamos, nem se sabia que ela era problema. Foi o projeto da Universidade</p><p>de Brasília que serviu de tábua de contrastes para a reforma universitária.</p><p>Dizendo o que nossas universidades eram em comparação com o que a UnB</p><p>ia ser – embora nunca tenha sido – elas tomaram consciência de si mesmas</p><p>e, envergonhadas, trataram de melhorar. Assim se desencadeou a reforma</p><p>frustrada por razões externas iníquas.</p><p>A Universidade de Brasília tem que voltar a exercer essa liderança</p><p>intelectual, pensando com profundidade a universidade e a nação. Propondo</p><p>alternativas às práticas que aí se veem, deploráveis, de uma universidade</p><p>em que os professores fazem de conta que ensinam e os alunos fazem de</p><p>conta que aprendem. Uma farsa trágica.</p><p>Voltando ao nosso princípio das responsabilidades sociais da</p><p>universidade, quero assinalar mais profundamente, ainda, o papel da</p><p>universidade como a casa em que a nação brasileira se pensa a si mesma</p><p>como problema e como projeto. Não podemos deixar isso em mãos dos</p><p>políticos: menos ainda, em mãos dos militares ou de seus sequazes</p><p>tecnocratas: eles não têm nem identidade nacional efetiva, nem grandeza</p><p>mental suficiente para pensar no Brasil em todas as suas potencialidades,</p><p>vendo nosso povo como protagonista da história universal.</p><p>É preciso que essa Universidade de Brasília aprofunde a ideia de que</p><p>somos uma parcela muito importante desse mundo, um pedaço ponderável e</p><p>belo da humanidade, se não o maior, diria eu, o melhor. Vamos ser 200</p><p>milhões perto do ano 2000. Vale dizer, um dos blocos nacionais maiores e o</p><p>mais homogêneo da Terra no plano cultural e linguístico. Junto com os</p><p>outros latino-americanos, somaremos 600 milhões. Só seremos</p><p>comparáveis, então, aos eslavos, aos chineses e aos neobritânicos. Esta</p><p>mola humana, uma nova romanidade mestiçada de sangues negros e índios</p><p>é o quadro histórico da América Latina que constitui o campo em que o</p><p>nosso destino vai se jogar.</p><p>Temos obviamente um papel relevante a representar no mundo. Fico</p><p>perplexo, vendo Cuba com seus parcos 10 milhões de habitantes ser vital</p><p>para a independência da África e nós não sermos nada. Este nosso</p><p>itamaratizão de gorduras flácidas é ridículo frente a Cuba, que, fazendo das</p><p>tripas coração, garante a independência de Angola.</p><p>Meus amigos, meus companheiros, meus colegas, é preciso aprofundar</p><p>esse raciocínio, é preciso definir nosso papel na América e no mundo.</p><p>Temos que encontrar um caminho nosso de realização de nossas</p><p>potencialidades, de exercício pleno de nossos poderes para realização de</p><p>nosso destino. Aquele destino que nós mesmos definiremos para nós e não</p><p>o que nos é induzido, hoje, pelos que fazem de nós a contrapartida</p><p>necessária e subalterna à sua própria grandeza.</p><p>Nosso caminho não será o soviético, nem o japonês, nem o canadense.</p><p>Ninguém revive a história alheia. Cada roteiro trilhado por um povo no</p><p>esforço para realizar, na civilização a que pertence, o seu destino, é um</p><p>caminho próprio e único. Assim será o nosso, precisamos é de claridade</p><p>para encontrá-lo. Sabendo bem que, espontaneamente, pelo entrechoque de</p><p>interesses a partir da situação de dependência em que vivemos, nosso atraso</p><p>relativo será crescente. Isto porque outros crescem a um ritmo mais</p><p>acelerado que o nosso, inclusive porque nos exploram, comendo nossa</p><p>came, bebendo nosso sangue.</p><p>É imperativo e urgente que se rompa a estrutura legal que estrangula o</p><p>Brasil. Estrutura urdida secularmente pela velha liderança patricial</p><p>brasileira, sempre vaidosa de termos alguma lei mais explícita que a inglesa</p><p>em algum campo de defesa das liberdades, entre os pares; sempre</p><p>indiferente à sorte do povo. Só nos realizaremos pelo caminho inverso de</p><p>reescrever suas leis, de passar a limpo a institucionalidade vigente,</p><p>proscrevendo o latifúndio que ela consagra, coactando a espoliação</p><p>estrangeira que ela legaliza. É chegada a hora, uma vez mais, de rever esta</p><p>institucionalidade pervertida e perversa. Em outras instâncias, quando isto</p><p>ocorreu, a oportunidade se perdeu. Em todos os casos, porque a reabertura</p><p>do debate sobre as bases constitucionais da vida nacional se deu mais para</p><p>legitimar as riquezas e os poderes tidos e regidos do que para alterá-los.</p><p>Assim foi com a Constituição que nos fez independentes, uma história</p><p>trágico-cômica. Assim foi com a primeira Constituição republicana, uma</p><p>história cômico-trágica. Assim foi, ainda, em 1934. Assim foi no pós-</p><p>guerra, quando uma Constituição liberal-reacionária deu nossos</p><p>fundamentos de legitimidade ao latifúndio, ao entreguismo e à espoliação.</p><p>Quando vemos surgir uma comissão constitucional biônica, integrada,</p><p>principalmente, por netos, filhos e sobrinhos de velhos constituintes, o que</p><p>devemos pensar? Para que retornam eles outra vez? Não será demais?</p><p>Algum malvado poderia até achar que os mais vetustos deles deviam ser</p><p>proibidos de entrar nessa discussão porque têm genealogia demais. Se</p><p>queremos uma Nova República, como pedimos suas leis aos pais e</p><p>padrinhos e afilhados da República Velha? O que eles podem trazer de</p><p>melhor, temo eu, é o espírito de Rui Barbosa, a sagacidade jurídica, a</p><p>manha tremendíssima, que não foi roubada, mas herdada, da velha classe</p><p>dominante lusitana, numa continuidade histórica tão admirável como</p><p>detestável.</p><p>Deixem-me dar um exemplo mais. Com dez anos de diferença a lei</p><p>brasileira e a norte-americana institucionalizaram o modo de apropriação</p><p>das terras públicas. Lá se estabeleceu na lei a posse como forma de</p><p>propriedade. Aqui, a compra. O Estado dá terras a você em outorga ou você</p><p>as compra de alguém, no Brasil. Isto significa que o caboclo que lá está no</p><p>Brasil central, na Amazônia, lavrando a terra, com o padre o benzendo e o</p><p>confessando, é um invasor quando chega a Volkswagen com o título</p><p>registrado no cartório, provando que a proprietária é ela. Nos Estados</p><p>Unidos é o contrário, lá, a lei abriu o Oeste à colonização do vaqueiro.</p><p>Quem chegue e faça uma casa e uma roça tem garantida a posse de uma</p><p>granja que não pode exceder a 30 hectares. Vale dizer, lá prevaleceu a lei da</p><p>posse, que deu legalidade à criação de milhões de granjas, onde o povo</p><p>livre, capaz de prosperidade generalizada, se expandiu. Aqui, a lei legitima,</p><p>há quase duzentos anos, o latifúndio. O que se expande é a propriedade</p><p>imensa e infecunda. É o monopólio da terra, menos para usar – porque não</p><p>usa – do que para compelir toda mão de obra a servir aos fazendeiros. O</p><p>lavrador que sai de uma fazenda cai n’outra igual.</p><p>Ultimamente, tenho falado muito, no Rio, de Síndrome de Calcutá.</p><p>Pondero que, se o Rio crescer, de 1980 ao ano 2000, como cresceu de 1960</p><p>a 1980, chegará a ter 17 milhões de habitantes. A isto é que chamo</p><p>Síndrome de Calcutá. São Paulo, pelo mesmo cálculo, terá 24 milhões, será</p><p>a maior cidade do mundo e a mais faminta e infeliz. Como em Calcutá, na</p><p>Índia, a maioria da população vai nascer e morrer na rua, sem nunca ter tido</p><p>casa. Os ricos viver em campos de concentração aramados e eletrificados,</p><p>com medo dos pobres.</p><p>Isto é o que fez a ditadura militar para impedir que a legislação agrária e</p><p>antimultinacional do presidente João Goulart se implantasse. O que Jango e</p><p>eu queríamos era nem mais nem menos do que criar 10 milhões de</p><p>pequenos proprietários, fixando metade da população brasileira na terra</p><p>para impor um novo pacto às multinacionais, proibindo que o capital que</p><p>cresceu aqui, em cruzeiro, se multiplique em dólares. Era criar</p><p>universidades como essa nossa UnB como casas</p><p>da crítica e da</p><p>conscientização, que ajudassem o povo brasileiro a definir e a realizar seu</p><p>destino.</p><p>Meus queridos amigos, tudo que disse tão longamente quer apenas</p><p>significar que as questões cruciais que estão postas para a nação estão</p><p>postas também para a universidade. A causa da universidade brasileira é o</p><p>Brasil. O Brasil é nossa tarefa. Pois bem, o Brasil vai ser passado a limpo, a</p><p>lei básica vai ser novamente reescrita, teremos uma nova Constituição.</p><p>Poderia isto ser indiferente à universidade? Não. Universidade tem que</p><p>preocupar-se com toda profundidade com essa questão. Pensar nas</p><p>alternativas que se abrem nesta hora, vendo e fazendo ver quais as</p><p>consequências previsíveis de cada um dos caminhos que possamos tomar.</p><p>Não nos esqueçamos de que a Constituição zera tudo, como no dia da</p><p>criação. Dos que nada têm, zera o nada que têm. Dos que muito têm,</p><p>ameaça minguar parte do que têm. Isto torna crucial o problema da</p><p>Constituinte. Aí estão, todos o vemos, por todo o país, são os rui-</p><p>barbosinhas aflitos, os tecnocratas vorazes e corruptos, os gerentes das</p><p>multinacionais, os latifundiários, a mídia, todos prontos e mancomunados</p><p>para fazer a Constituição deles, aquela que lhes dê mais garantias e mais</p><p>lucros. Quem se perfila do lado oposto vê como os donos das terras estão</p><p>com os trabucos nas mãos, e seus capangas, como os empresários urbanos e</p><p>seus porta-vozes políticos estão se mancomunando, estão fazendo caixinhas</p><p>e caixonas, estão conspirando. E nós, intelectuais, com poder precaríssimo,</p><p>mas precioso, de mobilização da Consciência Nacional, estamos fazendo o</p><p>quê?</p><p>Nossas universidades, esta Universidade de Brasília em particular, não</p><p>podem fugir do debate constitucional; têm que discutir aprofundadamente</p><p>cada opção. A alternativa não pode ser a façanha, supostamente</p><p>revolucionária, de expulsão de todas as multinacionais. Não será também a</p><p>de enforcar os fazendeiros. Não será, do mesmo modo, lamentavelmente, a</p><p>de fazer dos bancos, das financeiras e das seguradoras um serviço público,</p><p>como de águas e esgotos. Mas qual será?</p><p>Outras vezes, aqui no Brasil e lá fora, no meu longo exílio, participei de</p><p>debates em conjunturas semelhantes, em busca de saídas. Participei até de</p><p>esforços de implementação no poder de alternativas à ordem vigente.</p><p>Confesso que não tinha noção, naquela altura, de que estávamos tentando</p><p>impor ao capital estrangeiro, aos bancos e aos latifúndios alterações tão</p><p>profundas que criariam uma modalidade nova de economia, modalidade</p><p>que a América Latina toda copiaria, anulando, em consequência, a</p><p>hegemonia norte-americana. Estávamos, sem saber, tocando no eixo do</p><p>mundo. Agora sabemos que não se pode cutucar com vara curta. Sabemos</p><p>hoje quanto precisamos de aliados, de apoios, sobretudo dos socialistas</p><p>europeus, dos democratas norte-americanos, das igrejas de toda a parte,</p><p>para viabilizar uma rota que abra a sociedade brasileira à participação,</p><p>criando uma estrutura social mais voltada para a satisfação das necessidades</p><p>do povo do que para a otimização dos lucros. Como alcançá-la? Nós não</p><p>estamos condenados ao acerto, ao contrário, a tendência histórica, se</p><p>continuarem mandando os que até agora mandaram, é submeter o Brasil a</p><p>uma mera modernização, mantendo-o na mesma condição. O Nordeste</p><p>então será mais faminto e todo o Brasil será um Nordeste.</p><p>Quero dar meu testemunho, amigos queridos: andei pela terra, conheço o</p><p>mundo, vi com meus olhos que não há província mais bonita que o Brasil.</p><p>Conheço bem o povo brasileiro, até como antropólogo posso dizer a vocês</p><p>que não só a terra é boa como o povo é ótimo. O ruim aqui são os ricos. Os</p><p>bonitos, os educados. Sinto na ponta dos dedos, se estico as mãos, que em</p><p>tempos previsíveis e breves se pode criar aqui um país próspero e solidário.</p><p>Temos todas as possibilidades de fazer com que o Brasil dê certo. A</p><p>condição é proibir o passado de se imprimir no futuro. É interromper a</p><p>dominação hegemônica e pervertida de nossa classe dominante infecunda.</p><p>Inumeráveis são os exemplos de que ela e seus tecnocratas só planejam</p><p>contra o povo. Aí está este horror que é o Projeto Carajás. Metem lá todo o</p><p>dinheiro do Brasil, para produzir o minério que os estrangeiros querem</p><p>consumir. Vão produzir no Brasil um buraco maior que o maior buraco do</p><p>mundo – que é o de Itabira, em Minas Gerais – deixando os brasileiros tão</p><p>pobres como os mineiros.</p><p>Outro exemplo nos é dado pelos que querem mais capitais estrangeiros,</p><p>mais indústrias e multinacionais, mais modernização modernosa. Eles se</p><p>esquecem de que São Paulo tem mais indústrias do que a Inglaterra tinha</p><p>quando enfrentou a última guerra. Mas esta indústria, ao contrário da</p><p>inglesa, não é nossa. Aqui implantada, cumpre a função de uma bomba de</p><p>sucção do sangue brasileiro, de colonização interna do Brasil. Frente a estas</p><p>questões, as universidades brasileiras têm que se mobilizar. E nelas, e muito</p><p>especialmente nesta minha, nossa, Universidade de Brasília, que ponho</p><p>minhas esperanças maiores, de ver um pensamento utópico concreto se</p><p>formular, conclamando os brasileiros a definir aqui e agora o Brasil que há</p><p>de ser.</p><p>Termino essa longuíssima fala à minha filha querida, desviada, que volta a</p><p>ser minha namorada. Dizem que falei mal dela, não é verdade. Apenas</p><p>lamentei a dor que me doía de vê-la avassalada. Hoje, meu sentimento é de</p><p>euforia. Eu me sinto um freudiano enamorado da minha filha querida que é</p><p>a UnB.</p><p>Imensa é minha alegria de saudar o renascimento da UnB. Só me resta</p><p>assinalar que nossa querida UnB renasce – e renasce bem e em boas mãos –</p><p>porque renasce no Brasil a liberdade. A questão fundamental é a liberdade.</p><p>Reitero: nossa tarefa é o Brasil, mas nossa missão fundamental para que o</p><p>Brasil se edifique para seu povo é a liberdade.</p><p>O nascimento da UnB</p><p>23</p><p>Assim que Juscelino Kubistchek assumiu a Presidência, seu compromisso</p><p>de criar Brasília, mudando a capital para o interior, tornou-se o principal</p><p>tema de debate nacional. Toda a mídia e todas as bocas discutiam Brasília,</p><p>surgindo as mais variadas interpretações do que viria a ser. Algumas vezes</p><p>figuravam a nova capital como tendo que ser feita no meio da selva</p><p>selvagem, onde só viviam índios também selvagens. Isso me irritou muito.</p><p>Eu era um dos poucos intelectuais que tinha vivido para além das fronteiras</p><p>da civilização, conhecia inclusive a região onde Brasília seria implantada.</p><p>Expressei minha reação em um programa, na TV Tupi, em que dizia que</p><p>Brasília ia ser plantada no cerrado goiano, onde não havia mata nenhuma,</p><p>acrescentando que, no local, já havia algumas cidades, uma delas fundada</p><p>em 1720.</p><p>Sugeri, naquele programa, que muito mais razoável que a programada</p><p>capital nova seria retomar as ideias de um século atrás, de ligar com um</p><p>canal o sistema Tocantins-Araguaia com o sistema Paraná-Paraguai, criando</p><p>uma nova costa brasileira, instalada numa via navegável que iria de Belém a</p><p>Buenos Aires. Se isso fosse feito desapropriando terras ao longo dessa via</p><p>para implantar lavradores pobres, o projeto permitiria realmente arrancar os</p><p>brasileiros que estavam concentrados na praia e lhes dar perspectivas novas</p><p>de progresso.</p><p>Minha ideia chegou a ser discutida. Chegou inclusive aos ouvidos de JK,</p><p>para quem eu me tornei visível. Tinha já as qualidades de mineiro de uma</p><p>família do PSD, um tio meu era deputado federal. Muito mais valeu, porém,</p><p>para Juscelino, minha oposição de intelectual a Brasília, e minha sugestão</p><p>alternativa de adotar outras formas de interiorização do Brasil.</p><p>Segue-se a esse episódio o concurso internacional para a urbanização de</p><p>Brasília e a divulgação do plano admirável de Lúcio Costa para a nova</p><p>capital – um dos mais altos e belos documentos da cultura brasileira.</p><p>Divulga-se também que a arquitetura de Brasília seria entregue a Oscar</p><p>Niemeyer, o único gênio brasileiro. Nessas bases é que eu aderi aos planos</p><p>de JK. Reconheci que a criação de uma cidade-capital, sede de todos os</p><p>poderes e da cabeça das forças armadas no centro do Brasil, teria o efeito</p><p>que teve a descoberta do ouro em Minas Gerais. Ataria todas as províncias</p><p>brasileiras desgarradas por imensas distâncias umas das outras, porque em</p><p>lugar de inclinar-se para o Rio de Janeiro, na costa Atlântica, todos se</p><p>voltariam para o novo núcleo reitor, que seria a nova capital, situada no</p><p>centro do Brasil.</p><p>Nessa ocasião, eu trabalhava no Instituto Nacional de Estudos</p><p>Pedagógicos, que tinha o encargo de planejar o ensino primário e o médio</p><p>da nova capital, sob a direção de Anísio Teixeira. Comecei então a arguir</p><p>sobre a necessidade de criar também uma universidade e sobre a</p><p>oportunidade extraordinária que ela nos daria de rever a estrutura obsoleta</p><p>das universidades brasileiras, criando uma universidade capaz de dominar</p><p>todo o saber humano e de colocá-lo a serviço do desenvolvimento nacional.</p><p>Encontrei logo adesões e oposições. Essas últimas partiram de assessores</p><p>de JK, que queriam a nova capital livre de badernas estudantis, assim como</p><p>de greves de operários fabris. Foram crescendo, porém, as ondas de apoio,</p><p>que vinham sobretudo dos grandes cientistas brasileiros, que se juntavam na</p><p>Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.</p><p>O decisivo, porém, foi alcançar o apoio de Cyro dos Anjos e de Victor</p><p>Nunes Leal, respectivamente Subchefe e Chefe da Casa Civil. Ambos</p><p>passaram a falar ao presidente do imperativo de criar-se uma universidade</p><p>em Brasília. Conseguiram inclusive que ele, por decreto, me desse o</p><p>encargo de projetar uma universidade para a nova capital. Eu andava</p><p>sempre pelo Palácio do Catete, como encarregado que era de colaborar na</p><p>redação das Mensagens Presidenciais, inclusive de redigir o capítulo da</p><p>Educação. Nesse trabalho, atribuindo ideias à Presidência da República, é</p><p>que me aprofundei no estudo dos sistemas educacionais, inclusive das</p><p>formas de organização das universidades.</p><p>Armado com a autoridade que me dava o referido decreto, passei a reunir</p><p>cientistas, artistas, filósofos para discutir a forma que deveria ter a futura</p><p>universidade. Terminei por redigir um documento muito divulgado, que</p><p>englobava uma crítica severa à universidade que tínhamos e a proposição de</p><p>uma universidade de utopia. Nisso estávamos, quando fui chamado ao</p><p>Catete para falar com o presidente. Ele me disse que tinha sido procurado</p><p>por Dom Hélder Câmara, que lhe comunicara o propósito que tinha a</p><p>Companhia de Jesus de criar em Brasília uma universidade jesuítica, sem</p><p>ônus para o governo, acrescentando que a principal universidade de</p><p>Washington era uma universidade católica. O presidente me disse que, entre</p><p>meu projeto e o jesuítico, ele lavava as mãos. Suspeitei logo que ele já</p><p>tivesse optado pelo projeto de uma universidade religiosa.</p><p>Vivi uma semana de desespero, vendo ruir o sonho da minha universidade</p><p>de utopia, que era já, então, a ambição maior da intelectualidade brasileira</p><p>como caminho de renovação do nosso Ensino Superior e de</p><p>desenvolvimento da ciência. No meio desse meu desengano, tive a ideia de</p><p>apelar para os cães de Deus, os dominicanos, que tradicionalmente</p><p>opunham reservas aos projetos jesuíticos.</p><p>Procurei em São Paulo o Geral, no Brasil, da Ordem, que era Frei Mateus</p><p>Rocha, e lhe expus o meu problema. Argumentei que o Brasil tinha oito</p><p>universidades católicas, quatro delas pontifícias, que formavam milhares de</p><p>farmacêuticos e dentistas, mas não formavam nenhum teólogo. Propus</p><p>entregar aos dominicanos a criação de um Instituto de Teologia Católica</p><p>dentro da Universidade de Brasília. Seria um ato revolucionário, porque a</p><p>teologia, expulsa das universidades públicas desde a Revolução Francesa, a</p><p>elas voltariam, justamente na mais moderna universidade que se estava</p><p>criando naqueles anos. Houve reações adversas à minha iniciativa, inclusive</p><p>a de um eminente cientista, que me acusava de trair a tradição laicista da</p><p>educação.</p><p>Frei Mateus foi a Roma procurar o Santo Papa João XXIII, em companhia</p><p>do Geral dos Dominicanos – o chamado Papa Branco –, e lhe fez a entrega</p><p>de minha proposta. Soube logo, por telegrama, que o Papa tinha aquiescido.</p><p>Tempos depois fui receber Frei Mateus, pedindo o documento papal. Ele me</p><p>disse que o Papa não escreve cartas nem faz promessas. Que toda a Igreja</p><p>naquele momento sabia que não haveria universidade jesuítica em Brasília,</p><p>estando aberto espaço para nós.</p><p>Enorme foi a surpresa de Juscelino quando lhe contei as minhas</p><p>démarches. O que se seguiu, porém, foi um ato dele encarregando o</p><p>ministro da Educação e um grupo de canastrões, inclusive Pedro Calmon –</p><p>que era, há dezoito anos, o reitor da Universidade do Brasil – de programar</p><p>uma universidade para Brasília. Eu seria uma voz isolada naquela</p><p>convenção, destinada a perder a parada. Minha reação foi escrever um</p><p>documento dirigido aos principais cientistas e pensadores brasileiros,</p><p>comprometendo-os com o projeto que eu havia elaborado e para o qual</p><p>pediria o apoio da referida Comissão. O certo é que a Comissão acabou por</p><p>mandar ao presidente o nosso projeto. Provavelmente porque enorme seria a</p><p>celeuma se quisessem fazer em Brasília mais uma universidade federal.</p><p>A 21 de abril de 1960, Juscelino manda ao Congresso Nacional uma</p><p>mensagem pedindo a criação da Universidade de Brasília. Seguiu-se para</p><p>mim um longo trabalho, primeiro nas Comissões da Câmara dos Deputados,</p><p>para conseguir a aprovação de uma lei libertária da criação em Brasília de</p><p>uma universidade inovadora. Nesse trabalho, contei com a colaboração de</p><p>San Tiago Dantas, que deu forma ao projeto de lei, instituindo a</p><p>universidade como uma organização não governamental, livre e autônoma,</p><p>de caráter experimental e dotada de imensos recursos para constituir-se e</p><p>para funcionar.</p><p>Adveio o breve governo de Jânio Quadros, que me confirma por decreto</p><p>na qualidade de coordenador de planejamento da Universidade de Brasília.</p><p>Em seu governo, adiantamos muito na fixação do terreno onde ficaria o</p><p>campus da Universidade, entre a Asa Norte e o Lago. Contribuiu</p><p>poderosamente para isso o plano urbanístico da universidade, proposto por</p><p>Lúcio Costa.</p><p>Nessa quadra, vendo que a universidade era inevitável, Israel Pinheiro lhe</p><p>concedeu um vasto terreno, 6 quilômetros distante da capital. O propósito</p><p>era afastar a agitação estudantil do centro de poder da capital. Aceitei a</p><p>doação, destinando-a a criar ali um centro agrícola de estudo de uma</p><p>tecnologia para o cerrado.</p><p>No dia da renúncia de Jânio Quadros, passei no gabinete da presidência e</p><p>senti ali um ambiente de incontrolável tensão. Mas ninguém me adiantou</p><p>nada. O secretário do presidente, José Aparecido de Oliveira, sugeriu que</p><p>eu fosse para a Câmara. Lá, só lá, soube da renúncia. No meio de uma</p><p>Câmara perplexa, porque havia acabado de aceitar a renúncia como um ato</p><p>unilateral, que não cumpria discutir, mas apenas tomar conhecimento. A</p><p>sessão estava por encerrar-se, o que ninguém queria.</p><p>Acerquei-me então do presidente da Mesa, deputado Sérgio Magalhães, e</p><p>lhe pedi que pusesse em discussão o projeto de criação da Universidade de</p><p>Brasília, que era o número dezoito da Ordem do Dia. Ele reagiu</p><p>instantaneamente, tratando-me de louco. Mas instantaneamente percebeu</p><p>que, ali, o único homem de juízo era eu. Mandou que eu descesse a Plenário</p><p>para conseguir que um líder propusesse a mudança da Ordem do Dia.</p><p>Quando eu ainda tentava convencer o deputado Josué de Castro a fazê-lo, o</p><p>presidente Sérgio Magalhães anunciou que, tendo sido aprovado o</p><p>requerimento do líder do PTB, punha em discussão e mandava ler o projeto</p><p>de criação da Universidade de Brasília. O que se seguiu foi o tumulto de</p><p>uma Câmara que demorou alguns minutos a perceber do que se tratava, que</p><p>era fazê-los exercer suas funções, discutindo uma lei de suprema</p><p>importância. Os debates foram acalorados entre a UDN, como sempre</p><p>contrária aos projetos do governo, e os outros partidos, com o pendor de</p><p>aprová-lo. O mais veemente discurso contrário foi o do velho Raul Pilla,</p><p>ponderando que, se nossos pais e avós mandavam seus filhos estudarem em</p><p>Coimbra, bem poderia o povo de Brasília mandar os seus para as antigas</p><p>universidades, sem incorrer no risco de criar aventureiramente uma</p><p>universidade em uma cidade apenas nascente. Na votação,</p><p>enriquecidos socorrerão os pobres.</p><p>Essa postura, ou seu equivalente, que é o desinteresse pelo bem público, é</p><p>compreensível em acadêmicos de países realizados. Eles estão em posição</p><p>tão favorável no fluxo evolutivo, que o funcionamento espontâneo da</p><p>sociedade os levará à vanguarda dos povos. Aliás, lá, ninguém esperou</p><p>nunca nenhuma contribuição fundamental dos teóricos da universidade.</p><p>Essa não pode ser a concepção de uma universidade que se quer central e</p><p>inspirada de um país que não deu certo. As classes dirigentes entre nós</p><p>foram e são as responsáveis maiores por nosso fracasso histórico. São</p><p>também culpadas pelo tipo de prosperidade mesquinha que temos, incapaz</p><p>de estender-se ao povo. Em nossas circunstâncias, é tarefa da universidade</p><p>criar intencionalmente elites novas. Elites orgulhosas do patrimônio que</p><p>herdamos do passado – um território continental e um povo multitudinário,</p><p>unificados em uma nação cheia de vontade de felicidade e de progresso,</p><p>pronta para florescer como uma nova civilização. Mas sobretudo elites</p><p>cheias de indignação frente à realidade sofrida do Brasil. Elites fiéis ao</p><p>nosso povo, prontas a reconhecer que nossa tarefa maior é nos elevarmos à</p><p>condição de uma sociedade justa e próspera, de prosperidade generalizada a</p><p>todos.</p><p>Quero crer que a minha chegada aqui, hoje, com o novo reitor, professor</p><p>Todorov, é um marco avançado, que se soma a muitos outros implantados</p><p>antes, da retomada de uma das ambições maiores da intelectualidade</p><p>brasileira, encarnada nesta Universidade de Brasília. Longas e árduas foram</p><p>as batalhas que travamos para chegar a essa hora de cumprimento dos</p><p>desígnios da UnB. As próximas décadas serão também de lutas, das gratas</p><p>lutas dos florescimentos do renascer.</p><p>Antevejo algumas dessas batalhas. A primeira delas é reconquistar a</p><p>institucionalidade da lei original, que criou a Universidade de Brasília como</p><p>organização não governamental, livre e autoconstrutiva. Simultaneamente,</p><p>cumpre libertar-nos da tutela ministerial, assumindo plenamente a</p><p>responsabilidade na condução de nosso destino. Inclusive e principalmente,</p><p>seu caráter de universidade experimental, livre para reinventar o Ensino</p><p>Superior de graduação e pós-graduação, fazendo deles instrumentos de</p><p>liberação do Brasil. É por igual indispensável definir seu professorado</p><p>como um corpo de pesquisadores que dão aulas, fugindo do sistema</p><p>infecundo de professorado por disciplina, que incapacita as universidades</p><p>brasileiras para o cumprimento de seus objetivos.</p><p>Atentem bem! Tenham cuidado comigo. Já comecei, como se vê, a dar</p><p>conselhos. Se me deixarem livre, prosseguirei na pregação. Esse é um</p><p>pendor inelutável. Para comprová-lo, deixem-me dizer que tenho horror ao</p><p>democratismo que anda solto pelo ar, quebrando o caráter da universidade</p><p>como instituição necessariamente hierárquica e hierarquizadora. Esse é um</p><p>feio pecado meu. Combatendo a cátedra todo-poderosa de então, querendo</p><p>instituir uma departamentalização vigorosa, igualizei bisonhos aprendizes a</p><p>sábios maduros, cegando os jovens na insciência e incapacitando-os a</p><p>aprender.</p><p>Para compensar essa frustração, alegarei aqui um acerto nosso, que foi a</p><p>ascensão ao quarto nível, o da pós-graduação. Façanha da Universidade de</p><p>Brasília que se deve a Anísio Teixeira. Graças à sua implantação aqui e à</p><p>sua difusão por todo o país, o Brasil já multiplicou várias vezes os estudos</p><p>monográficos com que se contava sobre temas e problemas relevantes. Mas</p><p>chega de advertências, ponderações e conselhos.</p><p>Olhando para o futuro, nostálgico de mim e dos velhos tempos, o que</p><p>peço é que voltem ao Campus Universitário Darcy Ribeiro aquela</p><p>convivência alegre, aquele espírito fraternal, aquela devoção profunda ao</p><p>domínio do saber e a sua aplicação frutífera. Éramos uns brasileiros</p><p>apaixonados pelo Brasil, prontos a refazê-lo como um projeto próprio, que</p><p>fosse a expressão da vontade dos brasileiros. Não éramos mesmo</p><p>compatíveis com a ditadura que se instaurou contra o povo e contra a nação.</p><p>Foi num ato de defesa própria que a ditadura dispersou aquele corpo de</p><p>professores irredentos. Eles acreditavam que fôssemos perigosos. Gosto de</p><p>pensar que éramos mesmo.</p><p>Obrigada, amigos queridos, por me aceitarem tal qual sou. Não tenho</p><p>mais tempo para melhorar. Mas necessitava muito dessas expressões de</p><p>admiração e carinho. Sou, sempre fui, um ser confessadamente carente de</p><p>elogios. Obrigado.</p><p>15 Este discurso, pronunciado em 1985, foi publicado na revista Carta nº 12, em 1994, e</p><p>posteriormente no livro O Brasil como problema, em 1995.</p><p>16 Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.</p><p>17 Nomes extensos citados: José Leite Lopes, Jayme Tiomno, Herón Duarte, Leopoldo Nachbin,</p><p>Haiti Moussatché, Antonio Rodrigues Cordeiro, João Moojen de Oliveira, Jacques Danon, Otto</p><p>Richard Gottlieb, Carolina Martuscelli Bori, José de Souza Reis.</p><p>18 Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.</p><p>19 Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira.</p><p>20 Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais.</p><p>21 Alcides da Rocha Miranda, João Filgueiras Lima (Lelé) e Ítalo Campofiorito.</p><p>22 Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire.</p><p>23 Este texto foi publicado como prólogo na revista Carta nº 14, em abril de 1995, cujo tema era a</p><p>Universidade de Brasília. Nessa mesma publicação há outro texto bem mais longo, que por isso não</p><p>foi selecionado para integrar esta publicação, UnB: invenção e descaminho, publicado em forma de</p><p>livro em 1978.</p><p>24 Discurso proferido por Darcy Ribeiro ao receber o título de doutor honoris causa da UnB, em</p><p>março de 1995. Foi publicado na revista Carta nº 14, em abril de 1995. Este discurso, curto e</p><p>emocionado, pode ser visto no YouTube. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?</p><p>v=0af8kc5OVdU>. Acesso em: 13 jun. 2017.</p><p>5. A Lei de Diretrizes e Bases</p><p>da Educação Nacional</p><p>A Lei da Educação</p><p>Discurso, na íntegra, da apresentação da proposta para a Lei de</p><p>Diretrizes e Bases, no Senado Federal, em 20 de maio de 1992.</p><p>25</p><p>Nosso tema hoje é o problema básico do Brasil: a educação. É a</p><p>necessidade imperiosa, inadiável de uma lei básica de reordenação do</p><p>sistema educacional brasileiro, que o faça cumprir suas funções. A verdade,</p><p>triste verdade, é que nossas instituições educacionais não funcionam, ou</p><p>funcionam em estado de calamidade, sem atender a seus encargos,</p><p>agravando cada vez mais o descompasso do Brasil com o mundo moderno.</p><p>É comprovável numericamente que nossa escola pública primária forma</p><p>mais analfabetos que alfabetizados, tão grande e até majoritária é a</p><p>proporção de crianças que a frequentam por quatro a seis anos, sem</p><p>alcançar a 4ª série do Ensino Fundamental. Vale dizer, sem a capacidade</p><p>elementar de ler, escrever e contar, só alcançável naquele nível, e que</p><p>constitui o requisito fundamental do exercício lúcido da cidadania e da</p><p>integração no mundo do trabalho, com possibilidades de progresso pessoal.</p><p>Atentem bem, senhores senadores, não falo da educação das regiões mais</p><p>pobres do Brasil. Falo da educação em São Paulo ou no Rio. Se me</p><p>referisse a áreas mais carentes, diria que a maior parte de seu alunado não</p><p>completa a 2ª série do Ensino Fundamental. Sua instrução se reduz a</p><p>desenhar o próprio nome. Essa é, aliás, comprovadamente, a condição da</p><p>maioria dos brasileiros em idade adulta. São analfabetos funcionais. São</p><p>iletrados, porque incapazes de receber ou de dar qualquer informação</p><p>escrita.</p><p>Se isso sucedesse há um século, seria lamentável. Como ocorre hoje, num</p><p>tempo em que o grosso da juventude das nações mais avançadas já se</p><p>matricula na escola de nível superior, chega a ser calamitoso. Acresce que</p><p>toda a legislação vigente e também a programada – inclusive pelo Projeto</p><p>de Lei de Diretrizes e Bases, que se discute na Câmara dos Deputados – só</p><p>tendem a consolidar este sistema educacional responsável pela produção em</p><p>massa de analfabetos, por sua incapacidade de alfabetizar as crianças</p><p>brasileiras.</p><p>As famílias brasileiras, mesmo as mais carentes, já despertaram para a</p><p>necessidade de dar educação a seus filhos. Cerca de 90% das crianças</p><p>maior</p><p>do que a nossa.</p><p>Não nos iludamos pensando que os dados globais referentes ao Brasil</p><p>como um todo sejam negados quando se focalizam as áreas mais ricas e</p><p>desenvolvidas, incluindo as grandes cidades. Mesmo na cidade do Rio de</p><p>Janeiro, considerada, sem sombra de dúvida, aquela em que houve,</p><p>historicamente, maior investimento na educação, e em que se construiu uma</p><p>rede escolar frondosa e um professorado multitudinário, mesmo aqui o</p><p>nosso desempenho educacional é menos do que medíocre. Na verdade, a</p><p>educação que o Rio de Janeiro provê à sua população é de tão baixa</p><p>qualidade como a que se ministra nas áreas mais pobres do país. A situação</p><p>de São Paulo é semelhante, uma vez que, lá também, metade das crianças</p><p>não está passando da primeira para a segunda série e que a progressão, daí</p><p>por diante, é igualmente precária. Como se verifica, o mal é generalizado e</p><p>constitui, sem dúvida, uma doença nacional: não fomos capazes, até hoje,</p><p>de criar uma escola pública honesta, adaptada às necessidades da população</p><p>brasileira.</p><p>UMA ESCOLA PÚBLICA ANTIPOPULAR</p><p>Tamanho fracasso educacional não se explica, obviamente, pela falta de</p><p>escolas – elas aí estão, numerosíssimas – nem por falta de escolaridade,</p><p>uma vez que estão repletas de alunos, sobretudo na 1ª série, que absorve</p><p>quase metade da matrícula. Muitos fatores contribuem para este fracasso,</p><p>como procuraremos demonstrar a seguir. Só queremos adiantar agora que a</p><p>razão causal verdadeira não reside em nenhuma prática pedagógica. Reside,</p><p>isto sim, na atitude das classes dominantes brasileiras para com o nosso</p><p>povo.</p><p>Um fator importante do nosso baixo rendimento escolar reside na</p><p>exiguidade do tempo de atendimento que damos à criança.</p><p>Este ângulo da questão merece especial atenção. A criança das classes</p><p>abonadas que tem em casa quem estude com ela, algumas horas extras,</p><p>enfrenta galhardamente esse regime escolar em que quase não se dá aulas.</p><p>Ele só penaliza, de fato, a criança pobre oriunda de meios atrasados, porque</p><p>ela só conta com a escola para aprender alguma coisa. Aqui está o fulcro da</p><p>questão: nossa escola fracassa por seu caráter cruelmente elitista. Alguns</p><p>educadores alienados, envoltos nas névoas da sua pedagogia pervertida,</p><p>estão dispostos a firmar que o fracasso escolar da criança pobre se deve a</p><p>deficiências que ela traz de casa. A escola não teria nada a ver com isso. Os</p><p>professores enfrentariam, neste caso, uma situação carencial insuperável,</p><p>em consequência da qual a maioria da população brasileira seria ineducável.</p><p>A criança popular urbana, que vive em condições precárias, nas favelas ou</p><p>nos bairros pobres da periferia, como em tantas outras regiões do Brasil, é</p><p>essencialmente diferente da criança afortunada que vive nas áreas ricas. O</p><p>pequeno favelado, comendo pouco e mal, cresce raquítico. Às vezes é até</p><p>prejudicado por malformações, se a fome ocorre muito cedo ou se é</p><p>demasiada. Sua fala é também peculiar e atravessada, aos ouvidos da</p><p>professora. Toda a sua inteligência está voltada para a luta pela</p><p>sobrevivência autônoma, em esforços nos quais alcança uma eficácia</p><p>incomparável. A criança afortunada se desenvolve bem fisicamente, fala a</p><p>língua da escola, é ágil no uso do lápis e na interpretação de símbolos</p><p>gráficos e chega à escola altamente estimulada pelos pais, através de toda</p><p>espécie de prêmios e gratificações, para aprender rapidamente. Uma e outra</p><p>têm incapacidades específicas: o favelado, para competir na escola; o</p><p>afortunado, para sobreviver solto na cidade. Ocorre, porém, que todos vão à</p><p>escola e ali competem; mas o menino rico não tem, jamais, de lutar pelo</p><p>sustento, nem de cuidar dos irmãos, e raramente cai na delinquência. Nessas</p><p>circunstâncias, um desempenho natural e inevitável é valorizado e premiado</p><p>pela escola; o outro é severamente punido.</p><p>Frente a esses fatos, precisamos começar a reconhecer e proclamar que</p><p>temos uma escola primária não só seletiva, mas elitista. Com efeito, ela</p><p>recebe as crianças populares massivamente, mas, tratando-as como se</p><p>fossem iguais às oriundas dos setores privilegiados, assim as peneira e</p><p>exclui da escola. Vale dizer que nosso pendor elitista começa na escola</p><p>primária. Ela, de fato, se estrutura para educar as classes abonadas e não o</p><p>povo, que constitui a imensa maioria de sua clientela.</p><p>Como negar, diante destas evidências, que temos uma escola desonesta,</p><p>uma escola inadequada? O fato irretorquível é que ela funciona, tomando</p><p>como sua clientela própria, normal, uma minoria. Ela é, pois, uma escola</p><p>para os 20%, não é uma escola para os 80% da população. Uma escola</p><p>desvairada que vê como desempenho normal, desejável e até exigível de</p><p>toda criança, o rendimento “anormal” da minoria de alunos, que têm quem</p><p>estude com eles em casa mais algumas horas, e que vivem com famílias em</p><p>que alguns membros já têm curso primário completo. Como na imensa</p><p>maioria das famílias brasileiras não há esta pessoa, desocupada e pronta</p><p>para tomar conta das crianças e estudar com elas, a escola não tem o direito</p><p>de esperar isto. Funcionando na base dessa falsa expectativa, ela é uma</p><p>escola hostil à sua clientela verdadeira, porque, sendo uma escola pública, a</p><p>sua tarefa é educar as crianças brasileiras a partir da condição em que elas</p><p>se encontrem.</p><p>Uma degradação tão grande e tão perversa do sistema educacional só se</p><p>explica por uma deformação da própria sociedade. Nosso desigualitarismo</p><p>cruel, que conduz ao descaso pelas necessidades do povo, leva à incúria</p><p>também no campo da educação, permitindo que viceje esse monstro que é</p><p>uma escola pública antipopular.</p><p>Suas causas, a nosso juízo, residem nas camadas mais profundas do nosso</p><p>ser nacional e dizem respeito ao caráter mesmo de nossa sociedade.</p><p>Tememos, até, que nós brasileiros, pela sociedade que somos e pela forma</p><p>como ela está organizada, estejamos estruturados de maneira pervertida.</p><p>Somos uma sociedade deformada que carrega dentro de si cicatrizes e</p><p>malformações históricas profundas que teremos muitas dificuldades em</p><p>superar. Dificuldades tanto maiores quanto mais tardemos em reconhecê-las</p><p>e em denunciá-las.</p><p>CAUSAS PROFUNDAS</p><p>Estamos, como se vê, diante de um fenômeno que precisa ser explicado:</p><p>como é que o Brasil consegue ser tão ruim em educação? Quem quisesse</p><p>organizar um país com o objetivo expresso de alcançar, com tantos</p><p>professores e com tantas escolas, um resultado tão medíocre, teria que fazer</p><p>um grande esforço. Um país monolíngue como o nosso, em que não há</p><p>nenhuma barreira de ordem étnica ou cultural, conseguir ser tão medíocre</p><p>no seu desempenho educacional é realizar, sem dúvida, uma façanha</p><p>incomparável. Ainda que nada invejável.</p><p>Um certo objetivismo sociológico dá explicações copiosas, expressas em</p><p>numerosas teses doutorais sobre as causas deste fracasso, tratando-o sempre</p><p>como natural e até necessário. Notoriamente, a função social desse</p><p>objetivismo é nos consolar, demonstrando que tudo isto decorre dos</p><p>processos de urbanização e de industrialização. Processos que, transladando</p><p>a população trabalhadora do campo para a cidade – por força do próprio</p><p>progresso que afinal nos alcança – perturba as instituições sociais, inclusive</p><p>as educacionais, compelindo-as a se transfigurarem tão precariamente.</p><p>Advertem, nesta altura, que o problema é ainda mais complicado porque à</p><p>urbanização caótica se seguiu um processo de industrialização intensiva</p><p>que, exigindo mão de obra moderna e disciplinada, reclamaria uma nova</p><p>escola ideológica, capacitada a domesticar os camponeses urbanizados e</p><p>proletarizados, através de uma indoutrinação que os convença de que são</p><p>pobres porque são burros.</p><p>Essas seriam as causas do desastre para os liberais. Desastre, aliás,</p><p>autocorrigível, dizem eles, uma vez que a modernização das cidades</p><p>brasileiras, criando polos de progresso, iria dissolvendo os bolsões de</p><p>atraso, até que a civilização industrial a todos homogeneizasse, num</p><p>assalariado capitalista moderno. Alguns sociólogos esquerdistas aderem a</p><p>estas teses acrescentando triunfalmente que só a revolução socialista dará</p><p>aos brasileiros a escola primária que</p><p>de</p><p>cada geração entram nas escolas que lhes oferecemos. Nelas passam em</p><p>média mais de oito anos, porém só concluem com êxito cinco séries. Assim,</p><p>a maioria delas sai da escola sem o domínio da leitura.</p><p>Isto se dá em razão da escandalosa inadequação entre a escola brasileira e</p><p>seu alunado majoritário. Ela funciona como se sua tarefa fosse alfabetizar</p><p>as crianças das camadas favorecidas, porque só estas progridem no estudo.</p><p>As crianças que vêm de famílias que não tiveram escolaridade prévia</p><p>fracassam. Não por culpa ou incapacidade delas próprias, mas em razão da</p><p>hostilidade real, ainda que inconfessada, da nossa escola pública a seu</p><p>alunado pobre ou negro, pior ainda se negro e pobre, como ocorre com</p><p>tantíssimos brasileiros.</p><p>Esse mecanismo de exclusão funciona com base na pedagogia fútil e</p><p>inútil, que prevalece no Brasil, segundo a qual a criança pobre é culpada de</p><p>seu fracasso escolar, porque não chega à escola com o nível de preparação</p><p>mínimo necessário para a alfabetização. Essa carência, verificada</p><p>objetivamente na primeira hora, por meio do exame de prontidão, separa os</p><p>novos alunos em dois grupos. Uma minoria de crianças que, a rigor, nem</p><p>precisariam de escola, as quais, com um pequeno esforço, vão adiante nos</p><p>estudos. E a imensa maioria dos que, não estando “prontos”, são ilhados e</p><p>tratados como caso perdido. Ao fim do ano, todas elas são submetidas a</p><p>exame. Aquela minoria passa à 2ª série. A maioria, reprovada, fica na 1ª</p><p>série, para repetir uma vez e outra vez, e até uma terceira e quarta vez o</p><p>mesmo tratamento dedicado aos alunos novos.</p><p>Senhor presidente, senhores senadores, como se vê, a escola pública que</p><p>temos e impomos à infância brasileira é uma violenta mistificação, que</p><p>apenas simula ensinar. Nada adianta mantê-la, e muito menos multiplicá-la,</p><p>por sua incapacidade intrínseca, exaustivamente comprovada, de educar o</p><p>povo brasileiro. Ela só serve, de fato, para perpetuar a ordem política e</p><p>social, fazendo da educação básica mais um privilégio monopolizado por</p><p>minorias, como instrumento de poder.</p><p>Sua função social real é demonstrar ao aluno pobre que ele padece de uma</p><p>deficiência básica que o torna inepto para o estudo. A própria família</p><p>também passa a vê-lo como inapto, porque, havendo dispensado por anos a</p><p>ajuda que poderia dar na manutenção da casa, verifica que ele não tira</p><p>nenhum proveito da escola.</p><p>A utilidade desse mecanismo é provar para as classes mais pobres que</p><p>elas são pobres porque incapazes, uma vez que lhes são dadas</p><p>oportunidades de educação para progredir na vida, através da larga porta da</p><p>escola pública universal e gratuita. Tudo se faz para induzir no povo a ideia</p><p>de que ele é que fracassa. Para tornar o argumento mais convincente,</p><p>apontam-se casos excepcionais de crianças que, por sua alta capacidade de</p><p>aprender, enfrentam todos esses obstáculos e os vencem.</p><p>Entretanto, com qualquer esforço de observação se vê que os alunos</p><p>recusados pela escola como incapazes e reiteradamente repetentes são,</p><p>muitas vezes, altamente eficazes na luta pela vida e até no domínio dos</p><p>ramos da cultura popular, que se exercem no nível iletrado. Aí estão os</p><p>trombadinhas e pivetes nos assustando com sua eficácia e combatividade na</p><p>área em que foram encurralados. Só na escola eles fracassam.</p><p>Quando a abandonam, depois de todo um esforço exaustivo para suportar</p><p>um regime de múltiplas discriminações, são catalogados como evadidos,</p><p>equivalentes aos que fogem das prisões. Na verdade, a evasão no Brasil é</p><p>irrelevante. As crianças vão à escola, nela permanecem por quantos anos</p><p>suas famílias possam mantê-las estudando. As escolas é que, por meio da</p><p>imposição de sucessivas repetências e de vários ritos de rejeição, as</p><p>expulsam. Tudo isso por culpa dela própria, da escola, de sua incapacidade</p><p>de dar ao aluno carente, em razão de sua origem de classe, aquela atenção</p><p>adicional de que ele necessita para progredir nos estudos.</p><p>Como se vê, nosso sistema educacional primário só é adequado ao aluno</p><p>cuja família, tendo domínio da cultura letrada, pode ajudá-lo nos estudos, o</p><p>que é inalcançável para a massa de crianças oriundas das camadas</p><p>populares. Nestas circunstâncias, só os excepcionais conseguem superar as</p><p>barreiras da insuficiência de escolaridade familiar e da má vontade docente</p><p>para com o aluno menos preparado e que precisa de maior tempo de contato</p><p>com o universo da cultura letrada para ir adiante nos estudos e acompanhar,</p><p>em pé de igualdade, o nível dos alunos de classe média.</p><p>Como esta é a situação da maioria dos brasileiros, pode-se avaliar o</p><p>prejuízo que representa para o desenvolvimento da sociedade e da cultura</p><p>nacional.</p><p>Três carências essenciais da escola brasileira, com respeito ao seu alunado</p><p>majoritário, ressaltam entre todas: a de espaço, a de tempo e a de</p><p>capacitação do magistério. Espaço, para que as atividades escolares se</p><p>exerçam também fora da sala de aula, concebendo a educação com uma</p><p>atenção global ao desenvolvimento físico e cultural da criança. Tempo, para</p><p>que cada aluno possa ter aquela atenção específica e aquela convivência</p><p>continuada, que o habilite a compreender a fala da norma culta da</p><p>professora, tão diferente da que ele aprendeu em casa; e para que</p><p>compreenda as exigências do aprendizado escolar, tão diferentes, elas</p><p>também, das formas habituais de transmissão oral da cultura, a que ele está</p><p>habituado. Capacitação, porque o professor é o nervo da educação. Nada se</p><p>faz sem contar com um magistério preparado, atualizado e motivado.</p><p>A rede educacional brasileira, forçada a ampliar enormemente suas</p><p>matrículas para atender ao crescimento vertiginoso das populações urbanas</p><p>– que, nas últimas décadas, saltaram de menos de 30% para mais de 70% da</p><p>população – em lugar de multiplicar o número de escolas, a desdobrou em</p><p>turnos – dois, quatro e até cinco, diariamente – mesmo no estado de São</p><p>Paulo. Isto implicou dar uma atenção cada vez mais reduzida a seus alunos,</p><p>até o ponto em que só pode progredir nos estudos quem tenha em casa outra</p><p>escola.</p><p>Essa drástica redução do atendimento escolar foi especialmente danosa</p><p>para a imensa população recém-urbanizada, vinda de zonas rurais, onde se</p><p>integrava numa cultura arcaica e iletrada. Mais grave ainda é a situação</p><p>daqueles oriundos de famílias negras, empenhadas na dura luta para</p><p>transitar da condição de escravos à condição de cidadãos. Para uns e outros,</p><p>a integração na cidade como parte da população de cultura citadina letrada</p><p>passava, necessariamente, por sua escolarização. Encontrando, porém, a</p><p>escola praticamente fechada a seus filhos, esse contingente foi engrossar a</p><p>massa imensa de cultura urbana popular iletrada. Apesar de analfabeta, ela</p><p>revela, muitas vezes, uma criatividade cultural extraordinária, como se vê</p><p>em tantos ramos da cultura popular. Mas se vê condenada a exercê-la em</p><p>nível iletrado, arrastando o povo brasileiro, de que é maioria, para o atraso e</p><p>a pobreza.</p><p>O certo é que a maioria das nossas crianças sofre a escola como uma</p><p>experiência frustrante em que é punida, porque fala sua língua materna; é</p><p>discriminada, porque anda descalça e se veste pobremente; é humilhada,</p><p>porque não pode comprar o material didático exigido pela professora; e, por</p><p>fim, é sucessivamente reprovada, sem mesmo saber o que é isso.</p><p>A professora, por sua vez, participa desse processo como sua segunda</p><p>vítima. Primacialmente porque se vê condenada a exercer seu ofício sem</p><p>condições mínimas de alcançar eficácia, em razão de sua precaríssima</p><p>formação docente. Também é vítima porque se viu degradada</p><p>profissionalmente pela deterioração da própria carreira do magistério. É,</p><p>ainda, porque está envolvida e alienada por uma pedagogia antipopular, em</p><p>grande parte inexplícita, mas muito eficaz como mecanismo de rejeição</p><p>social. Mesmo porque é apoiada no preconceito de raça e na hostilidade,</p><p>corrente nas classes médias de onde elas são oriundas, com respeito às</p><p>camadas pobres de que saem seus alunos.</p><p>Somadas as carências de espaço, de escolas e de tempo docente com a</p><p>ineficácia didática do magistério, o desprestígio da profissão e o</p><p>peso dos</p><p>preconceitos, o sistema nacional de educação se constituiu como uma</p><p>entidade aberrante. A crua verdade é que se quisesse inventar um sistema</p><p>educacional pior e mais hostil ao seu alunado, dificilmente se conseguiria</p><p>achar alguma coisa melhor que o brasileiro. Não é à toa, por conseguinte,</p><p>que conseguimos colocar-nos entre as nações mais atrasadas do mundo no</p><p>campo da educação elementar.</p><p>O espantoso é que há uma cegueira generalizada das camadas mais</p><p>influentes com respeito à nossa realidade educacional. É possível, até,</p><p>afirmar que uma das características marcantes da sociedade brasileira é sua</p><p>resignação com a péssima escola que temos. Ninguém estranha que ela seja</p><p>tão ineficiente. Ninguém se exalta diante do pouco esforço que ela faz para</p><p>superar-se. Ninguém fica indignado contra a atrocidade com que ela</p><p>destrata a imensa maioria da infância brasileira, que a procura esperançosa</p><p>de progredir pela educação. O que se vê, frequentemente, é o contrário da</p><p>indignação, como ocorre até com personalidades sociais e politicamente</p><p>prestigiosas, que atuam como se não houvesse nada de importante a fazer,</p><p>porque o sistema educacional acabaria por corrigir-se por seu próprio</p><p>funcionamento.</p><p>Isso se comprova ao ver que, mesmo diante de programas inegavelmente</p><p>meritórios de renovação educacional – como o esforço do Rio de Janeiro</p><p>para criar quinhentas escolas de tempo integral para dar boa educação a</p><p>meio milhão de crianças; ou o plano do governo federal de 5 mil destas</p><p>escolas, para salvar pela educação 5 milhões de crianças brasileiras – as</p><p>atitudes são mais frequentemente dúbias ou negativas que de interesse e</p><p>apoio. Esta postura não importa na avaliação de que o sistema existente seja</p><p>bom, mesmo porque sua precariedade é indisfarçável. Mas induz ao juízo</p><p>de que as novas escolas são caras demais, ou bonitas demais, para a</p><p>população a que se destinam.</p><p>Em lugar de ver na renovação educacional uma causa de salvação</p><p>nacional, indispensável para que esse país, afinal, dê certo e progrida, se faz</p><p>dela objeto de questionamentos míopes e medíocres. Fala-se de sua</p><p>arquitetura e do seu custo de manutenção, sempre reclamando. Mas nada se</p><p>diz de sua função de recuperar para eles próprios e para o Brasil tantíssimos</p><p>brasileirinhos salvando-os da condenação ao analfabetismo. Nem do</p><p>esforço enorme de atualização e aprimoramento de dezenas de milhares de</p><p>professores novos, que se está realizando no Rio de Janeiro, ou das centenas</p><p>de milhares que se terão de preparar, nacionalmente, para pôr em função os</p><p>CIACs do governo federal.</p><p>Toda uma revolução educacional está se realizando, hoje, debaixo de</p><p>nossos olhos. Está em marcha a revolução pela qual nossos educadores</p><p>lutam há cinquenta anos. Mas quase ninguém tem olhos de ver. É</p><p>sintomático o fato de que os grandes jornais do mundo deram mais notícias,</p><p>e notícias mais entusiásticas, desta revolução educacional, que a nossa</p><p>mídia. Seria aceitável e até meritória sua crítica, se apresentassem um corpo</p><p>de alternativas, se indicassem que este não é um bom caminho, porque o</p><p>bom caminho seria outro, que se estaria prescrevendo. Mas não é assim.</p><p>Simplesmente se rejeita, o que só se explica por estarem contentes com o</p><p>Brasil tal qual é, e em matéria de educação, só quererem nos manter atados</p><p>ao sistema educacional precaríssimo que temos e que condena nosso povo à</p><p>ignorância e ao atraso.</p><p>O fato incontestável e altamente vergonhoso é que nós, brasileiros, fomos</p><p>ineptos, até agora, para a tarefa basilar de criar uma simples escola pública</p><p>fundamental capacitada para a singela tarefa de alfabetizar nossas crianças.</p><p>Essa carência só se explica, creio eu, pela natureza mesma de nossa</p><p>sociedade, cuja característica distintiva é a desigualdade. Se no campo das</p><p>relações inter-raciais há, entre nós, certa fluidez, graças à ideologia e à</p><p>prática da mestiçagem, no campo das diferenças de classes as oposições e</p><p>os antagonismos são infranqueáveis. O descaso mais vil e o desinteresse</p><p>mais crasso pelo destino dos pobres é traço autêntico do caráter nacional</p><p>brasileiro.</p><p>Esta é, penso eu, uma herança hedionda da escravidão, que tanto condena</p><p>o escravo a lutar pela liberdade, como condena o senhor a aferrar-se à</p><p>escravidão. Uma classe dominante de descendentes de senhores de escravos</p><p>que fizeram de nós a última nação do mundo a abolir a escravidão – e foi</p><p>também a responsável pelo ato de liberarmos os escravos tão só para lançá-</p><p>los ao abandono – é a legítima ancestralidade daqueles que, hoje, acham</p><p>prematuro levar a sério as tarefas da educação popular e destinar a ela os</p><p>recursos mínimos indispensáveis para bem cumpri-las.</p><p>Só por essa herança se explica a atitude das nossas classes dominantes</p><p>para com o povo brasileiro, ontem escravo, hoje simplesmente pobre, mas</p><p>visto sempre como uma coisa reles. Indiferença se faz mais que a</p><p>impotência, diante de suas moradias precaríssimas, de seu regime alimentar</p><p>de fome crônica, de arraigado desemprego são similares ao descaso pela</p><p>nossa indigência educacional. Entretanto, um mínimo de lucidez faria ver</p><p>que a integração do povo brasileiro na civilização letrada em que estamos</p><p>imersos, mas de que a maioria dos brasileiros se vê marginalizada pelo</p><p>analfabetismo, é requisito indispensável para que saiamos um dia da</p><p>condição de povo atrasado, de nação amesquinhada.</p><p>Nenhum país do mundo conseguiu integrar-se na civilização industrial,</p><p>sem alçar, previamente, todo o seu povo ao domínio instrumental da leitura.</p><p>E já estamos diante de uma nova civilização, muitíssimo mais exigente</p><p>quanto aos níveis de escolaridade necessários para que uma sociedade dela</p><p>participe autonomamente dominando o saber e a tecnologia em que ela se</p><p>funda. Como ignorar, nessas circunstâncias, que estamos desafiados a</p><p>realizar um imenso esforço para sair da condição de atraso educacional em</p><p>que afundamos? Como negar que isso põe em risco a própria soberania</p><p>nacional?</p><p>A revolução industrial, que criou a civilização ainda vigente, reformou</p><p>todo o mundo, inclusive o quadro das nações, inclusive a nós mesmos,</p><p>como nação. A Revolução Científica e a civilização que dela vai emergindo</p><p>tendem a exercer o mesmo papel. Postos em cima do imenso e cobiçado</p><p>patrimônio natural nacional que herdamos de nossos maiores, desarmados</p><p>intelectual e tecnicamente para explorá-lo, corremos o risco de perdê-lo.</p><p>Senhor presidente, senhores senadores, tratamos até aqui, principalmente,</p><p>do Ensino Fundamental. Diferente, acaso, a situação do Ensino Médio e do</p><p>Ensino Superior? Não, senhores senadores, é perfeitamente correspondente.</p><p>Ambos também estão em estado de calamidade. O Ensino Médio, reduzido</p><p>a três anos de estudo nominalmente profissionalizantes, deteriorou de modo</p><p>grave todo o sistema educacional brasileiro. Por um lado, nos fez perder os</p><p>níveis de eficácia que havíamos alcançado na formação do magistério, o</p><p>que resultou numa decadência visível da escola de primeiro grau. Por outro</p><p>lado, manda às escolas de nível superior uma juventude cada vez mais</p><p>despreparada, não só quanto à formação científica pré-universitária, mas até</p><p>no simples domínio instrumental da língua vernácula.</p><p>Não menos grave é a situação do Ensino Superior. Costumo dizer que, na</p><p>maioria das nossas faculdades, o professor simula ensinar e o estudante faz</p><p>de conta que aprende. Assim é efetivamente. Qualquer curso estrangeiro,</p><p>por correspondência, é melhor que aquele que se dá em algumas escolas</p><p>particulares brasileiras. Naqueles cursos, não só se proporcionam ao aluno</p><p>os materiais necessários para estudar, mas se cobra dele o aprendizado, por</p><p>meio de exames de verificação. Em muitas de nossas escolas se estabeleceu</p><p>uma prática de conivência em que pouco ou nada se ensina e nada se cobra</p><p>do aluno, como prova de aprendizado.</p><p>Nas últimas décadas, a matrícula de nível superior se multiplicou no</p><p>Brasil por mais de dez. Mas o crescimento não ocorreu onde devia, nem</p><p>como devia. Isto porque não se deu nas universidades em que havia</p><p>disponibilidade de professores competentes e boas condições de ensino e de</p><p>pesquisa. Nem ocorreu</p><p>nos campos onde a formação de profissionais de</p><p>nível superior era mais requerida. O que se multiplicou foi a malha de</p><p>escolas privadas e pagas, muitíssimas delas noturnas, em que o ensino é,</p><p>antes, matéria de traficância lucrativa que forma de transmissão do saber.</p><p>Não conheço nenhum país do mundo – e veja que tenho estado muito</p><p>atento para isso, mundo afora – em que a falsificação do Ensino Superior</p><p>tenha descido a níveis tão baixos como ocorre entre nós. É preciso dizer</p><p>aqui que também as universidades públicas brasileiras não cresceram como</p><p>deviam, seja na proporção do numeroso magistério com que contam,</p><p>frequentemente maior que o das grandes universidades do mundo, sem ter</p><p>nem longinquamente a produtividade científica e a eficácia educativa que</p><p>elas alcançam. Não cresceu, também, na extensão de seus campi, tão</p><p>frequentemente faraônicos. Menos, ainda, na utilização dos recursos de</p><p>custeio da pesquisa científica e de cultivo do saber que acumularam.</p><p>Atreladas a um sistema tubular de carreiras rígidas, que dão direito a</p><p>diplomas com regalias profissionais, nossas escolas superiores operam</p><p>como se devêssemos ter, um dia, currículos mínimos para todas as mil</p><p>modalidades de trabalho de nível superior, indispensáveis operativamente</p><p>numa sociedade moderna.</p><p>Senhor presidente, senhores senadores, o resultado de nossos esforços é</p><p>este projeto de lei, simples e funcional, que agora apresento, e que</p><p>estabelece as bases e os fundamentos da ação que nos permitirão realizar,</p><p>no Capítulo da Educação, as ambições inscritas na Constituição. Nossa</p><p>preocupação é:</p><p>• estabelecer diretrizes e bases para a criação de uma escola fundamental,</p><p>ajustada às condições da infância brasileira e capacitada a prepará-la para a</p><p>cidadania, para o trabalho e para a solidariedade;</p><p>• criar uma escola média capaz de formar contingentes de trabalhadores</p><p>capacitados a operar com as tecnologias novas que se aplicam a todos os</p><p>campos de serviços e de produção; e, ainda,</p><p>• instituir as bases de uma escola de nível superior capacitada a dominar,</p><p>cultivar e transmitir o saber erudito, sobretudo o científico e tecnológico,</p><p>para formar os corpos de profissionais competentes de que não pode</p><p>prescindir a sociedade moderna.</p><p>Em lugar de reiterar o sistema escolar que temos, mero resíduo do seu</p><p>próprio funcionamento, que não corresponde a nenhum corpo de ideais</p><p>educativos, propomos um sistema novo, assentado na nossa história, tirando</p><p>dela tudo o que fez de meritório no passado, mas voltado essencialmente</p><p>para o futuro, com o objetivo de superar nossas deficiências para capacitar o</p><p>Brasil a interagir com outros povos na construção da civilização presente e</p><p>futura.</p><p>Senhor presidente, senhores senadores, quero começar a exposição das</p><p>diretrizes e bases aqui propostas, com algumas palavras do meu mestre</p><p>Anísio Teixeira:</p><p>A legislação sobre educação deverá ter as características de uma legislação sobre a</p><p>agricultura, a indústria, o tratamento da saúde etc., isto é, uma legislação que fixe condições</p><p>para sua estimulação e difusão e indique mesmo processos recomendáveis, mas não</p><p>pretenda defini-los, pois a educação, como o cultivo da terra, as técnicas da indústria, os</p><p>meios de cuidar da saúde não são assuntos de lei, mas de experiência e da ciência.</p><p>Assim é a lei que propomos, uma espécie de constituição que estabeleça</p><p>os princípios gerais que regerão a reedificação educacional do Brasil,</p><p>principalmente de seu alicerce, que é a escola pública fundamental,</p><p>formadora da cidadania e da força de trabalho. Uma escola que,</p><p>progressivamente, passe a funcionar em regime de tempo integral para os</p><p>alunos e para os professores, a fim de dar ao Brasil condições efetivas de</p><p>ingresso na futura civilização, como um povo dono de si mesmo,</p><p>progressista e próspero.</p><p>Na esfera da Educação Infantil, em lugar de expressar meros desejos de</p><p>ampliação fictícia do atendimento, a níveis que nenhuma nação alcançou,</p><p>propomos diversas linhas de ação pré-escolar, que possibilitem atender, em</p><p>prazo previsível, a todas as crianças em suas carências fundamentais de</p><p>saúde e de nutrição.</p><p>No campo do Ensino Fundamental, propomos uma escola de cinco séries,</p><p>com ano letivo de duzentos dias e um mínimo de oitocentas horas. Uma</p><p>escola de caráter terminal, no sentido de constituir aquela preparação básica</p><p>de toda a população para a cidadania responsável, para o trabalho e para o</p><p>pleno desenvolvimento da personalidade. Estabelece, ainda, a meta da</p><p>escolarização progressiva em tempo integral, para dar aos alunos das</p><p>camadas carentes as condições espaciais e diferenças, quanto ao universo</p><p>letrado, com que chegam à escola, já que tiveram menos convivência com</p><p>as formas da língua escrita, para si mesmo e todo o Brasil.</p><p>O que propomos, na verdade, não é mais a escola de educação comum</p><p>para todos os cidadãos – que a Revolução Francesa pregou e a Revolução</p><p>Norte-Americana concretizou e que constitui, nas sábias palavras de Anísio</p><p>Teixeira, “a maior das invenções humanas” – mas a escola universal, que</p><p>várias constituições brasileiras reclamaram, reiteradamente, mas que nunca</p><p>conseguimos concretizar. Uma escola prática e eficiente, que não é</p><p>preparatória a estudos posteriores, porque tem um fim em si mesma, que é</p><p>dar a todos o domínio básico da leitura e do cálculo, a capacidade de</p><p>continuar aprendendo, promover o desenvolvimento da inteligência, a</p><p>formação do caráter e a preparação para viver solidariamente. A</p><p>generalização desses atributos a todos os brasileiros de amanhã é direito do</p><p>cidadão e necessidade da pátria. Democracia, hoje, no Brasil, significa,</p><p>fundamentalmente, equidade no campo da educação, que é a chave da vida</p><p>social e política e do trabalho. Quem lê vai adiante. O analfabeto já começa</p><p>a vida fracassado.</p><p>Costumo dizer que o líder do PT, Lula, por saber ler, escrever e contar,</p><p>quase chegou à Presidência da República, e teria sido, talvez, um bom</p><p>presidente. Se não soubesse ler, teria ficado varrendo a porta da fábrica, tal</p><p>é o valor do Ensino Fundamental, que é a tarefa da escola fundamental.</p><p>A erradicação do analfabetismo será enfrentada por meio de duas linhas</p><p>principais de ação. A matrícula de todas as crianças de 7 anos de idade em</p><p>boas escolas e a abertura de cursos noturnos de recuperação educativa para</p><p>jovens de 14 a 18 anos. Funcionando no curso da Década da Educação, que</p><p>passará a contar-se a partir da promulgação da Lei de Diretrizes e Bases,</p><p>essas duas linhas acabarão com a produção de novos analfabetos, que é a</p><p>única forma de proscrever o analfabetismo.</p><p>Enquanto continuarmos produzindo crianças e jovens analfabetos, não</p><p>adianta ficarmos caçando velhinhos para alfabetizar.</p><p>Simultaneamente, busca-se apoiar toda e qualquer iniciativa da sociedade</p><p>civil voltada para ampliar a escolarização e assistir a infância carente que se</p><p>multiplica em nossas cidades.</p><p>A nova lei abre, também, aos sistemas estaduais de educação, a</p><p>perspectiva de adotar a progressão contínua, impropriamente chamada de</p><p>promoção automática. O que se faculta é deixar que o aluno passe da 1ª</p><p>para a 2ª e até para a 3ª série, ainda se alfabetizando, para que ele possa</p><p>aproveitar todo o ensino oral e visual daquelas séries. Essa progressão</p><p>significa, em essência, que ele não fica repetindo o mesmo tipo de</p><p>aprendizado sempre na mesma 1ª série, enquanto vê outras crianças se</p><p>adiantarem. Significa também que ele vai receber mais atenção à sua</p><p>alfabetização no segundo ano de repetência e tripla atenção no terceiro,</p><p>porque apresenta problemas que devem ser atendidos especificamente.</p><p>A progressão contínua não é também a proscrição dos exames. Continua-</p><p>se a aplicar provas aos alunos, mas essas não são feitas para reprová-los ou</p><p>puni-los, em ritos de rejeição, e, sim, para avaliar a qualidade do trabalho</p><p>geral da escola e a eficiência de cada professor, em particular. Assim</p><p>também é a avaliação externa, indispensável ao aprimoramento de qualquer</p><p>sistema de ensino.</p><p>Nesse momento, o presidente dos Estados Unidos determinou a aplicação,</p><p>em todo o sistema escolar de primeiro e segundo graus dos Estados</p><p>Unidos,</p><p>de uma prova de estado. Isso parece uma violência, sobretudo num país</p><p>federativo em que os estados são tão ciosos da sua independência, mas o</p><p>presidente George Bush considerou indispensável aplicar essa medida</p><p>violenta como única forma de poder competir com o adiantamento muito</p><p>maior do ensino no Japão e na Alemanha. Se isso é problema para os</p><p>Estados Unidos, para poderem exercer-se plenamente na futura civilização,</p><p>para nós o é em escala mutíssimo maior e muitíssimo mais grave.</p><p>Prevê-se também nesse projeto de lei a generalização da escola de tempo</p><p>integral para alunos e para professores, coisa que Anísio Teixeira vem</p><p>pedindo desde 1950, seja na forma da dupla escola-parque × escola-classe,</p><p>seja na forma de centros integrados, mesmo porque só eles solucionam</p><p>realmente o problema crucial da criança abandonada: o que é ela senão uma</p><p>criança desescolarizada? Na periferia e nas favelas de nossas metrópoles,</p><p>somam milhões os meninos ou meninas condenados à vadiagem, ou à</p><p>delinquência, porque não têm para onde ir, antes ou depois do estreito</p><p>horário de aulas, enquanto frequentam a escola e, sobretudo, depois que são</p><p>por ela rejeitados.</p><p>A verdadeira escola brasileira para milhões de brasileiros é a escola da</p><p>rua, é a escola do lixo, é a escola do abandono, é a escola da criminalidade.</p><p>Elas têm de ser substituídas pela única escola que funciona para o povo: a</p><p>escola de tempo integral. Essas crianças pobres, senhores senadores, são o</p><p>povo brasileiro em renovação. O que fizemos delas, faremos ao Brasil de</p><p>amanhã. Todo o mundo civilizado enfrentou esse problema, a seu tempo,</p><p>criando a única escola concebível para as metrópoles, que é a de tempo</p><p>completo e de atenção integral à criança carente. É essa mesma escola que o</p><p>governo do Rio de Janeiro e, ultimamente, o governo da União estão</p><p>começando a implantar e que precisamos levar adiante. Assim é porque o</p><p>resultado de sua multiplicação será o florescimento de uma civilização</p><p>brasileira; assim como o seu abandono, ou a sua postergação, condenará</p><p>nosso povo à ignorância e a nação ao atraso e à penúria.</p><p>A escola de nível médio se reestrutura em ginásios de cinco anos,</p><p>igualmente terminais, no sentido de dar formação de cultura geral e</p><p>profissional, de preparação para a vida social e para o trabalho. Embora</p><p>funcione, ocasionalmente, como ensino prévio aos cursos preparatórios de</p><p>um ou dois anos, para ingresso no nível superior, a educação nos novos</p><p>ginásios tem como objetivo a capacitação de nível médio para a</p><p>compreensão do mundo, para o aprendizado contínuo e para o</p><p>aprimoramento do educando.</p><p>Senhor presidente, senhores senadores, esta forma de estruturação das</p><p>instituições básicas do Ensino Fundamental e do Ensino Médio resolvem os</p><p>graves problemas criados pela lei que instituiu o atual Ensino Fundamental</p><p>de oito séries. Dentre eles, o da mistura de adolescentes com crianças e o da</p><p>formação do magistério, que se tornou inexequível para o Ensino</p><p>Fundamental e Médio. Assegura ainda, ao grosso da população, a</p><p>possibilidade concreta de terminar o ensino do primeiro grau seja para</p><p>empresas, seja para as famílias mais pobres.</p><p>O ensino técnico também se renova, sobretudo pela faculdade de que as</p><p>escolas especializadas nesse campo se liberem das funções do ensino</p><p>acadêmico, para que possam abrir-se a todo o alunado da vizinhança.</p><p>Amplia-se, assim, a oferta de formação técnica e supera-se a subutilização</p><p>de recursos de ensino concentrados naqueles estabelecimentos.</p><p>No Ensino Superior, volta-se a dar a indispensável precedência aos</p><p>professores na eleição dos reitores e decanos. Possibilita-se a criação de</p><p>universidades especializadas por áreas (saúde, ciências agrárias,</p><p>engenharias etc.). Fixam-se também bases para o cumprimento da</p><p>obrigação constitucional de concurso para o exercício do magistério</p><p>superior. Estatuem-se as medidas inadiáveis para dar maior eficácia ao</p><p>trabalho docente e para elevar o padrão de qualidade das universidades e</p><p>demais instituições de Ensino Superior.</p><p>A inovação principal, porém, a inovação fundamental, é a criação de</p><p>cursos de sequência que abrirão à universidade a possibilidade de formar as</p><p>centenas de profissionais que o mundo moderno requer, livrando-se do</p><p>sistema tubular dos cursos curriculares.</p><p>Presentemente, a universidade funciona como uma série de tubos. O aluno</p><p>que entra pelo tubo odontológico sai ejetado dentista e o que entra pelo tubo</p><p>do Direito sai ejetado advogado. E nenhum aluno tem, de fato, convivência,</p><p>coexistência com outro. O que se formam são quarenta e tantas profissões</p><p>prescritas pelo Conselho Federal de Educação. Na realidade, no mundo</p><p>moderno, as universidades de todo o mundo formam milhares de</p><p>especialistas, porque, sendo universidades abertas, o aluno compõe o seu</p><p>próprio currículo. Essa adoção do ensino por sequência seria o grande passo</p><p>à frente da universidade brasileira.</p><p>A formação do magistério para os cursos fundamental e médio se eleva</p><p>por igual ao nível superior; nada mais absurdo do que continuarmos a</p><p>formar as nossas professoras no nível médio, sobretudo nas escolas médias</p><p>de três anos e em cursos noturnos absolutamente incapazes de criar o</p><p>magistério de que o país necessita. Para isso, propomos a criação de</p><p>institutos superiores de educação que deem um caráter de treinamento em</p><p>serviço à formação do magistério, para que a educação deixe de ser uma</p><p>prática teórica, puramente verbal, para ser a prática teórica assentada no</p><p>treinamento em serviço.</p><p>Senhor presidente, senhores senadores, o desafio que a História põe diante</p><p>de nós é fazer face a esses problemas, graves problemas, da educação</p><p>brasileira, porque de sua solução depende, efetivamente, o destino nacional.</p><p>O que prevalece em todos os níveis de nosso sistema educacional é a</p><p>insuficiência e a incompetência. Seu funcionamento rotineiro, ao longo de</p><p>décadas, acumulou toda a sorte de servidões, de privilégios e de defeitos</p><p>que precisam ser proscritos e sanados, para que a nação brasileira se prepare</p><p>para enfrentar seu destino na futura civilização, sem estar previamente</p><p>derrotada por precariedades essenciais.</p><p>Permitam-me reiterar que tais carências não são oriundas de deficiências</p><p>de nossos recursos naturais, sabidamente portentosos. Estas carências não</p><p>são também de nosso povo, tão dotado de talentos como todos os outros</p><p>povos. São carências de nossa classe dominante, daquela que integramos,</p><p>desde sempre medíocre e infiel ao povo e à nação. Somos nós, os letrados</p><p>do país da ignorância, os abastados do país da penúria, que desvalorizamos</p><p>e inferiorizamos de mil modos o nosso povo. Inclusive, e até</p><p>principalmente, ao condená-lo ao analfabetismo e ao atraso, pela</p><p>manutenção de um sistema de ensino pretensioso, demagógico e</p><p>escandalosamente ineficaz.</p><p>É chegada a hora de fazer face a esse desafio, pelo caminho que cabe a</p><p>nós, legisladores – o da elaboração de uma Lei de Diretrizes e Bases da</p><p>Educação Nacional:</p><p>• que desate as peias que atam o magistério para o correto exercício de sua</p><p>alta função;</p><p>• que renove a rede escolar pública e libere a rede privada para que cada</p><p>uma delas realize suas potencialidades;</p><p>• que ponha em funcionamento a serviço de nosso povo, especialmente</p><p>das camadas mais carentes, esse imenso aparato que é o sistema</p><p>educacional brasileiro, que envolve na condição de alunos e professores</p><p>dezenas de milhões de pessoas, mas que é escandalosamente ineficaz;</p><p>• que force cada trabalhador da educação a poupar os escassos recursos</p><p>disponíveis para custear a imensidade de nossa tarefa educacional;</p><p>• que faça render o imenso patrimônio posto em mãos dos educadores, a</p><p>fim de que alcancem a eficácia que a civilização presente e, muito mais, a</p><p>futura, requerem de um sistema educacional.</p><p>Essa é a lei que proponho ao Senado da República, ao Congresso</p><p>Nacional. Ela quer retomar, sintetizar e compendiar o imenso esforço da</p><p>Câmara dos Deputados, realizado com larga audiência a todos os setores de</p><p>opinião, para instituir uma ordem educacional capaz de aprimorar-se e de</p><p>crescer. Também nos beneficiamos da preciosa colaboração</p><p>de dezenas de</p><p>educadores que, como eu, reclamam há décadas por uma lei da educação</p><p>que libere nossas energias para uma ação educativa mais lúcida, eficaz e</p><p>eficiente.</p><p>Nos socorremos, muito utilmente, também, da Assessoria do Senado,</p><p>especialmente na pessoa dos professores Cândido Alberto Gomes e Maria</p><p>do Céu Jurema. Também nos ajudaram as coordenadorias pedagógicas que</p><p>conduzem a implantação do sistema dos CIEPs no Rio de Janeiro,</p><p>especialmente o professor Jorge Ferreira, que fez um estudo acurado do</p><p>projeto de lei. De especial valia nos foi o assessoramento da equipe do</p><p>Ministério da Educação, José Goldemberg – particularmente minha colega</p><p>Eunice Ribeiro –, que examinou comigo, criteriosamente, artigo por artigo,</p><p>até definir a forma em que o texto se apresenta agora.</p><p>Durante todo o trabalho de elaboração deste projeto, trocamos ideias com</p><p>o eminente senador da Educação, João Calmon, aprendendo muito com ele,</p><p>e temos a esperança de que ele venha a firmar o projeto conosco.</p><p>Permitam-me, finalmente, dizer a esta Casa da honra que me dão ao</p><p>assinarem este projeto comigo o ex-ministro da Educação, senador Marco</p><p>Maciel, e o líder do meu partido, senador Maurício Corrêa.</p><p>Apartes:</p><p>Senhor Fernando Henrique Cardoso:</p><p>Sabe Vossa Excelência não só a admiração pessoal que tenho pelo seu</p><p>trabalho, como particularmente o interesse que me desperta a apresentação</p><p>dessa Lei de Diretrizes e Bases. Só não o assinei, e fui convidado por Vossa</p><p>Excelência, porque espero ter a honra de poder ser o relator da matéria na</p><p>Comissão de Educação no Senado.</p><p>Mas queria dizer que estou convencido, como Vossa Excelência, de que,</p><p>ou enfrentamos de uma forma corajosa, não corporativa, mas prestando</p><p>atenção aos reais interesses dos professores à questão da educação, ou de</p><p>fato não haverá modernização possível. Todo mundo sabe disso. O caminho</p><p>está há muito tempo traçado. Vossa Excelência citou Anísio Teixeira.</p><p>Poderia acrescentar tantos outros nomes que foram nossos professores</p><p>como Fernando Azevedo, Lourenço Filho; gerações anteriores à nossa já</p><p>discutiam o assunto. É o momento de atuarmos! Para minha surpresa,</p><p>verificando recentemente algumas estatísticas sociais, me dei conta que a</p><p>chamada década perdida de 80 foi perdida, não assim em todos os aspectos</p><p>sociais, inclusive na educação, onde houve certo progresso. Progresso de</p><p>quê? No número de matrículas e no tempo de permanência na escola. Isso</p><p>me surpreendeu, porque no momento em que tudo desaba, houve algum</p><p>esforço produtivo, que se manteve, graças – é uma hipótese – ao fato de que</p><p>vivemos num regime aberto democrático, em que há pressão das massas.</p><p>Bem ou mal, a educação tem de ser tomada em consideração por aqueles</p><p>que disputam o voto, por aqueles que querem ter a benesse popular. Se isso</p><p>foi assim numa década tão difícil quanto a de 80, por que não há de ser, de</p><p>uma forma mais correta e com muito maior êxito, na década de 90, se</p><p>tomarmos as medidas necessárias e, sobretudo, se além disso dotarmos o</p><p>orçamento, não apenas em recursos nominais, que vão ser contingenciados</p><p>depois, mas recursos efetivos, que fluam e que cheguem ao consumidor</p><p>final, que é o aluno? Acredito que há todas as condições para isso. O Brasil</p><p>está convivendo com a miséria social, a física e a cultural – como Vossa</p><p>Excelência descreve – porque quer. Hoje, já temos condições de dar um</p><p>salto, e só não o daremos se as classes dominantes, às quais pertencemos,</p><p>continuarem cegas, como têm sido até hoje. Folgo ver que pelo menos</p><p>setores dela tenham alguma luz. Espero que o Senado acolha o projeto de</p><p>Vossa Excelência, discuta-o, na medida do possível que ele seja enriquecido</p><p>ainda mais, com a colaboração dos demais senadores, e que isso permita um</p><p>ponto de partida que tenha sustentação também na Câmara. Como diz Vossa</p><p>Excelência, esse não é um trabalho que começa hoje, vem de longe, e o</p><p>esforço feito na Câmara não foi perdido, está recuperado, tenho certeza, no</p><p>texto que Vossa Excelência traz ao Senado. Portanto, queria deixar desde já</p><p>essas palavras de saudação, porque acredito que, hoje, a questão central é a</p><p>educação.</p><p>Senhor Darcy Ribeiro:</p><p>Muito obrigado, senador Fernando Henrique Cardoso.</p><p>Tenho um convívio íntimo com a Lei de Diretrizes e Bases. Trabalhava</p><p>com Anísio Teixeira quando tivemos toda aquela luta por uma melhor Lei</p><p>de Diretrizes e Bases, na década de 50. Ocasionalmente, era ministro da</p><p>Educação; quando a lei em 1961 foi promulgada, preparei as razões de veto</p><p>e as coloquei em execução.</p><p>Criei o primeiro Conselho Federal de Educação; formulei o primeiro</p><p>Programa Nacional de Educação e criei os primeiros três fundos.</p><p>Tive a felicidade de ser o único ministro que pôde gastar 11,4% do</p><p>orçamento da União, porque, depois, o índice baixou, chegando a 4,5%,</p><p>porque minguaram-se as verbas dadas à educação.</p><p>Folgo em ver que o senador Fernando Henrique Cardoso percebeu muito</p><p>bem que este meu projeto retoma as ideias de Anísio Teixeira, de Lourenço</p><p>e de tantos educadores. Isso não é nenhuma novidade.</p><p>Senhores senadores, há cinquenta anos lutamos por isso. Não há</p><p>novidade. Muitas pessoas vão pensar que o Anísio Teixeira e eu inventamos</p><p>os CIEPs.</p><p>Os CIEPs são escolas comuns do mundo civilizado. Em nenhum lugar há</p><p>escolas de dois turnos. Trata-se de uma escola do mundo civilizado que</p><p>temos de fazer aqui no Brasil. Só seria possível a ela se opor, se alguém</p><p>fosse capaz de inventar outra coisa melhor e que ninguém ainda inventou.</p><p>Alegra-me muito em ver que o senador Fernando Henrique Cardoso</p><p>assinalou essa continuidade. Não estou trazendo nenhuma novidade. Como</p><p>senador, tenho o privilégio de ser porta-voz dos meus companheiros</p><p>educadores que, há cinquenta anos, pregam no deserto. Certa vez, consegui</p><p>ser ouvido e fazer ouvidos os educadores, porque, por acaso, um homem de</p><p>Estado, Leonel Brizola, educou seus filhos no Uruguai, onde só há CIEP.</p><p>As crianças entram às 8 horas da manhã e saem às 16 horas. Então para</p><p>Leonel Brizola é natural criar um CIEP, porque é uma escola do mundo</p><p>civilizado.</p><p>Quando ele foi ao Japão estudar, porque aquele país deu certo, logo</p><p>percebeu o sucesso do Japão, porque a escola lá é de tempo integral. Por</p><p>isso, Leonel Brizola é susceptível a isso. É um dos milagres que espero se</p><p>cumpra, espero que se realize e ponho nisso todo o meu coração. E uma das</p><p>coisas mais lindas foi ouvir um presidente da República tomar esse</p><p>programa e dizer que, aos quinhentos CIEPs, Sua Excelência responderia</p><p>com 5 mil CIACs, o que me dá muita alegria.</p><p>Senhor Eduardo Suplicy:</p><p>Prezado senador Darcy Ribeiro, em primeiro lugar, desejo cumprimentar</p><p>Vossa Excelência por ter realizado um esforço de reflexão sobre a Lei de</p><p>Diretrizes e Bases da Educação e por estar trazendo um novo projeto. Eu</p><p>até gostaria de formular algumas questões a Vossa Excelência. Sabemos</p><p>todos que na Câmara dos Deputados há dois anos se faz um debate sobre</p><p>um projeto de lei de diretrizes e bases que levou em conta uma consulta</p><p>feita a praticamente todos os segmentos, seja de professores, seja de</p><p>servidores ligados à educação, enfim, toda a comunidade que lida com a</p><p>educação, para uma avaliação crítica sobre esse projeto, inclusive por parte</p><p>do ministro José Goldemberg. Quando ele chegou a uma das comissões,</p><p>recebeu um substitutivo de um deputado federal que, na opinião de muitos,</p><p>distorce bastante o projeto: ora, ele atende, na sua forma original, a muitos</p><p>segmentos dos que trabalham na educação, ora ele sofre distorções com</p><p>vistas aos interesses, por exemplo, de proprietários de instituições privadas</p><p>de ensino, como também sofreu considerações críticas do ministro da</p><p>Educação. Mas agora Vossa Excelência traz um novo projeto. Não o</p><p>conheço no seu detalhamento. A primeira questão que faço a Vossa</p><p>Excelência é: Vossa Excelência poderia sintetizar quais são as principais</p><p>diferenças entre aquele que tem um acúmulo de reflexão na Câmara dos</p><p>Deputados e com a comunidade dos diversos institutos de educação do país,</p><p>e o que Vossa Excelência ora apresenta? Se puder sintetizar um parelelo</p><p>entre ambos, agradeço. Em segundo lugar, Vossa</p><p>Excelência ressaltou a</p><p>importância da educação básica com um período completo ou integral e a</p><p>importância do CIEP ou CIAC. Conhece bem Vossa Excelência que uma</p><p>das avaliações que têm sido feitas é que não é importante apenas o prédio</p><p>em que se ministra a educação, nem o tempo destinado à educação, o</p><p>método didático. Vossa Excelência realizou alguns debates, inclusive de</p><p>natureza pública, como, por exemplo, com a educadora Ester Grossi,</p><p>secretária de Educação do município de Porto Alegre. Diante da aceitação</p><p>por parte do governo Federal da ideia dos CIACs, a senhora Ester Grossi se</p><p>dispôs junto ao ministro José Goldemberg, mesmo sendo contrária aos</p><p>CIACs, a oferecer a sua orientação em relação à questão do processo</p><p>pedagógico. Gostaria de ouvir de Vossa Excelência uma avaliação crítica</p><p>desse aspecto e em que medida, pela sua experiência, tem proposto ao</p><p>governo federal o conteúdo do método didático que deve ser adotado nas</p><p>instituições de ensino básico. Formulo estas questões apenas para poder</p><p>aprender mais com o senhor Darcy Ribeiro – dada a sua experiência na área</p><p>da Educação.</p><p>Senhor Darcy Ribeiro:</p><p>Muito obrigado, nobre senador. Com muito gosto, atendo às suas</p><p>questões.</p><p>Em primeiro lugar, pode parecer estranho que se apresente um novo</p><p>projeto no Senado quando há um na Câmara. Eis as razões.</p><p>O Senado é uma Casa que tem todo o direito de iniciativa tal como a</p><p>Câmara dos Deputados, que está há vários anos discutindo essa lei sem</p><p>conseguir sair dela. A convicção que tenho é que se a lei que está na</p><p>Câmara dos Deputados fosse aprovada, seria uma desgraça para a educação</p><p>brasileira, porque ela não muda nada.</p><p>É incrível que depois de anos, dado o fato de pressões de grupos</p><p>corporativos e de como a discussão se processou, a Lei de Diretrizes e</p><p>Bases, que está na Câmara, mantenha o sistema educacional brasileiro tal</p><p>como ele está, o que é absurdo. Então, por que aprovar esse sistema que</p><p>produz mais analfabetos do que alfabetizados? Por que aprovar uma</p><p>universidade que faz de conta que ensina, e o aluno faz de conta que</p><p>aprende? Por que aprovar uma escola média de três anos, que é um desastre,</p><p>seja como preparação para a universidade, seja como preparação para o</p><p>trabalho? Ou seja, o estado da educação brasileira é de calamidade, e a lei</p><p>toma essa calamidade e a consolida.</p><p>A minha primeira tentativa, quando eleito senador, foi preparar 41</p><p>emendas e apresentá-las por intermédio do meu partido e por meio de</p><p>vários deputados que tinham interesse na educação durante a discussão na</p><p>Câmara; mas dessas 41 emendas, colocadas no roldão das 1.200 que foram</p><p>postas em discussão, duas ou três emendas, as mais inexpressivas, as que</p><p>não tinham uma importância maior foram aprovadas; as outras não.</p><p>O projeto da Câmara é reiterativo; é como se estivesse de acordo que a</p><p>universidade seja o que é, que o Ensino Médio seja o que é, que o primário</p><p>seja o que é.</p><p>Como os educadores responsáveis deste país, penso que é indispensável</p><p>levar a sério a educação, e não podemos continuar apoiando, tendo como lei</p><p>básica uma lei que reitera a administração anterior.</p><p>Então, essa é a razão que explica por que creio que o Senado tem de</p><p>chamar a si o problema. E se nós, do Senado, chegarmos a uma ideia</p><p>prática, simples, singela, não ambiciosa demais, mas ambiciosa no sentido</p><p>de renovar a educação, esse projeto aprovado aqui será oferecido à Câmara</p><p>dos Deputados – tal como teríamos de apreciar o deles, eles apreciarão o</p><p>nosso. Esse é o meu raciocínio.</p><p>Alguns senadores, amigos meus, disseram-me que não é usual, que os</p><p>deputados podem achar mal. Não creio que podem achar mal, pois muitas</p><p>vezes projetos nossos foram substituídos lá, e nós os examinamos depois</p><p>aqui. Podemos fazer a mesma coisa; creio que podemos fazer.</p><p>Essa é a minha razão, ou seja, não é nenhuma pretensão. Não quero levar</p><p>o Senado a uma aventura, quero, no Senado, com as luzes que os senadores</p><p>me possam dar e com a ajuda que tive, como o apoio que tive do senador</p><p>Marco Maciel, oferecer ao Brasil uma lei de educação simples, corajosa,</p><p>séria, severa e eficaz.</p><p>Quanto às questões específicas colocadas aqui pelo Sr. Eduardo Suplicy –</p><p>o método didático. Bem, nunca tratei com a Senhora Ester Grossi. Tratei</p><p>muito com o Paulo Freire, um grande educador do Brasil, também do PT. A</p><p>frase de Paulo Freire é esta: “Só o CIEP atende aos reclamos fundamentais</p><p>da educação, que são a dimensão tempo e a dimensão espaço”.</p><p>Sem a dimensão tempo, a criança que vem de classe popular fica umas</p><p>horas na escola e é mandada estudar em casa. Se ela não tem casa, isso é</p><p>um absurdo. A dimensão espaço: não se pode dar uma educação adequada</p><p>tomando a criança por oito horas dentro de uma sala de aula. Não só os</p><p>professores não suportariam essa criança, como também a criança não os</p><p>suportaria. É, então, indispensável um prédio maior, não por ser maior, mas</p><p>para ter aquele mínimo de espaço necessário.</p><p>Quando se visita escolas em todo o mundo – e costumo visitá-las – vê-se</p><p>que nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Dinamarca, as escolas oferecem</p><p>áreas maiores para que a criança ali cresça; são os jardins oferecidos à</p><p>infância.</p><p>A educação primária de cinco séries, o secundário de cinco séries não é</p><p>programado porque são necessárias cinco séries para que a criança aprenda</p><p>aquela matéria: não. Num curso de madureza ela poderia aprender em um</p><p>ano, mas é que ela leva cinco anos para crescer, a escola está cuidando da</p><p>criança enquanto ela cresce, cuidando do seu físico, cuidando da sua saúde,</p><p>atenta para aquilo que sua família não pode dar.</p><p>Temos uma escola incrivelmente absurda porque está adequada ao aluno</p><p>de classe média; mas o aluno, em 80%, não é de classe média. O aluno de</p><p>classe média, em grande parte, está pagando escola particular muito cara e</p><p>muito eficiente; os ricos têm escolas excelentes no Brasil. Quem tem escola</p><p>péssima é o povo, sobretudo um povo que se concentrou na metrópole; um</p><p>povo que veio de uma cultura rural. Um cidadão qualquer poderia ser</p><p>respeitado culturalmente como o lavrador analfabeto, mas, chegando à</p><p>cidade ele não incute nenhum respeito ao seu filho; na cultura da cidade,</p><p>vale o letrado, e quando a escolha está fechada, é um absurdo.</p><p>Esses são os aspectos. Os CIEPs, os CIACs são, simplesmente, escolas de</p><p>dia completo, escolas que oferecem à criança pobre aquilo a mais que é</p><p>necessário para que ela se desenvolva para si e para o Brasil.</p><p>Isso a mais é o quê? Comida. Foi dita uma frase muito infeliz uma vez, de</p><p>que a escola não é pensão. Isso é uma bobagem. O aluno francês come na</p><p>escola; o aluno norte-americano paga uns poucos cents e come; e deve</p><p>comer, se passa na escola a maior parte do dia. As escolas são de tempo</p><p>muito longo, não há escolas de dois turnos.</p><p>Quando um policial francês, japonês ou alemão encontra na rua uma</p><p>criança em idade escolar, pega a criança pelo braço, pergunta-lhe onde é a</p><p>sua escola e a leva para lá. Isso significa que há uma escola para a criança,</p><p>cada criança tem um lugar para ficar. A criança urbana não pode ser largada</p><p>como a criança no campo; ela deve ter uma escola onde tem de passar o dia.</p><p>O policial leva aquela criança para a escola e a apresenta à diretora. Na</p><p>terceira vez a diretora diz que não pode aceitá-la. Então, o policial leva a</p><p>criança para o juiz, e o pai tem de ir ao juiz explicar por que o filho está</p><p>batendo pernas.</p><p>A produção do menor abandonado, o assassínio de crianças é uma</p><p>situação terrível e vexatória para o Brasil. É o resultado de não termos sido</p><p>capazes, com a modernização acelerada, de criar a escola que correspondia</p><p>a ela. A tarefa é muito grande porque o Brasil – a América Latina em geral</p><p>– é o país em que a urbanização foi a mais acelerada do mundo. Temos</p><p>coisas teratológicas. São Paulo é quatro vezes maior do que Roma; o Rio de</p><p>Janeiro é três vezes maior do que Paris. Aquelas cidades nunca tiveram de</p><p>enfrentar o problema tremendo que a Grande São Paulo e o Grande Rio</p><p>estão enfrentando. Por não termos capacidade de reter a população no</p><p>campo, experimentamos essa avalancha, e, consequentemente, a escola</p><p>entrou em crise.</p><p>Mas a crise se deu, sobretudo, pelo fato de aceitarmos dar ao povo uma</p><p>escola de mentira. Fazemos de conta que é uma escola fundamental,</p><p>fazemos de conta que há uma universalização do ensino; que toda criança</p><p>tem o direito à escola. Mas não adianta ir se a escola o repele.</p><p>Essas são as questões que levam ao CIEP e ao CIAC, que não são</p><p>invenções nossas, que não são invenções minhas, é a escola de todo o</p><p>mundo civilizado.</p><p>O Senhor Mansueto de Lavor:</p><p>Em boa hora o senador Eduardo Suplicy fez Vossa Excelência retornar à</p><p>tribuna, pois o prolongamento desse debate enriquece por demais os</p><p>trabalhos deste Plenário na tarde de hoje. Quero saudar Vossa Excelência e</p><p>dizer da admiração que tenho pela sua trajetória no setor cultural,</p><p>pedagógico e político no Brasil. Achei muito interessante o depoimento do</p><p>livro do nosso eminente ex-colega, o senador Luiz Viana Filho, sobre</p><p>Anísio Teixeira. E Vossa Excelência é um dos personagens daquele livro</p><p>onde Luiz Viana Filho</p><p>26</p><p>diz que nos primeiros contatos que Anísio teve com</p><p>Vossa Excelência disse que não o queria na sua equipe, por ser Vossa</p><p>Excelência antropólogo, uma pessoa que está fora da realidade.</p><p>O Senhor Darcy Ribeiro:</p><p>A frase de Anísio é esta: “Só pode ser um imbecil. Trata de 0,02% da</p><p>população brasileira.”</p><p>O Senhor Mansueto de Lavor:</p><p>Apesar do receio do professor Anísio Teixeira, formou-se, desde então, a</p><p>maior dupla de serviços a cargo da cultura e da educação do país: Anísio</p><p>Teixeira e Darcy Ribeiro. As árvores se conhecem pelos frutos, e Vossa</p><p>Excelência tem trabalhos extraordinários no setor da educação. Tanto na</p><p>educação fundamental, com a concepção dos CIEPs, quanto na educação</p><p>superior, com a criação da UnB.</p><p>Por tudo isso, pela iniciativa de um novo projeto de Lei de Diretrizes e</p><p>Bases da Educação do país e pelo pronunciamento de hoje, congratulo-me</p><p>com Vossa Excelência com muita honra. Estamos aqui, como disse a</p><p>senadora Marluce Pinto, como seus colegas, ouvindo esse importante</p><p>pronunciamento. Entretanto, é preciso lembrar que, na realidade, o sucesso</p><p>de todo o projeto, qualquer que seja ele, principalmente da educação, é a</p><p>priorização dos recursos orçamentários para a área. Infelizmente, nesse</p><p>ponto nós não somos otimistas.</p><p>O que ocorreu? Vamos começar por cima, pela UnB. No ano passado</p><p>visitei, no mês de abril, o reitor, o professor Ibañez. Ele me informou que</p><p>até aquele mês ainda não havia sido repassado para a universidade um</p><p>centavo sequer do orçamento do ano passado. E ele está, se não me engano,</p><p>agora, no exterior, na Espanha, à cata de recursos para a universidade,</p><p>recursos que não lhe são concedidos aqui, pelo orçamento da República,</p><p>pelo próprio país. Não é que não se procure o intercâmbio, e até o apoio</p><p>financeiro, cultural, entre países, entre universidades, mas, realmente, ele</p><p>confessa, a Universidade de Brasília está sem recursos, está muito distante</p><p>daquela ideia que foi concebida por Vossa Excelência e aquela equipe de</p><p>professores e educadores; distanciou-se por uma série de razões, políticas,</p><p>regime de arbítrio etc., mas agora, neste momento, por falta de recursos.</p><p>Mas no que toca aos CIEPs e à educação fundamental, ao orçamento do</p><p>atual exercício, no ano passado foi preciso uma grita, porque, sequer, a</p><p>Constituição se cumpre na proposta orçamentária: a Constituição que</p><p>determina que, no mínimo, 18% dos recursos da União, 25% dos estados e</p><p>municípios sejam destinados à educação, 9% dos quais à educação</p><p>fundamental. É verdade que o governo destinou para o orçamento em</p><p>exercício, no ano passado, cerca de 1 bilhão de dólares para os CIEPs. Mas</p><p>veja, professor Darcy Ribeiro, destinou para as obras, para a construção,</p><p>não propriamente para o ensino, porque na proposta do governo não havia</p><p>um centavo sequer para a manutenção desse sistema fundamental de ensino,</p><p>cuja validade, ninguém pode discutir, é comprovada internacionalmente e</p><p>aqui no país, vem da ideia das escolas-parque de Anísio Teixeira,</p><p>continuada por Vossa Excelência na experiência dos CIEPs no primeiro</p><p>governo de Leonel Brizola, sendo Vossa Excelência secretário da Educação.</p><p>Então, é uma experiência comprovada, e o governo não destina recursos a</p><p>não ser para construções, e não para a manutenção. Onde é que estão os</p><p>professores, onde é que está a alimentação, onde estão os requisitos</p><p>pedagógicos? Então, professor Darcy Ribeiro, a nossa luta tem de estar</p><p>realmente de acordo com essa proposta de Vossa Excelência, mas ela só</p><p>pode se concretizar se recursos suficientes para a educação forem</p><p>assegurados por todos, e não contingenciados, como estão no presente</p><p>exercício. Parabenizo Vossa Excelência, congratulo-o, e a luta do Congresso</p><p>Nacional é em favor das teses que Vossa Excelência tem esposado, mas,</p><p>sobretudo, para se dar o suporte financeiro necessário à educação como</p><p>prioridade nacional.</p><p>O Senhor Darcy Ribeiro:</p><p>Muito obrigado, senador.</p><p>Posso dar alguns esclarecimentos a Vossa Excelência. Primeiro, tivemos</p><p>extremo cuidado em examinar a questão financeira. O Brasil está</p><p>destinando à educação o que pode destinar; 18% de verbas federais, 25% de</p><p>municipais, 25% de estaduais é o que se pode gastar.</p><p>Na lei, tomamos todo o cuidado para que isso se efetive, por um lado; e,</p><p>por outro, muito cuidado em definir o que é despesa com educação para não</p><p>colocar outras despesas como educação. Tomamos todo o cuidado para que</p><p>isso fosse feito.</p><p>Sobre esse aspecto, creio que a lei é um passo adiante, porque ela toma</p><p>conhecimento de que há muitos recursos, aqueles que o país pode dar, e que</p><p>eles, em grande parte, são jogados fora. Há muito desperdício em educação.</p><p>Então, tentamos tomar as medidas necessárias para que os responsáveis</p><p>pelas verbas da educação cuidem delas como recursos; que são muito</p><p>grandes, só são escassos em relação à dimensão tremenda da tarefa.</p><p>Quanto à questão dos CIACs, é verdade que o projeto original do governo</p><p>falava na construção; que se levaria todo um exercício financeiro</p><p>construindo, para que no outro houvesse recursos para a sua manutenção.</p><p>O governo federal continua com a ideia de que pode passar os CIACs para</p><p>a iniciativa privada ou para instituições particulares, várias, que queiram</p><p>cuidar deles.</p><p>Creio que, meio inevitavelmente, os estados têm de ter um papel nisso.</p><p>Estou propondo ao ministro da Educação, José Goldemberg, que ele assuma</p><p>as despesas de manutenção dos CIACs pelo menos no primeiro ano, para</p><p>que as prefeituras e a iniciativa privada se animem a ir adiante.</p><p>Nunca se pensou em CIEP ou CIAC como projeto de edificação. Neste</p><p>momento, no Rio de Janeiro, estamos montando um programa enorme para</p><p>formar 30 mil professoras dos CIEPs e dos CIACs. Pensamos ter</p><p>quinhentos CIEPs e 350 CIACs no Rio de Janeiro, que já estão em</p><p>construção. No fim deste ano, teremos, no Rio de Janeiro, 45 CIACs</p><p>funcionando.</p><p>Qualquer que seja a situação, nós os manteremos, porque é um grande</p><p>feito para o Rio de Janeiro receber essa construção federal. No estado do</p><p>Rio já sabemos cada terreno, em cada cidade, onde será colocado o CIAC, e</p><p>estamos fazendo a preparação do magistério.</p><p>A preparação do magistério é a iniciativa mais bonita que conheço nesse</p><p>campo. Vamos selecionar meninas recém-formadas em curso normal</p><p>noturno, de 17, 18 anos. Vamos apenas anotar que elas são normalistas.</p><p>Sabemos que elas não são competentes. Elas passarão a trabalhar quatro</p><p>horas com uma turma; cada cinco serão orientadas por uma professora</p><p>orientadora. Mas, sobretudo, passarão a ter um curso de madureza; passarão</p><p>uma hora por dia diante da televisão, tendo um curso de madureza, onde</p><p>vão aprender Português, Ciências, Geografia, Matemática, que é o que elas</p><p>não sabem, porque o curso médio é de péssima qualidade.</p><p>Esse programa federal será feito, em grande parte, por televisão e através</p><p>de satélites, irá fazer chover educação no Brasil, chover formação no</p><p>magistério.</p><p>É necessário fazer isso para o Rio de Janeiro, mas, feito no Rio de Janeiro</p><p>– há um convênio com o governo federal – será levado para o Brasil,</p><p>porque o grande problema dos CIEPs e dos CIACs</p><p>é o professor. Educação</p><p>é professor; sem um professor bem-preparado – e nós queremos um preparo</p><p>de dois anos – não há educação.</p><p>No Rio, fizemos um convênio com a UERJ, que é uma das universidades</p><p>do estado, e ela está implantando um curso normal superior por treinamento</p><p>de serviço. É a UERJ que admite as novas professoras, não como</p><p>professoras, como estagiárias, e por um período de dois anos, em que elas</p><p>são obrigadas a estudar, fazem exames nesse período, enquanto</p><p>professorandas, para depois fazerem concurso para serem professoras.</p><p>Nós estamos propondo que um programa desse tipo seja adotado pelos</p><p>CIAC; sem esse programa não tem sentido. Seria um absurdo que eu, que</p><p>tenho quarenta anos de educação, pensasse que educação é prédio. Não, nós</p><p>pensamos sempre que educação é professor, é material didático, é atenção, é</p><p>pedagogia.</p><p>Era o que tinha a dizer, senhor presidente.</p><p>Educação para a modernidade</p><p>27</p><p>Tenho um longo convívio com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação</p><p>Nacional. Começa na década de 50, quando ela foi um dos temas</p><p>fundamentais de debates políticos e ideológicos. Então, a inteligência</p><p>nacional se dividiu em duas correntes: a privatista, liderada por Carlos</p><p>Lacerda e Dom Hélder Câmara, e a de defesa à escola pública, em que a</p><p>maioria dos educadores era liderada por Anísio Teixeira, de quem fui ativo</p><p>colaborador. Coincide que, quando a lei foi promulgada, em 1961, eu era</p><p>ministro da Educação. Tive, assim, a oportunidade de elaborar as razões de</p><p>veto que melhoraram, tanto quanto possível, o sectarismo do projeto votado</p><p>pelo Congresso.</p><p>Dando cumprimento à Lei, elaborei o primeiro Plano Nacional de</p><p>Educação, pus em exercício o primeiro Conselho Federal de Educação e</p><p>instituí os três fundos de financiamento do Ensino Básico, Médio e</p><p>Superior. Me esforcei muito, então, para que a União destinasse ao custeio</p><p>da educação as taxas constitucionais, que a própria Lei havia elevado a</p><p>12%. Depois de 1964, jamais se aplicou a metade desta importância.</p><p>Grande parte da decadência notória da educação brasileira decorre deste</p><p>descaso da ditadura.</p><p>Desde aqueles idos, acompanho com a mais viva atenção, e até investido</p><p>de paixão, o desempenho da educação brasileira – tão malservida por tantos</p><p>governos. A ditadura militar não só lhe negou recursos como provocou em</p><p>diversos atos a deterioração dos três níveis de ensino. A agressão maior foi</p><p>a demagogia de instituir, com palavras, o Ensino Fundamental, básico,</p><p>universal e obrigatório de oito séries, sem nenhuma condição de concretizá-</p><p>lo.</p><p>Cinco séries de ensino básico é o que oferecem quase todos os países.</p><p>Cuba alcançou sete séries, através de um esforço sem paralelo, de formação</p><p>de pessoal docente em nível superior e de produção de material didático.</p><p>Para generalizarmos a 5ª série, um esforço equivalente tem de ser feito, uma</p><p>vez que menos de 5% das escolas a oferecem.</p><p>A leviandade de postular oito séries para superar Cuba é, na verdade, o</p><p>empecilho maior com que nos defrontamos para elevar o nível da educação</p><p>brasileira: embrulha a formação do magistério, obrigando a criar uma</p><p>licenciatura curta e a improvisar professores, sem qualquer formação;</p><p>mistura crianças com adolescentes, que exigem tratamento pedagógico</p><p>diferente. Degrada o Ensino Médio, reduzido a três séries nominalmente</p><p>profissionalizantes. Degrada, inclusive, a formação de professores, que hoje</p><p>se dá principalmente em cursos noturnos, de onde saem, sem qualquer</p><p>tirocínio, para o exercício do magistério. Este instrumento da ditadura só</p><p>não foi mais grave, porque não pegou. Os que argumentam que ele</p><p>representa uma conquista democrática devem abrir os olhos para ver que,</p><p>de fato, ele impede o alunado popular de completar o primeiro grau, ao</p><p>propor uma escalada inatingível para ele e para o sistema educacional.</p><p>Nos anos mais recentes, acompanhei os debates da Lei de Diretrizes e</p><p>Bases na Câmara dos Deputados. Vi, com alegria, o enorme esforço</p><p>realizado para se promover um amplo debate público sobre o tema.</p><p>Lamentavelmente, o resultado deste belo empreendimento participativo foi</p><p>um projeto de mera consolidação do sistema educacional imposto pela</p><p>ditadura. Consolida até os preconceitos mais viciosos da pedagogia</p><p>brasileira, como a ideia perversa de que o fracasso da criança pobre na</p><p>escola é culpa dela própria, de seu despreparo. Induz à expectativa de que o</p><p>sistema vigente seja autocorretivo e que por seu próprio funcionamento</p><p>acabaria por superar suas deficiências, o que é totalmente absurdo.</p><p>Além desse caráter reiterativo, o projeto peca por desdobrar-se</p><p>copiosamente na formulação de meros desejos, pagando-se em palavras,</p><p>sem nenhum compromisso com a realidade dramática de nosso sistema</p><p>educacional, que ele apenas congela.</p><p>Eleito para o Senado, meu primeiro trabalho parlamentar foi realizar um</p><p>cuidadoso estudo daquele projeto, de que resultou a elaboração de quarenta</p><p>emendas, oferecidas à Câmara dos Deputados. Nelas, ressalvando o que</p><p>parecia admissível do projeto, propusemos alterações substanciais para</p><p>evitar que ele apenas congelasse a realidade calamitosa do ensino brasileiro.</p><p>Em vão. Nossas emendas mal foram examinadas na afoiteza com que se</p><p>discutiu a matéria. Nessas circunstâncias, para não cruzar os braços em</p><p>matéria tão decisiva para o destino nacional e com a qual eu me sinto ligado</p><p>até biograficamente, examinei os caminhos que se abriram para uma ação</p><p>efetiva. Um deles era esperar que o projeto, aprovado na Câmara, chegasse</p><p>ao Senado para ali repropor aquelas quarenta emendas, que podiam, talvez,</p><p>conseguir algum avanço. O outro caminho era o de apresentar um projeto</p><p>totalmente novo que, refazendo toda a estrutura do sistema educacional</p><p>vigente, abrisse à educação brasileira caminhos de renovação e de</p><p>modernização.</p><p>Esta é a história do projeto que elaboramos com a colaboração de dezenas</p><p>de educadores. Havendo dedicado suas vidas às tarefas da educação, eles</p><p>podiam, mais do que ninguém, indicar as mais recomendáveis linhas de</p><p>ação renovadora. Contamos, também, com a preciosa colaboração dos</p><p>senadores Marco Maciel e Maurício Corrêa, que o subscreveram comigo.</p><p>Nosso projeto não encarna nenhum ideário avançadíssimo, nenhum</p><p>sectarismo doutrinário, nenhum pendor corporativo. É tão só aquela lei</p><p>substantiva, funcional e simples, que permitirá ao Brasil, afinal, começar a</p><p>realizar aqui aquilo que tantas nações, do mesmo grau de desenvolvimento,</p><p>alcançaram há muitas décadas, no campo da educação.</p><p>Não tendo progredido nosso projeto no Senado, a Câmara dos Deputados</p><p>se adiantou aprovando o projeto que lá corria. Ainda que tenha incorporado</p><p>algumas alterações que o melhoraram, o texto final permanece com o</p><p>caráter retrógrado que tinha. Assim é que mantém o Ensino Fundamental de</p><p>oito séries que não pegou e desarticulou a educação básica brasileira.</p><p>Congela também o Ensino Médio de três anos, obviamente insuficiente, e</p><p>mantém tal qual é o Ensino Superior mergulhado na crise em que se debate,</p><p>sem lhe abrir qualquer perspectiva de alteração.</p><p>Para fazer face à situação assim criada, o colégio de líderes da Câmara</p><p>dos Deputados acordou em recolher umas quantas emendas que seriam</p><p>introduzidas na lei como na discussão do projeto no Senado. Isso é o que</p><p>nos resta fazer para sair do quietismo que só quer manter a Educação como</p><p>está e abrir caminhos para refazer todo o nosso sistema educacional. Nesse</p><p>sentido propomos no Senado um sistema educacional de primeiro grau de</p><p>cinco séries, capaz de absorver toda a infância brasileira e lhe dar</p><p>preparação básica para o trabalho e para o exercício da cidadania. Sempre</p><p>que possível essa escola fundamental passará a funcionar em regime de dia</p><p>completo, nas áreas metropolitanas, para salvar os menores abandonados,</p><p>matriculando-os em boas escolas, como se faz em todo o mundo civilizado.</p><p>Institui um Ensino Médio, também, de cinco anos para formar a mão de</p><p>obra capacitada e especializada de que o Brasil precisa para modernizar-se.</p><p>Renova a formação do magistério e o Ensino Superior, dando-lhes</p><p>condições de preparar os corpos de professores, de profissionais,</p><p>de</p><p>humanistas, de cientistas e de tecnólogos de que carecemos tão</p><p>urgentemente.</p><p>Essas alterações são indispensáveis para modernizar a educação brasileira.</p><p>Os Estados Unidos estão revolucionando seus sistemas de educação</p><p>primária e média, a fim de competir com os alemães e japoneses, porque</p><p>sentem o risco de se verem colonizados amanhã no curso da civilização</p><p>emergente, se não formarem uma mão de obra mais qualificada. Para o</p><p>Brasil é muito mais importante renovar seu sistema educacional, a fim de</p><p>integrar nosso povo na nova civilização que se fundará na ciência e na</p><p>tecnologia. Nada disso se alcançaria congelando o precaríssimo sistema</p><p>educacional imposto pela ditadura.</p><p>Só atenderá às necessidades de desenvolvimento econômico, social e</p><p>cultural do Brasil, um sistema educacional que:</p><p>• crie condições realistas para ampliar a cobertura da Educação Infantil,</p><p>atendendo, com amplo conhecimento de causa, às aspirações da mulher</p><p>trabalhadora e integrando a educação a outros serviços, para reduzir os</p><p>custos e aumentar a efetividade;</p><p>• fixe as condições de espaço, tempo e qualidade do magistério,</p><p>necessárias ao sucesso escolar das classes populares. Neste sentido, coloca</p><p>como meta a escola de tempo completo dos países desenvolvidos, que,</p><p>mesmo nas sociedades mais individualistas, asseguram alimentação e outros</p><p>serviços aos seus alunos, como condição para que aprendam;</p><p>• estabeleça perfeita distinção entre o ensino formativo das cinco séries</p><p>dos cursos médios, e o ensino de caráter preparatório para as universidades;</p><p>• amplie a autonomia universitária, abrindo possibilidades para</p><p>instituições competentes alcançarem a condição de universidades,</p><p>valorizando, conforme a Constituição, a indissociabilidade do ensino,</p><p>pesquisa e extensão;</p><p>• institua cursos superiores de sequências de matérias inter-relacionadas,</p><p>possibilitando, assim, a formação das centenas de especialistas que uma</p><p>sociedade moderna requer, em lugar de continuar graduando apenas</p><p>diplomados das carreiras prescritas, com currículos pré-determinados;</p><p>• abra condições para que surjam novas formas de organização do Ensino</p><p>Superior, em resposta aos desafios do futuro;</p><p>• estabeleça, claramente, as responsabilidades financeiras da União, dos</p><p>estados e dos municípios, reservando as verbas destinadas à educação</p><p>exclusivamente para o custeio das atividades de ensino;</p><p>• institua o processo de avaliação do rendimento das escolas e dos</p><p>professores, através de provas de aproveitamentos dos alunos;</p><p>• regulamente as transferências de recursos do Poder Público para</p><p>instituições privadas nos termos precisos da Constituição;</p><p>• estabeleça, claramente, as competências entre níveis de governo e</p><p>regulamente a Constituição, quanto ao ensino particular, criando um</p><p>verdadeiro sistema orgânico integrado;</p><p>• fixe as linhas de participação dos educadores e da sociedade. Neste</p><p>sentido, respeite integralmente a Constituição, ao evitar a iniciativa – que é</p><p>privativa do Executivo – de criar novos e dispendiosos conselhos na</p><p>administração federal;</p><p>• regulamente a gestão democrática do ensino público, conforme</p><p>determina a Constituição, sem fazer concessões ao assembleísmo, que tanto</p><p>mal tem causado à educação, não das elites, mas das classes populares;</p><p>• defina o padrão de qualidade do ensino, a fim de não reduzir a</p><p>Constituição a um enunciado vazio;</p><p>• aumente os recursos para o ensino e, sobretudo, apresente alternativas</p><p>para que tais recursos cheguem realmente ao aluno, atacando a questão</p><p>nevrálgica da alocação e gestão de recursos;</p><p>• facilite a implantação do ensino a distância em diversos níveis, bem</p><p>como o apelo às novas técnicas de educação, criadas pela teledifusão e pela</p><p>informática;</p><p>• descentralize, e torne independentes, e flexibilize os três níveis de</p><p>ensino, para quebrar a rotina e ensejar experiências renovadoras;</p><p>• proporcione uma Década de Educação em que os sistemas educacionais</p><p>dos municípios de cada estado planejarão a reforma da educação de</p><p>primeiro grau para matricular todas as crianças de 7 anos e lhes dar</p><p>condições efetivas de progredir nos estudos, pondo fim, deste modo, à</p><p>produção de analfabetos; simultaneamente, estruturará o Ensino Médio,</p><p>dando-lhe o conteúdo e a consistência que só serão possíveis com cinco</p><p>anos de estudo;</p><p>• atribua ao MEC o nobre papel de coordenador da política educacional,</p><p>mas dê maior autonomia e responsabilidade aos sistemas municipais e</p><p>estaduais de ensino, seguindo as tendências universais hoje de</p><p>descentralização como estratégia de melhor aproveitamento dos recursos;</p><p>repito aqui que só por esse caminho retiraremos a educação brasileira do</p><p>estado de calamidade.</p><p>A triste verdade é que o mesmo se pode dizer do Ensino Médio e</p><p>Superior, cuja precariedade já ninguém nega e cuja capacidade de</p><p>autocorreção é nula no corpo da legislação vigente e também no âmbito da</p><p>proposta da Câmara dos Deputados, que ameaça consagrá-lo.</p><p>A nova Lei da Educação</p><p>28</p><p>PRÓLOGO</p><p>Senhor deputado,</p><p>Creio que você já conhece a Carta que publico no Senado, há muito</p><p>tempo.</p><p>Este exemplar é especialmente dedicado aos deputados para lhes dar texto</p><p>elucidativo sobre o Substitutivo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação</p><p>apresentado por mim e aprovado pelo Senado.</p><p>Posso afirmar que é uma boa lei. Tenho autoridade para dizê-lo porque</p><p>trato da Lei Geral de Educação no Brasil desde 1950. Eu estava ao lado de</p><p>Anísio Teixeira até o fim daquela década, lutando por uma escola pública</p><p>gratuita e eficiente.</p><p>Era ministro de Educação em 1961 quando a lei antiga foi aprovada.</p><p>Preparei os vetos para melhorá-la, instalei o Conselho Federal de Educação</p><p>e instituí o Plano Nacional de Educação, elaborado naquele órgão por</p><p>Anísio Teixeira e Dom Hélder Câmara.</p><p>Voltando do exílio, acompanhei a discussão da Lei de Diretrizes e Bases</p><p>na Câmara dos Deputados e cheguei a preparar 48 emendas, através de</p><p>deputados interessados na educação, na tentativa de viabilizá-la.</p><p>Lamentavelmente, o projeto saiu da Câmara com cerca de 298 dispositivos,</p><p>um tratado de desejabilidades, uma consagração do péssimo sistema</p><p>educacional que temos, não um corpo de diretrizes.</p><p>Esforcei-me muito, com a ajuda de diversos senadores para, aproveitando</p><p>o melhor do projeto da Câmara, elaborar uma lei que, em lugar de congelar</p><p>nosso sistema educacional, abrisse perspectivas para renová-la</p><p>radicalmente. Desse esforço resulta o Substitutivo aprovado pelo Senado,</p><p>que depende agora da votação dos senhores para abrir uma nova era na</p><p>educação brasileira. Trata-se de um projeto enxuto e substancial,</p><p>condensado em 91 artigos. Peço, entretanto, especial atenção dos senhores</p><p>para dois dispositivos que foram nele inseridos: o inciso II do art. 51 e o §</p><p>2º do art. 89. Eles precisam ser rejeitados porque sua aprovação seria</p><p>desastrosa para a nossa educação. Qualquer deles que for aprovado acabaria</p><p>com a pós-graduação, que é o melhor programa educacional brasileiro.</p><p>Desarticularia nossa educação do sistema internacional de graus</p><p>acadêmicos, que consiste na graduação, no mestrado e no doutorado,</p><p>introduzindo entre eles meros cursos de especialização. Seria muito</p><p>vexatória sua aprovação. Mas seria sobretudo catastrófica. Representaria</p><p>uma agressão contra o mundo acadêmico brasileiro, que se veria</p><p>desmoralizado. O outro dispositivo instituiria o absurdo de culpar o</p><p>Ministério da Educação pelo fracasso de qualquer professor em seus</p><p>programas de mestrado e doutorado. O efeito mais grave destes dispositivos</p><p>seria desobrigar de estudar o professorado das escolas privadas, que</p><p>atendem a dois terços do alunado de nível superior, desestimulando sua</p><p>qualificação. Condenaria, assim, a perpetuação da má qualidade do Ensino</p><p>Superior do Brasil.</p><p>Os dois dispositivos lembram aqueles antigos decretos que promoviam</p><p>todo o alunado de certo ano letivo. Passavam por decreto. Um absurdo.</p><p>A NOVA LEI DA EDUCAÇÃO</p><p>... a desejos, deixar de ser contente...</p><p>Afinal configura-se a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional na</p><p>forma que deverá assumir depois dos debates na Câmara dos Deputados,</p><p>com base no substitutivo</p><p>aprovado pelo Senado Federal. Ele é o</p><p>peneiramento de oito anos de esforços de que participaram ativamente</p><p>numerosos deputados e senadores, bem como muitíssimos trabalhadores da</p><p>educação, auscultando as expectativas de todos os setores envolvidos no</p><p>processo educacional. Assim tinha que ser. Esta lei regerá a rotina diária e</p><p>os esforços de renovação dos modos de educar e de ser educado de 40</p><p>milhões de pessoas que operam a vida educacional brasileira, na qualidade</p><p>de alunos, de professores e de pessoal de apoio.</p><p>O Substitutivo posto agora em discussão final procura, sucintamente, em</p><p>seus 91 artigos, liberar os educadores brasileiros para ousarem experimentar</p><p>e inovar, compreendendo que o grave aqui é perpetuar a rotina. Ele resulta</p><p>de dois debates no plenário do Senado e de diversas reuniões das</p><p>Comissões de Constituição, Justiça e Cidadania e de Educação, das quais</p><p>surgiram cerca de quatrocentas emendas, metade delas acolhidas total ou</p><p>parcialmente. Como os senadores estão em contato com as comunidades de</p><p>educadores brasileiros, se pode considerar que suas centenas de emendas</p><p>refletem o pensamento e as preocupações dos educadores brasileiros.</p><p>O presente Substitutivo constitui, pois, a cristalização de nossos ideais</p><p>educativos que, uma vez consagrados em lei, possibilitarão transfigurar a</p><p>educação brasileira.</p><p>No curso de sua elaboração na Câmara dos Deputados, a Lei de Diretrizes</p><p>e Bases esteve a cargo de diversos relatores, entre eles Renato Vianna, Jorge</p><p>Hage e Ângela Amin. No Senado, esteve sob a responsabilidade do senador</p><p>Cid Sabóia de Carvalho e a minha própria. Cada um de nós lhe impôs, de</p><p>algum modo, em algum grau, sua concepção acerca dos temas e problemas</p><p>cruciais da educação e da forma que eles devem ser encarados no Brasil</p><p>para se escapar da situação constrangedora de sermos um dos países mais</p><p>atrasados do mundo nessa matéria. Com efeito, o desenvolvimento da</p><p>educação no Brasil não tem paralelo com o progresso alcançado pelo país</p><p>em muitos outros planos. Só se compara, talvez, com nossa incapacidade de</p><p>alcançar fartura em cada mesa e emprego para cada trabalhador. Todos os</p><p>países avançados resolveram seus problemas de educação básica muito</p><p>antes de alcançar o grau de desenvolvimento socioeconômico que</p><p>ostentamos, escolarizando toda sua infância e a integrando no mundo da</p><p>comunicação letrada.</p><p>O projeto da Câmara</p><p>Em sua formulação original, na Câmara dos Deputados, prevaleceu a</p><p>preocupação de pôr ordem no caos da legislação herdada da ditadura:</p><p>contraditória, reiterativa e inepta. Sua ambição parecia oscilar entre</p><p>formular uma explanação mirífica, fundada em valores filosóficos e em</p><p>preceitos metodológicos, ou atender a reivindicações setoriais,</p><p>descomprometidas com a prática da educação que se realiza no país. Em</p><p>consequência, assumiu uma feitura detalhista que, prescrevendo o que fazer</p><p>e o que não fazer, acabou por entretecer uma rotina cuja função real seria a</p><p>de congelar o sistema educacional que tínhamos e temos. Como quase tudo</p><p>se fazia mal nas três órbitas educativas, este congelamento seria fatal. A</p><p>crua verdade é que, entre nós, o ensino primário notoriamente não</p><p>alfabetiza a infância, impedindo o Brasil de integrar-se à civilização letrada.</p><p>O Ensino Médio não prepara para o trabalho nem para o nível superior. E,</p><p>nas universidades e nas escolas superiores autônomas, na maioria dos casos,</p><p>os professores simulam ensinar e os alunos fingem aprender.</p><p>Nessas circunstâncias, multiplicaram-se os abusos na falsificação do</p><p>ensino de todos os graus, atingindo a própria rede pública primária e média,</p><p>que apesar de desobrigada de buscar lucros, vem perdendo mesmo a</p><p>precária capacidade de educar que alcançou no passado. No nível superior,</p><p>experimentamos uma expansão prodigiosa das matrículas, que ainda assim</p><p>é ridiculamente pequena, como se vê por comparações internacionais. O</p><p>pior, porém, é que as novas matrículas não se abriram nas escolas que</p><p>tinham capacidade de pesquisar e ensinar, mas em escolas montadas com</p><p>objetivos mercantis, que hoje absorvem, enganam e exploram mais de um</p><p>milhão de estudantes, concentrados quase todos nos cursos noturnos que,</p><p>além de caros, são, muitas vezes, de péssima qualidade.</p><p>No afã de atender ao legítimo pendor participativo de todas as entidades,</p><p>órgãos e corporações da sociedade civil, os debates da Lei de Diretrizes e</p><p>Bases fizeram estatuir um regimento prescritivo que, além de invadir áreas</p><p>de responsabilidade do Executivo, constitucionalmente vedadas aos</p><p>legisladores, impôs um centralismo na administração educacional que, na</p><p>órbita federal, tudo submetia a conselhos corporativos e tolhia aos sistemas</p><p>estaduais qualquer possibilidade de adequar o processo educativo às suas</p><p>próprias condições de existência e de ação.</p><p>Na organização da rede educacional o projeto da Câmara dos Deputados</p><p>atua com a generosidade de quem se contenta com expressões de desejos,</p><p>propondo uma escolarização que se estenderia democraticamente a todos,</p><p>desde o ventre da mãe até o doutorado. Suas proposições são tão amplas e</p><p>pretensiosas que poderiam até ser exibidas mundialmente como a mais</p><p>ampla oferta de educação que jamais se fez. Na verdade, porém, tratava-se</p><p>de uma promessa vazia, sem qualquer possibilidade de concretizar-se no</p><p>mundo das coisas. Na Educação Infantil, a uma creche ecumênica e</p><p>universal se seguia um pré-escolar que abrangeria a infância toda, até os 6</p><p>anos de idade. O ensino básico salta, abruptamente, de quatro para oito anos</p><p>de escolaridade fundamental obrigatória, ao qual se seguiriam três anos de</p><p>Ensino Médio, que se desejava também tornar, prontamente, universal.</p><p>Nenhuma atenção, porém, era dada ao professorado e à séria crise que ele</p><p>enfrenta, provavelmente a mais grave da educação brasileira. Continuariam</p><p>produzindo professoras nos cursos noturnos, em que nem alcançam o</p><p>domínio da norma culta da linguagem e muito menos qualquer capacidade</p><p>pedagógica para se exercerem como professoras de turma. O mesmo se</p><p>observa no caso da professora de matéria, responsável pela educação dos</p><p>adolescentes, bem como dos estudantes de nível médio.</p><p>Num passe de mágica, partimos de um estado de indigência de um</p><p>sistema que não consegue matricular as crianças de 7 anos, entregando-as a</p><p>professoras de turma devidamente preparadas para educá-las, para um</p><p>paradigma de amplitude nunca visto. Mistificava todos os desafios que</p><p>enfrenta a educação brasileira, forçando-a a perpetuar-se no atraso,</p><p>condenando a sociedade nacional ao subdesenvolvimento pela incapacidade</p><p>de ingressar na civilização letrada.</p><p>Metade do extensíssimo projeto de lei (298 dispositivos) regulamenta o</p><p>Ensino Superior, através de uma multiplicidade de regras que se prestariam</p><p>bem para continuarmos trilhando o caminho da perdição em que nos</p><p>achamos. Mas não contribuiria em nada para dar solução ao ensino de</p><p>terceiro grau e menos ainda para adequá-lo à revolução científica e</p><p>tecnológica em curso, e que ameaça recolonizar o Brasil, se formos</p><p>incapazes de acompanhá-la ou ao menos de compreendê-la.</p><p>O Substitutivo do Senado</p><p>A característica distintiva do Substitutivo do Senado é, primeiro que tudo,</p><p>sua profunda insatisfação com o sistema escolar brasileiro que vê como um</p><p>dos piores do mundo. Muito inferior ao que deveria corresponder ao nosso</p><p>desenvolvimento em outros setores e, sobretudo, ao que se requer como a</p><p>escolaridade indispensável ao desenvolvimento nacional autônomo. Seu</p><p>projeto explícito é, por isso mesmo, o enorme e ingente esforço de</p><p>autossuperação que estamos chamados a realizar para sair do atraso. A fim</p><p>de bem cumprir esta função, fixando as diretrizes e bases da educação</p><p>nacional, como determina a Constituição, ele assume a forma de um</p><p>diploma legal sucinto, claro e genérico, para dar espaço ao exercício da</p><p>autonomia tanto por parte das escolas e universidades como por parte de</p><p>sistemas estaduais de ensino.</p><p>Abstive-me de propor a criação de conselhos normativos por entender que</p><p>esta é função constitucional do presidente da República. Efetivamente, o</p><p>governo assumiu esta tarefa propondo</p><p>a revolução burguesa deu por toda</p><p>parte. Toda essa literatura não ensina nada. No máximo fotografa algumas</p><p>situações sem explicá-las. Para tanto, precisamos fazer uma crítica história</p><p>da razão sociológica.</p><p>Seria verdade que nosso desastre educacional se deve a tais processos se o</p><p>ensino houvesse sido bom antes da urbanização caótica e da</p><p>industrialização intensiva. Se ao menos ele fosse comparável ao que</p><p>fizeram em matéria de educação outros países latino-americanos após a</p><p>independência, como a Argentina, o Uruguai e o Chile. Como nada disso</p><p>ocorreu entre nós, devemos concluir que nosso descalabro educacional tem</p><p>causas mais antigas. Vem da Colônia que nunca quis alfabetizar ninguém,</p><p>ou só quis alfabetizar uns poucos homens para o exercício de funções</p><p>governamentais. Vem do Império que, por igual, nunca se propôs a educar o</p><p>povo. A República não foi muito mais generosa e nos trouxe à situação</p><p>atual de calamidade na educação.</p><p>Nós propomos, como explicação, que estamos diante de um caso grave de</p><p>deficiência intrínseca da sociedade brasileira. Nossa incapacidade de educar</p><p>a população, como a de alimentá-la, se deve ao próprio caráter da sociedade</p><p>nacional. Somos uma sociedade enferma de desigualdade, enferma de</p><p>descaso por sua população. Assim é, porque aos olhos das nossas classes</p><p>dominantes, antigas e modernas, o povo é o que há de mais reles. Seu</p><p>destino e suas aspirações não lhes interessam, porque o povo, a gente</p><p>comum, os trabalhadores, são tidos como uma mera força de trabalho,</p><p>destinada a ser desgastada na produção. É preciso ter coragem de ver este</p><p>fato porque, só a partir dele, podemos romper nossa condenação ao atraso e</p><p>à pobreza, decorrentes de um subdesenvolvimento de caráter</p><p>autoperpetuante.</p><p>Nosso atraso educacional é uma sequela do escravismo. Nós fomos o</p><p>último país do mundo a acabar com a escravidão, e este fato histórico,</p><p>constitutivo de nossa sociedade, tem um preço que ainda estamos pagando.</p><p>Com efeito, o escravismo animaliza, brutaliza o escravo, arrancado de seu</p><p>povo para servir no cativeiro, como um bem semovente do senhor. De</p><p>alguma forma, porém, ele dignifica o escravo porque o condena a lutar pela</p><p>liberdade. Desde o primeiro dia, o negro enfrenta a tarefa tremenda de</p><p>reconstruir-se como ser cultural, aprendendo a falar a língua do senhor,</p><p>adaptando-se às formas de sobrevivência na terra nova. Ao mesmo tempo,</p><p>se rebela contra o cativeiro, fugindo e combatendo, assim que alcança um</p><p>mínimo de compreensão recíproca e de capacidade de se situar no mundo</p><p>novo em que se encontra.</p><p>Este é o lado do escravo, na escravidão. O lado do senhor é o exercício do</p><p>papel de castigador do escravo, de explorador, condenado ao opróbrio,</p><p>porque seu combate é para eternizar o cativeiro. Uma classe dominante feita</p><p>de senhores de escravos ou de descendentes deles é uma classe enferma que</p><p>carrega em si, no mais recôndito de seus sentimentos, a herança hedionda</p><p>dos gastadores de gente. Para este patronato, o negro escravo e, por</p><p>extensão, o preto forro e ainda todo o povo, é uma mera força de trabalho, é</p><p>uma massa energética desgastável, um carvão humano que se queima na</p><p>produção.</p><p>Alguém poderia argumentar que estes ancestrais estão muito longe de nós.</p><p>São nossos avós, é verdade, distantes de nós, é certo; mas nem tanto que</p><p>não sejamos dignos netos deles, guardando em nossos genes e em nosso</p><p>espírito sua herança tão legítima como hedionda.</p><p>O fracasso brasileiro na educação – nossa incapacidade de criar uma boa</p><p>escola pública generalizável a todos, funcionando com um mínimo de</p><p>eficácia – é paralelo à nossa incapacidade de organizar a economia para que</p><p>todos trabalhem e comam. Só falta acrescentar ou concluir que esta</p><p>incapacidade é, também, uma capacidade. É o talento espantosamente</p><p>coerente de uma classe dominante deformada, que condena seu povo ao</p><p>atraso e à penúria para manter intocada, por séculos, a continuidade de sua</p><p>dominação hegemônica e as fontes de seu enriquecimento e dissipação.</p><p>Uma dominação infecunda, que nos põe na retaguarda das nações e nos</p><p>afunda no retrocesso histórico, porque isso é o que corresponde aos</p><p>interesses imediatistas da nossa classe dominante. Quem duvidar, cuidando</p><p>que a culpa é do capitalismo, veja o que os capitalistas fizeram na América</p><p>do Norte. Às vezes penso que nós somos o que seriam os Estados Unidos se</p><p>o Sul vencesse a Guerra de Secessão. Aqui a escravidão venceu, e mesmo</p><p>depois de extirpada pela lei, foram os líderes do império escravista que</p><p>passaram a reger a República.</p><p>A esta luz se veem como façanhas elitistas o que são fracassos sociais.</p><p>Assim se entende que tenhamos um vastíssimo sistema educacional que não</p><p>educa, bem como portentosos serviços de assistência e previdência social</p><p>que funcionam de mentira. Em resumo, que em tudo que serve ao povo,</p><p>sejamos campeões de ineficácia.</p><p>A REVOLUÇÃO EDUCACIONAL DO RIO</p><p>A eleição de Leonel Brizola para governador do Rio de Janeiro ensejou o</p><p>primeiro programa sério de reforma do sistema escolar público de primeiro</p><p>grau. Existiram tentativas anteriores, é certo, mas não passaram de meros</p><p>ensaios de breve duração, apesar de ser muito antiga entre nossos</p><p>educadores uma aguda consciência crítica sobre a gravidade do problema</p><p>educacional brasileiro.</p><p>Agora, um estado da Federação, com 14 milhões de habitantes, e cerca de</p><p>2,5 milhões de crianças nas escolas públicas assume expressamente o</p><p>compromisso de fazer da educação popular sua meta prioritária. Cria, para</p><p>isso, uma Comissão Coordenadora, a cargo do vice-governador, armando-a</p><p>de poderes para elaborar um Plano Especial de Educação e dotando-a de</p><p>recursos que ultrapassam US$ 400 milhões para custear sua execução.</p><p>Essa deliberação histórica foi tomada com base na consciência de que</p><p>numa sociedade de cultura letrada o analfabeto e o insuficientemente</p><p>instruído são marginais. E mais ainda, de que quando eles formam uma</p><p>grande massa, tal como ocorre no Brasil, é a própria nação que se vê</p><p>condenada a existir à margem da civilização do seu tempo.</p><p>A escolha da educação como a prioridade fundamental responde,</p><p>essencialmente, à ideologia socialista-democrática do Partido Democrático</p><p>Trabalhista de Leonel Brizola. Essa ideologia é que, contrariando uma</p><p>prática antiquíssima de descaso em matéria de instrução pública, nos deu a</p><p>coragem de abrir os olhos para ver e medir a gravidade do problema</p><p>educacional brasileiro e sobretudo a ousadia de enfrentá-lo com a maior</p><p>massa de recursos que o estado pôde reunir.</p><p>A escolha da educação como meta prioritária decorreu também do fato de</p><p>a maior parte das áreas de ação governamental estar na órbita do Poder</p><p>Federal, enquanto as escolas públicas de primeiro e segundo graus estão na</p><p>jurisdição dos governos estaduais e municipais. Assim é que se oferecia não</p><p>só a possibilidade de uma atuação autônoma e enérgica, como também a de</p><p>concentrar os esforços governamentais numa ação social transformadora da</p><p>maior importância econômica, cultural e política.</p><p>Assim que assumiu o governo, Leonel Brizola tomou várias medidas de</p><p>emergência na área da educação. Algumas delas de enorme importância,</p><p>tais como a reconstrução da rede escolar, que se encontrava em estado</p><p>precaríssimo, a transformação da merenda escolar de forma a assegurar</p><p>diariamente 2 milhões de refeições completas às crianças das escolas</p><p>públicas; e, ainda, o transporte gratuito de alunos que vistam o traje escolar.</p><p>O grande feito do governo Leonel Brizola foi elaborar o Programa</p><p>Especial de Educação com a participação de todo o professorado do Rio de</p><p>Janeiro. Com esse objetivo, realizou-se um verdadeiro anticongresso</p><p>destinado a debater e revisar um corpo de teses elaborado pela Comissão</p><p>Coordenadora. Participaram diretamente desses debates 52 mil professores,</p><p>em reuniões locais, que elegeram mil representantes seus para os encontros</p><p>regionais, de que surgiram os cem que discutiram a redação final das bases</p><p>do Programa Especial de Educação junto com a Comissão Coordenadora. O</p><p>interesse despertado por esses debates foi tão vivo e intenso que mais de 30</p><p>mil professores</p><p>ao Congresso, em medida provisória,</p><p>já transformada em lei, o tipo de colegiado consultivo que lhe parece</p><p>conveniente para normatizar a educação. Na mesma proposição trata,</p><p>também, da forma de eleição para compor o governo das universidades e</p><p>escolas superiores. Estende-se, ainda, à fixação de critério de avaliação por</p><p>rendimento de nossas escolas de terceiro grau, tendo em vista exigir delas</p><p>mais eficácia educativa. Em consequência, nosso Substitutivo fica livre de</p><p>regulamentar essas matérias que de direito cabem ao Poder Executivo.</p><p>Na organização dos graus de ensino, nosso Substitutivo reitera o ideal de</p><p>alcançarmos uma escolaridade universal de oito séries de Ensino</p><p>Fundamental, que também se procuraria generalizar a todo o alunado.</p><p>Tomamos o cuidado, porém, de facultar aos sistemas estaduais de ensino a</p><p>possibilidade de desdobrar essa sequência em ciclos que ajustem as escolas</p><p>às condições de vida e de trabalho de seus professores e alunos. Assim é</p><p>que se tornará possível oferecer, por exemplo, um ciclo de 1ª a 5ª série para</p><p>crianças de 7 a 12 anos, a cargo de professores de turma, devidamente</p><p>preparados, remunerados e motivados.</p><p>Num segundo ciclo, ministram-se as matérias de 6ª a 8ª série para jovens</p><p>que já alcançaram a adolescência e cuja educação estará entregue a diversos</p><p>professores de matéria. O Ensino Médio seria um terceiro ciclo, com</p><p>vocação menos acadêmica de preparação para o Ensino Superior do que</p><p>prática para o treinamento de trabalhadores. Dentro de tal estrutura seria</p><p>possível atender à especificidade do ensino de cada nível, às diferenças</p><p>etárias e de conduta dos alunos e sobretudo à formação do respectivo</p><p>professorado.</p><p>Com iguais preocupações, se propõe a criação de um Curso Normal</p><p>Superior para a formação de professores de turma através de estudos</p><p>pedagógicos e do treinamento em serviço. Vale dizer que, além da</p><p>informação pedagógica e didática, eles teriam a oportunidade de exercitar-</p><p>se na prática educativa através de escolas públicas e privadas para isso</p><p>credenciadas. Nos mesmos institutos ou faculdades seria formado, também</p><p>com igual sentido prático da arte de educar, o professor de matéria, cujo</p><p>conhecimento de conteúdo das disciplinas que ensina podia ser alcançado</p><p>em outra instituição de Ensino Superior.</p><p>Nosso Substitutivo abre também a possibilidade de que no Brasil, como</p><p>ocorre em todo o mundo civilizado, se criem progressivamente escolas de</p><p>tempo integral. Só elas são capazes de alfabetizar crianças oriundas de</p><p>famílias pobres, que não tiveram escolaridade prévia. O pecado maior da</p><p>pedagogia brasileira é seu pendor a responsabilizar a criança pobre por seu</p><p>fracasso escolar. Este é culpa principalmente de nosso sistema escolar, que</p><p>supõe que cada criança esteja alimentada, tenha material didático disponível</p><p>e viva numa casa onde alguém possa ajudá-la nos estudos. Como a imensa</p><p>maioria das famílias, inclusive nos estados mais ricos, não tem essas</p><p>condições, seus filhos são condenados à reprovação e ao fracasso na vida.</p><p>O projeto da Câmara oferecia formação técnico-profissional específica a</p><p>quem desejasse, sem indicar de que modo tão ampla oferta poderia ser</p><p>concretizada. Nosso substitutivo, desatrelando a educação acadêmica do</p><p>treinamento profissional, abriria as escolas técnicas aos alunos da rede</p><p>pública e privada, só condicionando as matrículas à capacidade de aprender.</p><p>Nosso Substitutivo contrasta também com o oriundo da Câmara pela</p><p>atenção maior que devota ao Ensino Fundamental, propondo-lhe padrões</p><p>explícitos de eficácia educativa e um processo nacional de avaliação</p><p>externa, destinado a forçar a melhoria da qualidade das escolas.</p><p>Propõe, também, um grande número de medidas que transfigurariam o</p><p>panorama educacional brasileiro. Uma dessas inovações é instituir a</p><p>universidade especializada (saúde, engenharia e outras), superando a</p><p>concepção da universidade omnibos que pretende cobrir todos os campos</p><p>do saber. Outra inovação é instituir Cursos de Sequência que permitiriam</p><p>aos alunos seguir as matérias ministradas pelas universidades e escolas</p><p>superiores fora das linhas escritas pelo currículo mínimo, mas</p><p>correspondendo a seus interesses concretos de formação profissional.</p><p>Contando-se, hoje, por milhares as habilitações de nível superior</p><p>indispensáveis ao funcionamento da sociedade moderna, precisamos</p><p>abandonar a tendência de tudo reduzir a umas poucas carreiras curriculares</p><p>prescritas.</p><p>Nosso projeto permite conferir a mesma autonomia de que gozam as</p><p>universidades às demais instituições de Ensino Superior que alcançam grau</p><p>de excelência. Inova-se, por igual, definindo obrigações docentes para os</p><p>professores a fim de sairmos da situação vexatória de nossas universidades</p><p>públicas que contam com corpos docentes três vezes mais numerosos que o</p><p>das maiores universidades do mundo, com rendimento escolar muitíssimo</p><p>menor e rendimento científico e tecnológico nulo.</p><p>A característica mais nobre de nosso Substitutivo reside em sua ambição</p><p>de assegurar a um tempo a unidade do sistema nacional de educação e a</p><p>liberdade de variar, atendendo às especificidades dos estados e municípios.</p><p>Para isso, redefine o papel do Ministério da Educação, que em lugar de</p><p>reitor do processo educativo passa a ser o colaborador pronto a ajudar não</p><p>só financeiramente, mas tecnicamente os sistemas estaduais e municipais,</p><p>pondo à sua disposição as facilidades que a nova tecnologia educativa</p><p>oferece hoje em dia.</p><p>Nesse sentido, nosso Substitutivo inscreveu em suas disposições</p><p>transitórias algumas medidas de importância crucial para a educação</p><p>brasileira. Dá início à Década da Educação, instituída pela Constituição da</p><p>República, definindo uma série de metas fundamentais a serem cumpridas.</p><p>A primeira delas é estancar a desastrosa produção de novas gerações de</p><p>analfabetos que mantêm seu número praticamente fixo e até crescente ao</p><p>longo das décadas, em razão da ineficácia de nosso sistema escolar básico.</p><p>Isso se alcançará pelo censo obrigatório e pela escolarização compulsória,</p><p>por parte dos municípios, de todas as crianças que alcancem sete anos de</p><p>idade, acompanhando essa conscrição com um esforço autêntico para elevar</p><p>a qualificação do magistério em exercício, com apelo às novas tecnologias</p><p>educativas da educação a distância, através de textos e da televisão.</p><p>Simultaneamente, se fará em cada município a chamada dos jovens que</p><p>alcançam os 14 e 16 anos analfabetos ou insuficientemente alfabetizados,</p><p>para fazê-los retornarem aos estudos mediante cursos de educação a</p><p>distância e quaisquer outros meios concretos de superar suas deficiências.</p><p>Estas e outras modalidades de colaboração do Ministério da Educação com</p><p>os estados e municípios permitirão o salto indispensável para que o Brasil</p><p>progrida efetivamente, pela integração de todo o seu povo na civilização</p><p>letrada.</p><p>Ameaça mortal</p><p>Pesa, entretanto, sobre nosso sistema de educação superior, uma ameaça</p><p>que pode ser fatal pelos danos que o Substitutivo, tal como está redigido,</p><p>provocaria. Com efeito, duas emendas nele incluídas na última hora através</p><p>de um acordo de lideranças partidárias, desorganizariam toda a educação</p><p>superior brasileira. O primeiro deles é a modificação do inciso II do art. 51</p><p>que inclui a expressão especialização entre os graus de ensino. Estes são,</p><p>em todo o mundo, a graduação, o mestrado e o doutorado. Sua equiparação</p><p>a simples cursos de especialização é um absurdo. Só tem como objetivo</p><p>livrar as escolas particulares de fazerem seus professores realizarem cursos</p><p>de pós-graduação. A segunda emenda incorporada ao Substitutivo consiste</p><p>no § 2º do art. 89, que atribui à Capes a culpa de que alguém não tenha</p><p>concluído o mestrado ou o doutorado, outro absurdo.</p><p>Estas duas emendas, se aprovadas pela Câmara, serão mortais para a</p><p>educação brasileira que já é extremamente prejudicada pelo fato de que a</p><p>expansão de nossa educação superior não se fez nas escolas capacitadas a</p><p>ministrar bons cursos, mas se deu através da criação improvisada de escolas</p><p>privadas, cujo objetivo, na maior parte dos casos, era mercantil. Ninguém</p><p>no mundo</p><p>escreveram cartas dando sua opinião sobre as teses. Desse</p><p>imenso esforço participatório resultou um diagnóstico e um corpo de teses</p><p>desafiantes e provocativas, que serão apresentadas detalhadamente no</p><p>decorrer deste livro.</p><p>Com base nesse documento autocrítico é que se fixaram as metas</p><p>fundamentais do Programa Especial de Educação. A primeira dessas metas</p><p>é expandir a rede pública com o objetivo de extinguir o terceiro turno,</p><p>garantindo pelo menos cinco horas de aula a todas as crianças e,</p><p>simultaneamente, criar um milhar de Casas da Criança que estão sendo</p><p>implantadas onde a população é mais densa e mais carente para acolher</p><p>crianças de 3 a 6 anos no programa de educação pré-escolar. Para levar à</p><p>prática essa meta foi implantada uma Fábrica de Escolas que, operando com</p><p>a tecnologia de argamassa armada, está construindo cerca de 600 m² de</p><p>obras diariamente.</p><p>Outra meta fundamental do Programa Especial de Educação é instituir</p><p>progressivamente uma nova rede de escolas de dia completo – os Centros</p><p>Integrados de Educação Pública – CIEPs – que o povo passou a chamar de</p><p>Brizolões. Eles também estão sendo implantados nas áreas de maior</p><p>densidade e de maior pobreza. Projetados por Oscar Niemeyer, são</p><p>edificações de grande beleza que constituem orgulho dos bairros onde se</p><p>edificam. Cada um deles compreende um edifício principal, de</p><p>administração e salas de aula e de estudo dirigido, cozinha, refeitório e um</p><p>centro de assistência médica e dentária. Num outro edifício fica o ginásio</p><p>coberto que funciona também como auditório e abriga os vestiários. Um</p><p>terceiro edifício é destinado à biblioteca pública que serve tanto à escola</p><p>como à população vizinha. Neste edifício se integram também instalações</p><p>para abrigar 24 alunos-residentes.</p><p>Os Brizolões atendem a mil crianças de 1ª a 4ª série ou de 5ª a 8ª série,</p><p>separadamente. Em uns e outros, elas são atendidas de 8 da manhã às 5</p><p>horas da tarde e ali recebem, além das aulas, da recreação, da ginástica, três</p><p>refeições e um banho diário. À noite, o Brizolão se abre para quatrocentos</p><p>jovens de 14 a 20 anos, analfabetos ou insuficientemente instruídos. Cada</p><p>Brizolão abriga doze meninos e doze meninas, alunos residentes, escolhidos</p><p>entre crianças que estejam sob a ameaça de cair na delinquência.</p><p>Outra meta do PEE é o aperfeiçoamento do magistério, tanto o que está</p><p>em serviço quanto o que está ingressando agora na carreira. Isso se faz nos</p><p>CIEPs e em Escolas de Demonstração, especialmente criadas com esse</p><p>objetivo, através de programas de Treinamento em Serviço e de Seminários</p><p>de Ativação Pedagógica. O programa produz, ainda, um vastíssimo material</p><p>de apoio didático, tanto para os CIEPs quanto para a rede comum.</p><p>Ao fim do governo Leonel Brizola, em março de 1987, estarão</p><p>inaugurados e funcionando quinhentos Brizolões no Rio de Janeiro e mais</p><p>de um milhar de escolas menores de vários tipos que atenderão, em</p><p>melhores condições, perto de 1 milhão de crianças e jovens.</p><p>Através de todo este esforço, o que se busca é criar uma escola pública</p><p>honesta, porque adaptada às condições e às necessidades do alunado</p><p>popular. Como era de se esperar, o Programa tem o apoio da população do</p><p>Rio de Janeiro e está despertando a consciência do Brasil inteiro para a</p><p>gravidade do nosso problema educacional.</p><p>A grande conquista do Programa Especial de Educação do Rio de Janeiro</p><p>é, por um lado, essa mobilização da consciência nacional e, por outro lado,</p><p>a preparação de equipamentos capazes de levar à prática por todo o país</p><p>soluções experimentalmente comprovadas para a criação da escola pública</p><p>de que necessitamos.</p><p>O estado da educação</p><p>4</p><p>Alguns pretensos educadores nos dizem que se tem de esperar a</p><p>prosperidade geral dos brasileiros e a criação aqui de uma sociedade</p><p>democrática participativa para que se possa generalizar uma educação</p><p>pública eficaz. Alguns desses idiotas acham até que estamos fazendo no Rio</p><p>escolas que só deveriam vir depois de implantado o socialismo. Afirmam</p><p>mais, que, com a implantação dos CIEPs, estaríamos onerando nosso povo</p><p>ao edificar e pôr em funcionamento escolas do Primeiro Mundo. Idiotice.</p><p>Não é assim. O Brasil tem muito mais riqueza, liberdade e modernidade do</p><p>que tiveram as sociedades modernas, quando empreenderam a escolarização</p><p>de toda a sua população infantil, integrando-a na civilização letrada.</p><p>DESCOMPASSO ESSENCIAL</p><p>Efetivamente, nosso sistema educacional é muito mais precário do que</p><p>corresponderia o grau de desenvolvimento econômico alcançado pelo</p><p>Brasil. Em consequência, nossos desenvolvimentos social e cultural se</p><p>veem tolhidos pela falta insanável da base educacional em que deveria</p><p>assentar-se. A criatividade cultural inegável de nosso povo não floresce na</p><p>cultura letrada, mas quase só na cultura vulgar de transmissão oral. O</p><p>próprio público leitor é tão apoucado que nossas edições de livros são</p><p>ínfimas, em comparação com países de população muitíssimo menor.</p><p>Nestas circunstâncias, o rádio e a televisão passaram a ser os meios</p><p>fundamentais de informação e doutrinamento da população. Sendo regidos</p><p>por critérios cruamente mercantis e, por isto mesmo, irresponsáveis no</p><p>plano cultural, social e ético, o que difundem é uma cultura ignara, violenta</p><p>e dissoluta, na qual mergulha a população, inclusive a infância. Perdem-se,</p><p>assim, padrões morais que, em nossa sociedade arcaica, predominantemente</p><p>rural, eram guardados e transmitidos pela família e pela Igreja. É sabido que</p><p>nas sociedades metropolitanas essas funções passaram às escolas, que além</p><p>de instruir devem educar. Faltando essa escola civilizadora, nossa infância</p><p>metropolitana cresce ao abandono, deserdada da cultura tradicional de seus</p><p>pais e marginalizada da cultura citadina de transmissão escolar.</p><p>Na verdade, toda sociedade tem seu sistema educacional, transmissor de</p><p>sua cultura. O que faz dos homens homens, o que humaniza o bicho</p><p>humanoide é o domínio de uma língua e de uma cultura que se transmitem</p><p>de alguma forma. Nossos índios, por exemplo, têm seus sistemas</p><p>educacionais muito melhores que o nosso. Aos 14 anos um índio está</p><p>completamente formado em índio. Tem perfeito domínio de sua cultura. Vai</p><p>aprender muito mais ao longo de sua vida, tendo já o essencial, que é o</p><p>domínio da língua, que lhe permite comunicar-se e adquirir uma</p><p>compreensão geral da natureza das coisas. Além da capacidade de produzir</p><p>o que consome e de reproduzir todos os bens de sua sociedade. Esta</p><p>educação informal se realiza pelos mecanismos através dos quais a língua</p><p>se transmite, juntamente com toda uma massa de conhecimentos e práticas</p><p>aprendidas no convívio social.</p><p>Nas sociedades avançadas, de cultura mais complexa, esta função é</p><p>transferida às escolas, que passam a ocupar parcela cada vez maior do</p><p>tempo da criança, para lhe dar o domínio operativo de sua própria cultura.</p><p>Nas últimas décadas, o tempo de escolaridade ampliou-se, ainda mais no</p><p>mundo todo, em consequência da racionalização e da tecnificação de toda a</p><p>vida social. Em vez da antiga escolinha isolada – que alfabetizava crianças</p><p>para ler um texto, escrever uma carta, fazer uma conta, tarefa</p><p>aparentemente singela, mas que ainda não conseguimos realizar e</p><p>generalizar a toda a nossa população – o que se pede das escolas de hoje é</p><p>muito mais que isso. É formar uma força de trabalho competente e uma</p><p>cidadania lúcida.</p><p>A transição da cultura oral para a escolinha antiga e desta para a escola</p><p>moderna não se processa automaticamente na sociedade. Só é alcançada</p><p>como resultado de uma vontade política, predisposta aos esforços e aos</p><p>investimentos em que implica a universalização de uma escola de</p><p>qualidade. Nos países anglo-saxônicos a generalização do ensino básico se</p><p>deu por uma motivação religiosa, que converteu todas as suas muitíssimas</p><p>igrejas em escolas, porque acreditava que a forma mais alta de rezar era ler</p><p>a Bíblia. Em outras áreas culturais a escola se expandiu como</p><p>empreendimento público, motivado por uma preocupação com a cidadania</p><p>e com a necessidade de que a cultura popular correspondesse aos requisitos</p><p>de desenvolvimento técnico e científico</p><p>da sociedade. Nos dois casos, a</p><p>conquista básica foi o domínio da escrita para o exercício da criatividade</p><p>letrada dentro da língua vernácula.</p><p>Nós brasileiros nos vimos duplamente deserdados. Como área de</p><p>dominação da Igreja Católica, ainda apegada ao latim como língua da</p><p>cultura erudita, onde não havia motivação religiosa para a educação. E</p><p>como economia colonial agroexportadora, que não tinha por que</p><p>empreender a educação pública, através da escola napoleônica de formação</p><p>de cidadãos e trabalhadores livres. Nossa sociedade retrógrada e escravista</p><p>via o povo muito mais como uma reserva energética, desgastável e</p><p>renovável por compra do que como um povo que devesse ser instruído.</p><p>Assim é que nossa sociedade se modernizou, integrando na cultura letrada</p><p>uma parcela ínfima de sua população, condenando o grosso dela, primeiro,</p><p>à exclusão, depois, à marginalidade. Agravadas ao extremo por força de um</p><p>processo transformativo de importância radical representado pela</p><p>urbanização caótica e pela revolução nas comunicações pelo rádio e pela</p><p>TV. A urbanização caótica lançou sobre as cidades a imensa maioria da</p><p>população rural de cultura rústica, transmitida oralmente de pais a filhos,</p><p>engrossando as massas urbanas de antiga extração que tinham sido também</p><p>excluídas da cultura moderna, porque nunca foram escolarizadas. A escola</p><p>sempre lhes foi vedada. Só se tornou, de fato, acessível através das escolas</p><p>de turnos: dois, três, quatro, incapazes de alfabetizar a população e, menos</p><p>ainda, de educá-la.</p><p>Paradoxalmente, abriram-se às massas os dois meios mais poderosos e</p><p>eficazes de comunicação que foram o rádio e a televisão, que passaram</p><p>rapidamente a cobrir toda a população. Inserindo-se, porém, na sociedade,</p><p>como empresas lucrativas, passaram a atuar com total irresponsabilidade no</p><p>campo educacional, no campo ético, e até mesmo com respeito aos valores</p><p>da solidariedade humana. As massas desculturadas de seus saberes e valores</p><p>tradicionais e agredidas pelo prestígio espantoso dessas fontes de</p><p>comunicação difusoras da violência e da licenciosidade se viram</p><p>empurradas mais fortemente ainda para a marginalidade. A ausência da</p><p>escola se soma, assim, à presença da mídia como uma das principais</p><p>condições conformadoras das novas gerações.</p><p>Ainda que haja uma correspondência inegável entre a modernidade da</p><p>sociedade industrializada e a escolarização em massa da sua população,</p><p>uma não produz a outra, necessariamente. A escola, por si só, não produz o</p><p>desenvolvimento, nem ele universaliza automaticamente a escola. Só o</p><p>interesse racional da sociedade e da cultura faz corresponder uma a outra.</p><p>Nós somos um caso teratológico de desenvolvimento industrial e de</p><p>modernização de uma parcela ponderável da sociedade, coetânea com uma</p><p>imensa massa circundante, condenada ao analfabetismo, à penúria e à</p><p>marginalidade.</p><p>Com efeito, o grau de progresso alcançado por nossa sociedade levou</p><p>apenas um quarto da população à vida civilizada de comunicação letrada,</p><p>de produção e de consumo. Toda a imensa maioria foi excluída, o que</p><p>permite afirmar que, estatisticamente, no Brasil, marginal é o núcleo</p><p>letrado. O mais grave é que nossa sociedade está estruturada de forma tão</p><p>desigualitária que aquela minoria modernizada e a grande massa arcaica se</p><p>reproduzem em linhas paralelas, mantendo suas características de</p><p>desenvolvimento e de atraso. O trânsito de uma à outra é um fluxo tão</p><p>irrelevante que não permite esperar que a sociedade se homogenize em</p><p>qualquer tempo previsível.</p><p>Contribui para isto, visivelmente, nosso sistema educacional, que só dá</p><p>acesso à cultura letrada a uma minoria da população. Até parece um ato de</p><p>sabedoria das classes dominantes brasileiras que, não querendo mudanças</p><p>socioculturais, impõem uma escola só eficaz para produzir analfabetos.</p><p>Efetivamente, seu comando político está contente com a péssima escola que</p><p>aí está. Sua propensão é multiplicá-la, indiferente à sua evidente ineficácia;</p><p>cego e surdo para a necessidade de uma escola honesta. Seus amores se</p><p>voltam é para a mídia, perfeitamente domesticada e colocada a serviço de</p><p>seus interesses. Esse feliz casamento teve o efeito adicional de quebrar o</p><p>nervo ético do antigo jornalismo que, ao dominar novas linguagens e</p><p>estruturar-se para o lucro, passou a ser regido pelo caixa, matando todo o</p><p>espírito crítico que antes o movia.</p><p>Esta situação autoperpetuante de atraso deve ser rompida por muitas vias,</p><p>enfrentadas simultaneamente. Primacialmente, pelo crescimento de uma</p><p>prosperidade econômica que permita alargar a força de trabalho,</p><p>generalizando o emprego. Paralelamente, pela incorporação de toda a</p><p>infância na cultura letrada, capacitando as novas gerações para o trabalho</p><p>especializado e para o exercício consciente da cidadania, a fim de libertá-las</p><p>da marginalidade. E elevando seus níveis de aspiração pela possibilidade de</p><p>alcançar o consumo que almeja, através do trabalho e não da delinquência.</p><p>São Paulo e Rio, por exemplo, são sociedades exemplarmente modernas e</p><p>avançadas em seu núcleo próspero, mas estão cercadas por uma muralha de</p><p>atraso, que é a periferia de pobreza, que cresce cada vez mais, e cada vez</p><p>mais se afunda na delinquência e na violência. Seus sistemas escolares</p><p>produzem mais analfabetos que alfabetizados, uma vez que metade das</p><p>crianças sai da escola sem completar a 4ª série primária, que é o mínimo</p><p>para que se alfabetizem. O mesmo ocorre de forma ainda mais grave nos</p><p>outros centros metropolitanos do Brasil, porque neles é menor a</p><p>prosperidade e maior a miséria.</p><p>O desempenho do setor escolar brasileiro chega a ser vergonhoso. A</p><p>maioria das crianças brasileiras não passa da 1ª para a 2ª série. Apenas 20%</p><p>delas concluem a 4ª série. Menos de 10% do alunado completa o curso</p><p>primário sem repetência. O aproveitamento do ensino, segundo pesquisas</p><p>de avaliação internacionais, mostra que o Brasil está nas últimas posições,</p><p>só melhor que Moçambique, o pior do mundo.</p><p>Esta contraposição de modernidade e atraso, gerada historicamente, só</p><p>tende a perpetuar-se, se não sobrevier uma intervenção racional que rompa</p><p>seu processo reprodutivo. Procurando uma explicação para a discrepância</p><p>da evolução social e econômica do Brasil, com a escolarização, sugerimos</p><p>que esta fosse também uma herança do escravismo. Sendo o último país do</p><p>mundo a abolir a escravidão, guardamos marcas indeléveis desta instituição.</p><p>O escravismo coisifica o escravo, convertendo-o em mera força energética e</p><p>o condenando a só se manter humano por um esforço próprio de</p><p>transmissão dos valores culturais que guarda no peito. Mas a escravidão</p><p>também desumaniza o senhor, quando o compele a tratar seres humanos</p><p>como coisas, com um total desprezo por sua pobreza e atraso. Esta</p><p>indiferença pelo destino das pessoas se generalizou em nossa sociedade a</p><p>toda a população pobre, seja ela negra, mulata ou branca. Gerou-se, assim,</p><p>uma sociedade de desigualdades extremadas, cujos componentes</p><p>interdependentes, mas opostos um ao outro, crescem paralelamente</p><p>conservando suas características distintivas.</p><p>É pensável, ainda que improvável, uma insurgência revolucionária, que</p><p>avassale a parcela moderna, afogada na massa miserável. Mas ela só</p><p>generalizaria o atraso. A alternativa possível, mas também improvável,</p><p>seria um desenvolvimento evolutivo que, de forma conjugada, fosse</p><p>incorporando a massa marginal na força de trabalho através do pleno</p><p>emprego e na cultura letrada, através da escolarização de toda a infância.</p><p>Possibilidade longínqua sob a regência de uma classe dominante gerada no</p><p>mesmo processo, tendente a encarar as desigualdades como naturais.</p><p>O processo de integração de nossa sociedade na civilização industrial do</p><p>pós-guerra contrasta visivelmente com o de outras nações. Este é o caso das</p><p>nações orientais que se modernizaram nas últimas décadas e também de</p><p>uma ex-colônia de povoamento, a Austrália. No primeiro caso, trata-se de</p><p>populações homogêneas, que experimentaram processos complementares</p><p>de reformas das estruturas agrárias, que fixaram as pessoas no campo,</p><p>fazendo-as produzir fartura alimentar,</p><p>simultânea com o desenvolvimento</p><p>urbano, de base industrial, e com a modernização social, pela escolarização</p><p>de toda a infância.</p><p>No caso da Austrália, trata-se da transladação de populações europeias já</p><p>modernizadas, que prosperaram explorando as potencialidades dos ricos</p><p>territórios que ocuparam no além-mar, o que foi feito com a erradicação das</p><p>escassas populações indígenas que lá viviam.</p><p>Nós recebemos, também, um contingente de milhões de imigrantes</p><p>europeus e japoneses que, aqui, prosperaram igualmente, absorvendo a</p><p>maior parte das oportunidades de modernização que eles próprios foram</p><p>abrindo. Os contingentes mais prósperos da enorme população brasileira</p><p>pré-existente que edificara o país e o levara à independência somaram-se</p><p>aos recém-chegados, beneficiando-se das escassas oportunidades de</p><p>ascensão social que se ofereciam, até constituírem juntos o setor moderno e</p><p>próspero da sociedade.</p><p>Nada se fez, porém, pela massa popular ex-escrava, de negros e mulatos e</p><p>dos mestiços índio-europeus, de antiga extração, gerados por uma economia</p><p>faminta de mão de obra. Por força do monopólio da terra e de várias formas</p><p>de opressão social, essa massa permaneceu arcaica, metropolizando-se, mas</p><p>não se cidadizando. Uma das formas principais de exclusão foi negar-lhe a</p><p>escolarização, mantendo-a tão atrasada que só é capaz de situar-se nos</p><p>setores mais baixos, pior remunerados, da força de trabalho.</p><p>Nas últimas décadas uma nova onda de modernização dinamizou a</p><p>sociedade brasileira, mas o fez mantendo e até agravando seu caráter</p><p>cruamente excludente do grosso da população. Principalmente por seu</p><p>pendor a poupar mão de obra, que vem convertendo nossa massa</p><p>trabalhadora num contingente descartável, dispensável pelo sistema</p><p>produtivo. Não havendo condições nem possibilidades de exportar esta</p><p>massa a outros países, como fez a Europa, quando suas massas humanas</p><p>tornaram-se também descartáveis, são sombrias as perspectivas que se</p><p>abrem ao Brasil.</p><p>Os caminhos de saída desse impasse apresentam dois desafios principais.</p><p>A criação de uma economia de pleno emprego, que não corresponde aos</p><p>interesses do sistema porque exigiria profundas reformas estruturais que</p><p>alargassem as bases da sociedade para incorporar as massas marginais.</p><p>Parece também difícil dentro da ordem vigente o atendimento do segundo</p><p>requisito, que corresponde à implantação de uma escola honesta, capaz de</p><p>absorver toda a infância metropolitana e integrá-la à vida civilizada.</p><p>A predisposição da elite mandante é para multiplicar a escola precaríssima</p><p>que aí está. Extensão perfeitamente dispensável, uma vez que a</p><p>escolarização geral já foi alcançada, pois 90% das crianças ingressam em</p><p>nossas escolas. A tarefa que a história nos impõe é renovar radicalmente</p><p>todo o sistema escolar público, para que ele atenda às necessidades</p><p>específicas de seu alunado, oriundo das camadas mais pobres, sem</p><p>escolaridade prévia. Para tanto é indispensável no Brasil, como o foi em</p><p>todo mundo, uma escola em tempo integral para professores e para alunos.</p><p>Vale dizer, um CIEP – Centro Integrado de Educação Pública.</p><p>Tudo isto parece muito difícil, mas o efeito de demonstração que exercem</p><p>os CIEPs o torna mais provável. Estamos chegando a um tempo crítico em</p><p>que o mais ajuizado para os setores privilegiados da sociedade, apavorados</p><p>com o crescimento da violência, seja fazer alguma coisa concreta pelas</p><p>populações marginalizadas. A mais fácil e mais barata delas é a</p><p>escolarização.</p><p>O PROGRAMA ESPECIAL DE EDUCAÇÃO</p><p>Meu maior orgulho como educador foi implantar o Programa Especial</p><p>de Educação do Rio de Janeiro. Ele foi e é o mais amplo e ambicioso</p><p>empreendimento educacional realizado no Brasil. No plano numérico,</p><p>alcançou e superou a nossa meta de edificar quinhentos CIEPs. Sessenta e</p><p>oito deles funcionam como Ginásios Públicos e a eles se acrescentou toda</p><p>uma universidade das ciências e das engenharias. Eles aí estão como</p><p>grandes escolas, magnificamente projetadas por Oscar Niemeyer,</p><p>implantadas em amplos terrenos, funcionando como educandários e como</p><p>dinâmicos centros culturais e civilizatórios para as populações da periferia</p><p>metropolitana a que servem prioritariamente. Com efeito, os CIEPs abrem</p><p>nos fins de semana para a população circundante, seus ginásios cobertos,</p><p>seus campos de futebol e suas cinquenta piscinas, para práticas esportivas e</p><p>para festividades. O mesmo ocorre com suas bibliotecas – mais de</p><p>quinhentas, com cerca de quinhentas obras bem-selecionadas,</p><p>proporcionando boa leitura. Tudo isso sob a orientação de animadores</p><p>culturais que passaram a ser uma figura nova nas escolas do Rio, ao lado</p><p>dos videoeducadores e dos professores de informática.</p><p>Lamentavelmente, dos 506 CIEPs construídos, perdemos 97, entregues à</p><p>prefeitura da cidade do Rio, que os utiliza como meros edifícios, abrigando</p><p>a velha escola de turnos. Salvaram-se os 409, entregues à administração</p><p>estadual da educação. Destes, 343 funcionam como CIEPs, do 1º ao 5º ano</p><p>de escolaridade, oferecendo 205 mil vagas nos cursos diurnos e 137 mil nos</p><p>cursos noturnos. Os outros 66 são Ginásios Públicos, que dão cursos da 6ª à</p><p>8ª série do Ensino Fundamental e da 1ª à 3ª do nível médio, atendendo a 58</p><p>mil alunos presenciais e a outros tantos em programas de educação a</p><p>distância, através de módulos de estudo e monitoração, apoiados em</p><p>programas de televisão, emitidos diariamente de 9 às 10 da manhã, pela TV</p><p>Manchete, para todo o país.</p><p>Nossa conquista mais importante, entretanto, reside na preparação do</p><p>magistério</p><p>5</p><p>e na elaboração do material didático, tanto impresso como em</p><p>videocassete e em disquetes. Perto de 10 mil normalistas, admitidas como</p><p>bolsistas, realizaram programas de aperfeiçoamento, através de recursos</p><p>audiovisuais e do treinamento em serviço, devidamente orientado por</p><p>educadoras experimentadas. Esta preparação prático-teórica do</p><p>professorado, das diretoras e do pessoal de serviço, permitiu elevar acima</p><p>de qualquer expectativa o rendimento escolar dos alunos nos CIEPs.</p><p>Medido, através de avaliação externa realizada por equipe autônoma, esse</p><p>rendimento foi, no mínimo, de 88% para alunos com três anos de</p><p>escolaridade e de 74% para aqueles que estão na 5ª série. Isso significa que</p><p>se nosso regime fosse o das provas de reprovação, aqueles percentuais</p><p>corresponderiam aos alunos aprovados, o que representa o triplo do que se</p><p>alcança na escola convencional.</p><p>O êxito alcançado pelos CIEPs, enquanto escolas de tempo integral, de</p><p>dedicação exclusiva para alunos e professores, demonstra factualmente o</p><p>erro cruel em que incidem aqueles que insistem em manter o sistema de</p><p>turnos, que é uma perversão brasileira. Nossas crianças não são melhores do</p><p>que as de todo o mundo civilizado, que julga indispensável uma escola de</p><p>dia completo para que sua infância se integre no mundo letrado. Em</p><p>consequência, não há outro caminho para que o Brasil venha, um dia, a dar</p><p>certo que o de generalizar a educação tipo CIEPs.</p><p>Os CIEPs demonstram também que todas as crianças são suficientemente</p><p>inteligentes para aprender o que se ensina no curso fundamental. A maioria</p><p>delas, porém, necessita de ajudas compensatórias da pobreza em que vivem</p><p>e do atraso de suas famílias, que não tiveram escolaridade prévia, nem têm</p><p>casas e facilidades para que seus filhos estudem orientados por algum</p><p>parente letrado. Demonstramos exaustivamente que toda a infância</p><p>brasileira é capaz de ingressar no mundo das letras para se formar como um</p><p>trabalhador prestante e um cidadão lúcido, se lhes forem dadas algumas</p><p>ajudas fundamentais. Primeiro que tudo, uma educação de dia completo;</p><p>segundo, uma escola suficientemente ampla para que passem o dia</p><p>estudando, fazendo exercícios físicos e brincando; terceiro, uma dieta</p><p>alimentar balanceada, banho diário, assistência médica e dentária, além de</p><p>uma hora de estudo dirigido.</p><p>O custo mensal por aluno destes serviços, contabilizado nos CIEPs, é de</p><p>44,53 dólares, sendo 13,94 para custear a merenda, 4,24 para uniformes e</p><p>4,16 para saúde e esporte. Estes custos, aparentemente altos, na verdade são</p><p>mais baixos do</p><p>que a escola pública que se oferece à infância brasileira,</p><p>porque o rendimento escolar se mede é por seu produto, correspondente ao</p><p>número de crianças que completam o curso, e que nos CIEPs é três vezes</p><p>superior. Acresce a estes gastos o material didático que produzimos,</p><p>dezenas de livros e folhetos, numa tiragem de 11 milhões de exemplares,</p><p>destinados aos CIEPs e à rede pública. E, ainda, a elaboração de 380 horas</p><p>de cursos em videocassete e a produção e adaptação de múltiplos programas</p><p>de ensino por computador.</p><p>O balanço de nosso Programa Estadual de Educação quebra vários</p><p>preconceitos e esclarece várias questões cruciais, tergiversadas</p><p>frequentemente por esta pedagogia alienada e vadia que se cultiva no</p><p>Brasil.</p><p>• Comprovou, primeiro, que a culpa do fracasso da criança pobre em</p><p>nossas escolas não é da criança, mas da escola, que de fato só é adequada</p><p>para alunos que venham de famílias que tiveram escolaridade.</p><p>• Comprovou, também, para nossa alegria, que não é verdadeira a</p><p>alegação de que a criança que não comeu bem nos três primeiros anos de</p><p>vida torna-se irrecuperável para a educação. Não é verdade; mesmo</p><p>entrando nos CIEPs com 3 a 4 centímetros menos de estatura e com a</p><p>aparência tão raquítica que parecem ter 5 anos quando já completaram 7,</p><p>todas elas em seis meses começam a recuperar peso e altura e a ganhar</p><p>vivacidade e alegria para a aprendizagem.</p><p>• Comprovou, ainda, que o sistema de reprovação punitiva, que só se</p><p>aplica em nosso país, é mais uma discriminação classista do que uma</p><p>pedagogia. Nos CIEPs a progressão contínua permite aos alunos vindos das</p><p>famílias mais atrasadas alcançar um rendimento progressivo e, a partir da 3ª</p><p>série, equiparar-se aos alunos mais afortunados, aprovando um mínimo de</p><p>74% deles ao fim do curso fundamental.</p><p>• Comprovou, finalmente, que o menor abandonado de que temos tantos</p><p>milhões no Brasil é, de fato, uma criança desescolarizada. Quer dizer,</p><p>desciepada, porque só uma escola de tempo integral pode retê-los durante</p><p>todo o dia, retirando-os da escola do crime e do lixo, e manter 90% deles</p><p>frequentando as aulas durante cinco anos, porque nos CIEPs não há evasão.</p><p>Acresce que cada CIEP mantém duas famílias de pais sociais, vivendo em</p><p>instalações que dão para cuidar de 24 alunos residentes. Isso perfaz no</p><p>conjunto dos CIEPs uma oferta de mais de 8 mil vagas para salvar crianças</p><p>do abandono; 4.778 das quais já foram ocupadas temporária ou</p><p>permanentemente.</p><p>Em conclusão, me dou o gosto de afirmar que com os CIEPs, nós,</p><p>educadores, começamos a nos aproximar da massa maior da infância</p><p>brasileira, com a capacidade de vê-la tal qual é e de ajudá-la a superar, pela</p><p>educação, suas deficiências, para si próprias e para o Brasil. A verdade é</p><p>que mais de 90% das crianças frequentam nossas escolas por mais de quatro</p><p>anos, o que demonstra o apreço da nossa população pela educação e a</p><p>consciência de que seus filhos só progredirão na vida se progredirem na</p><p>escola. O crime maior que viemos cometendo e em que tantos idiotas ainda</p><p>persistem é oferecer a essa multidão de crianças uma escola de turnos</p><p>totalmente inadequada às suas necessidades. Tomam a minoria ínfima de</p><p>alunos de classe média que, a rigor, nem precisariam dela, como se fosse</p><p>seu verdadeiro alunado, porque é o único capaz de progredir numa escola</p><p>de turnos. O que chamamos evasão escolar não é mais do que expulsão da</p><p>criança pobre por uma escola que rejeita e maltrata a imensa maioria de</p><p>seus alunos.</p><p>OS GINÁSIOS PÚBLICOS</p><p>Uma das principais iniciativas do Programa Especial de Educação foi a</p><p>divisão do Ensino Fundamental em dois troncos. Primeiro, o tronco de 1ª a</p><p>5ª séries, dos CIEPs, que cobre a faixa etária dos 7 aos 12 anos e prepara os</p><p>professores de turma bem como o material didático indispensável a seu</p><p>trabalho. O tronco que cobre a faixa etária dos 12 aos 18 anos é formado</p><p>pelos Ginásios Públicos – setenta deles já implantados –, e corresponde ao</p><p>ensino da 6ª à 8ª série e ao curso secundário, que pode ser ministrado na sua</p><p>forma compacta, de dois anos, ou na sua forma corrente, de três anos.</p><p>Essa separação atende à necessidade de tratar diferenciadamente as</p><p>crianças dos adolescentes, que têm requisitos educacionais específicos, os</p><p>da infância e os da puberdade, exigindo tratamento especializado. Essa</p><p>divisão se impõe, também, para atender à formação do magistério, que deve</p><p>ser totalmente diferente para professores de turma e para professores de</p><p>matérias.</p><p>Nosso programa provê, ainda, atendimento noturno, em regime de ensino</p><p>a distância, para maiores de 15 anos, para o curso básico – de 1ª a 5ª série –,</p><p>e outros dois atendimentos para maiores de 18 anos, com as matérias</p><p>correspondentes ao período da 6ª à 8ª série do Ensino Fundamental e de</p><p>todo o curso secundário. Para estes cursos de educação a distância,</p><p>vastíssimo material didático foi elaborado e produzido na forma de</p><p>módulos, que são entregues aos alunos na medida em que comprovem, em</p><p>exames, haver dominado o módulo anterior. Tais materiais se apresentam</p><p>como Curso de Admissão, correspondente às matérias da 5ª série; Curso de</p><p>Madureza I, correspondente às matérias da 6ª à 8ª série; e Curso de</p><p>Madureza II, correspondente ao secundário.</p><p>A UNIVERSIDADE DO TERCEIRO MILÊNIO</p><p>A Constituição do Rio de Janeiro mandou criar a Universidade Estadual</p><p>do Norte Fluminense – UENF. Isso é o que o governador Leonel Brizola</p><p>está fazendo, com sede em Campos e unidades descentralizadas em Macaé</p><p>(Petróleo e Gás), Itaperuna (Engenharia Agrária), Pádua (Veterinária) e</p><p>Itaocara (Agricultura).</p><p>A UENF será uma universidade-laboratório; uma universidade para o</p><p>terceiro milênio, modelada no MIT, devotada à pesquisa, à experimentação</p><p>e à formação de cientistas e de tecnólogos. Seu compromisso principal é</p><p>com o domínio, o cultivo e a difusão das ciências e das altas tecnologias,</p><p>requeridas para desenvolvimento nacional e local. Com especial atenção</p><p>para as áreas regionalmente decisivas do petróleo e do gás, da agroindústria</p><p>açucareira, do reflorestamento, da ecologia, da produção agrícola e da</p><p>pecuária.</p><p>A Universidade de Campinas, que retomou os ideais científicos e o</p><p>ímpeto renovador da Universidade de Brasília, quando essa foi avassalada,</p><p>exemplifica o tipo de universidade que estamos desafiados a instituir para</p><p>não sofrermos uma nova recolonizarão cultural. Inclusive para o efeito de</p><p>interiorizar o saber técnico-científico no Rio de Janeiro, como vem se</p><p>dando em São Paulo. Para alcançar essas metas, nossa universidade deverá</p><p>renovar todos os procedimentos de pesquisa – mais frutífera que luminífera,</p><p>menos acadêmica e mais comprometida social e regionalmente; de</p><p>docência, a começar pela seleção do professorado – que se reduzirá à</p><p>metade; e de recrutamento ao alunado – ampliado e diversificado.</p><p>A nova universidade já está funcionando em instalações próprias, em</p><p>Campos, onde conta com mais de cem professores titulares, todos eles com</p><p>doutorado alcançado em grandes universidades, em funções de chefes de</p><p>pesquisa e orientadores de programas de pós-graduação, que já atendem</p><p>setenta mestrandos e doutorandos.</p><p>O alunado começa, também, a surgir. Somam 208 estudantes de</p><p>engenharias, cujo número dobrará em 1994. Todos eles cursando um novo</p><p>padrão de estudos. Este consiste em cursos-troncos de dois anos de estudo</p><p>de disciplinas básicas das ciências físicas, biológicas e humanas,</p><p>ministrados, simultaneamente, com duas práticas fundamentais: em</p><p>informática, como instrumento de estudo e pesquisa, e no treinamento</p><p>básico em eletricidade, eletrônica e mecânica, para que aprendam a usar as</p><p>mãos.</p><p>A seguir, passam ao segundo ciclo, que varia segundo seus talentos e</p><p>ambições. Os melhores estudantes podem optar por uma carreira científica,</p><p>prosseguindo os estudos nos laboratórios, para ali fazer, se possível</p><p>simultaneamente, o bacharelado e o mestrado. Outra opção é uma das</p><p>carreiras profissionais, de dois anos mais, de treinamento em serviço. Seja</p><p>nos centros de experimentação da própria universidade, seja em empresas</p><p>associadas, para completarem sua formação como engenheiros de</p>ao Congresso, em medida provisória, já transformada em lei, o tipo de colegiado consultivo que lhe parece conveniente para normatizar a educação. Na mesma proposição trata, também, da forma de eleição para compor o governo das universidades e escolas superiores. Estende-se, ainda, à fixação de critério de avaliação por rendimento de nossas escolas de terceiro grau, tendo em vista exigir delas mais eficácia educativa. Em consequência, nosso Substitutivo fica livre de regulamentar essas matérias que de direito cabem ao Poder Executivo. Na organização dos graus de ensino, nosso Substitutivo reitera o ideal de alcançarmos uma escolaridade universal de oito séries de Ensino Fundamental, que também se procuraria generalizar a todo o alunado. Tomamos o cuidado, porém, de facultar aos sistemas estaduais de ensino a possibilidade de desdobrar essa sequência em ciclos que ajustem as escolas às condições de vida e de trabalho de seus professores e alunos. Assim é que se tornará possível oferecer, por exemplo, um ciclo de 1ª a 5ª série para crianças de 7 a 12 anos, a cargo de professores de turma, devidamente preparados, remunerados e motivados. Num segundo ciclo, ministram-se as matérias de 6ª a 8ª série para jovens que já alcançaram a adolescência e cuja educação estará entregue a diversos professores de matéria. O Ensino Médio seria um terceiro ciclo, com vocação menos acadêmica de preparação para o Ensino Superior do que prática para o treinamento de trabalhadores. Dentro de tal estrutura seria possível atender à especificidade do ensino de cada nível, às diferenças etárias e de conduta dos alunos e sobretudo à formação do respectivo professorado. Com iguais preocupações, se propõe a criação de um Curso Normal Superior para a formação de professores de turma através de estudos pedagógicos e do treinamento em serviço. Vale dizer que, além da informação pedagógica e didática, eles teriam a oportunidade de exercitar- se na prática educativa através de escolas públicas e privadas para isso credenciadas. Nos mesmos institutos ou faculdades seria formado, também com igual sentido prático da arte de educar, o professor de matéria, cujo conhecimento de conteúdo das disciplinas que ensina podia ser alcançado em outra instituição de Ensino Superior. Nosso Substitutivo abre também a possibilidade de que no Brasil, como ocorre em todo o mundo civilizado, se criem progressivamente escolas de tempo integral. Só elas são capazes de alfabetizar crianças oriundas de famílias pobres, que não tiveram escolaridade prévia. O pecado maior da pedagogia brasileira é seu pendor a responsabilizar a criança pobre por seu fracasso escolar. Este é culpa principalmente de nosso sistema escolar, que supõe que cada criança esteja alimentada, tenha material didático disponível e viva numa casa onde alguém possa ajudá-la nos estudos. Como a imensa maioria das famílias, inclusive nos estados mais ricos, não tem essas condições, seus filhos são condenados à reprovação e ao fracasso na vida. O projeto da Câmara oferecia formação técnico-profissional específica a quem desejasse, sem indicar de que modo tão ampla oferta poderia ser concretizada. Nosso substitutivo, desatrelando a educação acadêmica do treinamento profissional, abriria as escolas técnicas aos alunos da rede pública e privada, só condicionando as matrículas à capacidade de aprender. Nosso Substitutivo contrasta também com o oriundo da Câmara pela atenção maior que devota ao Ensino Fundamental, propondo-lhe padrões explícitos de eficácia educativa e um processo nacional de avaliação externa, destinado a forçar a melhoria da qualidade das escolas. Propõe, também, um grande número de medidas que transfigurariam o panorama educacional brasileiro. Uma dessas inovações é instituir a universidade especializada (saúde, engenharia e outras), superando a concepção da universidade omnibos que pretende cobrir todos os campos do saber. Outra inovação é instituir Cursos de Sequência que permitiriam aos alunos seguir as matérias ministradas pelas universidades e escolas superiores fora das linhas escritas pelo currículo mínimo, mas correspondendo a seus interesses concretos de formação profissional. Contando-se, hoje, por milhares as habilitações de nível superior indispensáveis ao funcionamento da sociedade moderna, precisamos abandonar a tendência de tudo reduzir a umas poucas carreiras curriculares prescritas. Nosso projeto permite conferir a mesma autonomia de que gozam as universidades às demais instituições de Ensino Superior que alcançam grau de excelência. Inova-se, por igual, definindo obrigações docentes para os professores a fim de sairmos da situação vexatória de nossas universidades públicas que contam com corpos docentes três vezes mais numerosos que o das maiores universidades do mundo, com rendimento escolar muitíssimo menor e rendimento científico e tecnológico nulo. A característica mais nobre de nosso Substitutivo reside em sua ambição de assegurar a um tempo a unidade do sistema nacional de educação e a liberdade de variar, atendendo às especificidades dos estados e municípios. Para isso, redefine o papel do Ministério da Educação, que em lugar de reitor do processo educativo passa a ser o colaborador pronto a ajudar não só financeiramente, mas tecnicamente os sistemas estaduais e municipais, pondo à sua disposição as facilidades que a nova tecnologia educativa oferece hoje em dia. Nesse sentido, nosso Substitutivo inscreveu em suas disposições transitórias algumas medidas de importância crucial para a educação brasileira. Dá início à Década da Educação, instituída pela Constituição da República, definindo uma série de metas fundamentais a serem cumpridas. A primeira delas é estancar a desastrosa produção de novas gerações de analfabetos que mantêm seu número praticamente fixo e até crescente ao longo das décadas, em razão da ineficácia de nosso sistema escolar básico. Isso se alcançará pelo censo obrigatório e pela escolarização compulsória, por parte dos municípios, de todas as crianças que alcancem sete anos de idade, acompanhando essa conscrição com um esforço autêntico para elevar a qualificação do magistério em exercício, com apelo às novas tecnologias educativas da educação a distância, através de textos e da televisão. Simultaneamente, se fará em cada município a chamada dos jovens que alcançam os 14 e 16 anos analfabetos ou insuficientemente alfabetizados, para fazê-los retornarem aos estudos mediante cursos de educação a distância e quaisquer outros meios concretos de superar suas deficiências. Estas e outras modalidades de colaboração do Ministério da Educação com os estados e municípios permitirão o salto indispensável para que o Brasil progrida efetivamente, pela integração de todo o seu povo na civilização letrada. Ameaça mortal Pesa, entretanto, sobre nosso sistema de educação superior, uma ameaça que pode ser fatal pelos danos que o Substitutivo, tal como está redigido, provocaria. Com efeito, duas emendas nele incluídas na última hora através de um acordo de lideranças partidárias, desorganizariam toda a educação superior brasileira. O primeiro deles é a modificação do inciso II do art. 51 que inclui a expressão especialização entre os graus de ensino. Estes são, em todo o mundo, a graduação, o mestrado e o doutorado. Sua equiparação a simples cursos de especialização é um absurdo. Só tem como objetivo livrar as escolas particulares de fazerem seus professores realizarem cursos de pós-graduação. A segunda emenda incorporada ao Substitutivo consiste no § 2º do art. 89, que atribui à Capes a culpa de que alguém não tenha concluído o mestrado ou o doutorado, outro absurdo. Estas duas emendas, se aprovadas pela Câmara, serão mortais para a educação brasileira que já é extremamente prejudicada pelo fato de que a expansão de nossa educação superior não se fez nas escolas capacitadas a ministrar bons cursos, mas se deu através da criação improvisada de escolas privadas, cujo objetivo, na maior parte dos casos, era mercantil. Ninguém no mundo