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<p>Literatura Indígena Brasileira</p><p>No século XXI, vozes indígenas passam de fato a trazer suas manifestações culturais e suas</p><p>memórias para a história da literatura brasileira. As vozes indígenas falam por si, do seu lugar,</p><p>do seu pertencimento, expondo suas versões a partir da sua ancestralidade, das suas origens.</p><p>A produção literária de autoria indígena se torna ferramenta potente para difundir as tradições e</p><p>as culturas dos nativos, recontar a história do Brasil a partir de uma perspectiva diferente da</p><p>narrativa oficial, resgatar a representação histórica dos povos originários, afirmar a identidade</p><p>de diferentes grupos, ressaltando as diversas etnias existentes no país, valorizar não só a</p><p>literatura escrita, mas também a literatura oral performática que envolve a voz e a entonação dos</p><p>contadores, as danças, as músicas, os ritos, o grafismo.</p><p>A literatura de autoria indígena encontra novos meios de se propagar no mundo atual. A</p><p>produção literária escrita autoral permite agora a visibilidade de um povo que foi excluído por</p><p>muitos séculos, mas que hoje pode tornar-se protagonista em suas próprias narrativas.</p><p>Nós, povos indígenas,</p><p>Queremos brilhar no cenário da História</p><p>Resgatar nossa memória</p><p>E ver os frutos de nosso país, sendo divididos</p><p>Radicalmente</p><p>Entre milhares de aldeados e “desplazados”</p><p>1</p><p>Como nós</p><p>POTIGUARA, Eliane (2004). Metade cara, metade máscara. São Paulo: Global.</p><p>Autores Indígenas</p><p>Ailton Krenak</p><p>Se a Terra adoecer, nós adoecemos junto. Não tem jeito de sermos pessoas saudáveis com o</p><p>planeta todo quebrado.</p><p>Ailton Alves Lacerda Krenak</p><p>2</p><p>- líder indígena, ambientalista,</p><p>filósofo, poeta, escritor, pesquisador, jornalista, nasceu em 29</p><p>de setembro de 1953, em Minas Gerais, na região do Vale do</p><p>Rio Doce, território do povo Krenak, um lugar cuja ecologia se</p><p>encontra profundamente afetada pela atividade de extração de</p><p>minérios.</p><p>Passou a se dedicar exclusivamente à causa indígena a partir da década de 1980. Em 1985</p><p>fundou a organização não governamental Núcleo de Cultura Indígena que promove a cultura</p><p>dos povos originários a partir de festivais e encontros entre os grupos.</p><p>Em 1987, durante a Assembleia Constituinte, protagonizou uma das cenas mais marcantes da</p><p>redemocratização. Ao discursar no plenário do Congresso Nacional, pintou o rosto de preto com</p><p>pasta de jenipapo</p><p>3</p><p>, simbolizando o retrocesso que os direitos indígenas sofriam no país. Seu</p><p>1 Deslocados.</p><p>2 Faz parte da lista de leituras obrigatórias do vestibular da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas-2024)</p><p>3 ÍNDIO CIDADÃO? - Grito 3 Ailton Krenak - YouTube</p><p>https://www.youtube.com/watch?v=kWMHiwdbM_Q&t=145s</p><p>papel na assembleia foi determinante para, na Constituição de 1988, ser incluído o “Capítulo</p><p>dos índios” que garante os direitos indígenas à terra e à cultura autóctone</p><p>4</p><p>.</p><p>Durante toda sua carreira, Ailton Krenak teceu duras críticas ao sistema capitalista e ao</p><p>eurocentrismo na percepção de civilização. O capitalismo e o colonialismo presentes no</p><p>processo de formação do povo brasileiro são pontos principais de seu pensamento e temas</p><p>recorrentes em suas obras. Em suas publicações, o autor compartilha reflexões e opiniões</p><p>acumuladas em suas viagens pelo Brasil e pelo mundo acerca dos principais problemas</p><p>socioambientais da contemporaneidade.</p><p>Publicou os seguintes títulos: “O lugar onde a Terra descansa” (2000); “Ailton Krenak:</p><p>encontros” (2015); “Ideias para adiar o fim do mundo” (2019); “O amanhã não está à</p><p>venda” (2020), a “A vida não é útil” (2020).</p><p>(CEPERJ-2020)</p><p>Texto I</p><p>NÃO SE COME DINHEIRO</p><p>Ailton Krenak</p><p>Quando falo de humanidade não estou falando só Homo sapiens, me refiro a uma imensidão</p><p>de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos a baleia, tiramos barbatanas de tubarão,</p><p>matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da</p><p>matança de todos os outros humanos que nós achamos que não tinham nada, que estavam aí só</p><p>para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba</p><p>gigante. Ao longo da história, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da humanidade - que está</p><p>na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições - foram</p><p>devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta</p><p>5</p><p>, a humanidade, e todos</p><p>que estão fora dela são as sub-humanidades. Não são só os caiçaras, quilombolas e os povos</p><p>indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é</p><p>o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte,</p><p>estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo o que não interessa; o que sobra, a</p><p>sub-humanidade - alguns de nós fazemos parte dela.</p><p>É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra</p><p>fantástica do organismo da Terra (...) dizer: "Respirem agora, eu quero ver.” [...] Estamos</p><p>sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se cortarem nosso ar por alguns minutos,</p><p>nós morremos. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal</p><p>humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de</p><p>aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra.</p><p>E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos</p><p>para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo,</p><p>essa coisa invisível a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que</p><p>se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar</p><p>todos os dirigentes do banco central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, qual economia</p><p>deles. Ninguém come dinheiro.</p><p>Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciãos do povo Lakota</p><p>falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Un</p><p>Manee, também conhecido como Vernon Foster.</p><p>4 Que ou quem é natural do país ou da região em que habita e descende das raças que ali sempre viveram; aborígene,</p><p>indígena.</p><p>5 Classe, linhagem, grupo social.</p><p>(Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além</p><p>de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras</p><p>de um ancestral, ele dizia: "quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for</p><p>removida da Terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro”.</p><p>KRENAK, Ailton. Não se come dinheiro. In: Avida não é útil.</p><p>SP: Companhia das Letras, 2020. Adaptado.</p><p>Texto II</p><p>A história da literatura brasileira é em grande parte a história de uma imposição cultural que</p><p>foi aos poucos gerando expressão literária diferente, embora em correlação estreita com os</p><p>centros civilizadores da Europa. Esta imposição atuou também no sentido mais forte da</p><p>palavra, isto é, como instrumento colonizador, destinado a impor e manter a ordem política e</p><p>social estabelecida pela Metrópole, através inclusive das classes dominantes locais.</p><p>CANDIDO, Antônio. Iniciação à Literatura Brasileira. Rio de Janeiro: Outro sobre Azul, 2015.</p><p>A relação entre os textos I e II pode ser evidenciada no seguinte trecho:</p><p>a) “E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum</p><p>lugar.”</p><p>b) “Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na</p><p>América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.”</p><p>c) “Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente</p><p>nós morremos.”</p><p>d) “A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível a não ser por aquele emblema</p><p>de cifrão.”</p><p>Aline Rochedo Pachamama</p><p>Os poetas desencontram</p><p>espaços no planeta de concreto</p><p>e criam seu próprio mundo</p><p>no coração das pessoas.</p><p>Aline Rochedo Pachamama (Churiah Puri) - Mulher originária do</p><p>Povo Puri da Mantiqueira, historiadora, escritora, ilustradora, Doutora em</p><p>História Cultural pela UFRRJ, Mestre em História Social pela UFF,</p><p>Idealizadora da Pachamama Editora</p><p>6</p><p>(editora formada por mulheres</p><p>originárias).</p><p>Aline traz a tona o importante papel da mulher indígena na manutenção da memória oral e</p><p>ancestral na sociedade brasileira. Para a autora: “a História Oral das Mulheres Indígenas</p><p>possibilita valorizar a sensibilidade histórica, sinalizando a interpretação da emoção, a</p><p>felicidade, o medo, a rejeição, dentre outros sentidos que estruturam a vida cotidiana”.</p><p>Nesse sentido, sua obra Guerreiras “apresenta a realidade de mulheres indígenas em contexto</p><p>urbano, suas conquistas e desafios. Pachamama parte do relato e histórias destas mulheres, que</p><p>guardam também a memória e a cultura de seus povos, para discutir questões fundamentais</p><p>como a relação colonial, o racismo, a misoginia e a violência. Ao mesmo tempo, essas</p><p>narrativas trazem à tona as formas de resistência e lutas individuais e coletivas dessas mulheres,</p><p>6</p><p>Materialização de uma local para que os indígenas tivessem seu próprio lugar de fala.</p><p>sua força, sabedoria e o poder da palavra de gerar diálogos, transformações e aprendizados,</p><p>quando há uma escuta sincera a essas falas de coragem”.</p><p>7</p><p>Aline Rochedo Pachamama também escreveu: Pachamama, de 2016, o infanto-juvenil</p><p>polilíngue Taynôh, disponível em guarani, xavante, português e espanhol, de 2019, Boacé Uchô,</p><p>de 2020.</p><p>A obra Boacé Uchô (que significa "palavra-terra" e “palavra que pulsa”, na língua do Povo Puri)</p><p>mostra as lutas e a cultura do povo originário. Aline Rochedo afirma, “Como há muitos</p><p>documentos escritos por não indígenas, que dão uma ideia falaciosa sobre nosso povo, a ideia</p><p>desse livro é falar por nós. Minha defesa toda nessa perspectiva é mostrar que a história não é só</p><p>feita pelos documentos escritos pelos não indígenas, pelos colonizadores e pelos viajantes, é que</p><p>a história está na própria terra”.</p><p>Cristino Wapichana</p><p>... a definição existe porque as pessoas ainda fazem seleção das coisas. É uma literatura</p><p>recente, mas como qualquer outra tem autores excelentes, tem bons e tem razoáveis autores.</p><p>Literatura é literatura, enquanto não houver essa compreensão vão fazer essa divisão. Colocam</p><p>o indígena porque ainda precisam identificar.</p><p>Cristino Wapichana - músico, cineasta, compositor, escritor, contador de</p><p>histórias, ativista, Patrono da Cadeira 146 da Academia de Letras dos</p><p>Professores (APL) da Cidade de São Paulo.</p><p>Wapichana é autor do livro A Boca da Noite, traduzido para o sueco/dinamarquês, vencedor da</p><p>Estrela de Prata do Prêmio Peter Pan 2018 do International Board on Books for Young People</p><p>(IBBY). Também escreveu A Cor do Dinheiro da Vovó, Ceuci, a Mãe do Pranto, A Onça e o</p><p>Fogo, Sapatos Trocados: como o tatu ganhou suas grandes garras, O Cão e o Curumim e A</p><p>Oncinha Lili.</p><p>(ENADE-2017)</p><p>Considere, a seguir, o relato de Cristino Wapichana, indígena, nascido em Boa Vista, Roraima,</p><p>escritor e compositor, que tem como principal tema a cultura indígena.</p><p>[...] Mário de Andrade, vocês já devem ter lido Macunaíma e outras grandes obras dele, foi um</p><p>cara genial. Morreu aos 52 anos, mas deixou uma história e uma obra esplendorosa. Quando</p><p>escreve Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, ele consegue informações de um alemão</p><p>chamado Theodor Koch-Grünberg, que esteve em Roraima entre 1911 e 1913. Esse alemão</p><p>saiu de Itu, via rio Negro, e foi de canoa até a ocupação de Roraima, até o rio Orinoco, na</p><p>Venezuela.</p><p>Nesse trajeto, ele colheu muitas histórias, e uma delas foi a de Macunaíma. Na verdade não é</p><p>Macunaíma, mas Macunáima. Só que Mário de Andrade colocou Macunaíma. Macunaíma fez</p><p>muitas peripécias [...], outra história é que ele morre, matam ele, mas ele mesmo ressuscita.</p><p>Tem uma série de coisas, mas Macunáima, para a gente e para vários povos na fronteira do</p><p>Brasil com a Venezuela e República Federativa da Guiana, é um semideus. [...] Vocês não</p><p>conheciam Macunáima, certo? Vocês conheciam Macunaíma, que é o herói sem nenhum</p><p>caráter.</p><p>7 48528-172985-1-PB (1).pdf</p><p>file:///C:/Users/arian/Downloads/48528-172985-1-PB%20(1).pdf</p><p>Para a gente, Macunáima é um semideus e temos grande respeito por ele. Quando o livro</p><p>começa dizendo que ele nasceu no rio Urariquera, numa noite escura, nasceu negrinho e tal, eu</p><p>conheço Urariquera e posso dizer que ele não nasceu lá. E então ele fala da Muiraquitã, mas</p><p>ela não é de lá, é da parte do Amazonas no Pará. [...] Mário de Andrade desloca essa história,</p><p>ele transforma isso.</p><p>Disponível em: <http://www.32bienal.org.br/>. Acesso em: 20 jul. 2017 (adaptado).</p><p>Com base no texto, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas.</p><p>I. A literatura não necessariamente registra a verdade sobre o real, fato demonstrado</p><p>pela revelação de Cristino Wapichana, das diferenças entre Macunaíma e</p><p>Macunáima.</p><p>(porque)</p><p>II. O fato de Mário de Andrade ter se baseado no registro escrito por Theodor Koch</p><p>Grünberg dificultou uma transposição do valor que o semideus Macunáima</p><p>apresentava para a comunidade indígena.</p><p>A respeito dessas asserções, assinale a opção correta.</p><p>a) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justificativa correta da I.</p><p>b) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma justificativa correta</p><p>da I.</p><p>c) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição falsa.</p><p>d) A asserção I é uma proposição falsa, e a II é uma proposição verdadeira.</p><p>e) As asserções I e II são proposições falsas.</p><p>Daniel Munduruku</p><p>Eu roubo as horas para lhes dar tempo. Tempo de aprender a usar o tempo. Quem tem hora não tem</p><p>tempo: tempo de olhar o tempo.</p><p>Daniel Munduruku - ativista, ator, escritor e professor paraense,</p><p>graduado em Filosofia, História e Psicologia, Mestre em Antropologia</p><p>Social pela USP, Doutor em Educação também pela USP, possui Pós-</p><p>Doutorado em Literatura pela Universidade Federal de São Carlos, é</p><p>pertencente ao povo indígena Munduruku.</p><p>Daniel é autor de mais de 50 livros publicados no Brasil e no exterior. Boa parte de seus livros é</p><p>classificada como literatura infanto-juvenil e remonta a tradição oral indígena através de</p><p>fábulas, contos e mitos de criação.</p><p>(UNIMONTES-2018)</p><p>Leia o trecho extraído do conto Depois do dilúvio, presente no livro Contos indígenas</p><p>brasileiros, de Daniel Munduruku:</p><p>Os Kaiurucré continuavam a fazer, com as cinzas, outros animais. Faziam isso sempre de noite.</p><p>Num certo dia, estando a esculpir um outro bicho, começou a amanhecer e isso era muito</p><p>perigoso para eles. Para que este bicho ficasse perfeito, faltava apenas a língua, os dentes e</p><p>algumas unhas. Mas eles não teriam tempo de completar. A solução foi colocar varinhas na</p><p>boca do animal. – Como vocês não têm dentes – disse o ancestral – comerão apenas formigas.</p><p>E é por isso que o tamanduá é um animal inacabado, incompleto e imperfeito.</p><p>Tendo o episódio do tamanduá como referência e outros mitos Kaigang semelhantes que</p><p>compõem o conto de Daniel Munduruku, todas as afirmativas estão corretas, EXCETO:</p><p>a) Os mitos Kaigang presentes no conto são apoiados em eventos históricos narrados pelos</p><p>ancestrais da comunidade.</p><p>b) O episódio acima, assim como outros semelhantes ao longo do conto, tem por função</p><p>explicar a origem dos homens e das coisas do mundo através da narrativa mítica.</p><p>c) O conto busca retratar o imaginário indígena na perspectiva do próprio povo e de suas</p><p>histórias.</p><p>d) A narração de mitos como esse, entre os membros da comunidade, tem por função</p><p>provê-los de conhecimentos acerca de si</p><p>mesmos e de melhor relação com o que os</p><p>rodeia.</p><p>Para Munduruku, “A escola deve levar luz onde há escuridão para as pessoas enxergarem com</p><p>clareza, tolerância e respeito. Sobretudo, aceitar o outro do jeito que ele é e não do jeito que</p><p>gostaríamos que ele fosse, porque sempre que jogamos sobre o outro a nossa verdade, estamos</p><p>colonizando. As verdades existem em todas as culturas. Ser humano é aceitar o outro tal como</p><p>ele é. Educação tem que criar espírito de generosidade. Somos todos ignorantes e precisamos</p><p>estar o tempo todo abertos a aprender. A grande beleza do Brasil é nossa diversidade e a partir</p><p>do momento que aceitamos isso o Brasil vira uma maravilha”.</p><p>(UFSCAR-2016)</p><p>Declarações de Daniel Munduruku</p><p>Frequentei a escola durante a ditadura militar, na década de 1970. Naquela época, as</p><p>informações que eu tinha em sala de aula sugeriam que índio era atrasado, que índio era</p><p>selvagem. Isso chegava até mim com um impacto muito violento. Passei a ter vergonha da</p><p>minha cara, do meu cabelo, da minha origem. Eu não queria mais ser índio.</p><p>Quem mudou a visão negativa que eu fazia de mim mesmo foi meu avô Apolinário. É claro que</p><p>não foi da noite para o dia, mas o avô foi mostrando, às vezes com sábias palavras, às vezes</p><p>apenas com o silêncio, que aquela era a minha família e que longe dela eu seria infeliz. Com</p><p>meu avô aprendi o valor da ancestralidade.</p><p>(Bruno Ribeiro. Daniel Munduruku: entrevista. http://consciencia.net. Adaptado)</p><p>A partir da leitura do texto, é possível entender que Daniel Munduruku passou a ter uma visão</p><p>negativa de si mesmo após:</p><p>a) receber informações preconceituosas na escola;</p><p>b) perceber que tinha dificuldades de aprendizado;</p><p>c) escutar colegas de classe criticar sua aparência física;</p><p>d) constatar que os índios apoiaram a ditadura militar;</p><p>e) descobrir que não sabia controlar seu instinto violento.</p><p>Eliane Potiguara</p><p>Nós, povos indígenas,</p><p>Queremos brilhar no cenário da História</p><p>Resgatar nossa memória</p><p>E ver os frutos de nosso país, sendo divididos</p><p>Radicalmente</p><p>Entre milhares de aldeados e “desplazados”</p><p>Como nós</p><p>Eliane Potiguara, do poema "Identidade indígena" (1975)</p><p>Eliane Lima dos Santos</p><p>8</p><p>- ativista, professora, primeira</p><p>escritora indígena no Brasil, poeta, contadora de história, nascida</p><p>em 1950, de origem étnica Potiguara, do tronco Tupi Guarany,</p><p>fundadora e coordenadora da 1ª organização de mulheres</p><p>indígenas no país (GRUMIN/Grupo Mulher-Educação Indígena),</p><p>formada em Letras (Português-Literaturas) e Educação pela</p><p>UFRJ, especialista em Educação Ambiental pela UFOP, participante da elaboração da</p><p>"Declaração Universal dos Direitos Indígenas" na ONU, Embaixadora Universal da Paz em</p><p>Genebra, doutora honoris causa pela UFRJ.</p><p>Eliane inaugurou a literatura indígena com o livro A Terra é a Mãe do Índio,</p><p>9</p><p>premiado pelo</p><p>Pen Club da Inglaterra e Fundo Livre de Expressão. Em 1994, lançou o seu segundo</p><p>livro Akajutibiro: Terra do índio Potiguara, apoiado pela UNESCO. Seu livro “Metade Cara,</p><p>Metade Máscara” reúne textos, crônicas e poesias que contam todas essas memórias de Eliane e</p><p>das mulheres de sua vida.</p><p>O seu livro mais recente A Cura da Terra conta a história da pequena índia Moína, que busca</p><p>entender o sentido da vida e acaba conhecendo a história de seus ancestrais e a relação deles</p><p>com o elemento da cura, a terra.</p><p>(INAZ do Pará-2020)</p><p>Brasil</p><p>Que faço com minha cara de índia?</p><p>E meus cabelos</p><p>E minhas rugas</p><p>E minha história</p><p>E meus segredos?</p><p>Que faço com a minha cara de índia?</p><p>E meus espíritos</p><p>E minha força</p><p>E meu tupã</p><p>E meus círculos?</p><p>Que faço com a minha cara de índia?</p><p>E meu Toré</p><p>E meu sagrado</p><p>E meus “cabocos”</p><p>E minha Terra?</p><p>Que faço com a minha cara de índia?</p><p>E meu sangue</p><p>E minha consciência</p><p>8 Em 1995, na China, no Tribunal das Histórias Não Contadas e Direitos Humanos das Mulheres/Conferência da</p><p>ONU, Eliane Potiguara narrou a história de sua família, que emigrou das terras paraibanas nos anos 1920 por ação</p><p>violenta dos colonizadores, e as consequências físicas e morais dessa violência à dignidade histórica de seu bisavô,</p><p>Chico Solón de Souza, avós e descendentes. Contou, ainda, o terror físico, moral e psicológico pelo qual passou ao</p><p>buscar a verdade, além de sofrer abuso sexual, violência psicológica e humilhação por ser levada pela Polícia Federal,</p><p>por estar defendendo os povos indígenas, seus parentes, do racismo e da exploração.</p><p>9 No fim de 1992, a obra A Terra é a Mãe do Índio foi premiada pelo Pen Club da Inglaterra, no mesmo momento em</p><p>que Eliane e o jornalista Caco Barcellos eram citados na lista dos marcados para morrer, anunciados no Jornal</p><p>Nacional, da TV Globo, por terem denunciado esquemas duvidosos e violação dos direitos humanos e indígenas.</p><p>http://www.grumin.org.br/</p><p>https://conexao.ufrj.br/2021/11/eliane-potiguara-agora-e-doutora-honoris-causa-pela-ufrj/</p><p>https://www.tecconcursos.com.br/bancas/inaz-do-para</p><p>https://www.tecconcursos.com.br/concursos/professor-i-pref-m-barata-licenciatura-plena-em-letras-portugues-2020-provas-reaplicadas</p><p>E minha luta</p><p>E nossos filhos?</p><p>Brasil, o que faço com a minha cara de índia?</p><p>Não sou violência</p><p>Ou estupro</p><p>Eu sou história</p><p>Eu sou cunhã</p><p>Barriga brasileira</p><p>Ventre sagrado</p><p>Povo brasileiro</p><p>Ventre que gerou</p><p>O povo brasileiro</p><p>Hoje está só …</p><p>A barriga da mãe fecunda</p><p>E os cânticos que outrora cantavam</p><p>Hoje são gritos de guerra</p><p>Contra o massacre imundo.</p><p>(POTIGUARA, Eliane. Metade cara, metade máscara. 3. ed. rev. Rio de Janeiro-RJ: Grumin, 2019. p. 32-33.)</p><p>No poema o eu lírico usa este refrão: “Que faço com minha cara de índia?”. Sobre essa</p><p>constante repetição dessa pergunta no poema, é possível dizer que ela serve para:</p><p>a) Chamar atenção dos leitores, como uma forma de facilitar a memorização textual.</p><p>b) Chamar atenção e construir uma espécie de musicalidade, fato recorrente nesse tipo de</p><p>texto literário.</p><p>c) Chamar atenção e abrir o caminho para uma reflexão sobre a forma como os indígenas</p><p>são tratados no nosso país.</p><p>d) Chamar atenção e dramatizar sobre o passado do indígena brasileiro, tendo em vista que</p><p>o poema é construído com verbos no pretérito.</p><p>Graça Graúna</p><p>Dançamos a dor</p><p>tecemos o encanto</p><p>de índios e negros</p><p>da nossa gente</p><p>GRAÚNA, Graça. no poema "Resistência". In: Cadernos Negros 29. São Paulo: Quilombhoje, 2006, p. 120.</p><p>Maria das Graças Ferreira - nascida em 1948, Rio Grande do</p><p>Norte, indígena Potiguara, escritora, poeta, crítica literária,</p><p>Graduada, Mestre, Doutora em Letras pela UFPE e Pós-doutora</p><p>em Literatura, Educação e Direitos Indígenas pela</p><p>UMESP, professora adjunta em Literaturas de Língua</p><p>Portuguesa e Cultura Brasileira na Universidade de</p><p>Pernambuco.</p><p>Para Graça, ao escrever, ela dá conta da sua ancestralidade, do caminho de volta, do seu lugar</p><p>no mundo: “Tenho memória das leituras de mundo que eu escrevia num diário, quando</p><p>adolescente. Estudei no Colégio das Neves, em Natal (RN): um colégio de freira, onde as</p><p>poucas colegas de internato (a quem eu mostrava acanhadamente os meus escritos) diziam que</p><p>eu escrevia poesia misturada com história. Nunca me esqueci dessa observação, e foi, assim,</p><p>que eu dei conta da necessidade de botar no papel o que eu já intuía. É que aprendi desde cedo</p><p>que a intuição é a mensageira da alma, como dizem os antigos”.</p><p>Publicou Canto Mestizo, Tessituras da Terra, Tear da Palavra, Criaturas de Ñanderu, Flor da</p><p>Mata.</p><p>(CESPE-2019)</p><p>Caos Climático</p><p>É temerário descartar</p><p>a memória das Águas</p><p>o grito da Terra</p><p>o chamado do Fogo</p><p>o clamor do Ar.</p><p>As folhas secas rangem sob os nossos pés.</p><p>Na ressonância, o elo da nossa dor</p><p>em meio ao caos</p><p>a pavorosa imagem</p><p>de que somos capazes de expor</p><p>a nossa ganância</p><p>até não mais ouvir</p><p>nem mais chorar</p><p>nem meditar,</p><p>nem cantar ...</p><p>só ganância, mais nada.</p><p>É temerário</p><p>descartar</p><p>a memória das Águas</p><p>o grito da Terra</p><p>o chamado do Fogo</p><p>o clamor do Ar.</p><p>GRAÚNA, Graça. Caos climático. In: Tarsila de A. R. Lima. Entrevista com Graça Graúna (...).Palimpsesto, n.º 20,</p><p>Ano 14, 2015, p. 146</p><p>Considerando o poema Caos climático, de Graça Graúna, julgue o item a seguir.</p><p>Um recurso literário usado pela autora no poema é a atribuição de características humanas a</p><p>figuras não humanas.</p><p>( ) Certo</p><p>( ) Errado</p><p>Kaká Werá</p><p>Para nós, a literatura indígena é uma maneira de usar a arte, a caneta, como uma estratégia de</p><p>luta política. É uma ferramenta de luta. E por que uma luta política? Por que à medida que a</p><p>gente chega à sociedade e a sociedade nos reconhece como portadores de saberes ancestrais e</p><p>como intelectuais, ela vai reconhecer também que existe uma cidadania indígena. E que dentro</p><p>da cidadania existem determinados direitos constitucionais que não ferem, que não desagregam</p><p>a sociedade, seja indígena ou não indígena.</p><p>WERÁ, Kaká. Coleção Tembetá. Azougue Editorial, 2015.</p><p>Kaká Werá Jecupé - escritor, ambientalista, tradutor,</p><p>conferencista indígena brasileiro, fundador do Instituto</p><p>Arapoty</p><p>10</p><p>, descendente do povo Tapuia e acolhido pelos guaranis,</p><p>junto aos quais desenvolve uma extensa pesquisa histórica,</p><p>linguística e cultural. Envolvido em processos educativos, atua na</p><p>valorização, registro e difusão dos saberes ancestrais de povos</p><p>indígenas.</p><p>Tornou-se um dos precursores da literatura indígena no Brasil e uma autoridade na difusão dos</p><p>saberes e valores ancestrais. Destaca-se hoje no desenvolvimento de pessoas e como facilitador</p><p>de processos de autoconhecimento, tendo por base a sabedoria da tradição tupi-guarani.</p><p>É autor de diversos livros: Oré Awé: Todas as Vezes que Dissemos Adeus, Terra dos Mil</p><p>Povos, As Fabulosas Fábulas de Iauaretê, Tupã Tenondé, A Águia e o Colibri, escrito em</p><p>parceria com Roberto Crema, O Trovão e o Vento.</p><p>(CESPE-2007)</p><p>O escritor Kaká Wera resolveu testar uma nova forma de ensinar a cultura indígena nas</p><p>escolas: afastar os professores dos livros e fazê-los vivenciar mitos, cantos e danças dos índios</p><p>em um espaço que reproduz uma oca. O que o motivou a abrir a oca-escola foram os livros</p><p>didáticos. “Percebi que tudo sobre o índio, nos livros, aparecia no passado. O índio fazia</p><p>aquilo, gostava daquilo, usava aquele adereço” — era, para ele, como se já tivessem, com esse</p><p>tempo verbal, colocado toda uma cultura no passado, como se ela não fizesse mais parte do</p><p>país. Ele imagina que, pela experimentação, os significados dos mitos farão sentido no</p><p>cotidiano dos professores. “É pelos mitos que se registra a sabedoria.” Essa sabedoria se</p><p>mescla às danças e aos cantos.</p><p>Gilberto Dimenstein. O Cidadão de Papel. São Paulo: Ática, 2005, p. 113-4 (com adaptações).</p><p>Tendo o texto como referência inicial e considerando aspectos linguísticos, históricos e</p><p>geográficos, julgue o item que se segue.</p><p>Os pares de aspas que foram usadas nas linhas 6-8 e 12-13 têm a mesma finalidade: indicar a</p><p>fala de Kaká Wera.</p><p>( ) Certo</p><p>( ) Errado</p><p>Márcia Wayna Kambeba</p><p>Nasci na Uka sagrada</p><p>Na mata por tempos vivi</p><p>Na terra dos povos indígenas</p><p>Sou Wayna, filha de Aracy</p><p>10 é uma organização sem fins lucrativos que tem o objetivo de difundir as tradições indígenas para jovens e ajudar</p><p>aldeias do Sul e do Sudeste do país a trabalhar de forma sustentável. Arapoty é uma palavra Guarani que significa</p><p>"renascimento" e sua sede pode ser encontrada em Itapecerica da Serra</p><p>http://www.elfikurten.com.br/2021/12/marcia-wayna-kambeba.html</p><p>KAMBEBA, Márcia. Ay kakyri Tama. Pólen, 2018.</p><p>Márcia Vieira da Silva, mais conhecida como Márcia Wayna</p><p>Kambeba - escritora, poeta, compositora, fotógrafa, ativista,</p><p>Mestre em Geografia pela Universidade Federal do Amazonas,</p><p>indígena, do povo Omágua/ Kambeba no Alto Solimões (AM).</p><p>Geografia, arqueologia, antropologia e história podem ser</p><p>encontradas na sua escrita sob um viés educativo.</p><p>Em sua luta na literatura e na música, aborda, sobretudo, a identidade dos povos indígenas,</p><p>territorialidade e a questão da mulher nas aldeias. Em 2013, lançou o seu primeiro livro Ay</p><p>Kakyri Tama, que reúne textos poéticos e fotografias da vivência do seu povo dentro das</p><p>cidades.</p><p>Autora também de: Saberes da Floresta, Kumiça Jenó: Narrativas Poéticas dos Seres da</p><p>Floresta.</p><p>(ENEM-2022)</p><p>O povo Kambeba é o povo das águas. Os mais velhos costumam contar que o povo nasceu de</p><p>uma gota d'água que caiu do céu em uma grande chuva. Nessa gota estavam duas gotículas: o</p><p>homem e a mulher. "Por essa narrativa e cosmologia indígena de que nós somos o povo das</p><p>águas é que o rio nos tem fundamental importância", diz Márcia Wayna Kambeba, mestre em</p><p>Geografia e escritora. Todos os dias, ela ia com o pai observar o rio, la em silêncio e, antes que</p><p>tomasse para si a palavra, era interrompida. "Ouça o rio", o pai dizia. Depois de cerca de duas</p><p>horas a ouvir as águas dos Solimões, ela mergulhava. "Confie no rio e aprenda com ele". "Fui</p><p>entender mais tarde, com meus estudos e vivências, que meu pai estava me apresentando à</p><p>sabedoria milenar do rio".</p><p>Rios amazônicos influenciam no agro e em reservatórios do Sudeste. Disponível em: www.uol.com.br. Acesso em:</p><p>14 out.2021.</p><p>Pelo descrito no texto, o povo Kambeba tem o rio como um (a):</p><p>a) objeto tombado e museográfico;</p><p>b) herança religiosa e sacralizada;</p><p>c) cenário bucólico e paisagístico;</p><p>d) riqueza individual e efêmera;</p><p>e) patrimônio cultural e afetivo.</p><p>(IDIB-2022)</p><p>União dos Povos</p><p>Nós, povos indígenas,</p><p>Habitantes do solo sagrado,</p><p>Mesmo sem nossa aldeia,</p><p>Somos herdeiros de um passado.</p><p>Buscamos manter a cultura,</p><p>Vivendo com dignidade,</p><p>Exigimos nosso respeito,</p><p>Mesmo vivendo na cidade.</p><p>Somos parte de uma história,</p><p>Temos uma missão a cumprir,</p><p>De garantir aos tanu muariry,</p><p>Sua memória, seu porvir.</p><p>Vivendo na rytama do branco,</p><p>Minha uka se modificou,</p><p>Mas a nossa luta pelo respeito,</p><p>Essa ainda não terminou.</p><p>Pela defesa do que é nosso,</p><p>Todos os povos devem se unir,</p><p>Relembrando a bravura,</p><p>Dos Kambeba, dos Macuxi,</p><p>Dos Tembé e dos Kocama,</p><p>Dos valentes Tupi Guarani</p><p>Assim, os povos da Amazônia,</p><p>Em uma grande celebração,</p><p>Dançam o orgulho de serem</p><p>Representantes de uma nação,</p><p>Com seu canto vêm dizer:</p><p>Formamos uma aldeia de irmãos.</p><p>Márcia Wayna Kambeba https://almaacreana.blogspot.com /2018/06/poemas-de-marcia-wayna-kambeba.html</p><p>O poema de Márcia Kambeba apresenta como um dos seus pontos fortes a luta pelo (a):</p><p>a) valorização do artesanato e das danças típicas dos povos indígenas;</p><p>b) investimento na agricultura cultivada pelos povos indígenas;</p><p>c) reconhecimento de todos os povos indígenas e sua cultura;</p><p>d) mobilização da sociedade em defesa das terras indígenas.</p><p>https://almaacreana.blogspot.com/</p>